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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: A Reforma - -Author: Thomas M. Lindsay - -Release Date: June 23, 2020 [EBook #62461] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A REFORMA *** - - - - -Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online -Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - - - - - -A REFORMA - - - - - A REFORMA - - POR - T. M. LINDSAY - DOUTOR EM THEOLOGIA E PROFESSOR DE HISTORIA - ECLESIASTICA - - TRADUCÇÃO DE J. S. CANUTO - (AUCTORISADA) - - [Illustration] - - LIVRARIA EVANGELICA - RUA DAS JANELLAS VERDES, 32 - LISBOA - - LISBOA - TYP. ROSA, LIMITADA - 29, Rua da Magdalena, 31 - - - - -PREFACIO - - -As primeiras tres partes d’este livrinho são simplesmente uma compilação -das melhores e mais accessiveis historias da Reforma, e de modo algum são -apresentadas como uma dissertação original sobre o vasto e complicado -movimento religioso que descrevem. Sou da opinião do dr. Merle d’Aubigné: -a Reforma foi uma revivificação da religião, e não pode ser descripta com -bom exito se não tivermos sempre deante de nós, e bem distinctamente, -este seu caracter essencial. Os reformadores foram homens que, sob o -impulso de um grande movimento religioso que se levantou n’uma occasião -em que eram bem particulares as circumstancias intellectuaes, sociaes e -politicas, se sentiram animados pelo desejo de que lhes fosse permittido -dar culto a Deus segundo as direcções da Escriptura e os dictames da -razão e da consciencia. Mas este desejo, apparentemente simples, envolvia -uma tal mudança nas condições sociaes e politicas, não sómente em cada -provincia e em cada nação, mas em toda a Europa, tomada no seu conjuncto, -que não se pode escrever a historia da revivificação religiosa sem -apresentar uma grande parte da historia politica e social de aquella -epoca. - -O dr. Leopoldo von Ranke tratou com tanta proficiencia da historia -politica do periodo em questão, que o auctor até do mais humilde dos -manuaes deve collocar-se quasi exclusivamente debaixo da sua direcção. -Foi o que eu fiz, e em quasi todas as paginas me aproveito, com -reconhecimento, das suas magistraes descripções do movimento politico e -social. - -Escusado seria mencionar toda a longa lista de auctores consultados na -preparação d’este pequeno livrinho; como, porém, não se faz referencia -alguma ás auctoridades citadas, cumpre-me dizer que, além de d’Aubigné -e de Ranke, as pessoas que teem conhecimento do assumpto hão de notar -um continuo uso das _Historias da Egreja_ de Hagenbach e Henke, do -_Periodo da Reforma_ de Haüsser, dos _Huguenotes_ de Baird, de dois -volumes das _Epocas da Historia Moderna_ de Longman, da _Era da Revolução -Protestante_ de Seebohm, e do _Seculo de Isabel_ de Creighton. Refiro-me -frequentemente á _Historia dos Credos do Christianismo_ ao tratar das -Confissões, e á inapreciavel collecção de _Livros de Disciplina_, de -Richter, ao tratar da organização ecclesiastica das varias egrejas -reformadas. - -A quarta parte, que se occupa summariamente dos principios fundamentaes -do movimento da Reforma, deveria talvez ter ido em primeiro logar, -servindo de introducção, mas preferi collocal-a no fim; em parte, porque -similhante introducção poderia assustar os leitores jovens, e em parte -porque os principios do movimento podem ser mais bem apreciados depois do -leitor ter algum conhecimento da sua historia. A quarta parte é a unica -porção d’este pequeno manual que se pode dizer com verdade que pertence -exclusivamente ao auctor, e que apresenta opiniões sobre o assumpto de -que só elle é responsavel. - -O summario chronologico foi extraido quasi inteiramente das admiraveis -tabellas de Weingarten. - - T. M. LINDSAY. - - - - -INDICE - - - PARTE I - - A REFORMA ALLEMÃ, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS PAG. 1-53 - - CAPITULO I - - A REFORMA NA ALLEMANHA PAG. 1-48 - - O principio da Reforma, pag. 3.—As indulgencias, e as theses - que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As theses - de Luthero não atacavam sómente as indulgencias, pag. 6.—A - historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios - e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag. - 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O Imperador - e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag. - 15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo, - pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de - Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta - dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529, - pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag. - 32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre - Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag. - 36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante - de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra - de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral, - pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de - Augsburgo, pag. 47. - - CAPITULO II - - A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA PAG. 49-53 - - O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag. - 50.—Na Suecia, pag. 51. - - PARTE II - - A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS PAG. 55-154 - - CAPITULO I - - A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO PAG. 57-66 - - As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica - da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de - Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa, - pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os cantões florestaes, pag. - 64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65. - - CAPITULO II - - A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO PAG. 67-85 - - Genebra antes da Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag. 68.—A - mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião Christã_, - pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua expulsão, pag. - 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag. 76.—_As Ordenanças - Eclesiasticas_, pag. 77.—Como differem dos _Institutos_, - pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, pag. - 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe Beza, pag. 83.—A - influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma, pag. 83.—_A - Confissão de Zurich_, pag. 84. - - CAPITULO III - - A REFORMA EM FRANÇA PAG. 87-111 - - Os principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag. - 89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, - pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos - placards, pag. 92.—O Vaudois de Durance, pag. 92.—Henrique II - e os Guises, pag. 93.—Organização da egreja reformada, pag. - 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag. 96.—O - primeiro _Synodo Nacional_, pag. 97.—Anne de Bourg, pag. - 98.—A carnificina de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa - dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A - Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros, - pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e - Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A - Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto - de Nantes, pag. 110. - - CAPITULO IV - - A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS PAG. 113-116 - - Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag. - 114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os - Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos - bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os - _mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de - Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e - do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange, - pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag. - 126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag. - 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag. - 130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag. - 132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua - organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag. - 134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da - Egreja na Hollanda, pag. 136. - - CAPITULO V - - A REFORMA NA ESCOCIA PAG. 137-154 - - Preparação para a Reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica e - a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag. 138.—A - Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia e a - situação politica, pag. 139.—João Knox, pag. 141.—A Congregação - e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão escoceza_, - pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.— O _Livro de - Disciplina e a Primeira Assembléa Geral_, pag. 147.—A educação, - pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos tulchanos, pag. - 150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro de Disciplina, - pag. 152. - - PARTE III - - A REFORMA ANGLICANA PAG. 155-201 - - CAPITULO I - - A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII PAG. 137-174 - - O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag. - 157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O - estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma, - pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag. - 160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, - pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII, - Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles, - pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da - separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas - coisas differentes, pag. 168.—Execução de sir Thomas More, pag. - 169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades - da Egreja, pag. 170.—_Os dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto - Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag. - 173. - - CAPITULO II - - A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE - MARIA PAG. 175-188 - - Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o _Livro de - Homilias_ e o _Livro de Oração Commum_, pag. 176.—A alliança - com o protestantismo continental, pag. 178.—Os _Quarenta e - Dois Artigos_, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag. - 179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra - por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha - necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se - firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A - reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida - a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado - de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag. - 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A - morte de Maria, pag. 187. - - CAPITULO III - - A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL PAG. 189-201 - - A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão - religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag. - 192.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag. - 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag. - 194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A - Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—_Os - conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_, - pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198. - - PARTE IV - - OS PRINCIPIOS DA REFORMA PAG. 203-236 - - CAPITULO I - - A REFORMA FOI UMA REVIVIFICAÇÃO RELIGIOSA PAG. 205-214 - - A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de - particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação - da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a - Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag. - 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual, - pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis, - pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação - do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma - revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213. - - CAPITULO II - - COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA PAG. 215-219 - - O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado - na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a noção - medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra - o mediavelismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De - Monarchia de Dante_ e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua, - pag. 218. - - CAPITULO III - - A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES PAG. 221-224 - - Os Reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, - pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á - Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da - Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição - reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223. - - CAPITULO IV - - OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA PAG. 225-236 - - Os principios _formaes e materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O - sacerdocio de todos os crentes: o grande principio da Reforma, - pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da - _Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_ - da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina - medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da - Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_. - Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia, - pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em - contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical - e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e - justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235. - - SUMMARIO CHRONOLOGICO PAG. 237-255 - - INDICE DE PERSONAGENS, LOCALIDADES, ETC PAG. 257-261 - - - - - -I PARTE - -A REFORMA NA ALLEMANHA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS - -CAPITULOS: - - I—A REFORMA NA ALLEMANHA. - - II—A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA. - - - - -CAPITULO I - -A REFORMA NA ALLEMANHA - - O principio da Reforma, pag. 3.—As Indulgencias, e as Theses - que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As Theses - de Luthero não atacavam sómente as Indulgencias, pag. 6.—A - historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios - e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag. - 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O imperador - e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag. - 15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo, - pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de - Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta - dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529, - pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag. - 32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre - Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag. - 36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante - de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra - de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral, - pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de - Augsburgo, pag. 47. - - -=O principio da Reforma.=—A reforma principiou, se é que similhante -movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca remotissima, teve -realmente um principio, quando Martinho Luthero pregou as noventa e -nove theses contra as indulgencias na porta da egreja da pequena cidade -de Wittenberg, na Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido -enviado á Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para -o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra com os -turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar fundos para serem -dispendidos pelo papa em quadros e outras obras de arte para a sumptuosa -egreja de S. Pedro, em Roma. O dinheiro obtinha-se em troca de uma -especie de recibos, em que se declarava que o comprador havia recebido -perdão da perpetração dos peccados que mencionara e pago a respectiva -importancia. - -O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo de -Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou durante o outomno -de 1517 o centro da Allemanha, e chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia. -A sua presença não tinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem -pelos clerigos mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo -mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo facto de -extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o todo para o papa; -estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles não lhe deram licença para -entrar nos seus territorios senão depois d’elle prometter que lhes dava -uma parte do que adquirisse. - -A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava d’elle pelo facto -de, por onde quer que elle passasse, o povo se tornar peior; vendia por -sete ducados o direito de assassinar um inimigo; aquelles que desejavam -roubar uma egreja eram perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio -de pae, mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens e -mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como é natural, tirar -algum lucro de aquillo que lhes custara o seu dinheiro, e por isso o -crime abundava onde quer que o vendedor do perdão apparecesse. - -As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas, pelo facto do -tumulto e dos escandalos a que a sua presença dava origem. Enviava -adeante de si homens extravagantemente vestidos, que fixavam annuncios -pelas paredes, e que apregoavam pelas ruas e pelas estradas a sua proxima -chegada, encarecendo a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia -á venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna aquelles que -o comprarem mais limpos do que o baptismo, mais puros do que Adão no -seu estado de innocencia no paraiso»; «Assim que o dinheiro tilintar no -fundo do cofre, o comprador fica perdoado, e livre de todos os peccados». -Em seguida a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu -ajudante, n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da praça -do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro de cujas grades -pendiam os celebres papelinhos, e do outro um cofre em que o dinheiro era -lançado, offerecia ao publico a sua mercadoria, á maneira dos vendedores -de elixires que costumam apparecer pelas feiras. - -Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e a sua alma justa -sentia-se indignada com o facto dos bispos, apezar de todas as suas -cartas e protestos, permittirem que elle andasse de diocese em diocese. -Não obstante haver prégado contra Tetzel e contra as indulgencias, o -traficante do perdão ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a -Jüterbogk, perto de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso -como prégador e como professor da universidade, não poude conter-se por -mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias, e -pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas suas proposições, -que, se havia na Egreja logar para Tetzel e para os seus bilhetes de -perdão, não o haveria para elle, Luthero, nem para as idéas que elle -tinha relativamente ao peccado e ao modo como Deus concede o perdão. -Roma e as indulgencias estavam produzindo uma forte indignação em toda a -Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram as theses -que o ateiaram, dando principio á Reforma. - -=As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.=—As -indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma coisa nova na -Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse, formavam um elemento -tão preponderante da vida exterior da Egreja n’aquella epoca que seria -dificil censural-as sem ir de encontro a muitas outras coisas. A Egreja -da Edade Media preoccupava-se muito com a representação visivel dos -factos e forças espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta -importancia a essa manifestação externa que se chegava a perder de vista -o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e excellentes -verdades evangelicas se acharam envolvidas por uma espessa camada -de formulas estereis que não permittiam que se desenvolvesse a vida -espiritual. - -É uma verdade evangelica que quando um homem se sente triste por causa -dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza d’este ou d’aquelle modo; -o verdadeiro arrependimento torna-se sempre manifesto. A Egreja da Edade -Media pegou n’este axioma e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento -deve manifestar-se sempre em certos e determinados modos prescriptos pela -Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento, taes como, o -dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos dias, ou o praticar -outras penitencias mais ou menos dolorosas, vieram a ser consideradas -como o verdadeiro arrependimento e a serem chamados por esse nome. - -No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta, ficou -estabelecido que o pagamento de umas determinadas sommas de dinheiro -dispensasse os signaes exteriores do arrependimento, comtanto que o -peccador penitente se sentisse compungido no seu coração por haver -peccado. Quando a Egreja attingiu um estado ainda peior, decidiu-se, -como coisa assente, que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o -perdão de Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que -se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico das -indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam esta doutrina muito -lucrativa, e, como foi abertamente proclamado, diligenciaram extrair -todo o dinheiro que lhes fosse possivel «dos peccados dos allemães». A -indulgencia contra a qual Luthero protestou era a quinta das que nos -ultimos dezesete annos tinham sido publicadas. - -As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso encadeado -contra a doutrina e pratica das indulgencias. E torna evidentes estas -tres coisas: (1) É, de algum modo, digna de approvação a indulgencia -quando significa simplesmente um dos muitos meios de proclamar o perdão -do peccado, _concedido por Deus_; mas uma tal proclamação deve ser sempre -gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem -á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao verdadeiro -arrependimento, e a auctorisação para deixar de os pôr em pratica não -pode, de maneira alguma, garantir que Deus tenha realmente perdoado. -(3) Qualquer cristão que se sinta verdadeiramente arrependido recebe um -pleno perdão, e é participante de todas as riquezas de Christo, por um -dom directo de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra -intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar melhor -as suas theses, declara que o arrependimento consiste na contricção, -na confissão e na absolvição, e que a mais importante das tres coisas -é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr verdadeira, sincera, -seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão e a absolvição. Assim, para -Luthero, a coisa essencial é o facto intimo, espiritual, da dôr produzida -pelo sentimento do peccado; a manifestação do pezar é uma coisa boa, -mas para o que Deus olha é para o estado espiritual, e não para a -exteriorisação d’esse estado. - -=As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.=—Luthero, nas -suas theses e no seu sermão, declarou que os factos intimos, espirituaes, -experimentados pelo homem, eram de um infinito valor, comparados com a -expressão d’esses factos mediante formulas esteriotypadas que a Egreja -reconhecia; e tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne -assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter directamente -com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo isto, fez muito mais do -que atacar as indulgencias; protestou contra as mais enraizadas noções da -Egreja medieval. - -A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos desde o dia -de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição homens e -mulheres, cheios de confiança em Christo, se teem dirigido humildemente -a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes concedido esse perdão que -solicitavam, e a sua simples experiencia christã foi cantada nos -grandiosos e velhos hymnos da egreja medieval; encontrou expressão nas -orações da Egreja; constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja, -e agitou as multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como -quer que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos -não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia era opposta ao -maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja accumulava de tal fórma -as coisas exteriores, que a vida espiritual ficou sepultada debaixo -d’ellas, e na linguagem corrente da epoca havia-se mudado a verdadeira -significação dos termos «espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem -era «espiritual» quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o -dinheiro tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio, -com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual», ou -«santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade. - -E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos, com a -sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes, e tão cega -tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o homem, proclamando -que ninguem se podia chegar a Deus senão por meio d’ella, e que Deus -não poderia jámais fallar ao coração do homem senão egualmente por seu -intermedio. A confissão dos peccados tinha de ser feita ao padre, e o -perdão era concedido mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra -tudo isto n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não -sabia. A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade de -se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos peccados -comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus eram coisas que -desappareciam mediante o desembolso de uma certa quantia. Ao dar saida á -sua indignação, referia-se apenas ao sacrilegio que via deante de si; e, -comtudo, atacou, não simplesmente a peior parte de um systema mau, mas o -systema todo. A Reforma tinha começado. - -=A historia de Luthero, desde o principio.=—O homem que se oppoz a Tetzel -tinha, apoz um longo e encarniçado combate, chegado ao conhecimento do -que o perdão dos peccados significa realmente. Recorrera a todos os meios -que a Egreja poz ao dispôr dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles -lhe proporcionara conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e -achou a paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão -de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado com as -armas pontificias, e lavrou o seu protesto em nome de todos aquelles que, -em todos os seculos da egreja, sentindo-se vergados ao peso do peccado, -tinham encontrado em Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle -torna isto bem evidente, como vamos ver. - -Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. «Sou camponez, -e filho de camponez», costumava elle dizer. O pae era mineiro, e a mãe -uma camponeza com fama de muita austeridade. Teve uma infancia muito -pouco risonha, e, apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus -caracteristicos, notava-se-lhe de quando em quando um certo ar triste -que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros annos -da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um homem. Como todos -os homens de trabalho, tinha em desprezo os indolentes frades, e toda -a sua idéa era que o filho fosse advogado; queria que elle se formasse -em direito, conhecesse todas as engrenagens da lei, d’esse terrivel -tyranno do camponez allemão, que o tratava como a um servo, quasi como -a um proscripto. Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld, -de Magdeburgo, de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle -tempo, bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que não -experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas vezes, forçoso -cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu o primeiro lampejo da -caridade humana, quando Frau Cotta, attraida pela triste solidão em que -elle vivia e pela sua melodiosa voz, o introduziu em sua casa e lhe fez -todo o bem que poude. De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade, -onde não tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além -da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio. Leu as -grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima de tudo, leu e -tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos do bravo franciscano -inglez Guilherme de Occam, que resistiu denodadamente aos papas no seculo -quatorze, e que ensinou Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero -chamava-lhe com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503 -recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se notado -pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia. Estava, -pois, no caminho da posição em que o pae desejava vêl-o: a de um grande -jurisconsulto. - -Durante todo esse tempo, comtudo, a sua consciencia não tinha estado -ociosa; os seus peccados atormentavam-n’o; a ira de Deus tinha caido -pesadamente sobre elle. O amor de Deus era uma coisa que para elle não -existia. O pae terrestre tinha-o tratado sempre com severidade, com -dureza, e no Pae celestial via apenas um senhor que exigia d’elle esta e -aquella coisa. No dia 17 de Julho de 1505, tendo elle 21 annos, os seus -sentimentos religiosos poderam mais do que elle; entrou para o convento -dos agostinhos de Erfurt, fugindo á sociedade de parentes e amigos, e -desprezando todas as honrarias humanas. O seu Platão e o seu Virgilio, de -que se fez acompanhar, ficaram sendo as unicas recordações da sua vida -passada. - -No convento poz-se a trabalhar para achar o caminho da salvação. -Leu obras theologicas, jejuou, orou, submetteu-se a toda a sorte de -privações, mas nunca logrou encontrar a paz. Não tardou em adquirir -uma Biblia _completa_, coisa para elle inteiramente nova, e poz-se a -estudal-a com todo o afan; o terror do peccado estava, porém, sobre -elle, e não lhe deixava ver o Evangelho. Foi ter com o vigario geral da -ordem, Staupitz, que era um homem muito fervoroso, e este encaminhou-o -para Agostinho e para os mysticos allemães, em que encontrou um grande -auxilio. Aquelle mostrou-lhe o que era o peccado, e o que era a graça -soberana; e estes convenceram-n’o de que a verdadeira religião era a -religião do coração. No emtanto continuava a faltar-lhe a paz. - -No meio d’este conflicto, foi-lhe confiado um encargo especial. Frederico -o magnanimo, eleitor da Saxonia, e o mais eminente dos principes -allemães, fundou uma nova universidade em Wittenberg, e pediu a Staupitz -que indicasse os respectivos lentes. Luthero foi então nomeado professor -de philosophia, e começou logo a fazer prelecções. Em 1512 doutorou-se -em theologia biblica, versando as suas conferencias sobre os Psalmos e -as Epistolas de S. Paulo aos Romanos e aos Galatas. Como estudo, leu os -Mysticos, os _Sermões_ de Teulez, e aquelle pequeno mas importante livro, -_A Theologia Allemã_. Chegou, porém, a crise da sua vida. Em 1511 foi -enviado a Roma para tratar de negocios. Á ida era um theologo medieval; á -volta era um protestante; á ida cria na justificação pelas obras, á volta -cria na justificação pela fé. - -Roma era, havia muitos seculos, um amontoado de corrupção moral, e -Luthero descobriu isso immediatamente. Entrou n’aquella cidade como um -judeu entraria em Jerusalem. Elle proprio nos conta que ao avistal-a caiu -de joelhos e exclamou: «Eu te saudo, cidade santa, tres vezes santificada -pelo sangue dos martyres que se tem derramado em ti». Viu que os monges -e padres eram homens maus, que faziam zombaria dos serviços religiosos -em que tomavam parte. Viu que havia no povo muita deslealdade e cubiça, -e que até o papa pouco melhor era do que um pagão. Luthero havia-se -dirigido a Roma com a idéa de achar na cidade santa, como elle lhe -chamava lá na Allemanha, algum meio seguro de promover a sua salvação, e, -caso estranho, foi o proprio Christo que elle achou. Foi em Roma, no meio -da corrupção e da blasphemia, que de subito se compenetrou de que não -havia outro meio de salvação senão procurar Christo e entregar tudo ao -cuidado d’Elle; de que o perdão é gratuitamente concedido por Deus e dá -principio á vida christã, em vez de ser penosamente ganho no fim della. - -Ao regressar a Wittenberg, era outro homem. Era já afamado como prégador; -mas depois da sua visita a Roma prégava como nenhum outro poderia -prégar. Tornou-se a primeira figura da universidade, e tinha como amigos -Staupitz, o seu geral, e Frederico, o seu principe. Foi então que -appareceram as famosas indulgencias. - -=Partidarios e adversarios de Luthero.=—Ao principio parecia que toda a -Allemanha estava ao lado de Luthero. O trafico das indulgencias tinha -sido tão escandaloso que as pessoas de bons sentimentos e todos os -patriotas allemães se sentiam indignados. O golpe, porém, que Luthero -vibrara ás indulgencias havia attingido outros pontos, e não tardaram a -levantar-se antagonistas. Conrado Wimpina em Frankfort, Hogstraten em -Colonia, Silvestre Prierias em Roma, e, acima de todos, João Eck, um seu -antigo condiscipulo, em Ingolstadt, todos elles atacaram as theses, e -descobriram heresias nas mesmas. - -Resultou de ahi que Luthero foi citado a comparecer, em Roma, na -presença do papa; mas o eleitor da Saxonia conseguiu uma modificação, -recebendo, por fim, Luthero ordem para partir para Augsburgo, a fim de -ser interrogado pelo cardeal Caetano, legado do papa na dieta allemã. -O papa queria evitar uma desintelligencia com o eleitor da Saxonia, e -recommendou a Caetano que se mostrasse conciliativo. Luthero foi, mas a -entrevista não teve bom exito. O cardeal começou por reprehender Luthero, -mas acabou por se sentir dominado por um certo mêdo d’elle. «Não posso -discutir mais com este animal», disse elle; «tem um olhar maligno, e -povoam-lhe o cerebro uns pensamentos estupendos». Luthero, por seu -lado, dizia abertamente que o legado era tão competente para julgar de -assumptos espirituaes como um burro para tocar harpa. - -Ao deixar Augsburgo, levava sobre si a condemnação, mas havia appellado -para o proprio papa, rogando-lhe que se informasse melhor do seu caso. -O papa não queria indispôr-se com a Allemanha, porque a parte mais -importante da nação parecia estar a favor de Luthero, e enviou o cardeal -Miltitz a promover a paz. Este não chamou o moço frade á sua presença, -mas teve com elle uma conversação amigavel em casa de Spalatin, o -capellão do eleitor. Antes d’esta entrevista Luthero havia appellado para -um concilio geral. O cardeal Miltitz declarou estar em desaccordo com -Tetzel, reprovou as indulgencias, e concordou com muitas das asserções de -Luthero; mas lembrou-lhe que não tinha sido bastante respeitoso para com -o papa, e que estava enfraquecendo o poder e a auctoridade da egreja. O -seu argumento era, em summa, o seguinte: «O senhor pode ter razão; mas -para que ha de ser rude? Escreva ao papa, e peça-lhe desculpa». Luthero -prometteu fazel-o, e entre elle e Miltitz ficou estabelecido um convenio, -que, como elle depois referiu ao eleitor, continha duas clausulas: - - 1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre as - materias em controversia. - - 2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios, e o - papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão - de theologos illustrados. - -No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente que -a auctoridade da egreja era superior a tudo, e que a coisa alguma, quer -na terra quer no céu, se devia dar a prioridade, com excepção de Jesus -Christo, que tudo governa. Isto foi em Março de 1519. - -=A disputa de Leipzig.=—Luthero tinha promettido conservar-se quieto -se os seus adversarios se conservassem quietos—era este o seu ajuste -com o cardeal Miltitz; os seus inimigos, porém, não se conservaram -quietos, e Luthero considerou-se livre para os atacar. O indiscreto -amigo da egreja era João Eck. Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero, -para uma discussão publica, e no entretanto publicou treze theses que -atacavam as noventa e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente, -e a polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra -entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia attingiu -um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica, mas, sim, a -opposição de duas series de principios em conflicto, affectando todo o -circulo da vida ecclesiastica. Aqui, pela primeira vez, a christandade -allemã desprendeu-se da christandade romana, insistindo no sacerdocio de -todos os crentes e no direito de cada christão julgar em todas as coisas -segundo a sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu -Santo Espirito. - -Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias, mas o -debate em breve mudou para a auctoridade da Egreja romana e do papa. Eck -mantinha a suprema auctoridade do bispo de Roma, como successor de S. -Pedro e Vigario geral de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja -romana sobre as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho -da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos mais -santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou uma grande -contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou Eck. «A egreja grega tem -existido sem papa, e vós sois o primeiro a negar-lhe o nome de Egreja» -respondeu Luthero. «Athanasio, Basilio e os dois Gregorios estavam fóra -da egreja? O papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do -papa». «Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram -condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de Huss eram erroneas» -disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões dos concilios, eu recuso -discutir comvosco», disse Eck, e por aqui se ficou. Immediatamente -depois, porém, Luthero completou e publicou a sua argumentação. Declara, -pela primeira vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa, -mas o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o papa se -mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos servos de Deus», -elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a egreja é a communhão dos -fieis—é constituida pelos verdadeiros crentes, pelos eleitos. Á egreja -nunca falta o Espirito Santo, e aos papas e concilios falta muitas vezes. -Esta egreja, que tem sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto, -um leigo que possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de -credito do que um papa ou um concilio que o não faça. - -Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados. De um -lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião que Luthero devia ser -violentamente posto fóra de combate, e insistiram n’uma bulla papal que o -condemnasse; e do outro, Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha -chegado com a sua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia -agostiniana, com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade -moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus, feria, em -todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade media: mostrava -que era impossivel a qualquer homem o ter uma vida perfeitamente pura e -santa, e, por consequencia, não podia haver santos, e o culto dado aos -santos era um absurdo; tornava inuteis as reliquias e as peregrinações, -assim como a vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações. -Todas estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira vida -religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver mediador entre Deus e -os homens, com excepção de Jesus Christo, a mediação do papa para nada -servia. - -A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia separado de Roma, -e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso, chegando o seu enthusiasmo a -um ponto extremo. O povo das cidades manifestou a sua sympathia pelo -arrojado frade. Ulrico von Hutten e os outros homens de letras viram -n’elle, desde então, o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros -cavalleiros livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os -pobres e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que elle -os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam. -Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo allemão. Isto teve -logar em 1519. - -=A bulla do papa e a queima da mesma.=—Eck e os demais adversarios -de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia pôr em pratica para -reduzir ao silencio o audacioso monge, e instaram com o papa para que -publicasse uma bulla condemnando as suas opiniões. Luthero, por seu lado, -não estava ocioso. Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua -habitual actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao -povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre, e, comtudo, -mandava todos os annos uma consideravel quantia de dinheiro para Roma. - -N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico, tendo -Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em bispados, e o clero -era muito rico. Possuia extensos dominios, que arrendava; tinha tambem -direito aos dizimos (a decima parte) de todas as outras propriedades; -além d’isso, fazia dinheiro com os baptismos, com os casamentos, com as -absolvições, com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros, -e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se tambem tornado -muito opulentas, sendo a sua maior riqueza constituida por terras que -lhes haviam sido doadas ou legadas em testamento por pessoas devotas. -Em quasi todos os paizes da Europa se haviam promulgado leis com o fim -de impedir ou limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão -inefficazes que ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras -de quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam -continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os annos para -Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram recolhidas pelo papa, -que demorava sempre a nomeação de outro bispo. O papa diligenciava -frequentemente que os bispos ou abbades fossem italianos, pois que estes -ficavam residindo em Roma, e o dinheiro era-lhes remettido para lá. -Quando um novo bispo era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento -do primeiro anno (_os annatas_). Todo este dinheiro que era exportado -para Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero -ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias. Luthero, no -seu opusculo _Á nobreza da nação allemã_ tornava tudo isto saliente, e -perguntava por quanto tempo se estaria disposto a tolerar similhante -coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista dos dois estados -distinctos, um espiritual, incluindo o papa, os bispos, os padres, os -frades e as freiras, e o outro temporal, constituido por todas as outras -individualidades, era um muro levantado pelos romanistas para defenderem -as oppressões da egreja. Dizia-lhes, outrosim, que _todos_ os christãos -são espirituaes, e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E -perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que do seu -depauperado paiz fossem enviados annualmente para Roma 300.000 florins. - -Escreveu tambem outro tratado, _O captiveiro babylonico da egreja de -Christo_, para mostrar que elle não desejava destruir mas purificar a -verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito. Luthero opinava -que o papa e os romanistas tinham conduzido a egreja a um captiveiro, -muito comparavel ao dos judeus em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O -Senhor disse por occasião da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus -discipulos, «Bebei d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes -d’elle se não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros -christãos tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E -concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo preparadas -bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida uma retractação, sob -pena de ser proclamado hereje. Se é verdade, desejo que este livrinho -fique constituindo uma parte da minha futura retractação». - -Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos da Allemanha, -e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu, por fim, em 15 de Julho de -1520. Accusava Luthero de sustentar as opiniões de Huss, e condemnava-o. -Eck levou-a para Leipzig em Outubro. Foi affixada em varias cidades -allemãs, e em geral os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou, -por fim, ás mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto, -em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim annunciou -em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro, á frente de um -cortejo de professores e estudantes, Luthero saiu da universidade e -dirigiu-se para o mercado. Um dos lentes accendeu a fogueira, e Luthero -lançou a bulla ás chammas. Estava consummada a affronta. Foi tambem -queimado um exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali -em deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma. -A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um enorme -regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só o imperador é que -tinha poder agora para reprimir Luthero. - -=O imperador e a Reforma.=—O imperador era, por esse tempo, Carlos V. -Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado na Allemanha, nem -era tão poderoso como o seu titulo indicava. N’aquelles dias ainda -predominavam as idéas medievaes de governo, e Carlos V tinha resolvido -restabelecer o velho poder imperial com todos os seus attributos. - -No principio da edade media os homens colhiam as suas idéas de governo -do velho imperio romano—não do imperio pagão de Augusto Cesar e dos seus -successores, mas do imperio christão de Constantino e de aquelles que -vieram apoz elle. Posto que aquelle velho imperio tivesse sido destruido -pelas invasões das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das -conquistas ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram o -governo e as leis da nação que haviam derrubado. - -Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem social eram -coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse concentrado n’um -foco e identificado n’uma só pessoa—o monarca universal; e quando todo -o governo ecclesiastico e communhão religiosa não obedecessem, da mesma -fórma, ao arbitrio de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca -universal era o imperador, que dominava _circa civilia_ como vigario, ou -representante, de Deus; e o sacerdote universal era o papa, que dominava -_circa sacra_, como vigario, ou representante, de Deus. Um dominava nos -corpos, o outro dominava nas almas, dos homens; e o dominio de ambos era -universal. Um tinha o poderio da espada, e o outro tinha o poderio das -chaves. Este sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade, -até então; mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma, -estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador e o papa. - -No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão, concebeu -o plano de, mediante um elaborado systema de enlaces matrimoniaes, -restituir ao imperio a sua primitiva grandeza. Tinha tres filhas. A mais -velha casou com o rei de Portugal, o que daria logar a que este paiz e -Hespanha ficassem constituindo um só reino. A segunda casou com Filippe -de Austria, chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor -da Borgonha e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIII -de Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira -do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e de Borgonha. Do -terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos casou com sua prima Isabel, -e ficou, portanto, reinando em Hespanha, Austria, Borgonha e Paizes -Baixos. E mais tarde foi tambem imperador e rei de Italia. - -Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha havido -outro durante muitos seculos; e a sua ambição era ver-se investido -da mesma auctoridade que tinham tido Carlos Magno e Otto I. Tinha os -olhos constantemente fitos no passado; e lá no seu intimo arquitectava -a maneira de restabelecer na Europa aquella unidade politica que -desapparecera quando começaram a organizar-se as nações modernas. Esta -velha unidade, porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem -uma egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para -com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era por elle -considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador, o seu imperio -não estava muito firme. Era poderoso, não por ser imperador, mas por -ter sob o seu dominio a Hespanha, a Borgonha, e a Austria; as luctas -intestinas de que a Allemanha era theatro, e as muitas questões que -surgiam, a que era necessario dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe -algum tanto o poder. - -=O estado politico da Allemanha.=—A Allemanha, no tempo da Reforma, não -tinha uma unidade politica. Estava nominalmente unida sob o imperio, e -era governada pela Dieta; mas o poder, tanto do imperador como da Dieta, -era, praticamente, fraquissimo. O imperio era electivo, e desde o anno de -1356 a eleição havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres -na região do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da -Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na do Rheno -eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de Mayença, Trier e Köln. -As successivas concessões que os principes obtinham á custa das eleições -iam diminuindo o poder imperial. - -Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande conselho do -imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: I Seis principes -eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres clerigos (não entrava o rei da -Bohemia); II Os principes, ou gran-barões, seculares e ecclesiasticos; -III Os representantes das cidades livres, que eram as que gozavam de -privilegios concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi -tantos principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha -na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado como -instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. A Dieta, comtudo, -tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava tão dividida que cada um -dos principes independentes podia fazer o que muito bem quizesse. As -cidades, formando ligas entre si, podiam offerecer uma certa resistencia -á tyrannia dos principes; mas os aldeãos, incapazes de similhante -combinação, eram acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes -e pelos barões. - -A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco de invejar. -Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando as suas terras, -mas os senhores feudaes foram, pouco a pouco, cerceando-lhes direitos, -chegando ao ponto de lhes prohibirem a entrada nos baldios, de não lhes -permitir que se abastecessem de lenha, que pescassem nos rios, etc. -Não tinham a quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A -sua unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente -de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem com o -feudalismo, de se tornarem proprietarios. - -O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, deparou com -muitas questões graves que estavam á espera de solução; o povo estava -ancioso por um governo central, as cidades queriam que se pozesse termo -ás constantes contendas que havia entre os barões, os poderes, civil -e ecclesiastico, accusavam-se mutuamente, e, por ultimo, a questão de -Luthero continuava agitando os espiritos. - -=Luthero e a dieta de Worms.=—A Dieta foi aberta por Carlos V em Janeiro -de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar com os principes -reunidos em assembléa para que pozessem termo ás heresias de Luthero, não -sendo, na sua opinião, necessario que este fosse ouvido. Os principes, -porém, que tambem tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que -era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem o ouvir e sem -elle estar presente. Por fim o imperador intimou Luthero a apresentar-se, -e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um arauto foi, pois, procural-o da -parte do seu imperial amo, e em abril Luthero partiu para Worms. Ia -resolvido a não se retractar, posto que o animasse a convicção de não -voltar com vida. A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção -de fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de Christo -me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando mesmo deante da -morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, se os meus inimigos me -assassinarem, continúa tu, de todo o coração te imploro, a ensinar e a -dar testemunho da verdade». Antes de deixar Wittenberg, havia preparado, -de collaboração com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se -compunha de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes -entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a respectiva -explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma pagina apparecia -Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra o papa estendendo o pé -para que lh’o beijassem; a Christo levando a cruz contrapunha-se o papa -levado em procissão pelas ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo -expulsando os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo -junto de si um monte de dinheiro. - -Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando lhe chegou aos -ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia lhe preparava uma -emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria de me pôr a caminho, -ainda mesmo que houvesse uma chuva de duques da Saxonia». E quando lhe -disseram que o diabo se havia de apoderar d’elle por qualquer fórma, -replicou: «Não deixaria de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá -houvesse tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve -o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes multidões, -ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, por fim a Worms, -e logo no dia immediato foi apresentado á Dieta. O imperador tinha a -seu lado o arquiduque de Austria, seu irmão, e a assembléa compunha-se -de seis eleitores, vinte e oito duques, trinta prelados, e um grande -numero de outras personagens de menor cathegoria, ao todo uns duzentos -principes. Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de -confessar a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada -na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se os havia -escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum tempo para -reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte e quatro horas, foi -reconduzido á casa onde se hospedára. - -Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de abrir -caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o animava e lhe -recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o velho general Frunsberg -bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada receies, fradinho!» Na vespera -havia-se mostrado um tanto confuso, havia denotado uma certa timidez, -mas n’aquelle segundo dia estava de posse da sua coragem habitual. O -chanceller do arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do -imperador. «Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a -retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos seus -livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação até dos -proprios adversarios, e que não se podia esperar d’elle uma retractação -no tocante a essas coisas; havia tambem protestado contra manifestos -abusos, e seria, decerto, um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião -affirmasse ser falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era -verdadeiro; n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava -os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, era -possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, estando, portanto, -prompto a desdizer qualquer asseveração cuja injustiça lhe fosse provada. -«Esse vosso arrazoado é inopportuno», replicou Eck; «o que o imperador -quer é uma resposta definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes -contra a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio de -Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. «Vou -dar-vol-a, pois. (_Vou dar uma resposta sem pontas nem dentes, diz o -original_). Não me retracto de coisa alguma, a não ser que me convençam -pela Escriptura ou por meio de argumentos irrefutaveis. É claro como a -luz do dia que tanto papas como concilios teem algumas vezes errado. A -minha consciencia tem de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra -a consciencia é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero -retractar-me. Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei chegou a -crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, realmente, que -um concilio é susceptivel de errar?», perguntou elle, por fim. «Affirmo», -retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei sempre. Assim Deus me ajude. Amen». -Aquella sua firmeza tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam -que o imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á morte, -sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que elle, ao mesmo tempo -que combatia pela consciencia, combatia tambem pela Allemanha, pozeram-se -do seu lado. Conseguiram que o imperador addiasse a sentença, e instaram -depois com Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos -os seus esforços. - -Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo tomar o partido -de Luthero e da Allemanha, para não quebrar relações com o papa, não -desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, faltando assim á sua -palavra. Ordenou, pois, a Luthero que se retirasse, mas fez publicar um -edicto, condemnando os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio -sob o anathema do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio -era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante ninguem -podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o em sua casa: -quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe a mão e entregal-o -aos guardas do imperador, que ficavam com plenos poderes para o matarem. -Tudo isto, porém, só podia ter logar depois de expirado o prazo que o -salvo-conducto mencionava. - -=Luthero em Wartburgo.=—Os amigos de Luthero foram de parecer que, depois -do edicto de Worms, a vida d’elle corria perigo, até mesmo em Wittenberg; -e o eleitor da Saxonia encarregou uns tantos soldados de o irem esperar -ao caminho, apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de -Wartburgo, que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se, -sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos sabia, ao principio, -onde elle se encontrava. Emquanto esteve em Wartburgo, submetteu-se a -uma vida de isolamento, e para maior precaução deixou crescer a barba, -vestiu-se de cavalleiro, e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez -mezes n’aquelle seu esconderijo. - -Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a traducção da -Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu tornar conhecido -dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon mandava-lhe de Wittenberg todos -os livros de que elle necessitava. Começou com o Novo Testamento, e -traduziu-o quasi todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento -teve o que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto -de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez por semana em -casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo auxilio nas passagens -difficeis. - -Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da Biblia um livro -para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella phrases finas, phrases -palacianas; desejava tornal-a um livro que fosse comprehendido por todos, -homens, mulheres e creanças, e dedicou a esse trabalho todo o seu talento -e actividade. Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que -se vê o grande numero de emendas por que muitas das orações passaram, -chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. «Estamos trabalhando com -todas as nossas forças», escreveu elle em certa occasião, «para que os -prophetas fallem na nossa lingua. Que grande e difficil tarefa é esta, -de fazer com que os escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles -offerecem uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por uma -lingua barbara». - -A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de quasi se poder -dizer que não existia a lingua allemã. O allemão antes do tempo de -Luthero, assim como o inglez antes do tempo de Chaucer, era um aggregado -de dialectos; e, de facto, a Biblia de Luthero é que fez a lingua allemã, -pois que tem servido desde então como que de modelo, e o seu estylo tem -sido imitado por todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto, -tornando-se gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz, -e a linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de separação -que passou depois por toda a Allemanha. - -=Regresso de Luthero a Wittenberg.=—Emquanto Luthero esteve em Wartburgo, -andaram os seus amigos prégando o Evangelho por toda a Allemanha, sem -soffrerem o minimo incommodo, e os seus livros eram lidos por toda a -parte. Dir-se-hia que toda a Allemanha se tornava protestante, a despeito -do edicto do imperador. Havia de todos os lados um grande movimento a -favor das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria. -Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento -religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, a cabeça e querem -que as coisas caminhem muitissimo depressa ou vão até demasiadamente -longe; foi o que succedeu na Allemanha. - -Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de Erzgebirge, -ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada Zwickau. Os habitantes -d’essa cidade acceitaram a Reforma. Entre elles havia um tecelão, Claus -Storch, homem excitavel, que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e -que reuniu em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de -muito pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres -nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; a -Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. Metteram-se -a limpar a sua terra de todos os indicios da antiga religião—as -ornamentações das egrejas, os altares, as cruzes, o clero, etc.—e deram -logar a alguns tumultos, levantando-se, por fim, contra elles os seus -conterraneos, que os pozeram fóra. - -Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram as suas idéas -ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, que eram ali os -dirigentes espirituaes na ausencia de Luthero. Carlstadt adoptou por -completo o seu modo de pensar, Melanchthon deixou-se persuadir até a um -certo ponto, e a agitação começou a lavrar entre as massas populares. As -imagens foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt -prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; a -Reforma correu o perigo de uma rapida destruição. - -Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão de Wartburgo, -e resolveu sair de aquella especie de sequestração em que se encontrava. -Correu a Wittenberg, e o povo tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se -familiarisara, trovejando do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a -falta de caridade. Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por -fim triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, e -o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum com os excessos de -Storch, e do seu companheiro Münzer. - -Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma coisa -boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as ceremonias do -catholicismo romano, que foram substituidas por um serviço religioso mais -em conformidade com as Escripturas. - -=A Dieta de Nürnberg.=—O anathema do imperio ainda estava sobre Luthero, -pois que não havia sido revogado; mas ninguem pensava em o pôr em -execução. Luthero prégava, escrevia, e editava os seus trabalhos, sem que -pessoa alguma na Allemanha o tivesse na conta de um proscripto. Ainda -mais, alguns dos principes allemães eram de parecer que o edicto de -Worms devia ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha, -deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros conheciam bem o -estado da Allemanha e os sentimentos do povo, e não se sentiam inclinados -a desposar a causa do papa. - -Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em 1522 e 1524, -o nuncio do papa viu que os principes allemães não eram de modo algum -favoraveis á sua proposta para que Luthero soffresse a pena de morte. -Em vez de discutirem esse ponto, apresentaram differentes reclamações, -insistindo muito com o nuncio para que chamasse para ellas a attenção do -papa; e muitas d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os -quaes se baseou a condemnação de Luthero. - -Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os principes -allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era necessario nomear -uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos abusos fossem abolidos e -se esclarecessem certos pontos duvidosos de doutrina que tinham surgido, -annunciando, ao mesmo tempo, que toda essa questão de differenças -religiosas havia de ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se -em Spira. Toda a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero; -e alguns estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam -abertamente quaes as reformas por que a religião devia passar. Pediam a -abolição dos cinco falsos sacramentos, da missa, do culto dos santos e -da supremacia pontificia. A Reforma havia-se espalhado tambem para além -da Allemanha, e já em 1524 havia discipulos de Luthero em França, na -Dinamarca e nos Paizes Baixos. - -=A revolta dos nobres= foi o primeiro dos grandes revezes que o movimento -da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero tinham-se espalhado -sem obstaculo de maior pela Allemanha e pelo estrangeiro. De toda a parte -se protestava contra os cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a -confissão auricular, o culto dos santos e das reliquias, o celibato do -clero, a negação do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação -episcopal e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era uma fórma -de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, e uma fórma -de governo que tornasse manifesto o sacerdocio espiritual de todos os -crentes. A Dieta tinha repetidamente, na sua lista de aggravos, chamado -a attenção do papa para os abusos que se observavam na egreja, e propoz, -por fim, que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias -reformas. - -Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava de ser -reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes era cada vez -mais insustentavel; os principes, mais poderosos do que elles, -supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes viviam, pela maior -parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se em segredo para uma -revolução. Tanto de um lado como do outro contava-se com a Reforma -como com um poderoso auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto -a inutilidade dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a -necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se d’este -estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas assim o -entenderam, e, porque assim o entendessem, entraram no caminho da revolta. - -A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo, -probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram n’ella estavam, -realmente, luctando contra a orientação da epoca e contra a corrente -da historia. Viam todo o territorio allemão caindo nas mãos de meia -duzia de familias principescas, e todo o povo das cidades enriquecendo -por meio do commercio e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam -que a Allemanha não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem -elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam voltar -aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam outra -auctoridade que não fosse a do imperador. Tinham por cabecilha Francisco -von Sickingen, homem muito notavel, de grande valor militar, e a quem -se não podia negar um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os -principes aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder -dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade. - -O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com a Reforma, mas -muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar com a Reforma por -causa do seu odio aos nobres revoltados. Sickingen tinha de muitos modos -tentado fazer com que parecesse que a causa que defendia era a causa da -liberdade religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms, -Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e a dieta. -Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados de perseguição -depois da dieta de Worms, Sickingen prometteu proteger todos aquelles que -se acolhessem a elle; e, ao levantar o estandarte da revolta contra os -principes, declarou que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer -as novas doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos -principes apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de terem -ajudado e instigado esta guerra civil. - -De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção de Ratisbonna, -ou Regensburgo, que era uma confederação, ou liga, dos principes -catholicos romanos contra a Reforma; e assim a Allemanha, que até ali -se tinha mantido n’uma união propicia ás reformas, dividiu-se em duas -partes, o que tornou o trabalho muito mais difficil. Os confederados de -Regensburgo diligenciaram chegar a accordo com o partido papista de Roma. -O papa prometteu que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria -aquella grande drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam -escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados -comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de reforma, oppondo-se -tenazmente a qualquer modificação de culto ou de doutrina. A Baviera, a -Austria e as grandes provincias ecclesiasticas do sul da Allemanha iam -pôr-se ao lado de Roma na lucta que estava imminente. A Convenção de -Regensburgo veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios -horrorosos da Guerra dos Trinta Annos. - -=A revolta dos camponezes= teve consequencias mais serias. Não fez -sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima reformação; -deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, por fim, de opinião a -muitos respeitos. O movimento rural não tinha por objecto a Reforma; -a sua origem foi a miseria profunda em que a gente do campo vivia. O -soffrimento d’essa gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto -que a morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo quinze -que de quando em quando se levantava uma sedição de camponezes n’um ou -n’outro ponto da Europa, e todas essas revoltas haviam sido suffocadas, -sem que fossem concedidas as almejadas reformas, de modo que as causas -da rebellião continuavam ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que -as terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam eram -as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam em harmonia com o -valor do terreno. Além das rendas, eram tambem obrigados a prestar aos -proprietarios certos serviços de que não recebiam remuneração alguma; -esses serviços variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o -senhorio tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser -preciso metter a mão á bolsa. - -A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes prohibido, -sob pena de um severo castigo, o entregarem-se ao exercicio da caça -ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos bosques, era-lhes vedada uma -grande parte dos baldios, e de todos os modos se viam embaraçados no seu -trabalho e na sua actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da -propriedade tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos -qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma vacca, uma -ovelha, ou até a propria cama. - -A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava os dizimos: uma -decima parte da colheita, que era chamada o grande dizimo; e uma decima -parte do producto dos animaes, que era chamada o pequeno dizimo. Tinham -de ser pagos depois de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se -ter pago a renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a -decima parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco ficava -para o pobre camponez e sua familia. - -Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, pode-se -supportar as maiores agruras da vida, quando ha a certeza de que se não -corre o risco de peiorar, e de que justiça será feita quando aquelles -que occupam posições superiores quizerem tirar partido da pobreza e -fraqueza dos seus similhantes. O camponez allemão, porém, não tinha -essa certeza. O velho codigo romano havia substituido gradualmente a -legislação allemã, e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não -eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, para -amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, e quando as -leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha viu-se logo que o -camponez ficava, pouco mais ou menos, na condição de escravo. - -Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, não ousavam -recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o seu amo entendia que -deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito algum; o proprietario podia -tornar-lhes mais pesados os trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em -summa, exigir d’elles o que quizesse. - -N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido transportadas para -a Europa enormes riquezas. A America, a terra da prata e do oiro, tinha -sido descoberta, e o commercio augmentara consideravelmente. Estas -riquezas tinham sido ganhas por mercadores e negociantes aventureiros, e -a classe commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada e -luxuosamente. - -Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura ao pé dos -negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem o mesmo fausto, -e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres camponezes, cujo viver era -cada vez mais miseravel, ao passo que a gente das cidades se rodeiava -de commodidades que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem -augmentados os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos os -impostos. - -Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito antes do tempo -de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no Main e no Rheno os -camponezes levantaram-se contra os seus tyrannos, e as associações -secretas organizadas durante essas insurreições continuaram permanecendo -até muito depois d’ellas haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas -associações era a de Bundschuh, isto é, a _do sapato atado_. A liga de -Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a de -todo; e durante a agitação produzida pela estada de Luthero em Worms, -quando todos os allemães receiavam pela vida do seu reformador, a -sinistra palavra Bundschuh appareceu escripta a giz pelas paredes. - -A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora das -anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas, e podemos -affirmar que os seus promotores contavam com que o Evangelho prégado por -Luthero lhes proporcionasse um bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de -Claus Storch, que havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau, -mettera-se a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua -inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta. A Bundschuh -reapparecera em Würtemberg, devido á cruel oppressão do duque Ulrico. Em -1524 os camponios do Rheno ergueram o estandarte da revolta, e a chamma -propagou-se em todas as direcções. - -Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por meio das -armas. Se os camponezes tivessem começado por uma acção violenta, teriam, -talvez, sido mais bem succedidos. A sua idéa era convocar grandes -comicios onde fossem expostas as suas reclamações, pois julgavam que por -esse meio viriam a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas -das listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais -importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram por dizer que só -pediam aquillo que os principios do Evangelho os auctorizavam a pedir, e -que não desejavam entrar em lucta, porque o Evangelho os mandava viver em -paz e amor. Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos, -e vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo com o -ensino da Palavra de Deus: - -1. A congregação deve ter poder para eleger o seu ministro, e para o -demittir no caso do seu procedimento ser censuravel; e o ministro deve -prégar o Evangelho puro, sem lhe accrescentar mais nada. - -2. Promettem pagar o dizimo do trigo para a sustentação dos ministros, -comtanto que o que ficar, depois de pagos os respectivos estipendios, -seja applicado no soccorro dos pobres; mas recusam pagar o pequeno -dizimo, isto é, o dos porcos, dos ovos, etc., porque, dizem elles, Deus -creou os animaes para uso do homem. - -3. A servidão deve ser abolida. A Escriptura declara que os homens são -livres. - -4 Deve haver inteira liberdade para caçar e para pescar, pois que Deus -creou as aves e os peixes para uso de todos. - -5. As florestas que não pertençam a alguem por direito de compra devem -ser restituidas á communa, ou municipio; e todos os habitantes devem ter -liberdade para cortar madeira de que necessitarem para combustivel ou -para trabalhos de carpinteria, devendo haver guardas, pagos pela communa, -que impeçam qualquer acto de vandalismo. - -6. Os serviços obrigatorios devem ficar restrictos ao que era permittido -pelos antigos costumes. - -7. Tudo o mais que se fizer deve ser condignamente pago. - -8. As rendas estão muito elevadas; as terras devem ser avaliadas de novo, -e pagar-se pelo seu aluguer uma quantia razoavel. - -9. A lei deve determinar as penas que correspondem aos diversos crimes, -ficando defezo a quem quer que seja a applicação de um castigo arbitrario. - -10. Os campos de pastagem e outros baldios de que os proprietarios se -teem apoderado devem ser restituidos ao logradouro publico. - -11. Deve ser abolido o direito de morte (A faculdade que tem o senhorio -de levar qualquer objecto da casa do rendeiro fallecido). - -12. Todas estas proposições devem passar pelo cadinho da Escriptura, e -serão retiradas as que fôrem susceptiveis de refutação. - -Estes artigos eram, quasi todos elles, assaz equitativos, e estão agora -incluidos na legislação allemã. Se as reivindicações dos camponezes -fossem recebidas como elles esperavam, e como tinham direito a esperar, -ter-se-hia chegado a um accordo. Os seus adversarios fingiram que se -interessavam por ellas, para ganharem tempo; e os camponezes, por fim, -vendo-se atraiçoados, pegaram em armas. - -Recorreram a Luthero. Elle era filho de camponez; tinha conhecido -a necessidade. E Luthero, respondendo ao appello que lhe fizeram, -intercedeu por elles, dirigindo-se d’este modo aos proprietarios: «Posso -agora fazer causa commum com os camponezes, porque vós attribuis esta -insurreição ao Evangelho e ao meu ensino, quando a verdade é que nunca -cessei de intimar obediencia á auctoridade, mesmo quando ella seja tão -tyrannica e tão intoleravel como a vossa. Não quero, porém, envenenar -a ferida; e, portanto, meus senhores, quer me sejaes benevolos quer me -sejaes hostis, não desprezeis os conselhos de um pobre homem como eu, e -não tenhaes em pouca conta esta sedição; não quero dizer com isto que -temaes os insurgentes, mas que temaes a Deus, que está irritado contra -vós. Elle póde punir-vos, e converter todas as pedras em camponezas, sem -que nem as vossas couraças nem todo o poder de que dispondes vos possam -livrar. Ponde, pois, limites ás vossas exacções, deixae de exercer uma -deshumana tyrannia, e passae a tratar essa gente com bondade, para que -Deus não incendeie toda a Allemanha com um fogo que ninguem será capaz -de extinguir. O que n’esta occasião, porventura, perderdes, ser-vos-ha -centuplicado mediante a paz futura. - -«Ha tanta equidade n’alguns dos doze artigos dos camponezes, que -constituem uma deshonra para vós deante de Deus e do mundo; cobrem os -principes de vergonha, como diz o Psalmo 108. Tinha outras coisas ainda -mais graves a dizer-vos, com respeito ao governo da Allemanha, e já me -referi a vós no meu livro dedicado á nobreza allemã. Não vos importastes, -porém, com as minhas palavras, e agora chovem sobre vós todas estas -reclamações. Não deveis desattender o seu pedido de auctorização para -escolherem pastores que lhes preguem o Evangelho; compete sómente ao -governo o obstar a que sejam prégadas a insurreição e a rebellião; mas -deve haver perfeita liberdade para prégar tanto o verdadeiro como o -falso Evangelho. Os restantes artigos, que tratam do estado social do -camponez, são egualmente justos. Os governos não se estabelecem para seu -proprio interesse, nem para tornarem o povo subserviente aos caprichos e -ás más paixões, mas para zelarem o interesse do povo. As vossas exacções -são intoleraveis; arrancaes ao camponez o fructo do seu trabalho para -poderdes sustentar o vosso luxo e os vossos prazeres. E é tudo quanto vos -tinha a dizer. - -«Agora, com respeito a vós, meus queridos amigos camponezes. Quereis que -vos seja garantida a livre prégação do Evangelho. Deus ha de defender a -vossa causa, se procederdes sempre com justiça e rectidão. Se o fizerdes, -haveis de triumphar por fim. Aquelles de entre vós que succumbirem na -lucta serão salvos. Se, porém, o vosso modo de proceder fôr outro, não -podereis salvar nem a alma nem o corpo, ainda mesmo que sejaes bem -succedidos e derroteis os principes e os senhores. Não acrediteis nos -falsos prophetas que se teem introduzido no meio de vós, ainda mesmo -que elles invoquem o santo nome do Evangelho. Pode ser que elles me -chamem hypocrita, mas isso pouco se me dá. O que eu quero é salvar os -que entre vós fôrem fieis e honrados. Temo a Deus e a ninguem mais. -Temei-o vós tambem, e não useis o Seu nome em vão, para que Elle vos não -castigue. Não diz a Palavra de Deus: «Aquelle que lançar mão da espada -á espada morrerá,» e «Todos se submettam aos poderes superiores?» Não -deveis fazer justiça por vossas proprias mãos; seria isso obedecer a um -outro dictame da lei natural. Não vêdes que vos fica mal a rebellião? O -governo tira-vos parte do que vos pertence, mas destruindo os principios -estabelecidos tiraes aos outros tudo o que lhes pertence. Christo, no -Gethsemane, reprehendeu S. Pedro por se ter servido da espada, ainda que -em defeza do seu Mestre; e quando já estava pregado na cruz orou pelos -Seus perseguidores. E o Seu reino não tem triumphado? Porque é que o Papa -e o imperador me não teem feito calar? Porque é que o Evangelho progride -á proporção que elles se esforçam para lhe pôrem obstaculos e para o -destruir? Porque eu nunca recorri á fôrça, prégando, antes, a obediencia, -até mesmo áquelles que me perseguem, fazendo depender exclusivamente de -Deus a minha defeza. Façaes o que fizerdes, nunca tenteis cobrir a vossa -empreza com o manto do Evangelho e o nome de Christo. Será uma guerra de -pagãos, a que, porventura, vier a ter logar, porque os christãos fazem -uso de outras armas: o seu General soffreu a cruz, e o triumpho d’elles -é a humildade. Supplico-vos, queridos amigos, que vos detenhaes, e que -considereis antes de dardes outro passo. O que citastes da Biblia não é -applicavel ao vosso caso». - -E conclue assim: «Como vêdes, estaes procedendo mal, tanto de um lado -como do outro, e estaes attrahindo o castigo divino sobre vós e sobre -a Allemanha, vossa patria commum. O meu conselho é que se escolham -arbitros, sendo alguns nomeados pela nobreza e outros pelas cidades. É -preciso que ambos os adversarios transijam n’alguma coisa: o negocio tem -de ser equitativamente liquidado por um tribunal.» - -O seu alvitre não foi acatado. - -Os camponezes romperam hostilidades, tornando impossivel qualquer -mediação. O proprio Luthero, logo que as coisas tomaram este caminho, -deixou de se interessar pelos revoltosos. - -Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes uma -verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta mil o numero dos -massacrados. - -Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma. - -Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha acontecido, -e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu a influencia que -tinha sobre as classes pobres, que se deixaram dominar pela idéa de que -Luthero as havia abandonado; e entregaram-se com facilidade aos excessos -anabaptistas, que tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O -proprio Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem, e -repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas foram um -atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado que a revolta dos -camponezes e a falta de coragem que Luthero mostrou n’essa occasião e -depois d’ella tiveram por effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos -de Luthero e da Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa. - -Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a Allemanha o -maior dos seus principes. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, -havia morrido. - -Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia partido para -a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes; e os seus ultimos -pensamentos foram para os maltratados servos. «Nós, os principes, fazemos -muitas coisas aos pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco -depois, tendo sido sacramentado, falleceu. - -=As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.=—O imperador ainda não havia voltado -á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois da Dieta de Worms. -Estava em Hespanha, constantemente occupado com a sua idéa de abater -o poder da França. Em 1525 esteve quasi a ver os seus planos coroados -de bom exito. Deu-se a batalha de Pavia, e Francisco I de França, -desbaratado o seu exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu -rival. A Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco -na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra a Egreja -se havia excitado na Allemanha; e os termos em que essa obrigação estava -formulada mostravam o quão attentamente havia observado os progressos -da Reforma e o quão empenhado estava em subjugal-a. Deu ordem para -que fossem postas em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando -assim claramente a entender que não consentia que dentro do imperio se -propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa sua intimativa -propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta que se reuniria em Spira. - -As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar á Allemanha. O -papa que dominava em Roma era Clemente VII, da familia dos Medicis, e em -toda esta questão zelou mais os interesses do seu principado italiano -do que os da egreja de que era chefe. O papa não queria que Francisco -e Carlos se reconciliassem. Receiava que os pequenos estados italianos -ficassem prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas, e por -esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea. O imperador -ainda não tinha conseguido o descanço de que necessitava para poder ir em -seguida liquidar pessoalmente os negocios da Allemanha. E assim o proprio -papa estava n’aquella occasião favorecendo a Reforma. - -Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se logo bem -manifesto que um grande numero d’elles não desejava que Luthero e -as suas doutrinas fossem banidos da Allemanha; e a Dieta, de que se -esperava a aniquilação da Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este -famoso edicto, que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia -de tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia -de religião todos os estados se deviam comportar por tal fórma que -estivessem promptos a responder por si deante de Deus e de sua Magestade -Imperial. Assim ficou cada um dos estados auctorizado a declarar que -religião se professaria dentro dos seus limites, e aquelle edicto foi -como que uma predicção da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a -religião official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem. -Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram, segundo a lei -imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a egreja dentro dos seus -dominios, e levar a effeito as necessarias reformas. - -O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões que -entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer tentativa de -introduzir nas provincias evangelicas um systema uniforme de governo da -egreja e do culto; cada uma d’ellas estabeleceu os seus regulamentos. O -primeiro a estabelecel-os, em conformidade com os verdadeiros principios -da Reforma, foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert que -lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica para uso nos -seus dominios. E estes artigos são interessantes, porque reconhecem, até -certo ponto, a auctoridade do povo christão dentro da egreja; e confiam -tambem a disciplina das congregações a homens de seriedade, cujos deveres -são parecidos com os dos anciãos presbyteriannos. - -Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo todas estas -indicações do reconhecimento dos direitos do povo christão, e do -sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a Guerra dos Camponezes -tinha-o predisposto contra a auctoridade do povo. Era de opinião que o -povo não tinha competencia para governar a egreja, e escreveu a Filippe, -mostrando-lhe os inconvenientes de similhante plano de organização -ecclesiastica. - -Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do poder -secular—dos principes quando se tratasse de principados, e das camaras -municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa deu logar ao que se chama o -systema _Consistorial_ do governo da Egreja—systema peculiar da Egreja -Lutherana, e de que, não obstante só mais tarde ter sido posto em -pratica, cabe fazer aqui uma descripção resumida. - -Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais alta -importancia o guardar-se a chamada _disciplina_ da egreja. Deus quer -que todos os seus filhos tenham uma vida honesta, uma vida decente, e -é do dever da Egreja cuidar que todos os seus membros procedam de uma -maneira condigna com a sua profissão de fé. Quando qualquer membro sae do -bom caminho deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer -os castigos que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser -excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na edade media, os -bispos responsaveis pela conducta dos membros das egrejas que constituiam -as suas respectivas dioceses; e, como estas dioceses eram geralmente -grandes, e os bispos não podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia, -encarregavam d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e -jurisconsultos. Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios, -e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram tambem encarregadas da -execução de testamentos e doações, e julgavam certos casos de calumnia -e de maledicencia que os tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os -bispos, nos estados evangelicos, foram expulsos, esses consistorios -continuaram gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que -era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação -dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite. Passaram a -chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação ficou dependendo da -suprema auctoridade civil, em cujo nome governavam. Com o tempo foram -introduzidas algumas mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda -assim pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada -differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade civil -substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar em toda a Allemanha -depois da Dieta de 1526, nos estados que abraçaram a Reforma. - -Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie d’elles para serem -cantados nas egrejas; escreveu um catecismo para uso da infancia; e -assim em toda a Allemanha, onde quer que as doutrinas evangelicas -prevalecessem, eram organizadas egrejas, onde se rendia a Deus um culto -simples mas sincero, e tratava-se de instruir e catequizar a juventude. -Ainda não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo sabia -perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de Luthero, -Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam de mão em mão. - -Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha logar uma coisa -que bastante contrariou o imperador: uma alliança entre a França e os -Estados Pontificios. Não esperava que o papa o abandonasse, e menos -esperava ainda que elle o abandonasse na propria occasião em que elle se -preparava para submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu -punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado por um -grande numero de soldados allemães lutheranos, sob o commando de aquelle -general Frundsberg que em Worms animou Luthero, e, levando á frente o -condestavel de Bourbon, esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo -por onde quer que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as -suas tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O -papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a cidade -foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram maltratados e -mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas, e os rudes e -mofadores allemães proclamaram papa a Luthero. Os francezes não poderam -prestar grande auxilio aos seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o -imperador e o papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava, -para esmagar a heresia na Allemanha. - -Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal para a Reforma. O -edicto de Spira havia concedido tolerancia aos lutheranos, mas tambem -tornou evidente, de uma maneira até então desconhecida, a separação entre -os dois partidos. Isto viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em -Spira em 1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario -disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o decreto de 1526, -e que sustentava que o decreto de Worms estava ainda em vigor e se lhe -devia dar força. Pela primeira vez pareceu que a maioria da Dieta estava -disposta a obedecer á ordem do imperador e a dar força ao edicto contra -Luthero. O decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em -execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não se tivesse -executado não se fizessem ulteriores innovações e ninguem fosse impedido -de celebrar missa. - -Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto de Spira -estava posto de parte, e a minoria evangelica resolveu protestar contra a -decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento de que as questões religiosas só -podiam ser decididas pela consciencia, e que não deviam ser submettidas -á Dieta para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questões que -dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma de cada um de nós, é -nosso imperioso dever, segundo o preceito divino, e por causa das nossas -proprias consciencias, respeitar, antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.» -«Em questões que se relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das -nossas almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de nós -mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel a liberdade de -consciencia, era assignado por João da Saxonia, Jorge de Brandenburgo, -Ernesto de Lüneburgo, Filippe de Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos -representantes das cidades imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia, -Lindau, Memmingen, Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St. -Gall, Weissenburgo e Windsheim. - -Foi d’este protesto que se originou o termo _protestantes_. - -=O imperador pretende subjugar a Reforma.=—Este protesto tornou ainda -mais saliente, mais definida, a linha de separação entre os principes -reformados e os seus visinhos. Ficavam como que marcados por ella -aquelles a quem o imperador, para restabelecer o imperio medieval, tinha -de subjugar; e parecia agora ter chegado uma occasião propicia para -elle o fazer. Na verdade, entre elle e a realização dos seus planos -só existia aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo -a França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam sido -derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento de um -imperio medieval. Os principes protestantes reconheceram a gravidade da -sua situação. Deveriam resistir ao imperador, e, no caso affirmativo, -conservar-se-hiam firmemente unidos? Luthero, que tinha até então -dirigido o movimento, servia agora de obstaculo a uma acção collectiva. -Elle, ao principio, era contrario a toda e qualquer resistencia. -Reprovava, mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor -da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald, e, quando esses -delegados voltaram e deram noticia de que não se tinha chegado a decidir -coisa alguma, mostrou-se excessivamente satisfeito. Se Filippe de Hesse -não tivesse trabalhado incessantemente para uma união e para um esforço -collectivo, a Reforma teria soffrido muito. - -A que se deve attribuir este procedimento de Luthero? Repugnava-lhe a -rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e não acreditava que as -batalhas do reino dos céus se podessem vencer com as armas carnaes. -Depois, tambem, havia n’elle uma grande somma de quietismo, ou, por -outra, de fatalismo, em parte hereditario, e em parte devido á sua -adhesão ás idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse -tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte d’esta -obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha sido proposto -reunir todos os protestantes n’uma liga offensiva e defensiva, e havia -protestantes que não reconheciam em Luthero o seu chefe religioso. -Assim como havia uma reforma allemã, havia tambem uma reforma suissa, -com o seu particular typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava, -e que, com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando pelo -sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella decisão que -o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela raiz. Propoz uma -conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse na presença uns dos -outros aquelles cujas idéas divergiam, elles haviam de comprehender-se -melhor, e acabariam, por consequencia, todas as differenças. Com esse -intuito, pois, promoveu em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os -primeiros theologos da Allemanha e da Suissa. - -=A Conferencia de Marburgo.=—Pode-se imaginar o que seria aquella -reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante. Zwinglio e -Œcolampadius tinham vindo, com risco das suas vidas, da Suissa; Bucer -tinha vindo de Strasburgo; e Luthero e Melanchthon tinham vindo de -Wittenberg. Consultaram-se sobre os grandes artigos da fé christã, e os -allemães ficaram convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente -evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se encerravam todos -os principaes pontos da verdade evangelica, sem que alguem discordasse -d’elles, e em seguida os theologos passaram a tratar do quinquagessimo e -ultimo, que se occupava da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo -ácerca do qual os que desejavam uma união de todos os protestantes se -mostravam mais inquietos. - -Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado a evitar -mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse qualquer asserção -sobre pontos de doutrina que fosse acceite pelos suissos; e muitos teem -supposto, com bom fundamento, que, se Calvino estivesse presente, e -tivesse fallado antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união. -Luthero, porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na conta de -irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das anciedades dos -principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido a não ceder em -coisa alguma. - -=A controversia entre Luthero e os suissos.=—O thema do debate era este. -Todos os reformadores, tanto allemães como suissos, haviam rejeitado a -doutrina catholica romana do sacramento da Ceia do Senhor. - -Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento em duas partes -distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é mais um sacrificio do -que um sacramento. É a prolongação, atravez do tempo, do sacrificio de -Christo na cruz; o pão e o vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e -sangue de Christo, e quando estes são saboreados pelo padre, no acto -de comer e beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na -cruz. D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos vêem -Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando os tormentos por sua -causa, na sua propria presença. Assim, segundo esta theoria, não ha a -distancia de longos seculos entre o crente e os soffrimentos de Christo -por sua causa. Christo soffrendo e o crente prestando culto estão em face -um do outro durante um momento, mediante a missa. - -Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a doutrina da missa -por a considerarem idolatra e supersticiosa, e ensinaram os christãos a -retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro sacrificio de Christo na cruz -do Calvario por sua causa e para resgate dos seus peccados. O debate -entre os protestantes é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos -romanos chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar. - -A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da Eucaristia teem -um ponto em commum; ambas affirmam que o verdadeiro corpo e o verdadeiro -sangue de Christo estão presentes no pão e no vinho, de modo que estes -elementos já não são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o -verdadeiro sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre, e -porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração e a ceremonia, -operar o milagre de transformar o pão e o vinho no verdadeiro corpo e -sangue de Christo, com a Sua alma racional e a Sua natureza divina; e -que pode, outrosim, operar o milagre de O trazer do céu e de O mostrar -ao povo, a fim de ser adorado e partilhado por todos. Ensinam, ainda, -posto que esta parte do seu ensino não seja sempre muito clara, que os -beneficios de Christo são communicados ao Seu povo quando este come o -pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida a -todos aquelles que participam, quer tenham quer não tenham fé. - -Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram acceitar -pelo menos dois, e os dois principaes, pontos d’esta doutrina catholica -romana. Não quizeram crer que um padre podesse operar o milagre que os -catholicos romanos asseveram que é operado; e foram tambem todos de -opinião de que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para -que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão entre o -sacramento e o que o administra, negaram que tenha logar a operação de um -milagre; e, ao descreverem o effeito nos participantes, asseveraram que a -fé era indispensavel. - -Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento e do seu -effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram. Todos -elles sustentaram que, ainda que Christo esteja presente no sacramento, -não foi trazido para ali mediante um milagre operado por um padre, e -que, ainda que Christo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido -espiritual, mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento. - -Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas mesmas idéas com -respeito a estes dois importantes pontos, e assim podessem escrever -a primeira parte do artigo quinze de tal maneira que podessem ambos -acceitar cabalmente a asserção, differiam no modo em que descreviam a -entrada de Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a -Sua presença e tirava o beneficio inherente. - -Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento sob uma -fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle, eram apenas signaes da -Sua presença, quasi da mesma maneira como uma carta é o signal da pessoa -ausente que a escreveu, e, quando os christãos participam do sacramento, -colhem um beneficio, porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a -memoria e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e soffreu -sobre a cruz. - -Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma coisa. Elle -tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho eram promessas, ou -sellos, assim como signaes, e essa idéa podia têl-o levado, como mais -tarde aconteceu a Calvino, a encarar a questão com maior clareza e -simplicidade. No seu modo de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira -real, o genuino corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse -ácerca do pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu -sangue». E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes, -fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media. - -Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer distincções -muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de umas e outras -palavras, ensinaram que a palavra _presença_ significava duas coisas -differentes; um corpo estava presente n’uma certa porção de espaço quando -occupava essa porção de espaço de tal fórma que nenhum outro corpo -podesse estar lá ao mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente -quando occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer coisa. -A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço em que o corpo -estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos, como eram chamados, -empregava esta segunda especie de presença para descrever a presença do -corpo de Christo nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo -tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as duas coisas, -o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam, ao mesmo tempo -no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente, o corpo de Christo -estava, na Ceia do Senhor, no pão, com o pão e sob a fórma de pão. Isto, -porém, não explicava a presença do corpo de Christo, nem como elle era -transportado da dextra de Deus para os elementos. - -Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos theologos -medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser Deus e homem, duas -naturezas n’uma pessoa, todos os attributos da natureza divina de Christo -se tornavam tambem propriedades da Sua natureza humana. Um dos attributos -de Deus é a omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da -natureza divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte. Se -o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos, sobre -a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre algum. Luthero serviu-se d’esta -ubiquidade do corpo de Christo para explicar como, sem a intervenção do -milagre, elle podia estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho. - -Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude especial n’este -caso da presença de Christo—a Sua presença no Sacramento—estando Elle, -segundo a sua theoria, presente em toda a parte, replicou que Deus tinha -promettido, na Biblia, abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e -sangue de Christo nos elementos do sacramento. - -E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença de Christo -no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente, da transubstanciação e -do milagre sacerdotal, mas introduzia, em seu logar, inverosimeis idéas -escolasticas. Podia, comtudo, d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo -estava realmente presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso -dava-lhe grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para -discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um pedaço de -giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio da sala as palavras HOC -EST CORPUS MEUM (Isto é o meu corpo). - -Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse que o -corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam corporalmente presentes -nos elementos, e accusava os seus antagonistas de interpretarem mal a -Escriptura quando se referiam a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que -Zwinglio contestou que a palavra «é» nem sempre significa identidade de -substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira verdadeira», -«Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma vinha ou uma porta no -sentido litteral da palavra. Luthero não se demoveu, e a conferencia -terminou sem aquella unidade de coração e de proposito que o pio e -affectuoso Landgrave esperava que resultasse d’ella. - -=A Dieta de Augsburgo.=—O imperador tinha sido victorioso em toda a -parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar a Reforma, isto -emquanto os protestantes, devido á obstinação de Luthero, se encontravam -divididos e desalentados. O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao -seu alcance para conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa -conseguiu n’esse sentido. - -O imperador entrou em Augsburgo com grande apparato, e ao principio -recebeu muito cordealmente os principes protestantes. Luthero achava-se -ausente da cidade. Considerou-se que a sua presença daria logar a uma -desnecessaria irritação, e permaneceu, portanto, em Coburgo, onde -facilmente poderia ser consultado. Melanchthon ficou a substituil-o como -conselheiro theologico. - -Os chefes dos protestantes eram—João, eleitor da Saxonia, denominado -João o constante, em razão da sua fidelidade aos principios evangelicos; -Filippe o magnanimo, Landgrave de Hesse; e o edoso Margrave de -Brandenburgo, antepassado do ultimo imperador da Allemanha. Estes -principes foram recebidos pelo imperador com muita affabilidade. -Deprehender-se-hia de tudo isto que se tinha iniciado na Allemanha uma -era de paz e concordia. - -Por detraz dos bastidores, porém, estava Fernando da Austria, irmão -do imperador, e cabeça do fanatico partido romanista, com os seus -conselheiros theologicos, protestando contra o incitamento á herezia. -Afim de o socegar, o imperador escreveu-lhe o seguinte: «Entrarei em -negocios, sem chegar a qualquer conclusão: mas, ainda que isso aconteça, -não ha motivo para receios da tua parte: nunca te faltarão pretextos para -castigar os rebeldes, e has de sempre deparar com quem, com muito gosto, -se preste a servir de instrumento á tua vingança.» As suas verdadeiras -intenções depressa se tornaram manifestas. - -Os capellães dos principes protestantes celebravam o culto publico -segundo o rito evangelico: e o imperador deu ordem para que tal se não -continuasse a fazer. O Eleitor declarou: «Assim que tiver a certeza de -que o imperador tenciona suspender a prégação do Evangelho, retiro-me -para minha casa.» Quando Carlos, n’uma conferencia particular, pediu aos -principes que impozessem silencio aos seus capellães, o velho Margrave -de Brandenburgo avançou alguns passos, levou as mãos ao pescoço, e, -inclinando-se, disse: «Era mais facil a minha cabeça rolar aos pés de -Vossa Magestade do que eu privar-me da Palavra de Deus e negar o meu -Senhor». Carlos mostrou-se surprehendido. «Ninguem pensa em cortar -cabeças, meu caro Margrave», replicou elle. Comprehendia tão mal os -seus subditos protestantes que se encheu de ira quando elles recusaram -incorporar-se na procissão que teve logar por occasião da festa de -_Corpus Christi_. Seria condescender com a idolatria, seria prestar -adoração a uma particula de massa que a Egreja de Roma dizia ter-se -transformado na Divindade mediante um milagre operado por um padre, e -isso não podiam elles fazer. «Porque não hão de agradar ao imperador? -Porque não hão de mostrar respeito ao cardeal?» exclamou Fernando. «Não -podemos nem queremos adorar senão a Deus» declararam elles. E assim foram -passando os dias. - -Entretanto os prégadores protestantes dirigiam todos os dias a palavra -a grandes concursos de gente na egreja dos franciscanos, e expunham -eloquentemente as doutrinas do Evangelho. Carlos resolveu pôr um termo -a este estado de coisas, e fêl-o por meio de um accordo cujas vantagens -ficaram todas do lado dos catholicos romanos. Melanchthon, sempre timido -e amigo da paz, insistiu para que se fizessem algumas concessões. Os -prégadores protestantes sairam angustiados da cidade, e Luthero, que -observava de longe os acontecimentos, convenceu-se de que Melanchthon, -apezar das suas boas intenções, estava traindo a causa. - -Quando se abriu a Dieta, o imperador quiz que os protestantes expozessem -as suas opiniões. Essa exigencia era esperada, e assim Melanchthon -tinha, com a collaboração de Luthero, redigido uma Confissão de Fé, em -que estavam mencionados, com grande clareza de linguagem, os principaes -artigos da sua fé. Era esta a famosa _Confissão de Augsburgo_ (_Confessio -Augustana_), o credo que tem sido acceite por todos os lutheranos, embora -entre elles tenha havido divergencias n’outros pontos. Carlos queria -que elle fosse lido em latim. «Não», respondeu a isto João o Constante, -«nós somos allemães, e estamos em territorio allemão. Espero que vossa -magestade nos permittirá que fallemos na nossa lingua». E a Confissão -foi lida em allemão, não por um theologo, mas por uma outra pessoa que -recebeu dos principes esse encargo. - -=A Confissão de Augsburgo.=—A primeira parte d’esta nobre confissão -expõe, um por um, todos os principios evangelicos da Reforma, e em -particular os grandes principios da justificação pela fé. Diz-se que, -quando o chanceller do Eleitor, Christiano Beyer, leu estas palavras «a -fé, que não é o mero conhecimento de um facto historico, mas aquillo que -crê, não sómente na historia, mas no effeito que essa historia produz -sobre o espirito», toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse -Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso: a Palavra -de Deus não está presa». - -Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava os abusos -da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto as egrejas que ha entre nós não -discordarem em artigo algum de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja -Catholica, e omittirem apenas uns certos abusos, umas certas innovações, -que em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente -introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido dos canones, -rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne prestar ouvidos clementes ás -razões que o povo apresenta para que não deva ser forçado, contra as suas -consciencias, a observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o -calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura como -aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que o celibato dos clerigos -é uma transgressão do mandamento de Deus: que a missa é «uma profanação -do sacramento da Ceia do Senhor»: que a distincção das comidas e as -tradições «obscurecem as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que -o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas festas, -ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos são altamente -perniciosos, e servem para desencaminhar homens e mulheres, pois que «se -deve servir a Deus segundo os preceitos que Elle promulgou, e não segundo -os que os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril, mas -ministerial. - -A confissão continha tambem um pequeno artigo em que vinha exposta a -opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia do Senhor, e isso compelliu -os theologos suissos e os do sul da Allemanha a apresentarem confissões -separadas: mas a leitura da confissão de Augsburgo, pelos principes, -na Dieta produziu um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os -protestantes adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos. - -O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia destruir a Reforma, -e não se achava preparado para esse recurso. Lembrou-se então de -promover umas conferencias que fossem criando uma certa confusão entre -os protestantes. Era bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon, -que n’essas conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em -todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo, soube -do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth (Coração pequeno): -Segundo me parece, estaes fazendo uma obra prodigiosa, qual a de -reconciliar Luthero com o papa.... Advirto-vos, porém, de que, se é vossa -intenção metter n’um sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho, -Luthero, tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas -as suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem -pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon. «Antes morrer -com Jesus Christo», exclamavam, «do que alcançar, sem Elle, as boas -graças do mundo inteiro». Os catholicos romanos pediam, por fim, mais do -que Melanchthon podia conceder, e, com grande regozijo dos protestantes, -as conferencias cessaram. - -=A liga protestante de Schmalkald.=—Os principes sabiam que o imperador -queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua resolução, e -pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos a coadjuvarem-n’o -n’aquella obra. Formou-se uma liga catholica. A resposta dos protestantes -foi recusarem todos os subsidios emquanto os negocios da Allemanha -permanecessem por liquidar. - -Os principes reuniram-se em Schmalkald, e formaram uma liga protestante, -de que Filippe de Hesse foi o membro mais activo. Os estados catholicos -romanos não desejavam entrar n’uma guerra civil com os seus visinhos -protestantes, e o imperador, atacado pelos francezes e pelos turcos, -viu-se na impossibilidade de suffocar a revolta. - -O ultimo decreto da Dieta havia estabelecido um prazo, que se estendia -até á proxima primavera, durante o qual os protestantes podiam fazer -a sua submissão voluntaria, e accrescentava que aquelles que não se -submetessem durante esse prazo seriam exterminados. Ao chegar, porém, -a primavera, reconheceu-se impotente para exterminar os protestantes. -A Liga de Schmalkald havia-se tornado a mais poderosa aggremiação da -Allemanha. Assim, em 1532, apoz prolongadas negociações, firmou-se -um tratado de paz entre Carlos e os principes protestantes. A Paz de -Nürnberg, como ficou sendo chamada, permittia aos adherentes á Confissão -de Augsburgo o persistirem nas suas doutrinas, e concedia-lhes outros -privilegios. Em troca, os principes protestantes, e entre elles Filippe -de Hesse, offereceram-se, muito cordialmente, para auxiliar o imperador -nas suas campanhas contra os francezes, os turcos e os piratas da -Barbaria. - -A Liga de Schmalkald continuou de pé, e outros estados, taes como o de -Würtemberg, deram-lhe a sua adhesão. O imperador não podia dissolvel-a, -e, comtudo, ardia em desejos de restabelecer na Allemanha a uniformidade -religiosa. O exame da sua correspondencia particular revelou a -perplexidade em que elle se encontrava. Tinha umas vezes a idéa da -exterminação, e outras a da conciliação. Um dos seus planos consistia em -promover na Allemanha um Concilio Geral da Egreja, sem consultar nem o -papa nem o rei de França. - -Em 1538, Held, o seu vice-chanceller, formou em Nürnberg uma Liga -Catholica, com o expresso designio de acabar com o protestantismo pela -força das armas. Em 1540-41, o imperador diligenciou, por meio de -conferencias que se realisaram em Hagenau Worms, e Regensburgo, chegar -a um certo entendimento com os protestantes em materia de religião, e -chegou a ser proposta em Roma a reforma da Egreja. Foi, finalmente, -publicado, em 1541, um decreto da Dieta, estabelecendo que não se podia -prohibir, a quem quer que fosse, o adoptar a religião protestante. - -D’estas victorias da Liga de Schmalkald resultou uma rapida propagação do -protestantismo. O Würtemberg, a Pomerania, o Anhalt, o Mecklemburgo, e -muitissimas cidades, tornaram-se protestantes; os bispados de Magdeburgo, -Halberstadt e Naumberg deixaram de reconhecer a supremacia de Roma; -e duas provincias eleitoraes, o Brandenburgo e a Saxonia Albertina, -uniram-se á Liga. Os unicos estados que se conservaram na opposição -foram a Austria, a Baviera, o Palatinado e as provincias ecclesiasticas -do Rheno. Mas mesmo estas regiões começavam a ser influenciadas. Na -Austria a religião evangelica ia ganhando terreno entre os proprietarios, -os camponezes e os habitantes das cidades. Os bavaros iam-se deixando -invadir rapidamente pelas novas idéas. Quanto ao Palatinado, a sua -aggregação á Liga de Schmalkald parecia ser apenas uma questão de tempo. - -O imperador não podia ver com indifferença este rapido progresso do -protestantismo; contrariava-o immenso que os seus dominios nos Paizes -Baixos ficassem separados d’elle por uma faixa de paizes protestantes; -não queria ouvir fallar na possibilidade de uma maioria protestante -no Collegio Eleitoral, e de um sucessor do imperio protestante. O -procedimento do arcebispo-eleitor de Colonia mostrou-lhe que não havia -tempo a perder. Hermann von Wied estava havia muito convencido da -necessidade de reformas na Egreja, e depois da paz de Nürnberg, incitado -por um grande numero de clerigos, e correspondendo ao evidente desejo de -muitas outras pessoas, animou o ensino protestante na sua vasta diocese, -e mostrou-se disposto a converter aquella provincia arqui-episcopal n’um -estado secular protestante. - -A posição dos arcebispos e bispos da Allemanha era, nos dias da Reforma, -um tanto singular. Não eram simplesmente bispos, mas tambem barões, e, -como todos os outros grandes barões sujeitos ao imperador na Allemanha, -eram principes soberanos. Os arcebispos de Kõln, Trier e Metz tinham -sobre alguns territorios um governo egual ao que João, o Constante, tinha -sobre a Saxonia eleitoral, e Filippe, o Magnanimo, sobre Hesse. Eram as -supremas auctoridades civicas, com os seus tribunaes, os seus exercitos, -os seus cobradores de impostos. O decreto de 1526 era-lhes tão applicavel -como aos principes seculares. Podiam fazer-se protestantes, dominar nos -seus territorios, como principes seculares, e declarar «que tomavam ante -Deus e sua magestade imperial a responsabilidade do seu modo de viver, do -seu systema de governo e das suas crenças». - -Alguns bispos do norte da Allemanha tinham-n’o feito já: a opportunidade -era de tentar: podiam, aproveitando-se d’este decreto, libertar-se da -obediencia a Roma, casar, e legar a seus filhos o que possuiam. Carlos -viu tambem o alcance de aquella opportunidade, mas durante muito tempo -foi-lhe impossivel intervir. Todas as vezes que tentou pôr em pratica os -seus planos via-se contrariado, ou pelo papa, ou pelo rei de França, ou -pelos turcos. Quando lhe constou que parecia estar proxima a conversão -de Hermann von Wied, reconheceu-se impotente para luctar com a Liga -de Schmalkald. Por fim, em 1544, conseguiu derrotar os francezes, com -os quaes tratou, depois, da paz em condições vantajosas para elles, -impondo-lhes, porém, a clausula de uma união dos dois exercitos -para combater os protestantes. Na Dieta de Spira, que se reuniu no -mesmo anno, mostrou-se contemporizador, propondo que se suspendessem -hostilidades até á convocação do Concilio Geral; isto ao passo que por -outro lado trabalhava para desviar da liga protestante o maior numero de -principes que lhe fosse possivel. - -=A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald.=—No entretanto Luthero, -que soffria havia bastante tempo de uma doença do coração, morria -em Eisleben, em 18 de fevereiro de 1546, perecendo com elle aquella -forte reluctancia dos protestantes em tentarem a sorte das armas. Não -estavam, porém, tão bem preparados para a guerra como n’outro tempo. O -bom exito que a liga tivera ao principio fez com que elles confiassem -demasiadamente n’ella; além d’isso, surgiram rivalidades entre os estados -e as cidades, e entre os principes. Filippe de Hesse era o unico chefe -competente, mas tinha o defeito de ser um principe de pouco elevada -estirpe. Tinham ficado tambem muito prejudicados com o facto de Mauricio -ter succedido ao duque Jorge da Saxonia, o grande inimigo de Luthero e -da Reforma. Mauricio era sobrinho do duque Jorge, havia sido educado -no lutheranismo, e desposou a primeira filha de Filippe de Hesse. -Por occasião de elle assumir a chefia, a Saxonia Albertina, como era -chamada, confirmou o seu lutheranismo, que durante a vida do duque Jorge -se havia propagado clandestinamente, e que se havia tornado a religião -reconhecida do paiz quando o duque Henrique, pae de Mauricio, succedeu a -seu irmão. Todas estas coisas faziam com que os principes protestantes -não podessem prescindir do concurso de Mauricio, apezar do joven não lhes -inspirar muita confiança. De facto, Mauricio foi o primeiro de aquelles -principes allemães protestantes para quem a Reforma era simplesmente -uma arma politica de que lançassem mão quando lhes fosse vantajosa. -Mais tarde, durante a guerra dos Trinta Annos, o seu numero augmentou -consideravelmente, graças ás interminaveis disputas dos theologos, que, -interessados apenas em que as suas insignificantes doutrinas ácerca da -_ubiquidade_ e da _presença real_ fossem correctamente definidas, se -mostravam quasi indifferentes perante a grande quantidade de sangue -derramado e o grande numero de lares desgraçados. Nos primeiros tempos -da Reforma, porém, os principes protestantes eram homens sinceramente -christãos e que não obedeciam a fins interesseiros, não obstante a sua -forçada camaradagem com Mauricio. - -O imperador quiz aproveitar a opportunidade, e com esse intuito fez -algumas propostas a Mauricio. Este começou por abandonar a liga. Era um -bom protestante, disse elle, e estava prompto a defender a religião, -mas não queria ajuntar-se com aquelles que se oppunham ao seu soberano. -O imperador, cobrando animo com esta declaração, deu os ultimos toques -aos seus preparativos. Antes, porém, de entrar em acção, proclamou que -a sua idéa não era combater a religião, mas, sim, castigar aquelles que -conspiravam contra a integridade do imperio. - -Não vamos agora narrar pormenorisadamente o que teve logar em seguida. -Devido á traição de Mauricio, á hesitação dos outros, e á falta de mutua -confiança entre os caudilhos da liga, o imperador alcançou uma facil -e, apparentemente, decisiva victoria. A batalha de Mühlberg teve logar -a 24 de abril de 1547, e João Frederico, eleitor da Saxonia, ficou -ferido e foi feito prisioneiro, não tardando que Filippe de Hesse caisse -egualmente em poder dos inimigos. - -Toda a Allemanha se prostrou deante do imperador, que declarou logo a sua -intenção de restabelecer a unidade religiosa. Ia redigir um documento -denominado o _Interim de Augsburgo_, especie de confissão de fé que os -allemães seriam obrigados a acceitar. Eram por meio d’elle reintegrados a -hierarquia e o culto catholicos romanos, com todas as suas festividades, -jejuns e ceremonias, sendo apenas tolerado o casamento dos clerigos e a -faculdade do povo commungar nas duas especies. - -O Interim era, por assim dizer, um plano de reformação, e estava n’elle -incluido, segundo a opinião de Carlos, tudo quanto se devia conceder -aos protestantes. Em parte alguma o acceitaram de boa vontade. O -imperador não o remetteu aos districtos catholicos romanos, e em todos -os protestantes encontrou uma resistencia passiva. O proprio Mauricio -hesitou em o proclamar na Saxonia, publicando, em logar d’elle, o -_Interim de Leipzig_, que tendia a uma conciliação das ceremonias -papistas com as doutrinas protestantes. - -Em breve se tornou evidente que o codigo religioso do imperador só -encontrava submissão da parte do povo nos pontos onde a presença -das tropas hespanholas obrigava a essa submissão. O imperador havia -triumphado, o seu exercito saira victorioso, parecia ter adquirido um -dominio na Allemanha como não succedera a nenhum outro soberano durante -muitos seculos, e, comtudo, lá no seu intimo, sentia-se derrotado, pois -não conseguira o fim principal que tinha em vista. A invisivel força da -consciencia, esse adversario com que elle não contara, estava erguida -contra elle, e havia de, por fim, inutilisar todos os seus bem elaborados -planos politicos. - -=O imperador e o Concilio Geral.=—Emquanto o imperador estivera formando -e pondo em pratica os seus projectos para a conquista da Allemanha -protestante, a côrte pontificia vira-se forçada a convocar um Concilio -Geral. Este concilio reuniu-se em Trent, no Tyrol, e, emquanto o -imperador andou mettido na tarefa de subjugar os protestantes, esteve -tomando deliberações relativas á Egreja. - -Nos primeiros periodos da controversia a que a Reforma deu origem, os -reformadores appellavam constantemente para um concilio livre, e os -concilios foram sempre os instrumentos favoritos do imperador para a -liquidação das contendas. Os papas, porém, procuravam, antes, evital-os. -No seculo quinze, os concilios geraes de Basiléa, Pisa e Constancia -foram os meios de que os ecclesiasticos e principes se serviram para -investir contra o poder da côrte de Roma. Um concilio geral era um ponto -de reunião para todos aquelles que eram adversos ao christianismo papal; -e a um politico como Carlos V affigurava-se ser um excellente meio de -engrandecer o imperador e humilhar o papa. Anteriormente á Reforma, os -concilios geraes eram olhados com muito respeito. Cria-se que o Espirito -Santo fallava mediante esses concilios, e muitos theologos medievaes, que -negavam a infallibilidade do papa, sustentavam que um concilio não era -susceptivel de errar. - -Nos primeiros seculos da Egreja christã, um concilio geral, ou ecumenico, -significava simplesmente uma assembléa que se podia com justiça dizer -que representava a Egreja no seu conjuncto, de modo que as suas decisões -podiam ser chamadas as opiniões de todos os christãos. N’esses remotos -tempos os bispos eram eleitos pelo clero e pelo povo, e eram, portanto, -representantes das regiões de onde tinham vindo, e assim um concilio em -que todos os bispos christãos estivessem presentes achava-se realmente -no caso de fallar em nome de todo o povo christão. Mesmo nas epocas mais -puras da egreja primitiva, concilio algum se realisou a que concorressem -todos os bispos, e que fosse, por conseguinte, realmente ecumenico e -representativo de todos os christãos. No decurso da Edade Media a Egreja -perdeu inteiramente o seu antigo caracter popular, ou democratico, e os -bispos não podiam ser chamados, n’um sentido rigoroso, os representantes -do povo; eram, muitas vezes, apenas os delegados do papa, e iam aos -concilios para votar o que elle houvesse dictado. - -Estas e outras considerações tinham feito com que os protestantes -respeitassem menos os concilios, e mostraram ao imperador que um -concilio, para ser util, devia estar quanto possivel fóra da influencia -do papa. Os allemães tinham pedido que se convocasse um concilio livre na -Allemanha, e o imperador tinha tambem ultimamente pedido o mesmo; o papa, -por outro lado, queria que o concilio se realisasse em Italia, onde elle -poderia mais facilmente ter mão nas suas deliberações e decisões. Depois -de muitas negociações entre o papa e o imperador, resolveu-se afinal que -o concilio se reunisse, não em Italia, onde o papa poderia ter demasiado -poder sobre elle, nem na Allemanha, onde o imperador e os principes -poderiam impôr a sua auctoridade, mas em Trent, no Tyrol, n’um ponto -equidistante da Allemanha e da Italia. - -O imperador esperava grandes coisas d’este concilio. Sabia que havia -na egreja romana muitos homens competentes que se tinham preparado para -grandes reformas, que ao proprio papa, Paulo III, não eram indifferentes; -não tinha, porém, contado com a influencia de uma nova e poderosa -organisação que estava destinada a alcançar a sua primeira e grande -victoria n’esse mesmo concilio para cuja convocação elle havia trabalhado. - -=Loyola e os jesuitas.=—Ignacio Loyola, joven fidalgo hespanhol, educado -no meio da cavallaria de Hespanha, onde as prolongadas guerras com -os moiros tinham tornado a dedicação ao papado um grande elemento de -patriotismo, ficou com uma perna esmigalhada no cerco de Pamplona. Duas -dolorosas operações tinham-n’o convencido, por fim, de que a sua carreira -militar tinha findado, e os seus pensamentos voltaram-se na direcção de -um novo mister. Votou que havia de ser um soldado da Egreja. - -Nos accessos da febre produzidos pelo ferimento, tinha phantasticas -visões da Virgem; e, ao restabelecer-se, dedicou a sua vida, com todo o -ceremonial da cavallaria da Edade Media, a Deus, á Virgem e á Egreja. -Elle vivia alheiado da moderna erudição. Não sabia nada de theologia. A -sua religião era medieval, e o seu sonho era ser, no seculo dezeseis, um -novo Francisco de Assis. - -É singular que este enthusiastico fidalgo hespanhol fosse excitado pela -mesma idéa que ditou a fria politica de Carlos V. Ambos queriam renovar -seculos que tinham desapparecido para sempre; e, emquanto um estava -planeando a restauração do Imperio do primeiro periodo da Edade Media, -o outro estava regalando a mente com uma nova ordem de frades, cujos -feitos missionarios haviam de rivalisar com os dos antigos franciscanos. -O imperador foi mal recebido; o solitario fidalgo teve um exito que -excedeu quasi os seus sonhos. Apoz alguns annos de estudo, de decepções, -de demoras, obteve permissão do papa para fundar a Companhia de Jesus. - -A nova ordem tinha apenas cinco annos de existencia quando teve logar, -em 1545, o concilio de Trento, mas já se havia tornado famosa. Os -seus sucessos como sociedade missionaria, a sua devoção por Francisco -Xavier, e o enthusiasmo de seus membros, tudo contribuiu para a tornar -formidavel. Lainez, um dos primeiros discipulos de Loyola, e seu -successor como cabeça da companhia, cujo criterio deu á ordem o caracter -que lhe estava destinado, representou os seus companheiros no concilio de -Trento. - -A maxima da Sociedade era uma inexoravel suppressão da heresia, e o -seu unico principio era a obediencia á Ordem e ao papa; e, n’essa -conformidade, Lainez tratou activamente de evitar que o concilio fizesse -quaesquer concessões aos protestantes. O seu modo de discursar, a sua -subtileza e a sua tenacidade deram-lhe grande influencia. Poude logo ao -principio levar de vencida os cardeaes Contarini e Pole, esses grandes -catholicos romanos liberaes, e conseguir que o concilio não auctorizasse -reformas doutrinaes. - -As victorias de Carlos na Allemanha ajudaram os jesuitas. O papa não -podia jámais pensar ou obrar simplesmente como chefe da Egreja. Elle era -uma potencia politica, e as razões de estado influiram nas suas acções. -N’esta conjunctura, os interesses do principe italiano oppunham-se á -existencia de uma christandade una. O rei de França, Henrique II, chamou -a attenção para o facto de Carlos se tornar poderoso em demasia e de ser -provavel que assim continuasse se as concessões religiosas estabelecessem -a união na Allemanha. Quando Carlos venceu a Liga protestante, e procurou -obter de Roma concessões que satisfizessem os subditos que havia -submettido ao seu dominio, o papa recusou auxilial-o, afastou de Trento -o concilio, e installou-o em Bolonha, na Italia, de modo que os planos -do imperador foram novamente contrariados pelo cabeça da egreja que elle -se empenhava por conservar catholica. Na sua ira, virou-se para o papa e -compelliu-o a dissolver o concilio. Este dispersou para só se tornar a -reunir quando toda e qualquer esperança de reconciliar os protestantes -tinha desapparecido, e d’esta vez poude, sem a peia do protestantismo, -consolidar a organização externa de um dominio exclusivamente papal. - -O imperador não foi mais bem succedido na Allemanha. As crueldades de que -os principes que tinha feito prisioneiros foram victimas, a infidelidade -de que deu prova na perseguição dos protestantes, a despeito de tudo -quanto tinha feito proclamar, e as extorsões commettidas pelas tropas -hespanholas—tudo isto contribuiu para tornar a Allemanha hostil, e -não faltavam indicios de que o paiz não supportaria por muito tempo a -tyrannia de Carlos. E a revolta teria rebentado mais cedo, se Mauricio, o -traidor, não fosse tão odiado, ou se tivessem confiança n’elle. - -O imperador parecia não ter olhos para ver o que se estava passando. -Estava convencido de que Mauricio, a quem havia nomeado eleitor, estava -nas suas mãos, e de que sem elle, Mauricio, a Allemanha não podia -fazer coisa alguma. Entretanto, os principes procuravam reunir-se de -novo. Offereceram á França uma parte do territorio allemão em troca do -seu auxilio, e por fim organisou-se uma confederação, em que entrava -Mauricio, e os principes trataram de guarnecer as fronteiras do Tyrol, -para que estas não fossem transpostas pelas tropas imperiaes. Mauricio -avançou impetuosamente e tomou de assalto a fortaleza de Ehrenherg, que -era a chave do Tyrol; e o imperador para escapar teve de recorrer a -uma fuga subita, e achou-se em Steiermark, sem exercito, e expulso da -Allemanha. Foi a um tumulto que se levantou entre as tropas confederadas -que elle deveu não ser apanhado, pois que Mauricio fez todo o possivel -por agarrar «a velha raposa no covil», segundo a phrase d’elle. - -=A paz religiosa de Augsburgo.=—Carlos V nunca se resarciu d’este -desastre. A Reforma tinha-o, por fim, vencido, e elle reconhecia esse -facto, sem, comtudo, o comprehender. Elle não quiz entrar directamente -em negociações com os principes victoriosos, encarregando d’isso o seu -irmão Fernando. Filippe de Hesse e João Frederico da Saxonia foram postos -em liberdade. Filippe reentrou na posse dos seus dominios; a João foram -tambem restituidas algumas das suas propriedades, mas Mauricio continuou -no logar de eleitor. Os preliminares de uma paz permanente foram vasados -nos velhos moldes de Nürnberg, pelo tratado de Passau, em 1552. - -Por fim, apoz longas negociações, saiu da Dieta de Augsburgo, em -1555, uma paz religiosa, «a qual» dizia o decreto, «tem de ser -permanente, absoluta, e incondicional, e tem de durar para sempre». -Foi reconhecido aquelle principio que se estabeleceu em 1526, isto é, -que a suprema auctoridade civil de cada estado tinha liberdade para -escolher o respectivo credo, lutherano ou catholico romano. Esta paz, -por conseguinte, reconhecia o direito das egrejas com separadas crenças -existirem ao lado umas das outras na Allemanha, tornando assim legal a -existencia da Reforma. - -O principio a que obedecia este regulamento, _cujus regio ejus religio_, -acarretava difficuldades que não podem ser aqui descriptas, e foi, na -verdade, uma das causas da guerra dos Trinta Annos, que tão calamitosa -foi para a Allemanha. Não concedia liberdade de consciencia; não fazia -provisão para qualquer outra fórma de protestantismo além da lutherana; e -todos aquelles que não tinham adherido á confissão de Augsburgo estavam -ainda fóra da lei, juridicamente fallando. - -Aquelles que fizeram uso d’ella na Dieta tinham de modifical-a de um ou -de outro modo. Os protestantes viram que ella auctorizava os principes -catholicos romanos a perseguirem os subditos que o não fossem; e os -catholicos viram que ella permittia aos principes ecclesiasticos -secularizarem os seus estados. Assim os protestantes obtiveram a -inserção de uma clausula que declarava que os subditos protestantes de -principes ecclesiasticos, que de ha muito tivessem adoptado a confissão -de Augsburgo, não seriam obrigados a abandonar as suas idéas religiosas; -e os catholicos obtiveram a inserção do que se ficou chamando «a reserva -ecclesiastica», que preceituava que, se algum estado catholico romano se -separasse de Roma, fosse destituido de todas as prerogativas que as suas -dioceses disfructavam. - -Com a paz de Augsburgo terminaram as luctas para o reconhecimento da -Reforma lutherana. A egreja protestante da Allemanha, que adheriu á -confissão de Augsburgo, tinha ainda que sustentar um grande combate para -se defender da contrareforma catholica romana, das intrigas jesuiticas, -e da força das armas durante a guerra dos Trinta Annos. Conservou a sua -integridade, mas foi só o que fez. A paz de Augsburgo foi a maré cheia da -egreja lutherana. - -Na lucta que teve logar depois, foi a mais moderna e mais perseverante -fórma do protestantismo que arrostou com os impetos do ataque, e que se -tornou digna de receber os despojos da conquista. O lutheranismo reteve -a sua integridade, consolidou as suas organizações ecclesiasticas, e -aperfeiçoou a sua theologia; mas, como vigoroso movimento reformador, a -sua historia terminou com a paz de Augsburgo. - - - - -CAPITULO II - -A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA - - O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag. - 50.—Na Suecia, pag. 51. - - -=O lutheranismo fóra da Allemanha.=—Durante os primeiros annos da -Reforma, a influencia de Luthero transpoz os limites da Allemanha. A -Universidade de Wittenberg attrahiu muitos estudantes estrangeiros, -os quaes, voltando para as suas terras, propagaram, clandestina ou -abertamente, as novas doutrinas. - -Aconteceu d’esse modo que os preliminares da Reforma n’esses paizes, que -depois se separaram de Roma e formaram egrejas protestantes nacionaes, -foram quasi inteiramente lutheranos. Os primeiros reformadores e -martyres dos Paizes Baixos eram lutheranos, e os dogmas doutrinaes e -ecclesiasticos de Luthero foram durante muito tempo acatados na Hollanda. - -Os movimentos reformadores na Hungria, na Polonia, na Bohemia e na -Escocia foram iniciados por homens que se apresentavam como discipulos de -Luthero, e mesmo na Inglaterra os principios lutheranos progrediram algum -tanto. Em todos esses paizes, porém, foi ganhando, por fim, terreno um -outro typo de doutrina protestante, o Calvinismo, e a Reforma lutherana -eclipsou-se. - -Unicamente dois paizes, a Dinamarca e a Suecia, com as suas dependencias, -adoptaram de um modo permanente a confissão de Augsburgo e os principios -lutheranos do governo da egreja. - -A Reforma estava n’estes paizes, mais do que em qualquer outra parte, -identificada com a revolução politica, e foi executada por governantes -que se haviam compenetrado de que não era possivel melhorar o estado das -coisas emquanto não fosse abatido o poder de que o clero romano dispunha. -A historia da Reforma n’esses paizes é a historia de uma revolução, e a -moderna vida politica da Dinamarca e da Suecia principia com a reforma -das suas egrejas. - -No principio do seculo dezeseis, a Dinamarca, a Suecia e a Noruega -estavam sob a soberania de um rei que tinha a sua residencia no primeiro -d’estes paizes, e que tinha sobre os outros dois um poder apenas nominal. -Estes paizes estavam quasi n’um estado de anarquia. Duas grandes -aristocracias, a da nobreza e a da egreja, dividiam entre si a riqueza e -o poderio, sendo cada um dos barões e cada um dos bispos um verdadeiro -despota para com aquelles que estavam debaixo da sua auctoridade. A união -das tres nações, effectuada no fim do seculo quatorze, era puramente -dynastica, e vista com muito maus olhos pelo povo. - -Em 1513 subiu ao throno Christiano II, cruel, voluvel e nescio monarca, -que grangeara em ambos os paizes a antipathia de todas as classes. -Um massacre de fidalgos suecos, que teve logar em Stockolmo, em -circumstancias as mais revoltantes, exgotou a paciencia do povo, e a -Dinamarca e a Suecia levantaram-se contra o tyranno. A revolução foi -bem succedida; Christianno II foi derrubado do throno, e as duas nações -ficaram de ahi em deante independentes uma da outra. - -=Na Dinamarca.=—Os dinamarquezes offereceram a corôa a Frederico I, -duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente lutherano, e chefe -d’um estado que já tinha acceite a Reforma. Acceitou-a, e por occasião -da sua coroação o clero obrigou-o a declarar por escripto que não -introduziria á força a religião reformada, nem atacaria a egreja de -Roma, nos seus novos dominios. Frederico cumpriu essa obrigação segundo -a letra, mas não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu -prégadores e evangelistas lutheranos, e em particular a João Jansen, -frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg; e a nova fé fez -taes progressos que dentro em pouco quasi todos os nobres da Jütlandia -a tinham abraçado, e nas ilhas o numero de adeptos era consideravel. -Em fins de 1527 reuniu-se em Odensee uma Dieta, expressamente para -ser tratada a questão religiosa, e ficou assente a tolerancia do -lutheranismo. Durante os annos que immediatamente se seguiram, as novas -doutrinas espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos -romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do fallecimento -de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e a auctoridade dos -bispos foi desapparecendo a pouco e pouco, até se extinguir de todo. Os -nobres haviam cooperado com o rei na sua obra de demolir a aristocracia -ecclesiastica, e as terras que eram da egreja ficaram, na sua maioria, -pertencendo ao rei. - -A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante. O seu credo -é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos nunca adoptaram, na -Dinamarca, a formula da concordata; o seu catecismo é o de Luthero; -e sua fórma de governo de egreja, posto que admitta um episcopado, é -consistorial. A constituição vem exposta no _Ordinatio ecclesiastica -regnorum Danicæ et Norwegeæ_, de Bugenhagen. O rei possuia o _jus -episcopale_, e era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os -patronos; e a Egreja era governada por sete superintendentes com o titulo -de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o catholicismo romano -no seculo dezessete, a chamada guerra dos Trinta Annos, a Dinamarca -enviou aos protestantes da Allemanha todo o auxilio de que o paiz podia -dispôr. - -=Na Suecia.=—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo Vasa, joven -fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes n’aquella -carnificina, organisou a rebellião contra Christianno II, e trabalhou -muito para que ella tivesse bom exito. Em 1521 foi declarado regente -do reino, e em 1523 foi, pela voz do povo, chamado ao throno. Achou-se -em presença de difficuldades quasi invenciveis. Não tinha havido, -praticamente, um governo estabelecido na Suecia durante mais de um -seculo, e cada dono de terras era quasi um soberano independente. Dois -terços das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia quasi -inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda a parte opprimidos; -o commercio estava nas mãos da Dinamarca ou da Liga Hanseatica; e não -havia classe media. Os nobres e os ecclesiasticos exigiam isenção de -contribuições, e os camponezes não podiam supportar novos encargos. - -N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para as terras da -egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica com o auxilio -da Reforma lutherana. - -Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um homem religioso, -perfeitamente compenetrado da verdade e do poder das doutrinas -evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma obedecia tambem a outros -motivos. Precisava de dinheiro para as despezas publicas, queria -proporcionar aos camponezes uma situação mais desafogada, e ambicionava, -acima de tudo, demolir a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se -arrogava direitos que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder -cautelosamente. A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas, -nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que o rei estava -atacando os direitos da propriedade, e que lhes chegaria a vez a elles, -se consentissem que os bens da egreja fossem arrebatados; e, quanto á -aristocracia ecclesiastica, essa dispunha de muita força. - -É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz á frente do -movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia da Dinamarca, essa -tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu o apoio dos bispos suecos. -Elle era um homem excommungado, um homem a quem a egreja havia -proscripto. Essa circumstancia pôl-o em contacto com os prégadores -lutheranos, que já andavam pela Suecia. - -Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado em -Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado contra um -certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado no seu paiz, foram -perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck, onde Gustavo travou -conhecimento com elles. Elles e um outro lutherano sueco, Lourenço -Andersen, arcediago de Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei, -e começaram a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações, -contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf Petersen, -sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando o Evangelho puro, -«que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara na Suecia setecentos annos -antes.». - -Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta o reformador -desafiou-os para uma polemica, que elles não acceitaram. O resultado -d’isso foi uma rapida propagação das doutrinas evangelicas. Gustavo -poz Olaf Petersen como prégador em Stockholmo, Lourenço Petersen foi -leccionar para Upsala, e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do -reino. Promoveram-se polemicas publicas, segundo o costume allemão, em -diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o dr. Galle -de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da justificação pela -fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio, do celibato e do poder -temporal do papa, o que foi assaz vantajoso para a causa da Reforma. - -Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento em sueco, e o -povo, em cujas mãos o livro foi entregue, poude então comparar o ensino -dos prégadores e dos bispos com o da palavra de Deus. - -A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se sentir de -uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas, por duas Dietas, pesadas -contribuições sobre as propriedades da Egreja. O partido ecclesiastico, -com os bispos á frente, promoveu uma revolta, que foi suffocada, e -Gustavo conheceu que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus -planos. Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e -propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada ao -pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em deante as receitas -em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram este alvitre; os -clerigos declararam que só á força cederiam. Vendo isto, Gustavo, apoz -um eloquente discurso, abdicou. Os diversos estados pozeram-se então -em contenda uns com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns -dias, assentiu-se na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei -e publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio da -historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras coisas, -que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e cidadellas dos -bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos; e ficou egualmente -reconhecida a existencia legal da egreja lutherana. - -D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu rapidamente, e -dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião official do paiz. -Os bens da Egreja foram confiscados para o Estado, deixando-se, porém, -ficar o sufficiente para a sustentação do culto. Conservou-se a fórma de -governo episcopal, mas ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do -rei, como na egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes -papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das velas, mas -tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen foi o primeiro -arcebispo protestante de Upsala, cargo que começou a exercer em 1531. -Dez annos depois, isto é, em 1541, ficou completa uma nova traducção da -Biblia, feita pelos irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz -estava inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição -ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em 1664, a Formula da -Concordata. - - - - -II PARTE - -A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS - -CAPITULOS: - - I—A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO. - - II—A REFORMA EM GENEBRA, SOB CALVINO. - - III—A REFORMA EM FRANÇA. - - IV—A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS. - - V—A REFORMA NA ESCOCIA. - - - - -CAPITULO I - -A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO - - As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica - da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de - Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa, - pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os Cantões Florestaes, pag. - 64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65. - - -=As reformas suissa e allemã.=—A Reforma na Allemanha tem geralmente -chamado mais a attenção do que a revolta contra Roma na Suissa. O -conflicto com o imperador, que ella provocou, o seu rapido alastramento, -o numero de estados e reinos que adheriram a ella, a parte que as -universidades, onde estavam matriculados muitos estudantes estrangeiros, -tomaram no movimento, tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha -adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa; mas, se -devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias do que pelos -seus principios, o movimento começado na Suissa foi ainda mais importante -do que o que teve Wittenberg por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se -reconhecendo que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes -dizia respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja, -podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de ahi veiu -que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e uma grande parte das -da Allemanha receberam melhor as tradições de Zwinglio e de Calvino do -que as de Luthero e de Melanchthon. - -Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos da Reforma no -sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se ás tradições, tanto -doutrinaes como de qualquer outro genero, da egreja medieval, mesmo em -assumptos que para algumas pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob -o ponto de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se -devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que se referem -aos pequenos casos como aos de muita importancia. Nem Zwinglio nem -Calvino queriam adoptar a doutrina da _presença real_ pela razão de a -egreja medieval a ter adoptado, e não experimentaram aquella dificuldade -que Luthero teve sempre em fazer uma coisa de um modo differente de -aquella em que os seus antepassados a faziam. - -É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que tivesse a mesma -força, e que essa razão se deva procurar nas idéas politicas e na -educação do povo suisso. Na egreja medieval os direitos dos christãos -tinham desaparecido inteiramente. Quando alguem fallava em egreja, -referia-se ao papa, aos bispos, aos abbades, aos frades, ás freiras e aos -padres; não se referia á grande corporação dos christãos piedosos, que -constituiam, realmente, a egreja de Deus. - -Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores soubessem -perfeitamente que a verdadeira egreja visivel era constituida pelo povo -piedoso que professava a fé em Jesus Christo, não tinham podido dar -uma expressão pratica a esse sentimento, e o systema consistorial dos -lutheranos collocava os principes e as outras auctoridades civis no logar -que os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer que o -povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar a essa egreja -uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por si propria, como os -christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos tinham feito. Pode-se -quasi dizer que não trataram de incutir na vida da egreja reformada as -maximas de auto-governo que inspiraram a communidade christã do Novo -Testamento. Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser dirigida -de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma. - -Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente que a egreja e o -povo christão eram uma e a mesma coisa, e os projectos de auto-governo, -que, se não foram sempre bem succedidos, eram, pelo menos, feitos -com boa intenção, faziam parte da Reforma proposta. Isto proveiu, -indubitavelmente, de um cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a -vida popular dos suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o -sentido do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar -pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da livre e democratica -vida suissa estava mais no caso de comprehender a democracia espiritual -do christianismo do Novo Testamento do que aquella que principiou nas -universidades e nas côrtes dos principes allemães. - -=A situação politica da Suissa.=—A Suissa era, n’aquelle tempo, um paiz -como não havia outro na Europa. Estava tão dividido como a Italia ou a -Allemanha, e, comtudo, apresentava uma união que ellas não apresentavam. -Era uma confederação de estados, ou cantões, cada um dos quaes era -independente de aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles -uma perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes, -ou, antes, «uma pequena republica de communas e cidades do primitivo typo -teutonico, em que o poder civil era exercido pela communidade», cada uma -d’ellas com um systema governativo differente. - -Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios no -principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, onde 1.300 suissos -derrotaram 10.000 austriacos, teve logar em 1315. Cerca de dois seculos -mais tarde, os cantões florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a -que pouco depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos -livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca ao centro, e -tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos por um.» - -Os cantões florestaes eram communas independentes, e os seus habitantes, -todos elles proprietarios rusticos, residiam em valles quasi -inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que se havia formado em -redor de uma colonia ecclesiastica; Berne a um antigo logarejo que se -aninhava junto á base de um castello senhorial; e assim por deante. Os -cantões florestaes tinham um governo simples, patriarcal; em Zurich os -nobres tinham a mesma consideração que os commerciantes e artistas, e -a constituição era perfeitamente democratica; Berne era uma republica -aristocratica; e assim successivamente; mas em todas ellas o governo -estava nas mãos do povo, e todos os homens eram livres. - -Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, durante -umas poucas de gerações, nada que se parecesse com uma administração -episcopal. As suas communicações com o pontificado eram effectuadas por -meio de delegados, ou emissarios, e obedeciam apenas a motivos politicos. -O territorio estava sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de -Besançon; mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum -exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões suissos, e -d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir reformas na egreja. - -No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e a convivencia -com os paizes adjacentes foram mudando os velhos e simples costumes -do povo suisso. Na Edade Media era crença geral que a força principal -de um exercito estava na sua cavallaria; mas as victorias que os -suissos alcançaram sobre as tropas austriacas e borgonhezas mostraram -a superioridade de uma boa infanteria, convenientemente adestrada. -As tropas suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo -muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos quando -tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se desenvolvido -gradualmente o mau habito de alugar os seus soldados a quem maior somma -de dinheiro offerecesse. Era costume, quando um regimento suisso partia -para a guerra por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo, -na qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento -pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que este serviço -mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam todo o possivel, no -seu regresso á patria, para que esta perniciosa pratica fosse abolida. - -=Ulrico Zwinglio.=—Um dos mais famosos d’estes patriotas foi Ulrico -Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu a ser o Reformador da -Suissa. - -Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no Toggenburgo, -pequena região montanhosa, cuja altitude era tal que não produzia arvores -de fructo, sendo tambem impossivel cortal-a de estradas. O pae d’elle -era o chefe, ou magistrado, da communa, e um dos seus tios era o deão de -Wesen. - -O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, em vista da -sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar ao filho uma boa -educação, mandou-o estudar em Basiléa e em Berne, de onde passou para -a grande universidade de Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os -estudos classicos, enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que -a Italia estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho -em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para Basiléa, -e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de aquelles theologos -liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, sobre o fundamento -de que Christo resgatou, com a Sua morte, os peccados de todos os homens. - -Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, muitos annos -depois: «Devemos ter consideração por Martinho Luthero; mas o que é certo -é que aquillo que temos em commum com elle já o conheciamos muito antes -de ouvir fallar no seu nome». - -Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em seguida foi nomeado -cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu ahi dez annos, lendo e -estudando os auctores classicos latinos, e em especial Cicero, Seneca -e Horacio; começou tambem a aprender grego com muito afan, e a esse -respeito escreveu a um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de -Deus é que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir -fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas Sagradas.» -Os seus livros favoritos do Novo Testamento eram, diz-se, as Epistolas de -S. Paulo. Copiou-as com as suas proprias mãos de mais de um manuscripto, -e sabia-as, por fim, de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a -declarar que o unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar -ouvidos á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado -havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o seu modo de -pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um dedicado filho da egreja -medieval, torturando-se com jejuns e flagellações. - -Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde havia uma -abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre imagem da Virgem, -a que se attribuiam muitos milagres. As multidões vinham em peregrinação -a esta localidade, e Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante -a idolatria e superstição de aquella gente, e perante o embuste e -sacrilegio do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou -a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura e o peccado -de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos seus sermões proferiu -o seguinte: «Na hora da vossa morte clamae só por Jesus Christo, que -vos comprou com o Seu sangue, e que é o unico Mediador entre Deus e -os homens.» Estas suas predicas produziram uma enorme excitação, e, -tendo constado em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir -o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. Elle -recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação que o dito legado -lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos de Zurich lhe pediu, em 1519, -para ir para lá como pastor, acceitou muito gostosamente, e não tardou em -ter uma grande influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão. - -Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor ambulante de -indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer ao povo o artigo do -seu commercio. Zwinglio protestou contra o seu procedimento, e conseguiu -que as auctoridades o pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de -conferencias sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas da graça -e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias eram feitas na -presença de centenares de pessoas, que ouviam o Evangelho com agrado. - -A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de infanteria o -papa nas suas guerras com o imperador; a influencia de Zwinglio, porém, -era tão grande que em 1521 o cantão de Zurich recusou alugar os seus -soldados, como até ali tinha feito. Esta patriotica resistencia a um -infame trafico de sangue levantou maior opposição do que todos os sermões -prégados por Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os -bispos das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias para que -a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o legado do papa -tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e destruisse todos os livros -lutheranos que haviam penetrado no paiz, e a Dieta passou ordens n’esse -sentido. - -A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, posto que -obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos os curas, pastores -e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos e as Epistolas em -conformidade com o Espirito de Deus e com as Sagradas Escripturas do -Antigo e Novo Testamento.» Esta intimação deu um impulso ao movimento -evangelico, que já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado -sobre o jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo, -durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela egreja. -Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. O papa, Adriano -II, queria a todo o transe evitar uma questão com os suissos, cujas -tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir Zwinglio por boas maneiras, -nada conseguindo, porém. Emquanto os legados percorriam leguas e leguas -para lhe transmittirem os lisongeiros recados de que eram portadores, -escrevia Zwinglio o seu _Apologeticus_, vigoroso ataque ás corrupções da -egreja. - -O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que impozessem -silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles licença para uma -discussão publica, e comprometteu-se a provar, na presença de todos, que -as suas opiniões se fundamentavam na Biblia. A junta accedeu, e fixou, -para essa discussão, o dia 23 de Janeiro de 1523. - -=As theses de Zwinglio.=—A fim de separar convenientemente os assumptos -a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta theses, inscrevendo -por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação differia da dos seus -accusadores, constituindo o conjuncto um bem elaborado resumo de -theologia protestante. As theses affirmavam, em poucas palavras, o -seguinte:—Jesus Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto, -e é só Elle a quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é -abraçal-O e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para -intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou tirar alguma -coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, de meras pretensões, -com que insulta a Jesus Christo, nosso unico Summo Sacerdote. Christo -morreu na cruz, resgatando, de uma vez para sempre, os peccados do -Seu povo, e portanto a missa, que se assevera continuar, ou repetir, -esse sacrificio, constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma -ceremonia commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre Deus e o -homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. A Escriptura Sagrada -não contém uma palavra ácerca do purgatorio, e é coisa que não existe. -Nada desagrada mais a Deus do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que -tudo quanto assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma -condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por -similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, a confissão auricular, -a absolvição, o celibato clerical e todas as ordenanças exclusivamente -ecclesiasticas. - -Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, e, na opinião -dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente os seus antagonistas. - -Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma terceira, em -1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich e os seus magistrados se -pozeram inteiramente ao lado de Zwinglio. - -=A Reforma em Zurich.=—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma do culto -e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se que a missa não era tal -um sacrificio; que não se devia venerar as imagens; que a Ceia do Senhor -era uma simples commemoração da morte de Christo; que se devia ministrar -o calix aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito -na lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida, -e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. Em 1524, Leão -Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir o Velho Testamento, e antes -de decorridos dez annos tinha a Suissa cinco versões da Biblia. - -Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo todas as -suas despezas custeadas com o rendimento de vastas propriedades. Os -conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos seus beneficios. Uma -parte do dinheiro foi destinada ao sustento dos ministros da cidade, e -o resto ficou constituindo um fundo de instrucção. Era com este fundo -que a assembléa de Zurich, seguindo o conselho de Zwinglio, pagava ao -professorado das escolas. Foi tambem resolvido que se solicitasse em -todos os conventos, tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens -em beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos assim -se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia emquanto -vivessem. - -A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, do norte da -Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. Os discipulos de Thomaz -Münzer não tardaram em causar perturbações. Conseguiram, com a sua -prégação, agregar a si alguns adherentes de entre a população de Zurich. -As suas doutrinas eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes, -constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados de -Deus e não precisavam de leis que não fossem as que os seus corações e -consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem coherentes, queimaram -as suas Biblias em publico. Tinham idéas singularissimas. Como Christo -tivesse dito que os Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os -enthusiastas anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com -bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente absurdas. -O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie de loucura, de que -resultou haver sangue derramado. O conselho tolerou durante bastante -tempo as suas manias, mas viu-se por fim obrigado a mandal-os retirar, -proseguindo depois a obra da reforma com a mesma tranquillidade como -anteriormente. - -A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes como Basiléa, -Berne, Schaffhausen e Appenzell. - -=Basiléa= era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada pelos -sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. Era tambem o centro da -industria do papel, e a maquina de impressão de Froben deu-lhe uma grande -celebridade. Era muito visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande -Holbein durante o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados -que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, professor de -Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher benevolamente as novas -doutrinas. Capito, o futuro reformador de Strasburgo, Polyhistor, o -eminente hebraista e celebre physico, Œcolampadius, o sabio de Reuchlin -e futuro companheiro de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do -Delphinado, que tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não -deixasse de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de -Basiléa. - -A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius e Farel -começaram a prégar contra a superstição. - -=Berne=, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, fez-se -tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em pouco a Reforma -começou a palpitar no meio dos cidadãos que a compunham. O conselho foi -instigado a annunciar que na cidade só seria prégado o Evangelho puro, e -tres prégadores, Kolb, Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão -para fallarem contra a missa e contra as ceremonias papistas. - -Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros cantões, durante -a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, ganhando sempre terreno, e -por fim a Suissa ficou dividida em duas partes pela questão religiosa. - -=Os cantões florestaes= foram os unicos que se conservaram aferrados -ás suas antigas tradições, constituindo um centro de opposição a toda -e qualquer mudança em materia de religião. Quando a Reforma começou a -mostrar um indiscutivel progresso, não só em Zurich como nos outros -cantões, e Berne e Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se -uma tal exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados -protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava, em ambos -os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava a esperança -de que tudo se liquidasse rapidamente e de uma maneira decisiva. Ao -primeiro recontro, porém, não se poude dar o nome de batalha, e os -cantões florestaes, sem terem combatido, assignaram o Tratado de Cappel -em 1529, cuja clausula principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé -não são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos -ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser justo, e tanto nas -provincias communs como nos territorios independentes as congregações -determinarão se a missa e outras usanças devem ser conservadas ou -abolidas.» - -Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum dos partidos, -e deu logar a novas contendas, que terminaram com a vinda subita dos -Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo exercito derrotaram, ficando -Zwinglio morto. Esta victoria não deu um grande avanço á causa romanista. -O segundo Tratado de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o -primeiro, e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada -estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião. - -=Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.=—Com a morte de Zwinglio -termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle morrer, -a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de Luthero por uma -constituição popular na egreja, mostrou claramente que na Reforma tinha -de haver dois movimentos distinctos, que jámais se poderia unificar. -Esta falta de união foi causa de um grande prejuizo, e as culpas não -devem ser atiradas para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero. -Ambos tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos principios -evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes, em comparação -de tudo aquillo em que concordavam. O feitio caracteristico da Reforma -de Zwinglio, porém, torna-se muito mais manifesto na sua ultima fórma -sob Calvino, e é referindo-nos a esse periodo que a vamos comparar com o -movimento lutherano. - -Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma fizeram muito -pouco no sentido de resolver uma questão que em breve tomou na egreja -reformada uma importancia capital: a maneira como a egreja tinha de ser -governada. Para elle era um ponto indiscutivel a necessidade de ter -sempre presente no espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma -de homens que podessem ser chamados _espirituaes_, simplesmente pelo -facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava era que todos se -compenetrassem do sacerdocio espiritual de todos os crentes, ministros ou -leigos. Mostrou tambem que era dever de todos os magistrados administrar -em nome de Christo e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e -verdadeiras idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia -haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios civis -da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos respectivos ao -culto publico, ás doutrinas e á disciplina da egreja foram feitos, no -tempo de Zwinglio, pelo Conselho de Zurich, que era, n’aquelle estado, -o supremo poder civil. Esta sua idéa, mesmo durante a vida d’elle, -apresentou muitos inconvenientes, sendo um dos mais manifestos a ligação -que se formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente -politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam ter, como o -antigo reino de Israel, governos theocraticos. Se as idéas de Zwinglio -tivessem continuado a prevalecer, não é provavel que a Reforma suissa -tivesse exercido o poder que exerceu para além das fronteiras da -republica; posto que, sob a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem -facilmente a um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter -applicado a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma pequena -egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia contra um -governo secular que lhe fosse hostil. - - - - -CAPITULO II - -A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO - - Genebra perante a Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag. - 68.—A mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião - Christã_, pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua - expulsão, pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag. - 76.—As _Ordenanças ecclesiasticas_, pag. 77.—Em que differem - dos _Institutos_ pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de - costumes, pag. 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe - Beza, pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da - Reforma, pag. 83.—A _Confissão de Zurich_, pag. 84. - - -=Genebra perante a Reforma.=—Depois da morte de Zwinglio e da segunda -Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis da Reforma suissa -localisaram-se n’uma cidade que estava quasi desligada da confederação. - -Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e os seus bispos -tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, jurisdicção sobre os -negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam tambem os seus direitos -sobre a cidade, e os dois partidos, o do bispo e o do duque, andavam -quasi constantemente em guerra. - -Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente -o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um -conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa Leão X poz -á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este -modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no -principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas -facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos -partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio -da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como -os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista -contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com -os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos -pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome de «mamelukos», ao -passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen», -isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser -provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante -francez, os huguenotes. - -A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim -como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado -notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de -Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos -tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do -seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento -das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida. -Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus -adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de -licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem -pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse -estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade -e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em -Genebra. - -=Farel em Genebra.=—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532, -veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos -sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da -egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos -reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço; -os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu -respeito opiniões desencontradas. - -Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e -a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra; -Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem -com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador. -Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse. -Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne, -que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para -celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi -nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o -prégar, e a Reforma foi avançando. - -O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra -Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a -diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões -sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em -1535 teve logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que -Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os -cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos -sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os -reformadores. - -O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se, -nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a -devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas, -destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e -commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho -declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos -que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade -inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil, -não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida, -muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas -o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella -fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e -tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos -começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da -liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha -esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um -moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na -cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse. -Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o -inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as -egrejas reformadas da Europa. - -=A mocidade de Calvino.=—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na -Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando -Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se -dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo -publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma -senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As -relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o -bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle -tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre -familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos, -a carreira ecclesiastica. - -Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para -elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a -universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde -teve por professor o celebre Mathurino Corderier,[1] e em seguida para o -Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente -se celebrizou, Ignacio de Loyola. - -Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus -condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de -estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito -annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo -estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa -que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a -ordenar-se, nem fez voto de celibato. - -Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o -filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito, -estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um -applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem -do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com -egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama -de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que -com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira -juridica. - -Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade para seguir a -vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos de direito, voltou, -em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente á pequena communidade -de protestantes que costumavam reunir-se n’essa cidade para lerem e -estudarem as Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz -porque deu esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia -muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de fallar no -que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. Era, a -este respeito, muito differente de Luthero. Este contava a sua historia -com a maxima franqueza, a todos expunha as suas duvidas, os seus -temores, a sua fé. Cada um tinha a sua natureza especial. Só uma vez é -que Calvino tirou de cima de si o véu com que se cobria. No prefacio -ao assombroso _Commentario ao Livro dos Psalmos_ diz-nos que Deus o -attraiu a Si mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso -quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou a uma -brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos ecclesiasticos, -e ajuntou-se á pequena communidade evangelica de Paris, disposto a -partilhar os perigos que ella corresse. - -Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado a -publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris a toda a pressa, -para não ser preso por causa da sua religião. Foi para Strasburgo, onde -travou conhecimento com o reformador Martinho Bucer, e de ahi para -Basiléa e varios outros pontos, levando uma vida de estudante nomada. - - [1] Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos, - um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde - se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim. - Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo, - e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as - doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases - que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na - edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas - phrases eram breves exposições das verdades evangelicas, - ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições - romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88 - annos. - -=Os Institutos da Religião Christã.=—Na primavera de 1536 publicou em -Basiléa a primeira edição dos seus _Institutos da Religião Christã_. A -obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida em francez, para -uso, como elle proprio disse, dos seus compatriotas. A primeira edição -era mais pequena, e a todos os respeitos inferior, ás edições revistas de -1539 e 1559; mas como producção de um rapaz de vinte e seis annos, que -era a edade que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival. -Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», e, mais -do que qualquer outro trabalho theologico, influiu nas idéas e amoldou o -caracter da Reforma Protestante. - -Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro com um -duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de theologia para -a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma facil introducção, e -habilitando-os a vencer todos os embaraços». Mas tinha tambem em vista -justificar o ensino dos reformadores e desfazer as calumnias dos seus -inimigos, que haviam instado com o rei de França para que os perseguisse, -e os expulsasse de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «_A Sua -Christianissima Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, João -Calvino deseja paz e salvação em Christo_». E ajuntava: «Exponho-vos a -minha confissão, para que conheçaes a natureza d’essa doutrina que tem -provocado uma tão ilimitada raiva a esses desvairados que estão agora, -por meio do fogo e da espada, pondo o vosso reino em desasocego. Pois -não tenho receio algum de confessar que este tratado contém um summario -d’essa mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser -castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada da -superficie da terra». - -Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar o que os -protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou logo á -comparação d’essas crenças com o ensino da egreja medieval. Luthero fez -grande ostentação do Credo dos Apostolos, e nunca se cançava de dizer -que elle e os seus correligionarios acceitavam aquella antiga e venerada -summula da fé christã, e que, portanto, os protestantes pertenciam á -Egreja Catholica de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou -por ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo quando -se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos á prova do Credo -dos Apostolos, os protestantes eram catholicos mais genuinos do que os -romanistas. - -Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a publicação dos seus -_Institutos_ é necessario lembrar o que era o Credo dos Apostolos. Nosso -Senhor, antes da Sua ascensão, disse aos Seus discipulos que fossem a -todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, do Filho e do Espirito -Santo; e assim os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica, -quando recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas -que fizessem a seguinte profissão de fé: «_Creio em Deus Pae, e em Seu -Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo_, sendo esta a mais antiga e -mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe mais estas -palavras: _e na Santa Egreja Catholica_. Estas quatro orações eram -proferidas por todos os neophytos por occasião do baptismo. O Credo -dos Apostolos e todos os outros credos primitivos são simplesmente -desenvolvimentos d’essas quatro phrases; e os primeiros livros -theologicos que explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã -eram exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, uma -exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre outras coisas, -que a verdadeira theologia nasceu da simples expressão de uma confiança -em Deus acompanhada de adoração. - -Os _Institutos_ de Calvino são, na realidade, uma exposição do Credo, e -dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando uma porção do -Credo. A primeira parte falla de Deus o Creador, ou, como o Credo diz: -«Deus, Pae Omnipotente, Creador do céu e da terra»; a segunda parte -de Deus Filho, o Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de -Deus Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja -Catholica, e da sua natureza e distinctivos. - -A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo a passo -o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha ácerca da Reforma -aquella mesma opinião que Luthero diligenciou expôr nitidamente no seu -tratado sobre o _Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_. Nunca lhe -acudiu á mente que estivesse contribuindo para a fundação de uma nova -egreja, ou que estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova -theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que mantivessem -opiniões originaes, até então desconhecidas. A theologia da Reforma era -a velha theologia da Egreja de Christo, e as opiniões dos protestantes -eram convicções da verdade que se baseiavam na Palavra de Deus, e que, -conforme constava da historia da Christandade, haviam sido partilhadas -por todo o povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle -ensinava era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda -a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que pelos -pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e philosophia do -paganismo. A Reforma, dizia-se nos _Institutos_, não engendra opiniões -novas, trata apenas de desmascarar as falsidades e apresentar, em toda a -sua pureza, as verdades antigas. - -=Calvino em Genebra.=—A publicação dos _Institutos_ fez com que Calvino -se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos da Reforma; e quando, nas -suas peregrinações, deu comsigo em Genebra, tencionando passar ali a -noite e abalar em seguida, Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o -auxiliasse nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de -fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao mesmo tempo -reconhecia que era um dever para elle deitar mãos ao trabalho que podia -executar em Genebra, e por fim resolveu ficar na companhia de Farel. - -Diz elle no prefacio ao seu _Commentario sobre o Livro dos Psalmos_: -«Como o caminho mais direito para Strasburgo, para onde tencionava -retirar-me, estava impedido por causa da guerra, tinha resolvido passar -rapidamente por Genebra, demorando-me na cidade uma noite apenas.... -Sabedor d’isto, Farel, que trabalhava com extraordinario zelo para que o -Evangelho progredisse, empregou logo os maiores esforços para me deter. -E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder entregar-me -socegadamente aos meus estudos, não me encontrando, portanto, predisposto -para qualquer outro encargo, elle, perdida a esperança de conseguir -qualquer coisa por meio de rogos, começou com imprecações, invocando -a maldição de Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a -tranquilidade, se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso -n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario. Ouvindo estas -suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti da viagem que -projectava.» - -Calvino tinha vinte e sete annos e Farel quarenta e sete, quando -começaram a trabalhar juntos em Genebra, e, não obstante a differença -das edades, tornaram-se amicissimos um do outro. «Tinhamos um coração e -uma alma», diz Calvino. Farel apresentou-o aos conselheiros da cidade. -Principiou a sua obra fazendo conferencias na cathedral, e immediatamente -se reconheceu que a sua palavra era attrahente e efficaz. A junta -nomeou-o pastor, e, de collaboração com Farel, metteu hombros á grave -tarefa de organizar a Reforma. Somos informados de que elle redigiu os -artigos de fé e os regulamentos para o governo da Egreja, tendo antes -d’isso, isto é, pouco depois da sua chegada a Genebra, escripto um -catecismo para a infancia. A obra dos reformadores foi approvada pelo -conselho da cidade, e esta, pelo que dizia respeito a todos os seus -aspectos exteriores, adoptou por completo a religião reformada. - -Farel sabia, porém, havia muito, e Calvino em breve o reconheceu tambem, -que o de que Genebra necessitava era uma reforma moral. A cidade era -o mais que podia ser de dissoluta, e havia muito tempo que permanecia -n’aquelle estado. Os que durante muitas gerações tinham estado á testa -dos negocios publicos conheciam esse facto, e tinham promulgado leis -contra o viver licencioso. Entre os arquivos de Genebra relativos ao -principio do seculo dezeseis, e ainda entre alguns do seculo quinze, -apparecem leis sumptuarias contra o jogo, a embriaguez, as mascaradas, -as danças e o luxo no vestuario; e, examinando os documentos judiciaes, -encontram-se referencias a condemnações por infracções d’essas leis, -commettidas muito antes de Calvino ter fixado lá a sua residencia. - -Isto tem sido esquecido pelos historiadores quando accusam Calvino de -ter tentado reformar o povo, mediante, como nós diriamos, leis votadas -no parlamento. Calvino não fez essas leis, nem ha evidencia de elle as -considerar muito importantes. Era, porém, de opinião, que sustentou -sempre com toda a firmeza, de que ás pessoas que tinham uma vida immoral, -cujas acções e linguagem não estavam em harmonia com a sua profissão -christã, não se devia permittir que participassem da solemne instituição -da Ceia do Senhor, e esse seu modo de vêr não tardou em indispôl-o com os -habitantes de Genebra. - -Ao cabo de muitas admoestações, os reformadores resolveram, por fim, -exercer a disciplina ecclesiastica, afastando solemnemente da Mesa do -Senhor os commungantes indignos. Os magistrados, que estavam sempre -promptos a promulgar leis restrictivas do vicio, e até mesmo do viver -faustoso, não quizeram consentir em que se pozesse em execução esta -ordem de quem tinha a superintendencia na Egreja, e, ainda mais, o -pulpito ficou de ahi em deante vedado a Calvino e a Farel. Estes não -se submetteram, e no domingo de Pascoa de 1538 prégaram a uma multidão -excitada e armada, recusando administrar á congregação a Ceia do Senhor, -para evitar que esta fosse profanada. - -No dia seguinte a junta da cidade reuniu-se para apreciar a conducta de -Calvino e Farel. Os reformadores foram accusados de pretender usurpar -o poder mediante os seus regulamentos ecclesiasticos, entre os quaes -figuravam o da abolição de todos os dias santos, excepto o domingo, e o -do desuso da pia baptismal e do pão asmo na Ceia do Senhor. - -Estas accusações eram, evidentemente, meros pretextos, pois que o proprio -Calvino havia declarado que lhe era quasi indifferente que as coisas que -atraz mencionamos fossem ou não postas em pratica. O que os realmente -predispunha contra Calvino e Farel era a supposição em que estavam de que -elles pretendiam estabelecer um novo papado; os magistrados desejavam -conservar nas suas mãos, não só a administração civil como a disciplina -da Egreja. O resultado de tudo isto foi Calvino e Farel serem expulsos -da cidade, não pelos papistas, mas por aquelles que até ali tinham -contribuido para o avanço da Reforma. - -O facto d’este conflicto entre os reformadores e os genebrenses ter -ocorrido logo no principio da vida publica de Calvino revela uma grande -differença entre os dois ramos da Reforma, o reformado, ou calvinista, -e o lutherano. Calvino mostrou ter, desde o inicio da sua carreira, -noções muito claras ácerca da disciplina da Egreja e do direito que -a communidade christã tinha de se governar a si propria em assumptos -espirituaes e do direito dos que estavam em auctoridade na Egreja -tinham de excluir dos privilegios a todos aquelles que fossem indignos -de participar d’elles. Luthero e Melanchthon tinham as mesmas idéas, -mas não as pozeram em pratica. Luthero não modificou o modo como a -superintendencia era exercida, limitando-se a transferil-a das mãos dos -bispos para as das auctoridades civis; e o effeito pratico, posto que não -premeditado, d’isto foi ficarem sendo os magistrados os que arbitravam -se esta ou aquella pessoa devia ou não approximar-se da mesa do Senhor. -Calvino, por outro lado, viu logo desde o principio que a Egreja, para -ter uma existencia visivel, e conservar-se distincta do Estado, devia -ter o direito de declarar quaes as pessoas que estavam no caso de ser -admittidas como membros da Egreja e partilhar todos os privilegios da -mesma, e ter a auctoridade para censurar os aggravos espirituaes e -punil-os mediante a perda dos sacramentos. - -Não consta que Calvino pedisse em tempo algum outra coisa além de que a -disciplina da Egreja fosse exercida pela propria Egreja, representada -pelos seus officiaes. Calvino, logo no começo da sua carreira, proclamou -a independencia da Egreja em assumptos espirituaes, taes como a admissão -á mesa do Senhor e a exclusão d’ella. - -=Calvino é expulso de Genebra.=—Expulso de Genebra, Calvino foi para -Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente tres -annos, ministrando a uma numerosa congregação de refugiados francezes, -e occupando-se com trabalhos litterarios. Strasburgo tinha sido um -logar intermediario entre a Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi -conhecimento com muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade -com Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores -allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em Francfort, -Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou com Idelette de Bure, -viuva de João Storder. Idelette era uma senhora muito temente a Deus -e muito instruida, e teve, do seu casamento com Calvino, tres filhos, -que morreram todos na infancia. Calvino não se refere muito, na sua -correspondencia, á sua vida domestica, mas as cartas que escreveu -a alguns amigos muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e -do fallecimento dos filhinhos demonstram que no peito do austero e -ceremonioso francez batia um coração susceptivel de grandes affectos. - -=Genebra não pode passar sem Calvino.=—No entretanto, Genebra continuava -agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam longe da cidade, -mas o povo sentia a necessidade da sua presença. Não havia agora ali -uma influencia que a todos dominasse, e as coisas caminhavam de mal -para peior. Calvino tinha dito que a infidelidade tinha por origem a -depravação a que elle se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos -começaram a ver o quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens -sociaes iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses -intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo á frente -o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo ao papismo; os -anabaptistas, inimigos de toda a organização ecclesiastica e social, os -libertinos, os livres pensadores, todos luctaram por obter o predominio -em Genebra, e por fim a população começou a sentir-se cançada de aquella -tumultuosa situação e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados -ministros. - -A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse. Elle -ao principio recusou. «Não ha localidade que me aterrorize tanto como -Genebra», escreveu elle a um amigo. Continuaram, porém, a instar com elle -para que voltasse; muitos dos amigos que elle tinha entre os reformadores -francezes e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos -genebrenses, e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram côro -com elles. Condescendendo finalmente, regressou a Genebra. - -Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com jardim situada -nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o ministro e professor -de theologia, e fixaram-lhe um estipendio annual de quinhentos florins, -doze medidas de trigo e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que -na Egreja de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica, -pois que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que tivera -com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em manter o direito que -á Egreja assiste de velar pela sua pureza. Voltou triumphante a Genebra, -e foi recebido com as mais extravagantes manifestações de regozijo. -Foi mais uma vez desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla -vida litteraria, e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se -inteiramente á causa publica. - -Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo dizem, -durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores teem-n’o -comparado a individualidades de indole muitissimo differente. Segundo -uns, foi o Lycurgo de Genebra; segundo outros, um dictador romano, ou um -novo Hildebrando, ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma -grande obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de estar -quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça e de asthma. - -Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias dava aula. -Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia, compoz tratados -theologicos, e tinha sempre que attender a uma immensa correspondencia. -Era elle quem dirigia a Egreja reformada em toda a Europa, e, segundo a -idéa de muitas pessoas, era, por assim dizer, omnipotente em Genebra, -tendo sido attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus -resultados da chamada theocracia genebrense. - -É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra o caracter da -cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais frivola e mais devassa -de todas as cidades europeas, tornou-se o berço do puritanismo, tanto -francez, como hollandez, como inglez, como escocez. As danças e -mascaradas passaram a ser coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro -estavam sempre ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de -conferencias se enchiam até á porta. - -=As ordenanças ecclesiasticas.=—O que effectuou tudo isto foram as -famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra, e o modo em que -ellas foram applicadas pelos magistrados. Estas ordenanças eram, segundo -as poucas palavras do preambulo, o «regimen espiritual, que Deus ordenou -na Sua Egreja, e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado -na cidade de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas -presbyteriannas. - -Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies ou graus -de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus para o governo -da mesma, e os que os exercem são chamados pastores, professores, -presbyteros e diaconos. - -Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes e -bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos, e, conjunctamente -com os presbyteros, exercer a disciplina; eram geralmente escolhidos -pelos ministros em exercicio, e nomeados pelos magistrados, com -o consentimento do povo; tinham de dar contas dos seus actos nas -conferencias que para esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e -eram, outrosim, responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade. - -Da classe dos professores faziam parte todos os lentes da universidade e -os mestres das escolas. Os presbyteros tinham a seu cargo a disciplina. -Não eram eleitos pela congregação, mas, sim, nomeados pela junta da -cidade, com previa consulta dos pastores; e todos elles tinham de ser -membros das juntas. Conjunctamente com os pastores, faziam uma visita -annual a toda a area que lhes pertencia, e experimentavam, de um modo -simples, a fé e o proceder de todos os membros da egreja. - -A assembléa de todos os presbyteros e de todos os pastores constituia -o _Consistorio_, que era o conselho executivo e legislativo da Egreja. -O Consistorio reunia-se todas as semanas, sob a presidencia de um dos -quatro syndicos, ou primeiros magistrados, de Genebra, afim de receber -e examinar todos os documentos relativos a irregularidades na vida e -na conducta de quaesquer membros da Egreja, e deliberar ácerca da pena -ecclesiastica a applicar a este ou áquelle caso, pena que podia ir até á -exclusão da Mesa do Senhor. Não estavam auctorizados a infligir qualquer -censura ou castigo que não fosse espiritual, mas tinham obrigação de -participar todos os delictos á auctoridade civil, que era a unica que -tinha o direito de punil-os. Todos os presbyteros eram escolhidos -pela junta, e tinham de ser membros d’ella, resultando de ahi que os -magistrados genebrenses que tomavam assento no consistorio na qualidade -de presbyteros recolhiam as informações relativas a factos criminosos -e transmittiam-n’as a si proprios quando tomavam assento na junta na -qualidade de magistrados. - -Os diaconos cuidavam dos pobres e dos enfermos, e eram egualmente -nomeados pela junta. - -O plano do governo da Egreja concorda, nas linhas geraes, com os -principios que Calvino expoz nos seus _Institutos_, mas differe d’elles -em tantos detalhes importantes que se torna impossivel acreditar que todo -elle fosse obra do Reformador. - -Nos _Institutos_ expoz Calvino com a maxima clareza quaes são os -verdadeiros principios do governo e disciplina ecclesiasticos. Prova que -Deus educa e aperfeiçôa o Seu povo n’esta vida mediante a Sua Egreja, -e que para a edificação da Egreja proveu uma variedade de dons, que -não são concedidos indescriminadamente a todos os christãos, sendo -limitado o numero d’estes que os teem recebido em maior escala. Estes -dons podem ser classificados em tres categorias, instrucção, governo -e caridade, ou, como os reformadores escocezes disseram, doutrina, -disciplina e distribuição, e a Egreja pode verificar que alguns dos seus -membros teem um talento especial para instruir, outros para dirigir, e -outros para tomarem conta das collectas e da distribuição do dinheiro. -Deus conferiu estes dons, e collocou na Egreja homens capazes de os -exercerem, para edificação do Seu povo, e, por consequencia, as funcções -que se desempenham na Egreja são de caracter ministerial e não tendem -a exaltar pessoa alguma. Os officiaes são homens que melhores serviços -podem prestar á communidade, e são, portanto, responsaveis perante -esta e perante Deus pelo modo como os prestam. Calvino insistiu muito -na verdadeira natureza e valor do presbytereado, que elle considerava -a mais efficaz barreira contra a conquista de uma supremacia sobre a -Egreja, como aquella que tinha sido uma das mais censuraveis usurpações -da Egreja de Roma. Mediante este officio tem a Egreja aquelle governo -methodico sem o qual nenhuma sociedade pode existir, e a communidade -christã pode conservar-se livre da usurpação do poder e da tyrannia -ecclesiastica por meio de um governo verdadeiramente representativo, isto -é, livremente escolhido pelos membros da congregação. Calvino affirmou -tambem, com muita insistencia, que este governo era espiritual, e que -só lhe pertencia julgar as infracções espirituaes e infligir castigos -espirituaes. O maior castigo espiritual era, segundo elle, a excommunhão. - -=As ordenanças ecclesiasticas differem, a muitos respeitos, dos -principios expostos nos Institutos.=—Calvino combateu sempre -energicamente qualquer confusão entre a jurisdicção civil e a jurisdicção -ecclesiastica, declarando que as duas deviam estar completamente -separadas uma da outra. Nas _Ordenanças_ não se mantem esta separação. A -censura do consistorio era de continuo seguida, como veremos, de multa, -de desterro, e, até, de morte; quando, segundo a theoria de Calvino, -só castigos espirituaes se devem seguir a offensas espirituaes. Os -anciãos que exerciam o governo ou a disciplina não eram escolhidos pela -Egreja, nem eram realmente seus representantes. Eram designados pelos -magistrados civis da cidade, e só eram elegiveis os que já fossem membros -de uma organização politica. Os direitos da communidade christã eram -praticamente desprezados, posto que Calvino houvesse declarado que o -poder ecclesiastico pertencia realmente a toda a assembléa dos crentes. A -junta escolhia os pastores, podendo a Egreja impôr o seu veto; escolhia -d’entre si os presbyteros, e escolhia egualmente os diaconos. - -Esta notavel desharmonia com os principios de Calvino era devida aos -magistrados de Genebra, que assim procediam em opposição aos desejos -do Reformador. Sentia-se especialmente molestado com o modo como eram -escolhidos os presbyteros, e declarou que não considerava as _Ordenanças_ -um plano perfeito de governo ecclesiastico; pareceu-lhe evidentemente, -porém, que era o melhor que n’aquella occasião se poderia obter, e -acceitou-o, alimentando a esperança de que seria, mais tarde, modificado. -Agradava-lhe tanto, apezar dos seus defeitos, que o considerava um -modelo que podia ser copiado n’outros logares, e exprimiu a esperança de -que Genebra, situada na fronteira da França, da Allemanha e da Italia, -incitaria esses paizes a uma Reforma de caracter, perfeita e permanente. - -Não obstante, os pontos em que as _Ordenanças_ divergiam dos principios -que Calvino expoz nos seus _Institutos_ deram occasião a esses -caracteristicos do governo genebrense que mais teem sido reprovados pelos -historiadores. É fóra de duvida que a corrupção moral que predominava -em Genebra foi combatida por leis severissimas, que chegavam mesmo -a ser crueis. A antiga legislação genebrense era, em muitos casos, -bastante severa, e quando se tratava de delictos especiaes a sua -severidade tornava-se extrema; mas depois de publicadas as _Ordenanças -Ecclesiasticas_ as leis foram applicadas com um rigor anteriormente -desconhecido. - -O consistorio reunia-se todas as semanas, ás quintas feiras, e eram-lhe -fornecidas informações ácerca da maneira como o povo se comportava; e -essas informações eram communicadas á junta, ou conselho, que era o mesmo -Consistorio, mas revestido da auctoridade civil. Eram prohibidos os -divertimentos ruidosos, os jogos de azar, as danças, as canções profanas, -as pragas e as blasphemias. Todo o cidadão tinha de estar em casa ás nove -horas, sob pena de uma pesada condemnação. O adulterio era punido com -a morte. Uma creança que atirou com umas pedras á mãe foi publicamente -açoitada, e depois suspensa do patibulo pelos braços. Foram abolidas -todas as folganças que tinham logar por occasião dos casamentos; os -cortejos deixaram de levar tambores ou instrumentos musicaes á frente, e -não mais se dançou nas bodas. Os theatros só podiam levar á scena peças -biblicas. Ficou inteiramente prohibida a leitura de romances, e o auctor -de qualquer obra que desagradasse ao Consistorio era mettido na prisão. -Era preciso o maximo cuidado com o que se dizia, chegando as coisas a -tal ponto que os hoteleiros eram obrigados a referir as conversas que os -seus hospedes tinham tido á mesa. Nas hospedarias era tambem prohibido -fornecer comida ou bebida a quem não pedisse, antes de se servir, a -benção de Deus. Não era permittido jejuar, e um certo individuo foi -castigado por não comer carne á sexta-feira. - -É impossivel dizer que parte tomou Calvino n’estes regulamentos, de uma -desnecessaria severidade. Muitos historiadores teem affirmado que elle -dispunha de todo o poder em Genebra, e que poderia ter evitado muita -coisa se quizesse. Elle era francez, e nenhuma nação tem como a França -apresentado, em epocas de grande crise, tão duros legisladores. Calvino -não tinha, por outro lado, abjurado a parte mais odiosa da theoria -medieval quanto á disciplina da Egreja, isto é, a que auctorizava os -tribunaes ecclesiasticos a recorrerem ao poder civil para que a certas -offensas espirituaes fosse applicada multa, prisão ou execução capital, -com o fundamento de que constituiam crimes contra a ordem e a paz da -sociedade. Calvino acceitou esta doutrina; e o mesmo fez Beza, que -chamava á liberdade de consciencia uma doutrina diabolica. Os theologos -de Westminster admittiram egualmente a theoria medieval, e trabalharam -para que ella fosse posta em pratica, em detrimento da reforma da egreja -de Inglaterra. Não só Calvino como todos os principaes reformadores -approvaram a morte de Servetus pelo motivo de haver negado a doutrina da -Trindade e apresentado blasphemas asserções em defeza da sua opinião. -Tudo isto tem de ser admittido. - -=As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.=—Devemos -lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria preciso -para obter uma reforma de costumes n’uma cidade tão immoral e tão -turbulenta como Genebra. - -A Reforma, justamente porque era um protesto contra o então existente -estado de coisas, teve de navegar contra a corrente do mal, que ella -propria provocou. É-nos quasi tão impossivel comprehender o perigo dos -excessos anabaptistas e outros como comprehender a corrupção moral -da epoca em que o christianismo surgiu e se propagou. Professava-se -o libertinismo pantheistico como se fosse um credo, e os documentos -litterarios do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade -que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu deante de si em Genebra -foi uma indulgencia para tudo quanto fosse immoral, indulgencia que a -propria religião prescrevia, visto tratar-se de uma coisa natural. Era -este o lado sombrio da Reforma, para o qual não era agradavel olhar, -mas que existia, e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o -procedimento do conselho de Genebra ou o de Calvino. - -O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a decima -parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os principes da -Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos, e aos seus cabeças, -os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento causado pela paixão -cega, quer provenha do medo quer provenha do odio, tem, o que é coisa -curiosa, sido sempre olhado com maior brandura do que o soffrimento que é -infligido no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma. - -Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino fosse menos -omnipotente em Genebra do que se suppõe ter sido. A um francez, e de mais -a mais logico como elle era, custa a attribuir as incoherencias que se -notam entre os _Institutos_ e as _Ordenanças Ecclesiasticas_. É preciso -não esquecer que o que tornou possiveis estes castigos que teem sido -tão condemnados foram aquelles pontos das _Ordenanças_ que não eram da -responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira -causa do mal era a relação que havia entre o consistorio e o governo -civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas camaras municipaes -se constituia uma vez por semana em commissão zeladora da moralidade -publica. Não se sentiriam escandalizados os vereadores se os casos que -elles apresentassem á commissão, e que mereciam a reprovação d’ella, -ficassem impunes? Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia -seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos de -toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo? Não se deve -attribuir a culpa de todos estes males a Calvino, ou mesmo ao conselho -de Genebra. Surgiram naturalmente das tres vezes abominavel mistura da -direcção dos negocios seculares com a direcção dos negocios espirituaes, -que constitue habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem -precaver. - -=A morte de Calvino.=—Durante a residencia de Calvino em Genebra, foi -esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia. Os magistrados -fundaram uma universidade, cujo primeiro reitor foi Theodoro Beza, -e as suas aulas foram, durante o primeiro anno, frequentadas por -oitocentos estudantes. Procuraram refugio na cidade, onde receberam um -excellente acolhimento, numerosissimos protestantes italianos, francezes -e escocezes. «Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas suas -cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia que exercia. -Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os huguenotes da França, os -reformadores de Inglaterra, a congregação escoceza, e os dirigentes da -Reforma na Allemanha. - -Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se do -excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou o seu ultimo sermão -no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a 27 de maio do mesmo anno, -contando cincoenta e cinco annos incompletos. - -Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto de si os syndicos, -ou primeiros magistrados de Genebra, e em seguida todos os ministros. -Prohibiu que sobre a sua sepultura se erigisse qualquer monumento, -acontecendo, d’esse modo, que se desconhece o sitio onde foi enterrado. - -Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz proeminente, -testa elevada, e olhos que em dadas occasiões chammejavam. Trajava sempre -com o mais escrupuloso esmero, e alimentava-se muito sobriamente. - -Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação e pelo -temperamento; grande observador de todas as regras da etiqueta, sentia-se -muito mais á vontade no meio das pessoas de posição do que no meio -do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado frio e insensivel, mas o que é -facto é que os seus amigos e contemporaneos se referem sempre a esse -frio, timido, austero e polido francez em termos os mais affaveis e -respeitosos; e os mancebos davam-se perfeitamente com elle. - -Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de Calvino com -um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o haverem estudado, -descobrem que a sua antipathia se transformou em affectuosa admiração. -Como será sufficiente um exemplo, vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle: - -«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem ter sido vasados -de um só jacto n’um molde, e que se estudam por meio de um simples olhar; -uma carta das que escrevam, um acto dos que pratiquem, é o bastante -para se fazer um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem -com titulos, nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver, -apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os outros -eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço outro homem que -podesse rivalisar com elle n’estes raros predicados. É surprehendente -como um homem cuja vida e cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas -sympathias, se tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as -suas palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter uma -tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos. -Como se pode explicar, por exemplo, que uma das mulheres mais distinctas -do seu tempo, Renée de França, que no seu palacio de Ferrara se via -cercada dos mais brilhantes talentos da Europa, se deixasse captivar por -aquelle severo doutrinador, enveredando, por sua influencia, n’uma senda -que tão espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem -ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção. Sem -manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem dos outros, que foi -o que assegurou a Luthero o bom exito dos seus trabalhos, sem possuir o -encanto, a perigosa, posto que languida, doçura de S. Francisco de Sales, -Calvino saiu victorioso, n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava -uma reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o maior -christão do seu tempo». - -=Beza, o successor de Calvino.=—Theodoro Beza succedeu a Calvino em -Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha adquirido; e até ao -meiado do seculo dezesete a voz de Genebra foi a que as numerosas egrejas -protestantes escutaram com maior acatamento. - -=A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.=—Sob a influencia -de Calvino, desappareceram as differenças theologicas que havia na -Suissa, e todas as egrejas que se chamavam reformadas adoptaram um typo -de doutrina. Estas egrejas não tinham, como as lutheranas, um Catecismo -e uma Confissão, mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas -uma perfeita unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu -Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar entre os credos das -egrejas que se chamam do seu nome, mas a sua influencia em toda a parte -se manifesta. Elle vive novamente, na obra dos seus discipulos. - -Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com o assumpto de que -nos estamos occupando são o Catecismo para a Infancia e a Confissão de -Zurich. - -O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar a instrucção -religiosa das creanças, que tão lamentavelmente havia sido descurada -pelos romanistas. Calvino, para a confecção do seu catecismo, serviu-se -do Credo dos Apostolos, dos Dez Mandamentos e da Oração Dominical. -Tiveram origem n’elle dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o -de Heidelberg, que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve -Catecismo da Assembléa de Westminster. - -=A Confissão de Zurich= foi muito proveitosa, porque uniu as Egrejas -Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo facto de reconciliar -n’uma mais profunda unidade as opiniões de Luthero e de Zwinglio. Poz de -parte a metaphysica medieval com que Luthero havia sobrecarregado a sua -theoria, e ao mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio -e dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos -eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes. - -Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão: «Os -sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou somos implantados no -corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos, nos ligamos a Elle cada -vez mais, até que seja perfeita a nossa união com Christo, na vida -celestial». - -A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente visivel -na geração de protestantes que ella educou e enviou a combater com o -romanismo. «N’uma occasião em que a Europa», diz Haüsser, «não podia -mostrar solidos resultados da reforma, este pequeno estado de Genebra -erguia-se como uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos -para todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas, -e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os missionarios -provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam o elevado e intrepido -espirito que procede de uma estoica educação e adestramento; tinham o -cunho da abnegação e do heroismo, que em toda a parte era absorvido pela -estreiteza theologica. Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era -demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo, -separando-o da velha e tradicional auctoridade monarquica, e fazendo com -que elle adoptasse o evangelho da democracia como parte do seu credo.... -Genebra dictou um pequeno trecho da historia universal, trecho que -constitue a parte de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem -orgulhar. O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens -da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; estes homens possuiam -almas fortes, caracteres de ferro vasados n’um molde em que havia uma -mistura de elementos romanos, germanicos, medievaes e modernos; e as -consequencias nacionaes e politicas da nova fé foram por elles defendidas -com o maximo rigor e coherencia.» - -A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha. A pequena -republica de Genebra uniu primeiro a Reforma suissa, e em seguida deu os -caracteristicos distinctivos aos movimentos reformadores da França, da -Hollanda, da Escocia, da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande -parte da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito, -tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o reformador -de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão insensivel, tão frio, -tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica tão desapiedada, foi o -reformador de uma grande parte da christandade. A Reforma suissa passou -muito para além da Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França, -da Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou. - - - - -CAPITULO III - -A REFORMA EM FRANÇA - - Principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag. - 89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, - pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos - placards, pag. 92.—O Vaudois da Durance, pag. 92.—Henrique - II e os Guises, pag. 93.—Organisação da Egreja Reformada, - pag. 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag. - 96.—O primeiro Synodo Nacional, pag. 97.—Anne de Bourg, pag. - 98.—O massacre de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa - dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A - Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros, - pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e - Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A - Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto - de Nantes, pag. 110. - - -=Principios da Reforma em França.=—Antes da Reforma se ter tornado em -França um grande e importante movimento, appareceram dois typos da -cristandade reformada, sellados com as individualidades de dois homens: -Luthero e Calvino, o Pedro e o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em -seguida teve de ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno -foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando Wittenberg -em segundo plano, que se mostrou em condições de se defrontar com Roma. -A dupla corrente da Reforma partiu d’estes dois centros para toda a -Europa, mas nos terriveis combates que se travaram a feroz democracia do -Calvinismo poude desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante -conservantismo do movimento lutherano. A historia do progresso da Reforma -fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia do calvinismo, e do -triumpho das idéas calvinistas. Foi assim em França. - -Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz, datam de -uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino. Havia no sul e no -sueste, no fim do seculo quinze e no principio do seculo dezesseis, -uns taes ou quaes vestigios dos velhos albigenses; e os valdenses -mantiveram-se, e foram protegidos, em virtude de antigos tratados, -durante as perseguições dos huguenotes. A Egreja franceza havia-se -distinguido sempre pela sua opposição ás reivindicações da côrte -pontificia e do papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma -grande decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a Egreja -franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade de -Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou a parte principal na -convocação dos concilios reformadores de Pisa, Basiléa e Constancia, e no -refreamento da curia romana. A Egreja franceza tinha-se sempre opposto -energicamente ao ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica -de Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer outro -ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que a França, em vista -da sua historia passada, tomasse a iniciativa de um movimento reformador. -A Reforma, porém, que as summidades ecclesiasticas promoveram no seculo -quinze não foi uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião -espiritual. Os reformadores de Constancia queimaram João Huss. - -Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma, a mesma -immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia que desacreditou a -Egreja medieval do seculo dezeseis na Allemanha e na Italia; o inicio da -Reforma em França proveiu do despertamento das lettras e da leitura das -Escripturas nas linguas originaes. - -Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux, onde o bispo, -Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade de reprehender a -immoralidade monastica, e que o povo anhelava por um verdadeiro ensino -religioso. Elle tinha ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de -Etaples, e da perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da -Sorbonne por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e -ao seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo de -Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem e prégarem -debaixo da sua protecção. Lefévre publicou, em 1523, uma traducção -do Novo Testamento em francez, e o povo comprou o livro e leu-o com -soffreguidão. - -Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet n’outro tempo -lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e de favorecer herejes. No -meio da tempestade que então se levantou, o bispo perdeu a coragem. Farel -fugiu para Strasburgo, seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro -prégador, e a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém, -que possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na memoria os -sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé evangelica. Alguns crentes -tiveram de soffrer o martyrio, mas o fermento espalhou-se, ainda que -occultamente, por toda a França. - -=Francisco I.=—O rei de França, n’esses primeiros annos da Reforma, -era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os seus _Institutos da -Religião Christã_. Enthusiasta, e dotado de alguma intelligencia, havia -saudado a revivificação das letras, protegeu Lefévre durante o tempo em -que este sabio residiu em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que -mantinha com homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus. -Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a sua ambição era que -o considerassem como tal; a universidade de Paris havia-lhe merecido -uma especial attenção, e interessou-se tambem immenso na famosa maquina -de impressão inventada por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de -Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu algumas -poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde rainha de Navarra, -foi uma das mais espirituosas conversadoras e uma das mais brilhantes -escriptoras do seu tempo. Francisco não sympatizava nada com o desleixo e -ignorancia de muitos dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente, -considerava o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com -a estupidez. Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo a -auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que ambicionava -brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer a absoluta -supremacia do soberano. Não sympatizava com o caracter profundamente -espiritual da Reforma, e as suas necessidades politicas não tardaram a -prevalecer sobre o seu amor pela instrucção. - -=A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.=—A -independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de França em -opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção Pragmatica de -Bourges, que definia as liberdades das egrejas nacionaes de uma maneira -clara e energica. Declarou que o papa estava sujeito a um concilio -ecumenico, e que este concilio se devia reunir de dez em dez annos. -Declarou que todos os provimentos de elevados cargos ecclesiasticos, -taes como os bispados e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não -por designação do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos -a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto pode abranger -tanto os innocentes como os culpados. A Sancção Pragmatica tinha sido -sempre cuidadosamente defendida pela Egreja franceza, e pela maioria dos -soberanos de França. Era intensamente abominada pelos papas, e não podia -ser olhada com muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia -do throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia do povo. -Francisco comprehendia que, se podesse collocar a Egreja debaixo do seu -dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao absolutismo. Entendeu-se, -portanto, com o papa, e trocou a Sancção Pragmatica por uma Concordata, -que foi, no futuro, uma grande desgraça para a França. - -Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios dos Concilios -reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu em que o papa ficasse -com direito ao _Annates_, isto é, o vencimento relativo ao primeiro anno -de todos os beneficios que eram providos, concedendo o papa, em troca, -que a nomeação de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do -rei. Por outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes -supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel somma -de dinheiro; e o rei de França era praticamente, dentro do seu reino, -o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos os arcebispados, bispados, -abbadias e priorados. Fez-se denuncia d’esse tratado, e de todos os modos -se trabalhou para o annullar, mas conseguiu vencer todas as opposições, e -permaneceu em vigor até á Revolução. - -A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma franceza, e -não é possivel exaggerar a importancia que ella tem para a historia -ecclesiastica franceza desde o principio do seculo dezeseis. Por um lado, -secularizou a Egreja franceza. Todos os officios ecclesiasticos de valor -eram doados pelo rei, e tinham de ser disputados por cortezãos que só nas -coisas do mundo pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses -da Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da Egreja -franceza era necessariamente opposição ao absolutismo do soberano. Esta -Concordata deu uma indole particular á lucta que a Reforma produziu em -França. Os reformadores não podiam deixar de ser tambem os adversarios do -absolutismo; e o rei, para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de -chefe da Egreja, via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a -supremacia. - -Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em França um trabalho -muito diverso do trabalho de Luthero na Allemanha, porque tinham de se -oppôr não só á Egreja como ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores -escocezes e aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a -Reforma poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na Hollanda -uma republica. Em França, por outro lado, o poder real foi augmentando -lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado, a um absolutismo como -o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se apto para exterminar a egreja -protestante, por meio de uma sanguinolenta perseguição. - -=«A Egreja que estava debaixo da Cruz».=—Luthero tinha, na Allemanha, um -principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra, auxiliado pela suprema -auctoridade civil. Em França os reformadores tiveram de luctar não só -contra o poder do rei como contra o poder da Egreja. A Egreja reformada, -em França, não recebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e -teve de sustentar um combate tão severo e tão rude como o que teve de -sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena tinha -duas coisas contra si; a religião estabelecida, que era o paganismo, e -o Estado, que era egualmente pagão. A Egreja reformada de França teve -duas coisas contra si; foi perseguida pela egreja estabelecida no reino, -que era a romana, e foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que -o poder do rei era, pela Concordata, em grande escala dependente do -reconhecimento do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma dupla -perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos apologistas. Eram -dois os emblemas que ella gravava nos seus livros e esculpia nos seus -monumentos: a sarça que ardia sem se consumir, e a bigorna que levava -martelladas e estava sempre inteira. O grande Beza disse um dia ao rei -de Navarra: «Sire, a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos -martellos». - -Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes que -existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em Pavia, em 1525, e a sua -alliança com o papa, mostrou-lhe que era prudente, lá no seu modo de -ver as coisas, mostrar alguma vontade de expurgar da heresia as terras -de que era senhor, e deu licença para que se pozessem em pratica as -perseguições que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo -Parlamento de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha Luiza, e -por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois de Francisco -ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma occasião em que precisava -de dinheiro para as suas guerras, dinheiro que já não era possivel obter -por meio de impostos, que elle permittiu que a heresia fosse exterminada -de vez. O clero pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em -troca que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se -fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura e da -carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em 1528. - -Severas medidas foram decretadas contra os protestantes. Era prohibida a -leitura de obras protestantes; a ligação com pessoas suspeitas de heresia -importava condemnação; e os herejes, onde quer que fossem descobertos, -eram entregues ás auctoridades civis para serem castigados. Luiz de -Berguin, homem erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do -rei, e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas -disposições. - -A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das coisas. -Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes protestantes -allemães, e recusou, portanto, associar-se a um plano geral para a -exterminação da heresia. - -=O anno dos placards.=—Em breve, porém, poz de parte este seu intento, -e começaram novamente as perseguições. Os protestantes, por seu lado, -mostraram uma grande somma de coragem. Imprimiram curtos folhetos em -que se atacava a missa e outros ritos da Egreja Catholica Romana, e -espalhavam-n’os pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado -o anno dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei -um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema dureza, e -Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso, prohibiu que se -imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando este decreto, entrou -a serio no seu papel de perseguidor. Decretou que a heresia fosse punida -com a morte; aquelle que denunciasse um hereje tinha direito á quarta -parte dos bens que este possuisse, no caso de se provar a veracidade -da accusação. Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os -protestantes eram accusados, condemnados, e punidos com prisão, perda -de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou ao rei os seus -_Institutos_. - -Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos de terrivel -effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os protestantes augmentaram em -numero, e a repressão, posto que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz. -O sangue dos martyres era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de -Fontainebleau intimava os officiaes de justiça a processarem todos -aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas era negado -o direito de appellação; os juizes negligentes eram ameaçados com o -desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram ordem para mostrar maior -zelo. «Todos os subditos leaes», dizia o edicto, «devem denunciar os -herejes, e empregar todos os meios para os extirparem, do mesmo modo -que são obrigados a contribuir para que se ponha termo a qualquer -conflagração publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos, -mas a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam -resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades. - -=Os valdenses da Durance.=—A maior atrocidade commettida durante a -perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance. Uma parte da -Provença que confina com a Durance chegara, dois seculos atraz, a estar -quasi despovoada, e os proprietarios das terras dirigiram um convite aos -camponezes dos Alpes para irem estabelecer-se nos seus territorios. Os -novos colonisadores eram valdenses, e a sua industria e indole economica -em breve encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas. -Garantiu-se-lhes que a sua religião seria protegida, pois que os seus -senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os serviços -que elles prestavam. Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma, -estes aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores, e em -1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que forneceram o dinheiro -necessario para publicar a traducção das Escripturas Sagradas em francez, -feita por Roberto Olivetan, e corrigida por Calvino. Este procedimento -despertou a hostilidade de alguns ecclesiasticos francezes. - -O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões, e alguns -dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram morte violenta. Em -1540 o parlamento intimou quinze aldeãos de Mérindol a comparecer perante -elle como suspeitos de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte -estava resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o -infame _Arrêt de Mérindol_, que, em resumo, ordenava a destruição de toda -a aldeia. - -A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o rei teve -conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações, e em resultado -d’ellas deu ordem para que o referido decreto ficasse sem effeito. Foi, -porém, induzido a revogar essa ordem, organizou-se clandestinamente -uma expedição, e durante sete mezes de carnificina, com todos os seus -acompanhamentos de traição e de infame brutalidade, foram totalmente -destruidas vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e -mulheres, e perto de 700 foram enviados para as galés. - -Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França estava ainda -luctando pela sua existencia no meio de perseguições mais terriveis do -que aquellas de que os protestantes foram victimas n’outro qualquer paiz. - -=Henrique II e os Guises.=—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe -Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu pae, a qual -obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da Allemanha e consolidar, -em França, o poder real. Isto obrigava a occasionaes allianças com os -principes protestantes allemães, e dava logar, em França, a uma continua -perseguição aos protestantes. Todos os favoritos que tinha na sua côrte -eram inimigos da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame -Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além da rainha, -o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem escrupulos: Diana de -Poitiers, o Condestavel de Montmorency, primeiro ministro da corôa, que -gozava de grande reputação como perito na arte da guerra e na gerencia -dos negocios publicos, e os Guizes, notavel familia de procedencia -estrangeira, que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de -Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu irmão, o -cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos o conselheiro -de Henrique II, era um dos homens mais sagazes da Europa. A irmã casou -com Jayme V da Escocia, e tiveram por sobrinha Maria Stuart, rainha da -Escocia, educada em França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles -com o Delphim de França. - -Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio tão urgente -que os tribunaes de justiça tiveram de interromper o julgamento de -varias causas. Henrique creou uma nova divisão judicial, que se occupava -exclusivamente dos casos de heresia, e as sentenças proferidas por estes -tribunaes especiaes eram tão severas que o povo chamava-lhes _chambres -ardentes_. Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a -perseguição não estorvou o derramamento do Evangelho. - -Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o desejo de ver com -os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses obstinados herejes. -Foi levado á sua presença um pobre alfayate, preso sob a accusação de -ter trabalhado n’um dia santo, e esse homem, com grande espanto da -côrte, respondeu ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre -theologia que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o -ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia o -caracter e estava ao facto da posição occupada por ella, retorquiu-lhe -solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em ter contaminado a França, -e não queira tocar com o seu veneno e com a sua immundicie uma coisa tão -pura e tão sagrada como é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O -rei, encolerisado porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu -ordem para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz assistir -ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella que dava para a praça -onde o martyr ia ser queimado, este viu-o, e não despregou mais d’elle -os olhos. Mesmo já depois de rodeiado pelas labaredas não deixou de -perseguir o rei com aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante -muito tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante o -dia e lhe perturbava o somno durante a noite. - -Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte, que estas -repetidas execuções não estavam contribuindo para a repressão da Reforma. -Outros martyres se apresentavam jubilosamente para substituir aquelles -que os tinham antecedido; viuvas, mancebos, estudantes, raparigas -mimosas, fidalgos da mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel -martyrio a negarem Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais -severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto, o de -Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros seculos, -mandava destruir toda a litteratura christã, na idéa de que por essa -fórma se faria desapparecer o christianismo. - -Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella se encheu de -refugiados francezes. Um certo numero de rapazes, cheios de coragem -e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros nas verdades do -Evangelho, havia-se offerecido para distribuir livros e folhetos por -todos os pontos da França. O Edicto de Chateaubriand visava estes -colportores, assim como os livros e tratados que elles vendiam. Prohibia -terminantemente a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra -ou de outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia -nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão clandestina. -Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias, mandava -examinar todos os volumes que chegassem do estrangeiro, e submettia, -de quatro em quatro mezes, a grande feira de Lyão a uma fiscalisação -especial, pois que mediante ella é que se haviam espalhado pelo reino -muitos livros suspeitos. Foi prohibida a venda ambulante de livros, -fossem elles de que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem -encontradas cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas -analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé nas tabernas, -nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas. Por determinação -da côrte, ficava, portanto, o povo impedido de se instruir, se é -que edictos e officiaes de justiça o poderiam impedir. A sementeira -proseguia. Dispostos para a vida ou para a morte, partiram de Genebra e -de Strasburgo, para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando -comsigo Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza mandou -dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero espantoso os homens que -se offereceram para arrostar com todos os perigos para que a Egreja de -Deus avançasse. - -=Organisação da Egreja reformada.=—No meio d’estas terriveis -perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se em -Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam isoladamente -a Biblia, ou formavam pequenos nucleos de crentes. A perseguição -augmentou-lhes a coragem, e resolveram por fim constituir uma communidade. - -O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez residente -em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes costumava -reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae do recemnascido declarou -aos seus irmãos na fé que não podia ausentar-se de França, afim de obter -que lhe fosse administrado um sacramento puro, e que de fórma alguma -consentiria em que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana. -Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem um pastor, -pondo assim termo a todas as difficuldades. - -Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem oração, escolheram -para pastor a João Le Maçon, que tinha por sobrenome La Riviére, contava -vinte e dois annos, e havia abandonado familia, riqueza e perspectivas -de um brilhante futuro pela causa de Christo. A pequena assembléa passou -em seguida a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se uma -Egreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve constituição. - -Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse á testa do -movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras, as communidades -constituiram-se em congregações, com os seus presbyteros e diaconos. Tres -mezes depois da eleição de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma -carta em que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha tres -pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse sempre com -a mesma violencia, nunca deixava de haver quem se offerecesse para esses -perigosos logares, e a Reforma ia fazendo progressos. - -=Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.=—Vendo que eram inuteis -todos os esforços empregados para impedir a Reforma, o cardeal propoz o -estabelecimento, em França, de uma Inquisição, modelada pela de Hespanha, -de que Fillippe se havia servido, com tanta efficacia, para escorraçar -de seus dominios a heresia. O espirito de liberdade constitucional -não estava, porém, tão morto em França que se permittisse a perda -total de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o -que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição -hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os parlamentos, -protestaram contra essa proposta. O rei e os seus conselheiros insistiram -na adopção de similhante medida, mas em breve descobriram, para seu -espanto, que o unico resultado colhido foi algumas pessoas nobres, das -que de maior influencia dispunham, se declararem protestantes; e de ahi -em deante (1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um -forte partido huguenote. - -A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos dos principaes -representantes da nobreza, e o que elles observaram tambem no -procedimento do clero levou-os a procurarem homens de vida pura que os -instruissem no christianismo. Alguns membros da mais alta aristocracia -que antipathizavam com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por -simples politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam -uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana, -que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica ao systema -absolutista do rei e dos seus conselheiros. - -Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante Coligny e -seu irmão Francisco d’Andelot. - -Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa Bourbon, e esta -familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada por Antonio, -duque de Bourbon, que, na falta do rei e dos filhos d’este, era o -herdeiro do throno de França, e por seu irmão Luiz, duque de Condé. -Antonio Bourbon tinha casado com a piedosa e heroica filha de Margarida -de Angouleme, Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo -filho foi Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu o -titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo em Pau, -onde assistia ás prégações dos pastores protestantes. Quando voltou -para a côrte, começou tambem lá a frequentar as reuniões evangelicas, e -declarou-se, por fim, protestante. O duque de Condé fez o mesmo. Andelot, -o irmão mais novo do almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o -cavalleiro sem pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello -da Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações de -gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder, não se -atreveram a castigal-o. - -Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu um tratado de -paz com a Hespanha para poder dedicar toda a sua actividade á destruição -dos calvinistas. Era vastissimo, segundo se diz, o plano que elle tinha -preparado. Genebra e Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria -um golpe mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém, -d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um torneio que -teve logar em Junho de 1559, morreu. - -=O primeiro synodo nacional.=—Um caso interessante é que, ao mesmo tempo -em que se estavam planeando novas medidas de repressão, os protestantes -francezes houvessem tomado uma deliberação que era mais um testemunho -da sua progressiva força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma -casa do Faubourg St. Germain, o seu primeiro _Synodo Nacional_. O que -motivou essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do anno, -Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris, foi a Poitiers, -afim de auxiliar o serviço da Communhão que se ia celebrar n’esta cidade. -Encontrou-se lá, como era vulgar em similhantes occasiões, com pastores -que tinham vindo de varios pontos, e, conversando ácerca do estado da -Egreja, lamentaram a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes. -Chandieu foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as -opiniões dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou -cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar delegados a uma -conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi d’esta maneira que teve -origem o primeiro Synodo Nacional. Era uma pequena assembléa, em que -estavam representadas onze congregações apenas; mas proveu a Egreja -franceza de uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina. - -A Confissão, conhecida depois pelo nome de _Confessio Gallica_, foi -provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se n’uma resumida -Confissão que Calvino compoz, chamando para ella a attenção do rei. Foi -mais tarde revista por mais de uma vez, mas podemos ainda chamar-lhe a -Confissão da Egreja Protestante Franceza. - -_O Livro da Disciplina Ecclesiastica_ foi modelado pelas _Ordenanças_ -que Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra, mas contém -notaveis differenças, e mostra o que o livro de Calvino teria sido se -o conselho de Genebra lhe houvesse dado toda a liberdade de acção. A -constituição da Egreja franceza era inteiramente democratica e de um -caracter representativo. Reconhecia os consistorios, que já existiam -nas congregações, e, para os tornar verdadeiramente representativos, -preceituava que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes. -Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se reuniam -duas vezes por anno, e em que cada congregação era representada por um -pastor e um presbytero; e unia a Egreja toda sob um Synodo Nacional, ou -Assembléa Geral, que constituia o ultimo tribunal de appellação, e a -suprema auctoridade ecclesiastica. - -É interessante observar como n’um paiz cujo governo se tornava de anno -para anno mais arbitrario e absolutista esta «Egreja sob o peso da Cruz» -organizava para seu uso um governo, que reconciliava mais perfeitamente -talvez do que todos quantos teem sido organizados desde então, o -principio da soberania popular com o de uma suprema auctoridade central. -Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu -mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja escoceza, a de -Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza, O facto d’ella se -afastar posteriormente do modelo francez, tornando vitalicios os cargos -de presbytero e diacono, e a usurpação do exclusivo direito, pela junta -mais moderna do presbyterio, de enviar representantes á Assembléa Geral, -privou o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma grande -parte do elemento popular que constituia a força das primitivas egrejas -escocezas e francezas. - -=Anne de Bourg.=—A morte do rei não alterou em coisa alguma a politica -da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo de dezeseis annos. Este -tinha por esposa Maria, rainha da Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua -subida ao throno atirou com o poder para as mãos d’este fanatico partido, -que era capaz de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não -podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente do poder que -n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia medidas para a repressão -dos protestantes mediante a exterminação, e aquelle seu grande empenho em -que se derramasse sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios. - -O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e execução de Anne -de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de França, que era tambem -juiz. O seu crime consistiu em ter, em conselho publico, dito a Henrique -II que era uma coisa muito seria condemnar aquelles que, no meio das -chammas, invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde, -foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia -que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao ser proferida a -sentença de condemnação á morte por meio da fogueira, tornou a fallar -com um tão tocante fervor, com uma resolução tão pathetica, que até -os proprios juizes se commoveram «Coisa alguma nos poderá separar de -Christo, sejam quaes forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem -as enfermidades que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha muito -como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos matem, pois, que -nos despedacem; os que morrem no Senhor não deixam jámais de viver, e -todos hão de apparecer na resurreição geral.... E, sendo assim, para que -hei de eu permanecer mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo, -e conduze-me ao logar do supplicio.» - -Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo francez começa a -ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco se haviam compenetrado da -força de que dispunham, começaram de aquelle ponto em deante a reunir-se -para tratarem do modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como -deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns dos mais -impetuosos foram de parecer que se arvorasse immediatamente o estandarte -da revolta. Calvino e Beza, a quem consultaram, dissuadiram-n’os de -uma insurreição declarada. Não obstante, organizou-se uma conspiração. -La Renaudie, protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe -d’essa conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido -bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada. Os Guises -tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios da sua politica, -e houve enormes carnificinas, particularmente em Amboise, que ficaram bem -gravadas na memoria dos huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente -Condé de ser o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de -todos os principes e de todos os membros do Conselho privado, e desafiou -os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de Guise não se sentiu com -animo de o atacar de novo. - -=O morticinio de Amboise=, longe de aterrorizar os protestantes, parece -que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser conhecidos pelo nome -de _Huguenotes_. A origem d’este nome é obscura; tudo o que ao certo -sabemos a seu respeito è que depois da conspiração de Amboise andava na -bocca de toda a gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja -dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser feitos por -prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia do povo. A Ceia do -Senhor foi, por bandos armados, celebrada «á moda de Genebra», em Nismes, -no Languedoc. O tempo das assembléas secretas tinha passado, e grandes -reuniões ao ar livre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam -que a Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de gente. - -=Coligny na Assembléa dos Notaveis.=—A côrte, comtudo, estava convencida -de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao, e as perseguições -continuavam com o mesmo vigor. Necessitava, porém, de dinheiro, pois -que as despezas do reino foram gradualmente excedendo as receitas, e -em Fontainebleau foi, por fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis. -Os protestantes aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante -Coligny, chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao rei, -outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia. Pediam a -cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem publicamente o -culto divino. - -Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem animo. O -bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da sua diocese, e pediu -que fossem revogadas as leis que se oppunham á entoação dos hymnos -e á leitura das Escripturas, e que se convocasse um concilio geral. -O arcebispo de Vienne ainda se atreveu a mais. Perguntou se «estava -resolvida a morte da França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se -obrigada a permittir que se realisasse a tal assembléa geral. - -Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo, tomaram a -resolução de matar os seus homens de maior nomeada, e, segundo parece, -tinham tambem em mente um massacre geral dos huguenotes. Fizeram com que -o rei chamasse á côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão -Luiz, duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo, para lá -partiram. - -O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra por pouco -escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade estava prestes a -estalar, o rei adoeceu e morreu. - -«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que enviou a Sturm, -«algum acontecimento mais opportuno do que esta morte do rei? Quando -a desgraça tinha chegado a tal ponto que não se podia remediar, Deus -revela-Se de subito lá do céu. Aquelle que traspassou os olhos do pae -feriu agora os ouvidos do filho». - -=Catharina de Medicis.=—Pela morte de Francisco ficou herdeiro do -throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente foi nomeado -o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra. A mãe do joven rei, -Catharina de Medicis, de quem haviam feito pouco caso durante a vida do -marido, e que havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu -filho mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade -de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarra instaram -com este para que tambem fizesse valer os seus direitos. Se elle assim -tivesse procedido, o futuro da França seria, porventura, mais pacifico. -Ter-se-hia alcançado uma duradoura tolerancia religiosa, e ter-se-hiam -lançado os alicerces de uma monarquia constitucional; elle, porém, teve -a fraqueza de não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi -investida no poder. - -As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões a todos os -partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises, e ao mesmo tempo era -indispensavel entrar em negociações com os huguenotes. Todos os herejes -que estavam presos recuperaram, por meio de um edicto, a sua liberdade, -mas foram avisados de que deviam não dar mais motivo de queixa. No -entretanto reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da -morte do ultimo rei. - -Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião; uma reforma -no governo da Egreja, e, em particular, a eleição livre dos bispos e do -clero; um concilio nacional, sob a presidencia do rei, para discutir as -questões religiosas, e, no entretanto, egrejas para os protestantes, e -uma reunião da Assembléa dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se -tambem para auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse -a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado. - -As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke, o programma -da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem sido attendidas, -essa revolução não seria assignalada com o atheismo que a desacreditou, -e não seria necessario derrubar a monarquia e a aristocracia. A côrte -não estava preparada para essas mudanças radicaes, e o mais que se -poude obter de Catharina foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde -podessem ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres -catholicos romanos. - -Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes, -voltou para França muita gente que se tinha refugiado na Inglaterra, na -Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na Italia. Vieram tambem alguns -pastores de Genebra, não faltando, d’esse modo, homens bem instruidos -que dirigissem as congregações protestantes. Era impossivel, porém, -mudar todas as coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises -ameaçavam vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se tinha na -conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se áquella corrente -conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram contra as assembléas -protestantes. Nas localidades onde os huguenotes estavam em maioria, -tornou-se difficil evitar que elles decisiva e energicamente defendessem -os seus direitos. N’algumas cidades o povo correu em massa ás egrejas, -derrubou as imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os -huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel por -conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de Genebra, protestando -energicamente contra toda e qualquer illegalidade. «Deus nunca disse a -pessoa alguma que destruisse os idolos, exceptuando aquelles que cada -um tenha em sua casa, ou os que em publico se encontrarem revestidos de -auctoridade.... A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos ver -bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos limites». - -=A Conferencia de Poissy.=—A data designada para a Conferencia -approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram convidados todos os -francezes que tivessem qualquer coisa a dizer em materia de religião a -apresentarem-se na proxima assembléa de Poissy, na certeza de que não -correriam perigo algum e seriam escutados com a maxima attenção. Os -huguenotes tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe -encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio não queria -ir, pois que estava convencido de que de similhante rainha se não tiraria -resultado algum. Por fim acquiesceu, e os huguenotes ficaram descançados -por saberem que os seus interesses estavam entregues em tão boas mãos. - -Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, renunciara -a um brilhante futuro ao abraçar a causa da Reforma. Era um homem -de magestosa presença, muito illustrado, e de um trato captivante. -Abaixo de Calvino, era elle a pessoa por quem as egrejas reformadas se -deixavam guiar com maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo -representante. Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz -de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de Lorraine. -O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande personagem, -produziram sensação na côrte. - -Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente manifesta a -ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal de Lorraine e outros mais -trataram logo de pôr termo á conferencia, ou, no caso de não conseguirem -esse proposito, de a tornarem completamente esteril. O resultado da -discussão foi ambas as partes nomearem delegados para conferirem sobre -determinados pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de -Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562. - -Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás suas reuniões -secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus cultos ás claras, e a -qualquer hora do dia, fora das povoações; e todos os seus ministros eram -obrigados a declarar, sob juramento, que não ensinariam coisa alguma que -não estivesse de accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A -tolerancia era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento -legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram de parecer que um -tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis condições em que era -feito, devia ser acceite. «Se a liberdade que o Edicto nos promette fôr -duradoura», escreveu Calvino, «o papismo cae por si mesmo». - -Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos a chegar a -um accordo com os protestantes. Os funccionarios civis, nas cidades e -nas provincias, pertenciam á religião do estado, e os parlamentos, ou -tribunaes de justiça permanentes, abominavam o protestantismo. Sabia-se, -além d’isso, que o Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina -para ganhar tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos -a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram os dois -partidos a prepararem-se para uma guerra civil. - -=O massacre de Vassy: outros massacres.=—O signal foi dado pelo duque de -Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o Edicto da Tolerancia. -No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo de manhã, entrou, á frente de -um grupo de cavalleiros armados, na cidade de Vassy, onde uma pequena e -indefeza congregação de protestantes estava prestando culto a Deus n’um -celleiro. Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes, -que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande maioria, -assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras civis que tanta -devastação produziram em França até Henrique IV subir ao throno. - -O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido em muitos -outros pontos em que os catholicos romanos estavam em maioria. Em -Paris, em Sens, em Rouen, em toda a parte, emfim, os logares de culto -protestantes foram atacados e os que n’elles se haviam reunido tiveram -morte violenta. Em Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina, -fecharam-se no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao -cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa de que lhes -seria permittido sair da cidade sem serem molestados. Uma vez cá fóra, -foram todos massacrados—homens, mulheres e creanças, tendo perecido, ao -todo, para cima de 3000 pessoas. Este morticinio de protestantes, em -que houve violação de um juramento, foi commemorado pelos catholicos -romanos de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em 1862 -se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração do -centenario. - -Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. Os huguenotes -precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram as imagens, os -altares e as reliquias. Destruição de imagens e derramamento de sangue -era a ordem do dia na maior parte das provincias de França. - -=A guerra civil. Os iconoclastas.=—No meio de tudo isto os dois partidos -formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos, ficando um, o -papista, sob o commando de Francisco, duque de Guise, e o outro, o -protestante, sob o commando de Luiz, duque de Condé, e do almirante -Coligny. A França poude então presenciar todos os horrores de uma guerra -civil, em que o fanatismo religioso accrescentou, ás barbaridades communs -a todas as guerras, as mais atrozes crueldades. - -O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, exprimiu -a opinião de que esta primeira guerra religiosa obstou a que a França -se tornasse protestante. As crueldades dos papistas tinham desgostado -um grande numero de cidadãos francezes, que, sem serem impulsionados -por fortes sentimentos religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado -alliado áquelles que, pela sua moderação, se mostravam competentes para -inaugurar, e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes -huguenotes faziam o maximo empenho em poder provar que os seus adherentes -sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza recommendaram que não se -interviesse no culto dos catholicos romanos, excepto quando o caso fosse -tratado judicialmente, e ainda assim com muita serenidade. Não, foi, -porém, possivel evitar que os protestantes despedaçassem as imagens e -dessem cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas. - -Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao mesmo tempo. Condé, -acompanhado de Coligny e de outros vultos importantes, dirigiu-se a -toda a pressa para a egreja de Santa Cruz, onde o tumulto era maior. -Ao chegarem á egreja, Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia -subido a um ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para -baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz, apontou-o ao -dito soldado, e ordenou-lhe que descesse quanto antes. Elle não parou -com o que estava fazendo, proferindo, porém, estas palavras: «Deixe-me -primeiro fazer este idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da -sua vontade». Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar -de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse pôr um -dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes entrassem -as egrejas ficavam n’uma completa desordem. Este procedimento foi tomado -em toda a França como um indicio de que os protestantes, se chegassem -a ter o poder nas mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e, -por consequencia, a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre -crescendo, começou a declinar. - -O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel aos -huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um admiravel general, e os -papistas estavam bem providos de dinheiro e recebiam auxilio de fóra; -ao passo que os huguenotes estavam quasi exclusivamente dependentes dos -seus proprios recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para -o proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha de Dreux, -em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel disciplina dos -auxiliares suissos de Guise; mas, por seu turno, os papistas perderam o -duque de Guise, que foi assassinado em Fevereiro de 1563. - -Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e tornou-se mais -facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido vencer os papistas; -e, do mesmo modo, os papistas não tinham conseguido exterminar os -protestantes. Não se haviam reconciliado uns com os outros, mas -achavam-se cançados; e convieram n’uma suspensão de hostilidades. O -Edicto da Paz garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam -sido concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais -importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade em cujos -arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus cultos, e em todas -as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de Março do anno corrente era -praticada a religião protestante, será a pratica d’esta permittida em -dois recintos _intra-muros_, que serão opportunamente designados pelo -rei». O Edicto de Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as -coisas por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos -não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os protestantes -por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam. Foi obra de Catharina -e de Condé, cada um dos quaes confiava em que o futuro se encarregaria de -tornar inoffensivas para o seu partido as concessões que fazia. - -As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes arrebentou a -segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de um anno. A unica acção -decisiva foi a batalha de St. Denis, em que Montmorency foi morto. -Seguiu-se então o armisticio de Longjumeaux, cujas condições eram -identicas ás do Edicto de 1562. - -Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes começou a -terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se do duque de Alba, -o feroz governador dos Paizes Baixos, que se estava preparando para -ajudar a côrte franceza a exterminar todos aquelles que não quizessem -submetter-se á Egreja Catholica Romana, e resolveram tomar a offensiva. -Condé e Coligny souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar -a vida aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente, -supprimir a obnoxia fé. - -Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou. Combateu-se -durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas de bom e mau -exito, tanto diplomatico como militar. Por fim, teve logar a batalha -de Jarnac, onde os huguenotes foram derrotados, e onde Condé e varios -outros encontraram a morte. A sorte parecia ter-se tornado crudelissima -para os huguenotes. Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de -Navarra, moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que não -tinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny é que -teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou de reunir as forças -dispersas, e, não obstante alguns revezes, poude obter um tratado de paz -que offerecia vantagens como nunca os huguenotes tinham logrado alcançar. -Foi auctorizado o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro -d’ellas—La Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas aos -protestantes como logares de refugio. - -=Coligny e Carlos IX.=—O almirante Coligny ficou sendo, em virtude d’este -tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes mais confiavam. Deixou-se -ficar em La Rochelle, no meio dos seus correligionarios, e encarregou-se -da tutella dos dois jovens principes que eram as esperanças dos -protestantes, Henrique de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal -que elle tinha em vista era de tornar permanentes as vantagens que os -reformados tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas. -Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os avisos em -contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes do que, por uma -indevida solicitude pela minha vida, dar occasião a que se avente uma -suspeita em todo o reino». - -Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX sympathizou -com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então uns vinte annos, não -havia conhecido nunca um homem como aquelle. A enfermidade não o havia -deixado desde a infancia, e estivera rodeiado por pessoas que tinham -interesse em o educar na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz -em contacto com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo -respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo com as -suas convicções, que se havia tornado a mais celebre individualidade da -França, que fora o organisador do partido protestante, que era quasi -adorado pelos seus amigos, e que, apezar da sua edade avançada, estava -ainda em todo o vigor da vida, não poude deixar de confiar n’elle como -nunca tinha confiado em pessoa alguma. - -Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram que o rei -estava sob uma nova influencia, a que precisavam de subtrahil-o a todo o -transe. Tinham medo de que o rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso, -lhes escapasse das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil -Carlos sentiu por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a -causa do massacre de S. Bartholomeu. - -Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de Coligny. O -attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter com seu filho, e -referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes estavam convencidos -de que elle, Carlos, entrara também na conspiração que tinha por fim -a sua morte, e que, portanto nunca havia de ter paz emquanto os -protestantes não fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos -vultos preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu. - -=A matança de S. Bartholomeu.=—Esta terrivel carnificina de protestantes, -que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 de Agosto de 1572) foi -obra de Catharina de Medicis, de Henrique de Anjou e dos Guises. A -matança foi feita em Paris por 20:000 milicianos da cidade, coadjuvados -por alguns soldados e pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo -duque de Guise. As forças a que se commetteu aquella tarefa eram -commandadas pelos irmãos Guise. - -Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes cabeças, -e depois o massacre tornou-se geral. As casas dos protestantes tinham -sido previamente marcadas com cruzes brancas, e os assassinos, para -reconhecimento mutuo, traziam faxas brancas, além de outros signaes. Só -em Paris foram mortos, pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram -pessoas de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram -mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, fixa o -numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas provincias, e o numero -das victimas tem sido calculado entre 30:000 e 100:000. Sully, primeiro -ministro de Henrique IV, que estava provavelmente bem inteirado, affirma -que cairam sem vida 70:000 pessoas. - -Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem mostrado muito -orgulhosos de aquelle commettimento, mas quando a matança teve logar -muitos d’elles exultaram. Sabe-se perfeitamente que, se o acto não foi -instigado de Roma, o papa e a curia estavam, pelo menos, scientes de -que elle ia realisar-se. Houve illuminações em Roma para festejar o -acontecimento, os canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se -uma procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma medalha -para commemorar o _Hugonotorum Strages_. Alguns dos principes catholicos -romanos enviaram mensagens de congratulação, e diz-se que o pobre e -corrompido Filippe II de Hespanha sorriu, pela primeira e ultima vez na -sua vida, quando a noticia lhe constou. - -O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e privou-os de -quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam a existir, e, em -vez de se intimidarem, de se darem por vencidos, perante aquelle acto -sanguinario, resolveram em seus corações vingar-se d’elle. Ainda restavam -algumas cidades em poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes, -Montauban, e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se a dar -entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram. - -La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas por Henrique de -Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades de um cerco, -obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. Uma egualmente bem -succedida resistencia da parte de outras cidades forçou a côrte a entrar -em negociações com os seus odiados subditos protestantes, e ficou -restabelecida a paz. - -D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam estar sempre -preparados para a guerra. Os horrores da vespera de S. Bartholomeu -haviam-lhes mostrado o quão implacaveis eram os seus inimigos, e a -traição por elles commetida quando foi do cerco e capitulação de Sancerre -deu-lhes uma prova da sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados -oito mezes, e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens, -pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. «Porque chora», -exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me morrer de fome? Eu não lhe -peço pão, mãe; sei que não tem nenhum para me dar. Visto Deus querer que -eu morra d’esta forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle -homem santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» E depois de a -cidade se haver rendido teve logar, não obstante a promessa que lhe tinha -sido feita sob juramento, uma horrivel scena de homicidio e pilhagem. - -Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram organizar-se, -para que podessem estar sempre promptos, e tão diligentemente pozeram -os seus planos em execução que n’um curto prazo se encontraram aptos -para pôrem 20.000 homens em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que -tudo organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei, -em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as guerras -religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote não se havia -extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu um outro partido ia -adquirindo lentamente importancia em França. Era elle constituido pelos -catholicos romanos moderados, que estavam fartos de carnificinas, e que -attribuiam todos os males do Estado ao poder de que os estrangeiros -dispunham no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes, -isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração -das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como também -eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas quando tiveram -conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, e do programma politico -que os huguenotes expozeram em Milhau, e, revestidos de paciencia, -esperaram a occasião de intervir. - -Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a -quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse seguido de um tratado -de paz, nunca, de um modo ou do outro, se deixou de combater, e a -rejeição do pedido feito pelos huguenotes não permittia duvidas quanto á -imminencia de outra guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio -de 1574, de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe -sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo da -carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique de Anjou, o terceiro -e mais vil dos filhos de Catharina, e que era o favorito d’esta. Henrique -era ao mesmo tempo um papista cheio de superstições e um libertino cheio -de impudencia. - -Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado aos Guises, -e adherira ao partido papista; pouco depois de subir ao throno, porém, -como o amedrontasse a possibilidade de uma alliança entre os «politicos» -e os huguenotes, concedeu, por meio de um edicto, uma parte do que os -protestantes pediam. Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada -liberdade religiosa, egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser -julgado por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e de -protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como penhor, nas -mãos dos protestantes. - -=A Santa Liga.=—Este procedimento do rei deu logar á fundação da Santa -Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos jesuitas, cujo fim era -promover uma alliança dos catholicos francezes com Filipe II de Hespanha -e com o papa. Visava, em primeiro logar, a governar a França no interesse -da fé catholica romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes, -e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os Bourbons, ou, -pelo menos, o impedir que a corôa passasse para Henrique de Navarra. - -Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em cujos variados -incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a quinta, como a sexta, -como a setima guerra civil concluiu por um tratado de paz favoravel aos -protestantes. - -Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio dos Guises. A -oitava guerra civil terminou em julho, mediante o tratado de Nemours, -que não era tão favoravel para os protestantes. A nona guerra civil teve -logar pouco depois. Foi denominada a Guerra dos Tres Henriques—Henrique -III, Henrique de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua -pouca edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra teve -o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes ficaram -victoriosos. - -As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram entre o -rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu que a sua -auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes, que se reuniram -em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe que a França estava sob o -dominio do duque; e a insurreição que teve logar algumas semanas antes -foi uma revelação do quanto a Liga se havia ramificado. Não querendo -sujeitar-se por mais tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da -Liga mediante a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise, e -Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembro de 1588, -juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga continuou a existir. -É que ella havia estabelecido em toda a França associações similhantes -aos clubs jacobinos do periodo revolucionario; e, quando os Guises foram -assassinados, a sociedade mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como -era conhecida, apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos -os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação do -parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel medo, fugiu -para o meio dos huguenotes, entregando-se ao seu grande rival, o rei de -Navarra. Jacques Clemente, frade dominicano, e um dos fanaticos da Liga, -foi, porém, em sua perseguição, e apunhalou-o. Algumas horas depois -Henrique III expirava, e o general huguenote ficava sendo o legitimo -herdeiro da corôa de França. - -=Henrique de Navarra.=—Ao principio foi apenas reconhecido pela parte -protestante da França. A Liga dispunha de grande poder, e estava -resolvida a impedir que o throno fosse occupado por um huguenote. Até -mesmo os catholicos romanos moderados com dificuldade podiam admittir que -reinasse em toda a França um rei que professava a religião da minoria. -O papa recusava-se a reconhecer um soberano protestante, e Filippe -II de Hespanha fez a ameaça de uma invasão das suas tropas. N’estas -circumstancias, Henrique de Navarra fez uma coisa extraordinaria: pediu -para ser instruido nas doutrinas da religião catholica romana. Isto -chamou para o seu partido um grande numero de romanistas moderados, e o -rei poude desbaratar a Liga nas batalhas de Arques e Ivry. - -A Liga continuava ainda a intimidai-o muito e projectava levar ao throno -Carlos de Guise, duque de Mayenne, ou o Cardeal Bourbon, tio de Henrique, -(que reinou effectivamente sob o nome de Carlos X), ou Filippe II de -Hespanha, que tinha casado com uma Valois. - -Em face de todas estas complicações, Henrique deu um passo que a sua -heróica mãe nunca teria dado. Fez-se catholico romano. O effeito d’isto -foi que n’um maravilhosamente curto espaço de tempo a Liga se dissolveu, -e Henrique IV foi acclamado rei por quasi toda a França. Os seus velhos -companheiros de armas e correligionarios, posto que deplorassem a sua -apostasia, não abandonaram o joven que desde a infancia havia sido seu -associado e chefe, e que, depois dos afflictivos dias de Bartholomeu, -havia deixado a côrte assim que isso lhe fôra possivel, para combater -junto d’elles. Elle, em troca, concedeu-lhes aquillo por que haviam -luctado durante trinta annos. - -=O Edicto de Nantes.=—Em 1598 foi assignado o famoso Edicto de Nantes, -que se adeantava mais em tolerancia religiosa do que qualquer outro -edicto do seculo dezeseis. Tinha, porém, um grande defeito, e era que as -circumstancias em que a França se encontrava tornavam impossivel garantir -liberdade religiosa sem conceder aos protestantes certos privilegios -politicos que os constituiam um estado no estado, e que mais tarde -obstaram á completa fusão dos dois partidos n’um governo. - -Este edicto outorgava completa liberdade de consciencia; de ahi em deante -ninguem mais seria perseguido por causa das suas idéas religiosas. -Todos os nobres que possuissem aquillo a que se chamava «superior -jurisdicção» tinham auctorização para ensinar o calvinismo, e toda a -gente podia aproveitar-se das suas lições. Os nobres que não possuissem -essa jurisdicção gozavam do mesmo privilegio, e podiam ter ao seu -serviço quantas pessoas quizessem, quando residissem em localidades -onde não houvesse catholicos romanos com a «superior jurisdicção». Dava -licença para que continuasse, ou fosse restaurado, o culto publico «a -que chamam reformado» em todas as cidades onde elle já existia em Agosto -de 1597. Quando os protestantes estivessem espalhados por um districto -provinciano, designar-se-hia para local do culto uma das povoações. -Prohibia-se aos protestantes o culto publico em Paris, ou a cinco milhas -de distancia d’essa cidade, e nas seguintes cidades, onde predominava -o fanatismo catholico romano: Reims, Toulouse, Dijon e Lyon. N’outra -qualquer parte os protestantes podiam ter egrejas, sinos, escolas, etc. -Os principaes limites da liberdade religiosa consistiam em que a religião -romana era declarada a religião estabelecida, e em que os protestantes -tinham de pagar dizimos ao clero official, não podiam trabalhar nos dias -santificados, e eram obrigados a conformar-se com as leis matrimoniaes da -egreja catholica. - -Os protestantes, ficou também declarado, tinham os mesmos deveres civis e -os mesmos privilegios dos catholicos romanos, e podiam concorrer a todos -os empregos e dignidades do Estado. Estabeleciam-se tribunaes de justiça -especiaes, para julgamento dos protestantes. Estes retinham durante oito -annos todas as cidadellas que lhes pertenciam anteriormente a 1597, -com todo o material de guerra; e n’essas cidades os governadores eram -nomeados pelos huguenotes. - - - - -CAPITULO IV - -A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS - - Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag. - 114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os - Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos - bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os - _mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de - Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e - do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange, - pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag. - 126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag. - 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag. - 130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag. - 132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua - organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag. - 134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da - Egreja na Hollanda, pag. 136. - - -=Os Paizes Baixos.=—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma foi talvez a -ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final, mas aquelle paiz -teve a honra de fornecer os primeiros martyres da fé protestante. - -Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt e do Rheno, e -na edade media constituiam o lado norte do velho reino de Lotharingia, -ou Lorrena, o celebre reino central, como era chamado. A sua situação, -com uma extensa costa maritima, e os grandes rios que o atravessavam, -tornava-o naturalmente um paiz commercial. O mar estava constantemente -usurpando a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios -trasbordavam, e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos. - -A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam o povo -fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar de si sem o auxilio -alheio. O paiz abundava em grandes cidades, habitadas por gente livre e -opulenta. A vida burgueza começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na -maioria das nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada. -N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes; -n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia em Utrecht, -considerava seu subdito o bispo da provincia. - -Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o espirito da -liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra dos Trouvères, e a -sua influencia era ainda bastante para que no povo se conservasse vivo o -espirito anti-clerical. O clero romano nunca teve muito predominio nas -cidades mais importantes, e mesmo nas provincias não conseguiu jámais -levar de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas, as quaes -algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros, ou sociedades -de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham por fim cultivar -os talentos dramaticos dos seus membros, ou para representarem os -oratorios medievaes, ou, mais frequentemente, para comporem e recitarem -poesias satyricas e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram -inexoravelmente atacados. - -Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores de Gerardo -Groot, o fundador das escolas para creanças pobres e dos asylos para -orphãos; e os seus collaboradores, os Irmãos da Vida Commum, tinham -diffundido os seus sentimentos de mystico desprezo por uma Egreja -mecanica e politica, e a sua ambição de que todos os paizes em redor -fossem devidamente educados e seguissem a religião do coração. Thomaz á -Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que viveram antes -da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos. - -=A politica de Carlos V.=—No seculo quinze a maior parte d’estes estados -livres e d’estas cidades opulentas tinha caido sob o dominio dos duques -de Borgonha, que eram ao mesmo tempo vassalos da corôa franceza e do -Imperio. Não vem agora a proposito relatar a avidez com que Filippe o -Bom, e seu filho, Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um -reino, e para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que -os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da França -constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos, quando casou -com Maximiliano de Austria, que era neto de Carlos V, o imperador na -epoca em que se deram os primeiros episodios da Reforma. - -Carlos V, que era conde de Hollanda, e _stadtholder_ dos Paizes Baixos, -assim como rei de Hespanha e imperador da Allemanha, nasceu e foi -educado nos Paizes Baixos, e reputava essas provincias suas propriedades -exclusivas. A politica constante do imperador foi a de auxiliar, até -onde podesse ser, os privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos -Paizes Baixos fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar -o governo e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo -não recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos de -procedencia hespanhola. - -=Os principios da Reforma.=—Quando a Reforma começou na Allemanha, e -foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando Luthero, os seus -adherentes e as suas obras sob o anathema do Imperio, Carlos fez sair nos -Paizes Baixos um decreto que continha disposições similhantes. O edicto -foi inefficaz na Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia -nos Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes e João -Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito, foram -queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros martyres da Reforma. -Luthero compoz um hymno em sua honra, que intitulou «Cantico dos dois -martyres de Christo em Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.» -Foram prohibidas as reuniões religiosas, assim como a introducção das -obras de Luthero. - -Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero foi -traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em 1523, e as doutrinas -da Reforma tornaram-se largamente conhecidas. - -Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias em nome de -Carlos não deram plena execução aos severos edictos que lhes foram -confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos, era inclinada á tolerancia -em materia de religião, e Maria da Hungria, sua irmã, era, segundo -se diz, secretamente partidaria da Reforma. N’estas circumstancias o -movimento alastrou-se com rapidez no meio do povo, que estava acostumado -a ler, pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador, «até -nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com pessoas aptas não -somente para ler e escrever, como tambem para discutir, quaes letrados, -as interpretações biblicas.» - -O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do fanatismo -anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram apoderar-se da -cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram as ruas soltando loucos -vaticinios. Na Frisilandia penetraram n’um convento, e combateram -desesperadamente com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o -edificio. O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira -caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram quasi -trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes que não -approvavam de modo algum aquelles ardores anabaptistas. A Reforma, apezar -d’este contratempo, foi fazendo progressos nos Paizes Baixos, até que, em -1555, Carlos V abdicou em seu filho Filippe II, começando então o povo a -luctar pela liberdade politica e religiosa. - -=Filippe II nos Paizes Baixos.=—Carlos viu todos os seus projectos -transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu adoptar a mesma -politica, usando, porém, do maior rigor e severidade. «Queria impôr, -illimitada e incondicionalmente, o despotismo temporal e espiritual a -que o restabelecido poder pontificio aspirava.» Sabemos agora que o -empreendimento de Filippe era, desde o principio, irrealisavel; mas o -elle ser ou não bem succedido constituiu um problema que teve a Europa -suspensa durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou -bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a lucta nos -Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira revolta contra -a politica de Filippe, e devido a ella o poder de Hespanha ficou tão -abalado que a Europa poude sentir-se em segurança. - -Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe achava-se -nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com desgosto os progressos que -a religião reformada fazia n’essa terra. A Hespanha estava segura, pois -que se havia inteiramente extinguido n’ella toda a liberdade civil e -religiosa. Filippe podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e -superintender pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu -que a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld, que -muitos dos nobres estavam em constante communicação com os principes -lutheranos da Allemanha, e que os protestantes dos Paizes Baixos se -entendiam tambem perfeitamente com os huguenotes francezes. As suas -medidas para exterminio da heresia foram cuidadosamente elaboradas e -com muita paciencia postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na -presença do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que lhe fosse -dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos detalhes, no -estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação do episcopado das -provincias. - -Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao sul dos -Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França, tanto ao norte como -ao sul, e quando em guerra com este paiz as tropas hespanholas haviam-se -aquartellado nas dezesete provincias, com o fim de se encontraram com o -exercito francez n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas -tropas e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios. -Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem o seu -consentimento representava um attentado contra um dos privilegios que as -provincias mais apreciavam; o paiz, além d’isso, tinha acabado de passar -por uma grande fome, e a brutalidade dos soldados ainda mais exasperava -o povo, chegando os habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam -morrer afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes -da soldadesca. - -Filippe não podia ficar para sempre nos Paizes Baixos, pois que a sua -presença era necessaria na Hespanha, e antes de se retirar precisava -de nomear uma pessoa que ficasse governando em seu nome. As provincias -queriam que esse encargo recaisse sobre um dos seus nobres, e os nomes -de dois membros da aristocracia, Guilherme de Orange e o Conde Egmont, -que eram tambem principes do Imperio Allemão, foram frequentemente -pronunciados na presença do rei. Tinham sido ambos muito affeiçoados -a Carlos V, havendo demonstrado por meio de actos a sua dedicação, e -possuíam todos os requisitos para o desempenho de aquelle logar. A -escolha de Filippe, porém, caiu em sua cunhada, Margarida de Parma, que -estava inteiramente dependente d’elle, era estranha ao paiz, cuja lingua -ignorava, e conforme Filippe suppunha, lhe obedeceria cegamente. Deixou -junto d’ella, como primeiro conselheiro, Antonio Perrenot, mais conhecido -pelo cardeal Granvella, creatura sua, e mais um ou dois que elle sabia ao -certo que executariam sem hesitação qualquer ordem que mandasse. - -=A Inquisiçao.=—O mais importante elemento de repressão, comtudo, -foi a inquisição. Esta terrivel instituição differia inteiramente da -organização que, com o mesmo nome, existiu antes da Reforma. A primeira -inquisição, estabelecida para exterminio dos albigenses do sul da -França, causou grandes soffrimentos aos não-conformistas da edade media, -mas as suas funcções eram geralmente entregues aos dominicanos e aos -franciscanos, e a rivalidade que havia entre uns e outros, combinada com -o facto de terem sido estas duas grandes ordens as que deram acolhida á -heresia medieval, obstou a que ella fosse o perseverante instrumento de -repressão de que os papas de epocas posteriores á da Reforma, os jesuitas -e os monarcas como Filippe II careciam. Foi, por conseguinte, remodelada -em Roma sob a superintendencia do cardeal Caraffa, que mais tarde se -chamou Paulo IV, separada das ordens monasticas, e restabelecida sobre -uma base independente. - -Tinha por fim, segundo a bulla que presidiu á sua fundação, extirpar -a heresia, primeiro em Italia, e em seguida em todo o mundo; e no seu -funccionamento havia quatro regras a observar. Em materias de fè não se -permittia um momento de demora, e a inquisição tinha de proceder com -o maior rigor á mais leve suspeita, não se respeitava as pessoas dos -principes ou dos prelados, por mais elevada que fosse a sua posição; -usar-se-hia de um rigor especial para com aquelles que se acolhessem á -protecção de um rei ou de uma personagem equivalente; e não se concederia -uma falsa tolerancia a qualquer heresia, sobretudo ao calvinismo. - -A idéa do cardeal Caraffa era tornar a inquisição alliada do Estado, -prestando o poder civil a sua coadjuvação para que as ordens da Egreja -fossem cumpridas, e acoimando esta de heresia qualquer acto ou phrase -que um Estado despotico entendesse que lhe era hostil. A inquisição -tornava-se assim uma terrivel maquina nas mãos de um governo despotico, -e, na verdade, onde quer que a sua presença se fez sentir por muito -tempo, toda a liberdade civil e religiosa foi suffocada. - -A Italia e a Hespanha ainda não se restabeleceram das feridas por ella -abertas. - -Carlos V estabeleceu a Inquisição tanto em Hespanha como nos Paizes -Baixos, e, de accordo com o que ella preceituava, publicou alguns edictos -cheios de violencia, aos quaes, não obstante a passiva opposição dos -regentes, não houve remedio senão obedecer. Foi prohibido imprimir, -copiar, conservar escondido, comprar, vender ou dar qualquer livro de -Luthero, Œcolampadius, Zwinglio, Bucer, Calvino, ou qualquer outro -hereje. Foi tambem prohibido damnificar, de uma ou outra fórma, a imagem -de qualquer santo canonizado, assistir a reuniões hereticas, ler as -Escripturas, e entrar n’uma discussão ou controversia religiosa. Os -transgressores, se se retractassem, eram mortos á espada ou enterrados -vivos; se não se retractassem, eram queimados, com confiscação de todos -os seus bens. Aquelle que denunciasse um hereje recebia uma boa parte -da sua fortuna, logo que fosse provada a veracidade da accusação. Os -suspeitos de heresia eram obrigados a abjurar, e, se tornava a haver -duvidas a seu respeito, procedia-se com elles como se fossem herejes -declarados. Durante o reinado de Carlos houve todos os annos um bom -numero de execuções, e, não obstante, a Reforma ia-se propagando. Em 1550 -já tinham fugido á inquisição 10:000 pessoas, que procuraram refugio em -paizes estrangeiros. Filippe, a cujo conhecimento isto chegou, era de -opinião que o terrorismo ainda não tinha sido exercido senão em pequena -escala; concedeu, portanto, mais amplos poderes á inquisição, e ordenou á -regente e ao seu conselho que prestassem aos inquisidores todo o auxilio -que lhes fosse necessario. - -=Os novos bispados.=—No principio do seculo dezesseis havia nos Paizes -Baixos quatro bispados: o de Arras, o de Cambray, o de Tournay e o de -Utrecht. Filippe, só com uma pennada, propoz que se acerescentassem -quatorze. O cardeal Caraffa, já então o papa Paulo IV, deu logo o -seu apoio a essa proposta, pois que, disse elle, a heresia andava -desenfreiada pelos Paizes Baixos, e a seara era abundante mas poucos -os obreiros. O clero dos Paizes Baixos protestou; o povo, indignado, -appellou para a constituição do paiz, que não permittia que o clero -fosse augmentado sem o consentimento d’este. Todos os protestos, porém, -foram baldados. Em 1560 o paiz foi dividido em quinze bispados, que -ficaram sobre as ordens de tres arcebispos, tendo por primaz o arcebispo -de Mechlin; e Filippe alcançou assim um bom numero de voluntarios -instrumentos de repressão, assim como uns poucos de tribunaes onde os -casos de heresia fossem julgados e sentenciados. - -=Tornar-se-ha hespanhol o paiz?=—No entretanto o paiz ia-se alarmando. -Estas mudanças foram para a maioria dos neerlandezes indicios de que se -intentava reduzir os Paizes Baixos á condição de Hespanha. O patriotismo -identificou-se com a Reforma, e a causa nacional e a religião evangelica -caminharam, por assim dizer, de mãos dadas. - -Isto deu um grande impulso ao movimento protestante. Tornou-se a causa -popular. Multidões intervieram nos castigos ecclesiasticos, apoderaram-se -das victimas condemnadas á morte pela inquisição, promoveram tumultos -por occasião da missa, e por vezes atacaram as egrejas e derrubaram as -imagens. - -Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem as suas queixas. -O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram culpado de todas as -medidas dignas de censura. Filippe, fingindo concordar com os nobres, -transferiu Granvella para outro ponto; mas o velho systema de terrorismo -continuou, e os nobres perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade, -os queria fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam -protestado. - -A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou uma nova -resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez, fallou -contra a proposta em termos violentos; houve uma assembléa de nobres, -e resolveu-se encarregar o conde Egmont da missão especial de informar -o rei dos sentimentos do povo das provincias; porque ainda se julgava -que Filippe ignorava certas coisas de que aliás estava perfeitamente -informado. - -Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um subdito leal -do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido de Filippe, esse -alguém, segundo a opinião geral, era Egmont. Partiu para Madrid em 1565, -onde foi recebido com apparente cordialidade, e assegurou-se-lhe que as -representações dos nobres seriam attendidas. - -Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de cumprir as suas -promessas. Deu, pelo contrario, ordem para que em todas as cidades fossem -proclamados, de seis em seis mezes, os decretos de Trento, os edictos com -caracter de perseguição e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo -contam os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o -commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e todo o paiz -parecia ter passado por um enorme cataclismo. Distribuiam-se pamphletos, -que eram avidamente lidos, contendo apaixonados appellos ao povo para -que pozesse termo á tyrannia. Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta -aberta ao rei, dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos -n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.» Damos -graças a Deus por até os nossos inimigos se verem constrangidos a dar -testemunho da nossa piedade e da nossa innocencia, e tanto assim que se -diz commummente: «Fulano não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não -pratíca immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita». -«E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo que se pode -inventar.» - -=Os mendicantes.=—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes tinham -um espirito mais ousado resolveram unir-se para resistirem á tyrannia. -Os seus chefes naturaes, que eram o principe de Orange e os condes de -Egmont e de Horn, conservaram-se afastados, por considerarem insensata -aquella empreza. Os confederados resolveram começar dirigindo-se em -solemne procissão á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição -e a revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza em 5 -de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham preparado; e a -regente, perturbada com a imponencia do acto, convocou a toda a pressa -o conselho para saber o que havia de responder. Barlaymont, um dos seus -conselheiros, e pessoa muito da intimidade de Filippe, foi de opinião -que «aquelle bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do -palacio, A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse -as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles reunidos n’um -banquete para deliberarem, o conde Brederode levantou-se, e disse: -«Chamam-nos mendicantes. Acceitamos esse nome. Empenhamos a nossa palavra -em como havemos de resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e -á Sacola do Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro como -as que usam os mendigos que andam de terra em terra, e, deitando vinho -n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade da causa. - -=Prégações ruraes.=—O nome de mendicantes foi adoptado com grande -enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. Por toda -a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos e fidalgos com a sacola -de coiro dos mendigos vagabundos. O povo começou a compenetrar-se da -força de aquella aggremiação. Realisaram-se logo grandes conventiculos, -ou prégações ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as -mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas em -redor, collocando-se os homens, armados, um pouco fóra do ajuntamento, -e assim escutavam as pregações dos ministros excommungados. Liam as -Escripturas, cantavam hymnos, e ouviam orações feitas na sua lingua -natal. Era tal a agglomeração de gente, e estavam tão vigilantes e tão -bem armados, que os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente -convenceu-se de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não -poderia conter a excitação popular. - -O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações ao ar livre se -faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos romanos. Quando -os padres passavam pelas ruas de Antuerpia levando processionalmente -a milagrosa imagem da Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken! -(Mariasinha) chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a -cathedral e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. N’outros -pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar outros actos de -violencia. A regente via-se sem forças para pôr termo aos tumultos, e, -em desespero, concedeu ao povo a abolição da inquisição e a tolerancia -da doutrina protestante. Confiando na sinceridade d’estas concessões, os -nobres tomaram sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir -as desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o conde -Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação. - -Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado do -regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, determinou, na -primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz e exterminar os cabeças -de motim. Com a sua habitual dissimulação, procurou disfarçar os seus -intentos, e o conde Egmont foi por elle enganado. O principe de Orange, -sempre bem informado, e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e -suspeitava de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria, -e preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei havia -de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres que haviam -dirigido o movimento não estavam suficientemente unidos para resistir; -que os chefes menos cautos dos Mendicantes se haviam de revoltar; e que o -rei havia de tomar, indescriminadamente, uma furiosa represalia. - -Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem de Walcheren; -reuniram-se em grande numero em Anstruweel, e ameaçaram Antuerpia. Na -sua marcha, destruiram reliquias e despojaram as egrejas das imagens e -dos paineis. Egmont, querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre -esses insurgentes e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião. - -O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o principe de -Orange tinha tão exactamente interpretado o curso dos acontecimentos que, -quando elle ainda ia a caminho do seu voluntario exilio, da Allemanha, ia -nos Paizes Baixos o duque de Alba, á frente de um novo corpo de exercito -hespanhol. - -=O duque de Alba nos Paizes Baixos.=—Fernando Alvarez de Toledo, duque -de Alba, era um dos servidores de Filippe II que mais se parecia -com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um ignorante em todos os -assumptos politicos e economicos, um avarento, e um impudente enganador. -Publicações recentes teem demonstrado que elle possuía muito pouco -do talento que os remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o -recommendou a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por -elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, e o -seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos os impulsos -de misericordia. - -Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava a dissimular. -Assegurou á regente que não era sua intenção fazel-a substituir por elle, -e fez todo o possivel para acalmar as suspeitas dos nobres e dos estados -dos Paizes Baixos. Ao mesmo tempo dava ordem ao duque para acabar com -a Reforma de um modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de -todos os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões -á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por carta, ao duque -de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais eminentes que haviam tomado -parte nos tumultos e pôl-os em condições de não tornarem a fazer damno; -prender e castigar os que de entre o povo estivessem criminosos; obter -pela violencia todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres -de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a maxima -severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização dos novos -bispados, e punir as cidades rebeldes com a Inquisição e com a imposição -de subsidios.» As tropas embarcaram em Carthagena, desembarcaram em -Genova, e marcharam, atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o -Luxemburgo e Paizes Baixos. - -Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o seu desejo -era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara de um modo que -agradasse a seu amo. Uma das suas maximas favoritas era: «Antes assolar -uma nação por meio da guerra, se d’esse modo ella se conservar fiel a -Deus e ao rei, do que deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus -adherentes, os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente -convencido de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso dos -seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, em pouco tempo -domesticarei esta gente de manteiga», disse elle, pouco depois de ter -entrado no paiz. - -=A prisão dos Condes Egmont e Horn.=—A primeira coisa que elle fez foi -lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu á mais vil -dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, dispensou-lhes todas as -amabilidades, e fez todo o possivel para os conservar ao seu alcance até -ter opportunidade da os mandar prender. Ficou muito desapontado quando -Guilherme de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços -para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, prendeu o Conde -Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os n’um carcere. - -Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles fidalgos -tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei. Egmont havia incorrido no -odio do povo pela firmeza com que procurou reprimir a insurreição, e Horn -perdera todos os seus bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe. -Aquellas prisões mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do -«rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente -lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella soube em Roma, do feito de -Alba, perguntou: «Elle tem em seu poder o Silencioso?» E, depois de o -informarem de que Guilherme estava em liberdade, disse que Alba não tinha -conseguido coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se lhe -havia escapado tinha mais valor do que todos os outros juntos. - -Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em seguida de -aterrorisar o povo. Organizou um _Conselho de Disturbios_, que substituiu -o antigo Conselho de Estado, e que teve a sua primeira, reunião em 20 de -Setembro de 1567. Este conselho suspendeu todo o julgamento de causas -pelos tribunaes ordinarios, e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue». -Alba presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por -provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel para -evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia elle, «só -teem servido até aqui para lavrar a sentença depois de se fazer prova -do crime; mas agora as coisas passam-se de outra fórma». Este conselho -de disturbios privava toda a gente das suas garantias individuaes, e ia -investigar todos os delictos commettidos no passado. A accusação vulgar -era a de ter conspirado contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem -do codigo medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os que -haviam assignado petições para que os edictos contra a heresia deixassem -de ser applicados, todos os que se haviam, de algum modo, opposto á -creação dos novos bispados, todos os que haviam dito que o rei tinha -obrigação de respeitar as liberdades das provincias, eram tidos como -traidores, e castigados com multas, com prisões e com a pena capital. -Todos os que eram apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os -que não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar livre, ou -que não haviam reagido contra a destruição das imagens, eram egualmente -tidos como traidores. Era sufficiente a suspeita, dispensava-se a -convicção, e em tres mezes o Conselho de Sangue enviou para o cadafalso -mil e oitocentas pessoas. Isto teve logar durante annos. Guilherme de -Orange pasmava da paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma -organizada resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o vosso -espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?» - -No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos d’elles -vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das tropas hespanholas, -roubando egrejas, mosteiros e residencias de clerigos. O paiz havia caido -na anarquia. - -=A guerra civil. O principe de Orange.=—Em 1568 o principe de Orange -conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. Seu irmão, Luiz -de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu evitar que o inimigo se -apoderasse d’essa provincia. O duque de Alba marchou então contra os -protestantes. Antes de se pôr a caminho, porém, executou, para espalhar -o terror na capital, vinte membros da nobreza, e entre elles os condes -Egmont e Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente -com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo o -exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. Regressou depois a -Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho de Sangue. - -O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a vau o Meuse, -chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos soldados, marchou sobre -o Brabant, e procurou dar batalha a Alba. O duque, que conhecia a sua -inferioridade, diligenciou evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas -marchas, e desalental-as. O exercito protestante, que era composto, na -sua maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente -o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam sempre de mau -partido, viu-se obrigado, com a approximação do inverno, a licenciar -as suas tropas. Uma parte do exercito, composta de neerlandezes, -conservou-se junto d’elle; e o principe de Orange, com os seus dois -irmãos (o terceiro havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e -foi em auxilio dos huguenotes francezes. - -Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe chamavam, -tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia combatido contra os -hespanhoes mais por patriotismo do que por motivos religiosos; mas -durante o segundo desterro, quando a situação da sua patria se tornou -extremamente precaria, transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as -verdades da religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde -esse tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso, -descançando confiadamente na direcção e protecção de Deus. - -=Os mendigos do mar.=—A parte mais valente da população neerlandeza eram -os marinheiros e os habitantes da costa, que luctavam quotidianamente com -as ondas do oceano germanico. Essa gente tinha, em grandissima parte, -acceitado as doutrinas dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o -amor da liberdade, a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e -a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso -chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do principe de Orange -para a utilidade de constituir com estes marinheiros, pescadores e -traficantes maritimos uma força naval. - -Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua obra de execução -por meio do fogo, da agua e da decapitação, o principe conseguiu -pôr-se em communicação com os marinheiros e pescadores hollandezes. -Tinha resolvido crear uma armada para dar caça aos navios hespanhoes, -e conservar acceso o espirito patriotico das provincias. Deu as suas -instrucções aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e os -«Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror dos hespanhoes. -Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao principio, as suas -tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, mas, em virtude de -uma reclamação do embaixador hespanhol, a rainha Isabel prohibiu que -desembarcassem em Inglaterra. Viram-se compellidos a saquear as costas da -Hollanda, tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como em -terra. - -O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. As suas -proscripções e execuções haviam diminuido muito a população. O commercio -tinha chegado á ultima; da agricultura ninguem cuidava; as industrias -estavam paralysadas. Alba estava embaraçado por não ter dinheiro com -que pagasse ás tropas. Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que -havia de fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse um -rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um leigo no que diz -respeito a economia politica, e não comprehendia que com as disposições -que tomara havia feito seccar os mananciaes da riqueza, transformando -em poucos annos um paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria -possivel extrair dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim -estabeleceu novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição -que em Hespanha estava matando a vida commercial, e propoz o introduzil-a -nos Paizes Baixos. - -O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda a propriedade; -esse imposto ficou sendo chamado a _Centesima_. A accrescentar a isto, -ficava-se tambem na obrigação de contribuir com cinco por cento, ou seja -a vigesima parte, de todas as rendas de terras, ou bens immoveis, e com -dez por cento, ou a decima parte, de todas as vendas de generos ou de -bens moveis. Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava a -ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio n’uma terra -onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição do que tudo -quanto Alba tinha até então posto em pratica. A primeira provincia que -protestou foi a de Utrecht, e logo depois todas as outras fizeram coro -com ella. Alba, comtudo, estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder -dependia do exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém, -que tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para de ali -a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, a pôr desde -logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens terminantes para -se começarem a cobrar os dez e os vinte por cento. O resultado foi parar -logo todo o commercio e industria. Os padeiros não quizeram cozer pão, -os cervejeiros não quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se -a fazer calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira -necessidade. E, como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto -sobre as vendas não podia ser cobrado. - -=A tomada de Brill.=—Emquanto os estados permaneciam n’uma insurreição -passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», organizada por Guilherme, -guerreava incessantemente os hespanhoes, e, com uma ousadia que o bom -exito até ali alcançado lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn, -e tomaram a cidade de Brill, que era considerada uma das chaves da -Hollanda. A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre -toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que ficou -devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias. - -De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente senhores -dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve incerta durante muito tempo, -mas houve sempre uma parte do territorio flamengo independente de -Hespanha. Os «Mendigos do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram -repetidos ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes -cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando por -proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da nação. O principe -acceitou esse perigoso cargo. Estava em França quando lhe deram a -noticia, e, disfarçando-se de camponez, atravessou as linhas do inimigo, -e deu-se pressa em tomar o commando dos insurgentes. Antes de chegar até -junto d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu favor. -Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou Dort, onde de eommum -accordo se resolveu estabelecer uma nova constituição, e, por unanimidade -de votos, o principe foi reconhecido «o verdadeiro representante do rei -na Hollanda, Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos, -convieram em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em -proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar -liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes. - -Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, atravessando -o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas outras cidades. Foi -acclamado em toda a parte, e a sua marcha foi tão facil que elle contava -chegar em pouco tempo a Bruxellas. Uma vez lá, confiou na promessa que -Coligny lhe fez de o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio -flamengo. Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que -chega uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas -proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça». Coligny -e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na vespera de S. -Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. Tornava-se necessario -abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha tomado pouco antes; e o exercito -do principe, apoz a retirada, foi dispensado do serviço. - -Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, Mechlin, Tergoes, -Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da capitulação de Mons foram -ignominiosamente violadas. Mechlin foi, de caso pensado, saqueada e -incendiada pelas tropas hespanholas. O general a quem foi confiado o -esbulho de Zutphen recebeu ordem para queimar todas as casas e matar -todos os habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente, -e por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. Quando -os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue frio, todos os -soldados hollandezes, e com elles muitos centos de cidadãos, e, ligando -os corpos a dois e dois, lançaram-n’os na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia -que os catholicos romanos tinham resolvido exterminar os protestantes -quando vissem que não podiam convertel-os. - -Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava -inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo de -Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, sendo obrigado a -retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente á esquadra hespanhola -que fôra enviada para os destroçar, dispersaram os navios e fizeram -prisioneiro o almirante. A nação de pescadores e de lojistas, de quem -a Hespanha e a Europa haviam escarnecido por verem a paciencia com -que supportavam as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça -de heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol. -Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento para -o outro uma importante personagem na Europa, que os reis precisariam de -lisongear. Publicou uma carta dirigida aos principes da christandade, -para justificar a revolta dos seus compatriotas. «Alba», disse elle, -«ha de tingir todos os rios e regatos com o nosso sangue e pendurar -em cada arvore da Hollanda um hollandez para que os seus desejos de -vingança fiquem satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em -defeza das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais força -do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, e legar um -nome aureolado de gloria, do que curvar os pescoços deante do jugo e -permittir que a nossa terra fique escravisada. É por isso que as nossas -cidades se comprometteram a resistir a todos os cercos, a soffrer todas -as calamidades, a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e -deixar-se morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer ás -intimativas d’esse algoz sedento de sangue». - -A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de toda a -confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca que o mandasse -retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, considerou sempre -efficacissimo o seu systema, mesmo depois dos revezes soffridos. Era -sua opinião que se tivesse sido um pouco mais severo, se tivesse -accrescentado mais algumas gotas do sangue que fez derramar, o seu exito -seria completo. Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do -cargo que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor senão -o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera pôr uma guarnição -hespanhola. - -=Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.=—A pessoa que Filippe -II escolheu para substituir o duque de Alba foi D. Luiz Requescens y -Zuniga, membro da mais alta aristocracia de Hespanha e cavalleiro de -Malta. Era elle um homem de indole magnanima, de nobre caracter, e, se -tivesse sido enviado á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse -paiz teria sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de -mais, e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, n’aquella -epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado numero de soldados. -Os patrioticos defensores da Hollanda não poderiam leval-a de vencida em -campo aberto; comtudo, o novo commandante hespanhol não os intimidou. Em -todas as cidades fortificadas se luctava com a energia do desespero, e os -«Mendigos do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, aos -patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois de observar tudo -isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada aqui, não comprehendia -como os rebeldes podiam sustentar frotas tão consideraveis, quando -vossa magestade nem uma, sequer, podia. Agora vejo que os homens que se -batem pelas suas vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua -religião, embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; dão-se -por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo de adoptar um -methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu os odiados impostos, -dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou uma amnistia geral. Procurou -também chegar a um accordo com os insurrectos. - -Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma amarga -experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos ouvido demasiadas -vezes», disse Guilherme, «as palavras Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo -que dessemos ouvidos ás vossas propostas, quem nos garante que o rei -as não daria depois por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto -pelo papa?» A lucta continuou, portanto, e Requescens, que detestava a -politica do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa -mesma politica havia provocado. - -A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes tinham -saido sempre victoriosos em campo aberto, e quando no principio da -primavera de 1574 Guilherme e seu irmão Luiz entraram na Hollanda á -frente de um novo exercito composto, na sua maioria, de mercenarios -allemães, alcançaram outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva, -segundo pareceu, do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente. -O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo os seus -dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, Conde Palatino. Mais -uma vez se afigurou que os hollandezes acabariam, por fim, n’uma completa -submissão aos hespanhoes. Como sempre, porém, os heroes da patria, -vencidos em terra, eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas -combateu-se com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam -deixar de reconhecer a sua derrota. - -Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota no principio d’esse -anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se de quarenta navios e -mettendo o resto no fundo. - -=O cerco de Leyden.=—A cidade conservava-se havia muito tempo em poder -dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo empenho em se apoderar -d’ella. Luiz de Nassau fez levantar o primeiro cerco que lhe pozeram, -mas desde maio de 1574 que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos -ataques. Não foi possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker -Haide, encontrar-se frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava -de todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas. Leyden -estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia enviar soccorro -algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia de pomares e de searas que -já pouco tempo esperariam pela ceifa, e esta planicie, como quasi todas -as da Hollanda, estava abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte, -facil inundal-a, bastando para isso destruir os diques que se oppunham -á invasão das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão -fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou esse alvitre -aos respectivos habitantes, que o acceitaram. Foram, pois, abertos os -diques, e a esquadra dos «Mendigos do Mar» preparou-se para entrar com -a maré e navegar em seguida sobre submersas hortas, pomares e campos de -semeadura. O plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma -de difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques; a -agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos a impelliam -para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez mais escassos na cidade, -e a faminta população, subindo aos campanarios, via a agua sempre lá -ao longe, via que os soccorros se approximavam muito vagarosamente, -como se nunca houvessem de chegar, ou então como se houvessem de chegar -tarde de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria -em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e uma honrosa -capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto das muralhas um dos -defensores, «e quando a fome nos apertar muito comemos o esquerdo, e -deixamos o outro para manejar a espada». Quatro mezes se passaram n’um -indescriptivel soffrimento, e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao -sopé das fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes -fugiram aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre elles, -soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos do que papistas». -Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se á sumptuosa egreja -para dar graças a Deus pelo livramento que, por Sua misericordia, lhes -viera do mar. Quando a numerosa congregação estava entoando um psalmo de -libertação, as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços. -Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas privações, tendo -agora uma consciencia nitida do seu inesperado livramento, se pozera a -chorar. - -A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que chegou a esta -localidade quando o principe de Orange estava assistindo ao serviço -religioso da tarde, sendo só depois de elle terminar que o povo soube do -succedido. O principe, apezar de doente, montou a cavallo, e partiu logo -para Leyden, para tomar parte no regozijo publico. Propoz que, em acção -de graças, se fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi -assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade tornou-se -o centro do protestantismo das provincias. Picou sendo na Hollanda o que -Wittenberg era na Allemanha, Genebra na Suissa, e Saumur em França. - -=Negociações entre as provincias do sul e as do norte.=—O levantamento -do cerco de Leyden mareou um novo periodo na guerra da independencia. -O oommissario hespanhol via que se estava formando, vagarosa e quasi -imperceptivelmente, um novo estado protestante, e as difficuldades que -de todos os lados o assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava -elle luctando com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576. -A sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola, e os -acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos neerlandeses que eram -catholicos romanos aonde o governo hespanhol poderia tel-os conduzido. -A morte de Requescens produziu uma certa perturbação na politica -hespanhola. Desde o tempo do duque de Alba o pagamento das tropas -tinha sido feito com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam -despejados, e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de -soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse liquidada, -revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear qualquer cidade», -era o seu grito. A guarnição de Aalst foi a primeira a revoltar-se, sendo -secundada pelas de quasi todas as cidades fortificadas das provincias -do sul. Os revoltosos pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat -e Antuerpia. Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e -assassinio e durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e -opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia ser -exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal. - -O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar com as -suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da importante cidade de -Ghent. Os habitantes das provincias do sul tanto nobres como plebeus, -tinham, por sua vez, sido victimas de aquellas horrorosas calamidades -que os seus compatriotas os protestantes do norte, tinham, havia muito, -experimentado. Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou -em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de Flandres e de -Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias do norte; e pediram -a Guilherme que os livrasse dos hespanhoes. Em Ghent realisou-se um -congresso de representantes das provinciais do norte e do sul, ficando -assentes os preliminares de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou -a _Pacificação de Ghent_, que foi assignada por delegados de dezesete -provincias. - -Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se uma completa -liberdade de commercio entre as provincias do norte e as do sul, ficavam -revogados todos os edictos contra os protestantes, concedia-se protecção -aos catholicos romanos, todas as provincias se uniam para constituir -um unico Estado, e o principe de Orange ficava sendo _statholder_ até -posterior decisão, que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes. - -=D. João de Austria nos Paizes Baixos.=—A _Pacificação de Ghent_ alarmou -em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria, irmão de -Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado aos Paizes Baixos -na qualidade de _statholder_ com plenos poderes. Os estados recusaram -reconhecel-o emquanto elle não fizesse sair as tropas hespanholas. -Apoz algumas negociações, as provincias obtiveram, apparentemente, -que elle attendesse ás suas aspirações com a publicação do _Edictum -Perpetuum_, que garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para -com os protestantes, e a unificação dos estados; por algumas cartas -confidenciaes que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e o -seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão, e o -conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos romanos do sul -com os protestantes do norte. Os Estados Geraes não reconheceram a -sua auctoridade, e designaram o principe de Orange para governador de -Brabante. Havia, comtudo, muita difficuldade em que o norte e o sul se -unissem por laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles -tempos, em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma -violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente. Os -nobres de Flandres e de Brabante representavam dois papeis, e essa sua -duplicidade animou D. João de Austria a atacar as forças do principe -de Orange. A guerra terminou com a batalha de Gemblours, em que os -hespanhoes alcançaram uma completa victoria. O principe, comtudo, -mostrou-se, como sempre, tão grande na derrota como na victoria, e -o _statholder_ sentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da -Hollanda, se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas -estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe Alexandre de -Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de Filippe. - -=Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.=—Alexandre Farnese, principe de -Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado anteriormente -aquelle cargo, e, no dizer de alguns auctores, foi o ultimo dos grandes -homens que a Hespanha possuiu no seculo dezeseis. Era um excellente -general, um habil politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas -provincias n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força era a -rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul catholico romano. - -O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias do norte -suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido nos negocios de -que resultou a batalha de Gemblours. As provincias do sul não queriam -submetter-se á dominação dos herejes do norte. Alexandre aproveitou-se -habilmente d’esta desunião para prender as provincias do sul á Hespanha, -com o inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram -mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos na sua -determinação de permanecerem livres. - -=O Tratado de Utrecht.=—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia, Guelders, -Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se representar n’uma -assembléa, e redigiram o celebre Tratado de Utrecht, que continha, em -esboço, a futura constituição das provincias unidas. As Sete Provincias -não se separaram da Hespanha. Diziam-se ainda subditas da corôa -hespanhola, mas reivindicavam o direito de darem culto a Deus e de se -governarem segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram -inteiramente o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia, -escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo. Isto teve -logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação de Filippe, em que -este denunciava Guilherme como um inimigo da humanidade, e offerecia uma -recompensa de vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo -de nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente, a -quem assassinasse o principe. - -Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram attingindo -gradualmente uma completa independencia politica e tornaram-se uma -potencia protestante. Guilherme da Orange foi em 1584, morto a tiro por -um fanatico catholico romano chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram -e obtiveram parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não -terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para Governador -em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete annos, mas -já educado por seu pae para ser um habil general e um prudente chefe -politico. Poz-se resolutamente á testa de aquelle conflicto com a -Hespanha, que parecia interminavel. Isabel de Inglaterra prestou-lhe o -seu auxilio, com o qual ella ficou mais prejudicado do que outra coisa. -Depois da destruição da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na -monarquia hespanhola, alcançou uma notavel victoria sobre as tropas -catholicas romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora -vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes abalaram -fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos navios que voltavam -das indias Occidentaes e Orientaes, carregados de preciosidades. Em 1607 -combinou-se um armisticio, e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas -durante doze annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz -definitiva. Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia, e -constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia no mar só era -disputada pela Inglaterra. - -=A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.=—Durante os annos de -dura perseguição que o protestantismo soffreu nos Paizes Baixos desde o -principio da sua existencia, os protestantes, não obstante os rigores -postos em pratica contra elles, poderam organizar-se sob a fórma de -egreja, e publicar uma confissão. Isto não foi feito sem dificuldades, -que até entre elles proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos -tinham recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que -só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia chegado ao -seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos Paizes Baixos haviam -aprendido o Evangelho em Wittemberg, com Luthero, e nas provincias do -norte eram numerosos os lutheranos. Um pouco mais tarde as opiniões -de Zwinglio penetraram na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que -tomavam muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul a -Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes, educados no -calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia adherentes de Luthero, de -Zwinglio e de Calvino. Cada um dos partidos differençava-se dos outros, -especialmente pelo que dizia respeito ao governo da egreja; e, posto -que estas differenças fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde -na contestação que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante, -acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o calvinismo -foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo, e a egreja dos -neerlandezes tornou-se calvinista, tanto na doutrina como na disciplina. - -=A Confissão Hollandeza.=—N’uma epoca relativamente afastada, isto é, -em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor flamengo, Guido de -Brés, juntamente com Adriano de Saravia, Modetus, capellão de Guilherme -de Orange, e Wingen, prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles, -justificar pela Escriptura a religião reformada. - -Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e martyres dos -Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de Mons. Havia estudado para -padre, e converteu-se dos erros do romanismo mediante o estudo das -Escripturas Sagradas. Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra, -onde, nos dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois -para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista no norte da -França e no sul dos Paizes Baixos. Era um ardente admirador da Confissão -da Egreja Franceza, e modelou a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela -celebre _Confessio Gallica_. - -Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi revista por -Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi apresentada ao rei, -Filippe II, em 1562, assim como a Confissão de Augsburgo foi apresentada -a seu pae Carlos V. O eloquente discurso que acompanhou a Confissão pode -ser comparado á dedicatoria a Francisco I, que prefaciou os _Institutos_ -de Calvino. Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e -declaram que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo a -consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão a Christo, ainda -mesmo que tenham, segundo a linguagem que empregaram, de «offerecer as -costas ás chibatas, as linguas ás facas, e os corpos ao fogo, certos -de que os que seguem a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e -renunciar-se a si proprios». - -Esta Confissão, gradualmente adoptada pelos protestantes dos Paizes -Baixos, introduziu o calvinismo nas egrejas d’essa parte do mundo. - -=A Constituição da Egreja Hollandeza.=—Em 1563, isto é, quando ainda -havia perseguição, os delegados de varias congregações protestantes -reuniram-se em synodo, e concordaram n’um systema de governo de egreja, -que copiou, em grande parte, os seus principios das _Ordenanças -Ecclesiasticas_ de Genebra; e a constituição da egreja, quasi desde o seu -inicio, foi baseada no modelo de Genebra. A organização presbyteriana, -com pastores, professores, presbyteros e diaconos, não foi adoptada nos -Paizes Baixos sem protesto da parte dos lutheranos, mas quando veiu sobre -elles a feroz perseguição do duque de Alba a fórma presbyteriana do -governo da Egreja foi a que melhor resistiu a todos os embates, sendo por -fim a que se tornou preponderante. O systema consistorial de Luthero é -apenas possivel quando o Estado esteja em favoraveis disposições para com -a egreja, mas o presbyterianismo, como a França, a Escocia e os Paizes -Baixos mostraram, pode manter-se, até mesmo quando a «Egreja sentir o -peso da cruz.» - -N’uma assembléa da Egreja que teve logar em Dordrecht, em 1574, a -primeira assembléa geral da Egreja Hollandeza, foi revista, ampliada e -formalmente adoptada uma serie de artigos que já haviam sido approvados -n’uma reunião em Emden, e que continham os principaes elementos da -organização presbyteriana. Todos os ministros tinham de obedecer ás -_assembléas classicas_, ou presbyterios; e todos os presbyteros e -diaconos tinham de assignar a Confissão de Fé e os artigos respeitantes -ao governo da Egreja. - -Torna-se necessario explicar duas particularidades do presbyterianismo -hollandez. As sessões da egreja não são, como na maioria das outras -egrejas presbyterianas, assembléas congregacionaes que se occupem do -governo de uma congregação. A sessão da egreja é composta de ministros e -presbyteros de um certo numero de congregações, e, a certos respeitos, -assimilha-se a um presbyterio. E, comtudo, como as das outras egrejas -presbyterianas, o tribunal de primeira instancia. - -A outra particularidade da organização da Egreja hollandeza consiste em -que raras vezes podia deliberar como egreja. Isto era devido em parte -ao ciume do Estado protestante, e em parte á constituição politica -das Provincias Unidas. A Hollanda, ou as Provincias Unidas, era uma -confederação de estados, a muitos respeitos independentes uns dos outros. -A Reforma tendia a descentralizar a Egreja, e a produzir uma organização -ecclesiastica separada para cada estado politico independente. Tambem -se notava na Hollanda a tendencia para a formação de tantas egrejas -separadas quantas eram as provincias. - -As Sete Provincias não constituiam uma nação; constituiam, antes, uma -confederação. Tinham-se obrigado a proteger-se umas ás outras na guerra, -e, portanto, a manter um exercito commum, e a contribuir para um fundo -militar commum; mas não formavam um estado. Os negocios internos de cada -provincia estavam sob a superintendencia de cada estado separado. - -Quando Guilherme de Orange foi eleito governador vitalicio, uma das -clausulas a que elle ficava obrigado era a de que não reconheceria -qualquer concilio ou consistorio ecclesiastico que não tivesse a -approvação da provincia em que propozesse reunir-se. Os negocios -religiosos de cada provincia tinham de ser regulados por essa provincia. - -Isto dava um aspecto de divisão á Egreja hollandeza, e impedia, -realmente, a acção incorporada e unida. A Egreja só podia reunir-se em -assembléa geral quando todas as Sete Provincias concordassem em dar-lhe -permissão. Este embaraço politico obstou muito á utilidade e influencia -da Egreja Reformada Hollandeza, e deu logar a uma continua lucta, na -Hollanda, entre a Egreja e o Estado. - -=A força da Egreja na Hollanda.=—A prolongada peleja de quarenta e -cinco annos contra a Hespanha e o papismo parecia estimular as energias -da Egreja hollandeza e das suas universidades, e os seus collegios -theologicos em breve rivalizaram com mais antigas sédes de instrucção. A -universidade de Leyden, erguida em acção de graças quanto a uma milagrosa -libertação, foi fundada em 1575; Franecker começou a existir dez annos -depois (1585); as universidades de Gröningen (1612) Utrecht (1636) e -Harderwyk (1648) seguiram em successão apoz alguns annos de intervallo. -Todas estas universidades eram escolas theologicas, frequentadas por -alumnos procedentes de quasi todos os paizes protestantes da Europa. Os -theologos hollandezes do seculo dezesete tornaram-se famosos quanto á sua -erudição, zelo e agudeza theologica. Quando surgiu a grande controversia -armenia, que agitou mais tarde a Egreja hollandeza, os theologos da -Hollanda foram os que na Europa se celebrizaram mais, tanto pelo que diz -respeito á illustração como pelo que diz respeito á orthodoxia. - -A Confissão de Westminster, que se tornou o credo da maior parte das -egrejas presbyterianas em paizes onde se fallava a lingua ingleza, é em -grande parte baseiada na antiga Confissão Hollandeza; e os theologos que -coordenaram os seus artigos copiaram muita coisa d’esses reformadores -hollandezes recentemente emergidos da sua terrivel e prolongada lucta com -o papismo hespanhol. - - - - -CAPITULO V - -A REFORMA NA ESCOCIA - - Preparação para a reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica - o a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag. - 138.—A Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia - e a situação politica, pag. 142.—João Knox, pag. 141.—A - Congregação e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão - escoceza_, pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.—O - _Livro de Disciplina_, e a _Primeira Assembléa Geral_, pag. - 147.—A educação, pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos - tulchanos, pag. 150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro - de Disciplina, pag. 152. - - -=Preparação para a Reforma.=—A Escocia, longe do centro da vida europeia -no seculo dezeseis, recebeu, apezar d’isso, a Reforma quasi tão cedo como -a maioria dos outros paizes, e acceitou-a mais completamente do que elles. - -A região tinha sido preparada para ella mediante a educação do povo, -mediante o constante commercio entre a Escocia e as nações continentaes, -especialmente a França e a Allemanha, e mediante a sympathia dos -estudantes escocezes para com os primeiros movimentos religiosos na -Inglaterra e na Bohemia; e por outro lado a condição da Egreja romana, -a pobreza das classes aristocraticas, e a situação politica do paiz -coadjuvaram em certa escala os esforços de aquelles que anhelavam por uma -reformação religiosa na Escocia. - -=A antiga Egreja celtica e a Educação.=—A antiga Egreja celtica na -Escocia, que havia conservado a sua influencia no paiz durante perto -de setecentos annos, tinha sempre considerado a educação do povo como -um dever religioso. Os seus regulamentos declaram que é tão importante -ensinar os rapazes e as raparigas a ler e a escrever como administrar os -sacramentos ou tomar parte na _intimidade das almas_, que era o nome que -davam á confissão. O mosteiro celta era sempre um centro educativo, e -n’alguns casos a instrução ahi ministrada era a melhor que se podia obter -fóra de Constantinopla. Carlos Magno, ao estabelecer aquellas escolas -superiores, que depois se tornaram as mais antigas universidades da -Europa, procurou nos mosteiros celtas os primeiros professores. Quando -a Egreja celta da Escocia cedeu o logar á Egreja romana, o seu systema -educativo foi, em grande escala, adoptado, e a educação na Escocia -continuou a ser muito melhor do que se poderia esperar do seu estado de -civilisação. - -As escolas cathedraes e monasticas produziram um grande numero de -professores e alumnos que desejavam ver os seus trabalhos continuados -n’uma universidade como as que n’aquella epoca estavam apparecendo em -toda a Europa. - -Ao principio os poucos recursos do paiz obstavam á fundação de -universidades na Escocia, e mediante uma provisão feita pelo rei e -pelos bispos foram enviados os melhores estudantes a Oxford, Cambridge -e Paris. Professores viajantes foram da Escocia, com um certo numero -de estudantes, aos centros, inglezes e continentaes, de instrucção. E -era frequente que os jovens escocezes permanecessem fóra da patria na -qualidade de leccionistas ou estudantes nomadas. - -=A Escocia e o lollardismo.=—Este contacto academico approximou muito -a Escocia dos grandes movimentos intellectuaes da Europa. No período -em que os estudantes escocezes iam em grande numero para Oxford, -Wycliffe exercia o professorado, e o lollardismo triumphava na grande -universidade ingleza. Os estudantes escocezes voltavam contaminados -com as maximas constitucionaes e as aspirações religiosas dos grandes -homens de Inglaterra, e o lollardismo propagou-se na Escocia. Depois das -universidades de Aberdeen, Glasgow e St.º André terem sido fundadas, -no seculo quinze, os velhos arquivos dizem-nos que as auctoridades -ecclesiasticas effectuaram inspecções com o fim de expurgar o corpo -docente dos erros de Lollard. A seu devido tempo, o lollardismo passou -das universidades para o publico, e os primeiros chronistas da Reforma -nunca deixam de se referir aos lollards, ou homens biblicos de Kent, e á -entrevista que tiveram com James IV. - -Havia estudantes escocezes em Paris quando Pedro Dubois, Marsilio de -Padua e Guilherme de Ockham ensinavam publicamente que a egreja è o povo -christão, e que pode existir uma egreja sem papa e sem padres. - -=A Escocia e Huss.=—A Bohemia e os actos de João Huss n’esse paiz eram -bem conhecidos na Escocia. Calderwood falla-nos de Paulo Craw, bohemio -que foi convencido de heresia a instancias de Henrique Wardlaw, bispo de -St.º André, perante sete doutores em theologia, por divulgar as doutrinas -de João Huss e de Wycliffe, «negando que houvesse qualquer modificação da -substancia do pão e do vinho na Ceia do Senhor, e reprovando a confissão -auricular e as orações aos santos defuntos.» Foi condenado á fogueira, -e no momento da execução «metteram-lhe uma bola de cobre na bocca; para -que o povo não ouvisse o seu justo protesto contra a injusta sentença -d’elles.» Recentes investigações arqueologicas teem tornado evidente uma -mais intima connexão entre a Escocia e a Bohemia do que até então se -suspeitava. - -=A Egreja romana na Escocia o a situação politica.=—A Egreja romana na -Escocia era muito rica, e era talvez mais corrupta do que em qualquer -outra parte fóra da Italia. A herança que lhe foi legada pela Egreja -celta não era toda boa; os satyricos tinham começado a chamar a attenção -para o contraste entre as profissões e as vidas dos ecclesiasticos, -e os seus livros produziam grande impressão no povo baixo. «Quanto -aos modos mais particulares por que muita gente na Escocia adquiriu -algum conhecimento da verdade de Deus na epoca das grandes trevas,» -diz João Row, «havia alguns livros, taes como _Sir David Lindsay, e as -suas poesias ácerca das Quatro Monarquias_, que trata tambem de muitos -outros pontos, e expõe os abusos do clero de aquelle tempo; os _Psalmos -de Wedderburn_ e as _Balladas de Godlie_, em que se alteram para fins -piedosos muitos dos antigos canticos papistas: e uma _Queixa_ feita -pelos estropiados, cegos e pobres de Inglaterra contra os prelados, -padres, freiras e outras individualidades da egreja que dispendiam -prodigamente todos os dizimos e outros rendimentos ecclesiasticos em -prazeres illicitos, de modo que elles, os queixosos, não podiam adquirir -alimentação nem allivio, como Deus tinha ordenado. Estas coisas foram -impressas, e penetraram na Escocia. Havia tambem peças dramaticas, -comedias e outras historias notaveis, que eram representadas em publico; -a _Satyra_ de Sir David Lindsay foi representada no amphitheatro de S. -Johnston (Perth), na presença do rei James V, e de uma grande parte da -nobreza e da classe abastada, durando a representação um dia inteiro, -e fazendo sentir ao publico as trevas em que estava envolvido, e a -perversidade dos homens da egreja, e mostrando-lhe como a Egreja de Deus -seria se fosse dirigida de uma maneira differente, o que tudo foi muito -benefico n’aquella ocasião. - -As riquezas da Egreja romana da Escocia tinham, havia muito, excitado a -inveja dos barões, que esperavam a ocasião em que podessem, sem risco, -apoderar-se de parte dos bens ecclesiasticos. Durante muito tempo não -occorreu similhante opportunidade. O clero era um senhorio que gozava da -estima geral. Os vassallos da Egreja estavam em muito melhores condições, -e tinham uma vida mais descançada, do que aquelles que cultivavam as -terras dos barões e de outras personagens de menor cathegoria. Os -camponezes escocezes rir-se-hiam, talvez, com as satyras de David -Lindsay, mas gostavam da Egreja, e perdoavam-lhe os defeitos. - -Quando os prégadores escocezes que tinham estado em Wittenberg, ou que -tinham estudado as obras de Luthero e dos outros reformadores, ou que -sabiam pela Escriptura o que era desejar ardentemente o perdão e a -salvação, começaram a prégar um Evangelho reformado, então, e só então, -é que o povo principiou a comprehender a mordaz significação das satyras -que alvejavam a clerezia. As auctoridades ecclesiasticas fizeram todo -o possivel para supprimir estes reformadores. Patricio Hamilton, Jorge -Wishart e muitos outros prégadores cheios de fervor e de espiritualidade -foram martyrisados; e estas crueldades contribuiram mais do que os -sermões ou as satyras para que o povo escocez se desgostasse da Egreja -romana. A sanguinaria Maria tinha tornado a Inglaterra protestante; e -o cardeal Beaton, com os seus homicidios judiciaes, e particularmente -com o homicidio do velho Walter Mill, fez com que o povo da Escocia se -preparasse para Knox e para os lords da Congregação. - -Durante umas poucas de gerações a politica exterior da Escocia tinha -sido de inimizade para com a Inglaterra e de amizade para com a França. -A alliança com esta nação havia motivado o casamento da James V com uma -princeza da casa de Guise, e, mais tarde, os esponsaes e casamento da -herdeira do throno da Escocia com o delphim da França. James V morreu, -ficando regente a rainha franceza, cuja conducta incutiu nos espiritos -de muitos escocezes o receio de que a Escocia viesse a tornar-se uma -provincia de França. Tinham sido nomeados francezes para cargos de -confiança na Escocia; o castello de Dunbar tinha uma guarnição franceza; -e a regente projectava crear um exercito permanente, segundo o systema -francez. Este alarme foi tomando tal vulto que o partido nacional, que -por fim triumphou, chegou a inverter a politica hereditaria da Escocia, -e ficou tendo por objecto uma alliança com a Inglaterra e uma guerra -com a França. A Inglaterra era protestante, emquanto que os verdadeiros -senhores da França eram os Guises, os cabecilhas do fanatico partido -romanista, os homens que planearam a carnificina de S. Bartholomeu. - -Tal era o estado das coisas na Escocia quando João Knox começou a sua -admiravel obra de reformador. - -O povo estava educado acima da sua civilisação, e podia comprehender -e saudar as novas idéas, tendo, como tinha, costumes grosseiros, e -vivendo, como vivia, uma vida rude. A egreja tinha perdido a confiança da -nação em virtude da immoralidade do clero, e por ultimo tinha excitado -as paixões do povo contra si com a sua cruel perseguição de homens de -uma vida immaculada que prégavam um Evangelho puro. Alguns dos barões -tinham partilhado a revivificação religiosa começada pelos prégadores -reformados; outros estavam anciosos por livrar o paiz do dominio francez, -e outros, ainda, queriam a todo o transe seguir o exemplo da Inglaterra -e enriquecer á custa da egreja. Todos estes motivos, uns puros e outros -não, estavam agitando o povo da Escocia nos annos que precederam o de -1560. - -=João Knox=, nascido em Giffordsgate, nos arredores de Haddington, em -1505, educado na universidade de Glasgow, e ordenado padre em 1542, -tornou-se primeiramente conhecido do povo da Escocia quando, muito novo -ainda, andou em companhia de Jorge Wishart para proteger este prégador -reformado emquanto elle dirigia a palavra a immensos auditorios. -Depois do martyrio de Wishart, e do assassinio do cardeal Beaton, Knox -aggregou-se á facção que havia tomado de assalto o castello de St.º -André. Quando os defensores se viram forçados a capitular, os poucos -membros da guarnição que estavam, incluindo Knox, foram enviados para -França e condemnados á escravidão das galés. N’uma occasião em que puxava -pelos remos, foi-lhe apresentada uma imagem da Virgem, de pau, para elle -a beijar como meio de adoração. Knox recusou-se a honrar «o madeiro -pintado», e atirou com a imagem ao mar, dizendo que, como ella era de -pau, «não havia de ir para o fundo». Apoz um captiveiro de dezenove -mezes, elle, juntamente com outros que haviam sido aprisionados em -St.º André, foi solto a pedido de Eduardo VI de Inglaterra. Restituido -á liberdade em fevereiro de 1549, foi direito a Inglaterra, onde se -empregou como prégador viajante. A sua eloquencia, zelo e incomparavel -coragem em breve o collocaram em primeiro plano. Foi-lhe offerecida a -diocese de Rochester, mas recusou-a sob o fundamento de que não era sua -crença que similhante cargo fosse auctorizado pelas Escripturas. Foi -consultado ácerca da revisão dos _Artigos da Religião_, e suggeriu a -celebre _declaração sobre o assumpto de ajoelhar na Communhão_, que ficou -inserta no Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI (1552). A subida -de Maria ao throno obrigou-o, apoz uma arrojada tentativa de proseguir na -sua obra de prégador nomada, a retirar-se para o continente. - -Um anno foi gasto a visitar varias localidades da França e da Suissa. Em -Genebra tornou-se o intimo amigo de Calvino. Apoz uma curta estada em -Frankfort sobre o Maine, onde foi pastor da congregação de refugiados -inglezes que se haviam ajuntado ahi, tornou-se o pastor da Congregação -ingleza de Genebra em 1555. Durante a sua curta permanencia ahi tomou -parte na composição de aquelle directorio do culto publico, que, sob os -varios nomes de Livro de Ordem Commum, Livro de Genebra e Lithurgia de -Knox, serviu de guia no culto publico da Egreja reformada da Escocia -até á publicação e adopção do Directorio dos Theologos de Westminster. -Collaborou tambem ma traducção da mais popular das primitivas versões da -Sagrada Escriptura, a Biblia de Genebra. - -Durante a sua ausencia foi ganhando a pouco e pouco a reputação de ser o -unico homem competente para conduzir os esforços do partido reformista da -Escocia a satisfactorio resultado final; e no outomno de 1555 regressou -á sua terra natal. Com a sua coragem habitual, começou logo a fazer -predicas nos aposentos que occupava em Edinburgo, e fez alguns gyros -predicativos, como, por exemplo, a Forfarshire, sob a protecção de -Erskine de Dun, e a West Lothian, sob a protecção de Lord Torphichen. Foi -durante esta visita que Knox principiou a administrar a Ceia do Senhor á -moda reformada. A primeira celebração foi em casa do conde de Glencairn, -na primavera de 1556. - -O Reformador, provavelmente, não achou o paiz em estado de entrar em -qualquer grande movimento que o approximasse da Reforma, e partiu da -Escocia para Genebra em Julho de 1556. Queixou-se da lentidão, timidez -e falta de união entre os protestantes, quando alguns dos fidalgos -lhe solicitaram, em Março de 1557, que voltasse, e mandou dizer que -achava melhor addiar o seu regresso. Esta reprehenção deu logar a uma -Confederação dos nobres, que depois se tornou bem conhecida na Escocia -sob o titulo de Lords da Congregação. - -=A Congregação e a Primeira Convenção.=—O turbulento caracter dos -barões escocezes, e a fraqueza da auctoridade central, tanto do rei -como dos estados, eram origem de constantes confederações de homens de -todas as classes para realisarem, com segurança, emprezas, umas vezes -legaes, e outras illegaes. Os confederados promettiam ajudar-se uns aos -outros na obra que se propunham executar, e defender-se mutuamente das -consequencias que se lhe seguissem. Estas combinações eram geralmente -redigidas em fórma legal por notarios publicos, e o seu cumprimento -tornava-se obrigatorio mediante todas as formulas de garantia que a lei -facultava. Estes Lords da Congregação seguiram um costume predominante -em todas as confederações quando se alliaram para manter e dar maior -desenvolvimento á bemdita palavra de Deus e á Sua congregação, e -para renunciar á congregação de Satanaz com todas as supersticiosas -abominações e idolatria que lhe eram inherentes; mas introduziram um -novo sentido espiritual n’esta alliança quando o seu pacto de federação -se tornou tambem uma promessa feita a Deus em publico, como as que -encontramos no Antigo Testamento, de serem verdadeiros e fieis á Sua -palavra e direcção. Esta «faixa assignada pelos Lords», como Calderwood -lhe chama, foi a primeira das cinco convenções que se tornaram famosas na -historia da Egreja Reformada da Escocia. - -A esta convenção estavam ligadas duas resoluções, em que os confederados -resolveram insistir no uso do Livro de Oração de Eduardo VI nas paroquias -que estivessem debaixo do seu governo e dar incremento á exposição das -Escripturas, particularmente, pelas casas, até que as auctoridades -permittissem a prégação publica «por verdadeiros e fieis ministros». - -Este acto reanimou grandemente todos aquelles que desejavam uma -reformação, e fez com que o povo tivesse ousadia para exprimir a sua -aversão pelas supersticiosas ceremonias da Egreja Catholica Romana. A -Côrte, em 1559, prohibiu de prégar todos aquelles que não estivessem -auctorizados pelos bispos; e, como não se fizesse caso d’essa prohibição, -os prégadores foram intimados a apresentar-se no tribunal de Stirling. - -N’este entretanto Knox voltou á Escocia. Desembarcou em Leith, a 2 de -Maio, e dirigiu-se a Perth, onde os Lords da Congregação se haviam -reunido para proteger o seu prégador. Chegou a Perth a noticia, emquanto -Knox estava prégando, de que os ministros reformados estavam proscriptos, -e no dia seguinte, depois do sermão, quando um padre tentou dizer -missa na presença de uma excitada multidão, produziu-se um tumulto, e -a «vil turbamulta», segundo a expressão de Knox, entrou nos conventos -dos franciscanos e dos cartuxos, e pôl-os a saque. A rainha regente -marchou a atacar os sediciosos; o conde de Glencairn saiu a proteger -os reformados; estava prestes uma guerra civil. Quasi immediatamente, -porém, a rainha cedeu; de ambos os lados se entrou em negociações sem -uma mutua confiança. Por fim os Senhores da Congregação marcharam sobre -Edinburgo, tomaram posse da cidade em Outubro de 1559, e, convocando os -estados, depozeram a regente. Concluiu-se um tratado com a Inglaterra, -e Isabel mandou tropas inglezas para protegerem a Congregação. Houve um -combate entre a facção romanista, auxiliada pelo exercito francez, e a -Congregação, auxiliada pelas tropas que tinham ido de Inglaterra, e os -francezes foram repellidos. A rainha regente morreu em junho do anno -seguinte, e a Congregação ficou senhora da Escocia. - -Os estados do reino reuniram-se, e foi posto á sua deliberação um pedido -da Congregação, referente a uma reforma de doutrina, de disciplina, -de administração dos sacramentos, e da distribuição do patrimonio da -egreja. Em resposta, os estados requisitaram um summario das desejadas -reformas doutrinaes; e de ali a quatro dias foi-lhes apresentado um -decumento, conhecido depois pelo nome de _Confissão Escoceza_. Foi tomado -em consideração, os prelados fizeram algumas, poucas, observações, -e, posto a votos, foi approvado quasi por unanimidade. Egual sorte -tiveram as outras tres Actas, que aboliam a jurisdicção do papa no -interior do reino, revogavam todas as anteriores determinações do -parlamento que eram contrarias á Palavra de Deus e á Confissão de Fé -recentemente adoptada, e prohibida a assistencia á missa e a outras -ceremonias idolatras. E a religião reformada ficou sendo a religião da -Escocia legalmente auctorizada. A auctoridade, comtudo, era o poder dos -Estados, independentemente do soberano; pois que a rainha regente tinha -fallecido, e a sua filha, Maria, rainha da Escocia, ainda não havia -regressado da França. - -=A Confissão Escoceza, ou Confessio Scotica.=—Apresentada aos Estados, -e englobada nas suas Actas quando adoptada por elles, foi a obra de -seis reformadores escocezes: Knox, Spottiswood, Willock, Row, Douglas e -Winram. Diz-se que Maitland de Lethington, tido na conta de um dos mais -habeis estadistas do seu tempo, reviu o livro e attenuou algumas das suas -declarações. Redigido á pressa por um pequeno numero de theologos, é mais -complacente e humano do que a maioria dos credos, e por essa razão tem-se -recommendado a muitas pessoas que não se conformam com a logica impessoal -da Confissão de Westminster. As primeiras phrases do prefacio dão uma -idéa geral do todo. «Ha muito tempo que anceiavamos, queridos irmãos, por -notificar ao mundo a summula de aquella doutrina que professamos, e pela -qual nos havemos sujeitado ás ignominias e aos perigos. Tal tem sido, -porém, a ira de Satanaz contra nós e contra Jesus Christo, cuja verdade -eterna se manifestou ultimamente entre nós, que até hoje não nos tem -sido concedido tempo para desobstruir as nossas consciencias, o que com -muito regozijo teriamos feito.» O prefacio expõe tambem mais claramemte -do que qualquer outra Confissão do mesmo genero a reverencia com que os -vultos da Reforma tratavam a Palavra de Deus. «Pedimos a qualquer pessoa -que notar n’esta nossa Confissão algum artigo ou phrase que esteja em -desacordo com a Santa Palavra de Deus, que, dando prova da sua caridade -christã, nos advirta d’esse erro por escripto, e, pela nossa honra e -fidelidade, promettemos dar-lhe satisfação pela bocca de Deus, isto é, -mediante a Sua Santa Escriptura, ou então emendarmos aquillo que se -demonstrar que precisa de correcção. Perante Deus deixamos escripto nas -nossas consciencias que abominamos, do fundo do coração, todas as seitas -hereticas, e todos os promulgadores de doutrinas erroneas; e que com toda -a humildade abraçamos a pureza do Evangelho de Christo, que é o unico -alimento das nossas almas.» - -A Confissão contém as crenças communs a todas as ramificações da Reforma. -Encerra, outrosim, todas as doutrinas chamadas ecumenicas, isto é, as -verdades expostas nos primeiros concilies ecumenicos, e incorporadas no -Credo dos Apostolos e ao Credo Niceno; e accrescenta aquellas doutrinas -de graça, de perdão e de luz mediante a Palavra e o Espirito que com a -reviviscencia da religião adquiriram uma proeminencia especial. Esta -Confissão é mais notavel pelos seus titulos suggestivos do que por -qualquer peculiaridade de doutrina. A doutrina da revelação é, por -exemplo, definida por si propria, independentemente da doutrina da -Escriptura, mediante este titulo: «A Revelação da Promessa». A Eleição -é considerada, segundo o antigo calvinismo, um meio de graça, uma -evidencia do «invencivel poder» de Deus quanto á salvação. Os pontos -em que a verdadeira egreja se distingue da falsa são, diz-se na dita -Confissão a genuina prégação da Palavra de Deus, a adequada administração -dos sacramentos, e a justiça na applicação da disciplina ecclesiastica. -A auctoridade das Escripturas, affirma tambem, procede de Deus, nada -tem que ver nem com homens nem com anjos; e a egreja sabe que ellas são -verdadeiras, porque «a verdadeira egreja ouve e obedece sempre á voz do -seu Esposo e Pastor.» - -Esta Confissão foi primeiro lida toda de uma vez no parlamento, e depois -tornada a ler clausula por clausula. Randolpho, o embaixador inglez, que -assistiu a essa leitura, descreveu-a a Cecilio, o grande ministro de -Isabel, e entre outras coisas diz-nos que, quando se leram os artigos, -alguns dos barões ficaram tão commovidos que se levantaram dos seus -logares, declarando que estavam promptos a derramar o seu sangue em -defeza da Confissão», e que Lord Lindsay, com uma gravidade raras vezes -presenciada, disse: «Tenho vivido muitos annos; sou o mais edoso de todos -quantos aqui se encontram; e agora que aprouve a Deus deixar-me chegar a -este dia, em que tantas pessoas, algumas d’ellas pertencentes á nobreza, -sanccionaram uma obra tão digna, direi como Simeão, _Nunc dimitis_». - -=A rainha Maria e a Reforma.=—A Reforma não tinha de triumphar na -Escocia tão de repente e com tanta facilidade. Sir James Sandilands, -encarregado de levar a Paris a Confissão de Fé, não só não conseguiu que -a joven rainha a assignasse, como o informaram do desagrado com que ella -soube dos acontecimentos occorridos na Escocia; e só apoz sete annos -de lucta, que terminou com a deposição da soberana, é que a Confissão -foi finalmente ratificada e a Egreja Reformada alcançou na Escocia um -completo reconhecimento official. - -Francisco II, esposo de Maria, morreu em 1561, e a joven rainha chegou -á Escocia em agosto do mesmo anno. Vinha acompanhada de um numeroso -e brilhante sequito, do qual tambem faziam parte tres de seus tios, -membros da casa de Guise, e o filho do famoso Condestavel de Montmorency. -O duque de Guise e o cardeal de Lorena acompanharam-n’a até Calais. -Os reformadores escocezes conheciam bem os homens que rodeiavam a sua -rainha, e que tão ostensivamente se achavam dispostos a protegel-a. -Era do dominio publico que o duque de Guise estava á frente de aquelle -partido que ambicionava exterminar os protestantes francezes por meio -de um massacre geral. Fôra elle, segundo se presumia, o instigador do -assassinio judicial de Anne de Bourg, e que havia planeada a, carnificina -de Amboise. A devassidão dos Guises só era excedida pela sua deshumana -crueldade. Taes eram os homens que passaram á Escocia para acompanhar e -aconselhar a joven rainha. - -Não é, pois, para surprehender que, ponderando estas coisas, Knox e os -seus amigos reputassem a vinda da rainha uma grande calamidade, e que -vissem no nevoeiro e chuva que durante dois dias caiu sobre a costa -oriental da Escocia, um como que aviso do céu, uma manifesta exposição da -felicidade que ella trouxera comsigo para aquelle paiz, felicidade que -se poderia traduzir por estas palavras: afflicção, dôr, obscurantismo e -impiedade. - -A belleza physica, o privilegiado talento, os infortunios e o tragico fim -da joven rainha teem-n’a circumdado de uma aureola romantica. E, comtudo, -nem mesmo os seus admiradores teem feito inteira justiça á sua indomavel -coragem e aos seus grandes dotes intellectuaes. Estava quasi só ao voltar -para o seu paiz natal, e viu immediatamente que coisa alguma devia -esperar da França e que necessitava de crear um partido em que podesse -descançar confiadamente. Era uma rapariga de dezenove annos quando saiu -de França; apezar d’isso, Knox, que teve com ella algumas entrevistas -pouco depois da sua chegada, parece ter reconhecido n’ella uma mulher -superior, e ter-se compenetrado de que havia motivo para receiar que uma -das duas, ou a rainha ou a Reforma, tivesse de ir a terra. O combate que -ella sustentou sósinha com a Reforma foi observado com anciedade por toda -a Europa; e, se ella não tivesse sido educada n’uma côrte tão corrompida, -e se não tivesse convergido para ella o odio que aquelles seus parentes, -os Guises, haviam inspirado, podia muito bem ser que ficasse victoriosa. -Poderá parecer cruel fallar d’este modo, agora que o perigo já lá vae -ha seculos, mas o que é verdade é que bastantes familias pacificas e -religiosas, tanto na Hollanda, como na França, como no Paiz do Rheno, e -com mais razão ainda na Escocia e na Inglaterra, só respiraram á vontade -quando o machado poz finalmente, em Fotheringay, termo á triste e agitada -vida da rainha Maria. - -A lucta começou com a sua chegada. Ella e a sua côrte foram, com todo -o espavento, ouvir missa logo no primeiro domingo, posto que fosse -prohibido dizer e ouvir missa, sob pena de um severo castigo. Principiou, -pois, por infringir as leis do estado, d’esse mesmo estado que havia -implantado a Reforma. Se quizessemos contar detalhadamente o que de ahi -em deante se passou encheríamos umas poucas de paginas. Apoz sete annos -de lucta, Maria foi aprisionada no castello de Lochleven, e deposta, -sendo collocado no throno o seu filho, ainda na infancia, James VI, e -ficando como regente do reino seu irmão James Stewart, conde de Moray. -O parlamento escocez votou novamente a Confissão de Fé; o regente -assignou-a em nome do soberano; e, assim ratificado, foi incluido na -legislação do paiz e a religião reformada ficou sendo a reforma do -christianismo legalmente reconhecida na Escocia. - -=O Livro de Disciplina e a primeira assembléa geral.=—Pouco depois -de o parlamento de 1560 ter encerrado as suas sessões, os auctores -da Confissão foram encarregados de apresentar uma breve exposição do -melhor systema de governo de uma egreja reformada. Surgiu então aquelle -notavel documento que depois se chamou o Primeiro Livro de Disciplina, e -que constituiu a primeira formula de governo ecclesiastico na Escocia. -Dividia-se em sessões da egreja, synodos e assembléas geraes; e concedia -o titulo de officiaes da egreja aos ministros, professores, presbyteros, -diaconos, superintendentes e ledores. Os auctores do Livro de Disciplina -declararam ter ido procurar directamente ás Escripturas as linhas -geraes de aquelle systema de governo ecclesiastico a adoptar o qual -elles aconselhavam os seus compatriotas, e havia, indubitavelmente, -muita sinceridade, a par de muita exactidão, n’essa sua affirmativa. -Eram, comtudo, todos elles, homens affeiçoados á Egreja de Genebra, -e tinham tido relações pessoaes com os protestantes da França. A sua -fórma de governo foi, evidentemente, inspirada pelas idéas de Calvino, -e segue de perto as Ordenanças Ecclesiasticas da Egreja franceza. Os -officios de superintendente e leitor foram addicionados aos outros tres, -ou quatro, que caracterizam a fórma de governo presbyteriana. O cargo -de superintendente devia a sua origem á situação incerta do paiz e á -escassez de pastores protestantes. Os superintendentes tinham a seu cargo -divisões territoriaes que não correspondiam exactamente ás dioceses -episcopaes, e competia-lhes apresentar á Assembléa Geral relatorios -annuaes do estado ecclesiastico e religioso das respectivas provincias. -Os leitores deviam a sua existencia ao reduzido numero de pastores -protestantes, á grande importancia que os primitivos reformadores -escocezes davam a um ministerio educado, e tambem á difficuldade de obter -fundos para a sustentação dos pastores de todas as paroquias. O Livro de -Disciplina contém um capitulo sobre o patrimonio da egreja, que insiste -na necessidade de reservar os dinheiros possuidos pela egreja para a -manutenção da religião, as despezas com a educação, e os socorros dos -pobres. Foi a existencia d’este capitulo que fez com que os Estados não -aceitassem o livro com tanta promptidão como o fizeram com a Confissão -de Fé. Os barões de diversas categorias, que tinham assento na camara, -haviam-se, em muitos casos, apropriado do patrimonio da egreja em seu -beneficio particular, e não queriam assignar um documento que condemnava -o seu modo de proceder. O Livro de Disciplina, approvado pela Assembléa -Geral, e assignado por um grande numero de nobres e burguezes, nunca -recebeu a sancção official concedida á Confissão. - -A Assembléa Geral da Egreja Reformada da Escocia reuniu-se pela primeira -vez em 1560, e, a despeito da luta em que a egreja se achava envolvida, -houve, pelo menos, uma reunião por anno, e algumas vezes mais, podendo -assim a egreja organizar-se e entrar em plena actividade. - -Fez-se uma traducção do _Catecismo para a Infancia_, de Calvino, e -deu-se ordem para que se fizesse uso d’ella. O Livro de Ordem Commum, -ou a Lithurgia de Knox, foi substituindo a pouco e pouco a Lithurgia do -rei Eduardo VI, e a Egreja Reformada da Escocia, com a sua Confissão, -a sua constituição ecclesiastica, o seu methodo de culto publico e as -suas provisões para a instrucção das creanças, espalhou-se pelo paiz, -levantando egrejas, melhorando o estado moral do povo e contribuindo -efficazmente para a educação do mesmo. - -Uma das principaes dificuldades com que a egreja teve de luctar foi -falta de dinheiro para pagar aos ministros. A Egreja Catholica Romana -tinha sido officialmente abolida, e, comtudo, não se havia feito -provisão alguma para a manutenção do clero reformado. A propriedade -ecclesiastica estava em condições anormaes. Até 1560 a Egreja Catholica -Romana da Escocia vinha sido muito opulenta, e havia estado de posse -de uma grande parte do territorio da nação. Emquanto a egreja estivera -luctando com Maria e procurando frustrar os esforços que ella empregava -para introduzir de novo a religião e hierarquia romanista, os prelados -distribuiram uma grande parte dos bens ecclesiasticos por quem elles -muito bem entenderam, os nobres apoderaram-se de uma parte d’elles ainda -maior, e o que restava e nominalmente pertencia á egreja estava nas mãos -de homens que se intitulavam bispos, abbades, priores, deãos e curas, -mas que nunca haviam recebido ordens, eram protestantes só no nome, e -se serviam de aquelles titulos ecclesiasticos para poderem usufruir as -propriedades a que o cargo dava direito. Depois de alguma discussão, -a Assembléa obteve do Estado que aquelas pessoas que conservavam em -seu poder bens que nominalmente pertenciam á egreja ficassem com dois -terços de rendimento para as suas despezas particulares, e entregassem -a restante terça parte para a manutenção do ministerio e das escolas, -e para os encargos de beneficencia. A Egreja Reformada, porém, teve -muita difficuldade em ver esta disposição convertida em lei, e assim, -durante os primeiros annos da Reforma os ministros e as escolas -foram principalmente mantidos por meio de offertas voluntarias, ou -«benevolencias», como Knox pittorescamente lhes chamava. - -=A Educação.=—As idéas democraticas do presbyterianismo, avolumadas pela -necessidade de cooperar com o povo, fizeram com que os reformadores -escocezes se ocupassem seriamente da educação popular. Todos os -impulsionadores da Reforma, quer na Allemanha, quer na França, quer na -Hollanda, tinham reconhecido a importancia de esclarecer o povo; mas a -Hollanda e a Escocia foram talvez os dois paizes onde a tentativa foi -mais bem succedida. A educação do povo não era uma novidade na Escocia -e, posto que nos agitados tempos que precederam a Reforma as escolas -superiores tivessem desapparecido, e as universidades tivessem caido em -decadencia, o desejo de aprender não se havia extinguido por completo. -Knox e o seu amigo Jorge Buchanan tinham um plano magnifico para crear -escolas em todas as freguezias, estabelecer collegios superiores -em todas as cidades importantes e augmentar o poder e influencia -das universidades. O seu plano, devido á cubiça dos barões que se -haviam apoderado dos bens da egreja, pouco mais era do que uma devota -imaginação, mas havia-se apossado do espirito da Escocia, e a falta de -dotações era mais do que compensada pelo desejo ardente que o povo tinha -de se instruir. As tres universidades, de Santo André, de Glasgow e de -Aberdeen, receberam uma nova vida, e fundou-se uma quarta universidade, -a de Edinburgo. Alguns estudantes escocezes que haviam recebido educação -nas escolas continentaes, e que haviam abraçado a fé reformada, foram -encarregados de superintender o re-organizado systema educativo do -paiz, e tudo se fez em harmonia com o viver do povo, preferindo-se, -nas escolas, e externato ao internato, e estabelecendo um systema de -inspecção que era exercido, em cada circumscripção escolar, por um dos -homens mais espirituaes e de maiores conhecimentos. Knox estava tambem -disposto a impôr ás duas classes da sociedade, a mais baixa e a mais -elevada, uma frequencia obrigatoria ás aulas; quanto á classe media, -elle confiava no seu natural desejo de aprender. E desejava que o Estado -exercesse a sua auctoridade no sentido de compellir os mancebos de -posição a matricularem-se nas escolas superiores e nas universidades, -para que podessem prestar serviços uteis á nação. - -=A morte de Knox.=—João Knox morreu em novembro de 1572. O assassinio do -seu amigo, o conde de Moray, o Bom Regente, havia-lhe feito uma grande -impressão, e a noticia do massacre de S. Bartholomeu, que havia chegado -recentemente á Escocia, produziu-lhe um tremendo abalo. Elle nunca havia -sido um homem robusto, e durante a sua vida havia passado por muitos -trabalhos, mas o seu intrepido espirito a tudo resistira. «Ignoro» diz -Smeaton, «se Deus poz jámais n’um corpo debil e franzino uma alma maior e -mais santa do que a d’elle». As forças começaram a faltar-lhe muito antes -de adoecer gravemente, mas luctou sempre contra o seu precario estado de -saude, e nunca deixou de prégar e exhortar como costumava fazer. James -Melville, que teve occasião de o ver quando estudava em Santo André, -apresenta-nos um retrato d’elle pouco antes da sua morte. «Via-se que -andava doente. Todos os dias eu o via passar para a egreja paroquial, -andando muito cautelosamente, com o pescoço resguardado por uma pelle, de -bengala na mão, e acompanhado pelo seu creado, o bom Ricardo Ballanden. -Era esse dito Ricardo e um outro creado que o ajudavam a subir para o -pulpito, a que elle se encostava durante algum tempo; logo, porém, que -entrava no sermão, enchia-se de uma actividade e de um vigor taes que -esse mesmo pulpito por pouco escapava de ficar feito em cavacos.» - -Morreu antes de ter effectuado por completo a sua obra, pois que a Egreja -Reformada ainda tinha muitos obstaculos a vencer, e o facto de Knox não -tomar parte na batalha tornava-lhe mais difficil o sair victoriosa. Elle -não possuia a erudição de Calvino, nem uma disposição para se tornar -popular, como Luthero, mas nenhum homem o poderia egualar em coragem. -«Elle nada temia da carne, nem tão pouco a lisongeava.» E foi isso o que -fez o reformador da Escocia. - -Como os seus contemporaneos francezes, tinha tanto de estadista como de -dirigente ecclesiastico, e emquanto viveu foi o guia do povo escocez. -Os nobres de bom grado teriam intervindo no movimento, e lhe teriam -dado uma feição mais em obediencia ao seu modo de pensar, mas Knox fez -do pulpito a força mais poderosa da Escocia, e com as suas ousadas -prégações creou uma opinião publica com que era preciso contar. Elle era, -individualmente, um homem de profunda espiritualidade, e «temia a Deus, -mas coisa alguma fóra d’Elle lhe mettia medo». - -=Os bispos tulchanos.=—O poder da Egreja Reformada da Escocia foi -consideravelmente fortalecido e consolidado mediante o caracter -representativo dos seus conselhos, e, mais especialmente, da sua -Assembléa Geral, e a liberdade com que todos os assumptos de interesse -para a nação eram ahi tratados e discutidos deu á Assembléa da Egreja o -caracter de um parlamento nacional onde o povo da Escocia encontrava uma -defeza mais efficaz do que nos Estados do reino. Os olhos perspicazes -da rainha Maria haviam discernido esta força da egreja, e ella empregou -varios esforços, sempre infructiferos, para impedir a reunião da -Assembléa Geral. Depois da morte do conde Moray, o Bom Regente, isto é, -durante as regencias de Lennox, Mar e Morton, e durante o reinado de -James, a Assembléa foi sempre mal vista por aquelles que ambicionavam um -poder exclusivo. Sabia-se, porém, que era perigoso dirigir-se á Assembléa -um ataque directo, e aqueles que no Estado dispunham do poder tentaram -diminuir-lhe a auctoridade promovendo ecclesiasticos e elevando-os a -posições que lhes permittissem tomar assento nos Estados e defender ahi -as prerogativas da egreja. Depois da morte do regente Moray, a nobreza -tratou constantemente de derrubar o governo episcopal, e collocar a -Egreja sob o dominio dos bispos. - -Uma outra, e talvez mais visivel, causa por que aquelles estavam em -auctoridade antipathisavam com a simples constituição presbyteriana que -o Livro de Disciplina havia preceituado á Egreja era o facto de ella -dar pouca occasião a que as receitas fossem espoliadas, ao passo que a -nomeação de bispos reunia uma grande proporção dos dinheiros da Egreja em -meia duzia de mãos, habilitava os patronos e entrar em negocios com os -ecclesiasticos que elles nomeassem para esses cargos, desviando-se assim -uma grande parte dos fundos de que a Egreja ainda estava de posse para as -algibeiras dos fidalgos de primeira plana. - -Pouco antes da morte de Knox, a Assembléa, não sem protesto, tinha, a -instancias dos Lords do Conselho, concordado em acceitar ecclesiasticos -com o titulo de bispos, debaixo de certas condições, sendo as -principaes as seguintes: os bispos não teriam um poder superior ao dos -superintendentes, haviam de estar sujeitos á Assembléa Geral, e não -seriam nomeados sem que devidamente se providenciasse quanto ao sustento -do ministerio regular. Este accordo, chamado a _Convenção de Leith_, foi -devido principalmente ás diligencias de João Erskine, o antigo amigo -de Knox, um dos primitivos superintendentes, e que por mais de uma vez -exerceu na Assembléa o logar de Moderador. Alguns annos de experiencia -mostraram á egreja escoceza o perigo que para a sua vida livre, para a -sua vida democratica, provinha das disposições desta convenção, e pouco -depois da morte de Knox appareceram symptomas de um proximo conflicto. - -O mais flagrante exemplo do uso que os nobres mais proeminentes faziam -d’estes bispos para defraudar a Egreja occorreu em 1581, que foi quando -Boyd, o arcebispo de Santo André, morreu. Assim que o edoso prelado -faleceu, o duque de Lennox resolveu apoderar-se das propriedades da -sé. Era impossivel pôr similhante coisa em pratica sem um legalisado -artificio, e o plano escolhido foi induzir Roberto Montgomery, ministro -em Stirling, a acceitar o cargo de arcebispo, tornar-se d’esse modo -herdeiro dos bens da sé, e passar depois os respectivos rendimentos para -as mãos de Lennox. Este caso foi, talvez, o peior d’elles todos; mas em -toda a Escocia se procedeu de uma fórma analoga, nomeando-se bispos, -abbades, etc., para que podessem tomar legalmente posse dos dinheiros -da Egreja, e, em vez de se lhes dar a devida applicação, passal-os para -os bolsos dos patronos seculares. O povo chamava a estes bispos, assim -como a quaesquer outros dignitarios que se prestavam a essas burlas, -tulchanos, e a primeira lucta com os bispos escocezes não foi uma -contestação entre o presbyterio e o episcopado, mas entre a Egreja, que -queria a todo o custo conservar o seu patrimonio, e esses tulchanos. -Quando na Assembléa se tratou do caso de Montgomery, «o moderador, David -Dickson, pediu licença para expôr a significação de bispos tulchanos. -Tratava-se de uma palavra em uso vulgar entre os montanhezes da Escocia. -Quando uma vacca não se deixa mungir, põem junto d’ella uma pelle de -vitello, empalhada, e é a essa pelle que chamam _tulchan_. Ora para -esses bispos que possuíam o titulo e o beneficio, sem desempenharem o -cargo, não se encontrou denominação mais significativa do que a de bispos -tulchanos.» - -=André Melville.=—João Knox morreu quando este conflicto entre a Côrte -e a Egreja estava no principio, e era necessario fazel-o substituir -por outro dirigente. Entre os escocezes illustrados que o triumpho da -Reforma e a renascença das letras haviam attraido para o seu paiz natal, -André Melville era o que mais se tinha distinguido. Nascido, em 1545, em -Baldovy, perto de Montrose, recebeu a sua educação na Escola Primaria -d’essa cidade, e no Collegio de St.ª Maria, em St.º André. De ahi foi -para Paris, onde teve por professor o celebre Pedro Ramus. Depois de -terminar os estudos, obteve em Genebra uma cadeira de latim, e em 1574 -voltou á Escocia, com a reputação de um dos mais eminentes sabios da -Europa. Pouco depois do seu regresso foi nomeado reitor da universidade -de Glasgow, e por tal fórma dirigiu esse estabelecimento de instrucção -que correu a matricular-se n’elle um elevadissimo numero de mancebos, não -só escocezes como estrangeiros. - -Foi um dos membros da Assembléa de 1575, em que a questão do presbyterio -e do episcopado tomou pela primeira vez um caracter serio; e fez parte -da comissão nomeada por essa Assembléa para considerar se o nome e -deveres de um bispo tinham alguma auctorização biblica, isto é, se os -bispos que havia n’aquelle tempo na Egreja da Escocia estavam ali, e -desempenhavam os seus cargos, em obediencia á Palavra de Deus. A decisão -a que se chegou foi que o nome de bispo pertencia a todos os pastores da -Egreja de quem se havia confiado congregações, mas que tambem podia ser -applicado aos ministros escolhidos por seus irmãos para implantar egrejas -e inspeccionar as egrejas existentes, e o sentimento geral da Egreja a -este respeito pode colligir-se d’estas tres expressões, que indicam tres -especies de bispos: My Lord Bishop (_Meu Senhor Bispo_), My Lord’s Bishop -(_Bispo do Meu Senhor_), e Lord’s Bishop (_Bispo do Senhor_), sendo os -primeiros catholicos romanos, os segundos tulchanos, e os terceiros -pastores das congregações. - -=O Segundo Livro de Disciplina.=—Quando a Egreja Reformada da Escocia se -encontrou face a face com estes novos problemas ecclesiasticos, sentiu -necessidade de um mais distincto e mais completo schema de governo da -egreja do que aquelle que o Primeiro Livro de Disciplina continha. Esse -systema de governo da egreja havia sido preparado á pressa, e fazia -menção de differentes materias que estavam fôra da esphera de um livro -de preceitos ecclesiasticos. A Assembléa de 1576 nomeou uma commissão -para tratar d’esse assumpto, e redigir um livro que podesse substituir -a obra de Knox e de Row. O dito livro foi escripto de vagar, com muita -perseverança, e finalmente em 1578 deu-se ordem para que o _O Segundo -Livro de Disciplina_ fosse impresso, afim de sujeital-o á critica e se -fazerem as necessarias correcções. Tres annos se dispenderam em ponderar -todos os seus pontos, todas as suas phrases, e o Livro de Politica, como -se lhe chamou, foi então acceite pela Assembléa e incluido nas suas Actas. - -Este livro, que apresenta, n’um estylo conciso e claro, o esboço do -governo da Egreja Presbyteriana na Escocia, começa por fazer distincção -entre as leis ecclesiasticas e civis, e reivindica para a Egreja «uma -politica differente da politica do Estado». O conjuncto do governo da -egreja, diz o livro, comprehende doutrina, disciplina e distribuição; e -para este triplice governo ha um triplice officialato, que se divide em -pastor, ou bispo, presbytero e diacono. O Livro de Disciplina addiciona -um quarto oficio, ou de doutor, ou ensinador. N’um curto capitulo vem -descripta a natureza da vocação, assim como o modo da eleição e ordenação -dos pastores. Faz-se tambem uma descripção dos deveres que cabem a cada -uma das dignidades, e das varias assembléas em que aquelles que estão -d’ellas revestidos teem de comparecer, no exercicio dos seus cargos. É -singular que no anno que precedeu o da adopção do Livro de Disciplina -pela Assembléa recebesse o seu complemento a organização presbyteriana -da Egreja Escoceza mediante o universal reconhecimento do presbyterio -como um tribunal superior á sessão da egreja, mas inferior ao synodo; -e que este livro de politica não faça menção especial de similhante -tribunal, que actualmente exerce funcções tão importantes na organização -presbyteriana escoceza. - -Como a publicação do _Segundo Livro de Disciplina_ a Egreja Reformada da -Escocia completou a sua organização ecclesiastica, e terminou a primeira -parte da sua historia. A Reforma estava por esse tempo firmemente -estabelecida, e o protestantismo tinha empolgado o povo da Escocia. A -Egreja tinha deante de si uma longa lucta; o conflito, porém, não era com -o papismo, mas com o Estado; não era no sentido de reformar a religião, -mas de desenvolver e preservar a fórma democratica do governo da Egreja, -que se impunha ao povo como sendo a mais conforme com a Palavra de Deus, -e a mais adequada para a habilitar a desempenhar os seus deveres de -Egreja de Christo. - -Em 1574 a Escocia achava-se em curiosas circumstancias ecclesiasticas. -Haviam-se conservado as paroquias que existiam antes da Reforma, e cujo -numero era superior a mil. Para seu funccionamento havia 289 ministros -e 715 leitores, e muitos d’estes ultimos eram os padres catholicos -romanos que tinham vindo para a religião reformada mas que não possuiam -uma educação sufficiente para justificar a sua ordenação como pastores -protestantes. Estas paroquias passaram depois a constituir presbyterios, -os presbyterios foram agrupados em synodos, e o conjuncto estava sob a -direcção da Assembléa Geral. A organização presbyteriana era, n’um certo -sentido, completa. A par d’isto, porém, existiam as velhas dioceses, -anteriores á Reforma, em numero de treze, na sua maior parte occupadas -por homens que eram ministros protestantes, que haviam tomado o titulo -de bispos, mas que não exerciam funcções episcopaes. Apenas tres -d’esses bispos, o de St.º André, o de Glasgow e o de Aberdeen, haviam -tentado exercer a jurisdicção episcopal, e não o tinham feito tanto na -qualidade de bispos, como de superintendentes. Os bispos tinham assento -no parlamento escocez, e os seus deveres principaes eram administrar as -receitas da cathedral e desempenhar as funcções judiciaes que eram da -competencia dos bispos n’outro tempo, anteriormente á Reforma. - -Esta organização episcopal vivia lado a lado com a activa e aggressiva -constituição presbyteriana da Egreja. O estado dos negocios ainda mais -anomalo se tornava com o facto de ainda viverem, e exercerem a sua -fiscalização, tres dos antigos superintendentes; e os districtos dos -outros superintendentes eram governados por commissarios provisorios -nomeados pela Assembléa, que podia demittil-os quando entendesse. - -O fim que a Egreja tinha em vista com o conflicto que durou desde 1574 -até 1638 era acabar inteiramente com aquillo a que chamava a inutil e -nociva organização episcopal, que não tinha ligação alguma com a obra -espiritual da Egreja, e substituir os superintendentes e commissarios -por presbyteros, unindo assim a Egreja n’um todo harmonico. O fim que a -côrte tinha em vista era conservar o velho systema episcopal, e, mediante -elle, ir gradualmente dividindo a Egreja em fragmentos, cada um d’elles -governado por um bispo que só era responsavel para com o parlamento; e, -no fim de tudo, restabelecer o episcopado no velho sentido da palavra, e -derribar por completo a constituição presbyteriana. - -O anno de 1638 foi o do triumpho da Egreja, mas a historia completa -d’esta lucta ultrapassa os limites da presente obra. - - - - -III PARTE - -A REFORMA ANGLICANA - -CAPITULOS: - - I—A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII. - - II—A REFORMA SOB EDUARDO VI, E A REACÇÃO SOB MARIA. - - III—A REFORMA SOB ISABEL. - - - - -CAPITULO I - -A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII - - O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag. - 157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O - estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma, - pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag. - 160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, - pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII, - Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles, - pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da - separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas - coisas differentes, pag. 168.—Execução da sir Thomaz More, pag. - 169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades - da Egreja, pag. 170.—_Os Dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto - Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag. - 173. - - -=O caracter excepcional do Principio da Reforma inglesa.=—A Egreja -e o povo inglez romperam com o systema ecclesiastico medieval em -circumstancias tão excepcionaes que é impossivel considerar esse -rompimento como fazendo parte da Reforma, ou como tendo muita coisa -em commum com os movimentos contemporaneos na Allemanha e na França. -Emquanto durou o reinado de Henrique VIII, a Egreja de Inglaterra, que -se havia separado do papa, pouco ou nada tinha de commum com a Reforma. -O que durante aquelle reinado se fez foi simplesmente demolir a Egreja -da edade media. A verdadeira Reforma começou no reinado de Eduardo VI, -e a sua adopção formal teve logar no de Isabel. Henrique VIII destruiu -a supremacia do papa, tanto espiritual como temporal; derrubou a grade -ecclesiastica que unia a Egreja de Inglaterra á grande Egreja Occidental -governada pelo bispo de Roma, mas não poz coisa alguma duradoura em seu -logar. O seu fim era estabelecer um papado real, tão despotico e ainda -mas secular do que aquelle que elle estava destruindo, sobre as minas -da jurisdicção do bispo de Roma. A Egreja que elle construiu segundo o -seu modelo não durou mais do que a vida d’elle; mas a sua obra durou o -bastante para dar á Reforma da Egreja de Inglaterra, quando ella mais -tarde se tornou um facto, aquelle caracter particular que a distinguiu -dos movimentos do mesmo genero occorridos n’outros paizes. O objecto -de Henrique era modificar de tal modo as condições ecclesiasticas da -Inglaterra que o rei occupasse o logar do papa, e ficasse governando, -não só temporal como espiritualmente, de modo que, mediante a Egreja, -tivesse sobre os seus subditos um dominio absoluto. Todas as reformas de -doutrina, de culto e de costumes eram tão abominaveis para Henrique como -para o bispo de Roma. - -=Antecipações da Reforma em Inglaterra.=—Os historiadores ecclesiasticos -fazem, geralmente, datar os principios da Reforma do tempo de João -Wycliffe, o qual, no seculo quatorze, era, por assim dizer, a bocca da -Inglaterra, revoltando-se contra a supremacia espiritual e temporal que -o papa tinha no reino; mas é muito para duvidar que a sua influencia -continuasse a ser exercida sobre o povo inglez até ao seculo dezeseis, -e por tal fórma que a ella se devam attribuir os desejos de Reforma que -enchiam os corações de muitas pessoas de bons sentimentos religiosos. - -Como Francisco de Assis e outros reformadores e revivificadores da -Edade Media, Wycliffe tinha abraçado apaixonadamente a idéa de que os -beneficios da salvação só podem ser aproveitados por aquelles que imitam -Christo, e que para imitar Jesus Christo torna-se indispensavel viver na -pobreza como Elle. Declarou, portanto, guerra aberta ao bem estipendiado -clero da opulenta Egreja de Inglaterra, e prégava que a Egreja, para ser -realmente de Christo, devia ser, pobre. Dizia que o Estado não faria mais -do que beneficiar a Egreja tirando-lhe a riqueza, pois que era esta um -obstaculo a que ella se parecesse com o seu Mestre. Em conformidade com -estas idéas, organisou um corpo de prégadores ambulantes, denominados -prégadores pobres, os quaes, tendo, a muitos respeitos, parecenças com -os evangelistas do movimento wesleyanno, andavam por toda a Inglaterra, -proclamando a doutrina da humildade. Era um fervoroso admirador dos -grandes juristas medievaes, taes como Guilherme de Ockham, o querido -mestre de Luthero, Marsillio de Padua, e Pedro Dubois de Paris. Elles -haviam proclamado, n’uma epoca muito anterior, que o Estado não era outra -coisa senão o povo; e Wycliffe, seguindo-lhes o exemplo, insistia em que -a Egreja não era outra coisa senão o povo. Ora isto atacava o systema -da Egreja medieval, que se apoiava na noção de que a verdadeira Egreja -era o clero, e de que o povo só fazia parte d’ella quando se punha em -contacto com os clerigos, que eram depositarios dos sacramentos. Foi por -esse motivo que elle traduziu a Biblia, que era o Livro da Egreja, e, -portanto, do povo christão, e não sómente do clero. As idéas da Wycliffe -foram avidamente adoptadas por uma grande parte da população ingleza, -e os seus discipulos, os lollardos, constituiram, por algum tempo, uma -fortissima aggremiação. - -O lollardismo foi indubitavelmente uma preparação para a Reforma, -e os homens biblicos, como lhes chamavam, teriam exercido uma -grande influencia sobre o povo, no sentido de o predisporem para uma -revivificação da religião espiritual se tivessem existido na epoca em -que se operou o movimento reformador. Não se pode, porém, provar que -elles communicassem com essa geração, e não ha indicio algum de que -nos reinados de Henrique VII e Henrique VIII estivesse desenvolvido o -gosto pela leitura da Biblia ou houvesse uma corrente de sympathia pelos -prégadores pobres. O povo inglez, tomado na sua totalidade, parece não se -ter inclinado para a Reforma antes do tempo de Isabel. - -=O estado ecclesiastico da Inglaterra no principio da Reforma.=—Quando -começou na Allemanha o movimento da Reforma, houve, sem duvida, muitos -inglezes que se sentiram attraidos para o reformador saxonio, e que -desejaram ver introduzido na Egreja um credo mais simples e mais em -harmonia com a Palavra de Deus, e uma fórma de culto como a que era -usada nos tempos apostolicos; mas a maioria não partilhava essas idéas. -Havia, certamente, muitissimas pessoas que desejariam ver modificados os -costumes dos clerigos, e especialmente o caracter moral dos frades, e -que ficariam satisfeitas se as propriedades da Egreja fossem sujeitas a -impostos e os grandes rendimentos dos bispados e das abbadias soffressem -alguma diminuição. E eram em numero sempre crescente as que se sentiam -desgostosas com a ignorancia do clero, e que, por motivos politicos ou -sociaes, desejavam ver cerceada a influencia do bispo de Roma. Não lhes -agradava a sua interferencia nas questões politicas, e indignava-os a -saida de grossas quantias para fóra do reino. - -Não é provavel que o caracter moral do clero romano fosse peior em -Inglaterra do que em qualquer outro paiz, mas o que é verdade é que os -padres, com a sua conducta, desacreditavam a Egreja. O clero era de uma -ignorancia crassa, e havia, talvez, em Inglaterra menos conhecimento das -Escripturas do que na França ou na Allemanha, pois que, desde a epoca -do lollardismo, a leitura da Biblia era considerada um acto criminoso. -A Biblia era um livro desconhecido para os padres, e Erasmo conta que -viu, preso por uma corrente a uma coluna da cathedral de Canterbury um -Evangelho de Nicodemos que era lido como fazendo parte da Escriptura -canonica. - -O alto clero pouco tinha que fazer na Egreja, e occupava-se em dirigir -os negocios do Estado, ou em presidir ás audiencias nos tribunaes de -justiça. O arcebispo de Canterbury era Lord Chanceller, o bispo de -Winchester director geral da Thesouraria, o bispo de Durham secretario de -Estado, e o bispo de Londres guarda-mór dos arquivos. Os bispos de Bath, -Hereford, Llandaff e Worcester nem sequer residiam no reino. - -Dadas estas circunstancias, não é para estranhar que aquelles que amavam -sinceramente a instrucção se sentissem indignados perante a ignorancia -do clero, e procurassem abrir os olhos, não só a estes como ao povo em -geral; e que os patriotas inglezes, lembrando-se das antigas tradições de -um paiz que durante seculos havia mantido uma attitude altiva e reservada -para com as pretensões da Curia Romana, tivessem immensa vontade de -annular o poder do papa em Inglaterra. Como que exteriorisando o desejo -preponderante, surgiu um grupo de mancebos instruidos, capitaneados por -Colet, deão de S. Paulo, e Thomaz More, cujo intuito era purificar a -Egreja, o povo e o clero, e incitar a Egreja nacional de Inglaterra a -resistir ás usurpações do bispo de Roma. - -=As relações de Inglaterra com o pontificado.=—Os bispos de Roma, -na Edade Media, reivindicavam a supremacia, tanto espiritual como -temporal, e o povo inglez havia resistido, por mais de uma vez, ás suas -reivindicações. Os papas, desde o tempo de Innocencio III, sustentavam -que todos os reis e principes eram seus vassallos, tanto pelo que dizia -respeito ás coisas sagradas como aos negocios civis. Este direito -havia sido imposto no reinado de João, que pagara tributo a Roma em -reconhecimento da supremacia papal. Quando, porém, foi exigido esse -tributo aos sucessores de João, elles, indignados, recusaram pagal-o. E -a Inglaterra, sem deixar de pertencer á Egreja Catholica medieval, havia -repudiado o direito do papa a intervir nas questões nacionaes. Rei algum -inglez, excepto João, se considerou vassallo do papa. Não era uma coisa -nova em Inglaterra, o não reconhecer a supremacia do papa nos negocios -temporaes. - -Os papas tinham, desde o principio da Edade Media, exigido que os -reputassem arbitros supremos em todos os negocios espirituaes, e, por -consequencia, a Egreja ingleza devia estar sujeita ao seu dominio -absoluto. Estas reivindicações apresentavam-se, na pratica, debaixo -das seguintes fórmas: Os papas queriam que lhes fosse reconhecida a -decisão final em todas as nomeações ecclesiasticas; isto é, nenhum -bispo, ou abbade, ou outro qualquer dignitario da Egreja podia ser -collocado n’este ou n’aquelle posto sem a approvação do papa em ultima -instancia, e esta sua supremacia queriam que lhes fosse reconhecida de -uma fórma prática mediante o pagamento do primeiro anno do estipendio -que correspondia a cada oficio ecclesiastico. Queriam ter a decisão -final em todas as questões que se levantassem no seio da Egreja ingleza. -E isto significava, praticamente, que todos os clerigos, bispos, -abbades, simples padres e frades só podiam ser julgados pelos tribunaes -ecclesiasticos, e que o accusador ou o defensor tinha sempre o direito de -appellar dos tribunaes inglezes para o tribunal pontificio. Reivindicavam -tambem que as leis canonicas, isto é, as leis da Egreja promulgadas pelos -concilios e pelos papas, fossem reconhecidas em Inglaterra e tivessem a -mesma força que as leis ordinarias. - -A supremacia espiritual do papa tinha sido repetidas vezes repellida pelo -povo inglez. Os reis de Inglaterra tinham declarado e tornado a declarar -que em caso algum se poderia appellar dos tribunaes inglezes para a Curia -Romana. Estas declarações tinham tomado a fórma de decretos, e no reinado -de Ricardo II ficaram englobadas no famoso codigo de _Proemunire_. -Segundo este codigo, ou estatuto, como lhe chamavam, qualquer appellação -para um tribunal de justiça estrangeiro, romano ou de outra qualquer -nacionalidade, era um crime a que correspondia um castigo severo. -Sustentava, de uma maneira peremptoria, que o rei era o arbitro supremo -em todas as questões civis ou ecclesiasticas, e tornava punivel qualquer -appellação de sentenças proferidas nos tribunaes civis para juizos -ecclesiasticos, quer da Inglaterra quer da Italia. - -Além dos protestos do rei e do parlamento, reunidos n’este estatuto, o -povo, n’uma grande occasião pelo menos, negou solemnemente a supremacia -do papa, e asseverou a independencia da Egreja ingleza. A _Magna Charta_ -foi feita com o intuito de restringir o poder pontificio, assim como de -reprimir o do rei; e a sua primeira clausula reivindicou a independencia -da Egreja de Inglaterra—_Quod ecclesia anglicana libera sit et habeat -omnia jura sua integra et libertates suas illaesas._ - -E Egreja e o povo inglez haviam-se acostumado a protestar contra a -interferencia papal, e os reformadores que tinham simplesmente em vista -promover a instrucção do clero, e reprimir a auctoridade que o papa -exercia na Inglaterra, podiam dizer, com exactidão historica, que não -punham em pratica uma coisa nova. - -As aspirações d’esses reformadores podem ser apreciadas no romance -politico escripto por um dos mais intelligentes d’entre elles,—a -_Utopia_, de Thomaz More. Para esses homens a Reforma era apenas um -movimento intellectual e politico. Não era uma revivificação religiosa. -Podiam sympathizar com os concilios reformistas do secolo quinze, mas -entre elles e Wittenberg ou Genebra havia poucos pontos de contacto. - -=As primitivas relações de Henrique VIII com o pontificado. Defensor -da Supremacia papal.=—Estes reformadores do estudo e da camara do -conselho saudaram com regozijo a subida de Henrique VIII ao throno -de Inglaterra. Suppunha-se, exactamente como aconteceu com o seu -contemporaneo, Francisco I de França, que o joven rei fosse um amigo -da nova litteratura, e um soberano predisposto a extirpar abusos. A -desillusão não se fez esperar. Logo de principio mostrou ser um dedicado -defensor da supremacia papal. A sua posição era estranha, e necessita de -uma explicação. - -Henrique VII, o primeiro rei da casa de Tudor, havia conquistado o throno -de Inglaterra no campo de Bosworth, e conservava-o mediante uma precaria -subemphyteuse. Anhelava por tornar mais firme o seu poder mediante uma -alliança com um paiz estrangeiro, e, passando a Europa em revista, -certificou-se de que Fernando de Hespanha era quem o poderia auxiliar -melhor. Effectuou, portanto, com alguma dificuldade, o casamento de seu -filho mais velho, Arthur, com Catharina de Aragão, uma das filhas de -Fernando. Arthur morreu passado pouco tempo; e Henrique, desejando manter -a todo o transe a alliança hespanhola, tratou com todo o afan de casar -Catharina com o seu segundo filho, Henrique, que foi depois Henrique -VIII. O papa concedeu uma dispensa, e o casamento realisou-se. Henrique -VIII teve, pois, por mulher a viuva de seu irmão. - -Nunca se poude saber ao certo se Arthur e Catharina foram realmente -casados. Se o casamento não passou de um contracto legal, não havia -motivo para que a dispensa do papa não fosse bem acceite mesmo por -aquelles que não viam com muito bons olhos a supremacia papal; se -foi, porém, um casamento em toda a accepcão da palavra, ficou então -demonstrado que o papa tinha auctoridade para conceder uma dispensa -que ia de encontro as leis divinas de parentesco. Segundo a opinião -geral, Arthur e Catharina viveram conjugalmente, de modo que Henrique -casou realmente com a viuva de seu irmão, e assim a dispensa do papa -só poderia ser concedida no caso de elle possuir aquelles supremos -poderes que os ultramontanos lhe atribuem. A legalidade do casamento de -Henrique e a legitimidade de sua filha Maria baseiava-se, portanto, na -supremacia do papa. E não é para admirar que Henrique VIII, no principio -do seu reinado, se conduzisse, no tocante a essa supremacia, mais em -conformidade com a opinião dos ultramontanos do que com as tradições da -corôa de Inglaterra. É que a validade do seu casamento, a legitimidade -de seus filhos, e o direito que a estes assistia de lhe succederem no -throno, dependiam, como já dissemos, da supremacia do papa. - -Quando Luthero atacou o papa, Henrique tomou ostensivamente a defeza do -Bispo de Roma, e rei algum, depois de João, apoiou mais em absoluto as -reivindicações do papa do que elle. Os seus interesses pessoaes, assim -como os interesses de sua mulher e de seus filhos, estavam dependentes -d’esse seu apoio. A Inglaterra, no principio do reinado de Henrique, -estava positivamente avassallada á Sé de Roma. Henrique, posto que se -sentisse inclinado, pela educação recebida, a adoptar as idéas de Colet, -More e Erasmo, via-se obrigado, em vista da situação particular em que se -encontrava, a manter-se n’uma attitude de irreconciliavel hostilidade, e -o facto de ter reprovado os actos de Luthero conquistou-lhe o titulo de -Defensor da Fé. - -=Henrique muda de opinião.=—Henrique nunca deixou de reconhecer a -supremacia do papa em todos os assumptos, durante os primeiros dezoito -annos do seu reinado. De um momento para o outro, porém, começou a -pensar de differente modo, e podem-se apresentar bastantes razões para -essa subita mudança de idéas. Parece que elle teve sempre duvidas -ácerca da legitimidade do seu casamento com Catharina, e que essas -duvidas se avolumaram á medida que ia perdendo a esperança de ter um -filho varão que lhe succedesse, chegando a convencer-se de que esse -facto representava um castigo divino por haver desposado a viuva de seu -irmão. Durante todo esse tempo, comtudo, a alliança hespanhola, que fôra -tratada primeiramente com Fernando, e mais tarde com o neto d’este, o -imperador Carlos V, havia sido de grande utilidade para Henrique e para -a Inglaterra; e essa mesma aliança é que havia, na opinião do rei, de -firmar o throno de sua filha, cuja legitimidade, declarada pelo papa, -encontraria no imperador um inabalavel sustentaculo. - -Carlos V, porém, estava absorvido nos seus planos de anniquilar a -Reforma, e estabelecer o imperio medieval, e o papa só pensava em -conquistar para si uma posição independente, em se tornar o primeiro -dos principes italianos, revestido de todo o poder secular, de modo que -nenhum d’elles correspondia á expectativa de Henrique. Este deixou de ter -confiança na fidelidade d’elles á sua casa, quanto á sucessão do throno. -Encontrava-se n’uma situação embaraçosa, e, como meio mais rapido de -sair das suas difficuldades, resolveu pedir ao papa que o divorciasse -de Catharina de Aragão. Cessariam d’esse modo os seus escrupulos de -consciencia por haver casado com a cunhada; poderia contrair novo -casamento, a alimentar a esperança de ter um filho macho, seu legitimo -herdeiro. Entendeu-se, pois, com o cardeal Wolsey, seu ministro, e -dirigiu ao papa um pedido de divorcio. - -N’aquela ocasião, porém, o papa queria evitar qualquer desintelligencia -com Carlos V, sobrinho de Catharina, e recusou dar o seu consentimento -para o divorcio, sendo então que Henrique, homem muito exaltado, e a -quem os obstaculos não faziam recuar, decidiu divorciar-se não obtante a -recusa do papa. Todos os interesses pessoaes que até certo tempo levaram -o rei a apoiar a supremacia papal se ligavam agora para que elle fizesse -exactamente o contrario. Se o papa tivesse sanccionado o divorcio, não -teria havido, provavelmente, ruptura com Roma, porque o rei continuaria a -ter interesse em que se mantivesse a supremacia papal; as circumstancias, -porém, aconselhavam-n’o a enveredar por outro caminho, e foi o que elle -fez. - -Thomaz Cromwell alvitrou que se consultassem as universidades da Europa -sobre a legalidade do casamento de Henrique e este acceitou o alvitre -com grande alvoroço. Tratou-se, por conseguinte, de pôr esta idéa em -execução, entregando-se a eminentes vultos, a verdadeiras summidades, -o decidirem a questão segundo as leis canonicas, tendo ao mesmo tempo -na devida consideração a sensivel consciencia do rei. Apoz algum tempo, -e tendo-se dispendido com isso uma fabulosa quantia, as universidades -declararam, por uma muito pequena maioria, que o casamento de Henrique -com Catharina não era valido, concluindo-se d’esta decisão que Henrique -não tinha herdeiro algum legitimo. - -Animado com este veridictum, resolveu pôr em pratica qualquer das -duas coisas seguintes: alarmar o papa, obrigando-o assim o conceder o -divorcio, ou repudiar a sua auctoridade suprema. - -Foram muitos os motivos secundarios que contribuiram para que elle -tomasse esta ultima deliberação. Henrique, que gostava de viver com -muita ostentação, tinha desbaratado, havia muito, as riquezas que o -pae amontoara, e era-lhe impossivel augmentar os impostos. Os cofres -do Estado estavam despejados, e para os encher bastaria o espolio dos -conventos e mosteiros. Isto constituiu uma das razões, mas havia uma -outra que appellava mais fortemente para a sua vaidade. - -=Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre -elles.=—As tres grandes potencias europêas no tempo da Reforma eram -Hespanha, França e Inglaterra, e não podia deixar de haver rivalidade -entre os respectivos monarcas. O rei de Hespanha, que era o mais poderoso -dos tres, era tambem imperador da Allemanha, e todo o seu empenho -consistia em restabelecer no imperio o esplendor que este tivera na Edade -Media. Segundo as antigas noções medievaes, não havia mais do que uma -christandade, o imperador era supremo e soberano, e todos os outros reis -estavam sob a sua dependencia. Se Carlos fosse bem succedido nos seus -esforços, Francisco e Henrique passavam a occupar uma posição inferior -á que tinham, e, portanto, convinha-lhes trabalhar para que o plano -de restauração não vingasse. Uma christandade medieval implicava uma -egreja indivisa, centralizada no papa, o bispo de Roma. A politica dos -reis da França e de Inglaterra insistia em obstar a essa centralização -ecclesiastica, e fazer com que as egrejas das suas respectivas nações se -tornassem o mais independentes de Roma que fosse possivel. - -Francisco havia conseguido isso quanto á França, e de um modo que -contribuiu bastante para que o seu prestigio augmentasse, e o seu -poder se consolidasse dentro do proprio reino. O papa, mediante a -Concordata de 1516, havia, sob a condição de que os _annates_ seriam -pagos com regularidade, e de que lhe seriam feitas certas e determinadas -concessões, investido praticamente o rei de França na chefatura da -egreja franceza, dando-lhe liberdade para prover como entendesse os -differentes cargos ecclesiasticos. - -Henrique, rival de Francisco, era tambem seu imitador, e havia de lhe -ser difficil deixar de ter inveja das regalias que o papa lhe tinha -concedido. O que Francisco recebeu pela Concordata de 1516, deu o -parlamento inglez a Henrique quando o proclamou chefe supremo, sobre a -terra, da egreja de Inglaterra. De modo que em França a supremacia do rei -sobre a egreja fez com que fossem toleradas as reivindicações papaes, ao -passo que em Inglaterra promoveu a revolta contra Roma. A França, liberta -do dominio papal por livre vontade do proprio papa, podia ficar por ahi, -mantendo, a todos os outros respeitos, as velhas tradições da egreja. A -Inglaterra, que alcançara a sua independencia contra a vontade do papa, -e por meio de um acto de rebellião contra a sua auctoridade, tinha de -ir mais longe; para conservar a posição que tomara era-lhe necessario -afastar-se cada vez mais de Roma. - -Sucedeu, assim, que a Reforma em Inglaterra foi o avanço quasi -involuntario de uma nação revoltada contra Roma, pois que a sua -resistencia á curia romana foi, em primeiro logar, o meio de que um -imperioso monarca se serviu para conseguir o seu engrandecimento pessoal, -e, em segundo logar, o meio de que um povo se serviu para conseguir a -sua independencia. A França, a despeito dos huguenotes, conservou-se -catholica romana; a Inglaterra, a despeito de Henrique VIII, tornou-se -uma nação protestante. - -=A submissão do clero.=—Henrique depressa se certificou de que não -era possivel constranger o papa, mediante o medo, a conceder-lhes o -divorcio, mas resolveu obrigar o clero inglez a conformar-se pelo medo -com as suas deliberações. O cardeal Wolsey foi nomeado nuncio do papa -em Inglaterra, e todos os bispos e mais clerigos o reconheceram como -tal. Ora em 1531 o rei acusou-o abruptamente de haver transgredido a lei -do _Proemunire_ pelo facto de acceitar aquelle cargo e cumprir, ainda -que só apparentemente, os deveres que lhe eram inherentes, e accusou -egualmente todos os clerigos de Inglaterra de serem cumplices d’esse -crime pelo facto de o aceitarem na qualidade de embaixador do papa. -Declarou, outrosim, que tanto Wolsey como todos os clerigos da egreja -ingleza haviam incorrido, em virtude d’esse delicto, na perda de todos -os bens ecclesiasticos de que estavam de posse. O clero ficou seriamente -alarmado, e, para evitar uma catastrophe maior, sujeitou-se a pagar -uma multa de 118:000 libras e a assignar, ainda que de má vontade, uma -declaração de que o rei era «o unico protector, o unico senhor supremo, -e, _até onde é permittido pela lei de Christo_, o supremo cabeça da -egreja e do clero». A ambiguidade que se nota n’este reconhecimento foi -intencional. Era um subterfugio para as consciencias fracas, mas o rei -ficou satisfeito com a phrase, certo como estava de que poderia obrigar o -clero a proceder segundo a interpretação que elle proprio lhe dava. - -Tratou sem demora de mostrar como era por ele compreendido o sentido -pratico de similhante declaração, desdobrando-o em tres artigos, que -os clerigos tiveram tambem de assignar. Declaravam que regulamento -ou preceito algum ecclesiastico seria de ali em deante promulgado ou -publicado pelo clero sem previo consentimento do rei; que approvavam -a nomeação de uma commissão de trinta e duas pessoas para rever os -antigos canones da egreja e cortar todos aqueles que fossem prejudicaes -á autoridade do rei; e, finalmente que os canones ecclesiasticos só eram -validos depois de ratificados com auctorização do rei. Estas proposições -foram submetidas á Convocação, ou Assembléa Geral da Egreja de -Inglaterra, e, depois de alguma hesitação, o clero, reunido, acceitou-as. -A Convocação foi um pouco mais longe do que o rei, pois que pediu para -que o clero inglez não pagasse mais os _annates_ á sé de Roma. - -Esta decisão tomada pela Convocação, de que a egreja de Inglaterra -não podia fazer leis para sua direcção ou governo sem a sancção ou -ratificação do rei, tem sido chamada a _Submissão do Clero_. Assim no -ano de 1532 a egreja de Inglaterra, por ordem do rei e do parlamento, -renunciava á sua obediencia a Roma. Esta renuncia ao governo papal -incluia (1) o reconhecimento da supremacia real; (2) submissão á corôa -pela cedencia do direito de fazer leis; e (3) a recusa ao papa das -receitas que lhe haviam sido pagas durante gerações. A egreja conservava -as mesmas doutrinas, governo e culto, consistindo apenas a differença em -o rei tomar o logar que o papa tinha ocupado. - -O clero tinha alimentado a esperança de que lhe fosse permittido reter -os _annates_ em seu poder, mas o rei mostrou que estava resolvido a que -a supremacia real fosse tão genuina como a antiga supremacia do bispo de -Roma, e insistiu em que o imposto pontificio fosse pago na thesouraria -real. - -=O progresso da Separação de Roma.—O parlamento inglez, em -1529-1536.=—Durante os primeiros annos do reinado de Henrique VIII, -quando era do interesse do rei estar bem com o papa e com o rei de -Hespanha, todas as queixas contra a egreja haviam sido reprimidas. -Agora, porém, que Henrique queria aterrorisar o papa para o obrigar a -conceder-lhe o divorcio, as queixas eram animadas. Henrique servia-se -do parlamento como Carlos V se podia ter servido da Dieta allemã. Todas -as nações tinham accusações a apresentar contra a egreja. Os allemães -publicaram as suas _Cem Afrontas_; o parlamento inglez, convocado para -se reunir em 1529, tinha tambem queixas a fazer ácerca da libertação -do clero da jurisdicção dos tribunaes judiciaes da nação, ácerca da -auctoridade absoluta exercida pelos tribunaes ecclesiasticos sobre -os leigos em pleiteados casos de casamento, testamentos, successão, -calumnia, etc., ácerca das avarezas do clero e do elevado custo dos -enterros e dos baptismos, e assim successivamente. O parlamento formulou -estas queixas, e com isso alarmou, e não pouco, o clero, tornando-o mais -submisso ás imperiosas ordens do rei. - -Em Janeiro de 1532 Henrique VIII desposou Anna Boleyn, provocando, d’esse -modo, pessoalmente o papa. O seu casamento com Catharina de Aragão foi -declarado nullo e sem effeito pelo arcebispo de Canterbury, que fallou -em nome da Egreja de Inglaterra, e por deliberação do parlamento. O -rei, a nação, e, um pouco constrangidamente, a egreja uniram-se, pois, -para desafiar collectivamente o papa, e para se revoltarem contra o -imperio ecclesiastico da Edade Media. O parlamento secundou este desafio -approvando leis que tendiam a uma separação completa, e que, pelo lado -politico, eram inoffensivas para os subditos inglezes. Sete dos seus -decretos teem uma importancia especial. - -(1) Em 1533 o parlamento prohibiu ao clero o pagar os _annates_, ou o -vencimento do primeiro anno, quando se entrava na posse de qualquer -beneficio. Estas «primicias» tinham sido sempre consideradas uma -homenagem devida á supremacia do papa. - -(2) Na mesma sessão o parlamento aboliu as appellações para Roma. O -_Estatuto para Repressão das Appellações_ declarava que nenhum subdito -inglez podia appellar de um tribunal da sua nação para outro qualquer, -e que similhante appellação constituia uma violação do Estatuto de -_Proemunire_, ficando sujeita ás devidas consequencias. Todas as questões -que tivessem de ser submettidas ao juizo da Egreja deviam ser entregues -aos tribunaes ecclesiasticos do reino. Continuavam a ser permittidas -as appellações de um arcediago para um bispo, e de um bispo para um -arcebispo; mas aqui parava o direito de appellar, e o tribunal do -arcebispo era o supremo tribunal de appellação. Só o rei podia appellar -d’este supremo tribunal ecclesiastico, e podia levar a sua appellação -para a Convocação, mas não fóra do reino. - -(3) Em 1534 a _Submissão do Clero_ foi ratificada pelo parlamento. Ficou -declarado que era necessario o consentimento do rei para todas as leis -ecclesiasticas, e, para dar a isto um valor pratico, estabeleceu-se que -em todos os pleitos havia o direito de appellar do supremo tribunal -espiritual, que era o do arcebispo, para o rei. - -(4) O parlamento declarou, outrosim, que o papa não tinha direito de -intervir na eleição dos bispos, e que todo e qualquer poder que se -attribuia ao papa pertencia realmente ao rei. Esse direito era definido -de tal fórma que se podesse dar todo o direito de nomeação ao rei, ao -passo que se preservava a sombra do antigo uso ecclesiastico. Quando -uma sé vagava, assistia ao rei o direito de auctorizar o deão e o -capitulo a eleger para o cargo vago qualquer pessoa mencionada na carta -de licença. As dispensações papaes eram tambem declaradas illegaes, e o -poder dispensativo que n’outro tempo, segundo era por todos reconhecido, -pertencia ao papa, ficava residindo agora na Egreja de Inglaterra, e o -seu exercicio pertencia aos arcebispos de Canterbury e de York. - -(5) Para mostrar, comtudo, que todos estes Actos não tinham em vista -reforma alguma, mas sómente uma separação politica da Egreja de -Inglaterra quanto ao papado, o parlamento promulgou uma lei sobre a -heresia, em que se declarava que os herejes seriam queimados como -antigamente, em obediencia ao velho decreto _de combatendo hereticos_, e -o rei, como cabeça da Egreja, recebia o encargo de a purificar de falsas -doutrinas. Declarava-se, porém, que fallar mal do papa não constituia -heresia. - -(6) Por ultimo, saiu d’este notavel parlamento o _Acto de Successão_ e o -_Acto de Traição_. O primeiro declarava que a princeza Maria, filha de -Catharina de Aragão, era illegitima, e transferia o direito de successão -para a princesa Isabel, filha de Anna Boleyn. O _Acto de Traição_ punia -com a morte todos aquelles que recusassem acceitar o _Acto de Successão_ -ou reconhecer o novo titulo e as novas prerogativas do rei. - -=Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes.=—Em todos os Actos -d’este parlamento, e em todas as decisões de uma submissa Convocação, -nada houve que não fosse puramente politico. A Inglaterra não se havia -tornado protestante ou lutherana, e Egreja reformada em Inglaterra era -coisa que não existia. A Inglaterra havia-se, tão sómente, desligado de -aquella alliança que, sob a superintendencia do imperador e do papa, -realisava a idéa medieval de um systema de governação, tanto civil como -ecclesiastico. O que torna importantissimas aquellas deliberações do -parlamento é o facto de ter sido a Inglaterra a primeira nação que rompeu -com o medievalismo e deixou de reconhecer o velho imperio ecclesiastico -da Edade Media. Os herejes, isto é, aquelles que haviam acceitado as -doutrinas de Luthero, ou que, entregando-se ao estudo da Biblia, tinham -chegado ao conhecimento de um mais puro christianismo, eram perseguidos -e mortos, usando-se com elles da mesma crueldade, do mesmo espirito de -vingança, como quando a Inglaterra era uma escrava obediente do papa. -Diz-se que Wolsey, no seu leito de morte, supplicou ao rei que destruisse -todos os signaes de lutheranismo; e, a despeito da grande tolerancia de -Thomaz More, os herejes eram procurados e castigados. Tindal, que tinha -traduzido em inglez o Novo Testamento de Erasmo, foi caçado de logar em -logar, como se fosse um animal feroz. Todos os que se atrevessem a fallar -contra a missa, a transubstanciação, o culto dos santos e a efficacia -das boas obras corriam o risco de ser presos e queimados como herejes. -Os Actos do Parlamento não haviam promovido a liberdade de consciencia, -tinham simplesmente dado logar a novos ensejos para perseguir e matar. -Para ajuntar aos antigos crimes theologicos, appareceu um outro. Quem se -recusasse a prestar o juramento de supremacia, quem se atrevesse a dizer -que Catharina de Aragão era a esposa legitima do rei, e que a princeza -Maria era a herdeira do throno, estava sujeito a ser preso, processado e -executado. A Inglaterra encontrava-se n’um estado anormal, n’um estado de -grande agitação, e os homens conscienciosos tudo soffriam por causa da -consciencia. - -=A execução de Tomaz More.=—Thomaz More era o chanceller quando o -parlamento, reunido em 1529, separou a nação, mediante successivos Actos -do imperio ecclesiastico de Roma. Tinha sido na sua mocidade um distincto -estudante, e havia-se entregue com amor aos «estudos modernos» de latim, -grego e hebraico quando, em Oxford, assistira ás prelecções de Tinacre, -um dos primeiros humanistas inglezes, que se havia educado em Italia -para o seu trabalho escolastico em Inglaterra. Dedicara-se á carreira -da jurisprudencia, foi magistrado em Londres, e tornou-se notoria a sua -amizade ao deão Colet e a Erasmo. O seu livro _Utopias_ dá testemunho -de que elle havia adoptado muitas das opiniões de Marcello de Padua e -de outros juristas liberaes do fim da Edade Media. Elle opinava que -tanto a Egreja como o Estado existiam para beneficio do povo, e todo o -seu anhelo era uma reforma de costumes na Egreja. Investido no cargo -de chanceller, toda a gente notou a brandura de que elle usava com os -herejes; permaneceu, porém, ligado ás doutrinas da Egreja Catholica -Romana, e abandonou algumas das suas primitivas opiniões em favor de mais -estrictas idéas ácerca da origem divina da supremacia do papa. Reprovou, -portanto, todo o procedimento da côrte e do parlamento inglez depois da -queda de Wolsey. Avisou o rei de que não podia ser parte no divorcio de -Catharina de Aragão. Não quiz assistir ao casamento e coroação de Anna -Boleyn, e, ao ser ameaçado com as consequencias, disse ao rei que as -ameaças eram para as creanças e não para elle. Henrique tinha uma forte -affeição pelo seu chanceller; mas coisa alguma poderia augmentar mais -a duvida com respeito á validade do divorcio, do novo casamento e da -successão ao throno derivada d’este, do que a recusa da maior auctoridade -juridica da nação de ver em Catharina de Aragão uma mulher que não era a -esposa legitima de Henrique VIII. - -More foi, portanto, obrigado a prestar juramento de fidelidade á nova -rainha, reconhecendo Anna Boleyn como a esposa legitima de Henrique VIII, -e a confirmar a legalidade do _Acto de Successão_. N’esta conjunctura, -elle tinha de obedecer á consciencia ou salvar a vida, e, com uma grande -serenidade de espirito, preferiu obedecer á consciencia. A mulher -foi ter com elle á prisão, rogando-lhe que se submettesse á ordem do -rei. «Senhora Alice», retorquiu elle, com toda a ternura, «esta casa -não estará tão perto do céu como a nossa?» A filha, Margarida Roper, -que era afamada pela sua erudição, pela sua affabilidade e pela sua -formosura, foi tambem vêl-o repetidas vezes, e as suas visitas como que -lhe fortaleceram a serena coragem. Morreu em Julho de 1535. Erasmo soube -da morte d’elle quando tinha entre mãos a sua _Pureza da Egreja_, a que -ajuntou um prefacio que é quasi uma biographia do seu velho amigo, a que -attribue uma alma mais pura do que a neve. - -O assassinio judicial de Thomaz More e do bispo Fisher, seu companheiro -no soffrimento, veiu demonstrar o estado cahotico em que Henrique VIII -havia feito cair a Inglaterra, pois que, ao passo que eram queimados os -homens accusados de lutheranismo, executavam-se aquelles que mantinham a -auctoridade do papa no que dizia respeito aos costumes e á doutrina. - -=A suppressão dos mosteiros e a confiscação dos bens da Egreja.=—Henrique -VIII tinha sido sempre um grande gastador. Tudo quanto o pae lhe deixara -havia desapparecido logo no principio do seu reinado, em virtude da -guerra com a França. O rei e a côrte tinham grande necessidade de -dinheiro. Thomaz Cromwell lembrou então que este podia ser obtido -mediante a suppressão de alguns dos mosteiros. - -Do clero ninguem foi mais justamente atacado do que os monges, durante o -periodo da Reforma. A sua preguiça, as suas riquezas, a sua cupidez e a -sua má vida eram notorias em toda a Europa. Os auctores populares haviam -composto satyras a seu respeito, e graves estadistas tinham chamado a -attenção do papa para uma reforma das varias ordens. - -Gromwell insistiu n’uma syndicancia aos mosteiros, com o fim de se ficar -sabendo se as queixas formuladas tinham fundamento. Foram visitadas tres -d’essas casas, e constatou-se que as vidas dos frades e das freiras -estavam longe de ser o que deviam ser, que a propriedade monacal -havia sido pessimamente administrada, e que muitos dos religiosos, -de ambos os sexos, desejavam desligar-se dos votos. O parlamento -approvou uma proposta de lei para que fossem supprimidos os conventos -menos importantes, e, passado algum tempo, eram encerrados todos os -estabelecimentos monacaes. Os respectivos bens foram confiscados em -proveito do rei. A grande somma de dinheiro que se obteve por esta fórma -podia, nas mãos de um monarca astuto e economico, ter constituido um -vasto capital cujo rendimento habilitaria o rei a prescindir de impostos, -e, por consequencia, a prescindir de parlamento, o que redundaria na -ruina, em Inglaterra, de todas as liberdades. Henrique era, por indole, -um despota, mas não tinha em si a força de vontade necessaria para pôr -em execução aquillo que lhe vinha á idéa. A sua ambição principal era -poder dispôr de muito dinheiro, e as propriedades confiscadas aos frades -foram postas em praça a vendidas pelo maior preço que foi possivel -obter. O resultado d’isso foi augmentar consideravelmente o numero dos -proprietarios em Inglaterra. Henrique dissipou em poucos annos todo o -dinheiro que d’aquelle fórma lhe fôra parar ás mãos, e ficou tão pobre e -tão necessitado do auxilio dos seus subditos como anteriormente. - -=Os dez artigos.=—Cranmer, o arcebispo de Canterbury, que havia sido -um instrumento facil nas mãos do rei, quando este andou tratando de se -assenhorear das liberdades da Egreja e de uma grande parte das suas -riquezas, tinha uma secreta predilecção pelas doutrinas reformadas -de Luthero e de Zwinglio. Thomaz Cromwell, que desde o fallecimento -de Wolsey exercia o cargo de conselheiro politico do rei, era tambem -um admirador dos homens da Reforma. Ambos tinham o desejo, depois -da Inglaterra se ter separado politicamente do papado, e de se ter -effectuado a suppressão dos mosteiros, de introduzir uma reforma de -doutrina e de culto, e de equiparar a Egreja de Inglaterra ás egrejas -reformadas da Allemanha e da Suissa. - -O schema politico de Cromwell consistia em collocar Henrique á frente de -uma confederação protestante que podesse rivalisar com o imperio medieval -de Carlos V. Isto sómente se poderia fazer, comtudo, se a Egreja da -Inglaterra abraçasse as doutrinas da Reforma e animasse os homens que até -ali tinham sido perseguidos como herejes. - -O rei desapprovou energicamente a proposta, mas por fim cedeu, e em 1536 -foram publicados, com a approvação da Convocação, os _Dez Artigos_, -que eram um breve formulario de doutrinas. Estes artigos asseveravam -a auctoridade da Escriptura, dos tres grandes e antigos credos, e dos -quatro concilios ecumenicos; affirmavam que o baptismo era necessario -para a salvação; que a penitencia, a confissão e a absolvição eram -egualmente coisas necessarias; que o corpo e sangue de Christo estavam -substancial, real e corporalmente presentes no pão e vinho da Eucaristia; -que a justificação tinha logar mediante a fé, junta com a caridade e -com a obediencia; que nas egrejas era licito o uso das imagens; que se -devia glorificar a Virgem e invocar os santos; que se devia conservar os -varios ritos e dias santificados da Egreja medieval, fazendo-se uso dos -paramentos, dos crucifixos e da agua benta; que existia o purgatorio; e -que, finalmente, se devia fazer orações pelos defuntos. - -Estes Artigos, como se vê, não estavam em conformidade com a fé -protestante. Alguns historiadores ecclesiasticos teem dito que elles -foram muito judiciosamente collocados entre a doutrina dos reformadores -mais pronunciadamente biblicos e as velhas superstições; mas teem sido -mais bem descriptos como essencialmente «romanistas, com o papa atirado -para a margem». Fuller diz que elles foram destinados para creancinhas -«recentemente tiradas dos peitos de Roma.» - -Emquanto estes acontecimentos iam tendo logar, Catharina de Aragão -morreu, em 1536, e o rei desembaraçou-se de Anna Boleyn, mandando-a -decapitar sob a accusação de infidelidade. Sua rilha, a princeza Isabel, -foi, pelo parlamento, declarada illegitima, e a successão tornou-se de -novo incerta. - -O rei casou então com Jane Seymour, a cuja descendencia ficaram -reservados os direitos á corôa. - -=A peregrinação da graça.=—As execuções de Thomaz More e do Bispo Fisher -haviam desgostado muitissimos subditos do rei que eram affeiçoados a -Roma, e estes, animando-se com a declaração da illegitimidade de Isabel -e com a incerteza quanto á successão, promoveram rebelliões em Yorkshire -e Lincolnshire. Os rebeldes contavam com o auxilio da Hespanha, e tinham -tambem muita confiança no effeito que havia de produzir a bulla, que -acabava de ser publicada, em que o papa excommungava Henrique VIII. - -Os seus projectos, porém, foram com facilidade mallogrados, e o -nascimento de um filho de Jane Seymour, a quem o rei havia desposado -depois da morte de Catharina de Aragão, deu ao rei a cubiçada successão -legitima e fez cessar todos os sentimentos anarquicos entre o povo. - -Infelizmente, a rainha falleceu ao dar á luz o filho. - -Cromwell e Cranmer voltaram novamente com as suas idéas de uma união -protestante. Cranmer, juntamente com uma commissão de prelados, redigiu, -em 1537, o que se ficou chamando o _Livro do Bispo_, ou a _Instituição -de um Christão_, e que continha uma exposição de theologia muito mais -protestante do que os _Dez Artigos_. - -No anno seguinte Cranmer, que havia estado em correspondencia com os -theologos de Wittenberg, organizou um outro credo chamado os _Treze -Artigos_, e que era largamente baseado na Confissão de Augsburgo. - -O rei recusou sanccionar estes Artigos, e foi-se gradualmente afastando -do plano de uma alliança protestante. Cromwell caiu no desagrado de seu -amo em virtude da persistencia com que advogava esse plano, chegando a -apresentar um projecto de casamento de Henrique com Anna de Cleves, com -o fim de cimentar a alliança. Morreu no cadafalso, como havia succedido a -More e a Fisher, e o rei foi-se tornando cada vez mais reaccionario. - -=O Estatuto Sanguinario, ou os Seis artigos.=—O primeiro indicio d’esse -facto foi a publicação do _Livro do Rei_, ou a _Necessaria Doutrina e -Erudição para todos os Christãos_. Em 1539, Henrique resolveu voltar á -politica do primeiro periodo do seu reinado, e poz-se em communicação -com Carlos V. A mudança na politica exterior do rei teve repercussão nos -negocios internos. Foram promulgados os _Seis Artigos_, «para abolir a -diversidade de opiniões», e foi revogoda a permissão de ler a Biblia -traduzida por Tindal. - -Estes Artigos exigiam de todos os inglezes, sob pena de confiscação -dos bens, e de morte, que cressem na transubstanciação, que negassem -a necessidade dos leigos participarem do calix na communhão e que -admittissem o celibato do clero, a obrigação dos votos de castidade e a -necessidade das missas e da confissão auricular. - -As doutrinas das egrejas reformadas da Allemanha e da Suissa tinham -feito algum progresso na Inglaterra, não obstante as perseguições, e -haviam sido abraçadas por um grande numero de pessoas durante aquelles -annos de tolerancia em que Cranmer e Cromwell dirigiram a politica do -rei, e esta lei dos Seis Artigos deu logar a uma grande perseguição. O -povo chamava-lhe o Estatuto Sanguinario e o Chicote das Seis Cordas. Deu -principio a um reinado de terror, que só terminou com a morte do rei. -Felizmente para a nação, esta não se fez esperar muito. - -=O estado da Egreja de Inglaterra em 1547.=—Henrique morreu em 1547, -deixando tres filhos: Maria, filha de Catharina de Aragão, com 31 -annos; Isabel, filha de Anna Boleyn, com 14; e Eduardo, filho de Jane -Seymour, com 10. Maria e Isabel haviam sido declaradas illegitimas pelo -parlamento. Eduardo succedeu a seu pae no throno. - -Henrique deixou atraz de si um caos, para sair do qual teve a nação de -sustentar uma tremenda lucta. O rei, emquanto viveu, susteve com mão -ferrea os romanistas extremos e o partido protestante, e manteve até -ao fim o seu ideal, que era uma egreja catholica, desligada do papa. -E conseguiu-o, pondo-se no logar outr’ora occupado pelo papa. Exercia -sobre a Egreja uma auctoridade muito mais absoluta do que sobre o -Estado. A posição era difficil de sustentar, e foi-o muito mais para os -monarcas que succederam a Henrique, pois que as idéas reformistas iam-se -propagando cada vez mais. Deixou tambem sem solução muitos problemas -politicos. Os cofres publicos estavam vasios. A sua politica exterior foi -um subterfugio, que collocou em grandes embaraços os seus successores. -A venda dos bens da Egreja produziu uma mudança, tanto social como -economica, que difficultou a vida da nação. - -O assumpto, porém, que exigia immediata resolução era: A Inglaterra devia -abraçar a Reforma, ou voltar de novo para o romanismo? A Egreja não podia -permanecer na situação em que Henrique a havia deixado. - - - - -CAPITULO II - -A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE MARIA - - Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o _Livro de - Homilias_ e o _Livro de Oração Commum_, pag. 176.—A alliança - com o protestantismo continental, pag. 178.—Os _Quarenta e - Dois Artigos_, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag. - 179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra - por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha - necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se - firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A - reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida - a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado - de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag. - 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A - morte de Maria, pag. 187. - - -=Será adoptada a Reforma?=—Quando Henrique morreu, succedeu-lhe seu -filho, Eduardo VI, que era então um rapazito de dez annos. Pouco antes de -morrer, Henrique fez testamento, em que deixou instituido um conselho de -regencia, composto de dezeseis membros da nobreza, o qual entrou logo no -exercicio das suas funcções, começando a governar. O referido conselho -escolheu o conde de Hertford, que fazia parte d’elle, para o logar de -protector do reino, recebendo n’essa occasião, em conformidade, segundo -se diz, com o que estava estabelecido no testamento, o titulo de duque -de Somerset. A questão mais grave que este conselho de regencia tinha de -resolver era a questão religiosa. A Inglaterra não podia continuar no -estado em que se encontrava. Ou a Egreja se reformava, ou a nação tinha -de renovar a sua alliança com Roma. Se se tivesse consultado a opinião -publica, ver-se-hia, provavelmente, que uma grande maioria era partidaria -do romanismo. Os ultimos annos do reinado de Henrique tinham sido uns -annos de terror, e todas as desventuras eram attribuidas á supremacia -real em materia de religião. O povo de Inglaterra, por outro lado, -estava pouco ao facto das doutrinas reformadas, e a Biblia não estava -vulgarisada. A Reforma não havia sido prégada na Inglaterra, como o fôra -na Allemanha e na França. Não havia excitado o enthusiasmo popular. - -A extincção dos conventos tinha feito com que a gente do campo desejasse -voltar ao antigo systema. Os inglezes não haviam opposto obstaculo algum -á extincção dos conventos e á confiscação dos bens da Egreja quando isso -foi pela primeira vez decretado; mas os camponezes em breve descobriram -que a unica coisa que havia resultado para elles fora uma substituição -de amos com quem se davam perfeitamente por outros que custavam immenso -a supportar. Os novos proprietarios vedavam os logradouros publicos, -derrubavam os muros e as sebes que dividiam entre si as quintas pequenas -para formarem extensas propriedades, e preferiam as pastagens ás searas -de trigo, diminuindo assim o valor das terras e dando logar a uma grande -falta de trabalho. A pobre gente suspirava por aquillo a que chamava os -bons tempos. - -A extincção dos conventos tinha, por outro lado, atirado cá para fóra -com uma legião de homens que não tinham profissão alguma e incapazes de -ganhar a vida, era preciso cuidar d’essa gente. O governo havia entendido -que o meio menos dispendioso de arrumar os frades era collocal-os nas -freguezias, na qualidade de parocos ou de coadjuctores. E assim a Egreja -encheu-se de homens que trabalhavam de má vontade, e que odiavam aquella -nova ordem de coisas que lhes havia transtornado a vida. - -Todas estas coisas tornavam duvidoso se a Inglaterra adoptaria a Reforma -ou se reconciliaria com Roma. - -Por outro lado, havia homens fervorosos e cheios de resolução, que -estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e até a propria vida, -pela causa da Reforma, que elles estavam na convicção de ser a causa -de Christo. No numero d’esses homens figuravam o Protector, Somerset, -e outros membros do conselho da regencia, que deliberaram introduzir -a Reforma na Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real -appareceu sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os a -solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças. Isto tinha -sido inventado por Cromwell para que não fossem prejudicadas as regias -prerogativas. - -=A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração -Commum.=—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O paiz foi -dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas foi nomeado um -funccionario, que deveria averiguar se os serviços ecclesiasticos estavam -sendo executados segundo as leis vigentes. A jurisdicção episcopal -esteve durante algum tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome -do rei. Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços -ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas deficiencias. -O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimo havia sido sempre lutherano, -e que animara o conselho da regencia em todos os planos d’este, compoz -um _Livro de Homilias_, que foi entregue ao clero paroquial, com a -recommendação de ser lido nas egrejas. A _Paraphrase do Novo Testamento_, -de Erasmo, foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem -fosse lida no culto publico. - -Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner, bispo de -Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre Henrique VIII -nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra um dos auctores do Estatuto -Sanguinario, estava á testa do partido reaccionario, e protestou contra -todas as propostas dos visitadores. - -Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu os _Seis Artigos_, declarou -que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato, que na Ceia do -Senhor o vinho, assim como o pão, devia ser administrado aos leigos, e -approvou a politica ecclesiastica do Protector Somerset. - -As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas egrejas mais -simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se o uso do _Livro de -Oração Commum_, compilado, por Cranmer, dos antigos rituaes. Foi este o -_Primeiro Livro de Oração Commum de Eduardo VI_, e, posto que mais tarde -passasse por algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu -conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente. - -Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento do romanismo. As -imagens e reliquias das egrejas foram destruidas. Aboliram-se os antigos -dias de jejum, e o arcebispo Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á -vista de todos, na quaresma. - -Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a maioria, do povo -e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente. Bonner, bispo de -Londres, tentou oppôr-se indirectamente á corrente, declarando que o -novo Livro de Orações podia ser tomado n’um sentido romanista; mas isso -apenas levou a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos, -á remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas, e á -preparação de um novo _Livro de Ordem_. - -Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia mudado, e em -doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se tornado protestante. -As mudanças que se haviam feito tinham promovido um grande sentimento -de desagrado para com Somerset; houve tentativas de revolta; e, posto -que estas fossem suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na -politica exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido -pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo succedido -pelo conde de Warwick. - -=A alliança com o protestantismo continental.=—A subida de Eduardo -ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick animaram o -arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo plano de uma alliança entre a -Egreja Romana e as Egrejas protestantes do Continente. Sob o congenial -patrocinio de Somerset, o plano de Cranmer parece ter incluido uma -assembléa, em Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes -com o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir de -resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante commum. - -Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que diversos -theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo inglez na fé -reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram de Strasburgo para -Inglaterra, e installaram-se em Cambridge, onde fizeram prelecções sobre -theologia e sobre as Escripturas do Antigo Testamento. Dois distinctos -italianos, Pedro Martyr de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna, -vieram leccionar para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos -elles abalisados professores, instruiram um grande numero de rapazes -nos artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores -para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem, segundo o uso -continental, polemicas publicas sobre pontos controversos de theologia, -taes como a Transubstanciação, o Celibato do Clero, o Purgatorio, etc. - -Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos, e foi -mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu aquella inclinação -para o modo calvinista, opposto ao lutherano, de expôr as doutrinas da fé -christã que serviu de molde aos seus artigos. - -=Os Quarenta e Dois Artigos.=—Um dos resultados d’estas discussões e -disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dos _Quarenta e Dois -Artigos_, que tinham por fim exprimir em fórma confissional o credo -da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram obra de Cranmer, coadjuvado -pelos bispos e por outros homens de erudição. Cranmer tinha começado a -escrevel-os em 1549; e acabou-os em 1552. - -A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna. A -rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante, as polemicas -publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros, e os trabalhos dos -prégadores ambulantes como João Knox, haviam feito com que o povo -desejasse ardentemente uma auctorizada exposição de doutrina tal como -estes artigos forneciam. Definiam com grande clareza os limites das -mudanças que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval. - -Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos eguaes aos Trinta -e nove Artigos que constituem o credo da actual Egreja da Inglaterra. -As sympathias de Cranmer tinham estado sempre voltadas para Luthero, e -elle copiou tres, nem menos, dos seus artigos directamente da Confissão -de Augsburgo. Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana, mas, -pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos de Eduardo -e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um e o mesmo documento. - -=Os principios do puritanismo.=—A livre discussão da theologia reformada -e das idéas da Reforma teve como um dos seus resultados a origem e -desenvolvimento, em Inglaterra, de uma theologia que acceitava cabalmente -os principios essenciaes da renascença da religião promovida pela -Reforma. Um d’estes principios era que Deus se havia collocado tão -perto do homem mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que -os homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar -directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas, recebel-o. As -theses de Luthero tinham estabelecido este grande principio da Reforma, -e todos os theologos insistiram na possibilidade de se ir directamente -ter com Deus sem ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja -medieval, por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos -crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso a Deus—e -havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio da Egreja. Tinha -tambem tornado visivel o sacerdocio do clero, insistindo em que cada -clerigo devia, quando exercesse o culto publico, usar um traje especial, -symbolico do seu officio sacerdotal, e havia levantado em cada egreja -um altar, ou logar especial onde se realisava o encontro de Deus com o -sacerdote. - -Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade e magnificencia -da doutrina da Reforma, de que todos os crentes são sacerdotes que gozam -do direito de se approximarem de Deus por meio da fé, e de que qualquer -porção do solo onde a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar -e remir é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou -symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam com -a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não podiam supportar que -o povo fosse desencaminhado por qualquer symbolo ou rito exterior que -houvesse sido empregado, nos dias de superstição, para inculcar a falsa -doutrina medieval da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de -todo e qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o povo no -tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente, ao uso -das vestimentas ecclesiasticas e dos altares nas egrejas. Estes homens -foram os precursores dos puritanos inglezes. - -É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo não significou ao -principio um systema de governo ecclesiastico, e que nada tinha que ver -nem com o presbyterianismo nem com o congregacionalismo. Os primeiros -puritanos da Inglaterra não protestaram contra o episcopado como -systema de governo. As coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se -o houvessem feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou -no culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal dos -crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os altares nas -egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se a fazer uso das -sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares com as costas voltadas -para a congregação. - -A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida. João Hooper, -que havia sido monge cisterciano, e que adoptara as idéas da Reforma, -tornou-se um prégador de nomeada na Egreja ingleza. Durante os ultimos -annos do reinado de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido -do reino para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos -havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra achava-se -resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem a superstição -medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado ao rei, quando se tratou -de prover o bispado de Gloucester. Ao contrario de João Knox, não fazia -objecção ao governo por meio de bispos, e acceitou a nomeação, mas -não quiz fazer uso das vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a -proferir a seguinte phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos me -ajudem». - -Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a considerar -estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper pensava de differente -modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr partilhavam a opinião de Calvino, -e tentaram demover Hooper da sua resolução por meio de argumentos. Não -poderam, porém, convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se -conservar em sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado -afastamento escreveu uma _Confissão e Protesto_ em que expunha com toda -a clareza as razões que haviam imperado na sua recusa de fazer uso das -vestes prelaticias. Por este seu feito, metteram-n’o na prisão. Passado -algum tempo, porém, fez-se um convenio ácerca das vestimentas, foram -omittidas do juramento as palavras «e todos os santos», e Hooper foi -consagrado bispo de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever -novas borrascas n’um futuro proximo. - -Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma no tempo de -Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande largueza de idéas, e -muito tolerante—havia-se empenhado om que á princeza Maria se concedesse -o servir a Deus conforme a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de -Londres em substituição de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua -diocese das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em que todos -os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar mesas para a -communhão. - -Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo entre o romanismo -e a Reforma, que era em que consistia o ideal de Cranmer relativamente á -Egreja de Inglaterra. - -Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens que haviam sido -sempre partidarios da Egreja medieval. Quando Hooper e Ridley mostraram -até onde a Reforma os poderia levar, Gardiner e Bonner redobraram de -furia contra elles. O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper -tinha estado preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e -Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas medievaes. - -=A morte de Eduardo VI.=—O joven rei nunca havia sido muito robusto, e -antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de saude alarmou seriamente -os principaes vultos do protestantismo. Á herdeira do throno era a -princeza Maria, filha de Catharina de Aragão. Tanto o parlamento como a -convocação haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções -não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida de que -Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e de que Maria era -sua filha, devendo, portanto, esta occupar o throno no caso de Eduardo -fallecer. Além d’isso, segundo a lei de successão ao throno, promulgada -por Henrique VIII, ella tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não -deixar herdeiros. - -Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia hespanhola, -que nunca havia esquecido os aggravos de que a mãe fora victima, e -que considerava a Reforma como uma rebellião contra Deus e um insulto -dirigido a ella propria. Prima de Carlos V, imperador da Allemanha, era -uma grande admiradora dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa -vontade se collocaria n’uma completa dependencia d’elle. - -O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos dos -conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno seria um desastre -para a Reforma, que os attingiria tambem a elles. Viram que lhes era -necessario fazer todo o possivel para que o herdeiro do throno fosse um -principe ou princeza protestante. - -Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo, -e todo o seu empenho era que o monarca que viesse depois partilhasse -as mesmas crenças. Quando viu que lhe restava pouco tempo de vida, -resolveu nomear o seu successor. Nada o poude persuadir de que não -tivesse o poder de o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação -recaisse n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas -illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, por conseguinte, -não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz, que estava prestes -a morrer, era, pela sua tenacidade, um digno representante da casa de -Tudor. Poz deliberadamente de parte tanto Isabel como Maria; poz tambem -deliberadamente de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante -de Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna Grey, -representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna tinha casado -com o filho mais velho do conde de Northumberland, e era protestante. -Eduardo estava convencido de que o povo havia de acceitar a successora -por elle mencionada. Os seus conselheiros estavam convencidos de que o -protestantismo estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano -poderia ser bem succedido. Enganavam-se ambos. - -Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha Joanna foi -devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza, não correspondeu -á acclamação. A princeza Maria fugiu, mas em volta d’ella reuniu-se -muita gente, e o povo secundou as suas reclamações. Passada uma semana, -tinha-se vencido toda a opposição, e o throno era de Maria. - -A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada, e o -throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana catholica romana. - -=O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria -(1553).=—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um edificio -politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo e pelos -seus conselheiros, desappareceu por completo, como coisa de nenhuma -substancia. É que ella havia sido imposta á Inglaterra pelo governo, -ao contrario do que acontecera em outros paizes, em que foi imposta ao -governo pelo povo ou acceite egualmente por governantes e governados. - -Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias financeiras, -devido em parte á crise economica que a Europa estava atravessando, mas -devido principalmente ao desmedido fausto da côrte de Henrique VIII, e -á depreciação da moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a -todos os actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e a -venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa das desgraças -que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido tirados das casas -religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz na qualidade de parocos e -curas, ateiavam o fogo da antipathia pela Reforma, e preparavam o povo -para um regimen reaccionario, pelo que dizia respeito á religião. - -Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre quando Maria -iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu ministro favorito, -comprehendeu perfeitamente a situação. Elle sabia que o paiz, na sua -quasi totalidade, preferia a antiga religião mas que nunca gostara do -papa. Tratou, pois, de promover um regresso á situação em que se estava -no principio do reinado de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão -ostensiva a supremacia real. - -Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas mais -arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos de indifferença -e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe um indicio de que o povo -se estava preparando com regozijo para o restabelecimento da antiga -religião e que tinha na conta de tão malefico o que se havia passado -nos ultimos annos como ella propria. Como filha de Henrique, e como -rainha de Inglaterra, sentia em si o dever de reparar, de accordo com -o papa, os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos -estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como prima de -Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio aos hespanhoes, -e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que dizia respeito á politica -internacional, como, e ainda mais especialmente, no que dizia respeito á -politica ecclesiastica. - -=A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.=—Maria subiu ao -throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes protestantes da -Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552. Carlos sentia-se forçado a -confessar que a Reforma o tinha vencido, quando Maria lhe participou a -sua acclamação e lhe supplicou que a aconselhasse. A alliança ingleza era -a unica coisa que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o -bom exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente, -e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se encontrava. - -Maria, escreveu elle, devia, em primeiro logar, tornar firme o throno; em -seguida devia tornar segura uma alliança hespanhola, casando com Filippe, -herdeiro do imperador; e, executadas estas duas coisas, podia então fazer -as pazes com o papa. - -O papa estava tão ancioso por congratular Maria como Carlos havia estado; -mas o imperador não queria despertar os sentimentos anti-papistas do povo -inglez; os interesses em jogo eram muitissimo fortes. E assim o Cardeal -Pole, nuncio do papa, recebeu ordem para se conservar nos Paizes Baixos -até a Inglaterra se achar preparada para o receber. - -=Como Maria se firmou no throno.=—Ao principio fel-o com bastante -facilidade. A tentativa de collocar Joanna Grey no throno havia -desacreditado e desanimado os protestantes mais em evidencia, e poucos -d’entre elles appareceram. Foi, pois, facil a Gardiner obter que o -parlamento revogasse todas as leis que diziam respeito ao divorcio de -Catharina e á filiação de Maria. O decreto parlamentar que conferia ao -rei uma supremacia absoluta em todos os negocios ecclesiasticos foi um -meio excellente para fazer com que o paiz mudasse de religião. A rainha, -por occasião da sua acclamação, ouviu missa, segundo o antigo costume. -Cranmer protestou, sendo por esse facto remettido para a Torre, onde em -breve se lhe reuniram Latimer e Ridley. Foi abolido o Livro de Oração -Commum, e todas as mudanças introduzidas no culto no reinado de Eduardo -foram postas de parte. A Egreja de Inglaterra foi reposta nas condições -em que Henrique VII a havia deixado. - -=A alliança hespanhola.=—O povo inglez não via com bons olhos a alliança -hespanhola, e era, em especial, hostil ao casamento da sua rainha com -Filippe de Hespanha. O bispo de Gardiner, que conhecia a indole da nação, -tratou de dissuadir a rainha, mas esta achava-se firmemente resolvida a -desposar Filippe. Gardiner, ao ver que nada podia impedir o casamento, -redigiu o contracto nupcial em termos taes que Filippe ficava sem direito -ao titulo real, não podia succeder á consorte e era-lhe defezo exercer -qualquer influencia nos negocios publicos de Inglaterra. O facto de -Carlos e seu filho terem acceitado estas condições mostra o valor que -elles davam a uma alliança estavel com a Inglaterra. - -O povo inglez ficou indignado com similhante casamento, e para mostrar -o seu desagrado revoltou-se em diversas partes do reino; Pedro Carew -poz-se á frente dos rebeldes em Cornwall e Devon, o conde de Suffolk nos -condados do Centro, e Thomaz Wyatt em Kent. A unica revolta importante -foi capitaniada por Wyatt, e se não teve consequencias mais graves foi -isso devido á coragem da rainha. A nação reconheceu tambem que Maria era -filha de seu pae, e a legitima herdeira, e não teve grande sympathia -com as rebelliões contra ella. Filippe chegou, com instrucções de seu -pae para fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para agradar ao -povo inglez, as quaes elle, no seu modo extravagante, tratou de seguir, -bebendo cerveja ingleza e fazendo outras coisas do mesmo genero, e o -casamento celebrou-se com toda a pompa. Estava assegurada a alliança com -a Hespanha. - -=A reconciliação com Roma.=—Filippe e Maria eram fervorosos catholicos -romanos, e anhelavam por que a Inglaterra se libertasse do anathema papal -que sobre ella havia caido quando Henrique desposou Anna Boleyn; mas -não era facil conseguir isso. O povo inglez obstinara-se sempre em não -reconhecer a supremacia papal, e eram muitos os pontos da sua historia -que o aconselhavam a não se submetter facilmente ao pontifice romano. -Carlos aconselhou o filho e a nora a procederem muito cautelosamente. -Havia, comtudo, uma difficuldade ainda maior: era a questão das terras -que haviam sido arrancadas do poder da Egreja e vendidas a particulares. -Por um lado, o papa não deixaria de insistir na sua restituição, e, -por outro, essa restituição iria, certamente, dar logar a violentos -protestos. Poucas d’essas terras estavam na posse da corôa; a maior parte -d’ellas tinha sido vendida, e o producto da venda gastara-se. A rainha -estava impossibilitada de tornar a compral-as aos respectivos donos e -restituil-as á Egreja. - -Carlos V poude, com alguma difficuldade, induzir o papa a renunciar á -reivindicação d’esses bens abbaciaes, e a unica coisa que restava fazer -era predispôr o povo inglez para a chegada do nuncio. - -O nuncio escolhido pelo papa foi Reginaldo Pole, segundo sobrinho de -Eduardo IV. Pertencia, portanto, á aristocracia ingleza, mas havia -preferido o desterro a reconhecer a supremacia real de Henrique VIII ou -a legalidade do divorcio de Catharina de Aragão. Era parente de Maria, e -fôra um dos que haviam soffrido por terem tomado a defeza da mãe d’ella. -Solicitou-se do parlamento a sua reabilitação. Esta foi proclamada, -e Pole foi recebido em Inglaterra como membro da nobreza. Apresentou -então as suas credenciaes, que o acreditavam como legado do papa. O povo -acolheu a noticia com indifferença. Por fim o parlamento approvou uma -proposta para que se tratasse de promover a reconciliação com Roma. Em -1554, no dia de Santo André, o cardeal nuncio absolveu solemnemente a -nação. Filippe e Maria, com ambas as casas do parlamento, ajoelharam-se -na presença do cardeal emquanto este os restituia á communhão da Santa -Madre Egreja. O parlamento revogou todas as leis que affirmavam a -supremacia real e que rejeitavam a supremacia do papa. O clero, por outro -lado, renunciou solemnemente a todas as reivindicações quanto aos bens -abbaciaes e a outras propriedades da Egreja que haviam sido sequestradas. -A união com Roma estava novamente restabelecida por completo. - -=Porque não foi bem succedida a reacção.=—No espaço de dois annos -a Inglaterra estava, segundo todas as apparencias, inteiramente -reconciliada com o papa. Como que parecia que o reinado de Eduardo nunca -tinha existido, e que Henrique tinha vivido em harmonia com o papa até ao -fim da sua vida. Tinha-se estabelecido a reacção catholica romana, que -parecia disposta a levar tudo de vencida; mas apoz um curto periodo o -movimento reaccionario foi obrigado a deter-se, e dentro de alguns annos -a Inglaterra havia-se transformado n’uma grande nação protestante. Como -se operou esta transformação? - -É talvez impossivel distinguir todas as causas, mas apparecem tres -d’ellas á superficie da historia: as perseguições que tiveram logar -durante o reinado de Maria, as questões por causa dos terrenos -ecclesiasticos, e o alastramento da opinião favoravel á Reforma como -resultado das predicas evangelicas no curto reinado de Eduardo. - -=As perseguições no reinado de Maria.=—Os protestantes que existiam em -Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão atrozes perseguições como -as que dizimaram os huguenotes da França ou victimaram os reformadores -dos Paizes Baixos. Despertaram, comtudo, no paiz um tal horror ao papismo -que ainda hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo -barbaro como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa, que -se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe, fazendo -parte do vasto plano que elle havia formado para reduzir a Inglaterra ao -dominio hespanhol. - -A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar todos -os que durante o reinado anterior haviam fomentado a Reforma. Os -homens condemnados ao exterminio eram todos bem distinctos, tanto pelo -nascimento, como pela eloquencia, como pela illustração, como pela -piedade. Eram: Cranmer, o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela -sua férvida eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes -theologos reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam de ser -derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra viu -serem entregues ao carrasco e queimados em vida os seus homens mais -eruditos e de maior capacidade moral. - -E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança com a -Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita, o homem -insensivel a todos os males, e estar de bem com aquella nação que havia -consentido que os seus proprios filhos e filhas fossem torturados pela -inquisição, e, sem a menor sombra de revolta, se havia submettido ao mais -esmagador despotismo. - -Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor christão. Durante -a vida não conseguiram despertar a confiança universal, mas com as suas -mortes provaram que estavam bem convencidos do que apregoavam, e fizeram -penetrar no coração do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado -por tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam agora com -satisfação. - -=As terras da Egreja.=—Maria havia sido prevenida por Carlos V de que -não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes. Estes tinham sido -vendidos, e, em virtude da venda, estavam divididos por cerca de quarenta -mil pessoas. Tocar-lhes era atacar o direito de propriedade. A Egreja e -o papa haviam renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do -parlamento ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á -religião catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado. -Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia a Inglaterra -ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e ella propria estavam -aproveitando dos roubos feitos á Egreja? - -O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não approvou a -conducta do seu predecessor no que dizia respeito áquella questão, e -pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a restituição. Maria accedeu, -por fim, ás suas instancias, e conseguiu com alguma difficuldade, que as -camaras dessem o seu consentimento para que as terras da Egreja, ainda em -poder da corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu um -grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos restantes bens -abbaciaes deixassem de considerar garantidos os seus direitos, e a perda -de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a a augmentar os impostos. A -Egreja mostrava-se, como sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a. - -=O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.=—Os theologos -estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo ensinar para Oxford -e Cambridge haviam educado uma geração de jovens estudantes que, -convencidos da verdade das suas opiniões, as acceitaram e as espalharam -por entre o povo, e que com muita satisfação davam agora a sua vida por -ellas. Até ali pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse -o enthusiasmo. O povo tinha passado, com a maior das facilidades, de -uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de Maria -tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados por Martinho -Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com muito gosto as suas vidas para -conseguirem que os seus compatriotas acceitassem as doutrinas biblicas -dos reformadores. As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a -de Coverdale, eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia sendo -esclarecida ácerca da significação da Reforma. - -O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra a Egreja -que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez que a Egreja havia -mostrado quando chamada a tomar de novo posse das propriedades que lhe -haviam sido tiradas, e conhecia agora melhor as Escripturas e estava mais -ao facto do que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a -reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo. - -=A morte de Maria.=—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia, escapando, -talvez, d’esse modo, de ser victima de uma revolução. «A mais infeliz das -rainhas, das esposas e das mulheres», o seu nascimento tinha enchido de -regozijo uma nação, e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da -Europa. Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana -de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica -rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um golpe esmagador, -que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu pae, o parlamento, e -a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filha illegitima, e, marcada com -este ferrete maldito, foi chorar na solidão a sua ignominia. Quando a -Inglaterra a saudou como rainha no seu trigesimo-setimo anno, era já uma -velha de faces cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos, -negros e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo, -porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo anhelava -por um affecto; casara com um marido da sua escolha, e ella propria se -reputava um instrumento predestinado pelo céu para que se reintegrasse no -divino favor uma nação excommungada. O marido, a quem ella idolatrava, -aborrecendo-se d’ella passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha. -A creança cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a -nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se -surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar com os desgostos que -a affligiam. E o povo, que a recebera com tanto enthusiasmo, e a quem -ella realmente amava, chamava-lhe Maria a Sanguinaria, e esse cognome -tem sido transmittido de geração em geração até aos nossos dias. Cada -tribulação por que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não -ter ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e, assim, -as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e novas victimas se -arremessaram para ellas, para aplacar o Deus do romanismo do seculo -dezeseis. - - - - -CAPITULO III - -A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL - - A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão - religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag. - 197.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag. - 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag. - 194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A - Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—Os - _conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_, - pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198. - - -=A sucessão de Isabel.=—Por morte de Maria, Isabel foi, sem opposição, -proclamada rainha. O partido catholico romano, que se poderia ter opposto -á sua successão, não dispunha de força para isso, pois que a Inglaterra -estava em guerra com a França, e a unica rival de Isabel era a esposa do -Delfim, Maria, a rainha da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era -para todos os catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de -Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando ella nascera. - -A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando ella subiu ao -throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro, apezar de se terem -cobrado adeantadamente as receitas, e a guerra com a França estava -levando a ruina a todos os lares. A situação individual da rainha era -a mais precaria que se póde imaginar. A sua legitimidade era mais do -que duvidosa. A França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer -valer os direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente, -a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes. A -força do protestantismo nas provincias era duvidosa. Vendo os perigos -de uma questão religiosa logo no principio do seu reinado, a rainha -contemporizou. Ia á missa para agradar aos catholicos romanos. Prohibiu -a elevação da hostia para agradar aos protestantes. E poz-se á espera de -ver o que a Hespanha e a Inglaterra diziam. - -A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe II -ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanhola dependia tanto -de Filippe como do papa, e Isabel não tardou em certificar-se de que da -Curia Romana não acolheria benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando -o embaixador anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel, -na sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem o meu -consentimento; é um desproposito da parte della, se o fizer. Que ella, em -primeiro logar, submetta á minha decisão as suas reivindicações.» Não era -preciso mais. Isabel não podia, de ahi em deante contar com a Hespanha. - -Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta da Inglaterra. -O seu primeiro parlamento era quasi todo composto de protestantes. -As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram a supremacia real, -posto que de uma fórma modificada. Henrique VIII havia-se chamado a -si proprio «o unico chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo». -Isabel contentou-se com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor» -(Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos -e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha, «a quem -pertencia o governo de todos os estados, quer civis quer ecclesiasticos.» -Uma commissão de doutores em theologia, nomeada para rever o Livro de -Oração Commum do rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser -usado pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação -d’elles, adoptada. - -A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada por Maria -da Escocia de uma alliança com a França, e pelo papa de uma alliança com -a Hespanha, não teve outro recurso senão o de conquistar as sympathias do -povo inglez e fazer-se egualmente protestante. - -=Como se liquidou a questão religiosa.=—Isabel não era, de maneira -nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia fortes -convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande massa do povo e do -clero que lhe coubera em sorte governar. Quando Eduardo subiu ao throno, -era ella uma rapariga de dezeseis annos; apezar de tão nova, porém, sabia -conduzir-se muito ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião -patrocinada pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa, -contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto. -Conformou-se outra vez com o culto catholico romano. Era, pelo que tocava -aos sentimentos, uma digna filha de seu pae, e preferia as doutrinas e o -systema catholicos romanos, occupando o soberano o logar do papa. - -Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia herdado uma grande -disposição para dominar, e a Egreja Catholica Romana era então o modelo -por excellencia de um governo despotico. Ella havia recebido uma boa -educação litteraria, e comprazia-se muito em ler os antigos auctores -gregos. Gostava de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões e -praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias, e preferia, -por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de Roma. O que, porém, não -queria era encontrar o papa no seu caminho. - -Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a escola -genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela fé, nem da -simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo, abominava aquelles -principios democraticos de governo da Egreja que se haviam identificado -com o presbyteriannismo. Os reformadores da envergadura de Knox, com as -suas doutrinas da predestinação, do livre perdão obtido directamente de -Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam sómente -a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem o rei, e estava -convencida de que o temor da Egreja era uma boa preparação para o temor -do monarca. Ella não possuia a subtileza de espirito para dizer como o -seu successor, «Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o. - -O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era mais protestante -do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se acceitando o Livro de -Oração Commum e outras usanças protestantes. - -Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos a essa dignidade -durante o reinado de Maria tiveram a coragem de protestar contra taes -mudanças. Resignaram os seus cargos ou foram d’elles exonerados. Em 1559 -estavam vagas todas as sés episcopaes, á excepção da de Llandaff. - -Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou a rainha -Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de sua mãe. - -Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos para uma -consagração legal, chamando do isolamento a que se haviam acolhido os -bispos de Eduardo VI que a rainha Maria tinha deposto. As idéas de -Parker eram muito mais protestantes do que as de Isabel, mas parece -que elle não se preocupou muito com as innovações introduzidas pela -rainha. Escolheram-se outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou -constituindo uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel base -catholica romana. - -Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram muito mais -protestantes do que ela desejaria que fossem. As perseguições executadas -por ordem de Maria fizeram com que muitas familias inglezas se retirassem -para fóra do reino. Tinham formado colonias em Francfort, em Genebra, -e n’outras partes, tinham adquirido intimidade com os theologos -calvinistas, e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas. -Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido, e os -martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra; tinham opiniões, -e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os bispos sabiam que a Egreja -de Inglaterra não podia ser aquillo que Isabel desejava que fosse, e -devia possuir uma auctorizada exposição de doutrinas, um credo cujos -delineamentos principaes fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada -a consentir n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamada -_Os Onze Artigos_. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos e -os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se conformaria com -similhantes coisas. A questão prolongou-se tanto que os bispos, n’uma -occasião, ameaçaram-n’a com um pedido collectivo de demissão. O artigo -undecimo declarava, portanto, que «as imagens eram coisas vãs». - -=Os trinta e nove artigos.=—Este curto formulario de doutrinas foi, -passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além d’isso, a rainha -teimava em dar á Egreja uma orientação que a tornava muito parecida -com a catholica romana. Queria, por exemplo, tornar obrigatorio o -celibato clerical. Os bispos reconheceram a necessidade de uma serie, -ou exposição, auctorizada dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo -Parker, com a assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nos -_Quarenta e dois Artigos_ de Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes. -A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe fizeram uma -segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os Artigos antes de dar o -seu consentimento, e fez duas muito caracteristicas alterações. Inseriu a -primeira clausula do Artigo XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos -ou ceremonias, e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou -o Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo á Mesa da -Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção d’esse Artigo, -e a rainha submetteu-se. Estes Artigos são, e houve intenção de que o -fossem, calvinistas na sua theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma -definitiva revisão em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava -em Zurich: «Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até chegar -á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de uma unha.» Assim -a Egreja, que havia alterado o seu Livro de Oração Commum para o amoldar -ao gosto catholico romano, formulou os seus artigos de religião, o seu -credo, de tal modo que ficou em conformidade com as egrejas reformadas da -Suissa. - -=O puritanismo e as vestimentas clericaes.=—A rainha não gostava dos -trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua approvação tinha -sido uma victoria para o partido protestante com que ella dificilmente -se conformava. Animados com o bom exito alcançado, os puritanos -tentaram, de uma maneira vigorosa abolir o Livro de Oração Commum, e -desembaraçar-se de todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja -medieval, e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com -toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim, victoriosa. - -Este conflicto com os puritanos começou cerca do anno de 1564, e -durou durante toda a vida de Isabel. Ao principio o ponto principal -em discussão era o uso da capa de asperges e da sobrepeliz, que é uma -sobrevivencia da toga branca, ou traje de ceremonia, do imperio romano. -Os puritanos do tempo de Isabel mantinham-se n’uma posição identica á de -seus irmãos no reinado de Eduardo VI. Sustentavam que os cargos na Egreja -christã não são sacerdotaes nem senhoriaes; ninguem era eleito bispo pelo -facto de ser clerigo, e poder por essa razão approximar-se mais de Deus -do que os seculares, ou porque o governo lhe havia sido conferido por uma -auctoridade de fóra da Egreja, mas porque os officios de superintendente -e pastor são de utilidade para a Egreja, e porque a Egreja chama esses -homens para a servirem no limite das suas funcções. Recusavam fazer uso -dos paramentos, porque estes significavam uma coisa em que elles não -criam. - -A contestação tomou em breve um caracter violento. Os bispos sentiam-se -inclinados a contemporizar, pois que sabiam o quanto se havia espalhado -e quão profundamente arraigada estava aquella opposição ás vestes -clericaes; mas a rainha não lh’o permittiu. Fez uso do poder que a -supremacia lhe dava sobre os bispos para os obrigar a pôrem em execução a -Acta da Uniformidade, e isso deu logar a que o puritanismo fosse como que -um protesto contra a supremacia real e contra a constituição episcopal, -e como que um brado para que o povo tivesse voz activa no governo da -Egreja, o que só o presbyteriannismo ou o congregacionalismo pode -proporcionar. Durante os annos de 1565 e 1566 foram em grande numero os -ministros que perderam os seus logares por não se quererem conformar com -os usos estabelecidos. - -A rainha entendia que a sua posição como governadora da Egreja a -auctorizava a proceder a continuos inqueritos ao modo como era conduzido -o culto publico nas paroquias de Inglaterra. Nomeou commissarios -reaes para inspeccionar e dar-lhe as necessarias informações, e estes -agentes de Isabel vieram a constituir o Tribunal da Alta Commissão, -que se tornou um instrumento de tyrannia ecclesiastica nos reinados -de seus successores. Por estes commissarios foi Isabel informada da -existencia dos não-conformistas, e insistiu n’uma submissão ás praticas -estabelecidas. - -O povo fez, na sua maioria, causa commum com os ministros que estavam -inhibidos de tomar parte nos serviços. As prisões e as multas só -serviram, como sempre aconteceu, para ateiar as chammas da dissidencia. -Esta fez a sua apparição nas universidades. Os estudantes recusaram fazer -uso da sobrepeliz ou assistir aos serviços religiosos feitos por clerigos -paramentados. Foram tantas as paroquias que vagaram que não era possivel -arranjar ministros para todas; e, quando qualquer ministro submisso era -collocado n’uma d’ellas, o povo, em geral, apupava-o. Alguns dos mais -zelosos ministros separaram-se da Egreja nacional. - -O grande dirigente dos puritanos era Thomaz Cartwright, que, tendo sido -educado no Collegio de S. João, em Cambridge, veiu a ser depois professor -de theologia. Era um homem piedoso e illustrado, e um eloquente prégador, -e, tendo perdido a sua cadeira de lente por causa das suas opiniões, -ainda por cima teve de soffrer o exilio. Dois puritanos, Field e Wilcox, -escreveram um folheto moderado—_Uma advertencia ao parlamento_—sobre -a disciplina da Egreja e as medidas violentas que haviam sido tomadas -contra os puritanos. Foram mandados para Newgate, como dois criminosos -quaesquer. Cartwright escreveu uma _Segunda Advertencia_ em defeza -dos seus amigos, e teve, pela segunda vez, de fugir do paiz. A rainha -respondia a cada pedido de tolerancia com novas exonerações, a ponto -de haver n’uma só diocese, a de Norwich, segundo consta, não menos -de trezentos ministros suspensos. O arcebispo Parker morreu em 1575, -havendo-lhe o cargo de executor da rainha, que desempenhava bem contra -sua vontade, tornado amargosissimos os ultimos annos da sua vida. - -=A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino.=—Ha alguma desculpa -para as medidas tomadas por Isabel contra os puritanos no principio do -seu reinado. A Inglaterra estava fraca, estava empobrecida, e o throno -de Isabel não offerecia estabilidade. Não sympathisava com a Reforma no -que ella mais profundamente significava, e não a animava o desejo de -ver o seu povo convertido n’uma nação de enthusiasticos reformadores. A -Inglaterra, segundo a sua opinião, precisava de descanço e de paz para -recuperar as suas esgotadas energias. Se a Inglaterra tivesse abraçado -o protestantismo com verdadeiro enthusiasmo, não assistiria de braços -cruzados ás crueldades commettidas para com os protestantes francezes e -hollandezes pela França e pela Hollanda. Desempenharia na Escocia, nos -Paizes Baixos e na França o papel de campeão protestante. Isabel, com a -sua impassivel politica, conservou o povo inglez de reserva para o grande -futuro que o esperava. «Nada de guerra, meus senhores, nada de guerra», -exclamava ella invariavelmente quando Cecil ou outro qualquer ministro -manifestava o desejo de a ver collocada á frente de uma liga protestante. - -Isabel não obstante a sua anterior attitude de resistencia, não desejava -romper por completo com os papistas, ou apresentar-se quer aos seus -subditos catholicos romanos, quer ás nações continentaes, como uma rainha -forte e resoluta. A Inglaterra necessitava de descanço, e a rainha havia -determinado conservar em paz o seu paiz. - -Isto explica em parte a sua politica de indifferença perante a lucta -em que os protestantes se achavam envolvidos n’outros paizes. Cecil, -o maior dos ministros que Isabel teve, queria que ella se pozesse á -frente de uma grande liga protestante e prestasse um auxilio efficaz aos -protestantes da Escocia, dos Paizes Baixos e da França. Os ciumes que -Isabel tinha de Maria Stuart forçaram-n’a a coadjuvar em grande medida o -partido protestante da Escocia—a coadjuval-o até ao ponto de elle poder -tornar preponderante aquella fórma de protestantismo em que tanto havia -perseverado. Pelo que, porém, diz respeito aos Paizes Baixos e á França, -Isabel não deu outro auxilio além do que era sufficiente para que o -partido protestante continuasse a existir, e isso mesmo foi feito mais -com o fito de consumir as forças da França e da Hespanha do que com o de -proteger perseguidos correligionarios. - -=Luctas intestinas com o catholicismo romano.=—A politica da côrte -romana e especialmente as declarada sintenções e designios dos jesuitas -forçaram Isabel, depois de ter reinado quasi doze annos, a mostrar-se -mais decidida a defender a fé protestante, tanto em Inglaterra como fóra -d’ella. Os jesuitas tinham insistido repetidas vezes em que não se devia -guardar fidelidade aos chefes de estado protestantes; alguns dos seus -emissarios tinham pregado o assassinio como meio licito de desembaraçar -os paizes dos seus soberanos protestantes, e não faltavam exemplos que -advertissem Isabel da sorte que a esperava. - -A sua rival, Maria Stuart, expulsa da Escocia, era para a Inglaterra uma -prisioneira perigosa. A morte de Isabel podia tornal-a, a ella que era a -esperança do partido catholico romano, a herdeira mais proxima do throno -inglez. - -Em 1570, o regente Moray, que era o chefe politico da Reforma na Escocia, -foi escandalosamente assassinado. Em 1572 foi planeado, e barbaramente -posto em pratica, o massacre de S. Bartholomeu. No mesmo anno o duque -de Alba, Filippe II e o papa conferenciaram com Ridolfi, florentino -que residira durante muito tempo em Inglaterra, sobre a possibilidade -de uma insurreição catholica romana em Inglaterra, dirigida pelo duque -de Norfolk. Descoberta a conspiração, Norfolk foi decapitado. Todos -estes casos mostraram a Isabel que toda a sua salvação estava em entrar -verdadeiramente no caminho da Reforma, e mostraram tambem ao povo o -quanto Isabel era essencial para o triumpho do protestantismo. - -É talvez uma evidencia de que a rainha e os seus subditos protestantes -se ligaram mais estreitamente o facto de Edmundo Grindal, clerigo -de pronunciadas tendencias puritanas, ter sido collocado na sé de -Canterbury, vaga em virtude da morte de Matheus Parker. - -Em todo o caso, Isabel, se não se mostrou menos intolerante no reino, -reconheceu que era de seu dever enviar mais soccorro aos protestantes -de fóra. Os huguenotes receberam um auxilio pecuniario. Os aventureiros -inglezes, e entre elles Francisco Drake, tiveram permissão para fazerem -todo o mal que podessem ao commercio hespanhol. Isabel mandou, mesmo, -um corpo de exercito para ajudar os neerlandezes na sua guerra com a -Hespanha. - -Este procedimento fez com que as forças catholicas romanas trabalhassem -com mais ardor para a ruina da Inglaterra. Estabeleceu-se um seminario -em Douay, e um collegio em Roma, onde se preparassem padres inglezes -que iriam depois para o seu paiz promover agitação entre os romanistas. -E eram continuos os rumores de novas conspirações para collocar Maria -Stuart no throno de Inglaterra. - -Isabel e os seus conselheiros compenetraram-se, por fim, do perigo que -ella corria. O parlamento promulgou que os missionarios romanistas -ficavam sujeitos ás penalidades que correspondiam a crimes de alta -traição, e quando se descobriu a conspiração de Babington, para -assassinar Isabel e pôr Maria em liberdade, e se provou que Maria -estava ao facto de toda a trama, ficou decidida a execução da rainha -dos escocezes. Isabel não representou um papel muito heroico n’esta -tragedia, mas adquiriu a certeza de ter, d’esta vez, quebrado todas as -relações com Roma, assim como Roma e os poderes romanos não poderam -deixar de reconhecer que o tempo das conspiratas tinha findado, e que, ou -a Inglaterra seria subjugada, ou ter-se-hia de admittir a Reforma como um -facto consumado. - -=A Armada hespanhola.=—Roma e Hespanha descobriram por fim o que o astuto -Guilherme Cecil tinha descoberto desde o principio. «O imperador aspira -á soberania da Europa, coisa que elle jámais poderá conseguir sem que -seja suprimida a religião reformada; e não poderá esmagar a Reforma sem -que primeiro esmague a Inglaterra». Carlos V tinha visto isso, mas não -muito claramente, quando se mostrou tão ancioso por uma alliança com a -Inglaterra, no principio do reinado de Maria. Filippe II viu-o quando -se offereceu para marido de Isabel. Coube, finalmente, a vez ao papa, o -qual, de mãos dadas com Filippe, fez convergir todos os seus esforços no -sentido de subjugar a Inglaterra. - -A occasião era propicia. Filippe e a Santa Liga da França tinham, -apparentemente, triumphado. A Inglaterra encontrava-se isolada. - -O papa Sixto V excommungou a rainha Isabel, e encarregou Filippe II de -executar a sentença. Sua Santidade contribuiu tambem com uma grande -quantia para ajuda da empreza. Os hespanhoes reuniram uma grande -esquadra, com a qual se propunham atacaria Inglaterra, e, para ter mais -seguro o bom exito, Alexandre de Parma, o mais habil general da Europa, -recebeu ordem para partir dos Paizes Baixos com o mesmo destino, levando -comsigo a flôridas tropas hespanholas. - -Isabel appellou para o patriotismo da nação, e esta não se fez surda -ao seu appello. A Escocia, não obstante a execução de Maria, não quiz -levantar-se contra a Inglaterra. A França permaneceu inactiva, pois que -a liga não havia triumphado tanto como se suppozera e não tinha sido -possivel extinguir os huguenotes. Toda a Inglaterra pegou em armas. -Equiparam-se duzentos navios. A nação, fremente de enthusiamo, estava -preparada para o ataque. A Armada, composta de numerosos vasos de guerra -de grandes dimensões, aproou á Inglaterra, mas os ventos produziram-lhe -enormes avarias antes de chegar ao seu destino. Os navios inglezes -cercaram-n’a, e travaram com ella uma serie de combates navaes, que a -pozeram em deploraveis condições. Um temporal medonho completou a obra; -e a soberba frota, que os hespanhoes haviam equipado á custa de mil -sacrificios, deu miseravelmente á costa, sendo pouquissimos os barcos que -conseguiram chegar aos portos de onde haviam saido. - -Foi desde então que a protestante Inglaterra ficou sendo a maior potencia -europeia. Não foi possivel supprimir a Reforma porque não foi possivel -vencer a Inglaterra. - -É dificil dizer quanto o lado menos nobre de Isabel contribuiu para a -consecução d’este resultado final; o que é certo é que ella administrou -habilmente os recursos da nação, teve o maior cuidado em reprimir o -enthusiasmo d’esta, até que a ella se podesse entregar sem perigo algum, -e determinou, mediante o Acto de Uniformidade, cuja transgressão ficava -sujeita a severas penas, unificar exteriormente a Inglaterra. Pode ser -que os meios de que lançou mão não fossem reputados necessarios, mas -attingiu, pelo menos, o fim que tinha em vista. - -=As prophecias.=—A nomeação de um arcebispo puritano não produziu os -beneficios que se esperava. Isabel tinha o costume de demonstrar aos -seus bispos que a supremacia real era uma coisa que existia de facto. -A rigorosa suppressão da não-conformidade havia occasionado uma grande -falta de ministros. Não era raro prover-se individuos sem aptidões para -prégar. Certos pastores animados de bons intuitos promoviam reuniões -clericaes, onde se discutia theologia e havia uma especie de curso -de oratoria. Estas reuniões, que tinham algumas parecenças com os -«Exercicios» da Escocia, e que eram, talvez, uma imitação d’elles, -chamavam-se as «Prophecias». A rainha não gostava d’ellas. Ella não via, -mesmo, a necessidade de se prégar sermões, e entendia que os ministros -se deviam limitar a ler as _Homilias_ ás congregações. O arcebispo -Grindal era favoravel a estas _Prophecias_, e quando a rainha lhe ordenou -para as prohibir recusou-se a fazel-o. A rainha, enfurecida, ameaçou-o -com a deposição, e chegou a suspendel-o do exercicio das suas funcções -episcopaes. Esta suspensão durou até quasi ao fim da vida do arcebispo. - -=Os conventiculos.—Os pamphletos anti-prelaticios.=—Quando Grindal -morreu, Whitgift, o irreconciliavel adversario de Cartwright e do -puritanismo, foi elevado a arcebispo de Canterbury. A desastrosa -politica da rainha, rigorosamente executada por elle, teve as suas -naturaes consequencias. O povo, privado dos serviços dos clerigos a -quem respeitava, e obrigado a ouvir outros que não tinham direitos -nenhuns sobre elle, recusou-se a frequentar as egrejas. Reunia-se em -casas particulares e n’outros logares apropriados, e ahi fazia oração e -observava outros pormenores do culto publico. Estes conventiculos foram -declarados illicitos, mas, apezar d’isso, eram cada vez mais numerosos. -Surgiram as seitas não-conformistas. - -Knox na Escocia e Beza em Genebra alarmaram-se com o estado da Egreja na -Inglaterra. Elles estavam ao facto das ameaças do poder catholico romano, -e sabiam bem que o protestantismo inglez precisava de estar muito unido. -Não sympathisavam de modo algum com o systema de Isabel, e, comtudo, eram -de opinião que o horror dos puritanos pelos paramentos religiosos era -algum tanto affectado e exaggerado. Escreveram aos dirigentes do partido, -rogando-lhes que se conformassem, mas a espada da perseguição tinha -penetrado demasiadamente nas suas almas. Impedidos de prégar, começaram -a escrever, e por entre o povo foram apparecendo diversos pamphletos por -elles publicados. O que se tornou mais notavel de tudo foi uma serie -de opusculos chamados _Anti-prelaticios_. Esses opusculos atacavam o -systema episcopal da Egreja de Inglaterra, e expunham com uma implacavel -severidade as varias ceremonias papistas que ella ainda conservava. Um -dos auctores, Nicolau Udal, foi descoberto, sendo executado em 1593. - -=A Reforma ingleza= ficou firmemente estabelecida depois da derrota da -Armada hespanhola. A Inglaterra reconheceu finalmente que lhe competia -dirigir os Estados protestantes da Europa; e, não obstante o caracter -anomalo da Egreja reformada ingleza, o paiz soube tornar-se digno da sua -posição. - -A Reforma ingleza, comtudo, era de um caracter tal que não pode ser -facilmente comparado com o do movimento do mesmo genero que teve logar -n’outros paizes. No primeiro periodo, um monarca caprichoso e absolutista -obrigou o reino a desligar-se do papado, ao mesmo tempo que reprimia -selvaticamente todas as tentativas de uma reforma religiosa, quer na -doutrina quer no culto. - -Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida, os homens de -maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos, tratou de -promover uma reforma de doutrina e de culto. O movimento, empurrado, por -assim dizer, de fóra, não foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que, -com a mudança de governo, voltou para o romanismo. - -No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se pela -Reforma religiosa que havia agitado outros paizes, mas a supremacia real -encerrou o movimento dentro de uns certos limites que fizeram com que -elle não representasse verdadeiramente as aspirações da Egreja. - -Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos e -ritualistas representarem a historia como se a Egreja tivesse sido levada -pelo seu proprio discernimento a assumir a attitude que assumiu para com -o romanismo, de um lado, e para com o decidido protestantismo, do outro; -mas estas representações não são defendidas pela evidencia contemporanea. -Os anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a Egreja -tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização episcopal -regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem, em provar que a posição -que elles chamam catholica, e que outros chamam anomala, foi assumida -pela propria Egreja, actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção -episcopal; mas os factos que se relacionam com este caso são contra -elles. A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos -seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a supremacia real. - -Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez com que fosse -possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que podesse dar ás suas -theorias uma apparencia de base historica. - -Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum de Eduardo -VI, transformando-o n’um outro dentro de cujas formulas havia logar -para pessoas que teriam preferido conservar-se catholicas romanas -se considerações politicas não as obrigassem a passar para o lado -protestante. - -Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos e os ritos -contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que diligenciou reter as -imagens, os crucifixos e a agua benta. - -Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho que -nada tinha que ver com o governo episcopal da Egreja, e que era de um -caracter inteiramente erastiano—que estabeleceu a Acta da Uniformidade, -e que impoz a conformidade sob pena de severos castigos, que podiam ser -exoneração, multa, prisão e até perda da vida. - -Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra -tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra muito -mais em harmonia, respectivamente á doutrina e ao culto, com as egrejas -reformadas do Continente, que haviam tomado Genebra para modelo. - -Os bispos prepararam os _Os trinta e nove Artigos_, que o bispo Jewel, -a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou que haviam -sido redigidos com o proposito de mostrar que havia perfeita uniformidade -de doutrina, e especialmente da que se refere ao sacramento da Ceia do -Senhor, entre Genebra e Canterbury. - -Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam sensatamente -tolerado as objecções dos puritanos quanto ás capas de asperges e ás -sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo Livro de Oração Commum de -Eduardo VI, em uso havia muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle -que foi indicado por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos -romanos. - -Os bispos obrigaram a rainha a declarar-se contra as imagens, os -crucifixos, a agua benta e o celibato do clero, isto é, contra todas -as coisas que ella desejaria conservar; e compelliram-n’a a acceitar o -Artigo vigesimo nono, que defende a theoria calvinista da Ceia do Senhor. - -Se os bispos tivessem tido liberdade de acção, haveria logar na Egreja -de Inglaterra para os não-conformistas da actualidade, pois que a sua -queixa, começando por ahi, não era contra o governo episcopal, mas contra -os symbolos e ritos supersticiosos que lhes foram impostos pela rainha e -pela sua Commissão: difficilmente, porém, haveria logar para os modernos -ritualistas anglicanos. - -Devem a posição, que legal e historicamente lhes deve ser concedida, a -duas coisas—(1) á supremacia real, que teve a força sufficiente para -reprimir e ter sujeito a si o episcopal e nacional desejo de uma Reforma -completa; e (2) ao facto de a uma numerosa parte do clero de Inglaterra -serem tão indifferentes as mudanças que poderam conservar-se no exercicio -das suas funcções durante os reinados de Eduardo, Maria e Isabel, isto é, -sob o systema puritano, romanista e anglicano. - -A supremacia real deu á Egreja de Inglaterra o caracter claudicante da -sua reforma, e habilitou as pessoas que vivem actualmente a fallar dos -principios catholicos, isto é, medievaes, da Egreja ingleza. - -Os historiadores teem mostrado que Isabel tinha necessariamente de -proceder da maneira cautelosa como procedeu, e, com aquella prepotencia -que a caracterizava, obstar a que a Egreja do seu paiz se reformasse por -completo. Ha alguma verdade no seu criticismo. Foi, comtudo, uma politica -myope, que só tratava de acudir ás primeiras necessidades, e que obedecia -muito ao principio de «depois de mim o diluvio.» Foi a supremacia real -de Isabel, imposta mediante o tribunal da Alta Commissão, que preparou -o caminho para a revolta puritana no reinado de Carlos I e para o dia -do Negro Bartholomeu no reinado de Carlos II. Se a Egreja de Inglaterra -tivesse sido entregue aos seus instinctos espirituaes, se a sua acção -não tivesse sido contrariada pelo erastianismo, poder-se-hia ter evitado -estas duas calamidades. - - - - -IV PARTE - -OS PRINCIPIOS DA REFORMA - -CAPITULOS: - - I—OS PRINCIPIOS DA REFORMA. - - II—COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA. - - III—A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES. - - IV—OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS. - - - - -CAPITULO I - -OS PRINCIPIOS DA REFORMA - - A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de - particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação - da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a - Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag. - 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual, - pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis, - pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação - do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma - revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213. - - -=A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares -condições sociaes.=—O movimento da Reforma surgiu n’um dos mais notaveis -periodos da historia europea. A tomada de Constantinopla pelos turcos -ottomanos no meiado do seculo quinze dispersou por toda a Europa os -thesouros litterarios e os sabios de aquella rica e illustrada cidade. -Muitas pessoas começaram a estudar diligentemente os antigos auctores -latinos; aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes a -sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos poetas -e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua em que foi -escripto; e os rabbis judeus encontraram, com grande surpreza sua, no -mundo occidental, homens com immensa vontade de aprenderem a sua antiga -lingua, o hebraico, e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles. -Um mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia, quer na -litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens do periodo em -que a Reforma appareceu. - -A descoberta da America por Colombo não só revolucionou o commercio e -tudo quanto se relaciona com elle, como tambem excitou a imaginação da -Europa. O que não poderiam os homens fazer, visto que tanto tinham feito -já, tanto tinham descoberto? Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella -epoca foi dito e escripto por homens que se julgavam em vesperas de -grandes acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa. - -As condições politicas da Europa occidental tinham tambem mudado. -Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimento das modernas -nações europeas. Haviam-se desprendido, umas apoz outras, do systema -politico medieval, e tornado independentes, com sentimentos, sympathias -e aspirações nacionaes, o que fez com que cada nação comprehendesse que -tinha um caminho especial a percorrer. - -O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle mundo de -costumes sociaes e de restricção politica e religiosa em que tinham -anteriormente vivido era pequeno de mais para elles; sentiram a -necessidade de mais espaço para respirarem. O mundo era maior; a vida -tinha muito mais aspectos do que aquelles que os paes d’elles tinham -jámais posto na sua idéa. Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era -agora novo. - -Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a philosophia -escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos e as mentes dos -homens, e traçado limites que elles não podiam ultrapassar. Estas -barreiras haviam-se desmoronado sob a influencia da nova vida que por -todos os lados penetrava n’elles, e os homens descobriram que a religião -era uma coisa maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida -social, com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do Sacro -Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos que escapavam á -perspicacia dos mais eminentes sabios. - -Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham, com toda -a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações, lucrando apenas -com isso o encontrarem-se na grave situação de isolamento social, como -acontece a todos aquelles cujos pensamentos não são comprehendidos -pelos homens do seu tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses -pensamentos propriedade commum, e as multidões principiaram a ser -agitadas por elles. - -Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma appareceu; -mas o movimento, em si, não pode ser explicado simplesmente por meio -de uma descripção d’essas condições sociaes. Teve logar uma verdadeira -renascença da religião, um cumprimento da promessa do derramamento do -Espirito Santo sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso -que surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias, e -tirou d’ellas mesmas a sua força. - -=Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.=—O que -mais agita os corações dos homens que se encontram no meio de um -grande movimento religioso dentro da Egreja christã é o desejo de se -approximarem de Deus, de se sentirem em communhão pessoal com aquelle -Deus que se mostrou cheio de graça e perdão mediante a vida e obra do -Senhor Jesus Christo. Os homens que estão realmente sob a influencia -de um grande despertamento religioso, e que são arrastados por um -movimento de revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma -deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho atravancado -de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam ter accesso á presença -divina. - -Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer, e mesmo -durante algum tempo depois, os homens que estavam sob a influencia d’essa -revivificação encontraram no seu caminho as taes barreiras de que já -falámos. A Egreja, que se intitulava a porta que dava accesso á presença -de Deus, tinha atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a -sua maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha lista de -penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter mostrado a vereda -que conduzia á presença de Deus, parecia ter rodeiado o Seu santuario -de um triplice muro que tornava difficilima a entrada. Quando um homem -ou uma mulher sentia o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja -dizia-lhe que fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes -de vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado. -Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de perdão, era-lhes -este assegurado, não por Deus, mas por um padre. A graça de Deus, de que -o homem tanto precisa durante a vida, e de que tanto precisa tambem á -hora da morte, era-lhes concedida por meio de uma serie de sacramentos a -que tinham de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam -mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante a Egreja mediante -a confirmação; o seu casamento ficava isento do peccado da concupiscencia -mediante o sacramento do matrimonio; a penitencia restituia-os á vida, -depois de terem commettido qualquer peccado mortal; o sacramento da -Ceia do Senhor, administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os -espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o descanço -eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas coisas não -constituiam de maneira alguma os signaes da livre graça de Deus, sob cujo -vasto docel o homem passa a sua vida espiritual. Eram, antes, umas portas -guardadas com toda a vigilancia, e que os padres abriam de mau humor, e -quasi sempre só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que -Deus dá gratuitamente. - -Ninguem podia, tão pouco, viver livremente uma vida christã, dedicando ao -serviço de Deus todos os talentos que possuia. Para se viver santamente -era necessario observar umas tantas coisas que a Egreja prescrevia, -como, por exemplo, os frequentes jejuns, as interminaveis rezas, as -flagellações, e um conjuncto de tediosas ceremonias, que, se eram -manifestações de amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a -maxima de S. João, beneficiando o proximo. - -A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença, de Deus, -proclamando a todos que, se almejassem por se approximar do compassivo -Redemptor só o poderiam fazer passando pelas estreitas portas que ella -guardava, e exigindo por essa passagem, isto é, pelo baptismo, pela -confirmação, pelo casamento, e pelos restantes sacramentos, umas vis -moedas, e inpondo de quando em quando uma compra de indulgencias, para -acabar de encher os seus cofres. - -A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado pelo irresistivel -desejo de uma approximação de Deus, e satisfez cabalmente esse desejo -levando deante de si, e fazendo desapparecer, todas as barreiras e -obstaculos. - -=Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.=—É natural -que occorra esta pergunta: Como é possivel que a Egreja se esquecesse a -tal ponto da sua missão e do verdadeiro fim da sua existencia que, como -os reformadores constataram, estivesse fazendo exactamente o contrario de -aquillo que devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens -a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus irmãos -na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre elles e Deus, e -que os conservava longe d’Elle. Como poude a Egreja tornar-se uma coisa -inteiramente opposta ao que era licito esperar que ella fosse? Como poude -a Egreja de Deus converter-se, segundo a graphica expressão de Knox, -«n’uma synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia -necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos, porém, dar uma -idéa geral do que se passou. - -«A separação do mundo» é uma das maximas da vida christã, symbolisada -nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada nas normas da vida do -Novo testamento. A Egreja devia viver separada do mundo, e, em todos os -seculos, aquelles a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se -esforçado por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica. -Gregorio VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando, e -que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador da -Egreja medieval, declarou que essa separação devia ser perfeitamente -visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse no reino de Christo; -e aquella sua opinião influiu muito no modo de ser da Egreja medieval. -Nos seus dias todo o governo politico estava nas mãos do chefe do Imperio -Romano, e Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse -tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival sobre a -terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado fôra o grande -Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica. Nas suas mãos a Egreja -tornou-se um reino em contraposição ao Imperio Romano da Edade Media, seu -adversario visivel. Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja -n’uma monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre duas -coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas. O grande, o fatal, -defeito n’aquela idéa de separação do mundo, em que Gregorio andava -absorvido, proveiu do facto d’elle tomar uma parte do mundo, isto é, o -Imperio politico, pelo mundo todo de que era necessario haver separação, -de modo que a Egreja ficou separada do imperio, mas não ficou separada do -mundo. - -A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus; todas estas -phrases, empregadas na Escriptura para descrever o parentesco espiritual -entre Deus e o seu povo foram malignamente applicadas a esta organização -politica visivelmente separada do Imperio politico da Edade Media. Um -homem era chamado _santo_ se pertencia a um dos reinos, e secular se -pertencia ao outro; um frade era um homem _santo_, um guarda do imperador -era um homem secular. Um campo era _santo_ se um papa ou um clerigo -qualquer recebia a respectiva renda; era secular se o proprietario não -tinha ordens ecclesiasticas. Todas as palavras e phrases que se deviam -reservar para quando se tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas -na descripção de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que -pertencia áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja. - -A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia culto a Deus; -era a esphera da religião; e quando, de caso pensado, ou em virtude -do modo habitual de fallar, se ensinou aos homens que a Egreja era -simplesmente uma sociedade visivel, a religião espiritual decaiu, sendo -substituida por uma outra que consistia apenas na observancia de um certo -numero de ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se -cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente -mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a Reforma appareceu -era já impossivel supportal-a por mais tempo, e os homens insistiram em -que os nomes espirituaes fossem applicados ás coisas espirituaes, ou, -por outra, em que não se fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas -piedosas. - -=Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de -Christo.=—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para se tornar -cada vez mais um reino politico, e cada vez menos uma egreja, não se -deve suppôr que durante a Edade Media não houvesse religião espiritual. -O Livro de Oração Commum da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado -de antigos livros cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja -andava geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que esse livro -está impregnado de um profundo sentimento religioso. Muitos dos hymnos -que eram cantados no culto publico por todas as egrejas protestantes -foram originalmente compostos por devotos poetas medievaes, que dedicavam -os seus talentos á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a -sua existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo -com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôr em contacto com -as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes e friamente politicas. -Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira separação do mundo, sem procurar -definir as suas idéas, ou descutir o facto de terem os guias politicos -da Egreja restringido o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém, -tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir os seus -pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre estava em harmonia com -as definições dos estadistas ecclesiasticos. Para exemplificação d’isto, -vamos passar em revista dois periodos de reviviscencia. - -=Francisco de Assis.=—Francisco de Assis, commovido pelas dolorosas -scenas que observava nas cidades, onde a população indigente, pela -maior parte composta de camponezes que haviam deixado as suas terras -para se livrarem do pagamento das contribuições e dos pesados serviços -a que os senhores feudaes, cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em -miseraveis e repellentes bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino -espiritual d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente mãos á -obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse, mas como -sob a influencia de uma grande idéa. Essa grande idéa era a tal maxima -da «separação do mundo», a mesma que, erradamente interpretada, havia -tornado politica a Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do -mundo não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de dois -espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela sociedade politica; -tinha de baseiar-se na conducta individual. Gregorio VII tinha definido a -separação de uma maneira negativa; havia dito «A Egreja é uma coisa que -o mundo não é, e está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um -modo mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste em -estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez. - -Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de Chanterbury -expozera n’uma arida fórma escolastica, a da _imitação de Christo_; -e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever a verdadeira e -individual separação do mundo, muito differente da separação politica -de Gregorio VII. Anselmo e Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma -maneira fria e dogmatica, e outro n’um estylo de fervoroso prégador da -renascença, feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella o -unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que Christo lhes -alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra de Christo imitando-O. -Francisco pegou, por assim dizer, n’esta idéa e, ligando-a com a maxima -da separação do mundo, disse: «Eis aqui a verdadeira separação. Christo -não era d’este mundo. O Seu reino não era d’este mundo. A separação do -mundo é posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos aos -de Christo.» - -Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não tinham grande -largueza de vistas, e a vida e obra de Christo, assim como a Sua -separação do mundo, apresentavam-se-lhe claramente, mas de uma maneira -limitada. Nosso Senhor não era casado; estava separado da vida social -que provém do casamento. Era pobre; estava separado do mundo da riqueza, -do mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto de Se -deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade, da independencia -de vida e de acção. Prendeu-se a estes aspectos exteriores da vida de -Christo; fez consistir a imitação de Christo e a consequente separação do -mundo n’estes modos visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo -ficou significando, entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de -pobreza, castidade e obediencia. - -O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes resultados -e teve um rapido successo; mas, como todos os outros movimentos que se -baseiam em imitaçõees exteriores da vida divina, depressa deixou de -impulsionar os espiritos, e os homens piedosos pozeram-se á procura de -uma melhor separação do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais -genuina imitação de Christo. - -=Os Mysticos medievaes.=—Os mysticos julgaram ter encontrado uma solução -para o problema. A imitação de Christo e a separação do mundo á maneira -de Christo deviam, disseram elles, ser mais profunda e mais intima. -Deviam ser postas em connexão com uma religião espiritual, pois que é -a alma, e não aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo, -afim de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem tem, -disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca, que é propriamente -a vida da alma, e uma vida exterior, uma vida visivel, passada no -meio da sociedade. Põe-se em communhão com Deus, não mediante aquella -vida exterior, que todos os homens vivem, mas mediante a que possue -espiritualmente, mediante a vida da alma. A separação do mundo não -consiste n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella -vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que separação -do mundo significa communhão com Deus, e essa communhão não tem logar de -uma fórma visivel, mas muita reconditamente, quando a alma se encontra a -sós com Elle. Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos -os desejos, a todos os actos que podessem impedir a communhão da alma -com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle Christo que -está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham, como se vê, ácerca da -separação do mundo, a mesma idéa de Gregorio. Ligavam-n’a com aquella -idéa de imitação de Christo, em que Francisco de Assis tanto insistia. -Vivendo, porém, n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, em -que abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias, foram levados a -reconhecer, como a ninguem, antes ou depois d’elles, tem succedido, que -o reino de Deus está no interior dos corações. A renuncia ficou sendo a -sua senha, e essa sua renuncia era toda espiritual, e com ella se armaram -para soffrer pacientemente tudo quanto a Deus, na Sua Providencia, -aprouvesse enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser religião -espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter esse nome, ser -espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente, mais de Christo do que -Gregorio com a sua Egreja politica ou do que Francisco de Assis com a sua -pictorica imitação dos aspectos da vida de Christo no mundo. - -=A significação do perdão, segundo a Reforma.=—Todos estes movimentos -eram revivificações da religião. Eram todos elles tentativas para -se chegar a uma verdadeira separação do mundo, que é o mesmo que -approximação de Deus. A Egreja sustentou esta prolongada lucta como -preparação para a Reforma, fazendo dos seus proprios desenganos outras -tantas alpondras para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou -por todas ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das -reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição da familia, -deixou de estudar direito para estudar theologia. - -Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica e a imitação -de Christo segundo as regras monacaes lhe proporcionariam aquella -paz da alma que é o fructo de uma convivencia com Christo. Foi João -Tauler ou Nicolau de Basiléa quando se inteirou de que a religião, -para ser verdadeira, deve ser espiritual. Mas ainda assim elle não -ficou satisfeito. Não se sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia -que lhe era indispensavel estar senão depois de experimentar aquella -bem-aventurada sensação de perdão pela qual anhelava. E porque havia -feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza do perdão? Como -hei de eu transpôr essa insuperavel barreira do peccado que se ergue -entre mim e o Deus de toda a santidade?» e considerara este ponto como de -summa importancia durante todo o periodo em que o seu espirito passou por -varias vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas -piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião que a -Reforma effectuou. - -Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos principaes -caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto de Deus, mas esse -desejo era manifestado mediante differentes perguntas, e cada tentativa -de revivificação tornava mais evidente a possibilidade de que elle -fosse satisfeito, Gregorio perguntava: «Como posso eu separar-me do -mundo?» Francisco de Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante -a Christo?» Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimento -do perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos luctam com a -mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa; está-se cada vez mais -perto da solução do problema, á medida que as gerações se succedem, -até que por fim vieram os reformadores, que com tanto zelo procuraram -revivificar a religião, e pozeram em primeiro logar a questão do perdão, -e, conseguintemente, a do peccado, tocando assim no ponto principal. -Desembaracemo-nos do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão, e -haverá então separação do mundo, imitação de Christo e communhão com Deus. - -A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade -o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do mesmo modo. Os homens -alcançam o perdão de Deus indo pedil-o directamente a Deus, e confiando -na Sua promessa de que perdoaria. A livre e clemente graça de Deus, -revelada na pessoa e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa -promettida graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida -religiosa da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar o -peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa. Tal é o simples -aspecto religioso do movimento da Reforma. Todos aquelles que, sentindo a -necessidade do perdão, e tendo perfeita confiança na promessa do perdão -que Deus fez mediante Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de -pensar em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa promessa -e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a consciencia d’isso. - -=Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.=—Sendo -este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma, é manifesto que -elle não constituiu um caso singular, isolado, na historia da Egreja. -Todos os christãos piedosos teem sentido pouco mais ou menos a mesma -coisa, o seu espirito tem passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com -Deus para serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa -de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as gerações christãs -dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem á vida do christão dizem -a mesma coisa, e o que a Reforma fez foi definir claramente que todos os -christãos tinham, com mais ou menos consciencia do facto, sentido. - -Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que espiritualmente -experimentavam, e que era a linha central da sua vida religiosa, estava, -n’uma multiplicidade de modos, em contradicção com o credo, o culto e a -organização theoretica da sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente -do que o contraste entre as exposições doutrinaes e as posições -ecclesiasticas de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os -hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as phrases que -empregavam nas suas orações. A sua theologia tinha muitos pontos de -contacto com a philosophia pagã de Aristoteles, no seu culto estavam -consubstanciados muitos ritos do paganismo, a fórma como a Sua Egreja -era dirigida era mais modelada na constituição do imperio romano do que -na constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos piedosos -viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao momento em que os -elementos pagãos que haviam sido introduzidos na sua Egreja se tornaram -tão preponderantes que elles se viram forçados a protestar contra elles. -Luthero achou o perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que -nunca fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na Egreja -não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus por dinheiro. Isso -levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção a certos assumptos, -e compenetrou-se de que a venda do perdão dos peccados não era uma -horrivel profanação enxertada na Egreja que elles veneravam, mas sim uma -verdadeira e logica deducção de principios com que elles não se tinham -até ali preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes -da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que sempre existiu -na Egreja medieval, manifestando-se na santidade da vida, na nobreza dos -hymnos, nas confissões do peccado, e na confiança nas promessas do Deus -do pacto. Os protestantes não precisam de reivindicar a sua affinidade -com homens cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem -reconhecido a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o viver -religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do mahometanismo -ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre ascendencia em todos esses -homens e mulheres piedosas que, mesmo nos seculos mais obscuros da -Egreja, foram ter directamente com Deus, confiados, tanto no tocante á -vida presente como no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça -renovadora que Elle revelou em Christo. - - - - -CAPITULO II - -COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA - - O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado - na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a nação - medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra - o medievalismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De - Monarchia_ de Dante e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua, - pag. 218. - - -=O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida -social da epoca.=—A Reforma começou simplesmente como uma tentativa de -dar o culto a Deus de uma maneira mais simples, segundo os dictames da -consciencia e os impulsos da vida interior, da vida espiritual; mas não -podia ficar por ahi; significou por fim uma revolução nas condições da -sociedade e uma grande mudança na situação politica da Europa. - -A Egreja medieval era muito rica, e possuia muitos bens de raiz, e quando -uma freguezia, ou uma provincia, ou um paiz se tornava protestante, -levantavam-se discussões sobre o destino a dar a estas propriedades. -Deviam ficar em poder dos padres, deviam passar para o do pastor -protestante, ou deviam as auctoridades civis tomar conta d’ellas e -administral-as como bens do Estado? A Egreja tinha o direito de cobrar -dizimos—o dizimo grande, ou a decima parte da colheita do trigo ou do -vinho, e o dizimo pequeno, ou a decima parte das ovelhas, dos vitellos, -dos porcos e dos ovos. Os padres e os frades recebiam remuneração pelos -baptismos, pelos casamentos, pelas confirmações e pelos enterros. -Quando as familias se tornavam protestantes, e dispensavam os serviços -dos clerigos da Egreja medieval, por não se quererem sujeitar a ritos -supersticiosos, aonde ir buscar aquelles dizimos e aquelles emolumentos? -A permissão para se render culto a Deus segundo as consciencias -preceituavam envolvia questões de dinheiro, que eram muitas vezes levadas -aos tribunaes, e que obrigaram, mesmo, a uma modificação das leis -concernentes á propriedade. - -A Egreja medieval tinha o seu systema de celibato. Os clerigos não -podiam casar, e, alem dos parocos e dos curas, havia frades e freiras -celibatarias e que haviam feito votos de castidade, sanccionados -pelo Estado. Quando qualquer d’estes homens ou mulheres se tornasse -protestante, ser-lhe-hia permittido desligar-se dos votos e abandonar -o convento? e, no caso de ter levado dinheiro comsigo para o convento, -ser-lhe-hia restituido? Se todos os moradores de uma casa religiosa -abraçassem a fé protestante, poderiam conservar-se n’essa casa, e -continuar disfructando a respectiva dotação? A todas estas questões -juridicas deu logar a Reforma. - -Mas havia outras questões muito mais graves. A Egreja medieval, segundo o -costume da epoca, tinha jurisdicção sobre muitos pleitos, que na Europa -moderna são julgados pelos tribunaes civis. As questões entre marido -e mulher, entre paes e filhos, e as que diziam respeito a heranças e -testamentos, estavam na alçada dos tribunaes ecclesiasticos, e nunca eram -submettidos ás instancias ordinarias do reino. A Egreja é que decidia se -um casamento era ou não legal, se este ou aquelle grau era prohibido, se -este ou aquelle filho era legitimo, etc. Estas questões levantavam sempre -comsigo uma outra, a da propriedade, pois que só os filhos ligitimos -podiam herdar os bens de seus paes. Só era licito o casamento que fosse -feito dentro dos graus auctorizados, e effectuado á face da Egreja por -um sacerdote ordenado. E isto porque, em conformidade com as idéas da -Egreja medieval, o matrimonio era um sacramento. E assim protestante -algum podia estar legalmente casado, porque a legalidade de um matrimonio -só podia provir de um sacramento que não podia ser administrado a -rebeldes, por constituir um acto de desobediencia á auctoridade da -Egreja. E a lei da Egreja era a lei da nação; pois que antes da Reforma -a Egreja tinha o direito de resolver todos estes casos. A não ser que -as leis fossem alteradas, filho algum de protestantes, casados por -pastores protestantes, podia herdar de seus paes, pois que, segundo a -lei da Egreja medieval, os paes não tinham contraido um casamento legal. -E, portanto, não andavam sómente envolvidas n’isto as questões que -diziam respeito á propriedade; affectava-se tambem a honra pessoal, e a -dignidade das esposas e dos filhos. - -Poderiamos multiplicar os casos indefinidamente; mas os que citámos são -sufficientes para mostrar como o simples desejo de dar culto a Deus -segundo a consciencia alterou todas as condições da vida social. O -velho systema ecclesiastico descia até aos proprios alicerces da vida -quotidiana, e tudo apertava nas suas garras. A Reforma, ao atacal-o, -atacou por esse facto todas as leis: a da propriedade, a do casamento, e -a da hereditariedade. - -=A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica.=—Segundo -as noções medievaes, a sociedade estava dividida em Egreja e em Estado -politico. O poder ecclesiastico estava todo centralizado na pessoa -do papa, que era o sacerdote universal; e o poder civil estava todo -centralizado na pessoa do imperador, que era o soberano universal. Um era -sacerdote dos sacerdotes, e o bispo dos bispos, e o outro era o rei dos -reis. Um homem pertencia á Egreja se estava sob a jurisdicção do papa; -era membro da sociedade civil se estava sob o dominio do imperador. - -Tres poderosos chefes francos tinham, uns apoz outros, no fim do seculo -oitavo, proporcionado ao christianismo o dilatar-se, sem ser incommodado, -n’uma parte da Europa occidental. Com os seus fortes exercitos obstaram -ao avanço das hordas dos barbaros frisios e saxonios que pretendiam -opprimir a Europa com uma nova Dispersão das Nações, e obrigaram os -serracenos a retroceder para alem dos Pyrinéus. Como preito de gratidão, -o papa havia conferido a Carlos Magno, o ultimo dos tres, o titulo de -Imperador dos Romanos e reunido em volta d’elle o prestigio do nome -romano e tudo quanto restava das leis, artes e sciencias romanas. O -imperio assim estabelecido apresentava um estranho dualismo. Tinha um -chefe civil e outro espiritual, Cesar e o papa; e toda a jurisprudencia -europea se fundava na dupla theoria da representação; o imperador era -reputado o vigario de Deus nos negocios civis, ou terrestres, ao passo -que o papa governava em nome de Deus nas coisas espirituaes. - -Segundo as noções medievaes, quando um homem recusava obedecer ao papa -no que dizia respeito ás materias espirituaes rebellava-se contra a -sociedade, pois que esta se baseava na idéa de que o papa e o imperador -eram os senhores supremos. O protestantismo quebrou esta união dos dois -elementos da christandade, que se affigurava necessaria para dar á -sociedade uma existencia politica e mantel-a sobre uma firme base moral. - -=Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma.=—As idéas -medievaes tinham soffrido alguma coisa antes de apparecer a Reforma. O -nascimento das nações modernas, com os seus interesses em separado, o -que dava origem a constantes conflictos, e com as suas aspirações de -completa independencia, vibrou um golpe á noção medieval de christandade -indivizivel. Este sentimento de independencia nacional significava -revolta contra o imperador, a qual foi seguida, de uma fórma menos -perceptivel, de sedições nacionaes contra o papa. A lei ingleza de -_Proemunire_, que prohibe appellações para Roma, significava que existia -no reino de Inglaterra uma jurisdicção de que não se podia appellar; -e isso era uma revolta contra a noção medieval da christandade unida, -segundo a qual todas as appellações deviam ser depostas junto do throno -do imperador ou da cadeira do papa. - -Noções independentes queria dizer egrejas independentes, e a revolta -de Henrique VIII não teve maior significação do que a de Eduardo III ou -a de Filippe, o Bello. A theoria gauleza foi, n’uma epoca posterior, -uma revolta contra a mesma idéa medieval de centralizar em Roma o poder -ecclesiastico. - -A Reforma intensificou esta revolta. Deu-lhe um sentido mais amplo; -tornou-a permanente; animou a tendencia para a descentralização. -Depois de ter surgido a Reforma as nações tiveram mais um motivo para -dissenções, pois que a differença de credo indispôl-as umas com as outras. - -Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião espiritual, -tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade politica e -ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas não as atacaram. A -convicção em que estavam de que a religião consiste n’uma communhão -espiritual com Deus tornava-os extremamente indifferentes a todas as -combinações e associações extrinsecas. De todos os reformadores só -Luthero mostrou partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença, -perante a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um -simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de os homens se -ligarem uns com os outros, com a differença, comtudo, de que o centro -d’esse movimento associativo, d’essa força colligadora, não era aquelle -que as nações medievaes indicavam. Nutria a vida nacional; os homens, -pela razão de terem combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo -paiz, de terem herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos -infortunios, mantinham entre si uma especie de unidade espiritual. -As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta nova lei de -desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma, que operou uma -tão completa separação de Roma, e que, apezar d’isso, não destruiu a -sociedade, mostrou a todos os homens que podia haver vida social e -communhão religiosa sem aquella pressão exterior, sem que as idéas de -ordem e associação andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja -universaes. A noção medieval de uma Europa unificada constrangia todas as -nações a obedecerem a um poder central, que residia no imperador; a noção -reformista era a de uma fraternidade de povos. - -=A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326), de -Marcello de Padua.=—Appareceram dois notaveis livros antes da Reforma, um -que pertencia ao passado que ia desapparecendo, e outro que pertencia ao -futuro que se avisinhava. - -Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados italianos e -das nações europeas, escreveu a sua _De Monarchia_ para mostrar aos -seus contemporaneos como podiam viver em paz. O que elle propunha era -o restabelecimento, em toda a sua força, do velho imperio medieval, o -qual, mesmo visto do seu lado melhor, pouco mais era do que um sonho, -conservando o seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a -imaginação, O reinado da paz universal teria logar, pensava elle, quando -se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de Carlos Magno, -isto é, quando um energico imperador, com a sua côrte no centro do mundo -civilisado, ouvisse e julgasse os casos que de todos os pontos da terra -fossem submettidos á sua decisão final, e fizesse sentir o peso da sua -ferrea mão a todos aquelles que armassem contendas com os seus irmãos. -Este livro é o epitaphio do medievalismo. - -Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo, escreveu o -seu livro, o _Defensor Pacis_, que explicava como a verdadeira paz e -segurança nacional começam de dentro. Para Marcello o Estado é o povo, -e do povo—dos seu desejos, das suas aspirações, dos seus temores, dos -seus intentos—é que provém a vida nacional. O governo é do povo e para -o povo. E o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o -seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto Dante -procurava um poder compellidor que operasse de fóra, Marcello predizia -que a força que havia de dominar as nações não podia deixar de ser uma -força auto-coerciva que tivesse a sua origem no proprio povo. A Reforma -contribuiu para que essa predicção se cumprisse, e para que as suas -theorias viessem a constituir uma descripção da vida politica e social da -actualidade. - -Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou o centro -da vida nacional de uma força repressora exterior para uma invisivel -fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa o que Kepler fez para -a astronomia e Kant para a metaphysica: mudou o centro de fóra para -dentro. - - - - -CAPITULO III - -A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES - - Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, - pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á - Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da - Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição - reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223. - - -=Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.=—Nenhum dos -reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem Calvino—pensou que procurando -dar culto a Deus da maneira mais simples que a Escriptura aconselhava, -e que a sua experiencia espiritual approvava, se estava afastando da -Egreja. Estavam abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual -com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer á Egreja em que -tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados, e em cuja communhão -tinham prestado culto a Deus desde a infancia. - -Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a Egreja de seus -antepassados. Não tinham desejo algum de fazer uma nova Egreja, e ainda -menos de crear uma nova religião. A religião que elles professavam era -a religião do Velho e do Novo Testamento, a religião dos santos de Deus -desde os dias de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua -separação de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e dos Padres. -Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em que Christo havia sido -acreditado, e em que se havia sentido a presença do Espirito Santo, desde -o tempo dos apostolos até aos seus dias. - -A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes, pensavam elles; -não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar a toda a gente a -evidencia d’esse facto, a que davam tão grande importancia? - -=Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição do -Imperio medieval.=—Os reformadores tinham-se desligado do papa, e não -viviam mais em communhão com elle ou com a curia romana. No seu tempo, -porém, estar na Egreja era ter communhão com o papa e com Roma. Estar -fóra do districto dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles -tempos de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos -privilegios da Egreja. - -Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem, ou cidade, ou -provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava, eram, por esse -facto, interrompidos todos os serviços religiosos. Emquanto sobre aquella -area pesasse a excommunhão, não podia haver baptismos, nem casamentos, -nem confortos espirituaes á hora da morte. As egrejas permaneciam -fechadas, e todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser -levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não ter communhão com -o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil demonstrar o contrario, de -um modo claro, sem auxilio de uma argumentação theologica. - -O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio de mostrar -ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado por aquelles -que estavam em communhão com o papa. O Santo Imperio Romano da Edade -Media era mais do que um estado politico; era tambem, sob um certo ponto -de vista, uma Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono. -Chamava-se-lhe a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos deviam -a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores ao facto -de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma latina approvada pelo papa -Damaso. A Edade Media apresentava, portanto, a Egreja de Christo sob dois -aspectos: um era o da communhão com o papa, e o outro o da posição que -occupava no Imperio Romano. - -Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão do imperio. -Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo Niceno sob a fórma -prescripta. Era, segundo a distincção feita pelo imperador, um christão -orthodoxo. Estava dentro da christandade, era membro da grande -communidade christã, posto que não estivesse em communhão com o papa. -Luthero aproveitou-se do caracter ecclesiastico do imperio da Edade -Media; teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel, -que era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga -classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã, -ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com que aos seus -contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja era mais ampla, -mesmo segundo as noções medievaes, do que a communhão com Roma. Elle -proprio estava fóra da communhão com Roma, e, comtudo, era membro da -christandade, e estava, por conseguinte, dentro da Egreja. - -=A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.=—O imperio -medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos, e a sua -dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã. Luthero, para mostrar -que, não obstante haver-se desligado de Roma, não tinha abandonado a -Egreja Catholica de Christo, pegou no Credo dos Apostolos, no Credo -Niceno, e no Credo de Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão -de fé. Diz elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou -Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas por -toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de uma vez para sempre, -que adhiro á verdadeira Egreja de Christo, que até agora tem mantido -estas Confissões, mas não aquella falsa e pretenciosa Egreja, que é a -peor inimiga da verdadeira Egreja, e que tem collocado subrepticiamente -muita idolatria a par d’estas bellas Confissões.» - -Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros da Egreja -Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos de citar. -Intitulou-o _Sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_. -Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva pelo papa e -pela curia, exactamente como acontecera aos israelitas quando foram -transportados para Babylonia. A Egreja, libertada do jugo romano, ficava -com todos os privilegios que a Egreja de Deus sempre tivera, e ficava, -além d’isso, livre da escravidão. - -A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um captiveiro peior -do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma eram homens comparaveis -a Zorobabel, Esdras e Nehemias. Não estavam fundando uma nova Egreja, -estavam reconduzindo a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a -liberdade. - -Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto que não a -expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio aos seus _Institutos_ -diz-nos que escreveu o livro para responder áquelles que diziam que as -doutrinas dos reformadores eram novas, duvidosas, e contrarias ás dos -Paes da Egreja. E refuta essas accusações, mostrando a catholicidade da -theologia da Reforma. Prova que todos os reformadores sustentaram as -grandes doutrinas catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos, -e que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de outra -qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as idéas pagãs e -as praticas supersticiosas foram, de uma maneira bastante censuravel, -introduzidas. - -=A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.=—Os cabeças -da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande revivificação -religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo um movimento novo, e -muito menos que estavam fundando uma nova religião. Tinham, no seu -entender, uma ascendencia espiritual, e reputavam-se os verdadeiros -herdeiros e successores da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes, -e, tambem, da Edade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles. -Pertenciam á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros herdeiros -dos seculos de vida santa que os tinham precedido. - -Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem scismaticos -e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica de Christo, e -de procurarem crear uma nova Egreja e fundar uma nova religião. -Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a unica communidade christã, e a -unica Egreja Catholica e Apostolica. - -Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes preparada -pela propria Egreja Catholica Romana. A Egreja de Roma acceita o Credo -dos Apostolos, e esse Credo faz uma descripção da Egreja que está em -completo desaccordo com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos -Apostolos diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos -santos», e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão de Roma». -Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra que dê a entender que -catholicidade significa communhão com Roma; catholicidade quer dizer, -pelo contrario, _communhão com os santos_. Este ponto é bem frisado pelos -principaes reformadores. O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se -baseia n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia no perdão -dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de uma santa communhão, -e esta existe em virtude do perdão que se alcança para todos os peccados -mediante a obra redemptora de nosso Senhor Jesus Christo. - - - - -CAPITULO IV - -OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA - - Os principios _formaes_ e _materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O - sacerdocio de todo os crentes: o grande principio da Reforma, - pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da - _Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_ - da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina - medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da - Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_. - Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia, - pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em - contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical - e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e - justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235. - - -=Os principios formaes e materiaes da Reforma.=—Os principios -theologicos, ou doutrinarios, que deram um caracter distinctivo á -revivificação da religião promovida pela Reforma costumam ser divididos -em duas cathegorias, sendo uma d’ellas constituida pelos _formaes_ e a -outra pelos _materiaes_. - -O dr. Dorner, historiador sagrado, estabelece este modo de encarar o -movimento reformista com muita clareza e energia na sua _Historia da -Theologia Protestante_. Segundo o dr. Dorner, a doutrina da Palavra de -Deus é o principio _formal_ da theologia da Reforma, e a doutrina da -Justificação pela Fé é o principio _material_ da mesma. - -O uso d’estes termos technicos pode, comtudo, obscurecer, tanto na vida -religiosa como na theologia, o verdadeiro sentido do movimento que com -elle se quer explicar. O principio da Reforma, o impulso predominante -no movimento, era simplesmente aquelle que deve inspirar todas as -revivificações da religião, isto, é o fervoroso desejo, a ancia, de uma -approximação de Deus, o anhelo por estar na presença de Aquelle que Se -revelou, para que podessemos ser salvos, na pessoa de Jesus Christo. -Aquillo a que se tem chamado os principios, _formaes_ e _materiaes_, da -Reforma está unido a este mais simples, mas mais energico, impulso, e é -proveniente d’elle. O direito de chegar á presença de Deus foi, segundo a -crença dos reformadores, conferido por Elle a todos os que fazem parte do -Seu povo; mas o direito de chegar á presença de Deus é o que se chama o -sacerdocio, e o grande principio da Reforma baseia-se no _sacerdocio de -todos os crentes_—o direito que teem todos os homens e mulheres crentes, -todos os clerigos e seculares, de se dirigirem a Deus, e de procurarem -alcançar d’Elle o perdão mediante a confissão dos seus peccados, a luz -que lhes illumine os entendimentos, a communhão que os faça sair do seu -solitario isolamento, e o vigor necessario para viverem diariamente em -santidade. - -=O sacerdocio de todos os crentes: grande principio da Reforma.=—Quando -Luthero e Zwinglio se revoltaram contra os abusos com que o romanismo -havia desfigurado a Egreja medieval, os dois grandes abusos eram a -venda das indulgencias e a excommunhão. Quanto ao primeiro d’esses -abusos, a venda das indulgencias, a Egreja medieval dizia praticamente -que não era necessario ir ter com Deus para obter o perdão, pois que a -Egreja podia concedel-o em melhores condições. O perdão que Deus dava, -mediante a obra de Christo, áquelles que se apresentassem contrictos -e arrependidos fornecia-o a Egreja a troco de uns tantos ducados. -Punha-se deliberadamente entre os pecadores e Deus, e afastava-os d’Elle, -insinuando-lhes, de uma maneira blasphema, que podia vender-lhes o -perdão mais barato. O homem não necessitava de ir ter com Deus cheio -de tristeza e arrependimento, nem de incutir na alma a confiança -nas Suas promessas. A Egreja sahia ao caminho de todo aquelle que -possuisse dinheiro. N’outras occasiões a Egreja recusava absolutamente -o perdão. Se uma cidade, ou uma diocese, ou um paiz offendia, mediante -os seus governantes, o papa ou a sua côrte de Roma, era-lhe imposta a -interdicção, e emquanto esta não fosse levantada não havia perdão para -peccado algum. A Egreja colocava-se entre a creança recemnascida e o -baptismo, entre o christão moribundo e a graça que lhe era concedida -á hora da morte, entre o mancebo e a donzella e o laço matrimonial -abençoado por Deus, entre o povo e o culto quotidiano. Ninguem se podia -approximar do Deus de toda a misericordia pelo motivo dos magistrados, -dos bispos ou do rei e seus conselheiros terem offendido o papa. A Egreja -tinha a faculdade de impedir o caminho, pois que havia declarado que -só por intervenção dos padres é que se poderia ter accesso a Deus; e -quando aos padres se prohibia o exercerem as suas funcções eclesiasticas, -o ministrarem os sacramentos, ficava cortada toda a comunicação com -Deus. O papa podia, com uma pennada, impedir que uma nação inteira se -approximasse de Deus, pois que tinha o direito de ordenar aos padres que -suspendessem os serviços religiosos; e, segundo a theoria medieval, essas -funcções exercidas pelos padres eram o unico meio de ter accesso a Deus. - -Os reformadores, por outro lado, diziam: «O homem deve approximar-se -de Deus por meio da oração, por meio do perdão, por meio da communhão, -por meio do esclarecimento espiritual, sempre que fielmente o procurar -fazer; é impossivel que o caminho para Deus se feche de aquella maneira.» -Luthero disse que não fazia objecção alguma ás indulgencias se ellas -fossem consideradas o unico meio de se declarar que Deus é sempre -misericordioso. Recusava, porém, acreditar n’ellas, ou n’outro qualquer -rito da Egreja medieval, quando se fazia uso d’ellas para declarar que -os homens podiam alcançar o perdão sem se approximarem de Deus com um -espirito contricto, ou que podiam ser inteiramente excluidos da presença -de Deus por determinação de quaesquer outros homens. - -Era esta idéa—que a presença de Deus é livre para quem fielmente a -procurar, que Deus não recusa ouvir a oração de qualquer penitente, e que -Elle faz com que as Suas promessas fallem directamente aos corações de -todos aquelles que compõem o Seu povo—que se enleiava em volta de base da -theologia da Reforma, e era a fonte de onde brotavam, em particular, as -doutrinas da Escriptura e da justificação pela fé. - -=O principio do sacerdocio dos crentes explica a doutrina reformada -da Escriptura.=—Todos os reformadores criam que na Biblia Deus lhes -fallava da mesma maneira em que, em tempos remotos, havia fallado á -Egreja pelos Seus prophetas e apostolos. Diziam elles que o povo, tendo -nas mãos a Biblia traduzida do grego e do hebraico para uma lingua que -elle comprehendesse podia ouvir a voz de Deus, podia chegar-se a Elle -para receber instrucção, admoestação e lenitivos. Nos tempos do Antigo -Testamento Deus fallou ao Seu povo, umas vezes em sonhos e outras por -meio de visões, mas principalmente mediante embaixadores instruidos -por Elle, a que se chamava prophetas. Nos tempos do Novo Testamento -Deus fallou no meio do povo mediante Seu Filho, e o Seu Espirito fallou -tambem por intermedio dos apostolos de Christo. Todas estas revelações, -inseridas na Escriptura do Velho e Novo Testamento, são apresentadas -de tal fórma que Deus falla, na Biblia, ao Seu povo exactamente como -lhe fallou pela bocca dos homens santos da antiguidade. Os reformadores -proclamavam que na Biblia todos os crentes podem ouvir Deus, que lhes -falla directamente, e que a Sua voz pode ser ouvida por todos aquelles -em cujas mãos estiver a Biblia. A doutrina reformada da Palavra de Deus -exprime simplesmente um dos lados do cumprimento de aquelle anhelo pelo -accesso á presença de Deus, que constitue o elemento essencial, não -apenas da Reforma, mas de toda a verdadeira revivificação religiosa. - -=O principio do sacerdocio espiritual de todos os crentes explica a -doutrina reformada da justificação pela fé.=—A doutrina da justificação -pela fé é um outro modo de asseverar que o anhelo pelo accesso a Deus -não é um desejo vão, mas uma coisa que pode ter um positivo cumprimento. -Segundo a theologia medieval, o peccador não podia implorar directamente -a Deus o perdão. Tinha que ir ter com o padre, e esse padre ficava -auctorizado a metter-se de permeio entre elle e Deus, e a negar o perdão -de Deus, se isso lhe fosse ordenado pelo papa ou por um seu superior -hierarquico. Por muito sincero que fosse o seu pezar, por muito forte -que fosse a sua confiança, o padre collocava-se entre elle e o seu -clemente Deus, e elle não podia confessar a Deus os seus peccados nem -ouvir de Deus a sentença do perdão senão pela bocca do padre. A doutrina -da justificação pela fé significa, na sua fórma mais simples, que é Deus -em pessoa quem profere o perdão, e que perdoa em attenção de tudo quanto -Christo fez e pode fazer pelo peccador; e que o homem pode ouvir proferir -este perdão se tiver fé na misericordia, na salvação e nas promessas de -Deus. - -=A doutrina reformada da Escriptura, em contraste com a medieval.=—A -doutrina reformada da Escriptura é muitas vezes apresentada sob uma -fórma que não a põe em immediata connexão com o impulso preponderante -no movimento da Reforma. Os reformadores deram mais credito á Biblia, o -livro infallivel, do que á palavra de uma Egreja fallivel. Na Edade Media -os homens appellavam para a Egreja em ultima instancia, e acceitavam as -decisões dos papas e dos concilios como constituindo a ultima palavra -em todas as controversias sobre a doutrina e a moral; os reformadores -substituiram a Egreja, isto é, as decisões dos concilios e dos papas, -pela Biblia, e ensinaram que era para ella que se devia appellar em -ultima instancia. Este modo de expôr a differença entre os reformadores -e os seus antagonistas teve uma expressão mais concisa no dito de -Chillingworth, famoso theologo inglez, de que a Biblia, e só a Biblia, é -a religião dos protestantes. - -Tudo isto é verdade, e, comtudo, não é a inteira verdade, podendo, -portanto, dar logar a uma noção erronea. Os catholicos romanos e os -protestantes não dão o mesmo sentido á palavra Biblia, e essa differença -de sentido traz á luz uma verdade que é algumas vezes esquecida. Quando -os catholicos romanos fallam da Biblia querem dizer uma coisa, e quando -os protestantes fallam da Biblia querem dizer outra, e n’esta differença -no emprego da palavra está uma parte importantissima da doutrina -reformada da Escriptura. - -A Egreja medieval não se oppunha, em regra, a que o povo lesse a Biblia -para sua edificação. Era, pelo contrario, uma maxima na theologia da -Edade Media que todo o systema doutrinal da Egreja se fundava na Palavra -de Deus. Thomaz de Aquino, a maior auctoridade entre os theologos -medievaes, diz expressamente, no principio da sua importante obra, A -_summula da theologia_, que todo o circulo da doutrina christã se apoia -na Escriptura, que é a Palavra de Deus. Durante a Edade Media fizeram-se -continuamente traducções das Escripturas nas linguas dos povos da Europa; -é um perfeito erro suppôr-se que as primeiras traducções da Biblia se -fizeram durante o tempo da Reforma; em regra geral, animava-se o povo -a ler e estudar as Escripturas. Nos primeiros periodos da controversia -reformada, os arguentes catholicos romanos recorriam tanto á Biblia como -Luthero e os que estavam do seu lado. Estava guardado para a Egreja -Catholica posterior á Reforma o prohibir aos leigos a leitura da Palavra -de Deus. - -=A doutrina medieval da Escriptura.=—Os theologos medievaes faziam, -comtudo, da Biblia um uso muito differente de aquelle que os protestantes -faziam, e na controversia protestante a differença de sentido não tardou -em fazer-se notar. Os theologos da Edade Media jámais consideraram -a Biblia um meio de graça; tinham-n’a na conta de um livro cheio de -informações, divinas informações, ácerca da doutrina e da moral. Era para -elles um repositorio de verdades doutrinarias e preceitos moraes, e mais -nada. - -Os protestantes vêem n’ella um repositorio de verdades infalliveis, -mas vêem mais alguma coisa. É um meio de graça. Crêem que os homens -alcançam com a simples leitura da Biblia não só instrucção como tambem -communhão com Deus, não só o conhecimento de Deus como tambem intimidade -com Elle. Não se limita a apresentar verdades novas ácerca das coisas -divinas; excita para a vida espiritual. É para o protestante tudo o que -era para o theologo da Edade Media, e é mais alguma coisa. É um tão -efficaz estimulo de fé e vida santa como os sacramentos, ou a oração ou -o culto. Mediante um diligente uso da Biblia, os homens, na opinião dos -theologos protestantes, não sómente adquirem o conhecimento de Deus; -podem tornar-se participantes de aquella bemdita communhão entre Deus e o -Seu povo de que a Biblia faz menção. - -=O quadruplo sentido da Escriptura.=—Esta noção medieval ácerca da -Biblia—que ella é um repositorio de informações ácerca das doutrinas e -da moral, e nada mais—encontra uma seria difficuldade: é que similhante -descripção não parece ser applicavel a uma grande parte de Biblia. As -Escripturas conteem longas listas de genealogias, capitulos que tratam -quasi exclusivamente dos utensilios do templo, ou são descripções -da vida humana, ou da historia nacional. N’essas porções da Biblia, -que constituem uma não pequena parte d’ella, não parece haver muita -informação doutrinal ou muitas regras para uma vida santa, e, não -obstante, são estas coisas que, segundo a definição medieval, compõem -a Biblia toda. O theologo medieval tinha, portanto, ou de cortar o -que lhe parecesse materia inapplicavel, ou inventar alguma maneira de -transformar as taboas genealogicas em doutrinas ou preceitos moraes. -Optou pela ultima d’estas coisas, e declarou que em todas as passagens -da Biblia havia mais do que um sentido. A Biblia, disse elle, tinha um -quadruplo sentido. Havia, em primeiro logar, o sentido _historico_ da -passagem lida, que era aquelle que se inferia das regras grammaticaes -e de interpretação. Seguiam-se depois os outros tres sentidos: O -_allegorico_, o _moral_ e o _anagogico_. Estes varios sentidos differiam -do historico, e os expositores medievaes extrahiam complicadas doutrinas -das genealogias de Abrahão e de David, e regras de conducta da descripção -das vestes do summo sacerdote ou da narrativa da viagem que nosso Senhor -fez de Capernaum a Naim. - -É algumas vezes difficil saber qual é o verdadeiro sentido de certas -passagens da Biblia, mesmo quando o leitor se occupa simplesmente da -significação historica; e a difficuldade quadruplicará, se é verdade -que cada passagem tem quatro sentidos. Qualquer trecho da Biblia pode -significar aquillo que o leitor quizer, bastando para isso que o tome -n’um sentido mystico, ou allegorico. - -=Definição medieval da fé salvadora. A interpretação -infallivel.=—Emquanto os theologos medievaes faziam quasi perder a -esperança de vir a saber-se ao certo o que a Biblia dizia segundo a sua -doutrina do quadruplo sentido, uma outra theoria d’elles tornava de -summa importancia que o crente tivesse precisas informações ácerca do -contheudo da Biblia. Diziam que fé não era confiança n’uma pessoa, mas -assentimento ás informações correctas; a fé que salva era, sustentavam -elles, assentimentos ás proposições acerca de Deus, do universo, e da -alma humana, contidas na Biblia. Por um lado, a sua doutrina do quadruplo -sentido tornava quasi impossivel a qualquer pessoa o certificar-se do que -a Escriptura ensinava; por outro, a sua definição de fé salvadora tornava -importantissimo, tanto no que diz respeito a esta vida, como no que diz -respeito á futura, que cada um tivesse noções claras e exactas do texto -biblico. E assim a Egreja medieval era obrigada a asseverar que havia, -não indicada por ella, uma maneira auctorizada de interpretar a Biblia, -e isso conduziu-a á sua doutrina da infallibilidade das declarações dos -concilios e dos papas no tocante ao ensino da Biblia. - -É escusado dizer que, se a Biblia é por si propria de duvidosa -interpretação, e se é essencial para a salvação que o crente possua uma -verdadeira e correcta interpretação a que possa dar o seu assentimento, -o que fornecer uma interpretação infallivel tem mais valor do que -aquillo que é interpretado. E foi isso o que effectivamente succedeu. -As decisões dos concilios e dos papas, e a tradicional e auctorizada -interpretação da Biblia pela Egreja, adquiriram mais valor pratico do que -a propria Biblia. Os homens que consultassem simplesmente a Biblia podiam -cair no erro, e cair no erro era a morte; aquelles que confiassem na -interpretação biblica da Egreja nunca seriam induzidos ao erro. - -Tudo isto, porém, tornava impossivel que a Biblia fosse um meio de -communhão entre Deus e o homem. Entre a Biblia e o crente collocavam os -theologos medievaes as opiniões dos concilios e dos papas, ou, n’uma -palavra, a Egreja. A Egreja interceptava o caminho para Deus mediante a -Sua Palavra interpondo-se ella propria e a sua auctorizada interpretação -entre o crente e a Biblia. - -Os reformadores, anhelando pela communhão com Deus, e sabendo por aquillo -que o seu espirito havia experimentado que era possivel têl-a mediante -a simples leitura da Biblia, compenetraram-se do dever de deitar abaixo -essa barreira, e assim o fizeram. Essa barreira, porém, não podia ser -derrubada simplesmente com o dizer-se que a Biblia, e não as tradições -da Egreja, é que era a guia infallivel. A Biblia como os catholicos -romanos a entendiam, essa Biblia que expunha apenas preceitos de doutrina -e de moral, e cujas passagens tinham quatro sentidos, era simplesmente -um livro embaraçoso. Os reformadores tinham de mostrar a Biblia atravez -de outro prisma para que podessem dizer que era infallivel e que era o -arbitro supremo em todas as controversias. - -=Os reformadores e a Biblia.=—Deram á Biblia a significação que ella -realmente tinha. Deus havia-lhes fallado por meio d’ella. O Deus pessoal, -que os creara e que os remira, havia-lhes fallado nas paginas da -Biblia, e tornara-os scientes do Seu poder e da Sua vontade de salvar. -A linguagem era algumas vezes obscura, mas encontraram outras passagens -mais claras, e os pontos faceis explicaram-lhes os difficeis. Podia ser -que os homens simples não a comprehendessem toda, não soubessem ligar -todas as suas asserções de modo a constituir um encadeado systema de -theologia; mas toda a gente, fosse ou não fosse theologa, podia ouvir a -voz de seu Pae, inteirar-se do proposito do seu Redemptor e ter fé nas -promessas do seu Senhor. Seria uma boa idéa fazer uma selecção de textos -e formar o systema de theologia protestante que tornasse as coisas mais -comprehensiveis; mas o essencial era ouvir o Deus pessoal e obedecer-Lhe; -era Elle fallar-lhes como em todos os seculos fallou ao Seu povo, -promettendo-lhes a salvação, ora directamente, ora mediante a narrativa -do Seu procedimento com o povo escolhido ou com homens excepcionalmente -favorecidos. Detalhe algum de vida, nacional ou individual, era inutil; -pois que ajudava a completar o quadro da communhão entre Deus e o Seu -povo de outr’ora, esse povo que havia de reviver n’elles e perpetuar -assim o grato sentimento de communhão com o Deus da alliança, bastando -para isso que tivessem a mesma fé dos santos do Antigo e Novo Testamentos. - -Animados, como estavam, d’estas idéas, a Biblia não podia ser para elles -o que era para os theologos medievaes. Deixava de existir o quadruplo -sentido. A Biblia era Deus fallando com elles, um Pae fallando com Seus -filhos, do mesmo modo que um homem falla com os seus similhantes; e -ficava subsistindo apenas o sentido manifesto, o sentido historico. Era -mais do que um repositorio de doutrinas e de regras de moral; era, acima -de tudo, uma memoria e uma descripção da bemdita communhão que os santos -haviam tido com o Deus dos pactos desde a primeira revelação da promessa. -A fé era mais do que um frio assentimento ás verdades concernentes á -doutrina e á moral; era uma confiança pessoal no Salvador pessoal que Se -lhes dirigia por meio da Biblia. - -Deram-se, por conseguinte, pressa em traduzir a Biblia em todas as -linguas, e collocar a Biblia nas mãos de todos, e declararam que um homem -que possuisse a Biblia, isto é, que ouvisse a voz de Deus, estava mais ao -facto do caminho da salvação do que os concilios e os papas sem ella. - -A sua doutrina, que era fructo de tudo aquillo que elles haviam -espiritualmente experimentado, inculcava que o anhelo pela communhão com -Deus era satisfeito mediante a leitura e prégação da Palavra de Deus. A -Biblia porporcionava aos homens o encontrarem-se na presença de Deus e -ouvirem as Suas palavras de conforto. - -=A doutrina reformada da justificação, em contraste com a medieval.=—O -segundo grande principio da theologia da Reforma é, por consenso -universal, a doutrina da justificação pela fé sómente. Pode-se tambem -pôl-a em directa connexão com o principio fundamental da Reforma, o -sacerdocio de todos os crentes, ou o direito de accesso, promettido na -Palavra de Deus, á Sua presença. - -Ao contrastar a doutrina reformada com a medieval no tocante á -justificação, occorre a mesma difficuldade com que já deparámos -no contraste entre as duas doutrinas ácerca da Escriptura. Diz-se -vulgarmente que os reformadores apregoaram uma justificação pela fé -sómente, ao passo que os seus antagonistas apregoaram uma justificação -pelas obras; mas, posto que isto seja perfeitamente verdadeiro, devemos -lembrar-nos de que a palavra «justificação» é usada em dois sentidos -distinctos pelos dois disputantes. - -Para os theologos medievaes, _justificar_ significa tornar justo; para -os reformadores significa declarar justo. Para aquelles é uma operação -que se faz durante um certo tempo; para estes é um acto momentaneo, é -um acto da livre graça de Deus, pelo qual Elle perdoa todos os nossos -peccados e nos acceita como justos a Seus olhos. Para aquelles é uma -obra de purificação do peccado, uma obra de santidade; para estes é a -formação de um juizo, ou, como os theologicos dizem, um acto _forense_. -Os reformadores viram que os theologos medievaes empregavam a palavra -justificação no sentido mencionado, e trataram de apresentar a sua outra -significação. E justificaram esse seu procedimento dizendo que o sentido -que deram ao termo é o que o Novo Testamento lhe dá, pois que o emprega -na accepção de acto, de sentença, de juizo, e nunca na de obra. - -O primeiro contraste não é, portanto, entre a justificação medieval e -a doutrina da Reforma, mas entre a doutrina reformada da justificação -pela fé e a que lhe corresponde na Egreja medieval. Justificação, na -theologia reformada, quer dizer o acto de perdoar e de acceitar como -justo; corresponde a essa doutrina, na egreja medieval, a da absolvição -dada pelos padres, pois que era o unico modo como poderia ser concedido o -perdão dos peccados. - -=A absolvição clerical e a justificação pela fé.=—Segundo a theologia -da Edade Media, o perdão divino do peccado tinha sempre de ser -proferido por um sacerdote. Quando o penitente se confessasse e se -mostrasse arrependido, tanto por palavras como por actos, o padre tinha -auctorização para pronunciar a sentença absolutoria, e essa sentença era -acceite como sendo proferida pelo proprio Deus, pois que o clero era o -orgão mediante o qual, e sómente mediante o qual, Deus perdoava. - -Luthero e os outros reformadores viram que o padre que se suppunha -occupar o logar de Deus e fallar em nome de Deus commettia acções impias, -e a consciencia disse-lhes que, em vista de similhante facto, o perdão -do padre não podia ser o perdão de Deus. Luthero viu que um homem, -munido de um certificado de indulgencias, ia ter com um padre e recebia -perdão sem mostrar arrependimento quer por palavras quer por obras, sem -que, apparentemente, sentisse tristeza alguma no seu coração. Viu que -os padres pretendiam ser a trombeta de Deus, e que concediam perdão em -certos casos em que elle seria negado por um Deus justo e santo. - -Luthero e os seus amigos tinham presenciado ou ouvido fallar de casos em -que o perdão de Deus havia sido recusado quando um Deus misericordioso -o teria concedido. Uma successão de papas havia castigado a cidade de -Strasburgo com uma interdicção pelo facto de ella ter tomado uma attitude -na politica allemã que não era do agrado da côrte pontificia, e durante -todo esse tempo não podia ser proferida uma palavra de perdão a qualquer -peccador contricto e arrependido. Os padres perdoavam quando Deus não -perdoava, e recusavam perdoar quando Deus estava prompto a conceder o Seu -perdão. - -Luthero, vendo isto, e sabendo como havia sido perdoado por confiar -simplesmente nas promessas de Deus, declarou que o peccador pode ir ter -directamente com Deus, pezaroso por haver peccado e cheio de confiança -nas promessas de Deus, e obter d’Este o perdão. Asseverou que a não -ser que se alcance primeiramente o perdão de Deus, o do padre não tem -valor algum, e que, depois de se alcançar o perdão de Deus, o do padre -é inutil. O perdão alcançava-se indo ter com Deus, e não indo ter -com o padre e ouvindo d’elle a absolvição. A doutrina protestante da -justificação mostra o direito de accesso a Deus para Lhe rogar perdão, -e declara que padre algum está auctorizado a interpôr-se entre Deus e -o peccador arrependido. Deitou por terra a doutrina medieval de que o -perdão divino só pode ser alcançado mediante a absolvição clerical, e -de que o peccador arrependido não se deve prostrar aos pés de Deus mas -deante do confissionario. - -=Justificação pela fé e justificação pelas obras.=—Segundo a theoria -medieval, antes de o perdão ser obtido pela fórma ordinaria, mediante -a absolvição sacerdotal, era indispensavel confessar os peccados, -mostrar contricção e fazer penitencia. Na confissão o peccador deve -mencionar ao padre todos os peccados que commetteu desde a ultima vez -que se confessou, e n’este catalogo de peccados não se deve faltar a -um só pormenor. Peccado algum pode ser perdoado sem que se tenha feito -menção d’elle. A confissão deve ser mecanicamente completa. Em seguida -á confissão vem a contricção, ou a dôr por haver offendido a Deus, e -esta, segundo a doutrina medieval, deve manifestar-se de certos modos -esteriotypados que a Egreja tem sanccionado. Depois, e só depois, é que é -possivel a absolvição, quer dizer, o perdão. - -A Egreja da Edade Media collocava duas coisas entre o peccador e o perdão -divino proferido pelo sacerdote: uma completa confissão, mecanicamente -feita, em se que fizesse menção de todos os peccados cujo perdão se -desejava, e uma contricção manifestada de certos modos estabelecidos, -taes como a recitação de um grande numero de orações, a abstenção da -comida, etc., e a absolvição dependia da automatica integridade da -confissão e da contricção. - -Os reformadores tinham a convicção de que o peccado era uma coisa séria -de mais para que o seu perdão dependesse de uma completa confissão, e -de uma contricção exteriormente manifestada. Deus perdoava por amor de -Christo, não em virtude de uma completa confissão ou de uma perfeita -contricção. Declararam, por consequencia, que, posto que o peccador deva -confessar os seus peccados, e esforçar-se seriamente por se conservar -no caminho da obediencia, o perdão depende da soberana graça de Deus, -revelada em Christo. - -Tornou-se-lhes evidente a necessidade de derrubar os obstaculos que -a Egreja medieval havia erguido entre Deus e o homem, e que eram -constituidos pela confissão mecanica, e pela contricção, ou penitencia. O -arrependimento sincero, o arrependimento do coração, é que era de grande -importancia, porque abrangia confissão, contricção e confiança; e Deus, á -vista d’estas coisas, perdoava por amor de Christo. - -Justificação pela fé, portanto, significa que o peccador contricto -pode dirigir-se immediatamente a Deus, confiando na consummada obra -de Christo, e alcançar o perdão sem a intervenção de padres ou de uma -serie de rotineiras ceremonias. Deus perdoa em attenção áquillo que -Christo fez, não em attenção áquillo que nós possamos fazer; e, desde -que o perdão se alcança mediante a obra de Christo, e não pelo nossos -esforços, pode ser, e é, dado no principio da carreira christã, não sendo -necessario esperar penosamente por elle até ao fim, como uma doutrina de -justificação pelas obras implicaria. - -A doutrina da justificação pela fé, segunda columna da theologia -reformada, provém de aquelle anhelo pela approximação de Deus, ponto de -apoio da Reforma. Significa que o peccador que se sente arrependido, e -tem confiança nas promessas de Deus, pode ir immediatamente implorar-Lhe -o perdão e obtel-o sem interferencias clericaes e sem o cumprimento de -praticas mecanicas. - -=Conclusão.=—A Reforma, que foi uma grande revivificação da religião, -tendo por base principal o anhelo pela presença de Deus, a Quem só era -possivel chegar-se mediante o arrependimento e a confissão, acompanhados -de plena confiança nas Suas promessas, aconselhava, pois, os crentes a -terem communhão com Elle por intermedio da Biblia, e a rogarem o perdão -prostrados junto do escabello de Seus pés, e derrubou as barreiras -que foram erguidas pela Egreja politica da Edade Media em frente da -livre e soberana graça de Deus. A nova espiritualidade que animava os -reformadores e os seus adherentes tinha, alimentada pela Palavra de -Deus, e ensinada pelo Seu Espirito, desabrochado por todos os lados, -dando logar a uma theologia reformada, onde a doutrina da predestinação -substituiu a theoria da communhão com Deus por intervenção do papa -e dos seus bispos onde a theoria dos sacramentos foi purificada pela -doutrina do Espirito Santo, onde as Escripturas arbitravam em todas as -controversias, e onde o perdão era proferido por Deus, e não pelo homem; -e em todas as suas ramificações se encontra como idéa predominante o -sacerdocio espiritual conferido por Deus a todos os crentes. - - - - -SUMMARIO CHRONOLOGICO - - -Acontecimentos contemporaneos - -1493-1515.—Jan. 12, Maximiliano I. Imperador. Por sua morte ficou como -vice-rei Frederico, o Sabio, da Saxonia (1480-1525). - -1499-1535.—O eleitor Joaquim I (Nestor) de Brandenburgo. - -1500-1539.—O duque Jorge da Saxonia. - -1509-1547.—Henrique VIII de Inglaterra. - -1515-1547.—Francisco I de França. - -1518-1567.—Filippe, o Magnanimo, de Hesse. (Nasc. em 1504). - -1519.—Junho, _Carlos V, (Rei de Hespanha desde 1516)_—27 de Agosto de -1556, _Imperador da Allemanha (fall. em 1558)_. - -1519-1566.—O sultão Suliman I. - -1519-1521.—Fernando Cortez descobre e conquista o Mexico. - -1520.—Magalhães faz uma viagem de circumnavegação. - -1521-26.—Primeira guerra entre Carlos V e Francisco I. - -1525.—Batalha de Pavia. - -1526.—Paz de Madrid. - -1523-33.—Frederico I da Dinamarca. - -1523-60.—Gustavo Vasa, da Suecia. - -1525.—Alberto de Brandenburgo (fall. em 1568); chefe dos cavalleiros -allemães; duque da Prussia, sob o dominio polaco. - -1525-32.—O Eleitor João, o Constante, da Saxonia (irmão de Frederico, o -sabio). - -1526.—Ago. 29: Luiz, rei da Hungria e da Bohemia, morre em Mohacz, em -combate com os turcos. - -O seu successor, Fernando de Austria (Em Out., rei eleito da Bohemia), -tem de defender os seus direitos á Hungria, em detrimento dos turcos. - -1527.—Saque de Roma. - -1527-29.—A segunda guerra entre Carlos V e Francisco I; Paz de Cambrai, -em Agosto de 1529. - -1527.—Henrique VIII de Inglaterra procura divorciar-se de Catharina do -Aragão (tia de Carlos V); 1529, Wolsey cae no desagrado; o chanceller -Thomaz More. - -1529.—Set. a 14 de Out.; Suliman põe cerco a Vienna. - -1531.—Fernando de Austria, rei dos romanos; opposição da Baviera e -Saxonia. - -1532.—Ago. de 1547, João Frederico o Magnanimo, Eleitor da Saxonia, fall. -em 1554. - -Henrique VIII divorciado, pelo parlamento, de Catharina de Aragão; Nov. -desposa Anna Boleyn. - -1534.—O duque Ulrico de Würtemberg é rehabilitado por Filippe de Hesse. - -1535.—Joaquim II, Eleitor de Brandenburgo. - -1536-38.—Terceira guerra entre Carlos V e Francisco I. - -1538.—A convenção de Nice: dez annos de treguas. - -1541-53.—O duque Mauricio da Saxonia; recebeu o titulo de Eleitor em 1547. - -1541.—Dieta em Regensburgo; Suliman submette os hungaros ao seu dominio. - -1542-44.—Quarta guerra de Carlos V com Francisco I; a Paz de Crespi. - -1542.—Dieta de Spira; união contra os turcos. - -1544.—Dieta de Spira; reconhecimento dos protestantes; tudo em socego, na -expectativa de um Concilio Geral. - -1545.—_Reformatio Wittenbergensis._ - -1546.—Segunda Conferencia Religiosa em Regensburgo; 18 de fev., Luthero -morre em Eisleben; os protestantes não apparecem na Dieta. - -1546-47.—A guerra de Schmalkald; 19 de jun. liga entre Mauricio e o -imperador; 20 de jul., decreto contra João Frederico e Filippe; 27 de -out., Mauricio é nomeado eleitor; 24 de abr., batalha de Mühlberg, -ficando prisioneiro João Frederico; Filippe entrega-se em Halle; o -imperador falta á sua palavra. - -1547-59.—Henrique II de França; desposa Catharina de Medici; fallece em -1589. - -1547-53.—Eduardo VI de Inglaterra: nasc. em 1537. - -1553-58.—Maria (a Sanguinaria) de Inglaterra. - -1554.—9 de jul., Mauricio morre n’uma batalha perto de Sievershausen, -contra Alberto, Margarve de Brandenburgo. - -Fernando é batido pelos turcos na Hungria. - -1555-98.—Filippe II de Hespanha. - -1556-64.—_Fernando I, imperador._ - -1558-1603.—Isabel de Inglaterra. - -1559-60.—Francisco II de França (casado com Maria da Escocia) - -1560-74.—Carlos IX de França. - -1560-78.—Maria, rainha dos escocezes; executada em 1587. - -1564-76.—_Maximiliano II, imperador._ - -1574-89.—Henrique III de França. - -1576-1612.—_Rodolpho II, imperador._ - -1558-1648.—Christiano IV, rei da Dinamarca. - -1589-1610.—Henrique IV de França, tornou-se catholico romano em 1593; -assassinado por Ravaillac em 14 de Maio de 1610. - -1598-1621.—Filippe III de Hespanha. - - -Egreja Lutherana - -1517.—Out. 31. MARTINHO LUTHERO (nascido em 10 de Nov. de 1483, em -Eisleben; 1497, estudando latim em Magdeburgo; 1499, em Eisenach (Frau -Cotta, f. em 1511); 1501, em Erfurt; 1505, mestre de artes; 17 de Julho, -entrou para o convento doa agostinhos, em Erfurt; 1508, professor em -Wittenberg; 1510, em Roma; 19 de Out. de 1562, doutor em theologia) -pregou 95 theses contra o abuso das indulgencias na egreja do castello de -Wittenberg. Contra-theses de João Tetzel, compostas por Conrado Wimpina. - -1518.—Silvestre Mazzolini de Prierio: _Dialogos in proesumptuosas M. L. -Conclusiones de potestate Papae; Resp. ad Silv. Prier._, de Luthero. - -26 Abril, Luthero na Polemica do Heidelberg. - -Ago.: Citado para comparecer em Roma. - -25 Ago.: Melanchthon em Wittenberg. - -13-15 de Out.: Luthero em Augsburgo, perante o cardeal Thomaz Vio de -Gaeta: sua appellação _a papa male informato ad melius informandum_. - -Nov.: _O sacramento da Penitencia_, de Luthero. - -1519.—Jan.: Entrevista de Luthero com Carlos de Miltitz, camarista do -papa, em Altenburgo; Treguas. - -27 de Jun. a 16 de Jul.: Polemica em LEIPSIC: (i) entre Eck e Carlstadt, -sobre a doutrina do Livre Arbitrio; (ii) entre Eck e Luthero, _De primeto -Papae_. - -A controversia já não é sobre pontos de theologia ecclesiastica; abrange -toda a roda dos principios ecclesiasticos. Ruptura com a christandade -romana. - -A doutrina do sacerdocio de todos os crentes. - -A liberdade christã e o direito do juizo particular. - -Sermões de Luthero sobre os sacramentos do arrependimento e do baptismo, -e sobre a excommunhão. - -Pedido para que na Ceia do Senhor se fizesse uso dos dois elementos. - -1520.—Abril: Ulrico v. Hutten (n. em 21 de Abr. de 1488, f. em 29 de -Ago. de 1523); Dialogo: Vadiscus, ou a Trindade Romana; 15 de Jun., -Bulla de excommunhão contra 41 proposições de Luthero; o prazo de 60 -dias para retractação; 23 de Jun., a obra de Luthero, «Aos fidalgos -christãos da nação allemã, Sobre a reforma de um Estado christão»; Out. -_De Captivitate Eccles. Babylonic._; _De libertate Christiana_ (sobre a -libertação do christão); 10 de Dez.; A queima da bulla pontificia. - -1520.—17 e 18 de Abr., =Luthero na Dieta de Worms=; 26 de Abr., retira-se -de Worms; Março 3 a Maio 4 de 1522, em Wartburgo (Em Dez. principio a -traducção do N. T.)—Tratados: _Sobre a Penitencia_, _Contra as missas -particulares_, _Contra os votos clericaes e monacaes_, _O commentador -allemão_. - -26 de Maio, Edicto de Worms, falsamente datado do 8 de Maio. - -28 do Maio, Decreto Imperial contra Luthero. - -Junho: Carlstadt contra o celíbato. - -Out.: É abolida a missa em Wittenberg, pelos frades agostinhos (Gabriel -Didymus). - -Dez. As innovações de Carlstadt. - -25 de Dez.: A Ceia do Senhor nas duas especies. - -27 de Dez.: Os prophetas em Wittenberg. - -1522.—Fev.: Tumultos em Wittenberg contra as imagens e as pinturas. - -7 de Maio: Luthero novamente em Wittenberg. - -9-16 de Maio: Sermões contra o fanatismo. - -Julho: _Contra Henricum regem Angliæ._ - -Set.: Fica prompta a traducçao do N. T. (a Biblia completa em 1534). - -Dez.: Dieta em Nürnberg. Os Cem aggravos dos estadas allemães, em -resposta ao Breve de Adriano VI, de 26 de Nov. - -1522-23.—A Reforma vence na Pomerania, na Livonia, na Silesia, na -Prussia, no Mecklenburgo; na Frisilandia Oriental desde 1519; 1523, -em Frankfort sobre o Maine, em Hall, na Suabia; 1524, Ulm, Strasburg, -Bremen, Nürnberg. - -1523.—1 de Jul., Henrique Voes e João Esch (agostinhos) são queimados em -Bruxellas; os primeiros martyres. - -Gustavo Vasa estabelece a Reforma na Suecia (Olaf e Lourenço Petersen, -Lourenço Andersen). - -7 de Maio, assassinio de Sickingen; revolta dos nobres, suffocada pelos -principes. - -Luthero: =Da Ordem do Culto Publico=: Dec.: _Formula Missæ_ (A Ceia do -Senhor _sub utraque_). - -1524.—_O primeiro hymnario allemão._ - -Maio a Jun. de 1525, A GUERRA DOS CAMPONEZES; os camponezes são -massacrados em Frankenhausen. (Os doze Artigos de João Henglin). - -1525.—Jan.: Luthero, _Contra os prophetas celestiaes_. - -Maio: Exhorta os principes e os camponezes a conservarem a paz, com -commentarios sobre os Doze Artigos. Depois: _Contra os camponezes que -roubam e assassinam_. - -13 de Junho, Desposa Catharina von Bora. - -Tendencia conservadora da Reforma Lutherana; separação de elementos -reformatorios. - -1525.—Dez.: Luthero, _De Servo Arbitrio_ (a mais estricta predestinação -supralapsariana) contra Erasmo, Διατριβὴ _de libero arbitrio_, Set. 1524. - -1526.—Maio 4: Liga, em Torgau, entre Filippe de Hesse e João, o -Constante, a que adheriram em Junho, em Magdeburgo, outros principaes -evangelicos. - -Junho 26, Liga, em Dessau, de principes catholicos romanos do sul da -Allemanha. - -Junho e Julho, Dieta em Spira «Em materias de religião cada Estado deve -conduzir-se de uma maneira digna para com Deus e para com Sua Magestade -Imperial.» - -Out. 20, Synodo em Homberg; Ordem ecclesiastica de Besse, instituida -por Francisco Lambert (nasc. em 1487, em Avignon; Franciscano; em 1525 -fugiu para a Allemanha; 1527, professor em Marburgo; fallec. em 1539); -incondicional independencia da communidade christã, e estricta disciplina -ecclesiastica. - -=Luthero.=—Missa allemã; ordem do culto publico. - -Frederico I da Dinamarca adhere á doutrina lutherana. (João Tausen, em -Jütlandia desde 1524). - -1527.—Livro de Inspecção, de Melanchthon; Gustavo Vasa propõe a Reforma á -Dieta em Westeräs. - -Frederico I da Dinamarca, na Dieta de Odensee, dá á religião reformada -privilegios eguaes aos que a catholica romana tem. - -1528.—Otto V. Informações dadas por Pack ácerca de uma Liga Catholica -romana formada em Breslau, em 1527; a Reforma propaga-se na Noruega. - -1529.—26 de Fev., =Dieta de Spira=; 12 de Abr., a decisão da maioria -catholica romana dos Eleitos e Principes «Quem quer que tem imposto o -Edicto de Worms deve continuar a fazel-o; os demais não devem permittir -mais innovações; a ninguem se deve impedir celebrar missa.» 19 de Abr., -concordam com ella as cidades. - -PROTESTO: 25 de Abr. Appello dirigido ao imperador e ao Concilio pela -Saxonia, Hesse, Brandenburgo, Anhalt, Lüneburgo, e quatorze cidades. - -Separação entre os protestantes lutheranos e os do sul da Allemanha; -Luthero oppõe-se a uma resistencia armada; Zwinglio planeia a abolição do -papado e do imperio medieval; Philippe de Hesse diligenceia promover a -união. - -1-4 de Out.—Conferencia religiosa em Marburgo (Luthero, Melanchthon, -Zwinglio, Œcolampadius, Justo Jonas, Osiander, Brenz, etc.); 4 de Out., -união em quatorze artigos, divisão no quinquagesimo—O Sacramento da -Ceia. _Zwinglio_: «Não ha na terra homens com quem eu mais gostosamente -me identificaria do que os de Wittenberg.» _Luthero_: «Vós tendes um -Espirito differente do nosso.» - -16 de Out., Luthero no convento de Schwabach; 30 de Nov. em Schmalkald; a -Saxonia separa-se dos outros estados do sul da Allemanha. - -1530.—=Dieta de Augsburgo=; 15 de Jan. entrada do imperador; infructiferas -negociações com os principes evangelicos para os induzir a incorporar-se -na procissão de Corpus-Christi; 20 de Jun., abertura da Dieta; 25 de Jun. -é lida a Confissão de Augsburgo (3 de Ago., é lida a Refutação); 11 de -Jul., é lida a Confissão Tetrapolitana (em 17 de Out. a Refutação) e a -_Fidei Ratio_, Zwinglio; 16 a 29 de Ago. Negociações com Melanchthon, em -que elle mostra muito pouca firmeza. - -19 de Nov. Decreto da Dieta. Depois d’Abril de 1531, suppressão violenta -do protestantismo. - -1531.—Liga protestante de Schmalkald: á frente d’ella, Hesse e Saxonia. - -1532.—Dieta de Nürnberg: tolerancia até haver um Concilio Geral. - -Dessan adopta a Reforma. - -1534.—O Würtenburgo abraça a Reforma Lutherana. - -1536.—A concordata de Wittenberg; Melanchthon Bucer; a _Ceia do Senhor_ -conforme o lutheranismo; evita-se que tomem parte n’ella os indignos e os -incredulos; _Baptismo_; _Absolvição_; escondem-se os pontos em voz de se -explicarem. - -Victoria da Reforma na Dinamarca. - -1537.—Convenção de Schmalkald; os Artigos de Schmalkald. - -1538.—Liga Catholica Romana em Nürnberg. - -1539.—Victoria da Reforma na Saxonia Ducal, e no Brandenburgo Eleitoral. - -1540.—Junho: Conferencia em Hagenau. - -25 de Nov. a 14 de Jan. em Worms (Granvella, Melanchthon, Bucer, Capito, -Brenz, Calvino, Eck, Cochlæus). - -1541.—27 de Abr. a 22 de Maio, conferencia em Regensburgo (Contarini, -Melanchthon, Bucer, Eck), a questão da Transubstanciação. - -1542.—Nicolau V. Amosdorf, bispo de Naumbugo. - -1544.—Dieta de Spira; reconhecimento dos protestantes; tudo em socego, na -expectativa de um Concilio Geral. - -1545.—_Reformatio Wittenbergensis._ - -1546.—Segunda Conferencia Religiosa em Regensburgo; 18 de fev., Luthero -morre em Eisleben; os protestantes não apparecem na Dieta. - -1546-47.—A guerra de Schmalkald; 19 de jun. liga entre Mauricio e o -imperador; 20 de jul., decreto contra João Frederico e Filippe; 27 de -out., Mauricio é nomeado eleitor; 24 de abr., batalha de Mühlberg, -ficando prisioneiro João Frederico; Filippe entrega-se em Halle; o -imperador falta á sua palavra. - -1543.—Reforma no arcebispado de Köln; Hermann V. Wied, o arcebispo, é -avisado por Bucer e Melanchthon; excommungado em 1546; abdica em 1547; -fall. em 1552. - -1548.—15 da maio, o Interim de Augsburgo conserva as hierarquias, -ceremonias, festividades e jejuns da Egreja Catholica Romana; casamento -dos clerigos e Ceia do Senhor _sub utraque_. - -1548.—Interim de Leipsic (Mauricio da Saxonia e Melanchthon). - -1551.—Vehemente desejo do imperador de que os protestantes se submettam -ao Concilio de Trento; Liga clandestina de Mauricio da Saxonia com -Henrique II de França. - -Out.: Embaixadores do Würtemburgo, e jan. de 1552, embaixadores saxonios -em Trento. - -1552.—20 de mar., Mauricio põe-se em fuga; 19 de maio, apodera-se do -castello de Ehrenberg, e da Passagem de Ehrenberg, as chaves do Tyrol; -dissolve-se o Concilio; julho: Tratado de Passau; João Frederico e -Filippe ficam livres. - -1555.—25 de set. _Paz religiosa de Augsburgo_; a Egreja Lutherana -fica com os mesmos direitos legaes da Catholica Romana: _Cujus regio -ejus religio; o Reservatum ecclesiasticum_; a Egreja Reformada não é -reconhecida. - -1558.—Disputas entre os antigos lutheranos (Gnesiolutherani) e os -discipulos de Melanchthon. - -1560.—Morto de Melanchthon, 19 de abril. - -1586-91.—Embaraços cripto-calvinistas na Saxonia eleitoral; supressão do -calvinismo; execução de Krells, em 1601. - -_A Egreja Lutherana perde:_ - -(_a_) Em favor da Egreja Catholica Romana - -1558.—A Baviera. - -1578.—O ducado da Austria (Rodolpho II). - -1584.—Os bispados Würzburgo, Bamberg, Salzburgo, Hildesheim, etc. - -1594.—Steiermark, Carinthia (Fernando II). - -1607.—Donauwerth. - -(_b_) Em favor da Egreja Reformada - -1560.—O Palatinado; 1563, o Catecismo de Heidelberg (Reformado sob -Frederico III; Lutherano sob Luiz VI, 1576-83; Reformado sob Frederico -IV, 1583-1618). - -1568.—Bremen. - -1596.—Anhalt (João Jorge, 1587-1603); revogação do Systema Consistorial e -do Catecismo Lutherano; 1597-1628, Artigos Calvinistas. - -1605.—Hesse-Cassel, que estava sob o dominio do Landgrave Mauricio -(1592-1627). - -1613.—O Brandenburgo, que estava sob o dominio do Eleitor João Sigismundo -1614, _Confessio Marchica_. - -_Anti-Trinitarios_ - -_Miguel Servetus_, da Aragão; 1530, em Basiléa; 1531, _De Trinitatis -erroribus_; 1534, em Lyons; 1537, em Paris; 1540, em Vienna; 1553, -_Christianismi restitutio_; 1553, queimado em Genebra. - -_Valentinus Gentilis_, da Calabria; decapitado em Berne, em 1556. - -_Laelius Socinus_: nasc. em 1525, em Veneza; 1547, percorre a Suissa, a -Allemanha e a Polonia; fall. em 1562, em Zurich. - -_Faustus Socinus_: nasc. em 1539, em Siena; 1559, em Lyons; 1562, em -Zurich; 1574-78, em Florença, e depois em Basiléa; 1579-98, na Polonia; -fall. em 1604.—_De Jesu Christo servatore: De Statu primi hominis ante -lapsium_, 1578. - -1605.—Catecismo Racoviano. - - -Egreja Reformada - -ULRICO ZWINGLIO: nascido em 1 de Jan. de 1484, em Wildhaus, no condado de -Toggenburgo; discipulo de Henrique Wolflin (Lupulus) em Berne; de Thomaz -Wyttenbach, em Basiléa. 1499, discipulo de Joaquim Vadianus em Vienna; -1506, mestre de artes; 1506-16, pastor em Glarus; 1516-18, prégador em -Santa Maria, Einsiedeln. - -(Diebold de Geroldseck e o abbade Conrado de Rechenberg). - -1518.—Zwinglio contra a indulgencia prégada por Bernardino Sampson -(Guardião do convento franciscano de Milão.) - -1519.—1 de Jan., Zwinglio prega o seu primeiro sermão em Zurich; sermões -sobre o Evangelho da S. Matheus, os Actos e as Epistolas de Paulo; -sermões reformistas, expondo uma clara distincção entre o christianismo -biblico e o romanista; Estudo humanista da Escriptura (Epistolas -Paulinas). - -EM FRANÇA, propaganda das doutrinas reformadas por Guilherme Briçonnet, -bispo de Meaux desde 1521. Juntamente com Le Fébre e Farel. - -1521.—Cornelio Hoën, jurisconsulto allemão, escreve _De Eucharistia_ -(a Ceia do Senhor puramente symbolica); a doutrina é introduzida em -Wittenberg e em Zurich por João Rhodius, presidente da Casa dos Irmãos, -em Utrecht. - -1522.—16 de Abr. Zwinglio: _Von Erkiesen und Fryheit der Spysen_; Ago.: -_Apologeticus Archeteles_, ao bispo de Constança. - -A theologia zwingliana torna-se gradualmente a mais forte nos Paizes -Baixos. - -1523.—29 de Jan. Discussão em Zurich, entre Zwinglio e João Faber, -vigario geral do bispo; as 67 theses de Zwinglio. - -26 de Out., Discussão em Zurich ácerca do culto das imagens e da missa. - -17 de Nov., Instrucção do Concilio de Zurich aos pastores e prégadores. - -1524.—Perfeita reforma esclesiastica em Zurich; os quadros das egrejas -são arreados; os conventos dos frades são encerrados. - -Victoria da Reforma em Berne (Berchtholdt Haller. Nic. Manuel), -Appenzell, Solothurn; a Liga Romanista e os Cantões Florestaes de Lucerna. - -1525.—A missa é abolida em Zurich; o culto publico muito simples e na -lingua allemã; a Ceia do Senhor _sub utraque_. - -O commentario de Zwinglio, e a primeira parte da traducção da Biblia de -Zurich (primeira edição completa em 1531). - -Zwinglio expôe detalhadamente o que pensa ácerca da Ceia do Senhor. - -(Carlstadt torna publica, no sul da Allemanha, a sua theoria da Ceia de -Senhor, δεικτικῶς: Este meu Corpo, é o Corpo, etc.) - -Zwinglio a Matheus Alber em Reutlingen, 16 de Nov. de 1524, _Menducatio -spiritualis_; depois no seu commentario. - -_Contra_ Zwinglio: Bugenhagen. - -_A favor_ de Zwinglio: Œcolampadius. - -O Syngramma Suevicum, 1525, (em Hall), por Brenz, Schrepf, Griebler, -etc., e mais tarde Calvino. - -Luthero contra Calvino—(1) no seu prefacio á traducção de Agricola do -Syngramma Suevicum; (2) em 1527 «Que a Palavra» etc. - -Principios ecclesiasticos e politicos de Zwinglio; a sua reforma politica -na Suissa; liga politica dos cantões florestaes catholicos romanos para -conservarem a sua supremacia. - -1526.—Os cantões catholicos romanos atacam os evangelicos. - -Maio: Polemica em Baden (Eck e Œcolampadius). - -1528.—Victoria da Reforma em St. Gall (Joaquim Vadianus, João Kessler). - -1529.—A Reforma vence em Basiléa (Œcolampadius, Capito, Hedio). - -Liga de cinco cantões florestaes com a Casa de Hapsburgo. - -24 de Jun., Paz de Cappel; os cantões florestaes abandonam a Liga de -Hapsburgo e reconhecem a libertade de consciencia. - -Separação entre os protestantes lutheranos e os do sul da Allemanha; -Luthero oppõe-se a uma resistencia armada; Zwinglio planeia a abolição do -papado e do imperio medieval; Philippe de Hesse diligenceia promover a -união. - -1-4 de Out.—Conferencia religiosa em Marburgo (Luthero, Melanchthon, -Zwinglio, Œcolampadius, Justo Jonas, Osiander, Brenz, etc.); 4 de Out., -união em quatorze artigos, divisão no quinquagesimo—O Sacramento da -Ceia. _Zwinglio_: «Não ha na terra homens com quem eu mais gostosamente -me identificaria do que os de Wittenberg.» _Luthero_: «Vós tendes um -Espirito differente do nosso.» - -16 de Out., Luthero no convento de Schwabach; 30 de Nov. em Schmalkald; a -Saxonia separa-se dos outros estados do sul da Allemanha. - -Os cantões catholicos romanos não observam as clausulas da paz. - -1531.—15 de Maio, em Aarau nega-se provisões aos cantões florestaes com a -reprovação de Zwinglio. - -11 de Out., Batalha de Cappel; _Zwinglio é assassinado_; Segunda Paz de -Cappel. - -Henrique Bullinger, successor de Zwinglio. - -_Reforma promovida por Calvino na Suissa franceza._ - -_Guilherme Farel_ (nasc. em 1489, no Delphinado; desde 1526, reformador -em Berne; em 1530, em Neufchatel; fall. em 1565, em Genebra); _Pedro -Viret_ (nasceu em 1511, em Orbe; 1531-59, em Lausanne; desde 1561, em -Nismes e Lyons; fall. em 1571); desde 1534, faz-se em Genebra propaganda -da Reforma. - -1536.—JOÃO CALVINO em Genebra; nasc. em 10 de jul. de 1509, em Noyon; -estudou em Orleans e em Paris; 1533, abraçou a Reforma em Paris; em -Basiléa; 1536, =Instituto Christianæ Religionis=; depois em Ferrara; -rigorosa disciplina ecclesiastica; em 1538, pela pascoa, é expulso de -Genebra e ratira-se para Strasburgo; chamado novamente a Genebra em 1541; -fall. em 27 de Maio de 1564. - -_Systema ecclesiastico adoptado por Calvino em Genebra._—Culto: oração -e prégação. Organisação presbyterianna. Jan. de 1542: _Ordonnances -ecclésiastiques de l’église de Genève._ Pastores, doutores, presbyteros e -diaconos. Disciplina da Egreja. - -_A Reforma em França_, 1559-98 - -_Francisco I_, Humanista, importando-se pouco com a religião, fez da -Reforma arma politica; sua irmã Margarida, rainha de Navarra (fall. -em 1549) protege os reformadores; severa perseguição dos protestantes -francezes, não obstante a alliança com os principes protestantes allemães -e o pedido feito a Melanchthon para ir residir em França, em 1565. - -Henrique II: Antonio de Navarra e sua mulher Joanna d’Albret põem-se á -testa do protestantismo em França. - -1559-25.—29 do maio, Primeiro synodo reformado em Paris, organizado por -Antonio Chandieu, pastor parisiense; Confissão Gauleza. - -1561.—Set.: Conferencia religiosa em Poissy, Theodora Beza. - -1562.—Jan.: Os protestantes alcançam o direito de se reunirem para -o culto fóra das cidades; Francisco de Guise massacra a congregação -protestante de Vassy. - -1562-63.—A guerra huguenote. Morte de Antonio de Navarra; Francisco de -Guise é alvejado perto de Orleans. - -1567-68 e 1569-70. Guerras huguenotes. - -1572.—24 de ago., massacre de Paris na vespera de S. Bartholomeu; -assassinio de Coligny e de 50:000 huguenotes. - -1574-76.—Guerra huguenote; a Santa Liga dos Guises. - -1588.—Assassinio de Henrique e Luiz de Guise. - -1589.—Henrique é morto por um fanatico da Liga, J. Clement, em 1 de ago. - -1593.—_Henrique IV faz-se catholico romano._ - -1598.—EDICTO DE NANTES: liberdade de consciencia; é permittido o -culto publico; todos os privilegios civis; cidades de refugio para os -huguenotes. - -1620-28.—Revoltas huguenotes. - -1620.—Tomada da Rochella. - -Edicto de Nismes. São garantidos aos huguenotes direitos ecclesiasticos. - -1552.—_Os 42 Artigos._ - -1554.—O cardeal Reginaldo Pole, legado pontificio; 1555-58, -Sanguinolentas perseguições no reínado de Maria; 1556, 21 de maio, -Cranmer é queimado em Oxford. - -_A Rainha Isabel restabelece a Reforma_ - -1559.—Junho: Acta da Uniformidade, Matheus Parker, arcebispo de -Canterbury. - -Revisão e readopção do livro de Oração Commum. - -1562.—23 de jan., _Os 39 Artigos_: Doutrina calvinista da Predestinação, -Doutrina calvinista da Ceia do Senhor. - -1567.—Os puritanos são excluidos da Egreja. Puritanismo; Reforma -espiritual mediante a collectividade evangelica, acceitação, em -Inglaterra, da doutrina do sacerdocio espiritual de todos os crentes, -e consequente guerra ás capas de asperges e outros paramentos -ecclesiasticos. - -1570.—Thomaz Cartwright é expulso de Cambridge. - -1582.—Roberto Browne, capellão do duque do Norfolk; separação da Egreja e -do Estado; cada congregação fórma uma egreja independente. - - -Movimentos Revolucionarios - -_Os Mysticos_ - -A Nova Prophecia, o Espiritualismo, o Millenearismo, uma Congregação dos -perfeitamente santos, opposição ao baptismo de creanças. - -Primeiro periodo até 1535. - -1521.—Os Prophetas (de Zwickau) em Wittenberg: Nicolau Storch, Marcos -Thomé, ou Stübner, Martinho Celiarius. - -André Bodenstein de Carlstadt: 1504, professor em Wittenberg; 1520, -em Copenhague, 1522, tumultos por causa das imagens e dos paramentos; -1523-24, em Orlamünde; excommungado depois no sul da Allemanha, na -Frisilandia Oriental, na Suissa; fallecido em 1541, em Basiléa. - -1523.—Conrado Grebel, Felix Manz, e Stumpf. em Zurich, contra Zwinglio. - -1524.—Alterações da ordem em Stockholmo; Melchior Hoffmann. - -1525.—Thomaz Münzer em Mülhausen; executado em Maio de 1525. - -Tratado: _Wider das geistlose sanftlebende Fleisch ze Wittenberg_, 1522. - -Janeiro: Levantamento dos anabaptistas; Jürg Blaurock, monge proveniente -de Chur. - -Severa perseguição dos anabaptistas (Hanz morre afogado em Zurich, em -1527; Balth. Hubmater é queimado em Vienna, em 1528; Hetzer é decapitado -em Constancia em 1529). - -_Melchior Hoffmann_: nasc. em Hall, na Suabia; 1523, em Livonia; 1527, -em Holstein; 1529, em Strasburgo; de ahi foi para a Frisilandia, onde se -aggregou aos baptistas; depois nos Paizes Baixos; 1533, em Strasburgo; -fall. em 1540. (_Ordinanz Gottes_): um estricto millenario do genero mais -espiritual; propaga entre os baptistas as idéas millenarias. - -_Gaspar Schwenkfeld_: nasc. em 1490, em Ossing, perto de Liegnitz; -ao serviço do duque de Liegnitz; 1525, julgou ter descoberto uma -interpretação das palavras da instituição da Ceia «Quod ipse panis -fractus est corpori esurienti, nempe cibus, hoc est corpus menm, cibus -videlicet esurientium animarum;» de onde proveiu a sua doutrina ácerca -de Christo, A Palavra Escondida (_De cursu Verbi Dei, origine fidei et -ratione justificationis_, 1527); da Pessoa de Christo (não feito homem, -mas gerado pela natureza divina: da sua carne divina); 1528, expulso da -Silesia; em Strasburgo, Spira, Ulm, Perseguido desde 1539 pelos theologos -lutheranos; em muitas controversias; fall. em 1561, em Ulm; discipulos -seus na Silesia; na Pennsylvania desde 1730. - -1533.—_O Reino de Christo_ em Münster. - -Bernardo Rothmann, superintendente evangelico em Münster, ajunta-se aos -anabaptistas; Henrique Roll e os prégadores de Wassenberg, provenientes -de Jülich. - -No verão; Melchioritas in Münster. - -Nov.: Jan. Matthiesen. - -1534.—Quaresma: Tumulto, destruição das imagens e dos conventos. - -Vespera da Pascoa: Queda de Matthiesen; João de Leyden colloca-se á -frente dos anabaptistas (Theocracia com communidade de bens e de esposas). - -1535.—Vespera de S. João: tomada de Münster. - -1536.—22 de Jan. João de Leyden, Knipperdolling e Krechting são -executados. - -1534.—David Joris: nasc. em 1501, em Delft; associa-se aos anabaptistas; -promove reformas entre elles; a sua influencia nos Paizes Baixos e na -Frisilandia Oriental. 1542, o seu _Wunderbuch_; 1544, em Basiléa; uma -especulação mystico-espiritualista com tendencia racionalista. - -_Os Mennonitas_ - -Menno Simonis: nasc. em 1496, em Witmarsum; 1524, padre; 1536, deixou de -exercer as suas funcções, desgostoso com a perseguição dos anabaptistas -de Münster, baptisado por um apostolo de Jan Matthiesen; reformou e -organisou as congregações anabaptistas na Hollanda e na Frisilandia; -fall. em Oldesloe; fez cessar o enthusiasmo fanatico, e deu maior -incremento á tendencia para o Donatismo. - -Os seus discipulos, os mennonitas, tolerados em 1572, nos Paizes Baixos, -por Guilherme de Orange, encontravam-se tambem em Emden, Hamburgo, -Danzig, Elbing, no Palatinado e na Moravia; moderaram o espirito -anabaptista primitivo; rejeitaram todos os dogmas; prohibiram os -juramentos e a guerra; appellaram para a letra da Escriptura. - -Egreja Anglicana - -Inglaterra, 1547-1600, sob Henrique VIII: João Frith, Guilherme Tindal. - -1534.—Acta do Parlamento ácerca da supremacia real; o Rei «o unico -chefe supremo, sobre a terra, da Egreja ingleza»; á frente do partido -evangelico, Thomaz Cranmer (1533, arcebispo de Canterbury) e Thomaz -Cromwell; Traducção da Biblia, em 1538. - -1539.—28 de jul., Transubstanciação; negação do calix aos leigos; -celibato clerical; missas pelos defuntos; confissão auricular. - -A Reforma de Henrique VIII foi um acto do rei, e significava apenas uma -revolta contra o systema medieval, sendo o papa substituido pelo rei. - -Isolamento da Egreja da Inglaterra; cortadas todas as relações com o -papado; sem communicação alguma com as Egrejas Reformadas. - -1547.—Sob o governo de Somerset, Lord Protector: Pedro Martyr Vermigli -(nasc. em 1500, em Florença; 1542, em Strasburgo; fall. em 1562, em -Zurich) e Bernardo Ochino (nasc. em 1487) levado para Oxford; Martinho -Bucer e Paulo Fagio, para Cambridge. - -O Livro das Homilias. - -1548.—O Livro da Oração Commum; revisto em 1552. - -_A Escocia_ - -1558.—Os Lords da Congregação; o Evangelho Puro, o Livro de Oração Commum -do Rei Eduardo. - -1560.—Assembléa dos Estados em Edinburgo; _A Confissão Escoceza_; o -Primeiro Livro de Disciplina; é approvado o governo presbyteriano -pelas Assembléas Geraes, pelos Synodos e pelas Sessões das egrejas; -Superintendentes. - -_João Knox_: nasc. em 1505, em Haddington; desde 1546, prégador em St.º -André; 1547-49, nas galés; 1553-59, em Frankfort e Genebra; 1559 a 1572 -(data do fallecimento) em Edinburgo. - -1572.—Convenção de Leith; Bispos privados de exercerem as funcções -episcopaes: os Tulchanos. - -1576.—Os inspectores nomeados pela Assembléa. - -1578.—Segundo Livro de Disciplina. - -1580.—A instituição dos presbyterios. - - -A Egreja Catholica Romana - -11 de Março de 1513 a 1 de Dez. de 1521.—Leão X. - -1517.—O Concilio de Latrão concede ao papa os dizimos de todos os bens -ecclesiasticos. - -Indulgencia (a quinta entre 1500 e 1517) para a construcção de S. Pedro, -e para as despezas particulares do papa. - -São concedidas á Allemanha tres commissões de indulgencias, uma d’ellas -arrendada ao arcebispo de Mayença (canonisado em 1514) sendo seu agente o -dominicano João Tetzel (fallecido em 1519). - -Thomaz Vio de Gaeta (Cardeal Caetano): «A Egreja Catholica é a escrava do -papa»; assevera a infallibilidade papal no mais amplo sentido. - -1519.—As côrtes de Aragão pedem tres Breves a Leão X (que nunca lhe foram -enviadas) para restringir a Inquisição. Pedidos similhantes, tambem -infructiferos, feitos pelos estados de Aragão, Castella e Catalunha, a -Carlos V em 1516. - -_Os theologos romanistas no primeiro periodo da Reforma._ - -João Eck, professor de theologia em Ingolstadt desde 1510; nasc. em 1486, -na aldeia de Eck; fall. em 1543. - -Jeronymo Emser, prégador palaciano do duque Jorge da Saxonia, fall. em -1527. - -João Cochlæus (Dobeneck), deão de Francfort sobre o Maine, Canonicus em -Mayença e Breslau; fall. em 1552; _Commentaria de actis et scriptis M. -Lutheri_ (1517-46), 1549, _Historiæ Hussitarum_. - -João Faber, 1518, Vigario Geral em Constancia (Costnitz); 1529, -Preboste de Ofen; 1530, Bispo de Vienna, fall. em 1561; 1523, _Malleus -hæreticorum_. - -1521.—Henrique VIII de Inglaterra: _Assertatio VII. Sacramentorum contra -Lutherum_ (Defensor da Fé.) - -15 de Abril, Decreto da Sorbonne, condemnando as doutrinas de Luthero. - -8 de Maio, Edito de Carlos V. (fundado no edito de Worms) contra a -propaganda das doutrinas reformadas nos Paizes Baixos. - -(1522, é encerrado, sobre o fundamento de heresia, o convento dos -Agostinhos de Antuerpia). - -1522-23.—14 de Set. O papa Adriano VI (tutor de Carlos V, bispo de -Utrecht) instruido na sciencia antiga; aspiração por uma reforma do clero -mediante a hierarquia. - -Em Hespanha, desde 1520 circulação dos escriptos de Luthero, em -traducções hespanholas feitas em Antuerpia. - -1523.—João de Avila o «apostolo de Andaluzia», é perseguido por ter -adoptado as doutrinas lutheranas. - -1523-34.—26 de Set. O papa Clemente VII (Julio Medici) filho natural de -Julião de Medico. - -1524.—O cardeal Campeggio, legado do papa na Dieta de Nürnberg. - -Liga, em Regensburgo, dos Estados Catholicos Romanos do Sul da Allemanha -(Fernando de Austria, os duques da Baviera e os bispos do sul da -Allemanha) Condições: Uma reforma ecclesiastica dentro de certo limites, -e uma alliança com o poder civil; não se permitindo, porém, que continuem -a ser prégadas as novas doutrinas. - -1524.—Pedro Caraffa, bispo de Theate (Papa Paulo IV) institue a Ordem dos -Theatini para impedir o avanço da Reforma. - -1526.—Maio 29: Liga em Cognac contra Carlos V (o papa, Francisco I, -Veneza e Milão). - -1527.—Processo da Sorbonne contra Jacques le Fêvre (fall. em 1537, -durante uma viagem para Strasburgo), sob a protecção de Margarida de -Navarra. - -1527.—Maio 6, Carlos de Bourbon ataca Roma; o papa encerrado em St. -Angelo até 6 de Junho. Carlos V, senhor de quasi todos os Estados da -Egreja, propõe o limitar-se o poder temporal do papa. O papa appella -para Inglaterra e para França; um exercito francez equipado á custa da -Inglaterra, marcha em seu auxilio. - -1528.—Jun. 29: Paz entre o Imperador e o papa em Barcelona; o papa -recupera os Estados da Egreja e Florença; exterminio da heresia. - -1530.—Congregações reformadas em _Hespanha_. Em Sevilha: Rodrigo de -Valero, Joh. Egidio, Ponce de la Fuente. Em Valladolid, 1555, Agostinho -Cazalla. - -Francisco Enzinas traduz o Novo Testamento; em 1556, nova traducção por -João Perez. - -Filippe II e a Inquisição condemnam essas obras. - -_Italia._—A Reforma allemã desperta a vida religiosa e a theologia -agostinha; Contarini, Reginaldo Pole, Joh. de Merone, (arcebispo de -Modena). _Pedro Paulo Vergerius_ (abraçou a Reforma em 1548; fall. em -1565). - -Reforma em Ferrara (Renée casa em 1527, com Hercules II); em Veneza; em -Napoles (João Valdez, fall. em 1540; e Bernardo Ochino); em Lucca (Pedro -Martyr). - -1534-49.—O papa Paulo III (Farnese); Vergerius, seu legado na Allemanha. - -1536.—Paulo III manda reunir em Mantua o Concilio havia longo tempo -promettido; 1537, addiado; mandado reunir em Vicenza; novamente addiado. - -1542.—Antonio Paleario (queimado em 1570), _Del beneficio di Gesu Christo -crocifisso verso i Christiani_. - -1540.—27 de Set., COMPANHIA DE JESUS constituida por Paulo III; _D. -Ignacio de Loyola_ nasc. em 1491, no castello de Loyola, situado na -provincia de Vasconça; ferido em 1521, em Pamplona; lendas de santos; -estudos em Barcelona; desde 1528 em Paris. Em 1534, com seis companheiros -(Francisco Xavier, Jacques Lainez, Pedro Lefebre, etc.), fez os votos -monasticos, accrescentando um outro, o de absoluta obediencia ao papa. -Loyola fall. em 1556; Lainez em 1561. - -«Para zelar os interesses da hierarquia catholica romana contra o -protestantismo tanto dentro como fóra da Egreja.» - -A obra missionaria de Francisco Xavier no Oriente da Asia. - -A moral da Sociedade; casuistica. - -Os seus dogmas: a superstição systematica. - -1542.—O cardeal Caraffa aconselha o restabelecimento da Inquisição para -acabar com o protestantismo na Italia. - -1545.—Abertura do _Concilio de Trento_; Primeiro periodo, 11 de mar. de -1547, em Trento; 21 de abr. de 1547 a 13 de set. de 1549, em Bolonha. -Segundo periodo, 1 de maio de 1551 a 28 de abr. de 1552, em Trento. -Terceiro periodo, 13 de jan. de 1562 a 4 de dez. de 1563 (25 sessões). -Doutrinas romanistas consolidadas mediante esse concilio. - -1564.—_Professio Fidei Tridentinae_: 1566, _Catechismus Romanus_ -(Leonardo Marini, Egidio Foscarari, Muzio Calini). - -1548.—Filippe Nery funda o Oratorio. - -1550-64.—Julio III (del Monte). - -1551.—Fundação do Collegium Romanum Jesuita. - -1552.—Fundação do Collegium Germanicum. - -1555-59.—Paulo IV (Caraffa) protesta contra a Paz de Augsburgo; -Inquisição. - -1559-65.—Pio IV (Medici) deixa-se guiar por seu sobrinho, o cardeal -Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, fall. em 1584. - -1564.—_Index librorum prohibitorum._ - -1566-72.—Pio V, zeloso dominicano. - -1567.—Bulla de excommunhão contra 79 proposições agostinianas de Miguel -Baius (fall. em 1589). Chanceller da Universidade de Louvain. - -1568.—_Breviarium._ - -1570.—_Misssale Romanum._ - -1572-85.—Gregorio XIII; carta congratulatoria a Carlos IX, ácerca do -massacre de S. Bartholomeu; _Te Deum_ em Roma, em honra do acontecimento. - -1582.—Reforma do Calendario. - -1582-1610.—Missões jesuitas na China. - -1585-90.—Sixto V: Bibliotheca do Vaticano. - -1588.—Annales Eccl., de Baronio. - -1590.—Edição infallivel da Vulgata. - -1592-1605.—Clemente VII. - -1592.—Nova edição da vulgata (a chamada edição de Sixto V). - -_Os Paizes Baixos_ - -1559.—Margarida de Parma; Granvella, bispo de Arras. - -São creadas 14 novas dioceses. Inquisição. - -1562.—_Confessio Belgica_; Guido de Brès, Adriano de Savaria, H. Modetus, -G. Wingen; revista por Francisco Junio, em 1571. - -1566.—Compromisso em favor dos protestantes. - -Tumultos por causa da imagens e das reliquias. - -1568-78.—O duque de Alba. - -Concilio de Sangue; Perseguição de protestantes; são mortos 18:000; -Egmont e Horn em 1568. - -1572.—Tomada de Brill pelos mendigos do mar; Guilherme de Orange. - -1576.—8 de Nov., Tratado de Ghent. - -1579.—23 de jan., União de Utrecht, firmada pelas provincias do norte. 26 -de julho, Declaração de independencia. - -1584.—10 de julho, Assassinio de Guilherme de Orange; succede-lhe -Mauricio de Orange. - -Fundação de Universidades—Leyden, em 1575; Franecker, em 1585; Gröningen, -em 1612; Utrecht, em 1638; Harderwyk, em 1648. - - -Theologia Protestante - -FILIPPE MELANCHTHON (nasc. em 16 de Fev. de 1497, em Bretten); 1509-12, -em Heidelberg; 1512-14, em Tübingen; 1514, mestre de artes; 1514-18, -lecciona em Tübingen; 1518, professor de grego em Wittenberg; 29 de Ago. -Conferencia introductora, _De corrigendis adolescentiæ studiis_; 19 de -Set. de 1519. Bacharel em Theologia; fall. em 19 de Abr. de 1560. =Loci -communes rerum Theologicarum, seu hypotyposes Theologicæ=, 1521; tres -edições em 1521; a edição de 1525 modifica a predestinação absoluta; a -edição de 1535 reconstrue a sua theologia; edição de 1543, Synergismo. - -ZWINGLIO: _Commentarius de vera et falsa religione_, 1525; _Fidei ratio -ad Carolun Imperatorem_, 3 de Jul. de 1530; _Sermonis de providentia Dei -Anamnemo_; 1530; _Christianæ Fidei expositio_, 1531. - -(a) _Theologos Lutheranos_ - -Jorge Spalatim: nasc. em 1484, em Spalt, na diocese de Eichstädt; 1514, -capellão de Frederico, o Sabio; 1525, superintendente em Altenburgo; -fall. em 1545. - -Justo Jonas: nasc. em 1493, em Nordhausen; 1521, Preboste e professor em -Wittenberg; 1544-46, em Halle; 1551, superintendente em Eisfeld; fall, em -1555. - -Nicolau de Amsdorf: nasc. em 1483; desde 1502, em Wittenberg; 1524, em -Magdeburgo; 1528, em Goslar; 1542-46, bispo de Naumburgo; depois de 1550, -em Eisenach; fall. em 1565. - -João Bugenhagen: nasc. em 1485; desde 1521, em Wittenberg; 1523, pastor, -1536, superintendente geral. - -Gaspar Cruciger: 1528-48, fallecendo, em professor, em Wittenberg. - -Frederico Myconius, franciscano em Annaberg, e depois pastor em Weimar; -1524, prégador da côrte em Gotha; fall. em 1546. - -Paulo Speratus: 1521, em Vienna, depois em Iglau; 1523, em Wittenberg -(1524, «Chegou-nos a Salvação»): 1524, em Königsberg; 1529-51, bispo da -Pomerania, em Marienwerder. - -João Brenz, nasc. em 1499: 1520, prégador romanista em Heidelberg, -1522-46, prégador lutherano em Hall, na Suabia; desde 1553, preboste em -Stuttgart; fall. em 11 de Setem. de 1570. - -(_b_) _Os Theologos Zwinglianos_ - -João Œcolampadius, nasc. em 1488; 1515, pastor em Basiléa; 1519, em -Augsburgo; 1522 professor e prégador em Basiléa; fall. em 24 de Nov. de -1531. - -Leão Judæus: 1523, cura de S. Pedro, em Zurich; nasc. em 1482; fall. em -1542. - -Oswaldo Myconius (Geisshüsler) nasc. em 1483, em Lucerna; fall. em 1532; -14 de Out. de 1552, os Antistites em Basiléa. - -Conrado Pellican (Kürsner): nasc. em 1478; 1493, franciscano; desde 1502, -Lector no convento dos Franciscanos de Basiléa; 1527, em Zurich, como -professor de hebreu; fall. em 1556. - -(c) _Theologos intermediarios_ - -Urbano Rhegius: nasc. em 1496, em Argau sobre o Bodensee; 1512, professor -em Ingolstadt; 1519, padre em Constança; 1520-22, prégador em Augsburgo; -desde 1530, reformador em Brunswick, ao serviço do duque Ernesto; fall. -em Celle, em 23 de Maio de 1541. - -Ambrosio Blaurer: nasc. em 1492, em Constança; 1534-38, reformador em -Würtemberg; até 1548, em Constança; em 1564, fall. em Winterthum (1534, -_Concordata de Stuttgart_.) - -Martinho Bucer: nasc. em Sehlettstadt, em 1491; 1505, dominicano; desde -1524, pastor em Strasburgo; 1549, sob Eduardo VI, em Inglaterra e -professor em Cambridge; fall. em 28 de Fev. de 1551. - -Wolfango Fabricio Capito: nasc. em 1478; 1515, em Basiléa; 1520, em -Mayença; 1523-1541, preboste de S. Thomaz, Strasburgo, fall. em 1541. - -(d) _Confissões Zwinglianas_ - -1523.—Jan. 29, os 67 Artigos de Zwinglio. - -Nov. 17, Instrucções ao Concilio de Zurich. - -1530.—Julho 9, _Fidei Ratio ad Carolum V_. (de Zwinglio com o -assentimento de Œcolampadius e outros reformadores suissos). - -1530.—_Confessio Tetrapolitana_ (Strasburgo, Constança, Lindau, -Memmingem): Bucer, Capito, Hedio; durante as sessões da Dieta de -Augsburgo. - -1534.—_Confessio Basiliensio_ (Myconius) acceite por Mühlhausen em 1537, -e chamada Conf. Mühlhusiana. - -1536.—_Confessio Helvetica Prior_ (Basil II) redigida em Basiléa por -delegados dos cantões evangelicos, (Jan. a Março) e pelos seus theologos -Bullinger, Myconius, Grynæus, Leão Judæus, etc. - -(e) _Confissões Lutheranas_ - -1529.—_O Catecismo maior e mais pequeno_, de Luthero, em allemão; -appareceram simultaneamente. - -1530.—=Confessio Augustana=, ou Confissão de Augsburgo. Constituida -por—(1) os 15 Artigos de Marburgo; (2) os 17 Artigos de Schwabach, -redigidos por Luthero; (3) os Artigos de Torgau, compilados por Luthero, -Melanchthon, Justo Jonas, Bugenhagen, e apresentada ao Eleitor, em -Torgem, em março de 1530. Obra de Melanchthon com a assistencia doe -theologos evangelicos reunidos em Augsburgo, e revista por Luthero. - -Exposição da Doutrina Evangelica, «In que cerni potest, nihil inesse, -quod discrepet a Scripturis vel ab ecclesia catholica vel ab ecclesia -Romana, quatenus ex scriptoribus nota est.... Sed dissenus est de -quibusdam abusibus, qui sine certa auotoritate in ecclesiam irrepserunt.» -Philippe de Hesse aasignou-a, protestando, porém, contra o Artigo X, que -trata da Ceia do Senhor. - -É impossivel averiguar com exactidão o texto, quer das edições allemãs -quer das latinas; a primeira edição impressa de Melanchthon; Wittenberg, -1530, em 4.º - -_A Variata_ (variantes, especialmente no Artigo X) desde 1540. - -_Apologia em favor da Confissão de Augsburgo._—_A prima delineatio -apologiæ_ por Melanchthon, em Set. de 1630, em Augsburgo; prompta a -imprimir em abril de 1531; a primeira edição em Abril de 1531; a edição -allemã de Justo Jonas, em Out. de 1531. - -_Os artigos de Schmalkald_, por Luthero, para a Convenção Protestante de -Schmalkald, 1557, e com referencia ao proposto Concilio Geral em Mantua -(Estrictamente lutherano). - -_Controversias na Egreja Lutherana_ - -1548-55.—_Adiaphoristicos_: Flacius, Wigand, Amsdorf, contra o Interim de -Leipsic. - -1549-66.—_Osiander_: André Osiander (em Nürnberg, 1522-48; em Königsberg, -1549, fall. em 1552); 1550, _De Justificatione_; 1551, _De Unico -Mediatore Jesu Christi_. Justificação é uma participação da justiça de -Christo: _cujus natura divina homini quasi infunditur_. - -Em opposição; Francisco Stancarus de Mantua (1551-52 em Königsberg, -depois em Siebenbürgen, e na Polonia; fall. em 1574); 1562, _De Trinitate -et Mediatore_, «Christo nossa justiça sómente pelo que respeita á Sua -natureza humana.» - -1551-62.—Majorista: Jorge Major (fall. em 1574, quando professor em -Wittenberg); _bona opera necessaria esse ad salutem_. Refutado por -Amsdorf; _bona opera perniciosa esse ad salutem_. - -1556-60.—Synergista: Pfeffinger, em 1555, _Propos. de libero arbitrio_ -(conforme o synergismo de Melanchthon): contra elle, Amsdorf (1558) -_Confutalio_; e Flacio. - -1560.—Discussão em Weimar, entre Flacio e Strigel. Flacio: o peccado -original não podia deixar de ser commettido pelo homem. A doutrina -lutherana é que prevalece. Heshusius: de _servo arbitrio_. - -1527-40.—_Antinomiano_: João Agricola, nasc. em 1492, em Eisleben; -fall. em 1562, sendo prégador na casa imperial, em Berlim; 1527, contra -Melanchthon; e 1537, contra Luthero. A contriccão não vem declarada na -lei, mas no Evangelho. Retracta-se em 1540. Desde 1556, controversia -sobre _Tertius usus legis_. - -1567.—_Crypto-Calvinista_: Melanchthon admitte as doutrinas calvinistas -da Ceia do Senhor. Christologia e Predestinação. - -D’estas controversias conclue-se a necessidade de haver perfeita harmonia -na Egreja Lutherana; e proveem de ahi varias fórmas do concordia com as -quaes se constituiu a _Formula Concordia_. - -(1) A concordia Swabia de Jac. Andræ (desde 1562 professor em Tübingen, -fall. em 1590) em 1574; 1575, a concordata de Martinho Chemnitz. 1576, -Formula de Lucas Osiander. - -(2) Convenção de Torgau; o _Livro de Torgau_. - -_Os principaes theologos lutheranos_ - -_Martinho Chemnitz_; 1554; fall. em 1586, Superintendente em Brunswich; -_Examen Concilii Trid._; 1565-73, _Loci Theologici_. - -_Matheus Flacio_: nasc. em 1520, em Albona, na Illyria; 1545, em -Wittenberg; 1549 em Magdeburgo; 1557-61, em Jena; fall. em Frankfort -sobre o Maine, 11 de Mar. 1575. - -_Catalogus Testium Veritatis_, 1556; _Ecclesi. Hist. per aliquot ... -studiosos et pios viros in urbe Magdeburgica_ (os seculos de Magdeburgo), -13 volum., 1560-74; _Clavis Script. Sac._, 1567; _Glossa Compendaria in -N. T._, 1570, etc. - -_João Gerhard_: nasc em 1582, em Quedlinburgo; 1606, superintendente em -Heldburgo; 1615, Superintendente Geral em Coburgo; 1616 a 1637, professor -em Jena. _Loci Theologici_, 1610 a 1625; _Medit. Sac._, etc. - -_Leonardo Hutter_: 1596 a 1616, professor em Wittenberg; _Compendium Loc. -Theol._, 1610; _Loci Commun. Theolog._, 1619. - -_As Confissões de Fé da Egreja Reformada são universalmente reconhecidas._ - -_Cathechismus ecclesiæ. Genevensis_; 1541, Francez; 1545, Latino; Calvino. - -Consensio in re sacramentaria ministrarum Tigur.; Eccles. et Joh. Calvini. - -=O Catecismo de Heideiberg=: 1563, escripto sob a suggestão de Frederico -III do Palatinado, por Zacarias Ursinus (desde 1561 professor em -Heidelberg, fall. em 1583) e Gaspar Olevianus (professor em Heidelberg; -fall. em 1587). - -_Confessio Helvetica Posterior_: 1566, enviado por Bullinger a Frederico -III do Palatinado. - -_Os Decretos do Synodo de Dort_: 1619, reconhecidos nos Paizes Baixos, -na Suissa, no Palatinado, em 1620 na França; não foram universalmente -reconhecidos. - -JOÃO CALVINO: =Institutio Religionis Christianæ=, 1535-36. Tres -edições, constituindo cada uma d’ellas uma ampliação, 1535, 1539 e -1559; _Commentarios ao Velho e Novo Testamentos_, 1539; _De æterna Dei -predestinatione_, 1552; _Defensio orthodoxæ fidei de S. Trinitate_, 1554, -contra Servetus. - -_Henrique Bullinger_, successor de Zwinglio em Zurich, nasc. em 1504, em -Bremgarten, fall. em 17 de set. de 1578; Commentarios ao Novo Testamento, -1554; _Compendium relig. Christianæ; Histoire des persecutions de -l’Eglise_. - -_Theodoro Beza_: nasc. em 1519; 1549, em Lausanna; 1558, professor e -pastor em Genebra; fall. em 1605. Traducção do Novo Testamento, com -annotações, 1565; _Histoire Eccles. des réformateurs au royaume de -France_, 1580. - -_Rodolpho Hospinian_, pastor em Zurich; fall. em 1629; _De origine et -progres. controv. sacramentariæ_, etc. - -_J. H. Hottinger_, professor em Heidelberg e Zurich; fall. em 1667; -_Hist. Eccl._ N. T. - -_Gaspar Suicer_, professor em Saumur, fall. em 1684; _Thesaurus -Ecclesiasticus_. - -_F. Dallæus_, professor em Saumur, fall. em Paris, em 1670; _Traité de -l’emploi des S. Péres_, 1632. - - - - -INDICE - - - Absolvição clerical, 233. - - Agostinho, 208. - - Alba (Duque de), 105, 121, 125, 165. - - Allemanha (Situação politica da), 15. - - Amboise (Morticinio de), 99. - - Amboise, Edicto, 105. - - America (Descoberta da), 205. - - Anabaptistas (Os) em Genebra, 76. - - Anabaptistas (Os) em Zurich, 63. - - Anabaptistas (Os) nos Paizes Baixos, 115. - - Andersen (Lourenço), 52. - - Annatas (Os), 13, 60, 166. - - Anna Boleyn, 167, 184, 189. - - Anselmo, 210. - - Anstruweel, 121. - - Antuerpia, 121. - - _Apologeticus_, de Zwinglio, 62. - - Apostolos (Credo dos), 72, 223. - - _Appellações_, _Estatuto para a repressão das_, 167. - - Aristoteles, 214. - - Armada (a) hespanhola, 196. - - Artigos (Os Doze) dos camponezes allemães, 25. - - Artigos (Os dez), 171. - - Artigos (Os Seis), 173, 177. - - Artigos, (Os Quarenta e dois), 178. - - Artigos, (Os Trinta e Nove), 179, 192. - - Artigos, (Os Onze), 192. - - Augsburgo (Confissão de), 38. - - Augsburgo (Dieta de), 36. - - Augsburgo (Paz de), 47. - - Augsburgo (Interim de), 43. - - - Babington (Conspiração de), 196. - - Ballanden (Ricardo), 150. - - Barlaymont, 120. - - Bartholomeu (Matança de S.), 107, 140, 149, 195. - - Basiléa, 64, 75. - - Beaton (Cardeal), 140. - - Bernardo de Clairvaux, 210. - - Berne, 59, 76. - - Berne (A Reforma em), 64. - - Beza, 83, 91. - - Beza em Poissy, 102. - - Biblia, Versão de Luthero, 19. - - Biblia, Franceza, 93. - - Biblia, Hollandeza, 116. - - Biblia (Doutrina da), 232. - - Bispados (os) nos Paizes Baixos, 118. - - Bispos (O livro dos), 172. - - Bispos (Os) na Escocia, 151. - - Boleyn (Anna), 167, 184, 189. - - Bonner (Bispo), 146. - - Borgonha (Carlos e Maria de), 114. - - Bourbon (Antonio de), 100. - - Bourbon (Condestavel de), 31. - - Bourbon (O principe), 96, 100. - - Bourg (Anne de), 98, 145. - - Bourges (Sancção Pragmatica de), 89. - - Brantôme, 107. - - Brederode (O Conde), 120. - - Brés (Guido), 134. - - Briçonnet, bispo de Meaux, 88. - - Brill (Tomada de), 126. - - Bruxellas, 115. - - Bucer, 71, 178, 187. - - Bugenhagen, 51. - - Bulla papal contra Luthero, 12. - - Bulla papal em favor da inquisição, 117. - - Bundschuh (Liga de), 24. - - - Caetano (Cardeal), 10. - - Calderwood, 138, 142. - - Calvino (Mocidade de), 69. - - Calvino, (_Institutos da Religião_ de), 71, 78. - - Calvino em Genebra, 73. - - Calvino (Expulsão de), 75. - - Calvino (Morte de), 82. - - Calvino (Ordenanças ecclesiasticas de), 77. - - Cambridge, 178, 187, 194. - - Capito, 64. - - Cappel, (Paz de), 65. - - Caraffa (Cardeal), 117. - - Carew (Sir Peter), 184. - - Carlos V, imperador, 14, 164, 181, 184. - - Carlos V tenta subjugar a Reforma, 28, 32, 37. - - Carlos V (A politica de) nos Paizes Baixos, 114. - - Carlos IX de França, 106. - - Carlstadt, 11, 20. - - Cartwright (Thomaz), 194. - - Casamento (O), 216. - - Catharina de Aragão, 162, 169, 181, 183. - - Catharina de Medicis, 93, 100, 107. - - Catholicidade dos Reformadores, 222. - - Cecil (Sir William), 194, 196. - - Celtica (Egreja), 137. - - Chandieu (Antonio), 97. - - Chateaubriand (Edicto de), 94. - - Christiano II da Dinamarca, 50. - - Clemente VII, 29. - - Colet (Deão), 160, 162. - - Coligny (Almirante), 96, 100, 101, 104, 106. - - Commissão (Tribunal da Alta), 193, 199. - - Concilio (Reclama-se um), 21, 43. - - Concilio (o) de Trento, 44. - - Concordata (A) de 1516, 89, 164. - - Condé (Luiz de), 100, 102, 104, 105. - - Condé (Henrique de), 105. - - Confissão de Augsburgo, 38, 50. - - Confissão de Zurich, 84. - - Confissão Franceza, 97. - - Confissão Hollandeza, 134. - - Confissão Escoceza, 143. - - Congregação (Lords da), 142. - - _Consistorial_ (_Systema_), 30. - - Consistorio (O), 78, 98. - - Constança (Concilio de), 11. - - Cotta (Frau), 8. - - Convenção (A) Nacional, 142. - - Coverdale, 187. - - Cranach (Lucas), 16. - - Cranmer (Arcebispo), 171, 176, 184, 186. - - Craw (Paulo), 138. - - Crespin, 107. - - Cromwell (Thomaz), 163, 170. - - - Dante, 218. - - Diana de Poitiers, 93. - - Dickson (David), 152. - - Dieta (A) allemã, 15. - - Dieta (A) de Worms, 16. - - Dieta (A) de Nürnberg, 20. - - Dieta (A) de Spira, 28. - - Dieta (A) de Augsburgo, 36, 47. - - Disciplina da Egreja, 30. - - Disciplina de Calvino, 77. - - Disciplina da Egreja franceza, 98. - - Disciplina (Livro da), 147, 152. - - Dissidencia (A), 194. - - Disturbios (O Conselho dos), 123. - - Dizimos (Os grandes e pequenos), 23, 215. - - Dordrecht, 135. - - Dorner, 225. - - Douay, 196. - - Douglas, 144. - - Drake (Sir Francis), 196. - - Dreux (Batalha de), 104. - - Dubois (Pedro), 138, 158. - - - Eck (João), 9, 11, 17. - - Edictos de Tolerancia, em França, 103, 105, 110. - - Edinburgo, 143. - - Educação (A) na Escocia, 137, 148. - - Eduardo III, 218. - - Eduardo VI, 141, 157, 175, 181. - - Egmont (Conde), 117, 119, 120, 121, 122. - - Egreja (Disciplina da), 30, 98, 133, 134. - - Egreja (Riqueza da), 12. - - Egreja (A) em relação com a vida social, 215. - - Ehrenberg (Castello de), 46. Eidgenossen, 68. - - Einsiedeln, 61. - - Eisenach, 8. - - Eisleben, 7. - - Eleitores (Os) allemães, 15. - - Erasmo, 64, 170, 177. - - Erskine de Dun, 142, 151. - - Escocia (A Reforma na), 137-154. - - Esch (João), 115. - - Escriptura (A), 227. - - Eucaristia (A), 33. - - - Fagius (Paulo), 178. - - Farel em Basiléa, 64. - - Farel em Genebra, 68. - - Farel em França, 88. - - Fé (A), 213, 230. - - Fernando de Aragão, 14, 162. - - Fernando de Austria, 37. - - Field, o puritano, 194. - - Fisher (Bispo), 170. - - Florestaes (cantões), 64. - - França (A Reforma em ), 87-111. - - Francisco de Assis, 210, 211. - - Francisco I de França, 28, 71, 89, 91, 164. - - Francfort sobre o Maine, 141. - - Frederico da Saxonia, 8, 28. - - Froben, 64. - - Frunsberg (General), 17, 31. - - - Galle (Dr.), 52. - - Gallicanismo (O), 218. - - Gardiner (Bispo), 177, 182. - - Gemblours, 132. - - Genebra, 67, 77, 94. - - Ghent, 131. - - Ghent (Pacificação de), 131. - - Glarus, 60. - - Glencairn (Conde de), 142, 143. - - Goch (João), 114. - - Granvella (Cardeal), 117, 119, 123. - - Gregorio VII (Papa), 208, 212. - - Grey (Lady Jane), 182, 183. - - Grindal (Arcebispo), 198, 198. - - Guise (A familia), 93, 98, 100, 103-106, 140, 145. - - Gustavo Vasa, 51. - - - Hagenau, 40. - - Hamilton (Patricio), 140. - - Held (Vice Chancellor), 40. - - Henrique VIII de Inglaterra, 157, 161, 163, 184, 190, 218. - - Henrique II de França, 93. - - Henrique III de França, 106, 109. - - Henrique IV de França, 105, 110. - - Henriques (Guerra dos tres), 109. - - Hesse (Organização da Egreja de), 29. - - Hildebrando, 208. - - Hogstraten, 9. - - _Homilias_ (_Livro de_), 177. - - Hooper (Bispo), 180, 186. - - Horn (Almirante), 120, 122. - - Huss (João), 11, 138. - - Hymnos Medievaes, 6, 214. - - - Iconoclastas (Os), 103. - - _Imitação de Christo_, 210, 211. - - Imperador (O), 14, 28, 31, 32, 37, 38. - - Imperio (O) medieval, 14, 209, 217, 221. - - Indulgencias (As) em Zurich, 61. - - Indulgencias (As) na Allemanha, 1-2. - - Ingleza, (A Reforma) seu caracter, 159. - - Inquisição (A), 117, 186. - - Interdicção (A) papal, 226, 233. - - Interim (O) de Augsburgo, 43. - - Interim (O) de Leipzic, 43. - - Isabel (A rainha), 125, 133, 157, 189, 192, 194-201. - - - Jansen, 50. - - Jarnac, 105. - - Jesuitas (Os), 45, 195. - - Jewel (Bispo), 192, 200. - - João da Saxonia, 37, 38. - - Jorge da Saxonia (Duque), 17, 42, 47. - - _Justificação_ (_A_), 233, 234. - - Jüterbogk, 4. - - - Kempis (Thomaz á), 114. - - Knox (João), 141, 143, 144, 146, 148, 152, 178, 180, 191. - - Kyle (Os lollardos de), 138. - - - La Ferriére, 95. - - Lainez, 45. - - Lambert (Martinho), 29. - - Lei (A) agraria entre os romanos, 24. - - Lefèvre, 88. - - Leipzic (Controversia de), 10. - - Leipzic (Interim de), 43. - - Leith (Convenção de), 151. - - Leyden (Cerco de), 129. - - Liesfeld (Jacob), 116. - - Liga Allemã (catholica), 40. - - Liga de Schmalkald, 39. - - Liga de França, 109, 196. - - Linacre, 196. - - Lindsay (Lord), 145. - - Lindsay (Sir David), 139. - - Lithurgia (A) de Knox, 141. - - Lollardismo (O), 138, 158. - - Longjumeaux, 105. - - Loyola (Ignacio), 45. - - Luthero e Tetzel, 4. - - Luthero (Mocidade de), 7. - - Luthero em Leipzic, 11. - - Luthero em Worms, 16. - - Luthero traduz a Biblia, 19. - - Luthero contra os camponezes, 27. - - Luthero não sympathiza com a Liga Protestante, 32. - - Luthero (Quietismo de), 32. - - Luthero (Mais ácerca de), 212, 214, 222. - - - Madrid (Confederação de), 28. - - Madrid (Egmont em), 119. - - Maitland de Lethington, 144. - - Marburgo (Conferencia de), 33. - - Marcello de Padua, 138, 158, 218. - - Margarida de Navarra, 89. - - Margarida de Parma, 117. - - Margarida de Saboya, 115. - - Maria de Guise, 140. - - Maria, rainha de Inglaterra, 181, 184. - - Maria, rainha dos escocezes, 144, 145, 182, 189, 195. - - Martyr (Pedro), 178, 187, 192. - - Massacre de Amboise, 99. - - Massacre de S. Bartholomeu, 107, 140, 195. - - Massacre de Toulouse, 103. - - Massacre de Vassy, 103. - - Mauricio da Saxonia, 42, 46. - - Melanchthon, 19, 37, 39. - - Melville (André), 152. - - Melville (James), 149. - - Mendicantes (Os), 120, 123. - - Mendigos (Os) do mar, 124, 128, 129, 130. - - _Mérindol_ (_Arrêt de_), 93. - - Mill (Walter), 140. - - Miltitz (Cardeal), 10. - - Missa (A Doutrina da), 33, 39. - - Monasticos (Votos), 212. - - Montauban, 107. - - Montgomery, bispo de Glasgow, 151. - - Montmorency, 93, 105, 145. - - Mooker Haide, 129. - - Moray (Conde de), 146, 150, 195. - - More (Sir Thomaz), 161, 162, 168, 172. - - Morgarten, 59. - - Mosteiros (Suppressão dos) em Inglaterra, 170, 176, 186. - - Münzer (Thomaz), 20, 24, 63. - - Mystico (Sentido) da Escriptura, 230. - - Mysticos (Os) medievaes, 8, 32, 211, 218. - - - Nantes (Edicto de), 110. - - Niceno (O credo), 222. - - Nicolau de Basiléa, 212. - - Nobres (Revolta dos) na Allemanha, 21. - - Norfolk (Duque de), 195. - - Noyon, 69. - - Nürnberg (Dieta de), 20. - - - Ochino (Bernardo), 178. - - Ockham (Guilherme de), 8, 138. - - Œcolampadius, 33. - - Olivetan (Roberto), 93. - - Oppressões soffridas pelos camponezes, 16, 23, 24. - - Oração Commum (Livro de), 177, 184, 100, 209. - - Orange (Guilherme de), 117, 120, 121, 124, 126, 131, 132. - - Orange (Mauricio de), 123. - - Oradores (Camaras de), 144. - - Ordenanças Ecclesiasticas, 77, 79, 81. - - Orleans, 104. - - Oxford, 178, 187. - - - Pamphletos anti-prelaticios, 198. - - Paizes Baixos (Os), 113. - - Paramentos (Os) na Egreja de Inglaterra, 179, 192. - - Parker (Arcebispo), 192, 194. - - Parma (Margarida de), 117. - - Parma (Alexandre de), 132, 197. - - Passau (Tratado de), 47, 183. - - Pavia (Batalha de), 28, 91. - - Perdão (O) do peccado, 4, 213. - - Perseguições em França, 91, 94. - - Perseguições nos Paizes Baixos, 123. - - Perseguições na Escocia, 140. - - Perseguições em Inglaterra, 168, 186. - - Perth (Tumultos em), 143. - - Petersen (Os irmãos), 52. - - Philippe de Hesse, 32, 33, 37, 42, 43. - - Philippe II de Hespanha, 107, 115, 121, 184, 186, 189, 195. - - Poissy (Conferencia de), 102. - - Pole (Cardeal), 46, 185. - - Polyhistor, 64. - - _Proemunire_, 161, 167, 217. - - _Presbyterianismo_, 72, 95, 98, 134, 147. - - Prierias (Silvestre), 9. - - _Prophecias_ (_As_), 197. - - Propriedade (As Leis da) e a Reforma, 215. - - Puritanos (Os), 179, 193. - - - Randolpho, 145. - - Ratisbonna, 22. - - Reforma (Os principios da), 1, 225. - - Reforma (Antecipações da), 213. - - Reforma (A) e a vida social, 215. - - Reforma, (A) uma revivificação de religião, 205. - - Reforma (A) e a necessidade do perdão, 212. - - Regensburgo (Conferencia de), 40. - - Regensburgo (Convenção de), 22. - - Religião (A) espiritual, 209. - - Renan ácerca de Calvino, 83. - - Renaudie, 99. - - _Renuncia_ (_A_), 211. - - Requescens, 128. - - Revivificação (A Reforma, uma), 205. - - Revivificação (A) medieval, 210. - - Revolta (A) dos camponezes, 23. - - Revolta (A) dos nobres, 21. - - Ridley (Bispo), 180, 184, 186. - - Ritualistas (Os) na Igreja Ingleza, 199. - - Rochelle (La), 105, 107, 108. - - Romana (A Lei), 24. - - Roper (Margarida), 170. - - Row (João), 139, 144, 153. - - - Sacerdocio (O) dos crentes, 179, 226. - - Saboya (Duque de), 67. - - Sacramentos (Os), 34. - - Sacramentos (A administração dos), 207. - - Sacramentos (Theoria dos), 236. - - Samson, traficante de Indulgencias, 61. - - Sancerre (Capitulação de), 107. - - Sandilands (Sir James), 145. - - Schmalkald (Liga de), 32, 39. - - Schmalkald (Guerra de), 42. - - _Separação do mundo_, 208. - - Sickingen (Frank von), 22. - - Smeaton, 149. - - Sobrepeliz (A), 193. - - Social (A vida) e a Reforma, 216. - - Somerset (Lord Protector), 175. - - Spalatin, 10, 16. - - Spira (Edicto de), 29. - - Staupitz, 8, 9. - - Stirling, 143. - - Stockolmo (Massacre de), 51. - - Storch, 20, 24. - - Sturm, 100. - - _Submissão do Clero_, 165. - - Sully (Duque de), 107. - - _Superintendentes_ (_Os_), 147. - - Supremacia (A) real em Inglaterra, 166, 176, 185, 190. - - Suecia (Reforma na), 51. - - Suissa (A Reforma), 57-66. - - Syndicancia aos mosteiros, 170. - - Syndicancia ás Egrejas, 176. - - Synodo da Egreja Franceza, 97. - - Synodo da Egreja Hollandeza, 134. - - - Tauler (João), 9, 32, 212. - - Tetzel (João), 3, 4. - - Theses (As) de Luthero, 3, 5, 6. - - Theses (As) de Zwinglio, 62. - - Tindal traduz a Biblia, 187. - - Toggenburgo, 60. - - Torpichen (Lord), 142. - - Toulouse (Massacre de), 103. - - _Transubstanciação_ (_A_), 34, 36. - - Trento (O concilio de), 45. - - _Tulchanos_ (_Os bispos_), 150. - - - Ubiquidade (Doutrina da), 36. - - Udal (Nicolau), 198. - - Upsala, 52. - - _Utopia_ (_A_) de Sir T. More, 161, 169. - - Utrecht, 113. - - Utrecht (Tratado de), 132. - - - Valdenses (Os), 92. - - Valence (Bispo de), 100. - - Vassy (Massacre de), 103. - - Vienne (Arcebispo de), 100. - - Voes (Henrique), 115. - - - Wardlaw, 138. - - Wartburgo, 18. - - Warwick (Conde de), 177. - - Wedderburn (Balladas Sacras de), 139. - - Wessel (João), 144. - - Westeräs, 52. - - Wied (Hermann von), 41. - - Wilcox, 194. - - Wildhaus, 66. - - Willock, 114. - - Wimpina (Conrado), 9. - - Winram, 144. - - Wishart (Jorge), 140, 141. - - Wittenberg (Os fanaticos de), 20. - - Wolsey (Cardeal), 162, 168. - - Worms (Conferencia de), 40. - - Worms (Dieta de), 16, 22, 24. - - Wyatt (Sir T.), 184. - - Wycliffe, 8, 11, 138, 158. - - Wyttenbach (Thomaz), 60, 64. - - - Xavier (Francisco), 45. - - - Zurich, 59, 62, 76. - - Zwinglio, 33, 35, 60, 66. - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of A Reforma, by Thomas M. Lindsay - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A REFORMA *** - -***** This file should be named 62461-0.txt or 62461-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/4/6/62461/ - -Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online -Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. 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M. Lindsay. - </title> - - <link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" /> - -<style type="text/css"> - -a { - text-decoration: none; -} - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - -h1,h2,h3 { - text-align: center; - clear: both; -} - -hr { - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - clear: both; - width: 65%; - margin-left: 17.5%; - margin-right: 17.5%; -} - -ul { - list-style-type: none; -} - -li.indx { - margin-top: .5em; - padding-left: 2em; - text-indent: -2em; -} - -li.ifrst { - margin-top: 2em; - padding-left: 2em; - text-indent: -2em; -} - -p { - margin-top: 0.5em; - text-align: justify; - margin-bottom: 0.5em; - text-indent: 1em; -} - -table { - margin: 1em auto 1em auto; - max-width: 45em; - border-collapse: collapse; -} - -th { - padding-left: 0.5em; - padding-right: 0.5em; -} - -td { - padding-left: 2em; - padding-right: 0.25em; - vertical-align: top; - text-indent: -2em; -} - -.tdc { - text-align: center; - padding-top: 1.5em; -} - -.tdr { - text-align: right; - padding-right: 0em; -} - -.tdpg { - vertical-align: bottom; - text-align: right; - white-space: nowrap; -} - -.tdsub { - padding-top: 0.5em; - padding-bottom: 0.5em; - font-size: 90%; - text-align: justify; -} - -table.big { - max-width: none; - width: 100%; - font-size: 80%; - table-layout: fixed; -} - -.big td { - padding-left: 0.5em; - padding-right: 0.5em; - text-indent: 0; -} - -.big p { - padding-left: 2em; -} - -.big p.hanging { - text-indent: -2em; -} - -.anglicana { - border-top: double black; - border-bottom: thin solid black; - line-height: 2.5em; -} - -.blockquote, .chap { - margin: 1.5em 10%; -} - -.chap p { - padding-left: 2em; - text-indent: -2em; - font-size: 90%; -} - -.center { - text-align: center; - text-indent: 0em; -} - -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; -} - -.footnotes { - margin-top: 1em; - border: dashed 1px; -} - -.footnote { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; - font-size: 0.9em; -} - -.footnote .label { - position: absolute; - right: 84%; - text-align: right; -} - -.fnanchor { - vertical-align: super; - font-size: .8em; - text-decoration: none; -} - -.larger { - font-size: 150%; -} - -.pagenum { - position: absolute; - right: 4%; - font-size: smaller; - text-align: right; - font-style: normal; -} - -.pagenum-left { - position: absolute; - left: 4%; - font-size: smaller; - text-align: right; - font-style: normal; -} - -.right { - text-align: right; -} - -.smaller { - font-size: 80%; -} - -.smcap { - font-variant: small-caps; - font-style: normal; -} - -.smcapuc { - font-variant: small-caps; - font-style: normal; - text-transform: lowercase; -} - -.tb { - margin-top: 2em; -} - -.titlepage { - text-align: center; - margin-top: 3em; - text-indent: 0em; -} - -@media handheld { - -img { - max-width: 100%; - width: auto; - height: auto; -} - -.blockquote, .chap { - margin: 1.5em 5%; -} -} - </style> - </head> -<body> - - -<pre> - -The Project Gutenberg EBook of A Reforma, by Thomas M. Lindsay - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most -other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: A Reforma - -Author: Thomas M. Lindsay - -Release Date: June 23, 2020 [EBook #62461] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A REFORMA *** - - - - -Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online -Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - -</pre> - - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_i" id="Page_i">[i]</a></span></p> - -<h1>A REFORMA</h1> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_ii" id="Page_ii">[ii]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_iii" id="Page_iii">[iii]</a></span></p> - -<p class="titlepage larger">A REFORMA</p> - -<p class="titlepage"><span class="smaller">POR</span><br /> -T. M. LINDSAY<br /> -<span class="smaller">DOUTOR EM THEOLOGIA E PROFESSOR DE HISTORIA ECLESIASTICA</span></p> - -<p class="titlepage"><span class="smcap">TRADUCÇÃO de J. S. CANUTO</span><br /> -<span class="smaller">(AUCTORISADA)</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/deco.jpg" width="200" height="70" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">LIVRARIA EVANGELICA<br /> -RUA DAS JANELLAS VERDES, 32<br /> -LISBOA</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_iv" id="Page_iv">[iv]</a></span></p> - -<p class="titlepage">LISBOA<br /> -TYP. ROSA, LIMITADA<br /> -29, Rua da Magdalena, 31</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_v" id="Page_v">[v]</a></span></p> - -<h2 id="PREFACIO">PREFACIO</h2> - -<p>As primeiras tres partes d’este livrinho são simplesmente -uma compilação das melhores e mais accessiveis historias da -Reforma, e de modo algum são apresentadas como uma dissertação -original sobre o vasto e complicado movimento religioso -que descrevem. Sou da opinião do dr. Merle d’Aubigné: -a Reforma foi uma revivificação da religião, e não pode ser descripta -com bom exito se não tivermos sempre deante de nós, e -bem distinctamente, este seu caracter essencial. Os reformadores -foram homens que, sob o impulso de um grande movimento -religioso que se levantou n’uma occasião em que eram bem particulares -as circumstancias intellectuaes, sociaes e politicas, se -sentiram animados pelo desejo de que lhes fosse permittido dar -culto a Deus segundo as direcções da Escriptura e os dictames -da razão e da consciencia. Mas este desejo, apparentemente simples, -envolvia uma tal mudança nas condições sociaes e politicas, -não sómente em cada provincia e em cada nação, mas em -toda a Europa, tomada no seu conjuncto, que não se pode escrever -a historia da revivificação religiosa sem apresentar uma -grande parte da historia politica e social de aquella epoca.</p> - -<p>O dr. Leopoldo von Ranke tratou com tanta proficiencia da -historia politica do periodo em questão, que o auctor até do -mais humilde dos manuaes deve collocar-se quasi exclusivamente -debaixo da sua direcção. Foi o que eu fiz, e em quasi todas -as paginas me aproveito, com reconhecimento, das suas magistraes -descripções do movimento politico e social.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_vi" id="Page_vi">[vi]</a></span></p> - -<p>Escusado seria mencionar toda a longa lista de auctores -consultados na preparação d’este pequeno livrinho; como, porém, -não se faz referencia alguma ás auctoridades citadas, cumpre-me -dizer que, além de d’Aubigné e de Ranke, as pessoas -que teem conhecimento do assumpto hão de notar um continuo -uso das <i>Historias da Egreja</i> de Hagenbach e Henke, do <i>Periodo -da Reforma</i> de Haüsser, dos <i>Huguenotes</i> de Baird, de dois volumes -das <i>Epocas da Historia Moderna</i> de Longman, da <i>Era da -Revolução Protestante</i> de Seebohm, e do <i>Seculo de Isabel</i> de Creighton. -Refiro-me frequentemente á <i>Historia dos Credos do Christianismo</i> -ao tratar das Confissões, e á inapreciavel collecção de -<i>Livros de Disciplina</i>, de Richter, ao tratar da organização ecclesiastica -das varias egrejas reformadas.</p> - -<p>A quarta parte, que se occupa summariamente dos principios -fundamentaes do movimento da Reforma, deveria talvez -ter ido em primeiro logar, servindo de introducção, mas preferi -collocal-a no fim; em parte, porque similhante introducção poderia -assustar os leitores jovens, e em parte porque os principios -do movimento podem ser mais bem apreciados depois do -leitor ter algum conhecimento da sua historia. A quarta parte é -a unica porção d’este pequeno manual que se pode dizer com verdade -que pertence exclusivamente ao auctor, e que apresenta -opiniões sobre o assumpto de que só elle é responsavel.</p> - -<p>O summario chronologico foi extraido quasi inteiramente -das admiraveis tabellas de Weingarten.</p> - -<p class="right">T. M. LINDSAY.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_vii" id="Page_vii">[vii]</a></span></p> - -<h2>INDICE</h2> - -<table summary="Indice"> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">PARTE I</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma allemã, que deu origem ás egrejas lutheranas</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#I_PARTE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 1-53</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO I</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma na Allemanha</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_I"><span class="smcapuc">PAG.</span> 1-48</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">O principio da Reforma, <a href="#Page_3">pag. 3</a>.—As indulgencias, e as theses que Luthero - escreveu contra as mesmas, <a href="#Page_5">pag. 5</a>.—As theses de Luthero não atacavam - sómente as indulgencias, <a href="#Page_6">pag. 6</a>.—A historia de Luthero, desde o principio, - <a href="#Page_7">pag. 7</a>.—Partidarios e adversarios de Luthero, <a href="#Page_9">pag. 9</a>.—A disputa de Leipzig, - <a href="#Page_10">pag. 10</a>.—A bulla do papa, e a queima da mesma, <a href="#Page_12">pag. 12</a>.—O Imperador - e a Reforma, <a href="#Page_14">pag. 14</a>.—O estado politico da Allemanha, <a href="#Page_15">pag. 15</a>.—Luthero - e a dieta de Worms, <a href="#Page_16">pag. 16</a>.—Luthero em Wartburgo, <a href="#Page_18">pag. 18</a>.—Regresso - de Luthero a Wittenberg, <a href="#Page_19">pag. 19</a>.—A dieta de Nürnberg, <a href="#Page_20">pag. 20</a>.—A - revolta dos nobres, <a href="#Page_21">pag. 21</a>.—A revolta dos camponezes, <a href="#Page_23">pag. 23</a>.—As - Dietas de Spira, em 1526 e 1529, <a href="#Page_28">pag. 28</a>.—O imperador pretende subjugar - a Reforma, <a href="#Page_32">pag. 32</a>.—A Conferencia de Marburgo, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.—Divergencia entre - Luthero e os suissos, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.—A Dieta de Augsburgo, <a href="#Page_36">pag. 36</a>.—<i>A Confissão - de Augsburgo</i>, <a href="#Page_38">pag. 38</a>.—A Liga Protestante de Schmalkald, <a href="#Page_39">pag. 39</a>.—A - morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald, <a href="#Page_42">pag. 42</a>.—O imperador e o - Concilio Geral, <a href="#Page_43">pag. 43</a>.—Loyola e os jesuitas, <a href="#Page_45">pag. 45</a>.—A paz religiosa de - Augsburgo, <a href="#Page_47">pag. 47</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO II</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma lutherana fóra da Allemanha</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_II"><span class="smcapuc">PAG.</span> 49-53</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">O lutheranismo fóra da Allemanha, <a href="#Page_49">pag. 49</a>.—Na Dinamarca, <a href="#Page_50">pag. 50</a>.—Na Suecia, - <a href="#Page_51">pag. 51</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">PARTE II</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma Suissa, que deu origem ás egrejas reformadas</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#II_PARTE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 55-154</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2"><span class="pagenum"><a name="Page_viii" id="Page_viii">[viii]</a></span>CAPITULO I</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma Suissa sob Zwinglio</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_I"><span class="smcapuc">PAG.</span> 57-66</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">As reformas suissa e allemã, <a href="#Page_57">pag. 57</a>.—A situação politica da Suissa, <a href="#Page_58">pag. 58</a>.—Ulrico - Zwinglio, <a href="#Page_60">pag. 60</a>.—As theses de Zwinglio, <a href="#Page_62">pag. 62</a>.—A Reforma em - Zurich, <a href="#Page_63">pag. 63</a>.—Basiléa, <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Berne, <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Os cantões florestaes, - <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, <a href="#Page_65">pag. 65</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO II</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma em Genebra sob Calvino</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_II"><span class="smcapuc">PAG.</span> 67-85</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">Genebra antes da Reforma, <a href="#Page_67">pag. 67</a>.—Farel em Genebra, <a href="#Page_68">pag. 68</a>.—A mocidade - de Calvino, <a href="#Page_69">pag. 69</a>.—<i>Institutos da Religião Christã</i>, <a href="#Page_71">pag. 71</a>.—Calvino - em Genebra, <a href="#Page_73">pag. 73</a>.—A sua expulsão, <a href="#Page_75">pag. 75</a>.—Genebra não pode passar - sem elle, <a href="#Page_76">pag. 76</a>.—<i>As Ordenanças Eclesiasticas</i>, <a href="#Page_77">pag. 77</a>.—Como differem - dos <i>Institutos</i>, <a href="#Page_79">pag. 79</a>.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, <a href="#Page_81">pag. - 81</a>.—A morte de Calvino, <a href="#Page_82">pag. 82</a>.—Succede-lhe Beza, <a href="#Page_83">pag. 83</a>.—A influencia - de Calvino sobre a theologia da Reforma, <a href="#Page_83">pag. 83</a>.—<i>A Confissão de Zurich</i>, - <a href="#Page_84">pag. 84</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO III</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma em França</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_III"><span class="smcapuc">PAG.</span> 87-111</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">Os principios da Reforma em França, <a href="#Page_87">pag. 87</a>.—Francisco I, <a href="#Page_89">pag. 89</a>.—A <i>Concordata</i> - de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, <a href="#Page_89">pag. 89</a>.—«Uma egreja - debaixo da cruz», <a href="#Page_90">pag. 90</a>.—O anno dos placards, <a href="#Page_92">pag. 92</a>.—O Vaudois - de Durance, <a href="#Page_92">pag. 92</a>.—Henrique II e os Guises, <a href="#Page_93">pag. 93</a>.—Organização - da egreja reformada, <a href="#Page_95">pag. 95</a>.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, - <a href="#Page_96">pag. 96</a>.—O primeiro <i>Synodo Nacional</i>, <a href="#Page_97">pag. 97</a>.—Anne de Bourg, <a href="#Page_98">pag. - 98</a>.—A carnificina de Amboise, <a href="#Page_99">pag. 99</a>.—Coligny na Assembléa dos Notaveis, - <a href="#Page_100">pag. 100</a>.—Catharina de Medicis, <a href="#Page_100">pag. 100</a>.—A Conferencia de Poissy, - <a href="#Page_102">pag. 102</a>.—O massacre de Vassy, e outros, <a href="#Page_103">pag. 103</a>.—A guerra civil, os - iconoclastas, <a href="#Page_103">pag. 103</a>.—Coligny e Carlos IX, <a href="#Page_106">pag. 106</a>.—O massacre de S. - Bartholomeu, <a href="#Page_107">pag. 107</a>.—A Santa Liga, <a href="#Page_109">pag. 109</a>.—Henrique de Navarra, - <a href="#Page_110">pag. 110</a>.—O edicto de Nantes, <a href="#Page_110">pag. 110</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO IV</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma nos paizes baixos</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_IV"><span class="smcapuc">PAG.</span> 113-116</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">Os Paizes Baixos, <a href="#Page_113">pag. 113</a>.—A politica de Carlos V, <a href="#Page_114">pag. 114</a>.—Os principios - da Reforma, <a href="#Page_115">pag. 115</a>.—Filippe II e os Paizes Baixos, <a href="#Page_115">pag. 115</a>.—A - inquisição, <a href="#Page_117">pag. 117</a>.—Os novos bispados, <a href="#Page_118">pag. 118</a>.—Tornar-se-ha hespanhol - o paiz? <a href="#Page_119">pag. 119</a>.—Os <i>mendicantes</i>, <a href="#Page_120">pag. 120</a>.—Prégações ruraes, - <a href="#Page_120">pag. 120</a>.—O duque de Alba nos Paizes Baixos, <a href="#Page_121">pag. 121</a>.—A prisão do - conde Egmont e do conde Horn, <a href="#Page_122">pag. 122</a>.—A guerra civil. O principe de - Orange, <a href="#Page_124">pag. 124</a>.—Os mendigos do mar, <a href="#Page_124">pag. 124</a>.—A tomada de Brill, - <a href="#Page_126">pag. 126</a>.—Requescens y Zuniga, <a href="#Page_128">pag. 128</a>.—O cerco de Leyden, <a href="#Page_129">pag. 129</a>. - Negociações entre as provincias do sul e as do norte, <a href="#Page_130">pag. 130</a>.—D. João - de Austria, <a href="#Page_131">pag. 131</a>.—Alexandre de Parma, <a href="#Page_132">pag. 132</a>.—O tratado de - Utrecht, <a href="#Page_132">pag. 132</a>.—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão, - <a href="#Page_133">pag. 133</a>.—O <i>Confessio Belgica</i>, <a href="#Page_134">pag. 134</a>.—A constituição da Egreja hollandeza, - <a href="#Page_134">pag. 134</a>.—A força da Egreja na Hollanda, <a href="#Page_136">pag. 136</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2"><span class="pagenum"><a name="Page_ix" id="Page_ix">[ix]</a></span>CAPITULO V</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma na Escocia</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_V"><span class="smcapuc">PAG.</span> 137-154</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">Preparação para a Reforma, <a href="#Page_137">pag. 137</a>.—A antiga Egreja celtica e a Educação, - <a href="#Page_137">pag. 137</a>.—A Escocia e o lollardismo, <a href="#Page_138">pag. 138</a>.—A Escocia e Huss, <a href="#Page_138">pag. - 138</a>.—A Egreja romana na Escocia e a situação politica, <a href="#Page_139">pag. 139</a>.—João - Knox, <a href="#Page_141">pag. 141</a>.—A Congregação e a Primeira Convenção, <a href="#Page_142">pag. 142</a>.—A - <i>Confissão escoceza</i>, <a href="#Page_144">pag. 144</a>.—A rainha Maria e a Reforma, <a href="#Page_145">pag. 145</a>.— O - <i>Livro de Disciplina e a Primeira Assembléa Geral</i>, <a href="#Page_147">pag. 147</a>.—A educação, - <a href="#Page_148">pag. 148</a>.—A morte de Knox, <a href="#Page_149">pag. 149</a>.—Os bispos tulchanos, <a href="#Page_150">pag. 150</a>.—André - Melville, <a href="#Page_152">pag. 152</a>.—O Segundo Livro de Disciplina, <a href="#Page_152">pag. 152</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">PARTE III</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma anglicana</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#III_PARTE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 155-201</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO I</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Egreja de Inglaterra durante o reinado de Henrique VIII</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#III_CAPITULO_I"><span class="smcapuc">PAG.</span> 137-174</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, <a href="#Page_157">pag. 157</a>.—Antecipações - da Reforma em Inglaterra, <a href="#Page_158">pag. 158</a>.—O estado ecclesiastico de Inglaterra no - principio da Reforma, <a href="#Page_159">pag. 159</a>.—As relações de Inglaterra com o pontificado, - <a href="#Page_160">pag. 160</a>.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, <a href="#Page_161">pag. 161</a>.—Henrique - muda de opinião, <a href="#Page_163">pag. 163</a>.—Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, - e a rivalidade que havia entre elles, <a href="#Page_164">pag. 164</a>.—A submissão do clero, <a href="#Page_165">pag. 165</a>.—O - progresso da separação de Roma, <a href="#Page_166">pag. 166</a>.—Separação de Roma e - Reforma: duas coisas differentes, <a href="#Page_168">pag. 168</a>.—Execução de sir Thomas More, - <a href="#Page_169">pag. 169</a>.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades da Egreja, - <a href="#Page_170">pag. 170</a>.—<i>Os dez Artigos</i>, <a href="#Page_171">pag. 171</a>.—<i>O Estatuto Sanguinario</i>, <a href="#Page_173">pag. 173</a>.—A - Egreja de Inglaterra em 1547, <a href="#Page_173">pag. 173</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO II</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma no tempo de Eduardo VI, e a reacção no tempo de Maria</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#III_CAPITULO_II"><span class="smcapuc">PAG.</span> 175-188</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">Será adoptada a Reforma? <a href="#Page_175">pag. 175</a>.—A visita real, o <i>Livro de Homilias</i> e o - <i>Livro de Oração Commum</i>, <a href="#Page_176">pag. 176</a>.—A alliança com o protestantismo continental, - <a href="#Page_178">pag. 178</a>.—Os <i>Quarenta e Dois Artigos</i>, <a href="#Page_178">pag. 178</a>.—Os principios - do puritanismo, <a href="#Page_179">pag. 179</a>.—A morte de Eduardo VI, <a href="#Page_181">pag. 181</a>.—O estado - da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria, <a href="#Page_182">pag. 182</a>.—A Hespanha - necessitava do auxilio da Inglaterra, <a href="#Page_183">pag. 183</a>.—Como Maria se firmou - no throno, <a href="#Page_183">pag. 183</a>.—A alliança hespanhola, <a href="#Page_184">pag. 184</a>.—A reconciliação - com Roma, <a href="#Page_184">pag. 184</a>.—Porque não foi bem succedida a reacção papal? - <a href="#Page_185">pag. 185</a>.—As perseguições durante o reinado de Maria, <a href="#Page_186">pag. 186</a>.—A - questão dos bens de raiz da Egreja, <a href="#Page_186">pag. 186</a>.—Os fructos do ensino no - reinado de Eduardo, <a href="#Page_187">pag. 187</a>.—A morte de Maria, <a href="#Page_187">pag. 187</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO III</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma no tempo de Isabel</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#III_CAPITULO_III"><span class="smcapuc">PAG.</span> 189-201</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub"><span class="pagenum"><a name="Page_x" id="Page_x">[x]</a></span> - A successão de Isabel, <a href="#Page_189">pag. 189</a>.—Como se liquidou a questão religiosa, <a href="#Page_190">pag. - 190</a>.—<i>Os trinta e nove artigos</i>, <a href="#Page_192">pag. 192</a>.—O puritanismo e as vestimentas - ministeriaes, <a href="#Page_192">pag. 192</a>.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, - <a href="#Page_194">pag. 194</a>.—A lucta interna com o catholicismo romano, <a href="#Page_195">pag. 195</a>.—A - Armada hespanhola, <a href="#Page_196">pag. 196</a>.—As prophecias, <a href="#Page_197">pag. 197</a>.—<i>Os conventiculos</i>, - <a href="#Page_198">pag. 198</a>.—<i>Os pamphletos anti-prelaticios</i>, <a href="#Page_198">pag. 198</a>.—A Reforma ingleza, - <a href="#Page_198">pag. 198</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">PARTE IV</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Os principios da Reforma</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#IV_PARTE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 203-236</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO I</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Reforma foi uma revivificação religiosa</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#IV_CAPITULO_I"><span class="smcapuc">PAG.</span> 205-214</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições - sociaes, <a href="#Page_205">pag. 205</a>.—Uma revivificação da religião e uma approximação de - Deus, <a href="#Page_206">pag. 206</a>.—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho - para Deus, <a href="#Page_208">pag. 208</a>.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual, - <a href="#Page_209">pag. 209</a>.—A imitação de Christo, <a href="#Page_209">pag. 209</a>.—Francisco de Assis, - <a href="#Page_210">pag. 210</a>.—Os mysticos da Edade Media, <a href="#Page_211">pag. 211</a>.—A significação do - perdão, segundo a Reforma, <a href="#Page_212">pag. 212</a>.—Previsões de uma revivificação religiosa - operada pela Reforma, <a href="#Page_213">pag. 213</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO II</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Como a Reforma se poz em contacto com a politica</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#IV_CAPITULO_II"><span class="smcapuc">PAG.</span> 215-219</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social - da epoca, <a href="#Page_215">pag. 215</a>.—A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade - politica, <a href="#Page_216">pag. 216</a>.—Revolta contra o mediavelismo, anteriormente á Reforma, - <a href="#Page_217">pag. 217</a>.—O <i>De Monarchia de Dante</i> e o <i>Defensor Pacis</i> de Marcello de Padua, - <a href="#Page_218">pag. 218</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO III</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A catholicidade dos reformadores</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#IV_CAPITULO_III"><span class="smcapuc">PAG.</span> 221-224</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">Os Reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, <a href="#Page_221">pag. 221</a>.—Reivindicaram - a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio - medieval, <a href="#Page_221">pag. 221</a>.—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e - Calvino, <a href="#Page_222">pag. 222</a>.—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos, - <a href="#Page_223">pag. 223</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO IV</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Os principios doutrinarios da Reforma</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#IV_CAPITULO_IV"><span class="smcapuc">PAG.</span> 225-236</a></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdsub">Os principios <i>formaes e materiaes</i> da Reforma, <a href="#Page_225">pag. 225</a>.—O sacerdocio de todos - os crentes: o grande principio da Reforma, <a href="#Page_226">pag. 226</a>.—Explica a <i>Doutrina - da Escriptura</i>, <a href="#Page_227">pag. 227</a>, e da <i>Justificação pela Fé</i>, <a href="#Page_228">pag. 228</a>.—A <i>Doutrina da - Escriptura</i> da Reforma em contraste com a medieval, <a href="#Page_228">pag. 228</a>.—A Doutrina - medieval da Escriptura, <a href="#Page_229">pag. 229</a>.—O quadruplo sentido da Escriptura, <a href="#Page_229">pag. - 229</a>.—A definição medieval de <i>fé salvadora</i>. Interpretação infallivel, <a href="#Page_230">pag. - 230</a>.—Os reformadores e a Biblia, <a href="#Page_231">pag. 231</a>.—A doutrina da <i>justificação pela - fé</i> da Reforma em contraste com a medieval, <a href="#Page_232">pag. 232</a>.—A absolvição clerical - e justificação pela fé, <a href="#Page_233">pag. 233</a>.—Justificação pela fé e justificação pelas - obras, <a href="#Page_234">pag. 234</a>.—Conclusão, <a href="#Page_235">pag. 235</a>.</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Summario Chronologico</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#SUMMARIO_CHRONOLOGICO"><span class="smcapuc">PAG.</span> 237-255</a></td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Indice de Personagens, Localidades, etc</span></td> - <td class="tdpg"><a href="#INDICE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 257-261</a></td> - </tr> -</table> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p> - -<h2 id="I_PARTE">I PARTE<br /> -<span class="smaller">A REFORMA NA ALLEMANHA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS</span></h2> - -<p class="center"><span class="smcap">Capitulos</span>:</p> - -<table summary="Capitulos"> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#I_CAPITULO_I">I</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Reforma na Allemanha.</span></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#I_CAPITULO_II">II</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Reforma lutherana fóra da Allemanha.</span></td> - </tr> -</table> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p> - -<h3 id="I_CAPITULO_I">CAPITULO I<br /> -<span class="smaller">A REFORMA NA ALLEMANHA</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>O principio da Reforma, <a href="#Page_3">pag. 3</a>.—As Indulgencias, e as Theses que Luthero -escreveu contra as mesmas, <a href="#Page_5">pag. 5</a>.—As Theses de Luthero não atacavam -sómente as Indulgencias, <a href="#Page_6">pag. 6</a>.—A historia de Luthero, desde o principio, -<a href="#Page_7">pag. 7</a>.—Partidarios e adversarios de Luthero, <a href="#Page_9">pag. 9</a>.—A disputa de Leipzig, -<a href="#Page_10">pag. 10</a>.—A bulla do papa, e a queima da mesma, <a href="#Page_12">pag. 12</a>.—O imperador -e a Reforma, <a href="#Page_14">pag. 14</a>.—O estado politico da Allemanha, <a href="#Page_15">pag. 15</a>.—Luthero -e a dieta de Worms, <a href="#Page_16">pag. 16</a>.—Luthero em Wartburgo, <a href="#Page_18">pag. 18</a>.—Regresso -de Luthero a Wittenberg, <a href="#Page_19">pag. 19</a>.—A dieta de Nürnberg, <a href="#Page_20">pag. 20</a>.—A -revolta dos nobres, <a href="#Page_21">pag. 21</a>.—A revolta dos camponezes, <a href="#Page_23">pag. 23</a>.—As -Dietas de Spira, em 1526 e 1529, <a href="#Page_28">pag. 28</a>.—O imperador pretende subjugar -a Reforma, <a href="#Page_32">pag. 32</a>.—A Conferencia de Marburgo, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.—Divergencia entre -Luthero e os suissos, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.—A Dieta de Augsburgo, <a href="#Page_36">pag. 36</a>.—<i>A Confissão -de Augsburgo</i>, <a href="#Page_38">pag. 38</a>.—A Liga Protestante de Schmalkald, <a href="#Page_39">pag. 39</a>.—A -morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald, <a href="#Page_42">pag. 42</a>.—O imperador e o -Concilio Geral, <a href="#Page_43">pag. 43</a>.—Loyola e os jesuitas, <a href="#Page_45">pag. 45</a>.—A paz religiosa de -Augsburgo, <a href="#Page_47">pag. 47</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>O principio da Reforma.</b>—A reforma principiou, se é que -similhante movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca -remotissima, teve realmente um principio, quando Martinho -Luthero pregou as noventa e nove theses contra as indulgencias -na porta da egreja da pequena cidade de Wittenberg, na -Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido enviado á -Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para -o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra -com os turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar -fundos para serem dispendidos pelo papa em quadros e outras -obras de arte para a sumptuosa egreja de S. Pedro, em Roma. -O dinheiro obtinha-se em troca de uma especie de recibos, em -que se declarava que o comprador havia recebido perdão da perpetração -dos peccados que mencionara e pago a respectiva importancia.</p> - -<p>O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo -de Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou -durante o outomno de 1517 o centro da Allemanha, e -chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia. A sua presença não<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span> -tinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem pelos clerigos -mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo -mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo -facto de extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o -todo para o papa; estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles -não lhe deram licença para entrar nos seus territorios senão -depois d’elle prometter que lhes dava uma parte do que adquirisse.</p> - -<p>A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava -d’elle pelo facto de, por onde quer que elle passasse, o povo se -tornar peior; vendia por sete ducados o direito de assassinar -um inimigo; aquelles que desejavam roubar uma egreja eram -perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio de pae, -mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens -e mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como -é natural, tirar algum lucro de aquillo que lhes custara o seu -dinheiro, e por isso o crime abundava onde quer que o vendedor -do perdão apparecesse.</p> - -<p>As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas, -pelo facto do tumulto e dos escandalos a que a sua presença -dava origem. Enviava adeante de si homens extravagantemente -vestidos, que fixavam annuncios pelas paredes, e que apregoavam -pelas ruas e pelas estradas a sua proxima chegada, encarecendo -a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia á -venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna -aquelles que o comprarem mais limpos do que o baptismo, -mais puros do que Adão no seu estado de innocencia no paraiso»; -«Assim que o dinheiro tilintar no fundo do cofre, o comprador -fica perdoado, e livre de todos os peccados». Em seguida -a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu ajudante, -n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da -praça do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro -de cujas grades pendiam os celebres papelinhos, e do outro um -cofre em que o dinheiro era lançado, offerecia ao publico a sua -mercadoria, á maneira dos vendedores de elixires que costumam -apparecer pelas feiras.</p> - -<p>Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e -a sua alma justa sentia-se indignada com o facto dos bispos, -apezar de todas as suas cartas e protestos, permittirem que elle -andasse de diocese em diocese. Não obstante haver prégado -contra Tetzel e contra as indulgencias, o traficante do perdão -ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a Jüterbogk, perto -de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso como -prégador e como professor da universidade, não poude conter-se -por mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias, -e pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas -suas proposições, que, se havia na Egreja logar para Tetzel -e para os seus bilhetes de perdão, não o haveria para elle, Luthero,<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span> -nem para as idéas que elle tinha relativamente ao peccado -e ao modo como Deus concede o perdão. Roma e as indulgencias -estavam produzindo uma forte indignação em toda a -Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram -as theses que o ateiaram, dando principio á Reforma.</p> - -<p class="tb"><b>As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.</b>—As -indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma -coisa nova na Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse, -formavam um elemento tão preponderante da vida exterior da -Egreja n’aquella epoca que seria dificil censural-as sem ir de -encontro a muitas outras coisas. A Egreja da Edade Media preoccupava-se -muito com a representação visivel dos factos e forças -espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta importancia -a essa manifestação externa que se chegava a perder de -vista o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e -excellentes verdades evangelicas se acharam envolvidas por -uma espessa camada de formulas estereis que não permittiam -que se desenvolvesse a vida espiritual.</p> - -<p>É uma verdade evangelica que quando um homem se sente -triste por causa dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza -d’este ou d’aquelle modo; o verdadeiro arrependimento torna-se -sempre manifesto. A Egreja da Edade Media pegou n’este axioma -e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento deve manifestar-se -sempre em certos e determinados modos prescriptos pela -Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento, -taes como, o dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos -dias, ou o praticar outras penitencias mais ou menos dolorosas, -vieram a ser consideradas como o verdadeiro arrependimento -e a serem chamados por esse nome.</p> - -<p>No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta, -ficou estabelecido que o pagamento de umas determinadas -sommas de dinheiro dispensasse os signaes exteriores do -arrependimento, comtanto que o peccador penitente se sentisse -compungido no seu coração por haver peccado. Quando a Egreja -attingiu um estado ainda peior, decidiu-se, como coisa assente, -que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o perdão de -Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que -se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico -das indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam -esta doutrina muito lucrativa, e, como foi abertamente proclamado, -diligenciaram extrair todo o dinheiro que lhes fosse possivel -«dos peccados dos allemães». A indulgencia contra a qual -Luthero protestou era a quinta das que nos ultimos dezesete -annos tinham sido publicadas.</p> - -<p>As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso -encadeado contra a doutrina e pratica das indulgencias. -E torna evidentes estas tres coisas: (1) É, de algum modo,<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span> -digna de approvação a indulgencia quando significa simplesmente -um dos muitos meios de proclamar o perdão do peccado, -<i>concedido por Deus</i>; mas uma tal proclamação deve ser sempre -gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem -á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao -verdadeiro arrependimento, e a auctorisação para deixar de os -pôr em pratica não pode, de maneira alguma, garantir que Deus -tenha realmente perdoado. (3) Qualquer cristão que se sinta -verdadeiramente arrependido recebe um pleno perdão, e é participante -de todas as riquezas de Christo, por um dom directo -de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra -intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar -melhor as suas theses, declara que o arrependimento consiste -na contricção, na confissão e na absolvição, e que a mais importante -das tres coisas é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr -verdadeira, sincera, seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão -e a absolvição. Assim, para Luthero, a coisa essencial é o facto -intimo, espiritual, da dôr produzida pelo sentimento do peccado; -a manifestação do pezar é uma coisa boa, mas para o que -Deus olha é para o estado espiritual, e não para a exteriorisação -d’esse estado.</p> - -<p class="tb"><b>As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.</b>—Luthero, -nas suas theses e no seu sermão, declarou que os factos -intimos, espirituaes, experimentados pelo homem, eram de -um infinito valor, comparados com a expressão d’esses factos -mediante formulas esteriotypadas que a Egreja reconhecia; e -tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne -assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter -directamente com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo -isto, fez muito mais do que atacar as indulgencias; protestou -contra as mais enraizadas noções da Egreja medieval.</p> - -<p>A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos -desde o dia de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição -homens e mulheres, cheios de confiança em Christo, se -teem dirigido humildemente a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes -concedido esse perdão que solicitavam, e a sua simples experiencia -christã foi cantada nos grandiosos e velhos hymnos -da egreja medieval; encontrou expressão nas orações da Egreja; -constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja, e agitou as -multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como quer -que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos -não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia -era opposta ao maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja -accumulava de tal fórma as coisas exteriores, que a vida espiritual -ficou sepultada debaixo d’ellas, e na linguagem corrente -da epoca havia-se mudado a verdadeira significação dos termos -«espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem era «espiritual»<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span> -quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o dinheiro -tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio, -com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual», -ou «santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade.</p> - -<p>E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos, -com a sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes, -e tão cega tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o -homem, proclamando que ninguem se podia chegar a Deus senão -por meio d’ella, e que Deus não poderia jámais fallar ao coração -do homem senão egualmente por seu intermedio. A confissão dos -peccados tinha de ser feita ao padre, e o perdão era concedido -mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra tudo isto -n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não sabia. -A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade -de se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos -peccados comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus -eram coisas que desappareciam mediante o desembolso de uma -certa quantia. Ao dar saida á sua indignação, referia-se apenas -ao sacrilegio que via deante de si; e, comtudo, atacou, não simplesmente -a peior parte de um systema mau, mas o systema -todo. A Reforma tinha começado.</p> - -<p class="tb"><b>A historia de Luthero, desde o principio.</b>—O homem que se -oppoz a Tetzel tinha, apoz um longo e encarniçado combate, -chegado ao conhecimento do que o perdão dos peccados significa -realmente. Recorrera a todos os meios que a Egreja poz ao dispôr -dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles lhe proporcionara -conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e achou a -paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão -de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado -com as armas pontificias, e lavrou o seu protesto em -nome de todos aquelles que, em todos os seculos da egreja, sentindo-se -vergados ao peso do peccado, tinham encontrado em -Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle torna isto -bem evidente, como vamos ver.</p> - -<p>Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. -«Sou camponez, e filho de camponez», costumava elle dizer. -O pae era mineiro, e a mãe uma camponeza com fama de -muita austeridade. Teve uma infancia muito pouco risonha, e, -apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus caracteristicos, -notava-se-lhe de quando em quando um certo ar -triste que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros -annos da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um -homem. Como todos os homens de trabalho, tinha em desprezo -os indolentes frades, e toda a sua idéa era que o filho fosse advogado; -queria que elle se formasse em direito, conhecesse todas -as engrenagens da lei, d’esse terrivel tyranno do camponez allemão, -que o tratava como a um servo, quasi como a um proscripto.<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span> -Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld, de Magdeburgo, -de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle tempo, -bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que -não experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas -vezes, forçoso cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu -o primeiro lampejo da caridade humana, quando Frau Cotta, -attraida pela triste solidão em que elle vivia e pela sua melodiosa -voz, o introduziu em sua casa e lhe fez todo o bem que poude. -De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade, onde não -tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além -da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio. -Leu as grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima -de tudo, leu e tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos -do bravo franciscano inglez Guilherme de Occam, que resistiu -denodadamente aos papas no seculo quatorze, e que ensinou -Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero chamava-lhe -com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503 -recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se -notado pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia. -Estava, pois, no caminho da posição em que o pae desejava -vêl-o: a de um grande jurisconsulto.</p> - -<p>Durante todo esse tempo, comtudo, a sua consciencia não -tinha estado ociosa; os seus peccados atormentavam-n’o; a ira -de Deus tinha caido pesadamente sobre elle. O amor de Deus -era uma coisa que para elle não existia. O pae terrestre tinha-o -tratado sempre com severidade, com dureza, e no Pae celestial -via apenas um senhor que exigia d’elle esta e aquella coisa. No -dia 17 de Julho de 1505, tendo elle 21 annos, os seus sentimentos -religiosos poderam mais do que elle; entrou para o convento dos -agostinhos de Erfurt, fugindo á sociedade de parentes e amigos, -e desprezando todas as honrarias humanas. O seu Platão e o seu -Virgilio, de que se fez acompanhar, ficaram sendo as unicas recordações -da sua vida passada.</p> - -<p>No convento poz-se a trabalhar para achar o caminho da -salvação. Leu obras theologicas, jejuou, orou, submetteu-se a -toda a sorte de privações, mas nunca logrou encontrar a paz. -Não tardou em adquirir uma Biblia <i>completa</i>, coisa para elle inteiramente -nova, e poz-se a estudal-a com todo o afan; o terror -do peccado estava, porém, sobre elle, e não lhe deixava ver o -Evangelho. Foi ter com o vigario geral da ordem, Staupitz, que -era um homem muito fervoroso, e este encaminhou-o para Agostinho -e para os mysticos allemães, em que encontrou um grande -auxilio. Aquelle mostrou-lhe o que era o peccado, e o que era a -graça soberana; e estes convenceram-n’o de que a verdadeira -religião era a religião do coração. No emtanto continuava a faltar-lhe -a paz.</p> - -<p>No meio d’este conflicto, foi-lhe confiado um encargo especial. -Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, e o mais eminente<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span> -dos principes allemães, fundou uma nova universidade -em Wittenberg, e pediu a Staupitz que indicasse os respectivos -lentes. Luthero foi então nomeado professor de philosophia, e -começou logo a fazer prelecções. Em 1512 doutorou-se em theologia -biblica, versando as suas conferencias sobre os Psalmos e -as Epistolas de S. Paulo aos Romanos e aos Galatas. Como estudo, -leu os Mysticos, os <i>Sermões</i> de Teulez, e aquelle pequeno -mas importante livro, <i>A Theologia Allemã</i>. Chegou, porém, a crise -da sua vida. Em 1511 foi enviado a Roma para tratar de negocios. -Á ida era um theologo medieval; á volta era um protestante; -á ida cria na justificação pelas obras, á volta cria na justificação -pela fé.</p> - -<p>Roma era, havia muitos seculos, um amontoado de corrupção -moral, e Luthero descobriu isso immediatamente. Entrou -n’aquella cidade como um judeu entraria em Jerusalem. Elle -proprio nos conta que ao avistal-a caiu de joelhos e exclamou: -«Eu te saudo, cidade santa, tres vezes santificada pelo sangue -dos martyres que se tem derramado em ti». Viu que os monges -e padres eram homens maus, que faziam zombaria dos serviços -religiosos em que tomavam parte. Viu que havia no povo muita -deslealdade e cubiça, e que até o papa pouco melhor era do que -um pagão. Luthero havia-se dirigido a Roma com a idéa de achar -na cidade santa, como elle lhe chamava lá na Allemanha, algum -meio seguro de promover a sua salvação, e, caso estranho, foi o -proprio Christo que elle achou. Foi em Roma, no meio da corrupção -e da blasphemia, que de subito se compenetrou de que não -havia outro meio de salvação senão procurar Christo e entregar -tudo ao cuidado d’Elle; de que o perdão é gratuitamente concedido -por Deus e dá principio á vida christã, em vez de ser -penosamente ganho no fim della.</p> - -<p>Ao regressar a Wittenberg, era outro homem. Era já afamado -como prégador; mas depois da sua visita a Roma prégava -como nenhum outro poderia prégar. Tornou-se a primeira figura -da universidade, e tinha como amigos Staupitz, o seu geral, e -Frederico, o seu principe. Foi então que appareceram as famosas -indulgencias.</p> - -<p class="tb"><b>Partidarios e adversarios de Luthero.</b>—Ao principio parecia -que toda a Allemanha estava ao lado de Luthero. O trafico das -indulgencias tinha sido tão escandaloso que as pessoas de bons -sentimentos e todos os patriotas allemães se sentiam indignados. -O golpe, porém, que Luthero vibrara ás indulgencias havia -attingido outros pontos, e não tardaram a levantar-se antagonistas. -Conrado Wimpina em Frankfort, Hogstraten em Colonia, -Silvestre Prierias em Roma, e, acima de todos, João Eck, um -seu antigo condiscipulo, em Ingolstadt, todos elles atacaram as -theses, e descobriram heresias nas mesmas.</p> - -<p>Resultou de ahi que Luthero foi citado a comparecer, em<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span> -Roma, na presença do papa; mas o eleitor da Saxonia conseguiu -uma modificação, recebendo, por fim, Luthero ordem para partir -para Augsburgo, a fim de ser interrogado pelo cardeal Caetano, -legado do papa na dieta allemã. O papa queria evitar uma -desintelligencia com o eleitor da Saxonia, e recommendou a Caetano -que se mostrasse conciliativo. Luthero foi, mas a entrevista -não teve bom exito. O cardeal começou por reprehender Luthero, -mas acabou por se sentir dominado por um certo mêdo d’elle. -«Não posso discutir mais com este animal», disse elle; «tem um -olhar maligno, e povoam-lhe o cerebro uns pensamentos estupendos». -Luthero, por seu lado, dizia abertamente que o legado -era tão competente para julgar de assumptos espirituaes como -um burro para tocar harpa.</p> - -<p>Ao deixar Augsburgo, levava sobre si a condemnação, mas -havia appellado para o proprio papa, rogando-lhe que se informasse -melhor do seu caso. O papa não queria indispôr-se com a -Allemanha, porque a parte mais importante da nação parecia -estar a favor de Luthero, e enviou o cardeal Miltitz a promover -a paz. Este não chamou o moço frade á sua presença, mas teve -com elle uma conversação amigavel em casa de Spalatin, o capellão -do eleitor. Antes d’esta entrevista Luthero havia appellado -para um concilio geral. O cardeal Miltitz declarou estar em -desaccordo com Tetzel, reprovou as indulgencias, e concordou -com muitas das asserções de Luthero; mas lembrou-lhe que -não tinha sido bastante respeitoso para com o papa, e que estava -enfraquecendo o poder e a auctoridade da egreja. O seu -argumento era, em summa, o seguinte: «O senhor pode ter razão; -mas para que ha de ser rude? Escreva ao papa, e peça-lhe -desculpa». Luthero prometteu fazel-o, e entre elle e Miltitz ficou -estabelecido um convenio, que, como elle depois referiu ao eleitor, -continha duas clausulas:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre -as materias em controversia.</p> - -<p>2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios, -e o papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão -de theologos illustrados.</p> - -</div> - -<p>No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente -que a auctoridade da egreja era superior a tudo, -e que a coisa alguma, quer na terra quer no céu, se devia dar a -prioridade, com excepção de Jesus Christo, que tudo governa. -Isto foi em Março de 1519.</p> - -<p class="tb"><b>A disputa de Leipzig.</b>—Luthero tinha promettido conservar-se -quieto se os seus adversarios se conservassem quietos—era -este o seu ajuste com o cardeal Miltitz; os seus inimigos, -porém, não se conservaram quietos, e Luthero considerou-se livre<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span> -para os atacar. O indiscreto amigo da egreja era João Eck. -Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero, para uma discussão publica, -e no entretanto publicou treze theses que atacavam as noventa -e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente, e a -polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra -entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia -attingiu um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica, -mas, sim, a opposição de duas series de principios em -conflicto, affectando todo o circulo da vida ecclesiastica. Aqui, -pela primeira vez, a christandade allemã desprendeu-se da christandade -romana, insistindo no sacerdocio de todos os crentes e -no direito de cada christão julgar em todas as coisas segundo a -sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu -Santo Espirito.</p> - -<p>Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias, -mas o debate em breve mudou para a auctoridade da -Egreja romana e do papa. Eck mantinha a suprema auctoridade -do bispo de Roma, como successor de S. Pedro e Vigario geral -de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja romana sobre -as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho -da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos -mais santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou -uma grande contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou -Eck. «A egreja grega tem existido sem papa, e vós sois o primeiro -a negar-lhe o nome de Egreja» respondeu Luthero. «Athanasio, -Basilio e os dois Gregorios estavam fóra da egreja? O -papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do papa». -«Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram -condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de -Huss eram erroneas» disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões -dos concilios, eu recuso discutir comvosco», disse Eck, e -por aqui se ficou. Immediatamente depois, porém, Luthero completou -e publicou a sua argumentação. Declara, pela primeira -vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa, mas -o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o -papa se mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos -servos de Deus», elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a -egreja é a communhão dos fieis—é constituida pelos verdadeiros -crentes, pelos eleitos. Á egreja nunca falta o Espirito Santo, -e aos papas e concilios falta muitas vezes. Esta egreja, que tem -sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto, um leigo que -possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de credito -do que um papa ou um concilio que o não faça.</p> - -<p>Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados. -De um lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião -que Luthero devia ser violentamente posto fóra de combate, -e insistiram n’uma bulla papal que o condemnasse; e do outro, -Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha chegado com a<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span> -sua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia agostiniana, -com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade -moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus, -feria, em todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade -media: mostrava que era impossivel a qualquer homem o ter -uma vida perfeitamente pura e santa, e, por consequencia, não -podia haver santos, e o culto dado aos santos era um absurdo; -tornava inuteis as reliquias e as peregrinações, assim como a -vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações. Todas -estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira -vida religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver -mediador entre Deus e os homens, com excepção de Jesus -Christo, a mediação do papa para nada servia.</p> - -<p>A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia -separado de Roma, e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso, -chegando o seu enthusiasmo a um ponto extremo. O povo das -cidades manifestou a sua sympathia pelo arrojado frade. Ulrico -von Hutten e os outros homens de letras viram n’elle, desde então, -o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros cavalleiros -livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os pobres -e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que -elle os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam. -Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo -allemão. Isto teve logar em 1519.</p> - -<p class="tb"><b>A bulla do papa e a queima da mesma.</b>—Eck e os demais -adversarios de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia -pôr em pratica para reduzir ao silencio o audacioso monge, e -instaram com o papa para que publicasse uma bulla condemnando -as suas opiniões. Luthero, por seu lado, não estava ocioso. -Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua habitual -actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao -povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre, -e, comtudo, mandava todos os annos uma consideravel quantia -de dinheiro para Roma.</p> - -<p>N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico, -tendo Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em -bispados, e o clero era muito rico. Possuia extensos dominios, -que arrendava; tinha tambem direito aos dizimos (a decima -parte) de todas as outras propriedades; além d’isso, fazia dinheiro -com os baptismos, com os casamentos, com as absolvições, -com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros, -e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se -tambem tornado muito opulentas, sendo a sua maior riqueza -constituida por terras que lhes haviam sido doadas ou legadas -em testamento por pessoas devotas. Em quasi todos os paizes -da Europa se haviam promulgado leis com o fim de impedir ou -limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão inefficazes<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span> -que ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras de -quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam -continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os -annos para Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram -recolhidas pelo papa, que demorava sempre a nomeação de outro -bispo. O papa diligenciava frequentemente que os bispos ou abbades -fossem italianos, pois que estes ficavam residindo em Roma, -e o dinheiro era-lhes remettido para lá. Quando um novo bispo -era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento do primeiro -anno (<i>os annatas</i>). Todo este dinheiro que era exportado para -Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero -ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias. -Luthero, no seu opusculo <i>Á nobreza da nação allemã</i> tornava tudo -isto saliente, e perguntava por quanto tempo se estaria disposto -a tolerar similhante coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista -dos dois estados distinctos, um espiritual, incluindo o -papa, os bispos, os padres, os frades e as freiras, e o outro temporal, -constituido por todas as outras individualidades, era um -muro levantado pelos romanistas para defenderem as oppressões -da egreja. Dizia-lhes, outrosim, que <i>todos</i> os christãos são espirituaes, -e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E -perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que -do seu depauperado paiz fossem enviados annualmente para -Roma 300.000 florins.</p> - -<p>Escreveu tambem outro tratado, <i>O captiveiro babylonico da -egreja de Christo</i>, para mostrar que elle não desejava destruir -mas purificar a verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito. -Luthero opinava que o papa e os romanistas tinham conduzido -a egreja a um captiveiro, muito comparavel ao dos judeus -em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O Senhor disse por occasião -da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus discipulos, «Bebei -d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes d’elle se -não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros christãos -tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E -concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo -preparadas bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida -uma retractação, sob pena de ser proclamado hereje. Se é verdade, -desejo que este livrinho fique constituindo uma parte da -minha futura retractação».</p> - -<p>Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos -da Allemanha, e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu, -por fim, em 15 de Julho de 1520. Accusava Luthero de sustentar -as opiniões de Huss, e condemnava-o. Eck levou-a para Leipzig -em Outubro. Foi affixada em varias cidades allemãs, e em geral -os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou, por fim, ás -mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto, -em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim -annunciou em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro,<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span> -á frente de um cortejo de professores e estudantes, Luthero -saiu da universidade e dirigiu-se para o mercado. Um dos -lentes accendeu a fogueira, e Luthero lançou a bulla ás chammas. -Estava consummada a affronta. Foi tambem queimado um -exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali em -deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma. -A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um -enorme regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só -o imperador é que tinha poder agora para reprimir Luthero.</p> - -<p class="tb"><b>O imperador e a Reforma.</b>—O imperador era, por esse tempo, -Carlos V. Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado -na Allemanha, nem era tão poderoso como o seu titulo indicava. -N’aquelles dias ainda predominavam as idéas medievaes de governo, -e Carlos V tinha resolvido restabelecer o velho poder imperial -com todos os seus attributos.</p> - -<p>No principio da edade media os homens colhiam as suas -idéas de governo do velho imperio romano—não do imperio pagão -de Augusto Cesar e dos seus successores, mas do imperio -christão de Constantino e de aquelles que vieram apoz elle. Posto -que aquelle velho imperio tivesse sido destruido pelas invasões -das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das conquistas -ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram -o governo e as leis da nação que haviam derrubado.</p> - -<p>Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem -social eram coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse -concentrado n’um foco e identificado n’uma só pessoa—o -monarca universal; e quando todo o governo ecclesiastico e -communhão religiosa não obedecessem, da mesma fórma, ao arbitrio -de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca -universal era o imperador, que dominava <i>circa civilia</i> como vigario, -ou representante, de Deus; e o sacerdote universal era o -papa, que dominava <i>circa sacra</i>, como vigario, ou representante, -de Deus. Um dominava nos corpos, o outro dominava nas almas, -dos homens; e o dominio de ambos era universal. Um tinha o -poderio da espada, e o outro tinha o poderio das chaves. Este -sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade, até então; -mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma, -estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador -e o papa.</p> - -<p>No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão, -concebeu o plano de, mediante um elaborado systema de -enlaces matrimoniaes, restituir ao imperio a sua primitiva grandeza. -Tinha tres filhas. A mais velha casou com o rei de Portugal, -o que daria logar a que este paiz e Hespanha ficassem constituindo -um só reino. A segunda casou com Filippe de Austria, -chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor da Borgonha -e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIII<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span> -de Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira -do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e -de Borgonha. Do terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos -casou com sua prima Isabel, e ficou, portanto, reinando em Hespanha, -Austria, Borgonha e Paizes Baixos. E mais tarde foi tambem -imperador e rei de Italia.</p> - -<p>Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha -havido outro durante muitos seculos; e a sua ambição era -ver-se investido da mesma auctoridade que tinham tido Carlos -Magno e Otto I. Tinha os olhos constantemente fitos no passado; -e lá no seu intimo arquitectava a maneira de restabelecer na -Europa aquella unidade politica que desapparecera quando começaram -a organizar-se as nações modernas. Esta velha unidade, -porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem uma -egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para -com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era -por elle considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador, -o seu imperio não estava muito firme. Era poderoso, não -por ser imperador, mas por ter sob o seu dominio a Hespanha, -a Borgonha, e a Austria; as luctas intestinas de que a Allemanha -era theatro, e as muitas questões que surgiam, a que era necessario -dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe algum tanto -o poder.</p> - -<p class="tb"><b>O estado politico da Allemanha.</b>—A Allemanha, no tempo da -Reforma, não tinha uma unidade politica. Estava nominalmente -unida sob o imperio, e era governada pela Dieta; mas o poder, -tanto do imperador como da Dieta, era, praticamente, fraquissimo. -O imperio era electivo, e desde o anno de 1356 a eleição -havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres na região -do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da -Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na -do Rheno eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de -Mayença, Trier e Köln. As successivas concessões que os principes -obtinham á custa das eleições iam diminuindo o poder imperial.</p> - -<p>Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande -conselho do imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: -I Seis principes eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres -clerigos (não entrava o rei da Bohemia); II Os principes, ou -gran-barões, seculares e ecclesiasticos; III Os representantes -das cidades livres, que eram as que gozavam de privilegios -concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi tantos -principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha -na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado -como instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. -A Dieta, comtudo, tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava -tão dividida que cada um dos principes independentes podia fazer<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span> -o que muito bem quizesse. As cidades, formando ligas entre -si, podiam offerecer uma certa resistencia á tyrannia dos principes; -mas os aldeãos, incapazes de similhante combinação, eram -acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes e pelos -barões.</p> - -<p>A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco -de invejar. Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando -as suas terras, mas os senhores feudaes foram, pouco a -pouco, cerceando-lhes direitos, chegando ao ponto de lhes prohibirem -a entrada nos baldios, de não lhes permitir que se abastecessem -de lenha, que pescassem nos rios, etc. Não tinham a -quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A sua -unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente -de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem -com o feudalismo, de se tornarem proprietarios.</p> - -<p>O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, -deparou com muitas questões graves que estavam á espera -de solução; o povo estava ancioso por um governo central, as cidades -queriam que se pozesse termo ás constantes contendas -que havia entre os barões, os poderes, civil e ecclesiastico, accusavam-se -mutuamente, e, por ultimo, a questão de Luthero -continuava agitando os espiritos.</p> - -<p class="tb"><b>Luthero e a dieta de Worms.</b>—A Dieta foi aberta por Carlos V -em Janeiro de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar -com os principes reunidos em assembléa para que pozessem -termo ás heresias de Luthero, não sendo, na sua opinião, necessario -que este fosse ouvido. Os principes, porém, que tambem -tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que -era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem -o ouvir e sem elle estar presente. Por fim o imperador intimou -Luthero a apresentar-se, e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um -arauto foi, pois, procural-o da parte do seu imperial amo, e em -abril Luthero partiu para Worms. Ia resolvido a não se retractar, -posto que o animasse a convicção de não voltar com vida. -A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção de -fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de -Christo me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando -mesmo deante da morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, -se os meus inimigos me assassinarem, continúa tu, de todo o -coração te imploro, a ensinar e a dar testemunho da verdade». -Antes de deixar Wittenberg, havia preparado, de collaboração -com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se compunha -de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes -entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a -respectiva explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma -pagina apparecia Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra -o papa estendendo o pé para que lh’o beijassem; a Christo levando<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span> -a cruz contrapunha-se o papa levado em procissão pelas -ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo expulsando -os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo -junto de si um monte de dinheiro.</p> - -<p>Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando -lhe chegou aos ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia -lhe preparava uma emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria -de me pôr a caminho, ainda mesmo que houvesse uma chuva -de duques da Saxonia». E quando lhe disseram que o diabo se -havia de apoderar d’elle por qualquer fórma, replicou: «Não deixaria -de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá houvesse -tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve -o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes -multidões, ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, -por fim a Worms, e logo no dia immediato foi apresentado -á Dieta. O imperador tinha a seu lado o arquiduque de Austria, -seu irmão, e a assembléa compunha-se de seis eleitores, vinte e -oito duques, trinta prelados, e um grande numero de outras personagens -de menor cathegoria, ao todo uns duzentos principes. -Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de confessar -a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada -na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se -os havia escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum -tempo para reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte -e quatro horas, foi reconduzido á casa onde se hospedára.</p> - -<p>Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de -abrir caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o -animava e lhe recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o -velho general Frunsberg bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada -receies, fradinho!» Na vespera havia-se mostrado um tanto confuso, -havia denotado uma certa timidez, mas n’aquelle segundo -dia estava de posse da sua coragem habitual. O chanceller do -arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do imperador. -«Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a -retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos -seus livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação -até dos proprios adversarios, e que não se podia esperar -d’elle uma retractação no tocante a essas coisas; havia -tambem protestado contra manifestos abusos, e seria, decerto, -um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião affirmasse ser -falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era verdadeiro; -n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava -os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, -era possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, -estando, portanto, prompto a desdizer qualquer asseveração -cuja injustiça lhe fosse provada. «Esse vosso arrazoado é inopportuno», -replicou Eck; «o que o imperador quer é uma resposta -definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes contra<span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span> -a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio -de Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. -«Vou dar-vol-a, pois. (<i>Vou dar uma resposta sem pontas nem -dentes, diz o original</i>). Não me retracto de coisa alguma, a não ser -que me convençam pela Escriptura ou por meio de argumentos -irrefutaveis. É claro como a luz do dia que tanto papas como -concilios teem algumas vezes errado. A minha consciencia tem -de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra a consciencia -é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero retractar-me. -Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei -chegou a crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, -realmente, que um concilio é susceptivel de errar?», perguntou -elle, por fim. «Affirmo», retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei -sempre. Assim Deus me ajude. Amen». Aquella sua firmeza -tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam que o -imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á -morte, sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que -elle, ao mesmo tempo que combatia pela consciencia, combatia -tambem pela Allemanha, pozeram-se do seu lado. Conseguiram -que o imperador addiasse a sentença, e instaram depois com -Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos -os seus esforços.</p> - -<p>Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo -tomar o partido de Luthero e da Allemanha, para não quebrar -relações com o papa, não desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, -faltando assim á sua palavra. Ordenou, pois, a Luthero -que se retirasse, mas fez publicar um edicto, condemnando -os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio sob o anathema -do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio -era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante -ninguem podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o -em sua casa: quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe -a mão e entregal-o aos guardas do imperador, que ficavam com -plenos poderes para o matarem. Tudo isto, porém, só podia ter logar -depois de expirado o prazo que o salvo-conducto mencionava.</p> - -<p class="tb"><b>Luthero em Wartburgo.</b>—Os amigos de Luthero foram de -parecer que, depois do edicto de Worms, a vida d’elle corria -perigo, até mesmo em Wittenberg; e o eleitor da Saxonia encarregou -uns tantos soldados de o irem esperar ao caminho, -apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de Wartburgo, -que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se, -sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos -sabia, ao principio, onde elle se encontrava. Emquanto esteve -em Wartburgo, submetteu-se a uma vida de isolamento, e para -maior precaução deixou crescer a barba, vestiu-se de cavalleiro, -e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez mezes -n’aquelle seu esconderijo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span></p> - -<p>Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a -traducção da Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu -tornar conhecido dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon -mandava-lhe de Wittenberg todos os livros de que elle necessitava. -Começou com o Novo Testamento, e traduziu-o quasi -todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento teve o -que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto -de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez -por semana em casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo -auxilio nas passagens difficeis.</p> - -<p>Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da -Biblia um livro para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella -phrases finas, phrases palacianas; desejava tornal-a um livro -que fosse comprehendido por todos, homens, mulheres e creanças, -e dedicou a esse trabalho todo o seu talento e actividade. -Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que se -vê o grande numero de emendas por que muitas das orações -passaram, chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. -«Estamos trabalhando com todas as nossas forças», escreveu -elle em certa occasião, «para que os prophetas fallem na nossa -lingua. Que grande e difficil tarefa é esta, de fazer com que os -escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles offerecem -uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por -uma lingua barbara».</p> - -<p>A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de -quasi se poder dizer que não existia a lingua allemã. O allemão -antes do tempo de Luthero, assim como o inglez antes do tempo -de Chaucer, era um aggregado de dialectos; e, de facto, a Biblia -de Luthero é que fez a lingua allemã, pois que tem servido desde -então como que de modelo, e o seu estylo tem sido imitado por -todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto, tornando-se -gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz, e a -linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de -separação que passou depois por toda a Allemanha.</p> - -<p class="tb"><b>Regresso de Luthero a Wittenberg.</b>—Emquanto Luthero esteve -em Wartburgo, andaram os seus amigos prégando o Evangelho -por toda a Allemanha, sem soffrerem o minimo incommodo, e os -seus livros eram lidos por toda a parte. Dir-se-hia que toda a -Allemanha se tornava protestante, a despeito do edicto do imperador. -Havia de todos os lados um grande movimento a favor -das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria. -Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento -religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, -a cabeça e querem que as coisas caminhem muitissimo depressa -ou vão até demasiadamente longe; foi o que succedeu -na Allemanha.</p> - -<p>Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span> -Erzgebirge, ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada -Zwickau. Os habitantes d’essa cidade acceitaram a Reforma. -Entre elles havia um tecelão, Claus Storch, homem excitavel, -que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e que reuniu -em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de muito -pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres -nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; -a Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. -Metteram-se a limpar a sua terra de todos os indicios da -antiga religião—as ornamentações das egrejas, os altares, as -cruzes, o clero, etc.—e deram logar a alguns tumultos, levantando-se, -por fim, contra elles os seus conterraneos, que os pozeram -fóra.</p> - -<p>Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram -as suas idéas ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, -que eram ali os dirigentes espirituaes na ausencia de -Luthero. Carlstadt adoptou por completo o seu modo de pensar, -Melanchthon deixou-se persuadir até a um certo ponto, e a agitação -começou a lavrar entre as massas populares. As imagens -foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt -prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; -a Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.</p> - -<p>Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão -de Wartburgo, e resolveu sair de aquella especie de sequestração -em que se encontrava. Correu a Wittenberg, e o povo -tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se familiarisara, trovejando -do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a falta de caridade. -Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por fim -triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, -e o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum -com os excessos de Storch, e do seu companheiro Münzer.</p> - -<p>Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma -coisa boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as -ceremonias do catholicismo romano, que foram substituidas por -um serviço religioso mais em conformidade com as Escripturas.</p> - -<p class="tb"><b>A Dieta de Nürnberg.</b>—O anathema do imperio ainda estava -sobre Luthero, pois que não havia sido revogado; mas ninguem -pensava em o pôr em execução. Luthero prégava, escrevia, e editava -os seus trabalhos, sem que pessoa alguma na Allemanha o -tivesse na conta de um proscripto. Ainda mais, alguns dos principes -allemães eram de parecer que o edicto de Worms devia -ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha, -deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros -conheciam bem o estado da Allemanha e os sentimentos do povo, -e não se sentiam inclinados a desposar a causa do papa.</p> - -<p>Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span> -1522 e 1524, o nuncio do papa viu que os principes allemães não -eram de modo algum favoraveis á sua proposta para que Luthero -soffresse a pena de morte. Em vez de discutirem esse ponto, -apresentaram differentes reclamações, insistindo muito com o -nuncio para que chamasse para ellas a attenção do papa; e muitas -d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os -quaes se baseou a condemnação de Luthero.</p> - -<p>Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os -principes allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era -necessario nomear uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos -abusos fossem abolidos e se esclarecessem certos pontos duvidosos -de doutrina que tinham surgido, annunciando, ao mesmo -tempo, que toda essa questão de differenças religiosas havia de -ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se em Spira. Toda -a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero; e alguns -estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam -abertamente quaes as reformas por que a religião devia -passar. Pediam a abolição dos cinco falsos sacramentos, da -missa, do culto dos santos e da supremacia pontificia. A Reforma -havia-se espalhado tambem para além da Allemanha, e já em 1524 -havia discipulos de Luthero em França, na Dinamarca e nos Paizes -Baixos.</p> - -<p class="tb"><b>A revolta dos nobres</b> foi o primeiro dos grandes revezes que o -movimento da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero -tinham-se espalhado sem obstaculo de maior pela Allemanha -e pelo estrangeiro. De toda a parte se protestava contra os -cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a confissão auricular, -o culto dos santos e das reliquias, o celibato do clero, a negação -do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação episcopal -e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era -uma fórma de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, -e uma fórma de governo que tornasse manifesto o sacerdocio -espiritual de todos os crentes. A Dieta tinha repetidamente, -na sua lista de aggravos, chamado a attenção do papa -para os abusos que se observavam na egreja, e propoz, por fim, -que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias -reformas.</p> - -<p>Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava -de ser reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes -era cada vez mais insustentavel; os principes, mais poderosos -do que elles, supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes -viviam, pela maior parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se -em segredo para uma revolução. Tanto de um lado -como do outro contava-se com a Reforma como com um poderoso -auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto a inutilidade -dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a -necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span> -d’este estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas -assim o entenderam, e, porque assim o entendessem, -entraram no caminho da revolta.</p> - -<p>A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo, -probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram -n’ella estavam, realmente, luctando contra a orientação da epoca -e contra a corrente da historia. Viam todo o territorio allemão -caindo nas mãos de meia duzia de familias principescas, e -todo o povo das cidades enriquecendo por meio do commercio -e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam que a Allemanha -não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem -elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam -voltar aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam -outra auctoridade que não fosse a do imperador. -Tinham por cabecilha Francisco von Sickingen, homem muito -notavel, de grande valor militar, e a quem se não podia negar -um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os principes -aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder -dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.</p> - -<p>O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com -a Reforma, mas muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar -com a Reforma por causa do seu odio aos nobres revoltados. -Sickingen tinha de muitos modos tentado fazer com -que parecesse que a causa que defendia era a causa da liberdade -religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms, -Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e -a dieta. Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados -de perseguição depois da dieta de Worms, Sickingen -prometteu proteger todos aquelles que se acolhessem a elle; e, -ao levantar o estandarte da revolta contra os principes, declarou -que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer as novas -doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos principes -apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de -terem ajudado e instigado esta guerra civil.</p> - -<p>De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção -de Ratisbonna, ou Regensburgo, que era uma confederação, ou -liga, dos principes catholicos romanos contra a Reforma; e assim -a Allemanha, que até ali se tinha mantido n’uma união propicia ás -reformas, dividiu-se em duas partes, o que tornou o trabalho muito -mais difficil. Os confederados de Regensburgo diligenciaram chegar -a accordo com o partido papista de Roma. O papa prometteu -que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria aquella grande -drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam -escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados -comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de -reforma, oppondo-se tenazmente a qualquer modificação de culto -ou de doutrina. A Baviera, a Austria e as grandes provincias -ecclesiasticas do sul da Allemanha iam pôr-se ao lado de Roma<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span> -na lucta que estava imminente. A Convenção de Regensburgo -veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios -horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.</p> - -<p class="tb"><b>A revolta dos camponezes</b> teve consequencias mais serias. -Não fez sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima -reformação; deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, -por fim, de opinião a muitos respeitos. O movimento rural não -tinha por objecto a Reforma; a sua origem foi a miseria profunda -em que a gente do campo vivia. O soffrimento d’essa -gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto que a -morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo -quinze que de quando em quando se levantava uma sedição de -camponezes n’um ou n’outro ponto da Europa, e todas essas -revoltas haviam sido suffocadas, sem que fossem concedidas as -almejadas reformas, de modo que as causas da rebellião continuavam -ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que as -terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam -eram as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam -em harmonia com o valor do terreno. Além das rendas, -eram tambem obrigados a prestar aos proprietarios certos serviços -de que não recebiam remuneração alguma; esses serviços -variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o senhorio -tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser -preciso metter a mão á bolsa.</p> - -<p>A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes -prohibido, sob pena de um severo castigo, o entregarem-se -ao exercicio da caça ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos -bosques, era-lhes vedada uma grande parte dos baldios, e de -todos os modos se viam embaraçados no seu trabalho e na sua -actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da propriedade -tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos -qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma -vacca, uma ovelha, ou até a propria cama.</p> - -<p>A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava -os dizimos: uma decima parte da colheita, que era chamada o -grande dizimo; e uma decima parte do producto dos animaes, -que era chamada o pequeno dizimo. Tinham de ser pagos depois -de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se ter pago a -renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a decima -parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco -ficava para o pobre camponez e sua familia.</p> - -<p>Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, -pode-se supportar as maiores agruras da vida, quando -ha a certeza de que se não corre o risco de peiorar, e de que justiça -será feita quando aquelles que occupam posições superiores -quizerem tirar partido da pobreza e fraqueza dos seus similhantes. -O camponez allemão, porém, não tinha essa certeza. O velho<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span> -codigo romano havia substituido gradualmente a legislação allemã, -e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não -eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, -para amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, -e quando as leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha -viu-se logo que o camponez ficava, pouco mais ou menos, -na condição de escravo.</p> - -<p>Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, -não ousavam recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o -seu amo entendia que deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito -algum; o proprietario podia tornar-lhes mais pesados os -trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em summa, exigir -d’elles o que quizesse.</p> - -<p>N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido -transportadas para a Europa enormes riquezas. A America, a -terra da prata e do oiro, tinha sido descoberta, e o commercio -augmentara consideravelmente. Estas riquezas tinham sido ganhas -por mercadores e negociantes aventureiros, e a classe -commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada -e luxuosamente.</p> - -<p>Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura -ao pé dos negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem -o mesmo fausto, e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres -camponezes, cujo viver era cada vez mais miseravel, ao -passo que a gente das cidades se rodeiava de commodidades -que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem augmentados -os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos -os impostos.</p> - -<p>Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito -antes do tempo de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no -Main e no Rheno os camponezes levantaram-se contra os seus -tyrannos, e as associações secretas organizadas durante essas -insurreições continuaram permanecendo até muito depois d’ellas -haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas associações -era a de Bundschuh, isto é, a <i>do sapato atado</i>. A liga de -Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a -de todo; e durante a agitação produzida pela estada -de Luthero em Worms, quando todos os allemães receiavam pela -vida do seu reformador, a sinistra palavra Bundschuh appareceu -escripta a giz pelas paredes.</p> - -<p>A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora -das anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas, -e podemos affirmar que os seus promotores contavam com -que o Evangelho prégado por Luthero lhes proporcionasse um -bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de Claus Storch, que -havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau, mettera-se -a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua -inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta.<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span> -A Bundschuh reapparecera em Würtemberg, devido á cruel -oppressão do duque Ulrico. Em 1524 os camponios do Rheno -ergueram o estandarte da revolta, e a chamma propagou-se em -todas as direcções.</p> - -<p>Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por -meio das armas. Se os camponezes tivessem começado por -uma acção violenta, teriam, talvez, sido mais bem succedidos. -A sua idéa era convocar grandes comicios onde fossem expostas -as suas reclamações, pois julgavam que por esse meio viriam -a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas das -listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais -importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram -por dizer que só pediam aquillo que os principios do Evangelho -os auctorizavam a pedir, e que não desejavam entrar em -lucta, porque o Evangelho os mandava viver em paz e amor. -Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos, e -vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo -com o ensino da Palavra de Deus:</p> - -<p>1. A congregação deve ter poder para eleger o seu ministro, -e para o demittir no caso do seu procedimento ser censuravel; -e o ministro deve prégar o Evangelho puro, sem lhe accrescentar -mais nada.</p> - -<p>2. Promettem pagar o dizimo do trigo para a sustentação dos -ministros, comtanto que o que ficar, depois de pagos os respectivos -estipendios, seja applicado no soccorro dos pobres; mas recusam -pagar o pequeno dizimo, isto é, o dos porcos, dos ovos, etc., -porque, dizem elles, Deus creou os animaes para uso do homem.</p> - -<p>3. A servidão deve ser abolida. A Escriptura declara que os -homens são livres.</p> - -<p>4 Deve haver inteira liberdade para caçar e para pescar, -pois que Deus creou as aves e os peixes para uso de todos.</p> - -<p>5. As florestas que não pertençam a alguem por direito de -compra devem ser restituidas á communa, ou municipio; e todos -os habitantes devem ter liberdade para cortar madeira -de que necessitarem para combustivel ou para trabalhos de -carpinteria, devendo haver guardas, pagos pela communa, que -impeçam qualquer acto de vandalismo.</p> - -<p>6. Os serviços obrigatorios devem ficar restrictos ao que -era permittido pelos antigos costumes.</p> - -<p>7. Tudo o mais que se fizer deve ser condignamente pago.</p> - -<p>8. As rendas estão muito elevadas; as terras devem ser avaliadas -de novo, e pagar-se pelo seu aluguer uma quantia razoavel.</p> - -<p>9. A lei deve determinar as penas que correspondem aos -diversos crimes, ficando defezo a quem quer que seja a applicação -de um castigo arbitrario.</p> - -<p>10. Os campos de pastagem e outros baldios de que os proprietarios -se teem apoderado devem ser restituidos ao logradouro -publico.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span></p> - -<p>11. Deve ser abolido o direito de morte (A faculdade que tem -o senhorio de levar qualquer objecto da casa do rendeiro -fallecido).</p> - -<p>12. Todas estas proposições devem passar pelo cadinho da -Escriptura, e serão retiradas as que fôrem susceptiveis de refutação.</p> - -<p>Estes artigos eram, quasi todos elles, assaz equitativos, e -estão agora incluidos na legislação allemã. Se as reivindicações -dos camponezes fossem recebidas como elles esperavam, e como -tinham direito a esperar, ter-se-hia chegado a um accordo. Os -seus adversarios fingiram que se interessavam por ellas, para -ganharem tempo; e os camponezes, por fim, vendo-se atraiçoados, -pegaram em armas.</p> - -<p>Recorreram a Luthero. Elle era filho de camponez; tinha -conhecido a necessidade. E Luthero, respondendo ao appello que -lhe fizeram, intercedeu por elles, dirigindo-se d’este modo aos -proprietarios: «Posso agora fazer causa commum com os camponezes, -porque vós attribuis esta insurreição ao Evangelho e -ao meu ensino, quando a verdade é que nunca cessei de intimar -obediencia á auctoridade, mesmo quando ella seja tão tyrannica -e tão intoleravel como a vossa. Não quero, porém, envenenar a -ferida; e, portanto, meus senhores, quer me sejaes benevolos -quer me sejaes hostis, não desprezeis os conselhos de um pobre -homem como eu, e não tenhaes em pouca conta esta sedição; -não quero dizer com isto que temaes os insurgentes, mas -que temaes a Deus, que está irritado contra vós. Elle póde punir-vos, -e converter todas as pedras em camponezas, sem que -nem as vossas couraças nem todo o poder de que dispondes vos -possam livrar. Ponde, pois, limites ás vossas exacções, deixae de -exercer uma deshumana tyrannia, e passae a tratar essa gente -com bondade, para que Deus não incendeie toda a Allemanha -com um fogo que ninguem será capaz de extinguir. O que n’esta -occasião, porventura, perderdes, ser-vos-ha centuplicado mediante -a paz futura.</p> - -<p>«Ha tanta equidade n’alguns dos doze artigos dos camponezes, -que constituem uma deshonra para vós deante de Deus -e do mundo; cobrem os principes de vergonha, como diz o -Psalmo 108. Tinha outras coisas ainda mais graves a dizer-vos, -com respeito ao governo da Allemanha, e já me referi a vós no -meu livro dedicado á nobreza allemã. Não vos importastes, porém, -com as minhas palavras, e agora chovem sobre vós todas -estas reclamações. Não deveis desattender o seu pedido de auctorização -para escolherem pastores que lhes preguem o Evangelho; -compete sómente ao governo o obstar a que sejam prégadas -a insurreição e a rebellião; mas deve haver perfeita liberdade -para prégar tanto o verdadeiro como o falso Evangelho. -Os restantes artigos, que tratam do estado social do camponez, -são egualmente justos. Os governos não se estabelecem para<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span> -seu proprio interesse, nem para tornarem o povo subserviente -aos caprichos e ás más paixões, mas para zelarem o interesse -do povo. As vossas exacções são intoleraveis; arrancaes -ao camponez o fructo do seu trabalho para poderdes sustentar -o vosso luxo e os vossos prazeres. E é tudo quanto vos tinha -a dizer.</p> - -<p>«Agora, com respeito a vós, meus queridos amigos camponezes. -Quereis que vos seja garantida a livre prégação do -Evangelho. Deus ha de defender a vossa causa, se procederdes -sempre com justiça e rectidão. Se o fizerdes, haveis de triumphar -por fim. Aquelles de entre vós que succumbirem na lucta -serão salvos. Se, porém, o vosso modo de proceder fôr outro, não -podereis salvar nem a alma nem o corpo, ainda mesmo que sejaes -bem succedidos e derroteis os principes e os senhores. Não -acrediteis nos falsos prophetas que se teem introduzido no meio -de vós, ainda mesmo que elles invoquem o santo nome do Evangelho. -Pode ser que elles me chamem hypocrita, mas isso pouco -se me dá. O que eu quero é salvar os que entre vós fôrem fieis -e honrados. Temo a Deus e a ninguem mais. Temei-o vós tambem, -e não useis o Seu nome em vão, para que Elle vos não -castigue. Não diz a Palavra de Deus: «Aquelle que lançar mão -da espada á espada morrerá,» e «Todos se submettam aos poderes -superiores?» Não deveis fazer justiça por vossas proprias -mãos; seria isso obedecer a um outro dictame da lei natural. Não -vêdes que vos fica mal a rebellião? O governo tira-vos parte do -que vos pertence, mas destruindo os principios estabelecidos -tiraes aos outros tudo o que lhes pertence. Christo, no Gethsemane, -reprehendeu S. Pedro por se ter servido da espada, ainda -que em defeza do seu Mestre; e quando já estava pregado na -cruz orou pelos Seus perseguidores. E o Seu reino não tem -triumphado? Porque é que o Papa e o imperador me não teem -feito calar? Porque é que o Evangelho progride á proporção que -elles se esforçam para lhe pôrem obstaculos e para o destruir? -Porque eu nunca recorri á fôrça, prégando, antes, a obediencia, -até mesmo áquelles que me perseguem, fazendo depender exclusivamente -de Deus a minha defeza. Façaes o que fizerdes, -nunca tenteis cobrir a vossa empreza com o manto do Evangelho -e o nome de Christo. Será uma guerra de pagãos, a que, porventura, -vier a ter logar, porque os christãos fazem uso de outras -armas: o seu General soffreu a cruz, e o triumpho d’elles é a -humildade. Supplico-vos, queridos amigos, que vos detenhaes, e -que considereis antes de dardes outro passo. O que citastes da -Biblia não é applicavel ao vosso caso».</p> - -<p>E conclue assim: «Como vêdes, estaes procedendo mal, -tanto de um lado como do outro, e estaes attrahindo o castigo -divino sobre vós e sobre a Allemanha, vossa patria commum. O -meu conselho é que se escolham arbitros, sendo alguns nomeados -pela nobreza e outros pelas cidades. É preciso que ambos<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span> -os adversarios transijam n’alguma coisa: o negocio tem de ser -equitativamente liquidado por um tribunal.»</p> - -<p>O seu alvitre não foi acatado.</p> - -<p>Os camponezes romperam hostilidades, tornando impossivel -qualquer mediação. O proprio Luthero, logo que as coisas tomaram -este caminho, deixou de se interessar pelos revoltosos.</p> - -<p>Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes -uma verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta -mil o numero dos massacrados.</p> - -<p>Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma.</p> - -<p>Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha -acontecido, e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu -a influencia que tinha sobre as classes pobres, que se deixaram -dominar pela idéa de que Luthero as havia abandonado; -e entregaram-se com facilidade aos excessos anabaptistas, que -tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O proprio -Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem, -e repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas -foram um atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado -que a revolta dos camponezes e a falta de coragem que -Luthero mostrou n’essa occasião e depois d’ella tiveram por -effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos de Luthero e da -Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa.</p> - -<p>Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a -Allemanha o maior dos seus principes. Frederico o magnanimo, -eleitor da Saxonia, havia morrido.</p> - -<p>Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia -partido para a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes; -e os seus ultimos pensamentos foram para os maltratados -servos. «Nós, os principes, fazemos muitas coisas aos -pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco depois, -tendo sido sacramentado, falleceu.</p> - -<p class="tb"><b>As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.</b>—O imperador ainda não -havia voltado á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois -da Dieta de Worms. Estava em Hespanha, constantemente -occupado com a sua idéa de abater o poder da França. Em 1525 -esteve quasi a ver os seus planos coroados de bom exito. Deu-se -a batalha de Pavia, e Francisco I de França, desbaratado o seu -exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu rival. A -Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco -na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra -a Egreja se havia excitado na Allemanha; e os termos em que -essa obrigação estava formulada mostravam o quão attentamente -havia observado os progressos da Reforma e o quão empenhado -estava em subjugal-a. Deu ordem para que fossem postas -em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando assim -claramente a entender que não consentia que dentro do imperio<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span> -se propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa -sua intimativa propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta -que se reuniria em Spira.</p> - -<p>As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar -á Allemanha. O papa que dominava em Roma era Clemente VII, -da familia dos Medicis, e em toda esta questão zelou mais os -interesses do seu principado italiano do que os da egreja de que -era chefe. O papa não queria que Francisco e Carlos se reconciliassem. -Receiava que os pequenos estados italianos ficassem -prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas, -e por esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea. -O imperador ainda não tinha conseguido o descanço de que -necessitava para poder ir em seguida liquidar pessoalmente os -negocios da Allemanha. E assim o proprio papa estava n’aquella -occasião favorecendo a Reforma.</p> - -<p>Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se -logo bem manifesto que um grande numero d’elles não -desejava que Luthero e as suas doutrinas fossem banidos da -Allemanha; e a Dieta, de que se esperava a aniquilação da -Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este famoso edicto, -que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia de -tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia -de religião todos os estados se deviam comportar por tal -fórma que estivessem promptos a responder por si deante de -Deus e de sua Magestade Imperial. Assim ficou cada um dos -estados auctorizado a declarar que religião se professaria dentro -dos seus limites, e aquelle edicto foi como que uma predicção -da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a religião -official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem. -Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram, -segundo a lei imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a -egreja dentro dos seus dominios, e levar a effeito as necessarias -reformas.</p> - -<p>O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões -que entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer -tentativa de introduzir nas provincias evangelicas um systema -uniforme de governo da egreja e do culto; cada uma d’ellas -estabeleceu os seus regulamentos. O primeiro a estabelecel-os, -em conformidade com os verdadeiros principios da Reforma, -foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert -que lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica -para uso nos seus dominios. E estes artigos são interessantes, -porque reconhecem, até certo ponto, a auctoridade do povo -christão dentro da egreja; e confiam tambem a disciplina das -congregações a homens de seriedade, cujos deveres são parecidos -com os dos anciãos presbyteriannos.</p> - -<p>Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo -todas estas indicações do reconhecimento dos direitos do povo<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span> -christão, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a -Guerra dos Camponezes tinha-o predisposto contra a auctoridade -do povo. Era de opinião que o povo não tinha competencia -para governar a egreja, e escreveu a Filippe, mostrando-lhe os -inconvenientes de similhante plano de organização ecclesiastica.</p> - -<p>Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do -poder secular—dos principes quando se tratasse de principados, -e das camaras municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa -deu logar ao que se chama o systema <i>Consistorial</i> do governo -da Egreja—systema peculiar da Egreja Lutherana, e de que, -não obstante só mais tarde ter sido posto em pratica, cabe fazer -aqui uma descripção resumida.</p> - -<p>Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais -alta importancia o guardar-se a chamada <i>disciplina</i> da egreja. -Deus quer que todos os seus filhos tenham uma vida honesta, -uma vida decente, e é do dever da Egreja cuidar que todos os -seus membros procedam de uma maneira condigna com a sua -profissão de fé. Quando qualquer membro sae do bom caminho -deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer os castigos -que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser -excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na -edade media, os bispos responsaveis pela conducta dos membros -das egrejas que constituiam as suas respectivas dioceses; e, -como estas dioceses eram geralmente grandes, e os bispos não -podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia, encarregavam -d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e jurisconsultos. -Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios, -e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram -tambem encarregadas da execução de testamentos e doações, e -julgavam certos casos de calumnia e de maledicencia que os -tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os bispos, nos estados -evangelicos, foram expulsos, esses consistorios continuaram -gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que -era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação -dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite. -Passaram a chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação -ficou dependendo da suprema auctoridade civil, em cujo -nome governavam. Com o tempo foram introduzidas algumas -mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda assim -pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada -differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade -civil substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar -em toda a Allemanha depois da Dieta de 1526, nos estados que -abraçaram a Reforma.</p> - -<p>Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie -d’elles para serem cantados nas egrejas; escreveu um catecismo -para uso da infancia; e assim em toda a Allemanha, onde -quer que as doutrinas evangelicas prevalecessem, eram organizadas<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span> -egrejas, onde se rendia a Deus um culto simples mas sincero, -e tratava-se de instruir e catequizar a juventude. Ainda -não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo -sabia perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de -Luthero, Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam -de mão em mão.</p> - -<p>Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha -logar uma coisa que bastante contrariou o imperador: uma -alliança entre a França e os Estados Pontificios. Não esperava -que o papa o abandonasse, e menos esperava ainda que elle o -abandonasse na propria occasião em que elle se preparava para -submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu -punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado -por um grande numero de soldados allemães lutheranos, -sob o commando de aquelle general Frundsberg que em Worms -animou Luthero, e, levando á frente o condestavel de Bourbon, -esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo por onde quer -que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as suas -tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O -papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a -cidade foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram -maltratados e mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas, -e os rudes e mofadores allemães proclamaram papa a -Luthero. Os francezes não poderam prestar grande auxilio aos -seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o imperador e o -papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava, -para esmagar a heresia na Allemanha.</p> - -<p>Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal -para a Reforma. O edicto de Spira havia concedido tolerancia -aos lutheranos, mas tambem tornou evidente, de uma maneira -até então desconhecida, a separação entre os dois partidos. Isto -viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em Spira em -1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario -disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o -decreto de 1526, e que sustentava que o decreto de Worms estava -ainda em vigor e se lhe devia dar força. Pela primeira vez -pareceu que a maioria da Dieta estava disposta a obedecer á -ordem do imperador e a dar força ao edicto contra Luthero. O -decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em -execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não -se tivesse executado não se fizessem ulteriores innovações e -ninguem fosse impedido de celebrar missa.</p> - -<p>Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto -de Spira estava posto de parte, e a minoria evangelica -resolveu protestar contra a decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento -de que as questões religiosas só podiam ser decididas -pela consciencia, e que não deviam ser submettidas á Dieta -para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questões<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span> -que dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma -de cada um de nós, é nosso imperioso dever, segundo o preceito -divino, e por causa das nossas proprias consciencias, respeitar, -antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.» «Em questões que se -relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das nossas -almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de -nós mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel -a liberdade de consciencia, era assignado por João da Saxonia, -Jorge de Brandenburgo, Ernesto de Lüneburgo, Filippe de -Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos representantes das cidades -imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia, Lindau, Memmingen, -Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St. Gall, -Weissenburgo e Windsheim.</p> - -<p>Foi d’este protesto que se originou o termo <i>protestantes</i>.</p> - -<p class="tb"><b>O imperador pretende subjugar a Reforma.</b>—Este protesto tornou -ainda mais saliente, mais definida, a linha de separação -entre os principes reformados e os seus visinhos. Ficavam como -que marcados por ella aquelles a quem o imperador, para restabelecer -o imperio medieval, tinha de subjugar; e parecia agora -ter chegado uma occasião propicia para elle o fazer. Na verdade, -entre elle e a realização dos seus planos só existia -aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo a -França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam -sido derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento -de um imperio medieval. Os principes protestantes -reconheceram a gravidade da sua situação. Deveriam resistir -ao imperador, e, no caso affirmativo, conservar-se-hiam firmemente -unidos? Luthero, que tinha até então dirigido o movimento, -servia agora de obstaculo a uma acção collectiva. Elle, ao principio, -era contrario a toda e qualquer resistencia. Reprovava, -mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor -da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald, -e, quando esses delegados voltaram e deram noticia de que não -se tinha chegado a decidir coisa alguma, mostrou-se excessivamente -satisfeito. Se Filippe de Hesse não tivesse trabalhado -incessantemente para uma união e para um esforço collectivo, a -Reforma teria soffrido muito.</p> - -<p>A que se deve attribuir este procedimento de Luthero? Repugnava-lhe -a rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e -não acreditava que as batalhas do reino dos céus se podessem -vencer com as armas carnaes. Depois, tambem, havia n’elle -uma grande somma de quietismo, ou, por outra, de fatalismo, -em parte hereditario, e em parte devido á sua adhesão ás -idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse -tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte -d’esta obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha -sido proposto reunir todos os protestantes n’uma liga offensiva<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span> -e defensiva, e havia protestantes que não reconheciam em -Luthero o seu chefe religioso. Assim como havia uma reforma -allemã, havia tambem uma reforma suissa, com o seu particular -typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava, e que, -com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando -pelo sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella -decisão que o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela -raiz. Propoz uma conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse -na presença uns dos outros aquelles cujas idéas divergiam, -elles haviam de comprehender-se melhor, e acabariam, por consequencia, -todas as differenças. Com esse intuito, pois, promoveu -em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os primeiros -theologos da Allemanha e da Suissa.</p> - -<p class="tb"><b>A Conferencia de Marburgo.</b>—Pode-se imaginar o que seria -aquella reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante. -Zwinglio e Œcolampadius tinham vindo, com risco das -suas vidas, da Suissa; Bucer tinha vindo de Strasburgo; e Luthero -e Melanchthon tinham vindo de Wittenberg. Consultaram-se -sobre os grandes artigos da fé christã, e os allemães ficaram -convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente -evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se -encerravam todos os principaes pontos da verdade evangelica, -sem que alguem discordasse d’elles, e em seguida os theologos -passaram a tratar do quinquagessimo e ultimo, que se occupava -da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo ácerca do qual -os que desejavam uma união de todos os protestantes se mostravam -mais inquietos.</p> - -<p>Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado -a evitar mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse -qualquer asserção sobre pontos de doutrina que fosse -acceite pelos suissos; e muitos teem supposto, com bom fundamento, -que, se Calvino estivesse presente, e tivesse fallado -antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união. Luthero, -porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na -conta de irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das -anciedades dos principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido -a não ceder em coisa alguma.</p> - -<p class="tb"><b>A controversia entre Luthero e os suissos.</b>—O thema do debate -era este. Todos os reformadores, tanto allemães como suissos, -haviam rejeitado a doutrina catholica romana do sacramento -da Ceia do Senhor.</p> - -<p>Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento -em duas partes distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é -mais um sacrificio do que um sacramento. É a prolongação, -atravez do tempo, do sacrificio de Christo na cruz; o pão e o -vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e sangue de Christo, e<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span> -quando estes são saboreados pelo padre, no acto de comer e -beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na cruz. -D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos -vêem Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando -os tormentos por sua causa, na sua propria presença. Assim, -segundo esta theoria, não ha a distancia de longos seculos entre -o crente e os soffrimentos de Christo por sua causa. Christo -soffrendo e o crente prestando culto estão em face um do outro -durante um momento, mediante a missa.</p> - -<p>Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a -doutrina da missa por a considerarem idolatra e supersticiosa, e -ensinaram os christãos a retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro -sacrificio de Christo na cruz do Calvario por sua causa -e para resgate dos seus peccados. O debate entre os protestantes -é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos romanos -chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar.</p> - -<p>A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da -Eucaristia teem um ponto em commum; ambas affirmam que -o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo estão presentes -no pão e no vinho, de modo que estes elementos já não -são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o verdadeiro -sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre, -e porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração -e a ceremonia, operar o milagre de transformar o pão e o vinho -no verdadeiro corpo e sangue de Christo, com a Sua alma racional -e a Sua natureza divina; e que pode, outrosim, operar o milagre -de O trazer do céu e de O mostrar ao povo, a fim de ser adorado -e partilhado por todos. Ensinam, ainda, posto que esta parte do -seu ensino não seja sempre muito clara, que os beneficios de -Christo são communicados ao Seu povo quando este come o -pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida -a todos aquelles que participam, quer tenham quer -não tenham fé.</p> - -<p>Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram -acceitar pelo menos dois, e os dois principaes, pontos -d’esta doutrina catholica romana. Não quizeram crer que um -padre podesse operar o milagre que os catholicos romanos asseveram -que é operado; e foram tambem todos de opinião de -que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para -que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão -entre o sacramento e o que o administra, negaram que tenha -logar a operação de um milagre; e, ao descreverem o effeito nos -participantes, asseveraram que a fé era indispensavel.</p> - -<p>Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento -e do seu effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram. -Todos elles sustentaram que, ainda que Christo -esteja presente no sacramento, não foi trazido para ali mediante -um milagre operado por um padre, e que, ainda que<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span> -Christo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido espiritual, -mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento.</p> - -<p>Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas -mesmas idéas com respeito a estes dois importantes pontos, -e assim podessem escrever a primeira parte do artigo quinze -de tal maneira que podessem ambos acceitar cabalmente a asserção, -differiam no modo em que descreviam a entrada de -Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a -Sua presença e tirava o beneficio inherente.</p> - -<p>Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento -sob uma fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle, -eram apenas signaes da Sua presença, quasi da mesma maneira -como uma carta é o signal da pessoa ausente que a escreveu, e, -quando os christãos participam do sacramento, colhem um beneficio, -porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a memoria -e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e -soffreu sobre a cruz.</p> - -<p>Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma -coisa. Elle tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho -eram promessas, ou sellos, assim como signaes, e essa idéa podia -têl-o levado, como mais tarde aconteceu a Calvino, a encarar -a questão com maior clareza e simplicidade. No seu modo -de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira real, o genuino -corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse ácerca do -pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu sangue». -E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes, -fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media.</p> - -<p>Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer -distincções muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de -umas e outras palavras, ensinaram que a palavra <i>presença</i> significava -duas coisas differentes; um corpo estava presente n’uma -certa porção de espaço quando occupava essa porção de espaço -de tal fórma que nenhum outro corpo podesse estar lá ao -mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente quando -occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer -coisa. A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço -em que o corpo estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos, -como eram chamados, empregava esta segunda especie -de presença para descrever a presença do corpo de Christo -nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo -tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as -duas coisas, o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam, -ao mesmo tempo no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente, -o corpo de Christo estava, na Ceia do Senhor, no pão, -com o pão e sob a fórma de pão. Isto, porém, não explicava a presença -do corpo de Christo, nem como elle era transportado da -dextra de Deus para os elementos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span></p> - -<p>Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos -theologos medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser -Deus e homem, duas naturezas n’uma pessoa, todos os attributos -da natureza divina de Christo se tornavam tambem propriedades -da Sua natureza humana. Um dos attributos de Deus é a -omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da natureza -divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte. -Se o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos, -sobre a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre -algum. Luthero serviu-se d’esta ubiquidade do corpo de Christo -para explicar como, sem a intervenção do milagre, elle podia -estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho.</p> - -<p>Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude -especial n’este caso da presença de Christo—a Sua presença -no Sacramento—estando Elle, segundo a sua theoria, presente -em toda a parte, replicou que Deus tinha promettido, na Biblia, -abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e sangue de -Christo nos elementos do sacramento.</p> - -<p>E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença -de Christo no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente, -da transubstanciação e do milagre sacerdotal, mas introduzia, -em seu logar, inverosimeis idéas escolasticas. Podia, comtudo, -d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo estava realmente -presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso dava-lhe -grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para -discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um -pedaço de giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio -da sala as palavras <span class="smcap">Hoc est corpus meum</span> (Isto é o meu corpo).</p> - -<p>Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse -que o corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam -corporalmente presentes nos elementos, e accusava os seus -antagonistas de interpretarem mal a Escriptura quando se referiam -a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que Zwinglio contestou -que a palavra «é» nem sempre significa identidade de -substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira -verdadeira», «Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma -vinha ou uma porta no sentido litteral da palavra. Luthero não -se demoveu, e a conferencia terminou sem aquella unidade de -coração e de proposito que o pio e affectuoso Landgrave esperava -que resultasse d’ella.</p> - -<p class="tb"><b>A Dieta de Augsburgo.</b>—O imperador tinha sido victorioso -em toda a parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar -a Reforma, isto emquanto os protestantes, devido á obstinação -de Luthero, se encontravam divididos e desalentados. -O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao seu alcance para -conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa conseguiu -n’esse sentido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span></p> - -<p>O imperador entrou em Augsburgo com grande apparato, -e ao principio recebeu muito cordealmente os principes protestantes. -Luthero achava-se ausente da cidade. Considerou-se -que a sua presença daria logar a uma desnecessaria irritação, -e permaneceu, portanto, em Coburgo, onde facilmente poderia -ser consultado. Melanchthon ficou a substituil-o como conselheiro -theologico.</p> - -<p>Os chefes dos protestantes eram—João, eleitor da Saxonia, -denominado João o constante, em razão da sua fidelidade aos -principios evangelicos; Filippe o magnanimo, Landgrave de -Hesse; e o edoso Margrave de Brandenburgo, antepassado do -ultimo imperador da Allemanha. Estes principes foram recebidos -pelo imperador com muita affabilidade. Deprehender-se-hia -de tudo isto que se tinha iniciado na Allemanha uma era -de paz e concordia.</p> - -<p>Por detraz dos bastidores, porém, estava Fernando da -Austria, irmão do imperador, e cabeça do fanatico partido romanista, -com os seus conselheiros theologicos, protestando contra -o incitamento á herezia. Afim de o socegar, o imperador escreveu-lhe -o seguinte: «Entrarei em negocios, sem chegar a qualquer -conclusão: mas, ainda que isso aconteça, não ha motivo -para receios da tua parte: nunca te faltarão pretextos para castigar -os rebeldes, e has de sempre deparar com quem, com muito -gosto, se preste a servir de instrumento á tua vingança.» As suas -verdadeiras intenções depressa se tornaram manifestas.</p> - -<p>Os capellães dos principes protestantes celebravam o culto -publico segundo o rito evangelico: e o imperador deu ordem -para que tal se não continuasse a fazer. O Eleitor declarou: -«Assim que tiver a certeza de que o imperador tenciona suspender -a prégação do Evangelho, retiro-me para minha casa.» -Quando Carlos, n’uma conferencia particular, pediu aos principes -que impozessem silencio aos seus capellães, o velho Margrave -de Brandenburgo avançou alguns passos, levou as mãos ao pescoço, -e, inclinando-se, disse: «Era mais facil a minha cabeça -rolar aos pés de Vossa Magestade do que eu privar-me da Palavra -de Deus e negar o meu Senhor». Carlos mostrou-se surprehendido. -«Ninguem pensa em cortar cabeças, meu caro Margrave», -replicou elle. Comprehendia tão mal os seus subditos -protestantes que se encheu de ira quando elles recusaram incorporar-se -na procissão que teve logar por occasião da festa de -<i>Corpus Christi</i>. Seria condescender com a idolatria, seria prestar -adoração a uma particula de massa que a Egreja de Roma -dizia ter-se transformado na Divindade mediante um milagre -operado por um padre, e isso não podiam elles fazer. «Porque -não hão de agradar ao imperador? Porque não hão de mostrar -respeito ao cardeal?» exclamou Fernando. «Não podemos nem -queremos adorar senão a Deus» declararam elles. E assim foram -passando os dias.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p> - -<p>Entretanto os prégadores protestantes dirigiam todos os -dias a palavra a grandes concursos de gente na egreja dos -franciscanos, e expunham eloquentemente as doutrinas do -Evangelho. Carlos resolveu pôr um termo a este estado de -coisas, e fêl-o por meio de um accordo cujas vantagens ficaram -todas do lado dos catholicos romanos. Melanchthon, sempre -timido e amigo da paz, insistiu para que se fizessem algumas -concessões. Os prégadores protestantes sairam angustiados da -cidade, e Luthero, que observava de longe os acontecimentos, -convenceu-se de que Melanchthon, apezar das suas boas intenções, -estava traindo a causa.</p> - -<p>Quando se abriu a Dieta, o imperador quiz que os protestantes -expozessem as suas opiniões. Essa exigencia era esperada, -e assim Melanchthon tinha, com a collaboração de Luthero, -redigido uma Confissão de Fé, em que estavam mencionados, -com grande clareza de linguagem, os principaes artigos da sua -fé. Era esta a famosa <i>Confissão de Augsburgo</i> (<i>Confessio Augustana</i>), -o credo que tem sido acceite por todos os lutheranos, -embora entre elles tenha havido divergencias n’outros pontos. -Carlos queria que elle fosse lido em latim. «Não», respondeu -a isto João o Constante, «nós somos allemães, e estamos em -territorio allemão. Espero que vossa magestade nos permittirá -que fallemos na nossa lingua». E a Confissão foi lida em allemão, -não por um theologo, mas por uma outra pessoa que recebeu -dos principes esse encargo.</p> - -<p class="tb"><b>A Confissão de Augsburgo.</b>—A primeira parte d’esta nobre -confissão expõe, um por um, todos os principios evangelicos da -Reforma, e em particular os grandes principios da justificação -pela fé. Diz-se que, quando o chanceller do Eleitor, Christiano -Beyer, leu estas palavras «a fé, que não é o mero conhecimento -de um facto historico, mas aquillo que crê, não sómente na -historia, mas no effeito que essa historia produz sobre o espirito», -toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse -Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso: -a Palavra de Deus não está presa».</p> - -<p>Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava -os abusos da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto -as egrejas que ha entre nós não discordarem em artigo algum -de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja Catholica, e omittirem -apenas uns certos abusos, umas certas innovações, que -em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente -introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido -dos canones, rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne -prestar ouvidos clementes ás razões que o povo apresenta -para que não deva ser forçado, contra as suas consciencias, a -observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o -calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span> -como aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que -o celibato dos clerigos é uma transgressão do mandamento de -Deus: que a missa é «uma profanação do sacramento da Ceia -do Senhor»: que a distincção das comidas e as tradições «obscurecem -as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que -o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas -festas, ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos -são altamente perniciosos, e servem para desencaminhar -homens e mulheres, pois que «se deve servir a Deus segundo -os preceitos que Elle promulgou, e não segundo os que -os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril, -mas ministerial.</p> - -<p>A confissão continha tambem um pequeno artigo em que -vinha exposta a opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia -do Senhor, e isso compelliu os theologos suissos e os do sul da -Allemanha a apresentarem confissões separadas: mas a leitura -da confissão de Augsburgo, pelos principes, na Dieta produziu -um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os protestantes -adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos.</p> - -<p>O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia -destruir a Reforma, e não se achava preparado para esse recurso. -Lembrou-se então de promover umas conferencias que -fossem criando uma certa confusão entre os protestantes. Era -bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon, que n’essas -conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em -todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo, -soube do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth -(Coração pequeno): Segundo me parece, estaes fazendo -uma obra prodigiosa, qual a de reconciliar Luthero com o papa.... -Advirto-vos, porém, de que, se é vossa intenção metter n’um -sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho, Luthero, -tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas as -suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem -pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon. -«Antes morrer com Jesus Christo», exclamavam, «do que -alcançar, sem Elle, as boas graças do mundo inteiro». Os catholicos -romanos pediam, por fim, mais do que Melanchthon podia -conceder, e, com grande regozijo dos protestantes, as conferencias -cessaram.</p> - -<p class="tb"><b>A liga protestante de Schmalkald.</b>—Os principes sabiam que o -imperador queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua -resolução, e pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos -a coadjuvarem-n’o n’aquella obra. Formou-se uma liga -catholica. A resposta dos protestantes foi recusarem todos os -subsidios emquanto os negocios da Allemanha permanecessem -por liquidar.</p> - -<p>Os principes reuniram-se em Schmalkald, e formaram uma<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span> -liga protestante, de que Filippe de Hesse foi o membro mais -activo. Os estados catholicos romanos não desejavam entrar -n’uma guerra civil com os seus visinhos protestantes, e o imperador, -atacado pelos francezes e pelos turcos, viu-se na impossibilidade -de suffocar a revolta.</p> - -<p>O ultimo decreto da Dieta havia estabelecido um prazo, -que se estendia até á proxima primavera, durante o qual os -protestantes podiam fazer a sua submissão voluntaria, e accrescentava -que aquelles que não se submetessem durante esse -prazo seriam exterminados. Ao chegar, porém, a primavera, -reconheceu-se impotente para exterminar os protestantes. A -Liga de Schmalkald havia-se tornado a mais poderosa aggremiação -da Allemanha. Assim, em 1532, apoz prolongadas negociações, -firmou-se um tratado de paz entre Carlos e os principes -protestantes. A Paz de Nürnberg, como ficou sendo chamada, -permittia aos adherentes á Confissão de Augsburgo o persistirem -nas suas doutrinas, e concedia-lhes outros privilegios. -Em troca, os principes protestantes, e entre elles Filippe de -Hesse, offereceram-se, muito cordialmente, para auxiliar o imperador -nas suas campanhas contra os francezes, os turcos e os -piratas da Barbaria.</p> - -<p>A Liga de Schmalkald continuou de pé, e outros estados, -taes como o de Würtemberg, deram-lhe a sua adhesão. O imperador -não podia dissolvel-a, e, comtudo, ardia em desejos de -restabelecer na Allemanha a uniformidade religiosa. O exame -da sua correspondencia particular revelou a perplexidade em -que elle se encontrava. Tinha umas vezes a idéa da exterminação, -e outras a da conciliação. Um dos seus planos consistia -em promover na Allemanha um Concilio Geral da Egreja, sem -consultar nem o papa nem o rei de França.</p> - -<p>Em 1538, Held, o seu vice-chanceller, formou em Nürnberg -uma Liga Catholica, com o expresso designio de acabar com o -protestantismo pela força das armas. Em 1540-41, o imperador -diligenciou, por meio de conferencias que se realisaram em Hagenau -Worms, e Regensburgo, chegar a um certo entendimento -com os protestantes em materia de religião, e chegou a ser -proposta em Roma a reforma da Egreja. Foi, finalmente, publicado, -em 1541, um decreto da Dieta, estabelecendo que não -se podia prohibir, a quem quer que fosse, o adoptar a religião -protestante.</p> - -<p>D’estas victorias da Liga de Schmalkald resultou uma rapida -propagação do protestantismo. O Würtemberg, a Pomerania, -o Anhalt, o Mecklemburgo, e muitissimas cidades, tornaram-se -protestantes; os bispados de Magdeburgo, Halberstadt -e Naumberg deixaram de reconhecer a supremacia de Roma; e -duas provincias eleitoraes, o Brandenburgo e a Saxonia Albertina, -uniram-se á Liga. Os unicos estados que se conservaram -na opposição foram a Austria, a Baviera, o Palatinado e as provincias<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span> -ecclesiasticas do Rheno. Mas mesmo estas regiões começavam -a ser influenciadas. Na Austria a religião evangelica -ia ganhando terreno entre os proprietarios, os camponezes e os -habitantes das cidades. Os bavaros iam-se deixando invadir -rapidamente pelas novas idéas. Quanto ao Palatinado, a sua aggregação -á Liga de Schmalkald parecia ser apenas uma questão -de tempo.</p> - -<p>O imperador não podia ver com indifferença este rapido -progresso do protestantismo; contrariava-o immenso que os -seus dominios nos Paizes Baixos ficassem separados d’elle por -uma faixa de paizes protestantes; não queria ouvir fallar na -possibilidade de uma maioria protestante no Collegio Eleitoral, -e de um sucessor do imperio protestante. O procedimento do -arcebispo-eleitor de Colonia mostrou-lhe que não havia tempo -a perder. Hermann von Wied estava havia muito convencido -da necessidade de reformas na Egreja, e depois da paz de -Nürnberg, incitado por um grande numero de clerigos, e correspondendo -ao evidente desejo de muitas outras pessoas, animou -o ensino protestante na sua vasta diocese, e mostrou-se disposto -a converter aquella provincia arqui-episcopal n’um estado -secular protestante.</p> - -<p>A posição dos arcebispos e bispos da Allemanha era, nos dias -da Reforma, um tanto singular. Não eram simplesmente bispos, -mas tambem barões, e, como todos os outros grandes barões -sujeitos ao imperador na Allemanha, eram principes soberanos. -Os arcebispos de Kõln, Trier e Metz tinham sobre alguns territorios -um governo egual ao que João, o Constante, tinha sobre -a Saxonia eleitoral, e Filippe, o Magnanimo, sobre Hesse. Eram -as supremas auctoridades civicas, com os seus tribunaes, os -seus exercitos, os seus cobradores de impostos. O decreto de -1526 era-lhes tão applicavel como aos principes seculares. Podiam -fazer-se protestantes, dominar nos seus territorios, como -principes seculares, e declarar «que tomavam ante Deus e sua -magestade imperial a responsabilidade do seu modo de viver, -do seu systema de governo e das suas crenças».</p> - -<p>Alguns bispos do norte da Allemanha tinham-n’o feito já: -a opportunidade era de tentar: podiam, aproveitando-se d’este -decreto, libertar-se da obediencia a Roma, casar, e legar a seus -filhos o que possuiam. Carlos viu tambem o alcance de aquella -opportunidade, mas durante muito tempo foi-lhe impossivel intervir. -Todas as vezes que tentou pôr em pratica os seus planos -via-se contrariado, ou pelo papa, ou pelo rei de França, ou -pelos turcos. Quando lhe constou que parecia estar proxima a -conversão de Hermann von Wied, reconheceu-se impotente -para luctar com a Liga de Schmalkald. Por fim, em 1544, conseguiu -derrotar os francezes, com os quaes tratou, depois, da paz -em condições vantajosas para elles, impondo-lhes, porém, a clausula -de uma união dos dois exercitos para combater os protestantes.<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span> -Na Dieta de Spira, que se reuniu no mesmo anno, mostrou-se -contemporizador, propondo que se suspendessem hostilidades -até á convocação do Concilio Geral; isto ao passo que -por outro lado trabalhava para desviar da liga protestante o -maior numero de principes que lhe fosse possivel.</p> - -<p class="tb"><b>A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald.</b>—No entretanto -Luthero, que soffria havia bastante tempo de uma doença do -coração, morria em Eisleben, em 18 de fevereiro de 1546, perecendo -com elle aquella forte reluctancia dos protestantes em -tentarem a sorte das armas. Não estavam, porém, tão bem preparados -para a guerra como n’outro tempo. O bom exito que a -liga tivera ao principio fez com que elles confiassem demasiadamente -n’ella; além d’isso, surgiram rivalidades entre os estados -e as cidades, e entre os principes. Filippe de Hesse era o -unico chefe competente, mas tinha o defeito de ser um principe -de pouco elevada estirpe. Tinham ficado tambem muito prejudicados -com o facto de Mauricio ter succedido ao duque Jorge da -Saxonia, o grande inimigo de Luthero e da Reforma. Mauricio -era sobrinho do duque Jorge, havia sido educado no lutheranismo, -e desposou a primeira filha de Filippe de Hesse. -Por occasião de elle assumir a chefia, a Saxonia Albertina, como -era chamada, confirmou o seu lutheranismo, que durante a -vida do duque Jorge se havia propagado clandestinamente, e -que se havia tornado a religião reconhecida do paiz quando o -duque Henrique, pae de Mauricio, succedeu a seu irmão. Todas -estas coisas faziam com que os principes protestantes não podessem -prescindir do concurso de Mauricio, apezar do joven -não lhes inspirar muita confiança. De facto, Mauricio foi o primeiro -de aquelles principes allemães protestantes para quem a -Reforma era simplesmente uma arma politica de que lançassem -mão quando lhes fosse vantajosa. Mais tarde, durante a guerra -dos Trinta Annos, o seu numero augmentou consideravelmente, -graças ás interminaveis disputas dos theologos, que, interessados -apenas em que as suas insignificantes doutrinas ácerca da -<i>ubiquidade</i> e da <i>presença real</i> fossem correctamente definidas, -se mostravam quasi indifferentes perante a grande quantidade -de sangue derramado e o grande numero de lares desgraçados. -Nos primeiros tempos da Reforma, porém, os principes protestantes -eram homens sinceramente christãos e que não obedeciam -a fins interesseiros, não obstante a sua forçada camaradagem -com Mauricio.</p> - -<p>O imperador quiz aproveitar a opportunidade, e com esse -intuito fez algumas propostas a Mauricio. Este começou por -abandonar a liga. Era um bom protestante, disse elle, e estava -prompto a defender a religião, mas não queria ajuntar-se com -aquelles que se oppunham ao seu soberano. O imperador, cobrando -animo com esta declaração, deu os ultimos toques aos seus preparativos.<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span> -Antes, porém, de entrar em acção, proclamou que a -sua idéa não era combater a religião, mas, sim, castigar aquelles -que conspiravam contra a integridade do imperio.</p> - -<p>Não vamos agora narrar pormenorisadamente o que teve -logar em seguida. Devido á traição de Mauricio, á hesitação dos -outros, e á falta de mutua confiança entre os caudilhos da -liga, o imperador alcançou uma facil e, apparentemente, decisiva -victoria. A batalha de Mühlberg teve logar a 24 de abril de 1547, -e João Frederico, eleitor da Saxonia, ficou ferido e foi feito prisioneiro, -não tardando que Filippe de Hesse caisse egualmente -em poder dos inimigos.</p> - -<p>Toda a Allemanha se prostrou deante do imperador, que declarou -logo a sua intenção de restabelecer a unidade religiosa. -Ia redigir um documento denominado o <i>Interim de Augsburgo</i>, -especie de confissão de fé que os allemães seriam obrigados -a acceitar. Eram por meio d’elle reintegrados a hierarquia -e o culto catholicos romanos, com todas as suas festividades, -jejuns e ceremonias, sendo apenas tolerado o casamento dos -clerigos e a faculdade do povo commungar nas duas especies.</p> - -<p>O Interim era, por assim dizer, um plano de reformação, e -estava n’elle incluido, segundo a opinião de Carlos, tudo quanto -se devia conceder aos protestantes. Em parte alguma o acceitaram -de boa vontade. O imperador não o remetteu aos districtos -catholicos romanos, e em todos os protestantes encontrou -uma resistencia passiva. O proprio Mauricio hesitou em o proclamar -na Saxonia, publicando, em logar d’elle, o <i>Interim de -Leipzig</i>, que tendia a uma conciliação das ceremonias papistas -com as doutrinas protestantes.</p> - -<p>Em breve se tornou evidente que o codigo religioso do imperador -só encontrava submissão da parte do povo nos pontos -onde a presença das tropas hespanholas obrigava a essa submissão. -O imperador havia triumphado, o seu exercito saira victorioso, -parecia ter adquirido um dominio na Allemanha como -não succedera a nenhum outro soberano durante muitos seculos, -e, comtudo, lá no seu intimo, sentia-se derrotado, pois não -conseguira o fim principal que tinha em vista. A invisivel força -da consciencia, esse adversario com que elle não contara, estava -erguida contra elle, e havia de, por fim, inutilisar todos os seus -bem elaborados planos politicos.</p> - -<p class="tb"><b>O imperador e o Concilio Geral.</b>—Emquanto o imperador estivera -formando e pondo em pratica os seus projectos para a -conquista da Allemanha protestante, a côrte pontificia vira-se -forçada a convocar um Concilio Geral. Este concilio reuniu-se -em Trent, no Tyrol, e, emquanto o imperador andou mettido na -tarefa de subjugar os protestantes, esteve tomando deliberações -relativas á Egreja.</p> - -<p>Nos primeiros periodos da controversia a que a Reforma<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span> -deu origem, os reformadores appellavam constantemente para -um concilio livre, e os concilios foram sempre os instrumentos -favoritos do imperador para a liquidação das contendas. Os -papas, porém, procuravam, antes, evital-os. No seculo quinze, -os concilios geraes de Basiléa, Pisa e Constancia foram os meios -de que os ecclesiasticos e principes se serviram para investir -contra o poder da côrte de Roma. Um concilio geral era um -ponto de reunião para todos aquelles que eram adversos ao -christianismo papal; e a um politico como Carlos <span class="smcapuc">V</span> affigurava-se -ser um excellente meio de engrandecer o imperador e humilhar -o papa. Anteriormente á Reforma, os concilios geraes eram -olhados com muito respeito. Cria-se que o Espirito Santo fallava -mediante esses concilios, e muitos theologos medievaes, que -negavam a infallibilidade do papa, sustentavam que um concilio -não era susceptivel de errar.</p> - -<p>Nos primeiros seculos da Egreja christã, um concilio geral, -ou ecumenico, significava simplesmente uma assembléa que se -podia com justiça dizer que representava a Egreja no seu conjuncto, -de modo que as suas decisões podiam ser chamadas as -opiniões de todos os christãos. N’esses remotos tempos os -bispos eram eleitos pelo clero e pelo povo, e eram, portanto, -representantes das regiões de onde tinham vindo, e assim um -concilio em que todos os bispos christãos estivessem presentes -achava-se realmente no caso de fallar em nome de todo o povo -christão. Mesmo nas epocas mais puras da egreja primitiva, -concilio algum se realisou a que concorressem todos os bispos, -e que fosse, por conseguinte, realmente ecumenico e representativo -de todos os christãos. No decurso da Edade Media a -Egreja perdeu inteiramente o seu antigo caracter popular, ou -democratico, e os bispos não podiam ser chamados, n’um sentido -rigoroso, os representantes do povo; eram, muitas vezes, -apenas os delegados do papa, e iam aos concilios para votar o -que elle houvesse dictado.</p> - -<p>Estas e outras considerações tinham feito com que os protestantes -respeitassem menos os concilios, e mostraram ao imperador -que um concilio, para ser util, devia estar quanto possivel -fóra da influencia do papa. Os allemães tinham pedido que -se convocasse um concilio livre na Allemanha, e o imperador -tinha tambem ultimamente pedido o mesmo; o papa, por outro -lado, queria que o concilio se realisasse em Italia, onde elle poderia -mais facilmente ter mão nas suas deliberações e decisões. -Depois de muitas negociações entre o papa e o imperador, resolveu-se -afinal que o concilio se reunisse, não em Italia, onde -o papa poderia ter demasiado poder sobre elle, nem na Allemanha, -onde o imperador e os principes poderiam impôr a sua auctoridade, -mas em Trent, no Tyrol, n’um ponto equidistante -da Allemanha e da Italia.</p> - -<p>O imperador esperava grandes coisas d’este concilio. Sabia<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span> -que havia na egreja romana muitos homens competentes que se -tinham preparado para grandes reformas, que ao proprio papa, -Paulo III, não eram indifferentes; não tinha, porém, contado com -a influencia de uma nova e poderosa organisação que estava -destinada a alcançar a sua primeira e grande victoria n’esse -mesmo concilio para cuja convocação elle havia trabalhado.</p> - -<p class="tb"><b>Loyola e os jesuitas.</b>—Ignacio Loyola, joven fidalgo hespanhol, -educado no meio da cavallaria de Hespanha, onde as prolongadas -guerras com os moiros tinham tornado a dedicação ao -papado um grande elemento de patriotismo, ficou com uma perna -esmigalhada no cerco de Pamplona. Duas dolorosas operações -tinham-n’o convencido, por fim, de que a sua carreira militar -tinha findado, e os seus pensamentos voltaram-se na direcção -de um novo mister. Votou que havia de ser um soldado da -Egreja.</p> - -<p>Nos accessos da febre produzidos pelo ferimento, tinha -phantasticas visões da Virgem; e, ao restabelecer-se, dedicou -a sua vida, com todo o ceremonial da cavallaria da Edade Media, -a Deus, á Virgem e á Egreja. Elle vivia alheiado da moderna -erudição. Não sabia nada de theologia. A sua religião era -medieval, e o seu sonho era ser, no seculo dezeseis, um novo -Francisco de Assis.</p> - -<p>É singular que este enthusiastico fidalgo hespanhol fosse -excitado pela mesma idéa que ditou a fria politica de Carlos V. -Ambos queriam renovar seculos que tinham desapparecido -para sempre; e, emquanto um estava planeando a restauração -do Imperio do primeiro periodo da Edade Media, o outro estava -regalando a mente com uma nova ordem de frades, cujos feitos -missionarios haviam de rivalisar com os dos antigos franciscanos. -O imperador foi mal recebido; o solitario fidalgo teve um -exito que excedeu quasi os seus sonhos. Apoz alguns annos de -estudo, de decepções, de demoras, obteve permissão do papa -para fundar a Companhia de Jesus.</p> - -<p>A nova ordem tinha apenas cinco annos de existencia -quando teve logar, em 1545, o concilio de Trento, mas já se havia -tornado famosa. Os seus sucessos como sociedade missionaria, -a sua devoção por Francisco Xavier, e o enthusiasmo de seus -membros, tudo contribuiu para a tornar formidavel. Lainez, um -dos primeiros discipulos de Loyola, e seu successor como cabeça -da companhia, cujo criterio deu á ordem o caracter que -lhe estava destinado, representou os seus companheiros no concilio -de Trento.</p> - -<p>A maxima da Sociedade era uma inexoravel suppressão da -heresia, e o seu unico principio era a obediencia á Ordem e ao -papa; e, n’essa conformidade, Lainez tratou activamente de -evitar que o concilio fizesse quaesquer concessões aos protestantes. -O seu modo de discursar, a sua subtileza e a sua tenacidade<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span> -deram-lhe grande influencia. Poude logo ao principio -levar de vencida os cardeaes Contarini e Pole, esses grandes -catholicos romanos liberaes, e conseguir que o concilio não -auctorizasse reformas doutrinaes.</p> - -<p>As victorias de Carlos na Allemanha ajudaram os jesuitas. -O papa não podia jámais pensar ou obrar simplesmente como -chefe da Egreja. Elle era uma potencia politica, e as razões de -estado influiram nas suas acções. N’esta conjunctura, os interesses -do principe italiano oppunham-se á existencia de uma -christandade una. O rei de França, Henrique II, chamou a attenção -para o facto de Carlos se tornar poderoso em demasia e de -ser provavel que assim continuasse se as concessões religiosas -estabelecessem a união na Allemanha. Quando Carlos venceu -a Liga protestante, e procurou obter de Roma concessões que -satisfizessem os subditos que havia submettido ao seu dominio, -o papa recusou auxilial-o, afastou de Trento o concilio, e installou-o -em Bolonha, na Italia, de modo que os planos do imperador -foram novamente contrariados pelo cabeça da egreja que elle -se empenhava por conservar catholica. Na sua ira, virou-se para -o papa e compelliu-o a dissolver o concilio. Este dispersou para -só se tornar a reunir quando toda e qualquer esperança de -reconciliar os protestantes tinha desapparecido, e d’esta vez -poude, sem a peia do protestantismo, consolidar a organização -externa de um dominio exclusivamente papal.</p> - -<p>O imperador não foi mais bem succedido na Allemanha. As -crueldades de que os principes que tinha feito prisioneiros foram -victimas, a infidelidade de que deu prova na perseguição dos -protestantes, a despeito de tudo quanto tinha feito proclamar, e -as extorsões commettidas pelas tropas hespanholas—tudo isto -contribuiu para tornar a Allemanha hostil, e não faltavam indicios -de que o paiz não supportaria por muito tempo a tyrannia -de Carlos. E a revolta teria rebentado mais cedo, se Mauricio, -o traidor, não fosse tão odiado, ou se tivessem confiança -n’elle.</p> - -<p>O imperador parecia não ter olhos para ver o que se estava -passando. Estava convencido de que Mauricio, a quem havia -nomeado eleitor, estava nas suas mãos, e de que sem elle, Mauricio, -a Allemanha não podia fazer coisa alguma. Entretanto, -os principes procuravam reunir-se de novo. Offereceram á -França uma parte do territorio allemão em troca do seu auxilio, -e por fim organisou-se uma confederação, em que entrava -Mauricio, e os principes trataram de guarnecer as fronteiras do -Tyrol, para que estas não fossem transpostas pelas tropas imperiaes. -Mauricio avançou impetuosamente e tomou de assalto -a fortaleza de Ehrenherg, que era a chave do Tyrol; e o imperador -para escapar teve de recorrer a uma fuga subita, e achou-se -em Steiermark, sem exercito, e expulso da Allemanha. Foi a -um tumulto que se levantou entre as tropas confederadas que<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span> -elle deveu não ser apanhado, pois que Mauricio fez todo o possivel -por agarrar «a velha raposa no covil», segundo a phrase -d’elle.</p> - -<p class="tb"><b>A paz religiosa de Augsburgo.</b>—Carlos V nunca se resarciu -d’este desastre. A Reforma tinha-o, por fim, vencido, e elle reconhecia -esse facto, sem, comtudo, o comprehender. Elle não -quiz entrar directamente em negociações com os principes victoriosos, -encarregando d’isso o seu irmão Fernando. Filippe de -Hesse e João Frederico da Saxonia foram postos em liberdade. -Filippe reentrou na posse dos seus dominios; a João foram tambem -restituidas algumas das suas propriedades, mas Mauricio -continuou no logar de eleitor. Os preliminares de uma paz permanente -foram vasados nos velhos moldes de Nürnberg, pelo -tratado de Passau, em 1552.</p> - -<p>Por fim, apoz longas negociações, saiu da Dieta de Augsburgo, -em 1555, uma paz religiosa, «a qual» dizia o decreto, «tem de -ser permanente, absoluta, e incondicional, e tem de durar para -sempre». Foi reconhecido aquelle principio que se estabeleceu -em 1526, isto é, que a suprema auctoridade civil de cada estado -tinha liberdade para escolher o respectivo credo, lutherano ou -catholico romano. Esta paz, por conseguinte, reconhecia o direito -das egrejas com separadas crenças existirem ao lado -umas das outras na Allemanha, tornando assim legal a existencia -da Reforma.</p> - -<p>O principio a que obedecia este regulamento, <i>cujus regio -ejus religio</i>, acarretava difficuldades que não podem ser aqui descriptas, -e foi, na verdade, uma das causas da guerra dos Trinta -Annos, que tão calamitosa foi para a Allemanha. Não concedia -liberdade de consciencia; não fazia provisão para qualquer outra -fórma de protestantismo além da lutherana; e todos aquelles -que não tinham adherido á confissão de Augsburgo estavam -ainda fóra da lei, juridicamente fallando.</p> - -<p>Aquelles que fizeram uso d’ella na Dieta tinham de modifical-a -de um ou de outro modo. Os protestantes viram que ella -auctorizava os principes catholicos romanos a perseguirem os -subditos que o não fossem; e os catholicos viram que ella permittia -aos principes ecclesiasticos secularizarem os seus estados. -Assim os protestantes obtiveram a inserção de uma clausula -que declarava que os subditos protestantes de principes -ecclesiasticos, que de ha muito tivessem adoptado a confissão -de Augsburgo, não seriam obrigados a abandonar as suas idéas -religiosas; e os catholicos obtiveram a inserção do que se ficou -chamando «a reserva ecclesiastica», que preceituava que, se -algum estado catholico romano se separasse de Roma, fosse -destituido de todas as prerogativas que as suas dioceses disfructavam.</p> - -<p>Com a paz de Augsburgo terminaram as luctas para o<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span> -reconhecimento da Reforma lutherana. A egreja protestante da -Allemanha, que adheriu á confissão de Augsburgo, tinha ainda -que sustentar um grande combate para se defender da contrareforma -catholica romana, das intrigas jesuiticas, e da força das -armas durante a guerra dos Trinta Annos. Conservou a sua -integridade, mas foi só o que fez. A paz de Augsburgo foi a -maré cheia da egreja lutherana.</p> - -<p>Na lucta que teve logar depois, foi a mais moderna e mais -perseverante fórma do protestantismo que arrostou com os impetos -do ataque, e que se tornou digna de receber os despojos -da conquista. O lutheranismo reteve a sua integridade, consolidou -as suas organizações ecclesiasticas, e aperfeiçoou a sua -theologia; mas, como vigoroso movimento reformador, a sua -historia terminou com a paz de Augsburgo.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p> - -<h3 id="I_CAPITULO_II">CAPITULO II<br /> -<span class="smaller">A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>O lutheranismo fóra da Allemanha, <a href="#Page_49">pag. 49</a>.—Na Dinamarca, <a href="#Page_50">pag. 50</a>.—Na -Suecia, <a href="#Page_51">pag. 51</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>O lutheranismo fóra da Allemanha.</b>—Durante os primeiros -annos da Reforma, a influencia de Luthero transpoz os limites -da Allemanha. A Universidade de Wittenberg attrahiu muitos -estudantes estrangeiros, os quaes, voltando para as suas terras, -propagaram, clandestina ou abertamente, as novas doutrinas.</p> - -<p>Aconteceu d’esse modo que os preliminares da Reforma -n’esses paizes, que depois se separaram de Roma e formaram -egrejas protestantes nacionaes, foram quasi inteiramente lutheranos. -Os primeiros reformadores e martyres dos Paizes Baixos -eram lutheranos, e os dogmas doutrinaes e ecclesiasticos de -Luthero foram durante muito tempo acatados na Hollanda.</p> - -<p>Os movimentos reformadores na Hungria, na Polonia, na -Bohemia e na Escocia foram iniciados por homens que se apresentavam -como discipulos de Luthero, e mesmo na Inglaterra -os principios lutheranos progrediram algum tanto. Em todos -esses paizes, porém, foi ganhando, por fim, terreno um outro -typo de doutrina protestante, o Calvinismo, e a Reforma lutherana -eclipsou-se.</p> - -<p>Unicamente dois paizes, a Dinamarca e a Suecia, com as -suas dependencias, adoptaram de um modo permanente a confissão -de Augsburgo e os principios lutheranos do governo da -egreja.</p> - -<p>A Reforma estava n’estes paizes, mais do que em qualquer -outra parte, identificada com a revolução politica, e foi executada -por governantes que se haviam compenetrado de que não -era possivel melhorar o estado das coisas emquanto não fosse -abatido o poder de que o clero romano dispunha. A historia da -Reforma n’esses paizes é a historia de uma revolução, e a moderna -vida politica da Dinamarca e da Suecia principia com a -reforma das suas egrejas.</p> - -<p>No principio do seculo dezeseis, a Dinamarca, a Suecia e<span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span> -a Noruega estavam sob a soberania de um rei que tinha a sua -residencia no primeiro d’estes paizes, e que tinha sobre os outros -dois um poder apenas nominal. Estes paizes estavam quasi -n’um estado de anarquia. Duas grandes aristocracias, a da nobreza -e a da egreja, dividiam entre si a riqueza e o poderio, -sendo cada um dos barões e cada um dos bispos um verdadeiro -despota para com aquelles que estavam debaixo da sua auctoridade. -A união das tres nações, effectuada no fim do seculo -quatorze, era puramente dynastica, e vista com muito maus -olhos pelo povo.</p> - -<p>Em 1513 subiu ao throno Christiano <span class="smcapuc">II</span>, cruel, voluvel e -nescio monarca, que grangeara em ambos os paizes a antipathia -de todas as classes. Um massacre de fidalgos suecos, que -teve logar em Stockolmo, em circumstancias as mais revoltantes, -exgotou a paciencia do povo, e a Dinamarca e a Suecia levantaram-se -contra o tyranno. A revolução foi bem succedida; -Christianno II foi derrubado do throno, e as duas nações ficaram -de ahi em deante independentes uma da outra.</p> - -<p class="tb"><b>Na Dinamarca.</b>—Os dinamarquezes offereceram a corôa a -Frederico I, duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente -lutherano, e chefe d’um estado que já tinha acceite a Reforma. -Acceitou-a, e por occasião da sua coroação o clero obrigou-o a -declarar por escripto que não introduziria á força a religião reformada, -nem atacaria a egreja de Roma, nos seus novos dominios. -Frederico cumpriu essa obrigação segundo a letra, mas -não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu prégadores -e evangelistas lutheranos, e em particular a João -Jansen, frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg; -e a nova fé fez taes progressos que dentro em pouco quasi todos -os nobres da Jütlandia a tinham abraçado, e nas ilhas o -numero de adeptos era consideravel. Em fins de 1527 reuniu-se -em Odensee uma Dieta, expressamente para ser tratada a questão -religiosa, e ficou assente a tolerancia do lutheranismo. Durante -os annos que immediatamente se seguiram, as novas doutrinas -espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos -romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do -fallecimento de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e -a auctoridade dos bispos foi desapparecendo a pouco e pouco, -até se extinguir de todo. Os nobres haviam cooperado com o rei -na sua obra de demolir a aristocracia ecclesiastica, e as terras -que eram da egreja ficaram, na sua maioria, pertencendo ao rei.</p> - -<p>A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante. -O seu credo é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos -nunca adoptaram, na Dinamarca, a formula da concordata; -o seu catecismo é o de Luthero; e sua fórma de governo de -egreja, posto que admitta um episcopado, é consistorial. A constituição -vem exposta no <i>Ordinatio ecclesiastica regnorum Danicæ<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span> -et Norwegeæ</i>, de Bugenhagen. O rei possuia o <i>jus episcopale</i>, e -era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os patronos; -e a Egreja era governada por sete superintendentes com -o titulo de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o -catholicismo romano no seculo dezessete, a chamada guerra dos -Trinta Annos, a Dinamarca enviou aos protestantes da Allemanha -todo o auxilio de que o paiz podia dispôr.</p> - -<p class="tb"><b>Na Suecia.</b>—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo -Vasa, joven fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes -n’aquella carnificina, organisou a rebellião contra Christianno -II, e trabalhou muito para que ella tivesse bom exito. Em -1521 foi declarado regente do reino, e em 1523 foi, pela voz do -povo, chamado ao throno. Achou-se em presença de difficuldades -quasi invenciveis. Não tinha havido, praticamente, um governo -estabelecido na Suecia durante mais de um seculo, e cada -dono de terras era quasi um soberano independente. Dois terços -das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia -quasi inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda -a parte opprimidos; o commercio estava nas mãos da Dinamarca -ou da Liga Hanseatica; e não havia classe media. Os nobres -e os ecclesiasticos exigiam isenção de contribuições, e os -camponezes não podiam supportar novos encargos.</p> - -<p>N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para -as terras da egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica -com o auxilio da Reforma lutherana.</p> - -<p>Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um -homem religioso, perfeitamente compenetrado da verdade e do -poder das doutrinas evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma -obedecia tambem a outros motivos. Precisava de dinheiro para -as despezas publicas, queria proporcionar aos camponezes uma -situação mais desafogada, e ambicionava, acima de tudo, demolir -a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se arrogava direitos -que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder cautelosamente. -A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas, -nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que -o rei estava atacando os direitos da propriedade, e que lhes -chegaria a vez a elles, se consentissem que os bens da egreja -fossem arrebatados; e, quanto á aristocracia ecclesiastica, -essa dispunha de muita força.</p> - -<p>É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz -á frente do movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia -da Dinamarca, essa tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu -o apoio dos bispos suecos. Elle era um homem excommungado, -um homem a quem a egreja havia proscripto. Essa circumstancia -pôl-o em contacto com os prégadores lutheranos, que já -andavam pela Suecia.</p> - -<p>Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span> -em Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado -contra um certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado -no seu paiz, foram perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck, -onde Gustavo travou conhecimento com elles. Elles e um -outro lutherano sueco, Lourenço Andersen, arcediago de -Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei, e começaram -a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações, -contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf -Petersen, sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando -o Evangelho puro, «que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara -na Suecia setecentos annos antes.».</p> - -<p>Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta -o reformador desafiou-os para uma polemica, que elles não -acceitaram. O resultado d’isso foi uma rapida propagação das -doutrinas evangelicas. Gustavo poz Olaf Petersen como prégador -em Stockholmo, Lourenço Petersen foi leccionar para Upsala, -e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do reino. Promoveram-se -polemicas publicas, segundo o costume allemão, em -diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o -dr. Galle de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da -justificação pela fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio, -do celibato e do poder temporal do papa, o que foi assaz vantajoso -para a causa da Reforma.</p> - -<p>Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento -em sueco, e o povo, em cujas mãos o livro foi entregue, -poude então comparar o ensino dos prégadores e dos bispos com -o da palavra de Deus.</p> - -<p>A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se -sentir de uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas, -por duas Dietas, pesadas contribuições sobre as propriedades -da Egreja. O partido ecclesiastico, com os bispos á frente, -promoveu uma revolta, que foi suffocada, e Gustavo conheceu -que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus planos. -Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e -propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada -ao pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em -deante as receitas em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram -este alvitre; os clerigos declararam que só á força cederiam. -Vendo isto, Gustavo, apoz um eloquente discurso, abdicou. -Os diversos estados pozeram-se então em contenda uns -com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns dias, assentiu-se -na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei e -publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio -da historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras -coisas, que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e -cidadellas dos bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos; -e ficou egualmente reconhecida a existencia legal da -egreja lutherana.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p> - -<p>D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu -rapidamente, e dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião -official do paiz. Os bens da Egreja foram confiscados para -o Estado, deixando-se, porém, ficar o sufficiente para a sustentação -do culto. Conservou-se a fórma de governo episcopal, mas -ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do rei, como na -egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes -papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das -velas, mas tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen -foi o primeiro arcebispo protestante de Upsala, cargo -que começou a exercer em 1531. Dez annos depois, isto é, em -1541, ficou completa uma nova traducção da Biblia, feita pelos -irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz estava -inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição -ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em -1664, a Formula da Concordata.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p> - -<h2 id="II_PARTE">II PARTE<br /> -<span class="smaller">A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS</span></h2> - -<p class="center"><span class="smcap">Capitulos</span>:</p> - -<table summary="Capitulos"> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_I">I</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Reforma Suissa sob Zwinglio</span>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_II">II</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Reforma em Genebra, sob Calvino</span>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_III">III</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Reforma em França</span>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_IV">IV</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Reforma nos Paizes Baixos</span>.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_V">V</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Reforma na Escocia</span>.</td> - </tr> -</table> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p> - -<h3 id="II_CAPITULO_I">CAPITULO I<br /> -<span class="smaller">A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>As reformas suissa e allemã, <a href="#Page_57">pag. 57</a>.—A situação politica da Suissa, <a href="#Page_58">pag. 58</a>.—Ulrico -Zwinglio, <a href="#Page_60">pag. 60</a>.—As theses de Zwinglio, <a href="#Page_62">pag. 62</a>.—A Reforma -em Zurich, <a href="#Page_63">pag. 63</a>.—Basiléa, <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Berne, <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Os Cantões Florestaes, -<a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, <a href="#Page_65">pag. 65</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>As reformas suissa e allemã.</b>—A Reforma na Allemanha tem -geralmente chamado mais a attenção do que a revolta contra -Roma na Suissa. O conflicto com o imperador, que ella provocou, -o seu rapido alastramento, o numero de estados e reinos que -adheriram a ella, a parte que as universidades, onde estavam -matriculados muitos estudantes estrangeiros, tomaram no movimento, -tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha -adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa; -mas, se devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias -do que pelos seus principios, o movimento começado -na Suissa foi ainda mais importante do que o que teve Wittenberg -por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se reconhecendo -que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes dizia -respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja, -podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de -ahi veiu que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e -uma grande parte das da Allemanha receberam melhor as tradições -de Zwinglio e de Calvino do que as de Luthero e de -Melanchthon.</p> - -<p>Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos -da Reforma no sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se -ás tradições, tanto doutrinaes como de qualquer outro -genero, da egreja medieval, mesmo em assumptos que para algumas -pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob o ponto -de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se -devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que -se referem aos pequenos casos como aos de muita importancia. -Nem Zwinglio nem Calvino queriam adoptar a doutrina da <i>presença<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span> -real</i> pela razão de a egreja medieval a ter adoptado, e não -experimentaram aquella dificuldade que Luthero teve sempre -em fazer uma coisa de um modo differente de aquella em que -os seus antepassados a faziam.</p> - -<p>É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que -tivesse a mesma força, e que essa razão se deva procurar nas -idéas politicas e na educação do povo suisso. Na egreja medieval -os direitos dos christãos tinham desaparecido inteiramente. -Quando alguem fallava em egreja, referia-se ao papa, aos bispos, -aos abbades, aos frades, ás freiras e aos padres; não se referia -á grande corporação dos christãos piedosos, que constituiam, -realmente, a egreja de Deus.</p> - -<p>Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores -soubessem perfeitamente que a verdadeira egreja visivel -era constituida pelo povo piedoso que professava a fé em -Jesus Christo, não tinham podido dar uma expressão pratica a -esse sentimento, e o systema consistorial dos lutheranos collocava -os principes e as outras auctoridades civis no logar que -os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer -que o povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar -a essa egreja uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por -si propria, como os christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos -tinham feito. Pode-se quasi dizer que não trataram -de incutir na vida da egreja reformada as maximas de auto-governo -que inspiraram a communidade christã do Novo Testamento. -Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser -dirigida de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.</p> - -<p>Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente -que a egreja e o povo christão eram uma e a mesma coisa, e os -projectos de auto-governo, que, se não foram sempre bem succedidos, -eram, pelo menos, feitos com boa intenção, faziam parte -da Reforma proposta. Isto proveiu, indubitavelmente, de um -cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a vida popular dos -suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o sentido -do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar -pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da -livre e democratica vida suissa estava mais no caso de comprehender -a democracia espiritual do christianismo do Novo Testamento -do que aquella que principiou nas universidades e nas -côrtes dos principes allemães.</p> - -<p class="tb"><b>A situação politica da Suissa.</b>—A Suissa era, n’aquelle tempo, -um paiz como não havia outro na Europa. Estava tão dividido -como a Italia ou a Allemanha, e, comtudo, apresentava uma -união que ellas não apresentavam. Era uma confederação de estados, -ou cantões, cada um dos quaes era independente de -aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles uma -perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes,<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span> -ou, antes, «uma pequena republica de communas e -cidades do primitivo typo teutonico, em que o poder civil era -exercido pela communidade», cada uma d’ellas com um systema -governativo differente.</p> - -<p>Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios -no principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, -onde 1.300 suissos derrotaram 10.000 austriacos, teve -logar em 1315. Cerca de dois seculos mais tarde, os cantões -florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a que pouco -depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos -livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca -ao centro, e tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos -por um.»</p> - -<p>Os cantões florestaes eram communas independentes, e os -seus habitantes, todos elles proprietarios rusticos, residiam em -valles quasi inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que -se havia formado em redor de uma colonia ecclesiastica; Berne -a um antigo logarejo que se aninhava junto á base de um castello -senhorial; e assim por deante. Os cantões florestaes tinham -um governo simples, patriarcal; em Zurich os nobres tinham a -mesma consideração que os commerciantes e artistas, e a constituição -era perfeitamente democratica; Berne era uma republica -aristocratica; e assim successivamente; mas em todas -ellas o governo estava nas mãos do povo, e todos os homens -eram livres.</p> - -<p>Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, -durante umas poucas de gerações, nada que se parecesse com -uma administração episcopal. As suas communicações com o -pontificado eram effectuadas por meio de delegados, ou emissarios, -e obedeciam apenas a motivos politicos. O territorio estava -sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de Besançon; -mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum -exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões -suissos, e d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir -reformas na egreja.</p> - -<p>No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e -a convivencia com os paizes adjacentes foram mudando os velhos -e simples costumes do povo suisso. Na Edade Media era -crença geral que a força principal de um exercito estava na sua -cavallaria; mas as victorias que os suissos alcançaram sobre -as tropas austriacas e borgonhezas mostraram a superioridade -de uma boa infanteria, convenientemente adestrada. As tropas -suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo -muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos -quando tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se -desenvolvido gradualmente o mau habito de alugar os -seus soldados a quem maior somma de dinheiro offerecesse. -Era costume, quando um regimento suisso partia para a guerra<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span> -por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo, na -qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento -pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que -este serviço mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam -todo o possivel, no seu regresso á patria, para que esta perniciosa -pratica fosse abolida.</p> - -<p class="tb"><b>Ulrico Zwinglio.</b>—Um dos mais famosos d’estes patriotas -foi Ulrico Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu -a ser o Reformador da Suissa.</p> - -<p>Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no -Toggenburgo, pequena região montanhosa, cuja altitude era tal -que não produzia arvores de fructo, sendo tambem impossivel -cortal-a de estradas. O pae d’elle era o chefe, ou magistrado, da -communa, e um dos seus tios era o deão de Wesen.</p> - -<p>O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, -em vista da sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar -ao filho uma boa educação, mandou-o estudar em Basiléa -e em Berne, de onde passou para a grande universidade de -Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os estudos classicos, -enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que a Italia -estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho -em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para -Basiléa, e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de -aquelles theologos liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, -sobre o fundamento de que Christo resgatou, com -a Sua morte, os peccados de todos os homens.</p> - -<p>Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, -muitos annos depois: «Devemos ter consideração por Martinho -Luthero; mas o que é certo é que aquillo que temos em commum -com elle já o conheciamos muito antes de ouvir fallar no -seu nome».</p> - -<p>Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em -seguida foi nomeado cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu -ahi dez annos, lendo e estudando os auctores classicos latinos, -e em especial Cicero, Seneca e Horacio; começou tambem a -aprender grego com muito afan, e a esse respeito escreveu a -um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de Deus é -que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir -fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas -Sagradas.» Os seus livros favoritos do Novo Testamento -eram, diz-se, as Epistolas de S. Paulo. Copiou-as com as suas -proprias mãos de mais de um manuscripto, e sabia-as, por fim, -de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a declarar que o -unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar ouvidos -á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado -havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o -seu modo de pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span> -dedicado filho da egreja medieval, torturando-se com jejuns e -flagellações.</p> - -<p>Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde -havia uma abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre -imagem da Virgem, a que se attribuiam muitos milagres. -As multidões vinham em peregrinação a esta localidade, e -Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante a idolatria e -superstição de aquella gente, e perante o embuste e sacrilegio -do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou -a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura -e o peccado de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos -seus sermões proferiu o seguinte: «Na hora da vossa morte -clamae só por Jesus Christo, que vos comprou com o Seu sangue, -e que é o unico Mediador entre Deus e os homens.» Estas -suas predicas produziram uma enorme excitação, e, tendo constado -em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir -o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. -Elle recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação -que o dito legado lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos -de Zurich lhe pediu, em 1519, para ir para lá como pastor, -acceitou muito gostosamente, e não tardou em ter uma grande -influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.</p> - -<p>Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor -ambulante de indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer -ao povo o artigo do seu commercio. Zwinglio protestou -contra o seu procedimento, e conseguiu que as auctoridades o -pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de conferencias -sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas -da graça e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias -eram feitas na presença de centenares de pessoas, que ouviam -o Evangelho com agrado.</p> - -<p>A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de -infanteria o papa nas suas guerras com o imperador; a influencia -de Zwinglio, porém, era tão grande que em 1521 o cantão de -Zurich recusou alugar os seus soldados, como até ali tinha feito. -Esta patriotica resistencia a um infame trafico de sangue levantou -maior opposição do que todos os sermões prégados por -Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os bispos -das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias -para que a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o -legado do papa tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e -destruisse todos os livros lutheranos que haviam penetrado no -paiz, e a Dieta passou ordens n’esse sentido.</p> - -<p>A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, -posto que obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos -os curas, pastores e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos -e as Epistolas em conformidade com o Espirito de Deus e -com as Sagradas Escripturas do Antigo e Novo Testamento.»<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span> -Esta intimação deu um impulso ao movimento evangelico, que -já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado sobre o -jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo, -durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela -egreja. Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. -O papa, Adriano <span class="smcapuc">II</span>, queria a todo o transe evitar uma questão -com os suissos, cujas tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir -Zwinglio por boas maneiras, nada conseguindo, porém. -Emquanto os legados percorriam leguas e leguas para lhe transmittirem -os lisongeiros recados de que eram portadores, escrevia -Zwinglio o seu <i>Apologeticus</i>, vigoroso ataque ás corrupções -da egreja.</p> - -<p>O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que -impozessem silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles -licença para uma discussão publica, e comprometteu-se a provar, -na presença de todos, que as suas opiniões se fundamentavam -na Biblia. A junta accedeu, e fixou, para essa discussão, -o dia 23 de Janeiro de 1523.</p> - -<p class="tb"><b>As theses de Zwinglio.</b>—A fim de separar convenientemente -os assumptos a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta -theses, inscrevendo por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação -differia da dos seus accusadores, constituindo o conjuncto -um bem elaborado resumo de theologia protestante. As -theses affirmavam, em poucas palavras, o seguinte:—Jesus -Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto, e é só Elle a -quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é abraçal-O -e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para -intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou -tirar alguma coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, -de meras pretensões, com que insulta a Jesus Christo, nosso -unico Summo Sacerdote. Christo morreu na cruz, resgatando, -de uma vez para sempre, os peccados do Seu povo, e portanto -a missa, que se assevera continuar, ou repetir, esse sacrificio, -constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma ceremonia -commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre -Deus e o homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. -A Escriptura Sagrada não contém uma palavra ácerca do purgatorio, -e é coisa que não existe. Nada desagrada mais a Deus -do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que tudo quanto -assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma -condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por -similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, -a confissão auricular, a absolvição, o celibato clerical e todas as -ordenanças exclusivamente ecclesiasticas.</p> - -<p>Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, -e, na opinião dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente -os seus antagonistas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p> - -<p>Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma -terceira, em 1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich -e os seus magistrados se pozeram inteiramente ao lado de -Zwinglio.</p> - -<p class="tb"><b>A Reforma em Zurich.</b>—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma -do culto e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se -que a missa não era tal um sacrificio; que não se devia venerar -as imagens; que a Ceia do Senhor era uma simples commemoração -da morte de Christo; que se devia ministrar o calix -aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito na -lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida, -e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. -Em 1524, Leão Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir -o Velho Testamento, e antes de decorridos dez annos tinha a -Suissa cinco versões da Biblia.</p> - -<p>Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo -todas as suas despezas custeadas com o rendimento de vastas -propriedades. Os conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos -seus beneficios. Uma parte do dinheiro foi destinada ao sustento -dos ministros da cidade, e o resto ficou constituindo um fundo de -instrucção. Era com este fundo que a assembléa de Zurich, seguindo -o conselho de Zwinglio, pagava ao professorado das escolas. -Foi tambem resolvido que se solicitasse em todos os conventos, -tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens em -beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos -assim se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia -emquanto vivessem.</p> - -<p>A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, -do norte da Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. -Os discipulos de Thomaz Münzer não tardaram em causar perturbações. -Conseguiram, com a sua prégação, agregar a si -alguns adherentes de entre a população de Zurich. As suas doutrinas -eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes, -constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados -de Deus e não precisavam de leis que não fossem as que -os seus corações e consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem -coherentes, queimaram as suas Biblias em publico. Tinham -idéas singularissimas. Como Christo tivesse dito que os -Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os enthusiastas -anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com -bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente -absurdas. O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie -de loucura, de que resultou haver sangue derramado. O conselho -tolerou durante bastante tempo as suas manias, mas viu-se -por fim obrigado a mandal-os retirar, proseguindo depois a obra -da reforma com a mesma tranquillidade como anteriormente.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span></p> - -<p>A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes -como Basiléa, Berne, Schaffhausen e Appenzell.</p> - -<p class="tb"><b>Basiléa</b> era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada -pelos sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. -Era tambem o centro da industria do papel, e a maquina de -impressão de Froben deu-lhe uma grande celebridade. Era muito -visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande Holbein durante -o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados -que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, -professor de Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher -benevolamente as novas doutrinas. Capito, o futuro reformador -de Strasburgo, Polyhistor, o eminente hebraista e celebre physico, -Œcolampadius, o sabio de Reuchlin e futuro companheiro -de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do Delphinado, que -tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não deixasse -de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de -Basiléa.</p> - -<p>A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius -e Farel começaram a prégar contra a superstição.</p> - -<p class="tb"><b>Berne</b>, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, -fez-se tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em -pouco a Reforma começou a palpitar no meio dos cidadãos que -a compunham. O conselho foi instigado a annunciar que na cidade -só seria prégado o Evangelho puro, e tres prégadores, Kolb, -Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão para fallarem -contra a missa e contra as ceremonias papistas.</p> - -<p>Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros -cantões, durante a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, -ganhando sempre terreno, e por fim a Suissa ficou dividida em -duas partes pela questão religiosa.</p> - -<p class="tb"><b>Os cantões florestaes</b> foram os unicos que se conservaram -aferrados ás suas antigas tradições, constituindo um centro de -opposição a toda e qualquer mudança em materia de religião. -Quando a Reforma começou a mostrar um indiscutivel progresso, -não só em Zurich como nos outros cantões, e Berne e -Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se uma tal -exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados -protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava, -em ambos os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava -a esperança de que tudo se liquidasse rapidamente e -de uma maneira decisiva. Ao primeiro recontro, porém, não se -poude dar o nome de batalha, e os cantões florestaes, sem terem<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span> -combatido, assignaram o Tratado de Cappel em 1529, cuja clausula -principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé não -são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos -ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser -justo, e tanto nas provincias communs como nos territorios independentes -as congregações determinarão se a missa e outras -usanças devem ser conservadas ou abolidas.»</p> - -<p>Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum -dos partidos, e deu logar a novas contendas, que terminaram -com a vinda subita dos Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo -exercito derrotaram, ficando Zwinglio morto. Esta victoria não -deu um grande avanço á causa romanista. O segundo Tratado -de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o primeiro, -e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada -estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião.</p> - -<p class="tb"><b>Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.</b>—Com a morte de Zwinglio -termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle -morrer, a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de -Luthero por uma constituição popular na egreja, mostrou claramente -que na Reforma tinha de haver dois movimentos distinctos, -que jámais se poderia unificar. Esta falta de união foi -causa de um grande prejuizo, e as culpas não devem ser atiradas -para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero. Ambos -tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos -principios evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes, -em comparação de tudo aquillo em que concordavam. O -feitio caracteristico da Reforma de Zwinglio, porém, torna-se -muito mais manifesto na sua ultima fórma sob Calvino, e é referindo-nos -a esse periodo que a vamos comparar com o movimento -lutherano.</p> - -<p>Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma -fizeram muito pouco no sentido de resolver uma questão que -em breve tomou na egreja reformada uma importancia capital: -a maneira como a egreja tinha de ser governada. Para elle era -um ponto indiscutivel a necessidade de ter sempre presente no -espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma de homens -que podessem ser chamados <i>espirituaes</i>, simplesmente -pelo facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava -era que todos se compenetrassem do sacerdocio espiritual de -todos os crentes, ministros ou leigos. Mostrou tambem que era -dever de todos os magistrados administrar em nome de Christo -e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e verdadeiras -idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia -haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios -civis da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos -respectivos ao culto publico, ás doutrinas e á disciplina da<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span> -egreja foram feitos, no tempo de Zwinglio, pelo Conselho de -Zurich, que era, n’aquelle estado, o supremo poder civil. Esta -sua idéa, mesmo durante a vida d’elle, apresentou muitos inconvenientes, -sendo um dos mais manifestos a ligação que se -formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente -politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam -ter, como o antigo reino de Israel, governos theocraticos. -Se as idéas de Zwinglio tivessem continuado a prevalecer, não -é provavel que a Reforma suissa tivesse exercido o poder que -exerceu para além das fronteiras da republica; posto que, sob -a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem facilmente a -um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter applicado -a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma -pequena egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia -contra um governo secular que lhe fosse hostil.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p> - -<h3 id="II_CAPITULO_II">CAPITULO II<br /> -<span class="smaller">A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>Genebra perante a Reforma, <a href="#Page_67">pag. 67</a>.—Farel em Genebra, <a href="#Page_68">pag. 68</a>.—A mocidade -de Calvino, <a href="#Page_69">pag. 69</a>.—<i>Institutos da Religião Christã</i>, <a href="#Page_71">pag. 71</a>.—Calvino -em Genebra, <a href="#Page_73">pag. 73</a>.—A sua expulsão, <a href="#Page_75">pag. 75</a>.—Genebra não pode passar -sem elle, <a href="#Page_76">pag. 76</a>.—As <i>Ordenanças ecclesiasticas</i>, <a href="#Page_77">pag. 77</a>.—Em que differem -dos <i>Institutos</i> <a href="#Page_79">pag. 79</a>.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, <a href="#Page_81">pag. -81</a>.—A morte de Calvino, <a href="#Page_82">pag. 82</a>.—Succede-lhe Beza, <a href="#Page_83">pag. 83</a>.—A influencia -de Calvino sobre a theologia da Reforma, <a href="#Page_83">pag. 83</a>.—A <i>Confissão de -Zurich</i>, <a href="#Page_84">pag. 84</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>Genebra perante a Reforma.</b>—Depois da morte de Zwinglio -e da segunda Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis -da Reforma suissa localisaram-se n’uma cidade que estava -quasi desligada da confederação.</p> - -<p>Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e -os seus bispos tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, -jurisdicção sobre os negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam -tambem os seus direitos sobre a cidade, e os dois -partidos, o do bispo e o do duque, andavam quasi constantemente -em guerra.</p> - -<p>Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo -gradualmente o direito de se governar a si propria, podendo, -por fim, eleger um conselho constituido pelos seus concidadãos. -Em 1513 o papa Leão <span class="smcapuc">X</span> poz á testa da diocese um -bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este modo os dois -partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no -principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, -duas facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da -cidade. Um dos partidos trabalhava para que a cidade ficasse -por completo sob o dominio da casa de Saboya; o outro pretendia -tornal-a uma republica livre, como os cantões da Suissa, e -para conseguirem o fim que tinham em vista contrairam uma -alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com -os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito -mal vistos pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span> -de «mamelukos», ao passo que os do partido republicano eram -cognominados «Eidgenossen», isto é, confederados. Este ultimo -nome desperta algum interesse, por ser provavelmente d’elle -que se originou o nome do grande partido protestante francez, -os huguenotes.</p> - -<p>A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na -cidade, assim como a devassidão italiana. O partido aristocratico -tinha-se tornado notorio pela sua má vida. O palacio do -bispo e o castello do duque de Saboya eram theatro dos mais -impudentes excessos, e estes maus exemplos tinham corrompido -muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do seu -superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento -das freiras franciscanas, em que se observava uma certa -pureza de vida. Os republicanos não eram isentos dos vicios -que deshonravam os seus adversarios; o seu desejo de liberdade -era muitas vezes um desejo de licença, e o seu enthusiasmo -republicano tinha em muitos casos uma origem pagã. Eram filhos -da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse estranho -movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade -e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre -muito boa venda em Genebra.</p> - -<p class="tb"><b>Farel em Genebra.</b>—Estavam as coisas n’este pé quando, -em 1532, veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos -e impetuosos sermões contra o «anti-christo romano» e a -idolatria e superstições da egreja romanista, um joven francez, -Guilherme Farel, que fôra um dos reformadores de Berne. As -suas predicas produziram um grande alvoroço; os partidarios -do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu respeito -opiniões desencontradas.</p> - -<p>Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados -a Berne e a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado -Farel a Genebra; Freiburgo era romanista, e havia encarregado -algumas pessoas de instarem com os burguezes para que pozessem -fóra da cidade o impetuoso orador. Elles pensaram muito -no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse. Este assim -fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne, -que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de -Berne, para celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou -para Genebra, e foi nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha -em grandes multidões ouvil-o prégar, e a Reforma foi avançando.</p> - -<p>O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa -commum contra Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O -Conselho declarou abolida a diocese, concedeu a Farel plena -liberdade para prégar, e os seus sermões sobre liberdade civil -e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em 1535 teve<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span> -logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que -Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, -como os cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com -elles os pontos sobre theologia e moral que estavam em debate -entre a egreja de Roma e os reformadores.</p> - -<p>O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia -conter-se, nem comprehendia que as coisas tinham de ser -feitas devagar e com a devida legalidade, precipitou-se, depois -da polemica, para as egrejas, destruiu as reliquias, derrubou as -imagens, rasgou os paramentos, e commetteu muitos outros -actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho declarou abolido -o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos que -adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma -cidade inteira, por mandado do conselho municipal, suprema -auctoridade civil, não poderia, decerto, melhorar o caracter do -povo. Havia, sem duvida, muita gente sobre quem a prégação -de Farel produzira bom effeito, mas o Evangelho não pode conquistar -os corações quando é imposto d’aquella fórma. O estado -moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e tudo -indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos -começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca -da natureza da liberdade christã. Parecia não haver meio de suster -o povo. Farel tinha esgotado todos os recursos da sua intelligencia. -Por fim teve mão n’um moço estudante francez que, -quasi accidentalmente, se encontrava na cidade, e supplicou-lhe -que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse. Esse moço estudante -era João Calvino, e aquella visita casual foi o inicio da -obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as egrejas -reformadas da Europa.</p> - -<p class="tb"><b>A mocidade de Calvino.</b>—João Calvino, ou Chauvin, nasceu -em Noyon, na Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, -uma creança quando Luthero e Zwinglio começaram a atacar a -egreja romanista, e pode-se dizer que pertence á segunda geração -da Reforma. O pae exercia um cargo publico em Noyon, -e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma senhora muito -religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As relações -que o pae mantinha com as familias nobres da região e com -o bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que -n’aquelle tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com -os filhos da nobre familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, -desde os primeiros annos, a carreira ecclesiastica.</p> - -<p>Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae -obteve para elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, -e mandou-o para a universidade de Paris. Foi primeiro para o -Collegio de La Marche, onde teve por professor o celebre Mathurino<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span> -Corderier,<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> e em seguida para o Collegio Montaigu, que -mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente se celebrizou, -Ignacio de Loyola.</p> - -<p>Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os -seus condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», -pelo motivo de estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. -Quando elle tinha dezoito annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, -e, para receber o respectivo estipendio, teve de sujeitar-se -á tonsura, sendo esta a unica coisa que elle teve em commum -com os padres da egreja de Roma. Não chegou a ordenar-se, -nem fez voto de celibato.</p> - -<p>Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu -que o filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, -com esse intuito, estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo -obedeceu; tornou-se um applicado estudante de direito, posto -que similhantes estudos não fossem do seu gosto; e, trabalhando -de dia e de noite, conseguiu cursar com egual exito tanto aquella -faculdade como a de theologia. Alcançou fama de ser o estudante -mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que com -as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira -juridica.</p> - -<p>Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade -para seguir a vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos -de direito, voltou, em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente -á pequena communidade de protestantes que costumavam -reunir-se n’essa cidade para lerem e estudarem as -Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz porque deu -esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia -muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de -fallar no que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. -Era, a este respeito, muito differente de Luthero. Este -contava a sua historia com a maxima franqueza, a todos expunha -as suas duvidas, os seus temores, a sua fé. Cada um tinha -a sua natureza especial. Só uma vez é que Calvino tirou de cima -de si o véu com que se cobria. No prefacio ao assombroso <i>Commentario -ao Livro dos Psalmos</i> diz-nos que Deus o attraiu a Si -mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso -quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou<span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span> -a uma brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos -ecclesiasticos, e ajuntou-se á pequena communidade -evangelica de Paris, disposto a partilhar os perigos que ella -corresse.</p> - -<p>Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado -a publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris -a toda a pressa, para não ser preso por causa da sua religião. -Foi para Strasburgo, onde travou conhecimento com o reformador -Martinho Bucer, e de ahi para Basiléa e varios outros pontos, -levando uma vida de estudante nomada.</p> - -<div class="footnotes"> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos, um nome bem -conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde se fazia uso dos seus exercicios -em todas as aulas de latim. Converteu-se á fé reformada mediante o seu -famoso discipulo, e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as doutrinas -evangelicas, utilisando para esse fim as phrases que nos seus exercicios -deviam ser traduzidas em latim. Na edição que publicou pouco depois da sua -conversão, as referidas phrases eram breves exposições das verdades evangelicas, -ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições romanistas. Seguiu -Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88 annos.</p> - -</div> - -</div> - -<p class="tb"><b>Os Institutos da Religião Christã.</b>—Na primavera de 1536 publicou -em Basiléa a primeira edição dos seus <i>Institutos da Religião -Christã</i>. A obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida -em francez, para uso, como elle proprio disse, dos seus -compatriotas. A primeira edição era mais pequena, e a todos os -respeitos inferior, ás edições revistas de 1539 e 1559; mas como -producção de um rapaz de vinte e seis annos, que era a edade -que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival. -Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», -e, mais do que qualquer outro trabalho theologico, influiu -nas idéas e amoldou o caracter da Reforma Protestante.</p> - -<p>Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro -com um duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de -theologia para a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma -facil introducção, e habilitando-os a vencer todos os embaraços». -Mas tinha tambem em vista justificar o ensino dos reformadores -e desfazer as calumnias dos seus inimigos, que haviam -instado com o rei de França para que os perseguisse, e os expulsasse -de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «<i>A Sua Christianissima -Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, -João Calvino deseja paz e salvação em Christo</i>». E ajuntava: «Exponho-vos -a minha confissão, para que conheçaes a natureza -d’essa doutrina que tem provocado uma tão ilimitada raiva a -esses desvairados que estão agora, por meio do fogo e da espada, -pondo o vosso reino em desasocego. Pois não tenho receio -algum de confessar que este tratado contém um summario d’essa -mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser -castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada -da superficie da terra».</p> - -<p>Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar -o que os protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou -logo á comparação d’essas crenças com o ensino da egreja -medieval. Luthero fez grande ostentação do Credo dos Apostolos, -e nunca se cançava de dizer que elle e os seus correligionarios -acceitavam aquella antiga e venerada summula da fé christã, -e que, portanto, os protestantes pertenciam á Egreja Catholica<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span> -de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou por -ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo -quando se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos -á prova do Credo dos Apostolos, os protestantes eram catholicos -mais genuinos do que os romanistas.</p> - -<p>Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a -publicação dos seus <i>Institutos</i> é necessario lembrar o que era o -Credo dos Apostolos. Nosso Senhor, antes da Sua ascensão, -disse aos Seus discipulos que fossem a todas as nações, baptizando-as -em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo; e assim -os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica, quando -recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas -que fizessem a seguinte profissão de fé: «<i>Creio em Deus Pae, e -em Seu Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo</i>, sendo esta a -mais antiga e mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe -mais estas palavras: <i>e na Santa Egreja Catholica</i>. -Estas quatro orações eram proferidas por todos os neophytos -por occasião do baptismo. O Credo dos Apostolos e todos os -outros credos primitivos são simplesmente desenvolvimentos -d’essas quatro phrases; e os primeiros livros theologicos que -explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã eram -exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, -uma exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre -outras coisas, que a verdadeira theologia nasceu da simples -expressão de uma confiança em Deus acompanhada de adoração.</p> - -<p>Os <i>Institutos</i> de Calvino são, na realidade, uma exposição -do Credo, e dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando -uma porção do Credo. A primeira parte falla de Deus -o Creador, ou, como o Credo diz: «Deus, Pae Omnipotente, -Creador do céu e da terra»; a segunda parte de Deus Filho, o -Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de Deus -Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja -Catholica, e da sua natureza e distinctivos.</p> - -<p>A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo -a passo o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha -ácerca da Reforma aquella mesma opinião que Luthero diligenciou -expôr nitidamente no seu tratado sobre o <i>Captiveiro Babylonico -da Egreja de Deus</i>. Nunca lhe acudiu á mente que estivesse -contribuindo para a fundação de uma nova egreja, ou que -estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova -theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que -mantivessem opiniões originaes, até então desconhecidas. A -theologia da Reforma era a velha theologia da Egreja de Christo, -e as opiniões dos protestantes eram convicções da verdade que -se baseiavam na Palavra de Deus, e que, conforme constava da -historia da Christandade, haviam sido partilhadas por todo o -povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle ensinava -era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span> -a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que -pelos pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e -philosophia do paganismo. A Reforma, dizia-se nos <i>Institutos</i>, -não engendra opiniões novas, trata apenas de desmascarar as -falsidades e apresentar, em toda a sua pureza, as verdades antigas.</p> - -<p class="tb"><b>Calvino em Genebra.</b>—A publicação dos <i>Institutos</i> fez com -que Calvino se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos -da Reforma; e quando, nas suas peregrinações, deu comsigo -em Genebra, tencionando passar ali a noite e abalar em seguida, -Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o auxiliasse -nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de -fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao -mesmo tempo reconhecia que era um dever para elle deitar -mãos ao trabalho que podia executar em Genebra, e por fim resolveu -ficar na companhia de Farel.</p> - -<p>Diz elle no prefacio ao seu <i>Commentario sobre o Livro dos -Psalmos</i>: «Como o caminho mais direito para Strasburgo, para -onde tencionava retirar-me, estava impedido por causa da guerra, -tinha resolvido passar rapidamente por Genebra, demorando-me -na cidade uma noite apenas.... Sabedor d’isto, Farel, que -trabalhava com extraordinario zelo para que o Evangelho progredisse, -empregou logo os maiores esforços para me deter. -E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder -entregar-me socegadamente aos meus estudos, não me encontrando, -portanto, predisposto para qualquer outro encargo, -elle, perdida a esperança de conseguir qualquer coisa por meio -de rogos, começou com imprecações, invocando a maldição de -Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a tranquilidade, -se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso -n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario. -Ouvindo estas suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti -da viagem que projectava.»</p> - -<p>Calvino tinha vinte e sete annos e Farel quarenta e sete, -quando começaram a trabalhar juntos em Genebra, e, não obstante -a differença das edades, tornaram-se amicissimos um do -outro. «Tinhamos um coração e uma alma», diz Calvino. Farel -apresentou-o aos conselheiros da cidade. Principiou a sua obra -fazendo conferencias na cathedral, e immediatamente se reconheceu -que a sua palavra era attrahente e efficaz. A junta nomeou-o -pastor, e, de collaboração com Farel, metteu hombros á -grave tarefa de organizar a Reforma. Somos informados de que -elle redigiu os artigos de fé e os regulamentos para o governo -da Egreja, tendo antes d’isso, isto é, pouco depois da sua chegada -a Genebra, escripto um catecismo para a infancia. A obra -dos reformadores foi approvada pelo conselho da cidade, e esta, -pelo que dizia respeito a todos os seus aspectos exteriores, -adoptou por completo a religião reformada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p> - -<p>Farel sabia, porém, havia muito, e Calvino em breve o reconheceu -tambem, que o de que Genebra necessitava era uma -reforma moral. A cidade era o mais que podia ser de dissoluta, -e havia muito tempo que permanecia n’aquelle estado. Os que -durante muitas gerações tinham estado á testa dos negocios -publicos conheciam esse facto, e tinham promulgado leis contra -o viver licencioso. Entre os arquivos de Genebra relativos ao -principio do seculo dezeseis, e ainda entre alguns do seculo -quinze, apparecem leis sumptuarias contra o jogo, a embriaguez, -as mascaradas, as danças e o luxo no vestuario; e, examinando -os documentos judiciaes, encontram-se referencias a condemnações -por infracções d’essas leis, commettidas muito antes de -Calvino ter fixado lá a sua residencia.</p> - -<p>Isto tem sido esquecido pelos historiadores quando accusam -Calvino de ter tentado reformar o povo, mediante, como nós diriamos, -leis votadas no parlamento. Calvino não fez essas -leis, nem ha evidencia de elle as considerar muito importantes. -Era, porém, de opinião, que sustentou sempre com toda a -firmeza, de que ás pessoas que tinham uma vida immoral, cujas -acções e linguagem não estavam em harmonia com a sua profissão -christã, não se devia permittir que participassem da solemne -instituição da Ceia do Senhor, e esse seu modo de vêr -não tardou em indispôl-o com os habitantes de Genebra.</p> - -<p>Ao cabo de muitas admoestações, os reformadores resolveram, -por fim, exercer a disciplina ecclesiastica, afastando solemnemente -da Mesa do Senhor os commungantes indignos. Os -magistrados, que estavam sempre promptos a promulgar leis -restrictivas do vicio, e até mesmo do viver faustoso, não quizeram -consentir em que se pozesse em execução esta ordem de -quem tinha a superintendencia na Egreja, e, ainda mais, o pulpito -ficou de ahi em deante vedado a Calvino e a Farel. Estes -não se submetteram, e no domingo de Pascoa de 1538 prégaram -a uma multidão excitada e armada, recusando administrar -á congregação a Ceia do Senhor, para evitar que esta fosse profanada.</p> - -<p>No dia seguinte a junta da cidade reuniu-se para apreciar -a conducta de Calvino e Farel. Os reformadores foram accusados -de pretender usurpar o poder mediante os seus regulamentos -ecclesiasticos, entre os quaes figuravam o da abolição de todos -os dias santos, excepto o domingo, e o do desuso da pia -baptismal e do pão asmo na Ceia do Senhor.</p> - -<p>Estas accusações eram, evidentemente, meros pretextos, -pois que o proprio Calvino havia declarado que lhe era quasi indifferente -que as coisas que atraz mencionamos fossem ou não -postas em pratica. O que os realmente predispunha contra Calvino -e Farel era a supposição em que estavam de que elles pretendiam -estabelecer um novo papado; os magistrados desejavam -conservar nas suas mãos, não só a administração civil como<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span> -a disciplina da Egreja. O resultado de tudo isto foi Calvino e -Farel serem expulsos da cidade, não pelos papistas, mas por -aquelles que até ali tinham contribuido para o avanço da Reforma.</p> - -<p>O facto d’este conflicto entre os reformadores e os genebrenses -ter ocorrido logo no principio da vida publica de Calvino -revela uma grande differença entre os dois ramos da Reforma, -o reformado, ou calvinista, e o lutherano. Calvino mostrou ter, -desde o inicio da sua carreira, noções muito claras ácerca da -disciplina da Egreja e do direito que a communidade christã -tinha de se governar a si propria em assumptos espirituaes e -do direito dos que estavam em auctoridade na Egreja tinham de -excluir dos privilegios a todos aquelles que fossem indignos de -participar d’elles. Luthero e Melanchthon tinham as mesmas -idéas, mas não as pozeram em pratica. Luthero não modificou -o modo como a superintendencia era exercida, limitando-se a -transferil-a das mãos dos bispos para as das auctoridades civis; -e o effeito pratico, posto que não premeditado, d’isto foi ficarem -sendo os magistrados os que arbitravam se esta ou aquella pessoa -devia ou não approximar-se da mesa do Senhor. Calvino, -por outro lado, viu logo desde o principio que a Egreja, para ter -uma existencia visivel, e conservar-se distincta do Estado, devia -ter o direito de declarar quaes as pessoas que estavam no caso -de ser admittidas como membros da Egreja e partilhar todos os -privilegios da mesma, e ter a auctoridade para censurar os aggravos -espirituaes e punil-os mediante a perda dos sacramentos.</p> - -<p>Não consta que Calvino pedisse em tempo algum outra -coisa além de que a disciplina da Egreja fosse exercida pela -propria Egreja, representada pelos seus officiaes. Calvino, logo -no começo da sua carreira, proclamou a independencia da Egreja -em assumptos espirituaes, taes como a admissão á mesa do -Senhor e a exclusão d’ella.</p> - -<p class="tb"><b>Calvino é expulso de Genebra.</b>—Expulso de Genebra, Calvino -foi para Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente -tres annos, ministrando a uma numerosa congregação -de refugiados francezes, e occupando-se com trabalhos litterarios. -Strasburgo tinha sido um logar intermediario entre a -Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi conhecimento com -muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade com -Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores -allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em -Francfort, Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou -com Idelette de Bure, viuva de João Storder. Idelette era uma -senhora muito temente a Deus e muito instruida, e teve, do seu -casamento com Calvino, tres filhos, que morreram todos na infancia. -Calvino não se refere muito, na sua correspondencia, á<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span> -sua vida domestica, mas as cartas que escreveu a alguns amigos -muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e do fallecimento -dos filhinhos demonstram que no peito do austero e ceremonioso -francez batia um coração susceptivel de grandes affectos.</p> - -<p class="tb"><b>Genebra não pode passar sem Calvino.</b>—No entretanto, Genebra -continuava agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam -longe da cidade, mas o povo sentia a necessidade da sua -presença. Não havia agora ali uma influencia que a todos dominasse, -e as coisas caminhavam de mal para peior. Calvino tinha -dito que a infidelidade tinha por origem a depravação a que elle -se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos começaram a ver o -quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens sociaes -iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses -intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo -á frente o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo -ao papismo; os anabaptistas, inimigos de toda a organização -ecclesiastica e social, os libertinos, os livres pensadores, todos -luctaram por obter o predominio em Genebra, e por fim a população -começou a sentir-se cançada de aquella tumultuosa situação -e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados ministros.</p> - -<p>A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse. -Elle ao principio recusou. «Não ha localidade que me -aterrorize tanto como Genebra», escreveu elle a um amigo. -Continuaram, porém, a instar com elle para que voltasse; muitos -dos amigos que elle tinha entre os reformadores francezes -e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos genebrenses, -e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram -côro com elles. Condescendendo finalmente, regressou a -Genebra.</p> - -<p>Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com -jardim situada nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o -ministro e professor de theologia, e fixaram-lhe um -estipendio annual de quinhentos florins, doze medidas de trigo -e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que na Egreja -de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica, pois -que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que -tivera com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em -manter o direito que á Egreja assiste de velar pela sua pureza. -Voltou triumphante a Genebra, e foi recebido com as mais -extravagantes manifestações de regozijo. Foi mais uma vez -desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla vida litteraria, -e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se inteiramente -á causa publica.</p> - -<p>Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo -dizem, durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores -teem-n’o comparado a individualidades de indole muitissimo<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span> -differente. Segundo uns, foi o Lycurgo de Genebra; -segundo outros, um dictador romano, ou um novo Hildebrando, -ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma grande -obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de -estar quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça -e de asthma.</p> - -<p>Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias -dava aula. Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia, -compoz tratados theologicos, e tinha sempre que attender a -uma immensa correspondencia. Era elle quem dirigia a Egreja -reformada em toda a Europa, e, segundo a idéa de muitas pessoas, -era, por assim dizer, omnipotente em Genebra, tendo sido -attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus resultados -da chamada theocracia genebrense.</p> - -<p>É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra -o caracter da cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais -frivola e mais devassa de todas as cidades europeas, tornou-se -o berço do puritanismo, tanto francez, como hollandez, como -inglez, como escocez. As danças e mascaradas passaram a ser -coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro estavam sempre -ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de conferencias -se enchiam até á porta.</p> - -<p class="tb"><b>As ordenanças ecclesiasticas.</b>—O que effectuou tudo isto foram -as famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra, -e o modo em que ellas foram applicadas pelos magistrados. -Estas ordenanças eram, segundo as poucas palavras do preambulo, -o «regimen espiritual, que Deus ordenou na Sua Egreja, -e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado na cidade -de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas presbyteriannas.</p> - -<p>Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies -ou graus de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus -para o governo da mesma, e os que os exercem são chamados -pastores, professores, presbyteros e diaconos.</p> - -<p>Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes -e bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos, -e, conjunctamente com os presbyteros, exercer a disciplina; -eram geralmente escolhidos pelos ministros em exercicio, -e nomeados pelos magistrados, com o consentimento do povo; -tinham de dar contas dos seus actos nas conferencias que para -esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e eram, outrosim, -responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade.</p> - -<p>Da classe dos professores faziam parte todos os lentes da -universidade e os mestres das escolas. Os presbyteros tinham -a seu cargo a disciplina. Não eram eleitos pela congregação, -mas, sim, nomeados pela junta da cidade, com previa consulta<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span> -dos pastores; e todos elles tinham de ser membros das juntas. -Conjunctamente com os pastores, faziam uma visita annual a -toda a area que lhes pertencia, e experimentavam, de um modo -simples, a fé e o proceder de todos os membros da egreja.</p> - -<p>A assembléa de todos os presbyteros e de todos os pastores -constituia o <i>Consistorio</i>, que era o conselho executivo e legislativo -da Egreja. O Consistorio reunia-se todas as semanas, sob -a presidencia de um dos quatro syndicos, ou primeiros magistrados, -de Genebra, afim de receber e examinar todos os documentos -relativos a irregularidades na vida e na conducta de -quaesquer membros da Egreja, e deliberar ácerca da pena ecclesiastica -a applicar a este ou áquelle caso, pena que podia ir até -á exclusão da Mesa do Senhor. Não estavam auctorizados a infligir -qualquer censura ou castigo que não fosse espiritual, mas -tinham obrigação de participar todos os delictos á auctoridade -civil, que era a unica que tinha o direito de punil-os. Todos os -presbyteros eram escolhidos pela junta, e tinham de ser membros -d’ella, resultando de ahi que os magistrados genebrenses -que tomavam assento no consistorio na qualidade de presbyteros -recolhiam as informações relativas a factos criminosos e -transmittiam-n’as a si proprios quando tomavam assento na -junta na qualidade de magistrados.</p> - -<p>Os diaconos cuidavam dos pobres e dos enfermos, e eram -egualmente nomeados pela junta.</p> - -<p>O plano do governo da Egreja concorda, nas linhas geraes, -com os principios que Calvino expoz nos seus <i>Institutos</i>, mas -differe d’elles em tantos detalhes importantes que se torna impossivel -acreditar que todo elle fosse obra do Reformador.</p> - -<p>Nos <i>Institutos</i> expoz Calvino com a maxima clareza quaes -são os verdadeiros principios do governo e disciplina ecclesiasticos. -Prova que Deus educa e aperfeiçôa o Seu povo n’esta vida -mediante a Sua Egreja, e que para a edificação da Egreja proveu -uma variedade de dons, que não são concedidos indescriminadamente -a todos os christãos, sendo limitado o numero d’estes -que os teem recebido em maior escala. Estes dons podem ser -classificados em tres categorias, instrucção, governo e caridade, -ou, como os reformadores escocezes disseram, doutrina, disciplina -e distribuição, e a Egreja pode verificar que alguns dos -seus membros teem um talento especial para instruir, outros -para dirigir, e outros para tomarem conta das collectas e da -distribuição do dinheiro. Deus conferiu estes dons, e collocou -na Egreja homens capazes de os exercerem, para edificação do -Seu povo, e, por consequencia, as funcções que se desempenham -na Egreja são de caracter ministerial e não tendem a exaltar -pessoa alguma. Os officiaes são homens que melhores serviços -podem prestar á communidade, e são, portanto, responsaveis -perante esta e perante Deus pelo modo como os prestam. Calvino -insistiu muito na verdadeira natureza e valor do presbytereado,<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span> -que elle considerava a mais efficaz barreira contra a -conquista de uma supremacia sobre a Egreja, como aquella que -tinha sido uma das mais censuraveis usurpações da Egreja de -Roma. Mediante este officio tem a Egreja aquelle governo methodico -sem o qual nenhuma sociedade pode existir, e a communidade -christã pode conservar-se livre da usurpação do poder -e da tyrannia ecclesiastica por meio de um governo verdadeiramente -representativo, isto é, livremente escolhido pelos membros -da congregação. Calvino affirmou tambem, com muita insistencia, -que este governo era espiritual, e que só lhe pertencia -julgar as infracções espirituaes e infligir castigos espirituaes. -O maior castigo espiritual era, segundo elle, a excommunhão.</p> - -<p class="tb"><b>As ordenanças ecclesiasticas differem, a muitos respeitos, dos -principios expostos nos Institutos.</b>—Calvino combateu sempre -energicamente qualquer confusão entre a jurisdicção civil e a -jurisdicção ecclesiastica, declarando que as duas deviam estar -completamente separadas uma da outra. Nas <i>Ordenanças</i> não se -mantem esta separação. A censura do consistorio era de continuo -seguida, como veremos, de multa, de desterro, e, até, de -morte; quando, segundo a theoria de Calvino, só castigos espirituaes -se devem seguir a offensas espirituaes. Os anciãos que -exerciam o governo ou a disciplina não eram escolhidos pela -Egreja, nem eram realmente seus representantes. Eram designados -pelos magistrados civis da cidade, e só eram elegiveis -os que já fossem membros de uma organização politica. Os -direitos da communidade christã eram praticamente desprezados, -posto que Calvino houvesse declarado que o poder ecclesiastico -pertencia realmente a toda a assembléa dos crentes. -A junta escolhia os pastores, podendo a Egreja impôr o seu -veto; escolhia d’entre si os presbyteros, e escolhia egualmente -os diaconos.</p> - -<p>Esta notavel desharmonia com os principios de Calvino era -devida aos magistrados de Genebra, que assim procediam em -opposição aos desejos do Reformador. Sentia-se especialmente -molestado com o modo como eram escolhidos os presbyteros, e -declarou que não considerava as <i>Ordenanças</i> um plano perfeito -de governo ecclesiastico; pareceu-lhe evidentemente, porém, -que era o melhor que n’aquella occasião se poderia obter, e acceitou-o, -alimentando a esperança de que seria, mais tarde, modificado. -Agradava-lhe tanto, apezar dos seus defeitos, que o -considerava um modelo que podia ser copiado n’outros logares, -e exprimiu a esperança de que Genebra, situada na fronteira da -França, da Allemanha e da Italia, incitaria esses paizes a uma -Reforma de caracter, perfeita e permanente.</p> - -<p>Não obstante, os pontos em que as <i>Ordenanças</i> divergiam -dos principios que Calvino expoz nos seus <i>Institutos</i> deram<span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span> -occasião a esses caracteristicos do governo genebrense que -mais teem sido reprovados pelos historiadores. É fóra de duvida -que a corrupção moral que predominava em Genebra foi -combatida por leis severissimas, que chegavam mesmo a ser -crueis. A antiga legislação genebrense era, em muitos casos, -bastante severa, e quando se tratava de delictos especiaes a sua -severidade tornava-se extrema; mas depois de publicadas as -<i>Ordenanças Ecclesiasticas</i> as leis foram applicadas com um rigor -anteriormente desconhecido.</p> - -<p>O consistorio reunia-se todas as semanas, ás quintas feiras, -e eram-lhe fornecidas informações ácerca da maneira como o -povo se comportava; e essas informações eram communicadas -á junta, ou conselho, que era o mesmo Consistorio, mas revestido -da auctoridade civil. Eram prohibidos os divertimentos ruidosos, -os jogos de azar, as danças, as canções profanas, as pragas -e as blasphemias. Todo o cidadão tinha de estar em casa -ás nove horas, sob pena de uma pesada condemnação. O adulterio -era punido com a morte. Uma creança que atirou com -umas pedras á mãe foi publicamente açoitada, e depois suspensa -do patibulo pelos braços. Foram abolidas todas as folganças que -tinham logar por occasião dos casamentos; os cortejos deixaram -de levar tambores ou instrumentos musicaes á frente, e -não mais se dançou nas bodas. Os theatros só podiam levar á -scena peças biblicas. Ficou inteiramente prohibida a leitura de -romances, e o auctor de qualquer obra que desagradasse ao -Consistorio era mettido na prisão. Era preciso o maximo cuidado -com o que se dizia, chegando as coisas a tal ponto que os hoteleiros -eram obrigados a referir as conversas que os seus hospedes -tinham tido á mesa. Nas hospedarias era tambem prohibido -fornecer comida ou bebida a quem não pedisse, antes de -se servir, a benção de Deus. Não era permittido jejuar, e um -certo individuo foi castigado por não comer carne á sexta-feira.</p> - -<p>É impossivel dizer que parte tomou Calvino n’estes regulamentos, -de uma desnecessaria severidade. Muitos historiadores -teem affirmado que elle dispunha de todo o poder em Genebra, -e que poderia ter evitado muita coisa se quizesse. Elle era -francez, e nenhuma nação tem como a França apresentado, em -epocas de grande crise, tão duros legisladores. Calvino não -tinha, por outro lado, abjurado a parte mais odiosa da theoria -medieval quanto á disciplina da Egreja, isto é, a que auctorizava -os tribunaes ecclesiasticos a recorrerem ao poder civil -para que a certas offensas espirituaes fosse applicada multa, -prisão ou execução capital, com o fundamento de que constituiam -crimes contra a ordem e a paz da sociedade. Calvino -acceitou esta doutrina; e o mesmo fez Beza, que chamava á -liberdade de consciencia uma doutrina diabolica. Os theologos -de Westminster admittiram egualmente a theoria medieval, e -trabalharam para que ella fosse posta em pratica, em detrimento<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span> -da reforma da egreja de Inglaterra. Não só Calvino como todos -os principaes reformadores approvaram a morte de Servetus -pelo motivo de haver negado a doutrina da Trindade e apresentado -blasphemas asserções em defeza da sua opinião. Tudo isto -tem de ser admittido.</p> - -<p class="tb"><b>As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.</b>—Devemos -lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria -preciso para obter uma reforma de costumes n’uma cidade -tão immoral e tão turbulenta como Genebra.</p> - -<p>A Reforma, justamente porque era um protesto contra o -então existente estado de coisas, teve de navegar contra a corrente -do mal, que ella propria provocou. É-nos quasi tão impossivel -comprehender o perigo dos excessos anabaptistas e outros -como comprehender a corrupção moral da epoca em que o -christianismo surgiu e se propagou. Professava-se o libertinismo -pantheistico como se fosse um credo, e os documentos litterarios -do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade -que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu -deante de si em Genebra foi uma indulgencia para tudo quanto -fosse immoral, indulgencia que a propria religião prescrevia, -visto tratar-se de uma coisa natural. Era este o lado sombrio -da Reforma, para o qual não era agradavel olhar, mas que existia, -e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o procedimento -do conselho de Genebra ou o de Calvino.</p> - -<p>O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a -decima parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os -principes da Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos, -e aos seus cabeças, os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento -causado pela paixão cega, quer provenha do medo quer -provenha do odio, tem, o que é coisa curiosa, sido sempre -olhado com maior brandura do que o soffrimento que é infligido -no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma.</p> - -<p>Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino -fosse menos omnipotente em Genebra do que se suppõe -ter sido. A um francez, e de mais a mais logico como elle era, -custa a attribuir as incoherencias que se notam entre os <i>Institutos</i> -e as <i>Ordenanças Ecclesiasticas</i>. É preciso não esquecer que -o que tornou possiveis estes castigos que teem sido tão condemnados -foram aquelles pontos das <i>Ordenanças</i> que não eram da -responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira -causa do mal era a relação que havia entre o consistorio -e o governo civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas -camaras municipaes se constituia uma vez por semana em commissão -zeladora da moralidade publica. Não se sentiriam escandalizados -os vereadores se os casos que elles apresentassem á -commissão, e que mereciam a reprovação d’ella, ficassem impunes?<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span> -Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia -seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos -de toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo? -Não se deve attribuir a culpa de todos estes males a Calvino, -ou mesmo ao conselho de Genebra. Surgiram naturalmente -das tres vezes abominavel mistura da direcção dos negocios seculares -com a direcção dos negocios espirituaes, que constitue -habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem -precaver.</p> - -<p class="tb"><b>A morte de Calvino.</b>—Durante a residencia de Calvino em -Genebra, foi esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia. -Os magistrados fundaram uma universidade, cujo primeiro -reitor foi Theodoro Beza, e as suas aulas foram, durante -o primeiro anno, frequentadas por oitocentos estudantes. Procuraram -refugio na cidade, onde receberam um excellente acolhimento, -numerosissimos protestantes italianos, francezes e escocezes. -«Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas -suas cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia -que exercia. Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os -huguenotes da França, os reformadores de Inglaterra, a congregação -escoceza, e os dirigentes da Reforma na Allemanha.</p> - -<p>Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se -do excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou -o seu ultimo sermão no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a -27 de maio do mesmo anno, contando cincoenta e cinco annos -incompletos.</p> - -<p>Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto -de si os syndicos, ou primeiros magistrados de Genebra, e em -seguida todos os ministros. Prohibiu que sobre a sua sepultura -se erigisse qualquer monumento, acontecendo, d’esse modo, que -se desconhece o sitio onde foi enterrado.</p> - -<p>Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz -proeminente, testa elevada, e olhos que em dadas occasiões -chammejavam. Trajava sempre com o mais escrupuloso esmero, -e alimentava-se muito sobriamente.</p> - -<p>Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação -e pelo temperamento; grande observador de todas as regras -da etiqueta, sentia-se muito mais á vontade no meio das pessoas -de posição do que no meio do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado -frio e insensivel, mas o que é facto é que os seus amigos -e contemporaneos se referem sempre a esse frio, timido, austero -e polido francez em termos os mais affaveis e respeitosos; e os -mancebos davam-se perfeitamente com elle.</p> - -<p>Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de -Calvino com um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o -haverem estudado, descobrem que a sua antipathia se transformou<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span> -em affectuosa admiração. Como será sufficiente um exemplo, -vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle:</p> - -<p>«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem -ter sido vasados de um só jacto n’um molde, e que se estudam -por meio de um simples olhar; uma carta das que escrevam, -um acto dos que pratiquem, é o bastante para se fazer -um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem com titulos, -nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver, -apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os -outros eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço -outro homem que podesse rivalisar com elle n’estes raros -predicados. É surprehendente como um homem cuja vida e -cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas sympathias, se -tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as suas -palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter -uma tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos. -Como se pode explicar, por exemplo, que uma das -mulheres mais distinctas do seu tempo, Renée de França, que -no seu palacio de Ferrara se via cercada dos mais brilhantes -talentos da Europa, se deixasse captivar por aquelle severo doutrinador, -enveredando, por sua influencia, n’uma senda que tão -espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem -ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção. -Sem manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem -dos outros, que foi o que assegurou a Luthero o bom exito dos -seus trabalhos, sem possuir o encanto, a perigosa, posto que -languida, doçura de S. Francisco de Sales, Calvino saiu victorioso, -n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava uma -reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o -maior christão do seu tempo».</p> - -<p class="tb"><b>Beza, o successor de Calvino.</b>—Theodoro Beza succedeu a -Calvino em Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha -adquirido; e até ao meiado do seculo dezesete a voz de Genebra -foi a que as numerosas egrejas protestantes escutaram com -maior acatamento.</p> - -<p class="tb"><b>A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.</b>—Sob a -influencia de Calvino, desappareceram as differenças theologicas -que havia na Suissa, e todas as egrejas que se chamavam -reformadas adoptaram um typo de doutrina. Estas egrejas não -tinham, como as lutheranas, um Catecismo e uma Confissão, -mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas uma perfeita -unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu -Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar -entre os credos das egrejas que se chamam do seu nome, mas a -sua influencia em toda a parte se manifesta. Elle vive novamente, -na obra dos seus discipulos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span></p> - -<p>Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com -o assumpto de que nos estamos occupando são o Catecismo -para a Infancia e a Confissão de Zurich.</p> - -<p>O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar -a instrucção religiosa das creanças, que tão lamentavelmente -havia sido descurada pelos romanistas. Calvino, para a confecção -do seu catecismo, serviu-se do Credo dos Apostolos, dos Dez -Mandamentos e da Oração Dominical. Tiveram origem n’elle -dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o de Heidelberg, -que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve -Catecismo da Assembléa de Westminster.</p> - -<p class="tb"><b>A Confissão de Zurich</b> foi muito proveitosa, porque uniu as -Egrejas Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo -facto de reconciliar n’uma mais profunda unidade as opiniões -de Luthero e de Zwinglio. Poz de parte a metaphysica medieval -com que Luthero havia sobrecarregado a sua theoria, e ao -mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio e -dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos -eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes.</p> - -<p>Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão: -«Os sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou -somos implantados no corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos, -nos ligamos a Elle cada vez mais, até que seja perfeita a -nossa união com Christo, na vida celestial».</p> - -<p>A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente -visivel na geração de protestantes que ella educou e -enviou a combater com o romanismo. «N’uma occasião em que -a Europa», diz Haüsser, «não podia mostrar solidos resultados -da reforma, este pequeno estado de Genebra erguia-se como -uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos para -todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas, -e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os -missionarios provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam -o elevado e intrepido espirito que procede de uma estoica educação -e adestramento; tinham o cunho da abnegação e do heroismo, -que em toda a parte era absorvido pela estreiteza theologica. -Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era -demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo, -separando-o da velha e tradicional auctoridade -monarquica, e fazendo com que elle adoptasse o evangelho da -democracia como parte do seu credo.... Genebra dictou um pequeno -trecho da historia universal, trecho que constitue a parte -de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem orgulhar. -O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens -da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; estes<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span> -homens possuiam almas fortes, caracteres de ferro vasados -n’um molde em que havia uma mistura de elementos romanos, -germanicos, medievaes e modernos; e as consequencias nacionaes -e politicas da nova fé foram por elles defendidas com o -maximo rigor e coherencia.»</p> - -<p>A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha. -A pequena republica de Genebra uniu primeiro a Reforma -suissa, e em seguida deu os caracteristicos distinctivos -aos movimentos reformadores da França, da Hollanda, da Escocia, -da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande parte -da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito, -tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o -reformador de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão -insensivel, tão frio, tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica -tão desapiedada, foi o reformador de uma grande parte da -christandade. A Reforma suissa passou muito para além da -Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França, da -Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span></p> - -<h3 id="II_CAPITULO_III">CAPITULO III<br /> -<span class="smaller">A REFORMA EM FRANÇA</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>Principios da Reforma em França, <a href="#Page_87">pag. 87</a>.—Francisco I, <a href="#Page_89">pag. 89</a>.—A <i>Concordata</i> -de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, <a href="#Page_89">pag. 89</a>.—«Uma egreja -debaixo da cruz», <a href="#Page_90">pag. 90</a>.—O anno dos placards, <a href="#Page_92">pag. 92</a>.—O Vaudois -da Durance, <a href="#Page_92">pag. 92</a>.—Henrique II e os Guises, <a href="#Page_93">pag. 93</a>.—Organisação da -Egreja Reformada, <a href="#Page_95">pag. 95</a>.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, -<a href="#Page_96">pag. 96</a>.—O primeiro Synodo Nacional, <a href="#Page_97">pag. 97</a>.—Anne de Bourg, -<a href="#Page_98">pag. 98</a>.—O massacre de Amboise, <a href="#Page_99">pag. 99</a>.—Coligny na Assembléa dos -Notaveis, <a href="#Page_100">pag. 100</a>.—Catharina de Medicis, <a href="#Page_100">pag. 100</a>.—A Conferencia de -Poissy, <a href="#Page_102">pag. 102</a>.—O massacre de Vassy, e outros, <a href="#Page_103">pag. 103</a>.—A guerra -civil, os iconoclastas, <a href="#Page_103">pag. 103</a>.—Coligny e Carlos IX, <a href="#Page_106">pag. 106</a>.—O massacre -de S. Bartholomeu, <a href="#Page_107">pag. 107</a>.—A Santa Liga, <a href="#Page_109">pag. 109</a>.—Henrique -de Navarra, <a href="#Page_110">pag. 110</a>.—O edicto de Nantes, <a href="#Page_110">pag. 110</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>Principios da Reforma em França.</b>—Antes da Reforma se ter -tornado em França um grande e importante movimento, appareceram -dois typos da cristandade reformada, sellados com as -individualidades de dois homens: Luthero e Calvino, o Pedro e -o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em seguida teve de -ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno -foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando -Wittenberg em segundo plano, que se mostrou em condições de -se defrontar com Roma. A dupla corrente da Reforma partiu -d’estes dois centros para toda a Europa, mas nos terriveis combates -que se travaram a feroz democracia do Calvinismo poude -desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante conservantismo -do movimento lutherano. A historia do progresso -da Reforma fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia -do calvinismo, e do triumpho das idéas calvinistas. Foi assim -em França.</p> - -<p>Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz, -datam de uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino. -Havia no sul e no sueste, no fim do seculo quinze e no -principio do seculo dezesseis, uns taes ou quaes vestigios dos -velhos albigenses; e os valdenses mantiveram-se, e foram protegidos, -em virtude de antigos tratados, durante as perseguições<span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span> -dos huguenotes. A Egreja franceza havia-se distinguido sempre -pela sua opposição ás reivindicações da côrte pontificia e do -papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma grande -decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a -Egreja franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade -de Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou -a parte principal na convocação dos concilios reformadores de -Pisa, Basiléa e Constancia, e no refreamento da curia romana. -A Egreja franceza tinha-se sempre opposto energicamente ao -ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica de -Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer -outro ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que -a França, em vista da sua historia passada, tomasse a iniciativa -de um movimento reformador. A Reforma, porém, que as summidades -ecclesiasticas promoveram no seculo quinze não foi -uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião espiritual. -Os reformadores de Constancia queimaram João Huss.</p> - -<p>Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma, -a mesma immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia -que desacreditou a Egreja medieval do seculo dezeseis -na Allemanha e na Italia; o inicio da Reforma em França proveiu -do despertamento das lettras e da leitura das Escripturas -nas linguas originaes.</p> - -<p>Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux, -onde o bispo, Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade -de reprehender a immoralidade monastica, e que o -povo anhelava por um verdadeiro ensino religioso. Elle tinha -ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de Etaples, e da -perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da Sorbonne -por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e ao -seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo -de Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem -e prégarem debaixo da sua protecção. Lefévre publicou, -em 1523, uma traducção do Novo Testamento em francez, e o -povo comprou o livro e leu-o com soffreguidão.</p> - -<p>Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet -n’outro tempo lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e -de favorecer herejes. No meio da tempestade que então se levantou, -o bispo perdeu a coragem. Farel fugiu para Strasburgo, -seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro prégador, e -a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém, que -possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na -memoria os sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé -evangelica. Alguns crentes tiveram de soffrer o martyrio, mas -o fermento espalhou-se, ainda que occultamente, por toda a -França.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span></p> - -<p class="tb"><b>Francisco I.</b>—O rei de França, n’esses primeiros annos da -Reforma, era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os -seus <i>Institutos da Religião Christã</i>. Enthusiasta, e dotado de alguma -intelligencia, havia saudado a revivificação das letras, -protegeu Lefévre durante o tempo em que este sabio residiu -em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que mantinha com -homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus. -Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a -sua ambição era que o considerassem como tal; a universidade -de Paris havia-lhe merecido uma especial attenção, e interessou-se -tambem immenso na famosa maquina de impressão inventada -por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de -Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu -algumas poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde -rainha de Navarra, foi uma das mais espirituosas conversadoras -e uma das mais brilhantes escriptoras do seu tempo. Francisco -não sympatizava nada com o desleixo e ignorancia de muitos -dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente, considerava -o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com a estupidez. -Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo -a auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que -ambicionava brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer -a absoluta supremacia do soberano. Não sympatizava -com o caracter profundamente espiritual da Reforma, e as suas -necessidades politicas não tardaram a prevalecer sobre o seu -amor pela instrucção.</p> - -<p class="tb"><b>A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.</b>—A -independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de -França em opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção -Pragmatica de Bourges, que definia as liberdades das egrejas -nacionaes de uma maneira clara e energica. Declarou que o -papa estava sujeito a um concilio ecumenico, e que este concilio -se devia reunir de dez em dez annos. Declarou que todos os provimentos -de elevados cargos ecclesiasticos, taes como os bispados -e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não por designação -do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos -a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto -pode abranger tanto os innocentes como os culpados. A Sancção -Pragmatica tinha sido sempre cuidadosamente defendida pela -Egreja franceza, e pela maioria dos soberanos de França. Era -intensamente abominada pelos papas, e não podia ser olhada com -muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia do -throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia -do povo. Francisco comprehendia que, se podesse collocar a -Egreja debaixo do seu dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao -absolutismo. Entendeu-se, portanto, com o papa, e trocou a Sancção<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span> -Pragmatica por uma Concordata, que foi, no futuro, uma -grande desgraça para a França.</p> - -<p>Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios -dos Concilios reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu -em que o papa ficasse com direito ao <i>Annates</i>, isto é, o vencimento -relativo ao primeiro anno de todos os beneficios que -eram providos, concedendo o papa, em troca, que a nomeação -de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do rei. Por -outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes -supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel -somma de dinheiro; e o rei de França era praticamente, -dentro do seu reino, o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos -os arcebispados, bispados, abbadias e priorados. Fez-se denuncia -d’esse tratado, e de todos os modos se trabalhou para o annullar, -mas conseguiu vencer todas as opposições, e permaneceu -em vigor até á Revolução.</p> - -<p>A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma -franceza, e não é possivel exaggerar a importancia que ella tem -para a historia ecclesiastica franceza desde o principio do seculo -dezeseis. Por um lado, secularizou a Egreja franceza. Todos -os officios ecclesiasticos de valor eram doados pelo rei, e tinham -de ser disputados por cortezãos que só nas coisas do mundo -pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses da -Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da -Egreja franceza era necessariamente opposição ao absolutismo -do soberano. Esta Concordata deu uma indole particular á lucta -que a Reforma produziu em França. Os reformadores não podiam -deixar de ser tambem os adversarios do absolutismo; e o rei, -para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de chefe da Egreja, -via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a supremacia.</p> - -<p>Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em -França um trabalho muito diverso do trabalho de Luthero na -Allemanha, porque tinham de se oppôr não só á Egreja como -ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores escocezes e -aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a Reforma -poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na -Hollanda uma republica. Em França, por outro lado, o poder real -foi augmentando lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado, -a um absolutismo como o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se -apto para exterminar a egreja protestante, por meio de -uma sanguinolenta perseguição.</p> - -<p class="tb"><b>«A Egreja que estava debaixo da Cruz».</b>—Luthero tinha, na -Allemanha, um principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra, -auxiliado pela suprema auctoridade civil. Em França os reformadores -tiveram de luctar não só contra o poder do rei como -contra o poder da Egreja. A Egreja reformada, em França, não<span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span> -recebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e teve de sustentar -um combate tão severo e tão rude como o que teve de -sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena -tinha duas coisas contra si; a religião estabelecida, que -era o paganismo, e o Estado, que era egualmente pagão. A -Egreja reformada de França teve duas coisas contra si; foi perseguida -pela egreja estabelecida no reino, que era a romana, e -foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que o poder do rei -era, pela Concordata, em grande escala dependente do reconhecimento -do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma -dupla perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos -apologistas. Eram dois os emblemas que ella gravava nos seus -livros e esculpia nos seus monumentos: a sarça que ardia sem -se consumir, e a bigorna que levava martelladas e estava sempre -inteira. O grande Beza disse um dia ao rei de Navarra: «Sire, -a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos martellos».</p> - -<p>Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes -que existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em -Pavia, em 1525, e a sua alliança com o papa, mostrou-lhe que -era prudente, lá no seu modo de ver as coisas, mostrar alguma -vontade de expurgar da heresia as terras de que era senhor, e -deu licença para que se pozessem em pratica as perseguições -que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo Parlamento -de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha -Luiza, e por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois -de Francisco ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma -occasião em que precisava de dinheiro para as suas guerras, dinheiro -que já não era possivel obter por meio de impostos, que -elle permittiu que a heresia fosse exterminada de vez. O clero -pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em troca -que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se -fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura -e da carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em -1528.</p> - -<p>Severas medidas foram decretadas contra os protestantes. -Era prohibida a leitura de obras protestantes; a ligação com -pessoas suspeitas de heresia importava condemnação; e os herejes, -onde quer que fossem descobertos, eram entregues ás auctoridades -civis para serem castigados. Luiz de Berguin, homem -erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do rei, -e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas -disposições.</p> - -<p>A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das -coisas. Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes -protestantes allemães, e recusou, portanto, associar-se a um -plano geral para a exterminação da heresia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span></p> - -<p class="tb"><b>O anno dos placards.</b>—Em breve, porém, poz de parte este -seu intento, e começaram novamente as perseguições. Os protestantes, -por seu lado, mostraram uma grande somma de coragem. -Imprimiram curtos folhetos em que se atacava a missa e -outros ritos da Egreja Catholica Romana, e espalhavam-n’os -pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado o anno -dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei -um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema -dureza, e Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso, -prohibiu que se imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando -este decreto, entrou a serio no seu papel de perseguidor. -Decretou que a heresia fosse punida com a morte; aquelle que -denunciasse um hereje tinha direito á quarta parte dos bens -que este possuisse, no caso de se provar a veracidade da accusação. -Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os protestantes -eram accusados, condemnados, e punidos com prisão, -perda de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou -ao rei os seus <i>Institutos</i>.</p> - -<p>Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos -de terrivel effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os -protestantes augmentaram em numero, e a repressão, posto -que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz. O sangue dos martyres -era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de Fontainebleau -intimava os officiaes de justiça a processarem todos -aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas -era negado o direito de appellação; os juizes negligentes eram -ameaçados com o desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram -ordem para mostrar maior zelo. «Todos os subditos leaes», dizia -o edicto, «devem denunciar os herejes, e empregar todos os -meios para os extirparem, do mesmo modo que são obrigados -a contribuir para que se ponha termo a qualquer conflagração -publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos, mas -a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam -resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades.</p> - -<p class="tb"><b>Os valdenses da Durance.</b>—A maior atrocidade commettida -durante a perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance. -Uma parte da Provença que confina com a Durance chegara, -dois seculos atraz, a estar quasi despovoada, e os proprietarios -das terras dirigiram um convite aos camponezes dos Alpes para -irem estabelecer-se nos seus territorios. Os novos colonisadores -eram valdenses, e a sua industria e indole economica em breve -encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas. Garantiu-se-lhes -que a sua religião seria protegida, pois que os seus -senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os -serviços que elles prestavam.<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span> -Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma, estes -aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores, -e em 1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que -forneceram o dinheiro necessario para publicar a traducção das -Escripturas Sagradas em francez, feita por Roberto Olivetan, e -corrigida por Calvino. Este procedimento despertou a hostilidade -de alguns ecclesiasticos francezes.</p> - -<p>O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões, -e alguns dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram -morte violenta. Em 1540 o parlamento intimou quinze -aldeãos de Mérindol a comparecer perante elle como suspeitos -de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte estava -resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o -infame <i>Arrêt de Mérindol</i>, que, em resumo, ordenava a destruição -de toda a aldeia.</p> - -<p>A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o -rei teve conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações, -e em resultado d’ellas deu ordem para que o referido decreto -ficasse sem effeito. Foi, porém, induzido a revogar essa ordem, -organizou-se clandestinamente uma expedição, e durante sete -mezes de carnificina, com todos os seus acompanhamentos de -traição e de infame brutalidade, foram totalmente destruidas -vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e mulheres, -e perto de 700 foram enviados para as galés.</p> - -<p>Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França -estava ainda luctando pela sua existencia no meio de perseguições -mais terriveis do que aquellas de que os protestantes foram -victimas n’outro qualquer paiz.</p> - -<p class="tb"><b>Henrique II e os Guises.</b>—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe -Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu -pae, a qual obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da -Allemanha e consolidar, em França, o poder real. Isto obrigava -a occasionaes allianças com os principes protestantes allemães, -e dava logar, em França, a uma continua perseguição aos protestantes. -Todos os favoritos que tinha na sua côrte eram inimigos -da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame -Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além -da rainha, o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem -escrupulos: Diana de Poitiers, o Condestavel de Montmorency, -primeiro ministro da corôa, que gozava de grande reputação -como perito na arte da guerra e na gerencia dos negocios publicos, -e os Guizes, notavel familia de procedencia estrangeira, -que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de -Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu -irmão, o cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos -o conselheiro de Henrique II, era um dos homens mais sagazes -da Europa. A irmã casou com Jayme V da Escocia, e tiveram<span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span> -por sobrinha Maria Stuart, rainha da Escocia, educada em -França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles com o -Delphim de França.</p> - -<p>Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio -tão urgente que os tribunaes de justiça tiveram de interromper -o julgamento de varias causas. Henrique creou uma nova -divisão judicial, que se occupava exclusivamente dos casos de -heresia, e as sentenças proferidas por estes tribunaes especiaes -eram tão severas que o povo chamava-lhes <i>chambres ardentes</i>. -Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a perseguição -não estorvou o derramamento do Evangelho.</p> - -<p>Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o -desejo de ver com os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses -obstinados herejes. Foi levado á sua presença um pobre -alfayate, preso sob a accusação de ter trabalhado n’um dia -santo, e esse homem, com grande espanto da côrte, respondeu -ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre theologia -que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o -ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia -o caracter e estava ao facto da posição occupada por ella, -retorquiu-lhe solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em -ter contaminado a França, e não queira tocar com o seu veneno -e com a sua immundicie uma coisa tão pura e tão sagrada como -é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O rei, encolerisado -porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu ordem -para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz -assistir ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella -que dava para a praça onde o martyr ia ser queimado, este -viu-o, e não despregou mais d’elle os olhos. Mesmo já depois -de rodeiado pelas labaredas não deixou de perseguir o rei com -aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante muito -tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante -o dia e lhe perturbava o somno durante a noite.</p> - -<p>Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte, -que estas repetidas execuções não estavam contribuindo para -a repressão da Reforma. Outros martyres se apresentavam jubilosamente -para substituir aquelles que os tinham antecedido; -viuvas, mancebos, estudantes, raparigas mimosas, fidalgos da -mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel martyrio a negarem -Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais -severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto, -o de Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros -seculos, mandava destruir toda a litteratura christã, na -idéa de que por essa fórma se faria desapparecer o christianismo.</p> - -<p>Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella -se encheu de refugiados francezes. Um certo numero de rapazes, -cheios de coragem e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros -nas verdades do Evangelho, havia-se offerecido para<span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span> -distribuir livros e folhetos por todos os pontos da França. O -Edicto de Chateaubriand visava estes colportores, assim como os -livros e tratados que elles vendiam. Prohibia terminantemente -a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra ou de -outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia -nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão -clandestina. Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias, -mandava examinar todos os volumes que chegassem -do estrangeiro, e submettia, de quatro em quatro mezes, a grande -feira de Lyão a uma fiscalisação especial, pois que mediante -ella é que se haviam espalhado pelo reino muitos livros suspeitos. -Foi prohibida a venda ambulante de livros, fossem elles de -que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem encontradas -cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas -analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé -nas tabernas, nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas. -Por determinação da côrte, ficava, portanto, o povo impedido -de se instruir, se é que edictos e officiaes de justiça o -poderiam impedir. A sementeira proseguia. Dispostos para a -vida ou para a morte, partiram de Genebra e de Strasburgo, -para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando comsigo -Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza -mandou dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero -espantoso os homens que se offereceram para arrostar com todos -os perigos para que a Egreja de Deus avançasse.</p> - -<p class="tb"><b>Organisação da Egreja reformada.</b>—No meio d’estas terriveis -perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se -em Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam -isoladamente a Biblia, ou formavam pequenos nucleos -de crentes. A perseguição augmentou-lhes a coragem, e resolveram -por fim constituir uma communidade.</p> - -<p>O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez -residente em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes -costumava reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae -do recemnascido declarou aos seus irmãos na fé que não podia -ausentar-se de França, afim de obter que lhe fosse administrado -um sacramento puro, e que de fórma alguma consentiria em -que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana. -Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem -um pastor, pondo assim termo a todas as difficuldades.</p> - -<p>Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem -oração, escolheram para pastor a João Le Maçon, que tinha por -sobrenome La Riviére, contava vinte e dois annos, e havia abandonado -familia, riqueza e perspectivas de um brilhante futuro -pela causa de Christo. A pequena assembléa passou em seguida -a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se uma<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span> -Egreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve -constituição.</p> - -<p>Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse -á testa do movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras, -as communidades constituiram-se em congregações, com -os seus presbyteros e diaconos. Tres mezes depois da eleição -de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma carta em -que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha -tres pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse -sempre com a mesma violencia, nunca deixava de haver -quem se offerecesse para esses perigosos logares, e a Reforma -ia fazendo progressos.</p> - -<p class="tb"><b>Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.</b>—Vendo que -eram inuteis todos os esforços empregados para impedir a Reforma, -o cardeal propoz o estabelecimento, em França, de uma -Inquisição, modelada pela de Hespanha, de que Fillippe se havia -servido, com tanta efficacia, para escorraçar de seus dominios -a heresia. O espirito de liberdade constitucional não estava, -porém, tão morto em França que se permittisse a perda total -de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o -que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição -hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os -parlamentos, protestaram contra essa proposta. O rei e os seus -conselheiros insistiram na adopção de similhante medida, mas -em breve descobriram, para seu espanto, que o unico resultado -colhido foi algumas pessoas nobres, das que de maior influencia -dispunham, se declararem protestantes; e de ahi em deante -(1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um -forte partido huguenote.</p> - -<p>A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos -dos principaes representantes da nobreza, e o que elles observaram -tambem no procedimento do clero levou-os a procurarem -homens de vida pura que os instruissem no christianismo. -Alguns membros da mais alta aristocracia que antipathizavam -com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por simples -politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam -uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana, -que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica -ao systema absolutista do rei e dos seus conselheiros.</p> - -<p>Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante -Coligny e seu irmão Francisco d’Andelot.</p> - -<p>Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa -Bourbon, e esta familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada -por Antonio, duque de Bourbon, que, na falta do rei e -dos filhos d’este, era o herdeiro do throno de França, e por seu -irmão Luiz, duque de Condé. Antonio Bourbon tinha casado -com a piedosa e heroica filha de Margarida de Angouleme,<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span> -Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo filho foi -Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu -o titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo -em Pau, onde assistia ás prégações dos pastores protestantes. -Quando voltou para a côrte, começou tambem lá a frequentar -as reuniões evangelicas, e declarou-se, por fim, protestante. O -duque de Condé fez o mesmo. Andelot, o irmão mais novo do -almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o cavalleiro sem -pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello da -Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações -de gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder, -não se atreveram a castigal-o.</p> - -<p>Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu -um tratado de paz com a Hespanha para poder dedicar toda a -sua actividade á destruição dos calvinistas. Era vastissimo, -segundo se diz, o plano que elle tinha preparado. Genebra e -Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria um golpe -mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém, -d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um -torneio que teve logar em Junho de 1559, morreu.</p> - -<p class="tb"><b>O primeiro synodo nacional.</b>—Um caso interessante é que, ao -mesmo tempo em que se estavam planeando novas medidas de -repressão, os protestantes francezes houvessem tomado uma -deliberação que era mais um testemunho da sua progressiva -força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma casa do Faubourg -St. Germain, o seu primeiro <i>Synodo Nacional</i>. O que motivou -essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do -anno, Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris, -foi a Poitiers, afim de auxiliar o serviço da Communhão que se -ia celebrar n’esta cidade. Encontrou-se lá, como era vulgar em -similhantes occasiões, com pastores que tinham vindo de varios -pontos, e, conversando ácerca do estado da Egreja, lamentaram -a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes. Chandieu -foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as opiniões -dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou -cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar -delegados a uma conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi -d’esta maneira que teve origem o primeiro Synodo Nacional. -Era uma pequena assembléa, em que estavam representadas -onze congregações apenas; mas proveu a Egreja franceza de -uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina.</p> - -<p>A Confissão, conhecida depois pelo nome de <i>Confessio Gallica</i>, -foi provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se -n’uma resumida Confissão que Calvino compoz, chamando para -ella a attenção do rei. Foi mais tarde revista por mais de uma -vez, mas podemos ainda chamar-lhe a Confissão da Egreja Protestante -Franceza.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p> - -<p><i>O Livro da Disciplina Ecclesiastica</i> foi modelado pelas <i>Ordenanças</i> -que Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra, -mas contém notaveis differenças, e mostra o que o livro de -Calvino teria sido se o conselho de Genebra lhe houvesse dado -toda a liberdade de acção. A constituição da Egreja franceza -era inteiramente democratica e de um caracter representativo. -Reconhecia os consistorios, que já existiam nas congregações, -e, para os tornar verdadeiramente representativos, preceituava -que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes. -Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se -reuniam duas vezes por anno, e em que cada congregação era -representada por um pastor e um presbytero; e unia a Egreja -toda sob um Synodo Nacional, ou Assembléa Geral, que constituia -o ultimo tribunal de appellação, e a suprema auctoridade -ecclesiastica.</p> - -<p>É interessante observar como n’um paiz cujo governo se -tornava de anno para anno mais arbitrario e absolutista esta -«Egreja sob o peso da Cruz» organizava para seu uso um governo, -que reconciliava mais perfeitamente talvez do que todos -quantos teem sido organizados desde então, o principio da soberania -popular com o de uma suprema auctoridade central. -Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu -mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja -escoceza, a de Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza, -O facto d’ella se afastar posteriormente do modelo francez, -tornando vitalicios os cargos de presbytero e diacono, e a usurpação -do exclusivo direito, pela junta mais moderna do presbyterio, -de enviar representantes á Assembléa Geral, privou -o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma -grande parte do elemento popular que constituia a força das -primitivas egrejas escocezas e francezas.</p> - -<p class="tb"><b>Anne de Bourg.</b>—A morte do rei não alterou em coisa alguma -a politica da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo -de dezeseis annos. Este tinha por esposa Maria, rainha da -Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua subida ao throno atirou -com o poder para as mãos d’este fanatico partido, que era capaz -de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não -podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente -do poder que n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia -medidas para a repressão dos protestantes mediante a exterminação, -e aquelle seu grande empenho em que se derramasse -sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios.</p> - -<p>O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e -execução de Anne de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de -França, que era tambem juiz. O seu crime consistiu em ter, -em conselho publico, dito a Henrique II que era uma coisa -muito seria condemnar aquelles que, no meio das chammas,<span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span> -invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde, -foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia -que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao -ser proferida a sentença de condemnação á morte por meio da -fogueira, tornou a fallar com um tão tocante fervor, com uma -resolução tão pathetica, que até os proprios juizes se commoveram -«Coisa alguma nos poderá separar de Christo, sejam quaes -forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem as enfermidades -que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha -muito como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos -matem, pois, que nos despedacem; os que morrem no Senhor -não deixam jámais de viver, e todos hão de apparecer na resurreição -geral.... E, sendo assim, para que hei de eu permanecer -mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo, e conduze-me -ao logar do supplicio.»</p> - -<p>Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo -francez começa a ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco -se haviam compenetrado da força de que dispunham, começaram -de aquelle ponto em deante a reunir-se para tratarem do -modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como -deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns -dos mais impetuosos foram de parecer que se arvorasse -immediatamente o estandarte da revolta. Calvino e Beza, a -quem consultaram, dissuadiram-n’os de uma insurreição declarada. -Não obstante, organizou-se uma conspiração. La Renaudie, -protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe d’essa -conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido -bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada. -Os Guises tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios -da sua politica, e houve enormes carnificinas, particularmente -em Amboise, que ficaram bem gravadas na memoria dos -huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente Condé de ser -o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de todos -os principes e de todos os membros do Conselho privado, e -desafiou os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de -Guise não se sentiu com animo de o atacar de novo.</p> - -<p class="tb"><b>O morticinio de Amboise</b>, longe de aterrorizar os protestantes, -parece que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser -conhecidos pelo nome de <i>Huguenotes</i>. A origem d’este nome é -obscura; tudo o que ao certo sabemos a seu respeito è que -depois da conspiração de Amboise andava na bocca de toda a -gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja -dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser -feitos por prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia -do povo. A Ceia do Senhor foi, por bandos armados, celebrada -«á moda de Genebra», em Nismes, no Languedoc. O tempo das -assembléas secretas tinha passado, e grandes reuniões ao ar<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span> -livre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam que a -Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de -gente.</p> - -<p class="tb"><b>Coligny na Assembléa dos Notaveis.</b>—A côrte, comtudo, estava -convencida de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao, -e as perseguições continuavam com o mesmo vigor. Necessitava, -porém, de dinheiro, pois que as despezas do reino foram -gradualmente excedendo as receitas, e em Fontainebleau foi, por -fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis. Os protestantes -aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante Coligny, -chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao -rei, outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia. -Pediam a cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem -publicamente o culto divino.</p> - -<p>Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem -animo. O bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da -sua diocese, e pediu que fossem revogadas as leis que se oppunham -á entoação dos hymnos e á leitura das Escripturas, e que -se convocasse um concilio geral. O arcebispo de Vienne ainda -se atreveu a mais. Perguntou se «estava resolvida a morte da -França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se obrigada -a permittir que se realisasse a tal assembléa geral.</p> - -<p>Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo, -tomaram a resolução de matar os seus homens de maior -nomeada, e, segundo parece, tinham tambem em mente um massacre -geral dos huguenotes. Fizeram com que o rei chamasse á -côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão Luiz, -duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo, -para lá partiram.</p> - -<p>O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra -por pouco escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade -estava prestes a estalar, o rei adoeceu e morreu.</p> - -<p>«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que -enviou a Sturm, «algum acontecimento mais opportuno do que -esta morte do rei? Quando a desgraça tinha chegado a tal ponto -que não se podia remediar, Deus revela-Se de subito lá do céu. -Aquelle que traspassou os olhos do pae feriu agora os ouvidos -do filho».</p> - -<p class="tb"><b>Catharina de Medicis.</b>—Pela morte de Francisco ficou herdeiro -do throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente -foi nomeado o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra. -A mãe do joven rei, Catharina de Medicis, de quem -haviam feito pouco caso durante a vida do marido, e que -havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu filho -mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade -de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarra<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span> -instaram com este para que tambem fizesse valer os seus -direitos. Se elle assim tivesse procedido, o futuro da França seria, -porventura, mais pacifico. Ter-se-hia alcançado uma duradoura -tolerancia religiosa, e ter-se-hiam lançado os alicerces de -uma monarquia constitucional; elle, porém, teve a fraqueza de -não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi investida no -poder.</p> - -<p>As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões -a todos os partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises, -e ao mesmo tempo era indispensavel entrar em negociações com -os huguenotes. Todos os herejes que estavam presos recuperaram, -por meio de um edicto, a sua liberdade, mas foram avisados -de que deviam não dar mais motivo de queixa. No entretanto -reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da -morte do ultimo rei.</p> - -<p>Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião; -uma reforma no governo da Egreja, e, em particular, a eleição -livre dos bispos e do clero; um concilio nacional, sob a presidencia -do rei, para discutir as questões religiosas, e, no entretanto, -egrejas para os protestantes, e uma reunião da Assembléa -dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se tambem para -auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse -a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado.</p> - -<p>As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke, -o programma da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem -sido attendidas, essa revolução não seria assignalada com -o atheismo que a desacreditou, e não seria necessario derrubar -a monarquia e a aristocracia. A côrte não estava preparada para -essas mudanças radicaes, e o mais que se poude obter de Catharina -foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde podessem -ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres -catholicos romanos.</p> - -<p>Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes, -voltou para França muita gente que se tinha refugiado -na Inglaterra, na Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na -Italia. Vieram tambem alguns pastores de Genebra, não faltando, -d’esse modo, homens bem instruidos que dirigissem as congregações -protestantes. Era impossivel, porém, mudar todas as -coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises ameaçavam -vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se -tinha na conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se -áquella corrente conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram -contra as assembléas protestantes. Nas localidades onde os huguenotes -estavam em maioria, tornou-se difficil evitar que elles -decisiva e energicamente defendessem os seus direitos. N’algumas -cidades o povo correu em massa ás egrejas, derrubou as -imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os -huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel<span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span> -por conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de -Genebra, protestando energicamente contra toda e qualquer illegalidade. -«Deus nunca disse a pessoa alguma que destruisse -os idolos, exceptuando aquelles que cada um tenha em sua casa, -ou os que em publico se encontrarem revestidos de auctoridade.... -A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos -ver bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos -limites».</p> - -<p class="tb"><b>A Conferencia de Poissy.</b>—A data designada para a Conferencia -approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram -convidados todos os francezes que tivessem qualquer coisa a -dizer em materia de religião a apresentarem-se na proxima assembléa -de Poissy, na certeza de que não correriam perigo algum -e seriam escutados com a maxima attenção. Os huguenotes -tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe -encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio -não queria ir, pois que estava convencido de que de similhante -rainha se não tiraria resultado algum. Por fim acquiesceu, -e os huguenotes ficaram descançados por saberem que os seus -interesses estavam entregues em tão boas mãos.</p> - -<p>Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, -renunciara a um brilhante futuro ao abraçar a causa da -Reforma. Era um homem de magestosa presença, muito illustrado, -e de um trato captivante. Abaixo de Calvino, era elle a -pessoa por quem as egrejas reformadas se deixavam guiar com -maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo representante. -Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz -de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de -Lorraine. O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande -personagem, produziram sensação na côrte.</p> - -<p>Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente -manifesta a ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal -de Lorraine e outros mais trataram logo de pôr termo á conferencia, -ou, no caso de não conseguirem esse proposito, de a tornarem -completamente esteril. O resultado da discussão foi ambas -as partes nomearem delegados para conferirem sobre determinados -pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de -Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.</p> - -<p>Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás -suas reuniões secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus -cultos ás claras, e a qualquer hora do dia, fora das povoações; -e todos os seus ministros eram obrigados a declarar, sob juramento, -que não ensinariam coisa alguma que não estivesse de -accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A tolerancia -era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento -legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram -de parecer que um tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis<span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span> -condições em que era feito, devia ser acceite. «Se a liberdade -que o Edicto nos promette fôr duradoura», escreveu -Calvino, «o papismo cae por si mesmo».</p> - -<p>Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos -a chegar a um accordo com os protestantes. Os funccionarios -civis, nas cidades e nas provincias, pertenciam á religião -do estado, e os parlamentos, ou tribunaes de justiça permanentes, -abominavam o protestantismo. Sabia-se, além d’isso, que o -Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina para ganhar -tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos -a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram -os dois partidos a prepararem-se para uma guerra civil.</p> - -<p class="tb"><b>O massacre de Vassy: outros massacres.</b>—O signal foi dado -pelo duque de Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o -Edicto da Tolerancia. No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo -de manhã, entrou, á frente de um grupo de cavalleiros armados, -na cidade de Vassy, onde uma pequena e indefeza congregação -de protestantes estava prestando culto a Deus n’um celleiro. -Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes, -que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande -maioria, assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras -civis que tanta devastação produziram em França até Henrique -IV subir ao throno.</p> - -<p>O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido -em muitos outros pontos em que os catholicos romanos -estavam em maioria. Em Paris, em Sens, em Rouen, em toda a -parte, emfim, os logares de culto protestantes foram atacados -e os que n’elles se haviam reunido tiveram morte violenta. Em -Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina, fecharam-se -no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao -cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa -de que lhes seria permittido sair da cidade sem serem molestados. -Uma vez cá fóra, foram todos massacrados—homens, mulheres -e creanças, tendo perecido, ao todo, para cima de 3000 -pessoas. Este morticinio de protestantes, em que houve violação -de um juramento, foi commemorado pelos catholicos romanos -de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em -1862 se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração -do centenario.</p> - -<p>Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. -Os huguenotes precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram -as imagens, os altares e as reliquias. Destruição de -imagens e derramamento de sangue era a ordem do dia na maior -parte das provincias de França.</p> - -<p class="tb"><b>A guerra civil. Os iconoclastas.</b>—No meio de tudo isto os dois -partidos formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos,<span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span> -ficando um, o papista, sob o commando de Francisco, duque de -Guise, e o outro, o protestante, sob o commando de Luiz, duque -de Condé, e do almirante Coligny. A França poude então presenciar -todos os horrores de uma guerra civil, em que o fanatismo -religioso accrescentou, ás barbaridades communs a todas -as guerras, as mais atrozes crueldades.</p> - -<p>O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, -exprimiu a opinião de que esta primeira guerra religiosa -obstou a que a França se tornasse protestante. As crueldades -dos papistas tinham desgostado um grande numero de cidadãos -francezes, que, sem serem impulsionados por fortes sentimentos -religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado alliado áquelles que, -pela sua moderação, se mostravam competentes para inaugurar, -e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes huguenotes -faziam o maximo empenho em poder provar que os -seus adherentes sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza -recommendaram que não se interviesse no culto dos catholicos -romanos, excepto quando o caso fosse tratado judicialmente, e -ainda assim com muita serenidade. Não, foi, porém, possivel evitar -que os protestantes despedaçassem as imagens e dessem -cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.</p> - -<p>Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao -mesmo tempo. Condé, acompanhado de Coligny e de outros vultos -importantes, dirigiu-se a toda a pressa para a egreja de -Santa Cruz, onde o tumulto era maior. Ao chegarem á egreja, -Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia subido a um -ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para -baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz, -apontou-o ao dito soldado, e ordenou-lhe que descesse -quanto antes. Elle não parou com o que estava fazendo, proferindo, -porém, estas palavras: «Deixe-me primeiro fazer este -idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da sua vontade». -Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar -de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse -pôr um dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes -entrassem as egrejas ficavam n’uma completa desordem. -Este procedimento foi tomado em toda a França como um indicio -de que os protestantes, se chegassem a ter o poder nas -mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e, por consequencia, -a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre -crescendo, começou a declinar.</p> - -<p>O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel -aos huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um -admiravel general, e os papistas estavam bem providos de dinheiro -e recebiam auxilio de fóra; ao passo que os huguenotes -estavam quasi exclusivamente dependentes dos seus proprios -recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para o -proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha de<span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span> -Dreux, em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel -disciplina dos auxiliares suissos de Guise; mas, por seu -turno, os papistas perderam o duque de Guise, que foi assassinado -em Fevereiro de 1563.</p> - -<p>Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e -tornou-se mais facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido -vencer os papistas; e, do mesmo modo, os papistas não -tinham conseguido exterminar os protestantes. Não se haviam -reconciliado uns com os outros, mas achavam-se cançados; e -convieram n’uma suspensão de hostilidades. O Edicto da Paz -garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam sido -concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais -importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade -em cujos arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus -cultos, e em todas as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de -Março do anno corrente era praticada a religião protestante, -será a pratica d’esta permittida em dois recintos <i>intra-muros</i>, -que serão opportunamente designados pelo rei». O Edicto de -Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as coisas -por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos -não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os -protestantes por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam. -Foi obra de Catharina e de Condé, cada um dos quaes -confiava em que o futuro se encarregaria de tornar inoffensivas -para o seu partido as concessões que fazia.</p> - -<p>As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes -arrebentou a segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de -um anno. A unica acção decisiva foi a batalha de St. Denis, em -que Montmorency foi morto. Seguiu-se então o armisticio de -Longjumeaux, cujas condições eram identicas ás do Edicto -de 1562.</p> - -<p>Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes -começou a terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se -do duque de Alba, o feroz governador dos Paizes Baixos, que -se estava preparando para ajudar a côrte franceza a exterminar -todos aquelles que não quizessem submetter-se á Egreja Catholica -Romana, e resolveram tomar a offensiva. Condé e Coligny -souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar a vida -aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente, -supprimir a obnoxia fé.</p> - -<p>Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou. -Combateu-se durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas -de bom e mau exito, tanto diplomatico como militar. Por -fim, teve logar a batalha de Jarnac, onde os huguenotes foram -derrotados, e onde Condé e varios outros encontraram a morte. -A sorte parecia ter-se tornado crudelissima para os huguenotes. -Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de Navarra, -moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que não<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span> -tinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny -é que teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou -de reunir as forças dispersas, e, não obstante alguns revezes, -poude obter um tratado de paz que offerecia vantagens como -nunca os huguenotes tinham logrado alcançar. Foi auctorizado -o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro d’ellas—La -Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas -aos protestantes como logares de refugio.</p> - -<p class="tb"><b>Coligny e Carlos IX.</b>—O almirante Coligny ficou sendo, em -virtude d’este tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes -mais confiavam. Deixou-se ficar em La Rochelle, no meio dos seus -correligionarios, e encarregou-se da tutella dos dois jovens -principes que eram as esperanças dos protestantes, Henrique -de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal que elle tinha -em vista era de tornar permanentes as vantagens que os reformados -tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas. -Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os -avisos em contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes -do que, por uma indevida solicitude pela minha vida, dar occasião -a que se avente uma suspeita em todo o reino».</p> - -<p>Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX -sympathizou com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então -uns vinte annos, não havia conhecido nunca um homem como -aquelle. A enfermidade não o havia deixado desde a infancia, e -estivera rodeiado por pessoas que tinham interesse em o educar -na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz em contacto -com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo -respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo -com as suas convicções, que se havia tornado a mais celebre -individualidade da França, que fora o organisador do partido -protestante, que era quasi adorado pelos seus amigos, e que, -apezar da sua edade avançada, estava ainda em todo o vigor da -vida, não poude deixar de confiar n’elle como nunca tinha confiado -em pessoa alguma.</p> - -<p>Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram -que o rei estava sob uma nova influencia, a que precisavam -de subtrahil-o a todo o transe. Tinham medo de que o -rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso, lhes escapasse -das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil Carlos sentiu -por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a -causa do massacre de S. Bartholomeu.</p> - -<p>Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de -Coligny. O attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter -com seu filho, e referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes -estavam convencidos de que elle, Carlos, entrara também -na conspiração que tinha por fim a sua morte, e que, portanto<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span> -nunca havia de ter paz emquanto os protestantes não -fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos vultos -preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu.</p> - -<p class="tb"><b>A matança de S. Bartholomeu.</b>—Esta terrivel carnificina de -protestantes, que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 -de Agosto de 1572) foi obra de Catharina de Medicis, de Henrique -de Anjou e dos Guises. A matança foi feita em Paris por -20:000 milicianos da cidade, coadjuvados por alguns soldados e -pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo duque de Guise. -As forças a que se commetteu aquella tarefa eram commandadas -pelos irmãos Guise.</p> - -<p>Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes -cabeças, e depois o massacre tornou-se geral. As casas -dos protestantes tinham sido previamente marcadas com cruzes -brancas, e os assassinos, para reconhecimento mutuo, traziam -faxas brancas, além de outros signaes. Só em Paris foram mortos, -pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram pessoas -de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram -mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, -fixa o numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas -provincias, e o numero das victimas tem sido calculado entre -30:000 e 100:000. Sully, primeiro ministro de Henrique IV, que -estava provavelmente bem inteirado, affirma que cairam sem -vida 70:000 pessoas.</p> - -<p>Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem -mostrado muito orgulhosos de aquelle commettimento, mas -quando a matança teve logar muitos d’elles exultaram. Sabe-se -perfeitamente que, se o acto não foi instigado de Roma, o papa -e a curia estavam, pelo menos, scientes de que elle ia realisar-se. -Houve illuminações em Roma para festejar o acontecimento, os -canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se uma -procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma -medalha para commemorar o <i>Hugonotorum Strages</i>. Alguns dos -principes catholicos romanos enviaram mensagens de congratulação, -e diz-se que o pobre e corrompido Filippe II de Hespanha -sorriu, pela primeira e ultima vez na sua vida, quando a -noticia lhe constou.</p> - -<p>O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e -privou-os de quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam -a existir, e, em vez de se intimidarem, de se darem por -vencidos, perante aquelle acto sanguinario, resolveram em seus -corações vingar-se d’elle. Ainda restavam algumas cidades em -poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes, Montauban, -e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se -a dar entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.</p> - -<p>La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas -por Henrique de Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span> -de um cerco, obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. -Uma egualmente bem succedida resistencia da parte de -outras cidades forçou a côrte a entrar em negociações com os -seus odiados subditos protestantes, e ficou restabelecida a paz.</p> - -<p>D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam -estar sempre preparados para a guerra. Os horrores da vespera -de S. Bartholomeu haviam-lhes mostrado o quão implacaveis -eram os seus inimigos, e a traição por elles commetida quando -foi do cerco e capitulação de Sancerre deu-lhes uma prova da -sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados oito mezes, -e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens, -pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. -«Porque chora», exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me -morrer de fome? Eu não lhe peço pão, mãe; sei que não tem -nenhum para me dar. Visto Deus querer que eu morra d’esta -forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle homem -santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» -E depois de a cidade se haver rendido teve logar, não obstante -a promessa que lhe tinha sido feita sob juramento, uma horrivel -scena de homicidio e pilhagem.</p> - -<p>Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram -organizar-se, para que podessem estar sempre promptos, -e tão diligentemente pozeram os seus planos em execução que -n’um curto prazo se encontraram aptos para pôrem 20.000 homens -em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que tudo -organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei, -em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as -guerras religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote -não se havia extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu -um outro partido ia adquirindo lentamente importancia em -França. Era elle constituido pelos catholicos romanos moderados, -que estavam fartos de carnificinas, e que attribuiam todos -os males do Estado ao poder de que os estrangeiros dispunham -no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes, -isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração -das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como -também eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas -quando tiveram conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, -e do programma politico que os huguenotes expozeram -em Milhau, e, revestidos de paciencia, esperaram a occasião de -intervir.</p> - -<p>Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a -quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse -seguido de um tratado de paz, nunca, de um modo ou do -outro, se deixou de combater, e a rejeição do pedido feito pelos -huguenotes não permittia duvidas quanto á imminencia de outra -guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio de 1574, -de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span> -sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo -da carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique -de Anjou, o terceiro e mais vil dos filhos de Catharina, e que -era o favorito d’esta. Henrique era ao mesmo tempo um papista -cheio de superstições e um libertino cheio de impudencia.</p> - -<p>Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado -aos Guises, e adherira ao partido papista; pouco depois -de subir ao throno, porém, como o amedrontasse a possibilidade -de uma alliança entre os «politicos» e os huguenotes, concedeu, -por meio de um edicto, uma parte do que os protestantes pediam. -Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada liberdade religiosa, -egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser julgado -por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e -de protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como -penhor, nas mãos dos protestantes.</p> - -<p class="tb"><b>A Santa Liga.</b>—Este procedimento do rei deu logar á fundação -da Santa Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos -jesuitas, cujo fim era promover uma alliança dos catholicos -francezes com Filipe II de Hespanha e com o papa. Visava, -em primeiro logar, a governar a França no interesse da fé catholica -romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes, -e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os -Bourbons, ou, pelo menos, o impedir que a corôa passasse para -Henrique de Navarra.</p> - -<p>Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em -cujos variados incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a -quinta, como a sexta, como a setima guerra civil concluiu por -um tratado de paz favoravel aos protestantes.</p> - -<p>Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio -dos Guises. A oitava guerra civil terminou em julho, mediante -o tratado de Nemours, que não era tão favoravel para os protestantes. -A nona guerra civil teve logar pouco depois. Foi denominada -a Guerra dos Tres Henriques—Henrique III, Henrique -de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua pouca -edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra -teve o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes -ficaram victoriosos.</p> - -<p>As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram -entre o rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu -que a sua auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes, -que se reuniram em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe -que a França estava sob o dominio do duque; e a insurreição que -teve logar algumas semanas antes foi uma revelação do quanto -a Liga se havia ramificado. Não querendo sujeitar-se por mais -tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da Liga mediante -a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise, -e Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembro<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span> -de 1588, juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga -continuou a existir. É que ella havia estabelecido em toda a -França associações similhantes aos clubs jacobinos do periodo -revolucionario; e, quando os Guises foram assassinados, a sociedade -mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como era conhecida, -apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos -os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação -do parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel -medo, fugiu para o meio dos huguenotes, entregando-se -ao seu grande rival, o rei de Navarra. Jacques Clemente, frade -dominicano, e um dos fanaticos da Liga, foi, porém, em sua perseguição, -e apunhalou-o. Algumas horas depois Henrique III expirava, -e o general huguenote ficava sendo o legitimo herdeiro -da corôa de França.</p> - -<p class="tb"><b>Henrique de Navarra.</b>—Ao principio foi apenas reconhecido -pela parte protestante da França. A Liga dispunha de grande -poder, e estava resolvida a impedir que o throno fosse occupado -por um huguenote. Até mesmo os catholicos romanos moderados -com dificuldade podiam admittir que reinasse em toda a -França um rei que professava a religião da minoria. O papa recusava-se -a reconhecer um soberano protestante, e Filippe II -de Hespanha fez a ameaça de uma invasão das suas tropas. -N’estas circumstancias, Henrique de Navarra fez uma coisa extraordinaria: -pediu para ser instruido nas doutrinas da religião -catholica romana. Isto chamou para o seu partido um grande -numero de romanistas moderados, e o rei poude desbaratar a -Liga nas batalhas de Arques e Ivry.</p> - -<p>A Liga continuava ainda a intimidai-o muito e projectava -levar ao throno Carlos de Guise, duque de Mayenne, ou o Cardeal -Bourbon, tio de Henrique, (que reinou effectivamente sob o -nome de Carlos X), ou Filippe II de Hespanha, que tinha casado -com uma Valois.</p> - -<p>Em face de todas estas complicações, Henrique deu um -passo que a sua heróica mãe nunca teria dado. Fez-se catholico -romano. O effeito d’isto foi que n’um maravilhosamente curto -espaço de tempo a Liga se dissolveu, e Henrique IV foi acclamado -rei por quasi toda a França. Os seus velhos companheiros -de armas e correligionarios, posto que deplorassem a sua apostasia, -não abandonaram o joven que desde a infancia havia sido -seu associado e chefe, e que, depois dos afflictivos dias de Bartholomeu, -havia deixado a côrte assim que isso lhe fôra possivel, -para combater junto d’elles. Elle, em troca, concedeu-lhes -aquillo por que haviam luctado durante trinta annos.</p> - -<p class="tb"><b>O Edicto de Nantes.</b>—Em 1598 foi assignado o famoso Edicto -de Nantes, que se adeantava mais em tolerancia religiosa -do que qualquer outro edicto do seculo dezeseis. Tinha, porém,<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span> -um grande defeito, e era que as circumstancias em que a França -se encontrava tornavam impossivel garantir liberdade religiosa -sem conceder aos protestantes certos privilegios politicos que -os constituiam um estado no estado, e que mais tarde obstaram -á completa fusão dos dois partidos n’um governo.</p> - -<p>Este edicto outorgava completa liberdade de consciencia; -de ahi em deante ninguem mais seria perseguido por causa das -suas idéas religiosas. Todos os nobres que possuissem aquillo a -que se chamava «superior jurisdicção» tinham auctorização para -ensinar o calvinismo, e toda a gente podia aproveitar-se das suas -lições. Os nobres que não possuissem essa jurisdicção gozavam -do mesmo privilegio, e podiam ter ao seu serviço quantas pessoas -quizessem, quando residissem em localidades onde não houvesse -catholicos romanos com a «superior jurisdicção». Dava -licença para que continuasse, ou fosse restaurado, o culto publico -«a que chamam reformado» em todas as cidades onde elle -já existia em Agosto de 1597. Quando os protestantes estivessem -espalhados por um districto provinciano, designar-se-hia para -local do culto uma das povoações. Prohibia-se aos protestantes -o culto publico em Paris, ou a cinco milhas de distancia d’essa -cidade, e nas seguintes cidades, onde predominava o fanatismo -catholico romano: Reims, Toulouse, Dijon e Lyon. N’outra qualquer -parte os protestantes podiam ter egrejas, sinos, escolas, -etc. Os principaes limites da liberdade religiosa consistiam em -que a religião romana era declarada a religião estabelecida, e -em que os protestantes tinham de pagar dizimos ao clero official, -não podiam trabalhar nos dias santificados, e eram obrigados -a conformar-se com as leis matrimoniaes da egreja catholica.</p> - -<p>Os protestantes, ficou também declarado, tinham os mesmos -deveres civis e os mesmos privilegios dos catholicos romanos, -e podiam concorrer a todos os empregos e dignidades do Estado. -Estabeleciam-se tribunaes de justiça especiaes, para julgamento -dos protestantes. Estes retinham durante oito annos -todas as cidadellas que lhes pertenciam anteriormente a 1597, -com todo o material de guerra; e n’essas cidades os governadores -eram nomeados pelos huguenotes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p> - -<h3 id="II_CAPITULO_IV">CAPITULO IV<br /> -<span class="smaller">A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>Os Paizes Baixos, <a href="#Page_113">pag. 113</a>.—A politica de Carlos V, <a href="#Page_114">pag. 114</a>.—Os principios -da Reforma, <a href="#Page_115">pag. 115</a>.—Filippe II e os Paizes Baixos, <a href="#Page_115">pag. 115</a>.—A -inquisição, <a href="#Page_117">pag. 117</a>.—Os novos bispados, <a href="#Page_118">pag. 118</a>.—Tornar-se-ha hespanhol -o paiz? <a href="#Page_119">pag. 119</a>.—Os <i>mendicantes</i>, <a href="#Page_120">pag. 120</a>.—Prégações ruraes, -<a href="#Page_120">pag. 120</a>.—O duque de Alba nos Paizes Baixos, <a href="#Page_121">pag. 121</a>.—A prisão do -conde Egmont e do conde Horn, <a href="#Page_122">pag. 122</a>.—A guerra civil. O principe de -Orange, <a href="#Page_124">pag. 124</a>.—Os mendigos do mar, <a href="#Page_124">pag. 124</a>.—A tomada de Brill, -<a href="#Page_126">pag. 126</a>.—Requescens y Zuniga, <a href="#Page_128">pag. 128</a>.—O cerco de Leyden, <a href="#Page_129">pag. 129</a>. -Negociações entre as provincias do sul e as do norte, <a href="#Page_130">pag. 130</a>.—D. João -de Austria, <a href="#Page_131">pag. 131</a>.—Alexandre de Parma, <a href="#Page_132">pag. 132</a>.—O tratado de -Utrecht, <a href="#Page_132">pag. 132</a>.—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão, -<a href="#Page_133">pag. 133</a>.—O <i>Confessio Belgica</i>, <a href="#Page_134">pag. 134</a>.—A constituição da Egreja hollandeza, -<a href="#Page_134">pag. 134</a>.—A força da Egreja na Hollanda, <a href="#Page_136">pag. 136</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>Os Paizes Baixos.</b>—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma -foi talvez a ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final, -mas aquelle paiz teve a honra de fornecer os primeiros -martyres da fé protestante.</p> - -<p>Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt -e do Rheno, e na edade media constituiam o lado norte do velho -reino de Lotharingia, ou Lorrena, o celebre reino central, como -era chamado. A sua situação, com uma extensa costa maritima, -e os grandes rios que o atravessavam, tornava-o naturalmente -um paiz commercial. O mar estava constantemente usurpando -a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios trasbordavam, -e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos.</p> - -<p>A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam -o povo fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar -de si sem o auxilio alheio. O paiz abundava em grandes -cidades, habitadas por gente livre e opulenta. A vida burgueza -começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na maioria das -nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada. -N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes; -n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia -em Utrecht, considerava seu subdito o bispo da provincia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p> - -<p>Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o -espirito da liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra -dos Trouvères, e a sua influencia era ainda bastante para que -no povo se conservasse vivo o espirito anti-clerical. O clero -romano nunca teve muito predominio nas cidades mais importantes, -e mesmo nas provincias não conseguiu jámais levar -de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas, -as quaes algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros, -ou sociedades de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham -por fim cultivar os talentos dramaticos dos seus membros, -ou para representarem os oratorios medievaes, ou, mais -frequentemente, para comporem e recitarem poesias satyricas -e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram inexoravelmente -atacados.</p> - -<p>Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores -de Gerardo Groot, o fundador das escolas para creanças pobres -e dos asylos para orphãos; e os seus collaboradores, os -Irmãos da Vida Commum, tinham diffundido os seus sentimentos -de mystico desprezo por uma Egreja mecanica e politica, -e a sua ambição de que todos os paizes em redor fossem devidamente -educados e seguissem a religião do coração. Thomaz -á Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que -viveram antes da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos.</p> - -<p class="tb"><b>A politica de Carlos V.</b>—No seculo quinze a maior parte -d’estes estados livres e d’estas cidades opulentas tinha caido -sob o dominio dos duques de Borgonha, que eram ao mesmo -tempo vassalos da corôa franceza e do Imperio. Não vem agora -a proposito relatar a avidez com que Filippe o Bom, e seu filho, -Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um reino, e -para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que -os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da -França constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos, -quando casou com Maximiliano de Austria, que era neto -de Carlos V, o imperador na epoca em que se deram os primeiros -episodios da Reforma.</p> - -<p>Carlos V, que era conde de Hollanda, e <i>stadtholder</i> dos -Paizes Baixos, assim como rei de Hespanha e imperador da -Allemanha, nasceu e foi educado nos Paizes Baixos, e reputava -essas provincias suas propriedades exclusivas. A politica constante -do imperador foi a de auxiliar, até onde podesse ser, os -privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos Paizes Baixos -fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar o governo -e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo não -recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos -de procedencia hespanhola.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p> - -<p class="tb"><b>Os principios da Reforma.</b>—Quando a Reforma começou na -Allemanha, e foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando -Luthero, os seus adherentes e as suas obras sob o anathema -do Imperio, Carlos fez sair nos Paizes Baixos um decreto -que continha disposições similhantes. O edicto foi inefficaz na -Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia nos -Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes -e João Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito, -foram queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros -martyres da Reforma. Luthero compoz um hymno em sua -honra, que intitulou «Cantico dos dois martyres de Christo em -Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.» Foram prohibidas -as reuniões religiosas, assim como a introducção das -obras de Luthero.</p> - -<p>Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero -foi traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em -1523, e as doutrinas da Reforma tornaram-se largamente conhecidas.</p> - -<p>Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias -em nome de Carlos não deram plena execução aos severos edictos -que lhes foram confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos, -era inclinada á tolerancia em materia de religião, e Maria -da Hungria, sua irmã, era, segundo se diz, secretamente partidaria -da Reforma. N’estas circumstancias o movimento alastrou-se -com rapidez no meio do povo, que estava acostumado a ler, -pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador, -«até nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com -pessoas aptas não somente para ler e escrever, como tambem -para discutir, quaes letrados, as interpretações biblicas.»</p> - -<p>O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do -fanatismo anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram -apoderar-se da cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram -as ruas soltando loucos vaticinios. Na Frisilandia -penetraram n’um convento, e combateram desesperadamente -com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o edificio. -O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira -caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram -quasi trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes -que não approvavam de modo algum aquelles ardores -anabaptistas. A Reforma, apezar d’este contratempo, foi fazendo -progressos nos Paizes Baixos, até que, em 1555, Carlos V abdicou -em seu filho Filippe II, começando então o povo a luctar -pela liberdade politica e religiosa.</p> - -<p class="tb"><b>Filippe II nos Paizes Baixos.</b>—Carlos viu todos os seus projectos -transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu -adoptar a mesma politica, usando, porém, do maior rigor e severidade.<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span> -«Queria impôr, illimitada e incondicionalmente, o despotismo -temporal e espiritual a que o restabelecido poder pontificio -aspirava.» Sabemos agora que o empreendimento de Filippe -era, desde o principio, irrealisavel; mas o elle ser ou não bem -succedido constituiu um problema que teve a Europa suspensa -durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou -bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a -lucta nos Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira -revolta contra a politica de Filippe, e devido a ella o poder -de Hespanha ficou tão abalado que a Europa poude sentir-se -em segurança.</p> - -<p>Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe -achava-se nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com -desgosto os progressos que a religião reformada fazia n’essa -terra. A Hespanha estava segura, pois que se havia inteiramente -extinguido n’ella toda a liberdade civil e religiosa. Filippe -podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e superintender -pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu que -a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld, -que muitos dos nobres estavam em constante communicação -com os principes lutheranos da Allemanha, e que os protestantes -dos Paizes Baixos se entendiam tambem perfeitamente com -os huguenotes francezes. As suas medidas para exterminio -da heresia foram cuidadosamente elaboradas e com muita paciencia -postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na presença -do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que -lhe fosse dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos -detalhes, no estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação -do episcopado das provincias.</p> - -<p>Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao -sul dos Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França, -tanto ao norte como ao sul, e quando em guerra com este paiz -as tropas hespanholas haviam-se aquartellado nas dezesete provincias, -com o fim de se encontraram com o exercito francez -n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas tropas -e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios. -Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem -o seu consentimento representava um attentado contra um dos -privilegios que as provincias mais apreciavam; o paiz, além -d’isso, tinha acabado de passar por uma grande fome, e a brutalidade -dos soldados ainda mais exasperava o povo, chegando os -habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam morrer -afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes -da soldadesca.</p> - -<p>Filippe não podia ficar para sempre nos Paizes Baixos, pois -que a sua presença era necessaria na Hespanha, e antes de se -retirar precisava de nomear uma pessoa que ficasse governando -em seu nome. As provincias queriam que esse encargo recaisse<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span> -sobre um dos seus nobres, e os nomes de dois membros da aristocracia, -Guilherme de Orange e o Conde Egmont, que eram -tambem principes do Imperio Allemão, foram frequentemente -pronunciados na presença do rei. Tinham sido ambos muito -affeiçoados a Carlos V, havendo demonstrado por meio de actos -a sua dedicação, e possuíam todos os requisitos para o desempenho -de aquelle logar. A escolha de Filippe, porém, caiu em -sua cunhada, Margarida de Parma, que estava inteiramente -dependente d’elle, era estranha ao paiz, cuja lingua ignorava, -e conforme Filippe suppunha, lhe obedeceria cegamente. Deixou -junto d’ella, como primeiro conselheiro, Antonio Perrenot, -mais conhecido pelo cardeal Granvella, creatura sua, e mais -um ou dois que elle sabia ao certo que executariam sem hesitação -qualquer ordem que mandasse.</p> - -<p class="tb"><b>A Inquisiçao.</b>—O mais importante elemento de repressão, -comtudo, foi a inquisição. Esta terrivel instituição differia inteiramente -da organização que, com o mesmo nome, existiu -antes da Reforma. A primeira inquisição, estabelecida para -exterminio dos albigenses do sul da França, causou grandes -soffrimentos aos não-conformistas da edade media, mas as suas -funcções eram geralmente entregues aos dominicanos e aos -franciscanos, e a rivalidade que havia entre uns e outros, combinada -com o facto de terem sido estas duas grandes ordens as -que deram acolhida á heresia medieval, obstou a que ella fosse -o perseverante instrumento de repressão de que os papas de -epocas posteriores á da Reforma, os jesuitas e os monarcas -como Filippe II careciam. Foi, por conseguinte, remodelada em -Roma sob a superintendencia do cardeal Caraffa, que mais tarde -se chamou Paulo IV, separada das ordens monasticas, e restabelecida -sobre uma base independente.</p> - -<p>Tinha por fim, segundo a bulla que presidiu á sua fundação, -extirpar a heresia, primeiro em Italia, e em seguida em todo o -mundo; e no seu funccionamento havia quatro regras a observar. -Em materias de fè não se permittia um momento de demora, -e a inquisição tinha de proceder com o maior rigor á mais leve -suspeita, não se respeitava as pessoas dos principes ou dos -prelados, por mais elevada que fosse a sua posição; usar-se-hia -de um rigor especial para com aquelles que se acolhessem á -protecção de um rei ou de uma personagem equivalente; e não -se concederia uma falsa tolerancia a qualquer heresia, sobretudo -ao calvinismo.</p> - -<p>A idéa do cardeal Caraffa era tornar a inquisição alliada do -Estado, prestando o poder civil a sua coadjuvação para que as -ordens da Egreja fossem cumpridas, e acoimando esta de heresia -qualquer acto ou phrase que um Estado despotico entendesse -que lhe era hostil. A inquisição tornava-se assim uma terrivel<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span> -maquina nas mãos de um governo despotico, e, na verdade, onde -quer que a sua presença se fez sentir por muito tempo, toda a -liberdade civil e religiosa foi suffocada.</p> - -<p>A Italia e a Hespanha ainda não se restabeleceram das feridas -por ella abertas.</p> - -<p>Carlos V estabeleceu a Inquisição tanto em Hespanha como -nos Paizes Baixos, e, de accordo com o que ella preceituava, -publicou alguns edictos cheios de violencia, aos quaes, não -obstante a passiva opposição dos regentes, não houve remedio -senão obedecer. Foi prohibido imprimir, copiar, conservar -escondido, comprar, vender ou dar qualquer livro de Luthero, -Œcolampadius, Zwinglio, Bucer, Calvino, ou qualquer outro hereje. -Foi tambem prohibido damnificar, de uma ou outra fórma, a -imagem de qualquer santo canonizado, assistir a reuniões hereticas, -ler as Escripturas, e entrar n’uma discussão ou controversia -religiosa. Os transgressores, se se retractassem, eram mortos -á espada ou enterrados vivos; se não se retractassem, eram -queimados, com confiscação de todos os seus bens. Aquelle que -denunciasse um hereje recebia uma boa parte da sua fortuna, -logo que fosse provada a veracidade da accusação. Os suspeitos -de heresia eram obrigados a abjurar, e, se tornava a haver duvidas -a seu respeito, procedia-se com elles como se fossem herejes -declarados. Durante o reinado de Carlos houve todos os -annos um bom numero de execuções, e, não obstante, a Reforma -ia-se propagando. Em 1550 já tinham fugido á inquisição 10:000 -pessoas, que procuraram refugio em paizes estrangeiros. Filippe, -a cujo conhecimento isto chegou, era de opinião que o terrorismo -ainda não tinha sido exercido senão em pequena escala; -concedeu, portanto, mais amplos poderes á inquisição, e ordenou -á regente e ao seu conselho que prestassem aos inquisidores -todo o auxilio que lhes fosse necessario.</p> - -<p class="tb"><b>Os novos bispados.</b>—No principio do seculo dezesseis havia -nos Paizes Baixos quatro bispados: o de Arras, o de Cambray, -o de Tournay e o de Utrecht. Filippe, só com uma pennada, -propoz que se acerescentassem quatorze. O cardeal Caraffa, já -então o papa Paulo IV, deu logo o seu apoio a essa proposta, -pois que, disse elle, a heresia andava desenfreiada pelos Paizes -Baixos, e a seara era abundante mas poucos os obreiros. O clero -dos Paizes Baixos protestou; o povo, indignado, appellou para a -constituição do paiz, que não permittia que o clero fosse augmentado -sem o consentimento d’este. Todos os protestos, porém, -foram baldados. Em 1560 o paiz foi dividido em quinze bispados, -que ficaram sobre as ordens de tres arcebispos, tendo -por primaz o arcebispo de Mechlin; e Filippe alcançou assim -um bom numero de voluntarios instrumentos de repressão, -assim como uns poucos de tribunaes onde os casos de heresia -fossem julgados e sentenciados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p> - -<p class="tb"><b>Tornar-se-ha hespanhol o paiz?</b>—No entretanto o paiz ia-se -alarmando. Estas mudanças foram para a maioria dos neerlandezes -indicios de que se intentava reduzir os Paizes Baixos á -condição de Hespanha. O patriotismo identificou-se com a Reforma, -e a causa nacional e a religião evangelica caminharam, -por assim dizer, de mãos dadas.</p> - -<p>Isto deu um grande impulso ao movimento protestante. -Tornou-se a causa popular. Multidões intervieram nos castigos -ecclesiasticos, apoderaram-se das victimas condemnadas á morte -pela inquisição, promoveram tumultos por occasião da missa, -e por vezes atacaram as egrejas e derrubaram as imagens.</p> - -<p>Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem -as suas queixas. O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram -culpado de todas as medidas dignas de censura. Filippe, fingindo -concordar com os nobres, transferiu Granvella para outro -ponto; mas o velho systema de terrorismo continuou, e os nobres -perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade, os queria -fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam -protestado.</p> - -<p>A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou -uma nova resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez, -fallou contra a proposta em termos violentos; houve uma -assembléa de nobres, e resolveu-se encarregar o conde Egmont -da missão especial de informar o rei dos sentimentos do povo -das provincias; porque ainda se julgava que Filippe ignorava -certas coisas de que aliás estava perfeitamente informado.</p> - -<p>Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um -subdito leal do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido -de Filippe, esse alguém, segundo a opinião geral, era Egmont. -Partiu para Madrid em 1565, onde foi recebido com apparente -cordialidade, e assegurou-se-lhe que as representações dos nobres -seriam attendidas.</p> - -<p>Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de -cumprir as suas promessas. Deu, pelo contrario, ordem para -que em todas as cidades fossem proclamados, de seis em seis -mezes, os decretos de Trento, os edictos com caracter de perseguição -e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo contam -os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o -commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e -todo o paiz parecia ter passado por um enorme cataclismo. -Distribuiam-se pamphletos, que eram avidamente lidos, contendo -apaixonados appellos ao povo para que pozesse termo á tyrannia. -Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta aberta ao rei, -dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos -n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de -Deus.» Damos graças a Deus por até os nossos inimigos se -verem constrangidos a dar testemunho da nossa piedade e da<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span> -nossa innocencia, e tanto assim que se diz commummente: «Fulano -não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não pratíca -immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita». -«E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo -que se pode inventar.»</p> - -<p class="tb"><b>Os mendicantes.</b>—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes -tinham um espirito mais ousado resolveram unir-se para -resistirem á tyrannia. Os seus chefes naturaes, que eram o principe -de Orange e os condes de Egmont e de Horn, conservaram-se -afastados, por considerarem insensata aquella empreza. Os -confederados resolveram começar dirigindo-se em solemne procissão -á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição e a -revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza -em 5 de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham -preparado; e a regente, perturbada com a imponencia do acto, -convocou a toda a pressa o conselho para saber o que havia de -responder. Barlaymont, um dos seus conselheiros, e pessoa -muito da intimidade de Filippe, foi de opinião que «aquelle -bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do palacio, -A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse -as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles -reunidos n’um banquete para deliberarem, o conde Brederode -levantou-se, e disse: «Chamam-nos mendicantes. Acceitamos -esse nome. Empenhamos a nossa palavra em como havemos de -resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e á Sacola do -Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro -como as que usam os mendigos que andam de terra em terra, -e, deitando vinho n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade -da causa.</p> - -<p class="tb"><b>Prégações ruraes.</b>—O nome de mendicantes foi adoptado com -grande enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. -Por toda a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos -e fidalgos com a sacola de coiro dos mendigos vagabundos. O -povo começou a compenetrar-se da força de aquella aggremiação. -Realisaram-se logo grandes conventiculos, ou prégações -ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as -mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas -em redor, collocando-se os homens, armados, um pouco -fóra do ajuntamento, e assim escutavam as pregações dos ministros -excommungados. Liam as Escripturas, cantavam hymnos, -e ouviam orações feitas na sua lingua natal. Era tal a agglomeração -de gente, e estavam tão vigilantes e tão bem armados, que -os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente convenceu-se -de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não -poderia conter a excitação popular.</p> - -<p>O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span> -ao ar livre se faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos -romanos. Quando os padres passavam pelas ruas de -Antuerpia levando processionalmente a milagrosa imagem da -Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken! (Mariasinha) -chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a cathedral -e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. -N’outros pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar -outros actos de violencia. A regente via-se sem forças para pôr -termo aos tumultos, e, em desespero, concedeu ao povo a abolição -da inquisição e a tolerancia da doutrina protestante. Confiando -na sinceridade d’estas concessões, os nobres tomaram -sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir as -desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o -conde Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.</p> - -<p>Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado -do regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, -determinou, na primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz -e exterminar os cabeças de motim. Com a sua habitual dissimulação, -procurou disfarçar os seus intentos, e o conde Egmont -foi por elle enganado. O principe de Orange, sempre bem informado, -e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e suspeitava -de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria, e -preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei -havia de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres -que haviam dirigido o movimento não estavam suficientemente -unidos para resistir; que os chefes menos cautos dos -Mendicantes se haviam de revoltar; e que o rei havia de tomar, -indescriminadamente, uma furiosa represalia.</p> - -<p>Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem -de Walcheren; reuniram-se em grande numero em Anstruweel, -e ameaçaram Antuerpia. Na sua marcha, destruiram reliquias -e despojaram as egrejas das imagens e dos paineis. Egmont, -querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre esses insurgentes -e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.</p> - -<p>O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o -principe de Orange tinha tão exactamente interpretado o curso -dos acontecimentos que, quando elle ainda ia a caminho do seu -voluntario exilio, da Allemanha, ia nos Paizes Baixos o duque -de Alba, á frente de um novo corpo de exercito hespanhol.</p> - -<p class="tb"><b>O duque de Alba nos Paizes Baixos.</b>—Fernando Alvarez de -Toledo, duque de Alba, era um dos servidores de Filippe II que -mais se parecia com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um -ignorante em todos os assumptos politicos e economicos, um -avarento, e um impudente enganador. Publicações recentes teem -demonstrado que elle possuía muito pouco do talento que os -remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o recommendou<span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span> -a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por -elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, -e o seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos -os impulsos de misericordia.</p> - -<p>Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava -a dissimular. Assegurou á regente que não era sua intenção -fazel-a substituir por elle, e fez todo o possivel para acalmar as -suspeitas dos nobres e dos estados dos Paizes Baixos. Ao mesmo -tempo dava ordem ao duque para acabar com a Reforma de um -modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de todos -os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões -á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por -carta, ao duque de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais -eminentes que haviam tomado parte nos tumultos e pôl-os em -condições de não tornarem a fazer damno; prender e castigar -os que de entre o povo estivessem criminosos; obter pela violencia -todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres -de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a -maxima severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização -dos novos bispados, e punir as cidades rebeldes com a -Inquisição e com a imposição de subsidios.» As tropas embarcaram -em Carthagena, desembarcaram em Genova, e marcharam, -atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o -Luxemburgo e Paizes Baixos.</p> - -<p>Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o -seu desejo era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara -de um modo que agradasse a seu amo. Uma das suas maximas -favoritas era: «Antes assolar uma nação por meio da guerra, -se d’esse modo ella se conservar fiel a Deus e ao rei, do que -deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus adherentes, -os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente convencido -de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso -dos seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, -em pouco tempo domesticarei esta gente de manteiga», disse -elle, pouco depois de ter entrado no paiz.</p> - -<p class="tb"><b>A prisão dos Condes Egmont e Horn.</b>—A primeira coisa que -elle fez foi lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu -á mais vil dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, -dispensou-lhes todas as amabilidades, e fez todo o possivel -para os conservar ao seu alcance até ter opportunidade da -os mandar prender. Ficou muito desapontado quando Guilherme -de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços -para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, -prendeu o Conde Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os -n’um carcere.</p> - -<p>Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles -fidalgos tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei.<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span> -Egmont havia incorrido no odio do povo pela firmeza com que -procurou reprimir a insurreição, e Horn perdera todos os seus -bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe. Aquellas prisões -mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do -«rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente -lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella -soube em Roma, do feito de Alba, perguntou: «Elle tem em -seu poder o Silencioso?» E, depois de o informarem de que Guilherme -estava em liberdade, disse que Alba não tinha conseguido -coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se -lhe havia escapado tinha mais valor do que todos os outros -juntos.</p> - -<p>Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em -seguida de aterrorisar o povo. Organizou um <i>Conselho de Disturbios</i>, -que substituiu o antigo Conselho de Estado, e que teve -a sua primeira, reunião em 20 de Setembro de 1567. Este conselho -suspendeu todo o julgamento de causas pelos tribunaes ordinarios, -e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue». Alba -presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por -provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel -para evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia -elle, «só teem servido até aqui para lavrar a sentença depois -de se fazer prova do crime; mas agora as coisas passam-se de -outra fórma». Este conselho de disturbios privava toda a gente -das suas garantias individuaes, e ia investigar todos os delictos -commettidos no passado. A accusação vulgar era a de ter conspirado -contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem do codigo -medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os -que haviam assignado petições para que os edictos contra a -heresia deixassem de ser applicados, todos os que se haviam, -de algum modo, opposto á creação dos novos bispados, todos os -que haviam dito que o rei tinha obrigação de respeitar as liberdades -das provincias, eram tidos como traidores, e castigados com -multas, com prisões e com a pena capital. Todos os que eram -apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os que -não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar -livre, ou que não haviam reagido contra a destruição das imagens, -eram egualmente tidos como traidores. Era sufficiente a -suspeita, dispensava-se a convicção, e em tres mezes o Conselho -de Sangue enviou para o cadafalso mil e oitocentas pessoas. Isto -teve logar durante annos. Guilherme de Orange pasmava da -paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma organizada -resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o -vosso espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»</p> - -<p>No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos -d’elles vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das -tropas hespanholas, roubando egrejas, mosteiros e residencias -de clerigos. O paiz havia caido na anarquia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p> - -<p class="tb"><b>A guerra civil. O principe de Orange.</b>—Em 1568 o principe de -Orange conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. -Seu irmão, Luiz de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu -evitar que o inimigo se apoderasse d’essa provincia. O duque -de Alba marchou então contra os protestantes. Antes de se pôr -a caminho, porém, executou, para espalhar o terror na capital, -vinte membros da nobreza, e entre elles os condes Egmont e -Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente -com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo -o exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. -Regressou depois a Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho -de Sangue.</p> - -<p>O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a -vau o Meuse, chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos -soldados, marchou sobre o Brabant, e procurou dar batalha a -Alba. O duque, que conhecia a sua inferioridade, diligenciou -evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas marchas, e desalental-as. -O exercito protestante, que era composto, na sua -maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente -o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam -sempre de mau partido, viu-se obrigado, com a approximação -do inverno, a licenciar as suas tropas. Uma parte do -exercito, composta de neerlandezes, conservou-se junto d’elle; -e o principe de Orange, com os seus dois irmãos (o terceiro -havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e foi em -auxilio dos huguenotes francezes.</p> - -<p>Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe -chamavam, tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia -combatido contra os hespanhoes mais por patriotismo do que -por motivos religiosos; mas durante o segundo desterro, quando -a situação da sua patria se tornou extremamente precaria, -transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as verdades da -religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde esse -tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso, -descançando confiadamente na direcção e protecção de -Deus.</p> - -<p class="tb"><b>Os mendigos do mar.</b>—A parte mais valente da população -neerlandeza eram os marinheiros e os habitantes da costa, que -luctavam quotidianamente com as ondas do oceano germanico. -Essa gente tinha, em grandissima parte, acceitado as doutrinas -dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o amor da liberdade, -a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e -a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso -chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do -principe de Orange para a utilidade de constituir com estes -marinheiros, pescadores e traficantes maritimos uma força naval.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p> - -<p>Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua -obra de execução por meio do fogo, da agua e da decapitação, -o principe conseguiu pôr-se em communicação com os marinheiros -e pescadores hollandezes. Tinha resolvido crear uma -armada para dar caça aos navios hespanhoes, e conservar acceso -o espirito patriotico das provincias. Deu as suas instrucções -aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e -os «Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror -dos hespanhoes. Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao -principio, as suas tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, -mas, em virtude de uma reclamação do embaixador hespanhol, -a rainha Isabel prohibiu que desembarcassem em Inglaterra. -Viram-se compellidos a saquear as costas da Hollanda, -tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como -em terra.</p> - -<p>O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. -As suas proscripções e execuções haviam diminuido muito a -população. O commercio tinha chegado á ultima; da agricultura -ninguem cuidava; as industrias estavam paralysadas. Alba estava -embaraçado por não ter dinheiro com que pagasse ás tropas. -Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que havia de -fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse -um rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um -leigo no que diz respeito a economia politica, e não comprehendia -que com as disposições que tomara havia feito seccar os -mananciaes da riqueza, transformando em poucos annos um -paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria possivel extrair -dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim estabeleceu -novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição -que em Hespanha estava matando a vida commercial, -e propoz o introduzil-a nos Paizes Baixos.</p> - -<p>O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda -a propriedade; esse imposto ficou sendo chamado a <i>Centesima</i>. -A accrescentar a isto, ficava-se tambem na obrigação de contribuir -com cinco por cento, ou seja a vigesima parte, de todas -as rendas de terras, ou bens immoveis, e com dez por cento, ou -a decima parte, de todas as vendas de generos ou de bens moveis. -Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava -a ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio -n’uma terra onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição -do que tudo quanto Alba tinha até então posto em pratica. -A primeira provincia que protestou foi a de Utrecht, e logo -depois todas as outras fizeram coro com ella. Alba, comtudo, -estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder dependia do -exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém, que -tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para -de ali a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, -a pôr desde logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span> -terminantes para se começarem a cobrar os dez e os vinte -por cento. O resultado foi parar logo todo o commercio e industria. -Os padeiros não quizeram cozer pão, os cervejeiros não -quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se a fazer -calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira necessidade. E, -como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto -sobre as vendas não podia ser cobrado.</p> - -<p class="tb"><b>A tomada de Brill.</b>—Emquanto os estados permaneciam -n’uma insurreição passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», -organizada por Guilherme, guerreava incessantemente os hespanhoes, -e, com uma ousadia que o bom exito até ali alcançado -lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn, e tomaram a cidade -de Brill, que era considerada uma das chaves da Hollanda. -A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre -toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que -ficou devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.</p> - -<p>De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente -senhores dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve -incerta durante muito tempo, mas houve sempre uma parte do -territorio flamengo independente de Hespanha. Os «Mendigos -do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram repetidos -ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes -cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando -por proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da -nação. O principe acceitou esse perigoso cargo. Estava em -França quando lhe deram a noticia, e, disfarçando-se de camponez, -atravessou as linhas do inimigo, e deu-se pressa em tomar -o commando dos insurgentes. Antes de chegar até junto -d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu -favor. Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou -Dort, onde de eommum accordo se resolveu estabelecer uma -nova constituição, e, por unanimidade de votos, o principe foi -reconhecido «o verdadeiro representante do rei na Hollanda, -Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos, convieram -em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em -proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar -liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.</p> - -<p>Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, -atravessando o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas -outras cidades. Foi acclamado em toda a parte, e a sua marcha -foi tão facil que elle contava chegar em pouco tempo a Bruxellas. -Uma vez lá, confiou na promessa que Coligny lhe fez de -o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio flamengo. -Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que chega -uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas -proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça».<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span> -Coligny e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na -vespera de S. Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. -Tornava-se necessario abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha -tomado pouco antes; e o exercito do principe, apoz a retirada, -foi dispensado do serviço.</p> - -<p>Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, -Mechlin, Tergoes, Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da -capitulação de Mons foram ignominiosamente violadas. Mechlin -foi, de caso pensado, saqueada e incendiada pelas tropas hespanholas. -O general a quem foi confiado o esbulho de Zutphen -recebeu ordem para queimar todas as casas e matar todos os -habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente, e -por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. -Quando os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue -frio, todos os soldados hollandezes, e com elles muitos centos -de cidadãos, e, ligando os corpos a dois e dois, lançaram-n’os -na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia que os catholicos romanos tinham -resolvido exterminar os protestantes quando vissem que -não podiam convertel-os.</p> - -<p>Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava -inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo -de Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, -sendo obrigado a retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente -á esquadra hespanhola que fôra enviada para os destroçar, dispersaram -os navios e fizeram prisioneiro o almirante. A nação -de pescadores e de lojistas, de quem a Hespanha e a Europa -haviam escarnecido por verem a paciencia com que supportavam -as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça de -heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol. -Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento -para o outro uma importante personagem na Europa, que -os reis precisariam de lisongear. Publicou uma carta dirigida -aos principes da christandade, para justificar a revolta dos seus -compatriotas. «Alba», disse elle, «ha de tingir todos os rios e -regatos com o nosso sangue e pendurar em cada arvore da Hollanda -um hollandez para que os seus desejos de vingança fiquem -satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em defeza -das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais -força do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, -e legar um nome aureolado de gloria, do que curvar os -pescoços deante do jugo e permittir que a nossa terra fique escravisada. -É por isso que as nossas cidades se comprometteram -a resistir a todos os cercos, a soffrer todas as calamidades, -a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e deixar-se -morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer -ás intimativas d’esse algoz sedento de sangue».</p> - -<p>A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de -toda a confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span> -que o mandasse retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, -considerou sempre efficacissimo o seu systema, mesmo depois -dos revezes soffridos. Era sua opinião que se tivesse sido -um pouco mais severo, se tivesse accrescentado mais algumas -gotas do sangue que fez derramar, o seu exito seria completo. -Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do cargo -que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor -senão o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera -pôr uma guarnição hespanhola.</p> - -<p class="tb"><b>Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.</b>—A pessoa -que Filippe II escolheu para substituir o duque de Alba foi -D. Luiz Requescens y Zuniga, membro da mais alta aristocracia -de Hespanha e cavalleiro de Malta. Era elle um homem de indole -magnanima, de nobre caracter, e, se tivesse sido enviado -á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse paiz teria -sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de mais, -e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, -n’aquella epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado -numero de soldados. Os patrioticos defensores da Hollanda -não poderiam leval-a de vencida em campo aberto; comtudo, o novo -commandante hespanhol não os intimidou. Em todas as cidades fortificadas -se luctava com a energia do desespero, e os «Mendigos -do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, -aos patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois -de observar tudo isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada -aqui, não comprehendia como os rebeldes podiam sustentar -frotas tão consideraveis, quando vossa magestade nem uma, -sequer, podia. Agora vejo que os homens que se batem pelas suas -vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua religião, -embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; -dão-se por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo -de adoptar um methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu -os odiados impostos, dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou -uma amnistia geral. Procurou também chegar a um accordo -com os insurrectos.</p> - -<p>Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma -amarga experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos -ouvido demasiadas vezes», disse Guilherme, «as palavras -Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo que dessemos ouvidos ás vossas -propostas, quem nos garante que o rei as não daria depois -por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto pelo papa?» A lucta -continuou, portanto, e Requescens, que detestava a politica -do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa mesma -politica havia provocado.</p> - -<p>A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes -tinham saido sempre victoriosos em campo aberto, e -quando no principio da primavera de 1574 Guilherme e seu irmão<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span> -Luiz entraram na Hollanda á frente de um novo exercito -composto, na sua maioria, de mercenarios allemães, alcançaram -outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva, segundo pareceu, -do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente. -O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo -os seus dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, -Conde Palatino. Mais uma vez se afigurou que os hollandezes -acabariam, por fim, n’uma completa submissão aos hespanhoes. -Como sempre, porém, os heroes da patria, vencidos em terra, -eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas combateu-se -com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam -deixar de reconhecer a sua derrota.</p> - -<p>Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota -no principio d’esse anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se -de quarenta navios e mettendo o resto no fundo.</p> - -<p class="tb"><b>O cerco de Leyden.</b>—A cidade conservava-se havia muito -tempo em poder dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo -empenho em se apoderar d’ella. Luiz de Nassau fez levantar -o primeiro cerco que lhe pozeram, mas desde maio de 1574 -que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos ataques. Não foi -possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker Haide, encontrar-se -frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava de -todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas. -Leyden estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia -enviar soccorro algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia -de pomares e de searas que já pouco tempo esperariam pela -ceifa, e esta planicie, como quasi todas as da Hollanda, estava -abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte, facil inundal-a, -bastando para isso destruir os diques que se oppunham á invasão -das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão -fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou -esse alvitre aos respectivos habitantes, que o acceitaram. -Foram, pois, abertos os diques, e a esquadra dos «Mendigos do -Mar» preparou-se para entrar com a maré e navegar em seguida -sobre submersas hortas, pomares e campos de semeadura. O -plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma de -difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques; -a agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos -a impelliam para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez -mais escassos na cidade, e a faminta população, subindo aos -campanarios, via a agua sempre lá ao longe, via que os soccorros -se approximavam muito vagarosamente, como se nunca houvessem -de chegar, ou então como se houvessem de chegar tarde -de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria -em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e -uma honrosa capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto -das muralhas um dos defensores, «e quando a fome nos apertar<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span> -muito comemos o esquerdo, e deixamos o outro para manejar a -espada». Quatro mezes se passaram n’um indescriptivel soffrimento, -e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao sopé das -fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes fugiram -aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre -elles, soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos -do que papistas». Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se -á sumptuosa egreja para dar graças a Deus pelo livramento -que, por Sua misericordia, lhes viera do mar. Quando -a numerosa congregação estava entoando um psalmo de libertação, -as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços. -Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas -privações, tendo agora uma consciencia nitida do seu inesperado -livramento, se pozera a chorar.</p> - -<p>A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que -chegou a esta localidade quando o principe de Orange estava -assistindo ao serviço religioso da tarde, sendo só depois de elle -terminar que o povo soube do succedido. O principe, apezar de -doente, montou a cavallo, e partiu logo para Leyden, para tomar -parte no regozijo publico. Propoz que, em acção de graças, se -fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi -assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade -tornou-se o centro do protestantismo das provincias. Picou -sendo na Hollanda o que Wittenberg era na Allemanha, Genebra -na Suissa, e Saumur em França.</p> - -<p class="tb"><b>Negociações entre as provincias do sul e as do norte.</b>—O levantamento -do cerco de Leyden mareou um novo periodo na -guerra da independencia. O oommissario hespanhol via que se -estava formando, vagarosa e quasi imperceptivelmente, um novo -estado protestante, e as difficuldades que de todos os lados o -assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava elle luctando -com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576. A -sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola, -e os acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos -neerlandeses que eram catholicos romanos aonde o governo -hespanhol poderia tel-os conduzido. A morte de Requescens produziu -uma certa perturbação na politica hespanhola. Desde o -tempo do duque de Alba o pagamento das tropas tinha sido feito -com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam despejados, -e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de -soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse -liquidada, revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear -qualquer cidade», era o seu grito. A guarnição de Aalst -foi a primeira a revoltar-se, sendo secundada pelas de quasi -todas as cidades fortificadas das provincias do sul. Os revoltosos -pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat e Antuerpia. -Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e assassinio<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span> -e durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e -opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia -ser exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal.</p> - -<p>O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar -com as suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da -importante cidade de Ghent. Os habitantes das provincias do -sul tanto nobres como plebeus, tinham, por sua vez, sido victimas -de aquellas horrorosas calamidades que os seus compatriotas -os protestantes do norte, tinham, havia muito, experimentado. -Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou -em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de -Flandres e de Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias -do norte; e pediram a Guilherme que os livrasse dos -hespanhoes. Em Ghent realisou-se um congresso de representantes -das provinciais do norte e do sul, ficando assentes os preliminares -de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou a -<i>Pacificação de Ghent</i>, que foi assignada por delegados de dezesete -provincias.</p> - -<p>Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se -uma completa liberdade de commercio entre as provincias -do norte e as do sul, ficavam revogados todos os edictos contra -os protestantes, concedia-se protecção aos catholicos romanos, -todas as provincias se uniam para constituir um unico Estado, -e o principe de Orange ficava sendo <i>statholder</i> até posterior decisão, -que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes.</p> - -<p class="tb"><b>D. João de Austria nos Paizes Baixos.</b>—A <i>Pacificação de Ghent</i> -alarmou em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria, -irmão de Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado -aos Paizes Baixos na qualidade de <i>statholder</i> com plenos -poderes. Os estados recusaram reconhecel-o emquanto elle não -fizesse sair as tropas hespanholas. Apoz algumas negociações, -as provincias obtiveram, apparentemente, que elle attendesse ás -suas aspirações com a publicação do <i>Edictum Perpetuum</i>, que -garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para com os protestantes, -e a unificação dos estados; por algumas cartas confidenciaes -que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e -o seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão, -e o conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos -romanos do sul com os protestantes do norte. Os Estados -Geraes não reconheceram a sua auctoridade, e designaram -o principe de Orange para governador de Brabante. Havia, comtudo, -muita difficuldade em que o norte e o sul se unissem por -laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles tempos, -em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma -violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente. -Os nobres de Flandres e de Brabante representavam -dois papeis, e essa sua duplicidade animou D. João de Austria<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span> -a atacar as forças do principe de Orange. A guerra terminou -com a batalha de Gemblours, em que os hespanhoes alcançaram -uma completa victoria. O principe, comtudo, mostrou-se, como -sempre, tão grande na derrota como na victoria, e o <i>statholder</i> -sentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da Hollanda, -se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas -estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe -Alexandre de Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de -Filippe.</p> - -<p class="tb"><b>Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.</b>—Alexandre Farnese, -principe de Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado -anteriormente aquelle cargo, e, no dizer de alguns -auctores, foi o ultimo dos grandes homens que a Hespanha possuiu -no seculo dezeseis. Era um excellente general, um habil -politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas provincias -n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força -era a rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul -catholico romano.</p> - -<p>O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias -do norte suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido -nos negocios de que resultou a batalha de Gemblours. As provincias -do sul não queriam submetter-se á dominação dos -herejes do norte. Alexandre aproveitou-se habilmente d’esta -desunião para prender as provincias do sul á Hespanha, com o -inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram -mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos -na sua determinação de permanecerem livres.</p> - -<p class="tb"><b>O Tratado de Utrecht.</b>—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia, -Guelders, Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se -representar n’uma assembléa, e redigiram o celebre Tratado de -Utrecht, que continha, em esboço, a futura constituição das provincias -unidas. As Sete Provincias não se separaram da Hespanha. -Diziam-se ainda subditas da corôa hespanhola, mas reivindicavam -o direito de darem culto a Deus e de se governarem -segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram inteiramente -o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia, -escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo. -Isto teve logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação -de Filippe, em que este denunciava Guilherme como -um inimigo da humanidade, e offerecia uma recompensa de -vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo de -nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente, -a quem assassinasse o principe.</p> - -<p>Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram -attingindo gradualmente uma completa independencia politica<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span> -e tornaram-se uma potencia protestante. Guilherme da -Orange foi em 1584, morto a tiro por um fanatico catholico romano -chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram e obtiveram -parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não -terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para -Governador em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete -annos, mas já educado por seu pae para ser um habil general -e um prudente chefe politico. Poz-se resolutamente á testa -de aquelle conflicto com a Hespanha, que parecia interminavel. -Isabel de Inglaterra prestou-lhe o seu auxilio, com o qual ella -ficou mais prejudicado do que outra coisa. Depois da destruição -da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na monarquia hespanhola, -alcançou uma notavel victoria sobre as tropas catholicas -romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora -vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes -abalaram fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos -navios que voltavam das indias Occidentaes e Orientaes, carregados -de preciosidades. Em 1607 combinou-se um armisticio, -e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas durante doze -annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz definitiva. -Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia, -e constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia -no mar só era disputada pela Inglaterra.</p> - -<p class="tb"><b>A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.</b>—Durante os -annos de dura perseguição que o protestantismo soffreu nos -Paizes Baixos desde o principio da sua existencia, os protestantes, -não obstante os rigores postos em pratica contra elles, -poderam organizar-se sob a fórma de egreja, e publicar uma -confissão. Isto não foi feito sem dificuldades, que até entre elles -proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos tinham -recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que -só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia -chegado ao seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos -Paizes Baixos haviam aprendido o Evangelho em Wittemberg, -com Luthero, e nas provincias do norte eram numerosos os lutheranos. -Um pouco mais tarde as opiniões de Zwinglio penetraram -na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que tomavam -muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul -a Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes, -educados no calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia -adherentes de Luthero, de Zwinglio e de Calvino. Cada um dos -partidos differençava-se dos outros, especialmente pelo que dizia -respeito ao governo da egreja; e, posto que estas differenças -fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde na contestação -que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante, -acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o -calvinismo foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo,<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span> -e a egreja dos neerlandezes tornou-se calvinista, tanto -na doutrina como na disciplina.</p> - -<p class="tb"><b>A Confissão Hollandeza.</b>—N’uma epoca relativamente afastada, -isto é, em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor -flamengo, Guido de Brés, juntamente com Adriano de Saravia, -Modetus, capellão de Guilherme de Orange, e Wingen, -prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles, justificar -pela Escriptura a religião reformada.</p> - -<p>Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e -martyres dos Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de -Mons. Havia estudado para padre, e converteu-se dos erros -do romanismo mediante o estudo das Escripturas Sagradas. -Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra, onde, nos -dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois -para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista -no norte da França e no sul dos Paizes Baixos. Era um -ardente admirador da Confissão da Egreja Franceza, e modelou -a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela celebre <i>Confessio -Gallica</i>.</p> - -<p>Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi -revista por Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi -apresentada ao rei, Filippe II, em 1562, assim como a Confissão -de Augsburgo foi apresentada a seu pae Carlos V. O eloquente -discurso que acompanhou a Confissão pode ser comparado á -dedicatoria a Francisco I, que prefaciou os <i>Institutos</i> de Calvino. -Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e declaram -que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo -a consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão -a Christo, ainda mesmo que tenham, segundo a linguagem -que empregaram, de «offerecer as costas ás chibatas, as linguas -ás facas, e os corpos ao fogo, certos de que os que seguem -a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e renunciar-se -a si proprios».</p> - -<p>Esta Confissão, gradualmente adoptada pelos protestantes -dos Paizes Baixos, introduziu o calvinismo nas egrejas d’essa -parte do mundo.</p> - -<p class="tb"><b>A Constituição da Egreja Hollandeza.</b>—Em 1563, isto é, quando -ainda havia perseguição, os delegados de varias congregações -protestantes reuniram-se em synodo, e concordaram n’um systema -de governo de egreja, que copiou, em grande parte, os seus -principios das <i>Ordenanças Ecclesiasticas</i> de Genebra; e a constituição -da egreja, quasi desde o seu inicio, foi baseada no modelo -de Genebra. A organização presbyteriana, com pastores, -professores, presbyteros e diaconos, não foi adoptada nos Paizes -Baixos sem protesto da parte dos lutheranos, mas quando veiu -sobre elles a feroz perseguição do duque de Alba a fórma presbyteriana<span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span> -do governo da Egreja foi a que melhor resistiu a todos -os embates, sendo por fim a que se tornou preponderante. -O systema consistorial de Luthero é apenas possivel quando o -Estado esteja em favoraveis disposições para com a egreja, mas -o presbyterianismo, como a França, a Escocia e os Paizes Baixos -mostraram, pode manter-se, até mesmo quando a «Egreja -sentir o peso da cruz.»</p> - -<p>N’uma assembléa da Egreja que teve logar em Dordrecht, -em 1574, a primeira assembléa geral da Egreja Hollandeza, foi -revista, ampliada e formalmente adoptada uma serie de artigos -que já haviam sido approvados n’uma reunião em Emden, e que -continham os principaes elementos da organização presbyteriana. -Todos os ministros tinham de obedecer ás <i>assembléas classicas</i>, -ou presbyterios; e todos os presbyteros e diaconos tinham -de assignar a Confissão de Fé e os artigos respeitantes ao governo -da Egreja.</p> - -<p>Torna-se necessario explicar duas particularidades do presbyterianismo -hollandez. As sessões da egreja não são, como na -maioria das outras egrejas presbyterianas, assembléas congregacionaes -que se occupem do governo de uma congregação. A -sessão da egreja é composta de ministros e presbyteros de um -certo numero de congregações, e, a certos respeitos, assimilha-se -a um presbyterio. E, comtudo, como as das outras egrejas -presbyterianas, o tribunal de primeira instancia.</p> - -<p>A outra particularidade da organização da Egreja hollandeza -consiste em que raras vezes podia deliberar como egreja. -Isto era devido em parte ao ciume do Estado protestante, e em -parte á constituição politica das Provincias Unidas. A Hollanda, -ou as Provincias Unidas, era uma confederação de estados, -a muitos respeitos independentes uns dos outros. A Reforma -tendia a descentralizar a Egreja, e a produzir uma organização -ecclesiastica separada para cada estado politico independente. -Tambem se notava na Hollanda a tendencia para a formação -de tantas egrejas separadas quantas eram as provincias.</p> - -<p>As Sete Provincias não constituiam uma nação; constituiam, -antes, uma confederação. Tinham-se obrigado a proteger-se -umas ás outras na guerra, e, portanto, a manter um -exercito commum, e a contribuir para um fundo militar commum; -mas não formavam um estado. Os negocios internos de -cada provincia estavam sob a superintendencia de cada estado -separado.</p> - -<p>Quando Guilherme de Orange foi eleito governador vitalicio, -uma das clausulas a que elle ficava obrigado era a de que não -reconheceria qualquer concilio ou consistorio ecclesiastico que -não tivesse a approvação da provincia em que propozesse reunir-se. -Os negocios religiosos de cada provincia tinham de ser -regulados por essa provincia.</p> - -<p>Isto dava um aspecto de divisão á Egreja hollandeza, e impedia,<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span> -realmente, a acção incorporada e unida. A Egreja só podia -reunir-se em assembléa geral quando todas as Sete Provincias -concordassem em dar-lhe permissão. Este embaraço politico -obstou muito á utilidade e influencia da Egreja Reformada Hollandeza, -e deu logar a uma continua lucta, na Hollanda, entre a -Egreja e o Estado.</p> - -<p class="tb"><b>A força da Egreja na Hollanda.</b>—A prolongada peleja de quarenta -e cinco annos contra a Hespanha e o papismo parecia -estimular as energias da Egreja hollandeza e das suas universidades, -e os seus collegios theologicos em breve rivalizaram -com mais antigas sédes de instrucção. A universidade de Leyden, -erguida em acção de graças quanto a uma milagrosa libertação, -foi fundada em 1575; Franecker começou a existir dez -annos depois (1585); as universidades de Gröningen (1612) -Utrecht (1636) e Harderwyk (1648) seguiram em successão apoz -alguns annos de intervallo. Todas estas universidades eram escolas -theologicas, frequentadas por alumnos procedentes de -quasi todos os paizes protestantes da Europa. Os theologos hollandezes -do seculo dezesete tornaram-se famosos quanto á sua -erudição, zelo e agudeza theologica. Quando surgiu a grande -controversia armenia, que agitou mais tarde a Egreja hollandeza, -os theologos da Hollanda foram os que na Europa se celebrizaram -mais, tanto pelo que diz respeito á illustração como pelo que diz -respeito á orthodoxia.</p> - -<p>A Confissão de Westminster, que se tornou o credo da maior -parte das egrejas presbyterianas em paizes onde se fallava a -lingua ingleza, é em grande parte baseiada na antiga Confissão -Hollandeza; e os theologos que coordenaram os seus artigos -copiaram muita coisa d’esses reformadores hollandezes recentemente -emergidos da sua terrivel e prolongada lucta com o -papismo hespanhol.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p> - -<h3 id="II_CAPITULO_V">CAPITULO V<br /> -<span class="smaller">A REFORMA NA ESCOCIA</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>Preparação para a reforma, <a href="#Page_137">pag. 137</a>.—A antiga Egreja celtica o a Educação, -<a href="#Page_137">pag. 137</a>.—A Escocia e o lollardismo, <a href="#Page_138">pag. 138</a>.—A Escocia e Huss, <a href="#Page_138">pag. -138</a>.—A Egreja romana na Escocia e a situação politica, <a href="#Page_142">pag. 142</a>.—João -Knox, <a href="#Page_141">pag. 141</a>.—A Congregação e a Primeira Convenção, <a href="#Page_142">pag. 142</a>.—A -<i>Confissão escoceza</i>, <a href="#Page_144">pag. 144</a>.—A rainha Maria e a Reforma, <a href="#Page_145">pag. 145</a>.—O -<i>Livro de Disciplina</i>, e a <i>Primeira Assembléa Geral</i>, <a href="#Page_147">pag. 147</a>.—A educação, -<a href="#Page_148">pag. 148</a>.—A morte de Knox, <a href="#Page_149">pag. 149</a>.—Os bispos tulchanos, <a href="#Page_150">pag. 150</a>.—André -Melville, <a href="#Page_152">pag. 152</a>.—O Segundo Livro de Disciplina, <a href="#Page_152">pag. 152</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>Preparação para a Reforma.</b>—A Escocia, longe do centro da -vida europeia no seculo dezeseis, recebeu, apezar d’isso, a Reforma -quasi tão cedo como a maioria dos outros paizes, e acceitou-a -mais completamente do que elles.</p> - -<p>A região tinha sido preparada para ella mediante a educação -do povo, mediante o constante commercio entre a Escocia -e as nações continentaes, especialmente a França e a Allemanha, -e mediante a sympathia dos estudantes escocezes para com -os primeiros movimentos religiosos na Inglaterra e na Bohemia; -e por outro lado a condição da Egreja romana, a pobreza das -classes aristocraticas, e a situação politica do paiz coadjuvaram -em certa escala os esforços de aquelles que anhelavam por uma -reformação religiosa na Escocia.</p> - -<p class="tb"><b>A antiga Egreja celtica e a Educação.</b>—A antiga Egreja celtica -na Escocia, que havia conservado a sua influencia no paiz -durante perto de setecentos annos, tinha sempre considerado a -educação do povo como um dever religioso. Os seus regulamentos -declaram que é tão importante ensinar os rapazes e as raparigas -a ler e a escrever como administrar os sacramentos ou -tomar parte na <i>intimidade das almas</i>, que era o nome que davam -á confissão. O mosteiro celta era sempre um centro educativo, e -n’alguns casos a instrução ahi ministrada era a melhor que se -podia obter fóra de Constantinopla. Carlos Magno, ao estabelecer -aquellas escolas superiores, que depois se tornaram as mais<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span> -antigas universidades da Europa, procurou nos mosteiros celtas -os primeiros professores. Quando a Egreja celta da Escocia cedeu -o logar á Egreja romana, o seu systema educativo foi, em -grande escala, adoptado, e a educação na Escocia continuou a -ser muito melhor do que se poderia esperar do seu estado de -civilisação.</p> - -<p>As escolas cathedraes e monasticas produziram um grande -numero de professores e alumnos que desejavam ver os seus -trabalhos continuados n’uma universidade como as que n’aquella -epoca estavam apparecendo em toda a Europa.</p> - -<p>Ao principio os poucos recursos do paiz obstavam á fundação -de universidades na Escocia, e mediante uma provisão -feita pelo rei e pelos bispos foram enviados os melhores estudantes -a Oxford, Cambridge e Paris. Professores viajantes foram -da Escocia, com um certo numero de estudantes, aos centros, -inglezes e continentaes, de instrucção. E era frequente -que os jovens escocezes permanecessem fóra da patria na qualidade -de leccionistas ou estudantes nomadas.</p> - -<p class="tb"><b>A Escocia e o lollardismo.</b>—Este contacto academico approximou -muito a Escocia dos grandes movimentos intellectuaes -da Europa. No período em que os estudantes escocezes iam em -grande numero para Oxford, Wycliffe exercia o professorado, e -o lollardismo triumphava na grande universidade ingleza. Os -estudantes escocezes voltavam contaminados com as maximas -constitucionaes e as aspirações religiosas dos grandes homens -de Inglaterra, e o lollardismo propagou-se na Escocia. Depois -das universidades de Aberdeen, Glasgow e St.º André terem -sido fundadas, no seculo quinze, os velhos arquivos dizem-nos -que as auctoridades ecclesiasticas effectuaram inspecções com -o fim de expurgar o corpo docente dos erros de Lollard. A seu -devido tempo, o lollardismo passou das universidades para o publico, -e os primeiros chronistas da Reforma nunca deixam de -se referir aos lollards, ou homens biblicos de Kent, e á entrevista -que tiveram com James IV.</p> - -<p>Havia estudantes escocezes em Paris quando Pedro Dubois, -Marsilio de Padua e Guilherme de Ockham ensinavam publicamente -que a egreja è o povo christão, e que pode existir uma -egreja sem papa e sem padres.</p> - -<p class="tb"><b>A Escocia e Huss.</b>—A Bohemia e os actos de João Huss -n’esse paiz eram bem conhecidos na Escocia. Calderwood falla-nos -de Paulo Craw, bohemio que foi convencido de heresia a -instancias de Henrique Wardlaw, bispo de St.º André, perante -sete doutores em theologia, por divulgar as doutrinas de João -Huss e de Wycliffe, «negando que houvesse qualquer modificação -da substancia do pão e do vinho na Ceia do Senhor, e reprovando -a confissão auricular e as orações aos santos defuntos.»<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span> -Foi condenado á fogueira, e no momento da execução «metteram-lhe -uma bola de cobre na bocca; para que o povo não ouvisse -o seu justo protesto contra a injusta sentença d’elles.» -Recentes investigações arqueologicas teem tornado evidente -uma mais intima connexão entre a Escocia e a Bohemia do que -até então se suspeitava.</p> - -<p class="tb"><b>A Egreja romana na Escocia o a situação politica.</b>—A Egreja -romana na Escocia era muito rica, e era talvez mais corrupta -do que em qualquer outra parte fóra da Italia. A herança que -lhe foi legada pela Egreja celta não era toda boa; os satyricos -tinham começado a chamar a attenção para o contraste entre -as profissões e as vidas dos ecclesiasticos, e os seus livros produziam -grande impressão no povo baixo. «Quanto aos modos -mais particulares por que muita gente na Escocia adquiriu algum -conhecimento da verdade de Deus na epoca das grandes -trevas,» diz João Row, «havia alguns livros, taes como <i>Sir David -Lindsay, e as suas poesias ácerca das Quatro Monarquias</i>, que -trata tambem de muitos outros pontos, e expõe os abusos do -clero de aquelle tempo; os <i>Psalmos de Wedderburn</i> e as <i>Balladas -de Godlie</i>, em que se alteram para fins piedosos muitos dos antigos -canticos papistas: e uma <i>Queixa</i> feita pelos estropiados, cegos -e pobres de Inglaterra contra os prelados, padres, freiras e -outras individualidades da egreja que dispendiam prodigamente -todos os dizimos e outros rendimentos ecclesiasticos em prazeres -illicitos, de modo que elles, os queixosos, não podiam -adquirir alimentação nem allivio, como Deus tinha ordenado. -Estas coisas foram impressas, e penetraram na Escocia. Havia -tambem peças dramaticas, comedias e outras historias notaveis, -que eram representadas em publico; a <i>Satyra</i> de Sir David Lindsay -foi representada no amphitheatro de S. Johnston (Perth), -na presença do rei James V, e de uma grande parte da nobreza -e da classe abastada, durando a representação um dia inteiro, e -fazendo sentir ao publico as trevas em que estava envolvido, e -a perversidade dos homens da egreja, e mostrando-lhe como a -Egreja de Deus seria se fosse dirigida de uma maneira differente, -o que tudo foi muito benefico n’aquella ocasião.</p> - -<p>As riquezas da Egreja romana da Escocia tinham, havia -muito, excitado a inveja dos barões, que esperavam a ocasião -em que podessem, sem risco, apoderar-se de parte dos bens -ecclesiasticos. Durante muito tempo não occorreu similhante -opportunidade. O clero era um senhorio que gozava da estima -geral. Os vassallos da Egreja estavam em muito melhores condições, -e tinham uma vida mais descançada, do que aquelles que -cultivavam as terras dos barões e de outras personagens de -menor cathegoria. Os camponezes escocezes rir-se-hiam, talvez, -com as satyras de David Lindsay, mas gostavam da Egreja, -e perdoavam-lhe os defeitos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span></p> - -<p>Quando os prégadores escocezes que tinham estado em -Wittenberg, ou que tinham estudado as obras de Luthero e -dos outros reformadores, ou que sabiam pela Escriptura o que -era desejar ardentemente o perdão e a salvação, começaram a -prégar um Evangelho reformado, então, e só então, é que o povo -principiou a comprehender a mordaz significação das satyras -que alvejavam a clerezia. As auctoridades ecclesiasticas fizeram -todo o possivel para supprimir estes reformadores. Patricio -Hamilton, Jorge Wishart e muitos outros prégadores cheios -de fervor e de espiritualidade foram martyrisados; e estas crueldades -contribuiram mais do que os sermões ou as satyras para -que o povo escocez se desgostasse da Egreja romana. A sanguinaria -Maria tinha tornado a Inglaterra protestante; e o cardeal -Beaton, com os seus homicidios judiciaes, e particularmente -com o homicidio do velho Walter Mill, fez com que o povo da -Escocia se preparasse para Knox e para os lords da Congregação.</p> - -<p>Durante umas poucas de gerações a politica exterior da -Escocia tinha sido de inimizade para com a Inglaterra e de -amizade para com a França. A alliança com esta nação havia -motivado o casamento da James V com uma princeza da casa -de Guise, e, mais tarde, os esponsaes e casamento da herdeira -do throno da Escocia com o delphim da França. James V morreu, -ficando regente a rainha franceza, cuja conducta incutiu -nos espiritos de muitos escocezes o receio de que a Escocia -viesse a tornar-se uma provincia de França. Tinham sido nomeados -francezes para cargos de confiança na Escocia; o castello -de Dunbar tinha uma guarnição franceza; e a regente projectava -crear um exercito permanente, segundo o systema francez. -Este alarme foi tomando tal vulto que o partido nacional, -que por fim triumphou, chegou a inverter a politica hereditaria -da Escocia, e ficou tendo por objecto uma alliança com a Inglaterra -e uma guerra com a França. A Inglaterra era protestante, -emquanto que os verdadeiros senhores da França eram os Guises, -os cabecilhas do fanatico partido romanista, os homens que -planearam a carnificina de S. Bartholomeu.</p> - -<p>Tal era o estado das coisas na Escocia quando João Knox -começou a sua admiravel obra de reformador.</p> - -<p>O povo estava educado acima da sua civilisação, e podia -comprehender e saudar as novas idéas, tendo, como tinha, costumes -grosseiros, e vivendo, como vivia, uma vida rude. A egreja -tinha perdido a confiança da nação em virtude da immoralidade -do clero, e por ultimo tinha excitado as paixões do povo contra -si com a sua cruel perseguição de homens de uma vida immaculada -que prégavam um Evangelho puro. Alguns dos barões -tinham partilhado a revivificação religiosa começada pelos prégadores -reformados; outros estavam anciosos por livrar o paiz -do dominio francez, e outros, ainda, queriam a todo o transe<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span> -seguir o exemplo da Inglaterra e enriquecer á custa da egreja. -Todos estes motivos, uns puros e outros não, estavam agitando -o povo da Escocia nos annos que precederam o de 1560.</p> - -<p class="tb"><b>João Knox</b>, nascido em Giffordsgate, nos arredores de Haddington, -em 1505, educado na universidade de Glasgow, e ordenado -padre em 1542, tornou-se primeiramente conhecido do -povo da Escocia quando, muito novo ainda, andou em companhia -de Jorge Wishart para proteger este prégador reformado -emquanto elle dirigia a palavra a immensos auditorios. Depois -do martyrio de Wishart, e do assassinio do cardeal Beaton, -Knox aggregou-se á facção que havia tomado de assalto o castello -de St.º André. Quando os defensores se viram forçados a -capitular, os poucos membros da guarnição que estavam, incluindo -Knox, foram enviados para França e condemnados á -escravidão das galés. N’uma occasião em que puxava pelos remos, -foi-lhe apresentada uma imagem da Virgem, de pau, para -elle a beijar como meio de adoração. Knox recusou-se a honrar -«o madeiro pintado», e atirou com a imagem ao mar, dizendo -que, como ella era de pau, «não havia de ir para o fundo». -Apoz um captiveiro de dezenove mezes, elle, juntamente com -outros que haviam sido aprisionados em St.º André, foi solto a -pedido de Eduardo VI de Inglaterra. Restituido á liberdade em -fevereiro de 1549, foi direito a Inglaterra, onde se empregou -como prégador viajante. A sua eloquencia, zelo e incomparavel -coragem em breve o collocaram em primeiro plano. Foi-lhe offerecida -a diocese de Rochester, mas recusou-a sob o fundamento -de que não era sua crença que similhante cargo fosse auctorizado -pelas Escripturas. Foi consultado ácerca da revisão dos -<i>Artigos da Religião</i>, e suggeriu a celebre <i>declaração sobre o assumpto -de ajoelhar na Communhão</i>, que ficou inserta no Segundo -Livro de Oração Commum de Eduardo VI (1552). A subida de -Maria ao throno obrigou-o, apoz uma arrojada tentativa de proseguir -na sua obra de prégador nomada, a retirar-se para o continente.</p> - -<p>Um anno foi gasto a visitar varias localidades da França -e da Suissa. Em Genebra tornou-se o intimo amigo de Calvino. -Apoz uma curta estada em Frankfort sobre o Maine, onde foi -pastor da congregação de refugiados inglezes que se haviam -ajuntado ahi, tornou-se o pastor da Congregação ingleza de Genebra -em 1555. Durante a sua curta permanencia ahi tomou -parte na composição de aquelle directorio do culto publico, que, -sob os varios nomes de Livro de Ordem Commum, Livro de -Genebra e Lithurgia de Knox, serviu de guia no culto publico -da Egreja reformada da Escocia até á publicação e adopção do -Directorio dos Theologos de Westminster. Collaborou tambem -ma traducção da mais popular das primitivas versões da Sagrada -Escriptura, a Biblia de Genebra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span></p> - -<p>Durante a sua ausencia foi ganhando a pouco e pouco a -reputação de ser o unico homem competente para conduzir os -esforços do partido reformista da Escocia a satisfactorio resultado -final; e no outomno de 1555 regressou á sua terra natal. -Com a sua coragem habitual, começou logo a fazer predicas nos -aposentos que occupava em Edinburgo, e fez alguns gyros predicativos, -como, por exemplo, a Forfarshire, sob a protecção de -Erskine de Dun, e a West Lothian, sob a protecção de Lord -Torphichen. Foi durante esta visita que Knox principiou a administrar -a Ceia do Senhor á moda reformada. A primeira celebração -foi em casa do conde de Glencairn, na primavera de 1556.</p> - -<p>O Reformador, provavelmente, não achou o paiz em estado -de entrar em qualquer grande movimento que o approximasse -da Reforma, e partiu da Escocia para Genebra em Julho de 1556. -Queixou-se da lentidão, timidez e falta de união entre os protestantes, -quando alguns dos fidalgos lhe solicitaram, em Março -de 1557, que voltasse, e mandou dizer que achava melhor addiar -o seu regresso. Esta reprehenção deu logar a uma Confederação -dos nobres, que depois se tornou bem conhecida na Escocia -sob o titulo de Lords da Congregação.</p> - -<p class="tb"><b>A Congregação e a Primeira Convenção.</b>—O turbulento caracter -dos barões escocezes, e a fraqueza da auctoridade central, -tanto do rei como dos estados, eram origem de constantes confederações -de homens de todas as classes para realisarem, com -segurança, emprezas, umas vezes legaes, e outras illegaes. Os -confederados promettiam ajudar-se uns aos outros na obra que -se propunham executar, e defender-se mutuamente das consequencias -que se lhe seguissem. Estas combinações eram geralmente -redigidas em fórma legal por notarios publicos, e o seu -cumprimento tornava-se obrigatorio mediante todas as formulas -de garantia que a lei facultava. Estes Lords da Congregação -seguiram um costume predominante em todas as confederações -quando se alliaram para manter e dar maior desenvolvimento á -bemdita palavra de Deus e á Sua congregação, e para renunciar -á congregação de Satanaz com todas as supersticiosas abominações -e idolatria que lhe eram inherentes; mas introduziram -um novo sentido espiritual n’esta alliança quando o seu -pacto de federação se tornou tambem uma promessa feita a -Deus em publico, como as que encontramos no Antigo Testamento, -de serem verdadeiros e fieis á Sua palavra e direcção. -Esta «faixa assignada pelos Lords», como Calderwood lhe chama, -foi a primeira das cinco convenções que se tornaram famosas -na historia da Egreja Reformada da Escocia.</p> - -<p>A esta convenção estavam ligadas duas resoluções, em que -os confederados resolveram insistir no uso do Livro de Oração -de Eduardo VI nas paroquias que estivessem debaixo do seu -governo e dar incremento á exposição das Escripturas, particularmente,<span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span> -pelas casas, até que as auctoridades permittissem a -prégação publica «por verdadeiros e fieis ministros».</p> - -<p>Este acto reanimou grandemente todos aquelles que desejavam -uma reformação, e fez com que o povo tivesse ousadia -para exprimir a sua aversão pelas supersticiosas ceremonias -da Egreja Catholica Romana. A Côrte, em 1559, prohibiu de prégar -todos aquelles que não estivessem auctorizados pelos bispos; -e, como não se fizesse caso d’essa prohibição, os prégadores -foram intimados a apresentar-se no tribunal de Stirling.</p> - -<p>N’este entretanto Knox voltou á Escocia. Desembarcou em -Leith, a 2 de Maio, e dirigiu-se a Perth, onde os Lords da Congregação -se haviam reunido para proteger o seu prégador. Chegou -a Perth a noticia, emquanto Knox estava prégando, de que -os ministros reformados estavam proscriptos, e no dia seguinte, -depois do sermão, quando um padre tentou dizer missa na presença -de uma excitada multidão, produziu-se um tumulto, e a -«vil turbamulta», segundo a expressão de Knox, entrou nos -conventos dos franciscanos e dos cartuxos, e pôl-os a saque. A -rainha regente marchou a atacar os sediciosos; o conde de -Glencairn saiu a proteger os reformados; estava prestes uma -guerra civil. Quasi immediatamente, porém, a rainha cedeu; de -ambos os lados se entrou em negociações sem uma mutua confiança. -Por fim os Senhores da Congregação marcharam sobre -Edinburgo, tomaram posse da cidade em Outubro de 1559, e, convocando -os estados, depozeram a regente. Concluiu-se um tratado -com a Inglaterra, e Isabel mandou tropas inglezas para -protegerem a Congregação. Houve um combate entre a facção -romanista, auxiliada pelo exercito francez, e a Congregação, -auxiliada pelas tropas que tinham ido de Inglaterra, e os francezes -foram repellidos. A rainha regente morreu em junho do -anno seguinte, e a Congregação ficou senhora da Escocia.</p> - -<p>Os estados do reino reuniram-se, e foi posto á sua deliberação -um pedido da Congregação, referente a uma reforma de -doutrina, de disciplina, de administração dos sacramentos, e da -distribuição do patrimonio da egreja. Em resposta, os estados -requisitaram um summario das desejadas reformas doutrinaes; -e de ali a quatro dias foi-lhes apresentado um decumento, conhecido -depois pelo nome de <i>Confissão Escoceza</i>. Foi tomado em -consideração, os prelados fizeram algumas, poucas, observações, -e, posto a votos, foi approvado quasi por unanimidade. Egual -sorte tiveram as outras tres Actas, que aboliam a jurisdicção do -papa no interior do reino, revogavam todas as anteriores determinações -do parlamento que eram contrarias á Palavra de Deus -e á Confissão de Fé recentemente adoptada, e prohibida a assistencia -á missa e a outras ceremonias idolatras. E a religião reformada -ficou sendo a religião da Escocia legalmente auctorizada. -A auctoridade, comtudo, era o poder dos Estados, independentemente -do soberano; pois que a rainha regente tinha fallecido,<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span> -e a sua filha, Maria, rainha da Escocia, ainda não havia regressado -da França.</p> - -<p class="tb"><b>A Confissão Escoceza, ou Confessio Scotica.</b>—Apresentada aos -Estados, e englobada nas suas Actas quando adoptada por elles, -foi a obra de seis reformadores escocezes: Knox, Spottiswood, -Willock, Row, Douglas e Winram. Diz-se que Maitland de Lethington, -tido na conta de um dos mais habeis estadistas do seu -tempo, reviu o livro e attenuou algumas das suas declarações. -Redigido á pressa por um pequeno numero de theologos, é mais -complacente e humano do que a maioria dos credos, e por essa -razão tem-se recommendado a muitas pessoas que não se conformam -com a logica impessoal da Confissão de Westminster. -As primeiras phrases do prefacio dão uma idéa geral do todo. -«Ha muito tempo que anceiavamos, queridos irmãos, por notificar -ao mundo a summula de aquella doutrina que professamos, -e pela qual nos havemos sujeitado ás ignominias e aos perigos. -Tal tem sido, porém, a ira de Satanaz contra nós e contra Jesus -Christo, cuja verdade eterna se manifestou ultimamente entre -nós, que até hoje não nos tem sido concedido tempo para desobstruir -as nossas consciencias, o que com muito regozijo -teriamos feito.» O prefacio expõe tambem mais claramemte do -que qualquer outra Confissão do mesmo genero a reverencia com -que os vultos da Reforma tratavam a Palavra de Deus. «Pedimos -a qualquer pessoa que notar n’esta nossa Confissão algum -artigo ou phrase que esteja em desacordo com a Santa Palavra -de Deus, que, dando prova da sua caridade christã, nos advirta -d’esse erro por escripto, e, pela nossa honra e fidelidade, promettemos -dar-lhe satisfação pela bocca de Deus, isto é, mediante -a Sua Santa Escriptura, ou então emendarmos aquillo -que se demonstrar que precisa de correcção. Perante Deus deixamos -escripto nas nossas consciencias que abominamos, do -fundo do coração, todas as seitas hereticas, e todos os promulgadores -de doutrinas erroneas; e que com toda a humildade abraçamos -a pureza do Evangelho de Christo, que é o unico alimento -das nossas almas.»</p> - -<p>A Confissão contém as crenças communs a todas as ramificações -da Reforma. Encerra, outrosim, todas as doutrinas chamadas -ecumenicas, isto é, as verdades expostas nos primeiros -concilies ecumenicos, e incorporadas no Credo dos Apostolos e -ao Credo Niceno; e accrescenta aquellas doutrinas de graça, de -perdão e de luz mediante a Palavra e o Espirito que com a -reviviscencia da religião adquiriram uma proeminencia especial. -Esta Confissão é mais notavel pelos seus titulos suggestivos -do que por qualquer peculiaridade de doutrina. A doutrina da -revelação é, por exemplo, definida por si propria, independentemente -da doutrina da Escriptura, mediante este titulo: -«A Revelação da Promessa». A Eleição é considerada, segundo<span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span> -o antigo calvinismo, um meio de graça, uma evidencia do «invencivel -poder» de Deus quanto á salvação. Os pontos em que a -verdadeira egreja se distingue da falsa são, diz-se na dita Confissão -a genuina prégação da Palavra de Deus, a adequada -administração dos sacramentos, e a justiça na applicação da -disciplina ecclesiastica. A auctoridade das Escripturas, affirma -tambem, procede de Deus, nada tem que ver nem com homens -nem com anjos; e a egreja sabe que ellas são verdadeiras, -porque «a verdadeira egreja ouve e obedece sempre á voz do -seu Esposo e Pastor.»</p> - -<p>Esta Confissão foi primeiro lida toda de uma vez no parlamento, -e depois tornada a ler clausula por clausula. Randolpho, -o embaixador inglez, que assistiu a essa leitura, descreveu-a a -Cecilio, o grande ministro de Isabel, e entre outras coisas diz-nos -que, quando se leram os artigos, alguns dos barões ficaram -tão commovidos que se levantaram dos seus logares, declarando -que estavam promptos a derramar o seu sangue em defeza da -Confissão», e que Lord Lindsay, com uma gravidade raras vezes -presenciada, disse: «Tenho vivido muitos annos; sou o mais -edoso de todos quantos aqui se encontram; e agora que aprouve -a Deus deixar-me chegar a este dia, em que tantas pessoas, -algumas d’ellas pertencentes á nobreza, sanccionaram uma obra -tão digna, direi como Simeão, <i>Nunc dimitis</i>».</p> - -<p class="tb"><b>A rainha Maria e a Reforma.</b>—A Reforma não tinha de triumphar -na Escocia tão de repente e com tanta facilidade. Sir James -Sandilands, encarregado de levar a Paris a Confissão de Fé, não -só não conseguiu que a joven rainha a assignasse, como o informaram -do desagrado com que ella soube dos acontecimentos -occorridos na Escocia; e só apoz sete annos de lucta, que terminou -com a deposição da soberana, é que a Confissão foi finalmente -ratificada e a Egreja Reformada alcançou na Escocia um -completo reconhecimento official.</p> - -<p>Francisco II, esposo de Maria, morreu em 1561, e a joven -rainha chegou á Escocia em agosto do mesmo anno. Vinha -acompanhada de um numeroso e brilhante sequito, do qual tambem -faziam parte tres de seus tios, membros da casa de Guise, -e o filho do famoso Condestavel de Montmorency. O duque de -Guise e o cardeal de Lorena acompanharam-n’a até Calais. Os -reformadores escocezes conheciam bem os homens que rodeiavam -a sua rainha, e que tão ostensivamente se achavam dispostos -a protegel-a. Era do dominio publico que o duque de Guise -estava á frente de aquelle partido que ambicionava exterminar -os protestantes francezes por meio de um massacre geral. Fôra -elle, segundo se presumia, o instigador do assassinio judicial -de Anne de Bourg, e que havia planeada a, carnificina de Amboise. -A devassidão dos Guises só era excedida pela sua deshumana<span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span> -crueldade. Taes eram os homens que passaram á Escocia -para acompanhar e aconselhar a joven rainha.</p> - -<p>Não é, pois, para surprehender que, ponderando estas coisas, -Knox e os seus amigos reputassem a vinda da rainha uma -grande calamidade, e que vissem no nevoeiro e chuva que -durante dois dias caiu sobre a costa oriental da Escocia, um -como que aviso do céu, uma manifesta exposição da felicidade -que ella trouxera comsigo para aquelle paiz, felicidade que -se poderia traduzir por estas palavras: afflicção, dôr, obscurantismo -e impiedade.</p> - -<p>A belleza physica, o privilegiado talento, os infortunios e o -tragico fim da joven rainha teem-n’a circumdado de uma aureola -romantica. E, comtudo, nem mesmo os seus admiradores teem -feito inteira justiça á sua indomavel coragem e aos seus grandes -dotes intellectuaes. Estava quasi só ao voltar para o seu -paiz natal, e viu immediatamente que coisa alguma devia esperar -da França e que necessitava de crear um partido em que -podesse descançar confiadamente. Era uma rapariga de dezenove -annos quando saiu de França; apezar d’isso, Knox, que -teve com ella algumas entrevistas pouco depois da sua chegada, -parece ter reconhecido n’ella uma mulher superior, e ter-se -compenetrado de que havia motivo para receiar que uma das -duas, ou a rainha ou a Reforma, tivesse de ir a terra. O combate -que ella sustentou sósinha com a Reforma foi observado -com anciedade por toda a Europa; e, se ella não tivesse sido -educada n’uma côrte tão corrompida, e se não tivesse convergido -para ella o odio que aquelles seus parentes, os Guises, -haviam inspirado, podia muito bem ser que ficasse victoriosa. -Poderá parecer cruel fallar d’este modo, agora que o perigo já -lá vae ha seculos, mas o que é verdade é que bastantes familias -pacificas e religiosas, tanto na Hollanda, como na França, como -no Paiz do Rheno, e com mais razão ainda na Escocia e na -Inglaterra, só respiraram á vontade quando o machado poz -finalmente, em Fotheringay, termo á triste e agitada vida da -rainha Maria.</p> - -<p>A lucta começou com a sua chegada. Ella e a sua côrte -foram, com todo o espavento, ouvir missa logo no primeiro -domingo, posto que fosse prohibido dizer e ouvir missa, sob -pena de um severo castigo. Principiou, pois, por infringir as -leis do estado, d’esse mesmo estado que havia implantado a -Reforma. Se quizessemos contar detalhadamente o que de ahi -em deante se passou encheríamos umas poucas de paginas. -Apoz sete annos de lucta, Maria foi aprisionada no castello de -Lochleven, e deposta, sendo collocado no throno o seu filho, -ainda na infancia, James VI, e ficando como regente do reino -seu irmão James Stewart, conde de Moray. O parlamento escocez -votou novamente a Confissão de Fé; o regente assignou-a -em nome do soberano; e, assim ratificado, foi incluido na legislação<span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span> -do paiz e a religião reformada ficou sendo a reforma do -christianismo legalmente reconhecida na Escocia.</p> - -<p class="tb"><b>O Livro de Disciplina e a primeira assembléa geral.</b>—Pouco -depois de o parlamento de 1560 ter encerrado as suas sessões, os -auctores da Confissão foram encarregados de apresentar uma -breve exposição do melhor systema de governo de uma egreja -reformada. Surgiu então aquelle notavel documento que depois -se chamou o Primeiro Livro de Disciplina, e que constituiu a -primeira formula de governo ecclesiastico na Escocia. Dividia-se -em sessões da egreja, synodos e assembléas geraes; e -concedia o titulo de officiaes da egreja aos ministros, professores, -presbyteros, diaconos, superintendentes e ledores. Os -auctores do Livro de Disciplina declararam ter ido procurar -directamente ás Escripturas as linhas geraes de aquelle systema -de governo ecclesiastico a adoptar o qual elles aconselhavam -os seus compatriotas, e havia, indubitavelmente, muita sinceridade, -a par de muita exactidão, n’essa sua affirmativa. Eram, -comtudo, todos elles, homens affeiçoados á Egreja de Genebra, -e tinham tido relações pessoaes com os protestantes da França. -A sua fórma de governo foi, evidentemente, inspirada pelas -idéas de Calvino, e segue de perto as Ordenanças Ecclesiasticas -da Egreja franceza. Os officios de superintendente e leitor foram -addicionados aos outros tres, ou quatro, que caracterizam a -fórma de governo presbyteriana. O cargo de superintendente -devia a sua origem á situação incerta do paiz e á escassez de -pastores protestantes. Os superintendentes tinham a seu cargo -divisões territoriaes que não correspondiam exactamente ás -dioceses episcopaes, e competia-lhes apresentar á Assembléa -Geral relatorios annuaes do estado ecclesiastico e religioso das -respectivas provincias. Os leitores deviam a sua existencia ao -reduzido numero de pastores protestantes, á grande importancia -que os primitivos reformadores escocezes davam a um ministerio -educado, e tambem á difficuldade de obter fundos para -a sustentação dos pastores de todas as paroquias. O Livro de -Disciplina contém um capitulo sobre o patrimonio da egreja, -que insiste na necessidade de reservar os dinheiros possuidos -pela egreja para a manutenção da religião, as despezas com a -educação, e os socorros dos pobres. Foi a existencia d’este capitulo -que fez com que os Estados não aceitassem o livro com -tanta promptidão como o fizeram com a Confissão de Fé. Os -barões de diversas categorias, que tinham assento na camara, -haviam-se, em muitos casos, apropriado do patrimonio da egreja -em seu beneficio particular, e não queriam assignar um documento -que condemnava o seu modo de proceder. O Livro de -Disciplina, approvado pela Assembléa Geral, e assignado por -um grande numero de nobres e burguezes, nunca recebeu a -sancção official concedida á Confissão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p> - -<p>A Assembléa Geral da Egreja Reformada da Escocia reuniu-se -pela primeira vez em 1560, e, a despeito da luta em que -a egreja se achava envolvida, houve, pelo menos, uma reunião -por anno, e algumas vezes mais, podendo assim a egreja organizar-se -e entrar em plena actividade.</p> - -<p>Fez-se uma traducção do <i>Catecismo para a Infancia</i>, de Calvino, -e deu-se ordem para que se fizesse uso d’ella. O Livro de -Ordem Commum, ou a Lithurgia de Knox, foi substituindo a -pouco e pouco a Lithurgia do rei Eduardo VI, e a Egreja Reformada -da Escocia, com a sua Confissão, a sua constituição ecclesiastica, -o seu methodo de culto publico e as suas provisões -para a instrucção das creanças, espalhou-se pelo paiz, levantando -egrejas, melhorando o estado moral do povo e contribuindo -efficazmente para a educação do mesmo.</p> - -<p>Uma das principaes dificuldades com que a egreja teve de -luctar foi falta de dinheiro para pagar aos ministros. A Egreja -Catholica Romana tinha sido officialmente abolida, e, comtudo, -não se havia feito provisão alguma para a manutenção do clero -reformado. A propriedade ecclesiastica estava em condições -anormaes. Até 1560 a Egreja Catholica Romana da Escocia -vinha sido muito opulenta, e havia estado de posse de uma -grande parte do territorio da nação. Emquanto a egreja estivera -luctando com Maria e procurando frustrar os esforços que ella -empregava para introduzir de novo a religião e hierarquia romanista, -os prelados distribuiram uma grande parte dos bens -ecclesiasticos por quem elles muito bem entenderam, os nobres -apoderaram-se de uma parte d’elles ainda maior, e o que restava -e nominalmente pertencia á egreja estava nas mãos de -homens que se intitulavam bispos, abbades, priores, deãos e -curas, mas que nunca haviam recebido ordens, eram protestantes -só no nome, e se serviam de aquelles titulos ecclesiasticos para -poderem usufruir as propriedades a que o cargo dava direito. -Depois de alguma discussão, a Assembléa obteve do Estado que -aquelas pessoas que conservavam em seu poder bens que nominalmente -pertenciam á egreja ficassem com dois terços de rendimento -para as suas despezas particulares, e entregassem a -restante terça parte para a manutenção do ministerio e das -escolas, e para os encargos de beneficencia. A Egreja Reformada, -porém, teve muita difficuldade em ver esta disposição convertida -em lei, e assim, durante os primeiros annos da Reforma os -ministros e as escolas foram principalmente mantidos por meio -de offertas voluntarias, ou «benevolencias», como Knox pittorescamente -lhes chamava.</p> - -<p class="tb"><b>A Educação.</b>—As idéas democraticas do presbyterianismo, -avolumadas pela necessidade de cooperar com o povo, fizeram -com que os reformadores escocezes se ocupassem seriamente -da educação popular. Todos os impulsionadores da Reforma,<span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span> -quer na Allemanha, quer na França, quer na Hollanda, tinham -reconhecido a importancia de esclarecer o povo; mas a Hollanda -e a Escocia foram talvez os dois paizes onde a tentativa foi mais -bem succedida. A educação do povo não era uma novidade na -Escocia e, posto que nos agitados tempos que precederam a -Reforma as escolas superiores tivessem desapparecido, e as -universidades tivessem caido em decadencia, o desejo de aprender -não se havia extinguido por completo. Knox e o seu amigo -Jorge Buchanan tinham um plano magnifico para crear escolas -em todas as freguezias, estabelecer collegios superiores em -todas as cidades importantes e augmentar o poder e influencia -das universidades. O seu plano, devido á cubiça dos barões que -se haviam apoderado dos bens da egreja, pouco mais era do -que uma devota imaginação, mas havia-se apossado do espirito -da Escocia, e a falta de dotações era mais do que compensada -pelo desejo ardente que o povo tinha de se instruir. As tres -universidades, de Santo André, de Glasgow e de Aberdeen, -receberam uma nova vida, e fundou-se uma quarta universidade, -a de Edinburgo. Alguns estudantes escocezes que haviam -recebido educação nas escolas continentaes, e que haviam abraçado -a fé reformada, foram encarregados de superintender o -re-organizado systema educativo do paiz, e tudo se fez em harmonia -com o viver do povo, preferindo-se, nas escolas, e externato -ao internato, e estabelecendo um systema de inspecção -que era exercido, em cada circumscripção escolar, por um dos -homens mais espirituaes e de maiores conhecimentos. Knox -estava tambem disposto a impôr ás duas classes da sociedade, -a mais baixa e a mais elevada, uma frequencia obrigatoria ás -aulas; quanto á classe media, elle confiava no seu natural desejo -de aprender. E desejava que o Estado exercesse a sua -auctoridade no sentido de compellir os mancebos de posição a -matricularem-se nas escolas superiores e nas universidades, -para que podessem prestar serviços uteis á nação.</p> - -<p class="tb"><b>A morte de Knox.</b>—João Knox morreu em novembro de 1572. -O assassinio do seu amigo, o conde de Moray, o Bom Regente, -havia-lhe feito uma grande impressão, e a noticia do massacre -de S. Bartholomeu, que havia chegado recentemente á Escocia, -produziu-lhe um tremendo abalo. Elle nunca havia sido um -homem robusto, e durante a sua vida havia passado por muitos -trabalhos, mas o seu intrepido espirito a tudo resistira. «Ignoro» -diz Smeaton, «se Deus poz jámais n’um corpo debil e franzino -uma alma maior e mais santa do que a d’elle». As forças começaram -a faltar-lhe muito antes de adoecer gravemente, mas luctou -sempre contra o seu precario estado de saude, e nunca deixou -de prégar e exhortar como costumava fazer. James Melville, -que teve occasião de o ver quando estudava em Santo André, -apresenta-nos um retrato d’elle pouco antes da sua morte. «Via-se<span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span> -que andava doente. Todos os dias eu o via passar para a -egreja paroquial, andando muito cautelosamente, com o pescoço -resguardado por uma pelle, de bengala na mão, e acompanhado -pelo seu creado, o bom Ricardo Ballanden. Era esse dito Ricardo -e um outro creado que o ajudavam a subir para o pulpito, a que -elle se encostava durante algum tempo; logo, porém, que entrava -no sermão, enchia-se de uma actividade e de um vigor -taes que esse mesmo pulpito por pouco escapava de ficar feito -em cavacos.»</p> - -<p>Morreu antes de ter effectuado por completo a sua obra, -pois que a Egreja Reformada ainda tinha muitos obstaculos a -vencer, e o facto de Knox não tomar parte na batalha tornava-lhe -mais difficil o sair victoriosa. Elle não possuia a erudição -de Calvino, nem uma disposição para se tornar popular, como -Luthero, mas nenhum homem o poderia egualar em coragem. -«Elle nada temia da carne, nem tão pouco a lisongeava.» E foi -isso o que fez o reformador da Escocia.</p> - -<p>Como os seus contemporaneos francezes, tinha tanto de estadista -como de dirigente ecclesiastico, e emquanto viveu foi o -guia do povo escocez. Os nobres de bom grado teriam intervindo -no movimento, e lhe teriam dado uma feição mais em obediencia -ao seu modo de pensar, mas Knox fez do pulpito a força -mais poderosa da Escocia, e com as suas ousadas prégações -creou uma opinião publica com que era preciso contar. Elle era, -individualmente, um homem de profunda espiritualidade, e «temia -a Deus, mas coisa alguma fóra d’Elle lhe mettia medo».</p> - -<p class="tb"><b>Os bispos tulchanos.</b>—O poder da Egreja Reformada da Escocia -foi consideravelmente fortalecido e consolidado mediante -o caracter representativo dos seus conselhos, e, mais especialmente, -da sua Assembléa Geral, e a liberdade com que todos -os assumptos de interesse para a nação eram ahi tratados e discutidos -deu á Assembléa da Egreja o caracter de um parlamento -nacional onde o povo da Escocia encontrava uma defeza -mais efficaz do que nos Estados do reino. Os olhos perspicazes -da rainha Maria haviam discernido esta força da egreja, e ella -empregou varios esforços, sempre infructiferos, para impedir a -reunião da Assembléa Geral. Depois da morte do conde Moray, -o Bom Regente, isto é, durante as regencias de Lennox, Mar e -Morton, e durante o reinado de James, a Assembléa foi sempre -mal vista por aquelles que ambicionavam um poder exclusivo. -Sabia-se, porém, que era perigoso dirigir-se á Assembléa um -ataque directo, e aqueles que no Estado dispunham do poder -tentaram diminuir-lhe a auctoridade promovendo ecclesiasticos -e elevando-os a posições que lhes permittissem tomar assento -nos Estados e defender ahi as prerogativas da egreja. Depois -da morte do regente Moray, a nobreza tratou constantemente<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span> -de derrubar o governo episcopal, e collocar a Egreja sob o dominio -dos bispos.</p> - -<p>Uma outra, e talvez mais visivel, causa por que aquelles -estavam em auctoridade antipathisavam com a simples -constituição presbyteriana que o Livro de Disciplina havia -preceituado á Egreja era o facto de ella dar pouca occasião a -que as receitas fossem espoliadas, ao passo que a nomeação -de bispos reunia uma grande proporção dos dinheiros da Egreja -em meia duzia de mãos, habilitava os patronos e entrar em -negocios com os ecclesiasticos que elles nomeassem para esses -cargos, desviando-se assim uma grande parte dos fundos de que -a Egreja ainda estava de posse para as algibeiras dos fidalgos -de primeira plana.</p> - -<p>Pouco antes da morte de Knox, a Assembléa, não sem protesto, -tinha, a instancias dos Lords do Conselho, concordado em -acceitar ecclesiasticos com o titulo de bispos, debaixo de certas -condições, sendo as principaes as seguintes: os bispos não teriam -um poder superior ao dos superintendentes, haviam de -estar sujeitos á Assembléa Geral, e não seriam nomeados -sem que devidamente se providenciasse quanto ao sustento do -ministerio regular. Este accordo, chamado a <i>Convenção de Leith</i>, -foi devido principalmente ás diligencias de João Erskine, o antigo -amigo de Knox, um dos primitivos superintendentes, e que -por mais de uma vez exerceu na Assembléa o logar de Moderador. -Alguns annos de experiencia mostraram á egreja escoceza -o perigo que para a sua vida livre, para a sua vida democratica, -provinha das disposições desta convenção, e pouco depois da -morte de Knox appareceram symptomas de um proximo conflicto.</p> - -<p>O mais flagrante exemplo do uso que os nobres mais proeminentes -faziam d’estes bispos para defraudar a Egreja occorreu -em 1581, que foi quando Boyd, o arcebispo de Santo André, -morreu. Assim que o edoso prelado faleceu, o duque de Lennox -resolveu apoderar-se das propriedades da sé. Era impossivel -pôr similhante coisa em pratica sem um legalisado artificio, e -o plano escolhido foi induzir Roberto Montgomery, ministro em -Stirling, a acceitar o cargo de arcebispo, tornar-se d’esse modo -herdeiro dos bens da sé, e passar depois os respectivos rendimentos -para as mãos de Lennox. Este caso foi, talvez, o peior -d’elles todos; mas em toda a Escocia se procedeu de uma fórma -analoga, nomeando-se bispos, abbades, etc., para que podessem -tomar legalmente posse dos dinheiros da Egreja, e, em vez de -se lhes dar a devida applicação, passal-os para os bolsos dos -patronos seculares. O povo chamava a estes bispos, assim como -a quaesquer outros dignitarios que se prestavam a essas burlas, -tulchanos, e a primeira lucta com os bispos escocezes não foi -uma contestação entre o presbyterio e o episcopado, mas entre -a Egreja, que queria a todo o custo conservar o seu patrimonio,<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span> -e esses tulchanos. Quando na Assembléa se tratou do caso de -Montgomery, «o moderador, David Dickson, pediu licença para -expôr a significação de bispos tulchanos. Tratava-se de uma -palavra em uso vulgar entre os montanhezes da Escocia. Quando -uma vacca não se deixa mungir, põem junto d’ella uma pelle de -vitello, empalhada, e é a essa pelle que chamam <i>tulchan</i>. Ora -para esses bispos que possuíam o titulo e o beneficio, sem desempenharem -o cargo, não se encontrou denominação mais significativa -do que a de bispos tulchanos.»</p> - -<p class="tb"><b>André Melville.</b>—João Knox morreu quando este conflicto -entre a Côrte e a Egreja estava no principio, e era necessario -fazel-o substituir por outro dirigente. Entre os escocezes illustrados -que o triumpho da Reforma e a renascença das letras -haviam attraido para o seu paiz natal, André Melville era o que -mais se tinha distinguido. Nascido, em 1545, em Baldovy, perto -de Montrose, recebeu a sua educação na Escola Primaria d’essa -cidade, e no Collegio de St.ª Maria, em St.º André. De ahi foi -para Paris, onde teve por professor o celebre Pedro Ramus. -Depois de terminar os estudos, obteve em Genebra uma cadeira -de latim, e em 1574 voltou á Escocia, com a reputação de um -dos mais eminentes sabios da Europa. Pouco depois do seu regresso -foi nomeado reitor da universidade de Glasgow, e por -tal fórma dirigiu esse estabelecimento de instrucção que correu -a matricular-se n’elle um elevadissimo numero de mancebos, não -só escocezes como estrangeiros.</p> - -<p>Foi um dos membros da Assembléa de 1575, em que a questão -do presbyterio e do episcopado tomou pela primeira vez um -caracter serio; e fez parte da comissão nomeada por essa Assembléa -para considerar se o nome e deveres de um bispo tinham -alguma auctorização biblica, isto é, se os bispos que havia -n’aquelle tempo na Egreja da Escocia estavam ali, e desempenhavam -os seus cargos, em obediencia á Palavra de Deus. A -decisão a que se chegou foi que o nome de bispo pertencia a -todos os pastores da Egreja de quem se havia confiado congregações, -mas que tambem podia ser applicado aos ministros escolhidos -por seus irmãos para implantar egrejas e inspeccionar -as egrejas existentes, e o sentimento geral da Egreja a este -respeito pode colligir-se d’estas tres expressões, que indicam -tres especies de bispos: My Lord Bishop (<i>Meu Senhor Bispo</i>), -My Lord’s Bishop (<i>Bispo do Meu Senhor</i>), e Lord’s Bishop (<i>Bispo -do Senhor</i>), sendo os primeiros catholicos romanos, os segundos -tulchanos, e os terceiros pastores das congregações.</p> - -<p class="tb"><b>O Segundo Livro de Disciplina.</b>—Quando a Egreja Reformada -da Escocia se encontrou face a face com estes novos problemas -ecclesiasticos, sentiu necessidade de um mais distincto e mais -completo schema de governo da egreja do que aquelle que o<span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span> -Primeiro Livro de Disciplina continha. Esse systema de governo -da egreja havia sido preparado á pressa, e fazia menção de differentes -materias que estavam fôra da esphera de um livro de -preceitos ecclesiasticos. A Assembléa de 1576 nomeou uma -commissão para tratar d’esse assumpto, e redigir um livro que -podesse substituir a obra de Knox e de Row. O dito livro foi -escripto de vagar, com muita perseverança, e finalmente em 1578 -deu-se ordem para que o <i>O Segundo Livro de Disciplina</i> fosse impresso, -afim de sujeital-o á critica e se fazerem as necessarias -correcções. Tres annos se dispenderam em ponderar todos os -seus pontos, todas as suas phrases, e o Livro de Politica, como -se lhe chamou, foi então acceite pela Assembléa e incluido nas -suas Actas.</p> - -<p>Este livro, que apresenta, n’um estylo conciso e claro, o esboço -do governo da Egreja Presbyteriana na Escocia, começa -por fazer distincção entre as leis ecclesiasticas e civis, e reivindica -para a Egreja «uma politica differente da politica do -Estado». O conjuncto do governo da egreja, diz o livro, comprehende -doutrina, disciplina e distribuição; e para este triplice -governo ha um triplice officialato, que se divide em pastor, ou -bispo, presbytero e diacono. O Livro de Disciplina addiciona um -quarto oficio, ou de doutor, ou ensinador. N’um curto capitulo -vem descripta a natureza da vocação, assim como o modo da -eleição e ordenação dos pastores. Faz-se tambem uma descripção -dos deveres que cabem a cada uma das dignidades, e das -varias assembléas em que aquelles que estão d’ellas revestidos -teem de comparecer, no exercicio dos seus cargos. É singular -que no anno que precedeu o da adopção do Livro de Disciplina -pela Assembléa recebesse o seu complemento a organização -presbyteriana da Egreja Escoceza mediante o universal reconhecimento -do presbyterio como um tribunal superior á sessão -da egreja, mas inferior ao synodo; e que este livro de politica -não faça menção especial de similhante tribunal, que actualmente -exerce funcções tão importantes na organização presbyteriana -escoceza.</p> - -<p>Como a publicação do <i>Segundo Livro de Disciplina</i> a Egreja -Reformada da Escocia completou a sua organização ecclesiastica, -e terminou a primeira parte da sua historia. A Reforma -estava por esse tempo firmemente estabelecida, e o protestantismo -tinha empolgado o povo da Escocia. A Egreja tinha deante -de si uma longa lucta; o conflito, porém, não era com o papismo, -mas com o Estado; não era no sentido de reformar a religião, -mas de desenvolver e preservar a fórma democratica do governo -da Egreja, que se impunha ao povo como sendo a mais -conforme com a Palavra de Deus, e a mais adequada para a habilitar -a desempenhar os seus deveres de Egreja de Christo.</p> - -<p>Em 1574 a Escocia achava-se em curiosas circumstancias -ecclesiasticas. Haviam-se conservado as paroquias que existiam<span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span> -antes da Reforma, e cujo numero era superior a mil. Para seu -funccionamento havia 289 ministros e 715 leitores, e muitos -d’estes ultimos eram os padres catholicos romanos que tinham -vindo para a religião reformada mas que não possuiam uma -educação sufficiente para justificar a sua ordenação como pastores -protestantes. Estas paroquias passaram depois a constituir -presbyterios, os presbyterios foram agrupados em synodos, -e o conjuncto estava sob a direcção da Assembléa Geral. A organização -presbyteriana era, n’um certo sentido, completa. A -par d’isto, porém, existiam as velhas dioceses, anteriores á Reforma, -em numero de treze, na sua maior parte occupadas por -homens que eram ministros protestantes, que haviam tomado -o titulo de bispos, mas que não exerciam funcções episcopaes. -Apenas tres d’esses bispos, o de St.º André, o de Glasgow e o -de Aberdeen, haviam tentado exercer a jurisdicção episcopal, e -não o tinham feito tanto na qualidade de bispos, como de superintendentes. -Os bispos tinham assento no parlamento escocez, -e os seus deveres principaes eram administrar as receitas -da cathedral e desempenhar as funcções judiciaes que eram da -competencia dos bispos n’outro tempo, anteriormente á Reforma.</p> - -<p>Esta organização episcopal vivia lado a lado com a activa e -aggressiva constituição presbyteriana da Egreja. O estado dos -negocios ainda mais anomalo se tornava com o facto de ainda -viverem, e exercerem a sua fiscalização, tres dos antigos superintendentes; -e os districtos dos outros superintendentes -eram governados por commissarios provisorios nomeados pela -Assembléa, que podia demittil-os quando entendesse.</p> - -<p>O fim que a Egreja tinha em vista com o conflicto que durou -desde 1574 até 1638 era acabar inteiramente com aquillo a -que chamava a inutil e nociva organização episcopal, que não -tinha ligação alguma com a obra espiritual da Egreja, e substituir -os superintendentes e commissarios por presbyteros, unindo -assim a Egreja n’um todo harmonico. O fim que a côrte tinha -em vista era conservar o velho systema episcopal, e, mediante -elle, ir gradualmente dividindo a Egreja em fragmentos, cada -um d’elles governado por um bispo que só era responsavel para -com o parlamento; e, no fim de tudo, restabelecer o episcopado -no velho sentido da palavra, e derribar por completo a constituição -presbyteriana.</p> - -<p>O anno de 1638 foi o do triumpho da Egreja, mas a historia -completa d’esta lucta ultrapassa os limites da presente obra.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span></p> - -<h2 id="III_PARTE">III PARTE<br /> -<span class="smaller">A REFORMA ANGLICANA</span></h2> - -<p class="center"><span class="smcap">Capitulos:</span></p> - -<table summary="Capitulos"> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#III_CAPITULO_I">I</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Egreja de Inglaterra durante o reinado de Henrique VIII.</span></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#III_CAPITULO_II">II</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Reforma sob Eduardo VI, e a reacção sob Maria.</span></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#III_CAPITULO_III">III</a></td> - <td>—<span class="smcap">A Reforma sob Isabel.</span></td> - </tr> -</table> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span></p> - -<h3 id="III_CAPITULO_I">CAPITULO I<br /> -<span class="smaller">A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, <a href="#Page_157">pag. 157</a>.—Antecipações -da Reforma em Inglaterra, <a href="#Page_158">pag. 158</a>.—O estado ecclesiastico de Inglaterra no -principio da Reforma, <a href="#Page_159">pag. 159</a>.—As relações de Inglaterra com o pontificado, -<a href="#Page_160">pag. 160</a>.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, <a href="#Page_161">pag. 161</a>.—Henrique -muda de opinião, <a href="#Page_163">pag. 163</a>.—Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, -e a rivalidade que havia entre elles, <a href="#Page_164">pag. 164</a>.—A submissão do clero, <a href="#Page_165">pag. 165</a>.—O -progresso da separação de Roma, <a href="#Page_166">pag. 166</a>.—Separação de Roma e -Reforma: duas coisas differentes, <a href="#Page_168">pag. 168</a>.—Execução da sir Thomaz More, -<a href="#Page_169">pag. 169</a>.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades da Egreja, -<a href="#Page_170">pag. 170</a>.—<i>Os Dez Artigos</i>, <a href="#Page_171">pag. 171</a>.—<i>O Estatuto Sanguinario</i>, <a href="#Page_173">pag. 173</a>.—A -Egreja de Inglaterra em 1547, <a href="#Page_173">pag. 173</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>O caracter excepcional do Principio da Reforma inglesa.</b>—A Egreja -e o povo inglez romperam com o systema ecclesiastico medieval -em circumstancias tão excepcionaes que é impossivel considerar -esse rompimento como fazendo parte da Reforma, ou como tendo -muita coisa em commum com os movimentos contemporaneos -na Allemanha e na França. Emquanto durou o reinado de Henrique -VIII, a Egreja de Inglaterra, que se havia separado do -papa, pouco ou nada tinha de commum com a Reforma. O que -durante aquelle reinado se fez foi simplesmente demolir a Egreja -da edade media. A verdadeira Reforma começou no reinado de -Eduardo VI, e a sua adopção formal teve logar no de Isabel. -Henrique VIII destruiu a supremacia do papa, tanto espiritual -como temporal; derrubou a grade ecclesiastica que unia a Egreja -de Inglaterra á grande Egreja Occidental governada pelo bispo -de Roma, mas não poz coisa alguma duradoura em seu logar. -O seu fim era estabelecer um papado real, tão despotico e ainda -mas secular do que aquelle que elle estava destruindo, sobre -as minas da jurisdicção do bispo de Roma. A Egreja que elle -construiu segundo o seu modelo não durou mais do que a vida -d’elle; mas a sua obra durou o bastante para dar á Reforma da -Egreja de Inglaterra, quando ella mais tarde se tornou um facto, -aquelle caracter particular que a distinguiu dos movimentos do -mesmo genero occorridos n’outros paizes. O objecto de Henrique<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span> -era modificar de tal modo as condições ecclesiasticas da Inglaterra -que o rei occupasse o logar do papa, e ficasse governando, -não só temporal como espiritualmente, de modo que, mediante -a Egreja, tivesse sobre os seus subditos um dominio absoluto. -Todas as reformas de doutrina, de culto e de costumes eram tão -abominaveis para Henrique como para o bispo de Roma.</p> - -<p class="tb"><b>Antecipações da Reforma em Inglaterra.</b>—Os historiadores ecclesiasticos -fazem, geralmente, datar os principios da Reforma do -tempo de João Wycliffe, o qual, no seculo quatorze, era, por assim -dizer, a bocca da Inglaterra, revoltando-se contra a supremacia -espiritual e temporal que o papa tinha no reino; mas é muito -para duvidar que a sua influencia continuasse a ser exercida -sobre o povo inglez até ao seculo dezeseis, e por tal fórma que -a ella se devam attribuir os desejos de Reforma que enchiam -os corações de muitas pessoas de bons sentimentos religiosos.</p> - -<p>Como Francisco de Assis e outros reformadores e revivificadores -da Edade Media, Wycliffe tinha abraçado apaixonadamente -a idéa de que os beneficios da salvação só podem ser -aproveitados por aquelles que imitam Christo, e que para imitar -Jesus Christo torna-se indispensavel viver na pobreza como -Elle. Declarou, portanto, guerra aberta ao bem estipendiado -clero da opulenta Egreja de Inglaterra, e prégava que a Egreja, -para ser realmente de Christo, devia ser, pobre. Dizia que o -Estado não faria mais do que beneficiar a Egreja tirando-lhe a -riqueza, pois que era esta um obstaculo a que ella se parecesse -com o seu Mestre. Em conformidade com estas idéas, organisou -um corpo de prégadores ambulantes, denominados prégadores -pobres, os quaes, tendo, a muitos respeitos, parecenças com os -evangelistas do movimento wesleyanno, andavam por toda a -Inglaterra, proclamando a doutrina da humildade. Era um fervoroso -admirador dos grandes juristas medievaes, taes como -Guilherme de Ockham, o querido mestre de Luthero, Marsillio -de Padua, e Pedro Dubois de Paris. Elles haviam proclamado, -n’uma epoca muito anterior, que o Estado não era -outra coisa senão o povo; e Wycliffe, seguindo-lhes o exemplo, -insistia em que a Egreja não era outra coisa senão o povo. Ora -isto atacava o systema da Egreja medieval, que se apoiava na -noção de que a verdadeira Egreja era o clero, e de que o povo só -fazia parte d’ella quando se punha em contacto com os clerigos, -que eram depositarios dos sacramentos. Foi por esse motivo -que elle traduziu a Biblia, que era o Livro da Egreja, e, portanto, -do povo christão, e não sómente do clero. As idéas da -Wycliffe foram avidamente adoptadas por uma grande parte da -população ingleza, e os seus discipulos, os lollardos, constituiram, -por algum tempo, uma fortissima aggremiação.</p> - -<p>O lollardismo foi indubitavelmente uma preparação para a -Reforma, e os homens biblicos, como lhes chamavam, teriam<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span> -exercido uma grande influencia sobre o povo, no sentido de o -predisporem para uma revivificação da religião espiritual se -tivessem existido na epoca em que se operou o movimento -reformador. Não se pode, porém, provar que elles communicassem -com essa geração, e não ha indicio algum de que nos reinados -de Henrique VII e Henrique VIII estivesse desenvolvido -o gosto pela leitura da Biblia ou houvesse uma corrente de sympathia -pelos prégadores pobres. O povo inglez, tomado na sua -totalidade, parece não se ter inclinado para a Reforma antes do -tempo de Isabel.</p> - -<p class="tb"><b>O estado ecclesiastico da Inglaterra no principio da Reforma.</b>—Quando -começou na Allemanha o movimento da Reforma, houve, -sem duvida, muitos inglezes que se sentiram attraidos para o -reformador saxonio, e que desejaram ver introduzido na Egreja -um credo mais simples e mais em harmonia com a Palavra de -Deus, e uma fórma de culto como a que era usada nos tempos -apostolicos; mas a maioria não partilhava essas idéas. Havia, -certamente, muitissimas pessoas que desejariam ver modificados -os costumes dos clerigos, e especialmente o caracter moral -dos frades, e que ficariam satisfeitas se as propriedades da Egreja -fossem sujeitas a impostos e os grandes rendimentos dos bispados -e das abbadias soffressem alguma diminuição. E eram em -numero sempre crescente as que se sentiam desgostosas com -a ignorancia do clero, e que, por motivos politicos ou sociaes, -desejavam ver cerceada a influencia do bispo de Roma. Não -lhes agradava a sua interferencia nas questões politicas, e indignava-os -a saida de grossas quantias para fóra do reino.</p> - -<p>Não é provavel que o caracter moral do clero romano fosse -peior em Inglaterra do que em qualquer outro paiz, mas o que é -verdade é que os padres, com a sua conducta, desacreditavam -a Egreja. O clero era de uma ignorancia crassa, e havia, talvez, -em Inglaterra menos conhecimento das Escripturas do que na -França ou na Allemanha, pois que, desde a epoca do lollardismo, -a leitura da Biblia era considerada um acto criminoso. -A Biblia era um livro desconhecido para os padres, e Erasmo -conta que viu, preso por uma corrente a uma coluna da cathedral -de Canterbury um Evangelho de Nicodemos que era lido -como fazendo parte da Escriptura canonica.</p> - -<p>O alto clero pouco tinha que fazer na Egreja, e occupava-se -em dirigir os negocios do Estado, ou em presidir ás audiencias -nos tribunaes de justiça. O arcebispo de Canterbury era Lord -Chanceller, o bispo de Winchester director geral da Thesouraria, -o bispo de Durham secretario de Estado, e o bispo de Londres -guarda-mór dos arquivos. Os bispos de Bath, Hereford, -Llandaff e Worcester nem sequer residiam no reino.</p> - -<p>Dadas estas circunstancias, não é para estranhar que aquelles -que amavam sinceramente a instrucção se sentissem indignados<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span> -perante a ignorancia do clero, e procurassem abrir os -olhos, não só a estes como ao povo em geral; e que os patriotas -inglezes, lembrando-se das antigas tradições de um paiz que -durante seculos havia mantido uma attitude altiva e reservada -para com as pretensões da Curia Romana, tivessem immensa -vontade de annular o poder do papa em Inglaterra. Como que -exteriorisando o desejo preponderante, surgiu um grupo de mancebos -instruidos, capitaneados por Colet, deão de S. Paulo, e -Thomaz More, cujo intuito era purificar a Egreja, o povo e o -clero, e incitar a Egreja nacional de Inglaterra a resistir ás -usurpações do bispo de Roma.</p> - -<p class="tb"><b>As relações de Inglaterra com o pontificado.</b>—Os bispos de -Roma, na Edade Media, reivindicavam a supremacia, tanto espiritual -como temporal, e o povo inglez havia resistido, por mais -de uma vez, ás suas reivindicações. Os papas, desde o tempo de -Innocencio III, sustentavam que todos os reis e principes eram -seus vassallos, tanto pelo que dizia respeito ás coisas sagradas -como aos negocios civis. Este direito havia sido imposto no reinado -de João, que pagara tributo a Roma em reconhecimento -da supremacia papal. Quando, porém, foi exigido esse tributo -aos sucessores de João, elles, indignados, recusaram pagal-o. -E a Inglaterra, sem deixar de pertencer á Egreja Catholica medieval, -havia repudiado o direito do papa a intervir nas questões -nacionaes. Rei algum inglez, excepto João, se considerou vassallo -do papa. Não era uma coisa nova em Inglaterra, o não reconhecer -a supremacia do papa nos negocios temporaes.</p> - -<p>Os papas tinham, desde o principio da Edade Media, exigido -que os reputassem arbitros supremos em todos os negocios -espirituaes, e, por consequencia, a Egreja ingleza devia -estar sujeita ao seu dominio absoluto. Estas reivindicações -apresentavam-se, na pratica, debaixo das seguintes fórmas: Os -papas queriam que lhes fosse reconhecida a decisão final em -todas as nomeações ecclesiasticas; isto é, nenhum bispo, ou -abbade, ou outro qualquer dignitario da Egreja podia ser collocado -n’este ou n’aquelle posto sem a approvação do papa em -ultima instancia, e esta sua supremacia queriam que lhes fosse -reconhecida de uma fórma prática mediante o pagamento do -primeiro anno do estipendio que correspondia a cada oficio -ecclesiastico. Queriam ter a decisão final em todas as questões -que se levantassem no seio da Egreja ingleza. E isto significava, -praticamente, que todos os clerigos, bispos, abbades, simples -padres e frades só podiam ser julgados pelos tribunaes -ecclesiasticos, e que o accusador ou o defensor tinha sempre o -direito de appellar dos tribunaes inglezes para o tribunal pontificio. -Reivindicavam tambem que as leis canonicas, isto é, as -leis da Egreja promulgadas pelos concilios e pelos papas, fossem<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span> -reconhecidas em Inglaterra e tivessem a mesma força que as -leis ordinarias.</p> - -<p>A supremacia espiritual do papa tinha sido repetidas vezes -repellida pelo povo inglez. Os reis de Inglaterra tinham declarado -e tornado a declarar que em caso algum se poderia -appellar dos tribunaes inglezes para a Curia Romana. Estas -declarações tinham tomado a fórma de decretos, e no reinado -de Ricardo II ficaram englobadas no famoso codigo de <i>Proemunire</i>. -Segundo este codigo, ou estatuto, como lhe chamavam, -qualquer appellação para um tribunal de justiça estrangeiro, -romano ou de outra qualquer nacionalidade, era um crime a que -correspondia um castigo severo. Sustentava, de uma maneira -peremptoria, que o rei era o arbitro supremo em todas as questões -civis ou ecclesiasticas, e tornava punivel qualquer appellação -de sentenças proferidas nos tribunaes civis para juizos -ecclesiasticos, quer da Inglaterra quer da Italia.</p> - -<p>Além dos protestos do rei e do parlamento, reunidos n’este -estatuto, o povo, n’uma grande occasião pelo menos, negou solemnemente -a supremacia do papa, e asseverou a independencia -da Egreja ingleza. A <i>Magna Charta</i> foi feita com o intuito de -restringir o poder pontificio, assim como de reprimir o do rei; -e a sua primeira clausula reivindicou a independencia da Egreja -de Inglaterra—<i>Quod ecclesia anglicana libera sit et habeat omnia -jura sua integra et libertates suas illaesas.</i></p> - -<p>E Egreja e o povo inglez haviam-se acostumado a protestar -contra a interferencia papal, e os reformadores que tinham simplesmente -em vista promover a instrucção do clero, e reprimir -a auctoridade que o papa exercia na Inglaterra, podiam dizer, com -exactidão historica, que não punham em pratica uma coisa nova.</p> - -<p>As aspirações d’esses reformadores podem ser apreciadas -no romance politico escripto por um dos mais intelligentes -d’entre elles,—a <i>Utopia</i>, de Thomaz More. Para esses homens -a Reforma era apenas um movimento intellectual e politico. -Não era uma revivificação religiosa. Podiam sympathizar com -os concilios reformistas do secolo quinze, mas entre elles e Wittenberg -ou Genebra havia poucos pontos de contacto.</p> - -<p class="tb"><b>As primitivas relações de Henrique VIII com o pontificado. Defensor -da Supremacia papal.</b>—Estes reformadores do estudo e da camara -do conselho saudaram com regozijo a subida de Henrique VIII -ao throno de Inglaterra. Suppunha-se, exactamente como aconteceu -com o seu contemporaneo, Francisco I de França, que o -joven rei fosse um amigo da nova litteratura, e um soberano -predisposto a extirpar abusos. A desillusão não se fez esperar. -Logo de principio mostrou ser um dedicado defensor da supremacia -papal. A sua posição era estranha, e necessita de uma -explicação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span></p> - -<p>Henrique VII, o primeiro rei da casa de Tudor, havia conquistado -o throno de Inglaterra no campo de Bosworth, e conservava-o -mediante uma precaria subemphyteuse. Anhelava por -tornar mais firme o seu poder mediante uma alliança com um -paiz estrangeiro, e, passando a Europa em revista, certificou-se -de que Fernando de Hespanha era quem o poderia auxiliar melhor. -Effectuou, portanto, com alguma dificuldade, o casamento -de seu filho mais velho, Arthur, com Catharina de Aragão, uma -das filhas de Fernando. Arthur morreu passado pouco tempo; -e Henrique, desejando manter a todo o transe a alliança hespanhola, -tratou com todo o afan de casar Catharina com o seu segundo -filho, Henrique, que foi depois Henrique VIII. O papa -concedeu uma dispensa, e o casamento realisou-se. Henrique -VIII teve, pois, por mulher a viuva de seu irmão.</p> - -<p>Nunca se poude saber ao certo se Arthur e Catharina foram -realmente casados. Se o casamento não passou de um contracto -legal, não havia motivo para que a dispensa do papa não -fosse bem acceite mesmo por aquelles que não viam com muito -bons olhos a supremacia papal; se foi, porém, um casamento em -toda a accepcão da palavra, ficou então demonstrado que o papa -tinha auctoridade para conceder uma dispensa que ia de encontro -as leis divinas de parentesco. Segundo a opinião geral, Arthur -e Catharina viveram conjugalmente, de modo que Henrique -casou realmente com a viuva de seu irmão, e assim a dispensa -do papa só poderia ser concedida no caso de elle possuir aquelles -supremos poderes que os ultramontanos lhe atribuem. A legalidade -do casamento de Henrique e a legitimidade de sua filha -Maria baseiava-se, portanto, na supremacia do papa. E não é -para admirar que Henrique VIII, no principio do seu reinado, -se conduzisse, no tocante a essa supremacia, mais em conformidade -com a opinião dos ultramontanos do que com as tradições -da corôa de Inglaterra. É que a validade do seu casamento, -a legitimidade de seus filhos, e o direito que a estes assistia de -lhe succederem no throno, dependiam, como já dissemos, da -supremacia do papa.</p> - -<p>Quando Luthero atacou o papa, Henrique tomou ostensivamente -a defeza do Bispo de Roma, e rei algum, depois de João, -apoiou mais em absoluto as reivindicações do papa do que elle. -Os seus interesses pessoaes, assim como os interesses de sua -mulher e de seus filhos, estavam dependentes d’esse seu apoio. -A Inglaterra, no principio do reinado de Henrique, estava positivamente -avassallada á Sé de Roma. Henrique, posto que se -sentisse inclinado, pela educação recebida, a adoptar as idéas -de Colet, More e Erasmo, via-se obrigado, em vista da situação -particular em que se encontrava, a manter-se n’uma attitude -de irreconciliavel hostilidade, e o facto de ter reprovado os -actos de Luthero conquistou-lhe o titulo de Defensor da Fé.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p> - -<p class="tb"><b>Henrique muda de opinião.</b>—Henrique nunca deixou de reconhecer -a supremacia do papa em todos os assumptos, durante -os primeiros dezoito annos do seu reinado. De um momento -para o outro, porém, começou a pensar de differente modo, e -podem-se apresentar bastantes razões para essa subita mudança -de idéas. Parece que elle teve sempre duvidas ácerca da -legitimidade do seu casamento com Catharina, e que essas duvidas -se avolumaram á medida que ia perdendo a esperança de -ter um filho varão que lhe succedesse, chegando a convencer-se -de que esse facto representava um castigo divino por haver desposado -a viuva de seu irmão. Durante todo esse tempo, comtudo, -a alliança hespanhola, que fôra tratada primeiramente com -Fernando, e mais tarde com o neto d’este, o imperador Carlos V, -havia sido de grande utilidade para Henrique e para a Inglaterra; -e essa mesma aliança é que havia, na opinião do rei, de -firmar o throno de sua filha, cuja legitimidade, declarada pelo -papa, encontraria no imperador um inabalavel sustentaculo.</p> - -<p>Carlos V, porém, estava absorvido nos seus planos de anniquilar -a Reforma, e estabelecer o imperio medieval, e o papa -só pensava em conquistar para si uma posição independente, -em se tornar o primeiro dos principes italianos, revestido de -todo o poder secular, de modo que nenhum d’elles correspondia -á expectativa de Henrique. Este deixou de ter confiança na -fidelidade d’elles á sua casa, quanto á sucessão do throno. -Encontrava-se n’uma situação embaraçosa, e, como meio mais -rapido de sair das suas difficuldades, resolveu pedir ao papa que -o divorciasse de Catharina de Aragão. Cessariam d’esse modo -os seus escrupulos de consciencia por haver casado com a cunhada; -poderia contrair novo casamento, a alimentar a esperança -de ter um filho macho, seu legitimo herdeiro. Entendeu-se, -pois, com o cardeal Wolsey, seu ministro, e dirigiu ao papa -um pedido de divorcio.</p> - -<p>N’aquela ocasião, porém, o papa queria evitar qualquer -desintelligencia com Carlos V, sobrinho de Catharina, e recusou -dar o seu consentimento para o divorcio, sendo então que Henrique, -homem muito exaltado, e a quem os obstaculos não faziam -recuar, decidiu divorciar-se não obtante a recusa do papa. Todos -os interesses pessoaes que até certo tempo levaram o rei a -apoiar a supremacia papal se ligavam agora para que elle fizesse -exactamente o contrario. Se o papa tivesse sanccionado o divorcio, -não teria havido, provavelmente, ruptura com Roma, porque -o rei continuaria a ter interesse em que se mantivesse a -supremacia papal; as circumstancias, porém, aconselhavam-n’o -a enveredar por outro caminho, e foi o que elle fez.</p> - -<p>Thomaz Cromwell alvitrou que se consultassem as universidades -da Europa sobre a legalidade do casamento de Henrique -e este acceitou o alvitre com grande alvoroço. Tratou-se, por<span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span> -conseguinte, de pôr esta idéa em execução, entregando-se a eminentes -vultos, a verdadeiras summidades, o decidirem a questão -segundo as leis canonicas, tendo ao mesmo tempo na devida -consideração a sensivel consciencia do rei. Apoz algum tempo, -e tendo-se dispendido com isso uma fabulosa quantia, as universidades -declararam, por uma muito pequena maioria, que o -casamento de Henrique com Catharina não era valido, concluindo-se -d’esta decisão que Henrique não tinha herdeiro algum -legitimo.</p> - -<p>Animado com este veridictum, resolveu pôr em pratica -qualquer das duas coisas seguintes: alarmar o papa, obrigando-o -assim o conceder o divorcio, ou repudiar a sua auctoridade -suprema.</p> - -<p>Foram muitos os motivos secundarios que contribuiram -para que elle tomasse esta ultima deliberação. Henrique, que -gostava de viver com muita ostentação, tinha desbaratado, havia -muito, as riquezas que o pae amontoara, e era-lhe impossivel -augmentar os impostos. Os cofres do Estado estavam despejados, -e para os encher bastaria o espolio dos conventos e -mosteiros. Isto constituiu uma das razões, mas havia uma outra -que appellava mais fortemente para a sua vaidade.</p> - -<p class="tb"><b>Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia -entre elles.</b>—As tres grandes potencias europêas no tempo da -Reforma eram Hespanha, França e Inglaterra, e não podia deixar -de haver rivalidade entre os respectivos monarcas. O rei -de Hespanha, que era o mais poderoso dos tres, era tambem imperador -da Allemanha, e todo o seu empenho consistia em restabelecer -no imperio o esplendor que este tivera na Edade Media. -Segundo as antigas noções medievaes, não havia mais do que -uma christandade, o imperador era supremo e soberano, e todos -os outros reis estavam sob a sua dependencia. Se Carlos fosse -bem succedido nos seus esforços, Francisco e Henrique passavam -a occupar uma posição inferior á que tinham, e, portanto, -convinha-lhes trabalhar para que o plano de restauração não -vingasse. Uma christandade medieval implicava uma egreja indivisa, -centralizada no papa, o bispo de Roma. A politica dos -reis da França e de Inglaterra insistia em obstar a essa centralização -ecclesiastica, e fazer com que as egrejas das suas -respectivas nações se tornassem o mais independentes de Roma -que fosse possivel.</p> - -<p>Francisco havia conseguido isso quanto á França, e de um -modo que contribuiu bastante para que o seu prestigio augmentasse, -e o seu poder se consolidasse dentro do proprio reino. O -papa, mediante a Concordata de 1516, havia, sob a condição de -que os <i>annates</i> seriam pagos com regularidade, e de que lhe seriam -feitas certas e determinadas concessões, investido praticamente<span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span> -o rei de França na chefatura da egreja franceza, dando-lhe -liberdade para prover como entendesse os differentes -cargos ecclesiasticos.</p> - -<p>Henrique, rival de Francisco, era tambem seu imitador, e -havia de lhe ser difficil deixar de ter inveja das regalias que o -papa lhe tinha concedido. O que Francisco recebeu pela Concordata -de 1516, deu o parlamento inglez a Henrique quando o -proclamou chefe supremo, sobre a terra, da egreja de Inglaterra. -De modo que em França a supremacia do rei sobre a egreja fez -com que fossem toleradas as reivindicações papaes, ao passo -que em Inglaterra promoveu a revolta contra Roma. A França, -liberta do dominio papal por livre vontade do proprio papa, podia -ficar por ahi, mantendo, a todos os outros respeitos, as velhas -tradições da egreja. A Inglaterra, que alcançara a sua independencia -contra a vontade do papa, e por meio de um acto de rebellião -contra a sua auctoridade, tinha de ir mais longe; para -conservar a posição que tomara era-lhe necessario afastar-se -cada vez mais de Roma.</p> - -<p>Sucedeu, assim, que a Reforma em Inglaterra foi o avanço -quasi involuntario de uma nação revoltada contra Roma, pois -que a sua resistencia á curia romana foi, em primeiro logar, o -meio de que um imperioso monarca se serviu para conseguir -o seu engrandecimento pessoal, e, em segundo logar, o meio de -que um povo se serviu para conseguir a sua independencia. A -França, a despeito dos huguenotes, conservou-se catholica romana; -a Inglaterra, a despeito de Henrique VIII, tornou-se uma -nação protestante.</p> - -<p class="tb"><b>A submissão do clero.</b>—Henrique depressa se certificou de -que não era possivel constranger o papa, mediante o medo, a -conceder-lhes o divorcio, mas resolveu obrigar o clero inglez a -conformar-se pelo medo com as suas deliberações. O cardeal -Wolsey foi nomeado nuncio do papa em Inglaterra, e todos os -bispos e mais clerigos o reconheceram como tal. Ora em 1531 o -rei acusou-o abruptamente de haver transgredido a lei do <i>Proemunire</i> -pelo facto de acceitar aquelle cargo e cumprir, ainda que -só apparentemente, os deveres que lhe eram inherentes, e accusou -egualmente todos os clerigos de Inglaterra de serem -cumplices d’esse crime pelo facto de o aceitarem na qualidade -de embaixador do papa. Declarou, outrosim, que tanto Wolsey -como todos os clerigos da egreja ingleza haviam incorrido, em -virtude d’esse delicto, na perda de todos os bens ecclesiasticos -de que estavam de posse. O clero ficou seriamente alarmado, e, -para evitar uma catastrophe maior, sujeitou-se a pagar uma -multa de 118:000 libras e a assignar, ainda que de má vontade, -uma declaração de que o rei era «o unico protector, o unico senhor -supremo, e, <i>até onde é permittido pela lei de Christo</i>, o supremo -cabeça da egreja e do clero». A ambiguidade que se nota<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span> -n’este reconhecimento foi intencional. Era um subterfugio para -as consciencias fracas, mas o rei ficou satisfeito com a phrase, -certo como estava de que poderia obrigar o clero a proceder segundo -a interpretação que elle proprio lhe dava.</p> - -<p>Tratou sem demora de mostrar como era por ele compreendido -o sentido pratico de similhante declaração, desdobrando-o -em tres artigos, que os clerigos tiveram tambem de assignar. -Declaravam que regulamento ou preceito algum ecclesiastico -seria de ali em deante promulgado ou publicado pelo clero -sem previo consentimento do rei; que approvavam a nomeação -de uma commissão de trinta e duas pessoas para rever os antigos -canones da egreja e cortar todos aqueles que fossem prejudicaes -á autoridade do rei; e, finalmente que os canones ecclesiasticos -só eram validos depois de ratificados com auctorização -do rei. Estas proposições foram submetidas á Convocação, -ou Assembléa Geral da Egreja de Inglaterra, e, depois de alguma -hesitação, o clero, reunido, acceitou-as. A Convocação foi um -pouco mais longe do que o rei, pois que pediu para que o clero -inglez não pagasse mais os <i>annates</i> á sé de Roma.</p> - -<p>Esta decisão tomada pela Convocação, de que a egreja de -Inglaterra não podia fazer leis para sua direcção ou governo -sem a sancção ou ratificação do rei, tem sido chamada a <i>Submissão -do Clero</i>. Assim no ano de 1532 a egreja de Inglaterra, por -ordem do rei e do parlamento, renunciava á sua obediencia a -Roma. Esta renuncia ao governo papal incluia (1) o reconhecimento -da supremacia real; (2) submissão á corôa pela cedencia -do direito de fazer leis; e (3) a recusa ao papa das receitas que -lhe haviam sido pagas durante gerações. A egreja conservava -as mesmas doutrinas, governo e culto, consistindo apenas a differença -em o rei tomar o logar que o papa tinha ocupado.</p> - -<p>O clero tinha alimentado a esperança de que lhe fosse permittido -reter os <i>annates</i> em seu poder, mas o rei mostrou que -estava resolvido a que a supremacia real fosse tão genuina como -a antiga supremacia do bispo de Roma, e insistiu em que o imposto -pontificio fosse pago na thesouraria real.</p> - -<p class="tb"><b>O progresso da Separação de Roma.—O parlamento inglez, em -1529-1536.</b>—Durante os primeiros annos do reinado de Henrique -VIII, quando era do interesse do rei estar bem com o -papa e com o rei de Hespanha, todas as queixas contra a -egreja haviam sido reprimidas. Agora, porém, que Henrique -queria aterrorisar o papa para o obrigar a conceder-lhe o divorcio, -as queixas eram animadas. Henrique servia-se do parlamento -como Carlos V se podia ter servido da Dieta allemã. -Todas as nações tinham accusações a apresentar contra a -egreja. Os allemães publicaram as suas <i>Cem Afrontas</i>; o parlamento -inglez, convocado para se reunir em 1529, tinha tambem<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span> -queixas a fazer ácerca da libertação do clero da jurisdicção dos -tribunaes judiciaes da nação, ácerca da auctoridade absoluta -exercida pelos tribunaes ecclesiasticos sobre os leigos em pleiteados -casos de casamento, testamentos, successão, calumnia, -etc., ácerca das avarezas do clero e do elevado custo dos enterros -e dos baptismos, e assim successivamente. O parlamento formulou -estas queixas, e com isso alarmou, e não pouco, o clero, -tornando-o mais submisso ás imperiosas ordens do rei.</p> - -<p>Em Janeiro de 1532 Henrique VIII desposou Anna Boleyn, -provocando, d’esse modo, pessoalmente o papa. O seu casamento -com Catharina de Aragão foi declarado nullo e sem effeito pelo -arcebispo de Canterbury, que fallou em nome da Egreja de -Inglaterra, e por deliberação do parlamento. O rei, a nação, e, -um pouco constrangidamente, a egreja uniram-se, pois, para -desafiar collectivamente o papa, e para se revoltarem contra o -imperio ecclesiastico da Edade Media. O parlamento secundou -este desafio approvando leis que tendiam a uma separação completa, -e que, pelo lado politico, eram inoffensivas para os subditos -inglezes. Sete dos seus decretos teem uma importancia -especial.</p> - -<p>(1) Em 1533 o parlamento prohibiu ao clero o pagar os -<i>annates</i>, ou o vencimento do primeiro anno, quando se entrava -na posse de qualquer beneficio. Estas «primicias» tinham sido -sempre consideradas uma homenagem devida á supremacia do -papa.</p> - -<p>(2) Na mesma sessão o parlamento aboliu as appellações -para Roma. O <i>Estatuto para Repressão das Appellações</i> declarava -que nenhum subdito inglez podia appellar de um tribunal da -sua nação para outro qualquer, e que similhante appellação -constituia uma violação do Estatuto de <i>Proemunire</i>, ficando -sujeita ás devidas consequencias. Todas as questões que tivessem -de ser submettidas ao juizo da Egreja deviam ser entregues -aos tribunaes ecclesiasticos do reino. Continuavam a ser permittidas -as appellações de um arcediago para um bispo, e de -um bispo para um arcebispo; mas aqui parava o direito de -appellar, e o tribunal do arcebispo era o supremo tribunal de -appellação. Só o rei podia appellar d’este supremo tribunal -ecclesiastico, e podia levar a sua appellação para a Convocação, -mas não fóra do reino.</p> - -<p>(3) Em 1534 a <i>Submissão do Clero</i> foi ratificada pelo parlamento. -Ficou declarado que era necessario o consentimento do -rei para todas as leis ecclesiasticas, e, para dar a isto um valor -pratico, estabeleceu-se que em todos os pleitos havia o direito -de appellar do supremo tribunal espiritual, que era o do arcebispo, -para o rei.</p> - -<p>(4) O parlamento declarou, outrosim, que o papa não tinha -direito de intervir na eleição dos bispos, e que todo e qualquer -poder que se attribuia ao papa pertencia realmente ao rei. Esse<span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span> -direito era definido de tal fórma que se podesse dar todo o -direito de nomeação ao rei, ao passo que se preservava a sombra -do antigo uso ecclesiastico. Quando uma sé vagava, assistia ao -rei o direito de auctorizar o deão e o capitulo a eleger para o -cargo vago qualquer pessoa mencionada na carta de licença. As -dispensações papaes eram tambem declaradas illegaes, e o poder -dispensativo que n’outro tempo, segundo era por todos reconhecido, -pertencia ao papa, ficava residindo agora na Egreja de -Inglaterra, e o seu exercicio pertencia aos arcebispos de Canterbury -e de York.</p> - -<p>(5) Para mostrar, comtudo, que todos estes Actos não -tinham em vista reforma alguma, mas sómente uma separação -politica da Egreja de Inglaterra quanto ao papado, o parlamento -promulgou uma lei sobre a heresia, em que se declarava que os -herejes seriam queimados como antigamente, em obediencia ao -velho decreto <i>de combatendo hereticos</i>, e o rei, como cabeça da -Egreja, recebia o encargo de a purificar de falsas doutrinas. -Declarava-se, porém, que fallar mal do papa não constituia -heresia.</p> - -<p>(6) Por ultimo, saiu d’este notavel parlamento o <i>Acto de Successão</i> -e o <i>Acto de Traição</i>. O primeiro declarava que a princeza -Maria, filha de Catharina de Aragão, era illegitima, e transferia -o direito de successão para a princesa Isabel, filha de Anna -Boleyn. O <i>Acto de Traição</i> punia com a morte todos aquelles -que recusassem acceitar o <i>Acto de Successão</i> ou reconhecer o -novo titulo e as novas prerogativas do rei.</p> - -<p class="tb"><b>Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes.</b>—Em -todos os Actos d’este parlamento, e em todas as decisões de -uma submissa Convocação, nada houve que não fosse puramente -politico. A Inglaterra não se havia tornado protestante -ou lutherana, e Egreja reformada em Inglaterra era coisa que -não existia. A Inglaterra havia-se, tão sómente, desligado de -aquella alliança que, sob a superintendencia do imperador e do -papa, realisava a idéa medieval de um systema de governação, -tanto civil como ecclesiastico. O que torna importantissimas -aquellas deliberações do parlamento é o facto de ter sido a -Inglaterra a primeira nação que rompeu com o medievalismo e -deixou de reconhecer o velho imperio ecclesiastico da Edade -Media. Os herejes, isto é, aquelles que haviam acceitado as doutrinas -de Luthero, ou que, entregando-se ao estudo da Biblia, -tinham chegado ao conhecimento de um mais puro christianismo, -eram perseguidos e mortos, usando-se com elles da mesma -crueldade, do mesmo espirito de vingança, como quando a Inglaterra -era uma escrava obediente do papa. Diz-se que Wolsey, -no seu leito de morte, supplicou ao rei que destruisse todos os -signaes de lutheranismo; e, a despeito da grande tolerancia de -Thomaz More, os herejes eram procurados e castigados. Tindal,<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span> -que tinha traduzido em inglez o Novo Testamento de Erasmo, -foi caçado de logar em logar, como se fosse um animal feroz. -Todos os que se atrevessem a fallar contra a missa, a transubstanciação, -o culto dos santos e a efficacia das boas obras -corriam o risco de ser presos e queimados como herejes. Os -Actos do Parlamento não haviam promovido a liberdade de -consciencia, tinham simplesmente dado logar a novos ensejos -para perseguir e matar. Para ajuntar aos antigos crimes theologicos, -appareceu um outro. Quem se recusasse a prestar o -juramento de supremacia, quem se atrevesse a dizer que Catharina -de Aragão era a esposa legitima do rei, e que a princeza -Maria era a herdeira do throno, estava sujeito a ser preso, processado -e executado. A Inglaterra encontrava-se n’um estado -anormal, n’um estado de grande agitação, e os homens conscienciosos -tudo soffriam por causa da consciencia.</p> - -<p class="tb"><b>A execução de Tomaz More.</b>—Thomaz More era o chanceller -quando o parlamento, reunido em 1529, separou a nação, mediante -successivos Actos do imperio ecclesiastico de Roma. -Tinha sido na sua mocidade um distincto estudante, e havia-se -entregue com amor aos «estudos modernos» de latim, grego e -hebraico quando, em Oxford, assistira ás prelecções de Tinacre, -um dos primeiros humanistas inglezes, que se havia educado -em Italia para o seu trabalho escolastico em Inglaterra. Dedicara-se -á carreira da jurisprudencia, foi magistrado em Londres, -e tornou-se notoria a sua amizade ao deão Colet e a Erasmo. -O seu livro <i>Utopias</i> dá testemunho de que elle havia adoptado -muitas das opiniões de Marcello de Padua e de outros juristas -liberaes do fim da Edade Media. Elle opinava que tanto a Egreja -como o Estado existiam para beneficio do povo, e todo o seu -anhelo era uma reforma de costumes na Egreja. Investido no -cargo de chanceller, toda a gente notou a brandura de que elle -usava com os herejes; permaneceu, porém, ligado ás doutrinas -da Egreja Catholica Romana, e abandonou algumas das suas -primitivas opiniões em favor de mais estrictas idéas ácerca da -origem divina da supremacia do papa. Reprovou, portanto, todo -o procedimento da côrte e do parlamento inglez depois da queda -de Wolsey. Avisou o rei de que não podia ser parte no divorcio -de Catharina de Aragão. Não quiz assistir ao casamento e coroação -de Anna Boleyn, e, ao ser ameaçado com as consequencias, -disse ao rei que as ameaças eram para as creanças e não -para elle. Henrique tinha uma forte affeição pelo seu chanceller; -mas coisa alguma poderia augmentar mais a duvida com respeito -á validade do divorcio, do novo casamento e da successão -ao throno derivada d’este, do que a recusa da maior auctoridade -juridica da nação de ver em Catharina de Aragão uma mulher -que não era a esposa legitima de Henrique VIII.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span></p> - -<p>More foi, portanto, obrigado a prestar juramento de fidelidade -á nova rainha, reconhecendo Anna Boleyn como a esposa -legitima de Henrique VIII, e a confirmar a legalidade do <i>Acto de -Successão</i>. N’esta conjunctura, elle tinha de obedecer á consciencia -ou salvar a vida, e, com uma grande serenidade de espirito, -preferiu obedecer á consciencia. A mulher foi ter com elle á -prisão, rogando-lhe que se submettesse á ordem do rei. «Senhora -Alice», retorquiu elle, com toda a ternura, «esta casa não estará -tão perto do céu como a nossa?» A filha, Margarida Roper, que -era afamada pela sua erudição, pela sua affabilidade e pela sua -formosura, foi tambem vêl-o repetidas vezes, e as suas visitas -como que lhe fortaleceram a serena coragem. Morreu em Julho -de 1535. Erasmo soube da morte d’elle quando tinha entre -mãos a sua <i>Pureza da Egreja</i>, a que ajuntou um prefacio que é -quasi uma biographia do seu velho amigo, a que attribue uma -alma mais pura do que a neve.</p> - -<p>O assassinio judicial de Thomaz More e do bispo Fisher, -seu companheiro no soffrimento, veiu demonstrar o estado -cahotico em que Henrique VIII havia feito cair a Inglaterra, -pois que, ao passo que eram queimados os homens accusados de -lutheranismo, executavam-se aquelles que mantinham a auctoridade -do papa no que dizia respeito aos costumes e á doutrina.</p> - -<p class="tb"><b>A suppressão dos mosteiros e a confiscação dos bens da Egreja.</b>—Henrique -VIII tinha sido sempre um grande gastador. Tudo -quanto o pae lhe deixara havia desapparecido logo no principio -do seu reinado, em virtude da guerra com a França. O rei e a -côrte tinham grande necessidade de dinheiro. Thomaz Cromwell -lembrou então que este podia ser obtido mediante a suppressão -de alguns dos mosteiros.</p> - -<p>Do clero ninguem foi mais justamente atacado do que os -monges, durante o periodo da Reforma. A sua preguiça, as suas -riquezas, a sua cupidez e a sua má vida eram notorias em toda -a Europa. Os auctores populares haviam composto satyras a -seu respeito, e graves estadistas tinham chamado a attenção -do papa para uma reforma das varias ordens.</p> - -<p>Gromwell insistiu n’uma syndicancia aos mosteiros, com o -fim de se ficar sabendo se as queixas formuladas tinham fundamento. -Foram visitadas tres d’essas casas, e constatou-se que -as vidas dos frades e das freiras estavam longe de ser o que -deviam ser, que a propriedade monacal havia sido pessimamente -administrada, e que muitos dos religiosos, de ambos os -sexos, desejavam desligar-se dos votos. O parlamento approvou -uma proposta de lei para que fossem supprimidos os conventos -menos importantes, e, passado algum tempo, eram encerrados -todos os estabelecimentos monacaes. Os respectivos bens -foram confiscados em proveito do rei. A grande somma de<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span> -dinheiro que se obteve por esta fórma podia, nas mãos de um -monarca astuto e economico, ter constituido um vasto capital -cujo rendimento habilitaria o rei a prescindir de impostos, e, -por consequencia, a prescindir de parlamento, o que redundaria -na ruina, em Inglaterra, de todas as liberdades. Henrique era, -por indole, um despota, mas não tinha em si a força de vontade -necessaria para pôr em execução aquillo que lhe vinha á idéa. -A sua ambição principal era poder dispôr de muito dinheiro, e -as propriedades confiscadas aos frades foram postas em praça -a vendidas pelo maior preço que foi possivel obter. O resultado -d’isso foi augmentar consideravelmente o numero dos proprietarios -em Inglaterra. Henrique dissipou em poucos annos todo -o dinheiro que d’aquelle fórma lhe fôra parar ás mãos, e ficou -tão pobre e tão necessitado do auxilio dos seus subditos como -anteriormente.</p> - -<p class="tb"><b>Os dez artigos.</b>—Cranmer, o arcebispo de Canterbury, que -havia sido um instrumento facil nas mãos do rei, quando este -andou tratando de se assenhorear das liberdades da Egreja e -de uma grande parte das suas riquezas, tinha uma secreta predilecção -pelas doutrinas reformadas de Luthero e de Zwinglio. -Thomaz Cromwell, que desde o fallecimento de Wolsey exercia -o cargo de conselheiro politico do rei, era tambem um admirador -dos homens da Reforma. Ambos tinham o desejo, depois da -Inglaterra se ter separado politicamente do papado, e de se ter -effectuado a suppressão dos mosteiros, de introduzir uma reforma -de doutrina e de culto, e de equiparar a Egreja de Inglaterra ás -egrejas reformadas da Allemanha e da Suissa.</p> - -<p>O schema politico de Cromwell consistia em collocar Henrique -á frente de uma confederação protestante que podesse -rivalisar com o imperio medieval de Carlos V. Isto sómente se -poderia fazer, comtudo, se a Egreja da Inglaterra abraçasse as -doutrinas da Reforma e animasse os homens que até ali tinham -sido perseguidos como herejes.</p> - -<p>O rei desapprovou energicamente a proposta, mas por fim -cedeu, e em 1536 foram publicados, com a approvação da Convocação, -os <i>Dez Artigos</i>, que eram um breve formulario de doutrinas. -Estes artigos asseveravam a auctoridade da Escriptura, -dos tres grandes e antigos credos, e dos quatro concilios ecumenicos; -affirmavam que o baptismo era necessario para a salvação; -que a penitencia, a confissão e a absolvição eram egualmente -coisas necessarias; que o corpo e sangue de Christo -estavam substancial, real e corporalmente presentes no pão e -vinho da Eucaristia; que a justificação tinha logar mediante a -fé, junta com a caridade e com a obediencia; que nas egrejas -era licito o uso das imagens; que se devia glorificar a Virgem e -invocar os santos; que se devia conservar os varios ritos e dias<span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span> -santificados da Egreja medieval, fazendo-se uso dos paramentos, -dos crucifixos e da agua benta; que existia o purgatorio; e que, -finalmente, se devia fazer orações pelos defuntos.</p> - -<p>Estes Artigos, como se vê, não estavam em conformidade -com a fé protestante. Alguns historiadores ecclesiasticos teem -dito que elles foram muito judiciosamente collocados entre a -doutrina dos reformadores mais pronunciadamente biblicos e as -velhas superstições; mas teem sido mais bem descriptos como -essencialmente «romanistas, com o papa atirado para a margem». -Fuller diz que elles foram destinados para creancinhas -«recentemente tiradas dos peitos de Roma.»</p> - -<p>Emquanto estes acontecimentos iam tendo logar, Catharina -de Aragão morreu, em 1536, e o rei desembaraçou-se de Anna -Boleyn, mandando-a decapitar sob a accusação de infidelidade. -Sua rilha, a princeza Isabel, foi, pelo parlamento, declarada illegitima, -e a successão tornou-se de novo incerta.</p> - -<p>O rei casou então com Jane Seymour, a cuja descendencia -ficaram reservados os direitos á corôa.</p> - -<p class="tb"><b>A peregrinação da graça.</b>—As execuções de Thomaz More e -do Bispo Fisher haviam desgostado muitissimos subditos do -rei que eram affeiçoados a Roma, e estes, animando-se com a -declaração da illegitimidade de Isabel e com a incerteza quanto -á successão, promoveram rebelliões em Yorkshire e Lincolnshire. -Os rebeldes contavam com o auxilio da Hespanha, e tinham -tambem muita confiança no effeito que havia de produzir a -bulla, que acabava de ser publicada, em que o papa excommungava -Henrique VIII.</p> - -<p>Os seus projectos, porém, foram com facilidade mallogrados, -e o nascimento de um filho de Jane Seymour, a quem o rei -havia desposado depois da morte de Catharina de Aragão, deu -ao rei a cubiçada successão legitima e fez cessar todos os sentimentos -anarquicos entre o povo.</p> - -<p>Infelizmente, a rainha falleceu ao dar á luz o filho.</p> - -<p>Cromwell e Cranmer voltaram novamente com as suas idéas -de uma união protestante. Cranmer, juntamente com uma commissão -de prelados, redigiu, em 1537, o que se ficou chamando -o <i>Livro do Bispo</i>, ou a <i>Instituição de um Christão</i>, e que continha -uma exposição de theologia muito mais protestante do que os -<i>Dez Artigos</i>.</p> - -<p>No anno seguinte Cranmer, que havia estado em correspondencia -com os theologos de Wittenberg, organizou um outro -credo chamado os <i>Treze Artigos</i>, e que era largamente baseado -na Confissão de Augsburgo.</p> - -<p>O rei recusou sanccionar estes Artigos, e foi-se gradualmente -afastando do plano de uma alliança protestante. Cromwell -caiu no desagrado de seu amo em virtude da persistencia com -que advogava esse plano, chegando a apresentar um projecto<span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span> -de casamento de Henrique com Anna de Cleves, com o fim de -cimentar a alliança. Morreu no cadafalso, como havia succedido -a More e a Fisher, e o rei foi-se tornando cada vez mais reaccionario.</p> - -<p class="tb"><b>O Estatuto Sanguinario, ou os Seis artigos.</b>—O primeiro indicio -d’esse facto foi a publicação do <i>Livro do Rei</i>, ou a <i>Necessaria -Doutrina e Erudição para todos os Christãos</i>. Em 1539, Henrique -resolveu voltar á politica do primeiro periodo do seu reinado, e -poz-se em communicação com Carlos V. A mudança na politica -exterior do rei teve repercussão nos negocios internos. Foram -promulgados os <i>Seis Artigos</i>, «para abolir a diversidade de opiniões», -e foi revogoda a permissão de ler a Biblia traduzida por -Tindal.</p> - -<p>Estes Artigos exigiam de todos os inglezes, sob pena de -confiscação dos bens, e de morte, que cressem na transubstanciação, -que negassem a necessidade dos leigos participarem do -calix na communhão e que admittissem o celibato do clero, a -obrigação dos votos de castidade e a necessidade das missas e -da confissão auricular.</p> - -<p>As doutrinas das egrejas reformadas da Allemanha e da -Suissa tinham feito algum progresso na Inglaterra, não obstante -as perseguições, e haviam sido abraçadas por um grande numero -de pessoas durante aquelles annos de tolerancia em que Cranmer -e Cromwell dirigiram a politica do rei, e esta lei dos Seis Artigos -deu logar a uma grande perseguição. O povo chamava-lhe o -Estatuto Sanguinario e o Chicote das Seis Cordas. Deu principio -a um reinado de terror, que só terminou com a morte do rei. -Felizmente para a nação, esta não se fez esperar muito.</p> - -<p class="tb"><b>O estado da Egreja de Inglaterra em 1547.</b>—Henrique morreu -em 1547, deixando tres filhos: Maria, filha de Catharina de Aragão, -com 31 annos; Isabel, filha de Anna Boleyn, com 14; e -Eduardo, filho de Jane Seymour, com 10. Maria e Isabel haviam -sido declaradas illegitimas pelo parlamento. Eduardo succedeu -a seu pae no throno.</p> - -<p>Henrique deixou atraz de si um caos, para sair do qual -teve a nação de sustentar uma tremenda lucta. O rei, emquanto -viveu, susteve com mão ferrea os romanistas extremos e o partido -protestante, e manteve até ao fim o seu ideal, que era uma -egreja catholica, desligada do papa. E conseguiu-o, pondo-se no -logar outr’ora occupado pelo papa. Exercia sobre a Egreja uma -auctoridade muito mais absoluta do que sobre o Estado. A -posição era difficil de sustentar, e foi-o muito mais para os -monarcas que succederam a Henrique, pois que as idéas reformistas -iam-se propagando cada vez mais. Deixou tambem<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span> -sem solução muitos problemas politicos. Os cofres publicos -estavam vasios. A sua politica exterior foi um subterfugio, que -collocou em grandes embaraços os seus successores. A venda -dos bens da Egreja produziu uma mudança, tanto social como -economica, que difficultou a vida da nação.</p> - -<p>O assumpto, porém, que exigia immediata resolução era: -A Inglaterra devia abraçar a Reforma, ou voltar de novo para o -romanismo? A Egreja não podia permanecer na situação em -que Henrique a havia deixado.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span></p> - -<h3 id="III_CAPITULO_II">CAPITULO II<br /> -<span class="smaller">A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO -NO TEMPO DE MARIA</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>Será adoptada a Reforma? <a href="#Page_175">pag. 175</a>.—A visita real, o <i>Livro de Homilias</i> e o -<i>Livro de Oração Commum</i>, <a href="#Page_176">pag. 176</a>.—A alliança com o protestantismo continental, -<a href="#Page_178">pag. 178</a>.—Os <i>Quarenta e Dois Artigos</i>, <a href="#Page_178">pag. 178</a>.—Os principios -do puritanismo, <a href="#Page_179">pag. 179</a>.—A morte de Eduardo VI, <a href="#Page_181">pag. 181</a>.—O estado -da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria, <a href="#Page_182">pag. 182</a>.—A Hespanha -necessitava do auxilio da Inglaterra, <a href="#Page_183">pag. 183</a>.—Como Maria se firmou -no throno, <a href="#Page_183">pag. 183</a>.—A alliança hespanhola, <a href="#Page_184">pag. 184</a>.—A reconciliação -com Roma, <a href="#Page_184">pag. 184</a>.—Porque não foi bem succedida a reacção papal? -<a href="#Page_185">pag. 185</a>.—As perseguições durante o reinado de Maria, <a href="#Page_186">pag. 186</a>.—A -questão dos bens de raiz da Egreja, <a href="#Page_186">pag. 186</a>.—Os fructos do ensino no -reinado de Eduardo, <a href="#Page_187">pag. 187</a>.—A morte de Maria, <a href="#Page_187">pag. 187</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>Será adoptada a Reforma?</b>—Quando Henrique morreu, succedeu-lhe -seu filho, Eduardo VI, que era então um rapazito de dez -annos. Pouco antes de morrer, Henrique fez testamento, em que -deixou instituido um conselho de regencia, composto de dezeseis -membros da nobreza, o qual entrou logo no exercicio das -suas funcções, começando a governar. O referido conselho escolheu -o conde de Hertford, que fazia parte d’elle, para o logar de -protector do reino, recebendo n’essa occasião, em conformidade, -segundo se diz, com o que estava estabelecido no testamento, o -titulo de duque de Somerset. A questão mais grave que este -conselho de regencia tinha de resolver era a questão religiosa. -A Inglaterra não podia continuar no estado em que se encontrava. -Ou a Egreja se reformava, ou a nação tinha de renovar a -sua alliança com Roma. Se se tivesse consultado a opinião publica, -ver-se-hia, provavelmente, que uma grande maioria era -partidaria do romanismo. Os ultimos annos do reinado de Henrique -tinham sido uns annos de terror, e todas as desventuras -eram attribuidas á supremacia real em materia de religião. O -povo de Inglaterra, por outro lado, estava pouco ao facto das -doutrinas reformadas, e a Biblia não estava vulgarisada. A Reforma -não havia sido prégada na Inglaterra, como o fôra na -Allemanha e na França. Não havia excitado o enthusiasmo popular.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p> - -<p>A extincção dos conventos tinha feito com que a gente do -campo desejasse voltar ao antigo systema. Os inglezes não haviam -opposto obstaculo algum á extincção dos conventos e á confiscação -dos bens da Egreja quando isso foi pela primeira vez -decretado; mas os camponezes em breve descobriram que a unica -coisa que havia resultado para elles fora uma substituição de -amos com quem se davam perfeitamente por outros que custavam -immenso a supportar. Os novos proprietarios vedavam os -logradouros publicos, derrubavam os muros e as sebes que dividiam -entre si as quintas pequenas para formarem extensas propriedades, -e preferiam as pastagens ás searas de trigo, diminuindo -assim o valor das terras e dando logar a uma grande -falta de trabalho. A pobre gente suspirava por aquillo a que -chamava os bons tempos.</p> - -<p>A extincção dos conventos tinha, por outro lado, atirado -cá para fóra com uma legião de homens que não tinham profissão -alguma e incapazes de ganhar a vida, era preciso cuidar -d’essa gente. O governo havia entendido que o meio menos dispendioso -de arrumar os frades era collocal-os nas freguezias, -na qualidade de parocos ou de coadjuctores. E assim a Egreja -encheu-se de homens que trabalhavam de má vontade, e que -odiavam aquella nova ordem de coisas que lhes havia transtornado -a vida.</p> - -<p>Todas estas coisas tornavam duvidoso se a Inglaterra adoptaria -a Reforma ou se reconciliaria com Roma.</p> - -<p>Por outro lado, havia homens fervorosos e cheios de resolução, -que estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e -até a propria vida, pela causa da Reforma, que elles estavam -na convicção de ser a causa de Christo. No numero d’esses homens -figuravam o Protector, Somerset, e outros membros do -conselho da regencia, que deliberaram introduzir a Reforma na -Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real appareceu -sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os -a solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças. -Isto tinha sido inventado por Cromwell para que não fossem -prejudicadas as regias prerogativas.</p> - -<p class="tb"><b>A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração -Commum.</b>—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O -paiz foi dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas -foi nomeado um funccionario, que deveria averiguar se os -serviços ecclesiasticos estavam sendo executados segundo as -leis vigentes. A jurisdicção episcopal esteve durante algum -tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome do rei. -Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços -ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas -deficiencias. O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimo<span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span> -havia sido sempre lutherano, e que animara o conselho da regencia -em todos os planos d’este, compoz um <i>Livro de Homilias</i>, -que foi entregue ao clero paroquial, com a recommendação de -ser lido nas egrejas. A <i>Paraphrase do Novo Testamento</i>, de Erasmo, -foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem -fosse lida no culto publico.</p> - -<p>Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner, -bispo de Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre -Henrique VIII nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra -um dos auctores do Estatuto Sanguinario, estava á testa do -partido reaccionario, e protestou contra todas as propostas dos -visitadores.</p> - -<p>Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu os <i>Seis Artigos</i>, -declarou que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato, -que na Ceia do Senhor o vinho, assim como o pão, devia -ser administrado aos leigos, e approvou a politica ecclesiastica -do Protector Somerset.</p> - -<p>As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas -egrejas mais simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se -o uso do <i>Livro de Oração Commum</i>, compilado, por Cranmer, -dos antigos rituaes. Foi este o <i>Primeiro Livro de Oração -Commum de Eduardo VI</i>, e, posto que mais tarde passasse por -algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu -conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente.</p> - -<p>Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento -do romanismo. As imagens e reliquias das egrejas foram destruidas. -Aboliram-se os antigos dias de jejum, e o arcebispo -Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á vista de todos, na -quaresma.</p> - -<p>Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a -maioria, do povo e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente. -Bonner, bispo de Londres, tentou oppôr-se indirectamente -á corrente, declarando que o novo Livro de Orações podia -ser tomado n’um sentido romanista; mas isso apenas levou -a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos, á -remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas, -e á preparação de um novo <i>Livro de Ordem</i>.</p> - -<p>Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia -mudado, e em doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se -tornado protestante. As mudanças que se haviam feito tinham -promovido um grande sentimento de desagrado para com Somerset; -houve tentativas de revolta; e, posto que estas fossem -suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na politica -exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido -pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo -succedido pelo conde de Warwick.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span></p> - -<p class="tb"><b>A alliança com o protestantismo continental.</b>—A subida de -Eduardo ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick -animaram o arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo -plano de uma alliança entre a Egreja Romana e as Egrejas protestantes -do Continente. Sob o congenial patrocinio de Somerset, -o plano de Cranmer parece ter incluido uma assembléa, em -Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes com -o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir -de resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante -commum.</p> - -<p>Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que -diversos theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo -inglez na fé reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram -de Strasburgo para Inglaterra, e installaram-se em Cambridge, -onde fizeram prelecções sobre theologia e sobre as Escripturas -do Antigo Testamento. Dois distinctos italianos, Pedro Martyr -de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna, vieram leccionar -para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos elles abalisados -professores, instruiram um grande numero de rapazes nos -artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores -para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem, -segundo o uso continental, polemicas publicas sobre pontos controversos -de theologia, taes como a Transubstanciação, o Celibato -do Clero, o Purgatorio, etc.</p> - -<p>Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos, -e foi mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu -aquella inclinação para o modo calvinista, opposto ao lutherano, -de expôr as doutrinas da fé christã que serviu de molde aos -seus artigos.</p> - -<p class="tb"><b>Os Quarenta e Dois Artigos.</b>—Um dos resultados d’estas discussões -e disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dos -<i>Quarenta e Dois Artigos</i>, que tinham por fim exprimir em fórma -confissional o credo da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram -obra de Cranmer, coadjuvado pelos bispos e por outros homens -de erudição. Cranmer tinha começado a escrevel-os em 1549; e -acabou-os em 1552.</p> - -<p>A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna. -A rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante, -as polemicas publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros, -e os trabalhos dos prégadores ambulantes como João -Knox, haviam feito com que o povo desejasse ardentemente -uma auctorizada exposição de doutrina tal como estes artigos -forneciam. Definiam com grande clareza os limites das mudanças -que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval.</p> - -<p>Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos -eguaes aos Trinta e nove Artigos que constituem o credo da<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span> -actual Egreja da Inglaterra. As sympathias de Cranmer tinham -estado sempre voltadas para Luthero, e elle copiou tres, nem -menos, dos seus artigos directamente da Confissão de Augsburgo. -Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana, -mas, pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos -de Eduardo e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um -e o mesmo documento.</p> - -<p class="tb"><b>Os principios do puritanismo.</b>—A livre discussão da theologia -reformada e das idéas da Reforma teve como um dos seus -resultados a origem e desenvolvimento, em Inglaterra, de uma -theologia que acceitava cabalmente os principios essenciaes da -renascença da religião promovida pela Reforma. Um d’estes -principios era que Deus se havia collocado tão perto do homem -mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que os -homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar -directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas, -recebel-o. As theses de Luthero tinham estabelecido -este grande principio da Reforma, e todos os theologos insistiram -na possibilidade de se ir directamente ter com Deus sem -ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja medieval, -por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos -crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso -a Deus—e havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio -da Egreja. Tinha tambem tornado visivel o sacerdocio do clero, -insistindo em que cada clerigo devia, quando exercesse o culto -publico, usar um traje especial, symbolico do seu officio sacerdotal, -e havia levantado em cada egreja um altar, ou logar especial -onde se realisava o encontro de Deus com o sacerdote.</p> - -<p>Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade -e magnificencia da doutrina da Reforma, de que todos os crentes -são sacerdotes que gozam do direito de se approximarem -de Deus por meio da fé, e de que qualquer porção do solo onde -a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar e remir -é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou -symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam -com a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não -podiam supportar que o povo fosse desencaminhado por qualquer -symbolo ou rito exterior que houvesse sido empregado, -nos dias de superstição, para inculcar a falsa doutrina medieval -da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de todo e -qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o -povo no tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente, -ao uso das vestimentas ecclesiasticas e dos altares -nas egrejas. Estes homens foram os precursores dos puritanos -inglezes.</p> - -<p>É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo não<span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span> -significou ao principio um systema de governo ecclesiastico, e -que nada tinha que ver nem com o presbyterianismo nem com -o congregacionalismo. Os primeiros puritanos da Inglaterra não -protestaram contra o episcopado como systema de governo. As -coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se o houvessem -feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou no -culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal -dos crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os -altares nas egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se -a fazer uso das sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares -com as costas voltadas para a congregação.</p> - -<p>A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida. -João Hooper, que havia sido monge cisterciano, e que -adoptara as idéas da Reforma, tornou-se um prégador de nomeada -na Egreja ingleza. Durante os ultimos annos do reinado -de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido do reino -para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos -havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra -achava-se resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem -a superstição medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado -ao rei, quando se tratou de prover o bispado de Gloucester. Ao -contrario de João Knox, não fazia objecção ao governo por meio -de bispos, e acceitou a nomeação, mas não quiz fazer uso das -vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a proferir a seguinte -phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos -me ajudem».</p> - -<p>Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a -considerar estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper -pensava de differente modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr -partilhavam a opinião de Calvino, e tentaram demover Hooper -da sua resolução por meio de argumentos. Não poderam, porém, -convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se conservar em -sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado -afastamento escreveu uma <i>Confissão e Protesto</i> em que expunha -com toda a clareza as razões que haviam imperado na sua -recusa de fazer uso das vestes prelaticias. Por este seu feito, -metteram-n’o na prisão. Passado algum tempo, porém, fez-se um -convenio ácerca das vestimentas, foram omittidas do juramento -as palavras «e todos os santos», e Hooper foi consagrado bispo -de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever novas -borrascas n’um futuro proximo.</p> - -<p>Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma -no tempo de Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande -largueza de idéas, e muito tolerante—havia-se empenhado om -que á princeza Maria se concedesse o servir a Deus conforme -a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de Londres em substituição -de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua diocese -das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em que<span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span> -todos os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar -mesas para a communhão.</p> - -<p>Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo -entre o romanismo e a Reforma, que era em que consistia o -ideal de Cranmer relativamente á Egreja de Inglaterra.</p> - -<p>Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens -que haviam sido sempre partidarios da Egreja medieval. -Quando Hooper e Ridley mostraram até onde a Reforma os poderia -levar, Gardiner e Bonner redobraram de furia contra elles. -O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper tinha estado -preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e -Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas -medievaes.</p> - -<p class="tb"><b>A morte de Eduardo VI.</b>—O joven rei nunca havia sido muito -robusto, e antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de -saude alarmou seriamente os principaes vultos do protestantismo. -Á herdeira do throno era a princeza Maria, filha de Catharina -de Aragão. Tanto o parlamento como a convocação -haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções -não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida -de que Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e -de que Maria era sua filha, devendo, portanto, esta occupar o -throno no caso de Eduardo fallecer. Além d’isso, segundo a lei -de successão ao throno, promulgada por Henrique VIII, ella -tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não deixar herdeiros.</p> - -<p>Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia -hespanhola, que nunca havia esquecido os aggravos de que a -mãe fora victima, e que considerava a Reforma como uma rebellião -contra Deus e um insulto dirigido a ella propria. Prima -de Carlos V, imperador da Allemanha, era uma grande admiradora -dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa vontade -se collocaria n’uma completa dependencia d’elle.</p> - -<p>O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos -dos conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno -seria um desastre para a Reforma, que os attingiria tambem a -elles. Viram que lhes era necessario fazer todo o possivel para -que o herdeiro do throno fosse um principe ou princeza protestante.</p> - -<p>Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo, -e todo o seu empenho era que o monarca que -viesse depois partilhasse as mesmas crenças. Quando viu que -lhe restava pouco tempo de vida, resolveu nomear o seu successor. -Nada o poude persuadir de que não tivesse o poder de -o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação recaisse -n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas -illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, por<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span> -conseguinte, não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz, -que estava prestes a morrer, era, pela sua tenacidade, um -digno representante da casa de Tudor. Poz deliberadamente de -parte tanto Isabel como Maria; poz tambem deliberadamente -de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante de -Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna -Grey, representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna -tinha casado com o filho mais velho do conde de Northumberland, -e era protestante. Eduardo estava convencido de que o -povo havia de acceitar a successora por elle mencionada. Os -seus conselheiros estavam convencidos de que o protestantismo -estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano poderia -ser bem succedido. Enganavam-se ambos.</p> - -<p>Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha -Joanna foi devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza, -não correspondeu á acclamação. A princeza Maria fugiu, -mas em volta d’ella reuniu-se muita gente, e o povo secundou -as suas reclamações. Passada uma semana, tinha-se vencido -toda a opposição, e o throno era de Maria.</p> - -<p>A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada, -e o throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana -catholica romana.</p> - -<p class="tb"><b>O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria -(1553).</b>—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um -edificio politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo -e pelos seus conselheiros, desappareceu por completo, como -coisa de nenhuma substancia. É que ella havia sido imposta á -Inglaterra pelo governo, ao contrario do que acontecera em outros -paizes, em que foi imposta ao governo pelo povo ou acceite -egualmente por governantes e governados.</p> - -<p>Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias -financeiras, devido em parte á crise economica que a Europa -estava atravessando, mas devido principalmente ao desmedido -fausto da côrte de Henrique VIII, e á depreciação da -moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a todos os -actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e -a venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa -das desgraças que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido -tirados das casas religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz -na qualidade de parocos e curas, ateiavam o fogo da antipathia -pela Reforma, e preparavam o povo para um regimen reaccionario, -pelo que dizia respeito á religião.</p> - -<p>Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre -quando Maria iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu -ministro favorito, comprehendeu perfeitamente a situação. Elle -sabia que o paiz, na sua quasi totalidade, preferia a antiga religião<span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span> -mas que nunca gostara do papa. Tratou, pois, de promover -um regresso á situação em que se estava no principio do reinado -de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão ostensiva -a supremacia real.</p> - -<p>Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas -mais arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos -de indifferença e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe -um indicio de que o povo se estava preparando com regozijo -para o restabelecimento da antiga religião e que tinha na conta -de tão malefico o que se havia passado nos ultimos annos como -ella propria. Como filha de Henrique, e como rainha de Inglaterra, -sentia em si o dever de reparar, de accordo com o papa, -os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos -estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como -prima de Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio -aos hespanhoes, e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que -dizia respeito á politica internacional, como, e ainda mais especialmente, -no que dizia respeito á politica ecclesiastica.</p> - -<p class="tb"><b>A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.</b>—Maria subiu -ao throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes -protestantes da Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552. -Carlos sentia-se forçado a confessar que a Reforma o tinha vencido, -quando Maria lhe participou a sua acclamação e lhe supplicou -que a aconselhasse. A alliança ingleza era a unica coisa -que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o bom -exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente, -e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se -encontrava.</p> - -<p>Maria, escreveu elle, devia, em primeiro logar, tornar firme -o throno; em seguida devia tornar segura uma alliança hespanhola, -casando com Filippe, herdeiro do imperador; e, executadas -estas duas coisas, podia então fazer as pazes com o papa.</p> - -<p>O papa estava tão ancioso por congratular Maria como Carlos -havia estado; mas o imperador não queria despertar os sentimentos -anti-papistas do povo inglez; os interesses em jogo -eram muitissimo fortes. E assim o Cardeal Pole, nuncio do papa, -recebeu ordem para se conservar nos Paizes Baixos até a Inglaterra -se achar preparada para o receber.</p> - -<p class="tb"><b>Como Maria se firmou no throno.</b>—Ao principio fel-o com bastante -facilidade. A tentativa de collocar Joanna Grey no throno -havia desacreditado e desanimado os protestantes mais em evidencia, -e poucos d’entre elles appareceram. Foi, pois, facil a -Gardiner obter que o parlamento revogasse todas as leis que -diziam respeito ao divorcio de Catharina e á filiação de Maria. -O decreto parlamentar que conferia ao rei uma supremacia -absoluta em todos os negocios ecclesiasticos foi um meio excellente<span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span> -para fazer com que o paiz mudasse de religião. A rainha, -por occasião da sua acclamação, ouviu missa, segundo o -antigo costume. Cranmer protestou, sendo por esse facto remettido -para a Torre, onde em breve se lhe reuniram Latimer e -Ridley. Foi abolido o Livro de Oração Commum, e todas as mudanças -introduzidas no culto no reinado de Eduardo foram postas -de parte. A Egreja de Inglaterra foi reposta nas condições -em que Henrique VII a havia deixado.</p> - -<p class="tb"><b>A alliança hespanhola.</b>—O povo inglez não via com bons -olhos a alliança hespanhola, e era, em especial, hostil ao casamento -da sua rainha com Filippe de Hespanha. O bispo de Gardiner, -que conhecia a indole da nação, tratou de dissuadir a -rainha, mas esta achava-se firmemente resolvida a desposar -Filippe. Gardiner, ao ver que nada podia impedir o casamento, -redigiu o contracto nupcial em termos taes que Filippe ficava -sem direito ao titulo real, não podia succeder á consorte e era-lhe -defezo exercer qualquer influencia nos negocios publicos de -Inglaterra. O facto de Carlos e seu filho terem acceitado estas -condições mostra o valor que elles davam a uma alliança estavel -com a Inglaterra.</p> - -<p>O povo inglez ficou indignado com similhante casamento, -e para mostrar o seu desagrado revoltou-se em diversas partes -do reino; Pedro Carew poz-se á frente dos rebeldes em Cornwall -e Devon, o conde de Suffolk nos condados do Centro, e -Thomaz Wyatt em Kent. A unica revolta importante foi capitaniada -por Wyatt, e se não teve consequencias mais graves foi -isso devido á coragem da rainha. A nação reconheceu tambem -que Maria era filha de seu pae, e a legitima herdeira, e não teve -grande sympathia com as rebelliões contra ella. Filippe chegou, -com instrucções de seu pae para fazer tudo quanto estivesse -ao seu alcance para agradar ao povo inglez, as quaes elle, no -seu modo extravagante, tratou de seguir, bebendo cerveja ingleza -e fazendo outras coisas do mesmo genero, e o casamento -celebrou-se com toda a pompa. Estava assegurada a alliança -com a Hespanha.</p> - -<p class="tb"><b>A reconciliação com Roma.</b>—Filippe e Maria eram fervorosos -catholicos romanos, e anhelavam por que a Inglaterra se libertasse -do anathema papal que sobre ella havia caido quando -Henrique desposou Anna Boleyn; mas não era facil conseguir -isso. O povo inglez obstinara-se sempre em não reconhecer a -supremacia papal, e eram muitos os pontos da sua historia que -o aconselhavam a não se submetter facilmente ao pontifice -romano. Carlos aconselhou o filho e a nora a procederem muito -cautelosamente. Havia, comtudo, uma difficuldade ainda maior: -era a questão das terras que haviam sido arrancadas do poder -da Egreja e vendidas a particulares. Por um lado, o papa não<span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span> -deixaria de insistir na sua restituição, e, por outro, essa restituição -iria, certamente, dar logar a violentos protestos. Poucas -d’essas terras estavam na posse da corôa; a maior parte d’ellas -tinha sido vendida, e o producto da venda gastara-se. A rainha -estava impossibilitada de tornar a compral-as aos respectivos -donos e restituil-as á Egreja.</p> - -<p>Carlos V poude, com alguma difficuldade, induzir o papa a -renunciar á reivindicação d’esses bens abbaciaes, e a unica coisa -que restava fazer era predispôr o povo inglez para a chegada do -nuncio.</p> - -<p>O nuncio escolhido pelo papa foi Reginaldo Pole, segundo -sobrinho de Eduardo IV. Pertencia, portanto, á aristocracia ingleza, -mas havia preferido o desterro a reconhecer a supremacia -real de Henrique VIII ou a legalidade do divorcio de Catharina -de Aragão. Era parente de Maria, e fôra um dos que haviam -soffrido por terem tomado a defeza da mãe d’ella. Solicitou-se -do parlamento a sua reabilitação. Esta foi proclamada, e Pole -foi recebido em Inglaterra como membro da nobreza. Apresentou -então as suas credenciaes, que o acreditavam como legado -do papa. O povo acolheu a noticia com indifferença. Por fim o -parlamento approvou uma proposta para que se tratasse de -promover a reconciliação com Roma. Em 1554, no dia de Santo -André, o cardeal nuncio absolveu solemnemente a nação. Filippe -e Maria, com ambas as casas do parlamento, ajoelharam-se na -presença do cardeal emquanto este os restituia á communhão -da Santa Madre Egreja. O parlamento revogou todas as leis que -affirmavam a supremacia real e que rejeitavam a supremacia do -papa. O clero, por outro lado, renunciou solemnemente a todas -as reivindicações quanto aos bens abbaciaes e a outras propriedades -da Egreja que haviam sido sequestradas. A união com -Roma estava novamente restabelecida por completo.</p> - -<p class="tb"><b>Porque não foi bem succedida a reacção.</b>—No espaço de dois -annos a Inglaterra estava, segundo todas as apparencias, inteiramente -reconciliada com o papa. Como que parecia que o reinado -de Eduardo nunca tinha existido, e que Henrique tinha -vivido em harmonia com o papa até ao fim da sua vida. Tinha-se -estabelecido a reacção catholica romana, que parecia disposta -a levar tudo de vencida; mas apoz um curto periodo o movimento -reaccionario foi obrigado a deter-se, e dentro de alguns -annos a Inglaterra havia-se transformado n’uma grande nação -protestante. Como se operou esta transformação?</p> - -<p>É talvez impossivel distinguir todas as causas, mas apparecem -tres d’ellas á superficie da historia: as perseguições que -tiveram logar durante o reinado de Maria, as questões por causa -dos terrenos ecclesiasticos, e o alastramento da opinião favoravel -á Reforma como resultado das predicas evangelicas no curto -reinado de Eduardo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span></p> - -<p class="tb"><b>As perseguições no reinado de Maria.</b>—Os protestantes que -existiam em Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão -atrozes perseguições como as que dizimaram os huguenotes da -França ou victimaram os reformadores dos Paizes Baixos. Despertaram, -comtudo, no paiz um tal horror ao papismo que ainda -hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo barbaro -como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa, -que se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe, -fazendo parte do vasto plano que elle havia formado para -reduzir a Inglaterra ao dominio hespanhol.</p> - -<p>A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar -todos os que durante o reinado anterior haviam fomentado -a Reforma. Os homens condemnados ao exterminio eram -todos bem distinctos, tanto pelo nascimento, como pela eloquencia, -como pela illustração, como pela piedade. Eram: Cranmer, -o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela sua férvida -eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes theologos -reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam -de ser derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra -viu serem entregues ao carrasco e queimados em vida -os seus homens mais eruditos e de maior capacidade moral.</p> - -<p>E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança -com a Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita, -o homem insensivel a todos os males, e estar de bem -com aquella nação que havia consentido que os seus proprios -filhos e filhas fossem torturados pela inquisição, e, sem a menor -sombra de revolta, se havia submettido ao mais esmagador despotismo.</p> - -<p>Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor -christão. Durante a vida não conseguiram despertar a confiança -universal, mas com as suas mortes provaram que estavam -bem convencidos do que apregoavam, e fizeram penetrar no coração -do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado por -tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam -agora com satisfação.</p> - -<p class="tb"><b>As terras da Egreja.</b>—Maria havia sido prevenida por Carlos -V de que não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes. -Estes tinham sido vendidos, e, em virtude da venda, estavam -divididos por cerca de quarenta mil pessoas. Tocar-lhes -era atacar o direito de propriedade. A Egreja e o papa haviam -renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do parlamento -ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á religião -catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado. -Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia -a Inglaterra ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e -ella propria estavam aproveitando dos roubos feitos á Egreja?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span></p> - -<p>O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não -approvou a conducta do seu predecessor no que dizia respeito -áquella questão, e pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a -restituição. Maria accedeu, por fim, ás suas instancias, e conseguiu -com alguma difficuldade, que as camaras dessem o seu -consentimento para que as terras da Egreja, ainda em poder da -corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu -um grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos -restantes bens abbaciaes deixassem de considerar garantidos -os seus direitos, e a perda de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a -a augmentar os impostos. A Egreja mostrava-se, como -sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a.</p> - -<p class="tb"><b>O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.</b>—Os -theologos estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo -ensinar para Oxford e Cambridge haviam educado uma geração -de jovens estudantes que, convencidos da verdade das suas opiniões, -as acceitaram e as espalharam por entre o povo, e que -com muita satisfação davam agora a sua vida por ellas. Até ali -pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse o enthusiasmo. -O povo tinha passado, com a maior das facilidades, -de uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de -Maria tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados -por Martinho Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com -muito gosto as suas vidas para conseguirem que os seus compatriotas -acceitassem as doutrinas biblicas dos reformadores. -As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a de Coverdale, -eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia -sendo esclarecida ácerca da significação da Reforma.</p> - -<p>O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra -a Egreja que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez -que a Egreja havia mostrado quando chamada a tomar de -novo posse das propriedades que lhe haviam sido tiradas, e conhecia -agora melhor as Escripturas e estava mais ao facto do -que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a -reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo.</p> - -<p class="tb"><b>A morte de Maria.</b>—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia, -escapando, talvez, d’esse modo, de ser victima de uma -revolução. «A mais infeliz das rainhas, das esposas e das mulheres», -o seu nascimento tinha enchido de regozijo uma nação, -e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da Europa. -Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana -de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica -rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um -golpe esmagador, que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu -pae, o parlamento, e a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filha<span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span> -illegitima, e, marcada com este ferrete maldito, foi chorar na solidão -a sua ignominia. Quando a Inglaterra a saudou como rainha -no seu trigesimo-setimo anno, era já uma velha de faces -cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos, negros -e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo, -porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo -anhelava por um affecto; casara com um marido da sua escolha, -e ella propria se reputava um instrumento predestinado pelo -céu para que se reintegrasse no divino favor uma nação excommungada. -O marido, a quem ella idolatrava, aborrecendo-se d’ella -passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha. A creança -cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a -nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se -surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar -com os desgostos que a affligiam. E o povo, que a recebera com -tanto enthusiasmo, e a quem ella realmente amava, chamava-lhe -Maria a Sanguinaria, e esse cognome tem sido transmittido -de geração em geração até aos nossos dias. Cada tribulação por -que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não ter -ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e, -assim, as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e -novas victimas se arremessaram para ellas, para aplacar o Deus -do romanismo do seculo dezeseis.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span></p> - -<h3 id="III_CAPITULO_III">CAPITULO III<br /> -<span class="smaller">A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>A successão de Isabel, <a href="#Page_189">pag. 189</a>.—Como se liquidou a questão religiosa, <a href="#Page_190">pag. -190</a>.—<i>Os trinta e nove artigos</i>, <a href="#Page_197">pag. 197</a>.—O puritanismo e as vestimentas -ministeriaes, <a href="#Page_192">pag. 192</a>.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, -<a href="#Page_194">pag. 194</a>.—A lucta interna com o catholicismo romano, <a href="#Page_195">pag. 195</a>.—A -Armada hespanhola, <a href="#Page_196">pag. 196</a>.—As prophecias, <a href="#Page_197">pag. 197</a>.—Os <i>conventiculos</i>, -<a href="#Page_198">pag. 198</a>.—<i>Os pamphletos anti-prelaticios</i>, <a href="#Page_198">pag. 198</a>.—A Reforma ingleza, -<a href="#Page_198">pag. 198</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>A sucessão de Isabel.</b>—Por morte de Maria, Isabel foi, sem -opposição, proclamada rainha. O partido catholico romano, que -se poderia ter opposto á sua successão, não dispunha de força -para isso, pois que a Inglaterra estava em guerra com a França, -e a unica rival de Isabel era a esposa do Delfim, Maria, a rainha -da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era para todos os -catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de -Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando -ella nascera.</p> - -<p>A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando -ella subiu ao throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro, -apezar de se terem cobrado adeantadamente as receitas, e a -guerra com a França estava levando a ruina a todos os lares. A -situação individual da rainha era a mais precaria que se póde -imaginar. A sua legitimidade era mais do que duvidosa. A -França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer valer os -direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente, -a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes. -A força do protestantismo nas provincias era duvidosa. -Vendo os perigos de uma questão religiosa logo no principio do -seu reinado, a rainha contemporizou. Ia á missa para agradar -aos catholicos romanos. Prohibiu a elevação da hostia para -agradar aos protestantes. E poz-se á espera de ver o que a -Hespanha e a Inglaterra diziam.</p> - -<p>A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe -II ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanhola<span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span> -dependia tanto de Filippe como do papa, e Isabel não -tardou em certificar-se de que da Curia Romana não acolheria -benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando o embaixador -anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel, na -sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem -o meu consentimento; é um desproposito da parte della, se o -fizer. Que ella, em primeiro logar, submetta á minha decisão as -suas reivindicações.» Não era preciso mais. Isabel não podia, -de ahi em deante contar com a Hespanha.</p> - -<p>Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta -da Inglaterra. O seu primeiro parlamento era quasi todo composto -de protestantes. As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram -a supremacia real, posto que de uma fórma modificada. -Henrique VIII havia-se chamado a si proprio «o unico -chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo». Isabel contentou-se -com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor» -(Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos -e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha, -«a quem pertencia o governo de todos os estados, quer -civis quer ecclesiasticos.» Uma commissão de doutores em -theologia, nomeada para rever o Livro de Oração Commum do -rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser usado -pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação -d’elles, adoptada.</p> - -<p>A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada -por Maria da Escocia de uma alliança com a França, e -pelo papa de uma alliança com a Hespanha, não teve outro -recurso senão o de conquistar as sympathias do povo inglez e -fazer-se egualmente protestante.</p> - -<p class="tb"><b>Como se liquidou a questão religiosa.</b>—Isabel não era, de maneira -nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia -fortes convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande -massa do povo e do clero que lhe coubera em sorte governar. -Quando Eduardo subiu ao throno, era ella uma rapariga de dezeseis -annos; apezar de tão nova, porém, sabia conduzir-se muito -ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião patrocinada -pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa, -contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto. -Conformou-se outra vez com o culto catholico romano. -Era, pelo que tocava aos sentimentos, uma digna filha de seu -pae, e preferia as doutrinas e o systema catholicos romanos, -occupando o soberano o logar do papa.</p> - -<p>Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia -herdado uma grande disposição para dominar, e a Egreja Catholica -Romana era então o modelo por excellencia de um governo -despotico. Ella havia recebido uma boa educação litteraria,<span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span> -e comprazia-se muito em ler os antigos auctores gregos. Gostava -de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões -e praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias, -e preferia, por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de -Roma. O que, porém, não queria era encontrar o papa no seu -caminho.</p> - -<p>Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a -escola genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela -fé, nem da simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo, -abominava aquelles principios democraticos de governo da -Egreja que se haviam identificado com o presbyteriannismo. -Os reformadores da envergadura de Knox, com as suas doutrinas -da predestinação, do livre perdão obtido directamente de -Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam -sómente a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem -o rei, e estava convencida de que o temor da Egreja era -uma boa preparação para o temor do monarca. Ella não possuia -a subtileza de espirito para dizer como o seu successor, -«Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o.</p> - -<p>O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era -mais protestante do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se -acceitando o Livro de Oração Commum e outras usanças protestantes.</p> - -<p>Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos -a essa dignidade durante o reinado de Maria tiveram a coragem -de protestar contra taes mudanças. Resignaram os seus cargos -ou foram d’elles exonerados. Em 1559 estavam vagas todas as -sés episcopaes, á excepção da de Llandaff.</p> - -<p>Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou -a rainha Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de -sua mãe.</p> - -<p>Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos -para uma consagração legal, chamando do isolamento a que se -haviam acolhido os bispos de Eduardo VI que a rainha Maria -tinha deposto. As idéas de Parker eram muito mais protestantes -do que as de Isabel, mas parece que elle não se preocupou -muito com as innovações introduzidas pela rainha. Escolheram-se -outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou constituindo -uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel -base catholica romana.</p> - -<p>Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram -muito mais protestantes do que ela desejaria que fossem. As -perseguições executadas por ordem de Maria fizeram com que -muitas familias inglezas se retirassem para fóra do reino. Tinham -formado colonias em Francfort, em Genebra, e n’outras -partes, tinham adquirido intimidade com os theologos calvinistas, -e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas. -Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido,<span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span> -e os martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra; -tinham opiniões, e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os -bispos sabiam que a Egreja de Inglaterra não podia ser aquillo -que Isabel desejava que fosse, e devia possuir uma auctorizada -exposição de doutrinas, um credo cujos delineamentos principaes -fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada a consentir -n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamada -<i>Os Onze Artigos</i>. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos -e os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se -conformaria com similhantes coisas. A questão prolongou-se -tanto que os bispos, n’uma occasião, ameaçaram-n’a com um -pedido collectivo de demissão. O artigo undecimo declarava, -portanto, que «as imagens eram coisas vãs».</p> - -<p class="tb"><b>Os trinta e nove artigos.</b>—Este curto formulario de doutrinas -foi, passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além -d’isso, a rainha teimava em dar á Egreja uma orientação que a -tornava muito parecida com a catholica romana. Queria, por -exemplo, tornar obrigatorio o celibato clerical. Os bispos reconheceram -a necessidade de uma serie, ou exposição, auctorizada -dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo Parker, com a -assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nos <i>Quarenta -e dois Artigos</i> de Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes. -A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe -fizeram uma segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os -Artigos antes de dar o seu consentimento, e fez duas muito -caracteristicas alterações. Inseriu a primeira clausula do Artigo -XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos ou ceremonias, -e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou o -Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo -á Mesa da Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção -d’esse Artigo, e a rainha submetteu-se. Estes Artigos -são, e houve intenção de que o fossem, calvinistas na sua -theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma definitiva revisão -em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava em Zurich: -«Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até -chegar á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de -uma unha.» Assim a Egreja, que havia alterado o seu Livro de -Oração Commum para o amoldar ao gosto catholico romano, formulou -os seus artigos de religião, o seu credo, de tal modo que -ficou em conformidade com as egrejas reformadas da Suissa.</p> - -<p class="tb"><b>O puritanismo e as vestimentas clericaes.</b>—A rainha não gostava -dos trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua -approvação tinha sido uma victoria para o partido protestante -com que ella dificilmente se conformava. Animados com o bom<span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span> -exito alcançado, os puritanos tentaram, de uma maneira vigorosa -abolir o Livro de Oração Commum, e desembaraçar-se de -todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja medieval, -e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com -toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim, -victoriosa.</p> - -<p>Este conflicto com os puritanos começou cerca do anno de -1564, e durou durante toda a vida de Isabel. Ao principio o -ponto principal em discussão era o uso da capa de asperges e -da sobrepeliz, que é uma sobrevivencia da toga branca, ou traje -de ceremonia, do imperio romano. Os puritanos do tempo de -Isabel mantinham-se n’uma posição identica á de seus irmãos -no reinado de Eduardo VI. Sustentavam que os cargos na -Egreja christã não são sacerdotaes nem senhoriaes; ninguem -era eleito bispo pelo facto de ser clerigo, e poder por essa razão -approximar-se mais de Deus do que os seculares, ou porque -o governo lhe havia sido conferido por uma auctoridade de -fóra da Egreja, mas porque os officios de superintendente e -pastor são de utilidade para a Egreja, e porque a Egreja chama -esses homens para a servirem no limite das suas funcções. -Recusavam fazer uso dos paramentos, porque estes significavam -uma coisa em que elles não criam.</p> - -<p>A contestação tomou em breve um caracter violento. Os -bispos sentiam-se inclinados a contemporizar, pois que sabiam -o quanto se havia espalhado e quão profundamente arraigada -estava aquella opposição ás vestes clericaes; mas a rainha não -lh’o permittiu. Fez uso do poder que a supremacia lhe dava sobre -os bispos para os obrigar a pôrem em execução a Acta da -Uniformidade, e isso deu logar a que o puritanismo fosse como -que um protesto contra a supremacia real e contra a constituição -episcopal, e como que um brado para que o povo tivesse -voz activa no governo da Egreja, o que só o presbyteriannismo -ou o congregacionalismo pode proporcionar. Durante os annos -de 1565 e 1566 foram em grande numero os ministros que perderam -os seus logares por não se quererem conformar com os -usos estabelecidos.</p> - -<p>A rainha entendia que a sua posição como governadora da -Egreja a auctorizava a proceder a continuos inqueritos ao modo -como era conduzido o culto publico nas paroquias de Inglaterra. -Nomeou commissarios reaes para inspeccionar e dar-lhe as necessarias -informações, e estes agentes de Isabel vieram a constituir -o Tribunal da Alta Commissão, que se tornou um instrumento -de tyrannia ecclesiastica nos reinados de seus successores. -Por estes commissarios foi Isabel informada da existencia -dos não-conformistas, e insistiu n’uma submissão ás praticas -estabelecidas.</p> - -<p>O povo fez, na sua maioria, causa commum com os ministros -que estavam inhibidos de tomar parte nos serviços. As<span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span> -prisões e as multas só serviram, como sempre aconteceu, para -ateiar as chammas da dissidencia. Esta fez a sua apparição -nas universidades. Os estudantes recusaram fazer uso da sobrepeliz -ou assistir aos serviços religiosos feitos por clerigos paramentados. -Foram tantas as paroquias que vagaram que não -era possivel arranjar ministros para todas; e, quando qualquer -ministro submisso era collocado n’uma d’ellas, o povo, em geral, -apupava-o. Alguns dos mais zelosos ministros separaram-se da -Egreja nacional.</p> - -<p>O grande dirigente dos puritanos era Thomaz Cartwright, -que, tendo sido educado no Collegio de S. João, em Cambridge, -veiu a ser depois professor de theologia. Era um homem piedoso -e illustrado, e um eloquente prégador, e, tendo perdido a -sua cadeira de lente por causa das suas opiniões, ainda por -cima teve de soffrer o exilio. Dois puritanos, Field e Wilcox, -escreveram um folheto moderado—<i>Uma advertencia ao parlamento</i>—sobre -a disciplina da Egreja e as medidas violentas que -haviam sido tomadas contra os puritanos. Foram mandados -para Newgate, como dois criminosos quaesquer. Cartwright -escreveu uma <i>Segunda Advertencia</i> em defeza dos seus amigos, -e teve, pela segunda vez, de fugir do paiz. A rainha respondia -a cada pedido de tolerancia com novas exonerações, a ponto de -haver n’uma só diocese, a de Norwich, segundo consta, não -menos de trezentos ministros suspensos. O arcebispo Parker -morreu em 1575, havendo-lhe o cargo de executor da rainha, -que desempenhava bem contra sua vontade, tornado amargosissimos -os ultimos annos da sua vida.</p> - -<p class="tb"><b>A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino.</b>—Ha alguma -desculpa para as medidas tomadas por Isabel contra os puritanos -no principio do seu reinado. A Inglaterra estava fraca, estava -empobrecida, e o throno de Isabel não offerecia estabilidade. -Não sympathisava com a Reforma no que ella mais profundamente -significava, e não a animava o desejo de ver o seu -povo convertido n’uma nação de enthusiasticos reformadores. -A Inglaterra, segundo a sua opinião, precisava de descanço e -de paz para recuperar as suas esgotadas energias. Se a Inglaterra -tivesse abraçado o protestantismo com verdadeiro enthusiasmo, -não assistiria de braços cruzados ás crueldades commettidas -para com os protestantes francezes e hollandezes pela -França e pela Hollanda. Desempenharia na Escocia, nos Paizes -Baixos e na França o papel de campeão protestante. Isabel, -com a sua impassivel politica, conservou o povo inglez de reserva -para o grande futuro que o esperava. «Nada de guerra, -meus senhores, nada de guerra», exclamava ella invariavelmente -quando Cecil ou outro qualquer ministro manifestava o -desejo de a ver collocada á frente de uma liga protestante.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span></p> - -<p>Isabel não obstante a sua anterior attitude de resistencia, -não desejava romper por completo com os papistas, ou apresentar-se -quer aos seus subditos catholicos romanos, quer ás nações -continentaes, como uma rainha forte e resoluta. A Inglaterra -necessitava de descanço, e a rainha havia determinado -conservar em paz o seu paiz.</p> - -<p>Isto explica em parte a sua politica de indifferença perante -a lucta em que os protestantes se achavam envolvidos n’outros -paizes. Cecil, o maior dos ministros que Isabel teve, queria que -ella se pozesse á frente de uma grande liga protestante e prestasse -um auxilio efficaz aos protestantes da Escocia, dos Paizes -Baixos e da França. Os ciumes que Isabel tinha de Maria -Stuart forçaram-n’a a coadjuvar em grande medida o partido -protestante da Escocia—a coadjuval-o até ao ponto de elle poder -tornar preponderante aquella fórma de protestantismo em que -tanto havia perseverado. Pelo que, porém, diz respeito aos Paizes -Baixos e á França, Isabel não deu outro auxilio além do que -era sufficiente para que o partido protestante continuasse a -existir, e isso mesmo foi feito mais com o fito de consumir as -forças da França e da Hespanha do que com o de proteger perseguidos -correligionarios.</p> - -<p class="tb"><b>Luctas intestinas com o catholicismo romano.</b>—A politica da -côrte romana e especialmente as declarada sintenções e designios -dos jesuitas forçaram Isabel, depois de ter reinado quasi -doze annos, a mostrar-se mais decidida a defender a fé protestante, -tanto em Inglaterra como fóra d’ella. Os jesuitas tinham -insistido repetidas vezes em que não se devia guardar fidelidade -aos chefes de estado protestantes; alguns dos seus emissarios -tinham pregado o assassinio como meio licito de desembaraçar -os paizes dos seus soberanos protestantes, e não faltavam -exemplos que advertissem Isabel da sorte que a esperava.</p> - -<p>A sua rival, Maria Stuart, expulsa da Escocia, era para a -Inglaterra uma prisioneira perigosa. A morte de Isabel podia -tornal-a, a ella que era a esperança do partido catholico romano, -a herdeira mais proxima do throno inglez.</p> - -<p>Em 1570, o regente Moray, que era o chefe politico da Reforma -na Escocia, foi escandalosamente assassinado. Em 1572 -foi planeado, e barbaramente posto em pratica, o massacre de -S. Bartholomeu. No mesmo anno o duque de Alba, Filippe II e -o papa conferenciaram com Ridolfi, florentino que residira durante -muito tempo em Inglaterra, sobre a possibilidade de uma -insurreição catholica romana em Inglaterra, dirigida pelo duque -de Norfolk. Descoberta a conspiração, Norfolk foi decapitado. -Todos estes casos mostraram a Isabel que toda a sua salvação -estava em entrar verdadeiramente no caminho da Reforma, e -mostraram tambem ao povo o quanto Isabel era essencial para -o triumpho do protestantismo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span></p> - -<p>É talvez uma evidencia de que a rainha e os seus subditos -protestantes se ligaram mais estreitamente o facto de Edmundo -Grindal, clerigo de pronunciadas tendencias puritanas, ter sido -collocado na sé de Canterbury, vaga em virtude da morte de -Matheus Parker.</p> - -<p>Em todo o caso, Isabel, se não se mostrou menos intolerante -no reino, reconheceu que era de seu dever enviar mais soccorro -aos protestantes de fóra. Os huguenotes receberam um auxilio -pecuniario. Os aventureiros inglezes, e entre elles Francisco -Drake, tiveram permissão para fazerem todo o mal que podessem -ao commercio hespanhol. Isabel mandou, mesmo, um corpo -de exercito para ajudar os neerlandezes na sua guerra com a -Hespanha.</p> - -<p>Este procedimento fez com que as forças catholicas romanas -trabalhassem com mais ardor para a ruina da Inglaterra. -Estabeleceu-se um seminario em Douay, e um collegio em Roma, -onde se preparassem padres inglezes que iriam depois para o -seu paiz promover agitação entre os romanistas. E eram continuos -os rumores de novas conspirações para collocar Maria -Stuart no throno de Inglaterra.</p> - -<p>Isabel e os seus conselheiros compenetraram-se, por fim, -do perigo que ella corria. O parlamento promulgou que os missionarios -romanistas ficavam sujeitos ás penalidades que correspondiam -a crimes de alta traição, e quando se descobriu a -conspiração de Babington, para assassinar Isabel e pôr Maria -em liberdade, e se provou que Maria estava ao facto de toda a -trama, ficou decidida a execução da rainha dos escocezes. Isabel -não representou um papel muito heroico n’esta tragedia, mas -adquiriu a certeza de ter, d’esta vez, quebrado todas as relações -com Roma, assim como Roma e os poderes romanos não poderam -deixar de reconhecer que o tempo das conspiratas tinha -findado, e que, ou a Inglaterra seria subjugada, ou ter-se-hia -de admittir a Reforma como um facto consumado.</p> - -<p class="tb"><b>A Armada hespanhola.</b>—Roma e Hespanha descobriram por -fim o que o astuto Guilherme Cecil tinha descoberto desde o -principio. «O imperador aspira á soberania da Europa, coisa que -elle jámais poderá conseguir sem que seja suprimida a religião -reformada; e não poderá esmagar a Reforma sem que primeiro -esmague a Inglaterra». Carlos V tinha visto isso, mas não muito -claramente, quando se mostrou tão ancioso por uma alliança com -a Inglaterra, no principio do reinado de Maria. Filippe II viu-o -quando se offereceu para marido de Isabel. Coube, finalmente, -a vez ao papa, o qual, de mãos dadas com Filippe, fez convergir -todos os seus esforços no sentido de subjugar a Inglaterra.</p> - -<p>A occasião era propicia. Filippe e a Santa Liga da França -tinham, apparentemente, triumphado. A Inglaterra encontrava-se -isolada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span></p> - -<p>O papa Sixto V excommungou a rainha Isabel, e encarregou -Filippe II de executar a sentença. Sua Santidade contribuiu -tambem com uma grande quantia para ajuda da empreza. Os -hespanhoes reuniram uma grande esquadra, com a qual se propunham -atacaria Inglaterra, e, para ter mais seguro o bom exito, -Alexandre de Parma, o mais habil general da Europa, recebeu -ordem para partir dos Paizes Baixos com o mesmo destino, levando -comsigo a flôridas tropas hespanholas.</p> - -<p>Isabel appellou para o patriotismo da nação, e esta não se -fez surda ao seu appello. A Escocia, não obstante a execução de -Maria, não quiz levantar-se contra a Inglaterra. A França permaneceu -inactiva, pois que a liga não havia triumphado tanto -como se suppozera e não tinha sido possivel extinguir os huguenotes. -Toda a Inglaterra pegou em armas. Equiparam-se duzentos -navios. A nação, fremente de enthusiamo, estava preparada -para o ataque. A Armada, composta de numerosos vasos de -guerra de grandes dimensões, aproou á Inglaterra, mas os ventos -produziram-lhe enormes avarias antes de chegar ao seu destino. -Os navios inglezes cercaram-n’a, e travaram com ella uma -serie de combates navaes, que a pozeram em deploraveis condições. -Um temporal medonho completou a obra; e a soberba -frota, que os hespanhoes haviam equipado á custa de mil sacrificios, -deu miseravelmente á costa, sendo pouquissimos os barcos -que conseguiram chegar aos portos de onde haviam saido.</p> - -<p>Foi desde então que a protestante Inglaterra ficou sendo a -maior potencia europeia. Não foi possivel supprimir a Reforma -porque não foi possivel vencer a Inglaterra.</p> - -<p>É dificil dizer quanto o lado menos nobre de Isabel contribuiu -para a consecução d’este resultado final; o que é certo é -que ella administrou habilmente os recursos da nação, teve o -maior cuidado em reprimir o enthusiasmo d’esta, até que a ella -se podesse entregar sem perigo algum, e determinou, mediante -o Acto de Uniformidade, cuja transgressão ficava sujeita a -severas penas, unificar exteriormente a Inglaterra. Pode ser -que os meios de que lançou mão não fossem reputados necessarios, -mas attingiu, pelo menos, o fim que tinha em vista.</p> - -<p class="tb"><b>As prophecias.</b>—A nomeação de um arcebispo puritano não -produziu os beneficios que se esperava. Isabel tinha o costume -de demonstrar aos seus bispos que a supremacia real era -uma coisa que existia de facto. A rigorosa suppressão da não-conformidade -havia occasionado uma grande falta de ministros. -Não era raro prover-se individuos sem aptidões para prégar. -Certos pastores animados de bons intuitos promoviam reuniões -clericaes, onde se discutia theologia e havia uma especie de -curso de oratoria. Estas reuniões, que tinham algumas parecenças -com os «Exercicios» da Escocia, e que eram, talvez, uma<span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span> -imitação d’elles, chamavam-se as «Prophecias». A rainha não -gostava d’ellas. Ella não via, mesmo, a necessidade de se prégar -sermões, e entendia que os ministros se deviam limitar a -ler as <i>Homilias</i> ás congregações. O arcebispo Grindal era favoravel -a estas <i>Prophecias</i>, e quando a rainha lhe ordenou para -as prohibir recusou-se a fazel-o. A rainha, enfurecida, ameaçou-o -com a deposição, e chegou a suspendel-o do exercicio das suas funcções -episcopaes. Esta suspensão durou até quasi ao fim da -vida do arcebispo.</p> - -<p class="tb"><b>Os conventiculos.—Os pamphletos anti-prelaticios.</b>—Quando -Grindal morreu, Whitgift, o irreconciliavel adversario de Cartwright -e do puritanismo, foi elevado a arcebispo de Canterbury. -A desastrosa politica da rainha, rigorosamente executada por -elle, teve as suas naturaes consequencias. O povo, privado dos -serviços dos clerigos a quem respeitava, e obrigado a ouvir outros -que não tinham direitos nenhuns sobre elle, recusou-se a -frequentar as egrejas. Reunia-se em casas particulares e n’outros -logares apropriados, e ahi fazia oração e observava outros -pormenores do culto publico. Estes conventiculos foram declarados -illicitos, mas, apezar d’isso, eram cada vez mais numerosos. -Surgiram as seitas não-conformistas.</p> - -<p>Knox na Escocia e Beza em Genebra alarmaram-se com o -estado da Egreja na Inglaterra. Elles estavam ao facto das -ameaças do poder catholico romano, e sabiam bem que o protestantismo -inglez precisava de estar muito unido. Não sympathisavam -de modo algum com o systema de Isabel, e, comtudo, -eram de opinião que o horror dos puritanos pelos paramentos -religiosos era algum tanto affectado e exaggerado. -Escreveram aos dirigentes do partido, rogando-lhes que se conformassem, -mas a espada da perseguição tinha penetrado demasiadamente -nas suas almas. Impedidos de prégar, começaram -a escrever, e por entre o povo foram apparecendo diversos -pamphletos por elles publicados. O que se tornou mais notavel -de tudo foi uma serie de opusculos chamados <i>Anti-prelaticios</i>. -Esses opusculos atacavam o systema episcopal da Egreja de -Inglaterra, e expunham com uma implacavel severidade as varias -ceremonias papistas que ella ainda conservava. Um dos -auctores, Nicolau Udal, foi descoberto, sendo executado em -1593.</p> - -<p class="tb"><b>A Reforma ingleza</b> ficou firmemente estabelecida depois da -derrota da Armada hespanhola. A Inglaterra reconheceu finalmente -que lhe competia dirigir os Estados protestantes da Europa; -e, não obstante o caracter anomalo da Egreja reformada -ingleza, o paiz soube tornar-se digno da sua posição.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span></p> - -<p>A Reforma ingleza, comtudo, era de um caracter tal que não -pode ser facilmente comparado com o do movimento do mesmo -genero que teve logar n’outros paizes. No primeiro periodo, um -monarca caprichoso e absolutista obrigou o reino a desligar-se -do papado, ao mesmo tempo que reprimia selvaticamente todas -as tentativas de uma reforma religiosa, quer na doutrina quer -no culto.</p> - -<p>Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida, -os homens de maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos, -tratou de promover uma reforma de doutrina e de -culto. O movimento, empurrado, por assim dizer, de fóra, não -foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que, com a mudança -de governo, voltou para o romanismo.</p> - -<p>No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se -pela Reforma religiosa que havia agitado outros paizes, -mas a supremacia real encerrou o movimento dentro de uns -certos limites que fizeram com que elle não representasse verdadeiramente -as aspirações da Egreja.</p> - -<p>Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos -e ritualistas representarem a historia como se a Egreja -tivesse sido levada pelo seu proprio discernimento a assumir a -attitude que assumiu para com o romanismo, de um lado, e para -com o decidido protestantismo, do outro; mas estas representações -não são defendidas pela evidencia contemporanea. Os -anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a -Egreja tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização -episcopal regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem, -em provar que a posição que elles chamam catholica, e -que outros chamam anomala, foi assumida pela propria Egreja, -actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção episcopal; -mas os factos que se relacionam com este caso são contra elles. -A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos -seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a -supremacia real.</p> - -<p>Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez -com que fosse possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que -podesse dar ás suas theorias uma apparencia de base historica.</p> - -<p>Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum -de Eduardo VI, transformando-o n’um outro dentro de -cujas formulas havia logar para pessoas que teriam preferido -conservar-se catholicas romanas se considerações politicas não -as obrigassem a passar para o lado protestante.</p> - -<p>Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos -e os ritos contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que -diligenciou reter as imagens, os crucifixos e a agua benta.</p> - -<p>Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho -que nada tinha que ver com o governo episcopal -da Egreja, e que era de um caracter inteiramente erastiano—que<span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span> -estabeleceu a Acta da Uniformidade, e que impoz a conformidade -sob pena de severos castigos, que podiam ser exoneração, -multa, prisão e até perda da vida.</p> - -<p>Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra -tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra -muito mais em harmonia, respectivamente á doutrina -e ao culto, com as egrejas reformadas do Continente, que haviam -tomado Genebra para modelo.</p> - -<p>Os bispos prepararam os <i>Os trinta e nove Artigos</i>, que o bispo -Jewel, a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou -que haviam sido redigidos com o proposito de mostrar -que havia perfeita uniformidade de doutrina, e especialmente -da que se refere ao sacramento da Ceia do Senhor, entre Genebra -e Canterbury.</p> - -<p>Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam -sensatamente tolerado as objecções dos puritanos quanto ás -capas de asperges e ás sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo -Livro de Oração Commum de Eduardo VI, em uso havia -muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle que foi indicado -por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos romanos.</p> - -<p>Os bispos obrigaram a rainha a declarar-se contra as imagens, -os crucifixos, a agua benta e o celibato do clero, isto é, -contra todas as coisas que ella desejaria conservar; e compelliram-n’a -a acceitar o Artigo vigesimo nono, que defende a theoria -calvinista da Ceia do Senhor.</p> - -<p>Se os bispos tivessem tido liberdade de acção, haveria logar -na Egreja de Inglaterra para os não-conformistas da actualidade, -pois que a sua queixa, começando por ahi, não era contra -o governo episcopal, mas contra os symbolos e ritos supersticiosos -que lhes foram impostos pela rainha e pela sua Commissão: -difficilmente, porém, haveria logar para os modernos ritualistas -anglicanos.</p> - -<p>Devem a posição, que legal e historicamente lhes deve ser -concedida, a duas coisas—(1) á supremacia real, que teve a -força sufficiente para reprimir e ter sujeito a si o episcopal e nacional -desejo de uma Reforma completa; e (2) ao facto de a uma -numerosa parte do clero de Inglaterra serem tão indifferentes -as mudanças que poderam conservar-se no exercicio das suas -funcções durante os reinados de Eduardo, Maria e Isabel, isto é, -sob o systema puritano, romanista e anglicano.</p> - -<p>A supremacia real deu á Egreja de Inglaterra o caracter -claudicante da sua reforma, e habilitou as pessoas que vivem -actualmente a fallar dos principios catholicos, isto é, medievaes, -da Egreja ingleza.</p> - -<p>Os historiadores teem mostrado que Isabel tinha necessariamente -de proceder da maneira cautelosa como procedeu, e, -com aquella prepotencia que a caracterizava, obstar a que a<span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span> -Egreja do seu paiz se reformasse por completo. Ha alguma -verdade no seu criticismo. Foi, comtudo, uma politica myope, -que só tratava de acudir ás primeiras necessidades, e que obedecia -muito ao principio de «depois de mim o diluvio.» Foi a -supremacia real de Isabel, imposta mediante o tribunal da Alta -Commissão, que preparou o caminho para a revolta puritana no -reinado de Carlos I e para o dia do Negro Bartholomeu no reinado -de Carlos II. Se a Egreja de Inglaterra tivesse sido entregue -aos seus instinctos espirituaes, se a sua acção não tivesse -sido contrariada pelo erastianismo, poder-se-hia ter evitado -estas duas calamidades.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_203" id="Page_203">[203]</a></span></p> - -<h2 id="IV_PARTE">IV PARTE<br /> -<span class="smaller">OS PRINCIPIOS DA REFORMA</span></h2> - -<p class="center"><span class="smcap">Capitulos:</span></p> - -<table summary="Capitulos"> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#IV_CAPITULO_I">I</a></td> - <td>—<span class="smcap">Os Principios da Reforma.</span></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#IV_CAPITULO_II">II</a></td> - <td>—<span class="smcap">Como a Reforma se poz em contacto com a politica.</span></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#IV_CAPITULO_III">III</a></td> - <td>—<span class="smcap">A catholicidade dos reformadores.</span></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#IV_CAPITULO_IV">IV</a></td> - <td>—<span class="smcap">Os principios doutrinarios.</span></td> - </tr> -</table> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span></p> - -<h3 id="IV_CAPITULO_I">CAPITULO I<br /> -<span class="smaller">OS PRINCIPIOS DA REFORMA</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições -sociaes, <a href="#Page_205">pag. 205</a>.—Uma revivificação da religião e uma approximação de -Deus, <a href="#Page_206">pag. 206</a>.—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho -para Deus, <a href="#Page_208">pag. 208</a>.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual, -<a href="#Page_209">pag. 209</a>.—A imitação de Christo, <a href="#Page_209">pag. 209</a>.—Francisco de Assis, -<a href="#Page_210">pag. 210</a>.—Os mysticos da Edade Media, <a href="#Page_211">pag. 211</a>.—A significação do -perdão, segundo a Reforma, <a href="#Page_212">pag. 212</a>.—Previsões de uma revivificação religiosa -operada pela Reforma, <a href="#Page_213">pag. 213</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares -condições sociaes.</b>—O movimento da Reforma surgiu n’um -dos mais notaveis periodos da historia europea. A tomada de -Constantinopla pelos turcos ottomanos no meiado do seculo -quinze dispersou por toda a Europa os thesouros litterarios e -os sabios de aquella rica e illustrada cidade. Muitas pessoas -começaram a estudar diligentemente os antigos auctores latinos; -aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes -a sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos -poetas e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua -em que foi escripto; e os rabbis judeus encontraram, com -grande surpreza sua, no mundo occidental, homens com immensa -vontade de aprenderem a sua antiga lingua, o hebraico, -e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles. Um -mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia, -quer na litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens -do periodo em que a Reforma appareceu.</p> - -<p>A descoberta da America por Colombo não só revolucionou -o commercio e tudo quanto se relaciona com elle, como tambem -excitou a imaginação da Europa. O que não poderiam os homens -fazer, visto que tanto tinham feito já, tanto tinham descoberto? -Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella epoca foi dito e -escripto por homens que se julgavam em vesperas de grandes -acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa.</p> - -<p>As condições politicas da Europa occidental tinham tambem -mudado. Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimento<span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span> -das modernas nações europeas. Haviam-se desprendido, -umas apoz outras, do systema politico medieval, e tornado independentes, -com sentimentos, sympathias e aspirações nacionaes, -o que fez com que cada nação comprehendesse que tinha -um caminho especial a percorrer.</p> - -<p>O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle -mundo de costumes sociaes e de restricção politica e religiosa -em que tinham anteriormente vivido era pequeno de mais para -elles; sentiram a necessidade de mais espaço para respirarem. -O mundo era maior; a vida tinha muito mais aspectos do que -aquelles que os paes d’elles tinham jámais posto na sua idéa. -Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era agora novo.</p> - -<p>Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a -philosophia escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos -e as mentes dos homens, e traçado limites que elles não podiam -ultrapassar. Estas barreiras haviam-se desmoronado sob -a influencia da nova vida que por todos os lados penetrava -n’elles, e os homens descobriram que a religião era uma coisa -maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida social, -com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do -Sacro Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos -que escapavam á perspicacia dos mais eminentes sabios.</p> - -<p>Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham, -com toda a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações, -lucrando apenas com isso o encontrarem-se na grave -situação de isolamento social, como acontece a todos aquelles -cujos pensamentos não são comprehendidos pelos homens do seu -tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses pensamentos -propriedade commum, e as multidões principiaram a ser -agitadas por elles.</p> - -<p>Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma -appareceu; mas o movimento, em si, não pode ser explicado -simplesmente por meio de uma descripção d’essas condições -sociaes. Teve logar uma verdadeira renascença da religião, um -cumprimento da promessa do derramamento do Espirito Santo -sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso que -surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias, -e tirou d’ellas mesmas a sua força.</p> - -<p class="tb"><b>Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.</b>—O -que mais agita os corações dos homens que se encontram no -meio de um grande movimento religioso dentro da Egreja christã -é o desejo de se approximarem de Deus, de se sentirem em -communhão pessoal com aquelle Deus que se mostrou cheio de -graça e perdão mediante a vida e obra do Senhor Jesus Christo. -Os homens que estão realmente sob a influencia de um grande -despertamento religioso, e que são arrastados por um movimento<span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span> -de revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma -deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho -atravancado de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam -ter accesso á presença divina.</p> - -<p>Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer, -e mesmo durante algum tempo depois, os homens que estavam -sob a influencia d’essa revivificação encontraram no seu -caminho as taes barreiras de que já falámos. A Egreja, que se -intitulava a porta que dava accesso á presença de Deus, tinha -atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a sua -maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha -lista de penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter -mostrado a vereda que conduzia á presença de Deus, parecia -ter rodeiado o Seu santuario de um triplice muro que tornava -difficilima a entrada. Quando um homem ou uma mulher sentia -o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja dizia-lhe que -fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes de -vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado. -Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de -perdão, era-lhes este assegurado, não por Deus, mas por um -padre. A graça de Deus, de que o homem tanto precisa durante -a vida, e de que tanto precisa tambem á hora da morte, era-lhes -concedida por meio de uma serie de sacramentos a que tinham -de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam -mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante -a Egreja mediante a confirmação; o seu casamento ficava isento -do peccado da concupiscencia mediante o sacramento do matrimonio; -a penitencia restituia-os á vida, depois de terem commettido -qualquer peccado mortal; o sacramento da Ceia do Senhor, -administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os -espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o -descanço eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas -coisas não constituiam de maneira alguma os signaes da livre -graça de Deus, sob cujo vasto docel o homem passa a sua vida -espiritual. Eram, antes, umas portas guardadas com toda a vigilancia, -e que os padres abriam de mau humor, e quasi sempre -só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que -Deus dá gratuitamente.</p> - -<p>Ninguem podia, tão pouco, viver livremente uma vida christã, -dedicando ao serviço de Deus todos os talentos que possuia. -Para se viver santamente era necessario observar umas tantas -coisas que a Egreja prescrevia, como, por exemplo, os frequentes -jejuns, as interminaveis rezas, as flagellações, e um conjuncto -de tediosas ceremonias, que, se eram manifestações de -amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a maxima -de S. João, beneficiando o proximo.</p> - -<p>A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença, -de Deus, proclamando a todos que, se almejassem por se approximar<span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span> -do compassivo Redemptor só o poderiam fazer passando -pelas estreitas portas que ella guardava, e exigindo por essa -passagem, isto é, pelo baptismo, pela confirmação, pelo casamento, -e pelos restantes sacramentos, umas vis moedas, e inpondo -de quando em quando uma compra de indulgencias, para -acabar de encher os seus cofres.</p> - -<p>A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado -pelo irresistivel desejo de uma approximação de Deus, e satisfez -cabalmente esse desejo levando deante de si, e fazendo desapparecer, -todas as barreiras e obstaculos.</p> - -<p class="tb"><b>Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.</b>—É -natural que occorra esta pergunta: Como é possivel que -a Egreja se esquecesse a tal ponto da sua missão e do verdadeiro -fim da sua existencia que, como os reformadores constataram, -estivesse fazendo exactamente o contrario de aquillo que -devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens -a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus -irmãos na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre -elles e Deus, e que os conservava longe d’Elle. Como poude a -Egreja tornar-se uma coisa inteiramente opposta ao que era -licito esperar que ella fosse? Como poude a Egreja de Deus -converter-se, segundo a graphica expressão de Knox, «n’uma -synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia -necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos, -porém, dar uma idéa geral do que se passou.</p> - -<p>«A separação do mundo» é uma das maximas da vida -christã, symbolisada nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada -nas normas da vida do Novo testamento. A Egreja -devia viver separada do mundo, e, em todos os seculos, aquelles -a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se esforçado -por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica. Gregorio -VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando, -e que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador -da Egreja medieval, declarou que essa separação devia -ser perfeitamente visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse -no reino de Christo; e aquella sua opinião influiu muito -no modo de ser da Egreja medieval. Nos seus dias todo o governo -politico estava nas mãos do chefe do Imperio Romano, e -Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse -tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival -sobre a terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado -fôra o grande Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica. -Nas suas mãos a Egreja tornou-se um reino em contraposição -ao Imperio Romano da Edade Media, seu adversario visivel. -Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja n’uma -monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre -duas coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas.<span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span> -O grande, o fatal, defeito n’aquela idéa de separação do mundo, -em que Gregorio andava absorvido, proveiu do facto d’elle tomar -uma parte do mundo, isto é, o Imperio politico, pelo mundo todo -de que era necessario haver separação, de modo que a Egreja -ficou separada do imperio, mas não ficou separada do mundo.</p> - -<p>A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus; -todas estas phrases, empregadas na Escriptura para descrever -o parentesco espiritual entre Deus e o seu povo foram malignamente -applicadas a esta organização politica visivelmente separada -do Imperio politico da Edade Media. Um homem era -chamado <i>santo</i> se pertencia a um dos reinos, e secular se pertencia -ao outro; um frade era um homem <i>santo</i>, um guarda do -imperador era um homem secular. Um campo era <i>santo</i> se um -papa ou um clerigo qualquer recebia a respectiva renda; era -secular se o proprietario não tinha ordens ecclesiasticas. Todas -as palavras e phrases que se deviam reservar para quando se -tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas na descripção -de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que pertencia -áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja.</p> - -<p>A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia -culto a Deus; era a esphera da religião; e quando, de caso pensado, -ou em virtude do modo habitual de fallar, se ensinou aos -homens que a Egreja era simplesmente uma sociedade visivel, -a religião espiritual decaiu, sendo substituida por uma outra -que consistia apenas na observancia de um certo numero de -ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se -cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente -mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a -Reforma appareceu era já impossivel supportal-a por mais tempo, -e os homens insistiram em que os nomes espirituaes fossem -applicados ás coisas espirituaes, ou, por outra, em que não se -fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas piedosas.</p> - -<p class="tb"><b>Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de -Christo.</b>—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para -se tornar cada vez mais um reino politico, e cada vez menos -uma egreja, não se deve suppôr que durante a Edade Media -não houvesse religião espiritual. O Livro de Oração Commum -da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado de antigos livros -cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja andava -geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que -esse livro está impregnado de um profundo sentimento religioso. -Muitos dos hymnos que eram cantados no culto publico -por todas as egrejas protestantes foram originalmente compostos -por devotos poetas medievaes, que dedicavam os seus talentos -á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a sua -existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo -com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôr<span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span> -em contacto com as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes -e friamente politicas. Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira -separação do mundo, sem procurar definir as suas idéas, -ou descutir o facto de terem os guias politicos da Egreja restringido -o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém, -tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir -os seus pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre -estava em harmonia com as definições dos estadistas ecclesiasticos. -Para exemplificação d’isto, vamos passar em revista -dois periodos de reviviscencia.</p> - -<p class="tb"><b>Francisco de Assis.</b>—Francisco de Assis, commovido pelas -dolorosas scenas que observava nas cidades, onde a população -indigente, pela maior parte composta de camponezes que haviam -deixado as suas terras para se livrarem do pagamento das contribuições -e dos pesados serviços a que os senhores feudaes, -cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em miseraveis e repellentes -bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino espiritual -d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente -mãos á obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse, -mas como sob a influencia de uma grande idéa. Essa -grande idéa era a tal maxima da «separação do mundo», a -mesma que, erradamente interpretada, havia tornado politica a -Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do mundo -não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de -dois espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela -sociedade politica; tinha de baseiar-se na conducta individual. -Gregorio VII tinha definido a separação de uma maneira negativa; -havia dito «A Egreja é uma coisa que o mundo não é, e -está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um modo -mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste -em estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez.</p> - -<p>Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de -Chanterbury expozera n’uma arida fórma escolastica, a da <i>imitação -de Christo</i>; e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever -a verdadeira e individual separação do mundo, muito -differente da separação politica de Gregorio VII. Anselmo e -Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma maneira fria e dogmatica, -e outro n’um estylo de fervoroso prégador da renascença, -feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella -o unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que -Christo lhes alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra -de Christo imitando-O. Francisco pegou, por assim dizer, n’esta -idéa e, ligando-a com a maxima da separação do mundo, disse: -«Eis aqui a verdadeira separação. Christo não era d’este mundo. -O Seu reino não era d’este mundo. A separação do mundo é -posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos -aos de Christo.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span></p> - -<p>Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não -tinham grande largueza de vistas, e a vida e obra de Christo, -assim como a Sua separação do mundo, apresentavam-se-lhe -claramente, mas de uma maneira limitada. Nosso Senhor não -era casado; estava separado da vida social que provém do casamento. -Era pobre; estava separado do mundo da riqueza, do -mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto -de Se deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade, -da independencia de vida e de acção. Prendeu-se a estes -aspectos exteriores da vida de Christo; fez consistir a imitação -de Christo e a consequente separação do mundo n’estes modos -visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo ficou significando, -entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de pobreza, -castidade e obediencia.</p> - -<p>O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes -resultados e teve um rapido successo; mas, como todos os -outros movimentos que se baseiam em imitaçõees exteriores da -vida divina, depressa deixou de impulsionar os espiritos, e os -homens piedosos pozeram-se á procura de uma melhor separação -do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais -genuina imitação de Christo.</p> - -<p class="tb"><b>Os Mysticos medievaes.</b>—Os mysticos julgaram ter encontrado -uma solução para o problema. A imitação de Christo e a -separação do mundo á maneira de Christo deviam, disseram -elles, ser mais profunda e mais intima. Deviam ser postas em -connexão com uma religião espiritual, pois que é a alma, e não -aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo, afim -de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem -tem, disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca, -que é propriamente a vida da alma, e uma vida exterior, uma -vida visivel, passada no meio da sociedade. Põe-se em communhão -com Deus, não mediante aquella vida exterior, que todos -os homens vivem, mas mediante a que possue espiritualmente, -mediante a vida da alma. A separação do mundo não consiste -n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella -vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que -separação do mundo significa communhão com Deus, e essa -communhão não tem logar de uma fórma visivel, mas muita -reconditamente, quando a alma se encontra a sós com Elle. -Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos os desejos, -a todos os actos que podessem impedir a communhão da -alma com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle -Christo que está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham, -como se vê, ácerca da separação do mundo, a mesma idéa de -Gregorio. Ligavam-n’a com aquella idéa de imitação de Christo, -em que Francisco de Assis tanto insistia. Vivendo, porém, -n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, em<span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span> -que abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias, -foram levados a reconhecer, como a ninguem, antes ou depois -d’elles, tem succedido, que o reino de Deus está no interior dos -corações. A renuncia ficou sendo a sua senha, e essa sua renuncia -era toda espiritual, e com ella se armaram para soffrer pacientemente -tudo quanto a Deus, na Sua Providencia, aprouvesse -enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser -religião espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter -esse nome, ser espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente, -mais de Christo do que Gregorio com a sua Egreja politica ou -do que Francisco de Assis com a sua pictorica imitação dos aspectos -da vida de Christo no mundo.</p> - -<p class="tb"><b>A significação do perdão, segundo a Reforma.</b>—Todos estes -movimentos eram revivificações da religião. Eram todos elles -tentativas para se chegar a uma verdadeira separação do mundo, -que é o mesmo que approximação de Deus. A Egreja sustentou -esta prolongada lucta como preparação para a Reforma, -fazendo dos seus proprios desenganos outras tantas alpondras -para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou por todas -ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das -reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição -da familia, deixou de estudar direito para estudar theologia.</p> - -<p>Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica -e a imitação de Christo segundo as regras monacaes lhe -proporcionariam aquella paz da alma que é o fructo de uma convivencia -com Christo. Foi João Tauler ou Nicolau de Basiléa -quando se inteirou de que a religião, para ser verdadeira, deve -ser espiritual. Mas ainda assim elle não ficou satisfeito. Não se -sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia que lhe era -indispensavel estar senão depois de experimentar aquella bem-aventurada -sensação de perdão pela qual anhelava. E porque -havia feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza -do perdão? Como hei de eu transpôr essa insuperavel barreira -do peccado que se ergue entre mim e o Deus de toda a santidade?» -e considerara este ponto como de summa importancia durante -todo o periodo em que o seu espirito passou por varias -vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas -piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião -que a Reforma effectuou.</p> - -<p>Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos -principaes caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto -de Deus, mas esse desejo era manifestado mediante differentes -perguntas, e cada tentativa de revivificação tornava mais evidente -a possibilidade de que elle fosse satisfeito, Gregorio perguntava: -«Como posso eu separar-me do mundo?» Francisco de -Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante a Christo?» -Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimento<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span> -do perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos -luctam com a mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa; -está-se cada vez mais perto da solução do problema, á medida -que as gerações se succedem, até que por fim vieram os reformadores, -que com tanto zelo procuraram revivificar a religião, -e pozeram em primeiro logar a questão do perdão, e, conseguintemente, -a do peccado, tocando assim no ponto principal. Desembaracemo-nos -do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão, -e haverá então separação do mundo, imitação de Christo e -communhão com Deus.</p> - -<p>A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade -o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do -mesmo modo. Os homens alcançam o perdão de Deus indo pedil-o -directamente a Deus, e confiando na Sua promessa de que -perdoaria. A livre e clemente graça de Deus, revelada na pessoa -e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa promettida -graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida religiosa -da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar -o peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa. -Tal é o simples aspecto religioso do movimento da Reforma. -Todos aquelles que, sentindo a necessidade do perdão, e tendo -perfeita confiança na promessa do perdão que Deus fez mediante -Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de pensar -em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa -promessa e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a -consciencia d’isso.</p> - -<p class="tb"><b>Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.</b>—Sendo -este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma, -é manifesto que elle não constituiu um caso singular, -isolado, na historia da Egreja. Todos os christãos piedosos teem -sentido pouco mais ou menos a mesma coisa, o seu espirito tem -passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com Deus para -serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa -de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as -gerações christãs dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem -á vida do christão dizem a mesma coisa, e o que a Reforma -fez foi definir claramente que todos os christãos tinham, com -mais ou menos consciencia do facto, sentido.</p> - -<p>Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que -espiritualmente experimentavam, e que era a linha central da -sua vida religiosa, estava, n’uma multiplicidade de modos, em -contradicção com o credo, o culto e a organização theoretica da -sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente do que o contraste -entre as exposições doutrinaes e as posições ecclesiasticas -de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os -hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as -phrases que empregavam nas suas orações. A sua theologia<span class="pagenum"><a name="Page_214" id="Page_214">[214]</a></span> -tinha muitos pontos de contacto com a philosophia pagã de -Aristoteles, no seu culto estavam consubstanciados muitos ritos -do paganismo, a fórma como a Sua Egreja era dirigida era -mais modelada na constituição do imperio romano do que na -constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos -piedosos viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao -momento em que os elementos pagãos que haviam sido introduzidos -na sua Egreja se tornaram tão preponderantes que elles -se viram forçados a protestar contra elles. Luthero achou o -perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que nunca -fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na -Egreja não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus -por dinheiro. Isso levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção -a certos assumptos, e compenetrou-se de que a venda do -perdão dos peccados não era uma horrivel profanação enxertada -na Egreja que elles veneravam, mas sim uma verdadeira e logica -deducção de principios com que elles não se tinham até ali -preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes -da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que -sempre existiu na Egreja medieval, manifestando-se na santidade -da vida, na nobreza dos hymnos, nas confissões do peccado, -e na confiança nas promessas do Deus do pacto. Os protestantes -não precisam de reivindicar a sua affinidade com homens -cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem reconhecido -a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o -viver religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do -mahometanismo ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre -ascendencia em todos esses homens e mulheres piedosas que, -mesmo nos seculos mais obscuros da Egreja, foram ter directamente -com Deus, confiados, tanto no tocante á vida presente como -no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça renovadora -que Elle revelou em Christo.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_215" id="Page_215">[215]</a></span></p> - -<h3 id="IV_CAPITULO_II">CAPITULO II<br /> -<span class="smaller">COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social -da epoca, <a href="#Page_215">pag. 215</a>.—A Reforma desfez a nação medieval de uma sociedade -politica, <a href="#Page_216">pag. 216</a>.—Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma, -<a href="#Page_217">pag. 217</a>.—O <i>De Monarchia</i> de Dante e o <i>Defensor Pacis</i> de Marcello de Padua, -<a href="#Page_218">pag. 218</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na -vida social da epoca.</b>—A Reforma começou simplesmente como -uma tentativa de dar o culto a Deus de uma maneira mais simples, -segundo os dictames da consciencia e os impulsos da vida -interior, da vida espiritual; mas não podia ficar por ahi; significou -por fim uma revolução nas condições da sociedade e uma -grande mudança na situação politica da Europa.</p> - -<p>A Egreja medieval era muito rica, e possuia muitos bens -de raiz, e quando uma freguezia, ou uma provincia, ou um paiz -se tornava protestante, levantavam-se discussões sobre o destino -a dar a estas propriedades. Deviam ficar em poder dos padres, -deviam passar para o do pastor protestante, ou deviam -as auctoridades civis tomar conta d’ellas e administral-as como -bens do Estado? A Egreja tinha o direito de cobrar dizimos—o -dizimo grande, ou a decima parte da colheita do trigo ou do -vinho, e o dizimo pequeno, ou a decima parte das ovelhas, dos -vitellos, dos porcos e dos ovos. Os padres e os frades recebiam -remuneração pelos baptismos, pelos casamentos, pelas confirmações -e pelos enterros. Quando as familias se tornavam protestantes, -e dispensavam os serviços dos clerigos da Egreja -medieval, por não se quererem sujeitar a ritos supersticiosos, -aonde ir buscar aquelles dizimos e aquelles emolumentos? A -permissão para se render culto a Deus segundo as consciencias -preceituavam envolvia questões de dinheiro, que eram -muitas vezes levadas aos tribunaes, e que obrigaram, mesmo, a -uma modificação das leis concernentes á propriedade.</p> - -<p>A Egreja medieval tinha o seu systema de celibato. Os clerigos<span class="pagenum"><a name="Page_216" id="Page_216">[216]</a></span> -não podiam casar, e, alem dos parocos e dos curas, havia -frades e freiras celibatarias e que haviam feito votos de castidade, -sanccionados pelo Estado. Quando qualquer d’estes homens -ou mulheres se tornasse protestante, ser-lhe-hia permittido -desligar-se dos votos e abandonar o convento? e, no caso -de ter levado dinheiro comsigo para o convento, ser-lhe-hia restituido? -Se todos os moradores de uma casa religiosa abraçassem -a fé protestante, poderiam conservar-se n’essa casa, e continuar -disfructando a respectiva dotação? A todas estas questões -juridicas deu logar a Reforma.</p> - -<p>Mas havia outras questões muito mais graves. A Egreja -medieval, segundo o costume da epoca, tinha jurisdicção sobre -muitos pleitos, que na Europa moderna são julgados pelos tribunaes -civis. As questões entre marido e mulher, entre paes e filhos, -e as que diziam respeito a heranças e testamentos, estavam na -alçada dos tribunaes ecclesiasticos, e nunca eram submettidos -ás instancias ordinarias do reino. A Egreja é que decidia se um -casamento era ou não legal, se este ou aquelle grau era prohibido, -se este ou aquelle filho era legitimo, etc. Estas questões -levantavam sempre comsigo uma outra, a da propriedade, pois -que só os filhos ligitimos podiam herdar os bens de seus paes. -Só era licito o casamento que fosse feito dentro dos graus auctorizados, -e effectuado á face da Egreja por um sacerdote ordenado. -E isto porque, em conformidade com as idéas da Egreja -medieval, o matrimonio era um sacramento. E assim protestante -algum podia estar legalmente casado, porque a legalidade -de um matrimonio só podia provir de um sacramento que não -podia ser administrado a rebeldes, por constituir um acto de -desobediencia á auctoridade da Egreja. E a lei da Egreja era a -lei da nação; pois que antes da Reforma a Egreja tinha o direito -de resolver todos estes casos. A não ser que as leis fossem -alteradas, filho algum de protestantes, casados por pastores -protestantes, podia herdar de seus paes, pois que, segundo a -lei da Egreja medieval, os paes não tinham contraido um casamento -legal. E, portanto, não andavam sómente envolvidas n’isto -as questões que diziam respeito á propriedade; affectava-se -tambem a honra pessoal, e a dignidade das esposas e dos filhos.</p> - -<p>Poderiamos multiplicar os casos indefinidamente; mas os -que citámos são sufficientes para mostrar como o simples desejo -de dar culto a Deus segundo a consciencia alterou todas as -condições da vida social. O velho systema ecclesiastico descia -até aos proprios alicerces da vida quotidiana, e tudo apertava -nas suas garras. A Reforma, ao atacal-o, atacou por esse facto -todas as leis: a da propriedade, a do casamento, e a da hereditariedade.</p> - -<p class="tb"><b>A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica.</b>—Segundo -as noções medievaes, a sociedade estava dividida em<span class="pagenum"><a name="Page_217" id="Page_217">[217]</a></span> -Egreja e em Estado politico. O poder ecclesiastico estava todo -centralizado na pessoa do papa, que era o sacerdote universal; -e o poder civil estava todo centralizado na pessoa do imperador, -que era o soberano universal. Um era sacerdote dos sacerdotes, -e o bispo dos bispos, e o outro era o rei dos reis. Um homem -pertencia á Egreja se estava sob a jurisdicção do papa; -era membro da sociedade civil se estava sob o dominio do imperador.</p> - -<p>Tres poderosos chefes francos tinham, uns apoz outros, no -fim do seculo oitavo, proporcionado ao christianismo o dilatar-se, -sem ser incommodado, n’uma parte da Europa occidental. Com -os seus fortes exercitos obstaram ao avanço das hordas dos -barbaros frisios e saxonios que pretendiam opprimir a Europa -com uma nova Dispersão das Nações, e obrigaram os serracenos -a retroceder para alem dos Pyrinéus. Como preito de gratidão, -o papa havia conferido a Carlos Magno, o ultimo dos tres, o titulo -de Imperador dos Romanos e reunido em volta d’elle o -prestigio do nome romano e tudo quanto restava das leis, artes -e sciencias romanas. O imperio assim estabelecido apresentava -um estranho dualismo. Tinha um chefe civil e outro espiritual, -Cesar e o papa; e toda a jurisprudencia europea se fundava na -dupla theoria da representação; o imperador era reputado o vigario -de Deus nos negocios civis, ou terrestres, ao passo que -o papa governava em nome de Deus nas coisas espirituaes.</p> - -<p>Segundo as noções medievaes, quando um homem recusava -obedecer ao papa no que dizia respeito ás materias espirituaes -rebellava-se contra a sociedade, pois que esta se baseava na -idéa de que o papa e o imperador eram os senhores supremos. -O protestantismo quebrou esta união dos dois elementos da -christandade, que se affigurava necessaria para dar á sociedade -uma existencia politica e mantel-a sobre uma firme base moral.</p> - -<p class="tb"><b>Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma.</b>—As -idéas medievaes tinham soffrido alguma coisa antes de apparecer -a Reforma. O nascimento das nações modernas, com os seus -interesses em separado, o que dava origem a constantes conflictos, -e com as suas aspirações de completa independencia, -vibrou um golpe á noção medieval de christandade indivizivel. -Este sentimento de independencia nacional significava revolta -contra o imperador, a qual foi seguida, de uma fórma menos -perceptivel, de sedições nacionaes contra o papa. A lei ingleza -de <i>Proemunire</i>, que prohibe appellações para Roma, significava -que existia no reino de Inglaterra uma jurisdicção de que não -se podia appellar; e isso era uma revolta contra a noção medieval -da christandade unida, segundo a qual todas as appellações -deviam ser depostas junto do throno do imperador ou da cadeira -do papa.</p> - -<p>Noções independentes queria dizer egrejas independentes,<span class="pagenum"><a name="Page_218" id="Page_218">[218]</a></span> -e a revolta de Henrique VIII não teve maior significação do -que a de Eduardo III ou a de Filippe, o Bello. A theoria gauleza -foi, n’uma epoca posterior, uma revolta contra a mesma idéa -medieval de centralizar em Roma o poder ecclesiastico.</p> - -<p>A Reforma intensificou esta revolta. Deu-lhe um sentido -mais amplo; tornou-a permanente; animou a tendencia para a -descentralização. Depois de ter surgido a Reforma as nações -tiveram mais um motivo para dissenções, pois que a differença -de credo indispôl-as umas com as outras.</p> - -<p>Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião -espiritual, tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade -politica e ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas -não as atacaram. A convicção em que estavam de que a religião -consiste n’uma communhão espiritual com Deus tornava-os -extremamente indifferentes a todas as combinações e associações -extrinsecas. De todos os reformadores só Luthero mostrou -partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença, perante -a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um -simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de -os homens se ligarem uns com os outros, com a differença, -comtudo, de que o centro d’esse movimento associativo, d’essa -força colligadora, não era aquelle que as nações medievaes indicavam. -Nutria a vida nacional; os homens, pela razão de terem -combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo paiz, de terem -herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos infortunios, -mantinham entre si uma especie de unidade espiritual. -As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta -nova lei de desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma, -que operou uma tão completa separação de Roma, e que, -apezar d’isso, não destruiu a sociedade, mostrou a todos os -homens que podia haver vida social e communhão religiosa sem -aquella pressão exterior, sem que as idéas de ordem e associação -andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja universaes. -A noção medieval de uma Europa unificada constrangia -todas as nações a obedecerem a um poder central, que -residia no imperador; a noção reformista era a de uma fraternidade -de povos.</p> - -<p class="tb"><b>A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326), -de Marcello de Padua.</b>—Appareceram dois notaveis livros -antes da Reforma, um que pertencia ao passado que ia desapparecendo, -e outro que pertencia ao futuro que se avisinhava.</p> - -<p>Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados -italianos e das nações europeas, escreveu a sua <i>De Monarchia</i> -para mostrar aos seus contemporaneos como podiam viver em -paz. O que elle propunha era o restabelecimento, em toda a sua -força, do velho imperio medieval, o qual, mesmo visto do seu<span class="pagenum"><a name="Page_219" id="Page_219">[219]</a></span> -lado melhor, pouco mais era do que um sonho, conservando o -seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a imaginação, -O reinado da paz universal teria logar, pensava elle, -quando se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de -Carlos Magno, isto é, quando um energico imperador, com a sua -côrte no centro do mundo civilisado, ouvisse e julgasse os casos -que de todos os pontos da terra fossem submettidos á sua decisão -final, e fizesse sentir o peso da sua ferrea mão a todos -aquelles que armassem contendas com os seus irmãos. Este -livro é o epitaphio do medievalismo.</p> - -<p>Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo, -escreveu o seu livro, o <i>Defensor Pacis</i>, que explicava como a -verdadeira paz e segurança nacional começam de dentro. Para -Marcello o Estado é o povo, e do povo—dos seu desejos, das -suas aspirações, dos seus temores, dos seus intentos—é que -provém a vida nacional. O governo é do povo e para o povo. E -o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o -seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto -Dante procurava um poder compellidor que operasse de -fóra, Marcello predizia que a força que havia de dominar as nações -não podia deixar de ser uma força auto-coerciva que tivesse -a sua origem no proprio povo. A Reforma contribuiu para -que essa predicção se cumprisse, e para que as suas theorias -viessem a constituir uma descripção da vida politica e social -da actualidade.</p> - -<p>Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou -o centro da vida nacional de uma força repressora exterior para -uma invisivel fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa -o que Kepler fez para a astronomia e Kant para a metaphysica: -mudou o centro de fóra para dentro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_220" id="Page_220">[220]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_221" id="Page_221">[221]</a></span></p> - -<h3 id="IV_CAPITULO_III">CAPITULO III<br /> -<span class="smaller">A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, <a href="#Page_221">pag. 221</a>.—Reivindicaram -a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio -medieval, <a href="#Page_221">pag. 221</a>.—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e -Calvino, <a href="#Page_222">pag. 222</a>.—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos, -<a href="#Page_223">pag. 223</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.</b>—Nenhum -dos reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem -Calvino—pensou que procurando dar culto a Deus da maneira -mais simples que a Escriptura aconselhava, e que a sua experiencia -espiritual approvava, se estava afastando da Egreja. Estavam -abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual -com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer -á Egreja em que tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados, -e em cuja communhão tinham prestado culto a Deus -desde a infancia.</p> - -<p>Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a -Egreja de seus antepassados. Não tinham desejo algum de fazer -uma nova Egreja, e ainda menos de crear uma nova religião. -A religião que elles professavam era a religião do Velho e do -Novo Testamento, a religião dos santos de Deus desde os dias -de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua separação -de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e -dos Padres. Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em -que Christo havia sido acreditado, e em que se havia sentido a -presença do Espirito Santo, desde o tempo dos apostolos até -aos seus dias.</p> - -<p>A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes, -pensavam elles; não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar -a toda a gente a evidencia d’esse facto, a que davam tão -grande importancia?</p> - -<p class="tb"><b>Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição -do Imperio medieval.</b>—Os reformadores tinham-se desligado -do papa, e não viviam mais em communhão com elle ou<span class="pagenum"><a name="Page_222" id="Page_222">[222]</a></span> -com a curia romana. No seu tempo, porém, estar na Egreja era -ter communhão com o papa e com Roma. Estar fóra do districto -dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles tempos -de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos -privilegios da Egreja.</p> - -<p>Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem, -ou cidade, ou provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava, -eram, por esse facto, interrompidos todos os serviços religiosos. -Emquanto sobre aquella area pesasse a excommunhão, -não podia haver baptismos, nem casamentos, nem confortos espirituaes -á hora da morte. As egrejas permaneciam fechadas, e -todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser -levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não -ter communhão com o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil -demonstrar o contrario, de um modo claro, sem auxilio -de uma argumentação theologica.</p> - -<p>O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio -de mostrar ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado -por aquelles que estavam em communhão com o papa. O -Santo Imperio Romano da Edade Media era mais do que um -estado politico; era tambem, sob um certo ponto de vista, uma -Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono. Chamava-se-lhe -a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos -deviam a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores -ao facto de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma -latina approvada pelo papa Damaso. A Edade Media apresentava, -portanto, a Egreja de Christo sob dois aspectos: um era -o da communhão com o papa, e o outro o da posição que occupava -no Imperio Romano.</p> - -<p>Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão -do imperio. Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo -Niceno sob a fórma prescripta. Era, segundo a distincção feita -pelo imperador, um christão orthodoxo. Estava dentro da christandade, -era membro da grande communidade christã, posto -que não estivesse em communhão com o papa. Luthero aproveitou-se -do caracter ecclesiastico do imperio da Edade Media; -teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel, que -era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga -classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã, -ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com -que aos seus contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja -era mais ampla, mesmo segundo as noções medievaes, do que -a communhão com Roma. Elle proprio estava fóra da communhão -com Roma, e, comtudo, era membro da christandade, e -estava, por conseguinte, dentro da Egreja.</p> - -<p class="tb"><b>A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.</b>—O imperio -medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos,<span class="pagenum"><a name="Page_223" id="Page_223">[223]</a></span> -e a sua dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã. -Luthero, para mostrar que, não obstante haver-se desligado de -Roma, não tinha abandonado a Egreja Catholica de Christo, pegou -no Credo dos Apostolos, no Credo Niceno, e no Credo de -Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão de fé. Diz -elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou -Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas -por toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de -uma vez para sempre, que adhiro á verdadeira Egreja de Christo, -que até agora tem mantido estas Confissões, mas não aquella -falsa e pretenciosa Egreja, que é a peor inimiga da verdadeira -Egreja, e que tem collocado subrepticiamente muita idolatria a -par d’estas bellas Confissões.»</p> - -<p>Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros -da Egreja Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos -de citar. Intitulou-o <i>Sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja -de Deus</i>. Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva -pelo papa e pela curia, exactamente como acontecera aos -israelitas quando foram transportados para Babylonia. A Egreja, -libertada do jugo romano, ficava com todos os privilegios que a -Egreja de Deus sempre tivera, e ficava, além d’isso, livre da -escravidão.</p> - -<p>A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um -captiveiro peior do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma -eram homens comparaveis a Zorobabel, Esdras e Nehemias. -Não estavam fundando uma nova Egreja, estavam reconduzindo -a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a liberdade.</p> - -<p>Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto -que não a expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio -aos seus <i>Institutos</i> diz-nos que escreveu o livro para responder -áquelles que diziam que as doutrinas dos reformadores eram novas, -duvidosas, e contrarias ás dos Paes da Egreja. E refuta essas -accusações, mostrando a catholicidade da theologia da Reforma. -Prova que todos os reformadores sustentaram as grandes doutrinas -catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos, e -que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de -outra qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as -idéas pagãs e as praticas supersticiosas foram, de uma maneira -bastante censuravel, introduzidas.</p> - -<p class="tb"><b>A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.</b>—Os cabeças -da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande -revivificação religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo -um movimento novo, e muito menos que estavam fundando uma -nova religião. Tinham, no seu entender, uma ascendencia espiritual, -e reputavam-se os verdadeiros herdeiros e successores -da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes, e, tambem, da<span class="pagenum"><a name="Page_224" id="Page_224">[224]</a></span> -Edade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles. Pertenciam -á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros -herdeiros dos seculos de vida santa que os tinham precedido.</p> - -<p>Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem -scismaticos e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica -de Christo, e de procurarem crear uma nova Egreja e fundar -uma nova religião. Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a -unica communidade christã, e a unica Egreja Catholica e Apostolica.</p> - -<p>Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes -preparada pela propria Egreja Catholica Romana. A -Egreja de Roma acceita o Credo dos Apostolos, e esse Credo faz -uma descripção da Egreja que está em completo desaccordo -com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos Apostolos -diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos santos», -e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão -de Roma». Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra -que dê a entender que catholicidade significa communhão -com Roma; catholicidade quer dizer, pelo contrario, <i>communhão -com os santos</i>. Este ponto é bem frisado pelos principaes reformadores. -O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se baseia -n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia -no perdão dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de -uma santa communhão, e esta existe em virtude do perdão que -se alcança para todos os peccados mediante a obra redemptora -de nosso Senhor Jesus Christo.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_225" id="Page_225">[225]</a></span></p> - -<h3 id="IV_CAPITULO_IV">CAPITULO IV<br /> -<span class="smaller">OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA</span></h3> - -<div class="chap"> - -<p>Os principios <i>formaes</i> e <i>materiaes</i> da Reforma, <a href="#Page_225">pag. 225</a>.—O sacerdocio de todo -os crentes: o grande principio da Reforma, <a href="#Page_226">pag. 226</a>.—Explica a <i>Doutrina -da Escriptura</i>, <a href="#Page_227">pag. 227</a>, e da <i>Justificação pela Fé</i>, <a href="#Page_228">pag. 228</a>.—A <i>Doutrina da -Escriptura</i> da Reforma em contraste com a medieval, <a href="#Page_228">pag. 228</a>.—A Doutrina -medieval da Escriptura, <a href="#Page_229">pag. 229</a>.—O quadruplo sentido da Escriptura, <a href="#Page_229">pag. -229</a>.—A definição medieval de <i>fé salvadora</i>. Interpretação infallivel, <a href="#Page_230">pag. -230</a>.—Os reformadores e a Biblia, <a href="#Page_231">pag. 231</a>.—A doutrina da <i>justificação pela -fé</i> da Reforma em contraste com a medieval, <a href="#Page_232">pag. 232</a>.—A absolvição clerical -e justificação pela fé, <a href="#Page_233">pag. 233</a>.—Justificação pela fé e justificação pelas -obras, <a href="#Page_234">pag. 234</a>.—Conclusão, <a href="#Page_235">pag. 235</a>.</p> - -</div> - -<p class="tb"><b>Os principios formaes e materiaes da Reforma.</b>—Os principios -theologicos, ou doutrinarios, que deram um caracter distinctivo -á revivificação da religião promovida pela Reforma costumam -ser divididos em duas cathegorias, sendo uma d’ellas constituida -pelos <i>formaes</i> e a outra pelos <i>materiaes</i>.</p> - -<p>O dr. Dorner, historiador sagrado, estabelece este modo de -encarar o movimento reformista com muita clareza e energia -na sua <i>Historia da Theologia Protestante</i>. Segundo o dr. Dorner, -a doutrina da Palavra de Deus é o principio <i>formal</i> da theologia -da Reforma, e a doutrina da Justificação pela Fé é o principio -<i>material</i> da mesma.</p> - -<p>O uso d’estes termos technicos pode, comtudo, obscurecer, -tanto na vida religiosa como na theologia, o verdadeiro sentido -do movimento que com elle se quer explicar. O principio da -Reforma, o impulso predominante no movimento, era simplesmente -aquelle que deve inspirar todas as revivificações da religião, -isto, é o fervoroso desejo, a ancia, de uma approximação -de Deus, o anhelo por estar na presença de Aquelle que Se revelou, -para que podessemos ser salvos, na pessoa de Jesus -Christo. Aquillo a que se tem chamado os principios, <i>formaes</i> e -<i>materiaes</i>, da Reforma está unido a este mais simples, mas mais -energico, impulso, e é proveniente d’elle. O direito de chegar á -presença de Deus foi, segundo a crença dos reformadores, conferido -por Elle a todos os que fazem parte do Seu povo; mas o<span class="pagenum"><a name="Page_226" id="Page_226">[226]</a></span> -direito de chegar á presença de Deus é o que se chama o sacerdocio, -e o grande principio da Reforma baseia-se no <i>sacerdocio -de todos os crentes</i>—o direito que teem todos os homens e mulheres -crentes, todos os clerigos e seculares, de se dirigirem a -Deus, e de procurarem alcançar d’Elle o perdão mediante a -confissão dos seus peccados, a luz que lhes illumine os entendimentos, -a communhão que os faça sair do seu solitario isolamento, -e o vigor necessario para viverem diariamente em santidade.</p> - -<p class="tb"><b>O sacerdocio de todos os crentes: grande principio da Reforma.</b>—Quando -Luthero e Zwinglio se revoltaram contra os abusos -com que o romanismo havia desfigurado a Egreja medieval, os -dois grandes abusos eram a venda das indulgencias e a excommunhão. -Quanto ao primeiro d’esses abusos, a venda das indulgencias, -a Egreja medieval dizia praticamente que não era necessario -ir ter com Deus para obter o perdão, pois que a Egreja -podia concedel-o em melhores condições. O perdão que Deus -dava, mediante a obra de Christo, áquelles que se apresentassem -contrictos e arrependidos fornecia-o a Egreja a troco de -uns tantos ducados. Punha-se deliberadamente entre os pecadores -e Deus, e afastava-os d’Elle, insinuando-lhes, de uma -maneira blasphema, que podia vender-lhes o perdão mais barato. -O homem não necessitava de ir ter com Deus cheio de -tristeza e arrependimento, nem de incutir na alma a confiança -nas Suas promessas. A Egreja sahia ao caminho de todo aquelle -que possuisse dinheiro. N’outras occasiões a Egreja recusava -absolutamente o perdão. Se uma cidade, ou uma diocese, ou um -paiz offendia, mediante os seus governantes, o papa ou a sua -côrte de Roma, era-lhe imposta a interdicção, e emquanto esta -não fosse levantada não havia perdão para peccado algum. A -Egreja colocava-se entre a creança recemnascida e o baptismo, -entre o christão moribundo e a graça que lhe era concedida á -hora da morte, entre o mancebo e a donzella e o laço matrimonial -abençoado por Deus, entre o povo e o culto quotidiano. -Ninguem se podia approximar do Deus de toda a misericordia -pelo motivo dos magistrados, dos bispos ou do rei e seus conselheiros -terem offendido o papa. A Egreja tinha a faculdade -de impedir o caminho, pois que havia declarado que só por intervenção -dos padres é que se poderia ter accesso a Deus; e -quando aos padres se prohibia o exercerem as suas funcções -eclesiasticas, o ministrarem os sacramentos, ficava cortada -toda a comunicação com Deus. O papa podia, com uma pennada, -impedir que uma nação inteira se approximasse de Deus, -pois que tinha o direito de ordenar aos padres que suspendessem -os serviços religiosos; e, segundo a theoria medieval, essas -funcções exercidas pelos padres eram o unico meio de ter accesso -a Deus.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_227" id="Page_227">[227]</a></span></p> - -<p>Os reformadores, por outro lado, diziam: «O homem deve -approximar-se de Deus por meio da oração, por meio do perdão, -por meio da communhão, por meio do esclarecimento espiritual, -sempre que fielmente o procurar fazer; é impossivel que o caminho -para Deus se feche de aquella maneira.» Luthero disse -que não fazia objecção alguma ás indulgencias se ellas fossem -consideradas o unico meio de se declarar que Deus é sempre -misericordioso. Recusava, porém, acreditar n’ellas, ou n’outro -qualquer rito da Egreja medieval, quando se fazia uso d’ellas -para declarar que os homens podiam alcançar o perdão sem se -approximarem de Deus com um espirito contricto, ou que podiam -ser inteiramente excluidos da presença de Deus por determinação -de quaesquer outros homens.</p> - -<p>Era esta idéa—que a presença de Deus é livre para quem -fielmente a procurar, que Deus não recusa ouvir a oração de -qualquer penitente, e que Elle faz com que as Suas promessas -fallem directamente aos corações de todos aquelles que compõem -o Seu povo—que se enleiava em volta de base da theologia -da Reforma, e era a fonte de onde brotavam, em particular, -as doutrinas da Escriptura e da justificação pela fé.</p> - -<p class="tb"><b>O principio do sacerdocio dos crentes explica a doutrina reformada -da Escriptura.</b>—Todos os reformadores criam que na Biblia -Deus lhes fallava da mesma maneira em que, em tempos remotos, -havia fallado á Egreja pelos Seus prophetas e apostolos. Diziam -elles que o povo, tendo nas mãos a Biblia traduzida do -grego e do hebraico para uma lingua que elle comprehendesse -podia ouvir a voz de Deus, podia chegar-se a Elle para receber -instrucção, admoestação e lenitivos. Nos tempos do Antigo Testamento -Deus fallou ao Seu povo, umas vezes em sonhos e outras -por meio de visões, mas principalmente mediante embaixadores -instruidos por Elle, a que se chamava prophetas. Nos tempos -do Novo Testamento Deus fallou no meio do povo mediante Seu -Filho, e o Seu Espirito fallou tambem por intermedio dos apostolos -de Christo. Todas estas revelações, inseridas na Escriptura -do Velho e Novo Testamento, são apresentadas de tal fórma -que Deus falla, na Biblia, ao Seu povo exactamente como lhe -fallou pela bocca dos homens santos da antiguidade. Os reformadores -proclamavam que na Biblia todos os crentes podem ouvir -Deus, que lhes falla directamente, e que a Sua voz pode ser -ouvida por todos aquelles em cujas mãos estiver a Biblia. A -doutrina reformada da Palavra de Deus exprime simplesmente -um dos lados do cumprimento de aquelle anhelo pelo accesso -á presença de Deus, que constitue o elemento essencial, não -apenas da Reforma, mas de toda a verdadeira revivificação religiosa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_228" id="Page_228">[228]</a></span></p> - -<p class="tb"><b>O principio do sacerdocio espiritual de todos os crentes explica a -doutrina reformada da justificação pela fé.</b>—A doutrina da justificação -pela fé é um outro modo de asseverar que o anhelo pelo -accesso a Deus não é um desejo vão, mas uma coisa que pode -ter um positivo cumprimento. Segundo a theologia medieval, o -peccador não podia implorar directamente a Deus o perdão. Tinha -que ir ter com o padre, e esse padre ficava auctorizado a -metter-se de permeio entre elle e Deus, e a negar o perdão de -Deus, se isso lhe fosse ordenado pelo papa ou por um seu superior -hierarquico. Por muito sincero que fosse o seu pezar, por -muito forte que fosse a sua confiança, o padre collocava-se entre -elle e o seu clemente Deus, e elle não podia confessar a Deus -os seus peccados nem ouvir de Deus a sentença do perdão senão -pela bocca do padre. A doutrina da justificação pela fé significa, -na sua fórma mais simples, que é Deus em pessoa quem profere -o perdão, e que perdoa em attenção de tudo quanto Christo -fez e pode fazer pelo peccador; e que o homem pode ouvir proferir -este perdão se tiver fé na misericordia, na salvação e nas -promessas de Deus.</p> - -<p class="tb"><b>A doutrina reformada da Escriptura, em contraste com a medieval.</b>—A -doutrina reformada da Escriptura é muitas vezes apresentada -sob uma fórma que não a põe em immediata connexão com -o impulso preponderante no movimento da Reforma. Os reformadores -deram mais credito á Biblia, o livro infallivel, do que -á palavra de uma Egreja fallivel. Na Edade Media os homens -appellavam para a Egreja em ultima instancia, e acceitavam as -decisões dos papas e dos concilios como constituindo a ultima -palavra em todas as controversias sobre a doutrina e a moral; -os reformadores substituiram a Egreja, isto é, as decisões dos -concilios e dos papas, pela Biblia, e ensinaram que era para -ella que se devia appellar em ultima instancia. Este modo de -expôr a differença entre os reformadores e os seus antagonistas -teve uma expressão mais concisa no dito de Chillingworth, famoso -theologo inglez, de que a Biblia, e só a Biblia, é a religião -dos protestantes.</p> - -<p>Tudo isto é verdade, e, comtudo, não é a inteira verdade, podendo, -portanto, dar logar a uma noção erronea. Os catholicos -romanos e os protestantes não dão o mesmo sentido á palavra -Biblia, e essa differença de sentido traz á luz uma verdade que -é algumas vezes esquecida. Quando os catholicos romanos fallam -da Biblia querem dizer uma coisa, e quando os protestantes -fallam da Biblia querem dizer outra, e n’esta differença no emprego -da palavra está uma parte importantissima da doutrina -reformada da Escriptura.</p> - -<p>A Egreja medieval não se oppunha, em regra, a que o povo -lesse a Biblia para sua edificação. Era, pelo contrario, uma maxima<span class="pagenum"><a name="Page_229" id="Page_229">[229]</a></span> -na theologia da Edade Media que todo o systema doutrinal -da Egreja se fundava na Palavra de Deus. Thomaz de -Aquino, a maior auctoridade entre os theologos medievaes, diz -expressamente, no principio da sua importante obra, A <i>summula -da theologia</i>, que todo o circulo da doutrina christã se apoia na -Escriptura, que é a Palavra de Deus. Durante a Edade Media -fizeram-se continuamente traducções das Escripturas nas linguas -dos povos da Europa; é um perfeito erro suppôr-se que as -primeiras traducções da Biblia se fizeram durante o tempo da -Reforma; em regra geral, animava-se o povo a ler e estudar as -Escripturas. Nos primeiros periodos da controversia reformada, -os arguentes catholicos romanos recorriam tanto á Biblia como -Luthero e os que estavam do seu lado. Estava guardado para -a Egreja Catholica posterior á Reforma o prohibir aos leigos a -leitura da Palavra de Deus.</p> - -<p class="tb"><b>A doutrina medieval da Escriptura.</b>—Os theologos medievaes -faziam, comtudo, da Biblia um uso muito differente de aquelle -que os protestantes faziam, e na controversia protestante a -differença de sentido não tardou em fazer-se notar. Os theologos -da Edade Media jámais consideraram a Biblia um meio de -graça; tinham-n’a na conta de um livro cheio de informações, -divinas informações, ácerca da doutrina e da moral. Era para -elles um repositorio de verdades doutrinarias e preceitos moraes, -e mais nada.</p> - -<p>Os protestantes vêem n’ella um repositorio de verdades -infalliveis, mas vêem mais alguma coisa. É um meio de graça. -Crêem que os homens alcançam com a simples leitura da Biblia -não só instrucção como tambem communhão com Deus, não só -o conhecimento de Deus como tambem intimidade com Elle. -Não se limita a apresentar verdades novas ácerca das coisas -divinas; excita para a vida espiritual. É para o protestante -tudo o que era para o theologo da Edade Media, e é mais alguma -coisa. É um tão efficaz estimulo de fé e vida santa como os sacramentos, -ou a oração ou o culto. Mediante um diligente uso -da Biblia, os homens, na opinião dos theologos protestantes, -não sómente adquirem o conhecimento de Deus; podem tornar-se -participantes de aquella bemdita communhão entre Deus e o -Seu povo de que a Biblia faz menção.</p> - -<p class="tb"><b>O quadruplo sentido da Escriptura.</b>—Esta noção medieval -ácerca da Biblia—que ella é um repositorio de informações -ácerca das doutrinas e da moral, e nada mais—encontra uma -seria difficuldade: é que similhante descripção não parece ser -applicavel a uma grande parte de Biblia. As Escripturas conteem -longas listas de genealogias, capitulos que tratam quasi exclusivamente<span class="pagenum"><a name="Page_230" id="Page_230">[230]</a></span> -dos utensilios do templo, ou são descripções da vida -humana, ou da historia nacional. N’essas porções da Biblia, que -constituem uma não pequena parte d’ella, não parece haver -muita informação doutrinal ou muitas regras para uma vida -santa, e, não obstante, são estas coisas que, segundo a definição -medieval, compõem a Biblia toda. O theologo medieval tinha, -portanto, ou de cortar o que lhe parecesse materia inapplicavel, -ou inventar alguma maneira de transformar as taboas genealogicas -em doutrinas ou preceitos moraes. Optou pela ultima d’estas -coisas, e declarou que em todas as passagens da Biblia havia -mais do que um sentido. A Biblia, disse elle, tinha um quadruplo -sentido. Havia, em primeiro logar, o sentido <i>historico</i> da passagem -lida, que era aquelle que se inferia das regras grammaticaes -e de interpretação. Seguiam-se depois os outros tres -sentidos: O <i>allegorico</i>, o <i>moral</i> e o <i>anagogico</i>. Estes varios sentidos -differiam do historico, e os expositores medievaes extrahiam -complicadas doutrinas das genealogias de Abrahão e de David, -e regras de conducta da descripção das vestes do summo sacerdote -ou da narrativa da viagem que nosso Senhor fez de Capernaum -a Naim.</p> - -<p>É algumas vezes difficil saber qual é o verdadeiro sentido -de certas passagens da Biblia, mesmo quando o leitor se occupa -simplesmente da significação historica; e a difficuldade quadruplicará, -se é verdade que cada passagem tem quatro sentidos. -Qualquer trecho da Biblia pode significar aquillo que o leitor -quizer, bastando para isso que o tome n’um sentido mystico, ou -allegorico.</p> - -<p class="tb"><b>Definição medieval da fé salvadora. A interpretação infallivel.</b>—Emquanto -os theologos medievaes faziam quasi perder a esperança -de vir a saber-se ao certo o que a Biblia dizia segundo a -sua doutrina do quadruplo sentido, uma outra theoria d’elles -tornava de summa importancia que o crente tivesse precisas -informações ácerca do contheudo da Biblia. Diziam que fé não -era confiança n’uma pessoa, mas assentimento ás informações -correctas; a fé que salva era, sustentavam elles, assentimentos -ás proposições acerca de Deus, do universo, e da alma humana, -contidas na Biblia. Por um lado, a sua doutrina do quadruplo -sentido tornava quasi impossivel a qualquer pessoa o -certificar-se do que a Escriptura ensinava; por outro, a sua definição -de fé salvadora tornava importantissimo, tanto no que -diz respeito a esta vida, como no que diz respeito á futura, que -cada um tivesse noções claras e exactas do texto biblico. E assim -a Egreja medieval era obrigada a asseverar que havia, não indicada -por ella, uma maneira auctorizada de interpretar a Biblia, -e isso conduziu-a á sua doutrina da infallibilidade das declarações -dos concilios e dos papas no tocante ao ensino da Biblia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_231" id="Page_231">[231]</a></span></p> - -<p>É escusado dizer que, se a Biblia é por si propria de duvidosa -interpretação, e se é essencial para a salvação que o crente -possua uma verdadeira e correcta interpretação a que possa dar -o seu assentimento, o que fornecer uma interpretação infallivel -tem mais valor do que aquillo que é interpretado. E foi isso o -que effectivamente succedeu. As decisões dos concilios e dos -papas, e a tradicional e auctorizada interpretação da Biblia pela -Egreja, adquiriram mais valor pratico do que a propria Biblia. -Os homens que consultassem simplesmente a Biblia podiam cair -no erro, e cair no erro era a morte; aquelles que confiassem na -interpretação biblica da Egreja nunca seriam induzidos ao erro.</p> - -<p>Tudo isto, porém, tornava impossivel que a Biblia fosse um -meio de communhão entre Deus e o homem. Entre a Biblia e o -crente collocavam os theologos medievaes as opiniões dos concilios -e dos papas, ou, n’uma palavra, a Egreja. A Egreja interceptava -o caminho para Deus mediante a Sua Palavra interpondo-se -ella propria e a sua auctorizada interpretação entre o -crente e a Biblia.</p> - -<p>Os reformadores, anhelando pela communhão com Deus, e -sabendo por aquillo que o seu espirito havia experimentado que -era possivel têl-a mediante a simples leitura da Biblia, compenetraram-se -do dever de deitar abaixo essa barreira, e assim o -fizeram. Essa barreira, porém, não podia ser derrubada simplesmente -com o dizer-se que a Biblia, e não as tradições da Egreja, -é que era a guia infallivel. A Biblia como os catholicos romanos -a entendiam, essa Biblia que expunha apenas preceitos de doutrina -e de moral, e cujas passagens tinham quatro sentidos, era -simplesmente um livro embaraçoso. Os reformadores tinham -de mostrar a Biblia atravez de outro prisma para que podessem -dizer que era infallivel e que era o arbitro supremo em todas as -controversias.</p> - -<p class="tb"><b>Os reformadores e a Biblia.</b>—Deram á Biblia a significação -que ella realmente tinha. Deus havia-lhes fallado por meio d’ella. -O Deus pessoal, que os creara e que os remira, havia-lhes fallado -nas paginas da Biblia, e tornara-os scientes do Seu poder -e da Sua vontade de salvar. A linguagem era algumas vezes -obscura, mas encontraram outras passagens mais claras, e os -pontos faceis explicaram-lhes os difficeis. Podia ser que os homens -simples não a comprehendessem toda, não soubessem ligar todas -as suas asserções de modo a constituir um encadeado systema -de theologia; mas toda a gente, fosse ou não fosse theologa, -podia ouvir a voz de seu Pae, inteirar-se do proposito do seu -Redemptor e ter fé nas promessas do seu Senhor. Seria uma boa -idéa fazer uma selecção de textos e formar o systema de theologia -protestante que tornasse as coisas mais comprehensiveis; -mas o essencial era ouvir o Deus pessoal e obedecer-Lhe; era<span class="pagenum"><a name="Page_232" id="Page_232">[232]</a></span> -Elle fallar-lhes como em todos os seculos fallou ao Seu povo, -promettendo-lhes a salvação, ora directamente, ora mediante a -narrativa do Seu procedimento com o povo escolhido ou com -homens excepcionalmente favorecidos. Detalhe algum de vida, -nacional ou individual, era inutil; pois que ajudava a completar -o quadro da communhão entre Deus e o Seu povo de outr’ora, -esse povo que havia de reviver n’elles e perpetuar assim o grato -sentimento de communhão com o Deus da alliança, bastando -para isso que tivessem a mesma fé dos santos do Antigo e Novo -Testamentos.</p> - -<p>Animados, como estavam, d’estas idéas, a Biblia não podia -ser para elles o que era para os theologos medievaes. Deixava -de existir o quadruplo sentido. A Biblia era Deus fallando com -elles, um Pae fallando com Seus filhos, do mesmo modo que um -homem falla com os seus similhantes; e ficava subsistindo apenas -o sentido manifesto, o sentido historico. Era mais do que -um repositorio de doutrinas e de regras de moral; era, acima -de tudo, uma memoria e uma descripção da bemdita communhão -que os santos haviam tido com o Deus dos pactos desde a primeira -revelação da promessa. A fé era mais do que um frio -assentimento ás verdades concernentes á doutrina e á moral; -era uma confiança pessoal no Salvador pessoal que Se lhes dirigia -por meio da Biblia.</p> - -<p>Deram-se, por conseguinte, pressa em traduzir a Biblia em -todas as linguas, e collocar a Biblia nas mãos de todos, e declararam -que um homem que possuisse a Biblia, isto é, que ouvisse -a voz de Deus, estava mais ao facto do caminho da salvação do -que os concilios e os papas sem ella.</p> - -<p>A sua doutrina, que era fructo de tudo aquillo que elles -haviam espiritualmente experimentado, inculcava que o anhelo -pela communhão com Deus era satisfeito mediante a leitura e -prégação da Palavra de Deus. A Biblia porporcionava aos homens -o encontrarem-se na presença de Deus e ouvirem as Suas -palavras de conforto.</p> - -<p class="tb"><b>A doutrina reformada da justificação, em contraste com a medieval.</b>—O -segundo grande principio da theologia da Reforma é, por -consenso universal, a doutrina da justificação pela fé sómente. -Pode-se tambem pôl-a em directa connexão com o principio fundamental -da Reforma, o sacerdocio de todos os crentes, ou o direito -de accesso, promettido na Palavra de Deus, á Sua presença.</p> - -<p>Ao contrastar a doutrina reformada com a medieval no -tocante á justificação, occorre a mesma difficuldade com que -já deparámos no contraste entre as duas doutrinas ácerca da -Escriptura. Diz-se vulgarmente que os reformadores apregoaram -uma justificação pela fé sómente, ao passo que os seus antagonistas -apregoaram uma justificação pelas obras; mas, posto<span class="pagenum"><a name="Page_233" id="Page_233">[233]</a></span> -que isto seja perfeitamente verdadeiro, devemos lembrar-nos de -que a palavra «justificação» é usada em dois sentidos distinctos -pelos dois disputantes.</p> - -<p>Para os theologos medievaes, <i>justificar</i> significa tornar justo; -para os reformadores significa declarar justo. Para aquelles é -uma operação que se faz durante um certo tempo; para estes é -um acto momentaneo, é um acto da livre graça de Deus, pelo -qual Elle perdoa todos os nossos peccados e nos acceita como -justos a Seus olhos. Para aquelles é uma obra de purificação do -peccado, uma obra de santidade; para estes é a formação de um -juizo, ou, como os theologicos dizem, um acto <i>forense</i>. Os reformadores -viram que os theologos medievaes empregavam a palavra -justificação no sentido mencionado, e trataram de apresentar -a sua outra significação. E justificaram esse seu procedimento -dizendo que o sentido que deram ao termo é o que o -Novo Testamento lhe dá, pois que o emprega na accepção de -acto, de sentença, de juizo, e nunca na de obra.</p> - -<p>O primeiro contraste não é, portanto, entre a justificação -medieval e a doutrina da Reforma, mas entre a doutrina reformada -da justificação pela fé e a que lhe corresponde na Egreja -medieval. Justificação, na theologia reformada, quer dizer o -acto de perdoar e de acceitar como justo; corresponde a essa -doutrina, na egreja medieval, a da absolvição dada pelos padres, -pois que era o unico modo como poderia ser concedido o perdão -dos peccados.</p> - -<p class="tb"><b>A absolvição clerical e a justificação pela fé.</b>—Segundo a theologia -da Edade Media, o perdão divino do peccado tinha sempre -de ser proferido por um sacerdote. Quando o penitente se confessasse -e se mostrasse arrependido, tanto por palavras como -por actos, o padre tinha auctorização para pronunciar a sentença -absolutoria, e essa sentença era acceite como sendo proferida -pelo proprio Deus, pois que o clero era o orgão mediante -o qual, e sómente mediante o qual, Deus perdoava.</p> - -<p>Luthero e os outros reformadores viram que o padre que -se suppunha occupar o logar de Deus e fallar em nome de Deus -commettia acções impias, e a consciencia disse-lhes que, em -vista de similhante facto, o perdão do padre não podia ser o -perdão de Deus. Luthero viu que um homem, munido de um -certificado de indulgencias, ia ter com um padre e recebia perdão -sem mostrar arrependimento quer por palavras quer por -obras, sem que, apparentemente, sentisse tristeza alguma no -seu coração. Viu que os padres pretendiam ser a trombeta de -Deus, e que concediam perdão em certos casos em que elle seria -negado por um Deus justo e santo.</p> - -<p>Luthero e os seus amigos tinham presenciado ou ouvido -fallar de casos em que o perdão de Deus havia sido recusado<span class="pagenum"><a name="Page_234" id="Page_234">[234]</a></span> -quando um Deus misericordioso o teria concedido. Uma successão -de papas havia castigado a cidade de Strasburgo com uma -interdicção pelo facto de ella ter tomado uma attitude na politica -allemã que não era do agrado da côrte pontificia, e durante todo -esse tempo não podia ser proferida uma palavra de perdão a -qualquer peccador contricto e arrependido. Os padres perdoavam -quando Deus não perdoava, e recusavam perdoar quando -Deus estava prompto a conceder o Seu perdão.</p> - -<p>Luthero, vendo isto, e sabendo como havia sido perdoado -por confiar simplesmente nas promessas de Deus, declarou que -o peccador pode ir ter directamente com Deus, pezaroso por -haver peccado e cheio de confiança nas promessas de Deus, e -obter d’Este o perdão. Asseverou que a não ser que se alcance -primeiramente o perdão de Deus, o do padre não tem valor -algum, e que, depois de se alcançar o perdão de Deus, o do padre -é inutil. O perdão alcançava-se indo ter com Deus, e não -indo ter com o padre e ouvindo d’elle a absolvição. A doutrina -protestante da justificação mostra o direito de accesso a Deus -para Lhe rogar perdão, e declara que padre algum está auctorizado -a interpôr-se entre Deus e o peccador arrependido. Deitou -por terra a doutrina medieval de que o perdão divino só pode -ser alcançado mediante a absolvição clerical, e de que o peccador -arrependido não se deve prostrar aos pés de Deus mas -deante do confissionario.</p> - -<p class="tb"><b>Justificação pela fé e justificação pelas obras.</b>—Segundo a theoria -medieval, antes de o perdão ser obtido pela fórma ordinaria, -mediante a absolvição sacerdotal, era indispensavel confessar -os peccados, mostrar contricção e fazer penitencia. Na confissão -o peccador deve mencionar ao padre todos os peccados que -commetteu desde a ultima vez que se confessou, e n’este catalogo -de peccados não se deve faltar a um só pormenor. Peccado -algum pode ser perdoado sem que se tenha feito menção d’elle. -A confissão deve ser mecanicamente completa. Em seguida á -confissão vem a contricção, ou a dôr por haver offendido a Deus, -e esta, segundo a doutrina medieval, deve manifestar-se de -certos modos esteriotypados que a Egreja tem sanccionado. -Depois, e só depois, é que é possivel a absolvição, quer dizer, o -perdão.</p> - -<p>A Egreja da Edade Media collocava duas coisas entre o -peccador e o perdão divino proferido pelo sacerdote: uma completa -confissão, mecanicamente feita, em se que fizesse menção -de todos os peccados cujo perdão se desejava, e uma contricção -manifestada de certos modos estabelecidos, taes como a recitação -de um grande numero de orações, a abstenção da comida, -etc., e a absolvição dependia da automatica integridade da confissão -e da contricção.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_235" id="Page_235">[235]</a></span></p> - -<p>Os reformadores tinham a convicção de que o peccado era -uma coisa séria de mais para que o seu perdão dependesse de -uma completa confissão, e de uma contricção exteriormente manifestada. -Deus perdoava por amor de Christo, não em virtude -de uma completa confissão ou de uma perfeita contricção. Declararam, -por consequencia, que, posto que o peccador deva -confessar os seus peccados, e esforçar-se seriamente por se -conservar no caminho da obediencia, o perdão depende da soberana -graça de Deus, revelada em Christo.</p> - -<p>Tornou-se-lhes evidente a necessidade de derrubar os obstaculos -que a Egreja medieval havia erguido entre Deus e o -homem, e que eram constituidos pela confissão mecanica, e -pela contricção, ou penitencia. O arrependimento sincero, o arrependimento -do coração, é que era de grande importancia, porque -abrangia confissão, contricção e confiança; e Deus, á vista -d’estas coisas, perdoava por amor de Christo.</p> - -<p>Justificação pela fé, portanto, significa que o peccador contricto -pode dirigir-se immediatamente a Deus, confiando na -consummada obra de Christo, e alcançar o perdão sem a intervenção -de padres ou de uma serie de rotineiras ceremonias. -Deus perdoa em attenção áquillo que Christo fez, não em attenção -áquillo que nós possamos fazer; e, desde que o perdão se -alcança mediante a obra de Christo, e não pelo nossos esforços, -pode ser, e é, dado no principio da carreira christã, não sendo -necessario esperar penosamente por elle até ao fim, como uma -doutrina de justificação pelas obras implicaria.</p> - -<p>A doutrina da justificação pela fé, segunda columna da theologia -reformada, provém de aquelle anhelo pela approximação -de Deus, ponto de apoio da Reforma. Significa que o peccador -que se sente arrependido, e tem confiança nas promessas de -Deus, pode ir immediatamente implorar-Lhe o perdão e obtel-o -sem interferencias clericaes e sem o cumprimento de praticas -mecanicas.</p> - -<p class="tb"><b>Conclusão.</b>—A Reforma, que foi uma grande revivificação -da religião, tendo por base principal o anhelo pela presença de -Deus, a Quem só era possivel chegar-se mediante o arrependimento -e a confissão, acompanhados de plena confiança nas Suas -promessas, aconselhava, pois, os crentes a terem communhão -com Elle por intermedio da Biblia, e a rogarem o perdão prostrados -junto do escabello de Seus pés, e derrubou as barreiras -que foram erguidas pela Egreja politica da Edade Media em frente -da livre e soberana graça de Deus. A nova espiritualidade que -animava os reformadores e os seus adherentes tinha, alimentada -pela Palavra de Deus, e ensinada pelo Seu Espirito, desabrochado -por todos os lados, dando logar a uma theologia reformada, -onde a doutrina da predestinação substituiu a theoria da<span class="pagenum"><a name="Page_236" id="Page_236">[236]</a></span> -communhão com Deus por intervenção do papa e dos seus bispos -onde a theoria dos sacramentos foi purificada pela doutrina -do Espirito Santo, onde as Escripturas arbitravam em todas as -controversias, e onde o perdão era proferido por Deus, e não -pelo homem; e em todas as suas ramificações se encontra como -idéa predominante o sacerdocio espiritual conferido por Deus -a todos os crentes.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_237" id="Page_237">[237]</a></span></p> - -<h2 id="SUMMARIO_CHRONOLOGICO">SUMMARIO CHRONOLOGICO</h2> - -<p><span class="pagenum-left"><a name="Page_238" id="Page_238">[238]</a></span></p> -<p><span class="pagenum"><a name="Page_239" id="Page_239">[239]</a></span></p> - -<table summary="Summario chronologico" class="big"> - <tr> - <th>Acontecimentos contemporaneos</th> - <th>Egreja Lutherana</th> - <th>Egreja Reformada</th> - <th>Movimentos Revolucionarios</th> - <th>A Egreja Catholica Romana</th> - <th>Theologia Protestante</th> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1493-1515.—Jan. 12, Maximiliano <span - class="smcapuc">I</span>. Imperador. Por sua morte ficou como - vice-rei Frederico, o Sabio, da Saxonia (1480-1525).</p> - - <p class="hanging">1499-1535.—O eleitor Joaquim <span - class="smcapuc">I</span> (Nestor) de Brandenburgo.</p> - - <p class="hanging">1500-1539.—O duque Jorge da Saxonia.</p> - - <p class="hanging">1509-1547.—Henrique <span - class="smcapuc">VIII</span> de Inglaterra.</p> - - <p class="hanging">1515-1547.—Francisco <span - class="smcapuc">I</span> de França.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1517.—Out. 31. <span class="smcap">Martinho - Luthero</span> (nascido em 10 de Nov. de 1483, em Eisleben; - 1497, estudando latim em Magdeburgo; 1499, em Eisenach (Frau - Cotta, f. em 1511); 1501, em Erfurt; 1505, mestre de artes; - 17 de Julho, entrou para o convento doa agostinhos, em - Erfurt; 1508, professor em Wittenberg; 1510, em Roma; 19 de - Out. de 1562, doutor em theologia) pregou 95 theses contra o - abuso das indulgencias na egreja do castello de Wittenberg. - Contra-theses de João Tetzel, compostas por Conrado - Wimpina.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging"><span class="smcap">Ulrico - Zwinglio</span>: nascido em 1 de Jan. de 1484, em Wildhaus, - no condado de Toggenburgo; discipulo de Henrique Wolflin - (Lupulus) em Berne; de Thomaz Wyttenbach, em Basiléa. 1499, - discipulo de Joaquim Vadianus em Vienna; 1506, mestre de - artes; 1506-16, pastor em Glarus; 1516-18, prégador em Santa - Maria, Einsiedeln.</p> - - <p>(Diebold de Geroldseck e o abbade Conrado de - Rechenberg).</p> - </td> - <td> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">11 de Março de 1513 a 1 de Dez. de - 1521.—Leão <span class="smcapuc">X</span>.</p> - - <p class="hanging">1517.—O Concilio de Latrão concede ao papa - os dizimos de todos os bens ecclesiasticos.</p> - - <p>Indulgencia (a quinta entre 1500 e 1517) para a - construcção de S. Pedro, e para as despezas particulares do - papa.</p> - - <p>São concedidas á Allemanha tres commissões de - indulgencias, uma d’ellas arrendada ao arcebispo de Mayença - (canonisado em 1514) sendo seu agente o dominicano João - Tetzel (fallecido em 1519).</p> - - <p>Thomaz Vio de Gaeta (Cardeal Caetano): «A Egreja Catholica - é a escrava do papa»; assevera a infallibilidade papal no - mais amplo sentido.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging"><span class="smcap">Filippe - Melanchthon</span> (nasc. em 16 de Fev. de 1497, em Bretten); - 1509-12, em Heidelberg; 1512-14, em Tübingen; 1514, mestre - de artes; 1514-18, lecciona em Tübingen; 1518, professor de - grego em Wittenberg; 29 de Ago. Conferencia introductora, - <i>De corrigendis adolescentiæ studiis</i>; 19 de Set. de 1519. - Bacharel em Theologia; fall. em 19 de Abr. de 1560. <b>Loci - communes rerum Theologicarum, seu hypotyposes Theologicæ</b>, - 1521; tres edições em 1521; a edição de 1525 modifica a - predestinação absoluta; a edição de 1535 reconstrue a sua - theologia; edição de 1543, Synergismo.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1518-1567.—Filippe, o Magnanimo, de Hesse. - (Nasc. em 1504).</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1518.—Silvestre Mazzolini de Prierio: - <i>Dialogos in proesumptuosas M. L. Conclusiones de potestate - Papae; Resp. ad Silv. Prier.</i>, de Luthero.</p> - - <p>26 Abril, Luthero na Polemica do Heidelberg.</p> - - <p>Ago.: Citado para comparecer em Roma.</p> - - <p>25 Ago.: Melanchthon em Wittenberg.</p> - - <p>13-15 de Out.: Luthero em Augsburgo, perante o cardeal - Thomaz Vio de Gaeta: sua appellação <i>a papa male informato ad - melius informandum</i>.</p> - - <p>Nov.: <i>O sacramento da Penitencia</i>, de Luthero.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1518.—Zwinglio contra a indulgencia - prégada por Bernardino Sampson (Guardião do convento - franciscano de Milão.)</p> - </td> - <td> - </td> - </tr> - <tr> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">1519.—Junho, <i>Carlos V, (Rei de Hespanha - desde 1516)</i>—27 de Agosto de 1556, <i>Imperador da Allemanha - (fall. em 1558)</i>.</p> - - <p class="hanging">1519-1566.—O sultão Suliman <span - class="smcapuc">I</span>.</p> - - <p class="hanging">1519-1521.—Fernando Cortez descobre e - conquista o Mexico.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">1519.—Jan.: Entrevista de Luthero com - Carlos de Miltitz, camarista do papa, em Altenburgo; - Treguas.</p> - - <p>27 de Jun. a 16 de Jul.: Polemica em <span - class="smcap">Leipsic</span>: (i) entre Eck e Carlstadt, - sobre a doutrina do Livre Arbitrio; (ii) entre Eck e Luthero, - <i>De primeto Papae</i>.</p> - - <p>A controversia já não é sobre pontos de theologia - ecclesiastica; abrange toda a roda dos principios - ecclesiasticos. Ruptura com a christandade romana.</p> - - <p>A doutrina do sacerdocio de todos os crentes.</p> - - <p>A liberdade christã e o direito do juizo particular.</p> - - <p>Sermões de Luthero sobre os sacramentos do arrependimento - e do baptismo, e sobre a excommunhão.</p> - - <p>Pedido para que na Ceia do Senhor se fizesse uso dos dois - elementos.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">1519.—1 de Jan., Zwinglio prega o seu - primeiro sermão em Zurich; sermões sobre o Evangelho da - S. Matheus, os Actos e as Epistolas de Paulo; sermões - reformistas, expondo uma clara distincção entre o - christianismo biblico e o romanista; Estudo humanista da - Escriptura (Epistolas Paulinas).</p> - </td> - <td> - </td> - <td> - <p class="hanging">1519.—As côrtes de Aragão pedem - tres Breves a Leão <span class="smcapuc">X</span> (que - nunca lhe foram enviadas) para restringir a Inquisição. - Pedidos similhantes, tambem infructiferos, feitos pelos - estados de Aragão, Castella e Catalunha, a Carlos <span - class="smcapuc">V</span> em 1516.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging"><span class="smcap">Zwinglio</span>: - <i>Commentarius de vera et falsa religione</i>, 1525; <i>Fidei - ratio ad Carolun Imperatorem</i>, 3 de Jul. de 1530; <i>Sermonis - de providentia Dei Anamnemo</i>; 1530; <i>Christianæ Fidei - expositio</i>, 1531.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="center"><i>Os Mysticos</i></p> - - <p class="hanging">A Nova Prophecia, o Espiritualismo, o - Millenearismo, uma Congregação dos perfeitamente santos, - opposição ao baptismo de creanças.</p> - - <p>Primeiro periodo até 1535.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="center"><i>Os theologos romanistas no primeiro - periodo da Reforma.</i></p> - - <p class="hanging">João Eck, professor de theologia em - Ingolstadt desde 1510; nasc. em 1486, na aldeia de Eck; fall. - em 1543.</p> - - <p class="hanging">Jeronymo Emser, prégador palaciano do - duque Jorge da Saxonia, fall. em 1527.</p> - - <p class="hanging">João Cochlæus (Dobeneck), deão de - Francfort sobre o Maine, Canonicus em Mayença e Breslau; - fall. em 1552; <i>Commentaria de actis et scriptis M. Lutheri</i> - (1517-46), 1549, <i>Historiæ Hussitarum</i>.</p> - - <p class="hanging">João Faber, 1518, Vigario Geral em - Constancia (Costnitz); 1529, Preboste de Ofen; 1530, Bispo de - Vienna, fall. em 1561; 1523, <i>Malleus hæreticorum</i>.</p> - </td> - <td rowspan="3"> - <p class="center">(a) <i>Theologos Lutheranos</i></p> - - <p class="hanging">Jorge Spalatim: nasc. em 1484, em Spalt, - na diocese de Eichstädt; 1514, capellão de Frederico, o - Sabio; 1525, superintendente em Altenburgo; fall. em 1545.</p> - - <p class="hanging">Justo Jonas: nasc. em 1493, em Nordhausen; - 1521, Preboste e professor em Wittenberg; 1544-46, em Halle; - 1551, superintendente em Eisfeld; fall, em 1555.</p> - - <p class="hanging">Nicolau de Amsdorf: nasc. em 1483; desde - 1502, em Wittenberg; 1524, em Magdeburgo; 1528, em Goslar; - 1542-46, bispo de Naumburgo; depois de 1550, em Eisenach; - fall. em 1565.</p> - - <p class="hanging">João Bugenhagen: nasc. em 1485; desde - 1521, em Wittenberg; 1523, pastor, 1536, superintendente - geral.</p> - - <p class="hanging">Gaspar Cruciger: 1528-48, fallecendo, em - professor, em Wittenberg.</p> - - <p class="hanging">Frederico Myconius, franciscano em - Annaberg, e depois pastor em Weimar; 1524, prégador da côrte - em Gotha; fall. em 1546.</p> - - <p class="hanging">Paulo Speratus: 1521, em Vienna, depois em - Iglau; 1523, em Wittenberg (1524, «Chegou-nos a Salvação»): - 1524, em Königsberg; 1529-51, bispo da Pomerania, em - Marienwerder.</p> - - <p class="hanging">João Brenz, nasc. em 1499: 1520, prégador - romanista em Heidelberg, 1522-46, prégador lutherano em Hall, - na Suabia; desde 1553, preboste em Stuttgart; fall. em 11 de - Setem. de 1570.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <span class="pagenum-left"><a name="Page_240" id="Page_240">[240]</a></span> - <span class="pagenum"><a name="Page_241" id="Page_241">[241]</a></span> - <p class="hanging">1520.—Magalhães faz uma viagem de - circumnavegação.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1520.—Abril: Ulrico v. Hutten (n. em 21 de - Abr. de 1488, f. em 29 de Ago. de 1523); Dialogo: Vadiscus, - ou a Trindade Romana; 15 de Jun., Bulla de excommunhão - contra 41 proposições de Luthero; o prazo de 60 dias para - retractação; 23 de Jun., a obra de Luthero, «Aos fidalgos - christãos da nação allemã, Sobre a reforma de um Estado - christão»; Out. <i>De Captivitate Eccles. Babylonic.</i>; <i>De - libertate Christiana</i> (sobre a libertação do christão); 10 de - Dez.; A queima da bulla pontificia.</p> - </td> - <td> - </td> - <td> - <p class="hanging">1521.—Os Prophetas (de Zwickau) em - Wittenberg: Nicolau Storch, Marcos Thomé, ou Stübner, - Martinho Celiarius.</p> - - <p class="hanging">André Bodenstein de Carlstadt: 1504, - professor em Wittenberg; 1520, em Copenhague, 1522, - tumultos por causa das imagens e dos paramentos; 1523-24, - em Orlamünde; excommungado depois no sul da Allemanha, na - Frisilandia Oriental, na Suissa; fallecido em 1541, em - Basiléa.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1521-26.—Primeira guerra entre - Carlos <span class="smcapuc">V</span> e Francisco <span - class="smcapuc">I</span>.</p> - - <p class="hanging">1525.—Batalha de Pavia.</p> - - <p class="hanging">1526.—Paz de Madrid.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1520.—17 e 18 de Abr., <b>Luthero na Dieta - de Worms</b>; 26 de Abr., retira-se de Worms; Março 3 a Maio - 4 de 1522, em Wartburgo (Em Dez. principio a traducção do - N. T.)—Tratados: <i>Sobre a Penitencia</i>, <i>Contra as missas - particulares</i>, <i>Contra os votos clericaes e monacaes</i>, <i>O - commentador allemão</i>.</p> - - <p>26 de Maio, Edicto de Worms, falsamente datado do 8 de - Maio.</p> - - <p>28 do Maio, Decreto Imperial contra Luthero.</p> - - <p>Junho: Carlstadt contra o celíbato.</p> - - <p>Out.: É abolida a missa em Wittenberg, pelos frades - agostinhos (Gabriel Didymus).</p> - - <p>Dez. As innovações de Carlstadt.</p> - - <p>25 de Dez.: A Ceia do Senhor nas duas especies.</p> - - <p>27 de Dez.: Os prophetas em Wittenberg.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging"><span class="smcap">Em França</span>, - propaganda das doutrinas reformadas por Guilherme Briçonnet, - bispo de Meaux desde 1521. Juntamente com Le Fébre e - Farel.</p> - - <p class="hanging">1521.—Cornelio Hoën, jurisconsulto - allemão, escreve <i>De Eucharistia</i> (a Ceia do Senhor puramente - symbolica); a doutrina é introduzida em Wittenberg e em - Zurich por João Rhodius, presidente da Casa dos Irmãos, em - Utrecht.</p> - </td> - <td> - </td> - <td> - <p class="hanging">1521.—Henrique <span - class="smcapuc">VIII</span> de Inglaterra: <i>Assertatio VII. - Sacramentorum contra Lutherum</i> (Defensor da Fé.)</p> - - <p>15 de Abril, Decreto da Sorbonne, condemnando as doutrinas - de Luthero.</p> - - <p>8 de Maio, Edito de Carlos <span class="smcapuc">V</span>. - (fundado no edito de Worms) contra a propaganda das doutrinas - reformadas nos Paizes Baixos.</p> - - <p>(1522, é encerrado, sobre o fundamento de heresia, o - convento dos Agostinhos de Antuerpia).</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - </td> - <td> - <p class="hanging">1522.—Fev.: Tumultos em Wittenberg contra - as imagens e as pinturas.</p> - - <p>7 de Maio: Luthero novamente em Wittenberg.</p> - - <p>9-16 de Maio: Sermões contra o fanatismo.</p> - - <p>Julho: <i>Contra Henricum regem Angliæ.</i></p> - - <p>Set.: Fica prompta a traducçao do N. T. (a Biblia completa - em 1534).</p> - - <p>Dez.: Dieta em Nürnberg. Os Cem aggravos dos estadas - allemães, em resposta ao Breve de Adriano <span - class="smcapuc">VI</span>, de 26 de Nov.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1522.—16 de Abr. Zwinglio: <i>Von Erkiesen - und Fryheit der Spysen</i>; Ago.: <i>Apologeticus Archeteles</i>, ao - bispo de Constança.</p> - - <p>A theologia zwingliana torna-se gradualmente a mais forte - nos Paizes Baixos.</p> - - <p class="hanging">1522-23.—A Reforma vence na Pomerania, - na Livonia, na Silesia, na Prussia, no Mecklenburgo; na - Frisilandia Oriental desde 1519; 1523, em Frankfort sobre - o Maine, em Hall, na Suabia; 1524, Ulm, Strasburg, Bremen, - Nürnberg.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1523.—Conrado Grebel, Felix Manz, e - Stumpf. em Zurich, contra Zwinglio.</p> - - <p class="hanging">1524.—Alterações da ordem em Stockholmo; - Melchior Hoffmann.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1522-23.—14 de Set. O papa Adriano - <span class="smcapuc">VI</span> (tutor de Carlos <span - class="smcapuc">V</span>, bispo de Utrecht) instruido na - sciencia antiga; aspiração por uma reforma do clero mediante - a hierarquia.</p> - - <p>Em Hespanha, desde 1520 circulação dos escriptos de - Luthero, em traducções hespanholas feitas em Antuerpia.</p> - - <p class="hanging">1523.—João de Avila o «apostolo de - Andaluzia», é perseguido por ter adoptado as doutrinas - lutheranas.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="center">(<i>b</i>) <i>Os Theologos Zwinglianos</i></p> - - <p class="hanging">João Œcolampadius, nasc. em 1488; 1515, - pastor em Basiléa; 1519, em Augsburgo; 1522 professor e - prégador em Basiléa; fall. em 24 de Nov. de 1531.</p> - - <p class="hanging">Leão Judæus: 1523, cura de S. Pedro, em - Zurich; nasc. em 1482; fall. em 1542.</p> - - <p class="hanging">Oswaldo Myconius (Geisshüsler) nasc. em - 1483, em Lucerna; fall. em 1532; 14 de Out. de 1552, os - Antistites em Basiléa.</p> - - <p class="hanging">Conrado Pellican (Kürsner): nasc. em - 1478; 1493, franciscano; desde 1502, Lector no convento dos - Franciscanos de Basiléa; 1527, em Zurich, como professor de - hebreu; fall. em 1556.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <span class="pagenum-left"><a name="Page_242" id="Page_242">[242]</a></span> - <span class="pagenum"><a name="Page_243" id="Page_243">[243]</a></span> - - <p class="hanging">1523-33.—Frederico <span - class="smcapuc">I</span> da Dinamarca.</p> - - <p class="hanging">1523-60.—Gustavo Vasa, da Suecia.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1523.—1 de Jul., Henrique Voes e João - Esch (agostinhos) são queimados em Bruxellas; os primeiros - martyres.</p> - - <p>Gustavo Vasa estabelece a Reforma na Suecia (Olaf e - Lourenço Petersen, Lourenço Andersen).</p> - - <p>7 de Maio, assassinio de Sickingen; revolta dos nobres, - suffocada pelos principes.</p> - - <p>Luthero: <b>Da Ordem do Culto Publico</b>: Dec.: <i>Formula - Missæ</i> (A Ceia do Senhor <i>sub utraque</i>).</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1523.—29 de Jan. Discussão em Zurich, - entre Zwinglio e João Faber, vigario geral do bispo; as 67 - theses de Zwinglio.</p> - - <p>26 de Out., Discussão em Zurich ácerca do culto das - imagens e da missa.</p> - - <p>17 de Nov., Instrucção do Concilio de Zurich aos pastores - e prégadores.</p> - </td> - <td> - </td> - <td> - <p class="hanging">1523-34.—26 de Set. O papa Clemente <span - class="smcapuc">VII</span> (Julio Medici) filho natural de - Julião de Medico.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - </td> - <td> - <p class="hanging">1524.—<i>O primeiro hymnario allemão.</i></p> - - <p>Maio a Jun. de 1525, <span class="smcap">A guerra - dos Camponezes</span>; os camponezes são massacrados em - Frankenhausen. (Os doze Artigos de João Henglin).</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1524.—Perfeita reforma esclesiastica em - Zurich; os quadros das egrejas são arreados; os conventos dos - frades são encerrados.</p> - - <p>Victoria da Reforma em Berne (Berchtholdt Haller. Nic. - Manuel), Appenzell, Solothurn; a Liga Romanista e os Cantões - Florestaes de Lucerna.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">1525.—Thomaz Münzer em Mülhausen; - executado em Maio de 1525.</p> - - <p>Tratado: <i>Wider das geistlose sanftlebende Fleisch ze - Wittenberg</i>, 1522.</p> - - <p>Janeiro: Levantamento dos anabaptistas; Jürg Blaurock, - monge proveniente de Chur.</p> - - <p>Severa perseguição dos anabaptistas (Hanz morre afogado - em Zurich, em 1527; Balth. Hubmater é queimado em Vienna, em - 1528; Hetzer é decapitado em Constancia em 1529).</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">1524.—O cardeal Campeggio, legado do papa - na Dieta de Nürnberg.</p> - - <p>Liga, em Regensburgo, dos Estados Catholicos Romanos do - Sul da Allemanha (Fernando de Austria, os duques da Baviera - e os bispos do sul da Allemanha) Condições: Uma reforma - ecclesiastica dentro de certo limites, e uma alliança com o - poder civil; não se permitindo, porém, que continuem a ser - prégadas as novas doutrinas.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="center">(c) <i>Theologos intermediarios</i></p> - - <p class="hanging">Urbano Rhegius: nasc. em 1496, em Argau - sobre o Bodensee; 1512, professor em Ingolstadt; 1519, padre - em Constança; 1520-22, prégador em Augsburgo; desde 1530, - reformador em Brunswick, ao serviço do duque Ernesto; fall. - em Celle, em 23 de Maio de 1541.</p> - - <p class="hanging">Ambrosio Blaurer: nasc. em 1492, em - Constança; 1534-38, reformador em Würtemberg; até 1548, em - Constança; em 1564, fall. em Winterthum (1534, <i>Concordata de - Stuttgart</i>.)</p> - - <p class="hanging">Martinho Bucer: nasc. em Sehlettstadt, em - 1491; 1505, dominicano; desde 1524, pastor em Strasburgo; - 1549, sob Eduardo <span class="smcapuc">VI</span>, em - Inglaterra e professor em Cambridge; fall. em 28 de Fev. de - 1551.</p> - - <p class="hanging">Wolfango Fabricio Capito: nasc. em 1478; - 1515, em Basiléa; 1520, em Mayença; 1523-1541, preboste de S. - Thomaz, Strasburgo, fall. em 1541.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1525.—Alberto de Brandenburgo (fall. em - 1568); chefe dos cavalleiros allemães; duque da Prussia, sob - o dominio polaco.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1525.—Jan.: Luthero, <i>Contra os prophetas - celestiaes</i>.</p> - - <p>Maio: Exhorta os principes e os camponezes a conservarem a - paz, com commentarios sobre os Doze Artigos. Depois: <i>Contra - os camponezes que roubam e assassinam</i>.</p> - - <p>13 de Junho, Desposa Catharina von Bora.</p> - - <p>Tendencia conservadora da Reforma Lutherana; separação de - elementos reformatorios.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1525.—A missa é abolida em Zurich; o culto - publico muito simples e na lingua allemã; a Ceia do Senhor - <i>sub utraque</i>.</p> - - <p>O commentario de Zwinglio, e a primeira parte da traducção - da Biblia de Zurich (primeira edição completa em 1531).</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1525-32.—O Eleitor João, o Constante, da - Saxonia (irmão de Frederico, o sabio).</p> - - <p class="hanging">1526.—Ago. 29: Luiz, rei da Hungria e da - Bohemia, morre em Mohacz, em combate com os turcos.</p> - - <p>O seu successor, Fernando de Austria (Em Out., rei eleito - da Bohemia), tem de defender os seus direitos á Hungria, em - detrimento dos turcos.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1525.—Dez.: Luthero, <i>De Servo Arbitrio</i> - (a mais estricta predestinação supralapsariana) contra - Erasmo, Διατριβὴ <i>de libero arbitrio</i>, Set. 1524.</p> - - <p class="hanging">1526.—Maio 4: Liga, em Torgau, entre - Filippe de Hesse e João, o Constante, a que adheriram em - Junho, em Magdeburgo, outros principaes evangelicos.</p> - - <p>Junho 26, Liga, em Dessau, de principes catholicos romanos - do sul da Allemanha.</p> - - <p>Junho e Julho, Dieta em Spira «Em materias de religião - cada Estado deve conduzir-se de uma maneira digna para com - Deus e para com Sua Magestade Imperial.»</p> - - <p>Out. 20, Synodo em Homberg; Ordem ecclesiastica de Besse, - instituida por Francisco Lambert (nasc. em 1487, em Avignon; - Franciscano; em 1525 fugiu para a Allemanha; 1527, professor - em Marburgo; fallec. em 1539); incondicional independencia da - communidade christã, e estricta disciplina ecclesiastica.</p> - - <p class="hanging"><b>Luthero.</b>—Missa allemã; ordem do - culto publico.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">Zwinglio expôe detalhadamente o que pensa - ácerca da Ceia do Senhor.</p> - - <p>(Carlstadt torna publica, no sul da Allemanha, a sua - theoria da Ceia de Senhor, δεικτικῶς: Este meu Corpo, é o - Corpo, etc.)</p> - - <p class="hanging">Zwinglio a Matheus Alber em Reutlingen, - 16 de Nov. de 1524, <i>Menducatio spiritualis</i>; depois no seu - commentario.</p> - - <p class="hanging"><i>Contra</i> Zwinglio: Bugenhagen.</p> - - <p><i>A favor</i> de Zwinglio: Œcolampadius.</p> - - <p class="hanging">O Syngramma Suevicum, 1525, (em Hall), por - Brenz, Schrepf, Griebler, etc., e mais tarde Calvino.</p> - - <p class="hanging">Luthero contra Calvino—(1) no seu prefacio - á traducção de Agricola do Syngramma Suevicum; (2) em 1527 - «Que a Palavra» etc.</p> - - <p class="hanging">Principios ecclesiasticos e politicos de - Zwinglio; a sua reforma politica na Suissa; liga politica dos - cantões florestaes catholicos romanos para conservarem a sua - supremacia.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging"><i>Melchior Hoffmann</i>: nasc. em Hall, - na Suabia; 1523, em Livonia; 1527, em Holstein; 1529, em - Strasburgo; de ahi foi para a Frisilandia, onde se aggregou - aos baptistas; depois nos Paizes Baixos; 1533, em Strasburgo; - fall. em 1540. (<i>Ordinanz Gottes</i>): um estricto millenario do - genero mais espiritual; propaga entre os baptistas as idéas - millenarias.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1524.—Pedro Caraffa, bispo de Theate (Papa - Paulo <span class="smcapuc">IV</span>) institue a Ordem dos - Theatini para impedir o avanço da Reforma.</p> - - <p class="hanging">1526.—Maio 29: Liga em Cognac contra - Carlos <span class="smcapuc">V</span> (o papa, Francisco - <span class="smcapuc">I</span>, Veneza e Milão).</p> - </td> - <td rowspan="6"> - <p class="center">(d) <i>Confissões Zwinglianas</i></p> - - <p class="hanging">1523.—Jan. 29, os 67 Artigos de - Zwinglio.</p> - - <p>Nov. 17, Instrucções ao Concilio de Zurich.</p> - - <p class="hanging">1530.—Julho 9, <i>Fidei Ratio ad Carolum - V</i>. (de Zwinglio com o assentimento de Œcolampadius e outros - reformadores suissos).</p> - - <p class="hanging">1530.—<i>Confessio Tetrapolitana</i> - (Strasburgo, Constança, Lindau, Memmingem): Bucer, Capito, - Hedio; durante as sessões da Dieta de Augsburgo.</p> - - <p class="hanging">1534.—<i>Confessio Basiliensio</i> - (Myconius) acceite por Mühlhausen em 1537, e chamada Conf. - Mühlhusiana.</p> - - <p class="hanging">1536.—<i>Confessio Helvetica Prior</i> (Basil - <span class="smcapuc">II</span>) redigida em Basiléa por - delegados dos cantões evangelicos, (Jan. a Março) e pelos - seus theologos Bullinger, Myconius, Grynæus, Leão Judæus, - etc.</p> - - <p class="hanging">1530.—<b>Confessio Augustana</b>, ou - Confissão de Augsburgo. Constituida por—(1) os 15 Artigos - de Marburgo; (2) os 17 Artigos de Schwabach, redigidos por - Luthero; (3) os Artigos de Torgau, compilados por Luthero, - Melanchthon, Justo Jonas, Bugenhagen, e apresentada ao - Eleitor, em Torgem, em março de 1530. Obra de Melanchthon - com a assistencia doe theologos evangelicos reunidos em - Augsburgo, e revista por Luthero.</p> - - <p>Exposição da Doutrina Evangelica, «In que cerni potest, - nihil inesse, quod discrepet a Scripturis vel ab ecclesia - catholica vel ab ecclesia Romana, quatenus ex scriptoribus - nota est.... Sed dissenus est de quibusdam abusibus, qui sine - certa auotoritate in ecclesiam irrepserunt.» Philippe de - Hesse aasignou-a, protestando, porém, contra o Artigo X, que - trata da Ceia do Senhor.</p> - - <p class="hanging">É impossivel averiguar com exactidão o - texto, quer das edições allemãs quer das latinas; a primeira - edição impressa de Melanchthon; Wittenberg, 1530, em 4.º</p> - - <p class="hanging"><i>A Variata</i> (variantes, especialmente no - Artigo X) desde 1540.</p> - - <p class="hanging"><i>Apologia em favor da Confissão de - Augsburgo.</i>—<i>A prima delineatio apologiæ</i> por Melanchthon, em - Set. de 1630, em Augsburgo; prompta a imprimir em abril de - 1531; a primeira edição em Abril de 1531; a edição allemã de - Justo Jonas, em Out. de 1531.</p> - - <p class="hanging"><i>Os artigos de Schmalkald</i>, por - Luthero, para a Convenção Protestante de Schmalkald, 1557, - e com referencia ao proposto Concilio Geral em Mantua - (Estrictamente lutherano).</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <span class="pagenum-left"><a name="Page_244" id="Page_244">[244]</a></span> - <span class="pagenum"><a name="Page_245" id="Page_245">[245]</a></span> - <p class="hanging">1527.—Saque de Roma.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">Frederico <span class="smcapuc">I</span> da Dinamarca - adhere á doutrina lutherana. (João Tausen, em Jütlandia desde - 1524).</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1526.—Os cantões catholicos romanos atacam - os evangelicos.</p> - - <p>Maio: Polemica em Baden (Eck e Œcolampadius).</p> - </td> - <td rowspan="3"> - <p class="hanging"><i>Gaspar Schwenkfeld</i>: nasc. em 1490, em - Ossing, perto de Liegnitz; ao serviço do duque de Liegnitz; - 1525, julgou ter descoberto uma interpretação das palavras - da instituição da Ceia «Quod ipse panis fractus est corpori - esurienti, nempe cibus, hoc est corpus menm, cibus videlicet - esurientium animarum;» de onde proveiu a sua doutrina ácerca - de Christo, A Palavra Escondida (<i>De cursu Verbi Dei, origine - fidei et ratione justificationis</i>, 1527); da Pessoa de - Christo (não feito homem, mas gerado pela natureza divina: da - sua carne divina); 1528, expulso da Silesia; em Strasburgo, - Spira, Ulm, Perseguido desde 1539 pelos theologos lutheranos; - em muitas controversias; fall. em 1561, em Ulm; discipulos - seus na Silesia; na Pennsylvania desde 1730.</p> - </td> - <td> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1527-29.—A segunda guerra entre - Carlos <span class="smcapuc">V</span> e Francisco <span - class="smcapuc">I</span>; Paz de Cambrai, em Agosto de - 1529.</p> - - <p class="hanging">1527.—Henrique <span - class="smcapuc">VIII</span> de Inglaterra procura - divorciar-se de Catharina do Aragão (tia de Carlos <span - class="smcapuc">V</span>); 1529, Wolsey cae no desagrado; o - chanceller Thomaz More.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1527.—Livro de Inspecção, de Melanchthon; - Gustavo Vasa propõe a Reforma á Dieta em Westeräs.</p> - - <p>Frederico <span class="smcapuc">I</span> da Dinamarca, na - Dieta de Odensee, dá á religião reformada privilegios eguaes - aos que a catholica romana tem.</p> - </td> - <td> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">1527.—Processo da Sorbonne contra Jacques - le Fêvre (fall. em 1537, durante uma viagem para Strasburgo), - sob a protecção de Margarida de Navarra.</p> - - <p class="hanging">1527.—Maio 6, Carlos de Bourbon ataca - Roma; o papa encerrado em St. Angelo até 6 de Junho. Carlos - <span class="smcapuc">V</span>, senhor de quasi todos os - Estados da Egreja, propõe o limitar-se o poder temporal - do papa. O papa appella para Inglaterra e para França; um - exercito francez equipado á custa da Inglaterra, marcha em - seu auxilio.</p> - - <p class="hanging">1528.—Jun. 29: Paz entre o Imperador e o - papa em Barcelona; o papa recupera os Estados da Egreja e - Florença; exterminio da heresia.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - </td> - <td> - <p class="hanging">1528.—Otto <span class="smcapuc">V</span>. - Informações dadas por Pack ácerca de uma Liga Catholica - romana formada em Breslau, em 1527; a Reforma propaga-se na - Noruega.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1528.—Victoria da Reforma em St. Gall - (Joaquim Vadianus, João Kessler).</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <span class="pagenum-left"><a name="Page_246" id="Page_246">[246]</a></span> - <span class="pagenum"><a name="Page_247" id="Page_247">[247]</a></span> - <p class="hanging">1529.—Set. a 14 de Out.; Suliman põe cerco - a Vienna.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1529.—26 de Fev., <b>Dieta de Spira</b>; - 12 de Abr., a decisão da maioria catholica romana dos Eleitos - e Principes «Quem quer que tem imposto o Edicto de Worms - deve continuar a fazel-o; os demais não devem permittir mais - innovações; a ninguem se deve impedir celebrar missa.» 19 de - Abr., concordam com ella as cidades.</p> - - <p class="hanging"><span class="smcap">Protesto</span>: 25 - de Abr. Appello dirigido ao imperador e ao Concilio pela - Saxonia, Hesse, Brandenburgo, Anhalt, Lüneburgo, e quatorze - cidades.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1529.—A Reforma vence em Basiléa - (Œcolampadius, Capito, Hedio).</p> - - <p>Liga de cinco cantões florestaes com a Casa de - Hapsburgo.</p> - - <p>24 de Jun., Paz de Cappel; os cantões florestaes - abandonam a Liga de Hapsburgo e reconhecem a libertade de - consciencia.</p> - </td> - <td> - </td> - <td> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - </td> - <td colspan="2"> - <p class="hanging">Separação entre os protestantes lutheranos - e os do sul da Allemanha; Luthero oppõe-se a uma resistencia - armada; Zwinglio planeia a abolição do papado e do imperio - medieval; Philippe de Hesse diligenceia promover a união.</p> - - <p class="hanging">1-4 de Out.—Conferencia religiosa em - Marburgo (Luthero, Melanchthon, Zwinglio, Œcolampadius, - Justo Jonas, Osiander, Brenz, etc.); 4 de Out., união em - quatorze artigos, divisão no quinquagesimo—O Sacramento da - Ceia. <i>Zwinglio</i>: «Não ha na terra homens com quem eu mais - gostosamente me identificaria do que os de Wittenberg.» - <i>Luthero</i>: «Vós tendes um Espirito differente do nosso.»</p> - - <p class="hanging">16 de Out., Luthero no convento de - Schwabach; 30 de Nov. em Schmalkald; a Saxonia separa-se dos - outros estados do sul da Allemanha.</p> - </td> - <td> - </td> - <td> - <p class="hanging">1530.—Congregações reformadas em - <i>Hespanha</i>. Em Sevilha: Rodrigo de Valero, Joh. Egidio, Ponce - de la Fuente. Em Valladolid, 1555, Agostinho Cazalla.</p> - - <p>Francisco Enzinas traduz o Novo Testamento; em 1556, nova - traducção por João Perez.</p> - - <p>Filippe <span class="smcapuc">II</span> e a Inquisição - condemnam essas obras.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - </td> - <td> - <p class="hanging">1530.—<b>Dieta de Augsburgo</b>; 15 de - Jan. entrada do imperador; infructiferas negociações com os - principes evangelicos para os induzir a incorporar-se na - procissão de Corpus-Christi; 20 de Jun., abertura da Dieta; - 25 de Jun. é lida a Confissão de Augsburgo (3 de Ago., é lida - a Refutação); 11 de Jul., é lida a Confissão Tetrapolitana - (em 17 de Out. a Refutação) e a <i>Fidei Ratio</i>, Zwinglio; 16 - a 29 de Ago. Negociações com Melanchthon, em que elle mostra - muito pouca firmeza.</p> - - <p>19 de Nov. Decreto da Dieta. Depois d’Abril de 1531, - suppressão violenta do protestantismo.</p> - </td> - <td> - <p>Os cantões catholicos romanos não observam as clausulas da - paz.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">1533.—<i>O Reino de Christo</i> em Münster.</p> - - <p>Bernardo Rothmann, superintendente evangelico em Münster, - ajunta-se aos anabaptistas; Henrique Roll e os prégadores de - Wassenberg, provenientes de Jülich.</p> - - <p>No verão; Melchioritas in Münster.</p> - - <p>Nov.: Jan. Matthiesen.</p> - - <p class="hanging">1534.—Quaresma: Tumulto, destruição das - imagens e dos conventos.</p> - - <p>Vespera da Pascoa: Queda de Matthiesen; João de Leyden - colloca-se á frente dos anabaptistas (Theocracia com - communidade de bens e de esposas).</p> - - <p class="hanging">1535.—Vespera de S. João: tomada de - Münster.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging"><i>Italia.</i>—A Reforma allemã desperta a - vida religiosa e a theologia agostinha; Contarini, Reginaldo - Pole, Joh. de Merone, (arcebispo de Modena). <i>Pedro Paulo - Vergerius</i> (abraçou a Reforma em 1548; fall. em 1565).</p> - - <p>Reforma em Ferrara (Renée casa em 1527, com Hercules <span - class="smcapuc">II</span>); em Veneza; em Napoles (João - Valdez, fall. em 1540; e Bernardo Ochino); em Lucca (Pedro - Martyr).</p> - - <p class="hanging">1534-49.—O papa Paulo <span - class="smcapuc">III</span> (Farnese); Vergerius, seu legado - na Allemanha.</p> - </td> - <td rowspan="6"> - <p class="center"><i>Controversias na Egreja Lutherana</i></p> - - <p class="hanging">1548-55.—<i>Adiaphoristicos</i>: Flacius, - Wigand, Amsdorf, contra o Interim de Leipsic.</p> - - <p class="hanging">1549-66.—<i>Osiander</i>: André Osiander (em - Nürnberg, 1522-48; em Königsberg, 1549, fall. em 1552); 1550, - <i>De Justificatione</i>; 1551, <i>De Unico Mediatore Jesu Christi</i>. - Justificação é uma participação da justiça de Christo: <i>cujus - natura divina homini quasi infunditur</i>.</p> - - <p>Em opposição; Francisco Stancarus de Mantua (1551-52 em - Königsberg, depois em Siebenbürgen, e na Polonia; fall. em - 1574); 1562, <i>De Trinitate et Mediatore</i>, «Christo nossa - justiça sómente pelo que respeita á Sua natureza humana.»</p> - - <p class="hanging">1551-62.—Majorista: Jorge Major (fall. em - 1574, quando professor em Wittenberg); <i>bona opera necessaria - esse ad salutem</i>. Refutado por Amsdorf; <i>bona opera - perniciosa esse ad salutem</i>.</p> - - <p class="hanging">1556-60.—Synergista: Pfeffinger, em 1555, - <i>Propos. de libero arbitrio</i> (conforme o synergismo de - Melanchthon): contra elle, Amsdorf (1558) <i>Confutalio</i>; e - Flacio.</p> - - <p class="hanging">1560.—Discussão em Weimar, entre Flacio e - Strigel. Flacio: o peccado original não podia deixar de ser - commettido pelo homem. A doutrina lutherana é que prevalece. - Heshusius: de <i>servo arbitrio</i>.</p> - - <p class="hanging">1527-40.—<i>Antinomiano</i>: João Agricola, - nasc. em 1492, em Eisleben; fall. em 1562, sendo prégador na - casa imperial, em Berlim; 1527, contra Melanchthon; e 1537, - contra Luthero. A contriccão não vem declarada na lei, mas - no Evangelho. Retracta-se em 1540. Desde 1556, controversia - sobre <i>Tertius usus legis</i>.</p> - - <p class="hanging">1567.—<i>Crypto-Calvinista</i>: Melanchthon - admitte as doutrinas calvinistas da Ceia do Senhor. - Christologia e Predestinação.</p> - - <p>D’estas controversias conclue-se a necessidade de haver - perfeita harmonia na Egreja Lutherana; e proveem de ahi - varias fórmas do concordia com as quaes se constituiu a - <i>Formula Concordia</i>.</p> - - <p>(1) A concordia Swabia de Jac. Andræ (desde 1562 professor - em Tübingen, fall. em 1590) em 1574; 1575, a concordata de - Martinho Chemnitz. 1576, Formula de Lucas Osiander.</p> - - <p>(2) Convenção de Torgau; o <i>Livro de Torgau</i>.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1531.—Fernando de Austria, rei dos - romanos; opposição da Baviera e Saxonia.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1531.—Liga protestante de Schmalkald: á - frente d’ella, Hesse e Saxonia.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1531.—15 de Maio, em Aarau nega-se - provisões aos cantões florestaes com a reprovação de - Zwinglio.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <span class="pagenum-left"><a name="Page_248" id="Page_248">[248]</a></span> - <span class="pagenum"><a name="Page_249" id="Page_249">[249]</a></span> - - <p class="hanging">1532.—Ago. de 1547, João Frederico o - Magnanimo, Eleitor da Saxonia, fall. em 1554.</p> - - <p class="hanging">Henrique <span class="smcapuc">VIII</span> - divorciado, pelo parlamento, de Catharina de Aragão; Nov. - desposa Anna Boleyn.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1532.—Dieta de Nürnberg: tolerancia até - haver um Concilio Geral.</p> - - <p>Dessan adopta a Reforma.</p> - </td> - <td> - <p>11 de Out., Batalha de Cappel; <i>Zwinglio é assassinado</i>; - Segunda Paz de Cappel.</p> - - <p>Henrique Bullinger, successor de Zwinglio.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1536.—22 de Jan. João de Leyden, - Knipperdolling e Krechting são executados.</p> - </td> - <td> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1534.—O duque Ulrico de Würtemberg é - rehabilitado por Filippe de Hesse.</p> - - <p class="hanging">1535.—Joaquim <span - class="smcapuc">II</span>, Eleitor de Brandenburgo.</p> - - <p class="hanging">1536-38.—Terceira guerra entre - Carlos <span class="smcapuc">V</span> e Francisco <span - class="smcapuc">I</span>.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1534.—O Würtenburgo abraça a Reforma - Lutherana.</p> - - <p class="hanging">1536.—A concordata de Wittenberg; - Melanchthon Bucer; a <i>Ceia do Senhor</i> conforme o - lutheranismo; evita-se que tomem parte n’ella os indignos - e os incredulos; <i>Baptismo</i>; <i>Absolvição</i>; escondem-se os - pontos em voz de se explicarem.</p> - - <p>Victoria da Reforma na Dinamarca.</p> - - <p class="hanging">1537.—Convenção de Schmalkald; os Artigos - de Schmalkald.</p> - </td> - <td> - <p class="center"><i>Reforma promovida por Calvino na Suissa - franceza.</i></p> - - <p class="hanging"><i>Guilherme Farel</i> (nasc. em 1489, no - Delphinado; desde 1526, reformador em Berne; em 1530, em - Neufchatel; fall. em 1565, em Genebra); <i>Pedro Viret</i> (nasceu - em 1511, em Orbe; 1531-59, em Lausanne; desde 1561, em Nismes - e Lyons; fall. em 1571); desde 1534, faz-se em Genebra - propaganda da Reforma.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1534.—David Joris: nasc. em 1501, em - Delft; associa-se aos anabaptistas; promove reformas entre - elles; a sua influencia nos Paizes Baixos e na Frisilandia - Oriental. 1542, o seu <i>Wunderbuch</i>; 1544, em Basiléa; - uma especulação mystico-espiritualista com tendencia - racionalista.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1536.—Paulo <span - class="smcapuc">III</span> manda reunir em Mantua o Concilio - havia longo tempo promettido; 1537, addiado; mandado reunir - em Vicenza; novamente addiado.</p> - - <p class="hanging">1542.—Antonio Paleario (queimado em - 1570), <i>Del beneficio di Gesu Christo crocifisso verso i - Christiani</i>.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1538.—A convenção de Nice: dez annos de - treguas.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1538.—Liga Catholica Romana em - Nürnberg.</p> - - <p class="hanging">1539.—Victoria da Reforma na Saxonia - Ducal, e no Brandenburgo Eleitoral.</p> - - <p class="hanging">1540.—Junho: Conferencia em Hagenau.</p> - - <p>25 de Nov. a 14 de Jan. em Worms (Granvella, Melanchthon, - Bucer, Capito, Brenz, Calvino, Eck, Cochlæus).</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1536.—<span class="smcap">João - Calvino</span> em Genebra; nasc. em 10 de jul. de 1509, - em Noyon; estudou em Orleans e em Paris; 1533, abraçou a - Reforma em Paris; em Basiléa; 1536, <b>Instituto Christianæ - Religionis</b>; depois em Ferrara; rigorosa disciplina - ecclesiastica; em 1538, pela pascoa, é expulso de Genebra e - ratira-se para Strasburgo; chamado novamente a Genebra em - 1541; fall. em 27 de Maio de 1564.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="center"><i>Os Mennonitas</i></p> - - <p class="hanging">Menno Simonis: nasc. em 1496, em - Witmarsum; 1524, padre; 1536, deixou de exercer as suas - funcções, desgostoso com a perseguição dos anabaptistas - de Münster, baptisado por um apostolo de Jan Matthiesen; - reformou e organisou as congregações anabaptistas na - Hollanda e na Frisilandia; fall. em Oldesloe; fez cessar o - enthusiasmo fanatico, e deu maior incremento á tendencia para - o Donatismo.</p> - - <p>Os seus discipulos, os mennonitas, tolerados em 1572, - nos Paizes Baixos, por Guilherme de Orange, encontravam-se - tambem em Emden, Hamburgo, Danzig, Elbing, no Palatinado - e na Moravia; moderaram o espirito anabaptista primitivo; - rejeitaram todos os dogmas; prohibiram os juramentos e a - guerra; appellaram para a letra da Escriptura.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">1540.—27 de Set., <span - class="smcap">Companhia de Jesus</span> constituida por Paulo - <span class="smcapuc">III</span>; <i>D. Ignacio de Loyola</i> - nasc. em 1491, no castello de Loyola, situado na provincia - de Vasconça; ferido em 1521, em Pamplona; lendas de santos; - estudos em Barcelona; desde 1528 em Paris. Em 1534, com - seis companheiros (Francisco Xavier, Jacques Lainez, Pedro - Lefebre, etc.), fez os votos monasticos, accrescentando um - outro, o de absoluta obediencia ao papa. Loyola fall. em - 1556; Lainez em 1561.</p> - - <p>«Para zelar os interesses da hierarquia catholica romana - contra o protestantismo tanto dentro como fóra da Egreja.»</p> - - <p>A obra missionaria de Francisco Xavier no Oriente da - Asia.</p> - - <p>A moral da Sociedade; casuistica.</p> - - <p>Os seus dogmas: a superstição systematica.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1541-53.—O duque Mauricio da Saxonia; - recebeu o titulo de Eleitor em 1547.</p> - - <p class="hanging">1541.—Dieta em Regensburgo; Suliman - submette os hungaros ao seu dominio.</p> - - <p class="hanging">1542-44.—Quarta guerra de Carlos - <span class="smcapuc">V</span> com Francisco <span - class="smcapuc">I</span>; a Paz de Crespi.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1541.—27 de Abr. a 22 de Maio, conferencia - em Regensburgo (Contarini, Melanchthon, Bucer, Eck), a - questão da Transubstanciação.</p> - - <p class="hanging">1542.—Nicolau <span - class="smcapuc">V</span>. Amosdorf, bispo de Naumbugo.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging"><i>Systema ecclesiastico adoptado por - Calvino em Genebra.</i>—Culto: oração e prégação. Organisação - presbyterianna. Jan. de 1542: <i>Ordonnances ecclésiastiques - de l’église de Genève.</i> Pastores, doutores, presbyteros e - diaconos. Disciplina da Egreja.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <span class="pagenum-left"><a name="Page_250" id="Page_250">[250]</a></span> - <span class="pagenum"><a name="Page_251" id="Page_251">[251]</a></span> - - <p class="hanging">1542.—Dieta de Spira; união contra os - turcos.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1543.—Reforma no arcebispado de Köln; - Hermann <span class="smcapuc">V</span>. Wied, o arcebispo, é - avisado por Bucer e Melanchthon; excommungado em 1546; abdica - em 1547; fall. em 1552.</p> - </td> - <td rowspan="3"> - <p class="center"><i>A Reforma em França</i>, 1559-98</p> - - <p class="hanging"><i>Francisco <span - class="smcapuc">I</span></i>, Humanista, importando-se pouco com - a religião, fez da Reforma arma politica; sua irmã Margarida, - rainha de Navarra (fall. em 1549) protege os reformadores; - severa perseguição dos protestantes francezes, não obstante - a alliança com os principes protestantes allemães e o pedido - feito a Melanchthon para ir residir em França, em 1565.</p> - - <p class="hanging">Henrique <span class="smcapuc">II</span>: - Antonio de Navarra e sua mulher Joanna d’Albret põem-se á - testa do protestantismo em França.</p> - - <p class="hanging">1559-25.—29 do maio, Primeiro synodo - reformado em Paris, organizado por Antonio Chandieu, pastor - parisiense; Confissão Gauleza.</p> - </td> - <td rowspan="3"> - </td> - <td rowspan="3"> - <p class="hanging">1542.—O cardeal Caraffa aconselha - o restabelecimento da Inquisição para acabar com o - protestantismo na Italia.</p> - - <p class="hanging">1545.—Abertura do <i>Concilio de Trento</i>; - Primeiro periodo, 11 de mar. de 1547, em Trento; 21 de abr. - de 1547 a 13 de set. de 1549, em Bolonha. Segundo periodo, - 1 de maio de 1551 a 28 de abr. de 1552, em Trento. Terceiro - periodo, 13 de jan. de 1562 a 4 de dez. de 1563 (25 sessões). - Doutrinas romanistas consolidadas mediante esse concilio.</p> - </td> - <td rowspan="7"> - <p class="center"><i>Os principaes theologos lutheranos</i></p> - - <p class="hanging"><i>Martinho Chemnitz</i>; 1554; fall. em 1586, - Superintendente em Brunswich; <i>Examen Concilii Trid.</i>; - 1565-73, <i>Loci Theologici</i>.</p> - - <p class="hanging"><i>Matheus Flacio</i>: nasc. em 1520, em - Albona, na Illyria; 1545, em Wittenberg; 1549 em Magdeburgo; - 1557-61, em Jena; fall. em Frankfort sobre o Maine, 11 de - Mar. 1575.</p> - - <p class="hanging"><i>Catalogus Testium Veritatis</i>, 1556; - <i>Ecclesi. Hist. per aliquot ... studiosos et pios viros in - urbe Magdeburgica</i> (os seculos de Magdeburgo), 13 volum., - 1560-74; <i>Clavis Script. Sac.</i>, 1567; <i>Glossa Compendaria in - N. T.</i>, 1570, etc.</p> - - <p class="hanging"><i>João Gerhard</i>: nasc em 1582, em - Quedlinburgo; 1606, superintendente em Heldburgo; 1615, - Superintendente Geral em Coburgo; 1616 a 1637, professor em - Jena. <i>Loci Theologici</i>, 1610 a 1625; <i>Medit. Sac.</i>, etc.</p> - - <p class="hanging"><i>Leonardo Hutter</i>: 1596 a 1616, professor - em Wittenberg; <i>Compendium Loc. Theol.</i>, 1610; <i>Loci Commun. - Theolog.</i>, 1619.</p> - - <p class="hanging"><i>As Confissões de Fé da Egreja Reformada - são universalmente reconhecidas.</i></p> - - <p><i>Cathechismus ecclesiæ. Genevensis</i>; 1541, Francez; 1545, - Latino; Calvino.</p> - - <p>Consensio in re sacramentaria ministrarum Tigur.; Eccles. - et Joh. Calvini.</p> - - <p><b>O Catecismo de Heideiberg</b>: 1563, escripto sob a - suggestão de Frederico <span class="smcapuc">III</span> do - Palatinado, por Zacarias Ursinus (desde 1561 professor em - Heidelberg, fall. em 1583) e Gaspar Olevianus (professor em - Heidelberg; fall. em 1587).</p> - - <p><i>Confessio Helvetica Posterior</i>: 1566, enviado por - Bullinger a Frederico <span class="smcapuc">III</span> do - Palatinado.</p> - - <p><i>Os Decretos do Synodo de Dort</i>: 1619, reconhecidos nos - Paizes Baixos, na Suissa, no Palatinado, em 1620 na França; - não foram universalmente reconhecidos.</p> - - <p class="hanging"><span class="smcap">João Calvino</span>: - <b>Institutio Religionis Christianæ</b>, 1535-36. Tres - edições, constituindo cada uma d’ellas uma ampliação, 1535, - 1539 e 1559; <i>Commentarios ao Velho e Novo Testamentos</i>, - 1539; <i>De æterna Dei predestinatione</i>, 1552; <i>Defensio - orthodoxæ fidei de S. Trinitate</i>, 1554, contra Servetus.</p> - - <p class="hanging"><i>Henrique Bullinger</i>, successor de - Zwinglio em Zurich, nasc. em 1504, em Bremgarten, fall. em - 17 de set. de 1578; Commentarios ao Novo Testamento, 1554; - <i>Compendium relig. Christianæ; Histoire des persecutions de - l’Eglise</i>.</p> - - <p class="hanging"><i>Theodoro Beza</i>: nasc. em 1519; 1549, em - Lausanna; 1558, professor e pastor em Genebra; fall. em 1605. - Traducção do Novo Testamento, com annotações, 1565; <i>Histoire - Eccles. des réformateurs au royaume de France</i>, 1580.</p> - - <p class="hanging"><i>Rodolpho Hospinian</i>, pastor em - Zurich; fall. em 1629; <i>De origine et progres. controv. - sacramentariæ</i>, etc.</p> - - <p class="hanging"><i>J. H. Hottinger</i>, professor em Heidelberg - e Zurich; fall. em 1667; <i>Hist. Eccl.</i> N. T.</p> - - <p class="hanging"><i>Gaspar Suicer</i>, professor em Saumur, - fall. em 1684; <i>Thesaurus Ecclesiasticus</i>.</p> - - <p class="hanging"><i>F. Dallæus</i>, professor em Saumur, fall. - em Paris, em 1670; <i>Traité de l’emploi des S. Péres</i>, - 1632.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td colspan="2"> - <p class="hanging">1544.—Dieta de Spira; reconhecimento dos - protestantes; tudo em socego, na expectativa de um Concilio - Geral.</p> - - <p class="hanging">1545.—<i>Reformatio Wittenbergensis.</i></p> - - <p class="hanging">1546.—Segunda Conferencia Religiosa em - Regensburgo; 18 de fev., Luthero morre em Eisleben; os - protestantes não apparecem na Dieta.</p> - - <p class="hanging">1546-47.—A guerra de Schmalkald; 19 de - jun. liga entre Mauricio e o imperador; 20 de jul., decreto - contra João Frederico e Filippe; 27 de out., Mauricio é - nomeado eleitor; 24 de abr., batalha de Mühlberg, ficando - prisioneiro João Frederico; Filippe entrega-se em Halle; o - imperador falta á sua palavra.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1547-59.—Henrique <span - class="smcapuc">II</span> de França; desposa Catharina de - Medici; fallece em 1589.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1548.—15 da maio, o Interim de Augsburgo - conserva as hierarquias, ceremonias, festividades e jejuns - da Egreja Catholica Romana; casamento dos clerigos e Ceia do - Senhor <i>sub utraque</i>.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <p class="hanging">1547-53.—Eduardo <span - class="smcapuc">VI</span> de Inglaterra: nasc. em 1537.</p> - - <p class="hanging">1553-58.—Maria (a Sanguinaria) de - Inglaterra.</p> - - <p class="hanging">1554.—9 de jul., Mauricio morre n’uma - batalha perto de Sievershausen, contra Alberto, Margarve de - Brandenburgo.</p> - - <p>Fernando é batido pelos turcos na Hungria.</p> - - <p class="hanging">1555-98.—Filippe <span - class="smcapuc">II</span> de Hespanha.</p> - - <p class="hanging">1556-64.—<i>Fernando <span - class="smcapuc">I</span>, imperador.</i></p> - - <span class="pagenum-left"><a name="Page_252" id="Page_252">[252]</a></span> - <span class="pagenum"><a name="Page_253" id="Page_253">[253]</a></span> - - <p class="hanging">1558-1603.—Isabel de Inglaterra.</p> - - <p class="hanging">1559-60.—Francisco <span - class="smcapuc">II</span> de França (casado com Maria da - Escocia)</p> - - <p class="hanging">1560-74.—Carlos <span - class="smcapuc">IX</span> de França.</p> - - <p class="hanging">1560-78.—Maria, rainha dos escocezes; - executada em 1587.</p> - - <p class="hanging">1564-76.—<i>Maximiliano <span - class="smcapuc">II</span>, imperador.</i></p> - - <p class="hanging">1574-89.—Henrique <span - class="smcapuc">III</span> de França.</p> - - <p class="hanging">1576-1612.—<i>Rodolpho <span - class="smcapuc">II</span>, imperador.</i></p> - - <p class="hanging">1558-1648.—Christiano <span - class="smcapuc">IV</span>, rei da Dinamarca.</p> - - <p class="hanging">1589-1610.—Henrique <span - class="smcapuc">IV</span> de França, tornou-se catholico - romano em 1593; assassinado por Ravaillac em 14 de Maio de - 1610.</p> - - <p class="hanging">1598-1621.—Filippe <span - class="smcapuc">III</span> de Hespanha.</p> - </td> - <td rowspan="2"> - <p class="hanging">1548.—Interim de Leipsic (Mauricio da - Saxonia e Melanchthon).</p> - - <p class="hanging">1551.—Vehemente desejo do imperador de - que os protestantes se submettam ao Concilio de Trento; - Liga clandestina de Mauricio da Saxonia com Henrique <span - class="smcapuc">II</span> de França.</p> - - <p>Out.: Embaixadores do Würtemburgo, e jan. de 1552, - embaixadores saxonios em Trento.</p> - - <p class="hanging">1552.—20 de mar., Mauricio põe-se em - fuga; 19 de maio, apodera-se do castello de Ehrenberg, e da - Passagem de Ehrenberg, as chaves do Tyrol; dissolve-se o - Concilio; julho: Tratado de Passau; João Frederico e Filippe - ficam livres.</p> - - <p class="hanging">1555.—25 de set. <i>Paz religiosa de - Augsburgo</i>; a Egreja Lutherana fica com os mesmos direitos - legaes da Catholica Romana: <i>Cujus regio ejus religio; - o Reservatum ecclesiasticum</i>; a Egreja Reformada não é - reconhecida.</p> - - <p class="hanging">1558.—Disputas entre os antigos lutheranos - (Gnesiolutherani) e os discipulos de Melanchthon.</p> - - <p class="hanging">1560.—Morto de Melanchthon, 19 de - abril.</p> - - <p class="hanging">1586-91.—Embaraços cripto-calvinistas - na Saxonia eleitoral; supressão do calvinismo; execução de - Krells, em 1601.</p> - - <p class="center"><i>A Egreja Lutherana perde:</i></p> - - <p class="center">(<i>a</i>) Em favor da Egreja Catholica - Romana</p> - - <p class="hanging">1558.—A Baviera.</p> - - <p class="hanging">1578.—O ducado da Austria (Rodolpho <span - class="smcapuc">II</span>).</p> - - <p class="hanging">1584.—Os bispados Würzburgo, Bamberg, - Salzburgo, Hildesheim, etc.</p> - - <p class="hanging">1594.—Steiermark, Carinthia (Fernando - <span class="smcapuc">II</span>).</p> - - <p class="hanging">1607.—Donauwerth.</p> - - <p class="center">(<i>b</i>) Em favor da Egreja Reformada</p> - - <p class="hanging">1560.—O Palatinado; 1563, o - Catecismo de Heidelberg (Reformado sob Frederico <span - class="smcapuc">III</span>; Lutherano sob Luiz <span - class="smcapuc">VI</span>, 1576-83; Reformado sob Frederico - <span class="smcapuc">IV</span>, 1583-1618).</p> - - <p class="hanging">1568.—Bremen.</p> - - <p class="hanging">1596.—Anhalt (João Jorge, 1587-1603); - revogação do Systema Consistorial e do Catecismo Lutherano; - 1597-1628, Artigos Calvinistas.</p> - - <p class="hanging">1605.—Hesse-Cassel, que estava sob o - dominio do Landgrave Mauricio (1592-1627).</p> - - <p class="hanging">1613.—O Brandenburgo, que estava sob - o dominio do Eleitor João Sigismundo 1614, <i>Confessio - Marchica</i>.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1561.—Set.: Conferencia religiosa em - Poissy, Theodora Beza.</p> - - <p class="hanging">1562.—Jan.: Os protestantes alcançam - o direito de se reunirem para o culto fóra das cidades; - Francisco de Guise massacra a congregação protestante de - Vassy.</p> - - <p class="hanging">1562-63.—A guerra huguenote. Morte de - Antonio de Navarra; Francisco de Guise é alvejado perto de - Orleans.</p> - - <p class="hanging">1567-68 e 1569-70. Guerras huguenotes.</p> - - <p class="hanging">1572.—24 de ago., massacre de Paris na - vespera de S. Bartholomeu; assassinio de Coligny e de 50:000 - huguenotes.</p> - - <p class="hanging">1574-76.—Guerra huguenote; a Santa Liga - dos Guises.</p> - - <p class="hanging">1588.—Assassinio de Henrique e Luiz de - Guise.</p> - - <p class="hanging">1589.—Henrique é morto por um fanatico da - Liga, J. Clement, em 1 de ago.</p> - - <p class="hanging">1593.—<i>Henrique <span - class="smcapuc">IV</span> faz-se catholico romano.</i></p> - - <p class="hanging">1598.—<span class="smcap">Edicto de - Nantes</span>: liberdade de consciencia; é permittido o culto - publico; todos os privilegios civis; cidades de refugio para - os huguenotes.</p> - - <p class="hanging">1620-28.—Revoltas huguenotes.</p> - - <p class="hanging">1620.—Tomada da Rochella.</p> - - <p>Edicto de Nismes. São garantidos aos huguenotes direitos - ecclesiasticos.</p> - </td> - <td> - <p class="center anglicana">Egreja Anglicana</p> - - <p class="hanging">Inglaterra, 1547-1600, sob Henrique <span - class="smcapuc">VIII</span>: João Frith, Guilherme Tindal.</p> - - <p class="hanging">1534.—Acta do Parlamento ácerca da - supremacia real; o Rei «o unico chefe supremo, sobre a terra, - da Egreja ingleza»; á frente do partido evangelico, Thomaz - Cranmer (1533, arcebispo de Canterbury) e Thomaz Cromwell; - Traducção da Biblia, em 1538.</p> - - <p class="hanging">1539.—28 de jul., Transubstanciação; - negação do calix aos leigos; celibato clerical; missas pelos - defuntos; confissão auricular.</p> - - <p>A Reforma de Henrique <span class="smcapuc">VIII</span> - foi um acto do rei, e significava apenas uma revolta contra o - systema medieval, sendo o papa substituido pelo rei.</p> - - <p>Isolamento da Egreja da Inglaterra; cortadas todas as - relações com o papado; sem communicação alguma com as Egrejas - Reformadas.</p> - - <p class="hanging">1547.—Sob o governo de Somerset, Lord - Protector: Pedro Martyr Vermigli (nasc. em 1500, em Florença; - 1542, em Strasburgo; fall. em 1562, em Zurich) e Bernardo - Ochino (nasc. em 1487) levado para Oxford; Martinho Bucer e - Paulo Fagio, para Cambridge.</p> - - <p>O Livro das Homilias.</p> - - <p class="hanging">1548.—O Livro da Oração Commum; revisto em - 1552.</p> - </td> - <td> - <p class="hanging">1564.—<i>Professio Fidei Tridentinae</i>: 1566, - <i>Catechismus Romanus</i> (Leonardo Marini, Egidio Foscarari, - Muzio Calini).</p> - - <p class="hanging">1548.—Filippe Nery funda o Oratorio.</p> - - <p class="hanging">1550-64.—Julio <span - class="smcapuc">III</span> (del Monte).</p> - - <p class="hanging">1551.—Fundação do Collegium Romanum - Jesuita.</p> - - <p class="hanging">1552.—Fundação do Collegium Germanicum.</p> - - <p class="hanging">1555-59.—Paulo <span - class="smcapuc">IV</span> (Caraffa) protesta contra a Paz de - Augsburgo; Inquisição.</p> - - <p class="hanging">1559-65.—Pio <span - class="smcapuc">IV</span> (Medici) deixa-se guiar por seu - sobrinho, o cardeal Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, - fall. em 1584.</p> - - <p class="hanging">1564.—<i>Index librorum prohibitorum.</i></p> - - <p class="hanging">1566-72.—Pio <span - class="smcapuc">V</span>, zeloso dominicano.</p> - - <p class="hanging">1567.—Bulla de excommunhão contra 79 - proposições agostinianas de Miguel Baius (fall. em 1589). - Chanceller da Universidade de Louvain.</p> - - <p class="hanging">1568.—<i>Breviarium.</i></p> - - <p class="hanging">1570.—<i>Misssale Romanum.</i></p> - - <p class="hanging">1572-85.—Gregorio <span - class="smcapuc">XIII</span>; carta congratulatoria a Carlos - <span class="smcapuc">IX</span>, ácerca do massacre de S. - Bartholomeu; <i>Te Deum</i> em Roma, em honra do acontecimento.</p> - - <p class="hanging">1582.—Reforma do Calendario.</p> - - <p class="hanging">1582-1610.—Missões jesuitas na China.</p> - - <p class="hanging">1585-90.—Sixto <span - class="smcapuc">V</span>: Bibliotheca do Vaticano.</p> - - <p class="hanging">1588.—Annales Eccl., de Baronio.</p> - - <p class="hanging">1590.—Edição infallivel da Vulgata.</p> - - <p class="hanging">1592-1605.—Clemente <span - class="smcapuc">VII</span>.</p> - - <p class="hanging">1592.—Nova edição da vulgata (a chamada - edição de Sixto <span class="smcapuc">V</span>).</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - <span class="pagenum-left"><a name="Page_254" id="Page_254">[254]</a></span> - <span class="pagenum"><a name="Page_255" id="Page_255">[255]</a></span> - </td> - <td> - <p class="hanging">1552.—<i>Os 42 Artigos.</i></p> - - <p class="hanging">1554.—O cardeal Reginaldo Pole, legado - pontificio; 1555-58, Sanguinolentas perseguições no reínado - de Maria; 1556, 21 de maio, Cranmer é queimado em Oxford.</p> - </td> - <td rowspan="3"> - <p class="center"><i>A Escocia</i></p> - - <p class="hanging">1558.—Os Lords da Congregação; o Evangelho - Puro, o Livro de Oração Commum do Rei Eduardo.</p> - - <p class="hanging">1560.—Assembléa dos Estados em Edinburgo; - <i>A Confissão Escoceza</i>; o Primeiro Livro de Disciplina; - é approvado o governo presbyteriano pelas Assembléas - Geraes, pelos Synodos e pelas Sessões das egrejas; - Superintendentes.</p> - - <p class="hanging"><i>João Knox</i>: nasc. em 1505, em Haddington; - desde 1546, prégador em St.º André; 1547-49, nas galés; - 1553-59, em Frankfort e Genebra; 1559 a 1572 (data do - fallecimento) em Edinburgo.</p> - - <p class="hanging">1572.—Convenção de Leith; Bispos privados - de exercerem as funcções episcopaes: os Tulchanos.</p> - - <p class="hanging">1576.—Os inspectores nomeados pela - Assembléa.</p> - - <p class="hanging">1578.—Segundo Livro de Disciplina.</p> - - <p class="hanging">1580.—A instituição dos presbyterios.</p> - </td> - <td rowspan="3"> - <p class="center"><i>Os Paizes Baixos</i></p> - - <p class="hanging">1559.—Margarida de Parma; Granvella, bispo - de Arras.</p> - - <p>São creadas 14 novas dioceses. Inquisição.</p> - - <p class="hanging">1562.—<i>Confessio Belgica</i>; Guido de Brès, - Adriano de Savaria, H. Modetus, G. Wingen; revista por - Francisco Junio, em 1571.</p> - - <p class="hanging">1566.—Compromisso em favor dos - protestantes.</p> - - <p>Tumultos por causa da imagens e das reliquias.</p> - - <p class="hanging">1568-78.—O duque de Alba.</p> - - <p>Concilio de Sangue; Perseguição de protestantes; são - mortos 18:000; Egmont e Horn em 1568.</p> - - <p class="hanging">1572.—Tomada de Brill pelos mendigos do - mar; Guilherme de Orange.</p> - - <p class="hanging">1576.—8 de Nov., Tratado de Ghent.</p> - - <p class="hanging">1579.—23 de jan., União de Utrecht, - firmada pelas provincias do norte. 26 de julho, Declaração de - independencia.</p> - - <p class="hanging">1584.—10 de julho, Assassinio de Guilherme - de Orange; succede-lhe Mauricio de Orange.</p> - - <p>Fundação de Universidades—Leyden, em 1575; Franecker, em - 1585; Gröningen, em 1612; Utrecht, em 1638; Harderwyk, em - 1648.</p> - </td> - </tr> - <tr> - <td> - </td> - <td> - <p class="center"><i>Anti-Trinitarios</i></p> - - <p class="hanging"><i>Miguel Servetus</i>, da Aragão; 1530, em - Basiléa; 1531, <i>De Trinitatis erroribus</i>; 1534, em Lyons; - 1537, em Paris; 1540, em Vienna; 1553, <i>Christianismi - restitutio</i>; 1553, queimado em Genebra.</p> - - <p class="hanging"><i>Valentinus Gentilis</i>, da Calabria; - decapitado em Berne, em 1556.</p> - - <p class="hanging"><i>Laelius Socinus</i>: nasc. em 1525, em - Veneza; 1547, percorre a Suissa, a Allemanha e a Polonia; - fall. em 1562, em Zurich.</p> - - <p class="hanging"><i>Faustus Socinus</i>: nasc. em 1539, em - Siena; 1559, em Lyons; 1562, em Zurich; 1574-78, em Florença, - e depois em Basiléa; 1579-98, na Polonia; fall. em 1604.—<i>De - Jesu Christo servatore: De Statu primi hominis ante lapsium</i>, - 1578.</p> - - <p class="hanging">1605.—Catecismo Racoviano.</p> - </td> - <td> - <p class="center"><i>A Rainha Isabel restabelece a Reforma</i></p> - - <p class="hanging">1559.—Junho: Acta da Uniformidade, Matheus - Parker, arcebispo de Canterbury.</p> - - <p>Revisão e readopção do livro de Oração Commum.</p> - - <p class="hanging">1562.—23 de jan., <i>Os 39 Artigos</i>: - Doutrina calvinista da Predestinação, Doutrina calvinista da - Ceia do Senhor.</p> - - <p class="hanging">1567.—Os puritanos são excluidos - da Egreja. Puritanismo; Reforma espiritual mediante a - collectividade evangelica, acceitação, em Inglaterra, da - doutrina do sacerdocio espiritual de todos os crentes, e - consequente guerra ás capas de asperges e outros paramentos - ecclesiasticos.</p> - - <p class="hanging">1570.—Thomaz Cartwright é expulso de - Cambridge.</p> - - <p class="hanging">1582.—Roberto Browne, capellão do duque do - Norfolk; separação da Egreja e do Estado; cada congregação - fórma uma egreja independente.</p> - </td> - </tr> -</table> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_256" id="Page_256">[256]</a></span></p> - -<h2 id="INDICE">INDICE</h2> - -<ul> - -<li class="ifrst">Absolvição clerical, <a href="#Page_233">233</a>.</li> - -<li class="indx">Agostinho, <a href="#Page_208">208</a>.</li> - -<li class="indx">Alba (Duque de), <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_121">121</a>, <a href="#Page_125">125</a>, <a href="#Page_165">165</a>.</li> - -<li class="indx">Allemanha (Situação politica da), <a href="#Page_15">15</a>.</li> - -<li class="indx">Amboise (Morticinio de), <a href="#Page_99">99</a>.</li> - -<li class="indx">Amboise, Edicto, <a href="#Page_105">105</a>.</li> - -<li class="indx">America (Descoberta da), <a href="#Page_205">205</a>.</li> - -<li class="indx">Anabaptistas (Os) em Genebra, <a href="#Page_76">76</a>.</li> - -<li class="indx">Anabaptistas (Os) em Zurich, <a href="#Page_63">63</a>.</li> - -<li class="indx">Anabaptistas (Os) nos Paizes Baixos, <a href="#Page_115">115</a>.</li> - -<li class="indx">Andersen (Lourenço), <a href="#Page_52">52</a>.</li> - -<li class="indx">Annatas (Os), <a href="#Page_13">13</a>, <a href="#Page_60">60</a>, <a href="#Page_166">166</a>.</li> - -<li class="indx">Anna Boleyn, <a href="#Page_167">167</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_189">189</a>.</li> - -<li class="indx">Anselmo, <a href="#Page_210">210</a>.</li> - -<li class="indx">Anstruweel, <a href="#Page_121">121</a>.</li> - -<li class="indx">Antuerpia, <a href="#Page_121">121</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Apologeticus</i>, de Zwinglio, <a href="#Page_62">62</a>.</li> - -<li class="indx">Apostolos (Credo dos), <a href="#Page_72">72</a>, <a href="#Page_223">223</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Appellações</i>, <i>Estatuto para a repressão das</i>, <a href="#Page_167">167</a>.</li> - -<li class="indx">Aristoteles, <a href="#Page_214">214</a>.</li> - -<li class="indx">Armada (a) hespanhola, <a href="#Page_196">196</a>.</li> - -<li class="indx">Artigos (Os Doze) dos camponezes allemães, <a href="#Page_25">25</a>.</li> - -<li class="indx">Artigos (Os dez), <a href="#Page_171">171</a>.</li> - -<li class="indx">Artigos (Os Seis), <a href="#Page_173">173</a>, <a href="#Page_177">177</a>.</li> - -<li class="indx">Artigos, (Os Quarenta e dois), <a href="#Page_178">178</a>.</li> - -<li class="indx">Artigos, (Os Trinta e Nove), <a href="#Page_179">179</a>, <a href="#Page_192">192</a>.</li> - -<li class="indx">Artigos, (Os Onze), <a href="#Page_192">192</a>.</li> - -<li class="indx">Augsburgo (Confissão de), <a href="#Page_38">38</a>.</li> - -<li class="indx">Augsburgo (Dieta de), <a href="#Page_36">36</a>.</li> - -<li class="indx">Augsburgo (Paz de), <a href="#Page_47">47</a>.</li> - -<li class="indx">Augsburgo (Interim de), <a href="#Page_43">43</a>.</li> - -<li class="ifrst">Babington (Conspiração de), <a href="#Page_196">196</a>.</li> - -<li class="indx">Ballanden (Ricardo), <a href="#Page_150">150</a>.</li> - -<li class="indx">Barlaymont, <a href="#Page_120">120</a>.</li> - -<li class="indx">Bartholomeu (Matança de S.), <a href="#Page_107">107</a>, <a href="#Page_140">140</a>, <a href="#Page_149">149</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li> - -<li class="indx">Basiléa, <a href="#Page_64">64</a>, <a href="#Page_75">75</a>.</li> - -<li class="indx">Beaton (Cardeal), <a href="#Page_140">140</a>.</li> - -<li class="indx">Bernardo de Clairvaux, <a href="#Page_210">210</a>.</li> - -<li class="indx">Berne, <a href="#Page_59">59</a>, <a href="#Page_76">76</a>.</li> - -<li class="indx">Berne (A Reforma em), <a href="#Page_64">64</a>.</li> - -<li class="indx">Beza, <a href="#Page_83">83</a>, <a href="#Page_91">91</a>.</li> - -<li class="indx">Beza em Poissy, <a href="#Page_102">102</a>.</li> - -<li class="indx">Biblia, Versão de Luthero, <a href="#Page_19">19</a>.</li> - -<li class="indx">Biblia, Franceza, <a href="#Page_93">93</a>.</li> - -<li class="indx">Biblia, Hollandeza, <a href="#Page_116">116</a>.</li> - -<li class="indx">Biblia (Doutrina da), <a href="#Page_232">232</a>.</li> - -<li class="indx">Bispados (os) nos Paizes Baixos, <a href="#Page_118">118</a>.</li> - -<li class="indx">Bispos (O livro dos), <a href="#Page_172">172</a>.</li> - -<li class="indx">Bispos (Os) na Escocia, <a href="#Page_151">151</a>.</li> - -<li class="indx">Boleyn (Anna), <a href="#Page_167">167</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_189">189</a>.</li> - -<li class="indx">Bonner (Bispo), <a href="#Page_146">146</a>.</li> - -<li class="indx">Borgonha (Carlos e Maria de), <a href="#Page_114">114</a>.</li> - -<li class="indx">Bourbon (Antonio de), <a href="#Page_100">100</a>.</li> - -<li class="indx">Bourbon (Condestavel de), <a href="#Page_31">31</a>.</li> - -<li class="indx">Bourbon (O principe), <a href="#Page_96">96</a>, <a href="#Page_100">100</a>.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_257" id="Page_257">[257]</a></span>Bourg (Anne de), <a href="#Page_98">98</a>, <a href="#Page_145">145</a>.</li> - -<li class="indx">Bourges (Sancção Pragmatica de), <a href="#Page_89">89</a>.</li> - -<li class="indx">Brantôme, <a href="#Page_107">107</a>.</li> - -<li class="indx">Brederode (O Conde), <a href="#Page_120">120</a>.</li> - -<li class="indx">Brés (Guido), <a href="#Page_134">134</a>.</li> - -<li class="indx">Briçonnet, bispo de Meaux, <a href="#Page_88">88</a>.</li> - -<li class="indx">Brill (Tomada de), <a href="#Page_126">126</a>.</li> - -<li class="indx">Bruxellas, <a href="#Page_115">115</a>.</li> - -<li class="indx">Bucer, <a href="#Page_71">71</a>, <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_187">187</a>.</li> - -<li class="indx">Bugenhagen, <a href="#Page_51">51</a>.</li> - -<li class="indx">Bulla papal contra Luthero, <a href="#Page_12">12</a>.</li> - -<li class="indx">Bulla papal em favor da inquisição, <a href="#Page_117">117</a>.</li> - -<li class="indx">Bundschuh (Liga de), <a href="#Page_24">24</a>.</li> - -<li class="ifrst">Caetano (Cardeal), <a href="#Page_10">10</a>.</li> - -<li class="indx">Calderwood, <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_142">142</a>.</li> - -<li class="indx">Calvino (Mocidade de), <a href="#Page_69">69</a>.</li> - -<li class="indx">Calvino, (<i>Institutos da Religião</i> de), <a href="#Page_71">71</a>, <a href="#Page_78">78</a>.</li> - -<li class="indx">Calvino em Genebra, <a href="#Page_73">73</a>.</li> - -<li class="indx">Calvino (Expulsão de), <a href="#Page_75">75</a>.</li> - -<li class="indx">Calvino (Morte de), <a href="#Page_82">82</a>.</li> - -<li class="indx">Calvino (Ordenanças ecclesiasticas de), <a href="#Page_77">77</a>.</li> - -<li class="indx">Cambridge, <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_187">187</a>, <a href="#Page_194">194</a>.</li> - -<li class="indx">Capito, <a href="#Page_64">64</a>.</li> - -<li class="indx">Cappel, (Paz de), <a href="#Page_65">65</a>.</li> - -<li class="indx">Caraffa (Cardeal), <a href="#Page_117">117</a>.</li> - -<li class="indx">Carew (Sir Peter), <a href="#Page_184">184</a>.</li> - -<li class="indx">Carlos V, imperador, <a href="#Page_14">14</a>, <a href="#Page_164">164</a>, <a href="#Page_181">181</a>, <a href="#Page_184">184</a>.</li> - -<li class="indx">Carlos V tenta subjugar a Reforma, <a href="#Page_28">28</a>, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_37">37</a>.</li> - -<li class="indx">Carlos V (A politica de) nos Paizes Baixos, <a href="#Page_114">114</a>.</li> - -<li class="indx">Carlos IX de França, <a href="#Page_106">106</a>.</li> - -<li class="indx">Carlstadt, <a href="#Page_11">11</a>, <a href="#Page_20">20</a>.</li> - -<li class="indx">Cartwright (Thomaz), <a href="#Page_194">194</a>.</li> - -<li class="indx">Casamento (O), <a href="#Page_216">216</a>.</li> - -<li class="indx">Catharina de Aragão, <a href="#Page_162">162</a>, <a href="#Page_169">169</a>, <a href="#Page_181">181</a>, <a href="#Page_183">183</a>.</li> - -<li class="indx">Catharina de Medicis, <a href="#Page_93">93</a>, <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_107">107</a>.</li> - -<li class="indx">Catholicidade dos Reformadores, <a href="#Page_222">222</a>.</li> - -<li class="indx">Cecil (Sir William), <a href="#Page_194">194</a>, <a href="#Page_196">196</a>.</li> - -<li class="indx">Celtica (Egreja), <a href="#Page_137">137</a>.</li> - -<li class="indx">Chandieu (Antonio), <a href="#Page_97">97</a>.</li> - -<li class="indx">Chateaubriand (Edicto de), <a href="#Page_94">94</a>.</li> - -<li class="indx">Christiano II da Dinamarca, <a href="#Page_50">50</a>.</li> - -<li class="indx">Clemente VII, <a href="#Page_29">29</a>.</li> - -<li class="indx">Colet (Deão), <a href="#Page_160">160</a>, <a href="#Page_162">162</a>.</li> - -<li class="indx">Coligny (Almirante), <a href="#Page_96">96</a>, <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_101">101</a>, <a href="#Page_104">104</a>, <a href="#Page_106">106</a>.</li> - -<li class="indx">Commissão (Tribunal da Alta), <a href="#Page_193">193</a>, <a href="#Page_199">199</a>.</li> - -<li class="indx">Concilio (Reclama-se um), <a href="#Page_21">21</a>, <a href="#Page_43">43</a>.</li> - -<li class="indx">Concilio (o) de Trento, <a href="#Page_44">44</a>.</li> - -<li class="indx">Concordata (A) de 1516, <a href="#Page_89">89</a>, <a href="#Page_164">164</a>.</li> - -<li class="indx">Condé (Luiz de), <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_102">102</a>, <a href="#Page_104">104</a>, <a href="#Page_105">105</a>.</li> - -<li class="indx">Condé (Henrique de), <a href="#Page_105">105</a>.</li> - -<li class="indx">Confissão de Augsburgo, <a href="#Page_38">38</a>, <a href="#Page_50">50</a>.</li> - -<li class="indx">Confissão de Zurich, <a href="#Page_84">84</a>.</li> - -<li class="indx">Confissão Franceza, <a href="#Page_97">97</a>.</li> - -<li class="indx">Confissão Hollandeza, <a href="#Page_134">134</a>.</li> - -<li class="indx">Confissão Escoceza, <a href="#Page_143">143</a>.</li> - -<li class="indx">Congregação (Lords da), <a href="#Page_142">142</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Consistorial</i> (<i>Systema</i>), <a href="#Page_30">30</a>.</li> - -<li class="indx">Consistorio (O), <a href="#Page_78">78</a>, <a href="#Page_98">98</a>.</li> - -<li class="indx">Constança (Concilio de), <a href="#Page_11">11</a>.</li> - -<li class="indx">Cotta (Frau), <a href="#Page_8">8</a>.</li> - -<li class="indx">Convenção (A) Nacional, <a href="#Page_142">142</a>.</li> - -<li class="indx">Coverdale, <a href="#Page_187">187</a>.</li> - -<li class="indx">Cranach (Lucas), <a href="#Page_16">16</a>.</li> - -<li class="indx">Cranmer (Arcebispo), <a href="#Page_171">171</a>, <a href="#Page_176">176</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li> - -<li class="indx">Craw (Paulo), <a href="#Page_138">138</a>.</li> - -<li class="indx">Crespin, <a href="#Page_107">107</a>.</li> - -<li class="indx">Cromwell (Thomaz), <a href="#Page_163">163</a>, <a href="#Page_170">170</a>.</li> - -<li class="ifrst">Dante, <a href="#Page_218">218</a>.</li> - -<li class="indx">Diana de Poitiers, <a href="#Page_93">93</a>.</li> - -<li class="indx">Dickson (David), <a href="#Page_152">152</a>.</li> - -<li class="indx">Dieta (A) allemã, <a href="#Page_15">15</a>.</li> - -<li class="indx">Dieta (A) de Worms, <a href="#Page_16">16</a>.</li> - -<li class="indx">Dieta (A) de Nürnberg, <a href="#Page_20">20</a>.</li> - -<li class="indx">Dieta (A) de Spira, <a href="#Page_28">28</a>.</li> - -<li class="indx">Dieta (A) de Augsburgo, <a href="#Page_36">36</a>, <a href="#Page_47">47</a>.</li> - -<li class="indx">Disciplina da Egreja, <a href="#Page_30">30</a>.</li> - -<li class="indx">Disciplina de Calvino, <a href="#Page_77">77</a>.</li> - -<li class="indx">Disciplina da Egreja franceza, <a href="#Page_98">98</a>.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_258" id="Page_258">[258]</a></span>Disciplina (Livro da), <a href="#Page_147">147</a>, <a href="#Page_152">152</a>.</li> - -<li class="indx">Dissidencia (A), <a href="#Page_194">194</a>.</li> - -<li class="indx">Disturbios (O Conselho dos), <a href="#Page_123">123</a>.</li> - -<li class="indx">Dizimos (Os grandes e pequenos), <a href="#Page_23">23</a>, <a href="#Page_215">215</a>.</li> - -<li class="indx">Dordrecht, <a href="#Page_135">135</a>.</li> - -<li class="indx">Dorner, <a href="#Page_225">225</a>.</li> - -<li class="indx">Douay, <a href="#Page_196">196</a>.</li> - -<li class="indx">Douglas, <a href="#Page_144">144</a>.</li> - -<li class="indx">Drake (Sir Francis), <a href="#Page_196">196</a>.</li> - -<li class="indx">Dreux (Batalha de), <a href="#Page_104">104</a>.</li> - -<li class="indx">Dubois (Pedro), <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_158">158</a>.</li> - -<li class="ifrst">Eck (João), <a href="#Page_9">9</a>, <a href="#Page_11">11</a>, <a href="#Page_17">17</a>.</li> - -<li class="indx">Edictos de Tolerancia, em França, <a href="#Page_103">103</a>, <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_110">110</a>.</li> - -<li class="indx">Edinburgo, <a href="#Page_143">143</a>.</li> - -<li class="indx">Educação (A) na Escocia, <a href="#Page_137">137</a>, <a href="#Page_148">148</a>.</li> - -<li class="indx">Eduardo III, <a href="#Page_218">218</a>.</li> - -<li class="indx">Eduardo VI, <a href="#Page_141">141</a>, <a href="#Page_157">157</a>, <a href="#Page_175">175</a>, <a href="#Page_181">181</a>.</li> - -<li class="indx">Egmont (Conde), <a href="#Page_117">117</a>, <a href="#Page_119">119</a>, <a href="#Page_120">120</a>, <a href="#Page_121">121</a>, <a href="#Page_122">122</a>.</li> - -<li class="indx">Egreja (Disciplina da), <a href="#Page_30">30</a>, <a href="#Page_98">98</a>, <a href="#Page_133">133</a>, <a href="#Page_134">134</a>.</li> - -<li class="indx">Egreja (Riqueza da), <a href="#Page_12">12</a>.</li> - -<li class="indx">Egreja (A) em relação com a vida social, <a href="#Page_215">215</a>.</li> - -<li class="indx">Ehrenberg (Castello de), 46. Eidgenossen, <a href="#Page_68">68</a>.</li> - -<li class="indx">Einsiedeln, <a href="#Page_61">61</a>.</li> - -<li class="indx">Eisenach, <a href="#Page_8">8</a>.</li> - -<li class="indx">Eisleben, <a href="#Page_7">7</a>.</li> - -<li class="indx">Eleitores (Os) allemães, <a href="#Page_15">15</a>.</li> - -<li class="indx">Erasmo, <a href="#Page_64">64</a>, <a href="#Page_170">170</a>, <a href="#Page_177">177</a>.</li> - -<li class="indx">Erskine de Dun, <a href="#Page_142">142</a>, <a href="#Page_151">151</a>.</li> - -<li class="indx">Escocia (A Reforma na), <a href="#Page_137">137-154</a>.</li> - -<li class="indx">Esch (João), <a href="#Page_115">115</a>.</li> - -<li class="indx">Escriptura (A), <a href="#Page_227">227</a>.</li> - -<li class="indx">Eucaristia (A), <a href="#Page_33">33</a>.</li> - -<li class="ifrst">Fagius (Paulo), <a href="#Page_178">178</a>.</li> - -<li class="indx">Farel em Basiléa, <a href="#Page_64">64</a>.</li> - -<li class="indx">Farel em Genebra, <a href="#Page_68">68</a>.</li> - -<li class="indx">Farel em França, <a href="#Page_88">88</a>.</li> - -<li class="indx">Fé (A), <a href="#Page_213">213</a>, <a href="#Page_230">230</a>.</li> - -<li class="indx">Fernando de Aragão, <a href="#Page_14">14</a>, <a href="#Page_162">162</a>.</li> - -<li class="indx">Fernando de Austria, <a href="#Page_37">37</a>.</li> - -<li class="indx">Field, o puritano, <a href="#Page_194">194</a>.</li> - -<li class="indx">Fisher (Bispo), <a href="#Page_170">170</a>.</li> - -<li class="indx">Florestaes (cantões), <a href="#Page_64">64</a>.</li> - -<li class="indx">França (A Reforma em ), <a href="#Page_87">87-111</a>.</li> - -<li class="indx">Francisco de Assis, <a href="#Page_210">210</a>, <a href="#Page_211">211</a>.</li> - -<li class="indx">Francisco I de França, <a href="#Page_28">28</a>, <a href="#Page_71">71</a>, <a href="#Page_89">89</a>, <a href="#Page_91">91</a>, <a href="#Page_164">164</a>.</li> - -<li class="indx">Francfort sobre o Maine, <a href="#Page_141">141</a>.</li> - -<li class="indx">Frederico da Saxonia, <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_28">28</a>.</li> - -<li class="indx">Froben, <a href="#Page_64">64</a>.</li> - -<li class="indx">Frunsberg (General), <a href="#Page_17">17</a>, <a href="#Page_31">31</a>.</li> - -<li class="ifrst">Galle (Dr.), <a href="#Page_52">52</a>.</li> - -<li class="indx">Gallicanismo (O), <a href="#Page_218">218</a>.</li> - -<li class="indx">Gardiner (Bispo), <a href="#Page_177">177</a>, <a href="#Page_182">182</a>.</li> - -<li class="indx">Gemblours, <a href="#Page_132">132</a>.</li> - -<li class="indx">Genebra, <a href="#Page_67">67</a>, <a href="#Page_77">77</a>, <a href="#Page_94">94</a>.</li> - -<li class="indx">Ghent, <a href="#Page_131">131</a>.</li> - -<li class="indx">Ghent (Pacificação de), <a href="#Page_131">131</a>.</li> - -<li class="indx">Glarus, <a href="#Page_60">60</a>.</li> - -<li class="indx">Glencairn (Conde de), <a href="#Page_142">142</a>, <a href="#Page_143">143</a>.</li> - -<li class="indx">Goch (João), <a href="#Page_114">114</a>.</li> - -<li class="indx">Granvella (Cardeal), <a href="#Page_117">117</a>, <a href="#Page_119">119</a>, <a href="#Page_123">123</a>.</li> - -<li class="indx">Gregorio VII (Papa), <a href="#Page_208">208</a>, <a href="#Page_212">212</a>.</li> - -<li class="indx">Grey (Lady Jane), <a href="#Page_182">182</a>, <a href="#Page_183">183</a>.</li> - -<li class="indx">Grindal (Arcebispo), <a href="#Page_198">198</a>, <a href="#Page_198">198</a>.</li> - -<li class="indx">Guise (A familia), <a href="#Page_93">93</a>, <a href="#Page_98">98</a>, <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_103">103-106</a>, <a href="#Page_140">140</a>, <a href="#Page_145">145</a>.</li> - -<li class="indx">Gustavo Vasa, <a href="#Page_51">51</a>.</li> - -<li class="ifrst">Hagenau, <a href="#Page_40">40</a>.</li> - -<li class="indx">Hamilton (Patricio), <a href="#Page_140">140</a>.</li> - -<li class="indx">Held (Vice Chancellor), <a href="#Page_40">40</a>.</li> - -<li class="indx">Henrique VIII de Inglaterra, <a href="#Page_157">157</a>, <a href="#Page_161">161</a>, <a href="#Page_163">163</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_190">190</a>, <a href="#Page_218">218</a>.</li> - -<li class="indx">Henrique II de França, <a href="#Page_93">93</a>.</li> - -<li class="indx">Henrique III de França, <a href="#Page_106">106</a>, <a href="#Page_109">109</a>.</li> - -<li class="indx">Henrique IV de França, <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_110">110</a>.</li> - -<li class="indx">Henriques (Guerra dos tres), <a href="#Page_109">109</a>.</li> - -<li class="indx">Hesse (Organização da Egreja de), <a href="#Page_29">29</a>.</li> - -<li class="indx">Hildebrando, <a href="#Page_208">208</a>.</li> - -<li class="indx">Hogstraten, <a href="#Page_9">9</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Homilias</i> (<i>Livro de</i>), <a href="#Page_177">177</a>.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_259" id="Page_259">[259]</a></span>Hooper (Bispo), <a href="#Page_180">180</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li> - -<li class="indx">Horn (Almirante), <a href="#Page_120">120</a>, <a href="#Page_122">122</a>.</li> - -<li class="indx">Huss (João), <a href="#Page_11">11</a>, <a href="#Page_138">138</a>.</li> - -<li class="indx">Hymnos Medievaes, <a href="#Page_6">6</a>, <a href="#Page_214">214</a>.</li> - -<li class="ifrst">Iconoclastas (Os), <a href="#Page_103">103</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Imitação de Christo</i>, <a href="#Page_210">210</a>, <a href="#Page_211">211</a>.</li> - -<li class="indx">Imperador (O), <a href="#Page_14">14</a>, <a href="#Page_28">28</a>, <a href="#Page_31">31</a>, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_37">37</a>, <a href="#Page_38">38</a>.</li> - -<li class="indx">Imperio (O) medieval, <a href="#Page_14">14</a>, <a href="#Page_209">209</a>, <a href="#Page_217">217</a>, <a href="#Page_221">221</a>.</li> - -<li class="indx">Indulgencias (As) em Zurich, <a href="#Page_61">61</a>.</li> - -<li class="indx">Indulgencias (As) na Allemanha, <a href="#Page_1">1-2</a>.</li> - -<li class="indx">Ingleza, (A Reforma) seu caracter, <a href="#Page_159">159</a>.</li> - -<li class="indx">Inquisição (A), <a href="#Page_117">117</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li> - -<li class="indx">Interdicção (A) papal, <a href="#Page_226">226</a>, <a href="#Page_233">233</a>.</li> - -<li class="indx">Interim (O) de Augsburgo, <a href="#Page_43">43</a>.</li> - -<li class="indx">Interim (O) de Leipzic, <a href="#Page_43">43</a>.</li> - -<li class="indx">Isabel (A rainha), <a href="#Page_125">125</a>, <a href="#Page_133">133</a>, <a href="#Page_157">157</a>, <a href="#Page_189">189</a>, <a href="#Page_192">192</a>, <a href="#Page_194">194-201</a>.</li> - -<li class="ifrst">Jansen, <a href="#Page_50">50</a>.</li> - -<li class="indx">Jarnac, <a href="#Page_105">105</a>.</li> - -<li class="indx">Jesuitas (Os), <a href="#Page_45">45</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li> - -<li class="indx">Jewel (Bispo), <a href="#Page_192">192</a>, <a href="#Page_200">200</a>.</li> - -<li class="indx">João da Saxonia, <a href="#Page_37">37</a>, <a href="#Page_38">38</a>.</li> - -<li class="indx">Jorge da Saxonia (Duque), <a href="#Page_17">17</a>, <a href="#Page_42">42</a>, <a href="#Page_47">47</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Justificação</i> (<i>A</i>), <a href="#Page_233">233</a>, <a href="#Page_234">234</a>.</li> - -<li class="indx">Jüterbogk, <a href="#Page_4">4</a>.</li> - -<li class="ifrst">Kempis (Thomaz á), <a href="#Page_114">114</a>.</li> - -<li class="indx">Knox (João), <a href="#Page_141">141</a>, <a href="#Page_143">143</a>, <a href="#Page_144">144</a>, <a href="#Page_146">146</a>, <a href="#Page_148">148</a>, <a href="#Page_152">152</a>, <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_180">180</a>, <a href="#Page_191">191</a>.</li> - -<li class="indx">Kyle (Os lollardos de), <a href="#Page_138">138</a>.</li> - -<li class="ifrst">La Ferriére, <a href="#Page_95">95</a>.</li> - -<li class="indx">Lainez, <a href="#Page_45">45</a>.</li> - -<li class="indx">Lambert (Martinho), <a href="#Page_29">29</a>.</li> - -<li class="indx">Lei (A) agraria entre os romanos, <a href="#Page_24">24</a>.</li> - -<li class="indx">Lefèvre, <a href="#Page_88">88</a>.</li> - -<li class="indx">Leipzic (Controversia de), <a href="#Page_10">10</a>.</li> - -<li class="indx">Leipzic (Interim de), <a href="#Page_43">43</a>.</li> - -<li class="indx">Leith (Convenção de), <a href="#Page_151">151</a>.</li> - -<li class="indx">Leyden (Cerco de), <a href="#Page_129">129</a>.</li> - -<li class="indx">Liesfeld (Jacob), <a href="#Page_116">116</a>.</li> - -<li class="indx">Liga Allemã (catholica), <a href="#Page_40">40</a>.</li> - -<li class="indx">Liga de Schmalkald, <a href="#Page_39">39</a>.</li> - -<li class="indx">Liga de França, <a href="#Page_109">109</a>, <a href="#Page_196">196</a>.</li> - -<li class="indx">Linacre, <a href="#Page_196">196</a>.</li> - -<li class="indx">Lindsay (Lord), <a href="#Page_145">145</a>.</li> - -<li class="indx">Lindsay (Sir David), <a href="#Page_139">139</a>.</li> - -<li class="indx">Lithurgia (A) de Knox, <a href="#Page_141">141</a>.</li> - -<li class="indx">Lollardismo (O), <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_158">158</a>.</li> - -<li class="indx">Longjumeaux, <a href="#Page_105">105</a>.</li> - -<li class="indx">Loyola (Ignacio), <a href="#Page_45">45</a>.</li> - -<li class="indx">Luthero e Tetzel, <a href="#Page_4">4</a>.</li> - -<li class="indx">Luthero (Mocidade de), <a href="#Page_7">7</a>.</li> - -<li class="indx">Luthero em Leipzic, <a href="#Page_11">11</a>.</li> - -<li class="indx">Luthero em Worms, <a href="#Page_16">16</a>.</li> - -<li class="indx">Luthero traduz a Biblia, <a href="#Page_19">19</a>.</li> - -<li class="indx">Luthero contra os camponezes, <a href="#Page_27">27</a>.</li> - -<li class="indx">Luthero não sympathiza com a Liga Protestante, <a href="#Page_32">32</a>.</li> - -<li class="indx">Luthero (Quietismo de), <a href="#Page_32">32</a>.</li> - -<li class="indx">Luthero (Mais ácerca de), <a href="#Page_212">212</a>, <a href="#Page_214">214</a>, <a href="#Page_222">222</a>.</li> - -<li class="ifrst">Madrid (Confederação de), <a href="#Page_28">28</a>.</li> - -<li class="indx">Madrid (Egmont em), <a href="#Page_119">119</a>.</li> - -<li class="indx">Maitland de Lethington, <a href="#Page_144">144</a>.</li> - -<li class="indx">Marburgo (Conferencia de), <a href="#Page_33">33</a>.</li> - -<li class="indx">Marcello de Padua, <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_158">158</a>, <a href="#Page_218">218</a>.</li> - -<li class="indx">Margarida de Navarra, <a href="#Page_89">89</a>.</li> - -<li class="indx">Margarida de Parma, <a href="#Page_117">117</a>.</li> - -<li class="indx">Margarida de Saboya, <a href="#Page_115">115</a>.</li> - -<li class="indx">Maria de Guise, <a href="#Page_140">140</a>.</li> - -<li class="indx">Maria, rainha de Inglaterra, <a href="#Page_181">181</a>, <a href="#Page_184">184</a>.</li> - -<li class="indx">Maria, rainha dos escocezes, <a href="#Page_144">144</a>, <a href="#Page_145">145</a>, <a href="#Page_182">182</a>, <a href="#Page_189">189</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li> - -<li class="indx">Martyr (Pedro), <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_187">187</a>, <a href="#Page_192">192</a>.</li> - -<li class="indx">Massacre de Amboise, <a href="#Page_99">99</a>.</li> - -<li class="indx">Massacre de S. Bartholomeu, <a href="#Page_107">107</a>, <a href="#Page_140">140</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li> - -<li class="indx">Massacre de Toulouse, <a href="#Page_103">103</a>.</li> - -<li class="indx">Massacre de Vassy, <a href="#Page_103">103</a>.</li> - -<li class="indx">Mauricio da Saxonia, <a href="#Page_42">42</a>, <a href="#Page_46">46</a>.</li> - -<li class="indx">Melanchthon, <a href="#Page_19">19</a>, <a href="#Page_37">37</a>, <a href="#Page_39">39</a>.</li> - -<li class="indx">Melville (André), <a href="#Page_152">152</a>.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_260" id="Page_260">[260]</a></span>Melville (James), <a href="#Page_149">149</a>.</li> - -<li class="indx">Mendicantes (Os), <a href="#Page_120">120</a>, <a href="#Page_123">123</a>.</li> - -<li class="indx">Mendigos (Os) do mar, <a href="#Page_124">124</a>, <a href="#Page_128">128</a>, <a href="#Page_129">129</a>, <a href="#Page_130">130</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Mérindol</i> (<i>Arrêt de</i>), <a href="#Page_93">93</a>.</li> - -<li class="indx">Mill (Walter), <a href="#Page_140">140</a>.</li> - -<li class="indx">Miltitz (Cardeal), <a href="#Page_10">10</a>.</li> - -<li class="indx">Missa (A Doutrina da), <a href="#Page_33">33</a>, <a href="#Page_39">39</a>.</li> - -<li class="indx">Monasticos (Votos), <a href="#Page_212">212</a>.</li> - -<li class="indx">Montauban, <a href="#Page_107">107</a>.</li> - -<li class="indx">Montgomery, bispo de Glasgow, <a href="#Page_151">151</a>.</li> - -<li class="indx">Montmorency, <a href="#Page_93">93</a>, <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_145">145</a>.</li> - -<li class="indx">Mooker Haide, <a href="#Page_129">129</a>.</li> - -<li class="indx">Moray (Conde de), <a href="#Page_146">146</a>, <a href="#Page_150">150</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li> - -<li class="indx">More (Sir Thomaz), <a href="#Page_161">161</a>, <a href="#Page_162">162</a>, <a href="#Page_168">168</a>, <a href="#Page_172">172</a>.</li> - -<li class="indx">Morgarten, <a href="#Page_59">59</a>.</li> - -<li class="indx">Mosteiros (Suppressão dos) em Inglaterra, <a href="#Page_170">170</a>, <a href="#Page_176">176</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li> - -<li class="indx">Münzer (Thomaz), <a href="#Page_20">20</a>, <a href="#Page_24">24</a>, <a href="#Page_63">63</a>.</li> - -<li class="indx">Mystico (Sentido) da Escriptura, <a href="#Page_230">230</a>.</li> - -<li class="indx">Mysticos (Os) medievaes, <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_211">211</a>, <a href="#Page_218">218</a>.</li> - -<li class="ifrst">Nantes (Edicto de), <a href="#Page_110">110</a>.</li> - -<li class="indx">Niceno (O credo), <a href="#Page_222">222</a>.</li> - -<li class="indx">Nicolau de Basiléa, <a href="#Page_212">212</a>.</li> - -<li class="indx">Nobres (Revolta dos) na Allemanha, <a href="#Page_21">21</a>.</li> - -<li class="indx">Norfolk (Duque de), <a href="#Page_195">195</a>.</li> - -<li class="indx">Noyon, <a href="#Page_69">69</a>.</li> - -<li class="indx">Nürnberg (Dieta de), <a href="#Page_20">20</a>.</li> - -<li class="ifrst">Ochino (Bernardo), <a href="#Page_178">178</a>.</li> - -<li class="indx">Ockham (Guilherme de), <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_138">138</a>.</li> - -<li class="indx">Œcolampadius, <a href="#Page_33">33</a>.</li> - -<li class="indx">Olivetan (Roberto), <a href="#Page_93">93</a>.</li> - -<li class="indx">Oppressões soffridas pelos camponezes, <a href="#Page_16">16</a>, <a href="#Page_23">23</a>, <a href="#Page_24">24</a>.</li> - -<li class="indx">Oração Commum (Livro de), <a href="#Page_177">177</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_209">209</a>.</li> - -<li class="indx">Orange (Guilherme de), <a href="#Page_117">117</a>, <a href="#Page_120">120</a>, <a href="#Page_121">121</a>, <a href="#Page_124">124</a>, <a href="#Page_126">126</a>, <a href="#Page_131">131</a>, <a href="#Page_132">132</a>.</li> - -<li class="indx">Orange (Mauricio de), <a href="#Page_123">123</a>.</li> - -<li class="indx">Oradores (Camaras de), <a href="#Page_144">144</a>.</li> - -<li class="indx">Ordenanças Ecclesiasticas, <a href="#Page_77">77</a>, <a href="#Page_79">79</a>, <a href="#Page_81">81</a>.</li> - -<li class="indx">Orleans, <a href="#Page_104">104</a>.</li> - -<li class="indx">Oxford, <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_187">187</a>.</li> - -<li class="ifrst">Pamphletos anti-prelaticios, <a href="#Page_198">198</a>.</li> - -<li class="indx">Paizes Baixos (Os), <a href="#Page_113">113</a>.</li> - -<li class="indx">Paramentos (Os) na Egreja de Inglaterra, <a href="#Page_179">179</a>, <a href="#Page_192">192</a>.</li> - -<li class="indx">Parker (Arcebispo), <a href="#Page_192">192</a>, <a href="#Page_194">194</a>.</li> - -<li class="indx">Parma (Margarida de), <a href="#Page_117">117</a>.</li> - -<li class="indx">Parma (Alexandre de), <a href="#Page_132">132</a>, <a href="#Page_197">197</a>.</li> - -<li class="indx">Passau (Tratado de), <a href="#Page_47">47</a>, <a href="#Page_183">183</a>.</li> - -<li class="indx">Pavia (Batalha de), <a href="#Page_28">28</a>, <a href="#Page_91">91</a>.</li> - -<li class="indx">Perdão (O) do peccado, <a href="#Page_4">4</a>, <a href="#Page_213">213</a>.</li> - -<li class="indx">Perseguições em França, <a href="#Page_91">91</a>, <a href="#Page_94">94</a>.</li> - -<li class="indx">Perseguições nos Paizes Baixos, <a href="#Page_123">123</a>.</li> - -<li class="indx">Perseguições na Escocia, <a href="#Page_140">140</a>.</li> - -<li class="indx">Perseguições em Inglaterra, <a href="#Page_168">168</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li> - -<li class="indx">Perth (Tumultos em), <a href="#Page_143">143</a>.</li> - -<li class="indx">Petersen (Os irmãos), <a href="#Page_52">52</a>.</li> - -<li class="indx">Philippe de Hesse, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_33">33</a>, <a href="#Page_37">37</a>, <a href="#Page_42">42</a>, <a href="#Page_43">43</a>.</li> - -<li class="indx">Philippe II de Hespanha, <a href="#Page_107">107</a>, <a href="#Page_115">115</a>, <a href="#Page_121">121</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_186">186</a>, <a href="#Page_189">189</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li> - -<li class="indx">Poissy (Conferencia de), <a href="#Page_102">102</a>.</li> - -<li class="indx">Pole (Cardeal), <a href="#Page_46">46</a>, <a href="#Page_185">185</a>.</li> - -<li class="indx">Polyhistor, <a href="#Page_64">64</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Proemunire</i>, <a href="#Page_161">161</a>, <a href="#Page_167">167</a>, <a href="#Page_217">217</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Presbyterianismo</i>, <a href="#Page_72">72</a>, <a href="#Page_95">95</a>, <a href="#Page_98">98</a>, <a href="#Page_134">134</a>, <a href="#Page_147">147</a>.</li> - -<li class="indx">Prierias (Silvestre), <a href="#Page_9">9</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Prophecias</i> (<i>As</i>), <a href="#Page_197">197</a>.</li> - -<li class="indx">Propriedade (As Leis da) e a Reforma, <a href="#Page_215">215</a>.</li> - -<li class="indx">Puritanos (Os), <a href="#Page_179">179</a>, <a href="#Page_193">193</a>.</li> - -<li class="ifrst">Randolpho, <a href="#Page_145">145</a>.</li> - -<li class="indx">Ratisbonna, <a href="#Page_22">22</a>.</li> - -<li class="indx">Reforma (Os principios da), <a href="#Page_1">1</a>, <a href="#Page_225">225</a>.</li> - -<li class="indx">Reforma (Antecipações da), <a href="#Page_213">213</a>.</li> - -<li class="indx">Reforma (A) e a vida social, <a href="#Page_215">215</a>.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_261" id="Page_261">[261]</a></span>Reforma, (A) uma revivificação de religião, <a href="#Page_205">205</a>.</li> - -<li class="indx">Reforma (A) e a necessidade do perdão, <a href="#Page_212">212</a>.</li> - -<li class="indx">Regensburgo (Conferencia de), <a href="#Page_40">40</a>.</li> - -<li class="indx">Regensburgo (Convenção de), <a href="#Page_22">22</a>.</li> - -<li class="indx">Religião (A) espiritual, <a href="#Page_209">209</a>.</li> - -<li class="indx">Renan ácerca de Calvino, <a href="#Page_83">83</a>.</li> - -<li class="indx">Renaudie, <a href="#Page_99">99</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Renuncia</i> (<i>A</i>), <a href="#Page_211">211</a>.</li> - -<li class="indx">Requescens, <a href="#Page_128">128</a>.</li> - -<li class="indx">Revivificação (A Reforma, uma), <a href="#Page_205">205</a>.</li> - -<li class="indx">Revivificação (A) medieval, <a href="#Page_210">210</a>.</li> - -<li class="indx">Revolta (A) dos camponezes, <a href="#Page_23">23</a>.</li> - -<li class="indx">Revolta (A) dos nobres, <a href="#Page_21">21</a>.</li> - -<li class="indx">Ridley (Bispo), <a href="#Page_180">180</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li> - -<li class="indx">Ritualistas (Os) na Igreja Ingleza, <a href="#Page_199">199</a>.</li> - -<li class="indx">Rochelle (La), <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_107">107</a>, <a href="#Page_108">108</a>.</li> - -<li class="indx">Romana (A Lei), <a href="#Page_24">24</a>.</li> - -<li class="indx">Roper (Margarida), <a href="#Page_170">170</a>.</li> - -<li class="indx">Row (João), <a href="#Page_139">139</a>, <a href="#Page_144">144</a>, <a href="#Page_153">153</a>.</li> - -<li class="ifrst">Sacerdocio (O) dos crentes, <a href="#Page_179">179</a>, <a href="#Page_226">226</a>.</li> - -<li class="indx">Saboya (Duque de), <a href="#Page_67">67</a>.</li> - -<li class="indx">Sacramentos (Os), <a href="#Page_34">34</a>.</li> - -<li class="indx">Sacramentos (A administração dos), <a href="#Page_207">207</a>.</li> - -<li class="indx">Sacramentos (Theoria dos), <a href="#Page_236">236</a>.</li> - -<li class="indx">Samson, traficante de Indulgencias, <a href="#Page_61">61</a>.</li> - -<li class="indx">Sancerre (Capitulação de), <a href="#Page_107">107</a>.</li> - -<li class="indx">Sandilands (Sir James), <a href="#Page_145">145</a>.</li> - -<li class="indx">Schmalkald (Liga de), <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_39">39</a>.</li> - -<li class="indx">Schmalkald (Guerra de), <a href="#Page_42">42</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Separação do mundo</i>, <a href="#Page_208">208</a>.</li> - -<li class="indx">Sickingen (Frank von), <a href="#Page_22">22</a>.</li> - -<li class="indx">Smeaton, <a href="#Page_149">149</a>.</li> - -<li class="indx">Sobrepeliz (A), <a href="#Page_193">193</a>.</li> - -<li class="indx">Social (A vida) e a Reforma, <a href="#Page_216">216</a>.</li> - -<li class="indx">Somerset (Lord Protector), <a href="#Page_175">175</a>.</li> - -<li class="indx">Spalatin, <a href="#Page_10">10</a>, <a href="#Page_16">16</a>.</li> - -<li class="indx">Spira (Edicto de), <a href="#Page_29">29</a>.</li> - -<li class="indx">Staupitz, <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_9">9</a>.</li> - -<li class="indx">Stirling, <a href="#Page_143">143</a>.</li> - -<li class="indx">Stockolmo (Massacre de), <a href="#Page_51">51</a>.</li> - -<li class="indx">Storch, <a href="#Page_20">20</a>, <a href="#Page_24">24</a>.</li> - -<li class="indx">Sturm, <a href="#Page_100">100</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Submissão do Clero</i>, <a href="#Page_165">165</a>.</li> - -<li class="indx">Sully (Duque de), <a href="#Page_107">107</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Superintendentes</i> (<i>Os</i>), <a href="#Page_147">147</a>.</li> - -<li class="indx">Supremacia (A) real em Inglaterra, <a href="#Page_166">166</a>, <a href="#Page_176">176</a>, <a href="#Page_185">185</a>, <a href="#Page_190">190</a>.</li> - -<li class="indx">Suecia (Reforma na), <a href="#Page_51">51</a>.</li> - -<li class="indx">Suissa (A Reforma), <a href="#Page_57">57-66</a>.</li> - -<li class="indx">Syndicancia aos mosteiros, <a href="#Page_170">170</a>.</li> - -<li class="indx">Syndicancia ás Egrejas, <a href="#Page_176">176</a>.</li> - -<li class="indx">Synodo da Egreja Franceza, <a href="#Page_97">97</a>.</li> - -<li class="indx">Synodo da Egreja Hollandeza, <a href="#Page_134">134</a>.</li> - -<li class="ifrst">Tauler (João), <a href="#Page_9">9</a>, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_212">212</a>.</li> - -<li class="indx">Tetzel (João), <a href="#Page_3">3</a>, <a href="#Page_4">4</a>.</li> - -<li class="indx">Theses (As) de Luthero, <a href="#Page_3">3</a>, <a href="#Page_5">5</a>, <a href="#Page_6">6</a>.</li> - -<li class="indx">Theses (As) de Zwinglio, <a href="#Page_62">62</a>.</li> - -<li class="indx">Tindal traduz a Biblia, <a href="#Page_187">187</a>.</li> - -<li class="indx">Toggenburgo, <a href="#Page_60">60</a>.</li> - -<li class="indx">Torpichen (Lord), <a href="#Page_142">142</a>.</li> - -<li class="indx">Toulouse (Massacre de), <a href="#Page_103">103</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Transubstanciação</i> (<i>A</i>), <a href="#Page_34">34</a>, <a href="#Page_36">36</a>.</li> - -<li class="indx">Trento (O concilio de), <a href="#Page_45">45</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Tulchanos</i> (<i>Os bispos</i>), <a href="#Page_150">150</a>.</li> - -<li class="ifrst">Ubiquidade (Doutrina da), <a href="#Page_36">36</a>.</li> - -<li class="indx">Udal (Nicolau), <a href="#Page_198">198</a>.</li> - -<li class="indx">Upsala, <a href="#Page_52">52</a>.</li> - -<li class="indx"><i>Utopia</i> (<i>A</i>) de Sir T. More, <a href="#Page_161">161</a>, <a href="#Page_169">169</a>.</li> - -<li class="indx">Utrecht, <a href="#Page_113">113</a>.</li> - -<li class="indx">Utrecht (Tratado de), <a href="#Page_132">132</a>.</li> - -<li class="ifrst">Valdenses (Os), <a href="#Page_92">92</a>.</li> - -<li class="indx">Valence (Bispo de), <a href="#Page_100">100</a>.</li> - -<li class="indx">Vassy (Massacre de), <a href="#Page_103">103</a>.</li> - -<li class="indx">Vienne (Arcebispo de), <a href="#Page_100">100</a>.</li> - -<li class="indx">Voes (Henrique), <a href="#Page_115">115</a>.</li> - -<li class="ifrst">Wardlaw, <a href="#Page_138">138</a>.</li> - -<li class="indx">Wartburgo, <a href="#Page_18">18</a>.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_262" id="Page_262">[262]</a></span>Warwick (Conde de), <a href="#Page_177">177</a>.</li> - -<li class="indx">Wedderburn (Balladas Sacras de), <a href="#Page_139">139</a>.</li> - -<li class="indx">Wessel (João), <a href="#Page_144">144</a>.</li> - -<li class="indx">Westeräs, <a href="#Page_52">52</a>.</li> - -<li class="indx">Wied (Hermann von), <a href="#Page_41">41</a>.</li> - -<li class="indx">Wilcox, <a href="#Page_194">194</a>.</li> - -<li class="indx">Wildhaus, <a href="#Page_66">66</a>.</li> - -<li class="indx">Willock, <a href="#Page_114">114</a>.</li> - -<li class="indx">Wimpina (Conrado), <a href="#Page_9">9</a>.</li> - -<li class="indx">Winram, <a href="#Page_144">144</a>.</li> - -<li class="indx">Wishart (Jorge), <a href="#Page_140">140</a>, <a href="#Page_141">141</a>.</li> - -<li class="indx">Wittenberg (Os fanaticos de), <a href="#Page_20">20</a>.</li> - -<li class="indx">Wolsey (Cardeal), <a href="#Page_162">162</a>, <a href="#Page_168">168</a>.</li> - -<li class="indx">Worms (Conferencia de), <a href="#Page_40">40</a>.</li> - -<li class="indx">Worms (Dieta de), <a href="#Page_16">16</a>, <a href="#Page_22">22</a>, <a href="#Page_24">24</a>.</li> - -<li class="indx">Wyatt (Sir T.), <a href="#Page_184">184</a>.</li> - -<li class="indx">Wycliffe, <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_11">11</a>, <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_158">158</a>.</li> - -<li class="indx">Wyttenbach (Thomaz), <a href="#Page_60">60</a>, <a href="#Page_64">64</a>.</li> - -<li class="ifrst">Xavier (Francisco), <a href="#Page_45">45</a>.</li> - -<li class="ifrst">Zurich, <a href="#Page_59">59</a>, <a href="#Page_62">62</a>, <a href="#Page_76">76</a>.</li> - -<li class="indx">Zwinglio, <a href="#Page_33">33</a>, <a href="#Page_35">35</a>, <a href="#Page_60">60</a>, <a href="#Page_66">66</a>.</li> - -</ul> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of A Reforma, by Thomas M. Lindsay - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A REFORMA *** - -***** This file should be named 62461-h.htm or 62461-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/4/6/62461/ - -Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online -Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. 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