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-The Project Gutenberg EBook of A Reforma, by Thomas M. Lindsay
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: A Reforma
-
-Author: Thomas M. Lindsay
-
-Release Date: June 23, 2020 [EBook #62461]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A REFORMA ***
-
-
-
-
-Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online
-Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net
-
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-
-
-A REFORMA
-
-
-
-
- A REFORMA
-
- POR
- T. M. LINDSAY
- DOUTOR EM THEOLOGIA E PROFESSOR DE HISTORIA
- ECLESIASTICA
-
- TRADUCÇÃO DE J. S. CANUTO
- (AUCTORISADA)
-
- [Illustration]
-
- LIVRARIA EVANGELICA
- RUA DAS JANELLAS VERDES, 32
- LISBOA
-
- LISBOA
- TYP. ROSA, LIMITADA
- 29, Rua da Magdalena, 31
-
-
-
-
-PREFACIO
-
-
-As primeiras tres partes d’este livrinho são simplesmente uma compilação
-das melhores e mais accessiveis historias da Reforma, e de modo algum são
-apresentadas como uma dissertação original sobre o vasto e complicado
-movimento religioso que descrevem. Sou da opinião do dr. Merle d’Aubigné:
-a Reforma foi uma revivificação da religião, e não pode ser descripta com
-bom exito se não tivermos sempre deante de nós, e bem distinctamente,
-este seu caracter essencial. Os reformadores foram homens que, sob o
-impulso de um grande movimento religioso que se levantou n’uma occasião
-em que eram bem particulares as circumstancias intellectuaes, sociaes e
-politicas, se sentiram animados pelo desejo de que lhes fosse permittido
-dar culto a Deus segundo as direcções da Escriptura e os dictames da
-razão e da consciencia. Mas este desejo, apparentemente simples, envolvia
-uma tal mudança nas condições sociaes e politicas, não sómente em cada
-provincia e em cada nação, mas em toda a Europa, tomada no seu conjuncto,
-que não se pode escrever a historia da revivificação religiosa sem
-apresentar uma grande parte da historia politica e social de aquella
-epoca.
-
-O dr. Leopoldo von Ranke tratou com tanta proficiencia da historia
-politica do periodo em questão, que o auctor até do mais humilde dos
-manuaes deve collocar-se quasi exclusivamente debaixo da sua direcção.
-Foi o que eu fiz, e em quasi todas as paginas me aproveito, com
-reconhecimento, das suas magistraes descripções do movimento politico e
-social.
-
-Escusado seria mencionar toda a longa lista de auctores consultados na
-preparação d’este pequeno livrinho; como, porém, não se faz referencia
-alguma ás auctoridades citadas, cumpre-me dizer que, além de d’Aubigné
-e de Ranke, as pessoas que teem conhecimento do assumpto hão de notar
-um continuo uso das _Historias da Egreja_ de Hagenbach e Henke, do
-_Periodo da Reforma_ de Haüsser, dos _Huguenotes_ de Baird, de dois
-volumes das _Epocas da Historia Moderna_ de Longman, da _Era da Revolução
-Protestante_ de Seebohm, e do _Seculo de Isabel_ de Creighton. Refiro-me
-frequentemente á _Historia dos Credos do Christianismo_ ao tratar das
-Confissões, e á inapreciavel collecção de _Livros de Disciplina_, de
-Richter, ao tratar da organização ecclesiastica das varias egrejas
-reformadas.
-
-A quarta parte, que se occupa summariamente dos principios fundamentaes
-do movimento da Reforma, deveria talvez ter ido em primeiro logar,
-servindo de introducção, mas preferi collocal-a no fim; em parte, porque
-similhante introducção poderia assustar os leitores jovens, e em parte
-porque os principios do movimento podem ser mais bem apreciados depois do
-leitor ter algum conhecimento da sua historia. A quarta parte é a unica
-porção d’este pequeno manual que se pode dizer com verdade que pertence
-exclusivamente ao auctor, e que apresenta opiniões sobre o assumpto de
-que só elle é responsavel.
-
-O summario chronologico foi extraido quasi inteiramente das admiraveis
-tabellas de Weingarten.
-
- T. M. LINDSAY.
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- PARTE I
-
- A REFORMA ALLEMÃ, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS PAG. 1-53
-
- CAPITULO I
-
- A REFORMA NA ALLEMANHA PAG. 1-48
-
- O principio da Reforma, pag. 3.—As indulgencias, e as theses
- que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As theses
- de Luthero não atacavam sómente as indulgencias, pag. 6.—A
- historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios
- e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag.
- 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O Imperador
- e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag.
- 15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo,
- pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de
- Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta
- dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529,
- pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag.
- 32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre
- Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag.
- 36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante
- de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra
- de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral,
- pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de
- Augsburgo, pag. 47.
-
- CAPITULO II
-
- A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA PAG. 49-53
-
- O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag.
- 50.—Na Suecia, pag. 51.
-
- PARTE II
-
- A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS PAG. 55-154
-
- CAPITULO I
-
- A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO PAG. 57-66
-
- As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica
- da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de
- Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa,
- pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os cantões florestaes, pag.
- 64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.
-
- CAPITULO II
-
- A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO PAG. 67-85
-
- Genebra antes da Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag. 68.—A
- mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião Christã_,
- pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua expulsão, pag.
- 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag. 76.—_As Ordenanças
- Eclesiasticas_, pag. 77.—Como differem dos _Institutos_,
- pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, pag.
- 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe Beza, pag. 83.—A
- influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma, pag. 83.—_A
- Confissão de Zurich_, pag. 84.
-
- CAPITULO III
-
- A REFORMA EM FRANÇA PAG. 87-111
-
- Os principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag.
- 89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma,
- pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos
- placards, pag. 92.—O Vaudois de Durance, pag. 92.—Henrique II
- e os Guises, pag. 93.—Organização da egreja reformada, pag.
- 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag. 96.—O
- primeiro _Synodo Nacional_, pag. 97.—Anne de Bourg, pag.
- 98.—A carnificina de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa
- dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A
- Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros,
- pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e
- Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A
- Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto
- de Nantes, pag. 110.
-
- CAPITULO IV
-
- A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS PAG. 113-116
-
- Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag.
- 114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os
- Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos
- bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os
- _mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de
- Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e
- do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange,
- pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag.
- 126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag.
- 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag.
- 130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag.
- 132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua
- organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag.
- 134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da
- Egreja na Hollanda, pag. 136.
-
- CAPITULO V
-
- A REFORMA NA ESCOCIA PAG. 137-154
-
- Preparação para a Reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica e
- a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag. 138.—A
- Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia e a
- situação politica, pag. 139.—João Knox, pag. 141.—A Congregação
- e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão escoceza_,
- pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.— O _Livro de
- Disciplina e a Primeira Assembléa Geral_, pag. 147.—A educação,
- pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos tulchanos, pag.
- 150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro de Disciplina,
- pag. 152.
-
- PARTE III
-
- A REFORMA ANGLICANA PAG. 155-201
-
- CAPITULO I
-
- A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII PAG. 137-174
-
- O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag.
- 157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O
- estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma,
- pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag.
- 160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado,
- pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII,
- Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles,
- pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da
- separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas
- coisas differentes, pag. 168.—Execução de sir Thomas More, pag.
- 169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades
- da Egreja, pag. 170.—_Os dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto
- Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag.
- 173.
-
- CAPITULO II
-
- A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE
- MARIA PAG. 175-188
-
- Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o _Livro de
- Homilias_ e o _Livro de Oração Commum_, pag. 176.—A alliança
- com o protestantismo continental, pag. 178.—Os _Quarenta e
- Dois Artigos_, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag.
- 179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra
- por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha
- necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se
- firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A
- reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida
- a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado
- de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag.
- 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A
- morte de Maria, pag. 187.
-
- CAPITULO III
-
- A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL PAG. 189-201
-
- A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão
- religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag.
- 192.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag.
- 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag.
- 194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A
- Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—_Os
- conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_,
- pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198.
-
- PARTE IV
-
- OS PRINCIPIOS DA REFORMA PAG. 203-236
-
- CAPITULO I
-
- A REFORMA FOI UMA REVIVIFICAÇÃO RELIGIOSA PAG. 205-214
-
- A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de
- particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação
- da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a
- Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag.
- 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,
- pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis,
- pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação
- do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma
- revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213.
-
- CAPITULO II
-
- COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA PAG. 215-219
-
- O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado
- na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a noção
- medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra
- o mediavelismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De
- Monarchia de Dante_ e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua,
- pag. 218.
-
- CAPITULO III
-
- A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES PAG. 221-224
-
- Os Reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja,
- pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á
- Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da
- Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição
- reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223.
-
- CAPITULO IV
-
- OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA PAG. 225-236
-
- Os principios _formaes e materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O
- sacerdocio de todos os crentes: o grande principio da Reforma,
- pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da
- _Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_
- da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina
- medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da
- Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_.
- Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia,
- pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em
- contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical
- e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e
- justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235.
-
- SUMMARIO CHRONOLOGICO PAG. 237-255
-
- INDICE DE PERSONAGENS, LOCALIDADES, ETC PAG. 257-261
-
-
-
-
-
-I PARTE
-
-A REFORMA NA ALLEMANHA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS
-
-CAPITULOS:
-
- I—A REFORMA NA ALLEMANHA.
-
- II—A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-A REFORMA NA ALLEMANHA
-
- O principio da Reforma, pag. 3.—As Indulgencias, e as Theses
- que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As Theses
- de Luthero não atacavam sómente as Indulgencias, pag. 6.—A
- historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios
- e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag.
- 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O imperador
- e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag.
- 15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo,
- pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de
- Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta
- dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529,
- pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag.
- 32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre
- Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag.
- 36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante
- de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra
- de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral,
- pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de
- Augsburgo, pag. 47.
-
-
-=O principio da Reforma.=—A reforma principiou, se é que similhante
-movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca remotissima, teve
-realmente um principio, quando Martinho Luthero pregou as noventa e
-nove theses contra as indulgencias na porta da egreja da pequena cidade
-de Wittenberg, na Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido
-enviado á Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para
-o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra com os
-turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar fundos para serem
-dispendidos pelo papa em quadros e outras obras de arte para a sumptuosa
-egreja de S. Pedro, em Roma. O dinheiro obtinha-se em troca de uma
-especie de recibos, em que se declarava que o comprador havia recebido
-perdão da perpetração dos peccados que mencionara e pago a respectiva
-importancia.
-
-O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo de
-Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou durante o outomno
-de 1517 o centro da Allemanha, e chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia.
-A sua presença não tinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem
-pelos clerigos mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo
-mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo facto de
-extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o todo para o papa;
-estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles não lhe deram licença para
-entrar nos seus territorios senão depois d’elle prometter que lhes dava
-uma parte do que adquirisse.
-
-A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava d’elle pelo facto
-de, por onde quer que elle passasse, o povo se tornar peior; vendia por
-sete ducados o direito de assassinar um inimigo; aquelles que desejavam
-roubar uma egreja eram perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio
-de pae, mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens e
-mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como é natural, tirar
-algum lucro de aquillo que lhes custara o seu dinheiro, e por isso o
-crime abundava onde quer que o vendedor do perdão apparecesse.
-
-As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas, pelo facto do
-tumulto e dos escandalos a que a sua presença dava origem. Enviava
-adeante de si homens extravagantemente vestidos, que fixavam annuncios
-pelas paredes, e que apregoavam pelas ruas e pelas estradas a sua proxima
-chegada, encarecendo a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia
-á venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna aquelles que
-o comprarem mais limpos do que o baptismo, mais puros do que Adão no
-seu estado de innocencia no paraiso»; «Assim que o dinheiro tilintar no
-fundo do cofre, o comprador fica perdoado, e livre de todos os peccados».
-Em seguida a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu
-ajudante, n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da praça
-do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro de cujas grades
-pendiam os celebres papelinhos, e do outro um cofre em que o dinheiro era
-lançado, offerecia ao publico a sua mercadoria, á maneira dos vendedores
-de elixires que costumam apparecer pelas feiras.
-
-Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e a sua alma justa
-sentia-se indignada com o facto dos bispos, apezar de todas as suas
-cartas e protestos, permittirem que elle andasse de diocese em diocese.
-Não obstante haver prégado contra Tetzel e contra as indulgencias, o
-traficante do perdão ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a
-Jüterbogk, perto de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso
-como prégador e como professor da universidade, não poude conter-se por
-mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias, e
-pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas suas proposições,
-que, se havia na Egreja logar para Tetzel e para os seus bilhetes de
-perdão, não o haveria para elle, Luthero, nem para as idéas que elle
-tinha relativamente ao peccado e ao modo como Deus concede o perdão.
-Roma e as indulgencias estavam produzindo uma forte indignação em toda a
-Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram as theses
-que o ateiaram, dando principio á Reforma.
-
-=As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.=—As
-indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma coisa nova na
-Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse, formavam um elemento
-tão preponderante da vida exterior da Egreja n’aquella epoca que seria
-dificil censural-as sem ir de encontro a muitas outras coisas. A Egreja
-da Edade Media preoccupava-se muito com a representação visivel dos
-factos e forças espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta
-importancia a essa manifestação externa que se chegava a perder de vista
-o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e excellentes
-verdades evangelicas se acharam envolvidas por uma espessa camada
-de formulas estereis que não permittiam que se desenvolvesse a vida
-espiritual.
-
-É uma verdade evangelica que quando um homem se sente triste por causa
-dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza d’este ou d’aquelle modo;
-o verdadeiro arrependimento torna-se sempre manifesto. A Egreja da Edade
-Media pegou n’este axioma e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento
-deve manifestar-se sempre em certos e determinados modos prescriptos pela
-Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento, taes como, o
-dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos dias, ou o praticar
-outras penitencias mais ou menos dolorosas, vieram a ser consideradas
-como o verdadeiro arrependimento e a serem chamados por esse nome.
-
-No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta, ficou
-estabelecido que o pagamento de umas determinadas sommas de dinheiro
-dispensasse os signaes exteriores do arrependimento, comtanto que o
-peccador penitente se sentisse compungido no seu coração por haver
-peccado. Quando a Egreja attingiu um estado ainda peior, decidiu-se,
-como coisa assente, que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o
-perdão de Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que
-se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico das
-indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam esta doutrina muito
-lucrativa, e, como foi abertamente proclamado, diligenciaram extrair
-todo o dinheiro que lhes fosse possivel «dos peccados dos allemães». A
-indulgencia contra a qual Luthero protestou era a quinta das que nos
-ultimos dezesete annos tinham sido publicadas.
-
-As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso encadeado
-contra a doutrina e pratica das indulgencias. E torna evidentes estas
-tres coisas: (1) É, de algum modo, digna de approvação a indulgencia
-quando significa simplesmente um dos muitos meios de proclamar o perdão
-do peccado, _concedido por Deus_; mas uma tal proclamação deve ser sempre
-gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem
-á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao verdadeiro
-arrependimento, e a auctorisação para deixar de os pôr em pratica não
-pode, de maneira alguma, garantir que Deus tenha realmente perdoado.
-(3) Qualquer cristão que se sinta verdadeiramente arrependido recebe um
-pleno perdão, e é participante de todas as riquezas de Christo, por um
-dom directo de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra
-intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar melhor
-as suas theses, declara que o arrependimento consiste na contricção,
-na confissão e na absolvição, e que a mais importante das tres coisas
-é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr verdadeira, sincera,
-seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão e a absolvição. Assim, para
-Luthero, a coisa essencial é o facto intimo, espiritual, da dôr produzida
-pelo sentimento do peccado; a manifestação do pezar é uma coisa boa,
-mas para o que Deus olha é para o estado espiritual, e não para a
-exteriorisação d’esse estado.
-
-=As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.=—Luthero, nas
-suas theses e no seu sermão, declarou que os factos intimos, espirituaes,
-experimentados pelo homem, eram de um infinito valor, comparados com a
-expressão d’esses factos mediante formulas esteriotypadas que a Egreja
-reconhecia; e tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne
-assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter directamente
-com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo isto, fez muito mais do
-que atacar as indulgencias; protestou contra as mais enraizadas noções da
-Egreja medieval.
-
-A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos desde o dia
-de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição homens e
-mulheres, cheios de confiança em Christo, se teem dirigido humildemente
-a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes concedido esse perdão que
-solicitavam, e a sua simples experiencia christã foi cantada nos
-grandiosos e velhos hymnos da egreja medieval; encontrou expressão nas
-orações da Egreja; constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja,
-e agitou as multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como
-quer que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos
-não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia era opposta ao
-maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja accumulava de tal fórma
-as coisas exteriores, que a vida espiritual ficou sepultada debaixo
-d’ellas, e na linguagem corrente da epoca havia-se mudado a verdadeira
-significação dos termos «espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem
-era «espiritual» quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o
-dinheiro tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio,
-com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual», ou
-«santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade.
-
-E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos, com a
-sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes, e tão cega
-tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o homem, proclamando
-que ninguem se podia chegar a Deus senão por meio d’ella, e que Deus
-não poderia jámais fallar ao coração do homem senão egualmente por seu
-intermedio. A confissão dos peccados tinha de ser feita ao padre, e o
-perdão era concedido mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra
-tudo isto n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não
-sabia. A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade de
-se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos peccados
-comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus eram coisas que
-desappareciam mediante o desembolso de uma certa quantia. Ao dar saida á
-sua indignação, referia-se apenas ao sacrilegio que via deante de si; e,
-comtudo, atacou, não simplesmente a peior parte de um systema mau, mas o
-systema todo. A Reforma tinha começado.
-
-=A historia de Luthero, desde o principio.=—O homem que se oppoz a Tetzel
-tinha, apoz um longo e encarniçado combate, chegado ao conhecimento do
-que o perdão dos peccados significa realmente. Recorrera a todos os meios
-que a Egreja poz ao dispôr dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles
-lhe proporcionara conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e
-achou a paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão
-de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado com as
-armas pontificias, e lavrou o seu protesto em nome de todos aquelles que,
-em todos os seculos da egreja, sentindo-se vergados ao peso do peccado,
-tinham encontrado em Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle
-torna isto bem evidente, como vamos ver.
-
-Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. «Sou camponez,
-e filho de camponez», costumava elle dizer. O pae era mineiro, e a mãe
-uma camponeza com fama de muita austeridade. Teve uma infancia muito
-pouco risonha, e, apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus
-caracteristicos, notava-se-lhe de quando em quando um certo ar triste
-que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros annos
-da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um homem. Como todos
-os homens de trabalho, tinha em desprezo os indolentes frades, e toda
-a sua idéa era que o filho fosse advogado; queria que elle se formasse
-em direito, conhecesse todas as engrenagens da lei, d’esse terrivel
-tyranno do camponez allemão, que o tratava como a um servo, quasi como
-a um proscripto. Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld,
-de Magdeburgo, de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle
-tempo, bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que não
-experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas vezes, forçoso
-cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu o primeiro lampejo da
-caridade humana, quando Frau Cotta, attraida pela triste solidão em que
-elle vivia e pela sua melodiosa voz, o introduziu em sua casa e lhe fez
-todo o bem que poude. De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade,
-onde não tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além
-da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio. Leu as
-grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima de tudo, leu e
-tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos do bravo franciscano
-inglez Guilherme de Occam, que resistiu denodadamente aos papas no seculo
-quatorze, e que ensinou Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero
-chamava-lhe com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503
-recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se notado
-pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia. Estava,
-pois, no caminho da posição em que o pae desejava vêl-o: a de um grande
-jurisconsulto.
-
-Durante todo esse tempo, comtudo, a sua consciencia não tinha estado
-ociosa; os seus peccados atormentavam-n’o; a ira de Deus tinha caido
-pesadamente sobre elle. O amor de Deus era uma coisa que para elle não
-existia. O pae terrestre tinha-o tratado sempre com severidade, com
-dureza, e no Pae celestial via apenas um senhor que exigia d’elle esta e
-aquella coisa. No dia 17 de Julho de 1505, tendo elle 21 annos, os seus
-sentimentos religiosos poderam mais do que elle; entrou para o convento
-dos agostinhos de Erfurt, fugindo á sociedade de parentes e amigos, e
-desprezando todas as honrarias humanas. O seu Platão e o seu Virgilio, de
-que se fez acompanhar, ficaram sendo as unicas recordações da sua vida
-passada.
-
-No convento poz-se a trabalhar para achar o caminho da salvação.
-Leu obras theologicas, jejuou, orou, submetteu-se a toda a sorte de
-privações, mas nunca logrou encontrar a paz. Não tardou em adquirir
-uma Biblia _completa_, coisa para elle inteiramente nova, e poz-se a
-estudal-a com todo o afan; o terror do peccado estava, porém, sobre
-elle, e não lhe deixava ver o Evangelho. Foi ter com o vigario geral da
-ordem, Staupitz, que era um homem muito fervoroso, e este encaminhou-o
-para Agostinho e para os mysticos allemães, em que encontrou um grande
-auxilio. Aquelle mostrou-lhe o que era o peccado, e o que era a graça
-soberana; e estes convenceram-n’o de que a verdadeira religião era a
-religião do coração. No emtanto continuava a faltar-lhe a paz.
-
-No meio d’este conflicto, foi-lhe confiado um encargo especial. Frederico
-o magnanimo, eleitor da Saxonia, e o mais eminente dos principes
-allemães, fundou uma nova universidade em Wittenberg, e pediu a Staupitz
-que indicasse os respectivos lentes. Luthero foi então nomeado professor
-de philosophia, e começou logo a fazer prelecções. Em 1512 doutorou-se
-em theologia biblica, versando as suas conferencias sobre os Psalmos e
-as Epistolas de S. Paulo aos Romanos e aos Galatas. Como estudo, leu os
-Mysticos, os _Sermões_ de Teulez, e aquelle pequeno mas importante livro,
-_A Theologia Allemã_. Chegou, porém, a crise da sua vida. Em 1511 foi
-enviado a Roma para tratar de negocios. Á ida era um theologo medieval; á
-volta era um protestante; á ida cria na justificação pelas obras, á volta
-cria na justificação pela fé.
-
-Roma era, havia muitos seculos, um amontoado de corrupção moral, e
-Luthero descobriu isso immediatamente. Entrou n’aquella cidade como um
-judeu entraria em Jerusalem. Elle proprio nos conta que ao avistal-a caiu
-de joelhos e exclamou: «Eu te saudo, cidade santa, tres vezes santificada
-pelo sangue dos martyres que se tem derramado em ti». Viu que os monges
-e padres eram homens maus, que faziam zombaria dos serviços religiosos
-em que tomavam parte. Viu que havia no povo muita deslealdade e cubiça,
-e que até o papa pouco melhor era do que um pagão. Luthero havia-se
-dirigido a Roma com a idéa de achar na cidade santa, como elle lhe
-chamava lá na Allemanha, algum meio seguro de promover a sua salvação, e,
-caso estranho, foi o proprio Christo que elle achou. Foi em Roma, no meio
-da corrupção e da blasphemia, que de subito se compenetrou de que não
-havia outro meio de salvação senão procurar Christo e entregar tudo ao
-cuidado d’Elle; de que o perdão é gratuitamente concedido por Deus e dá
-principio á vida christã, em vez de ser penosamente ganho no fim della.
-
-Ao regressar a Wittenberg, era outro homem. Era já afamado como prégador;
-mas depois da sua visita a Roma prégava como nenhum outro poderia
-prégar. Tornou-se a primeira figura da universidade, e tinha como amigos
-Staupitz, o seu geral, e Frederico, o seu principe. Foi então que
-appareceram as famosas indulgencias.
-
-=Partidarios e adversarios de Luthero.=—Ao principio parecia que toda a
-Allemanha estava ao lado de Luthero. O trafico das indulgencias tinha
-sido tão escandaloso que as pessoas de bons sentimentos e todos os
-patriotas allemães se sentiam indignados. O golpe, porém, que Luthero
-vibrara ás indulgencias havia attingido outros pontos, e não tardaram a
-levantar-se antagonistas. Conrado Wimpina em Frankfort, Hogstraten em
-Colonia, Silvestre Prierias em Roma, e, acima de todos, João Eck, um seu
-antigo condiscipulo, em Ingolstadt, todos elles atacaram as theses, e
-descobriram heresias nas mesmas.
-
-Resultou de ahi que Luthero foi citado a comparecer, em Roma, na
-presença do papa; mas o eleitor da Saxonia conseguiu uma modificação,
-recebendo, por fim, Luthero ordem para partir para Augsburgo, a fim de
-ser interrogado pelo cardeal Caetano, legado do papa na dieta allemã.
-O papa queria evitar uma desintelligencia com o eleitor da Saxonia, e
-recommendou a Caetano que se mostrasse conciliativo. Luthero foi, mas a
-entrevista não teve bom exito. O cardeal começou por reprehender Luthero,
-mas acabou por se sentir dominado por um certo mêdo d’elle. «Não posso
-discutir mais com este animal», disse elle; «tem um olhar maligno, e
-povoam-lhe o cerebro uns pensamentos estupendos». Luthero, por seu
-lado, dizia abertamente que o legado era tão competente para julgar de
-assumptos espirituaes como um burro para tocar harpa.
-
-Ao deixar Augsburgo, levava sobre si a condemnação, mas havia appellado
-para o proprio papa, rogando-lhe que se informasse melhor do seu caso.
-O papa não queria indispôr-se com a Allemanha, porque a parte mais
-importante da nação parecia estar a favor de Luthero, e enviou o cardeal
-Miltitz a promover a paz. Este não chamou o moço frade á sua presença,
-mas teve com elle uma conversação amigavel em casa de Spalatin, o
-capellão do eleitor. Antes d’esta entrevista Luthero havia appellado para
-um concilio geral. O cardeal Miltitz declarou estar em desaccordo com
-Tetzel, reprovou as indulgencias, e concordou com muitas das asserções de
-Luthero; mas lembrou-lhe que não tinha sido bastante respeitoso para com
-o papa, e que estava enfraquecendo o poder e a auctoridade da egreja. O
-seu argumento era, em summa, o seguinte: «O senhor pode ter razão; mas
-para que ha de ser rude? Escreva ao papa, e peça-lhe desculpa». Luthero
-prometteu fazel-o, e entre elle e Miltitz ficou estabelecido um convenio,
-que, como elle depois referiu ao eleitor, continha duas clausulas:
-
- 1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre as
- materias em controversia.
-
- 2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios, e o
- papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão
- de theologos illustrados.
-
-No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente que
-a auctoridade da egreja era superior a tudo, e que a coisa alguma, quer
-na terra quer no céu, se devia dar a prioridade, com excepção de Jesus
-Christo, que tudo governa. Isto foi em Março de 1519.
-
-=A disputa de Leipzig.=—Luthero tinha promettido conservar-se quieto
-se os seus adversarios se conservassem quietos—era este o seu ajuste
-com o cardeal Miltitz; os seus inimigos, porém, não se conservaram
-quietos, e Luthero considerou-se livre para os atacar. O indiscreto
-amigo da egreja era João Eck. Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero,
-para uma discussão publica, e no entretanto publicou treze theses que
-atacavam as noventa e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente,
-e a polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra
-entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia attingiu
-um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica, mas, sim, a
-opposição de duas series de principios em conflicto, affectando todo o
-circulo da vida ecclesiastica. Aqui, pela primeira vez, a christandade
-allemã desprendeu-se da christandade romana, insistindo no sacerdocio de
-todos os crentes e no direito de cada christão julgar em todas as coisas
-segundo a sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu
-Santo Espirito.
-
-Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias, mas o
-debate em breve mudou para a auctoridade da Egreja romana e do papa. Eck
-mantinha a suprema auctoridade do bispo de Roma, como successor de S.
-Pedro e Vigario geral de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja
-romana sobre as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho
-da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos mais
-santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou uma grande
-contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou Eck. «A egreja grega tem
-existido sem papa, e vós sois o primeiro a negar-lhe o nome de Egreja»
-respondeu Luthero. «Athanasio, Basilio e os dois Gregorios estavam fóra
-da egreja? O papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do
-papa». «Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram
-condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de Huss eram erroneas»
-disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões dos concilios, eu recuso
-discutir comvosco», disse Eck, e por aqui se ficou. Immediatamente
-depois, porém, Luthero completou e publicou a sua argumentação. Declara,
-pela primeira vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa,
-mas o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o papa se
-mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos servos de Deus»,
-elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a egreja é a communhão dos
-fieis—é constituida pelos verdadeiros crentes, pelos eleitos. Á egreja
-nunca falta o Espirito Santo, e aos papas e concilios falta muitas vezes.
-Esta egreja, que tem sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto,
-um leigo que possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de
-credito do que um papa ou um concilio que o não faça.
-
-Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados. De um
-lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião que Luthero devia ser
-violentamente posto fóra de combate, e insistiram n’uma bulla papal que o
-condemnasse; e do outro, Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha
-chegado com a sua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia
-agostiniana, com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade
-moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus, feria, em
-todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade media: mostrava
-que era impossivel a qualquer homem o ter uma vida perfeitamente pura e
-santa, e, por consequencia, não podia haver santos, e o culto dado aos
-santos era um absurdo; tornava inuteis as reliquias e as peregrinações,
-assim como a vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações.
-Todas estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira vida
-religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver mediador entre Deus e
-os homens, com excepção de Jesus Christo, a mediação do papa para nada
-servia.
-
-A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia separado de Roma,
-e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso, chegando o seu enthusiasmo a
-um ponto extremo. O povo das cidades manifestou a sua sympathia pelo
-arrojado frade. Ulrico von Hutten e os outros homens de letras viram
-n’elle, desde então, o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros
-cavalleiros livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os
-pobres e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que elle
-os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam.
-Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo allemão. Isto teve
-logar em 1519.
-
-=A bulla do papa e a queima da mesma.=—Eck e os demais adversarios
-de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia pôr em pratica para
-reduzir ao silencio o audacioso monge, e instaram com o papa para que
-publicasse uma bulla condemnando as suas opiniões. Luthero, por seu lado,
-não estava ocioso. Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua
-habitual actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao
-povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre, e, comtudo,
-mandava todos os annos uma consideravel quantia de dinheiro para Roma.
-
-N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico, tendo
-Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em bispados, e o clero
-era muito rico. Possuia extensos dominios, que arrendava; tinha tambem
-direito aos dizimos (a decima parte) de todas as outras propriedades;
-além d’isso, fazia dinheiro com os baptismos, com os casamentos, com as
-absolvições, com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros,
-e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se tambem tornado
-muito opulentas, sendo a sua maior riqueza constituida por terras que
-lhes haviam sido doadas ou legadas em testamento por pessoas devotas.
-Em quasi todos os paizes da Europa se haviam promulgado leis com o fim
-de impedir ou limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão
-inefficazes que ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras
-de quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam
-continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os annos para
-Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram recolhidas pelo papa,
-que demorava sempre a nomeação de outro bispo. O papa diligenciava
-frequentemente que os bispos ou abbades fossem italianos, pois que estes
-ficavam residindo em Roma, e o dinheiro era-lhes remettido para lá.
-Quando um novo bispo era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento
-do primeiro anno (_os annatas_). Todo este dinheiro que era exportado
-para Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero
-ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias. Luthero, no
-seu opusculo _Á nobreza da nação allemã_ tornava tudo isto saliente, e
-perguntava por quanto tempo se estaria disposto a tolerar similhante
-coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista dos dois estados
-distinctos, um espiritual, incluindo o papa, os bispos, os padres, os
-frades e as freiras, e o outro temporal, constituido por todas as outras
-individualidades, era um muro levantado pelos romanistas para defenderem
-as oppressões da egreja. Dizia-lhes, outrosim, que _todos_ os christãos
-são espirituaes, e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E
-perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que do seu
-depauperado paiz fossem enviados annualmente para Roma 300.000 florins.
-
-Escreveu tambem outro tratado, _O captiveiro babylonico da egreja de
-Christo_, para mostrar que elle não desejava destruir mas purificar a
-verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito. Luthero opinava
-que o papa e os romanistas tinham conduzido a egreja a um captiveiro,
-muito comparavel ao dos judeus em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O
-Senhor disse por occasião da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus
-discipulos, «Bebei d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes
-d’elle se não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros
-christãos tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E
-concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo preparadas
-bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida uma retractação, sob
-pena de ser proclamado hereje. Se é verdade, desejo que este livrinho
-fique constituindo uma parte da minha futura retractação».
-
-Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos da Allemanha,
-e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu, por fim, em 15 de Julho de
-1520. Accusava Luthero de sustentar as opiniões de Huss, e condemnava-o.
-Eck levou-a para Leipzig em Outubro. Foi affixada em varias cidades
-allemãs, e em geral os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou,
-por fim, ás mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto,
-em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim annunciou
-em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro, á frente de um
-cortejo de professores e estudantes, Luthero saiu da universidade e
-dirigiu-se para o mercado. Um dos lentes accendeu a fogueira, e Luthero
-lançou a bulla ás chammas. Estava consummada a affronta. Foi tambem
-queimado um exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali
-em deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma.
-A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um enorme
-regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só o imperador é que
-tinha poder agora para reprimir Luthero.
-
-=O imperador e a Reforma.=—O imperador era, por esse tempo, Carlos V.
-Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado na Allemanha, nem
-era tão poderoso como o seu titulo indicava. N’aquelles dias ainda
-predominavam as idéas medievaes de governo, e Carlos V tinha resolvido
-restabelecer o velho poder imperial com todos os seus attributos.
-
-No principio da edade media os homens colhiam as suas idéas de governo
-do velho imperio romano—não do imperio pagão de Augusto Cesar e dos seus
-successores, mas do imperio christão de Constantino e de aquelles que
-vieram apoz elle. Posto que aquelle velho imperio tivesse sido destruido
-pelas invasões das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das
-conquistas ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram o
-governo e as leis da nação que haviam derrubado.
-
-Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem social eram
-coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse concentrado n’um
-foco e identificado n’uma só pessoa—o monarca universal; e quando todo
-o governo ecclesiastico e communhão religiosa não obedecessem, da mesma
-fórma, ao arbitrio de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca
-universal era o imperador, que dominava _circa civilia_ como vigario, ou
-representante, de Deus; e o sacerdote universal era o papa, que dominava
-_circa sacra_, como vigario, ou representante, de Deus. Um dominava nos
-corpos, o outro dominava nas almas, dos homens; e o dominio de ambos era
-universal. Um tinha o poderio da espada, e o outro tinha o poderio das
-chaves. Este sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade,
-até então; mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma,
-estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador e o papa.
-
-No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão, concebeu
-o plano de, mediante um elaborado systema de enlaces matrimoniaes,
-restituir ao imperio a sua primitiva grandeza. Tinha tres filhas. A mais
-velha casou com o rei de Portugal, o que daria logar a que este paiz e
-Hespanha ficassem constituindo um só reino. A segunda casou com Filippe
-de Austria, chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor
-da Borgonha e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIII
-de Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira
-do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e de Borgonha. Do
-terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos casou com sua prima Isabel,
-e ficou, portanto, reinando em Hespanha, Austria, Borgonha e Paizes
-Baixos. E mais tarde foi tambem imperador e rei de Italia.
-
-Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha havido
-outro durante muitos seculos; e a sua ambição era ver-se investido
-da mesma auctoridade que tinham tido Carlos Magno e Otto I. Tinha os
-olhos constantemente fitos no passado; e lá no seu intimo arquitectava
-a maneira de restabelecer na Europa aquella unidade politica que
-desapparecera quando começaram a organizar-se as nações modernas. Esta
-velha unidade, porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem
-uma egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para
-com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era por elle
-considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador, o seu imperio
-não estava muito firme. Era poderoso, não por ser imperador, mas por
-ter sob o seu dominio a Hespanha, a Borgonha, e a Austria; as luctas
-intestinas de que a Allemanha era theatro, e as muitas questões que
-surgiam, a que era necessario dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe
-algum tanto o poder.
-
-=O estado politico da Allemanha.=—A Allemanha, no tempo da Reforma, não
-tinha uma unidade politica. Estava nominalmente unida sob o imperio, e
-era governada pela Dieta; mas o poder, tanto do imperador como da Dieta,
-era, praticamente, fraquissimo. O imperio era electivo, e desde o anno de
-1356 a eleição havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres
-na região do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da
-Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na do Rheno
-eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de Mayença, Trier e Köln.
-As successivas concessões que os principes obtinham á custa das eleições
-iam diminuindo o poder imperial.
-
-Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande conselho do
-imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: I Seis principes
-eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres clerigos (não entrava o rei da
-Bohemia); II Os principes, ou gran-barões, seculares e ecclesiasticos;
-III Os representantes das cidades livres, que eram as que gozavam de
-privilegios concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi
-tantos principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha
-na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado como
-instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. A Dieta, comtudo,
-tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava tão dividida que cada um
-dos principes independentes podia fazer o que muito bem quizesse. As
-cidades, formando ligas entre si, podiam offerecer uma certa resistencia
-á tyrannia dos principes; mas os aldeãos, incapazes de similhante
-combinação, eram acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes
-e pelos barões.
-
-A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco de invejar.
-Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando as suas terras,
-mas os senhores feudaes foram, pouco a pouco, cerceando-lhes direitos,
-chegando ao ponto de lhes prohibirem a entrada nos baldios, de não lhes
-permitir que se abastecessem de lenha, que pescassem nos rios, etc.
-Não tinham a quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A
-sua unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente
-de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem com o
-feudalismo, de se tornarem proprietarios.
-
-O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, deparou com
-muitas questões graves que estavam á espera de solução; o povo estava
-ancioso por um governo central, as cidades queriam que se pozesse termo
-ás constantes contendas que havia entre os barões, os poderes, civil
-e ecclesiastico, accusavam-se mutuamente, e, por ultimo, a questão de
-Luthero continuava agitando os espiritos.
-
-=Luthero e a dieta de Worms.=—A Dieta foi aberta por Carlos V em Janeiro
-de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar com os principes
-reunidos em assembléa para que pozessem termo ás heresias de Luthero, não
-sendo, na sua opinião, necessario que este fosse ouvido. Os principes,
-porém, que tambem tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que
-era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem o ouvir e sem
-elle estar presente. Por fim o imperador intimou Luthero a apresentar-se,
-e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um arauto foi, pois, procural-o da
-parte do seu imperial amo, e em abril Luthero partiu para Worms. Ia
-resolvido a não se retractar, posto que o animasse a convicção de não
-voltar com vida. A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção
-de fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de Christo
-me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando mesmo deante da
-morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, se os meus inimigos me
-assassinarem, continúa tu, de todo o coração te imploro, a ensinar e a
-dar testemunho da verdade». Antes de deixar Wittenberg, havia preparado,
-de collaboração com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se
-compunha de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes
-entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a respectiva
-explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma pagina apparecia
-Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra o papa estendendo o pé
-para que lh’o beijassem; a Christo levando a cruz contrapunha-se o papa
-levado em procissão pelas ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo
-expulsando os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo
-junto de si um monte de dinheiro.
-
-Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando lhe chegou aos
-ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia lhe preparava uma
-emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria de me pôr a caminho,
-ainda mesmo que houvesse uma chuva de duques da Saxonia». E quando lhe
-disseram que o diabo se havia de apoderar d’elle por qualquer fórma,
-replicou: «Não deixaria de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá
-houvesse tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve
-o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes multidões,
-ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, por fim a Worms,
-e logo no dia immediato foi apresentado á Dieta. O imperador tinha a
-seu lado o arquiduque de Austria, seu irmão, e a assembléa compunha-se
-de seis eleitores, vinte e oito duques, trinta prelados, e um grande
-numero de outras personagens de menor cathegoria, ao todo uns duzentos
-principes. Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de
-confessar a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada
-na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se os havia
-escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum tempo para
-reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte e quatro horas, foi
-reconduzido á casa onde se hospedára.
-
-Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de abrir
-caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o animava e lhe
-recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o velho general Frunsberg
-bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada receies, fradinho!» Na vespera
-havia-se mostrado um tanto confuso, havia denotado uma certa timidez,
-mas n’aquelle segundo dia estava de posse da sua coragem habitual. O
-chanceller do arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do
-imperador. «Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a
-retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos seus
-livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação até dos
-proprios adversarios, e que não se podia esperar d’elle uma retractação
-no tocante a essas coisas; havia tambem protestado contra manifestos
-abusos, e seria, decerto, um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião
-affirmasse ser falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era
-verdadeiro; n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava
-os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, era
-possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, estando, portanto,
-prompto a desdizer qualquer asseveração cuja injustiça lhe fosse provada.
-«Esse vosso arrazoado é inopportuno», replicou Eck; «o que o imperador
-quer é uma resposta definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes
-contra a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio de
-Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. «Vou
-dar-vol-a, pois. (_Vou dar uma resposta sem pontas nem dentes, diz o
-original_). Não me retracto de coisa alguma, a não ser que me convençam
-pela Escriptura ou por meio de argumentos irrefutaveis. É claro como a
-luz do dia que tanto papas como concilios teem algumas vezes errado. A
-minha consciencia tem de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra
-a consciencia é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero
-retractar-me. Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei chegou a
-crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, realmente, que
-um concilio é susceptivel de errar?», perguntou elle, por fim. «Affirmo»,
-retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei sempre. Assim Deus me ajude. Amen».
-Aquella sua firmeza tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam
-que o imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á morte,
-sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que elle, ao mesmo tempo
-que combatia pela consciencia, combatia tambem pela Allemanha, pozeram-se
-do seu lado. Conseguiram que o imperador addiasse a sentença, e instaram
-depois com Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos
-os seus esforços.
-
-Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo tomar o partido
-de Luthero e da Allemanha, para não quebrar relações com o papa, não
-desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, faltando assim á sua
-palavra. Ordenou, pois, a Luthero que se retirasse, mas fez publicar um
-edicto, condemnando os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio
-sob o anathema do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio
-era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante ninguem
-podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o em sua casa:
-quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe a mão e entregal-o
-aos guardas do imperador, que ficavam com plenos poderes para o matarem.
-Tudo isto, porém, só podia ter logar depois de expirado o prazo que o
-salvo-conducto mencionava.
-
-=Luthero em Wartburgo.=—Os amigos de Luthero foram de parecer que, depois
-do edicto de Worms, a vida d’elle corria perigo, até mesmo em Wittenberg;
-e o eleitor da Saxonia encarregou uns tantos soldados de o irem esperar
-ao caminho, apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de
-Wartburgo, que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se,
-sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos sabia, ao principio,
-onde elle se encontrava. Emquanto esteve em Wartburgo, submetteu-se a
-uma vida de isolamento, e para maior precaução deixou crescer a barba,
-vestiu-se de cavalleiro, e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez
-mezes n’aquelle seu esconderijo.
-
-Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a traducção da
-Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu tornar conhecido
-dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon mandava-lhe de Wittenberg todos
-os livros de que elle necessitava. Começou com o Novo Testamento, e
-traduziu-o quasi todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento
-teve o que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto
-de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez por semana em
-casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo auxilio nas passagens
-difficeis.
-
-Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da Biblia um livro
-para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella phrases finas, phrases
-palacianas; desejava tornal-a um livro que fosse comprehendido por todos,
-homens, mulheres e creanças, e dedicou a esse trabalho todo o seu talento
-e actividade. Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que
-se vê o grande numero de emendas por que muitas das orações passaram,
-chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. «Estamos trabalhando com
-todas as nossas forças», escreveu elle em certa occasião, «para que os
-prophetas fallem na nossa lingua. Que grande e difficil tarefa é esta,
-de fazer com que os escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles
-offerecem uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por uma
-lingua barbara».
-
-A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de quasi se poder
-dizer que não existia a lingua allemã. O allemão antes do tempo de
-Luthero, assim como o inglez antes do tempo de Chaucer, era um aggregado
-de dialectos; e, de facto, a Biblia de Luthero é que fez a lingua allemã,
-pois que tem servido desde então como que de modelo, e o seu estylo tem
-sido imitado por todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto,
-tornando-se gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz,
-e a linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de separação
-que passou depois por toda a Allemanha.
-
-=Regresso de Luthero a Wittenberg.=—Emquanto Luthero esteve em Wartburgo,
-andaram os seus amigos prégando o Evangelho por toda a Allemanha, sem
-soffrerem o minimo incommodo, e os seus livros eram lidos por toda a
-parte. Dir-se-hia que toda a Allemanha se tornava protestante, a despeito
-do edicto do imperador. Havia de todos os lados um grande movimento a
-favor das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria.
-Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento
-religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, a cabeça e querem
-que as coisas caminhem muitissimo depressa ou vão até demasiadamente
-longe; foi o que succedeu na Allemanha.
-
-Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de Erzgebirge,
-ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada Zwickau. Os habitantes
-d’essa cidade acceitaram a Reforma. Entre elles havia um tecelão, Claus
-Storch, homem excitavel, que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e
-que reuniu em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de
-muito pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres
-nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; a
-Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. Metteram-se
-a limpar a sua terra de todos os indicios da antiga religião—as
-ornamentações das egrejas, os altares, as cruzes, o clero, etc.—e deram
-logar a alguns tumultos, levantando-se, por fim, contra elles os seus
-conterraneos, que os pozeram fóra.
-
-Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram as suas idéas
-ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, que eram ali os
-dirigentes espirituaes na ausencia de Luthero. Carlstadt adoptou por
-completo o seu modo de pensar, Melanchthon deixou-se persuadir até a um
-certo ponto, e a agitação começou a lavrar entre as massas populares. As
-imagens foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt
-prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; a
-Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.
-
-Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão de Wartburgo,
-e resolveu sair de aquella especie de sequestração em que se encontrava.
-Correu a Wittenberg, e o povo tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se
-familiarisara, trovejando do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a
-falta de caridade. Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por
-fim triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, e
-o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum com os excessos de
-Storch, e do seu companheiro Münzer.
-
-Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma coisa
-boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as ceremonias do
-catholicismo romano, que foram substituidas por um serviço religioso mais
-em conformidade com as Escripturas.
-
-=A Dieta de Nürnberg.=—O anathema do imperio ainda estava sobre Luthero,
-pois que não havia sido revogado; mas ninguem pensava em o pôr em
-execução. Luthero prégava, escrevia, e editava os seus trabalhos, sem que
-pessoa alguma na Allemanha o tivesse na conta de um proscripto. Ainda
-mais, alguns dos principes allemães eram de parecer que o edicto de
-Worms devia ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha,
-deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros conheciam bem o
-estado da Allemanha e os sentimentos do povo, e não se sentiam inclinados
-a desposar a causa do papa.
-
-Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em 1522 e 1524,
-o nuncio do papa viu que os principes allemães não eram de modo algum
-favoraveis á sua proposta para que Luthero soffresse a pena de morte.
-Em vez de discutirem esse ponto, apresentaram differentes reclamações,
-insistindo muito com o nuncio para que chamasse para ellas a attenção do
-papa; e muitas d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os
-quaes se baseou a condemnação de Luthero.
-
-Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os principes
-allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era necessario nomear
-uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos abusos fossem abolidos e
-se esclarecessem certos pontos duvidosos de doutrina que tinham surgido,
-annunciando, ao mesmo tempo, que toda essa questão de differenças
-religiosas havia de ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se
-em Spira. Toda a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero;
-e alguns estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam
-abertamente quaes as reformas por que a religião devia passar. Pediam a
-abolição dos cinco falsos sacramentos, da missa, do culto dos santos e
-da supremacia pontificia. A Reforma havia-se espalhado tambem para além
-da Allemanha, e já em 1524 havia discipulos de Luthero em França, na
-Dinamarca e nos Paizes Baixos.
-
-=A revolta dos nobres= foi o primeiro dos grandes revezes que o movimento
-da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero tinham-se espalhado
-sem obstaculo de maior pela Allemanha e pelo estrangeiro. De toda a parte
-se protestava contra os cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a
-confissão auricular, o culto dos santos e das reliquias, o celibato do
-clero, a negação do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação
-episcopal e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era uma fórma
-de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, e uma fórma
-de governo que tornasse manifesto o sacerdocio espiritual de todos os
-crentes. A Dieta tinha repetidamente, na sua lista de aggravos, chamado
-a attenção do papa para os abusos que se observavam na egreja, e propoz,
-por fim, que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias
-reformas.
-
-Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava de ser
-reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes era cada vez
-mais insustentavel; os principes, mais poderosos do que elles,
-supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes viviam, pela maior
-parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se em segredo para uma
-revolução. Tanto de um lado como do outro contava-se com a Reforma
-como com um poderoso auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto
-a inutilidade dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a
-necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se d’este
-estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas assim o
-entenderam, e, porque assim o entendessem, entraram no caminho da revolta.
-
-A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo,
-probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram n’ella estavam,
-realmente, luctando contra a orientação da epoca e contra a corrente
-da historia. Viam todo o territorio allemão caindo nas mãos de meia
-duzia de familias principescas, e todo o povo das cidades enriquecendo
-por meio do commercio e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam
-que a Allemanha não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem
-elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam voltar
-aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam outra
-auctoridade que não fosse a do imperador. Tinham por cabecilha Francisco
-von Sickingen, homem muito notavel, de grande valor militar, e a quem
-se não podia negar um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os
-principes aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder
-dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.
-
-O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com a Reforma, mas
-muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar com a Reforma por
-causa do seu odio aos nobres revoltados. Sickingen tinha de muitos modos
-tentado fazer com que parecesse que a causa que defendia era a causa da
-liberdade religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms,
-Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e a dieta.
-Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados de perseguição
-depois da dieta de Worms, Sickingen prometteu proteger todos aquelles que
-se acolhessem a elle; e, ao levantar o estandarte da revolta contra os
-principes, declarou que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer
-as novas doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos
-principes apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de terem
-ajudado e instigado esta guerra civil.
-
-De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção de Ratisbonna,
-ou Regensburgo, que era uma confederação, ou liga, dos principes
-catholicos romanos contra a Reforma; e assim a Allemanha, que até ali
-se tinha mantido n’uma união propicia ás reformas, dividiu-se em duas
-partes, o que tornou o trabalho muito mais difficil. Os confederados de
-Regensburgo diligenciaram chegar a accordo com o partido papista de Roma.
-O papa prometteu que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria
-aquella grande drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam
-escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados
-comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de reforma, oppondo-se
-tenazmente a qualquer modificação de culto ou de doutrina. A Baviera, a
-Austria e as grandes provincias ecclesiasticas do sul da Allemanha iam
-pôr-se ao lado de Roma na lucta que estava imminente. A Convenção de
-Regensburgo veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios
-horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.
-
-=A revolta dos camponezes= teve consequencias mais serias. Não fez
-sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima reformação;
-deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, por fim, de opinião a
-muitos respeitos. O movimento rural não tinha por objecto a Reforma;
-a sua origem foi a miseria profunda em que a gente do campo vivia. O
-soffrimento d’essa gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto
-que a morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo quinze
-que de quando em quando se levantava uma sedição de camponezes n’um ou
-n’outro ponto da Europa, e todas essas revoltas haviam sido suffocadas,
-sem que fossem concedidas as almejadas reformas, de modo que as causas
-da rebellião continuavam ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que
-as terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam eram
-as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam em harmonia com o
-valor do terreno. Além das rendas, eram tambem obrigados a prestar aos
-proprietarios certos serviços de que não recebiam remuneração alguma;
-esses serviços variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o
-senhorio tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser
-preciso metter a mão á bolsa.
-
-A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes prohibido,
-sob pena de um severo castigo, o entregarem-se ao exercicio da caça
-ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos bosques, era-lhes vedada uma
-grande parte dos baldios, e de todos os modos se viam embaraçados no seu
-trabalho e na sua actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da
-propriedade tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos
-qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma vacca, uma
-ovelha, ou até a propria cama.
-
-A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava os dizimos: uma
-decima parte da colheita, que era chamada o grande dizimo; e uma decima
-parte do producto dos animaes, que era chamada o pequeno dizimo. Tinham
-de ser pagos depois de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se
-ter pago a renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a
-decima parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco ficava
-para o pobre camponez e sua familia.
-
-Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, pode-se
-supportar as maiores agruras da vida, quando ha a certeza de que se não
-corre o risco de peiorar, e de que justiça será feita quando aquelles
-que occupam posições superiores quizerem tirar partido da pobreza e
-fraqueza dos seus similhantes. O camponez allemão, porém, não tinha
-essa certeza. O velho codigo romano havia substituido gradualmente a
-legislação allemã, e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não
-eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, para
-amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, e quando as
-leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha viu-se logo que o
-camponez ficava, pouco mais ou menos, na condição de escravo.
-
-Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, não ousavam
-recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o seu amo entendia que
-deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito algum; o proprietario podia
-tornar-lhes mais pesados os trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em
-summa, exigir d’elles o que quizesse.
-
-N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido transportadas para
-a Europa enormes riquezas. A America, a terra da prata e do oiro, tinha
-sido descoberta, e o commercio augmentara consideravelmente. Estas
-riquezas tinham sido ganhas por mercadores e negociantes aventureiros, e
-a classe commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada e
-luxuosamente.
-
-Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura ao pé dos
-negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem o mesmo fausto,
-e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres camponezes, cujo viver era
-cada vez mais miseravel, ao passo que a gente das cidades se rodeiava
-de commodidades que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem
-augmentados os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos os
-impostos.
-
-Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito antes do tempo
-de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no Main e no Rheno os
-camponezes levantaram-se contra os seus tyrannos, e as associações
-secretas organizadas durante essas insurreições continuaram permanecendo
-até muito depois d’ellas haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas
-associações era a de Bundschuh, isto é, a _do sapato atado_. A liga de
-Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a de
-todo; e durante a agitação produzida pela estada de Luthero em Worms,
-quando todos os allemães receiavam pela vida do seu reformador, a
-sinistra palavra Bundschuh appareceu escripta a giz pelas paredes.
-
-A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora das
-anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas, e podemos
-affirmar que os seus promotores contavam com que o Evangelho prégado por
-Luthero lhes proporcionasse um bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de
-Claus Storch, que havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau,
-mettera-se a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua
-inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta. A Bundschuh
-reapparecera em Würtemberg, devido á cruel oppressão do duque Ulrico. Em
-1524 os camponios do Rheno ergueram o estandarte da revolta, e a chamma
-propagou-se em todas as direcções.
-
-Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por meio das
-armas. Se os camponezes tivessem começado por uma acção violenta, teriam,
-talvez, sido mais bem succedidos. A sua idéa era convocar grandes
-comicios onde fossem expostas as suas reclamações, pois julgavam que por
-esse meio viriam a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas
-das listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais
-importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram por dizer que só
-pediam aquillo que os principios do Evangelho os auctorizavam a pedir, e
-que não desejavam entrar em lucta, porque o Evangelho os mandava viver em
-paz e amor. Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos,
-e vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo com o
-ensino da Palavra de Deus:
-
-1. A congregação deve ter poder para eleger o seu ministro, e para o
-demittir no caso do seu procedimento ser censuravel; e o ministro deve
-prégar o Evangelho puro, sem lhe accrescentar mais nada.
-
-2. Promettem pagar o dizimo do trigo para a sustentação dos ministros,
-comtanto que o que ficar, depois de pagos os respectivos estipendios,
-seja applicado no soccorro dos pobres; mas recusam pagar o pequeno
-dizimo, isto é, o dos porcos, dos ovos, etc., porque, dizem elles, Deus
-creou os animaes para uso do homem.
-
-3. A servidão deve ser abolida. A Escriptura declara que os homens são
-livres.
-
-4 Deve haver inteira liberdade para caçar e para pescar, pois que Deus
-creou as aves e os peixes para uso de todos.
-
-5. As florestas que não pertençam a alguem por direito de compra devem
-ser restituidas á communa, ou municipio; e todos os habitantes devem ter
-liberdade para cortar madeira de que necessitarem para combustivel ou
-para trabalhos de carpinteria, devendo haver guardas, pagos pela communa,
-que impeçam qualquer acto de vandalismo.
-
-6. Os serviços obrigatorios devem ficar restrictos ao que era permittido
-pelos antigos costumes.
-
-7. Tudo o mais que se fizer deve ser condignamente pago.
-
-8. As rendas estão muito elevadas; as terras devem ser avaliadas de novo,
-e pagar-se pelo seu aluguer uma quantia razoavel.
-
-9. A lei deve determinar as penas que correspondem aos diversos crimes,
-ficando defezo a quem quer que seja a applicação de um castigo arbitrario.
-
-10. Os campos de pastagem e outros baldios de que os proprietarios se
-teem apoderado devem ser restituidos ao logradouro publico.
-
-11. Deve ser abolido o direito de morte (A faculdade que tem o senhorio
-de levar qualquer objecto da casa do rendeiro fallecido).
-
-12. Todas estas proposições devem passar pelo cadinho da Escriptura, e
-serão retiradas as que fôrem susceptiveis de refutação.
-
-Estes artigos eram, quasi todos elles, assaz equitativos, e estão agora
-incluidos na legislação allemã. Se as reivindicações dos camponezes
-fossem recebidas como elles esperavam, e como tinham direito a esperar,
-ter-se-hia chegado a um accordo. Os seus adversarios fingiram que se
-interessavam por ellas, para ganharem tempo; e os camponezes, por fim,
-vendo-se atraiçoados, pegaram em armas.
-
-Recorreram a Luthero. Elle era filho de camponez; tinha conhecido
-a necessidade. E Luthero, respondendo ao appello que lhe fizeram,
-intercedeu por elles, dirigindo-se d’este modo aos proprietarios: «Posso
-agora fazer causa commum com os camponezes, porque vós attribuis esta
-insurreição ao Evangelho e ao meu ensino, quando a verdade é que nunca
-cessei de intimar obediencia á auctoridade, mesmo quando ella seja tão
-tyrannica e tão intoleravel como a vossa. Não quero, porém, envenenar
-a ferida; e, portanto, meus senhores, quer me sejaes benevolos quer me
-sejaes hostis, não desprezeis os conselhos de um pobre homem como eu, e
-não tenhaes em pouca conta esta sedição; não quero dizer com isto que
-temaes os insurgentes, mas que temaes a Deus, que está irritado contra
-vós. Elle póde punir-vos, e converter todas as pedras em camponezas, sem
-que nem as vossas couraças nem todo o poder de que dispondes vos possam
-livrar. Ponde, pois, limites ás vossas exacções, deixae de exercer uma
-deshumana tyrannia, e passae a tratar essa gente com bondade, para que
-Deus não incendeie toda a Allemanha com um fogo que ninguem será capaz
-de extinguir. O que n’esta occasião, porventura, perderdes, ser-vos-ha
-centuplicado mediante a paz futura.
-
-«Ha tanta equidade n’alguns dos doze artigos dos camponezes, que
-constituem uma deshonra para vós deante de Deus e do mundo; cobrem os
-principes de vergonha, como diz o Psalmo 108. Tinha outras coisas ainda
-mais graves a dizer-vos, com respeito ao governo da Allemanha, e já me
-referi a vós no meu livro dedicado á nobreza allemã. Não vos importastes,
-porém, com as minhas palavras, e agora chovem sobre vós todas estas
-reclamações. Não deveis desattender o seu pedido de auctorização para
-escolherem pastores que lhes preguem o Evangelho; compete sómente ao
-governo o obstar a que sejam prégadas a insurreição e a rebellião; mas
-deve haver perfeita liberdade para prégar tanto o verdadeiro como o
-falso Evangelho. Os restantes artigos, que tratam do estado social do
-camponez, são egualmente justos. Os governos não se estabelecem para seu
-proprio interesse, nem para tornarem o povo subserviente aos caprichos e
-ás más paixões, mas para zelarem o interesse do povo. As vossas exacções
-são intoleraveis; arrancaes ao camponez o fructo do seu trabalho para
-poderdes sustentar o vosso luxo e os vossos prazeres. E é tudo quanto vos
-tinha a dizer.
-
-«Agora, com respeito a vós, meus queridos amigos camponezes. Quereis que
-vos seja garantida a livre prégação do Evangelho. Deus ha de defender a
-vossa causa, se procederdes sempre com justiça e rectidão. Se o fizerdes,
-haveis de triumphar por fim. Aquelles de entre vós que succumbirem na
-lucta serão salvos. Se, porém, o vosso modo de proceder fôr outro, não
-podereis salvar nem a alma nem o corpo, ainda mesmo que sejaes bem
-succedidos e derroteis os principes e os senhores. Não acrediteis nos
-falsos prophetas que se teem introduzido no meio de vós, ainda mesmo
-que elles invoquem o santo nome do Evangelho. Pode ser que elles me
-chamem hypocrita, mas isso pouco se me dá. O que eu quero é salvar os
-que entre vós fôrem fieis e honrados. Temo a Deus e a ninguem mais.
-Temei-o vós tambem, e não useis o Seu nome em vão, para que Elle vos não
-castigue. Não diz a Palavra de Deus: «Aquelle que lançar mão da espada
-á espada morrerá,» e «Todos se submettam aos poderes superiores?» Não
-deveis fazer justiça por vossas proprias mãos; seria isso obedecer a um
-outro dictame da lei natural. Não vêdes que vos fica mal a rebellião? O
-governo tira-vos parte do que vos pertence, mas destruindo os principios
-estabelecidos tiraes aos outros tudo o que lhes pertence. Christo, no
-Gethsemane, reprehendeu S. Pedro por se ter servido da espada, ainda que
-em defeza do seu Mestre; e quando já estava pregado na cruz orou pelos
-Seus perseguidores. E o Seu reino não tem triumphado? Porque é que o Papa
-e o imperador me não teem feito calar? Porque é que o Evangelho progride
-á proporção que elles se esforçam para lhe pôrem obstaculos e para o
-destruir? Porque eu nunca recorri á fôrça, prégando, antes, a obediencia,
-até mesmo áquelles que me perseguem, fazendo depender exclusivamente de
-Deus a minha defeza. Façaes o que fizerdes, nunca tenteis cobrir a vossa
-empreza com o manto do Evangelho e o nome de Christo. Será uma guerra de
-pagãos, a que, porventura, vier a ter logar, porque os christãos fazem
-uso de outras armas: o seu General soffreu a cruz, e o triumpho d’elles
-é a humildade. Supplico-vos, queridos amigos, que vos detenhaes, e que
-considereis antes de dardes outro passo. O que citastes da Biblia não é
-applicavel ao vosso caso».
-
-E conclue assim: «Como vêdes, estaes procedendo mal, tanto de um lado
-como do outro, e estaes attrahindo o castigo divino sobre vós e sobre
-a Allemanha, vossa patria commum. O meu conselho é que se escolham
-arbitros, sendo alguns nomeados pela nobreza e outros pelas cidades. É
-preciso que ambos os adversarios transijam n’alguma coisa: o negocio tem
-de ser equitativamente liquidado por um tribunal.»
-
-O seu alvitre não foi acatado.
-
-Os camponezes romperam hostilidades, tornando impossivel qualquer
-mediação. O proprio Luthero, logo que as coisas tomaram este caminho,
-deixou de se interessar pelos revoltosos.
-
-Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes uma
-verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta mil o numero dos
-massacrados.
-
-Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma.
-
-Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha acontecido,
-e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu a influencia que
-tinha sobre as classes pobres, que se deixaram dominar pela idéa de que
-Luthero as havia abandonado; e entregaram-se com facilidade aos excessos
-anabaptistas, que tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O
-proprio Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem, e
-repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas foram um
-atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado que a revolta dos
-camponezes e a falta de coragem que Luthero mostrou n’essa occasião e
-depois d’ella tiveram por effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos
-de Luthero e da Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa.
-
-Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a Allemanha o
-maior dos seus principes. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia,
-havia morrido.
-
-Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia partido para
-a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes; e os seus ultimos
-pensamentos foram para os maltratados servos. «Nós, os principes, fazemos
-muitas coisas aos pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco
-depois, tendo sido sacramentado, falleceu.
-
-=As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.=—O imperador ainda não havia voltado
-á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois da Dieta de Worms.
-Estava em Hespanha, constantemente occupado com a sua idéa de abater
-o poder da França. Em 1525 esteve quasi a ver os seus planos coroados
-de bom exito. Deu-se a batalha de Pavia, e Francisco I de França,
-desbaratado o seu exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu
-rival. A Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco
-na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra a Egreja
-se havia excitado na Allemanha; e os termos em que essa obrigação estava
-formulada mostravam o quão attentamente havia observado os progressos
-da Reforma e o quão empenhado estava em subjugal-a. Deu ordem para
-que fossem postas em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando
-assim claramente a entender que não consentia que dentro do imperio se
-propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa sua intimativa
-propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta que se reuniria em Spira.
-
-As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar á Allemanha. O
-papa que dominava em Roma era Clemente VII, da familia dos Medicis, e em
-toda esta questão zelou mais os interesses do seu principado italiano
-do que os da egreja de que era chefe. O papa não queria que Francisco
-e Carlos se reconciliassem. Receiava que os pequenos estados italianos
-ficassem prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas, e por
-esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea. O imperador
-ainda não tinha conseguido o descanço de que necessitava para poder ir em
-seguida liquidar pessoalmente os negocios da Allemanha. E assim o proprio
-papa estava n’aquella occasião favorecendo a Reforma.
-
-Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se logo bem
-manifesto que um grande numero d’elles não desejava que Luthero e
-as suas doutrinas fossem banidos da Allemanha; e a Dieta, de que se
-esperava a aniquilação da Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este
-famoso edicto, que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia
-de tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia
-de religião todos os estados se deviam comportar por tal fórma que
-estivessem promptos a responder por si deante de Deus e de sua Magestade
-Imperial. Assim ficou cada um dos estados auctorizado a declarar que
-religião se professaria dentro dos seus limites, e aquelle edicto foi
-como que uma predicção da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a
-religião official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem.
-Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram, segundo a lei
-imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a egreja dentro dos seus
-dominios, e levar a effeito as necessarias reformas.
-
-O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões que
-entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer tentativa de
-introduzir nas provincias evangelicas um systema uniforme de governo da
-egreja e do culto; cada uma d’ellas estabeleceu os seus regulamentos. O
-primeiro a estabelecel-os, em conformidade com os verdadeiros principios
-da Reforma, foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert que
-lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica para uso nos
-seus dominios. E estes artigos são interessantes, porque reconhecem, até
-certo ponto, a auctoridade do povo christão dentro da egreja; e confiam
-tambem a disciplina das congregações a homens de seriedade, cujos deveres
-são parecidos com os dos anciãos presbyteriannos.
-
-Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo todas estas
-indicações do reconhecimento dos direitos do povo christão, e do
-sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a Guerra dos Camponezes
-tinha-o predisposto contra a auctoridade do povo. Era de opinião que o
-povo não tinha competencia para governar a egreja, e escreveu a Filippe,
-mostrando-lhe os inconvenientes de similhante plano de organização
-ecclesiastica.
-
-Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do poder
-secular—dos principes quando se tratasse de principados, e das camaras
-municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa deu logar ao que se chama o
-systema _Consistorial_ do governo da Egreja—systema peculiar da Egreja
-Lutherana, e de que, não obstante só mais tarde ter sido posto em
-pratica, cabe fazer aqui uma descripção resumida.
-
-Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais alta
-importancia o guardar-se a chamada _disciplina_ da egreja. Deus quer
-que todos os seus filhos tenham uma vida honesta, uma vida decente, e
-é do dever da Egreja cuidar que todos os seus membros procedam de uma
-maneira condigna com a sua profissão de fé. Quando qualquer membro sae do
-bom caminho deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer
-os castigos que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser
-excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na edade media, os
-bispos responsaveis pela conducta dos membros das egrejas que constituiam
-as suas respectivas dioceses; e, como estas dioceses eram geralmente
-grandes, e os bispos não podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia,
-encarregavam d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e
-jurisconsultos. Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios,
-e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram tambem encarregadas da
-execução de testamentos e doações, e julgavam certos casos de calumnia
-e de maledicencia que os tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os
-bispos, nos estados evangelicos, foram expulsos, esses consistorios
-continuaram gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que
-era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação
-dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite. Passaram a
-chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação ficou dependendo da
-suprema auctoridade civil, em cujo nome governavam. Com o tempo foram
-introduzidas algumas mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda
-assim pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada
-differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade civil
-substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar em toda a Allemanha
-depois da Dieta de 1526, nos estados que abraçaram a Reforma.
-
-Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie d’elles para serem
-cantados nas egrejas; escreveu um catecismo para uso da infancia; e
-assim em toda a Allemanha, onde quer que as doutrinas evangelicas
-prevalecessem, eram organizadas egrejas, onde se rendia a Deus um culto
-simples mas sincero, e tratava-se de instruir e catequizar a juventude.
-Ainda não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo sabia
-perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de Luthero,
-Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam de mão em mão.
-
-Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha logar uma coisa
-que bastante contrariou o imperador: uma alliança entre a França e os
-Estados Pontificios. Não esperava que o papa o abandonasse, e menos
-esperava ainda que elle o abandonasse na propria occasião em que elle se
-preparava para submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu
-punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado por um
-grande numero de soldados allemães lutheranos, sob o commando de aquelle
-general Frundsberg que em Worms animou Luthero, e, levando á frente o
-condestavel de Bourbon, esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo
-por onde quer que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as
-suas tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O
-papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a cidade
-foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram maltratados e
-mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas, e os rudes e
-mofadores allemães proclamaram papa a Luthero. Os francezes não poderam
-prestar grande auxilio aos seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o
-imperador e o papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava,
-para esmagar a heresia na Allemanha.
-
-Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal para a Reforma. O
-edicto de Spira havia concedido tolerancia aos lutheranos, mas tambem
-tornou evidente, de uma maneira até então desconhecida, a separação entre
-os dois partidos. Isto viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em
-Spira em 1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario
-disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o decreto de 1526,
-e que sustentava que o decreto de Worms estava ainda em vigor e se lhe
-devia dar força. Pela primeira vez pareceu que a maioria da Dieta estava
-disposta a obedecer á ordem do imperador e a dar força ao edicto contra
-Luthero. O decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em
-execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não se tivesse
-executado não se fizessem ulteriores innovações e ninguem fosse impedido
-de celebrar missa.
-
-Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto de Spira
-estava posto de parte, e a minoria evangelica resolveu protestar contra a
-decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento de que as questões religiosas só
-podiam ser decididas pela consciencia, e que não deviam ser submettidas
-á Dieta para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questões que
-dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma de cada um de nós, é
-nosso imperioso dever, segundo o preceito divino, e por causa das nossas
-proprias consciencias, respeitar, antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.»
-«Em questões que se relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das
-nossas almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de nós
-mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel a liberdade de
-consciencia, era assignado por João da Saxonia, Jorge de Brandenburgo,
-Ernesto de Lüneburgo, Filippe de Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos
-representantes das cidades imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia,
-Lindau, Memmingen, Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St.
-Gall, Weissenburgo e Windsheim.
-
-Foi d’este protesto que se originou o termo _protestantes_.
-
-=O imperador pretende subjugar a Reforma.=—Este protesto tornou ainda
-mais saliente, mais definida, a linha de separação entre os principes
-reformados e os seus visinhos. Ficavam como que marcados por ella
-aquelles a quem o imperador, para restabelecer o imperio medieval, tinha
-de subjugar; e parecia agora ter chegado uma occasião propicia para
-elle o fazer. Na verdade, entre elle e a realização dos seus planos
-só existia aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo
-a França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam sido
-derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento de um
-imperio medieval. Os principes protestantes reconheceram a gravidade da
-sua situação. Deveriam resistir ao imperador, e, no caso affirmativo,
-conservar-se-hiam firmemente unidos? Luthero, que tinha até então
-dirigido o movimento, servia agora de obstaculo a uma acção collectiva.
-Elle, ao principio, era contrario a toda e qualquer resistencia.
-Reprovava, mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor
-da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald, e, quando esses
-delegados voltaram e deram noticia de que não se tinha chegado a decidir
-coisa alguma, mostrou-se excessivamente satisfeito. Se Filippe de Hesse
-não tivesse trabalhado incessantemente para uma união e para um esforço
-collectivo, a Reforma teria soffrido muito.
-
-A que se deve attribuir este procedimento de Luthero? Repugnava-lhe a
-rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e não acreditava que as
-batalhas do reino dos céus se podessem vencer com as armas carnaes.
-Depois, tambem, havia n’elle uma grande somma de quietismo, ou, por
-outra, de fatalismo, em parte hereditario, e em parte devido á sua
-adhesão ás idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse
-tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte d’esta
-obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha sido proposto
-reunir todos os protestantes n’uma liga offensiva e defensiva, e havia
-protestantes que não reconheciam em Luthero o seu chefe religioso.
-Assim como havia uma reforma allemã, havia tambem uma reforma suissa,
-com o seu particular typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava,
-e que, com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando pelo
-sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella decisão que
-o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela raiz. Propoz uma
-conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse na presença uns dos
-outros aquelles cujas idéas divergiam, elles haviam de comprehender-se
-melhor, e acabariam, por consequencia, todas as differenças. Com esse
-intuito, pois, promoveu em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os
-primeiros theologos da Allemanha e da Suissa.
-
-=A Conferencia de Marburgo.=—Pode-se imaginar o que seria aquella
-reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante. Zwinglio e
-Œcolampadius tinham vindo, com risco das suas vidas, da Suissa; Bucer
-tinha vindo de Strasburgo; e Luthero e Melanchthon tinham vindo de
-Wittenberg. Consultaram-se sobre os grandes artigos da fé christã, e os
-allemães ficaram convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente
-evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se encerravam todos
-os principaes pontos da verdade evangelica, sem que alguem discordasse
-d’elles, e em seguida os theologos passaram a tratar do quinquagessimo e
-ultimo, que se occupava da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo
-ácerca do qual os que desejavam uma união de todos os protestantes se
-mostravam mais inquietos.
-
-Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado a evitar
-mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse qualquer asserção
-sobre pontos de doutrina que fosse acceite pelos suissos; e muitos teem
-supposto, com bom fundamento, que, se Calvino estivesse presente, e
-tivesse fallado antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união.
-Luthero, porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na conta de
-irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das anciedades dos
-principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido a não ceder em
-coisa alguma.
-
-=A controversia entre Luthero e os suissos.=—O thema do debate era este.
-Todos os reformadores, tanto allemães como suissos, haviam rejeitado a
-doutrina catholica romana do sacramento da Ceia do Senhor.
-
-Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento em duas partes
-distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é mais um sacrificio do
-que um sacramento. É a prolongação, atravez do tempo, do sacrificio de
-Christo na cruz; o pão e o vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e
-sangue de Christo, e quando estes são saboreados pelo padre, no acto
-de comer e beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na
-cruz. D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos vêem
-Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando os tormentos por sua
-causa, na sua propria presença. Assim, segundo esta theoria, não ha a
-distancia de longos seculos entre o crente e os soffrimentos de Christo
-por sua causa. Christo soffrendo e o crente prestando culto estão em face
-um do outro durante um momento, mediante a missa.
-
-Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a doutrina da missa
-por a considerarem idolatra e supersticiosa, e ensinaram os christãos a
-retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro sacrificio de Christo na cruz
-do Calvario por sua causa e para resgate dos seus peccados. O debate
-entre os protestantes é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos
-romanos chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar.
-
-A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da Eucaristia teem
-um ponto em commum; ambas affirmam que o verdadeiro corpo e o verdadeiro
-sangue de Christo estão presentes no pão e no vinho, de modo que estes
-elementos já não são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o
-verdadeiro sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre, e
-porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração e a ceremonia,
-operar o milagre de transformar o pão e o vinho no verdadeiro corpo e
-sangue de Christo, com a Sua alma racional e a Sua natureza divina; e
-que pode, outrosim, operar o milagre de O trazer do céu e de O mostrar
-ao povo, a fim de ser adorado e partilhado por todos. Ensinam, ainda,
-posto que esta parte do seu ensino não seja sempre muito clara, que os
-beneficios de Christo são communicados ao Seu povo quando este come o
-pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida a
-todos aquelles que participam, quer tenham quer não tenham fé.
-
-Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram acceitar
-pelo menos dois, e os dois principaes, pontos d’esta doutrina catholica
-romana. Não quizeram crer que um padre podesse operar o milagre que os
-catholicos romanos asseveram que é operado; e foram tambem todos de
-opinião de que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para
-que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão entre o
-sacramento e o que o administra, negaram que tenha logar a operação de um
-milagre; e, ao descreverem o effeito nos participantes, asseveraram que a
-fé era indispensavel.
-
-Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento e do seu
-effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram. Todos
-elles sustentaram que, ainda que Christo esteja presente no sacramento,
-não foi trazido para ali mediante um milagre operado por um padre, e
-que, ainda que Christo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido
-espiritual, mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento.
-
-Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas mesmas idéas com
-respeito a estes dois importantes pontos, e assim podessem escrever
-a primeira parte do artigo quinze de tal maneira que podessem ambos
-acceitar cabalmente a asserção, differiam no modo em que descreviam a
-entrada de Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a
-Sua presença e tirava o beneficio inherente.
-
-Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento sob uma
-fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle, eram apenas signaes da
-Sua presença, quasi da mesma maneira como uma carta é o signal da pessoa
-ausente que a escreveu, e, quando os christãos participam do sacramento,
-colhem um beneficio, porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a
-memoria e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e soffreu
-sobre a cruz.
-
-Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma coisa. Elle
-tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho eram promessas, ou
-sellos, assim como signaes, e essa idéa podia têl-o levado, como mais
-tarde aconteceu a Calvino, a encarar a questão com maior clareza e
-simplicidade. No seu modo de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira
-real, o genuino corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse
-ácerca do pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu
-sangue». E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes,
-fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media.
-
-Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer distincções
-muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de umas e outras
-palavras, ensinaram que a palavra _presença_ significava duas coisas
-differentes; um corpo estava presente n’uma certa porção de espaço quando
-occupava essa porção de espaço de tal fórma que nenhum outro corpo
-podesse estar lá ao mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente
-quando occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer coisa.
-A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço em que o corpo
-estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos, como eram chamados,
-empregava esta segunda especie de presença para descrever a presença do
-corpo de Christo nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo
-tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as duas coisas,
-o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam, ao mesmo tempo
-no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente, o corpo de Christo
-estava, na Ceia do Senhor, no pão, com o pão e sob a fórma de pão. Isto,
-porém, não explicava a presença do corpo de Christo, nem como elle era
-transportado da dextra de Deus para os elementos.
-
-Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos theologos
-medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser Deus e homem, duas
-naturezas n’uma pessoa, todos os attributos da natureza divina de Christo
-se tornavam tambem propriedades da Sua natureza humana. Um dos attributos
-de Deus é a omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da
-natureza divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte. Se
-o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos, sobre
-a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre algum. Luthero serviu-se d’esta
-ubiquidade do corpo de Christo para explicar como, sem a intervenção do
-milagre, elle podia estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho.
-
-Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude especial n’este
-caso da presença de Christo—a Sua presença no Sacramento—estando Elle,
-segundo a sua theoria, presente em toda a parte, replicou que Deus tinha
-promettido, na Biblia, abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e
-sangue de Christo nos elementos do sacramento.
-
-E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença de Christo
-no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente, da transubstanciação e
-do milagre sacerdotal, mas introduzia, em seu logar, inverosimeis idéas
-escolasticas. Podia, comtudo, d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo
-estava realmente presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso
-dava-lhe grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para
-discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um pedaço de
-giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio da sala as palavras HOC
-EST CORPUS MEUM (Isto é o meu corpo).
-
-Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse que o
-corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam corporalmente presentes
-nos elementos, e accusava os seus antagonistas de interpretarem mal a
-Escriptura quando se referiam a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que
-Zwinglio contestou que a palavra «é» nem sempre significa identidade de
-substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira verdadeira»,
-«Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma vinha ou uma porta no
-sentido litteral da palavra. Luthero não se demoveu, e a conferencia
-terminou sem aquella unidade de coração e de proposito que o pio e
-affectuoso Landgrave esperava que resultasse d’ella.
-
-=A Dieta de Augsburgo.=—O imperador tinha sido victorioso em toda a
-parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar a Reforma, isto
-emquanto os protestantes, devido á obstinação de Luthero, se encontravam
-divididos e desalentados. O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao
-seu alcance para conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa
-conseguiu n’esse sentido.
-
-O imperador entrou em Augsburgo com grande apparato, e ao principio
-recebeu muito cordealmente os principes protestantes. Luthero achava-se
-ausente da cidade. Considerou-se que a sua presença daria logar a uma
-desnecessaria irritação, e permaneceu, portanto, em Coburgo, onde
-facilmente poderia ser consultado. Melanchthon ficou a substituil-o como
-conselheiro theologico.
-
-Os chefes dos protestantes eram—João, eleitor da Saxonia, denominado
-João o constante, em razão da sua fidelidade aos principios evangelicos;
-Filippe o magnanimo, Landgrave de Hesse; e o edoso Margrave de
-Brandenburgo, antepassado do ultimo imperador da Allemanha. Estes
-principes foram recebidos pelo imperador com muita affabilidade.
-Deprehender-se-hia de tudo isto que se tinha iniciado na Allemanha uma
-era de paz e concordia.
-
-Por detraz dos bastidores, porém, estava Fernando da Austria, irmão
-do imperador, e cabeça do fanatico partido romanista, com os seus
-conselheiros theologicos, protestando contra o incitamento á herezia.
-Afim de o socegar, o imperador escreveu-lhe o seguinte: «Entrarei em
-negocios, sem chegar a qualquer conclusão: mas, ainda que isso aconteça,
-não ha motivo para receios da tua parte: nunca te faltarão pretextos para
-castigar os rebeldes, e has de sempre deparar com quem, com muito gosto,
-se preste a servir de instrumento á tua vingança.» As suas verdadeiras
-intenções depressa se tornaram manifestas.
-
-Os capellães dos principes protestantes celebravam o culto publico
-segundo o rito evangelico: e o imperador deu ordem para que tal se não
-continuasse a fazer. O Eleitor declarou: «Assim que tiver a certeza de
-que o imperador tenciona suspender a prégação do Evangelho, retiro-me
-para minha casa.» Quando Carlos, n’uma conferencia particular, pediu aos
-principes que impozessem silencio aos seus capellães, o velho Margrave
-de Brandenburgo avançou alguns passos, levou as mãos ao pescoço, e,
-inclinando-se, disse: «Era mais facil a minha cabeça rolar aos pés de
-Vossa Magestade do que eu privar-me da Palavra de Deus e negar o meu
-Senhor». Carlos mostrou-se surprehendido. «Ninguem pensa em cortar
-cabeças, meu caro Margrave», replicou elle. Comprehendia tão mal os
-seus subditos protestantes que se encheu de ira quando elles recusaram
-incorporar-se na procissão que teve logar por occasião da festa de
-_Corpus Christi_. Seria condescender com a idolatria, seria prestar
-adoração a uma particula de massa que a Egreja de Roma dizia ter-se
-transformado na Divindade mediante um milagre operado por um padre, e
-isso não podiam elles fazer. «Porque não hão de agradar ao imperador?
-Porque não hão de mostrar respeito ao cardeal?» exclamou Fernando. «Não
-podemos nem queremos adorar senão a Deus» declararam elles. E assim foram
-passando os dias.
-
-Entretanto os prégadores protestantes dirigiam todos os dias a palavra
-a grandes concursos de gente na egreja dos franciscanos, e expunham
-eloquentemente as doutrinas do Evangelho. Carlos resolveu pôr um termo
-a este estado de coisas, e fêl-o por meio de um accordo cujas vantagens
-ficaram todas do lado dos catholicos romanos. Melanchthon, sempre timido
-e amigo da paz, insistiu para que se fizessem algumas concessões. Os
-prégadores protestantes sairam angustiados da cidade, e Luthero, que
-observava de longe os acontecimentos, convenceu-se de que Melanchthon,
-apezar das suas boas intenções, estava traindo a causa.
-
-Quando se abriu a Dieta, o imperador quiz que os protestantes expozessem
-as suas opiniões. Essa exigencia era esperada, e assim Melanchthon
-tinha, com a collaboração de Luthero, redigido uma Confissão de Fé, em
-que estavam mencionados, com grande clareza de linguagem, os principaes
-artigos da sua fé. Era esta a famosa _Confissão de Augsburgo_ (_Confessio
-Augustana_), o credo que tem sido acceite por todos os lutheranos, embora
-entre elles tenha havido divergencias n’outros pontos. Carlos queria
-que elle fosse lido em latim. «Não», respondeu a isto João o Constante,
-«nós somos allemães, e estamos em territorio allemão. Espero que vossa
-magestade nos permittirá que fallemos na nossa lingua». E a Confissão
-foi lida em allemão, não por um theologo, mas por uma outra pessoa que
-recebeu dos principes esse encargo.
-
-=A Confissão de Augsburgo.=—A primeira parte d’esta nobre confissão
-expõe, um por um, todos os principios evangelicos da Reforma, e em
-particular os grandes principios da justificação pela fé. Diz-se que,
-quando o chanceller do Eleitor, Christiano Beyer, leu estas palavras «a
-fé, que não é o mero conhecimento de um facto historico, mas aquillo que
-crê, não sómente na historia, mas no effeito que essa historia produz
-sobre o espirito», toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse
-Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso: a Palavra
-de Deus não está presa».
-
-Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava os abusos
-da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto as egrejas que ha entre nós não
-discordarem em artigo algum de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja
-Catholica, e omittirem apenas uns certos abusos, umas certas innovações,
-que em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente
-introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido dos canones,
-rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne prestar ouvidos clementes ás
-razões que o povo apresenta para que não deva ser forçado, contra as suas
-consciencias, a observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o
-calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura como
-aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que o celibato dos clerigos
-é uma transgressão do mandamento de Deus: que a missa é «uma profanação
-do sacramento da Ceia do Senhor»: que a distincção das comidas e as
-tradições «obscurecem as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que
-o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas festas,
-ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos são altamente
-perniciosos, e servem para desencaminhar homens e mulheres, pois que «se
-deve servir a Deus segundo os preceitos que Elle promulgou, e não segundo
-os que os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril, mas
-ministerial.
-
-A confissão continha tambem um pequeno artigo em que vinha exposta a
-opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia do Senhor, e isso compelliu
-os theologos suissos e os do sul da Allemanha a apresentarem confissões
-separadas: mas a leitura da confissão de Augsburgo, pelos principes,
-na Dieta produziu um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os
-protestantes adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos.
-
-O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia destruir a Reforma,
-e não se achava preparado para esse recurso. Lembrou-se então de
-promover umas conferencias que fossem criando uma certa confusão entre
-os protestantes. Era bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon,
-que n’essas conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em
-todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo, soube
-do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth (Coração pequeno):
-Segundo me parece, estaes fazendo uma obra prodigiosa, qual a de
-reconciliar Luthero com o papa.... Advirto-vos, porém, de que, se é vossa
-intenção metter n’um sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho,
-Luthero, tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas
-as suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem
-pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon. «Antes morrer
-com Jesus Christo», exclamavam, «do que alcançar, sem Elle, as boas
-graças do mundo inteiro». Os catholicos romanos pediam, por fim, mais do
-que Melanchthon podia conceder, e, com grande regozijo dos protestantes,
-as conferencias cessaram.
-
-=A liga protestante de Schmalkald.=—Os principes sabiam que o imperador
-queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua resolução, e
-pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos a coadjuvarem-n’o
-n’aquella obra. Formou-se uma liga catholica. A resposta dos protestantes
-foi recusarem todos os subsidios emquanto os negocios da Allemanha
-permanecessem por liquidar.
-
-Os principes reuniram-se em Schmalkald, e formaram uma liga protestante,
-de que Filippe de Hesse foi o membro mais activo. Os estados catholicos
-romanos não desejavam entrar n’uma guerra civil com os seus visinhos
-protestantes, e o imperador, atacado pelos francezes e pelos turcos,
-viu-se na impossibilidade de suffocar a revolta.
-
-O ultimo decreto da Dieta havia estabelecido um prazo, que se estendia
-até á proxima primavera, durante o qual os protestantes podiam fazer
-a sua submissão voluntaria, e accrescentava que aquelles que não se
-submetessem durante esse prazo seriam exterminados. Ao chegar, porém,
-a primavera, reconheceu-se impotente para exterminar os protestantes.
-A Liga de Schmalkald havia-se tornado a mais poderosa aggremiação da
-Allemanha. Assim, em 1532, apoz prolongadas negociações, firmou-se
-um tratado de paz entre Carlos e os principes protestantes. A Paz de
-Nürnberg, como ficou sendo chamada, permittia aos adherentes á Confissão
-de Augsburgo o persistirem nas suas doutrinas, e concedia-lhes outros
-privilegios. Em troca, os principes protestantes, e entre elles Filippe
-de Hesse, offereceram-se, muito cordialmente, para auxiliar o imperador
-nas suas campanhas contra os francezes, os turcos e os piratas da
-Barbaria.
-
-A Liga de Schmalkald continuou de pé, e outros estados, taes como o de
-Würtemberg, deram-lhe a sua adhesão. O imperador não podia dissolvel-a,
-e, comtudo, ardia em desejos de restabelecer na Allemanha a uniformidade
-religiosa. O exame da sua correspondencia particular revelou a
-perplexidade em que elle se encontrava. Tinha umas vezes a idéa da
-exterminação, e outras a da conciliação. Um dos seus planos consistia em
-promover na Allemanha um Concilio Geral da Egreja, sem consultar nem o
-papa nem o rei de França.
-
-Em 1538, Held, o seu vice-chanceller, formou em Nürnberg uma Liga
-Catholica, com o expresso designio de acabar com o protestantismo pela
-força das armas. Em 1540-41, o imperador diligenciou, por meio de
-conferencias que se realisaram em Hagenau Worms, e Regensburgo, chegar
-a um certo entendimento com os protestantes em materia de religião, e
-chegou a ser proposta em Roma a reforma da Egreja. Foi, finalmente,
-publicado, em 1541, um decreto da Dieta, estabelecendo que não se podia
-prohibir, a quem quer que fosse, o adoptar a religião protestante.
-
-D’estas victorias da Liga de Schmalkald resultou uma rapida propagação do
-protestantismo. O Würtemberg, a Pomerania, o Anhalt, o Mecklemburgo, e
-muitissimas cidades, tornaram-se protestantes; os bispados de Magdeburgo,
-Halberstadt e Naumberg deixaram de reconhecer a supremacia de Roma;
-e duas provincias eleitoraes, o Brandenburgo e a Saxonia Albertina,
-uniram-se á Liga. Os unicos estados que se conservaram na opposição
-foram a Austria, a Baviera, o Palatinado e as provincias ecclesiasticas
-do Rheno. Mas mesmo estas regiões começavam a ser influenciadas. Na
-Austria a religião evangelica ia ganhando terreno entre os proprietarios,
-os camponezes e os habitantes das cidades. Os bavaros iam-se deixando
-invadir rapidamente pelas novas idéas. Quanto ao Palatinado, a sua
-aggregação á Liga de Schmalkald parecia ser apenas uma questão de tempo.
-
-O imperador não podia ver com indifferença este rapido progresso do
-protestantismo; contrariava-o immenso que os seus dominios nos Paizes
-Baixos ficassem separados d’elle por uma faixa de paizes protestantes;
-não queria ouvir fallar na possibilidade de uma maioria protestante
-no Collegio Eleitoral, e de um sucessor do imperio protestante. O
-procedimento do arcebispo-eleitor de Colonia mostrou-lhe que não havia
-tempo a perder. Hermann von Wied estava havia muito convencido da
-necessidade de reformas na Egreja, e depois da paz de Nürnberg, incitado
-por um grande numero de clerigos, e correspondendo ao evidente desejo de
-muitas outras pessoas, animou o ensino protestante na sua vasta diocese,
-e mostrou-se disposto a converter aquella provincia arqui-episcopal n’um
-estado secular protestante.
-
-A posição dos arcebispos e bispos da Allemanha era, nos dias da Reforma,
-um tanto singular. Não eram simplesmente bispos, mas tambem barões, e,
-como todos os outros grandes barões sujeitos ao imperador na Allemanha,
-eram principes soberanos. Os arcebispos de Kõln, Trier e Metz tinham
-sobre alguns territorios um governo egual ao que João, o Constante, tinha
-sobre a Saxonia eleitoral, e Filippe, o Magnanimo, sobre Hesse. Eram as
-supremas auctoridades civicas, com os seus tribunaes, os seus exercitos,
-os seus cobradores de impostos. O decreto de 1526 era-lhes tão applicavel
-como aos principes seculares. Podiam fazer-se protestantes, dominar nos
-seus territorios, como principes seculares, e declarar «que tomavam ante
-Deus e sua magestade imperial a responsabilidade do seu modo de viver, do
-seu systema de governo e das suas crenças».
-
-Alguns bispos do norte da Allemanha tinham-n’o feito já: a opportunidade
-era de tentar: podiam, aproveitando-se d’este decreto, libertar-se da
-obediencia a Roma, casar, e legar a seus filhos o que possuiam. Carlos
-viu tambem o alcance de aquella opportunidade, mas durante muito tempo
-foi-lhe impossivel intervir. Todas as vezes que tentou pôr em pratica os
-seus planos via-se contrariado, ou pelo papa, ou pelo rei de França, ou
-pelos turcos. Quando lhe constou que parecia estar proxima a conversão
-de Hermann von Wied, reconheceu-se impotente para luctar com a Liga
-de Schmalkald. Por fim, em 1544, conseguiu derrotar os francezes, com
-os quaes tratou, depois, da paz em condições vantajosas para elles,
-impondo-lhes, porém, a clausula de uma união dos dois exercitos
-para combater os protestantes. Na Dieta de Spira, que se reuniu no
-mesmo anno, mostrou-se contemporizador, propondo que se suspendessem
-hostilidades até á convocação do Concilio Geral; isto ao passo que por
-outro lado trabalhava para desviar da liga protestante o maior numero de
-principes que lhe fosse possivel.
-
-=A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald.=—No entretanto Luthero,
-que soffria havia bastante tempo de uma doença do coração, morria
-em Eisleben, em 18 de fevereiro de 1546, perecendo com elle aquella
-forte reluctancia dos protestantes em tentarem a sorte das armas. Não
-estavam, porém, tão bem preparados para a guerra como n’outro tempo. O
-bom exito que a liga tivera ao principio fez com que elles confiassem
-demasiadamente n’ella; além d’isso, surgiram rivalidades entre os estados
-e as cidades, e entre os principes. Filippe de Hesse era o unico chefe
-competente, mas tinha o defeito de ser um principe de pouco elevada
-estirpe. Tinham ficado tambem muito prejudicados com o facto de Mauricio
-ter succedido ao duque Jorge da Saxonia, o grande inimigo de Luthero e
-da Reforma. Mauricio era sobrinho do duque Jorge, havia sido educado
-no lutheranismo, e desposou a primeira filha de Filippe de Hesse.
-Por occasião de elle assumir a chefia, a Saxonia Albertina, como era
-chamada, confirmou o seu lutheranismo, que durante a vida do duque Jorge
-se havia propagado clandestinamente, e que se havia tornado a religião
-reconhecida do paiz quando o duque Henrique, pae de Mauricio, succedeu a
-seu irmão. Todas estas coisas faziam com que os principes protestantes
-não podessem prescindir do concurso de Mauricio, apezar do joven não lhes
-inspirar muita confiança. De facto, Mauricio foi o primeiro de aquelles
-principes allemães protestantes para quem a Reforma era simplesmente
-uma arma politica de que lançassem mão quando lhes fosse vantajosa.
-Mais tarde, durante a guerra dos Trinta Annos, o seu numero augmentou
-consideravelmente, graças ás interminaveis disputas dos theologos, que,
-interessados apenas em que as suas insignificantes doutrinas ácerca da
-_ubiquidade_ e da _presença real_ fossem correctamente definidas, se
-mostravam quasi indifferentes perante a grande quantidade de sangue
-derramado e o grande numero de lares desgraçados. Nos primeiros tempos
-da Reforma, porém, os principes protestantes eram homens sinceramente
-christãos e que não obedeciam a fins interesseiros, não obstante a sua
-forçada camaradagem com Mauricio.
-
-O imperador quiz aproveitar a opportunidade, e com esse intuito fez
-algumas propostas a Mauricio. Este começou por abandonar a liga. Era um
-bom protestante, disse elle, e estava prompto a defender a religião,
-mas não queria ajuntar-se com aquelles que se oppunham ao seu soberano.
-O imperador, cobrando animo com esta declaração, deu os ultimos toques
-aos seus preparativos. Antes, porém, de entrar em acção, proclamou que
-a sua idéa não era combater a religião, mas, sim, castigar aquelles que
-conspiravam contra a integridade do imperio.
-
-Não vamos agora narrar pormenorisadamente o que teve logar em seguida.
-Devido á traição de Mauricio, á hesitação dos outros, e á falta de mutua
-confiança entre os caudilhos da liga, o imperador alcançou uma facil
-e, apparentemente, decisiva victoria. A batalha de Mühlberg teve logar
-a 24 de abril de 1547, e João Frederico, eleitor da Saxonia, ficou
-ferido e foi feito prisioneiro, não tardando que Filippe de Hesse caisse
-egualmente em poder dos inimigos.
-
-Toda a Allemanha se prostrou deante do imperador, que declarou logo a sua
-intenção de restabelecer a unidade religiosa. Ia redigir um documento
-denominado o _Interim de Augsburgo_, especie de confissão de fé que os
-allemães seriam obrigados a acceitar. Eram por meio d’elle reintegrados a
-hierarquia e o culto catholicos romanos, com todas as suas festividades,
-jejuns e ceremonias, sendo apenas tolerado o casamento dos clerigos e a
-faculdade do povo commungar nas duas especies.
-
-O Interim era, por assim dizer, um plano de reformação, e estava n’elle
-incluido, segundo a opinião de Carlos, tudo quanto se devia conceder
-aos protestantes. Em parte alguma o acceitaram de boa vontade. O
-imperador não o remetteu aos districtos catholicos romanos, e em todos
-os protestantes encontrou uma resistencia passiva. O proprio Mauricio
-hesitou em o proclamar na Saxonia, publicando, em logar d’elle, o
-_Interim de Leipzig_, que tendia a uma conciliação das ceremonias
-papistas com as doutrinas protestantes.
-
-Em breve se tornou evidente que o codigo religioso do imperador só
-encontrava submissão da parte do povo nos pontos onde a presença
-das tropas hespanholas obrigava a essa submissão. O imperador havia
-triumphado, o seu exercito saira victorioso, parecia ter adquirido um
-dominio na Allemanha como não succedera a nenhum outro soberano durante
-muitos seculos, e, comtudo, lá no seu intimo, sentia-se derrotado, pois
-não conseguira o fim principal que tinha em vista. A invisivel força da
-consciencia, esse adversario com que elle não contara, estava erguida
-contra elle, e havia de, por fim, inutilisar todos os seus bem elaborados
-planos politicos.
-
-=O imperador e o Concilio Geral.=—Emquanto o imperador estivera formando
-e pondo em pratica os seus projectos para a conquista da Allemanha
-protestante, a côrte pontificia vira-se forçada a convocar um Concilio
-Geral. Este concilio reuniu-se em Trent, no Tyrol, e, emquanto o
-imperador andou mettido na tarefa de subjugar os protestantes, esteve
-tomando deliberações relativas á Egreja.
-
-Nos primeiros periodos da controversia a que a Reforma deu origem, os
-reformadores appellavam constantemente para um concilio livre, e os
-concilios foram sempre os instrumentos favoritos do imperador para a
-liquidação das contendas. Os papas, porém, procuravam, antes, evital-os.
-No seculo quinze, os concilios geraes de Basiléa, Pisa e Constancia
-foram os meios de que os ecclesiasticos e principes se serviram para
-investir contra o poder da côrte de Roma. Um concilio geral era um ponto
-de reunião para todos aquelles que eram adversos ao christianismo papal;
-e a um politico como Carlos V affigurava-se ser um excellente meio de
-engrandecer o imperador e humilhar o papa. Anteriormente á Reforma, os
-concilios geraes eram olhados com muito respeito. Cria-se que o Espirito
-Santo fallava mediante esses concilios, e muitos theologos medievaes, que
-negavam a infallibilidade do papa, sustentavam que um concilio não era
-susceptivel de errar.
-
-Nos primeiros seculos da Egreja christã, um concilio geral, ou ecumenico,
-significava simplesmente uma assembléa que se podia com justiça dizer
-que representava a Egreja no seu conjuncto, de modo que as suas decisões
-podiam ser chamadas as opiniões de todos os christãos. N’esses remotos
-tempos os bispos eram eleitos pelo clero e pelo povo, e eram, portanto,
-representantes das regiões de onde tinham vindo, e assim um concilio em
-que todos os bispos christãos estivessem presentes achava-se realmente
-no caso de fallar em nome de todo o povo christão. Mesmo nas epocas mais
-puras da egreja primitiva, concilio algum se realisou a que concorressem
-todos os bispos, e que fosse, por conseguinte, realmente ecumenico e
-representativo de todos os christãos. No decurso da Edade Media a Egreja
-perdeu inteiramente o seu antigo caracter popular, ou democratico, e os
-bispos não podiam ser chamados, n’um sentido rigoroso, os representantes
-do povo; eram, muitas vezes, apenas os delegados do papa, e iam aos
-concilios para votar o que elle houvesse dictado.
-
-Estas e outras considerações tinham feito com que os protestantes
-respeitassem menos os concilios, e mostraram ao imperador que um
-concilio, para ser util, devia estar quanto possivel fóra da influencia
-do papa. Os allemães tinham pedido que se convocasse um concilio livre na
-Allemanha, e o imperador tinha tambem ultimamente pedido o mesmo; o papa,
-por outro lado, queria que o concilio se realisasse em Italia, onde elle
-poderia mais facilmente ter mão nas suas deliberações e decisões. Depois
-de muitas negociações entre o papa e o imperador, resolveu-se afinal que
-o concilio se reunisse, não em Italia, onde o papa poderia ter demasiado
-poder sobre elle, nem na Allemanha, onde o imperador e os principes
-poderiam impôr a sua auctoridade, mas em Trent, no Tyrol, n’um ponto
-equidistante da Allemanha e da Italia.
-
-O imperador esperava grandes coisas d’este concilio. Sabia que havia
-na egreja romana muitos homens competentes que se tinham preparado para
-grandes reformas, que ao proprio papa, Paulo III, não eram indifferentes;
-não tinha, porém, contado com a influencia de uma nova e poderosa
-organisação que estava destinada a alcançar a sua primeira e grande
-victoria n’esse mesmo concilio para cuja convocação elle havia trabalhado.
-
-=Loyola e os jesuitas.=—Ignacio Loyola, joven fidalgo hespanhol, educado
-no meio da cavallaria de Hespanha, onde as prolongadas guerras com
-os moiros tinham tornado a dedicação ao papado um grande elemento de
-patriotismo, ficou com uma perna esmigalhada no cerco de Pamplona. Duas
-dolorosas operações tinham-n’o convencido, por fim, de que a sua carreira
-militar tinha findado, e os seus pensamentos voltaram-se na direcção de
-um novo mister. Votou que havia de ser um soldado da Egreja.
-
-Nos accessos da febre produzidos pelo ferimento, tinha phantasticas
-visões da Virgem; e, ao restabelecer-se, dedicou a sua vida, com todo o
-ceremonial da cavallaria da Edade Media, a Deus, á Virgem e á Egreja.
-Elle vivia alheiado da moderna erudição. Não sabia nada de theologia. A
-sua religião era medieval, e o seu sonho era ser, no seculo dezeseis, um
-novo Francisco de Assis.
-
-É singular que este enthusiastico fidalgo hespanhol fosse excitado pela
-mesma idéa que ditou a fria politica de Carlos V. Ambos queriam renovar
-seculos que tinham desapparecido para sempre; e, emquanto um estava
-planeando a restauração do Imperio do primeiro periodo da Edade Media,
-o outro estava regalando a mente com uma nova ordem de frades, cujos
-feitos missionarios haviam de rivalisar com os dos antigos franciscanos.
-O imperador foi mal recebido; o solitario fidalgo teve um exito que
-excedeu quasi os seus sonhos. Apoz alguns annos de estudo, de decepções,
-de demoras, obteve permissão do papa para fundar a Companhia de Jesus.
-
-A nova ordem tinha apenas cinco annos de existencia quando teve logar,
-em 1545, o concilio de Trento, mas já se havia tornado famosa. Os
-seus sucessos como sociedade missionaria, a sua devoção por Francisco
-Xavier, e o enthusiasmo de seus membros, tudo contribuiu para a tornar
-formidavel. Lainez, um dos primeiros discipulos de Loyola, e seu
-successor como cabeça da companhia, cujo criterio deu á ordem o caracter
-que lhe estava destinado, representou os seus companheiros no concilio de
-Trento.
-
-A maxima da Sociedade era uma inexoravel suppressão da heresia, e o
-seu unico principio era a obediencia á Ordem e ao papa; e, n’essa
-conformidade, Lainez tratou activamente de evitar que o concilio fizesse
-quaesquer concessões aos protestantes. O seu modo de discursar, a sua
-subtileza e a sua tenacidade deram-lhe grande influencia. Poude logo ao
-principio levar de vencida os cardeaes Contarini e Pole, esses grandes
-catholicos romanos liberaes, e conseguir que o concilio não auctorizasse
-reformas doutrinaes.
-
-As victorias de Carlos na Allemanha ajudaram os jesuitas. O papa não
-podia jámais pensar ou obrar simplesmente como chefe da Egreja. Elle era
-uma potencia politica, e as razões de estado influiram nas suas acções.
-N’esta conjunctura, os interesses do principe italiano oppunham-se á
-existencia de uma christandade una. O rei de França, Henrique II, chamou
-a attenção para o facto de Carlos se tornar poderoso em demasia e de ser
-provavel que assim continuasse se as concessões religiosas estabelecessem
-a união na Allemanha. Quando Carlos venceu a Liga protestante, e procurou
-obter de Roma concessões que satisfizessem os subditos que havia
-submettido ao seu dominio, o papa recusou auxilial-o, afastou de Trento
-o concilio, e installou-o em Bolonha, na Italia, de modo que os planos
-do imperador foram novamente contrariados pelo cabeça da egreja que elle
-se empenhava por conservar catholica. Na sua ira, virou-se para o papa e
-compelliu-o a dissolver o concilio. Este dispersou para só se tornar a
-reunir quando toda e qualquer esperança de reconciliar os protestantes
-tinha desapparecido, e d’esta vez poude, sem a peia do protestantismo,
-consolidar a organização externa de um dominio exclusivamente papal.
-
-O imperador não foi mais bem succedido na Allemanha. As crueldades de que
-os principes que tinha feito prisioneiros foram victimas, a infidelidade
-de que deu prova na perseguição dos protestantes, a despeito de tudo
-quanto tinha feito proclamar, e as extorsões commettidas pelas tropas
-hespanholas—tudo isto contribuiu para tornar a Allemanha hostil, e
-não faltavam indicios de que o paiz não supportaria por muito tempo a
-tyrannia de Carlos. E a revolta teria rebentado mais cedo, se Mauricio, o
-traidor, não fosse tão odiado, ou se tivessem confiança n’elle.
-
-O imperador parecia não ter olhos para ver o que se estava passando.
-Estava convencido de que Mauricio, a quem havia nomeado eleitor, estava
-nas suas mãos, e de que sem elle, Mauricio, a Allemanha não podia
-fazer coisa alguma. Entretanto, os principes procuravam reunir-se de
-novo. Offereceram á França uma parte do territorio allemão em troca do
-seu auxilio, e por fim organisou-se uma confederação, em que entrava
-Mauricio, e os principes trataram de guarnecer as fronteiras do Tyrol,
-para que estas não fossem transpostas pelas tropas imperiaes. Mauricio
-avançou impetuosamente e tomou de assalto a fortaleza de Ehrenherg, que
-era a chave do Tyrol; e o imperador para escapar teve de recorrer a
-uma fuga subita, e achou-se em Steiermark, sem exercito, e expulso da
-Allemanha. Foi a um tumulto que se levantou entre as tropas confederadas
-que elle deveu não ser apanhado, pois que Mauricio fez todo o possivel
-por agarrar «a velha raposa no covil», segundo a phrase d’elle.
-
-=A paz religiosa de Augsburgo.=—Carlos V nunca se resarciu d’este
-desastre. A Reforma tinha-o, por fim, vencido, e elle reconhecia esse
-facto, sem, comtudo, o comprehender. Elle não quiz entrar directamente
-em negociações com os principes victoriosos, encarregando d’isso o seu
-irmão Fernando. Filippe de Hesse e João Frederico da Saxonia foram postos
-em liberdade. Filippe reentrou na posse dos seus dominios; a João foram
-tambem restituidas algumas das suas propriedades, mas Mauricio continuou
-no logar de eleitor. Os preliminares de uma paz permanente foram vasados
-nos velhos moldes de Nürnberg, pelo tratado de Passau, em 1552.
-
-Por fim, apoz longas negociações, saiu da Dieta de Augsburgo, em
-1555, uma paz religiosa, «a qual» dizia o decreto, «tem de ser
-permanente, absoluta, e incondicional, e tem de durar para sempre».
-Foi reconhecido aquelle principio que se estabeleceu em 1526, isto é,
-que a suprema auctoridade civil de cada estado tinha liberdade para
-escolher o respectivo credo, lutherano ou catholico romano. Esta paz,
-por conseguinte, reconhecia o direito das egrejas com separadas crenças
-existirem ao lado umas das outras na Allemanha, tornando assim legal a
-existencia da Reforma.
-
-O principio a que obedecia este regulamento, _cujus regio ejus religio_,
-acarretava difficuldades que não podem ser aqui descriptas, e foi, na
-verdade, uma das causas da guerra dos Trinta Annos, que tão calamitosa
-foi para a Allemanha. Não concedia liberdade de consciencia; não fazia
-provisão para qualquer outra fórma de protestantismo além da lutherana; e
-todos aquelles que não tinham adherido á confissão de Augsburgo estavam
-ainda fóra da lei, juridicamente fallando.
-
-Aquelles que fizeram uso d’ella na Dieta tinham de modifical-a de um ou
-de outro modo. Os protestantes viram que ella auctorizava os principes
-catholicos romanos a perseguirem os subditos que o não fossem; e os
-catholicos viram que ella permittia aos principes ecclesiasticos
-secularizarem os seus estados. Assim os protestantes obtiveram a
-inserção de uma clausula que declarava que os subditos protestantes de
-principes ecclesiasticos, que de ha muito tivessem adoptado a confissão
-de Augsburgo, não seriam obrigados a abandonar as suas idéas religiosas;
-e os catholicos obtiveram a inserção do que se ficou chamando «a reserva
-ecclesiastica», que preceituava que, se algum estado catholico romano se
-separasse de Roma, fosse destituido de todas as prerogativas que as suas
-dioceses disfructavam.
-
-Com a paz de Augsburgo terminaram as luctas para o reconhecimento da
-Reforma lutherana. A egreja protestante da Allemanha, que adheriu á
-confissão de Augsburgo, tinha ainda que sustentar um grande combate para
-se defender da contrareforma catholica romana, das intrigas jesuiticas,
-e da força das armas durante a guerra dos Trinta Annos. Conservou a sua
-integridade, mas foi só o que fez. A paz de Augsburgo foi a maré cheia da
-egreja lutherana.
-
-Na lucta que teve logar depois, foi a mais moderna e mais perseverante
-fórma do protestantismo que arrostou com os impetos do ataque, e que se
-tornou digna de receber os despojos da conquista. O lutheranismo reteve
-a sua integridade, consolidou as suas organizações ecclesiasticas, e
-aperfeiçoou a sua theologia; mas, como vigoroso movimento reformador, a
-sua historia terminou com a paz de Augsburgo.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA
-
- O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag.
- 50.—Na Suecia, pag. 51.
-
-
-=O lutheranismo fóra da Allemanha.=—Durante os primeiros annos da
-Reforma, a influencia de Luthero transpoz os limites da Allemanha. A
-Universidade de Wittenberg attrahiu muitos estudantes estrangeiros,
-os quaes, voltando para as suas terras, propagaram, clandestina ou
-abertamente, as novas doutrinas.
-
-Aconteceu d’esse modo que os preliminares da Reforma n’esses paizes, que
-depois se separaram de Roma e formaram egrejas protestantes nacionaes,
-foram quasi inteiramente lutheranos. Os primeiros reformadores e
-martyres dos Paizes Baixos eram lutheranos, e os dogmas doutrinaes e
-ecclesiasticos de Luthero foram durante muito tempo acatados na Hollanda.
-
-Os movimentos reformadores na Hungria, na Polonia, na Bohemia e na
-Escocia foram iniciados por homens que se apresentavam como discipulos de
-Luthero, e mesmo na Inglaterra os principios lutheranos progrediram algum
-tanto. Em todos esses paizes, porém, foi ganhando, por fim, terreno um
-outro typo de doutrina protestante, o Calvinismo, e a Reforma lutherana
-eclipsou-se.
-
-Unicamente dois paizes, a Dinamarca e a Suecia, com as suas dependencias,
-adoptaram de um modo permanente a confissão de Augsburgo e os principios
-lutheranos do governo da egreja.
-
-A Reforma estava n’estes paizes, mais do que em qualquer outra parte,
-identificada com a revolução politica, e foi executada por governantes
-que se haviam compenetrado de que não era possivel melhorar o estado das
-coisas emquanto não fosse abatido o poder de que o clero romano dispunha.
-A historia da Reforma n’esses paizes é a historia de uma revolução, e a
-moderna vida politica da Dinamarca e da Suecia principia com a reforma
-das suas egrejas.
-
-No principio do seculo dezeseis, a Dinamarca, a Suecia e a Noruega
-estavam sob a soberania de um rei que tinha a sua residencia no primeiro
-d’estes paizes, e que tinha sobre os outros dois um poder apenas nominal.
-Estes paizes estavam quasi n’um estado de anarquia. Duas grandes
-aristocracias, a da nobreza e a da egreja, dividiam entre si a riqueza e
-o poderio, sendo cada um dos barões e cada um dos bispos um verdadeiro
-despota para com aquelles que estavam debaixo da sua auctoridade. A união
-das tres nações, effectuada no fim do seculo quatorze, era puramente
-dynastica, e vista com muito maus olhos pelo povo.
-
-Em 1513 subiu ao throno Christiano II, cruel, voluvel e nescio monarca,
-que grangeara em ambos os paizes a antipathia de todas as classes.
-Um massacre de fidalgos suecos, que teve logar em Stockolmo, em
-circumstancias as mais revoltantes, exgotou a paciencia do povo, e a
-Dinamarca e a Suecia levantaram-se contra o tyranno. A revolução foi
-bem succedida; Christianno II foi derrubado do throno, e as duas nações
-ficaram de ahi em deante independentes uma da outra.
-
-=Na Dinamarca.=—Os dinamarquezes offereceram a corôa a Frederico I,
-duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente lutherano, e chefe
-d’um estado que já tinha acceite a Reforma. Acceitou-a, e por occasião
-da sua coroação o clero obrigou-o a declarar por escripto que não
-introduziria á força a religião reformada, nem atacaria a egreja de
-Roma, nos seus novos dominios. Frederico cumpriu essa obrigação segundo
-a letra, mas não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu
-prégadores e evangelistas lutheranos, e em particular a João Jansen,
-frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg; e a nova fé fez
-taes progressos que dentro em pouco quasi todos os nobres da Jütlandia
-a tinham abraçado, e nas ilhas o numero de adeptos era consideravel.
-Em fins de 1527 reuniu-se em Odensee uma Dieta, expressamente para
-ser tratada a questão religiosa, e ficou assente a tolerancia do
-lutheranismo. Durante os annos que immediatamente se seguiram, as novas
-doutrinas espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos
-romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do fallecimento
-de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e a auctoridade dos
-bispos foi desapparecendo a pouco e pouco, até se extinguir de todo. Os
-nobres haviam cooperado com o rei na sua obra de demolir a aristocracia
-ecclesiastica, e as terras que eram da egreja ficaram, na sua maioria,
-pertencendo ao rei.
-
-A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante. O seu credo
-é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos nunca adoptaram, na
-Dinamarca, a formula da concordata; o seu catecismo é o de Luthero;
-e sua fórma de governo de egreja, posto que admitta um episcopado, é
-consistorial. A constituição vem exposta no _Ordinatio ecclesiastica
-regnorum Danicæ et Norwegeæ_, de Bugenhagen. O rei possuia o _jus
-episcopale_, e era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os
-patronos; e a Egreja era governada por sete superintendentes com o titulo
-de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o catholicismo romano
-no seculo dezessete, a chamada guerra dos Trinta Annos, a Dinamarca
-enviou aos protestantes da Allemanha todo o auxilio de que o paiz podia
-dispôr.
-
-=Na Suecia.=—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo Vasa, joven
-fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes n’aquella
-carnificina, organisou a rebellião contra Christianno II, e trabalhou
-muito para que ella tivesse bom exito. Em 1521 foi declarado regente
-do reino, e em 1523 foi, pela voz do povo, chamado ao throno. Achou-se
-em presença de difficuldades quasi invenciveis. Não tinha havido,
-praticamente, um governo estabelecido na Suecia durante mais de um
-seculo, e cada dono de terras era quasi um soberano independente. Dois
-terços das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia quasi
-inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda a parte opprimidos;
-o commercio estava nas mãos da Dinamarca ou da Liga Hanseatica; e não
-havia classe media. Os nobres e os ecclesiasticos exigiam isenção de
-contribuições, e os camponezes não podiam supportar novos encargos.
-
-N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para as terras da
-egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica com o auxilio
-da Reforma lutherana.
-
-Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um homem religioso,
-perfeitamente compenetrado da verdade e do poder das doutrinas
-evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma obedecia tambem a outros
-motivos. Precisava de dinheiro para as despezas publicas, queria
-proporcionar aos camponezes uma situação mais desafogada, e ambicionava,
-acima de tudo, demolir a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se
-arrogava direitos que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder
-cautelosamente. A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas,
-nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que o rei estava
-atacando os direitos da propriedade, e que lhes chegaria a vez a elles,
-se consentissem que os bens da egreja fossem arrebatados; e, quanto á
-aristocracia ecclesiastica, essa dispunha de muita força.
-
-É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz á frente do
-movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia da Dinamarca, essa
-tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu o apoio dos bispos suecos.
-Elle era um homem excommungado, um homem a quem a egreja havia
-proscripto. Essa circumstancia pôl-o em contacto com os prégadores
-lutheranos, que já andavam pela Suecia.
-
-Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado em
-Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado contra um
-certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado no seu paiz, foram
-perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck, onde Gustavo travou
-conhecimento com elles. Elles e um outro lutherano sueco, Lourenço
-Andersen, arcediago de Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei,
-e começaram a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações,
-contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf Petersen,
-sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando o Evangelho puro,
-«que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara na Suecia setecentos annos
-antes.».
-
-Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta o reformador
-desafiou-os para uma polemica, que elles não acceitaram. O resultado
-d’isso foi uma rapida propagação das doutrinas evangelicas. Gustavo
-poz Olaf Petersen como prégador em Stockholmo, Lourenço Petersen foi
-leccionar para Upsala, e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do
-reino. Promoveram-se polemicas publicas, segundo o costume allemão, em
-diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o dr. Galle
-de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da justificação pela
-fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio, do celibato e do poder
-temporal do papa, o que foi assaz vantajoso para a causa da Reforma.
-
-Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento em sueco, e o
-povo, em cujas mãos o livro foi entregue, poude então comparar o ensino
-dos prégadores e dos bispos com o da palavra de Deus.
-
-A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se sentir de
-uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas, por duas Dietas, pesadas
-contribuições sobre as propriedades da Egreja. O partido ecclesiastico,
-com os bispos á frente, promoveu uma revolta, que foi suffocada, e
-Gustavo conheceu que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus
-planos. Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e
-propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada ao
-pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em deante as receitas
-em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram este alvitre; os
-clerigos declararam que só á força cederiam. Vendo isto, Gustavo, apoz
-um eloquente discurso, abdicou. Os diversos estados pozeram-se então
-em contenda uns com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns
-dias, assentiu-se na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei
-e publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio da
-historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras coisas,
-que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e cidadellas dos
-bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos; e ficou egualmente
-reconhecida a existencia legal da egreja lutherana.
-
-D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu rapidamente, e
-dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião official do paiz.
-Os bens da Egreja foram confiscados para o Estado, deixando-se, porém,
-ficar o sufficiente para a sustentação do culto. Conservou-se a fórma de
-governo episcopal, mas ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do
-rei, como na egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes
-papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das velas, mas
-tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen foi o primeiro
-arcebispo protestante de Upsala, cargo que começou a exercer em 1531.
-Dez annos depois, isto é, em 1541, ficou completa uma nova traducção da
-Biblia, feita pelos irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz
-estava inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição
-ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em 1664, a Formula da
-Concordata.
-
-
-
-
-II PARTE
-
-A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS
-
-CAPITULOS:
-
- I—A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO.
-
- II—A REFORMA EM GENEBRA, SOB CALVINO.
-
- III—A REFORMA EM FRANÇA.
-
- IV—A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS.
-
- V—A REFORMA NA ESCOCIA.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO
-
- As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica
- da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de
- Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa,
- pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os Cantões Florestaes, pag.
- 64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.
-
-
-=As reformas suissa e allemã.=—A Reforma na Allemanha tem geralmente
-chamado mais a attenção do que a revolta contra Roma na Suissa. O
-conflicto com o imperador, que ella provocou, o seu rapido alastramento,
-o numero de estados e reinos que adheriram a ella, a parte que as
-universidades, onde estavam matriculados muitos estudantes estrangeiros,
-tomaram no movimento, tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha
-adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa; mas, se
-devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias do que pelos
-seus principios, o movimento começado na Suissa foi ainda mais importante
-do que o que teve Wittenberg por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se
-reconhecendo que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes
-dizia respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja,
-podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de ahi veiu
-que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e uma grande parte das
-da Allemanha receberam melhor as tradições de Zwinglio e de Calvino do
-que as de Luthero e de Melanchthon.
-
-Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos da Reforma no
-sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se ás tradições, tanto
-doutrinaes como de qualquer outro genero, da egreja medieval, mesmo em
-assumptos que para algumas pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob
-o ponto de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se
-devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que se referem
-aos pequenos casos como aos de muita importancia. Nem Zwinglio nem
-Calvino queriam adoptar a doutrina da _presença real_ pela razão de a
-egreja medieval a ter adoptado, e não experimentaram aquella dificuldade
-que Luthero teve sempre em fazer uma coisa de um modo differente de
-aquella em que os seus antepassados a faziam.
-
-É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que tivesse a mesma
-força, e que essa razão se deva procurar nas idéas politicas e na
-educação do povo suisso. Na egreja medieval os direitos dos christãos
-tinham desaparecido inteiramente. Quando alguem fallava em egreja,
-referia-se ao papa, aos bispos, aos abbades, aos frades, ás freiras e aos
-padres; não se referia á grande corporação dos christãos piedosos, que
-constituiam, realmente, a egreja de Deus.
-
-Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores soubessem
-perfeitamente que a verdadeira egreja visivel era constituida pelo povo
-piedoso que professava a fé em Jesus Christo, não tinham podido dar
-uma expressão pratica a esse sentimento, e o systema consistorial dos
-lutheranos collocava os principes e as outras auctoridades civis no logar
-que os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer que o
-povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar a essa egreja
-uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por si propria, como os
-christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos tinham feito. Pode-se
-quasi dizer que não trataram de incutir na vida da egreja reformada as
-maximas de auto-governo que inspiraram a communidade christã do Novo
-Testamento. Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser dirigida
-de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.
-
-Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente que a egreja e o
-povo christão eram uma e a mesma coisa, e os projectos de auto-governo,
-que, se não foram sempre bem succedidos, eram, pelo menos, feitos
-com boa intenção, faziam parte da Reforma proposta. Isto proveiu,
-indubitavelmente, de um cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a
-vida popular dos suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o
-sentido do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar
-pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da livre e democratica
-vida suissa estava mais no caso de comprehender a democracia espiritual
-do christianismo do Novo Testamento do que aquella que principiou nas
-universidades e nas côrtes dos principes allemães.
-
-=A situação politica da Suissa.=—A Suissa era, n’aquelle tempo, um paiz
-como não havia outro na Europa. Estava tão dividido como a Italia ou a
-Allemanha, e, comtudo, apresentava uma união que ellas não apresentavam.
-Era uma confederação de estados, ou cantões, cada um dos quaes era
-independente de aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles
-uma perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes,
-ou, antes, «uma pequena republica de communas e cidades do primitivo typo
-teutonico, em que o poder civil era exercido pela communidade», cada uma
-d’ellas com um systema governativo differente.
-
-Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios no
-principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, onde 1.300 suissos
-derrotaram 10.000 austriacos, teve logar em 1315. Cerca de dois seculos
-mais tarde, os cantões florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a
-que pouco depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos
-livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca ao centro, e
-tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos por um.»
-
-Os cantões florestaes eram communas independentes, e os seus habitantes,
-todos elles proprietarios rusticos, residiam em valles quasi
-inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que se havia formado em
-redor de uma colonia ecclesiastica; Berne a um antigo logarejo que se
-aninhava junto á base de um castello senhorial; e assim por deante. Os
-cantões florestaes tinham um governo simples, patriarcal; em Zurich os
-nobres tinham a mesma consideração que os commerciantes e artistas, e
-a constituição era perfeitamente democratica; Berne era uma republica
-aristocratica; e assim successivamente; mas em todas ellas o governo
-estava nas mãos do povo, e todos os homens eram livres.
-
-Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, durante
-umas poucas de gerações, nada que se parecesse com uma administração
-episcopal. As suas communicações com o pontificado eram effectuadas por
-meio de delegados, ou emissarios, e obedeciam apenas a motivos politicos.
-O territorio estava sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de
-Besançon; mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum
-exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões suissos, e
-d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir reformas na egreja.
-
-No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e a convivencia
-com os paizes adjacentes foram mudando os velhos e simples costumes
-do povo suisso. Na Edade Media era crença geral que a força principal
-de um exercito estava na sua cavallaria; mas as victorias que os
-suissos alcançaram sobre as tropas austriacas e borgonhezas mostraram
-a superioridade de uma boa infanteria, convenientemente adestrada.
-As tropas suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo
-muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos quando
-tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se desenvolvido
-gradualmente o mau habito de alugar os seus soldados a quem maior somma
-de dinheiro offerecesse. Era costume, quando um regimento suisso partia
-para a guerra por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo,
-na qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento
-pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que este serviço
-mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam todo o possivel, no
-seu regresso á patria, para que esta perniciosa pratica fosse abolida.
-
-=Ulrico Zwinglio.=—Um dos mais famosos d’estes patriotas foi Ulrico
-Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu a ser o Reformador da
-Suissa.
-
-Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no Toggenburgo,
-pequena região montanhosa, cuja altitude era tal que não produzia arvores
-de fructo, sendo tambem impossivel cortal-a de estradas. O pae d’elle
-era o chefe, ou magistrado, da communa, e um dos seus tios era o deão de
-Wesen.
-
-O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, em vista da
-sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar ao filho uma boa
-educação, mandou-o estudar em Basiléa e em Berne, de onde passou para
-a grande universidade de Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os
-estudos classicos, enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que
-a Italia estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho
-em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para Basiléa,
-e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de aquelles theologos
-liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, sobre o fundamento
-de que Christo resgatou, com a Sua morte, os peccados de todos os homens.
-
-Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, muitos annos
-depois: «Devemos ter consideração por Martinho Luthero; mas o que é certo
-é que aquillo que temos em commum com elle já o conheciamos muito antes
-de ouvir fallar no seu nome».
-
-Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em seguida foi nomeado
-cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu ahi dez annos, lendo e
-estudando os auctores classicos latinos, e em especial Cicero, Seneca
-e Horacio; começou tambem a aprender grego com muito afan, e a esse
-respeito escreveu a um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de
-Deus é que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir
-fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas Sagradas.»
-Os seus livros favoritos do Novo Testamento eram, diz-se, as Epistolas de
-S. Paulo. Copiou-as com as suas proprias mãos de mais de um manuscripto,
-e sabia-as, por fim, de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a
-declarar que o unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar
-ouvidos á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado
-havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o seu modo de
-pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um dedicado filho da egreja
-medieval, torturando-se com jejuns e flagellações.
-
-Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde havia uma
-abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre imagem da Virgem,
-a que se attribuiam muitos milagres. As multidões vinham em peregrinação
-a esta localidade, e Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante
-a idolatria e superstição de aquella gente, e perante o embuste e
-sacrilegio do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou
-a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura e o peccado
-de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos seus sermões proferiu
-o seguinte: «Na hora da vossa morte clamae só por Jesus Christo, que
-vos comprou com o Seu sangue, e que é o unico Mediador entre Deus e
-os homens.» Estas suas predicas produziram uma enorme excitação, e,
-tendo constado em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir
-o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. Elle
-recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação que o dito legado
-lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos de Zurich lhe pediu, em 1519,
-para ir para lá como pastor, acceitou muito gostosamente, e não tardou em
-ter uma grande influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.
-
-Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor ambulante de
-indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer ao povo o artigo do
-seu commercio. Zwinglio protestou contra o seu procedimento, e conseguiu
-que as auctoridades o pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de
-conferencias sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas da graça
-e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias eram feitas na
-presença de centenares de pessoas, que ouviam o Evangelho com agrado.
-
-A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de infanteria o
-papa nas suas guerras com o imperador; a influencia de Zwinglio, porém,
-era tão grande que em 1521 o cantão de Zurich recusou alugar os seus
-soldados, como até ali tinha feito. Esta patriotica resistencia a um
-infame trafico de sangue levantou maior opposição do que todos os sermões
-prégados por Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os
-bispos das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias para que
-a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o legado do papa
-tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e destruisse todos os livros
-lutheranos que haviam penetrado no paiz, e a Dieta passou ordens n’esse
-sentido.
-
-A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, posto que
-obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos os curas, pastores
-e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos e as Epistolas em
-conformidade com o Espirito de Deus e com as Sagradas Escripturas do
-Antigo e Novo Testamento.» Esta intimação deu um impulso ao movimento
-evangelico, que já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado
-sobre o jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo,
-durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela egreja.
-Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. O papa, Adriano
-II, queria a todo o transe evitar uma questão com os suissos, cujas
-tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir Zwinglio por boas maneiras,
-nada conseguindo, porém. Emquanto os legados percorriam leguas e leguas
-para lhe transmittirem os lisongeiros recados de que eram portadores,
-escrevia Zwinglio o seu _Apologeticus_, vigoroso ataque ás corrupções da
-egreja.
-
-O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que impozessem
-silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles licença para uma
-discussão publica, e comprometteu-se a provar, na presença de todos, que
-as suas opiniões se fundamentavam na Biblia. A junta accedeu, e fixou,
-para essa discussão, o dia 23 de Janeiro de 1523.
-
-=As theses de Zwinglio.=—A fim de separar convenientemente os assumptos
-a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta theses, inscrevendo
-por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação differia da dos seus
-accusadores, constituindo o conjuncto um bem elaborado resumo de
-theologia protestante. As theses affirmavam, em poucas palavras, o
-seguinte:—Jesus Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto,
-e é só Elle a quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é
-abraçal-O e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para
-intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou tirar alguma
-coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, de meras pretensões,
-com que insulta a Jesus Christo, nosso unico Summo Sacerdote. Christo
-morreu na cruz, resgatando, de uma vez para sempre, os peccados do
-Seu povo, e portanto a missa, que se assevera continuar, ou repetir,
-esse sacrificio, constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma
-ceremonia commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre Deus e o
-homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. A Escriptura Sagrada
-não contém uma palavra ácerca do purgatorio, e é coisa que não existe.
-Nada desagrada mais a Deus do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que
-tudo quanto assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma
-condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por
-similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, a confissão auricular,
-a absolvição, o celibato clerical e todas as ordenanças exclusivamente
-ecclesiasticas.
-
-Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, e, na opinião
-dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente os seus antagonistas.
-
-Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma terceira, em
-1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich e os seus magistrados se
-pozeram inteiramente ao lado de Zwinglio.
-
-=A Reforma em Zurich.=—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma do culto
-e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se que a missa não era tal
-um sacrificio; que não se devia venerar as imagens; que a Ceia do Senhor
-era uma simples commemoração da morte de Christo; que se devia ministrar
-o calix aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito
-na lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida,
-e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. Em 1524, Leão
-Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir o Velho Testamento, e antes
-de decorridos dez annos tinha a Suissa cinco versões da Biblia.
-
-Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo todas as
-suas despezas custeadas com o rendimento de vastas propriedades. Os
-conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos seus beneficios. Uma
-parte do dinheiro foi destinada ao sustento dos ministros da cidade, e
-o resto ficou constituindo um fundo de instrucção. Era com este fundo
-que a assembléa de Zurich, seguindo o conselho de Zwinglio, pagava ao
-professorado das escolas. Foi tambem resolvido que se solicitasse em
-todos os conventos, tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens
-em beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos assim
-se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia emquanto
-vivessem.
-
-A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, do norte da
-Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. Os discipulos de Thomaz
-Münzer não tardaram em causar perturbações. Conseguiram, com a sua
-prégação, agregar a si alguns adherentes de entre a população de Zurich.
-As suas doutrinas eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes,
-constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados de
-Deus e não precisavam de leis que não fossem as que os seus corações e
-consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem coherentes, queimaram
-as suas Biblias em publico. Tinham idéas singularissimas. Como Christo
-tivesse dito que os Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os
-enthusiastas anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com
-bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente absurdas.
-O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie de loucura, de que
-resultou haver sangue derramado. O conselho tolerou durante bastante
-tempo as suas manias, mas viu-se por fim obrigado a mandal-os retirar,
-proseguindo depois a obra da reforma com a mesma tranquillidade como
-anteriormente.
-
-A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes como Basiléa,
-Berne, Schaffhausen e Appenzell.
-
-=Basiléa= era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada pelos
-sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. Era tambem o centro da
-industria do papel, e a maquina de impressão de Froben deu-lhe uma grande
-celebridade. Era muito visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande
-Holbein durante o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados
-que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, professor de
-Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher benevolamente as novas
-doutrinas. Capito, o futuro reformador de Strasburgo, Polyhistor, o
-eminente hebraista e celebre physico, Œcolampadius, o sabio de Reuchlin
-e futuro companheiro de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do
-Delphinado, que tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não
-deixasse de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de
-Basiléa.
-
-A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius e Farel
-começaram a prégar contra a superstição.
-
-=Berne=, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, fez-se
-tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em pouco a Reforma
-começou a palpitar no meio dos cidadãos que a compunham. O conselho foi
-instigado a annunciar que na cidade só seria prégado o Evangelho puro, e
-tres prégadores, Kolb, Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão
-para fallarem contra a missa e contra as ceremonias papistas.
-
-Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros cantões, durante
-a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, ganhando sempre terreno, e
-por fim a Suissa ficou dividida em duas partes pela questão religiosa.
-
-=Os cantões florestaes= foram os unicos que se conservaram aferrados
-ás suas antigas tradições, constituindo um centro de opposição a toda
-e qualquer mudança em materia de religião. Quando a Reforma começou a
-mostrar um indiscutivel progresso, não só em Zurich como nos outros
-cantões, e Berne e Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se
-uma tal exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados
-protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava, em ambos
-os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava a esperança
-de que tudo se liquidasse rapidamente e de uma maneira decisiva. Ao
-primeiro recontro, porém, não se poude dar o nome de batalha, e os
-cantões florestaes, sem terem combatido, assignaram o Tratado de Cappel
-em 1529, cuja clausula principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé
-não são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos
-ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser justo, e tanto nas
-provincias communs como nos territorios independentes as congregações
-determinarão se a missa e outras usanças devem ser conservadas ou
-abolidas.»
-
-Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum dos partidos,
-e deu logar a novas contendas, que terminaram com a vinda subita dos
-Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo exercito derrotaram, ficando
-Zwinglio morto. Esta victoria não deu um grande avanço á causa romanista.
-O segundo Tratado de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o
-primeiro, e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada
-estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião.
-
-=Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.=—Com a morte de Zwinglio
-termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle morrer,
-a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de Luthero por uma
-constituição popular na egreja, mostrou claramente que na Reforma tinha
-de haver dois movimentos distinctos, que jámais se poderia unificar.
-Esta falta de união foi causa de um grande prejuizo, e as culpas não
-devem ser atiradas para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero.
-Ambos tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos principios
-evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes, em comparação
-de tudo aquillo em que concordavam. O feitio caracteristico da Reforma
-de Zwinglio, porém, torna-se muito mais manifesto na sua ultima fórma
-sob Calvino, e é referindo-nos a esse periodo que a vamos comparar com o
-movimento lutherano.
-
-Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma fizeram muito
-pouco no sentido de resolver uma questão que em breve tomou na egreja
-reformada uma importancia capital: a maneira como a egreja tinha de ser
-governada. Para elle era um ponto indiscutivel a necessidade de ter
-sempre presente no espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma
-de homens que podessem ser chamados _espirituaes_, simplesmente pelo
-facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava era que todos se
-compenetrassem do sacerdocio espiritual de todos os crentes, ministros ou
-leigos. Mostrou tambem que era dever de todos os magistrados administrar
-em nome de Christo e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e
-verdadeiras idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia
-haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios civis
-da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos respectivos ao
-culto publico, ás doutrinas e á disciplina da egreja foram feitos, no
-tempo de Zwinglio, pelo Conselho de Zurich, que era, n’aquelle estado,
-o supremo poder civil. Esta sua idéa, mesmo durante a vida d’elle,
-apresentou muitos inconvenientes, sendo um dos mais manifestos a ligação
-que se formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente
-politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam ter, como o
-antigo reino de Israel, governos theocraticos. Se as idéas de Zwinglio
-tivessem continuado a prevalecer, não é provavel que a Reforma suissa
-tivesse exercido o poder que exerceu para além das fronteiras da
-republica; posto que, sob a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem
-facilmente a um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter
-applicado a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma pequena
-egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia contra um
-governo secular que lhe fosse hostil.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO
-
- Genebra perante a Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag.
- 68.—A mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião
- Christã_, pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua
- expulsão, pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag.
- 76.—As _Ordenanças ecclesiasticas_, pag. 77.—Em que differem
- dos _Institutos_ pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de
- costumes, pag. 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe
- Beza, pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da
- Reforma, pag. 83.—A _Confissão de Zurich_, pag. 84.
-
-
-=Genebra perante a Reforma.=—Depois da morte de Zwinglio e da segunda
-Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis da Reforma suissa
-localisaram-se n’uma cidade que estava quasi desligada da confederação.
-
-Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e os seus bispos
-tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, jurisdicção sobre os
-negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam tambem os seus direitos
-sobre a cidade, e os dois partidos, o do bispo e o do duque, andavam
-quasi constantemente em guerra.
-
-Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente
-o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um
-conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa Leão X poz
-á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este
-modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no
-principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas
-facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos
-partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio
-da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como
-os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista
-contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com
-os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos
-pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome de «mamelukos», ao
-passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen»,
-isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser
-provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante
-francez, os huguenotes.
-
-A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim
-como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado
-notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de
-Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos
-tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do
-seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento
-das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida.
-Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus
-adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de
-licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem
-pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse
-estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade
-e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em
-Genebra.
-
-=Farel em Genebra.=—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532,
-veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos
-sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da
-egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos
-reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço;
-os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu
-respeito opiniões desencontradas.
-
-Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e
-a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra;
-Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem
-com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador.
-Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse.
-Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne,
-que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para
-celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi
-nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o
-prégar, e a Reforma foi avançando.
-
-O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra
-Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a
-diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões
-sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em
-1535 teve logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que
-Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os
-cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos
-sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os
-reformadores.
-
-O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se,
-nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a
-devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas,
-destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e
-commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho
-declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos
-que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade
-inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil,
-não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida,
-muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas
-o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella
-fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e
-tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos
-começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da
-liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha
-esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um
-moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na
-cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse.
-Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o
-inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as
-egrejas reformadas da Europa.
-
-=A mocidade de Calvino.=—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na
-Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando
-Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se
-dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo
-publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma
-senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As
-relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o
-bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle
-tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre
-familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos,
-a carreira ecclesiastica.
-
-Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para
-elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a
-universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde
-teve por professor o celebre Mathurino Corderier,[1] e em seguida para o
-Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente
-se celebrizou, Ignacio de Loyola.
-
-Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus
-condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de
-estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito
-annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo
-estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa
-que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a
-ordenar-se, nem fez voto de celibato.
-
-Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o
-filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito,
-estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um
-applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem
-do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com
-egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama
-de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que
-com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira
-juridica.
-
-Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade para seguir a
-vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos de direito, voltou,
-em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente á pequena communidade
-de protestantes que costumavam reunir-se n’essa cidade para lerem e
-estudarem as Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz
-porque deu esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia
-muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de fallar no
-que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. Era, a
-este respeito, muito differente de Luthero. Este contava a sua historia
-com a maxima franqueza, a todos expunha as suas duvidas, os seus
-temores, a sua fé. Cada um tinha a sua natureza especial. Só uma vez é
-que Calvino tirou de cima de si o véu com que se cobria. No prefacio
-ao assombroso _Commentario ao Livro dos Psalmos_ diz-nos que Deus o
-attraiu a Si mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso
-quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou a uma
-brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos ecclesiasticos,
-e ajuntou-se á pequena communidade evangelica de Paris, disposto a
-partilhar os perigos que ella corresse.
-
-Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado a
-publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris a toda a pressa,
-para não ser preso por causa da sua religião. Foi para Strasburgo, onde
-travou conhecimento com o reformador Martinho Bucer, e de ahi para
-Basiléa e varios outros pontos, levando uma vida de estudante nomada.
-
- [1] Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos,
- um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde
- se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim.
- Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo,
- e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as
- doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases
- que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na
- edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas
- phrases eram breves exposições das verdades evangelicas,
- ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições
- romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88
- annos.
-
-=Os Institutos da Religião Christã.=—Na primavera de 1536 publicou em
-Basiléa a primeira edição dos seus _Institutos da Religião Christã_. A
-obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida em francez, para
-uso, como elle proprio disse, dos seus compatriotas. A primeira edição
-era mais pequena, e a todos os respeitos inferior, ás edições revistas de
-1539 e 1559; mas como producção de um rapaz de vinte e seis annos, que
-era a edade que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival.
-Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», e, mais
-do que qualquer outro trabalho theologico, influiu nas idéas e amoldou o
-caracter da Reforma Protestante.
-
-Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro com um
-duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de theologia para
-a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma facil introducção, e
-habilitando-os a vencer todos os embaraços». Mas tinha tambem em vista
-justificar o ensino dos reformadores e desfazer as calumnias dos seus
-inimigos, que haviam instado com o rei de França para que os perseguisse,
-e os expulsasse de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «_A Sua
-Christianissima Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, João
-Calvino deseja paz e salvação em Christo_». E ajuntava: «Exponho-vos a
-minha confissão, para que conheçaes a natureza d’essa doutrina que tem
-provocado uma tão ilimitada raiva a esses desvairados que estão agora,
-por meio do fogo e da espada, pondo o vosso reino em desasocego. Pois
-não tenho receio algum de confessar que este tratado contém um summario
-d’essa mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser
-castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada da
-superficie da terra».
-
-Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar o que os
-protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou logo á
-comparação d’essas crenças com o ensino da egreja medieval. Luthero fez
-grande ostentação do Credo dos Apostolos, e nunca se cançava de dizer
-que elle e os seus correligionarios acceitavam aquella antiga e venerada
-summula da fé christã, e que, portanto, os protestantes pertenciam á
-Egreja Catholica de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou
-por ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo quando
-se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos á prova do Credo
-dos Apostolos, os protestantes eram catholicos mais genuinos do que os
-romanistas.
-
-Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a publicação dos seus
-_Institutos_ é necessario lembrar o que era o Credo dos Apostolos. Nosso
-Senhor, antes da Sua ascensão, disse aos Seus discipulos que fossem a
-todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, do Filho e do Espirito
-Santo; e assim os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica,
-quando recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas
-que fizessem a seguinte profissão de fé: «_Creio em Deus Pae, e em Seu
-Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo_, sendo esta a mais antiga e
-mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe mais estas
-palavras: _e na Santa Egreja Catholica_. Estas quatro orações eram
-proferidas por todos os neophytos por occasião do baptismo. O Credo
-dos Apostolos e todos os outros credos primitivos são simplesmente
-desenvolvimentos d’essas quatro phrases; e os primeiros livros
-theologicos que explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã
-eram exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, uma
-exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre outras coisas,
-que a verdadeira theologia nasceu da simples expressão de uma confiança
-em Deus acompanhada de adoração.
-
-Os _Institutos_ de Calvino são, na realidade, uma exposição do Credo, e
-dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando uma porção do
-Credo. A primeira parte falla de Deus o Creador, ou, como o Credo diz:
-«Deus, Pae Omnipotente, Creador do céu e da terra»; a segunda parte
-de Deus Filho, o Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de
-Deus Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja
-Catholica, e da sua natureza e distinctivos.
-
-A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo a passo
-o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha ácerca da Reforma
-aquella mesma opinião que Luthero diligenciou expôr nitidamente no seu
-tratado sobre o _Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_. Nunca lhe
-acudiu á mente que estivesse contribuindo para a fundação de uma nova
-egreja, ou que estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova
-theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que mantivessem
-opiniões originaes, até então desconhecidas. A theologia da Reforma era
-a velha theologia da Egreja de Christo, e as opiniões dos protestantes
-eram convicções da verdade que se baseiavam na Palavra de Deus, e que,
-conforme constava da historia da Christandade, haviam sido partilhadas
-por todo o povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle
-ensinava era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda
-a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que pelos
-pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e philosophia do
-paganismo. A Reforma, dizia-se nos _Institutos_, não engendra opiniões
-novas, trata apenas de desmascarar as falsidades e apresentar, em toda a
-sua pureza, as verdades antigas.
-
-=Calvino em Genebra.=—A publicação dos _Institutos_ fez com que Calvino
-se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos da Reforma; e quando, nas
-suas peregrinações, deu comsigo em Genebra, tencionando passar ali a
-noite e abalar em seguida, Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o
-auxiliasse nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de
-fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao mesmo tempo
-reconhecia que era um dever para elle deitar mãos ao trabalho que podia
-executar em Genebra, e por fim resolveu ficar na companhia de Farel.
-
-Diz elle no prefacio ao seu _Commentario sobre o Livro dos Psalmos_:
-«Como o caminho mais direito para Strasburgo, para onde tencionava
-retirar-me, estava impedido por causa da guerra, tinha resolvido passar
-rapidamente por Genebra, demorando-me na cidade uma noite apenas....
-Sabedor d’isto, Farel, que trabalhava com extraordinario zelo para que o
-Evangelho progredisse, empregou logo os maiores esforços para me deter.
-E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder entregar-me
-socegadamente aos meus estudos, não me encontrando, portanto, predisposto
-para qualquer outro encargo, elle, perdida a esperança de conseguir
-qualquer coisa por meio de rogos, começou com imprecações, invocando
-a maldição de Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a
-tranquilidade, se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso
-n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario. Ouvindo estas
-suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti da viagem que
-projectava.»
-
-Calvino tinha vinte e sete annos e Farel quarenta e sete, quando
-começaram a trabalhar juntos em Genebra, e, não obstante a differença
-das edades, tornaram-se amicissimos um do outro. «Tinhamos um coração e
-uma alma», diz Calvino. Farel apresentou-o aos conselheiros da cidade.
-Principiou a sua obra fazendo conferencias na cathedral, e immediatamente
-se reconheceu que a sua palavra era attrahente e efficaz. A junta
-nomeou-o pastor, e, de collaboração com Farel, metteu hombros á grave
-tarefa de organizar a Reforma. Somos informados de que elle redigiu os
-artigos de fé e os regulamentos para o governo da Egreja, tendo antes
-d’isso, isto é, pouco depois da sua chegada a Genebra, escripto um
-catecismo para a infancia. A obra dos reformadores foi approvada pelo
-conselho da cidade, e esta, pelo que dizia respeito a todos os seus
-aspectos exteriores, adoptou por completo a religião reformada.
-
-Farel sabia, porém, havia muito, e Calvino em breve o reconheceu tambem,
-que o de que Genebra necessitava era uma reforma moral. A cidade era
-o mais que podia ser de dissoluta, e havia muito tempo que permanecia
-n’aquelle estado. Os que durante muitas gerações tinham estado á testa
-dos negocios publicos conheciam esse facto, e tinham promulgado leis
-contra o viver licencioso. Entre os arquivos de Genebra relativos ao
-principio do seculo dezeseis, e ainda entre alguns do seculo quinze,
-apparecem leis sumptuarias contra o jogo, a embriaguez, as mascaradas,
-as danças e o luxo no vestuario; e, examinando os documentos judiciaes,
-encontram-se referencias a condemnações por infracções d’essas leis,
-commettidas muito antes de Calvino ter fixado lá a sua residencia.
-
-Isto tem sido esquecido pelos historiadores quando accusam Calvino de
-ter tentado reformar o povo, mediante, como nós diriamos, leis votadas
-no parlamento. Calvino não fez essas leis, nem ha evidencia de elle as
-considerar muito importantes. Era, porém, de opinião, que sustentou
-sempre com toda a firmeza, de que ás pessoas que tinham uma vida immoral,
-cujas acções e linguagem não estavam em harmonia com a sua profissão
-christã, não se devia permittir que participassem da solemne instituição
-da Ceia do Senhor, e esse seu modo de vêr não tardou em indispôl-o com os
-habitantes de Genebra.
-
-Ao cabo de muitas admoestações, os reformadores resolveram, por fim,
-exercer a disciplina ecclesiastica, afastando solemnemente da Mesa do
-Senhor os commungantes indignos. Os magistrados, que estavam sempre
-promptos a promulgar leis restrictivas do vicio, e até mesmo do viver
-faustoso, não quizeram consentir em que se pozesse em execução esta
-ordem de quem tinha a superintendencia na Egreja, e, ainda mais, o
-pulpito ficou de ahi em deante vedado a Calvino e a Farel. Estes não
-se submetteram, e no domingo de Pascoa de 1538 prégaram a uma multidão
-excitada e armada, recusando administrar á congregação a Ceia do Senhor,
-para evitar que esta fosse profanada.
-
-No dia seguinte a junta da cidade reuniu-se para apreciar a conducta de
-Calvino e Farel. Os reformadores foram accusados de pretender usurpar
-o poder mediante os seus regulamentos ecclesiasticos, entre os quaes
-figuravam o da abolição de todos os dias santos, excepto o domingo, e o
-do desuso da pia baptismal e do pão asmo na Ceia do Senhor.
-
-Estas accusações eram, evidentemente, meros pretextos, pois que o proprio
-Calvino havia declarado que lhe era quasi indifferente que as coisas que
-atraz mencionamos fossem ou não postas em pratica. O que os realmente
-predispunha contra Calvino e Farel era a supposição em que estavam de que
-elles pretendiam estabelecer um novo papado; os magistrados desejavam
-conservar nas suas mãos, não só a administração civil como a disciplina
-da Egreja. O resultado de tudo isto foi Calvino e Farel serem expulsos
-da cidade, não pelos papistas, mas por aquelles que até ali tinham
-contribuido para o avanço da Reforma.
-
-O facto d’este conflicto entre os reformadores e os genebrenses ter
-ocorrido logo no principio da vida publica de Calvino revela uma grande
-differença entre os dois ramos da Reforma, o reformado, ou calvinista,
-e o lutherano. Calvino mostrou ter, desde o inicio da sua carreira,
-noções muito claras ácerca da disciplina da Egreja e do direito que
-a communidade christã tinha de se governar a si propria em assumptos
-espirituaes e do direito dos que estavam em auctoridade na Egreja
-tinham de excluir dos privilegios a todos aquelles que fossem indignos
-de participar d’elles. Luthero e Melanchthon tinham as mesmas idéas,
-mas não as pozeram em pratica. Luthero não modificou o modo como a
-superintendencia era exercida, limitando-se a transferil-a das mãos dos
-bispos para as das auctoridades civis; e o effeito pratico, posto que não
-premeditado, d’isto foi ficarem sendo os magistrados os que arbitravam
-se esta ou aquella pessoa devia ou não approximar-se da mesa do Senhor.
-Calvino, por outro lado, viu logo desde o principio que a Egreja, para
-ter uma existencia visivel, e conservar-se distincta do Estado, devia
-ter o direito de declarar quaes as pessoas que estavam no caso de ser
-admittidas como membros da Egreja e partilhar todos os privilegios da
-mesma, e ter a auctoridade para censurar os aggravos espirituaes e
-punil-os mediante a perda dos sacramentos.
-
-Não consta que Calvino pedisse em tempo algum outra coisa além de que a
-disciplina da Egreja fosse exercida pela propria Egreja, representada
-pelos seus officiaes. Calvino, logo no começo da sua carreira, proclamou
-a independencia da Egreja em assumptos espirituaes, taes como a admissão
-á mesa do Senhor e a exclusão d’ella.
-
-=Calvino é expulso de Genebra.=—Expulso de Genebra, Calvino foi para
-Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente tres
-annos, ministrando a uma numerosa congregação de refugiados francezes,
-e occupando-se com trabalhos litterarios. Strasburgo tinha sido um
-logar intermediario entre a Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi
-conhecimento com muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade
-com Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores
-allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em Francfort,
-Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou com Idelette de Bure,
-viuva de João Storder. Idelette era uma senhora muito temente a Deus
-e muito instruida, e teve, do seu casamento com Calvino, tres filhos,
-que morreram todos na infancia. Calvino não se refere muito, na sua
-correspondencia, á sua vida domestica, mas as cartas que escreveu
-a alguns amigos muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e
-do fallecimento dos filhinhos demonstram que no peito do austero e
-ceremonioso francez batia um coração susceptivel de grandes affectos.
-
-=Genebra não pode passar sem Calvino.=—No entretanto, Genebra continuava
-agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam longe da cidade,
-mas o povo sentia a necessidade da sua presença. Não havia agora ali
-uma influencia que a todos dominasse, e as coisas caminhavam de mal
-para peior. Calvino tinha dito que a infidelidade tinha por origem a
-depravação a que elle se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos
-começaram a ver o quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens
-sociaes iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses
-intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo á frente
-o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo ao papismo; os
-anabaptistas, inimigos de toda a organização ecclesiastica e social, os
-libertinos, os livres pensadores, todos luctaram por obter o predominio
-em Genebra, e por fim a população começou a sentir-se cançada de aquella
-tumultuosa situação e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados
-ministros.
-
-A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse. Elle
-ao principio recusou. «Não ha localidade que me aterrorize tanto como
-Genebra», escreveu elle a um amigo. Continuaram, porém, a instar com elle
-para que voltasse; muitos dos amigos que elle tinha entre os reformadores
-francezes e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos
-genebrenses, e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram côro
-com elles. Condescendendo finalmente, regressou a Genebra.
-
-Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com jardim situada
-nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o ministro e professor
-de theologia, e fixaram-lhe um estipendio annual de quinhentos florins,
-doze medidas de trigo e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que
-na Egreja de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica,
-pois que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que tivera
-com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em manter o direito que
-á Egreja assiste de velar pela sua pureza. Voltou triumphante a Genebra,
-e foi recebido com as mais extravagantes manifestações de regozijo.
-Foi mais uma vez desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla
-vida litteraria, e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se
-inteiramente á causa publica.
-
-Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo dizem,
-durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores teem-n’o
-comparado a individualidades de indole muitissimo differente. Segundo
-uns, foi o Lycurgo de Genebra; segundo outros, um dictador romano, ou um
-novo Hildebrando, ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma
-grande obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de estar
-quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça e de asthma.
-
-Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias dava aula.
-Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia, compoz tratados
-theologicos, e tinha sempre que attender a uma immensa correspondencia.
-Era elle quem dirigia a Egreja reformada em toda a Europa, e, segundo a
-idéa de muitas pessoas, era, por assim dizer, omnipotente em Genebra,
-tendo sido attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus
-resultados da chamada theocracia genebrense.
-
-É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra o caracter da
-cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais frivola e mais devassa
-de todas as cidades europeas, tornou-se o berço do puritanismo, tanto
-francez, como hollandez, como inglez, como escocez. As danças e
-mascaradas passaram a ser coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro
-estavam sempre ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de
-conferencias se enchiam até á porta.
-
-=As ordenanças ecclesiasticas.=—O que effectuou tudo isto foram as
-famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra, e o modo em que
-ellas foram applicadas pelos magistrados. Estas ordenanças eram, segundo
-as poucas palavras do preambulo, o «regimen espiritual, que Deus ordenou
-na Sua Egreja, e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado
-na cidade de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas
-presbyteriannas.
-
-Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies ou graus
-de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus para o governo
-da mesma, e os que os exercem são chamados pastores, professores,
-presbyteros e diaconos.
-
-Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes e
-bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos, e, conjunctamente
-com os presbyteros, exercer a disciplina; eram geralmente escolhidos
-pelos ministros em exercicio, e nomeados pelos magistrados, com
-o consentimento do povo; tinham de dar contas dos seus actos nas
-conferencias que para esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e
-eram, outrosim, responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade.
-
-Da classe dos professores faziam parte todos os lentes da universidade e
-os mestres das escolas. Os presbyteros tinham a seu cargo a disciplina.
-Não eram eleitos pela congregação, mas, sim, nomeados pela junta da
-cidade, com previa consulta dos pastores; e todos elles tinham de ser
-membros das juntas. Conjunctamente com os pastores, faziam uma visita
-annual a toda a area que lhes pertencia, e experimentavam, de um modo
-simples, a fé e o proceder de todos os membros da egreja.
-
-A assembléa de todos os presbyteros e de todos os pastores constituia
-o _Consistorio_, que era o conselho executivo e legislativo da Egreja.
-O Consistorio reunia-se todas as semanas, sob a presidencia de um dos
-quatro syndicos, ou primeiros magistrados, de Genebra, afim de receber
-e examinar todos os documentos relativos a irregularidades na vida e
-na conducta de quaesquer membros da Egreja, e deliberar ácerca da pena
-ecclesiastica a applicar a este ou áquelle caso, pena que podia ir até á
-exclusão da Mesa do Senhor. Não estavam auctorizados a infligir qualquer
-censura ou castigo que não fosse espiritual, mas tinham obrigação de
-participar todos os delictos á auctoridade civil, que era a unica que
-tinha o direito de punil-os. Todos os presbyteros eram escolhidos
-pela junta, e tinham de ser membros d’ella, resultando de ahi que os
-magistrados genebrenses que tomavam assento no consistorio na qualidade
-de presbyteros recolhiam as informações relativas a factos criminosos
-e transmittiam-n’as a si proprios quando tomavam assento na junta na
-qualidade de magistrados.
-
-Os diaconos cuidavam dos pobres e dos enfermos, e eram egualmente
-nomeados pela junta.
-
-O plano do governo da Egreja concorda, nas linhas geraes, com os
-principios que Calvino expoz nos seus _Institutos_, mas differe d’elles
-em tantos detalhes importantes que se torna impossivel acreditar que todo
-elle fosse obra do Reformador.
-
-Nos _Institutos_ expoz Calvino com a maxima clareza quaes são os
-verdadeiros principios do governo e disciplina ecclesiasticos. Prova que
-Deus educa e aperfeiçôa o Seu povo n’esta vida mediante a Sua Egreja,
-e que para a edificação da Egreja proveu uma variedade de dons, que
-não são concedidos indescriminadamente a todos os christãos, sendo
-limitado o numero d’estes que os teem recebido em maior escala. Estes
-dons podem ser classificados em tres categorias, instrucção, governo
-e caridade, ou, como os reformadores escocezes disseram, doutrina,
-disciplina e distribuição, e a Egreja pode verificar que alguns dos seus
-membros teem um talento especial para instruir, outros para dirigir, e
-outros para tomarem conta das collectas e da distribuição do dinheiro.
-Deus conferiu estes dons, e collocou na Egreja homens capazes de os
-exercerem, para edificação do Seu povo, e, por consequencia, as funcções
-que se desempenham na Egreja são de caracter ministerial e não tendem
-a exaltar pessoa alguma. Os officiaes são homens que melhores serviços
-podem prestar á communidade, e são, portanto, responsaveis perante
-esta e perante Deus pelo modo como os prestam. Calvino insistiu muito
-na verdadeira natureza e valor do presbytereado, que elle considerava
-a mais efficaz barreira contra a conquista de uma supremacia sobre a
-Egreja, como aquella que tinha sido uma das mais censuraveis usurpações
-da Egreja de Roma. Mediante este officio tem a Egreja aquelle governo
-methodico sem o qual nenhuma sociedade pode existir, e a communidade
-christã pode conservar-se livre da usurpação do poder e da tyrannia
-ecclesiastica por meio de um governo verdadeiramente representativo, isto
-é, livremente escolhido pelos membros da congregação. Calvino affirmou
-tambem, com muita insistencia, que este governo era espiritual, e que
-só lhe pertencia julgar as infracções espirituaes e infligir castigos
-espirituaes. O maior castigo espiritual era, segundo elle, a excommunhão.
-
-=As ordenanças ecclesiasticas differem, a muitos respeitos, dos
-principios expostos nos Institutos.=—Calvino combateu sempre
-energicamente qualquer confusão entre a jurisdicção civil e a jurisdicção
-ecclesiastica, declarando que as duas deviam estar completamente
-separadas uma da outra. Nas _Ordenanças_ não se mantem esta separação. A
-censura do consistorio era de continuo seguida, como veremos, de multa,
-de desterro, e, até, de morte; quando, segundo a theoria de Calvino,
-só castigos espirituaes se devem seguir a offensas espirituaes. Os
-anciãos que exerciam o governo ou a disciplina não eram escolhidos pela
-Egreja, nem eram realmente seus representantes. Eram designados pelos
-magistrados civis da cidade, e só eram elegiveis os que já fossem membros
-de uma organização politica. Os direitos da communidade christã eram
-praticamente desprezados, posto que Calvino houvesse declarado que o
-poder ecclesiastico pertencia realmente a toda a assembléa dos crentes. A
-junta escolhia os pastores, podendo a Egreja impôr o seu veto; escolhia
-d’entre si os presbyteros, e escolhia egualmente os diaconos.
-
-Esta notavel desharmonia com os principios de Calvino era devida aos
-magistrados de Genebra, que assim procediam em opposição aos desejos
-do Reformador. Sentia-se especialmente molestado com o modo como eram
-escolhidos os presbyteros, e declarou que não considerava as _Ordenanças_
-um plano perfeito de governo ecclesiastico; pareceu-lhe evidentemente,
-porém, que era o melhor que n’aquella occasião se poderia obter, e
-acceitou-o, alimentando a esperança de que seria, mais tarde, modificado.
-Agradava-lhe tanto, apezar dos seus defeitos, que o considerava um
-modelo que podia ser copiado n’outros logares, e exprimiu a esperança de
-que Genebra, situada na fronteira da França, da Allemanha e da Italia,
-incitaria esses paizes a uma Reforma de caracter, perfeita e permanente.
-
-Não obstante, os pontos em que as _Ordenanças_ divergiam dos principios
-que Calvino expoz nos seus _Institutos_ deram occasião a esses
-caracteristicos do governo genebrense que mais teem sido reprovados pelos
-historiadores. É fóra de duvida que a corrupção moral que predominava
-em Genebra foi combatida por leis severissimas, que chegavam mesmo
-a ser crueis. A antiga legislação genebrense era, em muitos casos,
-bastante severa, e quando se tratava de delictos especiaes a sua
-severidade tornava-se extrema; mas depois de publicadas as _Ordenanças
-Ecclesiasticas_ as leis foram applicadas com um rigor anteriormente
-desconhecido.
-
-O consistorio reunia-se todas as semanas, ás quintas feiras, e eram-lhe
-fornecidas informações ácerca da maneira como o povo se comportava; e
-essas informações eram communicadas á junta, ou conselho, que era o mesmo
-Consistorio, mas revestido da auctoridade civil. Eram prohibidos os
-divertimentos ruidosos, os jogos de azar, as danças, as canções profanas,
-as pragas e as blasphemias. Todo o cidadão tinha de estar em casa ás nove
-horas, sob pena de uma pesada condemnação. O adulterio era punido com
-a morte. Uma creança que atirou com umas pedras á mãe foi publicamente
-açoitada, e depois suspensa do patibulo pelos braços. Foram abolidas
-todas as folganças que tinham logar por occasião dos casamentos; os
-cortejos deixaram de levar tambores ou instrumentos musicaes á frente, e
-não mais se dançou nas bodas. Os theatros só podiam levar á scena peças
-biblicas. Ficou inteiramente prohibida a leitura de romances, e o auctor
-de qualquer obra que desagradasse ao Consistorio era mettido na prisão.
-Era preciso o maximo cuidado com o que se dizia, chegando as coisas a
-tal ponto que os hoteleiros eram obrigados a referir as conversas que os
-seus hospedes tinham tido á mesa. Nas hospedarias era tambem prohibido
-fornecer comida ou bebida a quem não pedisse, antes de se servir, a
-benção de Deus. Não era permittido jejuar, e um certo individuo foi
-castigado por não comer carne á sexta-feira.
-
-É impossivel dizer que parte tomou Calvino n’estes regulamentos, de uma
-desnecessaria severidade. Muitos historiadores teem affirmado que elle
-dispunha de todo o poder em Genebra, e que poderia ter evitado muita
-coisa se quizesse. Elle era francez, e nenhuma nação tem como a França
-apresentado, em epocas de grande crise, tão duros legisladores. Calvino
-não tinha, por outro lado, abjurado a parte mais odiosa da theoria
-medieval quanto á disciplina da Egreja, isto é, a que auctorizava os
-tribunaes ecclesiasticos a recorrerem ao poder civil para que a certas
-offensas espirituaes fosse applicada multa, prisão ou execução capital,
-com o fundamento de que constituiam crimes contra a ordem e a paz da
-sociedade. Calvino acceitou esta doutrina; e o mesmo fez Beza, que
-chamava á liberdade de consciencia uma doutrina diabolica. Os theologos
-de Westminster admittiram egualmente a theoria medieval, e trabalharam
-para que ella fosse posta em pratica, em detrimento da reforma da egreja
-de Inglaterra. Não só Calvino como todos os principaes reformadores
-approvaram a morte de Servetus pelo motivo de haver negado a doutrina da
-Trindade e apresentado blasphemas asserções em defeza da sua opinião.
-Tudo isto tem de ser admittido.
-
-=As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.=—Devemos
-lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria preciso
-para obter uma reforma de costumes n’uma cidade tão immoral e tão
-turbulenta como Genebra.
-
-A Reforma, justamente porque era um protesto contra o então existente
-estado de coisas, teve de navegar contra a corrente do mal, que ella
-propria provocou. É-nos quasi tão impossivel comprehender o perigo dos
-excessos anabaptistas e outros como comprehender a corrupção moral
-da epoca em que o christianismo surgiu e se propagou. Professava-se
-o libertinismo pantheistico como se fosse um credo, e os documentos
-litterarios do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade
-que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu deante de si em Genebra
-foi uma indulgencia para tudo quanto fosse immoral, indulgencia que a
-propria religião prescrevia, visto tratar-se de uma coisa natural. Era
-este o lado sombrio da Reforma, para o qual não era agradavel olhar,
-mas que existia, e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o
-procedimento do conselho de Genebra ou o de Calvino.
-
-O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a decima
-parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os principes da
-Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos, e aos seus cabeças,
-os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento causado pela paixão
-cega, quer provenha do medo quer provenha do odio, tem, o que é coisa
-curiosa, sido sempre olhado com maior brandura do que o soffrimento que é
-infligido no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma.
-
-Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino fosse menos
-omnipotente em Genebra do que se suppõe ter sido. A um francez, e de mais
-a mais logico como elle era, custa a attribuir as incoherencias que se
-notam entre os _Institutos_ e as _Ordenanças Ecclesiasticas_. É preciso
-não esquecer que o que tornou possiveis estes castigos que teem sido
-tão condemnados foram aquelles pontos das _Ordenanças_ que não eram da
-responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira
-causa do mal era a relação que havia entre o consistorio e o governo
-civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas camaras municipaes
-se constituia uma vez por semana em commissão zeladora da moralidade
-publica. Não se sentiriam escandalizados os vereadores se os casos que
-elles apresentassem á commissão, e que mereciam a reprovação d’ella,
-ficassem impunes? Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia
-seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos de
-toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo? Não se deve
-attribuir a culpa de todos estes males a Calvino, ou mesmo ao conselho
-de Genebra. Surgiram naturalmente das tres vezes abominavel mistura da
-direcção dos negocios seculares com a direcção dos negocios espirituaes,
-que constitue habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem
-precaver.
-
-=A morte de Calvino.=—Durante a residencia de Calvino em Genebra, foi
-esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia. Os magistrados
-fundaram uma universidade, cujo primeiro reitor foi Theodoro Beza,
-e as suas aulas foram, durante o primeiro anno, frequentadas por
-oitocentos estudantes. Procuraram refugio na cidade, onde receberam um
-excellente acolhimento, numerosissimos protestantes italianos, francezes
-e escocezes. «Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas suas
-cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia que exercia.
-Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os huguenotes da França, os
-reformadores de Inglaterra, a congregação escoceza, e os dirigentes da
-Reforma na Allemanha.
-
-Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se do
-excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou o seu ultimo sermão
-no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a 27 de maio do mesmo anno,
-contando cincoenta e cinco annos incompletos.
-
-Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto de si os syndicos,
-ou primeiros magistrados de Genebra, e em seguida todos os ministros.
-Prohibiu que sobre a sua sepultura se erigisse qualquer monumento,
-acontecendo, d’esse modo, que se desconhece o sitio onde foi enterrado.
-
-Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz proeminente,
-testa elevada, e olhos que em dadas occasiões chammejavam. Trajava sempre
-com o mais escrupuloso esmero, e alimentava-se muito sobriamente.
-
-Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação e pelo
-temperamento; grande observador de todas as regras da etiqueta, sentia-se
-muito mais á vontade no meio das pessoas de posição do que no meio
-do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado frio e insensivel, mas o que é
-facto é que os seus amigos e contemporaneos se referem sempre a esse
-frio, timido, austero e polido francez em termos os mais affaveis e
-respeitosos; e os mancebos davam-se perfeitamente com elle.
-
-Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de Calvino com
-um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o haverem estudado,
-descobrem que a sua antipathia se transformou em affectuosa admiração.
-Como será sufficiente um exemplo, vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle:
-
-«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem ter sido vasados
-de um só jacto n’um molde, e que se estudam por meio de um simples olhar;
-uma carta das que escrevam, um acto dos que pratiquem, é o bastante
-para se fazer um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem
-com titulos, nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver,
-apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os outros
-eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço outro homem que
-podesse rivalisar com elle n’estes raros predicados. É surprehendente
-como um homem cuja vida e cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas
-sympathias, se tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as
-suas palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter uma
-tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos.
-Como se pode explicar, por exemplo, que uma das mulheres mais distinctas
-do seu tempo, Renée de França, que no seu palacio de Ferrara se via
-cercada dos mais brilhantes talentos da Europa, se deixasse captivar por
-aquelle severo doutrinador, enveredando, por sua influencia, n’uma senda
-que tão espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem
-ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção. Sem
-manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem dos outros, que foi
-o que assegurou a Luthero o bom exito dos seus trabalhos, sem possuir o
-encanto, a perigosa, posto que languida, doçura de S. Francisco de Sales,
-Calvino saiu victorioso, n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava
-uma reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o maior
-christão do seu tempo».
-
-=Beza, o successor de Calvino.=—Theodoro Beza succedeu a Calvino em
-Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha adquirido; e até ao
-meiado do seculo dezesete a voz de Genebra foi a que as numerosas egrejas
-protestantes escutaram com maior acatamento.
-
-=A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.=—Sob a influencia
-de Calvino, desappareceram as differenças theologicas que havia na
-Suissa, e todas as egrejas que se chamavam reformadas adoptaram um typo
-de doutrina. Estas egrejas não tinham, como as lutheranas, um Catecismo
-e uma Confissão, mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas
-uma perfeita unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu
-Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar entre os credos das
-egrejas que se chamam do seu nome, mas a sua influencia em toda a parte
-se manifesta. Elle vive novamente, na obra dos seus discipulos.
-
-Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com o assumpto de que
-nos estamos occupando são o Catecismo para a Infancia e a Confissão de
-Zurich.
-
-O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar a instrucção
-religiosa das creanças, que tão lamentavelmente havia sido descurada
-pelos romanistas. Calvino, para a confecção do seu catecismo, serviu-se
-do Credo dos Apostolos, dos Dez Mandamentos e da Oração Dominical.
-Tiveram origem n’elle dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o
-de Heidelberg, que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve
-Catecismo da Assembléa de Westminster.
-
-=A Confissão de Zurich= foi muito proveitosa, porque uniu as Egrejas
-Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo facto de reconciliar
-n’uma mais profunda unidade as opiniões de Luthero e de Zwinglio. Poz de
-parte a metaphysica medieval com que Luthero havia sobrecarregado a sua
-theoria, e ao mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio
-e dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos
-eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes.
-
-Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão: «Os
-sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou somos implantados no
-corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos, nos ligamos a Elle cada
-vez mais, até que seja perfeita a nossa união com Christo, na vida
-celestial».
-
-A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente visivel
-na geração de protestantes que ella educou e enviou a combater com o
-romanismo. «N’uma occasião em que a Europa», diz Haüsser, «não podia
-mostrar solidos resultados da reforma, este pequeno estado de Genebra
-erguia-se como uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos
-para todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas,
-e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os missionarios
-provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam o elevado e intrepido
-espirito que procede de uma estoica educação e adestramento; tinham o
-cunho da abnegação e do heroismo, que em toda a parte era absorvido pela
-estreiteza theologica. Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era
-demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo,
-separando-o da velha e tradicional auctoridade monarquica, e fazendo com
-que elle adoptasse o evangelho da democracia como parte do seu credo....
-Genebra dictou um pequeno trecho da historia universal, trecho que
-constitue a parte de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem
-orgulhar. O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens
-da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; estes homens possuiam
-almas fortes, caracteres de ferro vasados n’um molde em que havia uma
-mistura de elementos romanos, germanicos, medievaes e modernos; e as
-consequencias nacionaes e politicas da nova fé foram por elles defendidas
-com o maximo rigor e coherencia.»
-
-A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha. A pequena
-republica de Genebra uniu primeiro a Reforma suissa, e em seguida deu os
-caracteristicos distinctivos aos movimentos reformadores da França, da
-Hollanda, da Escocia, da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande
-parte da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito,
-tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o reformador
-de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão insensivel, tão frio,
-tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica tão desapiedada, foi o
-reformador de uma grande parte da christandade. A Reforma suissa passou
-muito para além da Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França,
-da Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-A REFORMA EM FRANÇA
-
- Principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag.
- 89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma,
- pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos
- placards, pag. 92.—O Vaudois da Durance, pag. 92.—Henrique
- II e os Guises, pag. 93.—Organisação da Egreja Reformada,
- pag. 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag.
- 96.—O primeiro Synodo Nacional, pag. 97.—Anne de Bourg, pag.
- 98.—O massacre de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa
- dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A
- Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros,
- pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e
- Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A
- Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto
- de Nantes, pag. 110.
-
-
-=Principios da Reforma em França.=—Antes da Reforma se ter tornado em
-França um grande e importante movimento, appareceram dois typos da
-cristandade reformada, sellados com as individualidades de dois homens:
-Luthero e Calvino, o Pedro e o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em
-seguida teve de ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno
-foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando Wittenberg
-em segundo plano, que se mostrou em condições de se defrontar com Roma.
-A dupla corrente da Reforma partiu d’estes dois centros para toda a
-Europa, mas nos terriveis combates que se travaram a feroz democracia do
-Calvinismo poude desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante
-conservantismo do movimento lutherano. A historia do progresso da Reforma
-fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia do calvinismo, e do
-triumpho das idéas calvinistas. Foi assim em França.
-
-Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz, datam de
-uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino. Havia no sul e no
-sueste, no fim do seculo quinze e no principio do seculo dezesseis,
-uns taes ou quaes vestigios dos velhos albigenses; e os valdenses
-mantiveram-se, e foram protegidos, em virtude de antigos tratados,
-durante as perseguições dos huguenotes. A Egreja franceza havia-se
-distinguido sempre pela sua opposição ás reivindicações da côrte
-pontificia e do papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma
-grande decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a Egreja
-franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade de
-Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou a parte principal na
-convocação dos concilios reformadores de Pisa, Basiléa e Constancia, e no
-refreamento da curia romana. A Egreja franceza tinha-se sempre opposto
-energicamente ao ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica
-de Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer outro
-ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que a França, em vista
-da sua historia passada, tomasse a iniciativa de um movimento reformador.
-A Reforma, porém, que as summidades ecclesiasticas promoveram no seculo
-quinze não foi uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião
-espiritual. Os reformadores de Constancia queimaram João Huss.
-
-Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma, a mesma
-immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia que desacreditou a
-Egreja medieval do seculo dezeseis na Allemanha e na Italia; o inicio da
-Reforma em França proveiu do despertamento das lettras e da leitura das
-Escripturas nas linguas originaes.
-
-Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux, onde o bispo,
-Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade de reprehender a
-immoralidade monastica, e que o povo anhelava por um verdadeiro ensino
-religioso. Elle tinha ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de
-Etaples, e da perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da
-Sorbonne por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e
-ao seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo de
-Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem e prégarem
-debaixo da sua protecção. Lefévre publicou, em 1523, uma traducção
-do Novo Testamento em francez, e o povo comprou o livro e leu-o com
-soffreguidão.
-
-Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet n’outro tempo
-lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e de favorecer herejes. No
-meio da tempestade que então se levantou, o bispo perdeu a coragem. Farel
-fugiu para Strasburgo, seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro
-prégador, e a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém,
-que possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na memoria os
-sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé evangelica. Alguns crentes
-tiveram de soffrer o martyrio, mas o fermento espalhou-se, ainda que
-occultamente, por toda a França.
-
-=Francisco I.=—O rei de França, n’esses primeiros annos da Reforma,
-era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os seus _Institutos da
-Religião Christã_. Enthusiasta, e dotado de alguma intelligencia, havia
-saudado a revivificação das letras, protegeu Lefévre durante o tempo em
-que este sabio residiu em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que
-mantinha com homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus.
-Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a sua ambição era que
-o considerassem como tal; a universidade de Paris havia-lhe merecido
-uma especial attenção, e interessou-se tambem immenso na famosa maquina
-de impressão inventada por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de
-Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu algumas
-poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde rainha de Navarra,
-foi uma das mais espirituosas conversadoras e uma das mais brilhantes
-escriptoras do seu tempo. Francisco não sympatizava nada com o desleixo e
-ignorancia de muitos dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente,
-considerava o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com
-a estupidez. Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo a
-auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que ambicionava
-brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer a absoluta
-supremacia do soberano. Não sympatizava com o caracter profundamente
-espiritual da Reforma, e as suas necessidades politicas não tardaram a
-prevalecer sobre o seu amor pela instrucção.
-
-=A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.=—A
-independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de França em
-opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção Pragmatica de
-Bourges, que definia as liberdades das egrejas nacionaes de uma maneira
-clara e energica. Declarou que o papa estava sujeito a um concilio
-ecumenico, e que este concilio se devia reunir de dez em dez annos.
-Declarou que todos os provimentos de elevados cargos ecclesiasticos,
-taes como os bispados e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não
-por designação do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos
-a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto pode abranger
-tanto os innocentes como os culpados. A Sancção Pragmatica tinha sido
-sempre cuidadosamente defendida pela Egreja franceza, e pela maioria dos
-soberanos de França. Era intensamente abominada pelos papas, e não podia
-ser olhada com muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia
-do throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia do povo.
-Francisco comprehendia que, se podesse collocar a Egreja debaixo do seu
-dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao absolutismo. Entendeu-se,
-portanto, com o papa, e trocou a Sancção Pragmatica por uma Concordata,
-que foi, no futuro, uma grande desgraça para a França.
-
-Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios dos Concilios
-reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu em que o papa ficasse
-com direito ao _Annates_, isto é, o vencimento relativo ao primeiro anno
-de todos os beneficios que eram providos, concedendo o papa, em troca,
-que a nomeação de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do
-rei. Por outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes
-supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel somma
-de dinheiro; e o rei de França era praticamente, dentro do seu reino,
-o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos os arcebispados, bispados,
-abbadias e priorados. Fez-se denuncia d’esse tratado, e de todos os modos
-se trabalhou para o annullar, mas conseguiu vencer todas as opposições, e
-permaneceu em vigor até á Revolução.
-
-A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma franceza, e
-não é possivel exaggerar a importancia que ella tem para a historia
-ecclesiastica franceza desde o principio do seculo dezeseis. Por um lado,
-secularizou a Egreja franceza. Todos os officios ecclesiasticos de valor
-eram doados pelo rei, e tinham de ser disputados por cortezãos que só nas
-coisas do mundo pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses
-da Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da Egreja
-franceza era necessariamente opposição ao absolutismo do soberano. Esta
-Concordata deu uma indole particular á lucta que a Reforma produziu em
-França. Os reformadores não podiam deixar de ser tambem os adversarios do
-absolutismo; e o rei, para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de
-chefe da Egreja, via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a
-supremacia.
-
-Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em França um trabalho
-muito diverso do trabalho de Luthero na Allemanha, porque tinham de se
-oppôr não só á Egreja como ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores
-escocezes e aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a
-Reforma poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na Hollanda
-uma republica. Em França, por outro lado, o poder real foi augmentando
-lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado, a um absolutismo como
-o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se apto para exterminar a egreja
-protestante, por meio de uma sanguinolenta perseguição.
-
-=«A Egreja que estava debaixo da Cruz».=—Luthero tinha, na Allemanha, um
-principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra, auxiliado pela suprema
-auctoridade civil. Em França os reformadores tiveram de luctar não só
-contra o poder do rei como contra o poder da Egreja. A Egreja reformada,
-em França, não recebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e
-teve de sustentar um combate tão severo e tão rude como o que teve de
-sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena tinha
-duas coisas contra si; a religião estabelecida, que era o paganismo, e
-o Estado, que era egualmente pagão. A Egreja reformada de França teve
-duas coisas contra si; foi perseguida pela egreja estabelecida no reino,
-que era a romana, e foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que
-o poder do rei era, pela Concordata, em grande escala dependente do
-reconhecimento do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma dupla
-perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos apologistas. Eram
-dois os emblemas que ella gravava nos seus livros e esculpia nos seus
-monumentos: a sarça que ardia sem se consumir, e a bigorna que levava
-martelladas e estava sempre inteira. O grande Beza disse um dia ao rei
-de Navarra: «Sire, a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos
-martellos».
-
-Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes que
-existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em Pavia, em 1525, e a sua
-alliança com o papa, mostrou-lhe que era prudente, lá no seu modo de
-ver as coisas, mostrar alguma vontade de expurgar da heresia as terras
-de que era senhor, e deu licença para que se pozessem em pratica as
-perseguições que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo
-Parlamento de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha Luiza, e
-por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois de Francisco
-ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma occasião em que precisava
-de dinheiro para as suas guerras, dinheiro que já não era possivel obter
-por meio de impostos, que elle permittiu que a heresia fosse exterminada
-de vez. O clero pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em
-troca que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se
-fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura e da
-carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em 1528.
-
-Severas medidas foram decretadas contra os protestantes. Era prohibida a
-leitura de obras protestantes; a ligação com pessoas suspeitas de heresia
-importava condemnação; e os herejes, onde quer que fossem descobertos,
-eram entregues ás auctoridades civis para serem castigados. Luiz de
-Berguin, homem erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do
-rei, e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas
-disposições.
-
-A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das coisas.
-Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes protestantes
-allemães, e recusou, portanto, associar-se a um plano geral para a
-exterminação da heresia.
-
-=O anno dos placards.=—Em breve, porém, poz de parte este seu intento,
-e começaram novamente as perseguições. Os protestantes, por seu lado,
-mostraram uma grande somma de coragem. Imprimiram curtos folhetos em
-que se atacava a missa e outros ritos da Egreja Catholica Romana, e
-espalhavam-n’os pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado
-o anno dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei
-um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema dureza, e
-Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso, prohibiu que se
-imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando este decreto, entrou
-a serio no seu papel de perseguidor. Decretou que a heresia fosse punida
-com a morte; aquelle que denunciasse um hereje tinha direito á quarta
-parte dos bens que este possuisse, no caso de se provar a veracidade
-da accusação. Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os
-protestantes eram accusados, condemnados, e punidos com prisão, perda
-de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou ao rei os seus
-_Institutos_.
-
-Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos de terrivel
-effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os protestantes augmentaram em
-numero, e a repressão, posto que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz.
-O sangue dos martyres era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de
-Fontainebleau intimava os officiaes de justiça a processarem todos
-aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas era negado
-o direito de appellação; os juizes negligentes eram ameaçados com o
-desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram ordem para mostrar maior
-zelo. «Todos os subditos leaes», dizia o edicto, «devem denunciar os
-herejes, e empregar todos os meios para os extirparem, do mesmo modo
-que são obrigados a contribuir para que se ponha termo a qualquer
-conflagração publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos,
-mas a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam
-resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades.
-
-=Os valdenses da Durance.=—A maior atrocidade commettida durante a
-perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance. Uma parte da
-Provença que confina com a Durance chegara, dois seculos atraz, a estar
-quasi despovoada, e os proprietarios das terras dirigiram um convite aos
-camponezes dos Alpes para irem estabelecer-se nos seus territorios. Os
-novos colonisadores eram valdenses, e a sua industria e indole economica
-em breve encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas.
-Garantiu-se-lhes que a sua religião seria protegida, pois que os seus
-senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os serviços
-que elles prestavam. Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma,
-estes aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores, e em
-1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que forneceram o dinheiro
-necessario para publicar a traducção das Escripturas Sagradas em francez,
-feita por Roberto Olivetan, e corrigida por Calvino. Este procedimento
-despertou a hostilidade de alguns ecclesiasticos francezes.
-
-O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões, e alguns
-dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram morte violenta. Em
-1540 o parlamento intimou quinze aldeãos de Mérindol a comparecer perante
-elle como suspeitos de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte
-estava resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o
-infame _Arrêt de Mérindol_, que, em resumo, ordenava a destruição de toda
-a aldeia.
-
-A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o rei teve
-conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações, e em resultado
-d’ellas deu ordem para que o referido decreto ficasse sem effeito. Foi,
-porém, induzido a revogar essa ordem, organizou-se clandestinamente
-uma expedição, e durante sete mezes de carnificina, com todos os seus
-acompanhamentos de traição e de infame brutalidade, foram totalmente
-destruidas vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e
-mulheres, e perto de 700 foram enviados para as galés.
-
-Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França estava ainda
-luctando pela sua existencia no meio de perseguições mais terriveis do
-que aquellas de que os protestantes foram victimas n’outro qualquer paiz.
-
-=Henrique II e os Guises.=—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe
-Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu pae, a qual
-obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da Allemanha e consolidar,
-em França, o poder real. Isto obrigava a occasionaes allianças com os
-principes protestantes allemães, e dava logar, em França, a uma continua
-perseguição aos protestantes. Todos os favoritos que tinha na sua côrte
-eram inimigos da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame
-Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além da rainha,
-o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem escrupulos: Diana de
-Poitiers, o Condestavel de Montmorency, primeiro ministro da corôa, que
-gozava de grande reputação como perito na arte da guerra e na gerencia
-dos negocios publicos, e os Guizes, notavel familia de procedencia
-estrangeira, que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de
-Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu irmão, o
-cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos o conselheiro
-de Henrique II, era um dos homens mais sagazes da Europa. A irmã casou
-com Jayme V da Escocia, e tiveram por sobrinha Maria Stuart, rainha da
-Escocia, educada em França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles
-com o Delphim de França.
-
-Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio tão urgente
-que os tribunaes de justiça tiveram de interromper o julgamento de
-varias causas. Henrique creou uma nova divisão judicial, que se occupava
-exclusivamente dos casos de heresia, e as sentenças proferidas por estes
-tribunaes especiaes eram tão severas que o povo chamava-lhes _chambres
-ardentes_. Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a
-perseguição não estorvou o derramamento do Evangelho.
-
-Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o desejo de ver com
-os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses obstinados herejes.
-Foi levado á sua presença um pobre alfayate, preso sob a accusação de
-ter trabalhado n’um dia santo, e esse homem, com grande espanto da
-côrte, respondeu ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre
-theologia que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o
-ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia o
-caracter e estava ao facto da posição occupada por ella, retorquiu-lhe
-solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em ter contaminado a França,
-e não queira tocar com o seu veneno e com a sua immundicie uma coisa tão
-pura e tão sagrada como é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O
-rei, encolerisado porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu
-ordem para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz assistir
-ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella que dava para a praça
-onde o martyr ia ser queimado, este viu-o, e não despregou mais d’elle
-os olhos. Mesmo já depois de rodeiado pelas labaredas não deixou de
-perseguir o rei com aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante
-muito tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante o
-dia e lhe perturbava o somno durante a noite.
-
-Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte, que estas
-repetidas execuções não estavam contribuindo para a repressão da Reforma.
-Outros martyres se apresentavam jubilosamente para substituir aquelles
-que os tinham antecedido; viuvas, mancebos, estudantes, raparigas
-mimosas, fidalgos da mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel
-martyrio a negarem Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais
-severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto, o de
-Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros seculos,
-mandava destruir toda a litteratura christã, na idéa de que por essa
-fórma se faria desapparecer o christianismo.
-
-Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella se encheu de
-refugiados francezes. Um certo numero de rapazes, cheios de coragem
-e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros nas verdades do
-Evangelho, havia-se offerecido para distribuir livros e folhetos por
-todos os pontos da França. O Edicto de Chateaubriand visava estes
-colportores, assim como os livros e tratados que elles vendiam. Prohibia
-terminantemente a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra
-ou de outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia
-nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão clandestina.
-Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias, mandava
-examinar todos os volumes que chegassem do estrangeiro, e submettia,
-de quatro em quatro mezes, a grande feira de Lyão a uma fiscalisação
-especial, pois que mediante ella é que se haviam espalhado pelo reino
-muitos livros suspeitos. Foi prohibida a venda ambulante de livros,
-fossem elles de que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem
-encontradas cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas
-analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé nas tabernas,
-nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas. Por determinação
-da côrte, ficava, portanto, o povo impedido de se instruir, se é
-que edictos e officiaes de justiça o poderiam impedir. A sementeira
-proseguia. Dispostos para a vida ou para a morte, partiram de Genebra e
-de Strasburgo, para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando
-comsigo Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza mandou
-dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero espantoso os homens que
-se offereceram para arrostar com todos os perigos para que a Egreja de
-Deus avançasse.
-
-=Organisação da Egreja reformada.=—No meio d’estas terriveis
-perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se em
-Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam isoladamente
-a Biblia, ou formavam pequenos nucleos de crentes. A perseguição
-augmentou-lhes a coragem, e resolveram por fim constituir uma communidade.
-
-O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez residente
-em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes costumava
-reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae do recemnascido declarou
-aos seus irmãos na fé que não podia ausentar-se de França, afim de obter
-que lhe fosse administrado um sacramento puro, e que de fórma alguma
-consentiria em que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana.
-Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem um pastor,
-pondo assim termo a todas as difficuldades.
-
-Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem oração, escolheram
-para pastor a João Le Maçon, que tinha por sobrenome La Riviére, contava
-vinte e dois annos, e havia abandonado familia, riqueza e perspectivas
-de um brilhante futuro pela causa de Christo. A pequena assembléa passou
-em seguida a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se uma
-Egreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve constituição.
-
-Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse á testa do
-movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras, as communidades
-constituiram-se em congregações, com os seus presbyteros e diaconos. Tres
-mezes depois da eleição de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma
-carta em que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha tres
-pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse sempre com
-a mesma violencia, nunca deixava de haver quem se offerecesse para esses
-perigosos logares, e a Reforma ia fazendo progressos.
-
-=Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.=—Vendo que eram inuteis
-todos os esforços empregados para impedir a Reforma, o cardeal propoz o
-estabelecimento, em França, de uma Inquisição, modelada pela de Hespanha,
-de que Fillippe se havia servido, com tanta efficacia, para escorraçar
-de seus dominios a heresia. O espirito de liberdade constitucional
-não estava, porém, tão morto em França que se permittisse a perda
-total de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o
-que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição
-hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os parlamentos,
-protestaram contra essa proposta. O rei e os seus conselheiros insistiram
-na adopção de similhante medida, mas em breve descobriram, para seu
-espanto, que o unico resultado colhido foi algumas pessoas nobres, das
-que de maior influencia dispunham, se declararem protestantes; e de ahi
-em deante (1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um
-forte partido huguenote.
-
-A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos dos principaes
-representantes da nobreza, e o que elles observaram tambem no
-procedimento do clero levou-os a procurarem homens de vida pura que os
-instruissem no christianismo. Alguns membros da mais alta aristocracia
-que antipathizavam com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por
-simples politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam
-uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana,
-que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica ao systema
-absolutista do rei e dos seus conselheiros.
-
-Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante Coligny e
-seu irmão Francisco d’Andelot.
-
-Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa Bourbon, e esta
-familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada por Antonio,
-duque de Bourbon, que, na falta do rei e dos filhos d’este, era o
-herdeiro do throno de França, e por seu irmão Luiz, duque de Condé.
-Antonio Bourbon tinha casado com a piedosa e heroica filha de Margarida
-de Angouleme, Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo
-filho foi Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu o
-titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo em Pau,
-onde assistia ás prégações dos pastores protestantes. Quando voltou
-para a côrte, começou tambem lá a frequentar as reuniões evangelicas, e
-declarou-se, por fim, protestante. O duque de Condé fez o mesmo. Andelot,
-o irmão mais novo do almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o
-cavalleiro sem pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello
-da Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações de
-gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder, não se
-atreveram a castigal-o.
-
-Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu um tratado de
-paz com a Hespanha para poder dedicar toda a sua actividade á destruição
-dos calvinistas. Era vastissimo, segundo se diz, o plano que elle tinha
-preparado. Genebra e Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria
-um golpe mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém,
-d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um torneio que
-teve logar em Junho de 1559, morreu.
-
-=O primeiro synodo nacional.=—Um caso interessante é que, ao mesmo tempo
-em que se estavam planeando novas medidas de repressão, os protestantes
-francezes houvessem tomado uma deliberação que era mais um testemunho
-da sua progressiva força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma
-casa do Faubourg St. Germain, o seu primeiro _Synodo Nacional_. O que
-motivou essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do anno,
-Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris, foi a Poitiers,
-afim de auxiliar o serviço da Communhão que se ia celebrar n’esta cidade.
-Encontrou-se lá, como era vulgar em similhantes occasiões, com pastores
-que tinham vindo de varios pontos, e, conversando ácerca do estado da
-Egreja, lamentaram a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes.
-Chandieu foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as
-opiniões dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou
-cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar delegados a uma
-conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi d’esta maneira que teve
-origem o primeiro Synodo Nacional. Era uma pequena assembléa, em que
-estavam representadas onze congregações apenas; mas proveu a Egreja
-franceza de uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina.
-
-A Confissão, conhecida depois pelo nome de _Confessio Gallica_, foi
-provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se n’uma resumida
-Confissão que Calvino compoz, chamando para ella a attenção do rei. Foi
-mais tarde revista por mais de uma vez, mas podemos ainda chamar-lhe a
-Confissão da Egreja Protestante Franceza.
-
-_O Livro da Disciplina Ecclesiastica_ foi modelado pelas _Ordenanças_
-que Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra, mas contém
-notaveis differenças, e mostra o que o livro de Calvino teria sido se
-o conselho de Genebra lhe houvesse dado toda a liberdade de acção. A
-constituição da Egreja franceza era inteiramente democratica e de um
-caracter representativo. Reconhecia os consistorios, que já existiam
-nas congregações, e, para os tornar verdadeiramente representativos,
-preceituava que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes.
-Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se reuniam
-duas vezes por anno, e em que cada congregação era representada por um
-pastor e um presbytero; e unia a Egreja toda sob um Synodo Nacional, ou
-Assembléa Geral, que constituia o ultimo tribunal de appellação, e a
-suprema auctoridade ecclesiastica.
-
-É interessante observar como n’um paiz cujo governo se tornava de anno
-para anno mais arbitrario e absolutista esta «Egreja sob o peso da Cruz»
-organizava para seu uso um governo, que reconciliava mais perfeitamente
-talvez do que todos quantos teem sido organizados desde então, o
-principio da soberania popular com o de uma suprema auctoridade central.
-Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu
-mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja escoceza, a de
-Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza, O facto d’ella se
-afastar posteriormente do modelo francez, tornando vitalicios os cargos
-de presbytero e diacono, e a usurpação do exclusivo direito, pela junta
-mais moderna do presbyterio, de enviar representantes á Assembléa Geral,
-privou o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma grande
-parte do elemento popular que constituia a força das primitivas egrejas
-escocezas e francezas.
-
-=Anne de Bourg.=—A morte do rei não alterou em coisa alguma a politica
-da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo de dezeseis annos. Este
-tinha por esposa Maria, rainha da Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua
-subida ao throno atirou com o poder para as mãos d’este fanatico partido,
-que era capaz de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não
-podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente do poder que
-n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia medidas para a repressão
-dos protestantes mediante a exterminação, e aquelle seu grande empenho em
-que se derramasse sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios.
-
-O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e execução de Anne
-de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de França, que era tambem
-juiz. O seu crime consistiu em ter, em conselho publico, dito a Henrique
-II que era uma coisa muito seria condemnar aquelles que, no meio das
-chammas, invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde,
-foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia
-que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao ser proferida a
-sentença de condemnação á morte por meio da fogueira, tornou a fallar
-com um tão tocante fervor, com uma resolução tão pathetica, que até
-os proprios juizes se commoveram «Coisa alguma nos poderá separar de
-Christo, sejam quaes forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem
-as enfermidades que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha muito
-como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos matem, pois, que
-nos despedacem; os que morrem no Senhor não deixam jámais de viver, e
-todos hão de apparecer na resurreição geral.... E, sendo assim, para que
-hei de eu permanecer mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo,
-e conduze-me ao logar do supplicio.»
-
-Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo francez começa a
-ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco se haviam compenetrado da
-força de que dispunham, começaram de aquelle ponto em deante a reunir-se
-para tratarem do modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como
-deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns dos mais
-impetuosos foram de parecer que se arvorasse immediatamente o estandarte
-da revolta. Calvino e Beza, a quem consultaram, dissuadiram-n’os de
-uma insurreição declarada. Não obstante, organizou-se uma conspiração.
-La Renaudie, protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe
-d’essa conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido
-bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada. Os Guises
-tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios da sua politica,
-e houve enormes carnificinas, particularmente em Amboise, que ficaram bem
-gravadas na memoria dos huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente
-Condé de ser o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de
-todos os principes e de todos os membros do Conselho privado, e desafiou
-os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de Guise não se sentiu com
-animo de o atacar de novo.
-
-=O morticinio de Amboise=, longe de aterrorizar os protestantes, parece
-que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser conhecidos pelo nome
-de _Huguenotes_. A origem d’este nome é obscura; tudo o que ao certo
-sabemos a seu respeito è que depois da conspiração de Amboise andava na
-bocca de toda a gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja
-dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser feitos por
-prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia do povo. A Ceia do
-Senhor foi, por bandos armados, celebrada «á moda de Genebra», em Nismes,
-no Languedoc. O tempo das assembléas secretas tinha passado, e grandes
-reuniões ao ar livre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam
-que a Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de gente.
-
-=Coligny na Assembléa dos Notaveis.=—A côrte, comtudo, estava convencida
-de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao, e as perseguições
-continuavam com o mesmo vigor. Necessitava, porém, de dinheiro, pois
-que as despezas do reino foram gradualmente excedendo as receitas, e
-em Fontainebleau foi, por fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis.
-Os protestantes aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante
-Coligny, chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao rei,
-outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia. Pediam a
-cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem publicamente o
-culto divino.
-
-Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem animo. O
-bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da sua diocese, e pediu
-que fossem revogadas as leis que se oppunham á entoação dos hymnos
-e á leitura das Escripturas, e que se convocasse um concilio geral.
-O arcebispo de Vienne ainda se atreveu a mais. Perguntou se «estava
-resolvida a morte da França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se
-obrigada a permittir que se realisasse a tal assembléa geral.
-
-Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo, tomaram a
-resolução de matar os seus homens de maior nomeada, e, segundo parece,
-tinham tambem em mente um massacre geral dos huguenotes. Fizeram com que
-o rei chamasse á côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão
-Luiz, duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo, para lá
-partiram.
-
-O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra por pouco
-escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade estava prestes a
-estalar, o rei adoeceu e morreu.
-
-«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que enviou a Sturm,
-«algum acontecimento mais opportuno do que esta morte do rei? Quando
-a desgraça tinha chegado a tal ponto que não se podia remediar, Deus
-revela-Se de subito lá do céu. Aquelle que traspassou os olhos do pae
-feriu agora os ouvidos do filho».
-
-=Catharina de Medicis.=—Pela morte de Francisco ficou herdeiro do
-throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente foi nomeado
-o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra. A mãe do joven rei,
-Catharina de Medicis, de quem haviam feito pouco caso durante a vida do
-marido, e que havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu
-filho mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade
-de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarra instaram
-com este para que tambem fizesse valer os seus direitos. Se elle assim
-tivesse procedido, o futuro da França seria, porventura, mais pacifico.
-Ter-se-hia alcançado uma duradoura tolerancia religiosa, e ter-se-hiam
-lançado os alicerces de uma monarquia constitucional; elle, porém, teve
-a fraqueza de não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi
-investida no poder.
-
-As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões a todos os
-partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises, e ao mesmo tempo era
-indispensavel entrar em negociações com os huguenotes. Todos os herejes
-que estavam presos recuperaram, por meio de um edicto, a sua liberdade,
-mas foram avisados de que deviam não dar mais motivo de queixa. No
-entretanto reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da
-morte do ultimo rei.
-
-Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião; uma reforma
-no governo da Egreja, e, em particular, a eleição livre dos bispos e do
-clero; um concilio nacional, sob a presidencia do rei, para discutir as
-questões religiosas, e, no entretanto, egrejas para os protestantes, e
-uma reunião da Assembléa dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se
-tambem para auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse
-a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado.
-
-As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke, o programma
-da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem sido attendidas,
-essa revolução não seria assignalada com o atheismo que a desacreditou,
-e não seria necessario derrubar a monarquia e a aristocracia. A côrte
-não estava preparada para essas mudanças radicaes, e o mais que se
-poude obter de Catharina foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde
-podessem ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres
-catholicos romanos.
-
-Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes,
-voltou para França muita gente que se tinha refugiado na Inglaterra, na
-Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na Italia. Vieram tambem alguns
-pastores de Genebra, não faltando, d’esse modo, homens bem instruidos
-que dirigissem as congregações protestantes. Era impossivel, porém,
-mudar todas as coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises
-ameaçavam vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se tinha na
-conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se áquella corrente
-conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram contra as assembléas
-protestantes. Nas localidades onde os huguenotes estavam em maioria,
-tornou-se difficil evitar que elles decisiva e energicamente defendessem
-os seus direitos. N’algumas cidades o povo correu em massa ás egrejas,
-derrubou as imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os
-huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel por
-conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de Genebra, protestando
-energicamente contra toda e qualquer illegalidade. «Deus nunca disse a
-pessoa alguma que destruisse os idolos, exceptuando aquelles que cada
-um tenha em sua casa, ou os que em publico se encontrarem revestidos de
-auctoridade.... A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos ver
-bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos limites».
-
-=A Conferencia de Poissy.=—A data designada para a Conferencia
-approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram convidados todos os
-francezes que tivessem qualquer coisa a dizer em materia de religião a
-apresentarem-se na proxima assembléa de Poissy, na certeza de que não
-correriam perigo algum e seriam escutados com a maxima attenção. Os
-huguenotes tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe
-encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio não queria
-ir, pois que estava convencido de que de similhante rainha se não tiraria
-resultado algum. Por fim acquiesceu, e os huguenotes ficaram descançados
-por saberem que os seus interesses estavam entregues em tão boas mãos.
-
-Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, renunciara
-a um brilhante futuro ao abraçar a causa da Reforma. Era um homem
-de magestosa presença, muito illustrado, e de um trato captivante.
-Abaixo de Calvino, era elle a pessoa por quem as egrejas reformadas se
-deixavam guiar com maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo
-representante. Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz
-de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de Lorraine.
-O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande personagem,
-produziram sensação na côrte.
-
-Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente manifesta a
-ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal de Lorraine e outros mais
-trataram logo de pôr termo á conferencia, ou, no caso de não conseguirem
-esse proposito, de a tornarem completamente esteril. O resultado da
-discussão foi ambas as partes nomearem delegados para conferirem sobre
-determinados pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de
-Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.
-
-Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás suas reuniões
-secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus cultos ás claras, e a
-qualquer hora do dia, fora das povoações; e todos os seus ministros eram
-obrigados a declarar, sob juramento, que não ensinariam coisa alguma que
-não estivesse de accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A
-tolerancia era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento
-legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram de parecer que um
-tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis condições em que era
-feito, devia ser acceite. «Se a liberdade que o Edicto nos promette fôr
-duradoura», escreveu Calvino, «o papismo cae por si mesmo».
-
-Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos a chegar a
-um accordo com os protestantes. Os funccionarios civis, nas cidades e
-nas provincias, pertenciam á religião do estado, e os parlamentos, ou
-tribunaes de justiça permanentes, abominavam o protestantismo. Sabia-se,
-além d’isso, que o Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina
-para ganhar tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos
-a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram os dois
-partidos a prepararem-se para uma guerra civil.
-
-=O massacre de Vassy: outros massacres.=—O signal foi dado pelo duque de
-Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o Edicto da Tolerancia.
-No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo de manhã, entrou, á frente de
-um grupo de cavalleiros armados, na cidade de Vassy, onde uma pequena e
-indefeza congregação de protestantes estava prestando culto a Deus n’um
-celleiro. Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes,
-que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande maioria,
-assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras civis que tanta
-devastação produziram em França até Henrique IV subir ao throno.
-
-O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido em muitos
-outros pontos em que os catholicos romanos estavam em maioria. Em
-Paris, em Sens, em Rouen, em toda a parte, emfim, os logares de culto
-protestantes foram atacados e os que n’elles se haviam reunido tiveram
-morte violenta. Em Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina,
-fecharam-se no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao
-cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa de que lhes
-seria permittido sair da cidade sem serem molestados. Uma vez cá fóra,
-foram todos massacrados—homens, mulheres e creanças, tendo perecido, ao
-todo, para cima de 3000 pessoas. Este morticinio de protestantes, em
-que houve violação de um juramento, foi commemorado pelos catholicos
-romanos de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em 1862
-se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração do
-centenario.
-
-Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. Os huguenotes
-precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram as imagens, os
-altares e as reliquias. Destruição de imagens e derramamento de sangue
-era a ordem do dia na maior parte das provincias de França.
-
-=A guerra civil. Os iconoclastas.=—No meio de tudo isto os dois partidos
-formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos, ficando um, o
-papista, sob o commando de Francisco, duque de Guise, e o outro, o
-protestante, sob o commando de Luiz, duque de Condé, e do almirante
-Coligny. A França poude então presenciar todos os horrores de uma guerra
-civil, em que o fanatismo religioso accrescentou, ás barbaridades communs
-a todas as guerras, as mais atrozes crueldades.
-
-O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, exprimiu
-a opinião de que esta primeira guerra religiosa obstou a que a França
-se tornasse protestante. As crueldades dos papistas tinham desgostado
-um grande numero de cidadãos francezes, que, sem serem impulsionados
-por fortes sentimentos religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado
-alliado áquelles que, pela sua moderação, se mostravam competentes para
-inaugurar, e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes
-huguenotes faziam o maximo empenho em poder provar que os seus adherentes
-sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza recommendaram que não se
-interviesse no culto dos catholicos romanos, excepto quando o caso fosse
-tratado judicialmente, e ainda assim com muita serenidade. Não, foi,
-porém, possivel evitar que os protestantes despedaçassem as imagens e
-dessem cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.
-
-Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao mesmo tempo. Condé,
-acompanhado de Coligny e de outros vultos importantes, dirigiu-se a
-toda a pressa para a egreja de Santa Cruz, onde o tumulto era maior.
-Ao chegarem á egreja, Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia
-subido a um ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para
-baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz, apontou-o ao
-dito soldado, e ordenou-lhe que descesse quanto antes. Elle não parou
-com o que estava fazendo, proferindo, porém, estas palavras: «Deixe-me
-primeiro fazer este idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da
-sua vontade». Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar
-de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse pôr um
-dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes entrassem
-as egrejas ficavam n’uma completa desordem. Este procedimento foi tomado
-em toda a França como um indicio de que os protestantes, se chegassem
-a ter o poder nas mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e,
-por consequencia, a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre
-crescendo, começou a declinar.
-
-O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel aos
-huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um admiravel general, e os
-papistas estavam bem providos de dinheiro e recebiam auxilio de fóra;
-ao passo que os huguenotes estavam quasi exclusivamente dependentes dos
-seus proprios recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para
-o proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha de Dreux,
-em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel disciplina dos
-auxiliares suissos de Guise; mas, por seu turno, os papistas perderam o
-duque de Guise, que foi assassinado em Fevereiro de 1563.
-
-Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e tornou-se mais
-facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido vencer os papistas;
-e, do mesmo modo, os papistas não tinham conseguido exterminar os
-protestantes. Não se haviam reconciliado uns com os outros, mas
-achavam-se cançados; e convieram n’uma suspensão de hostilidades. O
-Edicto da Paz garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam
-sido concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais
-importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade em cujos
-arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus cultos, e em todas
-as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de Março do anno corrente era
-praticada a religião protestante, será a pratica d’esta permittida em
-dois recintos _intra-muros_, que serão opportunamente designados pelo
-rei». O Edicto de Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as
-coisas por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos
-não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os protestantes
-por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam. Foi obra de Catharina
-e de Condé, cada um dos quaes confiava em que o futuro se encarregaria de
-tornar inoffensivas para o seu partido as concessões que fazia.
-
-As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes arrebentou a
-segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de um anno. A unica acção
-decisiva foi a batalha de St. Denis, em que Montmorency foi morto.
-Seguiu-se então o armisticio de Longjumeaux, cujas condições eram
-identicas ás do Edicto de 1562.
-
-Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes começou a
-terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se do duque de Alba,
-o feroz governador dos Paizes Baixos, que se estava preparando para
-ajudar a côrte franceza a exterminar todos aquelles que não quizessem
-submetter-se á Egreja Catholica Romana, e resolveram tomar a offensiva.
-Condé e Coligny souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar
-a vida aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente,
-supprimir a obnoxia fé.
-
-Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou. Combateu-se
-durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas de bom e mau
-exito, tanto diplomatico como militar. Por fim, teve logar a batalha
-de Jarnac, onde os huguenotes foram derrotados, e onde Condé e varios
-outros encontraram a morte. A sorte parecia ter-se tornado crudelissima
-para os huguenotes. Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de
-Navarra, moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que não
-tinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny é que
-teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou de reunir as forças
-dispersas, e, não obstante alguns revezes, poude obter um tratado de paz
-que offerecia vantagens como nunca os huguenotes tinham logrado alcançar.
-Foi auctorizado o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro
-d’ellas—La Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas aos
-protestantes como logares de refugio.
-
-=Coligny e Carlos IX.=—O almirante Coligny ficou sendo, em virtude d’este
-tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes mais confiavam. Deixou-se
-ficar em La Rochelle, no meio dos seus correligionarios, e encarregou-se
-da tutella dos dois jovens principes que eram as esperanças dos
-protestantes, Henrique de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal
-que elle tinha em vista era de tornar permanentes as vantagens que os
-reformados tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas.
-Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os avisos em
-contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes do que, por uma
-indevida solicitude pela minha vida, dar occasião a que se avente uma
-suspeita em todo o reino».
-
-Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX sympathizou
-com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então uns vinte annos, não
-havia conhecido nunca um homem como aquelle. A enfermidade não o havia
-deixado desde a infancia, e estivera rodeiado por pessoas que tinham
-interesse em o educar na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz
-em contacto com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo
-respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo com as
-suas convicções, que se havia tornado a mais celebre individualidade da
-França, que fora o organisador do partido protestante, que era quasi
-adorado pelos seus amigos, e que, apezar da sua edade avançada, estava
-ainda em todo o vigor da vida, não poude deixar de confiar n’elle como
-nunca tinha confiado em pessoa alguma.
-
-Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram que o rei
-estava sob uma nova influencia, a que precisavam de subtrahil-o a todo o
-transe. Tinham medo de que o rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso,
-lhes escapasse das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil
-Carlos sentiu por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a
-causa do massacre de S. Bartholomeu.
-
-Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de Coligny. O
-attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter com seu filho, e
-referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes estavam convencidos
-de que elle, Carlos, entrara também na conspiração que tinha por fim
-a sua morte, e que, portanto nunca havia de ter paz emquanto os
-protestantes não fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos
-vultos preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu.
-
-=A matança de S. Bartholomeu.=—Esta terrivel carnificina de protestantes,
-que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 de Agosto de 1572) foi
-obra de Catharina de Medicis, de Henrique de Anjou e dos Guises. A
-matança foi feita em Paris por 20:000 milicianos da cidade, coadjuvados
-por alguns soldados e pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo
-duque de Guise. As forças a que se commetteu aquella tarefa eram
-commandadas pelos irmãos Guise.
-
-Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes cabeças,
-e depois o massacre tornou-se geral. As casas dos protestantes tinham
-sido previamente marcadas com cruzes brancas, e os assassinos, para
-reconhecimento mutuo, traziam faxas brancas, além de outros signaes. Só
-em Paris foram mortos, pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram
-pessoas de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram
-mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, fixa o
-numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas provincias, e o numero
-das victimas tem sido calculado entre 30:000 e 100:000. Sully, primeiro
-ministro de Henrique IV, que estava provavelmente bem inteirado, affirma
-que cairam sem vida 70:000 pessoas.
-
-Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem mostrado muito
-orgulhosos de aquelle commettimento, mas quando a matança teve logar
-muitos d’elles exultaram. Sabe-se perfeitamente que, se o acto não foi
-instigado de Roma, o papa e a curia estavam, pelo menos, scientes de
-que elle ia realisar-se. Houve illuminações em Roma para festejar o
-acontecimento, os canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se
-uma procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma medalha
-para commemorar o _Hugonotorum Strages_. Alguns dos principes catholicos
-romanos enviaram mensagens de congratulação, e diz-se que o pobre e
-corrompido Filippe II de Hespanha sorriu, pela primeira e ultima vez na
-sua vida, quando a noticia lhe constou.
-
-O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e privou-os de
-quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam a existir, e, em
-vez de se intimidarem, de se darem por vencidos, perante aquelle acto
-sanguinario, resolveram em seus corações vingar-se d’elle. Ainda restavam
-algumas cidades em poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes,
-Montauban, e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se a dar
-entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.
-
-La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas por Henrique de
-Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades de um cerco,
-obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. Uma egualmente bem
-succedida resistencia da parte de outras cidades forçou a côrte a entrar
-em negociações com os seus odiados subditos protestantes, e ficou
-restabelecida a paz.
-
-D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam estar sempre
-preparados para a guerra. Os horrores da vespera de S. Bartholomeu
-haviam-lhes mostrado o quão implacaveis eram os seus inimigos, e a
-traição por elles commetida quando foi do cerco e capitulação de Sancerre
-deu-lhes uma prova da sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados
-oito mezes, e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens,
-pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. «Porque chora»,
-exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me morrer de fome? Eu não lhe
-peço pão, mãe; sei que não tem nenhum para me dar. Visto Deus querer que
-eu morra d’esta forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle
-homem santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» E depois de a
-cidade se haver rendido teve logar, não obstante a promessa que lhe tinha
-sido feita sob juramento, uma horrivel scena de homicidio e pilhagem.
-
-Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram organizar-se,
-para que podessem estar sempre promptos, e tão diligentemente pozeram
-os seus planos em execução que n’um curto prazo se encontraram aptos
-para pôrem 20.000 homens em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que
-tudo organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei,
-em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as guerras
-religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote não se havia
-extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu um outro partido ia
-adquirindo lentamente importancia em França. Era elle constituido pelos
-catholicos romanos moderados, que estavam fartos de carnificinas, e que
-attribuiam todos os males do Estado ao poder de que os estrangeiros
-dispunham no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes,
-isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração
-das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como também
-eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas quando tiveram
-conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, e do programma politico
-que os huguenotes expozeram em Milhau, e, revestidos de paciencia,
-esperaram a occasião de intervir.
-
-Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a
-quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse seguido de um tratado
-de paz, nunca, de um modo ou do outro, se deixou de combater, e a
-rejeição do pedido feito pelos huguenotes não permittia duvidas quanto á
-imminencia de outra guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio
-de 1574, de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe
-sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo da
-carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique de Anjou, o terceiro
-e mais vil dos filhos de Catharina, e que era o favorito d’esta. Henrique
-era ao mesmo tempo um papista cheio de superstições e um libertino cheio
-de impudencia.
-
-Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado aos Guises,
-e adherira ao partido papista; pouco depois de subir ao throno, porém,
-como o amedrontasse a possibilidade de uma alliança entre os «politicos»
-e os huguenotes, concedeu, por meio de um edicto, uma parte do que os
-protestantes pediam. Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada
-liberdade religiosa, egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser
-julgado por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e de
-protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como penhor, nas
-mãos dos protestantes.
-
-=A Santa Liga.=—Este procedimento do rei deu logar á fundação da Santa
-Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos jesuitas, cujo fim era
-promover uma alliança dos catholicos francezes com Filipe II de Hespanha
-e com o papa. Visava, em primeiro logar, a governar a França no interesse
-da fé catholica romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes,
-e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os Bourbons, ou,
-pelo menos, o impedir que a corôa passasse para Henrique de Navarra.
-
-Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em cujos variados
-incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a quinta, como a sexta,
-como a setima guerra civil concluiu por um tratado de paz favoravel aos
-protestantes.
-
-Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio dos Guises. A
-oitava guerra civil terminou em julho, mediante o tratado de Nemours,
-que não era tão favoravel para os protestantes. A nona guerra civil teve
-logar pouco depois. Foi denominada a Guerra dos Tres Henriques—Henrique
-III, Henrique de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua
-pouca edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra teve
-o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes ficaram
-victoriosos.
-
-As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram entre o
-rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu que a sua
-auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes, que se reuniram
-em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe que a França estava sob o
-dominio do duque; e a insurreição que teve logar algumas semanas antes
-foi uma revelação do quanto a Liga se havia ramificado. Não querendo
-sujeitar-se por mais tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da
-Liga mediante a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise, e
-Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembro de 1588,
-juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga continuou a existir.
-É que ella havia estabelecido em toda a França associações similhantes
-aos clubs jacobinos do periodo revolucionario; e, quando os Guises foram
-assassinados, a sociedade mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como
-era conhecida, apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos
-os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação do
-parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel medo, fugiu
-para o meio dos huguenotes, entregando-se ao seu grande rival, o rei de
-Navarra. Jacques Clemente, frade dominicano, e um dos fanaticos da Liga,
-foi, porém, em sua perseguição, e apunhalou-o. Algumas horas depois
-Henrique III expirava, e o general huguenote ficava sendo o legitimo
-herdeiro da corôa de França.
-
-=Henrique de Navarra.=—Ao principio foi apenas reconhecido pela parte
-protestante da França. A Liga dispunha de grande poder, e estava
-resolvida a impedir que o throno fosse occupado por um huguenote. Até
-mesmo os catholicos romanos moderados com dificuldade podiam admittir que
-reinasse em toda a França um rei que professava a religião da minoria.
-O papa recusava-se a reconhecer um soberano protestante, e Filippe
-II de Hespanha fez a ameaça de uma invasão das suas tropas. N’estas
-circumstancias, Henrique de Navarra fez uma coisa extraordinaria: pediu
-para ser instruido nas doutrinas da religião catholica romana. Isto
-chamou para o seu partido um grande numero de romanistas moderados, e o
-rei poude desbaratar a Liga nas batalhas de Arques e Ivry.
-
-A Liga continuava ainda a intimidai-o muito e projectava levar ao throno
-Carlos de Guise, duque de Mayenne, ou o Cardeal Bourbon, tio de Henrique,
-(que reinou effectivamente sob o nome de Carlos X), ou Filippe II de
-Hespanha, que tinha casado com uma Valois.
-
-Em face de todas estas complicações, Henrique deu um passo que a sua
-heróica mãe nunca teria dado. Fez-se catholico romano. O effeito d’isto
-foi que n’um maravilhosamente curto espaço de tempo a Liga se dissolveu,
-e Henrique IV foi acclamado rei por quasi toda a França. Os seus velhos
-companheiros de armas e correligionarios, posto que deplorassem a sua
-apostasia, não abandonaram o joven que desde a infancia havia sido seu
-associado e chefe, e que, depois dos afflictivos dias de Bartholomeu,
-havia deixado a côrte assim que isso lhe fôra possivel, para combater
-junto d’elles. Elle, em troca, concedeu-lhes aquillo por que haviam
-luctado durante trinta annos.
-
-=O Edicto de Nantes.=—Em 1598 foi assignado o famoso Edicto de Nantes,
-que se adeantava mais em tolerancia religiosa do que qualquer outro
-edicto do seculo dezeseis. Tinha, porém, um grande defeito, e era que as
-circumstancias em que a França se encontrava tornavam impossivel garantir
-liberdade religiosa sem conceder aos protestantes certos privilegios
-politicos que os constituiam um estado no estado, e que mais tarde
-obstaram á completa fusão dos dois partidos n’um governo.
-
-Este edicto outorgava completa liberdade de consciencia; de ahi em deante
-ninguem mais seria perseguido por causa das suas idéas religiosas.
-Todos os nobres que possuissem aquillo a que se chamava «superior
-jurisdicção» tinham auctorização para ensinar o calvinismo, e toda a
-gente podia aproveitar-se das suas lições. Os nobres que não possuissem
-essa jurisdicção gozavam do mesmo privilegio, e podiam ter ao seu
-serviço quantas pessoas quizessem, quando residissem em localidades
-onde não houvesse catholicos romanos com a «superior jurisdicção». Dava
-licença para que continuasse, ou fosse restaurado, o culto publico «a
-que chamam reformado» em todas as cidades onde elle já existia em Agosto
-de 1597. Quando os protestantes estivessem espalhados por um districto
-provinciano, designar-se-hia para local do culto uma das povoações.
-Prohibia-se aos protestantes o culto publico em Paris, ou a cinco milhas
-de distancia d’essa cidade, e nas seguintes cidades, onde predominava
-o fanatismo catholico romano: Reims, Toulouse, Dijon e Lyon. N’outra
-qualquer parte os protestantes podiam ter egrejas, sinos, escolas, etc.
-Os principaes limites da liberdade religiosa consistiam em que a religião
-romana era declarada a religião estabelecida, e em que os protestantes
-tinham de pagar dizimos ao clero official, não podiam trabalhar nos dias
-santificados, e eram obrigados a conformar-se com as leis matrimoniaes da
-egreja catholica.
-
-Os protestantes, ficou também declarado, tinham os mesmos deveres civis e
-os mesmos privilegios dos catholicos romanos, e podiam concorrer a todos
-os empregos e dignidades do Estado. Estabeleciam-se tribunaes de justiça
-especiaes, para julgamento dos protestantes. Estes retinham durante oito
-annos todas as cidadellas que lhes pertenciam anteriormente a 1597,
-com todo o material de guerra; e n’essas cidades os governadores eram
-nomeados pelos huguenotes.
-
-
-
-
-CAPITULO IV
-
-A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS
-
- Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag.
- 114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os
- Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos
- bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os
- _mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de
- Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e
- do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange,
- pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag.
- 126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag.
- 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag.
- 130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag.
- 132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua
- organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag.
- 134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da
- Egreja na Hollanda, pag. 136.
-
-
-=Os Paizes Baixos.=—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma foi talvez a
-ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final, mas aquelle paiz
-teve a honra de fornecer os primeiros martyres da fé protestante.
-
-Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt e do Rheno, e
-na edade media constituiam o lado norte do velho reino de Lotharingia,
-ou Lorrena, o celebre reino central, como era chamado. A sua situação,
-com uma extensa costa maritima, e os grandes rios que o atravessavam,
-tornava-o naturalmente um paiz commercial. O mar estava constantemente
-usurpando a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios
-trasbordavam, e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos.
-
-A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam o povo
-fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar de si sem o auxilio
-alheio. O paiz abundava em grandes cidades, habitadas por gente livre e
-opulenta. A vida burgueza começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na
-maioria das nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada.
-N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes;
-n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia em Utrecht,
-considerava seu subdito o bispo da provincia.
-
-Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o espirito da
-liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra dos Trouvères, e a
-sua influencia era ainda bastante para que no povo se conservasse vivo o
-espirito anti-clerical. O clero romano nunca teve muito predominio nas
-cidades mais importantes, e mesmo nas provincias não conseguiu jámais
-levar de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas, as quaes
-algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros, ou sociedades
-de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham por fim cultivar
-os talentos dramaticos dos seus membros, ou para representarem os
-oratorios medievaes, ou, mais frequentemente, para comporem e recitarem
-poesias satyricas e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram
-inexoravelmente atacados.
-
-Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores de Gerardo
-Groot, o fundador das escolas para creanças pobres e dos asylos para
-orphãos; e os seus collaboradores, os Irmãos da Vida Commum, tinham
-diffundido os seus sentimentos de mystico desprezo por uma Egreja
-mecanica e politica, e a sua ambição de que todos os paizes em redor
-fossem devidamente educados e seguissem a religião do coração. Thomaz á
-Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que viveram antes
-da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos.
-
-=A politica de Carlos V.=—No seculo quinze a maior parte d’estes estados
-livres e d’estas cidades opulentas tinha caido sob o dominio dos duques
-de Borgonha, que eram ao mesmo tempo vassalos da corôa franceza e do
-Imperio. Não vem agora a proposito relatar a avidez com que Filippe o
-Bom, e seu filho, Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um
-reino, e para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que
-os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da França
-constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos, quando casou
-com Maximiliano de Austria, que era neto de Carlos V, o imperador na
-epoca em que se deram os primeiros episodios da Reforma.
-
-Carlos V, que era conde de Hollanda, e _stadtholder_ dos Paizes Baixos,
-assim como rei de Hespanha e imperador da Allemanha, nasceu e foi
-educado nos Paizes Baixos, e reputava essas provincias suas propriedades
-exclusivas. A politica constante do imperador foi a de auxiliar, até
-onde podesse ser, os privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos
-Paizes Baixos fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar
-o governo e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo
-não recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos de
-procedencia hespanhola.
-
-=Os principios da Reforma.=—Quando a Reforma começou na Allemanha, e
-foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando Luthero, os seus
-adherentes e as suas obras sob o anathema do Imperio, Carlos fez sair nos
-Paizes Baixos um decreto que continha disposições similhantes. O edicto
-foi inefficaz na Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia
-nos Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes e João
-Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito, foram
-queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros martyres da Reforma.
-Luthero compoz um hymno em sua honra, que intitulou «Cantico dos dois
-martyres de Christo em Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.»
-Foram prohibidas as reuniões religiosas, assim como a introducção das
-obras de Luthero.
-
-Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero foi
-traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em 1523, e as doutrinas
-da Reforma tornaram-se largamente conhecidas.
-
-Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias em nome de
-Carlos não deram plena execução aos severos edictos que lhes foram
-confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos, era inclinada á tolerancia
-em materia de religião, e Maria da Hungria, sua irmã, era, segundo
-se diz, secretamente partidaria da Reforma. N’estas circumstancias o
-movimento alastrou-se com rapidez no meio do povo, que estava acostumado
-a ler, pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador, «até
-nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com pessoas aptas não
-somente para ler e escrever, como tambem para discutir, quaes letrados,
-as interpretações biblicas.»
-
-O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do fanatismo
-anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram apoderar-se da
-cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram as ruas soltando loucos
-vaticinios. Na Frisilandia penetraram n’um convento, e combateram
-desesperadamente com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o
-edificio. O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira
-caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram quasi
-trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes que não
-approvavam de modo algum aquelles ardores anabaptistas. A Reforma, apezar
-d’este contratempo, foi fazendo progressos nos Paizes Baixos, até que, em
-1555, Carlos V abdicou em seu filho Filippe II, começando então o povo a
-luctar pela liberdade politica e religiosa.
-
-=Filippe II nos Paizes Baixos.=—Carlos viu todos os seus projectos
-transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu adoptar a mesma
-politica, usando, porém, do maior rigor e severidade. «Queria impôr,
-illimitada e incondicionalmente, o despotismo temporal e espiritual a
-que o restabelecido poder pontificio aspirava.» Sabemos agora que o
-empreendimento de Filippe era, desde o principio, irrealisavel; mas o
-elle ser ou não bem succedido constituiu um problema que teve a Europa
-suspensa durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou
-bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a lucta nos
-Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira revolta contra
-a politica de Filippe, e devido a ella o poder de Hespanha ficou tão
-abalado que a Europa poude sentir-se em segurança.
-
-Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe achava-se
-nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com desgosto os progressos que
-a religião reformada fazia n’essa terra. A Hespanha estava segura, pois
-que se havia inteiramente extinguido n’ella toda a liberdade civil e
-religiosa. Filippe podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e
-superintender pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu
-que a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld, que
-muitos dos nobres estavam em constante communicação com os principes
-lutheranos da Allemanha, e que os protestantes dos Paizes Baixos se
-entendiam tambem perfeitamente com os huguenotes francezes. As suas
-medidas para exterminio da heresia foram cuidadosamente elaboradas e
-com muita paciencia postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na
-presença do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que lhe fosse
-dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos detalhes, no
-estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação do episcopado das
-provincias.
-
-Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao sul dos
-Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França, tanto ao norte como
-ao sul, e quando em guerra com este paiz as tropas hespanholas haviam-se
-aquartellado nas dezesete provincias, com o fim de se encontraram com o
-exercito francez n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas
-tropas e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios.
-Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem o seu
-consentimento representava um attentado contra um dos privilegios que as
-provincias mais apreciavam; o paiz, além d’isso, tinha acabado de passar
-por uma grande fome, e a brutalidade dos soldados ainda mais exasperava
-o povo, chegando os habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam
-morrer afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes
-da soldadesca.
-
-Filippe não podia ficar para sempre nos Paizes Baixos, pois que a sua
-presença era necessaria na Hespanha, e antes de se retirar precisava
-de nomear uma pessoa que ficasse governando em seu nome. As provincias
-queriam que esse encargo recaisse sobre um dos seus nobres, e os nomes
-de dois membros da aristocracia, Guilherme de Orange e o Conde Egmont,
-que eram tambem principes do Imperio Allemão, foram frequentemente
-pronunciados na presença do rei. Tinham sido ambos muito affeiçoados
-a Carlos V, havendo demonstrado por meio de actos a sua dedicação, e
-possuíam todos os requisitos para o desempenho de aquelle logar. A
-escolha de Filippe, porém, caiu em sua cunhada, Margarida de Parma, que
-estava inteiramente dependente d’elle, era estranha ao paiz, cuja lingua
-ignorava, e conforme Filippe suppunha, lhe obedeceria cegamente. Deixou
-junto d’ella, como primeiro conselheiro, Antonio Perrenot, mais conhecido
-pelo cardeal Granvella, creatura sua, e mais um ou dois que elle sabia ao
-certo que executariam sem hesitação qualquer ordem que mandasse.
-
-=A Inquisiçao.=—O mais importante elemento de repressão, comtudo,
-foi a inquisição. Esta terrivel instituição differia inteiramente da
-organização que, com o mesmo nome, existiu antes da Reforma. A primeira
-inquisição, estabelecida para exterminio dos albigenses do sul da
-França, causou grandes soffrimentos aos não-conformistas da edade media,
-mas as suas funcções eram geralmente entregues aos dominicanos e aos
-franciscanos, e a rivalidade que havia entre uns e outros, combinada com
-o facto de terem sido estas duas grandes ordens as que deram acolhida á
-heresia medieval, obstou a que ella fosse o perseverante instrumento de
-repressão de que os papas de epocas posteriores á da Reforma, os jesuitas
-e os monarcas como Filippe II careciam. Foi, por conseguinte, remodelada
-em Roma sob a superintendencia do cardeal Caraffa, que mais tarde se
-chamou Paulo IV, separada das ordens monasticas, e restabelecida sobre
-uma base independente.
-
-Tinha por fim, segundo a bulla que presidiu á sua fundação, extirpar
-a heresia, primeiro em Italia, e em seguida em todo o mundo; e no seu
-funccionamento havia quatro regras a observar. Em materias de fè não se
-permittia um momento de demora, e a inquisição tinha de proceder com
-o maior rigor á mais leve suspeita, não se respeitava as pessoas dos
-principes ou dos prelados, por mais elevada que fosse a sua posição;
-usar-se-hia de um rigor especial para com aquelles que se acolhessem á
-protecção de um rei ou de uma personagem equivalente; e não se concederia
-uma falsa tolerancia a qualquer heresia, sobretudo ao calvinismo.
-
-A idéa do cardeal Caraffa era tornar a inquisição alliada do Estado,
-prestando o poder civil a sua coadjuvação para que as ordens da Egreja
-fossem cumpridas, e acoimando esta de heresia qualquer acto ou phrase
-que um Estado despotico entendesse que lhe era hostil. A inquisição
-tornava-se assim uma terrivel maquina nas mãos de um governo despotico,
-e, na verdade, onde quer que a sua presença se fez sentir por muito
-tempo, toda a liberdade civil e religiosa foi suffocada.
-
-A Italia e a Hespanha ainda não se restabeleceram das feridas por ella
-abertas.
-
-Carlos V estabeleceu a Inquisição tanto em Hespanha como nos Paizes
-Baixos, e, de accordo com o que ella preceituava, publicou alguns edictos
-cheios de violencia, aos quaes, não obstante a passiva opposição dos
-regentes, não houve remedio senão obedecer. Foi prohibido imprimir,
-copiar, conservar escondido, comprar, vender ou dar qualquer livro de
-Luthero, Œcolampadius, Zwinglio, Bucer, Calvino, ou qualquer outro
-hereje. Foi tambem prohibido damnificar, de uma ou outra fórma, a imagem
-de qualquer santo canonizado, assistir a reuniões hereticas, ler as
-Escripturas, e entrar n’uma discussão ou controversia religiosa. Os
-transgressores, se se retractassem, eram mortos á espada ou enterrados
-vivos; se não se retractassem, eram queimados, com confiscação de todos
-os seus bens. Aquelle que denunciasse um hereje recebia uma boa parte
-da sua fortuna, logo que fosse provada a veracidade da accusação. Os
-suspeitos de heresia eram obrigados a abjurar, e, se tornava a haver
-duvidas a seu respeito, procedia-se com elles como se fossem herejes
-declarados. Durante o reinado de Carlos houve todos os annos um bom
-numero de execuções, e, não obstante, a Reforma ia-se propagando. Em 1550
-já tinham fugido á inquisição 10:000 pessoas, que procuraram refugio em
-paizes estrangeiros. Filippe, a cujo conhecimento isto chegou, era de
-opinião que o terrorismo ainda não tinha sido exercido senão em pequena
-escala; concedeu, portanto, mais amplos poderes á inquisição, e ordenou á
-regente e ao seu conselho que prestassem aos inquisidores todo o auxilio
-que lhes fosse necessario.
-
-=Os novos bispados.=—No principio do seculo dezesseis havia nos Paizes
-Baixos quatro bispados: o de Arras, o de Cambray, o de Tournay e o de
-Utrecht. Filippe, só com uma pennada, propoz que se acerescentassem
-quatorze. O cardeal Caraffa, já então o papa Paulo IV, deu logo o
-seu apoio a essa proposta, pois que, disse elle, a heresia andava
-desenfreiada pelos Paizes Baixos, e a seara era abundante mas poucos
-os obreiros. O clero dos Paizes Baixos protestou; o povo, indignado,
-appellou para a constituição do paiz, que não permittia que o clero
-fosse augmentado sem o consentimento d’este. Todos os protestos, porém,
-foram baldados. Em 1560 o paiz foi dividido em quinze bispados, que
-ficaram sobre as ordens de tres arcebispos, tendo por primaz o arcebispo
-de Mechlin; e Filippe alcançou assim um bom numero de voluntarios
-instrumentos de repressão, assim como uns poucos de tribunaes onde os
-casos de heresia fossem julgados e sentenciados.
-
-=Tornar-se-ha hespanhol o paiz?=—No entretanto o paiz ia-se alarmando.
-Estas mudanças foram para a maioria dos neerlandezes indicios de que se
-intentava reduzir os Paizes Baixos á condição de Hespanha. O patriotismo
-identificou-se com a Reforma, e a causa nacional e a religião evangelica
-caminharam, por assim dizer, de mãos dadas.
-
-Isto deu um grande impulso ao movimento protestante. Tornou-se a causa
-popular. Multidões intervieram nos castigos ecclesiasticos, apoderaram-se
-das victimas condemnadas á morte pela inquisição, promoveram tumultos
-por occasião da missa, e por vezes atacaram as egrejas e derrubaram as
-imagens.
-
-Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem as suas queixas.
-O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram culpado de todas as
-medidas dignas de censura. Filippe, fingindo concordar com os nobres,
-transferiu Granvella para outro ponto; mas o velho systema de terrorismo
-continuou, e os nobres perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade,
-os queria fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam
-protestado.
-
-A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou uma nova
-resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez, fallou
-contra a proposta em termos violentos; houve uma assembléa de nobres,
-e resolveu-se encarregar o conde Egmont da missão especial de informar
-o rei dos sentimentos do povo das provincias; porque ainda se julgava
-que Filippe ignorava certas coisas de que aliás estava perfeitamente
-informado.
-
-Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um subdito leal
-do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido de Filippe, esse
-alguém, segundo a opinião geral, era Egmont. Partiu para Madrid em 1565,
-onde foi recebido com apparente cordialidade, e assegurou-se-lhe que as
-representações dos nobres seriam attendidas.
-
-Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de cumprir as suas
-promessas. Deu, pelo contrario, ordem para que em todas as cidades fossem
-proclamados, de seis em seis mezes, os decretos de Trento, os edictos com
-caracter de perseguição e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo
-contam os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o
-commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e todo o paiz
-parecia ter passado por um enorme cataclismo. Distribuiam-se pamphletos,
-que eram avidamente lidos, contendo apaixonados appellos ao povo para
-que pozesse termo á tyrannia. Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta
-aberta ao rei, dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos
-n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.» Damos
-graças a Deus por até os nossos inimigos se verem constrangidos a dar
-testemunho da nossa piedade e da nossa innocencia, e tanto assim que se
-diz commummente: «Fulano não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não
-pratíca immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita».
-«E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo que se pode
-inventar.»
-
-=Os mendicantes.=—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes tinham
-um espirito mais ousado resolveram unir-se para resistirem á tyrannia.
-Os seus chefes naturaes, que eram o principe de Orange e os condes de
-Egmont e de Horn, conservaram-se afastados, por considerarem insensata
-aquella empreza. Os confederados resolveram começar dirigindo-se em
-solemne procissão á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição
-e a revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza em 5
-de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham preparado; e a
-regente, perturbada com a imponencia do acto, convocou a toda a pressa
-o conselho para saber o que havia de responder. Barlaymont, um dos seus
-conselheiros, e pessoa muito da intimidade de Filippe, foi de opinião
-que «aquelle bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do
-palacio, A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse
-as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles reunidos n’um
-banquete para deliberarem, o conde Brederode levantou-se, e disse:
-«Chamam-nos mendicantes. Acceitamos esse nome. Empenhamos a nossa palavra
-em como havemos de resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e
-á Sacola do Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro como
-as que usam os mendigos que andam de terra em terra, e, deitando vinho
-n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade da causa.
-
-=Prégações ruraes.=—O nome de mendicantes foi adoptado com grande
-enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. Por toda
-a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos e fidalgos com a sacola
-de coiro dos mendigos vagabundos. O povo começou a compenetrar-se da
-força de aquella aggremiação. Realisaram-se logo grandes conventiculos,
-ou prégações ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as
-mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas em
-redor, collocando-se os homens, armados, um pouco fóra do ajuntamento,
-e assim escutavam as pregações dos ministros excommungados. Liam as
-Escripturas, cantavam hymnos, e ouviam orações feitas na sua lingua
-natal. Era tal a agglomeração de gente, e estavam tão vigilantes e tão
-bem armados, que os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente
-convenceu-se de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não
-poderia conter a excitação popular.
-
-O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações ao ar livre se
-faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos romanos. Quando
-os padres passavam pelas ruas de Antuerpia levando processionalmente
-a milagrosa imagem da Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken!
-(Mariasinha) chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a
-cathedral e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. N’outros
-pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar outros actos de
-violencia. A regente via-se sem forças para pôr termo aos tumultos, e,
-em desespero, concedeu ao povo a abolição da inquisição e a tolerancia
-da doutrina protestante. Confiando na sinceridade d’estas concessões, os
-nobres tomaram sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir
-as desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o conde
-Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.
-
-Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado do
-regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, determinou, na
-primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz e exterminar os cabeças
-de motim. Com a sua habitual dissimulação, procurou disfarçar os seus
-intentos, e o conde Egmont foi por elle enganado. O principe de Orange,
-sempre bem informado, e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e
-suspeitava de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria,
-e preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei havia
-de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres que haviam
-dirigido o movimento não estavam suficientemente unidos para resistir;
-que os chefes menos cautos dos Mendicantes se haviam de revoltar; e que o
-rei havia de tomar, indescriminadamente, uma furiosa represalia.
-
-Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem de Walcheren;
-reuniram-se em grande numero em Anstruweel, e ameaçaram Antuerpia. Na
-sua marcha, destruiram reliquias e despojaram as egrejas das imagens e
-dos paineis. Egmont, querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre
-esses insurgentes e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.
-
-O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o principe de
-Orange tinha tão exactamente interpretado o curso dos acontecimentos que,
-quando elle ainda ia a caminho do seu voluntario exilio, da Allemanha, ia
-nos Paizes Baixos o duque de Alba, á frente de um novo corpo de exercito
-hespanhol.
-
-=O duque de Alba nos Paizes Baixos.=—Fernando Alvarez de Toledo, duque
-de Alba, era um dos servidores de Filippe II que mais se parecia
-com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um ignorante em todos os
-assumptos politicos e economicos, um avarento, e um impudente enganador.
-Publicações recentes teem demonstrado que elle possuía muito pouco
-do talento que os remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o
-recommendou a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por
-elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, e o
-seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos os impulsos
-de misericordia.
-
-Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava a dissimular.
-Assegurou á regente que não era sua intenção fazel-a substituir por elle,
-e fez todo o possivel para acalmar as suspeitas dos nobres e dos estados
-dos Paizes Baixos. Ao mesmo tempo dava ordem ao duque para acabar com
-a Reforma de um modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de
-todos os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões
-á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por carta, ao duque
-de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais eminentes que haviam tomado
-parte nos tumultos e pôl-os em condições de não tornarem a fazer damno;
-prender e castigar os que de entre o povo estivessem criminosos; obter
-pela violencia todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres
-de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a maxima
-severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização dos novos
-bispados, e punir as cidades rebeldes com a Inquisição e com a imposição
-de subsidios.» As tropas embarcaram em Carthagena, desembarcaram em
-Genova, e marcharam, atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o
-Luxemburgo e Paizes Baixos.
-
-Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o seu desejo
-era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara de um modo que
-agradasse a seu amo. Uma das suas maximas favoritas era: «Antes assolar
-uma nação por meio da guerra, se d’esse modo ella se conservar fiel a
-Deus e ao rei, do que deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus
-adherentes, os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente
-convencido de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso dos
-seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, em pouco tempo
-domesticarei esta gente de manteiga», disse elle, pouco depois de ter
-entrado no paiz.
-
-=A prisão dos Condes Egmont e Horn.=—A primeira coisa que elle fez foi
-lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu á mais vil
-dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, dispensou-lhes todas as
-amabilidades, e fez todo o possivel para os conservar ao seu alcance até
-ter opportunidade da os mandar prender. Ficou muito desapontado quando
-Guilherme de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços
-para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, prendeu o Conde
-Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os n’um carcere.
-
-Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles fidalgos
-tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei. Egmont havia incorrido no
-odio do povo pela firmeza com que procurou reprimir a insurreição, e Horn
-perdera todos os seus bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe.
-Aquellas prisões mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do
-«rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente
-lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella soube em Roma, do feito de
-Alba, perguntou: «Elle tem em seu poder o Silencioso?» E, depois de o
-informarem de que Guilherme estava em liberdade, disse que Alba não tinha
-conseguido coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se lhe
-havia escapado tinha mais valor do que todos os outros juntos.
-
-Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em seguida de
-aterrorisar o povo. Organizou um _Conselho de Disturbios_, que substituiu
-o antigo Conselho de Estado, e que teve a sua primeira, reunião em 20 de
-Setembro de 1567. Este conselho suspendeu todo o julgamento de causas
-pelos tribunaes ordinarios, e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue».
-Alba presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por
-provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel para
-evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia elle, «só
-teem servido até aqui para lavrar a sentença depois de se fazer prova
-do crime; mas agora as coisas passam-se de outra fórma». Este conselho
-de disturbios privava toda a gente das suas garantias individuaes, e ia
-investigar todos os delictos commettidos no passado. A accusação vulgar
-era a de ter conspirado contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem
-do codigo medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os que
-haviam assignado petições para que os edictos contra a heresia deixassem
-de ser applicados, todos os que se haviam, de algum modo, opposto á
-creação dos novos bispados, todos os que haviam dito que o rei tinha
-obrigação de respeitar as liberdades das provincias, eram tidos como
-traidores, e castigados com multas, com prisões e com a pena capital.
-Todos os que eram apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os
-que não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar livre, ou
-que não haviam reagido contra a destruição das imagens, eram egualmente
-tidos como traidores. Era sufficiente a suspeita, dispensava-se a
-convicção, e em tres mezes o Conselho de Sangue enviou para o cadafalso
-mil e oitocentas pessoas. Isto teve logar durante annos. Guilherme de
-Orange pasmava da paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma
-organizada resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o vosso
-espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»
-
-No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos d’elles
-vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das tropas hespanholas,
-roubando egrejas, mosteiros e residencias de clerigos. O paiz havia caido
-na anarquia.
-
-=A guerra civil. O principe de Orange.=—Em 1568 o principe de Orange
-conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. Seu irmão, Luiz
-de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu evitar que o inimigo se
-apoderasse d’essa provincia. O duque de Alba marchou então contra os
-protestantes. Antes de se pôr a caminho, porém, executou, para espalhar
-o terror na capital, vinte membros da nobreza, e entre elles os condes
-Egmont e Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente
-com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo o
-exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. Regressou depois a
-Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho de Sangue.
-
-O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a vau o Meuse,
-chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos soldados, marchou sobre
-o Brabant, e procurou dar batalha a Alba. O duque, que conhecia a sua
-inferioridade, diligenciou evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas
-marchas, e desalental-as. O exercito protestante, que era composto, na
-sua maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente
-o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam sempre de mau
-partido, viu-se obrigado, com a approximação do inverno, a licenciar
-as suas tropas. Uma parte do exercito, composta de neerlandezes,
-conservou-se junto d’elle; e o principe de Orange, com os seus dois
-irmãos (o terceiro havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e
-foi em auxilio dos huguenotes francezes.
-
-Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe chamavam,
-tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia combatido contra os
-hespanhoes mais por patriotismo do que por motivos religiosos; mas
-durante o segundo desterro, quando a situação da sua patria se tornou
-extremamente precaria, transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as
-verdades da religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde
-esse tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso,
-descançando confiadamente na direcção e protecção de Deus.
-
-=Os mendigos do mar.=—A parte mais valente da população neerlandeza eram
-os marinheiros e os habitantes da costa, que luctavam quotidianamente com
-as ondas do oceano germanico. Essa gente tinha, em grandissima parte,
-acceitado as doutrinas dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o
-amor da liberdade, a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e
-a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso
-chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do principe de Orange
-para a utilidade de constituir com estes marinheiros, pescadores e
-traficantes maritimos uma força naval.
-
-Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua obra de execução
-por meio do fogo, da agua e da decapitação, o principe conseguiu
-pôr-se em communicação com os marinheiros e pescadores hollandezes.
-Tinha resolvido crear uma armada para dar caça aos navios hespanhoes,
-e conservar acceso o espirito patriotico das provincias. Deu as suas
-instrucções aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e os
-«Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror dos hespanhoes.
-Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao principio, as suas
-tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, mas, em virtude de
-uma reclamação do embaixador hespanhol, a rainha Isabel prohibiu que
-desembarcassem em Inglaterra. Viram-se compellidos a saquear as costas da
-Hollanda, tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como em
-terra.
-
-O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. As suas
-proscripções e execuções haviam diminuido muito a população. O commercio
-tinha chegado á ultima; da agricultura ninguem cuidava; as industrias
-estavam paralysadas. Alba estava embaraçado por não ter dinheiro com
-que pagasse ás tropas. Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que
-havia de fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse um
-rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um leigo no que diz
-respeito a economia politica, e não comprehendia que com as disposições
-que tomara havia feito seccar os mananciaes da riqueza, transformando
-em poucos annos um paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria
-possivel extrair dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim
-estabeleceu novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição
-que em Hespanha estava matando a vida commercial, e propoz o introduzil-a
-nos Paizes Baixos.
-
-O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda a propriedade;
-esse imposto ficou sendo chamado a _Centesima_. A accrescentar a isto,
-ficava-se tambem na obrigação de contribuir com cinco por cento, ou seja
-a vigesima parte, de todas as rendas de terras, ou bens immoveis, e com
-dez por cento, ou a decima parte, de todas as vendas de generos ou de
-bens moveis. Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava a
-ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio n’uma terra
-onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição do que tudo
-quanto Alba tinha até então posto em pratica. A primeira provincia que
-protestou foi a de Utrecht, e logo depois todas as outras fizeram coro
-com ella. Alba, comtudo, estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder
-dependia do exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém,
-que tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para de ali
-a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, a pôr desde
-logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens terminantes para
-se começarem a cobrar os dez e os vinte por cento. O resultado foi parar
-logo todo o commercio e industria. Os padeiros não quizeram cozer pão,
-os cervejeiros não quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se
-a fazer calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira
-necessidade. E, como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto
-sobre as vendas não podia ser cobrado.
-
-=A tomada de Brill.=—Emquanto os estados permaneciam n’uma insurreição
-passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», organizada por Guilherme,
-guerreava incessantemente os hespanhoes, e, com uma ousadia que o bom
-exito até ali alcançado lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn,
-e tomaram a cidade de Brill, que era considerada uma das chaves da
-Hollanda. A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre
-toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que ficou
-devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.
-
-De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente senhores
-dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve incerta durante muito tempo,
-mas houve sempre uma parte do territorio flamengo independente de
-Hespanha. Os «Mendigos do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram
-repetidos ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes
-cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando por
-proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da nação. O principe
-acceitou esse perigoso cargo. Estava em França quando lhe deram a
-noticia, e, disfarçando-se de camponez, atravessou as linhas do inimigo,
-e deu-se pressa em tomar o commando dos insurgentes. Antes de chegar até
-junto d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu favor.
-Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou Dort, onde de eommum
-accordo se resolveu estabelecer uma nova constituição, e, por unanimidade
-de votos, o principe foi reconhecido «o verdadeiro representante do rei
-na Hollanda, Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos,
-convieram em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em
-proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar
-liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.
-
-Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, atravessando
-o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas outras cidades. Foi
-acclamado em toda a parte, e a sua marcha foi tão facil que elle contava
-chegar em pouco tempo a Bruxellas. Uma vez lá, confiou na promessa que
-Coligny lhe fez de o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio
-flamengo. Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que
-chega uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas
-proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça». Coligny
-e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na vespera de S.
-Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. Tornava-se necessario
-abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha tomado pouco antes; e o exercito
-do principe, apoz a retirada, foi dispensado do serviço.
-
-Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, Mechlin, Tergoes,
-Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da capitulação de Mons foram
-ignominiosamente violadas. Mechlin foi, de caso pensado, saqueada e
-incendiada pelas tropas hespanholas. O general a quem foi confiado o
-esbulho de Zutphen recebeu ordem para queimar todas as casas e matar
-todos os habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente,
-e por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. Quando
-os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue frio, todos os
-soldados hollandezes, e com elles muitos centos de cidadãos, e, ligando
-os corpos a dois e dois, lançaram-n’os na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia
-que os catholicos romanos tinham resolvido exterminar os protestantes
-quando vissem que não podiam convertel-os.
-
-Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava
-inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo de
-Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, sendo obrigado a
-retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente á esquadra hespanhola
-que fôra enviada para os destroçar, dispersaram os navios e fizeram
-prisioneiro o almirante. A nação de pescadores e de lojistas, de quem
-a Hespanha e a Europa haviam escarnecido por verem a paciencia com
-que supportavam as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça
-de heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol.
-Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento para
-o outro uma importante personagem na Europa, que os reis precisariam de
-lisongear. Publicou uma carta dirigida aos principes da christandade,
-para justificar a revolta dos seus compatriotas. «Alba», disse elle,
-«ha de tingir todos os rios e regatos com o nosso sangue e pendurar
-em cada arvore da Hollanda um hollandez para que os seus desejos de
-vingança fiquem satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em
-defeza das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais força
-do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, e legar um
-nome aureolado de gloria, do que curvar os pescoços deante do jugo e
-permittir que a nossa terra fique escravisada. É por isso que as nossas
-cidades se comprometteram a resistir a todos os cercos, a soffrer todas
-as calamidades, a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e
-deixar-se morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer ás
-intimativas d’esse algoz sedento de sangue».
-
-A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de toda a
-confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca que o mandasse
-retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, considerou sempre
-efficacissimo o seu systema, mesmo depois dos revezes soffridos. Era
-sua opinião que se tivesse sido um pouco mais severo, se tivesse
-accrescentado mais algumas gotas do sangue que fez derramar, o seu exito
-seria completo. Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do
-cargo que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor senão
-o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera pôr uma guarnição
-hespanhola.
-
-=Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.=—A pessoa que Filippe
-II escolheu para substituir o duque de Alba foi D. Luiz Requescens y
-Zuniga, membro da mais alta aristocracia de Hespanha e cavalleiro de
-Malta. Era elle um homem de indole magnanima, de nobre caracter, e, se
-tivesse sido enviado á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse
-paiz teria sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de
-mais, e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, n’aquella
-epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado numero de soldados.
-Os patrioticos defensores da Hollanda não poderiam leval-a de vencida em
-campo aberto; comtudo, o novo commandante hespanhol não os intimidou. Em
-todas as cidades fortificadas se luctava com a energia do desespero, e os
-«Mendigos do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, aos
-patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois de observar tudo
-isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada aqui, não comprehendia
-como os rebeldes podiam sustentar frotas tão consideraveis, quando
-vossa magestade nem uma, sequer, podia. Agora vejo que os homens que se
-batem pelas suas vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua
-religião, embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; dão-se
-por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo de adoptar um
-methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu os odiados impostos,
-dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou uma amnistia geral. Procurou
-também chegar a um accordo com os insurrectos.
-
-Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma amarga
-experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos ouvido demasiadas
-vezes», disse Guilherme, «as palavras Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo
-que dessemos ouvidos ás vossas propostas, quem nos garante que o rei
-as não daria depois por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto
-pelo papa?» A lucta continuou, portanto, e Requescens, que detestava a
-politica do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa
-mesma politica havia provocado.
-
-A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes tinham
-saido sempre victoriosos em campo aberto, e quando no principio da
-primavera de 1574 Guilherme e seu irmão Luiz entraram na Hollanda á
-frente de um novo exercito composto, na sua maioria, de mercenarios
-allemães, alcançaram outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva,
-segundo pareceu, do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente.
-O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo os seus
-dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, Conde Palatino. Mais
-uma vez se afigurou que os hollandezes acabariam, por fim, n’uma completa
-submissão aos hespanhoes. Como sempre, porém, os heroes da patria,
-vencidos em terra, eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas
-combateu-se com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam
-deixar de reconhecer a sua derrota.
-
-Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota no principio d’esse
-anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se de quarenta navios e
-mettendo o resto no fundo.
-
-=O cerco de Leyden.=—A cidade conservava-se havia muito tempo em poder
-dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo empenho em se apoderar
-d’ella. Luiz de Nassau fez levantar o primeiro cerco que lhe pozeram,
-mas desde maio de 1574 que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos
-ataques. Não foi possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker
-Haide, encontrar-se frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava
-de todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas. Leyden
-estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia enviar soccorro
-algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia de pomares e de searas que
-já pouco tempo esperariam pela ceifa, e esta planicie, como quasi todas
-as da Hollanda, estava abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte,
-facil inundal-a, bastando para isso destruir os diques que se oppunham
-á invasão das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão
-fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou esse alvitre
-aos respectivos habitantes, que o acceitaram. Foram, pois, abertos os
-diques, e a esquadra dos «Mendigos do Mar» preparou-se para entrar com
-a maré e navegar em seguida sobre submersas hortas, pomares e campos de
-semeadura. O plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma
-de difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques; a
-agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos a impelliam
-para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez mais escassos na cidade,
-e a faminta população, subindo aos campanarios, via a agua sempre lá
-ao longe, via que os soccorros se approximavam muito vagarosamente,
-como se nunca houvessem de chegar, ou então como se houvessem de chegar
-tarde de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria
-em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e uma honrosa
-capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto das muralhas um dos
-defensores, «e quando a fome nos apertar muito comemos o esquerdo, e
-deixamos o outro para manejar a espada». Quatro mezes se passaram n’um
-indescriptivel soffrimento, e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao
-sopé das fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes
-fugiram aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre elles,
-soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos do que papistas».
-Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se á sumptuosa egreja
-para dar graças a Deus pelo livramento que, por Sua misericordia, lhes
-viera do mar. Quando a numerosa congregação estava entoando um psalmo de
-libertação, as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços.
-Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas privações, tendo
-agora uma consciencia nitida do seu inesperado livramento, se pozera a
-chorar.
-
-A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que chegou a esta
-localidade quando o principe de Orange estava assistindo ao serviço
-religioso da tarde, sendo só depois de elle terminar que o povo soube do
-succedido. O principe, apezar de doente, montou a cavallo, e partiu logo
-para Leyden, para tomar parte no regozijo publico. Propoz que, em acção
-de graças, se fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi
-assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade tornou-se
-o centro do protestantismo das provincias. Picou sendo na Hollanda o que
-Wittenberg era na Allemanha, Genebra na Suissa, e Saumur em França.
-
-=Negociações entre as provincias do sul e as do norte.=—O levantamento
-do cerco de Leyden mareou um novo periodo na guerra da independencia.
-O oommissario hespanhol via que se estava formando, vagarosa e quasi
-imperceptivelmente, um novo estado protestante, e as difficuldades que
-de todos os lados o assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava
-elle luctando com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576.
-A sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola, e os
-acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos neerlandeses que eram
-catholicos romanos aonde o governo hespanhol poderia tel-os conduzido.
-A morte de Requescens produziu uma certa perturbação na politica
-hespanhola. Desde o tempo do duque de Alba o pagamento das tropas
-tinha sido feito com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam
-despejados, e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de
-soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse liquidada,
-revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear qualquer cidade»,
-era o seu grito. A guarnição de Aalst foi a primeira a revoltar-se, sendo
-secundada pelas de quasi todas as cidades fortificadas das provincias
-do sul. Os revoltosos pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat
-e Antuerpia. Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e
-assassinio e durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e
-opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia ser
-exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal.
-
-O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar com as
-suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da importante cidade de
-Ghent. Os habitantes das provincias do sul tanto nobres como plebeus,
-tinham, por sua vez, sido victimas de aquellas horrorosas calamidades
-que os seus compatriotas os protestantes do norte, tinham, havia muito,
-experimentado. Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou
-em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de Flandres e de
-Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias do norte; e pediram
-a Guilherme que os livrasse dos hespanhoes. Em Ghent realisou-se um
-congresso de representantes das provinciais do norte e do sul, ficando
-assentes os preliminares de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou
-a _Pacificação de Ghent_, que foi assignada por delegados de dezesete
-provincias.
-
-Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se uma completa
-liberdade de commercio entre as provincias do norte e as do sul, ficavam
-revogados todos os edictos contra os protestantes, concedia-se protecção
-aos catholicos romanos, todas as provincias se uniam para constituir
-um unico Estado, e o principe de Orange ficava sendo _statholder_ até
-posterior decisão, que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes.
-
-=D. João de Austria nos Paizes Baixos.=—A _Pacificação de Ghent_ alarmou
-em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria, irmão de
-Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado aos Paizes Baixos
-na qualidade de _statholder_ com plenos poderes. Os estados recusaram
-reconhecel-o emquanto elle não fizesse sair as tropas hespanholas.
-Apoz algumas negociações, as provincias obtiveram, apparentemente,
-que elle attendesse ás suas aspirações com a publicação do _Edictum
-Perpetuum_, que garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para
-com os protestantes, e a unificação dos estados; por algumas cartas
-confidenciaes que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e o
-seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão, e o
-conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos romanos do sul
-com os protestantes do norte. Os Estados Geraes não reconheceram a
-sua auctoridade, e designaram o principe de Orange para governador de
-Brabante. Havia, comtudo, muita difficuldade em que o norte e o sul se
-unissem por laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles
-tempos, em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma
-violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente. Os
-nobres de Flandres e de Brabante representavam dois papeis, e essa sua
-duplicidade animou D. João de Austria a atacar as forças do principe
-de Orange. A guerra terminou com a batalha de Gemblours, em que os
-hespanhoes alcançaram uma completa victoria. O principe, comtudo,
-mostrou-se, como sempre, tão grande na derrota como na victoria, e
-o _statholder_ sentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da
-Hollanda, se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas
-estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe Alexandre de
-Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de Filippe.
-
-=Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.=—Alexandre Farnese, principe de
-Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado anteriormente
-aquelle cargo, e, no dizer de alguns auctores, foi o ultimo dos grandes
-homens que a Hespanha possuiu no seculo dezeseis. Era um excellente
-general, um habil politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas
-provincias n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força era a
-rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul catholico romano.
-
-O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias do norte
-suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido nos negocios de
-que resultou a batalha de Gemblours. As provincias do sul não queriam
-submetter-se á dominação dos herejes do norte. Alexandre aproveitou-se
-habilmente d’esta desunião para prender as provincias do sul á Hespanha,
-com o inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram
-mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos na sua
-determinação de permanecerem livres.
-
-=O Tratado de Utrecht.=—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia, Guelders,
-Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se representar n’uma
-assembléa, e redigiram o celebre Tratado de Utrecht, que continha, em
-esboço, a futura constituição das provincias unidas. As Sete Provincias
-não se separaram da Hespanha. Diziam-se ainda subditas da corôa
-hespanhola, mas reivindicavam o direito de darem culto a Deus e de se
-governarem segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram
-inteiramente o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia,
-escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo. Isto teve
-logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação de Filippe, em que
-este denunciava Guilherme como um inimigo da humanidade, e offerecia uma
-recompensa de vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo
-de nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente, a
-quem assassinasse o principe.
-
-Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram attingindo
-gradualmente uma completa independencia politica e tornaram-se uma
-potencia protestante. Guilherme da Orange foi em 1584, morto a tiro por
-um fanatico catholico romano chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram
-e obtiveram parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não
-terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para Governador
-em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete annos, mas
-já educado por seu pae para ser um habil general e um prudente chefe
-politico. Poz-se resolutamente á testa de aquelle conflicto com a
-Hespanha, que parecia interminavel. Isabel de Inglaterra prestou-lhe o
-seu auxilio, com o qual ella ficou mais prejudicado do que outra coisa.
-Depois da destruição da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na
-monarquia hespanhola, alcançou uma notavel victoria sobre as tropas
-catholicas romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora
-vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes abalaram
-fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos navios que voltavam
-das indias Occidentaes e Orientaes, carregados de preciosidades. Em 1607
-combinou-se um armisticio, e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas
-durante doze annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz
-definitiva. Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia, e
-constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia no mar só era
-disputada pela Inglaterra.
-
-=A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.=—Durante os annos de
-dura perseguição que o protestantismo soffreu nos Paizes Baixos desde o
-principio da sua existencia, os protestantes, não obstante os rigores
-postos em pratica contra elles, poderam organizar-se sob a fórma de
-egreja, e publicar uma confissão. Isto não foi feito sem dificuldades,
-que até entre elles proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos
-tinham recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que
-só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia chegado ao
-seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos Paizes Baixos haviam
-aprendido o Evangelho em Wittemberg, com Luthero, e nas provincias do
-norte eram numerosos os lutheranos. Um pouco mais tarde as opiniões
-de Zwinglio penetraram na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que
-tomavam muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul a
-Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes, educados no
-calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia adherentes de Luthero, de
-Zwinglio e de Calvino. Cada um dos partidos differençava-se dos outros,
-especialmente pelo que dizia respeito ao governo da egreja; e, posto
-que estas differenças fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde
-na contestação que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante,
-acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o calvinismo
-foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo, e a egreja dos
-neerlandezes tornou-se calvinista, tanto na doutrina como na disciplina.
-
-=A Confissão Hollandeza.=—N’uma epoca relativamente afastada, isto é,
-em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor flamengo, Guido de
-Brés, juntamente com Adriano de Saravia, Modetus, capellão de Guilherme
-de Orange, e Wingen, prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles,
-justificar pela Escriptura a religião reformada.
-
-Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e martyres dos
-Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de Mons. Havia estudado para
-padre, e converteu-se dos erros do romanismo mediante o estudo das
-Escripturas Sagradas. Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra,
-onde, nos dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois
-para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista no norte da
-França e no sul dos Paizes Baixos. Era um ardente admirador da Confissão
-da Egreja Franceza, e modelou a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela
-celebre _Confessio Gallica_.
-
-Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi revista por
-Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi apresentada ao rei,
-Filippe II, em 1562, assim como a Confissão de Augsburgo foi apresentada
-a seu pae Carlos V. O eloquente discurso que acompanhou a Confissão pode
-ser comparado á dedicatoria a Francisco I, que prefaciou os _Institutos_
-de Calvino. Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e
-declaram que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo a
-consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão a Christo, ainda
-mesmo que tenham, segundo a linguagem que empregaram, de «offerecer as
-costas ás chibatas, as linguas ás facas, e os corpos ao fogo, certos
-de que os que seguem a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e
-renunciar-se a si proprios».
-
-Esta Confissão, gradualmente adoptada pelos protestantes dos Paizes
-Baixos, introduziu o calvinismo nas egrejas d’essa parte do mundo.
-
-=A Constituição da Egreja Hollandeza.=—Em 1563, isto é, quando ainda
-havia perseguição, os delegados de varias congregações protestantes
-reuniram-se em synodo, e concordaram n’um systema de governo de egreja,
-que copiou, em grande parte, os seus principios das _Ordenanças
-Ecclesiasticas_ de Genebra; e a constituição da egreja, quasi desde o seu
-inicio, foi baseada no modelo de Genebra. A organização presbyteriana,
-com pastores, professores, presbyteros e diaconos, não foi adoptada nos
-Paizes Baixos sem protesto da parte dos lutheranos, mas quando veiu sobre
-elles a feroz perseguição do duque de Alba a fórma presbyteriana do
-governo da Egreja foi a que melhor resistiu a todos os embates, sendo por
-fim a que se tornou preponderante. O systema consistorial de Luthero é
-apenas possivel quando o Estado esteja em favoraveis disposições para com
-a egreja, mas o presbyterianismo, como a França, a Escocia e os Paizes
-Baixos mostraram, pode manter-se, até mesmo quando a «Egreja sentir o
-peso da cruz.»
-
-N’uma assembléa da Egreja que teve logar em Dordrecht, em 1574, a
-primeira assembléa geral da Egreja Hollandeza, foi revista, ampliada e
-formalmente adoptada uma serie de artigos que já haviam sido approvados
-n’uma reunião em Emden, e que continham os principaes elementos da
-organização presbyteriana. Todos os ministros tinham de obedecer ás
-_assembléas classicas_, ou presbyterios; e todos os presbyteros e
-diaconos tinham de assignar a Confissão de Fé e os artigos respeitantes
-ao governo da Egreja.
-
-Torna-se necessario explicar duas particularidades do presbyterianismo
-hollandez. As sessões da egreja não são, como na maioria das outras
-egrejas presbyterianas, assembléas congregacionaes que se occupem do
-governo de uma congregação. A sessão da egreja é composta de ministros e
-presbyteros de um certo numero de congregações, e, a certos respeitos,
-assimilha-se a um presbyterio. E, comtudo, como as das outras egrejas
-presbyterianas, o tribunal de primeira instancia.
-
-A outra particularidade da organização da Egreja hollandeza consiste em
-que raras vezes podia deliberar como egreja. Isto era devido em parte
-ao ciume do Estado protestante, e em parte á constituição politica
-das Provincias Unidas. A Hollanda, ou as Provincias Unidas, era uma
-confederação de estados, a muitos respeitos independentes uns dos outros.
-A Reforma tendia a descentralizar a Egreja, e a produzir uma organização
-ecclesiastica separada para cada estado politico independente. Tambem
-se notava na Hollanda a tendencia para a formação de tantas egrejas
-separadas quantas eram as provincias.
-
-As Sete Provincias não constituiam uma nação; constituiam, antes, uma
-confederação. Tinham-se obrigado a proteger-se umas ás outras na guerra,
-e, portanto, a manter um exercito commum, e a contribuir para um fundo
-militar commum; mas não formavam um estado. Os negocios internos de cada
-provincia estavam sob a superintendencia de cada estado separado.
-
-Quando Guilherme de Orange foi eleito governador vitalicio, uma das
-clausulas a que elle ficava obrigado era a de que não reconheceria
-qualquer concilio ou consistorio ecclesiastico que não tivesse a
-approvação da provincia em que propozesse reunir-se. Os negocios
-religiosos de cada provincia tinham de ser regulados por essa provincia.
-
-Isto dava um aspecto de divisão á Egreja hollandeza, e impedia,
-realmente, a acção incorporada e unida. A Egreja só podia reunir-se em
-assembléa geral quando todas as Sete Provincias concordassem em dar-lhe
-permissão. Este embaraço politico obstou muito á utilidade e influencia
-da Egreja Reformada Hollandeza, e deu logar a uma continua lucta, na
-Hollanda, entre a Egreja e o Estado.
-
-=A força da Egreja na Hollanda.=—A prolongada peleja de quarenta e
-cinco annos contra a Hespanha e o papismo parecia estimular as energias
-da Egreja hollandeza e das suas universidades, e os seus collegios
-theologicos em breve rivalizaram com mais antigas sédes de instrucção. A
-universidade de Leyden, erguida em acção de graças quanto a uma milagrosa
-libertação, foi fundada em 1575; Franecker começou a existir dez annos
-depois (1585); as universidades de Gröningen (1612) Utrecht (1636) e
-Harderwyk (1648) seguiram em successão apoz alguns annos de intervallo.
-Todas estas universidades eram escolas theologicas, frequentadas por
-alumnos procedentes de quasi todos os paizes protestantes da Europa. Os
-theologos hollandezes do seculo dezesete tornaram-se famosos quanto á sua
-erudição, zelo e agudeza theologica. Quando surgiu a grande controversia
-armenia, que agitou mais tarde a Egreja hollandeza, os theologos da
-Hollanda foram os que na Europa se celebrizaram mais, tanto pelo que diz
-respeito á illustração como pelo que diz respeito á orthodoxia.
-
-A Confissão de Westminster, que se tornou o credo da maior parte das
-egrejas presbyterianas em paizes onde se fallava a lingua ingleza, é em
-grande parte baseiada na antiga Confissão Hollandeza; e os theologos que
-coordenaram os seus artigos copiaram muita coisa d’esses reformadores
-hollandezes recentemente emergidos da sua terrivel e prolongada lucta com
-o papismo hespanhol.
-
-
-
-
-CAPITULO V
-
-A REFORMA NA ESCOCIA
-
- Preparação para a reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica
- o a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag.
- 138.—A Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia
- e a situação politica, pag. 142.—João Knox, pag. 141.—A
- Congregação e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão
- escoceza_, pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.—O
- _Livro de Disciplina_, e a _Primeira Assembléa Geral_, pag.
- 147.—A educação, pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos
- tulchanos, pag. 150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro
- de Disciplina, pag. 152.
-
-
-=Preparação para a Reforma.=—A Escocia, longe do centro da vida europeia
-no seculo dezeseis, recebeu, apezar d’isso, a Reforma quasi tão cedo como
-a maioria dos outros paizes, e acceitou-a mais completamente do que elles.
-
-A região tinha sido preparada para ella mediante a educação do povo,
-mediante o constante commercio entre a Escocia e as nações continentaes,
-especialmente a França e a Allemanha, e mediante a sympathia dos
-estudantes escocezes para com os primeiros movimentos religiosos na
-Inglaterra e na Bohemia; e por outro lado a condição da Egreja romana,
-a pobreza das classes aristocraticas, e a situação politica do paiz
-coadjuvaram em certa escala os esforços de aquelles que anhelavam por uma
-reformação religiosa na Escocia.
-
-=A antiga Egreja celtica e a Educação.=—A antiga Egreja celtica na
-Escocia, que havia conservado a sua influencia no paiz durante perto
-de setecentos annos, tinha sempre considerado a educação do povo como
-um dever religioso. Os seus regulamentos declaram que é tão importante
-ensinar os rapazes e as raparigas a ler e a escrever como administrar os
-sacramentos ou tomar parte na _intimidade das almas_, que era o nome que
-davam á confissão. O mosteiro celta era sempre um centro educativo, e
-n’alguns casos a instrução ahi ministrada era a melhor que se podia obter
-fóra de Constantinopla. Carlos Magno, ao estabelecer aquellas escolas
-superiores, que depois se tornaram as mais antigas universidades da
-Europa, procurou nos mosteiros celtas os primeiros professores. Quando
-a Egreja celta da Escocia cedeu o logar á Egreja romana, o seu systema
-educativo foi, em grande escala, adoptado, e a educação na Escocia
-continuou a ser muito melhor do que se poderia esperar do seu estado de
-civilisação.
-
-As escolas cathedraes e monasticas produziram um grande numero de
-professores e alumnos que desejavam ver os seus trabalhos continuados
-n’uma universidade como as que n’aquella epoca estavam apparecendo em
-toda a Europa.
-
-Ao principio os poucos recursos do paiz obstavam á fundação de
-universidades na Escocia, e mediante uma provisão feita pelo rei e
-pelos bispos foram enviados os melhores estudantes a Oxford, Cambridge
-e Paris. Professores viajantes foram da Escocia, com um certo numero
-de estudantes, aos centros, inglezes e continentaes, de instrucção. E
-era frequente que os jovens escocezes permanecessem fóra da patria na
-qualidade de leccionistas ou estudantes nomadas.
-
-=A Escocia e o lollardismo.=—Este contacto academico approximou muito
-a Escocia dos grandes movimentos intellectuaes da Europa. No período
-em que os estudantes escocezes iam em grande numero para Oxford,
-Wycliffe exercia o professorado, e o lollardismo triumphava na grande
-universidade ingleza. Os estudantes escocezes voltavam contaminados
-com as maximas constitucionaes e as aspirações religiosas dos grandes
-homens de Inglaterra, e o lollardismo propagou-se na Escocia. Depois das
-universidades de Aberdeen, Glasgow e St.º André terem sido fundadas,
-no seculo quinze, os velhos arquivos dizem-nos que as auctoridades
-ecclesiasticas effectuaram inspecções com o fim de expurgar o corpo
-docente dos erros de Lollard. A seu devido tempo, o lollardismo passou
-das universidades para o publico, e os primeiros chronistas da Reforma
-nunca deixam de se referir aos lollards, ou homens biblicos de Kent, e á
-entrevista que tiveram com James IV.
-
-Havia estudantes escocezes em Paris quando Pedro Dubois, Marsilio de
-Padua e Guilherme de Ockham ensinavam publicamente que a egreja è o povo
-christão, e que pode existir uma egreja sem papa e sem padres.
-
-=A Escocia e Huss.=—A Bohemia e os actos de João Huss n’esse paiz eram
-bem conhecidos na Escocia. Calderwood falla-nos de Paulo Craw, bohemio
-que foi convencido de heresia a instancias de Henrique Wardlaw, bispo de
-St.º André, perante sete doutores em theologia, por divulgar as doutrinas
-de João Huss e de Wycliffe, «negando que houvesse qualquer modificação da
-substancia do pão e do vinho na Ceia do Senhor, e reprovando a confissão
-auricular e as orações aos santos defuntos.» Foi condenado á fogueira,
-e no momento da execução «metteram-lhe uma bola de cobre na bocca; para
-que o povo não ouvisse o seu justo protesto contra a injusta sentença
-d’elles.» Recentes investigações arqueologicas teem tornado evidente uma
-mais intima connexão entre a Escocia e a Bohemia do que até então se
-suspeitava.
-
-=A Egreja romana na Escocia o a situação politica.=—A Egreja romana na
-Escocia era muito rica, e era talvez mais corrupta do que em qualquer
-outra parte fóra da Italia. A herança que lhe foi legada pela Egreja
-celta não era toda boa; os satyricos tinham começado a chamar a attenção
-para o contraste entre as profissões e as vidas dos ecclesiasticos,
-e os seus livros produziam grande impressão no povo baixo. «Quanto
-aos modos mais particulares por que muita gente na Escocia adquiriu
-algum conhecimento da verdade de Deus na epoca das grandes trevas,»
-diz João Row, «havia alguns livros, taes como _Sir David Lindsay, e as
-suas poesias ácerca das Quatro Monarquias_, que trata tambem de muitos
-outros pontos, e expõe os abusos do clero de aquelle tempo; os _Psalmos
-de Wedderburn_ e as _Balladas de Godlie_, em que se alteram para fins
-piedosos muitos dos antigos canticos papistas: e uma _Queixa_ feita
-pelos estropiados, cegos e pobres de Inglaterra contra os prelados,
-padres, freiras e outras individualidades da egreja que dispendiam
-prodigamente todos os dizimos e outros rendimentos ecclesiasticos em
-prazeres illicitos, de modo que elles, os queixosos, não podiam adquirir
-alimentação nem allivio, como Deus tinha ordenado. Estas coisas foram
-impressas, e penetraram na Escocia. Havia tambem peças dramaticas,
-comedias e outras historias notaveis, que eram representadas em publico;
-a _Satyra_ de Sir David Lindsay foi representada no amphitheatro de S.
-Johnston (Perth), na presença do rei James V, e de uma grande parte da
-nobreza e da classe abastada, durando a representação um dia inteiro,
-e fazendo sentir ao publico as trevas em que estava envolvido, e a
-perversidade dos homens da egreja, e mostrando-lhe como a Egreja de Deus
-seria se fosse dirigida de uma maneira differente, o que tudo foi muito
-benefico n’aquella ocasião.
-
-As riquezas da Egreja romana da Escocia tinham, havia muito, excitado a
-inveja dos barões, que esperavam a ocasião em que podessem, sem risco,
-apoderar-se de parte dos bens ecclesiasticos. Durante muito tempo não
-occorreu similhante opportunidade. O clero era um senhorio que gozava da
-estima geral. Os vassallos da Egreja estavam em muito melhores condições,
-e tinham uma vida mais descançada, do que aquelles que cultivavam as
-terras dos barões e de outras personagens de menor cathegoria. Os
-camponezes escocezes rir-se-hiam, talvez, com as satyras de David
-Lindsay, mas gostavam da Egreja, e perdoavam-lhe os defeitos.
-
-Quando os prégadores escocezes que tinham estado em Wittenberg, ou que
-tinham estudado as obras de Luthero e dos outros reformadores, ou que
-sabiam pela Escriptura o que era desejar ardentemente o perdão e a
-salvação, começaram a prégar um Evangelho reformado, então, e só então,
-é que o povo principiou a comprehender a mordaz significação das satyras
-que alvejavam a clerezia. As auctoridades ecclesiasticas fizeram todo
-o possivel para supprimir estes reformadores. Patricio Hamilton, Jorge
-Wishart e muitos outros prégadores cheios de fervor e de espiritualidade
-foram martyrisados; e estas crueldades contribuiram mais do que os
-sermões ou as satyras para que o povo escocez se desgostasse da Egreja
-romana. A sanguinaria Maria tinha tornado a Inglaterra protestante; e
-o cardeal Beaton, com os seus homicidios judiciaes, e particularmente
-com o homicidio do velho Walter Mill, fez com que o povo da Escocia se
-preparasse para Knox e para os lords da Congregação.
-
-Durante umas poucas de gerações a politica exterior da Escocia tinha
-sido de inimizade para com a Inglaterra e de amizade para com a França.
-A alliança com esta nação havia motivado o casamento da James V com uma
-princeza da casa de Guise, e, mais tarde, os esponsaes e casamento da
-herdeira do throno da Escocia com o delphim da França. James V morreu,
-ficando regente a rainha franceza, cuja conducta incutiu nos espiritos
-de muitos escocezes o receio de que a Escocia viesse a tornar-se uma
-provincia de França. Tinham sido nomeados francezes para cargos de
-confiança na Escocia; o castello de Dunbar tinha uma guarnição franceza;
-e a regente projectava crear um exercito permanente, segundo o systema
-francez. Este alarme foi tomando tal vulto que o partido nacional, que
-por fim triumphou, chegou a inverter a politica hereditaria da Escocia,
-e ficou tendo por objecto uma alliança com a Inglaterra e uma guerra
-com a França. A Inglaterra era protestante, emquanto que os verdadeiros
-senhores da França eram os Guises, os cabecilhas do fanatico partido
-romanista, os homens que planearam a carnificina de S. Bartholomeu.
-
-Tal era o estado das coisas na Escocia quando João Knox começou a sua
-admiravel obra de reformador.
-
-O povo estava educado acima da sua civilisação, e podia comprehender
-e saudar as novas idéas, tendo, como tinha, costumes grosseiros, e
-vivendo, como vivia, uma vida rude. A egreja tinha perdido a confiança da
-nação em virtude da immoralidade do clero, e por ultimo tinha excitado
-as paixões do povo contra si com a sua cruel perseguição de homens de
-uma vida immaculada que prégavam um Evangelho puro. Alguns dos barões
-tinham partilhado a revivificação religiosa começada pelos prégadores
-reformados; outros estavam anciosos por livrar o paiz do dominio francez,
-e outros, ainda, queriam a todo o transe seguir o exemplo da Inglaterra
-e enriquecer á custa da egreja. Todos estes motivos, uns puros e outros
-não, estavam agitando o povo da Escocia nos annos que precederam o de
-1560.
-
-=João Knox=, nascido em Giffordsgate, nos arredores de Haddington, em
-1505, educado na universidade de Glasgow, e ordenado padre em 1542,
-tornou-se primeiramente conhecido do povo da Escocia quando, muito novo
-ainda, andou em companhia de Jorge Wishart para proteger este prégador
-reformado emquanto elle dirigia a palavra a immensos auditorios.
-Depois do martyrio de Wishart, e do assassinio do cardeal Beaton, Knox
-aggregou-se á facção que havia tomado de assalto o castello de St.º
-André. Quando os defensores se viram forçados a capitular, os poucos
-membros da guarnição que estavam, incluindo Knox, foram enviados para
-França e condemnados á escravidão das galés. N’uma occasião em que puxava
-pelos remos, foi-lhe apresentada uma imagem da Virgem, de pau, para elle
-a beijar como meio de adoração. Knox recusou-se a honrar «o madeiro
-pintado», e atirou com a imagem ao mar, dizendo que, como ella era de
-pau, «não havia de ir para o fundo». Apoz um captiveiro de dezenove
-mezes, elle, juntamente com outros que haviam sido aprisionados em
-St.º André, foi solto a pedido de Eduardo VI de Inglaterra. Restituido
-á liberdade em fevereiro de 1549, foi direito a Inglaterra, onde se
-empregou como prégador viajante. A sua eloquencia, zelo e incomparavel
-coragem em breve o collocaram em primeiro plano. Foi-lhe offerecida a
-diocese de Rochester, mas recusou-a sob o fundamento de que não era sua
-crença que similhante cargo fosse auctorizado pelas Escripturas. Foi
-consultado ácerca da revisão dos _Artigos da Religião_, e suggeriu a
-celebre _declaração sobre o assumpto de ajoelhar na Communhão_, que ficou
-inserta no Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI (1552). A subida
-de Maria ao throno obrigou-o, apoz uma arrojada tentativa de proseguir na
-sua obra de prégador nomada, a retirar-se para o continente.
-
-Um anno foi gasto a visitar varias localidades da França e da Suissa. Em
-Genebra tornou-se o intimo amigo de Calvino. Apoz uma curta estada em
-Frankfort sobre o Maine, onde foi pastor da congregação de refugiados
-inglezes que se haviam ajuntado ahi, tornou-se o pastor da Congregação
-ingleza de Genebra em 1555. Durante a sua curta permanencia ahi tomou
-parte na composição de aquelle directorio do culto publico, que, sob os
-varios nomes de Livro de Ordem Commum, Livro de Genebra e Lithurgia de
-Knox, serviu de guia no culto publico da Egreja reformada da Escocia
-até á publicação e adopção do Directorio dos Theologos de Westminster.
-Collaborou tambem ma traducção da mais popular das primitivas versões da
-Sagrada Escriptura, a Biblia de Genebra.
-
-Durante a sua ausencia foi ganhando a pouco e pouco a reputação de ser o
-unico homem competente para conduzir os esforços do partido reformista da
-Escocia a satisfactorio resultado final; e no outomno de 1555 regressou
-á sua terra natal. Com a sua coragem habitual, começou logo a fazer
-predicas nos aposentos que occupava em Edinburgo, e fez alguns gyros
-predicativos, como, por exemplo, a Forfarshire, sob a protecção de
-Erskine de Dun, e a West Lothian, sob a protecção de Lord Torphichen. Foi
-durante esta visita que Knox principiou a administrar a Ceia do Senhor á
-moda reformada. A primeira celebração foi em casa do conde de Glencairn,
-na primavera de 1556.
-
-O Reformador, provavelmente, não achou o paiz em estado de entrar em
-qualquer grande movimento que o approximasse da Reforma, e partiu da
-Escocia para Genebra em Julho de 1556. Queixou-se da lentidão, timidez
-e falta de união entre os protestantes, quando alguns dos fidalgos
-lhe solicitaram, em Março de 1557, que voltasse, e mandou dizer que
-achava melhor addiar o seu regresso. Esta reprehenção deu logar a uma
-Confederação dos nobres, que depois se tornou bem conhecida na Escocia
-sob o titulo de Lords da Congregação.
-
-=A Congregação e a Primeira Convenção.=—O turbulento caracter dos
-barões escocezes, e a fraqueza da auctoridade central, tanto do rei
-como dos estados, eram origem de constantes confederações de homens de
-todas as classes para realisarem, com segurança, emprezas, umas vezes
-legaes, e outras illegaes. Os confederados promettiam ajudar-se uns aos
-outros na obra que se propunham executar, e defender-se mutuamente das
-consequencias que se lhe seguissem. Estas combinações eram geralmente
-redigidas em fórma legal por notarios publicos, e o seu cumprimento
-tornava-se obrigatorio mediante todas as formulas de garantia que a lei
-facultava. Estes Lords da Congregação seguiram um costume predominante
-em todas as confederações quando se alliaram para manter e dar maior
-desenvolvimento á bemdita palavra de Deus e á Sua congregação, e
-para renunciar á congregação de Satanaz com todas as supersticiosas
-abominações e idolatria que lhe eram inherentes; mas introduziram um
-novo sentido espiritual n’esta alliança quando o seu pacto de federação
-se tornou tambem uma promessa feita a Deus em publico, como as que
-encontramos no Antigo Testamento, de serem verdadeiros e fieis á Sua
-palavra e direcção. Esta «faixa assignada pelos Lords», como Calderwood
-lhe chama, foi a primeira das cinco convenções que se tornaram famosas na
-historia da Egreja Reformada da Escocia.
-
-A esta convenção estavam ligadas duas resoluções, em que os confederados
-resolveram insistir no uso do Livro de Oração de Eduardo VI nas paroquias
-que estivessem debaixo do seu governo e dar incremento á exposição das
-Escripturas, particularmente, pelas casas, até que as auctoridades
-permittissem a prégação publica «por verdadeiros e fieis ministros».
-
-Este acto reanimou grandemente todos aquelles que desejavam uma
-reformação, e fez com que o povo tivesse ousadia para exprimir a sua
-aversão pelas supersticiosas ceremonias da Egreja Catholica Romana. A
-Côrte, em 1559, prohibiu de prégar todos aquelles que não estivessem
-auctorizados pelos bispos; e, como não se fizesse caso d’essa prohibição,
-os prégadores foram intimados a apresentar-se no tribunal de Stirling.
-
-N’este entretanto Knox voltou á Escocia. Desembarcou em Leith, a 2 de
-Maio, e dirigiu-se a Perth, onde os Lords da Congregação se haviam
-reunido para proteger o seu prégador. Chegou a Perth a noticia, emquanto
-Knox estava prégando, de que os ministros reformados estavam proscriptos,
-e no dia seguinte, depois do sermão, quando um padre tentou dizer
-missa na presença de uma excitada multidão, produziu-se um tumulto, e
-a «vil turbamulta», segundo a expressão de Knox, entrou nos conventos
-dos franciscanos e dos cartuxos, e pôl-os a saque. A rainha regente
-marchou a atacar os sediciosos; o conde de Glencairn saiu a proteger
-os reformados; estava prestes uma guerra civil. Quasi immediatamente,
-porém, a rainha cedeu; de ambos os lados se entrou em negociações sem
-uma mutua confiança. Por fim os Senhores da Congregação marcharam sobre
-Edinburgo, tomaram posse da cidade em Outubro de 1559, e, convocando os
-estados, depozeram a regente. Concluiu-se um tratado com a Inglaterra,
-e Isabel mandou tropas inglezas para protegerem a Congregação. Houve um
-combate entre a facção romanista, auxiliada pelo exercito francez, e a
-Congregação, auxiliada pelas tropas que tinham ido de Inglaterra, e os
-francezes foram repellidos. A rainha regente morreu em junho do anno
-seguinte, e a Congregação ficou senhora da Escocia.
-
-Os estados do reino reuniram-se, e foi posto á sua deliberação um pedido
-da Congregação, referente a uma reforma de doutrina, de disciplina,
-de administração dos sacramentos, e da distribuição do patrimonio da
-egreja. Em resposta, os estados requisitaram um summario das desejadas
-reformas doutrinaes; e de ali a quatro dias foi-lhes apresentado um
-decumento, conhecido depois pelo nome de _Confissão Escoceza_. Foi tomado
-em consideração, os prelados fizeram algumas, poucas, observações,
-e, posto a votos, foi approvado quasi por unanimidade. Egual sorte
-tiveram as outras tres Actas, que aboliam a jurisdicção do papa no
-interior do reino, revogavam todas as anteriores determinações do
-parlamento que eram contrarias á Palavra de Deus e á Confissão de Fé
-recentemente adoptada, e prohibida a assistencia á missa e a outras
-ceremonias idolatras. E a religião reformada ficou sendo a religião da
-Escocia legalmente auctorizada. A auctoridade, comtudo, era o poder dos
-Estados, independentemente do soberano; pois que a rainha regente tinha
-fallecido, e a sua filha, Maria, rainha da Escocia, ainda não havia
-regressado da França.
-
-=A Confissão Escoceza, ou Confessio Scotica.=—Apresentada aos Estados,
-e englobada nas suas Actas quando adoptada por elles, foi a obra de
-seis reformadores escocezes: Knox, Spottiswood, Willock, Row, Douglas e
-Winram. Diz-se que Maitland de Lethington, tido na conta de um dos mais
-habeis estadistas do seu tempo, reviu o livro e attenuou algumas das suas
-declarações. Redigido á pressa por um pequeno numero de theologos, é mais
-complacente e humano do que a maioria dos credos, e por essa razão tem-se
-recommendado a muitas pessoas que não se conformam com a logica impessoal
-da Confissão de Westminster. As primeiras phrases do prefacio dão uma
-idéa geral do todo. «Ha muito tempo que anceiavamos, queridos irmãos, por
-notificar ao mundo a summula de aquella doutrina que professamos, e pela
-qual nos havemos sujeitado ás ignominias e aos perigos. Tal tem sido,
-porém, a ira de Satanaz contra nós e contra Jesus Christo, cuja verdade
-eterna se manifestou ultimamente entre nós, que até hoje não nos tem
-sido concedido tempo para desobstruir as nossas consciencias, o que com
-muito regozijo teriamos feito.» O prefacio expõe tambem mais claramemte
-do que qualquer outra Confissão do mesmo genero a reverencia com que os
-vultos da Reforma tratavam a Palavra de Deus. «Pedimos a qualquer pessoa
-que notar n’esta nossa Confissão algum artigo ou phrase que esteja em
-desacordo com a Santa Palavra de Deus, que, dando prova da sua caridade
-christã, nos advirta d’esse erro por escripto, e, pela nossa honra e
-fidelidade, promettemos dar-lhe satisfação pela bocca de Deus, isto é,
-mediante a Sua Santa Escriptura, ou então emendarmos aquillo que se
-demonstrar que precisa de correcção. Perante Deus deixamos escripto nas
-nossas consciencias que abominamos, do fundo do coração, todas as seitas
-hereticas, e todos os promulgadores de doutrinas erroneas; e que com toda
-a humildade abraçamos a pureza do Evangelho de Christo, que é o unico
-alimento das nossas almas.»
-
-A Confissão contém as crenças communs a todas as ramificações da Reforma.
-Encerra, outrosim, todas as doutrinas chamadas ecumenicas, isto é, as
-verdades expostas nos primeiros concilies ecumenicos, e incorporadas no
-Credo dos Apostolos e ao Credo Niceno; e accrescenta aquellas doutrinas
-de graça, de perdão e de luz mediante a Palavra e o Espirito que com a
-reviviscencia da religião adquiriram uma proeminencia especial. Esta
-Confissão é mais notavel pelos seus titulos suggestivos do que por
-qualquer peculiaridade de doutrina. A doutrina da revelação é, por
-exemplo, definida por si propria, independentemente da doutrina da
-Escriptura, mediante este titulo: «A Revelação da Promessa». A Eleição
-é considerada, segundo o antigo calvinismo, um meio de graça, uma
-evidencia do «invencivel poder» de Deus quanto á salvação. Os pontos
-em que a verdadeira egreja se distingue da falsa são, diz-se na dita
-Confissão a genuina prégação da Palavra de Deus, a adequada administração
-dos sacramentos, e a justiça na applicação da disciplina ecclesiastica.
-A auctoridade das Escripturas, affirma tambem, procede de Deus, nada
-tem que ver nem com homens nem com anjos; e a egreja sabe que ellas são
-verdadeiras, porque «a verdadeira egreja ouve e obedece sempre á voz do
-seu Esposo e Pastor.»
-
-Esta Confissão foi primeiro lida toda de uma vez no parlamento, e depois
-tornada a ler clausula por clausula. Randolpho, o embaixador inglez, que
-assistiu a essa leitura, descreveu-a a Cecilio, o grande ministro de
-Isabel, e entre outras coisas diz-nos que, quando se leram os artigos,
-alguns dos barões ficaram tão commovidos que se levantaram dos seus
-logares, declarando que estavam promptos a derramar o seu sangue em
-defeza da Confissão», e que Lord Lindsay, com uma gravidade raras vezes
-presenciada, disse: «Tenho vivido muitos annos; sou o mais edoso de todos
-quantos aqui se encontram; e agora que aprouve a Deus deixar-me chegar a
-este dia, em que tantas pessoas, algumas d’ellas pertencentes á nobreza,
-sanccionaram uma obra tão digna, direi como Simeão, _Nunc dimitis_».
-
-=A rainha Maria e a Reforma.=—A Reforma não tinha de triumphar na
-Escocia tão de repente e com tanta facilidade. Sir James Sandilands,
-encarregado de levar a Paris a Confissão de Fé, não só não conseguiu que
-a joven rainha a assignasse, como o informaram do desagrado com que ella
-soube dos acontecimentos occorridos na Escocia; e só apoz sete annos
-de lucta, que terminou com a deposição da soberana, é que a Confissão
-foi finalmente ratificada e a Egreja Reformada alcançou na Escocia um
-completo reconhecimento official.
-
-Francisco II, esposo de Maria, morreu em 1561, e a joven rainha chegou
-á Escocia em agosto do mesmo anno. Vinha acompanhada de um numeroso
-e brilhante sequito, do qual tambem faziam parte tres de seus tios,
-membros da casa de Guise, e o filho do famoso Condestavel de Montmorency.
-O duque de Guise e o cardeal de Lorena acompanharam-n’a até Calais.
-Os reformadores escocezes conheciam bem os homens que rodeiavam a sua
-rainha, e que tão ostensivamente se achavam dispostos a protegel-a.
-Era do dominio publico que o duque de Guise estava á frente de aquelle
-partido que ambicionava exterminar os protestantes francezes por meio
-de um massacre geral. Fôra elle, segundo se presumia, o instigador do
-assassinio judicial de Anne de Bourg, e que havia planeada a, carnificina
-de Amboise. A devassidão dos Guises só era excedida pela sua deshumana
-crueldade. Taes eram os homens que passaram á Escocia para acompanhar e
-aconselhar a joven rainha.
-
-Não é, pois, para surprehender que, ponderando estas coisas, Knox e os
-seus amigos reputassem a vinda da rainha uma grande calamidade, e que
-vissem no nevoeiro e chuva que durante dois dias caiu sobre a costa
-oriental da Escocia, um como que aviso do céu, uma manifesta exposição da
-felicidade que ella trouxera comsigo para aquelle paiz, felicidade que
-se poderia traduzir por estas palavras: afflicção, dôr, obscurantismo e
-impiedade.
-
-A belleza physica, o privilegiado talento, os infortunios e o tragico fim
-da joven rainha teem-n’a circumdado de uma aureola romantica. E, comtudo,
-nem mesmo os seus admiradores teem feito inteira justiça á sua indomavel
-coragem e aos seus grandes dotes intellectuaes. Estava quasi só ao voltar
-para o seu paiz natal, e viu immediatamente que coisa alguma devia
-esperar da França e que necessitava de crear um partido em que podesse
-descançar confiadamente. Era uma rapariga de dezenove annos quando saiu
-de França; apezar d’isso, Knox, que teve com ella algumas entrevistas
-pouco depois da sua chegada, parece ter reconhecido n’ella uma mulher
-superior, e ter-se compenetrado de que havia motivo para receiar que uma
-das duas, ou a rainha ou a Reforma, tivesse de ir a terra. O combate que
-ella sustentou sósinha com a Reforma foi observado com anciedade por toda
-a Europa; e, se ella não tivesse sido educada n’uma côrte tão corrompida,
-e se não tivesse convergido para ella o odio que aquelles seus parentes,
-os Guises, haviam inspirado, podia muito bem ser que ficasse victoriosa.
-Poderá parecer cruel fallar d’este modo, agora que o perigo já lá vae
-ha seculos, mas o que é verdade é que bastantes familias pacificas e
-religiosas, tanto na Hollanda, como na França, como no Paiz do Rheno, e
-com mais razão ainda na Escocia e na Inglaterra, só respiraram á vontade
-quando o machado poz finalmente, em Fotheringay, termo á triste e agitada
-vida da rainha Maria.
-
-A lucta começou com a sua chegada. Ella e a sua côrte foram, com todo
-o espavento, ouvir missa logo no primeiro domingo, posto que fosse
-prohibido dizer e ouvir missa, sob pena de um severo castigo. Principiou,
-pois, por infringir as leis do estado, d’esse mesmo estado que havia
-implantado a Reforma. Se quizessemos contar detalhadamente o que de ahi
-em deante se passou encheríamos umas poucas de paginas. Apoz sete annos
-de lucta, Maria foi aprisionada no castello de Lochleven, e deposta,
-sendo collocado no throno o seu filho, ainda na infancia, James VI, e
-ficando como regente do reino seu irmão James Stewart, conde de Moray.
-O parlamento escocez votou novamente a Confissão de Fé; o regente
-assignou-a em nome do soberano; e, assim ratificado, foi incluido na
-legislação do paiz e a religião reformada ficou sendo a reforma do
-christianismo legalmente reconhecida na Escocia.
-
-=O Livro de Disciplina e a primeira assembléa geral.=—Pouco depois
-de o parlamento de 1560 ter encerrado as suas sessões, os auctores
-da Confissão foram encarregados de apresentar uma breve exposição do
-melhor systema de governo de uma egreja reformada. Surgiu então aquelle
-notavel documento que depois se chamou o Primeiro Livro de Disciplina, e
-que constituiu a primeira formula de governo ecclesiastico na Escocia.
-Dividia-se em sessões da egreja, synodos e assembléas geraes; e concedia
-o titulo de officiaes da egreja aos ministros, professores, presbyteros,
-diaconos, superintendentes e ledores. Os auctores do Livro de Disciplina
-declararam ter ido procurar directamente ás Escripturas as linhas
-geraes de aquelle systema de governo ecclesiastico a adoptar o qual
-elles aconselhavam os seus compatriotas, e havia, indubitavelmente,
-muita sinceridade, a par de muita exactidão, n’essa sua affirmativa.
-Eram, comtudo, todos elles, homens affeiçoados á Egreja de Genebra,
-e tinham tido relações pessoaes com os protestantes da França. A sua
-fórma de governo foi, evidentemente, inspirada pelas idéas de Calvino,
-e segue de perto as Ordenanças Ecclesiasticas da Egreja franceza. Os
-officios de superintendente e leitor foram addicionados aos outros tres,
-ou quatro, que caracterizam a fórma de governo presbyteriana. O cargo
-de superintendente devia a sua origem á situação incerta do paiz e á
-escassez de pastores protestantes. Os superintendentes tinham a seu cargo
-divisões territoriaes que não correspondiam exactamente ás dioceses
-episcopaes, e competia-lhes apresentar á Assembléa Geral relatorios
-annuaes do estado ecclesiastico e religioso das respectivas provincias.
-Os leitores deviam a sua existencia ao reduzido numero de pastores
-protestantes, á grande importancia que os primitivos reformadores
-escocezes davam a um ministerio educado, e tambem á difficuldade de obter
-fundos para a sustentação dos pastores de todas as paroquias. O Livro de
-Disciplina contém um capitulo sobre o patrimonio da egreja, que insiste
-na necessidade de reservar os dinheiros possuidos pela egreja para a
-manutenção da religião, as despezas com a educação, e os socorros dos
-pobres. Foi a existencia d’este capitulo que fez com que os Estados não
-aceitassem o livro com tanta promptidão como o fizeram com a Confissão
-de Fé. Os barões de diversas categorias, que tinham assento na camara,
-haviam-se, em muitos casos, apropriado do patrimonio da egreja em seu
-beneficio particular, e não queriam assignar um documento que condemnava
-o seu modo de proceder. O Livro de Disciplina, approvado pela Assembléa
-Geral, e assignado por um grande numero de nobres e burguezes, nunca
-recebeu a sancção official concedida á Confissão.
-
-A Assembléa Geral da Egreja Reformada da Escocia reuniu-se pela primeira
-vez em 1560, e, a despeito da luta em que a egreja se achava envolvida,
-houve, pelo menos, uma reunião por anno, e algumas vezes mais, podendo
-assim a egreja organizar-se e entrar em plena actividade.
-
-Fez-se uma traducção do _Catecismo para a Infancia_, de Calvino, e
-deu-se ordem para que se fizesse uso d’ella. O Livro de Ordem Commum,
-ou a Lithurgia de Knox, foi substituindo a pouco e pouco a Lithurgia do
-rei Eduardo VI, e a Egreja Reformada da Escocia, com a sua Confissão,
-a sua constituição ecclesiastica, o seu methodo de culto publico e as
-suas provisões para a instrucção das creanças, espalhou-se pelo paiz,
-levantando egrejas, melhorando o estado moral do povo e contribuindo
-efficazmente para a educação do mesmo.
-
-Uma das principaes dificuldades com que a egreja teve de luctar foi
-falta de dinheiro para pagar aos ministros. A Egreja Catholica Romana
-tinha sido officialmente abolida, e, comtudo, não se havia feito
-provisão alguma para a manutenção do clero reformado. A propriedade
-ecclesiastica estava em condições anormaes. Até 1560 a Egreja Catholica
-Romana da Escocia vinha sido muito opulenta, e havia estado de posse
-de uma grande parte do territorio da nação. Emquanto a egreja estivera
-luctando com Maria e procurando frustrar os esforços que ella empregava
-para introduzir de novo a religião e hierarquia romanista, os prelados
-distribuiram uma grande parte dos bens ecclesiasticos por quem elles
-muito bem entenderam, os nobres apoderaram-se de uma parte d’elles ainda
-maior, e o que restava e nominalmente pertencia á egreja estava nas mãos
-de homens que se intitulavam bispos, abbades, priores, deãos e curas,
-mas que nunca haviam recebido ordens, eram protestantes só no nome, e
-se serviam de aquelles titulos ecclesiasticos para poderem usufruir as
-propriedades a que o cargo dava direito. Depois de alguma discussão,
-a Assembléa obteve do Estado que aquelas pessoas que conservavam em
-seu poder bens que nominalmente pertenciam á egreja ficassem com dois
-terços de rendimento para as suas despezas particulares, e entregassem
-a restante terça parte para a manutenção do ministerio e das escolas,
-e para os encargos de beneficencia. A Egreja Reformada, porém, teve
-muita difficuldade em ver esta disposição convertida em lei, e assim,
-durante os primeiros annos da Reforma os ministros e as escolas
-foram principalmente mantidos por meio de offertas voluntarias, ou
-«benevolencias», como Knox pittorescamente lhes chamava.
-
-=A Educação.=—As idéas democraticas do presbyterianismo, avolumadas pela
-necessidade de cooperar com o povo, fizeram com que os reformadores
-escocezes se ocupassem seriamente da educação popular. Todos os
-impulsionadores da Reforma, quer na Allemanha, quer na França, quer na
-Hollanda, tinham reconhecido a importancia de esclarecer o povo; mas a
-Hollanda e a Escocia foram talvez os dois paizes onde a tentativa foi
-mais bem succedida. A educação do povo não era uma novidade na Escocia
-e, posto que nos agitados tempos que precederam a Reforma as escolas
-superiores tivessem desapparecido, e as universidades tivessem caido em
-decadencia, o desejo de aprender não se havia extinguido por completo.
-Knox e o seu amigo Jorge Buchanan tinham um plano magnifico para crear
-escolas em todas as freguezias, estabelecer collegios superiores
-em todas as cidades importantes e augmentar o poder e influencia
-das universidades. O seu plano, devido á cubiça dos barões que se
-haviam apoderado dos bens da egreja, pouco mais era do que uma devota
-imaginação, mas havia-se apossado do espirito da Escocia, e a falta de
-dotações era mais do que compensada pelo desejo ardente que o povo tinha
-de se instruir. As tres universidades, de Santo André, de Glasgow e de
-Aberdeen, receberam uma nova vida, e fundou-se uma quarta universidade,
-a de Edinburgo. Alguns estudantes escocezes que haviam recebido educação
-nas escolas continentaes, e que haviam abraçado a fé reformada, foram
-encarregados de superintender o re-organizado systema educativo do
-paiz, e tudo se fez em harmonia com o viver do povo, preferindo-se,
-nas escolas, e externato ao internato, e estabelecendo um systema de
-inspecção que era exercido, em cada circumscripção escolar, por um dos
-homens mais espirituaes e de maiores conhecimentos. Knox estava tambem
-disposto a impôr ás duas classes da sociedade, a mais baixa e a mais
-elevada, uma frequencia obrigatoria ás aulas; quanto á classe media,
-elle confiava no seu natural desejo de aprender. E desejava que o Estado
-exercesse a sua auctoridade no sentido de compellir os mancebos de
-posição a matricularem-se nas escolas superiores e nas universidades,
-para que podessem prestar serviços uteis á nação.
-
-=A morte de Knox.=—João Knox morreu em novembro de 1572. O assassinio do
-seu amigo, o conde de Moray, o Bom Regente, havia-lhe feito uma grande
-impressão, e a noticia do massacre de S. Bartholomeu, que havia chegado
-recentemente á Escocia, produziu-lhe um tremendo abalo. Elle nunca havia
-sido um homem robusto, e durante a sua vida havia passado por muitos
-trabalhos, mas o seu intrepido espirito a tudo resistira. «Ignoro» diz
-Smeaton, «se Deus poz jámais n’um corpo debil e franzino uma alma maior e
-mais santa do que a d’elle». As forças começaram a faltar-lhe muito antes
-de adoecer gravemente, mas luctou sempre contra o seu precario estado de
-saude, e nunca deixou de prégar e exhortar como costumava fazer. James
-Melville, que teve occasião de o ver quando estudava em Santo André,
-apresenta-nos um retrato d’elle pouco antes da sua morte. «Via-se que
-andava doente. Todos os dias eu o via passar para a egreja paroquial,
-andando muito cautelosamente, com o pescoço resguardado por uma pelle, de
-bengala na mão, e acompanhado pelo seu creado, o bom Ricardo Ballanden.
-Era esse dito Ricardo e um outro creado que o ajudavam a subir para o
-pulpito, a que elle se encostava durante algum tempo; logo, porém, que
-entrava no sermão, enchia-se de uma actividade e de um vigor taes que
-esse mesmo pulpito por pouco escapava de ficar feito em cavacos.»
-
-Morreu antes de ter effectuado por completo a sua obra, pois que a Egreja
-Reformada ainda tinha muitos obstaculos a vencer, e o facto de Knox não
-tomar parte na batalha tornava-lhe mais difficil o sair victoriosa. Elle
-não possuia a erudição de Calvino, nem uma disposição para se tornar
-popular, como Luthero, mas nenhum homem o poderia egualar em coragem.
-«Elle nada temia da carne, nem tão pouco a lisongeava.» E foi isso o que
-fez o reformador da Escocia.
-
-Como os seus contemporaneos francezes, tinha tanto de estadista como de
-dirigente ecclesiastico, e emquanto viveu foi o guia do povo escocez.
-Os nobres de bom grado teriam intervindo no movimento, e lhe teriam
-dado uma feição mais em obediencia ao seu modo de pensar, mas Knox fez
-do pulpito a força mais poderosa da Escocia, e com as suas ousadas
-prégações creou uma opinião publica com que era preciso contar. Elle era,
-individualmente, um homem de profunda espiritualidade, e «temia a Deus,
-mas coisa alguma fóra d’Elle lhe mettia medo».
-
-=Os bispos tulchanos.=—O poder da Egreja Reformada da Escocia foi
-consideravelmente fortalecido e consolidado mediante o caracter
-representativo dos seus conselhos, e, mais especialmente, da sua
-Assembléa Geral, e a liberdade com que todos os assumptos de interesse
-para a nação eram ahi tratados e discutidos deu á Assembléa da Egreja o
-caracter de um parlamento nacional onde o povo da Escocia encontrava uma
-defeza mais efficaz do que nos Estados do reino. Os olhos perspicazes
-da rainha Maria haviam discernido esta força da egreja, e ella empregou
-varios esforços, sempre infructiferos, para impedir a reunião da
-Assembléa Geral. Depois da morte do conde Moray, o Bom Regente, isto é,
-durante as regencias de Lennox, Mar e Morton, e durante o reinado de
-James, a Assembléa foi sempre mal vista por aquelles que ambicionavam um
-poder exclusivo. Sabia-se, porém, que era perigoso dirigir-se á Assembléa
-um ataque directo, e aqueles que no Estado dispunham do poder tentaram
-diminuir-lhe a auctoridade promovendo ecclesiasticos e elevando-os a
-posições que lhes permittissem tomar assento nos Estados e defender ahi
-as prerogativas da egreja. Depois da morte do regente Moray, a nobreza
-tratou constantemente de derrubar o governo episcopal, e collocar a
-Egreja sob o dominio dos bispos.
-
-Uma outra, e talvez mais visivel, causa por que aquelles estavam em
-auctoridade antipathisavam com a simples constituição presbyteriana que
-o Livro de Disciplina havia preceituado á Egreja era o facto de ella
-dar pouca occasião a que as receitas fossem espoliadas, ao passo que a
-nomeação de bispos reunia uma grande proporção dos dinheiros da Egreja em
-meia duzia de mãos, habilitava os patronos e entrar em negocios com os
-ecclesiasticos que elles nomeassem para esses cargos, desviando-se assim
-uma grande parte dos fundos de que a Egreja ainda estava de posse para as
-algibeiras dos fidalgos de primeira plana.
-
-Pouco antes da morte de Knox, a Assembléa, não sem protesto, tinha, a
-instancias dos Lords do Conselho, concordado em acceitar ecclesiasticos
-com o titulo de bispos, debaixo de certas condições, sendo as
-principaes as seguintes: os bispos não teriam um poder superior ao dos
-superintendentes, haviam de estar sujeitos á Assembléa Geral, e não
-seriam nomeados sem que devidamente se providenciasse quanto ao sustento
-do ministerio regular. Este accordo, chamado a _Convenção de Leith_, foi
-devido principalmente ás diligencias de João Erskine, o antigo amigo
-de Knox, um dos primitivos superintendentes, e que por mais de uma vez
-exerceu na Assembléa o logar de Moderador. Alguns annos de experiencia
-mostraram á egreja escoceza o perigo que para a sua vida livre, para a
-sua vida democratica, provinha das disposições desta convenção, e pouco
-depois da morte de Knox appareceram symptomas de um proximo conflicto.
-
-O mais flagrante exemplo do uso que os nobres mais proeminentes faziam
-d’estes bispos para defraudar a Egreja occorreu em 1581, que foi quando
-Boyd, o arcebispo de Santo André, morreu. Assim que o edoso prelado
-faleceu, o duque de Lennox resolveu apoderar-se das propriedades da
-sé. Era impossivel pôr similhante coisa em pratica sem um legalisado
-artificio, e o plano escolhido foi induzir Roberto Montgomery, ministro
-em Stirling, a acceitar o cargo de arcebispo, tornar-se d’esse modo
-herdeiro dos bens da sé, e passar depois os respectivos rendimentos para
-as mãos de Lennox. Este caso foi, talvez, o peior d’elles todos; mas em
-toda a Escocia se procedeu de uma fórma analoga, nomeando-se bispos,
-abbades, etc., para que podessem tomar legalmente posse dos dinheiros
-da Egreja, e, em vez de se lhes dar a devida applicação, passal-os para
-os bolsos dos patronos seculares. O povo chamava a estes bispos, assim
-como a quaesquer outros dignitarios que se prestavam a essas burlas,
-tulchanos, e a primeira lucta com os bispos escocezes não foi uma
-contestação entre o presbyterio e o episcopado, mas entre a Egreja, que
-queria a todo o custo conservar o seu patrimonio, e esses tulchanos.
-Quando na Assembléa se tratou do caso de Montgomery, «o moderador, David
-Dickson, pediu licença para expôr a significação de bispos tulchanos.
-Tratava-se de uma palavra em uso vulgar entre os montanhezes da Escocia.
-Quando uma vacca não se deixa mungir, põem junto d’ella uma pelle de
-vitello, empalhada, e é a essa pelle que chamam _tulchan_. Ora para
-esses bispos que possuíam o titulo e o beneficio, sem desempenharem o
-cargo, não se encontrou denominação mais significativa do que a de bispos
-tulchanos.»
-
-=André Melville.=—João Knox morreu quando este conflicto entre a Côrte
-e a Egreja estava no principio, e era necessario fazel-o substituir
-por outro dirigente. Entre os escocezes illustrados que o triumpho da
-Reforma e a renascença das letras haviam attraido para o seu paiz natal,
-André Melville era o que mais se tinha distinguido. Nascido, em 1545, em
-Baldovy, perto de Montrose, recebeu a sua educação na Escola Primaria
-d’essa cidade, e no Collegio de St.ª Maria, em St.º André. De ahi foi
-para Paris, onde teve por professor o celebre Pedro Ramus. Depois de
-terminar os estudos, obteve em Genebra uma cadeira de latim, e em 1574
-voltou á Escocia, com a reputação de um dos mais eminentes sabios da
-Europa. Pouco depois do seu regresso foi nomeado reitor da universidade
-de Glasgow, e por tal fórma dirigiu esse estabelecimento de instrucção
-que correu a matricular-se n’elle um elevadissimo numero de mancebos, não
-só escocezes como estrangeiros.
-
-Foi um dos membros da Assembléa de 1575, em que a questão do presbyterio
-e do episcopado tomou pela primeira vez um caracter serio; e fez parte
-da comissão nomeada por essa Assembléa para considerar se o nome e
-deveres de um bispo tinham alguma auctorização biblica, isto é, se os
-bispos que havia n’aquelle tempo na Egreja da Escocia estavam ali, e
-desempenhavam os seus cargos, em obediencia á Palavra de Deus. A decisão
-a que se chegou foi que o nome de bispo pertencia a todos os pastores da
-Egreja de quem se havia confiado congregações, mas que tambem podia ser
-applicado aos ministros escolhidos por seus irmãos para implantar egrejas
-e inspeccionar as egrejas existentes, e o sentimento geral da Egreja a
-este respeito pode colligir-se d’estas tres expressões, que indicam tres
-especies de bispos: My Lord Bishop (_Meu Senhor Bispo_), My Lord’s Bishop
-(_Bispo do Meu Senhor_), e Lord’s Bishop (_Bispo do Senhor_), sendo os
-primeiros catholicos romanos, os segundos tulchanos, e os terceiros
-pastores das congregações.
-
-=O Segundo Livro de Disciplina.=—Quando a Egreja Reformada da Escocia se
-encontrou face a face com estes novos problemas ecclesiasticos, sentiu
-necessidade de um mais distincto e mais completo schema de governo da
-egreja do que aquelle que o Primeiro Livro de Disciplina continha. Esse
-systema de governo da egreja havia sido preparado á pressa, e fazia
-menção de differentes materias que estavam fôra da esphera de um livro
-de preceitos ecclesiasticos. A Assembléa de 1576 nomeou uma commissão
-para tratar d’esse assumpto, e redigir um livro que podesse substituir
-a obra de Knox e de Row. O dito livro foi escripto de vagar, com muita
-perseverança, e finalmente em 1578 deu-se ordem para que o _O Segundo
-Livro de Disciplina_ fosse impresso, afim de sujeital-o á critica e se
-fazerem as necessarias correcções. Tres annos se dispenderam em ponderar
-todos os seus pontos, todas as suas phrases, e o Livro de Politica, como
-se lhe chamou, foi então acceite pela Assembléa e incluido nas suas Actas.
-
-Este livro, que apresenta, n’um estylo conciso e claro, o esboço do
-governo da Egreja Presbyteriana na Escocia, começa por fazer distincção
-entre as leis ecclesiasticas e civis, e reivindica para a Egreja «uma
-politica differente da politica do Estado». O conjuncto do governo da
-egreja, diz o livro, comprehende doutrina, disciplina e distribuição; e
-para este triplice governo ha um triplice officialato, que se divide em
-pastor, ou bispo, presbytero e diacono. O Livro de Disciplina addiciona
-um quarto oficio, ou de doutor, ou ensinador. N’um curto capitulo vem
-descripta a natureza da vocação, assim como o modo da eleição e ordenação
-dos pastores. Faz-se tambem uma descripção dos deveres que cabem a cada
-uma das dignidades, e das varias assembléas em que aquelles que estão
-d’ellas revestidos teem de comparecer, no exercicio dos seus cargos. É
-singular que no anno que precedeu o da adopção do Livro de Disciplina
-pela Assembléa recebesse o seu complemento a organização presbyteriana
-da Egreja Escoceza mediante o universal reconhecimento do presbyterio
-como um tribunal superior á sessão da egreja, mas inferior ao synodo;
-e que este livro de politica não faça menção especial de similhante
-tribunal, que actualmente exerce funcções tão importantes na organização
-presbyteriana escoceza.
-
-Como a publicação do _Segundo Livro de Disciplina_ a Egreja Reformada da
-Escocia completou a sua organização ecclesiastica, e terminou a primeira
-parte da sua historia. A Reforma estava por esse tempo firmemente
-estabelecida, e o protestantismo tinha empolgado o povo da Escocia. A
-Egreja tinha deante de si uma longa lucta; o conflito, porém, não era com
-o papismo, mas com o Estado; não era no sentido de reformar a religião,
-mas de desenvolver e preservar a fórma democratica do governo da Egreja,
-que se impunha ao povo como sendo a mais conforme com a Palavra de Deus,
-e a mais adequada para a habilitar a desempenhar os seus deveres de
-Egreja de Christo.
-
-Em 1574 a Escocia achava-se em curiosas circumstancias ecclesiasticas.
-Haviam-se conservado as paroquias que existiam antes da Reforma, e cujo
-numero era superior a mil. Para seu funccionamento havia 289 ministros
-e 715 leitores, e muitos d’estes ultimos eram os padres catholicos
-romanos que tinham vindo para a religião reformada mas que não possuiam
-uma educação sufficiente para justificar a sua ordenação como pastores
-protestantes. Estas paroquias passaram depois a constituir presbyterios,
-os presbyterios foram agrupados em synodos, e o conjuncto estava sob a
-direcção da Assembléa Geral. A organização presbyteriana era, n’um certo
-sentido, completa. A par d’isto, porém, existiam as velhas dioceses,
-anteriores á Reforma, em numero de treze, na sua maior parte occupadas
-por homens que eram ministros protestantes, que haviam tomado o titulo
-de bispos, mas que não exerciam funcções episcopaes. Apenas tres
-d’esses bispos, o de St.º André, o de Glasgow e o de Aberdeen, haviam
-tentado exercer a jurisdicção episcopal, e não o tinham feito tanto na
-qualidade de bispos, como de superintendentes. Os bispos tinham assento
-no parlamento escocez, e os seus deveres principaes eram administrar as
-receitas da cathedral e desempenhar as funcções judiciaes que eram da
-competencia dos bispos n’outro tempo, anteriormente á Reforma.
-
-Esta organização episcopal vivia lado a lado com a activa e aggressiva
-constituição presbyteriana da Egreja. O estado dos negocios ainda mais
-anomalo se tornava com o facto de ainda viverem, e exercerem a sua
-fiscalização, tres dos antigos superintendentes; e os districtos dos
-outros superintendentes eram governados por commissarios provisorios
-nomeados pela Assembléa, que podia demittil-os quando entendesse.
-
-O fim que a Egreja tinha em vista com o conflicto que durou desde 1574
-até 1638 era acabar inteiramente com aquillo a que chamava a inutil e
-nociva organização episcopal, que não tinha ligação alguma com a obra
-espiritual da Egreja, e substituir os superintendentes e commissarios
-por presbyteros, unindo assim a Egreja n’um todo harmonico. O fim que a
-côrte tinha em vista era conservar o velho systema episcopal, e, mediante
-elle, ir gradualmente dividindo a Egreja em fragmentos, cada um d’elles
-governado por um bispo que só era responsavel para com o parlamento; e,
-no fim de tudo, restabelecer o episcopado no velho sentido da palavra, e
-derribar por completo a constituição presbyteriana.
-
-O anno de 1638 foi o do triumpho da Egreja, mas a historia completa
-d’esta lucta ultrapassa os limites da presente obra.
-
-
-
-
-III PARTE
-
-A REFORMA ANGLICANA
-
-CAPITULOS:
-
- I—A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII.
-
- II—A REFORMA SOB EDUARDO VI, E A REACÇÃO SOB MARIA.
-
- III—A REFORMA SOB ISABEL.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII
-
- O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag.
- 157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O
- estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma,
- pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag.
- 160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado,
- pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII,
- Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles,
- pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da
- separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas
- coisas differentes, pag. 168.—Execução da sir Thomaz More, pag.
- 169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades
- da Egreja, pag. 170.—_Os Dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto
- Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag.
- 173.
-
-
-=O caracter excepcional do Principio da Reforma inglesa.=—A Egreja
-e o povo inglez romperam com o systema ecclesiastico medieval em
-circumstancias tão excepcionaes que é impossivel considerar esse
-rompimento como fazendo parte da Reforma, ou como tendo muita coisa
-em commum com os movimentos contemporaneos na Allemanha e na França.
-Emquanto durou o reinado de Henrique VIII, a Egreja de Inglaterra, que
-se havia separado do papa, pouco ou nada tinha de commum com a Reforma.
-O que durante aquelle reinado se fez foi simplesmente demolir a Egreja
-da edade media. A verdadeira Reforma começou no reinado de Eduardo VI,
-e a sua adopção formal teve logar no de Isabel. Henrique VIII destruiu
-a supremacia do papa, tanto espiritual como temporal; derrubou a grade
-ecclesiastica que unia a Egreja de Inglaterra á grande Egreja Occidental
-governada pelo bispo de Roma, mas não poz coisa alguma duradoura em seu
-logar. O seu fim era estabelecer um papado real, tão despotico e ainda
-mas secular do que aquelle que elle estava destruindo, sobre as minas
-da jurisdicção do bispo de Roma. A Egreja que elle construiu segundo o
-seu modelo não durou mais do que a vida d’elle; mas a sua obra durou o
-bastante para dar á Reforma da Egreja de Inglaterra, quando ella mais
-tarde se tornou um facto, aquelle caracter particular que a distinguiu
-dos movimentos do mesmo genero occorridos n’outros paizes. O objecto
-de Henrique era modificar de tal modo as condições ecclesiasticas da
-Inglaterra que o rei occupasse o logar do papa, e ficasse governando,
-não só temporal como espiritualmente, de modo que, mediante a Egreja,
-tivesse sobre os seus subditos um dominio absoluto. Todas as reformas de
-doutrina, de culto e de costumes eram tão abominaveis para Henrique como
-para o bispo de Roma.
-
-=Antecipações da Reforma em Inglaterra.=—Os historiadores ecclesiasticos
-fazem, geralmente, datar os principios da Reforma do tempo de João
-Wycliffe, o qual, no seculo quatorze, era, por assim dizer, a bocca da
-Inglaterra, revoltando-se contra a supremacia espiritual e temporal que
-o papa tinha no reino; mas é muito para duvidar que a sua influencia
-continuasse a ser exercida sobre o povo inglez até ao seculo dezeseis,
-e por tal fórma que a ella se devam attribuir os desejos de Reforma que
-enchiam os corações de muitas pessoas de bons sentimentos religiosos.
-
-Como Francisco de Assis e outros reformadores e revivificadores da
-Edade Media, Wycliffe tinha abraçado apaixonadamente a idéa de que os
-beneficios da salvação só podem ser aproveitados por aquelles que imitam
-Christo, e que para imitar Jesus Christo torna-se indispensavel viver na
-pobreza como Elle. Declarou, portanto, guerra aberta ao bem estipendiado
-clero da opulenta Egreja de Inglaterra, e prégava que a Egreja, para ser
-realmente de Christo, devia ser, pobre. Dizia que o Estado não faria mais
-do que beneficiar a Egreja tirando-lhe a riqueza, pois que era esta um
-obstaculo a que ella se parecesse com o seu Mestre. Em conformidade com
-estas idéas, organisou um corpo de prégadores ambulantes, denominados
-prégadores pobres, os quaes, tendo, a muitos respeitos, parecenças com
-os evangelistas do movimento wesleyanno, andavam por toda a Inglaterra,
-proclamando a doutrina da humildade. Era um fervoroso admirador dos
-grandes juristas medievaes, taes como Guilherme de Ockham, o querido
-mestre de Luthero, Marsillio de Padua, e Pedro Dubois de Paris. Elles
-haviam proclamado, n’uma epoca muito anterior, que o Estado não era outra
-coisa senão o povo; e Wycliffe, seguindo-lhes o exemplo, insistia em que
-a Egreja não era outra coisa senão o povo. Ora isto atacava o systema
-da Egreja medieval, que se apoiava na noção de que a verdadeira Egreja
-era o clero, e de que o povo só fazia parte d’ella quando se punha em
-contacto com os clerigos, que eram depositarios dos sacramentos. Foi por
-esse motivo que elle traduziu a Biblia, que era o Livro da Egreja, e,
-portanto, do povo christão, e não sómente do clero. As idéas da Wycliffe
-foram avidamente adoptadas por uma grande parte da população ingleza,
-e os seus discipulos, os lollardos, constituiram, por algum tempo, uma
-fortissima aggremiação.
-
-O lollardismo foi indubitavelmente uma preparação para a Reforma,
-e os homens biblicos, como lhes chamavam, teriam exercido uma
-grande influencia sobre o povo, no sentido de o predisporem para uma
-revivificação da religião espiritual se tivessem existido na epoca em
-que se operou o movimento reformador. Não se pode, porém, provar que
-elles communicassem com essa geração, e não ha indicio algum de que
-nos reinados de Henrique VII e Henrique VIII estivesse desenvolvido o
-gosto pela leitura da Biblia ou houvesse uma corrente de sympathia pelos
-prégadores pobres. O povo inglez, tomado na sua totalidade, parece não se
-ter inclinado para a Reforma antes do tempo de Isabel.
-
-=O estado ecclesiastico da Inglaterra no principio da Reforma.=—Quando
-começou na Allemanha o movimento da Reforma, houve, sem duvida, muitos
-inglezes que se sentiram attraidos para o reformador saxonio, e que
-desejaram ver introduzido na Egreja um credo mais simples e mais em
-harmonia com a Palavra de Deus, e uma fórma de culto como a que era
-usada nos tempos apostolicos; mas a maioria não partilhava essas idéas.
-Havia, certamente, muitissimas pessoas que desejariam ver modificados os
-costumes dos clerigos, e especialmente o caracter moral dos frades, e
-que ficariam satisfeitas se as propriedades da Egreja fossem sujeitas a
-impostos e os grandes rendimentos dos bispados e das abbadias soffressem
-alguma diminuição. E eram em numero sempre crescente as que se sentiam
-desgostosas com a ignorancia do clero, e que, por motivos politicos ou
-sociaes, desejavam ver cerceada a influencia do bispo de Roma. Não lhes
-agradava a sua interferencia nas questões politicas, e indignava-os a
-saida de grossas quantias para fóra do reino.
-
-Não é provavel que o caracter moral do clero romano fosse peior em
-Inglaterra do que em qualquer outro paiz, mas o que é verdade é que os
-padres, com a sua conducta, desacreditavam a Egreja. O clero era de uma
-ignorancia crassa, e havia, talvez, em Inglaterra menos conhecimento das
-Escripturas do que na França ou na Allemanha, pois que, desde a epoca
-do lollardismo, a leitura da Biblia era considerada um acto criminoso.
-A Biblia era um livro desconhecido para os padres, e Erasmo conta que
-viu, preso por uma corrente a uma coluna da cathedral de Canterbury um
-Evangelho de Nicodemos que era lido como fazendo parte da Escriptura
-canonica.
-
-O alto clero pouco tinha que fazer na Egreja, e occupava-se em dirigir
-os negocios do Estado, ou em presidir ás audiencias nos tribunaes de
-justiça. O arcebispo de Canterbury era Lord Chanceller, o bispo de
-Winchester director geral da Thesouraria, o bispo de Durham secretario de
-Estado, e o bispo de Londres guarda-mór dos arquivos. Os bispos de Bath,
-Hereford, Llandaff e Worcester nem sequer residiam no reino.
-
-Dadas estas circunstancias, não é para estranhar que aquelles que amavam
-sinceramente a instrucção se sentissem indignados perante a ignorancia
-do clero, e procurassem abrir os olhos, não só a estes como ao povo em
-geral; e que os patriotas inglezes, lembrando-se das antigas tradições de
-um paiz que durante seculos havia mantido uma attitude altiva e reservada
-para com as pretensões da Curia Romana, tivessem immensa vontade de
-annular o poder do papa em Inglaterra. Como que exteriorisando o desejo
-preponderante, surgiu um grupo de mancebos instruidos, capitaneados por
-Colet, deão de S. Paulo, e Thomaz More, cujo intuito era purificar a
-Egreja, o povo e o clero, e incitar a Egreja nacional de Inglaterra a
-resistir ás usurpações do bispo de Roma.
-
-=As relações de Inglaterra com o pontificado.=—Os bispos de Roma,
-na Edade Media, reivindicavam a supremacia, tanto espiritual como
-temporal, e o povo inglez havia resistido, por mais de uma vez, ás suas
-reivindicações. Os papas, desde o tempo de Innocencio III, sustentavam
-que todos os reis e principes eram seus vassallos, tanto pelo que dizia
-respeito ás coisas sagradas como aos negocios civis. Este direito
-havia sido imposto no reinado de João, que pagara tributo a Roma em
-reconhecimento da supremacia papal. Quando, porém, foi exigido esse
-tributo aos sucessores de João, elles, indignados, recusaram pagal-o. E
-a Inglaterra, sem deixar de pertencer á Egreja Catholica medieval, havia
-repudiado o direito do papa a intervir nas questões nacionaes. Rei algum
-inglez, excepto João, se considerou vassallo do papa. Não era uma coisa
-nova em Inglaterra, o não reconhecer a supremacia do papa nos negocios
-temporaes.
-
-Os papas tinham, desde o principio da Edade Media, exigido que os
-reputassem arbitros supremos em todos os negocios espirituaes, e, por
-consequencia, a Egreja ingleza devia estar sujeita ao seu dominio
-absoluto. Estas reivindicações apresentavam-se, na pratica, debaixo
-das seguintes fórmas: Os papas queriam que lhes fosse reconhecida a
-decisão final em todas as nomeações ecclesiasticas; isto é, nenhum
-bispo, ou abbade, ou outro qualquer dignitario da Egreja podia ser
-collocado n’este ou n’aquelle posto sem a approvação do papa em ultima
-instancia, e esta sua supremacia queriam que lhes fosse reconhecida de
-uma fórma prática mediante o pagamento do primeiro anno do estipendio
-que correspondia a cada oficio ecclesiastico. Queriam ter a decisão
-final em todas as questões que se levantassem no seio da Egreja ingleza.
-E isto significava, praticamente, que todos os clerigos, bispos,
-abbades, simples padres e frades só podiam ser julgados pelos tribunaes
-ecclesiasticos, e que o accusador ou o defensor tinha sempre o direito de
-appellar dos tribunaes inglezes para o tribunal pontificio. Reivindicavam
-tambem que as leis canonicas, isto é, as leis da Egreja promulgadas pelos
-concilios e pelos papas, fossem reconhecidas em Inglaterra e tivessem a
-mesma força que as leis ordinarias.
-
-A supremacia espiritual do papa tinha sido repetidas vezes repellida pelo
-povo inglez. Os reis de Inglaterra tinham declarado e tornado a declarar
-que em caso algum se poderia appellar dos tribunaes inglezes para a Curia
-Romana. Estas declarações tinham tomado a fórma de decretos, e no reinado
-de Ricardo II ficaram englobadas no famoso codigo de _Proemunire_.
-Segundo este codigo, ou estatuto, como lhe chamavam, qualquer appellação
-para um tribunal de justiça estrangeiro, romano ou de outra qualquer
-nacionalidade, era um crime a que correspondia um castigo severo.
-Sustentava, de uma maneira peremptoria, que o rei era o arbitro supremo
-em todas as questões civis ou ecclesiasticas, e tornava punivel qualquer
-appellação de sentenças proferidas nos tribunaes civis para juizos
-ecclesiasticos, quer da Inglaterra quer da Italia.
-
-Além dos protestos do rei e do parlamento, reunidos n’este estatuto, o
-povo, n’uma grande occasião pelo menos, negou solemnemente a supremacia
-do papa, e asseverou a independencia da Egreja ingleza. A _Magna Charta_
-foi feita com o intuito de restringir o poder pontificio, assim como de
-reprimir o do rei; e a sua primeira clausula reivindicou a independencia
-da Egreja de Inglaterra—_Quod ecclesia anglicana libera sit et habeat
-omnia jura sua integra et libertates suas illaesas._
-
-E Egreja e o povo inglez haviam-se acostumado a protestar contra a
-interferencia papal, e os reformadores que tinham simplesmente em vista
-promover a instrucção do clero, e reprimir a auctoridade que o papa
-exercia na Inglaterra, podiam dizer, com exactidão historica, que não
-punham em pratica uma coisa nova.
-
-As aspirações d’esses reformadores podem ser apreciadas no romance
-politico escripto por um dos mais intelligentes d’entre elles,—a
-_Utopia_, de Thomaz More. Para esses homens a Reforma era apenas um
-movimento intellectual e politico. Não era uma revivificação religiosa.
-Podiam sympathizar com os concilios reformistas do secolo quinze, mas
-entre elles e Wittenberg ou Genebra havia poucos pontos de contacto.
-
-=As primitivas relações de Henrique VIII com o pontificado. Defensor
-da Supremacia papal.=—Estes reformadores do estudo e da camara do
-conselho saudaram com regozijo a subida de Henrique VIII ao throno
-de Inglaterra. Suppunha-se, exactamente como aconteceu com o seu
-contemporaneo, Francisco I de França, que o joven rei fosse um amigo
-da nova litteratura, e um soberano predisposto a extirpar abusos. A
-desillusão não se fez esperar. Logo de principio mostrou ser um dedicado
-defensor da supremacia papal. A sua posição era estranha, e necessita de
-uma explicação.
-
-Henrique VII, o primeiro rei da casa de Tudor, havia conquistado o throno
-de Inglaterra no campo de Bosworth, e conservava-o mediante uma precaria
-subemphyteuse. Anhelava por tornar mais firme o seu poder mediante uma
-alliança com um paiz estrangeiro, e, passando a Europa em revista,
-certificou-se de que Fernando de Hespanha era quem o poderia auxiliar
-melhor. Effectuou, portanto, com alguma dificuldade, o casamento de seu
-filho mais velho, Arthur, com Catharina de Aragão, uma das filhas de
-Fernando. Arthur morreu passado pouco tempo; e Henrique, desejando manter
-a todo o transe a alliança hespanhola, tratou com todo o afan de casar
-Catharina com o seu segundo filho, Henrique, que foi depois Henrique
-VIII. O papa concedeu uma dispensa, e o casamento realisou-se. Henrique
-VIII teve, pois, por mulher a viuva de seu irmão.
-
-Nunca se poude saber ao certo se Arthur e Catharina foram realmente
-casados. Se o casamento não passou de um contracto legal, não havia
-motivo para que a dispensa do papa não fosse bem acceite mesmo por
-aquelles que não viam com muito bons olhos a supremacia papal; se
-foi, porém, um casamento em toda a accepcão da palavra, ficou então
-demonstrado que o papa tinha auctoridade para conceder uma dispensa
-que ia de encontro as leis divinas de parentesco. Segundo a opinião
-geral, Arthur e Catharina viveram conjugalmente, de modo que Henrique
-casou realmente com a viuva de seu irmão, e assim a dispensa do papa
-só poderia ser concedida no caso de elle possuir aquelles supremos
-poderes que os ultramontanos lhe atribuem. A legalidade do casamento de
-Henrique e a legitimidade de sua filha Maria baseiava-se, portanto, na
-supremacia do papa. E não é para admirar que Henrique VIII, no principio
-do seu reinado, se conduzisse, no tocante a essa supremacia, mais em
-conformidade com a opinião dos ultramontanos do que com as tradições da
-corôa de Inglaterra. É que a validade do seu casamento, a legitimidade
-de seus filhos, e o direito que a estes assistia de lhe succederem no
-throno, dependiam, como já dissemos, da supremacia do papa.
-
-Quando Luthero atacou o papa, Henrique tomou ostensivamente a defeza do
-Bispo de Roma, e rei algum, depois de João, apoiou mais em absoluto as
-reivindicações do papa do que elle. Os seus interesses pessoaes, assim
-como os interesses de sua mulher e de seus filhos, estavam dependentes
-d’esse seu apoio. A Inglaterra, no principio do reinado de Henrique,
-estava positivamente avassallada á Sé de Roma. Henrique, posto que se
-sentisse inclinado, pela educação recebida, a adoptar as idéas de Colet,
-More e Erasmo, via-se obrigado, em vista da situação particular em que se
-encontrava, a manter-se n’uma attitude de irreconciliavel hostilidade, e
-o facto de ter reprovado os actos de Luthero conquistou-lhe o titulo de
-Defensor da Fé.
-
-=Henrique muda de opinião.=—Henrique nunca deixou de reconhecer a
-supremacia do papa em todos os assumptos, durante os primeiros dezoito
-annos do seu reinado. De um momento para o outro, porém, começou a
-pensar de differente modo, e podem-se apresentar bastantes razões para
-essa subita mudança de idéas. Parece que elle teve sempre duvidas
-ácerca da legitimidade do seu casamento com Catharina, e que essas
-duvidas se avolumaram á medida que ia perdendo a esperança de ter um
-filho varão que lhe succedesse, chegando a convencer-se de que esse
-facto representava um castigo divino por haver desposado a viuva de seu
-irmão. Durante todo esse tempo, comtudo, a alliança hespanhola, que fôra
-tratada primeiramente com Fernando, e mais tarde com o neto d’este, o
-imperador Carlos V, havia sido de grande utilidade para Henrique e para
-a Inglaterra; e essa mesma aliança é que havia, na opinião do rei, de
-firmar o throno de sua filha, cuja legitimidade, declarada pelo papa,
-encontraria no imperador um inabalavel sustentaculo.
-
-Carlos V, porém, estava absorvido nos seus planos de anniquilar a
-Reforma, e estabelecer o imperio medieval, e o papa só pensava em
-conquistar para si uma posição independente, em se tornar o primeiro
-dos principes italianos, revestido de todo o poder secular, de modo que
-nenhum d’elles correspondia á expectativa de Henrique. Este deixou de ter
-confiança na fidelidade d’elles á sua casa, quanto á sucessão do throno.
-Encontrava-se n’uma situação embaraçosa, e, como meio mais rapido de
-sair das suas difficuldades, resolveu pedir ao papa que o divorciasse
-de Catharina de Aragão. Cessariam d’esse modo os seus escrupulos de
-consciencia por haver casado com a cunhada; poderia contrair novo
-casamento, a alimentar a esperança de ter um filho macho, seu legitimo
-herdeiro. Entendeu-se, pois, com o cardeal Wolsey, seu ministro, e
-dirigiu ao papa um pedido de divorcio.
-
-N’aquela ocasião, porém, o papa queria evitar qualquer desintelligencia
-com Carlos V, sobrinho de Catharina, e recusou dar o seu consentimento
-para o divorcio, sendo então que Henrique, homem muito exaltado, e a
-quem os obstaculos não faziam recuar, decidiu divorciar-se não obtante a
-recusa do papa. Todos os interesses pessoaes que até certo tempo levaram
-o rei a apoiar a supremacia papal se ligavam agora para que elle fizesse
-exactamente o contrario. Se o papa tivesse sanccionado o divorcio, não
-teria havido, provavelmente, ruptura com Roma, porque o rei continuaria a
-ter interesse em que se mantivesse a supremacia papal; as circumstancias,
-porém, aconselhavam-n’o a enveredar por outro caminho, e foi o que elle
-fez.
-
-Thomaz Cromwell alvitrou que se consultassem as universidades da Europa
-sobre a legalidade do casamento de Henrique e este acceitou o alvitre
-com grande alvoroço. Tratou-se, por conseguinte, de pôr esta idéa em
-execução, entregando-se a eminentes vultos, a verdadeiras summidades,
-o decidirem a questão segundo as leis canonicas, tendo ao mesmo tempo
-na devida consideração a sensivel consciencia do rei. Apoz algum tempo,
-e tendo-se dispendido com isso uma fabulosa quantia, as universidades
-declararam, por uma muito pequena maioria, que o casamento de Henrique
-com Catharina não era valido, concluindo-se d’esta decisão que Henrique
-não tinha herdeiro algum legitimo.
-
-Animado com este veridictum, resolveu pôr em pratica qualquer das
-duas coisas seguintes: alarmar o papa, obrigando-o assim o conceder o
-divorcio, ou repudiar a sua auctoridade suprema.
-
-Foram muitos os motivos secundarios que contribuiram para que elle
-tomasse esta ultima deliberação. Henrique, que gostava de viver com
-muita ostentação, tinha desbaratado, havia muito, as riquezas que o
-pae amontoara, e era-lhe impossivel augmentar os impostos. Os cofres
-do Estado estavam despejados, e para os encher bastaria o espolio dos
-conventos e mosteiros. Isto constituiu uma das razões, mas havia uma
-outra que appellava mais fortemente para a sua vaidade.
-
-=Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre
-elles.=—As tres grandes potencias europêas no tempo da Reforma eram
-Hespanha, França e Inglaterra, e não podia deixar de haver rivalidade
-entre os respectivos monarcas. O rei de Hespanha, que era o mais poderoso
-dos tres, era tambem imperador da Allemanha, e todo o seu empenho
-consistia em restabelecer no imperio o esplendor que este tivera na Edade
-Media. Segundo as antigas noções medievaes, não havia mais do que uma
-christandade, o imperador era supremo e soberano, e todos os outros reis
-estavam sob a sua dependencia. Se Carlos fosse bem succedido nos seus
-esforços, Francisco e Henrique passavam a occupar uma posição inferior
-á que tinham, e, portanto, convinha-lhes trabalhar para que o plano
-de restauração não vingasse. Uma christandade medieval implicava uma
-egreja indivisa, centralizada no papa, o bispo de Roma. A politica dos
-reis da França e de Inglaterra insistia em obstar a essa centralização
-ecclesiastica, e fazer com que as egrejas das suas respectivas nações se
-tornassem o mais independentes de Roma que fosse possivel.
-
-Francisco havia conseguido isso quanto á França, e de um modo que
-contribuiu bastante para que o seu prestigio augmentasse, e o seu
-poder se consolidasse dentro do proprio reino. O papa, mediante a
-Concordata de 1516, havia, sob a condição de que os _annates_ seriam
-pagos com regularidade, e de que lhe seriam feitas certas e determinadas
-concessões, investido praticamente o rei de França na chefatura da
-egreja franceza, dando-lhe liberdade para prover como entendesse os
-differentes cargos ecclesiasticos.
-
-Henrique, rival de Francisco, era tambem seu imitador, e havia de lhe
-ser difficil deixar de ter inveja das regalias que o papa lhe tinha
-concedido. O que Francisco recebeu pela Concordata de 1516, deu o
-parlamento inglez a Henrique quando o proclamou chefe supremo, sobre a
-terra, da egreja de Inglaterra. De modo que em França a supremacia do rei
-sobre a egreja fez com que fossem toleradas as reivindicações papaes, ao
-passo que em Inglaterra promoveu a revolta contra Roma. A França, liberta
-do dominio papal por livre vontade do proprio papa, podia ficar por ahi,
-mantendo, a todos os outros respeitos, as velhas tradições da egreja. A
-Inglaterra, que alcançara a sua independencia contra a vontade do papa,
-e por meio de um acto de rebellião contra a sua auctoridade, tinha de
-ir mais longe; para conservar a posição que tomara era-lhe necessario
-afastar-se cada vez mais de Roma.
-
-Sucedeu, assim, que a Reforma em Inglaterra foi o avanço quasi
-involuntario de uma nação revoltada contra Roma, pois que a sua
-resistencia á curia romana foi, em primeiro logar, o meio de que um
-imperioso monarca se serviu para conseguir o seu engrandecimento pessoal,
-e, em segundo logar, o meio de que um povo se serviu para conseguir a
-sua independencia. A França, a despeito dos huguenotes, conservou-se
-catholica romana; a Inglaterra, a despeito de Henrique VIII, tornou-se
-uma nação protestante.
-
-=A submissão do clero.=—Henrique depressa se certificou de que não
-era possivel constranger o papa, mediante o medo, a conceder-lhes o
-divorcio, mas resolveu obrigar o clero inglez a conformar-se pelo medo
-com as suas deliberações. O cardeal Wolsey foi nomeado nuncio do papa
-em Inglaterra, e todos os bispos e mais clerigos o reconheceram como
-tal. Ora em 1531 o rei acusou-o abruptamente de haver transgredido a lei
-do _Proemunire_ pelo facto de acceitar aquelle cargo e cumprir, ainda
-que só apparentemente, os deveres que lhe eram inherentes, e accusou
-egualmente todos os clerigos de Inglaterra de serem cumplices d’esse
-crime pelo facto de o aceitarem na qualidade de embaixador do papa.
-Declarou, outrosim, que tanto Wolsey como todos os clerigos da egreja
-ingleza haviam incorrido, em virtude d’esse delicto, na perda de todos
-os bens ecclesiasticos de que estavam de posse. O clero ficou seriamente
-alarmado, e, para evitar uma catastrophe maior, sujeitou-se a pagar
-uma multa de 118:000 libras e a assignar, ainda que de má vontade, uma
-declaração de que o rei era «o unico protector, o unico senhor supremo,
-e, _até onde é permittido pela lei de Christo_, o supremo cabeça da
-egreja e do clero». A ambiguidade que se nota n’este reconhecimento foi
-intencional. Era um subterfugio para as consciencias fracas, mas o rei
-ficou satisfeito com a phrase, certo como estava de que poderia obrigar o
-clero a proceder segundo a interpretação que elle proprio lhe dava.
-
-Tratou sem demora de mostrar como era por ele compreendido o sentido
-pratico de similhante declaração, desdobrando-o em tres artigos, que
-os clerigos tiveram tambem de assignar. Declaravam que regulamento
-ou preceito algum ecclesiastico seria de ali em deante promulgado ou
-publicado pelo clero sem previo consentimento do rei; que approvavam
-a nomeação de uma commissão de trinta e duas pessoas para rever os
-antigos canones da egreja e cortar todos aqueles que fossem prejudicaes
-á autoridade do rei; e, finalmente que os canones ecclesiasticos só eram
-validos depois de ratificados com auctorização do rei. Estas proposições
-foram submetidas á Convocação, ou Assembléa Geral da Egreja de
-Inglaterra, e, depois de alguma hesitação, o clero, reunido, acceitou-as.
-A Convocação foi um pouco mais longe do que o rei, pois que pediu para
-que o clero inglez não pagasse mais os _annates_ á sé de Roma.
-
-Esta decisão tomada pela Convocação, de que a egreja de Inglaterra
-não podia fazer leis para sua direcção ou governo sem a sancção ou
-ratificação do rei, tem sido chamada a _Submissão do Clero_. Assim no
-ano de 1532 a egreja de Inglaterra, por ordem do rei e do parlamento,
-renunciava á sua obediencia a Roma. Esta renuncia ao governo papal
-incluia (1) o reconhecimento da supremacia real; (2) submissão á corôa
-pela cedencia do direito de fazer leis; e (3) a recusa ao papa das
-receitas que lhe haviam sido pagas durante gerações. A egreja conservava
-as mesmas doutrinas, governo e culto, consistindo apenas a differença em
-o rei tomar o logar que o papa tinha ocupado.
-
-O clero tinha alimentado a esperança de que lhe fosse permittido reter
-os _annates_ em seu poder, mas o rei mostrou que estava resolvido a que
-a supremacia real fosse tão genuina como a antiga supremacia do bispo de
-Roma, e insistiu em que o imposto pontificio fosse pago na thesouraria
-real.
-
-=O progresso da Separação de Roma.—O parlamento inglez, em
-1529-1536.=—Durante os primeiros annos do reinado de Henrique VIII,
-quando era do interesse do rei estar bem com o papa e com o rei de
-Hespanha, todas as queixas contra a egreja haviam sido reprimidas.
-Agora, porém, que Henrique queria aterrorisar o papa para o obrigar a
-conceder-lhe o divorcio, as queixas eram animadas. Henrique servia-se
-do parlamento como Carlos V se podia ter servido da Dieta allemã. Todas
-as nações tinham accusações a apresentar contra a egreja. Os allemães
-publicaram as suas _Cem Afrontas_; o parlamento inglez, convocado para
-se reunir em 1529, tinha tambem queixas a fazer ácerca da libertação
-do clero da jurisdicção dos tribunaes judiciaes da nação, ácerca da
-auctoridade absoluta exercida pelos tribunaes ecclesiasticos sobre
-os leigos em pleiteados casos de casamento, testamentos, successão,
-calumnia, etc., ácerca das avarezas do clero e do elevado custo dos
-enterros e dos baptismos, e assim successivamente. O parlamento formulou
-estas queixas, e com isso alarmou, e não pouco, o clero, tornando-o mais
-submisso ás imperiosas ordens do rei.
-
-Em Janeiro de 1532 Henrique VIII desposou Anna Boleyn, provocando, d’esse
-modo, pessoalmente o papa. O seu casamento com Catharina de Aragão foi
-declarado nullo e sem effeito pelo arcebispo de Canterbury, que fallou
-em nome da Egreja de Inglaterra, e por deliberação do parlamento. O
-rei, a nação, e, um pouco constrangidamente, a egreja uniram-se, pois,
-para desafiar collectivamente o papa, e para se revoltarem contra o
-imperio ecclesiastico da Edade Media. O parlamento secundou este desafio
-approvando leis que tendiam a uma separação completa, e que, pelo lado
-politico, eram inoffensivas para os subditos inglezes. Sete dos seus
-decretos teem uma importancia especial.
-
-(1) Em 1533 o parlamento prohibiu ao clero o pagar os _annates_, ou o
-vencimento do primeiro anno, quando se entrava na posse de qualquer
-beneficio. Estas «primicias» tinham sido sempre consideradas uma
-homenagem devida á supremacia do papa.
-
-(2) Na mesma sessão o parlamento aboliu as appellações para Roma. O
-_Estatuto para Repressão das Appellações_ declarava que nenhum subdito
-inglez podia appellar de um tribunal da sua nação para outro qualquer,
-e que similhante appellação constituia uma violação do Estatuto de
-_Proemunire_, ficando sujeita ás devidas consequencias. Todas as questões
-que tivessem de ser submettidas ao juizo da Egreja deviam ser entregues
-aos tribunaes ecclesiasticos do reino. Continuavam a ser permittidas
-as appellações de um arcediago para um bispo, e de um bispo para um
-arcebispo; mas aqui parava o direito de appellar, e o tribunal do
-arcebispo era o supremo tribunal de appellação. Só o rei podia appellar
-d’este supremo tribunal ecclesiastico, e podia levar a sua appellação
-para a Convocação, mas não fóra do reino.
-
-(3) Em 1534 a _Submissão do Clero_ foi ratificada pelo parlamento. Ficou
-declarado que era necessario o consentimento do rei para todas as leis
-ecclesiasticas, e, para dar a isto um valor pratico, estabeleceu-se que
-em todos os pleitos havia o direito de appellar do supremo tribunal
-espiritual, que era o do arcebispo, para o rei.
-
-(4) O parlamento declarou, outrosim, que o papa não tinha direito de
-intervir na eleição dos bispos, e que todo e qualquer poder que se
-attribuia ao papa pertencia realmente ao rei. Esse direito era definido
-de tal fórma que se podesse dar todo o direito de nomeação ao rei, ao
-passo que se preservava a sombra do antigo uso ecclesiastico. Quando
-uma sé vagava, assistia ao rei o direito de auctorizar o deão e o
-capitulo a eleger para o cargo vago qualquer pessoa mencionada na carta
-de licença. As dispensações papaes eram tambem declaradas illegaes, e o
-poder dispensativo que n’outro tempo, segundo era por todos reconhecido,
-pertencia ao papa, ficava residindo agora na Egreja de Inglaterra, e o
-seu exercicio pertencia aos arcebispos de Canterbury e de York.
-
-(5) Para mostrar, comtudo, que todos estes Actos não tinham em vista
-reforma alguma, mas sómente uma separação politica da Egreja de
-Inglaterra quanto ao papado, o parlamento promulgou uma lei sobre a
-heresia, em que se declarava que os herejes seriam queimados como
-antigamente, em obediencia ao velho decreto _de combatendo hereticos_, e
-o rei, como cabeça da Egreja, recebia o encargo de a purificar de falsas
-doutrinas. Declarava-se, porém, que fallar mal do papa não constituia
-heresia.
-
-(6) Por ultimo, saiu d’este notavel parlamento o _Acto de Successão_ e o
-_Acto de Traição_. O primeiro declarava que a princeza Maria, filha de
-Catharina de Aragão, era illegitima, e transferia o direito de successão
-para a princesa Isabel, filha de Anna Boleyn. O _Acto de Traição_ punia
-com a morte todos aquelles que recusassem acceitar o _Acto de Successão_
-ou reconhecer o novo titulo e as novas prerogativas do rei.
-
-=Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes.=—Em todos os Actos
-d’este parlamento, e em todas as decisões de uma submissa Convocação,
-nada houve que não fosse puramente politico. A Inglaterra não se havia
-tornado protestante ou lutherana, e Egreja reformada em Inglaterra era
-coisa que não existia. A Inglaterra havia-se, tão sómente, desligado de
-aquella alliança que, sob a superintendencia do imperador e do papa,
-realisava a idéa medieval de um systema de governação, tanto civil como
-ecclesiastico. O que torna importantissimas aquellas deliberações do
-parlamento é o facto de ter sido a Inglaterra a primeira nação que rompeu
-com o medievalismo e deixou de reconhecer o velho imperio ecclesiastico
-da Edade Media. Os herejes, isto é, aquelles que haviam acceitado as
-doutrinas de Luthero, ou que, entregando-se ao estudo da Biblia, tinham
-chegado ao conhecimento de um mais puro christianismo, eram perseguidos
-e mortos, usando-se com elles da mesma crueldade, do mesmo espirito de
-vingança, como quando a Inglaterra era uma escrava obediente do papa.
-Diz-se que Wolsey, no seu leito de morte, supplicou ao rei que destruisse
-todos os signaes de lutheranismo; e, a despeito da grande tolerancia de
-Thomaz More, os herejes eram procurados e castigados. Tindal, que tinha
-traduzido em inglez o Novo Testamento de Erasmo, foi caçado de logar em
-logar, como se fosse um animal feroz. Todos os que se atrevessem a fallar
-contra a missa, a transubstanciação, o culto dos santos e a efficacia
-das boas obras corriam o risco de ser presos e queimados como herejes.
-Os Actos do Parlamento não haviam promovido a liberdade de consciencia,
-tinham simplesmente dado logar a novos ensejos para perseguir e matar.
-Para ajuntar aos antigos crimes theologicos, appareceu um outro. Quem se
-recusasse a prestar o juramento de supremacia, quem se atrevesse a dizer
-que Catharina de Aragão era a esposa legitima do rei, e que a princeza
-Maria era a herdeira do throno, estava sujeito a ser preso, processado e
-executado. A Inglaterra encontrava-se n’um estado anormal, n’um estado de
-grande agitação, e os homens conscienciosos tudo soffriam por causa da
-consciencia.
-
-=A execução de Tomaz More.=—Thomaz More era o chanceller quando o
-parlamento, reunido em 1529, separou a nação, mediante successivos Actos
-do imperio ecclesiastico de Roma. Tinha sido na sua mocidade um distincto
-estudante, e havia-se entregue com amor aos «estudos modernos» de latim,
-grego e hebraico quando, em Oxford, assistira ás prelecções de Tinacre,
-um dos primeiros humanistas inglezes, que se havia educado em Italia
-para o seu trabalho escolastico em Inglaterra. Dedicara-se á carreira
-da jurisprudencia, foi magistrado em Londres, e tornou-se notoria a sua
-amizade ao deão Colet e a Erasmo. O seu livro _Utopias_ dá testemunho
-de que elle havia adoptado muitas das opiniões de Marcello de Padua e
-de outros juristas liberaes do fim da Edade Media. Elle opinava que
-tanto a Egreja como o Estado existiam para beneficio do povo, e todo o
-seu anhelo era uma reforma de costumes na Egreja. Investido no cargo
-de chanceller, toda a gente notou a brandura de que elle usava com os
-herejes; permaneceu, porém, ligado ás doutrinas da Egreja Catholica
-Romana, e abandonou algumas das suas primitivas opiniões em favor de mais
-estrictas idéas ácerca da origem divina da supremacia do papa. Reprovou,
-portanto, todo o procedimento da côrte e do parlamento inglez depois da
-queda de Wolsey. Avisou o rei de que não podia ser parte no divorcio de
-Catharina de Aragão. Não quiz assistir ao casamento e coroação de Anna
-Boleyn, e, ao ser ameaçado com as consequencias, disse ao rei que as
-ameaças eram para as creanças e não para elle. Henrique tinha uma forte
-affeição pelo seu chanceller; mas coisa alguma poderia augmentar mais
-a duvida com respeito á validade do divorcio, do novo casamento e da
-successão ao throno derivada d’este, do que a recusa da maior auctoridade
-juridica da nação de ver em Catharina de Aragão uma mulher que não era a
-esposa legitima de Henrique VIII.
-
-More foi, portanto, obrigado a prestar juramento de fidelidade á nova
-rainha, reconhecendo Anna Boleyn como a esposa legitima de Henrique VIII,
-e a confirmar a legalidade do _Acto de Successão_. N’esta conjunctura,
-elle tinha de obedecer á consciencia ou salvar a vida, e, com uma grande
-serenidade de espirito, preferiu obedecer á consciencia. A mulher
-foi ter com elle á prisão, rogando-lhe que se submettesse á ordem do
-rei. «Senhora Alice», retorquiu elle, com toda a ternura, «esta casa
-não estará tão perto do céu como a nossa?» A filha, Margarida Roper,
-que era afamada pela sua erudição, pela sua affabilidade e pela sua
-formosura, foi tambem vêl-o repetidas vezes, e as suas visitas como que
-lhe fortaleceram a serena coragem. Morreu em Julho de 1535. Erasmo soube
-da morte d’elle quando tinha entre mãos a sua _Pureza da Egreja_, a que
-ajuntou um prefacio que é quasi uma biographia do seu velho amigo, a que
-attribue uma alma mais pura do que a neve.
-
-O assassinio judicial de Thomaz More e do bispo Fisher, seu companheiro
-no soffrimento, veiu demonstrar o estado cahotico em que Henrique VIII
-havia feito cair a Inglaterra, pois que, ao passo que eram queimados os
-homens accusados de lutheranismo, executavam-se aquelles que mantinham a
-auctoridade do papa no que dizia respeito aos costumes e á doutrina.
-
-=A suppressão dos mosteiros e a confiscação dos bens da Egreja.=—Henrique
-VIII tinha sido sempre um grande gastador. Tudo quanto o pae lhe deixara
-havia desapparecido logo no principio do seu reinado, em virtude da
-guerra com a França. O rei e a côrte tinham grande necessidade de
-dinheiro. Thomaz Cromwell lembrou então que este podia ser obtido
-mediante a suppressão de alguns dos mosteiros.
-
-Do clero ninguem foi mais justamente atacado do que os monges, durante o
-periodo da Reforma. A sua preguiça, as suas riquezas, a sua cupidez e a
-sua má vida eram notorias em toda a Europa. Os auctores populares haviam
-composto satyras a seu respeito, e graves estadistas tinham chamado a
-attenção do papa para uma reforma das varias ordens.
-
-Gromwell insistiu n’uma syndicancia aos mosteiros, com o fim de se ficar
-sabendo se as queixas formuladas tinham fundamento. Foram visitadas tres
-d’essas casas, e constatou-se que as vidas dos frades e das freiras
-estavam longe de ser o que deviam ser, que a propriedade monacal
-havia sido pessimamente administrada, e que muitos dos religiosos,
-de ambos os sexos, desejavam desligar-se dos votos. O parlamento
-approvou uma proposta de lei para que fossem supprimidos os conventos
-menos importantes, e, passado algum tempo, eram encerrados todos os
-estabelecimentos monacaes. Os respectivos bens foram confiscados em
-proveito do rei. A grande somma de dinheiro que se obteve por esta fórma
-podia, nas mãos de um monarca astuto e economico, ter constituido um
-vasto capital cujo rendimento habilitaria o rei a prescindir de impostos,
-e, por consequencia, a prescindir de parlamento, o que redundaria na
-ruina, em Inglaterra, de todas as liberdades. Henrique era, por indole,
-um despota, mas não tinha em si a força de vontade necessaria para pôr
-em execução aquillo que lhe vinha á idéa. A sua ambição principal era
-poder dispôr de muito dinheiro, e as propriedades confiscadas aos frades
-foram postas em praça a vendidas pelo maior preço que foi possivel
-obter. O resultado d’isso foi augmentar consideravelmente o numero dos
-proprietarios em Inglaterra. Henrique dissipou em poucos annos todo o
-dinheiro que d’aquelle fórma lhe fôra parar ás mãos, e ficou tão pobre e
-tão necessitado do auxilio dos seus subditos como anteriormente.
-
-=Os dez artigos.=—Cranmer, o arcebispo de Canterbury, que havia sido
-um instrumento facil nas mãos do rei, quando este andou tratando de se
-assenhorear das liberdades da Egreja e de uma grande parte das suas
-riquezas, tinha uma secreta predilecção pelas doutrinas reformadas
-de Luthero e de Zwinglio. Thomaz Cromwell, que desde o fallecimento
-de Wolsey exercia o cargo de conselheiro politico do rei, era tambem
-um admirador dos homens da Reforma. Ambos tinham o desejo, depois
-da Inglaterra se ter separado politicamente do papado, e de se ter
-effectuado a suppressão dos mosteiros, de introduzir uma reforma de
-doutrina e de culto, e de equiparar a Egreja de Inglaterra ás egrejas
-reformadas da Allemanha e da Suissa.
-
-O schema politico de Cromwell consistia em collocar Henrique á frente de
-uma confederação protestante que podesse rivalisar com o imperio medieval
-de Carlos V. Isto sómente se poderia fazer, comtudo, se a Egreja da
-Inglaterra abraçasse as doutrinas da Reforma e animasse os homens que até
-ali tinham sido perseguidos como herejes.
-
-O rei desapprovou energicamente a proposta, mas por fim cedeu, e em 1536
-foram publicados, com a approvação da Convocação, os _Dez Artigos_,
-que eram um breve formulario de doutrinas. Estes artigos asseveravam
-a auctoridade da Escriptura, dos tres grandes e antigos credos, e dos
-quatro concilios ecumenicos; affirmavam que o baptismo era necessario
-para a salvação; que a penitencia, a confissão e a absolvição eram
-egualmente coisas necessarias; que o corpo e sangue de Christo estavam
-substancial, real e corporalmente presentes no pão e vinho da Eucaristia;
-que a justificação tinha logar mediante a fé, junta com a caridade e
-com a obediencia; que nas egrejas era licito o uso das imagens; que se
-devia glorificar a Virgem e invocar os santos; que se devia conservar os
-varios ritos e dias santificados da Egreja medieval, fazendo-se uso dos
-paramentos, dos crucifixos e da agua benta; que existia o purgatorio; e
-que, finalmente, se devia fazer orações pelos defuntos.
-
-Estes Artigos, como se vê, não estavam em conformidade com a fé
-protestante. Alguns historiadores ecclesiasticos teem dito que elles
-foram muito judiciosamente collocados entre a doutrina dos reformadores
-mais pronunciadamente biblicos e as velhas superstições; mas teem sido
-mais bem descriptos como essencialmente «romanistas, com o papa atirado
-para a margem». Fuller diz que elles foram destinados para creancinhas
-«recentemente tiradas dos peitos de Roma.»
-
-Emquanto estes acontecimentos iam tendo logar, Catharina de Aragão
-morreu, em 1536, e o rei desembaraçou-se de Anna Boleyn, mandando-a
-decapitar sob a accusação de infidelidade. Sua rilha, a princeza Isabel,
-foi, pelo parlamento, declarada illegitima, e a successão tornou-se de
-novo incerta.
-
-O rei casou então com Jane Seymour, a cuja descendencia ficaram
-reservados os direitos á corôa.
-
-=A peregrinação da graça.=—As execuções de Thomaz More e do Bispo Fisher
-haviam desgostado muitissimos subditos do rei que eram affeiçoados a
-Roma, e estes, animando-se com a declaração da illegitimidade de Isabel
-e com a incerteza quanto á successão, promoveram rebelliões em Yorkshire
-e Lincolnshire. Os rebeldes contavam com o auxilio da Hespanha, e tinham
-tambem muita confiança no effeito que havia de produzir a bulla, que
-acabava de ser publicada, em que o papa excommungava Henrique VIII.
-
-Os seus projectos, porém, foram com facilidade mallogrados, e o
-nascimento de um filho de Jane Seymour, a quem o rei havia desposado
-depois da morte de Catharina de Aragão, deu ao rei a cubiçada successão
-legitima e fez cessar todos os sentimentos anarquicos entre o povo.
-
-Infelizmente, a rainha falleceu ao dar á luz o filho.
-
-Cromwell e Cranmer voltaram novamente com as suas idéas de uma união
-protestante. Cranmer, juntamente com uma commissão de prelados, redigiu,
-em 1537, o que se ficou chamando o _Livro do Bispo_, ou a _Instituição
-de um Christão_, e que continha uma exposição de theologia muito mais
-protestante do que os _Dez Artigos_.
-
-No anno seguinte Cranmer, que havia estado em correspondencia com os
-theologos de Wittenberg, organizou um outro credo chamado os _Treze
-Artigos_, e que era largamente baseado na Confissão de Augsburgo.
-
-O rei recusou sanccionar estes Artigos, e foi-se gradualmente afastando
-do plano de uma alliança protestante. Cromwell caiu no desagrado de seu
-amo em virtude da persistencia com que advogava esse plano, chegando a
-apresentar um projecto de casamento de Henrique com Anna de Cleves, com
-o fim de cimentar a alliança. Morreu no cadafalso, como havia succedido a
-More e a Fisher, e o rei foi-se tornando cada vez mais reaccionario.
-
-=O Estatuto Sanguinario, ou os Seis artigos.=—O primeiro indicio d’esse
-facto foi a publicação do _Livro do Rei_, ou a _Necessaria Doutrina e
-Erudição para todos os Christãos_. Em 1539, Henrique resolveu voltar á
-politica do primeiro periodo do seu reinado, e poz-se em communicação
-com Carlos V. A mudança na politica exterior do rei teve repercussão nos
-negocios internos. Foram promulgados os _Seis Artigos_, «para abolir a
-diversidade de opiniões», e foi revogoda a permissão de ler a Biblia
-traduzida por Tindal.
-
-Estes Artigos exigiam de todos os inglezes, sob pena de confiscação
-dos bens, e de morte, que cressem na transubstanciação, que negassem
-a necessidade dos leigos participarem do calix na communhão e que
-admittissem o celibato do clero, a obrigação dos votos de castidade e a
-necessidade das missas e da confissão auricular.
-
-As doutrinas das egrejas reformadas da Allemanha e da Suissa tinham
-feito algum progresso na Inglaterra, não obstante as perseguições, e
-haviam sido abraçadas por um grande numero de pessoas durante aquelles
-annos de tolerancia em que Cranmer e Cromwell dirigiram a politica do
-rei, e esta lei dos Seis Artigos deu logar a uma grande perseguição. O
-povo chamava-lhe o Estatuto Sanguinario e o Chicote das Seis Cordas. Deu
-principio a um reinado de terror, que só terminou com a morte do rei.
-Felizmente para a nação, esta não se fez esperar muito.
-
-=O estado da Egreja de Inglaterra em 1547.=—Henrique morreu em 1547,
-deixando tres filhos: Maria, filha de Catharina de Aragão, com 31
-annos; Isabel, filha de Anna Boleyn, com 14; e Eduardo, filho de Jane
-Seymour, com 10. Maria e Isabel haviam sido declaradas illegitimas pelo
-parlamento. Eduardo succedeu a seu pae no throno.
-
-Henrique deixou atraz de si um caos, para sair do qual teve a nação de
-sustentar uma tremenda lucta. O rei, emquanto viveu, susteve com mão
-ferrea os romanistas extremos e o partido protestante, e manteve até
-ao fim o seu ideal, que era uma egreja catholica, desligada do papa.
-E conseguiu-o, pondo-se no logar outr’ora occupado pelo papa. Exercia
-sobre a Egreja uma auctoridade muito mais absoluta do que sobre o
-Estado. A posição era difficil de sustentar, e foi-o muito mais para os
-monarcas que succederam a Henrique, pois que as idéas reformistas iam-se
-propagando cada vez mais. Deixou tambem sem solução muitos problemas
-politicos. Os cofres publicos estavam vasios. A sua politica exterior foi
-um subterfugio, que collocou em grandes embaraços os seus successores.
-A venda dos bens da Egreja produziu uma mudança, tanto social como
-economica, que difficultou a vida da nação.
-
-O assumpto, porém, que exigia immediata resolução era: A Inglaterra devia
-abraçar a Reforma, ou voltar de novo para o romanismo? A Egreja não podia
-permanecer na situação em que Henrique a havia deixado.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE MARIA
-
- Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o _Livro de
- Homilias_ e o _Livro de Oração Commum_, pag. 176.—A alliança
- com o protestantismo continental, pag. 178.—Os _Quarenta e
- Dois Artigos_, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag.
- 179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra
- por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha
- necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se
- firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A
- reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida
- a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado
- de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag.
- 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A
- morte de Maria, pag. 187.
-
-
-=Será adoptada a Reforma?=—Quando Henrique morreu, succedeu-lhe seu
-filho, Eduardo VI, que era então um rapazito de dez annos. Pouco antes de
-morrer, Henrique fez testamento, em que deixou instituido um conselho de
-regencia, composto de dezeseis membros da nobreza, o qual entrou logo no
-exercicio das suas funcções, começando a governar. O referido conselho
-escolheu o conde de Hertford, que fazia parte d’elle, para o logar de
-protector do reino, recebendo n’essa occasião, em conformidade, segundo
-se diz, com o que estava estabelecido no testamento, o titulo de duque
-de Somerset. A questão mais grave que este conselho de regencia tinha de
-resolver era a questão religiosa. A Inglaterra não podia continuar no
-estado em que se encontrava. Ou a Egreja se reformava, ou a nação tinha
-de renovar a sua alliança com Roma. Se se tivesse consultado a opinião
-publica, ver-se-hia, provavelmente, que uma grande maioria era partidaria
-do romanismo. Os ultimos annos do reinado de Henrique tinham sido uns
-annos de terror, e todas as desventuras eram attribuidas á supremacia
-real em materia de religião. O povo de Inglaterra, por outro lado,
-estava pouco ao facto das doutrinas reformadas, e a Biblia não estava
-vulgarisada. A Reforma não havia sido prégada na Inglaterra, como o fôra
-na Allemanha e na França. Não havia excitado o enthusiasmo popular.
-
-A extincção dos conventos tinha feito com que a gente do campo desejasse
-voltar ao antigo systema. Os inglezes não haviam opposto obstaculo algum
-á extincção dos conventos e á confiscação dos bens da Egreja quando isso
-foi pela primeira vez decretado; mas os camponezes em breve descobriram
-que a unica coisa que havia resultado para elles fora uma substituição
-de amos com quem se davam perfeitamente por outros que custavam immenso
-a supportar. Os novos proprietarios vedavam os logradouros publicos,
-derrubavam os muros e as sebes que dividiam entre si as quintas pequenas
-para formarem extensas propriedades, e preferiam as pastagens ás searas
-de trigo, diminuindo assim o valor das terras e dando logar a uma grande
-falta de trabalho. A pobre gente suspirava por aquillo a que chamava os
-bons tempos.
-
-A extincção dos conventos tinha, por outro lado, atirado cá para fóra
-com uma legião de homens que não tinham profissão alguma e incapazes de
-ganhar a vida, era preciso cuidar d’essa gente. O governo havia entendido
-que o meio menos dispendioso de arrumar os frades era collocal-os nas
-freguezias, na qualidade de parocos ou de coadjuctores. E assim a Egreja
-encheu-se de homens que trabalhavam de má vontade, e que odiavam aquella
-nova ordem de coisas que lhes havia transtornado a vida.
-
-Todas estas coisas tornavam duvidoso se a Inglaterra adoptaria a Reforma
-ou se reconciliaria com Roma.
-
-Por outro lado, havia homens fervorosos e cheios de resolução, que
-estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e até a propria vida,
-pela causa da Reforma, que elles estavam na convicção de ser a causa
-de Christo. No numero d’esses homens figuravam o Protector, Somerset,
-e outros membros do conselho da regencia, que deliberaram introduzir
-a Reforma na Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real
-appareceu sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os a
-solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças. Isto tinha
-sido inventado por Cromwell para que não fossem prejudicadas as regias
-prerogativas.
-
-=A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração
-Commum.=—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O paiz foi
-dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas foi nomeado um
-funccionario, que deveria averiguar se os serviços ecclesiasticos estavam
-sendo executados segundo as leis vigentes. A jurisdicção episcopal
-esteve durante algum tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome
-do rei. Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços
-ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas deficiencias.
-O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimo havia sido sempre lutherano,
-e que animara o conselho da regencia em todos os planos d’este, compoz
-um _Livro de Homilias_, que foi entregue ao clero paroquial, com a
-recommendação de ser lido nas egrejas. A _Paraphrase do Novo Testamento_,
-de Erasmo, foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem
-fosse lida no culto publico.
-
-Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner, bispo de
-Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre Henrique VIII
-nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra um dos auctores do Estatuto
-Sanguinario, estava á testa do partido reaccionario, e protestou contra
-todas as propostas dos visitadores.
-
-Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu os _Seis Artigos_, declarou
-que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato, que na Ceia do
-Senhor o vinho, assim como o pão, devia ser administrado aos leigos, e
-approvou a politica ecclesiastica do Protector Somerset.
-
-As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas egrejas mais
-simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se o uso do _Livro de
-Oração Commum_, compilado, por Cranmer, dos antigos rituaes. Foi este o
-_Primeiro Livro de Oração Commum de Eduardo VI_, e, posto que mais tarde
-passasse por algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu
-conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente.
-
-Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento do romanismo. As
-imagens e reliquias das egrejas foram destruidas. Aboliram-se os antigos
-dias de jejum, e o arcebispo Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á
-vista de todos, na quaresma.
-
-Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a maioria, do povo
-e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente. Bonner, bispo de
-Londres, tentou oppôr-se indirectamente á corrente, declarando que o
-novo Livro de Orações podia ser tomado n’um sentido romanista; mas isso
-apenas levou a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos,
-á remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas, e á
-preparação de um novo _Livro de Ordem_.
-
-Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia mudado, e em
-doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se tornado protestante.
-As mudanças que se haviam feito tinham promovido um grande sentimento
-de desagrado para com Somerset; houve tentativas de revolta; e, posto
-que estas fossem suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na
-politica exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido
-pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo succedido
-pelo conde de Warwick.
-
-=A alliança com o protestantismo continental.=—A subida de Eduardo
-ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick animaram o
-arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo plano de uma alliança entre a
-Egreja Romana e as Egrejas protestantes do Continente. Sob o congenial
-patrocinio de Somerset, o plano de Cranmer parece ter incluido uma
-assembléa, em Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes
-com o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir de
-resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante commum.
-
-Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que diversos
-theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo inglez na fé
-reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram de Strasburgo para
-Inglaterra, e installaram-se em Cambridge, onde fizeram prelecções sobre
-theologia e sobre as Escripturas do Antigo Testamento. Dois distinctos
-italianos, Pedro Martyr de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna,
-vieram leccionar para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos
-elles abalisados professores, instruiram um grande numero de rapazes
-nos artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores
-para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem, segundo o uso
-continental, polemicas publicas sobre pontos controversos de theologia,
-taes como a Transubstanciação, o Celibato do Clero, o Purgatorio, etc.
-
-Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos, e foi
-mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu aquella inclinação
-para o modo calvinista, opposto ao lutherano, de expôr as doutrinas da fé
-christã que serviu de molde aos seus artigos.
-
-=Os Quarenta e Dois Artigos.=—Um dos resultados d’estas discussões e
-disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dos _Quarenta e Dois
-Artigos_, que tinham por fim exprimir em fórma confissional o credo
-da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram obra de Cranmer, coadjuvado
-pelos bispos e por outros homens de erudição. Cranmer tinha começado a
-escrevel-os em 1549; e acabou-os em 1552.
-
-A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna. A
-rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante, as polemicas
-publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros, e os trabalhos dos
-prégadores ambulantes como João Knox, haviam feito com que o povo
-desejasse ardentemente uma auctorizada exposição de doutrina tal como
-estes artigos forneciam. Definiam com grande clareza os limites das
-mudanças que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval.
-
-Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos eguaes aos Trinta
-e nove Artigos que constituem o credo da actual Egreja da Inglaterra.
-As sympathias de Cranmer tinham estado sempre voltadas para Luthero, e
-elle copiou tres, nem menos, dos seus artigos directamente da Confissão
-de Augsburgo. Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana, mas,
-pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos de Eduardo
-e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um e o mesmo documento.
-
-=Os principios do puritanismo.=—A livre discussão da theologia reformada
-e das idéas da Reforma teve como um dos seus resultados a origem e
-desenvolvimento, em Inglaterra, de uma theologia que acceitava cabalmente
-os principios essenciaes da renascença da religião promovida pela
-Reforma. Um d’estes principios era que Deus se havia collocado tão
-perto do homem mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que
-os homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar
-directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas, recebel-o. As
-theses de Luthero tinham estabelecido este grande principio da Reforma,
-e todos os theologos insistiram na possibilidade de se ir directamente
-ter com Deus sem ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja
-medieval, por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos
-crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso a Deus—e
-havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio da Egreja. Tinha
-tambem tornado visivel o sacerdocio do clero, insistindo em que cada
-clerigo devia, quando exercesse o culto publico, usar um traje especial,
-symbolico do seu officio sacerdotal, e havia levantado em cada egreja
-um altar, ou logar especial onde se realisava o encontro de Deus com o
-sacerdote.
-
-Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade e magnificencia
-da doutrina da Reforma, de que todos os crentes são sacerdotes que gozam
-do direito de se approximarem de Deus por meio da fé, e de que qualquer
-porção do solo onde a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar
-e remir é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou
-symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam com
-a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não podiam supportar que
-o povo fosse desencaminhado por qualquer symbolo ou rito exterior que
-houvesse sido empregado, nos dias de superstição, para inculcar a falsa
-doutrina medieval da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de
-todo e qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o povo no
-tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente, ao uso
-das vestimentas ecclesiasticas e dos altares nas egrejas. Estes homens
-foram os precursores dos puritanos inglezes.
-
-É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo não significou ao
-principio um systema de governo ecclesiastico, e que nada tinha que ver
-nem com o presbyterianismo nem com o congregacionalismo. Os primeiros
-puritanos da Inglaterra não protestaram contra o episcopado como
-systema de governo. As coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se
-o houvessem feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou
-no culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal dos
-crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os altares nas
-egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se a fazer uso das
-sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares com as costas voltadas
-para a congregação.
-
-A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida. João Hooper,
-que havia sido monge cisterciano, e que adoptara as idéas da Reforma,
-tornou-se um prégador de nomeada na Egreja ingleza. Durante os ultimos
-annos do reinado de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido
-do reino para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos
-havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra achava-se
-resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem a superstição
-medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado ao rei, quando se tratou
-de prover o bispado de Gloucester. Ao contrario de João Knox, não fazia
-objecção ao governo por meio de bispos, e acceitou a nomeação, mas
-não quiz fazer uso das vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a
-proferir a seguinte phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos me
-ajudem».
-
-Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a considerar
-estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper pensava de differente
-modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr partilhavam a opinião de Calvino,
-e tentaram demover Hooper da sua resolução por meio de argumentos. Não
-poderam, porém, convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se
-conservar em sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado
-afastamento escreveu uma _Confissão e Protesto_ em que expunha com toda
-a clareza as razões que haviam imperado na sua recusa de fazer uso das
-vestes prelaticias. Por este seu feito, metteram-n’o na prisão. Passado
-algum tempo, porém, fez-se um convenio ácerca das vestimentas, foram
-omittidas do juramento as palavras «e todos os santos», e Hooper foi
-consagrado bispo de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever
-novas borrascas n’um futuro proximo.
-
-Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma no tempo de
-Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande largueza de idéas, e
-muito tolerante—havia-se empenhado om que á princeza Maria se concedesse
-o servir a Deus conforme a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de
-Londres em substituição de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua
-diocese das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em que todos
-os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar mesas para a
-communhão.
-
-Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo entre o romanismo
-e a Reforma, que era em que consistia o ideal de Cranmer relativamente á
-Egreja de Inglaterra.
-
-Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens que haviam sido
-sempre partidarios da Egreja medieval. Quando Hooper e Ridley mostraram
-até onde a Reforma os poderia levar, Gardiner e Bonner redobraram de
-furia contra elles. O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper
-tinha estado preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e
-Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas medievaes.
-
-=A morte de Eduardo VI.=—O joven rei nunca havia sido muito robusto, e
-antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de saude alarmou seriamente
-os principaes vultos do protestantismo. Á herdeira do throno era a
-princeza Maria, filha de Catharina de Aragão. Tanto o parlamento como a
-convocação haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções
-não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida de que
-Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e de que Maria era
-sua filha, devendo, portanto, esta occupar o throno no caso de Eduardo
-fallecer. Além d’isso, segundo a lei de successão ao throno, promulgada
-por Henrique VIII, ella tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não
-deixar herdeiros.
-
-Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia hespanhola,
-que nunca havia esquecido os aggravos de que a mãe fora victima, e
-que considerava a Reforma como uma rebellião contra Deus e um insulto
-dirigido a ella propria. Prima de Carlos V, imperador da Allemanha, era
-uma grande admiradora dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa
-vontade se collocaria n’uma completa dependencia d’elle.
-
-O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos dos
-conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno seria um desastre
-para a Reforma, que os attingiria tambem a elles. Viram que lhes era
-necessario fazer todo o possivel para que o herdeiro do throno fosse um
-principe ou princeza protestante.
-
-Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo,
-e todo o seu empenho era que o monarca que viesse depois partilhasse
-as mesmas crenças. Quando viu que lhe restava pouco tempo de vida,
-resolveu nomear o seu successor. Nada o poude persuadir de que não
-tivesse o poder de o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação
-recaisse n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas
-illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, por conseguinte,
-não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz, que estava prestes
-a morrer, era, pela sua tenacidade, um digno representante da casa de
-Tudor. Poz deliberadamente de parte tanto Isabel como Maria; poz tambem
-deliberadamente de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante
-de Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna Grey,
-representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna tinha casado
-com o filho mais velho do conde de Northumberland, e era protestante.
-Eduardo estava convencido de que o povo havia de acceitar a successora
-por elle mencionada. Os seus conselheiros estavam convencidos de que o
-protestantismo estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano
-poderia ser bem succedido. Enganavam-se ambos.
-
-Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha Joanna foi
-devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza, não correspondeu
-á acclamação. A princeza Maria fugiu, mas em volta d’ella reuniu-se
-muita gente, e o povo secundou as suas reclamações. Passada uma semana,
-tinha-se vencido toda a opposição, e o throno era de Maria.
-
-A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada, e o
-throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana catholica romana.
-
-=O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria
-(1553).=—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um edificio
-politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo e pelos
-seus conselheiros, desappareceu por completo, como coisa de nenhuma
-substancia. É que ella havia sido imposta á Inglaterra pelo governo,
-ao contrario do que acontecera em outros paizes, em que foi imposta ao
-governo pelo povo ou acceite egualmente por governantes e governados.
-
-Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias financeiras,
-devido em parte á crise economica que a Europa estava atravessando, mas
-devido principalmente ao desmedido fausto da côrte de Henrique VIII, e
-á depreciação da moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a
-todos os actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e a
-venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa das desgraças
-que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido tirados das casas
-religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz na qualidade de parocos e
-curas, ateiavam o fogo da antipathia pela Reforma, e preparavam o povo
-para um regimen reaccionario, pelo que dizia respeito á religião.
-
-Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre quando Maria
-iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu ministro favorito,
-comprehendeu perfeitamente a situação. Elle sabia que o paiz, na sua
-quasi totalidade, preferia a antiga religião mas que nunca gostara do
-papa. Tratou, pois, de promover um regresso á situação em que se estava
-no principio do reinado de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão
-ostensiva a supremacia real.
-
-Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas mais
-arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos de indifferença
-e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe um indicio de que o povo
-se estava preparando com regozijo para o restabelecimento da antiga
-religião e que tinha na conta de tão malefico o que se havia passado
-nos ultimos annos como ella propria. Como filha de Henrique, e como
-rainha de Inglaterra, sentia em si o dever de reparar, de accordo com
-o papa, os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos
-estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como prima de
-Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio aos hespanhoes,
-e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que dizia respeito á politica
-internacional, como, e ainda mais especialmente, no que dizia respeito á
-politica ecclesiastica.
-
-=A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.=—Maria subiu ao
-throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes protestantes da
-Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552. Carlos sentia-se forçado a
-confessar que a Reforma o tinha vencido, quando Maria lhe participou a
-sua acclamação e lhe supplicou que a aconselhasse. A alliança ingleza era
-a unica coisa que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o
-bom exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente,
-e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se encontrava.
-
-Maria, escreveu elle, devia, em primeiro logar, tornar firme o throno; em
-seguida devia tornar segura uma alliança hespanhola, casando com Filippe,
-herdeiro do imperador; e, executadas estas duas coisas, podia então fazer
-as pazes com o papa.
-
-O papa estava tão ancioso por congratular Maria como Carlos havia estado;
-mas o imperador não queria despertar os sentimentos anti-papistas do povo
-inglez; os interesses em jogo eram muitissimo fortes. E assim o Cardeal
-Pole, nuncio do papa, recebeu ordem para se conservar nos Paizes Baixos
-até a Inglaterra se achar preparada para o receber.
-
-=Como Maria se firmou no throno.=—Ao principio fel-o com bastante
-facilidade. A tentativa de collocar Joanna Grey no throno havia
-desacreditado e desanimado os protestantes mais em evidencia, e poucos
-d’entre elles appareceram. Foi, pois, facil a Gardiner obter que o
-parlamento revogasse todas as leis que diziam respeito ao divorcio de
-Catharina e á filiação de Maria. O decreto parlamentar que conferia ao
-rei uma supremacia absoluta em todos os negocios ecclesiasticos foi um
-meio excellente para fazer com que o paiz mudasse de religião. A rainha,
-por occasião da sua acclamação, ouviu missa, segundo o antigo costume.
-Cranmer protestou, sendo por esse facto remettido para a Torre, onde em
-breve se lhe reuniram Latimer e Ridley. Foi abolido o Livro de Oração
-Commum, e todas as mudanças introduzidas no culto no reinado de Eduardo
-foram postas de parte. A Egreja de Inglaterra foi reposta nas condições
-em que Henrique VII a havia deixado.
-
-=A alliança hespanhola.=—O povo inglez não via com bons olhos a alliança
-hespanhola, e era, em especial, hostil ao casamento da sua rainha com
-Filippe de Hespanha. O bispo de Gardiner, que conhecia a indole da nação,
-tratou de dissuadir a rainha, mas esta achava-se firmemente resolvida a
-desposar Filippe. Gardiner, ao ver que nada podia impedir o casamento,
-redigiu o contracto nupcial em termos taes que Filippe ficava sem direito
-ao titulo real, não podia succeder á consorte e era-lhe defezo exercer
-qualquer influencia nos negocios publicos de Inglaterra. O facto de
-Carlos e seu filho terem acceitado estas condições mostra o valor que
-elles davam a uma alliança estavel com a Inglaterra.
-
-O povo inglez ficou indignado com similhante casamento, e para mostrar
-o seu desagrado revoltou-se em diversas partes do reino; Pedro Carew
-poz-se á frente dos rebeldes em Cornwall e Devon, o conde de Suffolk nos
-condados do Centro, e Thomaz Wyatt em Kent. A unica revolta importante
-foi capitaniada por Wyatt, e se não teve consequencias mais graves foi
-isso devido á coragem da rainha. A nação reconheceu tambem que Maria era
-filha de seu pae, e a legitima herdeira, e não teve grande sympathia
-com as rebelliões contra ella. Filippe chegou, com instrucções de seu
-pae para fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para agradar ao
-povo inglez, as quaes elle, no seu modo extravagante, tratou de seguir,
-bebendo cerveja ingleza e fazendo outras coisas do mesmo genero, e o
-casamento celebrou-se com toda a pompa. Estava assegurada a alliança com
-a Hespanha.
-
-=A reconciliação com Roma.=—Filippe e Maria eram fervorosos catholicos
-romanos, e anhelavam por que a Inglaterra se libertasse do anathema papal
-que sobre ella havia caido quando Henrique desposou Anna Boleyn; mas
-não era facil conseguir isso. O povo inglez obstinara-se sempre em não
-reconhecer a supremacia papal, e eram muitos os pontos da sua historia
-que o aconselhavam a não se submetter facilmente ao pontifice romano.
-Carlos aconselhou o filho e a nora a procederem muito cautelosamente.
-Havia, comtudo, uma difficuldade ainda maior: era a questão das terras
-que haviam sido arrancadas do poder da Egreja e vendidas a particulares.
-Por um lado, o papa não deixaria de insistir na sua restituição, e,
-por outro, essa restituição iria, certamente, dar logar a violentos
-protestos. Poucas d’essas terras estavam na posse da corôa; a maior parte
-d’ellas tinha sido vendida, e o producto da venda gastara-se. A rainha
-estava impossibilitada de tornar a compral-as aos respectivos donos e
-restituil-as á Egreja.
-
-Carlos V poude, com alguma difficuldade, induzir o papa a renunciar á
-reivindicação d’esses bens abbaciaes, e a unica coisa que restava fazer
-era predispôr o povo inglez para a chegada do nuncio.
-
-O nuncio escolhido pelo papa foi Reginaldo Pole, segundo sobrinho de
-Eduardo IV. Pertencia, portanto, á aristocracia ingleza, mas havia
-preferido o desterro a reconhecer a supremacia real de Henrique VIII ou
-a legalidade do divorcio de Catharina de Aragão. Era parente de Maria, e
-fôra um dos que haviam soffrido por terem tomado a defeza da mãe d’ella.
-Solicitou-se do parlamento a sua reabilitação. Esta foi proclamada,
-e Pole foi recebido em Inglaterra como membro da nobreza. Apresentou
-então as suas credenciaes, que o acreditavam como legado do papa. O povo
-acolheu a noticia com indifferença. Por fim o parlamento approvou uma
-proposta para que se tratasse de promover a reconciliação com Roma. Em
-1554, no dia de Santo André, o cardeal nuncio absolveu solemnemente a
-nação. Filippe e Maria, com ambas as casas do parlamento, ajoelharam-se
-na presença do cardeal emquanto este os restituia á communhão da Santa
-Madre Egreja. O parlamento revogou todas as leis que affirmavam a
-supremacia real e que rejeitavam a supremacia do papa. O clero, por outro
-lado, renunciou solemnemente a todas as reivindicações quanto aos bens
-abbaciaes e a outras propriedades da Egreja que haviam sido sequestradas.
-A união com Roma estava novamente restabelecida por completo.
-
-=Porque não foi bem succedida a reacção.=—No espaço de dois annos
-a Inglaterra estava, segundo todas as apparencias, inteiramente
-reconciliada com o papa. Como que parecia que o reinado de Eduardo nunca
-tinha existido, e que Henrique tinha vivido em harmonia com o papa até ao
-fim da sua vida. Tinha-se estabelecido a reacção catholica romana, que
-parecia disposta a levar tudo de vencida; mas apoz um curto periodo o
-movimento reaccionario foi obrigado a deter-se, e dentro de alguns annos
-a Inglaterra havia-se transformado n’uma grande nação protestante. Como
-se operou esta transformação?
-
-É talvez impossivel distinguir todas as causas, mas apparecem tres
-d’ellas á superficie da historia: as perseguições que tiveram logar
-durante o reinado de Maria, as questões por causa dos terrenos
-ecclesiasticos, e o alastramento da opinião favoravel á Reforma como
-resultado das predicas evangelicas no curto reinado de Eduardo.
-
-=As perseguições no reinado de Maria.=—Os protestantes que existiam em
-Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão atrozes perseguições como
-as que dizimaram os huguenotes da França ou victimaram os reformadores
-dos Paizes Baixos. Despertaram, comtudo, no paiz um tal horror ao papismo
-que ainda hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo
-barbaro como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa, que
-se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe, fazendo
-parte do vasto plano que elle havia formado para reduzir a Inglaterra ao
-dominio hespanhol.
-
-A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar todos
-os que durante o reinado anterior haviam fomentado a Reforma. Os
-homens condemnados ao exterminio eram todos bem distinctos, tanto pelo
-nascimento, como pela eloquencia, como pela illustração, como pela
-piedade. Eram: Cranmer, o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela
-sua férvida eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes
-theologos reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam de ser
-derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra viu
-serem entregues ao carrasco e queimados em vida os seus homens mais
-eruditos e de maior capacidade moral.
-
-E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança com a
-Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita, o homem
-insensivel a todos os males, e estar de bem com aquella nação que havia
-consentido que os seus proprios filhos e filhas fossem torturados pela
-inquisição, e, sem a menor sombra de revolta, se havia submettido ao mais
-esmagador despotismo.
-
-Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor christão. Durante
-a vida não conseguiram despertar a confiança universal, mas com as suas
-mortes provaram que estavam bem convencidos do que apregoavam, e fizeram
-penetrar no coração do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado
-por tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam agora com
-satisfação.
-
-=As terras da Egreja.=—Maria havia sido prevenida por Carlos V de que
-não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes. Estes tinham sido
-vendidos, e, em virtude da venda, estavam divididos por cerca de quarenta
-mil pessoas. Tocar-lhes era atacar o direito de propriedade. A Egreja e
-o papa haviam renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do
-parlamento ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á
-religião catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado.
-Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia a Inglaterra
-ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e ella propria estavam
-aproveitando dos roubos feitos á Egreja?
-
-O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não approvou a
-conducta do seu predecessor no que dizia respeito áquella questão, e
-pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a restituição. Maria accedeu,
-por fim, ás suas instancias, e conseguiu com alguma difficuldade, que as
-camaras dessem o seu consentimento para que as terras da Egreja, ainda em
-poder da corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu um
-grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos restantes bens
-abbaciaes deixassem de considerar garantidos os seus direitos, e a perda
-de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a a augmentar os impostos. A
-Egreja mostrava-se, como sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a.
-
-=O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.=—Os theologos
-estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo ensinar para Oxford
-e Cambridge haviam educado uma geração de jovens estudantes que,
-convencidos da verdade das suas opiniões, as acceitaram e as espalharam
-por entre o povo, e que com muita satisfação davam agora a sua vida por
-ellas. Até ali pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse
-o enthusiasmo. O povo tinha passado, com a maior das facilidades, de
-uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de Maria
-tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados por Martinho
-Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com muito gosto as suas vidas para
-conseguirem que os seus compatriotas acceitassem as doutrinas biblicas
-dos reformadores. As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a
-de Coverdale, eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia sendo
-esclarecida ácerca da significação da Reforma.
-
-O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra a Egreja
-que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez que a Egreja havia
-mostrado quando chamada a tomar de novo posse das propriedades que lhe
-haviam sido tiradas, e conhecia agora melhor as Escripturas e estava mais
-ao facto do que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a
-reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo.
-
-=A morte de Maria.=—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia, escapando,
-talvez, d’esse modo, de ser victima de uma revolução. «A mais infeliz das
-rainhas, das esposas e das mulheres», o seu nascimento tinha enchido de
-regozijo uma nação, e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da
-Europa. Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana
-de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica
-rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um golpe esmagador,
-que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu pae, o parlamento, e
-a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filha illegitima, e, marcada com
-este ferrete maldito, foi chorar na solidão a sua ignominia. Quando a
-Inglaterra a saudou como rainha no seu trigesimo-setimo anno, era já uma
-velha de faces cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos,
-negros e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo,
-porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo anhelava
-por um affecto; casara com um marido da sua escolha, e ella propria se
-reputava um instrumento predestinado pelo céu para que se reintegrasse no
-divino favor uma nação excommungada. O marido, a quem ella idolatrava,
-aborrecendo-se d’ella passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha.
-A creança cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a
-nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se
-surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar com os desgostos que
-a affligiam. E o povo, que a recebera com tanto enthusiasmo, e a quem
-ella realmente amava, chamava-lhe Maria a Sanguinaria, e esse cognome
-tem sido transmittido de geração em geração até aos nossos dias. Cada
-tribulação por que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não
-ter ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e, assim,
-as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e novas victimas se
-arremessaram para ellas, para aplacar o Deus do romanismo do seculo
-dezeseis.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL
-
- A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão
- religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag.
- 197.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag.
- 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag.
- 194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A
- Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—Os
- _conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_,
- pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198.
-
-
-=A sucessão de Isabel.=—Por morte de Maria, Isabel foi, sem opposição,
-proclamada rainha. O partido catholico romano, que se poderia ter opposto
-á sua successão, não dispunha de força para isso, pois que a Inglaterra
-estava em guerra com a França, e a unica rival de Isabel era a esposa do
-Delfim, Maria, a rainha da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era
-para todos os catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de
-Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando ella nascera.
-
-A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando ella subiu ao
-throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro, apezar de se terem
-cobrado adeantadamente as receitas, e a guerra com a França estava
-levando a ruina a todos os lares. A situação individual da rainha era
-a mais precaria que se póde imaginar. A sua legitimidade era mais do
-que duvidosa. A França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer
-valer os direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente,
-a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes. A
-força do protestantismo nas provincias era duvidosa. Vendo os perigos
-de uma questão religiosa logo no principio do seu reinado, a rainha
-contemporizou. Ia á missa para agradar aos catholicos romanos. Prohibiu
-a elevação da hostia para agradar aos protestantes. E poz-se á espera de
-ver o que a Hespanha e a Inglaterra diziam.
-
-A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe II
-ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanhola dependia tanto
-de Filippe como do papa, e Isabel não tardou em certificar-se de que da
-Curia Romana não acolheria benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando
-o embaixador anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel,
-na sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem o meu
-consentimento; é um desproposito da parte della, se o fizer. Que ella, em
-primeiro logar, submetta á minha decisão as suas reivindicações.» Não era
-preciso mais. Isabel não podia, de ahi em deante contar com a Hespanha.
-
-Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta da Inglaterra.
-O seu primeiro parlamento era quasi todo composto de protestantes.
-As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram a supremacia real,
-posto que de uma fórma modificada. Henrique VIII havia-se chamado a
-si proprio «o unico chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo».
-Isabel contentou-se com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor»
-(Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos
-e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha, «a quem
-pertencia o governo de todos os estados, quer civis quer ecclesiasticos.»
-Uma commissão de doutores em theologia, nomeada para rever o Livro de
-Oração Commum do rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser
-usado pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação
-d’elles, adoptada.
-
-A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada por Maria
-da Escocia de uma alliança com a França, e pelo papa de uma alliança com
-a Hespanha, não teve outro recurso senão o de conquistar as sympathias do
-povo inglez e fazer-se egualmente protestante.
-
-=Como se liquidou a questão religiosa.=—Isabel não era, de maneira
-nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia fortes
-convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande massa do povo e do
-clero que lhe coubera em sorte governar. Quando Eduardo subiu ao throno,
-era ella uma rapariga de dezeseis annos; apezar de tão nova, porém, sabia
-conduzir-se muito ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião
-patrocinada pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa,
-contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto.
-Conformou-se outra vez com o culto catholico romano. Era, pelo que tocava
-aos sentimentos, uma digna filha de seu pae, e preferia as doutrinas e o
-systema catholicos romanos, occupando o soberano o logar do papa.
-
-Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia herdado uma grande
-disposição para dominar, e a Egreja Catholica Romana era então o modelo
-por excellencia de um governo despotico. Ella havia recebido uma boa
-educação litteraria, e comprazia-se muito em ler os antigos auctores
-gregos. Gostava de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões e
-praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias, e preferia,
-por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de Roma. O que, porém, não
-queria era encontrar o papa no seu caminho.
-
-Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a escola
-genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela fé, nem da
-simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo, abominava aquelles
-principios democraticos de governo da Egreja que se haviam identificado
-com o presbyteriannismo. Os reformadores da envergadura de Knox, com as
-suas doutrinas da predestinação, do livre perdão obtido directamente de
-Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam sómente
-a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem o rei, e estava
-convencida de que o temor da Egreja era uma boa preparação para o temor
-do monarca. Ella não possuia a subtileza de espirito para dizer como o
-seu successor, «Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o.
-
-O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era mais protestante
-do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se acceitando o Livro de
-Oração Commum e outras usanças protestantes.
-
-Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos a essa dignidade
-durante o reinado de Maria tiveram a coragem de protestar contra taes
-mudanças. Resignaram os seus cargos ou foram d’elles exonerados. Em 1559
-estavam vagas todas as sés episcopaes, á excepção da de Llandaff.
-
-Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou a rainha
-Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de sua mãe.
-
-Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos para uma
-consagração legal, chamando do isolamento a que se haviam acolhido os
-bispos de Eduardo VI que a rainha Maria tinha deposto. As idéas de
-Parker eram muito mais protestantes do que as de Isabel, mas parece
-que elle não se preocupou muito com as innovações introduzidas pela
-rainha. Escolheram-se outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou
-constituindo uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel base
-catholica romana.
-
-Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram muito mais
-protestantes do que ela desejaria que fossem. As perseguições executadas
-por ordem de Maria fizeram com que muitas familias inglezas se retirassem
-para fóra do reino. Tinham formado colonias em Francfort, em Genebra,
-e n’outras partes, tinham adquirido intimidade com os theologos
-calvinistas, e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas.
-Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido, e os
-martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra; tinham opiniões,
-e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os bispos sabiam que a Egreja
-de Inglaterra não podia ser aquillo que Isabel desejava que fosse, e
-devia possuir uma auctorizada exposição de doutrinas, um credo cujos
-delineamentos principaes fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada
-a consentir n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamada
-_Os Onze Artigos_. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos e
-os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se conformaria com
-similhantes coisas. A questão prolongou-se tanto que os bispos, n’uma
-occasião, ameaçaram-n’a com um pedido collectivo de demissão. O artigo
-undecimo declarava, portanto, que «as imagens eram coisas vãs».
-
-=Os trinta e nove artigos.=—Este curto formulario de doutrinas foi,
-passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além d’isso, a rainha
-teimava em dar á Egreja uma orientação que a tornava muito parecida
-com a catholica romana. Queria, por exemplo, tornar obrigatorio o
-celibato clerical. Os bispos reconheceram a necessidade de uma serie,
-ou exposição, auctorizada dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo
-Parker, com a assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nos
-_Quarenta e dois Artigos_ de Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes.
-A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe fizeram uma
-segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os Artigos antes de dar o
-seu consentimento, e fez duas muito caracteristicas alterações. Inseriu a
-primeira clausula do Artigo XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos
-ou ceremonias, e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou
-o Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo á Mesa da
-Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção d’esse Artigo,
-e a rainha submetteu-se. Estes Artigos são, e houve intenção de que o
-fossem, calvinistas na sua theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma
-definitiva revisão em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava
-em Zurich: «Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até chegar
-á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de uma unha.» Assim
-a Egreja, que havia alterado o seu Livro de Oração Commum para o amoldar
-ao gosto catholico romano, formulou os seus artigos de religião, o seu
-credo, de tal modo que ficou em conformidade com as egrejas reformadas da
-Suissa.
-
-=O puritanismo e as vestimentas clericaes.=—A rainha não gostava dos
-trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua approvação tinha
-sido uma victoria para o partido protestante com que ella dificilmente
-se conformava. Animados com o bom exito alcançado, os puritanos
-tentaram, de uma maneira vigorosa abolir o Livro de Oração Commum, e
-desembaraçar-se de todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja
-medieval, e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com
-toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim, victoriosa.
-
-Este conflicto com os puritanos começou cerca do anno de 1564, e
-durou durante toda a vida de Isabel. Ao principio o ponto principal
-em discussão era o uso da capa de asperges e da sobrepeliz, que é uma
-sobrevivencia da toga branca, ou traje de ceremonia, do imperio romano.
-Os puritanos do tempo de Isabel mantinham-se n’uma posição identica á de
-seus irmãos no reinado de Eduardo VI. Sustentavam que os cargos na Egreja
-christã não são sacerdotaes nem senhoriaes; ninguem era eleito bispo pelo
-facto de ser clerigo, e poder por essa razão approximar-se mais de Deus
-do que os seculares, ou porque o governo lhe havia sido conferido por uma
-auctoridade de fóra da Egreja, mas porque os officios de superintendente
-e pastor são de utilidade para a Egreja, e porque a Egreja chama esses
-homens para a servirem no limite das suas funcções. Recusavam fazer uso
-dos paramentos, porque estes significavam uma coisa em que elles não
-criam.
-
-A contestação tomou em breve um caracter violento. Os bispos sentiam-se
-inclinados a contemporizar, pois que sabiam o quanto se havia espalhado
-e quão profundamente arraigada estava aquella opposição ás vestes
-clericaes; mas a rainha não lh’o permittiu. Fez uso do poder que a
-supremacia lhe dava sobre os bispos para os obrigar a pôrem em execução a
-Acta da Uniformidade, e isso deu logar a que o puritanismo fosse como que
-um protesto contra a supremacia real e contra a constituição episcopal,
-e como que um brado para que o povo tivesse voz activa no governo da
-Egreja, o que só o presbyteriannismo ou o congregacionalismo pode
-proporcionar. Durante os annos de 1565 e 1566 foram em grande numero os
-ministros que perderam os seus logares por não se quererem conformar com
-os usos estabelecidos.
-
-A rainha entendia que a sua posição como governadora da Egreja a
-auctorizava a proceder a continuos inqueritos ao modo como era conduzido
-o culto publico nas paroquias de Inglaterra. Nomeou commissarios
-reaes para inspeccionar e dar-lhe as necessarias informações, e estes
-agentes de Isabel vieram a constituir o Tribunal da Alta Commissão,
-que se tornou um instrumento de tyrannia ecclesiastica nos reinados
-de seus successores. Por estes commissarios foi Isabel informada da
-existencia dos não-conformistas, e insistiu n’uma submissão ás praticas
-estabelecidas.
-
-O povo fez, na sua maioria, causa commum com os ministros que estavam
-inhibidos de tomar parte nos serviços. As prisões e as multas só
-serviram, como sempre aconteceu, para ateiar as chammas da dissidencia.
-Esta fez a sua apparição nas universidades. Os estudantes recusaram fazer
-uso da sobrepeliz ou assistir aos serviços religiosos feitos por clerigos
-paramentados. Foram tantas as paroquias que vagaram que não era possivel
-arranjar ministros para todas; e, quando qualquer ministro submisso era
-collocado n’uma d’ellas, o povo, em geral, apupava-o. Alguns dos mais
-zelosos ministros separaram-se da Egreja nacional.
-
-O grande dirigente dos puritanos era Thomaz Cartwright, que, tendo sido
-educado no Collegio de S. João, em Cambridge, veiu a ser depois professor
-de theologia. Era um homem piedoso e illustrado, e um eloquente prégador,
-e, tendo perdido a sua cadeira de lente por causa das suas opiniões,
-ainda por cima teve de soffrer o exilio. Dois puritanos, Field e Wilcox,
-escreveram um folheto moderado—_Uma advertencia ao parlamento_—sobre
-a disciplina da Egreja e as medidas violentas que haviam sido tomadas
-contra os puritanos. Foram mandados para Newgate, como dois criminosos
-quaesquer. Cartwright escreveu uma _Segunda Advertencia_ em defeza
-dos seus amigos, e teve, pela segunda vez, de fugir do paiz. A rainha
-respondia a cada pedido de tolerancia com novas exonerações, a ponto
-de haver n’uma só diocese, a de Norwich, segundo consta, não menos
-de trezentos ministros suspensos. O arcebispo Parker morreu em 1575,
-havendo-lhe o cargo de executor da rainha, que desempenhava bem contra
-sua vontade, tornado amargosissimos os ultimos annos da sua vida.
-
-=A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino.=—Ha alguma desculpa
-para as medidas tomadas por Isabel contra os puritanos no principio do
-seu reinado. A Inglaterra estava fraca, estava empobrecida, e o throno
-de Isabel não offerecia estabilidade. Não sympathisava com a Reforma no
-que ella mais profundamente significava, e não a animava o desejo de
-ver o seu povo convertido n’uma nação de enthusiasticos reformadores. A
-Inglaterra, segundo a sua opinião, precisava de descanço e de paz para
-recuperar as suas esgotadas energias. Se a Inglaterra tivesse abraçado
-o protestantismo com verdadeiro enthusiasmo, não assistiria de braços
-cruzados ás crueldades commettidas para com os protestantes francezes e
-hollandezes pela França e pela Hollanda. Desempenharia na Escocia, nos
-Paizes Baixos e na França o papel de campeão protestante. Isabel, com a
-sua impassivel politica, conservou o povo inglez de reserva para o grande
-futuro que o esperava. «Nada de guerra, meus senhores, nada de guerra»,
-exclamava ella invariavelmente quando Cecil ou outro qualquer ministro
-manifestava o desejo de a ver collocada á frente de uma liga protestante.
-
-Isabel não obstante a sua anterior attitude de resistencia, não desejava
-romper por completo com os papistas, ou apresentar-se quer aos seus
-subditos catholicos romanos, quer ás nações continentaes, como uma rainha
-forte e resoluta. A Inglaterra necessitava de descanço, e a rainha havia
-determinado conservar em paz o seu paiz.
-
-Isto explica em parte a sua politica de indifferença perante a lucta
-em que os protestantes se achavam envolvidos n’outros paizes. Cecil,
-o maior dos ministros que Isabel teve, queria que ella se pozesse á
-frente de uma grande liga protestante e prestasse um auxilio efficaz aos
-protestantes da Escocia, dos Paizes Baixos e da França. Os ciumes que
-Isabel tinha de Maria Stuart forçaram-n’a a coadjuvar em grande medida o
-partido protestante da Escocia—a coadjuval-o até ao ponto de elle poder
-tornar preponderante aquella fórma de protestantismo em que tanto havia
-perseverado. Pelo que, porém, diz respeito aos Paizes Baixos e á França,
-Isabel não deu outro auxilio além do que era sufficiente para que o
-partido protestante continuasse a existir, e isso mesmo foi feito mais
-com o fito de consumir as forças da França e da Hespanha do que com o de
-proteger perseguidos correligionarios.
-
-=Luctas intestinas com o catholicismo romano.=—A politica da côrte
-romana e especialmente as declarada sintenções e designios dos jesuitas
-forçaram Isabel, depois de ter reinado quasi doze annos, a mostrar-se
-mais decidida a defender a fé protestante, tanto em Inglaterra como fóra
-d’ella. Os jesuitas tinham insistido repetidas vezes em que não se devia
-guardar fidelidade aos chefes de estado protestantes; alguns dos seus
-emissarios tinham pregado o assassinio como meio licito de desembaraçar
-os paizes dos seus soberanos protestantes, e não faltavam exemplos que
-advertissem Isabel da sorte que a esperava.
-
-A sua rival, Maria Stuart, expulsa da Escocia, era para a Inglaterra uma
-prisioneira perigosa. A morte de Isabel podia tornal-a, a ella que era a
-esperança do partido catholico romano, a herdeira mais proxima do throno
-inglez.
-
-Em 1570, o regente Moray, que era o chefe politico da Reforma na Escocia,
-foi escandalosamente assassinado. Em 1572 foi planeado, e barbaramente
-posto em pratica, o massacre de S. Bartholomeu. No mesmo anno o duque
-de Alba, Filippe II e o papa conferenciaram com Ridolfi, florentino
-que residira durante muito tempo em Inglaterra, sobre a possibilidade
-de uma insurreição catholica romana em Inglaterra, dirigida pelo duque
-de Norfolk. Descoberta a conspiração, Norfolk foi decapitado. Todos
-estes casos mostraram a Isabel que toda a sua salvação estava em entrar
-verdadeiramente no caminho da Reforma, e mostraram tambem ao povo o
-quanto Isabel era essencial para o triumpho do protestantismo.
-
-É talvez uma evidencia de que a rainha e os seus subditos protestantes
-se ligaram mais estreitamente o facto de Edmundo Grindal, clerigo
-de pronunciadas tendencias puritanas, ter sido collocado na sé de
-Canterbury, vaga em virtude da morte de Matheus Parker.
-
-Em todo o caso, Isabel, se não se mostrou menos intolerante no reino,
-reconheceu que era de seu dever enviar mais soccorro aos protestantes
-de fóra. Os huguenotes receberam um auxilio pecuniario. Os aventureiros
-inglezes, e entre elles Francisco Drake, tiveram permissão para fazerem
-todo o mal que podessem ao commercio hespanhol. Isabel mandou, mesmo,
-um corpo de exercito para ajudar os neerlandezes na sua guerra com a
-Hespanha.
-
-Este procedimento fez com que as forças catholicas romanas trabalhassem
-com mais ardor para a ruina da Inglaterra. Estabeleceu-se um seminario
-em Douay, e um collegio em Roma, onde se preparassem padres inglezes
-que iriam depois para o seu paiz promover agitação entre os romanistas.
-E eram continuos os rumores de novas conspirações para collocar Maria
-Stuart no throno de Inglaterra.
-
-Isabel e os seus conselheiros compenetraram-se, por fim, do perigo que
-ella corria. O parlamento promulgou que os missionarios romanistas
-ficavam sujeitos ás penalidades que correspondiam a crimes de alta
-traição, e quando se descobriu a conspiração de Babington, para
-assassinar Isabel e pôr Maria em liberdade, e se provou que Maria
-estava ao facto de toda a trama, ficou decidida a execução da rainha
-dos escocezes. Isabel não representou um papel muito heroico n’esta
-tragedia, mas adquiriu a certeza de ter, d’esta vez, quebrado todas as
-relações com Roma, assim como Roma e os poderes romanos não poderam
-deixar de reconhecer que o tempo das conspiratas tinha findado, e que, ou
-a Inglaterra seria subjugada, ou ter-se-hia de admittir a Reforma como um
-facto consumado.
-
-=A Armada hespanhola.=—Roma e Hespanha descobriram por fim o que o astuto
-Guilherme Cecil tinha descoberto desde o principio. «O imperador aspira
-á soberania da Europa, coisa que elle jámais poderá conseguir sem que
-seja suprimida a religião reformada; e não poderá esmagar a Reforma sem
-que primeiro esmague a Inglaterra». Carlos V tinha visto isso, mas não
-muito claramente, quando se mostrou tão ancioso por uma alliança com a
-Inglaterra, no principio do reinado de Maria. Filippe II viu-o quando
-se offereceu para marido de Isabel. Coube, finalmente, a vez ao papa, o
-qual, de mãos dadas com Filippe, fez convergir todos os seus esforços no
-sentido de subjugar a Inglaterra.
-
-A occasião era propicia. Filippe e a Santa Liga da França tinham,
-apparentemente, triumphado. A Inglaterra encontrava-se isolada.
-
-O papa Sixto V excommungou a rainha Isabel, e encarregou Filippe II de
-executar a sentença. Sua Santidade contribuiu tambem com uma grande
-quantia para ajuda da empreza. Os hespanhoes reuniram uma grande
-esquadra, com a qual se propunham atacaria Inglaterra, e, para ter mais
-seguro o bom exito, Alexandre de Parma, o mais habil general da Europa,
-recebeu ordem para partir dos Paizes Baixos com o mesmo destino, levando
-comsigo a flôridas tropas hespanholas.
-
-Isabel appellou para o patriotismo da nação, e esta não se fez surda
-ao seu appello. A Escocia, não obstante a execução de Maria, não quiz
-levantar-se contra a Inglaterra. A França permaneceu inactiva, pois que
-a liga não havia triumphado tanto como se suppozera e não tinha sido
-possivel extinguir os huguenotes. Toda a Inglaterra pegou em armas.
-Equiparam-se duzentos navios. A nação, fremente de enthusiamo, estava
-preparada para o ataque. A Armada, composta de numerosos vasos de guerra
-de grandes dimensões, aproou á Inglaterra, mas os ventos produziram-lhe
-enormes avarias antes de chegar ao seu destino. Os navios inglezes
-cercaram-n’a, e travaram com ella uma serie de combates navaes, que a
-pozeram em deploraveis condições. Um temporal medonho completou a obra;
-e a soberba frota, que os hespanhoes haviam equipado á custa de mil
-sacrificios, deu miseravelmente á costa, sendo pouquissimos os barcos que
-conseguiram chegar aos portos de onde haviam saido.
-
-Foi desde então que a protestante Inglaterra ficou sendo a maior potencia
-europeia. Não foi possivel supprimir a Reforma porque não foi possivel
-vencer a Inglaterra.
-
-É dificil dizer quanto o lado menos nobre de Isabel contribuiu para a
-consecução d’este resultado final; o que é certo é que ella administrou
-habilmente os recursos da nação, teve o maior cuidado em reprimir o
-enthusiasmo d’esta, até que a ella se podesse entregar sem perigo algum,
-e determinou, mediante o Acto de Uniformidade, cuja transgressão ficava
-sujeita a severas penas, unificar exteriormente a Inglaterra. Pode ser
-que os meios de que lançou mão não fossem reputados necessarios, mas
-attingiu, pelo menos, o fim que tinha em vista.
-
-=As prophecias.=—A nomeação de um arcebispo puritano não produziu os
-beneficios que se esperava. Isabel tinha o costume de demonstrar aos
-seus bispos que a supremacia real era uma coisa que existia de facto.
-A rigorosa suppressão da não-conformidade havia occasionado uma grande
-falta de ministros. Não era raro prover-se individuos sem aptidões para
-prégar. Certos pastores animados de bons intuitos promoviam reuniões
-clericaes, onde se discutia theologia e havia uma especie de curso
-de oratoria. Estas reuniões, que tinham algumas parecenças com os
-«Exercicios» da Escocia, e que eram, talvez, uma imitação d’elles,
-chamavam-se as «Prophecias». A rainha não gostava d’ellas. Ella não via,
-mesmo, a necessidade de se prégar sermões, e entendia que os ministros
-se deviam limitar a ler as _Homilias_ ás congregações. O arcebispo
-Grindal era favoravel a estas _Prophecias_, e quando a rainha lhe ordenou
-para as prohibir recusou-se a fazel-o. A rainha, enfurecida, ameaçou-o
-com a deposição, e chegou a suspendel-o do exercicio das suas funcções
-episcopaes. Esta suspensão durou até quasi ao fim da vida do arcebispo.
-
-=Os conventiculos.—Os pamphletos anti-prelaticios.=—Quando Grindal
-morreu, Whitgift, o irreconciliavel adversario de Cartwright e do
-puritanismo, foi elevado a arcebispo de Canterbury. A desastrosa
-politica da rainha, rigorosamente executada por elle, teve as suas
-naturaes consequencias. O povo, privado dos serviços dos clerigos a
-quem respeitava, e obrigado a ouvir outros que não tinham direitos
-nenhuns sobre elle, recusou-se a frequentar as egrejas. Reunia-se em
-casas particulares e n’outros logares apropriados, e ahi fazia oração e
-observava outros pormenores do culto publico. Estes conventiculos foram
-declarados illicitos, mas, apezar d’isso, eram cada vez mais numerosos.
-Surgiram as seitas não-conformistas.
-
-Knox na Escocia e Beza em Genebra alarmaram-se com o estado da Egreja na
-Inglaterra. Elles estavam ao facto das ameaças do poder catholico romano,
-e sabiam bem que o protestantismo inglez precisava de estar muito unido.
-Não sympathisavam de modo algum com o systema de Isabel, e, comtudo, eram
-de opinião que o horror dos puritanos pelos paramentos religiosos era
-algum tanto affectado e exaggerado. Escreveram aos dirigentes do partido,
-rogando-lhes que se conformassem, mas a espada da perseguição tinha
-penetrado demasiadamente nas suas almas. Impedidos de prégar, começaram
-a escrever, e por entre o povo foram apparecendo diversos pamphletos por
-elles publicados. O que se tornou mais notavel de tudo foi uma serie
-de opusculos chamados _Anti-prelaticios_. Esses opusculos atacavam o
-systema episcopal da Egreja de Inglaterra, e expunham com uma implacavel
-severidade as varias ceremonias papistas que ella ainda conservava. Um
-dos auctores, Nicolau Udal, foi descoberto, sendo executado em 1593.
-
-=A Reforma ingleza= ficou firmemente estabelecida depois da derrota da
-Armada hespanhola. A Inglaterra reconheceu finalmente que lhe competia
-dirigir os Estados protestantes da Europa; e, não obstante o caracter
-anomalo da Egreja reformada ingleza, o paiz soube tornar-se digno da sua
-posição.
-
-A Reforma ingleza, comtudo, era de um caracter tal que não pode ser
-facilmente comparado com o do movimento do mesmo genero que teve logar
-n’outros paizes. No primeiro periodo, um monarca caprichoso e absolutista
-obrigou o reino a desligar-se do papado, ao mesmo tempo que reprimia
-selvaticamente todas as tentativas de uma reforma religiosa, quer na
-doutrina quer no culto.
-
-Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida, os homens de
-maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos, tratou de
-promover uma reforma de doutrina e de culto. O movimento, empurrado, por
-assim dizer, de fóra, não foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que,
-com a mudança de governo, voltou para o romanismo.
-
-No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se pela
-Reforma religiosa que havia agitado outros paizes, mas a supremacia real
-encerrou o movimento dentro de uns certos limites que fizeram com que
-elle não representasse verdadeiramente as aspirações da Egreja.
-
-Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos e
-ritualistas representarem a historia como se a Egreja tivesse sido levada
-pelo seu proprio discernimento a assumir a attitude que assumiu para com
-o romanismo, de um lado, e para com o decidido protestantismo, do outro;
-mas estas representações não são defendidas pela evidencia contemporanea.
-Os anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a Egreja
-tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização episcopal
-regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem, em provar que a posição
-que elles chamam catholica, e que outros chamam anomala, foi assumida
-pela propria Egreja, actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção
-episcopal; mas os factos que se relacionam com este caso são contra
-elles. A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos
-seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a supremacia real.
-
-Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez com que fosse
-possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que podesse dar ás suas
-theorias uma apparencia de base historica.
-
-Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum de Eduardo
-VI, transformando-o n’um outro dentro de cujas formulas havia logar
-para pessoas que teriam preferido conservar-se catholicas romanas
-se considerações politicas não as obrigassem a passar para o lado
-protestante.
-
-Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos e os ritos
-contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que diligenciou reter as
-imagens, os crucifixos e a agua benta.
-
-Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho que
-nada tinha que ver com o governo episcopal da Egreja, e que era de um
-caracter inteiramente erastiano—que estabeleceu a Acta da Uniformidade,
-e que impoz a conformidade sob pena de severos castigos, que podiam ser
-exoneração, multa, prisão e até perda da vida.
-
-Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra
-tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra muito
-mais em harmonia, respectivamente á doutrina e ao culto, com as egrejas
-reformadas do Continente, que haviam tomado Genebra para modelo.
-
-Os bispos prepararam os _Os trinta e nove Artigos_, que o bispo Jewel,
-a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou que haviam
-sido redigidos com o proposito de mostrar que havia perfeita uniformidade
-de doutrina, e especialmente da que se refere ao sacramento da Ceia do
-Senhor, entre Genebra e Canterbury.
-
-Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam sensatamente
-tolerado as objecções dos puritanos quanto ás capas de asperges e ás
-sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo Livro de Oração Commum de
-Eduardo VI, em uso havia muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle
-que foi indicado por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos
-romanos.
-
-Os bispos obrigaram a rainha a declarar-se contra as imagens, os
-crucifixos, a agua benta e o celibato do clero, isto é, contra todas
-as coisas que ella desejaria conservar; e compelliram-n’a a acceitar o
-Artigo vigesimo nono, que defende a theoria calvinista da Ceia do Senhor.
-
-Se os bispos tivessem tido liberdade de acção, haveria logar na Egreja
-de Inglaterra para os não-conformistas da actualidade, pois que a sua
-queixa, começando por ahi, não era contra o governo episcopal, mas contra
-os symbolos e ritos supersticiosos que lhes foram impostos pela rainha e
-pela sua Commissão: difficilmente, porém, haveria logar para os modernos
-ritualistas anglicanos.
-
-Devem a posição, que legal e historicamente lhes deve ser concedida, a
-duas coisas—(1) á supremacia real, que teve a força sufficiente para
-reprimir e ter sujeito a si o episcopal e nacional desejo de uma Reforma
-completa; e (2) ao facto de a uma numerosa parte do clero de Inglaterra
-serem tão indifferentes as mudanças que poderam conservar-se no exercicio
-das suas funcções durante os reinados de Eduardo, Maria e Isabel, isto é,
-sob o systema puritano, romanista e anglicano.
-
-A supremacia real deu á Egreja de Inglaterra o caracter claudicante da
-sua reforma, e habilitou as pessoas que vivem actualmente a fallar dos
-principios catholicos, isto é, medievaes, da Egreja ingleza.
-
-Os historiadores teem mostrado que Isabel tinha necessariamente de
-proceder da maneira cautelosa como procedeu, e, com aquella prepotencia
-que a caracterizava, obstar a que a Egreja do seu paiz se reformasse por
-completo. Ha alguma verdade no seu criticismo. Foi, comtudo, uma politica
-myope, que só tratava de acudir ás primeiras necessidades, e que obedecia
-muito ao principio de «depois de mim o diluvio.» Foi a supremacia real
-de Isabel, imposta mediante o tribunal da Alta Commissão, que preparou
-o caminho para a revolta puritana no reinado de Carlos I e para o dia
-do Negro Bartholomeu no reinado de Carlos II. Se a Egreja de Inglaterra
-tivesse sido entregue aos seus instinctos espirituaes, se a sua acção
-não tivesse sido contrariada pelo erastianismo, poder-se-hia ter evitado
-estas duas calamidades.
-
-
-
-
-IV PARTE
-
-OS PRINCIPIOS DA REFORMA
-
-CAPITULOS:
-
- I—OS PRINCIPIOS DA REFORMA.
-
- II—COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA.
-
- III—A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES.
-
- IV—OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-OS PRINCIPIOS DA REFORMA
-
- A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de
- particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação
- da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a
- Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag.
- 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,
- pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis,
- pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação
- do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma
- revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213.
-
-
-=A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares
-condições sociaes.=—O movimento da Reforma surgiu n’um dos mais notaveis
-periodos da historia europea. A tomada de Constantinopla pelos turcos
-ottomanos no meiado do seculo quinze dispersou por toda a Europa os
-thesouros litterarios e os sabios de aquella rica e illustrada cidade.
-Muitas pessoas começaram a estudar diligentemente os antigos auctores
-latinos; aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes a
-sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos poetas
-e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua em que foi
-escripto; e os rabbis judeus encontraram, com grande surpreza sua, no
-mundo occidental, homens com immensa vontade de aprenderem a sua antiga
-lingua, o hebraico, e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles.
-Um mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia, quer na
-litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens do periodo em
-que a Reforma appareceu.
-
-A descoberta da America por Colombo não só revolucionou o commercio e
-tudo quanto se relaciona com elle, como tambem excitou a imaginação da
-Europa. O que não poderiam os homens fazer, visto que tanto tinham feito
-já, tanto tinham descoberto? Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella
-epoca foi dito e escripto por homens que se julgavam em vesperas de
-grandes acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa.
-
-As condições politicas da Europa occidental tinham tambem mudado.
-Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimento das modernas
-nações europeas. Haviam-se desprendido, umas apoz outras, do systema
-politico medieval, e tornado independentes, com sentimentos, sympathias
-e aspirações nacionaes, o que fez com que cada nação comprehendesse que
-tinha um caminho especial a percorrer.
-
-O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle mundo de
-costumes sociaes e de restricção politica e religiosa em que tinham
-anteriormente vivido era pequeno de mais para elles; sentiram a
-necessidade de mais espaço para respirarem. O mundo era maior; a vida
-tinha muito mais aspectos do que aquelles que os paes d’elles tinham
-jámais posto na sua idéa. Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era
-agora novo.
-
-Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a philosophia
-escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos e as mentes dos
-homens, e traçado limites que elles não podiam ultrapassar. Estas
-barreiras haviam-se desmoronado sob a influencia da nova vida que por
-todos os lados penetrava n’elles, e os homens descobriram que a religião
-era uma coisa maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida
-social, com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do Sacro
-Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos que escapavam á
-perspicacia dos mais eminentes sabios.
-
-Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham, com toda
-a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações, lucrando apenas
-com isso o encontrarem-se na grave situação de isolamento social, como
-acontece a todos aquelles cujos pensamentos não são comprehendidos
-pelos homens do seu tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses
-pensamentos propriedade commum, e as multidões principiaram a ser
-agitadas por elles.
-
-Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma appareceu;
-mas o movimento, em si, não pode ser explicado simplesmente por meio
-de uma descripção d’essas condições sociaes. Teve logar uma verdadeira
-renascença da religião, um cumprimento da promessa do derramamento do
-Espirito Santo sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso
-que surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias, e
-tirou d’ellas mesmas a sua força.
-
-=Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.=—O que
-mais agita os corações dos homens que se encontram no meio de um
-grande movimento religioso dentro da Egreja christã é o desejo de se
-approximarem de Deus, de se sentirem em communhão pessoal com aquelle
-Deus que se mostrou cheio de graça e perdão mediante a vida e obra do
-Senhor Jesus Christo. Os homens que estão realmente sob a influencia
-de um grande despertamento religioso, e que são arrastados por um
-movimento de revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma
-deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho atravancado
-de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam ter accesso á presença
-divina.
-
-Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer, e mesmo
-durante algum tempo depois, os homens que estavam sob a influencia d’essa
-revivificação encontraram no seu caminho as taes barreiras de que já
-falámos. A Egreja, que se intitulava a porta que dava accesso á presença
-de Deus, tinha atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a
-sua maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha lista de
-penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter mostrado a vereda
-que conduzia á presença de Deus, parecia ter rodeiado o Seu santuario
-de um triplice muro que tornava difficilima a entrada. Quando um homem
-ou uma mulher sentia o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja
-dizia-lhe que fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes
-de vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado.
-Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de perdão, era-lhes
-este assegurado, não por Deus, mas por um padre. A graça de Deus, de que
-o homem tanto precisa durante a vida, e de que tanto precisa tambem á
-hora da morte, era-lhes concedida por meio de uma serie de sacramentos a
-que tinham de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam
-mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante a Egreja mediante
-a confirmação; o seu casamento ficava isento do peccado da concupiscencia
-mediante o sacramento do matrimonio; a penitencia restituia-os á vida,
-depois de terem commettido qualquer peccado mortal; o sacramento da
-Ceia do Senhor, administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os
-espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o descanço
-eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas coisas não
-constituiam de maneira alguma os signaes da livre graça de Deus, sob cujo
-vasto docel o homem passa a sua vida espiritual. Eram, antes, umas portas
-guardadas com toda a vigilancia, e que os padres abriam de mau humor, e
-quasi sempre só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que
-Deus dá gratuitamente.
-
-Ninguem podia, tão pouco, viver livremente uma vida christã, dedicando ao
-serviço de Deus todos os talentos que possuia. Para se viver santamente
-era necessario observar umas tantas coisas que a Egreja prescrevia,
-como, por exemplo, os frequentes jejuns, as interminaveis rezas, as
-flagellações, e um conjuncto de tediosas ceremonias, que, se eram
-manifestações de amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a
-maxima de S. João, beneficiando o proximo.
-
-A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença, de Deus,
-proclamando a todos que, se almejassem por se approximar do compassivo
-Redemptor só o poderiam fazer passando pelas estreitas portas que ella
-guardava, e exigindo por essa passagem, isto é, pelo baptismo, pela
-confirmação, pelo casamento, e pelos restantes sacramentos, umas vis
-moedas, e inpondo de quando em quando uma compra de indulgencias, para
-acabar de encher os seus cofres.
-
-A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado pelo irresistivel
-desejo de uma approximação de Deus, e satisfez cabalmente esse desejo
-levando deante de si, e fazendo desapparecer, todas as barreiras e
-obstaculos.
-
-=Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.=—É natural
-que occorra esta pergunta: Como é possivel que a Egreja se esquecesse a
-tal ponto da sua missão e do verdadeiro fim da sua existencia que, como
-os reformadores constataram, estivesse fazendo exactamente o contrario de
-aquillo que devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens
-a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus irmãos
-na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre elles e Deus, e
-que os conservava longe d’Elle. Como poude a Egreja tornar-se uma coisa
-inteiramente opposta ao que era licito esperar que ella fosse? Como poude
-a Egreja de Deus converter-se, segundo a graphica expressão de Knox,
-«n’uma synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia
-necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos, porém, dar uma
-idéa geral do que se passou.
-
-«A separação do mundo» é uma das maximas da vida christã, symbolisada
-nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada nas normas da vida do
-Novo testamento. A Egreja devia viver separada do mundo, e, em todos os
-seculos, aquelles a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se
-esforçado por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica.
-Gregorio VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando, e
-que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador da
-Egreja medieval, declarou que essa separação devia ser perfeitamente
-visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse no reino de Christo;
-e aquella sua opinião influiu muito no modo de ser da Egreja medieval.
-Nos seus dias todo o governo politico estava nas mãos do chefe do Imperio
-Romano, e Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse
-tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival sobre a
-terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado fôra o grande
-Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica. Nas suas mãos a Egreja
-tornou-se um reino em contraposição ao Imperio Romano da Edade Media, seu
-adversario visivel. Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja
-n’uma monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre duas
-coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas. O grande, o fatal,
-defeito n’aquela idéa de separação do mundo, em que Gregorio andava
-absorvido, proveiu do facto d’elle tomar uma parte do mundo, isto é, o
-Imperio politico, pelo mundo todo de que era necessario haver separação,
-de modo que a Egreja ficou separada do imperio, mas não ficou separada do
-mundo.
-
-A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus; todas estas
-phrases, empregadas na Escriptura para descrever o parentesco espiritual
-entre Deus e o seu povo foram malignamente applicadas a esta organização
-politica visivelmente separada do Imperio politico da Edade Media. Um
-homem era chamado _santo_ se pertencia a um dos reinos, e secular se
-pertencia ao outro; um frade era um homem _santo_, um guarda do imperador
-era um homem secular. Um campo era _santo_ se um papa ou um clerigo
-qualquer recebia a respectiva renda; era secular se o proprietario não
-tinha ordens ecclesiasticas. Todas as palavras e phrases que se deviam
-reservar para quando se tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas
-na descripção de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que
-pertencia áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja.
-
-A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia culto a Deus;
-era a esphera da religião; e quando, de caso pensado, ou em virtude
-do modo habitual de fallar, se ensinou aos homens que a Egreja era
-simplesmente uma sociedade visivel, a religião espiritual decaiu, sendo
-substituida por uma outra que consistia apenas na observancia de um certo
-numero de ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se
-cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente
-mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a Reforma appareceu
-era já impossivel supportal-a por mais tempo, e os homens insistiram em
-que os nomes espirituaes fossem applicados ás coisas espirituaes, ou,
-por outra, em que não se fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas
-piedosas.
-
-=Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de
-Christo.=—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para se tornar
-cada vez mais um reino politico, e cada vez menos uma egreja, não se
-deve suppôr que durante a Edade Media não houvesse religião espiritual.
-O Livro de Oração Commum da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado
-de antigos livros cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja
-andava geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que esse livro
-está impregnado de um profundo sentimento religioso. Muitos dos hymnos
-que eram cantados no culto publico por todas as egrejas protestantes
-foram originalmente compostos por devotos poetas medievaes, que dedicavam
-os seus talentos á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a
-sua existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo
-com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôr em contacto com
-as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes e friamente politicas.
-Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira separação do mundo, sem procurar
-definir as suas idéas, ou descutir o facto de terem os guias politicos
-da Egreja restringido o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém,
-tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir os seus
-pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre estava em harmonia com
-as definições dos estadistas ecclesiasticos. Para exemplificação d’isto,
-vamos passar em revista dois periodos de reviviscencia.
-
-=Francisco de Assis.=—Francisco de Assis, commovido pelas dolorosas
-scenas que observava nas cidades, onde a população indigente, pela
-maior parte composta de camponezes que haviam deixado as suas terras
-para se livrarem do pagamento das contribuições e dos pesados serviços
-a que os senhores feudaes, cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em
-miseraveis e repellentes bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino
-espiritual d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente mãos á
-obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse, mas como
-sob a influencia de uma grande idéa. Essa grande idéa era a tal maxima
-da «separação do mundo», a mesma que, erradamente interpretada, havia
-tornado politica a Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do
-mundo não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de dois
-espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela sociedade politica;
-tinha de baseiar-se na conducta individual. Gregorio VII tinha definido a
-separação de uma maneira negativa; havia dito «A Egreja é uma coisa que
-o mundo não é, e está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um
-modo mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste em
-estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez.
-
-Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de Chanterbury
-expozera n’uma arida fórma escolastica, a da _imitação de Christo_;
-e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever a verdadeira e
-individual separação do mundo, muito differente da separação politica
-de Gregorio VII. Anselmo e Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma
-maneira fria e dogmatica, e outro n’um estylo de fervoroso prégador da
-renascença, feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella o
-unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que Christo lhes
-alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra de Christo imitando-O.
-Francisco pegou, por assim dizer, n’esta idéa e, ligando-a com a maxima
-da separação do mundo, disse: «Eis aqui a verdadeira separação. Christo
-não era d’este mundo. O Seu reino não era d’este mundo. A separação do
-mundo é posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos aos
-de Christo.»
-
-Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não tinham grande
-largueza de vistas, e a vida e obra de Christo, assim como a Sua
-separação do mundo, apresentavam-se-lhe claramente, mas de uma maneira
-limitada. Nosso Senhor não era casado; estava separado da vida social
-que provém do casamento. Era pobre; estava separado do mundo da riqueza,
-do mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto de Se
-deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade, da independencia
-de vida e de acção. Prendeu-se a estes aspectos exteriores da vida de
-Christo; fez consistir a imitação de Christo e a consequente separação do
-mundo n’estes modos visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo
-ficou significando, entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de
-pobreza, castidade e obediencia.
-
-O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes resultados
-e teve um rapido successo; mas, como todos os outros movimentos que se
-baseiam em imitaçõees exteriores da vida divina, depressa deixou de
-impulsionar os espiritos, e os homens piedosos pozeram-se á procura de
-uma melhor separação do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais
-genuina imitação de Christo.
-
-=Os Mysticos medievaes.=—Os mysticos julgaram ter encontrado uma solução
-para o problema. A imitação de Christo e a separação do mundo á maneira
-de Christo deviam, disseram elles, ser mais profunda e mais intima.
-Deviam ser postas em connexão com uma religião espiritual, pois que é
-a alma, e não aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo,
-afim de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem tem,
-disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca, que é propriamente
-a vida da alma, e uma vida exterior, uma vida visivel, passada no
-meio da sociedade. Põe-se em communhão com Deus, não mediante aquella
-vida exterior, que todos os homens vivem, mas mediante a que possue
-espiritualmente, mediante a vida da alma. A separação do mundo não
-consiste n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella
-vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que separação
-do mundo significa communhão com Deus, e essa communhão não tem logar de
-uma fórma visivel, mas muita reconditamente, quando a alma se encontra a
-sós com Elle. Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos
-os desejos, a todos os actos que podessem impedir a communhão da alma
-com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle Christo que
-está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham, como se vê, ácerca da
-separação do mundo, a mesma idéa de Gregorio. Ligavam-n’a com aquella
-idéa de imitação de Christo, em que Francisco de Assis tanto insistia.
-Vivendo, porém, n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, em
-que abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias, foram levados a
-reconhecer, como a ninguem, antes ou depois d’elles, tem succedido, que
-o reino de Deus está no interior dos corações. A renuncia ficou sendo a
-sua senha, e essa sua renuncia era toda espiritual, e com ella se armaram
-para soffrer pacientemente tudo quanto a Deus, na Sua Providencia,
-aprouvesse enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser religião
-espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter esse nome, ser
-espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente, mais de Christo do que
-Gregorio com a sua Egreja politica ou do que Francisco de Assis com a sua
-pictorica imitação dos aspectos da vida de Christo no mundo.
-
-=A significação do perdão, segundo a Reforma.=—Todos estes movimentos
-eram revivificações da religião. Eram todos elles tentativas para
-se chegar a uma verdadeira separação do mundo, que é o mesmo que
-approximação de Deus. A Egreja sustentou esta prolongada lucta como
-preparação para a Reforma, fazendo dos seus proprios desenganos outras
-tantas alpondras para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou
-por todas ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das
-reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição da familia,
-deixou de estudar direito para estudar theologia.
-
-Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica e a imitação
-de Christo segundo as regras monacaes lhe proporcionariam aquella
-paz da alma que é o fructo de uma convivencia com Christo. Foi João
-Tauler ou Nicolau de Basiléa quando se inteirou de que a religião,
-para ser verdadeira, deve ser espiritual. Mas ainda assim elle não
-ficou satisfeito. Não se sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia
-que lhe era indispensavel estar senão depois de experimentar aquella
-bem-aventurada sensação de perdão pela qual anhelava. E porque havia
-feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza do perdão? Como
-hei de eu transpôr essa insuperavel barreira do peccado que se ergue
-entre mim e o Deus de toda a santidade?» e considerara este ponto como de
-summa importancia durante todo o periodo em que o seu espirito passou por
-varias vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas
-piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião que a
-Reforma effectuou.
-
-Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos principaes
-caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto de Deus, mas esse
-desejo era manifestado mediante differentes perguntas, e cada tentativa
-de revivificação tornava mais evidente a possibilidade de que elle
-fosse satisfeito, Gregorio perguntava: «Como posso eu separar-me do
-mundo?» Francisco de Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante
-a Christo?» Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimento
-do perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos luctam com a
-mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa; está-se cada vez mais
-perto da solução do problema, á medida que as gerações se succedem,
-até que por fim vieram os reformadores, que com tanto zelo procuraram
-revivificar a religião, e pozeram em primeiro logar a questão do perdão,
-e, conseguintemente, a do peccado, tocando assim no ponto principal.
-Desembaracemo-nos do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão, e
-haverá então separação do mundo, imitação de Christo e communhão com Deus.
-
-A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade
-o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do mesmo modo. Os homens
-alcançam o perdão de Deus indo pedil-o directamente a Deus, e confiando
-na Sua promessa de que perdoaria. A livre e clemente graça de Deus,
-revelada na pessoa e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa
-promettida graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida
-religiosa da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar o
-peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa. Tal é o simples
-aspecto religioso do movimento da Reforma. Todos aquelles que, sentindo a
-necessidade do perdão, e tendo perfeita confiança na promessa do perdão
-que Deus fez mediante Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de
-pensar em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa promessa
-e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a consciencia d’isso.
-
-=Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.=—Sendo
-este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma, é manifesto que
-elle não constituiu um caso singular, isolado, na historia da Egreja.
-Todos os christãos piedosos teem sentido pouco mais ou menos a mesma
-coisa, o seu espirito tem passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com
-Deus para serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa
-de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as gerações christãs
-dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem á vida do christão dizem
-a mesma coisa, e o que a Reforma fez foi definir claramente que todos os
-christãos tinham, com mais ou menos consciencia do facto, sentido.
-
-Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que espiritualmente
-experimentavam, e que era a linha central da sua vida religiosa, estava,
-n’uma multiplicidade de modos, em contradicção com o credo, o culto e a
-organização theoretica da sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente
-do que o contraste entre as exposições doutrinaes e as posições
-ecclesiasticas de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os
-hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as phrases que
-empregavam nas suas orações. A sua theologia tinha muitos pontos de
-contacto com a philosophia pagã de Aristoteles, no seu culto estavam
-consubstanciados muitos ritos do paganismo, a fórma como a Sua Egreja
-era dirigida era mais modelada na constituição do imperio romano do que
-na constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos piedosos
-viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao momento em que os
-elementos pagãos que haviam sido introduzidos na sua Egreja se tornaram
-tão preponderantes que elles se viram forçados a protestar contra elles.
-Luthero achou o perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que
-nunca fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na Egreja
-não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus por dinheiro. Isso
-levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção a certos assumptos,
-e compenetrou-se de que a venda do perdão dos peccados não era uma
-horrivel profanação enxertada na Egreja que elles veneravam, mas sim uma
-verdadeira e logica deducção de principios com que elles não se tinham
-até ali preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes
-da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que sempre existiu
-na Egreja medieval, manifestando-se na santidade da vida, na nobreza dos
-hymnos, nas confissões do peccado, e na confiança nas promessas do Deus
-do pacto. Os protestantes não precisam de reivindicar a sua affinidade
-com homens cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem
-reconhecido a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o viver
-religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do mahometanismo
-ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre ascendencia em todos esses
-homens e mulheres piedosas que, mesmo nos seculos mais obscuros da
-Egreja, foram ter directamente com Deus, confiados, tanto no tocante á
-vida presente como no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça
-renovadora que Elle revelou em Christo.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA
-
- O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado
- na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a nação
- medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra
- o medievalismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De
- Monarchia_ de Dante e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua,
- pag. 218.
-
-
-=O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida
-social da epoca.=—A Reforma começou simplesmente como uma tentativa de
-dar o culto a Deus de uma maneira mais simples, segundo os dictames da
-consciencia e os impulsos da vida interior, da vida espiritual; mas não
-podia ficar por ahi; significou por fim uma revolução nas condições da
-sociedade e uma grande mudança na situação politica da Europa.
-
-A Egreja medieval era muito rica, e possuia muitos bens de raiz, e quando
-uma freguezia, ou uma provincia, ou um paiz se tornava protestante,
-levantavam-se discussões sobre o destino a dar a estas propriedades.
-Deviam ficar em poder dos padres, deviam passar para o do pastor
-protestante, ou deviam as auctoridades civis tomar conta d’ellas e
-administral-as como bens do Estado? A Egreja tinha o direito de cobrar
-dizimos—o dizimo grande, ou a decima parte da colheita do trigo ou do
-vinho, e o dizimo pequeno, ou a decima parte das ovelhas, dos vitellos,
-dos porcos e dos ovos. Os padres e os frades recebiam remuneração pelos
-baptismos, pelos casamentos, pelas confirmações e pelos enterros.
-Quando as familias se tornavam protestantes, e dispensavam os serviços
-dos clerigos da Egreja medieval, por não se quererem sujeitar a ritos
-supersticiosos, aonde ir buscar aquelles dizimos e aquelles emolumentos?
-A permissão para se render culto a Deus segundo as consciencias
-preceituavam envolvia questões de dinheiro, que eram muitas vezes levadas
-aos tribunaes, e que obrigaram, mesmo, a uma modificação das leis
-concernentes á propriedade.
-
-A Egreja medieval tinha o seu systema de celibato. Os clerigos não
-podiam casar, e, alem dos parocos e dos curas, havia frades e freiras
-celibatarias e que haviam feito votos de castidade, sanccionados
-pelo Estado. Quando qualquer d’estes homens ou mulheres se tornasse
-protestante, ser-lhe-hia permittido desligar-se dos votos e abandonar
-o convento? e, no caso de ter levado dinheiro comsigo para o convento,
-ser-lhe-hia restituido? Se todos os moradores de uma casa religiosa
-abraçassem a fé protestante, poderiam conservar-se n’essa casa, e
-continuar disfructando a respectiva dotação? A todas estas questões
-juridicas deu logar a Reforma.
-
-Mas havia outras questões muito mais graves. A Egreja medieval, segundo o
-costume da epoca, tinha jurisdicção sobre muitos pleitos, que na Europa
-moderna são julgados pelos tribunaes civis. As questões entre marido
-e mulher, entre paes e filhos, e as que diziam respeito a heranças e
-testamentos, estavam na alçada dos tribunaes ecclesiasticos, e nunca eram
-submettidos ás instancias ordinarias do reino. A Egreja é que decidia se
-um casamento era ou não legal, se este ou aquelle grau era prohibido, se
-este ou aquelle filho era legitimo, etc. Estas questões levantavam sempre
-comsigo uma outra, a da propriedade, pois que só os filhos ligitimos
-podiam herdar os bens de seus paes. Só era licito o casamento que fosse
-feito dentro dos graus auctorizados, e effectuado á face da Egreja por
-um sacerdote ordenado. E isto porque, em conformidade com as idéas da
-Egreja medieval, o matrimonio era um sacramento. E assim protestante
-algum podia estar legalmente casado, porque a legalidade de um matrimonio
-só podia provir de um sacramento que não podia ser administrado a
-rebeldes, por constituir um acto de desobediencia á auctoridade da
-Egreja. E a lei da Egreja era a lei da nação; pois que antes da Reforma
-a Egreja tinha o direito de resolver todos estes casos. A não ser que
-as leis fossem alteradas, filho algum de protestantes, casados por
-pastores protestantes, podia herdar de seus paes, pois que, segundo a
-lei da Egreja medieval, os paes não tinham contraido um casamento legal.
-E, portanto, não andavam sómente envolvidas n’isto as questões que
-diziam respeito á propriedade; affectava-se tambem a honra pessoal, e a
-dignidade das esposas e dos filhos.
-
-Poderiamos multiplicar os casos indefinidamente; mas os que citámos são
-sufficientes para mostrar como o simples desejo de dar culto a Deus
-segundo a consciencia alterou todas as condições da vida social. O
-velho systema ecclesiastico descia até aos proprios alicerces da vida
-quotidiana, e tudo apertava nas suas garras. A Reforma, ao atacal-o,
-atacou por esse facto todas as leis: a da propriedade, a do casamento, e
-a da hereditariedade.
-
-=A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica.=—Segundo
-as noções medievaes, a sociedade estava dividida em Egreja e em Estado
-politico. O poder ecclesiastico estava todo centralizado na pessoa
-do papa, que era o sacerdote universal; e o poder civil estava todo
-centralizado na pessoa do imperador, que era o soberano universal. Um era
-sacerdote dos sacerdotes, e o bispo dos bispos, e o outro era o rei dos
-reis. Um homem pertencia á Egreja se estava sob a jurisdicção do papa;
-era membro da sociedade civil se estava sob o dominio do imperador.
-
-Tres poderosos chefes francos tinham, uns apoz outros, no fim do seculo
-oitavo, proporcionado ao christianismo o dilatar-se, sem ser incommodado,
-n’uma parte da Europa occidental. Com os seus fortes exercitos obstaram
-ao avanço das hordas dos barbaros frisios e saxonios que pretendiam
-opprimir a Europa com uma nova Dispersão das Nações, e obrigaram os
-serracenos a retroceder para alem dos Pyrinéus. Como preito de gratidão,
-o papa havia conferido a Carlos Magno, o ultimo dos tres, o titulo de
-Imperador dos Romanos e reunido em volta d’elle o prestigio do nome
-romano e tudo quanto restava das leis, artes e sciencias romanas. O
-imperio assim estabelecido apresentava um estranho dualismo. Tinha um
-chefe civil e outro espiritual, Cesar e o papa; e toda a jurisprudencia
-europea se fundava na dupla theoria da representação; o imperador era
-reputado o vigario de Deus nos negocios civis, ou terrestres, ao passo
-que o papa governava em nome de Deus nas coisas espirituaes.
-
-Segundo as noções medievaes, quando um homem recusava obedecer ao papa
-no que dizia respeito ás materias espirituaes rebellava-se contra a
-sociedade, pois que esta se baseava na idéa de que o papa e o imperador
-eram os senhores supremos. O protestantismo quebrou esta união dos dois
-elementos da christandade, que se affigurava necessaria para dar á
-sociedade uma existencia politica e mantel-a sobre uma firme base moral.
-
-=Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma.=—As idéas
-medievaes tinham soffrido alguma coisa antes de apparecer a Reforma. O
-nascimento das nações modernas, com os seus interesses em separado, o
-que dava origem a constantes conflictos, e com as suas aspirações de
-completa independencia, vibrou um golpe á noção medieval de christandade
-indivizivel. Este sentimento de independencia nacional significava
-revolta contra o imperador, a qual foi seguida, de uma fórma menos
-perceptivel, de sedições nacionaes contra o papa. A lei ingleza de
-_Proemunire_, que prohibe appellações para Roma, significava que existia
-no reino de Inglaterra uma jurisdicção de que não se podia appellar;
-e isso era uma revolta contra a noção medieval da christandade unida,
-segundo a qual todas as appellações deviam ser depostas junto do throno
-do imperador ou da cadeira do papa.
-
-Noções independentes queria dizer egrejas independentes, e a revolta
-de Henrique VIII não teve maior significação do que a de Eduardo III ou
-a de Filippe, o Bello. A theoria gauleza foi, n’uma epoca posterior,
-uma revolta contra a mesma idéa medieval de centralizar em Roma o poder
-ecclesiastico.
-
-A Reforma intensificou esta revolta. Deu-lhe um sentido mais amplo;
-tornou-a permanente; animou a tendencia para a descentralização.
-Depois de ter surgido a Reforma as nações tiveram mais um motivo para
-dissenções, pois que a differença de credo indispôl-as umas com as outras.
-
-Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião espiritual,
-tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade politica e
-ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas não as atacaram. A
-convicção em que estavam de que a religião consiste n’uma communhão
-espiritual com Deus tornava-os extremamente indifferentes a todas as
-combinações e associações extrinsecas. De todos os reformadores só
-Luthero mostrou partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença,
-perante a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um
-simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de os homens se
-ligarem uns com os outros, com a differença, comtudo, de que o centro
-d’esse movimento associativo, d’essa força colligadora, não era aquelle
-que as nações medievaes indicavam. Nutria a vida nacional; os homens,
-pela razão de terem combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo
-paiz, de terem herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos
-infortunios, mantinham entre si uma especie de unidade espiritual.
-As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta nova lei de
-desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma, que operou uma
-tão completa separação de Roma, e que, apezar d’isso, não destruiu a
-sociedade, mostrou a todos os homens que podia haver vida social e
-communhão religiosa sem aquella pressão exterior, sem que as idéas de
-ordem e associação andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja
-universaes. A noção medieval de uma Europa unificada constrangia todas as
-nações a obedecerem a um poder central, que residia no imperador; a noção
-reformista era a de uma fraternidade de povos.
-
-=A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326), de
-Marcello de Padua.=—Appareceram dois notaveis livros antes da Reforma, um
-que pertencia ao passado que ia desapparecendo, e outro que pertencia ao
-futuro que se avisinhava.
-
-Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados italianos e
-das nações europeas, escreveu a sua _De Monarchia_ para mostrar aos
-seus contemporaneos como podiam viver em paz. O que elle propunha era
-o restabelecimento, em toda a sua força, do velho imperio medieval, o
-qual, mesmo visto do seu lado melhor, pouco mais era do que um sonho,
-conservando o seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a
-imaginação, O reinado da paz universal teria logar, pensava elle, quando
-se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de Carlos Magno,
-isto é, quando um energico imperador, com a sua côrte no centro do mundo
-civilisado, ouvisse e julgasse os casos que de todos os pontos da terra
-fossem submettidos á sua decisão final, e fizesse sentir o peso da sua
-ferrea mão a todos aquelles que armassem contendas com os seus irmãos.
-Este livro é o epitaphio do medievalismo.
-
-Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo, escreveu o
-seu livro, o _Defensor Pacis_, que explicava como a verdadeira paz e
-segurança nacional começam de dentro. Para Marcello o Estado é o povo,
-e do povo—dos seu desejos, das suas aspirações, dos seus temores, dos
-seus intentos—é que provém a vida nacional. O governo é do povo e para
-o povo. E o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o
-seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto Dante
-procurava um poder compellidor que operasse de fóra, Marcello predizia
-que a força que havia de dominar as nações não podia deixar de ser uma
-força auto-coerciva que tivesse a sua origem no proprio povo. A Reforma
-contribuiu para que essa predicção se cumprisse, e para que as suas
-theorias viessem a constituir uma descripção da vida politica e social da
-actualidade.
-
-Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou o centro
-da vida nacional de uma força repressora exterior para uma invisivel
-fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa o que Kepler fez para
-a astronomia e Kant para a metaphysica: mudou o centro de fóra para
-dentro.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES
-
- Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja,
- pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á
- Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da
- Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição
- reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223.
-
-
-=Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.=—Nenhum dos
-reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem Calvino—pensou que procurando
-dar culto a Deus da maneira mais simples que a Escriptura aconselhava,
-e que a sua experiencia espiritual approvava, se estava afastando da
-Egreja. Estavam abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual
-com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer á Egreja em que
-tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados, e em cuja communhão
-tinham prestado culto a Deus desde a infancia.
-
-Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a Egreja de seus
-antepassados. Não tinham desejo algum de fazer uma nova Egreja, e ainda
-menos de crear uma nova religião. A religião que elles professavam era
-a religião do Velho e do Novo Testamento, a religião dos santos de Deus
-desde os dias de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua
-separação de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e dos Padres.
-Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em que Christo havia sido
-acreditado, e em que se havia sentido a presença do Espirito Santo, desde
-o tempo dos apostolos até aos seus dias.
-
-A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes, pensavam elles;
-não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar a toda a gente a
-evidencia d’esse facto, a que davam tão grande importancia?
-
-=Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição do
-Imperio medieval.=—Os reformadores tinham-se desligado do papa, e não
-viviam mais em communhão com elle ou com a curia romana. No seu tempo,
-porém, estar na Egreja era ter communhão com o papa e com Roma. Estar
-fóra do districto dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles
-tempos de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos
-privilegios da Egreja.
-
-Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem, ou cidade, ou
-provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava, eram, por esse
-facto, interrompidos todos os serviços religiosos. Emquanto sobre aquella
-area pesasse a excommunhão, não podia haver baptismos, nem casamentos,
-nem confortos espirituaes á hora da morte. As egrejas permaneciam
-fechadas, e todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser
-levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não ter communhão com
-o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil demonstrar o contrario, de
-um modo claro, sem auxilio de uma argumentação theologica.
-
-O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio de mostrar
-ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado por aquelles
-que estavam em communhão com o papa. O Santo Imperio Romano da Edade
-Media era mais do que um estado politico; era tambem, sob um certo ponto
-de vista, uma Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono.
-Chamava-se-lhe a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos deviam
-a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores ao facto
-de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma latina approvada pelo papa
-Damaso. A Edade Media apresentava, portanto, a Egreja de Christo sob dois
-aspectos: um era o da communhão com o papa, e o outro o da posição que
-occupava no Imperio Romano.
-
-Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão do imperio.
-Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo Niceno sob a fórma
-prescripta. Era, segundo a distincção feita pelo imperador, um christão
-orthodoxo. Estava dentro da christandade, era membro da grande
-communidade christã, posto que não estivesse em communhão com o papa.
-Luthero aproveitou-se do caracter ecclesiastico do imperio da Edade
-Media; teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel,
-que era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga
-classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã,
-ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com que aos seus
-contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja era mais ampla,
-mesmo segundo as noções medievaes, do que a communhão com Roma. Elle
-proprio estava fóra da communhão com Roma, e, comtudo, era membro da
-christandade, e estava, por conseguinte, dentro da Egreja.
-
-=A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.=—O imperio
-medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos, e a sua
-dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã. Luthero, para mostrar
-que, não obstante haver-se desligado de Roma, não tinha abandonado a
-Egreja Catholica de Christo, pegou no Credo dos Apostolos, no Credo
-Niceno, e no Credo de Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão
-de fé. Diz elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou
-Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas por
-toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de uma vez para sempre,
-que adhiro á verdadeira Egreja de Christo, que até agora tem mantido
-estas Confissões, mas não aquella falsa e pretenciosa Egreja, que é a
-peor inimiga da verdadeira Egreja, e que tem collocado subrepticiamente
-muita idolatria a par d’estas bellas Confissões.»
-
-Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros da Egreja
-Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos de citar.
-Intitulou-o _Sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_.
-Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva pelo papa e
-pela curia, exactamente como acontecera aos israelitas quando foram
-transportados para Babylonia. A Egreja, libertada do jugo romano, ficava
-com todos os privilegios que a Egreja de Deus sempre tivera, e ficava,
-além d’isso, livre da escravidão.
-
-A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um captiveiro peior
-do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma eram homens comparaveis
-a Zorobabel, Esdras e Nehemias. Não estavam fundando uma nova Egreja,
-estavam reconduzindo a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a
-liberdade.
-
-Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto que não a
-expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio aos seus _Institutos_
-diz-nos que escreveu o livro para responder áquelles que diziam que as
-doutrinas dos reformadores eram novas, duvidosas, e contrarias ás dos
-Paes da Egreja. E refuta essas accusações, mostrando a catholicidade da
-theologia da Reforma. Prova que todos os reformadores sustentaram as
-grandes doutrinas catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos,
-e que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de outra
-qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as idéas pagãs e
-as praticas supersticiosas foram, de uma maneira bastante censuravel,
-introduzidas.
-
-=A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.=—Os cabeças
-da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande revivificação
-religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo um movimento novo, e
-muito menos que estavam fundando uma nova religião. Tinham, no seu
-entender, uma ascendencia espiritual, e reputavam-se os verdadeiros
-herdeiros e successores da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes,
-e, tambem, da Edade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles.
-Pertenciam á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros herdeiros
-dos seculos de vida santa que os tinham precedido.
-
-Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem scismaticos
-e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica de Christo, e
-de procurarem crear uma nova Egreja e fundar uma nova religião.
-Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a unica communidade christã, e a
-unica Egreja Catholica e Apostolica.
-
-Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes preparada
-pela propria Egreja Catholica Romana. A Egreja de Roma acceita o Credo
-dos Apostolos, e esse Credo faz uma descripção da Egreja que está em
-completo desaccordo com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos
-Apostolos diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos
-santos», e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão de Roma».
-Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra que dê a entender que
-catholicidade significa communhão com Roma; catholicidade quer dizer,
-pelo contrario, _communhão com os santos_. Este ponto é bem frisado pelos
-principaes reformadores. O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se
-baseia n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia no perdão
-dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de uma santa communhão,
-e esta existe em virtude do perdão que se alcança para todos os peccados
-mediante a obra redemptora de nosso Senhor Jesus Christo.
-
-
-
-
-CAPITULO IV
-
-OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA
-
- Os principios _formaes_ e _materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O
- sacerdocio de todo os crentes: o grande principio da Reforma,
- pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da
- _Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_
- da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina
- medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da
- Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_.
- Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia,
- pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em
- contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical
- e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e
- justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235.
-
-
-=Os principios formaes e materiaes da Reforma.=—Os principios
-theologicos, ou doutrinarios, que deram um caracter distinctivo á
-revivificação da religião promovida pela Reforma costumam ser divididos
-em duas cathegorias, sendo uma d’ellas constituida pelos _formaes_ e a
-outra pelos _materiaes_.
-
-O dr. Dorner, historiador sagrado, estabelece este modo de encarar o
-movimento reformista com muita clareza e energia na sua _Historia da
-Theologia Protestante_. Segundo o dr. Dorner, a doutrina da Palavra de
-Deus é o principio _formal_ da theologia da Reforma, e a doutrina da
-Justificação pela Fé é o principio _material_ da mesma.
-
-O uso d’estes termos technicos pode, comtudo, obscurecer, tanto na vida
-religiosa como na theologia, o verdadeiro sentido do movimento que com
-elle se quer explicar. O principio da Reforma, o impulso predominante
-no movimento, era simplesmente aquelle que deve inspirar todas as
-revivificações da religião, isto, é o fervoroso desejo, a ancia, de uma
-approximação de Deus, o anhelo por estar na presença de Aquelle que Se
-revelou, para que podessemos ser salvos, na pessoa de Jesus Christo.
-Aquillo a que se tem chamado os principios, _formaes_ e _materiaes_, da
-Reforma está unido a este mais simples, mas mais energico, impulso, e é
-proveniente d’elle. O direito de chegar á presença de Deus foi, segundo a
-crença dos reformadores, conferido por Elle a todos os que fazem parte do
-Seu povo; mas o direito de chegar á presença de Deus é o que se chama o
-sacerdocio, e o grande principio da Reforma baseia-se no _sacerdocio de
-todos os crentes_—o direito que teem todos os homens e mulheres crentes,
-todos os clerigos e seculares, de se dirigirem a Deus, e de procurarem
-alcançar d’Elle o perdão mediante a confissão dos seus peccados, a luz
-que lhes illumine os entendimentos, a communhão que os faça sair do seu
-solitario isolamento, e o vigor necessario para viverem diariamente em
-santidade.
-
-=O sacerdocio de todos os crentes: grande principio da Reforma.=—Quando
-Luthero e Zwinglio se revoltaram contra os abusos com que o romanismo
-havia desfigurado a Egreja medieval, os dois grandes abusos eram a
-venda das indulgencias e a excommunhão. Quanto ao primeiro d’esses
-abusos, a venda das indulgencias, a Egreja medieval dizia praticamente
-que não era necessario ir ter com Deus para obter o perdão, pois que a
-Egreja podia concedel-o em melhores condições. O perdão que Deus dava,
-mediante a obra de Christo, áquelles que se apresentassem contrictos
-e arrependidos fornecia-o a Egreja a troco de uns tantos ducados.
-Punha-se deliberadamente entre os pecadores e Deus, e afastava-os d’Elle,
-insinuando-lhes, de uma maneira blasphema, que podia vender-lhes o
-perdão mais barato. O homem não necessitava de ir ter com Deus cheio
-de tristeza e arrependimento, nem de incutir na alma a confiança
-nas Suas promessas. A Egreja sahia ao caminho de todo aquelle que
-possuisse dinheiro. N’outras occasiões a Egreja recusava absolutamente
-o perdão. Se uma cidade, ou uma diocese, ou um paiz offendia, mediante
-os seus governantes, o papa ou a sua côrte de Roma, era-lhe imposta a
-interdicção, e emquanto esta não fosse levantada não havia perdão para
-peccado algum. A Egreja colocava-se entre a creança recemnascida e o
-baptismo, entre o christão moribundo e a graça que lhe era concedida
-á hora da morte, entre o mancebo e a donzella e o laço matrimonial
-abençoado por Deus, entre o povo e o culto quotidiano. Ninguem se podia
-approximar do Deus de toda a misericordia pelo motivo dos magistrados,
-dos bispos ou do rei e seus conselheiros terem offendido o papa. A Egreja
-tinha a faculdade de impedir o caminho, pois que havia declarado que
-só por intervenção dos padres é que se poderia ter accesso a Deus; e
-quando aos padres se prohibia o exercerem as suas funcções eclesiasticas,
-o ministrarem os sacramentos, ficava cortada toda a comunicação com
-Deus. O papa podia, com uma pennada, impedir que uma nação inteira se
-approximasse de Deus, pois que tinha o direito de ordenar aos padres que
-suspendessem os serviços religiosos; e, segundo a theoria medieval, essas
-funcções exercidas pelos padres eram o unico meio de ter accesso a Deus.
-
-Os reformadores, por outro lado, diziam: «O homem deve approximar-se
-de Deus por meio da oração, por meio do perdão, por meio da communhão,
-por meio do esclarecimento espiritual, sempre que fielmente o procurar
-fazer; é impossivel que o caminho para Deus se feche de aquella maneira.»
-Luthero disse que não fazia objecção alguma ás indulgencias se ellas
-fossem consideradas o unico meio de se declarar que Deus é sempre
-misericordioso. Recusava, porém, acreditar n’ellas, ou n’outro qualquer
-rito da Egreja medieval, quando se fazia uso d’ellas para declarar que
-os homens podiam alcançar o perdão sem se approximarem de Deus com um
-espirito contricto, ou que podiam ser inteiramente excluidos da presença
-de Deus por determinação de quaesquer outros homens.
-
-Era esta idéa—que a presença de Deus é livre para quem fielmente a
-procurar, que Deus não recusa ouvir a oração de qualquer penitente, e que
-Elle faz com que as Suas promessas fallem directamente aos corações de
-todos aquelles que compõem o Seu povo—que se enleiava em volta de base da
-theologia da Reforma, e era a fonte de onde brotavam, em particular, as
-doutrinas da Escriptura e da justificação pela fé.
-
-=O principio do sacerdocio dos crentes explica a doutrina reformada
-da Escriptura.=—Todos os reformadores criam que na Biblia Deus lhes
-fallava da mesma maneira em que, em tempos remotos, havia fallado á
-Egreja pelos Seus prophetas e apostolos. Diziam elles que o povo, tendo
-nas mãos a Biblia traduzida do grego e do hebraico para uma lingua que
-elle comprehendesse podia ouvir a voz de Deus, podia chegar-se a Elle
-para receber instrucção, admoestação e lenitivos. Nos tempos do Antigo
-Testamento Deus fallou ao Seu povo, umas vezes em sonhos e outras por
-meio de visões, mas principalmente mediante embaixadores instruidos
-por Elle, a que se chamava prophetas. Nos tempos do Novo Testamento
-Deus fallou no meio do povo mediante Seu Filho, e o Seu Espirito fallou
-tambem por intermedio dos apostolos de Christo. Todas estas revelações,
-inseridas na Escriptura do Velho e Novo Testamento, são apresentadas
-de tal fórma que Deus falla, na Biblia, ao Seu povo exactamente como
-lhe fallou pela bocca dos homens santos da antiguidade. Os reformadores
-proclamavam que na Biblia todos os crentes podem ouvir Deus, que lhes
-falla directamente, e que a Sua voz pode ser ouvida por todos aquelles
-em cujas mãos estiver a Biblia. A doutrina reformada da Palavra de Deus
-exprime simplesmente um dos lados do cumprimento de aquelle anhelo pelo
-accesso á presença de Deus, que constitue o elemento essencial, não
-apenas da Reforma, mas de toda a verdadeira revivificação religiosa.
-
-=O principio do sacerdocio espiritual de todos os crentes explica a
-doutrina reformada da justificação pela fé.=—A doutrina da justificação
-pela fé é um outro modo de asseverar que o anhelo pelo accesso a Deus
-não é um desejo vão, mas uma coisa que pode ter um positivo cumprimento.
-Segundo a theologia medieval, o peccador não podia implorar directamente
-a Deus o perdão. Tinha que ir ter com o padre, e esse padre ficava
-auctorizado a metter-se de permeio entre elle e Deus, e a negar o perdão
-de Deus, se isso lhe fosse ordenado pelo papa ou por um seu superior
-hierarquico. Por muito sincero que fosse o seu pezar, por muito forte
-que fosse a sua confiança, o padre collocava-se entre elle e o seu
-clemente Deus, e elle não podia confessar a Deus os seus peccados nem
-ouvir de Deus a sentença do perdão senão pela bocca do padre. A doutrina
-da justificação pela fé significa, na sua fórma mais simples, que é Deus
-em pessoa quem profere o perdão, e que perdoa em attenção de tudo quanto
-Christo fez e pode fazer pelo peccador; e que o homem pode ouvir proferir
-este perdão se tiver fé na misericordia, na salvação e nas promessas de
-Deus.
-
-=A doutrina reformada da Escriptura, em contraste com a medieval.=—A
-doutrina reformada da Escriptura é muitas vezes apresentada sob uma
-fórma que não a põe em immediata connexão com o impulso preponderante
-no movimento da Reforma. Os reformadores deram mais credito á Biblia, o
-livro infallivel, do que á palavra de uma Egreja fallivel. Na Edade Media
-os homens appellavam para a Egreja em ultima instancia, e acceitavam as
-decisões dos papas e dos concilios como constituindo a ultima palavra
-em todas as controversias sobre a doutrina e a moral; os reformadores
-substituiram a Egreja, isto é, as decisões dos concilios e dos papas,
-pela Biblia, e ensinaram que era para ella que se devia appellar em
-ultima instancia. Este modo de expôr a differença entre os reformadores
-e os seus antagonistas teve uma expressão mais concisa no dito de
-Chillingworth, famoso theologo inglez, de que a Biblia, e só a Biblia, é
-a religião dos protestantes.
-
-Tudo isto é verdade, e, comtudo, não é a inteira verdade, podendo,
-portanto, dar logar a uma noção erronea. Os catholicos romanos e os
-protestantes não dão o mesmo sentido á palavra Biblia, e essa differença
-de sentido traz á luz uma verdade que é algumas vezes esquecida. Quando
-os catholicos romanos fallam da Biblia querem dizer uma coisa, e quando
-os protestantes fallam da Biblia querem dizer outra, e n’esta differença
-no emprego da palavra está uma parte importantissima da doutrina
-reformada da Escriptura.
-
-A Egreja medieval não se oppunha, em regra, a que o povo lesse a Biblia
-para sua edificação. Era, pelo contrario, uma maxima na theologia da
-Edade Media que todo o systema doutrinal da Egreja se fundava na Palavra
-de Deus. Thomaz de Aquino, a maior auctoridade entre os theologos
-medievaes, diz expressamente, no principio da sua importante obra, A
-_summula da theologia_, que todo o circulo da doutrina christã se apoia
-na Escriptura, que é a Palavra de Deus. Durante a Edade Media fizeram-se
-continuamente traducções das Escripturas nas linguas dos povos da Europa;
-é um perfeito erro suppôr-se que as primeiras traducções da Biblia se
-fizeram durante o tempo da Reforma; em regra geral, animava-se o povo
-a ler e estudar as Escripturas. Nos primeiros periodos da controversia
-reformada, os arguentes catholicos romanos recorriam tanto á Biblia como
-Luthero e os que estavam do seu lado. Estava guardado para a Egreja
-Catholica posterior á Reforma o prohibir aos leigos a leitura da Palavra
-de Deus.
-
-=A doutrina medieval da Escriptura.=—Os theologos medievaes faziam,
-comtudo, da Biblia um uso muito differente de aquelle que os protestantes
-faziam, e na controversia protestante a differença de sentido não tardou
-em fazer-se notar. Os theologos da Edade Media jámais consideraram
-a Biblia um meio de graça; tinham-n’a na conta de um livro cheio de
-informações, divinas informações, ácerca da doutrina e da moral. Era para
-elles um repositorio de verdades doutrinarias e preceitos moraes, e mais
-nada.
-
-Os protestantes vêem n’ella um repositorio de verdades infalliveis,
-mas vêem mais alguma coisa. É um meio de graça. Crêem que os homens
-alcançam com a simples leitura da Biblia não só instrucção como tambem
-communhão com Deus, não só o conhecimento de Deus como tambem intimidade
-com Elle. Não se limita a apresentar verdades novas ácerca das coisas
-divinas; excita para a vida espiritual. É para o protestante tudo o que
-era para o theologo da Edade Media, e é mais alguma coisa. É um tão
-efficaz estimulo de fé e vida santa como os sacramentos, ou a oração ou
-o culto. Mediante um diligente uso da Biblia, os homens, na opinião dos
-theologos protestantes, não sómente adquirem o conhecimento de Deus;
-podem tornar-se participantes de aquella bemdita communhão entre Deus e o
-Seu povo de que a Biblia faz menção.
-
-=O quadruplo sentido da Escriptura.=—Esta noção medieval ácerca da
-Biblia—que ella é um repositorio de informações ácerca das doutrinas e
-da moral, e nada mais—encontra uma seria difficuldade: é que similhante
-descripção não parece ser applicavel a uma grande parte de Biblia. As
-Escripturas conteem longas listas de genealogias, capitulos que tratam
-quasi exclusivamente dos utensilios do templo, ou são descripções
-da vida humana, ou da historia nacional. N’essas porções da Biblia,
-que constituem uma não pequena parte d’ella, não parece haver muita
-informação doutrinal ou muitas regras para uma vida santa, e, não
-obstante, são estas coisas que, segundo a definição medieval, compõem
-a Biblia toda. O theologo medieval tinha, portanto, ou de cortar o
-que lhe parecesse materia inapplicavel, ou inventar alguma maneira de
-transformar as taboas genealogicas em doutrinas ou preceitos moraes.
-Optou pela ultima d’estas coisas, e declarou que em todas as passagens
-da Biblia havia mais do que um sentido. A Biblia, disse elle, tinha um
-quadruplo sentido. Havia, em primeiro logar, o sentido _historico_ da
-passagem lida, que era aquelle que se inferia das regras grammaticaes
-e de interpretação. Seguiam-se depois os outros tres sentidos: O
-_allegorico_, o _moral_ e o _anagogico_. Estes varios sentidos differiam
-do historico, e os expositores medievaes extrahiam complicadas doutrinas
-das genealogias de Abrahão e de David, e regras de conducta da descripção
-das vestes do summo sacerdote ou da narrativa da viagem que nosso Senhor
-fez de Capernaum a Naim.
-
-É algumas vezes difficil saber qual é o verdadeiro sentido de certas
-passagens da Biblia, mesmo quando o leitor se occupa simplesmente da
-significação historica; e a difficuldade quadruplicará, se é verdade
-que cada passagem tem quatro sentidos. Qualquer trecho da Biblia pode
-significar aquillo que o leitor quizer, bastando para isso que o tome
-n’um sentido mystico, ou allegorico.
-
-=Definição medieval da fé salvadora. A interpretação
-infallivel.=—Emquanto os theologos medievaes faziam quasi perder a
-esperança de vir a saber-se ao certo o que a Biblia dizia segundo a sua
-doutrina do quadruplo sentido, uma outra theoria d’elles tornava de
-summa importancia que o crente tivesse precisas informações ácerca do
-contheudo da Biblia. Diziam que fé não era confiança n’uma pessoa, mas
-assentimento ás informações correctas; a fé que salva era, sustentavam
-elles, assentimentos ás proposições acerca de Deus, do universo, e da
-alma humana, contidas na Biblia. Por um lado, a sua doutrina do quadruplo
-sentido tornava quasi impossivel a qualquer pessoa o certificar-se do que
-a Escriptura ensinava; por outro, a sua definição de fé salvadora tornava
-importantissimo, tanto no que diz respeito a esta vida, como no que diz
-respeito á futura, que cada um tivesse noções claras e exactas do texto
-biblico. E assim a Egreja medieval era obrigada a asseverar que havia,
-não indicada por ella, uma maneira auctorizada de interpretar a Biblia,
-e isso conduziu-a á sua doutrina da infallibilidade das declarações dos
-concilios e dos papas no tocante ao ensino da Biblia.
-
-É escusado dizer que, se a Biblia é por si propria de duvidosa
-interpretação, e se é essencial para a salvação que o crente possua uma
-verdadeira e correcta interpretação a que possa dar o seu assentimento,
-o que fornecer uma interpretação infallivel tem mais valor do que
-aquillo que é interpretado. E foi isso o que effectivamente succedeu.
-As decisões dos concilios e dos papas, e a tradicional e auctorizada
-interpretação da Biblia pela Egreja, adquiriram mais valor pratico do que
-a propria Biblia. Os homens que consultassem simplesmente a Biblia podiam
-cair no erro, e cair no erro era a morte; aquelles que confiassem na
-interpretação biblica da Egreja nunca seriam induzidos ao erro.
-
-Tudo isto, porém, tornava impossivel que a Biblia fosse um meio de
-communhão entre Deus e o homem. Entre a Biblia e o crente collocavam os
-theologos medievaes as opiniões dos concilios e dos papas, ou, n’uma
-palavra, a Egreja. A Egreja interceptava o caminho para Deus mediante a
-Sua Palavra interpondo-se ella propria e a sua auctorizada interpretação
-entre o crente e a Biblia.
-
-Os reformadores, anhelando pela communhão com Deus, e sabendo por aquillo
-que o seu espirito havia experimentado que era possivel têl-a mediante
-a simples leitura da Biblia, compenetraram-se do dever de deitar abaixo
-essa barreira, e assim o fizeram. Essa barreira, porém, não podia ser
-derrubada simplesmente com o dizer-se que a Biblia, e não as tradições
-da Egreja, é que era a guia infallivel. A Biblia como os catholicos
-romanos a entendiam, essa Biblia que expunha apenas preceitos de doutrina
-e de moral, e cujas passagens tinham quatro sentidos, era simplesmente
-um livro embaraçoso. Os reformadores tinham de mostrar a Biblia atravez
-de outro prisma para que podessem dizer que era infallivel e que era o
-arbitro supremo em todas as controversias.
-
-=Os reformadores e a Biblia.=—Deram á Biblia a significação que ella
-realmente tinha. Deus havia-lhes fallado por meio d’ella. O Deus pessoal,
-que os creara e que os remira, havia-lhes fallado nas paginas da
-Biblia, e tornara-os scientes do Seu poder e da Sua vontade de salvar.
-A linguagem era algumas vezes obscura, mas encontraram outras passagens
-mais claras, e os pontos faceis explicaram-lhes os difficeis. Podia ser
-que os homens simples não a comprehendessem toda, não soubessem ligar
-todas as suas asserções de modo a constituir um encadeado systema de
-theologia; mas toda a gente, fosse ou não fosse theologa, podia ouvir a
-voz de seu Pae, inteirar-se do proposito do seu Redemptor e ter fé nas
-promessas do seu Senhor. Seria uma boa idéa fazer uma selecção de textos
-e formar o systema de theologia protestante que tornasse as coisas mais
-comprehensiveis; mas o essencial era ouvir o Deus pessoal e obedecer-Lhe;
-era Elle fallar-lhes como em todos os seculos fallou ao Seu povo,
-promettendo-lhes a salvação, ora directamente, ora mediante a narrativa
-do Seu procedimento com o povo escolhido ou com homens excepcionalmente
-favorecidos. Detalhe algum de vida, nacional ou individual, era inutil;
-pois que ajudava a completar o quadro da communhão entre Deus e o Seu
-povo de outr’ora, esse povo que havia de reviver n’elles e perpetuar
-assim o grato sentimento de communhão com o Deus da alliança, bastando
-para isso que tivessem a mesma fé dos santos do Antigo e Novo Testamentos.
-
-Animados, como estavam, d’estas idéas, a Biblia não podia ser para elles
-o que era para os theologos medievaes. Deixava de existir o quadruplo
-sentido. A Biblia era Deus fallando com elles, um Pae fallando com Seus
-filhos, do mesmo modo que um homem falla com os seus similhantes; e
-ficava subsistindo apenas o sentido manifesto, o sentido historico. Era
-mais do que um repositorio de doutrinas e de regras de moral; era, acima
-de tudo, uma memoria e uma descripção da bemdita communhão que os santos
-haviam tido com o Deus dos pactos desde a primeira revelação da promessa.
-A fé era mais do que um frio assentimento ás verdades concernentes á
-doutrina e á moral; era uma confiança pessoal no Salvador pessoal que Se
-lhes dirigia por meio da Biblia.
-
-Deram-se, por conseguinte, pressa em traduzir a Biblia em todas as
-linguas, e collocar a Biblia nas mãos de todos, e declararam que um homem
-que possuisse a Biblia, isto é, que ouvisse a voz de Deus, estava mais ao
-facto do caminho da salvação do que os concilios e os papas sem ella.
-
-A sua doutrina, que era fructo de tudo aquillo que elles haviam
-espiritualmente experimentado, inculcava que o anhelo pela communhão com
-Deus era satisfeito mediante a leitura e prégação da Palavra de Deus. A
-Biblia porporcionava aos homens o encontrarem-se na presença de Deus e
-ouvirem as Suas palavras de conforto.
-
-=A doutrina reformada da justificação, em contraste com a medieval.=—O
-segundo grande principio da theologia da Reforma é, por consenso
-universal, a doutrina da justificação pela fé sómente. Pode-se tambem
-pôl-a em directa connexão com o principio fundamental da Reforma, o
-sacerdocio de todos os crentes, ou o direito de accesso, promettido na
-Palavra de Deus, á Sua presença.
-
-Ao contrastar a doutrina reformada com a medieval no tocante á
-justificação, occorre a mesma difficuldade com que já deparámos
-no contraste entre as duas doutrinas ácerca da Escriptura. Diz-se
-vulgarmente que os reformadores apregoaram uma justificação pela fé
-sómente, ao passo que os seus antagonistas apregoaram uma justificação
-pelas obras; mas, posto que isto seja perfeitamente verdadeiro, devemos
-lembrar-nos de que a palavra «justificação» é usada em dois sentidos
-distinctos pelos dois disputantes.
-
-Para os theologos medievaes, _justificar_ significa tornar justo; para
-os reformadores significa declarar justo. Para aquelles é uma operação
-que se faz durante um certo tempo; para estes é um acto momentaneo, é
-um acto da livre graça de Deus, pelo qual Elle perdoa todos os nossos
-peccados e nos acceita como justos a Seus olhos. Para aquelles é uma
-obra de purificação do peccado, uma obra de santidade; para estes é a
-formação de um juizo, ou, como os theologicos dizem, um acto _forense_.
-Os reformadores viram que os theologos medievaes empregavam a palavra
-justificação no sentido mencionado, e trataram de apresentar a sua outra
-significação. E justificaram esse seu procedimento dizendo que o sentido
-que deram ao termo é o que o Novo Testamento lhe dá, pois que o emprega
-na accepção de acto, de sentença, de juizo, e nunca na de obra.
-
-O primeiro contraste não é, portanto, entre a justificação medieval e
-a doutrina da Reforma, mas entre a doutrina reformada da justificação
-pela fé e a que lhe corresponde na Egreja medieval. Justificação, na
-theologia reformada, quer dizer o acto de perdoar e de acceitar como
-justo; corresponde a essa doutrina, na egreja medieval, a da absolvição
-dada pelos padres, pois que era o unico modo como poderia ser concedido o
-perdão dos peccados.
-
-=A absolvição clerical e a justificação pela fé.=—Segundo a theologia
-da Edade Media, o perdão divino do peccado tinha sempre de ser
-proferido por um sacerdote. Quando o penitente se confessasse e se
-mostrasse arrependido, tanto por palavras como por actos, o padre tinha
-auctorização para pronunciar a sentença absolutoria, e essa sentença era
-acceite como sendo proferida pelo proprio Deus, pois que o clero era o
-orgão mediante o qual, e sómente mediante o qual, Deus perdoava.
-
-Luthero e os outros reformadores viram que o padre que se suppunha
-occupar o logar de Deus e fallar em nome de Deus commettia acções impias,
-e a consciencia disse-lhes que, em vista de similhante facto, o perdão
-do padre não podia ser o perdão de Deus. Luthero viu que um homem,
-munido de um certificado de indulgencias, ia ter com um padre e recebia
-perdão sem mostrar arrependimento quer por palavras quer por obras, sem
-que, apparentemente, sentisse tristeza alguma no seu coração. Viu que
-os padres pretendiam ser a trombeta de Deus, e que concediam perdão em
-certos casos em que elle seria negado por um Deus justo e santo.
-
-Luthero e os seus amigos tinham presenciado ou ouvido fallar de casos em
-que o perdão de Deus havia sido recusado quando um Deus misericordioso
-o teria concedido. Uma successão de papas havia castigado a cidade de
-Strasburgo com uma interdicção pelo facto de ella ter tomado uma attitude
-na politica allemã que não era do agrado da côrte pontificia, e durante
-todo esse tempo não podia ser proferida uma palavra de perdão a qualquer
-peccador contricto e arrependido. Os padres perdoavam quando Deus não
-perdoava, e recusavam perdoar quando Deus estava prompto a conceder o Seu
-perdão.
-
-Luthero, vendo isto, e sabendo como havia sido perdoado por confiar
-simplesmente nas promessas de Deus, declarou que o peccador pode ir ter
-directamente com Deus, pezaroso por haver peccado e cheio de confiança
-nas promessas de Deus, e obter d’Este o perdão. Asseverou que a não
-ser que se alcance primeiramente o perdão de Deus, o do padre não tem
-valor algum, e que, depois de se alcançar o perdão de Deus, o do padre
-é inutil. O perdão alcançava-se indo ter com Deus, e não indo ter
-com o padre e ouvindo d’elle a absolvição. A doutrina protestante da
-justificação mostra o direito de accesso a Deus para Lhe rogar perdão,
-e declara que padre algum está auctorizado a interpôr-se entre Deus e
-o peccador arrependido. Deitou por terra a doutrina medieval de que o
-perdão divino só pode ser alcançado mediante a absolvição clerical, e
-de que o peccador arrependido não se deve prostrar aos pés de Deus mas
-deante do confissionario.
-
-=Justificação pela fé e justificação pelas obras.=—Segundo a theoria
-medieval, antes de o perdão ser obtido pela fórma ordinaria, mediante
-a absolvição sacerdotal, era indispensavel confessar os peccados,
-mostrar contricção e fazer penitencia. Na confissão o peccador deve
-mencionar ao padre todos os peccados que commetteu desde a ultima vez
-que se confessou, e n’este catalogo de peccados não se deve faltar a
-um só pormenor. Peccado algum pode ser perdoado sem que se tenha feito
-menção d’elle. A confissão deve ser mecanicamente completa. Em seguida
-á confissão vem a contricção, ou a dôr por haver offendido a Deus, e
-esta, segundo a doutrina medieval, deve manifestar-se de certos modos
-esteriotypados que a Egreja tem sanccionado. Depois, e só depois, é que é
-possivel a absolvição, quer dizer, o perdão.
-
-A Egreja da Edade Media collocava duas coisas entre o peccador e o perdão
-divino proferido pelo sacerdote: uma completa confissão, mecanicamente
-feita, em se que fizesse menção de todos os peccados cujo perdão se
-desejava, e uma contricção manifestada de certos modos estabelecidos,
-taes como a recitação de um grande numero de orações, a abstenção da
-comida, etc., e a absolvição dependia da automatica integridade da
-confissão e da contricção.
-
-Os reformadores tinham a convicção de que o peccado era uma coisa séria
-de mais para que o seu perdão dependesse de uma completa confissão, e
-de uma contricção exteriormente manifestada. Deus perdoava por amor de
-Christo, não em virtude de uma completa confissão ou de uma perfeita
-contricção. Declararam, por consequencia, que, posto que o peccador deva
-confessar os seus peccados, e esforçar-se seriamente por se conservar
-no caminho da obediencia, o perdão depende da soberana graça de Deus,
-revelada em Christo.
-
-Tornou-se-lhes evidente a necessidade de derrubar os obstaculos que
-a Egreja medieval havia erguido entre Deus e o homem, e que eram
-constituidos pela confissão mecanica, e pela contricção, ou penitencia. O
-arrependimento sincero, o arrependimento do coração, é que era de grande
-importancia, porque abrangia confissão, contricção e confiança; e Deus, á
-vista d’estas coisas, perdoava por amor de Christo.
-
-Justificação pela fé, portanto, significa que o peccador contricto
-pode dirigir-se immediatamente a Deus, confiando na consummada obra
-de Christo, e alcançar o perdão sem a intervenção de padres ou de uma
-serie de rotineiras ceremonias. Deus perdoa em attenção áquillo que
-Christo fez, não em attenção áquillo que nós possamos fazer; e, desde
-que o perdão se alcança mediante a obra de Christo, e não pelo nossos
-esforços, pode ser, e é, dado no principio da carreira christã, não sendo
-necessario esperar penosamente por elle até ao fim, como uma doutrina de
-justificação pelas obras implicaria.
-
-A doutrina da justificação pela fé, segunda columna da theologia
-reformada, provém de aquelle anhelo pela approximação de Deus, ponto de
-apoio da Reforma. Significa que o peccador que se sente arrependido, e
-tem confiança nas promessas de Deus, pode ir immediatamente implorar-Lhe
-o perdão e obtel-o sem interferencias clericaes e sem o cumprimento de
-praticas mecanicas.
-
-=Conclusão.=—A Reforma, que foi uma grande revivificação da religião,
-tendo por base principal o anhelo pela presença de Deus, a Quem só era
-possivel chegar-se mediante o arrependimento e a confissão, acompanhados
-de plena confiança nas Suas promessas, aconselhava, pois, os crentes a
-terem communhão com Elle por intermedio da Biblia, e a rogarem o perdão
-prostrados junto do escabello de Seus pés, e derrubou as barreiras
-que foram erguidas pela Egreja politica da Edade Media em frente da
-livre e soberana graça de Deus. A nova espiritualidade que animava os
-reformadores e os seus adherentes tinha, alimentada pela Palavra de
-Deus, e ensinada pelo Seu Espirito, desabrochado por todos os lados,
-dando logar a uma theologia reformada, onde a doutrina da predestinação
-substituiu a theoria da communhão com Deus por intervenção do papa
-e dos seus bispos onde a theoria dos sacramentos foi purificada pela
-doutrina do Espirito Santo, onde as Escripturas arbitravam em todas as
-controversias, e onde o perdão era proferido por Deus, e não pelo homem;
-e em todas as suas ramificações se encontra como idéa predominante o
-sacerdocio espiritual conferido por Deus a todos os crentes.
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-SUMMARIO CHRONOLOGICO
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-Acontecimentos contemporaneos
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-1493-1515.—Jan. 12, Maximiliano I. Imperador. Por sua morte ficou como
-vice-rei Frederico, o Sabio, da Saxonia (1480-1525).
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-1499-1535.—O eleitor Joaquim I (Nestor) de Brandenburgo.
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-1500-1539.—O duque Jorge da Saxonia.
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-1509-1547.—Henrique VIII de Inglaterra.
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-1515-1547.—Francisco I de França.
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-1518-1567.—Filippe, o Magnanimo, de Hesse. (Nasc. em 1504).
-
-1519.—Junho, _Carlos V, (Rei de Hespanha desde 1516)_—27 de Agosto de
-1556, _Imperador da Allemanha (fall. em 1558)_.
-
-1519-1566.—O sultão Suliman I.
-
-1519-1521.—Fernando Cortez descobre e conquista o Mexico.
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-1520.—Magalhães faz uma viagem de circumnavegação.
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-1521-26.—Primeira guerra entre Carlos V e Francisco I.
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-1525.—Batalha de Pavia.
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-1526.—Paz de Madrid.
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-1523-33.—Frederico I da Dinamarca.
-
-1523-60.—Gustavo Vasa, da Suecia.
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-1525.—Alberto de Brandenburgo (fall. em 1568); chefe dos cavalleiros
-allemães; duque da Prussia, sob o dominio polaco.
-
-1525-32.—O Eleitor João, o Constante, da Saxonia (irmão de Frederico, o
-sabio).
-
-1526.—Ago. 29: Luiz, rei da Hungria e da Bohemia, morre em Mohacz, em
-combate com os turcos.
-
-O seu successor, Fernando de Austria (Em Out., rei eleito da Bohemia),
-tem de defender os seus direitos á Hungria, em detrimento dos turcos.
-
-1527.—Saque de Roma.
-
-1527-29.—A segunda guerra entre Carlos V e Francisco I; Paz de Cambrai,
-em Agosto de 1529.
-
-1527.—Henrique VIII de Inglaterra procura divorciar-se de Catharina do
-Aragão (tia de Carlos V); 1529, Wolsey cae no desagrado; o chanceller
-Thomaz More.
-
-1529.—Set. a 14 de Out.; Suliman põe cerco a Vienna.
-
-1531.—Fernando de Austria, rei dos romanos; opposição da Baviera e
-Saxonia.
-
-1532.—Ago. de 1547, João Frederico o Magnanimo, Eleitor da Saxonia, fall.
-em 1554.
-
-Henrique VIII divorciado, pelo parlamento, de Catharina de Aragão; Nov.
-desposa Anna Boleyn.
-
-1534.—O duque Ulrico de Würtemberg é rehabilitado por Filippe de Hesse.
-
-1535.—Joaquim II, Eleitor de Brandenburgo.
-
-1536-38.—Terceira guerra entre Carlos V e Francisco I.
-
-1538.—A convenção de Nice: dez annos de treguas.
-
-1541-53.—O duque Mauricio da Saxonia; recebeu o titulo de Eleitor em 1547.
-
-1541.—Dieta em Regensburgo; Suliman submette os hungaros ao seu dominio.
-
-1542-44.—Quarta guerra de Carlos V com Francisco I; a Paz de Crespi.
-
-1542.—Dieta de Spira; união contra os turcos.
-
-1544.—Dieta de Spira; reconhecimento dos protestantes; tudo em socego, na
-expectativa de um Concilio Geral.
-
-1545.—_Reformatio Wittenbergensis._
-
-1546.—Segunda Conferencia Religiosa em Regensburgo; 18 de fev., Luthero
-morre em Eisleben; os protestantes não apparecem na Dieta.
-
-1546-47.—A guerra de Schmalkald; 19 de jun. liga entre Mauricio e o
-imperador; 20 de jul., decreto contra João Frederico e Filippe; 27 de
-out., Mauricio é nomeado eleitor; 24 de abr., batalha de Mühlberg,
-ficando prisioneiro João Frederico; Filippe entrega-se em Halle; o
-imperador falta á sua palavra.
-
-1547-59.—Henrique II de França; desposa Catharina de Medici; fallece em
-1589.
-
-1547-53.—Eduardo VI de Inglaterra: nasc. em 1537.
-
-1553-58.—Maria (a Sanguinaria) de Inglaterra.
-
-1554.—9 de jul., Mauricio morre n’uma batalha perto de Sievershausen,
-contra Alberto, Margarve de Brandenburgo.
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-Fernando é batido pelos turcos na Hungria.
-
-1555-98.—Filippe II de Hespanha.
-
-1556-64.—_Fernando I, imperador._
-
-1558-1603.—Isabel de Inglaterra.
-
-1559-60.—Francisco II de França (casado com Maria da Escocia)
-
-1560-74.—Carlos IX de França.
-
-1560-78.—Maria, rainha dos escocezes; executada em 1587.
-
-1564-76.—_Maximiliano II, imperador._
-
-1574-89.—Henrique III de França.
-
-1576-1612.—_Rodolpho II, imperador._
-
-1558-1648.—Christiano IV, rei da Dinamarca.
-
-1589-1610.—Henrique IV de França, tornou-se catholico romano em 1593;
-assassinado por Ravaillac em 14 de Maio de 1610.
-
-1598-1621.—Filippe III de Hespanha.
-
-
-Egreja Lutherana
-
-1517.—Out. 31. MARTINHO LUTHERO (nascido em 10 de Nov. de 1483, em
-Eisleben; 1497, estudando latim em Magdeburgo; 1499, em Eisenach (Frau
-Cotta, f. em 1511); 1501, em Erfurt; 1505, mestre de artes; 17 de Julho,
-entrou para o convento doa agostinhos, em Erfurt; 1508, professor em
-Wittenberg; 1510, em Roma; 19 de Out. de 1562, doutor em theologia)
-pregou 95 theses contra o abuso das indulgencias na egreja do castello de
-Wittenberg. Contra-theses de João Tetzel, compostas por Conrado Wimpina.
-
-1518.—Silvestre Mazzolini de Prierio: _Dialogos in proesumptuosas M. L.
-Conclusiones de potestate Papae; Resp. ad Silv. Prier._, de Luthero.
-
-26 Abril, Luthero na Polemica do Heidelberg.
-
-Ago.: Citado para comparecer em Roma.
-
-25 Ago.: Melanchthon em Wittenberg.
-
-13-15 de Out.: Luthero em Augsburgo, perante o cardeal Thomaz Vio de
-Gaeta: sua appellação _a papa male informato ad melius informandum_.
-
-Nov.: _O sacramento da Penitencia_, de Luthero.
-
-1519.—Jan.: Entrevista de Luthero com Carlos de Miltitz, camarista do
-papa, em Altenburgo; Treguas.
-
-27 de Jun. a 16 de Jul.: Polemica em LEIPSIC: (i) entre Eck e Carlstadt,
-sobre a doutrina do Livre Arbitrio; (ii) entre Eck e Luthero, _De primeto
-Papae_.
-
-A controversia já não é sobre pontos de theologia ecclesiastica; abrange
-toda a roda dos principios ecclesiasticos. Ruptura com a christandade
-romana.
-
-A doutrina do sacerdocio de todos os crentes.
-
-A liberdade christã e o direito do juizo particular.
-
-Sermões de Luthero sobre os sacramentos do arrependimento e do baptismo,
-e sobre a excommunhão.
-
-Pedido para que na Ceia do Senhor se fizesse uso dos dois elementos.
-
-1520.—Abril: Ulrico v. Hutten (n. em 21 de Abr. de 1488, f. em 29 de
-Ago. de 1523); Dialogo: Vadiscus, ou a Trindade Romana; 15 de Jun.,
-Bulla de excommunhão contra 41 proposições de Luthero; o prazo de 60
-dias para retractação; 23 de Jun., a obra de Luthero, «Aos fidalgos
-christãos da nação allemã, Sobre a reforma de um Estado christão»; Out.
-_De Captivitate Eccles. Babylonic._; _De libertate Christiana_ (sobre a
-libertação do christão); 10 de Dez.; A queima da bulla pontificia.
-
-1520.—17 e 18 de Abr., =Luthero na Dieta de Worms=; 26 de Abr., retira-se
-de Worms; Março 3 a Maio 4 de 1522, em Wartburgo (Em Dez. principio a
-traducção do N. T.)—Tratados: _Sobre a Penitencia_, _Contra as missas
-particulares_, _Contra os votos clericaes e monacaes_, _O commentador
-allemão_.
-
-26 de Maio, Edicto de Worms, falsamente datado do 8 de Maio.
-
-28 do Maio, Decreto Imperial contra Luthero.
-
-Junho: Carlstadt contra o celíbato.
-
-Out.: É abolida a missa em Wittenberg, pelos frades agostinhos (Gabriel
-Didymus).
-
-Dez. As innovações de Carlstadt.
-
-25 de Dez.: A Ceia do Senhor nas duas especies.
-
-27 de Dez.: Os prophetas em Wittenberg.
-
-1522.—Fev.: Tumultos em Wittenberg contra as imagens e as pinturas.
-
-7 de Maio: Luthero novamente em Wittenberg.
-
-9-16 de Maio: Sermões contra o fanatismo.
-
-Julho: _Contra Henricum regem Angliæ._
-
-Set.: Fica prompta a traducçao do N. T. (a Biblia completa em 1534).
-
-Dez.: Dieta em Nürnberg. Os Cem aggravos dos estadas allemães, em
-resposta ao Breve de Adriano VI, de 26 de Nov.
-
-1522-23.—A Reforma vence na Pomerania, na Livonia, na Silesia, na
-Prussia, no Mecklenburgo; na Frisilandia Oriental desde 1519; 1523,
-em Frankfort sobre o Maine, em Hall, na Suabia; 1524, Ulm, Strasburg,
-Bremen, Nürnberg.
-
-1523.—1 de Jul., Henrique Voes e João Esch (agostinhos) são queimados em
-Bruxellas; os primeiros martyres.
-
-Gustavo Vasa estabelece a Reforma na Suecia (Olaf e Lourenço Petersen,
-Lourenço Andersen).
-
-7 de Maio, assassinio de Sickingen; revolta dos nobres, suffocada pelos
-principes.
-
-Luthero: =Da Ordem do Culto Publico=: Dec.: _Formula Missæ_ (A Ceia do
-Senhor _sub utraque_).
-
-1524.—_O primeiro hymnario allemão._
-
-Maio a Jun. de 1525, A GUERRA DOS CAMPONEZES; os camponezes são
-massacrados em Frankenhausen. (Os doze Artigos de João Henglin).
-
-1525.—Jan.: Luthero, _Contra os prophetas celestiaes_.
-
-Maio: Exhorta os principes e os camponezes a conservarem a paz, com
-commentarios sobre os Doze Artigos. Depois: _Contra os camponezes que
-roubam e assassinam_.
-
-13 de Junho, Desposa Catharina von Bora.
-
-Tendencia conservadora da Reforma Lutherana; separação de elementos
-reformatorios.
-
-1525.—Dez.: Luthero, _De Servo Arbitrio_ (a mais estricta predestinação
-supralapsariana) contra Erasmo, Διατριβὴ _de libero arbitrio_, Set. 1524.
-
-1526.—Maio 4: Liga, em Torgau, entre Filippe de Hesse e João, o
-Constante, a que adheriram em Junho, em Magdeburgo, outros principaes
-evangelicos.
-
-Junho 26, Liga, em Dessau, de principes catholicos romanos do sul da
-Allemanha.
-
-Junho e Julho, Dieta em Spira «Em materias de religião cada Estado deve
-conduzir-se de uma maneira digna para com Deus e para com Sua Magestade
-Imperial.»
-
-Out. 20, Synodo em Homberg; Ordem ecclesiastica de Besse, instituida
-por Francisco Lambert (nasc. em 1487, em Avignon; Franciscano; em 1525
-fugiu para a Allemanha; 1527, professor em Marburgo; fallec. em 1539);
-incondicional independencia da communidade christã, e estricta disciplina
-ecclesiastica.
-
-=Luthero.=—Missa allemã; ordem do culto publico.
-
-Frederico I da Dinamarca adhere á doutrina lutherana. (João Tausen, em
-Jütlandia desde 1524).
-
-1527.—Livro de Inspecção, de Melanchthon; Gustavo Vasa propõe a Reforma á
-Dieta em Westeräs.
-
-Frederico I da Dinamarca, na Dieta de Odensee, dá á religião reformada
-privilegios eguaes aos que a catholica romana tem.
-
-1528.—Otto V. Informações dadas por Pack ácerca de uma Liga Catholica
-romana formada em Breslau, em 1527; a Reforma propaga-se na Noruega.
-
-1529.—26 de Fev., =Dieta de Spira=; 12 de Abr., a decisão da maioria
-catholica romana dos Eleitos e Principes «Quem quer que tem imposto o
-Edicto de Worms deve continuar a fazel-o; os demais não devem permittir
-mais innovações; a ninguem se deve impedir celebrar missa.» 19 de Abr.,
-concordam com ella as cidades.
-
-PROTESTO: 25 de Abr. Appello dirigido ao imperador e ao Concilio pela
-Saxonia, Hesse, Brandenburgo, Anhalt, Lüneburgo, e quatorze cidades.
-
-Separação entre os protestantes lutheranos e os do sul da Allemanha;
-Luthero oppõe-se a uma resistencia armada; Zwinglio planeia a abolição do
-papado e do imperio medieval; Philippe de Hesse diligenceia promover a
-união.
-
-1-4 de Out.—Conferencia religiosa em Marburgo (Luthero, Melanchthon,
-Zwinglio, Œcolampadius, Justo Jonas, Osiander, Brenz, etc.); 4 de Out.,
-união em quatorze artigos, divisão no quinquagesimo—O Sacramento da
-Ceia. _Zwinglio_: «Não ha na terra homens com quem eu mais gostosamente
-me identificaria do que os de Wittenberg.» _Luthero_: «Vós tendes um
-Espirito differente do nosso.»
-
-16 de Out., Luthero no convento de Schwabach; 30 de Nov. em Schmalkald; a
-Saxonia separa-se dos outros estados do sul da Allemanha.
-
-1530.—=Dieta de Augsburgo=; 15 de Jan. entrada do imperador; infructiferas
-negociações com os principes evangelicos para os induzir a incorporar-se
-na procissão de Corpus-Christi; 20 de Jun., abertura da Dieta; 25 de Jun.
-é lida a Confissão de Augsburgo (3 de Ago., é lida a Refutação); 11 de
-Jul., é lida a Confissão Tetrapolitana (em 17 de Out. a Refutação) e a
-_Fidei Ratio_, Zwinglio; 16 a 29 de Ago. Negociações com Melanchthon, em
-que elle mostra muito pouca firmeza.
-
-19 de Nov. Decreto da Dieta. Depois d’Abril de 1531, suppressão violenta
-do protestantismo.
-
-1531.—Liga protestante de Schmalkald: á frente d’ella, Hesse e Saxonia.
-
-1532.—Dieta de Nürnberg: tolerancia até haver um Concilio Geral.
-
-Dessan adopta a Reforma.
-
-1534.—O Würtenburgo abraça a Reforma Lutherana.
-
-1536.—A concordata de Wittenberg; Melanchthon Bucer; a _Ceia do Senhor_
-conforme o lutheranismo; evita-se que tomem parte n’ella os indignos e os
-incredulos; _Baptismo_; _Absolvição_; escondem-se os pontos em voz de se
-explicarem.
-
-Victoria da Reforma na Dinamarca.
-
-1537.—Convenção de Schmalkald; os Artigos de Schmalkald.
-
-1538.—Liga Catholica Romana em Nürnberg.
-
-1539.—Victoria da Reforma na Saxonia Ducal, e no Brandenburgo Eleitoral.
-
-1540.—Junho: Conferencia em Hagenau.
-
-25 de Nov. a 14 de Jan. em Worms (Granvella, Melanchthon, Bucer, Capito,
-Brenz, Calvino, Eck, Cochlæus).
-
-1541.—27 de Abr. a 22 de Maio, conferencia em Regensburgo (Contarini,
-Melanchthon, Bucer, Eck), a questão da Transubstanciação.
-
-1542.—Nicolau V. Amosdorf, bispo de Naumbugo.
-
-1544.—Dieta de Spira; reconhecimento dos protestantes; tudo em socego, na
-expectativa de um Concilio Geral.
-
-1545.—_Reformatio Wittenbergensis._
-
-1546.—Segunda Conferencia Religiosa em Regensburgo; 18 de fev., Luthero
-morre em Eisleben; os protestantes não apparecem na Dieta.
-
-1546-47.—A guerra de Schmalkald; 19 de jun. liga entre Mauricio e o
-imperador; 20 de jul., decreto contra João Frederico e Filippe; 27 de
-out., Mauricio é nomeado eleitor; 24 de abr., batalha de Mühlberg,
-ficando prisioneiro João Frederico; Filippe entrega-se em Halle; o
-imperador falta á sua palavra.
-
-1543.—Reforma no arcebispado de Köln; Hermann V. Wied, o arcebispo, é
-avisado por Bucer e Melanchthon; excommungado em 1546; abdica em 1547;
-fall. em 1552.
-
-1548.—15 da maio, o Interim de Augsburgo conserva as hierarquias,
-ceremonias, festividades e jejuns da Egreja Catholica Romana; casamento
-dos clerigos e Ceia do Senhor _sub utraque_.
-
-1548.—Interim de Leipsic (Mauricio da Saxonia e Melanchthon).
-
-1551.—Vehemente desejo do imperador de que os protestantes se submettam
-ao Concilio de Trento; Liga clandestina de Mauricio da Saxonia com
-Henrique II de França.
-
-Out.: Embaixadores do Würtemburgo, e jan. de 1552, embaixadores saxonios
-em Trento.
-
-1552.—20 de mar., Mauricio põe-se em fuga; 19 de maio, apodera-se do
-castello de Ehrenberg, e da Passagem de Ehrenberg, as chaves do Tyrol;
-dissolve-se o Concilio; julho: Tratado de Passau; João Frederico e
-Filippe ficam livres.
-
-1555.—25 de set. _Paz religiosa de Augsburgo_; a Egreja Lutherana
-fica com os mesmos direitos legaes da Catholica Romana: _Cujus regio
-ejus religio; o Reservatum ecclesiasticum_; a Egreja Reformada não é
-reconhecida.
-
-1558.—Disputas entre os antigos lutheranos (Gnesiolutherani) e os
-discipulos de Melanchthon.
-
-1560.—Morto de Melanchthon, 19 de abril.
-
-1586-91.—Embaraços cripto-calvinistas na Saxonia eleitoral; supressão do
-calvinismo; execução de Krells, em 1601.
-
-_A Egreja Lutherana perde:_
-
-(_a_) Em favor da Egreja Catholica Romana
-
-1558.—A Baviera.
-
-1578.—O ducado da Austria (Rodolpho II).
-
-1584.—Os bispados Würzburgo, Bamberg, Salzburgo, Hildesheim, etc.
-
-1594.—Steiermark, Carinthia (Fernando II).
-
-1607.—Donauwerth.
-
-(_b_) Em favor da Egreja Reformada
-
-1560.—O Palatinado; 1563, o Catecismo de Heidelberg (Reformado sob
-Frederico III; Lutherano sob Luiz VI, 1576-83; Reformado sob Frederico
-IV, 1583-1618).
-
-1568.—Bremen.
-
-1596.—Anhalt (João Jorge, 1587-1603); revogação do Systema Consistorial e
-do Catecismo Lutherano; 1597-1628, Artigos Calvinistas.
-
-1605.—Hesse-Cassel, que estava sob o dominio do Landgrave Mauricio
-(1592-1627).
-
-1613.—O Brandenburgo, que estava sob o dominio do Eleitor João Sigismundo
-1614, _Confessio Marchica_.
-
-_Anti-Trinitarios_
-
-_Miguel Servetus_, da Aragão; 1530, em Basiléa; 1531, _De Trinitatis
-erroribus_; 1534, em Lyons; 1537, em Paris; 1540, em Vienna; 1553,
-_Christianismi restitutio_; 1553, queimado em Genebra.
-
-_Valentinus Gentilis_, da Calabria; decapitado em Berne, em 1556.
-
-_Laelius Socinus_: nasc. em 1525, em Veneza; 1547, percorre a Suissa, a
-Allemanha e a Polonia; fall. em 1562, em Zurich.
-
-_Faustus Socinus_: nasc. em 1539, em Siena; 1559, em Lyons; 1562, em
-Zurich; 1574-78, em Florença, e depois em Basiléa; 1579-98, na Polonia;
-fall. em 1604.—_De Jesu Christo servatore: De Statu primi hominis ante
-lapsium_, 1578.
-
-1605.—Catecismo Racoviano.
-
-
-Egreja Reformada
-
-ULRICO ZWINGLIO: nascido em 1 de Jan. de 1484, em Wildhaus, no condado de
-Toggenburgo; discipulo de Henrique Wolflin (Lupulus) em Berne; de Thomaz
-Wyttenbach, em Basiléa. 1499, discipulo de Joaquim Vadianus em Vienna;
-1506, mestre de artes; 1506-16, pastor em Glarus; 1516-18, prégador em
-Santa Maria, Einsiedeln.
-
-(Diebold de Geroldseck e o abbade Conrado de Rechenberg).
-
-1518.—Zwinglio contra a indulgencia prégada por Bernardino Sampson
-(Guardião do convento franciscano de Milão.)
-
-1519.—1 de Jan., Zwinglio prega o seu primeiro sermão em Zurich; sermões
-sobre o Evangelho da S. Matheus, os Actos e as Epistolas de Paulo;
-sermões reformistas, expondo uma clara distincção entre o christianismo
-biblico e o romanista; Estudo humanista da Escriptura (Epistolas
-Paulinas).
-
-EM FRANÇA, propaganda das doutrinas reformadas por Guilherme Briçonnet,
-bispo de Meaux desde 1521. Juntamente com Le Fébre e Farel.
-
-1521.—Cornelio Hoën, jurisconsulto allemão, escreve _De Eucharistia_
-(a Ceia do Senhor puramente symbolica); a doutrina é introduzida em
-Wittenberg e em Zurich por João Rhodius, presidente da Casa dos Irmãos,
-em Utrecht.
-
-1522.—16 de Abr. Zwinglio: _Von Erkiesen und Fryheit der Spysen_; Ago.:
-_Apologeticus Archeteles_, ao bispo de Constança.
-
-A theologia zwingliana torna-se gradualmente a mais forte nos Paizes
-Baixos.
-
-1523.—29 de Jan. Discussão em Zurich, entre Zwinglio e João Faber,
-vigario geral do bispo; as 67 theses de Zwinglio.
-
-26 de Out., Discussão em Zurich ácerca do culto das imagens e da missa.
-
-17 de Nov., Instrucção do Concilio de Zurich aos pastores e prégadores.
-
-1524.—Perfeita reforma esclesiastica em Zurich; os quadros das egrejas
-são arreados; os conventos dos frades são encerrados.
-
-Victoria da Reforma em Berne (Berchtholdt Haller. Nic. Manuel),
-Appenzell, Solothurn; a Liga Romanista e os Cantões Florestaes de Lucerna.
-
-1525.—A missa é abolida em Zurich; o culto publico muito simples e na
-lingua allemã; a Ceia do Senhor _sub utraque_.
-
-O commentario de Zwinglio, e a primeira parte da traducção da Biblia de
-Zurich (primeira edição completa em 1531).
-
-Zwinglio expôe detalhadamente o que pensa ácerca da Ceia do Senhor.
-
-(Carlstadt torna publica, no sul da Allemanha, a sua theoria da Ceia de
-Senhor, δεικτικῶς: Este meu Corpo, é o Corpo, etc.)
-
-Zwinglio a Matheus Alber em Reutlingen, 16 de Nov. de 1524, _Menducatio
-spiritualis_; depois no seu commentario.
-
-_Contra_ Zwinglio: Bugenhagen.
-
-_A favor_ de Zwinglio: Œcolampadius.
-
-O Syngramma Suevicum, 1525, (em Hall), por Brenz, Schrepf, Griebler,
-etc., e mais tarde Calvino.
-
-Luthero contra Calvino—(1) no seu prefacio á traducção de Agricola do
-Syngramma Suevicum; (2) em 1527 «Que a Palavra» etc.
-
-Principios ecclesiasticos e politicos de Zwinglio; a sua reforma politica
-na Suissa; liga politica dos cantões florestaes catholicos romanos para
-conservarem a sua supremacia.
-
-1526.—Os cantões catholicos romanos atacam os evangelicos.
-
-Maio: Polemica em Baden (Eck e Œcolampadius).
-
-1528.—Victoria da Reforma em St. Gall (Joaquim Vadianus, João Kessler).
-
-1529.—A Reforma vence em Basiléa (Œcolampadius, Capito, Hedio).
-
-Liga de cinco cantões florestaes com a Casa de Hapsburgo.
-
-24 de Jun., Paz de Cappel; os cantões florestaes abandonam a Liga de
-Hapsburgo e reconhecem a libertade de consciencia.
-
-Separação entre os protestantes lutheranos e os do sul da Allemanha;
-Luthero oppõe-se a uma resistencia armada; Zwinglio planeia a abolição do
-papado e do imperio medieval; Philippe de Hesse diligenceia promover a
-união.
-
-1-4 de Out.—Conferencia religiosa em Marburgo (Luthero, Melanchthon,
-Zwinglio, Œcolampadius, Justo Jonas, Osiander, Brenz, etc.); 4 de Out.,
-união em quatorze artigos, divisão no quinquagesimo—O Sacramento da
-Ceia. _Zwinglio_: «Não ha na terra homens com quem eu mais gostosamente
-me identificaria do que os de Wittenberg.» _Luthero_: «Vós tendes um
-Espirito differente do nosso.»
-
-16 de Out., Luthero no convento de Schwabach; 30 de Nov. em Schmalkald; a
-Saxonia separa-se dos outros estados do sul da Allemanha.
-
-Os cantões catholicos romanos não observam as clausulas da paz.
-
-1531.—15 de Maio, em Aarau nega-se provisões aos cantões florestaes com a
-reprovação de Zwinglio.
-
-11 de Out., Batalha de Cappel; _Zwinglio é assassinado_; Segunda Paz de
-Cappel.
-
-Henrique Bullinger, successor de Zwinglio.
-
-_Reforma promovida por Calvino na Suissa franceza._
-
-_Guilherme Farel_ (nasc. em 1489, no Delphinado; desde 1526, reformador
-em Berne; em 1530, em Neufchatel; fall. em 1565, em Genebra); _Pedro
-Viret_ (nasceu em 1511, em Orbe; 1531-59, em Lausanne; desde 1561, em
-Nismes e Lyons; fall. em 1571); desde 1534, faz-se em Genebra propaganda
-da Reforma.
-
-1536.—JOÃO CALVINO em Genebra; nasc. em 10 de jul. de 1509, em Noyon;
-estudou em Orleans e em Paris; 1533, abraçou a Reforma em Paris; em
-Basiléa; 1536, =Instituto Christianæ Religionis=; depois em Ferrara;
-rigorosa disciplina ecclesiastica; em 1538, pela pascoa, é expulso de
-Genebra e ratira-se para Strasburgo; chamado novamente a Genebra em 1541;
-fall. em 27 de Maio de 1564.
-
-_Systema ecclesiastico adoptado por Calvino em Genebra._—Culto: oração
-e prégação. Organisação presbyterianna. Jan. de 1542: _Ordonnances
-ecclésiastiques de l’église de Genève._ Pastores, doutores, presbyteros e
-diaconos. Disciplina da Egreja.
-
-_A Reforma em França_, 1559-98
-
-_Francisco I_, Humanista, importando-se pouco com a religião, fez da
-Reforma arma politica; sua irmã Margarida, rainha de Navarra (fall.
-em 1549) protege os reformadores; severa perseguição dos protestantes
-francezes, não obstante a alliança com os principes protestantes allemães
-e o pedido feito a Melanchthon para ir residir em França, em 1565.
-
-Henrique II: Antonio de Navarra e sua mulher Joanna d’Albret põem-se á
-testa do protestantismo em França.
-
-1559-25.—29 do maio, Primeiro synodo reformado em Paris, organizado por
-Antonio Chandieu, pastor parisiense; Confissão Gauleza.
-
-1561.—Set.: Conferencia religiosa em Poissy, Theodora Beza.
-
-1562.—Jan.: Os protestantes alcançam o direito de se reunirem para
-o culto fóra das cidades; Francisco de Guise massacra a congregação
-protestante de Vassy.
-
-1562-63.—A guerra huguenote. Morte de Antonio de Navarra; Francisco de
-Guise é alvejado perto de Orleans.
-
-1567-68 e 1569-70. Guerras huguenotes.
-
-1572.—24 de ago., massacre de Paris na vespera de S. Bartholomeu;
-assassinio de Coligny e de 50:000 huguenotes.
-
-1574-76.—Guerra huguenote; a Santa Liga dos Guises.
-
-1588.—Assassinio de Henrique e Luiz de Guise.
-
-1589.—Henrique é morto por um fanatico da Liga, J. Clement, em 1 de ago.
-
-1593.—_Henrique IV faz-se catholico romano._
-
-1598.—EDICTO DE NANTES: liberdade de consciencia; é permittido o
-culto publico; todos os privilegios civis; cidades de refugio para os
-huguenotes.
-
-1620-28.—Revoltas huguenotes.
-
-1620.—Tomada da Rochella.
-
-Edicto de Nismes. São garantidos aos huguenotes direitos ecclesiasticos.
-
-1552.—_Os 42 Artigos._
-
-1554.—O cardeal Reginaldo Pole, legado pontificio; 1555-58,
-Sanguinolentas perseguições no reínado de Maria; 1556, 21 de maio,
-Cranmer é queimado em Oxford.
-
-_A Rainha Isabel restabelece a Reforma_
-
-1559.—Junho: Acta da Uniformidade, Matheus Parker, arcebispo de
-Canterbury.
-
-Revisão e readopção do livro de Oração Commum.
-
-1562.—23 de jan., _Os 39 Artigos_: Doutrina calvinista da Predestinação,
-Doutrina calvinista da Ceia do Senhor.
-
-1567.—Os puritanos são excluidos da Egreja. Puritanismo; Reforma
-espiritual mediante a collectividade evangelica, acceitação, em
-Inglaterra, da doutrina do sacerdocio espiritual de todos os crentes,
-e consequente guerra ás capas de asperges e outros paramentos
-ecclesiasticos.
-
-1570.—Thomaz Cartwright é expulso de Cambridge.
-
-1582.—Roberto Browne, capellão do duque do Norfolk; separação da Egreja e
-do Estado; cada congregação fórma uma egreja independente.
-
-
-Movimentos Revolucionarios
-
-_Os Mysticos_
-
-A Nova Prophecia, o Espiritualismo, o Millenearismo, uma Congregação dos
-perfeitamente santos, opposição ao baptismo de creanças.
-
-Primeiro periodo até 1535.
-
-1521.—Os Prophetas (de Zwickau) em Wittenberg: Nicolau Storch, Marcos
-Thomé, ou Stübner, Martinho Celiarius.
-
-André Bodenstein de Carlstadt: 1504, professor em Wittenberg; 1520,
-em Copenhague, 1522, tumultos por causa das imagens e dos paramentos;
-1523-24, em Orlamünde; excommungado depois no sul da Allemanha, na
-Frisilandia Oriental, na Suissa; fallecido em 1541, em Basiléa.
-
-1523.—Conrado Grebel, Felix Manz, e Stumpf. em Zurich, contra Zwinglio.
-
-1524.—Alterações da ordem em Stockholmo; Melchior Hoffmann.
-
-1525.—Thomaz Münzer em Mülhausen; executado em Maio de 1525.
-
-Tratado: _Wider das geistlose sanftlebende Fleisch ze Wittenberg_, 1522.
-
-Janeiro: Levantamento dos anabaptistas; Jürg Blaurock, monge proveniente
-de Chur.
-
-Severa perseguição dos anabaptistas (Hanz morre afogado em Zurich, em
-1527; Balth. Hubmater é queimado em Vienna, em 1528; Hetzer é decapitado
-em Constancia em 1529).
-
-_Melchior Hoffmann_: nasc. em Hall, na Suabia; 1523, em Livonia; 1527,
-em Holstein; 1529, em Strasburgo; de ahi foi para a Frisilandia, onde se
-aggregou aos baptistas; depois nos Paizes Baixos; 1533, em Strasburgo;
-fall. em 1540. (_Ordinanz Gottes_): um estricto millenario do genero mais
-espiritual; propaga entre os baptistas as idéas millenarias.
-
-_Gaspar Schwenkfeld_: nasc. em 1490, em Ossing, perto de Liegnitz;
-ao serviço do duque de Liegnitz; 1525, julgou ter descoberto uma
-interpretação das palavras da instituição da Ceia «Quod ipse panis
-fractus est corpori esurienti, nempe cibus, hoc est corpus menm, cibus
-videlicet esurientium animarum;» de onde proveiu a sua doutrina ácerca
-de Christo, A Palavra Escondida (_De cursu Verbi Dei, origine fidei et
-ratione justificationis_, 1527); da Pessoa de Christo (não feito homem,
-mas gerado pela natureza divina: da sua carne divina); 1528, expulso da
-Silesia; em Strasburgo, Spira, Ulm, Perseguido desde 1539 pelos theologos
-lutheranos; em muitas controversias; fall. em 1561, em Ulm; discipulos
-seus na Silesia; na Pennsylvania desde 1730.
-
-1533.—_O Reino de Christo_ em Münster.
-
-Bernardo Rothmann, superintendente evangelico em Münster, ajunta-se aos
-anabaptistas; Henrique Roll e os prégadores de Wassenberg, provenientes
-de Jülich.
-
-No verão; Melchioritas in Münster.
-
-Nov.: Jan. Matthiesen.
-
-1534.—Quaresma: Tumulto, destruição das imagens e dos conventos.
-
-Vespera da Pascoa: Queda de Matthiesen; João de Leyden colloca-se á
-frente dos anabaptistas (Theocracia com communidade de bens e de esposas).
-
-1535.—Vespera de S. João: tomada de Münster.
-
-1536.—22 de Jan. João de Leyden, Knipperdolling e Krechting são
-executados.
-
-1534.—David Joris: nasc. em 1501, em Delft; associa-se aos anabaptistas;
-promove reformas entre elles; a sua influencia nos Paizes Baixos e na
-Frisilandia Oriental. 1542, o seu _Wunderbuch_; 1544, em Basiléa; uma
-especulação mystico-espiritualista com tendencia racionalista.
-
-_Os Mennonitas_
-
-Menno Simonis: nasc. em 1496, em Witmarsum; 1524, padre; 1536, deixou de
-exercer as suas funcções, desgostoso com a perseguição dos anabaptistas
-de Münster, baptisado por um apostolo de Jan Matthiesen; reformou e
-organisou as congregações anabaptistas na Hollanda e na Frisilandia;
-fall. em Oldesloe; fez cessar o enthusiasmo fanatico, e deu maior
-incremento á tendencia para o Donatismo.
-
-Os seus discipulos, os mennonitas, tolerados em 1572, nos Paizes Baixos,
-por Guilherme de Orange, encontravam-se tambem em Emden, Hamburgo,
-Danzig, Elbing, no Palatinado e na Moravia; moderaram o espirito
-anabaptista primitivo; rejeitaram todos os dogmas; prohibiram os
-juramentos e a guerra; appellaram para a letra da Escriptura.
-
-Egreja Anglicana
-
-Inglaterra, 1547-1600, sob Henrique VIII: João Frith, Guilherme Tindal.
-
-1534.—Acta do Parlamento ácerca da supremacia real; o Rei «o unico
-chefe supremo, sobre a terra, da Egreja ingleza»; á frente do partido
-evangelico, Thomaz Cranmer (1533, arcebispo de Canterbury) e Thomaz
-Cromwell; Traducção da Biblia, em 1538.
-
-1539.—28 de jul., Transubstanciação; negação do calix aos leigos;
-celibato clerical; missas pelos defuntos; confissão auricular.
-
-A Reforma de Henrique VIII foi um acto do rei, e significava apenas uma
-revolta contra o systema medieval, sendo o papa substituido pelo rei.
-
-Isolamento da Egreja da Inglaterra; cortadas todas as relações com o
-papado; sem communicação alguma com as Egrejas Reformadas.
-
-1547.—Sob o governo de Somerset, Lord Protector: Pedro Martyr Vermigli
-(nasc. em 1500, em Florença; 1542, em Strasburgo; fall. em 1562, em
-Zurich) e Bernardo Ochino (nasc. em 1487) levado para Oxford; Martinho
-Bucer e Paulo Fagio, para Cambridge.
-
-O Livro das Homilias.
-
-1548.—O Livro da Oração Commum; revisto em 1552.
-
-_A Escocia_
-
-1558.—Os Lords da Congregação; o Evangelho Puro, o Livro de Oração Commum
-do Rei Eduardo.
-
-1560.—Assembléa dos Estados em Edinburgo; _A Confissão Escoceza_; o
-Primeiro Livro de Disciplina; é approvado o governo presbyteriano
-pelas Assembléas Geraes, pelos Synodos e pelas Sessões das egrejas;
-Superintendentes.
-
-_João Knox_: nasc. em 1505, em Haddington; desde 1546, prégador em St.º
-André; 1547-49, nas galés; 1553-59, em Frankfort e Genebra; 1559 a 1572
-(data do fallecimento) em Edinburgo.
-
-1572.—Convenção de Leith; Bispos privados de exercerem as funcções
-episcopaes: os Tulchanos.
-
-1576.—Os inspectores nomeados pela Assembléa.
-
-1578.—Segundo Livro de Disciplina.
-
-1580.—A instituição dos presbyterios.
-
-
-A Egreja Catholica Romana
-
-11 de Março de 1513 a 1 de Dez. de 1521.—Leão X.
-
-1517.—O Concilio de Latrão concede ao papa os dizimos de todos os bens
-ecclesiasticos.
-
-Indulgencia (a quinta entre 1500 e 1517) para a construcção de S. Pedro,
-e para as despezas particulares do papa.
-
-São concedidas á Allemanha tres commissões de indulgencias, uma d’ellas
-arrendada ao arcebispo de Mayença (canonisado em 1514) sendo seu agente o
-dominicano João Tetzel (fallecido em 1519).
-
-Thomaz Vio de Gaeta (Cardeal Caetano): «A Egreja Catholica é a escrava do
-papa»; assevera a infallibilidade papal no mais amplo sentido.
-
-1519.—As côrtes de Aragão pedem tres Breves a Leão X (que nunca lhe foram
-enviadas) para restringir a Inquisição. Pedidos similhantes, tambem
-infructiferos, feitos pelos estados de Aragão, Castella e Catalunha, a
-Carlos V em 1516.
-
-_Os theologos romanistas no primeiro periodo da Reforma._
-
-João Eck, professor de theologia em Ingolstadt desde 1510; nasc. em 1486,
-na aldeia de Eck; fall. em 1543.
-
-Jeronymo Emser, prégador palaciano do duque Jorge da Saxonia, fall. em
-1527.
-
-João Cochlæus (Dobeneck), deão de Francfort sobre o Maine, Canonicus em
-Mayença e Breslau; fall. em 1552; _Commentaria de actis et scriptis M.
-Lutheri_ (1517-46), 1549, _Historiæ Hussitarum_.
-
-João Faber, 1518, Vigario Geral em Constancia (Costnitz); 1529,
-Preboste de Ofen; 1530, Bispo de Vienna, fall. em 1561; 1523, _Malleus
-hæreticorum_.
-
-1521.—Henrique VIII de Inglaterra: _Assertatio VII. Sacramentorum contra
-Lutherum_ (Defensor da Fé.)
-
-15 de Abril, Decreto da Sorbonne, condemnando as doutrinas de Luthero.
-
-8 de Maio, Edito de Carlos V. (fundado no edito de Worms) contra a
-propaganda das doutrinas reformadas nos Paizes Baixos.
-
-(1522, é encerrado, sobre o fundamento de heresia, o convento dos
-Agostinhos de Antuerpia).
-
-1522-23.—14 de Set. O papa Adriano VI (tutor de Carlos V, bispo de
-Utrecht) instruido na sciencia antiga; aspiração por uma reforma do clero
-mediante a hierarquia.
-
-Em Hespanha, desde 1520 circulação dos escriptos de Luthero, em
-traducções hespanholas feitas em Antuerpia.
-
-1523.—João de Avila o «apostolo de Andaluzia», é perseguido por ter
-adoptado as doutrinas lutheranas.
-
-1523-34.—26 de Set. O papa Clemente VII (Julio Medici) filho natural de
-Julião de Medico.
-
-1524.—O cardeal Campeggio, legado do papa na Dieta de Nürnberg.
-
-Liga, em Regensburgo, dos Estados Catholicos Romanos do Sul da Allemanha
-(Fernando de Austria, os duques da Baviera e os bispos do sul da
-Allemanha) Condições: Uma reforma ecclesiastica dentro de certo limites,
-e uma alliança com o poder civil; não se permitindo, porém, que continuem
-a ser prégadas as novas doutrinas.
-
-1524.—Pedro Caraffa, bispo de Theate (Papa Paulo IV) institue a Ordem dos
-Theatini para impedir o avanço da Reforma.
-
-1526.—Maio 29: Liga em Cognac contra Carlos V (o papa, Francisco I,
-Veneza e Milão).
-
-1527.—Processo da Sorbonne contra Jacques le Fêvre (fall. em 1537,
-durante uma viagem para Strasburgo), sob a protecção de Margarida de
-Navarra.
-
-1527.—Maio 6, Carlos de Bourbon ataca Roma; o papa encerrado em St.
-Angelo até 6 de Junho. Carlos V, senhor de quasi todos os Estados da
-Egreja, propõe o limitar-se o poder temporal do papa. O papa appella
-para Inglaterra e para França; um exercito francez equipado á custa da
-Inglaterra, marcha em seu auxilio.
-
-1528.—Jun. 29: Paz entre o Imperador e o papa em Barcelona; o papa
-recupera os Estados da Egreja e Florença; exterminio da heresia.
-
-1530.—Congregações reformadas em _Hespanha_. Em Sevilha: Rodrigo de
-Valero, Joh. Egidio, Ponce de la Fuente. Em Valladolid, 1555, Agostinho
-Cazalla.
-
-Francisco Enzinas traduz o Novo Testamento; em 1556, nova traducção por
-João Perez.
-
-Filippe II e a Inquisição condemnam essas obras.
-
-_Italia._—A Reforma allemã desperta a vida religiosa e a theologia
-agostinha; Contarini, Reginaldo Pole, Joh. de Merone, (arcebispo de
-Modena). _Pedro Paulo Vergerius_ (abraçou a Reforma em 1548; fall. em
-1565).
-
-Reforma em Ferrara (Renée casa em 1527, com Hercules II); em Veneza; em
-Napoles (João Valdez, fall. em 1540; e Bernardo Ochino); em Lucca (Pedro
-Martyr).
-
-1534-49.—O papa Paulo III (Farnese); Vergerius, seu legado na Allemanha.
-
-1536.—Paulo III manda reunir em Mantua o Concilio havia longo tempo
-promettido; 1537, addiado; mandado reunir em Vicenza; novamente addiado.
-
-1542.—Antonio Paleario (queimado em 1570), _Del beneficio di Gesu Christo
-crocifisso verso i Christiani_.
-
-1540.—27 de Set., COMPANHIA DE JESUS constituida por Paulo III; _D.
-Ignacio de Loyola_ nasc. em 1491, no castello de Loyola, situado na
-provincia de Vasconça; ferido em 1521, em Pamplona; lendas de santos;
-estudos em Barcelona; desde 1528 em Paris. Em 1534, com seis companheiros
-(Francisco Xavier, Jacques Lainez, Pedro Lefebre, etc.), fez os votos
-monasticos, accrescentando um outro, o de absoluta obediencia ao papa.
-Loyola fall. em 1556; Lainez em 1561.
-
-«Para zelar os interesses da hierarquia catholica romana contra o
-protestantismo tanto dentro como fóra da Egreja.»
-
-A obra missionaria de Francisco Xavier no Oriente da Asia.
-
-A moral da Sociedade; casuistica.
-
-Os seus dogmas: a superstição systematica.
-
-1542.—O cardeal Caraffa aconselha o restabelecimento da Inquisição para
-acabar com o protestantismo na Italia.
-
-1545.—Abertura do _Concilio de Trento_; Primeiro periodo, 11 de mar. de
-1547, em Trento; 21 de abr. de 1547 a 13 de set. de 1549, em Bolonha.
-Segundo periodo, 1 de maio de 1551 a 28 de abr. de 1552, em Trento.
-Terceiro periodo, 13 de jan. de 1562 a 4 de dez. de 1563 (25 sessões).
-Doutrinas romanistas consolidadas mediante esse concilio.
-
-1564.—_Professio Fidei Tridentinae_: 1566, _Catechismus Romanus_
-(Leonardo Marini, Egidio Foscarari, Muzio Calini).
-
-1548.—Filippe Nery funda o Oratorio.
-
-1550-64.—Julio III (del Monte).
-
-1551.—Fundação do Collegium Romanum Jesuita.
-
-1552.—Fundação do Collegium Germanicum.
-
-1555-59.—Paulo IV (Caraffa) protesta contra a Paz de Augsburgo;
-Inquisição.
-
-1559-65.—Pio IV (Medici) deixa-se guiar por seu sobrinho, o cardeal
-Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, fall. em 1584.
-
-1564.—_Index librorum prohibitorum._
-
-1566-72.—Pio V, zeloso dominicano.
-
-1567.—Bulla de excommunhão contra 79 proposições agostinianas de Miguel
-Baius (fall. em 1589). Chanceller da Universidade de Louvain.
-
-1568.—_Breviarium._
-
-1570.—_Misssale Romanum._
-
-1572-85.—Gregorio XIII; carta congratulatoria a Carlos IX, ácerca do
-massacre de S. Bartholomeu; _Te Deum_ em Roma, em honra do acontecimento.
-
-1582.—Reforma do Calendario.
-
-1582-1610.—Missões jesuitas na China.
-
-1585-90.—Sixto V: Bibliotheca do Vaticano.
-
-1588.—Annales Eccl., de Baronio.
-
-1590.—Edição infallivel da Vulgata.
-
-1592-1605.—Clemente VII.
-
-1592.—Nova edição da vulgata (a chamada edição de Sixto V).
-
-_Os Paizes Baixos_
-
-1559.—Margarida de Parma; Granvella, bispo de Arras.
-
-São creadas 14 novas dioceses. Inquisição.
-
-1562.—_Confessio Belgica_; Guido de Brès, Adriano de Savaria, H. Modetus,
-G. Wingen; revista por Francisco Junio, em 1571.
-
-1566.—Compromisso em favor dos protestantes.
-
-Tumultos por causa da imagens e das reliquias.
-
-1568-78.—O duque de Alba.
-
-Concilio de Sangue; Perseguição de protestantes; são mortos 18:000;
-Egmont e Horn em 1568.
-
-1572.—Tomada de Brill pelos mendigos do mar; Guilherme de Orange.
-
-1576.—8 de Nov., Tratado de Ghent.
-
-1579.—23 de jan., União de Utrecht, firmada pelas provincias do norte. 26
-de julho, Declaração de independencia.
-
-1584.—10 de julho, Assassinio de Guilherme de Orange; succede-lhe
-Mauricio de Orange.
-
-Fundação de Universidades—Leyden, em 1575; Franecker, em 1585; Gröningen,
-em 1612; Utrecht, em 1638; Harderwyk, em 1648.
-
-
-Theologia Protestante
-
-FILIPPE MELANCHTHON (nasc. em 16 de Fev. de 1497, em Bretten); 1509-12,
-em Heidelberg; 1512-14, em Tübingen; 1514, mestre de artes; 1514-18,
-lecciona em Tübingen; 1518, professor de grego em Wittenberg; 29 de Ago.
-Conferencia introductora, _De corrigendis adolescentiæ studiis_; 19 de
-Set. de 1519. Bacharel em Theologia; fall. em 19 de Abr. de 1560. =Loci
-communes rerum Theologicarum, seu hypotyposes Theologicæ=, 1521; tres
-edições em 1521; a edição de 1525 modifica a predestinação absoluta; a
-edição de 1535 reconstrue a sua theologia; edição de 1543, Synergismo.
-
-ZWINGLIO: _Commentarius de vera et falsa religione_, 1525; _Fidei ratio
-ad Carolun Imperatorem_, 3 de Jul. de 1530; _Sermonis de providentia Dei
-Anamnemo_; 1530; _Christianæ Fidei expositio_, 1531.
-
-(a) _Theologos Lutheranos_
-
-Jorge Spalatim: nasc. em 1484, em Spalt, na diocese de Eichstädt; 1514,
-capellão de Frederico, o Sabio; 1525, superintendente em Altenburgo;
-fall. em 1545.
-
-Justo Jonas: nasc. em 1493, em Nordhausen; 1521, Preboste e professor em
-Wittenberg; 1544-46, em Halle; 1551, superintendente em Eisfeld; fall, em
-1555.
-
-Nicolau de Amsdorf: nasc. em 1483; desde 1502, em Wittenberg; 1524, em
-Magdeburgo; 1528, em Goslar; 1542-46, bispo de Naumburgo; depois de 1550,
-em Eisenach; fall. em 1565.
-
-João Bugenhagen: nasc. em 1485; desde 1521, em Wittenberg; 1523, pastor,
-1536, superintendente geral.
-
-Gaspar Cruciger: 1528-48, fallecendo, em professor, em Wittenberg.
-
-Frederico Myconius, franciscano em Annaberg, e depois pastor em Weimar;
-1524, prégador da côrte em Gotha; fall. em 1546.
-
-Paulo Speratus: 1521, em Vienna, depois em Iglau; 1523, em Wittenberg
-(1524, «Chegou-nos a Salvação»): 1524, em Königsberg; 1529-51, bispo da
-Pomerania, em Marienwerder.
-
-João Brenz, nasc. em 1499: 1520, prégador romanista em Heidelberg,
-1522-46, prégador lutherano em Hall, na Suabia; desde 1553, preboste em
-Stuttgart; fall. em 11 de Setem. de 1570.
-
-(_b_) _Os Theologos Zwinglianos_
-
-João Œcolampadius, nasc. em 1488; 1515, pastor em Basiléa; 1519, em
-Augsburgo; 1522 professor e prégador em Basiléa; fall. em 24 de Nov. de
-1531.
-
-Leão Judæus: 1523, cura de S. Pedro, em Zurich; nasc. em 1482; fall. em
-1542.
-
-Oswaldo Myconius (Geisshüsler) nasc. em 1483, em Lucerna; fall. em 1532;
-14 de Out. de 1552, os Antistites em Basiléa.
-
-Conrado Pellican (Kürsner): nasc. em 1478; 1493, franciscano; desde 1502,
-Lector no convento dos Franciscanos de Basiléa; 1527, em Zurich, como
-professor de hebreu; fall. em 1556.
-
-(c) _Theologos intermediarios_
-
-Urbano Rhegius: nasc. em 1496, em Argau sobre o Bodensee; 1512, professor
-em Ingolstadt; 1519, padre em Constança; 1520-22, prégador em Augsburgo;
-desde 1530, reformador em Brunswick, ao serviço do duque Ernesto; fall.
-em Celle, em 23 de Maio de 1541.
-
-Ambrosio Blaurer: nasc. em 1492, em Constança; 1534-38, reformador em
-Würtemberg; até 1548, em Constança; em 1564, fall. em Winterthum (1534,
-_Concordata de Stuttgart_.)
-
-Martinho Bucer: nasc. em Sehlettstadt, em 1491; 1505, dominicano; desde
-1524, pastor em Strasburgo; 1549, sob Eduardo VI, em Inglaterra e
-professor em Cambridge; fall. em 28 de Fev. de 1551.
-
-Wolfango Fabricio Capito: nasc. em 1478; 1515, em Basiléa; 1520, em
-Mayença; 1523-1541, preboste de S. Thomaz, Strasburgo, fall. em 1541.
-
-(d) _Confissões Zwinglianas_
-
-1523.—Jan. 29, os 67 Artigos de Zwinglio.
-
-Nov. 17, Instrucções ao Concilio de Zurich.
-
-1530.—Julho 9, _Fidei Ratio ad Carolum V_. (de Zwinglio com o
-assentimento de Œcolampadius e outros reformadores suissos).
-
-1530.—_Confessio Tetrapolitana_ (Strasburgo, Constança, Lindau,
-Memmingem): Bucer, Capito, Hedio; durante as sessões da Dieta de
-Augsburgo.
-
-1534.—_Confessio Basiliensio_ (Myconius) acceite por Mühlhausen em 1537,
-e chamada Conf. Mühlhusiana.
-
-1536.—_Confessio Helvetica Prior_ (Basil II) redigida em Basiléa por
-delegados dos cantões evangelicos, (Jan. a Março) e pelos seus theologos
-Bullinger, Myconius, Grynæus, Leão Judæus, etc.
-
-(e) _Confissões Lutheranas_
-
-1529.—_O Catecismo maior e mais pequeno_, de Luthero, em allemão;
-appareceram simultaneamente.
-
-1530.—=Confessio Augustana=, ou Confissão de Augsburgo. Constituida
-por—(1) os 15 Artigos de Marburgo; (2) os 17 Artigos de Schwabach,
-redigidos por Luthero; (3) os Artigos de Torgau, compilados por Luthero,
-Melanchthon, Justo Jonas, Bugenhagen, e apresentada ao Eleitor, em
-Torgem, em março de 1530. Obra de Melanchthon com a assistencia doe
-theologos evangelicos reunidos em Augsburgo, e revista por Luthero.
-
-Exposição da Doutrina Evangelica, «In que cerni potest, nihil inesse,
-quod discrepet a Scripturis vel ab ecclesia catholica vel ab ecclesia
-Romana, quatenus ex scriptoribus nota est.... Sed dissenus est de
-quibusdam abusibus, qui sine certa auotoritate in ecclesiam irrepserunt.»
-Philippe de Hesse aasignou-a, protestando, porém, contra o Artigo X, que
-trata da Ceia do Senhor.
-
-É impossivel averiguar com exactidão o texto, quer das edições allemãs
-quer das latinas; a primeira edição impressa de Melanchthon; Wittenberg,
-1530, em 4.º
-
-_A Variata_ (variantes, especialmente no Artigo X) desde 1540.
-
-_Apologia em favor da Confissão de Augsburgo._—_A prima delineatio
-apologiæ_ por Melanchthon, em Set. de 1630, em Augsburgo; prompta a
-imprimir em abril de 1531; a primeira edição em Abril de 1531; a edição
-allemã de Justo Jonas, em Out. de 1531.
-
-_Os artigos de Schmalkald_, por Luthero, para a Convenção Protestante de
-Schmalkald, 1557, e com referencia ao proposto Concilio Geral em Mantua
-(Estrictamente lutherano).
-
-_Controversias na Egreja Lutherana_
-
-1548-55.—_Adiaphoristicos_: Flacius, Wigand, Amsdorf, contra o Interim de
-Leipsic.
-
-1549-66.—_Osiander_: André Osiander (em Nürnberg, 1522-48; em Königsberg,
-1549, fall. em 1552); 1550, _De Justificatione_; 1551, _De Unico
-Mediatore Jesu Christi_. Justificação é uma participação da justiça de
-Christo: _cujus natura divina homini quasi infunditur_.
-
-Em opposição; Francisco Stancarus de Mantua (1551-52 em Königsberg,
-depois em Siebenbürgen, e na Polonia; fall. em 1574); 1562, _De Trinitate
-et Mediatore_, «Christo nossa justiça sómente pelo que respeita á Sua
-natureza humana.»
-
-1551-62.—Majorista: Jorge Major (fall. em 1574, quando professor em
-Wittenberg); _bona opera necessaria esse ad salutem_. Refutado por
-Amsdorf; _bona opera perniciosa esse ad salutem_.
-
-1556-60.—Synergista: Pfeffinger, em 1555, _Propos. de libero arbitrio_
-(conforme o synergismo de Melanchthon): contra elle, Amsdorf (1558)
-_Confutalio_; e Flacio.
-
-1560.—Discussão em Weimar, entre Flacio e Strigel. Flacio: o peccado
-original não podia deixar de ser commettido pelo homem. A doutrina
-lutherana é que prevalece. Heshusius: de _servo arbitrio_.
-
-1527-40.—_Antinomiano_: João Agricola, nasc. em 1492, em Eisleben;
-fall. em 1562, sendo prégador na casa imperial, em Berlim; 1527, contra
-Melanchthon; e 1537, contra Luthero. A contriccão não vem declarada na
-lei, mas no Evangelho. Retracta-se em 1540. Desde 1556, controversia
-sobre _Tertius usus legis_.
-
-1567.—_Crypto-Calvinista_: Melanchthon admitte as doutrinas calvinistas
-da Ceia do Senhor. Christologia e Predestinação.
-
-D’estas controversias conclue-se a necessidade de haver perfeita harmonia
-na Egreja Lutherana; e proveem de ahi varias fórmas do concordia com as
-quaes se constituiu a _Formula Concordia_.
-
-(1) A concordia Swabia de Jac. Andræ (desde 1562 professor em Tübingen,
-fall. em 1590) em 1574; 1575, a concordata de Martinho Chemnitz. 1576,
-Formula de Lucas Osiander.
-
-(2) Convenção de Torgau; o _Livro de Torgau_.
-
-_Os principaes theologos lutheranos_
-
-_Martinho Chemnitz_; 1554; fall. em 1586, Superintendente em Brunswich;
-_Examen Concilii Trid._; 1565-73, _Loci Theologici_.
-
-_Matheus Flacio_: nasc. em 1520, em Albona, na Illyria; 1545, em
-Wittenberg; 1549 em Magdeburgo; 1557-61, em Jena; fall. em Frankfort
-sobre o Maine, 11 de Mar. 1575.
-
-_Catalogus Testium Veritatis_, 1556; _Ecclesi. Hist. per aliquot ...
-studiosos et pios viros in urbe Magdeburgica_ (os seculos de Magdeburgo),
-13 volum., 1560-74; _Clavis Script. Sac._, 1567; _Glossa Compendaria in
-N. T._, 1570, etc.
-
-_João Gerhard_: nasc em 1582, em Quedlinburgo; 1606, superintendente em
-Heldburgo; 1615, Superintendente Geral em Coburgo; 1616 a 1637, professor
-em Jena. _Loci Theologici_, 1610 a 1625; _Medit. Sac._, etc.
-
-_Leonardo Hutter_: 1596 a 1616, professor em Wittenberg; _Compendium Loc.
-Theol._, 1610; _Loci Commun. Theolog._, 1619.
-
-_As Confissões de Fé da Egreja Reformada são universalmente reconhecidas._
-
-_Cathechismus ecclesiæ. Genevensis_; 1541, Francez; 1545, Latino; Calvino.
-
-Consensio in re sacramentaria ministrarum Tigur.; Eccles. et Joh. Calvini.
-
-=O Catecismo de Heideiberg=: 1563, escripto sob a suggestão de Frederico
-III do Palatinado, por Zacarias Ursinus (desde 1561 professor em
-Heidelberg, fall. em 1583) e Gaspar Olevianus (professor em Heidelberg;
-fall. em 1587).
-
-_Confessio Helvetica Posterior_: 1566, enviado por Bullinger a Frederico
-III do Palatinado.
-
-_Os Decretos do Synodo de Dort_: 1619, reconhecidos nos Paizes Baixos,
-na Suissa, no Palatinado, em 1620 na França; não foram universalmente
-reconhecidos.
-
-JOÃO CALVINO: =Institutio Religionis Christianæ=, 1535-36. Tres
-edições, constituindo cada uma d’ellas uma ampliação, 1535, 1539 e
-1559; _Commentarios ao Velho e Novo Testamentos_, 1539; _De æterna Dei
-predestinatione_, 1552; _Defensio orthodoxæ fidei de S. Trinitate_, 1554,
-contra Servetus.
-
-_Henrique Bullinger_, successor de Zwinglio em Zurich, nasc. em 1504, em
-Bremgarten, fall. em 17 de set. de 1578; Commentarios ao Novo Testamento,
-1554; _Compendium relig. Christianæ; Histoire des persecutions de
-l’Eglise_.
-
-_Theodoro Beza_: nasc. em 1519; 1549, em Lausanna; 1558, professor e
-pastor em Genebra; fall. em 1605. Traducção do Novo Testamento, com
-annotações, 1565; _Histoire Eccles. des réformateurs au royaume de
-France_, 1580.
-
-_Rodolpho Hospinian_, pastor em Zurich; fall. em 1629; _De origine et
-progres. controv. sacramentariæ_, etc.
-
-_J. H. Hottinger_, professor em Heidelberg e Zurich; fall. em 1667;
-_Hist. Eccl._ N. T.
-
-_Gaspar Suicer_, professor em Saumur, fall. em 1684; _Thesaurus
-Ecclesiasticus_.
-
-_F. Dallæus_, professor em Saumur, fall. em Paris, em 1670; _Traité de
-l’emploi des S. Péres_, 1632.
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- Absolvição clerical, 233.
-
- Agostinho, 208.
-
- Alba (Duque de), 105, 121, 125, 165.
-
- Allemanha (Situação politica da), 15.
-
- Amboise (Morticinio de), 99.
-
- Amboise, Edicto, 105.
-
- America (Descoberta da), 205.
-
- Anabaptistas (Os) em Genebra, 76.
-
- Anabaptistas (Os) em Zurich, 63.
-
- Anabaptistas (Os) nos Paizes Baixos, 115.
-
- Andersen (Lourenço), 52.
-
- Annatas (Os), 13, 60, 166.
-
- Anna Boleyn, 167, 184, 189.
-
- Anselmo, 210.
-
- Anstruweel, 121.
-
- Antuerpia, 121.
-
- _Apologeticus_, de Zwinglio, 62.
-
- Apostolos (Credo dos), 72, 223.
-
- _Appellações_, _Estatuto para a repressão das_, 167.
-
- Aristoteles, 214.
-
- Armada (a) hespanhola, 196.
-
- Artigos (Os Doze) dos camponezes allemães, 25.
-
- Artigos (Os dez), 171.
-
- Artigos (Os Seis), 173, 177.
-
- Artigos, (Os Quarenta e dois), 178.
-
- Artigos, (Os Trinta e Nove), 179, 192.
-
- Artigos, (Os Onze), 192.
-
- Augsburgo (Confissão de), 38.
-
- Augsburgo (Dieta de), 36.
-
- Augsburgo (Paz de), 47.
-
- Augsburgo (Interim de), 43.
-
-
- Babington (Conspiração de), 196.
-
- Ballanden (Ricardo), 150.
-
- Barlaymont, 120.
-
- Bartholomeu (Matança de S.), 107, 140, 149, 195.
-
- Basiléa, 64, 75.
-
- Beaton (Cardeal), 140.
-
- Bernardo de Clairvaux, 210.
-
- Berne, 59, 76.
-
- Berne (A Reforma em), 64.
-
- Beza, 83, 91.
-
- Beza em Poissy, 102.
-
- Biblia, Versão de Luthero, 19.
-
- Biblia, Franceza, 93.
-
- Biblia, Hollandeza, 116.
-
- Biblia (Doutrina da), 232.
-
- Bispados (os) nos Paizes Baixos, 118.
-
- Bispos (O livro dos), 172.
-
- Bispos (Os) na Escocia, 151.
-
- Boleyn (Anna), 167, 184, 189.
-
- Bonner (Bispo), 146.
-
- Borgonha (Carlos e Maria de), 114.
-
- Bourbon (Antonio de), 100.
-
- Bourbon (Condestavel de), 31.
-
- Bourbon (O principe), 96, 100.
-
- Bourg (Anne de), 98, 145.
-
- Bourges (Sancção Pragmatica de), 89.
-
- Brantôme, 107.
-
- Brederode (O Conde), 120.
-
- Brés (Guido), 134.
-
- Briçonnet, bispo de Meaux, 88.
-
- Brill (Tomada de), 126.
-
- Bruxellas, 115.
-
- Bucer, 71, 178, 187.
-
- Bugenhagen, 51.
-
- Bulla papal contra Luthero, 12.
-
- Bulla papal em favor da inquisição, 117.
-
- Bundschuh (Liga de), 24.
-
-
- Caetano (Cardeal), 10.
-
- Calderwood, 138, 142.
-
- Calvino (Mocidade de), 69.
-
- Calvino, (_Institutos da Religião_ de), 71, 78.
-
- Calvino em Genebra, 73.
-
- Calvino (Expulsão de), 75.
-
- Calvino (Morte de), 82.
-
- Calvino (Ordenanças ecclesiasticas de), 77.
-
- Cambridge, 178, 187, 194.
-
- Capito, 64.
-
- Cappel, (Paz de), 65.
-
- Caraffa (Cardeal), 117.
-
- Carew (Sir Peter), 184.
-
- Carlos V, imperador, 14, 164, 181, 184.
-
- Carlos V tenta subjugar a Reforma, 28, 32, 37.
-
- Carlos V (A politica de) nos Paizes Baixos, 114.
-
- Carlos IX de França, 106.
-
- Carlstadt, 11, 20.
-
- Cartwright (Thomaz), 194.
-
- Casamento (O), 216.
-
- Catharina de Aragão, 162, 169, 181, 183.
-
- Catharina de Medicis, 93, 100, 107.
-
- Catholicidade dos Reformadores, 222.
-
- Cecil (Sir William), 194, 196.
-
- Celtica (Egreja), 137.
-
- Chandieu (Antonio), 97.
-
- Chateaubriand (Edicto de), 94.
-
- Christiano II da Dinamarca, 50.
-
- Clemente VII, 29.
-
- Colet (Deão), 160, 162.
-
- Coligny (Almirante), 96, 100, 101, 104, 106.
-
- Commissão (Tribunal da Alta), 193, 199.
-
- Concilio (Reclama-se um), 21, 43.
-
- Concilio (o) de Trento, 44.
-
- Concordata (A) de 1516, 89, 164.
-
- Condé (Luiz de), 100, 102, 104, 105.
-
- Condé (Henrique de), 105.
-
- Confissão de Augsburgo, 38, 50.
-
- Confissão de Zurich, 84.
-
- Confissão Franceza, 97.
-
- Confissão Hollandeza, 134.
-
- Confissão Escoceza, 143.
-
- Congregação (Lords da), 142.
-
- _Consistorial_ (_Systema_), 30.
-
- Consistorio (O), 78, 98.
-
- Constança (Concilio de), 11.
-
- Cotta (Frau), 8.
-
- Convenção (A) Nacional, 142.
-
- Coverdale, 187.
-
- Cranach (Lucas), 16.
-
- Cranmer (Arcebispo), 171, 176, 184, 186.
-
- Craw (Paulo), 138.
-
- Crespin, 107.
-
- Cromwell (Thomaz), 163, 170.
-
-
- Dante, 218.
-
- Diana de Poitiers, 93.
-
- Dickson (David), 152.
-
- Dieta (A) allemã, 15.
-
- Dieta (A) de Worms, 16.
-
- Dieta (A) de Nürnberg, 20.
-
- Dieta (A) de Spira, 28.
-
- Dieta (A) de Augsburgo, 36, 47.
-
- Disciplina da Egreja, 30.
-
- Disciplina de Calvino, 77.
-
- Disciplina da Egreja franceza, 98.
-
- Disciplina (Livro da), 147, 152.
-
- Dissidencia (A), 194.
-
- Disturbios (O Conselho dos), 123.
-
- Dizimos (Os grandes e pequenos), 23, 215.
-
- Dordrecht, 135.
-
- Dorner, 225.
-
- Douay, 196.
-
- Douglas, 144.
-
- Drake (Sir Francis), 196.
-
- Dreux (Batalha de), 104.
-
- Dubois (Pedro), 138, 158.
-
-
- Eck (João), 9, 11, 17.
-
- Edictos de Tolerancia, em França, 103, 105, 110.
-
- Edinburgo, 143.
-
- Educação (A) na Escocia, 137, 148.
-
- Eduardo III, 218.
-
- Eduardo VI, 141, 157, 175, 181.
-
- Egmont (Conde), 117, 119, 120, 121, 122.
-
- Egreja (Disciplina da), 30, 98, 133, 134.
-
- Egreja (Riqueza da), 12.
-
- Egreja (A) em relação com a vida social, 215.
-
- Ehrenberg (Castello de), 46. Eidgenossen, 68.
-
- Einsiedeln, 61.
-
- Eisenach, 8.
-
- Eisleben, 7.
-
- Eleitores (Os) allemães, 15.
-
- Erasmo, 64, 170, 177.
-
- Erskine de Dun, 142, 151.
-
- Escocia (A Reforma na), 137-154.
-
- Esch (João), 115.
-
- Escriptura (A), 227.
-
- Eucaristia (A), 33.
-
-
- Fagius (Paulo), 178.
-
- Farel em Basiléa, 64.
-
- Farel em Genebra, 68.
-
- Farel em França, 88.
-
- Fé (A), 213, 230.
-
- Fernando de Aragão, 14, 162.
-
- Fernando de Austria, 37.
-
- Field, o puritano, 194.
-
- Fisher (Bispo), 170.
-
- Florestaes (cantões), 64.
-
- França (A Reforma em ), 87-111.
-
- Francisco de Assis, 210, 211.
-
- Francisco I de França, 28, 71, 89, 91, 164.
-
- Francfort sobre o Maine, 141.
-
- Frederico da Saxonia, 8, 28.
-
- Froben, 64.
-
- Frunsberg (General), 17, 31.
-
-
- Galle (Dr.), 52.
-
- Gallicanismo (O), 218.
-
- Gardiner (Bispo), 177, 182.
-
- Gemblours, 132.
-
- Genebra, 67, 77, 94.
-
- Ghent, 131.
-
- Ghent (Pacificação de), 131.
-
- Glarus, 60.
-
- Glencairn (Conde de), 142, 143.
-
- Goch (João), 114.
-
- Granvella (Cardeal), 117, 119, 123.
-
- Gregorio VII (Papa), 208, 212.
-
- Grey (Lady Jane), 182, 183.
-
- Grindal (Arcebispo), 198, 198.
-
- Guise (A familia), 93, 98, 100, 103-106, 140, 145.
-
- Gustavo Vasa, 51.
-
-
- Hagenau, 40.
-
- Hamilton (Patricio), 140.
-
- Held (Vice Chancellor), 40.
-
- Henrique VIII de Inglaterra, 157, 161, 163, 184, 190, 218.
-
- Henrique II de França, 93.
-
- Henrique III de França, 106, 109.
-
- Henrique IV de França, 105, 110.
-
- Henriques (Guerra dos tres), 109.
-
- Hesse (Organização da Egreja de), 29.
-
- Hildebrando, 208.
-
- Hogstraten, 9.
-
- _Homilias_ (_Livro de_), 177.
-
- Hooper (Bispo), 180, 186.
-
- Horn (Almirante), 120, 122.
-
- Huss (João), 11, 138.
-
- Hymnos Medievaes, 6, 214.
-
-
- Iconoclastas (Os), 103.
-
- _Imitação de Christo_, 210, 211.
-
- Imperador (O), 14, 28, 31, 32, 37, 38.
-
- Imperio (O) medieval, 14, 209, 217, 221.
-
- Indulgencias (As) em Zurich, 61.
-
- Indulgencias (As) na Allemanha, 1-2.
-
- Ingleza, (A Reforma) seu caracter, 159.
-
- Inquisição (A), 117, 186.
-
- Interdicção (A) papal, 226, 233.
-
- Interim (O) de Augsburgo, 43.
-
- Interim (O) de Leipzic, 43.
-
- Isabel (A rainha), 125, 133, 157, 189, 192, 194-201.
-
-
- Jansen, 50.
-
- Jarnac, 105.
-
- Jesuitas (Os), 45, 195.
-
- Jewel (Bispo), 192, 200.
-
- João da Saxonia, 37, 38.
-
- Jorge da Saxonia (Duque), 17, 42, 47.
-
- _Justificação_ (_A_), 233, 234.
-
- Jüterbogk, 4.
-
-
- Kempis (Thomaz á), 114.
-
- Knox (João), 141, 143, 144, 146, 148, 152, 178, 180, 191.
-
- Kyle (Os lollardos de), 138.
-
-
- La Ferriére, 95.
-
- Lainez, 45.
-
- Lambert (Martinho), 29.
-
- Lei (A) agraria entre os romanos, 24.
-
- Lefèvre, 88.
-
- Leipzic (Controversia de), 10.
-
- Leipzic (Interim de), 43.
-
- Leith (Convenção de), 151.
-
- Leyden (Cerco de), 129.
-
- Liesfeld (Jacob), 116.
-
- Liga Allemã (catholica), 40.
-
- Liga de Schmalkald, 39.
-
- Liga de França, 109, 196.
-
- Linacre, 196.
-
- Lindsay (Lord), 145.
-
- Lindsay (Sir David), 139.
-
- Lithurgia (A) de Knox, 141.
-
- Lollardismo (O), 138, 158.
-
- Longjumeaux, 105.
-
- Loyola (Ignacio), 45.
-
- Luthero e Tetzel, 4.
-
- Luthero (Mocidade de), 7.
-
- Luthero em Leipzic, 11.
-
- Luthero em Worms, 16.
-
- Luthero traduz a Biblia, 19.
-
- Luthero contra os camponezes, 27.
-
- Luthero não sympathiza com a Liga Protestante, 32.
-
- Luthero (Quietismo de), 32.
-
- Luthero (Mais ácerca de), 212, 214, 222.
-
-
- Madrid (Confederação de), 28.
-
- Madrid (Egmont em), 119.
-
- Maitland de Lethington, 144.
-
- Marburgo (Conferencia de), 33.
-
- Marcello de Padua, 138, 158, 218.
-
- Margarida de Navarra, 89.
-
- Margarida de Parma, 117.
-
- Margarida de Saboya, 115.
-
- Maria de Guise, 140.
-
- Maria, rainha de Inglaterra, 181, 184.
-
- Maria, rainha dos escocezes, 144, 145, 182, 189, 195.
-
- Martyr (Pedro), 178, 187, 192.
-
- Massacre de Amboise, 99.
-
- Massacre de S. Bartholomeu, 107, 140, 195.
-
- Massacre de Toulouse, 103.
-
- Massacre de Vassy, 103.
-
- Mauricio da Saxonia, 42, 46.
-
- Melanchthon, 19, 37, 39.
-
- Melville (André), 152.
-
- Melville (James), 149.
-
- Mendicantes (Os), 120, 123.
-
- Mendigos (Os) do mar, 124, 128, 129, 130.
-
- _Mérindol_ (_Arrêt de_), 93.
-
- Mill (Walter), 140.
-
- Miltitz (Cardeal), 10.
-
- Missa (A Doutrina da), 33, 39.
-
- Monasticos (Votos), 212.
-
- Montauban, 107.
-
- Montgomery, bispo de Glasgow, 151.
-
- Montmorency, 93, 105, 145.
-
- Mooker Haide, 129.
-
- Moray (Conde de), 146, 150, 195.
-
- More (Sir Thomaz), 161, 162, 168, 172.
-
- Morgarten, 59.
-
- Mosteiros (Suppressão dos) em Inglaterra, 170, 176, 186.
-
- Münzer (Thomaz), 20, 24, 63.
-
- Mystico (Sentido) da Escriptura, 230.
-
- Mysticos (Os) medievaes, 8, 32, 211, 218.
-
-
- Nantes (Edicto de), 110.
-
- Niceno (O credo), 222.
-
- Nicolau de Basiléa, 212.
-
- Nobres (Revolta dos) na Allemanha, 21.
-
- Norfolk (Duque de), 195.
-
- Noyon, 69.
-
- Nürnberg (Dieta de), 20.
-
-
- Ochino (Bernardo), 178.
-
- Ockham (Guilherme de), 8, 138.
-
- Œcolampadius, 33.
-
- Olivetan (Roberto), 93.
-
- Oppressões soffridas pelos camponezes, 16, 23, 24.
-
- Oração Commum (Livro de), 177, 184, 100, 209.
-
- Orange (Guilherme de), 117, 120, 121, 124, 126, 131, 132.
-
- Orange (Mauricio de), 123.
-
- Oradores (Camaras de), 144.
-
- Ordenanças Ecclesiasticas, 77, 79, 81.
-
- Orleans, 104.
-
- Oxford, 178, 187.
-
-
- Pamphletos anti-prelaticios, 198.
-
- Paizes Baixos (Os), 113.
-
- Paramentos (Os) na Egreja de Inglaterra, 179, 192.
-
- Parker (Arcebispo), 192, 194.
-
- Parma (Margarida de), 117.
-
- Parma (Alexandre de), 132, 197.
-
- Passau (Tratado de), 47, 183.
-
- Pavia (Batalha de), 28, 91.
-
- Perdão (O) do peccado, 4, 213.
-
- Perseguições em França, 91, 94.
-
- Perseguições nos Paizes Baixos, 123.
-
- Perseguições na Escocia, 140.
-
- Perseguições em Inglaterra, 168, 186.
-
- Perth (Tumultos em), 143.
-
- Petersen (Os irmãos), 52.
-
- Philippe de Hesse, 32, 33, 37, 42, 43.
-
- Philippe II de Hespanha, 107, 115, 121, 184, 186, 189, 195.
-
- Poissy (Conferencia de), 102.
-
- Pole (Cardeal), 46, 185.
-
- Polyhistor, 64.
-
- _Proemunire_, 161, 167, 217.
-
- _Presbyterianismo_, 72, 95, 98, 134, 147.
-
- Prierias (Silvestre), 9.
-
- _Prophecias_ (_As_), 197.
-
- Propriedade (As Leis da) e a Reforma, 215.
-
- Puritanos (Os), 179, 193.
-
-
- Randolpho, 145.
-
- Ratisbonna, 22.
-
- Reforma (Os principios da), 1, 225.
-
- Reforma (Antecipações da), 213.
-
- Reforma (A) e a vida social, 215.
-
- Reforma, (A) uma revivificação de religião, 205.
-
- Reforma (A) e a necessidade do perdão, 212.
-
- Regensburgo (Conferencia de), 40.
-
- Regensburgo (Convenção de), 22.
-
- Religião (A) espiritual, 209.
-
- Renan ácerca de Calvino, 83.
-
- Renaudie, 99.
-
- _Renuncia_ (_A_), 211.
-
- Requescens, 128.
-
- Revivificação (A Reforma, uma), 205.
-
- Revivificação (A) medieval, 210.
-
- Revolta (A) dos camponezes, 23.
-
- Revolta (A) dos nobres, 21.
-
- Ridley (Bispo), 180, 184, 186.
-
- Ritualistas (Os) na Igreja Ingleza, 199.
-
- Rochelle (La), 105, 107, 108.
-
- Romana (A Lei), 24.
-
- Roper (Margarida), 170.
-
- Row (João), 139, 144, 153.
-
-
- Sacerdocio (O) dos crentes, 179, 226.
-
- Saboya (Duque de), 67.
-
- Sacramentos (Os), 34.
-
- Sacramentos (A administração dos), 207.
-
- Sacramentos (Theoria dos), 236.
-
- Samson, traficante de Indulgencias, 61.
-
- Sancerre (Capitulação de), 107.
-
- Sandilands (Sir James), 145.
-
- Schmalkald (Liga de), 32, 39.
-
- Schmalkald (Guerra de), 42.
-
- _Separação do mundo_, 208.
-
- Sickingen (Frank von), 22.
-
- Smeaton, 149.
-
- Sobrepeliz (A), 193.
-
- Social (A vida) e a Reforma, 216.
-
- Somerset (Lord Protector), 175.
-
- Spalatin, 10, 16.
-
- Spira (Edicto de), 29.
-
- Staupitz, 8, 9.
-
- Stirling, 143.
-
- Stockolmo (Massacre de), 51.
-
- Storch, 20, 24.
-
- Sturm, 100.
-
- _Submissão do Clero_, 165.
-
- Sully (Duque de), 107.
-
- _Superintendentes_ (_Os_), 147.
-
- Supremacia (A) real em Inglaterra, 166, 176, 185, 190.
-
- Suecia (Reforma na), 51.
-
- Suissa (A Reforma), 57-66.
-
- Syndicancia aos mosteiros, 170.
-
- Syndicancia ás Egrejas, 176.
-
- Synodo da Egreja Franceza, 97.
-
- Synodo da Egreja Hollandeza, 134.
-
-
- Tauler (João), 9, 32, 212.
-
- Tetzel (João), 3, 4.
-
- Theses (As) de Luthero, 3, 5, 6.
-
- Theses (As) de Zwinglio, 62.
-
- Tindal traduz a Biblia, 187.
-
- Toggenburgo, 60.
-
- Torpichen (Lord), 142.
-
- Toulouse (Massacre de), 103.
-
- _Transubstanciação_ (_A_), 34, 36.
-
- Trento (O concilio de), 45.
-
- _Tulchanos_ (_Os bispos_), 150.
-
-
- Ubiquidade (Doutrina da), 36.
-
- Udal (Nicolau), 198.
-
- Upsala, 52.
-
- _Utopia_ (_A_) de Sir T. More, 161, 169.
-
- Utrecht, 113.
-
- Utrecht (Tratado de), 132.
-
-
- Valdenses (Os), 92.
-
- Valence (Bispo de), 100.
-
- Vassy (Massacre de), 103.
-
- Vienne (Arcebispo de), 100.
-
- Voes (Henrique), 115.
-
-
- Wardlaw, 138.
-
- Wartburgo, 18.
-
- Warwick (Conde de), 177.
-
- Wedderburn (Balladas Sacras de), 139.
-
- Wessel (João), 144.
-
- Westeräs, 52.
-
- Wied (Hermann von), 41.
-
- Wilcox, 194.
-
- Wildhaus, 66.
-
- Willock, 114.
-
- Wimpina (Conrado), 9.
-
- Winram, 144.
-
- Wishart (Jorge), 140, 141.
-
- Wittenberg (Os fanaticos de), 20.
-
- Wolsey (Cardeal), 162, 168.
-
- Worms (Conferencia de), 40.
-
- Worms (Dieta de), 16, 22, 24.
-
- Wyatt (Sir T.), 184.
-
- Wycliffe, 8, 11, 138, 158.
-
- Wyttenbach (Thomaz), 60, 64.
-
-
- Xavier (Francisco), 45.
-
-
- Zurich, 59, 62, 76.
-
- Zwinglio, 33, 35, 60, 66.
-
-
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- The Project Gutenberg eBook of A Reforma, by T. M. Lindsay.
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-
-
-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of A Reforma, by Thomas M. Lindsay
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
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-
-Title: A Reforma
-
-Author: Thomas M. Lindsay
-
-Release Date: June 23, 2020 [EBook #62461]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A REFORMA ***
-
-
-
-
-Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online
-Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_i" id="Page_i">[i]</a></span></p>
-
-<h1>A REFORMA</h1>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_ii" id="Page_ii">[ii]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_iii" id="Page_iii">[iii]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage larger">A REFORMA</p>
-
-<p class="titlepage"><span class="smaller">POR</span><br />
-T. M. LINDSAY<br />
-<span class="smaller">DOUTOR EM THEOLOGIA E PROFESSOR DE HISTORIA ECLESIASTICA</span></p>
-
-<p class="titlepage"><span class="smcap">TRADUCÇÃO de J. S. CANUTO</span><br />
-<span class="smaller">(AUCTORISADA)</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/deco.jpg" width="200" height="70" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">LIVRARIA EVANGELICA<br />
-RUA DAS JANELLAS VERDES, 32<br />
-LISBOA</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_iv" id="Page_iv">[iv]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage">LISBOA<br />
-TYP. ROSA, LIMITADA<br />
-29, Rua da Magdalena, 31</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_v" id="Page_v">[v]</a></span></p>
-
-<h2 id="PREFACIO">PREFACIO</h2>
-
-<p>As primeiras tres partes d’este livrinho são simplesmente
-uma compilação das melhores e mais accessiveis historias da
-Reforma, e de modo algum são apresentadas como uma dissertação
-original sobre o vasto e complicado movimento religioso
-que descrevem. Sou da opinião do dr. Merle d’Aubigné:
-a Reforma foi uma revivificação da religião, e não pode ser descripta
-com bom exito se não tivermos sempre deante de nós, e
-bem distinctamente, este seu caracter essencial. Os reformadores
-foram homens que, sob o impulso de um grande movimento
-religioso que se levantou n’uma occasião em que eram bem particulares
-as circumstancias intellectuaes, sociaes e politicas, se
-sentiram animados pelo desejo de que lhes fosse permittido dar
-culto a Deus segundo as direcções da Escriptura e os dictames
-da razão e da consciencia. Mas este desejo, apparentemente simples,
-envolvia uma tal mudança nas condições sociaes e politicas,
-não sómente em cada provincia e em cada nação, mas em
-toda a Europa, tomada no seu conjuncto, que não se pode escrever
-a historia da revivificação religiosa sem apresentar uma
-grande parte da historia politica e social de aquella epoca.</p>
-
-<p>O dr. Leopoldo von Ranke tratou com tanta proficiencia da
-historia politica do periodo em questão, que o auctor até do
-mais humilde dos manuaes deve collocar-se quasi exclusivamente
-debaixo da sua direcção. Foi o que eu fiz, e em quasi todas
-as paginas me aproveito, com reconhecimento, das suas magistraes
-descripções do movimento politico e social.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_vi" id="Page_vi">[vi]</a></span></p>
-
-<p>Escusado seria mencionar toda a longa lista de auctores
-consultados na preparação d’este pequeno livrinho; como, porém,
-não se faz referencia alguma ás auctoridades citadas, cumpre-me
-dizer que, além de d’Aubigné e de Ranke, as pessoas
-que teem conhecimento do assumpto hão de notar um continuo
-uso das <i>Historias da Egreja</i> de Hagenbach e Henke, do <i>Periodo
-da Reforma</i> de Haüsser, dos <i>Huguenotes</i> de Baird, de dois volumes
-das <i>Epocas da Historia Moderna</i> de Longman, da <i>Era da
-Revolução Protestante</i> de Seebohm, e do <i>Seculo de Isabel</i> de Creighton.
-Refiro-me frequentemente á <i>Historia dos Credos do Christianismo</i>
-ao tratar das Confissões, e á inapreciavel collecção de
-<i>Livros de Disciplina</i>, de Richter, ao tratar da organização ecclesiastica
-das varias egrejas reformadas.</p>
-
-<p>A quarta parte, que se occupa summariamente dos principios
-fundamentaes do movimento da Reforma, deveria talvez
-ter ido em primeiro logar, servindo de introducção, mas preferi
-collocal-a no fim; em parte, porque similhante introducção poderia
-assustar os leitores jovens, e em parte porque os principios
-do movimento podem ser mais bem apreciados depois do
-leitor ter algum conhecimento da sua historia. A quarta parte é
-a unica porção d’este pequeno manual que se pode dizer com verdade
-que pertence exclusivamente ao auctor, e que apresenta
-opiniões sobre o assumpto de que só elle é responsavel.</p>
-
-<p>O summario chronologico foi extraido quasi inteiramente
-das admiraveis tabellas de Weingarten.</p>
-
-<p class="right">T. M. LINDSAY.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_vii" id="Page_vii">[vii]</a></span></p>
-
-<h2>INDICE</h2>
-
-<table summary="Indice">
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">PARTE I</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma allemã, que deu origem ás egrejas lutheranas</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_PARTE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 1-53</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO I</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma na Allemanha</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_I"><span class="smcapuc">PAG.</span> 1-48</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">O principio da Reforma, <a href="#Page_3">pag. 3</a>.—As indulgencias, e as theses que Luthero
- escreveu contra as mesmas, <a href="#Page_5">pag. 5</a>.—As theses de Luthero não atacavam
- sómente as indulgencias, <a href="#Page_6">pag. 6</a>.—A historia de Luthero, desde o principio,
- <a href="#Page_7">pag. 7</a>.—Partidarios e adversarios de Luthero, <a href="#Page_9">pag. 9</a>.—A disputa de Leipzig,
- <a href="#Page_10">pag. 10</a>.—A bulla do papa, e a queima da mesma, <a href="#Page_12">pag. 12</a>.—O Imperador
- e a Reforma, <a href="#Page_14">pag. 14</a>.—O estado politico da Allemanha, <a href="#Page_15">pag. 15</a>.—Luthero
- e a dieta de Worms, <a href="#Page_16">pag. 16</a>.—Luthero em Wartburgo, <a href="#Page_18">pag. 18</a>.—Regresso
- de Luthero a Wittenberg, <a href="#Page_19">pag. 19</a>.—A dieta de Nürnberg, <a href="#Page_20">pag. 20</a>.—A
- revolta dos nobres, <a href="#Page_21">pag. 21</a>.—A revolta dos camponezes, <a href="#Page_23">pag. 23</a>.—As
- Dietas de Spira, em 1526 e 1529, <a href="#Page_28">pag. 28</a>.—O imperador pretende subjugar
- a Reforma, <a href="#Page_32">pag. 32</a>.—A Conferencia de Marburgo, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.—Divergencia entre
- Luthero e os suissos, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.—A Dieta de Augsburgo, <a href="#Page_36">pag. 36</a>.—<i>A Confissão
- de Augsburgo</i>, <a href="#Page_38">pag. 38</a>.—A Liga Protestante de Schmalkald, <a href="#Page_39">pag. 39</a>.—A
- morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald, <a href="#Page_42">pag. 42</a>.—O imperador e o
- Concilio Geral, <a href="#Page_43">pag. 43</a>.—Loyola e os jesuitas, <a href="#Page_45">pag. 45</a>.—A paz religiosa de
- Augsburgo, <a href="#Page_47">pag. 47</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO II</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma lutherana fóra da Allemanha</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_II"><span class="smcapuc">PAG.</span> 49-53</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">O lutheranismo fóra da Allemanha, <a href="#Page_49">pag. 49</a>.—Na Dinamarca, <a href="#Page_50">pag. 50</a>.—Na Suecia,
- <a href="#Page_51">pag. 51</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">PARTE II</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma Suissa, que deu origem ás egrejas reformadas</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_PARTE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 55-154</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2"><span class="pagenum"><a name="Page_viii" id="Page_viii">[viii]</a></span>CAPITULO I</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma Suissa sob Zwinglio</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_I"><span class="smcapuc">PAG.</span> 57-66</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">As reformas suissa e allemã, <a href="#Page_57">pag. 57</a>.—A situação politica da Suissa, <a href="#Page_58">pag. 58</a>.—Ulrico
- Zwinglio, <a href="#Page_60">pag. 60</a>.—As theses de Zwinglio, <a href="#Page_62">pag. 62</a>.—A Reforma em
- Zurich, <a href="#Page_63">pag. 63</a>.—Basiléa, <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Berne, <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Os cantões florestaes,
- <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, <a href="#Page_65">pag. 65</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO II</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma em Genebra sob Calvino</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_II"><span class="smcapuc">PAG.</span> 67-85</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">Genebra antes da Reforma, <a href="#Page_67">pag. 67</a>.—Farel em Genebra, <a href="#Page_68">pag. 68</a>.—A mocidade
- de Calvino, <a href="#Page_69">pag. 69</a>.—<i>Institutos da Religião Christã</i>, <a href="#Page_71">pag. 71</a>.—Calvino
- em Genebra, <a href="#Page_73">pag. 73</a>.—A sua expulsão, <a href="#Page_75">pag. 75</a>.—Genebra não pode passar
- sem elle, <a href="#Page_76">pag. 76</a>.—<i>As Ordenanças Eclesiasticas</i>, <a href="#Page_77">pag. 77</a>.—Como differem
- dos <i>Institutos</i>, <a href="#Page_79">pag. 79</a>.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, <a href="#Page_81">pag.
- 81</a>.—A morte de Calvino, <a href="#Page_82">pag. 82</a>.—Succede-lhe Beza, <a href="#Page_83">pag. 83</a>.—A influencia
- de Calvino sobre a theologia da Reforma, <a href="#Page_83">pag. 83</a>.—<i>A Confissão de Zurich</i>,
- <a href="#Page_84">pag. 84</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO III</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma em França</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_III"><span class="smcapuc">PAG.</span> 87-111</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">Os principios da Reforma em França, <a href="#Page_87">pag. 87</a>.—Francisco I, <a href="#Page_89">pag. 89</a>.—A <i>Concordata</i>
- de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, <a href="#Page_89">pag. 89</a>.—«Uma egreja
- debaixo da cruz», <a href="#Page_90">pag. 90</a>.—O anno dos placards, <a href="#Page_92">pag. 92</a>.—O Vaudois
- de Durance, <a href="#Page_92">pag. 92</a>.—Henrique II e os Guises, <a href="#Page_93">pag. 93</a>.—Organização
- da egreja reformada, <a href="#Page_95">pag. 95</a>.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon,
- <a href="#Page_96">pag. 96</a>.—O primeiro <i>Synodo Nacional</i>, <a href="#Page_97">pag. 97</a>.—Anne de Bourg, <a href="#Page_98">pag.
- 98</a>.—A carnificina de Amboise, <a href="#Page_99">pag. 99</a>.—Coligny na Assembléa dos Notaveis,
- <a href="#Page_100">pag. 100</a>.—Catharina de Medicis, <a href="#Page_100">pag. 100</a>.—A Conferencia de Poissy,
- <a href="#Page_102">pag. 102</a>.—O massacre de Vassy, e outros, <a href="#Page_103">pag. 103</a>.—A guerra civil, os
- iconoclastas, <a href="#Page_103">pag. 103</a>.—Coligny e Carlos IX, <a href="#Page_106">pag. 106</a>.—O massacre de S.
- Bartholomeu, <a href="#Page_107">pag. 107</a>.—A Santa Liga, <a href="#Page_109">pag. 109</a>.—Henrique de Navarra,
- <a href="#Page_110">pag. 110</a>.—O edicto de Nantes, <a href="#Page_110">pag. 110</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO IV</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma nos paizes baixos</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_IV"><span class="smcapuc">PAG.</span> 113-116</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">Os Paizes Baixos, <a href="#Page_113">pag. 113</a>.—A politica de Carlos V, <a href="#Page_114">pag. 114</a>.—Os principios
- da Reforma, <a href="#Page_115">pag. 115</a>.—Filippe II e os Paizes Baixos, <a href="#Page_115">pag. 115</a>.—A
- inquisição, <a href="#Page_117">pag. 117</a>.—Os novos bispados, <a href="#Page_118">pag. 118</a>.—Tornar-se-ha hespanhol
- o paiz? <a href="#Page_119">pag. 119</a>.—Os <i>mendicantes</i>, <a href="#Page_120">pag. 120</a>.—Prégações ruraes,
- <a href="#Page_120">pag. 120</a>.—O duque de Alba nos Paizes Baixos, <a href="#Page_121">pag. 121</a>.—A prisão do
- conde Egmont e do conde Horn, <a href="#Page_122">pag. 122</a>.—A guerra civil. O principe de
- Orange, <a href="#Page_124">pag. 124</a>.—Os mendigos do mar, <a href="#Page_124">pag. 124</a>.—A tomada de Brill,
- <a href="#Page_126">pag. 126</a>.—Requescens y Zuniga, <a href="#Page_128">pag. 128</a>.—O cerco de Leyden, <a href="#Page_129">pag. 129</a>.
- Negociações entre as provincias do sul e as do norte, <a href="#Page_130">pag. 130</a>.—D. João
- de Austria, <a href="#Page_131">pag. 131</a>.—Alexandre de Parma, <a href="#Page_132">pag. 132</a>.—O tratado de
- Utrecht, <a href="#Page_132">pag. 132</a>.—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão,
- <a href="#Page_133">pag. 133</a>.—O <i>Confessio Belgica</i>, <a href="#Page_134">pag. 134</a>.—A constituição da Egreja hollandeza,
- <a href="#Page_134">pag. 134</a>.—A força da Egreja na Hollanda, <a href="#Page_136">pag. 136</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2"><span class="pagenum"><a name="Page_ix" id="Page_ix">[ix]</a></span>CAPITULO V</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma na Escocia</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_V"><span class="smcapuc">PAG.</span> 137-154</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">Preparação para a Reforma, <a href="#Page_137">pag. 137</a>.—A antiga Egreja celtica e a Educação,
- <a href="#Page_137">pag. 137</a>.—A Escocia e o lollardismo, <a href="#Page_138">pag. 138</a>.—A Escocia e Huss, <a href="#Page_138">pag.
- 138</a>.—A Egreja romana na Escocia e a situação politica, <a href="#Page_139">pag. 139</a>.—João
- Knox, <a href="#Page_141">pag. 141</a>.—A Congregação e a Primeira Convenção, <a href="#Page_142">pag. 142</a>.—A
- <i>Confissão escoceza</i>, <a href="#Page_144">pag. 144</a>.—A rainha Maria e a Reforma, <a href="#Page_145">pag. 145</a>.— O
- <i>Livro de Disciplina e a Primeira Assembléa Geral</i>, <a href="#Page_147">pag. 147</a>.—A educação,
- <a href="#Page_148">pag. 148</a>.—A morte de Knox, <a href="#Page_149">pag. 149</a>.—Os bispos tulchanos, <a href="#Page_150">pag. 150</a>.—André
- Melville, <a href="#Page_152">pag. 152</a>.—O Segundo Livro de Disciplina, <a href="#Page_152">pag. 152</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">PARTE III</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma anglicana</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#III_PARTE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 155-201</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO I</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Egreja de Inglaterra durante o reinado de Henrique VIII</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#III_CAPITULO_I"><span class="smcapuc">PAG.</span> 137-174</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, <a href="#Page_157">pag. 157</a>.—Antecipações
- da Reforma em Inglaterra, <a href="#Page_158">pag. 158</a>.—O estado ecclesiastico de Inglaterra no
- principio da Reforma, <a href="#Page_159">pag. 159</a>.—As relações de Inglaterra com o pontificado,
- <a href="#Page_160">pag. 160</a>.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, <a href="#Page_161">pag. 161</a>.—Henrique
- muda de opinião, <a href="#Page_163">pag. 163</a>.—Henrique VIII, Francisco I, Carlos V,
- e a rivalidade que havia entre elles, <a href="#Page_164">pag. 164</a>.—A submissão do clero, <a href="#Page_165">pag. 165</a>.—O
- progresso da separação de Roma, <a href="#Page_166">pag. 166</a>.—Separação de Roma e
- Reforma: duas coisas differentes, <a href="#Page_168">pag. 168</a>.—Execução de sir Thomas More,
- <a href="#Page_169">pag. 169</a>.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades da Egreja,
- <a href="#Page_170">pag. 170</a>.—<i>Os dez Artigos</i>, <a href="#Page_171">pag. 171</a>.—<i>O Estatuto Sanguinario</i>, <a href="#Page_173">pag. 173</a>.—A
- Egreja de Inglaterra em 1547, <a href="#Page_173">pag. 173</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO II</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma no tempo de Eduardo VI, e a reacção no tempo de Maria</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#III_CAPITULO_II"><span class="smcapuc">PAG.</span> 175-188</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">Será adoptada a Reforma? <a href="#Page_175">pag. 175</a>.—A visita real, o <i>Livro de Homilias</i> e o
- <i>Livro de Oração Commum</i>, <a href="#Page_176">pag. 176</a>.—A alliança com o protestantismo continental,
- <a href="#Page_178">pag. 178</a>.—Os <i>Quarenta e Dois Artigos</i>, <a href="#Page_178">pag. 178</a>.—Os principios
- do puritanismo, <a href="#Page_179">pag. 179</a>.—A morte de Eduardo VI, <a href="#Page_181">pag. 181</a>.—O estado
- da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria, <a href="#Page_182">pag. 182</a>.—A Hespanha
- necessitava do auxilio da Inglaterra, <a href="#Page_183">pag. 183</a>.—Como Maria se firmou
- no throno, <a href="#Page_183">pag. 183</a>.—A alliança hespanhola, <a href="#Page_184">pag. 184</a>.—A reconciliação
- com Roma, <a href="#Page_184">pag. 184</a>.—Porque não foi bem succedida a reacção papal?
- <a href="#Page_185">pag. 185</a>.—As perseguições durante o reinado de Maria, <a href="#Page_186">pag. 186</a>.—A
- questão dos bens de raiz da Egreja, <a href="#Page_186">pag. 186</a>.—Os fructos do ensino no
- reinado de Eduardo, <a href="#Page_187">pag. 187</a>.—A morte de Maria, <a href="#Page_187">pag. 187</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO III</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma no tempo de Isabel</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#III_CAPITULO_III"><span class="smcapuc">PAG.</span> 189-201</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub"><span class="pagenum"><a name="Page_x" id="Page_x">[x]</a></span>
- A successão de Isabel, <a href="#Page_189">pag. 189</a>.—Como se liquidou a questão religiosa, <a href="#Page_190">pag.
- 190</a>.—<i>Os trinta e nove artigos</i>, <a href="#Page_192">pag. 192</a>.—O puritanismo e as vestimentas
- ministeriaes, <a href="#Page_192">pag. 192</a>.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino,
- <a href="#Page_194">pag. 194</a>.—A lucta interna com o catholicismo romano, <a href="#Page_195">pag. 195</a>.—A
- Armada hespanhola, <a href="#Page_196">pag. 196</a>.—As prophecias, <a href="#Page_197">pag. 197</a>.—<i>Os conventiculos</i>,
- <a href="#Page_198">pag. 198</a>.—<i>Os pamphletos anti-prelaticios</i>, <a href="#Page_198">pag. 198</a>.—A Reforma ingleza,
- <a href="#Page_198">pag. 198</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">PARTE IV</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Os principios da Reforma</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#IV_PARTE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 203-236</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO I</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Reforma foi uma revivificação religiosa</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#IV_CAPITULO_I"><span class="smcapuc">PAG.</span> 205-214</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições
- sociaes, <a href="#Page_205">pag. 205</a>.—Uma revivificação da religião e uma approximação de
- Deus, <a href="#Page_206">pag. 206</a>.—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho
- para Deus, <a href="#Page_208">pag. 208</a>.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,
- <a href="#Page_209">pag. 209</a>.—A imitação de Christo, <a href="#Page_209">pag. 209</a>.—Francisco de Assis,
- <a href="#Page_210">pag. 210</a>.—Os mysticos da Edade Media, <a href="#Page_211">pag. 211</a>.—A significação do
- perdão, segundo a Reforma, <a href="#Page_212">pag. 212</a>.—Previsões de uma revivificação religiosa
- operada pela Reforma, <a href="#Page_213">pag. 213</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO II</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Como a Reforma se poz em contacto com a politica</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#IV_CAPITULO_II"><span class="smcapuc">PAG.</span> 215-219</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social
- da epoca, <a href="#Page_215">pag. 215</a>.—A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade
- politica, <a href="#Page_216">pag. 216</a>.—Revolta contra o mediavelismo, anteriormente á Reforma,
- <a href="#Page_217">pag. 217</a>.—O <i>De Monarchia de Dante</i> e o <i>Defensor Pacis</i> de Marcello de Padua,
- <a href="#Page_218">pag. 218</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO III</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A catholicidade dos reformadores</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#IV_CAPITULO_III"><span class="smcapuc">PAG.</span> 221-224</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">Os Reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, <a href="#Page_221">pag. 221</a>.—Reivindicaram
- a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio
- medieval, <a href="#Page_221">pag. 221</a>.—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e
- Calvino, <a href="#Page_222">pag. 222</a>.—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos,
- <a href="#Page_223">pag. 223</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdc" colspan="2">CAPITULO IV</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Os principios doutrinarios da Reforma</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#IV_CAPITULO_IV"><span class="smcapuc">PAG.</span> 225-236</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdsub">Os principios <i>formaes e materiaes</i> da Reforma, <a href="#Page_225">pag. 225</a>.—O sacerdocio de todos
- os crentes: o grande principio da Reforma, <a href="#Page_226">pag. 226</a>.—Explica a <i>Doutrina
- da Escriptura</i>, <a href="#Page_227">pag. 227</a>, e da <i>Justificação pela Fé</i>, <a href="#Page_228">pag. 228</a>.—A <i>Doutrina da
- Escriptura</i> da Reforma em contraste com a medieval, <a href="#Page_228">pag. 228</a>.—A Doutrina
- medieval da Escriptura, <a href="#Page_229">pag. 229</a>.—O quadruplo sentido da Escriptura, <a href="#Page_229">pag.
- 229</a>.—A definição medieval de <i>fé salvadora</i>. Interpretação infallivel, <a href="#Page_230">pag.
- 230</a>.—Os reformadores e a Biblia, <a href="#Page_231">pag. 231</a>.—A doutrina da <i>justificação pela
- fé</i> da Reforma em contraste com a medieval, <a href="#Page_232">pag. 232</a>.—A absolvição clerical
- e justificação pela fé, <a href="#Page_233">pag. 233</a>.—Justificação pela fé e justificação pelas
- obras, <a href="#Page_234">pag. 234</a>.—Conclusão, <a href="#Page_235">pag. 235</a>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Summario Chronologico</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#SUMMARIO_CHRONOLOGICO"><span class="smcapuc">PAG.</span> 237-255</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Indice de Personagens, Localidades, etc</span></td>
- <td class="tdpg"><a href="#INDICE"><span class="smcapuc">PAG.</span> 257-261</a></td>
- </tr>
-</table>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p>
-
-<h2 id="I_PARTE">I PARTE<br />
-<span class="smaller">A REFORMA NA ALLEMANHA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS</span></h2>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Capitulos</span>:</p>
-
-<table summary="Capitulos">
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#I_CAPITULO_I">I</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Reforma na Allemanha.</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#I_CAPITULO_II">II</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Reforma lutherana fóra da Allemanha.</span></td>
- </tr>
-</table>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p>
-
-<h3 id="I_CAPITULO_I">CAPITULO I<br />
-<span class="smaller">A REFORMA NA ALLEMANHA</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>O principio da Reforma, <a href="#Page_3">pag. 3</a>.—As Indulgencias, e as Theses que Luthero
-escreveu contra as mesmas, <a href="#Page_5">pag. 5</a>.—As Theses de Luthero não atacavam
-sómente as Indulgencias, <a href="#Page_6">pag. 6</a>.—A historia de Luthero, desde o principio,
-<a href="#Page_7">pag. 7</a>.—Partidarios e adversarios de Luthero, <a href="#Page_9">pag. 9</a>.—A disputa de Leipzig,
-<a href="#Page_10">pag. 10</a>.—A bulla do papa, e a queima da mesma, <a href="#Page_12">pag. 12</a>.—O imperador
-e a Reforma, <a href="#Page_14">pag. 14</a>.—O estado politico da Allemanha, <a href="#Page_15">pag. 15</a>.—Luthero
-e a dieta de Worms, <a href="#Page_16">pag. 16</a>.—Luthero em Wartburgo, <a href="#Page_18">pag. 18</a>.—Regresso
-de Luthero a Wittenberg, <a href="#Page_19">pag. 19</a>.—A dieta de Nürnberg, <a href="#Page_20">pag. 20</a>.—A
-revolta dos nobres, <a href="#Page_21">pag. 21</a>.—A revolta dos camponezes, <a href="#Page_23">pag. 23</a>.—As
-Dietas de Spira, em 1526 e 1529, <a href="#Page_28">pag. 28</a>.—O imperador pretende subjugar
-a Reforma, <a href="#Page_32">pag. 32</a>.—A Conferencia de Marburgo, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.—Divergencia entre
-Luthero e os suissos, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.—A Dieta de Augsburgo, <a href="#Page_36">pag. 36</a>.—<i>A Confissão
-de Augsburgo</i>, <a href="#Page_38">pag. 38</a>.—A Liga Protestante de Schmalkald, <a href="#Page_39">pag. 39</a>.—A
-morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald, <a href="#Page_42">pag. 42</a>.—O imperador e o
-Concilio Geral, <a href="#Page_43">pag. 43</a>.—Loyola e os jesuitas, <a href="#Page_45">pag. 45</a>.—A paz religiosa de
-Augsburgo, <a href="#Page_47">pag. 47</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>O principio da Reforma.</b>—A reforma principiou, se é que
-similhante movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca
-remotissima, teve realmente um principio, quando Martinho
-Luthero pregou as noventa e nove theses contra as indulgencias
-na porta da egreja da pequena cidade de Wittenberg, na
-Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido enviado á
-Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para
-o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra
-com os turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar
-fundos para serem dispendidos pelo papa em quadros e outras
-obras de arte para a sumptuosa egreja de S. Pedro, em Roma.
-O dinheiro obtinha-se em troca de uma especie de recibos, em
-que se declarava que o comprador havia recebido perdão da perpetração
-dos peccados que mencionara e pago a respectiva importancia.</p>
-
-<p>O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo
-de Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou
-durante o outomno de 1517 o centro da Allemanha, e
-chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia. A sua presença não<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span>
-tinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem pelos clerigos
-mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo
-mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo
-facto de extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o
-todo para o papa; estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles
-não lhe deram licença para entrar nos seus territorios senão
-depois d’elle prometter que lhes dava uma parte do que adquirisse.</p>
-
-<p>A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava
-d’elle pelo facto de, por onde quer que elle passasse, o povo se
-tornar peior; vendia por sete ducados o direito de assassinar
-um inimigo; aquelles que desejavam roubar uma egreja eram
-perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio de pae,
-mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens
-e mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como
-é natural, tirar algum lucro de aquillo que lhes custara o seu
-dinheiro, e por isso o crime abundava onde quer que o vendedor
-do perdão apparecesse.</p>
-
-<p>As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas,
-pelo facto do tumulto e dos escandalos a que a sua presença
-dava origem. Enviava adeante de si homens extravagantemente
-vestidos, que fixavam annuncios pelas paredes, e que apregoavam
-pelas ruas e pelas estradas a sua proxima chegada, encarecendo
-a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia á
-venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna
-aquelles que o comprarem mais limpos do que o baptismo,
-mais puros do que Adão no seu estado de innocencia no paraiso»;
-«Assim que o dinheiro tilintar no fundo do cofre, o comprador
-fica perdoado, e livre de todos os peccados». Em seguida
-a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu ajudante,
-n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da
-praça do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro
-de cujas grades pendiam os celebres papelinhos, e do outro um
-cofre em que o dinheiro era lançado, offerecia ao publico a sua
-mercadoria, á maneira dos vendedores de elixires que costumam
-apparecer pelas feiras.</p>
-
-<p>Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e
-a sua alma justa sentia-se indignada com o facto dos bispos,
-apezar de todas as suas cartas e protestos, permittirem que elle
-andasse de diocese em diocese. Não obstante haver prégado
-contra Tetzel e contra as indulgencias, o traficante do perdão
-ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a Jüterbogk, perto
-de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso como
-prégador e como professor da universidade, não poude conter-se
-por mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias,
-e pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas
-suas proposições, que, se havia na Egreja logar para Tetzel
-e para os seus bilhetes de perdão, não o haveria para elle, Luthero,<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span>
-nem para as idéas que elle tinha relativamente ao peccado
-e ao modo como Deus concede o perdão. Roma e as indulgencias
-estavam produzindo uma forte indignação em toda a
-Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram
-as theses que o ateiaram, dando principio á Reforma.</p>
-
-<p class="tb"><b>As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.</b>—As
-indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma
-coisa nova na Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse,
-formavam um elemento tão preponderante da vida exterior da
-Egreja n’aquella epoca que seria dificil censural-as sem ir de
-encontro a muitas outras coisas. A Egreja da Edade Media preoccupava-se
-muito com a representação visivel dos factos e forças
-espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta importancia
-a essa manifestação externa que se chegava a perder de
-vista o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e
-excellentes verdades evangelicas se acharam envolvidas por
-uma espessa camada de formulas estereis que não permittiam
-que se desenvolvesse a vida espiritual.</p>
-
-<p>É uma verdade evangelica que quando um homem se sente
-triste por causa dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza
-d’este ou d’aquelle modo; o verdadeiro arrependimento torna-se
-sempre manifesto. A Egreja da Edade Media pegou n’este axioma
-e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento deve manifestar-se
-sempre em certos e determinados modos prescriptos pela
-Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento,
-taes como, o dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos
-dias, ou o praticar outras penitencias mais ou menos dolorosas,
-vieram a ser consideradas como o verdadeiro arrependimento
-e a serem chamados por esse nome.</p>
-
-<p>No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta,
-ficou estabelecido que o pagamento de umas determinadas
-sommas de dinheiro dispensasse os signaes exteriores do
-arrependimento, comtanto que o peccador penitente se sentisse
-compungido no seu coração por haver peccado. Quando a Egreja
-attingiu um estado ainda peior, decidiu-se, como coisa assente,
-que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o perdão de
-Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que
-se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico
-das indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam
-esta doutrina muito lucrativa, e, como foi abertamente proclamado,
-diligenciaram extrair todo o dinheiro que lhes fosse possivel
-«dos peccados dos allemães». A indulgencia contra a qual
-Luthero protestou era a quinta das que nos ultimos dezesete
-annos tinham sido publicadas.</p>
-
-<p>As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso
-encadeado contra a doutrina e pratica das indulgencias.
-E torna evidentes estas tres coisas: (1) É, de algum modo,<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span>
-digna de approvação a indulgencia quando significa simplesmente
-um dos muitos meios de proclamar o perdão do peccado,
-<i>concedido por Deus</i>; mas uma tal proclamação deve ser sempre
-gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem
-á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao
-verdadeiro arrependimento, e a auctorisação para deixar de os
-pôr em pratica não pode, de maneira alguma, garantir que Deus
-tenha realmente perdoado. (3) Qualquer cristão que se sinta
-verdadeiramente arrependido recebe um pleno perdão, e é participante
-de todas as riquezas de Christo, por um dom directo
-de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra
-intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar
-melhor as suas theses, declara que o arrependimento consiste
-na contricção, na confissão e na absolvição, e que a mais importante
-das tres coisas é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr
-verdadeira, sincera, seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão
-e a absolvição. Assim, para Luthero, a coisa essencial é o facto
-intimo, espiritual, da dôr produzida pelo sentimento do peccado;
-a manifestação do pezar é uma coisa boa, mas para o que
-Deus olha é para o estado espiritual, e não para a exteriorisação
-d’esse estado.</p>
-
-<p class="tb"><b>As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.</b>—Luthero,
-nas suas theses e no seu sermão, declarou que os factos
-intimos, espirituaes, experimentados pelo homem, eram de
-um infinito valor, comparados com a expressão d’esses factos
-mediante formulas esteriotypadas que a Egreja reconhecia; e
-tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne
-assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter
-directamente com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo
-isto, fez muito mais do que atacar as indulgencias; protestou
-contra as mais enraizadas noções da Egreja medieval.</p>
-
-<p>A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos
-desde o dia de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição
-homens e mulheres, cheios de confiança em Christo, se
-teem dirigido humildemente a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes
-concedido esse perdão que solicitavam, e a sua simples experiencia
-christã foi cantada nos grandiosos e velhos hymnos
-da egreja medieval; encontrou expressão nas orações da Egreja;
-constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja, e agitou as
-multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como quer
-que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos
-não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia
-era opposta ao maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja
-accumulava de tal fórma as coisas exteriores, que a vida espiritual
-ficou sepultada debaixo d’ellas, e na linguagem corrente
-da epoca havia-se mudado a verdadeira significação dos termos
-«espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem era «espiritual»<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span>
-quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o dinheiro
-tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio,
-com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual»,
-ou «santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade.</p>
-
-<p>E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos,
-com a sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes,
-e tão cega tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o
-homem, proclamando que ninguem se podia chegar a Deus senão
-por meio d’ella, e que Deus não poderia jámais fallar ao coração
-do homem senão egualmente por seu intermedio. A confissão dos
-peccados tinha de ser feita ao padre, e o perdão era concedido
-mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra tudo isto
-n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não sabia.
-A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade
-de se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos
-peccados comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus
-eram coisas que desappareciam mediante o desembolso de uma
-certa quantia. Ao dar saida á sua indignação, referia-se apenas
-ao sacrilegio que via deante de si; e, comtudo, atacou, não simplesmente
-a peior parte de um systema mau, mas o systema
-todo. A Reforma tinha começado.</p>
-
-<p class="tb"><b>A historia de Luthero, desde o principio.</b>—O homem que se
-oppoz a Tetzel tinha, apoz um longo e encarniçado combate,
-chegado ao conhecimento do que o perdão dos peccados significa
-realmente. Recorrera a todos os meios que a Egreja poz ao dispôr
-dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles lhe proporcionara
-conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e achou a
-paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão
-de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado
-com as armas pontificias, e lavrou o seu protesto em
-nome de todos aquelles que, em todos os seculos da egreja, sentindo-se
-vergados ao peso do peccado, tinham encontrado em
-Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle torna isto
-bem evidente, como vamos ver.</p>
-
-<p>Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483.
-«Sou camponez, e filho de camponez», costumava elle dizer.
-O pae era mineiro, e a mãe uma camponeza com fama de
-muita austeridade. Teve uma infancia muito pouco risonha, e,
-apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus caracteristicos,
-notava-se-lhe de quando em quando um certo ar
-triste que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros
-annos da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um
-homem. Como todos os homens de trabalho, tinha em desprezo
-os indolentes frades, e toda a sua idéa era que o filho fosse advogado;
-queria que elle se formasse em direito, conhecesse todas
-as engrenagens da lei, d’esse terrivel tyranno do camponez allemão,
-que o tratava como a um servo, quasi como a um proscripto.<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span>
-Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld, de Magdeburgo,
-de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle tempo,
-bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que
-não experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas
-vezes, forçoso cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu
-o primeiro lampejo da caridade humana, quando Frau Cotta,
-attraida pela triste solidão em que elle vivia e pela sua melodiosa
-voz, o introduziu em sua casa e lhe fez todo o bem que poude.
-De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade, onde não
-tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além
-da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio.
-Leu as grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima
-de tudo, leu e tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos
-do bravo franciscano inglez Guilherme de Occam, que resistiu
-denodadamente aos papas no seculo quatorze, e que ensinou
-Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero chamava-lhe
-com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503
-recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se
-notado pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia.
-Estava, pois, no caminho da posição em que o pae desejava
-vêl-o: a de um grande jurisconsulto.</p>
-
-<p>Durante todo esse tempo, comtudo, a sua consciencia não
-tinha estado ociosa; os seus peccados atormentavam-n’o; a ira
-de Deus tinha caido pesadamente sobre elle. O amor de Deus
-era uma coisa que para elle não existia. O pae terrestre tinha-o
-tratado sempre com severidade, com dureza, e no Pae celestial
-via apenas um senhor que exigia d’elle esta e aquella coisa. No
-dia 17 de Julho de 1505, tendo elle 21 annos, os seus sentimentos
-religiosos poderam mais do que elle; entrou para o convento dos
-agostinhos de Erfurt, fugindo á sociedade de parentes e amigos,
-e desprezando todas as honrarias humanas. O seu Platão e o seu
-Virgilio, de que se fez acompanhar, ficaram sendo as unicas recordações
-da sua vida passada.</p>
-
-<p>No convento poz-se a trabalhar para achar o caminho da
-salvação. Leu obras theologicas, jejuou, orou, submetteu-se a
-toda a sorte de privações, mas nunca logrou encontrar a paz.
-Não tardou em adquirir uma Biblia <i>completa</i>, coisa para elle inteiramente
-nova, e poz-se a estudal-a com todo o afan; o terror
-do peccado estava, porém, sobre elle, e não lhe deixava ver o
-Evangelho. Foi ter com o vigario geral da ordem, Staupitz, que
-era um homem muito fervoroso, e este encaminhou-o para Agostinho
-e para os mysticos allemães, em que encontrou um grande
-auxilio. Aquelle mostrou-lhe o que era o peccado, e o que era a
-graça soberana; e estes convenceram-n’o de que a verdadeira
-religião era a religião do coração. No emtanto continuava a faltar-lhe
-a paz.</p>
-
-<p>No meio d’este conflicto, foi-lhe confiado um encargo especial.
-Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, e o mais eminente<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span>
-dos principes allemães, fundou uma nova universidade
-em Wittenberg, e pediu a Staupitz que indicasse os respectivos
-lentes. Luthero foi então nomeado professor de philosophia, e
-começou logo a fazer prelecções. Em 1512 doutorou-se em theologia
-biblica, versando as suas conferencias sobre os Psalmos e
-as Epistolas de S. Paulo aos Romanos e aos Galatas. Como estudo,
-leu os Mysticos, os <i>Sermões</i> de Teulez, e aquelle pequeno
-mas importante livro, <i>A Theologia Allemã</i>. Chegou, porém, a crise
-da sua vida. Em 1511 foi enviado a Roma para tratar de negocios.
-Á ida era um theologo medieval; á volta era um protestante;
-á ida cria na justificação pelas obras, á volta cria na justificação
-pela fé.</p>
-
-<p>Roma era, havia muitos seculos, um amontoado de corrupção
-moral, e Luthero descobriu isso immediatamente. Entrou
-n’aquella cidade como um judeu entraria em Jerusalem. Elle
-proprio nos conta que ao avistal-a caiu de joelhos e exclamou:
-«Eu te saudo, cidade santa, tres vezes santificada pelo sangue
-dos martyres que se tem derramado em ti». Viu que os monges
-e padres eram homens maus, que faziam zombaria dos serviços
-religiosos em que tomavam parte. Viu que havia no povo muita
-deslealdade e cubiça, e que até o papa pouco melhor era do que
-um pagão. Luthero havia-se dirigido a Roma com a idéa de achar
-na cidade santa, como elle lhe chamava lá na Allemanha, algum
-meio seguro de promover a sua salvação, e, caso estranho, foi o
-proprio Christo que elle achou. Foi em Roma, no meio da corrupção
-e da blasphemia, que de subito se compenetrou de que não
-havia outro meio de salvação senão procurar Christo e entregar
-tudo ao cuidado d’Elle; de que o perdão é gratuitamente concedido
-por Deus e dá principio á vida christã, em vez de ser
-penosamente ganho no fim della.</p>
-
-<p>Ao regressar a Wittenberg, era outro homem. Era já afamado
-como prégador; mas depois da sua visita a Roma prégava
-como nenhum outro poderia prégar. Tornou-se a primeira figura
-da universidade, e tinha como amigos Staupitz, o seu geral, e
-Frederico, o seu principe. Foi então que appareceram as famosas
-indulgencias.</p>
-
-<p class="tb"><b>Partidarios e adversarios de Luthero.</b>—Ao principio parecia
-que toda a Allemanha estava ao lado de Luthero. O trafico das
-indulgencias tinha sido tão escandaloso que as pessoas de bons
-sentimentos e todos os patriotas allemães se sentiam indignados.
-O golpe, porém, que Luthero vibrara ás indulgencias havia
-attingido outros pontos, e não tardaram a levantar-se antagonistas.
-Conrado Wimpina em Frankfort, Hogstraten em Colonia,
-Silvestre Prierias em Roma, e, acima de todos, João Eck, um
-seu antigo condiscipulo, em Ingolstadt, todos elles atacaram as
-theses, e descobriram heresias nas mesmas.</p>
-
-<p>Resultou de ahi que Luthero foi citado a comparecer, em<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span>
-Roma, na presença do papa; mas o eleitor da Saxonia conseguiu
-uma modificação, recebendo, por fim, Luthero ordem para partir
-para Augsburgo, a fim de ser interrogado pelo cardeal Caetano,
-legado do papa na dieta allemã. O papa queria evitar uma
-desintelligencia com o eleitor da Saxonia, e recommendou a Caetano
-que se mostrasse conciliativo. Luthero foi, mas a entrevista
-não teve bom exito. O cardeal começou por reprehender Luthero,
-mas acabou por se sentir dominado por um certo mêdo d’elle.
-«Não posso discutir mais com este animal», disse elle; «tem um
-olhar maligno, e povoam-lhe o cerebro uns pensamentos estupendos».
-Luthero, por seu lado, dizia abertamente que o legado
-era tão competente para julgar de assumptos espirituaes como
-um burro para tocar harpa.</p>
-
-<p>Ao deixar Augsburgo, levava sobre si a condemnação, mas
-havia appellado para o proprio papa, rogando-lhe que se informasse
-melhor do seu caso. O papa não queria indispôr-se com a
-Allemanha, porque a parte mais importante da nação parecia
-estar a favor de Luthero, e enviou o cardeal Miltitz a promover
-a paz. Este não chamou o moço frade á sua presença, mas teve
-com elle uma conversação amigavel em casa de Spalatin, o capellão
-do eleitor. Antes d’esta entrevista Luthero havia appellado
-para um concilio geral. O cardeal Miltitz declarou estar em
-desaccordo com Tetzel, reprovou as indulgencias, e concordou
-com muitas das asserções de Luthero; mas lembrou-lhe que
-não tinha sido bastante respeitoso para com o papa, e que estava
-enfraquecendo o poder e a auctoridade da egreja. O seu
-argumento era, em summa, o seguinte: «O senhor pode ter razão;
-mas para que ha de ser rude? Escreva ao papa, e peça-lhe
-desculpa». Luthero prometteu fazel-o, e entre elle e Miltitz ficou
-estabelecido um convenio, que, como elle depois referiu ao eleitor,
-continha duas clausulas:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre
-as materias em controversia.</p>
-
-<p>2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios,
-e o papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão
-de theologos illustrados.</p>
-
-</div>
-
-<p>No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente
-que a auctoridade da egreja era superior a tudo,
-e que a coisa alguma, quer na terra quer no céu, se devia dar a
-prioridade, com excepção de Jesus Christo, que tudo governa.
-Isto foi em Março de 1519.</p>
-
-<p class="tb"><b>A disputa de Leipzig.</b>—Luthero tinha promettido conservar-se
-quieto se os seus adversarios se conservassem quietos—era
-este o seu ajuste com o cardeal Miltitz; os seus inimigos,
-porém, não se conservaram quietos, e Luthero considerou-se livre<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span>
-para os atacar. O indiscreto amigo da egreja era João Eck.
-Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero, para uma discussão publica,
-e no entretanto publicou treze theses que atacavam as noventa
-e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente, e a
-polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra
-entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia
-attingiu um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica,
-mas, sim, a opposição de duas series de principios em
-conflicto, affectando todo o circulo da vida ecclesiastica. Aqui,
-pela primeira vez, a christandade allemã desprendeu-se da christandade
-romana, insistindo no sacerdocio de todos os crentes e
-no direito de cada christão julgar em todas as coisas segundo a
-sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu
-Santo Espirito.</p>
-
-<p>Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias,
-mas o debate em breve mudou para a auctoridade da
-Egreja romana e do papa. Eck mantinha a suprema auctoridade
-do bispo de Roma, como successor de S. Pedro e Vigario geral
-de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja romana sobre
-as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho
-da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos
-mais santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou
-uma grande contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou
-Eck. «A egreja grega tem existido sem papa, e vós sois o primeiro
-a negar-lhe o nome de Egreja» respondeu Luthero. «Athanasio,
-Basilio e os dois Gregorios estavam fóra da egreja? O
-papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do papa».
-«Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram
-condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de
-Huss eram erroneas» disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões
-dos concilios, eu recuso discutir comvosco», disse Eck, e
-por aqui se ficou. Immediatamente depois, porém, Luthero completou
-e publicou a sua argumentação. Declara, pela primeira
-vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa, mas
-o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o
-papa se mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos
-servos de Deus», elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a
-egreja é a communhão dos fieis—é constituida pelos verdadeiros
-crentes, pelos eleitos. Á egreja nunca falta o Espirito Santo,
-e aos papas e concilios falta muitas vezes. Esta egreja, que tem
-sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto, um leigo que
-possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de credito
-do que um papa ou um concilio que o não faça.</p>
-
-<p>Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados.
-De um lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião
-que Luthero devia ser violentamente posto fóra de combate,
-e insistiram n’uma bulla papal que o condemnasse; e do outro,
-Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha chegado com a<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span>
-sua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia agostiniana,
-com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade
-moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus,
-feria, em todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade
-media: mostrava que era impossivel a qualquer homem o ter
-uma vida perfeitamente pura e santa, e, por consequencia, não
-podia haver santos, e o culto dado aos santos era um absurdo;
-tornava inuteis as reliquias e as peregrinações, assim como a
-vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações. Todas
-estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira
-vida religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver
-mediador entre Deus e os homens, com excepção de Jesus
-Christo, a mediação do papa para nada servia.</p>
-
-<p>A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia
-separado de Roma, e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso,
-chegando o seu enthusiasmo a um ponto extremo. O povo das
-cidades manifestou a sua sympathia pelo arrojado frade. Ulrico
-von Hutten e os outros homens de letras viram n’elle, desde então,
-o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros cavalleiros
-livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os pobres
-e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que
-elle os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam.
-Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo
-allemão. Isto teve logar em 1519.</p>
-
-<p class="tb"><b>A bulla do papa e a queima da mesma.</b>—Eck e os demais
-adversarios de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia
-pôr em pratica para reduzir ao silencio o audacioso monge, e
-instaram com o papa para que publicasse uma bulla condemnando
-as suas opiniões. Luthero, por seu lado, não estava ocioso.
-Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua habitual
-actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao
-povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre,
-e, comtudo, mandava todos os annos uma consideravel quantia
-de dinheiro para Roma.</p>
-
-<p>N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico,
-tendo Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em
-bispados, e o clero era muito rico. Possuia extensos dominios,
-que arrendava; tinha tambem direito aos dizimos (a decima
-parte) de todas as outras propriedades; além d’isso, fazia dinheiro
-com os baptismos, com os casamentos, com as absolvições,
-com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros,
-e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se
-tambem tornado muito opulentas, sendo a sua maior riqueza
-constituida por terras que lhes haviam sido doadas ou legadas
-em testamento por pessoas devotas. Em quasi todos os paizes
-da Europa se haviam promulgado leis com o fim de impedir ou
-limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão inefficazes<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span>
-que ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras de
-quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam
-continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os
-annos para Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram
-recolhidas pelo papa, que demorava sempre a nomeação de outro
-bispo. O papa diligenciava frequentemente que os bispos ou abbades
-fossem italianos, pois que estes ficavam residindo em Roma,
-e o dinheiro era-lhes remettido para lá. Quando um novo bispo
-era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento do primeiro
-anno (<i>os annatas</i>). Todo este dinheiro que era exportado para
-Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero
-ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias.
-Luthero, no seu opusculo <i>Á nobreza da nação allemã</i> tornava tudo
-isto saliente, e perguntava por quanto tempo se estaria disposto
-a tolerar similhante coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista
-dos dois estados distinctos, um espiritual, incluindo o
-papa, os bispos, os padres, os frades e as freiras, e o outro temporal,
-constituido por todas as outras individualidades, era um
-muro levantado pelos romanistas para defenderem as oppressões
-da egreja. Dizia-lhes, outrosim, que <i>todos</i> os christãos são espirituaes,
-e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E
-perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que
-do seu depauperado paiz fossem enviados annualmente para
-Roma 300.000 florins.</p>
-
-<p>Escreveu tambem outro tratado, <i>O captiveiro babylonico da
-egreja de Christo</i>, para mostrar que elle não desejava destruir
-mas purificar a verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito.
-Luthero opinava que o papa e os romanistas tinham conduzido
-a egreja a um captiveiro, muito comparavel ao dos judeus
-em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O Senhor disse por occasião
-da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus discipulos, «Bebei
-d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes d’elle se
-não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros christãos
-tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E
-concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo
-preparadas bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida
-uma retractação, sob pena de ser proclamado hereje. Se é verdade,
-desejo que este livrinho fique constituindo uma parte da
-minha futura retractação».</p>
-
-<p>Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos
-da Allemanha, e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu,
-por fim, em 15 de Julho de 1520. Accusava Luthero de sustentar
-as opiniões de Huss, e condemnava-o. Eck levou-a para Leipzig
-em Outubro. Foi affixada em varias cidades allemãs, e em geral
-os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou, por fim, ás
-mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto,
-em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim
-annunciou em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro,<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span>
-á frente de um cortejo de professores e estudantes, Luthero
-saiu da universidade e dirigiu-se para o mercado. Um dos
-lentes accendeu a fogueira, e Luthero lançou a bulla ás chammas.
-Estava consummada a affronta. Foi tambem queimado um
-exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali em
-deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma.
-A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um
-enorme regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só
-o imperador é que tinha poder agora para reprimir Luthero.</p>
-
-<p class="tb"><b>O imperador e a Reforma.</b>—O imperador era, por esse tempo,
-Carlos V. Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado
-na Allemanha, nem era tão poderoso como o seu titulo indicava.
-N’aquelles dias ainda predominavam as idéas medievaes de governo,
-e Carlos V tinha resolvido restabelecer o velho poder imperial
-com todos os seus attributos.</p>
-
-<p>No principio da edade media os homens colhiam as suas
-idéas de governo do velho imperio romano—não do imperio pagão
-de Augusto Cesar e dos seus successores, mas do imperio
-christão de Constantino e de aquelles que vieram apoz elle. Posto
-que aquelle velho imperio tivesse sido destruido pelas invasões
-das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das conquistas
-ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram
-o governo e as leis da nação que haviam derrubado.</p>
-
-<p>Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem
-social eram coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse
-concentrado n’um foco e identificado n’uma só pessoa—o
-monarca universal; e quando todo o governo ecclesiastico e
-communhão religiosa não obedecessem, da mesma fórma, ao arbitrio
-de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca
-universal era o imperador, que dominava <i>circa civilia</i> como vigario,
-ou representante, de Deus; e o sacerdote universal era o
-papa, que dominava <i>circa sacra</i>, como vigario, ou representante,
-de Deus. Um dominava nos corpos, o outro dominava nas almas,
-dos homens; e o dominio de ambos era universal. Um tinha o
-poderio da espada, e o outro tinha o poderio das chaves. Este
-sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade, até então;
-mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma,
-estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador
-e o papa.</p>
-
-<p>No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão,
-concebeu o plano de, mediante um elaborado systema de
-enlaces matrimoniaes, restituir ao imperio a sua primitiva grandeza.
-Tinha tres filhas. A mais velha casou com o rei de Portugal,
-o que daria logar a que este paiz e Hespanha ficassem constituindo
-um só reino. A segunda casou com Filippe de Austria,
-chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor da Borgonha
-e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIII<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span>
-de Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira
-do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e
-de Borgonha. Do terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos
-casou com sua prima Isabel, e ficou, portanto, reinando em Hespanha,
-Austria, Borgonha e Paizes Baixos. E mais tarde foi tambem
-imperador e rei de Italia.</p>
-
-<p>Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha
-havido outro durante muitos seculos; e a sua ambição era
-ver-se investido da mesma auctoridade que tinham tido Carlos
-Magno e Otto I. Tinha os olhos constantemente fitos no passado;
-e lá no seu intimo arquitectava a maneira de restabelecer na
-Europa aquella unidade politica que desapparecera quando começaram
-a organizar-se as nações modernas. Esta velha unidade,
-porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem uma
-egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para
-com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era
-por elle considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador,
-o seu imperio não estava muito firme. Era poderoso, não
-por ser imperador, mas por ter sob o seu dominio a Hespanha,
-a Borgonha, e a Austria; as luctas intestinas de que a Allemanha
-era theatro, e as muitas questões que surgiam, a que era necessario
-dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe algum tanto
-o poder.</p>
-
-<p class="tb"><b>O estado politico da Allemanha.</b>—A Allemanha, no tempo da
-Reforma, não tinha uma unidade politica. Estava nominalmente
-unida sob o imperio, e era governada pela Dieta; mas o poder,
-tanto do imperador como da Dieta, era, praticamente, fraquissimo.
-O imperio era electivo, e desde o anno de 1356 a eleição
-havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres na região
-do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da
-Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na
-do Rheno eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de
-Mayença, Trier e Köln. As successivas concessões que os principes
-obtinham á custa das eleições iam diminuindo o poder imperial.</p>
-
-<p>Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande
-conselho do imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios:
-I Seis principes eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres
-clerigos (não entrava o rei da Bohemia); II Os principes, ou
-gran-barões, seculares e ecclesiasticos; III Os representantes
-das cidades livres, que eram as que gozavam de privilegios
-concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi tantos
-principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha
-na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado
-como instrumento para abafar qualquer reforma religiosa.
-A Dieta, comtudo, tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava
-tão dividida que cada um dos principes independentes podia fazer<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span>
-o que muito bem quizesse. As cidades, formando ligas entre
-si, podiam offerecer uma certa resistencia á tyrannia dos principes;
-mas os aldeãos, incapazes de similhante combinação, eram
-acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes e pelos
-barões.</p>
-
-<p>A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco
-de invejar. Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando
-as suas terras, mas os senhores feudaes foram, pouco a
-pouco, cerceando-lhes direitos, chegando ao ponto de lhes prohibirem
-a entrada nos baldios, de não lhes permitir que se abastecessem
-de lenha, que pescassem nos rios, etc. Não tinham a
-quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A sua
-unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente
-de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem
-com o feudalismo, de se tornarem proprietarios.</p>
-
-<p>O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha,
-deparou com muitas questões graves que estavam á espera
-de solução; o povo estava ancioso por um governo central, as cidades
-queriam que se pozesse termo ás constantes contendas
-que havia entre os barões, os poderes, civil e ecclesiastico, accusavam-se
-mutuamente, e, por ultimo, a questão de Luthero
-continuava agitando os espiritos.</p>
-
-<p class="tb"><b>Luthero e a dieta de Worms.</b>—A Dieta foi aberta por Carlos V
-em Janeiro de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar
-com os principes reunidos em assembléa para que pozessem
-termo ás heresias de Luthero, não sendo, na sua opinião, necessario
-que este fosse ouvido. Os principes, porém, que tambem
-tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que
-era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem
-o ouvir e sem elle estar presente. Por fim o imperador intimou
-Luthero a apresentar-se, e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um
-arauto foi, pois, procural-o da parte do seu imperial amo, e em
-abril Luthero partiu para Worms. Ia resolvido a não se retractar,
-posto que o animasse a convicção de não voltar com vida.
-A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção de
-fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de
-Christo me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando
-mesmo deante da morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar,
-se os meus inimigos me assassinarem, continúa tu, de todo o
-coração te imploro, a ensinar e a dar testemunho da verdade».
-Antes de deixar Wittenberg, havia preparado, de collaboração
-com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se compunha
-de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes
-entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a
-respectiva explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma
-pagina apparecia Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra
-o papa estendendo o pé para que lh’o beijassem; a Christo levando<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span>
-a cruz contrapunha-se o papa levado em procissão pelas
-ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo expulsando
-os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo
-junto de si um monte de dinheiro.</p>
-
-<p>Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando
-lhe chegou aos ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia
-lhe preparava uma emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria
-de me pôr a caminho, ainda mesmo que houvesse uma chuva
-de duques da Saxonia». E quando lhe disseram que o diabo se
-havia de apoderar d’elle por qualquer fórma, replicou: «Não deixaria
-de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá houvesse
-tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve
-o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes
-multidões, ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou,
-por fim a Worms, e logo no dia immediato foi apresentado
-á Dieta. O imperador tinha a seu lado o arquiduque de Austria,
-seu irmão, e a assembléa compunha-se de seis eleitores, vinte e
-oito duques, trinta prelados, e um grande numero de outras personagens
-de menor cathegoria, ao todo uns duzentos principes.
-Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de confessar
-a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada
-na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se
-os havia escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum
-tempo para reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte
-e quatro horas, foi reconduzido á casa onde se hospedára.</p>
-
-<p>Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de
-abrir caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o
-animava e lhe recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o
-velho general Frunsberg bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada
-receies, fradinho!» Na vespera havia-se mostrado um tanto confuso,
-havia denotado uma certa timidez, mas n’aquelle segundo
-dia estava de posse da sua coragem habitual. O chanceller do
-arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do imperador.
-«Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a
-retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos
-seus livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação
-até dos proprios adversarios, e que não se podia esperar
-d’elle uma retractação no tocante a essas coisas; havia
-tambem protestado contra manifestos abusos, e seria, decerto,
-um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião affirmasse ser
-falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era verdadeiro;
-n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava
-os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente,
-era possivel que n’alguns pontos não tivesse razão,
-estando, portanto, prompto a desdizer qualquer asseveração
-cuja injustiça lhe fosse provada. «Esse vosso arrazoado é inopportuno»,
-replicou Eck; «o que o imperador quer é uma resposta
-definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes contra<span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span>
-a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio
-de Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero.
-«Vou dar-vol-a, pois. (<i>Vou dar uma resposta sem pontas nem
-dentes, diz o original</i>). Não me retracto de coisa alguma, a não ser
-que me convençam pela Escriptura ou por meio de argumentos
-irrefutaveis. É claro como a luz do dia que tanto papas como
-concilios teem algumas vezes errado. A minha consciencia tem
-de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra a consciencia
-é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero retractar-me.
-Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei
-chegou a crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes,
-realmente, que um concilio é susceptivel de errar?», perguntou
-elle, por fim. «Affirmo», retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei
-sempre. Assim Deus me ajude. Amen». Aquella sua firmeza
-tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam que o
-imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á
-morte, sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que
-elle, ao mesmo tempo que combatia pela consciencia, combatia
-tambem pela Allemanha, pozeram-se do seu lado. Conseguiram
-que o imperador addiasse a sentença, e instaram depois com
-Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos
-os seus esforços.</p>
-
-<p>Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo
-tomar o partido de Luthero e da Allemanha, para não quebrar
-relações com o papa, não desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto,
-faltando assim á sua palavra. Ordenou, pois, a Luthero
-que se retirasse, mas fez publicar um edicto, condemnando
-os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio sob o anathema
-do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio
-era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante
-ninguem podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o
-em sua casa: quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe
-a mão e entregal-o aos guardas do imperador, que ficavam com
-plenos poderes para o matarem. Tudo isto, porém, só podia ter logar
-depois de expirado o prazo que o salvo-conducto mencionava.</p>
-
-<p class="tb"><b>Luthero em Wartburgo.</b>—Os amigos de Luthero foram de
-parecer que, depois do edicto de Worms, a vida d’elle corria
-perigo, até mesmo em Wittenberg; e o eleitor da Saxonia encarregou
-uns tantos soldados de o irem esperar ao caminho,
-apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de Wartburgo,
-que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se,
-sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos
-sabia, ao principio, onde elle se encontrava. Emquanto esteve
-em Wartburgo, submetteu-se a uma vida de isolamento, e para
-maior precaução deixou crescer a barba, vestiu-se de cavalleiro,
-e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez mezes
-n’aquelle seu esconderijo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span></p>
-
-<p>Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a
-traducção da Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu
-tornar conhecido dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon
-mandava-lhe de Wittenberg todos os livros de que elle necessitava.
-Começou com o Novo Testamento, e traduziu-o quasi
-todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento teve o
-que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto
-de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez
-por semana em casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo
-auxilio nas passagens difficeis.</p>
-
-<p>Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da
-Biblia um livro para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella
-phrases finas, phrases palacianas; desejava tornal-a um livro
-que fosse comprehendido por todos, homens, mulheres e creanças,
-e dedicou a esse trabalho todo o seu talento e actividade.
-Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que se
-vê o grande numero de emendas por que muitas das orações
-passaram, chegando algumas a serem emendadas quinze vezes.
-«Estamos trabalhando com todas as nossas forças», escreveu
-elle em certa occasião, «para que os prophetas fallem na nossa
-lingua. Que grande e difficil tarefa é esta, de fazer com que os
-escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles offerecem
-uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por
-uma lingua barbara».</p>
-
-<p>A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de
-quasi se poder dizer que não existia a lingua allemã. O allemão
-antes do tempo de Luthero, assim como o inglez antes do tempo
-de Chaucer, era um aggregado de dialectos; e, de facto, a Biblia
-de Luthero é que fez a lingua allemã, pois que tem servido desde
-então como que de modelo, e o seu estylo tem sido imitado por
-todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto, tornando-se
-gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz, e a
-linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de
-separação que passou depois por toda a Allemanha.</p>
-
-<p class="tb"><b>Regresso de Luthero a Wittenberg.</b>—Emquanto Luthero esteve
-em Wartburgo, andaram os seus amigos prégando o Evangelho
-por toda a Allemanha, sem soffrerem o minimo incommodo, e os
-seus livros eram lidos por toda a parte. Dir-se-hia que toda a
-Allemanha se tornava protestante, a despeito do edicto do imperador.
-Havia de todos os lados um grande movimento a favor
-das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria.
-Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento
-religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer,
-a cabeça e querem que as coisas caminhem muitissimo depressa
-ou vão até demasiadamente longe; foi o que succedeu
-na Allemanha.</p>
-
-<p>Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span>
-Erzgebirge, ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada
-Zwickau. Os habitantes d’essa cidade acceitaram a Reforma.
-Entre elles havia um tecelão, Claus Storch, homem excitavel,
-que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e que reuniu
-em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de muito
-pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres
-nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente;
-a Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados.
-Metteram-se a limpar a sua terra de todos os indicios da
-antiga religião—as ornamentações das egrejas, os altares, as
-cruzes, o clero, etc.—e deram logar a alguns tumultos, levantando-se,
-por fim, contra elles os seus conterraneos, que os pozeram
-fóra.</p>
-
-<p>Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram
-as suas idéas ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon,
-que eram ali os dirigentes espirituaes na ausencia de
-Luthero. Carlstadt adoptou por completo o seu modo de pensar,
-Melanchthon deixou-se persuadir até a um certo ponto, e a agitação
-começou a lavrar entre as massas populares. As imagens
-foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt
-prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades;
-a Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.</p>
-
-<p>Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão
-de Wartburgo, e resolveu sair de aquella especie de sequestração
-em que se encontrava. Correu a Wittenberg, e o povo
-tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se familiarisara, trovejando
-do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a falta de caridade.
-Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por fim
-triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida,
-e o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum
-com os excessos de Storch, e do seu companheiro Münzer.</p>
-
-<p>Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma
-coisa boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as
-ceremonias do catholicismo romano, que foram substituidas por
-um serviço religioso mais em conformidade com as Escripturas.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Dieta de Nürnberg.</b>—O anathema do imperio ainda estava
-sobre Luthero, pois que não havia sido revogado; mas ninguem
-pensava em o pôr em execução. Luthero prégava, escrevia, e editava
-os seus trabalhos, sem que pessoa alguma na Allemanha o
-tivesse na conta de um proscripto. Ainda mais, alguns dos principes
-allemães eram de parecer que o edicto de Worms devia
-ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha,
-deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros
-conheciam bem o estado da Allemanha e os sentimentos do povo,
-e não se sentiam inclinados a desposar a causa do papa.</p>
-
-<p>Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span>
-1522 e 1524, o nuncio do papa viu que os principes allemães não
-eram de modo algum favoraveis á sua proposta para que Luthero
-soffresse a pena de morte. Em vez de discutirem esse ponto,
-apresentaram differentes reclamações, insistindo muito com o
-nuncio para que chamasse para ellas a attenção do papa; e muitas
-d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os
-quaes se baseou a condemnação de Luthero.</p>
-
-<p>Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os
-principes allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era
-necessario nomear uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos
-abusos fossem abolidos e se esclarecessem certos pontos duvidosos
-de doutrina que tinham surgido, annunciando, ao mesmo
-tempo, que toda essa questão de differenças religiosas havia de
-ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se em Spira. Toda
-a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero; e alguns
-estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam
-abertamente quaes as reformas por que a religião devia
-passar. Pediam a abolição dos cinco falsos sacramentos, da
-missa, do culto dos santos e da supremacia pontificia. A Reforma
-havia-se espalhado tambem para além da Allemanha, e já em 1524
-havia discipulos de Luthero em França, na Dinamarca e nos Paizes
-Baixos.</p>
-
-<p class="tb"><b>A revolta dos nobres</b> foi o primeiro dos grandes revezes que o
-movimento da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero
-tinham-se espalhado sem obstaculo de maior pela Allemanha
-e pelo estrangeiro. De toda a parte se protestava contra os
-cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a confissão auricular,
-o culto dos santos e das reliquias, o celibato do clero, a negação
-do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação episcopal
-e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era
-uma fórma de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas,
-e uma fórma de governo que tornasse manifesto o sacerdocio
-espiritual de todos os crentes. A Dieta tinha repetidamente,
-na sua lista de aggravos, chamado a attenção do papa
-para os abusos que se observavam na egreja, e propoz, por fim,
-que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias
-reformas.</p>
-
-<p>Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava
-de ser reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes
-era cada vez mais insustentavel; os principes, mais poderosos
-do que elles, supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes
-viviam, pela maior parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se
-em segredo para uma revolução. Tanto de um lado
-como do outro contava-se com a Reforma como com um poderoso
-auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto a inutilidade
-dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a
-necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span>
-d’este estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas
-assim o entenderam, e, porque assim o entendessem,
-entraram no caminho da revolta.</p>
-
-<p>A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo,
-probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram
-n’ella estavam, realmente, luctando contra a orientação da epoca
-e contra a corrente da historia. Viam todo o territorio allemão
-caindo nas mãos de meia duzia de familias principescas, e
-todo o povo das cidades enriquecendo por meio do commercio
-e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam que a Allemanha
-não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem
-elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam
-voltar aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam
-outra auctoridade que não fosse a do imperador.
-Tinham por cabecilha Francisco von Sickingen, homem muito
-notavel, de grande valor militar, e a quem se não podia negar
-um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os principes
-aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder
-dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.</p>
-
-<p>O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com
-a Reforma, mas muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar
-com a Reforma por causa do seu odio aos nobres revoltados.
-Sickingen tinha de muitos modos tentado fazer com
-que parecesse que a causa que defendia era a causa da liberdade
-religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms,
-Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e
-a dieta. Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados
-de perseguição depois da dieta de Worms, Sickingen
-prometteu proteger todos aquelles que se acolhessem a elle; e,
-ao levantar o estandarte da revolta contra os principes, declarou
-que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer as novas
-doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos principes
-apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de
-terem ajudado e instigado esta guerra civil.</p>
-
-<p>De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção
-de Ratisbonna, ou Regensburgo, que era uma confederação, ou
-liga, dos principes catholicos romanos contra a Reforma; e assim
-a Allemanha, que até ali se tinha mantido n’uma união propicia ás
-reformas, dividiu-se em duas partes, o que tornou o trabalho muito
-mais difficil. Os confederados de Regensburgo diligenciaram chegar
-a accordo com o partido papista de Roma. O papa prometteu
-que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria aquella grande
-drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam
-escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados
-comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de
-reforma, oppondo-se tenazmente a qualquer modificação de culto
-ou de doutrina. A Baviera, a Austria e as grandes provincias
-ecclesiasticas do sul da Allemanha iam pôr-se ao lado de Roma<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span>
-na lucta que estava imminente. A Convenção de Regensburgo
-veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios
-horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.</p>
-
-<p class="tb"><b>A revolta dos camponezes</b> teve consequencias mais serias.
-Não fez sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima
-reformação; deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse,
-por fim, de opinião a muitos respeitos. O movimento rural não
-tinha por objecto a Reforma; a sua origem foi a miseria profunda
-em que a gente do campo vivia. O soffrimento d’essa
-gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto que a
-morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo
-quinze que de quando em quando se levantava uma sedição de
-camponezes n’um ou n’outro ponto da Europa, e todas essas
-revoltas haviam sido suffocadas, sem que fossem concedidas as
-almejadas reformas, de modo que as causas da rebellião continuavam
-ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que as
-terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam
-eram as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam
-em harmonia com o valor do terreno. Além das rendas,
-eram tambem obrigados a prestar aos proprietarios certos serviços
-de que não recebiam remuneração alguma; esses serviços
-variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o senhorio
-tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser
-preciso metter a mão á bolsa.</p>
-
-<p>A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes
-prohibido, sob pena de um severo castigo, o entregarem-se
-ao exercicio da caça ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos
-bosques, era-lhes vedada uma grande parte dos baldios, e de
-todos os modos se viam embaraçados no seu trabalho e na sua
-actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da propriedade
-tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos
-qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma
-vacca, uma ovelha, ou até a propria cama.</p>
-
-<p>A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava
-os dizimos: uma decima parte da colheita, que era chamada o
-grande dizimo; e uma decima parte do producto dos animaes,
-que era chamada o pequeno dizimo. Tinham de ser pagos depois
-de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se ter pago a
-renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a decima
-parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco
-ficava para o pobre camponez e sua familia.</p>
-
-<p>Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias,
-pode-se supportar as maiores agruras da vida, quando
-ha a certeza de que se não corre o risco de peiorar, e de que justiça
-será feita quando aquelles que occupam posições superiores
-quizerem tirar partido da pobreza e fraqueza dos seus similhantes.
-O camponez allemão, porém, não tinha essa certeza. O velho<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span>
-codigo romano havia substituido gradualmente a legislação allemã,
-e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não
-eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos,
-para amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios,
-e quando as leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha
-viu-se logo que o camponez ficava, pouco mais ou menos,
-na condição de escravo.</p>
-
-<p>Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa,
-não ousavam recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o
-seu amo entendia que deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito
-algum; o proprietario podia tornar-lhes mais pesados os
-trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em summa, exigir
-d’elles o que quizesse.</p>
-
-<p>N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido
-transportadas para a Europa enormes riquezas. A America, a
-terra da prata e do oiro, tinha sido descoberta, e o commercio
-augmentara consideravelmente. Estas riquezas tinham sido ganhas
-por mercadores e negociantes aventureiros, e a classe
-commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada
-e luxuosamente.</p>
-
-<p>Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura
-ao pé dos negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem
-o mesmo fausto, e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres
-camponezes, cujo viver era cada vez mais miseravel, ao
-passo que a gente das cidades se rodeiava de commodidades
-que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem augmentados
-os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos
-os impostos.</p>
-
-<p>Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito
-antes do tempo de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no
-Main e no Rheno os camponezes levantaram-se contra os seus
-tyrannos, e as associações secretas organizadas durante essas
-insurreições continuaram permanecendo até muito depois d’ellas
-haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas associações
-era a de Bundschuh, isto é, a <i>do sapato atado</i>. A liga de
-Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a
-de todo; e durante a agitação produzida pela estada
-de Luthero em Worms, quando todos os allemães receiavam pela
-vida do seu reformador, a sinistra palavra Bundschuh appareceu
-escripta a giz pelas paredes.</p>
-
-<p>A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora
-das anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas,
-e podemos affirmar que os seus promotores contavam com
-que o Evangelho prégado por Luthero lhes proporcionasse um
-bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de Claus Storch, que
-havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau, mettera-se
-a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua
-inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta.<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span>
-A Bundschuh reapparecera em Würtemberg, devido á cruel
-oppressão do duque Ulrico. Em 1524 os camponios do Rheno
-ergueram o estandarte da revolta, e a chamma propagou-se em
-todas as direcções.</p>
-
-<p>Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por
-meio das armas. Se os camponezes tivessem começado por
-uma acção violenta, teriam, talvez, sido mais bem succedidos.
-A sua idéa era convocar grandes comicios onde fossem expostas
-as suas reclamações, pois julgavam que por esse meio viriam
-a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas das
-listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais
-importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram
-por dizer que só pediam aquillo que os principios do Evangelho
-os auctorizavam a pedir, e que não desejavam entrar em
-lucta, porque o Evangelho os mandava viver em paz e amor.
-Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos, e
-vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo
-com o ensino da Palavra de Deus:</p>
-
-<p>1. A congregação deve ter poder para eleger o seu ministro,
-e para o demittir no caso do seu procedimento ser censuravel;
-e o ministro deve prégar o Evangelho puro, sem lhe accrescentar
-mais nada.</p>
-
-<p>2. Promettem pagar o dizimo do trigo para a sustentação dos
-ministros, comtanto que o que ficar, depois de pagos os respectivos
-estipendios, seja applicado no soccorro dos pobres; mas recusam
-pagar o pequeno dizimo, isto é, o dos porcos, dos ovos, etc.,
-porque, dizem elles, Deus creou os animaes para uso do homem.</p>
-
-<p>3. A servidão deve ser abolida. A Escriptura declara que os
-homens são livres.</p>
-
-<p>4 Deve haver inteira liberdade para caçar e para pescar,
-pois que Deus creou as aves e os peixes para uso de todos.</p>
-
-<p>5. As florestas que não pertençam a alguem por direito de
-compra devem ser restituidas á communa, ou municipio; e todos
-os habitantes devem ter liberdade para cortar madeira
-de que necessitarem para combustivel ou para trabalhos de
-carpinteria, devendo haver guardas, pagos pela communa, que
-impeçam qualquer acto de vandalismo.</p>
-
-<p>6. Os serviços obrigatorios devem ficar restrictos ao que
-era permittido pelos antigos costumes.</p>
-
-<p>7. Tudo o mais que se fizer deve ser condignamente pago.</p>
-
-<p>8. As rendas estão muito elevadas; as terras devem ser avaliadas
-de novo, e pagar-se pelo seu aluguer uma quantia razoavel.</p>
-
-<p>9. A lei deve determinar as penas que correspondem aos
-diversos crimes, ficando defezo a quem quer que seja a applicação
-de um castigo arbitrario.</p>
-
-<p>10. Os campos de pastagem e outros baldios de que os proprietarios
-se teem apoderado devem ser restituidos ao logradouro
-publico.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span></p>
-
-<p>11. Deve ser abolido o direito de morte (A faculdade que tem
-o senhorio de levar qualquer objecto da casa do rendeiro
-fallecido).</p>
-
-<p>12. Todas estas proposições devem passar pelo cadinho da
-Escriptura, e serão retiradas as que fôrem susceptiveis de refutação.</p>
-
-<p>Estes artigos eram, quasi todos elles, assaz equitativos, e
-estão agora incluidos na legislação allemã. Se as reivindicações
-dos camponezes fossem recebidas como elles esperavam, e como
-tinham direito a esperar, ter-se-hia chegado a um accordo. Os
-seus adversarios fingiram que se interessavam por ellas, para
-ganharem tempo; e os camponezes, por fim, vendo-se atraiçoados,
-pegaram em armas.</p>
-
-<p>Recorreram a Luthero. Elle era filho de camponez; tinha
-conhecido a necessidade. E Luthero, respondendo ao appello que
-lhe fizeram, intercedeu por elles, dirigindo-se d’este modo aos
-proprietarios: «Posso agora fazer causa commum com os camponezes,
-porque vós attribuis esta insurreição ao Evangelho e
-ao meu ensino, quando a verdade é que nunca cessei de intimar
-obediencia á auctoridade, mesmo quando ella seja tão tyrannica
-e tão intoleravel como a vossa. Não quero, porém, envenenar a
-ferida; e, portanto, meus senhores, quer me sejaes benevolos
-quer me sejaes hostis, não desprezeis os conselhos de um pobre
-homem como eu, e não tenhaes em pouca conta esta sedição;
-não quero dizer com isto que temaes os insurgentes, mas
-que temaes a Deus, que está irritado contra vós. Elle póde punir-vos,
-e converter todas as pedras em camponezas, sem que
-nem as vossas couraças nem todo o poder de que dispondes vos
-possam livrar. Ponde, pois, limites ás vossas exacções, deixae de
-exercer uma deshumana tyrannia, e passae a tratar essa gente
-com bondade, para que Deus não incendeie toda a Allemanha
-com um fogo que ninguem será capaz de extinguir. O que n’esta
-occasião, porventura, perderdes, ser-vos-ha centuplicado mediante
-a paz futura.</p>
-
-<p>«Ha tanta equidade n’alguns dos doze artigos dos camponezes,
-que constituem uma deshonra para vós deante de Deus
-e do mundo; cobrem os principes de vergonha, como diz o
-Psalmo 108. Tinha outras coisas ainda mais graves a dizer-vos,
-com respeito ao governo da Allemanha, e já me referi a vós no
-meu livro dedicado á nobreza allemã. Não vos importastes, porém,
-com as minhas palavras, e agora chovem sobre vós todas
-estas reclamações. Não deveis desattender o seu pedido de auctorização
-para escolherem pastores que lhes preguem o Evangelho;
-compete sómente ao governo o obstar a que sejam prégadas
-a insurreição e a rebellião; mas deve haver perfeita liberdade
-para prégar tanto o verdadeiro como o falso Evangelho.
-Os restantes artigos, que tratam do estado social do camponez,
-são egualmente justos. Os governos não se estabelecem para<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span>
-seu proprio interesse, nem para tornarem o povo subserviente
-aos caprichos e ás más paixões, mas para zelarem o interesse
-do povo. As vossas exacções são intoleraveis; arrancaes
-ao camponez o fructo do seu trabalho para poderdes sustentar
-o vosso luxo e os vossos prazeres. E é tudo quanto vos tinha
-a dizer.</p>
-
-<p>«Agora, com respeito a vós, meus queridos amigos camponezes.
-Quereis que vos seja garantida a livre prégação do
-Evangelho. Deus ha de defender a vossa causa, se procederdes
-sempre com justiça e rectidão. Se o fizerdes, haveis de triumphar
-por fim. Aquelles de entre vós que succumbirem na lucta
-serão salvos. Se, porém, o vosso modo de proceder fôr outro, não
-podereis salvar nem a alma nem o corpo, ainda mesmo que sejaes
-bem succedidos e derroteis os principes e os senhores. Não
-acrediteis nos falsos prophetas que se teem introduzido no meio
-de vós, ainda mesmo que elles invoquem o santo nome do Evangelho.
-Pode ser que elles me chamem hypocrita, mas isso pouco
-se me dá. O que eu quero é salvar os que entre vós fôrem fieis
-e honrados. Temo a Deus e a ninguem mais. Temei-o vós tambem,
-e não useis o Seu nome em vão, para que Elle vos não
-castigue. Não diz a Palavra de Deus: «Aquelle que lançar mão
-da espada á espada morrerá,» e «Todos se submettam aos poderes
-superiores?» Não deveis fazer justiça por vossas proprias
-mãos; seria isso obedecer a um outro dictame da lei natural. Não
-vêdes que vos fica mal a rebellião? O governo tira-vos parte do
-que vos pertence, mas destruindo os principios estabelecidos
-tiraes aos outros tudo o que lhes pertence. Christo, no Gethsemane,
-reprehendeu S. Pedro por se ter servido da espada, ainda
-que em defeza do seu Mestre; e quando já estava pregado na
-cruz orou pelos Seus perseguidores. E o Seu reino não tem
-triumphado? Porque é que o Papa e o imperador me não teem
-feito calar? Porque é que o Evangelho progride á proporção que
-elles se esforçam para lhe pôrem obstaculos e para o destruir?
-Porque eu nunca recorri á fôrça, prégando, antes, a obediencia,
-até mesmo áquelles que me perseguem, fazendo depender exclusivamente
-de Deus a minha defeza. Façaes o que fizerdes,
-nunca tenteis cobrir a vossa empreza com o manto do Evangelho
-e o nome de Christo. Será uma guerra de pagãos, a que, porventura,
-vier a ter logar, porque os christãos fazem uso de outras
-armas: o seu General soffreu a cruz, e o triumpho d’elles é a
-humildade. Supplico-vos, queridos amigos, que vos detenhaes, e
-que considereis antes de dardes outro passo. O que citastes da
-Biblia não é applicavel ao vosso caso».</p>
-
-<p>E conclue assim: «Como vêdes, estaes procedendo mal,
-tanto de um lado como do outro, e estaes attrahindo o castigo
-divino sobre vós e sobre a Allemanha, vossa patria commum. O
-meu conselho é que se escolham arbitros, sendo alguns nomeados
-pela nobreza e outros pelas cidades. É preciso que ambos<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span>
-os adversarios transijam n’alguma coisa: o negocio tem de ser
-equitativamente liquidado por um tribunal.»</p>
-
-<p>O seu alvitre não foi acatado.</p>
-
-<p>Os camponezes romperam hostilidades, tornando impossivel
-qualquer mediação. O proprio Luthero, logo que as coisas tomaram
-este caminho, deixou de se interessar pelos revoltosos.</p>
-
-<p>Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes
-uma verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta
-mil o numero dos massacrados.</p>
-
-<p>Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma.</p>
-
-<p>Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha
-acontecido, e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu
-a influencia que tinha sobre as classes pobres, que se deixaram
-dominar pela idéa de que Luthero as havia abandonado;
-e entregaram-se com facilidade aos excessos anabaptistas, que
-tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O proprio
-Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem,
-e repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas
-foram um atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado
-que a revolta dos camponezes e a falta de coragem que
-Luthero mostrou n’essa occasião e depois d’ella tiveram por
-effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos de Luthero e da
-Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa.</p>
-
-<p>Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a
-Allemanha o maior dos seus principes. Frederico o magnanimo,
-eleitor da Saxonia, havia morrido.</p>
-
-<p>Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia
-partido para a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes;
-e os seus ultimos pensamentos foram para os maltratados
-servos. «Nós, os principes, fazemos muitas coisas aos
-pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco depois,
-tendo sido sacramentado, falleceu.</p>
-
-<p class="tb"><b>As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.</b>—O imperador ainda não
-havia voltado á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois
-da Dieta de Worms. Estava em Hespanha, constantemente
-occupado com a sua idéa de abater o poder da França. Em 1525
-esteve quasi a ver os seus planos coroados de bom exito. Deu-se
-a batalha de Pavia, e Francisco I de França, desbaratado o seu
-exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu rival. A
-Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco
-na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra
-a Egreja se havia excitado na Allemanha; e os termos em que
-essa obrigação estava formulada mostravam o quão attentamente
-havia observado os progressos da Reforma e o quão empenhado
-estava em subjugal-a. Deu ordem para que fossem postas
-em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando assim
-claramente a entender que não consentia que dentro do imperio<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span>
-se propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa
-sua intimativa propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta
-que se reuniria em Spira.</p>
-
-<p>As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar
-á Allemanha. O papa que dominava em Roma era Clemente VII,
-da familia dos Medicis, e em toda esta questão zelou mais os
-interesses do seu principado italiano do que os da egreja de que
-era chefe. O papa não queria que Francisco e Carlos se reconciliassem.
-Receiava que os pequenos estados italianos ficassem
-prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas,
-e por esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea.
-O imperador ainda não tinha conseguido o descanço de que
-necessitava para poder ir em seguida liquidar pessoalmente os
-negocios da Allemanha. E assim o proprio papa estava n’aquella
-occasião favorecendo a Reforma.</p>
-
-<p>Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se
-logo bem manifesto que um grande numero d’elles não
-desejava que Luthero e as suas doutrinas fossem banidos da
-Allemanha; e a Dieta, de que se esperava a aniquilação da
-Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este famoso edicto,
-que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia de
-tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia
-de religião todos os estados se deviam comportar por tal
-fórma que estivessem promptos a responder por si deante de
-Deus e de sua Magestade Imperial. Assim ficou cada um dos
-estados auctorizado a declarar que religião se professaria dentro
-dos seus limites, e aquelle edicto foi como que uma predicção
-da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a religião
-official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem.
-Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram,
-segundo a lei imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a
-egreja dentro dos seus dominios, e levar a effeito as necessarias
-reformas.</p>
-
-<p>O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões
-que entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer
-tentativa de introduzir nas provincias evangelicas um systema
-uniforme de governo da egreja e do culto; cada uma d’ellas
-estabeleceu os seus regulamentos. O primeiro a estabelecel-os,
-em conformidade com os verdadeiros principios da Reforma,
-foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert
-que lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica
-para uso nos seus dominios. E estes artigos são interessantes,
-porque reconhecem, até certo ponto, a auctoridade do povo
-christão dentro da egreja; e confiam tambem a disciplina das
-congregações a homens de seriedade, cujos deveres são parecidos
-com os dos anciãos presbyteriannos.</p>
-
-<p>Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo
-todas estas indicações do reconhecimento dos direitos do povo<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span>
-christão, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a
-Guerra dos Camponezes tinha-o predisposto contra a auctoridade
-do povo. Era de opinião que o povo não tinha competencia
-para governar a egreja, e escreveu a Filippe, mostrando-lhe os
-inconvenientes de similhante plano de organização ecclesiastica.</p>
-
-<p>Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do
-poder secular—dos principes quando se tratasse de principados,
-e das camaras municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa
-deu logar ao que se chama o systema <i>Consistorial</i> do governo
-da Egreja—systema peculiar da Egreja Lutherana, e de que,
-não obstante só mais tarde ter sido posto em pratica, cabe fazer
-aqui uma descripção resumida.</p>
-
-<p>Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais
-alta importancia o guardar-se a chamada <i>disciplina</i> da egreja.
-Deus quer que todos os seus filhos tenham uma vida honesta,
-uma vida decente, e é do dever da Egreja cuidar que todos os
-seus membros procedam de uma maneira condigna com a sua
-profissão de fé. Quando qualquer membro sae do bom caminho
-deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer os castigos
-que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser
-excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na
-edade media, os bispos responsaveis pela conducta dos membros
-das egrejas que constituiam as suas respectivas dioceses; e,
-como estas dioceses eram geralmente grandes, e os bispos não
-podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia, encarregavam
-d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e jurisconsultos.
-Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios,
-e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram
-tambem encarregadas da execução de testamentos e doações, e
-julgavam certos casos de calumnia e de maledicencia que os
-tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os bispos, nos estados
-evangelicos, foram expulsos, esses consistorios continuaram
-gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que
-era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação
-dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite.
-Passaram a chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação
-ficou dependendo da suprema auctoridade civil, em cujo
-nome governavam. Com o tempo foram introduzidas algumas
-mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda assim
-pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada
-differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade
-civil substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar
-em toda a Allemanha depois da Dieta de 1526, nos estados que
-abraçaram a Reforma.</p>
-
-<p>Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie
-d’elles para serem cantados nas egrejas; escreveu um catecismo
-para uso da infancia; e assim em toda a Allemanha, onde
-quer que as doutrinas evangelicas prevalecessem, eram organizadas<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span>
-egrejas, onde se rendia a Deus um culto simples mas sincero,
-e tratava-se de instruir e catequizar a juventude. Ainda
-não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo
-sabia perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de
-Luthero, Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam
-de mão em mão.</p>
-
-<p>Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha
-logar uma coisa que bastante contrariou o imperador: uma
-alliança entre a França e os Estados Pontificios. Não esperava
-que o papa o abandonasse, e menos esperava ainda que elle o
-abandonasse na propria occasião em que elle se preparava para
-submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu
-punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado
-por um grande numero de soldados allemães lutheranos,
-sob o commando de aquelle general Frundsberg que em Worms
-animou Luthero, e, levando á frente o condestavel de Bourbon,
-esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo por onde quer
-que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as suas
-tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O
-papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a
-cidade foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram
-maltratados e mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas,
-e os rudes e mofadores allemães proclamaram papa a
-Luthero. Os francezes não poderam prestar grande auxilio aos
-seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o imperador e o
-papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava,
-para esmagar a heresia na Allemanha.</p>
-
-<p>Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal
-para a Reforma. O edicto de Spira havia concedido tolerancia
-aos lutheranos, mas tambem tornou evidente, de uma maneira
-até então desconhecida, a separação entre os dois partidos. Isto
-viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em Spira em
-1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario
-disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o
-decreto de 1526, e que sustentava que o decreto de Worms estava
-ainda em vigor e se lhe devia dar força. Pela primeira vez
-pareceu que a maioria da Dieta estava disposta a obedecer á
-ordem do imperador e a dar força ao edicto contra Luthero. O
-decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em
-execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não
-se tivesse executado não se fizessem ulteriores innovações e
-ninguem fosse impedido de celebrar missa.</p>
-
-<p>Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto
-de Spira estava posto de parte, e a minoria evangelica
-resolveu protestar contra a decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento
-de que as questões religiosas só podiam ser decididas
-pela consciencia, e que não deviam ser submettidas á Dieta
-para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questões<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span>
-que dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma
-de cada um de nós, é nosso imperioso dever, segundo o preceito
-divino, e por causa das nossas proprias consciencias, respeitar,
-antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.» «Em questões que se
-relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das nossas
-almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de
-nós mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel
-a liberdade de consciencia, era assignado por João da Saxonia,
-Jorge de Brandenburgo, Ernesto de Lüneburgo, Filippe de
-Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos representantes das cidades
-imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia, Lindau, Memmingen,
-Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St. Gall,
-Weissenburgo e Windsheim.</p>
-
-<p>Foi d’este protesto que se originou o termo <i>protestantes</i>.</p>
-
-<p class="tb"><b>O imperador pretende subjugar a Reforma.</b>—Este protesto tornou
-ainda mais saliente, mais definida, a linha de separação
-entre os principes reformados e os seus visinhos. Ficavam como
-que marcados por ella aquelles a quem o imperador, para restabelecer
-o imperio medieval, tinha de subjugar; e parecia agora
-ter chegado uma occasião propicia para elle o fazer. Na verdade,
-entre elle e a realização dos seus planos só existia
-aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo a
-França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam
-sido derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento
-de um imperio medieval. Os principes protestantes
-reconheceram a gravidade da sua situação. Deveriam resistir
-ao imperador, e, no caso affirmativo, conservar-se-hiam firmemente
-unidos? Luthero, que tinha até então dirigido o movimento,
-servia agora de obstaculo a uma acção collectiva. Elle, ao principio,
-era contrario a toda e qualquer resistencia. Reprovava,
-mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor
-da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald,
-e, quando esses delegados voltaram e deram noticia de que não
-se tinha chegado a decidir coisa alguma, mostrou-se excessivamente
-satisfeito. Se Filippe de Hesse não tivesse trabalhado
-incessantemente para uma união e para um esforço collectivo, a
-Reforma teria soffrido muito.</p>
-
-<p>A que se deve attribuir este procedimento de Luthero? Repugnava-lhe
-a rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e
-não acreditava que as batalhas do reino dos céus se podessem
-vencer com as armas carnaes. Depois, tambem, havia n’elle
-uma grande somma de quietismo, ou, por outra, de fatalismo,
-em parte hereditario, e em parte devido á sua adhesão ás
-idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse
-tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte
-d’esta obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha
-sido proposto reunir todos os protestantes n’uma liga offensiva<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span>
-e defensiva, e havia protestantes que não reconheciam em
-Luthero o seu chefe religioso. Assim como havia uma reforma
-allemã, havia tambem uma reforma suissa, com o seu particular
-typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava, e que,
-com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando
-pelo sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella
-decisão que o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela
-raiz. Propoz uma conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse
-na presença uns dos outros aquelles cujas idéas divergiam,
-elles haviam de comprehender-se melhor, e acabariam, por consequencia,
-todas as differenças. Com esse intuito, pois, promoveu
-em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os primeiros
-theologos da Allemanha e da Suissa.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Conferencia de Marburgo.</b>—Pode-se imaginar o que seria
-aquella reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante.
-Zwinglio e Œcolampadius tinham vindo, com risco das
-suas vidas, da Suissa; Bucer tinha vindo de Strasburgo; e Luthero
-e Melanchthon tinham vindo de Wittenberg. Consultaram-se
-sobre os grandes artigos da fé christã, e os allemães ficaram
-convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente
-evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se
-encerravam todos os principaes pontos da verdade evangelica,
-sem que alguem discordasse d’elles, e em seguida os theologos
-passaram a tratar do quinquagessimo e ultimo, que se occupava
-da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo ácerca do qual
-os que desejavam uma união de todos os protestantes se mostravam
-mais inquietos.</p>
-
-<p>Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado
-a evitar mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse
-qualquer asserção sobre pontos de doutrina que fosse
-acceite pelos suissos; e muitos teem supposto, com bom fundamento,
-que, se Calvino estivesse presente, e tivesse fallado
-antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união. Luthero,
-porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na
-conta de irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das
-anciedades dos principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido
-a não ceder em coisa alguma.</p>
-
-<p class="tb"><b>A controversia entre Luthero e os suissos.</b>—O thema do debate
-era este. Todos os reformadores, tanto allemães como suissos,
-haviam rejeitado a doutrina catholica romana do sacramento
-da Ceia do Senhor.</p>
-
-<p>Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento
-em duas partes distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é
-mais um sacrificio do que um sacramento. É a prolongação,
-atravez do tempo, do sacrificio de Christo na cruz; o pão e o
-vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e sangue de Christo, e<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span>
-quando estes são saboreados pelo padre, no acto de comer e
-beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na cruz.
-D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos
-vêem Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando
-os tormentos por sua causa, na sua propria presença. Assim,
-segundo esta theoria, não ha a distancia de longos seculos entre
-o crente e os soffrimentos de Christo por sua causa. Christo
-soffrendo e o crente prestando culto estão em face um do outro
-durante um momento, mediante a missa.</p>
-
-<p>Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a
-doutrina da missa por a considerarem idolatra e supersticiosa, e
-ensinaram os christãos a retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro
-sacrificio de Christo na cruz do Calvario por sua causa
-e para resgate dos seus peccados. O debate entre os protestantes
-é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos romanos
-chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar.</p>
-
-<p>A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da
-Eucaristia teem um ponto em commum; ambas affirmam que
-o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo estão presentes
-no pão e no vinho, de modo que estes elementos já não
-são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o verdadeiro
-sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre,
-e porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração
-e a ceremonia, operar o milagre de transformar o pão e o vinho
-no verdadeiro corpo e sangue de Christo, com a Sua alma racional
-e a Sua natureza divina; e que pode, outrosim, operar o milagre
-de O trazer do céu e de O mostrar ao povo, a fim de ser adorado
-e partilhado por todos. Ensinam, ainda, posto que esta parte do
-seu ensino não seja sempre muito clara, que os beneficios de
-Christo são communicados ao Seu povo quando este come o
-pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida
-a todos aquelles que participam, quer tenham quer
-não tenham fé.</p>
-
-<p>Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram
-acceitar pelo menos dois, e os dois principaes, pontos
-d’esta doutrina catholica romana. Não quizeram crer que um
-padre podesse operar o milagre que os catholicos romanos asseveram
-que é operado; e foram tambem todos de opinião de
-que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para
-que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão
-entre o sacramento e o que o administra, negaram que tenha
-logar a operação de um milagre; e, ao descreverem o effeito nos
-participantes, asseveraram que a fé era indispensavel.</p>
-
-<p>Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento
-e do seu effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram.
-Todos elles sustentaram que, ainda que Christo
-esteja presente no sacramento, não foi trazido para ali mediante
-um milagre operado por um padre, e que, ainda que<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span>
-Christo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido espiritual,
-mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento.</p>
-
-<p>Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas
-mesmas idéas com respeito a estes dois importantes pontos,
-e assim podessem escrever a primeira parte do artigo quinze
-de tal maneira que podessem ambos acceitar cabalmente a asserção,
-differiam no modo em que descreviam a entrada de
-Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a
-Sua presença e tirava o beneficio inherente.</p>
-
-<p>Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento
-sob uma fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle,
-eram apenas signaes da Sua presença, quasi da mesma maneira
-como uma carta é o signal da pessoa ausente que a escreveu, e,
-quando os christãos participam do sacramento, colhem um beneficio,
-porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a memoria
-e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e
-soffreu sobre a cruz.</p>
-
-<p>Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma
-coisa. Elle tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho
-eram promessas, ou sellos, assim como signaes, e essa idéa podia
-têl-o levado, como mais tarde aconteceu a Calvino, a encarar
-a questão com maior clareza e simplicidade. No seu modo
-de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira real, o genuino
-corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse ácerca do
-pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu sangue».
-E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes,
-fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media.</p>
-
-<p>Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer
-distincções muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de
-umas e outras palavras, ensinaram que a palavra <i>presença</i> significava
-duas coisas differentes; um corpo estava presente n’uma
-certa porção de espaço quando occupava essa porção de espaço
-de tal fórma que nenhum outro corpo podesse estar lá ao
-mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente quando
-occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer
-coisa. A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço
-em que o corpo estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos,
-como eram chamados, empregava esta segunda especie
-de presença para descrever a presença do corpo de Christo
-nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo
-tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as
-duas coisas, o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam,
-ao mesmo tempo no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente,
-o corpo de Christo estava, na Ceia do Senhor, no pão,
-com o pão e sob a fórma de pão. Isto, porém, não explicava a presença
-do corpo de Christo, nem como elle era transportado da
-dextra de Deus para os elementos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span></p>
-
-<p>Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos
-theologos medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser
-Deus e homem, duas naturezas n’uma pessoa, todos os attributos
-da natureza divina de Christo se tornavam tambem propriedades
-da Sua natureza humana. Um dos attributos de Deus é a
-omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da natureza
-divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte.
-Se o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos,
-sobre a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre
-algum. Luthero serviu-se d’esta ubiquidade do corpo de Christo
-para explicar como, sem a intervenção do milagre, elle podia
-estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho.</p>
-
-<p>Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude
-especial n’este caso da presença de Christo—a Sua presença
-no Sacramento—estando Elle, segundo a sua theoria, presente
-em toda a parte, replicou que Deus tinha promettido, na Biblia,
-abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e sangue de
-Christo nos elementos do sacramento.</p>
-
-<p>E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença
-de Christo no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente,
-da transubstanciação e do milagre sacerdotal, mas introduzia,
-em seu logar, inverosimeis idéas escolasticas. Podia, comtudo,
-d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo estava realmente
-presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso dava-lhe
-grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para
-discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um
-pedaço de giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio
-da sala as palavras <span class="smcap">Hoc est corpus meum</span> (Isto é o meu corpo).</p>
-
-<p>Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse
-que o corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam
-corporalmente presentes nos elementos, e accusava os seus
-antagonistas de interpretarem mal a Escriptura quando se referiam
-a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que Zwinglio contestou
-que a palavra «é» nem sempre significa identidade de
-substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira
-verdadeira», «Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma
-vinha ou uma porta no sentido litteral da palavra. Luthero não
-se demoveu, e a conferencia terminou sem aquella unidade de
-coração e de proposito que o pio e affectuoso Landgrave esperava
-que resultasse d’ella.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Dieta de Augsburgo.</b>—O imperador tinha sido victorioso
-em toda a parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar
-a Reforma, isto emquanto os protestantes, devido á obstinação
-de Luthero, se encontravam divididos e desalentados.
-O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao seu alcance para
-conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa conseguiu
-n’esse sentido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span></p>
-
-<p>O imperador entrou em Augsburgo com grande apparato,
-e ao principio recebeu muito cordealmente os principes protestantes.
-Luthero achava-se ausente da cidade. Considerou-se
-que a sua presença daria logar a uma desnecessaria irritação,
-e permaneceu, portanto, em Coburgo, onde facilmente poderia
-ser consultado. Melanchthon ficou a substituil-o como conselheiro
-theologico.</p>
-
-<p>Os chefes dos protestantes eram—João, eleitor da Saxonia,
-denominado João o constante, em razão da sua fidelidade aos
-principios evangelicos; Filippe o magnanimo, Landgrave de
-Hesse; e o edoso Margrave de Brandenburgo, antepassado do
-ultimo imperador da Allemanha. Estes principes foram recebidos
-pelo imperador com muita affabilidade. Deprehender-se-hia
-de tudo isto que se tinha iniciado na Allemanha uma era
-de paz e concordia.</p>
-
-<p>Por detraz dos bastidores, porém, estava Fernando da
-Austria, irmão do imperador, e cabeça do fanatico partido romanista,
-com os seus conselheiros theologicos, protestando contra
-o incitamento á herezia. Afim de o socegar, o imperador escreveu-lhe
-o seguinte: «Entrarei em negocios, sem chegar a qualquer
-conclusão: mas, ainda que isso aconteça, não ha motivo
-para receios da tua parte: nunca te faltarão pretextos para castigar
-os rebeldes, e has de sempre deparar com quem, com muito
-gosto, se preste a servir de instrumento á tua vingança.» As suas
-verdadeiras intenções depressa se tornaram manifestas.</p>
-
-<p>Os capellães dos principes protestantes celebravam o culto
-publico segundo o rito evangelico: e o imperador deu ordem
-para que tal se não continuasse a fazer. O Eleitor declarou:
-«Assim que tiver a certeza de que o imperador tenciona suspender
-a prégação do Evangelho, retiro-me para minha casa.»
-Quando Carlos, n’uma conferencia particular, pediu aos principes
-que impozessem silencio aos seus capellães, o velho Margrave
-de Brandenburgo avançou alguns passos, levou as mãos ao pescoço,
-e, inclinando-se, disse: «Era mais facil a minha cabeça
-rolar aos pés de Vossa Magestade do que eu privar-me da Palavra
-de Deus e negar o meu Senhor». Carlos mostrou-se surprehendido.
-«Ninguem pensa em cortar cabeças, meu caro Margrave»,
-replicou elle. Comprehendia tão mal os seus subditos
-protestantes que se encheu de ira quando elles recusaram incorporar-se
-na procissão que teve logar por occasião da festa de
-<i>Corpus Christi</i>. Seria condescender com a idolatria, seria prestar
-adoração a uma particula de massa que a Egreja de Roma
-dizia ter-se transformado na Divindade mediante um milagre
-operado por um padre, e isso não podiam elles fazer. «Porque
-não hão de agradar ao imperador? Porque não hão de mostrar
-respeito ao cardeal?» exclamou Fernando. «Não podemos nem
-queremos adorar senão a Deus» declararam elles. E assim foram
-passando os dias.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p>
-
-<p>Entretanto os prégadores protestantes dirigiam todos os
-dias a palavra a grandes concursos de gente na egreja dos
-franciscanos, e expunham eloquentemente as doutrinas do
-Evangelho. Carlos resolveu pôr um termo a este estado de
-coisas, e fêl-o por meio de um accordo cujas vantagens ficaram
-todas do lado dos catholicos romanos. Melanchthon, sempre
-timido e amigo da paz, insistiu para que se fizessem algumas
-concessões. Os prégadores protestantes sairam angustiados da
-cidade, e Luthero, que observava de longe os acontecimentos,
-convenceu-se de que Melanchthon, apezar das suas boas intenções,
-estava traindo a causa.</p>
-
-<p>Quando se abriu a Dieta, o imperador quiz que os protestantes
-expozessem as suas opiniões. Essa exigencia era esperada,
-e assim Melanchthon tinha, com a collaboração de Luthero,
-redigido uma Confissão de Fé, em que estavam mencionados,
-com grande clareza de linguagem, os principaes artigos da sua
-fé. Era esta a famosa <i>Confissão de Augsburgo</i> (<i>Confessio Augustana</i>),
-o credo que tem sido acceite por todos os lutheranos,
-embora entre elles tenha havido divergencias n’outros pontos.
-Carlos queria que elle fosse lido em latim. «Não», respondeu
-a isto João o Constante, «nós somos allemães, e estamos em
-territorio allemão. Espero que vossa magestade nos permittirá
-que fallemos na nossa lingua». E a Confissão foi lida em allemão,
-não por um theologo, mas por uma outra pessoa que recebeu
-dos principes esse encargo.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Confissão de Augsburgo.</b>—A primeira parte d’esta nobre
-confissão expõe, um por um, todos os principios evangelicos da
-Reforma, e em particular os grandes principios da justificação
-pela fé. Diz-se que, quando o chanceller do Eleitor, Christiano
-Beyer, leu estas palavras «a fé, que não é o mero conhecimento
-de um facto historico, mas aquillo que crê, não sómente na
-historia, mas no effeito que essa historia produz sobre o espirito»,
-toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse
-Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso:
-a Palavra de Deus não está presa».</p>
-
-<p>Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava
-os abusos da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto
-as egrejas que ha entre nós não discordarem em artigo algum
-de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja Catholica, e omittirem
-apenas uns certos abusos, umas certas innovações, que
-em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente
-introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido
-dos canones, rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne
-prestar ouvidos clementes ás razões que o povo apresenta
-para que não deva ser forçado, contra as suas consciencias, a
-observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o
-calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span>
-como aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que
-o celibato dos clerigos é uma transgressão do mandamento de
-Deus: que a missa é «uma profanação do sacramento da Ceia
-do Senhor»: que a distincção das comidas e as tradições «obscurecem
-as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que
-o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas
-festas, ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos
-são altamente perniciosos, e servem para desencaminhar
-homens e mulheres, pois que «se deve servir a Deus segundo
-os preceitos que Elle promulgou, e não segundo os que
-os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril,
-mas ministerial.</p>
-
-<p>A confissão continha tambem um pequeno artigo em que
-vinha exposta a opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia
-do Senhor, e isso compelliu os theologos suissos e os do sul da
-Allemanha a apresentarem confissões separadas: mas a leitura
-da confissão de Augsburgo, pelos principes, na Dieta produziu
-um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os protestantes
-adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos.</p>
-
-<p>O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia
-destruir a Reforma, e não se achava preparado para esse recurso.
-Lembrou-se então de promover umas conferencias que
-fossem criando uma certa confusão entre os protestantes. Era
-bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon, que n’essas
-conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em
-todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo,
-soube do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth
-(Coração pequeno): Segundo me parece, estaes fazendo
-uma obra prodigiosa, qual a de reconciliar Luthero com o papa....
-Advirto-vos, porém, de que, se é vossa intenção metter n’um
-sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho, Luthero,
-tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas as
-suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem
-pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon.
-«Antes morrer com Jesus Christo», exclamavam, «do que
-alcançar, sem Elle, as boas graças do mundo inteiro». Os catholicos
-romanos pediam, por fim, mais do que Melanchthon podia
-conceder, e, com grande regozijo dos protestantes, as conferencias
-cessaram.</p>
-
-<p class="tb"><b>A liga protestante de Schmalkald.</b>—Os principes sabiam que o
-imperador queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua
-resolução, e pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos
-a coadjuvarem-n’o n’aquella obra. Formou-se uma liga
-catholica. A resposta dos protestantes foi recusarem todos os
-subsidios emquanto os negocios da Allemanha permanecessem
-por liquidar.</p>
-
-<p>Os principes reuniram-se em Schmalkald, e formaram uma<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span>
-liga protestante, de que Filippe de Hesse foi o membro mais
-activo. Os estados catholicos romanos não desejavam entrar
-n’uma guerra civil com os seus visinhos protestantes, e o imperador,
-atacado pelos francezes e pelos turcos, viu-se na impossibilidade
-de suffocar a revolta.</p>
-
-<p>O ultimo decreto da Dieta havia estabelecido um prazo,
-que se estendia até á proxima primavera, durante o qual os
-protestantes podiam fazer a sua submissão voluntaria, e accrescentava
-que aquelles que não se submetessem durante esse
-prazo seriam exterminados. Ao chegar, porém, a primavera,
-reconheceu-se impotente para exterminar os protestantes. A
-Liga de Schmalkald havia-se tornado a mais poderosa aggremiação
-da Allemanha. Assim, em 1532, apoz prolongadas negociações,
-firmou-se um tratado de paz entre Carlos e os principes
-protestantes. A Paz de Nürnberg, como ficou sendo chamada,
-permittia aos adherentes á Confissão de Augsburgo o persistirem
-nas suas doutrinas, e concedia-lhes outros privilegios.
-Em troca, os principes protestantes, e entre elles Filippe de
-Hesse, offereceram-se, muito cordialmente, para auxiliar o imperador
-nas suas campanhas contra os francezes, os turcos e os
-piratas da Barbaria.</p>
-
-<p>A Liga de Schmalkald continuou de pé, e outros estados,
-taes como o de Würtemberg, deram-lhe a sua adhesão. O imperador
-não podia dissolvel-a, e, comtudo, ardia em desejos de
-restabelecer na Allemanha a uniformidade religiosa. O exame
-da sua correspondencia particular revelou a perplexidade em
-que elle se encontrava. Tinha umas vezes a idéa da exterminação,
-e outras a da conciliação. Um dos seus planos consistia
-em promover na Allemanha um Concilio Geral da Egreja, sem
-consultar nem o papa nem o rei de França.</p>
-
-<p>Em 1538, Held, o seu vice-chanceller, formou em Nürnberg
-uma Liga Catholica, com o expresso designio de acabar com o
-protestantismo pela força das armas. Em 1540-41, o imperador
-diligenciou, por meio de conferencias que se realisaram em Hagenau
-Worms, e Regensburgo, chegar a um certo entendimento
-com os protestantes em materia de religião, e chegou a ser
-proposta em Roma a reforma da Egreja. Foi, finalmente, publicado,
-em 1541, um decreto da Dieta, estabelecendo que não
-se podia prohibir, a quem quer que fosse, o adoptar a religião
-protestante.</p>
-
-<p>D’estas victorias da Liga de Schmalkald resultou uma rapida
-propagação do protestantismo. O Würtemberg, a Pomerania,
-o Anhalt, o Mecklemburgo, e muitissimas cidades, tornaram-se
-protestantes; os bispados de Magdeburgo, Halberstadt
-e Naumberg deixaram de reconhecer a supremacia de Roma; e
-duas provincias eleitoraes, o Brandenburgo e a Saxonia Albertina,
-uniram-se á Liga. Os unicos estados que se conservaram
-na opposição foram a Austria, a Baviera, o Palatinado e as provincias<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span>
-ecclesiasticas do Rheno. Mas mesmo estas regiões começavam
-a ser influenciadas. Na Austria a religião evangelica
-ia ganhando terreno entre os proprietarios, os camponezes e os
-habitantes das cidades. Os bavaros iam-se deixando invadir
-rapidamente pelas novas idéas. Quanto ao Palatinado, a sua aggregação
-á Liga de Schmalkald parecia ser apenas uma questão
-de tempo.</p>
-
-<p>O imperador não podia ver com indifferença este rapido
-progresso do protestantismo; contrariava-o immenso que os
-seus dominios nos Paizes Baixos ficassem separados d’elle por
-uma faixa de paizes protestantes; não queria ouvir fallar na
-possibilidade de uma maioria protestante no Collegio Eleitoral,
-e de um sucessor do imperio protestante. O procedimento do
-arcebispo-eleitor de Colonia mostrou-lhe que não havia tempo
-a perder. Hermann von Wied estava havia muito convencido
-da necessidade de reformas na Egreja, e depois da paz de
-Nürnberg, incitado por um grande numero de clerigos, e correspondendo
-ao evidente desejo de muitas outras pessoas, animou
-o ensino protestante na sua vasta diocese, e mostrou-se disposto
-a converter aquella provincia arqui-episcopal n’um estado
-secular protestante.</p>
-
-<p>A posição dos arcebispos e bispos da Allemanha era, nos dias
-da Reforma, um tanto singular. Não eram simplesmente bispos,
-mas tambem barões, e, como todos os outros grandes barões
-sujeitos ao imperador na Allemanha, eram principes soberanos.
-Os arcebispos de Kõln, Trier e Metz tinham sobre alguns territorios
-um governo egual ao que João, o Constante, tinha sobre
-a Saxonia eleitoral, e Filippe, o Magnanimo, sobre Hesse. Eram
-as supremas auctoridades civicas, com os seus tribunaes, os
-seus exercitos, os seus cobradores de impostos. O decreto de
-1526 era-lhes tão applicavel como aos principes seculares. Podiam
-fazer-se protestantes, dominar nos seus territorios, como
-principes seculares, e declarar «que tomavam ante Deus e sua
-magestade imperial a responsabilidade do seu modo de viver,
-do seu systema de governo e das suas crenças».</p>
-
-<p>Alguns bispos do norte da Allemanha tinham-n’o feito já:
-a opportunidade era de tentar: podiam, aproveitando-se d’este
-decreto, libertar-se da obediencia a Roma, casar, e legar a seus
-filhos o que possuiam. Carlos viu tambem o alcance de aquella
-opportunidade, mas durante muito tempo foi-lhe impossivel intervir.
-Todas as vezes que tentou pôr em pratica os seus planos
-via-se contrariado, ou pelo papa, ou pelo rei de França, ou
-pelos turcos. Quando lhe constou que parecia estar proxima a
-conversão de Hermann von Wied, reconheceu-se impotente
-para luctar com a Liga de Schmalkald. Por fim, em 1544, conseguiu
-derrotar os francezes, com os quaes tratou, depois, da paz
-em condições vantajosas para elles, impondo-lhes, porém, a clausula
-de uma união dos dois exercitos para combater os protestantes.<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span>
-Na Dieta de Spira, que se reuniu no mesmo anno, mostrou-se
-contemporizador, propondo que se suspendessem hostilidades
-até á convocação do Concilio Geral; isto ao passo que
-por outro lado trabalhava para desviar da liga protestante o
-maior numero de principes que lhe fosse possivel.</p>
-
-<p class="tb"><b>A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald.</b>—No entretanto
-Luthero, que soffria havia bastante tempo de uma doença do
-coração, morria em Eisleben, em 18 de fevereiro de 1546, perecendo
-com elle aquella forte reluctancia dos protestantes em
-tentarem a sorte das armas. Não estavam, porém, tão bem preparados
-para a guerra como n’outro tempo. O bom exito que a
-liga tivera ao principio fez com que elles confiassem demasiadamente
-n’ella; além d’isso, surgiram rivalidades entre os estados
-e as cidades, e entre os principes. Filippe de Hesse era o
-unico chefe competente, mas tinha o defeito de ser um principe
-de pouco elevada estirpe. Tinham ficado tambem muito prejudicados
-com o facto de Mauricio ter succedido ao duque Jorge da
-Saxonia, o grande inimigo de Luthero e da Reforma. Mauricio
-era sobrinho do duque Jorge, havia sido educado no lutheranismo,
-e desposou a primeira filha de Filippe de Hesse.
-Por occasião de elle assumir a chefia, a Saxonia Albertina, como
-era chamada, confirmou o seu lutheranismo, que durante a
-vida do duque Jorge se havia propagado clandestinamente, e
-que se havia tornado a religião reconhecida do paiz quando o
-duque Henrique, pae de Mauricio, succedeu a seu irmão. Todas
-estas coisas faziam com que os principes protestantes não podessem
-prescindir do concurso de Mauricio, apezar do joven
-não lhes inspirar muita confiança. De facto, Mauricio foi o primeiro
-de aquelles principes allemães protestantes para quem a
-Reforma era simplesmente uma arma politica de que lançassem
-mão quando lhes fosse vantajosa. Mais tarde, durante a guerra
-dos Trinta Annos, o seu numero augmentou consideravelmente,
-graças ás interminaveis disputas dos theologos, que, interessados
-apenas em que as suas insignificantes doutrinas ácerca da
-<i>ubiquidade</i> e da <i>presença real</i> fossem correctamente definidas,
-se mostravam quasi indifferentes perante a grande quantidade
-de sangue derramado e o grande numero de lares desgraçados.
-Nos primeiros tempos da Reforma, porém, os principes protestantes
-eram homens sinceramente christãos e que não obedeciam
-a fins interesseiros, não obstante a sua forçada camaradagem
-com Mauricio.</p>
-
-<p>O imperador quiz aproveitar a opportunidade, e com esse
-intuito fez algumas propostas a Mauricio. Este começou por
-abandonar a liga. Era um bom protestante, disse elle, e estava
-prompto a defender a religião, mas não queria ajuntar-se com
-aquelles que se oppunham ao seu soberano. O imperador, cobrando
-animo com esta declaração, deu os ultimos toques aos seus preparativos.<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span>
-Antes, porém, de entrar em acção, proclamou que a
-sua idéa não era combater a religião, mas, sim, castigar aquelles
-que conspiravam contra a integridade do imperio.</p>
-
-<p>Não vamos agora narrar pormenorisadamente o que teve
-logar em seguida. Devido á traição de Mauricio, á hesitação dos
-outros, e á falta de mutua confiança entre os caudilhos da
-liga, o imperador alcançou uma facil e, apparentemente, decisiva
-victoria. A batalha de Mühlberg teve logar a 24 de abril de 1547,
-e João Frederico, eleitor da Saxonia, ficou ferido e foi feito prisioneiro,
-não tardando que Filippe de Hesse caisse egualmente
-em poder dos inimigos.</p>
-
-<p>Toda a Allemanha se prostrou deante do imperador, que declarou
-logo a sua intenção de restabelecer a unidade religiosa.
-Ia redigir um documento denominado o <i>Interim de Augsburgo</i>,
-especie de confissão de fé que os allemães seriam obrigados
-a acceitar. Eram por meio d’elle reintegrados a hierarquia
-e o culto catholicos romanos, com todas as suas festividades,
-jejuns e ceremonias, sendo apenas tolerado o casamento dos
-clerigos e a faculdade do povo commungar nas duas especies.</p>
-
-<p>O Interim era, por assim dizer, um plano de reformação, e
-estava n’elle incluido, segundo a opinião de Carlos, tudo quanto
-se devia conceder aos protestantes. Em parte alguma o acceitaram
-de boa vontade. O imperador não o remetteu aos districtos
-catholicos romanos, e em todos os protestantes encontrou
-uma resistencia passiva. O proprio Mauricio hesitou em o proclamar
-na Saxonia, publicando, em logar d’elle, o <i>Interim de
-Leipzig</i>, que tendia a uma conciliação das ceremonias papistas
-com as doutrinas protestantes.</p>
-
-<p>Em breve se tornou evidente que o codigo religioso do imperador
-só encontrava submissão da parte do povo nos pontos
-onde a presença das tropas hespanholas obrigava a essa submissão.
-O imperador havia triumphado, o seu exercito saira victorioso,
-parecia ter adquirido um dominio na Allemanha como
-não succedera a nenhum outro soberano durante muitos seculos,
-e, comtudo, lá no seu intimo, sentia-se derrotado, pois não
-conseguira o fim principal que tinha em vista. A invisivel força
-da consciencia, esse adversario com que elle não contara, estava
-erguida contra elle, e havia de, por fim, inutilisar todos os seus
-bem elaborados planos politicos.</p>
-
-<p class="tb"><b>O imperador e o Concilio Geral.</b>—Emquanto o imperador estivera
-formando e pondo em pratica os seus projectos para a
-conquista da Allemanha protestante, a côrte pontificia vira-se
-forçada a convocar um Concilio Geral. Este concilio reuniu-se
-em Trent, no Tyrol, e, emquanto o imperador andou mettido na
-tarefa de subjugar os protestantes, esteve tomando deliberações
-relativas á Egreja.</p>
-
-<p>Nos primeiros periodos da controversia a que a Reforma<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span>
-deu origem, os reformadores appellavam constantemente para
-um concilio livre, e os concilios foram sempre os instrumentos
-favoritos do imperador para a liquidação das contendas. Os
-papas, porém, procuravam, antes, evital-os. No seculo quinze,
-os concilios geraes de Basiléa, Pisa e Constancia foram os meios
-de que os ecclesiasticos e principes se serviram para investir
-contra o poder da côrte de Roma. Um concilio geral era um
-ponto de reunião para todos aquelles que eram adversos ao
-christianismo papal; e a um politico como Carlos <span class="smcapuc">V</span> affigurava-se
-ser um excellente meio de engrandecer o imperador e humilhar
-o papa. Anteriormente á Reforma, os concilios geraes eram
-olhados com muito respeito. Cria-se que o Espirito Santo fallava
-mediante esses concilios, e muitos theologos medievaes, que
-negavam a infallibilidade do papa, sustentavam que um concilio
-não era susceptivel de errar.</p>
-
-<p>Nos primeiros seculos da Egreja christã, um concilio geral,
-ou ecumenico, significava simplesmente uma assembléa que se
-podia com justiça dizer que representava a Egreja no seu conjuncto,
-de modo que as suas decisões podiam ser chamadas as
-opiniões de todos os christãos. N’esses remotos tempos os
-bispos eram eleitos pelo clero e pelo povo, e eram, portanto,
-representantes das regiões de onde tinham vindo, e assim um
-concilio em que todos os bispos christãos estivessem presentes
-achava-se realmente no caso de fallar em nome de todo o povo
-christão. Mesmo nas epocas mais puras da egreja primitiva,
-concilio algum se realisou a que concorressem todos os bispos,
-e que fosse, por conseguinte, realmente ecumenico e representativo
-de todos os christãos. No decurso da Edade Media a
-Egreja perdeu inteiramente o seu antigo caracter popular, ou
-democratico, e os bispos não podiam ser chamados, n’um sentido
-rigoroso, os representantes do povo; eram, muitas vezes,
-apenas os delegados do papa, e iam aos concilios para votar o
-que elle houvesse dictado.</p>
-
-<p>Estas e outras considerações tinham feito com que os protestantes
-respeitassem menos os concilios, e mostraram ao imperador
-que um concilio, para ser util, devia estar quanto possivel
-fóra da influencia do papa. Os allemães tinham pedido que
-se convocasse um concilio livre na Allemanha, e o imperador
-tinha tambem ultimamente pedido o mesmo; o papa, por outro
-lado, queria que o concilio se realisasse em Italia, onde elle poderia
-mais facilmente ter mão nas suas deliberações e decisões.
-Depois de muitas negociações entre o papa e o imperador, resolveu-se
-afinal que o concilio se reunisse, não em Italia, onde
-o papa poderia ter demasiado poder sobre elle, nem na Allemanha,
-onde o imperador e os principes poderiam impôr a sua auctoridade,
-mas em Trent, no Tyrol, n’um ponto equidistante
-da Allemanha e da Italia.</p>
-
-<p>O imperador esperava grandes coisas d’este concilio. Sabia<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span>
-que havia na egreja romana muitos homens competentes que se
-tinham preparado para grandes reformas, que ao proprio papa,
-Paulo III, não eram indifferentes; não tinha, porém, contado com
-a influencia de uma nova e poderosa organisação que estava
-destinada a alcançar a sua primeira e grande victoria n’esse
-mesmo concilio para cuja convocação elle havia trabalhado.</p>
-
-<p class="tb"><b>Loyola e os jesuitas.</b>—Ignacio Loyola, joven fidalgo hespanhol,
-educado no meio da cavallaria de Hespanha, onde as prolongadas
-guerras com os moiros tinham tornado a dedicação ao
-papado um grande elemento de patriotismo, ficou com uma perna
-esmigalhada no cerco de Pamplona. Duas dolorosas operações
-tinham-n’o convencido, por fim, de que a sua carreira militar
-tinha findado, e os seus pensamentos voltaram-se na direcção
-de um novo mister. Votou que havia de ser um soldado da
-Egreja.</p>
-
-<p>Nos accessos da febre produzidos pelo ferimento, tinha
-phantasticas visões da Virgem; e, ao restabelecer-se, dedicou
-a sua vida, com todo o ceremonial da cavallaria da Edade Media,
-a Deus, á Virgem e á Egreja. Elle vivia alheiado da moderna
-erudição. Não sabia nada de theologia. A sua religião era
-medieval, e o seu sonho era ser, no seculo dezeseis, um novo
-Francisco de Assis.</p>
-
-<p>É singular que este enthusiastico fidalgo hespanhol fosse
-excitado pela mesma idéa que ditou a fria politica de Carlos V.
-Ambos queriam renovar seculos que tinham desapparecido
-para sempre; e, emquanto um estava planeando a restauração
-do Imperio do primeiro periodo da Edade Media, o outro estava
-regalando a mente com uma nova ordem de frades, cujos feitos
-missionarios haviam de rivalisar com os dos antigos franciscanos.
-O imperador foi mal recebido; o solitario fidalgo teve um
-exito que excedeu quasi os seus sonhos. Apoz alguns annos de
-estudo, de decepções, de demoras, obteve permissão do papa
-para fundar a Companhia de Jesus.</p>
-
-<p>A nova ordem tinha apenas cinco annos de existencia
-quando teve logar, em 1545, o concilio de Trento, mas já se havia
-tornado famosa. Os seus sucessos como sociedade missionaria,
-a sua devoção por Francisco Xavier, e o enthusiasmo de seus
-membros, tudo contribuiu para a tornar formidavel. Lainez, um
-dos primeiros discipulos de Loyola, e seu successor como cabeça
-da companhia, cujo criterio deu á ordem o caracter que
-lhe estava destinado, representou os seus companheiros no concilio
-de Trento.</p>
-
-<p>A maxima da Sociedade era uma inexoravel suppressão da
-heresia, e o seu unico principio era a obediencia á Ordem e ao
-papa; e, n’essa conformidade, Lainez tratou activamente de
-evitar que o concilio fizesse quaesquer concessões aos protestantes.
-O seu modo de discursar, a sua subtileza e a sua tenacidade<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>
-deram-lhe grande influencia. Poude logo ao principio
-levar de vencida os cardeaes Contarini e Pole, esses grandes
-catholicos romanos liberaes, e conseguir que o concilio não
-auctorizasse reformas doutrinaes.</p>
-
-<p>As victorias de Carlos na Allemanha ajudaram os jesuitas.
-O papa não podia jámais pensar ou obrar simplesmente como
-chefe da Egreja. Elle era uma potencia politica, e as razões de
-estado influiram nas suas acções. N’esta conjunctura, os interesses
-do principe italiano oppunham-se á existencia de uma
-christandade una. O rei de França, Henrique II, chamou a attenção
-para o facto de Carlos se tornar poderoso em demasia e de
-ser provavel que assim continuasse se as concessões religiosas
-estabelecessem a união na Allemanha. Quando Carlos venceu
-a Liga protestante, e procurou obter de Roma concessões que
-satisfizessem os subditos que havia submettido ao seu dominio,
-o papa recusou auxilial-o, afastou de Trento o concilio, e installou-o
-em Bolonha, na Italia, de modo que os planos do imperador
-foram novamente contrariados pelo cabeça da egreja que elle
-se empenhava por conservar catholica. Na sua ira, virou-se para
-o papa e compelliu-o a dissolver o concilio. Este dispersou para
-só se tornar a reunir quando toda e qualquer esperança de
-reconciliar os protestantes tinha desapparecido, e d’esta vez
-poude, sem a peia do protestantismo, consolidar a organização
-externa de um dominio exclusivamente papal.</p>
-
-<p>O imperador não foi mais bem succedido na Allemanha. As
-crueldades de que os principes que tinha feito prisioneiros foram
-victimas, a infidelidade de que deu prova na perseguição dos
-protestantes, a despeito de tudo quanto tinha feito proclamar, e
-as extorsões commettidas pelas tropas hespanholas—tudo isto
-contribuiu para tornar a Allemanha hostil, e não faltavam indicios
-de que o paiz não supportaria por muito tempo a tyrannia
-de Carlos. E a revolta teria rebentado mais cedo, se Mauricio,
-o traidor, não fosse tão odiado, ou se tivessem confiança
-n’elle.</p>
-
-<p>O imperador parecia não ter olhos para ver o que se estava
-passando. Estava convencido de que Mauricio, a quem havia
-nomeado eleitor, estava nas suas mãos, e de que sem elle, Mauricio,
-a Allemanha não podia fazer coisa alguma. Entretanto,
-os principes procuravam reunir-se de novo. Offereceram á
-França uma parte do territorio allemão em troca do seu auxilio,
-e por fim organisou-se uma confederação, em que entrava
-Mauricio, e os principes trataram de guarnecer as fronteiras do
-Tyrol, para que estas não fossem transpostas pelas tropas imperiaes.
-Mauricio avançou impetuosamente e tomou de assalto
-a fortaleza de Ehrenherg, que era a chave do Tyrol; e o imperador
-para escapar teve de recorrer a uma fuga subita, e achou-se
-em Steiermark, sem exercito, e expulso da Allemanha. Foi a
-um tumulto que se levantou entre as tropas confederadas que<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span>
-elle deveu não ser apanhado, pois que Mauricio fez todo o possivel
-por agarrar «a velha raposa no covil», segundo a phrase
-d’elle.</p>
-
-<p class="tb"><b>A paz religiosa de Augsburgo.</b>—Carlos V nunca se resarciu
-d’este desastre. A Reforma tinha-o, por fim, vencido, e elle reconhecia
-esse facto, sem, comtudo, o comprehender. Elle não
-quiz entrar directamente em negociações com os principes victoriosos,
-encarregando d’isso o seu irmão Fernando. Filippe de
-Hesse e João Frederico da Saxonia foram postos em liberdade.
-Filippe reentrou na posse dos seus dominios; a João foram tambem
-restituidas algumas das suas propriedades, mas Mauricio
-continuou no logar de eleitor. Os preliminares de uma paz permanente
-foram vasados nos velhos moldes de Nürnberg, pelo
-tratado de Passau, em 1552.</p>
-
-<p>Por fim, apoz longas negociações, saiu da Dieta de Augsburgo,
-em 1555, uma paz religiosa, «a qual» dizia o decreto, «tem de
-ser permanente, absoluta, e incondicional, e tem de durar para
-sempre». Foi reconhecido aquelle principio que se estabeleceu
-em 1526, isto é, que a suprema auctoridade civil de cada estado
-tinha liberdade para escolher o respectivo credo, lutherano ou
-catholico romano. Esta paz, por conseguinte, reconhecia o direito
-das egrejas com separadas crenças existirem ao lado
-umas das outras na Allemanha, tornando assim legal a existencia
-da Reforma.</p>
-
-<p>O principio a que obedecia este regulamento, <i>cujus regio
-ejus religio</i>, acarretava difficuldades que não podem ser aqui descriptas,
-e foi, na verdade, uma das causas da guerra dos Trinta
-Annos, que tão calamitosa foi para a Allemanha. Não concedia
-liberdade de consciencia; não fazia provisão para qualquer outra
-fórma de protestantismo além da lutherana; e todos aquelles
-que não tinham adherido á confissão de Augsburgo estavam
-ainda fóra da lei, juridicamente fallando.</p>
-
-<p>Aquelles que fizeram uso d’ella na Dieta tinham de modifical-a
-de um ou de outro modo. Os protestantes viram que ella
-auctorizava os principes catholicos romanos a perseguirem os
-subditos que o não fossem; e os catholicos viram que ella permittia
-aos principes ecclesiasticos secularizarem os seus estados.
-Assim os protestantes obtiveram a inserção de uma clausula
-que declarava que os subditos protestantes de principes
-ecclesiasticos, que de ha muito tivessem adoptado a confissão
-de Augsburgo, não seriam obrigados a abandonar as suas idéas
-religiosas; e os catholicos obtiveram a inserção do que se ficou
-chamando «a reserva ecclesiastica», que preceituava que, se
-algum estado catholico romano se separasse de Roma, fosse
-destituido de todas as prerogativas que as suas dioceses disfructavam.</p>
-
-<p>Com a paz de Augsburgo terminaram as luctas para o<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span>
-reconhecimento da Reforma lutherana. A egreja protestante da
-Allemanha, que adheriu á confissão de Augsburgo, tinha ainda
-que sustentar um grande combate para se defender da contrareforma
-catholica romana, das intrigas jesuiticas, e da força das
-armas durante a guerra dos Trinta Annos. Conservou a sua
-integridade, mas foi só o que fez. A paz de Augsburgo foi a
-maré cheia da egreja lutherana.</p>
-
-<p>Na lucta que teve logar depois, foi a mais moderna e mais
-perseverante fórma do protestantismo que arrostou com os impetos
-do ataque, e que se tornou digna de receber os despojos
-da conquista. O lutheranismo reteve a sua integridade, consolidou
-as suas organizações ecclesiasticas, e aperfeiçoou a sua
-theologia; mas, como vigoroso movimento reformador, a sua
-historia terminou com a paz de Augsburgo.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p>
-
-<h3 id="I_CAPITULO_II">CAPITULO II<br />
-<span class="smaller">A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>O lutheranismo fóra da Allemanha, <a href="#Page_49">pag. 49</a>.—Na Dinamarca, <a href="#Page_50">pag. 50</a>.—Na
-Suecia, <a href="#Page_51">pag. 51</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>O lutheranismo fóra da Allemanha.</b>—Durante os primeiros
-annos da Reforma, a influencia de Luthero transpoz os limites
-da Allemanha. A Universidade de Wittenberg attrahiu muitos
-estudantes estrangeiros, os quaes, voltando para as suas terras,
-propagaram, clandestina ou abertamente, as novas doutrinas.</p>
-
-<p>Aconteceu d’esse modo que os preliminares da Reforma
-n’esses paizes, que depois se separaram de Roma e formaram
-egrejas protestantes nacionaes, foram quasi inteiramente lutheranos.
-Os primeiros reformadores e martyres dos Paizes Baixos
-eram lutheranos, e os dogmas doutrinaes e ecclesiasticos de
-Luthero foram durante muito tempo acatados na Hollanda.</p>
-
-<p>Os movimentos reformadores na Hungria, na Polonia, na
-Bohemia e na Escocia foram iniciados por homens que se apresentavam
-como discipulos de Luthero, e mesmo na Inglaterra
-os principios lutheranos progrediram algum tanto. Em todos
-esses paizes, porém, foi ganhando, por fim, terreno um outro
-typo de doutrina protestante, o Calvinismo, e a Reforma lutherana
-eclipsou-se.</p>
-
-<p>Unicamente dois paizes, a Dinamarca e a Suecia, com as
-suas dependencias, adoptaram de um modo permanente a confissão
-de Augsburgo e os principios lutheranos do governo da
-egreja.</p>
-
-<p>A Reforma estava n’estes paizes, mais do que em qualquer
-outra parte, identificada com a revolução politica, e foi executada
-por governantes que se haviam compenetrado de que não
-era possivel melhorar o estado das coisas emquanto não fosse
-abatido o poder de que o clero romano dispunha. A historia da
-Reforma n’esses paizes é a historia de uma revolução, e a moderna
-vida politica da Dinamarca e da Suecia principia com a
-reforma das suas egrejas.</p>
-
-<p>No principio do seculo dezeseis, a Dinamarca, a Suecia e<span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span>
-a Noruega estavam sob a soberania de um rei que tinha a sua
-residencia no primeiro d’estes paizes, e que tinha sobre os outros
-dois um poder apenas nominal. Estes paizes estavam quasi
-n’um estado de anarquia. Duas grandes aristocracias, a da nobreza
-e a da egreja, dividiam entre si a riqueza e o poderio,
-sendo cada um dos barões e cada um dos bispos um verdadeiro
-despota para com aquelles que estavam debaixo da sua auctoridade.
-A união das tres nações, effectuada no fim do seculo
-quatorze, era puramente dynastica, e vista com muito maus
-olhos pelo povo.</p>
-
-<p>Em 1513 subiu ao throno Christiano <span class="smcapuc">II</span>, cruel, voluvel e
-nescio monarca, que grangeara em ambos os paizes a antipathia
-de todas as classes. Um massacre de fidalgos suecos, que
-teve logar em Stockolmo, em circumstancias as mais revoltantes,
-exgotou a paciencia do povo, e a Dinamarca e a Suecia levantaram-se
-contra o tyranno. A revolução foi bem succedida;
-Christianno II foi derrubado do throno, e as duas nações ficaram
-de ahi em deante independentes uma da outra.</p>
-
-<p class="tb"><b>Na Dinamarca.</b>—Os dinamarquezes offereceram a corôa a
-Frederico I, duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente
-lutherano, e chefe d’um estado que já tinha acceite a Reforma.
-Acceitou-a, e por occasião da sua coroação o clero obrigou-o a
-declarar por escripto que não introduziria á força a religião reformada,
-nem atacaria a egreja de Roma, nos seus novos dominios.
-Frederico cumpriu essa obrigação segundo a letra, mas
-não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu prégadores
-e evangelistas lutheranos, e em particular a João
-Jansen, frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg;
-e a nova fé fez taes progressos que dentro em pouco quasi todos
-os nobres da Jütlandia a tinham abraçado, e nas ilhas o
-numero de adeptos era consideravel. Em fins de 1527 reuniu-se
-em Odensee uma Dieta, expressamente para ser tratada a questão
-religiosa, e ficou assente a tolerancia do lutheranismo. Durante
-os annos que immediatamente se seguiram, as novas doutrinas
-espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos
-romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do
-fallecimento de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e
-a auctoridade dos bispos foi desapparecendo a pouco e pouco,
-até se extinguir de todo. Os nobres haviam cooperado com o rei
-na sua obra de demolir a aristocracia ecclesiastica, e as terras
-que eram da egreja ficaram, na sua maioria, pertencendo ao rei.</p>
-
-<p>A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante.
-O seu credo é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos
-nunca adoptaram, na Dinamarca, a formula da concordata;
-o seu catecismo é o de Luthero; e sua fórma de governo de
-egreja, posto que admitta um episcopado, é consistorial. A constituição
-vem exposta no <i>Ordinatio ecclesiastica regnorum Danicæ<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span>
-et Norwegeæ</i>, de Bugenhagen. O rei possuia o <i>jus episcopale</i>, e
-era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os patronos;
-e a Egreja era governada por sete superintendentes com
-o titulo de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o
-catholicismo romano no seculo dezessete, a chamada guerra dos
-Trinta Annos, a Dinamarca enviou aos protestantes da Allemanha
-todo o auxilio de que o paiz podia dispôr.</p>
-
-<p class="tb"><b>Na Suecia.</b>—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo
-Vasa, joven fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes
-n’aquella carnificina, organisou a rebellião contra Christianno
-II, e trabalhou muito para que ella tivesse bom exito. Em
-1521 foi declarado regente do reino, e em 1523 foi, pela voz do
-povo, chamado ao throno. Achou-se em presença de difficuldades
-quasi invenciveis. Não tinha havido, praticamente, um governo
-estabelecido na Suecia durante mais de um seculo, e cada
-dono de terras era quasi um soberano independente. Dois terços
-das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia
-quasi inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda
-a parte opprimidos; o commercio estava nas mãos da Dinamarca
-ou da Liga Hanseatica; e não havia classe media. Os nobres
-e os ecclesiasticos exigiam isenção de contribuições, e os
-camponezes não podiam supportar novos encargos.</p>
-
-<p>N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para
-as terras da egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica
-com o auxilio da Reforma lutherana.</p>
-
-<p>Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um
-homem religioso, perfeitamente compenetrado da verdade e do
-poder das doutrinas evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma
-obedecia tambem a outros motivos. Precisava de dinheiro para
-as despezas publicas, queria proporcionar aos camponezes uma
-situação mais desafogada, e ambicionava, acima de tudo, demolir
-a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se arrogava direitos
-que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder cautelosamente.
-A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas,
-nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que
-o rei estava atacando os direitos da propriedade, e que lhes
-chegaria a vez a elles, se consentissem que os bens da egreja
-fossem arrebatados; e, quanto á aristocracia ecclesiastica,
-essa dispunha de muita força.</p>
-
-<p>É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz
-á frente do movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia
-da Dinamarca, essa tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu
-o apoio dos bispos suecos. Elle era um homem excommungado,
-um homem a quem a egreja havia proscripto. Essa circumstancia
-pôl-o em contacto com os prégadores lutheranos, que já
-andavam pela Suecia.</p>
-
-<p>Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span>
-em Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado
-contra um certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado
-no seu paiz, foram perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck,
-onde Gustavo travou conhecimento com elles. Elles e um
-outro lutherano sueco, Lourenço Andersen, arcediago de
-Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei, e começaram
-a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações,
-contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf
-Petersen, sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando
-o Evangelho puro, «que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara
-na Suecia setecentos annos antes.».</p>
-
-<p>Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta
-o reformador desafiou-os para uma polemica, que elles não
-acceitaram. O resultado d’isso foi uma rapida propagação das
-doutrinas evangelicas. Gustavo poz Olaf Petersen como prégador
-em Stockholmo, Lourenço Petersen foi leccionar para Upsala,
-e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do reino. Promoveram-se
-polemicas publicas, segundo o costume allemão, em
-diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o
-dr. Galle de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da
-justificação pela fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio,
-do celibato e do poder temporal do papa, o que foi assaz vantajoso
-para a causa da Reforma.</p>
-
-<p>Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento
-em sueco, e o povo, em cujas mãos o livro foi entregue,
-poude então comparar o ensino dos prégadores e dos bispos com
-o da palavra de Deus.</p>
-
-<p>A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se
-sentir de uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas,
-por duas Dietas, pesadas contribuições sobre as propriedades
-da Egreja. O partido ecclesiastico, com os bispos á frente,
-promoveu uma revolta, que foi suffocada, e Gustavo conheceu
-que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus planos.
-Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e
-propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada
-ao pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em
-deante as receitas em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram
-este alvitre; os clerigos declararam que só á força cederiam.
-Vendo isto, Gustavo, apoz um eloquente discurso, abdicou.
-Os diversos estados pozeram-se então em contenda uns
-com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns dias, assentiu-se
-na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei e
-publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio
-da historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras
-coisas, que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e
-cidadellas dos bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos;
-e ficou egualmente reconhecida a existencia legal da
-egreja lutherana.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p>
-
-<p>D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu
-rapidamente, e dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião
-official do paiz. Os bens da Egreja foram confiscados para
-o Estado, deixando-se, porém, ficar o sufficiente para a sustentação
-do culto. Conservou-se a fórma de governo episcopal, mas
-ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do rei, como na
-egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes
-papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das
-velas, mas tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen
-foi o primeiro arcebispo protestante de Upsala, cargo
-que começou a exercer em 1531. Dez annos depois, isto é, em
-1541, ficou completa uma nova traducção da Biblia, feita pelos
-irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz estava
-inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição
-ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em
-1664, a Formula da Concordata.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p>
-
-<h2 id="II_PARTE">II PARTE<br />
-<span class="smaller">A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS</span></h2>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Capitulos</span>:</p>
-
-<table summary="Capitulos">
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_I">I</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Reforma Suissa sob Zwinglio</span>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_II">II</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Reforma em Genebra, sob Calvino</span>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_III">III</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Reforma em França</span>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_IV">IV</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Reforma nos Paizes Baixos</span>.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#II_CAPITULO_V">V</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Reforma na Escocia</span>.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p>
-
-<h3 id="II_CAPITULO_I">CAPITULO I<br />
-<span class="smaller">A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>As reformas suissa e allemã, <a href="#Page_57">pag. 57</a>.—A situação politica da Suissa, <a href="#Page_58">pag. 58</a>.—Ulrico
-Zwinglio, <a href="#Page_60">pag. 60</a>.—As theses de Zwinglio, <a href="#Page_62">pag. 62</a>.—A Reforma
-em Zurich, <a href="#Page_63">pag. 63</a>.—Basiléa, <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Berne, <a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Os Cantões Florestaes,
-<a href="#Page_64">pag. 64</a>.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, <a href="#Page_65">pag. 65</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>As reformas suissa e allemã.</b>—A Reforma na Allemanha tem
-geralmente chamado mais a attenção do que a revolta contra
-Roma na Suissa. O conflicto com o imperador, que ella provocou,
-o seu rapido alastramento, o numero de estados e reinos que
-adheriram a ella, a parte que as universidades, onde estavam
-matriculados muitos estudantes estrangeiros, tomaram no movimento,
-tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha
-adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa;
-mas, se devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias
-do que pelos seus principios, o movimento começado
-na Suissa foi ainda mais importante do que o que teve Wittenberg
-por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se reconhecendo
-que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes dizia
-respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja,
-podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de
-ahi veiu que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e
-uma grande parte das da Allemanha receberam melhor as tradições
-de Zwinglio e de Calvino do que as de Luthero e de
-Melanchthon.</p>
-
-<p>Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos
-da Reforma no sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se
-ás tradições, tanto doutrinaes como de qualquer outro
-genero, da egreja medieval, mesmo em assumptos que para algumas
-pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob o ponto
-de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se
-devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que
-se referem aos pequenos casos como aos de muita importancia.
-Nem Zwinglio nem Calvino queriam adoptar a doutrina da <i>presença<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span>
-real</i> pela razão de a egreja medieval a ter adoptado, e não
-experimentaram aquella dificuldade que Luthero teve sempre
-em fazer uma coisa de um modo differente de aquella em que
-os seus antepassados a faziam.</p>
-
-<p>É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que
-tivesse a mesma força, e que essa razão se deva procurar nas
-idéas politicas e na educação do povo suisso. Na egreja medieval
-os direitos dos christãos tinham desaparecido inteiramente.
-Quando alguem fallava em egreja, referia-se ao papa, aos bispos,
-aos abbades, aos frades, ás freiras e aos padres; não se referia
-á grande corporação dos christãos piedosos, que constituiam,
-realmente, a egreja de Deus.</p>
-
-<p>Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores
-soubessem perfeitamente que a verdadeira egreja visivel
-era constituida pelo povo piedoso que professava a fé em
-Jesus Christo, não tinham podido dar uma expressão pratica a
-esse sentimento, e o systema consistorial dos lutheranos collocava
-os principes e as outras auctoridades civis no logar que
-os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer
-que o povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar
-a essa egreja uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por
-si propria, como os christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos
-tinham feito. Pode-se quasi dizer que não trataram
-de incutir na vida da egreja reformada as maximas de auto-governo
-que inspiraram a communidade christã do Novo Testamento.
-Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser
-dirigida de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.</p>
-
-<p>Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente
-que a egreja e o povo christão eram uma e a mesma coisa, e os
-projectos de auto-governo, que, se não foram sempre bem succedidos,
-eram, pelo menos, feitos com boa intenção, faziam parte
-da Reforma proposta. Isto proveiu, indubitavelmente, de um
-cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a vida popular dos
-suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o sentido
-do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar
-pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da
-livre e democratica vida suissa estava mais no caso de comprehender
-a democracia espiritual do christianismo do Novo Testamento
-do que aquella que principiou nas universidades e nas
-côrtes dos principes allemães.</p>
-
-<p class="tb"><b>A situação politica da Suissa.</b>—A Suissa era, n’aquelle tempo,
-um paiz como não havia outro na Europa. Estava tão dividido
-como a Italia ou a Allemanha, e, comtudo, apresentava uma
-união que ellas não apresentavam. Era uma confederação de estados,
-ou cantões, cada um dos quaes era independente de
-aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles uma
-perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes,<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span>
-ou, antes, «uma pequena republica de communas e
-cidades do primitivo typo teutonico, em que o poder civil era
-exercido pela communidade», cada uma d’ellas com um systema
-governativo differente.</p>
-
-<p>Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios
-no principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten,
-onde 1.300 suissos derrotaram 10.000 austriacos, teve
-logar em 1315. Cerca de dois seculos mais tarde, os cantões
-florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a que pouco
-depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos
-livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca
-ao centro, e tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos
-por um.»</p>
-
-<p>Os cantões florestaes eram communas independentes, e os
-seus habitantes, todos elles proprietarios rusticos, residiam em
-valles quasi inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que
-se havia formado em redor de uma colonia ecclesiastica; Berne
-a um antigo logarejo que se aninhava junto á base de um castello
-senhorial; e assim por deante. Os cantões florestaes tinham
-um governo simples, patriarcal; em Zurich os nobres tinham a
-mesma consideração que os commerciantes e artistas, e a constituição
-era perfeitamente democratica; Berne era uma republica
-aristocratica; e assim successivamente; mas em todas
-ellas o governo estava nas mãos do povo, e todos os homens
-eram livres.</p>
-
-<p>Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve,
-durante umas poucas de gerações, nada que se parecesse com
-uma administração episcopal. As suas communicações com o
-pontificado eram effectuadas por meio de delegados, ou emissarios,
-e obedeciam apenas a motivos politicos. O territorio estava
-sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de Besançon;
-mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum
-exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões
-suissos, e d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir
-reformas na egreja.</p>
-
-<p>No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e
-a convivencia com os paizes adjacentes foram mudando os velhos
-e simples costumes do povo suisso. Na Edade Media era
-crença geral que a força principal de um exercito estava na sua
-cavallaria; mas as victorias que os suissos alcançaram sobre
-as tropas austriacas e borgonhezas mostraram a superioridade
-de uma boa infanteria, convenientemente adestrada. As tropas
-suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo
-muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos
-quando tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se
-desenvolvido gradualmente o mau habito de alugar os
-seus soldados a quem maior somma de dinheiro offerecesse.
-Era costume, quando um regimento suisso partia para a guerra<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span>
-por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo, na
-qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento
-pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que
-este serviço mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam
-todo o possivel, no seu regresso á patria, para que esta perniciosa
-pratica fosse abolida.</p>
-
-<p class="tb"><b>Ulrico Zwinglio.</b>—Um dos mais famosos d’estes patriotas
-foi Ulrico Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu
-a ser o Reformador da Suissa.</p>
-
-<p>Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no
-Toggenburgo, pequena região montanhosa, cuja altitude era tal
-que não produzia arvores de fructo, sendo tambem impossivel
-cortal-a de estradas. O pae d’elle era o chefe, ou magistrado, da
-communa, e um dos seus tios era o deão de Wesen.</p>
-
-<p>O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como,
-em vista da sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar
-ao filho uma boa educação, mandou-o estudar em Basiléa
-e em Berne, de onde passou para a grande universidade de
-Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os estudos classicos,
-enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que a Italia
-estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho
-em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para
-Basiléa, e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de
-aquelles theologos liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias,
-sobre o fundamento de que Christo resgatou, com
-a Sua morte, os peccados de todos os homens.</p>
-
-<p>Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse,
-muitos annos depois: «Devemos ter consideração por Martinho
-Luthero; mas o que é certo é que aquillo que temos em commum
-com elle já o conheciamos muito antes de ouvir fallar no
-seu nome».</p>
-
-<p>Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em
-seguida foi nomeado cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu
-ahi dez annos, lendo e estudando os auctores classicos latinos,
-e em especial Cicero, Seneca e Horacio; começou tambem a
-aprender grego com muito afan, e a esse respeito escreveu a
-um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de Deus é
-que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir
-fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas
-Sagradas.» Os seus livros favoritos do Novo Testamento
-eram, diz-se, as Epistolas de S. Paulo. Copiou-as com as suas
-proprias mãos de mais de um manuscripto, e sabia-as, por fim,
-de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a declarar que o
-unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar ouvidos
-á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado
-havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o
-seu modo de pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span>
-dedicado filho da egreja medieval, torturando-se com jejuns e
-flagellações.</p>
-
-<p>Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde
-havia uma abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre
-imagem da Virgem, a que se attribuiam muitos milagres.
-As multidões vinham em peregrinação a esta localidade, e
-Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante a idolatria e
-superstição de aquella gente, e perante o embuste e sacrilegio
-do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou
-a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura
-e o peccado de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos
-seus sermões proferiu o seguinte: «Na hora da vossa morte
-clamae só por Jesus Christo, que vos comprou com o Seu sangue,
-e que é o unico Mediador entre Deus e os homens.» Estas
-suas predicas produziram uma enorme excitação, e, tendo constado
-em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir
-o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja.
-Elle recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação
-que o dito legado lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos
-de Zurich lhe pediu, em 1519, para ir para lá como pastor,
-acceitou muito gostosamente, e não tardou em ter uma grande
-influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.</p>
-
-<p>Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor
-ambulante de indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer
-ao povo o artigo do seu commercio. Zwinglio protestou
-contra o seu procedimento, e conseguiu que as auctoridades o
-pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de conferencias
-sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas
-da graça e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias
-eram feitas na presença de centenares de pessoas, que ouviam
-o Evangelho com agrado.</p>
-
-<p>A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de
-infanteria o papa nas suas guerras com o imperador; a influencia
-de Zwinglio, porém, era tão grande que em 1521 o cantão de
-Zurich recusou alugar os seus soldados, como até ali tinha feito.
-Esta patriotica resistencia a um infame trafico de sangue levantou
-maior opposição do que todos os sermões prégados por
-Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os bispos
-das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias
-para que a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o
-legado do papa tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e
-destruisse todos os livros lutheranos que haviam penetrado no
-paiz, e a Dieta passou ordens n’esse sentido.</p>
-
-<p>A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio,
-posto que obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos
-os curas, pastores e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos
-e as Epistolas em conformidade com o Espirito de Deus e
-com as Sagradas Escripturas do Antigo e Novo Testamento.»<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span>
-Esta intimação deu um impulso ao movimento evangelico, que
-já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado sobre o
-jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo,
-durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela
-egreja. Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o.
-O papa, Adriano <span class="smcapuc">II</span>, queria a todo o transe evitar uma questão
-com os suissos, cujas tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir
-Zwinglio por boas maneiras, nada conseguindo, porém.
-Emquanto os legados percorriam leguas e leguas para lhe transmittirem
-os lisongeiros recados de que eram portadores, escrevia
-Zwinglio o seu <i>Apologeticus</i>, vigoroso ataque ás corrupções
-da egreja.</p>
-
-<p>O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que
-impozessem silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles
-licença para uma discussão publica, e comprometteu-se a provar,
-na presença de todos, que as suas opiniões se fundamentavam
-na Biblia. A junta accedeu, e fixou, para essa discussão,
-o dia 23 de Janeiro de 1523.</p>
-
-<p class="tb"><b>As theses de Zwinglio.</b>—A fim de separar convenientemente
-os assumptos a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta
-theses, inscrevendo por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação
-differia da dos seus accusadores, constituindo o conjuncto
-um bem elaborado resumo de theologia protestante. As
-theses affirmavam, em poucas palavras, o seguinte:—Jesus
-Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto, e é só Elle a
-quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é abraçal-O
-e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para
-intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou
-tirar alguma coisa do Evangelho, não passa, por consequencia,
-de meras pretensões, com que insulta a Jesus Christo, nosso
-unico Summo Sacerdote. Christo morreu na cruz, resgatando,
-de uma vez para sempre, os peccados do Seu povo, e portanto
-a missa, que se assevera continuar, ou repetir, esse sacrificio,
-constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma ceremonia
-commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre
-Deus e o homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria.
-A Escriptura Sagrada não contém uma palavra ácerca do purgatorio,
-e é coisa que não existe. Nada desagrada mais a Deus
-do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que tudo quanto
-assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma
-condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por
-similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação,
-a confissão auricular, a absolvição, o celibato clerical e todas as
-ordenanças exclusivamente ecclesiasticas.</p>
-
-<p>Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica,
-e, na opinião dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente
-os seus antagonistas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p>
-
-<p>Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma
-terceira, em 1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich
-e os seus magistrados se pozeram inteiramente ao lado de
-Zwinglio.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Reforma em Zurich.</b>—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma
-do culto e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se
-que a missa não era tal um sacrificio; que não se devia venerar
-as imagens; que a Ceia do Senhor era uma simples commemoração
-da morte de Christo; que se devia ministrar o calix
-aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito na
-lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida,
-e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão.
-Em 1524, Leão Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir
-o Velho Testamento, e antes de decorridos dez annos tinha a
-Suissa cinco versões da Biblia.</p>
-
-<p>Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo
-todas as suas despezas custeadas com o rendimento de vastas
-propriedades. Os conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos
-seus beneficios. Uma parte do dinheiro foi destinada ao sustento
-dos ministros da cidade, e o resto ficou constituindo um fundo de
-instrucção. Era com este fundo que a assembléa de Zurich, seguindo
-o conselho de Zwinglio, pagava ao professorado das escolas.
-Foi tambem resolvido que se solicitasse em todos os conventos,
-tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens em
-beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos
-assim se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia
-emquanto vivessem.</p>
-
-<p>A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda,
-do norte da Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas.
-Os discipulos de Thomaz Münzer não tardaram em causar perturbações.
-Conseguiram, com a sua prégação, agregar a si
-alguns adherentes de entre a população de Zurich. As suas doutrinas
-eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes,
-constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados
-de Deus e não precisavam de leis que não fossem as que
-os seus corações e consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem
-coherentes, queimaram as suas Biblias em publico. Tinham
-idéas singularissimas. Como Christo tivesse dito que os
-Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os enthusiastas
-anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com
-bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente
-absurdas. O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie
-de loucura, de que resultou haver sangue derramado. O conselho
-tolerou durante bastante tempo as suas manias, mas viu-se
-por fim obrigado a mandal-os retirar, proseguindo depois a obra
-da reforma com a mesma tranquillidade como anteriormente.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span></p>
-
-<p>A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes
-como Basiléa, Berne, Schaffhausen e Appenzell.</p>
-
-<p class="tb"><b>Basiléa</b> era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada
-pelos sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general.
-Era tambem o centro da industria do papel, e a maquina de
-impressão de Froben deu-lhe uma grande celebridade. Era muito
-visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande Holbein durante
-o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados
-que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach,
-professor de Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher
-benevolamente as novas doutrinas. Capito, o futuro reformador
-de Strasburgo, Polyhistor, o eminente hebraista e celebre physico,
-Œcolampadius, o sabio de Reuchlin e futuro companheiro
-de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do Delphinado, que
-tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não deixasse
-de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de
-Basiléa.</p>
-
-<p>A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius
-e Farel começaram a prégar contra a superstição.</p>
-
-<p class="tb"><b>Berne</b>, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas,
-fez-se tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em
-pouco a Reforma começou a palpitar no meio dos cidadãos que
-a compunham. O conselho foi instigado a annunciar que na cidade
-só seria prégado o Evangelho puro, e tres prégadores, Kolb,
-Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão para fallarem
-contra a missa e contra as ceremonias papistas.</p>
-
-<p>Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros
-cantões, durante a qual a Reforma foi, ainda que lentamente,
-ganhando sempre terreno, e por fim a Suissa ficou dividida em
-duas partes pela questão religiosa.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os cantões florestaes</b> foram os unicos que se conservaram
-aferrados ás suas antigas tradições, constituindo um centro de
-opposição a toda e qualquer mudança em materia de religião.
-Quando a Reforma começou a mostrar um indiscutivel progresso,
-não só em Zurich como nos outros cantões, e Berne e
-Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se uma tal
-exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados
-protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava,
-em ambos os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava
-a esperança de que tudo se liquidasse rapidamente e
-de uma maneira decisiva. Ao primeiro recontro, porém, não se
-poude dar o nome de batalha, e os cantões florestaes, sem terem<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span>
-combatido, assignaram o Tratado de Cappel em 1529, cuja clausula
-principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé não
-são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos
-ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser
-justo, e tanto nas provincias communs como nos territorios independentes
-as congregações determinarão se a missa e outras
-usanças devem ser conservadas ou abolidas.»</p>
-
-<p>Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum
-dos partidos, e deu logar a novas contendas, que terminaram
-com a vinda subita dos Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo
-exercito derrotaram, ficando Zwinglio morto. Esta victoria não
-deu um grande avanço á causa romanista. O segundo Tratado
-de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o primeiro,
-e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada
-estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião.</p>
-
-<p class="tb"><b>Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.</b>—Com a morte de Zwinglio
-termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle
-morrer, a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de
-Luthero por uma constituição popular na egreja, mostrou claramente
-que na Reforma tinha de haver dois movimentos distinctos,
-que jámais se poderia unificar. Esta falta de união foi
-causa de um grande prejuizo, e as culpas não devem ser atiradas
-para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero. Ambos
-tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos
-principios evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes,
-em comparação de tudo aquillo em que concordavam. O
-feitio caracteristico da Reforma de Zwinglio, porém, torna-se
-muito mais manifesto na sua ultima fórma sob Calvino, e é referindo-nos
-a esse periodo que a vamos comparar com o movimento
-lutherano.</p>
-
-<p>Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma
-fizeram muito pouco no sentido de resolver uma questão que
-em breve tomou na egreja reformada uma importancia capital:
-a maneira como a egreja tinha de ser governada. Para elle era
-um ponto indiscutivel a necessidade de ter sempre presente no
-espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma de homens
-que podessem ser chamados <i>espirituaes</i>, simplesmente
-pelo facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava
-era que todos se compenetrassem do sacerdocio espiritual de
-todos os crentes, ministros ou leigos. Mostrou tambem que era
-dever de todos os magistrados administrar em nome de Christo
-e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e verdadeiras
-idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia
-haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios
-civis da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos
-respectivos ao culto publico, ás doutrinas e á disciplina da<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span>
-egreja foram feitos, no tempo de Zwinglio, pelo Conselho de
-Zurich, que era, n’aquelle estado, o supremo poder civil. Esta
-sua idéa, mesmo durante a vida d’elle, apresentou muitos inconvenientes,
-sendo um dos mais manifestos a ligação que se
-formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente
-politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam
-ter, como o antigo reino de Israel, governos theocraticos.
-Se as idéas de Zwinglio tivessem continuado a prevalecer, não
-é provavel que a Reforma suissa tivesse exercido o poder que
-exerceu para além das fronteiras da republica; posto que, sob
-a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem facilmente a
-um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter applicado
-a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma
-pequena egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia
-contra um governo secular que lhe fosse hostil.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p>
-
-<h3 id="II_CAPITULO_II">CAPITULO II<br />
-<span class="smaller">A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>Genebra perante a Reforma, <a href="#Page_67">pag. 67</a>.—Farel em Genebra, <a href="#Page_68">pag. 68</a>.—A mocidade
-de Calvino, <a href="#Page_69">pag. 69</a>.—<i>Institutos da Religião Christã</i>, <a href="#Page_71">pag. 71</a>.—Calvino
-em Genebra, <a href="#Page_73">pag. 73</a>.—A sua expulsão, <a href="#Page_75">pag. 75</a>.—Genebra não pode passar
-sem elle, <a href="#Page_76">pag. 76</a>.—As <i>Ordenanças ecclesiasticas</i>, <a href="#Page_77">pag. 77</a>.—Em que differem
-dos <i>Institutos</i> <a href="#Page_79">pag. 79</a>.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, <a href="#Page_81">pag.
-81</a>.—A morte de Calvino, <a href="#Page_82">pag. 82</a>.—Succede-lhe Beza, <a href="#Page_83">pag. 83</a>.—A influencia
-de Calvino sobre a theologia da Reforma, <a href="#Page_83">pag. 83</a>.—A <i>Confissão de
-Zurich</i>, <a href="#Page_84">pag. 84</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>Genebra perante a Reforma.</b>—Depois da morte de Zwinglio
-e da segunda Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis
-da Reforma suissa localisaram-se n’uma cidade que estava
-quasi desligada da confederação.</p>
-
-<p>Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e
-os seus bispos tinham, como muitos outros do Imperio Allemão,
-jurisdicção sobre os negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam
-tambem os seus direitos sobre a cidade, e os dois
-partidos, o do bispo e o do duque, andavam quasi constantemente
-em guerra.</p>
-
-<p>Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo
-gradualmente o direito de se governar a si propria, podendo,
-por fim, eleger um conselho constituido pelos seus concidadãos.
-Em 1513 o papa Leão <span class="smcapuc">X</span> poz á testa da diocese um
-bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este modo os dois
-partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no
-principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra,
-duas facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da
-cidade. Um dos partidos trabalhava para que a cidade ficasse
-por completo sob o dominio da casa de Saboya; o outro pretendia
-tornal-a uma republica livre, como os cantões da Suissa, e
-para conseguirem o fim que tinham em vista contrairam uma
-alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com
-os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito
-mal vistos pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span>
-de «mamelukos», ao passo que os do partido republicano eram
-cognominados «Eidgenossen», isto é, confederados. Este ultimo
-nome desperta algum interesse, por ser provavelmente d’elle
-que se originou o nome do grande partido protestante francez,
-os huguenotes.</p>
-
-<p>A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na
-cidade, assim como a devassidão italiana. O partido aristocratico
-tinha-se tornado notorio pela sua má vida. O palacio do
-bispo e o castello do duque de Saboya eram theatro dos mais
-impudentes excessos, e estes maus exemplos tinham corrompido
-muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do seu
-superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento
-das freiras franciscanas, em que se observava uma certa
-pureza de vida. Os republicanos não eram isentos dos vicios
-que deshonravam os seus adversarios; o seu desejo de liberdade
-era muitas vezes um desejo de licença, e o seu enthusiasmo
-republicano tinha em muitos casos uma origem pagã. Eram filhos
-da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse estranho
-movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade
-e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre
-muito boa venda em Genebra.</p>
-
-<p class="tb"><b>Farel em Genebra.</b>—Estavam as coisas n’este pé quando,
-em 1532, veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos
-e impetuosos sermões contra o «anti-christo romano» e a
-idolatria e superstições da egreja romanista, um joven francez,
-Guilherme Farel, que fôra um dos reformadores de Berne. As
-suas predicas produziram um grande alvoroço; os partidarios
-do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu respeito
-opiniões desencontradas.</p>
-
-<p>Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados
-a Berne e a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado
-Farel a Genebra; Freiburgo era romanista, e havia encarregado
-algumas pessoas de instarem com os burguezes para que pozessem
-fóra da cidade o impetuoso orador. Elles pensaram muito
-no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse. Este assim
-fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne,
-que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de
-Berne, para celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou
-para Genebra, e foi nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha
-em grandes multidões ouvil-o prégar, e a Reforma foi avançando.</p>
-
-<p>O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa
-commum contra Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O
-Conselho declarou abolida a diocese, concedeu a Farel plena
-liberdade para prégar, e os seus sermões sobre liberdade civil
-e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em 1535 teve<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span>
-logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que
-Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes,
-como os cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com
-elles os pontos sobre theologia e moral que estavam em debate
-entre a egreja de Roma e os reformadores.</p>
-
-<p>O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia
-conter-se, nem comprehendia que as coisas tinham de ser
-feitas devagar e com a devida legalidade, precipitou-se, depois
-da polemica, para as egrejas, destruiu as reliquias, derrubou as
-imagens, rasgou os paramentos, e commetteu muitos outros
-actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho declarou abolido
-o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos que
-adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma
-cidade inteira, por mandado do conselho municipal, suprema
-auctoridade civil, não poderia, decerto, melhorar o caracter do
-povo. Havia, sem duvida, muita gente sobre quem a prégação
-de Farel produzira bom effeito, mas o Evangelho não pode conquistar
-os corações quando é imposto d’aquella fórma. O estado
-moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e tudo
-indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos
-começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca
-da natureza da liberdade christã. Parecia não haver meio de suster
-o povo. Farel tinha esgotado todos os recursos da sua intelligencia.
-Por fim teve mão n’um moço estudante francez que,
-quasi accidentalmente, se encontrava na cidade, e supplicou-lhe
-que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse. Esse moço estudante
-era João Calvino, e aquella visita casual foi o inicio da
-obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as egrejas
-reformadas da Europa.</p>
-
-<p class="tb"><b>A mocidade de Calvino.</b>—João Calvino, ou Chauvin, nasceu
-em Noyon, na Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto,
-uma creança quando Luthero e Zwinglio começaram a atacar a
-egreja romanista, e pode-se dizer que pertence á segunda geração
-da Reforma. O pae exercia um cargo publico em Noyon,
-e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma senhora muito
-religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As relações
-que o pae mantinha com as familias nobres da região e com
-o bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que
-n’aquelle tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com
-os filhos da nobre familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada,
-desde os primeiros annos, a carreira ecclesiastica.</p>
-
-<p>Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae
-obteve para elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico,
-e mandou-o para a universidade de Paris. Foi primeiro para o
-Collegio de La Marche, onde teve por professor o celebre Mathurino<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span>
-Corderier,<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> e em seguida para o Collegio Montaigu, que
-mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente se celebrizou,
-Ignacio de Loyola.</p>
-
-<p>Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os
-seus condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo»,
-pelo motivo de estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle.
-Quando elle tinha dezoito annos, o pae obteve-lhe outro beneficio,
-e, para receber o respectivo estipendio, teve de sujeitar-se
-á tonsura, sendo esta a unica coisa que elle teve em commum
-com os padres da egreja de Roma. Não chegou a ordenar-se,
-nem fez voto de celibato.</p>
-
-<p>Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu
-que o filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o,
-com esse intuito, estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo
-obedeceu; tornou-se um applicado estudante de direito, posto
-que similhantes estudos não fossem do seu gosto; e, trabalhando
-de dia e de noite, conseguiu cursar com egual exito tanto aquella
-faculdade como a de theologia. Alcançou fama de ser o estudante
-mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que com
-as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira
-juridica.</p>
-
-<p>Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade
-para seguir a vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos
-de direito, voltou, em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente
-á pequena communidade de protestantes que costumavam
-reunir-se n’essa cidade para lerem e estudarem as
-Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz porque deu
-esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia
-muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de
-fallar no que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso.
-Era, a este respeito, muito differente de Luthero. Este
-contava a sua historia com a maxima franqueza, a todos expunha
-as suas duvidas, os seus temores, a sua fé. Cada um tinha
-a sua natureza especial. Só uma vez é que Calvino tirou de cima
-de si o véu com que se cobria. No prefacio ao assombroso <i>Commentario
-ao Livro dos Psalmos</i> diz-nos que Deus o attraiu a Si
-mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso
-quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou<span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span>
-a uma brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos
-ecclesiasticos, e ajuntou-se á pequena communidade
-evangelica de Paris, disposto a partilhar os perigos que ella
-corresse.</p>
-
-<p>Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado
-a publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris
-a toda a pressa, para não ser preso por causa da sua religião.
-Foi para Strasburgo, onde travou conhecimento com o reformador
-Martinho Bucer, e de ahi para Basiléa e varios outros pontos,
-levando uma vida de estudante nomada.</p>
-
-<div class="footnotes">
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos, um nome bem
-conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde se fazia uso dos seus exercicios
-em todas as aulas de latim. Converteu-se á fé reformada mediante o seu
-famoso discipulo, e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as doutrinas
-evangelicas, utilisando para esse fim as phrases que nos seus exercicios
-deviam ser traduzidas em latim. Na edição que publicou pouco depois da sua
-conversão, as referidas phrases eram breves exposições das verdades evangelicas,
-ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições romanistas. Seguiu
-Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88 annos.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>Os Institutos da Religião Christã.</b>—Na primavera de 1536 publicou
-em Basiléa a primeira edição dos seus <i>Institutos da Religião
-Christã</i>. A obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida
-em francez, para uso, como elle proprio disse, dos seus
-compatriotas. A primeira edição era mais pequena, e a todos os
-respeitos inferior, ás edições revistas de 1539 e 1559; mas como
-producção de um rapaz de vinte e seis annos, que era a edade
-que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival.
-Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma»,
-e, mais do que qualquer outro trabalho theologico, influiu
-nas idéas e amoldou o caracter da Reforma Protestante.</p>
-
-<p>Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro
-com um duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de
-theologia para a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma
-facil introducção, e habilitando-os a vencer todos os embaraços».
-Mas tinha tambem em vista justificar o ensino dos reformadores
-e desfazer as calumnias dos seus inimigos, que haviam
-instado com o rei de França para que os perseguisse, e os expulsasse
-de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «<i>A Sua Christianissima
-Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano,
-João Calvino deseja paz e salvação em Christo</i>». E ajuntava: «Exponho-vos
-a minha confissão, para que conheçaes a natureza
-d’essa doutrina que tem provocado uma tão ilimitada raiva a
-esses desvairados que estão agora, por meio do fogo e da espada,
-pondo o vosso reino em desasocego. Pois não tenho receio
-algum de confessar que este tratado contém um summario d’essa
-mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser
-castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada
-da superficie da terra».</p>
-
-<p>Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar
-o que os protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou
-logo á comparação d’essas crenças com o ensino da egreja
-medieval. Luthero fez grande ostentação do Credo dos Apostolos,
-e nunca se cançava de dizer que elle e os seus correligionarios
-acceitavam aquella antiga e venerada summula da fé christã,
-e que, portanto, os protestantes pertenciam á Egreja Catholica<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span>
-de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou por
-ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo
-quando se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos
-á prova do Credo dos Apostolos, os protestantes eram catholicos
-mais genuinos do que os romanistas.</p>
-
-<p>Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a
-publicação dos seus <i>Institutos</i> é necessario lembrar o que era o
-Credo dos Apostolos. Nosso Senhor, antes da Sua ascensão,
-disse aos Seus discipulos que fossem a todas as nações, baptizando-as
-em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo; e assim
-os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica, quando
-recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas
-que fizessem a seguinte profissão de fé: «<i>Creio em Deus Pae, e
-em Seu Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo</i>, sendo esta a
-mais antiga e mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe
-mais estas palavras: <i>e na Santa Egreja Catholica</i>.
-Estas quatro orações eram proferidas por todos os neophytos
-por occasião do baptismo. O Credo dos Apostolos e todos os
-outros credos primitivos são simplesmente desenvolvimentos
-d’essas quatro phrases; e os primeiros livros theologicos que
-explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã eram
-exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno,
-uma exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre
-outras coisas, que a verdadeira theologia nasceu da simples
-expressão de uma confiança em Deus acompanhada de adoração.</p>
-
-<p>Os <i>Institutos</i> de Calvino são, na realidade, uma exposição
-do Credo, e dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando
-uma porção do Credo. A primeira parte falla de Deus
-o Creador, ou, como o Credo diz: «Deus, Pae Omnipotente,
-Creador do céu e da terra»; a segunda parte de Deus Filho, o
-Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de Deus
-Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja
-Catholica, e da sua natureza e distinctivos.</p>
-
-<p>A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo
-a passo o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha
-ácerca da Reforma aquella mesma opinião que Luthero diligenciou
-expôr nitidamente no seu tratado sobre o <i>Captiveiro Babylonico
-da Egreja de Deus</i>. Nunca lhe acudiu á mente que estivesse
-contribuindo para a fundação de uma nova egreja, ou que
-estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova
-theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que
-mantivessem opiniões originaes, até então desconhecidas. A
-theologia da Reforma era a velha theologia da Egreja de Christo,
-e as opiniões dos protestantes eram convicções da verdade que
-se baseiavam na Palavra de Deus, e que, conforme constava da
-historia da Christandade, haviam sido partilhadas por todo o
-povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle ensinava
-era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span>
-a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que
-pelos pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e
-philosophia do paganismo. A Reforma, dizia-se nos <i>Institutos</i>,
-não engendra opiniões novas, trata apenas de desmascarar as
-falsidades e apresentar, em toda a sua pureza, as verdades antigas.</p>
-
-<p class="tb"><b>Calvino em Genebra.</b>—A publicação dos <i>Institutos</i> fez com
-que Calvino se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos
-da Reforma; e quando, nas suas peregrinações, deu comsigo
-em Genebra, tencionando passar ali a noite e abalar em seguida,
-Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o auxiliasse
-nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de
-fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao
-mesmo tempo reconhecia que era um dever para elle deitar
-mãos ao trabalho que podia executar em Genebra, e por fim resolveu
-ficar na companhia de Farel.</p>
-
-<p>Diz elle no prefacio ao seu <i>Commentario sobre o Livro dos
-Psalmos</i>: «Como o caminho mais direito para Strasburgo, para
-onde tencionava retirar-me, estava impedido por causa da guerra,
-tinha resolvido passar rapidamente por Genebra, demorando-me
-na cidade uma noite apenas.... Sabedor d’isto, Farel, que
-trabalhava com extraordinario zelo para que o Evangelho progredisse,
-empregou logo os maiores esforços para me deter.
-E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder
-entregar-me socegadamente aos meus estudos, não me encontrando,
-portanto, predisposto para qualquer outro encargo,
-elle, perdida a esperança de conseguir qualquer coisa por meio
-de rogos, começou com imprecações, invocando a maldição de
-Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a tranquilidade,
-se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso
-n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario.
-Ouvindo estas suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti
-da viagem que projectava.»</p>
-
-<p>Calvino tinha vinte e sete annos e Farel quarenta e sete,
-quando começaram a trabalhar juntos em Genebra, e, não obstante
-a differença das edades, tornaram-se amicissimos um do
-outro. «Tinhamos um coração e uma alma», diz Calvino. Farel
-apresentou-o aos conselheiros da cidade. Principiou a sua obra
-fazendo conferencias na cathedral, e immediatamente se reconheceu
-que a sua palavra era attrahente e efficaz. A junta nomeou-o
-pastor, e, de collaboração com Farel, metteu hombros á
-grave tarefa de organizar a Reforma. Somos informados de que
-elle redigiu os artigos de fé e os regulamentos para o governo
-da Egreja, tendo antes d’isso, isto é, pouco depois da sua chegada
-a Genebra, escripto um catecismo para a infancia. A obra
-dos reformadores foi approvada pelo conselho da cidade, e esta,
-pelo que dizia respeito a todos os seus aspectos exteriores,
-adoptou por completo a religião reformada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p>
-
-<p>Farel sabia, porém, havia muito, e Calvino em breve o reconheceu
-tambem, que o de que Genebra necessitava era uma
-reforma moral. A cidade era o mais que podia ser de dissoluta,
-e havia muito tempo que permanecia n’aquelle estado. Os que
-durante muitas gerações tinham estado á testa dos negocios
-publicos conheciam esse facto, e tinham promulgado leis contra
-o viver licencioso. Entre os arquivos de Genebra relativos ao
-principio do seculo dezeseis, e ainda entre alguns do seculo
-quinze, apparecem leis sumptuarias contra o jogo, a embriaguez,
-as mascaradas, as danças e o luxo no vestuario; e, examinando
-os documentos judiciaes, encontram-se referencias a condemnações
-por infracções d’essas leis, commettidas muito antes de
-Calvino ter fixado lá a sua residencia.</p>
-
-<p>Isto tem sido esquecido pelos historiadores quando accusam
-Calvino de ter tentado reformar o povo, mediante, como nós diriamos,
-leis votadas no parlamento. Calvino não fez essas
-leis, nem ha evidencia de elle as considerar muito importantes.
-Era, porém, de opinião, que sustentou sempre com toda a
-firmeza, de que ás pessoas que tinham uma vida immoral, cujas
-acções e linguagem não estavam em harmonia com a sua profissão
-christã, não se devia permittir que participassem da solemne
-instituição da Ceia do Senhor, e esse seu modo de vêr
-não tardou em indispôl-o com os habitantes de Genebra.</p>
-
-<p>Ao cabo de muitas admoestações, os reformadores resolveram,
-por fim, exercer a disciplina ecclesiastica, afastando solemnemente
-da Mesa do Senhor os commungantes indignos. Os
-magistrados, que estavam sempre promptos a promulgar leis
-restrictivas do vicio, e até mesmo do viver faustoso, não quizeram
-consentir em que se pozesse em execução esta ordem de
-quem tinha a superintendencia na Egreja, e, ainda mais, o pulpito
-ficou de ahi em deante vedado a Calvino e a Farel. Estes
-não se submetteram, e no domingo de Pascoa de 1538 prégaram
-a uma multidão excitada e armada, recusando administrar
-á congregação a Ceia do Senhor, para evitar que esta fosse profanada.</p>
-
-<p>No dia seguinte a junta da cidade reuniu-se para apreciar
-a conducta de Calvino e Farel. Os reformadores foram accusados
-de pretender usurpar o poder mediante os seus regulamentos
-ecclesiasticos, entre os quaes figuravam o da abolição de todos
-os dias santos, excepto o domingo, e o do desuso da pia
-baptismal e do pão asmo na Ceia do Senhor.</p>
-
-<p>Estas accusações eram, evidentemente, meros pretextos,
-pois que o proprio Calvino havia declarado que lhe era quasi indifferente
-que as coisas que atraz mencionamos fossem ou não
-postas em pratica. O que os realmente predispunha contra Calvino
-e Farel era a supposição em que estavam de que elles pretendiam
-estabelecer um novo papado; os magistrados desejavam
-conservar nas suas mãos, não só a administração civil como<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span>
-a disciplina da Egreja. O resultado de tudo isto foi Calvino e
-Farel serem expulsos da cidade, não pelos papistas, mas por
-aquelles que até ali tinham contribuido para o avanço da Reforma.</p>
-
-<p>O facto d’este conflicto entre os reformadores e os genebrenses
-ter ocorrido logo no principio da vida publica de Calvino
-revela uma grande differença entre os dois ramos da Reforma,
-o reformado, ou calvinista, e o lutherano. Calvino mostrou ter,
-desde o inicio da sua carreira, noções muito claras ácerca da
-disciplina da Egreja e do direito que a communidade christã
-tinha de se governar a si propria em assumptos espirituaes e
-do direito dos que estavam em auctoridade na Egreja tinham de
-excluir dos privilegios a todos aquelles que fossem indignos de
-participar d’elles. Luthero e Melanchthon tinham as mesmas
-idéas, mas não as pozeram em pratica. Luthero não modificou
-o modo como a superintendencia era exercida, limitando-se a
-transferil-a das mãos dos bispos para as das auctoridades civis;
-e o effeito pratico, posto que não premeditado, d’isto foi ficarem
-sendo os magistrados os que arbitravam se esta ou aquella pessoa
-devia ou não approximar-se da mesa do Senhor. Calvino,
-por outro lado, viu logo desde o principio que a Egreja, para ter
-uma existencia visivel, e conservar-se distincta do Estado, devia
-ter o direito de declarar quaes as pessoas que estavam no caso
-de ser admittidas como membros da Egreja e partilhar todos os
-privilegios da mesma, e ter a auctoridade para censurar os aggravos
-espirituaes e punil-os mediante a perda dos sacramentos.</p>
-
-<p>Não consta que Calvino pedisse em tempo algum outra
-coisa além de que a disciplina da Egreja fosse exercida pela
-propria Egreja, representada pelos seus officiaes. Calvino, logo
-no começo da sua carreira, proclamou a independencia da Egreja
-em assumptos espirituaes, taes como a admissão á mesa do
-Senhor e a exclusão d’ella.</p>
-
-<p class="tb"><b>Calvino é expulso de Genebra.</b>—Expulso de Genebra, Calvino
-foi para Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente
-tres annos, ministrando a uma numerosa congregação
-de refugiados francezes, e occupando-se com trabalhos litterarios.
-Strasburgo tinha sido um logar intermediario entre a
-Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi conhecimento com
-muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade com
-Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores
-allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em
-Francfort, Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou
-com Idelette de Bure, viuva de João Storder. Idelette era uma
-senhora muito temente a Deus e muito instruida, e teve, do seu
-casamento com Calvino, tres filhos, que morreram todos na infancia.
-Calvino não se refere muito, na sua correspondencia, á<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span>
-sua vida domestica, mas as cartas que escreveu a alguns amigos
-muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e do fallecimento
-dos filhinhos demonstram que no peito do austero e ceremonioso
-francez batia um coração susceptivel de grandes affectos.</p>
-
-<p class="tb"><b>Genebra não pode passar sem Calvino.</b>—No entretanto, Genebra
-continuava agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam
-longe da cidade, mas o povo sentia a necessidade da sua
-presença. Não havia agora ali uma influencia que a todos dominasse,
-e as coisas caminhavam de mal para peior. Calvino tinha
-dito que a infidelidade tinha por origem a depravação a que elle
-se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos começaram a ver o
-quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens sociaes
-iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses
-intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo
-á frente o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo
-ao papismo; os anabaptistas, inimigos de toda a organização
-ecclesiastica e social, os libertinos, os livres pensadores, todos
-luctaram por obter o predominio em Genebra, e por fim a população
-começou a sentir-se cançada de aquella tumultuosa situação
-e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados ministros.</p>
-
-<p>A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse.
-Elle ao principio recusou. «Não ha localidade que me
-aterrorize tanto como Genebra», escreveu elle a um amigo.
-Continuaram, porém, a instar com elle para que voltasse; muitos
-dos amigos que elle tinha entre os reformadores francezes
-e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos genebrenses,
-e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram
-côro com elles. Condescendendo finalmente, regressou a
-Genebra.</p>
-
-<p>Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com
-jardim situada nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o
-ministro e professor de theologia, e fixaram-lhe um
-estipendio annual de quinhentos florins, doze medidas de trigo
-e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que na Egreja
-de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica, pois
-que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que
-tivera com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em
-manter o direito que á Egreja assiste de velar pela sua pureza.
-Voltou triumphante a Genebra, e foi recebido com as mais
-extravagantes manifestações de regozijo. Foi mais uma vez
-desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla vida litteraria,
-e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se inteiramente
-á causa publica.</p>
-
-<p>Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo
-dizem, durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores
-teem-n’o comparado a individualidades de indole muitissimo<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span>
-differente. Segundo uns, foi o Lycurgo de Genebra;
-segundo outros, um dictador romano, ou um novo Hildebrando,
-ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma grande
-obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de
-estar quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça
-e de asthma.</p>
-
-<p>Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias
-dava aula. Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia,
-compoz tratados theologicos, e tinha sempre que attender a
-uma immensa correspondencia. Era elle quem dirigia a Egreja
-reformada em toda a Europa, e, segundo a idéa de muitas pessoas,
-era, por assim dizer, omnipotente em Genebra, tendo sido
-attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus resultados
-da chamada theocracia genebrense.</p>
-
-<p>É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra
-o caracter da cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais
-frivola e mais devassa de todas as cidades europeas, tornou-se
-o berço do puritanismo, tanto francez, como hollandez, como
-inglez, como escocez. As danças e mascaradas passaram a ser
-coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro estavam sempre
-ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de conferencias
-se enchiam até á porta.</p>
-
-<p class="tb"><b>As ordenanças ecclesiasticas.</b>—O que effectuou tudo isto foram
-as famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra,
-e o modo em que ellas foram applicadas pelos magistrados.
-Estas ordenanças eram, segundo as poucas palavras do preambulo,
-o «regimen espiritual, que Deus ordenou na Sua Egreja,
-e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado na cidade
-de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas presbyteriannas.</p>
-
-<p>Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies
-ou graus de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus
-para o governo da mesma, e os que os exercem são chamados
-pastores, professores, presbyteros e diaconos.</p>
-
-<p>Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes
-e bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos,
-e, conjunctamente com os presbyteros, exercer a disciplina;
-eram geralmente escolhidos pelos ministros em exercicio,
-e nomeados pelos magistrados, com o consentimento do povo;
-tinham de dar contas dos seus actos nas conferencias que para
-esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e eram, outrosim,
-responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade.</p>
-
-<p>Da classe dos professores faziam parte todos os lentes da
-universidade e os mestres das escolas. Os presbyteros tinham
-a seu cargo a disciplina. Não eram eleitos pela congregação,
-mas, sim, nomeados pela junta da cidade, com previa consulta<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span>
-dos pastores; e todos elles tinham de ser membros das juntas.
-Conjunctamente com os pastores, faziam uma visita annual a
-toda a area que lhes pertencia, e experimentavam, de um modo
-simples, a fé e o proceder de todos os membros da egreja.</p>
-
-<p>A assembléa de todos os presbyteros e de todos os pastores
-constituia o <i>Consistorio</i>, que era o conselho executivo e legislativo
-da Egreja. O Consistorio reunia-se todas as semanas, sob
-a presidencia de um dos quatro syndicos, ou primeiros magistrados,
-de Genebra, afim de receber e examinar todos os documentos
-relativos a irregularidades na vida e na conducta de
-quaesquer membros da Egreja, e deliberar ácerca da pena ecclesiastica
-a applicar a este ou áquelle caso, pena que podia ir até
-á exclusão da Mesa do Senhor. Não estavam auctorizados a infligir
-qualquer censura ou castigo que não fosse espiritual, mas
-tinham obrigação de participar todos os delictos á auctoridade
-civil, que era a unica que tinha o direito de punil-os. Todos os
-presbyteros eram escolhidos pela junta, e tinham de ser membros
-d’ella, resultando de ahi que os magistrados genebrenses
-que tomavam assento no consistorio na qualidade de presbyteros
-recolhiam as informações relativas a factos criminosos e
-transmittiam-n’as a si proprios quando tomavam assento na
-junta na qualidade de magistrados.</p>
-
-<p>Os diaconos cuidavam dos pobres e dos enfermos, e eram
-egualmente nomeados pela junta.</p>
-
-<p>O plano do governo da Egreja concorda, nas linhas geraes,
-com os principios que Calvino expoz nos seus <i>Institutos</i>, mas
-differe d’elles em tantos detalhes importantes que se torna impossivel
-acreditar que todo elle fosse obra do Reformador.</p>
-
-<p>Nos <i>Institutos</i> expoz Calvino com a maxima clareza quaes
-são os verdadeiros principios do governo e disciplina ecclesiasticos.
-Prova que Deus educa e aperfeiçôa o Seu povo n’esta vida
-mediante a Sua Egreja, e que para a edificação da Egreja proveu
-uma variedade de dons, que não são concedidos indescriminadamente
-a todos os christãos, sendo limitado o numero d’estes
-que os teem recebido em maior escala. Estes dons podem ser
-classificados em tres categorias, instrucção, governo e caridade,
-ou, como os reformadores escocezes disseram, doutrina, disciplina
-e distribuição, e a Egreja pode verificar que alguns dos
-seus membros teem um talento especial para instruir, outros
-para dirigir, e outros para tomarem conta das collectas e da
-distribuição do dinheiro. Deus conferiu estes dons, e collocou
-na Egreja homens capazes de os exercerem, para edificação do
-Seu povo, e, por consequencia, as funcções que se desempenham
-na Egreja são de caracter ministerial e não tendem a exaltar
-pessoa alguma. Os officiaes são homens que melhores serviços
-podem prestar á communidade, e são, portanto, responsaveis
-perante esta e perante Deus pelo modo como os prestam. Calvino
-insistiu muito na verdadeira natureza e valor do presbytereado,<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span>
-que elle considerava a mais efficaz barreira contra a
-conquista de uma supremacia sobre a Egreja, como aquella que
-tinha sido uma das mais censuraveis usurpações da Egreja de
-Roma. Mediante este officio tem a Egreja aquelle governo methodico
-sem o qual nenhuma sociedade pode existir, e a communidade
-christã pode conservar-se livre da usurpação do poder
-e da tyrannia ecclesiastica por meio de um governo verdadeiramente
-representativo, isto é, livremente escolhido pelos membros
-da congregação. Calvino affirmou tambem, com muita insistencia,
-que este governo era espiritual, e que só lhe pertencia
-julgar as infracções espirituaes e infligir castigos espirituaes.
-O maior castigo espiritual era, segundo elle, a excommunhão.</p>
-
-<p class="tb"><b>As ordenanças ecclesiasticas differem, a muitos respeitos, dos
-principios expostos nos Institutos.</b>—Calvino combateu sempre
-energicamente qualquer confusão entre a jurisdicção civil e a
-jurisdicção ecclesiastica, declarando que as duas deviam estar
-completamente separadas uma da outra. Nas <i>Ordenanças</i> não se
-mantem esta separação. A censura do consistorio era de continuo
-seguida, como veremos, de multa, de desterro, e, até, de
-morte; quando, segundo a theoria de Calvino, só castigos espirituaes
-se devem seguir a offensas espirituaes. Os anciãos que
-exerciam o governo ou a disciplina não eram escolhidos pela
-Egreja, nem eram realmente seus representantes. Eram designados
-pelos magistrados civis da cidade, e só eram elegiveis
-os que já fossem membros de uma organização politica. Os
-direitos da communidade christã eram praticamente desprezados,
-posto que Calvino houvesse declarado que o poder ecclesiastico
-pertencia realmente a toda a assembléa dos crentes.
-A junta escolhia os pastores, podendo a Egreja impôr o seu
-veto; escolhia d’entre si os presbyteros, e escolhia egualmente
-os diaconos.</p>
-
-<p>Esta notavel desharmonia com os principios de Calvino era
-devida aos magistrados de Genebra, que assim procediam em
-opposição aos desejos do Reformador. Sentia-se especialmente
-molestado com o modo como eram escolhidos os presbyteros, e
-declarou que não considerava as <i>Ordenanças</i> um plano perfeito
-de governo ecclesiastico; pareceu-lhe evidentemente, porém,
-que era o melhor que n’aquella occasião se poderia obter, e acceitou-o,
-alimentando a esperança de que seria, mais tarde, modificado.
-Agradava-lhe tanto, apezar dos seus defeitos, que o
-considerava um modelo que podia ser copiado n’outros logares,
-e exprimiu a esperança de que Genebra, situada na fronteira da
-França, da Allemanha e da Italia, incitaria esses paizes a uma
-Reforma de caracter, perfeita e permanente.</p>
-
-<p>Não obstante, os pontos em que as <i>Ordenanças</i> divergiam
-dos principios que Calvino expoz nos seus <i>Institutos</i> deram<span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span>
-occasião a esses caracteristicos do governo genebrense que
-mais teem sido reprovados pelos historiadores. É fóra de duvida
-que a corrupção moral que predominava em Genebra foi
-combatida por leis severissimas, que chegavam mesmo a ser
-crueis. A antiga legislação genebrense era, em muitos casos,
-bastante severa, e quando se tratava de delictos especiaes a sua
-severidade tornava-se extrema; mas depois de publicadas as
-<i>Ordenanças Ecclesiasticas</i> as leis foram applicadas com um rigor
-anteriormente desconhecido.</p>
-
-<p>O consistorio reunia-se todas as semanas, ás quintas feiras,
-e eram-lhe fornecidas informações ácerca da maneira como o
-povo se comportava; e essas informações eram communicadas
-á junta, ou conselho, que era o mesmo Consistorio, mas revestido
-da auctoridade civil. Eram prohibidos os divertimentos ruidosos,
-os jogos de azar, as danças, as canções profanas, as pragas
-e as blasphemias. Todo o cidadão tinha de estar em casa
-ás nove horas, sob pena de uma pesada condemnação. O adulterio
-era punido com a morte. Uma creança que atirou com
-umas pedras á mãe foi publicamente açoitada, e depois suspensa
-do patibulo pelos braços. Foram abolidas todas as folganças que
-tinham logar por occasião dos casamentos; os cortejos deixaram
-de levar tambores ou instrumentos musicaes á frente, e
-não mais se dançou nas bodas. Os theatros só podiam levar á
-scena peças biblicas. Ficou inteiramente prohibida a leitura de
-romances, e o auctor de qualquer obra que desagradasse ao
-Consistorio era mettido na prisão. Era preciso o maximo cuidado
-com o que se dizia, chegando as coisas a tal ponto que os hoteleiros
-eram obrigados a referir as conversas que os seus hospedes
-tinham tido á mesa. Nas hospedarias era tambem prohibido
-fornecer comida ou bebida a quem não pedisse, antes de
-se servir, a benção de Deus. Não era permittido jejuar, e um
-certo individuo foi castigado por não comer carne á sexta-feira.</p>
-
-<p>É impossivel dizer que parte tomou Calvino n’estes regulamentos,
-de uma desnecessaria severidade. Muitos historiadores
-teem affirmado que elle dispunha de todo o poder em Genebra,
-e que poderia ter evitado muita coisa se quizesse. Elle era
-francez, e nenhuma nação tem como a França apresentado, em
-epocas de grande crise, tão duros legisladores. Calvino não
-tinha, por outro lado, abjurado a parte mais odiosa da theoria
-medieval quanto á disciplina da Egreja, isto é, a que auctorizava
-os tribunaes ecclesiasticos a recorrerem ao poder civil
-para que a certas offensas espirituaes fosse applicada multa,
-prisão ou execução capital, com o fundamento de que constituiam
-crimes contra a ordem e a paz da sociedade. Calvino
-acceitou esta doutrina; e o mesmo fez Beza, que chamava á
-liberdade de consciencia uma doutrina diabolica. Os theologos
-de Westminster admittiram egualmente a theoria medieval, e
-trabalharam para que ella fosse posta em pratica, em detrimento<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span>
-da reforma da egreja de Inglaterra. Não só Calvino como todos
-os principaes reformadores approvaram a morte de Servetus
-pelo motivo de haver negado a doutrina da Trindade e apresentado
-blasphemas asserções em defeza da sua opinião. Tudo isto
-tem de ser admittido.</p>
-
-<p class="tb"><b>As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.</b>—Devemos
-lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria
-preciso para obter uma reforma de costumes n’uma cidade
-tão immoral e tão turbulenta como Genebra.</p>
-
-<p>A Reforma, justamente porque era um protesto contra o
-então existente estado de coisas, teve de navegar contra a corrente
-do mal, que ella propria provocou. É-nos quasi tão impossivel
-comprehender o perigo dos excessos anabaptistas e outros
-como comprehender a corrupção moral da epoca em que o
-christianismo surgiu e se propagou. Professava-se o libertinismo
-pantheistico como se fosse um credo, e os documentos litterarios
-do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade
-que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu
-deante de si em Genebra foi uma indulgencia para tudo quanto
-fosse immoral, indulgencia que a propria religião prescrevia,
-visto tratar-se de uma coisa natural. Era este o lado sombrio
-da Reforma, para o qual não era agradavel olhar, mas que existia,
-e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o procedimento
-do conselho de Genebra ou o de Calvino.</p>
-
-<p>O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a
-decima parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os
-principes da Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos,
-e aos seus cabeças, os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento
-causado pela paixão cega, quer provenha do medo quer
-provenha do odio, tem, o que é coisa curiosa, sido sempre
-olhado com maior brandura do que o soffrimento que é infligido
-no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma.</p>
-
-<p>Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino
-fosse menos omnipotente em Genebra do que se suppõe
-ter sido. A um francez, e de mais a mais logico como elle era,
-custa a attribuir as incoherencias que se notam entre os <i>Institutos</i>
-e as <i>Ordenanças Ecclesiasticas</i>. É preciso não esquecer que
-o que tornou possiveis estes castigos que teem sido tão condemnados
-foram aquelles pontos das <i>Ordenanças</i> que não eram da
-responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira
-causa do mal era a relação que havia entre o consistorio
-e o governo civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas
-camaras municipaes se constituia uma vez por semana em commissão
-zeladora da moralidade publica. Não se sentiriam escandalizados
-os vereadores se os casos que elles apresentassem á
-commissão, e que mereciam a reprovação d’ella, ficassem impunes?<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span>
-Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia
-seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos
-de toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo?
-Não se deve attribuir a culpa de todos estes males a Calvino,
-ou mesmo ao conselho de Genebra. Surgiram naturalmente
-das tres vezes abominavel mistura da direcção dos negocios seculares
-com a direcção dos negocios espirituaes, que constitue
-habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem
-precaver.</p>
-
-<p class="tb"><b>A morte de Calvino.</b>—Durante a residencia de Calvino em
-Genebra, foi esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia.
-Os magistrados fundaram uma universidade, cujo primeiro
-reitor foi Theodoro Beza, e as suas aulas foram, durante
-o primeiro anno, frequentadas por oitocentos estudantes. Procuraram
-refugio na cidade, onde receberam um excellente acolhimento,
-numerosissimos protestantes italianos, francezes e escocezes.
-«Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas
-suas cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia
-que exercia. Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os
-huguenotes da França, os reformadores de Inglaterra, a congregação
-escoceza, e os dirigentes da Reforma na Allemanha.</p>
-
-<p>Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se
-do excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou
-o seu ultimo sermão no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a
-27 de maio do mesmo anno, contando cincoenta e cinco annos
-incompletos.</p>
-
-<p>Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto
-de si os syndicos, ou primeiros magistrados de Genebra, e em
-seguida todos os ministros. Prohibiu que sobre a sua sepultura
-se erigisse qualquer monumento, acontecendo, d’esse modo, que
-se desconhece o sitio onde foi enterrado.</p>
-
-<p>Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz
-proeminente, testa elevada, e olhos que em dadas occasiões
-chammejavam. Trajava sempre com o mais escrupuloso esmero,
-e alimentava-se muito sobriamente.</p>
-
-<p>Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação
-e pelo temperamento; grande observador de todas as regras
-da etiqueta, sentia-se muito mais á vontade no meio das pessoas
-de posição do que no meio do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado
-frio e insensivel, mas o que é facto é que os seus amigos
-e contemporaneos se referem sempre a esse frio, timido, austero
-e polido francez em termos os mais affaveis e respeitosos; e os
-mancebos davam-se perfeitamente com elle.</p>
-
-<p>Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de
-Calvino com um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o
-haverem estudado, descobrem que a sua antipathia se transformou<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span>
-em affectuosa admiração. Como será sufficiente um exemplo,
-vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle:</p>
-
-<p>«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem
-ter sido vasados de um só jacto n’um molde, e que se estudam
-por meio de um simples olhar; uma carta das que escrevam,
-um acto dos que pratiquem, é o bastante para se fazer
-um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem com titulos,
-nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver,
-apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os
-outros eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço
-outro homem que podesse rivalisar com elle n’estes raros
-predicados. É surprehendente como um homem cuja vida e
-cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas sympathias, se
-tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as suas
-palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter
-uma tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos.
-Como se pode explicar, por exemplo, que uma das
-mulheres mais distinctas do seu tempo, Renée de França, que
-no seu palacio de Ferrara se via cercada dos mais brilhantes
-talentos da Europa, se deixasse captivar por aquelle severo doutrinador,
-enveredando, por sua influencia, n’uma senda que tão
-espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem
-ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção.
-Sem manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem
-dos outros, que foi o que assegurou a Luthero o bom exito dos
-seus trabalhos, sem possuir o encanto, a perigosa, posto que
-languida, doçura de S. Francisco de Sales, Calvino saiu victorioso,
-n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava uma
-reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o
-maior christão do seu tempo».</p>
-
-<p class="tb"><b>Beza, o successor de Calvino.</b>—Theodoro Beza succedeu a
-Calvino em Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha
-adquirido; e até ao meiado do seculo dezesete a voz de Genebra
-foi a que as numerosas egrejas protestantes escutaram com
-maior acatamento.</p>
-
-<p class="tb"><b>A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.</b>—Sob a
-influencia de Calvino, desappareceram as differenças theologicas
-que havia na Suissa, e todas as egrejas que se chamavam
-reformadas adoptaram um typo de doutrina. Estas egrejas não
-tinham, como as lutheranas, um Catecismo e uma Confissão,
-mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas uma perfeita
-unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu
-Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar
-entre os credos das egrejas que se chamam do seu nome, mas a
-sua influencia em toda a parte se manifesta. Elle vive novamente,
-na obra dos seus discipulos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span></p>
-
-<p>Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com
-o assumpto de que nos estamos occupando são o Catecismo
-para a Infancia e a Confissão de Zurich.</p>
-
-<p>O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar
-a instrucção religiosa das creanças, que tão lamentavelmente
-havia sido descurada pelos romanistas. Calvino, para a confecção
-do seu catecismo, serviu-se do Credo dos Apostolos, dos Dez
-Mandamentos e da Oração Dominical. Tiveram origem n’elle
-dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o de Heidelberg,
-que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve
-Catecismo da Assembléa de Westminster.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Confissão de Zurich</b> foi muito proveitosa, porque uniu as
-Egrejas Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo
-facto de reconciliar n’uma mais profunda unidade as opiniões
-de Luthero e de Zwinglio. Poz de parte a metaphysica medieval
-com que Luthero havia sobrecarregado a sua theoria, e ao
-mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio e
-dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos
-eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes.</p>
-
-<p>Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão:
-«Os sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou
-somos implantados no corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos,
-nos ligamos a Elle cada vez mais, até que seja perfeita a
-nossa união com Christo, na vida celestial».</p>
-
-<p>A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente
-visivel na geração de protestantes que ella educou e
-enviou a combater com o romanismo. «N’uma occasião em que
-a Europa», diz Haüsser, «não podia mostrar solidos resultados
-da reforma, este pequeno estado de Genebra erguia-se como
-uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos para
-todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas,
-e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os
-missionarios provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam
-o elevado e intrepido espirito que procede de uma estoica educação
-e adestramento; tinham o cunho da abnegação e do heroismo,
-que em toda a parte era absorvido pela estreiteza theologica.
-Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era
-demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo,
-separando-o da velha e tradicional auctoridade
-monarquica, e fazendo com que elle adoptasse o evangelho da
-democracia como parte do seu credo.... Genebra dictou um pequeno
-trecho da historia universal, trecho que constitue a parte
-de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem orgulhar.
-O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens
-da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; estes<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span>
-homens possuiam almas fortes, caracteres de ferro vasados
-n’um molde em que havia uma mistura de elementos romanos,
-germanicos, medievaes e modernos; e as consequencias nacionaes
-e politicas da nova fé foram por elles defendidas com o
-maximo rigor e coherencia.»</p>
-
-<p>A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha.
-A pequena republica de Genebra uniu primeiro a Reforma
-suissa, e em seguida deu os caracteristicos distinctivos
-aos movimentos reformadores da França, da Hollanda, da Escocia,
-da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande parte
-da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito,
-tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o
-reformador de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão
-insensivel, tão frio, tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica
-tão desapiedada, foi o reformador de uma grande parte da
-christandade. A Reforma suissa passou muito para além da
-Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França, da
-Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span></p>
-
-<h3 id="II_CAPITULO_III">CAPITULO III<br />
-<span class="smaller">A REFORMA EM FRANÇA</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>Principios da Reforma em França, <a href="#Page_87">pag. 87</a>.—Francisco I, <a href="#Page_89">pag. 89</a>.—A <i>Concordata</i>
-de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, <a href="#Page_89">pag. 89</a>.—«Uma egreja
-debaixo da cruz», <a href="#Page_90">pag. 90</a>.—O anno dos placards, <a href="#Page_92">pag. 92</a>.—O Vaudois
-da Durance, <a href="#Page_92">pag. 92</a>.—Henrique II e os Guises, <a href="#Page_93">pag. 93</a>.—Organisação da
-Egreja Reformada, <a href="#Page_95">pag. 95</a>.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon,
-<a href="#Page_96">pag. 96</a>.—O primeiro Synodo Nacional, <a href="#Page_97">pag. 97</a>.—Anne de Bourg,
-<a href="#Page_98">pag. 98</a>.—O massacre de Amboise, <a href="#Page_99">pag. 99</a>.—Coligny na Assembléa dos
-Notaveis, <a href="#Page_100">pag. 100</a>.—Catharina de Medicis, <a href="#Page_100">pag. 100</a>.—A Conferencia de
-Poissy, <a href="#Page_102">pag. 102</a>.—O massacre de Vassy, e outros, <a href="#Page_103">pag. 103</a>.—A guerra
-civil, os iconoclastas, <a href="#Page_103">pag. 103</a>.—Coligny e Carlos IX, <a href="#Page_106">pag. 106</a>.—O massacre
-de S. Bartholomeu, <a href="#Page_107">pag. 107</a>.—A Santa Liga, <a href="#Page_109">pag. 109</a>.—Henrique
-de Navarra, <a href="#Page_110">pag. 110</a>.—O edicto de Nantes, <a href="#Page_110">pag. 110</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>Principios da Reforma em França.</b>—Antes da Reforma se ter
-tornado em França um grande e importante movimento, appareceram
-dois typos da cristandade reformada, sellados com as
-individualidades de dois homens: Luthero e Calvino, o Pedro e
-o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em seguida teve de
-ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno
-foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando
-Wittenberg em segundo plano, que se mostrou em condições de
-se defrontar com Roma. A dupla corrente da Reforma partiu
-d’estes dois centros para toda a Europa, mas nos terriveis combates
-que se travaram a feroz democracia do Calvinismo poude
-desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante conservantismo
-do movimento lutherano. A historia do progresso
-da Reforma fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia
-do calvinismo, e do triumpho das idéas calvinistas. Foi assim
-em França.</p>
-
-<p>Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz,
-datam de uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino.
-Havia no sul e no sueste, no fim do seculo quinze e no
-principio do seculo dezesseis, uns taes ou quaes vestigios dos
-velhos albigenses; e os valdenses mantiveram-se, e foram protegidos,
-em virtude de antigos tratados, durante as perseguições<span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span>
-dos huguenotes. A Egreja franceza havia-se distinguido sempre
-pela sua opposição ás reivindicações da côrte pontificia e do
-papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma grande
-decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a
-Egreja franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade
-de Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou
-a parte principal na convocação dos concilios reformadores de
-Pisa, Basiléa e Constancia, e no refreamento da curia romana.
-A Egreja franceza tinha-se sempre opposto energicamente ao
-ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica de
-Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer
-outro ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que
-a França, em vista da sua historia passada, tomasse a iniciativa
-de um movimento reformador. A Reforma, porém, que as summidades
-ecclesiasticas promoveram no seculo quinze não foi
-uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião espiritual.
-Os reformadores de Constancia queimaram João Huss.</p>
-
-<p>Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma,
-a mesma immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia
-que desacreditou a Egreja medieval do seculo dezeseis
-na Allemanha e na Italia; o inicio da Reforma em França proveiu
-do despertamento das lettras e da leitura das Escripturas
-nas linguas originaes.</p>
-
-<p>Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux,
-onde o bispo, Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade
-de reprehender a immoralidade monastica, e que o
-povo anhelava por um verdadeiro ensino religioso. Elle tinha
-ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de Etaples, e da
-perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da Sorbonne
-por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e ao
-seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo
-de Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem
-e prégarem debaixo da sua protecção. Lefévre publicou,
-em 1523, uma traducção do Novo Testamento em francez, e o
-povo comprou o livro e leu-o com soffreguidão.</p>
-
-<p>Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet
-n’outro tempo lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e
-de favorecer herejes. No meio da tempestade que então se levantou,
-o bispo perdeu a coragem. Farel fugiu para Strasburgo,
-seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro prégador, e
-a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém, que
-possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na
-memoria os sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé
-evangelica. Alguns crentes tiveram de soffrer o martyrio, mas
-o fermento espalhou-se, ainda que occultamente, por toda a
-França.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span></p>
-
-<p class="tb"><b>Francisco I.</b>—O rei de França, n’esses primeiros annos da
-Reforma, era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os
-seus <i>Institutos da Religião Christã</i>. Enthusiasta, e dotado de alguma
-intelligencia, havia saudado a revivificação das letras,
-protegeu Lefévre durante o tempo em que este sabio residiu
-em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que mantinha com
-homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus.
-Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a
-sua ambição era que o considerassem como tal; a universidade
-de Paris havia-lhe merecido uma especial attenção, e interessou-se
-tambem immenso na famosa maquina de impressão inventada
-por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de
-Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu
-algumas poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde
-rainha de Navarra, foi uma das mais espirituosas conversadoras
-e uma das mais brilhantes escriptoras do seu tempo. Francisco
-não sympatizava nada com o desleixo e ignorancia de muitos
-dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente, considerava
-o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com a estupidez.
-Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo
-a auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que
-ambicionava brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer
-a absoluta supremacia do soberano. Não sympatizava
-com o caracter profundamente espiritual da Reforma, e as suas
-necessidades politicas não tardaram a prevalecer sobre o seu
-amor pela instrucção.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.</b>—A
-independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de
-França em opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção
-Pragmatica de Bourges, que definia as liberdades das egrejas
-nacionaes de uma maneira clara e energica. Declarou que o
-papa estava sujeito a um concilio ecumenico, e que este concilio
-se devia reunir de dez em dez annos. Declarou que todos os provimentos
-de elevados cargos ecclesiasticos, taes como os bispados
-e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não por designação
-do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos
-a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto
-pode abranger tanto os innocentes como os culpados. A Sancção
-Pragmatica tinha sido sempre cuidadosamente defendida pela
-Egreja franceza, e pela maioria dos soberanos de França. Era
-intensamente abominada pelos papas, e não podia ser olhada com
-muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia do
-throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia
-do povo. Francisco comprehendia que, se podesse collocar a
-Egreja debaixo do seu dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao
-absolutismo. Entendeu-se, portanto, com o papa, e trocou a Sancção<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span>
-Pragmatica por uma Concordata, que foi, no futuro, uma
-grande desgraça para a França.</p>
-
-<p>Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios
-dos Concilios reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu
-em que o papa ficasse com direito ao <i>Annates</i>, isto é, o vencimento
-relativo ao primeiro anno de todos os beneficios que
-eram providos, concedendo o papa, em troca, que a nomeação
-de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do rei. Por
-outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes
-supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel
-somma de dinheiro; e o rei de França era praticamente,
-dentro do seu reino, o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos
-os arcebispados, bispados, abbadias e priorados. Fez-se denuncia
-d’esse tratado, e de todos os modos se trabalhou para o annullar,
-mas conseguiu vencer todas as opposições, e permaneceu
-em vigor até á Revolução.</p>
-
-<p>A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma
-franceza, e não é possivel exaggerar a importancia que ella tem
-para a historia ecclesiastica franceza desde o principio do seculo
-dezeseis. Por um lado, secularizou a Egreja franceza. Todos
-os officios ecclesiasticos de valor eram doados pelo rei, e tinham
-de ser disputados por cortezãos que só nas coisas do mundo
-pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses da
-Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da
-Egreja franceza era necessariamente opposição ao absolutismo
-do soberano. Esta Concordata deu uma indole particular á lucta
-que a Reforma produziu em França. Os reformadores não podiam
-deixar de ser tambem os adversarios do absolutismo; e o rei,
-para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de chefe da Egreja,
-via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a supremacia.</p>
-
-<p>Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em
-França um trabalho muito diverso do trabalho de Luthero na
-Allemanha, porque tinham de se oppôr não só á Egreja como
-ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores escocezes e
-aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a Reforma
-poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na
-Hollanda uma republica. Em França, por outro lado, o poder real
-foi augmentando lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado,
-a um absolutismo como o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se
-apto para exterminar a egreja protestante, por meio de
-uma sanguinolenta perseguição.</p>
-
-<p class="tb"><b>«A Egreja que estava debaixo da Cruz».</b>—Luthero tinha, na
-Allemanha, um principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra,
-auxiliado pela suprema auctoridade civil. Em França os reformadores
-tiveram de luctar não só contra o poder do rei como
-contra o poder da Egreja. A Egreja reformada, em França, não<span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span>
-recebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e teve de sustentar
-um combate tão severo e tão rude como o que teve de
-sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena
-tinha duas coisas contra si; a religião estabelecida, que
-era o paganismo, e o Estado, que era egualmente pagão. A
-Egreja reformada de França teve duas coisas contra si; foi perseguida
-pela egreja estabelecida no reino, que era a romana, e
-foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que o poder do rei
-era, pela Concordata, em grande escala dependente do reconhecimento
-do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma
-dupla perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos
-apologistas. Eram dois os emblemas que ella gravava nos seus
-livros e esculpia nos seus monumentos: a sarça que ardia sem
-se consumir, e a bigorna que levava martelladas e estava sempre
-inteira. O grande Beza disse um dia ao rei de Navarra: «Sire,
-a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos martellos».</p>
-
-<p>Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes
-que existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em
-Pavia, em 1525, e a sua alliança com o papa, mostrou-lhe que
-era prudente, lá no seu modo de ver as coisas, mostrar alguma
-vontade de expurgar da heresia as terras de que era senhor, e
-deu licença para que se pozessem em pratica as perseguições
-que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo Parlamento
-de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha
-Luiza, e por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois
-de Francisco ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma
-occasião em que precisava de dinheiro para as suas guerras, dinheiro
-que já não era possivel obter por meio de impostos, que
-elle permittiu que a heresia fosse exterminada de vez. O clero
-pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em troca
-que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se
-fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura
-e da carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em
-1528.</p>
-
-<p>Severas medidas foram decretadas contra os protestantes.
-Era prohibida a leitura de obras protestantes; a ligação com
-pessoas suspeitas de heresia importava condemnação; e os herejes,
-onde quer que fossem descobertos, eram entregues ás auctoridades
-civis para serem castigados. Luiz de Berguin, homem
-erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do rei,
-e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas
-disposições.</p>
-
-<p>A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das
-coisas. Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes
-protestantes allemães, e recusou, portanto, associar-se a um
-plano geral para a exterminação da heresia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span></p>
-
-<p class="tb"><b>O anno dos placards.</b>—Em breve, porém, poz de parte este
-seu intento, e começaram novamente as perseguições. Os protestantes,
-por seu lado, mostraram uma grande somma de coragem.
-Imprimiram curtos folhetos em que se atacava a missa e
-outros ritos da Egreja Catholica Romana, e espalhavam-n’os
-pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado o anno
-dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei
-um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema
-dureza, e Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso,
-prohibiu que se imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando
-este decreto, entrou a serio no seu papel de perseguidor.
-Decretou que a heresia fosse punida com a morte; aquelle que
-denunciasse um hereje tinha direito á quarta parte dos bens
-que este possuisse, no caso de se provar a veracidade da accusação.
-Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os protestantes
-eram accusados, condemnados, e punidos com prisão,
-perda de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou
-ao rei os seus <i>Institutos</i>.</p>
-
-<p>Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos
-de terrivel effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os
-protestantes augmentaram em numero, e a repressão, posto
-que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz. O sangue dos martyres
-era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de Fontainebleau
-intimava os officiaes de justiça a processarem todos
-aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas
-era negado o direito de appellação; os juizes negligentes eram
-ameaçados com o desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram
-ordem para mostrar maior zelo. «Todos os subditos leaes», dizia
-o edicto, «devem denunciar os herejes, e empregar todos os
-meios para os extirparem, do mesmo modo que são obrigados
-a contribuir para que se ponha termo a qualquer conflagração
-publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos, mas
-a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam
-resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os valdenses da Durance.</b>—A maior atrocidade commettida
-durante a perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance.
-Uma parte da Provença que confina com a Durance chegara,
-dois seculos atraz, a estar quasi despovoada, e os proprietarios
-das terras dirigiram um convite aos camponezes dos Alpes para
-irem estabelecer-se nos seus territorios. Os novos colonisadores
-eram valdenses, e a sua industria e indole economica em breve
-encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas. Garantiu-se-lhes
-que a sua religião seria protegida, pois que os seus
-senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os
-serviços que elles prestavam.<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span>
-Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma, estes
-aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores,
-e em 1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que
-forneceram o dinheiro necessario para publicar a traducção das
-Escripturas Sagradas em francez, feita por Roberto Olivetan, e
-corrigida por Calvino. Este procedimento despertou a hostilidade
-de alguns ecclesiasticos francezes.</p>
-
-<p>O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões,
-e alguns dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram
-morte violenta. Em 1540 o parlamento intimou quinze
-aldeãos de Mérindol a comparecer perante elle como suspeitos
-de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte estava
-resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o
-infame <i>Arrêt de Mérindol</i>, que, em resumo, ordenava a destruição
-de toda a aldeia.</p>
-
-<p>A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o
-rei teve conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações,
-e em resultado d’ellas deu ordem para que o referido decreto
-ficasse sem effeito. Foi, porém, induzido a revogar essa ordem,
-organizou-se clandestinamente uma expedição, e durante sete
-mezes de carnificina, com todos os seus acompanhamentos de
-traição e de infame brutalidade, foram totalmente destruidas
-vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e mulheres,
-e perto de 700 foram enviados para as galés.</p>
-
-<p>Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França
-estava ainda luctando pela sua existencia no meio de perseguições
-mais terriveis do que aquellas de que os protestantes foram
-victimas n’outro qualquer paiz.</p>
-
-<p class="tb"><b>Henrique II e os Guises.</b>—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe
-Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu
-pae, a qual obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da
-Allemanha e consolidar, em França, o poder real. Isto obrigava
-a occasionaes allianças com os principes protestantes allemães,
-e dava logar, em França, a uma continua perseguição aos protestantes.
-Todos os favoritos que tinha na sua côrte eram inimigos
-da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame
-Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além
-da rainha, o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem
-escrupulos: Diana de Poitiers, o Condestavel de Montmorency,
-primeiro ministro da corôa, que gozava de grande reputação
-como perito na arte da guerra e na gerencia dos negocios publicos,
-e os Guizes, notavel familia de procedencia estrangeira,
-que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de
-Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu
-irmão, o cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos
-o conselheiro de Henrique II, era um dos homens mais sagazes
-da Europa. A irmã casou com Jayme V da Escocia, e tiveram<span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span>
-por sobrinha Maria Stuart, rainha da Escocia, educada em
-França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles com o
-Delphim de França.</p>
-
-<p>Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio
-tão urgente que os tribunaes de justiça tiveram de interromper
-o julgamento de varias causas. Henrique creou uma nova
-divisão judicial, que se occupava exclusivamente dos casos de
-heresia, e as sentenças proferidas por estes tribunaes especiaes
-eram tão severas que o povo chamava-lhes <i>chambres ardentes</i>.
-Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a perseguição
-não estorvou o derramamento do Evangelho.</p>
-
-<p>Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o
-desejo de ver com os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses
-obstinados herejes. Foi levado á sua presença um pobre
-alfayate, preso sob a accusação de ter trabalhado n’um dia
-santo, e esse homem, com grande espanto da côrte, respondeu
-ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre theologia
-que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o
-ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia
-o caracter e estava ao facto da posição occupada por ella,
-retorquiu-lhe solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em
-ter contaminado a França, e não queira tocar com o seu veneno
-e com a sua immundicie uma coisa tão pura e tão sagrada como
-é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O rei, encolerisado
-porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu ordem
-para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz
-assistir ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella
-que dava para a praça onde o martyr ia ser queimado, este
-viu-o, e não despregou mais d’elle os olhos. Mesmo já depois
-de rodeiado pelas labaredas não deixou de perseguir o rei com
-aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante muito
-tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante
-o dia e lhe perturbava o somno durante a noite.</p>
-
-<p>Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte,
-que estas repetidas execuções não estavam contribuindo para
-a repressão da Reforma. Outros martyres se apresentavam jubilosamente
-para substituir aquelles que os tinham antecedido;
-viuvas, mancebos, estudantes, raparigas mimosas, fidalgos da
-mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel martyrio a negarem
-Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais
-severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto,
-o de Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros
-seculos, mandava destruir toda a litteratura christã, na
-idéa de que por essa fórma se faria desapparecer o christianismo.</p>
-
-<p>Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella
-se encheu de refugiados francezes. Um certo numero de rapazes,
-cheios de coragem e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros
-nas verdades do Evangelho, havia-se offerecido para<span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span>
-distribuir livros e folhetos por todos os pontos da França. O
-Edicto de Chateaubriand visava estes colportores, assim como os
-livros e tratados que elles vendiam. Prohibia terminantemente
-a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra ou de
-outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia
-nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão
-clandestina. Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias,
-mandava examinar todos os volumes que chegassem
-do estrangeiro, e submettia, de quatro em quatro mezes, a grande
-feira de Lyão a uma fiscalisação especial, pois que mediante
-ella é que se haviam espalhado pelo reino muitos livros suspeitos.
-Foi prohibida a venda ambulante de livros, fossem elles de
-que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem encontradas
-cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas
-analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé
-nas tabernas, nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas.
-Por determinação da côrte, ficava, portanto, o povo impedido
-de se instruir, se é que edictos e officiaes de justiça o
-poderiam impedir. A sementeira proseguia. Dispostos para a
-vida ou para a morte, partiram de Genebra e de Strasburgo,
-para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando comsigo
-Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza
-mandou dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero
-espantoso os homens que se offereceram para arrostar com todos
-os perigos para que a Egreja de Deus avançasse.</p>
-
-<p class="tb"><b>Organisação da Egreja reformada.</b>—No meio d’estas terriveis
-perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se
-em Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam
-isoladamente a Biblia, ou formavam pequenos nucleos
-de crentes. A perseguição augmentou-lhes a coragem, e resolveram
-por fim constituir uma communidade.</p>
-
-<p>O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez
-residente em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes
-costumava reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae
-do recemnascido declarou aos seus irmãos na fé que não podia
-ausentar-se de França, afim de obter que lhe fosse administrado
-um sacramento puro, e que de fórma alguma consentiria em
-que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana.
-Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem
-um pastor, pondo assim termo a todas as difficuldades.</p>
-
-<p>Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem
-oração, escolheram para pastor a João Le Maçon, que tinha por
-sobrenome La Riviére, contava vinte e dois annos, e havia abandonado
-familia, riqueza e perspectivas de um brilhante futuro
-pela causa de Christo. A pequena assembléa passou em seguida
-a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se uma<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span>
-Egreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve
-constituição.</p>
-
-<p>Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse
-á testa do movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras,
-as communidades constituiram-se em congregações, com
-os seus presbyteros e diaconos. Tres mezes depois da eleição
-de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma carta em
-que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha
-tres pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse
-sempre com a mesma violencia, nunca deixava de haver
-quem se offerecesse para esses perigosos logares, e a Reforma
-ia fazendo progressos.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.</b>—Vendo que
-eram inuteis todos os esforços empregados para impedir a Reforma,
-o cardeal propoz o estabelecimento, em França, de uma
-Inquisição, modelada pela de Hespanha, de que Fillippe se havia
-servido, com tanta efficacia, para escorraçar de seus dominios
-a heresia. O espirito de liberdade constitucional não estava,
-porém, tão morto em França que se permittisse a perda total
-de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o
-que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição
-hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os
-parlamentos, protestaram contra essa proposta. O rei e os seus
-conselheiros insistiram na adopção de similhante medida, mas
-em breve descobriram, para seu espanto, que o unico resultado
-colhido foi algumas pessoas nobres, das que de maior influencia
-dispunham, se declararem protestantes; e de ahi em deante
-(1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um
-forte partido huguenote.</p>
-
-<p>A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos
-dos principaes representantes da nobreza, e o que elles observaram
-tambem no procedimento do clero levou-os a procurarem
-homens de vida pura que os instruissem no christianismo.
-Alguns membros da mais alta aristocracia que antipathizavam
-com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por simples
-politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam
-uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana,
-que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica
-ao systema absolutista do rei e dos seus conselheiros.</p>
-
-<p>Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante
-Coligny e seu irmão Francisco d’Andelot.</p>
-
-<p>Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa
-Bourbon, e esta familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada
-por Antonio, duque de Bourbon, que, na falta do rei e
-dos filhos d’este, era o herdeiro do throno de França, e por seu
-irmão Luiz, duque de Condé. Antonio Bourbon tinha casado
-com a piedosa e heroica filha de Margarida de Angouleme,<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span>
-Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo filho foi
-Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu
-o titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo
-em Pau, onde assistia ás prégações dos pastores protestantes.
-Quando voltou para a côrte, começou tambem lá a frequentar
-as reuniões evangelicas, e declarou-se, por fim, protestante. O
-duque de Condé fez o mesmo. Andelot, o irmão mais novo do
-almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o cavalleiro sem
-pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello da
-Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações
-de gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder,
-não se atreveram a castigal-o.</p>
-
-<p>Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu
-um tratado de paz com a Hespanha para poder dedicar toda a
-sua actividade á destruição dos calvinistas. Era vastissimo,
-segundo se diz, o plano que elle tinha preparado. Genebra e
-Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria um golpe
-mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém,
-d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um
-torneio que teve logar em Junho de 1559, morreu.</p>
-
-<p class="tb"><b>O primeiro synodo nacional.</b>—Um caso interessante é que, ao
-mesmo tempo em que se estavam planeando novas medidas de
-repressão, os protestantes francezes houvessem tomado uma
-deliberação que era mais um testemunho da sua progressiva
-força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma casa do Faubourg
-St. Germain, o seu primeiro <i>Synodo Nacional</i>. O que motivou
-essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do
-anno, Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris,
-foi a Poitiers, afim de auxiliar o serviço da Communhão que se
-ia celebrar n’esta cidade. Encontrou-se lá, como era vulgar em
-similhantes occasiões, com pastores que tinham vindo de varios
-pontos, e, conversando ácerca do estado da Egreja, lamentaram
-a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes. Chandieu
-foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as opiniões
-dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou
-cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar
-delegados a uma conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi
-d’esta maneira que teve origem o primeiro Synodo Nacional.
-Era uma pequena assembléa, em que estavam representadas
-onze congregações apenas; mas proveu a Egreja franceza de
-uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina.</p>
-
-<p>A Confissão, conhecida depois pelo nome de <i>Confessio Gallica</i>,
-foi provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se
-n’uma resumida Confissão que Calvino compoz, chamando para
-ella a attenção do rei. Foi mais tarde revista por mais de uma
-vez, mas podemos ainda chamar-lhe a Confissão da Egreja Protestante
-Franceza.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p>
-
-<p><i>O Livro da Disciplina Ecclesiastica</i> foi modelado pelas <i>Ordenanças</i>
-que Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra,
-mas contém notaveis differenças, e mostra o que o livro de
-Calvino teria sido se o conselho de Genebra lhe houvesse dado
-toda a liberdade de acção. A constituição da Egreja franceza
-era inteiramente democratica e de um caracter representativo.
-Reconhecia os consistorios, que já existiam nas congregações,
-e, para os tornar verdadeiramente representativos, preceituava
-que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes.
-Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se
-reuniam duas vezes por anno, e em que cada congregação era
-representada por um pastor e um presbytero; e unia a Egreja
-toda sob um Synodo Nacional, ou Assembléa Geral, que constituia
-o ultimo tribunal de appellação, e a suprema auctoridade
-ecclesiastica.</p>
-
-<p>É interessante observar como n’um paiz cujo governo se
-tornava de anno para anno mais arbitrario e absolutista esta
-«Egreja sob o peso da Cruz» organizava para seu uso um governo,
-que reconciliava mais perfeitamente talvez do que todos
-quantos teem sido organizados desde então, o principio da soberania
-popular com o de uma suprema auctoridade central.
-Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu
-mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja
-escoceza, a de Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza,
-O facto d’ella se afastar posteriormente do modelo francez,
-tornando vitalicios os cargos de presbytero e diacono, e a usurpação
-do exclusivo direito, pela junta mais moderna do presbyterio,
-de enviar representantes á Assembléa Geral, privou
-o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma
-grande parte do elemento popular que constituia a força das
-primitivas egrejas escocezas e francezas.</p>
-
-<p class="tb"><b>Anne de Bourg.</b>—A morte do rei não alterou em coisa alguma
-a politica da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo
-de dezeseis annos. Este tinha por esposa Maria, rainha da
-Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua subida ao throno atirou
-com o poder para as mãos d’este fanatico partido, que era capaz
-de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não
-podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente
-do poder que n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia
-medidas para a repressão dos protestantes mediante a exterminação,
-e aquelle seu grande empenho em que se derramasse
-sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios.</p>
-
-<p>O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e
-execução de Anne de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de
-França, que era tambem juiz. O seu crime consistiu em ter,
-em conselho publico, dito a Henrique II que era uma coisa
-muito seria condemnar aquelles que, no meio das chammas,<span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span>
-invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde,
-foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia
-que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao
-ser proferida a sentença de condemnação á morte por meio da
-fogueira, tornou a fallar com um tão tocante fervor, com uma
-resolução tão pathetica, que até os proprios juizes se commoveram
-«Coisa alguma nos poderá separar de Christo, sejam quaes
-forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem as enfermidades
-que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha
-muito como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos
-matem, pois, que nos despedacem; os que morrem no Senhor
-não deixam jámais de viver, e todos hão de apparecer na resurreição
-geral.... E, sendo assim, para que hei de eu permanecer
-mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo, e conduze-me
-ao logar do supplicio.»</p>
-
-<p>Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo
-francez começa a ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco
-se haviam compenetrado da força de que dispunham, começaram
-de aquelle ponto em deante a reunir-se para tratarem do
-modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como
-deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns
-dos mais impetuosos foram de parecer que se arvorasse
-immediatamente o estandarte da revolta. Calvino e Beza, a
-quem consultaram, dissuadiram-n’os de uma insurreição declarada.
-Não obstante, organizou-se uma conspiração. La Renaudie,
-protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe d’essa
-conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido
-bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada.
-Os Guises tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios
-da sua politica, e houve enormes carnificinas, particularmente
-em Amboise, que ficaram bem gravadas na memoria dos
-huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente Condé de ser
-o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de todos
-os principes e de todos os membros do Conselho privado, e
-desafiou os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de
-Guise não se sentiu com animo de o atacar de novo.</p>
-
-<p class="tb"><b>O morticinio de Amboise</b>, longe de aterrorizar os protestantes,
-parece que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser
-conhecidos pelo nome de <i>Huguenotes</i>. A origem d’este nome é
-obscura; tudo o que ao certo sabemos a seu respeito è que
-depois da conspiração de Amboise andava na bocca de toda a
-gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja
-dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser
-feitos por prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia
-do povo. A Ceia do Senhor foi, por bandos armados, celebrada
-«á moda de Genebra», em Nismes, no Languedoc. O tempo das
-assembléas secretas tinha passado, e grandes reuniões ao ar<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span>
-livre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam que a
-Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de
-gente.</p>
-
-<p class="tb"><b>Coligny na Assembléa dos Notaveis.</b>—A côrte, comtudo, estava
-convencida de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao,
-e as perseguições continuavam com o mesmo vigor. Necessitava,
-porém, de dinheiro, pois que as despezas do reino foram
-gradualmente excedendo as receitas, e em Fontainebleau foi, por
-fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis. Os protestantes
-aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante Coligny,
-chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao
-rei, outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia.
-Pediam a cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem
-publicamente o culto divino.</p>
-
-<p>Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem
-animo. O bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da
-sua diocese, e pediu que fossem revogadas as leis que se oppunham
-á entoação dos hymnos e á leitura das Escripturas, e que
-se convocasse um concilio geral. O arcebispo de Vienne ainda
-se atreveu a mais. Perguntou se «estava resolvida a morte da
-França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se obrigada
-a permittir que se realisasse a tal assembléa geral.</p>
-
-<p>Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo,
-tomaram a resolução de matar os seus homens de maior
-nomeada, e, segundo parece, tinham tambem em mente um massacre
-geral dos huguenotes. Fizeram com que o rei chamasse á
-côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão Luiz,
-duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo,
-para lá partiram.</p>
-
-<p>O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra
-por pouco escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade
-estava prestes a estalar, o rei adoeceu e morreu.</p>
-
-<p>«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que
-enviou a Sturm, «algum acontecimento mais opportuno do que
-esta morte do rei? Quando a desgraça tinha chegado a tal ponto
-que não se podia remediar, Deus revela-Se de subito lá do céu.
-Aquelle que traspassou os olhos do pae feriu agora os ouvidos
-do filho».</p>
-
-<p class="tb"><b>Catharina de Medicis.</b>—Pela morte de Francisco ficou herdeiro
-do throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente
-foi nomeado o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra.
-A mãe do joven rei, Catharina de Medicis, de quem
-haviam feito pouco caso durante a vida do marido, e que
-havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu filho
-mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade
-de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarra<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span>
-instaram com este para que tambem fizesse valer os seus
-direitos. Se elle assim tivesse procedido, o futuro da França seria,
-porventura, mais pacifico. Ter-se-hia alcançado uma duradoura
-tolerancia religiosa, e ter-se-hiam lançado os alicerces de
-uma monarquia constitucional; elle, porém, teve a fraqueza de
-não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi investida no
-poder.</p>
-
-<p>As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões
-a todos os partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises,
-e ao mesmo tempo era indispensavel entrar em negociações com
-os huguenotes. Todos os herejes que estavam presos recuperaram,
-por meio de um edicto, a sua liberdade, mas foram avisados
-de que deviam não dar mais motivo de queixa. No entretanto
-reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da
-morte do ultimo rei.</p>
-
-<p>Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião;
-uma reforma no governo da Egreja, e, em particular, a eleição
-livre dos bispos e do clero; um concilio nacional, sob a presidencia
-do rei, para discutir as questões religiosas, e, no entretanto,
-egrejas para os protestantes, e uma reunião da Assembléa
-dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se tambem para
-auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse
-a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado.</p>
-
-<p>As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke,
-o programma da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem
-sido attendidas, essa revolução não seria assignalada com
-o atheismo que a desacreditou, e não seria necessario derrubar
-a monarquia e a aristocracia. A côrte não estava preparada para
-essas mudanças radicaes, e o mais que se poude obter de Catharina
-foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde podessem
-ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres
-catholicos romanos.</p>
-
-<p>Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes,
-voltou para França muita gente que se tinha refugiado
-na Inglaterra, na Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na
-Italia. Vieram tambem alguns pastores de Genebra, não faltando,
-d’esse modo, homens bem instruidos que dirigissem as congregações
-protestantes. Era impossivel, porém, mudar todas as
-coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises ameaçavam
-vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se
-tinha na conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se
-áquella corrente conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram
-contra as assembléas protestantes. Nas localidades onde os huguenotes
-estavam em maioria, tornou-se difficil evitar que elles
-decisiva e energicamente defendessem os seus direitos. N’algumas
-cidades o povo correu em massa ás egrejas, derrubou as
-imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os
-huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel<span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span>
-por conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de
-Genebra, protestando energicamente contra toda e qualquer illegalidade.
-«Deus nunca disse a pessoa alguma que destruisse
-os idolos, exceptuando aquelles que cada um tenha em sua casa,
-ou os que em publico se encontrarem revestidos de auctoridade....
-A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos
-ver bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos
-limites».</p>
-
-<p class="tb"><b>A Conferencia de Poissy.</b>—A data designada para a Conferencia
-approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram
-convidados todos os francezes que tivessem qualquer coisa a
-dizer em materia de religião a apresentarem-se na proxima assembléa
-de Poissy, na certeza de que não correriam perigo algum
-e seriam escutados com a maxima attenção. Os huguenotes
-tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe
-encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio
-não queria ir, pois que estava convencido de que de similhante
-rainha se não tiraria resultado algum. Por fim acquiesceu,
-e os huguenotes ficaram descançados por saberem que os seus
-interesses estavam entregues em tão boas mãos.</p>
-
-<p>Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia,
-renunciara a um brilhante futuro ao abraçar a causa da
-Reforma. Era um homem de magestosa presença, muito illustrado,
-e de um trato captivante. Abaixo de Calvino, era elle a
-pessoa por quem as egrejas reformadas se deixavam guiar com
-maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo representante.
-Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz
-de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de
-Lorraine. O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande
-personagem, produziram sensação na côrte.</p>
-
-<p>Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente
-manifesta a ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal
-de Lorraine e outros mais trataram logo de pôr termo á conferencia,
-ou, no caso de não conseguirem esse proposito, de a tornarem
-completamente esteril. O resultado da discussão foi ambas
-as partes nomearem delegados para conferirem sobre determinados
-pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de
-Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.</p>
-
-<p>Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás
-suas reuniões secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus
-cultos ás claras, e a qualquer hora do dia, fora das povoações;
-e todos os seus ministros eram obrigados a declarar, sob juramento,
-que não ensinariam coisa alguma que não estivesse de
-accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A tolerancia
-era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento
-legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram
-de parecer que um tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis<span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span>
-condições em que era feito, devia ser acceite. «Se a liberdade
-que o Edicto nos promette fôr duradoura», escreveu
-Calvino, «o papismo cae por si mesmo».</p>
-
-<p>Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos
-a chegar a um accordo com os protestantes. Os funccionarios
-civis, nas cidades e nas provincias, pertenciam á religião
-do estado, e os parlamentos, ou tribunaes de justiça permanentes,
-abominavam o protestantismo. Sabia-se, além d’isso, que o
-Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina para ganhar
-tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos
-a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram
-os dois partidos a prepararem-se para uma guerra civil.</p>
-
-<p class="tb"><b>O massacre de Vassy: outros massacres.</b>—O signal foi dado
-pelo duque de Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o
-Edicto da Tolerancia. No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo
-de manhã, entrou, á frente de um grupo de cavalleiros armados,
-na cidade de Vassy, onde uma pequena e indefeza congregação
-de protestantes estava prestando culto a Deus n’um celleiro.
-Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes,
-que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande
-maioria, assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras
-civis que tanta devastação produziram em França até Henrique
-IV subir ao throno.</p>
-
-<p>O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido
-em muitos outros pontos em que os catholicos romanos
-estavam em maioria. Em Paris, em Sens, em Rouen, em toda a
-parte, emfim, os logares de culto protestantes foram atacados
-e os que n’elles se haviam reunido tiveram morte violenta. Em
-Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina, fecharam-se
-no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao
-cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa
-de que lhes seria permittido sair da cidade sem serem molestados.
-Uma vez cá fóra, foram todos massacrados—homens, mulheres
-e creanças, tendo perecido, ao todo, para cima de 3000
-pessoas. Este morticinio de protestantes, em que houve violação
-de um juramento, foi commemorado pelos catholicos romanos
-de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em
-1862 se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração
-do centenario.</p>
-
-<p>Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias.
-Os huguenotes precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram
-as imagens, os altares e as reliquias. Destruição de
-imagens e derramamento de sangue era a ordem do dia na maior
-parte das provincias de França.</p>
-
-<p class="tb"><b>A guerra civil. Os iconoclastas.</b>—No meio de tudo isto os dois
-partidos formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos,<span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span>
-ficando um, o papista, sob o commando de Francisco, duque de
-Guise, e o outro, o protestante, sob o commando de Luiz, duque
-de Condé, e do almirante Coligny. A França poude então presenciar
-todos os horrores de uma guerra civil, em que o fanatismo
-religioso accrescentou, ás barbaridades communs a todas
-as guerras, as mais atrozes crueldades.</p>
-
-<p>O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado,
-exprimiu a opinião de que esta primeira guerra religiosa
-obstou a que a França se tornasse protestante. As crueldades
-dos papistas tinham desgostado um grande numero de cidadãos
-francezes, que, sem serem impulsionados por fortes sentimentos
-religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado alliado áquelles que,
-pela sua moderação, se mostravam competentes para inaugurar,
-e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes huguenotes
-faziam o maximo empenho em poder provar que os
-seus adherentes sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza
-recommendaram que não se interviesse no culto dos catholicos
-romanos, excepto quando o caso fosse tratado judicialmente, e
-ainda assim com muita serenidade. Não, foi, porém, possivel evitar
-que os protestantes despedaçassem as imagens e dessem
-cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.</p>
-
-<p>Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao
-mesmo tempo. Condé, acompanhado de Coligny e de outros vultos
-importantes, dirigiu-se a toda a pressa para a egreja de
-Santa Cruz, onde o tumulto era maior. Ao chegarem á egreja,
-Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia subido a um
-ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para
-baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz,
-apontou-o ao dito soldado, e ordenou-lhe que descesse
-quanto antes. Elle não parou com o que estava fazendo, proferindo,
-porém, estas palavras: «Deixe-me primeiro fazer este
-idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da sua vontade».
-Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar
-de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse
-pôr um dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes
-entrassem as egrejas ficavam n’uma completa desordem.
-Este procedimento foi tomado em toda a França como um indicio
-de que os protestantes, se chegassem a ter o poder nas
-mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e, por consequencia,
-a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre
-crescendo, começou a declinar.</p>
-
-<p>O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel
-aos huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um
-admiravel general, e os papistas estavam bem providos de dinheiro
-e recebiam auxilio de fóra; ao passo que os huguenotes
-estavam quasi exclusivamente dependentes dos seus proprios
-recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para o
-proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha de<span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span>
-Dreux, em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel
-disciplina dos auxiliares suissos de Guise; mas, por seu
-turno, os papistas perderam o duque de Guise, que foi assassinado
-em Fevereiro de 1563.</p>
-
-<p>Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e
-tornou-se mais facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido
-vencer os papistas; e, do mesmo modo, os papistas não
-tinham conseguido exterminar os protestantes. Não se haviam
-reconciliado uns com os outros, mas achavam-se cançados; e
-convieram n’uma suspensão de hostilidades. O Edicto da Paz
-garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam sido
-concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais
-importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade
-em cujos arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus
-cultos, e em todas as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de
-Março do anno corrente era praticada a religião protestante,
-será a pratica d’esta permittida em dois recintos <i>intra-muros</i>,
-que serão opportunamente designados pelo rei». O Edicto de
-Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as coisas
-por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos
-não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os
-protestantes por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam.
-Foi obra de Catharina e de Condé, cada um dos quaes
-confiava em que o futuro se encarregaria de tornar inoffensivas
-para o seu partido as concessões que fazia.</p>
-
-<p>As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes
-arrebentou a segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de
-um anno. A unica acção decisiva foi a batalha de St. Denis, em
-que Montmorency foi morto. Seguiu-se então o armisticio de
-Longjumeaux, cujas condições eram identicas ás do Edicto
-de 1562.</p>
-
-<p>Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes
-começou a terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se
-do duque de Alba, o feroz governador dos Paizes Baixos, que
-se estava preparando para ajudar a côrte franceza a exterminar
-todos aquelles que não quizessem submetter-se á Egreja Catholica
-Romana, e resolveram tomar a offensiva. Condé e Coligny
-souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar a vida
-aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente,
-supprimir a obnoxia fé.</p>
-
-<p>Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou.
-Combateu-se durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas
-de bom e mau exito, tanto diplomatico como militar. Por
-fim, teve logar a batalha de Jarnac, onde os huguenotes foram
-derrotados, e onde Condé e varios outros encontraram a morte.
-A sorte parecia ter-se tornado crudelissima para os huguenotes.
-Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de Navarra,
-moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que não<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span>
-tinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny
-é que teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou
-de reunir as forças dispersas, e, não obstante alguns revezes,
-poude obter um tratado de paz que offerecia vantagens como
-nunca os huguenotes tinham logrado alcançar. Foi auctorizado
-o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro d’ellas—La
-Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas
-aos protestantes como logares de refugio.</p>
-
-<p class="tb"><b>Coligny e Carlos IX.</b>—O almirante Coligny ficou sendo, em
-virtude d’este tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes
-mais confiavam. Deixou-se ficar em La Rochelle, no meio dos seus
-correligionarios, e encarregou-se da tutella dos dois jovens
-principes que eram as esperanças dos protestantes, Henrique
-de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal que elle tinha
-em vista era de tornar permanentes as vantagens que os reformados
-tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas.
-Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os
-avisos em contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes
-do que, por uma indevida solicitude pela minha vida, dar occasião
-a que se avente uma suspeita em todo o reino».</p>
-
-<p>Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX
-sympathizou com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então
-uns vinte annos, não havia conhecido nunca um homem como
-aquelle. A enfermidade não o havia deixado desde a infancia, e
-estivera rodeiado por pessoas que tinham interesse em o educar
-na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz em contacto
-com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo
-respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo
-com as suas convicções, que se havia tornado a mais celebre
-individualidade da França, que fora o organisador do partido
-protestante, que era quasi adorado pelos seus amigos, e que,
-apezar da sua edade avançada, estava ainda em todo o vigor da
-vida, não poude deixar de confiar n’elle como nunca tinha confiado
-em pessoa alguma.</p>
-
-<p>Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram
-que o rei estava sob uma nova influencia, a que precisavam
-de subtrahil-o a todo o transe. Tinham medo de que o
-rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso, lhes escapasse
-das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil Carlos sentiu
-por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a
-causa do massacre de S. Bartholomeu.</p>
-
-<p>Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de
-Coligny. O attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter
-com seu filho, e referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes
-estavam convencidos de que elle, Carlos, entrara também
-na conspiração que tinha por fim a sua morte, e que, portanto<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span>
-nunca havia de ter paz emquanto os protestantes não
-fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos vultos
-preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu.</p>
-
-<p class="tb"><b>A matança de S. Bartholomeu.</b>—Esta terrivel carnificina de
-protestantes, que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24
-de Agosto de 1572) foi obra de Catharina de Medicis, de Henrique
-de Anjou e dos Guises. A matança foi feita em Paris por
-20:000 milicianos da cidade, coadjuvados por alguns soldados e
-pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo duque de Guise.
-As forças a que se commetteu aquella tarefa eram commandadas
-pelos irmãos Guise.</p>
-
-<p>Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes
-cabeças, e depois o massacre tornou-se geral. As casas
-dos protestantes tinham sido previamente marcadas com cruzes
-brancas, e os assassinos, para reconhecimento mutuo, traziam
-faxas brancas, além de outros signaes. Só em Paris foram mortos,
-pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram pessoas
-de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram
-mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta,
-fixa o numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas
-provincias, e o numero das victimas tem sido calculado entre
-30:000 e 100:000. Sully, primeiro ministro de Henrique IV, que
-estava provavelmente bem inteirado, affirma que cairam sem
-vida 70:000 pessoas.</p>
-
-<p>Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem
-mostrado muito orgulhosos de aquelle commettimento, mas
-quando a matança teve logar muitos d’elles exultaram. Sabe-se
-perfeitamente que, se o acto não foi instigado de Roma, o papa
-e a curia estavam, pelo menos, scientes de que elle ia realisar-se.
-Houve illuminações em Roma para festejar o acontecimento, os
-canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se uma
-procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma
-medalha para commemorar o <i>Hugonotorum Strages</i>. Alguns dos
-principes catholicos romanos enviaram mensagens de congratulação,
-e diz-se que o pobre e corrompido Filippe II de Hespanha
-sorriu, pela primeira e ultima vez na sua vida, quando a
-noticia lhe constou.</p>
-
-<p>O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e
-privou-os de quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam
-a existir, e, em vez de se intimidarem, de se darem por
-vencidos, perante aquelle acto sanguinario, resolveram em seus
-corações vingar-se d’elle. Ainda restavam algumas cidades em
-poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes, Montauban,
-e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se
-a dar entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.</p>
-
-<p>La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas
-por Henrique de Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span>
-de um cerco, obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se.
-Uma egualmente bem succedida resistencia da parte de
-outras cidades forçou a côrte a entrar em negociações com os
-seus odiados subditos protestantes, e ficou restabelecida a paz.</p>
-
-<p>D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam
-estar sempre preparados para a guerra. Os horrores da vespera
-de S. Bartholomeu haviam-lhes mostrado o quão implacaveis
-eram os seus inimigos, e a traição por elles commetida quando
-foi do cerco e capitulação de Sancerre deu-lhes uma prova da
-sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados oito mezes,
-e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens,
-pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos.
-«Porque chora», exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me
-morrer de fome? Eu não lhe peço pão, mãe; sei que não tem
-nenhum para me dar. Visto Deus querer que eu morra d’esta
-forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle homem
-santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?»
-E depois de a cidade se haver rendido teve logar, não obstante
-a promessa que lhe tinha sido feita sob juramento, uma horrivel
-scena de homicidio e pilhagem.</p>
-
-<p>Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram
-organizar-se, para que podessem estar sempre promptos,
-e tão diligentemente pozeram os seus planos em execução que
-n’um curto prazo se encontraram aptos para pôrem 20.000 homens
-em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que tudo
-organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei,
-em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as
-guerras religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote
-não se havia extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu
-um outro partido ia adquirindo lentamente importancia em
-França. Era elle constituido pelos catholicos romanos moderados,
-que estavam fartos de carnificinas, e que attribuiam todos
-os males do Estado ao poder de que os estrangeiros dispunham
-no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes,
-isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração
-das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como
-também eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas
-quando tiveram conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle,
-e do programma politico que os huguenotes expozeram
-em Milhau, e, revestidos de paciencia, esperaram a occasião de
-intervir.</p>
-
-<p>Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a
-quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse
-seguido de um tratado de paz, nunca, de um modo ou do
-outro, se deixou de combater, e a rejeição do pedido feito pelos
-huguenotes não permittia duvidas quanto á imminencia de outra
-guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio de 1574,
-de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span>
-sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo
-da carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique
-de Anjou, o terceiro e mais vil dos filhos de Catharina, e que
-era o favorito d’esta. Henrique era ao mesmo tempo um papista
-cheio de superstições e um libertino cheio de impudencia.</p>
-
-<p>Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado
-aos Guises, e adherira ao partido papista; pouco depois
-de subir ao throno, porém, como o amedrontasse a possibilidade
-de uma alliança entre os «politicos» e os huguenotes, concedeu,
-por meio de um edicto, uma parte do que os protestantes pediam.
-Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada liberdade religiosa,
-egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser julgado
-por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e
-de protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como
-penhor, nas mãos dos protestantes.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Santa Liga.</b>—Este procedimento do rei deu logar á fundação
-da Santa Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos
-jesuitas, cujo fim era promover uma alliança dos catholicos
-francezes com Filipe II de Hespanha e com o papa. Visava,
-em primeiro logar, a governar a França no interesse da fé catholica
-romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes,
-e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os
-Bourbons, ou, pelo menos, o impedir que a corôa passasse para
-Henrique de Navarra.</p>
-
-<p>Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em
-cujos variados incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a
-quinta, como a sexta, como a setima guerra civil concluiu por
-um tratado de paz favoravel aos protestantes.</p>
-
-<p>Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio
-dos Guises. A oitava guerra civil terminou em julho, mediante
-o tratado de Nemours, que não era tão favoravel para os protestantes.
-A nona guerra civil teve logar pouco depois. Foi denominada
-a Guerra dos Tres Henriques—Henrique III, Henrique
-de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua pouca
-edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra
-teve o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes
-ficaram victoriosos.</p>
-
-<p>As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram
-entre o rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu
-que a sua auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes,
-que se reuniram em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe
-que a França estava sob o dominio do duque; e a insurreição que
-teve logar algumas semanas antes foi uma revelação do quanto
-a Liga se havia ramificado. Não querendo sujeitar-se por mais
-tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da Liga mediante
-a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise,
-e Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembro<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span>
-de 1588, juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga
-continuou a existir. É que ella havia estabelecido em toda a
-França associações similhantes aos clubs jacobinos do periodo
-revolucionario; e, quando os Guises foram assassinados, a sociedade
-mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como era conhecida,
-apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos
-os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação
-do parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel
-medo, fugiu para o meio dos huguenotes, entregando-se
-ao seu grande rival, o rei de Navarra. Jacques Clemente, frade
-dominicano, e um dos fanaticos da Liga, foi, porém, em sua perseguição,
-e apunhalou-o. Algumas horas depois Henrique III expirava,
-e o general huguenote ficava sendo o legitimo herdeiro
-da corôa de França.</p>
-
-<p class="tb"><b>Henrique de Navarra.</b>—Ao principio foi apenas reconhecido
-pela parte protestante da França. A Liga dispunha de grande
-poder, e estava resolvida a impedir que o throno fosse occupado
-por um huguenote. Até mesmo os catholicos romanos moderados
-com dificuldade podiam admittir que reinasse em toda a
-França um rei que professava a religião da minoria. O papa recusava-se
-a reconhecer um soberano protestante, e Filippe II
-de Hespanha fez a ameaça de uma invasão das suas tropas.
-N’estas circumstancias, Henrique de Navarra fez uma coisa extraordinaria:
-pediu para ser instruido nas doutrinas da religião
-catholica romana. Isto chamou para o seu partido um grande
-numero de romanistas moderados, e o rei poude desbaratar a
-Liga nas batalhas de Arques e Ivry.</p>
-
-<p>A Liga continuava ainda a intimidai-o muito e projectava
-levar ao throno Carlos de Guise, duque de Mayenne, ou o Cardeal
-Bourbon, tio de Henrique, (que reinou effectivamente sob o
-nome de Carlos X), ou Filippe II de Hespanha, que tinha casado
-com uma Valois.</p>
-
-<p>Em face de todas estas complicações, Henrique deu um
-passo que a sua heróica mãe nunca teria dado. Fez-se catholico
-romano. O effeito d’isto foi que n’um maravilhosamente curto
-espaço de tempo a Liga se dissolveu, e Henrique IV foi acclamado
-rei por quasi toda a França. Os seus velhos companheiros
-de armas e correligionarios, posto que deplorassem a sua apostasia,
-não abandonaram o joven que desde a infancia havia sido
-seu associado e chefe, e que, depois dos afflictivos dias de Bartholomeu,
-havia deixado a côrte assim que isso lhe fôra possivel,
-para combater junto d’elles. Elle, em troca, concedeu-lhes
-aquillo por que haviam luctado durante trinta annos.</p>
-
-<p class="tb"><b>O Edicto de Nantes.</b>—Em 1598 foi assignado o famoso Edicto
-de Nantes, que se adeantava mais em tolerancia religiosa
-do que qualquer outro edicto do seculo dezeseis. Tinha, porém,<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span>
-um grande defeito, e era que as circumstancias em que a França
-se encontrava tornavam impossivel garantir liberdade religiosa
-sem conceder aos protestantes certos privilegios politicos que
-os constituiam um estado no estado, e que mais tarde obstaram
-á completa fusão dos dois partidos n’um governo.</p>
-
-<p>Este edicto outorgava completa liberdade de consciencia;
-de ahi em deante ninguem mais seria perseguido por causa das
-suas idéas religiosas. Todos os nobres que possuissem aquillo a
-que se chamava «superior jurisdicção» tinham auctorização para
-ensinar o calvinismo, e toda a gente podia aproveitar-se das suas
-lições. Os nobres que não possuissem essa jurisdicção gozavam
-do mesmo privilegio, e podiam ter ao seu serviço quantas pessoas
-quizessem, quando residissem em localidades onde não houvesse
-catholicos romanos com a «superior jurisdicção». Dava
-licença para que continuasse, ou fosse restaurado, o culto publico
-«a que chamam reformado» em todas as cidades onde elle
-já existia em Agosto de 1597. Quando os protestantes estivessem
-espalhados por um districto provinciano, designar-se-hia para
-local do culto uma das povoações. Prohibia-se aos protestantes
-o culto publico em Paris, ou a cinco milhas de distancia d’essa
-cidade, e nas seguintes cidades, onde predominava o fanatismo
-catholico romano: Reims, Toulouse, Dijon e Lyon. N’outra qualquer
-parte os protestantes podiam ter egrejas, sinos, escolas,
-etc. Os principaes limites da liberdade religiosa consistiam em
-que a religião romana era declarada a religião estabelecida, e
-em que os protestantes tinham de pagar dizimos ao clero official,
-não podiam trabalhar nos dias santificados, e eram obrigados
-a conformar-se com as leis matrimoniaes da egreja catholica.</p>
-
-<p>Os protestantes, ficou também declarado, tinham os mesmos
-deveres civis e os mesmos privilegios dos catholicos romanos,
-e podiam concorrer a todos os empregos e dignidades do Estado.
-Estabeleciam-se tribunaes de justiça especiaes, para julgamento
-dos protestantes. Estes retinham durante oito annos
-todas as cidadellas que lhes pertenciam anteriormente a 1597,
-com todo o material de guerra; e n’essas cidades os governadores
-eram nomeados pelos huguenotes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p>
-
-<h3 id="II_CAPITULO_IV">CAPITULO IV<br />
-<span class="smaller">A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>Os Paizes Baixos, <a href="#Page_113">pag. 113</a>.—A politica de Carlos V, <a href="#Page_114">pag. 114</a>.—Os principios
-da Reforma, <a href="#Page_115">pag. 115</a>.—Filippe II e os Paizes Baixos, <a href="#Page_115">pag. 115</a>.—A
-inquisição, <a href="#Page_117">pag. 117</a>.—Os novos bispados, <a href="#Page_118">pag. 118</a>.—Tornar-se-ha hespanhol
-o paiz? <a href="#Page_119">pag. 119</a>.—Os <i>mendicantes</i>, <a href="#Page_120">pag. 120</a>.—Prégações ruraes,
-<a href="#Page_120">pag. 120</a>.—O duque de Alba nos Paizes Baixos, <a href="#Page_121">pag. 121</a>.—A prisão do
-conde Egmont e do conde Horn, <a href="#Page_122">pag. 122</a>.—A guerra civil. O principe de
-Orange, <a href="#Page_124">pag. 124</a>.—Os mendigos do mar, <a href="#Page_124">pag. 124</a>.—A tomada de Brill,
-<a href="#Page_126">pag. 126</a>.—Requescens y Zuniga, <a href="#Page_128">pag. 128</a>.—O cerco de Leyden, <a href="#Page_129">pag. 129</a>.
-Negociações entre as provincias do sul e as do norte, <a href="#Page_130">pag. 130</a>.—D. João
-de Austria, <a href="#Page_131">pag. 131</a>.—Alexandre de Parma, <a href="#Page_132">pag. 132</a>.—O tratado de
-Utrecht, <a href="#Page_132">pag. 132</a>.—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão,
-<a href="#Page_133">pag. 133</a>.—O <i>Confessio Belgica</i>, <a href="#Page_134">pag. 134</a>.—A constituição da Egreja hollandeza,
-<a href="#Page_134">pag. 134</a>.—A força da Egreja na Hollanda, <a href="#Page_136">pag. 136</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>Os Paizes Baixos.</b>—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma
-foi talvez a ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final,
-mas aquelle paiz teve a honra de fornecer os primeiros
-martyres da fé protestante.</p>
-
-<p>Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt
-e do Rheno, e na edade media constituiam o lado norte do velho
-reino de Lotharingia, ou Lorrena, o celebre reino central, como
-era chamado. A sua situação, com uma extensa costa maritima,
-e os grandes rios que o atravessavam, tornava-o naturalmente
-um paiz commercial. O mar estava constantemente usurpando
-a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios trasbordavam,
-e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos.</p>
-
-<p>A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam
-o povo fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar
-de si sem o auxilio alheio. O paiz abundava em grandes
-cidades, habitadas por gente livre e opulenta. A vida burgueza
-começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na maioria das
-nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada.
-N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes;
-n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia
-em Utrecht, considerava seu subdito o bispo da provincia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p>
-
-<p>Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o
-espirito da liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra
-dos Trouvères, e a sua influencia era ainda bastante para que
-no povo se conservasse vivo o espirito anti-clerical. O clero
-romano nunca teve muito predominio nas cidades mais importantes,
-e mesmo nas provincias não conseguiu jámais levar
-de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas,
-as quaes algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros,
-ou sociedades de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham
-por fim cultivar os talentos dramaticos dos seus membros,
-ou para representarem os oratorios medievaes, ou, mais
-frequentemente, para comporem e recitarem poesias satyricas
-e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram inexoravelmente
-atacados.</p>
-
-<p>Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores
-de Gerardo Groot, o fundador das escolas para creanças pobres
-e dos asylos para orphãos; e os seus collaboradores, os
-Irmãos da Vida Commum, tinham diffundido os seus sentimentos
-de mystico desprezo por uma Egreja mecanica e politica,
-e a sua ambição de que todos os paizes em redor fossem devidamente
-educados e seguissem a religião do coração. Thomaz
-á Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que
-viveram antes da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos.</p>
-
-<p class="tb"><b>A politica de Carlos V.</b>—No seculo quinze a maior parte
-d’estes estados livres e d’estas cidades opulentas tinha caido
-sob o dominio dos duques de Borgonha, que eram ao mesmo
-tempo vassalos da corôa franceza e do Imperio. Não vem agora
-a proposito relatar a avidez com que Filippe o Bom, e seu filho,
-Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um reino, e
-para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que
-os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da
-França constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos,
-quando casou com Maximiliano de Austria, que era neto
-de Carlos V, o imperador na epoca em que se deram os primeiros
-episodios da Reforma.</p>
-
-<p>Carlos V, que era conde de Hollanda, e <i>stadtholder</i> dos
-Paizes Baixos, assim como rei de Hespanha e imperador da
-Allemanha, nasceu e foi educado nos Paizes Baixos, e reputava
-essas provincias suas propriedades exclusivas. A politica constante
-do imperador foi a de auxiliar, até onde podesse ser, os
-privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos Paizes Baixos
-fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar o governo
-e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo não
-recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos
-de procedencia hespanhola.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p>
-
-<p class="tb"><b>Os principios da Reforma.</b>—Quando a Reforma começou na
-Allemanha, e foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando
-Luthero, os seus adherentes e as suas obras sob o anathema
-do Imperio, Carlos fez sair nos Paizes Baixos um decreto
-que continha disposições similhantes. O edicto foi inefficaz na
-Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia nos
-Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes
-e João Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito,
-foram queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros
-martyres da Reforma. Luthero compoz um hymno em sua
-honra, que intitulou «Cantico dos dois martyres de Christo em
-Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.» Foram prohibidas
-as reuniões religiosas, assim como a introducção das
-obras de Luthero.</p>
-
-<p>Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero
-foi traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em
-1523, e as doutrinas da Reforma tornaram-se largamente conhecidas.</p>
-
-<p>Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias
-em nome de Carlos não deram plena execução aos severos edictos
-que lhes foram confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos,
-era inclinada á tolerancia em materia de religião, e Maria
-da Hungria, sua irmã, era, segundo se diz, secretamente partidaria
-da Reforma. N’estas circumstancias o movimento alastrou-se
-com rapidez no meio do povo, que estava acostumado a ler,
-pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador,
-«até nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com
-pessoas aptas não somente para ler e escrever, como tambem
-para discutir, quaes letrados, as interpretações biblicas.»</p>
-
-<p>O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do
-fanatismo anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram
-apoderar-se da cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram
-as ruas soltando loucos vaticinios. Na Frisilandia
-penetraram n’um convento, e combateram desesperadamente
-com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o edificio.
-O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira
-caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram
-quasi trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes
-que não approvavam de modo algum aquelles ardores
-anabaptistas. A Reforma, apezar d’este contratempo, foi fazendo
-progressos nos Paizes Baixos, até que, em 1555, Carlos V abdicou
-em seu filho Filippe II, começando então o povo a luctar
-pela liberdade politica e religiosa.</p>
-
-<p class="tb"><b>Filippe II nos Paizes Baixos.</b>—Carlos viu todos os seus projectos
-transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu
-adoptar a mesma politica, usando, porém, do maior rigor e severidade.<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span>
-«Queria impôr, illimitada e incondicionalmente, o despotismo
-temporal e espiritual a que o restabelecido poder pontificio
-aspirava.» Sabemos agora que o empreendimento de Filippe
-era, desde o principio, irrealisavel; mas o elle ser ou não bem
-succedido constituiu um problema que teve a Europa suspensa
-durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou
-bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a
-lucta nos Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira
-revolta contra a politica de Filippe, e devido a ella o poder
-de Hespanha ficou tão abalado que a Europa poude sentir-se
-em segurança.</p>
-
-<p>Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe
-achava-se nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com
-desgosto os progressos que a religião reformada fazia n’essa
-terra. A Hespanha estava segura, pois que se havia inteiramente
-extinguido n’ella toda a liberdade civil e religiosa. Filippe
-podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e superintender
-pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu que
-a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld,
-que muitos dos nobres estavam em constante communicação
-com os principes lutheranos da Allemanha, e que os protestantes
-dos Paizes Baixos se entendiam tambem perfeitamente com
-os huguenotes francezes. As suas medidas para exterminio
-da heresia foram cuidadosamente elaboradas e com muita paciencia
-postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na presença
-do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que
-lhe fosse dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos
-detalhes, no estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação
-do episcopado das provincias.</p>
-
-<p>Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao
-sul dos Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França,
-tanto ao norte como ao sul, e quando em guerra com este paiz
-as tropas hespanholas haviam-se aquartellado nas dezesete provincias,
-com o fim de se encontraram com o exercito francez
-n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas tropas
-e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios.
-Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem
-o seu consentimento representava um attentado contra um dos
-privilegios que as provincias mais apreciavam; o paiz, além
-d’isso, tinha acabado de passar por uma grande fome, e a brutalidade
-dos soldados ainda mais exasperava o povo, chegando os
-habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam morrer
-afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes
-da soldadesca.</p>
-
-<p>Filippe não podia ficar para sempre nos Paizes Baixos, pois
-que a sua presença era necessaria na Hespanha, e antes de se
-retirar precisava de nomear uma pessoa que ficasse governando
-em seu nome. As provincias queriam que esse encargo recaisse<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span>
-sobre um dos seus nobres, e os nomes de dois membros da aristocracia,
-Guilherme de Orange e o Conde Egmont, que eram
-tambem principes do Imperio Allemão, foram frequentemente
-pronunciados na presença do rei. Tinham sido ambos muito
-affeiçoados a Carlos V, havendo demonstrado por meio de actos
-a sua dedicação, e possuíam todos os requisitos para o desempenho
-de aquelle logar. A escolha de Filippe, porém, caiu em
-sua cunhada, Margarida de Parma, que estava inteiramente
-dependente d’elle, era estranha ao paiz, cuja lingua ignorava,
-e conforme Filippe suppunha, lhe obedeceria cegamente. Deixou
-junto d’ella, como primeiro conselheiro, Antonio Perrenot,
-mais conhecido pelo cardeal Granvella, creatura sua, e mais
-um ou dois que elle sabia ao certo que executariam sem hesitação
-qualquer ordem que mandasse.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Inquisiçao.</b>—O mais importante elemento de repressão,
-comtudo, foi a inquisição. Esta terrivel instituição differia inteiramente
-da organização que, com o mesmo nome, existiu
-antes da Reforma. A primeira inquisição, estabelecida para
-exterminio dos albigenses do sul da França, causou grandes
-soffrimentos aos não-conformistas da edade media, mas as suas
-funcções eram geralmente entregues aos dominicanos e aos
-franciscanos, e a rivalidade que havia entre uns e outros, combinada
-com o facto de terem sido estas duas grandes ordens as
-que deram acolhida á heresia medieval, obstou a que ella fosse
-o perseverante instrumento de repressão de que os papas de
-epocas posteriores á da Reforma, os jesuitas e os monarcas
-como Filippe II careciam. Foi, por conseguinte, remodelada em
-Roma sob a superintendencia do cardeal Caraffa, que mais tarde
-se chamou Paulo IV, separada das ordens monasticas, e restabelecida
-sobre uma base independente.</p>
-
-<p>Tinha por fim, segundo a bulla que presidiu á sua fundação,
-extirpar a heresia, primeiro em Italia, e em seguida em todo o
-mundo; e no seu funccionamento havia quatro regras a observar.
-Em materias de fè não se permittia um momento de demora,
-e a inquisição tinha de proceder com o maior rigor á mais leve
-suspeita, não se respeitava as pessoas dos principes ou dos
-prelados, por mais elevada que fosse a sua posição; usar-se-hia
-de um rigor especial para com aquelles que se acolhessem á
-protecção de um rei ou de uma personagem equivalente; e não
-se concederia uma falsa tolerancia a qualquer heresia, sobretudo
-ao calvinismo.</p>
-
-<p>A idéa do cardeal Caraffa era tornar a inquisição alliada do
-Estado, prestando o poder civil a sua coadjuvação para que as
-ordens da Egreja fossem cumpridas, e acoimando esta de heresia
-qualquer acto ou phrase que um Estado despotico entendesse
-que lhe era hostil. A inquisição tornava-se assim uma terrivel<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span>
-maquina nas mãos de um governo despotico, e, na verdade, onde
-quer que a sua presença se fez sentir por muito tempo, toda a
-liberdade civil e religiosa foi suffocada.</p>
-
-<p>A Italia e a Hespanha ainda não se restabeleceram das feridas
-por ella abertas.</p>
-
-<p>Carlos V estabeleceu a Inquisição tanto em Hespanha como
-nos Paizes Baixos, e, de accordo com o que ella preceituava,
-publicou alguns edictos cheios de violencia, aos quaes, não
-obstante a passiva opposição dos regentes, não houve remedio
-senão obedecer. Foi prohibido imprimir, copiar, conservar
-escondido, comprar, vender ou dar qualquer livro de Luthero,
-Œcolampadius, Zwinglio, Bucer, Calvino, ou qualquer outro hereje.
-Foi tambem prohibido damnificar, de uma ou outra fórma, a
-imagem de qualquer santo canonizado, assistir a reuniões hereticas,
-ler as Escripturas, e entrar n’uma discussão ou controversia
-religiosa. Os transgressores, se se retractassem, eram mortos
-á espada ou enterrados vivos; se não se retractassem, eram
-queimados, com confiscação de todos os seus bens. Aquelle que
-denunciasse um hereje recebia uma boa parte da sua fortuna,
-logo que fosse provada a veracidade da accusação. Os suspeitos
-de heresia eram obrigados a abjurar, e, se tornava a haver duvidas
-a seu respeito, procedia-se com elles como se fossem herejes
-declarados. Durante o reinado de Carlos houve todos os
-annos um bom numero de execuções, e, não obstante, a Reforma
-ia-se propagando. Em 1550 já tinham fugido á inquisição 10:000
-pessoas, que procuraram refugio em paizes estrangeiros. Filippe,
-a cujo conhecimento isto chegou, era de opinião que o terrorismo
-ainda não tinha sido exercido senão em pequena escala;
-concedeu, portanto, mais amplos poderes á inquisição, e ordenou
-á regente e ao seu conselho que prestassem aos inquisidores
-todo o auxilio que lhes fosse necessario.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os novos bispados.</b>—No principio do seculo dezesseis havia
-nos Paizes Baixos quatro bispados: o de Arras, o de Cambray,
-o de Tournay e o de Utrecht. Filippe, só com uma pennada,
-propoz que se acerescentassem quatorze. O cardeal Caraffa, já
-então o papa Paulo IV, deu logo o seu apoio a essa proposta,
-pois que, disse elle, a heresia andava desenfreiada pelos Paizes
-Baixos, e a seara era abundante mas poucos os obreiros. O clero
-dos Paizes Baixos protestou; o povo, indignado, appellou para a
-constituição do paiz, que não permittia que o clero fosse augmentado
-sem o consentimento d’este. Todos os protestos, porém,
-foram baldados. Em 1560 o paiz foi dividido em quinze bispados,
-que ficaram sobre as ordens de tres arcebispos, tendo
-por primaz o arcebispo de Mechlin; e Filippe alcançou assim
-um bom numero de voluntarios instrumentos de repressão,
-assim como uns poucos de tribunaes onde os casos de heresia
-fossem julgados e sentenciados.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p>
-
-<p class="tb"><b>Tornar-se-ha hespanhol o paiz?</b>—No entretanto o paiz ia-se
-alarmando. Estas mudanças foram para a maioria dos neerlandezes
-indicios de que se intentava reduzir os Paizes Baixos á
-condição de Hespanha. O patriotismo identificou-se com a Reforma,
-e a causa nacional e a religião evangelica caminharam,
-por assim dizer, de mãos dadas.</p>
-
-<p>Isto deu um grande impulso ao movimento protestante.
-Tornou-se a causa popular. Multidões intervieram nos castigos
-ecclesiasticos, apoderaram-se das victimas condemnadas á morte
-pela inquisição, promoveram tumultos por occasião da missa,
-e por vezes atacaram as egrejas e derrubaram as imagens.</p>
-
-<p>Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem
-as suas queixas. O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram
-culpado de todas as medidas dignas de censura. Filippe, fingindo
-concordar com os nobres, transferiu Granvella para outro
-ponto; mas o velho systema de terrorismo continuou, e os nobres
-perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade, os queria
-fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam
-protestado.</p>
-
-<p>A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou
-uma nova resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez,
-fallou contra a proposta em termos violentos; houve uma
-assembléa de nobres, e resolveu-se encarregar o conde Egmont
-da missão especial de informar o rei dos sentimentos do povo
-das provincias; porque ainda se julgava que Filippe ignorava
-certas coisas de que aliás estava perfeitamente informado.</p>
-
-<p>Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um
-subdito leal do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido
-de Filippe, esse alguém, segundo a opinião geral, era Egmont.
-Partiu para Madrid em 1565, onde foi recebido com apparente
-cordialidade, e assegurou-se-lhe que as representações dos nobres
-seriam attendidas.</p>
-
-<p>Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de
-cumprir as suas promessas. Deu, pelo contrario, ordem para
-que em todas as cidades fossem proclamados, de seis em seis
-mezes, os decretos de Trento, os edictos com caracter de perseguição
-e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo contam
-os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o
-commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e
-todo o paiz parecia ter passado por um enorme cataclismo.
-Distribuiam-se pamphletos, que eram avidamente lidos, contendo
-apaixonados appellos ao povo para que pozesse termo á tyrannia.
-Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta aberta ao rei,
-dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos
-n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de
-Deus.» Damos graças a Deus por até os nossos inimigos se
-verem constrangidos a dar testemunho da nossa piedade e da<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span>
-nossa innocencia, e tanto assim que se diz commummente: «Fulano
-não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não pratíca
-immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita».
-«E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo
-que se pode inventar.»</p>
-
-<p class="tb"><b>Os mendicantes.</b>—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes
-tinham um espirito mais ousado resolveram unir-se para
-resistirem á tyrannia. Os seus chefes naturaes, que eram o principe
-de Orange e os condes de Egmont e de Horn, conservaram-se
-afastados, por considerarem insensata aquella empreza. Os
-confederados resolveram começar dirigindo-se em solemne procissão
-á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição e a
-revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza
-em 5 de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham
-preparado; e a regente, perturbada com a imponencia do acto,
-convocou a toda a pressa o conselho para saber o que havia de
-responder. Barlaymont, um dos seus conselheiros, e pessoa
-muito da intimidade de Filippe, foi de opinião que «aquelle
-bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do palacio,
-A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse
-as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles
-reunidos n’um banquete para deliberarem, o conde Brederode
-levantou-se, e disse: «Chamam-nos mendicantes. Acceitamos
-esse nome. Empenhamos a nossa palavra em como havemos de
-resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e á Sacola do
-Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro
-como as que usam os mendigos que andam de terra em terra,
-e, deitando vinho n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade
-da causa.</p>
-
-<p class="tb"><b>Prégações ruraes.</b>—O nome de mendicantes foi adoptado com
-grande enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal.
-Por toda a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos
-e fidalgos com a sacola de coiro dos mendigos vagabundos. O
-povo começou a compenetrar-se da força de aquella aggremiação.
-Realisaram-se logo grandes conventiculos, ou prégações
-ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as
-mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas
-em redor, collocando-se os homens, armados, um pouco
-fóra do ajuntamento, e assim escutavam as pregações dos ministros
-excommungados. Liam as Escripturas, cantavam hymnos,
-e ouviam orações feitas na sua lingua natal. Era tal a agglomeração
-de gente, e estavam tão vigilantes e tão bem armados, que
-os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente convenceu-se
-de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não
-poderia conter a excitação popular.</p>
-
-<p>O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span>
-ao ar livre se faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos
-romanos. Quando os padres passavam pelas ruas de
-Antuerpia levando processionalmente a milagrosa imagem da
-Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken! (Mariasinha)
-chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a cathedral
-e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros.
-N’outros pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar
-outros actos de violencia. A regente via-se sem forças para pôr
-termo aos tumultos, e, em desespero, concedeu ao povo a abolição
-da inquisição e a tolerancia da doutrina protestante. Confiando
-na sinceridade d’estas concessões, os nobres tomaram
-sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir as
-desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o
-conde Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.</p>
-
-<p>Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado
-do regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão,
-determinou, na primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz
-e exterminar os cabeças de motim. Com a sua habitual dissimulação,
-procurou disfarçar os seus intentos, e o conde Egmont
-foi por elle enganado. O principe de Orange, sempre bem informado,
-e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e suspeitava
-de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria, e
-preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei
-havia de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres
-que haviam dirigido o movimento não estavam suficientemente
-unidos para resistir; que os chefes menos cautos dos
-Mendicantes se haviam de revoltar; e que o rei havia de tomar,
-indescriminadamente, uma furiosa represalia.</p>
-
-<p>Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem
-de Walcheren; reuniram-se em grande numero em Anstruweel,
-e ameaçaram Antuerpia. Na sua marcha, destruiram reliquias
-e despojaram as egrejas das imagens e dos paineis. Egmont,
-querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre esses insurgentes
-e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.</p>
-
-<p>O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o
-principe de Orange tinha tão exactamente interpretado o curso
-dos acontecimentos que, quando elle ainda ia a caminho do seu
-voluntario exilio, da Allemanha, ia nos Paizes Baixos o duque
-de Alba, á frente de um novo corpo de exercito hespanhol.</p>
-
-<p class="tb"><b>O duque de Alba nos Paizes Baixos.</b>—Fernando Alvarez de
-Toledo, duque de Alba, era um dos servidores de Filippe II que
-mais se parecia com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um
-ignorante em todos os assumptos politicos e economicos, um
-avarento, e um impudente enganador. Publicações recentes teem
-demonstrado que elle possuía muito pouco do talento que os
-remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o recommendou<span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span>
-a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por
-elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana,
-e o seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos
-os impulsos de misericordia.</p>
-
-<p>Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava
-a dissimular. Assegurou á regente que não era sua intenção
-fazel-a substituir por elle, e fez todo o possivel para acalmar as
-suspeitas dos nobres e dos estados dos Paizes Baixos. Ao mesmo
-tempo dava ordem ao duque para acabar com a Reforma de um
-modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de todos
-os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões
-á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por
-carta, ao duque de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais
-eminentes que haviam tomado parte nos tumultos e pôl-os em
-condições de não tornarem a fazer damno; prender e castigar
-os que de entre o povo estivessem criminosos; obter pela violencia
-todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres
-de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a
-maxima severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização
-dos novos bispados, e punir as cidades rebeldes com a
-Inquisição e com a imposição de subsidios.» As tropas embarcaram
-em Carthagena, desembarcaram em Genova, e marcharam,
-atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o
-Luxemburgo e Paizes Baixos.</p>
-
-<p>Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o
-seu desejo era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara
-de um modo que agradasse a seu amo. Uma das suas maximas
-favoritas era: «Antes assolar uma nação por meio da guerra,
-se d’esse modo ella se conservar fiel a Deus e ao rei, do que
-deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus adherentes,
-os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente convencido
-de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso
-dos seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro,
-em pouco tempo domesticarei esta gente de manteiga», disse
-elle, pouco depois de ter entrado no paiz.</p>
-
-<p class="tb"><b>A prisão dos Condes Egmont e Horn.</b>—A primeira coisa que
-elle fez foi lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu
-á mais vil dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas,
-dispensou-lhes todas as amabilidades, e fez todo o possivel
-para os conservar ao seu alcance até ter opportunidade da
-os mandar prender. Ficou muito desapontado quando Guilherme
-de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços
-para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso,
-prendeu o Conde Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os
-n’um carcere.</p>
-
-<p>Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles
-fidalgos tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei.<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span>
-Egmont havia incorrido no odio do povo pela firmeza com que
-procurou reprimir a insurreição, e Horn perdera todos os seus
-bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe. Aquellas prisões
-mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do
-«rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente
-lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella
-soube em Roma, do feito de Alba, perguntou: «Elle tem em
-seu poder o Silencioso?» E, depois de o informarem de que Guilherme
-estava em liberdade, disse que Alba não tinha conseguido
-coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se
-lhe havia escapado tinha mais valor do que todos os outros
-juntos.</p>
-
-<p>Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em
-seguida de aterrorisar o povo. Organizou um <i>Conselho de Disturbios</i>,
-que substituiu o antigo Conselho de Estado, e que teve
-a sua primeira, reunião em 20 de Setembro de 1567. Este conselho
-suspendeu todo o julgamento de causas pelos tribunaes ordinarios,
-e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue». Alba
-presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por
-provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel
-para evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia
-elle, «só teem servido até aqui para lavrar a sentença depois
-de se fazer prova do crime; mas agora as coisas passam-se de
-outra fórma». Este conselho de disturbios privava toda a gente
-das suas garantias individuaes, e ia investigar todos os delictos
-commettidos no passado. A accusação vulgar era a de ter conspirado
-contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem do codigo
-medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os
-que haviam assignado petições para que os edictos contra a
-heresia deixassem de ser applicados, todos os que se haviam,
-de algum modo, opposto á creação dos novos bispados, todos os
-que haviam dito que o rei tinha obrigação de respeitar as liberdades
-das provincias, eram tidos como traidores, e castigados com
-multas, com prisões e com a pena capital. Todos os que eram
-apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os que
-não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar
-livre, ou que não haviam reagido contra a destruição das imagens,
-eram egualmente tidos como traidores. Era sufficiente a
-suspeita, dispensava-se a convicção, e em tres mezes o Conselho
-de Sangue enviou para o cadafalso mil e oitocentas pessoas. Isto
-teve logar durante annos. Guilherme de Orange pasmava da
-paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma organizada
-resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o
-vosso espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»</p>
-
-<p>No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos
-d’elles vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das
-tropas hespanholas, roubando egrejas, mosteiros e residencias
-de clerigos. O paiz havia caido na anarquia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p>
-
-<p class="tb"><b>A guerra civil. O principe de Orange.</b>—Em 1568 o principe de
-Orange conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta.
-Seu irmão, Luiz de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu
-evitar que o inimigo se apoderasse d’essa provincia. O duque
-de Alba marchou então contra os protestantes. Antes de se pôr
-a caminho, porém, executou, para espalhar o terror na capital,
-vinte membros da nobreza, e entre elles os condes Egmont e
-Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente
-com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo
-o exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos.
-Regressou depois a Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho
-de Sangue.</p>
-
-<p>O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a
-vau o Meuse, chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos
-soldados, marchou sobre o Brabant, e procurou dar batalha a
-Alba. O duque, que conhecia a sua inferioridade, diligenciou
-evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas marchas, e desalental-as.
-O exercito protestante, que era composto, na sua
-maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente
-o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam
-sempre de mau partido, viu-se obrigado, com a approximação
-do inverno, a licenciar as suas tropas. Uma parte do
-exercito, composta de neerlandezes, conservou-se junto d’elle;
-e o principe de Orange, com os seus dois irmãos (o terceiro
-havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e foi em
-auxilio dos huguenotes francezes.</p>
-
-<p>Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe
-chamavam, tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia
-combatido contra os hespanhoes mais por patriotismo do que
-por motivos religiosos; mas durante o segundo desterro, quando
-a situação da sua patria se tornou extremamente precaria,
-transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as verdades da
-religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde esse
-tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso,
-descançando confiadamente na direcção e protecção de
-Deus.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os mendigos do mar.</b>—A parte mais valente da população
-neerlandeza eram os marinheiros e os habitantes da costa, que
-luctavam quotidianamente com as ondas do oceano germanico.
-Essa gente tinha, em grandissima parte, acceitado as doutrinas
-dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o amor da liberdade,
-a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e
-a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso
-chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do
-principe de Orange para a utilidade de constituir com estes
-marinheiros, pescadores e traficantes maritimos uma força naval.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p>
-
-<p>Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua
-obra de execução por meio do fogo, da agua e da decapitação,
-o principe conseguiu pôr-se em communicação com os marinheiros
-e pescadores hollandezes. Tinha resolvido crear uma
-armada para dar caça aos navios hespanhoes, e conservar acceso
-o espirito patriotico das provincias. Deu as suas instrucções
-aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e
-os «Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror
-dos hespanhoes. Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao
-principio, as suas tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes,
-mas, em virtude de uma reclamação do embaixador hespanhol,
-a rainha Isabel prohibiu que desembarcassem em Inglaterra.
-Viram-se compellidos a saquear as costas da Hollanda,
-tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como
-em terra.</p>
-
-<p>O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina.
-As suas proscripções e execuções haviam diminuido muito a
-população. O commercio tinha chegado á ultima; da agricultura
-ninguem cuidava; as industrias estavam paralysadas. Alba estava
-embaraçado por não ter dinheiro com que pagasse ás tropas.
-Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que havia de
-fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse
-um rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um
-leigo no que diz respeito a economia politica, e não comprehendia
-que com as disposições que tomara havia feito seccar os
-mananciaes da riqueza, transformando em poucos annos um
-paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria possivel extrair
-dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim estabeleceu
-novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição
-que em Hespanha estava matando a vida commercial,
-e propoz o introduzil-a nos Paizes Baixos.</p>
-
-<p>O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda
-a propriedade; esse imposto ficou sendo chamado a <i>Centesima</i>.
-A accrescentar a isto, ficava-se tambem na obrigação de contribuir
-com cinco por cento, ou seja a vigesima parte, de todas
-as rendas de terras, ou bens immoveis, e com dez por cento, ou
-a decima parte, de todas as vendas de generos ou de bens moveis.
-Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava
-a ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio
-n’uma terra onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição
-do que tudo quanto Alba tinha até então posto em pratica.
-A primeira provincia que protestou foi a de Utrecht, e logo
-depois todas as outras fizeram coro com ella. Alba, comtudo,
-estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder dependia do
-exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém, que
-tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para
-de ali a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim,
-a pôr desde logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span>
-terminantes para se começarem a cobrar os dez e os vinte
-por cento. O resultado foi parar logo todo o commercio e industria.
-Os padeiros não quizeram cozer pão, os cervejeiros não
-quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se a fazer
-calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira necessidade. E,
-como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto
-sobre as vendas não podia ser cobrado.</p>
-
-<p class="tb"><b>A tomada de Brill.</b>—Emquanto os estados permaneciam
-n’uma insurreição passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar»,
-organizada por Guilherme, guerreava incessantemente os hespanhoes,
-e, com uma ousadia que o bom exito até ali alcançado
-lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn, e tomaram a cidade
-de Brill, que era considerada uma das chaves da Hollanda.
-A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre
-toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que
-ficou devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.</p>
-
-<p>De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente
-senhores dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve
-incerta durante muito tempo, mas houve sempre uma parte do
-territorio flamengo independente de Hespanha. Os «Mendigos
-do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram repetidos
-ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes
-cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando
-por proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da
-nação. O principe acceitou esse perigoso cargo. Estava em
-França quando lhe deram a noticia, e, disfarçando-se de camponez,
-atravessou as linhas do inimigo, e deu-se pressa em tomar
-o commando dos insurgentes. Antes de chegar até junto
-d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu
-favor. Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou
-Dort, onde de eommum accordo se resolveu estabelecer uma
-nova constituição, e, por unanimidade de votos, o principe foi
-reconhecido «o verdadeiro representante do rei na Hollanda,
-Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos, convieram
-em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em
-proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar
-liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.</p>
-
-<p>Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange,
-atravessando o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas
-outras cidades. Foi acclamado em toda a parte, e a sua marcha
-foi tão facil que elle contava chegar em pouco tempo a Bruxellas.
-Uma vez lá, confiou na promessa que Coligny lhe fez de
-o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio flamengo.
-Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que chega
-uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas
-proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça».<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span>
-Coligny e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na
-vespera de S. Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos.
-Tornava-se necessario abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha
-tomado pouco antes; e o exercito do principe, apoz a retirada,
-foi dispensado do serviço.</p>
-
-<p>Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons,
-Mechlin, Tergoes, Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da
-capitulação de Mons foram ignominiosamente violadas. Mechlin
-foi, de caso pensado, saqueada e incendiada pelas tropas hespanholas.
-O general a quem foi confiado o esbulho de Zutphen
-recebeu ordem para queimar todas as casas e matar todos os
-habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente, e
-por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo.
-Quando os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue
-frio, todos os soldados hollandezes, e com elles muitos centos
-de cidadãos, e, ligando os corpos a dois e dois, lançaram-n’os
-na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia que os catholicos romanos tinham
-resolvido exterminar os protestantes quando vissem que
-não podiam convertel-os.</p>
-
-<p>Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava
-inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo
-de Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar,
-sendo obrigado a retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente
-á esquadra hespanhola que fôra enviada para os destroçar, dispersaram
-os navios e fizeram prisioneiro o almirante. A nação
-de pescadores e de lojistas, de quem a Hespanha e a Europa
-haviam escarnecido por verem a paciencia com que supportavam
-as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça de
-heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol.
-Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento
-para o outro uma importante personagem na Europa, que
-os reis precisariam de lisongear. Publicou uma carta dirigida
-aos principes da christandade, para justificar a revolta dos seus
-compatriotas. «Alba», disse elle, «ha de tingir todos os rios e
-regatos com o nosso sangue e pendurar em cada arvore da Hollanda
-um hollandez para que os seus desejos de vingança fiquem
-satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em defeza
-das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais
-força do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa,
-e legar um nome aureolado de gloria, do que curvar os
-pescoços deante do jugo e permittir que a nossa terra fique escravisada.
-É por isso que as nossas cidades se comprometteram
-a resistir a todos os cercos, a soffrer todas as calamidades,
-a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e deixar-se
-morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer
-ás intimativas d’esse algoz sedento de sangue».</p>
-
-<p>A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de
-toda a confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span>
-que o mandasse retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos,
-considerou sempre efficacissimo o seu systema, mesmo depois
-dos revezes soffridos. Era sua opinião que se tivesse sido
-um pouco mais severo, se tivesse accrescentado mais algumas
-gotas do sangue que fez derramar, o seu exito seria completo.
-Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do cargo
-que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor
-senão o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera
-pôr uma guarnição hespanhola.</p>
-
-<p class="tb"><b>Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.</b>—A pessoa
-que Filippe II escolheu para substituir o duque de Alba foi
-D. Luiz Requescens y Zuniga, membro da mais alta aristocracia
-de Hespanha e cavalleiro de Malta. Era elle um homem de indole
-magnanima, de nobre caracter, e, se tivesse sido enviado
-á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse paiz teria
-sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de mais,
-e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda,
-n’aquella epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado
-numero de soldados. Os patrioticos defensores da Hollanda
-não poderiam leval-a de vencida em campo aberto; comtudo, o novo
-commandante hespanhol não os intimidou. Em todas as cidades fortificadas
-se luctava com a energia do desespero, e os «Mendigos
-do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo,
-aos patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois
-de observar tudo isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada
-aqui, não comprehendia como os rebeldes podiam sustentar
-frotas tão consideraveis, quando vossa magestade nem uma,
-sequer, podia. Agora vejo que os homens que se batem pelas suas
-vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua religião,
-embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga;
-dão-se por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo
-de adoptar um methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu
-os odiados impostos, dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou
-uma amnistia geral. Procurou também chegar a um accordo
-com os insurrectos.</p>
-
-<p>Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma
-amarga experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos
-ouvido demasiadas vezes», disse Guilherme, «as palavras
-Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo que dessemos ouvidos ás vossas
-propostas, quem nos garante que o rei as não daria depois
-por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto pelo papa?» A lucta
-continuou, portanto, e Requescens, que detestava a politica
-do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa mesma
-politica havia provocado.</p>
-
-<p>A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes
-tinham saido sempre victoriosos em campo aberto, e
-quando no principio da primavera de 1574 Guilherme e seu irmão<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span>
-Luiz entraram na Hollanda á frente de um novo exercito
-composto, na sua maioria, de mercenarios allemães, alcançaram
-outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva, segundo pareceu,
-do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente.
-O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo
-os seus dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão,
-Conde Palatino. Mais uma vez se afigurou que os hollandezes
-acabariam, por fim, n’uma completa submissão aos hespanhoes.
-Como sempre, porém, os heroes da patria, vencidos em terra,
-eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas combateu-se
-com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam
-deixar de reconhecer a sua derrota.</p>
-
-<p>Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota
-no principio d’esse anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se
-de quarenta navios e mettendo o resto no fundo.</p>
-
-<p class="tb"><b>O cerco de Leyden.</b>—A cidade conservava-se havia muito
-tempo em poder dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo
-empenho em se apoderar d’ella. Luiz de Nassau fez levantar
-o primeiro cerco que lhe pozeram, mas desde maio de 1574
-que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos ataques. Não foi
-possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker Haide, encontrar-se
-frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava de
-todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas.
-Leyden estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia
-enviar soccorro algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia
-de pomares e de searas que já pouco tempo esperariam pela
-ceifa, e esta planicie, como quasi todas as da Hollanda, estava
-abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte, facil inundal-a,
-bastando para isso destruir os diques que se oppunham á invasão
-das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão
-fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou
-esse alvitre aos respectivos habitantes, que o acceitaram.
-Foram, pois, abertos os diques, e a esquadra dos «Mendigos do
-Mar» preparou-se para entrar com a maré e navegar em seguida
-sobre submersas hortas, pomares e campos de semeadura. O
-plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma de
-difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques;
-a agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos
-a impelliam para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez
-mais escassos na cidade, e a faminta população, subindo aos
-campanarios, via a agua sempre lá ao longe, via que os soccorros
-se approximavam muito vagarosamente, como se nunca houvessem
-de chegar, ou então como se houvessem de chegar tarde
-de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria
-em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e
-uma honrosa capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto
-das muralhas um dos defensores, «e quando a fome nos apertar<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span>
-muito comemos o esquerdo, e deixamos o outro para manejar a
-espada». Quatro mezes se passaram n’um indescriptivel soffrimento,
-e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao sopé das
-fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes fugiram
-aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre
-elles, soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos
-do que papistas». Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se
-á sumptuosa egreja para dar graças a Deus pelo livramento
-que, por Sua misericordia, lhes viera do mar. Quando
-a numerosa congregação estava entoando um psalmo de libertação,
-as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços.
-Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas
-privações, tendo agora uma consciencia nitida do seu inesperado
-livramento, se pozera a chorar.</p>
-
-<p>A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que
-chegou a esta localidade quando o principe de Orange estava
-assistindo ao serviço religioso da tarde, sendo só depois de elle
-terminar que o povo soube do succedido. O principe, apezar de
-doente, montou a cavallo, e partiu logo para Leyden, para tomar
-parte no regozijo publico. Propoz que, em acção de graças, se
-fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi
-assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade
-tornou-se o centro do protestantismo das provincias. Picou
-sendo na Hollanda o que Wittenberg era na Allemanha, Genebra
-na Suissa, e Saumur em França.</p>
-
-<p class="tb"><b>Negociações entre as provincias do sul e as do norte.</b>—O levantamento
-do cerco de Leyden mareou um novo periodo na
-guerra da independencia. O oommissario hespanhol via que se
-estava formando, vagarosa e quasi imperceptivelmente, um novo
-estado protestante, e as difficuldades que de todos os lados o
-assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava elle luctando
-com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576. A
-sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola,
-e os acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos
-neerlandeses que eram catholicos romanos aonde o governo
-hespanhol poderia tel-os conduzido. A morte de Requescens produziu
-uma certa perturbação na politica hespanhola. Desde o
-tempo do duque de Alba o pagamento das tropas tinha sido feito
-com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam despejados,
-e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de
-soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse
-liquidada, revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear
-qualquer cidade», era o seu grito. A guarnição de Aalst
-foi a primeira a revoltar-se, sendo secundada pelas de quasi
-todas as cidades fortificadas das provincias do sul. Os revoltosos
-pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat e Antuerpia.
-Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e assassinio<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span>
-e durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e
-opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia
-ser exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal.</p>
-
-<p>O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar
-com as suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da
-importante cidade de Ghent. Os habitantes das provincias do
-sul tanto nobres como plebeus, tinham, por sua vez, sido victimas
-de aquellas horrorosas calamidades que os seus compatriotas
-os protestantes do norte, tinham, havia muito, experimentado.
-Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou
-em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de
-Flandres e de Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias
-do norte; e pediram a Guilherme que os livrasse dos
-hespanhoes. Em Ghent realisou-se um congresso de representantes
-das provinciais do norte e do sul, ficando assentes os preliminares
-de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou a
-<i>Pacificação de Ghent</i>, que foi assignada por delegados de dezesete
-provincias.</p>
-
-<p>Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se
-uma completa liberdade de commercio entre as provincias
-do norte e as do sul, ficavam revogados todos os edictos contra
-os protestantes, concedia-se protecção aos catholicos romanos,
-todas as provincias se uniam para constituir um unico Estado,
-e o principe de Orange ficava sendo <i>statholder</i> até posterior decisão,
-que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes.</p>
-
-<p class="tb"><b>D. João de Austria nos Paizes Baixos.</b>—A <i>Pacificação de Ghent</i>
-alarmou em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria,
-irmão de Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado
-aos Paizes Baixos na qualidade de <i>statholder</i> com plenos
-poderes. Os estados recusaram reconhecel-o emquanto elle não
-fizesse sair as tropas hespanholas. Apoz algumas negociações,
-as provincias obtiveram, apparentemente, que elle attendesse ás
-suas aspirações com a publicação do <i>Edictum Perpetuum</i>, que
-garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para com os protestantes,
-e a unificação dos estados; por algumas cartas confidenciaes
-que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e
-o seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão,
-e o conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos
-romanos do sul com os protestantes do norte. Os Estados
-Geraes não reconheceram a sua auctoridade, e designaram
-o principe de Orange para governador de Brabante. Havia, comtudo,
-muita difficuldade em que o norte e o sul se unissem por
-laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles tempos,
-em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma
-violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente.
-Os nobres de Flandres e de Brabante representavam
-dois papeis, e essa sua duplicidade animou D. João de Austria<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span>
-a atacar as forças do principe de Orange. A guerra terminou
-com a batalha de Gemblours, em que os hespanhoes alcançaram
-uma completa victoria. O principe, comtudo, mostrou-se, como
-sempre, tão grande na derrota como na victoria, e o <i>statholder</i>
-sentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da Hollanda,
-se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas
-estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe
-Alexandre de Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de
-Filippe.</p>
-
-<p class="tb"><b>Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.</b>—Alexandre Farnese,
-principe de Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado
-anteriormente aquelle cargo, e, no dizer de alguns
-auctores, foi o ultimo dos grandes homens que a Hespanha possuiu
-no seculo dezeseis. Era um excellente general, um habil
-politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas provincias
-n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força
-era a rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul
-catholico romano.</p>
-
-<p>O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias
-do norte suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido
-nos negocios de que resultou a batalha de Gemblours. As provincias
-do sul não queriam submetter-se á dominação dos
-herejes do norte. Alexandre aproveitou-se habilmente d’esta
-desunião para prender as provincias do sul á Hespanha, com o
-inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram
-mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos
-na sua determinação de permanecerem livres.</p>
-
-<p class="tb"><b>O Tratado de Utrecht.</b>—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia,
-Guelders, Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se
-representar n’uma assembléa, e redigiram o celebre Tratado de
-Utrecht, que continha, em esboço, a futura constituição das provincias
-unidas. As Sete Provincias não se separaram da Hespanha.
-Diziam-se ainda subditas da corôa hespanhola, mas reivindicavam
-o direito de darem culto a Deus e de se governarem
-segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram inteiramente
-o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia,
-escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo.
-Isto teve logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação
-de Filippe, em que este denunciava Guilherme como
-um inimigo da humanidade, e offerecia uma recompensa de
-vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo de
-nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente,
-a quem assassinasse o principe.</p>
-
-<p>Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram
-attingindo gradualmente uma completa independencia politica<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span>
-e tornaram-se uma potencia protestante. Guilherme da
-Orange foi em 1584, morto a tiro por um fanatico catholico romano
-chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram e obtiveram
-parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não
-terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para
-Governador em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete
-annos, mas já educado por seu pae para ser um habil general
-e um prudente chefe politico. Poz-se resolutamente á testa
-de aquelle conflicto com a Hespanha, que parecia interminavel.
-Isabel de Inglaterra prestou-lhe o seu auxilio, com o qual ella
-ficou mais prejudicado do que outra coisa. Depois da destruição
-da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na monarquia hespanhola,
-alcançou uma notavel victoria sobre as tropas catholicas
-romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora
-vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes
-abalaram fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos
-navios que voltavam das indias Occidentaes e Orientaes, carregados
-de preciosidades. Em 1607 combinou-se um armisticio,
-e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas durante doze
-annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz definitiva.
-Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia,
-e constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia
-no mar só era disputada pela Inglaterra.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.</b>—Durante os
-annos de dura perseguição que o protestantismo soffreu nos
-Paizes Baixos desde o principio da sua existencia, os protestantes,
-não obstante os rigores postos em pratica contra elles,
-poderam organizar-se sob a fórma de egreja, e publicar uma
-confissão. Isto não foi feito sem dificuldades, que até entre elles
-proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos tinham
-recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que
-só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia
-chegado ao seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos
-Paizes Baixos haviam aprendido o Evangelho em Wittemberg,
-com Luthero, e nas provincias do norte eram numerosos os lutheranos.
-Um pouco mais tarde as opiniões de Zwinglio penetraram
-na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que tomavam
-muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul
-a Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes,
-educados no calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia
-adherentes de Luthero, de Zwinglio e de Calvino. Cada um dos
-partidos differençava-se dos outros, especialmente pelo que dizia
-respeito ao governo da egreja; e, posto que estas differenças
-fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde na contestação
-que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante,
-acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o
-calvinismo foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo,<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span>
-e a egreja dos neerlandezes tornou-se calvinista, tanto
-na doutrina como na disciplina.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Confissão Hollandeza.</b>—N’uma epoca relativamente afastada,
-isto é, em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor
-flamengo, Guido de Brés, juntamente com Adriano de Saravia,
-Modetus, capellão de Guilherme de Orange, e Wingen,
-prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles, justificar
-pela Escriptura a religião reformada.</p>
-
-<p>Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e
-martyres dos Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de
-Mons. Havia estudado para padre, e converteu-se dos erros
-do romanismo mediante o estudo das Escripturas Sagradas.
-Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra, onde, nos
-dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois
-para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista
-no norte da França e no sul dos Paizes Baixos. Era um
-ardente admirador da Confissão da Egreja Franceza, e modelou
-a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela celebre <i>Confessio
-Gallica</i>.</p>
-
-<p>Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi
-revista por Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi
-apresentada ao rei, Filippe II, em 1562, assim como a Confissão
-de Augsburgo foi apresentada a seu pae Carlos V. O eloquente
-discurso que acompanhou a Confissão pode ser comparado á
-dedicatoria a Francisco I, que prefaciou os <i>Institutos</i> de Calvino.
-Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e declaram
-que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo
-a consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão
-a Christo, ainda mesmo que tenham, segundo a linguagem
-que empregaram, de «offerecer as costas ás chibatas, as linguas
-ás facas, e os corpos ao fogo, certos de que os que seguem
-a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e renunciar-se
-a si proprios».</p>
-
-<p>Esta Confissão, gradualmente adoptada pelos protestantes
-dos Paizes Baixos, introduziu o calvinismo nas egrejas d’essa
-parte do mundo.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Constituição da Egreja Hollandeza.</b>—Em 1563, isto é, quando
-ainda havia perseguição, os delegados de varias congregações
-protestantes reuniram-se em synodo, e concordaram n’um systema
-de governo de egreja, que copiou, em grande parte, os seus
-principios das <i>Ordenanças Ecclesiasticas</i> de Genebra; e a constituição
-da egreja, quasi desde o seu inicio, foi baseada no modelo
-de Genebra. A organização presbyteriana, com pastores,
-professores, presbyteros e diaconos, não foi adoptada nos Paizes
-Baixos sem protesto da parte dos lutheranos, mas quando veiu
-sobre elles a feroz perseguição do duque de Alba a fórma presbyteriana<span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span>
-do governo da Egreja foi a que melhor resistiu a todos
-os embates, sendo por fim a que se tornou preponderante.
-O systema consistorial de Luthero é apenas possivel quando o
-Estado esteja em favoraveis disposições para com a egreja, mas
-o presbyterianismo, como a França, a Escocia e os Paizes Baixos
-mostraram, pode manter-se, até mesmo quando a «Egreja
-sentir o peso da cruz.»</p>
-
-<p>N’uma assembléa da Egreja que teve logar em Dordrecht,
-em 1574, a primeira assembléa geral da Egreja Hollandeza, foi
-revista, ampliada e formalmente adoptada uma serie de artigos
-que já haviam sido approvados n’uma reunião em Emden, e que
-continham os principaes elementos da organização presbyteriana.
-Todos os ministros tinham de obedecer ás <i>assembléas classicas</i>,
-ou presbyterios; e todos os presbyteros e diaconos tinham
-de assignar a Confissão de Fé e os artigos respeitantes ao governo
-da Egreja.</p>
-
-<p>Torna-se necessario explicar duas particularidades do presbyterianismo
-hollandez. As sessões da egreja não são, como na
-maioria das outras egrejas presbyterianas, assembléas congregacionaes
-que se occupem do governo de uma congregação. A
-sessão da egreja é composta de ministros e presbyteros de um
-certo numero de congregações, e, a certos respeitos, assimilha-se
-a um presbyterio. E, comtudo, como as das outras egrejas
-presbyterianas, o tribunal de primeira instancia.</p>
-
-<p>A outra particularidade da organização da Egreja hollandeza
-consiste em que raras vezes podia deliberar como egreja.
-Isto era devido em parte ao ciume do Estado protestante, e em
-parte á constituição politica das Provincias Unidas. A Hollanda,
-ou as Provincias Unidas, era uma confederação de estados,
-a muitos respeitos independentes uns dos outros. A Reforma
-tendia a descentralizar a Egreja, e a produzir uma organização
-ecclesiastica separada para cada estado politico independente.
-Tambem se notava na Hollanda a tendencia para a formação
-de tantas egrejas separadas quantas eram as provincias.</p>
-
-<p>As Sete Provincias não constituiam uma nação; constituiam,
-antes, uma confederação. Tinham-se obrigado a proteger-se
-umas ás outras na guerra, e, portanto, a manter um
-exercito commum, e a contribuir para um fundo militar commum;
-mas não formavam um estado. Os negocios internos de
-cada provincia estavam sob a superintendencia de cada estado
-separado.</p>
-
-<p>Quando Guilherme de Orange foi eleito governador vitalicio,
-uma das clausulas a que elle ficava obrigado era a de que não
-reconheceria qualquer concilio ou consistorio ecclesiastico que
-não tivesse a approvação da provincia em que propozesse reunir-se.
-Os negocios religiosos de cada provincia tinham de ser
-regulados por essa provincia.</p>
-
-<p>Isto dava um aspecto de divisão á Egreja hollandeza, e impedia,<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span>
-realmente, a acção incorporada e unida. A Egreja só podia
-reunir-se em assembléa geral quando todas as Sete Provincias
-concordassem em dar-lhe permissão. Este embaraço politico
-obstou muito á utilidade e influencia da Egreja Reformada Hollandeza,
-e deu logar a uma continua lucta, na Hollanda, entre a
-Egreja e o Estado.</p>
-
-<p class="tb"><b>A força da Egreja na Hollanda.</b>—A prolongada peleja de quarenta
-e cinco annos contra a Hespanha e o papismo parecia
-estimular as energias da Egreja hollandeza e das suas universidades,
-e os seus collegios theologicos em breve rivalizaram
-com mais antigas sédes de instrucção. A universidade de Leyden,
-erguida em acção de graças quanto a uma milagrosa libertação,
-foi fundada em 1575; Franecker começou a existir dez
-annos depois (1585); as universidades de Gröningen (1612)
-Utrecht (1636) e Harderwyk (1648) seguiram em successão apoz
-alguns annos de intervallo. Todas estas universidades eram escolas
-theologicas, frequentadas por alumnos procedentes de
-quasi todos os paizes protestantes da Europa. Os theologos hollandezes
-do seculo dezesete tornaram-se famosos quanto á sua
-erudição, zelo e agudeza theologica. Quando surgiu a grande
-controversia armenia, que agitou mais tarde a Egreja hollandeza,
-os theologos da Hollanda foram os que na Europa se celebrizaram
-mais, tanto pelo que diz respeito á illustração como pelo que diz
-respeito á orthodoxia.</p>
-
-<p>A Confissão de Westminster, que se tornou o credo da maior
-parte das egrejas presbyterianas em paizes onde se fallava a
-lingua ingleza, é em grande parte baseiada na antiga Confissão
-Hollandeza; e os theologos que coordenaram os seus artigos
-copiaram muita coisa d’esses reformadores hollandezes recentemente
-emergidos da sua terrivel e prolongada lucta com o
-papismo hespanhol.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p>
-
-<h3 id="II_CAPITULO_V">CAPITULO V<br />
-<span class="smaller">A REFORMA NA ESCOCIA</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>Preparação para a reforma, <a href="#Page_137">pag. 137</a>.—A antiga Egreja celtica o a Educação,
-<a href="#Page_137">pag. 137</a>.—A Escocia e o lollardismo, <a href="#Page_138">pag. 138</a>.—A Escocia e Huss, <a href="#Page_138">pag.
-138</a>.—A Egreja romana na Escocia e a situação politica, <a href="#Page_142">pag. 142</a>.—João
-Knox, <a href="#Page_141">pag. 141</a>.—A Congregação e a Primeira Convenção, <a href="#Page_142">pag. 142</a>.—A
-<i>Confissão escoceza</i>, <a href="#Page_144">pag. 144</a>.—A rainha Maria e a Reforma, <a href="#Page_145">pag. 145</a>.—O
-<i>Livro de Disciplina</i>, e a <i>Primeira Assembléa Geral</i>, <a href="#Page_147">pag. 147</a>.—A educação,
-<a href="#Page_148">pag. 148</a>.—A morte de Knox, <a href="#Page_149">pag. 149</a>.—Os bispos tulchanos, <a href="#Page_150">pag. 150</a>.—André
-Melville, <a href="#Page_152">pag. 152</a>.—O Segundo Livro de Disciplina, <a href="#Page_152">pag. 152</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>Preparação para a Reforma.</b>—A Escocia, longe do centro da
-vida europeia no seculo dezeseis, recebeu, apezar d’isso, a Reforma
-quasi tão cedo como a maioria dos outros paizes, e acceitou-a
-mais completamente do que elles.</p>
-
-<p>A região tinha sido preparada para ella mediante a educação
-do povo, mediante o constante commercio entre a Escocia
-e as nações continentaes, especialmente a França e a Allemanha,
-e mediante a sympathia dos estudantes escocezes para com
-os primeiros movimentos religiosos na Inglaterra e na Bohemia;
-e por outro lado a condição da Egreja romana, a pobreza das
-classes aristocraticas, e a situação politica do paiz coadjuvaram
-em certa escala os esforços de aquelles que anhelavam por uma
-reformação religiosa na Escocia.</p>
-
-<p class="tb"><b>A antiga Egreja celtica e a Educação.</b>—A antiga Egreja celtica
-na Escocia, que havia conservado a sua influencia no paiz
-durante perto de setecentos annos, tinha sempre considerado a
-educação do povo como um dever religioso. Os seus regulamentos
-declaram que é tão importante ensinar os rapazes e as raparigas
-a ler e a escrever como administrar os sacramentos ou
-tomar parte na <i>intimidade das almas</i>, que era o nome que davam
-á confissão. O mosteiro celta era sempre um centro educativo, e
-n’alguns casos a instrução ahi ministrada era a melhor que se
-podia obter fóra de Constantinopla. Carlos Magno, ao estabelecer
-aquellas escolas superiores, que depois se tornaram as mais<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span>
-antigas universidades da Europa, procurou nos mosteiros celtas
-os primeiros professores. Quando a Egreja celta da Escocia cedeu
-o logar á Egreja romana, o seu systema educativo foi, em
-grande escala, adoptado, e a educação na Escocia continuou a
-ser muito melhor do que se poderia esperar do seu estado de
-civilisação.</p>
-
-<p>As escolas cathedraes e monasticas produziram um grande
-numero de professores e alumnos que desejavam ver os seus
-trabalhos continuados n’uma universidade como as que n’aquella
-epoca estavam apparecendo em toda a Europa.</p>
-
-<p>Ao principio os poucos recursos do paiz obstavam á fundação
-de universidades na Escocia, e mediante uma provisão
-feita pelo rei e pelos bispos foram enviados os melhores estudantes
-a Oxford, Cambridge e Paris. Professores viajantes foram
-da Escocia, com um certo numero de estudantes, aos centros,
-inglezes e continentaes, de instrucção. E era frequente
-que os jovens escocezes permanecessem fóra da patria na qualidade
-de leccionistas ou estudantes nomadas.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Escocia e o lollardismo.</b>—Este contacto academico approximou
-muito a Escocia dos grandes movimentos intellectuaes
-da Europa. No período em que os estudantes escocezes iam em
-grande numero para Oxford, Wycliffe exercia o professorado, e
-o lollardismo triumphava na grande universidade ingleza. Os
-estudantes escocezes voltavam contaminados com as maximas
-constitucionaes e as aspirações religiosas dos grandes homens
-de Inglaterra, e o lollardismo propagou-se na Escocia. Depois
-das universidades de Aberdeen, Glasgow e St.º André terem
-sido fundadas, no seculo quinze, os velhos arquivos dizem-nos
-que as auctoridades ecclesiasticas effectuaram inspecções com
-o fim de expurgar o corpo docente dos erros de Lollard. A seu
-devido tempo, o lollardismo passou das universidades para o publico,
-e os primeiros chronistas da Reforma nunca deixam de
-se referir aos lollards, ou homens biblicos de Kent, e á entrevista
-que tiveram com James IV.</p>
-
-<p>Havia estudantes escocezes em Paris quando Pedro Dubois,
-Marsilio de Padua e Guilherme de Ockham ensinavam publicamente
-que a egreja è o povo christão, e que pode existir uma
-egreja sem papa e sem padres.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Escocia e Huss.</b>—A Bohemia e os actos de João Huss
-n’esse paiz eram bem conhecidos na Escocia. Calderwood falla-nos
-de Paulo Craw, bohemio que foi convencido de heresia a
-instancias de Henrique Wardlaw, bispo de St.º André, perante
-sete doutores em theologia, por divulgar as doutrinas de João
-Huss e de Wycliffe, «negando que houvesse qualquer modificação
-da substancia do pão e do vinho na Ceia do Senhor, e reprovando
-a confissão auricular e as orações aos santos defuntos.»<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span>
-Foi condenado á fogueira, e no momento da execução «metteram-lhe
-uma bola de cobre na bocca; para que o povo não ouvisse
-o seu justo protesto contra a injusta sentença d’elles.»
-Recentes investigações arqueologicas teem tornado evidente
-uma mais intima connexão entre a Escocia e a Bohemia do que
-até então se suspeitava.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Egreja romana na Escocia o a situação politica.</b>—A Egreja
-romana na Escocia era muito rica, e era talvez mais corrupta
-do que em qualquer outra parte fóra da Italia. A herança que
-lhe foi legada pela Egreja celta não era toda boa; os satyricos
-tinham começado a chamar a attenção para o contraste entre
-as profissões e as vidas dos ecclesiasticos, e os seus livros produziam
-grande impressão no povo baixo. «Quanto aos modos
-mais particulares por que muita gente na Escocia adquiriu algum
-conhecimento da verdade de Deus na epoca das grandes
-trevas,» diz João Row, «havia alguns livros, taes como <i>Sir David
-Lindsay, e as suas poesias ácerca das Quatro Monarquias</i>, que
-trata tambem de muitos outros pontos, e expõe os abusos do
-clero de aquelle tempo; os <i>Psalmos de Wedderburn</i> e as <i>Balladas
-de Godlie</i>, em que se alteram para fins piedosos muitos dos antigos
-canticos papistas: e uma <i>Queixa</i> feita pelos estropiados, cegos
-e pobres de Inglaterra contra os prelados, padres, freiras e
-outras individualidades da egreja que dispendiam prodigamente
-todos os dizimos e outros rendimentos ecclesiasticos em prazeres
-illicitos, de modo que elles, os queixosos, não podiam
-adquirir alimentação nem allivio, como Deus tinha ordenado.
-Estas coisas foram impressas, e penetraram na Escocia. Havia
-tambem peças dramaticas, comedias e outras historias notaveis,
-que eram representadas em publico; a <i>Satyra</i> de Sir David Lindsay
-foi representada no amphitheatro de S. Johnston (Perth),
-na presença do rei James V, e de uma grande parte da nobreza
-e da classe abastada, durando a representação um dia inteiro, e
-fazendo sentir ao publico as trevas em que estava envolvido, e
-a perversidade dos homens da egreja, e mostrando-lhe como a
-Egreja de Deus seria se fosse dirigida de uma maneira differente,
-o que tudo foi muito benefico n’aquella ocasião.</p>
-
-<p>As riquezas da Egreja romana da Escocia tinham, havia
-muito, excitado a inveja dos barões, que esperavam a ocasião
-em que podessem, sem risco, apoderar-se de parte dos bens
-ecclesiasticos. Durante muito tempo não occorreu similhante
-opportunidade. O clero era um senhorio que gozava da estima
-geral. Os vassallos da Egreja estavam em muito melhores condições,
-e tinham uma vida mais descançada, do que aquelles que
-cultivavam as terras dos barões e de outras personagens de
-menor cathegoria. Os camponezes escocezes rir-se-hiam, talvez,
-com as satyras de David Lindsay, mas gostavam da Egreja,
-e perdoavam-lhe os defeitos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span></p>
-
-<p>Quando os prégadores escocezes que tinham estado em
-Wittenberg, ou que tinham estudado as obras de Luthero e
-dos outros reformadores, ou que sabiam pela Escriptura o que
-era desejar ardentemente o perdão e a salvação, começaram a
-prégar um Evangelho reformado, então, e só então, é que o povo
-principiou a comprehender a mordaz significação das satyras
-que alvejavam a clerezia. As auctoridades ecclesiasticas fizeram
-todo o possivel para supprimir estes reformadores. Patricio
-Hamilton, Jorge Wishart e muitos outros prégadores cheios
-de fervor e de espiritualidade foram martyrisados; e estas crueldades
-contribuiram mais do que os sermões ou as satyras para
-que o povo escocez se desgostasse da Egreja romana. A sanguinaria
-Maria tinha tornado a Inglaterra protestante; e o cardeal
-Beaton, com os seus homicidios judiciaes, e particularmente
-com o homicidio do velho Walter Mill, fez com que o povo da
-Escocia se preparasse para Knox e para os lords da Congregação.</p>
-
-<p>Durante umas poucas de gerações a politica exterior da
-Escocia tinha sido de inimizade para com a Inglaterra e de
-amizade para com a França. A alliança com esta nação havia
-motivado o casamento da James V com uma princeza da casa
-de Guise, e, mais tarde, os esponsaes e casamento da herdeira
-do throno da Escocia com o delphim da França. James V morreu,
-ficando regente a rainha franceza, cuja conducta incutiu
-nos espiritos de muitos escocezes o receio de que a Escocia
-viesse a tornar-se uma provincia de França. Tinham sido nomeados
-francezes para cargos de confiança na Escocia; o castello
-de Dunbar tinha uma guarnição franceza; e a regente projectava
-crear um exercito permanente, segundo o systema francez.
-Este alarme foi tomando tal vulto que o partido nacional,
-que por fim triumphou, chegou a inverter a politica hereditaria
-da Escocia, e ficou tendo por objecto uma alliança com a Inglaterra
-e uma guerra com a França. A Inglaterra era protestante,
-emquanto que os verdadeiros senhores da França eram os Guises,
-os cabecilhas do fanatico partido romanista, os homens que
-planearam a carnificina de S. Bartholomeu.</p>
-
-<p>Tal era o estado das coisas na Escocia quando João Knox
-começou a sua admiravel obra de reformador.</p>
-
-<p>O povo estava educado acima da sua civilisação, e podia
-comprehender e saudar as novas idéas, tendo, como tinha, costumes
-grosseiros, e vivendo, como vivia, uma vida rude. A egreja
-tinha perdido a confiança da nação em virtude da immoralidade
-do clero, e por ultimo tinha excitado as paixões do povo contra
-si com a sua cruel perseguição de homens de uma vida immaculada
-que prégavam um Evangelho puro. Alguns dos barões
-tinham partilhado a revivificação religiosa começada pelos prégadores
-reformados; outros estavam anciosos por livrar o paiz
-do dominio francez, e outros, ainda, queriam a todo o transe<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span>
-seguir o exemplo da Inglaterra e enriquecer á custa da egreja.
-Todos estes motivos, uns puros e outros não, estavam agitando
-o povo da Escocia nos annos que precederam o de 1560.</p>
-
-<p class="tb"><b>João Knox</b>, nascido em Giffordsgate, nos arredores de Haddington,
-em 1505, educado na universidade de Glasgow, e ordenado
-padre em 1542, tornou-se primeiramente conhecido do
-povo da Escocia quando, muito novo ainda, andou em companhia
-de Jorge Wishart para proteger este prégador reformado
-emquanto elle dirigia a palavra a immensos auditorios. Depois
-do martyrio de Wishart, e do assassinio do cardeal Beaton,
-Knox aggregou-se á facção que havia tomado de assalto o castello
-de St.º André. Quando os defensores se viram forçados a
-capitular, os poucos membros da guarnição que estavam, incluindo
-Knox, foram enviados para França e condemnados á
-escravidão das galés. N’uma occasião em que puxava pelos remos,
-foi-lhe apresentada uma imagem da Virgem, de pau, para
-elle a beijar como meio de adoração. Knox recusou-se a honrar
-«o madeiro pintado», e atirou com a imagem ao mar, dizendo
-que, como ella era de pau, «não havia de ir para o fundo».
-Apoz um captiveiro de dezenove mezes, elle, juntamente com
-outros que haviam sido aprisionados em St.º André, foi solto a
-pedido de Eduardo VI de Inglaterra. Restituido á liberdade em
-fevereiro de 1549, foi direito a Inglaterra, onde se empregou
-como prégador viajante. A sua eloquencia, zelo e incomparavel
-coragem em breve o collocaram em primeiro plano. Foi-lhe offerecida
-a diocese de Rochester, mas recusou-a sob o fundamento
-de que não era sua crença que similhante cargo fosse auctorizado
-pelas Escripturas. Foi consultado ácerca da revisão dos
-<i>Artigos da Religião</i>, e suggeriu a celebre <i>declaração sobre o assumpto
-de ajoelhar na Communhão</i>, que ficou inserta no Segundo
-Livro de Oração Commum de Eduardo VI (1552). A subida de
-Maria ao throno obrigou-o, apoz uma arrojada tentativa de proseguir
-na sua obra de prégador nomada, a retirar-se para o continente.</p>
-
-<p>Um anno foi gasto a visitar varias localidades da França
-e da Suissa. Em Genebra tornou-se o intimo amigo de Calvino.
-Apoz uma curta estada em Frankfort sobre o Maine, onde foi
-pastor da congregação de refugiados inglezes que se haviam
-ajuntado ahi, tornou-se o pastor da Congregação ingleza de Genebra
-em 1555. Durante a sua curta permanencia ahi tomou
-parte na composição de aquelle directorio do culto publico, que,
-sob os varios nomes de Livro de Ordem Commum, Livro de
-Genebra e Lithurgia de Knox, serviu de guia no culto publico
-da Egreja reformada da Escocia até á publicação e adopção do
-Directorio dos Theologos de Westminster. Collaborou tambem
-ma traducção da mais popular das primitivas versões da Sagrada
-Escriptura, a Biblia de Genebra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span></p>
-
-<p>Durante a sua ausencia foi ganhando a pouco e pouco a
-reputação de ser o unico homem competente para conduzir os
-esforços do partido reformista da Escocia a satisfactorio resultado
-final; e no outomno de 1555 regressou á sua terra natal.
-Com a sua coragem habitual, começou logo a fazer predicas nos
-aposentos que occupava em Edinburgo, e fez alguns gyros predicativos,
-como, por exemplo, a Forfarshire, sob a protecção de
-Erskine de Dun, e a West Lothian, sob a protecção de Lord
-Torphichen. Foi durante esta visita que Knox principiou a administrar
-a Ceia do Senhor á moda reformada. A primeira celebração
-foi em casa do conde de Glencairn, na primavera de 1556.</p>
-
-<p>O Reformador, provavelmente, não achou o paiz em estado
-de entrar em qualquer grande movimento que o approximasse
-da Reforma, e partiu da Escocia para Genebra em Julho de 1556.
-Queixou-se da lentidão, timidez e falta de união entre os protestantes,
-quando alguns dos fidalgos lhe solicitaram, em Março
-de 1557, que voltasse, e mandou dizer que achava melhor addiar
-o seu regresso. Esta reprehenção deu logar a uma Confederação
-dos nobres, que depois se tornou bem conhecida na Escocia
-sob o titulo de Lords da Congregação.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Congregação e a Primeira Convenção.</b>—O turbulento caracter
-dos barões escocezes, e a fraqueza da auctoridade central,
-tanto do rei como dos estados, eram origem de constantes confederações
-de homens de todas as classes para realisarem, com
-segurança, emprezas, umas vezes legaes, e outras illegaes. Os
-confederados promettiam ajudar-se uns aos outros na obra que
-se propunham executar, e defender-se mutuamente das consequencias
-que se lhe seguissem. Estas combinações eram geralmente
-redigidas em fórma legal por notarios publicos, e o seu
-cumprimento tornava-se obrigatorio mediante todas as formulas
-de garantia que a lei facultava. Estes Lords da Congregação
-seguiram um costume predominante em todas as confederações
-quando se alliaram para manter e dar maior desenvolvimento á
-bemdita palavra de Deus e á Sua congregação, e para renunciar
-á congregação de Satanaz com todas as supersticiosas abominações
-e idolatria que lhe eram inherentes; mas introduziram
-um novo sentido espiritual n’esta alliança quando o seu
-pacto de federação se tornou tambem uma promessa feita a
-Deus em publico, como as que encontramos no Antigo Testamento,
-de serem verdadeiros e fieis á Sua palavra e direcção.
-Esta «faixa assignada pelos Lords», como Calderwood lhe chama,
-foi a primeira das cinco convenções que se tornaram famosas
-na historia da Egreja Reformada da Escocia.</p>
-
-<p>A esta convenção estavam ligadas duas resoluções, em que
-os confederados resolveram insistir no uso do Livro de Oração
-de Eduardo VI nas paroquias que estivessem debaixo do seu
-governo e dar incremento á exposição das Escripturas, particularmente,<span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span>
-pelas casas, até que as auctoridades permittissem a
-prégação publica «por verdadeiros e fieis ministros».</p>
-
-<p>Este acto reanimou grandemente todos aquelles que desejavam
-uma reformação, e fez com que o povo tivesse ousadia
-para exprimir a sua aversão pelas supersticiosas ceremonias
-da Egreja Catholica Romana. A Côrte, em 1559, prohibiu de prégar
-todos aquelles que não estivessem auctorizados pelos bispos;
-e, como não se fizesse caso d’essa prohibição, os prégadores
-foram intimados a apresentar-se no tribunal de Stirling.</p>
-
-<p>N’este entretanto Knox voltou á Escocia. Desembarcou em
-Leith, a 2 de Maio, e dirigiu-se a Perth, onde os Lords da Congregação
-se haviam reunido para proteger o seu prégador. Chegou
-a Perth a noticia, emquanto Knox estava prégando, de que
-os ministros reformados estavam proscriptos, e no dia seguinte,
-depois do sermão, quando um padre tentou dizer missa na presença
-de uma excitada multidão, produziu-se um tumulto, e a
-«vil turbamulta», segundo a expressão de Knox, entrou nos
-conventos dos franciscanos e dos cartuxos, e pôl-os a saque. A
-rainha regente marchou a atacar os sediciosos; o conde de
-Glencairn saiu a proteger os reformados; estava prestes uma
-guerra civil. Quasi immediatamente, porém, a rainha cedeu; de
-ambos os lados se entrou em negociações sem uma mutua confiança.
-Por fim os Senhores da Congregação marcharam sobre
-Edinburgo, tomaram posse da cidade em Outubro de 1559, e, convocando
-os estados, depozeram a regente. Concluiu-se um tratado
-com a Inglaterra, e Isabel mandou tropas inglezas para
-protegerem a Congregação. Houve um combate entre a facção
-romanista, auxiliada pelo exercito francez, e a Congregação,
-auxiliada pelas tropas que tinham ido de Inglaterra, e os francezes
-foram repellidos. A rainha regente morreu em junho do
-anno seguinte, e a Congregação ficou senhora da Escocia.</p>
-
-<p>Os estados do reino reuniram-se, e foi posto á sua deliberação
-um pedido da Congregação, referente a uma reforma de
-doutrina, de disciplina, de administração dos sacramentos, e da
-distribuição do patrimonio da egreja. Em resposta, os estados
-requisitaram um summario das desejadas reformas doutrinaes;
-e de ali a quatro dias foi-lhes apresentado um decumento, conhecido
-depois pelo nome de <i>Confissão Escoceza</i>. Foi tomado em
-consideração, os prelados fizeram algumas, poucas, observações,
-e, posto a votos, foi approvado quasi por unanimidade. Egual
-sorte tiveram as outras tres Actas, que aboliam a jurisdicção do
-papa no interior do reino, revogavam todas as anteriores determinações
-do parlamento que eram contrarias á Palavra de Deus
-e á Confissão de Fé recentemente adoptada, e prohibida a assistencia
-á missa e a outras ceremonias idolatras. E a religião reformada
-ficou sendo a religião da Escocia legalmente auctorizada.
-A auctoridade, comtudo, era o poder dos Estados, independentemente
-do soberano; pois que a rainha regente tinha fallecido,<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span>
-e a sua filha, Maria, rainha da Escocia, ainda não havia regressado
-da França.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Confissão Escoceza, ou Confessio Scotica.</b>—Apresentada aos
-Estados, e englobada nas suas Actas quando adoptada por elles,
-foi a obra de seis reformadores escocezes: Knox, Spottiswood,
-Willock, Row, Douglas e Winram. Diz-se que Maitland de Lethington,
-tido na conta de um dos mais habeis estadistas do seu
-tempo, reviu o livro e attenuou algumas das suas declarações.
-Redigido á pressa por um pequeno numero de theologos, é mais
-complacente e humano do que a maioria dos credos, e por essa
-razão tem-se recommendado a muitas pessoas que não se conformam
-com a logica impessoal da Confissão de Westminster.
-As primeiras phrases do prefacio dão uma idéa geral do todo.
-«Ha muito tempo que anceiavamos, queridos irmãos, por notificar
-ao mundo a summula de aquella doutrina que professamos,
-e pela qual nos havemos sujeitado ás ignominias e aos perigos.
-Tal tem sido, porém, a ira de Satanaz contra nós e contra Jesus
-Christo, cuja verdade eterna se manifestou ultimamente entre
-nós, que até hoje não nos tem sido concedido tempo para desobstruir
-as nossas consciencias, o que com muito regozijo
-teriamos feito.» O prefacio expõe tambem mais claramemte do
-que qualquer outra Confissão do mesmo genero a reverencia com
-que os vultos da Reforma tratavam a Palavra de Deus. «Pedimos
-a qualquer pessoa que notar n’esta nossa Confissão algum
-artigo ou phrase que esteja em desacordo com a Santa Palavra
-de Deus, que, dando prova da sua caridade christã, nos advirta
-d’esse erro por escripto, e, pela nossa honra e fidelidade, promettemos
-dar-lhe satisfação pela bocca de Deus, isto é, mediante
-a Sua Santa Escriptura, ou então emendarmos aquillo
-que se demonstrar que precisa de correcção. Perante Deus deixamos
-escripto nas nossas consciencias que abominamos, do
-fundo do coração, todas as seitas hereticas, e todos os promulgadores
-de doutrinas erroneas; e que com toda a humildade abraçamos
-a pureza do Evangelho de Christo, que é o unico alimento
-das nossas almas.»</p>
-
-<p>A Confissão contém as crenças communs a todas as ramificações
-da Reforma. Encerra, outrosim, todas as doutrinas chamadas
-ecumenicas, isto é, as verdades expostas nos primeiros
-concilies ecumenicos, e incorporadas no Credo dos Apostolos e
-ao Credo Niceno; e accrescenta aquellas doutrinas de graça, de
-perdão e de luz mediante a Palavra e o Espirito que com a
-reviviscencia da religião adquiriram uma proeminencia especial.
-Esta Confissão é mais notavel pelos seus titulos suggestivos
-do que por qualquer peculiaridade de doutrina. A doutrina da
-revelação é, por exemplo, definida por si propria, independentemente
-da doutrina da Escriptura, mediante este titulo:
-«A Revelação da Promessa». A Eleição é considerada, segundo<span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span>
-o antigo calvinismo, um meio de graça, uma evidencia do «invencivel
-poder» de Deus quanto á salvação. Os pontos em que a
-verdadeira egreja se distingue da falsa são, diz-se na dita Confissão
-a genuina prégação da Palavra de Deus, a adequada
-administração dos sacramentos, e a justiça na applicação da
-disciplina ecclesiastica. A auctoridade das Escripturas, affirma
-tambem, procede de Deus, nada tem que ver nem com homens
-nem com anjos; e a egreja sabe que ellas são verdadeiras,
-porque «a verdadeira egreja ouve e obedece sempre á voz do
-seu Esposo e Pastor.»</p>
-
-<p>Esta Confissão foi primeiro lida toda de uma vez no parlamento,
-e depois tornada a ler clausula por clausula. Randolpho,
-o embaixador inglez, que assistiu a essa leitura, descreveu-a a
-Cecilio, o grande ministro de Isabel, e entre outras coisas diz-nos
-que, quando se leram os artigos, alguns dos barões ficaram
-tão commovidos que se levantaram dos seus logares, declarando
-que estavam promptos a derramar o seu sangue em defeza da
-Confissão», e que Lord Lindsay, com uma gravidade raras vezes
-presenciada, disse: «Tenho vivido muitos annos; sou o mais
-edoso de todos quantos aqui se encontram; e agora que aprouve
-a Deus deixar-me chegar a este dia, em que tantas pessoas,
-algumas d’ellas pertencentes á nobreza, sanccionaram uma obra
-tão digna, direi como Simeão, <i>Nunc dimitis</i>».</p>
-
-<p class="tb"><b>A rainha Maria e a Reforma.</b>—A Reforma não tinha de triumphar
-na Escocia tão de repente e com tanta facilidade. Sir James
-Sandilands, encarregado de levar a Paris a Confissão de Fé, não
-só não conseguiu que a joven rainha a assignasse, como o informaram
-do desagrado com que ella soube dos acontecimentos
-occorridos na Escocia; e só apoz sete annos de lucta, que terminou
-com a deposição da soberana, é que a Confissão foi finalmente
-ratificada e a Egreja Reformada alcançou na Escocia um
-completo reconhecimento official.</p>
-
-<p>Francisco II, esposo de Maria, morreu em 1561, e a joven
-rainha chegou á Escocia em agosto do mesmo anno. Vinha
-acompanhada de um numeroso e brilhante sequito, do qual tambem
-faziam parte tres de seus tios, membros da casa de Guise,
-e o filho do famoso Condestavel de Montmorency. O duque de
-Guise e o cardeal de Lorena acompanharam-n’a até Calais. Os
-reformadores escocezes conheciam bem os homens que rodeiavam
-a sua rainha, e que tão ostensivamente se achavam dispostos
-a protegel-a. Era do dominio publico que o duque de Guise
-estava á frente de aquelle partido que ambicionava exterminar
-os protestantes francezes por meio de um massacre geral. Fôra
-elle, segundo se presumia, o instigador do assassinio judicial
-de Anne de Bourg, e que havia planeada a, carnificina de Amboise.
-A devassidão dos Guises só era excedida pela sua deshumana<span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span>
-crueldade. Taes eram os homens que passaram á Escocia
-para acompanhar e aconselhar a joven rainha.</p>
-
-<p>Não é, pois, para surprehender que, ponderando estas coisas,
-Knox e os seus amigos reputassem a vinda da rainha uma
-grande calamidade, e que vissem no nevoeiro e chuva que
-durante dois dias caiu sobre a costa oriental da Escocia, um
-como que aviso do céu, uma manifesta exposição da felicidade
-que ella trouxera comsigo para aquelle paiz, felicidade que
-se poderia traduzir por estas palavras: afflicção, dôr, obscurantismo
-e impiedade.</p>
-
-<p>A belleza physica, o privilegiado talento, os infortunios e o
-tragico fim da joven rainha teem-n’a circumdado de uma aureola
-romantica. E, comtudo, nem mesmo os seus admiradores teem
-feito inteira justiça á sua indomavel coragem e aos seus grandes
-dotes intellectuaes. Estava quasi só ao voltar para o seu
-paiz natal, e viu immediatamente que coisa alguma devia esperar
-da França e que necessitava de crear um partido em que
-podesse descançar confiadamente. Era uma rapariga de dezenove
-annos quando saiu de França; apezar d’isso, Knox, que
-teve com ella algumas entrevistas pouco depois da sua chegada,
-parece ter reconhecido n’ella uma mulher superior, e ter-se
-compenetrado de que havia motivo para receiar que uma das
-duas, ou a rainha ou a Reforma, tivesse de ir a terra. O combate
-que ella sustentou sósinha com a Reforma foi observado
-com anciedade por toda a Europa; e, se ella não tivesse sido
-educada n’uma côrte tão corrompida, e se não tivesse convergido
-para ella o odio que aquelles seus parentes, os Guises,
-haviam inspirado, podia muito bem ser que ficasse victoriosa.
-Poderá parecer cruel fallar d’este modo, agora que o perigo já
-lá vae ha seculos, mas o que é verdade é que bastantes familias
-pacificas e religiosas, tanto na Hollanda, como na França, como
-no Paiz do Rheno, e com mais razão ainda na Escocia e na
-Inglaterra, só respiraram á vontade quando o machado poz
-finalmente, em Fotheringay, termo á triste e agitada vida da
-rainha Maria.</p>
-
-<p>A lucta começou com a sua chegada. Ella e a sua côrte
-foram, com todo o espavento, ouvir missa logo no primeiro
-domingo, posto que fosse prohibido dizer e ouvir missa, sob
-pena de um severo castigo. Principiou, pois, por infringir as
-leis do estado, d’esse mesmo estado que havia implantado a
-Reforma. Se quizessemos contar detalhadamente o que de ahi
-em deante se passou encheríamos umas poucas de paginas.
-Apoz sete annos de lucta, Maria foi aprisionada no castello de
-Lochleven, e deposta, sendo collocado no throno o seu filho,
-ainda na infancia, James VI, e ficando como regente do reino
-seu irmão James Stewart, conde de Moray. O parlamento escocez
-votou novamente a Confissão de Fé; o regente assignou-a
-em nome do soberano; e, assim ratificado, foi incluido na legislação<span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span>
-do paiz e a religião reformada ficou sendo a reforma do
-christianismo legalmente reconhecida na Escocia.</p>
-
-<p class="tb"><b>O Livro de Disciplina e a primeira assembléa geral.</b>—Pouco
-depois de o parlamento de 1560 ter encerrado as suas sessões, os
-auctores da Confissão foram encarregados de apresentar uma
-breve exposição do melhor systema de governo de uma egreja
-reformada. Surgiu então aquelle notavel documento que depois
-se chamou o Primeiro Livro de Disciplina, e que constituiu a
-primeira formula de governo ecclesiastico na Escocia. Dividia-se
-em sessões da egreja, synodos e assembléas geraes; e
-concedia o titulo de officiaes da egreja aos ministros, professores,
-presbyteros, diaconos, superintendentes e ledores. Os
-auctores do Livro de Disciplina declararam ter ido procurar
-directamente ás Escripturas as linhas geraes de aquelle systema
-de governo ecclesiastico a adoptar o qual elles aconselhavam
-os seus compatriotas, e havia, indubitavelmente, muita sinceridade,
-a par de muita exactidão, n’essa sua affirmativa. Eram,
-comtudo, todos elles, homens affeiçoados á Egreja de Genebra,
-e tinham tido relações pessoaes com os protestantes da França.
-A sua fórma de governo foi, evidentemente, inspirada pelas
-idéas de Calvino, e segue de perto as Ordenanças Ecclesiasticas
-da Egreja franceza. Os officios de superintendente e leitor foram
-addicionados aos outros tres, ou quatro, que caracterizam a
-fórma de governo presbyteriana. O cargo de superintendente
-devia a sua origem á situação incerta do paiz e á escassez de
-pastores protestantes. Os superintendentes tinham a seu cargo
-divisões territoriaes que não correspondiam exactamente ás
-dioceses episcopaes, e competia-lhes apresentar á Assembléa
-Geral relatorios annuaes do estado ecclesiastico e religioso das
-respectivas provincias. Os leitores deviam a sua existencia ao
-reduzido numero de pastores protestantes, á grande importancia
-que os primitivos reformadores escocezes davam a um ministerio
-educado, e tambem á difficuldade de obter fundos para
-a sustentação dos pastores de todas as paroquias. O Livro de
-Disciplina contém um capitulo sobre o patrimonio da egreja,
-que insiste na necessidade de reservar os dinheiros possuidos
-pela egreja para a manutenção da religião, as despezas com a
-educação, e os socorros dos pobres. Foi a existencia d’este capitulo
-que fez com que os Estados não aceitassem o livro com
-tanta promptidão como o fizeram com a Confissão de Fé. Os
-barões de diversas categorias, que tinham assento na camara,
-haviam-se, em muitos casos, apropriado do patrimonio da egreja
-em seu beneficio particular, e não queriam assignar um documento
-que condemnava o seu modo de proceder. O Livro de
-Disciplina, approvado pela Assembléa Geral, e assignado por
-um grande numero de nobres e burguezes, nunca recebeu a
-sancção official concedida á Confissão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p>
-
-<p>A Assembléa Geral da Egreja Reformada da Escocia reuniu-se
-pela primeira vez em 1560, e, a despeito da luta em que
-a egreja se achava envolvida, houve, pelo menos, uma reunião
-por anno, e algumas vezes mais, podendo assim a egreja organizar-se
-e entrar em plena actividade.</p>
-
-<p>Fez-se uma traducção do <i>Catecismo para a Infancia</i>, de Calvino,
-e deu-se ordem para que se fizesse uso d’ella. O Livro de
-Ordem Commum, ou a Lithurgia de Knox, foi substituindo a
-pouco e pouco a Lithurgia do rei Eduardo VI, e a Egreja Reformada
-da Escocia, com a sua Confissão, a sua constituição ecclesiastica,
-o seu methodo de culto publico e as suas provisões
-para a instrucção das creanças, espalhou-se pelo paiz, levantando
-egrejas, melhorando o estado moral do povo e contribuindo
-efficazmente para a educação do mesmo.</p>
-
-<p>Uma das principaes dificuldades com que a egreja teve de
-luctar foi falta de dinheiro para pagar aos ministros. A Egreja
-Catholica Romana tinha sido officialmente abolida, e, comtudo,
-não se havia feito provisão alguma para a manutenção do clero
-reformado. A propriedade ecclesiastica estava em condições
-anormaes. Até 1560 a Egreja Catholica Romana da Escocia
-vinha sido muito opulenta, e havia estado de posse de uma
-grande parte do territorio da nação. Emquanto a egreja estivera
-luctando com Maria e procurando frustrar os esforços que ella
-empregava para introduzir de novo a religião e hierarquia romanista,
-os prelados distribuiram uma grande parte dos bens
-ecclesiasticos por quem elles muito bem entenderam, os nobres
-apoderaram-se de uma parte d’elles ainda maior, e o que restava
-e nominalmente pertencia á egreja estava nas mãos de
-homens que se intitulavam bispos, abbades, priores, deãos e
-curas, mas que nunca haviam recebido ordens, eram protestantes
-só no nome, e se serviam de aquelles titulos ecclesiasticos para
-poderem usufruir as propriedades a que o cargo dava direito.
-Depois de alguma discussão, a Assembléa obteve do Estado que
-aquelas pessoas que conservavam em seu poder bens que nominalmente
-pertenciam á egreja ficassem com dois terços de rendimento
-para as suas despezas particulares, e entregassem a
-restante terça parte para a manutenção do ministerio e das
-escolas, e para os encargos de beneficencia. A Egreja Reformada,
-porém, teve muita difficuldade em ver esta disposição convertida
-em lei, e assim, durante os primeiros annos da Reforma os
-ministros e as escolas foram principalmente mantidos por meio
-de offertas voluntarias, ou «benevolencias», como Knox pittorescamente
-lhes chamava.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Educação.</b>—As idéas democraticas do presbyterianismo,
-avolumadas pela necessidade de cooperar com o povo, fizeram
-com que os reformadores escocezes se ocupassem seriamente
-da educação popular. Todos os impulsionadores da Reforma,<span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span>
-quer na Allemanha, quer na França, quer na Hollanda, tinham
-reconhecido a importancia de esclarecer o povo; mas a Hollanda
-e a Escocia foram talvez os dois paizes onde a tentativa foi mais
-bem succedida. A educação do povo não era uma novidade na
-Escocia e, posto que nos agitados tempos que precederam a
-Reforma as escolas superiores tivessem desapparecido, e as
-universidades tivessem caido em decadencia, o desejo de aprender
-não se havia extinguido por completo. Knox e o seu amigo
-Jorge Buchanan tinham um plano magnifico para crear escolas
-em todas as freguezias, estabelecer collegios superiores em
-todas as cidades importantes e augmentar o poder e influencia
-das universidades. O seu plano, devido á cubiça dos barões que
-se haviam apoderado dos bens da egreja, pouco mais era do
-que uma devota imaginação, mas havia-se apossado do espirito
-da Escocia, e a falta de dotações era mais do que compensada
-pelo desejo ardente que o povo tinha de se instruir. As tres
-universidades, de Santo André, de Glasgow e de Aberdeen,
-receberam uma nova vida, e fundou-se uma quarta universidade,
-a de Edinburgo. Alguns estudantes escocezes que haviam
-recebido educação nas escolas continentaes, e que haviam abraçado
-a fé reformada, foram encarregados de superintender o
-re-organizado systema educativo do paiz, e tudo se fez em harmonia
-com o viver do povo, preferindo-se, nas escolas, e externato
-ao internato, e estabelecendo um systema de inspecção
-que era exercido, em cada circumscripção escolar, por um dos
-homens mais espirituaes e de maiores conhecimentos. Knox
-estava tambem disposto a impôr ás duas classes da sociedade,
-a mais baixa e a mais elevada, uma frequencia obrigatoria ás
-aulas; quanto á classe media, elle confiava no seu natural desejo
-de aprender. E desejava que o Estado exercesse a sua
-auctoridade no sentido de compellir os mancebos de posição a
-matricularem-se nas escolas superiores e nas universidades,
-para que podessem prestar serviços uteis á nação.</p>
-
-<p class="tb"><b>A morte de Knox.</b>—João Knox morreu em novembro de 1572.
-O assassinio do seu amigo, o conde de Moray, o Bom Regente,
-havia-lhe feito uma grande impressão, e a noticia do massacre
-de S. Bartholomeu, que havia chegado recentemente á Escocia,
-produziu-lhe um tremendo abalo. Elle nunca havia sido um
-homem robusto, e durante a sua vida havia passado por muitos
-trabalhos, mas o seu intrepido espirito a tudo resistira. «Ignoro»
-diz Smeaton, «se Deus poz jámais n’um corpo debil e franzino
-uma alma maior e mais santa do que a d’elle». As forças começaram
-a faltar-lhe muito antes de adoecer gravemente, mas luctou
-sempre contra o seu precario estado de saude, e nunca deixou
-de prégar e exhortar como costumava fazer. James Melville,
-que teve occasião de o ver quando estudava em Santo André,
-apresenta-nos um retrato d’elle pouco antes da sua morte. «Via-se<span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span>
-que andava doente. Todos os dias eu o via passar para a
-egreja paroquial, andando muito cautelosamente, com o pescoço
-resguardado por uma pelle, de bengala na mão, e acompanhado
-pelo seu creado, o bom Ricardo Ballanden. Era esse dito Ricardo
-e um outro creado que o ajudavam a subir para o pulpito, a que
-elle se encostava durante algum tempo; logo, porém, que entrava
-no sermão, enchia-se de uma actividade e de um vigor
-taes que esse mesmo pulpito por pouco escapava de ficar feito
-em cavacos.»</p>
-
-<p>Morreu antes de ter effectuado por completo a sua obra,
-pois que a Egreja Reformada ainda tinha muitos obstaculos a
-vencer, e o facto de Knox não tomar parte na batalha tornava-lhe
-mais difficil o sair victoriosa. Elle não possuia a erudição
-de Calvino, nem uma disposição para se tornar popular, como
-Luthero, mas nenhum homem o poderia egualar em coragem.
-«Elle nada temia da carne, nem tão pouco a lisongeava.» E foi
-isso o que fez o reformador da Escocia.</p>
-
-<p>Como os seus contemporaneos francezes, tinha tanto de estadista
-como de dirigente ecclesiastico, e emquanto viveu foi o
-guia do povo escocez. Os nobres de bom grado teriam intervindo
-no movimento, e lhe teriam dado uma feição mais em obediencia
-ao seu modo de pensar, mas Knox fez do pulpito a força
-mais poderosa da Escocia, e com as suas ousadas prégações
-creou uma opinião publica com que era preciso contar. Elle era,
-individualmente, um homem de profunda espiritualidade, e «temia
-a Deus, mas coisa alguma fóra d’Elle lhe mettia medo».</p>
-
-<p class="tb"><b>Os bispos tulchanos.</b>—O poder da Egreja Reformada da Escocia
-foi consideravelmente fortalecido e consolidado mediante
-o caracter representativo dos seus conselhos, e, mais especialmente,
-da sua Assembléa Geral, e a liberdade com que todos
-os assumptos de interesse para a nação eram ahi tratados e discutidos
-deu á Assembléa da Egreja o caracter de um parlamento
-nacional onde o povo da Escocia encontrava uma defeza
-mais efficaz do que nos Estados do reino. Os olhos perspicazes
-da rainha Maria haviam discernido esta força da egreja, e ella
-empregou varios esforços, sempre infructiferos, para impedir a
-reunião da Assembléa Geral. Depois da morte do conde Moray,
-o Bom Regente, isto é, durante as regencias de Lennox, Mar e
-Morton, e durante o reinado de James, a Assembléa foi sempre
-mal vista por aquelles que ambicionavam um poder exclusivo.
-Sabia-se, porém, que era perigoso dirigir-se á Assembléa um
-ataque directo, e aqueles que no Estado dispunham do poder
-tentaram diminuir-lhe a auctoridade promovendo ecclesiasticos
-e elevando-os a posições que lhes permittissem tomar assento
-nos Estados e defender ahi as prerogativas da egreja. Depois
-da morte do regente Moray, a nobreza tratou constantemente<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span>
-de derrubar o governo episcopal, e collocar a Egreja sob o dominio
-dos bispos.</p>
-
-<p>Uma outra, e talvez mais visivel, causa por que aquelles
-estavam em auctoridade antipathisavam com a simples
-constituição presbyteriana que o Livro de Disciplina havia
-preceituado á Egreja era o facto de ella dar pouca occasião a
-que as receitas fossem espoliadas, ao passo que a nomeação
-de bispos reunia uma grande proporção dos dinheiros da Egreja
-em meia duzia de mãos, habilitava os patronos e entrar em
-negocios com os ecclesiasticos que elles nomeassem para esses
-cargos, desviando-se assim uma grande parte dos fundos de que
-a Egreja ainda estava de posse para as algibeiras dos fidalgos
-de primeira plana.</p>
-
-<p>Pouco antes da morte de Knox, a Assembléa, não sem protesto,
-tinha, a instancias dos Lords do Conselho, concordado em
-acceitar ecclesiasticos com o titulo de bispos, debaixo de certas
-condições, sendo as principaes as seguintes: os bispos não teriam
-um poder superior ao dos superintendentes, haviam de
-estar sujeitos á Assembléa Geral, e não seriam nomeados
-sem que devidamente se providenciasse quanto ao sustento do
-ministerio regular. Este accordo, chamado a <i>Convenção de Leith</i>,
-foi devido principalmente ás diligencias de João Erskine, o antigo
-amigo de Knox, um dos primitivos superintendentes, e que
-por mais de uma vez exerceu na Assembléa o logar de Moderador.
-Alguns annos de experiencia mostraram á egreja escoceza
-o perigo que para a sua vida livre, para a sua vida democratica,
-provinha das disposições desta convenção, e pouco depois da
-morte de Knox appareceram symptomas de um proximo conflicto.</p>
-
-<p>O mais flagrante exemplo do uso que os nobres mais proeminentes
-faziam d’estes bispos para defraudar a Egreja occorreu
-em 1581, que foi quando Boyd, o arcebispo de Santo André,
-morreu. Assim que o edoso prelado faleceu, o duque de Lennox
-resolveu apoderar-se das propriedades da sé. Era impossivel
-pôr similhante coisa em pratica sem um legalisado artificio, e
-o plano escolhido foi induzir Roberto Montgomery, ministro em
-Stirling, a acceitar o cargo de arcebispo, tornar-se d’esse modo
-herdeiro dos bens da sé, e passar depois os respectivos rendimentos
-para as mãos de Lennox. Este caso foi, talvez, o peior
-d’elles todos; mas em toda a Escocia se procedeu de uma fórma
-analoga, nomeando-se bispos, abbades, etc., para que podessem
-tomar legalmente posse dos dinheiros da Egreja, e, em vez de
-se lhes dar a devida applicação, passal-os para os bolsos dos
-patronos seculares. O povo chamava a estes bispos, assim como
-a quaesquer outros dignitarios que se prestavam a essas burlas,
-tulchanos, e a primeira lucta com os bispos escocezes não foi
-uma contestação entre o presbyterio e o episcopado, mas entre
-a Egreja, que queria a todo o custo conservar o seu patrimonio,<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span>
-e esses tulchanos. Quando na Assembléa se tratou do caso de
-Montgomery, «o moderador, David Dickson, pediu licença para
-expôr a significação de bispos tulchanos. Tratava-se de uma
-palavra em uso vulgar entre os montanhezes da Escocia. Quando
-uma vacca não se deixa mungir, põem junto d’ella uma pelle de
-vitello, empalhada, e é a essa pelle que chamam <i>tulchan</i>. Ora
-para esses bispos que possuíam o titulo e o beneficio, sem desempenharem
-o cargo, não se encontrou denominação mais significativa
-do que a de bispos tulchanos.»</p>
-
-<p class="tb"><b>André Melville.</b>—João Knox morreu quando este conflicto
-entre a Côrte e a Egreja estava no principio, e era necessario
-fazel-o substituir por outro dirigente. Entre os escocezes illustrados
-que o triumpho da Reforma e a renascença das letras
-haviam attraido para o seu paiz natal, André Melville era o que
-mais se tinha distinguido. Nascido, em 1545, em Baldovy, perto
-de Montrose, recebeu a sua educação na Escola Primaria d’essa
-cidade, e no Collegio de St.ª Maria, em St.º André. De ahi foi
-para Paris, onde teve por professor o celebre Pedro Ramus.
-Depois de terminar os estudos, obteve em Genebra uma cadeira
-de latim, e em 1574 voltou á Escocia, com a reputação de um
-dos mais eminentes sabios da Europa. Pouco depois do seu regresso
-foi nomeado reitor da universidade de Glasgow, e por
-tal fórma dirigiu esse estabelecimento de instrucção que correu
-a matricular-se n’elle um elevadissimo numero de mancebos, não
-só escocezes como estrangeiros.</p>
-
-<p>Foi um dos membros da Assembléa de 1575, em que a questão
-do presbyterio e do episcopado tomou pela primeira vez um
-caracter serio; e fez parte da comissão nomeada por essa Assembléa
-para considerar se o nome e deveres de um bispo tinham
-alguma auctorização biblica, isto é, se os bispos que havia
-n’aquelle tempo na Egreja da Escocia estavam ali, e desempenhavam
-os seus cargos, em obediencia á Palavra de Deus. A
-decisão a que se chegou foi que o nome de bispo pertencia a
-todos os pastores da Egreja de quem se havia confiado congregações,
-mas que tambem podia ser applicado aos ministros escolhidos
-por seus irmãos para implantar egrejas e inspeccionar
-as egrejas existentes, e o sentimento geral da Egreja a este
-respeito pode colligir-se d’estas tres expressões, que indicam
-tres especies de bispos: My Lord Bishop (<i>Meu Senhor Bispo</i>),
-My Lord’s Bishop (<i>Bispo do Meu Senhor</i>), e Lord’s Bishop (<i>Bispo
-do Senhor</i>), sendo os primeiros catholicos romanos, os segundos
-tulchanos, e os terceiros pastores das congregações.</p>
-
-<p class="tb"><b>O Segundo Livro de Disciplina.</b>—Quando a Egreja Reformada
-da Escocia se encontrou face a face com estes novos problemas
-ecclesiasticos, sentiu necessidade de um mais distincto e mais
-completo schema de governo da egreja do que aquelle que o<span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span>
-Primeiro Livro de Disciplina continha. Esse systema de governo
-da egreja havia sido preparado á pressa, e fazia menção de differentes
-materias que estavam fôra da esphera de um livro de
-preceitos ecclesiasticos. A Assembléa de 1576 nomeou uma
-commissão para tratar d’esse assumpto, e redigir um livro que
-podesse substituir a obra de Knox e de Row. O dito livro foi
-escripto de vagar, com muita perseverança, e finalmente em 1578
-deu-se ordem para que o <i>O Segundo Livro de Disciplina</i> fosse impresso,
-afim de sujeital-o á critica e se fazerem as necessarias
-correcções. Tres annos se dispenderam em ponderar todos os
-seus pontos, todas as suas phrases, e o Livro de Politica, como
-se lhe chamou, foi então acceite pela Assembléa e incluido nas
-suas Actas.</p>
-
-<p>Este livro, que apresenta, n’um estylo conciso e claro, o esboço
-do governo da Egreja Presbyteriana na Escocia, começa
-por fazer distincção entre as leis ecclesiasticas e civis, e reivindica
-para a Egreja «uma politica differente da politica do
-Estado». O conjuncto do governo da egreja, diz o livro, comprehende
-doutrina, disciplina e distribuição; e para este triplice
-governo ha um triplice officialato, que se divide em pastor, ou
-bispo, presbytero e diacono. O Livro de Disciplina addiciona um
-quarto oficio, ou de doutor, ou ensinador. N’um curto capitulo
-vem descripta a natureza da vocação, assim como o modo da
-eleição e ordenação dos pastores. Faz-se tambem uma descripção
-dos deveres que cabem a cada uma das dignidades, e das
-varias assembléas em que aquelles que estão d’ellas revestidos
-teem de comparecer, no exercicio dos seus cargos. É singular
-que no anno que precedeu o da adopção do Livro de Disciplina
-pela Assembléa recebesse o seu complemento a organização
-presbyteriana da Egreja Escoceza mediante o universal reconhecimento
-do presbyterio como um tribunal superior á sessão
-da egreja, mas inferior ao synodo; e que este livro de politica
-não faça menção especial de similhante tribunal, que actualmente
-exerce funcções tão importantes na organização presbyteriana
-escoceza.</p>
-
-<p>Como a publicação do <i>Segundo Livro de Disciplina</i> a Egreja
-Reformada da Escocia completou a sua organização ecclesiastica,
-e terminou a primeira parte da sua historia. A Reforma
-estava por esse tempo firmemente estabelecida, e o protestantismo
-tinha empolgado o povo da Escocia. A Egreja tinha deante
-de si uma longa lucta; o conflito, porém, não era com o papismo,
-mas com o Estado; não era no sentido de reformar a religião,
-mas de desenvolver e preservar a fórma democratica do governo
-da Egreja, que se impunha ao povo como sendo a mais
-conforme com a Palavra de Deus, e a mais adequada para a habilitar
-a desempenhar os seus deveres de Egreja de Christo.</p>
-
-<p>Em 1574 a Escocia achava-se em curiosas circumstancias
-ecclesiasticas. Haviam-se conservado as paroquias que existiam<span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span>
-antes da Reforma, e cujo numero era superior a mil. Para seu
-funccionamento havia 289 ministros e 715 leitores, e muitos
-d’estes ultimos eram os padres catholicos romanos que tinham
-vindo para a religião reformada mas que não possuiam uma
-educação sufficiente para justificar a sua ordenação como pastores
-protestantes. Estas paroquias passaram depois a constituir
-presbyterios, os presbyterios foram agrupados em synodos,
-e o conjuncto estava sob a direcção da Assembléa Geral. A organização
-presbyteriana era, n’um certo sentido, completa. A
-par d’isto, porém, existiam as velhas dioceses, anteriores á Reforma,
-em numero de treze, na sua maior parte occupadas por
-homens que eram ministros protestantes, que haviam tomado
-o titulo de bispos, mas que não exerciam funcções episcopaes.
-Apenas tres d’esses bispos, o de St.º André, o de Glasgow e o
-de Aberdeen, haviam tentado exercer a jurisdicção episcopal, e
-não o tinham feito tanto na qualidade de bispos, como de superintendentes.
-Os bispos tinham assento no parlamento escocez,
-e os seus deveres principaes eram administrar as receitas
-da cathedral e desempenhar as funcções judiciaes que eram da
-competencia dos bispos n’outro tempo, anteriormente á Reforma.</p>
-
-<p>Esta organização episcopal vivia lado a lado com a activa e
-aggressiva constituição presbyteriana da Egreja. O estado dos
-negocios ainda mais anomalo se tornava com o facto de ainda
-viverem, e exercerem a sua fiscalização, tres dos antigos superintendentes;
-e os districtos dos outros superintendentes
-eram governados por commissarios provisorios nomeados pela
-Assembléa, que podia demittil-os quando entendesse.</p>
-
-<p>O fim que a Egreja tinha em vista com o conflicto que durou
-desde 1574 até 1638 era acabar inteiramente com aquillo a
-que chamava a inutil e nociva organização episcopal, que não
-tinha ligação alguma com a obra espiritual da Egreja, e substituir
-os superintendentes e commissarios por presbyteros, unindo
-assim a Egreja n’um todo harmonico. O fim que a côrte tinha
-em vista era conservar o velho systema episcopal, e, mediante
-elle, ir gradualmente dividindo a Egreja em fragmentos, cada
-um d’elles governado por um bispo que só era responsavel para
-com o parlamento; e, no fim de tudo, restabelecer o episcopado
-no velho sentido da palavra, e derribar por completo a constituição
-presbyteriana.</p>
-
-<p>O anno de 1638 foi o do triumpho da Egreja, mas a historia
-completa d’esta lucta ultrapassa os limites da presente obra.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span></p>
-
-<h2 id="III_PARTE">III PARTE<br />
-<span class="smaller">A REFORMA ANGLICANA</span></h2>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Capitulos:</span></p>
-
-<table summary="Capitulos">
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#III_CAPITULO_I">I</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Egreja de Inglaterra durante o reinado de Henrique VIII.</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#III_CAPITULO_II">II</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Reforma sob Eduardo VI, e a reacção sob Maria.</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#III_CAPITULO_III">III</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A Reforma sob Isabel.</span></td>
- </tr>
-</table>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span></p>
-
-<h3 id="III_CAPITULO_I">CAPITULO I<br />
-<span class="smaller">A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, <a href="#Page_157">pag. 157</a>.—Antecipações
-da Reforma em Inglaterra, <a href="#Page_158">pag. 158</a>.—O estado ecclesiastico de Inglaterra no
-principio da Reforma, <a href="#Page_159">pag. 159</a>.—As relações de Inglaterra com o pontificado,
-<a href="#Page_160">pag. 160</a>.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, <a href="#Page_161">pag. 161</a>.—Henrique
-muda de opinião, <a href="#Page_163">pag. 163</a>.—Henrique VIII, Francisco I, Carlos V,
-e a rivalidade que havia entre elles, <a href="#Page_164">pag. 164</a>.—A submissão do clero, <a href="#Page_165">pag. 165</a>.—O
-progresso da separação de Roma, <a href="#Page_166">pag. 166</a>.—Separação de Roma e
-Reforma: duas coisas differentes, <a href="#Page_168">pag. 168</a>.—Execução da sir Thomaz More,
-<a href="#Page_169">pag. 169</a>.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades da Egreja,
-<a href="#Page_170">pag. 170</a>.—<i>Os Dez Artigos</i>, <a href="#Page_171">pag. 171</a>.—<i>O Estatuto Sanguinario</i>, <a href="#Page_173">pag. 173</a>.—A
-Egreja de Inglaterra em 1547, <a href="#Page_173">pag. 173</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>O caracter excepcional do Principio da Reforma inglesa.</b>—A Egreja
-e o povo inglez romperam com o systema ecclesiastico medieval
-em circumstancias tão excepcionaes que é impossivel considerar
-esse rompimento como fazendo parte da Reforma, ou como tendo
-muita coisa em commum com os movimentos contemporaneos
-na Allemanha e na França. Emquanto durou o reinado de Henrique
-VIII, a Egreja de Inglaterra, que se havia separado do
-papa, pouco ou nada tinha de commum com a Reforma. O que
-durante aquelle reinado se fez foi simplesmente demolir a Egreja
-da edade media. A verdadeira Reforma começou no reinado de
-Eduardo VI, e a sua adopção formal teve logar no de Isabel.
-Henrique VIII destruiu a supremacia do papa, tanto espiritual
-como temporal; derrubou a grade ecclesiastica que unia a Egreja
-de Inglaterra á grande Egreja Occidental governada pelo bispo
-de Roma, mas não poz coisa alguma duradoura em seu logar.
-O seu fim era estabelecer um papado real, tão despotico e ainda
-mas secular do que aquelle que elle estava destruindo, sobre
-as minas da jurisdicção do bispo de Roma. A Egreja que elle
-construiu segundo o seu modelo não durou mais do que a vida
-d’elle; mas a sua obra durou o bastante para dar á Reforma da
-Egreja de Inglaterra, quando ella mais tarde se tornou um facto,
-aquelle caracter particular que a distinguiu dos movimentos do
-mesmo genero occorridos n’outros paizes. O objecto de Henrique<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span>
-era modificar de tal modo as condições ecclesiasticas da Inglaterra
-que o rei occupasse o logar do papa, e ficasse governando,
-não só temporal como espiritualmente, de modo que, mediante
-a Egreja, tivesse sobre os seus subditos um dominio absoluto.
-Todas as reformas de doutrina, de culto e de costumes eram tão
-abominaveis para Henrique como para o bispo de Roma.</p>
-
-<p class="tb"><b>Antecipações da Reforma em Inglaterra.</b>—Os historiadores ecclesiasticos
-fazem, geralmente, datar os principios da Reforma do
-tempo de João Wycliffe, o qual, no seculo quatorze, era, por assim
-dizer, a bocca da Inglaterra, revoltando-se contra a supremacia
-espiritual e temporal que o papa tinha no reino; mas é muito
-para duvidar que a sua influencia continuasse a ser exercida
-sobre o povo inglez até ao seculo dezeseis, e por tal fórma que
-a ella se devam attribuir os desejos de Reforma que enchiam
-os corações de muitas pessoas de bons sentimentos religiosos.</p>
-
-<p>Como Francisco de Assis e outros reformadores e revivificadores
-da Edade Media, Wycliffe tinha abraçado apaixonadamente
-a idéa de que os beneficios da salvação só podem ser
-aproveitados por aquelles que imitam Christo, e que para imitar
-Jesus Christo torna-se indispensavel viver na pobreza como
-Elle. Declarou, portanto, guerra aberta ao bem estipendiado
-clero da opulenta Egreja de Inglaterra, e prégava que a Egreja,
-para ser realmente de Christo, devia ser, pobre. Dizia que o
-Estado não faria mais do que beneficiar a Egreja tirando-lhe a
-riqueza, pois que era esta um obstaculo a que ella se parecesse
-com o seu Mestre. Em conformidade com estas idéas, organisou
-um corpo de prégadores ambulantes, denominados prégadores
-pobres, os quaes, tendo, a muitos respeitos, parecenças com os
-evangelistas do movimento wesleyanno, andavam por toda a
-Inglaterra, proclamando a doutrina da humildade. Era um fervoroso
-admirador dos grandes juristas medievaes, taes como
-Guilherme de Ockham, o querido mestre de Luthero, Marsillio
-de Padua, e Pedro Dubois de Paris. Elles haviam proclamado,
-n’uma epoca muito anterior, que o Estado não era
-outra coisa senão o povo; e Wycliffe, seguindo-lhes o exemplo,
-insistia em que a Egreja não era outra coisa senão o povo. Ora
-isto atacava o systema da Egreja medieval, que se apoiava na
-noção de que a verdadeira Egreja era o clero, e de que o povo só
-fazia parte d’ella quando se punha em contacto com os clerigos,
-que eram depositarios dos sacramentos. Foi por esse motivo
-que elle traduziu a Biblia, que era o Livro da Egreja, e, portanto,
-do povo christão, e não sómente do clero. As idéas da
-Wycliffe foram avidamente adoptadas por uma grande parte da
-população ingleza, e os seus discipulos, os lollardos, constituiram,
-por algum tempo, uma fortissima aggremiação.</p>
-
-<p>O lollardismo foi indubitavelmente uma preparação para a
-Reforma, e os homens biblicos, como lhes chamavam, teriam<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span>
-exercido uma grande influencia sobre o povo, no sentido de o
-predisporem para uma revivificação da religião espiritual se
-tivessem existido na epoca em que se operou o movimento
-reformador. Não se pode, porém, provar que elles communicassem
-com essa geração, e não ha indicio algum de que nos reinados
-de Henrique VII e Henrique VIII estivesse desenvolvido
-o gosto pela leitura da Biblia ou houvesse uma corrente de sympathia
-pelos prégadores pobres. O povo inglez, tomado na sua
-totalidade, parece não se ter inclinado para a Reforma antes do
-tempo de Isabel.</p>
-
-<p class="tb"><b>O estado ecclesiastico da Inglaterra no principio da Reforma.</b>—Quando
-começou na Allemanha o movimento da Reforma, houve,
-sem duvida, muitos inglezes que se sentiram attraidos para o
-reformador saxonio, e que desejaram ver introduzido na Egreja
-um credo mais simples e mais em harmonia com a Palavra de
-Deus, e uma fórma de culto como a que era usada nos tempos
-apostolicos; mas a maioria não partilhava essas idéas. Havia,
-certamente, muitissimas pessoas que desejariam ver modificados
-os costumes dos clerigos, e especialmente o caracter moral
-dos frades, e que ficariam satisfeitas se as propriedades da Egreja
-fossem sujeitas a impostos e os grandes rendimentos dos bispados
-e das abbadias soffressem alguma diminuição. E eram em
-numero sempre crescente as que se sentiam desgostosas com
-a ignorancia do clero, e que, por motivos politicos ou sociaes,
-desejavam ver cerceada a influencia do bispo de Roma. Não
-lhes agradava a sua interferencia nas questões politicas, e indignava-os
-a saida de grossas quantias para fóra do reino.</p>
-
-<p>Não é provavel que o caracter moral do clero romano fosse
-peior em Inglaterra do que em qualquer outro paiz, mas o que é
-verdade é que os padres, com a sua conducta, desacreditavam
-a Egreja. O clero era de uma ignorancia crassa, e havia, talvez,
-em Inglaterra menos conhecimento das Escripturas do que na
-França ou na Allemanha, pois que, desde a epoca do lollardismo,
-a leitura da Biblia era considerada um acto criminoso.
-A Biblia era um livro desconhecido para os padres, e Erasmo
-conta que viu, preso por uma corrente a uma coluna da cathedral
-de Canterbury um Evangelho de Nicodemos que era lido
-como fazendo parte da Escriptura canonica.</p>
-
-<p>O alto clero pouco tinha que fazer na Egreja, e occupava-se
-em dirigir os negocios do Estado, ou em presidir ás audiencias
-nos tribunaes de justiça. O arcebispo de Canterbury era Lord
-Chanceller, o bispo de Winchester director geral da Thesouraria,
-o bispo de Durham secretario de Estado, e o bispo de Londres
-guarda-mór dos arquivos. Os bispos de Bath, Hereford,
-Llandaff e Worcester nem sequer residiam no reino.</p>
-
-<p>Dadas estas circunstancias, não é para estranhar que aquelles
-que amavam sinceramente a instrucção se sentissem indignados<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span>
-perante a ignorancia do clero, e procurassem abrir os
-olhos, não só a estes como ao povo em geral; e que os patriotas
-inglezes, lembrando-se das antigas tradições de um paiz que
-durante seculos havia mantido uma attitude altiva e reservada
-para com as pretensões da Curia Romana, tivessem immensa
-vontade de annular o poder do papa em Inglaterra. Como que
-exteriorisando o desejo preponderante, surgiu um grupo de mancebos
-instruidos, capitaneados por Colet, deão de S. Paulo, e
-Thomaz More, cujo intuito era purificar a Egreja, o povo e o
-clero, e incitar a Egreja nacional de Inglaterra a resistir ás
-usurpações do bispo de Roma.</p>
-
-<p class="tb"><b>As relações de Inglaterra com o pontificado.</b>—Os bispos de
-Roma, na Edade Media, reivindicavam a supremacia, tanto espiritual
-como temporal, e o povo inglez havia resistido, por mais
-de uma vez, ás suas reivindicações. Os papas, desde o tempo de
-Innocencio III, sustentavam que todos os reis e principes eram
-seus vassallos, tanto pelo que dizia respeito ás coisas sagradas
-como aos negocios civis. Este direito havia sido imposto no reinado
-de João, que pagara tributo a Roma em reconhecimento
-da supremacia papal. Quando, porém, foi exigido esse tributo
-aos sucessores de João, elles, indignados, recusaram pagal-o.
-E a Inglaterra, sem deixar de pertencer á Egreja Catholica medieval,
-havia repudiado o direito do papa a intervir nas questões
-nacionaes. Rei algum inglez, excepto João, se considerou vassallo
-do papa. Não era uma coisa nova em Inglaterra, o não reconhecer
-a supremacia do papa nos negocios temporaes.</p>
-
-<p>Os papas tinham, desde o principio da Edade Media, exigido
-que os reputassem arbitros supremos em todos os negocios
-espirituaes, e, por consequencia, a Egreja ingleza devia
-estar sujeita ao seu dominio absoluto. Estas reivindicações
-apresentavam-se, na pratica, debaixo das seguintes fórmas: Os
-papas queriam que lhes fosse reconhecida a decisão final em
-todas as nomeações ecclesiasticas; isto é, nenhum bispo, ou
-abbade, ou outro qualquer dignitario da Egreja podia ser collocado
-n’este ou n’aquelle posto sem a approvação do papa em
-ultima instancia, e esta sua supremacia queriam que lhes fosse
-reconhecida de uma fórma prática mediante o pagamento do
-primeiro anno do estipendio que correspondia a cada oficio
-ecclesiastico. Queriam ter a decisão final em todas as questões
-que se levantassem no seio da Egreja ingleza. E isto significava,
-praticamente, que todos os clerigos, bispos, abbades, simples
-padres e frades só podiam ser julgados pelos tribunaes
-ecclesiasticos, e que o accusador ou o defensor tinha sempre o
-direito de appellar dos tribunaes inglezes para o tribunal pontificio.
-Reivindicavam tambem que as leis canonicas, isto é, as
-leis da Egreja promulgadas pelos concilios e pelos papas, fossem<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span>
-reconhecidas em Inglaterra e tivessem a mesma força que as
-leis ordinarias.</p>
-
-<p>A supremacia espiritual do papa tinha sido repetidas vezes
-repellida pelo povo inglez. Os reis de Inglaterra tinham declarado
-e tornado a declarar que em caso algum se poderia
-appellar dos tribunaes inglezes para a Curia Romana. Estas
-declarações tinham tomado a fórma de decretos, e no reinado
-de Ricardo II ficaram englobadas no famoso codigo de <i>Proemunire</i>.
-Segundo este codigo, ou estatuto, como lhe chamavam,
-qualquer appellação para um tribunal de justiça estrangeiro,
-romano ou de outra qualquer nacionalidade, era um crime a que
-correspondia um castigo severo. Sustentava, de uma maneira
-peremptoria, que o rei era o arbitro supremo em todas as questões
-civis ou ecclesiasticas, e tornava punivel qualquer appellação
-de sentenças proferidas nos tribunaes civis para juizos
-ecclesiasticos, quer da Inglaterra quer da Italia.</p>
-
-<p>Além dos protestos do rei e do parlamento, reunidos n’este
-estatuto, o povo, n’uma grande occasião pelo menos, negou solemnemente
-a supremacia do papa, e asseverou a independencia
-da Egreja ingleza. A <i>Magna Charta</i> foi feita com o intuito de
-restringir o poder pontificio, assim como de reprimir o do rei;
-e a sua primeira clausula reivindicou a independencia da Egreja
-de Inglaterra—<i>Quod ecclesia anglicana libera sit et habeat omnia
-jura sua integra et libertates suas illaesas.</i></p>
-
-<p>E Egreja e o povo inglez haviam-se acostumado a protestar
-contra a interferencia papal, e os reformadores que tinham simplesmente
-em vista promover a instrucção do clero, e reprimir
-a auctoridade que o papa exercia na Inglaterra, podiam dizer, com
-exactidão historica, que não punham em pratica uma coisa nova.</p>
-
-<p>As aspirações d’esses reformadores podem ser apreciadas
-no romance politico escripto por um dos mais intelligentes
-d’entre elles,—a <i>Utopia</i>, de Thomaz More. Para esses homens
-a Reforma era apenas um movimento intellectual e politico.
-Não era uma revivificação religiosa. Podiam sympathizar com
-os concilios reformistas do secolo quinze, mas entre elles e Wittenberg
-ou Genebra havia poucos pontos de contacto.</p>
-
-<p class="tb"><b>As primitivas relações de Henrique VIII com o pontificado. Defensor
-da Supremacia papal.</b>—Estes reformadores do estudo e da camara
-do conselho saudaram com regozijo a subida de Henrique VIII
-ao throno de Inglaterra. Suppunha-se, exactamente como aconteceu
-com o seu contemporaneo, Francisco I de França, que o
-joven rei fosse um amigo da nova litteratura, e um soberano
-predisposto a extirpar abusos. A desillusão não se fez esperar.
-Logo de principio mostrou ser um dedicado defensor da supremacia
-papal. A sua posição era estranha, e necessita de uma
-explicação.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span></p>
-
-<p>Henrique VII, o primeiro rei da casa de Tudor, havia conquistado
-o throno de Inglaterra no campo de Bosworth, e conservava-o
-mediante uma precaria subemphyteuse. Anhelava por
-tornar mais firme o seu poder mediante uma alliança com um
-paiz estrangeiro, e, passando a Europa em revista, certificou-se
-de que Fernando de Hespanha era quem o poderia auxiliar melhor.
-Effectuou, portanto, com alguma dificuldade, o casamento
-de seu filho mais velho, Arthur, com Catharina de Aragão, uma
-das filhas de Fernando. Arthur morreu passado pouco tempo;
-e Henrique, desejando manter a todo o transe a alliança hespanhola,
-tratou com todo o afan de casar Catharina com o seu segundo
-filho, Henrique, que foi depois Henrique VIII. O papa
-concedeu uma dispensa, e o casamento realisou-se. Henrique
-VIII teve, pois, por mulher a viuva de seu irmão.</p>
-
-<p>Nunca se poude saber ao certo se Arthur e Catharina foram
-realmente casados. Se o casamento não passou de um contracto
-legal, não havia motivo para que a dispensa do papa não
-fosse bem acceite mesmo por aquelles que não viam com muito
-bons olhos a supremacia papal; se foi, porém, um casamento em
-toda a accepcão da palavra, ficou então demonstrado que o papa
-tinha auctoridade para conceder uma dispensa que ia de encontro
-as leis divinas de parentesco. Segundo a opinião geral, Arthur
-e Catharina viveram conjugalmente, de modo que Henrique
-casou realmente com a viuva de seu irmão, e assim a dispensa
-do papa só poderia ser concedida no caso de elle possuir aquelles
-supremos poderes que os ultramontanos lhe atribuem. A legalidade
-do casamento de Henrique e a legitimidade de sua filha
-Maria baseiava-se, portanto, na supremacia do papa. E não é
-para admirar que Henrique VIII, no principio do seu reinado,
-se conduzisse, no tocante a essa supremacia, mais em conformidade
-com a opinião dos ultramontanos do que com as tradições
-da corôa de Inglaterra. É que a validade do seu casamento,
-a legitimidade de seus filhos, e o direito que a estes assistia de
-lhe succederem no throno, dependiam, como já dissemos, da
-supremacia do papa.</p>
-
-<p>Quando Luthero atacou o papa, Henrique tomou ostensivamente
-a defeza do Bispo de Roma, e rei algum, depois de João,
-apoiou mais em absoluto as reivindicações do papa do que elle.
-Os seus interesses pessoaes, assim como os interesses de sua
-mulher e de seus filhos, estavam dependentes d’esse seu apoio.
-A Inglaterra, no principio do reinado de Henrique, estava positivamente
-avassallada á Sé de Roma. Henrique, posto que se
-sentisse inclinado, pela educação recebida, a adoptar as idéas
-de Colet, More e Erasmo, via-se obrigado, em vista da situação
-particular em que se encontrava, a manter-se n’uma attitude
-de irreconciliavel hostilidade, e o facto de ter reprovado os
-actos de Luthero conquistou-lhe o titulo de Defensor da Fé.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p>
-
-<p class="tb"><b>Henrique muda de opinião.</b>—Henrique nunca deixou de reconhecer
-a supremacia do papa em todos os assumptos, durante
-os primeiros dezoito annos do seu reinado. De um momento
-para o outro, porém, começou a pensar de differente modo, e
-podem-se apresentar bastantes razões para essa subita mudança
-de idéas. Parece que elle teve sempre duvidas ácerca da
-legitimidade do seu casamento com Catharina, e que essas duvidas
-se avolumaram á medida que ia perdendo a esperança de
-ter um filho varão que lhe succedesse, chegando a convencer-se
-de que esse facto representava um castigo divino por haver desposado
-a viuva de seu irmão. Durante todo esse tempo, comtudo,
-a alliança hespanhola, que fôra tratada primeiramente com
-Fernando, e mais tarde com o neto d’este, o imperador Carlos V,
-havia sido de grande utilidade para Henrique e para a Inglaterra;
-e essa mesma aliança é que havia, na opinião do rei, de
-firmar o throno de sua filha, cuja legitimidade, declarada pelo
-papa, encontraria no imperador um inabalavel sustentaculo.</p>
-
-<p>Carlos V, porém, estava absorvido nos seus planos de anniquilar
-a Reforma, e estabelecer o imperio medieval, e o papa
-só pensava em conquistar para si uma posição independente,
-em se tornar o primeiro dos principes italianos, revestido de
-todo o poder secular, de modo que nenhum d’elles correspondia
-á expectativa de Henrique. Este deixou de ter confiança na
-fidelidade d’elles á sua casa, quanto á sucessão do throno.
-Encontrava-se n’uma situação embaraçosa, e, como meio mais
-rapido de sair das suas difficuldades, resolveu pedir ao papa que
-o divorciasse de Catharina de Aragão. Cessariam d’esse modo
-os seus escrupulos de consciencia por haver casado com a cunhada;
-poderia contrair novo casamento, a alimentar a esperança
-de ter um filho macho, seu legitimo herdeiro. Entendeu-se,
-pois, com o cardeal Wolsey, seu ministro, e dirigiu ao papa
-um pedido de divorcio.</p>
-
-<p>N’aquela ocasião, porém, o papa queria evitar qualquer
-desintelligencia com Carlos V, sobrinho de Catharina, e recusou
-dar o seu consentimento para o divorcio, sendo então que Henrique,
-homem muito exaltado, e a quem os obstaculos não faziam
-recuar, decidiu divorciar-se não obtante a recusa do papa. Todos
-os interesses pessoaes que até certo tempo levaram o rei a
-apoiar a supremacia papal se ligavam agora para que elle fizesse
-exactamente o contrario. Se o papa tivesse sanccionado o divorcio,
-não teria havido, provavelmente, ruptura com Roma, porque
-o rei continuaria a ter interesse em que se mantivesse a
-supremacia papal; as circumstancias, porém, aconselhavam-n’o
-a enveredar por outro caminho, e foi o que elle fez.</p>
-
-<p>Thomaz Cromwell alvitrou que se consultassem as universidades
-da Europa sobre a legalidade do casamento de Henrique
-e este acceitou o alvitre com grande alvoroço. Tratou-se, por<span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span>
-conseguinte, de pôr esta idéa em execução, entregando-se a eminentes
-vultos, a verdadeiras summidades, o decidirem a questão
-segundo as leis canonicas, tendo ao mesmo tempo na devida
-consideração a sensivel consciencia do rei. Apoz algum tempo,
-e tendo-se dispendido com isso uma fabulosa quantia, as universidades
-declararam, por uma muito pequena maioria, que o
-casamento de Henrique com Catharina não era valido, concluindo-se
-d’esta decisão que Henrique não tinha herdeiro algum
-legitimo.</p>
-
-<p>Animado com este veridictum, resolveu pôr em pratica
-qualquer das duas coisas seguintes: alarmar o papa, obrigando-o
-assim o conceder o divorcio, ou repudiar a sua auctoridade
-suprema.</p>
-
-<p>Foram muitos os motivos secundarios que contribuiram
-para que elle tomasse esta ultima deliberação. Henrique, que
-gostava de viver com muita ostentação, tinha desbaratado, havia
-muito, as riquezas que o pae amontoara, e era-lhe impossivel
-augmentar os impostos. Os cofres do Estado estavam despejados,
-e para os encher bastaria o espolio dos conventos e
-mosteiros. Isto constituiu uma das razões, mas havia uma outra
-que appellava mais fortemente para a sua vaidade.</p>
-
-<p class="tb"><b>Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia
-entre elles.</b>—As tres grandes potencias europêas no tempo da
-Reforma eram Hespanha, França e Inglaterra, e não podia deixar
-de haver rivalidade entre os respectivos monarcas. O rei
-de Hespanha, que era o mais poderoso dos tres, era tambem imperador
-da Allemanha, e todo o seu empenho consistia em restabelecer
-no imperio o esplendor que este tivera na Edade Media.
-Segundo as antigas noções medievaes, não havia mais do que
-uma christandade, o imperador era supremo e soberano, e todos
-os outros reis estavam sob a sua dependencia. Se Carlos fosse
-bem succedido nos seus esforços, Francisco e Henrique passavam
-a occupar uma posição inferior á que tinham, e, portanto,
-convinha-lhes trabalhar para que o plano de restauração não
-vingasse. Uma christandade medieval implicava uma egreja indivisa,
-centralizada no papa, o bispo de Roma. A politica dos
-reis da França e de Inglaterra insistia em obstar a essa centralização
-ecclesiastica, e fazer com que as egrejas das suas
-respectivas nações se tornassem o mais independentes de Roma
-que fosse possivel.</p>
-
-<p>Francisco havia conseguido isso quanto á França, e de um
-modo que contribuiu bastante para que o seu prestigio augmentasse,
-e o seu poder se consolidasse dentro do proprio reino. O
-papa, mediante a Concordata de 1516, havia, sob a condição de
-que os <i>annates</i> seriam pagos com regularidade, e de que lhe seriam
-feitas certas e determinadas concessões, investido praticamente<span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span>
-o rei de França na chefatura da egreja franceza, dando-lhe
-liberdade para prover como entendesse os differentes
-cargos ecclesiasticos.</p>
-
-<p>Henrique, rival de Francisco, era tambem seu imitador, e
-havia de lhe ser difficil deixar de ter inveja das regalias que o
-papa lhe tinha concedido. O que Francisco recebeu pela Concordata
-de 1516, deu o parlamento inglez a Henrique quando o
-proclamou chefe supremo, sobre a terra, da egreja de Inglaterra.
-De modo que em França a supremacia do rei sobre a egreja fez
-com que fossem toleradas as reivindicações papaes, ao passo
-que em Inglaterra promoveu a revolta contra Roma. A França,
-liberta do dominio papal por livre vontade do proprio papa, podia
-ficar por ahi, mantendo, a todos os outros respeitos, as velhas
-tradições da egreja. A Inglaterra, que alcançara a sua independencia
-contra a vontade do papa, e por meio de um acto de rebellião
-contra a sua auctoridade, tinha de ir mais longe; para
-conservar a posição que tomara era-lhe necessario afastar-se
-cada vez mais de Roma.</p>
-
-<p>Sucedeu, assim, que a Reforma em Inglaterra foi o avanço
-quasi involuntario de uma nação revoltada contra Roma, pois
-que a sua resistencia á curia romana foi, em primeiro logar, o
-meio de que um imperioso monarca se serviu para conseguir
-o seu engrandecimento pessoal, e, em segundo logar, o meio de
-que um povo se serviu para conseguir a sua independencia. A
-França, a despeito dos huguenotes, conservou-se catholica romana;
-a Inglaterra, a despeito de Henrique VIII, tornou-se uma
-nação protestante.</p>
-
-<p class="tb"><b>A submissão do clero.</b>—Henrique depressa se certificou de
-que não era possivel constranger o papa, mediante o medo, a
-conceder-lhes o divorcio, mas resolveu obrigar o clero inglez a
-conformar-se pelo medo com as suas deliberações. O cardeal
-Wolsey foi nomeado nuncio do papa em Inglaterra, e todos os
-bispos e mais clerigos o reconheceram como tal. Ora em 1531 o
-rei acusou-o abruptamente de haver transgredido a lei do <i>Proemunire</i>
-pelo facto de acceitar aquelle cargo e cumprir, ainda que
-só apparentemente, os deveres que lhe eram inherentes, e accusou
-egualmente todos os clerigos de Inglaterra de serem
-cumplices d’esse crime pelo facto de o aceitarem na qualidade
-de embaixador do papa. Declarou, outrosim, que tanto Wolsey
-como todos os clerigos da egreja ingleza haviam incorrido, em
-virtude d’esse delicto, na perda de todos os bens ecclesiasticos
-de que estavam de posse. O clero ficou seriamente alarmado, e,
-para evitar uma catastrophe maior, sujeitou-se a pagar uma
-multa de 118:000 libras e a assignar, ainda que de má vontade,
-uma declaração de que o rei era «o unico protector, o unico senhor
-supremo, e, <i>até onde é permittido pela lei de Christo</i>, o supremo
-cabeça da egreja e do clero». A ambiguidade que se nota<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span>
-n’este reconhecimento foi intencional. Era um subterfugio para
-as consciencias fracas, mas o rei ficou satisfeito com a phrase,
-certo como estava de que poderia obrigar o clero a proceder segundo
-a interpretação que elle proprio lhe dava.</p>
-
-<p>Tratou sem demora de mostrar como era por ele compreendido
-o sentido pratico de similhante declaração, desdobrando-o
-em tres artigos, que os clerigos tiveram tambem de assignar.
-Declaravam que regulamento ou preceito algum ecclesiastico
-seria de ali em deante promulgado ou publicado pelo clero
-sem previo consentimento do rei; que approvavam a nomeação
-de uma commissão de trinta e duas pessoas para rever os antigos
-canones da egreja e cortar todos aqueles que fossem prejudicaes
-á autoridade do rei; e, finalmente que os canones ecclesiasticos
-só eram validos depois de ratificados com auctorização
-do rei. Estas proposições foram submetidas á Convocação,
-ou Assembléa Geral da Egreja de Inglaterra, e, depois de alguma
-hesitação, o clero, reunido, acceitou-as. A Convocação foi um
-pouco mais longe do que o rei, pois que pediu para que o clero
-inglez não pagasse mais os <i>annates</i> á sé de Roma.</p>
-
-<p>Esta decisão tomada pela Convocação, de que a egreja de
-Inglaterra não podia fazer leis para sua direcção ou governo
-sem a sancção ou ratificação do rei, tem sido chamada a <i>Submissão
-do Clero</i>. Assim no ano de 1532 a egreja de Inglaterra, por
-ordem do rei e do parlamento, renunciava á sua obediencia a
-Roma. Esta renuncia ao governo papal incluia (1) o reconhecimento
-da supremacia real; (2) submissão á corôa pela cedencia
-do direito de fazer leis; e (3) a recusa ao papa das receitas que
-lhe haviam sido pagas durante gerações. A egreja conservava
-as mesmas doutrinas, governo e culto, consistindo apenas a differença
-em o rei tomar o logar que o papa tinha ocupado.</p>
-
-<p>O clero tinha alimentado a esperança de que lhe fosse permittido
-reter os <i>annates</i> em seu poder, mas o rei mostrou que
-estava resolvido a que a supremacia real fosse tão genuina como
-a antiga supremacia do bispo de Roma, e insistiu em que o imposto
-pontificio fosse pago na thesouraria real.</p>
-
-<p class="tb"><b>O progresso da Separação de Roma.—O parlamento inglez, em
-1529-1536.</b>—Durante os primeiros annos do reinado de Henrique
-VIII, quando era do interesse do rei estar bem com o
-papa e com o rei de Hespanha, todas as queixas contra a
-egreja haviam sido reprimidas. Agora, porém, que Henrique
-queria aterrorisar o papa para o obrigar a conceder-lhe o divorcio,
-as queixas eram animadas. Henrique servia-se do parlamento
-como Carlos V se podia ter servido da Dieta allemã.
-Todas as nações tinham accusações a apresentar contra a
-egreja. Os allemães publicaram as suas <i>Cem Afrontas</i>; o parlamento
-inglez, convocado para se reunir em 1529, tinha tambem<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span>
-queixas a fazer ácerca da libertação do clero da jurisdicção dos
-tribunaes judiciaes da nação, ácerca da auctoridade absoluta
-exercida pelos tribunaes ecclesiasticos sobre os leigos em pleiteados
-casos de casamento, testamentos, successão, calumnia,
-etc., ácerca das avarezas do clero e do elevado custo dos enterros
-e dos baptismos, e assim successivamente. O parlamento formulou
-estas queixas, e com isso alarmou, e não pouco, o clero,
-tornando-o mais submisso ás imperiosas ordens do rei.</p>
-
-<p>Em Janeiro de 1532 Henrique VIII desposou Anna Boleyn,
-provocando, d’esse modo, pessoalmente o papa. O seu casamento
-com Catharina de Aragão foi declarado nullo e sem effeito pelo
-arcebispo de Canterbury, que fallou em nome da Egreja de
-Inglaterra, e por deliberação do parlamento. O rei, a nação, e,
-um pouco constrangidamente, a egreja uniram-se, pois, para
-desafiar collectivamente o papa, e para se revoltarem contra o
-imperio ecclesiastico da Edade Media. O parlamento secundou
-este desafio approvando leis que tendiam a uma separação completa,
-e que, pelo lado politico, eram inoffensivas para os subditos
-inglezes. Sete dos seus decretos teem uma importancia
-especial.</p>
-
-<p>(1) Em 1533 o parlamento prohibiu ao clero o pagar os
-<i>annates</i>, ou o vencimento do primeiro anno, quando se entrava
-na posse de qualquer beneficio. Estas «primicias» tinham sido
-sempre consideradas uma homenagem devida á supremacia do
-papa.</p>
-
-<p>(2) Na mesma sessão o parlamento aboliu as appellações
-para Roma. O <i>Estatuto para Repressão das Appellações</i> declarava
-que nenhum subdito inglez podia appellar de um tribunal da
-sua nação para outro qualquer, e que similhante appellação
-constituia uma violação do Estatuto de <i>Proemunire</i>, ficando
-sujeita ás devidas consequencias. Todas as questões que tivessem
-de ser submettidas ao juizo da Egreja deviam ser entregues
-aos tribunaes ecclesiasticos do reino. Continuavam a ser permittidas
-as appellações de um arcediago para um bispo, e de
-um bispo para um arcebispo; mas aqui parava o direito de
-appellar, e o tribunal do arcebispo era o supremo tribunal de
-appellação. Só o rei podia appellar d’este supremo tribunal
-ecclesiastico, e podia levar a sua appellação para a Convocação,
-mas não fóra do reino.</p>
-
-<p>(3) Em 1534 a <i>Submissão do Clero</i> foi ratificada pelo parlamento.
-Ficou declarado que era necessario o consentimento do
-rei para todas as leis ecclesiasticas, e, para dar a isto um valor
-pratico, estabeleceu-se que em todos os pleitos havia o direito
-de appellar do supremo tribunal espiritual, que era o do arcebispo,
-para o rei.</p>
-
-<p>(4) O parlamento declarou, outrosim, que o papa não tinha
-direito de intervir na eleição dos bispos, e que todo e qualquer
-poder que se attribuia ao papa pertencia realmente ao rei. Esse<span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span>
-direito era definido de tal fórma que se podesse dar todo o
-direito de nomeação ao rei, ao passo que se preservava a sombra
-do antigo uso ecclesiastico. Quando uma sé vagava, assistia ao
-rei o direito de auctorizar o deão e o capitulo a eleger para o
-cargo vago qualquer pessoa mencionada na carta de licença. As
-dispensações papaes eram tambem declaradas illegaes, e o poder
-dispensativo que n’outro tempo, segundo era por todos reconhecido,
-pertencia ao papa, ficava residindo agora na Egreja de
-Inglaterra, e o seu exercicio pertencia aos arcebispos de Canterbury
-e de York.</p>
-
-<p>(5) Para mostrar, comtudo, que todos estes Actos não
-tinham em vista reforma alguma, mas sómente uma separação
-politica da Egreja de Inglaterra quanto ao papado, o parlamento
-promulgou uma lei sobre a heresia, em que se declarava que os
-herejes seriam queimados como antigamente, em obediencia ao
-velho decreto <i>de combatendo hereticos</i>, e o rei, como cabeça da
-Egreja, recebia o encargo de a purificar de falsas doutrinas.
-Declarava-se, porém, que fallar mal do papa não constituia
-heresia.</p>
-
-<p>(6) Por ultimo, saiu d’este notavel parlamento o <i>Acto de Successão</i>
-e o <i>Acto de Traição</i>. O primeiro declarava que a princeza
-Maria, filha de Catharina de Aragão, era illegitima, e transferia
-o direito de successão para a princesa Isabel, filha de Anna
-Boleyn. O <i>Acto de Traição</i> punia com a morte todos aquelles
-que recusassem acceitar o <i>Acto de Successão</i> ou reconhecer o
-novo titulo e as novas prerogativas do rei.</p>
-
-<p class="tb"><b>Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes.</b>—Em
-todos os Actos d’este parlamento, e em todas as decisões de
-uma submissa Convocação, nada houve que não fosse puramente
-politico. A Inglaterra não se havia tornado protestante
-ou lutherana, e Egreja reformada em Inglaterra era coisa que
-não existia. A Inglaterra havia-se, tão sómente, desligado de
-aquella alliança que, sob a superintendencia do imperador e do
-papa, realisava a idéa medieval de um systema de governação,
-tanto civil como ecclesiastico. O que torna importantissimas
-aquellas deliberações do parlamento é o facto de ter sido a
-Inglaterra a primeira nação que rompeu com o medievalismo e
-deixou de reconhecer o velho imperio ecclesiastico da Edade
-Media. Os herejes, isto é, aquelles que haviam acceitado as doutrinas
-de Luthero, ou que, entregando-se ao estudo da Biblia,
-tinham chegado ao conhecimento de um mais puro christianismo,
-eram perseguidos e mortos, usando-se com elles da mesma
-crueldade, do mesmo espirito de vingança, como quando a Inglaterra
-era uma escrava obediente do papa. Diz-se que Wolsey,
-no seu leito de morte, supplicou ao rei que destruisse todos os
-signaes de lutheranismo; e, a despeito da grande tolerancia de
-Thomaz More, os herejes eram procurados e castigados. Tindal,<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span>
-que tinha traduzido em inglez o Novo Testamento de Erasmo,
-foi caçado de logar em logar, como se fosse um animal feroz.
-Todos os que se atrevessem a fallar contra a missa, a transubstanciação,
-o culto dos santos e a efficacia das boas obras
-corriam o risco de ser presos e queimados como herejes. Os
-Actos do Parlamento não haviam promovido a liberdade de
-consciencia, tinham simplesmente dado logar a novos ensejos
-para perseguir e matar. Para ajuntar aos antigos crimes theologicos,
-appareceu um outro. Quem se recusasse a prestar o
-juramento de supremacia, quem se atrevesse a dizer que Catharina
-de Aragão era a esposa legitima do rei, e que a princeza
-Maria era a herdeira do throno, estava sujeito a ser preso, processado
-e executado. A Inglaterra encontrava-se n’um estado
-anormal, n’um estado de grande agitação, e os homens conscienciosos
-tudo soffriam por causa da consciencia.</p>
-
-<p class="tb"><b>A execução de Tomaz More.</b>—Thomaz More era o chanceller
-quando o parlamento, reunido em 1529, separou a nação, mediante
-successivos Actos do imperio ecclesiastico de Roma.
-Tinha sido na sua mocidade um distincto estudante, e havia-se
-entregue com amor aos «estudos modernos» de latim, grego e
-hebraico quando, em Oxford, assistira ás prelecções de Tinacre,
-um dos primeiros humanistas inglezes, que se havia educado
-em Italia para o seu trabalho escolastico em Inglaterra. Dedicara-se
-á carreira da jurisprudencia, foi magistrado em Londres,
-e tornou-se notoria a sua amizade ao deão Colet e a Erasmo.
-O seu livro <i>Utopias</i> dá testemunho de que elle havia adoptado
-muitas das opiniões de Marcello de Padua e de outros juristas
-liberaes do fim da Edade Media. Elle opinava que tanto a Egreja
-como o Estado existiam para beneficio do povo, e todo o seu
-anhelo era uma reforma de costumes na Egreja. Investido no
-cargo de chanceller, toda a gente notou a brandura de que elle
-usava com os herejes; permaneceu, porém, ligado ás doutrinas
-da Egreja Catholica Romana, e abandonou algumas das suas
-primitivas opiniões em favor de mais estrictas idéas ácerca da
-origem divina da supremacia do papa. Reprovou, portanto, todo
-o procedimento da côrte e do parlamento inglez depois da queda
-de Wolsey. Avisou o rei de que não podia ser parte no divorcio
-de Catharina de Aragão. Não quiz assistir ao casamento e coroação
-de Anna Boleyn, e, ao ser ameaçado com as consequencias,
-disse ao rei que as ameaças eram para as creanças e não
-para elle. Henrique tinha uma forte affeição pelo seu chanceller;
-mas coisa alguma poderia augmentar mais a duvida com respeito
-á validade do divorcio, do novo casamento e da successão
-ao throno derivada d’este, do que a recusa da maior auctoridade
-juridica da nação de ver em Catharina de Aragão uma mulher
-que não era a esposa legitima de Henrique VIII.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span></p>
-
-<p>More foi, portanto, obrigado a prestar juramento de fidelidade
-á nova rainha, reconhecendo Anna Boleyn como a esposa
-legitima de Henrique VIII, e a confirmar a legalidade do <i>Acto de
-Successão</i>. N’esta conjunctura, elle tinha de obedecer á consciencia
-ou salvar a vida, e, com uma grande serenidade de espirito,
-preferiu obedecer á consciencia. A mulher foi ter com elle á
-prisão, rogando-lhe que se submettesse á ordem do rei. «Senhora
-Alice», retorquiu elle, com toda a ternura, «esta casa não estará
-tão perto do céu como a nossa?» A filha, Margarida Roper, que
-era afamada pela sua erudição, pela sua affabilidade e pela sua
-formosura, foi tambem vêl-o repetidas vezes, e as suas visitas
-como que lhe fortaleceram a serena coragem. Morreu em Julho
-de 1535. Erasmo soube da morte d’elle quando tinha entre
-mãos a sua <i>Pureza da Egreja</i>, a que ajuntou um prefacio que é
-quasi uma biographia do seu velho amigo, a que attribue uma
-alma mais pura do que a neve.</p>
-
-<p>O assassinio judicial de Thomaz More e do bispo Fisher,
-seu companheiro no soffrimento, veiu demonstrar o estado
-cahotico em que Henrique VIII havia feito cair a Inglaterra,
-pois que, ao passo que eram queimados os homens accusados de
-lutheranismo, executavam-se aquelles que mantinham a auctoridade
-do papa no que dizia respeito aos costumes e á doutrina.</p>
-
-<p class="tb"><b>A suppressão dos mosteiros e a confiscação dos bens da Egreja.</b>—Henrique
-VIII tinha sido sempre um grande gastador. Tudo
-quanto o pae lhe deixara havia desapparecido logo no principio
-do seu reinado, em virtude da guerra com a França. O rei e a
-côrte tinham grande necessidade de dinheiro. Thomaz Cromwell
-lembrou então que este podia ser obtido mediante a suppressão
-de alguns dos mosteiros.</p>
-
-<p>Do clero ninguem foi mais justamente atacado do que os
-monges, durante o periodo da Reforma. A sua preguiça, as suas
-riquezas, a sua cupidez e a sua má vida eram notorias em toda
-a Europa. Os auctores populares haviam composto satyras a
-seu respeito, e graves estadistas tinham chamado a attenção
-do papa para uma reforma das varias ordens.</p>
-
-<p>Gromwell insistiu n’uma syndicancia aos mosteiros, com o
-fim de se ficar sabendo se as queixas formuladas tinham fundamento.
-Foram visitadas tres d’essas casas, e constatou-se que
-as vidas dos frades e das freiras estavam longe de ser o que
-deviam ser, que a propriedade monacal havia sido pessimamente
-administrada, e que muitos dos religiosos, de ambos os
-sexos, desejavam desligar-se dos votos. O parlamento approvou
-uma proposta de lei para que fossem supprimidos os conventos
-menos importantes, e, passado algum tempo, eram encerrados
-todos os estabelecimentos monacaes. Os respectivos bens
-foram confiscados em proveito do rei. A grande somma de<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span>
-dinheiro que se obteve por esta fórma podia, nas mãos de um
-monarca astuto e economico, ter constituido um vasto capital
-cujo rendimento habilitaria o rei a prescindir de impostos, e,
-por consequencia, a prescindir de parlamento, o que redundaria
-na ruina, em Inglaterra, de todas as liberdades. Henrique era,
-por indole, um despota, mas não tinha em si a força de vontade
-necessaria para pôr em execução aquillo que lhe vinha á idéa.
-A sua ambição principal era poder dispôr de muito dinheiro, e
-as propriedades confiscadas aos frades foram postas em praça
-a vendidas pelo maior preço que foi possivel obter. O resultado
-d’isso foi augmentar consideravelmente o numero dos proprietarios
-em Inglaterra. Henrique dissipou em poucos annos todo
-o dinheiro que d’aquelle fórma lhe fôra parar ás mãos, e ficou
-tão pobre e tão necessitado do auxilio dos seus subditos como
-anteriormente.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os dez artigos.</b>—Cranmer, o arcebispo de Canterbury, que
-havia sido um instrumento facil nas mãos do rei, quando este
-andou tratando de se assenhorear das liberdades da Egreja e
-de uma grande parte das suas riquezas, tinha uma secreta predilecção
-pelas doutrinas reformadas de Luthero e de Zwinglio.
-Thomaz Cromwell, que desde o fallecimento de Wolsey exercia
-o cargo de conselheiro politico do rei, era tambem um admirador
-dos homens da Reforma. Ambos tinham o desejo, depois da
-Inglaterra se ter separado politicamente do papado, e de se ter
-effectuado a suppressão dos mosteiros, de introduzir uma reforma
-de doutrina e de culto, e de equiparar a Egreja de Inglaterra ás
-egrejas reformadas da Allemanha e da Suissa.</p>
-
-<p>O schema politico de Cromwell consistia em collocar Henrique
-á frente de uma confederação protestante que podesse
-rivalisar com o imperio medieval de Carlos V. Isto sómente se
-poderia fazer, comtudo, se a Egreja da Inglaterra abraçasse as
-doutrinas da Reforma e animasse os homens que até ali tinham
-sido perseguidos como herejes.</p>
-
-<p>O rei desapprovou energicamente a proposta, mas por fim
-cedeu, e em 1536 foram publicados, com a approvação da Convocação,
-os <i>Dez Artigos</i>, que eram um breve formulario de doutrinas.
-Estes artigos asseveravam a auctoridade da Escriptura,
-dos tres grandes e antigos credos, e dos quatro concilios ecumenicos;
-affirmavam que o baptismo era necessario para a salvação;
-que a penitencia, a confissão e a absolvição eram egualmente
-coisas necessarias; que o corpo e sangue de Christo
-estavam substancial, real e corporalmente presentes no pão e
-vinho da Eucaristia; que a justificação tinha logar mediante a
-fé, junta com a caridade e com a obediencia; que nas egrejas
-era licito o uso das imagens; que se devia glorificar a Virgem e
-invocar os santos; que se devia conservar os varios ritos e dias<span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span>
-santificados da Egreja medieval, fazendo-se uso dos paramentos,
-dos crucifixos e da agua benta; que existia o purgatorio; e que,
-finalmente, se devia fazer orações pelos defuntos.</p>
-
-<p>Estes Artigos, como se vê, não estavam em conformidade
-com a fé protestante. Alguns historiadores ecclesiasticos teem
-dito que elles foram muito judiciosamente collocados entre a
-doutrina dos reformadores mais pronunciadamente biblicos e as
-velhas superstições; mas teem sido mais bem descriptos como
-essencialmente «romanistas, com o papa atirado para a margem».
-Fuller diz que elles foram destinados para creancinhas
-«recentemente tiradas dos peitos de Roma.»</p>
-
-<p>Emquanto estes acontecimentos iam tendo logar, Catharina
-de Aragão morreu, em 1536, e o rei desembaraçou-se de Anna
-Boleyn, mandando-a decapitar sob a accusação de infidelidade.
-Sua rilha, a princeza Isabel, foi, pelo parlamento, declarada illegitima,
-e a successão tornou-se de novo incerta.</p>
-
-<p>O rei casou então com Jane Seymour, a cuja descendencia
-ficaram reservados os direitos á corôa.</p>
-
-<p class="tb"><b>A peregrinação da graça.</b>—As execuções de Thomaz More e
-do Bispo Fisher haviam desgostado muitissimos subditos do
-rei que eram affeiçoados a Roma, e estes, animando-se com a
-declaração da illegitimidade de Isabel e com a incerteza quanto
-á successão, promoveram rebelliões em Yorkshire e Lincolnshire.
-Os rebeldes contavam com o auxilio da Hespanha, e tinham
-tambem muita confiança no effeito que havia de produzir a
-bulla, que acabava de ser publicada, em que o papa excommungava
-Henrique VIII.</p>
-
-<p>Os seus projectos, porém, foram com facilidade mallogrados,
-e o nascimento de um filho de Jane Seymour, a quem o rei
-havia desposado depois da morte de Catharina de Aragão, deu
-ao rei a cubiçada successão legitima e fez cessar todos os sentimentos
-anarquicos entre o povo.</p>
-
-<p>Infelizmente, a rainha falleceu ao dar á luz o filho.</p>
-
-<p>Cromwell e Cranmer voltaram novamente com as suas idéas
-de uma união protestante. Cranmer, juntamente com uma commissão
-de prelados, redigiu, em 1537, o que se ficou chamando
-o <i>Livro do Bispo</i>, ou a <i>Instituição de um Christão</i>, e que continha
-uma exposição de theologia muito mais protestante do que os
-<i>Dez Artigos</i>.</p>
-
-<p>No anno seguinte Cranmer, que havia estado em correspondencia
-com os theologos de Wittenberg, organizou um outro
-credo chamado os <i>Treze Artigos</i>, e que era largamente baseado
-na Confissão de Augsburgo.</p>
-
-<p>O rei recusou sanccionar estes Artigos, e foi-se gradualmente
-afastando do plano de uma alliança protestante. Cromwell
-caiu no desagrado de seu amo em virtude da persistencia com
-que advogava esse plano, chegando a apresentar um projecto<span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span>
-de casamento de Henrique com Anna de Cleves, com o fim de
-cimentar a alliança. Morreu no cadafalso, como havia succedido
-a More e a Fisher, e o rei foi-se tornando cada vez mais reaccionario.</p>
-
-<p class="tb"><b>O Estatuto Sanguinario, ou os Seis artigos.</b>—O primeiro indicio
-d’esse facto foi a publicação do <i>Livro do Rei</i>, ou a <i>Necessaria
-Doutrina e Erudição para todos os Christãos</i>. Em 1539, Henrique
-resolveu voltar á politica do primeiro periodo do seu reinado, e
-poz-se em communicação com Carlos V. A mudança na politica
-exterior do rei teve repercussão nos negocios internos. Foram
-promulgados os <i>Seis Artigos</i>, «para abolir a diversidade de opiniões»,
-e foi revogoda a permissão de ler a Biblia traduzida por
-Tindal.</p>
-
-<p>Estes Artigos exigiam de todos os inglezes, sob pena de
-confiscação dos bens, e de morte, que cressem na transubstanciação,
-que negassem a necessidade dos leigos participarem do
-calix na communhão e que admittissem o celibato do clero, a
-obrigação dos votos de castidade e a necessidade das missas e
-da confissão auricular.</p>
-
-<p>As doutrinas das egrejas reformadas da Allemanha e da
-Suissa tinham feito algum progresso na Inglaterra, não obstante
-as perseguições, e haviam sido abraçadas por um grande numero
-de pessoas durante aquelles annos de tolerancia em que Cranmer
-e Cromwell dirigiram a politica do rei, e esta lei dos Seis Artigos
-deu logar a uma grande perseguição. O povo chamava-lhe o
-Estatuto Sanguinario e o Chicote das Seis Cordas. Deu principio
-a um reinado de terror, que só terminou com a morte do rei.
-Felizmente para a nação, esta não se fez esperar muito.</p>
-
-<p class="tb"><b>O estado da Egreja de Inglaterra em 1547.</b>—Henrique morreu
-em 1547, deixando tres filhos: Maria, filha de Catharina de Aragão,
-com 31 annos; Isabel, filha de Anna Boleyn, com 14; e
-Eduardo, filho de Jane Seymour, com 10. Maria e Isabel haviam
-sido declaradas illegitimas pelo parlamento. Eduardo succedeu
-a seu pae no throno.</p>
-
-<p>Henrique deixou atraz de si um caos, para sair do qual
-teve a nação de sustentar uma tremenda lucta. O rei, emquanto
-viveu, susteve com mão ferrea os romanistas extremos e o partido
-protestante, e manteve até ao fim o seu ideal, que era uma
-egreja catholica, desligada do papa. E conseguiu-o, pondo-se no
-logar outr’ora occupado pelo papa. Exercia sobre a Egreja uma
-auctoridade muito mais absoluta do que sobre o Estado. A
-posição era difficil de sustentar, e foi-o muito mais para os
-monarcas que succederam a Henrique, pois que as idéas reformistas
-iam-se propagando cada vez mais. Deixou tambem<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span>
-sem solução muitos problemas politicos. Os cofres publicos
-estavam vasios. A sua politica exterior foi um subterfugio, que
-collocou em grandes embaraços os seus successores. A venda
-dos bens da Egreja produziu uma mudança, tanto social como
-economica, que difficultou a vida da nação.</p>
-
-<p>O assumpto, porém, que exigia immediata resolução era:
-A Inglaterra devia abraçar a Reforma, ou voltar de novo para o
-romanismo? A Egreja não podia permanecer na situação em
-que Henrique a havia deixado.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span></p>
-
-<h3 id="III_CAPITULO_II">CAPITULO II<br />
-<span class="smaller">A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO
-NO TEMPO DE MARIA</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>Será adoptada a Reforma? <a href="#Page_175">pag. 175</a>.—A visita real, o <i>Livro de Homilias</i> e o
-<i>Livro de Oração Commum</i>, <a href="#Page_176">pag. 176</a>.—A alliança com o protestantismo continental,
-<a href="#Page_178">pag. 178</a>.—Os <i>Quarenta e Dois Artigos</i>, <a href="#Page_178">pag. 178</a>.—Os principios
-do puritanismo, <a href="#Page_179">pag. 179</a>.—A morte de Eduardo VI, <a href="#Page_181">pag. 181</a>.—O estado
-da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria, <a href="#Page_182">pag. 182</a>.—A Hespanha
-necessitava do auxilio da Inglaterra, <a href="#Page_183">pag. 183</a>.—Como Maria se firmou
-no throno, <a href="#Page_183">pag. 183</a>.—A alliança hespanhola, <a href="#Page_184">pag. 184</a>.—A reconciliação
-com Roma, <a href="#Page_184">pag. 184</a>.—Porque não foi bem succedida a reacção papal?
-<a href="#Page_185">pag. 185</a>.—As perseguições durante o reinado de Maria, <a href="#Page_186">pag. 186</a>.—A
-questão dos bens de raiz da Egreja, <a href="#Page_186">pag. 186</a>.—Os fructos do ensino no
-reinado de Eduardo, <a href="#Page_187">pag. 187</a>.—A morte de Maria, <a href="#Page_187">pag. 187</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>Será adoptada a Reforma?</b>—Quando Henrique morreu, succedeu-lhe
-seu filho, Eduardo VI, que era então um rapazito de dez
-annos. Pouco antes de morrer, Henrique fez testamento, em que
-deixou instituido um conselho de regencia, composto de dezeseis
-membros da nobreza, o qual entrou logo no exercicio das
-suas funcções, começando a governar. O referido conselho escolheu
-o conde de Hertford, que fazia parte d’elle, para o logar de
-protector do reino, recebendo n’essa occasião, em conformidade,
-segundo se diz, com o que estava estabelecido no testamento, o
-titulo de duque de Somerset. A questão mais grave que este
-conselho de regencia tinha de resolver era a questão religiosa.
-A Inglaterra não podia continuar no estado em que se encontrava.
-Ou a Egreja se reformava, ou a nação tinha de renovar a
-sua alliança com Roma. Se se tivesse consultado a opinião publica,
-ver-se-hia, provavelmente, que uma grande maioria era
-partidaria do romanismo. Os ultimos annos do reinado de Henrique
-tinham sido uns annos de terror, e todas as desventuras
-eram attribuidas á supremacia real em materia de religião. O
-povo de Inglaterra, por outro lado, estava pouco ao facto das
-doutrinas reformadas, e a Biblia não estava vulgarisada. A Reforma
-não havia sido prégada na Inglaterra, como o fôra na
-Allemanha e na França. Não havia excitado o enthusiasmo popular.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p>
-
-<p>A extincção dos conventos tinha feito com que a gente do
-campo desejasse voltar ao antigo systema. Os inglezes não haviam
-opposto obstaculo algum á extincção dos conventos e á confiscação
-dos bens da Egreja quando isso foi pela primeira vez
-decretado; mas os camponezes em breve descobriram que a unica
-coisa que havia resultado para elles fora uma substituição de
-amos com quem se davam perfeitamente por outros que custavam
-immenso a supportar. Os novos proprietarios vedavam os
-logradouros publicos, derrubavam os muros e as sebes que dividiam
-entre si as quintas pequenas para formarem extensas propriedades,
-e preferiam as pastagens ás searas de trigo, diminuindo
-assim o valor das terras e dando logar a uma grande
-falta de trabalho. A pobre gente suspirava por aquillo a que
-chamava os bons tempos.</p>
-
-<p>A extincção dos conventos tinha, por outro lado, atirado
-cá para fóra com uma legião de homens que não tinham profissão
-alguma e incapazes de ganhar a vida, era preciso cuidar
-d’essa gente. O governo havia entendido que o meio menos dispendioso
-de arrumar os frades era collocal-os nas freguezias,
-na qualidade de parocos ou de coadjuctores. E assim a Egreja
-encheu-se de homens que trabalhavam de má vontade, e que
-odiavam aquella nova ordem de coisas que lhes havia transtornado
-a vida.</p>
-
-<p>Todas estas coisas tornavam duvidoso se a Inglaterra adoptaria
-a Reforma ou se reconciliaria com Roma.</p>
-
-<p>Por outro lado, havia homens fervorosos e cheios de resolução,
-que estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e
-até a propria vida, pela causa da Reforma, que elles estavam
-na convicção de ser a causa de Christo. No numero d’esses homens
-figuravam o Protector, Somerset, e outros membros do
-conselho da regencia, que deliberaram introduzir a Reforma na
-Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real appareceu
-sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os
-a solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças.
-Isto tinha sido inventado por Cromwell para que não fossem
-prejudicadas as regias prerogativas.</p>
-
-<p class="tb"><b>A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração
-Commum.</b>—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O
-paiz foi dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas
-foi nomeado um funccionario, que deveria averiguar se os
-serviços ecclesiasticos estavam sendo executados segundo as
-leis vigentes. A jurisdicção episcopal esteve durante algum
-tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome do rei.
-Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços
-ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas
-deficiencias. O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimo<span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span>
-havia sido sempre lutherano, e que animara o conselho da regencia
-em todos os planos d’este, compoz um <i>Livro de Homilias</i>,
-que foi entregue ao clero paroquial, com a recommendação de
-ser lido nas egrejas. A <i>Paraphrase do Novo Testamento</i>, de Erasmo,
-foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem
-fosse lida no culto publico.</p>
-
-<p>Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner,
-bispo de Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre
-Henrique VIII nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra
-um dos auctores do Estatuto Sanguinario, estava á testa do
-partido reaccionario, e protestou contra todas as propostas dos
-visitadores.</p>
-
-<p>Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu os <i>Seis Artigos</i>,
-declarou que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato,
-que na Ceia do Senhor o vinho, assim como o pão, devia
-ser administrado aos leigos, e approvou a politica ecclesiastica
-do Protector Somerset.</p>
-
-<p>As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas
-egrejas mais simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se
-o uso do <i>Livro de Oração Commum</i>, compilado, por Cranmer,
-dos antigos rituaes. Foi este o <i>Primeiro Livro de Oração
-Commum de Eduardo VI</i>, e, posto que mais tarde passasse por
-algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu
-conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente.</p>
-
-<p>Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento
-do romanismo. As imagens e reliquias das egrejas foram destruidas.
-Aboliram-se os antigos dias de jejum, e o arcebispo
-Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á vista de todos, na
-quaresma.</p>
-
-<p>Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a
-maioria, do povo e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente.
-Bonner, bispo de Londres, tentou oppôr-se indirectamente
-á corrente, declarando que o novo Livro de Orações podia
-ser tomado n’um sentido romanista; mas isso apenas levou
-a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos, á
-remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas,
-e á preparação de um novo <i>Livro de Ordem</i>.</p>
-
-<p>Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia
-mudado, e em doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se
-tornado protestante. As mudanças que se haviam feito tinham
-promovido um grande sentimento de desagrado para com Somerset;
-houve tentativas de revolta; e, posto que estas fossem
-suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na politica
-exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido
-pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo
-succedido pelo conde de Warwick.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span></p>
-
-<p class="tb"><b>A alliança com o protestantismo continental.</b>—A subida de
-Eduardo ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick
-animaram o arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo
-plano de uma alliança entre a Egreja Romana e as Egrejas protestantes
-do Continente. Sob o congenial patrocinio de Somerset,
-o plano de Cranmer parece ter incluido uma assembléa, em
-Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes com
-o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir
-de resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante
-commum.</p>
-
-<p>Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que
-diversos theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo
-inglez na fé reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram
-de Strasburgo para Inglaterra, e installaram-se em Cambridge,
-onde fizeram prelecções sobre theologia e sobre as Escripturas
-do Antigo Testamento. Dois distinctos italianos, Pedro Martyr
-de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna, vieram leccionar
-para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos elles abalisados
-professores, instruiram um grande numero de rapazes nos
-artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores
-para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem,
-segundo o uso continental, polemicas publicas sobre pontos controversos
-de theologia, taes como a Transubstanciação, o Celibato
-do Clero, o Purgatorio, etc.</p>
-
-<p>Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos,
-e foi mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu
-aquella inclinação para o modo calvinista, opposto ao lutherano,
-de expôr as doutrinas da fé christã que serviu de molde aos
-seus artigos.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os Quarenta e Dois Artigos.</b>—Um dos resultados d’estas discussões
-e disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dos
-<i>Quarenta e Dois Artigos</i>, que tinham por fim exprimir em fórma
-confissional o credo da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram
-obra de Cranmer, coadjuvado pelos bispos e por outros homens
-de erudição. Cranmer tinha começado a escrevel-os em 1549; e
-acabou-os em 1552.</p>
-
-<p>A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna.
-A rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante,
-as polemicas publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros,
-e os trabalhos dos prégadores ambulantes como João
-Knox, haviam feito com que o povo desejasse ardentemente
-uma auctorizada exposição de doutrina tal como estes artigos
-forneciam. Definiam com grande clareza os limites das mudanças
-que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval.</p>
-
-<p>Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos
-eguaes aos Trinta e nove Artigos que constituem o credo da<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span>
-actual Egreja da Inglaterra. As sympathias de Cranmer tinham
-estado sempre voltadas para Luthero, e elle copiou tres, nem
-menos, dos seus artigos directamente da Confissão de Augsburgo.
-Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana,
-mas, pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos
-de Eduardo e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um
-e o mesmo documento.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os principios do puritanismo.</b>—A livre discussão da theologia
-reformada e das idéas da Reforma teve como um dos seus
-resultados a origem e desenvolvimento, em Inglaterra, de uma
-theologia que acceitava cabalmente os principios essenciaes da
-renascença da religião promovida pela Reforma. Um d’estes
-principios era que Deus se havia collocado tão perto do homem
-mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que os
-homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar
-directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas,
-recebel-o. As theses de Luthero tinham estabelecido
-este grande principio da Reforma, e todos os theologos insistiram
-na possibilidade de se ir directamente ter com Deus sem
-ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja medieval,
-por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos
-crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso
-a Deus—e havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio
-da Egreja. Tinha tambem tornado visivel o sacerdocio do clero,
-insistindo em que cada clerigo devia, quando exercesse o culto
-publico, usar um traje especial, symbolico do seu officio sacerdotal,
-e havia levantado em cada egreja um altar, ou logar especial
-onde se realisava o encontro de Deus com o sacerdote.</p>
-
-<p>Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade
-e magnificencia da doutrina da Reforma, de que todos os crentes
-são sacerdotes que gozam do direito de se approximarem
-de Deus por meio da fé, e de que qualquer porção do solo onde
-a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar e remir
-é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou
-symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam
-com a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não
-podiam supportar que o povo fosse desencaminhado por qualquer
-symbolo ou rito exterior que houvesse sido empregado,
-nos dias de superstição, para inculcar a falsa doutrina medieval
-da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de todo e
-qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o
-povo no tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente,
-ao uso das vestimentas ecclesiasticas e dos altares
-nas egrejas. Estes homens foram os precursores dos puritanos
-inglezes.</p>
-
-<p>É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo não<span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span>
-significou ao principio um systema de governo ecclesiastico, e
-que nada tinha que ver nem com o presbyterianismo nem com
-o congregacionalismo. Os primeiros puritanos da Inglaterra não
-protestaram contra o episcopado como systema de governo. As
-coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se o houvessem
-feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou no
-culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal
-dos crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os
-altares nas egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se
-a fazer uso das sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares
-com as costas voltadas para a congregação.</p>
-
-<p>A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida.
-João Hooper, que havia sido monge cisterciano, e que
-adoptara as idéas da Reforma, tornou-se um prégador de nomeada
-na Egreja ingleza. Durante os ultimos annos do reinado
-de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido do reino
-para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos
-havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra
-achava-se resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem
-a superstição medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado
-ao rei, quando se tratou de prover o bispado de Gloucester. Ao
-contrario de João Knox, não fazia objecção ao governo por meio
-de bispos, e acceitou a nomeação, mas não quiz fazer uso das
-vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a proferir a seguinte
-phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos
-me ajudem».</p>
-
-<p>Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a
-considerar estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper
-pensava de differente modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr
-partilhavam a opinião de Calvino, e tentaram demover Hooper
-da sua resolução por meio de argumentos. Não poderam, porém,
-convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se conservar em
-sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado
-afastamento escreveu uma <i>Confissão e Protesto</i> em que expunha
-com toda a clareza as razões que haviam imperado na sua
-recusa de fazer uso das vestes prelaticias. Por este seu feito,
-metteram-n’o na prisão. Passado algum tempo, porém, fez-se um
-convenio ácerca das vestimentas, foram omittidas do juramento
-as palavras «e todos os santos», e Hooper foi consagrado bispo
-de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever novas
-borrascas n’um futuro proximo.</p>
-
-<p>Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma
-no tempo de Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande
-largueza de idéas, e muito tolerante—havia-se empenhado om
-que á princeza Maria se concedesse o servir a Deus conforme
-a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de Londres em substituição
-de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua diocese
-das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em que<span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span>
-todos os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar
-mesas para a communhão.</p>
-
-<p>Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo
-entre o romanismo e a Reforma, que era em que consistia o
-ideal de Cranmer relativamente á Egreja de Inglaterra.</p>
-
-<p>Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens
-que haviam sido sempre partidarios da Egreja medieval.
-Quando Hooper e Ridley mostraram até onde a Reforma os poderia
-levar, Gardiner e Bonner redobraram de furia contra elles.
-O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper tinha estado
-preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e
-Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas
-medievaes.</p>
-
-<p class="tb"><b>A morte de Eduardo VI.</b>—O joven rei nunca havia sido muito
-robusto, e antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de
-saude alarmou seriamente os principaes vultos do protestantismo.
-Á herdeira do throno era a princeza Maria, filha de Catharina
-de Aragão. Tanto o parlamento como a convocação
-haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções
-não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida
-de que Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e
-de que Maria era sua filha, devendo, portanto, esta occupar o
-throno no caso de Eduardo fallecer. Além d’isso, segundo a lei
-de successão ao throno, promulgada por Henrique VIII, ella
-tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não deixar herdeiros.</p>
-
-<p>Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia
-hespanhola, que nunca havia esquecido os aggravos de que a
-mãe fora victima, e que considerava a Reforma como uma rebellião
-contra Deus e um insulto dirigido a ella propria. Prima
-de Carlos V, imperador da Allemanha, era uma grande admiradora
-dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa vontade
-se collocaria n’uma completa dependencia d’elle.</p>
-
-<p>O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos
-dos conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno
-seria um desastre para a Reforma, que os attingiria tambem a
-elles. Viram que lhes era necessario fazer todo o possivel para
-que o herdeiro do throno fosse um principe ou princeza protestante.</p>
-
-<p>Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo,
-e todo o seu empenho era que o monarca que
-viesse depois partilhasse as mesmas crenças. Quando viu que
-lhe restava pouco tempo de vida, resolveu nomear o seu successor.
-Nada o poude persuadir de que não tivesse o poder de
-o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação recaisse
-n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas
-illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, por<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span>
-conseguinte, não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz,
-que estava prestes a morrer, era, pela sua tenacidade, um
-digno representante da casa de Tudor. Poz deliberadamente de
-parte tanto Isabel como Maria; poz tambem deliberadamente
-de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante de
-Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna
-Grey, representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna
-tinha casado com o filho mais velho do conde de Northumberland,
-e era protestante. Eduardo estava convencido de que o
-povo havia de acceitar a successora por elle mencionada. Os
-seus conselheiros estavam convencidos de que o protestantismo
-estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano poderia
-ser bem succedido. Enganavam-se ambos.</p>
-
-<p>Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha
-Joanna foi devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza,
-não correspondeu á acclamação. A princeza Maria fugiu,
-mas em volta d’ella reuniu-se muita gente, e o povo secundou
-as suas reclamações. Passada uma semana, tinha-se vencido
-toda a opposição, e o throno era de Maria.</p>
-
-<p>A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada,
-e o throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana
-catholica romana.</p>
-
-<p class="tb"><b>O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria
-(1553).</b>—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um
-edificio politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo
-e pelos seus conselheiros, desappareceu por completo, como
-coisa de nenhuma substancia. É que ella havia sido imposta á
-Inglaterra pelo governo, ao contrario do que acontecera em outros
-paizes, em que foi imposta ao governo pelo povo ou acceite
-egualmente por governantes e governados.</p>
-
-<p>Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias
-financeiras, devido em parte á crise economica que a Europa
-estava atravessando, mas devido principalmente ao desmedido
-fausto da côrte de Henrique VIII, e á depreciação da
-moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a todos os
-actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e
-a venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa
-das desgraças que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido
-tirados das casas religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz
-na qualidade de parocos e curas, ateiavam o fogo da antipathia
-pela Reforma, e preparavam o povo para um regimen reaccionario,
-pelo que dizia respeito á religião.</p>
-
-<p>Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre
-quando Maria iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu
-ministro favorito, comprehendeu perfeitamente a situação. Elle
-sabia que o paiz, na sua quasi totalidade, preferia a antiga religião<span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span>
-mas que nunca gostara do papa. Tratou, pois, de promover
-um regresso á situação em que se estava no principio do reinado
-de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão ostensiva
-a supremacia real.</p>
-
-<p>Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas
-mais arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos
-de indifferença e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe
-um indicio de que o povo se estava preparando com regozijo
-para o restabelecimento da antiga religião e que tinha na conta
-de tão malefico o que se havia passado nos ultimos annos como
-ella propria. Como filha de Henrique, e como rainha de Inglaterra,
-sentia em si o dever de reparar, de accordo com o papa,
-os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos
-estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como
-prima de Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio
-aos hespanhoes, e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que
-dizia respeito á politica internacional, como, e ainda mais especialmente,
-no que dizia respeito á politica ecclesiastica.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.</b>—Maria subiu
-ao throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes
-protestantes da Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552.
-Carlos sentia-se forçado a confessar que a Reforma o tinha vencido,
-quando Maria lhe participou a sua acclamação e lhe supplicou
-que a aconselhasse. A alliança ingleza era a unica coisa
-que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o bom
-exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente,
-e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se
-encontrava.</p>
-
-<p>Maria, escreveu elle, devia, em primeiro logar, tornar firme
-o throno; em seguida devia tornar segura uma alliança hespanhola,
-casando com Filippe, herdeiro do imperador; e, executadas
-estas duas coisas, podia então fazer as pazes com o papa.</p>
-
-<p>O papa estava tão ancioso por congratular Maria como Carlos
-havia estado; mas o imperador não queria despertar os sentimentos
-anti-papistas do povo inglez; os interesses em jogo
-eram muitissimo fortes. E assim o Cardeal Pole, nuncio do papa,
-recebeu ordem para se conservar nos Paizes Baixos até a Inglaterra
-se achar preparada para o receber.</p>
-
-<p class="tb"><b>Como Maria se firmou no throno.</b>—Ao principio fel-o com bastante
-facilidade. A tentativa de collocar Joanna Grey no throno
-havia desacreditado e desanimado os protestantes mais em evidencia,
-e poucos d’entre elles appareceram. Foi, pois, facil a
-Gardiner obter que o parlamento revogasse todas as leis que
-diziam respeito ao divorcio de Catharina e á filiação de Maria.
-O decreto parlamentar que conferia ao rei uma supremacia
-absoluta em todos os negocios ecclesiasticos foi um meio excellente<span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span>
-para fazer com que o paiz mudasse de religião. A rainha,
-por occasião da sua acclamação, ouviu missa, segundo o
-antigo costume. Cranmer protestou, sendo por esse facto remettido
-para a Torre, onde em breve se lhe reuniram Latimer e
-Ridley. Foi abolido o Livro de Oração Commum, e todas as mudanças
-introduzidas no culto no reinado de Eduardo foram postas
-de parte. A Egreja de Inglaterra foi reposta nas condições
-em que Henrique VII a havia deixado.</p>
-
-<p class="tb"><b>A alliança hespanhola.</b>—O povo inglez não via com bons
-olhos a alliança hespanhola, e era, em especial, hostil ao casamento
-da sua rainha com Filippe de Hespanha. O bispo de Gardiner,
-que conhecia a indole da nação, tratou de dissuadir a
-rainha, mas esta achava-se firmemente resolvida a desposar
-Filippe. Gardiner, ao ver que nada podia impedir o casamento,
-redigiu o contracto nupcial em termos taes que Filippe ficava
-sem direito ao titulo real, não podia succeder á consorte e era-lhe
-defezo exercer qualquer influencia nos negocios publicos de
-Inglaterra. O facto de Carlos e seu filho terem acceitado estas
-condições mostra o valor que elles davam a uma alliança estavel
-com a Inglaterra.</p>
-
-<p>O povo inglez ficou indignado com similhante casamento,
-e para mostrar o seu desagrado revoltou-se em diversas partes
-do reino; Pedro Carew poz-se á frente dos rebeldes em Cornwall
-e Devon, o conde de Suffolk nos condados do Centro, e
-Thomaz Wyatt em Kent. A unica revolta importante foi capitaniada
-por Wyatt, e se não teve consequencias mais graves foi
-isso devido á coragem da rainha. A nação reconheceu tambem
-que Maria era filha de seu pae, e a legitima herdeira, e não teve
-grande sympathia com as rebelliões contra ella. Filippe chegou,
-com instrucções de seu pae para fazer tudo quanto estivesse
-ao seu alcance para agradar ao povo inglez, as quaes elle, no
-seu modo extravagante, tratou de seguir, bebendo cerveja ingleza
-e fazendo outras coisas do mesmo genero, e o casamento
-celebrou-se com toda a pompa. Estava assegurada a alliança
-com a Hespanha.</p>
-
-<p class="tb"><b>A reconciliação com Roma.</b>—Filippe e Maria eram fervorosos
-catholicos romanos, e anhelavam por que a Inglaterra se libertasse
-do anathema papal que sobre ella havia caido quando
-Henrique desposou Anna Boleyn; mas não era facil conseguir
-isso. O povo inglez obstinara-se sempre em não reconhecer a
-supremacia papal, e eram muitos os pontos da sua historia que
-o aconselhavam a não se submetter facilmente ao pontifice
-romano. Carlos aconselhou o filho e a nora a procederem muito
-cautelosamente. Havia, comtudo, uma difficuldade ainda maior:
-era a questão das terras que haviam sido arrancadas do poder
-da Egreja e vendidas a particulares. Por um lado, o papa não<span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span>
-deixaria de insistir na sua restituição, e, por outro, essa restituição
-iria, certamente, dar logar a violentos protestos. Poucas
-d’essas terras estavam na posse da corôa; a maior parte d’ellas
-tinha sido vendida, e o producto da venda gastara-se. A rainha
-estava impossibilitada de tornar a compral-as aos respectivos
-donos e restituil-as á Egreja.</p>
-
-<p>Carlos V poude, com alguma difficuldade, induzir o papa a
-renunciar á reivindicação d’esses bens abbaciaes, e a unica coisa
-que restava fazer era predispôr o povo inglez para a chegada do
-nuncio.</p>
-
-<p>O nuncio escolhido pelo papa foi Reginaldo Pole, segundo
-sobrinho de Eduardo IV. Pertencia, portanto, á aristocracia ingleza,
-mas havia preferido o desterro a reconhecer a supremacia
-real de Henrique VIII ou a legalidade do divorcio de Catharina
-de Aragão. Era parente de Maria, e fôra um dos que haviam
-soffrido por terem tomado a defeza da mãe d’ella. Solicitou-se
-do parlamento a sua reabilitação. Esta foi proclamada, e Pole
-foi recebido em Inglaterra como membro da nobreza. Apresentou
-então as suas credenciaes, que o acreditavam como legado
-do papa. O povo acolheu a noticia com indifferença. Por fim o
-parlamento approvou uma proposta para que se tratasse de
-promover a reconciliação com Roma. Em 1554, no dia de Santo
-André, o cardeal nuncio absolveu solemnemente a nação. Filippe
-e Maria, com ambas as casas do parlamento, ajoelharam-se na
-presença do cardeal emquanto este os restituia á communhão
-da Santa Madre Egreja. O parlamento revogou todas as leis que
-affirmavam a supremacia real e que rejeitavam a supremacia do
-papa. O clero, por outro lado, renunciou solemnemente a todas
-as reivindicações quanto aos bens abbaciaes e a outras propriedades
-da Egreja que haviam sido sequestradas. A união com
-Roma estava novamente restabelecida por completo.</p>
-
-<p class="tb"><b>Porque não foi bem succedida a reacção.</b>—No espaço de dois
-annos a Inglaterra estava, segundo todas as apparencias, inteiramente
-reconciliada com o papa. Como que parecia que o reinado
-de Eduardo nunca tinha existido, e que Henrique tinha
-vivido em harmonia com o papa até ao fim da sua vida. Tinha-se
-estabelecido a reacção catholica romana, que parecia disposta
-a levar tudo de vencida; mas apoz um curto periodo o movimento
-reaccionario foi obrigado a deter-se, e dentro de alguns
-annos a Inglaterra havia-se transformado n’uma grande nação
-protestante. Como se operou esta transformação?</p>
-
-<p>É talvez impossivel distinguir todas as causas, mas apparecem
-tres d’ellas á superficie da historia: as perseguições que
-tiveram logar durante o reinado de Maria, as questões por causa
-dos terrenos ecclesiasticos, e o alastramento da opinião favoravel
-á Reforma como resultado das predicas evangelicas no curto
-reinado de Eduardo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span></p>
-
-<p class="tb"><b>As perseguições no reinado de Maria.</b>—Os protestantes que
-existiam em Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão
-atrozes perseguições como as que dizimaram os huguenotes da
-França ou victimaram os reformadores dos Paizes Baixos. Despertaram,
-comtudo, no paiz um tal horror ao papismo que ainda
-hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo barbaro
-como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa,
-que se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe,
-fazendo parte do vasto plano que elle havia formado para
-reduzir a Inglaterra ao dominio hespanhol.</p>
-
-<p>A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar
-todos os que durante o reinado anterior haviam fomentado
-a Reforma. Os homens condemnados ao exterminio eram
-todos bem distinctos, tanto pelo nascimento, como pela eloquencia,
-como pela illustração, como pela piedade. Eram: Cranmer,
-o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela sua férvida
-eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes theologos
-reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam
-de ser derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra
-viu serem entregues ao carrasco e queimados em vida
-os seus homens mais eruditos e de maior capacidade moral.</p>
-
-<p>E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança
-com a Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita,
-o homem insensivel a todos os males, e estar de bem
-com aquella nação que havia consentido que os seus proprios
-filhos e filhas fossem torturados pela inquisição, e, sem a menor
-sombra de revolta, se havia submettido ao mais esmagador despotismo.</p>
-
-<p>Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor
-christão. Durante a vida não conseguiram despertar a confiança
-universal, mas com as suas mortes provaram que estavam
-bem convencidos do que apregoavam, e fizeram penetrar no coração
-do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado por
-tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam
-agora com satisfação.</p>
-
-<p class="tb"><b>As terras da Egreja.</b>—Maria havia sido prevenida por Carlos
-V de que não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes.
-Estes tinham sido vendidos, e, em virtude da venda, estavam
-divididos por cerca de quarenta mil pessoas. Tocar-lhes
-era atacar o direito de propriedade. A Egreja e o papa haviam
-renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do parlamento
-ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á religião
-catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado.
-Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia
-a Inglaterra ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e
-ella propria estavam aproveitando dos roubos feitos á Egreja?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span></p>
-
-<p>O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não
-approvou a conducta do seu predecessor no que dizia respeito
-áquella questão, e pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a
-restituição. Maria accedeu, por fim, ás suas instancias, e conseguiu
-com alguma difficuldade, que as camaras dessem o seu
-consentimento para que as terras da Egreja, ainda em poder da
-corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu
-um grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos
-restantes bens abbaciaes deixassem de considerar garantidos
-os seus direitos, e a perda de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a
-a augmentar os impostos. A Egreja mostrava-se, como
-sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a.</p>
-
-<p class="tb"><b>O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.</b>—Os
-theologos estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo
-ensinar para Oxford e Cambridge haviam educado uma geração
-de jovens estudantes que, convencidos da verdade das suas opiniões,
-as acceitaram e as espalharam por entre o povo, e que
-com muita satisfação davam agora a sua vida por ellas. Até ali
-pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse o enthusiasmo.
-O povo tinha passado, com a maior das facilidades,
-de uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de
-Maria tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados
-por Martinho Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com
-muito gosto as suas vidas para conseguirem que os seus compatriotas
-acceitassem as doutrinas biblicas dos reformadores.
-As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a de Coverdale,
-eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia
-sendo esclarecida ácerca da significação da Reforma.</p>
-
-<p>O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra
-a Egreja que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez
-que a Egreja havia mostrado quando chamada a tomar de
-novo posse das propriedades que lhe haviam sido tiradas, e conhecia
-agora melhor as Escripturas e estava mais ao facto do
-que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a
-reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo.</p>
-
-<p class="tb"><b>A morte de Maria.</b>—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia,
-escapando, talvez, d’esse modo, de ser victima de uma
-revolução. «A mais infeliz das rainhas, das esposas e das mulheres»,
-o seu nascimento tinha enchido de regozijo uma nação,
-e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da Europa.
-Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana
-de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica
-rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um
-golpe esmagador, que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu
-pae, o parlamento, e a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filha<span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span>
-illegitima, e, marcada com este ferrete maldito, foi chorar na solidão
-a sua ignominia. Quando a Inglaterra a saudou como rainha
-no seu trigesimo-setimo anno, era já uma velha de faces
-cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos, negros
-e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo,
-porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo
-anhelava por um affecto; casara com um marido da sua escolha,
-e ella propria se reputava um instrumento predestinado pelo
-céu para que se reintegrasse no divino favor uma nação excommungada.
-O marido, a quem ella idolatrava, aborrecendo-se d’ella
-passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha. A creança
-cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a
-nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se
-surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar
-com os desgostos que a affligiam. E o povo, que a recebera com
-tanto enthusiasmo, e a quem ella realmente amava, chamava-lhe
-Maria a Sanguinaria, e esse cognome tem sido transmittido
-de geração em geração até aos nossos dias. Cada tribulação por
-que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não ter
-ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e,
-assim, as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e
-novas victimas se arremessaram para ellas, para aplacar o Deus
-do romanismo do seculo dezeseis.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span></p>
-
-<h3 id="III_CAPITULO_III">CAPITULO III<br />
-<span class="smaller">A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>A successão de Isabel, <a href="#Page_189">pag. 189</a>.—Como se liquidou a questão religiosa, <a href="#Page_190">pag.
-190</a>.—<i>Os trinta e nove artigos</i>, <a href="#Page_197">pag. 197</a>.—O puritanismo e as vestimentas
-ministeriaes, <a href="#Page_192">pag. 192</a>.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino,
-<a href="#Page_194">pag. 194</a>.—A lucta interna com o catholicismo romano, <a href="#Page_195">pag. 195</a>.—A
-Armada hespanhola, <a href="#Page_196">pag. 196</a>.—As prophecias, <a href="#Page_197">pag. 197</a>.—Os <i>conventiculos</i>,
-<a href="#Page_198">pag. 198</a>.—<i>Os pamphletos anti-prelaticios</i>, <a href="#Page_198">pag. 198</a>.—A Reforma ingleza,
-<a href="#Page_198">pag. 198</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>A sucessão de Isabel.</b>—Por morte de Maria, Isabel foi, sem
-opposição, proclamada rainha. O partido catholico romano, que
-se poderia ter opposto á sua successão, não dispunha de força
-para isso, pois que a Inglaterra estava em guerra com a França,
-e a unica rival de Isabel era a esposa do Delfim, Maria, a rainha
-da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era para todos os
-catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de
-Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando
-ella nascera.</p>
-
-<p>A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando
-ella subiu ao throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro,
-apezar de se terem cobrado adeantadamente as receitas, e a
-guerra com a França estava levando a ruina a todos os lares. A
-situação individual da rainha era a mais precaria que se póde
-imaginar. A sua legitimidade era mais do que duvidosa. A
-França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer valer os
-direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente,
-a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes.
-A força do protestantismo nas provincias era duvidosa.
-Vendo os perigos de uma questão religiosa logo no principio do
-seu reinado, a rainha contemporizou. Ia á missa para agradar
-aos catholicos romanos. Prohibiu a elevação da hostia para
-agradar aos protestantes. E poz-se á espera de ver o que a
-Hespanha e a Inglaterra diziam.</p>
-
-<p>A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe
-II ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanhola<span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span>
-dependia tanto de Filippe como do papa, e Isabel não
-tardou em certificar-se de que da Curia Romana não acolheria
-benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando o embaixador
-anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel, na
-sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem
-o meu consentimento; é um desproposito da parte della, se o
-fizer. Que ella, em primeiro logar, submetta á minha decisão as
-suas reivindicações.» Não era preciso mais. Isabel não podia,
-de ahi em deante contar com a Hespanha.</p>
-
-<p>Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta
-da Inglaterra. O seu primeiro parlamento era quasi todo composto
-de protestantes. As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram
-a supremacia real, posto que de uma fórma modificada.
-Henrique VIII havia-se chamado a si proprio «o unico
-chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo». Isabel contentou-se
-com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor»
-(Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos
-e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha,
-«a quem pertencia o governo de todos os estados, quer
-civis quer ecclesiasticos.» Uma commissão de doutores em
-theologia, nomeada para rever o Livro de Oração Commum do
-rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser usado
-pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação
-d’elles, adoptada.</p>
-
-<p>A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada
-por Maria da Escocia de uma alliança com a França, e
-pelo papa de uma alliança com a Hespanha, não teve outro
-recurso senão o de conquistar as sympathias do povo inglez e
-fazer-se egualmente protestante.</p>
-
-<p class="tb"><b>Como se liquidou a questão religiosa.</b>—Isabel não era, de maneira
-nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia
-fortes convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande
-massa do povo e do clero que lhe coubera em sorte governar.
-Quando Eduardo subiu ao throno, era ella uma rapariga de dezeseis
-annos; apezar de tão nova, porém, sabia conduzir-se muito
-ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião patrocinada
-pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa,
-contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto.
-Conformou-se outra vez com o culto catholico romano.
-Era, pelo que tocava aos sentimentos, uma digna filha de seu
-pae, e preferia as doutrinas e o systema catholicos romanos,
-occupando o soberano o logar do papa.</p>
-
-<p>Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia
-herdado uma grande disposição para dominar, e a Egreja Catholica
-Romana era então o modelo por excellencia de um governo
-despotico. Ella havia recebido uma boa educação litteraria,<span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span>
-e comprazia-se muito em ler os antigos auctores gregos. Gostava
-de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões
-e praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias,
-e preferia, por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de
-Roma. O que, porém, não queria era encontrar o papa no seu
-caminho.</p>
-
-<p>Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a
-escola genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela
-fé, nem da simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo,
-abominava aquelles principios democraticos de governo da
-Egreja que se haviam identificado com o presbyteriannismo.
-Os reformadores da envergadura de Knox, com as suas doutrinas
-da predestinação, do livre perdão obtido directamente de
-Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam
-sómente a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem
-o rei, e estava convencida de que o temor da Egreja era
-uma boa preparação para o temor do monarca. Ella não possuia
-a subtileza de espirito para dizer como o seu successor,
-«Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o.</p>
-
-<p>O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era
-mais protestante do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se
-acceitando o Livro de Oração Commum e outras usanças protestantes.</p>
-
-<p>Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos
-a essa dignidade durante o reinado de Maria tiveram a coragem
-de protestar contra taes mudanças. Resignaram os seus cargos
-ou foram d’elles exonerados. Em 1559 estavam vagas todas as
-sés episcopaes, á excepção da de Llandaff.</p>
-
-<p>Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou
-a rainha Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de
-sua mãe.</p>
-
-<p>Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos
-para uma consagração legal, chamando do isolamento a que se
-haviam acolhido os bispos de Eduardo VI que a rainha Maria
-tinha deposto. As idéas de Parker eram muito mais protestantes
-do que as de Isabel, mas parece que elle não se preocupou
-muito com as innovações introduzidas pela rainha. Escolheram-se
-outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou constituindo
-uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel
-base catholica romana.</p>
-
-<p>Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram
-muito mais protestantes do que ela desejaria que fossem. As
-perseguições executadas por ordem de Maria fizeram com que
-muitas familias inglezas se retirassem para fóra do reino. Tinham
-formado colonias em Francfort, em Genebra, e n’outras
-partes, tinham adquirido intimidade com os theologos calvinistas,
-e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas.
-Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido,<span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span>
-e os martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra;
-tinham opiniões, e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os
-bispos sabiam que a Egreja de Inglaterra não podia ser aquillo
-que Isabel desejava que fosse, e devia possuir uma auctorizada
-exposição de doutrinas, um credo cujos delineamentos principaes
-fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada a consentir
-n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamada
-<i>Os Onze Artigos</i>. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos
-e os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se
-conformaria com similhantes coisas. A questão prolongou-se
-tanto que os bispos, n’uma occasião, ameaçaram-n’a com um
-pedido collectivo de demissão. O artigo undecimo declarava,
-portanto, que «as imagens eram coisas vãs».</p>
-
-<p class="tb"><b>Os trinta e nove artigos.</b>—Este curto formulario de doutrinas
-foi, passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além
-d’isso, a rainha teimava em dar á Egreja uma orientação que a
-tornava muito parecida com a catholica romana. Queria, por
-exemplo, tornar obrigatorio o celibato clerical. Os bispos reconheceram
-a necessidade de uma serie, ou exposição, auctorizada
-dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo Parker, com a
-assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nos <i>Quarenta
-e dois Artigos</i> de Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes.
-A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe
-fizeram uma segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os
-Artigos antes de dar o seu consentimento, e fez duas muito
-caracteristicas alterações. Inseriu a primeira clausula do Artigo
-XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos ou ceremonias,
-e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou o
-Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo
-á Mesa da Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção
-d’esse Artigo, e a rainha submetteu-se. Estes Artigos
-são, e houve intenção de que o fossem, calvinistas na sua
-theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma definitiva revisão
-em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava em Zurich:
-«Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até
-chegar á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de
-uma unha.» Assim a Egreja, que havia alterado o seu Livro de
-Oração Commum para o amoldar ao gosto catholico romano, formulou
-os seus artigos de religião, o seu credo, de tal modo que
-ficou em conformidade com as egrejas reformadas da Suissa.</p>
-
-<p class="tb"><b>O puritanismo e as vestimentas clericaes.</b>—A rainha não gostava
-dos trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua
-approvação tinha sido uma victoria para o partido protestante
-com que ella dificilmente se conformava. Animados com o bom<span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span>
-exito alcançado, os puritanos tentaram, de uma maneira vigorosa
-abolir o Livro de Oração Commum, e desembaraçar-se de
-todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja medieval,
-e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com
-toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim,
-victoriosa.</p>
-
-<p>Este conflicto com os puritanos começou cerca do anno de
-1564, e durou durante toda a vida de Isabel. Ao principio o
-ponto principal em discussão era o uso da capa de asperges e
-da sobrepeliz, que é uma sobrevivencia da toga branca, ou traje
-de ceremonia, do imperio romano. Os puritanos do tempo de
-Isabel mantinham-se n’uma posição identica á de seus irmãos
-no reinado de Eduardo VI. Sustentavam que os cargos na
-Egreja christã não são sacerdotaes nem senhoriaes; ninguem
-era eleito bispo pelo facto de ser clerigo, e poder por essa razão
-approximar-se mais de Deus do que os seculares, ou porque
-o governo lhe havia sido conferido por uma auctoridade de
-fóra da Egreja, mas porque os officios de superintendente e
-pastor são de utilidade para a Egreja, e porque a Egreja chama
-esses homens para a servirem no limite das suas funcções.
-Recusavam fazer uso dos paramentos, porque estes significavam
-uma coisa em que elles não criam.</p>
-
-<p>A contestação tomou em breve um caracter violento. Os
-bispos sentiam-se inclinados a contemporizar, pois que sabiam
-o quanto se havia espalhado e quão profundamente arraigada
-estava aquella opposição ás vestes clericaes; mas a rainha não
-lh’o permittiu. Fez uso do poder que a supremacia lhe dava sobre
-os bispos para os obrigar a pôrem em execução a Acta da
-Uniformidade, e isso deu logar a que o puritanismo fosse como
-que um protesto contra a supremacia real e contra a constituição
-episcopal, e como que um brado para que o povo tivesse
-voz activa no governo da Egreja, o que só o presbyteriannismo
-ou o congregacionalismo pode proporcionar. Durante os annos
-de 1565 e 1566 foram em grande numero os ministros que perderam
-os seus logares por não se quererem conformar com os
-usos estabelecidos.</p>
-
-<p>A rainha entendia que a sua posição como governadora da
-Egreja a auctorizava a proceder a continuos inqueritos ao modo
-como era conduzido o culto publico nas paroquias de Inglaterra.
-Nomeou commissarios reaes para inspeccionar e dar-lhe as necessarias
-informações, e estes agentes de Isabel vieram a constituir
-o Tribunal da Alta Commissão, que se tornou um instrumento
-de tyrannia ecclesiastica nos reinados de seus successores.
-Por estes commissarios foi Isabel informada da existencia
-dos não-conformistas, e insistiu n’uma submissão ás praticas
-estabelecidas.</p>
-
-<p>O povo fez, na sua maioria, causa commum com os ministros
-que estavam inhibidos de tomar parte nos serviços. As<span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span>
-prisões e as multas só serviram, como sempre aconteceu, para
-ateiar as chammas da dissidencia. Esta fez a sua apparição
-nas universidades. Os estudantes recusaram fazer uso da sobrepeliz
-ou assistir aos serviços religiosos feitos por clerigos paramentados.
-Foram tantas as paroquias que vagaram que não
-era possivel arranjar ministros para todas; e, quando qualquer
-ministro submisso era collocado n’uma d’ellas, o povo, em geral,
-apupava-o. Alguns dos mais zelosos ministros separaram-se da
-Egreja nacional.</p>
-
-<p>O grande dirigente dos puritanos era Thomaz Cartwright,
-que, tendo sido educado no Collegio de S. João, em Cambridge,
-veiu a ser depois professor de theologia. Era um homem piedoso
-e illustrado, e um eloquente prégador, e, tendo perdido a
-sua cadeira de lente por causa das suas opiniões, ainda por
-cima teve de soffrer o exilio. Dois puritanos, Field e Wilcox,
-escreveram um folheto moderado—<i>Uma advertencia ao parlamento</i>—sobre
-a disciplina da Egreja e as medidas violentas que
-haviam sido tomadas contra os puritanos. Foram mandados
-para Newgate, como dois criminosos quaesquer. Cartwright
-escreveu uma <i>Segunda Advertencia</i> em defeza dos seus amigos,
-e teve, pela segunda vez, de fugir do paiz. A rainha respondia
-a cada pedido de tolerancia com novas exonerações, a ponto de
-haver n’uma só diocese, a de Norwich, segundo consta, não
-menos de trezentos ministros suspensos. O arcebispo Parker
-morreu em 1575, havendo-lhe o cargo de executor da rainha,
-que desempenhava bem contra sua vontade, tornado amargosissimos
-os ultimos annos da sua vida.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino.</b>—Ha alguma
-desculpa para as medidas tomadas por Isabel contra os puritanos
-no principio do seu reinado. A Inglaterra estava fraca, estava
-empobrecida, e o throno de Isabel não offerecia estabilidade.
-Não sympathisava com a Reforma no que ella mais profundamente
-significava, e não a animava o desejo de ver o seu
-povo convertido n’uma nação de enthusiasticos reformadores.
-A Inglaterra, segundo a sua opinião, precisava de descanço e
-de paz para recuperar as suas esgotadas energias. Se a Inglaterra
-tivesse abraçado o protestantismo com verdadeiro enthusiasmo,
-não assistiria de braços cruzados ás crueldades commettidas
-para com os protestantes francezes e hollandezes pela
-França e pela Hollanda. Desempenharia na Escocia, nos Paizes
-Baixos e na França o papel de campeão protestante. Isabel,
-com a sua impassivel politica, conservou o povo inglez de reserva
-para o grande futuro que o esperava. «Nada de guerra,
-meus senhores, nada de guerra», exclamava ella invariavelmente
-quando Cecil ou outro qualquer ministro manifestava o
-desejo de a ver collocada á frente de uma liga protestante.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span></p>
-
-<p>Isabel não obstante a sua anterior attitude de resistencia,
-não desejava romper por completo com os papistas, ou apresentar-se
-quer aos seus subditos catholicos romanos, quer ás nações
-continentaes, como uma rainha forte e resoluta. A Inglaterra
-necessitava de descanço, e a rainha havia determinado
-conservar em paz o seu paiz.</p>
-
-<p>Isto explica em parte a sua politica de indifferença perante
-a lucta em que os protestantes se achavam envolvidos n’outros
-paizes. Cecil, o maior dos ministros que Isabel teve, queria que
-ella se pozesse á frente de uma grande liga protestante e prestasse
-um auxilio efficaz aos protestantes da Escocia, dos Paizes
-Baixos e da França. Os ciumes que Isabel tinha de Maria
-Stuart forçaram-n’a a coadjuvar em grande medida o partido
-protestante da Escocia—a coadjuval-o até ao ponto de elle poder
-tornar preponderante aquella fórma de protestantismo em que
-tanto havia perseverado. Pelo que, porém, diz respeito aos Paizes
-Baixos e á França, Isabel não deu outro auxilio além do que
-era sufficiente para que o partido protestante continuasse a
-existir, e isso mesmo foi feito mais com o fito de consumir as
-forças da França e da Hespanha do que com o de proteger perseguidos
-correligionarios.</p>
-
-<p class="tb"><b>Luctas intestinas com o catholicismo romano.</b>—A politica da
-côrte romana e especialmente as declarada sintenções e designios
-dos jesuitas forçaram Isabel, depois de ter reinado quasi
-doze annos, a mostrar-se mais decidida a defender a fé protestante,
-tanto em Inglaterra como fóra d’ella. Os jesuitas tinham
-insistido repetidas vezes em que não se devia guardar fidelidade
-aos chefes de estado protestantes; alguns dos seus emissarios
-tinham pregado o assassinio como meio licito de desembaraçar
-os paizes dos seus soberanos protestantes, e não faltavam
-exemplos que advertissem Isabel da sorte que a esperava.</p>
-
-<p>A sua rival, Maria Stuart, expulsa da Escocia, era para a
-Inglaterra uma prisioneira perigosa. A morte de Isabel podia
-tornal-a, a ella que era a esperança do partido catholico romano,
-a herdeira mais proxima do throno inglez.</p>
-
-<p>Em 1570, o regente Moray, que era o chefe politico da Reforma
-na Escocia, foi escandalosamente assassinado. Em 1572
-foi planeado, e barbaramente posto em pratica, o massacre de
-S. Bartholomeu. No mesmo anno o duque de Alba, Filippe II e
-o papa conferenciaram com Ridolfi, florentino que residira durante
-muito tempo em Inglaterra, sobre a possibilidade de uma
-insurreição catholica romana em Inglaterra, dirigida pelo duque
-de Norfolk. Descoberta a conspiração, Norfolk foi decapitado.
-Todos estes casos mostraram a Isabel que toda a sua salvação
-estava em entrar verdadeiramente no caminho da Reforma, e
-mostraram tambem ao povo o quanto Isabel era essencial para
-o triumpho do protestantismo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span></p>
-
-<p>É talvez uma evidencia de que a rainha e os seus subditos
-protestantes se ligaram mais estreitamente o facto de Edmundo
-Grindal, clerigo de pronunciadas tendencias puritanas, ter sido
-collocado na sé de Canterbury, vaga em virtude da morte de
-Matheus Parker.</p>
-
-<p>Em todo o caso, Isabel, se não se mostrou menos intolerante
-no reino, reconheceu que era de seu dever enviar mais soccorro
-aos protestantes de fóra. Os huguenotes receberam um auxilio
-pecuniario. Os aventureiros inglezes, e entre elles Francisco
-Drake, tiveram permissão para fazerem todo o mal que podessem
-ao commercio hespanhol. Isabel mandou, mesmo, um corpo
-de exercito para ajudar os neerlandezes na sua guerra com a
-Hespanha.</p>
-
-<p>Este procedimento fez com que as forças catholicas romanas
-trabalhassem com mais ardor para a ruina da Inglaterra.
-Estabeleceu-se um seminario em Douay, e um collegio em Roma,
-onde se preparassem padres inglezes que iriam depois para o
-seu paiz promover agitação entre os romanistas. E eram continuos
-os rumores de novas conspirações para collocar Maria
-Stuart no throno de Inglaterra.</p>
-
-<p>Isabel e os seus conselheiros compenetraram-se, por fim,
-do perigo que ella corria. O parlamento promulgou que os missionarios
-romanistas ficavam sujeitos ás penalidades que correspondiam
-a crimes de alta traição, e quando se descobriu a
-conspiração de Babington, para assassinar Isabel e pôr Maria
-em liberdade, e se provou que Maria estava ao facto de toda a
-trama, ficou decidida a execução da rainha dos escocezes. Isabel
-não representou um papel muito heroico n’esta tragedia, mas
-adquiriu a certeza de ter, d’esta vez, quebrado todas as relações
-com Roma, assim como Roma e os poderes romanos não poderam
-deixar de reconhecer que o tempo das conspiratas tinha
-findado, e que, ou a Inglaterra seria subjugada, ou ter-se-hia
-de admittir a Reforma como um facto consumado.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Armada hespanhola.</b>—Roma e Hespanha descobriram por
-fim o que o astuto Guilherme Cecil tinha descoberto desde o
-principio. «O imperador aspira á soberania da Europa, coisa que
-elle jámais poderá conseguir sem que seja suprimida a religião
-reformada; e não poderá esmagar a Reforma sem que primeiro
-esmague a Inglaterra». Carlos V tinha visto isso, mas não muito
-claramente, quando se mostrou tão ancioso por uma alliança com
-a Inglaterra, no principio do reinado de Maria. Filippe II viu-o
-quando se offereceu para marido de Isabel. Coube, finalmente,
-a vez ao papa, o qual, de mãos dadas com Filippe, fez convergir
-todos os seus esforços no sentido de subjugar a Inglaterra.</p>
-
-<p>A occasião era propicia. Filippe e a Santa Liga da França
-tinham, apparentemente, triumphado. A Inglaterra encontrava-se
-isolada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span></p>
-
-<p>O papa Sixto V excommungou a rainha Isabel, e encarregou
-Filippe II de executar a sentença. Sua Santidade contribuiu
-tambem com uma grande quantia para ajuda da empreza. Os
-hespanhoes reuniram uma grande esquadra, com a qual se propunham
-atacaria Inglaterra, e, para ter mais seguro o bom exito,
-Alexandre de Parma, o mais habil general da Europa, recebeu
-ordem para partir dos Paizes Baixos com o mesmo destino, levando
-comsigo a flôridas tropas hespanholas.</p>
-
-<p>Isabel appellou para o patriotismo da nação, e esta não se
-fez surda ao seu appello. A Escocia, não obstante a execução de
-Maria, não quiz levantar-se contra a Inglaterra. A França permaneceu
-inactiva, pois que a liga não havia triumphado tanto
-como se suppozera e não tinha sido possivel extinguir os huguenotes.
-Toda a Inglaterra pegou em armas. Equiparam-se duzentos
-navios. A nação, fremente de enthusiamo, estava preparada
-para o ataque. A Armada, composta de numerosos vasos de
-guerra de grandes dimensões, aproou á Inglaterra, mas os ventos
-produziram-lhe enormes avarias antes de chegar ao seu destino.
-Os navios inglezes cercaram-n’a, e travaram com ella uma
-serie de combates navaes, que a pozeram em deploraveis condições.
-Um temporal medonho completou a obra; e a soberba
-frota, que os hespanhoes haviam equipado á custa de mil sacrificios,
-deu miseravelmente á costa, sendo pouquissimos os barcos
-que conseguiram chegar aos portos de onde haviam saido.</p>
-
-<p>Foi desde então que a protestante Inglaterra ficou sendo a
-maior potencia europeia. Não foi possivel supprimir a Reforma
-porque não foi possivel vencer a Inglaterra.</p>
-
-<p>É dificil dizer quanto o lado menos nobre de Isabel contribuiu
-para a consecução d’este resultado final; o que é certo é
-que ella administrou habilmente os recursos da nação, teve o
-maior cuidado em reprimir o enthusiasmo d’esta, até que a ella
-se podesse entregar sem perigo algum, e determinou, mediante
-o Acto de Uniformidade, cuja transgressão ficava sujeita a
-severas penas, unificar exteriormente a Inglaterra. Pode ser
-que os meios de que lançou mão não fossem reputados necessarios,
-mas attingiu, pelo menos, o fim que tinha em vista.</p>
-
-<p class="tb"><b>As prophecias.</b>—A nomeação de um arcebispo puritano não
-produziu os beneficios que se esperava. Isabel tinha o costume
-de demonstrar aos seus bispos que a supremacia real era
-uma coisa que existia de facto. A rigorosa suppressão da não-conformidade
-havia occasionado uma grande falta de ministros.
-Não era raro prover-se individuos sem aptidões para prégar.
-Certos pastores animados de bons intuitos promoviam reuniões
-clericaes, onde se discutia theologia e havia uma especie de
-curso de oratoria. Estas reuniões, que tinham algumas parecenças
-com os «Exercicios» da Escocia, e que eram, talvez, uma<span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span>
-imitação d’elles, chamavam-se as «Prophecias». A rainha não
-gostava d’ellas. Ella não via, mesmo, a necessidade de se prégar
-sermões, e entendia que os ministros se deviam limitar a
-ler as <i>Homilias</i> ás congregações. O arcebispo Grindal era favoravel
-a estas <i>Prophecias</i>, e quando a rainha lhe ordenou para
-as prohibir recusou-se a fazel-o. A rainha, enfurecida, ameaçou-o
-com a deposição, e chegou a suspendel-o do exercicio das suas funcções
-episcopaes. Esta suspensão durou até quasi ao fim da
-vida do arcebispo.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os conventiculos.—Os pamphletos anti-prelaticios.</b>—Quando
-Grindal morreu, Whitgift, o irreconciliavel adversario de Cartwright
-e do puritanismo, foi elevado a arcebispo de Canterbury.
-A desastrosa politica da rainha, rigorosamente executada por
-elle, teve as suas naturaes consequencias. O povo, privado dos
-serviços dos clerigos a quem respeitava, e obrigado a ouvir outros
-que não tinham direitos nenhuns sobre elle, recusou-se a
-frequentar as egrejas. Reunia-se em casas particulares e n’outros
-logares apropriados, e ahi fazia oração e observava outros
-pormenores do culto publico. Estes conventiculos foram declarados
-illicitos, mas, apezar d’isso, eram cada vez mais numerosos.
-Surgiram as seitas não-conformistas.</p>
-
-<p>Knox na Escocia e Beza em Genebra alarmaram-se com o
-estado da Egreja na Inglaterra. Elles estavam ao facto das
-ameaças do poder catholico romano, e sabiam bem que o protestantismo
-inglez precisava de estar muito unido. Não sympathisavam
-de modo algum com o systema de Isabel, e, comtudo,
-eram de opinião que o horror dos puritanos pelos paramentos
-religiosos era algum tanto affectado e exaggerado.
-Escreveram aos dirigentes do partido, rogando-lhes que se conformassem,
-mas a espada da perseguição tinha penetrado demasiadamente
-nas suas almas. Impedidos de prégar, começaram
-a escrever, e por entre o povo foram apparecendo diversos
-pamphletos por elles publicados. O que se tornou mais notavel
-de tudo foi uma serie de opusculos chamados <i>Anti-prelaticios</i>.
-Esses opusculos atacavam o systema episcopal da Egreja de
-Inglaterra, e expunham com uma implacavel severidade as varias
-ceremonias papistas que ella ainda conservava. Um dos
-auctores, Nicolau Udal, foi descoberto, sendo executado em
-1593.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Reforma ingleza</b> ficou firmemente estabelecida depois da
-derrota da Armada hespanhola. A Inglaterra reconheceu finalmente
-que lhe competia dirigir os Estados protestantes da Europa;
-e, não obstante o caracter anomalo da Egreja reformada
-ingleza, o paiz soube tornar-se digno da sua posição.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span></p>
-
-<p>A Reforma ingleza, comtudo, era de um caracter tal que não
-pode ser facilmente comparado com o do movimento do mesmo
-genero que teve logar n’outros paizes. No primeiro periodo, um
-monarca caprichoso e absolutista obrigou o reino a desligar-se
-do papado, ao mesmo tempo que reprimia selvaticamente todas
-as tentativas de uma reforma religiosa, quer na doutrina quer
-no culto.</p>
-
-<p>Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida,
-os homens de maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos,
-tratou de promover uma reforma de doutrina e de
-culto. O movimento, empurrado, por assim dizer, de fóra, não
-foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que, com a mudança
-de governo, voltou para o romanismo.</p>
-
-<p>No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se
-pela Reforma religiosa que havia agitado outros paizes,
-mas a supremacia real encerrou o movimento dentro de uns
-certos limites que fizeram com que elle não representasse verdadeiramente
-as aspirações da Egreja.</p>
-
-<p>Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos
-e ritualistas representarem a historia como se a Egreja
-tivesse sido levada pelo seu proprio discernimento a assumir a
-attitude que assumiu para com o romanismo, de um lado, e para
-com o decidido protestantismo, do outro; mas estas representações
-não são defendidas pela evidencia contemporanea. Os
-anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a
-Egreja tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização
-episcopal regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem,
-em provar que a posição que elles chamam catholica, e
-que outros chamam anomala, foi assumida pela propria Egreja,
-actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção episcopal;
-mas os factos que se relacionam com este caso são contra elles.
-A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos
-seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a
-supremacia real.</p>
-
-<p>Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez
-com que fosse possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que
-podesse dar ás suas theorias uma apparencia de base historica.</p>
-
-<p>Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum
-de Eduardo VI, transformando-o n’um outro dentro de
-cujas formulas havia logar para pessoas que teriam preferido
-conservar-se catholicas romanas se considerações politicas não
-as obrigassem a passar para o lado protestante.</p>
-
-<p>Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos
-e os ritos contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que
-diligenciou reter as imagens, os crucifixos e a agua benta.</p>
-
-<p>Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho
-que nada tinha que ver com o governo episcopal
-da Egreja, e que era de um caracter inteiramente erastiano—que<span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span>
-estabeleceu a Acta da Uniformidade, e que impoz a conformidade
-sob pena de severos castigos, que podiam ser exoneração,
-multa, prisão e até perda da vida.</p>
-
-<p>Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra
-tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra
-muito mais em harmonia, respectivamente á doutrina
-e ao culto, com as egrejas reformadas do Continente, que haviam
-tomado Genebra para modelo.</p>
-
-<p>Os bispos prepararam os <i>Os trinta e nove Artigos</i>, que o bispo
-Jewel, a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou
-que haviam sido redigidos com o proposito de mostrar
-que havia perfeita uniformidade de doutrina, e especialmente
-da que se refere ao sacramento da Ceia do Senhor, entre Genebra
-e Canterbury.</p>
-
-<p>Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam
-sensatamente tolerado as objecções dos puritanos quanto ás
-capas de asperges e ás sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo
-Livro de Oração Commum de Eduardo VI, em uso havia
-muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle que foi indicado
-por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos romanos.</p>
-
-<p>Os bispos obrigaram a rainha a declarar-se contra as imagens,
-os crucifixos, a agua benta e o celibato do clero, isto é,
-contra todas as coisas que ella desejaria conservar; e compelliram-n’a
-a acceitar o Artigo vigesimo nono, que defende a theoria
-calvinista da Ceia do Senhor.</p>
-
-<p>Se os bispos tivessem tido liberdade de acção, haveria logar
-na Egreja de Inglaterra para os não-conformistas da actualidade,
-pois que a sua queixa, começando por ahi, não era contra
-o governo episcopal, mas contra os symbolos e ritos supersticiosos
-que lhes foram impostos pela rainha e pela sua Commissão:
-difficilmente, porém, haveria logar para os modernos ritualistas
-anglicanos.</p>
-
-<p>Devem a posição, que legal e historicamente lhes deve ser
-concedida, a duas coisas—(1) á supremacia real, que teve a
-força sufficiente para reprimir e ter sujeito a si o episcopal e nacional
-desejo de uma Reforma completa; e (2) ao facto de a uma
-numerosa parte do clero de Inglaterra serem tão indifferentes
-as mudanças que poderam conservar-se no exercicio das suas
-funcções durante os reinados de Eduardo, Maria e Isabel, isto é,
-sob o systema puritano, romanista e anglicano.</p>
-
-<p>A supremacia real deu á Egreja de Inglaterra o caracter
-claudicante da sua reforma, e habilitou as pessoas que vivem
-actualmente a fallar dos principios catholicos, isto é, medievaes,
-da Egreja ingleza.</p>
-
-<p>Os historiadores teem mostrado que Isabel tinha necessariamente
-de proceder da maneira cautelosa como procedeu, e,
-com aquella prepotencia que a caracterizava, obstar a que a<span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span>
-Egreja do seu paiz se reformasse por completo. Ha alguma
-verdade no seu criticismo. Foi, comtudo, uma politica myope,
-que só tratava de acudir ás primeiras necessidades, e que obedecia
-muito ao principio de «depois de mim o diluvio.» Foi a
-supremacia real de Isabel, imposta mediante o tribunal da Alta
-Commissão, que preparou o caminho para a revolta puritana no
-reinado de Carlos I e para o dia do Negro Bartholomeu no reinado
-de Carlos II. Se a Egreja de Inglaterra tivesse sido entregue
-aos seus instinctos espirituaes, se a sua acção não tivesse
-sido contrariada pelo erastianismo, poder-se-hia ter evitado
-estas duas calamidades.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_203" id="Page_203">[203]</a></span></p>
-
-<h2 id="IV_PARTE">IV PARTE<br />
-<span class="smaller">OS PRINCIPIOS DA REFORMA</span></h2>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Capitulos:</span></p>
-
-<table summary="Capitulos">
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#IV_CAPITULO_I">I</a></td>
- <td>—<span class="smcap">Os Principios da Reforma.</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#IV_CAPITULO_II">II</a></td>
- <td>—<span class="smcap">Como a Reforma se poz em contacto com a politica.</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#IV_CAPITULO_III">III</a></td>
- <td>—<span class="smcap">A catholicidade dos reformadores.</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#IV_CAPITULO_IV">IV</a></td>
- <td>—<span class="smcap">Os principios doutrinarios.</span></td>
- </tr>
-</table>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span></p>
-
-<h3 id="IV_CAPITULO_I">CAPITULO I<br />
-<span class="smaller">OS PRINCIPIOS DA REFORMA</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições
-sociaes, <a href="#Page_205">pag. 205</a>.—Uma revivificação da religião e uma approximação de
-Deus, <a href="#Page_206">pag. 206</a>.—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho
-para Deus, <a href="#Page_208">pag. 208</a>.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,
-<a href="#Page_209">pag. 209</a>.—A imitação de Christo, <a href="#Page_209">pag. 209</a>.—Francisco de Assis,
-<a href="#Page_210">pag. 210</a>.—Os mysticos da Edade Media, <a href="#Page_211">pag. 211</a>.—A significação do
-perdão, segundo a Reforma, <a href="#Page_212">pag. 212</a>.—Previsões de uma revivificação religiosa
-operada pela Reforma, <a href="#Page_213">pag. 213</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares
-condições sociaes.</b>—O movimento da Reforma surgiu n’um
-dos mais notaveis periodos da historia europea. A tomada de
-Constantinopla pelos turcos ottomanos no meiado do seculo
-quinze dispersou por toda a Europa os thesouros litterarios e
-os sabios de aquella rica e illustrada cidade. Muitas pessoas
-começaram a estudar diligentemente os antigos auctores latinos;
-aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes
-a sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos
-poetas e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua
-em que foi escripto; e os rabbis judeus encontraram, com
-grande surpreza sua, no mundo occidental, homens com immensa
-vontade de aprenderem a sua antiga lingua, o hebraico,
-e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles. Um
-mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia,
-quer na litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens
-do periodo em que a Reforma appareceu.</p>
-
-<p>A descoberta da America por Colombo não só revolucionou
-o commercio e tudo quanto se relaciona com elle, como tambem
-excitou a imaginação da Europa. O que não poderiam os homens
-fazer, visto que tanto tinham feito já, tanto tinham descoberto?
-Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella epoca foi dito e
-escripto por homens que se julgavam em vesperas de grandes
-acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa.</p>
-
-<p>As condições politicas da Europa occidental tinham tambem
-mudado. Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimento<span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span>
-das modernas nações europeas. Haviam-se desprendido,
-umas apoz outras, do systema politico medieval, e tornado independentes,
-com sentimentos, sympathias e aspirações nacionaes,
-o que fez com que cada nação comprehendesse que tinha
-um caminho especial a percorrer.</p>
-
-<p>O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle
-mundo de costumes sociaes e de restricção politica e religiosa
-em que tinham anteriormente vivido era pequeno de mais para
-elles; sentiram a necessidade de mais espaço para respirarem.
-O mundo era maior; a vida tinha muito mais aspectos do que
-aquelles que os paes d’elles tinham jámais posto na sua idéa.
-Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era agora novo.</p>
-
-<p>Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a
-philosophia escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos
-e as mentes dos homens, e traçado limites que elles não podiam
-ultrapassar. Estas barreiras haviam-se desmoronado sob
-a influencia da nova vida que por todos os lados penetrava
-n’elles, e os homens descobriram que a religião era uma coisa
-maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida social,
-com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do
-Sacro Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos
-que escapavam á perspicacia dos mais eminentes sabios.</p>
-
-<p>Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham,
-com toda a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações,
-lucrando apenas com isso o encontrarem-se na grave
-situação de isolamento social, como acontece a todos aquelles
-cujos pensamentos não são comprehendidos pelos homens do seu
-tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses pensamentos
-propriedade commum, e as multidões principiaram a ser
-agitadas por elles.</p>
-
-<p>Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma
-appareceu; mas o movimento, em si, não pode ser explicado
-simplesmente por meio de uma descripção d’essas condições
-sociaes. Teve logar uma verdadeira renascença da religião, um
-cumprimento da promessa do derramamento do Espirito Santo
-sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso que
-surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias,
-e tirou d’ellas mesmas a sua força.</p>
-
-<p class="tb"><b>Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.</b>—O
-que mais agita os corações dos homens que se encontram no
-meio de um grande movimento religioso dentro da Egreja christã
-é o desejo de se approximarem de Deus, de se sentirem em
-communhão pessoal com aquelle Deus que se mostrou cheio de
-graça e perdão mediante a vida e obra do Senhor Jesus Christo.
-Os homens que estão realmente sob a influencia de um grande
-despertamento religioso, e que são arrastados por um movimento<span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span>
-de revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma
-deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho
-atravancado de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam
-ter accesso á presença divina.</p>
-
-<p>Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer,
-e mesmo durante algum tempo depois, os homens que estavam
-sob a influencia d’essa revivificação encontraram no seu
-caminho as taes barreiras de que já falámos. A Egreja, que se
-intitulava a porta que dava accesso á presença de Deus, tinha
-atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a sua
-maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha
-lista de penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter
-mostrado a vereda que conduzia á presença de Deus, parecia
-ter rodeiado o Seu santuario de um triplice muro que tornava
-difficilima a entrada. Quando um homem ou uma mulher sentia
-o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja dizia-lhe que
-fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes de
-vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado.
-Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de
-perdão, era-lhes este assegurado, não por Deus, mas por um
-padre. A graça de Deus, de que o homem tanto precisa durante
-a vida, e de que tanto precisa tambem á hora da morte, era-lhes
-concedida por meio de uma serie de sacramentos a que tinham
-de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam
-mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante
-a Egreja mediante a confirmação; o seu casamento ficava isento
-do peccado da concupiscencia mediante o sacramento do matrimonio;
-a penitencia restituia-os á vida, depois de terem commettido
-qualquer peccado mortal; o sacramento da Ceia do Senhor,
-administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os
-espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o
-descanço eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas
-coisas não constituiam de maneira alguma os signaes da livre
-graça de Deus, sob cujo vasto docel o homem passa a sua vida
-espiritual. Eram, antes, umas portas guardadas com toda a vigilancia,
-e que os padres abriam de mau humor, e quasi sempre
-só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que
-Deus dá gratuitamente.</p>
-
-<p>Ninguem podia, tão pouco, viver livremente uma vida christã,
-dedicando ao serviço de Deus todos os talentos que possuia.
-Para se viver santamente era necessario observar umas tantas
-coisas que a Egreja prescrevia, como, por exemplo, os frequentes
-jejuns, as interminaveis rezas, as flagellações, e um conjuncto
-de tediosas ceremonias, que, se eram manifestações de
-amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a maxima
-de S. João, beneficiando o proximo.</p>
-
-<p>A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença,
-de Deus, proclamando a todos que, se almejassem por se approximar<span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span>
-do compassivo Redemptor só o poderiam fazer passando
-pelas estreitas portas que ella guardava, e exigindo por essa
-passagem, isto é, pelo baptismo, pela confirmação, pelo casamento,
-e pelos restantes sacramentos, umas vis moedas, e inpondo
-de quando em quando uma compra de indulgencias, para
-acabar de encher os seus cofres.</p>
-
-<p>A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado
-pelo irresistivel desejo de uma approximação de Deus, e satisfez
-cabalmente esse desejo levando deante de si, e fazendo desapparecer,
-todas as barreiras e obstaculos.</p>
-
-<p class="tb"><b>Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.</b>—É
-natural que occorra esta pergunta: Como é possivel que
-a Egreja se esquecesse a tal ponto da sua missão e do verdadeiro
-fim da sua existencia que, como os reformadores constataram,
-estivesse fazendo exactamente o contrario de aquillo que
-devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens
-a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus
-irmãos na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre
-elles e Deus, e que os conservava longe d’Elle. Como poude a
-Egreja tornar-se uma coisa inteiramente opposta ao que era
-licito esperar que ella fosse? Como poude a Egreja de Deus
-converter-se, segundo a graphica expressão de Knox, «n’uma
-synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia
-necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos,
-porém, dar uma idéa geral do que se passou.</p>
-
-<p>«A separação do mundo» é uma das maximas da vida
-christã, symbolisada nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada
-nas normas da vida do Novo testamento. A Egreja
-devia viver separada do mundo, e, em todos os seculos, aquelles
-a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se esforçado
-por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica. Gregorio
-VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando,
-e que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador
-da Egreja medieval, declarou que essa separação devia
-ser perfeitamente visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse
-no reino de Christo; e aquella sua opinião influiu muito
-no modo de ser da Egreja medieval. Nos seus dias todo o governo
-politico estava nas mãos do chefe do Imperio Romano, e
-Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse
-tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival
-sobre a terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado
-fôra o grande Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica.
-Nas suas mãos a Egreja tornou-se um reino em contraposição
-ao Imperio Romano da Edade Media, seu adversario visivel.
-Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja n’uma
-monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre
-duas coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas.<span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span>
-O grande, o fatal, defeito n’aquela idéa de separação do mundo,
-em que Gregorio andava absorvido, proveiu do facto d’elle tomar
-uma parte do mundo, isto é, o Imperio politico, pelo mundo todo
-de que era necessario haver separação, de modo que a Egreja
-ficou separada do imperio, mas não ficou separada do mundo.</p>
-
-<p>A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus;
-todas estas phrases, empregadas na Escriptura para descrever
-o parentesco espiritual entre Deus e o seu povo foram malignamente
-applicadas a esta organização politica visivelmente separada
-do Imperio politico da Edade Media. Um homem era
-chamado <i>santo</i> se pertencia a um dos reinos, e secular se pertencia
-ao outro; um frade era um homem <i>santo</i>, um guarda do
-imperador era um homem secular. Um campo era <i>santo</i> se um
-papa ou um clerigo qualquer recebia a respectiva renda; era
-secular se o proprietario não tinha ordens ecclesiasticas. Todas
-as palavras e phrases que se deviam reservar para quando se
-tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas na descripção
-de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que pertencia
-áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja.</p>
-
-<p>A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia
-culto a Deus; era a esphera da religião; e quando, de caso pensado,
-ou em virtude do modo habitual de fallar, se ensinou aos
-homens que a Egreja era simplesmente uma sociedade visivel,
-a religião espiritual decaiu, sendo substituida por uma outra
-que consistia apenas na observancia de um certo numero de
-ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se
-cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente
-mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a
-Reforma appareceu era já impossivel supportal-a por mais tempo,
-e os homens insistiram em que os nomes espirituaes fossem
-applicados ás coisas espirituaes, ou, por outra, em que não se
-fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas piedosas.</p>
-
-<p class="tb"><b>Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de
-Christo.</b>—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para
-se tornar cada vez mais um reino politico, e cada vez menos
-uma egreja, não se deve suppôr que durante a Edade Media
-não houvesse religião espiritual. O Livro de Oração Commum
-da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado de antigos livros
-cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja andava
-geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que
-esse livro está impregnado de um profundo sentimento religioso.
-Muitos dos hymnos que eram cantados no culto publico
-por todas as egrejas protestantes foram originalmente compostos
-por devotos poetas medievaes, que dedicavam os seus talentos
-á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a sua
-existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo
-com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôr<span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span>
-em contacto com as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes
-e friamente politicas. Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira
-separação do mundo, sem procurar definir as suas idéas,
-ou descutir o facto de terem os guias politicos da Egreja restringido
-o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém,
-tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir
-os seus pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre
-estava em harmonia com as definições dos estadistas ecclesiasticos.
-Para exemplificação d’isto, vamos passar em revista
-dois periodos de reviviscencia.</p>
-
-<p class="tb"><b>Francisco de Assis.</b>—Francisco de Assis, commovido pelas
-dolorosas scenas que observava nas cidades, onde a população
-indigente, pela maior parte composta de camponezes que haviam
-deixado as suas terras para se livrarem do pagamento das contribuições
-e dos pesados serviços a que os senhores feudaes,
-cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em miseraveis e repellentes
-bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino espiritual
-d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente
-mãos á obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse,
-mas como sob a influencia de uma grande idéa. Essa
-grande idéa era a tal maxima da «separação do mundo», a
-mesma que, erradamente interpretada, havia tornado politica a
-Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do mundo
-não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de
-dois espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela
-sociedade politica; tinha de baseiar-se na conducta individual.
-Gregorio VII tinha definido a separação de uma maneira negativa;
-havia dito «A Egreja é uma coisa que o mundo não é, e
-está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um modo
-mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste
-em estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez.</p>
-
-<p>Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de
-Chanterbury expozera n’uma arida fórma escolastica, a da <i>imitação
-de Christo</i>; e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever
-a verdadeira e individual separação do mundo, muito
-differente da separação politica de Gregorio VII. Anselmo e
-Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma maneira fria e dogmatica,
-e outro n’um estylo de fervoroso prégador da renascença,
-feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella
-o unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que
-Christo lhes alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra
-de Christo imitando-O. Francisco pegou, por assim dizer, n’esta
-idéa e, ligando-a com a maxima da separação do mundo, disse:
-«Eis aqui a verdadeira separação. Christo não era d’este mundo.
-O Seu reino não era d’este mundo. A separação do mundo é
-posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos
-aos de Christo.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span></p>
-
-<p>Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não
-tinham grande largueza de vistas, e a vida e obra de Christo,
-assim como a Sua separação do mundo, apresentavam-se-lhe
-claramente, mas de uma maneira limitada. Nosso Senhor não
-era casado; estava separado da vida social que provém do casamento.
-Era pobre; estava separado do mundo da riqueza, do
-mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto
-de Se deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade,
-da independencia de vida e de acção. Prendeu-se a estes
-aspectos exteriores da vida de Christo; fez consistir a imitação
-de Christo e a consequente separação do mundo n’estes modos
-visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo ficou significando,
-entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de pobreza,
-castidade e obediencia.</p>
-
-<p>O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes
-resultados e teve um rapido successo; mas, como todos os
-outros movimentos que se baseiam em imitaçõees exteriores da
-vida divina, depressa deixou de impulsionar os espiritos, e os
-homens piedosos pozeram-se á procura de uma melhor separação
-do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais
-genuina imitação de Christo.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os Mysticos medievaes.</b>—Os mysticos julgaram ter encontrado
-uma solução para o problema. A imitação de Christo e a
-separação do mundo á maneira de Christo deviam, disseram
-elles, ser mais profunda e mais intima. Deviam ser postas em
-connexão com uma religião espiritual, pois que é a alma, e não
-aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo, afim
-de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem
-tem, disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca,
-que é propriamente a vida da alma, e uma vida exterior, uma
-vida visivel, passada no meio da sociedade. Põe-se em communhão
-com Deus, não mediante aquella vida exterior, que todos
-os homens vivem, mas mediante a que possue espiritualmente,
-mediante a vida da alma. A separação do mundo não consiste
-n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella
-vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que
-separação do mundo significa communhão com Deus, e essa
-communhão não tem logar de uma fórma visivel, mas muita
-reconditamente, quando a alma se encontra a sós com Elle.
-Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos os desejos,
-a todos os actos que podessem impedir a communhão da
-alma com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle
-Christo que está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham,
-como se vê, ácerca da separação do mundo, a mesma idéa de
-Gregorio. Ligavam-n’a com aquella idéa de imitação de Christo,
-em que Francisco de Assis tanto insistia. Vivendo, porém,
-n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, em<span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span>
-que abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias,
-foram levados a reconhecer, como a ninguem, antes ou depois
-d’elles, tem succedido, que o reino de Deus está no interior dos
-corações. A renuncia ficou sendo a sua senha, e essa sua renuncia
-era toda espiritual, e com ella se armaram para soffrer pacientemente
-tudo quanto a Deus, na Sua Providencia, aprouvesse
-enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser
-religião espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter
-esse nome, ser espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente,
-mais de Christo do que Gregorio com a sua Egreja politica ou
-do que Francisco de Assis com a sua pictorica imitação dos aspectos
-da vida de Christo no mundo.</p>
-
-<p class="tb"><b>A significação do perdão, segundo a Reforma.</b>—Todos estes
-movimentos eram revivificações da religião. Eram todos elles
-tentativas para se chegar a uma verdadeira separação do mundo,
-que é o mesmo que approximação de Deus. A Egreja sustentou
-esta prolongada lucta como preparação para a Reforma,
-fazendo dos seus proprios desenganos outras tantas alpondras
-para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou por todas
-ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das
-reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição
-da familia, deixou de estudar direito para estudar theologia.</p>
-
-<p>Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica
-e a imitação de Christo segundo as regras monacaes lhe
-proporcionariam aquella paz da alma que é o fructo de uma convivencia
-com Christo. Foi João Tauler ou Nicolau de Basiléa
-quando se inteirou de que a religião, para ser verdadeira, deve
-ser espiritual. Mas ainda assim elle não ficou satisfeito. Não se
-sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia que lhe era
-indispensavel estar senão depois de experimentar aquella bem-aventurada
-sensação de perdão pela qual anhelava. E porque
-havia feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza
-do perdão? Como hei de eu transpôr essa insuperavel barreira
-do peccado que se ergue entre mim e o Deus de toda a santidade?»
-e considerara este ponto como de summa importancia durante
-todo o periodo em que o seu espirito passou por varias
-vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas
-piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião
-que a Reforma effectuou.</p>
-
-<p>Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos
-principaes caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto
-de Deus, mas esse desejo era manifestado mediante differentes
-perguntas, e cada tentativa de revivificação tornava mais evidente
-a possibilidade de que elle fosse satisfeito, Gregorio perguntava:
-«Como posso eu separar-me do mundo?» Francisco de
-Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante a Christo?»
-Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimento<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span>
-do perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos
-luctam com a mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa;
-está-se cada vez mais perto da solução do problema, á medida
-que as gerações se succedem, até que por fim vieram os reformadores,
-que com tanto zelo procuraram revivificar a religião,
-e pozeram em primeiro logar a questão do perdão, e, conseguintemente,
-a do peccado, tocando assim no ponto principal. Desembaracemo-nos
-do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão,
-e haverá então separação do mundo, imitação de Christo e
-communhão com Deus.</p>
-
-<p>A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade
-o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do
-mesmo modo. Os homens alcançam o perdão de Deus indo pedil-o
-directamente a Deus, e confiando na Sua promessa de que
-perdoaria. A livre e clemente graça de Deus, revelada na pessoa
-e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa promettida
-graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida religiosa
-da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar
-o peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa.
-Tal é o simples aspecto religioso do movimento da Reforma.
-Todos aquelles que, sentindo a necessidade do perdão, e tendo
-perfeita confiança na promessa do perdão que Deus fez mediante
-Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de pensar
-em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa
-promessa e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a
-consciencia d’isso.</p>
-
-<p class="tb"><b>Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.</b>—Sendo
-este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma,
-é manifesto que elle não constituiu um caso singular,
-isolado, na historia da Egreja. Todos os christãos piedosos teem
-sentido pouco mais ou menos a mesma coisa, o seu espirito tem
-passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com Deus para
-serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa
-de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as
-gerações christãs dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem
-á vida do christão dizem a mesma coisa, e o que a Reforma
-fez foi definir claramente que todos os christãos tinham, com
-mais ou menos consciencia do facto, sentido.</p>
-
-<p>Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que
-espiritualmente experimentavam, e que era a linha central da
-sua vida religiosa, estava, n’uma multiplicidade de modos, em
-contradicção com o credo, o culto e a organização theoretica da
-sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente do que o contraste
-entre as exposições doutrinaes e as posições ecclesiasticas
-de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os
-hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as
-phrases que empregavam nas suas orações. A sua theologia<span class="pagenum"><a name="Page_214" id="Page_214">[214]</a></span>
-tinha muitos pontos de contacto com a philosophia pagã de
-Aristoteles, no seu culto estavam consubstanciados muitos ritos
-do paganismo, a fórma como a Sua Egreja era dirigida era
-mais modelada na constituição do imperio romano do que na
-constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos
-piedosos viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao
-momento em que os elementos pagãos que haviam sido introduzidos
-na sua Egreja se tornaram tão preponderantes que elles
-se viram forçados a protestar contra elles. Luthero achou o
-perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que nunca
-fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na
-Egreja não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus
-por dinheiro. Isso levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção
-a certos assumptos, e compenetrou-se de que a venda do
-perdão dos peccados não era uma horrivel profanação enxertada
-na Egreja que elles veneravam, mas sim uma verdadeira e logica
-deducção de principios com que elles não se tinham até ali
-preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes
-da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que
-sempre existiu na Egreja medieval, manifestando-se na santidade
-da vida, na nobreza dos hymnos, nas confissões do peccado,
-e na confiança nas promessas do Deus do pacto. Os protestantes
-não precisam de reivindicar a sua affinidade com homens
-cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem reconhecido
-a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o
-viver religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do
-mahometanismo ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre
-ascendencia em todos esses homens e mulheres piedosas que,
-mesmo nos seculos mais obscuros da Egreja, foram ter directamente
-com Deus, confiados, tanto no tocante á vida presente como
-no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça renovadora
-que Elle revelou em Christo.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_215" id="Page_215">[215]</a></span></p>
-
-<h3 id="IV_CAPITULO_II">CAPITULO II<br />
-<span class="smaller">COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social
-da epoca, <a href="#Page_215">pag. 215</a>.—A Reforma desfez a nação medieval de uma sociedade
-politica, <a href="#Page_216">pag. 216</a>.—Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma,
-<a href="#Page_217">pag. 217</a>.—O <i>De Monarchia</i> de Dante e o <i>Defensor Pacis</i> de Marcello de Padua,
-<a href="#Page_218">pag. 218</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na
-vida social da epoca.</b>—A Reforma começou simplesmente como
-uma tentativa de dar o culto a Deus de uma maneira mais simples,
-segundo os dictames da consciencia e os impulsos da vida
-interior, da vida espiritual; mas não podia ficar por ahi; significou
-por fim uma revolução nas condições da sociedade e uma
-grande mudança na situação politica da Europa.</p>
-
-<p>A Egreja medieval era muito rica, e possuia muitos bens
-de raiz, e quando uma freguezia, ou uma provincia, ou um paiz
-se tornava protestante, levantavam-se discussões sobre o destino
-a dar a estas propriedades. Deviam ficar em poder dos padres,
-deviam passar para o do pastor protestante, ou deviam
-as auctoridades civis tomar conta d’ellas e administral-as como
-bens do Estado? A Egreja tinha o direito de cobrar dizimos—o
-dizimo grande, ou a decima parte da colheita do trigo ou do
-vinho, e o dizimo pequeno, ou a decima parte das ovelhas, dos
-vitellos, dos porcos e dos ovos. Os padres e os frades recebiam
-remuneração pelos baptismos, pelos casamentos, pelas confirmações
-e pelos enterros. Quando as familias se tornavam protestantes,
-e dispensavam os serviços dos clerigos da Egreja
-medieval, por não se quererem sujeitar a ritos supersticiosos,
-aonde ir buscar aquelles dizimos e aquelles emolumentos? A
-permissão para se render culto a Deus segundo as consciencias
-preceituavam envolvia questões de dinheiro, que eram
-muitas vezes levadas aos tribunaes, e que obrigaram, mesmo, a
-uma modificação das leis concernentes á propriedade.</p>
-
-<p>A Egreja medieval tinha o seu systema de celibato. Os clerigos<span class="pagenum"><a name="Page_216" id="Page_216">[216]</a></span>
-não podiam casar, e, alem dos parocos e dos curas, havia
-frades e freiras celibatarias e que haviam feito votos de castidade,
-sanccionados pelo Estado. Quando qualquer d’estes homens
-ou mulheres se tornasse protestante, ser-lhe-hia permittido
-desligar-se dos votos e abandonar o convento? e, no caso
-de ter levado dinheiro comsigo para o convento, ser-lhe-hia restituido?
-Se todos os moradores de uma casa religiosa abraçassem
-a fé protestante, poderiam conservar-se n’essa casa, e continuar
-disfructando a respectiva dotação? A todas estas questões
-juridicas deu logar a Reforma.</p>
-
-<p>Mas havia outras questões muito mais graves. A Egreja
-medieval, segundo o costume da epoca, tinha jurisdicção sobre
-muitos pleitos, que na Europa moderna são julgados pelos tribunaes
-civis. As questões entre marido e mulher, entre paes e filhos,
-e as que diziam respeito a heranças e testamentos, estavam na
-alçada dos tribunaes ecclesiasticos, e nunca eram submettidos
-ás instancias ordinarias do reino. A Egreja é que decidia se um
-casamento era ou não legal, se este ou aquelle grau era prohibido,
-se este ou aquelle filho era legitimo, etc. Estas questões
-levantavam sempre comsigo uma outra, a da propriedade, pois
-que só os filhos ligitimos podiam herdar os bens de seus paes.
-Só era licito o casamento que fosse feito dentro dos graus auctorizados,
-e effectuado á face da Egreja por um sacerdote ordenado.
-E isto porque, em conformidade com as idéas da Egreja
-medieval, o matrimonio era um sacramento. E assim protestante
-algum podia estar legalmente casado, porque a legalidade
-de um matrimonio só podia provir de um sacramento que não
-podia ser administrado a rebeldes, por constituir um acto de
-desobediencia á auctoridade da Egreja. E a lei da Egreja era a
-lei da nação; pois que antes da Reforma a Egreja tinha o direito
-de resolver todos estes casos. A não ser que as leis fossem
-alteradas, filho algum de protestantes, casados por pastores
-protestantes, podia herdar de seus paes, pois que, segundo a
-lei da Egreja medieval, os paes não tinham contraido um casamento
-legal. E, portanto, não andavam sómente envolvidas n’isto
-as questões que diziam respeito á propriedade; affectava-se
-tambem a honra pessoal, e a dignidade das esposas e dos filhos.</p>
-
-<p>Poderiamos multiplicar os casos indefinidamente; mas os
-que citámos são sufficientes para mostrar como o simples desejo
-de dar culto a Deus segundo a consciencia alterou todas as
-condições da vida social. O velho systema ecclesiastico descia
-até aos proprios alicerces da vida quotidiana, e tudo apertava
-nas suas garras. A Reforma, ao atacal-o, atacou por esse facto
-todas as leis: a da propriedade, a do casamento, e a da hereditariedade.</p>
-
-<p class="tb"><b>A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica.</b>—Segundo
-as noções medievaes, a sociedade estava dividida em<span class="pagenum"><a name="Page_217" id="Page_217">[217]</a></span>
-Egreja e em Estado politico. O poder ecclesiastico estava todo
-centralizado na pessoa do papa, que era o sacerdote universal;
-e o poder civil estava todo centralizado na pessoa do imperador,
-que era o soberano universal. Um era sacerdote dos sacerdotes,
-e o bispo dos bispos, e o outro era o rei dos reis. Um homem
-pertencia á Egreja se estava sob a jurisdicção do papa;
-era membro da sociedade civil se estava sob o dominio do imperador.</p>
-
-<p>Tres poderosos chefes francos tinham, uns apoz outros, no
-fim do seculo oitavo, proporcionado ao christianismo o dilatar-se,
-sem ser incommodado, n’uma parte da Europa occidental. Com
-os seus fortes exercitos obstaram ao avanço das hordas dos
-barbaros frisios e saxonios que pretendiam opprimir a Europa
-com uma nova Dispersão das Nações, e obrigaram os serracenos
-a retroceder para alem dos Pyrinéus. Como preito de gratidão,
-o papa havia conferido a Carlos Magno, o ultimo dos tres, o titulo
-de Imperador dos Romanos e reunido em volta d’elle o
-prestigio do nome romano e tudo quanto restava das leis, artes
-e sciencias romanas. O imperio assim estabelecido apresentava
-um estranho dualismo. Tinha um chefe civil e outro espiritual,
-Cesar e o papa; e toda a jurisprudencia europea se fundava na
-dupla theoria da representação; o imperador era reputado o vigario
-de Deus nos negocios civis, ou terrestres, ao passo que
-o papa governava em nome de Deus nas coisas espirituaes.</p>
-
-<p>Segundo as noções medievaes, quando um homem recusava
-obedecer ao papa no que dizia respeito ás materias espirituaes
-rebellava-se contra a sociedade, pois que esta se baseava na
-idéa de que o papa e o imperador eram os senhores supremos.
-O protestantismo quebrou esta união dos dois elementos da
-christandade, que se affigurava necessaria para dar á sociedade
-uma existencia politica e mantel-a sobre uma firme base moral.</p>
-
-<p class="tb"><b>Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma.</b>—As
-idéas medievaes tinham soffrido alguma coisa antes de apparecer
-a Reforma. O nascimento das nações modernas, com os seus
-interesses em separado, o que dava origem a constantes conflictos,
-e com as suas aspirações de completa independencia,
-vibrou um golpe á noção medieval de christandade indivizivel.
-Este sentimento de independencia nacional significava revolta
-contra o imperador, a qual foi seguida, de uma fórma menos
-perceptivel, de sedições nacionaes contra o papa. A lei ingleza
-de <i>Proemunire</i>, que prohibe appellações para Roma, significava
-que existia no reino de Inglaterra uma jurisdicção de que não
-se podia appellar; e isso era uma revolta contra a noção medieval
-da christandade unida, segundo a qual todas as appellações
-deviam ser depostas junto do throno do imperador ou da cadeira
-do papa.</p>
-
-<p>Noções independentes queria dizer egrejas independentes,<span class="pagenum"><a name="Page_218" id="Page_218">[218]</a></span>
-e a revolta de Henrique VIII não teve maior significação do
-que a de Eduardo III ou a de Filippe, o Bello. A theoria gauleza
-foi, n’uma epoca posterior, uma revolta contra a mesma idéa
-medieval de centralizar em Roma o poder ecclesiastico.</p>
-
-<p>A Reforma intensificou esta revolta. Deu-lhe um sentido
-mais amplo; tornou-a permanente; animou a tendencia para a
-descentralização. Depois de ter surgido a Reforma as nações
-tiveram mais um motivo para dissenções, pois que a differença
-de credo indispôl-as umas com as outras.</p>
-
-<p>Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião
-espiritual, tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade
-politica e ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas
-não as atacaram. A convicção em que estavam de que a religião
-consiste n’uma communhão espiritual com Deus tornava-os
-extremamente indifferentes a todas as combinações e associações
-extrinsecas. De todos os reformadores só Luthero mostrou
-partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença, perante
-a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um
-simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de
-os homens se ligarem uns com os outros, com a differença,
-comtudo, de que o centro d’esse movimento associativo, d’essa
-força colligadora, não era aquelle que as nações medievaes indicavam.
-Nutria a vida nacional; os homens, pela razão de terem
-combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo paiz, de terem
-herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos infortunios,
-mantinham entre si uma especie de unidade espiritual.
-As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta
-nova lei de desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma,
-que operou uma tão completa separação de Roma, e que,
-apezar d’isso, não destruiu a sociedade, mostrou a todos os
-homens que podia haver vida social e communhão religiosa sem
-aquella pressão exterior, sem que as idéas de ordem e associação
-andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja universaes.
-A noção medieval de uma Europa unificada constrangia
-todas as nações a obedecerem a um poder central, que
-residia no imperador; a noção reformista era a de uma fraternidade
-de povos.</p>
-
-<p class="tb"><b>A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326),
-de Marcello de Padua.</b>—Appareceram dois notaveis livros
-antes da Reforma, um que pertencia ao passado que ia desapparecendo,
-e outro que pertencia ao futuro que se avisinhava.</p>
-
-<p>Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados
-italianos e das nações europeas, escreveu a sua <i>De Monarchia</i>
-para mostrar aos seus contemporaneos como podiam viver em
-paz. O que elle propunha era o restabelecimento, em toda a sua
-força, do velho imperio medieval, o qual, mesmo visto do seu<span class="pagenum"><a name="Page_219" id="Page_219">[219]</a></span>
-lado melhor, pouco mais era do que um sonho, conservando o
-seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a imaginação,
-O reinado da paz universal teria logar, pensava elle,
-quando se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de
-Carlos Magno, isto é, quando um energico imperador, com a sua
-côrte no centro do mundo civilisado, ouvisse e julgasse os casos
-que de todos os pontos da terra fossem submettidos á sua decisão
-final, e fizesse sentir o peso da sua ferrea mão a todos
-aquelles que armassem contendas com os seus irmãos. Este
-livro é o epitaphio do medievalismo.</p>
-
-<p>Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo,
-escreveu o seu livro, o <i>Defensor Pacis</i>, que explicava como a
-verdadeira paz e segurança nacional começam de dentro. Para
-Marcello o Estado é o povo, e do povo—dos seu desejos, das
-suas aspirações, dos seus temores, dos seus intentos—é que
-provém a vida nacional. O governo é do povo e para o povo. E
-o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o
-seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto
-Dante procurava um poder compellidor que operasse de
-fóra, Marcello predizia que a força que havia de dominar as nações
-não podia deixar de ser uma força auto-coerciva que tivesse
-a sua origem no proprio povo. A Reforma contribuiu para
-que essa predicção se cumprisse, e para que as suas theorias
-viessem a constituir uma descripção da vida politica e social
-da actualidade.</p>
-
-<p>Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou
-o centro da vida nacional de uma força repressora exterior para
-uma invisivel fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa
-o que Kepler fez para a astronomia e Kant para a metaphysica:
-mudou o centro de fóra para dentro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_220" id="Page_220">[220]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_221" id="Page_221">[221]</a></span></p>
-
-<h3 id="IV_CAPITULO_III">CAPITULO III<br />
-<span class="smaller">A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, <a href="#Page_221">pag. 221</a>.—Reivindicaram
-a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio
-medieval, <a href="#Page_221">pag. 221</a>.—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e
-Calvino, <a href="#Page_222">pag. 222</a>.—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos,
-<a href="#Page_223">pag. 223</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.</b>—Nenhum
-dos reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem
-Calvino—pensou que procurando dar culto a Deus da maneira
-mais simples que a Escriptura aconselhava, e que a sua experiencia
-espiritual approvava, se estava afastando da Egreja. Estavam
-abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual
-com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer
-á Egreja em que tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados,
-e em cuja communhão tinham prestado culto a Deus
-desde a infancia.</p>
-
-<p>Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a
-Egreja de seus antepassados. Não tinham desejo algum de fazer
-uma nova Egreja, e ainda menos de crear uma nova religião.
-A religião que elles professavam era a religião do Velho e do
-Novo Testamento, a religião dos santos de Deus desde os dias
-de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua separação
-de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e
-dos Padres. Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em
-que Christo havia sido acreditado, e em que se havia sentido a
-presença do Espirito Santo, desde o tempo dos apostolos até
-aos seus dias.</p>
-
-<p>A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes,
-pensavam elles; não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar
-a toda a gente a evidencia d’esse facto, a que davam tão
-grande importancia?</p>
-
-<p class="tb"><b>Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição
-do Imperio medieval.</b>—Os reformadores tinham-se desligado
-do papa, e não viviam mais em communhão com elle ou<span class="pagenum"><a name="Page_222" id="Page_222">[222]</a></span>
-com a curia romana. No seu tempo, porém, estar na Egreja era
-ter communhão com o papa e com Roma. Estar fóra do districto
-dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles tempos
-de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos
-privilegios da Egreja.</p>
-
-<p>Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem,
-ou cidade, ou provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava,
-eram, por esse facto, interrompidos todos os serviços religiosos.
-Emquanto sobre aquella area pesasse a excommunhão,
-não podia haver baptismos, nem casamentos, nem confortos espirituaes
-á hora da morte. As egrejas permaneciam fechadas, e
-todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser
-levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não
-ter communhão com o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil
-demonstrar o contrario, de um modo claro, sem auxilio
-de uma argumentação theologica.</p>
-
-<p>O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio
-de mostrar ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado
-por aquelles que estavam em communhão com o papa. O
-Santo Imperio Romano da Edade Media era mais do que um
-estado politico; era tambem, sob um certo ponto de vista, uma
-Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono. Chamava-se-lhe
-a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos
-deviam a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores
-ao facto de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma
-latina approvada pelo papa Damaso. A Edade Media apresentava,
-portanto, a Egreja de Christo sob dois aspectos: um era
-o da communhão com o papa, e o outro o da posição que occupava
-no Imperio Romano.</p>
-
-<p>Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão
-do imperio. Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo
-Niceno sob a fórma prescripta. Era, segundo a distincção feita
-pelo imperador, um christão orthodoxo. Estava dentro da christandade,
-era membro da grande communidade christã, posto
-que não estivesse em communhão com o papa. Luthero aproveitou-se
-do caracter ecclesiastico do imperio da Edade Media;
-teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel, que
-era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga
-classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã,
-ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com
-que aos seus contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja
-era mais ampla, mesmo segundo as noções medievaes, do que
-a communhão com Roma. Elle proprio estava fóra da communhão
-com Roma, e, comtudo, era membro da christandade, e
-estava, por conseguinte, dentro da Egreja.</p>
-
-<p class="tb"><b>A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.</b>—O imperio
-medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos,<span class="pagenum"><a name="Page_223" id="Page_223">[223]</a></span>
-e a sua dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã.
-Luthero, para mostrar que, não obstante haver-se desligado de
-Roma, não tinha abandonado a Egreja Catholica de Christo, pegou
-no Credo dos Apostolos, no Credo Niceno, e no Credo de
-Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão de fé. Diz
-elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou
-Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas
-por toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de
-uma vez para sempre, que adhiro á verdadeira Egreja de Christo,
-que até agora tem mantido estas Confissões, mas não aquella
-falsa e pretenciosa Egreja, que é a peor inimiga da verdadeira
-Egreja, e que tem collocado subrepticiamente muita idolatria a
-par d’estas bellas Confissões.»</p>
-
-<p>Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros
-da Egreja Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos
-de citar. Intitulou-o <i>Sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja
-de Deus</i>. Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva
-pelo papa e pela curia, exactamente como acontecera aos
-israelitas quando foram transportados para Babylonia. A Egreja,
-libertada do jugo romano, ficava com todos os privilegios que a
-Egreja de Deus sempre tivera, e ficava, além d’isso, livre da
-escravidão.</p>
-
-<p>A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um
-captiveiro peior do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma
-eram homens comparaveis a Zorobabel, Esdras e Nehemias.
-Não estavam fundando uma nova Egreja, estavam reconduzindo
-a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a liberdade.</p>
-
-<p>Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto
-que não a expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio
-aos seus <i>Institutos</i> diz-nos que escreveu o livro para responder
-áquelles que diziam que as doutrinas dos reformadores eram novas,
-duvidosas, e contrarias ás dos Paes da Egreja. E refuta essas
-accusações, mostrando a catholicidade da theologia da Reforma.
-Prova que todos os reformadores sustentaram as grandes doutrinas
-catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos, e
-que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de
-outra qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as
-idéas pagãs e as praticas supersticiosas foram, de uma maneira
-bastante censuravel, introduzidas.</p>
-
-<p class="tb"><b>A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.</b>—Os cabeças
-da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande
-revivificação religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo
-um movimento novo, e muito menos que estavam fundando uma
-nova religião. Tinham, no seu entender, uma ascendencia espiritual,
-e reputavam-se os verdadeiros herdeiros e successores
-da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes, e, tambem, da<span class="pagenum"><a name="Page_224" id="Page_224">[224]</a></span>
-Edade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles. Pertenciam
-á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros
-herdeiros dos seculos de vida santa que os tinham precedido.</p>
-
-<p>Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem
-scismaticos e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica
-de Christo, e de procurarem crear uma nova Egreja e fundar
-uma nova religião. Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a
-unica communidade christã, e a unica Egreja Catholica e Apostolica.</p>
-
-<p>Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes
-preparada pela propria Egreja Catholica Romana. A
-Egreja de Roma acceita o Credo dos Apostolos, e esse Credo faz
-uma descripção da Egreja que está em completo desaccordo
-com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos Apostolos
-diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos santos»,
-e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão
-de Roma». Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra
-que dê a entender que catholicidade significa communhão
-com Roma; catholicidade quer dizer, pelo contrario, <i>communhão
-com os santos</i>. Este ponto é bem frisado pelos principaes reformadores.
-O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se baseia
-n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia
-no perdão dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de
-uma santa communhão, e esta existe em virtude do perdão que
-se alcança para todos os peccados mediante a obra redemptora
-de nosso Senhor Jesus Christo.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_225" id="Page_225">[225]</a></span></p>
-
-<h3 id="IV_CAPITULO_IV">CAPITULO IV<br />
-<span class="smaller">OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA</span></h3>
-
-<div class="chap">
-
-<p>Os principios <i>formaes</i> e <i>materiaes</i> da Reforma, <a href="#Page_225">pag. 225</a>.—O sacerdocio de todo
-os crentes: o grande principio da Reforma, <a href="#Page_226">pag. 226</a>.—Explica a <i>Doutrina
-da Escriptura</i>, <a href="#Page_227">pag. 227</a>, e da <i>Justificação pela Fé</i>, <a href="#Page_228">pag. 228</a>.—A <i>Doutrina da
-Escriptura</i> da Reforma em contraste com a medieval, <a href="#Page_228">pag. 228</a>.—A Doutrina
-medieval da Escriptura, <a href="#Page_229">pag. 229</a>.—O quadruplo sentido da Escriptura, <a href="#Page_229">pag.
-229</a>.—A definição medieval de <i>fé salvadora</i>. Interpretação infallivel, <a href="#Page_230">pag.
-230</a>.—Os reformadores e a Biblia, <a href="#Page_231">pag. 231</a>.—A doutrina da <i>justificação pela
-fé</i> da Reforma em contraste com a medieval, <a href="#Page_232">pag. 232</a>.—A absolvição clerical
-e justificação pela fé, <a href="#Page_233">pag. 233</a>.—Justificação pela fé e justificação pelas
-obras, <a href="#Page_234">pag. 234</a>.—Conclusão, <a href="#Page_235">pag. 235</a>.</p>
-
-</div>
-
-<p class="tb"><b>Os principios formaes e materiaes da Reforma.</b>—Os principios
-theologicos, ou doutrinarios, que deram um caracter distinctivo
-á revivificação da religião promovida pela Reforma costumam
-ser divididos em duas cathegorias, sendo uma d’ellas constituida
-pelos <i>formaes</i> e a outra pelos <i>materiaes</i>.</p>
-
-<p>O dr. Dorner, historiador sagrado, estabelece este modo de
-encarar o movimento reformista com muita clareza e energia
-na sua <i>Historia da Theologia Protestante</i>. Segundo o dr. Dorner,
-a doutrina da Palavra de Deus é o principio <i>formal</i> da theologia
-da Reforma, e a doutrina da Justificação pela Fé é o principio
-<i>material</i> da mesma.</p>
-
-<p>O uso d’estes termos technicos pode, comtudo, obscurecer,
-tanto na vida religiosa como na theologia, o verdadeiro sentido
-do movimento que com elle se quer explicar. O principio da
-Reforma, o impulso predominante no movimento, era simplesmente
-aquelle que deve inspirar todas as revivificações da religião,
-isto, é o fervoroso desejo, a ancia, de uma approximação
-de Deus, o anhelo por estar na presença de Aquelle que Se revelou,
-para que podessemos ser salvos, na pessoa de Jesus
-Christo. Aquillo a que se tem chamado os principios, <i>formaes</i> e
-<i>materiaes</i>, da Reforma está unido a este mais simples, mas mais
-energico, impulso, e é proveniente d’elle. O direito de chegar á
-presença de Deus foi, segundo a crença dos reformadores, conferido
-por Elle a todos os que fazem parte do Seu povo; mas o<span class="pagenum"><a name="Page_226" id="Page_226">[226]</a></span>
-direito de chegar á presença de Deus é o que se chama o sacerdocio,
-e o grande principio da Reforma baseia-se no <i>sacerdocio
-de todos os crentes</i>—o direito que teem todos os homens e mulheres
-crentes, todos os clerigos e seculares, de se dirigirem a
-Deus, e de procurarem alcançar d’Elle o perdão mediante a
-confissão dos seus peccados, a luz que lhes illumine os entendimentos,
-a communhão que os faça sair do seu solitario isolamento,
-e o vigor necessario para viverem diariamente em santidade.</p>
-
-<p class="tb"><b>O sacerdocio de todos os crentes: grande principio da Reforma.</b>—Quando
-Luthero e Zwinglio se revoltaram contra os abusos
-com que o romanismo havia desfigurado a Egreja medieval, os
-dois grandes abusos eram a venda das indulgencias e a excommunhão.
-Quanto ao primeiro d’esses abusos, a venda das indulgencias,
-a Egreja medieval dizia praticamente que não era necessario
-ir ter com Deus para obter o perdão, pois que a Egreja
-podia concedel-o em melhores condições. O perdão que Deus
-dava, mediante a obra de Christo, áquelles que se apresentassem
-contrictos e arrependidos fornecia-o a Egreja a troco de
-uns tantos ducados. Punha-se deliberadamente entre os pecadores
-e Deus, e afastava-os d’Elle, insinuando-lhes, de uma
-maneira blasphema, que podia vender-lhes o perdão mais barato.
-O homem não necessitava de ir ter com Deus cheio de
-tristeza e arrependimento, nem de incutir na alma a confiança
-nas Suas promessas. A Egreja sahia ao caminho de todo aquelle
-que possuisse dinheiro. N’outras occasiões a Egreja recusava
-absolutamente o perdão. Se uma cidade, ou uma diocese, ou um
-paiz offendia, mediante os seus governantes, o papa ou a sua
-côrte de Roma, era-lhe imposta a interdicção, e emquanto esta
-não fosse levantada não havia perdão para peccado algum. A
-Egreja colocava-se entre a creança recemnascida e o baptismo,
-entre o christão moribundo e a graça que lhe era concedida á
-hora da morte, entre o mancebo e a donzella e o laço matrimonial
-abençoado por Deus, entre o povo e o culto quotidiano.
-Ninguem se podia approximar do Deus de toda a misericordia
-pelo motivo dos magistrados, dos bispos ou do rei e seus conselheiros
-terem offendido o papa. A Egreja tinha a faculdade
-de impedir o caminho, pois que havia declarado que só por intervenção
-dos padres é que se poderia ter accesso a Deus; e
-quando aos padres se prohibia o exercerem as suas funcções
-eclesiasticas, o ministrarem os sacramentos, ficava cortada
-toda a comunicação com Deus. O papa podia, com uma pennada,
-impedir que uma nação inteira se approximasse de Deus,
-pois que tinha o direito de ordenar aos padres que suspendessem
-os serviços religiosos; e, segundo a theoria medieval, essas
-funcções exercidas pelos padres eram o unico meio de ter accesso
-a Deus.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_227" id="Page_227">[227]</a></span></p>
-
-<p>Os reformadores, por outro lado, diziam: «O homem deve
-approximar-se de Deus por meio da oração, por meio do perdão,
-por meio da communhão, por meio do esclarecimento espiritual,
-sempre que fielmente o procurar fazer; é impossivel que o caminho
-para Deus se feche de aquella maneira.» Luthero disse
-que não fazia objecção alguma ás indulgencias se ellas fossem
-consideradas o unico meio de se declarar que Deus é sempre
-misericordioso. Recusava, porém, acreditar n’ellas, ou n’outro
-qualquer rito da Egreja medieval, quando se fazia uso d’ellas
-para declarar que os homens podiam alcançar o perdão sem se
-approximarem de Deus com um espirito contricto, ou que podiam
-ser inteiramente excluidos da presença de Deus por determinação
-de quaesquer outros homens.</p>
-
-<p>Era esta idéa—que a presença de Deus é livre para quem
-fielmente a procurar, que Deus não recusa ouvir a oração de
-qualquer penitente, e que Elle faz com que as Suas promessas
-fallem directamente aos corações de todos aquelles que compõem
-o Seu povo—que se enleiava em volta de base da theologia
-da Reforma, e era a fonte de onde brotavam, em particular,
-as doutrinas da Escriptura e da justificação pela fé.</p>
-
-<p class="tb"><b>O principio do sacerdocio dos crentes explica a doutrina reformada
-da Escriptura.</b>—Todos os reformadores criam que na Biblia
-Deus lhes fallava da mesma maneira em que, em tempos remotos,
-havia fallado á Egreja pelos Seus prophetas e apostolos. Diziam
-elles que o povo, tendo nas mãos a Biblia traduzida do
-grego e do hebraico para uma lingua que elle comprehendesse
-podia ouvir a voz de Deus, podia chegar-se a Elle para receber
-instrucção, admoestação e lenitivos. Nos tempos do Antigo Testamento
-Deus fallou ao Seu povo, umas vezes em sonhos e outras
-por meio de visões, mas principalmente mediante embaixadores
-instruidos por Elle, a que se chamava prophetas. Nos tempos
-do Novo Testamento Deus fallou no meio do povo mediante Seu
-Filho, e o Seu Espirito fallou tambem por intermedio dos apostolos
-de Christo. Todas estas revelações, inseridas na Escriptura
-do Velho e Novo Testamento, são apresentadas de tal fórma
-que Deus falla, na Biblia, ao Seu povo exactamente como lhe
-fallou pela bocca dos homens santos da antiguidade. Os reformadores
-proclamavam que na Biblia todos os crentes podem ouvir
-Deus, que lhes falla directamente, e que a Sua voz pode ser
-ouvida por todos aquelles em cujas mãos estiver a Biblia. A
-doutrina reformada da Palavra de Deus exprime simplesmente
-um dos lados do cumprimento de aquelle anhelo pelo accesso
-á presença de Deus, que constitue o elemento essencial, não
-apenas da Reforma, mas de toda a verdadeira revivificação religiosa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_228" id="Page_228">[228]</a></span></p>
-
-<p class="tb"><b>O principio do sacerdocio espiritual de todos os crentes explica a
-doutrina reformada da justificação pela fé.</b>—A doutrina da justificação
-pela fé é um outro modo de asseverar que o anhelo pelo
-accesso a Deus não é um desejo vão, mas uma coisa que pode
-ter um positivo cumprimento. Segundo a theologia medieval, o
-peccador não podia implorar directamente a Deus o perdão. Tinha
-que ir ter com o padre, e esse padre ficava auctorizado a
-metter-se de permeio entre elle e Deus, e a negar o perdão de
-Deus, se isso lhe fosse ordenado pelo papa ou por um seu superior
-hierarquico. Por muito sincero que fosse o seu pezar, por
-muito forte que fosse a sua confiança, o padre collocava-se entre
-elle e o seu clemente Deus, e elle não podia confessar a Deus
-os seus peccados nem ouvir de Deus a sentença do perdão senão
-pela bocca do padre. A doutrina da justificação pela fé significa,
-na sua fórma mais simples, que é Deus em pessoa quem profere
-o perdão, e que perdoa em attenção de tudo quanto Christo
-fez e pode fazer pelo peccador; e que o homem pode ouvir proferir
-este perdão se tiver fé na misericordia, na salvação e nas
-promessas de Deus.</p>
-
-<p class="tb"><b>A doutrina reformada da Escriptura, em contraste com a medieval.</b>—A
-doutrina reformada da Escriptura é muitas vezes apresentada
-sob uma fórma que não a põe em immediata connexão com
-o impulso preponderante no movimento da Reforma. Os reformadores
-deram mais credito á Biblia, o livro infallivel, do que
-á palavra de uma Egreja fallivel. Na Edade Media os homens
-appellavam para a Egreja em ultima instancia, e acceitavam as
-decisões dos papas e dos concilios como constituindo a ultima
-palavra em todas as controversias sobre a doutrina e a moral;
-os reformadores substituiram a Egreja, isto é, as decisões dos
-concilios e dos papas, pela Biblia, e ensinaram que era para
-ella que se devia appellar em ultima instancia. Este modo de
-expôr a differença entre os reformadores e os seus antagonistas
-teve uma expressão mais concisa no dito de Chillingworth, famoso
-theologo inglez, de que a Biblia, e só a Biblia, é a religião
-dos protestantes.</p>
-
-<p>Tudo isto é verdade, e, comtudo, não é a inteira verdade, podendo,
-portanto, dar logar a uma noção erronea. Os catholicos
-romanos e os protestantes não dão o mesmo sentido á palavra
-Biblia, e essa differença de sentido traz á luz uma verdade que
-é algumas vezes esquecida. Quando os catholicos romanos fallam
-da Biblia querem dizer uma coisa, e quando os protestantes
-fallam da Biblia querem dizer outra, e n’esta differença no emprego
-da palavra está uma parte importantissima da doutrina
-reformada da Escriptura.</p>
-
-<p>A Egreja medieval não se oppunha, em regra, a que o povo
-lesse a Biblia para sua edificação. Era, pelo contrario, uma maxima<span class="pagenum"><a name="Page_229" id="Page_229">[229]</a></span>
-na theologia da Edade Media que todo o systema doutrinal
-da Egreja se fundava na Palavra de Deus. Thomaz de
-Aquino, a maior auctoridade entre os theologos medievaes, diz
-expressamente, no principio da sua importante obra, A <i>summula
-da theologia</i>, que todo o circulo da doutrina christã se apoia na
-Escriptura, que é a Palavra de Deus. Durante a Edade Media
-fizeram-se continuamente traducções das Escripturas nas linguas
-dos povos da Europa; é um perfeito erro suppôr-se que as
-primeiras traducções da Biblia se fizeram durante o tempo da
-Reforma; em regra geral, animava-se o povo a ler e estudar as
-Escripturas. Nos primeiros periodos da controversia reformada,
-os arguentes catholicos romanos recorriam tanto á Biblia como
-Luthero e os que estavam do seu lado. Estava guardado para
-a Egreja Catholica posterior á Reforma o prohibir aos leigos a
-leitura da Palavra de Deus.</p>
-
-<p class="tb"><b>A doutrina medieval da Escriptura.</b>—Os theologos medievaes
-faziam, comtudo, da Biblia um uso muito differente de aquelle
-que os protestantes faziam, e na controversia protestante a
-differença de sentido não tardou em fazer-se notar. Os theologos
-da Edade Media jámais consideraram a Biblia um meio de
-graça; tinham-n’a na conta de um livro cheio de informações,
-divinas informações, ácerca da doutrina e da moral. Era para
-elles um repositorio de verdades doutrinarias e preceitos moraes,
-e mais nada.</p>
-
-<p>Os protestantes vêem n’ella um repositorio de verdades
-infalliveis, mas vêem mais alguma coisa. É um meio de graça.
-Crêem que os homens alcançam com a simples leitura da Biblia
-não só instrucção como tambem communhão com Deus, não só
-o conhecimento de Deus como tambem intimidade com Elle.
-Não se limita a apresentar verdades novas ácerca das coisas
-divinas; excita para a vida espiritual. É para o protestante
-tudo o que era para o theologo da Edade Media, e é mais alguma
-coisa. É um tão efficaz estimulo de fé e vida santa como os sacramentos,
-ou a oração ou o culto. Mediante um diligente uso
-da Biblia, os homens, na opinião dos theologos protestantes,
-não sómente adquirem o conhecimento de Deus; podem tornar-se
-participantes de aquella bemdita communhão entre Deus e o
-Seu povo de que a Biblia faz menção.</p>
-
-<p class="tb"><b>O quadruplo sentido da Escriptura.</b>—Esta noção medieval
-ácerca da Biblia—que ella é um repositorio de informações
-ácerca das doutrinas e da moral, e nada mais—encontra uma
-seria difficuldade: é que similhante descripção não parece ser
-applicavel a uma grande parte de Biblia. As Escripturas conteem
-longas listas de genealogias, capitulos que tratam quasi exclusivamente<span class="pagenum"><a name="Page_230" id="Page_230">[230]</a></span>
-dos utensilios do templo, ou são descripções da vida
-humana, ou da historia nacional. N’essas porções da Biblia, que
-constituem uma não pequena parte d’ella, não parece haver
-muita informação doutrinal ou muitas regras para uma vida
-santa, e, não obstante, são estas coisas que, segundo a definição
-medieval, compõem a Biblia toda. O theologo medieval tinha,
-portanto, ou de cortar o que lhe parecesse materia inapplicavel,
-ou inventar alguma maneira de transformar as taboas genealogicas
-em doutrinas ou preceitos moraes. Optou pela ultima d’estas
-coisas, e declarou que em todas as passagens da Biblia havia
-mais do que um sentido. A Biblia, disse elle, tinha um quadruplo
-sentido. Havia, em primeiro logar, o sentido <i>historico</i> da passagem
-lida, que era aquelle que se inferia das regras grammaticaes
-e de interpretação. Seguiam-se depois os outros tres
-sentidos: O <i>allegorico</i>, o <i>moral</i> e o <i>anagogico</i>. Estes varios sentidos
-differiam do historico, e os expositores medievaes extrahiam
-complicadas doutrinas das genealogias de Abrahão e de David,
-e regras de conducta da descripção das vestes do summo sacerdote
-ou da narrativa da viagem que nosso Senhor fez de Capernaum
-a Naim.</p>
-
-<p>É algumas vezes difficil saber qual é o verdadeiro sentido
-de certas passagens da Biblia, mesmo quando o leitor se occupa
-simplesmente da significação historica; e a difficuldade quadruplicará,
-se é verdade que cada passagem tem quatro sentidos.
-Qualquer trecho da Biblia pode significar aquillo que o leitor
-quizer, bastando para isso que o tome n’um sentido mystico, ou
-allegorico.</p>
-
-<p class="tb"><b>Definição medieval da fé salvadora. A interpretação infallivel.</b>—Emquanto
-os theologos medievaes faziam quasi perder a esperança
-de vir a saber-se ao certo o que a Biblia dizia segundo a
-sua doutrina do quadruplo sentido, uma outra theoria d’elles
-tornava de summa importancia que o crente tivesse precisas
-informações ácerca do contheudo da Biblia. Diziam que fé não
-era confiança n’uma pessoa, mas assentimento ás informações
-correctas; a fé que salva era, sustentavam elles, assentimentos
-ás proposições acerca de Deus, do universo, e da alma humana,
-contidas na Biblia. Por um lado, a sua doutrina do quadruplo
-sentido tornava quasi impossivel a qualquer pessoa o
-certificar-se do que a Escriptura ensinava; por outro, a sua definição
-de fé salvadora tornava importantissimo, tanto no que
-diz respeito a esta vida, como no que diz respeito á futura, que
-cada um tivesse noções claras e exactas do texto biblico. E assim
-a Egreja medieval era obrigada a asseverar que havia, não indicada
-por ella, uma maneira auctorizada de interpretar a Biblia,
-e isso conduziu-a á sua doutrina da infallibilidade das declarações
-dos concilios e dos papas no tocante ao ensino da Biblia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_231" id="Page_231">[231]</a></span></p>
-
-<p>É escusado dizer que, se a Biblia é por si propria de duvidosa
-interpretação, e se é essencial para a salvação que o crente
-possua uma verdadeira e correcta interpretação a que possa dar
-o seu assentimento, o que fornecer uma interpretação infallivel
-tem mais valor do que aquillo que é interpretado. E foi isso o
-que effectivamente succedeu. As decisões dos concilios e dos
-papas, e a tradicional e auctorizada interpretação da Biblia pela
-Egreja, adquiriram mais valor pratico do que a propria Biblia.
-Os homens que consultassem simplesmente a Biblia podiam cair
-no erro, e cair no erro era a morte; aquelles que confiassem na
-interpretação biblica da Egreja nunca seriam induzidos ao erro.</p>
-
-<p>Tudo isto, porém, tornava impossivel que a Biblia fosse um
-meio de communhão entre Deus e o homem. Entre a Biblia e o
-crente collocavam os theologos medievaes as opiniões dos concilios
-e dos papas, ou, n’uma palavra, a Egreja. A Egreja interceptava
-o caminho para Deus mediante a Sua Palavra interpondo-se
-ella propria e a sua auctorizada interpretação entre o
-crente e a Biblia.</p>
-
-<p>Os reformadores, anhelando pela communhão com Deus, e
-sabendo por aquillo que o seu espirito havia experimentado que
-era possivel têl-a mediante a simples leitura da Biblia, compenetraram-se
-do dever de deitar abaixo essa barreira, e assim o
-fizeram. Essa barreira, porém, não podia ser derrubada simplesmente
-com o dizer-se que a Biblia, e não as tradições da Egreja,
-é que era a guia infallivel. A Biblia como os catholicos romanos
-a entendiam, essa Biblia que expunha apenas preceitos de doutrina
-e de moral, e cujas passagens tinham quatro sentidos, era
-simplesmente um livro embaraçoso. Os reformadores tinham
-de mostrar a Biblia atravez de outro prisma para que podessem
-dizer que era infallivel e que era o arbitro supremo em todas as
-controversias.</p>
-
-<p class="tb"><b>Os reformadores e a Biblia.</b>—Deram á Biblia a significação
-que ella realmente tinha. Deus havia-lhes fallado por meio d’ella.
-O Deus pessoal, que os creara e que os remira, havia-lhes fallado
-nas paginas da Biblia, e tornara-os scientes do Seu poder
-e da Sua vontade de salvar. A linguagem era algumas vezes
-obscura, mas encontraram outras passagens mais claras, e os
-pontos faceis explicaram-lhes os difficeis. Podia ser que os homens
-simples não a comprehendessem toda, não soubessem ligar todas
-as suas asserções de modo a constituir um encadeado systema
-de theologia; mas toda a gente, fosse ou não fosse theologa,
-podia ouvir a voz de seu Pae, inteirar-se do proposito do seu
-Redemptor e ter fé nas promessas do seu Senhor. Seria uma boa
-idéa fazer uma selecção de textos e formar o systema de theologia
-protestante que tornasse as coisas mais comprehensiveis;
-mas o essencial era ouvir o Deus pessoal e obedecer-Lhe; era<span class="pagenum"><a name="Page_232" id="Page_232">[232]</a></span>
-Elle fallar-lhes como em todos os seculos fallou ao Seu povo,
-promettendo-lhes a salvação, ora directamente, ora mediante a
-narrativa do Seu procedimento com o povo escolhido ou com
-homens excepcionalmente favorecidos. Detalhe algum de vida,
-nacional ou individual, era inutil; pois que ajudava a completar
-o quadro da communhão entre Deus e o Seu povo de outr’ora,
-esse povo que havia de reviver n’elles e perpetuar assim o grato
-sentimento de communhão com o Deus da alliança, bastando
-para isso que tivessem a mesma fé dos santos do Antigo e Novo
-Testamentos.</p>
-
-<p>Animados, como estavam, d’estas idéas, a Biblia não podia
-ser para elles o que era para os theologos medievaes. Deixava
-de existir o quadruplo sentido. A Biblia era Deus fallando com
-elles, um Pae fallando com Seus filhos, do mesmo modo que um
-homem falla com os seus similhantes; e ficava subsistindo apenas
-o sentido manifesto, o sentido historico. Era mais do que
-um repositorio de doutrinas e de regras de moral; era, acima
-de tudo, uma memoria e uma descripção da bemdita communhão
-que os santos haviam tido com o Deus dos pactos desde a primeira
-revelação da promessa. A fé era mais do que um frio
-assentimento ás verdades concernentes á doutrina e á moral;
-era uma confiança pessoal no Salvador pessoal que Se lhes dirigia
-por meio da Biblia.</p>
-
-<p>Deram-se, por conseguinte, pressa em traduzir a Biblia em
-todas as linguas, e collocar a Biblia nas mãos de todos, e declararam
-que um homem que possuisse a Biblia, isto é, que ouvisse
-a voz de Deus, estava mais ao facto do caminho da salvação do
-que os concilios e os papas sem ella.</p>
-
-<p>A sua doutrina, que era fructo de tudo aquillo que elles
-haviam espiritualmente experimentado, inculcava que o anhelo
-pela communhão com Deus era satisfeito mediante a leitura e
-prégação da Palavra de Deus. A Biblia porporcionava aos homens
-o encontrarem-se na presença de Deus e ouvirem as Suas
-palavras de conforto.</p>
-
-<p class="tb"><b>A doutrina reformada da justificação, em contraste com a medieval.</b>—O
-segundo grande principio da theologia da Reforma é, por
-consenso universal, a doutrina da justificação pela fé sómente.
-Pode-se tambem pôl-a em directa connexão com o principio fundamental
-da Reforma, o sacerdocio de todos os crentes, ou o direito
-de accesso, promettido na Palavra de Deus, á Sua presença.</p>
-
-<p>Ao contrastar a doutrina reformada com a medieval no
-tocante á justificação, occorre a mesma difficuldade com que
-já deparámos no contraste entre as duas doutrinas ácerca da
-Escriptura. Diz-se vulgarmente que os reformadores apregoaram
-uma justificação pela fé sómente, ao passo que os seus antagonistas
-apregoaram uma justificação pelas obras; mas, posto<span class="pagenum"><a name="Page_233" id="Page_233">[233]</a></span>
-que isto seja perfeitamente verdadeiro, devemos lembrar-nos de
-que a palavra «justificação» é usada em dois sentidos distinctos
-pelos dois disputantes.</p>
-
-<p>Para os theologos medievaes, <i>justificar</i> significa tornar justo;
-para os reformadores significa declarar justo. Para aquelles é
-uma operação que se faz durante um certo tempo; para estes é
-um acto momentaneo, é um acto da livre graça de Deus, pelo
-qual Elle perdoa todos os nossos peccados e nos acceita como
-justos a Seus olhos. Para aquelles é uma obra de purificação do
-peccado, uma obra de santidade; para estes é a formação de um
-juizo, ou, como os theologicos dizem, um acto <i>forense</i>. Os reformadores
-viram que os theologos medievaes empregavam a palavra
-justificação no sentido mencionado, e trataram de apresentar
-a sua outra significação. E justificaram esse seu procedimento
-dizendo que o sentido que deram ao termo é o que o
-Novo Testamento lhe dá, pois que o emprega na accepção de
-acto, de sentença, de juizo, e nunca na de obra.</p>
-
-<p>O primeiro contraste não é, portanto, entre a justificação
-medieval e a doutrina da Reforma, mas entre a doutrina reformada
-da justificação pela fé e a que lhe corresponde na Egreja
-medieval. Justificação, na theologia reformada, quer dizer o
-acto de perdoar e de acceitar como justo; corresponde a essa
-doutrina, na egreja medieval, a da absolvição dada pelos padres,
-pois que era o unico modo como poderia ser concedido o perdão
-dos peccados.</p>
-
-<p class="tb"><b>A absolvição clerical e a justificação pela fé.</b>—Segundo a theologia
-da Edade Media, o perdão divino do peccado tinha sempre
-de ser proferido por um sacerdote. Quando o penitente se confessasse
-e se mostrasse arrependido, tanto por palavras como
-por actos, o padre tinha auctorização para pronunciar a sentença
-absolutoria, e essa sentença era acceite como sendo proferida
-pelo proprio Deus, pois que o clero era o orgão mediante
-o qual, e sómente mediante o qual, Deus perdoava.</p>
-
-<p>Luthero e os outros reformadores viram que o padre que
-se suppunha occupar o logar de Deus e fallar em nome de Deus
-commettia acções impias, e a consciencia disse-lhes que, em
-vista de similhante facto, o perdão do padre não podia ser o
-perdão de Deus. Luthero viu que um homem, munido de um
-certificado de indulgencias, ia ter com um padre e recebia perdão
-sem mostrar arrependimento quer por palavras quer por
-obras, sem que, apparentemente, sentisse tristeza alguma no
-seu coração. Viu que os padres pretendiam ser a trombeta de
-Deus, e que concediam perdão em certos casos em que elle seria
-negado por um Deus justo e santo.</p>
-
-<p>Luthero e os seus amigos tinham presenciado ou ouvido
-fallar de casos em que o perdão de Deus havia sido recusado<span class="pagenum"><a name="Page_234" id="Page_234">[234]</a></span>
-quando um Deus misericordioso o teria concedido. Uma successão
-de papas havia castigado a cidade de Strasburgo com uma
-interdicção pelo facto de ella ter tomado uma attitude na politica
-allemã que não era do agrado da côrte pontificia, e durante todo
-esse tempo não podia ser proferida uma palavra de perdão a
-qualquer peccador contricto e arrependido. Os padres perdoavam
-quando Deus não perdoava, e recusavam perdoar quando
-Deus estava prompto a conceder o Seu perdão.</p>
-
-<p>Luthero, vendo isto, e sabendo como havia sido perdoado
-por confiar simplesmente nas promessas de Deus, declarou que
-o peccador pode ir ter directamente com Deus, pezaroso por
-haver peccado e cheio de confiança nas promessas de Deus, e
-obter d’Este o perdão. Asseverou que a não ser que se alcance
-primeiramente o perdão de Deus, o do padre não tem valor
-algum, e que, depois de se alcançar o perdão de Deus, o do padre
-é inutil. O perdão alcançava-se indo ter com Deus, e não
-indo ter com o padre e ouvindo d’elle a absolvição. A doutrina
-protestante da justificação mostra o direito de accesso a Deus
-para Lhe rogar perdão, e declara que padre algum está auctorizado
-a interpôr-se entre Deus e o peccador arrependido. Deitou
-por terra a doutrina medieval de que o perdão divino só pode
-ser alcançado mediante a absolvição clerical, e de que o peccador
-arrependido não se deve prostrar aos pés de Deus mas
-deante do confissionario.</p>
-
-<p class="tb"><b>Justificação pela fé e justificação pelas obras.</b>—Segundo a theoria
-medieval, antes de o perdão ser obtido pela fórma ordinaria,
-mediante a absolvição sacerdotal, era indispensavel confessar
-os peccados, mostrar contricção e fazer penitencia. Na confissão
-o peccador deve mencionar ao padre todos os peccados que
-commetteu desde a ultima vez que se confessou, e n’este catalogo
-de peccados não se deve faltar a um só pormenor. Peccado
-algum pode ser perdoado sem que se tenha feito menção d’elle.
-A confissão deve ser mecanicamente completa. Em seguida á
-confissão vem a contricção, ou a dôr por haver offendido a Deus,
-e esta, segundo a doutrina medieval, deve manifestar-se de
-certos modos esteriotypados que a Egreja tem sanccionado.
-Depois, e só depois, é que é possivel a absolvição, quer dizer, o
-perdão.</p>
-
-<p>A Egreja da Edade Media collocava duas coisas entre o
-peccador e o perdão divino proferido pelo sacerdote: uma completa
-confissão, mecanicamente feita, em se que fizesse menção
-de todos os peccados cujo perdão se desejava, e uma contricção
-manifestada de certos modos estabelecidos, taes como a recitação
-de um grande numero de orações, a abstenção da comida,
-etc., e a absolvição dependia da automatica integridade da confissão
-e da contricção.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_235" id="Page_235">[235]</a></span></p>
-
-<p>Os reformadores tinham a convicção de que o peccado era
-uma coisa séria de mais para que o seu perdão dependesse de
-uma completa confissão, e de uma contricção exteriormente manifestada.
-Deus perdoava por amor de Christo, não em virtude
-de uma completa confissão ou de uma perfeita contricção. Declararam,
-por consequencia, que, posto que o peccador deva
-confessar os seus peccados, e esforçar-se seriamente por se
-conservar no caminho da obediencia, o perdão depende da soberana
-graça de Deus, revelada em Christo.</p>
-
-<p>Tornou-se-lhes evidente a necessidade de derrubar os obstaculos
-que a Egreja medieval havia erguido entre Deus e o
-homem, e que eram constituidos pela confissão mecanica, e
-pela contricção, ou penitencia. O arrependimento sincero, o arrependimento
-do coração, é que era de grande importancia, porque
-abrangia confissão, contricção e confiança; e Deus, á vista
-d’estas coisas, perdoava por amor de Christo.</p>
-
-<p>Justificação pela fé, portanto, significa que o peccador contricto
-pode dirigir-se immediatamente a Deus, confiando na
-consummada obra de Christo, e alcançar o perdão sem a intervenção
-de padres ou de uma serie de rotineiras ceremonias.
-Deus perdoa em attenção áquillo que Christo fez, não em attenção
-áquillo que nós possamos fazer; e, desde que o perdão se
-alcança mediante a obra de Christo, e não pelo nossos esforços,
-pode ser, e é, dado no principio da carreira christã, não sendo
-necessario esperar penosamente por elle até ao fim, como uma
-doutrina de justificação pelas obras implicaria.</p>
-
-<p>A doutrina da justificação pela fé, segunda columna da theologia
-reformada, provém de aquelle anhelo pela approximação
-de Deus, ponto de apoio da Reforma. Significa que o peccador
-que se sente arrependido, e tem confiança nas promessas de
-Deus, pode ir immediatamente implorar-Lhe o perdão e obtel-o
-sem interferencias clericaes e sem o cumprimento de praticas
-mecanicas.</p>
-
-<p class="tb"><b>Conclusão.</b>—A Reforma, que foi uma grande revivificação
-da religião, tendo por base principal o anhelo pela presença de
-Deus, a Quem só era possivel chegar-se mediante o arrependimento
-e a confissão, acompanhados de plena confiança nas Suas
-promessas, aconselhava, pois, os crentes a terem communhão
-com Elle por intermedio da Biblia, e a rogarem o perdão prostrados
-junto do escabello de Seus pés, e derrubou as barreiras
-que foram erguidas pela Egreja politica da Edade Media em frente
-da livre e soberana graça de Deus. A nova espiritualidade que
-animava os reformadores e os seus adherentes tinha, alimentada
-pela Palavra de Deus, e ensinada pelo Seu Espirito, desabrochado
-por todos os lados, dando logar a uma theologia reformada,
-onde a doutrina da predestinação substituiu a theoria da<span class="pagenum"><a name="Page_236" id="Page_236">[236]</a></span>
-communhão com Deus por intervenção do papa e dos seus bispos
-onde a theoria dos sacramentos foi purificada pela doutrina
-do Espirito Santo, onde as Escripturas arbitravam em todas as
-controversias, e onde o perdão era proferido por Deus, e não
-pelo homem; e em todas as suas ramificações se encontra como
-idéa predominante o sacerdocio espiritual conferido por Deus
-a todos os crentes.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_237" id="Page_237">[237]</a></span></p>
-
-<h2 id="SUMMARIO_CHRONOLOGICO">SUMMARIO CHRONOLOGICO</h2>
-
-<p><span class="pagenum-left"><a name="Page_238" id="Page_238">[238]</a></span></p>
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_239" id="Page_239">[239]</a></span></p>
-
-<table summary="Summario chronologico" class="big">
- <tr>
- <th>Acontecimentos contemporaneos</th>
- <th>Egreja Lutherana</th>
- <th>Egreja Reformada</th>
- <th>Movimentos Revolucionarios</th>
- <th>A Egreja Catholica Romana</th>
- <th>Theologia Protestante</th>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1493-1515.—Jan. 12, Maximiliano <span
- class="smcapuc">I</span>. Imperador. Por sua morte ficou como
- vice-rei Frederico, o Sabio, da Saxonia (1480-1525).</p>
-
- <p class="hanging">1499-1535.—O eleitor Joaquim <span
- class="smcapuc">I</span> (Nestor) de Brandenburgo.</p>
-
- <p class="hanging">1500-1539.—O duque Jorge da Saxonia.</p>
-
- <p class="hanging">1509-1547.—Henrique <span
- class="smcapuc">VIII</span> de Inglaterra.</p>
-
- <p class="hanging">1515-1547.—Francisco <span
- class="smcapuc">I</span> de França.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1517.—Out. 31. <span class="smcap">Martinho
- Luthero</span> (nascido em 10 de Nov. de 1483, em Eisleben;
- 1497, estudando latim em Magdeburgo; 1499, em Eisenach (Frau
- Cotta, f. em 1511); 1501, em Erfurt; 1505, mestre de artes;
- 17 de Julho, entrou para o convento doa agostinhos, em
- Erfurt; 1508, professor em Wittenberg; 1510, em Roma; 19 de
- Out. de 1562, doutor em theologia) pregou 95 theses contra o
- abuso das indulgencias na egreja do castello de Wittenberg.
- Contra-theses de João Tetzel, compostas por Conrado
- Wimpina.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging"><span class="smcap">Ulrico
- Zwinglio</span>: nascido em 1 de Jan. de 1484, em Wildhaus,
- no condado de Toggenburgo; discipulo de Henrique Wolflin
- (Lupulus) em Berne; de Thomaz Wyttenbach, em Basiléa. 1499,
- discipulo de Joaquim Vadianus em Vienna; 1506, mestre de
- artes; 1506-16, pastor em Glarus; 1516-18, prégador em Santa
- Maria, Einsiedeln.</p>
-
- <p>(Diebold de Geroldseck e o abbade Conrado de
- Rechenberg).</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">11 de Março de 1513 a 1 de Dez. de
- 1521.—Leão <span class="smcapuc">X</span>.</p>
-
- <p class="hanging">1517.—O Concilio de Latrão concede ao papa
- os dizimos de todos os bens ecclesiasticos.</p>
-
- <p>Indulgencia (a quinta entre 1500 e 1517) para a
- construcção de S. Pedro, e para as despezas particulares do
- papa.</p>
-
- <p>São concedidas á Allemanha tres commissões de
- indulgencias, uma d’ellas arrendada ao arcebispo de Mayença
- (canonisado em 1514) sendo seu agente o dominicano João
- Tetzel (fallecido em 1519).</p>
-
- <p>Thomaz Vio de Gaeta (Cardeal Caetano): «A Egreja Catholica
- é a escrava do papa»; assevera a infallibilidade papal no
- mais amplo sentido.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging"><span class="smcap">Filippe
- Melanchthon</span> (nasc. em 16 de Fev. de 1497, em Bretten);
- 1509-12, em Heidelberg; 1512-14, em Tübingen; 1514, mestre
- de artes; 1514-18, lecciona em Tübingen; 1518, professor de
- grego em Wittenberg; 29 de Ago. Conferencia introductora,
- <i>De corrigendis adolescentiæ studiis</i>; 19 de Set. de 1519.
- Bacharel em Theologia; fall. em 19 de Abr. de 1560. <b>Loci
- communes rerum Theologicarum, seu hypotyposes Theologicæ</b>,
- 1521; tres edições em 1521; a edição de 1525 modifica a
- predestinação absoluta; a edição de 1535 reconstrue a sua
- theologia; edição de 1543, Synergismo.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1518-1567.—Filippe, o Magnanimo, de Hesse.
- (Nasc. em 1504).</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1518.—Silvestre Mazzolini de Prierio:
- <i>Dialogos in proesumptuosas M. L. Conclusiones de potestate
- Papae; Resp. ad Silv. Prier.</i>, de Luthero.</p>
-
- <p>26 Abril, Luthero na Polemica do Heidelberg.</p>
-
- <p>Ago.: Citado para comparecer em Roma.</p>
-
- <p>25 Ago.: Melanchthon em Wittenberg.</p>
-
- <p>13-15 de Out.: Luthero em Augsburgo, perante o cardeal
- Thomaz Vio de Gaeta: sua appellação <i>a papa male informato ad
- melius informandum</i>.</p>
-
- <p>Nov.: <i>O sacramento da Penitencia</i>, de Luthero.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1518.—Zwinglio contra a indulgencia
- prégada por Bernardino Sampson (Guardião do convento
- franciscano de Milão.)</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">1519.—Junho, <i>Carlos V, (Rei de Hespanha
- desde 1516)</i>—27 de Agosto de 1556, <i>Imperador da Allemanha
- (fall. em 1558)</i>.</p>
-
- <p class="hanging">1519-1566.—O sultão Suliman <span
- class="smcapuc">I</span>.</p>
-
- <p class="hanging">1519-1521.—Fernando Cortez descobre e
- conquista o Mexico.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">1519.—Jan.: Entrevista de Luthero com
- Carlos de Miltitz, camarista do papa, em Altenburgo;
- Treguas.</p>
-
- <p>27 de Jun. a 16 de Jul.: Polemica em <span
- class="smcap">Leipsic</span>: (i) entre Eck e Carlstadt,
- sobre a doutrina do Livre Arbitrio; (ii) entre Eck e Luthero,
- <i>De primeto Papae</i>.</p>
-
- <p>A controversia já não é sobre pontos de theologia
- ecclesiastica; abrange toda a roda dos principios
- ecclesiasticos. Ruptura com a christandade romana.</p>
-
- <p>A doutrina do sacerdocio de todos os crentes.</p>
-
- <p>A liberdade christã e o direito do juizo particular.</p>
-
- <p>Sermões de Luthero sobre os sacramentos do arrependimento
- e do baptismo, e sobre a excommunhão.</p>
-
- <p>Pedido para que na Ceia do Senhor se fizesse uso dos dois
- elementos.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">1519.—1 de Jan., Zwinglio prega o seu
- primeiro sermão em Zurich; sermões sobre o Evangelho da
- S. Matheus, os Actos e as Epistolas de Paulo; sermões
- reformistas, expondo uma clara distincção entre o
- christianismo biblico e o romanista; Estudo humanista da
- Escriptura (Epistolas Paulinas).</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1519.—As côrtes de Aragão pedem
- tres Breves a Leão <span class="smcapuc">X</span> (que
- nunca lhe foram enviadas) para restringir a Inquisição.
- Pedidos similhantes, tambem infructiferos, feitos pelos
- estados de Aragão, Castella e Catalunha, a Carlos <span
- class="smcapuc">V</span> em 1516.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging"><span class="smcap">Zwinglio</span>:
- <i>Commentarius de vera et falsa religione</i>, 1525; <i>Fidei
- ratio ad Carolun Imperatorem</i>, 3 de Jul. de 1530; <i>Sermonis
- de providentia Dei Anamnemo</i>; 1530; <i>Christianæ Fidei
- expositio</i>, 1531.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="center"><i>Os Mysticos</i></p>
-
- <p class="hanging">A Nova Prophecia, o Espiritualismo, o
- Millenearismo, uma Congregação dos perfeitamente santos,
- opposição ao baptismo de creanças.</p>
-
- <p>Primeiro periodo até 1535.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="center"><i>Os theologos romanistas no primeiro
- periodo da Reforma.</i></p>
-
- <p class="hanging">João Eck, professor de theologia em
- Ingolstadt desde 1510; nasc. em 1486, na aldeia de Eck; fall.
- em 1543.</p>
-
- <p class="hanging">Jeronymo Emser, prégador palaciano do
- duque Jorge da Saxonia, fall. em 1527.</p>
-
- <p class="hanging">João Cochlæus (Dobeneck), deão de
- Francfort sobre o Maine, Canonicus em Mayença e Breslau;
- fall. em 1552; <i>Commentaria de actis et scriptis M. Lutheri</i>
- (1517-46), 1549, <i>Historiæ Hussitarum</i>.</p>
-
- <p class="hanging">João Faber, 1518, Vigario Geral em
- Constancia (Costnitz); 1529, Preboste de Ofen; 1530, Bispo de
- Vienna, fall. em 1561; 1523, <i>Malleus hæreticorum</i>.</p>
- </td>
- <td rowspan="3">
- <p class="center">(a) <i>Theologos Lutheranos</i></p>
-
- <p class="hanging">Jorge Spalatim: nasc. em 1484, em Spalt,
- na diocese de Eichstädt; 1514, capellão de Frederico, o
- Sabio; 1525, superintendente em Altenburgo; fall. em 1545.</p>
-
- <p class="hanging">Justo Jonas: nasc. em 1493, em Nordhausen;
- 1521, Preboste e professor em Wittenberg; 1544-46, em Halle;
- 1551, superintendente em Eisfeld; fall, em 1555.</p>
-
- <p class="hanging">Nicolau de Amsdorf: nasc. em 1483; desde
- 1502, em Wittenberg; 1524, em Magdeburgo; 1528, em Goslar;
- 1542-46, bispo de Naumburgo; depois de 1550, em Eisenach;
- fall. em 1565.</p>
-
- <p class="hanging">João Bugenhagen: nasc. em 1485; desde
- 1521, em Wittenberg; 1523, pastor, 1536, superintendente
- geral.</p>
-
- <p class="hanging">Gaspar Cruciger: 1528-48, fallecendo, em
- professor, em Wittenberg.</p>
-
- <p class="hanging">Frederico Myconius, franciscano em
- Annaberg, e depois pastor em Weimar; 1524, prégador da côrte
- em Gotha; fall. em 1546.</p>
-
- <p class="hanging">Paulo Speratus: 1521, em Vienna, depois em
- Iglau; 1523, em Wittenberg (1524, «Chegou-nos a Salvação»):
- 1524, em Königsberg; 1529-51, bispo da Pomerania, em
- Marienwerder.</p>
-
- <p class="hanging">João Brenz, nasc. em 1499: 1520, prégador
- romanista em Heidelberg, 1522-46, prégador lutherano em Hall,
- na Suabia; desde 1553, preboste em Stuttgart; fall. em 11 de
- Setem. de 1570.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <span class="pagenum-left"><a name="Page_240" id="Page_240">[240]</a></span>
- <span class="pagenum"><a name="Page_241" id="Page_241">[241]</a></span>
- <p class="hanging">1520.—Magalhães faz uma viagem de
- circumnavegação.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1520.—Abril: Ulrico v. Hutten (n. em 21 de
- Abr. de 1488, f. em 29 de Ago. de 1523); Dialogo: Vadiscus,
- ou a Trindade Romana; 15 de Jun., Bulla de excommunhão
- contra 41 proposições de Luthero; o prazo de 60 dias para
- retractação; 23 de Jun., a obra de Luthero, «Aos fidalgos
- christãos da nação allemã, Sobre a reforma de um Estado
- christão»; Out. <i>De Captivitate Eccles. Babylonic.</i>; <i>De
- libertate Christiana</i> (sobre a libertação do christão); 10 de
- Dez.; A queima da bulla pontificia.</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1521.—Os Prophetas (de Zwickau) em
- Wittenberg: Nicolau Storch, Marcos Thomé, ou Stübner,
- Martinho Celiarius.</p>
-
- <p class="hanging">André Bodenstein de Carlstadt: 1504,
- professor em Wittenberg; 1520, em Copenhague, 1522,
- tumultos por causa das imagens e dos paramentos; 1523-24,
- em Orlamünde; excommungado depois no sul da Allemanha, na
- Frisilandia Oriental, na Suissa; fallecido em 1541, em
- Basiléa.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1521-26.—Primeira guerra entre
- Carlos <span class="smcapuc">V</span> e Francisco <span
- class="smcapuc">I</span>.</p>
-
- <p class="hanging">1525.—Batalha de Pavia.</p>
-
- <p class="hanging">1526.—Paz de Madrid.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1520.—17 e 18 de Abr., <b>Luthero na Dieta
- de Worms</b>; 26 de Abr., retira-se de Worms; Março 3 a Maio
- 4 de 1522, em Wartburgo (Em Dez. principio a traducção do
- N. T.)—Tratados: <i>Sobre a Penitencia</i>, <i>Contra as missas
- particulares</i>, <i>Contra os votos clericaes e monacaes</i>, <i>O
- commentador allemão</i>.</p>
-
- <p>26 de Maio, Edicto de Worms, falsamente datado do 8 de
- Maio.</p>
-
- <p>28 do Maio, Decreto Imperial contra Luthero.</p>
-
- <p>Junho: Carlstadt contra o celíbato.</p>
-
- <p>Out.: É abolida a missa em Wittenberg, pelos frades
- agostinhos (Gabriel Didymus).</p>
-
- <p>Dez. As innovações de Carlstadt.</p>
-
- <p>25 de Dez.: A Ceia do Senhor nas duas especies.</p>
-
- <p>27 de Dez.: Os prophetas em Wittenberg.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging"><span class="smcap">Em França</span>,
- propaganda das doutrinas reformadas por Guilherme Briçonnet,
- bispo de Meaux desde 1521. Juntamente com Le Fébre e
- Farel.</p>
-
- <p class="hanging">1521.—Cornelio Hoën, jurisconsulto
- allemão, escreve <i>De Eucharistia</i> (a Ceia do Senhor puramente
- symbolica); a doutrina é introduzida em Wittenberg e em
- Zurich por João Rhodius, presidente da Casa dos Irmãos, em
- Utrecht.</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1521.—Henrique <span
- class="smcapuc">VIII</span> de Inglaterra: <i>Assertatio VII.
- Sacramentorum contra Lutherum</i> (Defensor da Fé.)</p>
-
- <p>15 de Abril, Decreto da Sorbonne, condemnando as doutrinas
- de Luthero.</p>
-
- <p>8 de Maio, Edito de Carlos <span class="smcapuc">V</span>.
- (fundado no edito de Worms) contra a propaganda das doutrinas
- reformadas nos Paizes Baixos.</p>
-
- <p>(1522, é encerrado, sobre o fundamento de heresia, o
- convento dos Agostinhos de Antuerpia).</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1522.—Fev.: Tumultos em Wittenberg contra
- as imagens e as pinturas.</p>
-
- <p>7 de Maio: Luthero novamente em Wittenberg.</p>
-
- <p>9-16 de Maio: Sermões contra o fanatismo.</p>
-
- <p>Julho: <i>Contra Henricum regem Angliæ.</i></p>
-
- <p>Set.: Fica prompta a traducçao do N. T. (a Biblia completa
- em 1534).</p>
-
- <p>Dez.: Dieta em Nürnberg. Os Cem aggravos dos estadas
- allemães, em resposta ao Breve de Adriano <span
- class="smcapuc">VI</span>, de 26 de Nov.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1522.—16 de Abr. Zwinglio: <i>Von Erkiesen
- und Fryheit der Spysen</i>; Ago.: <i>Apologeticus Archeteles</i>, ao
- bispo de Constança.</p>
-
- <p>A theologia zwingliana torna-se gradualmente a mais forte
- nos Paizes Baixos.</p>
-
- <p class="hanging">1522-23.—A Reforma vence na Pomerania,
- na Livonia, na Silesia, na Prussia, no Mecklenburgo; na
- Frisilandia Oriental desde 1519; 1523, em Frankfort sobre
- o Maine, em Hall, na Suabia; 1524, Ulm, Strasburg, Bremen,
- Nürnberg.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1523.—Conrado Grebel, Felix Manz, e
- Stumpf. em Zurich, contra Zwinglio.</p>
-
- <p class="hanging">1524.—Alterações da ordem em Stockholmo;
- Melchior Hoffmann.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1522-23.—14 de Set. O papa Adriano
- <span class="smcapuc">VI</span> (tutor de Carlos <span
- class="smcapuc">V</span>, bispo de Utrecht) instruido na
- sciencia antiga; aspiração por uma reforma do clero mediante
- a hierarquia.</p>
-
- <p>Em Hespanha, desde 1520 circulação dos escriptos de
- Luthero, em traducções hespanholas feitas em Antuerpia.</p>
-
- <p class="hanging">1523.—João de Avila o «apostolo de
- Andaluzia», é perseguido por ter adoptado as doutrinas
- lutheranas.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="center">(<i>b</i>) <i>Os Theologos Zwinglianos</i></p>
-
- <p class="hanging">João Œcolampadius, nasc. em 1488; 1515,
- pastor em Basiléa; 1519, em Augsburgo; 1522 professor e
- prégador em Basiléa; fall. em 24 de Nov. de 1531.</p>
-
- <p class="hanging">Leão Judæus: 1523, cura de S. Pedro, em
- Zurich; nasc. em 1482; fall. em 1542.</p>
-
- <p class="hanging">Oswaldo Myconius (Geisshüsler) nasc. em
- 1483, em Lucerna; fall. em 1532; 14 de Out. de 1552, os
- Antistites em Basiléa.</p>
-
- <p class="hanging">Conrado Pellican (Kürsner): nasc. em
- 1478; 1493, franciscano; desde 1502, Lector no convento dos
- Franciscanos de Basiléa; 1527, em Zurich, como professor de
- hebreu; fall. em 1556.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <span class="pagenum-left"><a name="Page_242" id="Page_242">[242]</a></span>
- <span class="pagenum"><a name="Page_243" id="Page_243">[243]</a></span>
-
- <p class="hanging">1523-33.—Frederico <span
- class="smcapuc">I</span> da Dinamarca.</p>
-
- <p class="hanging">1523-60.—Gustavo Vasa, da Suecia.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1523.—1 de Jul., Henrique Voes e João
- Esch (agostinhos) são queimados em Bruxellas; os primeiros
- martyres.</p>
-
- <p>Gustavo Vasa estabelece a Reforma na Suecia (Olaf e
- Lourenço Petersen, Lourenço Andersen).</p>
-
- <p>7 de Maio, assassinio de Sickingen; revolta dos nobres,
- suffocada pelos principes.</p>
-
- <p>Luthero: <b>Da Ordem do Culto Publico</b>: Dec.: <i>Formula
- Missæ</i> (A Ceia do Senhor <i>sub utraque</i>).</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1523.—29 de Jan. Discussão em Zurich,
- entre Zwinglio e João Faber, vigario geral do bispo; as 67
- theses de Zwinglio.</p>
-
- <p>26 de Out., Discussão em Zurich ácerca do culto das
- imagens e da missa.</p>
-
- <p>17 de Nov., Instrucção do Concilio de Zurich aos pastores
- e prégadores.</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1523-34.—26 de Set. O papa Clemente <span
- class="smcapuc">VII</span> (Julio Medici) filho natural de
- Julião de Medico.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1524.—<i>O primeiro hymnario allemão.</i></p>
-
- <p>Maio a Jun. de 1525, <span class="smcap">A guerra
- dos Camponezes</span>; os camponezes são massacrados em
- Frankenhausen. (Os doze Artigos de João Henglin).</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1524.—Perfeita reforma esclesiastica em
- Zurich; os quadros das egrejas são arreados; os conventos dos
- frades são encerrados.</p>
-
- <p>Victoria da Reforma em Berne (Berchtholdt Haller. Nic.
- Manuel), Appenzell, Solothurn; a Liga Romanista e os Cantões
- Florestaes de Lucerna.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">1525.—Thomaz Münzer em Mülhausen;
- executado em Maio de 1525.</p>
-
- <p>Tratado: <i>Wider das geistlose sanftlebende Fleisch ze
- Wittenberg</i>, 1522.</p>
-
- <p>Janeiro: Levantamento dos anabaptistas; Jürg Blaurock,
- monge proveniente de Chur.</p>
-
- <p>Severa perseguição dos anabaptistas (Hanz morre afogado
- em Zurich, em 1527; Balth. Hubmater é queimado em Vienna, em
- 1528; Hetzer é decapitado em Constancia em 1529).</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">1524.—O cardeal Campeggio, legado do papa
- na Dieta de Nürnberg.</p>
-
- <p>Liga, em Regensburgo, dos Estados Catholicos Romanos do
- Sul da Allemanha (Fernando de Austria, os duques da Baviera
- e os bispos do sul da Allemanha) Condições: Uma reforma
- ecclesiastica dentro de certo limites, e uma alliança com o
- poder civil; não se permitindo, porém, que continuem a ser
- prégadas as novas doutrinas.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="center">(c) <i>Theologos intermediarios</i></p>
-
- <p class="hanging">Urbano Rhegius: nasc. em 1496, em Argau
- sobre o Bodensee; 1512, professor em Ingolstadt; 1519, padre
- em Constança; 1520-22, prégador em Augsburgo; desde 1530,
- reformador em Brunswick, ao serviço do duque Ernesto; fall.
- em Celle, em 23 de Maio de 1541.</p>
-
- <p class="hanging">Ambrosio Blaurer: nasc. em 1492, em
- Constança; 1534-38, reformador em Würtemberg; até 1548, em
- Constança; em 1564, fall. em Winterthum (1534, <i>Concordata de
- Stuttgart</i>.)</p>
-
- <p class="hanging">Martinho Bucer: nasc. em Sehlettstadt, em
- 1491; 1505, dominicano; desde 1524, pastor em Strasburgo;
- 1549, sob Eduardo <span class="smcapuc">VI</span>, em
- Inglaterra e professor em Cambridge; fall. em 28 de Fev. de
- 1551.</p>
-
- <p class="hanging">Wolfango Fabricio Capito: nasc. em 1478;
- 1515, em Basiléa; 1520, em Mayença; 1523-1541, preboste de S.
- Thomaz, Strasburgo, fall. em 1541.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1525.—Alberto de Brandenburgo (fall. em
- 1568); chefe dos cavalleiros allemães; duque da Prussia, sob
- o dominio polaco.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1525.—Jan.: Luthero, <i>Contra os prophetas
- celestiaes</i>.</p>
-
- <p>Maio: Exhorta os principes e os camponezes a conservarem a
- paz, com commentarios sobre os Doze Artigos. Depois: <i>Contra
- os camponezes que roubam e assassinam</i>.</p>
-
- <p>13 de Junho, Desposa Catharina von Bora.</p>
-
- <p>Tendencia conservadora da Reforma Lutherana; separação de
- elementos reformatorios.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1525.—A missa é abolida em Zurich; o culto
- publico muito simples e na lingua allemã; a Ceia do Senhor
- <i>sub utraque</i>.</p>
-
- <p>O commentario de Zwinglio, e a primeira parte da traducção
- da Biblia de Zurich (primeira edição completa em 1531).</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1525-32.—O Eleitor João, o Constante, da
- Saxonia (irmão de Frederico, o sabio).</p>
-
- <p class="hanging">1526.—Ago. 29: Luiz, rei da Hungria e da
- Bohemia, morre em Mohacz, em combate com os turcos.</p>
-
- <p>O seu successor, Fernando de Austria (Em Out., rei eleito
- da Bohemia), tem de defender os seus direitos á Hungria, em
- detrimento dos turcos.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1525.—Dez.: Luthero, <i>De Servo Arbitrio</i>
- (a mais estricta predestinação supralapsariana) contra
- Erasmo, Διατριβὴ <i>de libero arbitrio</i>, Set. 1524.</p>
-
- <p class="hanging">1526.—Maio 4: Liga, em Torgau, entre
- Filippe de Hesse e João, o Constante, a que adheriram em
- Junho, em Magdeburgo, outros principaes evangelicos.</p>
-
- <p>Junho 26, Liga, em Dessau, de principes catholicos romanos
- do sul da Allemanha.</p>
-
- <p>Junho e Julho, Dieta em Spira «Em materias de religião
- cada Estado deve conduzir-se de uma maneira digna para com
- Deus e para com Sua Magestade Imperial.»</p>
-
- <p>Out. 20, Synodo em Homberg; Ordem ecclesiastica de Besse,
- instituida por Francisco Lambert (nasc. em 1487, em Avignon;
- Franciscano; em 1525 fugiu para a Allemanha; 1527, professor
- em Marburgo; fallec. em 1539); incondicional independencia da
- communidade christã, e estricta disciplina ecclesiastica.</p>
-
- <p class="hanging"><b>Luthero.</b>—Missa allemã; ordem do
- culto publico.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">Zwinglio expôe detalhadamente o que pensa
- ácerca da Ceia do Senhor.</p>
-
- <p>(Carlstadt torna publica, no sul da Allemanha, a sua
- theoria da Ceia de Senhor, δεικτικῶς: Este meu Corpo, é o
- Corpo, etc.)</p>
-
- <p class="hanging">Zwinglio a Matheus Alber em Reutlingen,
- 16 de Nov. de 1524, <i>Menducatio spiritualis</i>; depois no seu
- commentario.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Contra</i> Zwinglio: Bugenhagen.</p>
-
- <p><i>A favor</i> de Zwinglio: Œcolampadius.</p>
-
- <p class="hanging">O Syngramma Suevicum, 1525, (em Hall), por
- Brenz, Schrepf, Griebler, etc., e mais tarde Calvino.</p>
-
- <p class="hanging">Luthero contra Calvino—(1) no seu prefacio
- á traducção de Agricola do Syngramma Suevicum; (2) em 1527
- «Que a Palavra» etc.</p>
-
- <p class="hanging">Principios ecclesiasticos e politicos de
- Zwinglio; a sua reforma politica na Suissa; liga politica dos
- cantões florestaes catholicos romanos para conservarem a sua
- supremacia.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging"><i>Melchior Hoffmann</i>: nasc. em Hall,
- na Suabia; 1523, em Livonia; 1527, em Holstein; 1529, em
- Strasburgo; de ahi foi para a Frisilandia, onde se aggregou
- aos baptistas; depois nos Paizes Baixos; 1533, em Strasburgo;
- fall. em 1540. (<i>Ordinanz Gottes</i>): um estricto millenario do
- genero mais espiritual; propaga entre os baptistas as idéas
- millenarias.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1524.—Pedro Caraffa, bispo de Theate (Papa
- Paulo <span class="smcapuc">IV</span>) institue a Ordem dos
- Theatini para impedir o avanço da Reforma.</p>
-
- <p class="hanging">1526.—Maio 29: Liga em Cognac contra
- Carlos <span class="smcapuc">V</span> (o papa, Francisco
- <span class="smcapuc">I</span>, Veneza e Milão).</p>
- </td>
- <td rowspan="6">
- <p class="center">(d) <i>Confissões Zwinglianas</i></p>
-
- <p class="hanging">1523.—Jan. 29, os 67 Artigos de
- Zwinglio.</p>
-
- <p>Nov. 17, Instrucções ao Concilio de Zurich.</p>
-
- <p class="hanging">1530.—Julho 9, <i>Fidei Ratio ad Carolum
- V</i>. (de Zwinglio com o assentimento de Œcolampadius e outros
- reformadores suissos).</p>
-
- <p class="hanging">1530.—<i>Confessio Tetrapolitana</i>
- (Strasburgo, Constança, Lindau, Memmingem): Bucer, Capito,
- Hedio; durante as sessões da Dieta de Augsburgo.</p>
-
- <p class="hanging">1534.—<i>Confessio Basiliensio</i>
- (Myconius) acceite por Mühlhausen em 1537, e chamada Conf.
- Mühlhusiana.</p>
-
- <p class="hanging">1536.—<i>Confessio Helvetica Prior</i> (Basil
- <span class="smcapuc">II</span>) redigida em Basiléa por
- delegados dos cantões evangelicos, (Jan. a Março) e pelos
- seus theologos Bullinger, Myconius, Grynæus, Leão Judæus,
- etc.</p>
-
- <p class="hanging">1530.—<b>Confessio Augustana</b>, ou
- Confissão de Augsburgo. Constituida por—(1) os 15 Artigos
- de Marburgo; (2) os 17 Artigos de Schwabach, redigidos por
- Luthero; (3) os Artigos de Torgau, compilados por Luthero,
- Melanchthon, Justo Jonas, Bugenhagen, e apresentada ao
- Eleitor, em Torgem, em março de 1530. Obra de Melanchthon
- com a assistencia doe theologos evangelicos reunidos em
- Augsburgo, e revista por Luthero.</p>
-
- <p>Exposição da Doutrina Evangelica, «In que cerni potest,
- nihil inesse, quod discrepet a Scripturis vel ab ecclesia
- catholica vel ab ecclesia Romana, quatenus ex scriptoribus
- nota est.... Sed dissenus est de quibusdam abusibus, qui sine
- certa auotoritate in ecclesiam irrepserunt.» Philippe de
- Hesse aasignou-a, protestando, porém, contra o Artigo X, que
- trata da Ceia do Senhor.</p>
-
- <p class="hanging">É impossivel averiguar com exactidão o
- texto, quer das edições allemãs quer das latinas; a primeira
- edição impressa de Melanchthon; Wittenberg, 1530, em 4.º</p>
-
- <p class="hanging"><i>A Variata</i> (variantes, especialmente no
- Artigo X) desde 1540.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Apologia em favor da Confissão de
- Augsburgo.</i>—<i>A prima delineatio apologiæ</i> por Melanchthon, em
- Set. de 1630, em Augsburgo; prompta a imprimir em abril de
- 1531; a primeira edição em Abril de 1531; a edição allemã de
- Justo Jonas, em Out. de 1531.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Os artigos de Schmalkald</i>, por
- Luthero, para a Convenção Protestante de Schmalkald, 1557,
- e com referencia ao proposto Concilio Geral em Mantua
- (Estrictamente lutherano).</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <span class="pagenum-left"><a name="Page_244" id="Page_244">[244]</a></span>
- <span class="pagenum"><a name="Page_245" id="Page_245">[245]</a></span>
- <p class="hanging">1527.—Saque de Roma.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">Frederico <span class="smcapuc">I</span> da Dinamarca
- adhere á doutrina lutherana. (João Tausen, em Jütlandia desde
- 1524).</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1526.—Os cantões catholicos romanos atacam
- os evangelicos.</p>
-
- <p>Maio: Polemica em Baden (Eck e Œcolampadius).</p>
- </td>
- <td rowspan="3">
- <p class="hanging"><i>Gaspar Schwenkfeld</i>: nasc. em 1490, em
- Ossing, perto de Liegnitz; ao serviço do duque de Liegnitz;
- 1525, julgou ter descoberto uma interpretação das palavras
- da instituição da Ceia «Quod ipse panis fractus est corpori
- esurienti, nempe cibus, hoc est corpus menm, cibus videlicet
- esurientium animarum;» de onde proveiu a sua doutrina ácerca
- de Christo, A Palavra Escondida (<i>De cursu Verbi Dei, origine
- fidei et ratione justificationis</i>, 1527); da Pessoa de
- Christo (não feito homem, mas gerado pela natureza divina: da
- sua carne divina); 1528, expulso da Silesia; em Strasburgo,
- Spira, Ulm, Perseguido desde 1539 pelos theologos lutheranos;
- em muitas controversias; fall. em 1561, em Ulm; discipulos
- seus na Silesia; na Pennsylvania desde 1730.</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1527-29.—A segunda guerra entre
- Carlos <span class="smcapuc">V</span> e Francisco <span
- class="smcapuc">I</span>; Paz de Cambrai, em Agosto de
- 1529.</p>
-
- <p class="hanging">1527.—Henrique <span
- class="smcapuc">VIII</span> de Inglaterra procura
- divorciar-se de Catharina do Aragão (tia de Carlos <span
- class="smcapuc">V</span>); 1529, Wolsey cae no desagrado; o
- chanceller Thomaz More.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1527.—Livro de Inspecção, de Melanchthon;
- Gustavo Vasa propõe a Reforma á Dieta em Westeräs.</p>
-
- <p>Frederico <span class="smcapuc">I</span> da Dinamarca, na
- Dieta de Odensee, dá á religião reformada privilegios eguaes
- aos que a catholica romana tem.</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">1527.—Processo da Sorbonne contra Jacques
- le Fêvre (fall. em 1537, durante uma viagem para Strasburgo),
- sob a protecção de Margarida de Navarra.</p>
-
- <p class="hanging">1527.—Maio 6, Carlos de Bourbon ataca
- Roma; o papa encerrado em St. Angelo até 6 de Junho. Carlos
- <span class="smcapuc">V</span>, senhor de quasi todos os
- Estados da Egreja, propõe o limitar-se o poder temporal
- do papa. O papa appella para Inglaterra e para França; um
- exercito francez equipado á custa da Inglaterra, marcha em
- seu auxilio.</p>
-
- <p class="hanging">1528.—Jun. 29: Paz entre o Imperador e o
- papa em Barcelona; o papa recupera os Estados da Egreja e
- Florença; exterminio da heresia.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1528.—Otto <span class="smcapuc">V</span>.
- Informações dadas por Pack ácerca de uma Liga Catholica
- romana formada em Breslau, em 1527; a Reforma propaga-se na
- Noruega.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1528.—Victoria da Reforma em St. Gall
- (Joaquim Vadianus, João Kessler).</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <span class="pagenum-left"><a name="Page_246" id="Page_246">[246]</a></span>
- <span class="pagenum"><a name="Page_247" id="Page_247">[247]</a></span>
- <p class="hanging">1529.—Set. a 14 de Out.; Suliman põe cerco
- a Vienna.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1529.—26 de Fev., <b>Dieta de Spira</b>;
- 12 de Abr., a decisão da maioria catholica romana dos Eleitos
- e Principes «Quem quer que tem imposto o Edicto de Worms
- deve continuar a fazel-o; os demais não devem permittir mais
- innovações; a ninguem se deve impedir celebrar missa.» 19 de
- Abr., concordam com ella as cidades.</p>
-
- <p class="hanging"><span class="smcap">Protesto</span>: 25
- de Abr. Appello dirigido ao imperador e ao Concilio pela
- Saxonia, Hesse, Brandenburgo, Anhalt, Lüneburgo, e quatorze
- cidades.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1529.—A Reforma vence em Basiléa
- (Œcolampadius, Capito, Hedio).</p>
-
- <p>Liga de cinco cantões florestaes com a Casa de
- Hapsburgo.</p>
-
- <p>24 de Jun., Paz de Cappel; os cantões florestaes
- abandonam a Liga de Hapsburgo e reconhecem a libertade de
- consciencia.</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- <td>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- </td>
- <td colspan="2">
- <p class="hanging">Separação entre os protestantes lutheranos
- e os do sul da Allemanha; Luthero oppõe-se a uma resistencia
- armada; Zwinglio planeia a abolição do papado e do imperio
- medieval; Philippe de Hesse diligenceia promover a união.</p>
-
- <p class="hanging">1-4 de Out.—Conferencia religiosa em
- Marburgo (Luthero, Melanchthon, Zwinglio, Œcolampadius,
- Justo Jonas, Osiander, Brenz, etc.); 4 de Out., união em
- quatorze artigos, divisão no quinquagesimo—O Sacramento da
- Ceia. <i>Zwinglio</i>: «Não ha na terra homens com quem eu mais
- gostosamente me identificaria do que os de Wittenberg.»
- <i>Luthero</i>: «Vós tendes um Espirito differente do nosso.»</p>
-
- <p class="hanging">16 de Out., Luthero no convento de
- Schwabach; 30 de Nov. em Schmalkald; a Saxonia separa-se dos
- outros estados do sul da Allemanha.</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1530.—Congregações reformadas em
- <i>Hespanha</i>. Em Sevilha: Rodrigo de Valero, Joh. Egidio, Ponce
- de la Fuente. Em Valladolid, 1555, Agostinho Cazalla.</p>
-
- <p>Francisco Enzinas traduz o Novo Testamento; em 1556, nova
- traducção por João Perez.</p>
-
- <p>Filippe <span class="smcapuc">II</span> e a Inquisição
- condemnam essas obras.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1530.—<b>Dieta de Augsburgo</b>; 15 de
- Jan. entrada do imperador; infructiferas negociações com os
- principes evangelicos para os induzir a incorporar-se na
- procissão de Corpus-Christi; 20 de Jun., abertura da Dieta;
- 25 de Jun. é lida a Confissão de Augsburgo (3 de Ago., é lida
- a Refutação); 11 de Jul., é lida a Confissão Tetrapolitana
- (em 17 de Out. a Refutação) e a <i>Fidei Ratio</i>, Zwinglio; 16
- a 29 de Ago. Negociações com Melanchthon, em que elle mostra
- muito pouca firmeza.</p>
-
- <p>19 de Nov. Decreto da Dieta. Depois d’Abril de 1531,
- suppressão violenta do protestantismo.</p>
- </td>
- <td>
- <p>Os cantões catholicos romanos não observam as clausulas da
- paz.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">1533.—<i>O Reino de Christo</i> em Münster.</p>
-
- <p>Bernardo Rothmann, superintendente evangelico em Münster,
- ajunta-se aos anabaptistas; Henrique Roll e os prégadores de
- Wassenberg, provenientes de Jülich.</p>
-
- <p>No verão; Melchioritas in Münster.</p>
-
- <p>Nov.: Jan. Matthiesen.</p>
-
- <p class="hanging">1534.—Quaresma: Tumulto, destruição das
- imagens e dos conventos.</p>
-
- <p>Vespera da Pascoa: Queda de Matthiesen; João de Leyden
- colloca-se á frente dos anabaptistas (Theocracia com
- communidade de bens e de esposas).</p>
-
- <p class="hanging">1535.—Vespera de S. João: tomada de
- Münster.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging"><i>Italia.</i>—A Reforma allemã desperta a
- vida religiosa e a theologia agostinha; Contarini, Reginaldo
- Pole, Joh. de Merone, (arcebispo de Modena). <i>Pedro Paulo
- Vergerius</i> (abraçou a Reforma em 1548; fall. em 1565).</p>
-
- <p>Reforma em Ferrara (Renée casa em 1527, com Hercules <span
- class="smcapuc">II</span>); em Veneza; em Napoles (João
- Valdez, fall. em 1540; e Bernardo Ochino); em Lucca (Pedro
- Martyr).</p>
-
- <p class="hanging">1534-49.—O papa Paulo <span
- class="smcapuc">III</span> (Farnese); Vergerius, seu legado
- na Allemanha.</p>
- </td>
- <td rowspan="6">
- <p class="center"><i>Controversias na Egreja Lutherana</i></p>
-
- <p class="hanging">1548-55.—<i>Adiaphoristicos</i>: Flacius,
- Wigand, Amsdorf, contra o Interim de Leipsic.</p>
-
- <p class="hanging">1549-66.—<i>Osiander</i>: André Osiander (em
- Nürnberg, 1522-48; em Königsberg, 1549, fall. em 1552); 1550,
- <i>De Justificatione</i>; 1551, <i>De Unico Mediatore Jesu Christi</i>.
- Justificação é uma participação da justiça de Christo: <i>cujus
- natura divina homini quasi infunditur</i>.</p>
-
- <p>Em opposição; Francisco Stancarus de Mantua (1551-52 em
- Königsberg, depois em Siebenbürgen, e na Polonia; fall. em
- 1574); 1562, <i>De Trinitate et Mediatore</i>, «Christo nossa
- justiça sómente pelo que respeita á Sua natureza humana.»</p>
-
- <p class="hanging">1551-62.—Majorista: Jorge Major (fall. em
- 1574, quando professor em Wittenberg); <i>bona opera necessaria
- esse ad salutem</i>. Refutado por Amsdorf; <i>bona opera
- perniciosa esse ad salutem</i>.</p>
-
- <p class="hanging">1556-60.—Synergista: Pfeffinger, em 1555,
- <i>Propos. de libero arbitrio</i> (conforme o synergismo de
- Melanchthon): contra elle, Amsdorf (1558) <i>Confutalio</i>; e
- Flacio.</p>
-
- <p class="hanging">1560.—Discussão em Weimar, entre Flacio e
- Strigel. Flacio: o peccado original não podia deixar de ser
- commettido pelo homem. A doutrina lutherana é que prevalece.
- Heshusius: de <i>servo arbitrio</i>.</p>
-
- <p class="hanging">1527-40.—<i>Antinomiano</i>: João Agricola,
- nasc. em 1492, em Eisleben; fall. em 1562, sendo prégador na
- casa imperial, em Berlim; 1527, contra Melanchthon; e 1537,
- contra Luthero. A contriccão não vem declarada na lei, mas
- no Evangelho. Retracta-se em 1540. Desde 1556, controversia
- sobre <i>Tertius usus legis</i>.</p>
-
- <p class="hanging">1567.—<i>Crypto-Calvinista</i>: Melanchthon
- admitte as doutrinas calvinistas da Ceia do Senhor.
- Christologia e Predestinação.</p>
-
- <p>D’estas controversias conclue-se a necessidade de haver
- perfeita harmonia na Egreja Lutherana; e proveem de ahi
- varias fórmas do concordia com as quaes se constituiu a
- <i>Formula Concordia</i>.</p>
-
- <p>(1) A concordia Swabia de Jac. Andræ (desde 1562 professor
- em Tübingen, fall. em 1590) em 1574; 1575, a concordata de
- Martinho Chemnitz. 1576, Formula de Lucas Osiander.</p>
-
- <p>(2) Convenção de Torgau; o <i>Livro de Torgau</i>.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1531.—Fernando de Austria, rei dos
- romanos; opposição da Baviera e Saxonia.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1531.—Liga protestante de Schmalkald: á
- frente d’ella, Hesse e Saxonia.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1531.—15 de Maio, em Aarau nega-se
- provisões aos cantões florestaes com a reprovação de
- Zwinglio.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <span class="pagenum-left"><a name="Page_248" id="Page_248">[248]</a></span>
- <span class="pagenum"><a name="Page_249" id="Page_249">[249]</a></span>
-
- <p class="hanging">1532.—Ago. de 1547, João Frederico o
- Magnanimo, Eleitor da Saxonia, fall. em 1554.</p>
-
- <p class="hanging">Henrique <span class="smcapuc">VIII</span>
- divorciado, pelo parlamento, de Catharina de Aragão; Nov.
- desposa Anna Boleyn.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1532.—Dieta de Nürnberg: tolerancia até
- haver um Concilio Geral.</p>
-
- <p>Dessan adopta a Reforma.</p>
- </td>
- <td>
- <p>11 de Out., Batalha de Cappel; <i>Zwinglio é assassinado</i>;
- Segunda Paz de Cappel.</p>
-
- <p>Henrique Bullinger, successor de Zwinglio.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1536.—22 de Jan. João de Leyden,
- Knipperdolling e Krechting são executados.</p>
- </td>
- <td>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1534.—O duque Ulrico de Würtemberg é
- rehabilitado por Filippe de Hesse.</p>
-
- <p class="hanging">1535.—Joaquim <span
- class="smcapuc">II</span>, Eleitor de Brandenburgo.</p>
-
- <p class="hanging">1536-38.—Terceira guerra entre
- Carlos <span class="smcapuc">V</span> e Francisco <span
- class="smcapuc">I</span>.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1534.—O Würtenburgo abraça a Reforma
- Lutherana.</p>
-
- <p class="hanging">1536.—A concordata de Wittenberg;
- Melanchthon Bucer; a <i>Ceia do Senhor</i> conforme o
- lutheranismo; evita-se que tomem parte n’ella os indignos
- e os incredulos; <i>Baptismo</i>; <i>Absolvição</i>; escondem-se os
- pontos em voz de se explicarem.</p>
-
- <p>Victoria da Reforma na Dinamarca.</p>
-
- <p class="hanging">1537.—Convenção de Schmalkald; os Artigos
- de Schmalkald.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="center"><i>Reforma promovida por Calvino na Suissa
- franceza.</i></p>
-
- <p class="hanging"><i>Guilherme Farel</i> (nasc. em 1489, no
- Delphinado; desde 1526, reformador em Berne; em 1530, em
- Neufchatel; fall. em 1565, em Genebra); <i>Pedro Viret</i> (nasceu
- em 1511, em Orbe; 1531-59, em Lausanne; desde 1561, em Nismes
- e Lyons; fall. em 1571); desde 1534, faz-se em Genebra
- propaganda da Reforma.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1534.—David Joris: nasc. em 1501, em
- Delft; associa-se aos anabaptistas; promove reformas entre
- elles; a sua influencia nos Paizes Baixos e na Frisilandia
- Oriental. 1542, o seu <i>Wunderbuch</i>; 1544, em Basiléa;
- uma especulação mystico-espiritualista com tendencia
- racionalista.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1536.—Paulo <span
- class="smcapuc">III</span> manda reunir em Mantua o Concilio
- havia longo tempo promettido; 1537, addiado; mandado reunir
- em Vicenza; novamente addiado.</p>
-
- <p class="hanging">1542.—Antonio Paleario (queimado em
- 1570), <i>Del beneficio di Gesu Christo crocifisso verso i
- Christiani</i>.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1538.—A convenção de Nice: dez annos de
- treguas.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1538.—Liga Catholica Romana em
- Nürnberg.</p>
-
- <p class="hanging">1539.—Victoria da Reforma na Saxonia
- Ducal, e no Brandenburgo Eleitoral.</p>
-
- <p class="hanging">1540.—Junho: Conferencia em Hagenau.</p>
-
- <p>25 de Nov. a 14 de Jan. em Worms (Granvella, Melanchthon,
- Bucer, Capito, Brenz, Calvino, Eck, Cochlæus).</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1536.—<span class="smcap">João
- Calvino</span> em Genebra; nasc. em 10 de jul. de 1509,
- em Noyon; estudou em Orleans e em Paris; 1533, abraçou a
- Reforma em Paris; em Basiléa; 1536, <b>Instituto Christianæ
- Religionis</b>; depois em Ferrara; rigorosa disciplina
- ecclesiastica; em 1538, pela pascoa, é expulso de Genebra e
- ratira-se para Strasburgo; chamado novamente a Genebra em
- 1541; fall. em 27 de Maio de 1564.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="center"><i>Os Mennonitas</i></p>
-
- <p class="hanging">Menno Simonis: nasc. em 1496, em
- Witmarsum; 1524, padre; 1536, deixou de exercer as suas
- funcções, desgostoso com a perseguição dos anabaptistas
- de Münster, baptisado por um apostolo de Jan Matthiesen;
- reformou e organisou as congregações anabaptistas na
- Hollanda e na Frisilandia; fall. em Oldesloe; fez cessar o
- enthusiasmo fanatico, e deu maior incremento á tendencia para
- o Donatismo.</p>
-
- <p>Os seus discipulos, os mennonitas, tolerados em 1572,
- nos Paizes Baixos, por Guilherme de Orange, encontravam-se
- tambem em Emden, Hamburgo, Danzig, Elbing, no Palatinado
- e na Moravia; moderaram o espirito anabaptista primitivo;
- rejeitaram todos os dogmas; prohibiram os juramentos e a
- guerra; appellaram para a letra da Escriptura.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">1540.—27 de Set., <span
- class="smcap">Companhia de Jesus</span> constituida por Paulo
- <span class="smcapuc">III</span>; <i>D. Ignacio de Loyola</i>
- nasc. em 1491, no castello de Loyola, situado na provincia
- de Vasconça; ferido em 1521, em Pamplona; lendas de santos;
- estudos em Barcelona; desde 1528 em Paris. Em 1534, com
- seis companheiros (Francisco Xavier, Jacques Lainez, Pedro
- Lefebre, etc.), fez os votos monasticos, accrescentando um
- outro, o de absoluta obediencia ao papa. Loyola fall. em
- 1556; Lainez em 1561.</p>
-
- <p>«Para zelar os interesses da hierarquia catholica romana
- contra o protestantismo tanto dentro como fóra da Egreja.»</p>
-
- <p>A obra missionaria de Francisco Xavier no Oriente da
- Asia.</p>
-
- <p>A moral da Sociedade; casuistica.</p>
-
- <p>Os seus dogmas: a superstição systematica.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1541-53.—O duque Mauricio da Saxonia;
- recebeu o titulo de Eleitor em 1547.</p>
-
- <p class="hanging">1541.—Dieta em Regensburgo; Suliman
- submette os hungaros ao seu dominio.</p>
-
- <p class="hanging">1542-44.—Quarta guerra de Carlos
- <span class="smcapuc">V</span> com Francisco <span
- class="smcapuc">I</span>; a Paz de Crespi.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1541.—27 de Abr. a 22 de Maio, conferencia
- em Regensburgo (Contarini, Melanchthon, Bucer, Eck), a
- questão da Transubstanciação.</p>
-
- <p class="hanging">1542.—Nicolau <span
- class="smcapuc">V</span>. Amosdorf, bispo de Naumbugo.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging"><i>Systema ecclesiastico adoptado por
- Calvino em Genebra.</i>—Culto: oração e prégação. Organisação
- presbyterianna. Jan. de 1542: <i>Ordonnances ecclésiastiques
- de l’église de Genève.</i> Pastores, doutores, presbyteros e
- diaconos. Disciplina da Egreja.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <span class="pagenum-left"><a name="Page_250" id="Page_250">[250]</a></span>
- <span class="pagenum"><a name="Page_251" id="Page_251">[251]</a></span>
-
- <p class="hanging">1542.—Dieta de Spira; união contra os
- turcos.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1543.—Reforma no arcebispado de Köln;
- Hermann <span class="smcapuc">V</span>. Wied, o arcebispo, é
- avisado por Bucer e Melanchthon; excommungado em 1546; abdica
- em 1547; fall. em 1552.</p>
- </td>
- <td rowspan="3">
- <p class="center"><i>A Reforma em França</i>, 1559-98</p>
-
- <p class="hanging"><i>Francisco <span
- class="smcapuc">I</span></i>, Humanista, importando-se pouco com
- a religião, fez da Reforma arma politica; sua irmã Margarida,
- rainha de Navarra (fall. em 1549) protege os reformadores;
- severa perseguição dos protestantes francezes, não obstante
- a alliança com os principes protestantes allemães e o pedido
- feito a Melanchthon para ir residir em França, em 1565.</p>
-
- <p class="hanging">Henrique <span class="smcapuc">II</span>:
- Antonio de Navarra e sua mulher Joanna d’Albret põem-se á
- testa do protestantismo em França.</p>
-
- <p class="hanging">1559-25.—29 do maio, Primeiro synodo
- reformado em Paris, organizado por Antonio Chandieu, pastor
- parisiense; Confissão Gauleza.</p>
- </td>
- <td rowspan="3">
- </td>
- <td rowspan="3">
- <p class="hanging">1542.—O cardeal Caraffa aconselha
- o restabelecimento da Inquisição para acabar com o
- protestantismo na Italia.</p>
-
- <p class="hanging">1545.—Abertura do <i>Concilio de Trento</i>;
- Primeiro periodo, 11 de mar. de 1547, em Trento; 21 de abr.
- de 1547 a 13 de set. de 1549, em Bolonha. Segundo periodo,
- 1 de maio de 1551 a 28 de abr. de 1552, em Trento. Terceiro
- periodo, 13 de jan. de 1562 a 4 de dez. de 1563 (25 sessões).
- Doutrinas romanistas consolidadas mediante esse concilio.</p>
- </td>
- <td rowspan="7">
- <p class="center"><i>Os principaes theologos lutheranos</i></p>
-
- <p class="hanging"><i>Martinho Chemnitz</i>; 1554; fall. em 1586,
- Superintendente em Brunswich; <i>Examen Concilii Trid.</i>;
- 1565-73, <i>Loci Theologici</i>.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Matheus Flacio</i>: nasc. em 1520, em
- Albona, na Illyria; 1545, em Wittenberg; 1549 em Magdeburgo;
- 1557-61, em Jena; fall. em Frankfort sobre o Maine, 11 de
- Mar. 1575.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Catalogus Testium Veritatis</i>, 1556;
- <i>Ecclesi. Hist. per aliquot ... studiosos et pios viros in
- urbe Magdeburgica</i> (os seculos de Magdeburgo), 13 volum.,
- 1560-74; <i>Clavis Script. Sac.</i>, 1567; <i>Glossa Compendaria in
- N. T.</i>, 1570, etc.</p>
-
- <p class="hanging"><i>João Gerhard</i>: nasc em 1582, em
- Quedlinburgo; 1606, superintendente em Heldburgo; 1615,
- Superintendente Geral em Coburgo; 1616 a 1637, professor em
- Jena. <i>Loci Theologici</i>, 1610 a 1625; <i>Medit. Sac.</i>, etc.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Leonardo Hutter</i>: 1596 a 1616, professor
- em Wittenberg; <i>Compendium Loc. Theol.</i>, 1610; <i>Loci Commun.
- Theolog.</i>, 1619.</p>
-
- <p class="hanging"><i>As Confissões de Fé da Egreja Reformada
- são universalmente reconhecidas.</i></p>
-
- <p><i>Cathechismus ecclesiæ. Genevensis</i>; 1541, Francez; 1545,
- Latino; Calvino.</p>
-
- <p>Consensio in re sacramentaria ministrarum Tigur.; Eccles.
- et Joh. Calvini.</p>
-
- <p><b>O Catecismo de Heideiberg</b>: 1563, escripto sob a
- suggestão de Frederico <span class="smcapuc">III</span> do
- Palatinado, por Zacarias Ursinus (desde 1561 professor em
- Heidelberg, fall. em 1583) e Gaspar Olevianus (professor em
- Heidelberg; fall. em 1587).</p>
-
- <p><i>Confessio Helvetica Posterior</i>: 1566, enviado por
- Bullinger a Frederico <span class="smcapuc">III</span> do
- Palatinado.</p>
-
- <p><i>Os Decretos do Synodo de Dort</i>: 1619, reconhecidos nos
- Paizes Baixos, na Suissa, no Palatinado, em 1620 na França;
- não foram universalmente reconhecidos.</p>
-
- <p class="hanging"><span class="smcap">João Calvino</span>:
- <b>Institutio Religionis Christianæ</b>, 1535-36. Tres
- edições, constituindo cada uma d’ellas uma ampliação, 1535,
- 1539 e 1559; <i>Commentarios ao Velho e Novo Testamentos</i>,
- 1539; <i>De æterna Dei predestinatione</i>, 1552; <i>Defensio
- orthodoxæ fidei de S. Trinitate</i>, 1554, contra Servetus.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Henrique Bullinger</i>, successor de
- Zwinglio em Zurich, nasc. em 1504, em Bremgarten, fall. em
- 17 de set. de 1578; Commentarios ao Novo Testamento, 1554;
- <i>Compendium relig. Christianæ; Histoire des persecutions de
- l’Eglise</i>.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Theodoro Beza</i>: nasc. em 1519; 1549, em
- Lausanna; 1558, professor e pastor em Genebra; fall. em 1605.
- Traducção do Novo Testamento, com annotações, 1565; <i>Histoire
- Eccles. des réformateurs au royaume de France</i>, 1580.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Rodolpho Hospinian</i>, pastor em
- Zurich; fall. em 1629; <i>De origine et progres. controv.
- sacramentariæ</i>, etc.</p>
-
- <p class="hanging"><i>J. H. Hottinger</i>, professor em Heidelberg
- e Zurich; fall. em 1667; <i>Hist. Eccl.</i> N. T.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Gaspar Suicer</i>, professor em Saumur,
- fall. em 1684; <i>Thesaurus Ecclesiasticus</i>.</p>
-
- <p class="hanging"><i>F. Dallæus</i>, professor em Saumur, fall.
- em Paris, em 1670; <i>Traité de l’emploi des S. Péres</i>,
- 1632.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td colspan="2">
- <p class="hanging">1544.—Dieta de Spira; reconhecimento dos
- protestantes; tudo em socego, na expectativa de um Concilio
- Geral.</p>
-
- <p class="hanging">1545.—<i>Reformatio Wittenbergensis.</i></p>
-
- <p class="hanging">1546.—Segunda Conferencia Religiosa em
- Regensburgo; 18 de fev., Luthero morre em Eisleben; os
- protestantes não apparecem na Dieta.</p>
-
- <p class="hanging">1546-47.—A guerra de Schmalkald; 19 de
- jun. liga entre Mauricio e o imperador; 20 de jul., decreto
- contra João Frederico e Filippe; 27 de out., Mauricio é
- nomeado eleitor; 24 de abr., batalha de Mühlberg, ficando
- prisioneiro João Frederico; Filippe entrega-se em Halle; o
- imperador falta á sua palavra.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1547-59.—Henrique <span
- class="smcapuc">II</span> de França; desposa Catharina de
- Medici; fallece em 1589.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1548.—15 da maio, o Interim de Augsburgo
- conserva as hierarquias, ceremonias, festividades e jejuns
- da Egreja Catholica Romana; casamento dos clerigos e Ceia do
- Senhor <i>sub utraque</i>.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <p class="hanging">1547-53.—Eduardo <span
- class="smcapuc">VI</span> de Inglaterra: nasc. em 1537.</p>
-
- <p class="hanging">1553-58.—Maria (a Sanguinaria) de
- Inglaterra.</p>
-
- <p class="hanging">1554.—9 de jul., Mauricio morre n’uma
- batalha perto de Sievershausen, contra Alberto, Margarve de
- Brandenburgo.</p>
-
- <p>Fernando é batido pelos turcos na Hungria.</p>
-
- <p class="hanging">1555-98.—Filippe <span
- class="smcapuc">II</span> de Hespanha.</p>
-
- <p class="hanging">1556-64.—<i>Fernando <span
- class="smcapuc">I</span>, imperador.</i></p>
-
- <span class="pagenum-left"><a name="Page_252" id="Page_252">[252]</a></span>
- <span class="pagenum"><a name="Page_253" id="Page_253">[253]</a></span>
-
- <p class="hanging">1558-1603.—Isabel de Inglaterra.</p>
-
- <p class="hanging">1559-60.—Francisco <span
- class="smcapuc">II</span> de França (casado com Maria da
- Escocia)</p>
-
- <p class="hanging">1560-74.—Carlos <span
- class="smcapuc">IX</span> de França.</p>
-
- <p class="hanging">1560-78.—Maria, rainha dos escocezes;
- executada em 1587.</p>
-
- <p class="hanging">1564-76.—<i>Maximiliano <span
- class="smcapuc">II</span>, imperador.</i></p>
-
- <p class="hanging">1574-89.—Henrique <span
- class="smcapuc">III</span> de França.</p>
-
- <p class="hanging">1576-1612.—<i>Rodolpho <span
- class="smcapuc">II</span>, imperador.</i></p>
-
- <p class="hanging">1558-1648.—Christiano <span
- class="smcapuc">IV</span>, rei da Dinamarca.</p>
-
- <p class="hanging">1589-1610.—Henrique <span
- class="smcapuc">IV</span> de França, tornou-se catholico
- romano em 1593; assassinado por Ravaillac em 14 de Maio de
- 1610.</p>
-
- <p class="hanging">1598-1621.—Filippe <span
- class="smcapuc">III</span> de Hespanha.</p>
- </td>
- <td rowspan="2">
- <p class="hanging">1548.—Interim de Leipsic (Mauricio da
- Saxonia e Melanchthon).</p>
-
- <p class="hanging">1551.—Vehemente desejo do imperador de
- que os protestantes se submettam ao Concilio de Trento;
- Liga clandestina de Mauricio da Saxonia com Henrique <span
- class="smcapuc">II</span> de França.</p>
-
- <p>Out.: Embaixadores do Würtemburgo, e jan. de 1552,
- embaixadores saxonios em Trento.</p>
-
- <p class="hanging">1552.—20 de mar., Mauricio põe-se em
- fuga; 19 de maio, apodera-se do castello de Ehrenberg, e da
- Passagem de Ehrenberg, as chaves do Tyrol; dissolve-se o
- Concilio; julho: Tratado de Passau; João Frederico e Filippe
- ficam livres.</p>
-
- <p class="hanging">1555.—25 de set. <i>Paz religiosa de
- Augsburgo</i>; a Egreja Lutherana fica com os mesmos direitos
- legaes da Catholica Romana: <i>Cujus regio ejus religio;
- o Reservatum ecclesiasticum</i>; a Egreja Reformada não é
- reconhecida.</p>
-
- <p class="hanging">1558.—Disputas entre os antigos lutheranos
- (Gnesiolutherani) e os discipulos de Melanchthon.</p>
-
- <p class="hanging">1560.—Morto de Melanchthon, 19 de
- abril.</p>
-
- <p class="hanging">1586-91.—Embaraços cripto-calvinistas
- na Saxonia eleitoral; supressão do calvinismo; execução de
- Krells, em 1601.</p>
-
- <p class="center"><i>A Egreja Lutherana perde:</i></p>
-
- <p class="center">(<i>a</i>) Em favor da Egreja Catholica
- Romana</p>
-
- <p class="hanging">1558.—A Baviera.</p>
-
- <p class="hanging">1578.—O ducado da Austria (Rodolpho <span
- class="smcapuc">II</span>).</p>
-
- <p class="hanging">1584.—Os bispados Würzburgo, Bamberg,
- Salzburgo, Hildesheim, etc.</p>
-
- <p class="hanging">1594.—Steiermark, Carinthia (Fernando
- <span class="smcapuc">II</span>).</p>
-
- <p class="hanging">1607.—Donauwerth.</p>
-
- <p class="center">(<i>b</i>) Em favor da Egreja Reformada</p>
-
- <p class="hanging">1560.—O Palatinado; 1563, o
- Catecismo de Heidelberg (Reformado sob Frederico <span
- class="smcapuc">III</span>; Lutherano sob Luiz <span
- class="smcapuc">VI</span>, 1576-83; Reformado sob Frederico
- <span class="smcapuc">IV</span>, 1583-1618).</p>
-
- <p class="hanging">1568.—Bremen.</p>
-
- <p class="hanging">1596.—Anhalt (João Jorge, 1587-1603);
- revogação do Systema Consistorial e do Catecismo Lutherano;
- 1597-1628, Artigos Calvinistas.</p>
-
- <p class="hanging">1605.—Hesse-Cassel, que estava sob o
- dominio do Landgrave Mauricio (1592-1627).</p>
-
- <p class="hanging">1613.—O Brandenburgo, que estava sob
- o dominio do Eleitor João Sigismundo 1614, <i>Confessio
- Marchica</i>.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1561.—Set.: Conferencia religiosa em
- Poissy, Theodora Beza.</p>
-
- <p class="hanging">1562.—Jan.: Os protestantes alcançam
- o direito de se reunirem para o culto fóra das cidades;
- Francisco de Guise massacra a congregação protestante de
- Vassy.</p>
-
- <p class="hanging">1562-63.—A guerra huguenote. Morte de
- Antonio de Navarra; Francisco de Guise é alvejado perto de
- Orleans.</p>
-
- <p class="hanging">1567-68 e 1569-70. Guerras huguenotes.</p>
-
- <p class="hanging">1572.—24 de ago., massacre de Paris na
- vespera de S. Bartholomeu; assassinio de Coligny e de 50:000
- huguenotes.</p>
-
- <p class="hanging">1574-76.—Guerra huguenote; a Santa Liga
- dos Guises.</p>
-
- <p class="hanging">1588.—Assassinio de Henrique e Luiz de
- Guise.</p>
-
- <p class="hanging">1589.—Henrique é morto por um fanatico da
- Liga, J. Clement, em 1 de ago.</p>
-
- <p class="hanging">1593.—<i>Henrique <span
- class="smcapuc">IV</span> faz-se catholico romano.</i></p>
-
- <p class="hanging">1598.—<span class="smcap">Edicto de
- Nantes</span>: liberdade de consciencia; é permittido o culto
- publico; todos os privilegios civis; cidades de refugio para
- os huguenotes.</p>
-
- <p class="hanging">1620-28.—Revoltas huguenotes.</p>
-
- <p class="hanging">1620.—Tomada da Rochella.</p>
-
- <p>Edicto de Nismes. São garantidos aos huguenotes direitos
- ecclesiasticos.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="center anglicana">Egreja Anglicana</p>
-
- <p class="hanging">Inglaterra, 1547-1600, sob Henrique <span
- class="smcapuc">VIII</span>: João Frith, Guilherme Tindal.</p>
-
- <p class="hanging">1534.—Acta do Parlamento ácerca da
- supremacia real; o Rei «o unico chefe supremo, sobre a terra,
- da Egreja ingleza»; á frente do partido evangelico, Thomaz
- Cranmer (1533, arcebispo de Canterbury) e Thomaz Cromwell;
- Traducção da Biblia, em 1538.</p>
-
- <p class="hanging">1539.—28 de jul., Transubstanciação;
- negação do calix aos leigos; celibato clerical; missas pelos
- defuntos; confissão auricular.</p>
-
- <p>A Reforma de Henrique <span class="smcapuc">VIII</span>
- foi um acto do rei, e significava apenas uma revolta contra o
- systema medieval, sendo o papa substituido pelo rei.</p>
-
- <p>Isolamento da Egreja da Inglaterra; cortadas todas as
- relações com o papado; sem communicação alguma com as Egrejas
- Reformadas.</p>
-
- <p class="hanging">1547.—Sob o governo de Somerset, Lord
- Protector: Pedro Martyr Vermigli (nasc. em 1500, em Florença;
- 1542, em Strasburgo; fall. em 1562, em Zurich) e Bernardo
- Ochino (nasc. em 1487) levado para Oxford; Martinho Bucer e
- Paulo Fagio, para Cambridge.</p>
-
- <p>O Livro das Homilias.</p>
-
- <p class="hanging">1548.—O Livro da Oração Commum; revisto em
- 1552.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1564.—<i>Professio Fidei Tridentinae</i>: 1566,
- <i>Catechismus Romanus</i> (Leonardo Marini, Egidio Foscarari,
- Muzio Calini).</p>
-
- <p class="hanging">1548.—Filippe Nery funda o Oratorio.</p>
-
- <p class="hanging">1550-64.—Julio <span
- class="smcapuc">III</span> (del Monte).</p>
-
- <p class="hanging">1551.—Fundação do Collegium Romanum
- Jesuita.</p>
-
- <p class="hanging">1552.—Fundação do Collegium Germanicum.</p>
-
- <p class="hanging">1555-59.—Paulo <span
- class="smcapuc">IV</span> (Caraffa) protesta contra a Paz de
- Augsburgo; Inquisição.</p>
-
- <p class="hanging">1559-65.—Pio <span
- class="smcapuc">IV</span> (Medici) deixa-se guiar por seu
- sobrinho, o cardeal Carlos Borromeu, arcebispo de Milão,
- fall. em 1584.</p>
-
- <p class="hanging">1564.—<i>Index librorum prohibitorum.</i></p>
-
- <p class="hanging">1566-72.—Pio <span
- class="smcapuc">V</span>, zeloso dominicano.</p>
-
- <p class="hanging">1567.—Bulla de excommunhão contra 79
- proposições agostinianas de Miguel Baius (fall. em 1589).
- Chanceller da Universidade de Louvain.</p>
-
- <p class="hanging">1568.—<i>Breviarium.</i></p>
-
- <p class="hanging">1570.—<i>Misssale Romanum.</i></p>
-
- <p class="hanging">1572-85.—Gregorio <span
- class="smcapuc">XIII</span>; carta congratulatoria a Carlos
- <span class="smcapuc">IX</span>, ácerca do massacre de S.
- Bartholomeu; <i>Te Deum</i> em Roma, em honra do acontecimento.</p>
-
- <p class="hanging">1582.—Reforma do Calendario.</p>
-
- <p class="hanging">1582-1610.—Missões jesuitas na China.</p>
-
- <p class="hanging">1585-90.—Sixto <span
- class="smcapuc">V</span>: Bibliotheca do Vaticano.</p>
-
- <p class="hanging">1588.—Annales Eccl., de Baronio.</p>
-
- <p class="hanging">1590.—Edição infallivel da Vulgata.</p>
-
- <p class="hanging">1592-1605.—Clemente <span
- class="smcapuc">VII</span>.</p>
-
- <p class="hanging">1592.—Nova edição da vulgata (a chamada
- edição de Sixto <span class="smcapuc">V</span>).</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- <span class="pagenum-left"><a name="Page_254" id="Page_254">[254]</a></span>
- <span class="pagenum"><a name="Page_255" id="Page_255">[255]</a></span>
- </td>
- <td>
- <p class="hanging">1552.—<i>Os 42 Artigos.</i></p>
-
- <p class="hanging">1554.—O cardeal Reginaldo Pole, legado
- pontificio; 1555-58, Sanguinolentas perseguições no reínado
- de Maria; 1556, 21 de maio, Cranmer é queimado em Oxford.</p>
- </td>
- <td rowspan="3">
- <p class="center"><i>A Escocia</i></p>
-
- <p class="hanging">1558.—Os Lords da Congregação; o Evangelho
- Puro, o Livro de Oração Commum do Rei Eduardo.</p>
-
- <p class="hanging">1560.—Assembléa dos Estados em Edinburgo;
- <i>A Confissão Escoceza</i>; o Primeiro Livro de Disciplina;
- é approvado o governo presbyteriano pelas Assembléas
- Geraes, pelos Synodos e pelas Sessões das egrejas;
- Superintendentes.</p>
-
- <p class="hanging"><i>João Knox</i>: nasc. em 1505, em Haddington;
- desde 1546, prégador em St.º André; 1547-49, nas galés;
- 1553-59, em Frankfort e Genebra; 1559 a 1572 (data do
- fallecimento) em Edinburgo.</p>
-
- <p class="hanging">1572.—Convenção de Leith; Bispos privados
- de exercerem as funcções episcopaes: os Tulchanos.</p>
-
- <p class="hanging">1576.—Os inspectores nomeados pela
- Assembléa.</p>
-
- <p class="hanging">1578.—Segundo Livro de Disciplina.</p>
-
- <p class="hanging">1580.—A instituição dos presbyterios.</p>
- </td>
- <td rowspan="3">
- <p class="center"><i>Os Paizes Baixos</i></p>
-
- <p class="hanging">1559.—Margarida de Parma; Granvella, bispo
- de Arras.</p>
-
- <p>São creadas 14 novas dioceses. Inquisição.</p>
-
- <p class="hanging">1562.—<i>Confessio Belgica</i>; Guido de Brès,
- Adriano de Savaria, H. Modetus, G. Wingen; revista por
- Francisco Junio, em 1571.</p>
-
- <p class="hanging">1566.—Compromisso em favor dos
- protestantes.</p>
-
- <p>Tumultos por causa da imagens e das reliquias.</p>
-
- <p class="hanging">1568-78.—O duque de Alba.</p>
-
- <p>Concilio de Sangue; Perseguição de protestantes; são
- mortos 18:000; Egmont e Horn em 1568.</p>
-
- <p class="hanging">1572.—Tomada de Brill pelos mendigos do
- mar; Guilherme de Orange.</p>
-
- <p class="hanging">1576.—8 de Nov., Tratado de Ghent.</p>
-
- <p class="hanging">1579.—23 de jan., União de Utrecht,
- firmada pelas provincias do norte. 26 de julho, Declaração de
- independencia.</p>
-
- <p class="hanging">1584.—10 de julho, Assassinio de Guilherme
- de Orange; succede-lhe Mauricio de Orange.</p>
-
- <p>Fundação de Universidades—Leyden, em 1575; Franecker, em
- 1585; Gröningen, em 1612; Utrecht, em 1638; Harderwyk, em
- 1648.</p>
- </td>
- </tr>
- <tr>
- <td>
- </td>
- <td>
- <p class="center"><i>Anti-Trinitarios</i></p>
-
- <p class="hanging"><i>Miguel Servetus</i>, da Aragão; 1530, em
- Basiléa; 1531, <i>De Trinitatis erroribus</i>; 1534, em Lyons;
- 1537, em Paris; 1540, em Vienna; 1553, <i>Christianismi
- restitutio</i>; 1553, queimado em Genebra.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Valentinus Gentilis</i>, da Calabria;
- decapitado em Berne, em 1556.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Laelius Socinus</i>: nasc. em 1525, em
- Veneza; 1547, percorre a Suissa, a Allemanha e a Polonia;
- fall. em 1562, em Zurich.</p>
-
- <p class="hanging"><i>Faustus Socinus</i>: nasc. em 1539, em
- Siena; 1559, em Lyons; 1562, em Zurich; 1574-78, em Florença,
- e depois em Basiléa; 1579-98, na Polonia; fall. em 1604.—<i>De
- Jesu Christo servatore: De Statu primi hominis ante lapsium</i>,
- 1578.</p>
-
- <p class="hanging">1605.—Catecismo Racoviano.</p>
- </td>
- <td>
- <p class="center"><i>A Rainha Isabel restabelece a Reforma</i></p>
-
- <p class="hanging">1559.—Junho: Acta da Uniformidade, Matheus
- Parker, arcebispo de Canterbury.</p>
-
- <p>Revisão e readopção do livro de Oração Commum.</p>
-
- <p class="hanging">1562.—23 de jan., <i>Os 39 Artigos</i>:
- Doutrina calvinista da Predestinação, Doutrina calvinista da
- Ceia do Senhor.</p>
-
- <p class="hanging">1567.—Os puritanos são excluidos
- da Egreja. Puritanismo; Reforma espiritual mediante a
- collectividade evangelica, acceitação, em Inglaterra, da
- doutrina do sacerdocio espiritual de todos os crentes, e
- consequente guerra ás capas de asperges e outros paramentos
- ecclesiasticos.</p>
-
- <p class="hanging">1570.—Thomaz Cartwright é expulso de
- Cambridge.</p>
-
- <p class="hanging">1582.—Roberto Browne, capellão do duque do
- Norfolk; separação da Egreja e do Estado; cada congregação
- fórma uma egreja independente.</p>
- </td>
- </tr>
-</table>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_256" id="Page_256">[256]</a></span></p>
-
-<h2 id="INDICE">INDICE</h2>
-
-<ul>
-
-<li class="ifrst">Absolvição clerical, <a href="#Page_233">233</a>.</li>
-
-<li class="indx">Agostinho, <a href="#Page_208">208</a>.</li>
-
-<li class="indx">Alba (Duque de), <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_121">121</a>, <a href="#Page_125">125</a>, <a href="#Page_165">165</a>.</li>
-
-<li class="indx">Allemanha (Situação politica da), <a href="#Page_15">15</a>.</li>
-
-<li class="indx">Amboise (Morticinio de), <a href="#Page_99">99</a>.</li>
-
-<li class="indx">Amboise, Edicto, <a href="#Page_105">105</a>.</li>
-
-<li class="indx">America (Descoberta da), <a href="#Page_205">205</a>.</li>
-
-<li class="indx">Anabaptistas (Os) em Genebra, <a href="#Page_76">76</a>.</li>
-
-<li class="indx">Anabaptistas (Os) em Zurich, <a href="#Page_63">63</a>.</li>
-
-<li class="indx">Anabaptistas (Os) nos Paizes Baixos, <a href="#Page_115">115</a>.</li>
-
-<li class="indx">Andersen (Lourenço), <a href="#Page_52">52</a>.</li>
-
-<li class="indx">Annatas (Os), <a href="#Page_13">13</a>, <a href="#Page_60">60</a>, <a href="#Page_166">166</a>.</li>
-
-<li class="indx">Anna Boleyn, <a href="#Page_167">167</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_189">189</a>.</li>
-
-<li class="indx">Anselmo, <a href="#Page_210">210</a>.</li>
-
-<li class="indx">Anstruweel, <a href="#Page_121">121</a>.</li>
-
-<li class="indx">Antuerpia, <a href="#Page_121">121</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Apologeticus</i>, de Zwinglio, <a href="#Page_62">62</a>.</li>
-
-<li class="indx">Apostolos (Credo dos), <a href="#Page_72">72</a>, <a href="#Page_223">223</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Appellações</i>, <i>Estatuto para a repressão das</i>, <a href="#Page_167">167</a>.</li>
-
-<li class="indx">Aristoteles, <a href="#Page_214">214</a>.</li>
-
-<li class="indx">Armada (a) hespanhola, <a href="#Page_196">196</a>.</li>
-
-<li class="indx">Artigos (Os Doze) dos camponezes allemães, <a href="#Page_25">25</a>.</li>
-
-<li class="indx">Artigos (Os dez), <a href="#Page_171">171</a>.</li>
-
-<li class="indx">Artigos (Os Seis), <a href="#Page_173">173</a>, <a href="#Page_177">177</a>.</li>
-
-<li class="indx">Artigos, (Os Quarenta e dois), <a href="#Page_178">178</a>.</li>
-
-<li class="indx">Artigos, (Os Trinta e Nove), <a href="#Page_179">179</a>, <a href="#Page_192">192</a>.</li>
-
-<li class="indx">Artigos, (Os Onze), <a href="#Page_192">192</a>.</li>
-
-<li class="indx">Augsburgo (Confissão de), <a href="#Page_38">38</a>.</li>
-
-<li class="indx">Augsburgo (Dieta de), <a href="#Page_36">36</a>.</li>
-
-<li class="indx">Augsburgo (Paz de), <a href="#Page_47">47</a>.</li>
-
-<li class="indx">Augsburgo (Interim de), <a href="#Page_43">43</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Babington (Conspiração de), <a href="#Page_196">196</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ballanden (Ricardo), <a href="#Page_150">150</a>.</li>
-
-<li class="indx">Barlaymont, <a href="#Page_120">120</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bartholomeu (Matança de S.), <a href="#Page_107">107</a>, <a href="#Page_140">140</a>, <a href="#Page_149">149</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li>
-
-<li class="indx">Basiléa, <a href="#Page_64">64</a>, <a href="#Page_75">75</a>.</li>
-
-<li class="indx">Beaton (Cardeal), <a href="#Page_140">140</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bernardo de Clairvaux, <a href="#Page_210">210</a>.</li>
-
-<li class="indx">Berne, <a href="#Page_59">59</a>, <a href="#Page_76">76</a>.</li>
-
-<li class="indx">Berne (A Reforma em), <a href="#Page_64">64</a>.</li>
-
-<li class="indx">Beza, <a href="#Page_83">83</a>, <a href="#Page_91">91</a>.</li>
-
-<li class="indx">Beza em Poissy, <a href="#Page_102">102</a>.</li>
-
-<li class="indx">Biblia, Versão de Luthero, <a href="#Page_19">19</a>.</li>
-
-<li class="indx">Biblia, Franceza, <a href="#Page_93">93</a>.</li>
-
-<li class="indx">Biblia, Hollandeza, <a href="#Page_116">116</a>.</li>
-
-<li class="indx">Biblia (Doutrina da), <a href="#Page_232">232</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bispados (os) nos Paizes Baixos, <a href="#Page_118">118</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bispos (O livro dos), <a href="#Page_172">172</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bispos (Os) na Escocia, <a href="#Page_151">151</a>.</li>
-
-<li class="indx">Boleyn (Anna), <a href="#Page_167">167</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_189">189</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bonner (Bispo), <a href="#Page_146">146</a>.</li>
-
-<li class="indx">Borgonha (Carlos e Maria de), <a href="#Page_114">114</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bourbon (Antonio de), <a href="#Page_100">100</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bourbon (Condestavel de), <a href="#Page_31">31</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bourbon (O principe), <a href="#Page_96">96</a>, <a href="#Page_100">100</a>.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_257" id="Page_257">[257]</a></span>Bourg (Anne de), <a href="#Page_98">98</a>, <a href="#Page_145">145</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bourges (Sancção Pragmatica de), <a href="#Page_89">89</a>.</li>
-
-<li class="indx">Brantôme, <a href="#Page_107">107</a>.</li>
-
-<li class="indx">Brederode (O Conde), <a href="#Page_120">120</a>.</li>
-
-<li class="indx">Brés (Guido), <a href="#Page_134">134</a>.</li>
-
-<li class="indx">Briçonnet, bispo de Meaux, <a href="#Page_88">88</a>.</li>
-
-<li class="indx">Brill (Tomada de), <a href="#Page_126">126</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bruxellas, <a href="#Page_115">115</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bucer, <a href="#Page_71">71</a>, <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_187">187</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bugenhagen, <a href="#Page_51">51</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bulla papal contra Luthero, <a href="#Page_12">12</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bulla papal em favor da inquisição, <a href="#Page_117">117</a>.</li>
-
-<li class="indx">Bundschuh (Liga de), <a href="#Page_24">24</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Caetano (Cardeal), <a href="#Page_10">10</a>.</li>
-
-<li class="indx">Calderwood, <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_142">142</a>.</li>
-
-<li class="indx">Calvino (Mocidade de), <a href="#Page_69">69</a>.</li>
-
-<li class="indx">Calvino, (<i>Institutos da Religião</i> de), <a href="#Page_71">71</a>, <a href="#Page_78">78</a>.</li>
-
-<li class="indx">Calvino em Genebra, <a href="#Page_73">73</a>.</li>
-
-<li class="indx">Calvino (Expulsão de), <a href="#Page_75">75</a>.</li>
-
-<li class="indx">Calvino (Morte de), <a href="#Page_82">82</a>.</li>
-
-<li class="indx">Calvino (Ordenanças ecclesiasticas de), <a href="#Page_77">77</a>.</li>
-
-<li class="indx">Cambridge, <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_187">187</a>, <a href="#Page_194">194</a>.</li>
-
-<li class="indx">Capito, <a href="#Page_64">64</a>.</li>
-
-<li class="indx">Cappel, (Paz de), <a href="#Page_65">65</a>.</li>
-
-<li class="indx">Caraffa (Cardeal), <a href="#Page_117">117</a>.</li>
-
-<li class="indx">Carew (Sir Peter), <a href="#Page_184">184</a>.</li>
-
-<li class="indx">Carlos V, imperador, <a href="#Page_14">14</a>, <a href="#Page_164">164</a>, <a href="#Page_181">181</a>, <a href="#Page_184">184</a>.</li>
-
-<li class="indx">Carlos V tenta subjugar a Reforma, <a href="#Page_28">28</a>, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_37">37</a>.</li>
-
-<li class="indx">Carlos V (A politica de) nos Paizes Baixos, <a href="#Page_114">114</a>.</li>
-
-<li class="indx">Carlos IX de França, <a href="#Page_106">106</a>.</li>
-
-<li class="indx">Carlstadt, <a href="#Page_11">11</a>, <a href="#Page_20">20</a>.</li>
-
-<li class="indx">Cartwright (Thomaz), <a href="#Page_194">194</a>.</li>
-
-<li class="indx">Casamento (O), <a href="#Page_216">216</a>.</li>
-
-<li class="indx">Catharina de Aragão, <a href="#Page_162">162</a>, <a href="#Page_169">169</a>, <a href="#Page_181">181</a>, <a href="#Page_183">183</a>.</li>
-
-<li class="indx">Catharina de Medicis, <a href="#Page_93">93</a>, <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_107">107</a>.</li>
-
-<li class="indx">Catholicidade dos Reformadores, <a href="#Page_222">222</a>.</li>
-
-<li class="indx">Cecil (Sir William), <a href="#Page_194">194</a>, <a href="#Page_196">196</a>.</li>
-
-<li class="indx">Celtica (Egreja), <a href="#Page_137">137</a>.</li>
-
-<li class="indx">Chandieu (Antonio), <a href="#Page_97">97</a>.</li>
-
-<li class="indx">Chateaubriand (Edicto de), <a href="#Page_94">94</a>.</li>
-
-<li class="indx">Christiano II da Dinamarca, <a href="#Page_50">50</a>.</li>
-
-<li class="indx">Clemente VII, <a href="#Page_29">29</a>.</li>
-
-<li class="indx">Colet (Deão), <a href="#Page_160">160</a>, <a href="#Page_162">162</a>.</li>
-
-<li class="indx">Coligny (Almirante), <a href="#Page_96">96</a>, <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_101">101</a>, <a href="#Page_104">104</a>, <a href="#Page_106">106</a>.</li>
-
-<li class="indx">Commissão (Tribunal da Alta), <a href="#Page_193">193</a>, <a href="#Page_199">199</a>.</li>
-
-<li class="indx">Concilio (Reclama-se um), <a href="#Page_21">21</a>, <a href="#Page_43">43</a>.</li>
-
-<li class="indx">Concilio (o) de Trento, <a href="#Page_44">44</a>.</li>
-
-<li class="indx">Concordata (A) de 1516, <a href="#Page_89">89</a>, <a href="#Page_164">164</a>.</li>
-
-<li class="indx">Condé (Luiz de), <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_102">102</a>, <a href="#Page_104">104</a>, <a href="#Page_105">105</a>.</li>
-
-<li class="indx">Condé (Henrique de), <a href="#Page_105">105</a>.</li>
-
-<li class="indx">Confissão de Augsburgo, <a href="#Page_38">38</a>, <a href="#Page_50">50</a>.</li>
-
-<li class="indx">Confissão de Zurich, <a href="#Page_84">84</a>.</li>
-
-<li class="indx">Confissão Franceza, <a href="#Page_97">97</a>.</li>
-
-<li class="indx">Confissão Hollandeza, <a href="#Page_134">134</a>.</li>
-
-<li class="indx">Confissão Escoceza, <a href="#Page_143">143</a>.</li>
-
-<li class="indx">Congregação (Lords da), <a href="#Page_142">142</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Consistorial</i> (<i>Systema</i>), <a href="#Page_30">30</a>.</li>
-
-<li class="indx">Consistorio (O), <a href="#Page_78">78</a>, <a href="#Page_98">98</a>.</li>
-
-<li class="indx">Constança (Concilio de), <a href="#Page_11">11</a>.</li>
-
-<li class="indx">Cotta (Frau), <a href="#Page_8">8</a>.</li>
-
-<li class="indx">Convenção (A) Nacional, <a href="#Page_142">142</a>.</li>
-
-<li class="indx">Coverdale, <a href="#Page_187">187</a>.</li>
-
-<li class="indx">Cranach (Lucas), <a href="#Page_16">16</a>.</li>
-
-<li class="indx">Cranmer (Arcebispo), <a href="#Page_171">171</a>, <a href="#Page_176">176</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li>
-
-<li class="indx">Craw (Paulo), <a href="#Page_138">138</a>.</li>
-
-<li class="indx">Crespin, <a href="#Page_107">107</a>.</li>
-
-<li class="indx">Cromwell (Thomaz), <a href="#Page_163">163</a>, <a href="#Page_170">170</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Dante, <a href="#Page_218">218</a>.</li>
-
-<li class="indx">Diana de Poitiers, <a href="#Page_93">93</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dickson (David), <a href="#Page_152">152</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dieta (A) allemã, <a href="#Page_15">15</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dieta (A) de Worms, <a href="#Page_16">16</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dieta (A) de Nürnberg, <a href="#Page_20">20</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dieta (A) de Spira, <a href="#Page_28">28</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dieta (A) de Augsburgo, <a href="#Page_36">36</a>, <a href="#Page_47">47</a>.</li>
-
-<li class="indx">Disciplina da Egreja, <a href="#Page_30">30</a>.</li>
-
-<li class="indx">Disciplina de Calvino, <a href="#Page_77">77</a>.</li>
-
-<li class="indx">Disciplina da Egreja franceza, <a href="#Page_98">98</a>.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_258" id="Page_258">[258]</a></span>Disciplina (Livro da), <a href="#Page_147">147</a>, <a href="#Page_152">152</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dissidencia (A), <a href="#Page_194">194</a>.</li>
-
-<li class="indx">Disturbios (O Conselho dos), <a href="#Page_123">123</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dizimos (Os grandes e pequenos), <a href="#Page_23">23</a>, <a href="#Page_215">215</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dordrecht, <a href="#Page_135">135</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dorner, <a href="#Page_225">225</a>.</li>
-
-<li class="indx">Douay, <a href="#Page_196">196</a>.</li>
-
-<li class="indx">Douglas, <a href="#Page_144">144</a>.</li>
-
-<li class="indx">Drake (Sir Francis), <a href="#Page_196">196</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dreux (Batalha de), <a href="#Page_104">104</a>.</li>
-
-<li class="indx">Dubois (Pedro), <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_158">158</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Eck (João), <a href="#Page_9">9</a>, <a href="#Page_11">11</a>, <a href="#Page_17">17</a>.</li>
-
-<li class="indx">Edictos de Tolerancia, em França, <a href="#Page_103">103</a>, <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_110">110</a>.</li>
-
-<li class="indx">Edinburgo, <a href="#Page_143">143</a>.</li>
-
-<li class="indx">Educação (A) na Escocia, <a href="#Page_137">137</a>, <a href="#Page_148">148</a>.</li>
-
-<li class="indx">Eduardo III, <a href="#Page_218">218</a>.</li>
-
-<li class="indx">Eduardo VI, <a href="#Page_141">141</a>, <a href="#Page_157">157</a>, <a href="#Page_175">175</a>, <a href="#Page_181">181</a>.</li>
-
-<li class="indx">Egmont (Conde), <a href="#Page_117">117</a>, <a href="#Page_119">119</a>, <a href="#Page_120">120</a>, <a href="#Page_121">121</a>, <a href="#Page_122">122</a>.</li>
-
-<li class="indx">Egreja (Disciplina da), <a href="#Page_30">30</a>, <a href="#Page_98">98</a>, <a href="#Page_133">133</a>, <a href="#Page_134">134</a>.</li>
-
-<li class="indx">Egreja (Riqueza da), <a href="#Page_12">12</a>.</li>
-
-<li class="indx">Egreja (A) em relação com a vida social, <a href="#Page_215">215</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ehrenberg (Castello de), 46. Eidgenossen, <a href="#Page_68">68</a>.</li>
-
-<li class="indx">Einsiedeln, <a href="#Page_61">61</a>.</li>
-
-<li class="indx">Eisenach, <a href="#Page_8">8</a>.</li>
-
-<li class="indx">Eisleben, <a href="#Page_7">7</a>.</li>
-
-<li class="indx">Eleitores (Os) allemães, <a href="#Page_15">15</a>.</li>
-
-<li class="indx">Erasmo, <a href="#Page_64">64</a>, <a href="#Page_170">170</a>, <a href="#Page_177">177</a>.</li>
-
-<li class="indx">Erskine de Dun, <a href="#Page_142">142</a>, <a href="#Page_151">151</a>.</li>
-
-<li class="indx">Escocia (A Reforma na), <a href="#Page_137">137-154</a>.</li>
-
-<li class="indx">Esch (João), <a href="#Page_115">115</a>.</li>
-
-<li class="indx">Escriptura (A), <a href="#Page_227">227</a>.</li>
-
-<li class="indx">Eucaristia (A), <a href="#Page_33">33</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Fagius (Paulo), <a href="#Page_178">178</a>.</li>
-
-<li class="indx">Farel em Basiléa, <a href="#Page_64">64</a>.</li>
-
-<li class="indx">Farel em Genebra, <a href="#Page_68">68</a>.</li>
-
-<li class="indx">Farel em França, <a href="#Page_88">88</a>.</li>
-
-<li class="indx">Fé (A), <a href="#Page_213">213</a>, <a href="#Page_230">230</a>.</li>
-
-<li class="indx">Fernando de Aragão, <a href="#Page_14">14</a>, <a href="#Page_162">162</a>.</li>
-
-<li class="indx">Fernando de Austria, <a href="#Page_37">37</a>.</li>
-
-<li class="indx">Field, o puritano, <a href="#Page_194">194</a>.</li>
-
-<li class="indx">Fisher (Bispo), <a href="#Page_170">170</a>.</li>
-
-<li class="indx">Florestaes (cantões), <a href="#Page_64">64</a>.</li>
-
-<li class="indx">França (A Reforma em ), <a href="#Page_87">87-111</a>.</li>
-
-<li class="indx">Francisco de Assis, <a href="#Page_210">210</a>, <a href="#Page_211">211</a>.</li>
-
-<li class="indx">Francisco I de França, <a href="#Page_28">28</a>, <a href="#Page_71">71</a>, <a href="#Page_89">89</a>, <a href="#Page_91">91</a>, <a href="#Page_164">164</a>.</li>
-
-<li class="indx">Francfort sobre o Maine, <a href="#Page_141">141</a>.</li>
-
-<li class="indx">Frederico da Saxonia, <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_28">28</a>.</li>
-
-<li class="indx">Froben, <a href="#Page_64">64</a>.</li>
-
-<li class="indx">Frunsberg (General), <a href="#Page_17">17</a>, <a href="#Page_31">31</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Galle (Dr.), <a href="#Page_52">52</a>.</li>
-
-<li class="indx">Gallicanismo (O), <a href="#Page_218">218</a>.</li>
-
-<li class="indx">Gardiner (Bispo), <a href="#Page_177">177</a>, <a href="#Page_182">182</a>.</li>
-
-<li class="indx">Gemblours, <a href="#Page_132">132</a>.</li>
-
-<li class="indx">Genebra, <a href="#Page_67">67</a>, <a href="#Page_77">77</a>, <a href="#Page_94">94</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ghent, <a href="#Page_131">131</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ghent (Pacificação de), <a href="#Page_131">131</a>.</li>
-
-<li class="indx">Glarus, <a href="#Page_60">60</a>.</li>
-
-<li class="indx">Glencairn (Conde de), <a href="#Page_142">142</a>, <a href="#Page_143">143</a>.</li>
-
-<li class="indx">Goch (João), <a href="#Page_114">114</a>.</li>
-
-<li class="indx">Granvella (Cardeal), <a href="#Page_117">117</a>, <a href="#Page_119">119</a>, <a href="#Page_123">123</a>.</li>
-
-<li class="indx">Gregorio VII (Papa), <a href="#Page_208">208</a>, <a href="#Page_212">212</a>.</li>
-
-<li class="indx">Grey (Lady Jane), <a href="#Page_182">182</a>, <a href="#Page_183">183</a>.</li>
-
-<li class="indx">Grindal (Arcebispo), <a href="#Page_198">198</a>, <a href="#Page_198">198</a>.</li>
-
-<li class="indx">Guise (A familia), <a href="#Page_93">93</a>, <a href="#Page_98">98</a>, <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_103">103-106</a>, <a href="#Page_140">140</a>, <a href="#Page_145">145</a>.</li>
-
-<li class="indx">Gustavo Vasa, <a href="#Page_51">51</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Hagenau, <a href="#Page_40">40</a>.</li>
-
-<li class="indx">Hamilton (Patricio), <a href="#Page_140">140</a>.</li>
-
-<li class="indx">Held (Vice Chancellor), <a href="#Page_40">40</a>.</li>
-
-<li class="indx">Henrique VIII de Inglaterra, <a href="#Page_157">157</a>, <a href="#Page_161">161</a>, <a href="#Page_163">163</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_190">190</a>, <a href="#Page_218">218</a>.</li>
-
-<li class="indx">Henrique II de França, <a href="#Page_93">93</a>.</li>
-
-<li class="indx">Henrique III de França, <a href="#Page_106">106</a>, <a href="#Page_109">109</a>.</li>
-
-<li class="indx">Henrique IV de França, <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_110">110</a>.</li>
-
-<li class="indx">Henriques (Guerra dos tres), <a href="#Page_109">109</a>.</li>
-
-<li class="indx">Hesse (Organização da Egreja de), <a href="#Page_29">29</a>.</li>
-
-<li class="indx">Hildebrando, <a href="#Page_208">208</a>.</li>
-
-<li class="indx">Hogstraten, <a href="#Page_9">9</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Homilias</i> (<i>Livro de</i>), <a href="#Page_177">177</a>.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_259" id="Page_259">[259]</a></span>Hooper (Bispo), <a href="#Page_180">180</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li>
-
-<li class="indx">Horn (Almirante), <a href="#Page_120">120</a>, <a href="#Page_122">122</a>.</li>
-
-<li class="indx">Huss (João), <a href="#Page_11">11</a>, <a href="#Page_138">138</a>.</li>
-
-<li class="indx">Hymnos Medievaes, <a href="#Page_6">6</a>, <a href="#Page_214">214</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Iconoclastas (Os), <a href="#Page_103">103</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Imitação de Christo</i>, <a href="#Page_210">210</a>, <a href="#Page_211">211</a>.</li>
-
-<li class="indx">Imperador (O), <a href="#Page_14">14</a>, <a href="#Page_28">28</a>, <a href="#Page_31">31</a>, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_37">37</a>, <a href="#Page_38">38</a>.</li>
-
-<li class="indx">Imperio (O) medieval, <a href="#Page_14">14</a>, <a href="#Page_209">209</a>, <a href="#Page_217">217</a>, <a href="#Page_221">221</a>.</li>
-
-<li class="indx">Indulgencias (As) em Zurich, <a href="#Page_61">61</a>.</li>
-
-<li class="indx">Indulgencias (As) na Allemanha, <a href="#Page_1">1-2</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ingleza, (A Reforma) seu caracter, <a href="#Page_159">159</a>.</li>
-
-<li class="indx">Inquisição (A), <a href="#Page_117">117</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li>
-
-<li class="indx">Interdicção (A) papal, <a href="#Page_226">226</a>, <a href="#Page_233">233</a>.</li>
-
-<li class="indx">Interim (O) de Augsburgo, <a href="#Page_43">43</a>.</li>
-
-<li class="indx">Interim (O) de Leipzic, <a href="#Page_43">43</a>.</li>
-
-<li class="indx">Isabel (A rainha), <a href="#Page_125">125</a>, <a href="#Page_133">133</a>, <a href="#Page_157">157</a>, <a href="#Page_189">189</a>, <a href="#Page_192">192</a>, <a href="#Page_194">194-201</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Jansen, <a href="#Page_50">50</a>.</li>
-
-<li class="indx">Jarnac, <a href="#Page_105">105</a>.</li>
-
-<li class="indx">Jesuitas (Os), <a href="#Page_45">45</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li>
-
-<li class="indx">Jewel (Bispo), <a href="#Page_192">192</a>, <a href="#Page_200">200</a>.</li>
-
-<li class="indx">João da Saxonia, <a href="#Page_37">37</a>, <a href="#Page_38">38</a>.</li>
-
-<li class="indx">Jorge da Saxonia (Duque), <a href="#Page_17">17</a>, <a href="#Page_42">42</a>, <a href="#Page_47">47</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Justificação</i> (<i>A</i>), <a href="#Page_233">233</a>, <a href="#Page_234">234</a>.</li>
-
-<li class="indx">Jüterbogk, <a href="#Page_4">4</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Kempis (Thomaz á), <a href="#Page_114">114</a>.</li>
-
-<li class="indx">Knox (João), <a href="#Page_141">141</a>, <a href="#Page_143">143</a>, <a href="#Page_144">144</a>, <a href="#Page_146">146</a>, <a href="#Page_148">148</a>, <a href="#Page_152">152</a>, <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_180">180</a>, <a href="#Page_191">191</a>.</li>
-
-<li class="indx">Kyle (Os lollardos de), <a href="#Page_138">138</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">La Ferriére, <a href="#Page_95">95</a>.</li>
-
-<li class="indx">Lainez, <a href="#Page_45">45</a>.</li>
-
-<li class="indx">Lambert (Martinho), <a href="#Page_29">29</a>.</li>
-
-<li class="indx">Lei (A) agraria entre os romanos, <a href="#Page_24">24</a>.</li>
-
-<li class="indx">Lefèvre, <a href="#Page_88">88</a>.</li>
-
-<li class="indx">Leipzic (Controversia de), <a href="#Page_10">10</a>.</li>
-
-<li class="indx">Leipzic (Interim de), <a href="#Page_43">43</a>.</li>
-
-<li class="indx">Leith (Convenção de), <a href="#Page_151">151</a>.</li>
-
-<li class="indx">Leyden (Cerco de), <a href="#Page_129">129</a>.</li>
-
-<li class="indx">Liesfeld (Jacob), <a href="#Page_116">116</a>.</li>
-
-<li class="indx">Liga Allemã (catholica), <a href="#Page_40">40</a>.</li>
-
-<li class="indx">Liga de Schmalkald, <a href="#Page_39">39</a>.</li>
-
-<li class="indx">Liga de França, <a href="#Page_109">109</a>, <a href="#Page_196">196</a>.</li>
-
-<li class="indx">Linacre, <a href="#Page_196">196</a>.</li>
-
-<li class="indx">Lindsay (Lord), <a href="#Page_145">145</a>.</li>
-
-<li class="indx">Lindsay (Sir David), <a href="#Page_139">139</a>.</li>
-
-<li class="indx">Lithurgia (A) de Knox, <a href="#Page_141">141</a>.</li>
-
-<li class="indx">Lollardismo (O), <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_158">158</a>.</li>
-
-<li class="indx">Longjumeaux, <a href="#Page_105">105</a>.</li>
-
-<li class="indx">Loyola (Ignacio), <a href="#Page_45">45</a>.</li>
-
-<li class="indx">Luthero e Tetzel, <a href="#Page_4">4</a>.</li>
-
-<li class="indx">Luthero (Mocidade de), <a href="#Page_7">7</a>.</li>
-
-<li class="indx">Luthero em Leipzic, <a href="#Page_11">11</a>.</li>
-
-<li class="indx">Luthero em Worms, <a href="#Page_16">16</a>.</li>
-
-<li class="indx">Luthero traduz a Biblia, <a href="#Page_19">19</a>.</li>
-
-<li class="indx">Luthero contra os camponezes, <a href="#Page_27">27</a>.</li>
-
-<li class="indx">Luthero não sympathiza com a Liga Protestante, <a href="#Page_32">32</a>.</li>
-
-<li class="indx">Luthero (Quietismo de), <a href="#Page_32">32</a>.</li>
-
-<li class="indx">Luthero (Mais ácerca de), <a href="#Page_212">212</a>, <a href="#Page_214">214</a>, <a href="#Page_222">222</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Madrid (Confederação de), <a href="#Page_28">28</a>.</li>
-
-<li class="indx">Madrid (Egmont em), <a href="#Page_119">119</a>.</li>
-
-<li class="indx">Maitland de Lethington, <a href="#Page_144">144</a>.</li>
-
-<li class="indx">Marburgo (Conferencia de), <a href="#Page_33">33</a>.</li>
-
-<li class="indx">Marcello de Padua, <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_158">158</a>, <a href="#Page_218">218</a>.</li>
-
-<li class="indx">Margarida de Navarra, <a href="#Page_89">89</a>.</li>
-
-<li class="indx">Margarida de Parma, <a href="#Page_117">117</a>.</li>
-
-<li class="indx">Margarida de Saboya, <a href="#Page_115">115</a>.</li>
-
-<li class="indx">Maria de Guise, <a href="#Page_140">140</a>.</li>
-
-<li class="indx">Maria, rainha de Inglaterra, <a href="#Page_181">181</a>, <a href="#Page_184">184</a>.</li>
-
-<li class="indx">Maria, rainha dos escocezes, <a href="#Page_144">144</a>, <a href="#Page_145">145</a>, <a href="#Page_182">182</a>, <a href="#Page_189">189</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li>
-
-<li class="indx">Martyr (Pedro), <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_187">187</a>, <a href="#Page_192">192</a>.</li>
-
-<li class="indx">Massacre de Amboise, <a href="#Page_99">99</a>.</li>
-
-<li class="indx">Massacre de S. Bartholomeu, <a href="#Page_107">107</a>, <a href="#Page_140">140</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li>
-
-<li class="indx">Massacre de Toulouse, <a href="#Page_103">103</a>.</li>
-
-<li class="indx">Massacre de Vassy, <a href="#Page_103">103</a>.</li>
-
-<li class="indx">Mauricio da Saxonia, <a href="#Page_42">42</a>, <a href="#Page_46">46</a>.</li>
-
-<li class="indx">Melanchthon, <a href="#Page_19">19</a>, <a href="#Page_37">37</a>, <a href="#Page_39">39</a>.</li>
-
-<li class="indx">Melville (André), <a href="#Page_152">152</a>.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_260" id="Page_260">[260]</a></span>Melville (James), <a href="#Page_149">149</a>.</li>
-
-<li class="indx">Mendicantes (Os), <a href="#Page_120">120</a>, <a href="#Page_123">123</a>.</li>
-
-<li class="indx">Mendigos (Os) do mar, <a href="#Page_124">124</a>, <a href="#Page_128">128</a>, <a href="#Page_129">129</a>, <a href="#Page_130">130</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Mérindol</i> (<i>Arrêt de</i>), <a href="#Page_93">93</a>.</li>
-
-<li class="indx">Mill (Walter), <a href="#Page_140">140</a>.</li>
-
-<li class="indx">Miltitz (Cardeal), <a href="#Page_10">10</a>.</li>
-
-<li class="indx">Missa (A Doutrina da), <a href="#Page_33">33</a>, <a href="#Page_39">39</a>.</li>
-
-<li class="indx">Monasticos (Votos), <a href="#Page_212">212</a>.</li>
-
-<li class="indx">Montauban, <a href="#Page_107">107</a>.</li>
-
-<li class="indx">Montgomery, bispo de Glasgow, <a href="#Page_151">151</a>.</li>
-
-<li class="indx">Montmorency, <a href="#Page_93">93</a>, <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_145">145</a>.</li>
-
-<li class="indx">Mooker Haide, <a href="#Page_129">129</a>.</li>
-
-<li class="indx">Moray (Conde de), <a href="#Page_146">146</a>, <a href="#Page_150">150</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li>
-
-<li class="indx">More (Sir Thomaz), <a href="#Page_161">161</a>, <a href="#Page_162">162</a>, <a href="#Page_168">168</a>, <a href="#Page_172">172</a>.</li>
-
-<li class="indx">Morgarten, <a href="#Page_59">59</a>.</li>
-
-<li class="indx">Mosteiros (Suppressão dos) em Inglaterra, <a href="#Page_170">170</a>, <a href="#Page_176">176</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li>
-
-<li class="indx">Münzer (Thomaz), <a href="#Page_20">20</a>, <a href="#Page_24">24</a>, <a href="#Page_63">63</a>.</li>
-
-<li class="indx">Mystico (Sentido) da Escriptura, <a href="#Page_230">230</a>.</li>
-
-<li class="indx">Mysticos (Os) medievaes, <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_211">211</a>, <a href="#Page_218">218</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Nantes (Edicto de), <a href="#Page_110">110</a>.</li>
-
-<li class="indx">Niceno (O credo), <a href="#Page_222">222</a>.</li>
-
-<li class="indx">Nicolau de Basiléa, <a href="#Page_212">212</a>.</li>
-
-<li class="indx">Nobres (Revolta dos) na Allemanha, <a href="#Page_21">21</a>.</li>
-
-<li class="indx">Norfolk (Duque de), <a href="#Page_195">195</a>.</li>
-
-<li class="indx">Noyon, <a href="#Page_69">69</a>.</li>
-
-<li class="indx">Nürnberg (Dieta de), <a href="#Page_20">20</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Ochino (Bernardo), <a href="#Page_178">178</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ockham (Guilherme de), <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_138">138</a>.</li>
-
-<li class="indx">Œcolampadius, <a href="#Page_33">33</a>.</li>
-
-<li class="indx">Olivetan (Roberto), <a href="#Page_93">93</a>.</li>
-
-<li class="indx">Oppressões soffridas pelos camponezes, <a href="#Page_16">16</a>, <a href="#Page_23">23</a>, <a href="#Page_24">24</a>.</li>
-
-<li class="indx">Oração Commum (Livro de), <a href="#Page_177">177</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_100">100</a>, <a href="#Page_209">209</a>.</li>
-
-<li class="indx">Orange (Guilherme de), <a href="#Page_117">117</a>, <a href="#Page_120">120</a>, <a href="#Page_121">121</a>, <a href="#Page_124">124</a>, <a href="#Page_126">126</a>, <a href="#Page_131">131</a>, <a href="#Page_132">132</a>.</li>
-
-<li class="indx">Orange (Mauricio de), <a href="#Page_123">123</a>.</li>
-
-<li class="indx">Oradores (Camaras de), <a href="#Page_144">144</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ordenanças Ecclesiasticas, <a href="#Page_77">77</a>, <a href="#Page_79">79</a>, <a href="#Page_81">81</a>.</li>
-
-<li class="indx">Orleans, <a href="#Page_104">104</a>.</li>
-
-<li class="indx">Oxford, <a href="#Page_178">178</a>, <a href="#Page_187">187</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Pamphletos anti-prelaticios, <a href="#Page_198">198</a>.</li>
-
-<li class="indx">Paizes Baixos (Os), <a href="#Page_113">113</a>.</li>
-
-<li class="indx">Paramentos (Os) na Egreja de Inglaterra, <a href="#Page_179">179</a>, <a href="#Page_192">192</a>.</li>
-
-<li class="indx">Parker (Arcebispo), <a href="#Page_192">192</a>, <a href="#Page_194">194</a>.</li>
-
-<li class="indx">Parma (Margarida de), <a href="#Page_117">117</a>.</li>
-
-<li class="indx">Parma (Alexandre de), <a href="#Page_132">132</a>, <a href="#Page_197">197</a>.</li>
-
-<li class="indx">Passau (Tratado de), <a href="#Page_47">47</a>, <a href="#Page_183">183</a>.</li>
-
-<li class="indx">Pavia (Batalha de), <a href="#Page_28">28</a>, <a href="#Page_91">91</a>.</li>
-
-<li class="indx">Perdão (O) do peccado, <a href="#Page_4">4</a>, <a href="#Page_213">213</a>.</li>
-
-<li class="indx">Perseguições em França, <a href="#Page_91">91</a>, <a href="#Page_94">94</a>.</li>
-
-<li class="indx">Perseguições nos Paizes Baixos, <a href="#Page_123">123</a>.</li>
-
-<li class="indx">Perseguições na Escocia, <a href="#Page_140">140</a>.</li>
-
-<li class="indx">Perseguições em Inglaterra, <a href="#Page_168">168</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li>
-
-<li class="indx">Perth (Tumultos em), <a href="#Page_143">143</a>.</li>
-
-<li class="indx">Petersen (Os irmãos), <a href="#Page_52">52</a>.</li>
-
-<li class="indx">Philippe de Hesse, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_33">33</a>, <a href="#Page_37">37</a>, <a href="#Page_42">42</a>, <a href="#Page_43">43</a>.</li>
-
-<li class="indx">Philippe II de Hespanha, <a href="#Page_107">107</a>, <a href="#Page_115">115</a>, <a href="#Page_121">121</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_186">186</a>, <a href="#Page_189">189</a>, <a href="#Page_195">195</a>.</li>
-
-<li class="indx">Poissy (Conferencia de), <a href="#Page_102">102</a>.</li>
-
-<li class="indx">Pole (Cardeal), <a href="#Page_46">46</a>, <a href="#Page_185">185</a>.</li>
-
-<li class="indx">Polyhistor, <a href="#Page_64">64</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Proemunire</i>, <a href="#Page_161">161</a>, <a href="#Page_167">167</a>, <a href="#Page_217">217</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Presbyterianismo</i>, <a href="#Page_72">72</a>, <a href="#Page_95">95</a>, <a href="#Page_98">98</a>, <a href="#Page_134">134</a>, <a href="#Page_147">147</a>.</li>
-
-<li class="indx">Prierias (Silvestre), <a href="#Page_9">9</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Prophecias</i> (<i>As</i>), <a href="#Page_197">197</a>.</li>
-
-<li class="indx">Propriedade (As Leis da) e a Reforma, <a href="#Page_215">215</a>.</li>
-
-<li class="indx">Puritanos (Os), <a href="#Page_179">179</a>, <a href="#Page_193">193</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Randolpho, <a href="#Page_145">145</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ratisbonna, <a href="#Page_22">22</a>.</li>
-
-<li class="indx">Reforma (Os principios da), <a href="#Page_1">1</a>, <a href="#Page_225">225</a>.</li>
-
-<li class="indx">Reforma (Antecipações da), <a href="#Page_213">213</a>.</li>
-
-<li class="indx">Reforma (A) e a vida social, <a href="#Page_215">215</a>.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_261" id="Page_261">[261]</a></span>Reforma, (A) uma revivificação de religião, <a href="#Page_205">205</a>.</li>
-
-<li class="indx">Reforma (A) e a necessidade do perdão, <a href="#Page_212">212</a>.</li>
-
-<li class="indx">Regensburgo (Conferencia de), <a href="#Page_40">40</a>.</li>
-
-<li class="indx">Regensburgo (Convenção de), <a href="#Page_22">22</a>.</li>
-
-<li class="indx">Religião (A) espiritual, <a href="#Page_209">209</a>.</li>
-
-<li class="indx">Renan ácerca de Calvino, <a href="#Page_83">83</a>.</li>
-
-<li class="indx">Renaudie, <a href="#Page_99">99</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Renuncia</i> (<i>A</i>), <a href="#Page_211">211</a>.</li>
-
-<li class="indx">Requescens, <a href="#Page_128">128</a>.</li>
-
-<li class="indx">Revivificação (A Reforma, uma), <a href="#Page_205">205</a>.</li>
-
-<li class="indx">Revivificação (A) medieval, <a href="#Page_210">210</a>.</li>
-
-<li class="indx">Revolta (A) dos camponezes, <a href="#Page_23">23</a>.</li>
-
-<li class="indx">Revolta (A) dos nobres, <a href="#Page_21">21</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ridley (Bispo), <a href="#Page_180">180</a>, <a href="#Page_184">184</a>, <a href="#Page_186">186</a>.</li>
-
-<li class="indx">Ritualistas (Os) na Igreja Ingleza, <a href="#Page_199">199</a>.</li>
-
-<li class="indx">Rochelle (La), <a href="#Page_105">105</a>, <a href="#Page_107">107</a>, <a href="#Page_108">108</a>.</li>
-
-<li class="indx">Romana (A Lei), <a href="#Page_24">24</a>.</li>
-
-<li class="indx">Roper (Margarida), <a href="#Page_170">170</a>.</li>
-
-<li class="indx">Row (João), <a href="#Page_139">139</a>, <a href="#Page_144">144</a>, <a href="#Page_153">153</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Sacerdocio (O) dos crentes, <a href="#Page_179">179</a>, <a href="#Page_226">226</a>.</li>
-
-<li class="indx">Saboya (Duque de), <a href="#Page_67">67</a>.</li>
-
-<li class="indx">Sacramentos (Os), <a href="#Page_34">34</a>.</li>
-
-<li class="indx">Sacramentos (A administração dos), <a href="#Page_207">207</a>.</li>
-
-<li class="indx">Sacramentos (Theoria dos), <a href="#Page_236">236</a>.</li>
-
-<li class="indx">Samson, traficante de Indulgencias, <a href="#Page_61">61</a>.</li>
-
-<li class="indx">Sancerre (Capitulação de), <a href="#Page_107">107</a>.</li>
-
-<li class="indx">Sandilands (Sir James), <a href="#Page_145">145</a>.</li>
-
-<li class="indx">Schmalkald (Liga de), <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_39">39</a>.</li>
-
-<li class="indx">Schmalkald (Guerra de), <a href="#Page_42">42</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Separação do mundo</i>, <a href="#Page_208">208</a>.</li>
-
-<li class="indx">Sickingen (Frank von), <a href="#Page_22">22</a>.</li>
-
-<li class="indx">Smeaton, <a href="#Page_149">149</a>.</li>
-
-<li class="indx">Sobrepeliz (A), <a href="#Page_193">193</a>.</li>
-
-<li class="indx">Social (A vida) e a Reforma, <a href="#Page_216">216</a>.</li>
-
-<li class="indx">Somerset (Lord Protector), <a href="#Page_175">175</a>.</li>
-
-<li class="indx">Spalatin, <a href="#Page_10">10</a>, <a href="#Page_16">16</a>.</li>
-
-<li class="indx">Spira (Edicto de), <a href="#Page_29">29</a>.</li>
-
-<li class="indx">Staupitz, <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_9">9</a>.</li>
-
-<li class="indx">Stirling, <a href="#Page_143">143</a>.</li>
-
-<li class="indx">Stockolmo (Massacre de), <a href="#Page_51">51</a>.</li>
-
-<li class="indx">Storch, <a href="#Page_20">20</a>, <a href="#Page_24">24</a>.</li>
-
-<li class="indx">Sturm, <a href="#Page_100">100</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Submissão do Clero</i>, <a href="#Page_165">165</a>.</li>
-
-<li class="indx">Sully (Duque de), <a href="#Page_107">107</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Superintendentes</i> (<i>Os</i>), <a href="#Page_147">147</a>.</li>
-
-<li class="indx">Supremacia (A) real em Inglaterra, <a href="#Page_166">166</a>, <a href="#Page_176">176</a>, <a href="#Page_185">185</a>, <a href="#Page_190">190</a>.</li>
-
-<li class="indx">Suecia (Reforma na), <a href="#Page_51">51</a>.</li>
-
-<li class="indx">Suissa (A Reforma), <a href="#Page_57">57-66</a>.</li>
-
-<li class="indx">Syndicancia aos mosteiros, <a href="#Page_170">170</a>.</li>
-
-<li class="indx">Syndicancia ás Egrejas, <a href="#Page_176">176</a>.</li>
-
-<li class="indx">Synodo da Egreja Franceza, <a href="#Page_97">97</a>.</li>
-
-<li class="indx">Synodo da Egreja Hollandeza, <a href="#Page_134">134</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Tauler (João), <a href="#Page_9">9</a>, <a href="#Page_32">32</a>, <a href="#Page_212">212</a>.</li>
-
-<li class="indx">Tetzel (João), <a href="#Page_3">3</a>, <a href="#Page_4">4</a>.</li>
-
-<li class="indx">Theses (As) de Luthero, <a href="#Page_3">3</a>, <a href="#Page_5">5</a>, <a href="#Page_6">6</a>.</li>
-
-<li class="indx">Theses (As) de Zwinglio, <a href="#Page_62">62</a>.</li>
-
-<li class="indx">Tindal traduz a Biblia, <a href="#Page_187">187</a>.</li>
-
-<li class="indx">Toggenburgo, <a href="#Page_60">60</a>.</li>
-
-<li class="indx">Torpichen (Lord), <a href="#Page_142">142</a>.</li>
-
-<li class="indx">Toulouse (Massacre de), <a href="#Page_103">103</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Transubstanciação</i> (<i>A</i>), <a href="#Page_34">34</a>, <a href="#Page_36">36</a>.</li>
-
-<li class="indx">Trento (O concilio de), <a href="#Page_45">45</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Tulchanos</i> (<i>Os bispos</i>), <a href="#Page_150">150</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Ubiquidade (Doutrina da), <a href="#Page_36">36</a>.</li>
-
-<li class="indx">Udal (Nicolau), <a href="#Page_198">198</a>.</li>
-
-<li class="indx">Upsala, <a href="#Page_52">52</a>.</li>
-
-<li class="indx"><i>Utopia</i> (<i>A</i>) de Sir T. More, <a href="#Page_161">161</a>, <a href="#Page_169">169</a>.</li>
-
-<li class="indx">Utrecht, <a href="#Page_113">113</a>.</li>
-
-<li class="indx">Utrecht (Tratado de), <a href="#Page_132">132</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Valdenses (Os), <a href="#Page_92">92</a>.</li>
-
-<li class="indx">Valence (Bispo de), <a href="#Page_100">100</a>.</li>
-
-<li class="indx">Vassy (Massacre de), <a href="#Page_103">103</a>.</li>
-
-<li class="indx">Vienne (Arcebispo de), <a href="#Page_100">100</a>.</li>
-
-<li class="indx">Voes (Henrique), <a href="#Page_115">115</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Wardlaw, <a href="#Page_138">138</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wartburgo, <a href="#Page_18">18</a>.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_262" id="Page_262">[262]</a></span>Warwick (Conde de), <a href="#Page_177">177</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wedderburn (Balladas Sacras de), <a href="#Page_139">139</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wessel (João), <a href="#Page_144">144</a>.</li>
-
-<li class="indx">Westeräs, <a href="#Page_52">52</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wied (Hermann von), <a href="#Page_41">41</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wilcox, <a href="#Page_194">194</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wildhaus, <a href="#Page_66">66</a>.</li>
-
-<li class="indx">Willock, <a href="#Page_114">114</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wimpina (Conrado), <a href="#Page_9">9</a>.</li>
-
-<li class="indx">Winram, <a href="#Page_144">144</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wishart (Jorge), <a href="#Page_140">140</a>, <a href="#Page_141">141</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wittenberg (Os fanaticos de), <a href="#Page_20">20</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wolsey (Cardeal), <a href="#Page_162">162</a>, <a href="#Page_168">168</a>.</li>
-
-<li class="indx">Worms (Conferencia de), <a href="#Page_40">40</a>.</li>
-
-<li class="indx">Worms (Dieta de), <a href="#Page_16">16</a>, <a href="#Page_22">22</a>, <a href="#Page_24">24</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wyatt (Sir T.), <a href="#Page_184">184</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wycliffe, <a href="#Page_8">8</a>, <a href="#Page_11">11</a>, <a href="#Page_138">138</a>, <a href="#Page_158">158</a>.</li>
-
-<li class="indx">Wyttenbach (Thomaz), <a href="#Page_60">60</a>, <a href="#Page_64">64</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Xavier (Francisco), <a href="#Page_45">45</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">Zurich, <a href="#Page_59">59</a>, <a href="#Page_62">62</a>, <a href="#Page_76">76</a>.</li>
-
-<li class="indx">Zwinglio, <a href="#Page_33">33</a>, <a href="#Page_35">35</a>, <a href="#Page_60">60</a>, <a href="#Page_66">66</a>.</li>
-
-</ul>
-
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-<pre>
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-
-End of the Project Gutenberg EBook of A Reforma, by Thomas M. Lindsay
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A REFORMA ***
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