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-The Project Gutenberg EBook of A Reforma, by Thomas M. Lindsay
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
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-
-Title: A Reforma
-
-Author: Thomas M. Lindsay
-
-Release Date: June 23, 2020 [EBook #62461]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A REFORMA ***
-
-
-
-
-Produced by Júlio Reis, Leonor Silva and the Online
-Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net
-
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-
-A REFORMA
-
-
-
-
- A REFORMA
-
- POR
- T. M. LINDSAY
- DOUTOR EM THEOLOGIA E PROFESSOR DE HISTORIA
- ECLESIASTICA
-
- TRADUCÇÃO DE J. S. CANUTO
- (AUCTORISADA)
-
- [Illustration]
-
- LIVRARIA EVANGELICA
- RUA DAS JANELLAS VERDES, 32
- LISBOA
-
- LISBOA
- TYP. ROSA, LIMITADA
- 29, Rua da Magdalena, 31
-
-
-
-
-PREFACIO
-
-
-As primeiras tres partes d’este livrinho são simplesmente uma compilação
-das melhores e mais accessiveis historias da Reforma, e de modo algum são
-apresentadas como uma dissertação original sobre o vasto e complicado
-movimento religioso que descrevem. Sou da opinião do dr. Merle d’Aubigné:
-a Reforma foi uma revivificação da religião, e não pode ser descripta com
-bom exito se não tivermos sempre deante de nós, e bem distinctamente,
-este seu caracter essencial. Os reformadores foram homens que, sob o
-impulso de um grande movimento religioso que se levantou n’uma occasião
-em que eram bem particulares as circumstancias intellectuaes, sociaes e
-politicas, se sentiram animados pelo desejo de que lhes fosse permittido
-dar culto a Deus segundo as direcções da Escriptura e os dictames da
-razão e da consciencia. Mas este desejo, apparentemente simples, envolvia
-uma tal mudança nas condições sociaes e politicas, não sómente em cada
-provincia e em cada nação, mas em toda a Europa, tomada no seu conjuncto,
-que não se pode escrever a historia da revivificação religiosa sem
-apresentar uma grande parte da historia politica e social de aquella
-epoca.
-
-O dr. Leopoldo von Ranke tratou com tanta proficiencia da historia
-politica do periodo em questão, que o auctor até do mais humilde dos
-manuaes deve collocar-se quasi exclusivamente debaixo da sua direcção.
-Foi o que eu fiz, e em quasi todas as paginas me aproveito, com
-reconhecimento, das suas magistraes descripções do movimento politico e
-social.
-
-Escusado seria mencionar toda a longa lista de auctores consultados na
-preparação d’este pequeno livrinho; como, porém, não se faz referencia
-alguma ás auctoridades citadas, cumpre-me dizer que, além de d’Aubigné
-e de Ranke, as pessoas que teem conhecimento do assumpto hão de notar
-um continuo uso das _Historias da Egreja_ de Hagenbach e Henke, do
-_Periodo da Reforma_ de Haüsser, dos _Huguenotes_ de Baird, de dois
-volumes das _Epocas da Historia Moderna_ de Longman, da _Era da Revolução
-Protestante_ de Seebohm, e do _Seculo de Isabel_ de Creighton. Refiro-me
-frequentemente á _Historia dos Credos do Christianismo_ ao tratar das
-Confissões, e á inapreciavel collecção de _Livros de Disciplina_, de
-Richter, ao tratar da organização ecclesiastica das varias egrejas
-reformadas.
-
-A quarta parte, que se occupa summariamente dos principios fundamentaes
-do movimento da Reforma, deveria talvez ter ido em primeiro logar,
-servindo de introducção, mas preferi collocal-a no fim; em parte, porque
-similhante introducção poderia assustar os leitores jovens, e em parte
-porque os principios do movimento podem ser mais bem apreciados depois do
-leitor ter algum conhecimento da sua historia. A quarta parte é a unica
-porção d’este pequeno manual que se pode dizer com verdade que pertence
-exclusivamente ao auctor, e que apresenta opiniões sobre o assumpto de
-que só elle é responsavel.
-
-O summario chronologico foi extraido quasi inteiramente das admiraveis
-tabellas de Weingarten.
-
- T. M. LINDSAY.
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- PARTE I
-
- A REFORMA ALLEMÃ, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS PAG. 1-53
-
- CAPITULO I
-
- A REFORMA NA ALLEMANHA PAG. 1-48
-
- O principio da Reforma, pag. 3.—As indulgencias, e as theses
- que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As theses
- de Luthero não atacavam sómente as indulgencias, pag. 6.—A
- historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios
- e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag.
- 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O Imperador
- e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag.
- 15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo,
- pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de
- Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta
- dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529,
- pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag.
- 32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre
- Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag.
- 36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante
- de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra
- de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral,
- pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de
- Augsburgo, pag. 47.
-
- CAPITULO II
-
- A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA PAG. 49-53
-
- O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag.
- 50.—Na Suecia, pag. 51.
-
- PARTE II
-
- A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS PAG. 55-154
-
- CAPITULO I
-
- A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO PAG. 57-66
-
- As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica
- da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de
- Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa,
- pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os cantões florestaes, pag.
- 64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.
-
- CAPITULO II
-
- A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO PAG. 67-85
-
- Genebra antes da Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag. 68.—A
- mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião Christã_,
- pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua expulsão, pag.
- 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag. 76.—_As Ordenanças
- Eclesiasticas_, pag. 77.—Como differem dos _Institutos_,
- pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, pag.
- 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe Beza, pag. 83.—A
- influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma, pag. 83.—_A
- Confissão de Zurich_, pag. 84.
-
- CAPITULO III
-
- A REFORMA EM FRANÇA PAG. 87-111
-
- Os principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag.
- 89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma,
- pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos
- placards, pag. 92.—O Vaudois de Durance, pag. 92.—Henrique II
- e os Guises, pag. 93.—Organização da egreja reformada, pag.
- 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag. 96.—O
- primeiro _Synodo Nacional_, pag. 97.—Anne de Bourg, pag.
- 98.—A carnificina de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa
- dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A
- Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros,
- pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e
- Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A
- Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto
- de Nantes, pag. 110.
-
- CAPITULO IV
-
- A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS PAG. 113-116
-
- Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag.
- 114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os
- Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos
- bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os
- _mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de
- Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e
- do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange,
- pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag.
- 126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag.
- 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag.
- 130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag.
- 132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua
- organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag.
- 134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da
- Egreja na Hollanda, pag. 136.
-
- CAPITULO V
-
- A REFORMA NA ESCOCIA PAG. 137-154
-
- Preparação para a Reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica e
- a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag. 138.—A
- Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia e a
- situação politica, pag. 139.—João Knox, pag. 141.—A Congregação
- e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão escoceza_,
- pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.— O _Livro de
- Disciplina e a Primeira Assembléa Geral_, pag. 147.—A educação,
- pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos tulchanos, pag.
- 150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro de Disciplina,
- pag. 152.
-
- PARTE III
-
- A REFORMA ANGLICANA PAG. 155-201
-
- CAPITULO I
-
- A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII PAG. 137-174
-
- O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag.
- 157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O
- estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma,
- pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag.
- 160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado,
- pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII,
- Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles,
- pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da
- separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas
- coisas differentes, pag. 168.—Execução de sir Thomas More, pag.
- 169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades
- da Egreja, pag. 170.—_Os dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto
- Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag.
- 173.
-
- CAPITULO II
-
- A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE
- MARIA PAG. 175-188
-
- Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o _Livro de
- Homilias_ e o _Livro de Oração Commum_, pag. 176.—A alliança
- com o protestantismo continental, pag. 178.—Os _Quarenta e
- Dois Artigos_, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag.
- 179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra
- por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha
- necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se
- firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A
- reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida
- a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado
- de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag.
- 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A
- morte de Maria, pag. 187.
-
- CAPITULO III
-
- A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL PAG. 189-201
-
- A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão
- religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag.
- 192.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag.
- 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag.
- 194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A
- Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—_Os
- conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_,
- pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198.
-
- PARTE IV
-
- OS PRINCIPIOS DA REFORMA PAG. 203-236
-
- CAPITULO I
-
- A REFORMA FOI UMA REVIVIFICAÇÃO RELIGIOSA PAG. 205-214
-
- A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de
- particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação
- da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a
- Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag.
- 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,
- pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis,
- pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação
- do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma
- revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213.
-
- CAPITULO II
-
- COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA PAG. 215-219
-
- O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado
- na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a noção
- medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra
- o mediavelismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De
- Monarchia de Dante_ e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua,
- pag. 218.
-
- CAPITULO III
-
- A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES PAG. 221-224
-
- Os Reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja,
- pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á
- Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da
- Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição
- reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223.
-
- CAPITULO IV
-
- OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA PAG. 225-236
-
- Os principios _formaes e materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O
- sacerdocio de todos os crentes: o grande principio da Reforma,
- pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da
- _Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_
- da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina
- medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da
- Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_.
- Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia,
- pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em
- contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical
- e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e
- justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235.
-
- SUMMARIO CHRONOLOGICO PAG. 237-255
-
- INDICE DE PERSONAGENS, LOCALIDADES, ETC PAG. 257-261
-
-
-
-
-
-I PARTE
-
-A REFORMA NA ALLEMANHA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS
-
-CAPITULOS:
-
- I—A REFORMA NA ALLEMANHA.
-
- II—A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-A REFORMA NA ALLEMANHA
-
- O principio da Reforma, pag. 3.—As Indulgencias, e as Theses
- que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As Theses
- de Luthero não atacavam sómente as Indulgencias, pag. 6.—A
- historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios
- e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag.
- 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O imperador
- e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag.
- 15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo,
- pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de
- Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta
- dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529,
- pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag.
- 32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre
- Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag.
- 36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante
- de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra
- de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral,
- pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de
- Augsburgo, pag. 47.
-
-
-=O principio da Reforma.=—A reforma principiou, se é que similhante
-movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca remotissima, teve
-realmente um principio, quando Martinho Luthero pregou as noventa e
-nove theses contra as indulgencias na porta da egreja da pequena cidade
-de Wittenberg, na Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido
-enviado á Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para
-o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra com os
-turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar fundos para serem
-dispendidos pelo papa em quadros e outras obras de arte para a sumptuosa
-egreja de S. Pedro, em Roma. O dinheiro obtinha-se em troca de uma
-especie de recibos, em que se declarava que o comprador havia recebido
-perdão da perpetração dos peccados que mencionara e pago a respectiva
-importancia.
-
-O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo de
-Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou durante o outomno
-de 1517 o centro da Allemanha, e chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia.
-A sua presença não tinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem
-pelos clerigos mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo
-mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo facto de
-extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o todo para o papa;
-estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles não lhe deram licença para
-entrar nos seus territorios senão depois d’elle prometter que lhes dava
-uma parte do que adquirisse.
-
-A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava d’elle pelo facto
-de, por onde quer que elle passasse, o povo se tornar peior; vendia por
-sete ducados o direito de assassinar um inimigo; aquelles que desejavam
-roubar uma egreja eram perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio
-de pae, mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens e
-mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como é natural, tirar
-algum lucro de aquillo que lhes custara o seu dinheiro, e por isso o
-crime abundava onde quer que o vendedor do perdão apparecesse.
-
-As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas, pelo facto do
-tumulto e dos escandalos a que a sua presença dava origem. Enviava
-adeante de si homens extravagantemente vestidos, que fixavam annuncios
-pelas paredes, e que apregoavam pelas ruas e pelas estradas a sua proxima
-chegada, encarecendo a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia
-á venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna aquelles que
-o comprarem mais limpos do que o baptismo, mais puros do que Adão no
-seu estado de innocencia no paraiso»; «Assim que o dinheiro tilintar no
-fundo do cofre, o comprador fica perdoado, e livre de todos os peccados».
-Em seguida a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu
-ajudante, n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da praça
-do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro de cujas grades
-pendiam os celebres papelinhos, e do outro um cofre em que o dinheiro era
-lançado, offerecia ao publico a sua mercadoria, á maneira dos vendedores
-de elixires que costumam apparecer pelas feiras.
-
-Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e a sua alma justa
-sentia-se indignada com o facto dos bispos, apezar de todas as suas
-cartas e protestos, permittirem que elle andasse de diocese em diocese.
-Não obstante haver prégado contra Tetzel e contra as indulgencias, o
-traficante do perdão ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a
-Jüterbogk, perto de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso
-como prégador e como professor da universidade, não poude conter-se por
-mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias, e
-pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas suas proposições,
-que, se havia na Egreja logar para Tetzel e para os seus bilhetes de
-perdão, não o haveria para elle, Luthero, nem para as idéas que elle
-tinha relativamente ao peccado e ao modo como Deus concede o perdão.
-Roma e as indulgencias estavam produzindo uma forte indignação em toda a
-Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram as theses
-que o ateiaram, dando principio á Reforma.
-
-=As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.=—As
-indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma coisa nova na
-Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse, formavam um elemento
-tão preponderante da vida exterior da Egreja n’aquella epoca que seria
-dificil censural-as sem ir de encontro a muitas outras coisas. A Egreja
-da Edade Media preoccupava-se muito com a representação visivel dos
-factos e forças espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta
-importancia a essa manifestação externa que se chegava a perder de vista
-o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e excellentes
-verdades evangelicas se acharam envolvidas por uma espessa camada
-de formulas estereis que não permittiam que se desenvolvesse a vida
-espiritual.
-
-É uma verdade evangelica que quando um homem se sente triste por causa
-dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza d’este ou d’aquelle modo;
-o verdadeiro arrependimento torna-se sempre manifesto. A Egreja da Edade
-Media pegou n’este axioma e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento
-deve manifestar-se sempre em certos e determinados modos prescriptos pela
-Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento, taes como, o
-dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos dias, ou o praticar
-outras penitencias mais ou menos dolorosas, vieram a ser consideradas
-como o verdadeiro arrependimento e a serem chamados por esse nome.
-
-No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta, ficou
-estabelecido que o pagamento de umas determinadas sommas de dinheiro
-dispensasse os signaes exteriores do arrependimento, comtanto que o
-peccador penitente se sentisse compungido no seu coração por haver
-peccado. Quando a Egreja attingiu um estado ainda peior, decidiu-se,
-como coisa assente, que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o
-perdão de Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que
-se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico das
-indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam esta doutrina muito
-lucrativa, e, como foi abertamente proclamado, diligenciaram extrair
-todo o dinheiro que lhes fosse possivel «dos peccados dos allemães». A
-indulgencia contra a qual Luthero protestou era a quinta das que nos
-ultimos dezesete annos tinham sido publicadas.
-
-As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso encadeado
-contra a doutrina e pratica das indulgencias. E torna evidentes estas
-tres coisas: (1) É, de algum modo, digna de approvação a indulgencia
-quando significa simplesmente um dos muitos meios de proclamar o perdão
-do peccado, _concedido por Deus_; mas uma tal proclamação deve ser sempre
-gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem
-á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao verdadeiro
-arrependimento, e a auctorisação para deixar de os pôr em pratica não
-pode, de maneira alguma, garantir que Deus tenha realmente perdoado.
-(3) Qualquer cristão que se sinta verdadeiramente arrependido recebe um
-pleno perdão, e é participante de todas as riquezas de Christo, por um
-dom directo de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra
-intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar melhor
-as suas theses, declara que o arrependimento consiste na contricção,
-na confissão e na absolvição, e que a mais importante das tres coisas
-é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr verdadeira, sincera,
-seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão e a absolvição. Assim, para
-Luthero, a coisa essencial é o facto intimo, espiritual, da dôr produzida
-pelo sentimento do peccado; a manifestação do pezar é uma coisa boa,
-mas para o que Deus olha é para o estado espiritual, e não para a
-exteriorisação d’esse estado.
-
-=As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.=—Luthero, nas
-suas theses e no seu sermão, declarou que os factos intimos, espirituaes,
-experimentados pelo homem, eram de um infinito valor, comparados com a
-expressão d’esses factos mediante formulas esteriotypadas que a Egreja
-reconhecia; e tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne
-assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter directamente
-com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo isto, fez muito mais do
-que atacar as indulgencias; protestou contra as mais enraizadas noções da
-Egreja medieval.
-
-A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos desde o dia
-de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição homens e
-mulheres, cheios de confiança em Christo, se teem dirigido humildemente
-a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes concedido esse perdão que
-solicitavam, e a sua simples experiencia christã foi cantada nos
-grandiosos e velhos hymnos da egreja medieval; encontrou expressão nas
-orações da Egreja; constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja,
-e agitou as multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como
-quer que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos
-não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia era opposta ao
-maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja accumulava de tal fórma
-as coisas exteriores, que a vida espiritual ficou sepultada debaixo
-d’ellas, e na linguagem corrente da epoca havia-se mudado a verdadeira
-significação dos termos «espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem
-era «espiritual» quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o
-dinheiro tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio,
-com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual», ou
-«santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade.
-
-E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos, com a
-sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes, e tão cega
-tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o homem, proclamando
-que ninguem se podia chegar a Deus senão por meio d’ella, e que Deus
-não poderia jámais fallar ao coração do homem senão egualmente por seu
-intermedio. A confissão dos peccados tinha de ser feita ao padre, e o
-perdão era concedido mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra
-tudo isto n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não
-sabia. A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade de
-se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos peccados
-comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus eram coisas que
-desappareciam mediante o desembolso de uma certa quantia. Ao dar saida á
-sua indignação, referia-se apenas ao sacrilegio que via deante de si; e,
-comtudo, atacou, não simplesmente a peior parte de um systema mau, mas o
-systema todo. A Reforma tinha começado.
-
-=A historia de Luthero, desde o principio.=—O homem que se oppoz a Tetzel
-tinha, apoz um longo e encarniçado combate, chegado ao conhecimento do
-que o perdão dos peccados significa realmente. Recorrera a todos os meios
-que a Egreja poz ao dispôr dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles
-lhe proporcionara conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e
-achou a paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão
-de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado com as
-armas pontificias, e lavrou o seu protesto em nome de todos aquelles que,
-em todos os seculos da egreja, sentindo-se vergados ao peso do peccado,
-tinham encontrado em Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle
-torna isto bem evidente, como vamos ver.
-
-Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. «Sou camponez,
-e filho de camponez», costumava elle dizer. O pae era mineiro, e a mãe
-uma camponeza com fama de muita austeridade. Teve uma infancia muito
-pouco risonha, e, apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus
-caracteristicos, notava-se-lhe de quando em quando um certo ar triste
-que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros annos
-da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um homem. Como todos
-os homens de trabalho, tinha em desprezo os indolentes frades, e toda
-a sua idéa era que o filho fosse advogado; queria que elle se formasse
-em direito, conhecesse todas as engrenagens da lei, d’esse terrivel
-tyranno do camponez allemão, que o tratava como a um servo, quasi como
-a um proscripto. Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld,
-de Magdeburgo, de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle
-tempo, bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que não
-experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas vezes, forçoso
-cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu o primeiro lampejo da
-caridade humana, quando Frau Cotta, attraida pela triste solidão em que
-elle vivia e pela sua melodiosa voz, o introduziu em sua casa e lhe fez
-todo o bem que poude. De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade,
-onde não tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além
-da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio. Leu as
-grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima de tudo, leu e
-tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos do bravo franciscano
-inglez Guilherme de Occam, que resistiu denodadamente aos papas no seculo
-quatorze, e que ensinou Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero
-chamava-lhe com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503
-recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se notado
-pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia. Estava,
-pois, no caminho da posição em que o pae desejava vêl-o: a de um grande
-jurisconsulto.
-
-Durante todo esse tempo, comtudo, a sua consciencia não tinha estado
-ociosa; os seus peccados atormentavam-n’o; a ira de Deus tinha caido
-pesadamente sobre elle. O amor de Deus era uma coisa que para elle não
-existia. O pae terrestre tinha-o tratado sempre com severidade, com
-dureza, e no Pae celestial via apenas um senhor que exigia d’elle esta e
-aquella coisa. No dia 17 de Julho de 1505, tendo elle 21 annos, os seus
-sentimentos religiosos poderam mais do que elle; entrou para o convento
-dos agostinhos de Erfurt, fugindo á sociedade de parentes e amigos, e
-desprezando todas as honrarias humanas. O seu Platão e o seu Virgilio, de
-que se fez acompanhar, ficaram sendo as unicas recordações da sua vida
-passada.
-
-No convento poz-se a trabalhar para achar o caminho da salvação.
-Leu obras theologicas, jejuou, orou, submetteu-se a toda a sorte de
-privações, mas nunca logrou encontrar a paz. Não tardou em adquirir
-uma Biblia _completa_, coisa para elle inteiramente nova, e poz-se a
-estudal-a com todo o afan; o terror do peccado estava, porém, sobre
-elle, e não lhe deixava ver o Evangelho. Foi ter com o vigario geral da
-ordem, Staupitz, que era um homem muito fervoroso, e este encaminhou-o
-para Agostinho e para os mysticos allemães, em que encontrou um grande
-auxilio. Aquelle mostrou-lhe o que era o peccado, e o que era a graça
-soberana; e estes convenceram-n’o de que a verdadeira religião era a
-religião do coração. No emtanto continuava a faltar-lhe a paz.
-
-No meio d’este conflicto, foi-lhe confiado um encargo especial. Frederico
-o magnanimo, eleitor da Saxonia, e o mais eminente dos principes
-allemães, fundou uma nova universidade em Wittenberg, e pediu a Staupitz
-que indicasse os respectivos lentes. Luthero foi então nomeado professor
-de philosophia, e começou logo a fazer prelecções. Em 1512 doutorou-se
-em theologia biblica, versando as suas conferencias sobre os Psalmos e
-as Epistolas de S. Paulo aos Romanos e aos Galatas. Como estudo, leu os
-Mysticos, os _Sermões_ de Teulez, e aquelle pequeno mas importante livro,
-_A Theologia Allemã_. Chegou, porém, a crise da sua vida. Em 1511 foi
-enviado a Roma para tratar de negocios. Á ida era um theologo medieval; á
-volta era um protestante; á ida cria na justificação pelas obras, á volta
-cria na justificação pela fé.
-
-Roma era, havia muitos seculos, um amontoado de corrupção moral, e
-Luthero descobriu isso immediatamente. Entrou n’aquella cidade como um
-judeu entraria em Jerusalem. Elle proprio nos conta que ao avistal-a caiu
-de joelhos e exclamou: «Eu te saudo, cidade santa, tres vezes santificada
-pelo sangue dos martyres que se tem derramado em ti». Viu que os monges
-e padres eram homens maus, que faziam zombaria dos serviços religiosos
-em que tomavam parte. Viu que havia no povo muita deslealdade e cubiça,
-e que até o papa pouco melhor era do que um pagão. Luthero havia-se
-dirigido a Roma com a idéa de achar na cidade santa, como elle lhe
-chamava lá na Allemanha, algum meio seguro de promover a sua salvação, e,
-caso estranho, foi o proprio Christo que elle achou. Foi em Roma, no meio
-da corrupção e da blasphemia, que de subito se compenetrou de que não
-havia outro meio de salvação senão procurar Christo e entregar tudo ao
-cuidado d’Elle; de que o perdão é gratuitamente concedido por Deus e dá
-principio á vida christã, em vez de ser penosamente ganho no fim della.
-
-Ao regressar a Wittenberg, era outro homem. Era já afamado como prégador;
-mas depois da sua visita a Roma prégava como nenhum outro poderia
-prégar. Tornou-se a primeira figura da universidade, e tinha como amigos
-Staupitz, o seu geral, e Frederico, o seu principe. Foi então que
-appareceram as famosas indulgencias.
-
-=Partidarios e adversarios de Luthero.=—Ao principio parecia que toda a
-Allemanha estava ao lado de Luthero. O trafico das indulgencias tinha
-sido tão escandaloso que as pessoas de bons sentimentos e todos os
-patriotas allemães se sentiam indignados. O golpe, porém, que Luthero
-vibrara ás indulgencias havia attingido outros pontos, e não tardaram a
-levantar-se antagonistas. Conrado Wimpina em Frankfort, Hogstraten em
-Colonia, Silvestre Prierias em Roma, e, acima de todos, João Eck, um seu
-antigo condiscipulo, em Ingolstadt, todos elles atacaram as theses, e
-descobriram heresias nas mesmas.
-
-Resultou de ahi que Luthero foi citado a comparecer, em Roma, na
-presença do papa; mas o eleitor da Saxonia conseguiu uma modificação,
-recebendo, por fim, Luthero ordem para partir para Augsburgo, a fim de
-ser interrogado pelo cardeal Caetano, legado do papa na dieta allemã.
-O papa queria evitar uma desintelligencia com o eleitor da Saxonia, e
-recommendou a Caetano que se mostrasse conciliativo. Luthero foi, mas a
-entrevista não teve bom exito. O cardeal começou por reprehender Luthero,
-mas acabou por se sentir dominado por um certo mêdo d’elle. «Não posso
-discutir mais com este animal», disse elle; «tem um olhar maligno, e
-povoam-lhe o cerebro uns pensamentos estupendos». Luthero, por seu
-lado, dizia abertamente que o legado era tão competente para julgar de
-assumptos espirituaes como um burro para tocar harpa.
-
-Ao deixar Augsburgo, levava sobre si a condemnação, mas havia appellado
-para o proprio papa, rogando-lhe que se informasse melhor do seu caso.
-O papa não queria indispôr-se com a Allemanha, porque a parte mais
-importante da nação parecia estar a favor de Luthero, e enviou o cardeal
-Miltitz a promover a paz. Este não chamou o moço frade á sua presença,
-mas teve com elle uma conversação amigavel em casa de Spalatin, o
-capellão do eleitor. Antes d’esta entrevista Luthero havia appellado para
-um concilio geral. O cardeal Miltitz declarou estar em desaccordo com
-Tetzel, reprovou as indulgencias, e concordou com muitas das asserções de
-Luthero; mas lembrou-lhe que não tinha sido bastante respeitoso para com
-o papa, e que estava enfraquecendo o poder e a auctoridade da egreja. O
-seu argumento era, em summa, o seguinte: «O senhor pode ter razão; mas
-para que ha de ser rude? Escreva ao papa, e peça-lhe desculpa». Luthero
-prometteu fazel-o, e entre elle e Miltitz ficou estabelecido um convenio,
-que, como elle depois referiu ao eleitor, continha duas clausulas:
-
- 1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre as
- materias em controversia.
-
- 2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios, e o
- papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão
- de theologos illustrados.
-
-No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente que
-a auctoridade da egreja era superior a tudo, e que a coisa alguma, quer
-na terra quer no céu, se devia dar a prioridade, com excepção de Jesus
-Christo, que tudo governa. Isto foi em Março de 1519.
-
-=A disputa de Leipzig.=—Luthero tinha promettido conservar-se quieto
-se os seus adversarios se conservassem quietos—era este o seu ajuste
-com o cardeal Miltitz; os seus inimigos, porém, não se conservaram
-quietos, e Luthero considerou-se livre para os atacar. O indiscreto
-amigo da egreja era João Eck. Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero,
-para uma discussão publica, e no entretanto publicou treze theses que
-atacavam as noventa e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente,
-e a polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra
-entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia attingiu
-um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica, mas, sim, a
-opposição de duas series de principios em conflicto, affectando todo o
-circulo da vida ecclesiastica. Aqui, pela primeira vez, a christandade
-allemã desprendeu-se da christandade romana, insistindo no sacerdocio de
-todos os crentes e no direito de cada christão julgar em todas as coisas
-segundo a sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu
-Santo Espirito.
-
-Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias, mas o
-debate em breve mudou para a auctoridade da Egreja romana e do papa. Eck
-mantinha a suprema auctoridade do bispo de Roma, como successor de S.
-Pedro e Vigario geral de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja
-romana sobre as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho
-da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos mais
-santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou uma grande
-contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou Eck. «A egreja grega tem
-existido sem papa, e vós sois o primeiro a negar-lhe o nome de Egreja»
-respondeu Luthero. «Athanasio, Basilio e os dois Gregorios estavam fóra
-da egreja? O papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do
-papa». «Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram
-condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de Huss eram erroneas»
-disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões dos concilios, eu recuso
-discutir comvosco», disse Eck, e por aqui se ficou. Immediatamente
-depois, porém, Luthero completou e publicou a sua argumentação. Declara,
-pela primeira vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa,
-mas o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o papa se
-mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos servos de Deus»,
-elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a egreja é a communhão dos
-fieis—é constituida pelos verdadeiros crentes, pelos eleitos. Á egreja
-nunca falta o Espirito Santo, e aos papas e concilios falta muitas vezes.
-Esta egreja, que tem sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto,
-um leigo que possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de
-credito do que um papa ou um concilio que o não faça.
-
-Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados. De um
-lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião que Luthero devia ser
-violentamente posto fóra de combate, e insistiram n’uma bulla papal que o
-condemnasse; e do outro, Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha
-chegado com a sua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia
-agostiniana, com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade
-moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus, feria, em
-todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade media: mostrava
-que era impossivel a qualquer homem o ter uma vida perfeitamente pura e
-santa, e, por consequencia, não podia haver santos, e o culto dado aos
-santos era um absurdo; tornava inuteis as reliquias e as peregrinações,
-assim como a vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações.
-Todas estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira vida
-religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver mediador entre Deus e
-os homens, com excepção de Jesus Christo, a mediação do papa para nada
-servia.
-
-A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia separado de Roma,
-e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso, chegando o seu enthusiasmo a
-um ponto extremo. O povo das cidades manifestou a sua sympathia pelo
-arrojado frade. Ulrico von Hutten e os outros homens de letras viram
-n’elle, desde então, o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros
-cavalleiros livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os
-pobres e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que elle
-os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam.
-Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo allemão. Isto teve
-logar em 1519.
-
-=A bulla do papa e a queima da mesma.=—Eck e os demais adversarios
-de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia pôr em pratica para
-reduzir ao silencio o audacioso monge, e instaram com o papa para que
-publicasse uma bulla condemnando as suas opiniões. Luthero, por seu lado,
-não estava ocioso. Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua
-habitual actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao
-povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre, e, comtudo,
-mandava todos os annos uma consideravel quantia de dinheiro para Roma.
-
-N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico, tendo
-Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em bispados, e o clero
-era muito rico. Possuia extensos dominios, que arrendava; tinha tambem
-direito aos dizimos (a decima parte) de todas as outras propriedades;
-além d’isso, fazia dinheiro com os baptismos, com os casamentos, com as
-absolvições, com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros,
-e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se tambem tornado
-muito opulentas, sendo a sua maior riqueza constituida por terras que
-lhes haviam sido doadas ou legadas em testamento por pessoas devotas.
-Em quasi todos os paizes da Europa se haviam promulgado leis com o fim
-de impedir ou limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão
-inefficazes que ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras
-de quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam
-continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os annos para
-Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram recolhidas pelo papa,
-que demorava sempre a nomeação de outro bispo. O papa diligenciava
-frequentemente que os bispos ou abbades fossem italianos, pois que estes
-ficavam residindo em Roma, e o dinheiro era-lhes remettido para lá.
-Quando um novo bispo era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento
-do primeiro anno (_os annatas_). Todo este dinheiro que era exportado
-para Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero
-ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias. Luthero, no
-seu opusculo _Á nobreza da nação allemã_ tornava tudo isto saliente, e
-perguntava por quanto tempo se estaria disposto a tolerar similhante
-coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista dos dois estados
-distinctos, um espiritual, incluindo o papa, os bispos, os padres, os
-frades e as freiras, e o outro temporal, constituido por todas as outras
-individualidades, era um muro levantado pelos romanistas para defenderem
-as oppressões da egreja. Dizia-lhes, outrosim, que _todos_ os christãos
-são espirituaes, e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E
-perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que do seu
-depauperado paiz fossem enviados annualmente para Roma 300.000 florins.
-
-Escreveu tambem outro tratado, _O captiveiro babylonico da egreja de
-Christo_, para mostrar que elle não desejava destruir mas purificar a
-verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito. Luthero opinava
-que o papa e os romanistas tinham conduzido a egreja a um captiveiro,
-muito comparavel ao dos judeus em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O
-Senhor disse por occasião da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus
-discipulos, «Bebei d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes
-d’elle se não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros
-christãos tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E
-concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo preparadas
-bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida uma retractação, sob
-pena de ser proclamado hereje. Se é verdade, desejo que este livrinho
-fique constituindo uma parte da minha futura retractação».
-
-Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos da Allemanha,
-e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu, por fim, em 15 de Julho de
-1520. Accusava Luthero de sustentar as opiniões de Huss, e condemnava-o.
-Eck levou-a para Leipzig em Outubro. Foi affixada em varias cidades
-allemãs, e em geral os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou,
-por fim, ás mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto,
-em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim annunciou
-em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro, á frente de um
-cortejo de professores e estudantes, Luthero saiu da universidade e
-dirigiu-se para o mercado. Um dos lentes accendeu a fogueira, e Luthero
-lançou a bulla ás chammas. Estava consummada a affronta. Foi tambem
-queimado um exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali
-em deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma.
-A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um enorme
-regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só o imperador é que
-tinha poder agora para reprimir Luthero.
-
-=O imperador e a Reforma.=—O imperador era, por esse tempo, Carlos V.
-Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado na Allemanha, nem
-era tão poderoso como o seu titulo indicava. N’aquelles dias ainda
-predominavam as idéas medievaes de governo, e Carlos V tinha resolvido
-restabelecer o velho poder imperial com todos os seus attributos.
-
-No principio da edade media os homens colhiam as suas idéas de governo
-do velho imperio romano—não do imperio pagão de Augusto Cesar e dos seus
-successores, mas do imperio christão de Constantino e de aquelles que
-vieram apoz elle. Posto que aquelle velho imperio tivesse sido destruido
-pelas invasões das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das
-conquistas ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram o
-governo e as leis da nação que haviam derrubado.
-
-Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem social eram
-coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse concentrado n’um
-foco e identificado n’uma só pessoa—o monarca universal; e quando todo
-o governo ecclesiastico e communhão religiosa não obedecessem, da mesma
-fórma, ao arbitrio de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca
-universal era o imperador, que dominava _circa civilia_ como vigario, ou
-representante, de Deus; e o sacerdote universal era o papa, que dominava
-_circa sacra_, como vigario, ou representante, de Deus. Um dominava nos
-corpos, o outro dominava nas almas, dos homens; e o dominio de ambos era
-universal. Um tinha o poderio da espada, e o outro tinha o poderio das
-chaves. Este sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade,
-até então; mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma,
-estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador e o papa.
-
-No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão, concebeu
-o plano de, mediante um elaborado systema de enlaces matrimoniaes,
-restituir ao imperio a sua primitiva grandeza. Tinha tres filhas. A mais
-velha casou com o rei de Portugal, o que daria logar a que este paiz e
-Hespanha ficassem constituindo um só reino. A segunda casou com Filippe
-de Austria, chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor
-da Borgonha e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIII
-de Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira
-do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e de Borgonha. Do
-terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos casou com sua prima Isabel,
-e ficou, portanto, reinando em Hespanha, Austria, Borgonha e Paizes
-Baixos. E mais tarde foi tambem imperador e rei de Italia.
-
-Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha havido
-outro durante muitos seculos; e a sua ambição era ver-se investido
-da mesma auctoridade que tinham tido Carlos Magno e Otto I. Tinha os
-olhos constantemente fitos no passado; e lá no seu intimo arquitectava
-a maneira de restabelecer na Europa aquella unidade politica que
-desapparecera quando começaram a organizar-se as nações modernas. Esta
-velha unidade, porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem
-uma egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para
-com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era por elle
-considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador, o seu imperio
-não estava muito firme. Era poderoso, não por ser imperador, mas por
-ter sob o seu dominio a Hespanha, a Borgonha, e a Austria; as luctas
-intestinas de que a Allemanha era theatro, e as muitas questões que
-surgiam, a que era necessario dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe
-algum tanto o poder.
-
-=O estado politico da Allemanha.=—A Allemanha, no tempo da Reforma, não
-tinha uma unidade politica. Estava nominalmente unida sob o imperio, e
-era governada pela Dieta; mas o poder, tanto do imperador como da Dieta,
-era, praticamente, fraquissimo. O imperio era electivo, e desde o anno de
-1356 a eleição havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres
-na região do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da
-Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na do Rheno
-eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de Mayença, Trier e Köln.
-As successivas concessões que os principes obtinham á custa das eleições
-iam diminuindo o poder imperial.
-
-Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande conselho do
-imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: I Seis principes
-eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres clerigos (não entrava o rei da
-Bohemia); II Os principes, ou gran-barões, seculares e ecclesiasticos;
-III Os representantes das cidades livres, que eram as que gozavam de
-privilegios concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi
-tantos principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha
-na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado como
-instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. A Dieta, comtudo,
-tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava tão dividida que cada um
-dos principes independentes podia fazer o que muito bem quizesse. As
-cidades, formando ligas entre si, podiam offerecer uma certa resistencia
-á tyrannia dos principes; mas os aldeãos, incapazes de similhante
-combinação, eram acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes
-e pelos barões.
-
-A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco de invejar.
-Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando as suas terras,
-mas os senhores feudaes foram, pouco a pouco, cerceando-lhes direitos,
-chegando ao ponto de lhes prohibirem a entrada nos baldios, de não lhes
-permitir que se abastecessem de lenha, que pescassem nos rios, etc.
-Não tinham a quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A
-sua unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente
-de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem com o
-feudalismo, de se tornarem proprietarios.
-
-O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, deparou com
-muitas questões graves que estavam á espera de solução; o povo estava
-ancioso por um governo central, as cidades queriam que se pozesse termo
-ás constantes contendas que havia entre os barões, os poderes, civil
-e ecclesiastico, accusavam-se mutuamente, e, por ultimo, a questão de
-Luthero continuava agitando os espiritos.
-
-=Luthero e a dieta de Worms.=—A Dieta foi aberta por Carlos V em Janeiro
-de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar com os principes
-reunidos em assembléa para que pozessem termo ás heresias de Luthero, não
-sendo, na sua opinião, necessario que este fosse ouvido. Os principes,
-porém, que tambem tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que
-era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem o ouvir e sem
-elle estar presente. Por fim o imperador intimou Luthero a apresentar-se,
-e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um arauto foi, pois, procural-o da
-parte do seu imperial amo, e em abril Luthero partiu para Worms. Ia
-resolvido a não se retractar, posto que o animasse a convicção de não
-voltar com vida. A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção
-de fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de Christo
-me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando mesmo deante da
-morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, se os meus inimigos me
-assassinarem, continúa tu, de todo o coração te imploro, a ensinar e a
-dar testemunho da verdade». Antes de deixar Wittenberg, havia preparado,
-de collaboração com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se
-compunha de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes
-entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a respectiva
-explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma pagina apparecia
-Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra o papa estendendo o pé
-para que lh’o beijassem; a Christo levando a cruz contrapunha-se o papa
-levado em procissão pelas ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo
-expulsando os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo
-junto de si um monte de dinheiro.
-
-Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando lhe chegou aos
-ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia lhe preparava uma
-emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria de me pôr a caminho,
-ainda mesmo que houvesse uma chuva de duques da Saxonia». E quando lhe
-disseram que o diabo se havia de apoderar d’elle por qualquer fórma,
-replicou: «Não deixaria de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá
-houvesse tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve
-o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes multidões,
-ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, por fim a Worms,
-e logo no dia immediato foi apresentado á Dieta. O imperador tinha a
-seu lado o arquiduque de Austria, seu irmão, e a assembléa compunha-se
-de seis eleitores, vinte e oito duques, trinta prelados, e um grande
-numero de outras personagens de menor cathegoria, ao todo uns duzentos
-principes. Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de
-confessar a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada
-na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se os havia
-escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum tempo para
-reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte e quatro horas, foi
-reconduzido á casa onde se hospedára.
-
-Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de abrir
-caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o animava e lhe
-recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o velho general Frunsberg
-bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada receies, fradinho!» Na vespera
-havia-se mostrado um tanto confuso, havia denotado uma certa timidez,
-mas n’aquelle segundo dia estava de posse da sua coragem habitual. O
-chanceller do arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do
-imperador. «Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a
-retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos seus
-livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação até dos
-proprios adversarios, e que não se podia esperar d’elle uma retractação
-no tocante a essas coisas; havia tambem protestado contra manifestos
-abusos, e seria, decerto, um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião
-affirmasse ser falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era
-verdadeiro; n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava
-os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, era
-possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, estando, portanto,
-prompto a desdizer qualquer asseveração cuja injustiça lhe fosse provada.
-«Esse vosso arrazoado é inopportuno», replicou Eck; «o que o imperador
-quer é uma resposta definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes
-contra a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio de
-Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. «Vou
-dar-vol-a, pois. (_Vou dar uma resposta sem pontas nem dentes, diz o
-original_). Não me retracto de coisa alguma, a não ser que me convençam
-pela Escriptura ou por meio de argumentos irrefutaveis. É claro como a
-luz do dia que tanto papas como concilios teem algumas vezes errado. A
-minha consciencia tem de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra
-a consciencia é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero
-retractar-me. Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei chegou a
-crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, realmente, que
-um concilio é susceptivel de errar?», perguntou elle, por fim. «Affirmo»,
-retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei sempre. Assim Deus me ajude. Amen».
-Aquella sua firmeza tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam
-que o imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á morte,
-sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que elle, ao mesmo tempo
-que combatia pela consciencia, combatia tambem pela Allemanha, pozeram-se
-do seu lado. Conseguiram que o imperador addiasse a sentença, e instaram
-depois com Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos
-os seus esforços.
-
-Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo tomar o partido
-de Luthero e da Allemanha, para não quebrar relações com o papa, não
-desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, faltando assim á sua
-palavra. Ordenou, pois, a Luthero que se retirasse, mas fez publicar um
-edicto, condemnando os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio
-sob o anathema do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio
-era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante ninguem
-podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o em sua casa:
-quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe a mão e entregal-o
-aos guardas do imperador, que ficavam com plenos poderes para o matarem.
-Tudo isto, porém, só podia ter logar depois de expirado o prazo que o
-salvo-conducto mencionava.
-
-=Luthero em Wartburgo.=—Os amigos de Luthero foram de parecer que, depois
-do edicto de Worms, a vida d’elle corria perigo, até mesmo em Wittenberg;
-e o eleitor da Saxonia encarregou uns tantos soldados de o irem esperar
-ao caminho, apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de
-Wartburgo, que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se,
-sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos sabia, ao principio,
-onde elle se encontrava. Emquanto esteve em Wartburgo, submetteu-se a
-uma vida de isolamento, e para maior precaução deixou crescer a barba,
-vestiu-se de cavalleiro, e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez
-mezes n’aquelle seu esconderijo.
-
-Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a traducção da
-Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu tornar conhecido
-dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon mandava-lhe de Wittenberg todos
-os livros de que elle necessitava. Começou com o Novo Testamento, e
-traduziu-o quasi todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento
-teve o que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto
-de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez por semana em
-casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo auxilio nas passagens
-difficeis.
-
-Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da Biblia um livro
-para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella phrases finas, phrases
-palacianas; desejava tornal-a um livro que fosse comprehendido por todos,
-homens, mulheres e creanças, e dedicou a esse trabalho todo o seu talento
-e actividade. Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que
-se vê o grande numero de emendas por que muitas das orações passaram,
-chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. «Estamos trabalhando com
-todas as nossas forças», escreveu elle em certa occasião, «para que os
-prophetas fallem na nossa lingua. Que grande e difficil tarefa é esta,
-de fazer com que os escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles
-offerecem uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por uma
-lingua barbara».
-
-A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de quasi se poder
-dizer que não existia a lingua allemã. O allemão antes do tempo de
-Luthero, assim como o inglez antes do tempo de Chaucer, era um aggregado
-de dialectos; e, de facto, a Biblia de Luthero é que fez a lingua allemã,
-pois que tem servido desde então como que de modelo, e o seu estylo tem
-sido imitado por todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto,
-tornando-se gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz,
-e a linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de separação
-que passou depois por toda a Allemanha.
-
-=Regresso de Luthero a Wittenberg.=—Emquanto Luthero esteve em Wartburgo,
-andaram os seus amigos prégando o Evangelho por toda a Allemanha, sem
-soffrerem o minimo incommodo, e os seus livros eram lidos por toda a
-parte. Dir-se-hia que toda a Allemanha se tornava protestante, a despeito
-do edicto do imperador. Havia de todos os lados um grande movimento a
-favor das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria.
-Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento
-religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, a cabeça e querem
-que as coisas caminhem muitissimo depressa ou vão até demasiadamente
-longe; foi o que succedeu na Allemanha.
-
-Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de Erzgebirge,
-ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada Zwickau. Os habitantes
-d’essa cidade acceitaram a Reforma. Entre elles havia um tecelão, Claus
-Storch, homem excitavel, que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e
-que reuniu em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de
-muito pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres
-nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; a
-Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. Metteram-se
-a limpar a sua terra de todos os indicios da antiga religião—as
-ornamentações das egrejas, os altares, as cruzes, o clero, etc.—e deram
-logar a alguns tumultos, levantando-se, por fim, contra elles os seus
-conterraneos, que os pozeram fóra.
-
-Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram as suas idéas
-ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, que eram ali os
-dirigentes espirituaes na ausencia de Luthero. Carlstadt adoptou por
-completo o seu modo de pensar, Melanchthon deixou-se persuadir até a um
-certo ponto, e a agitação começou a lavrar entre as massas populares. As
-imagens foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt
-prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; a
-Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.
-
-Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão de Wartburgo,
-e resolveu sair de aquella especie de sequestração em que se encontrava.
-Correu a Wittenberg, e o povo tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se
-familiarisara, trovejando do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a
-falta de caridade. Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por
-fim triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, e
-o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum com os excessos de
-Storch, e do seu companheiro Münzer.
-
-Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma coisa
-boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as ceremonias do
-catholicismo romano, que foram substituidas por um serviço religioso mais
-em conformidade com as Escripturas.
-
-=A Dieta de Nürnberg.=—O anathema do imperio ainda estava sobre Luthero,
-pois que não havia sido revogado; mas ninguem pensava em o pôr em
-execução. Luthero prégava, escrevia, e editava os seus trabalhos, sem que
-pessoa alguma na Allemanha o tivesse na conta de um proscripto. Ainda
-mais, alguns dos principes allemães eram de parecer que o edicto de
-Worms devia ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha,
-deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros conheciam bem o
-estado da Allemanha e os sentimentos do povo, e não se sentiam inclinados
-a desposar a causa do papa.
-
-Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em 1522 e 1524,
-o nuncio do papa viu que os principes allemães não eram de modo algum
-favoraveis á sua proposta para que Luthero soffresse a pena de morte.
-Em vez de discutirem esse ponto, apresentaram differentes reclamações,
-insistindo muito com o nuncio para que chamasse para ellas a attenção do
-papa; e muitas d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os
-quaes se baseou a condemnação de Luthero.
-
-Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os principes
-allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era necessario nomear
-uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos abusos fossem abolidos e
-se esclarecessem certos pontos duvidosos de doutrina que tinham surgido,
-annunciando, ao mesmo tempo, que toda essa questão de differenças
-religiosas havia de ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se
-em Spira. Toda a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero;
-e alguns estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam
-abertamente quaes as reformas por que a religião devia passar. Pediam a
-abolição dos cinco falsos sacramentos, da missa, do culto dos santos e
-da supremacia pontificia. A Reforma havia-se espalhado tambem para além
-da Allemanha, e já em 1524 havia discipulos de Luthero em França, na
-Dinamarca e nos Paizes Baixos.
-
-=A revolta dos nobres= foi o primeiro dos grandes revezes que o movimento
-da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero tinham-se espalhado
-sem obstaculo de maior pela Allemanha e pelo estrangeiro. De toda a parte
-se protestava contra os cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a
-confissão auricular, o culto dos santos e das reliquias, o celibato do
-clero, a negação do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação
-episcopal e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era uma fórma
-de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, e uma fórma
-de governo que tornasse manifesto o sacerdocio espiritual de todos os
-crentes. A Dieta tinha repetidamente, na sua lista de aggravos, chamado
-a attenção do papa para os abusos que se observavam na egreja, e propoz,
-por fim, que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias
-reformas.
-
-Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava de ser
-reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes era cada vez
-mais insustentavel; os principes, mais poderosos do que elles,
-supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes viviam, pela maior
-parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se em segredo para uma
-revolução. Tanto de um lado como do outro contava-se com a Reforma
-como com um poderoso auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto
-a inutilidade dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a
-necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se d’este
-estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas assim o
-entenderam, e, porque assim o entendessem, entraram no caminho da revolta.
-
-A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo,
-probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram n’ella estavam,
-realmente, luctando contra a orientação da epoca e contra a corrente
-da historia. Viam todo o territorio allemão caindo nas mãos de meia
-duzia de familias principescas, e todo o povo das cidades enriquecendo
-por meio do commercio e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam
-que a Allemanha não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem
-elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam voltar
-aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam outra
-auctoridade que não fosse a do imperador. Tinham por cabecilha Francisco
-von Sickingen, homem muito notavel, de grande valor militar, e a quem
-se não podia negar um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os
-principes aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder
-dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.
-
-O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com a Reforma, mas
-muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar com a Reforma por
-causa do seu odio aos nobres revoltados. Sickingen tinha de muitos modos
-tentado fazer com que parecesse que a causa que defendia era a causa da
-liberdade religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms,
-Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e a dieta.
-Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados de perseguição
-depois da dieta de Worms, Sickingen prometteu proteger todos aquelles que
-se acolhessem a elle; e, ao levantar o estandarte da revolta contra os
-principes, declarou que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer
-as novas doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos
-principes apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de terem
-ajudado e instigado esta guerra civil.
-
-De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção de Ratisbonna,
-ou Regensburgo, que era uma confederação, ou liga, dos principes
-catholicos romanos contra a Reforma; e assim a Allemanha, que até ali
-se tinha mantido n’uma união propicia ás reformas, dividiu-se em duas
-partes, o que tornou o trabalho muito mais difficil. Os confederados de
-Regensburgo diligenciaram chegar a accordo com o partido papista de Roma.
-O papa prometteu que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria
-aquella grande drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam
-escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados
-comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de reforma, oppondo-se
-tenazmente a qualquer modificação de culto ou de doutrina. A Baviera, a
-Austria e as grandes provincias ecclesiasticas do sul da Allemanha iam
-pôr-se ao lado de Roma na lucta que estava imminente. A Convenção de
-Regensburgo veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios
-horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.
-
-=A revolta dos camponezes= teve consequencias mais serias. Não fez
-sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima reformação;
-deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, por fim, de opinião a
-muitos respeitos. O movimento rural não tinha por objecto a Reforma;
-a sua origem foi a miseria profunda em que a gente do campo vivia. O
-soffrimento d’essa gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto
-que a morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo quinze
-que de quando em quando se levantava uma sedição de camponezes n’um ou
-n’outro ponto da Europa, e todas essas revoltas haviam sido suffocadas,
-sem que fossem concedidas as almejadas reformas, de modo que as causas
-da rebellião continuavam ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que
-as terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam eram
-as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam em harmonia com o
-valor do terreno. Além das rendas, eram tambem obrigados a prestar aos
-proprietarios certos serviços de que não recebiam remuneração alguma;
-esses serviços variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o
-senhorio tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser
-preciso metter a mão á bolsa.
-
-A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes prohibido,
-sob pena de um severo castigo, o entregarem-se ao exercicio da caça
-ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos bosques, era-lhes vedada uma
-grande parte dos baldios, e de todos os modos se viam embaraçados no seu
-trabalho e na sua actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da
-propriedade tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos
-qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma vacca, uma
-ovelha, ou até a propria cama.
-
-A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava os dizimos: uma
-decima parte da colheita, que era chamada o grande dizimo; e uma decima
-parte do producto dos animaes, que era chamada o pequeno dizimo. Tinham
-de ser pagos depois de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se
-ter pago a renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a
-decima parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco ficava
-para o pobre camponez e sua familia.
-
-Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, pode-se
-supportar as maiores agruras da vida, quando ha a certeza de que se não
-corre o risco de peiorar, e de que justiça será feita quando aquelles
-que occupam posições superiores quizerem tirar partido da pobreza e
-fraqueza dos seus similhantes. O camponez allemão, porém, não tinha
-essa certeza. O velho codigo romano havia substituido gradualmente a
-legislação allemã, e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não
-eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, para
-amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, e quando as
-leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha viu-se logo que o
-camponez ficava, pouco mais ou menos, na condição de escravo.
-
-Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, não ousavam
-recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o seu amo entendia que
-deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito algum; o proprietario podia
-tornar-lhes mais pesados os trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em
-summa, exigir d’elles o que quizesse.
-
-N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido transportadas para
-a Europa enormes riquezas. A America, a terra da prata e do oiro, tinha
-sido descoberta, e o commercio augmentara consideravelmente. Estas
-riquezas tinham sido ganhas por mercadores e negociantes aventureiros, e
-a classe commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada e
-luxuosamente.
-
-Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura ao pé dos
-negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem o mesmo fausto,
-e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres camponezes, cujo viver era
-cada vez mais miseravel, ao passo que a gente das cidades se rodeiava
-de commodidades que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem
-augmentados os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos os
-impostos.
-
-Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito antes do tempo
-de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no Main e no Rheno os
-camponezes levantaram-se contra os seus tyrannos, e as associações
-secretas organizadas durante essas insurreições continuaram permanecendo
-até muito depois d’ellas haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas
-associações era a de Bundschuh, isto é, a _do sapato atado_. A liga de
-Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a de
-todo; e durante a agitação produzida pela estada de Luthero em Worms,
-quando todos os allemães receiavam pela vida do seu reformador, a
-sinistra palavra Bundschuh appareceu escripta a giz pelas paredes.
-
-A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora das
-anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas, e podemos
-affirmar que os seus promotores contavam com que o Evangelho prégado por
-Luthero lhes proporcionasse um bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de
-Claus Storch, que havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau,
-mettera-se a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua
-inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta. A Bundschuh
-reapparecera em Würtemberg, devido á cruel oppressão do duque Ulrico. Em
-1524 os camponios do Rheno ergueram o estandarte da revolta, e a chamma
-propagou-se em todas as direcções.
-
-Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por meio das
-armas. Se os camponezes tivessem começado por uma acção violenta, teriam,
-talvez, sido mais bem succedidos. A sua idéa era convocar grandes
-comicios onde fossem expostas as suas reclamações, pois julgavam que por
-esse meio viriam a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas
-das listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais
-importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram por dizer que só
-pediam aquillo que os principios do Evangelho os auctorizavam a pedir, e
-que não desejavam entrar em lucta, porque o Evangelho os mandava viver em
-paz e amor. Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos,
-e vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo com o
-ensino da Palavra de Deus:
-
-1. A congregação deve ter poder para eleger o seu ministro, e para o
-demittir no caso do seu procedimento ser censuravel; e o ministro deve
-prégar o Evangelho puro, sem lhe accrescentar mais nada.
-
-2. Promettem pagar o dizimo do trigo para a sustentação dos ministros,
-comtanto que o que ficar, depois de pagos os respectivos estipendios,
-seja applicado no soccorro dos pobres; mas recusam pagar o pequeno
-dizimo, isto é, o dos porcos, dos ovos, etc., porque, dizem elles, Deus
-creou os animaes para uso do homem.
-
-3. A servidão deve ser abolida. A Escriptura declara que os homens são
-livres.
-
-4 Deve haver inteira liberdade para caçar e para pescar, pois que Deus
-creou as aves e os peixes para uso de todos.
-
-5. As florestas que não pertençam a alguem por direito de compra devem
-ser restituidas á communa, ou municipio; e todos os habitantes devem ter
-liberdade para cortar madeira de que necessitarem para combustivel ou
-para trabalhos de carpinteria, devendo haver guardas, pagos pela communa,
-que impeçam qualquer acto de vandalismo.
-
-6. Os serviços obrigatorios devem ficar restrictos ao que era permittido
-pelos antigos costumes.
-
-7. Tudo o mais que se fizer deve ser condignamente pago.
-
-8. As rendas estão muito elevadas; as terras devem ser avaliadas de novo,
-e pagar-se pelo seu aluguer uma quantia razoavel.
-
-9. A lei deve determinar as penas que correspondem aos diversos crimes,
-ficando defezo a quem quer que seja a applicação de um castigo arbitrario.
-
-10. Os campos de pastagem e outros baldios de que os proprietarios se
-teem apoderado devem ser restituidos ao logradouro publico.
-
-11. Deve ser abolido o direito de morte (A faculdade que tem o senhorio
-de levar qualquer objecto da casa do rendeiro fallecido).
-
-12. Todas estas proposições devem passar pelo cadinho da Escriptura, e
-serão retiradas as que fôrem susceptiveis de refutação.
-
-Estes artigos eram, quasi todos elles, assaz equitativos, e estão agora
-incluidos na legislação allemã. Se as reivindicações dos camponezes
-fossem recebidas como elles esperavam, e como tinham direito a esperar,
-ter-se-hia chegado a um accordo. Os seus adversarios fingiram que se
-interessavam por ellas, para ganharem tempo; e os camponezes, por fim,
-vendo-se atraiçoados, pegaram em armas.
-
-Recorreram a Luthero. Elle era filho de camponez; tinha conhecido
-a necessidade. E Luthero, respondendo ao appello que lhe fizeram,
-intercedeu por elles, dirigindo-se d’este modo aos proprietarios: «Posso
-agora fazer causa commum com os camponezes, porque vós attribuis esta
-insurreição ao Evangelho e ao meu ensino, quando a verdade é que nunca
-cessei de intimar obediencia á auctoridade, mesmo quando ella seja tão
-tyrannica e tão intoleravel como a vossa. Não quero, porém, envenenar
-a ferida; e, portanto, meus senhores, quer me sejaes benevolos quer me
-sejaes hostis, não desprezeis os conselhos de um pobre homem como eu, e
-não tenhaes em pouca conta esta sedição; não quero dizer com isto que
-temaes os insurgentes, mas que temaes a Deus, que está irritado contra
-vós. Elle póde punir-vos, e converter todas as pedras em camponezas, sem
-que nem as vossas couraças nem todo o poder de que dispondes vos possam
-livrar. Ponde, pois, limites ás vossas exacções, deixae de exercer uma
-deshumana tyrannia, e passae a tratar essa gente com bondade, para que
-Deus não incendeie toda a Allemanha com um fogo que ninguem será capaz
-de extinguir. O que n’esta occasião, porventura, perderdes, ser-vos-ha
-centuplicado mediante a paz futura.
-
-«Ha tanta equidade n’alguns dos doze artigos dos camponezes, que
-constituem uma deshonra para vós deante de Deus e do mundo; cobrem os
-principes de vergonha, como diz o Psalmo 108. Tinha outras coisas ainda
-mais graves a dizer-vos, com respeito ao governo da Allemanha, e já me
-referi a vós no meu livro dedicado á nobreza allemã. Não vos importastes,
-porém, com as minhas palavras, e agora chovem sobre vós todas estas
-reclamações. Não deveis desattender o seu pedido de auctorização para
-escolherem pastores que lhes preguem o Evangelho; compete sómente ao
-governo o obstar a que sejam prégadas a insurreição e a rebellião; mas
-deve haver perfeita liberdade para prégar tanto o verdadeiro como o
-falso Evangelho. Os restantes artigos, que tratam do estado social do
-camponez, são egualmente justos. Os governos não se estabelecem para seu
-proprio interesse, nem para tornarem o povo subserviente aos caprichos e
-ás más paixões, mas para zelarem o interesse do povo. As vossas exacções
-são intoleraveis; arrancaes ao camponez o fructo do seu trabalho para
-poderdes sustentar o vosso luxo e os vossos prazeres. E é tudo quanto vos
-tinha a dizer.
-
-«Agora, com respeito a vós, meus queridos amigos camponezes. Quereis que
-vos seja garantida a livre prégação do Evangelho. Deus ha de defender a
-vossa causa, se procederdes sempre com justiça e rectidão. Se o fizerdes,
-haveis de triumphar por fim. Aquelles de entre vós que succumbirem na
-lucta serão salvos. Se, porém, o vosso modo de proceder fôr outro, não
-podereis salvar nem a alma nem o corpo, ainda mesmo que sejaes bem
-succedidos e derroteis os principes e os senhores. Não acrediteis nos
-falsos prophetas que se teem introduzido no meio de vós, ainda mesmo
-que elles invoquem o santo nome do Evangelho. Pode ser que elles me
-chamem hypocrita, mas isso pouco se me dá. O que eu quero é salvar os
-que entre vós fôrem fieis e honrados. Temo a Deus e a ninguem mais.
-Temei-o vós tambem, e não useis o Seu nome em vão, para que Elle vos não
-castigue. Não diz a Palavra de Deus: «Aquelle que lançar mão da espada
-á espada morrerá,» e «Todos se submettam aos poderes superiores?» Não
-deveis fazer justiça por vossas proprias mãos; seria isso obedecer a um
-outro dictame da lei natural. Não vêdes que vos fica mal a rebellião? O
-governo tira-vos parte do que vos pertence, mas destruindo os principios
-estabelecidos tiraes aos outros tudo o que lhes pertence. Christo, no
-Gethsemane, reprehendeu S. Pedro por se ter servido da espada, ainda que
-em defeza do seu Mestre; e quando já estava pregado na cruz orou pelos
-Seus perseguidores. E o Seu reino não tem triumphado? Porque é que o Papa
-e o imperador me não teem feito calar? Porque é que o Evangelho progride
-á proporção que elles se esforçam para lhe pôrem obstaculos e para o
-destruir? Porque eu nunca recorri á fôrça, prégando, antes, a obediencia,
-até mesmo áquelles que me perseguem, fazendo depender exclusivamente de
-Deus a minha defeza. Façaes o que fizerdes, nunca tenteis cobrir a vossa
-empreza com o manto do Evangelho e o nome de Christo. Será uma guerra de
-pagãos, a que, porventura, vier a ter logar, porque os christãos fazem
-uso de outras armas: o seu General soffreu a cruz, e o triumpho d’elles
-é a humildade. Supplico-vos, queridos amigos, que vos detenhaes, e que
-considereis antes de dardes outro passo. O que citastes da Biblia não é
-applicavel ao vosso caso».
-
-E conclue assim: «Como vêdes, estaes procedendo mal, tanto de um lado
-como do outro, e estaes attrahindo o castigo divino sobre vós e sobre
-a Allemanha, vossa patria commum. O meu conselho é que se escolham
-arbitros, sendo alguns nomeados pela nobreza e outros pelas cidades. É
-preciso que ambos os adversarios transijam n’alguma coisa: o negocio tem
-de ser equitativamente liquidado por um tribunal.»
-
-O seu alvitre não foi acatado.
-
-Os camponezes romperam hostilidades, tornando impossivel qualquer
-mediação. O proprio Luthero, logo que as coisas tomaram este caminho,
-deixou de se interessar pelos revoltosos.
-
-Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes uma
-verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta mil o numero dos
-massacrados.
-
-Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma.
-
-Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha acontecido,
-e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu a influencia que
-tinha sobre as classes pobres, que se deixaram dominar pela idéa de que
-Luthero as havia abandonado; e entregaram-se com facilidade aos excessos
-anabaptistas, que tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O
-proprio Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem, e
-repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas foram um
-atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado que a revolta dos
-camponezes e a falta de coragem que Luthero mostrou n’essa occasião e
-depois d’ella tiveram por effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos
-de Luthero e da Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa.
-
-Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a Allemanha o
-maior dos seus principes. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia,
-havia morrido.
-
-Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia partido para
-a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes; e os seus ultimos
-pensamentos foram para os maltratados servos. «Nós, os principes, fazemos
-muitas coisas aos pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco
-depois, tendo sido sacramentado, falleceu.
-
-=As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.=—O imperador ainda não havia voltado
-á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois da Dieta de Worms.
-Estava em Hespanha, constantemente occupado com a sua idéa de abater
-o poder da França. Em 1525 esteve quasi a ver os seus planos coroados
-de bom exito. Deu-se a batalha de Pavia, e Francisco I de França,
-desbaratado o seu exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu
-rival. A Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco
-na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra a Egreja
-se havia excitado na Allemanha; e os termos em que essa obrigação estava
-formulada mostravam o quão attentamente havia observado os progressos
-da Reforma e o quão empenhado estava em subjugal-a. Deu ordem para
-que fossem postas em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando
-assim claramente a entender que não consentia que dentro do imperio se
-propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa sua intimativa
-propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta que se reuniria em Spira.
-
-As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar á Allemanha. O
-papa que dominava em Roma era Clemente VII, da familia dos Medicis, e em
-toda esta questão zelou mais os interesses do seu principado italiano
-do que os da egreja de que era chefe. O papa não queria que Francisco
-e Carlos se reconciliassem. Receiava que os pequenos estados italianos
-ficassem prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas, e por
-esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea. O imperador
-ainda não tinha conseguido o descanço de que necessitava para poder ir em
-seguida liquidar pessoalmente os negocios da Allemanha. E assim o proprio
-papa estava n’aquella occasião favorecendo a Reforma.
-
-Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se logo bem
-manifesto que um grande numero d’elles não desejava que Luthero e
-as suas doutrinas fossem banidos da Allemanha; e a Dieta, de que se
-esperava a aniquilação da Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este
-famoso edicto, que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia
-de tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia
-de religião todos os estados se deviam comportar por tal fórma que
-estivessem promptos a responder por si deante de Deus e de sua Magestade
-Imperial. Assim ficou cada um dos estados auctorizado a declarar que
-religião se professaria dentro dos seus limites, e aquelle edicto foi
-como que uma predicção da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a
-religião official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem.
-Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram, segundo a lei
-imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a egreja dentro dos seus
-dominios, e levar a effeito as necessarias reformas.
-
-O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões que
-entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer tentativa de
-introduzir nas provincias evangelicas um systema uniforme de governo da
-egreja e do culto; cada uma d’ellas estabeleceu os seus regulamentos. O
-primeiro a estabelecel-os, em conformidade com os verdadeiros principios
-da Reforma, foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert que
-lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica para uso nos
-seus dominios. E estes artigos são interessantes, porque reconhecem, até
-certo ponto, a auctoridade do povo christão dentro da egreja; e confiam
-tambem a disciplina das congregações a homens de seriedade, cujos deveres
-são parecidos com os dos anciãos presbyteriannos.
-
-Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo todas estas
-indicações do reconhecimento dos direitos do povo christão, e do
-sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a Guerra dos Camponezes
-tinha-o predisposto contra a auctoridade do povo. Era de opinião que o
-povo não tinha competencia para governar a egreja, e escreveu a Filippe,
-mostrando-lhe os inconvenientes de similhante plano de organização
-ecclesiastica.
-
-Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do poder
-secular—dos principes quando se tratasse de principados, e das camaras
-municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa deu logar ao que se chama o
-systema _Consistorial_ do governo da Egreja—systema peculiar da Egreja
-Lutherana, e de que, não obstante só mais tarde ter sido posto em
-pratica, cabe fazer aqui uma descripção resumida.
-
-Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais alta
-importancia o guardar-se a chamada _disciplina_ da egreja. Deus quer
-que todos os seus filhos tenham uma vida honesta, uma vida decente, e
-é do dever da Egreja cuidar que todos os seus membros procedam de uma
-maneira condigna com a sua profissão de fé. Quando qualquer membro sae do
-bom caminho deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer
-os castigos que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser
-excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na edade media, os
-bispos responsaveis pela conducta dos membros das egrejas que constituiam
-as suas respectivas dioceses; e, como estas dioceses eram geralmente
-grandes, e os bispos não podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia,
-encarregavam d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e
-jurisconsultos. Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios,
-e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram tambem encarregadas da
-execução de testamentos e doações, e julgavam certos casos de calumnia
-e de maledicencia que os tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os
-bispos, nos estados evangelicos, foram expulsos, esses consistorios
-continuaram gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que
-era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação
-dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite. Passaram a
-chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação ficou dependendo da
-suprema auctoridade civil, em cujo nome governavam. Com o tempo foram
-introduzidas algumas mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda
-assim pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada
-differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade civil
-substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar em toda a Allemanha
-depois da Dieta de 1526, nos estados que abraçaram a Reforma.
-
-Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie d’elles para serem
-cantados nas egrejas; escreveu um catecismo para uso da infancia; e
-assim em toda a Allemanha, onde quer que as doutrinas evangelicas
-prevalecessem, eram organizadas egrejas, onde se rendia a Deus um culto
-simples mas sincero, e tratava-se de instruir e catequizar a juventude.
-Ainda não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo sabia
-perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de Luthero,
-Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam de mão em mão.
-
-Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha logar uma coisa
-que bastante contrariou o imperador: uma alliança entre a França e os
-Estados Pontificios. Não esperava que o papa o abandonasse, e menos
-esperava ainda que elle o abandonasse na propria occasião em que elle se
-preparava para submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu
-punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado por um
-grande numero de soldados allemães lutheranos, sob o commando de aquelle
-general Frundsberg que em Worms animou Luthero, e, levando á frente o
-condestavel de Bourbon, esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo
-por onde quer que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as
-suas tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O
-papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a cidade
-foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram maltratados e
-mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas, e os rudes e
-mofadores allemães proclamaram papa a Luthero. Os francezes não poderam
-prestar grande auxilio aos seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o
-imperador e o papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava,
-para esmagar a heresia na Allemanha.
-
-Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal para a Reforma. O
-edicto de Spira havia concedido tolerancia aos lutheranos, mas tambem
-tornou evidente, de uma maneira até então desconhecida, a separação entre
-os dois partidos. Isto viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em
-Spira em 1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario
-disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o decreto de 1526,
-e que sustentava que o decreto de Worms estava ainda em vigor e se lhe
-devia dar força. Pela primeira vez pareceu que a maioria da Dieta estava
-disposta a obedecer á ordem do imperador e a dar força ao edicto contra
-Luthero. O decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em
-execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não se tivesse
-executado não se fizessem ulteriores innovações e ninguem fosse impedido
-de celebrar missa.
-
-Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto de Spira
-estava posto de parte, e a minoria evangelica resolveu protestar contra a
-decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento de que as questões religiosas só
-podiam ser decididas pela consciencia, e que não deviam ser submettidas
-á Dieta para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questões que
-dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma de cada um de nós, é
-nosso imperioso dever, segundo o preceito divino, e por causa das nossas
-proprias consciencias, respeitar, antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.»
-«Em questões que se relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das
-nossas almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de nós
-mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel a liberdade de
-consciencia, era assignado por João da Saxonia, Jorge de Brandenburgo,
-Ernesto de Lüneburgo, Filippe de Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos
-representantes das cidades imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia,
-Lindau, Memmingen, Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St.
-Gall, Weissenburgo e Windsheim.
-
-Foi d’este protesto que se originou o termo _protestantes_.
-
-=O imperador pretende subjugar a Reforma.=—Este protesto tornou ainda
-mais saliente, mais definida, a linha de separação entre os principes
-reformados e os seus visinhos. Ficavam como que marcados por ella
-aquelles a quem o imperador, para restabelecer o imperio medieval, tinha
-de subjugar; e parecia agora ter chegado uma occasião propicia para
-elle o fazer. Na verdade, entre elle e a realização dos seus planos
-só existia aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo
-a França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam sido
-derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento de um
-imperio medieval. Os principes protestantes reconheceram a gravidade da
-sua situação. Deveriam resistir ao imperador, e, no caso affirmativo,
-conservar-se-hiam firmemente unidos? Luthero, que tinha até então
-dirigido o movimento, servia agora de obstaculo a uma acção collectiva.
-Elle, ao principio, era contrario a toda e qualquer resistencia.
-Reprovava, mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor
-da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald, e, quando esses
-delegados voltaram e deram noticia de que não se tinha chegado a decidir
-coisa alguma, mostrou-se excessivamente satisfeito. Se Filippe de Hesse
-não tivesse trabalhado incessantemente para uma união e para um esforço
-collectivo, a Reforma teria soffrido muito.
-
-A que se deve attribuir este procedimento de Luthero? Repugnava-lhe a
-rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e não acreditava que as
-batalhas do reino dos céus se podessem vencer com as armas carnaes.
-Depois, tambem, havia n’elle uma grande somma de quietismo, ou, por
-outra, de fatalismo, em parte hereditario, e em parte devido á sua
-adhesão ás idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse
-tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte d’esta
-obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha sido proposto
-reunir todos os protestantes n’uma liga offensiva e defensiva, e havia
-protestantes que não reconheciam em Luthero o seu chefe religioso.
-Assim como havia uma reforma allemã, havia tambem uma reforma suissa,
-com o seu particular typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava,
-e que, com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando pelo
-sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella decisão que
-o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela raiz. Propoz uma
-conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse na presença uns dos
-outros aquelles cujas idéas divergiam, elles haviam de comprehender-se
-melhor, e acabariam, por consequencia, todas as differenças. Com esse
-intuito, pois, promoveu em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os
-primeiros theologos da Allemanha e da Suissa.
-
-=A Conferencia de Marburgo.=—Pode-se imaginar o que seria aquella
-reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante. Zwinglio e
-Œcolampadius tinham vindo, com risco das suas vidas, da Suissa; Bucer
-tinha vindo de Strasburgo; e Luthero e Melanchthon tinham vindo de
-Wittenberg. Consultaram-se sobre os grandes artigos da fé christã, e os
-allemães ficaram convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente
-evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se encerravam todos
-os principaes pontos da verdade evangelica, sem que alguem discordasse
-d’elles, e em seguida os theologos passaram a tratar do quinquagessimo e
-ultimo, que se occupava da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo
-ácerca do qual os que desejavam uma união de todos os protestantes se
-mostravam mais inquietos.
-
-Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado a evitar
-mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse qualquer asserção
-sobre pontos de doutrina que fosse acceite pelos suissos; e muitos teem
-supposto, com bom fundamento, que, se Calvino estivesse presente, e
-tivesse fallado antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união.
-Luthero, porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na conta de
-irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das anciedades dos
-principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido a não ceder em
-coisa alguma.
-
-=A controversia entre Luthero e os suissos.=—O thema do debate era este.
-Todos os reformadores, tanto allemães como suissos, haviam rejeitado a
-doutrina catholica romana do sacramento da Ceia do Senhor.
-
-Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento em duas partes
-distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é mais um sacrificio do
-que um sacramento. É a prolongação, atravez do tempo, do sacrificio de
-Christo na cruz; o pão e o vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e
-sangue de Christo, e quando estes são saboreados pelo padre, no acto
-de comer e beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na
-cruz. D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos vêem
-Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando os tormentos por sua
-causa, na sua propria presença. Assim, segundo esta theoria, não ha a
-distancia de longos seculos entre o crente e os soffrimentos de Christo
-por sua causa. Christo soffrendo e o crente prestando culto estão em face
-um do outro durante um momento, mediante a missa.
-
-Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a doutrina da missa
-por a considerarem idolatra e supersticiosa, e ensinaram os christãos a
-retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro sacrificio de Christo na cruz
-do Calvario por sua causa e para resgate dos seus peccados. O debate
-entre os protestantes é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos
-romanos chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar.
-
-A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da Eucaristia teem
-um ponto em commum; ambas affirmam que o verdadeiro corpo e o verdadeiro
-sangue de Christo estão presentes no pão e no vinho, de modo que estes
-elementos já não são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o
-verdadeiro sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre, e
-porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração e a ceremonia,
-operar o milagre de transformar o pão e o vinho no verdadeiro corpo e
-sangue de Christo, com a Sua alma racional e a Sua natureza divina; e
-que pode, outrosim, operar o milagre de O trazer do céu e de O mostrar
-ao povo, a fim de ser adorado e partilhado por todos. Ensinam, ainda,
-posto que esta parte do seu ensino não seja sempre muito clara, que os
-beneficios de Christo são communicados ao Seu povo quando este come o
-pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida a
-todos aquelles que participam, quer tenham quer não tenham fé.
-
-Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram acceitar
-pelo menos dois, e os dois principaes, pontos d’esta doutrina catholica
-romana. Não quizeram crer que um padre podesse operar o milagre que os
-catholicos romanos asseveram que é operado; e foram tambem todos de
-opinião de que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para
-que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão entre o
-sacramento e o que o administra, negaram que tenha logar a operação de um
-milagre; e, ao descreverem o effeito nos participantes, asseveraram que a
-fé era indispensavel.
-
-Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento e do seu
-effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram. Todos
-elles sustentaram que, ainda que Christo esteja presente no sacramento,
-não foi trazido para ali mediante um milagre operado por um padre, e
-que, ainda que Christo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido
-espiritual, mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento.
-
-Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas mesmas idéas com
-respeito a estes dois importantes pontos, e assim podessem escrever
-a primeira parte do artigo quinze de tal maneira que podessem ambos
-acceitar cabalmente a asserção, differiam no modo em que descreviam a
-entrada de Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a
-Sua presença e tirava o beneficio inherente.
-
-Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento sob uma
-fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle, eram apenas signaes da
-Sua presença, quasi da mesma maneira como uma carta é o signal da pessoa
-ausente que a escreveu, e, quando os christãos participam do sacramento,
-colhem um beneficio, porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a
-memoria e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e soffreu
-sobre a cruz.
-
-Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma coisa. Elle
-tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho eram promessas, ou
-sellos, assim como signaes, e essa idéa podia têl-o levado, como mais
-tarde aconteceu a Calvino, a encarar a questão com maior clareza e
-simplicidade. No seu modo de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira
-real, o genuino corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse
-ácerca do pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu
-sangue». E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes,
-fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media.
-
-Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer distincções
-muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de umas e outras
-palavras, ensinaram que a palavra _presença_ significava duas coisas
-differentes; um corpo estava presente n’uma certa porção de espaço quando
-occupava essa porção de espaço de tal fórma que nenhum outro corpo
-podesse estar lá ao mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente
-quando occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer coisa.
-A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço em que o corpo
-estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos, como eram chamados,
-empregava esta segunda especie de presença para descrever a presença do
-corpo de Christo nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo
-tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as duas coisas,
-o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam, ao mesmo tempo
-no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente, o corpo de Christo
-estava, na Ceia do Senhor, no pão, com o pão e sob a fórma de pão. Isto,
-porém, não explicava a presença do corpo de Christo, nem como elle era
-transportado da dextra de Deus para os elementos.
-
-Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos theologos
-medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser Deus e homem, duas
-naturezas n’uma pessoa, todos os attributos da natureza divina de Christo
-se tornavam tambem propriedades da Sua natureza humana. Um dos attributos
-de Deus é a omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da
-natureza divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte. Se
-o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos, sobre
-a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre algum. Luthero serviu-se d’esta
-ubiquidade do corpo de Christo para explicar como, sem a intervenção do
-milagre, elle podia estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho.
-
-Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude especial n’este
-caso da presença de Christo—a Sua presença no Sacramento—estando Elle,
-segundo a sua theoria, presente em toda a parte, replicou que Deus tinha
-promettido, na Biblia, abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e
-sangue de Christo nos elementos do sacramento.
-
-E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença de Christo
-no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente, da transubstanciação e
-do milagre sacerdotal, mas introduzia, em seu logar, inverosimeis idéas
-escolasticas. Podia, comtudo, d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo
-estava realmente presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso
-dava-lhe grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para
-discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um pedaço de
-giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio da sala as palavras HOC
-EST CORPUS MEUM (Isto é o meu corpo).
-
-Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse que o
-corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam corporalmente presentes
-nos elementos, e accusava os seus antagonistas de interpretarem mal a
-Escriptura quando se referiam a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que
-Zwinglio contestou que a palavra «é» nem sempre significa identidade de
-substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira verdadeira»,
-«Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma vinha ou uma porta no
-sentido litteral da palavra. Luthero não se demoveu, e a conferencia
-terminou sem aquella unidade de coração e de proposito que o pio e
-affectuoso Landgrave esperava que resultasse d’ella.
-
-=A Dieta de Augsburgo.=—O imperador tinha sido victorioso em toda a
-parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar a Reforma, isto
-emquanto os protestantes, devido á obstinação de Luthero, se encontravam
-divididos e desalentados. O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao
-seu alcance para conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa
-conseguiu n’esse sentido.
-
-O imperador entrou em Augsburgo com grande apparato, e ao principio
-recebeu muito cordealmente os principes protestantes. Luthero achava-se
-ausente da cidade. Considerou-se que a sua presença daria logar a uma
-desnecessaria irritação, e permaneceu, portanto, em Coburgo, onde
-facilmente poderia ser consultado. Melanchthon ficou a substituil-o como
-conselheiro theologico.
-
-Os chefes dos protestantes eram—João, eleitor da Saxonia, denominado
-João o constante, em razão da sua fidelidade aos principios evangelicos;
-Filippe o magnanimo, Landgrave de Hesse; e o edoso Margrave de
-Brandenburgo, antepassado do ultimo imperador da Allemanha. Estes
-principes foram recebidos pelo imperador com muita affabilidade.
-Deprehender-se-hia de tudo isto que se tinha iniciado na Allemanha uma
-era de paz e concordia.
-
-Por detraz dos bastidores, porém, estava Fernando da Austria, irmão
-do imperador, e cabeça do fanatico partido romanista, com os seus
-conselheiros theologicos, protestando contra o incitamento á herezia.
-Afim de o socegar, o imperador escreveu-lhe o seguinte: «Entrarei em
-negocios, sem chegar a qualquer conclusão: mas, ainda que isso aconteça,
-não ha motivo para receios da tua parte: nunca te faltarão pretextos para
-castigar os rebeldes, e has de sempre deparar com quem, com muito gosto,
-se preste a servir de instrumento á tua vingança.» As suas verdadeiras
-intenções depressa se tornaram manifestas.
-
-Os capellães dos principes protestantes celebravam o culto publico
-segundo o rito evangelico: e o imperador deu ordem para que tal se não
-continuasse a fazer. O Eleitor declarou: «Assim que tiver a certeza de
-que o imperador tenciona suspender a prégação do Evangelho, retiro-me
-para minha casa.» Quando Carlos, n’uma conferencia particular, pediu aos
-principes que impozessem silencio aos seus capellães, o velho Margrave
-de Brandenburgo avançou alguns passos, levou as mãos ao pescoço, e,
-inclinando-se, disse: «Era mais facil a minha cabeça rolar aos pés de
-Vossa Magestade do que eu privar-me da Palavra de Deus e negar o meu
-Senhor». Carlos mostrou-se surprehendido. «Ninguem pensa em cortar
-cabeças, meu caro Margrave», replicou elle. Comprehendia tão mal os
-seus subditos protestantes que se encheu de ira quando elles recusaram
-incorporar-se na procissão que teve logar por occasião da festa de
-_Corpus Christi_. Seria condescender com a idolatria, seria prestar
-adoração a uma particula de massa que a Egreja de Roma dizia ter-se
-transformado na Divindade mediante um milagre operado por um padre, e
-isso não podiam elles fazer. «Porque não hão de agradar ao imperador?
-Porque não hão de mostrar respeito ao cardeal?» exclamou Fernando. «Não
-podemos nem queremos adorar senão a Deus» declararam elles. E assim foram
-passando os dias.
-
-Entretanto os prégadores protestantes dirigiam todos os dias a palavra
-a grandes concursos de gente na egreja dos franciscanos, e expunham
-eloquentemente as doutrinas do Evangelho. Carlos resolveu pôr um termo
-a este estado de coisas, e fêl-o por meio de um accordo cujas vantagens
-ficaram todas do lado dos catholicos romanos. Melanchthon, sempre timido
-e amigo da paz, insistiu para que se fizessem algumas concessões. Os
-prégadores protestantes sairam angustiados da cidade, e Luthero, que
-observava de longe os acontecimentos, convenceu-se de que Melanchthon,
-apezar das suas boas intenções, estava traindo a causa.
-
-Quando se abriu a Dieta, o imperador quiz que os protestantes expozessem
-as suas opiniões. Essa exigencia era esperada, e assim Melanchthon
-tinha, com a collaboração de Luthero, redigido uma Confissão de Fé, em
-que estavam mencionados, com grande clareza de linguagem, os principaes
-artigos da sua fé. Era esta a famosa _Confissão de Augsburgo_ (_Confessio
-Augustana_), o credo que tem sido acceite por todos os lutheranos, embora
-entre elles tenha havido divergencias n’outros pontos. Carlos queria
-que elle fosse lido em latim. «Não», respondeu a isto João o Constante,
-«nós somos allemães, e estamos em territorio allemão. Espero que vossa
-magestade nos permittirá que fallemos na nossa lingua». E a Confissão
-foi lida em allemão, não por um theologo, mas por uma outra pessoa que
-recebeu dos principes esse encargo.
-
-=A Confissão de Augsburgo.=—A primeira parte d’esta nobre confissão
-expõe, um por um, todos os principios evangelicos da Reforma, e em
-particular os grandes principios da justificação pela fé. Diz-se que,
-quando o chanceller do Eleitor, Christiano Beyer, leu estas palavras «a
-fé, que não é o mero conhecimento de um facto historico, mas aquillo que
-crê, não sómente na historia, mas no effeito que essa historia produz
-sobre o espirito», toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse
-Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso: a Palavra
-de Deus não está presa».
-
-Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava os abusos
-da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto as egrejas que ha entre nós não
-discordarem em artigo algum de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja
-Catholica, e omittirem apenas uns certos abusos, umas certas innovações,
-que em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente
-introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido dos canones,
-rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne prestar ouvidos clementes ás
-razões que o povo apresenta para que não deva ser forçado, contra as suas
-consciencias, a observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o
-calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura como
-aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que o celibato dos clerigos
-é uma transgressão do mandamento de Deus: que a missa é «uma profanação
-do sacramento da Ceia do Senhor»: que a distincção das comidas e as
-tradições «obscurecem as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que
-o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas festas,
-ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos são altamente
-perniciosos, e servem para desencaminhar homens e mulheres, pois que «se
-deve servir a Deus segundo os preceitos que Elle promulgou, e não segundo
-os que os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril, mas
-ministerial.
-
-A confissão continha tambem um pequeno artigo em que vinha exposta a
-opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia do Senhor, e isso compelliu
-os theologos suissos e os do sul da Allemanha a apresentarem confissões
-separadas: mas a leitura da confissão de Augsburgo, pelos principes,
-na Dieta produziu um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os
-protestantes adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos.
-
-O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia destruir a Reforma,
-e não se achava preparado para esse recurso. Lembrou-se então de
-promover umas conferencias que fossem criando uma certa confusão entre
-os protestantes. Era bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon,
-que n’essas conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em
-todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo, soube
-do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth (Coração pequeno):
-Segundo me parece, estaes fazendo uma obra prodigiosa, qual a de
-reconciliar Luthero com o papa.... Advirto-vos, porém, de que, se é vossa
-intenção metter n’um sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho,
-Luthero, tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas
-as suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem
-pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon. «Antes morrer
-com Jesus Christo», exclamavam, «do que alcançar, sem Elle, as boas
-graças do mundo inteiro». Os catholicos romanos pediam, por fim, mais do
-que Melanchthon podia conceder, e, com grande regozijo dos protestantes,
-as conferencias cessaram.
-
-=A liga protestante de Schmalkald.=—Os principes sabiam que o imperador
-queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua resolução, e
-pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos a coadjuvarem-n’o
-n’aquella obra. Formou-se uma liga catholica. A resposta dos protestantes
-foi recusarem todos os subsidios emquanto os negocios da Allemanha
-permanecessem por liquidar.
-
-Os principes reuniram-se em Schmalkald, e formaram uma liga protestante,
-de que Filippe de Hesse foi o membro mais activo. Os estados catholicos
-romanos não desejavam entrar n’uma guerra civil com os seus visinhos
-protestantes, e o imperador, atacado pelos francezes e pelos turcos,
-viu-se na impossibilidade de suffocar a revolta.
-
-O ultimo decreto da Dieta havia estabelecido um prazo, que se estendia
-até á proxima primavera, durante o qual os protestantes podiam fazer
-a sua submissão voluntaria, e accrescentava que aquelles que não se
-submetessem durante esse prazo seriam exterminados. Ao chegar, porém,
-a primavera, reconheceu-se impotente para exterminar os protestantes.
-A Liga de Schmalkald havia-se tornado a mais poderosa aggremiação da
-Allemanha. Assim, em 1532, apoz prolongadas negociações, firmou-se
-um tratado de paz entre Carlos e os principes protestantes. A Paz de
-Nürnberg, como ficou sendo chamada, permittia aos adherentes á Confissão
-de Augsburgo o persistirem nas suas doutrinas, e concedia-lhes outros
-privilegios. Em troca, os principes protestantes, e entre elles Filippe
-de Hesse, offereceram-se, muito cordialmente, para auxiliar o imperador
-nas suas campanhas contra os francezes, os turcos e os piratas da
-Barbaria.
-
-A Liga de Schmalkald continuou de pé, e outros estados, taes como o de
-Würtemberg, deram-lhe a sua adhesão. O imperador não podia dissolvel-a,
-e, comtudo, ardia em desejos de restabelecer na Allemanha a uniformidade
-religiosa. O exame da sua correspondencia particular revelou a
-perplexidade em que elle se encontrava. Tinha umas vezes a idéa da
-exterminação, e outras a da conciliação. Um dos seus planos consistia em
-promover na Allemanha um Concilio Geral da Egreja, sem consultar nem o
-papa nem o rei de França.
-
-Em 1538, Held, o seu vice-chanceller, formou em Nürnberg uma Liga
-Catholica, com o expresso designio de acabar com o protestantismo pela
-força das armas. Em 1540-41, o imperador diligenciou, por meio de
-conferencias que se realisaram em Hagenau Worms, e Regensburgo, chegar
-a um certo entendimento com os protestantes em materia de religião, e
-chegou a ser proposta em Roma a reforma da Egreja. Foi, finalmente,
-publicado, em 1541, um decreto da Dieta, estabelecendo que não se podia
-prohibir, a quem quer que fosse, o adoptar a religião protestante.
-
-D’estas victorias da Liga de Schmalkald resultou uma rapida propagação do
-protestantismo. O Würtemberg, a Pomerania, o Anhalt, o Mecklemburgo, e
-muitissimas cidades, tornaram-se protestantes; os bispados de Magdeburgo,
-Halberstadt e Naumberg deixaram de reconhecer a supremacia de Roma;
-e duas provincias eleitoraes, o Brandenburgo e a Saxonia Albertina,
-uniram-se á Liga. Os unicos estados que se conservaram na opposição
-foram a Austria, a Baviera, o Palatinado e as provincias ecclesiasticas
-do Rheno. Mas mesmo estas regiões começavam a ser influenciadas. Na
-Austria a religião evangelica ia ganhando terreno entre os proprietarios,
-os camponezes e os habitantes das cidades. Os bavaros iam-se deixando
-invadir rapidamente pelas novas idéas. Quanto ao Palatinado, a sua
-aggregação á Liga de Schmalkald parecia ser apenas uma questão de tempo.
-
-O imperador não podia ver com indifferença este rapido progresso do
-protestantismo; contrariava-o immenso que os seus dominios nos Paizes
-Baixos ficassem separados d’elle por uma faixa de paizes protestantes;
-não queria ouvir fallar na possibilidade de uma maioria protestante
-no Collegio Eleitoral, e de um sucessor do imperio protestante. O
-procedimento do arcebispo-eleitor de Colonia mostrou-lhe que não havia
-tempo a perder. Hermann von Wied estava havia muito convencido da
-necessidade de reformas na Egreja, e depois da paz de Nürnberg, incitado
-por um grande numero de clerigos, e correspondendo ao evidente desejo de
-muitas outras pessoas, animou o ensino protestante na sua vasta diocese,
-e mostrou-se disposto a converter aquella provincia arqui-episcopal n’um
-estado secular protestante.
-
-A posição dos arcebispos e bispos da Allemanha era, nos dias da Reforma,
-um tanto singular. Não eram simplesmente bispos, mas tambem barões, e,
-como todos os outros grandes barões sujeitos ao imperador na Allemanha,
-eram principes soberanos. Os arcebispos de Kõln, Trier e Metz tinham
-sobre alguns territorios um governo egual ao que João, o Constante, tinha
-sobre a Saxonia eleitoral, e Filippe, o Magnanimo, sobre Hesse. Eram as
-supremas auctoridades civicas, com os seus tribunaes, os seus exercitos,
-os seus cobradores de impostos. O decreto de 1526 era-lhes tão applicavel
-como aos principes seculares. Podiam fazer-se protestantes, dominar nos
-seus territorios, como principes seculares, e declarar «que tomavam ante
-Deus e sua magestade imperial a responsabilidade do seu modo de viver, do
-seu systema de governo e das suas crenças».
-
-Alguns bispos do norte da Allemanha tinham-n’o feito já: a opportunidade
-era de tentar: podiam, aproveitando-se d’este decreto, libertar-se da
-obediencia a Roma, casar, e legar a seus filhos o que possuiam. Carlos
-viu tambem o alcance de aquella opportunidade, mas durante muito tempo
-foi-lhe impossivel intervir. Todas as vezes que tentou pôr em pratica os
-seus planos via-se contrariado, ou pelo papa, ou pelo rei de França, ou
-pelos turcos. Quando lhe constou que parecia estar proxima a conversão
-de Hermann von Wied, reconheceu-se impotente para luctar com a Liga
-de Schmalkald. Por fim, em 1544, conseguiu derrotar os francezes, com
-os quaes tratou, depois, da paz em condições vantajosas para elles,
-impondo-lhes, porém, a clausula de uma união dos dois exercitos
-para combater os protestantes. Na Dieta de Spira, que se reuniu no
-mesmo anno, mostrou-se contemporizador, propondo que se suspendessem
-hostilidades até á convocação do Concilio Geral; isto ao passo que por
-outro lado trabalhava para desviar da liga protestante o maior numero de
-principes que lhe fosse possivel.
-
-=A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald.=—No entretanto Luthero,
-que soffria havia bastante tempo de uma doença do coração, morria
-em Eisleben, em 18 de fevereiro de 1546, perecendo com elle aquella
-forte reluctancia dos protestantes em tentarem a sorte das armas. Não
-estavam, porém, tão bem preparados para a guerra como n’outro tempo. O
-bom exito que a liga tivera ao principio fez com que elles confiassem
-demasiadamente n’ella; além d’isso, surgiram rivalidades entre os estados
-e as cidades, e entre os principes. Filippe de Hesse era o unico chefe
-competente, mas tinha o defeito de ser um principe de pouco elevada
-estirpe. Tinham ficado tambem muito prejudicados com o facto de Mauricio
-ter succedido ao duque Jorge da Saxonia, o grande inimigo de Luthero e
-da Reforma. Mauricio era sobrinho do duque Jorge, havia sido educado
-no lutheranismo, e desposou a primeira filha de Filippe de Hesse.
-Por occasião de elle assumir a chefia, a Saxonia Albertina, como era
-chamada, confirmou o seu lutheranismo, que durante a vida do duque Jorge
-se havia propagado clandestinamente, e que se havia tornado a religião
-reconhecida do paiz quando o duque Henrique, pae de Mauricio, succedeu a
-seu irmão. Todas estas coisas faziam com que os principes protestantes
-não podessem prescindir do concurso de Mauricio, apezar do joven não lhes
-inspirar muita confiança. De facto, Mauricio foi o primeiro de aquelles
-principes allemães protestantes para quem a Reforma era simplesmente
-uma arma politica de que lançassem mão quando lhes fosse vantajosa.
-Mais tarde, durante a guerra dos Trinta Annos, o seu numero augmentou
-consideravelmente, graças ás interminaveis disputas dos theologos, que,
-interessados apenas em que as suas insignificantes doutrinas ácerca da
-_ubiquidade_ e da _presença real_ fossem correctamente definidas, se
-mostravam quasi indifferentes perante a grande quantidade de sangue
-derramado e o grande numero de lares desgraçados. Nos primeiros tempos
-da Reforma, porém, os principes protestantes eram homens sinceramente
-christãos e que não obedeciam a fins interesseiros, não obstante a sua
-forçada camaradagem com Mauricio.
-
-O imperador quiz aproveitar a opportunidade, e com esse intuito fez
-algumas propostas a Mauricio. Este começou por abandonar a liga. Era um
-bom protestante, disse elle, e estava prompto a defender a religião,
-mas não queria ajuntar-se com aquelles que se oppunham ao seu soberano.
-O imperador, cobrando animo com esta declaração, deu os ultimos toques
-aos seus preparativos. Antes, porém, de entrar em acção, proclamou que
-a sua idéa não era combater a religião, mas, sim, castigar aquelles que
-conspiravam contra a integridade do imperio.
-
-Não vamos agora narrar pormenorisadamente o que teve logar em seguida.
-Devido á traição de Mauricio, á hesitação dos outros, e á falta de mutua
-confiança entre os caudilhos da liga, o imperador alcançou uma facil
-e, apparentemente, decisiva victoria. A batalha de Mühlberg teve logar
-a 24 de abril de 1547, e João Frederico, eleitor da Saxonia, ficou
-ferido e foi feito prisioneiro, não tardando que Filippe de Hesse caisse
-egualmente em poder dos inimigos.
-
-Toda a Allemanha se prostrou deante do imperador, que declarou logo a sua
-intenção de restabelecer a unidade religiosa. Ia redigir um documento
-denominado o _Interim de Augsburgo_, especie de confissão de fé que os
-allemães seriam obrigados a acceitar. Eram por meio d’elle reintegrados a
-hierarquia e o culto catholicos romanos, com todas as suas festividades,
-jejuns e ceremonias, sendo apenas tolerado o casamento dos clerigos e a
-faculdade do povo commungar nas duas especies.
-
-O Interim era, por assim dizer, um plano de reformação, e estava n’elle
-incluido, segundo a opinião de Carlos, tudo quanto se devia conceder
-aos protestantes. Em parte alguma o acceitaram de boa vontade. O
-imperador não o remetteu aos districtos catholicos romanos, e em todos
-os protestantes encontrou uma resistencia passiva. O proprio Mauricio
-hesitou em o proclamar na Saxonia, publicando, em logar d’elle, o
-_Interim de Leipzig_, que tendia a uma conciliação das ceremonias
-papistas com as doutrinas protestantes.
-
-Em breve se tornou evidente que o codigo religioso do imperador só
-encontrava submissão da parte do povo nos pontos onde a presença
-das tropas hespanholas obrigava a essa submissão. O imperador havia
-triumphado, o seu exercito saira victorioso, parecia ter adquirido um
-dominio na Allemanha como não succedera a nenhum outro soberano durante
-muitos seculos, e, comtudo, lá no seu intimo, sentia-se derrotado, pois
-não conseguira o fim principal que tinha em vista. A invisivel força da
-consciencia, esse adversario com que elle não contara, estava erguida
-contra elle, e havia de, por fim, inutilisar todos os seus bem elaborados
-planos politicos.
-
-=O imperador e o Concilio Geral.=—Emquanto o imperador estivera formando
-e pondo em pratica os seus projectos para a conquista da Allemanha
-protestante, a côrte pontificia vira-se forçada a convocar um Concilio
-Geral. Este concilio reuniu-se em Trent, no Tyrol, e, emquanto o
-imperador andou mettido na tarefa de subjugar os protestantes, esteve
-tomando deliberações relativas á Egreja.
-
-Nos primeiros periodos da controversia a que a Reforma deu origem, os
-reformadores appellavam constantemente para um concilio livre, e os
-concilios foram sempre os instrumentos favoritos do imperador para a
-liquidação das contendas. Os papas, porém, procuravam, antes, evital-os.
-No seculo quinze, os concilios geraes de Basiléa, Pisa e Constancia
-foram os meios de que os ecclesiasticos e principes se serviram para
-investir contra o poder da côrte de Roma. Um concilio geral era um ponto
-de reunião para todos aquelles que eram adversos ao christianismo papal;
-e a um politico como Carlos V affigurava-se ser um excellente meio de
-engrandecer o imperador e humilhar o papa. Anteriormente á Reforma, os
-concilios geraes eram olhados com muito respeito. Cria-se que o Espirito
-Santo fallava mediante esses concilios, e muitos theologos medievaes, que
-negavam a infallibilidade do papa, sustentavam que um concilio não era
-susceptivel de errar.
-
-Nos primeiros seculos da Egreja christã, um concilio geral, ou ecumenico,
-significava simplesmente uma assembléa que se podia com justiça dizer
-que representava a Egreja no seu conjuncto, de modo que as suas decisões
-podiam ser chamadas as opiniões de todos os christãos. N’esses remotos
-tempos os bispos eram eleitos pelo clero e pelo povo, e eram, portanto,
-representantes das regiões de onde tinham vindo, e assim um concilio em
-que todos os bispos christãos estivessem presentes achava-se realmente
-no caso de fallar em nome de todo o povo christão. Mesmo nas epocas mais
-puras da egreja primitiva, concilio algum se realisou a que concorressem
-todos os bispos, e que fosse, por conseguinte, realmente ecumenico e
-representativo de todos os christãos. No decurso da Edade Media a Egreja
-perdeu inteiramente o seu antigo caracter popular, ou democratico, e os
-bispos não podiam ser chamados, n’um sentido rigoroso, os representantes
-do povo; eram, muitas vezes, apenas os delegados do papa, e iam aos
-concilios para votar o que elle houvesse dictado.
-
-Estas e outras considerações tinham feito com que os protestantes
-respeitassem menos os concilios, e mostraram ao imperador que um
-concilio, para ser util, devia estar quanto possivel fóra da influencia
-do papa. Os allemães tinham pedido que se convocasse um concilio livre na
-Allemanha, e o imperador tinha tambem ultimamente pedido o mesmo; o papa,
-por outro lado, queria que o concilio se realisasse em Italia, onde elle
-poderia mais facilmente ter mão nas suas deliberações e decisões. Depois
-de muitas negociações entre o papa e o imperador, resolveu-se afinal que
-o concilio se reunisse, não em Italia, onde o papa poderia ter demasiado
-poder sobre elle, nem na Allemanha, onde o imperador e os principes
-poderiam impôr a sua auctoridade, mas em Trent, no Tyrol, n’um ponto
-equidistante da Allemanha e da Italia.
-
-O imperador esperava grandes coisas d’este concilio. Sabia que havia
-na egreja romana muitos homens competentes que se tinham preparado para
-grandes reformas, que ao proprio papa, Paulo III, não eram indifferentes;
-não tinha, porém, contado com a influencia de uma nova e poderosa
-organisação que estava destinada a alcançar a sua primeira e grande
-victoria n’esse mesmo concilio para cuja convocação elle havia trabalhado.
-
-=Loyola e os jesuitas.=—Ignacio Loyola, joven fidalgo hespanhol, educado
-no meio da cavallaria de Hespanha, onde as prolongadas guerras com
-os moiros tinham tornado a dedicação ao papado um grande elemento de
-patriotismo, ficou com uma perna esmigalhada no cerco de Pamplona. Duas
-dolorosas operações tinham-n’o convencido, por fim, de que a sua carreira
-militar tinha findado, e os seus pensamentos voltaram-se na direcção de
-um novo mister. Votou que havia de ser um soldado da Egreja.
-
-Nos accessos da febre produzidos pelo ferimento, tinha phantasticas
-visões da Virgem; e, ao restabelecer-se, dedicou a sua vida, com todo o
-ceremonial da cavallaria da Edade Media, a Deus, á Virgem e á Egreja.
-Elle vivia alheiado da moderna erudição. Não sabia nada de theologia. A
-sua religião era medieval, e o seu sonho era ser, no seculo dezeseis, um
-novo Francisco de Assis.
-
-É singular que este enthusiastico fidalgo hespanhol fosse excitado pela
-mesma idéa que ditou a fria politica de Carlos V. Ambos queriam renovar
-seculos que tinham desapparecido para sempre; e, emquanto um estava
-planeando a restauração do Imperio do primeiro periodo da Edade Media,
-o outro estava regalando a mente com uma nova ordem de frades, cujos
-feitos missionarios haviam de rivalisar com os dos antigos franciscanos.
-O imperador foi mal recebido; o solitario fidalgo teve um exito que
-excedeu quasi os seus sonhos. Apoz alguns annos de estudo, de decepções,
-de demoras, obteve permissão do papa para fundar a Companhia de Jesus.
-
-A nova ordem tinha apenas cinco annos de existencia quando teve logar,
-em 1545, o concilio de Trento, mas já se havia tornado famosa. Os
-seus sucessos como sociedade missionaria, a sua devoção por Francisco
-Xavier, e o enthusiasmo de seus membros, tudo contribuiu para a tornar
-formidavel. Lainez, um dos primeiros discipulos de Loyola, e seu
-successor como cabeça da companhia, cujo criterio deu á ordem o caracter
-que lhe estava destinado, representou os seus companheiros no concilio de
-Trento.
-
-A maxima da Sociedade era uma inexoravel suppressão da heresia, e o
-seu unico principio era a obediencia á Ordem e ao papa; e, n’essa
-conformidade, Lainez tratou activamente de evitar que o concilio fizesse
-quaesquer concessões aos protestantes. O seu modo de discursar, a sua
-subtileza e a sua tenacidade deram-lhe grande influencia. Poude logo ao
-principio levar de vencida os cardeaes Contarini e Pole, esses grandes
-catholicos romanos liberaes, e conseguir que o concilio não auctorizasse
-reformas doutrinaes.
-
-As victorias de Carlos na Allemanha ajudaram os jesuitas. O papa não
-podia jámais pensar ou obrar simplesmente como chefe da Egreja. Elle era
-uma potencia politica, e as razões de estado influiram nas suas acções.
-N’esta conjunctura, os interesses do principe italiano oppunham-se á
-existencia de uma christandade una. O rei de França, Henrique II, chamou
-a attenção para o facto de Carlos se tornar poderoso em demasia e de ser
-provavel que assim continuasse se as concessões religiosas estabelecessem
-a união na Allemanha. Quando Carlos venceu a Liga protestante, e procurou
-obter de Roma concessões que satisfizessem os subditos que havia
-submettido ao seu dominio, o papa recusou auxilial-o, afastou de Trento
-o concilio, e installou-o em Bolonha, na Italia, de modo que os planos
-do imperador foram novamente contrariados pelo cabeça da egreja que elle
-se empenhava por conservar catholica. Na sua ira, virou-se para o papa e
-compelliu-o a dissolver o concilio. Este dispersou para só se tornar a
-reunir quando toda e qualquer esperança de reconciliar os protestantes
-tinha desapparecido, e d’esta vez poude, sem a peia do protestantismo,
-consolidar a organização externa de um dominio exclusivamente papal.
-
-O imperador não foi mais bem succedido na Allemanha. As crueldades de que
-os principes que tinha feito prisioneiros foram victimas, a infidelidade
-de que deu prova na perseguição dos protestantes, a despeito de tudo
-quanto tinha feito proclamar, e as extorsões commettidas pelas tropas
-hespanholas—tudo isto contribuiu para tornar a Allemanha hostil, e
-não faltavam indicios de que o paiz não supportaria por muito tempo a
-tyrannia de Carlos. E a revolta teria rebentado mais cedo, se Mauricio, o
-traidor, não fosse tão odiado, ou se tivessem confiança n’elle.
-
-O imperador parecia não ter olhos para ver o que se estava passando.
-Estava convencido de que Mauricio, a quem havia nomeado eleitor, estava
-nas suas mãos, e de que sem elle, Mauricio, a Allemanha não podia
-fazer coisa alguma. Entretanto, os principes procuravam reunir-se de
-novo. Offereceram á França uma parte do territorio allemão em troca do
-seu auxilio, e por fim organisou-se uma confederação, em que entrava
-Mauricio, e os principes trataram de guarnecer as fronteiras do Tyrol,
-para que estas não fossem transpostas pelas tropas imperiaes. Mauricio
-avançou impetuosamente e tomou de assalto a fortaleza de Ehrenherg, que
-era a chave do Tyrol; e o imperador para escapar teve de recorrer a
-uma fuga subita, e achou-se em Steiermark, sem exercito, e expulso da
-Allemanha. Foi a um tumulto que se levantou entre as tropas confederadas
-que elle deveu não ser apanhado, pois que Mauricio fez todo o possivel
-por agarrar «a velha raposa no covil», segundo a phrase d’elle.
-
-=A paz religiosa de Augsburgo.=—Carlos V nunca se resarciu d’este
-desastre. A Reforma tinha-o, por fim, vencido, e elle reconhecia esse
-facto, sem, comtudo, o comprehender. Elle não quiz entrar directamente
-em negociações com os principes victoriosos, encarregando d’isso o seu
-irmão Fernando. Filippe de Hesse e João Frederico da Saxonia foram postos
-em liberdade. Filippe reentrou na posse dos seus dominios; a João foram
-tambem restituidas algumas das suas propriedades, mas Mauricio continuou
-no logar de eleitor. Os preliminares de uma paz permanente foram vasados
-nos velhos moldes de Nürnberg, pelo tratado de Passau, em 1552.
-
-Por fim, apoz longas negociações, saiu da Dieta de Augsburgo, em
-1555, uma paz religiosa, «a qual» dizia o decreto, «tem de ser
-permanente, absoluta, e incondicional, e tem de durar para sempre».
-Foi reconhecido aquelle principio que se estabeleceu em 1526, isto é,
-que a suprema auctoridade civil de cada estado tinha liberdade para
-escolher o respectivo credo, lutherano ou catholico romano. Esta paz,
-por conseguinte, reconhecia o direito das egrejas com separadas crenças
-existirem ao lado umas das outras na Allemanha, tornando assim legal a
-existencia da Reforma.
-
-O principio a que obedecia este regulamento, _cujus regio ejus religio_,
-acarretava difficuldades que não podem ser aqui descriptas, e foi, na
-verdade, uma das causas da guerra dos Trinta Annos, que tão calamitosa
-foi para a Allemanha. Não concedia liberdade de consciencia; não fazia
-provisão para qualquer outra fórma de protestantismo além da lutherana; e
-todos aquelles que não tinham adherido á confissão de Augsburgo estavam
-ainda fóra da lei, juridicamente fallando.
-
-Aquelles que fizeram uso d’ella na Dieta tinham de modifical-a de um ou
-de outro modo. Os protestantes viram que ella auctorizava os principes
-catholicos romanos a perseguirem os subditos que o não fossem; e os
-catholicos viram que ella permittia aos principes ecclesiasticos
-secularizarem os seus estados. Assim os protestantes obtiveram a
-inserção de uma clausula que declarava que os subditos protestantes de
-principes ecclesiasticos, que de ha muito tivessem adoptado a confissão
-de Augsburgo, não seriam obrigados a abandonar as suas idéas religiosas;
-e os catholicos obtiveram a inserção do que se ficou chamando «a reserva
-ecclesiastica», que preceituava que, se algum estado catholico romano se
-separasse de Roma, fosse destituido de todas as prerogativas que as suas
-dioceses disfructavam.
-
-Com a paz de Augsburgo terminaram as luctas para o reconhecimento da
-Reforma lutherana. A egreja protestante da Allemanha, que adheriu á
-confissão de Augsburgo, tinha ainda que sustentar um grande combate para
-se defender da contrareforma catholica romana, das intrigas jesuiticas,
-e da força das armas durante a guerra dos Trinta Annos. Conservou a sua
-integridade, mas foi só o que fez. A paz de Augsburgo foi a maré cheia da
-egreja lutherana.
-
-Na lucta que teve logar depois, foi a mais moderna e mais perseverante
-fórma do protestantismo que arrostou com os impetos do ataque, e que se
-tornou digna de receber os despojos da conquista. O lutheranismo reteve
-a sua integridade, consolidou as suas organizações ecclesiasticas, e
-aperfeiçoou a sua theologia; mas, como vigoroso movimento reformador, a
-sua historia terminou com a paz de Augsburgo.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA
-
- O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag.
- 50.—Na Suecia, pag. 51.
-
-
-=O lutheranismo fóra da Allemanha.=—Durante os primeiros annos da
-Reforma, a influencia de Luthero transpoz os limites da Allemanha. A
-Universidade de Wittenberg attrahiu muitos estudantes estrangeiros,
-os quaes, voltando para as suas terras, propagaram, clandestina ou
-abertamente, as novas doutrinas.
-
-Aconteceu d’esse modo que os preliminares da Reforma n’esses paizes, que
-depois se separaram de Roma e formaram egrejas protestantes nacionaes,
-foram quasi inteiramente lutheranos. Os primeiros reformadores e
-martyres dos Paizes Baixos eram lutheranos, e os dogmas doutrinaes e
-ecclesiasticos de Luthero foram durante muito tempo acatados na Hollanda.
-
-Os movimentos reformadores na Hungria, na Polonia, na Bohemia e na
-Escocia foram iniciados por homens que se apresentavam como discipulos de
-Luthero, e mesmo na Inglaterra os principios lutheranos progrediram algum
-tanto. Em todos esses paizes, porém, foi ganhando, por fim, terreno um
-outro typo de doutrina protestante, o Calvinismo, e a Reforma lutherana
-eclipsou-se.
-
-Unicamente dois paizes, a Dinamarca e a Suecia, com as suas dependencias,
-adoptaram de um modo permanente a confissão de Augsburgo e os principios
-lutheranos do governo da egreja.
-
-A Reforma estava n’estes paizes, mais do que em qualquer outra parte,
-identificada com a revolução politica, e foi executada por governantes
-que se haviam compenetrado de que não era possivel melhorar o estado das
-coisas emquanto não fosse abatido o poder de que o clero romano dispunha.
-A historia da Reforma n’esses paizes é a historia de uma revolução, e a
-moderna vida politica da Dinamarca e da Suecia principia com a reforma
-das suas egrejas.
-
-No principio do seculo dezeseis, a Dinamarca, a Suecia e a Noruega
-estavam sob a soberania de um rei que tinha a sua residencia no primeiro
-d’estes paizes, e que tinha sobre os outros dois um poder apenas nominal.
-Estes paizes estavam quasi n’um estado de anarquia. Duas grandes
-aristocracias, a da nobreza e a da egreja, dividiam entre si a riqueza e
-o poderio, sendo cada um dos barões e cada um dos bispos um verdadeiro
-despota para com aquelles que estavam debaixo da sua auctoridade. A união
-das tres nações, effectuada no fim do seculo quatorze, era puramente
-dynastica, e vista com muito maus olhos pelo povo.
-
-Em 1513 subiu ao throno Christiano II, cruel, voluvel e nescio monarca,
-que grangeara em ambos os paizes a antipathia de todas as classes.
-Um massacre de fidalgos suecos, que teve logar em Stockolmo, em
-circumstancias as mais revoltantes, exgotou a paciencia do povo, e a
-Dinamarca e a Suecia levantaram-se contra o tyranno. A revolução foi
-bem succedida; Christianno II foi derrubado do throno, e as duas nações
-ficaram de ahi em deante independentes uma da outra.
-
-=Na Dinamarca.=—Os dinamarquezes offereceram a corôa a Frederico I,
-duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente lutherano, e chefe
-d’um estado que já tinha acceite a Reforma. Acceitou-a, e por occasião
-da sua coroação o clero obrigou-o a declarar por escripto que não
-introduziria á força a religião reformada, nem atacaria a egreja de
-Roma, nos seus novos dominios. Frederico cumpriu essa obrigação segundo
-a letra, mas não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu
-prégadores e evangelistas lutheranos, e em particular a João Jansen,
-frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg; e a nova fé fez
-taes progressos que dentro em pouco quasi todos os nobres da Jütlandia
-a tinham abraçado, e nas ilhas o numero de adeptos era consideravel.
-Em fins de 1527 reuniu-se em Odensee uma Dieta, expressamente para
-ser tratada a questão religiosa, e ficou assente a tolerancia do
-lutheranismo. Durante os annos que immediatamente se seguiram, as novas
-doutrinas espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos
-romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do fallecimento
-de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e a auctoridade dos
-bispos foi desapparecendo a pouco e pouco, até se extinguir de todo. Os
-nobres haviam cooperado com o rei na sua obra de demolir a aristocracia
-ecclesiastica, e as terras que eram da egreja ficaram, na sua maioria,
-pertencendo ao rei.
-
-A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante. O seu credo
-é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos nunca adoptaram, na
-Dinamarca, a formula da concordata; o seu catecismo é o de Luthero;
-e sua fórma de governo de egreja, posto que admitta um episcopado, é
-consistorial. A constituição vem exposta no _Ordinatio ecclesiastica
-regnorum Danicæ et Norwegeæ_, de Bugenhagen. O rei possuia o _jus
-episcopale_, e era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os
-patronos; e a Egreja era governada por sete superintendentes com o titulo
-de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o catholicismo romano
-no seculo dezessete, a chamada guerra dos Trinta Annos, a Dinamarca
-enviou aos protestantes da Allemanha todo o auxilio de que o paiz podia
-dispôr.
-
-=Na Suecia.=—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo Vasa, joven
-fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes n’aquella
-carnificina, organisou a rebellião contra Christianno II, e trabalhou
-muito para que ella tivesse bom exito. Em 1521 foi declarado regente
-do reino, e em 1523 foi, pela voz do povo, chamado ao throno. Achou-se
-em presença de difficuldades quasi invenciveis. Não tinha havido,
-praticamente, um governo estabelecido na Suecia durante mais de um
-seculo, e cada dono de terras era quasi um soberano independente. Dois
-terços das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia quasi
-inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda a parte opprimidos;
-o commercio estava nas mãos da Dinamarca ou da Liga Hanseatica; e não
-havia classe media. Os nobres e os ecclesiasticos exigiam isenção de
-contribuições, e os camponezes não podiam supportar novos encargos.
-
-N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para as terras da
-egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica com o auxilio
-da Reforma lutherana.
-
-Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um homem religioso,
-perfeitamente compenetrado da verdade e do poder das doutrinas
-evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma obedecia tambem a outros
-motivos. Precisava de dinheiro para as despezas publicas, queria
-proporcionar aos camponezes uma situação mais desafogada, e ambicionava,
-acima de tudo, demolir a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se
-arrogava direitos que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder
-cautelosamente. A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas,
-nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que o rei estava
-atacando os direitos da propriedade, e que lhes chegaria a vez a elles,
-se consentissem que os bens da egreja fossem arrebatados; e, quanto á
-aristocracia ecclesiastica, essa dispunha de muita força.
-
-É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz á frente do
-movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia da Dinamarca, essa
-tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu o apoio dos bispos suecos.
-Elle era um homem excommungado, um homem a quem a egreja havia
-proscripto. Essa circumstancia pôl-o em contacto com os prégadores
-lutheranos, que já andavam pela Suecia.
-
-Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado em
-Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado contra um
-certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado no seu paiz, foram
-perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck, onde Gustavo travou
-conhecimento com elles. Elles e um outro lutherano sueco, Lourenço
-Andersen, arcediago de Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei,
-e começaram a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações,
-contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf Petersen,
-sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando o Evangelho puro,
-«que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara na Suecia setecentos annos
-antes.».
-
-Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta o reformador
-desafiou-os para uma polemica, que elles não acceitaram. O resultado
-d’isso foi uma rapida propagação das doutrinas evangelicas. Gustavo
-poz Olaf Petersen como prégador em Stockholmo, Lourenço Petersen foi
-leccionar para Upsala, e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do
-reino. Promoveram-se polemicas publicas, segundo o costume allemão, em
-diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o dr. Galle
-de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da justificação pela
-fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio, do celibato e do poder
-temporal do papa, o que foi assaz vantajoso para a causa da Reforma.
-
-Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento em sueco, e o
-povo, em cujas mãos o livro foi entregue, poude então comparar o ensino
-dos prégadores e dos bispos com o da palavra de Deus.
-
-A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se sentir de
-uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas, por duas Dietas, pesadas
-contribuições sobre as propriedades da Egreja. O partido ecclesiastico,
-com os bispos á frente, promoveu uma revolta, que foi suffocada, e
-Gustavo conheceu que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus
-planos. Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e
-propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada ao
-pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em deante as receitas
-em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram este alvitre; os
-clerigos declararam que só á força cederiam. Vendo isto, Gustavo, apoz
-um eloquente discurso, abdicou. Os diversos estados pozeram-se então
-em contenda uns com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns
-dias, assentiu-se na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei
-e publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio da
-historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras coisas,
-que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e cidadellas dos
-bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos; e ficou egualmente
-reconhecida a existencia legal da egreja lutherana.
-
-D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu rapidamente, e
-dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião official do paiz.
-Os bens da Egreja foram confiscados para o Estado, deixando-se, porém,
-ficar o sufficiente para a sustentação do culto. Conservou-se a fórma de
-governo episcopal, mas ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do
-rei, como na egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes
-papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das velas, mas
-tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen foi o primeiro
-arcebispo protestante de Upsala, cargo que começou a exercer em 1531.
-Dez annos depois, isto é, em 1541, ficou completa uma nova traducção da
-Biblia, feita pelos irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz
-estava inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição
-ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em 1664, a Formula da
-Concordata.
-
-
-
-
-II PARTE
-
-A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS
-
-CAPITULOS:
-
- I—A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO.
-
- II—A REFORMA EM GENEBRA, SOB CALVINO.
-
- III—A REFORMA EM FRANÇA.
-
- IV—A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS.
-
- V—A REFORMA NA ESCOCIA.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO
-
- As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica
- da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de
- Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa,
- pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os Cantões Florestaes, pag.
- 64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.
-
-
-=As reformas suissa e allemã.=—A Reforma na Allemanha tem geralmente
-chamado mais a attenção do que a revolta contra Roma na Suissa. O
-conflicto com o imperador, que ella provocou, o seu rapido alastramento,
-o numero de estados e reinos que adheriram a ella, a parte que as
-universidades, onde estavam matriculados muitos estudantes estrangeiros,
-tomaram no movimento, tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha
-adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa; mas, se
-devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias do que pelos
-seus principios, o movimento começado na Suissa foi ainda mais importante
-do que o que teve Wittenberg por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se
-reconhecendo que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes
-dizia respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja,
-podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de ahi veiu
-que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e uma grande parte das
-da Allemanha receberam melhor as tradições de Zwinglio e de Calvino do
-que as de Luthero e de Melanchthon.
-
-Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos da Reforma no
-sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se ás tradições, tanto
-doutrinaes como de qualquer outro genero, da egreja medieval, mesmo em
-assumptos que para algumas pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob
-o ponto de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se
-devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que se referem
-aos pequenos casos como aos de muita importancia. Nem Zwinglio nem
-Calvino queriam adoptar a doutrina da _presença real_ pela razão de a
-egreja medieval a ter adoptado, e não experimentaram aquella dificuldade
-que Luthero teve sempre em fazer uma coisa de um modo differente de
-aquella em que os seus antepassados a faziam.
-
-É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que tivesse a mesma
-força, e que essa razão se deva procurar nas idéas politicas e na
-educação do povo suisso. Na egreja medieval os direitos dos christãos
-tinham desaparecido inteiramente. Quando alguem fallava em egreja,
-referia-se ao papa, aos bispos, aos abbades, aos frades, ás freiras e aos
-padres; não se referia á grande corporação dos christãos piedosos, que
-constituiam, realmente, a egreja de Deus.
-
-Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores soubessem
-perfeitamente que a verdadeira egreja visivel era constituida pelo povo
-piedoso que professava a fé em Jesus Christo, não tinham podido dar
-uma expressão pratica a esse sentimento, e o systema consistorial dos
-lutheranos collocava os principes e as outras auctoridades civis no logar
-que os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer que o
-povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar a essa egreja
-uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por si propria, como os
-christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos tinham feito. Pode-se
-quasi dizer que não trataram de incutir na vida da egreja reformada as
-maximas de auto-governo que inspiraram a communidade christã do Novo
-Testamento. Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser dirigida
-de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.
-
-Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente que a egreja e o
-povo christão eram uma e a mesma coisa, e os projectos de auto-governo,
-que, se não foram sempre bem succedidos, eram, pelo menos, feitos
-com boa intenção, faziam parte da Reforma proposta. Isto proveiu,
-indubitavelmente, de um cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a
-vida popular dos suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o
-sentido do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar
-pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da livre e democratica
-vida suissa estava mais no caso de comprehender a democracia espiritual
-do christianismo do Novo Testamento do que aquella que principiou nas
-universidades e nas côrtes dos principes allemães.
-
-=A situação politica da Suissa.=—A Suissa era, n’aquelle tempo, um paiz
-como não havia outro na Europa. Estava tão dividido como a Italia ou a
-Allemanha, e, comtudo, apresentava uma união que ellas não apresentavam.
-Era uma confederação de estados, ou cantões, cada um dos quaes era
-independente de aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles
-uma perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes,
-ou, antes, «uma pequena republica de communas e cidades do primitivo typo
-teutonico, em que o poder civil era exercido pela communidade», cada uma
-d’ellas com um systema governativo differente.
-
-Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios no
-principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, onde 1.300 suissos
-derrotaram 10.000 austriacos, teve logar em 1315. Cerca de dois seculos
-mais tarde, os cantões florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a
-que pouco depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos
-livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca ao centro, e
-tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos por um.»
-
-Os cantões florestaes eram communas independentes, e os seus habitantes,
-todos elles proprietarios rusticos, residiam em valles quasi
-inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que se havia formado em
-redor de uma colonia ecclesiastica; Berne a um antigo logarejo que se
-aninhava junto á base de um castello senhorial; e assim por deante. Os
-cantões florestaes tinham um governo simples, patriarcal; em Zurich os
-nobres tinham a mesma consideração que os commerciantes e artistas, e
-a constituição era perfeitamente democratica; Berne era uma republica
-aristocratica; e assim successivamente; mas em todas ellas o governo
-estava nas mãos do povo, e todos os homens eram livres.
-
-Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, durante
-umas poucas de gerações, nada que se parecesse com uma administração
-episcopal. As suas communicações com o pontificado eram effectuadas por
-meio de delegados, ou emissarios, e obedeciam apenas a motivos politicos.
-O territorio estava sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de
-Besançon; mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum
-exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões suissos, e
-d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir reformas na egreja.
-
-No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e a convivencia
-com os paizes adjacentes foram mudando os velhos e simples costumes
-do povo suisso. Na Edade Media era crença geral que a força principal
-de um exercito estava na sua cavallaria; mas as victorias que os
-suissos alcançaram sobre as tropas austriacas e borgonhezas mostraram
-a superioridade de uma boa infanteria, convenientemente adestrada.
-As tropas suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo
-muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos quando
-tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se desenvolvido
-gradualmente o mau habito de alugar os seus soldados a quem maior somma
-de dinheiro offerecesse. Era costume, quando um regimento suisso partia
-para a guerra por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo,
-na qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento
-pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que este serviço
-mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam todo o possivel, no
-seu regresso á patria, para que esta perniciosa pratica fosse abolida.
-
-=Ulrico Zwinglio.=—Um dos mais famosos d’estes patriotas foi Ulrico
-Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu a ser o Reformador da
-Suissa.
-
-Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no Toggenburgo,
-pequena região montanhosa, cuja altitude era tal que não produzia arvores
-de fructo, sendo tambem impossivel cortal-a de estradas. O pae d’elle
-era o chefe, ou magistrado, da communa, e um dos seus tios era o deão de
-Wesen.
-
-O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, em vista da
-sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar ao filho uma boa
-educação, mandou-o estudar em Basiléa e em Berne, de onde passou para
-a grande universidade de Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os
-estudos classicos, enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que
-a Italia estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho
-em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para Basiléa,
-e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de aquelles theologos
-liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, sobre o fundamento
-de que Christo resgatou, com a Sua morte, os peccados de todos os homens.
-
-Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, muitos annos
-depois: «Devemos ter consideração por Martinho Luthero; mas o que é certo
-é que aquillo que temos em commum com elle já o conheciamos muito antes
-de ouvir fallar no seu nome».
-
-Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em seguida foi nomeado
-cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu ahi dez annos, lendo e
-estudando os auctores classicos latinos, e em especial Cicero, Seneca
-e Horacio; começou tambem a aprender grego com muito afan, e a esse
-respeito escreveu a um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de
-Deus é que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir
-fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas Sagradas.»
-Os seus livros favoritos do Novo Testamento eram, diz-se, as Epistolas de
-S. Paulo. Copiou-as com as suas proprias mãos de mais de um manuscripto,
-e sabia-as, por fim, de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a
-declarar que o unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar
-ouvidos á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado
-havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o seu modo de
-pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um dedicado filho da egreja
-medieval, torturando-se com jejuns e flagellações.
-
-Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde havia uma
-abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre imagem da Virgem,
-a que se attribuiam muitos milagres. As multidões vinham em peregrinação
-a esta localidade, e Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante
-a idolatria e superstição de aquella gente, e perante o embuste e
-sacrilegio do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou
-a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura e o peccado
-de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos seus sermões proferiu
-o seguinte: «Na hora da vossa morte clamae só por Jesus Christo, que
-vos comprou com o Seu sangue, e que é o unico Mediador entre Deus e
-os homens.» Estas suas predicas produziram uma enorme excitação, e,
-tendo constado em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir
-o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. Elle
-recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação que o dito legado
-lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos de Zurich lhe pediu, em 1519,
-para ir para lá como pastor, acceitou muito gostosamente, e não tardou em
-ter uma grande influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.
-
-Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor ambulante de
-indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer ao povo o artigo do
-seu commercio. Zwinglio protestou contra o seu procedimento, e conseguiu
-que as auctoridades o pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de
-conferencias sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas da graça
-e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias eram feitas na
-presença de centenares de pessoas, que ouviam o Evangelho com agrado.
-
-A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de infanteria o
-papa nas suas guerras com o imperador; a influencia de Zwinglio, porém,
-era tão grande que em 1521 o cantão de Zurich recusou alugar os seus
-soldados, como até ali tinha feito. Esta patriotica resistencia a um
-infame trafico de sangue levantou maior opposição do que todos os sermões
-prégados por Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os
-bispos das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias para que
-a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o legado do papa
-tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e destruisse todos os livros
-lutheranos que haviam penetrado no paiz, e a Dieta passou ordens n’esse
-sentido.
-
-A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, posto que
-obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos os curas, pastores
-e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos e as Epistolas em
-conformidade com o Espirito de Deus e com as Sagradas Escripturas do
-Antigo e Novo Testamento.» Esta intimação deu um impulso ao movimento
-evangelico, que já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado
-sobre o jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo,
-durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela egreja.
-Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. O papa, Adriano
-II, queria a todo o transe evitar uma questão com os suissos, cujas
-tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir Zwinglio por boas maneiras,
-nada conseguindo, porém. Emquanto os legados percorriam leguas e leguas
-para lhe transmittirem os lisongeiros recados de que eram portadores,
-escrevia Zwinglio o seu _Apologeticus_, vigoroso ataque ás corrupções da
-egreja.
-
-O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que impozessem
-silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles licença para uma
-discussão publica, e comprometteu-se a provar, na presença de todos, que
-as suas opiniões se fundamentavam na Biblia. A junta accedeu, e fixou,
-para essa discussão, o dia 23 de Janeiro de 1523.
-
-=As theses de Zwinglio.=—A fim de separar convenientemente os assumptos
-a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta theses, inscrevendo
-por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação differia da dos seus
-accusadores, constituindo o conjuncto um bem elaborado resumo de
-theologia protestante. As theses affirmavam, em poucas palavras, o
-seguinte:—Jesus Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto,
-e é só Elle a quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é
-abraçal-O e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para
-intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou tirar alguma
-coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, de meras pretensões,
-com que insulta a Jesus Christo, nosso unico Summo Sacerdote. Christo
-morreu na cruz, resgatando, de uma vez para sempre, os peccados do
-Seu povo, e portanto a missa, que se assevera continuar, ou repetir,
-esse sacrificio, constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma
-ceremonia commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre Deus e o
-homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. A Escriptura Sagrada
-não contém uma palavra ácerca do purgatorio, e é coisa que não existe.
-Nada desagrada mais a Deus do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que
-tudo quanto assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma
-condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por
-similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, a confissão auricular,
-a absolvição, o celibato clerical e todas as ordenanças exclusivamente
-ecclesiasticas.
-
-Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, e, na opinião
-dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente os seus antagonistas.
-
-Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma terceira, em
-1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich e os seus magistrados se
-pozeram inteiramente ao lado de Zwinglio.
-
-=A Reforma em Zurich.=—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma do culto
-e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se que a missa não era tal
-um sacrificio; que não se devia venerar as imagens; que a Ceia do Senhor
-era uma simples commemoração da morte de Christo; que se devia ministrar
-o calix aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito
-na lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida,
-e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. Em 1524, Leão
-Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir o Velho Testamento, e antes
-de decorridos dez annos tinha a Suissa cinco versões da Biblia.
-
-Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo todas as
-suas despezas custeadas com o rendimento de vastas propriedades. Os
-conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos seus beneficios. Uma
-parte do dinheiro foi destinada ao sustento dos ministros da cidade, e
-o resto ficou constituindo um fundo de instrucção. Era com este fundo
-que a assembléa de Zurich, seguindo o conselho de Zwinglio, pagava ao
-professorado das escolas. Foi tambem resolvido que se solicitasse em
-todos os conventos, tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens
-em beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos assim
-se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia emquanto
-vivessem.
-
-A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, do norte da
-Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. Os discipulos de Thomaz
-Münzer não tardaram em causar perturbações. Conseguiram, com a sua
-prégação, agregar a si alguns adherentes de entre a população de Zurich.
-As suas doutrinas eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes,
-constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados de
-Deus e não precisavam de leis que não fossem as que os seus corações e
-consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem coherentes, queimaram
-as suas Biblias em publico. Tinham idéas singularissimas. Como Christo
-tivesse dito que os Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os
-enthusiastas anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com
-bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente absurdas.
-O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie de loucura, de que
-resultou haver sangue derramado. O conselho tolerou durante bastante
-tempo as suas manias, mas viu-se por fim obrigado a mandal-os retirar,
-proseguindo depois a obra da reforma com a mesma tranquillidade como
-anteriormente.
-
-A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes como Basiléa,
-Berne, Schaffhausen e Appenzell.
-
-=Basiléa= era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada pelos
-sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. Era tambem o centro da
-industria do papel, e a maquina de impressão de Froben deu-lhe uma grande
-celebridade. Era muito visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande
-Holbein durante o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados
-que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, professor de
-Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher benevolamente as novas
-doutrinas. Capito, o futuro reformador de Strasburgo, Polyhistor, o
-eminente hebraista e celebre physico, Œcolampadius, o sabio de Reuchlin
-e futuro companheiro de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do
-Delphinado, que tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não
-deixasse de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de
-Basiléa.
-
-A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius e Farel
-começaram a prégar contra a superstição.
-
-=Berne=, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, fez-se
-tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em pouco a Reforma
-começou a palpitar no meio dos cidadãos que a compunham. O conselho foi
-instigado a annunciar que na cidade só seria prégado o Evangelho puro, e
-tres prégadores, Kolb, Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão
-para fallarem contra a missa e contra as ceremonias papistas.
-
-Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros cantões, durante
-a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, ganhando sempre terreno, e
-por fim a Suissa ficou dividida em duas partes pela questão religiosa.
-
-=Os cantões florestaes= foram os unicos que se conservaram aferrados
-ás suas antigas tradições, constituindo um centro de opposição a toda
-e qualquer mudança em materia de religião. Quando a Reforma começou a
-mostrar um indiscutivel progresso, não só em Zurich como nos outros
-cantões, e Berne e Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se
-uma tal exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados
-protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava, em ambos
-os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava a esperança
-de que tudo se liquidasse rapidamente e de uma maneira decisiva. Ao
-primeiro recontro, porém, não se poude dar o nome de batalha, e os
-cantões florestaes, sem terem combatido, assignaram o Tratado de Cappel
-em 1529, cuja clausula principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé
-não são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos
-ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser justo, e tanto nas
-provincias communs como nos territorios independentes as congregações
-determinarão se a missa e outras usanças devem ser conservadas ou
-abolidas.»
-
-Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum dos partidos,
-e deu logar a novas contendas, que terminaram com a vinda subita dos
-Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo exercito derrotaram, ficando
-Zwinglio morto. Esta victoria não deu um grande avanço á causa romanista.
-O segundo Tratado de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o
-primeiro, e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada
-estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião.
-
-=Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.=—Com a morte de Zwinglio
-termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle morrer,
-a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de Luthero por uma
-constituição popular na egreja, mostrou claramente que na Reforma tinha
-de haver dois movimentos distinctos, que jámais se poderia unificar.
-Esta falta de união foi causa de um grande prejuizo, e as culpas não
-devem ser atiradas para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero.
-Ambos tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos principios
-evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes, em comparação
-de tudo aquillo em que concordavam. O feitio caracteristico da Reforma
-de Zwinglio, porém, torna-se muito mais manifesto na sua ultima fórma
-sob Calvino, e é referindo-nos a esse periodo que a vamos comparar com o
-movimento lutherano.
-
-Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma fizeram muito
-pouco no sentido de resolver uma questão que em breve tomou na egreja
-reformada uma importancia capital: a maneira como a egreja tinha de ser
-governada. Para elle era um ponto indiscutivel a necessidade de ter
-sempre presente no espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma
-de homens que podessem ser chamados _espirituaes_, simplesmente pelo
-facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava era que todos se
-compenetrassem do sacerdocio espiritual de todos os crentes, ministros ou
-leigos. Mostrou tambem que era dever de todos os magistrados administrar
-em nome de Christo e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e
-verdadeiras idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia
-haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios civis
-da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos respectivos ao
-culto publico, ás doutrinas e á disciplina da egreja foram feitos, no
-tempo de Zwinglio, pelo Conselho de Zurich, que era, n’aquelle estado,
-o supremo poder civil. Esta sua idéa, mesmo durante a vida d’elle,
-apresentou muitos inconvenientes, sendo um dos mais manifestos a ligação
-que se formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente
-politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam ter, como o
-antigo reino de Israel, governos theocraticos. Se as idéas de Zwinglio
-tivessem continuado a prevalecer, não é provavel que a Reforma suissa
-tivesse exercido o poder que exerceu para além das fronteiras da
-republica; posto que, sob a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem
-facilmente a um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter
-applicado a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma pequena
-egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia contra um
-governo secular que lhe fosse hostil.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO
-
- Genebra perante a Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag.
- 68.—A mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião
- Christã_, pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua
- expulsão, pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag.
- 76.—As _Ordenanças ecclesiasticas_, pag. 77.—Em que differem
- dos _Institutos_ pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de
- costumes, pag. 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe
- Beza, pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da
- Reforma, pag. 83.—A _Confissão de Zurich_, pag. 84.
-
-
-=Genebra perante a Reforma.=—Depois da morte de Zwinglio e da segunda
-Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis da Reforma suissa
-localisaram-se n’uma cidade que estava quasi desligada da confederação.
-
-Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e os seus bispos
-tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, jurisdicção sobre os
-negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam tambem os seus direitos
-sobre a cidade, e os dois partidos, o do bispo e o do duque, andavam
-quasi constantemente em guerra.
-
-Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente
-o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um
-conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa Leão X poz
-á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este
-modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no
-principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas
-facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos
-partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio
-da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como
-os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista
-contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com
-os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos
-pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome de «mamelukos», ao
-passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen»,
-isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser
-provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante
-francez, os huguenotes.
-
-A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim
-como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado
-notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de
-Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos
-tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do
-seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento
-das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida.
-Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus
-adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de
-licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem
-pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse
-estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade
-e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em
-Genebra.
-
-=Farel em Genebra.=—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532,
-veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos
-sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da
-egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos
-reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço;
-os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu
-respeito opiniões desencontradas.
-
-Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e
-a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra;
-Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem
-com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador.
-Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse.
-Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne,
-que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para
-celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi
-nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o
-prégar, e a Reforma foi avançando.
-
-O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra
-Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a
-diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões
-sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em
-1535 teve logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que
-Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os
-cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos
-sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os
-reformadores.
-
-O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se,
-nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a
-devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas,
-destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e
-commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho
-declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos
-que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade
-inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil,
-não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida,
-muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas
-o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella
-fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e
-tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos
-começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da
-liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha
-esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um
-moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na
-cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse.
-Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o
-inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as
-egrejas reformadas da Europa.
-
-=A mocidade de Calvino.=—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na
-Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando
-Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se
-dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo
-publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma
-senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As
-relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o
-bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle
-tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre
-familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos,
-a carreira ecclesiastica.
-
-Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para
-elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a
-universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde
-teve por professor o celebre Mathurino Corderier,[1] e em seguida para o
-Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente
-se celebrizou, Ignacio de Loyola.
-
-Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus
-condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de
-estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito
-annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo
-estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa
-que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a
-ordenar-se, nem fez voto de celibato.
-
-Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o
-filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito,
-estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um
-applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem
-do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com
-egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama
-de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que
-com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira
-juridica.
-
-Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade para seguir a
-vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos de direito, voltou,
-em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente á pequena communidade
-de protestantes que costumavam reunir-se n’essa cidade para lerem e
-estudarem as Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz
-porque deu esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia
-muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de fallar no
-que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. Era, a
-este respeito, muito differente de Luthero. Este contava a sua historia
-com a maxima franqueza, a todos expunha as suas duvidas, os seus
-temores, a sua fé. Cada um tinha a sua natureza especial. Só uma vez é
-que Calvino tirou de cima de si o véu com que se cobria. No prefacio
-ao assombroso _Commentario ao Livro dos Psalmos_ diz-nos que Deus o
-attraiu a Si mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso
-quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou a uma
-brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos ecclesiasticos,
-e ajuntou-se á pequena communidade evangelica de Paris, disposto a
-partilhar os perigos que ella corresse.
-
-Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado a
-publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris a toda a pressa,
-para não ser preso por causa da sua religião. Foi para Strasburgo, onde
-travou conhecimento com o reformador Martinho Bucer, e de ahi para
-Basiléa e varios outros pontos, levando uma vida de estudante nomada.
-
- [1] Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos,
- um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde
- se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim.
- Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo,
- e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as
- doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases
- que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na
- edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas
- phrases eram breves exposições das verdades evangelicas,
- ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições
- romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88
- annos.
-
-=Os Institutos da Religião Christã.=—Na primavera de 1536 publicou em
-Basiléa a primeira edição dos seus _Institutos da Religião Christã_. A
-obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida em francez, para
-uso, como elle proprio disse, dos seus compatriotas. A primeira edição
-era mais pequena, e a todos os respeitos inferior, ás edições revistas de
-1539 e 1559; mas como producção de um rapaz de vinte e seis annos, que
-era a edade que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival.
-Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», e, mais
-do que qualquer outro trabalho theologico, influiu nas idéas e amoldou o
-caracter da Reforma Protestante.
-
-Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro com um
-duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de theologia para
-a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma facil introducção, e
-habilitando-os a vencer todos os embaraços». Mas tinha tambem em vista
-justificar o ensino dos reformadores e desfazer as calumnias dos seus
-inimigos, que haviam instado com o rei de França para que os perseguisse,
-e os expulsasse de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «_A Sua
-Christianissima Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, João
-Calvino deseja paz e salvação em Christo_». E ajuntava: «Exponho-vos a
-minha confissão, para que conheçaes a natureza d’essa doutrina que tem
-provocado uma tão ilimitada raiva a esses desvairados que estão agora,
-por meio do fogo e da espada, pondo o vosso reino em desasocego. Pois
-não tenho receio algum de confessar que este tratado contém um summario
-d’essa mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser
-castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada da
-superficie da terra».
-
-Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar o que os
-protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou logo á
-comparação d’essas crenças com o ensino da egreja medieval. Luthero fez
-grande ostentação do Credo dos Apostolos, e nunca se cançava de dizer
-que elle e os seus correligionarios acceitavam aquella antiga e venerada
-summula da fé christã, e que, portanto, os protestantes pertenciam á
-Egreja Catholica de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou
-por ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo quando
-se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos á prova do Credo
-dos Apostolos, os protestantes eram catholicos mais genuinos do que os
-romanistas.
-
-Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a publicação dos seus
-_Institutos_ é necessario lembrar o que era o Credo dos Apostolos. Nosso
-Senhor, antes da Sua ascensão, disse aos Seus discipulos que fossem a
-todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, do Filho e do Espirito
-Santo; e assim os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica,
-quando recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas
-que fizessem a seguinte profissão de fé: «_Creio em Deus Pae, e em Seu
-Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo_, sendo esta a mais antiga e
-mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe mais estas
-palavras: _e na Santa Egreja Catholica_. Estas quatro orações eram
-proferidas por todos os neophytos por occasião do baptismo. O Credo
-dos Apostolos e todos os outros credos primitivos são simplesmente
-desenvolvimentos d’essas quatro phrases; e os primeiros livros
-theologicos que explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã
-eram exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, uma
-exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre outras coisas,
-que a verdadeira theologia nasceu da simples expressão de uma confiança
-em Deus acompanhada de adoração.
-
-Os _Institutos_ de Calvino são, na realidade, uma exposição do Credo, e
-dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando uma porção do
-Credo. A primeira parte falla de Deus o Creador, ou, como o Credo diz:
-«Deus, Pae Omnipotente, Creador do céu e da terra»; a segunda parte
-de Deus Filho, o Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de
-Deus Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja
-Catholica, e da sua natureza e distinctivos.
-
-A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo a passo
-o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha ácerca da Reforma
-aquella mesma opinião que Luthero diligenciou expôr nitidamente no seu
-tratado sobre o _Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_. Nunca lhe
-acudiu á mente que estivesse contribuindo para a fundação de uma nova
-egreja, ou que estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova
-theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que mantivessem
-opiniões originaes, até então desconhecidas. A theologia da Reforma era
-a velha theologia da Egreja de Christo, e as opiniões dos protestantes
-eram convicções da verdade que se baseiavam na Palavra de Deus, e que,
-conforme constava da historia da Christandade, haviam sido partilhadas
-por todo o povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle
-ensinava era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda
-a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que pelos
-pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e philosophia do
-paganismo. A Reforma, dizia-se nos _Institutos_, não engendra opiniões
-novas, trata apenas de desmascarar as falsidades e apresentar, em toda a
-sua pureza, as verdades antigas.
-
-=Calvino em Genebra.=—A publicação dos _Institutos_ fez com que Calvino
-se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos da Reforma; e quando, nas
-suas peregrinações, deu comsigo em Genebra, tencionando passar ali a
-noite e abalar em seguida, Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o
-auxiliasse nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de
-fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao mesmo tempo
-reconhecia que era um dever para elle deitar mãos ao trabalho que podia
-executar em Genebra, e por fim resolveu ficar na companhia de Farel.
-
-Diz elle no prefacio ao seu _Commentario sobre o Livro dos Psalmos_:
-«Como o caminho mais direito para Strasburgo, para onde tencionava
-retirar-me, estava impedido por causa da guerra, tinha resolvido passar
-rapidamente por Genebra, demorando-me na cidade uma noite apenas....
-Sabedor d’isto, Farel, que trabalhava com extraordinario zelo para que o
-Evangelho progredisse, empregou logo os maiores esforços para me deter.
-E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder entregar-me
-socegadamente aos meus estudos, não me encontrando, portanto, predisposto
-para qualquer outro encargo, elle, perdida a esperança de conseguir
-qualquer coisa por meio de rogos, começou com imprecações, invocando
-a maldição de Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a
-tranquilidade, se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso
-n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario. Ouvindo estas
-suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti da viagem que
-projectava.»
-
-Calvino tinha vinte e sete annos e Farel quarenta e sete, quando
-começaram a trabalhar juntos em Genebra, e, não obstante a differença
-das edades, tornaram-se amicissimos um do outro. «Tinhamos um coração e
-uma alma», diz Calvino. Farel apresentou-o aos conselheiros da cidade.
-Principiou a sua obra fazendo conferencias na cathedral, e immediatamente
-se reconheceu que a sua palavra era attrahente e efficaz. A junta
-nomeou-o pastor, e, de collaboração com Farel, metteu hombros á grave
-tarefa de organizar a Reforma. Somos informados de que elle redigiu os
-artigos de fé e os regulamentos para o governo da Egreja, tendo antes
-d’isso, isto é, pouco depois da sua chegada a Genebra, escripto um
-catecismo para a infancia. A obra dos reformadores foi approvada pelo
-conselho da cidade, e esta, pelo que dizia respeito a todos os seus
-aspectos exteriores, adoptou por completo a religião reformada.
-
-Farel sabia, porém, havia muito, e Calvino em breve o reconheceu tambem,
-que o de que Genebra necessitava era uma reforma moral. A cidade era
-o mais que podia ser de dissoluta, e havia muito tempo que permanecia
-n’aquelle estado. Os que durante muitas gerações tinham estado á testa
-dos negocios publicos conheciam esse facto, e tinham promulgado leis
-contra o viver licencioso. Entre os arquivos de Genebra relativos ao
-principio do seculo dezeseis, e ainda entre alguns do seculo quinze,
-apparecem leis sumptuarias contra o jogo, a embriaguez, as mascaradas,
-as danças e o luxo no vestuario; e, examinando os documentos judiciaes,
-encontram-se referencias a condemnações por infracções d’essas leis,
-commettidas muito antes de Calvino ter fixado lá a sua residencia.
-
-Isto tem sido esquecido pelos historiadores quando accusam Calvino de
-ter tentado reformar o povo, mediante, como nós diriamos, leis votadas
-no parlamento. Calvino não fez essas leis, nem ha evidencia de elle as
-considerar muito importantes. Era, porém, de opinião, que sustentou
-sempre com toda a firmeza, de que ás pessoas que tinham uma vida immoral,
-cujas acções e linguagem não estavam em harmonia com a sua profissão
-christã, não se devia permittir que participassem da solemne instituição
-da Ceia do Senhor, e esse seu modo de vêr não tardou em indispôl-o com os
-habitantes de Genebra.
-
-Ao cabo de muitas admoestações, os reformadores resolveram, por fim,
-exercer a disciplina ecclesiastica, afastando solemnemente da Mesa do
-Senhor os commungantes indignos. Os magistrados, que estavam sempre
-promptos a promulgar leis restrictivas do vicio, e até mesmo do viver
-faustoso, não quizeram consentir em que se pozesse em execução esta
-ordem de quem tinha a superintendencia na Egreja, e, ainda mais, o
-pulpito ficou de ahi em deante vedado a Calvino e a Farel. Estes não
-se submetteram, e no domingo de Pascoa de 1538 prégaram a uma multidão
-excitada e armada, recusando administrar á congregação a Ceia do Senhor,
-para evitar que esta fosse profanada.
-
-No dia seguinte a junta da cidade reuniu-se para apreciar a conducta de
-Calvino e Farel. Os reformadores foram accusados de pretender usurpar
-o poder mediante os seus regulamentos ecclesiasticos, entre os quaes
-figuravam o da abolição de todos os dias santos, excepto o domingo, e o
-do desuso da pia baptismal e do pão asmo na Ceia do Senhor.
-
-Estas accusações eram, evidentemente, meros pretextos, pois que o proprio
-Calvino havia declarado que lhe era quasi indifferente que as coisas que
-atraz mencionamos fossem ou não postas em pratica. O que os realmente
-predispunha contra Calvino e Farel era a supposição em que estavam de que
-elles pretendiam estabelecer um novo papado; os magistrados desejavam
-conservar nas suas mãos, não só a administração civil como a disciplina
-da Egreja. O resultado de tudo isto foi Calvino e Farel serem expulsos
-da cidade, não pelos papistas, mas por aquelles que até ali tinham
-contribuido para o avanço da Reforma.
-
-O facto d’este conflicto entre os reformadores e os genebrenses ter
-ocorrido logo no principio da vida publica de Calvino revela uma grande
-differença entre os dois ramos da Reforma, o reformado, ou calvinista,
-e o lutherano. Calvino mostrou ter, desde o inicio da sua carreira,
-noções muito claras ácerca da disciplina da Egreja e do direito que
-a communidade christã tinha de se governar a si propria em assumptos
-espirituaes e do direito dos que estavam em auctoridade na Egreja
-tinham de excluir dos privilegios a todos aquelles que fossem indignos
-de participar d’elles. Luthero e Melanchthon tinham as mesmas idéas,
-mas não as pozeram em pratica. Luthero não modificou o modo como a
-superintendencia era exercida, limitando-se a transferil-a das mãos dos
-bispos para as das auctoridades civis; e o effeito pratico, posto que não
-premeditado, d’isto foi ficarem sendo os magistrados os que arbitravam
-se esta ou aquella pessoa devia ou não approximar-se da mesa do Senhor.
-Calvino, por outro lado, viu logo desde o principio que a Egreja, para
-ter uma existencia visivel, e conservar-se distincta do Estado, devia
-ter o direito de declarar quaes as pessoas que estavam no caso de ser
-admittidas como membros da Egreja e partilhar todos os privilegios da
-mesma, e ter a auctoridade para censurar os aggravos espirituaes e
-punil-os mediante a perda dos sacramentos.
-
-Não consta que Calvino pedisse em tempo algum outra coisa além de que a
-disciplina da Egreja fosse exercida pela propria Egreja, representada
-pelos seus officiaes. Calvino, logo no começo da sua carreira, proclamou
-a independencia da Egreja em assumptos espirituaes, taes como a admissão
-á mesa do Senhor e a exclusão d’ella.
-
-=Calvino é expulso de Genebra.=—Expulso de Genebra, Calvino foi para
-Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente tres
-annos, ministrando a uma numerosa congregação de refugiados francezes,
-e occupando-se com trabalhos litterarios. Strasburgo tinha sido um
-logar intermediario entre a Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi
-conhecimento com muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade
-com Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores
-allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em Francfort,
-Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou com Idelette de Bure,
-viuva de João Storder. Idelette era uma senhora muito temente a Deus
-e muito instruida, e teve, do seu casamento com Calvino, tres filhos,
-que morreram todos na infancia. Calvino não se refere muito, na sua
-correspondencia, á sua vida domestica, mas as cartas que escreveu
-a alguns amigos muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e
-do fallecimento dos filhinhos demonstram que no peito do austero e
-ceremonioso francez batia um coração susceptivel de grandes affectos.
-
-=Genebra não pode passar sem Calvino.=—No entretanto, Genebra continuava
-agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam longe da cidade,
-mas o povo sentia a necessidade da sua presença. Não havia agora ali
-uma influencia que a todos dominasse, e as coisas caminhavam de mal
-para peior. Calvino tinha dito que a infidelidade tinha por origem a
-depravação a que elle se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos
-começaram a ver o quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens
-sociaes iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses
-intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo á frente
-o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo ao papismo; os
-anabaptistas, inimigos de toda a organização ecclesiastica e social, os
-libertinos, os livres pensadores, todos luctaram por obter o predominio
-em Genebra, e por fim a população começou a sentir-se cançada de aquella
-tumultuosa situação e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados
-ministros.
-
-A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse. Elle
-ao principio recusou. «Não ha localidade que me aterrorize tanto como
-Genebra», escreveu elle a um amigo. Continuaram, porém, a instar com elle
-para que voltasse; muitos dos amigos que elle tinha entre os reformadores
-francezes e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos
-genebrenses, e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram côro
-com elles. Condescendendo finalmente, regressou a Genebra.
-
-Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com jardim situada
-nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o ministro e professor
-de theologia, e fixaram-lhe um estipendio annual de quinhentos florins,
-doze medidas de trigo e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que
-na Egreja de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica,
-pois que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que tivera
-com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em manter o direito que
-á Egreja assiste de velar pela sua pureza. Voltou triumphante a Genebra,
-e foi recebido com as mais extravagantes manifestações de regozijo.
-Foi mais uma vez desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla
-vida litteraria, e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se
-inteiramente á causa publica.
-
-Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo dizem,
-durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores teem-n’o
-comparado a individualidades de indole muitissimo differente. Segundo
-uns, foi o Lycurgo de Genebra; segundo outros, um dictador romano, ou um
-novo Hildebrando, ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma
-grande obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de estar
-quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça e de asthma.
-
-Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias dava aula.
-Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia, compoz tratados
-theologicos, e tinha sempre que attender a uma immensa correspondencia.
-Era elle quem dirigia a Egreja reformada em toda a Europa, e, segundo a
-idéa de muitas pessoas, era, por assim dizer, omnipotente em Genebra,
-tendo sido attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus
-resultados da chamada theocracia genebrense.
-
-É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra o caracter da
-cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais frivola e mais devassa
-de todas as cidades europeas, tornou-se o berço do puritanismo, tanto
-francez, como hollandez, como inglez, como escocez. As danças e
-mascaradas passaram a ser coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro
-estavam sempre ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de
-conferencias se enchiam até á porta.
-
-=As ordenanças ecclesiasticas.=—O que effectuou tudo isto foram as
-famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra, e o modo em que
-ellas foram applicadas pelos magistrados. Estas ordenanças eram, segundo
-as poucas palavras do preambulo, o «regimen espiritual, que Deus ordenou
-na Sua Egreja, e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado
-na cidade de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas
-presbyteriannas.
-
-Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies ou graus
-de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus para o governo
-da mesma, e os que os exercem são chamados pastores, professores,
-presbyteros e diaconos.
-
-Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes e
-bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos, e, conjunctamente
-com os presbyteros, exercer a disciplina; eram geralmente escolhidos
-pelos ministros em exercicio, e nomeados pelos magistrados, com
-o consentimento do povo; tinham de dar contas dos seus actos nas
-conferencias que para esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e
-eram, outrosim, responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade.
-
-Da classe dos professores faziam parte todos os lentes da universidade e
-os mestres das escolas. Os presbyteros tinham a seu cargo a disciplina.
-Não eram eleitos pela congregação, mas, sim, nomeados pela junta da
-cidade, com previa consulta dos pastores; e todos elles tinham de ser
-membros das juntas. Conjunctamente com os pastores, faziam uma visita
-annual a toda a area que lhes pertencia, e experimentavam, de um modo
-simples, a fé e o proceder de todos os membros da egreja.
-
-A assembléa de todos os presbyteros e de todos os pastores constituia
-o _Consistorio_, que era o conselho executivo e legislativo da Egreja.
-O Consistorio reunia-se todas as semanas, sob a presidencia de um dos
-quatro syndicos, ou primeiros magistrados, de Genebra, afim de receber
-e examinar todos os documentos relativos a irregularidades na vida e
-na conducta de quaesquer membros da Egreja, e deliberar ácerca da pena
-ecclesiastica a applicar a este ou áquelle caso, pena que podia ir até á
-exclusão da Mesa do Senhor. Não estavam auctorizados a infligir qualquer
-censura ou castigo que não fosse espiritual, mas tinham obrigação de
-participar todos os delictos á auctoridade civil, que era a unica que
-tinha o direito de punil-os. Todos os presbyteros eram escolhidos
-pela junta, e tinham de ser membros d’ella, resultando de ahi que os
-magistrados genebrenses que tomavam assento no consistorio na qualidade
-de presbyteros recolhiam as informações relativas a factos criminosos
-e transmittiam-n’as a si proprios quando tomavam assento na junta na
-qualidade de magistrados.
-
-Os diaconos cuidavam dos pobres e dos enfermos, e eram egualmente
-nomeados pela junta.
-
-O plano do governo da Egreja concorda, nas linhas geraes, com os
-principios que Calvino expoz nos seus _Institutos_, mas differe d’elles
-em tantos detalhes importantes que se torna impossivel acreditar que todo
-elle fosse obra do Reformador.
-
-Nos _Institutos_ expoz Calvino com a maxima clareza quaes são os
-verdadeiros principios do governo e disciplina ecclesiasticos. Prova que
-Deus educa e aperfeiçôa o Seu povo n’esta vida mediante a Sua Egreja,
-e que para a edificação da Egreja proveu uma variedade de dons, que
-não são concedidos indescriminadamente a todos os christãos, sendo
-limitado o numero d’estes que os teem recebido em maior escala. Estes
-dons podem ser classificados em tres categorias, instrucção, governo
-e caridade, ou, como os reformadores escocezes disseram, doutrina,
-disciplina e distribuição, e a Egreja pode verificar que alguns dos seus
-membros teem um talento especial para instruir, outros para dirigir, e
-outros para tomarem conta das collectas e da distribuição do dinheiro.
-Deus conferiu estes dons, e collocou na Egreja homens capazes de os
-exercerem, para edificação do Seu povo, e, por consequencia, as funcções
-que se desempenham na Egreja são de caracter ministerial e não tendem
-a exaltar pessoa alguma. Os officiaes são homens que melhores serviços
-podem prestar á communidade, e são, portanto, responsaveis perante
-esta e perante Deus pelo modo como os prestam. Calvino insistiu muito
-na verdadeira natureza e valor do presbytereado, que elle considerava
-a mais efficaz barreira contra a conquista de uma supremacia sobre a
-Egreja, como aquella que tinha sido uma das mais censuraveis usurpações
-da Egreja de Roma. Mediante este officio tem a Egreja aquelle governo
-methodico sem o qual nenhuma sociedade pode existir, e a communidade
-christã pode conservar-se livre da usurpação do poder e da tyrannia
-ecclesiastica por meio de um governo verdadeiramente representativo, isto
-é, livremente escolhido pelos membros da congregação. Calvino affirmou
-tambem, com muita insistencia, que este governo era espiritual, e que
-só lhe pertencia julgar as infracções espirituaes e infligir castigos
-espirituaes. O maior castigo espiritual era, segundo elle, a excommunhão.
-
-=As ordenanças ecclesiasticas differem, a muitos respeitos, dos
-principios expostos nos Institutos.=—Calvino combateu sempre
-energicamente qualquer confusão entre a jurisdicção civil e a jurisdicção
-ecclesiastica, declarando que as duas deviam estar completamente
-separadas uma da outra. Nas _Ordenanças_ não se mantem esta separação. A
-censura do consistorio era de continuo seguida, como veremos, de multa,
-de desterro, e, até, de morte; quando, segundo a theoria de Calvino,
-só castigos espirituaes se devem seguir a offensas espirituaes. Os
-anciãos que exerciam o governo ou a disciplina não eram escolhidos pela
-Egreja, nem eram realmente seus representantes. Eram designados pelos
-magistrados civis da cidade, e só eram elegiveis os que já fossem membros
-de uma organização politica. Os direitos da communidade christã eram
-praticamente desprezados, posto que Calvino houvesse declarado que o
-poder ecclesiastico pertencia realmente a toda a assembléa dos crentes. A
-junta escolhia os pastores, podendo a Egreja impôr o seu veto; escolhia
-d’entre si os presbyteros, e escolhia egualmente os diaconos.
-
-Esta notavel desharmonia com os principios de Calvino era devida aos
-magistrados de Genebra, que assim procediam em opposição aos desejos
-do Reformador. Sentia-se especialmente molestado com o modo como eram
-escolhidos os presbyteros, e declarou que não considerava as _Ordenanças_
-um plano perfeito de governo ecclesiastico; pareceu-lhe evidentemente,
-porém, que era o melhor que n’aquella occasião se poderia obter, e
-acceitou-o, alimentando a esperança de que seria, mais tarde, modificado.
-Agradava-lhe tanto, apezar dos seus defeitos, que o considerava um
-modelo que podia ser copiado n’outros logares, e exprimiu a esperança de
-que Genebra, situada na fronteira da França, da Allemanha e da Italia,
-incitaria esses paizes a uma Reforma de caracter, perfeita e permanente.
-
-Não obstante, os pontos em que as _Ordenanças_ divergiam dos principios
-que Calvino expoz nos seus _Institutos_ deram occasião a esses
-caracteristicos do governo genebrense que mais teem sido reprovados pelos
-historiadores. É fóra de duvida que a corrupção moral que predominava
-em Genebra foi combatida por leis severissimas, que chegavam mesmo
-a ser crueis. A antiga legislação genebrense era, em muitos casos,
-bastante severa, e quando se tratava de delictos especiaes a sua
-severidade tornava-se extrema; mas depois de publicadas as _Ordenanças
-Ecclesiasticas_ as leis foram applicadas com um rigor anteriormente
-desconhecido.
-
-O consistorio reunia-se todas as semanas, ás quintas feiras, e eram-lhe
-fornecidas informações ácerca da maneira como o povo se comportava; e
-essas informações eram communicadas á junta, ou conselho, que era o mesmo
-Consistorio, mas revestido da auctoridade civil. Eram prohibidos os
-divertimentos ruidosos, os jogos de azar, as danças, as canções profanas,
-as pragas e as blasphemias. Todo o cidadão tinha de estar em casa ás nove
-horas, sob pena de uma pesada condemnação. O adulterio era punido com
-a morte. Uma creança que atirou com umas pedras á mãe foi publicamente
-açoitada, e depois suspensa do patibulo pelos braços. Foram abolidas
-todas as folganças que tinham logar por occasião dos casamentos; os
-cortejos deixaram de levar tambores ou instrumentos musicaes á frente, e
-não mais se dançou nas bodas. Os theatros só podiam levar á scena peças
-biblicas. Ficou inteiramente prohibida a leitura de romances, e o auctor
-de qualquer obra que desagradasse ao Consistorio era mettido na prisão.
-Era preciso o maximo cuidado com o que se dizia, chegando as coisas a
-tal ponto que os hoteleiros eram obrigados a referir as conversas que os
-seus hospedes tinham tido á mesa. Nas hospedarias era tambem prohibido
-fornecer comida ou bebida a quem não pedisse, antes de se servir, a
-benção de Deus. Não era permittido jejuar, e um certo individuo foi
-castigado por não comer carne á sexta-feira.
-
-É impossivel dizer que parte tomou Calvino n’estes regulamentos, de uma
-desnecessaria severidade. Muitos historiadores teem affirmado que elle
-dispunha de todo o poder em Genebra, e que poderia ter evitado muita
-coisa se quizesse. Elle era francez, e nenhuma nação tem como a França
-apresentado, em epocas de grande crise, tão duros legisladores. Calvino
-não tinha, por outro lado, abjurado a parte mais odiosa da theoria
-medieval quanto á disciplina da Egreja, isto é, a que auctorizava os
-tribunaes ecclesiasticos a recorrerem ao poder civil para que a certas
-offensas espirituaes fosse applicada multa, prisão ou execução capital,
-com o fundamento de que constituiam crimes contra a ordem e a paz da
-sociedade. Calvino acceitou esta doutrina; e o mesmo fez Beza, que
-chamava á liberdade de consciencia uma doutrina diabolica. Os theologos
-de Westminster admittiram egualmente a theoria medieval, e trabalharam
-para que ella fosse posta em pratica, em detrimento da reforma da egreja
-de Inglaterra. Não só Calvino como todos os principaes reformadores
-approvaram a morte de Servetus pelo motivo de haver negado a doutrina da
-Trindade e apresentado blasphemas asserções em defeza da sua opinião.
-Tudo isto tem de ser admittido.
-
-=As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.=—Devemos
-lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria preciso
-para obter uma reforma de costumes n’uma cidade tão immoral e tão
-turbulenta como Genebra.
-
-A Reforma, justamente porque era um protesto contra o então existente
-estado de coisas, teve de navegar contra a corrente do mal, que ella
-propria provocou. É-nos quasi tão impossivel comprehender o perigo dos
-excessos anabaptistas e outros como comprehender a corrupção moral
-da epoca em que o christianismo surgiu e se propagou. Professava-se
-o libertinismo pantheistico como se fosse um credo, e os documentos
-litterarios do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade
-que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu deante de si em Genebra
-foi uma indulgencia para tudo quanto fosse immoral, indulgencia que a
-propria religião prescrevia, visto tratar-se de uma coisa natural. Era
-este o lado sombrio da Reforma, para o qual não era agradavel olhar,
-mas que existia, e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o
-procedimento do conselho de Genebra ou o de Calvino.
-
-O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a decima
-parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os principes da
-Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos, e aos seus cabeças,
-os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento causado pela paixão
-cega, quer provenha do medo quer provenha do odio, tem, o que é coisa
-curiosa, sido sempre olhado com maior brandura do que o soffrimento que é
-infligido no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma.
-
-Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino fosse menos
-omnipotente em Genebra do que se suppõe ter sido. A um francez, e de mais
-a mais logico como elle era, custa a attribuir as incoherencias que se
-notam entre os _Institutos_ e as _Ordenanças Ecclesiasticas_. É preciso
-não esquecer que o que tornou possiveis estes castigos que teem sido
-tão condemnados foram aquelles pontos das _Ordenanças_ que não eram da
-responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira
-causa do mal era a relação que havia entre o consistorio e o governo
-civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas camaras municipaes
-se constituia uma vez por semana em commissão zeladora da moralidade
-publica. Não se sentiriam escandalizados os vereadores se os casos que
-elles apresentassem á commissão, e que mereciam a reprovação d’ella,
-ficassem impunes? Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia
-seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos de
-toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo? Não se deve
-attribuir a culpa de todos estes males a Calvino, ou mesmo ao conselho
-de Genebra. Surgiram naturalmente das tres vezes abominavel mistura da
-direcção dos negocios seculares com a direcção dos negocios espirituaes,
-que constitue habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem
-precaver.
-
-=A morte de Calvino.=—Durante a residencia de Calvino em Genebra, foi
-esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia. Os magistrados
-fundaram uma universidade, cujo primeiro reitor foi Theodoro Beza,
-e as suas aulas foram, durante o primeiro anno, frequentadas por
-oitocentos estudantes. Procuraram refugio na cidade, onde receberam um
-excellente acolhimento, numerosissimos protestantes italianos, francezes
-e escocezes. «Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas suas
-cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia que exercia.
-Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os huguenotes da França, os
-reformadores de Inglaterra, a congregação escoceza, e os dirigentes da
-Reforma na Allemanha.
-
-Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se do
-excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou o seu ultimo sermão
-no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a 27 de maio do mesmo anno,
-contando cincoenta e cinco annos incompletos.
-
-Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto de si os syndicos,
-ou primeiros magistrados de Genebra, e em seguida todos os ministros.
-Prohibiu que sobre a sua sepultura se erigisse qualquer monumento,
-acontecendo, d’esse modo, que se desconhece o sitio onde foi enterrado.
-
-Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz proeminente,
-testa elevada, e olhos que em dadas occasiões chammejavam. Trajava sempre
-com o mais escrupuloso esmero, e alimentava-se muito sobriamente.
-
-Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação e pelo
-temperamento; grande observador de todas as regras da etiqueta, sentia-se
-muito mais á vontade no meio das pessoas de posição do que no meio
-do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado frio e insensivel, mas o que é
-facto é que os seus amigos e contemporaneos se referem sempre a esse
-frio, timido, austero e polido francez em termos os mais affaveis e
-respeitosos; e os mancebos davam-se perfeitamente com elle.
-
-Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de Calvino com
-um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o haverem estudado,
-descobrem que a sua antipathia se transformou em affectuosa admiração.
-Como será sufficiente um exemplo, vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle:
-
-«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem ter sido vasados
-de um só jacto n’um molde, e que se estudam por meio de um simples olhar;
-uma carta das que escrevam, um acto dos que pratiquem, é o bastante
-para se fazer um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem
-com titulos, nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver,
-apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os outros
-eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço outro homem que
-podesse rivalisar com elle n’estes raros predicados. É surprehendente
-como um homem cuja vida e cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas
-sympathias, se tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as
-suas palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter uma
-tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos.
-Como se pode explicar, por exemplo, que uma das mulheres mais distinctas
-do seu tempo, Renée de França, que no seu palacio de Ferrara se via
-cercada dos mais brilhantes talentos da Europa, se deixasse captivar por
-aquelle severo doutrinador, enveredando, por sua influencia, n’uma senda
-que tão espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem
-ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção. Sem
-manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem dos outros, que foi
-o que assegurou a Luthero o bom exito dos seus trabalhos, sem possuir o
-encanto, a perigosa, posto que languida, doçura de S. Francisco de Sales,
-Calvino saiu victorioso, n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava
-uma reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o maior
-christão do seu tempo».
-
-=Beza, o successor de Calvino.=—Theodoro Beza succedeu a Calvino em
-Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha adquirido; e até ao
-meiado do seculo dezesete a voz de Genebra foi a que as numerosas egrejas
-protestantes escutaram com maior acatamento.
-
-=A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.=—Sob a influencia
-de Calvino, desappareceram as differenças theologicas que havia na
-Suissa, e todas as egrejas que se chamavam reformadas adoptaram um typo
-de doutrina. Estas egrejas não tinham, como as lutheranas, um Catecismo
-e uma Confissão, mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas
-uma perfeita unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu
-Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar entre os credos das
-egrejas que se chamam do seu nome, mas a sua influencia em toda a parte
-se manifesta. Elle vive novamente, na obra dos seus discipulos.
-
-Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com o assumpto de que
-nos estamos occupando são o Catecismo para a Infancia e a Confissão de
-Zurich.
-
-O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar a instrucção
-religiosa das creanças, que tão lamentavelmente havia sido descurada
-pelos romanistas. Calvino, para a confecção do seu catecismo, serviu-se
-do Credo dos Apostolos, dos Dez Mandamentos e da Oração Dominical.
-Tiveram origem n’elle dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o
-de Heidelberg, que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve
-Catecismo da Assembléa de Westminster.
-
-=A Confissão de Zurich= foi muito proveitosa, porque uniu as Egrejas
-Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo facto de reconciliar
-n’uma mais profunda unidade as opiniões de Luthero e de Zwinglio. Poz de
-parte a metaphysica medieval com que Luthero havia sobrecarregado a sua
-theoria, e ao mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio
-e dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos
-eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes.
-
-Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão: «Os
-sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou somos implantados no
-corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos, nos ligamos a Elle cada
-vez mais, até que seja perfeita a nossa união com Christo, na vida
-celestial».
-
-A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente visivel
-na geração de protestantes que ella educou e enviou a combater com o
-romanismo. «N’uma occasião em que a Europa», diz Haüsser, «não podia
-mostrar solidos resultados da reforma, este pequeno estado de Genebra
-erguia-se como uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos
-para todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas,
-e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os missionarios
-provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam o elevado e intrepido
-espirito que procede de uma estoica educação e adestramento; tinham o
-cunho da abnegação e do heroismo, que em toda a parte era absorvido pela
-estreiteza theologica. Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era
-demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo,
-separando-o da velha e tradicional auctoridade monarquica, e fazendo com
-que elle adoptasse o evangelho da democracia como parte do seu credo....
-Genebra dictou um pequeno trecho da historia universal, trecho que
-constitue a parte de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem
-orgulhar. O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens
-da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; estes homens possuiam
-almas fortes, caracteres de ferro vasados n’um molde em que havia uma
-mistura de elementos romanos, germanicos, medievaes e modernos; e as
-consequencias nacionaes e politicas da nova fé foram por elles defendidas
-com o maximo rigor e coherencia.»
-
-A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha. A pequena
-republica de Genebra uniu primeiro a Reforma suissa, e em seguida deu os
-caracteristicos distinctivos aos movimentos reformadores da França, da
-Hollanda, da Escocia, da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande
-parte da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito,
-tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o reformador
-de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão insensivel, tão frio,
-tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica tão desapiedada, foi o
-reformador de uma grande parte da christandade. A Reforma suissa passou
-muito para além da Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França,
-da Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-A REFORMA EM FRANÇA
-
- Principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag.
- 89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma,
- pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos
- placards, pag. 92.—O Vaudois da Durance, pag. 92.—Henrique
- II e os Guises, pag. 93.—Organisação da Egreja Reformada,
- pag. 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag.
- 96.—O primeiro Synodo Nacional, pag. 97.—Anne de Bourg, pag.
- 98.—O massacre de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa
- dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A
- Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros,
- pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e
- Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A
- Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto
- de Nantes, pag. 110.
-
-
-=Principios da Reforma em França.=—Antes da Reforma se ter tornado em
-França um grande e importante movimento, appareceram dois typos da
-cristandade reformada, sellados com as individualidades de dois homens:
-Luthero e Calvino, o Pedro e o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em
-seguida teve de ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno
-foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando Wittenberg
-em segundo plano, que se mostrou em condições de se defrontar com Roma.
-A dupla corrente da Reforma partiu d’estes dois centros para toda a
-Europa, mas nos terriveis combates que se travaram a feroz democracia do
-Calvinismo poude desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante
-conservantismo do movimento lutherano. A historia do progresso da Reforma
-fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia do calvinismo, e do
-triumpho das idéas calvinistas. Foi assim em França.
-
-Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz, datam de
-uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino. Havia no sul e no
-sueste, no fim do seculo quinze e no principio do seculo dezesseis,
-uns taes ou quaes vestigios dos velhos albigenses; e os valdenses
-mantiveram-se, e foram protegidos, em virtude de antigos tratados,
-durante as perseguições dos huguenotes. A Egreja franceza havia-se
-distinguido sempre pela sua opposição ás reivindicações da côrte
-pontificia e do papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma
-grande decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a Egreja
-franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade de
-Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou a parte principal na
-convocação dos concilios reformadores de Pisa, Basiléa e Constancia, e no
-refreamento da curia romana. A Egreja franceza tinha-se sempre opposto
-energicamente ao ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica
-de Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer outro
-ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que a França, em vista
-da sua historia passada, tomasse a iniciativa de um movimento reformador.
-A Reforma, porém, que as summidades ecclesiasticas promoveram no seculo
-quinze não foi uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião
-espiritual. Os reformadores de Constancia queimaram João Huss.
-
-Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma, a mesma
-immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia que desacreditou a
-Egreja medieval do seculo dezeseis na Allemanha e na Italia; o inicio da
-Reforma em França proveiu do despertamento das lettras e da leitura das
-Escripturas nas linguas originaes.
-
-Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux, onde o bispo,
-Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade de reprehender a
-immoralidade monastica, e que o povo anhelava por um verdadeiro ensino
-religioso. Elle tinha ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de
-Etaples, e da perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da
-Sorbonne por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e
-ao seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo de
-Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem e prégarem
-debaixo da sua protecção. Lefévre publicou, em 1523, uma traducção
-do Novo Testamento em francez, e o povo comprou o livro e leu-o com
-soffreguidão.
-
-Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet n’outro tempo
-lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e de favorecer herejes. No
-meio da tempestade que então se levantou, o bispo perdeu a coragem. Farel
-fugiu para Strasburgo, seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro
-prégador, e a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém,
-que possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na memoria os
-sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé evangelica. Alguns crentes
-tiveram de soffrer o martyrio, mas o fermento espalhou-se, ainda que
-occultamente, por toda a França.
-
-=Francisco I.=—O rei de França, n’esses primeiros annos da Reforma,
-era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os seus _Institutos da
-Religião Christã_. Enthusiasta, e dotado de alguma intelligencia, havia
-saudado a revivificação das letras, protegeu Lefévre durante o tempo em
-que este sabio residiu em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que
-mantinha com homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus.
-Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a sua ambição era que
-o considerassem como tal; a universidade de Paris havia-lhe merecido
-uma especial attenção, e interessou-se tambem immenso na famosa maquina
-de impressão inventada por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de
-Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu algumas
-poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde rainha de Navarra,
-foi uma das mais espirituosas conversadoras e uma das mais brilhantes
-escriptoras do seu tempo. Francisco não sympatizava nada com o desleixo e
-ignorancia de muitos dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente,
-considerava o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com
-a estupidez. Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo a
-auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que ambicionava
-brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer a absoluta
-supremacia do soberano. Não sympatizava com o caracter profundamente
-espiritual da Reforma, e as suas necessidades politicas não tardaram a
-prevalecer sobre o seu amor pela instrucção.
-
-=A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.=—A
-independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de França em
-opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção Pragmatica de
-Bourges, que definia as liberdades das egrejas nacionaes de uma maneira
-clara e energica. Declarou que o papa estava sujeito a um concilio
-ecumenico, e que este concilio se devia reunir de dez em dez annos.
-Declarou que todos os provimentos de elevados cargos ecclesiasticos,
-taes como os bispados e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não
-por designação do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos
-a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto pode abranger
-tanto os innocentes como os culpados. A Sancção Pragmatica tinha sido
-sempre cuidadosamente defendida pela Egreja franceza, e pela maioria dos
-soberanos de França. Era intensamente abominada pelos papas, e não podia
-ser olhada com muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia
-do throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia do povo.
-Francisco comprehendia que, se podesse collocar a Egreja debaixo do seu
-dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao absolutismo. Entendeu-se,
-portanto, com o papa, e trocou a Sancção Pragmatica por uma Concordata,
-que foi, no futuro, uma grande desgraça para a França.
-
-Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios dos Concilios
-reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu em que o papa ficasse
-com direito ao _Annates_, isto é, o vencimento relativo ao primeiro anno
-de todos os beneficios que eram providos, concedendo o papa, em troca,
-que a nomeação de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do
-rei. Por outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes
-supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel somma
-de dinheiro; e o rei de França era praticamente, dentro do seu reino,
-o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos os arcebispados, bispados,
-abbadias e priorados. Fez-se denuncia d’esse tratado, e de todos os modos
-se trabalhou para o annullar, mas conseguiu vencer todas as opposições, e
-permaneceu em vigor até á Revolução.
-
-A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma franceza, e
-não é possivel exaggerar a importancia que ella tem para a historia
-ecclesiastica franceza desde o principio do seculo dezeseis. Por um lado,
-secularizou a Egreja franceza. Todos os officios ecclesiasticos de valor
-eram doados pelo rei, e tinham de ser disputados por cortezãos que só nas
-coisas do mundo pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses
-da Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da Egreja
-franceza era necessariamente opposição ao absolutismo do soberano. Esta
-Concordata deu uma indole particular á lucta que a Reforma produziu em
-França. Os reformadores não podiam deixar de ser tambem os adversarios do
-absolutismo; e o rei, para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de
-chefe da Egreja, via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a
-supremacia.
-
-Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em França um trabalho
-muito diverso do trabalho de Luthero na Allemanha, porque tinham de se
-oppôr não só á Egreja como ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores
-escocezes e aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a
-Reforma poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na Hollanda
-uma republica. Em França, por outro lado, o poder real foi augmentando
-lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado, a um absolutismo como
-o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se apto para exterminar a egreja
-protestante, por meio de uma sanguinolenta perseguição.
-
-=«A Egreja que estava debaixo da Cruz».=—Luthero tinha, na Allemanha, um
-principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra, auxiliado pela suprema
-auctoridade civil. Em França os reformadores tiveram de luctar não só
-contra o poder do rei como contra o poder da Egreja. A Egreja reformada,
-em França, não recebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e
-teve de sustentar um combate tão severo e tão rude como o que teve de
-sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena tinha
-duas coisas contra si; a religião estabelecida, que era o paganismo, e
-o Estado, que era egualmente pagão. A Egreja reformada de França teve
-duas coisas contra si; foi perseguida pela egreja estabelecida no reino,
-que era a romana, e foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que
-o poder do rei era, pela Concordata, em grande escala dependente do
-reconhecimento do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma dupla
-perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos apologistas. Eram
-dois os emblemas que ella gravava nos seus livros e esculpia nos seus
-monumentos: a sarça que ardia sem se consumir, e a bigorna que levava
-martelladas e estava sempre inteira. O grande Beza disse um dia ao rei
-de Navarra: «Sire, a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos
-martellos».
-
-Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes que
-existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em Pavia, em 1525, e a sua
-alliança com o papa, mostrou-lhe que era prudente, lá no seu modo de
-ver as coisas, mostrar alguma vontade de expurgar da heresia as terras
-de que era senhor, e deu licença para que se pozessem em pratica as
-perseguições que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo
-Parlamento de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha Luiza, e
-por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois de Francisco
-ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma occasião em que precisava
-de dinheiro para as suas guerras, dinheiro que já não era possivel obter
-por meio de impostos, que elle permittiu que a heresia fosse exterminada
-de vez. O clero pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em
-troca que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se
-fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura e da
-carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em 1528.
-
-Severas medidas foram decretadas contra os protestantes. Era prohibida a
-leitura de obras protestantes; a ligação com pessoas suspeitas de heresia
-importava condemnação; e os herejes, onde quer que fossem descobertos,
-eram entregues ás auctoridades civis para serem castigados. Luiz de
-Berguin, homem erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do
-rei, e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas
-disposições.
-
-A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das coisas.
-Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes protestantes
-allemães, e recusou, portanto, associar-se a um plano geral para a
-exterminação da heresia.
-
-=O anno dos placards.=—Em breve, porém, poz de parte este seu intento,
-e começaram novamente as perseguições. Os protestantes, por seu lado,
-mostraram uma grande somma de coragem. Imprimiram curtos folhetos em
-que se atacava a missa e outros ritos da Egreja Catholica Romana, e
-espalhavam-n’os pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado
-o anno dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei
-um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema dureza, e
-Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso, prohibiu que se
-imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando este decreto, entrou
-a serio no seu papel de perseguidor. Decretou que a heresia fosse punida
-com a morte; aquelle que denunciasse um hereje tinha direito á quarta
-parte dos bens que este possuisse, no caso de se provar a veracidade
-da accusação. Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os
-protestantes eram accusados, condemnados, e punidos com prisão, perda
-de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou ao rei os seus
-_Institutos_.
-
-Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos de terrivel
-effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os protestantes augmentaram em
-numero, e a repressão, posto que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz.
-O sangue dos martyres era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de
-Fontainebleau intimava os officiaes de justiça a processarem todos
-aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas era negado
-o direito de appellação; os juizes negligentes eram ameaçados com o
-desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram ordem para mostrar maior
-zelo. «Todos os subditos leaes», dizia o edicto, «devem denunciar os
-herejes, e empregar todos os meios para os extirparem, do mesmo modo
-que são obrigados a contribuir para que se ponha termo a qualquer
-conflagração publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos,
-mas a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam
-resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades.
-
-=Os valdenses da Durance.=—A maior atrocidade commettida durante a
-perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance. Uma parte da
-Provença que confina com a Durance chegara, dois seculos atraz, a estar
-quasi despovoada, e os proprietarios das terras dirigiram um convite aos
-camponezes dos Alpes para irem estabelecer-se nos seus territorios. Os
-novos colonisadores eram valdenses, e a sua industria e indole economica
-em breve encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas.
-Garantiu-se-lhes que a sua religião seria protegida, pois que os seus
-senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os serviços
-que elles prestavam. Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma,
-estes aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores, e em
-1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que forneceram o dinheiro
-necessario para publicar a traducção das Escripturas Sagradas em francez,
-feita por Roberto Olivetan, e corrigida por Calvino. Este procedimento
-despertou a hostilidade de alguns ecclesiasticos francezes.
-
-O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões, e alguns
-dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram morte violenta. Em
-1540 o parlamento intimou quinze aldeãos de Mérindol a comparecer perante
-elle como suspeitos de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte
-estava resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o
-infame _Arrêt de Mérindol_, que, em resumo, ordenava a destruição de toda
-a aldeia.
-
-A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o rei teve
-conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações, e em resultado
-d’ellas deu ordem para que o referido decreto ficasse sem effeito. Foi,
-porém, induzido a revogar essa ordem, organizou-se clandestinamente
-uma expedição, e durante sete mezes de carnificina, com todos os seus
-acompanhamentos de traição e de infame brutalidade, foram totalmente
-destruidas vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e
-mulheres, e perto de 700 foram enviados para as galés.
-
-Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França estava ainda
-luctando pela sua existencia no meio de perseguições mais terriveis do
-que aquellas de que os protestantes foram victimas n’outro qualquer paiz.
-
-=Henrique II e os Guises.=—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe
-Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu pae, a qual
-obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da Allemanha e consolidar,
-em França, o poder real. Isto obrigava a occasionaes allianças com os
-principes protestantes allemães, e dava logar, em França, a uma continua
-perseguição aos protestantes. Todos os favoritos que tinha na sua côrte
-eram inimigos da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame
-Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além da rainha,
-o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem escrupulos: Diana de
-Poitiers, o Condestavel de Montmorency, primeiro ministro da corôa, que
-gozava de grande reputação como perito na arte da guerra e na gerencia
-dos negocios publicos, e os Guizes, notavel familia de procedencia
-estrangeira, que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de
-Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu irmão, o
-cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos o conselheiro
-de Henrique II, era um dos homens mais sagazes da Europa. A irmã casou
-com Jayme V da Escocia, e tiveram por sobrinha Maria Stuart, rainha da
-Escocia, educada em França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles
-com o Delphim de França.
-
-Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio tão urgente
-que os tribunaes de justiça tiveram de interromper o julgamento de
-varias causas. Henrique creou uma nova divisão judicial, que se occupava
-exclusivamente dos casos de heresia, e as sentenças proferidas por estes
-tribunaes especiaes eram tão severas que o povo chamava-lhes _chambres
-ardentes_. Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a
-perseguição não estorvou o derramamento do Evangelho.
-
-Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o desejo de ver com
-os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses obstinados herejes.
-Foi levado á sua presença um pobre alfayate, preso sob a accusação de
-ter trabalhado n’um dia santo, e esse homem, com grande espanto da
-côrte, respondeu ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre
-theologia que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o
-ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia o
-caracter e estava ao facto da posição occupada por ella, retorquiu-lhe
-solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em ter contaminado a França,
-e não queira tocar com o seu veneno e com a sua immundicie uma coisa tão
-pura e tão sagrada como é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O
-rei, encolerisado porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu
-ordem para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz assistir
-ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella que dava para a praça
-onde o martyr ia ser queimado, este viu-o, e não despregou mais d’elle
-os olhos. Mesmo já depois de rodeiado pelas labaredas não deixou de
-perseguir o rei com aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante
-muito tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante o
-dia e lhe perturbava o somno durante a noite.
-
-Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte, que estas
-repetidas execuções não estavam contribuindo para a repressão da Reforma.
-Outros martyres se apresentavam jubilosamente para substituir aquelles
-que os tinham antecedido; viuvas, mancebos, estudantes, raparigas
-mimosas, fidalgos da mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel
-martyrio a negarem Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais
-severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto, o de
-Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros seculos,
-mandava destruir toda a litteratura christã, na idéa de que por essa
-fórma se faria desapparecer o christianismo.
-
-Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella se encheu de
-refugiados francezes. Um certo numero de rapazes, cheios de coragem
-e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros nas verdades do
-Evangelho, havia-se offerecido para distribuir livros e folhetos por
-todos os pontos da França. O Edicto de Chateaubriand visava estes
-colportores, assim como os livros e tratados que elles vendiam. Prohibia
-terminantemente a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra
-ou de outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia
-nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão clandestina.
-Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias, mandava
-examinar todos os volumes que chegassem do estrangeiro, e submettia,
-de quatro em quatro mezes, a grande feira de Lyão a uma fiscalisação
-especial, pois que mediante ella é que se haviam espalhado pelo reino
-muitos livros suspeitos. Foi prohibida a venda ambulante de livros,
-fossem elles de que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem
-encontradas cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas
-analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé nas tabernas,
-nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas. Por determinação
-da côrte, ficava, portanto, o povo impedido de se instruir, se é
-que edictos e officiaes de justiça o poderiam impedir. A sementeira
-proseguia. Dispostos para a vida ou para a morte, partiram de Genebra e
-de Strasburgo, para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando
-comsigo Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza mandou
-dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero espantoso os homens que
-se offereceram para arrostar com todos os perigos para que a Egreja de
-Deus avançasse.
-
-=Organisação da Egreja reformada.=—No meio d’estas terriveis
-perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se em
-Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam isoladamente
-a Biblia, ou formavam pequenos nucleos de crentes. A perseguição
-augmentou-lhes a coragem, e resolveram por fim constituir uma communidade.
-
-O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez residente
-em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes costumava
-reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae do recemnascido declarou
-aos seus irmãos na fé que não podia ausentar-se de França, afim de obter
-que lhe fosse administrado um sacramento puro, e que de fórma alguma
-consentiria em que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana.
-Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem um pastor,
-pondo assim termo a todas as difficuldades.
-
-Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem oração, escolheram
-para pastor a João Le Maçon, que tinha por sobrenome La Riviére, contava
-vinte e dois annos, e havia abandonado familia, riqueza e perspectivas
-de um brilhante futuro pela causa de Christo. A pequena assembléa passou
-em seguida a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se uma
-Egreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve constituição.
-
-Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse á testa do
-movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras, as communidades
-constituiram-se em congregações, com os seus presbyteros e diaconos. Tres
-mezes depois da eleição de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma
-carta em que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha tres
-pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse sempre com
-a mesma violencia, nunca deixava de haver quem se offerecesse para esses
-perigosos logares, e a Reforma ia fazendo progressos.
-
-=Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.=—Vendo que eram inuteis
-todos os esforços empregados para impedir a Reforma, o cardeal propoz o
-estabelecimento, em França, de uma Inquisição, modelada pela de Hespanha,
-de que Fillippe se havia servido, com tanta efficacia, para escorraçar
-de seus dominios a heresia. O espirito de liberdade constitucional
-não estava, porém, tão morto em França que se permittisse a perda
-total de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o
-que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição
-hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os parlamentos,
-protestaram contra essa proposta. O rei e os seus conselheiros insistiram
-na adopção de similhante medida, mas em breve descobriram, para seu
-espanto, que o unico resultado colhido foi algumas pessoas nobres, das
-que de maior influencia dispunham, se declararem protestantes; e de ahi
-em deante (1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um
-forte partido huguenote.
-
-A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos dos principaes
-representantes da nobreza, e o que elles observaram tambem no
-procedimento do clero levou-os a procurarem homens de vida pura que os
-instruissem no christianismo. Alguns membros da mais alta aristocracia
-que antipathizavam com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por
-simples politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam
-uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana,
-que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica ao systema
-absolutista do rei e dos seus conselheiros.
-
-Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante Coligny e
-seu irmão Francisco d’Andelot.
-
-Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa Bourbon, e esta
-familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada por Antonio,
-duque de Bourbon, que, na falta do rei e dos filhos d’este, era o
-herdeiro do throno de França, e por seu irmão Luiz, duque de Condé.
-Antonio Bourbon tinha casado com a piedosa e heroica filha de Margarida
-de Angouleme, Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo
-filho foi Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu o
-titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo em Pau,
-onde assistia ás prégações dos pastores protestantes. Quando voltou
-para a côrte, começou tambem lá a frequentar as reuniões evangelicas, e
-declarou-se, por fim, protestante. O duque de Condé fez o mesmo. Andelot,
-o irmão mais novo do almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o
-cavalleiro sem pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello
-da Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações de
-gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder, não se
-atreveram a castigal-o.
-
-Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu um tratado de
-paz com a Hespanha para poder dedicar toda a sua actividade á destruição
-dos calvinistas. Era vastissimo, segundo se diz, o plano que elle tinha
-preparado. Genebra e Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria
-um golpe mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém,
-d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um torneio que
-teve logar em Junho de 1559, morreu.
-
-=O primeiro synodo nacional.=—Um caso interessante é que, ao mesmo tempo
-em que se estavam planeando novas medidas de repressão, os protestantes
-francezes houvessem tomado uma deliberação que era mais um testemunho
-da sua progressiva força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma
-casa do Faubourg St. Germain, o seu primeiro _Synodo Nacional_. O que
-motivou essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do anno,
-Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris, foi a Poitiers,
-afim de auxiliar o serviço da Communhão que se ia celebrar n’esta cidade.
-Encontrou-se lá, como era vulgar em similhantes occasiões, com pastores
-que tinham vindo de varios pontos, e, conversando ácerca do estado da
-Egreja, lamentaram a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes.
-Chandieu foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as
-opiniões dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou
-cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar delegados a uma
-conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi d’esta maneira que teve
-origem o primeiro Synodo Nacional. Era uma pequena assembléa, em que
-estavam representadas onze congregações apenas; mas proveu a Egreja
-franceza de uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina.
-
-A Confissão, conhecida depois pelo nome de _Confessio Gallica_, foi
-provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se n’uma resumida
-Confissão que Calvino compoz, chamando para ella a attenção do rei. Foi
-mais tarde revista por mais de uma vez, mas podemos ainda chamar-lhe a
-Confissão da Egreja Protestante Franceza.
-
-_O Livro da Disciplina Ecclesiastica_ foi modelado pelas _Ordenanças_
-que Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra, mas contém
-notaveis differenças, e mostra o que o livro de Calvino teria sido se
-o conselho de Genebra lhe houvesse dado toda a liberdade de acção. A
-constituição da Egreja franceza era inteiramente democratica e de um
-caracter representativo. Reconhecia os consistorios, que já existiam
-nas congregações, e, para os tornar verdadeiramente representativos,
-preceituava que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes.
-Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se reuniam
-duas vezes por anno, e em que cada congregação era representada por um
-pastor e um presbytero; e unia a Egreja toda sob um Synodo Nacional, ou
-Assembléa Geral, que constituia o ultimo tribunal de appellação, e a
-suprema auctoridade ecclesiastica.
-
-É interessante observar como n’um paiz cujo governo se tornava de anno
-para anno mais arbitrario e absolutista esta «Egreja sob o peso da Cruz»
-organizava para seu uso um governo, que reconciliava mais perfeitamente
-talvez do que todos quantos teem sido organizados desde então, o
-principio da soberania popular com o de uma suprema auctoridade central.
-Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu
-mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja escoceza, a de
-Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza, O facto d’ella se
-afastar posteriormente do modelo francez, tornando vitalicios os cargos
-de presbytero e diacono, e a usurpação do exclusivo direito, pela junta
-mais moderna do presbyterio, de enviar representantes á Assembléa Geral,
-privou o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma grande
-parte do elemento popular que constituia a força das primitivas egrejas
-escocezas e francezas.
-
-=Anne de Bourg.=—A morte do rei não alterou em coisa alguma a politica
-da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo de dezeseis annos. Este
-tinha por esposa Maria, rainha da Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua
-subida ao throno atirou com o poder para as mãos d’este fanatico partido,
-que era capaz de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não
-podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente do poder que
-n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia medidas para a repressão
-dos protestantes mediante a exterminação, e aquelle seu grande empenho em
-que se derramasse sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios.
-
-O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e execução de Anne
-de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de França, que era tambem
-juiz. O seu crime consistiu em ter, em conselho publico, dito a Henrique
-II que era uma coisa muito seria condemnar aquelles que, no meio das
-chammas, invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde,
-foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia
-que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao ser proferida a
-sentença de condemnação á morte por meio da fogueira, tornou a fallar
-com um tão tocante fervor, com uma resolução tão pathetica, que até
-os proprios juizes se commoveram «Coisa alguma nos poderá separar de
-Christo, sejam quaes forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem
-as enfermidades que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha muito
-como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos matem, pois, que
-nos despedacem; os que morrem no Senhor não deixam jámais de viver, e
-todos hão de apparecer na resurreição geral.... E, sendo assim, para que
-hei de eu permanecer mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo,
-e conduze-me ao logar do supplicio.»
-
-Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo francez começa a
-ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco se haviam compenetrado da
-força de que dispunham, começaram de aquelle ponto em deante a reunir-se
-para tratarem do modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como
-deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns dos mais
-impetuosos foram de parecer que se arvorasse immediatamente o estandarte
-da revolta. Calvino e Beza, a quem consultaram, dissuadiram-n’os de
-uma insurreição declarada. Não obstante, organizou-se uma conspiração.
-La Renaudie, protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe
-d’essa conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido
-bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada. Os Guises
-tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios da sua politica,
-e houve enormes carnificinas, particularmente em Amboise, que ficaram bem
-gravadas na memoria dos huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente
-Condé de ser o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de
-todos os principes e de todos os membros do Conselho privado, e desafiou
-os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de Guise não se sentiu com
-animo de o atacar de novo.
-
-=O morticinio de Amboise=, longe de aterrorizar os protestantes, parece
-que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser conhecidos pelo nome
-de _Huguenotes_. A origem d’este nome é obscura; tudo o que ao certo
-sabemos a seu respeito è que depois da conspiração de Amboise andava na
-bocca de toda a gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja
-dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser feitos por
-prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia do povo. A Ceia do
-Senhor foi, por bandos armados, celebrada «á moda de Genebra», em Nismes,
-no Languedoc. O tempo das assembléas secretas tinha passado, e grandes
-reuniões ao ar livre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam
-que a Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de gente.
-
-=Coligny na Assembléa dos Notaveis.=—A côrte, comtudo, estava convencida
-de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao, e as perseguições
-continuavam com o mesmo vigor. Necessitava, porém, de dinheiro, pois
-que as despezas do reino foram gradualmente excedendo as receitas, e
-em Fontainebleau foi, por fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis.
-Os protestantes aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante
-Coligny, chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao rei,
-outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia. Pediam a
-cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem publicamente o
-culto divino.
-
-Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem animo. O
-bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da sua diocese, e pediu
-que fossem revogadas as leis que se oppunham á entoação dos hymnos
-e á leitura das Escripturas, e que se convocasse um concilio geral.
-O arcebispo de Vienne ainda se atreveu a mais. Perguntou se «estava
-resolvida a morte da França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se
-obrigada a permittir que se realisasse a tal assembléa geral.
-
-Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo, tomaram a
-resolução de matar os seus homens de maior nomeada, e, segundo parece,
-tinham tambem em mente um massacre geral dos huguenotes. Fizeram com que
-o rei chamasse á côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão
-Luiz, duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo, para lá
-partiram.
-
-O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra por pouco
-escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade estava prestes a
-estalar, o rei adoeceu e morreu.
-
-«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que enviou a Sturm,
-«algum acontecimento mais opportuno do que esta morte do rei? Quando
-a desgraça tinha chegado a tal ponto que não se podia remediar, Deus
-revela-Se de subito lá do céu. Aquelle que traspassou os olhos do pae
-feriu agora os ouvidos do filho».
-
-=Catharina de Medicis.=—Pela morte de Francisco ficou herdeiro do
-throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente foi nomeado
-o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra. A mãe do joven rei,
-Catharina de Medicis, de quem haviam feito pouco caso durante a vida do
-marido, e que havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu
-filho mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade
-de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarra instaram
-com este para que tambem fizesse valer os seus direitos. Se elle assim
-tivesse procedido, o futuro da França seria, porventura, mais pacifico.
-Ter-se-hia alcançado uma duradoura tolerancia religiosa, e ter-se-hiam
-lançado os alicerces de uma monarquia constitucional; elle, porém, teve
-a fraqueza de não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi
-investida no poder.
-
-As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões a todos os
-partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises, e ao mesmo tempo era
-indispensavel entrar em negociações com os huguenotes. Todos os herejes
-que estavam presos recuperaram, por meio de um edicto, a sua liberdade,
-mas foram avisados de que deviam não dar mais motivo de queixa. No
-entretanto reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da
-morte do ultimo rei.
-
-Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião; uma reforma
-no governo da Egreja, e, em particular, a eleição livre dos bispos e do
-clero; um concilio nacional, sob a presidencia do rei, para discutir as
-questões religiosas, e, no entretanto, egrejas para os protestantes, e
-uma reunião da Assembléa dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se
-tambem para auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse
-a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado.
-
-As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke, o programma
-da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem sido attendidas,
-essa revolução não seria assignalada com o atheismo que a desacreditou,
-e não seria necessario derrubar a monarquia e a aristocracia. A côrte
-não estava preparada para essas mudanças radicaes, e o mais que se
-poude obter de Catharina foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde
-podessem ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres
-catholicos romanos.
-
-Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes,
-voltou para França muita gente que se tinha refugiado na Inglaterra, na
-Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na Italia. Vieram tambem alguns
-pastores de Genebra, não faltando, d’esse modo, homens bem instruidos
-que dirigissem as congregações protestantes. Era impossivel, porém,
-mudar todas as coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises
-ameaçavam vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se tinha na
-conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se áquella corrente
-conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram contra as assembléas
-protestantes. Nas localidades onde os huguenotes estavam em maioria,
-tornou-se difficil evitar que elles decisiva e energicamente defendessem
-os seus direitos. N’algumas cidades o povo correu em massa ás egrejas,
-derrubou as imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os
-huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel por
-conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de Genebra, protestando
-energicamente contra toda e qualquer illegalidade. «Deus nunca disse a
-pessoa alguma que destruisse os idolos, exceptuando aquelles que cada
-um tenha em sua casa, ou os que em publico se encontrarem revestidos de
-auctoridade.... A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos ver
-bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos limites».
-
-=A Conferencia de Poissy.=—A data designada para a Conferencia
-approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram convidados todos os
-francezes que tivessem qualquer coisa a dizer em materia de religião a
-apresentarem-se na proxima assembléa de Poissy, na certeza de que não
-correriam perigo algum e seriam escutados com a maxima attenção. Os
-huguenotes tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe
-encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio não queria
-ir, pois que estava convencido de que de similhante rainha se não tiraria
-resultado algum. Por fim acquiesceu, e os huguenotes ficaram descançados
-por saberem que os seus interesses estavam entregues em tão boas mãos.
-
-Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, renunciara
-a um brilhante futuro ao abraçar a causa da Reforma. Era um homem
-de magestosa presença, muito illustrado, e de um trato captivante.
-Abaixo de Calvino, era elle a pessoa por quem as egrejas reformadas se
-deixavam guiar com maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo
-representante. Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz
-de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de Lorraine.
-O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande personagem,
-produziram sensação na côrte.
-
-Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente manifesta a
-ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal de Lorraine e outros mais
-trataram logo de pôr termo á conferencia, ou, no caso de não conseguirem
-esse proposito, de a tornarem completamente esteril. O resultado da
-discussão foi ambas as partes nomearem delegados para conferirem sobre
-determinados pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de
-Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.
-
-Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás suas reuniões
-secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus cultos ás claras, e a
-qualquer hora do dia, fora das povoações; e todos os seus ministros eram
-obrigados a declarar, sob juramento, que não ensinariam coisa alguma que
-não estivesse de accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A
-tolerancia era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento
-legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram de parecer que um
-tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis condições em que era
-feito, devia ser acceite. «Se a liberdade que o Edicto nos promette fôr
-duradoura», escreveu Calvino, «o papismo cae por si mesmo».
-
-Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos a chegar a
-um accordo com os protestantes. Os funccionarios civis, nas cidades e
-nas provincias, pertenciam á religião do estado, e os parlamentos, ou
-tribunaes de justiça permanentes, abominavam o protestantismo. Sabia-se,
-além d’isso, que o Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina
-para ganhar tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos
-a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram os dois
-partidos a prepararem-se para uma guerra civil.
-
-=O massacre de Vassy: outros massacres.=—O signal foi dado pelo duque de
-Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o Edicto da Tolerancia.
-No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo de manhã, entrou, á frente de
-um grupo de cavalleiros armados, na cidade de Vassy, onde uma pequena e
-indefeza congregação de protestantes estava prestando culto a Deus n’um
-celleiro. Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes,
-que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande maioria,
-assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras civis que tanta
-devastação produziram em França até Henrique IV subir ao throno.
-
-O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido em muitos
-outros pontos em que os catholicos romanos estavam em maioria. Em
-Paris, em Sens, em Rouen, em toda a parte, emfim, os logares de culto
-protestantes foram atacados e os que n’elles se haviam reunido tiveram
-morte violenta. Em Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina,
-fecharam-se no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao
-cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa de que lhes
-seria permittido sair da cidade sem serem molestados. Uma vez cá fóra,
-foram todos massacrados—homens, mulheres e creanças, tendo perecido, ao
-todo, para cima de 3000 pessoas. Este morticinio de protestantes, em
-que houve violação de um juramento, foi commemorado pelos catholicos
-romanos de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em 1862
-se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração do
-centenario.
-
-Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. Os huguenotes
-precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram as imagens, os
-altares e as reliquias. Destruição de imagens e derramamento de sangue
-era a ordem do dia na maior parte das provincias de França.
-
-=A guerra civil. Os iconoclastas.=—No meio de tudo isto os dois partidos
-formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos, ficando um, o
-papista, sob o commando de Francisco, duque de Guise, e o outro, o
-protestante, sob o commando de Luiz, duque de Condé, e do almirante
-Coligny. A França poude então presenciar todos os horrores de uma guerra
-civil, em que o fanatismo religioso accrescentou, ás barbaridades communs
-a todas as guerras, as mais atrozes crueldades.
-
-O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, exprimiu
-a opinião de que esta primeira guerra religiosa obstou a que a França
-se tornasse protestante. As crueldades dos papistas tinham desgostado
-um grande numero de cidadãos francezes, que, sem serem impulsionados
-por fortes sentimentos religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado
-alliado áquelles que, pela sua moderação, se mostravam competentes para
-inaugurar, e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes
-huguenotes faziam o maximo empenho em poder provar que os seus adherentes
-sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza recommendaram que não se
-interviesse no culto dos catholicos romanos, excepto quando o caso fosse
-tratado judicialmente, e ainda assim com muita serenidade. Não, foi,
-porém, possivel evitar que os protestantes despedaçassem as imagens e
-dessem cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.
-
-Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao mesmo tempo. Condé,
-acompanhado de Coligny e de outros vultos importantes, dirigiu-se a
-toda a pressa para a egreja de Santa Cruz, onde o tumulto era maior.
-Ao chegarem á egreja, Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia
-subido a um ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para
-baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz, apontou-o ao
-dito soldado, e ordenou-lhe que descesse quanto antes. Elle não parou
-com o que estava fazendo, proferindo, porém, estas palavras: «Deixe-me
-primeiro fazer este idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da
-sua vontade». Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar
-de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse pôr um
-dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes entrassem
-as egrejas ficavam n’uma completa desordem. Este procedimento foi tomado
-em toda a França como um indicio de que os protestantes, se chegassem
-a ter o poder nas mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e,
-por consequencia, a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre
-crescendo, começou a declinar.
-
-O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel aos
-huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um admiravel general, e os
-papistas estavam bem providos de dinheiro e recebiam auxilio de fóra;
-ao passo que os huguenotes estavam quasi exclusivamente dependentes dos
-seus proprios recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para
-o proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha de Dreux,
-em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel disciplina dos
-auxiliares suissos de Guise; mas, por seu turno, os papistas perderam o
-duque de Guise, que foi assassinado em Fevereiro de 1563.
-
-Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e tornou-se mais
-facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido vencer os papistas;
-e, do mesmo modo, os papistas não tinham conseguido exterminar os
-protestantes. Não se haviam reconciliado uns com os outros, mas
-achavam-se cançados; e convieram n’uma suspensão de hostilidades. O
-Edicto da Paz garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam
-sido concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais
-importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade em cujos
-arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus cultos, e em todas
-as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de Março do anno corrente era
-praticada a religião protestante, será a pratica d’esta permittida em
-dois recintos _intra-muros_, que serão opportunamente designados pelo
-rei». O Edicto de Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as
-coisas por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos
-não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os protestantes
-por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam. Foi obra de Catharina
-e de Condé, cada um dos quaes confiava em que o futuro se encarregaria de
-tornar inoffensivas para o seu partido as concessões que fazia.
-
-As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes arrebentou a
-segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de um anno. A unica acção
-decisiva foi a batalha de St. Denis, em que Montmorency foi morto.
-Seguiu-se então o armisticio de Longjumeaux, cujas condições eram
-identicas ás do Edicto de 1562.
-
-Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes começou a
-terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se do duque de Alba,
-o feroz governador dos Paizes Baixos, que se estava preparando para
-ajudar a côrte franceza a exterminar todos aquelles que não quizessem
-submetter-se á Egreja Catholica Romana, e resolveram tomar a offensiva.
-Condé e Coligny souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar
-a vida aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente,
-supprimir a obnoxia fé.
-
-Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou. Combateu-se
-durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas de bom e mau
-exito, tanto diplomatico como militar. Por fim, teve logar a batalha
-de Jarnac, onde os huguenotes foram derrotados, e onde Condé e varios
-outros encontraram a morte. A sorte parecia ter-se tornado crudelissima
-para os huguenotes. Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de
-Navarra, moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que não
-tinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny é que
-teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou de reunir as forças
-dispersas, e, não obstante alguns revezes, poude obter um tratado de paz
-que offerecia vantagens como nunca os huguenotes tinham logrado alcançar.
-Foi auctorizado o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro
-d’ellas—La Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas aos
-protestantes como logares de refugio.
-
-=Coligny e Carlos IX.=—O almirante Coligny ficou sendo, em virtude d’este
-tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes mais confiavam. Deixou-se
-ficar em La Rochelle, no meio dos seus correligionarios, e encarregou-se
-da tutella dos dois jovens principes que eram as esperanças dos
-protestantes, Henrique de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal
-que elle tinha em vista era de tornar permanentes as vantagens que os
-reformados tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas.
-Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os avisos em
-contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes do que, por uma
-indevida solicitude pela minha vida, dar occasião a que se avente uma
-suspeita em todo o reino».
-
-Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX sympathizou
-com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então uns vinte annos, não
-havia conhecido nunca um homem como aquelle. A enfermidade não o havia
-deixado desde a infancia, e estivera rodeiado por pessoas que tinham
-interesse em o educar na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz
-em contacto com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo
-respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo com as
-suas convicções, que se havia tornado a mais celebre individualidade da
-França, que fora o organisador do partido protestante, que era quasi
-adorado pelos seus amigos, e que, apezar da sua edade avançada, estava
-ainda em todo o vigor da vida, não poude deixar de confiar n’elle como
-nunca tinha confiado em pessoa alguma.
-
-Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram que o rei
-estava sob uma nova influencia, a que precisavam de subtrahil-o a todo o
-transe. Tinham medo de que o rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso,
-lhes escapasse das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil
-Carlos sentiu por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a
-causa do massacre de S. Bartholomeu.
-
-Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de Coligny. O
-attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter com seu filho, e
-referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes estavam convencidos
-de que elle, Carlos, entrara também na conspiração que tinha por fim
-a sua morte, e que, portanto nunca havia de ter paz emquanto os
-protestantes não fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos
-vultos preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu.
-
-=A matança de S. Bartholomeu.=—Esta terrivel carnificina de protestantes,
-que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 de Agosto de 1572) foi
-obra de Catharina de Medicis, de Henrique de Anjou e dos Guises. A
-matança foi feita em Paris por 20:000 milicianos da cidade, coadjuvados
-por alguns soldados e pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo
-duque de Guise. As forças a que se commetteu aquella tarefa eram
-commandadas pelos irmãos Guise.
-
-Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes cabeças,
-e depois o massacre tornou-se geral. As casas dos protestantes tinham
-sido previamente marcadas com cruzes brancas, e os assassinos, para
-reconhecimento mutuo, traziam faxas brancas, além de outros signaes. Só
-em Paris foram mortos, pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram
-pessoas de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram
-mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, fixa o
-numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas provincias, e o numero
-das victimas tem sido calculado entre 30:000 e 100:000. Sully, primeiro
-ministro de Henrique IV, que estava provavelmente bem inteirado, affirma
-que cairam sem vida 70:000 pessoas.
-
-Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem mostrado muito
-orgulhosos de aquelle commettimento, mas quando a matança teve logar
-muitos d’elles exultaram. Sabe-se perfeitamente que, se o acto não foi
-instigado de Roma, o papa e a curia estavam, pelo menos, scientes de
-que elle ia realisar-se. Houve illuminações em Roma para festejar o
-acontecimento, os canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se
-uma procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma medalha
-para commemorar o _Hugonotorum Strages_. Alguns dos principes catholicos
-romanos enviaram mensagens de congratulação, e diz-se que o pobre e
-corrompido Filippe II de Hespanha sorriu, pela primeira e ultima vez na
-sua vida, quando a noticia lhe constou.
-
-O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e privou-os de
-quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam a existir, e, em
-vez de se intimidarem, de se darem por vencidos, perante aquelle acto
-sanguinario, resolveram em seus corações vingar-se d’elle. Ainda restavam
-algumas cidades em poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes,
-Montauban, e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se a dar
-entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.
-
-La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas por Henrique de
-Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades de um cerco,
-obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. Uma egualmente bem
-succedida resistencia da parte de outras cidades forçou a côrte a entrar
-em negociações com os seus odiados subditos protestantes, e ficou
-restabelecida a paz.
-
-D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam estar sempre
-preparados para a guerra. Os horrores da vespera de S. Bartholomeu
-haviam-lhes mostrado o quão implacaveis eram os seus inimigos, e a
-traição por elles commetida quando foi do cerco e capitulação de Sancerre
-deu-lhes uma prova da sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados
-oito mezes, e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens,
-pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. «Porque chora»,
-exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me morrer de fome? Eu não lhe
-peço pão, mãe; sei que não tem nenhum para me dar. Visto Deus querer que
-eu morra d’esta forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle
-homem santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» E depois de a
-cidade se haver rendido teve logar, não obstante a promessa que lhe tinha
-sido feita sob juramento, uma horrivel scena de homicidio e pilhagem.
-
-Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram organizar-se,
-para que podessem estar sempre promptos, e tão diligentemente pozeram
-os seus planos em execução que n’um curto prazo se encontraram aptos
-para pôrem 20.000 homens em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que
-tudo organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei,
-em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as guerras
-religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote não se havia
-extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu um outro partido ia
-adquirindo lentamente importancia em França. Era elle constituido pelos
-catholicos romanos moderados, que estavam fartos de carnificinas, e que
-attribuiam todos os males do Estado ao poder de que os estrangeiros
-dispunham no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes,
-isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração
-das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como também
-eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas quando tiveram
-conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, e do programma politico
-que os huguenotes expozeram em Milhau, e, revestidos de paciencia,
-esperaram a occasião de intervir.
-
-Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a
-quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse seguido de um tratado
-de paz, nunca, de um modo ou do outro, se deixou de combater, e a
-rejeição do pedido feito pelos huguenotes não permittia duvidas quanto á
-imminencia de outra guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio
-de 1574, de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe
-sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo da
-carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique de Anjou, o terceiro
-e mais vil dos filhos de Catharina, e que era o favorito d’esta. Henrique
-era ao mesmo tempo um papista cheio de superstições e um libertino cheio
-de impudencia.
-
-Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado aos Guises,
-e adherira ao partido papista; pouco depois de subir ao throno, porém,
-como o amedrontasse a possibilidade de uma alliança entre os «politicos»
-e os huguenotes, concedeu, por meio de um edicto, uma parte do que os
-protestantes pediam. Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada
-liberdade religiosa, egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser
-julgado por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e de
-protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como penhor, nas
-mãos dos protestantes.
-
-=A Santa Liga.=—Este procedimento do rei deu logar á fundação da Santa
-Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos jesuitas, cujo fim era
-promover uma alliança dos catholicos francezes com Filipe II de Hespanha
-e com o papa. Visava, em primeiro logar, a governar a França no interesse
-da fé catholica romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes,
-e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os Bourbons, ou,
-pelo menos, o impedir que a corôa passasse para Henrique de Navarra.
-
-Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em cujos variados
-incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a quinta, como a sexta,
-como a setima guerra civil concluiu por um tratado de paz favoravel aos
-protestantes.
-
-Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio dos Guises. A
-oitava guerra civil terminou em julho, mediante o tratado de Nemours,
-que não era tão favoravel para os protestantes. A nona guerra civil teve
-logar pouco depois. Foi denominada a Guerra dos Tres Henriques—Henrique
-III, Henrique de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua
-pouca edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra teve
-o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes ficaram
-victoriosos.
-
-As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram entre o
-rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu que a sua
-auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes, que se reuniram
-em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe que a França estava sob o
-dominio do duque; e a insurreição que teve logar algumas semanas antes
-foi uma revelação do quanto a Liga se havia ramificado. Não querendo
-sujeitar-se por mais tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da
-Liga mediante a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise, e
-Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembro de 1588,
-juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga continuou a existir.
-É que ella havia estabelecido em toda a França associações similhantes
-aos clubs jacobinos do periodo revolucionario; e, quando os Guises foram
-assassinados, a sociedade mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como
-era conhecida, apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos
-os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação do
-parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel medo, fugiu
-para o meio dos huguenotes, entregando-se ao seu grande rival, o rei de
-Navarra. Jacques Clemente, frade dominicano, e um dos fanaticos da Liga,
-foi, porém, em sua perseguição, e apunhalou-o. Algumas horas depois
-Henrique III expirava, e o general huguenote ficava sendo o legitimo
-herdeiro da corôa de França.
-
-=Henrique de Navarra.=—Ao principio foi apenas reconhecido pela parte
-protestante da França. A Liga dispunha de grande poder, e estava
-resolvida a impedir que o throno fosse occupado por um huguenote. Até
-mesmo os catholicos romanos moderados com dificuldade podiam admittir que
-reinasse em toda a França um rei que professava a religião da minoria.
-O papa recusava-se a reconhecer um soberano protestante, e Filippe
-II de Hespanha fez a ameaça de uma invasão das suas tropas. N’estas
-circumstancias, Henrique de Navarra fez uma coisa extraordinaria: pediu
-para ser instruido nas doutrinas da religião catholica romana. Isto
-chamou para o seu partido um grande numero de romanistas moderados, e o
-rei poude desbaratar a Liga nas batalhas de Arques e Ivry.
-
-A Liga continuava ainda a intimidai-o muito e projectava levar ao throno
-Carlos de Guise, duque de Mayenne, ou o Cardeal Bourbon, tio de Henrique,
-(que reinou effectivamente sob o nome de Carlos X), ou Filippe II de
-Hespanha, que tinha casado com uma Valois.
-
-Em face de todas estas complicações, Henrique deu um passo que a sua
-heróica mãe nunca teria dado. Fez-se catholico romano. O effeito d’isto
-foi que n’um maravilhosamente curto espaço de tempo a Liga se dissolveu,
-e Henrique IV foi acclamado rei por quasi toda a França. Os seus velhos
-companheiros de armas e correligionarios, posto que deplorassem a sua
-apostasia, não abandonaram o joven que desde a infancia havia sido seu
-associado e chefe, e que, depois dos afflictivos dias de Bartholomeu,
-havia deixado a côrte assim que isso lhe fôra possivel, para combater
-junto d’elles. Elle, em troca, concedeu-lhes aquillo por que haviam
-luctado durante trinta annos.
-
-=O Edicto de Nantes.=—Em 1598 foi assignado o famoso Edicto de Nantes,
-que se adeantava mais em tolerancia religiosa do que qualquer outro
-edicto do seculo dezeseis. Tinha, porém, um grande defeito, e era que as
-circumstancias em que a França se encontrava tornavam impossivel garantir
-liberdade religiosa sem conceder aos protestantes certos privilegios
-politicos que os constituiam um estado no estado, e que mais tarde
-obstaram á completa fusão dos dois partidos n’um governo.
-
-Este edicto outorgava completa liberdade de consciencia; de ahi em deante
-ninguem mais seria perseguido por causa das suas idéas religiosas.
-Todos os nobres que possuissem aquillo a que se chamava «superior
-jurisdicção» tinham auctorização para ensinar o calvinismo, e toda a
-gente podia aproveitar-se das suas lições. Os nobres que não possuissem
-essa jurisdicção gozavam do mesmo privilegio, e podiam ter ao seu
-serviço quantas pessoas quizessem, quando residissem em localidades
-onde não houvesse catholicos romanos com a «superior jurisdicção». Dava
-licença para que continuasse, ou fosse restaurado, o culto publico «a
-que chamam reformado» em todas as cidades onde elle já existia em Agosto
-de 1597. Quando os protestantes estivessem espalhados por um districto
-provinciano, designar-se-hia para local do culto uma das povoações.
-Prohibia-se aos protestantes o culto publico em Paris, ou a cinco milhas
-de distancia d’essa cidade, e nas seguintes cidades, onde predominava
-o fanatismo catholico romano: Reims, Toulouse, Dijon e Lyon. N’outra
-qualquer parte os protestantes podiam ter egrejas, sinos, escolas, etc.
-Os principaes limites da liberdade religiosa consistiam em que a religião
-romana era declarada a religião estabelecida, e em que os protestantes
-tinham de pagar dizimos ao clero official, não podiam trabalhar nos dias
-santificados, e eram obrigados a conformar-se com as leis matrimoniaes da
-egreja catholica.
-
-Os protestantes, ficou também declarado, tinham os mesmos deveres civis e
-os mesmos privilegios dos catholicos romanos, e podiam concorrer a todos
-os empregos e dignidades do Estado. Estabeleciam-se tribunaes de justiça
-especiaes, para julgamento dos protestantes. Estes retinham durante oito
-annos todas as cidadellas que lhes pertenciam anteriormente a 1597,
-com todo o material de guerra; e n’essas cidades os governadores eram
-nomeados pelos huguenotes.
-
-
-
-
-CAPITULO IV
-
-A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS
-
- Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag.
- 114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os
- Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos
- bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os
- _mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de
- Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e
- do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange,
- pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag.
- 126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag.
- 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag.
- 130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag.
- 132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua
- organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag.
- 134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da
- Egreja na Hollanda, pag. 136.
-
-
-=Os Paizes Baixos.=—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma foi talvez a
-ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final, mas aquelle paiz
-teve a honra de fornecer os primeiros martyres da fé protestante.
-
-Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt e do Rheno, e
-na edade media constituiam o lado norte do velho reino de Lotharingia,
-ou Lorrena, o celebre reino central, como era chamado. A sua situação,
-com uma extensa costa maritima, e os grandes rios que o atravessavam,
-tornava-o naturalmente um paiz commercial. O mar estava constantemente
-usurpando a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios
-trasbordavam, e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos.
-
-A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam o povo
-fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar de si sem o auxilio
-alheio. O paiz abundava em grandes cidades, habitadas por gente livre e
-opulenta. A vida burgueza começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na
-maioria das nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada.
-N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes;
-n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia em Utrecht,
-considerava seu subdito o bispo da provincia.
-
-Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o espirito da
-liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra dos Trouvères, e a
-sua influencia era ainda bastante para que no povo se conservasse vivo o
-espirito anti-clerical. O clero romano nunca teve muito predominio nas
-cidades mais importantes, e mesmo nas provincias não conseguiu jámais
-levar de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas, as quaes
-algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros, ou sociedades
-de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham por fim cultivar
-os talentos dramaticos dos seus membros, ou para representarem os
-oratorios medievaes, ou, mais frequentemente, para comporem e recitarem
-poesias satyricas e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram
-inexoravelmente atacados.
-
-Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores de Gerardo
-Groot, o fundador das escolas para creanças pobres e dos asylos para
-orphãos; e os seus collaboradores, os Irmãos da Vida Commum, tinham
-diffundido os seus sentimentos de mystico desprezo por uma Egreja
-mecanica e politica, e a sua ambição de que todos os paizes em redor
-fossem devidamente educados e seguissem a religião do coração. Thomaz á
-Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que viveram antes
-da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos.
-
-=A politica de Carlos V.=—No seculo quinze a maior parte d’estes estados
-livres e d’estas cidades opulentas tinha caido sob o dominio dos duques
-de Borgonha, que eram ao mesmo tempo vassalos da corôa franceza e do
-Imperio. Não vem agora a proposito relatar a avidez com que Filippe o
-Bom, e seu filho, Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um
-reino, e para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que
-os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da França
-constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos, quando casou
-com Maximiliano de Austria, que era neto de Carlos V, o imperador na
-epoca em que se deram os primeiros episodios da Reforma.
-
-Carlos V, que era conde de Hollanda, e _stadtholder_ dos Paizes Baixos,
-assim como rei de Hespanha e imperador da Allemanha, nasceu e foi
-educado nos Paizes Baixos, e reputava essas provincias suas propriedades
-exclusivas. A politica constante do imperador foi a de auxiliar, até
-onde podesse ser, os privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos
-Paizes Baixos fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar
-o governo e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo
-não recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos de
-procedencia hespanhola.
-
-=Os principios da Reforma.=—Quando a Reforma começou na Allemanha, e
-foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando Luthero, os seus
-adherentes e as suas obras sob o anathema do Imperio, Carlos fez sair nos
-Paizes Baixos um decreto que continha disposições similhantes. O edicto
-foi inefficaz na Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia
-nos Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes e João
-Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito, foram
-queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros martyres da Reforma.
-Luthero compoz um hymno em sua honra, que intitulou «Cantico dos dois
-martyres de Christo em Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.»
-Foram prohibidas as reuniões religiosas, assim como a introducção das
-obras de Luthero.
-
-Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero foi
-traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em 1523, e as doutrinas
-da Reforma tornaram-se largamente conhecidas.
-
-Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias em nome de
-Carlos não deram plena execução aos severos edictos que lhes foram
-confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos, era inclinada á tolerancia
-em materia de religião, e Maria da Hungria, sua irmã, era, segundo
-se diz, secretamente partidaria da Reforma. N’estas circumstancias o
-movimento alastrou-se com rapidez no meio do povo, que estava acostumado
-a ler, pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador, «até
-nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com pessoas aptas não
-somente para ler e escrever, como tambem para discutir, quaes letrados,
-as interpretações biblicas.»
-
-O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do fanatismo
-anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram apoderar-se da
-cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram as ruas soltando loucos
-vaticinios. Na Frisilandia penetraram n’um convento, e combateram
-desesperadamente com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o
-edificio. O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira
-caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram quasi
-trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes que não
-approvavam de modo algum aquelles ardores anabaptistas. A Reforma, apezar
-d’este contratempo, foi fazendo progressos nos Paizes Baixos, até que, em
-1555, Carlos V abdicou em seu filho Filippe II, começando então o povo a
-luctar pela liberdade politica e religiosa.
-
-=Filippe II nos Paizes Baixos.=—Carlos viu todos os seus projectos
-transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu adoptar a mesma
-politica, usando, porém, do maior rigor e severidade. «Queria impôr,
-illimitada e incondicionalmente, o despotismo temporal e espiritual a
-que o restabelecido poder pontificio aspirava.» Sabemos agora que o
-empreendimento de Filippe era, desde o principio, irrealisavel; mas o
-elle ser ou não bem succedido constituiu um problema que teve a Europa
-suspensa durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou
-bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a lucta nos
-Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira revolta contra
-a politica de Filippe, e devido a ella o poder de Hespanha ficou tão
-abalado que a Europa poude sentir-se em segurança.
-
-Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe achava-se
-nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com desgosto os progressos que
-a religião reformada fazia n’essa terra. A Hespanha estava segura, pois
-que se havia inteiramente extinguido n’ella toda a liberdade civil e
-religiosa. Filippe podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e
-superintender pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu
-que a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld, que
-muitos dos nobres estavam em constante communicação com os principes
-lutheranos da Allemanha, e que os protestantes dos Paizes Baixos se
-entendiam tambem perfeitamente com os huguenotes francezes. As suas
-medidas para exterminio da heresia foram cuidadosamente elaboradas e
-com muita paciencia postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na
-presença do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que lhe fosse
-dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos detalhes, no
-estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação do episcopado das
-provincias.
-
-Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao sul dos
-Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França, tanto ao norte como
-ao sul, e quando em guerra com este paiz as tropas hespanholas haviam-se
-aquartellado nas dezesete provincias, com o fim de se encontraram com o
-exercito francez n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas
-tropas e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios.
-Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem o seu
-consentimento representava um attentado contra um dos privilegios que as
-provincias mais apreciavam; o paiz, além d’isso, tinha acabado de passar
-por uma grande fome, e a brutalidade dos soldados ainda mais exasperava
-o povo, chegando os habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam
-morrer afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes
-da soldadesca.
-
-Filippe não podia ficar para sempre nos Paizes Baixos, pois que a sua
-presença era necessaria na Hespanha, e antes de se retirar precisava
-de nomear uma pessoa que ficasse governando em seu nome. As provincias
-queriam que esse encargo recaisse sobre um dos seus nobres, e os nomes
-de dois membros da aristocracia, Guilherme de Orange e o Conde Egmont,
-que eram tambem principes do Imperio Allemão, foram frequentemente
-pronunciados na presença do rei. Tinham sido ambos muito affeiçoados
-a Carlos V, havendo demonstrado por meio de actos a sua dedicação, e
-possuíam todos os requisitos para o desempenho de aquelle logar. A
-escolha de Filippe, porém, caiu em sua cunhada, Margarida de Parma, que
-estava inteiramente dependente d’elle, era estranha ao paiz, cuja lingua
-ignorava, e conforme Filippe suppunha, lhe obedeceria cegamente. Deixou
-junto d’ella, como primeiro conselheiro, Antonio Perrenot, mais conhecido
-pelo cardeal Granvella, creatura sua, e mais um ou dois que elle sabia ao
-certo que executariam sem hesitação qualquer ordem que mandasse.
-
-=A Inquisiçao.=—O mais importante elemento de repressão, comtudo,
-foi a inquisição. Esta terrivel instituição differia inteiramente da
-organização que, com o mesmo nome, existiu antes da Reforma. A primeira
-inquisição, estabelecida para exterminio dos albigenses do sul da
-França, causou grandes soffrimentos aos não-conformistas da edade media,
-mas as suas funcções eram geralmente entregues aos dominicanos e aos
-franciscanos, e a rivalidade que havia entre uns e outros, combinada com
-o facto de terem sido estas duas grandes ordens as que deram acolhida á
-heresia medieval, obstou a que ella fosse o perseverante instrumento de
-repressão de que os papas de epocas posteriores á da Reforma, os jesuitas
-e os monarcas como Filippe II careciam. Foi, por conseguinte, remodelada
-em Roma sob a superintendencia do cardeal Caraffa, que mais tarde se
-chamou Paulo IV, separada das ordens monasticas, e restabelecida sobre
-uma base independente.
-
-Tinha por fim, segundo a bulla que presidiu á sua fundação, extirpar
-a heresia, primeiro em Italia, e em seguida em todo o mundo; e no seu
-funccionamento havia quatro regras a observar. Em materias de fè não se
-permittia um momento de demora, e a inquisição tinha de proceder com
-o maior rigor á mais leve suspeita, não se respeitava as pessoas dos
-principes ou dos prelados, por mais elevada que fosse a sua posição;
-usar-se-hia de um rigor especial para com aquelles que se acolhessem á
-protecção de um rei ou de uma personagem equivalente; e não se concederia
-uma falsa tolerancia a qualquer heresia, sobretudo ao calvinismo.
-
-A idéa do cardeal Caraffa era tornar a inquisição alliada do Estado,
-prestando o poder civil a sua coadjuvação para que as ordens da Egreja
-fossem cumpridas, e acoimando esta de heresia qualquer acto ou phrase
-que um Estado despotico entendesse que lhe era hostil. A inquisição
-tornava-se assim uma terrivel maquina nas mãos de um governo despotico,
-e, na verdade, onde quer que a sua presença se fez sentir por muito
-tempo, toda a liberdade civil e religiosa foi suffocada.
-
-A Italia e a Hespanha ainda não se restabeleceram das feridas por ella
-abertas.
-
-Carlos V estabeleceu a Inquisição tanto em Hespanha como nos Paizes
-Baixos, e, de accordo com o que ella preceituava, publicou alguns edictos
-cheios de violencia, aos quaes, não obstante a passiva opposição dos
-regentes, não houve remedio senão obedecer. Foi prohibido imprimir,
-copiar, conservar escondido, comprar, vender ou dar qualquer livro de
-Luthero, Œcolampadius, Zwinglio, Bucer, Calvino, ou qualquer outro
-hereje. Foi tambem prohibido damnificar, de uma ou outra fórma, a imagem
-de qualquer santo canonizado, assistir a reuniões hereticas, ler as
-Escripturas, e entrar n’uma discussão ou controversia religiosa. Os
-transgressores, se se retractassem, eram mortos á espada ou enterrados
-vivos; se não se retractassem, eram queimados, com confiscação de todos
-os seus bens. Aquelle que denunciasse um hereje recebia uma boa parte
-da sua fortuna, logo que fosse provada a veracidade da accusação. Os
-suspeitos de heresia eram obrigados a abjurar, e, se tornava a haver
-duvidas a seu respeito, procedia-se com elles como se fossem herejes
-declarados. Durante o reinado de Carlos houve todos os annos um bom
-numero de execuções, e, não obstante, a Reforma ia-se propagando. Em 1550
-já tinham fugido á inquisição 10:000 pessoas, que procuraram refugio em
-paizes estrangeiros. Filippe, a cujo conhecimento isto chegou, era de
-opinião que o terrorismo ainda não tinha sido exercido senão em pequena
-escala; concedeu, portanto, mais amplos poderes á inquisição, e ordenou á
-regente e ao seu conselho que prestassem aos inquisidores todo o auxilio
-que lhes fosse necessario.
-
-=Os novos bispados.=—No principio do seculo dezesseis havia nos Paizes
-Baixos quatro bispados: o de Arras, o de Cambray, o de Tournay e o de
-Utrecht. Filippe, só com uma pennada, propoz que se acerescentassem
-quatorze. O cardeal Caraffa, já então o papa Paulo IV, deu logo o
-seu apoio a essa proposta, pois que, disse elle, a heresia andava
-desenfreiada pelos Paizes Baixos, e a seara era abundante mas poucos
-os obreiros. O clero dos Paizes Baixos protestou; o povo, indignado,
-appellou para a constituição do paiz, que não permittia que o clero
-fosse augmentado sem o consentimento d’este. Todos os protestos, porém,
-foram baldados. Em 1560 o paiz foi dividido em quinze bispados, que
-ficaram sobre as ordens de tres arcebispos, tendo por primaz o arcebispo
-de Mechlin; e Filippe alcançou assim um bom numero de voluntarios
-instrumentos de repressão, assim como uns poucos de tribunaes onde os
-casos de heresia fossem julgados e sentenciados.
-
-=Tornar-se-ha hespanhol o paiz?=—No entretanto o paiz ia-se alarmando.
-Estas mudanças foram para a maioria dos neerlandezes indicios de que se
-intentava reduzir os Paizes Baixos á condição de Hespanha. O patriotismo
-identificou-se com a Reforma, e a causa nacional e a religião evangelica
-caminharam, por assim dizer, de mãos dadas.
-
-Isto deu um grande impulso ao movimento protestante. Tornou-se a causa
-popular. Multidões intervieram nos castigos ecclesiasticos, apoderaram-se
-das victimas condemnadas á morte pela inquisição, promoveram tumultos
-por occasião da missa, e por vezes atacaram as egrejas e derrubaram as
-imagens.
-
-Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem as suas queixas.
-O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram culpado de todas as
-medidas dignas de censura. Filippe, fingindo concordar com os nobres,
-transferiu Granvella para outro ponto; mas o velho systema de terrorismo
-continuou, e os nobres perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade,
-os queria fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam
-protestado.
-
-A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou uma nova
-resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez, fallou
-contra a proposta em termos violentos; houve uma assembléa de nobres,
-e resolveu-se encarregar o conde Egmont da missão especial de informar
-o rei dos sentimentos do povo das provincias; porque ainda se julgava
-que Filippe ignorava certas coisas de que aliás estava perfeitamente
-informado.
-
-Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um subdito leal
-do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido de Filippe, esse
-alguém, segundo a opinião geral, era Egmont. Partiu para Madrid em 1565,
-onde foi recebido com apparente cordialidade, e assegurou-se-lhe que as
-representações dos nobres seriam attendidas.
-
-Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de cumprir as suas
-promessas. Deu, pelo contrario, ordem para que em todas as cidades fossem
-proclamados, de seis em seis mezes, os decretos de Trento, os edictos com
-caracter de perseguição e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo
-contam os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o
-commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e todo o paiz
-parecia ter passado por um enorme cataclismo. Distribuiam-se pamphletos,
-que eram avidamente lidos, contendo apaixonados appellos ao povo para
-que pozesse termo á tyrannia. Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta
-aberta ao rei, dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos
-n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.» Damos
-graças a Deus por até os nossos inimigos se verem constrangidos a dar
-testemunho da nossa piedade e da nossa innocencia, e tanto assim que se
-diz commummente: «Fulano não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não
-pratíca immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita».
-«E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo que se pode
-inventar.»
-
-=Os mendicantes.=—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes tinham
-um espirito mais ousado resolveram unir-se para resistirem á tyrannia.
-Os seus chefes naturaes, que eram o principe de Orange e os condes de
-Egmont e de Horn, conservaram-se afastados, por considerarem insensata
-aquella empreza. Os confederados resolveram começar dirigindo-se em
-solemne procissão á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição
-e a revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza em 5
-de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham preparado; e a
-regente, perturbada com a imponencia do acto, convocou a toda a pressa
-o conselho para saber o que havia de responder. Barlaymont, um dos seus
-conselheiros, e pessoa muito da intimidade de Filippe, foi de opinião
-que «aquelle bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do
-palacio, A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse
-as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles reunidos n’um
-banquete para deliberarem, o conde Brederode levantou-se, e disse:
-«Chamam-nos mendicantes. Acceitamos esse nome. Empenhamos a nossa palavra
-em como havemos de resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e
-á Sacola do Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro como
-as que usam os mendigos que andam de terra em terra, e, deitando vinho
-n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade da causa.
-
-=Prégações ruraes.=—O nome de mendicantes foi adoptado com grande
-enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. Por toda
-a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos e fidalgos com a sacola
-de coiro dos mendigos vagabundos. O povo começou a compenetrar-se da
-força de aquella aggremiação. Realisaram-se logo grandes conventiculos,
-ou prégações ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as
-mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas em
-redor, collocando-se os homens, armados, um pouco fóra do ajuntamento,
-e assim escutavam as pregações dos ministros excommungados. Liam as
-Escripturas, cantavam hymnos, e ouviam orações feitas na sua lingua
-natal. Era tal a agglomeração de gente, e estavam tão vigilantes e tão
-bem armados, que os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente
-convenceu-se de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não
-poderia conter a excitação popular.
-
-O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações ao ar livre se
-faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos romanos. Quando
-os padres passavam pelas ruas de Antuerpia levando processionalmente
-a milagrosa imagem da Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken!
-(Mariasinha) chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a
-cathedral e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. N’outros
-pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar outros actos de
-violencia. A regente via-se sem forças para pôr termo aos tumultos, e,
-em desespero, concedeu ao povo a abolição da inquisição e a tolerancia
-da doutrina protestante. Confiando na sinceridade d’estas concessões, os
-nobres tomaram sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir
-as desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o conde
-Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.
-
-Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado do
-regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, determinou, na
-primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz e exterminar os cabeças
-de motim. Com a sua habitual dissimulação, procurou disfarçar os seus
-intentos, e o conde Egmont foi por elle enganado. O principe de Orange,
-sempre bem informado, e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e
-suspeitava de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria,
-e preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei havia
-de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres que haviam
-dirigido o movimento não estavam suficientemente unidos para resistir;
-que os chefes menos cautos dos Mendicantes se haviam de revoltar; e que o
-rei havia de tomar, indescriminadamente, uma furiosa represalia.
-
-Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem de Walcheren;
-reuniram-se em grande numero em Anstruweel, e ameaçaram Antuerpia. Na
-sua marcha, destruiram reliquias e despojaram as egrejas das imagens e
-dos paineis. Egmont, querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre
-esses insurgentes e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.
-
-O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o principe de
-Orange tinha tão exactamente interpretado o curso dos acontecimentos que,
-quando elle ainda ia a caminho do seu voluntario exilio, da Allemanha, ia
-nos Paizes Baixos o duque de Alba, á frente de um novo corpo de exercito
-hespanhol.
-
-=O duque de Alba nos Paizes Baixos.=—Fernando Alvarez de Toledo, duque
-de Alba, era um dos servidores de Filippe II que mais se parecia
-com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um ignorante em todos os
-assumptos politicos e economicos, um avarento, e um impudente enganador.
-Publicações recentes teem demonstrado que elle possuía muito pouco
-do talento que os remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o
-recommendou a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por
-elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, e o
-seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos os impulsos
-de misericordia.
-
-Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava a dissimular.
-Assegurou á regente que não era sua intenção fazel-a substituir por elle,
-e fez todo o possivel para acalmar as suspeitas dos nobres e dos estados
-dos Paizes Baixos. Ao mesmo tempo dava ordem ao duque para acabar com
-a Reforma de um modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de
-todos os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões
-á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por carta, ao duque
-de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais eminentes que haviam tomado
-parte nos tumultos e pôl-os em condições de não tornarem a fazer damno;
-prender e castigar os que de entre o povo estivessem criminosos; obter
-pela violencia todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres
-de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a maxima
-severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização dos novos
-bispados, e punir as cidades rebeldes com a Inquisição e com a imposição
-de subsidios.» As tropas embarcaram em Carthagena, desembarcaram em
-Genova, e marcharam, atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o
-Luxemburgo e Paizes Baixos.
-
-Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o seu desejo
-era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara de um modo que
-agradasse a seu amo. Uma das suas maximas favoritas era: «Antes assolar
-uma nação por meio da guerra, se d’esse modo ella se conservar fiel a
-Deus e ao rei, do que deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus
-adherentes, os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente
-convencido de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso dos
-seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, em pouco tempo
-domesticarei esta gente de manteiga», disse elle, pouco depois de ter
-entrado no paiz.
-
-=A prisão dos Condes Egmont e Horn.=—A primeira coisa que elle fez foi
-lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu á mais vil
-dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, dispensou-lhes todas as
-amabilidades, e fez todo o possivel para os conservar ao seu alcance até
-ter opportunidade da os mandar prender. Ficou muito desapontado quando
-Guilherme de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços
-para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, prendeu o Conde
-Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os n’um carcere.
-
-Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles fidalgos
-tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei. Egmont havia incorrido no
-odio do povo pela firmeza com que procurou reprimir a insurreição, e Horn
-perdera todos os seus bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe.
-Aquellas prisões mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do
-«rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente
-lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella soube em Roma, do feito de
-Alba, perguntou: «Elle tem em seu poder o Silencioso?» E, depois de o
-informarem de que Guilherme estava em liberdade, disse que Alba não tinha
-conseguido coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se lhe
-havia escapado tinha mais valor do que todos os outros juntos.
-
-Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em seguida de
-aterrorisar o povo. Organizou um _Conselho de Disturbios_, que substituiu
-o antigo Conselho de Estado, e que teve a sua primeira, reunião em 20 de
-Setembro de 1567. Este conselho suspendeu todo o julgamento de causas
-pelos tribunaes ordinarios, e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue».
-Alba presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por
-provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel para
-evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia elle, «só
-teem servido até aqui para lavrar a sentença depois de se fazer prova
-do crime; mas agora as coisas passam-se de outra fórma». Este conselho
-de disturbios privava toda a gente das suas garantias individuaes, e ia
-investigar todos os delictos commettidos no passado. A accusação vulgar
-era a de ter conspirado contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem
-do codigo medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os que
-haviam assignado petições para que os edictos contra a heresia deixassem
-de ser applicados, todos os que se haviam, de algum modo, opposto á
-creação dos novos bispados, todos os que haviam dito que o rei tinha
-obrigação de respeitar as liberdades das provincias, eram tidos como
-traidores, e castigados com multas, com prisões e com a pena capital.
-Todos os que eram apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os
-que não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar livre, ou
-que não haviam reagido contra a destruição das imagens, eram egualmente
-tidos como traidores. Era sufficiente a suspeita, dispensava-se a
-convicção, e em tres mezes o Conselho de Sangue enviou para o cadafalso
-mil e oitocentas pessoas. Isto teve logar durante annos. Guilherme de
-Orange pasmava da paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma
-organizada resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o vosso
-espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»
-
-No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos d’elles
-vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das tropas hespanholas,
-roubando egrejas, mosteiros e residencias de clerigos. O paiz havia caido
-na anarquia.
-
-=A guerra civil. O principe de Orange.=—Em 1568 o principe de Orange
-conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. Seu irmão, Luiz
-de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu evitar que o inimigo se
-apoderasse d’essa provincia. O duque de Alba marchou então contra os
-protestantes. Antes de se pôr a caminho, porém, executou, para espalhar
-o terror na capital, vinte membros da nobreza, e entre elles os condes
-Egmont e Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente
-com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo o
-exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. Regressou depois a
-Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho de Sangue.
-
-O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a vau o Meuse,
-chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos soldados, marchou sobre
-o Brabant, e procurou dar batalha a Alba. O duque, que conhecia a sua
-inferioridade, diligenciou evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas
-marchas, e desalental-as. O exercito protestante, que era composto, na
-sua maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente
-o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam sempre de mau
-partido, viu-se obrigado, com a approximação do inverno, a licenciar
-as suas tropas. Uma parte do exercito, composta de neerlandezes,
-conservou-se junto d’elle; e o principe de Orange, com os seus dois
-irmãos (o terceiro havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e
-foi em auxilio dos huguenotes francezes.
-
-Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe chamavam,
-tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia combatido contra os
-hespanhoes mais por patriotismo do que por motivos religiosos; mas
-durante o segundo desterro, quando a situação da sua patria se tornou
-extremamente precaria, transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as
-verdades da religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde
-esse tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso,
-descançando confiadamente na direcção e protecção de Deus.
-
-=Os mendigos do mar.=—A parte mais valente da população neerlandeza eram
-os marinheiros e os habitantes da costa, que luctavam quotidianamente com
-as ondas do oceano germanico. Essa gente tinha, em grandissima parte,
-acceitado as doutrinas dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o
-amor da liberdade, a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e
-a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso
-chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do principe de Orange
-para a utilidade de constituir com estes marinheiros, pescadores e
-traficantes maritimos uma força naval.
-
-Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua obra de execução
-por meio do fogo, da agua e da decapitação, o principe conseguiu
-pôr-se em communicação com os marinheiros e pescadores hollandezes.
-Tinha resolvido crear uma armada para dar caça aos navios hespanhoes,
-e conservar acceso o espirito patriotico das provincias. Deu as suas
-instrucções aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e os
-«Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror dos hespanhoes.
-Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao principio, as suas
-tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, mas, em virtude de
-uma reclamação do embaixador hespanhol, a rainha Isabel prohibiu que
-desembarcassem em Inglaterra. Viram-se compellidos a saquear as costas da
-Hollanda, tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como em
-terra.
-
-O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. As suas
-proscripções e execuções haviam diminuido muito a população. O commercio
-tinha chegado á ultima; da agricultura ninguem cuidava; as industrias
-estavam paralysadas. Alba estava embaraçado por não ter dinheiro com
-que pagasse ás tropas. Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que
-havia de fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse um
-rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um leigo no que diz
-respeito a economia politica, e não comprehendia que com as disposições
-que tomara havia feito seccar os mananciaes da riqueza, transformando
-em poucos annos um paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria
-possivel extrair dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim
-estabeleceu novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição
-que em Hespanha estava matando a vida commercial, e propoz o introduzil-a
-nos Paizes Baixos.
-
-O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda a propriedade;
-esse imposto ficou sendo chamado a _Centesima_. A accrescentar a isto,
-ficava-se tambem na obrigação de contribuir com cinco por cento, ou seja
-a vigesima parte, de todas as rendas de terras, ou bens immoveis, e com
-dez por cento, ou a decima parte, de todas as vendas de generos ou de
-bens moveis. Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava a
-ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio n’uma terra
-onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição do que tudo
-quanto Alba tinha até então posto em pratica. A primeira provincia que
-protestou foi a de Utrecht, e logo depois todas as outras fizeram coro
-com ella. Alba, comtudo, estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder
-dependia do exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém,
-que tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para de ali
-a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, a pôr desde
-logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens terminantes para
-se começarem a cobrar os dez e os vinte por cento. O resultado foi parar
-logo todo o commercio e industria. Os padeiros não quizeram cozer pão,
-os cervejeiros não quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se
-a fazer calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira
-necessidade. E, como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto
-sobre as vendas não podia ser cobrado.
-
-=A tomada de Brill.=—Emquanto os estados permaneciam n’uma insurreição
-passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», organizada por Guilherme,
-guerreava incessantemente os hespanhoes, e, com uma ousadia que o bom
-exito até ali alcançado lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn,
-e tomaram a cidade de Brill, que era considerada uma das chaves da
-Hollanda. A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre
-toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que ficou
-devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.
-
-De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente senhores
-dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve incerta durante muito tempo,
-mas houve sempre uma parte do territorio flamengo independente de
-Hespanha. Os «Mendigos do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram
-repetidos ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes
-cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando por
-proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da nação. O principe
-acceitou esse perigoso cargo. Estava em França quando lhe deram a
-noticia, e, disfarçando-se de camponez, atravessou as linhas do inimigo,
-e deu-se pressa em tomar o commando dos insurgentes. Antes de chegar até
-junto d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu favor.
-Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou Dort, onde de eommum
-accordo se resolveu estabelecer uma nova constituição, e, por unanimidade
-de votos, o principe foi reconhecido «o verdadeiro representante do rei
-na Hollanda, Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos,
-convieram em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em
-proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar
-liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.
-
-Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, atravessando
-o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas outras cidades. Foi
-acclamado em toda a parte, e a sua marcha foi tão facil que elle contava
-chegar em pouco tempo a Bruxellas. Uma vez lá, confiou na promessa que
-Coligny lhe fez de o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio
-flamengo. Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que
-chega uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas
-proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça». Coligny
-e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na vespera de S.
-Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. Tornava-se necessario
-abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha tomado pouco antes; e o exercito
-do principe, apoz a retirada, foi dispensado do serviço.
-
-Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, Mechlin, Tergoes,
-Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da capitulação de Mons foram
-ignominiosamente violadas. Mechlin foi, de caso pensado, saqueada e
-incendiada pelas tropas hespanholas. O general a quem foi confiado o
-esbulho de Zutphen recebeu ordem para queimar todas as casas e matar
-todos os habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente,
-e por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. Quando
-os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue frio, todos os
-soldados hollandezes, e com elles muitos centos de cidadãos, e, ligando
-os corpos a dois e dois, lançaram-n’os na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia
-que os catholicos romanos tinham resolvido exterminar os protestantes
-quando vissem que não podiam convertel-os.
-
-Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava
-inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo de
-Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, sendo obrigado a
-retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente á esquadra hespanhola
-que fôra enviada para os destroçar, dispersaram os navios e fizeram
-prisioneiro o almirante. A nação de pescadores e de lojistas, de quem
-a Hespanha e a Europa haviam escarnecido por verem a paciencia com
-que supportavam as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça
-de heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol.
-Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento para
-o outro uma importante personagem na Europa, que os reis precisariam de
-lisongear. Publicou uma carta dirigida aos principes da christandade,
-para justificar a revolta dos seus compatriotas. «Alba», disse elle,
-«ha de tingir todos os rios e regatos com o nosso sangue e pendurar
-em cada arvore da Hollanda um hollandez para que os seus desejos de
-vingança fiquem satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em
-defeza das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais força
-do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, e legar um
-nome aureolado de gloria, do que curvar os pescoços deante do jugo e
-permittir que a nossa terra fique escravisada. É por isso que as nossas
-cidades se comprometteram a resistir a todos os cercos, a soffrer todas
-as calamidades, a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e
-deixar-se morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer ás
-intimativas d’esse algoz sedento de sangue».
-
-A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de toda a
-confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca que o mandasse
-retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, considerou sempre
-efficacissimo o seu systema, mesmo depois dos revezes soffridos. Era
-sua opinião que se tivesse sido um pouco mais severo, se tivesse
-accrescentado mais algumas gotas do sangue que fez derramar, o seu exito
-seria completo. Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do
-cargo que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor senão
-o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera pôr uma guarnição
-hespanhola.
-
-=Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.=—A pessoa que Filippe
-II escolheu para substituir o duque de Alba foi D. Luiz Requescens y
-Zuniga, membro da mais alta aristocracia de Hespanha e cavalleiro de
-Malta. Era elle um homem de indole magnanima, de nobre caracter, e, se
-tivesse sido enviado á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse
-paiz teria sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de
-mais, e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, n’aquella
-epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado numero de soldados.
-Os patrioticos defensores da Hollanda não poderiam leval-a de vencida em
-campo aberto; comtudo, o novo commandante hespanhol não os intimidou. Em
-todas as cidades fortificadas se luctava com a energia do desespero, e os
-«Mendigos do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, aos
-patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois de observar tudo
-isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada aqui, não comprehendia
-como os rebeldes podiam sustentar frotas tão consideraveis, quando
-vossa magestade nem uma, sequer, podia. Agora vejo que os homens que se
-batem pelas suas vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua
-religião, embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; dão-se
-por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo de adoptar um
-methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu os odiados impostos,
-dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou uma amnistia geral. Procurou
-também chegar a um accordo com os insurrectos.
-
-Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma amarga
-experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos ouvido demasiadas
-vezes», disse Guilherme, «as palavras Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo
-que dessemos ouvidos ás vossas propostas, quem nos garante que o rei
-as não daria depois por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto
-pelo papa?» A lucta continuou, portanto, e Requescens, que detestava a
-politica do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa
-mesma politica havia provocado.
-
-A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes tinham
-saido sempre victoriosos em campo aberto, e quando no principio da
-primavera de 1574 Guilherme e seu irmão Luiz entraram na Hollanda á
-frente de um novo exercito composto, na sua maioria, de mercenarios
-allemães, alcançaram outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva,
-segundo pareceu, do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente.
-O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo os seus
-dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, Conde Palatino. Mais
-uma vez se afigurou que os hollandezes acabariam, por fim, n’uma completa
-submissão aos hespanhoes. Como sempre, porém, os heroes da patria,
-vencidos em terra, eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas
-combateu-se com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam
-deixar de reconhecer a sua derrota.
-
-Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota no principio d’esse
-anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se de quarenta navios e
-mettendo o resto no fundo.
-
-=O cerco de Leyden.=—A cidade conservava-se havia muito tempo em poder
-dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo empenho em se apoderar
-d’ella. Luiz de Nassau fez levantar o primeiro cerco que lhe pozeram,
-mas desde maio de 1574 que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos
-ataques. Não foi possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker
-Haide, encontrar-se frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava
-de todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas. Leyden
-estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia enviar soccorro
-algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia de pomares e de searas que
-já pouco tempo esperariam pela ceifa, e esta planicie, como quasi todas
-as da Hollanda, estava abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte,
-facil inundal-a, bastando para isso destruir os diques que se oppunham
-á invasão das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão
-fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou esse alvitre
-aos respectivos habitantes, que o acceitaram. Foram, pois, abertos os
-diques, e a esquadra dos «Mendigos do Mar» preparou-se para entrar com
-a maré e navegar em seguida sobre submersas hortas, pomares e campos de
-semeadura. O plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma
-de difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques; a
-agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos a impelliam
-para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez mais escassos na cidade,
-e a faminta população, subindo aos campanarios, via a agua sempre lá
-ao longe, via que os soccorros se approximavam muito vagarosamente,
-como se nunca houvessem de chegar, ou então como se houvessem de chegar
-tarde de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria
-em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e uma honrosa
-capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto das muralhas um dos
-defensores, «e quando a fome nos apertar muito comemos o esquerdo, e
-deixamos o outro para manejar a espada». Quatro mezes se passaram n’um
-indescriptivel soffrimento, e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao
-sopé das fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes
-fugiram aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre elles,
-soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos do que papistas».
-Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se á sumptuosa egreja
-para dar graças a Deus pelo livramento que, por Sua misericordia, lhes
-viera do mar. Quando a numerosa congregação estava entoando um psalmo de
-libertação, as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços.
-Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas privações, tendo
-agora uma consciencia nitida do seu inesperado livramento, se pozera a
-chorar.
-
-A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que chegou a esta
-localidade quando o principe de Orange estava assistindo ao serviço
-religioso da tarde, sendo só depois de elle terminar que o povo soube do
-succedido. O principe, apezar de doente, montou a cavallo, e partiu logo
-para Leyden, para tomar parte no regozijo publico. Propoz que, em acção
-de graças, se fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi
-assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade tornou-se
-o centro do protestantismo das provincias. Picou sendo na Hollanda o que
-Wittenberg era na Allemanha, Genebra na Suissa, e Saumur em França.
-
-=Negociações entre as provincias do sul e as do norte.=—O levantamento
-do cerco de Leyden mareou um novo periodo na guerra da independencia.
-O oommissario hespanhol via que se estava formando, vagarosa e quasi
-imperceptivelmente, um novo estado protestante, e as difficuldades que
-de todos os lados o assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava
-elle luctando com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576.
-A sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola, e os
-acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos neerlandeses que eram
-catholicos romanos aonde o governo hespanhol poderia tel-os conduzido.
-A morte de Requescens produziu uma certa perturbação na politica
-hespanhola. Desde o tempo do duque de Alba o pagamento das tropas
-tinha sido feito com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam
-despejados, e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de
-soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse liquidada,
-revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear qualquer cidade»,
-era o seu grito. A guarnição de Aalst foi a primeira a revoltar-se, sendo
-secundada pelas de quasi todas as cidades fortificadas das provincias
-do sul. Os revoltosos pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat
-e Antuerpia. Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e
-assassinio e durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e
-opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia ser
-exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal.
-
-O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar com as
-suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da importante cidade de
-Ghent. Os habitantes das provincias do sul tanto nobres como plebeus,
-tinham, por sua vez, sido victimas de aquellas horrorosas calamidades
-que os seus compatriotas os protestantes do norte, tinham, havia muito,
-experimentado. Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou
-em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de Flandres e de
-Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias do norte; e pediram
-a Guilherme que os livrasse dos hespanhoes. Em Ghent realisou-se um
-congresso de representantes das provinciais do norte e do sul, ficando
-assentes os preliminares de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou
-a _Pacificação de Ghent_, que foi assignada por delegados de dezesete
-provincias.
-
-Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se uma completa
-liberdade de commercio entre as provincias do norte e as do sul, ficavam
-revogados todos os edictos contra os protestantes, concedia-se protecção
-aos catholicos romanos, todas as provincias se uniam para constituir
-um unico Estado, e o principe de Orange ficava sendo _statholder_ até
-posterior decisão, que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes.
-
-=D. João de Austria nos Paizes Baixos.=—A _Pacificação de Ghent_ alarmou
-em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria, irmão de
-Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado aos Paizes Baixos
-na qualidade de _statholder_ com plenos poderes. Os estados recusaram
-reconhecel-o emquanto elle não fizesse sair as tropas hespanholas.
-Apoz algumas negociações, as provincias obtiveram, apparentemente,
-que elle attendesse ás suas aspirações com a publicação do _Edictum
-Perpetuum_, que garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para
-com os protestantes, e a unificação dos estados; por algumas cartas
-confidenciaes que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e o
-seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão, e o
-conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos romanos do sul
-com os protestantes do norte. Os Estados Geraes não reconheceram a
-sua auctoridade, e designaram o principe de Orange para governador de
-Brabante. Havia, comtudo, muita difficuldade em que o norte e o sul se
-unissem por laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles
-tempos, em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma
-violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente. Os
-nobres de Flandres e de Brabante representavam dois papeis, e essa sua
-duplicidade animou D. João de Austria a atacar as forças do principe
-de Orange. A guerra terminou com a batalha de Gemblours, em que os
-hespanhoes alcançaram uma completa victoria. O principe, comtudo,
-mostrou-se, como sempre, tão grande na derrota como na victoria, e
-o _statholder_ sentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da
-Hollanda, se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas
-estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe Alexandre de
-Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de Filippe.
-
-=Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.=—Alexandre Farnese, principe de
-Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado anteriormente
-aquelle cargo, e, no dizer de alguns auctores, foi o ultimo dos grandes
-homens que a Hespanha possuiu no seculo dezeseis. Era um excellente
-general, um habil politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas
-provincias n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força era a
-rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul catholico romano.
-
-O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias do norte
-suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido nos negocios de
-que resultou a batalha de Gemblours. As provincias do sul não queriam
-submetter-se á dominação dos herejes do norte. Alexandre aproveitou-se
-habilmente d’esta desunião para prender as provincias do sul á Hespanha,
-com o inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram
-mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos na sua
-determinação de permanecerem livres.
-
-=O Tratado de Utrecht.=—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia, Guelders,
-Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se representar n’uma
-assembléa, e redigiram o celebre Tratado de Utrecht, que continha, em
-esboço, a futura constituição das provincias unidas. As Sete Provincias
-não se separaram da Hespanha. Diziam-se ainda subditas da corôa
-hespanhola, mas reivindicavam o direito de darem culto a Deus e de se
-governarem segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram
-inteiramente o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia,
-escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo. Isto teve
-logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação de Filippe, em que
-este denunciava Guilherme como um inimigo da humanidade, e offerecia uma
-recompensa de vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo
-de nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente, a
-quem assassinasse o principe.
-
-Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram attingindo
-gradualmente uma completa independencia politica e tornaram-se uma
-potencia protestante. Guilherme da Orange foi em 1584, morto a tiro por
-um fanatico catholico romano chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram
-e obtiveram parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não
-terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para Governador
-em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete annos, mas
-já educado por seu pae para ser um habil general e um prudente chefe
-politico. Poz-se resolutamente á testa de aquelle conflicto com a
-Hespanha, que parecia interminavel. Isabel de Inglaterra prestou-lhe o
-seu auxilio, com o qual ella ficou mais prejudicado do que outra coisa.
-Depois da destruição da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na
-monarquia hespanhola, alcançou uma notavel victoria sobre as tropas
-catholicas romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora
-vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes abalaram
-fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos navios que voltavam
-das indias Occidentaes e Orientaes, carregados de preciosidades. Em 1607
-combinou-se um armisticio, e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas
-durante doze annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz
-definitiva. Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia, e
-constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia no mar só era
-disputada pela Inglaterra.
-
-=A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.=—Durante os annos de
-dura perseguição que o protestantismo soffreu nos Paizes Baixos desde o
-principio da sua existencia, os protestantes, não obstante os rigores
-postos em pratica contra elles, poderam organizar-se sob a fórma de
-egreja, e publicar uma confissão. Isto não foi feito sem dificuldades,
-que até entre elles proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos
-tinham recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que
-só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia chegado ao
-seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos Paizes Baixos haviam
-aprendido o Evangelho em Wittemberg, com Luthero, e nas provincias do
-norte eram numerosos os lutheranos. Um pouco mais tarde as opiniões
-de Zwinglio penetraram na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que
-tomavam muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul a
-Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes, educados no
-calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia adherentes de Luthero, de
-Zwinglio e de Calvino. Cada um dos partidos differençava-se dos outros,
-especialmente pelo que dizia respeito ao governo da egreja; e, posto
-que estas differenças fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde
-na contestação que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante,
-acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o calvinismo
-foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo, e a egreja dos
-neerlandezes tornou-se calvinista, tanto na doutrina como na disciplina.
-
-=A Confissão Hollandeza.=—N’uma epoca relativamente afastada, isto é,
-em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor flamengo, Guido de
-Brés, juntamente com Adriano de Saravia, Modetus, capellão de Guilherme
-de Orange, e Wingen, prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles,
-justificar pela Escriptura a religião reformada.
-
-Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e martyres dos
-Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de Mons. Havia estudado para
-padre, e converteu-se dos erros do romanismo mediante o estudo das
-Escripturas Sagradas. Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra,
-onde, nos dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois
-para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista no norte da
-França e no sul dos Paizes Baixos. Era um ardente admirador da Confissão
-da Egreja Franceza, e modelou a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela
-celebre _Confessio Gallica_.
-
-Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi revista por
-Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi apresentada ao rei,
-Filippe II, em 1562, assim como a Confissão de Augsburgo foi apresentada
-a seu pae Carlos V. O eloquente discurso que acompanhou a Confissão pode
-ser comparado á dedicatoria a Francisco I, que prefaciou os _Institutos_
-de Calvino. Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e
-declaram que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo a
-consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão a Christo, ainda
-mesmo que tenham, segundo a linguagem que empregaram, de «offerecer as
-costas ás chibatas, as linguas ás facas, e os corpos ao fogo, certos
-de que os que seguem a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e
-renunciar-se a si proprios».
-
-Esta Confissão, gradualmente adoptada pelos protestantes dos Paizes
-Baixos, introduziu o calvinismo nas egrejas d’essa parte do mundo.
-
-=A Constituição da Egreja Hollandeza.=—Em 1563, isto é, quando ainda
-havia perseguição, os delegados de varias congregações protestantes
-reuniram-se em synodo, e concordaram n’um systema de governo de egreja,
-que copiou, em grande parte, os seus principios das _Ordenanças
-Ecclesiasticas_ de Genebra; e a constituição da egreja, quasi desde o seu
-inicio, foi baseada no modelo de Genebra. A organização presbyteriana,
-com pastores, professores, presbyteros e diaconos, não foi adoptada nos
-Paizes Baixos sem protesto da parte dos lutheranos, mas quando veiu sobre
-elles a feroz perseguição do duque de Alba a fórma presbyteriana do
-governo da Egreja foi a que melhor resistiu a todos os embates, sendo por
-fim a que se tornou preponderante. O systema consistorial de Luthero é
-apenas possivel quando o Estado esteja em favoraveis disposições para com
-a egreja, mas o presbyterianismo, como a França, a Escocia e os Paizes
-Baixos mostraram, pode manter-se, até mesmo quando a «Egreja sentir o
-peso da cruz.»
-
-N’uma assembléa da Egreja que teve logar em Dordrecht, em 1574, a
-primeira assembléa geral da Egreja Hollandeza, foi revista, ampliada e
-formalmente adoptada uma serie de artigos que já haviam sido approvados
-n’uma reunião em Emden, e que continham os principaes elementos da
-organização presbyteriana. Todos os ministros tinham de obedecer ás
-_assembléas classicas_, ou presbyterios; e todos os presbyteros e
-diaconos tinham de assignar a Confissão de Fé e os artigos respeitantes
-ao governo da Egreja.
-
-Torna-se necessario explicar duas particularidades do presbyterianismo
-hollandez. As sessões da egreja não são, como na maioria das outras
-egrejas presbyterianas, assembléas congregacionaes que se occupem do
-governo de uma congregação. A sessão da egreja é composta de ministros e
-presbyteros de um certo numero de congregações, e, a certos respeitos,
-assimilha-se a um presbyterio. E, comtudo, como as das outras egrejas
-presbyterianas, o tribunal de primeira instancia.
-
-A outra particularidade da organização da Egreja hollandeza consiste em
-que raras vezes podia deliberar como egreja. Isto era devido em parte
-ao ciume do Estado protestante, e em parte á constituição politica
-das Provincias Unidas. A Hollanda, ou as Provincias Unidas, era uma
-confederação de estados, a muitos respeitos independentes uns dos outros.
-A Reforma tendia a descentralizar a Egreja, e a produzir uma organização
-ecclesiastica separada para cada estado politico independente. Tambem
-se notava na Hollanda a tendencia para a formação de tantas egrejas
-separadas quantas eram as provincias.
-
-As Sete Provincias não constituiam uma nação; constituiam, antes, uma
-confederação. Tinham-se obrigado a proteger-se umas ás outras na guerra,
-e, portanto, a manter um exercito commum, e a contribuir para um fundo
-militar commum; mas não formavam um estado. Os negocios internos de cada
-provincia estavam sob a superintendencia de cada estado separado.
-
-Quando Guilherme de Orange foi eleito governador vitalicio, uma das
-clausulas a que elle ficava obrigado era a de que não reconheceria
-qualquer concilio ou consistorio ecclesiastico que não tivesse a
-approvação da provincia em que propozesse reunir-se. Os negocios
-religiosos de cada provincia tinham de ser regulados por essa provincia.
-
-Isto dava um aspecto de divisão á Egreja hollandeza, e impedia,
-realmente, a acção incorporada e unida. A Egreja só podia reunir-se em
-assembléa geral quando todas as Sete Provincias concordassem em dar-lhe
-permissão. Este embaraço politico obstou muito á utilidade e influencia
-da Egreja Reformada Hollandeza, e deu logar a uma continua lucta, na
-Hollanda, entre a Egreja e o Estado.
-
-=A força da Egreja na Hollanda.=—A prolongada peleja de quarenta e
-cinco annos contra a Hespanha e o papismo parecia estimular as energias
-da Egreja hollandeza e das suas universidades, e os seus collegios
-theologicos em breve rivalizaram com mais antigas sédes de instrucção. A
-universidade de Leyden, erguida em acção de graças quanto a uma milagrosa
-libertação, foi fundada em 1575; Franecker começou a existir dez annos
-depois (1585); as universidades de Gröningen (1612) Utrecht (1636) e
-Harderwyk (1648) seguiram em successão apoz alguns annos de intervallo.
-Todas estas universidades eram escolas theologicas, frequentadas por
-alumnos procedentes de quasi todos os paizes protestantes da Europa. Os
-theologos hollandezes do seculo dezesete tornaram-se famosos quanto á sua
-erudição, zelo e agudeza theologica. Quando surgiu a grande controversia
-armenia, que agitou mais tarde a Egreja hollandeza, os theologos da
-Hollanda foram os que na Europa se celebrizaram mais, tanto pelo que diz
-respeito á illustração como pelo que diz respeito á orthodoxia.
-
-A Confissão de Westminster, que se tornou o credo da maior parte das
-egrejas presbyterianas em paizes onde se fallava a lingua ingleza, é em
-grande parte baseiada na antiga Confissão Hollandeza; e os theologos que
-coordenaram os seus artigos copiaram muita coisa d’esses reformadores
-hollandezes recentemente emergidos da sua terrivel e prolongada lucta com
-o papismo hespanhol.
-
-
-
-
-CAPITULO V
-
-A REFORMA NA ESCOCIA
-
- Preparação para a reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica
- o a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag.
- 138.—A Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia
- e a situação politica, pag. 142.—João Knox, pag. 141.—A
- Congregação e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão
- escoceza_, pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.—O
- _Livro de Disciplina_, e a _Primeira Assembléa Geral_, pag.
- 147.—A educação, pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos
- tulchanos, pag. 150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro
- de Disciplina, pag. 152.
-
-
-=Preparação para a Reforma.=—A Escocia, longe do centro da vida europeia
-no seculo dezeseis, recebeu, apezar d’isso, a Reforma quasi tão cedo como
-a maioria dos outros paizes, e acceitou-a mais completamente do que elles.
-
-A região tinha sido preparada para ella mediante a educação do povo,
-mediante o constante commercio entre a Escocia e as nações continentaes,
-especialmente a França e a Allemanha, e mediante a sympathia dos
-estudantes escocezes para com os primeiros movimentos religiosos na
-Inglaterra e na Bohemia; e por outro lado a condição da Egreja romana,
-a pobreza das classes aristocraticas, e a situação politica do paiz
-coadjuvaram em certa escala os esforços de aquelles que anhelavam por uma
-reformação religiosa na Escocia.
-
-=A antiga Egreja celtica e a Educação.=—A antiga Egreja celtica na
-Escocia, que havia conservado a sua influencia no paiz durante perto
-de setecentos annos, tinha sempre considerado a educação do povo como
-um dever religioso. Os seus regulamentos declaram que é tão importante
-ensinar os rapazes e as raparigas a ler e a escrever como administrar os
-sacramentos ou tomar parte na _intimidade das almas_, que era o nome que
-davam á confissão. O mosteiro celta era sempre um centro educativo, e
-n’alguns casos a instrução ahi ministrada era a melhor que se podia obter
-fóra de Constantinopla. Carlos Magno, ao estabelecer aquellas escolas
-superiores, que depois se tornaram as mais antigas universidades da
-Europa, procurou nos mosteiros celtas os primeiros professores. Quando
-a Egreja celta da Escocia cedeu o logar á Egreja romana, o seu systema
-educativo foi, em grande escala, adoptado, e a educação na Escocia
-continuou a ser muito melhor do que se poderia esperar do seu estado de
-civilisação.
-
-As escolas cathedraes e monasticas produziram um grande numero de
-professores e alumnos que desejavam ver os seus trabalhos continuados
-n’uma universidade como as que n’aquella epoca estavam apparecendo em
-toda a Europa.
-
-Ao principio os poucos recursos do paiz obstavam á fundação de
-universidades na Escocia, e mediante uma provisão feita pelo rei e
-pelos bispos foram enviados os melhores estudantes a Oxford, Cambridge
-e Paris. Professores viajantes foram da Escocia, com um certo numero
-de estudantes, aos centros, inglezes e continentaes, de instrucção. E
-era frequente que os jovens escocezes permanecessem fóra da patria na
-qualidade de leccionistas ou estudantes nomadas.
-
-=A Escocia e o lollardismo.=—Este contacto academico approximou muito
-a Escocia dos grandes movimentos intellectuaes da Europa. No período
-em que os estudantes escocezes iam em grande numero para Oxford,
-Wycliffe exercia o professorado, e o lollardismo triumphava na grande
-universidade ingleza. Os estudantes escocezes voltavam contaminados
-com as maximas constitucionaes e as aspirações religiosas dos grandes
-homens de Inglaterra, e o lollardismo propagou-se na Escocia. Depois das
-universidades de Aberdeen, Glasgow e St.º André terem sido fundadas,
-no seculo quinze, os velhos arquivos dizem-nos que as auctoridades
-ecclesiasticas effectuaram inspecções com o fim de expurgar o corpo
-docente dos erros de Lollard. A seu devido tempo, o lollardismo passou
-das universidades para o publico, e os primeiros chronistas da Reforma
-nunca deixam de se referir aos lollards, ou homens biblicos de Kent, e á
-entrevista que tiveram com James IV.
-
-Havia estudantes escocezes em Paris quando Pedro Dubois, Marsilio de
-Padua e Guilherme de Ockham ensinavam publicamente que a egreja è o povo
-christão, e que pode existir uma egreja sem papa e sem padres.
-
-=A Escocia e Huss.=—A Bohemia e os actos de João Huss n’esse paiz eram
-bem conhecidos na Escocia. Calderwood falla-nos de Paulo Craw, bohemio
-que foi convencido de heresia a instancias de Henrique Wardlaw, bispo de
-St.º André, perante sete doutores em theologia, por divulgar as doutrinas
-de João Huss e de Wycliffe, «negando que houvesse qualquer modificação da
-substancia do pão e do vinho na Ceia do Senhor, e reprovando a confissão
-auricular e as orações aos santos defuntos.» Foi condenado á fogueira,
-e no momento da execução «metteram-lhe uma bola de cobre na bocca; para
-que o povo não ouvisse o seu justo protesto contra a injusta sentença
-d’elles.» Recentes investigações arqueologicas teem tornado evidente uma
-mais intima connexão entre a Escocia e a Bohemia do que até então se
-suspeitava.
-
-=A Egreja romana na Escocia o a situação politica.=—A Egreja romana na
-Escocia era muito rica, e era talvez mais corrupta do que em qualquer
-outra parte fóra da Italia. A herança que lhe foi legada pela Egreja
-celta não era toda boa; os satyricos tinham começado a chamar a attenção
-para o contraste entre as profissões e as vidas dos ecclesiasticos,
-e os seus livros produziam grande impressão no povo baixo. «Quanto
-aos modos mais particulares por que muita gente na Escocia adquiriu
-algum conhecimento da verdade de Deus na epoca das grandes trevas,»
-diz João Row, «havia alguns livros, taes como _Sir David Lindsay, e as
-suas poesias ácerca das Quatro Monarquias_, que trata tambem de muitos
-outros pontos, e expõe os abusos do clero de aquelle tempo; os _Psalmos
-de Wedderburn_ e as _Balladas de Godlie_, em que se alteram para fins
-piedosos muitos dos antigos canticos papistas: e uma _Queixa_ feita
-pelos estropiados, cegos e pobres de Inglaterra contra os prelados,
-padres, freiras e outras individualidades da egreja que dispendiam
-prodigamente todos os dizimos e outros rendimentos ecclesiasticos em
-prazeres illicitos, de modo que elles, os queixosos, não podiam adquirir
-alimentação nem allivio, como Deus tinha ordenado. Estas coisas foram
-impressas, e penetraram na Escocia. Havia tambem peças dramaticas,
-comedias e outras historias notaveis, que eram representadas em publico;
-a _Satyra_ de Sir David Lindsay foi representada no amphitheatro de S.
-Johnston (Perth), na presença do rei James V, e de uma grande parte da
-nobreza e da classe abastada, durando a representação um dia inteiro,
-e fazendo sentir ao publico as trevas em que estava envolvido, e a
-perversidade dos homens da egreja, e mostrando-lhe como a Egreja de Deus
-seria se fosse dirigida de uma maneira differente, o que tudo foi muito
-benefico n’aquella ocasião.
-
-As riquezas da Egreja romana da Escocia tinham, havia muito, excitado a
-inveja dos barões, que esperavam a ocasião em que podessem, sem risco,
-apoderar-se de parte dos bens ecclesiasticos. Durante muito tempo não
-occorreu similhante opportunidade. O clero era um senhorio que gozava da
-estima geral. Os vassallos da Egreja estavam em muito melhores condições,
-e tinham uma vida mais descançada, do que aquelles que cultivavam as
-terras dos barões e de outras personagens de menor cathegoria. Os
-camponezes escocezes rir-se-hiam, talvez, com as satyras de David
-Lindsay, mas gostavam da Egreja, e perdoavam-lhe os defeitos.
-
-Quando os prégadores escocezes que tinham estado em Wittenberg, ou que
-tinham estudado as obras de Luthero e dos outros reformadores, ou que
-sabiam pela Escriptura o que era desejar ardentemente o perdão e a
-salvação, começaram a prégar um Evangelho reformado, então, e só então,
-é que o povo principiou a comprehender a mordaz significação das satyras
-que alvejavam a clerezia. As auctoridades ecclesiasticas fizeram todo
-o possivel para supprimir estes reformadores. Patricio Hamilton, Jorge
-Wishart e muitos outros prégadores cheios de fervor e de espiritualidade
-foram martyrisados; e estas crueldades contribuiram mais do que os
-sermões ou as satyras para que o povo escocez se desgostasse da Egreja
-romana. A sanguinaria Maria tinha tornado a Inglaterra protestante; e
-o cardeal Beaton, com os seus homicidios judiciaes, e particularmente
-com o homicidio do velho Walter Mill, fez com que o povo da Escocia se
-preparasse para Knox e para os lords da Congregação.
-
-Durante umas poucas de gerações a politica exterior da Escocia tinha
-sido de inimizade para com a Inglaterra e de amizade para com a França.
-A alliança com esta nação havia motivado o casamento da James V com uma
-princeza da casa de Guise, e, mais tarde, os esponsaes e casamento da
-herdeira do throno da Escocia com o delphim da França. James V morreu,
-ficando regente a rainha franceza, cuja conducta incutiu nos espiritos
-de muitos escocezes o receio de que a Escocia viesse a tornar-se uma
-provincia de França. Tinham sido nomeados francezes para cargos de
-confiança na Escocia; o castello de Dunbar tinha uma guarnição franceza;
-e a regente projectava crear um exercito permanente, segundo o systema
-francez. Este alarme foi tomando tal vulto que o partido nacional, que
-por fim triumphou, chegou a inverter a politica hereditaria da Escocia,
-e ficou tendo por objecto uma alliança com a Inglaterra e uma guerra
-com a França. A Inglaterra era protestante, emquanto que os verdadeiros
-senhores da França eram os Guises, os cabecilhas do fanatico partido
-romanista, os homens que planearam a carnificina de S. Bartholomeu.
-
-Tal era o estado das coisas na Escocia quando João Knox começou a sua
-admiravel obra de reformador.
-
-O povo estava educado acima da sua civilisação, e podia comprehender
-e saudar as novas idéas, tendo, como tinha, costumes grosseiros, e
-vivendo, como vivia, uma vida rude. A egreja tinha perdido a confiança da
-nação em virtude da immoralidade do clero, e por ultimo tinha excitado
-as paixões do povo contra si com a sua cruel perseguição de homens de
-uma vida immaculada que prégavam um Evangelho puro. Alguns dos barões
-tinham partilhado a revivificação religiosa começada pelos prégadores
-reformados; outros estavam anciosos por livrar o paiz do dominio francez,
-e outros, ainda, queriam a todo o transe seguir o exemplo da Inglaterra
-e enriquecer á custa da egreja. Todos estes motivos, uns puros e outros
-não, estavam agitando o povo da Escocia nos annos que precederam o de
-1560.
-
-=João Knox=, nascido em Giffordsgate, nos arredores de Haddington, em
-1505, educado na universidade de Glasgow, e ordenado padre em 1542,
-tornou-se primeiramente conhecido do povo da Escocia quando, muito novo
-ainda, andou em companhia de Jorge Wishart para proteger este prégador
-reformado emquanto elle dirigia a palavra a immensos auditorios.
-Depois do martyrio de Wishart, e do assassinio do cardeal Beaton, Knox
-aggregou-se á facção que havia tomado de assalto o castello de St.º
-André. Quando os defensores se viram forçados a capitular, os poucos
-membros da guarnição que estavam, incluindo Knox, foram enviados para
-França e condemnados á escravidão das galés. N’uma occasião em que puxava
-pelos remos, foi-lhe apresentada uma imagem da Virgem, de pau, para elle
-a beijar como meio de adoração. Knox recusou-se a honrar «o madeiro
-pintado», e atirou com a imagem ao mar, dizendo que, como ella era de
-pau, «não havia de ir para o fundo». Apoz um captiveiro de dezenove
-mezes, elle, juntamente com outros que haviam sido aprisionados em
-St.º André, foi solto a pedido de Eduardo VI de Inglaterra. Restituido
-á liberdade em fevereiro de 1549, foi direito a Inglaterra, onde se
-empregou como prégador viajante. A sua eloquencia, zelo e incomparavel
-coragem em breve o collocaram em primeiro plano. Foi-lhe offerecida a
-diocese de Rochester, mas recusou-a sob o fundamento de que não era sua
-crença que similhante cargo fosse auctorizado pelas Escripturas. Foi
-consultado ácerca da revisão dos _Artigos da Religião_, e suggeriu a
-celebre _declaração sobre o assumpto de ajoelhar na Communhão_, que ficou
-inserta no Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI (1552). A subida
-de Maria ao throno obrigou-o, apoz uma arrojada tentativa de proseguir na
-sua obra de prégador nomada, a retirar-se para o continente.
-
-Um anno foi gasto a visitar varias localidades da França e da Suissa. Em
-Genebra tornou-se o intimo amigo de Calvino. Apoz uma curta estada em
-Frankfort sobre o Maine, onde foi pastor da congregação de refugiados
-inglezes que se haviam ajuntado ahi, tornou-se o pastor da Congregação
-ingleza de Genebra em 1555. Durante a sua curta permanencia ahi tomou
-parte na composição de aquelle directorio do culto publico, que, sob os
-varios nomes de Livro de Ordem Commum, Livro de Genebra e Lithurgia de
-Knox, serviu de guia no culto publico da Egreja reformada da Escocia
-até á publicação e adopção do Directorio dos Theologos de Westminster.
-Collaborou tambem ma traducção da mais popular das primitivas versões da
-Sagrada Escriptura, a Biblia de Genebra.
-
-Durante a sua ausencia foi ganhando a pouco e pouco a reputação de ser o
-unico homem competente para conduzir os esforços do partido reformista da
-Escocia a satisfactorio resultado final; e no outomno de 1555 regressou
-á sua terra natal. Com a sua coragem habitual, começou logo a fazer
-predicas nos aposentos que occupava em Edinburgo, e fez alguns gyros
-predicativos, como, por exemplo, a Forfarshire, sob a protecção de
-Erskine de Dun, e a West Lothian, sob a protecção de Lord Torphichen. Foi
-durante esta visita que Knox principiou a administrar a Ceia do Senhor á
-moda reformada. A primeira celebração foi em casa do conde de Glencairn,
-na primavera de 1556.
-
-O Reformador, provavelmente, não achou o paiz em estado de entrar em
-qualquer grande movimento que o approximasse da Reforma, e partiu da
-Escocia para Genebra em Julho de 1556. Queixou-se da lentidão, timidez
-e falta de união entre os protestantes, quando alguns dos fidalgos
-lhe solicitaram, em Março de 1557, que voltasse, e mandou dizer que
-achava melhor addiar o seu regresso. Esta reprehenção deu logar a uma
-Confederação dos nobres, que depois se tornou bem conhecida na Escocia
-sob o titulo de Lords da Congregação.
-
-=A Congregação e a Primeira Convenção.=—O turbulento caracter dos
-barões escocezes, e a fraqueza da auctoridade central, tanto do rei
-como dos estados, eram origem de constantes confederações de homens de
-todas as classes para realisarem, com segurança, emprezas, umas vezes
-legaes, e outras illegaes. Os confederados promettiam ajudar-se uns aos
-outros na obra que se propunham executar, e defender-se mutuamente das
-consequencias que se lhe seguissem. Estas combinações eram geralmente
-redigidas em fórma legal por notarios publicos, e o seu cumprimento
-tornava-se obrigatorio mediante todas as formulas de garantia que a lei
-facultava. Estes Lords da Congregação seguiram um costume predominante
-em todas as confederações quando se alliaram para manter e dar maior
-desenvolvimento á bemdita palavra de Deus e á Sua congregação, e
-para renunciar á congregação de Satanaz com todas as supersticiosas
-abominações e idolatria que lhe eram inherentes; mas introduziram um
-novo sentido espiritual n’esta alliança quando o seu pacto de federação
-se tornou tambem uma promessa feita a Deus em publico, como as que
-encontramos no Antigo Testamento, de serem verdadeiros e fieis á Sua
-palavra e direcção. Esta «faixa assignada pelos Lords», como Calderwood
-lhe chama, foi a primeira das cinco convenções que se tornaram famosas na
-historia da Egreja Reformada da Escocia.
-
-A esta convenção estavam ligadas duas resoluções, em que os confederados
-resolveram insistir no uso do Livro de Oração de Eduardo VI nas paroquias
-que estivessem debaixo do seu governo e dar incremento á exposição das
-Escripturas, particularmente, pelas casas, até que as auctoridades
-permittissem a prégação publica «por verdadeiros e fieis ministros».
-
-Este acto reanimou grandemente todos aquelles que desejavam uma
-reformação, e fez com que o povo tivesse ousadia para exprimir a sua
-aversão pelas supersticiosas ceremonias da Egreja Catholica Romana. A
-Côrte, em 1559, prohibiu de prégar todos aquelles que não estivessem
-auctorizados pelos bispos; e, como não se fizesse caso d’essa prohibição,
-os prégadores foram intimados a apresentar-se no tribunal de Stirling.
-
-N’este entretanto Knox voltou á Escocia. Desembarcou em Leith, a 2 de
-Maio, e dirigiu-se a Perth, onde os Lords da Congregação se haviam
-reunido para proteger o seu prégador. Chegou a Perth a noticia, emquanto
-Knox estava prégando, de que os ministros reformados estavam proscriptos,
-e no dia seguinte, depois do sermão, quando um padre tentou dizer
-missa na presença de uma excitada multidão, produziu-se um tumulto, e
-a «vil turbamulta», segundo a expressão de Knox, entrou nos conventos
-dos franciscanos e dos cartuxos, e pôl-os a saque. A rainha regente
-marchou a atacar os sediciosos; o conde de Glencairn saiu a proteger
-os reformados; estava prestes uma guerra civil. Quasi immediatamente,
-porém, a rainha cedeu; de ambos os lados se entrou em negociações sem
-uma mutua confiança. Por fim os Senhores da Congregação marcharam sobre
-Edinburgo, tomaram posse da cidade em Outubro de 1559, e, convocando os
-estados, depozeram a regente. Concluiu-se um tratado com a Inglaterra,
-e Isabel mandou tropas inglezas para protegerem a Congregação. Houve um
-combate entre a facção romanista, auxiliada pelo exercito francez, e a
-Congregação, auxiliada pelas tropas que tinham ido de Inglaterra, e os
-francezes foram repellidos. A rainha regente morreu em junho do anno
-seguinte, e a Congregação ficou senhora da Escocia.
-
-Os estados do reino reuniram-se, e foi posto á sua deliberação um pedido
-da Congregação, referente a uma reforma de doutrina, de disciplina,
-de administração dos sacramentos, e da distribuição do patrimonio da
-egreja. Em resposta, os estados requisitaram um summario das desejadas
-reformas doutrinaes; e de ali a quatro dias foi-lhes apresentado um
-decumento, conhecido depois pelo nome de _Confissão Escoceza_. Foi tomado
-em consideração, os prelados fizeram algumas, poucas, observações,
-e, posto a votos, foi approvado quasi por unanimidade. Egual sorte
-tiveram as outras tres Actas, que aboliam a jurisdicção do papa no
-interior do reino, revogavam todas as anteriores determinações do
-parlamento que eram contrarias á Palavra de Deus e á Confissão de Fé
-recentemente adoptada, e prohibida a assistencia á missa e a outras
-ceremonias idolatras. E a religião reformada ficou sendo a religião da
-Escocia legalmente auctorizada. A auctoridade, comtudo, era o poder dos
-Estados, independentemente do soberano; pois que a rainha regente tinha
-fallecido, e a sua filha, Maria, rainha da Escocia, ainda não havia
-regressado da França.
-
-=A Confissão Escoceza, ou Confessio Scotica.=—Apresentada aos Estados,
-e englobada nas suas Actas quando adoptada por elles, foi a obra de
-seis reformadores escocezes: Knox, Spottiswood, Willock, Row, Douglas e
-Winram. Diz-se que Maitland de Lethington, tido na conta de um dos mais
-habeis estadistas do seu tempo, reviu o livro e attenuou algumas das suas
-declarações. Redigido á pressa por um pequeno numero de theologos, é mais
-complacente e humano do que a maioria dos credos, e por essa razão tem-se
-recommendado a muitas pessoas que não se conformam com a logica impessoal
-da Confissão de Westminster. As primeiras phrases do prefacio dão uma
-idéa geral do todo. «Ha muito tempo que anceiavamos, queridos irmãos, por
-notificar ao mundo a summula de aquella doutrina que professamos, e pela
-qual nos havemos sujeitado ás ignominias e aos perigos. Tal tem sido,
-porém, a ira de Satanaz contra nós e contra Jesus Christo, cuja verdade
-eterna se manifestou ultimamente entre nós, que até hoje não nos tem
-sido concedido tempo para desobstruir as nossas consciencias, o que com
-muito regozijo teriamos feito.» O prefacio expõe tambem mais claramemte
-do que qualquer outra Confissão do mesmo genero a reverencia com que os
-vultos da Reforma tratavam a Palavra de Deus. «Pedimos a qualquer pessoa
-que notar n’esta nossa Confissão algum artigo ou phrase que esteja em
-desacordo com a Santa Palavra de Deus, que, dando prova da sua caridade
-christã, nos advirta d’esse erro por escripto, e, pela nossa honra e
-fidelidade, promettemos dar-lhe satisfação pela bocca de Deus, isto é,
-mediante a Sua Santa Escriptura, ou então emendarmos aquillo que se
-demonstrar que precisa de correcção. Perante Deus deixamos escripto nas
-nossas consciencias que abominamos, do fundo do coração, todas as seitas
-hereticas, e todos os promulgadores de doutrinas erroneas; e que com toda
-a humildade abraçamos a pureza do Evangelho de Christo, que é o unico
-alimento das nossas almas.»
-
-A Confissão contém as crenças communs a todas as ramificações da Reforma.
-Encerra, outrosim, todas as doutrinas chamadas ecumenicas, isto é, as
-verdades expostas nos primeiros concilies ecumenicos, e incorporadas no
-Credo dos Apostolos e ao Credo Niceno; e accrescenta aquellas doutrinas
-de graça, de perdão e de luz mediante a Palavra e o Espirito que com a
-reviviscencia da religião adquiriram uma proeminencia especial. Esta
-Confissão é mais notavel pelos seus titulos suggestivos do que por
-qualquer peculiaridade de doutrina. A doutrina da revelação é, por
-exemplo, definida por si propria, independentemente da doutrina da
-Escriptura, mediante este titulo: «A Revelação da Promessa». A Eleição
-é considerada, segundo o antigo calvinismo, um meio de graça, uma
-evidencia do «invencivel poder» de Deus quanto á salvação. Os pontos
-em que a verdadeira egreja se distingue da falsa são, diz-se na dita
-Confissão a genuina prégação da Palavra de Deus, a adequada administração
-dos sacramentos, e a justiça na applicação da disciplina ecclesiastica.
-A auctoridade das Escripturas, affirma tambem, procede de Deus, nada
-tem que ver nem com homens nem com anjos; e a egreja sabe que ellas são
-verdadeiras, porque «a verdadeira egreja ouve e obedece sempre á voz do
-seu Esposo e Pastor.»
-
-Esta Confissão foi primeiro lida toda de uma vez no parlamento, e depois
-tornada a ler clausula por clausula. Randolpho, o embaixador inglez, que
-assistiu a essa leitura, descreveu-a a Cecilio, o grande ministro de
-Isabel, e entre outras coisas diz-nos que, quando se leram os artigos,
-alguns dos barões ficaram tão commovidos que se levantaram dos seus
-logares, declarando que estavam promptos a derramar o seu sangue em
-defeza da Confissão», e que Lord Lindsay, com uma gravidade raras vezes
-presenciada, disse: «Tenho vivido muitos annos; sou o mais edoso de todos
-quantos aqui se encontram; e agora que aprouve a Deus deixar-me chegar a
-este dia, em que tantas pessoas, algumas d’ellas pertencentes á nobreza,
-sanccionaram uma obra tão digna, direi como Simeão, _Nunc dimitis_».
-
-=A rainha Maria e a Reforma.=—A Reforma não tinha de triumphar na
-Escocia tão de repente e com tanta facilidade. Sir James Sandilands,
-encarregado de levar a Paris a Confissão de Fé, não só não conseguiu que
-a joven rainha a assignasse, como o informaram do desagrado com que ella
-soube dos acontecimentos occorridos na Escocia; e só apoz sete annos
-de lucta, que terminou com a deposição da soberana, é que a Confissão
-foi finalmente ratificada e a Egreja Reformada alcançou na Escocia um
-completo reconhecimento official.
-
-Francisco II, esposo de Maria, morreu em 1561, e a joven rainha chegou
-á Escocia em agosto do mesmo anno. Vinha acompanhada de um numeroso
-e brilhante sequito, do qual tambem faziam parte tres de seus tios,
-membros da casa de Guise, e o filho do famoso Condestavel de Montmorency.
-O duque de Guise e o cardeal de Lorena acompanharam-n’a até Calais.
-Os reformadores escocezes conheciam bem os homens que rodeiavam a sua
-rainha, e que tão ostensivamente se achavam dispostos a protegel-a.
-Era do dominio publico que o duque de Guise estava á frente de aquelle
-partido que ambicionava exterminar os protestantes francezes por meio
-de um massacre geral. Fôra elle, segundo se presumia, o instigador do
-assassinio judicial de Anne de Bourg, e que havia planeada a, carnificina
-de Amboise. A devassidão dos Guises só era excedida pela sua deshumana
-crueldade. Taes eram os homens que passaram á Escocia para acompanhar e
-aconselhar a joven rainha.
-
-Não é, pois, para surprehender que, ponderando estas coisas, Knox e os
-seus amigos reputassem a vinda da rainha uma grande calamidade, e que
-vissem no nevoeiro e chuva que durante dois dias caiu sobre a costa
-oriental da Escocia, um como que aviso do céu, uma manifesta exposição da
-felicidade que ella trouxera comsigo para aquelle paiz, felicidade que
-se poderia traduzir por estas palavras: afflicção, dôr, obscurantismo e
-impiedade.
-
-A belleza physica, o privilegiado talento, os infortunios e o tragico fim
-da joven rainha teem-n’a circumdado de uma aureola romantica. E, comtudo,
-nem mesmo os seus admiradores teem feito inteira justiça á sua indomavel
-coragem e aos seus grandes dotes intellectuaes. Estava quasi só ao voltar
-para o seu paiz natal, e viu immediatamente que coisa alguma devia
-esperar da França e que necessitava de crear um partido em que podesse
-descançar confiadamente. Era uma rapariga de dezenove annos quando saiu
-de França; apezar d’isso, Knox, que teve com ella algumas entrevistas
-pouco depois da sua chegada, parece ter reconhecido n’ella uma mulher
-superior, e ter-se compenetrado de que havia motivo para receiar que uma
-das duas, ou a rainha ou a Reforma, tivesse de ir a terra. O combate que
-ella sustentou sósinha com a Reforma foi observado com anciedade por toda
-a Europa; e, se ella não tivesse sido educada n’uma côrte tão corrompida,
-e se não tivesse convergido para ella o odio que aquelles seus parentes,
-os Guises, haviam inspirado, podia muito bem ser que ficasse victoriosa.
-Poderá parecer cruel fallar d’este modo, agora que o perigo já lá vae
-ha seculos, mas o que é verdade é que bastantes familias pacificas e
-religiosas, tanto na Hollanda, como na França, como no Paiz do Rheno, e
-com mais razão ainda na Escocia e na Inglaterra, só respiraram á vontade
-quando o machado poz finalmente, em Fotheringay, termo á triste e agitada
-vida da rainha Maria.
-
-A lucta começou com a sua chegada. Ella e a sua côrte foram, com todo
-o espavento, ouvir missa logo no primeiro domingo, posto que fosse
-prohibido dizer e ouvir missa, sob pena de um severo castigo. Principiou,
-pois, por infringir as leis do estado, d’esse mesmo estado que havia
-implantado a Reforma. Se quizessemos contar detalhadamente o que de ahi
-em deante se passou encheríamos umas poucas de paginas. Apoz sete annos
-de lucta, Maria foi aprisionada no castello de Lochleven, e deposta,
-sendo collocado no throno o seu filho, ainda na infancia, James VI, e
-ficando como regente do reino seu irmão James Stewart, conde de Moray.
-O parlamento escocez votou novamente a Confissão de Fé; o regente
-assignou-a em nome do soberano; e, assim ratificado, foi incluido na
-legislação do paiz e a religião reformada ficou sendo a reforma do
-christianismo legalmente reconhecida na Escocia.
-
-=O Livro de Disciplina e a primeira assembléa geral.=—Pouco depois
-de o parlamento de 1560 ter encerrado as suas sessões, os auctores
-da Confissão foram encarregados de apresentar uma breve exposição do
-melhor systema de governo de uma egreja reformada. Surgiu então aquelle
-notavel documento que depois se chamou o Primeiro Livro de Disciplina, e
-que constituiu a primeira formula de governo ecclesiastico na Escocia.
-Dividia-se em sessões da egreja, synodos e assembléas geraes; e concedia
-o titulo de officiaes da egreja aos ministros, professores, presbyteros,
-diaconos, superintendentes e ledores. Os auctores do Livro de Disciplina
-declararam ter ido procurar directamente ás Escripturas as linhas
-geraes de aquelle systema de governo ecclesiastico a adoptar o qual
-elles aconselhavam os seus compatriotas, e havia, indubitavelmente,
-muita sinceridade, a par de muita exactidão, n’essa sua affirmativa.
-Eram, comtudo, todos elles, homens affeiçoados á Egreja de Genebra,
-e tinham tido relações pessoaes com os protestantes da França. A sua
-fórma de governo foi, evidentemente, inspirada pelas idéas de Calvino,
-e segue de perto as Ordenanças Ecclesiasticas da Egreja franceza. Os
-officios de superintendente e leitor foram addicionados aos outros tres,
-ou quatro, que caracterizam a fórma de governo presbyteriana. O cargo
-de superintendente devia a sua origem á situação incerta do paiz e á
-escassez de pastores protestantes. Os superintendentes tinham a seu cargo
-divisões territoriaes que não correspondiam exactamente ás dioceses
-episcopaes, e competia-lhes apresentar á Assembléa Geral relatorios
-annuaes do estado ecclesiastico e religioso das respectivas provincias.
-Os leitores deviam a sua existencia ao reduzido numero de pastores
-protestantes, á grande importancia que os primitivos reformadores
-escocezes davam a um ministerio educado, e tambem á difficuldade de obter
-fundos para a sustentação dos pastores de todas as paroquias. O Livro de
-Disciplina contém um capitulo sobre o patrimonio da egreja, que insiste
-na necessidade de reservar os dinheiros possuidos pela egreja para a
-manutenção da religião, as despezas com a educação, e os socorros dos
-pobres. Foi a existencia d’este capitulo que fez com que os Estados não
-aceitassem o livro com tanta promptidão como o fizeram com a Confissão
-de Fé. Os barões de diversas categorias, que tinham assento na camara,
-haviam-se, em muitos casos, apropriado do patrimonio da egreja em seu
-beneficio particular, e não queriam assignar um documento que condemnava
-o seu modo de proceder. O Livro de Disciplina, approvado pela Assembléa
-Geral, e assignado por um grande numero de nobres e burguezes, nunca
-recebeu a sancção official concedida á Confissão.
-
-A Assembléa Geral da Egreja Reformada da Escocia reuniu-se pela primeira
-vez em 1560, e, a despeito da luta em que a egreja se achava envolvida,
-houve, pelo menos, uma reunião por anno, e algumas vezes mais, podendo
-assim a egreja organizar-se e entrar em plena actividade.
-
-Fez-se uma traducção do _Catecismo para a Infancia_, de Calvino, e
-deu-se ordem para que se fizesse uso d’ella. O Livro de Ordem Commum,
-ou a Lithurgia de Knox, foi substituindo a pouco e pouco a Lithurgia do
-rei Eduardo VI, e a Egreja Reformada da Escocia, com a sua Confissão,
-a sua constituição ecclesiastica, o seu methodo de culto publico e as
-suas provisões para a instrucção das creanças, espalhou-se pelo paiz,
-levantando egrejas, melhorando o estado moral do povo e contribuindo
-efficazmente para a educação do mesmo.
-
-Uma das principaes dificuldades com que a egreja teve de luctar foi
-falta de dinheiro para pagar aos ministros. A Egreja Catholica Romana
-tinha sido officialmente abolida, e, comtudo, não se havia feito
-provisão alguma para a manutenção do clero reformado. A propriedade
-ecclesiastica estava em condições anormaes. Até 1560 a Egreja Catholica
-Romana da Escocia vinha sido muito opulenta, e havia estado de posse
-de uma grande parte do territorio da nação. Emquanto a egreja estivera
-luctando com Maria e procurando frustrar os esforços que ella empregava
-para introduzir de novo a religião e hierarquia romanista, os prelados
-distribuiram uma grande parte dos bens ecclesiasticos por quem elles
-muito bem entenderam, os nobres apoderaram-se de uma parte d’elles ainda
-maior, e o que restava e nominalmente pertencia á egreja estava nas mãos
-de homens que se intitulavam bispos, abbades, priores, deãos e curas,
-mas que nunca haviam recebido ordens, eram protestantes só no nome, e
-se serviam de aquelles titulos ecclesiasticos para poderem usufruir as
-propriedades a que o cargo dava direito. Depois de alguma discussão,
-a Assembléa obteve do Estado que aquelas pessoas que conservavam em
-seu poder bens que nominalmente pertenciam á egreja ficassem com dois
-terços de rendimento para as suas despezas particulares, e entregassem
-a restante terça parte para a manutenção do ministerio e das escolas,
-e para os encargos de beneficencia. A Egreja Reformada, porém, teve
-muita difficuldade em ver esta disposição convertida em lei, e assim,
-durante os primeiros annos da Reforma os ministros e as escolas
-foram principalmente mantidos por meio de offertas voluntarias, ou
-«benevolencias», como Knox pittorescamente lhes chamava.
-
-=A Educação.=—As idéas democraticas do presbyterianismo, avolumadas pela
-necessidade de cooperar com o povo, fizeram com que os reformadores
-escocezes se ocupassem seriamente da educação popular. Todos os
-impulsionadores da Reforma, quer na Allemanha, quer na França, quer na
-Hollanda, tinham reconhecido a importancia de esclarecer o povo; mas a
-Hollanda e a Escocia foram talvez os dois paizes onde a tentativa foi
-mais bem succedida. A educação do povo não era uma novidade na Escocia
-e, posto que nos agitados tempos que precederam a Reforma as escolas
-superiores tivessem desapparecido, e as universidades tivessem caido em
-decadencia, o desejo de aprender não se havia extinguido por completo.
-Knox e o seu amigo Jorge Buchanan tinham um plano magnifico para crear
-escolas em todas as freguezias, estabelecer collegios superiores
-em todas as cidades importantes e augmentar o poder e influencia
-das universidades. O seu plano, devido á cubiça dos barões que se
-haviam apoderado dos bens da egreja, pouco mais era do que uma devota
-imaginação, mas havia-se apossado do espirito da Escocia, e a falta de
-dotações era mais do que compensada pelo desejo ardente que o povo tinha
-de se instruir. As tres universidades, de Santo André, de Glasgow e de
-Aberdeen, receberam uma nova vida, e fundou-se uma quarta universidade,
-a de Edinburgo. Alguns estudantes escocezes que haviam recebido educação
-nas escolas continentaes, e que haviam abraçado a fé reformada, foram
-encarregados de superintender o re-organizado systema educativo do
-paiz, e tudo se fez em harmonia com o viver do povo, preferindo-se,
-nas escolas, e externato ao internato, e estabelecendo um systema de
-inspecção que era exercido, em cada circumscripção escolar, por um dos
-homens mais espirituaes e de maiores conhecimentos. Knox estava tambem
-disposto a impôr ás duas classes da sociedade, a mais baixa e a mais
-elevada, uma frequencia obrigatoria ás aulas; quanto á classe media,
-elle confiava no seu natural desejo de aprender. E desejava que o Estado
-exercesse a sua auctoridade no sentido de compellir os mancebos de
-posição a matricularem-se nas escolas superiores e nas universidades,
-para que podessem prestar serviços uteis á nação.
-
-=A morte de Knox.=—João Knox morreu em novembro de 1572. O assassinio do
-seu amigo, o conde de Moray, o Bom Regente, havia-lhe feito uma grande
-impressão, e a noticia do massacre de S. Bartholomeu, que havia chegado
-recentemente á Escocia, produziu-lhe um tremendo abalo. Elle nunca havia
-sido um homem robusto, e durante a sua vida havia passado por muitos
-trabalhos, mas o seu intrepido espirito a tudo resistira. «Ignoro» diz
-Smeaton, «se Deus poz jámais n’um corpo debil e franzino uma alma maior e
-mais santa do que a d’elle». As forças começaram a faltar-lhe muito antes
-de adoecer gravemente, mas luctou sempre contra o seu precario estado de
-saude, e nunca deixou de prégar e exhortar como costumava fazer. James
-Melville, que teve occasião de o ver quando estudava em Santo André,
-apresenta-nos um retrato d’elle pouco antes da sua morte. «Via-se que
-andava doente. Todos os dias eu o via passar para a egreja paroquial,
-andando muito cautelosamente, com o pescoço resguardado por uma pelle, de
-bengala na mão, e acompanhado pelo seu creado, o bom Ricardo Ballanden.
-Era esse dito Ricardo e um outro creado que o ajudavam a subir para o
-pulpito, a que elle se encostava durante algum tempo; logo, porém, que
-entrava no sermão, enchia-se de uma actividade e de um vigor taes que
-esse mesmo pulpito por pouco escapava de ficar feito em cavacos.»
-
-Morreu antes de ter effectuado por completo a sua obra, pois que a Egreja
-Reformada ainda tinha muitos obstaculos a vencer, e o facto de Knox não
-tomar parte na batalha tornava-lhe mais difficil o sair victoriosa. Elle
-não possuia a erudição de Calvino, nem uma disposição para se tornar
-popular, como Luthero, mas nenhum homem o poderia egualar em coragem.
-«Elle nada temia da carne, nem tão pouco a lisongeava.» E foi isso o que
-fez o reformador da Escocia.
-
-Como os seus contemporaneos francezes, tinha tanto de estadista como de
-dirigente ecclesiastico, e emquanto viveu foi o guia do povo escocez.
-Os nobres de bom grado teriam intervindo no movimento, e lhe teriam
-dado uma feição mais em obediencia ao seu modo de pensar, mas Knox fez
-do pulpito a força mais poderosa da Escocia, e com as suas ousadas
-prégações creou uma opinião publica com que era preciso contar. Elle era,
-individualmente, um homem de profunda espiritualidade, e «temia a Deus,
-mas coisa alguma fóra d’Elle lhe mettia medo».
-
-=Os bispos tulchanos.=—O poder da Egreja Reformada da Escocia foi
-consideravelmente fortalecido e consolidado mediante o caracter
-representativo dos seus conselhos, e, mais especialmente, da sua
-Assembléa Geral, e a liberdade com que todos os assumptos de interesse
-para a nação eram ahi tratados e discutidos deu á Assembléa da Egreja o
-caracter de um parlamento nacional onde o povo da Escocia encontrava uma
-defeza mais efficaz do que nos Estados do reino. Os olhos perspicazes
-da rainha Maria haviam discernido esta força da egreja, e ella empregou
-varios esforços, sempre infructiferos, para impedir a reunião da
-Assembléa Geral. Depois da morte do conde Moray, o Bom Regente, isto é,
-durante as regencias de Lennox, Mar e Morton, e durante o reinado de
-James, a Assembléa foi sempre mal vista por aquelles que ambicionavam um
-poder exclusivo. Sabia-se, porém, que era perigoso dirigir-se á Assembléa
-um ataque directo, e aqueles que no Estado dispunham do poder tentaram
-diminuir-lhe a auctoridade promovendo ecclesiasticos e elevando-os a
-posições que lhes permittissem tomar assento nos Estados e defender ahi
-as prerogativas da egreja. Depois da morte do regente Moray, a nobreza
-tratou constantemente de derrubar o governo episcopal, e collocar a
-Egreja sob o dominio dos bispos.
-
-Uma outra, e talvez mais visivel, causa por que aquelles estavam em
-auctoridade antipathisavam com a simples constituição presbyteriana que
-o Livro de Disciplina havia preceituado á Egreja era o facto de ella
-dar pouca occasião a que as receitas fossem espoliadas, ao passo que a
-nomeação de bispos reunia uma grande proporção dos dinheiros da Egreja em
-meia duzia de mãos, habilitava os patronos e entrar em negocios com os
-ecclesiasticos que elles nomeassem para esses cargos, desviando-se assim
-uma grande parte dos fundos de que a Egreja ainda estava de posse para as
-algibeiras dos fidalgos de primeira plana.
-
-Pouco antes da morte de Knox, a Assembléa, não sem protesto, tinha, a
-instancias dos Lords do Conselho, concordado em acceitar ecclesiasticos
-com o titulo de bispos, debaixo de certas condições, sendo as
-principaes as seguintes: os bispos não teriam um poder superior ao dos
-superintendentes, haviam de estar sujeitos á Assembléa Geral, e não
-seriam nomeados sem que devidamente se providenciasse quanto ao sustento
-do ministerio regular. Este accordo, chamado a _Convenção de Leith_, foi
-devido principalmente ás diligencias de João Erskine, o antigo amigo
-de Knox, um dos primitivos superintendentes, e que por mais de uma vez
-exerceu na Assembléa o logar de Moderador. Alguns annos de experiencia
-mostraram á egreja escoceza o perigo que para a sua vida livre, para a
-sua vida democratica, provinha das disposições desta convenção, e pouco
-depois da morte de Knox appareceram symptomas de um proximo conflicto.
-
-O mais flagrante exemplo do uso que os nobres mais proeminentes faziam
-d’estes bispos para defraudar a Egreja occorreu em 1581, que foi quando
-Boyd, o arcebispo de Santo André, morreu. Assim que o edoso prelado
-faleceu, o duque de Lennox resolveu apoderar-se das propriedades da
-sé. Era impossivel pôr similhante coisa em pratica sem um legalisado
-artificio, e o plano escolhido foi induzir Roberto Montgomery, ministro
-em Stirling, a acceitar o cargo de arcebispo, tornar-se d’esse modo
-herdeiro dos bens da sé, e passar depois os respectivos rendimentos para
-as mãos de Lennox. Este caso foi, talvez, o peior d’elles todos; mas em
-toda a Escocia se procedeu de uma fórma analoga, nomeando-se bispos,
-abbades, etc., para que podessem tomar legalmente posse dos dinheiros
-da Egreja, e, em vez de se lhes dar a devida applicação, passal-os para
-os bolsos dos patronos seculares. O povo chamava a estes bispos, assim
-como a quaesquer outros dignitarios que se prestavam a essas burlas,
-tulchanos, e a primeira lucta com os bispos escocezes não foi uma
-contestação entre o presbyterio e o episcopado, mas entre a Egreja, que
-queria a todo o custo conservar o seu patrimonio, e esses tulchanos.
-Quando na Assembléa se tratou do caso de Montgomery, «o moderador, David
-Dickson, pediu licença para expôr a significação de bispos tulchanos.
-Tratava-se de uma palavra em uso vulgar entre os montanhezes da Escocia.
-Quando uma vacca não se deixa mungir, põem junto d’ella uma pelle de
-vitello, empalhada, e é a essa pelle que chamam _tulchan_. Ora para
-esses bispos que possuíam o titulo e o beneficio, sem desempenharem o
-cargo, não se encontrou denominação mais significativa do que a de bispos
-tulchanos.»
-
-=André Melville.=—João Knox morreu quando este conflicto entre a Côrte
-e a Egreja estava no principio, e era necessario fazel-o substituir
-por outro dirigente. Entre os escocezes illustrados que o triumpho da
-Reforma e a renascença das letras haviam attraido para o seu paiz natal,
-André Melville era o que mais se tinha distinguido. Nascido, em 1545, em
-Baldovy, perto de Montrose, recebeu a sua educação na Escola Primaria
-d’essa cidade, e no Collegio de St.ª Maria, em St.º André. De ahi foi
-para Paris, onde teve por professor o celebre Pedro Ramus. Depois de
-terminar os estudos, obteve em Genebra uma cadeira de latim, e em 1574
-voltou á Escocia, com a reputação de um dos mais eminentes sabios da
-Europa. Pouco depois do seu regresso foi nomeado reitor da universidade
-de Glasgow, e por tal fórma dirigiu esse estabelecimento de instrucção
-que correu a matricular-se n’elle um elevadissimo numero de mancebos, não
-só escocezes como estrangeiros.
-
-Foi um dos membros da Assembléa de 1575, em que a questão do presbyterio
-e do episcopado tomou pela primeira vez um caracter serio; e fez parte
-da comissão nomeada por essa Assembléa para considerar se o nome e
-deveres de um bispo tinham alguma auctorização biblica, isto é, se os
-bispos que havia n’aquelle tempo na Egreja da Escocia estavam ali, e
-desempenhavam os seus cargos, em obediencia á Palavra de Deus. A decisão
-a que se chegou foi que o nome de bispo pertencia a todos os pastores da
-Egreja de quem se havia confiado congregações, mas que tambem podia ser
-applicado aos ministros escolhidos por seus irmãos para implantar egrejas
-e inspeccionar as egrejas existentes, e o sentimento geral da Egreja a
-este respeito pode colligir-se d’estas tres expressões, que indicam tres
-especies de bispos: My Lord Bishop (_Meu Senhor Bispo_), My Lord’s Bishop
-(_Bispo do Meu Senhor_), e Lord’s Bishop (_Bispo do Senhor_), sendo os
-primeiros catholicos romanos, os segundos tulchanos, e os terceiros
-pastores das congregações.
-
-=O Segundo Livro de Disciplina.=—Quando a Egreja Reformada da Escocia se
-encontrou face a face com estes novos problemas ecclesiasticos, sentiu
-necessidade de um mais distincto e mais completo schema de governo da
-egreja do que aquelle que o Primeiro Livro de Disciplina continha. Esse
-systema de governo da egreja havia sido preparado á pressa, e fazia
-menção de differentes materias que estavam fôra da esphera de um livro
-de preceitos ecclesiasticos. A Assembléa de 1576 nomeou uma commissão
-para tratar d’esse assumpto, e redigir um livro que podesse substituir
-a obra de Knox e de Row. O dito livro foi escripto de vagar, com muita
-perseverança, e finalmente em 1578 deu-se ordem para que o _O Segundo
-Livro de Disciplina_ fosse impresso, afim de sujeital-o á critica e se
-fazerem as necessarias correcções. Tres annos se dispenderam em ponderar
-todos os seus pontos, todas as suas phrases, e o Livro de Politica, como
-se lhe chamou, foi então acceite pela Assembléa e incluido nas suas Actas.
-
-Este livro, que apresenta, n’um estylo conciso e claro, o esboço do
-governo da Egreja Presbyteriana na Escocia, começa por fazer distincção
-entre as leis ecclesiasticas e civis, e reivindica para a Egreja «uma
-politica differente da politica do Estado». O conjuncto do governo da
-egreja, diz o livro, comprehende doutrina, disciplina e distribuição; e
-para este triplice governo ha um triplice officialato, que se divide em
-pastor, ou bispo, presbytero e diacono. O Livro de Disciplina addiciona
-um quarto oficio, ou de doutor, ou ensinador. N’um curto capitulo vem
-descripta a natureza da vocação, assim como o modo da eleição e ordenação
-dos pastores. Faz-se tambem uma descripção dos deveres que cabem a cada
-uma das dignidades, e das varias assembléas em que aquelles que estão
-d’ellas revestidos teem de comparecer, no exercicio dos seus cargos. É
-singular que no anno que precedeu o da adopção do Livro de Disciplina
-pela Assembléa recebesse o seu complemento a organização presbyteriana
-da Egreja Escoceza mediante o universal reconhecimento do presbyterio
-como um tribunal superior á sessão da egreja, mas inferior ao synodo;
-e que este livro de politica não faça menção especial de similhante
-tribunal, que actualmente exerce funcções tão importantes na organização
-presbyteriana escoceza.
-
-Como a publicação do _Segundo Livro de Disciplina_ a Egreja Reformada da
-Escocia completou a sua organização ecclesiastica, e terminou a primeira
-parte da sua historia. A Reforma estava por esse tempo firmemente
-estabelecida, e o protestantismo tinha empolgado o povo da Escocia. A
-Egreja tinha deante de si uma longa lucta; o conflito, porém, não era com
-o papismo, mas com o Estado; não era no sentido de reformar a religião,
-mas de desenvolver e preservar a fórma democratica do governo da Egreja,
-que se impunha ao povo como sendo a mais conforme com a Palavra de Deus,
-e a mais adequada para a habilitar a desempenhar os seus deveres de
-Egreja de Christo.
-
-Em 1574 a Escocia achava-se em curiosas circumstancias ecclesiasticas.
-Haviam-se conservado as paroquias que existiam antes da Reforma, e cujo
-numero era superior a mil. Para seu funccionamento havia 289 ministros
-e 715 leitores, e muitos d’estes ultimos eram os padres catholicos
-romanos que tinham vindo para a religião reformada mas que não possuiam
-uma educação sufficiente para justificar a sua ordenação como pastores
-protestantes. Estas paroquias passaram depois a constituir presbyterios,
-os presbyterios foram agrupados em synodos, e o conjuncto estava sob a
-direcção da Assembléa Geral. A organização presbyteriana era, n’um certo
-sentido, completa. A par d’isto, porém, existiam as velhas dioceses,
-anteriores á Reforma, em numero de treze, na sua maior parte occupadas
-por homens que eram ministros protestantes, que haviam tomado o titulo
-de bispos, mas que não exerciam funcções episcopaes. Apenas tres
-d’esses bispos, o de St.º André, o de Glasgow e o de Aberdeen, haviam
-tentado exercer a jurisdicção episcopal, e não o tinham feito tanto na
-qualidade de bispos, como de superintendentes. Os bispos tinham assento
-no parlamento escocez, e os seus deveres principaes eram administrar as
-receitas da cathedral e desempenhar as funcções judiciaes que eram da
-competencia dos bispos n’outro tempo, anteriormente á Reforma.
-
-Esta organização episcopal vivia lado a lado com a activa e aggressiva
-constituição presbyteriana da Egreja. O estado dos negocios ainda mais
-anomalo se tornava com o facto de ainda viverem, e exercerem a sua
-fiscalização, tres dos antigos superintendentes; e os districtos dos
-outros superintendentes eram governados por commissarios provisorios
-nomeados pela Assembléa, que podia demittil-os quando entendesse.
-
-O fim que a Egreja tinha em vista com o conflicto que durou desde 1574
-até 1638 era acabar inteiramente com aquillo a que chamava a inutil e
-nociva organização episcopal, que não tinha ligação alguma com a obra
-espiritual da Egreja, e substituir os superintendentes e commissarios
-por presbyteros, unindo assim a Egreja n’um todo harmonico. O fim que a
-côrte tinha em vista era conservar o velho systema episcopal, e, mediante
-elle, ir gradualmente dividindo a Egreja em fragmentos, cada um d’elles
-governado por um bispo que só era responsavel para com o parlamento; e,
-no fim de tudo, restabelecer o episcopado no velho sentido da palavra, e
-derribar por completo a constituição presbyteriana.
-
-O anno de 1638 foi o do triumpho da Egreja, mas a historia completa
-d’esta lucta ultrapassa os limites da presente obra.
-
-
-
-
-III PARTE
-
-A REFORMA ANGLICANA
-
-CAPITULOS:
-
- I—A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII.
-
- II—A REFORMA SOB EDUARDO VI, E A REACÇÃO SOB MARIA.
-
- III—A REFORMA SOB ISABEL.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII
-
- O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag.
- 157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O
- estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma,
- pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag.
- 160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado,
- pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII,
- Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles,
- pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da
- separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas
- coisas differentes, pag. 168.—Execução da sir Thomaz More, pag.
- 169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades
- da Egreja, pag. 170.—_Os Dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto
- Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag.
- 173.
-
-
-=O caracter excepcional do Principio da Reforma inglesa.=—A Egreja
-e o povo inglez romperam com o systema ecclesiastico medieval em
-circumstancias tão excepcionaes que é impossivel considerar esse
-rompimento como fazendo parte da Reforma, ou como tendo muita coisa
-em commum com os movimentos contemporaneos na Allemanha e na França.
-Emquanto durou o reinado de Henrique VIII, a Egreja de Inglaterra, que
-se havia separado do papa, pouco ou nada tinha de commum com a Reforma.
-O que durante aquelle reinado se fez foi simplesmente demolir a Egreja
-da edade media. A verdadeira Reforma começou no reinado de Eduardo VI,
-e a sua adopção formal teve logar no de Isabel. Henrique VIII destruiu
-a supremacia do papa, tanto espiritual como temporal; derrubou a grade
-ecclesiastica que unia a Egreja de Inglaterra á grande Egreja Occidental
-governada pelo bispo de Roma, mas não poz coisa alguma duradoura em seu
-logar. O seu fim era estabelecer um papado real, tão despotico e ainda
-mas secular do que aquelle que elle estava destruindo, sobre as minas
-da jurisdicção do bispo de Roma. A Egreja que elle construiu segundo o
-seu modelo não durou mais do que a vida d’elle; mas a sua obra durou o
-bastante para dar á Reforma da Egreja de Inglaterra, quando ella mais
-tarde se tornou um facto, aquelle caracter particular que a distinguiu
-dos movimentos do mesmo genero occorridos n’outros paizes. O objecto
-de Henrique era modificar de tal modo as condições ecclesiasticas da
-Inglaterra que o rei occupasse o logar do papa, e ficasse governando,
-não só temporal como espiritualmente, de modo que, mediante a Egreja,
-tivesse sobre os seus subditos um dominio absoluto. Todas as reformas de
-doutrina, de culto e de costumes eram tão abominaveis para Henrique como
-para o bispo de Roma.
-
-=Antecipações da Reforma em Inglaterra.=—Os historiadores ecclesiasticos
-fazem, geralmente, datar os principios da Reforma do tempo de João
-Wycliffe, o qual, no seculo quatorze, era, por assim dizer, a bocca da
-Inglaterra, revoltando-se contra a supremacia espiritual e temporal que
-o papa tinha no reino; mas é muito para duvidar que a sua influencia
-continuasse a ser exercida sobre o povo inglez até ao seculo dezeseis,
-e por tal fórma que a ella se devam attribuir os desejos de Reforma que
-enchiam os corações de muitas pessoas de bons sentimentos religiosos.
-
-Como Francisco de Assis e outros reformadores e revivificadores da
-Edade Media, Wycliffe tinha abraçado apaixonadamente a idéa de que os
-beneficios da salvação só podem ser aproveitados por aquelles que imitam
-Christo, e que para imitar Jesus Christo torna-se indispensavel viver na
-pobreza como Elle. Declarou, portanto, guerra aberta ao bem estipendiado
-clero da opulenta Egreja de Inglaterra, e prégava que a Egreja, para ser
-realmente de Christo, devia ser, pobre. Dizia que o Estado não faria mais
-do que beneficiar a Egreja tirando-lhe a riqueza, pois que era esta um
-obstaculo a que ella se parecesse com o seu Mestre. Em conformidade com
-estas idéas, organisou um corpo de prégadores ambulantes, denominados
-prégadores pobres, os quaes, tendo, a muitos respeitos, parecenças com
-os evangelistas do movimento wesleyanno, andavam por toda a Inglaterra,
-proclamando a doutrina da humildade. Era um fervoroso admirador dos
-grandes juristas medievaes, taes como Guilherme de Ockham, o querido
-mestre de Luthero, Marsillio de Padua, e Pedro Dubois de Paris. Elles
-haviam proclamado, n’uma epoca muito anterior, que o Estado não era outra
-coisa senão o povo; e Wycliffe, seguindo-lhes o exemplo, insistia em que
-a Egreja não era outra coisa senão o povo. Ora isto atacava o systema
-da Egreja medieval, que se apoiava na noção de que a verdadeira Egreja
-era o clero, e de que o povo só fazia parte d’ella quando se punha em
-contacto com os clerigos, que eram depositarios dos sacramentos. Foi por
-esse motivo que elle traduziu a Biblia, que era o Livro da Egreja, e,
-portanto, do povo christão, e não sómente do clero. As idéas da Wycliffe
-foram avidamente adoptadas por uma grande parte da população ingleza,
-e os seus discipulos, os lollardos, constituiram, por algum tempo, uma
-fortissima aggremiação.
-
-O lollardismo foi indubitavelmente uma preparação para a Reforma,
-e os homens biblicos, como lhes chamavam, teriam exercido uma
-grande influencia sobre o povo, no sentido de o predisporem para uma
-revivificação da religião espiritual se tivessem existido na epoca em
-que se operou o movimento reformador. Não se pode, porém, provar que
-elles communicassem com essa geração, e não ha indicio algum de que
-nos reinados de Henrique VII e Henrique VIII estivesse desenvolvido o
-gosto pela leitura da Biblia ou houvesse uma corrente de sympathia pelos
-prégadores pobres. O povo inglez, tomado na sua totalidade, parece não se
-ter inclinado para a Reforma antes do tempo de Isabel.
-
-=O estado ecclesiastico da Inglaterra no principio da Reforma.=—Quando
-começou na Allemanha o movimento da Reforma, houve, sem duvida, muitos
-inglezes que se sentiram attraidos para o reformador saxonio, e que
-desejaram ver introduzido na Egreja um credo mais simples e mais em
-harmonia com a Palavra de Deus, e uma fórma de culto como a que era
-usada nos tempos apostolicos; mas a maioria não partilhava essas idéas.
-Havia, certamente, muitissimas pessoas que desejariam ver modificados os
-costumes dos clerigos, e especialmente o caracter moral dos frades, e
-que ficariam satisfeitas se as propriedades da Egreja fossem sujeitas a
-impostos e os grandes rendimentos dos bispados e das abbadias soffressem
-alguma diminuição. E eram em numero sempre crescente as que se sentiam
-desgostosas com a ignorancia do clero, e que, por motivos politicos ou
-sociaes, desejavam ver cerceada a influencia do bispo de Roma. Não lhes
-agradava a sua interferencia nas questões politicas, e indignava-os a
-saida de grossas quantias para fóra do reino.
-
-Não é provavel que o caracter moral do clero romano fosse peior em
-Inglaterra do que em qualquer outro paiz, mas o que é verdade é que os
-padres, com a sua conducta, desacreditavam a Egreja. O clero era de uma
-ignorancia crassa, e havia, talvez, em Inglaterra menos conhecimento das
-Escripturas do que na França ou na Allemanha, pois que, desde a epoca
-do lollardismo, a leitura da Biblia era considerada um acto criminoso.
-A Biblia era um livro desconhecido para os padres, e Erasmo conta que
-viu, preso por uma corrente a uma coluna da cathedral de Canterbury um
-Evangelho de Nicodemos que era lido como fazendo parte da Escriptura
-canonica.
-
-O alto clero pouco tinha que fazer na Egreja, e occupava-se em dirigir
-os negocios do Estado, ou em presidir ás audiencias nos tribunaes de
-justiça. O arcebispo de Canterbury era Lord Chanceller, o bispo de
-Winchester director geral da Thesouraria, o bispo de Durham secretario de
-Estado, e o bispo de Londres guarda-mór dos arquivos. Os bispos de Bath,
-Hereford, Llandaff e Worcester nem sequer residiam no reino.
-
-Dadas estas circunstancias, não é para estranhar que aquelles que amavam
-sinceramente a instrucção se sentissem indignados perante a ignorancia
-do clero, e procurassem abrir os olhos, não só a estes como ao povo em
-geral; e que os patriotas inglezes, lembrando-se das antigas tradições de
-um paiz que durante seculos havia mantido uma attitude altiva e reservada
-para com as pretensões da Curia Romana, tivessem immensa vontade de
-annular o poder do papa em Inglaterra. Como que exteriorisando o desejo
-preponderante, surgiu um grupo de mancebos instruidos, capitaneados por
-Colet, deão de S. Paulo, e Thomaz More, cujo intuito era purificar a
-Egreja, o povo e o clero, e incitar a Egreja nacional de Inglaterra a
-resistir ás usurpações do bispo de Roma.
-
-=As relações de Inglaterra com o pontificado.=—Os bispos de Roma,
-na Edade Media, reivindicavam a supremacia, tanto espiritual como
-temporal, e o povo inglez havia resistido, por mais de uma vez, ás suas
-reivindicações. Os papas, desde o tempo de Innocencio III, sustentavam
-que todos os reis e principes eram seus vassallos, tanto pelo que dizia
-respeito ás coisas sagradas como aos negocios civis. Este direito
-havia sido imposto no reinado de João, que pagara tributo a Roma em
-reconhecimento da supremacia papal. Quando, porém, foi exigido esse
-tributo aos sucessores de João, elles, indignados, recusaram pagal-o. E
-a Inglaterra, sem deixar de pertencer á Egreja Catholica medieval, havia
-repudiado o direito do papa a intervir nas questões nacionaes. Rei algum
-inglez, excepto João, se considerou vassallo do papa. Não era uma coisa
-nova em Inglaterra, o não reconhecer a supremacia do papa nos negocios
-temporaes.
-
-Os papas tinham, desde o principio da Edade Media, exigido que os
-reputassem arbitros supremos em todos os negocios espirituaes, e, por
-consequencia, a Egreja ingleza devia estar sujeita ao seu dominio
-absoluto. Estas reivindicações apresentavam-se, na pratica, debaixo
-das seguintes fórmas: Os papas queriam que lhes fosse reconhecida a
-decisão final em todas as nomeações ecclesiasticas; isto é, nenhum
-bispo, ou abbade, ou outro qualquer dignitario da Egreja podia ser
-collocado n’este ou n’aquelle posto sem a approvação do papa em ultima
-instancia, e esta sua supremacia queriam que lhes fosse reconhecida de
-uma fórma prática mediante o pagamento do primeiro anno do estipendio
-que correspondia a cada oficio ecclesiastico. Queriam ter a decisão
-final em todas as questões que se levantassem no seio da Egreja ingleza.
-E isto significava, praticamente, que todos os clerigos, bispos,
-abbades, simples padres e frades só podiam ser julgados pelos tribunaes
-ecclesiasticos, e que o accusador ou o defensor tinha sempre o direito de
-appellar dos tribunaes inglezes para o tribunal pontificio. Reivindicavam
-tambem que as leis canonicas, isto é, as leis da Egreja promulgadas pelos
-concilios e pelos papas, fossem reconhecidas em Inglaterra e tivessem a
-mesma força que as leis ordinarias.
-
-A supremacia espiritual do papa tinha sido repetidas vezes repellida pelo
-povo inglez. Os reis de Inglaterra tinham declarado e tornado a declarar
-que em caso algum se poderia appellar dos tribunaes inglezes para a Curia
-Romana. Estas declarações tinham tomado a fórma de decretos, e no reinado
-de Ricardo II ficaram englobadas no famoso codigo de _Proemunire_.
-Segundo este codigo, ou estatuto, como lhe chamavam, qualquer appellação
-para um tribunal de justiça estrangeiro, romano ou de outra qualquer
-nacionalidade, era um crime a que correspondia um castigo severo.
-Sustentava, de uma maneira peremptoria, que o rei era o arbitro supremo
-em todas as questões civis ou ecclesiasticas, e tornava punivel qualquer
-appellação de sentenças proferidas nos tribunaes civis para juizos
-ecclesiasticos, quer da Inglaterra quer da Italia.
-
-Além dos protestos do rei e do parlamento, reunidos n’este estatuto, o
-povo, n’uma grande occasião pelo menos, negou solemnemente a supremacia
-do papa, e asseverou a independencia da Egreja ingleza. A _Magna Charta_
-foi feita com o intuito de restringir o poder pontificio, assim como de
-reprimir o do rei; e a sua primeira clausula reivindicou a independencia
-da Egreja de Inglaterra—_Quod ecclesia anglicana libera sit et habeat
-omnia jura sua integra et libertates suas illaesas._
-
-E Egreja e o povo inglez haviam-se acostumado a protestar contra a
-interferencia papal, e os reformadores que tinham simplesmente em vista
-promover a instrucção do clero, e reprimir a auctoridade que o papa
-exercia na Inglaterra, podiam dizer, com exactidão historica, que não
-punham em pratica uma coisa nova.
-
-As aspirações d’esses reformadores podem ser apreciadas no romance
-politico escripto por um dos mais intelligentes d’entre elles,—a
-_Utopia_, de Thomaz More. Para esses homens a Reforma era apenas um
-movimento intellectual e politico. Não era uma revivificação religiosa.
-Podiam sympathizar com os concilios reformistas do secolo quinze, mas
-entre elles e Wittenberg ou Genebra havia poucos pontos de contacto.
-
-=As primitivas relações de Henrique VIII com o pontificado. Defensor
-da Supremacia papal.=—Estes reformadores do estudo e da camara do
-conselho saudaram com regozijo a subida de Henrique VIII ao throno
-de Inglaterra. Suppunha-se, exactamente como aconteceu com o seu
-contemporaneo, Francisco I de França, que o joven rei fosse um amigo
-da nova litteratura, e um soberano predisposto a extirpar abusos. A
-desillusão não se fez esperar. Logo de principio mostrou ser um dedicado
-defensor da supremacia papal. A sua posição era estranha, e necessita de
-uma explicação.
-
-Henrique VII, o primeiro rei da casa de Tudor, havia conquistado o throno
-de Inglaterra no campo de Bosworth, e conservava-o mediante uma precaria
-subemphyteuse. Anhelava por tornar mais firme o seu poder mediante uma
-alliança com um paiz estrangeiro, e, passando a Europa em revista,
-certificou-se de que Fernando de Hespanha era quem o poderia auxiliar
-melhor. Effectuou, portanto, com alguma dificuldade, o casamento de seu
-filho mais velho, Arthur, com Catharina de Aragão, uma das filhas de
-Fernando. Arthur morreu passado pouco tempo; e Henrique, desejando manter
-a todo o transe a alliança hespanhola, tratou com todo o afan de casar
-Catharina com o seu segundo filho, Henrique, que foi depois Henrique
-VIII. O papa concedeu uma dispensa, e o casamento realisou-se. Henrique
-VIII teve, pois, por mulher a viuva de seu irmão.
-
-Nunca se poude saber ao certo se Arthur e Catharina foram realmente
-casados. Se o casamento não passou de um contracto legal, não havia
-motivo para que a dispensa do papa não fosse bem acceite mesmo por
-aquelles que não viam com muito bons olhos a supremacia papal; se
-foi, porém, um casamento em toda a accepcão da palavra, ficou então
-demonstrado que o papa tinha auctoridade para conceder uma dispensa
-que ia de encontro as leis divinas de parentesco. Segundo a opinião
-geral, Arthur e Catharina viveram conjugalmente, de modo que Henrique
-casou realmente com a viuva de seu irmão, e assim a dispensa do papa
-só poderia ser concedida no caso de elle possuir aquelles supremos
-poderes que os ultramontanos lhe atribuem. A legalidade do casamento de
-Henrique e a legitimidade de sua filha Maria baseiava-se, portanto, na
-supremacia do papa. E não é para admirar que Henrique VIII, no principio
-do seu reinado, se conduzisse, no tocante a essa supremacia, mais em
-conformidade com a opinião dos ultramontanos do que com as tradições da
-corôa de Inglaterra. É que a validade do seu casamento, a legitimidade
-de seus filhos, e o direito que a estes assistia de lhe succederem no
-throno, dependiam, como já dissemos, da supremacia do papa.
-
-Quando Luthero atacou o papa, Henrique tomou ostensivamente a defeza do
-Bispo de Roma, e rei algum, depois de João, apoiou mais em absoluto as
-reivindicações do papa do que elle. Os seus interesses pessoaes, assim
-como os interesses de sua mulher e de seus filhos, estavam dependentes
-d’esse seu apoio. A Inglaterra, no principio do reinado de Henrique,
-estava positivamente avassallada á Sé de Roma. Henrique, posto que se
-sentisse inclinado, pela educação recebida, a adoptar as idéas de Colet,
-More e Erasmo, via-se obrigado, em vista da situação particular em que se
-encontrava, a manter-se n’uma attitude de irreconciliavel hostilidade, e
-o facto de ter reprovado os actos de Luthero conquistou-lhe o titulo de
-Defensor da Fé.
-
-=Henrique muda de opinião.=—Henrique nunca deixou de reconhecer a
-supremacia do papa em todos os assumptos, durante os primeiros dezoito
-annos do seu reinado. De um momento para o outro, porém, começou a
-pensar de differente modo, e podem-se apresentar bastantes razões para
-essa subita mudança de idéas. Parece que elle teve sempre duvidas
-ácerca da legitimidade do seu casamento com Catharina, e que essas
-duvidas se avolumaram á medida que ia perdendo a esperança de ter um
-filho varão que lhe succedesse, chegando a convencer-se de que esse
-facto representava um castigo divino por haver desposado a viuva de seu
-irmão. Durante todo esse tempo, comtudo, a alliança hespanhola, que fôra
-tratada primeiramente com Fernando, e mais tarde com o neto d’este, o
-imperador Carlos V, havia sido de grande utilidade para Henrique e para
-a Inglaterra; e essa mesma aliança é que havia, na opinião do rei, de
-firmar o throno de sua filha, cuja legitimidade, declarada pelo papa,
-encontraria no imperador um inabalavel sustentaculo.
-
-Carlos V, porém, estava absorvido nos seus planos de anniquilar a
-Reforma, e estabelecer o imperio medieval, e o papa só pensava em
-conquistar para si uma posição independente, em se tornar o primeiro
-dos principes italianos, revestido de todo o poder secular, de modo que
-nenhum d’elles correspondia á expectativa de Henrique. Este deixou de ter
-confiança na fidelidade d’elles á sua casa, quanto á sucessão do throno.
-Encontrava-se n’uma situação embaraçosa, e, como meio mais rapido de
-sair das suas difficuldades, resolveu pedir ao papa que o divorciasse
-de Catharina de Aragão. Cessariam d’esse modo os seus escrupulos de
-consciencia por haver casado com a cunhada; poderia contrair novo
-casamento, a alimentar a esperança de ter um filho macho, seu legitimo
-herdeiro. Entendeu-se, pois, com o cardeal Wolsey, seu ministro, e
-dirigiu ao papa um pedido de divorcio.
-
-N’aquela ocasião, porém, o papa queria evitar qualquer desintelligencia
-com Carlos V, sobrinho de Catharina, e recusou dar o seu consentimento
-para o divorcio, sendo então que Henrique, homem muito exaltado, e a
-quem os obstaculos não faziam recuar, decidiu divorciar-se não obtante a
-recusa do papa. Todos os interesses pessoaes que até certo tempo levaram
-o rei a apoiar a supremacia papal se ligavam agora para que elle fizesse
-exactamente o contrario. Se o papa tivesse sanccionado o divorcio, não
-teria havido, provavelmente, ruptura com Roma, porque o rei continuaria a
-ter interesse em que se mantivesse a supremacia papal; as circumstancias,
-porém, aconselhavam-n’o a enveredar por outro caminho, e foi o que elle
-fez.
-
-Thomaz Cromwell alvitrou que se consultassem as universidades da Europa
-sobre a legalidade do casamento de Henrique e este acceitou o alvitre
-com grande alvoroço. Tratou-se, por conseguinte, de pôr esta idéa em
-execução, entregando-se a eminentes vultos, a verdadeiras summidades,
-o decidirem a questão segundo as leis canonicas, tendo ao mesmo tempo
-na devida consideração a sensivel consciencia do rei. Apoz algum tempo,
-e tendo-se dispendido com isso uma fabulosa quantia, as universidades
-declararam, por uma muito pequena maioria, que o casamento de Henrique
-com Catharina não era valido, concluindo-se d’esta decisão que Henrique
-não tinha herdeiro algum legitimo.
-
-Animado com este veridictum, resolveu pôr em pratica qualquer das
-duas coisas seguintes: alarmar o papa, obrigando-o assim o conceder o
-divorcio, ou repudiar a sua auctoridade suprema.
-
-Foram muitos os motivos secundarios que contribuiram para que elle
-tomasse esta ultima deliberação. Henrique, que gostava de viver com
-muita ostentação, tinha desbaratado, havia muito, as riquezas que o
-pae amontoara, e era-lhe impossivel augmentar os impostos. Os cofres
-do Estado estavam despejados, e para os encher bastaria o espolio dos
-conventos e mosteiros. Isto constituiu uma das razões, mas havia uma
-outra que appellava mais fortemente para a sua vaidade.
-
-=Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre
-elles.=—As tres grandes potencias europêas no tempo da Reforma eram
-Hespanha, França e Inglaterra, e não podia deixar de haver rivalidade
-entre os respectivos monarcas. O rei de Hespanha, que era o mais poderoso
-dos tres, era tambem imperador da Allemanha, e todo o seu empenho
-consistia em restabelecer no imperio o esplendor que este tivera na Edade
-Media. Segundo as antigas noções medievaes, não havia mais do que uma
-christandade, o imperador era supremo e soberano, e todos os outros reis
-estavam sob a sua dependencia. Se Carlos fosse bem succedido nos seus
-esforços, Francisco e Henrique passavam a occupar uma posição inferior
-á que tinham, e, portanto, convinha-lhes trabalhar para que o plano
-de restauração não vingasse. Uma christandade medieval implicava uma
-egreja indivisa, centralizada no papa, o bispo de Roma. A politica dos
-reis da França e de Inglaterra insistia em obstar a essa centralização
-ecclesiastica, e fazer com que as egrejas das suas respectivas nações se
-tornassem o mais independentes de Roma que fosse possivel.
-
-Francisco havia conseguido isso quanto á França, e de um modo que
-contribuiu bastante para que o seu prestigio augmentasse, e o seu
-poder se consolidasse dentro do proprio reino. O papa, mediante a
-Concordata de 1516, havia, sob a condição de que os _annates_ seriam
-pagos com regularidade, e de que lhe seriam feitas certas e determinadas
-concessões, investido praticamente o rei de França na chefatura da
-egreja franceza, dando-lhe liberdade para prover como entendesse os
-differentes cargos ecclesiasticos.
-
-Henrique, rival de Francisco, era tambem seu imitador, e havia de lhe
-ser difficil deixar de ter inveja das regalias que o papa lhe tinha
-concedido. O que Francisco recebeu pela Concordata de 1516, deu o
-parlamento inglez a Henrique quando o proclamou chefe supremo, sobre a
-terra, da egreja de Inglaterra. De modo que em França a supremacia do rei
-sobre a egreja fez com que fossem toleradas as reivindicações papaes, ao
-passo que em Inglaterra promoveu a revolta contra Roma. A França, liberta
-do dominio papal por livre vontade do proprio papa, podia ficar por ahi,
-mantendo, a todos os outros respeitos, as velhas tradições da egreja. A
-Inglaterra, que alcançara a sua independencia contra a vontade do papa,
-e por meio de um acto de rebellião contra a sua auctoridade, tinha de
-ir mais longe; para conservar a posição que tomara era-lhe necessario
-afastar-se cada vez mais de Roma.
-
-Sucedeu, assim, que a Reforma em Inglaterra foi o avanço quasi
-involuntario de uma nação revoltada contra Roma, pois que a sua
-resistencia á curia romana foi, em primeiro logar, o meio de que um
-imperioso monarca se serviu para conseguir o seu engrandecimento pessoal,
-e, em segundo logar, o meio de que um povo se serviu para conseguir a
-sua independencia. A França, a despeito dos huguenotes, conservou-se
-catholica romana; a Inglaterra, a despeito de Henrique VIII, tornou-se
-uma nação protestante.
-
-=A submissão do clero.=—Henrique depressa se certificou de que não
-era possivel constranger o papa, mediante o medo, a conceder-lhes o
-divorcio, mas resolveu obrigar o clero inglez a conformar-se pelo medo
-com as suas deliberações. O cardeal Wolsey foi nomeado nuncio do papa
-em Inglaterra, e todos os bispos e mais clerigos o reconheceram como
-tal. Ora em 1531 o rei acusou-o abruptamente de haver transgredido a lei
-do _Proemunire_ pelo facto de acceitar aquelle cargo e cumprir, ainda
-que só apparentemente, os deveres que lhe eram inherentes, e accusou
-egualmente todos os clerigos de Inglaterra de serem cumplices d’esse
-crime pelo facto de o aceitarem na qualidade de embaixador do papa.
-Declarou, outrosim, que tanto Wolsey como todos os clerigos da egreja
-ingleza haviam incorrido, em virtude d’esse delicto, na perda de todos
-os bens ecclesiasticos de que estavam de posse. O clero ficou seriamente
-alarmado, e, para evitar uma catastrophe maior, sujeitou-se a pagar
-uma multa de 118:000 libras e a assignar, ainda que de má vontade, uma
-declaração de que o rei era «o unico protector, o unico senhor supremo,
-e, _até onde é permittido pela lei de Christo_, o supremo cabeça da
-egreja e do clero». A ambiguidade que se nota n’este reconhecimento foi
-intencional. Era um subterfugio para as consciencias fracas, mas o rei
-ficou satisfeito com a phrase, certo como estava de que poderia obrigar o
-clero a proceder segundo a interpretação que elle proprio lhe dava.
-
-Tratou sem demora de mostrar como era por ele compreendido o sentido
-pratico de similhante declaração, desdobrando-o em tres artigos, que
-os clerigos tiveram tambem de assignar. Declaravam que regulamento
-ou preceito algum ecclesiastico seria de ali em deante promulgado ou
-publicado pelo clero sem previo consentimento do rei; que approvavam
-a nomeação de uma commissão de trinta e duas pessoas para rever os
-antigos canones da egreja e cortar todos aqueles que fossem prejudicaes
-á autoridade do rei; e, finalmente que os canones ecclesiasticos só eram
-validos depois de ratificados com auctorização do rei. Estas proposições
-foram submetidas á Convocação, ou Assembléa Geral da Egreja de
-Inglaterra, e, depois de alguma hesitação, o clero, reunido, acceitou-as.
-A Convocação foi um pouco mais longe do que o rei, pois que pediu para
-que o clero inglez não pagasse mais os _annates_ á sé de Roma.
-
-Esta decisão tomada pela Convocação, de que a egreja de Inglaterra
-não podia fazer leis para sua direcção ou governo sem a sancção ou
-ratificação do rei, tem sido chamada a _Submissão do Clero_. Assim no
-ano de 1532 a egreja de Inglaterra, por ordem do rei e do parlamento,
-renunciava á sua obediencia a Roma. Esta renuncia ao governo papal
-incluia (1) o reconhecimento da supremacia real; (2) submissão á corôa
-pela cedencia do direito de fazer leis; e (3) a recusa ao papa das
-receitas que lhe haviam sido pagas durante gerações. A egreja conservava
-as mesmas doutrinas, governo e culto, consistindo apenas a differença em
-o rei tomar o logar que o papa tinha ocupado.
-
-O clero tinha alimentado a esperança de que lhe fosse permittido reter
-os _annates_ em seu poder, mas o rei mostrou que estava resolvido a que
-a supremacia real fosse tão genuina como a antiga supremacia do bispo de
-Roma, e insistiu em que o imposto pontificio fosse pago na thesouraria
-real.
-
-=O progresso da Separação de Roma.—O parlamento inglez, em
-1529-1536.=—Durante os primeiros annos do reinado de Henrique VIII,
-quando era do interesse do rei estar bem com o papa e com o rei de
-Hespanha, todas as queixas contra a egreja haviam sido reprimidas.
-Agora, porém, que Henrique queria aterrorisar o papa para o obrigar a
-conceder-lhe o divorcio, as queixas eram animadas. Henrique servia-se
-do parlamento como Carlos V se podia ter servido da Dieta allemã. Todas
-as nações tinham accusações a apresentar contra a egreja. Os allemães
-publicaram as suas _Cem Afrontas_; o parlamento inglez, convocado para
-se reunir em 1529, tinha tambem queixas a fazer ácerca da libertação
-do clero da jurisdicção dos tribunaes judiciaes da nação, ácerca da
-auctoridade absoluta exercida pelos tribunaes ecclesiasticos sobre
-os leigos em pleiteados casos de casamento, testamentos, successão,
-calumnia, etc., ácerca das avarezas do clero e do elevado custo dos
-enterros e dos baptismos, e assim successivamente. O parlamento formulou
-estas queixas, e com isso alarmou, e não pouco, o clero, tornando-o mais
-submisso ás imperiosas ordens do rei.
-
-Em Janeiro de 1532 Henrique VIII desposou Anna Boleyn, provocando, d’esse
-modo, pessoalmente o papa. O seu casamento com Catharina de Aragão foi
-declarado nullo e sem effeito pelo arcebispo de Canterbury, que fallou
-em nome da Egreja de Inglaterra, e por deliberação do parlamento. O
-rei, a nação, e, um pouco constrangidamente, a egreja uniram-se, pois,
-para desafiar collectivamente o papa, e para se revoltarem contra o
-imperio ecclesiastico da Edade Media. O parlamento secundou este desafio
-approvando leis que tendiam a uma separação completa, e que, pelo lado
-politico, eram inoffensivas para os subditos inglezes. Sete dos seus
-decretos teem uma importancia especial.
-
-(1) Em 1533 o parlamento prohibiu ao clero o pagar os _annates_, ou o
-vencimento do primeiro anno, quando se entrava na posse de qualquer
-beneficio. Estas «primicias» tinham sido sempre consideradas uma
-homenagem devida á supremacia do papa.
-
-(2) Na mesma sessão o parlamento aboliu as appellações para Roma. O
-_Estatuto para Repressão das Appellações_ declarava que nenhum subdito
-inglez podia appellar de um tribunal da sua nação para outro qualquer,
-e que similhante appellação constituia uma violação do Estatuto de
-_Proemunire_, ficando sujeita ás devidas consequencias. Todas as questões
-que tivessem de ser submettidas ao juizo da Egreja deviam ser entregues
-aos tribunaes ecclesiasticos do reino. Continuavam a ser permittidas
-as appellações de um arcediago para um bispo, e de um bispo para um
-arcebispo; mas aqui parava o direito de appellar, e o tribunal do
-arcebispo era o supremo tribunal de appellação. Só o rei podia appellar
-d’este supremo tribunal ecclesiastico, e podia levar a sua appellação
-para a Convocação, mas não fóra do reino.
-
-(3) Em 1534 a _Submissão do Clero_ foi ratificada pelo parlamento. Ficou
-declarado que era necessario o consentimento do rei para todas as leis
-ecclesiasticas, e, para dar a isto um valor pratico, estabeleceu-se que
-em todos os pleitos havia o direito de appellar do supremo tribunal
-espiritual, que era o do arcebispo, para o rei.
-
-(4) O parlamento declarou, outrosim, que o papa não tinha direito de
-intervir na eleição dos bispos, e que todo e qualquer poder que se
-attribuia ao papa pertencia realmente ao rei. Esse direito era definido
-de tal fórma que se podesse dar todo o direito de nomeação ao rei, ao
-passo que se preservava a sombra do antigo uso ecclesiastico. Quando
-uma sé vagava, assistia ao rei o direito de auctorizar o deão e o
-capitulo a eleger para o cargo vago qualquer pessoa mencionada na carta
-de licença. As dispensações papaes eram tambem declaradas illegaes, e o
-poder dispensativo que n’outro tempo, segundo era por todos reconhecido,
-pertencia ao papa, ficava residindo agora na Egreja de Inglaterra, e o
-seu exercicio pertencia aos arcebispos de Canterbury e de York.
-
-(5) Para mostrar, comtudo, que todos estes Actos não tinham em vista
-reforma alguma, mas sómente uma separação politica da Egreja de
-Inglaterra quanto ao papado, o parlamento promulgou uma lei sobre a
-heresia, em que se declarava que os herejes seriam queimados como
-antigamente, em obediencia ao velho decreto _de combatendo hereticos_, e
-o rei, como cabeça da Egreja, recebia o encargo de a purificar de falsas
-doutrinas. Declarava-se, porém, que fallar mal do papa não constituia
-heresia.
-
-(6) Por ultimo, saiu d’este notavel parlamento o _Acto de Successão_ e o
-_Acto de Traição_. O primeiro declarava que a princeza Maria, filha de
-Catharina de Aragão, era illegitima, e transferia o direito de successão
-para a princesa Isabel, filha de Anna Boleyn. O _Acto de Traição_ punia
-com a morte todos aquelles que recusassem acceitar o _Acto de Successão_
-ou reconhecer o novo titulo e as novas prerogativas do rei.
-
-=Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes.=—Em todos os Actos
-d’este parlamento, e em todas as decisões de uma submissa Convocação,
-nada houve que não fosse puramente politico. A Inglaterra não se havia
-tornado protestante ou lutherana, e Egreja reformada em Inglaterra era
-coisa que não existia. A Inglaterra havia-se, tão sómente, desligado de
-aquella alliança que, sob a superintendencia do imperador e do papa,
-realisava a idéa medieval de um systema de governação, tanto civil como
-ecclesiastico. O que torna importantissimas aquellas deliberações do
-parlamento é o facto de ter sido a Inglaterra a primeira nação que rompeu
-com o medievalismo e deixou de reconhecer o velho imperio ecclesiastico
-da Edade Media. Os herejes, isto é, aquelles que haviam acceitado as
-doutrinas de Luthero, ou que, entregando-se ao estudo da Biblia, tinham
-chegado ao conhecimento de um mais puro christianismo, eram perseguidos
-e mortos, usando-se com elles da mesma crueldade, do mesmo espirito de
-vingança, como quando a Inglaterra era uma escrava obediente do papa.
-Diz-se que Wolsey, no seu leito de morte, supplicou ao rei que destruisse
-todos os signaes de lutheranismo; e, a despeito da grande tolerancia de
-Thomaz More, os herejes eram procurados e castigados. Tindal, que tinha
-traduzido em inglez o Novo Testamento de Erasmo, foi caçado de logar em
-logar, como se fosse um animal feroz. Todos os que se atrevessem a fallar
-contra a missa, a transubstanciação, o culto dos santos e a efficacia
-das boas obras corriam o risco de ser presos e queimados como herejes.
-Os Actos do Parlamento não haviam promovido a liberdade de consciencia,
-tinham simplesmente dado logar a novos ensejos para perseguir e matar.
-Para ajuntar aos antigos crimes theologicos, appareceu um outro. Quem se
-recusasse a prestar o juramento de supremacia, quem se atrevesse a dizer
-que Catharina de Aragão era a esposa legitima do rei, e que a princeza
-Maria era a herdeira do throno, estava sujeito a ser preso, processado e
-executado. A Inglaterra encontrava-se n’um estado anormal, n’um estado de
-grande agitação, e os homens conscienciosos tudo soffriam por causa da
-consciencia.
-
-=A execução de Tomaz More.=—Thomaz More era o chanceller quando o
-parlamento, reunido em 1529, separou a nação, mediante successivos Actos
-do imperio ecclesiastico de Roma. Tinha sido na sua mocidade um distincto
-estudante, e havia-se entregue com amor aos «estudos modernos» de latim,
-grego e hebraico quando, em Oxford, assistira ás prelecções de Tinacre,
-um dos primeiros humanistas inglezes, que se havia educado em Italia
-para o seu trabalho escolastico em Inglaterra. Dedicara-se á carreira
-da jurisprudencia, foi magistrado em Londres, e tornou-se notoria a sua
-amizade ao deão Colet e a Erasmo. O seu livro _Utopias_ dá testemunho
-de que elle havia adoptado muitas das opiniões de Marcello de Padua e
-de outros juristas liberaes do fim da Edade Media. Elle opinava que
-tanto a Egreja como o Estado existiam para beneficio do povo, e todo o
-seu anhelo era uma reforma de costumes na Egreja. Investido no cargo
-de chanceller, toda a gente notou a brandura de que elle usava com os
-herejes; permaneceu, porém, ligado ás doutrinas da Egreja Catholica
-Romana, e abandonou algumas das suas primitivas opiniões em favor de mais
-estrictas idéas ácerca da origem divina da supremacia do papa. Reprovou,
-portanto, todo o procedimento da côrte e do parlamento inglez depois da
-queda de Wolsey. Avisou o rei de que não podia ser parte no divorcio de
-Catharina de Aragão. Não quiz assistir ao casamento e coroação de Anna
-Boleyn, e, ao ser ameaçado com as consequencias, disse ao rei que as
-ameaças eram para as creanças e não para elle. Henrique tinha uma forte
-affeição pelo seu chanceller; mas coisa alguma poderia augmentar mais
-a duvida com respeito á validade do divorcio, do novo casamento e da
-successão ao throno derivada d’este, do que a recusa da maior auctoridade
-juridica da nação de ver em Catharina de Aragão uma mulher que não era a
-esposa legitima de Henrique VIII.
-
-More foi, portanto, obrigado a prestar juramento de fidelidade á nova
-rainha, reconhecendo Anna Boleyn como a esposa legitima de Henrique VIII,
-e a confirmar a legalidade do _Acto de Successão_. N’esta conjunctura,
-elle tinha de obedecer á consciencia ou salvar a vida, e, com uma grande
-serenidade de espirito, preferiu obedecer á consciencia. A mulher
-foi ter com elle á prisão, rogando-lhe que se submettesse á ordem do
-rei. «Senhora Alice», retorquiu elle, com toda a ternura, «esta casa
-não estará tão perto do céu como a nossa?» A filha, Margarida Roper,
-que era afamada pela sua erudição, pela sua affabilidade e pela sua
-formosura, foi tambem vêl-o repetidas vezes, e as suas visitas como que
-lhe fortaleceram a serena coragem. Morreu em Julho de 1535. Erasmo soube
-da morte d’elle quando tinha entre mãos a sua _Pureza da Egreja_, a que
-ajuntou um prefacio que é quasi uma biographia do seu velho amigo, a que
-attribue uma alma mais pura do que a neve.
-
-O assassinio judicial de Thomaz More e do bispo Fisher, seu companheiro
-no soffrimento, veiu demonstrar o estado cahotico em que Henrique VIII
-havia feito cair a Inglaterra, pois que, ao passo que eram queimados os
-homens accusados de lutheranismo, executavam-se aquelles que mantinham a
-auctoridade do papa no que dizia respeito aos costumes e á doutrina.
-
-=A suppressão dos mosteiros e a confiscação dos bens da Egreja.=—Henrique
-VIII tinha sido sempre um grande gastador. Tudo quanto o pae lhe deixara
-havia desapparecido logo no principio do seu reinado, em virtude da
-guerra com a França. O rei e a côrte tinham grande necessidade de
-dinheiro. Thomaz Cromwell lembrou então que este podia ser obtido
-mediante a suppressão de alguns dos mosteiros.
-
-Do clero ninguem foi mais justamente atacado do que os monges, durante o
-periodo da Reforma. A sua preguiça, as suas riquezas, a sua cupidez e a
-sua má vida eram notorias em toda a Europa. Os auctores populares haviam
-composto satyras a seu respeito, e graves estadistas tinham chamado a
-attenção do papa para uma reforma das varias ordens.
-
-Gromwell insistiu n’uma syndicancia aos mosteiros, com o fim de se ficar
-sabendo se as queixas formuladas tinham fundamento. Foram visitadas tres
-d’essas casas, e constatou-se que as vidas dos frades e das freiras
-estavam longe de ser o que deviam ser, que a propriedade monacal
-havia sido pessimamente administrada, e que muitos dos religiosos,
-de ambos os sexos, desejavam desligar-se dos votos. O parlamento
-approvou uma proposta de lei para que fossem supprimidos os conventos
-menos importantes, e, passado algum tempo, eram encerrados todos os
-estabelecimentos monacaes. Os respectivos bens foram confiscados em
-proveito do rei. A grande somma de dinheiro que se obteve por esta fórma
-podia, nas mãos de um monarca astuto e economico, ter constituido um
-vasto capital cujo rendimento habilitaria o rei a prescindir de impostos,
-e, por consequencia, a prescindir de parlamento, o que redundaria na
-ruina, em Inglaterra, de todas as liberdades. Henrique era, por indole,
-um despota, mas não tinha em si a força de vontade necessaria para pôr
-em execução aquillo que lhe vinha á idéa. A sua ambição principal era
-poder dispôr de muito dinheiro, e as propriedades confiscadas aos frades
-foram postas em praça a vendidas pelo maior preço que foi possivel
-obter. O resultado d’isso foi augmentar consideravelmente o numero dos
-proprietarios em Inglaterra. Henrique dissipou em poucos annos todo o
-dinheiro que d’aquelle fórma lhe fôra parar ás mãos, e ficou tão pobre e
-tão necessitado do auxilio dos seus subditos como anteriormente.
-
-=Os dez artigos.=—Cranmer, o arcebispo de Canterbury, que havia sido
-um instrumento facil nas mãos do rei, quando este andou tratando de se
-assenhorear das liberdades da Egreja e de uma grande parte das suas
-riquezas, tinha uma secreta predilecção pelas doutrinas reformadas
-de Luthero e de Zwinglio. Thomaz Cromwell, que desde o fallecimento
-de Wolsey exercia o cargo de conselheiro politico do rei, era tambem
-um admirador dos homens da Reforma. Ambos tinham o desejo, depois
-da Inglaterra se ter separado politicamente do papado, e de se ter
-effectuado a suppressão dos mosteiros, de introduzir uma reforma de
-doutrina e de culto, e de equiparar a Egreja de Inglaterra ás egrejas
-reformadas da Allemanha e da Suissa.
-
-O schema politico de Cromwell consistia em collocar Henrique á frente de
-uma confederação protestante que podesse rivalisar com o imperio medieval
-de Carlos V. Isto sómente se poderia fazer, comtudo, se a Egreja da
-Inglaterra abraçasse as doutrinas da Reforma e animasse os homens que até
-ali tinham sido perseguidos como herejes.
-
-O rei desapprovou energicamente a proposta, mas por fim cedeu, e em 1536
-foram publicados, com a approvação da Convocação, os _Dez Artigos_,
-que eram um breve formulario de doutrinas. Estes artigos asseveravam
-a auctoridade da Escriptura, dos tres grandes e antigos credos, e dos
-quatro concilios ecumenicos; affirmavam que o baptismo era necessario
-para a salvação; que a penitencia, a confissão e a absolvição eram
-egualmente coisas necessarias; que o corpo e sangue de Christo estavam
-substancial, real e corporalmente presentes no pão e vinho da Eucaristia;
-que a justificação tinha logar mediante a fé, junta com a caridade e
-com a obediencia; que nas egrejas era licito o uso das imagens; que se
-devia glorificar a Virgem e invocar os santos; que se devia conservar os
-varios ritos e dias santificados da Egreja medieval, fazendo-se uso dos
-paramentos, dos crucifixos e da agua benta; que existia o purgatorio; e
-que, finalmente, se devia fazer orações pelos defuntos.
-
-Estes Artigos, como se vê, não estavam em conformidade com a fé
-protestante. Alguns historiadores ecclesiasticos teem dito que elles
-foram muito judiciosamente collocados entre a doutrina dos reformadores
-mais pronunciadamente biblicos e as velhas superstições; mas teem sido
-mais bem descriptos como essencialmente «romanistas, com o papa atirado
-para a margem». Fuller diz que elles foram destinados para creancinhas
-«recentemente tiradas dos peitos de Roma.»
-
-Emquanto estes acontecimentos iam tendo logar, Catharina de Aragão
-morreu, em 1536, e o rei desembaraçou-se de Anna Boleyn, mandando-a
-decapitar sob a accusação de infidelidade. Sua rilha, a princeza Isabel,
-foi, pelo parlamento, declarada illegitima, e a successão tornou-se de
-novo incerta.
-
-O rei casou então com Jane Seymour, a cuja descendencia ficaram
-reservados os direitos á corôa.
-
-=A peregrinação da graça.=—As execuções de Thomaz More e do Bispo Fisher
-haviam desgostado muitissimos subditos do rei que eram affeiçoados a
-Roma, e estes, animando-se com a declaração da illegitimidade de Isabel
-e com a incerteza quanto á successão, promoveram rebelliões em Yorkshire
-e Lincolnshire. Os rebeldes contavam com o auxilio da Hespanha, e tinham
-tambem muita confiança no effeito que havia de produzir a bulla, que
-acabava de ser publicada, em que o papa excommungava Henrique VIII.
-
-Os seus projectos, porém, foram com facilidade mallogrados, e o
-nascimento de um filho de Jane Seymour, a quem o rei havia desposado
-depois da morte de Catharina de Aragão, deu ao rei a cubiçada successão
-legitima e fez cessar todos os sentimentos anarquicos entre o povo.
-
-Infelizmente, a rainha falleceu ao dar á luz o filho.
-
-Cromwell e Cranmer voltaram novamente com as suas idéas de uma união
-protestante. Cranmer, juntamente com uma commissão de prelados, redigiu,
-em 1537, o que se ficou chamando o _Livro do Bispo_, ou a _Instituição
-de um Christão_, e que continha uma exposição de theologia muito mais
-protestante do que os _Dez Artigos_.
-
-No anno seguinte Cranmer, que havia estado em correspondencia com os
-theologos de Wittenberg, organizou um outro credo chamado os _Treze
-Artigos_, e que era largamente baseado na Confissão de Augsburgo.
-
-O rei recusou sanccionar estes Artigos, e foi-se gradualmente afastando
-do plano de uma alliança protestante. Cromwell caiu no desagrado de seu
-amo em virtude da persistencia com que advogava esse plano, chegando a
-apresentar um projecto de casamento de Henrique com Anna de Cleves, com
-o fim de cimentar a alliança. Morreu no cadafalso, como havia succedido a
-More e a Fisher, e o rei foi-se tornando cada vez mais reaccionario.
-
-=O Estatuto Sanguinario, ou os Seis artigos.=—O primeiro indicio d’esse
-facto foi a publicação do _Livro do Rei_, ou a _Necessaria Doutrina e
-Erudição para todos os Christãos_. Em 1539, Henrique resolveu voltar á
-politica do primeiro periodo do seu reinado, e poz-se em communicação
-com Carlos V. A mudança na politica exterior do rei teve repercussão nos
-negocios internos. Foram promulgados os _Seis Artigos_, «para abolir a
-diversidade de opiniões», e foi revogoda a permissão de ler a Biblia
-traduzida por Tindal.
-
-Estes Artigos exigiam de todos os inglezes, sob pena de confiscação
-dos bens, e de morte, que cressem na transubstanciação, que negassem
-a necessidade dos leigos participarem do calix na communhão e que
-admittissem o celibato do clero, a obrigação dos votos de castidade e a
-necessidade das missas e da confissão auricular.
-
-As doutrinas das egrejas reformadas da Allemanha e da Suissa tinham
-feito algum progresso na Inglaterra, não obstante as perseguições, e
-haviam sido abraçadas por um grande numero de pessoas durante aquelles
-annos de tolerancia em que Cranmer e Cromwell dirigiram a politica do
-rei, e esta lei dos Seis Artigos deu logar a uma grande perseguição. O
-povo chamava-lhe o Estatuto Sanguinario e o Chicote das Seis Cordas. Deu
-principio a um reinado de terror, que só terminou com a morte do rei.
-Felizmente para a nação, esta não se fez esperar muito.
-
-=O estado da Egreja de Inglaterra em 1547.=—Henrique morreu em 1547,
-deixando tres filhos: Maria, filha de Catharina de Aragão, com 31
-annos; Isabel, filha de Anna Boleyn, com 14; e Eduardo, filho de Jane
-Seymour, com 10. Maria e Isabel haviam sido declaradas illegitimas pelo
-parlamento. Eduardo succedeu a seu pae no throno.
-
-Henrique deixou atraz de si um caos, para sair do qual teve a nação de
-sustentar uma tremenda lucta. O rei, emquanto viveu, susteve com mão
-ferrea os romanistas extremos e o partido protestante, e manteve até
-ao fim o seu ideal, que era uma egreja catholica, desligada do papa.
-E conseguiu-o, pondo-se no logar outr’ora occupado pelo papa. Exercia
-sobre a Egreja uma auctoridade muito mais absoluta do que sobre o
-Estado. A posição era difficil de sustentar, e foi-o muito mais para os
-monarcas que succederam a Henrique, pois que as idéas reformistas iam-se
-propagando cada vez mais. Deixou tambem sem solução muitos problemas
-politicos. Os cofres publicos estavam vasios. A sua politica exterior foi
-um subterfugio, que collocou em grandes embaraços os seus successores.
-A venda dos bens da Egreja produziu uma mudança, tanto social como
-economica, que difficultou a vida da nação.
-
-O assumpto, porém, que exigia immediata resolução era: A Inglaterra devia
-abraçar a Reforma, ou voltar de novo para o romanismo? A Egreja não podia
-permanecer na situação em que Henrique a havia deixado.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE MARIA
-
- Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o _Livro de
- Homilias_ e o _Livro de Oração Commum_, pag. 176.—A alliança
- com o protestantismo continental, pag. 178.—Os _Quarenta e
- Dois Artigos_, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag.
- 179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra
- por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha
- necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se
- firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A
- reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida
- a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado
- de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag.
- 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A
- morte de Maria, pag. 187.
-
-
-=Será adoptada a Reforma?=—Quando Henrique morreu, succedeu-lhe seu
-filho, Eduardo VI, que era então um rapazito de dez annos. Pouco antes de
-morrer, Henrique fez testamento, em que deixou instituido um conselho de
-regencia, composto de dezeseis membros da nobreza, o qual entrou logo no
-exercicio das suas funcções, começando a governar. O referido conselho
-escolheu o conde de Hertford, que fazia parte d’elle, para o logar de
-protector do reino, recebendo n’essa occasião, em conformidade, segundo
-se diz, com o que estava estabelecido no testamento, o titulo de duque
-de Somerset. A questão mais grave que este conselho de regencia tinha de
-resolver era a questão religiosa. A Inglaterra não podia continuar no
-estado em que se encontrava. Ou a Egreja se reformava, ou a nação tinha
-de renovar a sua alliança com Roma. Se se tivesse consultado a opinião
-publica, ver-se-hia, provavelmente, que uma grande maioria era partidaria
-do romanismo. Os ultimos annos do reinado de Henrique tinham sido uns
-annos de terror, e todas as desventuras eram attribuidas á supremacia
-real em materia de religião. O povo de Inglaterra, por outro lado,
-estava pouco ao facto das doutrinas reformadas, e a Biblia não estava
-vulgarisada. A Reforma não havia sido prégada na Inglaterra, como o fôra
-na Allemanha e na França. Não havia excitado o enthusiasmo popular.
-
-A extincção dos conventos tinha feito com que a gente do campo desejasse
-voltar ao antigo systema. Os inglezes não haviam opposto obstaculo algum
-á extincção dos conventos e á confiscação dos bens da Egreja quando isso
-foi pela primeira vez decretado; mas os camponezes em breve descobriram
-que a unica coisa que havia resultado para elles fora uma substituição
-de amos com quem se davam perfeitamente por outros que custavam immenso
-a supportar. Os novos proprietarios vedavam os logradouros publicos,
-derrubavam os muros e as sebes que dividiam entre si as quintas pequenas
-para formarem extensas propriedades, e preferiam as pastagens ás searas
-de trigo, diminuindo assim o valor das terras e dando logar a uma grande
-falta de trabalho. A pobre gente suspirava por aquillo a que chamava os
-bons tempos.
-
-A extincção dos conventos tinha, por outro lado, atirado cá para fóra
-com uma legião de homens que não tinham profissão alguma e incapazes de
-ganhar a vida, era preciso cuidar d’essa gente. O governo havia entendido
-que o meio menos dispendioso de arrumar os frades era collocal-os nas
-freguezias, na qualidade de parocos ou de coadjuctores. E assim a Egreja
-encheu-se de homens que trabalhavam de má vontade, e que odiavam aquella
-nova ordem de coisas que lhes havia transtornado a vida.
-
-Todas estas coisas tornavam duvidoso se a Inglaterra adoptaria a Reforma
-ou se reconciliaria com Roma.
-
-Por outro lado, havia homens fervorosos e cheios de resolução, que
-estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e até a propria vida,
-pela causa da Reforma, que elles estavam na convicção de ser a causa
-de Christo. No numero d’esses homens figuravam o Protector, Somerset,
-e outros membros do conselho da regencia, que deliberaram introduzir
-a Reforma na Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real
-appareceu sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os a
-solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças. Isto tinha
-sido inventado por Cromwell para que não fossem prejudicadas as regias
-prerogativas.
-
-=A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração
-Commum.=—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O paiz foi
-dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas foi nomeado um
-funccionario, que deveria averiguar se os serviços ecclesiasticos estavam
-sendo executados segundo as leis vigentes. A jurisdicção episcopal
-esteve durante algum tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome
-do rei. Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços
-ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas deficiencias.
-O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimo havia sido sempre lutherano,
-e que animara o conselho da regencia em todos os planos d’este, compoz
-um _Livro de Homilias_, que foi entregue ao clero paroquial, com a
-recommendação de ser lido nas egrejas. A _Paraphrase do Novo Testamento_,
-de Erasmo, foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem
-fosse lida no culto publico.
-
-Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner, bispo de
-Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre Henrique VIII
-nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra um dos auctores do Estatuto
-Sanguinario, estava á testa do partido reaccionario, e protestou contra
-todas as propostas dos visitadores.
-
-Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu os _Seis Artigos_, declarou
-que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato, que na Ceia do
-Senhor o vinho, assim como o pão, devia ser administrado aos leigos, e
-approvou a politica ecclesiastica do Protector Somerset.
-
-As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas egrejas mais
-simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se o uso do _Livro de
-Oração Commum_, compilado, por Cranmer, dos antigos rituaes. Foi este o
-_Primeiro Livro de Oração Commum de Eduardo VI_, e, posto que mais tarde
-passasse por algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu
-conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente.
-
-Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento do romanismo. As
-imagens e reliquias das egrejas foram destruidas. Aboliram-se os antigos
-dias de jejum, e o arcebispo Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á
-vista de todos, na quaresma.
-
-Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a maioria, do povo
-e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente. Bonner, bispo de
-Londres, tentou oppôr-se indirectamente á corrente, declarando que o
-novo Livro de Orações podia ser tomado n’um sentido romanista; mas isso
-apenas levou a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos,
-á remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas, e á
-preparação de um novo _Livro de Ordem_.
-
-Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia mudado, e em
-doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se tornado protestante.
-As mudanças que se haviam feito tinham promovido um grande sentimento
-de desagrado para com Somerset; houve tentativas de revolta; e, posto
-que estas fossem suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na
-politica exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido
-pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo succedido
-pelo conde de Warwick.
-
-=A alliança com o protestantismo continental.=—A subida de Eduardo
-ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick animaram o
-arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo plano de uma alliança entre a
-Egreja Romana e as Egrejas protestantes do Continente. Sob o congenial
-patrocinio de Somerset, o plano de Cranmer parece ter incluido uma
-assembléa, em Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes
-com o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir de
-resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante commum.
-
-Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que diversos
-theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo inglez na fé
-reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram de Strasburgo para
-Inglaterra, e installaram-se em Cambridge, onde fizeram prelecções sobre
-theologia e sobre as Escripturas do Antigo Testamento. Dois distinctos
-italianos, Pedro Martyr de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna,
-vieram leccionar para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos
-elles abalisados professores, instruiram um grande numero de rapazes
-nos artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores
-para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem, segundo o uso
-continental, polemicas publicas sobre pontos controversos de theologia,
-taes como a Transubstanciação, o Celibato do Clero, o Purgatorio, etc.
-
-Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos, e foi
-mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu aquella inclinação
-para o modo calvinista, opposto ao lutherano, de expôr as doutrinas da fé
-christã que serviu de molde aos seus artigos.
-
-=Os Quarenta e Dois Artigos.=—Um dos resultados d’estas discussões e
-disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dos _Quarenta e Dois
-Artigos_, que tinham por fim exprimir em fórma confissional o credo
-da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram obra de Cranmer, coadjuvado
-pelos bispos e por outros homens de erudição. Cranmer tinha começado a
-escrevel-os em 1549; e acabou-os em 1552.
-
-A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna. A
-rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante, as polemicas
-publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros, e os trabalhos dos
-prégadores ambulantes como João Knox, haviam feito com que o povo
-desejasse ardentemente uma auctorizada exposição de doutrina tal como
-estes artigos forneciam. Definiam com grande clareza os limites das
-mudanças que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval.
-
-Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos eguaes aos Trinta
-e nove Artigos que constituem o credo da actual Egreja da Inglaterra.
-As sympathias de Cranmer tinham estado sempre voltadas para Luthero, e
-elle copiou tres, nem menos, dos seus artigos directamente da Confissão
-de Augsburgo. Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana, mas,
-pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos de Eduardo
-e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um e o mesmo documento.
-
-=Os principios do puritanismo.=—A livre discussão da theologia reformada
-e das idéas da Reforma teve como um dos seus resultados a origem e
-desenvolvimento, em Inglaterra, de uma theologia que acceitava cabalmente
-os principios essenciaes da renascença da religião promovida pela
-Reforma. Um d’estes principios era que Deus se havia collocado tão
-perto do homem mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que
-os homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar
-directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas, recebel-o. As
-theses de Luthero tinham estabelecido este grande principio da Reforma,
-e todos os theologos insistiram na possibilidade de se ir directamente
-ter com Deus sem ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja
-medieval, por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos
-crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso a Deus—e
-havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio da Egreja. Tinha
-tambem tornado visivel o sacerdocio do clero, insistindo em que cada
-clerigo devia, quando exercesse o culto publico, usar um traje especial,
-symbolico do seu officio sacerdotal, e havia levantado em cada egreja
-um altar, ou logar especial onde se realisava o encontro de Deus com o
-sacerdote.
-
-Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade e magnificencia
-da doutrina da Reforma, de que todos os crentes são sacerdotes que gozam
-do direito de se approximarem de Deus por meio da fé, e de que qualquer
-porção do solo onde a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar
-e remir é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou
-symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam com
-a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não podiam supportar que
-o povo fosse desencaminhado por qualquer symbolo ou rito exterior que
-houvesse sido empregado, nos dias de superstição, para inculcar a falsa
-doutrina medieval da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de
-todo e qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o povo no
-tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente, ao uso
-das vestimentas ecclesiasticas e dos altares nas egrejas. Estes homens
-foram os precursores dos puritanos inglezes.
-
-É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo não significou ao
-principio um systema de governo ecclesiastico, e que nada tinha que ver
-nem com o presbyterianismo nem com o congregacionalismo. Os primeiros
-puritanos da Inglaterra não protestaram contra o episcopado como
-systema de governo. As coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se
-o houvessem feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou
-no culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal dos
-crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os altares nas
-egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se a fazer uso das
-sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares com as costas voltadas
-para a congregação.
-
-A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida. João Hooper,
-que havia sido monge cisterciano, e que adoptara as idéas da Reforma,
-tornou-se um prégador de nomeada na Egreja ingleza. Durante os ultimos
-annos do reinado de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido
-do reino para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos
-havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra achava-se
-resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem a superstição
-medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado ao rei, quando se tratou
-de prover o bispado de Gloucester. Ao contrario de João Knox, não fazia
-objecção ao governo por meio de bispos, e acceitou a nomeação, mas
-não quiz fazer uso das vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a
-proferir a seguinte phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos me
-ajudem».
-
-Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a considerar
-estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper pensava de differente
-modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr partilhavam a opinião de Calvino,
-e tentaram demover Hooper da sua resolução por meio de argumentos. Não
-poderam, porém, convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se
-conservar em sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado
-afastamento escreveu uma _Confissão e Protesto_ em que expunha com toda
-a clareza as razões que haviam imperado na sua recusa de fazer uso das
-vestes prelaticias. Por este seu feito, metteram-n’o na prisão. Passado
-algum tempo, porém, fez-se um convenio ácerca das vestimentas, foram
-omittidas do juramento as palavras «e todos os santos», e Hooper foi
-consagrado bispo de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever
-novas borrascas n’um futuro proximo.
-
-Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma no tempo de
-Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande largueza de idéas, e
-muito tolerante—havia-se empenhado om que á princeza Maria se concedesse
-o servir a Deus conforme a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de
-Londres em substituição de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua
-diocese das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em que todos
-os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar mesas para a
-communhão.
-
-Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo entre o romanismo
-e a Reforma, que era em que consistia o ideal de Cranmer relativamente á
-Egreja de Inglaterra.
-
-Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens que haviam sido
-sempre partidarios da Egreja medieval. Quando Hooper e Ridley mostraram
-até onde a Reforma os poderia levar, Gardiner e Bonner redobraram de
-furia contra elles. O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper
-tinha estado preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e
-Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas medievaes.
-
-=A morte de Eduardo VI.=—O joven rei nunca havia sido muito robusto, e
-antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de saude alarmou seriamente
-os principaes vultos do protestantismo. Á herdeira do throno era a
-princeza Maria, filha de Catharina de Aragão. Tanto o parlamento como a
-convocação haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções
-não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida de que
-Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e de que Maria era
-sua filha, devendo, portanto, esta occupar o throno no caso de Eduardo
-fallecer. Além d’isso, segundo a lei de successão ao throno, promulgada
-por Henrique VIII, ella tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não
-deixar herdeiros.
-
-Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia hespanhola,
-que nunca havia esquecido os aggravos de que a mãe fora victima, e
-que considerava a Reforma como uma rebellião contra Deus e um insulto
-dirigido a ella propria. Prima de Carlos V, imperador da Allemanha, era
-uma grande admiradora dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa
-vontade se collocaria n’uma completa dependencia d’elle.
-
-O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos dos
-conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno seria um desastre
-para a Reforma, que os attingiria tambem a elles. Viram que lhes era
-necessario fazer todo o possivel para que o herdeiro do throno fosse um
-principe ou princeza protestante.
-
-Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo,
-e todo o seu empenho era que o monarca que viesse depois partilhasse
-as mesmas crenças. Quando viu que lhe restava pouco tempo de vida,
-resolveu nomear o seu successor. Nada o poude persuadir de que não
-tivesse o poder de o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação
-recaisse n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas
-illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, por conseguinte,
-não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz, que estava prestes
-a morrer, era, pela sua tenacidade, um digno representante da casa de
-Tudor. Poz deliberadamente de parte tanto Isabel como Maria; poz tambem
-deliberadamente de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante
-de Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna Grey,
-representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna tinha casado
-com o filho mais velho do conde de Northumberland, e era protestante.
-Eduardo estava convencido de que o povo havia de acceitar a successora
-por elle mencionada. Os seus conselheiros estavam convencidos de que o
-protestantismo estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano
-poderia ser bem succedido. Enganavam-se ambos.
-
-Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha Joanna foi
-devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza, não correspondeu
-á acclamação. A princeza Maria fugiu, mas em volta d’ella reuniu-se
-muita gente, e o povo secundou as suas reclamações. Passada uma semana,
-tinha-se vencido toda a opposição, e o throno era de Maria.
-
-A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada, e o
-throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana catholica romana.
-
-=O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria
-(1553).=—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um edificio
-politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo e pelos
-seus conselheiros, desappareceu por completo, como coisa de nenhuma
-substancia. É que ella havia sido imposta á Inglaterra pelo governo,
-ao contrario do que acontecera em outros paizes, em que foi imposta ao
-governo pelo povo ou acceite egualmente por governantes e governados.
-
-Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias financeiras,
-devido em parte á crise economica que a Europa estava atravessando, mas
-devido principalmente ao desmedido fausto da côrte de Henrique VIII, e
-á depreciação da moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a
-todos os actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e a
-venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa das desgraças
-que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido tirados das casas
-religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz na qualidade de parocos e
-curas, ateiavam o fogo da antipathia pela Reforma, e preparavam o povo
-para um regimen reaccionario, pelo que dizia respeito á religião.
-
-Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre quando Maria
-iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu ministro favorito,
-comprehendeu perfeitamente a situação. Elle sabia que o paiz, na sua
-quasi totalidade, preferia a antiga religião mas que nunca gostara do
-papa. Tratou, pois, de promover um regresso á situação em que se estava
-no principio do reinado de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão
-ostensiva a supremacia real.
-
-Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas mais
-arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos de indifferença
-e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe um indicio de que o povo
-se estava preparando com regozijo para o restabelecimento da antiga
-religião e que tinha na conta de tão malefico o que se havia passado
-nos ultimos annos como ella propria. Como filha de Henrique, e como
-rainha de Inglaterra, sentia em si o dever de reparar, de accordo com
-o papa, os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos
-estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como prima de
-Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio aos hespanhoes,
-e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que dizia respeito á politica
-internacional, como, e ainda mais especialmente, no que dizia respeito á
-politica ecclesiastica.
-
-=A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.=—Maria subiu ao
-throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes protestantes da
-Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552. Carlos sentia-se forçado a
-confessar que a Reforma o tinha vencido, quando Maria lhe participou a
-sua acclamação e lhe supplicou que a aconselhasse. A alliança ingleza era
-a unica coisa que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o
-bom exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente,
-e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se encontrava.
-
-Maria, escreveu elle, devia, em primeiro logar, tornar firme o throno; em
-seguida devia tornar segura uma alliança hespanhola, casando com Filippe,
-herdeiro do imperador; e, executadas estas duas coisas, podia então fazer
-as pazes com o papa.
-
-O papa estava tão ancioso por congratular Maria como Carlos havia estado;
-mas o imperador não queria despertar os sentimentos anti-papistas do povo
-inglez; os interesses em jogo eram muitissimo fortes. E assim o Cardeal
-Pole, nuncio do papa, recebeu ordem para se conservar nos Paizes Baixos
-até a Inglaterra se achar preparada para o receber.
-
-=Como Maria se firmou no throno.=—Ao principio fel-o com bastante
-facilidade. A tentativa de collocar Joanna Grey no throno havia
-desacreditado e desanimado os protestantes mais em evidencia, e poucos
-d’entre elles appareceram. Foi, pois, facil a Gardiner obter que o
-parlamento revogasse todas as leis que diziam respeito ao divorcio de
-Catharina e á filiação de Maria. O decreto parlamentar que conferia ao
-rei uma supremacia absoluta em todos os negocios ecclesiasticos foi um
-meio excellente para fazer com que o paiz mudasse de religião. A rainha,
-por occasião da sua acclamação, ouviu missa, segundo o antigo costume.
-Cranmer protestou, sendo por esse facto remettido para a Torre, onde em
-breve se lhe reuniram Latimer e Ridley. Foi abolido o Livro de Oração
-Commum, e todas as mudanças introduzidas no culto no reinado de Eduardo
-foram postas de parte. A Egreja de Inglaterra foi reposta nas condições
-em que Henrique VII a havia deixado.
-
-=A alliança hespanhola.=—O povo inglez não via com bons olhos a alliança
-hespanhola, e era, em especial, hostil ao casamento da sua rainha com
-Filippe de Hespanha. O bispo de Gardiner, que conhecia a indole da nação,
-tratou de dissuadir a rainha, mas esta achava-se firmemente resolvida a
-desposar Filippe. Gardiner, ao ver que nada podia impedir o casamento,
-redigiu o contracto nupcial em termos taes que Filippe ficava sem direito
-ao titulo real, não podia succeder á consorte e era-lhe defezo exercer
-qualquer influencia nos negocios publicos de Inglaterra. O facto de
-Carlos e seu filho terem acceitado estas condições mostra o valor que
-elles davam a uma alliança estavel com a Inglaterra.
-
-O povo inglez ficou indignado com similhante casamento, e para mostrar
-o seu desagrado revoltou-se em diversas partes do reino; Pedro Carew
-poz-se á frente dos rebeldes em Cornwall e Devon, o conde de Suffolk nos
-condados do Centro, e Thomaz Wyatt em Kent. A unica revolta importante
-foi capitaniada por Wyatt, e se não teve consequencias mais graves foi
-isso devido á coragem da rainha. A nação reconheceu tambem que Maria era
-filha de seu pae, e a legitima herdeira, e não teve grande sympathia
-com as rebelliões contra ella. Filippe chegou, com instrucções de seu
-pae para fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para agradar ao
-povo inglez, as quaes elle, no seu modo extravagante, tratou de seguir,
-bebendo cerveja ingleza e fazendo outras coisas do mesmo genero, e o
-casamento celebrou-se com toda a pompa. Estava assegurada a alliança com
-a Hespanha.
-
-=A reconciliação com Roma.=—Filippe e Maria eram fervorosos catholicos
-romanos, e anhelavam por que a Inglaterra se libertasse do anathema papal
-que sobre ella havia caido quando Henrique desposou Anna Boleyn; mas
-não era facil conseguir isso. O povo inglez obstinara-se sempre em não
-reconhecer a supremacia papal, e eram muitos os pontos da sua historia
-que o aconselhavam a não se submetter facilmente ao pontifice romano.
-Carlos aconselhou o filho e a nora a procederem muito cautelosamente.
-Havia, comtudo, uma difficuldade ainda maior: era a questão das terras
-que haviam sido arrancadas do poder da Egreja e vendidas a particulares.
-Por um lado, o papa não deixaria de insistir na sua restituição, e,
-por outro, essa restituição iria, certamente, dar logar a violentos
-protestos. Poucas d’essas terras estavam na posse da corôa; a maior parte
-d’ellas tinha sido vendida, e o producto da venda gastara-se. A rainha
-estava impossibilitada de tornar a compral-as aos respectivos donos e
-restituil-as á Egreja.
-
-Carlos V poude, com alguma difficuldade, induzir o papa a renunciar á
-reivindicação d’esses bens abbaciaes, e a unica coisa que restava fazer
-era predispôr o povo inglez para a chegada do nuncio.
-
-O nuncio escolhido pelo papa foi Reginaldo Pole, segundo sobrinho de
-Eduardo IV. Pertencia, portanto, á aristocracia ingleza, mas havia
-preferido o desterro a reconhecer a supremacia real de Henrique VIII ou
-a legalidade do divorcio de Catharina de Aragão. Era parente de Maria, e
-fôra um dos que haviam soffrido por terem tomado a defeza da mãe d’ella.
-Solicitou-se do parlamento a sua reabilitação. Esta foi proclamada,
-e Pole foi recebido em Inglaterra como membro da nobreza. Apresentou
-então as suas credenciaes, que o acreditavam como legado do papa. O povo
-acolheu a noticia com indifferença. Por fim o parlamento approvou uma
-proposta para que se tratasse de promover a reconciliação com Roma. Em
-1554, no dia de Santo André, o cardeal nuncio absolveu solemnemente a
-nação. Filippe e Maria, com ambas as casas do parlamento, ajoelharam-se
-na presença do cardeal emquanto este os restituia á communhão da Santa
-Madre Egreja. O parlamento revogou todas as leis que affirmavam a
-supremacia real e que rejeitavam a supremacia do papa. O clero, por outro
-lado, renunciou solemnemente a todas as reivindicações quanto aos bens
-abbaciaes e a outras propriedades da Egreja que haviam sido sequestradas.
-A união com Roma estava novamente restabelecida por completo.
-
-=Porque não foi bem succedida a reacção.=—No espaço de dois annos
-a Inglaterra estava, segundo todas as apparencias, inteiramente
-reconciliada com o papa. Como que parecia que o reinado de Eduardo nunca
-tinha existido, e que Henrique tinha vivido em harmonia com o papa até ao
-fim da sua vida. Tinha-se estabelecido a reacção catholica romana, que
-parecia disposta a levar tudo de vencida; mas apoz um curto periodo o
-movimento reaccionario foi obrigado a deter-se, e dentro de alguns annos
-a Inglaterra havia-se transformado n’uma grande nação protestante. Como
-se operou esta transformação?
-
-É talvez impossivel distinguir todas as causas, mas apparecem tres
-d’ellas á superficie da historia: as perseguições que tiveram logar
-durante o reinado de Maria, as questões por causa dos terrenos
-ecclesiasticos, e o alastramento da opinião favoravel á Reforma como
-resultado das predicas evangelicas no curto reinado de Eduardo.
-
-=As perseguições no reinado de Maria.=—Os protestantes que existiam em
-Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão atrozes perseguições como
-as que dizimaram os huguenotes da França ou victimaram os reformadores
-dos Paizes Baixos. Despertaram, comtudo, no paiz um tal horror ao papismo
-que ainda hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo
-barbaro como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa, que
-se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe, fazendo
-parte do vasto plano que elle havia formado para reduzir a Inglaterra ao
-dominio hespanhol.
-
-A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar todos
-os que durante o reinado anterior haviam fomentado a Reforma. Os
-homens condemnados ao exterminio eram todos bem distinctos, tanto pelo
-nascimento, como pela eloquencia, como pela illustração, como pela
-piedade. Eram: Cranmer, o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela
-sua férvida eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes
-theologos reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam de ser
-derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra viu
-serem entregues ao carrasco e queimados em vida os seus homens mais
-eruditos e de maior capacidade moral.
-
-E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança com a
-Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita, o homem
-insensivel a todos os males, e estar de bem com aquella nação que havia
-consentido que os seus proprios filhos e filhas fossem torturados pela
-inquisição, e, sem a menor sombra de revolta, se havia submettido ao mais
-esmagador despotismo.
-
-Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor christão. Durante
-a vida não conseguiram despertar a confiança universal, mas com as suas
-mortes provaram que estavam bem convencidos do que apregoavam, e fizeram
-penetrar no coração do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado
-por tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam agora com
-satisfação.
-
-=As terras da Egreja.=—Maria havia sido prevenida por Carlos V de que
-não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes. Estes tinham sido
-vendidos, e, em virtude da venda, estavam divididos por cerca de quarenta
-mil pessoas. Tocar-lhes era atacar o direito de propriedade. A Egreja e
-o papa haviam renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do
-parlamento ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á
-religião catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado.
-Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia a Inglaterra
-ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e ella propria estavam
-aproveitando dos roubos feitos á Egreja?
-
-O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não approvou a
-conducta do seu predecessor no que dizia respeito áquella questão, e
-pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a restituição. Maria accedeu,
-por fim, ás suas instancias, e conseguiu com alguma difficuldade, que as
-camaras dessem o seu consentimento para que as terras da Egreja, ainda em
-poder da corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu um
-grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos restantes bens
-abbaciaes deixassem de considerar garantidos os seus direitos, e a perda
-de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a a augmentar os impostos. A
-Egreja mostrava-se, como sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a.
-
-=O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.=—Os theologos
-estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo ensinar para Oxford
-e Cambridge haviam educado uma geração de jovens estudantes que,
-convencidos da verdade das suas opiniões, as acceitaram e as espalharam
-por entre o povo, e que com muita satisfação davam agora a sua vida por
-ellas. Até ali pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse
-o enthusiasmo. O povo tinha passado, com a maior das facilidades, de
-uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de Maria
-tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados por Martinho
-Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com muito gosto as suas vidas para
-conseguirem que os seus compatriotas acceitassem as doutrinas biblicas
-dos reformadores. As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a
-de Coverdale, eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia sendo
-esclarecida ácerca da significação da Reforma.
-
-O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra a Egreja
-que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez que a Egreja havia
-mostrado quando chamada a tomar de novo posse das propriedades que lhe
-haviam sido tiradas, e conhecia agora melhor as Escripturas e estava mais
-ao facto do que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a
-reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo.
-
-=A morte de Maria.=—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia, escapando,
-talvez, d’esse modo, de ser victima de uma revolução. «A mais infeliz das
-rainhas, das esposas e das mulheres», o seu nascimento tinha enchido de
-regozijo uma nação, e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da
-Europa. Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana
-de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica
-rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um golpe esmagador,
-que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu pae, o parlamento, e
-a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filha illegitima, e, marcada com
-este ferrete maldito, foi chorar na solidão a sua ignominia. Quando a
-Inglaterra a saudou como rainha no seu trigesimo-setimo anno, era já uma
-velha de faces cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos,
-negros e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo,
-porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo anhelava
-por um affecto; casara com um marido da sua escolha, e ella propria se
-reputava um instrumento predestinado pelo céu para que se reintegrasse no
-divino favor uma nação excommungada. O marido, a quem ella idolatrava,
-aborrecendo-se d’ella passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha.
-A creança cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a
-nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se
-surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar com os desgostos que
-a affligiam. E o povo, que a recebera com tanto enthusiasmo, e a quem
-ella realmente amava, chamava-lhe Maria a Sanguinaria, e esse cognome
-tem sido transmittido de geração em geração até aos nossos dias. Cada
-tribulação por que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não
-ter ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e, assim,
-as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e novas victimas se
-arremessaram para ellas, para aplacar o Deus do romanismo do seculo
-dezeseis.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL
-
- A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão
- religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag.
- 197.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag.
- 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag.
- 194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A
- Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—Os
- _conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_,
- pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198.
-
-
-=A sucessão de Isabel.=—Por morte de Maria, Isabel foi, sem opposição,
-proclamada rainha. O partido catholico romano, que se poderia ter opposto
-á sua successão, não dispunha de força para isso, pois que a Inglaterra
-estava em guerra com a França, e a unica rival de Isabel era a esposa do
-Delfim, Maria, a rainha da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era
-para todos os catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de
-Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando ella nascera.
-
-A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando ella subiu ao
-throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro, apezar de se terem
-cobrado adeantadamente as receitas, e a guerra com a França estava
-levando a ruina a todos os lares. A situação individual da rainha era
-a mais precaria que se póde imaginar. A sua legitimidade era mais do
-que duvidosa. A França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer
-valer os direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente,
-a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes. A
-força do protestantismo nas provincias era duvidosa. Vendo os perigos
-de uma questão religiosa logo no principio do seu reinado, a rainha
-contemporizou. Ia á missa para agradar aos catholicos romanos. Prohibiu
-a elevação da hostia para agradar aos protestantes. E poz-se á espera de
-ver o que a Hespanha e a Inglaterra diziam.
-
-A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe II
-ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanhola dependia tanto
-de Filippe como do papa, e Isabel não tardou em certificar-se de que da
-Curia Romana não acolheria benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando
-o embaixador anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel,
-na sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem o meu
-consentimento; é um desproposito da parte della, se o fizer. Que ella, em
-primeiro logar, submetta á minha decisão as suas reivindicações.» Não era
-preciso mais. Isabel não podia, de ahi em deante contar com a Hespanha.
-
-Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta da Inglaterra.
-O seu primeiro parlamento era quasi todo composto de protestantes.
-As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram a supremacia real,
-posto que de uma fórma modificada. Henrique VIII havia-se chamado a
-si proprio «o unico chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo».
-Isabel contentou-se com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor»
-(Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos
-e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha, «a quem
-pertencia o governo de todos os estados, quer civis quer ecclesiasticos.»
-Uma commissão de doutores em theologia, nomeada para rever o Livro de
-Oração Commum do rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser
-usado pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação
-d’elles, adoptada.
-
-A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada por Maria
-da Escocia de uma alliança com a França, e pelo papa de uma alliança com
-a Hespanha, não teve outro recurso senão o de conquistar as sympathias do
-povo inglez e fazer-se egualmente protestante.
-
-=Como se liquidou a questão religiosa.=—Isabel não era, de maneira
-nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia fortes
-convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande massa do povo e do
-clero que lhe coubera em sorte governar. Quando Eduardo subiu ao throno,
-era ella uma rapariga de dezeseis annos; apezar de tão nova, porém, sabia
-conduzir-se muito ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião
-patrocinada pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa,
-contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto.
-Conformou-se outra vez com o culto catholico romano. Era, pelo que tocava
-aos sentimentos, uma digna filha de seu pae, e preferia as doutrinas e o
-systema catholicos romanos, occupando o soberano o logar do papa.
-
-Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia herdado uma grande
-disposição para dominar, e a Egreja Catholica Romana era então o modelo
-por excellencia de um governo despotico. Ella havia recebido uma boa
-educação litteraria, e comprazia-se muito em ler os antigos auctores
-gregos. Gostava de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões e
-praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias, e preferia,
-por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de Roma. O que, porém, não
-queria era encontrar o papa no seu caminho.
-
-Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a escola
-genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela fé, nem da
-simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo, abominava aquelles
-principios democraticos de governo da Egreja que se haviam identificado
-com o presbyteriannismo. Os reformadores da envergadura de Knox, com as
-suas doutrinas da predestinação, do livre perdão obtido directamente de
-Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam sómente
-a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem o rei, e estava
-convencida de que o temor da Egreja era uma boa preparação para o temor
-do monarca. Ella não possuia a subtileza de espirito para dizer como o
-seu successor, «Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o.
-
-O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era mais protestante
-do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se acceitando o Livro de
-Oração Commum e outras usanças protestantes.
-
-Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos a essa dignidade
-durante o reinado de Maria tiveram a coragem de protestar contra taes
-mudanças. Resignaram os seus cargos ou foram d’elles exonerados. Em 1559
-estavam vagas todas as sés episcopaes, á excepção da de Llandaff.
-
-Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou a rainha
-Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de sua mãe.
-
-Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos para uma
-consagração legal, chamando do isolamento a que se haviam acolhido os
-bispos de Eduardo VI que a rainha Maria tinha deposto. As idéas de
-Parker eram muito mais protestantes do que as de Isabel, mas parece
-que elle não se preocupou muito com as innovações introduzidas pela
-rainha. Escolheram-se outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou
-constituindo uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel base
-catholica romana.
-
-Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram muito mais
-protestantes do que ela desejaria que fossem. As perseguições executadas
-por ordem de Maria fizeram com que muitas familias inglezas se retirassem
-para fóra do reino. Tinham formado colonias em Francfort, em Genebra,
-e n’outras partes, tinham adquirido intimidade com os theologos
-calvinistas, e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas.
-Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido, e os
-martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra; tinham opiniões,
-e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os bispos sabiam que a Egreja
-de Inglaterra não podia ser aquillo que Isabel desejava que fosse, e
-devia possuir uma auctorizada exposição de doutrinas, um credo cujos
-delineamentos principaes fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada
-a consentir n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamada
-_Os Onze Artigos_. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos e
-os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se conformaria com
-similhantes coisas. A questão prolongou-se tanto que os bispos, n’uma
-occasião, ameaçaram-n’a com um pedido collectivo de demissão. O artigo
-undecimo declarava, portanto, que «as imagens eram coisas vãs».
-
-=Os trinta e nove artigos.=—Este curto formulario de doutrinas foi,
-passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além d’isso, a rainha
-teimava em dar á Egreja uma orientação que a tornava muito parecida
-com a catholica romana. Queria, por exemplo, tornar obrigatorio o
-celibato clerical. Os bispos reconheceram a necessidade de uma serie,
-ou exposição, auctorizada dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo
-Parker, com a assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nos
-_Quarenta e dois Artigos_ de Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes.
-A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe fizeram uma
-segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os Artigos antes de dar o
-seu consentimento, e fez duas muito caracteristicas alterações. Inseriu a
-primeira clausula do Artigo XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos
-ou ceremonias, e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou
-o Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo á Mesa da
-Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção d’esse Artigo,
-e a rainha submetteu-se. Estes Artigos são, e houve intenção de que o
-fossem, calvinistas na sua theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma
-definitiva revisão em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava
-em Zurich: «Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até chegar
-á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de uma unha.» Assim
-a Egreja, que havia alterado o seu Livro de Oração Commum para o amoldar
-ao gosto catholico romano, formulou os seus artigos de religião, o seu
-credo, de tal modo que ficou em conformidade com as egrejas reformadas da
-Suissa.
-
-=O puritanismo e as vestimentas clericaes.=—A rainha não gostava dos
-trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua approvação tinha
-sido uma victoria para o partido protestante com que ella dificilmente
-se conformava. Animados com o bom exito alcançado, os puritanos
-tentaram, de uma maneira vigorosa abolir o Livro de Oração Commum, e
-desembaraçar-se de todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja
-medieval, e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com
-toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim, victoriosa.
-
-Este conflicto com os puritanos começou cerca do anno de 1564, e
-durou durante toda a vida de Isabel. Ao principio o ponto principal
-em discussão era o uso da capa de asperges e da sobrepeliz, que é uma
-sobrevivencia da toga branca, ou traje de ceremonia, do imperio romano.
-Os puritanos do tempo de Isabel mantinham-se n’uma posição identica á de
-seus irmãos no reinado de Eduardo VI. Sustentavam que os cargos na Egreja
-christã não são sacerdotaes nem senhoriaes; ninguem era eleito bispo pelo
-facto de ser clerigo, e poder por essa razão approximar-se mais de Deus
-do que os seculares, ou porque o governo lhe havia sido conferido por uma
-auctoridade de fóra da Egreja, mas porque os officios de superintendente
-e pastor são de utilidade para a Egreja, e porque a Egreja chama esses
-homens para a servirem no limite das suas funcções. Recusavam fazer uso
-dos paramentos, porque estes significavam uma coisa em que elles não
-criam.
-
-A contestação tomou em breve um caracter violento. Os bispos sentiam-se
-inclinados a contemporizar, pois que sabiam o quanto se havia espalhado
-e quão profundamente arraigada estava aquella opposição ás vestes
-clericaes; mas a rainha não lh’o permittiu. Fez uso do poder que a
-supremacia lhe dava sobre os bispos para os obrigar a pôrem em execução a
-Acta da Uniformidade, e isso deu logar a que o puritanismo fosse como que
-um protesto contra a supremacia real e contra a constituição episcopal,
-e como que um brado para que o povo tivesse voz activa no governo da
-Egreja, o que só o presbyteriannismo ou o congregacionalismo pode
-proporcionar. Durante os annos de 1565 e 1566 foram em grande numero os
-ministros que perderam os seus logares por não se quererem conformar com
-os usos estabelecidos.
-
-A rainha entendia que a sua posição como governadora da Egreja a
-auctorizava a proceder a continuos inqueritos ao modo como era conduzido
-o culto publico nas paroquias de Inglaterra. Nomeou commissarios
-reaes para inspeccionar e dar-lhe as necessarias informações, e estes
-agentes de Isabel vieram a constituir o Tribunal da Alta Commissão,
-que se tornou um instrumento de tyrannia ecclesiastica nos reinados
-de seus successores. Por estes commissarios foi Isabel informada da
-existencia dos não-conformistas, e insistiu n’uma submissão ás praticas
-estabelecidas.
-
-O povo fez, na sua maioria, causa commum com os ministros que estavam
-inhibidos de tomar parte nos serviços. As prisões e as multas só
-serviram, como sempre aconteceu, para ateiar as chammas da dissidencia.
-Esta fez a sua apparição nas universidades. Os estudantes recusaram fazer
-uso da sobrepeliz ou assistir aos serviços religiosos feitos por clerigos
-paramentados. Foram tantas as paroquias que vagaram que não era possivel
-arranjar ministros para todas; e, quando qualquer ministro submisso era
-collocado n’uma d’ellas, o povo, em geral, apupava-o. Alguns dos mais
-zelosos ministros separaram-se da Egreja nacional.
-
-O grande dirigente dos puritanos era Thomaz Cartwright, que, tendo sido
-educado no Collegio de S. João, em Cambridge, veiu a ser depois professor
-de theologia. Era um homem piedoso e illustrado, e um eloquente prégador,
-e, tendo perdido a sua cadeira de lente por causa das suas opiniões,
-ainda por cima teve de soffrer o exilio. Dois puritanos, Field e Wilcox,
-escreveram um folheto moderado—_Uma advertencia ao parlamento_—sobre
-a disciplina da Egreja e as medidas violentas que haviam sido tomadas
-contra os puritanos. Foram mandados para Newgate, como dois criminosos
-quaesquer. Cartwright escreveu uma _Segunda Advertencia_ em defeza
-dos seus amigos, e teve, pela segunda vez, de fugir do paiz. A rainha
-respondia a cada pedido de tolerancia com novas exonerações, a ponto
-de haver n’uma só diocese, a de Norwich, segundo consta, não menos
-de trezentos ministros suspensos. O arcebispo Parker morreu em 1575,
-havendo-lhe o cargo de executor da rainha, que desempenhava bem contra
-sua vontade, tornado amargosissimos os ultimos annos da sua vida.
-
-=A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino.=—Ha alguma desculpa
-para as medidas tomadas por Isabel contra os puritanos no principio do
-seu reinado. A Inglaterra estava fraca, estava empobrecida, e o throno
-de Isabel não offerecia estabilidade. Não sympathisava com a Reforma no
-que ella mais profundamente significava, e não a animava o desejo de
-ver o seu povo convertido n’uma nação de enthusiasticos reformadores. A
-Inglaterra, segundo a sua opinião, precisava de descanço e de paz para
-recuperar as suas esgotadas energias. Se a Inglaterra tivesse abraçado
-o protestantismo com verdadeiro enthusiasmo, não assistiria de braços
-cruzados ás crueldades commettidas para com os protestantes francezes e
-hollandezes pela França e pela Hollanda. Desempenharia na Escocia, nos
-Paizes Baixos e na França o papel de campeão protestante. Isabel, com a
-sua impassivel politica, conservou o povo inglez de reserva para o grande
-futuro que o esperava. «Nada de guerra, meus senhores, nada de guerra»,
-exclamava ella invariavelmente quando Cecil ou outro qualquer ministro
-manifestava o desejo de a ver collocada á frente de uma liga protestante.
-
-Isabel não obstante a sua anterior attitude de resistencia, não desejava
-romper por completo com os papistas, ou apresentar-se quer aos seus
-subditos catholicos romanos, quer ás nações continentaes, como uma rainha
-forte e resoluta. A Inglaterra necessitava de descanço, e a rainha havia
-determinado conservar em paz o seu paiz.
-
-Isto explica em parte a sua politica de indifferença perante a lucta
-em que os protestantes se achavam envolvidos n’outros paizes. Cecil,
-o maior dos ministros que Isabel teve, queria que ella se pozesse á
-frente de uma grande liga protestante e prestasse um auxilio efficaz aos
-protestantes da Escocia, dos Paizes Baixos e da França. Os ciumes que
-Isabel tinha de Maria Stuart forçaram-n’a a coadjuvar em grande medida o
-partido protestante da Escocia—a coadjuval-o até ao ponto de elle poder
-tornar preponderante aquella fórma de protestantismo em que tanto havia
-perseverado. Pelo que, porém, diz respeito aos Paizes Baixos e á França,
-Isabel não deu outro auxilio além do que era sufficiente para que o
-partido protestante continuasse a existir, e isso mesmo foi feito mais
-com o fito de consumir as forças da França e da Hespanha do que com o de
-proteger perseguidos correligionarios.
-
-=Luctas intestinas com o catholicismo romano.=—A politica da côrte
-romana e especialmente as declarada sintenções e designios dos jesuitas
-forçaram Isabel, depois de ter reinado quasi doze annos, a mostrar-se
-mais decidida a defender a fé protestante, tanto em Inglaterra como fóra
-d’ella. Os jesuitas tinham insistido repetidas vezes em que não se devia
-guardar fidelidade aos chefes de estado protestantes; alguns dos seus
-emissarios tinham pregado o assassinio como meio licito de desembaraçar
-os paizes dos seus soberanos protestantes, e não faltavam exemplos que
-advertissem Isabel da sorte que a esperava.
-
-A sua rival, Maria Stuart, expulsa da Escocia, era para a Inglaterra uma
-prisioneira perigosa. A morte de Isabel podia tornal-a, a ella que era a
-esperança do partido catholico romano, a herdeira mais proxima do throno
-inglez.
-
-Em 1570, o regente Moray, que era o chefe politico da Reforma na Escocia,
-foi escandalosamente assassinado. Em 1572 foi planeado, e barbaramente
-posto em pratica, o massacre de S. Bartholomeu. No mesmo anno o duque
-de Alba, Filippe II e o papa conferenciaram com Ridolfi, florentino
-que residira durante muito tempo em Inglaterra, sobre a possibilidade
-de uma insurreição catholica romana em Inglaterra, dirigida pelo duque
-de Norfolk. Descoberta a conspiração, Norfolk foi decapitado. Todos
-estes casos mostraram a Isabel que toda a sua salvação estava em entrar
-verdadeiramente no caminho da Reforma, e mostraram tambem ao povo o
-quanto Isabel era essencial para o triumpho do protestantismo.
-
-É talvez uma evidencia de que a rainha e os seus subditos protestantes
-se ligaram mais estreitamente o facto de Edmundo Grindal, clerigo
-de pronunciadas tendencias puritanas, ter sido collocado na sé de
-Canterbury, vaga em virtude da morte de Matheus Parker.
-
-Em todo o caso, Isabel, se não se mostrou menos intolerante no reino,
-reconheceu que era de seu dever enviar mais soccorro aos protestantes
-de fóra. Os huguenotes receberam um auxilio pecuniario. Os aventureiros
-inglezes, e entre elles Francisco Drake, tiveram permissão para fazerem
-todo o mal que podessem ao commercio hespanhol. Isabel mandou, mesmo,
-um corpo de exercito para ajudar os neerlandezes na sua guerra com a
-Hespanha.
-
-Este procedimento fez com que as forças catholicas romanas trabalhassem
-com mais ardor para a ruina da Inglaterra. Estabeleceu-se um seminario
-em Douay, e um collegio em Roma, onde se preparassem padres inglezes
-que iriam depois para o seu paiz promover agitação entre os romanistas.
-E eram continuos os rumores de novas conspirações para collocar Maria
-Stuart no throno de Inglaterra.
-
-Isabel e os seus conselheiros compenetraram-se, por fim, do perigo que
-ella corria. O parlamento promulgou que os missionarios romanistas
-ficavam sujeitos ás penalidades que correspondiam a crimes de alta
-traição, e quando se descobriu a conspiração de Babington, para
-assassinar Isabel e pôr Maria em liberdade, e se provou que Maria
-estava ao facto de toda a trama, ficou decidida a execução da rainha
-dos escocezes. Isabel não representou um papel muito heroico n’esta
-tragedia, mas adquiriu a certeza de ter, d’esta vez, quebrado todas as
-relações com Roma, assim como Roma e os poderes romanos não poderam
-deixar de reconhecer que o tempo das conspiratas tinha findado, e que, ou
-a Inglaterra seria subjugada, ou ter-se-hia de admittir a Reforma como um
-facto consumado.
-
-=A Armada hespanhola.=—Roma e Hespanha descobriram por fim o que o astuto
-Guilherme Cecil tinha descoberto desde o principio. «O imperador aspira
-á soberania da Europa, coisa que elle jámais poderá conseguir sem que
-seja suprimida a religião reformada; e não poderá esmagar a Reforma sem
-que primeiro esmague a Inglaterra». Carlos V tinha visto isso, mas não
-muito claramente, quando se mostrou tão ancioso por uma alliança com a
-Inglaterra, no principio do reinado de Maria. Filippe II viu-o quando
-se offereceu para marido de Isabel. Coube, finalmente, a vez ao papa, o
-qual, de mãos dadas com Filippe, fez convergir todos os seus esforços no
-sentido de subjugar a Inglaterra.
-
-A occasião era propicia. Filippe e a Santa Liga da França tinham,
-apparentemente, triumphado. A Inglaterra encontrava-se isolada.
-
-O papa Sixto V excommungou a rainha Isabel, e encarregou Filippe II de
-executar a sentença. Sua Santidade contribuiu tambem com uma grande
-quantia para ajuda da empreza. Os hespanhoes reuniram uma grande
-esquadra, com a qual se propunham atacaria Inglaterra, e, para ter mais
-seguro o bom exito, Alexandre de Parma, o mais habil general da Europa,
-recebeu ordem para partir dos Paizes Baixos com o mesmo destino, levando
-comsigo a flôridas tropas hespanholas.
-
-Isabel appellou para o patriotismo da nação, e esta não se fez surda
-ao seu appello. A Escocia, não obstante a execução de Maria, não quiz
-levantar-se contra a Inglaterra. A França permaneceu inactiva, pois que
-a liga não havia triumphado tanto como se suppozera e não tinha sido
-possivel extinguir os huguenotes. Toda a Inglaterra pegou em armas.
-Equiparam-se duzentos navios. A nação, fremente de enthusiamo, estava
-preparada para o ataque. A Armada, composta de numerosos vasos de guerra
-de grandes dimensões, aproou á Inglaterra, mas os ventos produziram-lhe
-enormes avarias antes de chegar ao seu destino. Os navios inglezes
-cercaram-n’a, e travaram com ella uma serie de combates navaes, que a
-pozeram em deploraveis condições. Um temporal medonho completou a obra;
-e a soberba frota, que os hespanhoes haviam equipado á custa de mil
-sacrificios, deu miseravelmente á costa, sendo pouquissimos os barcos que
-conseguiram chegar aos portos de onde haviam saido.
-
-Foi desde então que a protestante Inglaterra ficou sendo a maior potencia
-europeia. Não foi possivel supprimir a Reforma porque não foi possivel
-vencer a Inglaterra.
-
-É dificil dizer quanto o lado menos nobre de Isabel contribuiu para a
-consecução d’este resultado final; o que é certo é que ella administrou
-habilmente os recursos da nação, teve o maior cuidado em reprimir o
-enthusiasmo d’esta, até que a ella se podesse entregar sem perigo algum,
-e determinou, mediante o Acto de Uniformidade, cuja transgressão ficava
-sujeita a severas penas, unificar exteriormente a Inglaterra. Pode ser
-que os meios de que lançou mão não fossem reputados necessarios, mas
-attingiu, pelo menos, o fim que tinha em vista.
-
-=As prophecias.=—A nomeação de um arcebispo puritano não produziu os
-beneficios que se esperava. Isabel tinha o costume de demonstrar aos
-seus bispos que a supremacia real era uma coisa que existia de facto.
-A rigorosa suppressão da não-conformidade havia occasionado uma grande
-falta de ministros. Não era raro prover-se individuos sem aptidões para
-prégar. Certos pastores animados de bons intuitos promoviam reuniões
-clericaes, onde se discutia theologia e havia uma especie de curso
-de oratoria. Estas reuniões, que tinham algumas parecenças com os
-«Exercicios» da Escocia, e que eram, talvez, uma imitação d’elles,
-chamavam-se as «Prophecias». A rainha não gostava d’ellas. Ella não via,
-mesmo, a necessidade de se prégar sermões, e entendia que os ministros
-se deviam limitar a ler as _Homilias_ ás congregações. O arcebispo
-Grindal era favoravel a estas _Prophecias_, e quando a rainha lhe ordenou
-para as prohibir recusou-se a fazel-o. A rainha, enfurecida, ameaçou-o
-com a deposição, e chegou a suspendel-o do exercicio das suas funcções
-episcopaes. Esta suspensão durou até quasi ao fim da vida do arcebispo.
-
-=Os conventiculos.—Os pamphletos anti-prelaticios.=—Quando Grindal
-morreu, Whitgift, o irreconciliavel adversario de Cartwright e do
-puritanismo, foi elevado a arcebispo de Canterbury. A desastrosa
-politica da rainha, rigorosamente executada por elle, teve as suas
-naturaes consequencias. O povo, privado dos serviços dos clerigos a
-quem respeitava, e obrigado a ouvir outros que não tinham direitos
-nenhuns sobre elle, recusou-se a frequentar as egrejas. Reunia-se em
-casas particulares e n’outros logares apropriados, e ahi fazia oração e
-observava outros pormenores do culto publico. Estes conventiculos foram
-declarados illicitos, mas, apezar d’isso, eram cada vez mais numerosos.
-Surgiram as seitas não-conformistas.
-
-Knox na Escocia e Beza em Genebra alarmaram-se com o estado da Egreja na
-Inglaterra. Elles estavam ao facto das ameaças do poder catholico romano,
-e sabiam bem que o protestantismo inglez precisava de estar muito unido.
-Não sympathisavam de modo algum com o systema de Isabel, e, comtudo, eram
-de opinião que o horror dos puritanos pelos paramentos religiosos era
-algum tanto affectado e exaggerado. Escreveram aos dirigentes do partido,
-rogando-lhes que se conformassem, mas a espada da perseguição tinha
-penetrado demasiadamente nas suas almas. Impedidos de prégar, começaram
-a escrever, e por entre o povo foram apparecendo diversos pamphletos por
-elles publicados. O que se tornou mais notavel de tudo foi uma serie
-de opusculos chamados _Anti-prelaticios_. Esses opusculos atacavam o
-systema episcopal da Egreja de Inglaterra, e expunham com uma implacavel
-severidade as varias ceremonias papistas que ella ainda conservava. Um
-dos auctores, Nicolau Udal, foi descoberto, sendo executado em 1593.
-
-=A Reforma ingleza= ficou firmemente estabelecida depois da derrota da
-Armada hespanhola. A Inglaterra reconheceu finalmente que lhe competia
-dirigir os Estados protestantes da Europa; e, não obstante o caracter
-anomalo da Egreja reformada ingleza, o paiz soube tornar-se digno da sua
-posição.
-
-A Reforma ingleza, comtudo, era de um caracter tal que não pode ser
-facilmente comparado com o do movimento do mesmo genero que teve logar
-n’outros paizes. No primeiro periodo, um monarca caprichoso e absolutista
-obrigou o reino a desligar-se do papado, ao mesmo tempo que reprimia
-selvaticamente todas as tentativas de uma reforma religiosa, quer na
-doutrina quer no culto.
-
-Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida, os homens de
-maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos, tratou de
-promover uma reforma de doutrina e de culto. O movimento, empurrado, por
-assim dizer, de fóra, não foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que,
-com a mudança de governo, voltou para o romanismo.
-
-No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se pela
-Reforma religiosa que havia agitado outros paizes, mas a supremacia real
-encerrou o movimento dentro de uns certos limites que fizeram com que
-elle não representasse verdadeiramente as aspirações da Egreja.
-
-Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos e
-ritualistas representarem a historia como se a Egreja tivesse sido levada
-pelo seu proprio discernimento a assumir a attitude que assumiu para com
-o romanismo, de um lado, e para com o decidido protestantismo, do outro;
-mas estas representações não são defendidas pela evidencia contemporanea.
-Os anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a Egreja
-tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização episcopal
-regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem, em provar que a posição
-que elles chamam catholica, e que outros chamam anomala, foi assumida
-pela propria Egreja, actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção
-episcopal; mas os factos que se relacionam com este caso são contra
-elles. A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos
-seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a supremacia real.
-
-Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez com que fosse
-possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que podesse dar ás suas
-theorias uma apparencia de base historica.
-
-Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum de Eduardo
-VI, transformando-o n’um outro dentro de cujas formulas havia logar
-para pessoas que teriam preferido conservar-se catholicas romanas
-se considerações politicas não as obrigassem a passar para o lado
-protestante.
-
-Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos e os ritos
-contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que diligenciou reter as
-imagens, os crucifixos e a agua benta.
-
-Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho que
-nada tinha que ver com o governo episcopal da Egreja, e que era de um
-caracter inteiramente erastiano—que estabeleceu a Acta da Uniformidade,
-e que impoz a conformidade sob pena de severos castigos, que podiam ser
-exoneração, multa, prisão e até perda da vida.
-
-Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra
-tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra muito
-mais em harmonia, respectivamente á doutrina e ao culto, com as egrejas
-reformadas do Continente, que haviam tomado Genebra para modelo.
-
-Os bispos prepararam os _Os trinta e nove Artigos_, que o bispo Jewel,
-a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou que haviam
-sido redigidos com o proposito de mostrar que havia perfeita uniformidade
-de doutrina, e especialmente da que se refere ao sacramento da Ceia do
-Senhor, entre Genebra e Canterbury.
-
-Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam sensatamente
-tolerado as objecções dos puritanos quanto ás capas de asperges e ás
-sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo Livro de Oração Commum de
-Eduardo VI, em uso havia muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle
-que foi indicado por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos
-romanos.
-
-Os bispos obrigaram a rainha a declarar-se contra as imagens, os
-crucifixos, a agua benta e o celibato do clero, isto é, contra todas
-as coisas que ella desejaria conservar; e compelliram-n’a a acceitar o
-Artigo vigesimo nono, que defende a theoria calvinista da Ceia do Senhor.
-
-Se os bispos tivessem tido liberdade de acção, haveria logar na Egreja
-de Inglaterra para os não-conformistas da actualidade, pois que a sua
-queixa, começando por ahi, não era contra o governo episcopal, mas contra
-os symbolos e ritos supersticiosos que lhes foram impostos pela rainha e
-pela sua Commissão: difficilmente, porém, haveria logar para os modernos
-ritualistas anglicanos.
-
-Devem a posição, que legal e historicamente lhes deve ser concedida, a
-duas coisas—(1) á supremacia real, que teve a força sufficiente para
-reprimir e ter sujeito a si o episcopal e nacional desejo de uma Reforma
-completa; e (2) ao facto de a uma numerosa parte do clero de Inglaterra
-serem tão indifferentes as mudanças que poderam conservar-se no exercicio
-das suas funcções durante os reinados de Eduardo, Maria e Isabel, isto é,
-sob o systema puritano, romanista e anglicano.
-
-A supremacia real deu á Egreja de Inglaterra o caracter claudicante da
-sua reforma, e habilitou as pessoas que vivem actualmente a fallar dos
-principios catholicos, isto é, medievaes, da Egreja ingleza.
-
-Os historiadores teem mostrado que Isabel tinha necessariamente de
-proceder da maneira cautelosa como procedeu, e, com aquella prepotencia
-que a caracterizava, obstar a que a Egreja do seu paiz se reformasse por
-completo. Ha alguma verdade no seu criticismo. Foi, comtudo, uma politica
-myope, que só tratava de acudir ás primeiras necessidades, e que obedecia
-muito ao principio de «depois de mim o diluvio.» Foi a supremacia real
-de Isabel, imposta mediante o tribunal da Alta Commissão, que preparou
-o caminho para a revolta puritana no reinado de Carlos I e para o dia
-do Negro Bartholomeu no reinado de Carlos II. Se a Egreja de Inglaterra
-tivesse sido entregue aos seus instinctos espirituaes, se a sua acção
-não tivesse sido contrariada pelo erastianismo, poder-se-hia ter evitado
-estas duas calamidades.
-
-
-
-
-IV PARTE
-
-OS PRINCIPIOS DA REFORMA
-
-CAPITULOS:
-
- I—OS PRINCIPIOS DA REFORMA.
-
- II—COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA.
-
- III—A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES.
-
- IV—OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-OS PRINCIPIOS DA REFORMA
-
- A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de
- particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação
- da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a
- Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag.
- 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,
- pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis,
- pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação
- do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma
- revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213.
-
-
-=A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares
-condições sociaes.=—O movimento da Reforma surgiu n’um dos mais notaveis
-periodos da historia europea. A tomada de Constantinopla pelos turcos
-ottomanos no meiado do seculo quinze dispersou por toda a Europa os
-thesouros litterarios e os sabios de aquella rica e illustrada cidade.
-Muitas pessoas começaram a estudar diligentemente os antigos auctores
-latinos; aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes a
-sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos poetas
-e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua em que foi
-escripto; e os rabbis judeus encontraram, com grande surpreza sua, no
-mundo occidental, homens com immensa vontade de aprenderem a sua antiga
-lingua, o hebraico, e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles.
-Um mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia, quer na
-litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens do periodo em
-que a Reforma appareceu.
-
-A descoberta da America por Colombo não só revolucionou o commercio e
-tudo quanto se relaciona com elle, como tambem excitou a imaginação da
-Europa. O que não poderiam os homens fazer, visto que tanto tinham feito
-já, tanto tinham descoberto? Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella
-epoca foi dito e escripto por homens que se julgavam em vesperas de
-grandes acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa.
-
-As condições politicas da Europa occidental tinham tambem mudado.
-Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimento das modernas
-nações europeas. Haviam-se desprendido, umas apoz outras, do systema
-politico medieval, e tornado independentes, com sentimentos, sympathias
-e aspirações nacionaes, o que fez com que cada nação comprehendesse que
-tinha um caminho especial a percorrer.
-
-O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle mundo de
-costumes sociaes e de restricção politica e religiosa em que tinham
-anteriormente vivido era pequeno de mais para elles; sentiram a
-necessidade de mais espaço para respirarem. O mundo era maior; a vida
-tinha muito mais aspectos do que aquelles que os paes d’elles tinham
-jámais posto na sua idéa. Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era
-agora novo.
-
-Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a philosophia
-escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos e as mentes dos
-homens, e traçado limites que elles não podiam ultrapassar. Estas
-barreiras haviam-se desmoronado sob a influencia da nova vida que por
-todos os lados penetrava n’elles, e os homens descobriram que a religião
-era uma coisa maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida
-social, com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do Sacro
-Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos que escapavam á
-perspicacia dos mais eminentes sabios.
-
-Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham, com toda
-a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações, lucrando apenas
-com isso o encontrarem-se na grave situação de isolamento social, como
-acontece a todos aquelles cujos pensamentos não são comprehendidos
-pelos homens do seu tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses
-pensamentos propriedade commum, e as multidões principiaram a ser
-agitadas por elles.
-
-Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma appareceu;
-mas o movimento, em si, não pode ser explicado simplesmente por meio
-de uma descripção d’essas condições sociaes. Teve logar uma verdadeira
-renascença da religião, um cumprimento da promessa do derramamento do
-Espirito Santo sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso
-que surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias, e
-tirou d’ellas mesmas a sua força.
-
-=Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.=—O que
-mais agita os corações dos homens que se encontram no meio de um
-grande movimento religioso dentro da Egreja christã é o desejo de se
-approximarem de Deus, de se sentirem em communhão pessoal com aquelle
-Deus que se mostrou cheio de graça e perdão mediante a vida e obra do
-Senhor Jesus Christo. Os homens que estão realmente sob a influencia
-de um grande despertamento religioso, e que são arrastados por um
-movimento de revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma
-deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho atravancado
-de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam ter accesso á presença
-divina.
-
-Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer, e mesmo
-durante algum tempo depois, os homens que estavam sob a influencia d’essa
-revivificação encontraram no seu caminho as taes barreiras de que já
-falámos. A Egreja, que se intitulava a porta que dava accesso á presença
-de Deus, tinha atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a
-sua maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha lista de
-penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter mostrado a vereda
-que conduzia á presença de Deus, parecia ter rodeiado o Seu santuario
-de um triplice muro que tornava difficilima a entrada. Quando um homem
-ou uma mulher sentia o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja
-dizia-lhe que fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes
-de vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado.
-Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de perdão, era-lhes
-este assegurado, não por Deus, mas por um padre. A graça de Deus, de que
-o homem tanto precisa durante a vida, e de que tanto precisa tambem á
-hora da morte, era-lhes concedida por meio de uma serie de sacramentos a
-que tinham de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam
-mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante a Egreja mediante
-a confirmação; o seu casamento ficava isento do peccado da concupiscencia
-mediante o sacramento do matrimonio; a penitencia restituia-os á vida,
-depois de terem commettido qualquer peccado mortal; o sacramento da
-Ceia do Senhor, administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os
-espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o descanço
-eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas coisas não
-constituiam de maneira alguma os signaes da livre graça de Deus, sob cujo
-vasto docel o homem passa a sua vida espiritual. Eram, antes, umas portas
-guardadas com toda a vigilancia, e que os padres abriam de mau humor, e
-quasi sempre só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que
-Deus dá gratuitamente.
-
-Ninguem podia, tão pouco, viver livremente uma vida christã, dedicando ao
-serviço de Deus todos os talentos que possuia. Para se viver santamente
-era necessario observar umas tantas coisas que a Egreja prescrevia,
-como, por exemplo, os frequentes jejuns, as interminaveis rezas, as
-flagellações, e um conjuncto de tediosas ceremonias, que, se eram
-manifestações de amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a
-maxima de S. João, beneficiando o proximo.
-
-A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença, de Deus,
-proclamando a todos que, se almejassem por se approximar do compassivo
-Redemptor só o poderiam fazer passando pelas estreitas portas que ella
-guardava, e exigindo por essa passagem, isto é, pelo baptismo, pela
-confirmação, pelo casamento, e pelos restantes sacramentos, umas vis
-moedas, e inpondo de quando em quando uma compra de indulgencias, para
-acabar de encher os seus cofres.
-
-A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado pelo irresistivel
-desejo de uma approximação de Deus, e satisfez cabalmente esse desejo
-levando deante de si, e fazendo desapparecer, todas as barreiras e
-obstaculos.
-
-=Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.=—É natural
-que occorra esta pergunta: Como é possivel que a Egreja se esquecesse a
-tal ponto da sua missão e do verdadeiro fim da sua existencia que, como
-os reformadores constataram, estivesse fazendo exactamente o contrario de
-aquillo que devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens
-a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus irmãos
-na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre elles e Deus, e
-que os conservava longe d’Elle. Como poude a Egreja tornar-se uma coisa
-inteiramente opposta ao que era licito esperar que ella fosse? Como poude
-a Egreja de Deus converter-se, segundo a graphica expressão de Knox,
-«n’uma synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia
-necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos, porém, dar uma
-idéa geral do que se passou.
-
-«A separação do mundo» é uma das maximas da vida christã, symbolisada
-nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada nas normas da vida do
-Novo testamento. A Egreja devia viver separada do mundo, e, em todos os
-seculos, aquelles a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se
-esforçado por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica.
-Gregorio VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando, e
-que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador da
-Egreja medieval, declarou que essa separação devia ser perfeitamente
-visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse no reino de Christo;
-e aquella sua opinião influiu muito no modo de ser da Egreja medieval.
-Nos seus dias todo o governo politico estava nas mãos do chefe do Imperio
-Romano, e Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse
-tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival sobre a
-terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado fôra o grande
-Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica. Nas suas mãos a Egreja
-tornou-se um reino em contraposição ao Imperio Romano da Edade Media, seu
-adversario visivel. Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja
-n’uma monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre duas
-coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas. O grande, o fatal,
-defeito n’aquela idéa de separação do mundo, em que Gregorio andava
-absorvido, proveiu do facto d’elle tomar uma parte do mundo, isto é, o
-Imperio politico, pelo mundo todo de que era necessario haver separação,
-de modo que a Egreja ficou separada do imperio, mas não ficou separada do
-mundo.
-
-A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus; todas estas
-phrases, empregadas na Escriptura para descrever o parentesco espiritual
-entre Deus e o seu povo foram malignamente applicadas a esta organização
-politica visivelmente separada do Imperio politico da Edade Media. Um
-homem era chamado _santo_ se pertencia a um dos reinos, e secular se
-pertencia ao outro; um frade era um homem _santo_, um guarda do imperador
-era um homem secular. Um campo era _santo_ se um papa ou um clerigo
-qualquer recebia a respectiva renda; era secular se o proprietario não
-tinha ordens ecclesiasticas. Todas as palavras e phrases que se deviam
-reservar para quando se tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas
-na descripção de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que
-pertencia áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja.
-
-A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia culto a Deus;
-era a esphera da religião; e quando, de caso pensado, ou em virtude
-do modo habitual de fallar, se ensinou aos homens que a Egreja era
-simplesmente uma sociedade visivel, a religião espiritual decaiu, sendo
-substituida por uma outra que consistia apenas na observancia de um certo
-numero de ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se
-cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente
-mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a Reforma appareceu
-era já impossivel supportal-a por mais tempo, e os homens insistiram em
-que os nomes espirituaes fossem applicados ás coisas espirituaes, ou,
-por outra, em que não se fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas
-piedosas.
-
-=Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de
-Christo.=—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para se tornar
-cada vez mais um reino politico, e cada vez menos uma egreja, não se
-deve suppôr que durante a Edade Media não houvesse religião espiritual.
-O Livro de Oração Commum da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado
-de antigos livros cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja
-andava geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que esse livro
-está impregnado de um profundo sentimento religioso. Muitos dos hymnos
-que eram cantados no culto publico por todas as egrejas protestantes
-foram originalmente compostos por devotos poetas medievaes, que dedicavam
-os seus talentos á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a
-sua existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo
-com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôr em contacto com
-as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes e friamente politicas.
-Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira separação do mundo, sem procurar
-definir as suas idéas, ou descutir o facto de terem os guias politicos
-da Egreja restringido o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém,
-tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir os seus
-pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre estava em harmonia com
-as definições dos estadistas ecclesiasticos. Para exemplificação d’isto,
-vamos passar em revista dois periodos de reviviscencia.
-
-=Francisco de Assis.=—Francisco de Assis, commovido pelas dolorosas
-scenas que observava nas cidades, onde a população indigente, pela
-maior parte composta de camponezes que haviam deixado as suas terras
-para se livrarem do pagamento das contribuições e dos pesados serviços
-a que os senhores feudaes, cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em
-miseraveis e repellentes bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino
-espiritual d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente mãos á
-obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse, mas como
-sob a influencia de uma grande idéa. Essa grande idéa era a tal maxima
-da «separação do mundo», a mesma que, erradamente interpretada, havia
-tornado politica a Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do
-mundo não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de dois
-espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela sociedade politica;
-tinha de baseiar-se na conducta individual. Gregorio VII tinha definido a
-separação de uma maneira negativa; havia dito «A Egreja é uma coisa que
-o mundo não é, e está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um
-modo mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste em
-estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez.
-
-Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de Chanterbury
-expozera n’uma arida fórma escolastica, a da _imitação de Christo_;
-e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever a verdadeira e
-individual separação do mundo, muito differente da separação politica
-de Gregorio VII. Anselmo e Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma
-maneira fria e dogmatica, e outro n’um estylo de fervoroso prégador da
-renascença, feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella o
-unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que Christo lhes
-alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra de Christo imitando-O.
-Francisco pegou, por assim dizer, n’esta idéa e, ligando-a com a maxima
-da separação do mundo, disse: «Eis aqui a verdadeira separação. Christo
-não era d’este mundo. O Seu reino não era d’este mundo. A separação do
-mundo é posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos aos
-de Christo.»
-
-Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não tinham grande
-largueza de vistas, e a vida e obra de Christo, assim como a Sua
-separação do mundo, apresentavam-se-lhe claramente, mas de uma maneira
-limitada. Nosso Senhor não era casado; estava separado da vida social
-que provém do casamento. Era pobre; estava separado do mundo da riqueza,
-do mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto de Se
-deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade, da independencia
-de vida e de acção. Prendeu-se a estes aspectos exteriores da vida de
-Christo; fez consistir a imitação de Christo e a consequente separação do
-mundo n’estes modos visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo
-ficou significando, entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de
-pobreza, castidade e obediencia.
-
-O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes resultados
-e teve um rapido successo; mas, como todos os outros movimentos que se
-baseiam em imitaçõees exteriores da vida divina, depressa deixou de
-impulsionar os espiritos, e os homens piedosos pozeram-se á procura de
-uma melhor separação do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais
-genuina imitação de Christo.
-
-=Os Mysticos medievaes.=—Os mysticos julgaram ter encontrado uma solução
-para o problema. A imitação de Christo e a separação do mundo á maneira
-de Christo deviam, disseram elles, ser mais profunda e mais intima.
-Deviam ser postas em connexão com uma religião espiritual, pois que é
-a alma, e não aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo,
-afim de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem tem,
-disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca, que é propriamente
-a vida da alma, e uma vida exterior, uma vida visivel, passada no
-meio da sociedade. Põe-se em communhão com Deus, não mediante aquella
-vida exterior, que todos os homens vivem, mas mediante a que possue
-espiritualmente, mediante a vida da alma. A separação do mundo não
-consiste n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella
-vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que separação
-do mundo significa communhão com Deus, e essa communhão não tem logar de
-uma fórma visivel, mas muita reconditamente, quando a alma se encontra a
-sós com Elle. Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos
-os desejos, a todos os actos que podessem impedir a communhão da alma
-com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle Christo que
-está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham, como se vê, ácerca da
-separação do mundo, a mesma idéa de Gregorio. Ligavam-n’a com aquella
-idéa de imitação de Christo, em que Francisco de Assis tanto insistia.
-Vivendo, porém, n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, em
-que abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias, foram levados a
-reconhecer, como a ninguem, antes ou depois d’elles, tem succedido, que
-o reino de Deus está no interior dos corações. A renuncia ficou sendo a
-sua senha, e essa sua renuncia era toda espiritual, e com ella se armaram
-para soffrer pacientemente tudo quanto a Deus, na Sua Providencia,
-aprouvesse enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser religião
-espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter esse nome, ser
-espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente, mais de Christo do que
-Gregorio com a sua Egreja politica ou do que Francisco de Assis com a sua
-pictorica imitação dos aspectos da vida de Christo no mundo.
-
-=A significação do perdão, segundo a Reforma.=—Todos estes movimentos
-eram revivificações da religião. Eram todos elles tentativas para
-se chegar a uma verdadeira separação do mundo, que é o mesmo que
-approximação de Deus. A Egreja sustentou esta prolongada lucta como
-preparação para a Reforma, fazendo dos seus proprios desenganos outras
-tantas alpondras para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou
-por todas ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das
-reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição da familia,
-deixou de estudar direito para estudar theologia.
-
-Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica e a imitação
-de Christo segundo as regras monacaes lhe proporcionariam aquella
-paz da alma que é o fructo de uma convivencia com Christo. Foi João
-Tauler ou Nicolau de Basiléa quando se inteirou de que a religião,
-para ser verdadeira, deve ser espiritual. Mas ainda assim elle não
-ficou satisfeito. Não se sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia
-que lhe era indispensavel estar senão depois de experimentar aquella
-bem-aventurada sensação de perdão pela qual anhelava. E porque havia
-feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza do perdão? Como
-hei de eu transpôr essa insuperavel barreira do peccado que se ergue
-entre mim e o Deus de toda a santidade?» e considerara este ponto como de
-summa importancia durante todo o periodo em que o seu espirito passou por
-varias vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas
-piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião que a
-Reforma effectuou.
-
-Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos principaes
-caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto de Deus, mas esse
-desejo era manifestado mediante differentes perguntas, e cada tentativa
-de revivificação tornava mais evidente a possibilidade de que elle
-fosse satisfeito, Gregorio perguntava: «Como posso eu separar-me do
-mundo?» Francisco de Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante
-a Christo?» Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimento
-do perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos luctam com a
-mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa; está-se cada vez mais
-perto da solução do problema, á medida que as gerações se succedem,
-até que por fim vieram os reformadores, que com tanto zelo procuraram
-revivificar a religião, e pozeram em primeiro logar a questão do perdão,
-e, conseguintemente, a do peccado, tocando assim no ponto principal.
-Desembaracemo-nos do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão, e
-haverá então separação do mundo, imitação de Christo e communhão com Deus.
-
-A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade
-o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do mesmo modo. Os homens
-alcançam o perdão de Deus indo pedil-o directamente a Deus, e confiando
-na Sua promessa de que perdoaria. A livre e clemente graça de Deus,
-revelada na pessoa e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa
-promettida graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida
-religiosa da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar o
-peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa. Tal é o simples
-aspecto religioso do movimento da Reforma. Todos aquelles que, sentindo a
-necessidade do perdão, e tendo perfeita confiança na promessa do perdão
-que Deus fez mediante Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de
-pensar em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa promessa
-e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a consciencia d’isso.
-
-=Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.=—Sendo
-este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma, é manifesto que
-elle não constituiu um caso singular, isolado, na historia da Egreja.
-Todos os christãos piedosos teem sentido pouco mais ou menos a mesma
-coisa, o seu espirito tem passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com
-Deus para serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa
-de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as gerações christãs
-dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem á vida do christão dizem
-a mesma coisa, e o que a Reforma fez foi definir claramente que todos os
-christãos tinham, com mais ou menos consciencia do facto, sentido.
-
-Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que espiritualmente
-experimentavam, e que era a linha central da sua vida religiosa, estava,
-n’uma multiplicidade de modos, em contradicção com o credo, o culto e a
-organização theoretica da sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente
-do que o contraste entre as exposições doutrinaes e as posições
-ecclesiasticas de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os
-hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as phrases que
-empregavam nas suas orações. A sua theologia tinha muitos pontos de
-contacto com a philosophia pagã de Aristoteles, no seu culto estavam
-consubstanciados muitos ritos do paganismo, a fórma como a Sua Egreja
-era dirigida era mais modelada na constituição do imperio romano do que
-na constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos piedosos
-viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao momento em que os
-elementos pagãos que haviam sido introduzidos na sua Egreja se tornaram
-tão preponderantes que elles se viram forçados a protestar contra elles.
-Luthero achou o perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que
-nunca fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na Egreja
-não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus por dinheiro. Isso
-levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção a certos assumptos,
-e compenetrou-se de que a venda do perdão dos peccados não era uma
-horrivel profanação enxertada na Egreja que elles veneravam, mas sim uma
-verdadeira e logica deducção de principios com que elles não se tinham
-até ali preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes
-da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que sempre existiu
-na Egreja medieval, manifestando-se na santidade da vida, na nobreza dos
-hymnos, nas confissões do peccado, e na confiança nas promessas do Deus
-do pacto. Os protestantes não precisam de reivindicar a sua affinidade
-com homens cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem
-reconhecido a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o viver
-religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do mahometanismo
-ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre ascendencia em todos esses
-homens e mulheres piedosas que, mesmo nos seculos mais obscuros da
-Egreja, foram ter directamente com Deus, confiados, tanto no tocante á
-vida presente como no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça
-renovadora que Elle revelou em Christo.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA
-
- O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado
- na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a nação
- medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra
- o medievalismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De
- Monarchia_ de Dante e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua,
- pag. 218.
-
-
-=O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida
-social da epoca.=—A Reforma começou simplesmente como uma tentativa de
-dar o culto a Deus de uma maneira mais simples, segundo os dictames da
-consciencia e os impulsos da vida interior, da vida espiritual; mas não
-podia ficar por ahi; significou por fim uma revolução nas condições da
-sociedade e uma grande mudança na situação politica da Europa.
-
-A Egreja medieval era muito rica, e possuia muitos bens de raiz, e quando
-uma freguezia, ou uma provincia, ou um paiz se tornava protestante,
-levantavam-se discussões sobre o destino a dar a estas propriedades.
-Deviam ficar em poder dos padres, deviam passar para o do pastor
-protestante, ou deviam as auctoridades civis tomar conta d’ellas e
-administral-as como bens do Estado? A Egreja tinha o direito de cobrar
-dizimos—o dizimo grande, ou a decima parte da colheita do trigo ou do
-vinho, e o dizimo pequeno, ou a decima parte das ovelhas, dos vitellos,
-dos porcos e dos ovos. Os padres e os frades recebiam remuneração pelos
-baptismos, pelos casamentos, pelas confirmações e pelos enterros.
-Quando as familias se tornavam protestantes, e dispensavam os serviços
-dos clerigos da Egreja medieval, por não se quererem sujeitar a ritos
-supersticiosos, aonde ir buscar aquelles dizimos e aquelles emolumentos?
-A permissão para se render culto a Deus segundo as consciencias
-preceituavam envolvia questões de dinheiro, que eram muitas vezes levadas
-aos tribunaes, e que obrigaram, mesmo, a uma modificação das leis
-concernentes á propriedade.
-
-A Egreja medieval tinha o seu systema de celibato. Os clerigos não
-podiam casar, e, alem dos parocos e dos curas, havia frades e freiras
-celibatarias e que haviam feito votos de castidade, sanccionados
-pelo Estado. Quando qualquer d’estes homens ou mulheres se tornasse
-protestante, ser-lhe-hia permittido desligar-se dos votos e abandonar
-o convento? e, no caso de ter levado dinheiro comsigo para o convento,
-ser-lhe-hia restituido? Se todos os moradores de uma casa religiosa
-abraçassem a fé protestante, poderiam conservar-se n’essa casa, e
-continuar disfructando a respectiva dotação? A todas estas questões
-juridicas deu logar a Reforma.
-
-Mas havia outras questões muito mais graves. A Egreja medieval, segundo o
-costume da epoca, tinha jurisdicção sobre muitos pleitos, que na Europa
-moderna são julgados pelos tribunaes civis. As questões entre marido
-e mulher, entre paes e filhos, e as que diziam respeito a heranças e
-testamentos, estavam na alçada dos tribunaes ecclesiasticos, e nunca eram
-submettidos ás instancias ordinarias do reino. A Egreja é que decidia se
-um casamento era ou não legal, se este ou aquelle grau era prohibido, se
-este ou aquelle filho era legitimo, etc. Estas questões levantavam sempre
-comsigo uma outra, a da propriedade, pois que só os filhos ligitimos
-podiam herdar os bens de seus paes. Só era licito o casamento que fosse
-feito dentro dos graus auctorizados, e effectuado á face da Egreja por
-um sacerdote ordenado. E isto porque, em conformidade com as idéas da
-Egreja medieval, o matrimonio era um sacramento. E assim protestante
-algum podia estar legalmente casado, porque a legalidade de um matrimonio
-só podia provir de um sacramento que não podia ser administrado a
-rebeldes, por constituir um acto de desobediencia á auctoridade da
-Egreja. E a lei da Egreja era a lei da nação; pois que antes da Reforma
-a Egreja tinha o direito de resolver todos estes casos. A não ser que
-as leis fossem alteradas, filho algum de protestantes, casados por
-pastores protestantes, podia herdar de seus paes, pois que, segundo a
-lei da Egreja medieval, os paes não tinham contraido um casamento legal.
-E, portanto, não andavam sómente envolvidas n’isto as questões que
-diziam respeito á propriedade; affectava-se tambem a honra pessoal, e a
-dignidade das esposas e dos filhos.
-
-Poderiamos multiplicar os casos indefinidamente; mas os que citámos são
-sufficientes para mostrar como o simples desejo de dar culto a Deus
-segundo a consciencia alterou todas as condições da vida social. O
-velho systema ecclesiastico descia até aos proprios alicerces da vida
-quotidiana, e tudo apertava nas suas garras. A Reforma, ao atacal-o,
-atacou por esse facto todas as leis: a da propriedade, a do casamento, e
-a da hereditariedade.
-
-=A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica.=—Segundo
-as noções medievaes, a sociedade estava dividida em Egreja e em Estado
-politico. O poder ecclesiastico estava todo centralizado na pessoa
-do papa, que era o sacerdote universal; e o poder civil estava todo
-centralizado na pessoa do imperador, que era o soberano universal. Um era
-sacerdote dos sacerdotes, e o bispo dos bispos, e o outro era o rei dos
-reis. Um homem pertencia á Egreja se estava sob a jurisdicção do papa;
-era membro da sociedade civil se estava sob o dominio do imperador.
-
-Tres poderosos chefes francos tinham, uns apoz outros, no fim do seculo
-oitavo, proporcionado ao christianismo o dilatar-se, sem ser incommodado,
-n’uma parte da Europa occidental. Com os seus fortes exercitos obstaram
-ao avanço das hordas dos barbaros frisios e saxonios que pretendiam
-opprimir a Europa com uma nova Dispersão das Nações, e obrigaram os
-serracenos a retroceder para alem dos Pyrinéus. Como preito de gratidão,
-o papa havia conferido a Carlos Magno, o ultimo dos tres, o titulo de
-Imperador dos Romanos e reunido em volta d’elle o prestigio do nome
-romano e tudo quanto restava das leis, artes e sciencias romanas. O
-imperio assim estabelecido apresentava um estranho dualismo. Tinha um
-chefe civil e outro espiritual, Cesar e o papa; e toda a jurisprudencia
-europea se fundava na dupla theoria da representação; o imperador era
-reputado o vigario de Deus nos negocios civis, ou terrestres, ao passo
-que o papa governava em nome de Deus nas coisas espirituaes.
-
-Segundo as noções medievaes, quando um homem recusava obedecer ao papa
-no que dizia respeito ás materias espirituaes rebellava-se contra a
-sociedade, pois que esta se baseava na idéa de que o papa e o imperador
-eram os senhores supremos. O protestantismo quebrou esta união dos dois
-elementos da christandade, que se affigurava necessaria para dar á
-sociedade uma existencia politica e mantel-a sobre uma firme base moral.
-
-=Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma.=—As idéas
-medievaes tinham soffrido alguma coisa antes de apparecer a Reforma. O
-nascimento das nações modernas, com os seus interesses em separado, o
-que dava origem a constantes conflictos, e com as suas aspirações de
-completa independencia, vibrou um golpe á noção medieval de christandade
-indivizivel. Este sentimento de independencia nacional significava
-revolta contra o imperador, a qual foi seguida, de uma fórma menos
-perceptivel, de sedições nacionaes contra o papa. A lei ingleza de
-_Proemunire_, que prohibe appellações para Roma, significava que existia
-no reino de Inglaterra uma jurisdicção de que não se podia appellar;
-e isso era uma revolta contra a noção medieval da christandade unida,
-segundo a qual todas as appellações deviam ser depostas junto do throno
-do imperador ou da cadeira do papa.
-
-Noções independentes queria dizer egrejas independentes, e a revolta
-de Henrique VIII não teve maior significação do que a de Eduardo III ou
-a de Filippe, o Bello. A theoria gauleza foi, n’uma epoca posterior,
-uma revolta contra a mesma idéa medieval de centralizar em Roma o poder
-ecclesiastico.
-
-A Reforma intensificou esta revolta. Deu-lhe um sentido mais amplo;
-tornou-a permanente; animou a tendencia para a descentralização.
-Depois de ter surgido a Reforma as nações tiveram mais um motivo para
-dissenções, pois que a differença de credo indispôl-as umas com as outras.
-
-Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião espiritual,
-tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade politica e
-ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas não as atacaram. A
-convicção em que estavam de que a religião consiste n’uma communhão
-espiritual com Deus tornava-os extremamente indifferentes a todas as
-combinações e associações extrinsecas. De todos os reformadores só
-Luthero mostrou partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença,
-perante a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um
-simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de os homens se
-ligarem uns com os outros, com a differença, comtudo, de que o centro
-d’esse movimento associativo, d’essa força colligadora, não era aquelle
-que as nações medievaes indicavam. Nutria a vida nacional; os homens,
-pela razão de terem combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo
-paiz, de terem herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos
-infortunios, mantinham entre si uma especie de unidade espiritual.
-As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta nova lei de
-desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma, que operou uma
-tão completa separação de Roma, e que, apezar d’isso, não destruiu a
-sociedade, mostrou a todos os homens que podia haver vida social e
-communhão religiosa sem aquella pressão exterior, sem que as idéas de
-ordem e associação andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja
-universaes. A noção medieval de uma Europa unificada constrangia todas as
-nações a obedecerem a um poder central, que residia no imperador; a noção
-reformista era a de uma fraternidade de povos.
-
-=A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326), de
-Marcello de Padua.=—Appareceram dois notaveis livros antes da Reforma, um
-que pertencia ao passado que ia desapparecendo, e outro que pertencia ao
-futuro que se avisinhava.
-
-Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados italianos e
-das nações europeas, escreveu a sua _De Monarchia_ para mostrar aos
-seus contemporaneos como podiam viver em paz. O que elle propunha era
-o restabelecimento, em toda a sua força, do velho imperio medieval, o
-qual, mesmo visto do seu lado melhor, pouco mais era do que um sonho,
-conservando o seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a
-imaginação, O reinado da paz universal teria logar, pensava elle, quando
-se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de Carlos Magno,
-isto é, quando um energico imperador, com a sua côrte no centro do mundo
-civilisado, ouvisse e julgasse os casos que de todos os pontos da terra
-fossem submettidos á sua decisão final, e fizesse sentir o peso da sua
-ferrea mão a todos aquelles que armassem contendas com os seus irmãos.
-Este livro é o epitaphio do medievalismo.
-
-Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo, escreveu o
-seu livro, o _Defensor Pacis_, que explicava como a verdadeira paz e
-segurança nacional começam de dentro. Para Marcello o Estado é o povo,
-e do povo—dos seu desejos, das suas aspirações, dos seus temores, dos
-seus intentos—é que provém a vida nacional. O governo é do povo e para
-o povo. E o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o
-seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto Dante
-procurava um poder compellidor que operasse de fóra, Marcello predizia
-que a força que havia de dominar as nações não podia deixar de ser uma
-força auto-coerciva que tivesse a sua origem no proprio povo. A Reforma
-contribuiu para que essa predicção se cumprisse, e para que as suas
-theorias viessem a constituir uma descripção da vida politica e social da
-actualidade.
-
-Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou o centro
-da vida nacional de uma força repressora exterior para uma invisivel
-fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa o que Kepler fez para
-a astronomia e Kant para a metaphysica: mudou o centro de fóra para
-dentro.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES
-
- Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja,
- pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á
- Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da
- Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição
- reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223.
-
-
-=Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.=—Nenhum dos
-reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem Calvino—pensou que procurando
-dar culto a Deus da maneira mais simples que a Escriptura aconselhava,
-e que a sua experiencia espiritual approvava, se estava afastando da
-Egreja. Estavam abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual
-com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer á Egreja em que
-tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados, e em cuja communhão
-tinham prestado culto a Deus desde a infancia.
-
-Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a Egreja de seus
-antepassados. Não tinham desejo algum de fazer uma nova Egreja, e ainda
-menos de crear uma nova religião. A religião que elles professavam era
-a religião do Velho e do Novo Testamento, a religião dos santos de Deus
-desde os dias de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua
-separação de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e dos Padres.
-Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em que Christo havia sido
-acreditado, e em que se havia sentido a presença do Espirito Santo, desde
-o tempo dos apostolos até aos seus dias.
-
-A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes, pensavam elles;
-não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar a toda a gente a
-evidencia d’esse facto, a que davam tão grande importancia?
-
-=Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição do
-Imperio medieval.=—Os reformadores tinham-se desligado do papa, e não
-viviam mais em communhão com elle ou com a curia romana. No seu tempo,
-porém, estar na Egreja era ter communhão com o papa e com Roma. Estar
-fóra do districto dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles
-tempos de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos
-privilegios da Egreja.
-
-Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem, ou cidade, ou
-provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava, eram, por esse
-facto, interrompidos todos os serviços religiosos. Emquanto sobre aquella
-area pesasse a excommunhão, não podia haver baptismos, nem casamentos,
-nem confortos espirituaes á hora da morte. As egrejas permaneciam
-fechadas, e todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser
-levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não ter communhão com
-o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil demonstrar o contrario, de
-um modo claro, sem auxilio de uma argumentação theologica.
-
-O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio de mostrar
-ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado por aquelles
-que estavam em communhão com o papa. O Santo Imperio Romano da Edade
-Media era mais do que um estado politico; era tambem, sob um certo ponto
-de vista, uma Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono.
-Chamava-se-lhe a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos deviam
-a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores ao facto
-de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma latina approvada pelo papa
-Damaso. A Edade Media apresentava, portanto, a Egreja de Christo sob dois
-aspectos: um era o da communhão com o papa, e o outro o da posição que
-occupava no Imperio Romano.
-
-Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão do imperio.
-Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo Niceno sob a fórma
-prescripta. Era, segundo a distincção feita pelo imperador, um christão
-orthodoxo. Estava dentro da christandade, era membro da grande
-communidade christã, posto que não estivesse em communhão com o papa.
-Luthero aproveitou-se do caracter ecclesiastico do imperio da Edade
-Media; teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel,
-que era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga
-classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã,
-ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com que aos seus
-contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja era mais ampla,
-mesmo segundo as noções medievaes, do que a communhão com Roma. Elle
-proprio estava fóra da communhão com Roma, e, comtudo, era membro da
-christandade, e estava, por conseguinte, dentro da Egreja.
-
-=A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.=—O imperio
-medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos, e a sua
-dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã. Luthero, para mostrar
-que, não obstante haver-se desligado de Roma, não tinha abandonado a
-Egreja Catholica de Christo, pegou no Credo dos Apostolos, no Credo
-Niceno, e no Credo de Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão
-de fé. Diz elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou
-Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas por
-toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de uma vez para sempre,
-que adhiro á verdadeira Egreja de Christo, que até agora tem mantido
-estas Confissões, mas não aquella falsa e pretenciosa Egreja, que é a
-peor inimiga da verdadeira Egreja, e que tem collocado subrepticiamente
-muita idolatria a par d’estas bellas Confissões.»
-
-Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros da Egreja
-Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos de citar.
-Intitulou-o _Sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_.
-Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva pelo papa e
-pela curia, exactamente como acontecera aos israelitas quando foram
-transportados para Babylonia. A Egreja, libertada do jugo romano, ficava
-com todos os privilegios que a Egreja de Deus sempre tivera, e ficava,
-além d’isso, livre da escravidão.
-
-A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um captiveiro peior
-do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma eram homens comparaveis
-a Zorobabel, Esdras e Nehemias. Não estavam fundando uma nova Egreja,
-estavam reconduzindo a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a
-liberdade.
-
-Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto que não a
-expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio aos seus _Institutos_
-diz-nos que escreveu o livro para responder áquelles que diziam que as
-doutrinas dos reformadores eram novas, duvidosas, e contrarias ás dos
-Paes da Egreja. E refuta essas accusações, mostrando a catholicidade da
-theologia da Reforma. Prova que todos os reformadores sustentaram as
-grandes doutrinas catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos,
-e que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de outra
-qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as idéas pagãs e
-as praticas supersticiosas foram, de uma maneira bastante censuravel,
-introduzidas.
-
-=A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.=—Os cabeças
-da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande revivificação
-religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo um movimento novo, e
-muito menos que estavam fundando uma nova religião. Tinham, no seu
-entender, uma ascendencia espiritual, e reputavam-se os verdadeiros
-herdeiros e successores da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes,
-e, tambem, da Edade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles.
-Pertenciam á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros herdeiros
-dos seculos de vida santa que os tinham precedido.
-
-Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem scismaticos
-e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica de Christo, e
-de procurarem crear uma nova Egreja e fundar uma nova religião.
-Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a unica communidade christã, e a
-unica Egreja Catholica e Apostolica.
-
-Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes preparada
-pela propria Egreja Catholica Romana. A Egreja de Roma acceita o Credo
-dos Apostolos, e esse Credo faz uma descripção da Egreja que está em
-completo desaccordo com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos
-Apostolos diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos
-santos», e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão de Roma».
-Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra que dê a entender que
-catholicidade significa communhão com Roma; catholicidade quer dizer,
-pelo contrario, _communhão com os santos_. Este ponto é bem frisado pelos
-principaes reformadores. O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se
-baseia n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia no perdão
-dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de uma santa communhão,
-e esta existe em virtude do perdão que se alcança para todos os peccados
-mediante a obra redemptora de nosso Senhor Jesus Christo.
-
-
-
-
-CAPITULO IV
-
-OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA
-
- Os principios _formaes_ e _materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O
- sacerdocio de todo os crentes: o grande principio da Reforma,
- pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da
- _Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_
- da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina
- medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da
- Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_.
- Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia,
- pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em
- contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical
- e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e
- justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235.
-
-
-=Os principios formaes e materiaes da Reforma.=—Os principios
-theologicos, ou doutrinarios, que deram um caracter distinctivo á
-revivificação da religião promovida pela Reforma costumam ser divididos
-em duas cathegorias, sendo uma d’ellas constituida pelos _formaes_ e a
-outra pelos _materiaes_.
-
-O dr. Dorner, historiador sagrado, estabelece este modo de encarar o
-movimento reformista com muita clareza e energia na sua _Historia da
-Theologia Protestante_. Segundo o dr. Dorner, a doutrina da Palavra de
-Deus é o principio _formal_ da theologia da Reforma, e a doutrina da
-Justificação pela Fé é o principio _material_ da mesma.
-
-O uso d’estes termos technicos pode, comtudo, obscurecer, tanto na vida
-religiosa como na theologia, o verdadeiro sentido do movimento que com
-elle se quer explicar. O principio da Reforma, o impulso predominante
-no movimento, era simplesmente aquelle que deve inspirar todas as
-revivificações da religião, isto, é o fervoroso desejo, a ancia, de uma
-approximação de Deus, o anhelo por estar na presença de Aquelle que Se
-revelou, para que podessemos ser salvos, na pessoa de Jesus Christo.
-Aquillo a que se tem chamado os principios, _formaes_ e _materiaes_, da
-Reforma está unido a este mais simples, mas mais energico, impulso, e é
-proveniente d’elle. O direito de chegar á presença de Deus foi, segundo a
-crença dos reformadores, conferido por Elle a todos os que fazem parte do
-Seu povo; mas o direito de chegar á presença de Deus é o que se chama o
-sacerdocio, e o grande principio da Reforma baseia-se no _sacerdocio de
-todos os crentes_—o direito que teem todos os homens e mulheres crentes,
-todos os clerigos e seculares, de se dirigirem a Deus, e de procurarem
-alcançar d’Elle o perdão mediante a confissão dos seus peccados, a luz
-que lhes illumine os entendimentos, a communhão que os faça sair do seu
-solitario isolamento, e o vigor necessario para viverem diariamente em
-santidade.
-
-=O sacerdocio de todos os crentes: grande principio da Reforma.=—Quando
-Luthero e Zwinglio se revoltaram contra os abusos com que o romanismo
-havia desfigurado a Egreja medieval, os dois grandes abusos eram a
-venda das indulgencias e a excommunhão. Quanto ao primeiro d’esses
-abusos, a venda das indulgencias, a Egreja medieval dizia praticamente
-que não era necessario ir ter com Deus para obter o perdão, pois que a
-Egreja podia concedel-o em melhores condições. O perdão que Deus dava,
-mediante a obra de Christo, áquelles que se apresentassem contrictos
-e arrependidos fornecia-o a Egreja a troco de uns tantos ducados.
-Punha-se deliberadamente entre os pecadores e Deus, e afastava-os d’Elle,
-insinuando-lhes, de uma maneira blasphema, que podia vender-lhes o
-perdão mais barato. O homem não necessitava de ir ter com Deus cheio
-de tristeza e arrependimento, nem de incutir na alma a confiança
-nas Suas promessas. A Egreja sahia ao caminho de todo aquelle que
-possuisse dinheiro. N’outras occasiões a Egreja recusava absolutamente
-o perdão. Se uma cidade, ou uma diocese, ou um paiz offendia, mediante
-os seus governantes, o papa ou a sua côrte de Roma, era-lhe imposta a
-interdicção, e emquanto esta não fosse levantada não havia perdão para
-peccado algum. A Egreja colocava-se entre a creança recemnascida e o
-baptismo, entre o christão moribundo e a graça que lhe era concedida
-á hora da morte, entre o mancebo e a donzella e o laço matrimonial
-abençoado por Deus, entre o povo e o culto quotidiano. Ninguem se podia
-approximar do Deus de toda a misericordia pelo motivo dos magistrados,
-dos bispos ou do rei e seus conselheiros terem offendido o papa. A Egreja
-tinha a faculdade de impedir o caminho, pois que havia declarado que
-só por intervenção dos padres é que se poderia ter accesso a Deus; e
-quando aos padres se prohibia o exercerem as suas funcções eclesiasticas,
-o ministrarem os sacramentos, ficava cortada toda a comunicação com
-Deus. O papa podia, com uma pennada, impedir que uma nação inteira se
-approximasse de Deus, pois que tinha o direito de ordenar aos padres que
-suspendessem os serviços religiosos; e, segundo a theoria medieval, essas
-funcções exercidas pelos padres eram o unico meio de ter accesso a Deus.
-
-Os reformadores, por outro lado, diziam: «O homem deve approximar-se
-de Deus por meio da oração, por meio do perdão, por meio da communhão,
-por meio do esclarecimento espiritual, sempre que fielmente o procurar
-fazer; é impossivel que o caminho para Deus se feche de aquella maneira.»
-Luthero disse que não fazia objecção alguma ás indulgencias se ellas
-fossem consideradas o unico meio de se declarar que Deus é sempre
-misericordioso. Recusava, porém, acreditar n’ellas, ou n’outro qualquer
-rito da Egreja medieval, quando se fazia uso d’ellas para declarar que
-os homens podiam alcançar o perdão sem se approximarem de Deus com um
-espirito contricto, ou que podiam ser inteiramente excluidos da presença
-de Deus por determinação de quaesquer outros homens.
-
-Era esta idéa—que a presença de Deus é livre para quem fielmente a
-procurar, que Deus não recusa ouvir a oração de qualquer penitente, e que
-Elle faz com que as Suas promessas fallem directamente aos corações de
-todos aquelles que compõem o Seu povo—que se enleiava em volta de base da
-theologia da Reforma, e era a fonte de onde brotavam, em particular, as
-doutrinas da Escriptura e da justificação pela fé.
-
-=O principio do sacerdocio dos crentes explica a doutrina reformada
-da Escriptura.=—Todos os reformadores criam que na Biblia Deus lhes
-fallava da mesma maneira em que, em tempos remotos, havia fallado á
-Egreja pelos Seus prophetas e apostolos. Diziam elles que o povo, tendo
-nas mãos a Biblia traduzida do grego e do hebraico para uma lingua que
-elle comprehendesse podia ouvir a voz de Deus, podia chegar-se a Elle
-para receber instrucção, admoestação e lenitivos. Nos tempos do Antigo
-Testamento Deus fallou ao Seu povo, umas vezes em sonhos e outras por
-meio de visões, mas principalmente mediante embaixadores instruidos
-por Elle, a que se chamava prophetas. Nos tempos do Novo Testamento
-Deus fallou no meio do povo mediante Seu Filho, e o Seu Espirito fallou
-tambem por intermedio dos apostolos de Christo. Todas estas revelações,
-inseridas na Escriptura do Velho e Novo Testamento, são apresentadas
-de tal fórma que Deus falla, na Biblia, ao Seu povo exactamente como
-lhe fallou pela bocca dos homens santos da antiguidade. Os reformadores
-proclamavam que na Biblia todos os crentes podem ouvir Deus, que lhes
-falla directamente, e que a Sua voz pode ser ouvida por todos aquelles
-em cujas mãos estiver a Biblia. A doutrina reformada da Palavra de Deus
-exprime simplesmente um dos lados do cumprimento de aquelle anhelo pelo
-accesso á presença de Deus, que constitue o elemento essencial, não
-apenas da Reforma, mas de toda a verdadeira revivificação religiosa.
-
-=O principio do sacerdocio espiritual de todos os crentes explica a
-doutrina reformada da justificação pela fé.=—A doutrina da justificação
-pela fé é um outro modo de asseverar que o anhelo pelo accesso a Deus
-não é um desejo vão, mas uma coisa que pode ter um positivo cumprimento.
-Segundo a theologia medieval, o peccador não podia implorar directamente
-a Deus o perdão. Tinha que ir ter com o padre, e esse padre ficava
-auctorizado a metter-se de permeio entre elle e Deus, e a negar o perdão
-de Deus, se isso lhe fosse ordenado pelo papa ou por um seu superior
-hierarquico. Por muito sincero que fosse o seu pezar, por muito forte
-que fosse a sua confiança, o padre collocava-se entre elle e o seu
-clemente Deus, e elle não podia confessar a Deus os seus peccados nem
-ouvir de Deus a sentença do perdão senão pela bocca do padre. A doutrina
-da justificação pela fé significa, na sua fórma mais simples, que é Deus
-em pessoa quem profere o perdão, e que perdoa em attenção de tudo quanto
-Christo fez e pode fazer pelo peccador; e que o homem pode ouvir proferir
-este perdão se tiver fé na misericordia, na salvação e nas promessas de
-Deus.
-
-=A doutrina reformada da Escriptura, em contraste com a medieval.=—A
-doutrina reformada da Escriptura é muitas vezes apresentada sob uma
-fórma que não a põe em immediata connexão com o impulso preponderante
-no movimento da Reforma. Os reformadores deram mais credito á Biblia, o
-livro infallivel, do que á palavra de uma Egreja fallivel. Na Edade Media
-os homens appellavam para a Egreja em ultima instancia, e acceitavam as
-decisões dos papas e dos concilios como constituindo a ultima palavra
-em todas as controversias sobre a doutrina e a moral; os reformadores
-substituiram a Egreja, isto é, as decisões dos concilios e dos papas,
-pela Biblia, e ensinaram que era para ella que se devia appellar em
-ultima instancia. Este modo de expôr a differença entre os reformadores
-e os seus antagonistas teve uma expressão mais concisa no dito de
-Chillingworth, famoso theologo inglez, de que a Biblia, e só a Biblia, é
-a religião dos protestantes.
-
-Tudo isto é verdade, e, comtudo, não é a inteira verdade, podendo,
-portanto, dar logar a uma noção erronea. Os catholicos romanos e os
-protestantes não dão o mesmo sentido á palavra Biblia, e essa differença
-de sentido traz á luz uma verdade que é algumas vezes esquecida. Quando
-os catholicos romanos fallam da Biblia querem dizer uma coisa, e quando
-os protestantes fallam da Biblia querem dizer outra, e n’esta differença
-no emprego da palavra está uma parte importantissima da doutrina
-reformada da Escriptura.
-
-A Egreja medieval não se oppunha, em regra, a que o povo lesse a Biblia
-para sua edificação. Era, pelo contrario, uma maxima na theologia da
-Edade Media que todo o systema doutrinal da Egreja se fundava na Palavra
-de Deus. Thomaz de Aquino, a maior auctoridade entre os theologos
-medievaes, diz expressamente, no principio da sua importante obra, A
-_summula da theologia_, que todo o circulo da doutrina christã se apoia
-na Escriptura, que é a Palavra de Deus. Durante a Edade Media fizeram-se
-continuamente traducções das Escripturas nas linguas dos povos da Europa;
-é um perfeito erro suppôr-se que as primeiras traducções da Biblia se
-fizeram durante o tempo da Reforma; em regra geral, animava-se o povo
-a ler e estudar as Escripturas. Nos primeiros periodos da controversia
-reformada, os arguentes catholicos romanos recorriam tanto á Biblia como
-Luthero e os que estavam do seu lado. Estava guardado para a Egreja
-Catholica posterior á Reforma o prohibir aos leigos a leitura da Palavra
-de Deus.
-
-=A doutrina medieval da Escriptura.=—Os theologos medievaes faziam,
-comtudo, da Biblia um uso muito differente de aquelle que os protestantes
-faziam, e na controversia protestante a differença de sentido não tardou
-em fazer-se notar. Os theologos da Edade Media jámais consideraram
-a Biblia um meio de graça; tinham-n’a na conta de um livro cheio de
-informações, divinas informações, ácerca da doutrina e da moral. Era para
-elles um repositorio de verdades doutrinarias e preceitos moraes, e mais
-nada.
-
-Os protestantes vêem n’ella um repositorio de verdades infalliveis,
-mas vêem mais alguma coisa. É um meio de graça. Crêem que os homens
-alcançam com a simples leitura da Biblia não só instrucção como tambem
-communhão com Deus, não só o conhecimento de Deus como tambem intimidade
-com Elle. Não se limita a apresentar verdades novas ácerca das coisas
-divinas; excita para a vida espiritual. É para o protestante tudo o que
-era para o theologo da Edade Media, e é mais alguma coisa. É um tão
-efficaz estimulo de fé e vida santa como os sacramentos, ou a oração ou
-o culto. Mediante um diligente uso da Biblia, os homens, na opinião dos
-theologos protestantes, não sómente adquirem o conhecimento de Deus;
-podem tornar-se participantes de aquella bemdita communhão entre Deus e o
-Seu povo de que a Biblia faz menção.
-
-=O quadruplo sentido da Escriptura.=—Esta noção medieval ácerca da
-Biblia—que ella é um repositorio de informações ácerca das doutrinas e
-da moral, e nada mais—encontra uma seria difficuldade: é que similhante
-descripção não parece ser applicavel a uma grande parte de Biblia. As
-Escripturas conteem longas listas de genealogias, capitulos que tratam
-quasi exclusivamente dos utensilios do templo, ou são descripções
-da vida humana, ou da historia nacional. N’essas porções da Biblia,
-que constituem uma não pequena parte d’ella, não parece haver muita
-informação doutrinal ou muitas regras para uma vida santa, e, não
-obstante, são estas coisas que, segundo a definição medieval, compõem
-a Biblia toda. O theologo medieval tinha, portanto, ou de cortar o
-que lhe parecesse materia inapplicavel, ou inventar alguma maneira de
-transformar as taboas genealogicas em doutrinas ou preceitos moraes.
-Optou pela ultima d’estas coisas, e declarou que em todas as passagens
-da Biblia havia mais do que um sentido. A Biblia, disse elle, tinha um
-quadruplo sentido. Havia, em primeiro logar, o sentido _historico_ da
-passagem lida, que era aquelle que se inferia das regras grammaticaes
-e de interpretação. Seguiam-se depois os outros tres sentidos: O
-_allegorico_, o _moral_ e o _anagogico_. Estes varios sentidos differiam
-do historico, e os expositores medievaes extrahiam complicadas doutrinas
-das genealogias de Abrahão e de David, e regras de conducta da descripção
-das vestes do summo sacerdote ou da narrativa da viagem que nosso Senhor
-fez de Capernaum a Naim.
-
-É algumas vezes difficil saber qual é o verdadeiro sentido de certas
-passagens da Biblia, mesmo quando o leitor se occupa simplesmente da
-significação historica; e a difficuldade quadruplicará, se é verdade
-que cada passagem tem quatro sentidos. Qualquer trecho da Biblia pode
-significar aquillo que o leitor quizer, bastando para isso que o tome
-n’um sentido mystico, ou allegorico.
-
-=Definição medieval da fé salvadora. A interpretação
-infallivel.=—Emquanto os theologos medievaes faziam quasi perder a
-esperança de vir a saber-se ao certo o que a Biblia dizia segundo a sua
-doutrina do quadruplo sentido, uma outra theoria d’elles tornava de
-summa importancia que o crente tivesse precisas informações ácerca do
-contheudo da Biblia. Diziam que fé não era confiança n’uma pessoa, mas
-assentimento ás informações correctas; a fé que salva era, sustentavam
-elles, assentimentos ás proposições acerca de Deus, do universo, e da
-alma humana, contidas na Biblia. Por um lado, a sua doutrina do quadruplo
-sentido tornava quasi impossivel a qualquer pessoa o certificar-se do que
-a Escriptura ensinava; por outro, a sua definição de fé salvadora tornava
-importantissimo, tanto no que diz respeito a esta vida, como no que diz
-respeito á futura, que cada um tivesse noções claras e exactas do texto
-biblico. E assim a Egreja medieval era obrigada a asseverar que havia,
-não indicada por ella, uma maneira auctorizada de interpretar a Biblia,
-e isso conduziu-a á sua doutrina da infallibilidade das declarações dos
-concilios e dos papas no tocante ao ensino da Biblia.
-
-É escusado dizer que, se a Biblia é por si propria de duvidosa
-interpretação, e se é essencial para a salvação que o crente possua uma
-verdadeira e correcta interpretação a que possa dar o seu assentimento,
-o que fornecer uma interpretação infallivel tem mais valor do que
-aquillo que é interpretado. E foi isso o que effectivamente succedeu.
-As decisões dos concilios e dos papas, e a tradicional e auctorizada
-interpretação da Biblia pela Egreja, adquiriram mais valor pratico do que
-a propria Biblia. Os homens que consultassem simplesmente a Biblia podiam
-cair no erro, e cair no erro era a morte; aquelles que confiassem na
-interpretação biblica da Egreja nunca seriam induzidos ao erro.
-
-Tudo isto, porém, tornava impossivel que a Biblia fosse um meio de
-communhão entre Deus e o homem. Entre a Biblia e o crente collocavam os
-theologos medievaes as opiniões dos concilios e dos papas, ou, n’uma
-palavra, a Egreja. A Egreja interceptava o caminho para Deus mediante a
-Sua Palavra interpondo-se ella propria e a sua auctorizada interpretação
-entre o crente e a Biblia.
-
-Os reformadores, anhelando pela communhão com Deus, e sabendo por aquillo
-que o seu espirito havia experimentado que era possivel têl-a mediante
-a simples leitura da Biblia, compenetraram-se do dever de deitar abaixo
-essa barreira, e assim o fizeram. Essa barreira, porém, não podia ser
-derrubada simplesmente com o dizer-se que a Biblia, e não as tradições
-da Egreja, é que era a guia infallivel. A Biblia como os catholicos
-romanos a entendiam, essa Biblia que expunha apenas preceitos de doutrina
-e de moral, e cujas passagens tinham quatro sentidos, era simplesmente
-um livro embaraçoso. Os reformadores tinham de mostrar a Biblia atravez
-de outro prisma para que podessem dizer que era infallivel e que era o
-arbitro supremo em todas as controversias.
-
-=Os reformadores e a Biblia.=—Deram á Biblia a significação que ella
-realmente tinha. Deus havia-lhes fallado por meio d’ella. O Deus pessoal,
-que os creara e que os remira, havia-lhes fallado nas paginas da
-Biblia, e tornara-os scientes do Seu poder e da Sua vontade de salvar.
-A linguagem era algumas vezes obscura, mas encontraram outras passagens
-mais claras, e os pontos faceis explicaram-lhes os difficeis. Podia ser
-que os homens simples não a comprehendessem toda, não soubessem ligar
-todas as suas asserções de modo a constituir um encadeado systema de
-theologia; mas toda a gente, fosse ou não fosse theologa, podia ouvir a
-voz de seu Pae, inteirar-se do proposito do seu Redemptor e ter fé nas
-promessas do seu Senhor. Seria uma boa idéa fazer uma selecção de textos
-e formar o systema de theologia protestante que tornasse as coisas mais
-comprehensiveis; mas o essencial era ouvir o Deus pessoal e obedecer-Lhe;
-era Elle fallar-lhes como em todos os seculos fallou ao Seu povo,
-promettendo-lhes a salvação, ora directamente, ora mediante a narrativa
-do Seu procedimento com o povo escolhido ou com homens excepcionalmente
-favorecidos. Detalhe algum de vida, nacional ou individual, era inutil;
-pois que ajudava a completar o quadro da communhão entre Deus e o Seu
-povo de outr’ora, esse povo que havia de reviver n’elles e perpetuar
-assim o grato sentimento de communhão com o Deus da alliança, bastando
-para isso que tivessem a mesma fé dos santos do Antigo e Novo Testamentos.
-
-Animados, como estavam, d’estas idéas, a Biblia não podia ser para elles
-o que era para os theologos medievaes. Deixava de existir o quadruplo
-sentido. A Biblia era Deus fallando com elles, um Pae fallando com Seus
-filhos, do mesmo modo que um homem falla com os seus similhantes; e
-ficava subsistindo apenas o sentido manifesto, o sentido historico. Era
-mais do que um repositorio de doutrinas e de regras de moral; era, acima
-de tudo, uma memoria e uma descripção da bemdita communhão que os santos
-haviam tido com o Deus dos pactos desde a primeira revelação da promessa.
-A fé era mais do que um frio assentimento ás verdades concernentes á
-doutrina e á moral; era uma confiança pessoal no Salvador pessoal que Se
-lhes dirigia por meio da Biblia.
-
-Deram-se, por conseguinte, pressa em traduzir a Biblia em todas as
-linguas, e collocar a Biblia nas mãos de todos, e declararam que um homem
-que possuisse a Biblia, isto é, que ouvisse a voz de Deus, estava mais ao
-facto do caminho da salvação do que os concilios e os papas sem ella.
-
-A sua doutrina, que era fructo de tudo aquillo que elles haviam
-espiritualmente experimentado, inculcava que o anhelo pela communhão com
-Deus era satisfeito mediante a leitura e prégação da Palavra de Deus. A
-Biblia porporcionava aos homens o encontrarem-se na presença de Deus e
-ouvirem as Suas palavras de conforto.
-
-=A doutrina reformada da justificação, em contraste com a medieval.=—O
-segundo grande principio da theologia da Reforma é, por consenso
-universal, a doutrina da justificação pela fé sómente. Pode-se tambem
-pôl-a em directa connexão com o principio fundamental da Reforma, o
-sacerdocio de todos os crentes, ou o direito de accesso, promettido na
-Palavra de Deus, á Sua presença.
-
-Ao contrastar a doutrina reformada com a medieval no tocante á
-justificação, occorre a mesma difficuldade com que já deparámos
-no contraste entre as duas doutrinas ácerca da Escriptura. Diz-se
-vulgarmente que os reformadores apregoaram uma justificação pela fé
-sómente, ao passo que os seus antagonistas apregoaram uma justificação
-pelas obras; mas, posto que isto seja perfeitamente verdadeiro, devemos
-lembrar-nos de que a palavra «justificação» é usada em dois sentidos
-distinctos pelos dois disputantes.
-
-Para os theologos medievaes, _justificar_ significa tornar justo; para
-os reformadores significa declarar justo. Para aquelles é uma operação
-que se faz durante um certo tempo; para estes é um acto momentaneo, é
-um acto da livre graça de Deus, pelo qual Elle perdoa todos os nossos
-peccados e nos acceita como justos a Seus olhos. Para aquelles é uma
-obra de purificação do peccado, uma obra de santidade; para estes é a
-formação de um juizo, ou, como os theologicos dizem, um acto _forense_.
-Os reformadores viram que os theologos medievaes empregavam a palavra
-justificação no sentido mencionado, e trataram de apresentar a sua outra
-significação. E justificaram esse seu procedimento dizendo que o sentido
-que deram ao termo é o que o Novo Testamento lhe dá, pois que o emprega
-na accepção de acto, de sentença, de juizo, e nunca na de obra.
-
-O primeiro contraste não é, portanto, entre a justificação medieval e
-a doutrina da Reforma, mas entre a doutrina reformada da justificação
-pela fé e a que lhe corresponde na Egreja medieval. Justificação, na
-theologia reformada, quer dizer o acto de perdoar e de acceitar como
-justo; corresponde a essa doutrina, na egreja medieval, a da absolvição
-dada pelos padres, pois que era o unico modo como poderia ser concedido o
-perdão dos peccados.
-
-=A absolvição clerical e a justificação pela fé.=—Segundo a theologia
-da Edade Media, o perdão divino do peccado tinha sempre de ser
-proferido por um sacerdote. Quando o penitente se confessasse e se
-mostrasse arrependido, tanto por palavras como por actos, o padre tinha
-auctorização para pronunciar a sentença absolutoria, e essa sentença era
-acceite como sendo proferida pelo proprio Deus, pois que o clero era o
-orgão mediante o qual, e sómente mediante o qual, Deus perdoava.
-
-Luthero e os outros reformadores viram que o padre que se suppunha
-occupar o logar de Deus e fallar em nome de Deus commettia acções impias,
-e a consciencia disse-lhes que, em vista de similhante facto, o perdão
-do padre não podia ser o perdão de Deus. Luthero viu que um homem,
-munido de um certificado de indulgencias, ia ter com um padre e recebia
-perdão sem mostrar arrependimento quer por palavras quer por obras, sem
-que, apparentemente, sentisse tristeza alguma no seu coração. Viu que
-os padres pretendiam ser a trombeta de Deus, e que concediam perdão em
-certos casos em que elle seria negado por um Deus justo e santo.
-
-Luthero e os seus amigos tinham presenciado ou ouvido fallar de casos em
-que o perdão de Deus havia sido recusado quando um Deus misericordioso
-o teria concedido. Uma successão de papas havia castigado a cidade de
-Strasburgo com uma interdicção pelo facto de ella ter tomado uma attitude
-na politica allemã que não era do agrado da côrte pontificia, e durante
-todo esse tempo não podia ser proferida uma palavra de perdão a qualquer
-peccador contricto e arrependido. Os padres perdoavam quando Deus não
-perdoava, e recusavam perdoar quando Deus estava prompto a conceder o Seu
-perdão.
-
-Luthero, vendo isto, e sabendo como havia sido perdoado por confiar
-simplesmente nas promessas de Deus, declarou que o peccador pode ir ter
-directamente com Deus, pezaroso por haver peccado e cheio de confiança
-nas promessas de Deus, e obter d’Este o perdão. Asseverou que a não
-ser que se alcance primeiramente o perdão de Deus, o do padre não tem
-valor algum, e que, depois de se alcançar o perdão de Deus, o do padre
-é inutil. O perdão alcançava-se indo ter com Deus, e não indo ter
-com o padre e ouvindo d’elle a absolvição. A doutrina protestante da
-justificação mostra o direito de accesso a Deus para Lhe rogar perdão,
-e declara que padre algum está auctorizado a interpôr-se entre Deus e
-o peccador arrependido. Deitou por terra a doutrina medieval de que o
-perdão divino só pode ser alcançado mediante a absolvição clerical, e
-de que o peccador arrependido não se deve prostrar aos pés de Deus mas
-deante do confissionario.
-
-=Justificação pela fé e justificação pelas obras.=—Segundo a theoria
-medieval, antes de o perdão ser obtido pela fórma ordinaria, mediante
-a absolvição sacerdotal, era indispensavel confessar os peccados,
-mostrar contricção e fazer penitencia. Na confissão o peccador deve
-mencionar ao padre todos os peccados que commetteu desde a ultima vez
-que se confessou, e n’este catalogo de peccados não se deve faltar a
-um só pormenor. Peccado algum pode ser perdoado sem que se tenha feito
-menção d’elle. A confissão deve ser mecanicamente completa. Em seguida
-á confissão vem a contricção, ou a dôr por haver offendido a Deus, e
-esta, segundo a doutrina medieval, deve manifestar-se de certos modos
-esteriotypados que a Egreja tem sanccionado. Depois, e só depois, é que é
-possivel a absolvição, quer dizer, o perdão.
-
-A Egreja da Edade Media collocava duas coisas entre o peccador e o perdão
-divino proferido pelo sacerdote: uma completa confissão, mecanicamente
-feita, em se que fizesse menção de todos os peccados cujo perdão se
-desejava, e uma contricção manifestada de certos modos estabelecidos,
-taes como a recitação de um grande numero de orações, a abstenção da
-comida, etc., e a absolvição dependia da automatica integridade da
-confissão e da contricção.
-
-Os reformadores tinham a convicção de que o peccado era uma coisa séria
-de mais para que o seu perdão dependesse de uma completa confissão, e
-de uma contricção exteriormente manifestada. Deus perdoava por amor de
-Christo, não em virtude de uma completa confissão ou de uma perfeita
-contricção. Declararam, por consequencia, que, posto que o peccador deva
-confessar os seus peccados, e esforçar-se seriamente por se conservar
-no caminho da obediencia, o perdão depende da soberana graça de Deus,
-revelada em Christo.
-
-Tornou-se-lhes evidente a necessidade de derrubar os obstaculos que
-a Egreja medieval havia erguido entre Deus e o homem, e que eram
-constituidos pela confissão mecanica, e pela contricção, ou penitencia. O
-arrependimento sincero, o arrependimento do coração, é que era de grande
-importancia, porque abrangia confissão, contricção e confiança; e Deus, á
-vista d’estas coisas, perdoava por amor de Christo.
-
-Justificação pela fé, portanto, significa que o peccador contricto
-pode dirigir-se immediatamente a Deus, confiando na consummada obra
-de Christo, e alcançar o perdão sem a intervenção de padres ou de uma
-serie de rotineiras ceremonias. Deus perdoa em attenção áquillo que
-Christo fez, não em attenção áquillo que nós possamos fazer; e, desde
-que o perdão se alcança mediante a obra de Christo, e não pelo nossos
-esforços, pode ser, e é, dado no principio da carreira christã, não sendo
-necessario esperar penosamente por elle até ao fim, como uma doutrina de
-justificação pelas obras implicaria.
-
-A doutrina da justificação pela fé, segunda columna da theologia
-reformada, provém de aquelle anhelo pela approximação de Deus, ponto de
-apoio da Reforma. Significa que o peccador que se sente arrependido, e
-tem confiança nas promessas de Deus, pode ir immediatamente implorar-Lhe
-o perdão e obtel-o sem interferencias clericaes e sem o cumprimento de
-praticas mecanicas.
-
-=Conclusão.=—A Reforma, que foi uma grande revivificação da religião,
-tendo por base principal o anhelo pela presença de Deus, a Quem só era
-possivel chegar-se mediante o arrependimento e a confissão, acompanhados
-de plena confiança nas Suas promessas, aconselhava, pois, os crentes a
-terem communhão com Elle por intermedio da Biblia, e a rogarem o perdão
-prostrados junto do escabello de Seus pés, e derrubou as barreiras
-que foram erguidas pela Egreja politica da Edade Media em frente da
-livre e soberana graça de Deus. A nova espiritualidade que animava os
-reformadores e os seus adherentes tinha, alimentada pela Palavra de
-Deus, e ensinada pelo Seu Espirito, desabrochado por todos os lados,
-dando logar a uma theologia reformada, onde a doutrina da predestinação
-substituiu a theoria da communhão com Deus por intervenção do papa
-e dos seus bispos onde a theoria dos sacramentos foi purificada pela
-doutrina do Espirito Santo, onde as Escripturas arbitravam em todas as
-controversias, e onde o perdão era proferido por Deus, e não pelo homem;
-e em todas as suas ramificações se encontra como idéa predominante o
-sacerdocio espiritual conferido por Deus a todos os crentes.
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-
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-SUMMARIO CHRONOLOGICO
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-Acontecimentos contemporaneos
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-1493-1515.—Jan. 12, Maximiliano I. Imperador. Por sua morte ficou como
-vice-rei Frederico, o Sabio, da Saxonia (1480-1525).
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-1499-1535.—O eleitor Joaquim I (Nestor) de Brandenburgo.
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-1500-1539.—O duque Jorge da Saxonia.
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-1509-1547.—Henrique VIII de Inglaterra.
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-1515-1547.—Francisco I de França.
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-1518-1567.—Filippe, o Magnanimo, de Hesse. (Nasc. em 1504).
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-1519.—Junho, _Carlos V, (Rei de Hespanha desde 1516)_—27 de Agosto de
-1556, _Imperador da Allemanha (fall. em 1558)_.
-
-1519-1566.—O sultão Suliman I.
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-1519-1521.—Fernando Cortez descobre e conquista o Mexico.
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-1520.—Magalhães faz uma viagem de circumnavegação.
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-1521-26.—Primeira guerra entre Carlos V e Francisco I.
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-1525.—Batalha de Pavia.
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-1526.—Paz de Madrid.
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-1523-33.—Frederico I da Dinamarca.
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-1523-60.—Gustavo Vasa, da Suecia.
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-1525.—Alberto de Brandenburgo (fall. em 1568); chefe dos cavalleiros
-allemães; duque da Prussia, sob o dominio polaco.
-
-1525-32.—O Eleitor João, o Constante, da Saxonia (irmão de Frederico, o
-sabio).
-
-1526.—Ago. 29: Luiz, rei da Hungria e da Bohemia, morre em Mohacz, em
-combate com os turcos.
-
-O seu successor, Fernando de Austria (Em Out., rei eleito da Bohemia),
-tem de defender os seus direitos á Hungria, em detrimento dos turcos.
-
-1527.—Saque de Roma.
-
-1527-29.—A segunda guerra entre Carlos V e Francisco I; Paz de Cambrai,
-em Agosto de 1529.
-
-1527.—Henrique VIII de Inglaterra procura divorciar-se de Catharina do
-Aragão (tia de Carlos V); 1529, Wolsey cae no desagrado; o chanceller
-Thomaz More.
-
-1529.—Set. a 14 de Out.; Suliman põe cerco a Vienna.
-
-1531.—Fernando de Austria, rei dos romanos; opposição da Baviera e
-Saxonia.
-
-1532.—Ago. de 1547, João Frederico o Magnanimo, Eleitor da Saxonia, fall.
-em 1554.
-
-Henrique VIII divorciado, pelo parlamento, de Catharina de Aragão; Nov.
-desposa Anna Boleyn.
-
-1534.—O duque Ulrico de Würtemberg é rehabilitado por Filippe de Hesse.
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-1535.—Joaquim II, Eleitor de Brandenburgo.
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-1536-38.—Terceira guerra entre Carlos V e Francisco I.
-
-1538.—A convenção de Nice: dez annos de treguas.
-
-1541-53.—O duque Mauricio da Saxonia; recebeu o titulo de Eleitor em 1547.
-
-1541.—Dieta em Regensburgo; Suliman submette os hungaros ao seu dominio.
-
-1542-44.—Quarta guerra de Carlos V com Francisco I; a Paz de Crespi.
-
-1542.—Dieta de Spira; união contra os turcos.
-
-1544.—Dieta de Spira; reconhecimento dos protestantes; tudo em socego, na
-expectativa de um Concilio Geral.
-
-1545.—_Reformatio Wittenbergensis._
-
-1546.—Segunda Conferencia Religiosa em Regensburgo; 18 de fev., Luthero
-morre em Eisleben; os protestantes não apparecem na Dieta.
-
-1546-47.—A guerra de Schmalkald; 19 de jun. liga entre Mauricio e o
-imperador; 20 de jul., decreto contra João Frederico e Filippe; 27 de
-out., Mauricio é nomeado eleitor; 24 de abr., batalha de Mühlberg,
-ficando prisioneiro João Frederico; Filippe entrega-se em Halle; o
-imperador falta á sua palavra.
-
-1547-59.—Henrique II de França; desposa Catharina de Medici; fallece em
-1589.
-
-1547-53.—Eduardo VI de Inglaterra: nasc. em 1537.
-
-1553-58.—Maria (a Sanguinaria) de Inglaterra.
-
-1554.—9 de jul., Mauricio morre n’uma batalha perto de Sievershausen,
-contra Alberto, Margarve de Brandenburgo.
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-Fernando é batido pelos turcos na Hungria.
-
-1555-98.—Filippe II de Hespanha.
-
-1556-64.—_Fernando I, imperador._
-
-1558-1603.—Isabel de Inglaterra.
-
-1559-60.—Francisco II de França (casado com Maria da Escocia)
-
-1560-74.—Carlos IX de França.
-
-1560-78.—Maria, rainha dos escocezes; executada em 1587.
-
-1564-76.—_Maximiliano II, imperador._
-
-1574-89.—Henrique III de França.
-
-1576-1612.—_Rodolpho II, imperador._
-
-1558-1648.—Christiano IV, rei da Dinamarca.
-
-1589-1610.—Henrique IV de França, tornou-se catholico romano em 1593;
-assassinado por Ravaillac em 14 de Maio de 1610.
-
-1598-1621.—Filippe III de Hespanha.
-
-
-Egreja Lutherana
-
-1517.—Out. 31. MARTINHO LUTHERO (nascido em 10 de Nov. de 1483, em
-Eisleben; 1497, estudando latim em Magdeburgo; 1499, em Eisenach (Frau
-Cotta, f. em 1511); 1501, em Erfurt; 1505, mestre de artes; 17 de Julho,
-entrou para o convento doa agostinhos, em Erfurt; 1508, professor em
-Wittenberg; 1510, em Roma; 19 de Out. de 1562, doutor em theologia)
-pregou 95 theses contra o abuso das indulgencias na egreja do castello de
-Wittenberg. Contra-theses de João Tetzel, compostas por Conrado Wimpina.
-
-1518.—Silvestre Mazzolini de Prierio: _Dialogos in proesumptuosas M. L.
-Conclusiones de potestate Papae; Resp. ad Silv. Prier._, de Luthero.
-
-26 Abril, Luthero na Polemica do Heidelberg.
-
-Ago.: Citado para comparecer em Roma.
-
-25 Ago.: Melanchthon em Wittenberg.
-
-13-15 de Out.: Luthero em Augsburgo, perante o cardeal Thomaz Vio de
-Gaeta: sua appellação _a papa male informato ad melius informandum_.
-
-Nov.: _O sacramento da Penitencia_, de Luthero.
-
-1519.—Jan.: Entrevista de Luthero com Carlos de Miltitz, camarista do
-papa, em Altenburgo; Treguas.
-
-27 de Jun. a 16 de Jul.: Polemica em LEIPSIC: (i) entre Eck e Carlstadt,
-sobre a doutrina do Livre Arbitrio; (ii) entre Eck e Luthero, _De primeto
-Papae_.
-
-A controversia já não é sobre pontos de theologia ecclesiastica; abrange
-toda a roda dos principios ecclesiasticos. Ruptura com a christandade
-romana.
-
-A doutrina do sacerdocio de todos os crentes.
-
-A liberdade christã e o direito do juizo particular.
-
-Sermões de Luthero sobre os sacramentos do arrependimento e do baptismo,
-e sobre a excommunhão.
-
-Pedido para que na Ceia do Senhor se fizesse uso dos dois elementos.
-
-1520.—Abril: Ulrico v. Hutten (n. em 21 de Abr. de 1488, f. em 29 de
-Ago. de 1523); Dialogo: Vadiscus, ou a Trindade Romana; 15 de Jun.,
-Bulla de excommunhão contra 41 proposições de Luthero; o prazo de 60
-dias para retractação; 23 de Jun., a obra de Luthero, «Aos fidalgos
-christãos da nação allemã, Sobre a reforma de um Estado christão»; Out.
-_De Captivitate Eccles. Babylonic._; _De libertate Christiana_ (sobre a
-libertação do christão); 10 de Dez.; A queima da bulla pontificia.
-
-1520.—17 e 18 de Abr., =Luthero na Dieta de Worms=; 26 de Abr., retira-se
-de Worms; Março 3 a Maio 4 de 1522, em Wartburgo (Em Dez. principio a
-traducção do N. T.)—Tratados: _Sobre a Penitencia_, _Contra as missas
-particulares_, _Contra os votos clericaes e monacaes_, _O commentador
-allemão_.
-
-26 de Maio, Edicto de Worms, falsamente datado do 8 de Maio.
-
-28 do Maio, Decreto Imperial contra Luthero.
-
-Junho: Carlstadt contra o celíbato.
-
-Out.: É abolida a missa em Wittenberg, pelos frades agostinhos (Gabriel
-Didymus).
-
-Dez. As innovações de Carlstadt.
-
-25 de Dez.: A Ceia do Senhor nas duas especies.
-
-27 de Dez.: Os prophetas em Wittenberg.
-
-1522.—Fev.: Tumultos em Wittenberg contra as imagens e as pinturas.
-
-7 de Maio: Luthero novamente em Wittenberg.
-
-9-16 de Maio: Sermões contra o fanatismo.
-
-Julho: _Contra Henricum regem Angliæ._
-
-Set.: Fica prompta a traducçao do N. T. (a Biblia completa em 1534).
-
-Dez.: Dieta em Nürnberg. Os Cem aggravos dos estadas allemães, em
-resposta ao Breve de Adriano VI, de 26 de Nov.
-
-1522-23.—A Reforma vence na Pomerania, na Livonia, na Silesia, na
-Prussia, no Mecklenburgo; na Frisilandia Oriental desde 1519; 1523,
-em Frankfort sobre o Maine, em Hall, na Suabia; 1524, Ulm, Strasburg,
-Bremen, Nürnberg.
-
-1523.—1 de Jul., Henrique Voes e João Esch (agostinhos) são queimados em
-Bruxellas; os primeiros martyres.
-
-Gustavo Vasa estabelece a Reforma na Suecia (Olaf e Lourenço Petersen,
-Lourenço Andersen).
-
-7 de Maio, assassinio de Sickingen; revolta dos nobres, suffocada pelos
-principes.
-
-Luthero: =Da Ordem do Culto Publico=: Dec.: _Formula Missæ_ (A Ceia do
-Senhor _sub utraque_).
-
-1524.—_O primeiro hymnario allemão._
-
-Maio a Jun. de 1525, A GUERRA DOS CAMPONEZES; os camponezes são
-massacrados em Frankenhausen. (Os doze Artigos de João Henglin).
-
-1525.—Jan.: Luthero, _Contra os prophetas celestiaes_.
-
-Maio: Exhorta os principes e os camponezes a conservarem a paz, com
-commentarios sobre os Doze Artigos. Depois: _Contra os camponezes que
-roubam e assassinam_.
-
-13 de Junho, Desposa Catharina von Bora.
-
-Tendencia conservadora da Reforma Lutherana; separação de elementos
-reformatorios.
-
-1525.—Dez.: Luthero, _De Servo Arbitrio_ (a mais estricta predestinação
-supralapsariana) contra Erasmo, Διατριβὴ _de libero arbitrio_, Set. 1524.
-
-1526.—Maio 4: Liga, em Torgau, entre Filippe de Hesse e João, o
-Constante, a que adheriram em Junho, em Magdeburgo, outros principaes
-evangelicos.
-
-Junho 26, Liga, em Dessau, de principes catholicos romanos do sul da
-Allemanha.
-
-Junho e Julho, Dieta em Spira «Em materias de religião cada Estado deve
-conduzir-se de uma maneira digna para com Deus e para com Sua Magestade
-Imperial.»
-
-Out. 20, Synodo em Homberg; Ordem ecclesiastica de Besse, instituida
-por Francisco Lambert (nasc. em 1487, em Avignon; Franciscano; em 1525
-fugiu para a Allemanha; 1527, professor em Marburgo; fallec. em 1539);
-incondicional independencia da communidade christã, e estricta disciplina
-ecclesiastica.
-
-=Luthero.=—Missa allemã; ordem do culto publico.
-
-Frederico I da Dinamarca adhere á doutrina lutherana. (João Tausen, em
-Jütlandia desde 1524).
-
-1527.—Livro de Inspecção, de Melanchthon; Gustavo Vasa propõe a Reforma á
-Dieta em Westeräs.
-
-Frederico I da Dinamarca, na Dieta de Odensee, dá á religião reformada
-privilegios eguaes aos que a catholica romana tem.
-
-1528.—Otto V. Informações dadas por Pack ácerca de uma Liga Catholica
-romana formada em Breslau, em 1527; a Reforma propaga-se na Noruega.
-
-1529.—26 de Fev., =Dieta de Spira=; 12 de Abr., a decisão da maioria
-catholica romana dos Eleitos e Principes «Quem quer que tem imposto o
-Edicto de Worms deve continuar a fazel-o; os demais não devem permittir
-mais innovações; a ninguem se deve impedir celebrar missa.» 19 de Abr.,
-concordam com ella as cidades.
-
-PROTESTO: 25 de Abr. Appello dirigido ao imperador e ao Concilio pela
-Saxonia, Hesse, Brandenburgo, Anhalt, Lüneburgo, e quatorze cidades.
-
-Separação entre os protestantes lutheranos e os do sul da Allemanha;
-Luthero oppõe-se a uma resistencia armada; Zwinglio planeia a abolição do
-papado e do imperio medieval; Philippe de Hesse diligenceia promover a
-união.
-
-1-4 de Out.—Conferencia religiosa em Marburgo (Luthero, Melanchthon,
-Zwinglio, Œcolampadius, Justo Jonas, Osiander, Brenz, etc.); 4 de Out.,
-união em quatorze artigos, divisão no quinquagesimo—O Sacramento da
-Ceia. _Zwinglio_: «Não ha na terra homens com quem eu mais gostosamente
-me identificaria do que os de Wittenberg.» _Luthero_: «Vós tendes um
-Espirito differente do nosso.»
-
-16 de Out., Luthero no convento de Schwabach; 30 de Nov. em Schmalkald; a
-Saxonia separa-se dos outros estados do sul da Allemanha.
-
-1530.—=Dieta de Augsburgo=; 15 de Jan. entrada do imperador; infructiferas
-negociações com os principes evangelicos para os induzir a incorporar-se
-na procissão de Corpus-Christi; 20 de Jun., abertura da Dieta; 25 de Jun.
-é lida a Confissão de Augsburgo (3 de Ago., é lida a Refutação); 11 de
-Jul., é lida a Confissão Tetrapolitana (em 17 de Out. a Refutação) e a
-_Fidei Ratio_, Zwinglio; 16 a 29 de Ago. Negociações com Melanchthon, em
-que elle mostra muito pouca firmeza.
-
-19 de Nov. Decreto da Dieta. Depois d’Abril de 1531, suppressão violenta
-do protestantismo.
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-1531.—Liga protestante de Schmalkald: á frente d’ella, Hesse e Saxonia.
-
-1532.—Dieta de Nürnberg: tolerancia até haver um Concilio Geral.
-
-Dessan adopta a Reforma.
-
-1534.—O Würtenburgo abraça a Reforma Lutherana.
-
-1536.—A concordata de Wittenberg; Melanchthon Bucer; a _Ceia do Senhor_
-conforme o lutheranismo; evita-se que tomem parte n’ella os indignos e os
-incredulos; _Baptismo_; _Absolvição_; escondem-se os pontos em voz de se
-explicarem.
-
-Victoria da Reforma na Dinamarca.
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-1537.—Convenção de Schmalkald; os Artigos de Schmalkald.
-
-1538.—Liga Catholica Romana em Nürnberg.
-
-1539.—Victoria da Reforma na Saxonia Ducal, e no Brandenburgo Eleitoral.
-
-1540.—Junho: Conferencia em Hagenau.
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-25 de Nov. a 14 de Jan. em Worms (Granvella, Melanchthon, Bucer, Capito,
-Brenz, Calvino, Eck, Cochlæus).
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-1541.—27 de Abr. a 22 de Maio, conferencia em Regensburgo (Contarini,
-Melanchthon, Bucer, Eck), a questão da Transubstanciação.
-
-1542.—Nicolau V. Amosdorf, bispo de Naumbugo.
-
-1544.—Dieta de Spira; reconhecimento dos protestantes; tudo em socego, na
-expectativa de um Concilio Geral.
-
-1545.—_Reformatio Wittenbergensis._
-
-1546.—Segunda Conferencia Religiosa em Regensburgo; 18 de fev., Luthero
-morre em Eisleben; os protestantes não apparecem na Dieta.
-
-1546-47.—A guerra de Schmalkald; 19 de jun. liga entre Mauricio e o
-imperador; 20 de jul., decreto contra João Frederico e Filippe; 27 de
-out., Mauricio é nomeado eleitor; 24 de abr., batalha de Mühlberg,
-ficando prisioneiro João Frederico; Filippe entrega-se em Halle; o
-imperador falta á sua palavra.
-
-1543.—Reforma no arcebispado de Köln; Hermann V. Wied, o arcebispo, é
-avisado por Bucer e Melanchthon; excommungado em 1546; abdica em 1547;
-fall. em 1552.
-
-1548.—15 da maio, o Interim de Augsburgo conserva as hierarquias,
-ceremonias, festividades e jejuns da Egreja Catholica Romana; casamento
-dos clerigos e Ceia do Senhor _sub utraque_.
-
-1548.—Interim de Leipsic (Mauricio da Saxonia e Melanchthon).
-
-1551.—Vehemente desejo do imperador de que os protestantes se submettam
-ao Concilio de Trento; Liga clandestina de Mauricio da Saxonia com
-Henrique II de França.
-
-Out.: Embaixadores do Würtemburgo, e jan. de 1552, embaixadores saxonios
-em Trento.
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-1552.—20 de mar., Mauricio põe-se em fuga; 19 de maio, apodera-se do
-castello de Ehrenberg, e da Passagem de Ehrenberg, as chaves do Tyrol;
-dissolve-se o Concilio; julho: Tratado de Passau; João Frederico e
-Filippe ficam livres.
-
-1555.—25 de set. _Paz religiosa de Augsburgo_; a Egreja Lutherana
-fica com os mesmos direitos legaes da Catholica Romana: _Cujus regio
-ejus religio; o Reservatum ecclesiasticum_; a Egreja Reformada não é
-reconhecida.
-
-1558.—Disputas entre os antigos lutheranos (Gnesiolutherani) e os
-discipulos de Melanchthon.
-
-1560.—Morto de Melanchthon, 19 de abril.
-
-1586-91.—Embaraços cripto-calvinistas na Saxonia eleitoral; supressão do
-calvinismo; execução de Krells, em 1601.
-
-_A Egreja Lutherana perde:_
-
-(_a_) Em favor da Egreja Catholica Romana
-
-1558.—A Baviera.
-
-1578.—O ducado da Austria (Rodolpho II).
-
-1584.—Os bispados Würzburgo, Bamberg, Salzburgo, Hildesheim, etc.
-
-1594.—Steiermark, Carinthia (Fernando II).
-
-1607.—Donauwerth.
-
-(_b_) Em favor da Egreja Reformada
-
-1560.—O Palatinado; 1563, o Catecismo de Heidelberg (Reformado sob
-Frederico III; Lutherano sob Luiz VI, 1576-83; Reformado sob Frederico
-IV, 1583-1618).
-
-1568.—Bremen.
-
-1596.—Anhalt (João Jorge, 1587-1603); revogação do Systema Consistorial e
-do Catecismo Lutherano; 1597-1628, Artigos Calvinistas.
-
-1605.—Hesse-Cassel, que estava sob o dominio do Landgrave Mauricio
-(1592-1627).
-
-1613.—O Brandenburgo, que estava sob o dominio do Eleitor João Sigismundo
-1614, _Confessio Marchica_.
-
-_Anti-Trinitarios_
-
-_Miguel Servetus_, da Aragão; 1530, em Basiléa; 1531, _De Trinitatis
-erroribus_; 1534, em Lyons; 1537, em Paris; 1540, em Vienna; 1553,
-_Christianismi restitutio_; 1553, queimado em Genebra.
-
-_Valentinus Gentilis_, da Calabria; decapitado em Berne, em 1556.
-
-_Laelius Socinus_: nasc. em 1525, em Veneza; 1547, percorre a Suissa, a
-Allemanha e a Polonia; fall. em 1562, em Zurich.
-
-_Faustus Socinus_: nasc. em 1539, em Siena; 1559, em Lyons; 1562, em
-Zurich; 1574-78, em Florença, e depois em Basiléa; 1579-98, na Polonia;
-fall. em 1604.—_De Jesu Christo servatore: De Statu primi hominis ante
-lapsium_, 1578.
-
-1605.—Catecismo Racoviano.
-
-
-Egreja Reformada
-
-ULRICO ZWINGLIO: nascido em 1 de Jan. de 1484, em Wildhaus, no condado de
-Toggenburgo; discipulo de Henrique Wolflin (Lupulus) em Berne; de Thomaz
-Wyttenbach, em Basiléa. 1499, discipulo de Joaquim Vadianus em Vienna;
-1506, mestre de artes; 1506-16, pastor em Glarus; 1516-18, prégador em
-Santa Maria, Einsiedeln.
-
-(Diebold de Geroldseck e o abbade Conrado de Rechenberg).
-
-1518.—Zwinglio contra a indulgencia prégada por Bernardino Sampson
-(Guardião do convento franciscano de Milão.)
-
-1519.—1 de Jan., Zwinglio prega o seu primeiro sermão em Zurich; sermões
-sobre o Evangelho da S. Matheus, os Actos e as Epistolas de Paulo;
-sermões reformistas, expondo uma clara distincção entre o christianismo
-biblico e o romanista; Estudo humanista da Escriptura (Epistolas
-Paulinas).
-
-EM FRANÇA, propaganda das doutrinas reformadas por Guilherme Briçonnet,
-bispo de Meaux desde 1521. Juntamente com Le Fébre e Farel.
-
-1521.—Cornelio Hoën, jurisconsulto allemão, escreve _De Eucharistia_
-(a Ceia do Senhor puramente symbolica); a doutrina é introduzida em
-Wittenberg e em Zurich por João Rhodius, presidente da Casa dos Irmãos,
-em Utrecht.
-
-1522.—16 de Abr. Zwinglio: _Von Erkiesen und Fryheit der Spysen_; Ago.:
-_Apologeticus Archeteles_, ao bispo de Constança.
-
-A theologia zwingliana torna-se gradualmente a mais forte nos Paizes
-Baixos.
-
-1523.—29 de Jan. Discussão em Zurich, entre Zwinglio e João Faber,
-vigario geral do bispo; as 67 theses de Zwinglio.
-
-26 de Out., Discussão em Zurich ácerca do culto das imagens e da missa.
-
-17 de Nov., Instrucção do Concilio de Zurich aos pastores e prégadores.
-
-1524.—Perfeita reforma esclesiastica em Zurich; os quadros das egrejas
-são arreados; os conventos dos frades são encerrados.
-
-Victoria da Reforma em Berne (Berchtholdt Haller. Nic. Manuel),
-Appenzell, Solothurn; a Liga Romanista e os Cantões Florestaes de Lucerna.
-
-1525.—A missa é abolida em Zurich; o culto publico muito simples e na
-lingua allemã; a Ceia do Senhor _sub utraque_.
-
-O commentario de Zwinglio, e a primeira parte da traducção da Biblia de
-Zurich (primeira edição completa em 1531).
-
-Zwinglio expôe detalhadamente o que pensa ácerca da Ceia do Senhor.
-
-(Carlstadt torna publica, no sul da Allemanha, a sua theoria da Ceia de
-Senhor, δεικτικῶς: Este meu Corpo, é o Corpo, etc.)
-
-Zwinglio a Matheus Alber em Reutlingen, 16 de Nov. de 1524, _Menducatio
-spiritualis_; depois no seu commentario.
-
-_Contra_ Zwinglio: Bugenhagen.
-
-_A favor_ de Zwinglio: Œcolampadius.
-
-O Syngramma Suevicum, 1525, (em Hall), por Brenz, Schrepf, Griebler,
-etc., e mais tarde Calvino.
-
-Luthero contra Calvino—(1) no seu prefacio á traducção de Agricola do
-Syngramma Suevicum; (2) em 1527 «Que a Palavra» etc.
-
-Principios ecclesiasticos e politicos de Zwinglio; a sua reforma politica
-na Suissa; liga politica dos cantões florestaes catholicos romanos para
-conservarem a sua supremacia.
-
-1526.—Os cantões catholicos romanos atacam os evangelicos.
-
-Maio: Polemica em Baden (Eck e Œcolampadius).
-
-1528.—Victoria da Reforma em St. Gall (Joaquim Vadianus, João Kessler).
-
-1529.—A Reforma vence em Basiléa (Œcolampadius, Capito, Hedio).
-
-Liga de cinco cantões florestaes com a Casa de Hapsburgo.
-
-24 de Jun., Paz de Cappel; os cantões florestaes abandonam a Liga de
-Hapsburgo e reconhecem a libertade de consciencia.
-
-Separação entre os protestantes lutheranos e os do sul da Allemanha;
-Luthero oppõe-se a uma resistencia armada; Zwinglio planeia a abolição do
-papado e do imperio medieval; Philippe de Hesse diligenceia promover a
-união.
-
-1-4 de Out.—Conferencia religiosa em Marburgo (Luthero, Melanchthon,
-Zwinglio, Œcolampadius, Justo Jonas, Osiander, Brenz, etc.); 4 de Out.,
-união em quatorze artigos, divisão no quinquagesimo—O Sacramento da
-Ceia. _Zwinglio_: «Não ha na terra homens com quem eu mais gostosamente
-me identificaria do que os de Wittenberg.» _Luthero_: «Vós tendes um
-Espirito differente do nosso.»
-
-16 de Out., Luthero no convento de Schwabach; 30 de Nov. em Schmalkald; a
-Saxonia separa-se dos outros estados do sul da Allemanha.
-
-Os cantões catholicos romanos não observam as clausulas da paz.
-
-1531.—15 de Maio, em Aarau nega-se provisões aos cantões florestaes com a
-reprovação de Zwinglio.
-
-11 de Out., Batalha de Cappel; _Zwinglio é assassinado_; Segunda Paz de
-Cappel.
-
-Henrique Bullinger, successor de Zwinglio.
-
-_Reforma promovida por Calvino na Suissa franceza._
-
-_Guilherme Farel_ (nasc. em 1489, no Delphinado; desde 1526, reformador
-em Berne; em 1530, em Neufchatel; fall. em 1565, em Genebra); _Pedro
-Viret_ (nasceu em 1511, em Orbe; 1531-59, em Lausanne; desde 1561, em
-Nismes e Lyons; fall. em 1571); desde 1534, faz-se em Genebra propaganda
-da Reforma.
-
-1536.—JOÃO CALVINO em Genebra; nasc. em 10 de jul. de 1509, em Noyon;
-estudou em Orleans e em Paris; 1533, abraçou a Reforma em Paris; em
-Basiléa; 1536, =Instituto Christianæ Religionis=; depois em Ferrara;
-rigorosa disciplina ecclesiastica; em 1538, pela pascoa, é expulso de
-Genebra e ratira-se para Strasburgo; chamado novamente a Genebra em 1541;
-fall. em 27 de Maio de 1564.
-
-_Systema ecclesiastico adoptado por Calvino em Genebra._—Culto: oração
-e prégação. Organisação presbyterianna. Jan. de 1542: _Ordonnances
-ecclésiastiques de l’église de Genève._ Pastores, doutores, presbyteros e
-diaconos. Disciplina da Egreja.
-
-_A Reforma em França_, 1559-98
-
-_Francisco I_, Humanista, importando-se pouco com a religião, fez da
-Reforma arma politica; sua irmã Margarida, rainha de Navarra (fall.
-em 1549) protege os reformadores; severa perseguição dos protestantes
-francezes, não obstante a alliança com os principes protestantes allemães
-e o pedido feito a Melanchthon para ir residir em França, em 1565.
-
-Henrique II: Antonio de Navarra e sua mulher Joanna d’Albret põem-se á
-testa do protestantismo em França.
-
-1559-25.—29 do maio, Primeiro synodo reformado em Paris, organizado por
-Antonio Chandieu, pastor parisiense; Confissão Gauleza.
-
-1561.—Set.: Conferencia religiosa em Poissy, Theodora Beza.
-
-1562.—Jan.: Os protestantes alcançam o direito de se reunirem para
-o culto fóra das cidades; Francisco de Guise massacra a congregação
-protestante de Vassy.
-
-1562-63.—A guerra huguenote. Morte de Antonio de Navarra; Francisco de
-Guise é alvejado perto de Orleans.
-
-1567-68 e 1569-70. Guerras huguenotes.
-
-1572.—24 de ago., massacre de Paris na vespera de S. Bartholomeu;
-assassinio de Coligny e de 50:000 huguenotes.
-
-1574-76.—Guerra huguenote; a Santa Liga dos Guises.
-
-1588.—Assassinio de Henrique e Luiz de Guise.
-
-1589.—Henrique é morto por um fanatico da Liga, J. Clement, em 1 de ago.
-
-1593.—_Henrique IV faz-se catholico romano._
-
-1598.—EDICTO DE NANTES: liberdade de consciencia; é permittido o
-culto publico; todos os privilegios civis; cidades de refugio para os
-huguenotes.
-
-1620-28.—Revoltas huguenotes.
-
-1620.—Tomada da Rochella.
-
-Edicto de Nismes. São garantidos aos huguenotes direitos ecclesiasticos.
-
-1552.—_Os 42 Artigos._
-
-1554.—O cardeal Reginaldo Pole, legado pontificio; 1555-58,
-Sanguinolentas perseguições no reínado de Maria; 1556, 21 de maio,
-Cranmer é queimado em Oxford.
-
-_A Rainha Isabel restabelece a Reforma_
-
-1559.—Junho: Acta da Uniformidade, Matheus Parker, arcebispo de
-Canterbury.
-
-Revisão e readopção do livro de Oração Commum.
-
-1562.—23 de jan., _Os 39 Artigos_: Doutrina calvinista da Predestinação,
-Doutrina calvinista da Ceia do Senhor.
-
-1567.—Os puritanos são excluidos da Egreja. Puritanismo; Reforma
-espiritual mediante a collectividade evangelica, acceitação, em
-Inglaterra, da doutrina do sacerdocio espiritual de todos os crentes,
-e consequente guerra ás capas de asperges e outros paramentos
-ecclesiasticos.
-
-1570.—Thomaz Cartwright é expulso de Cambridge.
-
-1582.—Roberto Browne, capellão do duque do Norfolk; separação da Egreja e
-do Estado; cada congregação fórma uma egreja independente.
-
-
-Movimentos Revolucionarios
-
-_Os Mysticos_
-
-A Nova Prophecia, o Espiritualismo, o Millenearismo, uma Congregação dos
-perfeitamente santos, opposição ao baptismo de creanças.
-
-Primeiro periodo até 1535.
-
-1521.—Os Prophetas (de Zwickau) em Wittenberg: Nicolau Storch, Marcos
-Thomé, ou Stübner, Martinho Celiarius.
-
-André Bodenstein de Carlstadt: 1504, professor em Wittenberg; 1520,
-em Copenhague, 1522, tumultos por causa das imagens e dos paramentos;
-1523-24, em Orlamünde; excommungado depois no sul da Allemanha, na
-Frisilandia Oriental, na Suissa; fallecido em 1541, em Basiléa.
-
-1523.—Conrado Grebel, Felix Manz, e Stumpf. em Zurich, contra Zwinglio.
-
-1524.—Alterações da ordem em Stockholmo; Melchior Hoffmann.
-
-1525.—Thomaz Münzer em Mülhausen; executado em Maio de 1525.
-
-Tratado: _Wider das geistlose sanftlebende Fleisch ze Wittenberg_, 1522.
-
-Janeiro: Levantamento dos anabaptistas; Jürg Blaurock, monge proveniente
-de Chur.
-
-Severa perseguição dos anabaptistas (Hanz morre afogado em Zurich, em
-1527; Balth. Hubmater é queimado em Vienna, em 1528; Hetzer é decapitado
-em Constancia em 1529).
-
-_Melchior Hoffmann_: nasc. em Hall, na Suabia; 1523, em Livonia; 1527,
-em Holstein; 1529, em Strasburgo; de ahi foi para a Frisilandia, onde se
-aggregou aos baptistas; depois nos Paizes Baixos; 1533, em Strasburgo;
-fall. em 1540. (_Ordinanz Gottes_): um estricto millenario do genero mais
-espiritual; propaga entre os baptistas as idéas millenarias.
-
-_Gaspar Schwenkfeld_: nasc. em 1490, em Ossing, perto de Liegnitz;
-ao serviço do duque de Liegnitz; 1525, julgou ter descoberto uma
-interpretação das palavras da instituição da Ceia «Quod ipse panis
-fractus est corpori esurienti, nempe cibus, hoc est corpus menm, cibus
-videlicet esurientium animarum;» de onde proveiu a sua doutrina ácerca
-de Christo, A Palavra Escondida (_De cursu Verbi Dei, origine fidei et
-ratione justificationis_, 1527); da Pessoa de Christo (não feito homem,
-mas gerado pela natureza divina: da sua carne divina); 1528, expulso da
-Silesia; em Strasburgo, Spira, Ulm, Perseguido desde 1539 pelos theologos
-lutheranos; em muitas controversias; fall. em 1561, em Ulm; discipulos
-seus na Silesia; na Pennsylvania desde 1730.
-
-1533.—_O Reino de Christo_ em Münster.
-
-Bernardo Rothmann, superintendente evangelico em Münster, ajunta-se aos
-anabaptistas; Henrique Roll e os prégadores de Wassenberg, provenientes
-de Jülich.
-
-No verão; Melchioritas in Münster.
-
-Nov.: Jan. Matthiesen.
-
-1534.—Quaresma: Tumulto, destruição das imagens e dos conventos.
-
-Vespera da Pascoa: Queda de Matthiesen; João de Leyden colloca-se á
-frente dos anabaptistas (Theocracia com communidade de bens e de esposas).
-
-1535.—Vespera de S. João: tomada de Münster.
-
-1536.—22 de Jan. João de Leyden, Knipperdolling e Krechting são
-executados.
-
-1534.—David Joris: nasc. em 1501, em Delft; associa-se aos anabaptistas;
-promove reformas entre elles; a sua influencia nos Paizes Baixos e na
-Frisilandia Oriental. 1542, o seu _Wunderbuch_; 1544, em Basiléa; uma
-especulação mystico-espiritualista com tendencia racionalista.
-
-_Os Mennonitas_
-
-Menno Simonis: nasc. em 1496, em Witmarsum; 1524, padre; 1536, deixou de
-exercer as suas funcções, desgostoso com a perseguição dos anabaptistas
-de Münster, baptisado por um apostolo de Jan Matthiesen; reformou e
-organisou as congregações anabaptistas na Hollanda e na Frisilandia;
-fall. em Oldesloe; fez cessar o enthusiasmo fanatico, e deu maior
-incremento á tendencia para o Donatismo.
-
-Os seus discipulos, os mennonitas, tolerados em 1572, nos Paizes Baixos,
-por Guilherme de Orange, encontravam-se tambem em Emden, Hamburgo,
-Danzig, Elbing, no Palatinado e na Moravia; moderaram o espirito
-anabaptista primitivo; rejeitaram todos os dogmas; prohibiram os
-juramentos e a guerra; appellaram para a letra da Escriptura.
-
-Egreja Anglicana
-
-Inglaterra, 1547-1600, sob Henrique VIII: João Frith, Guilherme Tindal.
-
-1534.—Acta do Parlamento ácerca da supremacia real; o Rei «o unico
-chefe supremo, sobre a terra, da Egreja ingleza»; á frente do partido
-evangelico, Thomaz Cranmer (1533, arcebispo de Canterbury) e Thomaz
-Cromwell; Traducção da Biblia, em 1538.
-
-1539.—28 de jul., Transubstanciação; negação do calix aos leigos;
-celibato clerical; missas pelos defuntos; confissão auricular.
-
-A Reforma de Henrique VIII foi um acto do rei, e significava apenas uma
-revolta contra o systema medieval, sendo o papa substituido pelo rei.
-
-Isolamento da Egreja da Inglaterra; cortadas todas as relações com o
-papado; sem communicação alguma com as Egrejas Reformadas.
-
-1547.—Sob o governo de Somerset, Lord Protector: Pedro Martyr Vermigli
-(nasc. em 1500, em Florença; 1542, em Strasburgo; fall. em 1562, em
-Zurich) e Bernardo Ochino (nasc. em 1487) levado para Oxford; Martinho
-Bucer e Paulo Fagio, para Cambridge.
-
-O Livro das Homilias.
-
-1548.—O Livro da Oração Commum; revisto em 1552.
-
-_A Escocia_
-
-1558.—Os Lords da Congregação; o Evangelho Puro, o Livro de Oração Commum
-do Rei Eduardo.
-
-1560.—Assembléa dos Estados em Edinburgo; _A Confissão Escoceza_; o
-Primeiro Livro de Disciplina; é approvado o governo presbyteriano
-pelas Assembléas Geraes, pelos Synodos e pelas Sessões das egrejas;
-Superintendentes.
-
-_João Knox_: nasc. em 1505, em Haddington; desde 1546, prégador em St.º
-André; 1547-49, nas galés; 1553-59, em Frankfort e Genebra; 1559 a 1572
-(data do fallecimento) em Edinburgo.
-
-1572.—Convenção de Leith; Bispos privados de exercerem as funcções
-episcopaes: os Tulchanos.
-
-1576.—Os inspectores nomeados pela Assembléa.
-
-1578.—Segundo Livro de Disciplina.
-
-1580.—A instituição dos presbyterios.
-
-
-A Egreja Catholica Romana
-
-11 de Março de 1513 a 1 de Dez. de 1521.—Leão X.
-
-1517.—O Concilio de Latrão concede ao papa os dizimos de todos os bens
-ecclesiasticos.
-
-Indulgencia (a quinta entre 1500 e 1517) para a construcção de S. Pedro,
-e para as despezas particulares do papa.
-
-São concedidas á Allemanha tres commissões de indulgencias, uma d’ellas
-arrendada ao arcebispo de Mayença (canonisado em 1514) sendo seu agente o
-dominicano João Tetzel (fallecido em 1519).
-
-Thomaz Vio de Gaeta (Cardeal Caetano): «A Egreja Catholica é a escrava do
-papa»; assevera a infallibilidade papal no mais amplo sentido.
-
-1519.—As côrtes de Aragão pedem tres Breves a Leão X (que nunca lhe foram
-enviadas) para restringir a Inquisição. Pedidos similhantes, tambem
-infructiferos, feitos pelos estados de Aragão, Castella e Catalunha, a
-Carlos V em 1516.
-
-_Os theologos romanistas no primeiro periodo da Reforma._
-
-João Eck, professor de theologia em Ingolstadt desde 1510; nasc. em 1486,
-na aldeia de Eck; fall. em 1543.
-
-Jeronymo Emser, prégador palaciano do duque Jorge da Saxonia, fall. em
-1527.
-
-João Cochlæus (Dobeneck), deão de Francfort sobre o Maine, Canonicus em
-Mayença e Breslau; fall. em 1552; _Commentaria de actis et scriptis M.
-Lutheri_ (1517-46), 1549, _Historiæ Hussitarum_.
-
-João Faber, 1518, Vigario Geral em Constancia (Costnitz); 1529,
-Preboste de Ofen; 1530, Bispo de Vienna, fall. em 1561; 1523, _Malleus
-hæreticorum_.
-
-1521.—Henrique VIII de Inglaterra: _Assertatio VII. Sacramentorum contra
-Lutherum_ (Defensor da Fé.)
-
-15 de Abril, Decreto da Sorbonne, condemnando as doutrinas de Luthero.
-
-8 de Maio, Edito de Carlos V. (fundado no edito de Worms) contra a
-propaganda das doutrinas reformadas nos Paizes Baixos.
-
-(1522, é encerrado, sobre o fundamento de heresia, o convento dos
-Agostinhos de Antuerpia).
-
-1522-23.—14 de Set. O papa Adriano VI (tutor de Carlos V, bispo de
-Utrecht) instruido na sciencia antiga; aspiração por uma reforma do clero
-mediante a hierarquia.
-
-Em Hespanha, desde 1520 circulação dos escriptos de Luthero, em
-traducções hespanholas feitas em Antuerpia.
-
-1523.—João de Avila o «apostolo de Andaluzia», é perseguido por ter
-adoptado as doutrinas lutheranas.
-
-1523-34.—26 de Set. O papa Clemente VII (Julio Medici) filho natural de
-Julião de Medico.
-
-1524.—O cardeal Campeggio, legado do papa na Dieta de Nürnberg.
-
-Liga, em Regensburgo, dos Estados Catholicos Romanos do Sul da Allemanha
-(Fernando de Austria, os duques da Baviera e os bispos do sul da
-Allemanha) Condições: Uma reforma ecclesiastica dentro de certo limites,
-e uma alliança com o poder civil; não se permitindo, porém, que continuem
-a ser prégadas as novas doutrinas.
-
-1524.—Pedro Caraffa, bispo de Theate (Papa Paulo IV) institue a Ordem dos
-Theatini para impedir o avanço da Reforma.
-
-1526.—Maio 29: Liga em Cognac contra Carlos V (o papa, Francisco I,
-Veneza e Milão).
-
-1527.—Processo da Sorbonne contra Jacques le Fêvre (fall. em 1537,
-durante uma viagem para Strasburgo), sob a protecção de Margarida de
-Navarra.
-
-1527.—Maio 6, Carlos de Bourbon ataca Roma; o papa encerrado em St.
-Angelo até 6 de Junho. Carlos V, senhor de quasi todos os Estados da
-Egreja, propõe o limitar-se o poder temporal do papa. O papa appella
-para Inglaterra e para França; um exercito francez equipado á custa da
-Inglaterra, marcha em seu auxilio.
-
-1528.—Jun. 29: Paz entre o Imperador e o papa em Barcelona; o papa
-recupera os Estados da Egreja e Florença; exterminio da heresia.
-
-1530.—Congregações reformadas em _Hespanha_. Em Sevilha: Rodrigo de
-Valero, Joh. Egidio, Ponce de la Fuente. Em Valladolid, 1555, Agostinho
-Cazalla.
-
-Francisco Enzinas traduz o Novo Testamento; em 1556, nova traducção por
-João Perez.
-
-Filippe II e a Inquisição condemnam essas obras.
-
-_Italia._—A Reforma allemã desperta a vida religiosa e a theologia
-agostinha; Contarini, Reginaldo Pole, Joh. de Merone, (arcebispo de
-Modena). _Pedro Paulo Vergerius_ (abraçou a Reforma em 1548; fall. em
-1565).
-
-Reforma em Ferrara (Renée casa em 1527, com Hercules II); em Veneza; em
-Napoles (João Valdez, fall. em 1540; e Bernardo Ochino); em Lucca (Pedro
-Martyr).
-
-1534-49.—O papa Paulo III (Farnese); Vergerius, seu legado na Allemanha.
-
-1536.—Paulo III manda reunir em Mantua o Concilio havia longo tempo
-promettido; 1537, addiado; mandado reunir em Vicenza; novamente addiado.
-
-1542.—Antonio Paleario (queimado em 1570), _Del beneficio di Gesu Christo
-crocifisso verso i Christiani_.
-
-1540.—27 de Set., COMPANHIA DE JESUS constituida por Paulo III; _D.
-Ignacio de Loyola_ nasc. em 1491, no castello de Loyola, situado na
-provincia de Vasconça; ferido em 1521, em Pamplona; lendas de santos;
-estudos em Barcelona; desde 1528 em Paris. Em 1534, com seis companheiros
-(Francisco Xavier, Jacques Lainez, Pedro Lefebre, etc.), fez os votos
-monasticos, accrescentando um outro, o de absoluta obediencia ao papa.
-Loyola fall. em 1556; Lainez em 1561.
-
-«Para zelar os interesses da hierarquia catholica romana contra o
-protestantismo tanto dentro como fóra da Egreja.»
-
-A obra missionaria de Francisco Xavier no Oriente da Asia.
-
-A moral da Sociedade; casuistica.
-
-Os seus dogmas: a superstição systematica.
-
-1542.—O cardeal Caraffa aconselha o restabelecimento da Inquisição para
-acabar com o protestantismo na Italia.
-
-1545.—Abertura do _Concilio de Trento_; Primeiro periodo, 11 de mar. de
-1547, em Trento; 21 de abr. de 1547 a 13 de set. de 1549, em Bolonha.
-Segundo periodo, 1 de maio de 1551 a 28 de abr. de 1552, em Trento.
-Terceiro periodo, 13 de jan. de 1562 a 4 de dez. de 1563 (25 sessões).
-Doutrinas romanistas consolidadas mediante esse concilio.
-
-1564.—_Professio Fidei Tridentinae_: 1566, _Catechismus Romanus_
-(Leonardo Marini, Egidio Foscarari, Muzio Calini).
-
-1548.—Filippe Nery funda o Oratorio.
-
-1550-64.—Julio III (del Monte).
-
-1551.—Fundação do Collegium Romanum Jesuita.
-
-1552.—Fundação do Collegium Germanicum.
-
-1555-59.—Paulo IV (Caraffa) protesta contra a Paz de Augsburgo;
-Inquisição.
-
-1559-65.—Pio IV (Medici) deixa-se guiar por seu sobrinho, o cardeal
-Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, fall. em 1584.
-
-1564.—_Index librorum prohibitorum._
-
-1566-72.—Pio V, zeloso dominicano.
-
-1567.—Bulla de excommunhão contra 79 proposições agostinianas de Miguel
-Baius (fall. em 1589). Chanceller da Universidade de Louvain.
-
-1568.—_Breviarium._
-
-1570.—_Misssale Romanum._
-
-1572-85.—Gregorio XIII; carta congratulatoria a Carlos IX, ácerca do
-massacre de S. Bartholomeu; _Te Deum_ em Roma, em honra do acontecimento.
-
-1582.—Reforma do Calendario.
-
-1582-1610.—Missões jesuitas na China.
-
-1585-90.—Sixto V: Bibliotheca do Vaticano.
-
-1588.—Annales Eccl., de Baronio.
-
-1590.—Edição infallivel da Vulgata.
-
-1592-1605.—Clemente VII.
-
-1592.—Nova edição da vulgata (a chamada edição de Sixto V).
-
-_Os Paizes Baixos_
-
-1559.—Margarida de Parma; Granvella, bispo de Arras.
-
-São creadas 14 novas dioceses. Inquisição.
-
-1562.—_Confessio Belgica_; Guido de Brès, Adriano de Savaria, H. Modetus,
-G. Wingen; revista por Francisco Junio, em 1571.
-
-1566.—Compromisso em favor dos protestantes.
-
-Tumultos por causa da imagens e das reliquias.
-
-1568-78.—O duque de Alba.
-
-Concilio de Sangue; Perseguição de protestantes; são mortos 18:000;
-Egmont e Horn em 1568.
-
-1572.—Tomada de Brill pelos mendigos do mar; Guilherme de Orange.
-
-1576.—8 de Nov., Tratado de Ghent.
-
-1579.—23 de jan., União de Utrecht, firmada pelas provincias do norte. 26
-de julho, Declaração de independencia.
-
-1584.—10 de julho, Assassinio de Guilherme de Orange; succede-lhe
-Mauricio de Orange.
-
-Fundação de Universidades—Leyden, em 1575; Franecker, em 1585; Gröningen,
-em 1612; Utrecht, em 1638; Harderwyk, em 1648.
-
-
-Theologia Protestante
-
-FILIPPE MELANCHTHON (nasc. em 16 de Fev. de 1497, em Bretten); 1509-12,
-em Heidelberg; 1512-14, em Tübingen; 1514, mestre de artes; 1514-18,
-lecciona em Tübingen; 1518, professor de grego em Wittenberg; 29 de Ago.
-Conferencia introductora, _De corrigendis adolescentiæ studiis_; 19 de
-Set. de 1519. Bacharel em Theologia; fall. em 19 de Abr. de 1560. =Loci
-communes rerum Theologicarum, seu hypotyposes Theologicæ=, 1521; tres
-edições em 1521; a edição de 1525 modifica a predestinação absoluta; a
-edição de 1535 reconstrue a sua theologia; edição de 1543, Synergismo.
-
-ZWINGLIO: _Commentarius de vera et falsa religione_, 1525; _Fidei ratio
-ad Carolun Imperatorem_, 3 de Jul. de 1530; _Sermonis de providentia Dei
-Anamnemo_; 1530; _Christianæ Fidei expositio_, 1531.
-
-(a) _Theologos Lutheranos_
-
-Jorge Spalatim: nasc. em 1484, em Spalt, na diocese de Eichstädt; 1514,
-capellão de Frederico, o Sabio; 1525, superintendente em Altenburgo;
-fall. em 1545.
-
-Justo Jonas: nasc. em 1493, em Nordhausen; 1521, Preboste e professor em
-Wittenberg; 1544-46, em Halle; 1551, superintendente em Eisfeld; fall, em
-1555.
-
-Nicolau de Amsdorf: nasc. em 1483; desde 1502, em Wittenberg; 1524, em
-Magdeburgo; 1528, em Goslar; 1542-46, bispo de Naumburgo; depois de 1550,
-em Eisenach; fall. em 1565.
-
-João Bugenhagen: nasc. em 1485; desde 1521, em Wittenberg; 1523, pastor,
-1536, superintendente geral.
-
-Gaspar Cruciger: 1528-48, fallecendo, em professor, em Wittenberg.
-
-Frederico Myconius, franciscano em Annaberg, e depois pastor em Weimar;
-1524, prégador da côrte em Gotha; fall. em 1546.
-
-Paulo Speratus: 1521, em Vienna, depois em Iglau; 1523, em Wittenberg
-(1524, «Chegou-nos a Salvação»): 1524, em Königsberg; 1529-51, bispo da
-Pomerania, em Marienwerder.
-
-João Brenz, nasc. em 1499: 1520, prégador romanista em Heidelberg,
-1522-46, prégador lutherano em Hall, na Suabia; desde 1553, preboste em
-Stuttgart; fall. em 11 de Setem. de 1570.
-
-(_b_) _Os Theologos Zwinglianos_
-
-João Œcolampadius, nasc. em 1488; 1515, pastor em Basiléa; 1519, em
-Augsburgo; 1522 professor e prégador em Basiléa; fall. em 24 de Nov. de
-1531.
-
-Leão Judæus: 1523, cura de S. Pedro, em Zurich; nasc. em 1482; fall. em
-1542.
-
-Oswaldo Myconius (Geisshüsler) nasc. em 1483, em Lucerna; fall. em 1532;
-14 de Out. de 1552, os Antistites em Basiléa.
-
-Conrado Pellican (Kürsner): nasc. em 1478; 1493, franciscano; desde 1502,
-Lector no convento dos Franciscanos de Basiléa; 1527, em Zurich, como
-professor de hebreu; fall. em 1556.
-
-(c) _Theologos intermediarios_
-
-Urbano Rhegius: nasc. em 1496, em Argau sobre o Bodensee; 1512, professor
-em Ingolstadt; 1519, padre em Constança; 1520-22, prégador em Augsburgo;
-desde 1530, reformador em Brunswick, ao serviço do duque Ernesto; fall.
-em Celle, em 23 de Maio de 1541.
-
-Ambrosio Blaurer: nasc. em 1492, em Constança; 1534-38, reformador em
-Würtemberg; até 1548, em Constança; em 1564, fall. em Winterthum (1534,
-_Concordata de Stuttgart_.)
-
-Martinho Bucer: nasc. em Sehlettstadt, em 1491; 1505, dominicano; desde
-1524, pastor em Strasburgo; 1549, sob Eduardo VI, em Inglaterra e
-professor em Cambridge; fall. em 28 de Fev. de 1551.
-
-Wolfango Fabricio Capito: nasc. em 1478; 1515, em Basiléa; 1520, em
-Mayença; 1523-1541, preboste de S. Thomaz, Strasburgo, fall. em 1541.
-
-(d) _Confissões Zwinglianas_
-
-1523.—Jan. 29, os 67 Artigos de Zwinglio.
-
-Nov. 17, Instrucções ao Concilio de Zurich.
-
-1530.—Julho 9, _Fidei Ratio ad Carolum V_. (de Zwinglio com o
-assentimento de Œcolampadius e outros reformadores suissos).
-
-1530.—_Confessio Tetrapolitana_ (Strasburgo, Constança, Lindau,
-Memmingem): Bucer, Capito, Hedio; durante as sessões da Dieta de
-Augsburgo.
-
-1534.—_Confessio Basiliensio_ (Myconius) acceite por Mühlhausen em 1537,
-e chamada Conf. Mühlhusiana.
-
-1536.—_Confessio Helvetica Prior_ (Basil II) redigida em Basiléa por
-delegados dos cantões evangelicos, (Jan. a Março) e pelos seus theologos
-Bullinger, Myconius, Grynæus, Leão Judæus, etc.
-
-(e) _Confissões Lutheranas_
-
-1529.—_O Catecismo maior e mais pequeno_, de Luthero, em allemão;
-appareceram simultaneamente.
-
-1530.—=Confessio Augustana=, ou Confissão de Augsburgo. Constituida
-por—(1) os 15 Artigos de Marburgo; (2) os 17 Artigos de Schwabach,
-redigidos por Luthero; (3) os Artigos de Torgau, compilados por Luthero,
-Melanchthon, Justo Jonas, Bugenhagen, e apresentada ao Eleitor, em
-Torgem, em março de 1530. Obra de Melanchthon com a assistencia doe
-theologos evangelicos reunidos em Augsburgo, e revista por Luthero.
-
-Exposição da Doutrina Evangelica, «In que cerni potest, nihil inesse,
-quod discrepet a Scripturis vel ab ecclesia catholica vel ab ecclesia
-Romana, quatenus ex scriptoribus nota est.... Sed dissenus est de
-quibusdam abusibus, qui sine certa auotoritate in ecclesiam irrepserunt.»
-Philippe de Hesse aasignou-a, protestando, porém, contra o Artigo X, que
-trata da Ceia do Senhor.
-
-É impossivel averiguar com exactidão o texto, quer das edições allemãs
-quer das latinas; a primeira edição impressa de Melanchthon; Wittenberg,
-1530, em 4.º
-
-_A Variata_ (variantes, especialmente no Artigo X) desde 1540.
-
-_Apologia em favor da Confissão de Augsburgo._—_A prima delineatio
-apologiæ_ por Melanchthon, em Set. de 1630, em Augsburgo; prompta a
-imprimir em abril de 1531; a primeira edição em Abril de 1531; a edição
-allemã de Justo Jonas, em Out. de 1531.
-
-_Os artigos de Schmalkald_, por Luthero, para a Convenção Protestante de
-Schmalkald, 1557, e com referencia ao proposto Concilio Geral em Mantua
-(Estrictamente lutherano).
-
-_Controversias na Egreja Lutherana_
-
-1548-55.—_Adiaphoristicos_: Flacius, Wigand, Amsdorf, contra o Interim de
-Leipsic.
-
-1549-66.—_Osiander_: André Osiander (em Nürnberg, 1522-48; em Königsberg,
-1549, fall. em 1552); 1550, _De Justificatione_; 1551, _De Unico
-Mediatore Jesu Christi_. Justificação é uma participação da justiça de
-Christo: _cujus natura divina homini quasi infunditur_.
-
-Em opposição; Francisco Stancarus de Mantua (1551-52 em Königsberg,
-depois em Siebenbürgen, e na Polonia; fall. em 1574); 1562, _De Trinitate
-et Mediatore_, «Christo nossa justiça sómente pelo que respeita á Sua
-natureza humana.»
-
-1551-62.—Majorista: Jorge Major (fall. em 1574, quando professor em
-Wittenberg); _bona opera necessaria esse ad salutem_. Refutado por
-Amsdorf; _bona opera perniciosa esse ad salutem_.
-
-1556-60.—Synergista: Pfeffinger, em 1555, _Propos. de libero arbitrio_
-(conforme o synergismo de Melanchthon): contra elle, Amsdorf (1558)
-_Confutalio_; e Flacio.
-
-1560.—Discussão em Weimar, entre Flacio e Strigel. Flacio: o peccado
-original não podia deixar de ser commettido pelo homem. A doutrina
-lutherana é que prevalece. Heshusius: de _servo arbitrio_.
-
-1527-40.—_Antinomiano_: João Agricola, nasc. em 1492, em Eisleben;
-fall. em 1562, sendo prégador na casa imperial, em Berlim; 1527, contra
-Melanchthon; e 1537, contra Luthero. A contriccão não vem declarada na
-lei, mas no Evangelho. Retracta-se em 1540. Desde 1556, controversia
-sobre _Tertius usus legis_.
-
-1567.—_Crypto-Calvinista_: Melanchthon admitte as doutrinas calvinistas
-da Ceia do Senhor. Christologia e Predestinação.
-
-D’estas controversias conclue-se a necessidade de haver perfeita harmonia
-na Egreja Lutherana; e proveem de ahi varias fórmas do concordia com as
-quaes se constituiu a _Formula Concordia_.
-
-(1) A concordia Swabia de Jac. Andræ (desde 1562 professor em Tübingen,
-fall. em 1590) em 1574; 1575, a concordata de Martinho Chemnitz. 1576,
-Formula de Lucas Osiander.
-
-(2) Convenção de Torgau; o _Livro de Torgau_.
-
-_Os principaes theologos lutheranos_
-
-_Martinho Chemnitz_; 1554; fall. em 1586, Superintendente em Brunswich;
-_Examen Concilii Trid._; 1565-73, _Loci Theologici_.
-
-_Matheus Flacio_: nasc. em 1520, em Albona, na Illyria; 1545, em
-Wittenberg; 1549 em Magdeburgo; 1557-61, em Jena; fall. em Frankfort
-sobre o Maine, 11 de Mar. 1575.
-
-_Catalogus Testium Veritatis_, 1556; _Ecclesi. Hist. per aliquot ...
-studiosos et pios viros in urbe Magdeburgica_ (os seculos de Magdeburgo),
-13 volum., 1560-74; _Clavis Script. Sac._, 1567; _Glossa Compendaria in
-N. T._, 1570, etc.
-
-_João Gerhard_: nasc em 1582, em Quedlinburgo; 1606, superintendente em
-Heldburgo; 1615, Superintendente Geral em Coburgo; 1616 a 1637, professor
-em Jena. _Loci Theologici_, 1610 a 1625; _Medit. Sac._, etc.
-
-_Leonardo Hutter_: 1596 a 1616, professor em Wittenberg; _Compendium Loc.
-Theol._, 1610; _Loci Commun. Theolog._, 1619.
-
-_As Confissões de Fé da Egreja Reformada são universalmente reconhecidas._
-
-_Cathechismus ecclesiæ. Genevensis_; 1541, Francez; 1545, Latino; Calvino.
-
-Consensio in re sacramentaria ministrarum Tigur.; Eccles. et Joh. Calvini.
-
-=O Catecismo de Heideiberg=: 1563, escripto sob a suggestão de Frederico
-III do Palatinado, por Zacarias Ursinus (desde 1561 professor em
-Heidelberg, fall. em 1583) e Gaspar Olevianus (professor em Heidelberg;
-fall. em 1587).
-
-_Confessio Helvetica Posterior_: 1566, enviado por Bullinger a Frederico
-III do Palatinado.
-
-_Os Decretos do Synodo de Dort_: 1619, reconhecidos nos Paizes Baixos,
-na Suissa, no Palatinado, em 1620 na França; não foram universalmente
-reconhecidos.
-
-JOÃO CALVINO: =Institutio Religionis Christianæ=, 1535-36. Tres
-edições, constituindo cada uma d’ellas uma ampliação, 1535, 1539 e
-1559; _Commentarios ao Velho e Novo Testamentos_, 1539; _De æterna Dei
-predestinatione_, 1552; _Defensio orthodoxæ fidei de S. Trinitate_, 1554,
-contra Servetus.
-
-_Henrique Bullinger_, successor de Zwinglio em Zurich, nasc. em 1504, em
-Bremgarten, fall. em 17 de set. de 1578; Commentarios ao Novo Testamento,
-1554; _Compendium relig. Christianæ; Histoire des persecutions de
-l’Eglise_.
-
-_Theodoro Beza_: nasc. em 1519; 1549, em Lausanna; 1558, professor e
-pastor em Genebra; fall. em 1605. Traducção do Novo Testamento, com
-annotações, 1565; _Histoire Eccles. des réformateurs au royaume de
-France_, 1580.
-
-_Rodolpho Hospinian_, pastor em Zurich; fall. em 1629; _De origine et
-progres. controv. sacramentariæ_, etc.
-
-_J. H. Hottinger_, professor em Heidelberg e Zurich; fall. em 1667;
-_Hist. Eccl._ N. T.
-
-_Gaspar Suicer_, professor em Saumur, fall. em 1684; _Thesaurus
-Ecclesiasticus_.
-
-_F. Dallæus_, professor em Saumur, fall. em Paris, em 1670; _Traité de
-l’emploi des S. Péres_, 1632.
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- Absolvição clerical, 233.
-
- Agostinho, 208.
-
- Alba (Duque de), 105, 121, 125, 165.
-
- Allemanha (Situação politica da), 15.
-
- Amboise (Morticinio de), 99.
-
- Amboise, Edicto, 105.
-
- America (Descoberta da), 205.
-
- Anabaptistas (Os) em Genebra, 76.
-
- Anabaptistas (Os) em Zurich, 63.
-
- Anabaptistas (Os) nos Paizes Baixos, 115.
-
- Andersen (Lourenço), 52.
-
- Annatas (Os), 13, 60, 166.
-
- Anna Boleyn, 167, 184, 189.
-
- Anselmo, 210.
-
- Anstruweel, 121.
-
- Antuerpia, 121.
-
- _Apologeticus_, de Zwinglio, 62.
-
- Apostolos (Credo dos), 72, 223.
-
- _Appellações_, _Estatuto para a repressão das_, 167.
-
- Aristoteles, 214.
-
- Armada (a) hespanhola, 196.
-
- Artigos (Os Doze) dos camponezes allemães, 25.
-
- Artigos (Os dez), 171.
-
- Artigos (Os Seis), 173, 177.
-
- Artigos, (Os Quarenta e dois), 178.
-
- Artigos, (Os Trinta e Nove), 179, 192.
-
- Artigos, (Os Onze), 192.
-
- Augsburgo (Confissão de), 38.
-
- Augsburgo (Dieta de), 36.
-
- Augsburgo (Paz de), 47.
-
- Augsburgo (Interim de), 43.
-
-
- Babington (Conspiração de), 196.
-
- Ballanden (Ricardo), 150.
-
- Barlaymont, 120.
-
- Bartholomeu (Matança de S.), 107, 140, 149, 195.
-
- Basiléa, 64, 75.
-
- Beaton (Cardeal), 140.
-
- Bernardo de Clairvaux, 210.
-
- Berne, 59, 76.
-
- Berne (A Reforma em), 64.
-
- Beza, 83, 91.
-
- Beza em Poissy, 102.
-
- Biblia, Versão de Luthero, 19.
-
- Biblia, Franceza, 93.
-
- Biblia, Hollandeza, 116.
-
- Biblia (Doutrina da), 232.
-
- Bispados (os) nos Paizes Baixos, 118.
-
- Bispos (O livro dos), 172.
-
- Bispos (Os) na Escocia, 151.
-
- Boleyn (Anna), 167, 184, 189.
-
- Bonner (Bispo), 146.
-
- Borgonha (Carlos e Maria de), 114.
-
- Bourbon (Antonio de), 100.
-
- Bourbon (Condestavel de), 31.
-
- Bourbon (O principe), 96, 100.
-
- Bourg (Anne de), 98, 145.
-
- Bourges (Sancção Pragmatica de), 89.
-
- Brantôme, 107.
-
- Brederode (O Conde), 120.
-
- Brés (Guido), 134.
-
- Briçonnet, bispo de Meaux, 88.
-
- Brill (Tomada de), 126.
-
- Bruxellas, 115.
-
- Bucer, 71, 178, 187.
-
- Bugenhagen, 51.
-
- Bulla papal contra Luthero, 12.
-
- Bulla papal em favor da inquisição, 117.
-
- Bundschuh (Liga de), 24.
-
-
- Caetano (Cardeal), 10.
-
- Calderwood, 138, 142.
-
- Calvino (Mocidade de), 69.
-
- Calvino, (_Institutos da Religião_ de), 71, 78.
-
- Calvino em Genebra, 73.
-
- Calvino (Expulsão de), 75.
-
- Calvino (Morte de), 82.
-
- Calvino (Ordenanças ecclesiasticas de), 77.
-
- Cambridge, 178, 187, 194.
-
- Capito, 64.
-
- Cappel, (Paz de), 65.
-
- Caraffa (Cardeal), 117.
-
- Carew (Sir Peter), 184.
-
- Carlos V, imperador, 14, 164, 181, 184.
-
- Carlos V tenta subjugar a Reforma, 28, 32, 37.
-
- Carlos V (A politica de) nos Paizes Baixos, 114.
-
- Carlos IX de França, 106.
-
- Carlstadt, 11, 20.
-
- Cartwright (Thomaz), 194.
-
- Casamento (O), 216.
-
- Catharina de Aragão, 162, 169, 181, 183.
-
- Catharina de Medicis, 93, 100, 107.
-
- Catholicidade dos Reformadores, 222.
-
- Cecil (Sir William), 194, 196.
-
- Celtica (Egreja), 137.
-
- Chandieu (Antonio), 97.
-
- Chateaubriand (Edicto de), 94.
-
- Christiano II da Dinamarca, 50.
-
- Clemente VII, 29.
-
- Colet (Deão), 160, 162.
-
- Coligny (Almirante), 96, 100, 101, 104, 106.
-
- Commissão (Tribunal da Alta), 193, 199.
-
- Concilio (Reclama-se um), 21, 43.
-
- Concilio (o) de Trento, 44.
-
- Concordata (A) de 1516, 89, 164.
-
- Condé (Luiz de), 100, 102, 104, 105.
-
- Condé (Henrique de), 105.
-
- Confissão de Augsburgo, 38, 50.
-
- Confissão de Zurich, 84.
-
- Confissão Franceza, 97.
-
- Confissão Hollandeza, 134.
-
- Confissão Escoceza, 143.
-
- Congregação (Lords da), 142.
-
- _Consistorial_ (_Systema_), 30.
-
- Consistorio (O), 78, 98.
-
- Constança (Concilio de), 11.
-
- Cotta (Frau), 8.
-
- Convenção (A) Nacional, 142.
-
- Coverdale, 187.
-
- Cranach (Lucas), 16.
-
- Cranmer (Arcebispo), 171, 176, 184, 186.
-
- Craw (Paulo), 138.
-
- Crespin, 107.
-
- Cromwell (Thomaz), 163, 170.
-
-
- Dante, 218.
-
- Diana de Poitiers, 93.
-
- Dickson (David), 152.
-
- Dieta (A) allemã, 15.
-
- Dieta (A) de Worms, 16.
-
- Dieta (A) de Nürnberg, 20.
-
- Dieta (A) de Spira, 28.
-
- Dieta (A) de Augsburgo, 36, 47.
-
- Disciplina da Egreja, 30.
-
- Disciplina de Calvino, 77.
-
- Disciplina da Egreja franceza, 98.
-
- Disciplina (Livro da), 147, 152.
-
- Dissidencia (A), 194.
-
- Disturbios (O Conselho dos), 123.
-
- Dizimos (Os grandes e pequenos), 23, 215.
-
- Dordrecht, 135.
-
- Dorner, 225.
-
- Douay, 196.
-
- Douglas, 144.
-
- Drake (Sir Francis), 196.
-
- Dreux (Batalha de), 104.
-
- Dubois (Pedro), 138, 158.
-
-
- Eck (João), 9, 11, 17.
-
- Edictos de Tolerancia, em França, 103, 105, 110.
-
- Edinburgo, 143.
-
- Educação (A) na Escocia, 137, 148.
-
- Eduardo III, 218.
-
- Eduardo VI, 141, 157, 175, 181.
-
- Egmont (Conde), 117, 119, 120, 121, 122.
-
- Egreja (Disciplina da), 30, 98, 133, 134.
-
- Egreja (Riqueza da), 12.
-
- Egreja (A) em relação com a vida social, 215.
-
- Ehrenberg (Castello de), 46. Eidgenossen, 68.
-
- Einsiedeln, 61.
-
- Eisenach, 8.
-
- Eisleben, 7.
-
- Eleitores (Os) allemães, 15.
-
- Erasmo, 64, 170, 177.
-
- Erskine de Dun, 142, 151.
-
- Escocia (A Reforma na), 137-154.
-
- Esch (João), 115.
-
- Escriptura (A), 227.
-
- Eucaristia (A), 33.
-
-
- Fagius (Paulo), 178.
-
- Farel em Basiléa, 64.
-
- Farel em Genebra, 68.
-
- Farel em França, 88.
-
- Fé (A), 213, 230.
-
- Fernando de Aragão, 14, 162.
-
- Fernando de Austria, 37.
-
- Field, o puritano, 194.
-
- Fisher (Bispo), 170.
-
- Florestaes (cantões), 64.
-
- França (A Reforma em ), 87-111.
-
- Francisco de Assis, 210, 211.
-
- Francisco I de França, 28, 71, 89, 91, 164.
-
- Francfort sobre o Maine, 141.
-
- Frederico da Saxonia, 8, 28.
-
- Froben, 64.
-
- Frunsberg (General), 17, 31.
-
-
- Galle (Dr.), 52.
-
- Gallicanismo (O), 218.
-
- Gardiner (Bispo), 177, 182.
-
- Gemblours, 132.
-
- Genebra, 67, 77, 94.
-
- Ghent, 131.
-
- Ghent (Pacificação de), 131.
-
- Glarus, 60.
-
- Glencairn (Conde de), 142, 143.
-
- Goch (João), 114.
-
- Granvella (Cardeal), 117, 119, 123.
-
- Gregorio VII (Papa), 208, 212.
-
- Grey (Lady Jane), 182, 183.
-
- Grindal (Arcebispo), 198, 198.
-
- Guise (A familia), 93, 98, 100, 103-106, 140, 145.
-
- Gustavo Vasa, 51.
-
-
- Hagenau, 40.
-
- Hamilton (Patricio), 140.
-
- Held (Vice Chancellor), 40.
-
- Henrique VIII de Inglaterra, 157, 161, 163, 184, 190, 218.
-
- Henrique II de França, 93.
-
- Henrique III de França, 106, 109.
-
- Henrique IV de França, 105, 110.
-
- Henriques (Guerra dos tres), 109.
-
- Hesse (Organização da Egreja de), 29.
-
- Hildebrando, 208.
-
- Hogstraten, 9.
-
- _Homilias_ (_Livro de_), 177.
-
- Hooper (Bispo), 180, 186.
-
- Horn (Almirante), 120, 122.
-
- Huss (João), 11, 138.
-
- Hymnos Medievaes, 6, 214.
-
-
- Iconoclastas (Os), 103.
-
- _Imitação de Christo_, 210, 211.
-
- Imperador (O), 14, 28, 31, 32, 37, 38.
-
- Imperio (O) medieval, 14, 209, 217, 221.
-
- Indulgencias (As) em Zurich, 61.
-
- Indulgencias (As) na Allemanha, 1-2.
-
- Ingleza, (A Reforma) seu caracter, 159.
-
- Inquisição (A), 117, 186.
-
- Interdicção (A) papal, 226, 233.
-
- Interim (O) de Augsburgo, 43.
-
- Interim (O) de Leipzic, 43.
-
- Isabel (A rainha), 125, 133, 157, 189, 192, 194-201.
-
-
- Jansen, 50.
-
- Jarnac, 105.
-
- Jesuitas (Os), 45, 195.
-
- Jewel (Bispo), 192, 200.
-
- João da Saxonia, 37, 38.
-
- Jorge da Saxonia (Duque), 17, 42, 47.
-
- _Justificação_ (_A_), 233, 234.
-
- Jüterbogk, 4.
-
-
- Kempis (Thomaz á), 114.
-
- Knox (João), 141, 143, 144, 146, 148, 152, 178, 180, 191.
-
- Kyle (Os lollardos de), 138.
-
-
- La Ferriére, 95.
-
- Lainez, 45.
-
- Lambert (Martinho), 29.
-
- Lei (A) agraria entre os romanos, 24.
-
- Lefèvre, 88.
-
- Leipzic (Controversia de), 10.
-
- Leipzic (Interim de), 43.
-
- Leith (Convenção de), 151.
-
- Leyden (Cerco de), 129.
-
- Liesfeld (Jacob), 116.
-
- Liga Allemã (catholica), 40.
-
- Liga de Schmalkald, 39.
-
- Liga de França, 109, 196.
-
- Linacre, 196.
-
- Lindsay (Lord), 145.
-
- Lindsay (Sir David), 139.
-
- Lithurgia (A) de Knox, 141.
-
- Lollardismo (O), 138, 158.
-
- Longjumeaux, 105.
-
- Loyola (Ignacio), 45.
-
- Luthero e Tetzel, 4.
-
- Luthero (Mocidade de), 7.
-
- Luthero em Leipzic, 11.
-
- Luthero em Worms, 16.
-
- Luthero traduz a Biblia, 19.
-
- Luthero contra os camponezes, 27.
-
- Luthero não sympathiza com a Liga Protestante, 32.
-
- Luthero (Quietismo de), 32.
-
- Luthero (Mais ácerca de), 212, 214, 222.
-
-
- Madrid (Confederação de), 28.
-
- Madrid (Egmont em), 119.
-
- Maitland de Lethington, 144.
-
- Marburgo (Conferencia de), 33.
-
- Marcello de Padua, 138, 158, 218.
-
- Margarida de Navarra, 89.
-
- Margarida de Parma, 117.
-
- Margarida de Saboya, 115.
-
- Maria de Guise, 140.
-
- Maria, rainha de Inglaterra, 181, 184.
-
- Maria, rainha dos escocezes, 144, 145, 182, 189, 195.
-
- Martyr (Pedro), 178, 187, 192.
-
- Massacre de Amboise, 99.
-
- Massacre de S. Bartholomeu, 107, 140, 195.
-
- Massacre de Toulouse, 103.
-
- Massacre de Vassy, 103.
-
- Mauricio da Saxonia, 42, 46.
-
- Melanchthon, 19, 37, 39.
-
- Melville (André), 152.
-
- Melville (James), 149.
-
- Mendicantes (Os), 120, 123.
-
- Mendigos (Os) do mar, 124, 128, 129, 130.
-
- _Mérindol_ (_Arrêt de_), 93.
-
- Mill (Walter), 140.
-
- Miltitz (Cardeal), 10.
-
- Missa (A Doutrina da), 33, 39.
-
- Monasticos (Votos), 212.
-
- Montauban, 107.
-
- Montgomery, bispo de Glasgow, 151.
-
- Montmorency, 93, 105, 145.
-
- Mooker Haide, 129.
-
- Moray (Conde de), 146, 150, 195.
-
- More (Sir Thomaz), 161, 162, 168, 172.
-
- Morgarten, 59.
-
- Mosteiros (Suppressão dos) em Inglaterra, 170, 176, 186.
-
- Münzer (Thomaz), 20, 24, 63.
-
- Mystico (Sentido) da Escriptura, 230.
-
- Mysticos (Os) medievaes, 8, 32, 211, 218.
-
-
- Nantes (Edicto de), 110.
-
- Niceno (O credo), 222.
-
- Nicolau de Basiléa, 212.
-
- Nobres (Revolta dos) na Allemanha, 21.
-
- Norfolk (Duque de), 195.
-
- Noyon, 69.
-
- Nürnberg (Dieta de), 20.
-
-
- Ochino (Bernardo), 178.
-
- Ockham (Guilherme de), 8, 138.
-
- Œcolampadius, 33.
-
- Olivetan (Roberto), 93.
-
- Oppressões soffridas pelos camponezes, 16, 23, 24.
-
- Oração Commum (Livro de), 177, 184, 100, 209.
-
- Orange (Guilherme de), 117, 120, 121, 124, 126, 131, 132.
-
- Orange (Mauricio de), 123.
-
- Oradores (Camaras de), 144.
-
- Ordenanças Ecclesiasticas, 77, 79, 81.
-
- Orleans, 104.
-
- Oxford, 178, 187.
-
-
- Pamphletos anti-prelaticios, 198.
-
- Paizes Baixos (Os), 113.
-
- Paramentos (Os) na Egreja de Inglaterra, 179, 192.
-
- Parker (Arcebispo), 192, 194.
-
- Parma (Margarida de), 117.
-
- Parma (Alexandre de), 132, 197.
-
- Passau (Tratado de), 47, 183.
-
- Pavia (Batalha de), 28, 91.
-
- Perdão (O) do peccado, 4, 213.
-
- Perseguições em França, 91, 94.
-
- Perseguições nos Paizes Baixos, 123.
-
- Perseguições na Escocia, 140.
-
- Perseguições em Inglaterra, 168, 186.
-
- Perth (Tumultos em), 143.
-
- Petersen (Os irmãos), 52.
-
- Philippe de Hesse, 32, 33, 37, 42, 43.
-
- Philippe II de Hespanha, 107, 115, 121, 184, 186, 189, 195.
-
- Poissy (Conferencia de), 102.
-
- Pole (Cardeal), 46, 185.
-
- Polyhistor, 64.
-
- _Proemunire_, 161, 167, 217.
-
- _Presbyterianismo_, 72, 95, 98, 134, 147.
-
- Prierias (Silvestre), 9.
-
- _Prophecias_ (_As_), 197.
-
- Propriedade (As Leis da) e a Reforma, 215.
-
- Puritanos (Os), 179, 193.
-
-
- Randolpho, 145.
-
- Ratisbonna, 22.
-
- Reforma (Os principios da), 1, 225.
-
- Reforma (Antecipações da), 213.
-
- Reforma (A) e a vida social, 215.
-
- Reforma, (A) uma revivificação de religião, 205.
-
- Reforma (A) e a necessidade do perdão, 212.
-
- Regensburgo (Conferencia de), 40.
-
- Regensburgo (Convenção de), 22.
-
- Religião (A) espiritual, 209.
-
- Renan ácerca de Calvino, 83.
-
- Renaudie, 99.
-
- _Renuncia_ (_A_), 211.
-
- Requescens, 128.
-
- Revivificação (A Reforma, uma), 205.
-
- Revivificação (A) medieval, 210.
-
- Revolta (A) dos camponezes, 23.
-
- Revolta (A) dos nobres, 21.
-
- Ridley (Bispo), 180, 184, 186.
-
- Ritualistas (Os) na Igreja Ingleza, 199.
-
- Rochelle (La), 105, 107, 108.
-
- Romana (A Lei), 24.
-
- Roper (Margarida), 170.
-
- Row (João), 139, 144, 153.
-
-
- Sacerdocio (O) dos crentes, 179, 226.
-
- Saboya (Duque de), 67.
-
- Sacramentos (Os), 34.
-
- Sacramentos (A administração dos), 207.
-
- Sacramentos (Theoria dos), 236.
-
- Samson, traficante de Indulgencias, 61.
-
- Sancerre (Capitulação de), 107.
-
- Sandilands (Sir James), 145.
-
- Schmalkald (Liga de), 32, 39.
-
- Schmalkald (Guerra de), 42.
-
- _Separação do mundo_, 208.
-
- Sickingen (Frank von), 22.
-
- Smeaton, 149.
-
- Sobrepeliz (A), 193.
-
- Social (A vida) e a Reforma, 216.
-
- Somerset (Lord Protector), 175.
-
- Spalatin, 10, 16.
-
- Spira (Edicto de), 29.
-
- Staupitz, 8, 9.
-
- Stirling, 143.
-
- Stockolmo (Massacre de), 51.
-
- Storch, 20, 24.
-
- Sturm, 100.
-
- _Submissão do Clero_, 165.
-
- Sully (Duque de), 107.
-
- _Superintendentes_ (_Os_), 147.
-
- Supremacia (A) real em Inglaterra, 166, 176, 185, 190.
-
- Suecia (Reforma na), 51.
-
- Suissa (A Reforma), 57-66.
-
- Syndicancia aos mosteiros, 170.
-
- Syndicancia ás Egrejas, 176.
-
- Synodo da Egreja Franceza, 97.
-
- Synodo da Egreja Hollandeza, 134.
-
-
- Tauler (João), 9, 32, 212.
-
- Tetzel (João), 3, 4.
-
- Theses (As) de Luthero, 3, 5, 6.
-
- Theses (As) de Zwinglio, 62.
-
- Tindal traduz a Biblia, 187.
-
- Toggenburgo, 60.
-
- Torpichen (Lord), 142.
-
- Toulouse (Massacre de), 103.
-
- _Transubstanciação_ (_A_), 34, 36.
-
- Trento (O concilio de), 45.
-
- _Tulchanos_ (_Os bispos_), 150.
-
-
- Ubiquidade (Doutrina da), 36.
-
- Udal (Nicolau), 198.
-
- Upsala, 52.
-
- _Utopia_ (_A_) de Sir T. More, 161, 169.
-
- Utrecht, 113.
-
- Utrecht (Tratado de), 132.
-
-
- Valdenses (Os), 92.
-
- Valence (Bispo de), 100.
-
- Vassy (Massacre de), 103.
-
- Vienne (Arcebispo de), 100.
-
- Voes (Henrique), 115.
-
-
- Wardlaw, 138.
-
- Wartburgo, 18.
-
- Warwick (Conde de), 177.
-
- Wedderburn (Balladas Sacras de), 139.
-
- Wessel (João), 144.
-
- Westeräs, 52.
-
- Wied (Hermann von), 41.
-
- Wilcox, 194.
-
- Wildhaus, 66.
-
- Willock, 114.
-
- Wimpina (Conrado), 9.
-
- Winram, 144.
-
- Wishart (Jorge), 140, 141.
-
- Wittenberg (Os fanaticos de), 20.
-
- Wolsey (Cardeal), 162, 168.
-
- Worms (Conferencia de), 40.
-
- Worms (Dieta de), 16, 22, 24.
-
- Wyatt (Sir T.), 184.
-
- Wycliffe, 8, 11, 138, 158.
-
- Wyttenbach (Thomaz), 60, 64.
-
-
- Xavier (Francisco), 45.
-
-
- Zurich, 59, 62, 76.
-
- Zwinglio, 33, 35, 60, 66.
-
-
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-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
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-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
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