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-The Project Gutenberg EBook of Arte de louceiro, by José Ferreira da Silva
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
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-
-Title: Arte de louceiro
- Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas
-
-Author: José Ferreira da Silva
-
-Release Date: May 13, 2020 [EBook #62115]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DE LOUCEIRO ***
-
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-
-Produced by Júlio Reis and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
-produced from images generously made available by The
-Internet Archive/Canadian Libraries)
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- ARTE DE LOUCEIRO
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- OU
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- TRATADO SOBRE O MODO DE FAZER
- AS LOUÇAS DE BARRO MAIS
- GROSSAS,
-
- TRADUZIDO DO FRANCEZ
-
- POR ORDEM
- DE
- SUA ALTEZA REAL,
- O PRINCIPE REGENTE,
- NOSSO SENHOR,
- POR
- JOSE FERREIRA DA SILVA
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- NA IMPRESSAÕ REGIA.
- ANNO DE 1804.
-
- _Por Ordem Superior._
-
- _Ars dux certior._
- Cic.
-
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-
-ARTE DE LOUCEIRO DE BARRO SIMPLES.
-
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-
-
-INTRODUCÇAÕ.
-
-
-1 A Arte do Louceiro consiste em fazer vasilhas, e outras obras de
-barro, que se embebe em agua para o amolecer, e se amassa e se dá depois
-differentes figuras; e se fazem cozer para lhe dar solidez, conforme esta
-definiçaõ, o que faz pitos, o louceiro, e os que fazem porcelana saõ
-oleiros; porém fazem obras mais perfeitas do que estes de que vamos a
-fallar. Assim entende-se por oleiros, os que fazem obras communs, e que
-por isso se podem dar baratas.
-
-2 A argilla[1], que se chama tambem terra barrenta, faz a base das
-terras de que usaõ os oleiros, e he a proposito dar os caracteres que
-a fazem particular destinguindo das outras terras. Para isto a vou
-considerar em seu estado de pureza, ainda que he difficil, ou talvez
-impossivel obtella sem mistura de differentes substancias estranhas, que
-mudando sua natureza; humas vezes a tornaõ mais propria para as obras
-de oleiro, e outras obrigaraõ os oleiros a trabalhos consideraveis para
-purificar o barro, sem o que seria inutil.[2]
-
-3 A argilla[3] ou barro puro he formada de partes muito finas, que se
-unem muito humas ás outras; porque estando amontuadas em massa, e unidas
-humas ás outras, cheguando a hum grande gráo de secura, endurecem, de
-sorte que hum torraõ de argilla exactamente amassado, e bem secco,
-contrahe huma dureza de pedras: por causa das suas partes serem muito
-finas, neste estado he susceptivel de tomar certo polimento: he macia, e
-saponacea ao toque; e por isso he que se chama a esta _terra gorda_. Ella
-atrahe a humidade, o que a faz pegar a lingua se acaso a toca; tambem
-se une bem ás substancias gordas; e por isso serve para tirar certas
-nodoas.[4]
-
-4 Depois de ter cortado, ou quebrado em molleculas de mediocre tamanho,
-se deixaõ ficar na agua, de que ella se carrega em abundancia; ella
-se incha á proporçaõ que se carrega da agua e se póde desfazer huma
-pequena quantidade em muita agua. Mas quando se lhe naõ lança bastante
-para a reduzir a huma especie de lama, e que se amassa como adiante
-explicaremos, he o que se chama _argamassar_, ella se faz glutinosa, e
-fórma huma massa muito ductivel, que se póde estender sem a quebrar; de
-sorte, que hum habil oleiro chega a fazella tomar differentes figuras; e
-quando se usa della em massa alguma cousa mais dura, se póde fazer hum
-grande vaso, com pouca grossura sem este se desfazer pelo pezo. Quando a
-argilla está assim bem amassada, ou argamassada, de sorte que faça huma
-massa firme, naõ he penetravel á agua, em quanto naõ sécca, por isso se
-usa della nas argamaças dos tanques, ou pias de conservar agua. Por isto
-he que os bancos de argilla que estaõ debaixo da terra formaõ muitas
-vezes tanques sobterraneos, dos quaes nascem fontes de agua, algumas
-vezes assás boa: porque a argilla, que naõ está exposta ao ar, ao sol, ou
-ao vento, conserva sua humidade, ductibilidade, e a propriedade de naõ
-ser penetravel a agua.
-
-5 Os oleiros se aproveitaõ da ductibilidade da argilla para a trabalharem
-na roda, e moldes; mas as argillas em seccando, quanto mais puras saõ,
-mais encolhem, isto he diminuem muito do seu volume, á medida que a agua
-se evapora: e neste estado estaõ sujeitas a rachar-se e seriaõ inuteis
-aos oleiros, se elles naõ tivessem meios de lhe empedir o encolher tanto,
-como adiante diremos.
-
-6 A argilla, pura tal, como nós ao presente a consideramos ou detodo,
-naõ he atacada pelos acidos, ou muito pouco: digo muito pouco porque
-em muitas argillas se pode descobrir o acido vitriolico. Esta argilla
-resiste muito á acçaõ do fogo sem se derreter, e por conseguinte cozendo
-se adquire huma dureza igual á dos seixos, a ponto de que certas argillas
-bem cozidas chegaõ a deitar fogo sendo feridas com aço. Esta propriedade
-parece indicar, que hum fogo muito activo as faz tomar hum principio
-de defusaõ pois ainda que ella seccando indurece, com tudo naõ chega
-ao gráo que lhe dá o fogo; a argilla, ou barro, nunca muda de natureza
-por mais secca que fique; conserva a propriedade de ser penetrada pela
-agua, e tornar-se em huma massa ductivel; pelo contrario cozendo-se
-muda totalmente de natureza: já entaõ naõ he argilla, he huma argamassa
-muito dura, ou huma especie de area impenetravel, á agua e que naõ póde
-adquirir alguma ductibilidade com este fluido.
-
-7 Nisto a argilla differe muito das boas argamassas de cal, e arêa, que
-endurecem, seccando, mas expondo-se a huma grande calcinaçaõ a perdem. A
-dureza da argilla cozida he muito differente, das pedras calcares, ainda
-as mais duras, como o marmore, porque estas pedras sendo expostas a hum
-grande fogo, e reduzidas a cal perdem sua dureza, que parece depender em
-parte da humidade, pois que ellas perdem a sua firmeza, logo que pela
-calcinaçaõ, se lhe dissipou toda a humidade, que parece ser a que fórma
-a uniaõ das partes; e quando fazendo a argamassa de cal e arêa se lhe
-lança a humidade, ella pelo tempo toma huma dureza bem consideravel: pelo
-contrario a dureza da boa argilla se augmenta á medida, que se faz passar
-por hum grande fogo. A grande violencia do fogo a racha, defórma, e a
-reduz a huma especie de vidro imperfeito, mas que conserva sua dureza.
-Eis aqui o que me faz pensar, que a dureza da argilla cozida consiste,
-em que suas partes adquirem hum principio da fusaõ ou brandura pela
-grande acçaõ do fogo, e isto as une humas ás outras, brandura, que se
-póde dizer, que as argillas saõ refractarias pella vitrificaçaõ, ou fusaõ
-perfeita.
-
-8 Estas observações por mais sucintas, que sejaõ bastaõ para caracterizar
-a argilla pura; mas como se naõ encontra sem estar unida ás substancias
-estranhas, he mais importante para a arte de que tratamos, fallar das
-argillas alliadas ou com mistura, e taes como ellas se achaõ na terra,
-pois desta especie he que se usa nas olarias. As obras desta se vendem
-muito baratas, e por isso se naõ póde ir buscar longe de casa, como se
-faz para as obras preciosas, e porcelanas; he preciso que para ellas se
-use de argillas que estejaõ perto de casa. Felizmente a argilla se acha
-em muitos lugares em maior, ou menor profundeza da terra, se acaso se
-dá attençaõ ás substancias com que se combina. Ha della muitas especies
-differentes: acha-se humas vezes em grandes montes, e outras em bancos
-que tem pouca espessura relativamente á sua extensaõ; em fim ella se
-destribue algumas vezes pela terra por veias, que se devem seguir; a
-especie de argilla naõ he sempre a mesma na continuaçaõ da mesma veia, ou
-quando se tira da terra mais superficial, ou mais profunda.
-
-9 A respeito de suas côres ao sahir da terra, he branca, cinzenta,
-asulada, tirando a côr da pedra asul _Ardosia_, verde, amarella,
-vermelha, e de côr de marmore.
-
-10 Estas differentes côres de argillas só nos podem dar indicios pouco
-certos da qualidade das louças que della se fará: com tudo naõ se devem
-desprezar; porque estes indicios nos podem guiar a fazer experiencias
-para certificar-nos da sua boa, ou má qualidade. Disso fallaremos nós
-adiante.
-
-11 Em geral se preferem as argillas brancas, ou escuras ás amarellas,
-vermelhas ou verdes, e algumas vezes ás que tem mistura de differentes
-côres. Estas côres dependem de huma tintura metálica, sulfurea, ou
-bituminosa; por que, como dissemos, no modo de fazer pitos, ha argillas
-que augmentaõ á alvura quando se cozem, porque a substancia apparente que
-alterava a sua côr era destructivel pelo fogo, e as outras cozendo-se
-ficaõ vermelhas, amarellas, escuras, ou quasi negras. Parece que estas
-côres fixas saõ causadas pelas differentes substancias metálicas, que se
-dissolvem com os acidos especialmente o vitriolico: porque he preciso que
-estas substancias colorantes se reduzaõ em particulas muito subtis, pois
-estas argillas de differentes côres parecem muito macias, e impalpaveis
-entre os dedos, e homogenias quando as cortaõ. As substancias tenues de
-que acabamos de fallar, raras vezes alteraõ os barros communs, de que ao
-presente fallamos. Digo raras vezes, porque algumas vezes as podem tornar
-fussiveis: o que em alguns casos he grande defeito. Outras vezes lançaõ
-vapores que fazem mal ao verniz, ou vidrado com que se cobrem: disto
-fallarei em outra occasiaõ.
-
-12 Segundo a qualidade dos barros, e uso que delles se faz chamaõ-se
-barro de tijollos, de ladrilhos, de panellas, de cadinhos, e pitos.
-
-13 Muitas vezes os oleiros se servem de argillas, que tem substancias
-heterogeneas mais sensiveis, como a _mica_,[5] _pyrites_[6] terras
-calcareas[7] arêas de differentes naturezas, e fragmentos de diversas
-qualidades da mina.
-
-14 Naõ fallo aqui destas substancias, que se achaõ em grandes pedaços,
-e que os oleiros apanhando-as, quando amassaõ o barro, as lançaõ fóra;
-mas das que se achaõ em molleculas assás grossas, e que se persente
-nos dedos, e se vê quando se corta hum pedaço de barro, com tudo
-insufficientes para se tirar a maõ todas estas materias de qualquer
-natureza, que sejaõ, prejudicaõ mais, ou menos a louça, quando seu volume
-he hum um pouco consideravel, porque naõ se podem fazer obras asseadas,
-e nem a superficie fica lisa. He verdade que desfazendo esta argilla
-em muita agua, e passando-a para outro vazo depois de precipitadas as
-substancias mais pezadas, se tiraõ argillas quasi isentas de partes
-heterogeneas, e que serveriaõ para obras mais delicadas; mas esta
-preparaçaõ do barro que se póde empregar em obras de louça fina requer
-muitas manobras, quando se está fazendo louça grossa; e assim dos
-barros areentos só se usa para fazer tijollos ou telha; para a louça se
-escolhem veias de barro mais puro, e isento de huma mistura grosseira,
-ou de natureza, que altere a bondade da louça. Vem a proposito entrar em
-algumas individuações a este respeito, porque principalmente da natureza
-destas misturas resulta a differente qualidade dos barros; e o oleiro que
-se estabelece em hum lugar, deve procurar todos os meios de conhecer a
-natureza do barro, de que se deve servir, sem se arriscar a perder muitas
-fornadas, e arruinar-se.
-
-15 Deve-se esfregar entre os dedos para ver se he macio ao toque, e se he
-ligado, e ductivel. E encontrando-se corpos estranhos, se devem alimpar,
-e pôr de parte para conhecer de que natureza saõ. Naõ nos devemos
-contentar só com isto; por que se a lavage, de que acima fallamos, para
-as obras communs precisa muita despeza, deve-se sempre desfazer em
-agua hum bocado de argilla, ao menos, para conhecer-lhe precisamente a
-natureza, e a quantidade de substancias pouco mais ou menos, que estaõ
-misturadas com ella: porque como as substancias de differentes generos
-tem pezos especificos, que lhe saõ particulares, vasando muitas vezes
-a agua em que se diluio a argilla v. g. passados cinco minutos, depois
-passados dez, e depois quinze se chegaráõ a separar as substancias, que
-segundo o seu pezo, se precipitarem mais depressa, ou mais de vagar, e
-assim se poderáõ examinar separadamente estes differentes precipitados
-para se poderem conhecer melhor por experiencias particulares; porque
-destas differentes ligas dependem, em grande parte as qualidades das
-argillas, e das louças, que dellas se fazem. He verdade, que apezar da
-lavagem ellas conservaõ partes muito finas, e muito divididas, que lhe
-daõ côr, como acima dissemos; porém estas partes heterogeneas muito finas
-saõ pouco nocivas as louças communs. Por exemplo, se segundo diz Mr.
-Pott, a argilla sendo misturada com substancias de gesso se torna muito
-dura no fogo; diz tambem que os barros vitrificaveis, misturando-se com
-a argilla firme ficaõ muito duros cozendo-se; mas he hum grande defeito
-nas argillas o terem liga de pedras calcareas em molleculas de maior
-tamanho, que se calcinaõ ao cozer; e depois quando sentem humidade,
-inchaõ, e quebraõ a obra, se estaõ no meio do barro, e se ficaõ na
-superficie, a agua as dissolve, e fica hum buraco em seu lugar: todavia
-eu digo quando ellas saõ maiores; porque em certos casos as substancias
-calcareas reduzidas a pó subtil, e misturadas em pequena quantidade com
-substancias vitrificaveis, podem contribuir para a bondade da louça.
-He de experiencia que algumas vezes duas substancias, que separadas
-naõ saõ vitrificaveis, unidas se vitrificaõ; e com razaõ mais forte
-se vitrificaráõ as particulas da cal combinando-se com substancias
-vitrificaveis.
-
-16 As pyrites tambem saõ huma qualidade de liga muito má; queimaõ-se ao
-cozer, e se dissipaõ inteiramente, e fica hum buraco em seu lugar, ou
-quando menos, faz huma mancha negra, similhante a escorea de ferro, e com
-difficuldade pega o verniz, ou vidrado sobre ella. Os oleiros dizem que o
-mesmo vapor sulphureo, que della, se exhalla a queimar, offende ao verniz
-das louças que estaõ visinhas.
-
-17 A arêa he necessaria para impedir ás argillas muito puras o
-encolherem, e fazellas seccar e coser sem se quebrarem, para isto saõ
-proprias as arêas refractarias, que com difficuldade derretem. Os vasos
-que dellas se fazem, soffrem hum grande fogo, e naõ saõ sujeitos a
-quebrarem pelas alternativas de frio, e calor: mas he preciso hum grande
-fogo para as cozer, sem isto naõ fica o barro muito duravel. Póde-se com
-tudo fazer dellas boa louça, e mesmo cadinhos; porém saõ permeaveis a
-todas as substancias, que se tornaõ muito fluidas pela fusaõ, como os
-saes, o chumbo; porque ficando com o tecido pouco tapado, naõ as póde
-conter. Podia-se fazer o seu tecido mais tapado ajuntando lhe hum bocado
-de barro vitrificavel. Com tudo se estas arêas fossem em muito grande
-quantidade, diminuiriaõ totalmente a ductibilidade da argilla, e seria
-muito difficil o trabalhalla particularmente na roda. He verdade, que
-pella lavagem, se poderia tirar huma parte da arêa, que se achasse em
-muita abundancia no barro; mas os oleiros naõ recorrem a este meio, que
-precisa muita manobra: elles preferem misturar as argillas, que chamaõ
-muito magras, com outras, que sendo muito gordas, fazem encolher muito a
-louça, e quebra-se ao seccar. Deste modo com a mistura pouco dispendiosa
-corrigem os defeitos dos dous barros, hum por muito gordo, e outro por
-muito magro.
-
-18 As areias fusiveis, vitrificaveis, e metállicas tornaõ a argilla
-fusivel, e a louça naõ póde supportar entaõ hum fogo consideravel
-sem ficar com defeito; por isso quasi todas as obras destas argillas
-fusiveis, saõ cozidas ligeiramente, seu interior he grosseiro, taõ
-poroso, que a agua trespassa os vasos sobre tudo, quando para impedir o
-encolher, se lhe ajunta muita arêa; e neste estado do barro só se podem
-fazer delle vasos de Jardins, alguidares, e fogareiros, e para os utensis
-communs do uso se precisa cubrillos de hum esmalte, que se chama verniz.
-
-19 A economia obriga a fazer estas louças que se trabalhaõ com
-facilidade, encolhem pouco, e com hum fogo mediocre se cozem, e tem a
-vantagem de se poderem expôr ao fogo sem se quebrarem. Estas louças muito
-communs se fazem em grande quantidade, porque se daõ baratas; mas tem
-pouca solidez, a menor queda as quebra, e por isso saõ pouco duraveis.
-
-20 Quando se misturaõ estas areias vitrificaveis com as argillas, ellas
-se chegaõ a cozer bem, sem as obras ficarem com defeitos, o seu tecido
-muitas vezes fica bem fechado; ellas se naõ dissolvem pelos acidos, e
-conservaõ os metaes, e saes derretidos; porém, como se chegaõ muito á
-natureza do vidro, os vasos naõ podem soffrer a alternativa do frio, e
-do calor; e para que se naõ quebrem he preciso esquentallos com muito
-cuidado.
-
-21 Os barros, de que se usa, para fazer as louças, que chamaõ de grêda,
-commumente tem este defeito; sendo de hum tecido muito fechado, resistem
-á fusaõ dos saes, e do vidro de chumbo: porém he preciso muito cuidado,
-quando se passaõ do frio para o calor. Para ellas naõ terem este defeito,
-he preciso que naõ fiquem taõ chegadas ao estado de vidro. Ha algumas que
-saõ desta natureza, e que se poderiaõ ter por huma porcelana grosseira.
-Eu supponho os barros de que se fazem tem a liga de areia refractaria,
-e de arêa vitrificavel de donde resulta a vitrificaçaõ. Naõ tenho tido
-commodo de examinar estes barros com bem cuidado para dar por certo, o
-que acabo de dizer: o que posso certificar he que tendo dissolvido em
-muita agua o barro de Gournay, de que se fazem os potes para a manteiga
-de Isigny, e tendo-a vasado depois de se ter precipitado huma parte da
-arêa, e pyrites, que elle continha, desta argilla privada de huma parte
-da sua areia, mandei fazer cadinhos, que se podiaõ pôr vermelhos ao
-fogo, e depois lançallos em agua fria sem se quebrarem. Se eu tivesse
-á maõ estes barros, estou persuadido, que chegaria a fazer vasos, que
-naõ teriaõ algum mericimento pela belleza, mas seriaõ taõ bons como a
-porcelana, e teriaõ todas as perfeições, que podem haver nas louças
-communs.
-
-22 Os oleiros naõ entraõ em exames taõ circunstanciados: se achaõ argilla
-macia ao tacto julgaõ bem della amassaõ-na, e trabalhaõ: se a achaõ
-muito magra, e pouco ductil, ajuntaõ-lhe argilla muito gorda: se vem que
-argilla diminue muito de volume em secando, e que se fende, emmagrecem-na
-ajuntando-lhe barro areento, ou mesmo arêa em proporçaõ que lhe permitta
-conservar sua ductibilidade, e a fazem cozer; se ellas derretem, ou ficaõ
-com defeito as peças no forno, diminuem a actividade do fogo, e só as
-empregaõ nos utensis communs do uso, que cobrem de verniz. Se hum fogo
-ordinario naõ basta para as cozer, ou dar-lhes toda a dureza, de que
-saõ susceptiveis, ou vem que podem supportar grande fogo sem defeito,
-cozem-nas como greda. Se com este grande fogo, alcançaõ que vaõ tomando
-a natureza de vidro para poder resistir ao fogo, fazem utensis, que naõ
-devem servir no fogo; como botelhas, potes para manteiga, saleiros,
-alguidares, quartas, e potes para leiterias. Para torna-las menos frageis
-ao fogo, ligaõ as argillas muito fortes com barros já cozidos, como potes
-de greda reduzidos a pó; entaõ, sendo bem cozidos, podem ir ao fogo os
-vasos ou peças, ainda que naõ haja o cuidado de as esquentar primeiro;
-mas os cadinhos para ensaios de metaes, ou para saes derretidos, he
-preciso que o barro naõ tenha substancia metálica, que se derretesse e
-deixasse escapar o que estivesse derretido no cadinho.
-
-23 Algumas vezes estas ligas vem feitas por natureza, e os oleiros se
-servem da argilla tal, qual a natureza lhas apresenta: da qui vem a
-differença da louça de diversas Provincias, como as gredas escuras de
-Normandia, as da Bretanha, que tiraõ sobre o azul, as de Beauvais, que
-saõ amarelladas, tirando hum pouco a roxo, as de S. Fargeau que saõ
-brancas, e finalmente nas de Flandres, que mais que todas, se chegaõ á
-natureza da porcelana.
-
-24 Do que acabamos de dizer, se vê que hum oleiro, quando julga ter
-adquirido os conhecimentos necessarios sobre a natureza do barro, de que
-se deve servir, naõ está ainda no ponto de poder fazer indagações; porque
-há barros, que, só podem admittir hum mediocre cozimento: outros, que
-saõ os melhores, requerem ser cosidos em hum grande fogo. Para adquirir
-estes conhecimentos, o oleiro deve fazer as primeiras fornadas com muita
-attençaõ, e examinar o estado das obras, para se conduzirem melhor nas
-fornadas seguintes. Mas quando o oleiro se estabelece em hum lugar,
-aonde se costuma trabalhar em certos barros, está dispensado de fazer
-as experiencias de que acabamos de fallar, aproveitando-se das que tem
-feito, os que usaõ de trabalhar nelles.
-
-25 Nas bordas do bosque de Orleans, ha hum lugar, que se chama _Nibelle_,
-onde ha muitos oleiros, que fazem vasos de huma argilla bem pura, que
-cozendo-se fica preta, e naõ podem ir ao fogo. Esta louça he de hum
-tecido muito fechado: e assim para os utensis de cozinha misturaõ hum
-barro branco, e magro com esta argilla; mas a agua trespassaria estas
-louças se naõ fossem envernizadas.
-
-26 O trabalho dos oleiros he pouco mais, ou menos, o mesmo em todas
-as Provincias, onde se trabalha em barro. E assim vou explicar com
-individuaçaõ a pratica dos oleiros de París, e quando houver occasiaõ
-farei notar em que elles differem de outras partes.
-
-
-
-
-ARTIGO I.
-
-_Trabalho da louça, segundo o uso de París._
-
-
-27 Os oleiros de París tiraõ o seu barro, de _Gentillis_, ou _Areueil_
-os que o cavaõ, seguindo as veias do barro bom, o tiraõ em pedaços quasi
-cubicos, e vai para casa dos oleiros em carros, como vem o cascalho, ou
-pedras.
-
-28 Quando os oleiros o recebem, lançaõ-no em covas, onde fica mais, ou
-menos tempo para _invernar ou apodrecer_, como se diz em outros lugares;
-de sorte, que o barro, que foi cavado no Outono, fica na cova todo o
-Inverno, e he tanto mais facil de trabalhar, quanto mais tempo está na
-cova. Em alguns lugares, os oleiros deixaõ ao ar o seu barro, e o movem
-com enxadas todo o Inverno, por este meio o fazem mais ductivel.
-
-29 Este he o mesmo barro que serve para fazer ladrilhos, e obras
-de louça. Com tudo elle he mais preto, ou mais branco, conforme a
-profundeza, de que foi tirado: há alguns, que vem misturados com estas
-duas côres, e este se julga hum pouco melhor que os outros, porém todos
-se gastaõ sem distincçaõ em louça, e em ladrilhos. Começo agora a
-explicar o que respeita aos ladrilhos.
-
-
-
-
-ARTIGO II.
-
-_Dos ladrilhos, e modo de amassar o barro, com que elles se fazem._
-
-
-30 Quando se tiraõ da cova pedaços grandes de barro, he preciso cortallos
-em pedaços, mais pequenos possiveis. Para isso se põe huma taboa _A_
-_fig. 1_, _est. I_, sobre huma celha: os oleiros chamaõ assim huma
-pequena celha _B_ sem fundo em huma ponta: lança-se nesta pequena celha
-seis baldes de agua com pouca differença, depois se põe hum bôlo de barro
-sobre a taboa _A_, que dissemos se punha sobre a ponta sem fundo da celha
-_B_. O oleiro corta em pequenos pedaços este bôlo de barro com huma faca
-de dous cabos _D_ _fig. 2_; e logo que vai cortando o barro o vai lançando
-na agua da celha; o barro, que se pôs de tarde a humedecer, na manhã
-seguinte está bem brando, para se poder trabalhar; porque bastaõ oito
-horas para ficar sufficiente para o trabalho, sendo pequenos os pedaços.
-
-31 As aparas das obras, que ainda naõ foraõ cozidas, se misturaõ com o
-barro novo; este barro das aparas, que já tem a liga da arêa, e já foi
-posto em camada amassado, e trabalhado, ajuda a trabalhar melhor o barro
-novo.
-
-32 O barro, de que usaõ os oleiros de París, ou venha de _Areueil_, ou
-_Gentillis_ he muito gordo, e por isso naõ póde servir sem liga: he
-preciso ligallo com arêa para diminuir-lhe a força, e fazello assim
-encolher menos. Talvez seria mais expediente, e mais economico trabalhar
-o barro com a máquina representada na arte de fazer os pitos; mas segundo
-o uso dos oleiros, se faz esta mistura amassando o barro com os pés. Para
-isto, os oleiros de París, costumaõ misturar duas celhas de barro novo,
-huma de aparas, se as há, e cinco cestos de arêa: diminuindo-se a arêa,
-ficaõ mais duros os ladrilhos; porém custaõ mais a trabalhar. Seja como
-for, os barros de _Belleville e Areueil_ ambos saõ bons, e finos, tem
-poucos seixos; sua côr tira a amarella.[8]
-
-33 Para fazer huma amassadura, se começa estendendo arêa sobre toda
-aquella porçaõ do pavimento, que occupará a camada; reserva-se só hum
-cesto para o que adiante diremos; esta arêa, que se precisa misturar com
-a argilla, tambem embaraça ao barro apegar-se. Tira-se das celhas o barro
-das aparas, que estava humedecendo, como o novo; estende-se sobre arêa
-em camada; porque como este barro he mais facil de amassar, que o novo,
-põe-se no lugar, em que o barro se naõ amassa tambem. As duas celhas de
-barro novo saõ distribuidas pela circunferencia, e por cima se lança hum
-bocado de arêa, da qual se reserva só meio cesto para o uso, que adiante
-se dirá.
-
-34 Tres celhas de barro bem pisado, bastaõ para fazer quinhentas telhas,
-e viriaõ a fazer dous mil ladrilhos pequenos. Estando o barro disposto,
-como já dissemos, o amassador descalço se chega ao monte de barro; a sua
-postura he, com a maõ esquerda firmada sobre o joelho esquerdo, e porque
-o barro escorrega, para naõ cahir, tem na maõ direita hum páo, em que se
-firma. Separando entaõ das bordas hum pouco de barro com o pé esquerdo
-o despega, e lança fóra do monte, dá hum pequeno passo adiante, e faz o
-mesmo; de sorte que andando em roda de todo o monte, e separando em cada
-passo quatro, ou cinco pollegadas de barro, ganha pouco a pouco o centro;
-onde fica pouco barro, porque elle tem separado para as bordas a maior
-parte. Como o do meio fica mais mal amassado, elle acaba de amassar, e
-separar o barro, que ahi fica; com hum ferro proprio corta em pedaços
-este barro, e o tira com as maõs com facilidade, porque se despega por
-causa da arêa, que estava por baixo, e o distribue por todo o monte.
-Depois de se ter tirado o barro, que está no meio da camada fica huma
-coroa de dous circulos concentricos; mas com a mesma peça de ferro corta
-as bordas da camada, e as lança no meio, depois amassa deste barro, como
-fez a primeira vez, e depois de acabar esta manobra, naõ tira mais o
-do meio: porêm depois de ter cortado o barro com a peça de ferro, elle
-o ajunta com a maõ, e o põe no meio; depois o amassa de novo terceira,
-e ultima vez, estendendo o barro mais do que nas camadas precedentes,
-para assim ficar mais delgado na camada. Feito isto, está amassado, e em
-termos de servir, como vamos explicar.
-
-35 Para apromptar assim tres pequenas celhas de barro, hum homem vigoroso
-precisa ao menos quatro horas: depois amontoa o barro; e entaõ está em
-termos de servir.
-
-36 Como he de muita importancia para a louça o distribuir-se igualmente
-por toda a massa, o barro, que se mistura hum com o outro, ou a argilla
-com a arêa, e que as differentes misturas façaõ hum todo uniforme, os
-oleiros, para se certificarem disto, cortaõ o barro com hum arame de
-lataõ, e examinaõ se a côr está uniforme em toda a extensaõ do golpe, e
-se ha lugares mais brilhantes, que outros. A uniformidade próva que os
-differentes barros estaõ bem misturados, e que o todo está bem amassado:
-nos lugares brilhantes está a argilla mais pura.
-
-
-_Como se moldaõ os ladrilhos._
-
-37 Os ladrilhos se poderiaõ moldar, como dissemos na arte de fazer
-tijollos, do mesmo modo que a telha, e o tijollo. Os telheiros naõ fazem
-de outro modo os tijollos, ou chamados ladrilhos de telha, para os
-distinguir dos ladrilhos de louça, que saõ muito melhores, e trabalhados
-mais propriamente do que os de telha, ou tijollos. Os oleiros daõ a
-figura quadrada em hum molde de páo aos tijollos, ou ladrilhos que
-chamaõ de fornalha. Elles tambem fazem em hum molde inferior _fig. 3_,
-os ladrilhos para os celleiros, ou quartos, que requerem pouca attençaõ;
-elles naõ os aperfeiçoaõ, nem aparaõ como aquelles, que se destinaõ
-para sallas, e quartos acceados; mas por este methodo a superficie dos
-ladrilhos, naõ he bem dirigida, os angulos muitas vezes ficaõ rombos, e o
-barro naõ fica suficientemente comprimido: por isto he que nos ladrilhos
-de salla, os oleiros se aperfeiçoaõ mais.
-
-38 He verdade, que elles começaõ mettendo o barro em hum molde, segundo o
-tamanho, que devem ter os ladrilhos para as peças de barro, que chamaõ
-de culumnas: mas depois que o barro está meio secco, elles o batem, e
-comprimem muito. Deste modo perdem os ladrilhos a figura regular, que o
-molde lhe tinha dado, e isto os obriga a cortar por hum calibre de ferro,
-que os oleiros chamaõ molde: este calibre, ou padraõ de ferro he cortado
-regularmente, segundo o tamanho, e figura, que se quer dar aos ladrilhos.
-Tudo isto se fará claro pelas indagações, em que vamos entrar; mas convém
-fazer antes notar, que supposto se possaõ fazer ladrilhos triangulares,
-quadrangulares com dous cantos obtusos, quadrados, longos, etc. Naõ se
-fazem senaõ quadrados, ou de seis panos _fig. 3_, e tambem alguns meios
-tijollos para os socalcos das fornalhas, dos muros, ou outras cousas.
-Estas duas qualidades tem a vantagem, que os ladrilhos de hum mesmo
-tamanho se unem exactamente huns aos outros sem deixar vacuo entre elles;
-se fossem de cinco faces ficaria entre elles vacuo, que seria preciso
-encher; e aliás sendo os angulos, agudos, com facilidade se quebrariaõ.
-
-39 Sendo outogonos, ou de oito faces, necessariamente entre quatro
-ladrilhos, fica hum espaço quadrado, que he preciso encher com hum
-ladrilho pequeno. Só se fazem estes ladrilhos de oito faces, quando o
-ladrilho pequeno he de côr differente dos grandes; taes saõ os ladrilhos
-pretos, e brancos, que fazem os que trabalhaõ em marmore. Tambem vi em
-algumas Provincias ladrilhos, que sendo cobertos de verniz de differentes
-côres, formavaõ huma boa vista. Variando a figura dos ladrilhos, e a côr
-pelo verniz, e tambem a sua posiçaõ, se podem fazer muitos repartimentos
-simetricos: disto fallarei adiante; porém, como os ladrilhos de qualquer
-figura se fazem do mesmo modo, vou explicar com individuaçaõ, como os
-oleiros fazem os ladrilhos hexagonos ou de seis faces.
-
-40 O oleiro começa fazendo no molde hum grande ladrilho quadrado. Este
-molde he hum caixilho de páo que faz os ladrilhos mais grossos do que
-devem ser; naõ só por que diminuem, quando seccaõ, mas tambem, porque
-ficaõ mais delgados quando se batem.
-
-41 Para moldar os tijollos, tem o oleiro huma taboa grossa _a b_, _est.
-I_, _fig. 4_, que está posta sobre cavalletes fortes, e põe no meio desta
-taboa huma pedra dura e unida, ou hum pedaço de páo _g_, de tres ou
-quatro pollegadas de grosso, que tem differentes nomes; em alguns lugares
-se chama _urquain_ na ponta deste pedaço de páo _dd_ está posto hum vaso
-cheio de agua _ee_, e sobre o vaso hum instrumento de páo que chamaõ
-plaina _ff_ e por diante está o caixilho, ou molde _gg_. Alguns põe da
-parte esquerda do moldador hum bôlo de barro _h_, destinado para encher o
-molde: tambem se põe ahi o barro, que se tira com a plaina _ff_. Outros
-tiraõ só a quantidade, que caressem, de hum monte de barro _H_, que está
-sobre o soalho, perto delles. Á direita do moldador está hum monte de
-arêa _i_, e se deve ter sobre a meza hum lugar _k_, para se porem as
-obras já moldadas.
-
-42 O moldador posto adiante da mesa, toma com a maõ esquerda hum bocado
-de arêa, e a espalha sobre a mesa, ou sobre o pedaço de páo _g_ _fig. 4_,
-põe por cima o molde tambem esfregado na arêa; depois o enche de barro
-comprimindo o com as maõs o mais que póde; porque este barro deve ser
-mais duro, do que se servem os telheiros. Depois de estar o molde bem
-cheio por todas as partes, o moldador toma a plaina _ff_ _fig. 4_;
-molha-a na agua, e pegando nella com ambas as maõs, a passa fortemente
-por cima do molde, para tirar todo o barro, que excede á grossura, que
-deve ter; depois pegando no molde por hum dos cantos o puxa para si, e
-mette a maõ esquerda por baixo da peça, para a soster a põe sobre as
-outras _k_ _fig. 4_, e como este barro he amassado duro, se póde passar
-de hum lugar para outro em as maõs sem ficar com defeito. A pouca arêa,
-que fica por baixo da peça, basta para naõ a deixar pegar na outra sobre
-que se põe.
-
-43 Depois de terem endurecido alguma cousa as peças, ou ladrilhos, que
-se tem tirado do molde se lançaõ em huma especie de taboletas feitas
-de varas á maneira de caniços, para o ar lhe dar de todas as partes; e
-seccallas por cima se põe huma coberta de taboas para a chuva os naõ
-molhar.
-
-44 Quando estaõ já meios seccos se viraõ debaixo para cima para seccar a
-parte, que fica por baixo a polla no mesmo gráo de seccura, que a de cima.
-
-45 Em quanto estes ladrilhos estaõ ainda flexiveis se põe sobre hum
-banco forte huns sobre os outros, e se batem com a parte chata do masso.
-Depois de batidos assim os ladrilhos, se tornaõ a pôr sobre as varas,
-aonde ficaõ mais ou menos tempo, conforme o calor do ar. Logo que o
-oleiro os julga sufficientemente seccos, os tira das varas, mas como
-o exterior sempre está mais secco que o interior, quebrar-se-hiaõ,
-se acaso se tornassem a bater neste estado. Previne-se este accidente
-pondo-os em pilha, huns sobre outros cinco ou seis dias, para amolecer
-as superficies, que estavaõ seccas; estas pilhas se fazem em hum quarto
-baixo, e alguma cousa humido. Além de que o ar humido deste lugar
-abranda a superficie das obras feitas, e a humidade do seu interior se
-communica á superficie, que já estava bem secca. Quando se achaõ já
-bem flexiveis se tiraõ da pilha, e se tornaõ a bater com mais força do
-que antes no mesmo banco, e logo se cortaõ por medida certa em quatro
-partes; depois se põe em pilhas de vinte cada huma junto a huma parede,
-defendidos da chuva por huma coberta: quando o barro está já hum pouco
-secco, se põe na ponta de hum banco pilhas destes ladrilhos, hum obreiro
-posto a cavallo no banco, pega em hum molde de ferro _est. I_, _fig.
-5_, da grossura de cinco linhas, que está talhado em faces precisamente
-do tamanho e da figura, que os ladrilhos devem ter, e com hum cutello
-curvo _fig. 6_, corta tudo o que excede a peça de ferro, que os oleiros
-chamaõ _molde_.[9] Hum bom obreiro póde aparar 1800 ladrilhos por dia.
-As aparas cahem em hum peneiro, onde se conservaõ para as misturar com o
-barro novo, quando se fizer nova amassadura. Quando sahem os ladrilhos da
-maõ do aparador, vaõ já em figura de ir para o forno, logo que estiverem
-bem seccos.
-
-46 Seria impossivel fazer o primeiro molde tamanho, que depois désse
-quatro ladrilhos grandes; estes assim se moldaõ em huma fôrma maior cada
-hum separado, como se fazem os tijollos de fornalhas; com a differença
-porém de que os tijollos de fornalha, naõ se batem, nem se aparaõ; e os
-ladrilhos grandes, que se fazem com aceio saõ batidos, e aparados por
-moldes, como os pequenos.
-
-47 Os ladrilhos feitos como acabamos de explicar, carecem estar bem
-seccos para irem para o forno: porém naõ se expõe ao Sol, mas sim em
-parte onde lhe dê o vento, ou em lugar aonde chegue o calor do forno.
-
-48 Quando os ladrilhos estaõ de todo seccos, resta cozellos, o que se faz
-como vamos a explicar.
-
-
-_Do forno[10], e do modo de arranjar nelle os ladrilhos para se cozerem._
-
-49 Na arte de telheiro, e de fazer tijollos se vem os fornos, de que se
-servem alguns oleiros para cozer os ladrilhos: onde se póde consultar o
-que nos dissemos a este respeito, aqui trataremos só, de duas qualidades
-de fornos, de que se serve a maior parte dos oleiros de París naõ sómente
-para coser seus ladrilhos, mas tambem toda a qualidade de louças: depois
-fallarei dos fornos, de que se servem os oleiros dos arrebaldes de _Saint
-Antoine_ para cozer suas obras: e por hora fallarei só dos fornos, que
-estaõ mais em uso nos arrabaldes de _S. Marceau_; elles vem representados
-na _est. I_, _fig. 7_, _8_, _9_. A _fig. 7_ representa o plano do forno;
-a _fig. 8_ he a divisaõ deste mesmo forno no comprimento pela linha _A_,
-_C_; e a _fig._ 9 he huma divisaõ transversal pela linha _G_, _H_, da
-_fig. 7_: _A_ he a boca do forno, ou entrada da fornalha; na qual se
-põe madeira para esquentar o forno, como se vê de _A_, até _B_, _fig.
-7_, e _8_; de _B_, até _C_, he a capacidade interior do forno, aonde se
-arranjaõ os ladrilhos, ou a louça, que se quer cozer; _C_, _D_, _fig. 8_,
-he hum tubo da chaminé por onde sahe a fumaça. Como a communicaçaõ do
-interior do forno com este tubo, para descarga da fumaça, he por baixo
-perto do pavimento do forno em _C_, he preciso, que a corrente de ar,
-que entra pela boca _A_, passe ao tubo _D_, pelos buracos _C_. Deste
-modo, tendo seguido a curvatura da abobada, até perto de _M_, _fig. 8_;
-o ar quente desce ao longo das paredes do tubo da chaminé, que se chama
-_Lingueta_,[11] para ganhar os buracos, que estaõ em _C_, e tornar ao
-tubo _C_, _D_. Por esta construcçaõ, que he bem entendida, o calor se
-distribue muito bem por todo o comprimento do forno: mas, como he mais
-estreito na sua entrada _K_, _I_, _fig. 7_, do que no fundo, os lados em
-_G_, _H_ naõ recebem tanto calor, como no meio; mas isto se remedeia;
-arrumando lenha nos dous lados, como se vê na _fig. 7_, e como adiante
-explicaremos. _F_, _fig. 7_, he huma porta, por onde se entra no forno
-para o encher; depois do forno cheio, se tapa com hum muro de tijollos, e
-se accende o fogo.
-
-50 Antes de metter no forno alguma louça se levanta, com tijollos em
-_I_, _H_, até a abobada, huma separaçaõ que tem aberturas, pois se deixa
-entervallos entre os tijollos, ou como dizem os obreiros _crenaux_[12],
-para que o calor do fornete _A B_. se communique o forno. Esta separaçaõ,
-recebendo a mais viva acçaõ do fogo, chama-se _la fausse-tire_, a qual
-se naõ desmancha em cáda huma fornada, pelo contrario se repara para que
-dure o mais que for possivel.
-
-51 Como a parte de diante do forno está tapada em _I_, _K_, pela
-_fausse-tire_[13] he preciso carregallo pela abertura _F_, e começa-se,
-formando as tres primeiras ordens da parte da _fausse-tire_, para isto
-se desmancha huma ordem de tijollos de fornalha, que se põe de parte,
-como se vê em a _fig. 8_, entre as quaes se deixa huma aberta de quatro
-pollegadas e meia, e se dispõe estas abertas para estabellecer debaixo
-da fornalha huma corrente de ar quente, de modo, que pela subtileza do
-ar esquentado, suba sempre melhor á abobada. Sobre estes tijollos se
-arranjaõ as pilhas de ladrilhos, que se põe deitados, como se vê na _fig.
-7_, de modo, que hajaõ dous dedos de distancia de hum ao outro ladrilho,
-e que o meio do ladrilho da ordem superior corresponda ao vácuo dos
-ladrilhos da ordem inferior.
-
-52 Depois de se terem levantado até á abobeda quatro pilhas de tijollos
-ordinarios, se põe achas de lenha entre as paredes do forno, e as pilhas
-de tijollos: depois se arranjaõ sobre o pavimento do forno, os tijollos
-de fornalha, e por cima as pilhas de ladrilhos de Sala; acamaõ-se nos
-lados as achas de lenha, como se vê _fig. 7_, e além de huma ordem de
-achas em pé, que atravessaõ o forno, como se vê _fig. 7_, segundo a linha
-de _G_, e _H_, e se continua a encher o forno pondo por baixo os tijollos
-de fornalha, e por cima os ladrilhos. Depois de se terem formado duas,
-ou tres pilhas, se põe achas de lenha entre as pilhas de tijollo, e as
-paredes do forno, além disto se põe huma ordem de achas sobre a parede
-do fundo do forno, que se chama _Lingueta_. Quando as achas de lenha,
-que se põe de pé naõ tem o comprimento sufficiente para tocar na abobeda
-do forno por naõ perder lugar, se põe por cima ladrilhos de sala dos
-maiores. Continua-se, como temos explicado, até chegar á abertura _F_,
-_fig. 10_; para formar as ultimas ordens se põe sempre tijollos de
-fornalha: as pilhas de ladrilho ordinario, e as achas, como já dissemos;
-porém por naõ fechar a entrada _F_, se começa, enchendo primeiro o lado
-opposto á abertura, e se acaba por esta mesma abertura _L_, que se fecha
-por huma parede de tijollos, como já dissemos.
-
-53 Em hum forno semelhante ao que se representa, que tem dez pés de _K_,
-a _L_, e sete de _K_, a _I_, para cozer os ladrilhos se gasta carga,
-e meia de madeira tanto para arranjar entre os ladrilhos como para a
-tempêra[14], e huma camada de lenha rachada para queimar na fornalha
-_A_, _B_, e fazer o cozimento da louça; a isto chamaõ os oleiros _la
-chasse_.[15]
-
-54 Os que se lembrarem, do que dissemos na arte de telheiro, veraõ que he
-preciso primeiro esquentar o forno com hum pequeno fogo de páos grossos,
-que façaõ mais fumo, do que chamma. Por mais secco que pareça o barro, he
-preciso lançar fóra ainda muita humidade no forno: se esta dissipaçaõ se
-apressar, o barro se quebrará, indo porém de vagar, dissipa-se a humidade
-sem fazer estrago. Este pequeno fogo, he que os oleiros chamaõ humedecer,
-talvez porque a louça com este pequeno calor se faz humida.
-
-55 Accende-se hum pequeno fogo de páos grossos na boca da fornalha entre
-_A_, e _B_, _fig. 7_, e _8_; isto se continúa trinta e seis horas, para
-que as obras se esquentem pouco a pouco, e percaõ a humidade, que lhe
-resta, ainda que os tijollos pareçaõ bem seccos quando se mettem no
-forno. Nas doze ultimas horas augmenta-se hum pouco o fogo, e depois
-se faz no mesmo lugar hum grande fogo de lavareda com lenha secca,
-e se continúa por sete, ou oito horas, os páos que se metteraõ pelos
-lados, e entre as pilhas dos ladrilhos, se queimaõ tambem e contribuem
-para ficarem perfeitamente cozidos. Finalmente naõ se põe mais lenha na
-fornalha, e se lhe tapa a boca com huma chapa de ferro, para ir esfriando
-pouco a pouco, passados 7 ou 8 dias, se tira a louça do forno.
-
-
-
-
-ARTIGO III.
-
-_Das obras de ladrilho._
-
-
-56 Como em París as obras de ladrilhos fazem parte do officio de Oleiro,
-he preciso fallar aqui dellas.
-
-57 Nos lugares aonde ha gesso, todas as obras de ladrilho se fazem com
-elle; mas aonde o naõ ha, se ladrilha com argamaça de cal, e arêa,
-betume, ou algumas vezes com huma mistura de argamaça, e gesso; naõ fallo
-aqui de hum máo modo de ladrilhar, de que usaõ os paisanos, assentando
-os ladrilhos sobre a argilla bem amassados com bastante arêa, para naõ
-encolher tanto o barro.
-
-58 Quando se tem de ladrilhar com argamassa, he preciso embeber bem de
-agua o ladrilho logo ao sahir do forno: sem esta precauçaõ o ladrilho
-atrahe a agua da argamaça, e em lugar de tomar corpo se descompõe, e se
-torna quasi em arêa pura.
-
-59 Como a argamaça se pega menos ao barro do que o gesso, alguns mandaõ
-fazer por baixo do ladrilho, regos, ou buracos com hum pedaço de páo, que
-se mette por baixo do ladrilho depois de o bater, porém isto naõ está em
-uso.
-
-60 Em París todas as obras de ladrilho se fazem com gesso; mas, como o
-gesso vivo incha muito, quando se usa delle puro, por isso vem estas
-obras a ficar com defeito. Póde-se prevenir este inconveniente, ou
-misturando o gesso hum pouco molle com cal, ou ladrilhando por camadas,
-e naõ pôr outra em quanto naõ séca a primeira; ao menos se deve evitar
-pôr o ladrilho encostado á parede de encontro, e se deverá deixar
-alguns pés em roda sem ladrilhar até o gesso dos ladrilhos do meio, ter
-acabado de inchar; há bons ladrilhadores, que tendo precauçaõ, chegaõ a
-ladrilhar com gesso só, e a sua obra he melhor; mas pela a maior parte os
-ladrilhadores misturaõ o pó de carvaõ peneirado com o gesso, para elle
-naõ inchar tanto; quanto mais pó lhe ajuntaõ, menos temem, que lhe inche
-o gesso; e assim ladrilhaõ com mais facilidade; porque o gesso assim naõ
-pega com tanta promptidaõ, e elles naõ gastaõ tanto; e isto he utilidade
-sua, porque elles mesmos daõ o gesso. Por todos estes motivos ajuntaõ
-elles tanto pó de carvaõ ao gesso, que elle naõ toma corpo, e quasi naõ
-se péga ao ladrilho; ao contrario porém o gesso puro se péga tanto ao
-barro cozido, que se naõ podem separar dous ladrilhos, estando unidos hum
-ao outro com gesso. Seria melhor em lugar do pó de carvaõ misturar arêa
-boa, que faz corpo com o gesso, e tambem o naõ deixa inchar tanto, como
-se fôra o gesso vivo.
-
-61 Eu vi hum bom ladrilhador, que em lugar do pó de carvaõ ajuntava
-ao gesso ferrugem de chaminé; esta mistura naõ deixa o gesso prender
-com tanta promptidaõ, e assim tinha elle tempo de assentar melhor os
-ladrilhos. Disse-me elle que este gesso assim naõ inchava tanto, e me
-pareceo, que estes ficava muito duro, e muito adherente aos ladrilhos;
-e por isso penso, que se deve adoptar este methodo, aonde ha gesso, e
-ferrugem com facilidade.
-
-62 Quando o gesso he raro, e a ferrugem difficil, se póde segurar bem
-o ladrilho com huma mistura de gesso, e argamaça de cal, e arêa, ou
-betume. Esta especie de argamaça bastarda, que os nossos obreiros chamaõ
-_gâchis_,[16] incha pouco; com o tempo se torna muito dura; e como se
-demora em inchar, póde o ladrilhador com facilidade assentar os seus
-ladrilhos.
-
-63 Em París os pedreiros saõ os que fazem o lugar em que se devem
-assentar os ladrilhos; mas nas Provincias os ladrilhadores, põe ao nivel,
-e apromptaõ o pavimento, e lugar em que haõ-de assentar os ladrilhos, ou
-tijollos, elles o fazem ordinariamente espalhando carvaõ moido na parte,
-e depois assentaõ em cima huma regua com hum nivel. Logo que o lugar está
-prompto lançaõ por cima do pó huma agua de gesso muito clara, para lhe
-dar alguma consistencia.
-
-64 Os ladrilhos ficaõ mais seguros, quando se assentaõ sobre o gesso
-puro, ou simplesmente misturado com huma pouca de arêa boa; mas deve-se
-assentar o ladrilho depois do lugar estar secco, e o gesso ter acabado
-o seu effeito, hum assento da argamaça de cal, e arêa tambem he bom; e o
-peior modo, he o de assentar o ladrilho sobre o pó de carvaõ puro, que
-sendo comprimido, se abate, e se desordena com facilidade; por naõ poder
-dar hum assento sólido ao ladrilho, ou tijollo.
-
-65 Em algumas Provincias se prepara o pavimento com tufo branco, que se
-passa por grades, ou canissos, humedece-se hum pouco; para que sendo
-batido tome alguma firmeza.
-
-66 Em outro tempo se carregavaõ muito os pavimentos; porém agora, como
-os carpinteiros põe a madeira bem desempenada, e igual na grossura;
-recommenda-se aos ladrilhadores, que naõ ponhaõ muita carga por naõ pezar
-sobre as vigas.
-
-67 Quando os quartos ou celleiros, que se querem ladrilhar tem o assento
-preparado, o ladrilhador estende huma corda por todo o comprimento da
-peça, e põe por cima do gesso, ou argamaça, huma ordem de tijollos,
-examinando sempre se vai direita, e ao nivel, porque esta primeira ordem
-he a que regula as outras; pois, sendo todos os ladrilhos, ou tijollos
-feitos exactamente do mesmo tamanho, formáraõ ordens iguaes, e bem
-direitas, se o ladrilhador os põe de modo, que naõ haja junta. Com tudo
-se por defeito do oleiro, ou do ladrilhador ficarem as ordens alguma
-cousa curvas, se remediará esta falta, deixando huma junta, ou emenda
-na curvatura. Isto sempre he hum defeito, mas pouco sensivel, quando a
-curvatura he pouco consideravel, e que se indereita pouco a pouco. Como
-esta primeira ordem, ou fileira deve dirigir todas as mais, logo que
-estiver bem assentada, se deve recommendar o naõ andar sobre ella pela
-naõ desordenar. Põe-se depois as outras fileiras, de sorte que hum dos
-angulos que falta no tijollo, que se põe se assenta no angulo, que entra
-dos tijollos, que estaõ postos na fileira, deste modo vem a formar linhas
-obliquas.
-
-68 Os ladrilhadores conservaõ o nivel em toda a extensaõ do pavimento
-por hum modo bem simples, e expediente; põe hum bocado de gesso, ou
-argamaça no lado dos ladrilhos, já postos, tendo o cuidado, de que fique
-a argamassa de huma grossura igual; se usaõ do gesso põe só em huma
-extensaõ, que occupe oito tijollos ou ladrilhos, para terem tempo de os
-pôr em seu lugar antes do gesso, indurecer muito: assentaõ, por cima dos
-ladrilhos postos, huma régua de páo de duas pollegadas de grosso e tres
-e meia de largo, e lhe batem fortemente. Levantaõ com a maõ esquerda esta
-régua, e batem sobre os ladrilhos até ella assentar igualmente sobre
-todos. Fica evidente, que os postos por ultimo estaõ ao nivel depois da
-régua assentar em todos igualmente; o que se faz com facilidade pelas
-pancadas fortes, que fazem enterrar os tijollos pelo gesso, ou argamaça.
-Se alguns fogem da direcçaõ, se abatem muito por falta do gesso, o
-ladrilhador os levanta com a colher; tira o gesso que estava por baixo, e
-põe outro tijollo, que fique sem defeito. Finalmente, tendo acertado os
-ladrilhos, rapa com o corte da colher o gesso, ou argamaça, que sobra por
-cima delles, e põe outra vez ao lado dos tijollos hum bocado, como acima
-se disse em extensaõ que occupe só 7, ou 8, tijollos, que põe de novo, e
-assim segue até acabar. Indo a encontrar na parede, póde entaõ misturar
-carvaõ em pó com o gesso, para que elle naõ inche; porque aqui naõ estaõ
-sujeitos a sahirem do seu lugar como no meio.
-
-69 Os ladrilhadores enchem as juntas, que ficaõ entre os ladrilhos,
-postos algumas vezes com gesso misturado com argamaça de cal bem dura,
-que lançaõ com força entre as juntas que ficaõ; outros lançaõ sobre os
-ladrilhos agua com gesso muito liquida. Tira-se o gesso, ou argamaça que
-se acha por cima dos ladrilhos, esfregando-os com arêa, ou com palhas,
-e depois de bem limpos se pintaõ com oleo, põe-se-lhe cêra, e esfregaõ.
-Os tijollos de ladrilhar, como se gastaõ, e ficaõ com covas pelo lugar,
-por onde se anda, e mesmo ao varrer por serem as vassouras commumente de
-alamo por evitar estes inconvinientes, untaõ com sangue de boi, que lhe
-dá huma sólidez muito duravel. Em algumas provincias se envernizaõ os
-ladrilhos, como a louça, formaõ divisões bem agradaveis, que variaõ por
-muitos modos.[17]
-
-
-
-
-ARTIGO IV.
-
-_Modo de fazer os differentes vasos, e utensis de casa com o mesmo barro,
-que serve para fazer os ladrilhos._
-
-
-70 Os oleiros de París para fazerem differentes obras se servem do mesmo
-barro dos ladrilhos; só daõ a preferencia a certas veias onde a argilla
-he mais branca tirando hum pouco sobre o vermelho a qual os oleiros
-chamaõ bom barro; tira-se de _Arcueil_, e de _Vanvres_, como para o
-ladrilho; ligaõ-na com a mesma arêa, e na mesma quantidade, que para os
-ladrilhos. Como se amassa com mais cuidado, naõ se póde pôr a amassar
-mais de huma celha, ou quando muito duas de barro por cada vez.
-
-71 Alguns oleiros, depois do barro amassado, lançaõ hum torraõ sobre
-huma mesa grossa, e o batem com hum maço de ferro, como se faz no
-barro de pitos, e esta operaçaõ he muito boa; porém ainda que elle
-tenha sido amassado, e batido, he preciso repassallo pelas maõs para
-lançar fóra algumas pyrites, e pedras, que possa ter ao que chamaõ
-_voguer_.[18] Para este fim amassaõ o barro sobre a mesa de moldar, como
-fazendo huma pasta; elles ajuntaõ depois hum torraõ grande, e passando
-alternativamente a palma da maõ sobre este barro, tiraõ de cada vez huma
-camada bem delgada; e assim com facilidade encontraõ os corpos estranhos,
-e os lançaõ fóra. Depois de terem assim passado outro tanto, como o
-volume de huma libra de manteiga, amassaõ este torraõ que daõ a figura
-de hum cylindro, dividem-no em dous, e tendo huma ametade em cada maõ,
-as unem batendo com força huma contra a outra; depois o tornaõ a amassar
-de novo, e repetem esta manobra muitas vezes, e vaõ sempre lançando fóra
-os corpos estranhos que encontraõ, e acabaõ fazendo torrões de barro
-maiores, ou menores, segundo o tamanho dos vasos, que elles se propõe
-fazer. Os oleiros tem differentes modos de vogar o barro: porém todos
-consistem, em trabalhar muito o barro para o amassar bem, e separar-lhe
-todos os corpos estranhos, que nelle se acharem; porque para as obras que
-elles saõ obrigados a dar baratas, naõ podem fazer as despezas de lavar
-seus barros, e de os passar pela peneira (ou por hum crivo feito de arame
-de lataõ fino) como fazem os que trabalhaõ em louça fina. A operaçaõ de
-vogar he trabalhosa; porque para a maior parte dos utensis, que fazem
-os oleiros, se deve amassar o barro muito mais duro do que para os
-ladrilhos, principalmente havendo se de fazer vasos grandes, porque naõ
-se poderiaõ suster; e o barro voga-se com muito mais cuidado para humas
-obras do que para outras.
-
-72 Das obras de oleiro, humas se fazem inteiramente á maõ, como as
-caldeirinhas quadradas _F_, _fig. 10_ _est. I_, outras só se fazem na
-roda, como os vasos de flores, as tijellas, e alguidares _K_, _fig. 11_,
-que naõ tem azas, outras se fazem parte na roda, e parte a maõ, como os
-vasos de tres pés, as marmitas _fig. 12_, os escalfadores _fig. 13_, as
-caçarolas _fig. 14_, o corpo das quaes se faz na roda, e os pés, azas, e
-orelhas se põe de fóra á maõ.
-
-73 Agora começo a dizer alguma cousa sobre o trabalho da roda, ou torno;
-tambem explicarei como se acommodaõ nella differentes peças; depois darei
-alguns exemplos das obras, que se fazem inteiramente á maõ.
-
-
-_Do modo de fazer os vasos na roda._
-
-74 Ha duas especies de rodas: huma he de ferro, e esta he verdadeiramente
-a roda de oleiros; e outra he de páo e se chama o _torno_. Quasi todos os
-oleiros de París se servem dellas; porém adoptaraõ a dos oleiros de louça
-fina vidrada.
-
-75 Descripçaõ da roda de ferro _aa_ _Est. I_, _fig. 5_, he o meio da
-roda, que tem a pequena roda _bb_, em alguns lugares se chama _gimble_,
-sobre o qual está a obra _cc_, em que se trabalha. No meio _aa_, se
-ajuntaõ os raios da roda _dd_, que saõ de ferro. Nesta figura só se
-vem dous; porém a roda tem seis, como se vê na figura 16. Estes raios
-vem dar em hum circulo de ferro, ou ambos, cuja grossura só se vê aqui
-representada pela linha _ee_; o meio _aa_, diminue de grossura em _ff_,
-e ainda mais em _gg_, esta parte, que he cylindrica, e pontuada na
-figura, he recebida por hum buraco em hum grosso pedaço de páo _g_, que
-fica bem seguro por huma cruz de páo _hh_, e pelas prisões _ii_. Em
-primeiro lugar he preciso conceber, que o meio _aa_, a parte _ff_, e o
-cylindro pontuado _g_, saõ tomadas em hum mesmo pedaço de páo; em segundo
-lugar que a parte cylindrica pontuada he recebida em hum buraco fundo,
-que está no centro do pedaço de páo _g_, no qual póde virar; que este
-cylindro pontuado, que tem a parte _ff_ assim como este que nos temos
-chamado o _meio aa_, por cima do qual está a pequena roda _bb_, sobre a
-qual está a obra _cc_. Aqui se vê, que os raios _dd_, saõ obliquos, de
-sorte que por suas revoluções, formaõ hum conico cortado em _aa_; _K_
-saõ as pequenas mesas, que estaõ em roda do obreiro, em que elle põe as
-bolas de barro, de que vai fazer as obras, e as mesmas obras depois de
-feitas, huma gamela com agua, hum calibre de ferro ordinariamente, a que
-chamaõ _atelle L_, he huma taboa inclinada sobre a qual se assenta o
-obreiro. Tudo isto se tornará mais claro lançando os olhos sobre o plano
-perspectivo _fig. 17_.
-
-76 _A_ he o meio da roda: _b_ a pequena roda, que sustenta em si a obra
-_c_, na qual se trabalha: _d_, os raios da roda _ee_, cambas da roda: _f_
-a parte cylindrica do meio, por baixo do qual fica a que está pontuada na
-_fig. 1_, perto de _g_: _h_ a taboa que esta segura aqui por huma massa
-de gesso: _k_ as mesas pequenas, sobre que se põe a obra logo depois de
-feita: _l_, a taboa inclinada, em que se assenta o obreiro: _m_, taboas
-grossas inclinadas, que tem entalhes profundos, em que os obreiros põe
-os pés como se vê _fig. 16_, e _17_; estas especies de assento para os
-pés se chamaõ _poiaes_: _n_ saõ as obras já acabadas: _o_, bôlos de barro
-para fazer outras obras: _p_, os pilares, ou pés direitos, que sustém as
-mesas _k_, _l_.
-
-77 A figura 16 representa a mesma maquina vista em plano, e virada para
-se poder ver a roda por baixo: _g_, a parte cylindrica, que entra em hum
-buraco fundo feito na peça _g_: _f_, parte cylindrica mais grossa; _aa_,
-o meio da roda aonde se ajuntaõ os raios _d_: _ee_, a camba: _p_ saõ os
-encaixes destinados para receber os pés direitos que sustem as mesas _k_,
-e o assento _l_: _m_, lugar de pôr os pés.
-
-78 Nos campos muitas vezes he de páo, tudo o que aqui se representa de
-ferro; neste caso a camba da roda he muito grossa: para que com o seu
-peso conserve por mais tempo o movimento, que o oleiro lhe imprime. Como
-ellas saõ menos perfeitas que as de ferro, escuso entrar em individuações
-a seu respeito.
-
-79 Para se trabalhar sobre esta roda, he preciso imprimir-lhe hum
-movimento circular rapido, com hum páo _a_, _est. II_, _fig. 4_, que se
-chama virador. Vê-se nesta _fig. 4_, hum obreiro disposto para pôr a roda
-em movimento; está sentado no assento _l_, os pés estaõ nos entalhes dos
-lugares de ter os pés _m_; e com huma ponta do virador _a_, toca em hum
-raio de roda para a fazer andar, e imprimir-lhe hum movimento circular,
-que ella conserva bem tempo para o obreiro, _fig. 5_, poder formar hum
-vaso.
-
-
-_Do torno, ou roda, que os oleiros de obra grossa tomáraõ dos de obra
-fina._
-
-80 Esta roda _a_, _fig. 18_, _est. I_, he de páo, e tem de grosso tres ou
-quatro pollegadas, para que o maior peso lhe faça conservar o movimento
-mais tempo; ella he atravessada por hum eixo de páo, ou de ferro _b_,
-que finda por baixo da roda em hum mancal: este eixo passa ao nivel da
-mesa por hum colar, e tem na sua extremidade superior huma roda pequena
-_c_, sobre a qual está a obra _d_; o obreiro _h_, estando assentado
-hum pouco obliquamente sobre a taboa inclinada _i_, tem muitas vezes
-as pernas ambas do mesmo lado de sorte, que o eixo _b_, lhe passa por
-detraz da perna esquerda; muitas vezes tem as pernas abertas, e o eixo
-lhe passa pelo meio, estando os pés apoiados, e o esquerdo fica na
-travessa _g_, da mesa: _f_, he huma gamella com agua: tendo o obreiro o
-pé esquerdo sobre a travessa _g_, apoia o pé direito ligeiramente sobre,
-a roda e empurrando-a para diante lhe imprime hum movimento circular,
-que se communica a roda pequena _c_, sobre a qual está a obra _d_. Como
-esta roda naõ vira taõ veloz, quanto a de ferro, o obreiro póde formar
-a sua obra com mais regularidade, e póde accelerar-lhe o movimento, ou
-retardarllo conforme lhe parecer, e paralla mesmo quando quer: o que se
-naõ póde fazer com a roda de ferro.
-
-81 Quando o obreiro tem as pernas ambas do mesmo lado, se tem a direita
-cançada, póde tocar a roda com o pé esquerdo: algumas vezes para tocar a
-roda mais ligeira se vale de ambos os pés para a tocar.
-
-82 Ha alguns oleiros Alemães, que tendo o eixo _b_, entre as pernas, se
-servem de ambos os pés; mas he preciso entaõ, que o pé direito toque a
-roda para diante, e com o esquerdo a puxe para si: com o uso se vem a
-facilitar este movimento dos pés em sentidos contrarios.
-
-83 A roda de ferro he commoda para fazer obras, que naõ requerem muita
-regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime o movimento com o virador,
-ella vira com muita ligeireza, e seu movimento se enfraquece pouco a
-pouco, e isto he muito vantajoso; porque, quando se começa huma peça a
-roda naõ póde virar muito ligeira, mas para a acabar, carece mesmo de
-virar devagar: algumas vezes perde ella o seu movimento antes da peça,
-estar acabada, e entaõ precisa o oleiro com o virador tornar-lhe a dar
-novo movimento.
-
-84 Como com a roda de páo está o oleiro senhor de augmentar, ou diminuir
-o seu movimento, e ainda de interromper, fica esta mais commoda para
-obras finas, e que requerem mais exacçaõ; e ao presente os oleiros de
-París já naõ fazem uso da roda de ferro.
-
-
-_Trabalho do Oleiro sobre a roda._
-
-85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ só por se naõ pegar o barro a ellas,
-mas tambem para alizar a obra, que começaõ entre as maõs ambas, tendo
-huma dentro do vaso, e a outra fóra: outras vezes apertaõ o barro entre
-o dedo pollegar e o index de ambas as maõs. He impossivel relatar todas
-as differentes posições que o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ a
-posiçaõ em huma mesma obra. Para aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe
-a grossura, se servem do calibre, que elles chamaõ _atelli_; elles tem
-muitos de differentes figuras, conforme requer a obra que elles fazem:
-alguns destes calibres tem molduras, e a maior parte saõ de ferro; mas
-tambem alguns saõ de páo.
-
-86 Quando se vê trabalhar hum habil oleiro de roda parece que o seu
-trabalho he muito facil de executar; todavia requer muita destreza:
-porque naõ he facil dar igualdade de grossura a hum vaso de barro tendo
-huma maõ dentro delle, e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade, e
-se faz conhecer mais a habilidade do obreiro, quando he preciso dar mais
-grossura ao vaso em humas partes, do que em outras: seria, por exemplo,
-mais facil fazer o fundo de hum alguidar mais grosso, do que os lados;
-com tudo he melhor que o fundo seja mais delgado, que os lados. Outras
-obras precisaõ maior grossura na barriga ou bojo; e hum habil obreiro
-chega a executar todas estas cousas com bastante exactidaõ, sem se servir
-de compaço, ou outra alguma medida. Naõ se limita só nisto; porque
-estende, ou aperta o barro, á sua vontade, de sorte que tendo feito hum
-vaso grande, o torna pequeno, querendo, e de largo o faz estreito, se
-he alto o reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade do barro,
-faz delle o que quer; com tudo nota-se, que os pratos razos e fundos,
-etc. que foraõ feitos na roda, se quebraõ quasi sempre pellas linhas
-circulares, o que naõ acontece aos vasos feitos em moldes; parece, que
-trabalhando-se o barro na roda algumas camadas se naõ unem perfeitamente.
-
-87 Adiante representarei muitas obras, que se fazem na roda; mas para
-dar hum exemplo do que podem fazer os oleiros de obra grossa, escolherei
-hum mealheiro _Est. I_, _fig. 19_. Vou explicar como se faz esta pequena
-peça taõ commum, que he de hum só pedaço, fechado de todas as partes, e
-feito inteiramente sobre a roda, sem ser soldada, nem feita de tiras, ou
-pedaços: o que parece difficil de executar.
-
-88 O oleiro torneia na roda a parte baixa, ou fundo do mealheiro, como se
-quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno; depois recalca o barro, e aperta
-a abertura; formando como hum pequeno zimborio, e isto faz huma especie
-de aperto para isto aperta o barro da parte de fóra com o dedo pollegar,
-e por dentro o sustenta com o index, e isto continúa em quanto póde ter
-o dedo index dentro do mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo comprime
-com o pollegar, e index huma porçaõ maior de barro, que fica reservada
-em roda do buraco, e neste lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente
-o mealheiro, depois com a folha de huma faca abre a fenda por onde se
-introduz o dinheiro, e por dentro nas margens desta fenda se formaõ
-rebarbas, que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando se sacode o mealheiro;
-finalmente com hum fio de lataõ, ou arame, a que os oleiros chamaõ serra,
-despega o mealheiro da roda pequena sobre a qual se fórma a louça.
-
-89 Havendo-se de fazer na roda hum grande alguidar para ensaboar; como as
-bordas saõ grossas, e elle he muito mais largo na boca do que no fundo,
-he preciso usar de hum barro mais duro, porque sendo molle, naõ se poderá
-suster. Como nestes alguidares se costuma fazer lugar de escorrer ou
-vazadouro a modo de goteira isto se faz antes de os despegar da roda;
-para este fim se dobra com os dedos o lugar aonde se quer fazer a goteira
-em quanto o barro ainda está molle. Em fim, estando feito o alguidar, ou
-outra qualquer obra, se despega da roda com huma folha de faca, se a obra
-he pequena, ou com hum arame se he grande.
-
-90 Há alguidares grandes, em que se põe orelhas; porém estas naõ se fazem
-na roda; adiante fallaremos delles, assim como de outras muitas obras,
-nas quaes he preciso pôr péz, e azas, etc.
-
-91 Os vasos communs de flores _n_, _fig. 17_, _est. I_, se fazem
-inteiramente sobre a roda; devem ser hum pouco mais largos para cima do
-que para baixo, para se poder tirar o torraõ direito, e levar as plantas
-com o torraõ em que se criáraõ: em cima e na boca se lhe fórma hum cordaõ
-que os fortifica, e os torna mais faceis de mudar de hum lugar para
-outro. As gamelas tambem se fazem na roda, e acabaõ em cima com huma
-borda grossa, ou cordaõ, como inteiramente os vasos de flores. Os pratos
-se fazem do mesmo modo; mas para as bordas acabarem com regularidade se
-servem do calibre.
-
-92 Os vasos de despejos _A_, _B_, _D_, _fig. 20_, _est. I_, se fazem por
-duas vezes. Sabe-se que elles saõ mais largos por huma ponta, do que
-pela outra _b_, que fórmaõ huma cinta, ou anel de barro, que se lhe põe
-quatro dedos distante da sua borda, alguns oleiros chamaõ anel, e outros
-_viret_. Com huma só operaçaõ se acaba todo o vaso, e na ponta _b_, fica
-mais estreito, e ahi se fórma hum anel: e depois se despega de cima da
-roda pequena ou prato, onde está pegado por hum bocado de barro, que ahi
-se deixou; acaba-se a ponta _a_, mais larga, que deve receber em si a
-ponta _b_, que he mais estreita, e tem o anel de que acima falamos; estes
-vasos se fazem inteiramente na roda; porém por duas vezes. Naõ he o mesmo
-a respeito dos vasos em dous _E_, _C_, _fig. 20_, ou que se dividem em
-dous para corresponder á dous assentos. A este respeito se deve notar,
-que há tubos de despejo que saõ mais largos, que outros; e por isso se
-fazem tubos, que tem hum pé de diametro, e outros só tem oito, ou nove
-pollegadas. Ora, quando se faz hum tubo de barro, que se deve dividir em
-dous como _E_, _C_, a parte _A_, _B_, que corresponde a huma serie de
-tubos, que se estende desde a cava, até a divisaõ, ordinariamente se faz
-com tubos de maior diametro, e as divisões _E_, _C_, se fazem com tubos
-de menor diametro. Para fazer o vaso ou tubo que se divide em dous, saõ
-precisos tres tubos hum grande, e dous pequenos; põe-se a seccar hum
-pouco _est. II_, _fig. 7_. o que explicarei com brevidade; e tendo posto
-o grande pote sobre a mesa em que se ha de preparar _est. II_, _fig. 8_,
-com a ponta rebaixada para baixo, chanfra-se a ponta larga que está para
-cima, chanfraõ-se tambem as pontas mais estreitas dos dous tubos do molde
-pequeno, para as soldar com o grande, como se dirá. Desta sorte os tubos,
-que se dividem em dous se fazem parte na roda, e parte á maõ; mas por naõ
-separar daqui cousa alguma, das que pertencem aos vasos de despejo, por
-isso julguei dever fallar de tudo. Farei ver sómente, que se póde fazer
-a separaçaõ dos tubos, sendo taõ grandes huns, como outros, como se
-representou em _A_, _B_, _C_, _D_, _fig. 20_, _est. I_. Começo outra vés
-a fallar nas obras que se fazem inteiramente na roda.
-
-93 Para fazer testos de potes, marmitas, escalfadores, fogareiros etc.
-como _I_, _Est. I_, _fig. 12_, põe se sobre, a roda pequena, ou prato hum
-bôlo de barro; do qual se querem fazer varios testos, começa-se primeiro
-a formar a parte de baixo do testo, que he hum pouco convexa no meio;
-depois apertando-se com os dedos da outra maõ o barro, que está por baixo
-do testo, se forma a parte de cima, que he concava; faz-se no meio hum
-botaõ, e se acaba despegando-o do barro com o dedo, ou folha de faca.
-Depois querendo se se põe o testo sobre o barro que está na roda, e se
-aperfeiçoa entaõ pela parte de cima; mas de ordinario se naõ pratica
-isto: successivamente se tiraõ tantos testos, quantos póde dar o barro
-que está na roda.
-
-94 Os testos de fogareiros, e escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se fazem
-pouco mais, ou menos da mesma fórma, ainda que sejaõ hum pouco mais
-compostos, porque devem ter hum circulo, ou anel que encaixa dentro da
-bocca do escalfador.
-
-
-_Como se podem formar obras no torno com hum calibre._
-
-95 Para calibrar as obras, se usa de hum torno pouco mais ou menos,
-como o da _fig. 18_. Elle tem huma roda _a_, hum eixo _b_, que tem a
-roda pequena, ou prato _c_, sobre o qual está a obra _d_. Está claro
-que ajustando-se por cima da mesa hum calibre, que se possa chegar
-para diante, ou retirallo da obra _d_, á vontade do obreiro certamente
-formará com exactidaõ as voltas, ou molduras, que se quizerem na obra,
-tirando-lhe por fóra o barro, que se pôs de mais; porém este calibre só
-póde formar o exterior, e naõ se póde usar delle nos vasos, que devem
-ser trabalhados tambem por dentro; serve só para os pés destinados a
-sustentar vasos, ou outras cousas de ornatos, que á maõ se alimpaõ por
-dentro, por naõ ser o interior de alguma consequencia; mas póde-se fazer
-uso de hum torno quasi semilhante para os vasos de jardim, como vou
-explicar.
-
-
-_Como se fazem no torno vasos grandes de jardim._
-
-96 Quasi todos os vasos grandes de jardim se fazem por moldes; com
-tudo elles se podem tambem fazer no torno, com hum calibre grande
-_ee_, entalhado nos lugares, que devem sobresahir no vaso, e formar os
-salientes nas partes onde os contornos do mesmo vaso devem ser ocas, ou
-cavadas. Supponhamos, que se quer fazer, o vaso _Est. I_, _fig. 21_;
-faz-se de tres pedaços; hum faz o pé, outro o corpo _l_, e outro o testo
-_m_, ao qual se ajuntaõ alguns ornatos, como hum globo, huma pinha, pomo,
-etc. Vou agora explicar como se faz o corpo _L_, sobre a mesa _B_, _Est.
-I_, _fig. 21_. O calibre, que anda em roda se forma de hum páo vertical
-_hh_, cuja ponta debaixo ou piaõ, se introdus em hum buraco, feito no
-meio da mesa _aa_, que deve ser forte, e por cima he sustida por hum
-cachimbo de páo _g_, que fica preza a huma peça tambem de páo, quadrada
-_bb_, assim he preciso conhecer que o páo vertical _hh_, vira livremente
-sobre si mesmo. Este páo deve ser bem forte para poder sustentar com
-firmeza a potencia _ii_, que deve puxar o calibre _ee_, que algumas vezes
-forceja muito pela impressaõ que faz no barro, que excede do corpo do
-vaso. Tambem se ajuda a fazer firme o calibre segurando-o por baixo com
-a maõ, que vai sobre a mesa em _o_, e com a outra maõ tirando o barro,
-quando se vê que o calibre tem muito barro para levar. Percebe-se, que
-as peças de páo quadradas _bb_, assim como a mesa _aa_, devem estar bem
-firmes; mas como se fará por differentes modos, segundo o lugar, em que
-se levantar o torno, eu me contento só em mostrallo. O oleiro põe o seu
-barro sobre a mesa _aa_, e tendo huma maõ dentro do vaso, e outra fóra
-lhe fará tomar pouco mais, ou menos a figura, que elle projecta dar ao
-vaso; digo, pouco mais, ou menos; porque o calibre _ee_, he o que deve
-aperfeiçoar a figura do vaso. Este calibre _ee_, he huma taboa pouco
-grossa, cujas bordas terminaõ em chanfro, e saõ talhadas de modo, que
-o contorno das bordas faz, por assim dizer, a contra prova do vaso que
-se quer fazer. Deve-se segurar bem com parafusos em huma peça de páo
-quadrada _ii_, que fórma huma potencia; para se adiantar, ou recuar este
-calibre, segundo a grossura, que se quer dar ao vaso, a potencia _ii_,
-he fendida, e tem hum grande encaixe; de sorte que afroxando o parafuso,
-o calibre _ee_, se pode chegar-se para diante, ou recuar, e se segura
-apertando o parafuso. Estando tudo assim disposto, se faz virar á maõ o
-calibre _ee_, que leva diante de si o barro, que há de mais, e o oleiro
-o accrescenta nos lugares aonde falta; ao mesmo tempo põe o vaso, quasi
-igual na grossura com hum calibre por dentro, tirando o barro, que ha de
-mais aonde he muito grosso. Finalmente, quando o corpo do vaso está bem
-formado, se deixa hum par de dias sobre a mesa, para que o barro se faça
-mais duro; depois se despega da mesa, com hum arame; tira-se o pedaço de
-páo _g_, e tendo tirado o páo _hh_; como tambem o calibre _ee_, pega-se
-no vaso com ambas as maõs, depois de tirado o páo _hh_, que o atravessa
-em seu eixo; e se põe o vaso a seccar. Entaõ se faz o testo com outro
-calibre, e o pé tambem com hum calibre proprio a figura que se lhe deve
-dar. Depois de terem estado as peças algum tempo a seccar, viraõ-se sobre
-a mesa, em que se aperfeiçoaõ, para se alimparem por dentro com hum
-instrumento proprio para isso _Y_, _Est. II_, _fig. 1_, e formar-lhe
-aneis para se ajustarem differentes peças. Parecendo conveniente ao
-oleiro ajuntar azas ao corpo do vaso, e adiante se explicará o modo de o
-fazer: algumas vezes se segura fixo, e immovel, o calibre e o vaso he que
-vira sobre huma rodela, que se move á maõ. Tudo isto pouco mais ou menos
-he o mesmo.
-
-
-_Vasos grandes de barro cozido._
-
-97 Todo o mundo conhece os vasos grandes de hum barro esbranquiçado,
-vidrados por dentro, que chamaõ _talhas_, _A_, _fig. 20_, _Est. II_,
-elles se fazem em Provença. Muitas pessoas attentas á sua saude, para
-evitar os inconvenientes que poderiaõ resultar do cobre, mandaõ vir estas
-talhas para conservar a agua de que usaõ. Ha algumas muito grandes, que
-saõ grossas, e sólidas; com tudo cobrem-se tambem de esteiras de palha, e
-com esta precauçaõ duraõ muito tempo sem se quebrarem; havendo cuidado no
-Inverno de as ter em parte, onde naõ gele a agua, que tem dentro. Quasi
-todos os Navios as levaõ para conservar a agua destinada para a meza do
-Capitaõ; e em Provença se conserva o azeite nestas talhas.
-
-98 O gosto, que tem todos de conservar a agua em talhas, tem obrigado aos
-oleiros, que trabalhaõ em greda, a fazer potes taõ grandes, quasi como os
-vasos de que se acaba de fallar. Ha alguns, que levaõ a quarta parte de
-hum almude. Eu os conservo no meu laboratorio de Chymica em _Campagne_
-feitos, em _Saint Fargeau_, vidrados por dentro; os que se vendem em
-París, e os que tem torneira, ou esguicho, vem de Picardía.
-
-99 Porém vi em muitos lugares, e igualmente tenho á muito tempo vasos
-grandes de barro vermelho, entre os quaes há alguns, que levaõ mais de
-meio almude: os que saõ bem feitos a agua os naõ penetra, inda que naõ
-sejaõ vidrados. Servem para muitos usos; para guardar lexivias; para
-fazer salmouras em lugar de celhas de salgar carne; e vi em jardins
-algumas, que, estando rodeadas de obras de pedra calcaria, serviaõ de
-conservar a agua, para se regarem, ou aguarem as plantas. Eu naõ sabia
-de donde vinhaõ estes vasos, e talvez se façaõ em muitos lugares; mas Mr
-Desmarais me fez ver no calendario _Limousin_ do anno de 1770 hum artigo,
-que julguei dever introduzir aqui.
-
-100 Hum quarto de legoa distante de _Montmoreau_ que fica seis legoas
-ao Sul, de Angoulème se acha a Cidade _Saint Eutrope_, e quasi todos os
-habitantes desta Cidade fazem louça. Contaõ-se ahi trinta familias todas
-empregadas neste trabalho: vinte e cinco fornos estaõ sempre occupados
-em cozer louça miuda, pratos pequenos, grandes, e panellas para o fogo
-de differentes tamanhos; porém ha tres, que estaõ destinados para cozer
-differentes obras, e principalmente vasos grandes para fazer Lixivia, e
-salgar toucinho, etc. Todos os oleiros, que tem de cozer destes vasos
-grandes, os levaõ a hum destes tres fornos.
-
-101 Para esta qualidade de louças servem-se de huma argilla muito ductil,
-que se acha junto da aldêa. A occupaçaõ das mulheres, e dos meninos, he
-humedecer, e amassar, esta argilla com huma massa de ferro sobre hum
-pilaõ, tambem daõ os ultimos talhes á louça, o que se chama aperfeiçoar:
-porém naõ he isto só o que elles fazem, ainda vaõ cortar arbustos, e páos
-miudos para aquentar os fornos de cozer as louças.
-
-102 Os homens fazem vasos grandes em huma roda muito simples _D_, _Est
-II_. _fig. 3_. ella se fórma de duas rodellas _E, _, semelhantes ás de
-hum zimborio de moinho. Estas rodellas estaõ juntas huma á outra por seis
-furos _G_: a rodella _F_, tem hum buraco em _H_, para receber a espiga
-ou eixo _I_, que está bem segura por baixo na terra; de sorte, que este
-zimborio em sua espiga, ou eixo, vem a formar como huma dobadoura. O
-obreiro põe o barro sobre a rodella _E_, e com o pé que põe sobre a outra
-roda _F_, a faz andar lentamente. Logo que está feita a primeira base do
-vaso, elle trabalha os lados, accrescentando successivamente rolos de
-barro, que liga huns sobre os outros, unindo as superficies interiores, e
-exteriores com as maõs: deste modo chega a acabar vasos grandes, os quaes
-torna redondos por meio do torno; e elle tem cuidado de dar pequenas
-pancadas com a palma da maõ no barro para o comprimir. Depois de seccos
-estes vasos se fazem cozer nos fornos grandes, quasi semilhantes aos
-que se representaraõ na _Est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. Estas louças
-se vendem principalmente em _Angouleme_, _Perigueux_, _Saintonge_,
-_Bordeaux_. Os oleiros naõ podem dar vasaõ ás encommendas que tem dellas.
-
-103 Quando os vasos, de que se tem tratado, saõ muito grandes, se fazem
-de muitas peças: huma fórma o fundo, outra o corpo, e outra a parte mais
-alta; e todas estas peças se unem com aneis de barro, que se cozem com o
-vaso, e ficaõ taõ sólidas, como se fossem de huma só peça.
-
-104 Vê-se em alguns vasos, feitos em Normandia, partes sahidas para fóra
-e saõ adornos; algumas vezes estas partes postas circularmente, servem de
-encobrir, e fortificar os lugares, em que foraõ as soldaduras.
-
-105 A _fig. 2_, _M_, he hum grande vaso de barro, no qual se põe algumas
-vezes huma torneira, para fazer delle huma fonte, ou lavatorio, e
-substituir os de cobre: há alguns que tem por dentro pratos desenhados
-por linhas pontuadas; estes pratos estaõ cheios de buracos, e se lhe põe
-arêa grossa para filtrar a agua, e fazer fontes areentas.
-
-106 Saõ bem conhecidos os potes cylindricos de Normandia, em que vem
-as manteigas de Isignes. Depois de vazios, as familias pequenas se
-servem delles para conservar agua. _A_ _fig. 6_, _P_, _est. II_, he huma
-botelha de barro de Normandia. Quando se faz no torno a barriga _QQ_, e o
-gargallo _R_, se solda na barriga no lugar _T_.
-
-107 Naõ faço huma maior relaçaõ das differentes obras, que se fazem
-inteiramente no torno; pois o que se acaba de dizer bastará para fazer
-perceber o modo porque se fazem aquelles, de que se naõ falla: agora vou
-fallar das obras, que se fazem, parte no torno, e parte na mesa para lhes
-pôr azas, e pés.
-
-
-
-
-ARTIGO V.
-
-_Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na mesa para lhes pôr
-azas, e pés._
-
-
-108 Depois de começadas estas obras no torno, e se lhes ter dado a
-figura, que devem ter, se despega da rodella com o fio ou arame de latam,
-e se põe sobre humas taboas, a que chamaõ armaçaõ de ripas, _D_ _Est.
-III_, _fig. 4_, porque estaõ ao tempo, e se fórma de ripas; deixaõ-se
-seccar as obras hum pouco, ou endurecer á sombra, mesmo defendidas de
-huma grande corrente de ar, porque he preciso, que sequem lentamente.
-
-109 Depois das obras estarem alguma cousa duras sobre as ripas, se
-transportaõ para huma mesa pondo humas ao pé das outras para as
-aperfeiçoar.
-
-110 Esta operaçaõ consiste em remediar a maõ os defeitos, que se lhe
-percebem; se ha barro pegado em huma parte, se tira com huma faca
-de páo muito estreita que se molha; se as bordas de algum vaso se
-inclinaraõ para alguma parte, indireitaõ-se; se na barriga se fez alguma
-cova, passa-se a maõ por dentro do vaso para o endireitar fazendo vir
-para fóra; se as boccas, que devem ser redondas, apparecem ovaes, se
-indireitaõ apertando-as entre as maõs. Algumas vezes he preciso cortar
-por baixo os vasos para ficarem com o assento mais firme; isto se faz
-pondo a bocca do vaso sobre a mesa, e o fundo para cima; depois se tira
-o barro com hum instrumento de ferro _Y_, _fig. 1_, _Est. II_, que tem
-córte. Daõ-se de differentes formas huns saõ, direitos, outros curvos,
-chamaõ-se _tournassin_.
-
-111 Sobre a mesa tambem he, que se põe os pés, os cabos, e azas nas
-peças, que os devem ter.
-
-112 Todas estas cousas saõ peças relativas que se soldaõ nos lugares,
-em que se devem pôr, tendo-se feito á maõ sobre huma mesa. O modo de
-soldar os cabos, as azas, e os pés he o mesmo; porém devem haver certas
-precauções por se naõ despegarem estas peças. Alguns exemplos bastaraõ
-para se perceber esta pequena manobra.
-
-113 Tomo por exemplo huma marmita; fórma-se no torno a barriga, o
-gargallo e a borda, e deixando-se sobre as ripas este corpo de marmita,
-se põe sobre a mesa para o aperfeiçoar, e ajuntar-lhe as azas. Os oleiros
-se portaõ nisto de dous modos differentes: huns formaõ a aza sobre a
-mesa; daõ-lhe o contorno, que lhe convem; depois para apegar ao corpo da
-marmita, raspaõ hum pouco os dous lugares, onde se deve pegar a aza ao
-corpo da marmita; esfregaõ estes lugares com hum bocado de barro novo,
-soldaõ a aza apertando-a fortemente com o dedo pollegar contra o corpo da
-marmita, ou do fogareiro, etc. Outros, depois de ter raspado o corpo da
-marmita, põe sobre o mesmo lugar hum pedaço de barro novo, que trabalhaõ
-á maõ para o fazer tomar a figura de aza; e depois de o terem preparado
-raspaõ o lugar aonde ella deve chegar, e pondo hum pouco de barro novo, e
-apertando bem com os dedos a aza se pega de modo, que naõ despega mais.
-Este methodo se tem por mais sólido, do que o precedente.
-
-114 As orelhas _aa_, dos potes _Est. I_, _fig. 12_ se soldaõ do mesmo
-modo, que as azas das marmitas.
-
-115 Em geral para que duas peças se ajuntem bem, he preciso que os dous
-barros estejaõ no mesmo gráo de seccura; naõ sendo assim, huma peça
-encolheria mais do que outra, e se despegaria, ou quebraria. Com tudo se
-o corpo da marmita seccasse muito se tornaria a humedecer no lugar, em
-que se quizesse soldar, pondo-lhe por cima hum panno molhado, que dentro
-em huma noite humedece quanto basta.
-
-116 O corpo dos potes de tres pés _fig. 15_, _Est. II_, se faz no torno,
-depois se trazem para ahi os pés, e azas, como disse da marmita, e para
-se soldarem se poem na mesa com a bocca para baixo; e testo _C_, naõ deve
-ter borda com encaixe.
-
-117 O corpo dos escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se faz ao torno;
-fórma-se a barriga _a_, redonda, depois aperta-se o barro para formar
-a parte cylindrica _b_, fortifica-se o bordo com hum rôlo ou anel de
-barro, faz-se-lhe hum pequeno bico, e quando estaõ já alguma cousa duros;
-levaõ-se para a mesa de aperfeiçoar para se acabarem, e pôr-lhe a aza
-_C_, como se disse da marmita.
-
-118 O corpo _b_. das cassarolas, etc. _Est. I_, _fig. 14_, se faz no
-torno, ha oleiros que fazem no mesmo torno o cabo, outros o fazem á maõ
-sobre huma taboa. Todos o soldaõ a cassarola, como já se explicou.
-
-119 Os cabos que se fazem no torno saõ muito mais proprios, do que os
-feitos á maõ sobre a taboa; porém bom he explicar como se faz no torno
-hum tubo ôco pelo qual apenas se póde introduzir hum dedo. Começa-se por
-baixo, com sufficiente largura, para formar o tubo entre o pollegar, e
-os outros dedos. Este tubo tem pouca altura, e deve ser grosso, porque
-será preciso estendello no comprimento; para isto comprimindo brandamente
-o tubo entre as maõs, se estende, levantando as maõs, e elle diminue de
-grossura á proporçaõ que se estende em comprimento; acaba-se fazendo-lhe
-huma pequena orla na borda _c_. Em fim se despega da rodella; e depois de
-ter comprimido hum pouco a ponta, que ha-de pegar no corpo da cassarola,
-como as azas dos fogareiros etc.
-
-120 Os coadores se fazem como as cassarolas, etc. só sim demais se lhe
-abrem buracos com huma especie de buril, quando elles estaõ meios seccos.
-
-121 Tambem se fazem fogareiros pequenos, em que se põe brazas para os
-esquentadores de madeira; fazem-se no torno, e antes de os tirar da
-rodella, se faz chato hum dos lados que he formado em parte do fundo;
-tira-se o barro, que excede o resto das bordas do fogareiro: forma-se á
-maõ o outro lado, e ajusta-se no meio desta face hum botaõ; assim esta
-pequena peça he quasi de todo feita a maõ, ainda que ella se começa, e se
-aperfeiçoa sobre a rodella, sem a tirar para a mesa de aperfeiçõar.
-
-122 _R_, _Est. II_, _fig. 10_, he hum candeeiro quasi todo feito no
-torno, ajunta-se sómente hum bocado de barro em _a_, e em _b_, com huma
-aza em _c_.
-
-123 Tambem se fazem regadores de barro: o corpo se faz inteiramente sobre
-o torno, assim como o tubo, que se faz como o cabo das cassarollas;
-vaza-se hum pouco na ponta, que se tapa com huma placa de barro cheio
-de buracos, põe-se por cima hum bucado de barro para tapar a metade da
-embocadura; solda-se o tubo ao corpo do regador: sustem-se por aquella
-parte, que naõ está ôca; solda-se a aza e rega admiravelmente.
-
-
-
-
-ARTIGO VI.
-
-_De algumas obras, que se fazem inteiramente á maõ._
-
-
-124 Ja se disse que alguns oleiros faziaõ todas as suas obras á maõ. Para
-dar huma idéa deste trabalho vou explicar como se fazem os esquentadores
-quadrados _F_, _Est. I_, _fig. 10_.
-
-125 Os esquentadores, e fogareiros, que devem ter dentro em si o fogo,
-se fazem com o mesmo barro de que se fazem os ladrilhos, excepto que,
-em lugar de ajuntar arêa á argilla, os oleiros emmagrecem o barro
-com a escoria de ferro moida; e passada por huma peneira de cabello,
-ajuntando _hum demiqueve_ de barro a dez _boisseaux_ do pó de escumalha.
-Amaça-se esta mistura como já disse, fallando os ladrilhos. Para fazer
-hum esquentador, se molda sobre hum caixilho de madeira, se formaõ duas
-como telhas, ou pastas de barro direitas, se põe nas varas a enxugar,
-e se batem huma vez do mesmo modo, que os ladrilhos: depois em quanto
-está ainda branda, se tomaõ estas duas telhas, que chegaõ para fazer
-hum esquentador. Põe-se huma destas telhas na mesa de aperfeiçoar,
-raspaõ-se-lhe as bordas sobre hum calibre de páo, para o acertar,
-divide-se a largura em tres partes, das quaes a do meio faz o fundo
-do esquentador _a_, e as outras duas fazem os grandes lados _bb_,
-_bb_, levantando-os quasi perpendiculares, mas que fiquem alguma cousa
-inclinadas para fóra, bem entendido, que com os dedos se fórma em baixo
-hum angulo, quasi de quina viva; da outra telha, ou pasta de barro
-se tiraõ os dous pedaços, que haõ-de tapar as pontas do esquentador;
-soldaõ-se nos grandes lados _bb_, fazendo o mesmo que já disse a respeito
-do modo de soldar as azas, e as orelhas dos vasos; finalmente a mesma
-segunda telha chega para fazer o tampo de cima _dd_; no meio da qual se
-faz hum buraco quadrado com a folha de huma faca molhada, que he para o
-testo. Naõ se faz encaixe para receber este testo; mas quando se tira,
-corta-se o barro obliquamente, para o chanfro servir de encaixe, para
-que o testo naõ possa cahir dentro do esquentador; aperfeiçoaõ-se todos
-os lugares das soldaduras, e se acaba fazendo buracos, tanto por cima,
-como pelos lados do esquentador, com hum instrumento de ferro, que faz as
-vezes de hum trado. Sobre a mesa se lhe fazem tambem as azas _ff_, e o
-botaõ de testo _e_.
-
-
-
-
-ARTIGO VII.
-
-_Das obras, que se fazem com moldes._
-
-
-126 Visto se ter fallado das obras feitas a maõ, parece justo explicar-se
-como se fazem em moldes; mas, como este trabalho pertence mais ao
-louceiro de obra fina, do que ao oleiro; por hora darei hum só exemplo,
-descrevendo, como se póde fazer hum vaso de jardim. Molda-se com o gesso
-hum vaso ôco, sobre outro, que tenha boa figura, mandado reparar por hum
-escultor: divide-se em tres partes, segundo o comprimento, o gesso ôco
-que se moldou sobre aquelle, que se quer imitar, bem entendido, que se
-faz separadamente, o ôco que deve fazer o corpo do vaso, e o que deve
-fazer o pé, e o que faz o testo.
-
-127 Reunem-se os tres pedaços, que tem fazer o corpo, põe-se firmes
-segurando-os com cordas, e, tendo esfregado com alguma gordura o molde
-por dentro, com a maõ, se põe huma camada grossa de barro dentro do
-molde, e se aperta para tomar bem a figura do molde, deixa-se endurecer
-hum pouco o barro no interior do molde: como ao seccar encolhe, elle se
-despega do molde; mas, antes de estar inteiramente secco, se desataõ
-as cordas, separaõ-se as tres peças, de que consta todo do molde, e
-tira-se o vaso de barro, que se põe a enxugar nas ripas, prepara-se, ou
-aperfeiçoa-se depois com hum pequeno pedaço de páo chamado, _bauehoir_,
-especie de tasquinhador, ou goiva, e naõ precisa ser escultor para o
-fazer.
-
-128 Com o instrumento de alimpar, chamado _tournassin_, se tira por
-dentro o barro, que ha de mais, e se forma hum assento, ou encaixe por
-onde se ajusta o pé, e o testo, depois de moldados, ao corpo do vaso.
-Alguns fazem moldes particulares, para formarem as azas, e folhagens; mas
-como já disse, só me propús fallar superficialmente das obras moldadas,
-porque na arte de louceiro da obra fina se trata disso com individuaçaõ,
-aonde se ensina a fazer pratos recortados, sopeiras, tigelas, e mais
-utensis de meza com molduras, e mesmo figuras de homens, e animaes.
-
-
-
-
-ARTIGO VIII.
-
-_Modo de enfornar as obras de olaria, e cozelas._
-
-
-129 Quando tratei dos ladrilhos, dei a descripçaõ dos fornos, de que
-usaõ ordinariamente os oleiros de París, advertindo, que estas obras se
-poderiaõ cozer nos mesmos fornos de telha, que ficaõ representados na
-arte de telheiro. Aqui só fallarei dos fornos dos oleiros de París, que
-saõ muito bem pensados, e de hum uso commodo: trazendo-se á lembrança,
-o que fica dito no principio desta Memoria a respeito dos ladrilhos; he
-superfluo dizer, como se arranjaõ as differentes obras nesta sorte de
-fornos.
-
-130 Da parte da bocca por detraz da _Fausse-tire_ se arranjaõ os vasos,
-que haõ-de ficar bem cozidos, huns sobre outros, os quaes correm menos
-risco de se quebrarem: taes saõ os vasos de flores, e os tubos para
-despejo etc. Tambem se põe junto ao fundo do forno _LM_, _fig. 8_, _est.
-I_, que chamaõ lingueta, onde ha muito calor, porque o ar quente deve
-descer a este lugar, para sahir pelas aberturas, por onde se descarrega a
-fumaça, que ficaõ inteiramente por baixo.
-
-131 A primeira camada de baixo se faz com tijolos ou ladrilhos grosseiros
-de assoalhar, ou vasos grandes de despejo, que se põe em lugar destes
-ladrilhos. Como os vasos grandes tem bastante força para supportarem
-a louça, que se lhe põe por cima, com elles se póde fazer a primeira
-camada. Deve haver cuidado de se pôrem na mesma fileira os vasos de hum
-tamanho, observando, como nos tijolos, que a ordem de cima leva no meio
-vasos, que formaõ a ordem de baixo, como se vê _fig. 9_, _est. I_; mas,
-como huma das principaes attenções, he exactamente encher o forno, e de
-lhe meter a mais louça, que lhe he possivel, para tirar melhor partido da
-lenha, que gastaõ; põe-se as peças pequenas dentro das grandes; os testos
-dos esquentadores se põe nos mesmos esquentadores, em que haõ de servir,
-os vasos pequenos tambem se põe entre os grandes, para encher os vaõs o
-mais exactamente que fôr possivel. Põe-se páos, como para os tijolos,
-ou ladrilhos, pelos lados, e se distribuem pelo forno de distancia, em
-distancia por entre a obra. Cortaõ-se as rachas de páo, com que se forra
-a louça, metendo-as entre a abobada de forno, e a mesma louça, e se acaba
-fazendo hum muro de tijolo na porta falsa. Por fim esquenta a louça com
-mais cuidado, de que com o tijolo, e o fogo se continúa pouco mais ou
-menos o mesmo tempo, se saõ louças ordinarias, e continua-se por mais
-tempo, se se trata de cozer louça de greda.
-
-
-
-
-ARTIGO IX.
-
-_Descripçaõ de outra especie de forno, que usaõ os oleiros dos arrabaldes
-de S. Antonio para cozer suas obras._
-
-
-132 Quasi todos os oleiros dos suburbios de S. Marçal, se servem do
-forno, já descripto no tratado dos ladrilhos, e que está representado
-na _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_, tanto para cozer os ladrilhos como
-as louças; e estes fornos, que occupaõ muito pouco lugar, se imaginaraõ
-mui engenhosamente, e saõ muito bons para a economia de lenha. Com tudo
-a maior parte dos oleiros dos suburbios de S. Antonio só usaõ destes
-fornos para os ladrilhos, e para cozer as outras louças, se servem de hum
-forno, que se assemelha muito aos de oleiro de obra fina, cuja descripçaõ
-vou agora dar.
-
-133 A _fig. 1_, _est. III_, representa a altura do forno, visto por
-fóra da parte da boca da fornalha, ou a altura sobre a linha, _C D_, do
-plano _fig. 2._ que he tomada rente ao nivel do forno. _A_, he o fogaõ
-ou fornalha que está em terra em hum buraco; vê-se apontado pelas mesmas
-letras nas figuras 1, 2, 3, e 14. O que conduz o fogo, desce dentro
-desta cova, e forra de lenha pela boca da fornalha, debaixo do corpo do
-forno, onde se metem as obras, que se querem cozer. Logo em principio
-para temperar, faz hum pequeno fogo na entrada da fornalha em _A_, _fig.
-3_, que representa toda a extensaõ da fornalha, e fundaçaõ do forno;
-depois para fazer o fogo grande, chega o fogo até _E_, e o distribue por
-dentro de toda a extensaõ da fornalha; porém entaõ accommoda a lenha em
-pé na boca da fornalha, para diminuir a corrente do ár, que levaria o
-calôr para o fundo do forno, e ao mesmo tempo a parte de diante receberia
-pouco calor. Com tudo he preciso, que elle se distribua com a igualdade
-possivel por toda a extensaõ do forno: e esta he huma attençaõ que deve
-ter o atiçador.[19]
-
-134 A abobada _F_ _fig. 4._ que cobre a parte superior da fornalha tem
-os buracos _aaa_, etc. Por estes buracos, que tambem se pódem vêr em _F_
-_fig. 2._ se representa o fundo, ou pavimento do forno, que está por cima
-de abobada, que cobre a fornalha; por estes buracos _aaa_, he que passa
-o ar quente da fornalha, _A_, _fig. 4._ para o corpo do forno _G_, que
-está por cima, e no qual se arruma a obra que se quer cozer vidrada. Este
-corpo do forno he fechado por cima, com huma abobada _H_, _fig. 4._ a
-qual tem os buracos _bbb_, do mesmo modo que a abobada _F_; e isto mesmo
-se vê tambem na _fig. 5._ em _H_; e por estes buracos he, que o ar quente
-passa do corpo _G_, _fig. 4._ ao corpo _I_, aonde se põe as louças, que
-se querem cozer em branco. Como o ar quente sempre sobe, logo que o forno
-se esquente, no corpo _I_, he maior o calor do que no corpo _G_, que ao
-principio tinha mais calor, do que o outro, que fica mais alto.
-
-135 Na parte mais alta de abobada, que cobre este corpo superior, ha hum
-buraco _K_, _fig. 4_. de seis ou oito pollegadas em quadra, e de mais
-quatro buracos _K_, _fig. 1_. e _5_. Estes cinco buracos servem para dar
-sahida ao ar que entra pela boca da fornalha, para obrigar ao calor a
-sobir até ao alto do forno.
-
-136 Enche-se a camera _G_, _fig. 4_. por huma porta _L_, _fig. 1_, e
-_4_. que se fecha com huma parede de tijolos, ou pedaços de louça, logo
-que se acabou de encher o forno, antes de accender o fogo: deixa se só
-huma pequena abertura em _M_, _fig. 1_. para dar sahida a huma parte da
-fumaça, que poderia enfraquecer a marcha do ar quente necessario para
-cozer a obra. Por cima desta pequena abertura _M_, ha huma parede como
-de huma chaminé de cozinha, e hum tubo _N_ _N_, _fig. 1_, e _4_. para
-conduzir a fumaça por senaõ espalhar na officina.
-
-137 A camera ou o corpo superior _I_, _fig. 4_. se enche de louça, que se
-quer cozer em branco, por huma porta que está em _O_, e que se fecha,
-quando o corpo está cheio, fazendo no alto desta porta huma abertura
-semilhante á que fica notada em _M_, _fig. 1_, e, como se naõ receia
-incommodo de fumaça por ser esta abertura muito alta, se lhe naõ faz
-cuberta, nem tubo de chaminé: sobe-se ao corpo do forno _I_, por huma
-escada _P_. _fig. 1_.
-
-138 Por fim se gradua o fogo como acima fica dito; começando por hum fogo
-pequeno para esquentar a obra, e acabando por hum fogo muito activo de
-lenha rachada.
-
-
-
-
-ARTIGO X.
-
-_Do verniz ou vidrado, que se põe na louça._
-
-
-139 A maior parte das obras de barro ordinarias deixaõ transpirar a
-agua por seus poros, maiormente quando se mistura muita area no barro:
-misturando-se pouca area, os vasos conservaõ bem a agua; mas naõ pódem
-sofrer o fogo: ora, como a maior parte da louça, para os utensilios de
-huma casa deve ir ao fogo, os louceiros naõ lhe poupaõ a area; porém
-dando-lhe esta faculdade de rezistir ao fogo, se tornaõ penetraveis
-a agua, como se acaba de dizer. Quasi todos estes utensis com tudo a
-devem conter; para lhe dar esta propriedade, se cobrem de huma camada de
-verniz, que, vitrificando-se, naõ deixa a agua passar. E assim para os
-alguidares, e vasos do uso das leiterias, os oleiros se servem de hum
-barro puro, que toma corpo, e naõ deixa transpirar a agua; porém estes
-vasos se quebrariaõ, se os puzessem ao fogo: por isso lançaõ muita area
-no barro, de que haõ-de fazer os vasos, que servem para o fogo; e depois
-os vidraõ, para poderem reter a agua.
-
-140 Aqui só se fallará em resumo do verniz das louças, que he muito
-grosseiro; porque o verdadeiro lugar de tratar disto a fundo, he quando
-se tratar da louça fina.
-
-141 Os oleiros para vidrarem as suas obras, se servem da mina do
-chumbo; e a isto he que se chama pedra de chumbo no commercio, e os
-oleiros chamaõ verniz: ou se servem do zarcaõ, ou chumbo vermelho, que
-impropriamente chamaõ mina de chumbo; que he huma cal de chumbo com huma
-côr vermelha bem viva. O falecido Mr. Jars, nas memorias da Academia,
-deo o modo de o fazer tomar esta côr vermelha pela calcinaçaõ. Tambem se
-servem ainda do lithargirio, isto he, do chumbo calcinado, que perdeo
-huma parte do seu phlogistico pela acçaõ do fogo, e que está em hum
-estado de vitrificaçaõ imperfeita. Elles se servem destas substancias por
-dous modos, como agora vou a explicar.
-
-
-_Primeiro methodo._
-
-142 Quebra-se a pedra de chumbo sobre huma peça de cobre para senaõ
-perder cousa alguma; passa-se por huma peneira de cabello, e o resto se
-piza em gral de ferro, e se torna a passar, até que tudo se passe pela
-peneira.
-
-143 Alguns oleiros compraõ o chumbo em chapa, e elles mesmos o reduzem a
-cal; julgo que seria melhor usar do lithargirio, ou chumbo vermelho.[20]
-
-144 Prepara-se o lithargirio como a pedra de chumbo; elle se reduz a pó
-muito facilmente, e o zarcaõ ainda mais; ajunta-se a hum, ou a outro
-destes pós por medida outra tanta quantidade de area como ha dos pós de
-lithargirio, zarcaõ ou da pedra de chumbo; deve-se notar, que todas as
-preparações de chumbo, se vitrificaõ, e facilitaõ muito a vitrificaçaõ
-das substancias terreas; A area faz huma parte consideravel do verniz,
-por meio de chumbo, que serve de fundente: como o chumbo he caro, e a
-area naõ custa dinheiro, os oleiros poupaõ muito, misturando a area com o
-chumbo e eu creio, que esta liga da area naõ altera a bondade do vidrado.
-O chumbo só sobre o barro faz huma côr amarella, querendo-se que este
-esmalte, ou verniz seja verde, em duzentas libras de lithargirio, ou
-cal de chumbo se lançaõ sete, ou oito libras de limalha de cobre.[21]
-Querendo-se, que tenha huma côr escura, mistura-se-lhe manganesia, que
-he huma mina de ferro pobre e refractaria; ella he de hum azul denegrido
-granulado. Della se servem os vidraceiros; mas quando lançaõ muita, faz
-o vidro roxo. Acha-se em Piemonte, em Toscana, Bohemia, e Inglaterra.
-A pedra, que se vende com o nome de marcassita differe della pouco, ou
-nada. Estas materias, sendo pulverisadas, formaõ verdadeiramente o verniz
-dos oleiros, que só falta applica-lo sobre os vasos, que naõ foraõ ainda
-cozidos, porém que estaõ já seccos, e promptos para se cozerem. Para o
-pó se pegar aos vasos se humedecem na agua chamada gorda, que he a agua,
-em que se dissolveo a argilla; depois antes que esta agua se seque, se
-espalha por cima os pós de que acabamos de fallar, virando a peça por
-todos os lados, a fim de ficarem cobertos todos os lugares, que se querem
-envernizar; e como ha muitas peças, que só se querem esmaltar por dentro,
-nestas se naõ põe os pós pela parte de fóra.
-
-145 Deixaõ-se as peças suar hum pouco, depois se arrumaõ no forno do
-modo, que já expliquei; de sorte que com huma só operaçaõ se coze o
-barro, e se derrete o verniz, que vitrifica na superficie. Por este
-methodo economiza-se a lenha; porém gasta muito chumbo: e tambem porque
-o pó senaõ póde espalhar igualmente, em alguns lugares fica muito,
-e quando se derrete, espalha se pelos outros vasos. Naõ he só este o
-inconveniente: como he preciso meter muita lenha para cozer as obras
-com grande fogo, ha tambem o inconveniente, de que, queimando-se esta,
-levanta muita cinza, que vem a offender o esmalte, quando se está
-derretendo.
-
-146 O outro methodo consiste em pôr o verniz nos vasos, que já estaõ
-cozidos; gasta se mais lenha; porque as obras vaõ duas vezes a cozer ao
-forno; porém evitaõ-se entaõ os inconvenientes de que acabo de fallar;
-além do que, como os oleiros só depois das obras cozidas he que conhecem
-a perfeiçaõ dellas, ha huma grande vantagem em pôr o verniz nas peças
-depois de cozidas; pois em todas as fornadas, se quebraõ, e se desfiguraõ
-algumas peças, e assim só se põe o verniz ou esmalte nas que sahem do
-forno perfeitas. Daqui resulta ser menos o gasto do chumbo, naõ levando
-verniz, as peças que quebraraõ; este methodo tambem contribue muito a
-economisar o chumbo; porque os que o seguem livigaõ o lithargirio, e a
-pedra de chumbo com agua em huma mó representada separadamente _est. II_,
-_fig. 11_, e _12_. Elles livigaõ estas differentes substancias separadas,
-e com agua de sorte, que correm á maneira de caldo, pelos vasos, que
-lhe ficaõ por baixo, e põe o verniz liquido na louça, cozida, lançando
-esta especie de caldo sobre os vasos, ou mettendo dentro nelle as peças,
-que se querem envernizar por dentro, e por fóra; e isto he melhor, e de
-mais economia. Applica-se o verniz com hum pincel, que o põe mais lizo,
-e só se põe nos lugares onde se julga conveniente. Finalmente estas
-substancias bem livigadas se applicaõ aos vasos em corpo o mais delgado,
-que he possivel e se julga conveniente.
-
-147 Deixaõ-se seccar as peças, o que se faz em pouco tempo, porque a
-louça que vem do forno atrahe promptamente a humidade.
-
-148 Põe-se no forno, onde se lhe dá hum fogo pouco mais ou menos igual
-áquelle com que se coziaõ; mas naõ se deve meter lenha entre as peças,
-e sobre a obra; por evitar, que a cinza senaõ espalhe sobre o verniz,
-quando está derretido pelo fogo. Naõ ha inconveniente, em pôr lenha dos
-lados, principalmente quando ha a precauçaõ de se pôr perto alguns vasos,
-que naõ sejaõ envernizados, ou que se cozem a primeira vez; e he melhor
-conservar o fogo por mais tempo no forno, do que meter lenha entre a
-louça. Huma das vantagens do forno, que imita o dos louceiros de obra
-fina, he naõ estar exposto ao inconveniente das cinzas.
-
-149 Os oleiros naõ concordaõ em dar a preferencia a hum destes methodos;
-cada hum se encosta áquelle que pratíca. Os que applicaõ o verniz em pó
-sobre o barro crú confessaõ, que gastaõ mais chumbo; porém dizem, que o
-seu verniz ou esmalte penetra melhor o barro, e se pega mais intimamente.
-Os outros sustentaõ que o verniz pega muito bem no barro cozido, e
-allegaõ a favor do seu methodo o menor consummo do chumbo, e o aceio da
-sua obra, sendo o verniz distribuido em huma grossura mais uniforme;
-mas os que seguem este methodo, naõ estaõ ainda do mesmo parecer sobre
-hum ponto, que me parece bem importante. Huns dizem que só basta cozer
-medianamente a obra, antes de a meter no verniz, para que o verniz se
-possa introduzir pelos poros do barro, e que ao depois he preciso dar hum
-grande fogo para cozer as obras cubertas de verniz.
-
-150 Outros dizem, que da primeira vez, que se cozem, he preciso fazer
-hum grande fogo, e da segunda quanto baste para derreter bem o verniz:
-a favor desta pratica podem dizer, que, como o chumbo vitrifica a area,
-produz este effeito naquella, que está na superficie dos vasos cozidos, o
-que o faz muito adherente a estas qualidades de obras; em segundo lugar;
-que naõ sendo preciso hum grande fogo para o cozimento, se evita o meter
-lenha entre a louça, e por cima della, e isto a izenta dos maõs effeitos
-da cinza.
-
-151 Eu me inclino á primeira pratica, porque se precisa hum fogo
-violento, para fundir bem o esmalte, e este mesmo fogo acaba de cozer
-o barro: preciza o verniz estar bem derretido, para o chumbo poder
-vitrificar a area, que está na superficie da louça. Este sentimento he
-conforme ao uso de quasi todos os oleiros; com tudo naõ me proponho a
-decidir qual seja o methodo; porque naõ tive occaziaõ de fazer sobre isto
-experiencias decisivas.
-
-152 Parece-me que o artigo do verniz se poderia aperfeiçoar, sem
-obrigar os oleiros ás despezas consideraveis; julgo por exemplo, que
-elles deveriaõ, misturar com o seu chumbo huma area, ou hum _quartz_
-fusivel[22] que se vitrifica facilmente com o chumbo, e deste modo
-poderia economisar este metal; talvez mesmo, que achassem elles huma
-vantajem em frittar[23] sua area antes de a misturar com o chumbo; e o
-moido poderia ser melhor que a area. Por hora, saõ idéas, que se devem
-olhar como simples conjecturas, até que se experimentem, e conbinem por
-differentes modos.
-
-153 Todas as vezes, que se coze, se fecha exactamente o forno, logo
-que cessa o fogo; para que conserve o calor, e as peças, esfriem pouco
-a pouco: porque huma parte da louça quebraria se ao sahir quente do
-forno, se expozessem ao ar frio. Quando o forno está já bem frio, e se
-quer tirar a louça, se abre a parede, ou porta falsa, para por ella se
-tirarem as obras que estaõ cozidas; porém muitas vezes succede, que, o
-verniz derretendo-se, corre de hum vaso para outro, e se achaõ muitos
-vasos pegados. Quando a adherencia he pouco consideravel, se separa
-facilmente; mas algumas vezes se quebraõ os vasos, indo-se a separar, e
-este inconveniente succede mais vezes áquelles que põe o verniz em pó, do
-que os que usaõ delle diluido em agua, porque a camada do verniz he mais
-delgada, e por isso menos sujeita a correr.
-
-154 Já disse, que o verniz naõ pegava sobre as manchas negras semilhantes
-a escoria do ferro, que fazem os pyrites, que se queimaõ ao cozer. Quando
-as peças valem o trabalho, os oleiros reparaõ em parte estes defeitos,
-pondo muito verniz sobre as manchas negras; porém estas obras precizaõ
-tornar outra vez ao forno, e causaõ grande incómmodo ao oleiro. Quando se
-tiraõ do forno as peças, as mulheres com facas grossas tiraõ os pedaços
-de barro, que se prendem aos vasos.
-
-155 Como sobre as louças de Lyones vi obras, e louças fabricadas nas
-provincias vizinhas de Liaõ, tenho gosto de dizer tambem alguma cousa a
-respeito dellas; e para isto procurei a Mr. de la Tourrette da Academia
-de Liaõ, e correspondente da Academia das Sciencias de Pariz, que tem hum
-zelo admiravel em ajudar com suas luzes todos, que emprendem indagações
-uteis.
-
-156 As memorias, que me procurou Mr. de la Tourrette, dizem respeito
-a tres qualidades de louças; que saõ a de Prá em Forez, a de Franche
-ville em Liones, e a de S. Valerio no Delphinado. Agora só me servirei
-das excellentes memorias, que recebi sobre a louça de S. Valerio,
-porque, como as obras, que ahi se fazem, saõ de louça fina, he justo
-fallar dellas, quando se tratar da arte de louça fina, que ao depois se
-publicará.
-
-
-_Da louça de Prá em Forez._[24]
-
-157 Prá he huma aldea junto á freguezia, e termo de S. Bonnet-Les-Oules
-em Forez distante duas boas legoas de S. Estevaõ, e huma de S. Galmier.
-
-158 Dizem, que o estabelecimento desta fabrica de louças tem perto de
-quatrocentos annos: em outro tempo haviaõ neste lugar quarenta olarias,
-e cada huma tinha seu forno; agora só tem cinco, por causa das muitas
-olarias, que se tem estabelecido na mesma provincia.
-
-159 Nestas louças se empregaõ duas qualidades de barro, que se misturaõ,
-hum vermelho, e outro escuro, ambas se achaõ em abundancia perto de Prá
-nos confins da freguezia de S. Bonnet, e nos das freguezias de Bauthcon,
-e Vanche.
-
-160 Achaõ-se na terra em bancos mais, ou menos extensos, os do barro
-escuro tem quasi dez pollegadas de alto, e os de barro vermelho saõ mais
-grossos; o barro escuro he mais gordo que o vermelho.
-
-161 As louças de Prá soffrem melhor o fogo, do que outras muitas.
-
-162 Amassaõ-se estes barros com hum masso de ferro sobre huma prancha, ou
-mesa forte, e depois se trabalhaõ na roda.
-
-163 Os fornos saõ redondos, tem cinco, ou seis pés de diametro, e sete,
-ou oito de alto, sem cuberta; saõ feitos de tijolos grossos juntos com
-barro gordo, e levaõ huma contra parede, feita de pedra de edificios com
-argamassa de cal, e area.
-
-164 Estes fornos, que se assemelhaõ bem aos de telheiros se esquentaõ
-com lenha por tempo de dez, ou doze horas, e mais segundo a estaçaõ: nas
-primeiras quatro, ou cinco horas só se faz hum pequeno fogo; depois se
-augmenta, e se faz muito activo.
-
-165 O verniz se faz da pedra de chumbo, ou do mesmo chumbo que se tira em
-pedra das minas vizinhas: pizaõ se, e passaõ se por huma peneira, e se
-livigaõ com pedras muito duras _Est. II_, _fig. 11_, e _12_. _G_, _H_.
-
-166 Tendo-se preparado assim o verniz se usa delle liquido; lança-se nos
-vasos, e se voltaõ para todos os lados, como se os lavassem. Estando o
-corpo da peça cuberto de verniz, se lança o resto em huma celha, para
-servir para outros vasos.
-
-167 Applica-se o verniz sobre vasos côr de cinza, mas muito seccos; e
-quando o verniz está secco, se põe as louças no forno.
-
-168 Querendo-se, que o verniz seja verde, mistura-se limalha de cobre com
-o chumbo, como acima se disse.
-
-169 Os vasos desta qualidade de louça rezistem muito ao fogo, como tambem
-os cadinhos para a fundiçaõ dos metaes; tem se feito muitas experiencias
-em S. Estevaõ: elles se fazem dos dous barros misturados, e amassados
-juntos, como já fica dito.
-
-170 Fazem-se nestas olarias, tijellas, pratos grandes, e pequenos.
-
-
-_Louça de Franche ville em Lyones._
-
-171 Julga-se em Lyones que esta olaria já existia no tempo dos Romanos.
-
-172 Usaõ ahi de duas sortes de barros, hum amarello, e outro côr de
-cinza, e ha alguns, que tem mistura destas duas côres. O amarello se
-acha ordinariamente em hum terreno magro, e areento, em lugares muitos
-elevados; o côr de cinza em valles por bancos maiores, ou menores, e
-mais, ou menos espessos; mas estes barros saõ muito abundantes, porque
-neste lugar se fabríca muita louça, desde hum tempo immemoravel.
-
-173 O barro amarello he mais aspero ao toque, e mais grosseiro, do que o
-côr de cinza, que he muito macio, e nelle senaõ encontraõ area.
-
-174 O amarello soffre melhor o fogo, do que o côr de cinza.
-
-175 Em Franche ville se fazem duas qualidades de louça; e isto depende da
-especie de barro de que a fazem.
-
-176 O amarello resiste perfeitamente o fogo; o cinzento, que se chama
-_gaubino_, como he hum barro mais puro faz huma louça mais compacta,
-que naõ póde aturar o fogo; mas a louça feita com o barro amarello, se
-descasca ao ar, isto he, cahe-lhe o verniz ou a superficie; o côr de
-cinza supporta muito melhor as suas influencias.
-
-177 Dizem, que as plantas postas em vasos deste barro naõ produzem.
-Misturaõ-se estes dous barros para hum corrigir as faltas do outro.
-
-178 Nas olarias se fazem vasos na roda, e outros em molde conforme requer
-a sua figura. Finalmente amassaõ-se estes barros batendo-os com huma
-massa de ferro como se faz em Prá.
-
-179 Os fornos, semelhantes aos dos telheiros, humas vezes saõ redondos,
-e outras vezes quadrados. Faz-se o fogo debaixo de huma abobada, em
-que ha buracos quadrados de tres, até quatro pollegadas de diametro,
-separadas humas das outras seis, ou sete pollegadas; para que o ar quente
-se communique ao interior do forno, onde se arrumaõ as obras, ellas devem
-estar bem seccas antes de se expôr ao fogo, precisaõ-se quasi cento e
-quarenta feixes pequenos de lenha para huma fornada.
-
-180 Para envernizar estas louças, querendo-se que o esmalte seja verde,
-se usa do chumbo hermetico, ou mina de chumbo, que se liviga debaixo da
-mó com agua, como fica dito, e a limalha de cobre. Querendo-se fazer o
-verniz branco, naõ se lhe ajunta a limalha de cobre; e quando se usa do
-chumbo só em huma louça de barro amarello, fica o esmalte avermelhado:
-este verniz se emprega no barro crú. Limito-me a estas indicações geraes,
-porque já se tratáraõ com individuaçaõ em outro lugar.
-
-
-
-
-ARTIGO XI.
-
-_Das Louças, que se chamaõ de greda._
-
-
-181 A vista do que disse no principio deste pequeno tratado a argilla
-he a baze dos barros, que servem para fazer as louças; porém segundo as
-substancias, que se achaõ misturadas com a argilla, ha humas, que fazem
-obras muito mais solidas do que outras. Quando estas substancias tornaõ
-a argilla fusivel, se cozem com pouco fogo, e por isso se póde dar a
-louça mais barata; destas he que acabei agora de tratar. A argilla pura,
-sendo de natureza a encolher muito, se racha ao seccar, ou ao cozer; mas
-quando a argilla se mistura com huma area refractaria, ou muito difficil
-de derreter, resulta daqui hum barro, que póde seccar, e cozer-se sem
-rachar, e que faz louças muito duras, quando experimentaõ hum grande
-fogo. Em geral este he o motivo porque se chama louça de greda. Ha
-qualidades dellas muito differentes; os vasos de greda côr de castanha,
-em que vem as manteigas de Isigny, saõ muito duras, e sonoras; elles
-rezistem muito bem a hum fogo grande, e naõ saõ atacaveis pelos acidos:
-esta he huma excellente louça; he quasi taõ sonora como a porcelana,
-quando se quebra a sua grã he muito fina, e hum pouco brilhante: e por
-isso he muito chegada á natureza do vidro; tambem tem o defeito de se
-quebrar, quando se faz passar subitamente do quente para o frio, ou ao
-contrario. E porque suspeitei, que este defeito vinha, de estar a argilla
-ligada com muita area que se tinha vitrificado pelo muito fogo, eu a fiz
-lavar; e depois de se ter precipitado huma pouca de area mais pezada,
-e mais grosseira, e pequenas pyrites, que tinha em grande quantidade,
-mandei fazer cadinhos com o barro fino, que depois se precipitou. Estes
-cadinhos vindo vermelhos do fogo, e depois mettendo-se em agua fria
-senaõ quebráraõ. Se eu estivesse vizinho destas olarias, persuado-me que
-poderia fazer vasos, naõ taõ formosos, como os de louça fina, a mais
-commum, porém que seriaõ taõ bons para o uso como a melhor porcelana.
-Fiz vir este barro de Gournai, a Normandia; mas como naõ me podia vir,
-senaõ em pequena quantidade, só fiz muito poucas experiencias em obras
-pequenas, porque se acabou logo o barro. Convido os phisicos, que
-tiverem a maõ as olarias de greda, a fazerem experiencias mais decisivas
-do que estas, que acabo de referir; porque esta especie de barro me
-parece digna de sua attençaõ.
-
-182 Como quasi todas as louças de greda, que se vendem em París vem de
-Beauvais, e que naõ ha lugares em todo o reino, aonde se trabalha nestas
-qualidades de louças, que passaõ mesmo para os estrangeiros, desejei
-ter maiores luzes sobre a posiçaõ das veias do barro proprio para estas
-louças, sobre o modo de o preparar, finalmente sobre tudo, o que respeita
-a esta qualidade de obras.
-
-183 Dizem, que as olarias se estabeleceraõ em outro tempo em huma
-freguezia, que ainda agora se chama _S. Germano da olaria_; porém ellas
-se tem abandonado: agora neste lugar só se fazem tijolos, telhas, e
-ladrilhos. Na freguezia de _Savignier_, onde ha quatorze oleiros,
-que trabalhaõ em greda, se acha hum barro muito proprio para estas
-qualidades de obras, e os obreiros saõ peritos no modo de o trabalhar.
-Em _Chapelle-au-Pot_, huma legoa distante de Savignier ha seis oleiros;
-porém elles trabalhaõ por hum modo muito inferior neste barro, do que no
-de Savignier; ainda que elle he quasi da mesma natureza.
-
-184 Huns, e outros ás vezes tem muito trabalho em achar veias de barro
-de boa qualidade. Depois de se tirarem dous, ou tres pés da superficie,
-se começaõ a perceber as veias dos barros, que se procuraõ; mas ellas
-só saõ boas, de vinte pés de fundo por diante, e se tira barro ainda de
-mais fundo; e entaõ os obreiros temem o cahir-lhe a terra em cima. Ha
-veias mais grossas, e mais largas humas do que outras, que se seguem em
-quanto se acha barro de boa qualidade: distinguem-se duas especies delle;
-o que se chama greda, muitas vezes he bastantemente duro, e dificil de
-tirar. Com estas duas qualidades de barros se fazem duas especies de
-louças, huma com o barro, que se chama greda, e outra com hum barro hum
-pouco differente; com este se fazem vasos, que pódem ir ao fogo; mas
-as do outro se quebraõ, se senaõ esquentaõ com muito cuidado, com tudo
-quebraõ-se menos do que os da greda escura de Normandia. Os cadinhos só
-se fazem aqui de encomenda: o obreiro, que tem mais fama de os fazer bem,
-passa o barro por huma peneira, escolhe-o, e amassa-o com mais cuidado
-do que os outros: a preparaçaõ deste barro he, quasi a mesma, que os
-oleiros de París daõ ao seu.
-
-185 Interrompo, o que hia a dizer das olarias de Beauvais, para fazer
-notar, que os melhores cadinhos, que podem haver para os fundidores, saõ
-os que se fazem de hum barro branco, que se acha em S. Samsaõ, quasi
-seis legoas distante de Beauvais. Estes cadinhos esbranquiçados, bem
-cozidos, muito sonoros, resistem ao maior fogo, sem se quebrarem, e sem
-se penetrarem pelos saes; tem de mais a vantagem, de naõ precizarem tanto
-cuidado como os cadinhos de greda, quando se metem no fogo, ou quando se
-tiraõ. Agora torno a fallar do trabalho de Beauvais.
-
-186 Quando se tira a argilla da terra, leva-se para casa do obreiro,
-põe-se em pequenos pedaços, lança-se em huma cova com agua, para ella
-se penetrar, e fazer-se ductil; deixa-se até o outro dia, e entaõ se
-tira em massa; o obreiro a corta, e a torna a pôr em camadas na mesma
-cova de donde a tirou, para a amassar, e misturalla com huma pouca de
-area, ligeiramente salpicada de cal: finalmente amassa-se como fazem os
-oleiros de París; depois de se ter amassado, e tornado a ajuntar por
-quatro vezes, se fazem bolos, que se levaõ a huma mesa, para o amassar, e
-trabalhar bem, como fica já explicado a fundo. Trabalha-se depois sobre
-huma roda de ferro _est. II_, _fig. 4_, e _5_. ou de páo que se faz mover
-com o pé _fig. 18_, _est. I_; porque os oleiros de Savignier se servem
-de humas, e outras, segundo as obras, que elles tem de fazer. Em huma
-palavra o trabalho dos oleiros de Picardia naõ differe essencialmente,
-do que acima disse tanto para a factura das obras, como para dar-lhe o
-verniz.
-
-187 As louças de greda se cozem a grande fogo; os fornos estaõ postos em
-pleno ar sobre huma pequena elevaçaõ de terra; differem pouco dos fornos
-dos oleiros dos suburbios de S. Marçal _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. só
-com a differença, que, sendo feitos sobre hum pequeno cabeço, se caminha
-sempre subindo desde a entrada até o fundo do forno, e isto facilita a
-distribuiçaõ do ar quente. Na parte opposta da fornalha, naõ ha o tubo
-de chaminé _C D_, _fig. 3_. _est. I_; mas na parte baixa _C_, se formaõ
-pequenas arcadas para a dissipaçaõ da fumaça; por este lugar he que se
-metem as obras no forno, depois se fecha com huma parede de tijolos.
-Estes fornos ordinariamente tem 45 até 50 pés de comprido, e dez, ou doze
-de largo no meio, e huma altura igual debaixo da abobada; porém na sua
-embocadura só tem quasi seis pés de alto.
-
-188 O fogo se faz diante da embocadura do forno em huma fornalha de
-abobada, que tem quasi quatro pés de largo, e cinco de comprido, e outro
-tanto de alto. Começa-se com hum pequeno fogo, depois se augmenta, e se
-acaba com hum fogo de lenha miuda, que se inflama muito, e se continúa
-oito dias, e oito noutes sem interrupçaõ.
-
-189 As louças, que devem servir no fogo, ou que haõ de ser envernizadas,
-naõ levaõ hum fogo taõ violento: trabalhaõ-se quasi como as louças de
-París; mas para cozer as louças de greda se gastaõ 16, ou 18 cordas
-(_cada corda tem 4 pés d’alto, e 8 de comprido_) de páos grossos, e
-quatro centos feixes de lenha mais fina para o ultimo fogo.
-
-190 A manteiga de Prevalais, vem em potes de huma greda azulada, que he
-muito boa; mas eu naõ sei exactamente o modo de trabalhar esta pequena
-louça, e por isso naõ entro em grandes individuações a este respeito.
-
-191 Em _Zimmeren_, quatro legoas de Treveris, e em muitos lugares na
-provincia de Luxembourg, se faz huma especie de louça que he muito boa,
-de huma greda muito fina, e branca, cuja superficie he luzente sem se
-cubrir de verniz; este brilhante he formado pelo mesmo barro, que passou
-por huma vitrificaçaõ superficial; eu penso que ella se forma pelo vapor
-do sal marinho, que se lança no forno, como nas obras de barros brancos,
-que se tem feito em Montereau.
-
-192 Os que vem da provincia de Luxembourg, trazem todos os annos desta
-louça a París ao Armazem de louça fina, aonde vaõ comprar os que
-contrataõ neste genero. Naõ pude ter maiores conhecimentos sobre o modo
-trabalhar nestas louças.
-
-193 Julgo, que os barros, que fazem boas louças de greda, se preparaõ de
-argilla, de hum bocado de area vitrificavel, e de area muito refractaria;
-porque em todas as fabricas, onde se fazem boas louças, e ainda mesmo
-nas de porcelana, se fazem entrar com successo na composiçaõ pedaços
-de louças quebradas, reduzidas a pó, depois de se conhecer, que saõ de
-qualidade capaz de resistir a hum grande gráo de fogo.
-
-
-_Das Louças de S. Fargeau._
-
-194 Além das louças de greda, que se fazem em Bretanha, Normandia, e
-Picardia, se fazem muito boas em S. Fargeau. Como esta cidade, que he
-huma das mais antigas de França, está distante de Briara quatro legoas.
-O Loire serve para se transportar esta louça a muitos lugares. Leva-se
-pelo Loire por exemplo a Chateauneuf, de donde se destribue por terra
-a muitos lugares. Como daqui vem a Pithiviers, cidade muito visinha ás
-nossas terras, tive occasiaõ de a comprar, e conhecer a bondade desta
-louça; cheguei mesmo a prover-me de vasos de Chymica, que mandei fazer em
-S. Fargeau por modelos, que enviei. Ha ahi louças, que saõ cubertas de
-hum verniz escuro muito duro, e que resistem muito bem a acçaõ dos acidos
-mais concentrados; tive cucurbitas, e capiteis de lambiques, em que
-ajustei grandes refrigerantes de cobre; estes vasos saõ taõ impenetraveis
-aos vapores os mais subtís, como o melhor vidro, e resistem muito melhor
-a acçaõ do fogo.
-
-195 Como quiz adquirir conhecimentos sobre a natureza desta louça,
-procurei com confiança a Mr. o Presidente de S. Fargeau, por conhecer o
-seu zelo para tudo, o que tem relaçaõ com o progresso das artes, e que
-pode utilisar ao bem público. Elle mesmo quiz responder em huma Memoria
-as perguntas que lhe fiz por instruçaõ sua, e isto me põe em estado de
-dar huma idéa bem exacta dos methodos, que seguem os oleiros deste lugar.
-Ainda que estas louças saõ conhecidas pelo nome de greda de S. Farjeau,
-com tudo ellas se naõ fazem nesta cidade mas sim em huma pequena povoaçaõ
-que dista huma, ou duas legoas da cidade.
-
-196 Em geral a argilla, que se emprega para a louça que nos occupa, he
-cinzenta; mas della se distinguem duas qualidades; huma mais branca,
-que a outra, tem huma area fina; com este barro se fazem vasos de huma
-greda mais compacta, e fina, do que com a outra, e se coze mais forte.
-Ellas naõ vaõ ao fogo; e por isso desta greda se fazem potes de manteiga,
-quartas, e botelhas etc. Este barro, depois de cozido, toma huma côr
-amarella clara; com tudo, fazendo se passar por hum grande fogo, toma a
-côr cinzenta. Com elle se fazem vasos, que se envernizaõ, e outros naõ:
-para distinguir este barro do outro, eu o chamarei barro branco.
-
-197 A outra especie de barro tambem he côr de cinza, porém mais escura,
-que a precedente; e por isso o chamarei escuro. Os oleiros achaõ esta
-argilla mais forte, e mais pura, que a branca: com este barro he que
-elles fazem os utensis do uso que devem ir ao fogo; naõ o cozem taõ
-forte, como o outro, e huns vasos vaõ envernizados, e outros naõ. Estes
-dous barros, sendo cozidos, tomaõ a mesma côr pouco mais, ou menos, e os
-vasos, feitos de hum, ou outro barro destes, nos lugares, aonde ficaõ
-mais expostos a acçaõ do fogo, se tornaõ brilhantes na superficie, como
-se fossem envernizados.
-
-198 Os oleiros fazem muitas obras de cada hum destes barros separados, e
-puros, sem mistura alguma; tambem as fazem de ambos os barros branco, e
-escuro misturados, sem lhe ajuntarem outro barro, ou area.
-
-199 Ambos estes barros se achaõ mais, ou menos fundo em camadas de dous
-pés, até seis de grosso. Estes bancos de argilla se cavaõ facilmente com
-o enxadaõ, ou enxada.
-
-200 Estes barros saõ bem finos; e moem-se entre os dedos; com tudo entre
-elles se encontraõ calháos, e pedras, e se lançaõ fóra quando se achaõ
-nas maõs, ou debaixo dos pés.
-
-201 Este barro se reduz a pequenos pedaços com qualquer instrumento,
-que corte; depois, humedecendo-se com agua, se amassa até tres vezes, e
-depois se trabalha com as maõs, como fazem os oleiros de París.
-
-202 Muitas vezes o amassaõ, logo que o tiraõ; com tudo os oleiros convem,
-que elle se trabalha melhor, depois de passar hum inverno ao ar; e este
-sentimento he geral em todas as olarias.
-
-203 Como disse acima, que se humedecia para o pôr em estado de ser
-amassado, devo advertir, que o naõ lançaõ na agua, como fazem os oleiros
-de París; porém deitaõ de doze, até quinze baldes de agua em huma carrada
-de barro.
-
-204 Os vasos se trabalhaõ em huma roda, que se faz andar com hum páo,
-como se vê representado na _est. II_, _fig. 4_, e _5_.
-
-205 Põe-se as azas, e se aperfeiçoa a obra, do mesmo modo que fazem os
-oleiros de París, como fica dito.
-
-206 O forno dos oleiros de S. Fargeau, com pouca differença, he o mesmo
-que fica representado na _est. I_, porém he hum pouco metido pela terra;
-de modo que para meter a lenha, se precisa descer a huma cova, que tem
-quasi nove pés de largo, quatro de fundo, e quatro de vaõ. O corpo do
-forno, aonde se arrumaõ os vasos, tem dezenove pés de comprido, dez de
-largo, onde ha maior largura, e seis de alto.
-
-207 Para huma fornada se gastaõ vinte cordas de lenha miuda, ou nove de
-lenha grossa; daqui se vê que estes fornos se esquentaõ por hum modo
-muito differente dos de París.
-
-208 O fogo dura quatro dias, e tres noites sem parar; por doze horas
-he o fogo brando para esquentar, e todo o mais tempo he com muito fogo
-para cozer perfeitamente: quando se para com o fogo, se fecha o forno,
-e fica assim tres dias, e tres noites, de sorte que, quando se tira a
-louça, já ella está fria. Se a louça se tirasse logo huma parte quebraria
-derrepente, e o resto seria muito fragil; e desta sorte o tempo, que
-a louça fica no forno depois de cozida, equivale ao recozimento dos
-vidraceiros, sem o qual tudo se quebraria, principalmente passando do
-quente para o frio.
-
-209 Põe-se no mesmo forno os vasos de barro branco, que naõ se destinaõ
-para servir no fogo, os de barro cinzento, que haõ-de ir ao fogo, e os da
-mistura destes dous barros. Toda a differença, que se observa no cozer,
-he pôr os vasos de barro branco perto da entrada do forno, no lugar aonde
-ha maior calor, e os de barro misturado no meio do forno, e os de barro
-cinzento na extremidade do forno, onde ha menos calor.
-
-210 Os oleiros de S. Fargeau fazem o seu verniz com duas materias mais,
-ou menos vitrificaveis, a que chamaõ _Latier_; este _Latter_ vem das
-fornalhas, em que se trabalha a mina de ferro. Hum he escuro, e em parte
-vitrificado; o outro he verde, e he hum verdadeiro vidro muito duro.
-
-211 Achaõ-se estas substancias espalhadas sobre a terra; ainda que junto
-a S. Fargeau naõ hajaõ fornalhas de ferro; presume-se que as houveraõ
-antigamente. Reduzem a pó por meio de huma maquina de dous pilões que
-se faz mover por huma manivela, e de huma roda; estes pilões na ponta
-debaixo levaõ huma chapa de ferro, como a dos pilões de socar casca de
-curtume. Quando se precisa pouca quantidade de verniz, se pulverisaõ as
-materias, de que acabo de fallar em hum gral com maõ de ferro; passaõ-se
-por huma peneira de cabello; este pó entaõ está da côr de cinza, e os
-oleiros o chamaõ _Latier en laquet_, (escoria para verniz).
-
-212 Applica-se este verniz ao barro crú, porém bem secco; para o pó se
-pegar, se humedecem os vasos em agua, e se pulverisaõ exactamente com
-este pó, que fica muito adherente, quando se derrete pela acçaõ de hum
-grande fogo, e se encorpora a superficie do barro.
-
-213 Como se applica sobre estes vasos crús, o mesmo fogo, que coze o
-vaso, faz derreter o verniz, que se torna escuro côr de castanha, e muito
-duro.
-
-214 Para os vasos de barro branco mais expostos ao fogo se mistura com a
-escoria huma pouca de cinza fresca passada por peneira. Dizem os oleiros,
-que sem isto, o verniz se queimaria. No meio do comprimento do forno se
-põe simplesmente as escorias; e na ponta, aonde ha menos fogo, se ajunta
-ás escorias hum bocado de cal de chumbo para ajudar a fusaõ.
-
-215 Este verniz, como já disse, toma huma côr da castanha muito unida, e
-brilhante, e he taõ bom como o dos oleiros de París; mas he preciso hum
-grande fogo para o fazer derreter: e nisto convem com louças que se cozem
-em greda e todas as de S. Fargeau saõ desta qualidade.
-
-
-_Modo de procurar as louças huma côr negra, que de algum modo supre o
-verniz._
-
-216 Eu tirei do Calendario Limousino, algumas individuações sobre as
-louças de S. Eutropio em Angoumes especialmente sobre as que chamaõ
-panellas, e destas humas saõ envernizadas, e outras naõ; estas vaõ huma
-só vez ao forno, as outras vaõ duas vezes, e nelle se deixaõ tres dias
-para ficarem perfeitamente cozidas. Seu verniz nada tem de particular:
-porém he justo referir huma industria, com que os oleiros de algum modo
-suprem o verniz, tingindo de preto os vasos, que em muitas serventias saõ
-preferiveis aos envernizados. Consiste pois nisto sua industria.
-
-217 Assim que se põe a louça no forno, se lhe lança, por cima cinza
-de Estevas, ou urzes, e se cobrem com ella o mais que póde ser.
-Põe-se depois seis, ou sete feixes deste arbusto no fogo. Depois de se
-inflammarem bem estes feixes se tapaõ as bocas superiores do forno, e se
-sufoca o fogo: a louça deste modo recebe a fumaça, que a penetra, quando
-ella está ainda humida (a que chamaõ suar a louça) quando se começa a
-esquentar, ou a dar a tempera. Esta fumaça ajuntando-se com a cinza faz
-huma côr negra, e muito solida ás louças. Depois desta fumigaçaõ, se
-abrem os buracos superiores do forno, e se continua a cozer a louça.
-
-
-_Louça de Inglaterra._
-
-218 Mr. Jars, correspondente da Academia, sabendo, que eu me occupava
-em fazer a arte de oleiro teve prazer em me communicar algumas memorias
-sobre a louça de Inglaterra, que elle tinha achado entre os papeis do
-falecido seu irmaõ da Academia das Sciencias. Naõ deve haver duvida, que
-se Mr. Jars as tinha publicado, teria ajuntado muitas individuações, que
-as fizessem mais claras; mas julguei devellas dar taes, quaes elle me
-remetteo, persuadido que as pessoas já instruidas no trabalho da louça
-poderaõ nellas achar algumas praticas, que cooperem para a perfeiçaõ
-desta arte.
-
-219 _Comté de Nordhumberlane._ Nas visinhanças da Cidade de Neuwcastle
-se estabeleceraõ differentes fabricas de louça; onde se fazem de toda a
-qualidade, a excepçaõ só da branca, que em França chamamos de barro de
-Inglaterra.
-
-220 Neuwcastle está situada com a maior vantagem para este commercio: o
-carvaõ de pedra he muito, e barato, porque o do gasto do paiz naõ paga
-direito algum.
-
-221 Em quanto aos materiaes proprios para fazer a louça estes tambem
-lhes vem baratos, porque os Navios que vaõ levar o carvaõ a Londres,
-na volta lhos trazem; visto deverem trazer lastro. A materia propria
-para fazer a pederneira, ou pedras de tirar fogo: sabe-se que dellas ha
-grande abundancia na parte Meridional de Inglaterra; pois de Douvres até
-Londres, quasi todo o terreno he huma mistura de greda, e pederneiras.
-
-222 Destas materias fazem o lastro os mais dos Navios, que muitas vezes
-voltaõ de Londres vazios; deves-se suppôr, que tornando a Neuwcastle
-ellas se vendem baratas; os que tomaõ os fornos de cal de empreitada,
-que saõ muitos na visinhança do rio, as compraõ; elles fazem huma mistura
-de greda, pederneira, e pedra de cal sem distinçaõ alguma, e cozem tudo
-acamado, huma cousa por cima de outra. Depois da calcinaçaõ he muito
-facil distinguir a pederneira, ainda que se torna muito branca de escura
-que era dantes; põe se de parte esta pederneira para se vender aos
-oleiros, a razaõ de oito, ou nove xelins a tonelada; e cada huma tem
-vinte quintaes de cento, e doze libras de pezo de Inglaterra.
-
-223 Em geral saõ semilhantes todos os fornos, de que se servem para cozer
-a louça; só differem na construçaõ em serem maiores, ou mais pequenos.
-
-224 A louça ordinaria, que se chama louça fina, para a distinguir de huma
-mais, commum, do que adiante se fallará, se faz de huma argila de côr
-cinzenta, tirando mais a branca, e da pederneira calcinada, que entra na
-composiçaõ de quasi todas as louças. Antes de misturar, ou preparar, como
-se segue.
-
-225 Cada fabrica tem huma especie de moinho, para moer a pederneira,
-que he tocado por agua, ou por hum cavallo; alguns donos destes moinhos
-compraõ a pederneira, e a vendem, depois de moida aos oleiros. Este
-moinho consiste em huma especie de pia de páo de cinco, ou seis pés de
-diametro, cujo fundo se faz de humas grandes pederneiras naõ calcinadas,
-postas humas ao pé das outras de modo, que deixaõ entre si vacuos bem
-consideraveis; no meio deste fundo ha hum mancal, que recebe o piaõ de
-hum páo vertical com hum braço em que se prende o cavallo, ou bois que
-o tocao (no Brazil se chama atafona;) em roda deste páo estaõ muitas
-pederneiras grandes encaixadas, e seguras com gatos de ferro, que servem
-de mós. Mr. Jars, vio destes moinhos, aonde em lugares de pederneiras, se
-servem de marmores durissimos, de que fazem a mó superior, unindo quatro
-pedras grossas com gatos de ferro ao páo vertical.
-
-226 Nestes moinhos, e entre estas pedras, se moe a dita pederneira
-calcinada, lançando-lhe sempre agua; quando a agua está já bem carregada,
-se tira huma cavilha de páo, que está na pia, para cahir agua em huma
-peneira de cabello, e desta em huma celha: lança-se nova agua no moinho,
-e se procede do mesmo modo, que fica dito, lançando outra vez na pia,
-o que naõ póde passar pela peneira; depois disto, se passa por huma
-peneira de seda muito fina, quando se quer misturar com a argilla, que se
-prepara do modo seguinte.
-
-227 A argilla, de que se faz a louça, se tira do condado de Devonshire,
-de donde vem por mar, e serve de fazer lastro aos Navios de volta, como a
-pederneira; tambem se servem della para fazer pitos: posta em Neuwcastle
-custa sete, ou oito xelins a tonelada. He côr de cinza, tirando mais
-o branco; tem a grã muito fina; dilue-se com agua em tanques grandes,
-agitando-a bem para se dividir melhor; depois se passa esta argilla
-desfeita n’agua por huma peneira de cabello taõ fina, como aquella, em
-que se passou a pederneira, e depois em huma de seda taõ fina, como a da
-pederneira; e entaõ se vai logo fazer a mistura.
-
-228 Misturaõ se dez partes de agua carregada de argilla com huma parte da
-agua da pederneira: estando tudo bem misturado, se trata da evaporaçaõ
-da humidade, e reduzir tudo a consistencia de massa, o mais breve que
-for possivel, para que a pedra naõ tenha tempo de se separar da argilla,
-e precipitar-se, o que faria a mistura desigual. Tem-se experimentado o
-calor do sol, mas sem fruto; servem-se de humas especies de fornos para
-esta opperaçaõ.
-
-229 Estes fornos consistem em huma caixa comprida, ou especie de bacia
-formada de tijolos, sustida por cima com barras de ferro: tem huma grelha
-para se fazer ahi fogo de carvaõ de terra, e na extremidade da caixa huma
-chaminé para receber a fumaça. Esta mistura carregada de agua se põe
-nestas para evaporar-lhe a humidade, até huma consistencia conveniente
-para ser amassada; depois disto se tira este barro, e se põe em hum lar
-liso, feito de pedras chatas, ou com taboas: aqui se trata de amassar
-tudo, e pôr a massa em ponto de ser trabalhada.
-
-230 Formaõ-se logo obras a maõ na roda orisontal, quando ellas estaõ já
-meias seccas, se acabaõ na roda vertical com os instrumentos; outras
-finalmente se formaõ em moldes de gesso: para preparar estes moldes, o
-melhor modo de queimar o gesso he o seguinte.
-
-231 O do uso ordinario, que se chama alabastro, parece ser hum gesso
-branco semilhante ao que se tira nas visinhanças de Salins em _Franche
-Comté_; reduz-se a pó que se passa por huma peneira muito fina; depois
-se põe ao fogo dentro em hum vaso de barro; move-se bem com hum páo de
-espaço em espaço; e logo que elle se agita pelos globulos de ar, que
-delle sahem, se chama a isto _fazello ferver_. Continua-se até se julgar
-bem calcinado, depois se humedece com agua para fazerem moldes do modo
-que se quer.
-
-232 Mr. Jars vio preparar bules para chá, cujo corpo se fez com as duas
-differentes rodas; mas a aza, e o bico se fazem em moldes de gesso; estes
-moldes estaõ perto do fogo para estarem seccos. Quando se quer formar a
-aza de hum bule de chá que está feito ordinariamente, se tem hum molde
-que consiste de duas peças de gesso, se applica huma sobre a outra, e
-que saõ ocas com a figura que deve ter a aza; faz-se hum rolo do barro,
-e se estende no molde de maneira, que o encha perfeitamente; applica-se
-por cima a outra a metade do molde; depois se põe tudo ao pé do fogo hum
-bocado de tempo; tira-se a peça do molde, e se ajusta no corpo do bule
-humedecendo o barro com agua no lugar aonde se soldar.
-
-233 Os bicos se fazem por modo alguma cousa differente, tem-se moldes
-semelhantes aos precedentes, bem seccos, e applicados hum sobre outro:
-em huma das extremidades, que communica na capacidade interior, tem hum
-buraco, por onde se lança a massa muito clara, porém de modo, que fica
-huma abertura no interior da peça formada, que vem a fazer o bico do
-bule. O molde de gesso bem secco sem duvida, he o que ajuda a fazer este
-vacuo, embebendo com a sua porozidade a agua da massa do barro, assim
-que esta toca nas paredes do molde. Este molde se põe por algum tempo ao
-pé do fogo, como o outro de que já fallei, antes de se tirar a peça, que
-depois se solda no bule, do mesmo modo que se solda a aza.
-
-234 Mr. Jars, vio em differentes fabricas muitos moldes de gesso para
-fazer pratos, e tigellas recortadas, e com differentes feitios: vantagem
-consideravel, para diminuir o preço da maõ de obra. Toda a louça, feita
-deste modo, se põe sobre taboas debaixo dos telheiros, ou alpendres
-aonde secca; ha caixas redondas feitas de barro ordinario, peneirado
-grosseiramente, porém amassado com muito cuidado; commummente tem duas
-pollegadas de grosso, quatro, ou cinco de fundo, e hum pé de diametro;
-nesta caixa se arruma de ordinario a louça; no forno, se põe huma sobre
-outra; fazem-se muitas ordens no fundo: isto fórma differentes pilhas,
-conforme o tamanho da fornalha.
-
-235 Assim que está quasi cheio se fecha a porta falsa com tijolos, e
-barro, e se lança carvaõ nas cinco fornalhas de vento distribuidas em
-roda da fornalha grande. Quando se accende, entra a chama naõ só pelas
-cinco chaminés, mas tambem pelas pequenas aberturas, que vaõ ter a cada
-huma dellas; assim o calor se introduz igualmente por todo o interior da
-fornalha: este calor deve continuar trinta horas, depois que pára o fogo;
-logo que esfria a fornalha, se tira a louça para a envernizar.
-
-236 Todos os vernizes, de que se usaõ, tem por base o chumbo; tambem se
-servem da pedra, ou mina de chumbo, o zarcaõ, e o alvaiade, conforme a
-qualidade da louça; accrescenta-se-lhe alguma outra materia para variar a
-côr. Para diminuir o preço do verniz se lhe ajunta huma certa quantidade
-de pederneira calcinada, e a mesma argilla, de que se faz a louça; assim
-que secca o verniz, com que se cubrio a louça, se põe de novo nas caixas,
-e depois na fornalha, como se fez d’antes, e ao cabo de trinta horas
-está em termos de ser vendida.
-
-237 Pode-se usar de toda a qualidade de carvaõ para a cozer.
-
-238 A louça assim preparada, e cozida, como fica dito, naõ está subjeita
-ao perigo de se quebrar pelo calor da agua fervendo, ou pelo fogo,
-com tanto que se naõ ponha de repente em hum fogo muito ardente. Esta
-louça serve para cozer no forno toda a qualidade de manjares, mas
-principalmente a louça branca, que se fabríca no Condado de _Stafford_. A
-sua descripçaõ tambem se ha de dar.
-
-239 O interior da louça cozida he muito branco, e de huma grà muito
-compacta. Ainda que se lhe naõ percebe apparencia de vitrificaçaõ, se
-pode dizer, que se avisinha muito a ella.
-
-240 Fabrica-se outra especie de louça no mesmo lugar, e fornalha, que
-se faz com outra argilla escura, como a precedente: nesta naõ entra a
-pederneira; mas a sessenta partes deste barro se ajunta huma parte de
-magnesia reduzida a pó muito fino: depois desta mistura, se evapora a
-maior parte da humidade em hum forno semelhante ao precedente; cobre-se
-de hum verniz negro, em cuja composiçaõ entra tambem a magnesia; esta
-louça passa pelas mesmas operações, que a primeira, e resiste igualmente
-ao calor.
-
-241 Muitas vezes se applicaõ desenhos em ouro sobre esta louça negra;
-para isto se tem hum licôr, que se chama _goldsize_ ou mordente, que se
-traz de Londres: he huma especie de verniz composto de differentes modos;
-com este verniz pinta o obreiro tudo, o que quer, sobre a louça alguma
-cousa ainda quente; depois do que applica sobre a pintura folhas de ouro
-batido (ou paõ de ouro,) e com hum pé de lebre se faz cahir o ouro dos
-lugares, que naõ foraõ envernizados; põe-se depois esta louça em huma
-pequena fornalha, que está de parte, com grades de ferro, e sua chaminé;
-o fundo he huma chapa debaixo da qual se põe o carvaõ, a fumaça, e a
-chama sahem pela chaminé.
-
-242 Pouco distante desta fabrica ha hum lugar em que se faz louça
-grosseira, e que vai ao forno huma só vez, porém com hum fogo continuado
-por quarenta horas. A fornalha he semelhante á precedente; porém muito
-maior; tem sete fornalhas de vento, e sete chaminés, em lugar de cinco,
-que a outra tem. Estas fornalhas de vento saõ quasi de cinco pés de
-distancia de hum centro a outro.
-
-243 A argilla cinzenta que serve para a louça, de que se acabou de
-fallar, na vista he em tudo muito semelhante á de que se servem em
-Staffordshire para a louça branca; com tudo as experiencias, que della se
-fizeraõ, tem provado, naõ ser susceptivel da mesma impressaõ do sal, para
-a cobrir de hum bom verniz.
-
-244 _Louça do Condado de Stafford_. As minas de carvaõ tem dado lugar a
-hum estabelecimento de fabricas de louça de todo o genero nas visinhanças
-da Cidade de Neuwcastle; por isso as de louça branca saõ mais numerosas.
-Dizem que ha de dez a quinze mil almas empregadas nas minas de carvaõ, e
-nas fabricas de louças; mas sem contradiçaõ o maior numero se occupa na
-louça. Naõ se vem ali senaõ pequenas povoações habitadas de oleiros, e
-fabricas deste genero em toda esta parte do Condado de Stafford, e hum
-grande numero de fornalhas, principalmente nos lugares aonde se tirou, e
-aonde ainda se tira carvaõ.
-
-245 A argilla, de que usaõ para a louça branca, he de duas especies,
-quasi semelhantes; só se faz differença dellas pelo uso como adiante se
-dirá. Tira-se de Devonshire, e dizem, que esta provincia a dá para todas
-as fabricas de louça de Inglaterra. A pederneira, de que se faz tambem
-hum grande uso, se tira de Gravesande, ou verdadeiramente das margens do
-Tamisa.
-
-246 O ponto principal desta louça, isto he, para a ter bem branca, e
-livre de manchas, consiste na preparaçaõ da argilla, e em sua mistura
-com a pederneira; põe-se a argilla em hum tanque com agua para a fazer
-humedecer; dilue-se bem, agitando-a com hum pedaço de páo, esta agua
-assim carregada se coa, para outro tanque por huma peneira de cabello,
-para separar, o que naõ está diluido, esta se torna a lançar no primeiro
-tanque. Espera-se que haja huma suficiente quantidade de argilla já
-pãssada, e depois se agita fortemente, e se passa por huma peneira fina.
-Para a misturar com a pederneira, se faz o mesmo, que em Neuwcastle em
-Northumberland; a pederneira se calcina do mesmo modo em hum forno de
-cal; e depois se pulverisa, e liviga em hum moinho tocado ordinariamente
-pela agua; a pederneira neste estado he levada a fabrica. Para a mistura
-ser perfeita, se deve diluir em agua na mesma consistencia, em que estava
-a argilla.
-
-247 A proporçaõ he de ajuntar huma parte de pederneira a seis partes de
-huma destas argillas; e a cinco partes da outra argilla se ajunta huma de
-pederneira. Depois da argilla ter sido passada por peneiras duas vezes,
-como acima se disse, se torna a passar terceira vez por huma peneira
-ainda mais fina, e entaõ he que se medem as porções.
-
-248 Deve haver huma pequena celha, que se enche seis vezes da argilla
-passada pela peneira; e depois se enche huma vez da agua da pederneira,
-e assim se continua até haver a quantidade da massa, que se quer; para a
-mistura ficar perfeita, precisaõ as duas massas, ou aguas de argilla, e
-pederneira, ter igual consistencia, e se mexem bem ambas juntas; e depois
-se tornaõ a passar quarta, e quinta vez por huma peneira fina e desta
-ultima vez se coa no tanque de tijolos, que tem por baixo o fogo.
-
-249 As peneiras se fazem com fio de cambraia mais, ou menos fino; os
-caixões, ou tanques de tijolo, onde se põe a seccar a materia, saõ
-semelhantes áquelles que se usaõ nas fabricas, de que acima se fallou;
-a mistura de barro e area secca nelles lentamente, agita-se huma vez por
-outra com huma pá para seccar mais com igualdade; neste tanque fica até
-ter a consistencia precisa para ser trabalhada; entaõ se leva esta pasta
-para huma especie de sobrado bem limpo, e com muito aceio, aonde hum
-homem com os pés o trabalha, e amassa até julgallo proprio para fazer a
-louça.
-
-250 Todas as péças, que naõ levaõ molduras, nem saõ recortadas, se formaõ
-sobre huma roda vertical, que hum menino faz mover; a que he de molduras,
-se forma em moldes de gesso. Estes moldes de gesso consistem em huma peça
-de gesso, que tem interiormente a figura que deve ter a peça ou seja
-prato, ou tijella, ou outra qualquer, no qual gesso se gravou o desenho,
-que se quer dar a peça.
-
-251 Bate-se e trabalha-se hum bolo de barro, depois se estende com hum
-rolo. Depois que se estendeo o barro tanto, quanto quer o official, se
-põe sobre o molde aonde se aperta bem com as maõs, e se molhaõ na agua,
-se he preciso, para a massa se naõ pegar a elle, e tambem para fazer liza
-a parte exterior do prato, ou tijella.
-
-252 Este trabalho se faz em hum quarto onde ha fogo, para que os moldes
-sempre estejaõ bem seccos, e que, depois de algumas horas, se possaõ
-tirar as peças, que nelles se formaraõ.
-
-253 Como he preciso pulir as louças nos lugares, aonde naõ levaõ verniz,
-para tomarem melhor o verniz; logo que tem seccado alguma cousa á sombra
-as mesmas obras, que se fizeraõ na roda vertical, se levaõ ao torno,
-aonde se aperfeiçoaõ, e se fazem mais iguaes; e depois disto, se pulem na
-mesma roda ou torno, applicando lhe por cima huma folha de ferro liza,
-nos lugares, que devem ser pulidos. Da mesma sorte se fazem em moldes
-peças redondas; as peças ovaes, que naõ podem ser pulidas no torno, se
-lavaõ bem com huma esponja, e agua, e depois com hum pedaço do mesmo
-barro cozido, e pulido, se pulem todas as partes, que o devem ser.
-Esta louça ordinariamente se arruma em taboas a sombra para ahi seccar
-inteiramente antes que se ponha no forno.
-
-254 Nas visinhança de Neuwcastle ha argilla propria, para fazer as caixas
-em que se põe a louça; estas caixas saõ redondas, fazem se-lhe em roda
-cinco, ou seis buracos de duas em duas pollegadas, e de meia pollegada
-de diametro; seu tamanho he proporcionado aos das peças, que se querem
-meter nellas.
-
-255 Quando se quer arrumar a louça nestas caixas, os meninos preparaõ o
-que a deve suster; e saõ huns pequenos pedaços da mesma argilla formados
-em parallelipipedos; e, estando ainda muito humidas, se applicaõ sobre
-greda pizada grosseiramente, que se pega sobre toda sua superficie, com
-isto se guarnece o fundo das caixas, e destes parallelipipedos se servem
-para suster cada huma das peças, para que ellas naõ toquem humas nas
-outras; por se naõ pegarem com o verniz; esta greda de todo se naõ pega a
-louça, e nem lhe faz a menor marca, e se o faz em algumas peças, estas se
-rejeitaõ.
-
-256 Os fornos, em que se faz cozer esta louça, saõ pouco mais, ou menos
-semelhantes a estes, de que se tem fallado: a differença, que ha,
-consiste só em que elles commummente tem oito fogos, e por conseguinte
-oito chaminés interiores; mas estas chaminés só tem a abertura superior.
-Dizem que estas pequenas aberturas, que os outros tem, para a louça
-envernizada, faria mal a louça branca, porque a chama, que sahe da
-envernizada indo dar nas caixas da louça branca a faria amarella. _Outra
-differença_: toda a porçaõ espherica da abobada, está guarnecida de
-buracos, que naõ saõ precisos para as outras louças; fazem-se logo oito
-em roda da fornalha, no principio da abobada, postos entre cada chaminé,
-depois outras dezeseis por cima, e finalmente seis em roda do buraco
-principal, que estaõ no meio da abobada, e que serve de chaminé. Estes
-buracos tem tres, ou quatro pollegadas de diametro; no tempo da operaçaõ
-se tapaõ: seu uso adiante se dirá.
-
-257 Todas as caixas, que encerraõ a louça se põe humas sobres as outras,
-e formaõ differentes pilhas; metem-se no forno de modo, que haja huma
-pilha destas caixas debaixo de cada hum destes buracos, de que se acaba
-de fallar. Como ha trinta e hum buracos, comprehendendo a abertura do
-meio, ou chaminé principal, põe-se trinta, chamadas pilhas; a ultima
-caixa, que faz a extremidade da pilha, se cobre com testo feito de barro,
-de figura conica.
-
-258 A louça branca vai só huma vez ao fogo, mas he hum fogo continuo, que
-atura quarenta, e oito horas.
-
-259 O tempo de lhe dar o verniz por meio, ou adjutorio do sal marinho,
-he quasi quatro, ou cinco horas, antes de se acabar de cozer; depois
-que a louça tem sofrido hum fogo de quarenta, e tres, ou quarenta, e
-quatro horas, se trazem, para junto do forno, oito alqueires (medida
-de Inglaterra) de sal marinho (que he quanto basta para hum forno da
-capacidade deste, de que acabo de fallar.) Ha hum levantado em roda da
-abobada ou corpo espherico do forno, sobre o qual sobem dous obreiros,
-que com huma colher de ferro lançaõ pelos buracos sal marinho, sobre
-cada huma das cubertas de cada pilha. Logo que lançaraõ o sal, tornaõ
-a tapar os buracos, que tinhaõ aberto, para introduzir as colheres, e
-continuaõ assim andando em roda do dito forno, lançando em cada buraco
-a mesma quantidade de sal, pouco mais, ou menos. Elles fazem isto mesmo
-por tempo de quatro, ou cinco horas, e naõ deixaõ outro intervallo, senaõ
-o que he preciso, para sahir a grande fumaça, que faz o sal. A cuberta,
-ou testo de cada pilha deve ser de tal figura, que o sal lançado por
-cima, cubra inteiramente a pilha; quando cahe, entaõ o acido do sal se
-introduz ao interior das caixas, toca a superficie da louça, e accelera
-a vitrificaçaõ da pederneira, que entra na composiçaõ da mesma. Esta
-vitrificaçaõ exterior he o unico verniz, que se lhe dá.
-
-260 O sal com que se faz esta operaçaõ, he muito branco, e em gràos
-grossos, quasi semelhante ao que se faz em Lons-he-Saunier, para o gasto
-dos Suissos.
-
-261 O preço desta louça he de meio xelim até dous xelins a duzia de
-tijellas; este ultimo preço he o da louça melhor e de boa côr; o primeiro
-preço he da louça de refugo. A qualidade do carvaõ naõ he essencial para
-fazer a louça melhor, ou inferior.
-
-
-
-
-ARTIGO XII.
-
-_Do oleiro de fogareiros._
-
-
-262 Ainda que os oleiros, que fazem os fogareiros, e cadinhos para os
-Chymicos, chamados _fournalistas_ façaõ hum mesmo corpo com os que
-fazem os ladrilhos, utensis do uso, e outras obras, de que já fallei,
-pareceo-me justo tratar separadamente das obras dos que fazem fogareiros,
-e mais instrumentos chymicos; porque seu modo de trabalhar he muito
-differente da pratica dos outros oleiros.
-
-263 Os de París se servem como os outros oleiros da argilla, que
-tiraõ em Gentilly. Para a amaciarem, e tornalla ductil, e propria a
-ser trabalhada; cortaõ-na em pedaços sobre huma taboa, como os outros
-oleiros; estes pedaços cahem em tinas, ou celhas com agua: quando está
-já bem penetrada da agua, a tiraõ para a amassarem. Se a argilla he
-muito forte, elles a fazem magra, como os outros oleiros; mas para
-isto naõ se servem da area: quando elles se propõe fazer obras usuaes,
-como esquentadores para serventias pequenas, ou fogareiros para fazer
-esquentar os ferros de engomar, e outras obras, que se daõ baratas: neste
-caso ligaõ o seu barro com escorias de ferro pizadas, e passadas por hum
-crivo, misturando depois partes iguaes deste pó, e do barro; porém para
-os fogareiros chymicos, como elles tem de soffrer hum fogo violento, e
-continuo, convem substituir a area huma substancia capaz de resistir á
-maior acçaõ do fogo, e naõ se tem achado outra cousa melhor para liga,
-do que os pedaços destes vasos de greda escura, que serviraõ de trazer
-manteiga de Isignes; dizem elles, e eu naõ sei se he com fundamento, que
-a louça de Picardia naõ he taõ boa como a de Normandia.
-
-264 Seja como for elles compraõ aos tendeiros estes pedaços de greda de
-Normandia ás medidas; elles os pizaõ com huma massa de ferro, ou de páo
-guarnecida de ferro, sobre huma pedra muito dura, ou hum calháo, que se
-põe sobre a ponta de hum páo grosso; depois os passaõ por hum crivo bem
-fino, para que as molecudas da greda se reduzaõ, quando muito, ao tamanho
-de hum graõ de milho: elles misturaõ pouco mais, ou menos tanto deste pó,
-como da argilla, ou cinco partes deste pó com quatro de argilla; porque
-elles dizem, e com razaõ, que os fogareiros saõ tanto mais fortes, quanta
-maior porçaõ levaõ deste pó, e que argilla deve ser quanta baste para o
-ligar, finalmente usaõ deste pó mais fino para os cadinhos, do que para
-os fogareiros.
-
-265 Os oleiros que fazem os fogareiros preparaõ argilla, como os outros
-oleiros; elles escolhem á maõ todos os corpos estranhos, que encontraõ,
-quando a cortaõ, e amassaõ; mas escolhem com mais cuidado aquella, que
-destinaõ para fazer cadinhos; elles a trabalhaõ, e a amassaõ sobre huma
-meza, e lançaõ fóra com muito cuidado todos os calháos, pyrites, ou
-fragmentos de pedra calcar, que encontraõ nas maõs. Alguns para fazerem
-os cadinhos mais perfeitos, depois de terem feito seccar a argilla, a
-pulverisaõ, e a passaõ pela peneira; se elles achaõ huma veia de barro,
-que contém muitos destes corpos estranhos, o põe de parte para fazerem os
-fogareiros, e reservaõ o barro mais puro para os cadinhos.
-
-266 Amassaõ o barro, como os outros oleiros, põe o pó do barro cozido
-sobre hum sobrado, e a argilla por cima; depois de terem feito a
-primeira amassadura, tiraõ o barro do meio para os lados, e dos lados
-para o meio. Alguns amassaõ o barro batendo-o sobre huma meza com huma
-massa de ferro, e acabaõ de o amassar trabalhando-o nas maõs.
-
-267 Até o presente se vê, que o trabalho destes differe pouco dos outros
-oleiros; porém elles senaõ servem de roda nem de moldes ocos, para formar
-suas obras; fazem-nas inteiramente a maõ, como explicarei.
-
-268 Os fogareiros portateis, que estes fazem naõ servem aos Chymicos;
-pois para certas operações, se formaõ outros de hum feitio particular;
-elles mesmos os fazem com tijollos, que unem com o barro dos fornos, ou
-com argamassa de cal, e ladrilho moido, ou com hum luto, composto de huma
-parte de barro, outra de esterco de cavallo secco, e de duas de area.
-
-269 Alguns fazem a sua argamassa com hum bocado de barro de fornos,
-e muita cinza de lixivia, ou _cenrrada_, passada por huma peneira,
-e humedecida com agua. Mas como os tijollos communs naõ resistiriaõ
-a certas operações, por serem faceis de vitrificar, se fazem estas
-fornalhas mais fixas com tijollos, e barro de cadinhos.
-
-270 O barro destes tijollos he o mesmo, que se usa para fazer os
-fogareiros portateis; estes tijollos se fazem em moldes de páo, que
-se enchem deste barro. Assim que os tijollos tomáraõ hum bocado de
-consistencia, depois de tirados dos moldes, batem-nos sobre huma taboa
-para comprimir o barro: mas com cuidado para os naõ desfigurar.
-
-271 Os mestres dos fornos fazem estes tijollos quadrados, quasi do mesmo
-modo, que os ordinarios, e tambem os meios tijollos quadrados, para fazer
-os igualamentos.
-
-272 Para dar varias figuras aos fornos os mestres fazem tijollos de certa
-bitola, e figura _est. II_, _fig. 13_. E os Chymicos se servem delles
-para fazer fornos redondos, de sorte que algumas vezes quatro tijollos
-fazem a circunferencia de hum pequeno forno, para os grandes se carecem
-muitos mais. Ainda que se mude a curvatura destes tijollos segundo a
-figura, que se quer dar ao forno, sempre se tem meios tijollos, que saõ
-muito commodos para igualar as superficies. Estes tijollos se fazem em
-caixilhos, ou moldes, como os tijollos ordinarios: _a_ _est. II_, _fig.
-14_. he para fazer os apoios dos cadinhos; e _b_, dos quadrados.
-
-273 Os mestres dos fogareiros saõ os que preparaõ os materiaes, e os
-Chymicos as põe em obra, unindo os tijollos com barro de forno, ou com as
-argamassas, de que já fallei. Entre o cinzeiro, e a fornalha se põe huma
-grade de ferro, alguns tapaõ as portas ou aberturas com huma chapa de
-ferro delgada; outros se contentaõ em pôr por cima das portas hum pedaço
-de ferro chato, á maneira de portal. Dentro do laboratorio, que está por
-cima da fornalha, se põe humas chapas de ferro para supportar hum banho
-de area, ou cucurbitas, ou retortas, ou cadinhos; finalmente fazem mais
-fortes estes fornos, pondo-lhes por fóra humas chapas delgadas de ferro,
-que o cercaõ por todos os lados: porém naõ ha cousa melhor para segurar
-os tijollos, e impedir, que se naõ despeguem com a força do fogo, do que
-prender na argamassa, que os une pedaços de redes velhas de arame de
-ferro de tostar o tabaco rapé: estas naõ fazem enchimento, e por causa
-dos buracos, e desigualdades destas redes fazem huma excellente liga
-com a argamassa. Naõ entro em grandes individuações sobre as fornalhas
-fixas, porque isto naõ he huma parte essencial dos oleiros, que fazem
-fogareiros; as fornalhas portateis, ou fogareiros para o uso dos
-Chymicos, que verdadeiramente fazem a base desta arte, saõ os de que eu
-vou tratar com alguma maior individuaçaõ.
-
-274 Os oleiros mestres de fogareiros, ou fornalhas portateis as fazem
-quadradas; taes saõ as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_,
-e algumas de fusaõ _fig. 16_; mas as fornalhas de digestaõ, e as
-de reverbero, em huma palavra, quasi todas as fornalhas portateis
-saõ redondas. Humas saõ de huma só peça isto he cinzeiro, fogaõ, e
-laboratorio; naõ tem mais que por-lhe em cima a abobada: outras saõ
-formadas de muitas corôas, que se põe humas sobre outras; algumas se põe
-sobre huma trempe de ferro, e estas naõ tem cinzeiro, porque a cinza
-cahe no chaõ; porém a maior parte tem hum cinzeiro, hum fogaõ, onde se
-põe o carvaõ sobre huma grade, que deixa cahir a cinza, e dá passagem
-ao ar, que aviva o fogo. Os mestres de fogareiros algumas vezes fazem
-estas grades de barro; entaõ he huma chapa de barro redonda, em que se
-abrem muitos buracos; outras se servem de grades de ferro. Por cima do
-fogaõ está hum espaço, que se chama o _laboratorio_, porque neste lugar
-he que se põe o banho de maria, ou de area, ou huma retorta: tem huma
-abertura por onde se introduz o collo, ou huma cucurbita, ou cadinhos; e
-todas estas cousas sustidas por algumas peças de ferro, e muitas vezes
-acaba tudo por hum corpo espherico, ou zimborio, que serve de reverberar
-o calor sobre a retorta, ou os cadinhos, que estaõ no laboratorio. Ha
-sempre no alto do zimborio huma abertura de tres ou quatro pollegadas
-de diametro conforme o tamanho da fornalha, e esta abertura tem algumas
-vezes huma ponta de tubo, para se poderem ajustar nella tubos mais
-compridos, quanto se quer augmentar a actividade do fogo; porque para
-accender-se o carvaõ com mais vivacidade, e produzir muito mais calor,
-se precisa estabelecer na fornalha huma corrente de ar, que entre pelo
-cinzeiro, e saia por cima da fornalha. Ora esta corrente de ar depende
-da ligeireza do ar quente, em comparaçaõ ao pezo do ar frio, e esta
-ligeireza se augmenta a proporçaõ, que elle se esquenta mais, e tambem
-á proporçaõ de huma maior columna de ar quente no cume da fornalha:
-e assim para se augmentar a actividade do fogo na fornalha, precisa,
-que possa entrar por baixo huma sufficiente quantidade de ar frio, e
-ajuntar por cima da fornalha huma extensaõ de tubos, para se fazer assim
-huma maior columna de ar quente, que serve como de huma bomba maior; he
-preciso tambem, que o diametro deste tubo seja proporcionado ao tamanho
-da fornalha; eu naõ envestiguei sobre estas proporções, porque ellas naõ
-pertencem ao official: este se deve conformar com as ordens do Chymico,
-que varia isto, conforme as operações, que pretende fazer.
-
-275 Ha outras mais aberturas, tanto no zimborio, como no corpo da
-fornalha, que se abrem, ou se fechaõ para augmentar, ou diminuir o calor,
-conforme se quer, e levallo mais para huma parte da fornalha, do que para
-outra; para isto se deixaõ estes buracos abertos, ou se fechaõ, quando
-se julga a proposito, com batoques feitos mesmo de barro: a isto chamaõ
-registros.
-
-276 Devem-se fazer muito grossas as paredes das fornalhas, para que naõ
-escape o calor para o laboratorio, onde incommoda ao artista, e ao mesmo
-tempo falta para operaçaõ.
-
-277 Eu disse que os mestres de fogareiros faziaõ fornalhas quadradas,
-e dei por exemplo as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_;
-ellas tem hum cinzeiro _a_, que tem huma porta, por cima da qual está
-o laboratorio _b_, e huma abertura que naõ se communica dentro da
-fornalha, mas sim huma especie de forno, feito de barro de cadinhos
-delgado, chamado _moufles_, ou receptaculo; delle fallarei, quando
-tratar dos cadinhos: este laboratorio está sustido por grades de ferro,
-que atravessaõ o interior da fornalha, e de todas as partes cercado por
-carvões ardentes; no _moufle_, ou receptaculo he que se põe os cadinhos
-para fazer as experiencias dos metaes, das peças esmaltadas, e dos
-cadinhos para certas operações. A fornalha he cuberta por hum zimborio
-quadrado, em cima do qual está huma grande abertura, que se póde tapar
-com hum testo, ou se lhe põe hum tubo, quando se quer que o fogo tenha
-huma grande actividade. Por meio deste receptaculo, se podem expôr a hum
-grande calor as materias, sem receberem alguma impressaõ de fumaça, nem
-mesmo vapores de carvaõ.
-
-278 A _fig. 16_. _C_, representa huma fornalha de fusaõ, na qual se
-accende o fogo com hum folle; e por isso he que naõ tem grade no cinzeiro
-_a_, nem abertura por baixo na parte _a_, _d_, nem tubo em cima para
-fazer maior corrente, de ar na fornalha; o folle faz as vezes desta
-corrente de ar.
-
-279 A parte _aa_, _aa_, _B_, he huma peça de barro, que fórma a parte
-debaixo do cinzeiro, onde se póde notar huma abertura _b_, a qual vai ter
-ao tubo do folle, e o vento sahe pela abertura _c_; o corpo da fornalha
-_dd_, se põe sobre o fundo _aa_. He preciso notar no interior desta
-fornalha huma sahida de barro _ee_, que circula ao redor da fornalha;
-esta se destina para suster a parte _ff_, que fórma a parte baixa do
-fogaõ na altura _dd_; porém tem nos angulos quatro aberturas _gg_, pelas
-quaes o vento do folle entra no corpo da fornalha, que he ao mesmo tempo
-fogaõ, e laboratorio, e aviva o fogo em todas as partes desta repartiçaõ,
-e em toda a circunferencia do cadinho, que está posto no meio do fundo
-_ff_, como se vê indicado nos pontos _dd_. Deste modo fica rodeado de hum
-calor muito vivo, sem receber immediatamente o vento do folle, que sendo
-frio, o refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar. A cuberta, ou testo
-_C_, só se põe quando se tira o cadinho, para apagar o fogo, e fazer
-esfriar a fornalha devagar. Esta fornalha chamada de fusaõ se vê, que he
-muito bem ideada, a que se segue naõ carece de folles.
-
-280 Tambem se póde fazer uso de huma fornalha da invençaõ de Mr. Maquer,
-que produz hum calor muito forte, e vitrifica quasi todas as substancias
-que nella se põe. Esta fornalha naõ tem cinzeiro; põe-se sobre huma
-trempe; por baixo tem huma grade, pela qual cahe a cinza, e dá huma
-passagem livre ao ar. A porta só serve para facilmente se alimpar a
-grade com o esborralhador, no cazo de precisar. A porta he destinada
-para se ajustar por detraz hum cadinho para algumas operações, em que se
-tomasse o fumo, ou vapores de carvaõ; a parte posterior está, como se vê,
-inclinada para traz da fornalha: e a porta grande serve para metter o
-carvaõ na fornalha; he preciso que ella seja grande, porque esta fornalha
-consome muito carvaõ; esta parte faz vezes de zimborio, tem no meio hum
-principio de tubo, para receber os outros tubos, que se ajustaõ huns por
-cima dos outros, e quantos mais se mettem mais calor ha. Bem se vê que
-esta fornalha deve ter muita actividade, porque se estabelece no interior
-huma corrente do ar, estando o fundo todo aberto, e a columna de ar
-quente se eleva muito. Finalmente põe-se no interior algumas grades de
-ferro para sustentar o receptaculo, quando se põe hum cadinho, ou muitos,
-e vasos que contém as materias de que se fazem as experiencias.
-
-281 A _fig. 17_, _est. II_, he hum pequeno forno, de digestaõ destinado
-para entreter em hum calor brando certas substancias por hum tempo
-consideravel.
-
-282 O que aqui se representa, he de folha de ferro, forrado por dentro
-de barro de cadinhos; _a_ he o cinzeiro; _b_ lugar onde se põe o fogo;
-_c_ he huma tapagem, que cobre todo o forno; _d_ he huma torre, onde se
-põe huma provisaõ de carvaõ, por naõ ser preciso pollo a miudo pela porta
-_e_: enche-se de area a capacidade _c_, _f_, e nesta area he que se põe
-os crisoes, ou vasos, que contém as materias postas em digestaõ. Este
-forno, ao contrario daquelles, de que acima fallei, he destinado para
-entreter por muito tempo hum calor brando, e igual; para isto he preciso,
-que a corrente de ar, que deve atravessar este forno, seja vagarosa,
-e bem dirigida. He evidente, que fechando-se exactamente as portas
-_g_, _e_, e os buracos, que estaõ no testo, ou cuberta _h_, da torre
-_d_, o fogo se apagaria, e que, abrindo-se estes buracos, o carvaõ se
-consumiria com presteza, e produziria muito calor. E assim para obter hum
-meio conveniente, se devem abrir alguns dos buracos, que estaõ nas portas
-_g_, _e_, e algumas das que estaõ na cuberta da torre _h_: por meio disto
-o carvaõ, que se pôs na torre _d_, naõ se accende, mas cahe pouco a pouco
-na parte _b_, a medida que se vai gastando o que ahi está; e quando a
-torre he grande, o fogo se entretem por muito tempo no forno, sem ser
-preciso haver com elle algum cuidado.
-
-283 Eu podia trazer hum maior numero de fornos, ou fogareiros, que fazem
-estes oleiros; porém alguns exemplos bastaraõ para fazer comprehender seu
-modo de trabalhar.
-
-284 Todas as fornalhas portateis, ou fogareiros saõ feitas á maõ com
-argilla, misturada com o pó dos vasos de manteiga, como fica dito.
-
-285 Com hum compasso se risca em huma meza a largura, que a fornalha
-deve ter no fundo; depois o oleiro tendo posto sobre a meza hum bocado
-de cinza fina, para que o barro senaõ pegue, estende, como fazem os
-pasteleiros, huma pasta de barro redonda, e a põe sobre o traço que fez
-o compasso; este he o fundo da fornalha; depois com este mesmo barro faz
-outra pasta, que põe em roda sobre a pasta de barro, que fórma o fundo,
-tendo cuidado de os comprimir bem com os dedos, e dar-lhe mais grossura,
-do que devem ter as paredes da fornalha, naõ só porque o barro encolhe,
-mas tambem, porque batendo-o, diminue a grossura. Ajunta outros rolos
-de barro huns sobre outros, e tem o cuidado de os comprimir, e unir
-bem com os dedos para vir a fazer tudo hum só corpo, naõ ficando vacuo
-interposto entre as camadas de barro, porque o ar contido neste vacuo
-faria arrebentar o forno, quando se dilatasse pelo calor. Quando o forno
-chega a altura, em que se deve pôr a grade, por cima do cinzeiro, fórma
-huma pequena sahida ou borda com o mesmo barro para suster a grade.
-
-286 Pensaõ, e com razaõ, que os rolos de barro, comprimidos com os
-dedos deixaõ desigualdades. Depois que o forno tem chegado a huma certa
-altura, o official passa o gume da maõ, de cima a baixo, e ao través, e
-deste modo o une, e torna igual. Esta operaçaõ une a obra, e destroe as
-desigualdades, e a faz compacta, tirando-lhe os pequenos vacuos, que
-teriaõ ficado. Continua por diante a pôr os rolos de barro para levantar
-o forno, e formar a parte, que se chama fornalha, ou o fogaõ; depois
-o laboratorio até o lugar, em que se deve pôr o zimborio, e de vez em
-quando pule a obra, como já fica dito.
-
-287 Sabe-se muito bem, que os fornos saõ mais largos por cima do que
-por baixo. O habito dos bons forneiros he, o que os obriga a observar
-este methodo regularmente, vindo a dar ás paredes dos fornos a devida
-grossura; fazem-lhes varios contornos muito regulares, e para tudo isto
-naõ carecem de regua, nem compasso, he só com a vista, e nem tem outros
-instrumentos, senaõ as maõs, e o instrumento de bater o barro em pasta.
-
-288 Querendo-se formar pequenas chaminés para dar sahida ao vapor do
-fogo, se fazem no corpo do forno buracos, que se tapaõ com o mesmo barro
-disposto na figura conveniente a maõ, ou em molde, e segura-se quasi
-como as azas na louça. Os lugares, em que se péga, para mudar o forno de
-hum lugar para outro, e as sahidas, ou crescimento de barro, que se faz
-por baixo das portas, se começaõ, quando se fórma o corpo do forno, e
-se aperfeiçoaõ, quando se acaba de bater. Feitos assim os fornos, como
-se acaba de dizer, e aperfeiçoada a superficie com os dedos se põe a
-enxugar, e depois se acaba; para isto se bate com huma taboasinha por
-fóra, e mesmo por dentro, quando o diametro o permitte; abrem-se as
-portas com huma faca molhada, finalmente em quanto o barro está ainda
-mole, e ductil, se aperfeiçoaõ todas as partes do forno; e os habeis
-obreiros os fazem com tanta perfeiçaõ, como se fossem feitos em moldes,
-ou em roda.
-
-289 Fazem-se á parte batoques para os registros, e portas para fechar as
-aberturas; escolhem-se em hum numero que ha de differentes tamanhos, as
-peças, que servem: isto he facil; porque, como se fazem de cantos, ou
-quadradas, servem nas aberturas, que se fizeraõ no forno.
-
-290 Os fornos grandes se fazem de muitas peças. O cinzeiro _a_, a
-fornalha _b_, e o laboratorio _c_ saõ formados da differentes peças,
-que se ajustaõ humas sobre outras com encaixes. Como estas peças devem
-ser todas iguaes por medida, para ajustarem humas sobre as outras, os
-oleiros logo que fazem o cinzeiro as medem exactamente o seu diametro
-por cima com hum compasso, e riscaõ esta medida em huma meza, e em cima
-formaõ a peça _c_, que deve ajustar por cima; deste modo o barro encolhe
-com igualdade, e as peças se ajustaõ bem, depois do barro ter tomado
-consistencia se aparaõ, e aperfeiçoaõ os encaixes, e se põe as peças
-humas sobre outras, e se batem com a taboinha, de sorte que o forno
-parece ser de huma peça só.
-
-291 Depois de começado hum forno, se precisa acabar sem parar; porque o
-barro humido naõ se liga com o barro secco, e este já teria encolhido;
-e por isso, sendo preciso parar com a obra, se deve cubrir com pannos
-molhados por naõ seccar.
-
-292 Quando se acaba o forno, se devem fazer em roda, e em differentes
-alturas rasgos fundos, para se passar hum fio de arame grosso, que abrace
-toda a circunferencia do forno, em cada hum destes rasgos; porque isto
-ajuda muito a conservar os fornos.
-
-293 A abobada, que se deve pôr sobre o forno como já disse, tambem se
-faz a maõ e sem moldes, ajustando rolos de barro mais finos, do que
-os do corpo do forno, huns sobre os outros; começa-se por hum traço
-de compasso que mostra a largura de cima do forno, aonde se deve pôr
-a abobada; e para o barro se poder suster toma-se de algum, que se
-amassasse mais duro; e em geral o barro, em que trabalhaõ os forneiros,
-he mais duro, do que o dos outros oleiros.
-
-294 Algumas vezes, em quanto o barro naõ está ainda muito duro, com
-moldes lhe imprimem varias molduras para adorno dos fornos.
-
-295 Os fornos de cadinhos se trabalhaõ do mesmo modo que este, de que
-acabo de fallar, tudo he a maõ; e sem usarem de regua nem compasso, lhe
-daõ huma figura muito regular: só o cadinho deve ser trabalhado por
-differente modo: delles fallarei, quando tratar dos cadinhos.
-
-296 Fazem tubos, para descarregar a fumaça, com o mesmo barro dos fornos,
-e os formaõ com hum cilindro de páo, que he mais grosso em huma ponta do
-que em outra para poder-se tirar o molde, depois do tubo feito, e para o
-barro senaõ pegar ao páo, esfregaõ em cinza muito fina. Assim que o barro
-do tubo ficou alguma cousa duro, batem-no com a taboinha para alizallo, e
-fazello mais compacto.
-
-297 Os oleiros fazem os cadinhos na roda, e os forneiros as fazem a maõ
-em huma especie de torno de páo, que elles chamaõ molde, _c d_, _fig.
-22_, _est. I_.
-
-298 Suposto que disse que os oleiros de Picardia faziaõ bons cadinhos
-com o seu barro de greda, toda via arrebentaõ no fogo, se os esquentaõ
-precipitadamente; porém se os esquentaõ aos poucos resistem a hum fogo
-violento sem se desfigurarem, e resistem a acçaõ dos saes, e metaes
-derretidos.[25]
-
-299 O barro de Gournaes em Normandia he muito bom; elle sopporta hum
-fogo muito grande sem se desfigurar; mas tem o defeito de conter em si
-muita quantidade de pequenas pyrites, e fragmentos de mina de ferro.
-Eu disse, que tinha chegado a remediar ao menos em partes, estas
-faltas, dissolvendo-o em muita agua, e deixando precipitar o que era
-mais pezado, e mais grosseiro, para me servir do barro fino, que se
-precipitava depois.
-
-300 Para fazer os vasos das fabricas de vidros, em que se tem o vidro
-derretido, tres semanas sem interrupçaõ, se escolhe da boa argilla, a
-mais pura, que se possa achar; liga-se com esta mesma argilla bem cozida,
-reduzida a pó. Esta liga se faz em differentes doses, segundo a argilla
-he mais, ou menos macia e ductil, e mais disposta a fechar-se, sendo
-cozida; de sorte que certas argillas cruas naõ podem soffrer senaõ partes
-iguaes de argilla cozida, e outras muito macias podem soffrer cinco, e
-seis partes de argilla cozida em quatro partes da crua.
-
-301 Ha fabricas de vidros, que fazem os seus grandes cadinhos, a que
-elles chamaõ potes, com rolos de barro, como os nossos forneiros, outros
-os fazem em moldes.
-
-302 Os forneiros de París fazem seus cadinhos com argilla cinzenta de
-Gentilly; elles a escolhem, e alimpaõ com mais cuidado, do que para os
-fornos; depois a ligaõ com pouco mais de outro tanto de barro cozido, que
-passaõ por hum crivo hum pouco mais fino, do que para os fornos. Depois
-de terem preparado o barro o estendem pouco a pouco sobre hum molde de
-páo _c_ _est. I_, _fig. 22_, que tem a figura que deve ter o interior do
-cadinho, tendo-o esfregado com area fina, para que o barro senaõ pegue;
-começaõ pelo fundo do cadinho, cobrem o molde com huma camada de barro,
-que tem tres, ou quatro linhas de grosso, e estendem-na pouco a pouco com
-pequenos golpes; e isto fazem com muita destreza, e regularidade. Estes
-cadinhos saõ bons para muitas operações, ainda que naõ podem supportar
-hum fogo muito grande, nem ter saes em fusaõ, como fazem os cadinhos de
-greda, e os de Allemanha.
-
-303 Do modo seguinte os tenho feito para as pequenas experiencias
-de mina. Dissolvi a argilla de Gentilly em muita agua, e deixei
-precipitar os corpos mais pezados; fiz depois seccar a argilla pura,
-que se precipitou em ultimo lugar; depois a pizei, e passei por huma
-peneira fina. Com estas preparações separei da argilla todos os corpos
-estranhos, a excepçaõ só das substancias, que estavaõ muito soltas, e em
-particulas minimas: liguei esta argilla com o pó dos vasos de manteiga
-passados por peneira fina, e formei os cadinhos em hum molde de cobre
-comprimindo-os, do modo que se faz o forno dos pitos. Estes cadinhos eraõ
-bons; com tudo naõ podiaõ soffrer hum fogo grande, e me achei melhor
-com a argilla branca, de que se fazem os pitos em Normandia; pois esta
-argilla commummente he mais izenta de substancias estranhas, do que ás
-argillas de côres. Digo commummente, porque ha argillas brancas, que saõ
-mui fusiveis, e carregadas de partes metallicas; e por isso o mais seguro
-he experimentallas antes de fazer uso dellas; visto que se pode dizer
-em geral, que he preciso escolher huma argilla, que naõ seja fusivel, e
-sobre tudo, que naõ tenha mistura de pyrites, de substancias metallicas,
-nem de area vitrificavel; porque os saes, ou substancias metallicas,
-que se põe nestes cadinhos vitrificaõ estas substancias estranhas ao
-barro, e os cadinhos ou rachaõ, ou furaõ. Havendo huma argilla pura,
-e refractaria, que dá ductilidade a pasta, se precisa, como já fica
-dito, ligalla com algum pó de tijollo, para impedir á argilla, de se
-encolher, e rachar ao cozer. He preciso, que estes pós de tijollos sejaõ
-refractarios: por isto nas fabricas de vidros se servem da argilla, que
-elles mesmos fizeraõ cozer; e para os cadinhos pequenos bastaõ os pitos
-bem cozidos, e feitos em pó. Os forneiros fazem uso do pó dos vasos de
-manteiga de Normandia: desgraçadamente sua argilla naõ he tal, como se
-poderia desejar. Elles o sabem; e para fazer seus cadinhos melhores,
-misturaõ muito pó de greda com a argilla; porém entaõ naõ fica muito
-compacto o barro dos cadinhos, e deixa passar pelos poros as materias,
-que tem em fusaõ, quando estaõ muito fluidas. Os cadinhos de greda naõ
-tem este defeito; e assim he preciso observar huma justa proporçaõ nestas
-ligas; porque, pondo-se muita argilla crua, he bem difficil de impedir o
-racharem os cadinhos ao seccar, ou ao cozer; e pondo-se muito pó, ficaõ
-os cadinhos com pouca firmeza, e naõ podem suster o pezo dos metaes, e
-tendo os poros muito abertos, o metal, e sobre tudo os saes, os penetraõ:
-por isso dizem alguns, que he preciso misturar-lhe hum bocado de area
-vitrificavel. Mr. de Reaumur, por exemplo, se achou bem em fazer cadinhos
-com partes iguaes de greda, area, e barro de pitos.
-
-304 As ligas seguintes saõ exageradas por alguns; mas eu nunca as
-experimentei.
-
-305 Duas partes de argilla boa, pura, e bem secca, duas partes de pó de
-vasos de greda, huma parte de area; alguns lhe ajuntaõ hum bocado de
-limalha de ferro, e agua salgada.
-
-306 Outro: seis partes de argilla secca, duas partes de _caput mortuum_
-de agua forte, duas partes de pó de vasos de greda, huma parte de
-escorias de ferro, e huma de vidro muido, e hum bocado de cal desfeita ao
-ar.
-
-307 Outro: partes iguaes de argilla secca, de amianto, talco espurio, ou
-terra de gelo, ou mica.
-
-308 Fazem-se cadinhos em figura de copos; algumas vezes se lhe faz hum
-pequeno aperto por cima, formando bico: tambem se fazem triangulares,
-para vasarem o metal com mais commodo. Finalmente fazem-se para ensaiar
-minas de metaes preciosos; estes terminaõ em ponta _d_, para que o metal
-derretido se ajunte melhor no fundo do cadinho; entaõ se lhe faz hum
-pequeno pé para que elles se sustenhaõ melhor dentro, e fora do forno.
-
-309 A respeito das capsulas, e cabeças só differem dos cadinhos por sua
-figura, assim como certos cadinhos com pé, a que os Francezes chamaõ
-_tutes_.
-
-310 As mangas, ou receptaculos para os fornos de crisoes se fazem com o
-mesmo barro dos cadinhos; estende-se o barro bem delgado sobre huma meza,
-assim como fazem os pasteleiros; corta-se hum pedaço desta pasta para
-fazer a parte de cima do receptaculo; põe-se este pedaço sobre hum molde
-_a_, para lhe fazer tomar huma curvatura conveniente, e servindo-se do
-mesmo molde se lhe ajusta por baixo o fundo, e por detraz outro pedaço
-para fechar huma das pontas do receptaculo, estando bem justos estes
-differentes pedaços, se deixa endurecer hum pouco o barro; entaõ se
-acaba de fazer esta peça: com huma faca molhada se lhe abrem os pequenos
-buracos dos lados, e estaõ promptos para se cozerem.
-
-311 Para fazer huma retorta o forneiro faz o corpo sobre hum torno, ou
-molde de páo, como os cadinhos, e o bico em outro molde, que he huma
-cavilha hum pouco curva; com a maõ aperfeiçoa a parte mais larga do bico;
-e acaba soldando, e reunindo as duas peças.
-
-
-_Do modo de cozer os fornos, e cadinhos._
-
-312 Tem havido Chymicos, que pretenderaõ naõ ser preciso cozer os fornos;
-porque elles servindo, viriaõ a adquirir o gráo de cozimento, que lhe
-convem: eu naõ sou desta opiniaõ. Os fornos, que só saõ seccos sem se
-cozerem, correm o risco de quebrar quando se faz preciso mudallos de
-lugar; além disto, qualquer bocado de agua que lhe caia os humedece, e os
-faz em pedaços. Por isso he preciso cozer os fornos, e os cadinhos; mas
-os forneiros só daõ hum meio cozimento.
-
-313 O forno, de que se servem os louceiros, he quadrado, e rente com o
-soalho; faz-se de tijollo a abobada: quasi em pé e meio do terreno se
-põe huma grade de ferro; mette-se a obra no forno, entrando por baixo da
-abobada pela porta. Quando ha obras pequenas, que podem caber por entre
-as grades, interpõe-se grades miudas por entre as principaes. A grade de
-ferro se põe quasi pé e meio por cima do soalho do forno.
-
-314 Estando o forno cheio de differentes obras, levanta-se sobre a grade
-de ferro huma tapagem de tijollos. Sendo feita esta tapagem sobre a
-grade, fica por baixo hum espaço, pelo qual se mette a lenha necessaria
-para cozer: a tapagem só chega até tocar a abobada; fica hum espaço por
-onde sahe a fumaça, que naõ tem outra sahida; ella he recebida pelo tubo
-da chaminé.
-
-315 Accende-se de manhã hum pequeno fogo para esquentar, ou fazer seccar
-as peças; augmenta-se pouco a pouco, e a obra em hum dia fica cozida
-tendo gasto pouco menos de hum carro de lenha; prefere-se a lenha bem
-secca para fazer maior chama. Deixa-se esfriar a obra hum dia, ou dous,
-depois se tira, e esta em termos, de se entregar aos Chymicos.
-
-316 Fazem-se pratos de barro para cadinhos, que saõ de varios tamanhos:
-servem ordinariamente de apoio, quando se mettem debaixo dos cadinhos, e
-das retortas: algumas vezes se servem delles para cubrir os cadinhos.
-
-
-_Aqui apresento tambem as seguintes notas que Mr. Dymares da Academia das
-Sciencias me communicou, quando já estava quasi impressa esta arte do
-louceiro._
-
-317 Em Sauxillanges, e Marzac, duas pequenas cidades de Avergne, a
-primeira vizinha de Issoire, e a segunda distante de Ambert, quasi duas
-leguas, e meia, se fazem cadinhos para uso dos ourives; sua figura he
-conica; onde os ha de todos os tamanhos; a sua principal venda se faz em
-Leaõ.
-
-318 Os louceiros de Sauxillanges tiraõ seu barro perto de Monge no
-dominio de Moye; elles naõ cavaõ mais de tres, até quatro pés de fundo;
-he huma especie de Kaolin misturada com mica, e area grossa de quartz
-em grande proporçaõ. Lava-se este barro para lhe tirar a area; dilue-se
-o Kaolin na agua, que vai carregada delle, e a area de quartz fica no
-fundo dos vasos. O Kaolin se deposita depois nas celhas, aonde se deixa
-assentar todo o que a agua traz em si.
-
-319 O barro de que se usa em Marzac he da mesma natureza, e se trabalha
-do mesmo modo, que o de Sauxillanges; tira-se trinta, ou quarenta pés de
-fundo, perto da povoaçaõ de Espinasse, dependente da freguezia de Marzac.
-Algumas vezes se mistura o Kaolin com o outro barro argiloso, que se tira
-em Champetrieres, e Castellet perto de Ambert. Desta mistura resultaõ
-cadinhos mais proprios para resistir ao fogo, que os primeiros, e nestas
-vistas he que se cuida muito em cozellos. O barro de Sauxillanges, e de
-Marzac empregados sem mistura ficaõ bem brancos depois de cozidos.
-
-320 Em S. Junien pequena cidade de Limousin tambem se fazem semelhantes
-cadinhos destinados para os mesmos vasos, e de hum barro da mesma
-natureza; tira-se de Malaise vizinha da grande estrada de Limoge para
-S. Junien, e tambem duas leguas distante desta ultima cidade. Este
-barro he a base de toda a louça, que se faz em S. Junien para outros
-usos. Supposto que he muito branco, se coze muito mal, e he sujeito a
-arrebentar ao fogo.
-
-321 Ha tambem muitas fabricas de louça nas cidades de Duris, de
-Gandalounia, e Chavagnai em Limousin. O barro, que os oleiros chamaõ
-neste paiz _toupiniers_, he huma especie de Kaolin, pouco ductil; mas
-o que merece attençaõ he a composiçaõ do seu verniz. Mas para o fazer
-se servem da mina do chumbo de Glanges, que elles calcinaõ, e lhe
-ajuntaõ por fundentes quartz branco da area, de que se servem os nossos
-louceiros. Para reduzir este quartz a pó com facilidade, o põe vermelho
-ao fogo, e neste estado o lançaõ em agua fria; a subita passagem do
-quente ao frio reduz a pó esta pedra: depois a misturaõ com cal de
-chumbo, e livigaõ estas duas substancias juntas, em huma mó.
-
-FIM.
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] Alguns chamaõ argilla a huma terra vermelha, gorda, muito cheia de
-arêa, de que usaõ para os fornos, e por isso em Pariz a chamaõ barro
-de fornos: este barro vem unido com arêa ferruginosa; porém na verdade
-argilla, e barro, saõ dous termos synonimos.
-
-[2] Estes trabalhos consistem em differentes lavagens que naõ podem
-servir para as louças communs por serem muito baratas.
-
-[3] Ha poucas argillas puras, pela maior parte trazem diversas uniões.
-Destinguem-se muitas especies 1º. argilla branca em Alemanha _Weisser
-thon_. Esta he a mais pura, e mais propria para as obras de louça, tambem
-serve para pitos, de que fallarei em outra parte. Conserva a côr branca
-no fogo, vitrifica-se com difficuldade, endurece a ponto de dar faiscas
-de fogo. 2º. A argilla cinzenta em Alemanha _Schwarzgrauer thon_ menos
-pura que a primeira, e por isso naõ he taõ propria para a louça fina,
-e só serve para a grossa. 3º. A argilla negra, que toma esta côr dos
-mineraes, de que está carregada, bem lavada e preparada póde servir para
-louça. 4º. A argilla azulada he a mais commum de todas, della se fazem
-tijollos, e telha. 5º. A argilla vermelha escura he a mais fussivel de
-todas; serve para cobrir as outras obras inferiores. Ella tem muita
-impureza, e por isso se passa por peneira antes de a pôr em obra. 6º.
-A argilla amarella tirando a preto, he magra misturada com arêa; serve
-para pratos grossos, e tigéllas, e outras obras que naõ vaõ ao fogo:
-os Alemães a chamaõ _Schulf_. 7º. Argilla esponjoza, que se naõ póde
-trabalhar na roda, he preciso trabalha-la quasi secca. 8º. A argilla
-cinzenta de fazer bilhas como as que vem de Normandia.
-
-[4] Para ter conhecimento exacto da natureza destes barros, se deve
-consultar Vallerio, M. Pott, e o Diccionario de Chymica de Maquer.
-
-[5] A mica he huma especie de pedra folhada, brilhante refractaria: ha
-de muitas especies. Apparecem arêas, com mica, ou malacaxeta, cheias de
-muitas partes brilhantes. As partes brilhantes da mica se asemelhaõ ao
-talco.
-
-[6] Os pyritis saõ mineraes que se assemelhaõ a pedaços de mina por seu
-pezo, e côr resplandecente; e com effeito contém alguma especie metálica;
-porém raras vezes, e em pouca quantidade; e tem muito enxofre, e arsenico.
-
-[7] Terras calcareas saõ aquellas, que expostas a hum sufficiente gráo de
-fogo adquirem todos os caracteres de cal viva.
-
-[8] A arêa para os tijollos deve ser mais grossa, e sem mistura de terra;
-a que se lança na agua, e naõ a tolda he a melhor; a dos montes he
-preferivel á dos rios; se esta estiver carregada de pedra.
-
-[9] _Molde_: os louceiros chamaõ assim hum caixilho de madeira, em que
-elles formaõ os ladrilhos, e tambem, cavados em gesso, que servem para
-fazer com o barro differentes ornatos. 38 _est. I_, _fig. 5_.
-
-[10] Comparando todos os fornos, conhecidos em França, Suissa, Alemanha,
-e Hollanda os mais engenhosos para a economia da lenha, e perfeiçaõ de
-cozer saõ os de Suecia descriptos por Wynblad em huma Memoria que vem no
-Tom. IV. da Arte de telheiro desta obra pag. 112 §. 485.
-
-[11] _Lingueta_, he a separaçaõ dos ladrilhos, que termina alguns fornos
-de louça, por baixo da qual estaõ as aberturas, chamadas _creneaux_ 49,
-52, 130.
-
-[12] _Crenaux_, he a abertura, que se faz no forno, ou para dar huma
-communicaçaõ ao ar quente, ou para escapar a fumaça 50, 134.
-
-[13] _Fausse-tire_, he a separaçaõ da abertura, que formaõ os ladrilhos,
-separando a fornalha do corpo do forno. 50.
-
-[14] Entende-se aqui por tempêra aquelle pequeno calor, que se chega á
-louça 36 horas primeiro a esquentalla só para depois lhe chegar fogo
-forte.
-
-[15] _Chasse_; grande fogo de chama, que se faz no fim do cozimento com
-feiches de lenha, ou madeira rachada. 53.
-
-[16] _Gâchis_ especie de argamassa, ou mistura de huma porçaõ de gesso em
-pó com argamassa de cal, e arêa. 62.
-
-[17] Com ladrilhos de duas côres só assentados com differentes posições,
-se podem formar muitas vistas agradaveis, o Author assevéra que se podem
-fazer até 86 variedades.
-
-[18] _Voguer_ amassar á maõ.
-
-[19] O forno dos oleiros Alemães he muito simples; he quadrilongo, de hum
-comprimento proporcionado a força de cada fabrica, da altura de hum homem
-pouco mais, ou menos. A parte superior tem a figura de hum ovo, ou he
-chata, e baixa compõe-se de terra gorda, e de palha picada para conservar
-o calor. O interior, se faz de tijolos, e com abobada, as paredes de huma
-parte, e outra devem ser fortes.
-
-[20] Os oleiros Alemães para as suas obras communs se servem só do
-lithargirio, a que chamaõ _Glatte_, _Silberglatte_. Piza-se, passa-se
-por huma peneira, e liviga-se sobre huma pedra. Para que o lithargirio
-naõ corra muito, se lhe ajunta huma igual quantidade de area branca, e
-fina. Esta mistura se põe liquida ao dezejo de cada hum; lança-se huma
-quantidade sufficiente no vaso, que se quer envernizar, e que já está
-cozido, move-se e se despeja aquella quantidade, que sobra, e já naõ
-pega. Passado hum quarto de hora, já se póde levar o vaso para cozer o
-verniz. O vaso com o verniz deve estar no forno 16. ou 18. horas. Se o
-verniz, naõ foi bem livigado, fica desigual, e cheio de graõs.
-
-[21] Querendo-se que o esmalte seja branco, misturaõ-se cinco partes de
-estanho com vinte de chumbo; fazem-se calcinar em hum vaso de barro no
-forno de calcinaçaõ. A fornalha se deve esquentar algumas horas antes
-de se lançar nella o chumbo, e a chama deve sempre dar sobre o chumbo,
-para isto deve ser o forno de reverbéro. Deve-se mover o metal com
-huma espatula de ferro até elle se reduzir em cinzas. Entaõ se lança o
-estanho, e se move do mesmo modo, até que este tambem se converta em
-cinzas. Augmenta-se o fogo, até que as cinzas estejaõ abrazadas; entaõ se
-diminue o fogo, e se deixaõ esfriar, movendo-as sempre com a espatula.
-Misturaõ-se estas cinzas com igual porçaõ de sal, e de area; põe-se tudo
-em hum vaso descoberto, e se põe nesta segunda calcinaçaõ todo o sal se
-evapora, a materia contida no vaso se abate, e o peso diminue; porém o
-sal só se ajunta para facilitar a fusaõ. Piza-se a materia calcinada
-em hum gral de ferro, e se liviga cuidadozamente em huma pedra, com
-huma quantidade de agua sufficiente, para a tornar de huma consistencia
-liquida. Cahindo sobre o verniz qualquer bocado de gordura, por pouca
-que seja, desmancha todo o trabalho, porque os metaes tornaõ a tomar sua
-primeira fórma, e o verniz desaparece de cima dos vasos, em que se tinha
-applicado. O pó, cahindo sobre o verniz, faz no esmalte huns pequenos
-buracos.
-
-[22] O _quartz_, he huma pedra dura, côr de leite, meia transparente, e
-vitrificavel, que se acha em muitos lugares, especialmente nas minas.
-Ainda que o _quartz_ se vitrifica, quando se mistura com huma argilla
-vitrificavel, ou chumbo; com tudo por inadvertencia se inculcou esta
-substancia; he melhor substituir o spath, fusivel que se vitrifica mais
-facilmente.
-
-[23] Frittar, he calcinar a materia do vidro, para separar della todos os
-corpos gordos, que dariaõ alguma côr suja ao vidro.
-
-[24] Naõ ha aqui país algum, em que se naõ faça louça para o uso dos
-seus habitantes: ellas saõ mais, ou menos perfeitas segundo a qualidade
-dos barros; mas todas se fazem sobre os principios já explicados. Hum
-observador attento podera contribuir a aperfeiçoar esta arte no lugar,
-que habita, applicando-se a examinar as differentes qualidades de barro,
-suas composições, e suas misturas.
-
-[25] As operações Chimicas naõ se podem fazer, senaõ em cadinhos cozidos
-para poderem resistir a acçaõ dos dissolventes Chimicos, e a hum calor
-muito forte. Os de argilla boa tem o inconveniente de quebrar, passando
-do quente para o frio. Foi preciso procurar-se misturas, que os fizessem
-soffrer estas variações, e ao mesmo tempo conter os metaes derretidos por
-hum grande espaço. Os melhores cadinhos vem de Hessa. Veja-se Arte de
-Porcelana.
-
-Diz Mr. Pott que estes cadinhos se fazem com huma boa argilla
-refractaria, misturada com duas partes de area de mediana grossura,
-separando-se a mais fina por hum crivo. Esta mistura emmagrece o barro,
-e naõ o deixa encolher, nem rachar, nem fazer-se muito compacto, sendo
-cozido; A area deve ser de huma grossura mediana, sendo fina, os cadinhos
-se quebraõ. Mr. Pott diz mais que os cadinhos destinados para fundiçaõ
-de vidros, naõ devem levar area grossa, nem calháos, ou outras materias
-semelhantes, que saõ sujeitas a derreter-se. Para evitar isto, se ajunta
-a argilla o pó da mesma argilla cozida, e pizada grossa; a mistura se faz
-com partes iguaes, ou duas desta argilla cozida; duas, e meia, e ainda
-tres, e huma só da argilla nova, quanto melhor he esta tanta maior porçaõ
-admittem da outra cozida; e deste modo se fazem os grandes cadinhos para
-as fabricas de vidros. Mr. Pott fez hum grande numero de experiencias
-a este respeito: elle misturou a argilla com as caes metallicas, ossos
-calcinados, pedras calcares, talco, amianto, pedra pomes, esmeril, e
-muitos outros, e de todas estas experiencias naõ lhe resultou hum cadinho
-sem defeito em todas as vistas. Com tudo parece, que se poderiaõ fazer
-cadinhos melhores do que todos os conhecidos. Para isto se precisaria
-ter huma boa argilla bem refractaria, isenta de materias piritosas, e
-ainda de barros ferruginosos; este deveria ser lavado com cuidado para
-separar-lhe a area, e depois misturallo com duas, ou tres partes de
-argilla cozida, e pizada grosseiramente. Os cadinhos formados em moldes
-deveriaõ ser cozidos em hum fogo muito forte.
-
-
-
-
-EXPLICAÇAÕ DAS FIGURAS.
-
-_Estampa I._
-
-
-_Figura 1._ _B_, tonel, em que está a agua, para cortar o barro, e o
-diluir, a estampa _A_, o barro _C_, que se corta, o instrumento _D_, que
-serve para cortar este barro.
-
-_Figura 2._ _D_, instrumento, com que se corta o barro.
-
-_Figura 3._ _H_, molde para fazer tijolos de seis faces _G_, _fig. 5_.
-
-_Figura 4._ meza para moldar, _ab_, sustida pelos pés _ee_, _g_,
-_urquain_, que he huma pedra dura, sobre que se põem o molde _dd_, _e_,
-vaso cheio de agua, _f_, plano, _k_, obras postas humas sobre as outras,
-_h_, barro amassado para encher o molde, _i_, monte de area para se
-espalhar sobre o _urquain_.
-
-_Figura 5._ _na vinheta_, monte de barro prestes para se trabalhar.
-
-_Figura 6._ cutelo curvo para cercear os tijolos.
-
-_Figuras 7. 8. e 9._ representaõ o forno, de que se servem quasi todos os
-oleiros, maiormente para cozer os tijolos.
-
-_Figura 7._ representa o plano do forno ao nivel do terreno. _A_, entrada
-da fornalha. _AB_, onde se faz o fogo, como se mostra pelas mesmas letras
-_fig. 8_. _K_, _I_, separações dos ladrilhos, entre os quaes ha espaços
-vasios, para que o ar quente se communique ao forno. Esta separaçaõ,
-que divide a fornalha do interior do forno, se chama _la-fausse-tire_.
-_F_, hum vaõ, ou buraco da porta, chamado _tetin_. Por este lugar se
-entra no forno para lhe arranjar a louça: e em estando cheio, se fecha
-este _tetin_ com hum muro de tijolos, a que chamaõ _la Languete_, em
-baixo desta, ha duas portas, ou aberturas _L_, _fig. 8_. que se chama
-_creneaux_, ou, como dizem os Louceiros _carneaux_: por estas aberturas
-passa a fumaça para o tubo do chaminé _CD_, _fig. 8_. que representa a
-vista do forno pela longitude. _AB_, he a fornalha: _KL_, assoalho do
-forno. Vê-se acima do _K_, _la fausse-tire_. _A_, _E_, _M_, he a abobada
-do forno; em _LM_, está a _lingueta_, abaixo de _C_, os _creneaux_, e
-_CD_, tubo da chaminé para descarga da fumaça. Vê-se em _a_, os tijolos
-da fornalha postos em carreira, para sustentar os tijolos, de que se
-enche o forno.
-
-_Figura 9._ he huma vista do mesmo forno transversal pela linha _GH_, da
-_fig. 7_. por baixo em _AB_, estaõ tijolos de assoalhar, ou vasilhas de
-commodidades, sobre que se arranjaõ as louças, com que se enche o forno.
-
-_Figura 10._ _T_, caldeirinha quadrada, feita a maõ, e sobre a meza de
-aperfeiçoar.
-
-_Figura 11._ alguidar, ou gamela commum de louça.
-
-_Figura 12._ especie de fogareiro chamado _toupine_.
-
-_Figura 13._ escalfador.
-
-_Figura 14._ pequena cassarola.
-
-_Figura 15._ roda dos oleiros vista em golpe.
-
-_Figura 16._ roda dos Oleiros, vista de perfil.
-
-_Fig. 17._ roda dos Oleiros, vista em plano _aa_, meio da roda _ff_,
-arvore da roda, que víra em huma peça de madeira, que se acha acima
-de _g_, a qual se conserva segura pela cruz _hh_, e as prisões _ii_,
-acima do meio _aa_, está o prato _bb_, em que anda a obra _cc_, que se
-trabalha. Os raios da roda se assignalaõ em _dd_, e as peças da roda
-volteadas em _ee_, _K_, as taboletas sobre que se põem as louças _n_,
-que se querem trabalhar sustentadas tambem como o assento _l_, que he
-inclinado pelos montantes _pp_. Avista-se pela parte de dentro as peças
-entalhadas, que servem de assento ao trabalhador.
-
-_Figura 18._ _A_, trabalhador que faz hum vaso na roda de fazer louça
-fina.
-
-_Figura 19._ hum mealheiro, que tambem bem chamaõ _cache-maille_.
-
-_Figura 20._ _A_, _B_, _C_, _D_, _E_, serve para fazer ver como se fazem
-ao torno as vasilhas para as decentes commodidades, como estes potes se
-ajustaõ huns com os outros pelas bocas, como se fazem os potes de duas
-bocas _E_, _C_.
-
-_Figura 21._ _A_, modo de fazer hum vaso com o calibre. O vaso está
-firme, o calibre he que víra.
-
-_Figura 22._ _d_, cadinho com o molde _c_, sobre que o fazem.
-
-
-_Estampa II._
-
-_Figura 1._ 7. _tournassin_, ou _tournassir_, serve para aperfeiçoar o
-fundo dos potes, que se fizeraõ ao torno. Este instrumento he de ferro,
-que se tem de differentes tamanhos, e de diversas fórmas.
-
-_Figura 2._ vaso de greda de Picardia, mais delgado, do que os jarros
-cobre-se por fóra do vime para se preservar. Os que receiaõ da agua,
-que se guardou em vasos de metal, mandaõ pôr em baixo hum registo, ou
-chave, de que se servem, como de huma fonte de cobre. Querendo-se que
-este fique proprio para clarificar a agua, põem-se-lhe placas de estanho,
-que descançaõ em aneis salientes pela parte de dentro, que o Oleiro
-faz em lugares assignalados pelas linhas de pontuaçaõ _a_, e _b_. He
-ainda melhor substituir as placas de estanho com testos de greda quasi
-semelhantes a de _M_, proporcionando o seu tamanho, ao diametro interior
-do vaso, e se põem area entre estes dous testos.
-
-_Figura 3._ vaso grande de barro, chamado _pounes_, do qual se servem
-para salgar as carnes, para fazer as pequenas lexivias, e para conservar,
-nos jardins, agua, que se destina para os regamentos. Faz-se em hum torno
-_EFG_, que se assemelha a huma lanterna de moinho. _IKL_, he o seu eixo
-que se firma na terra, e _u_, faz andar á roda brandamente a lanterna
-_EF_, e a proporçaõ que vai virando se fórma o vaso, accrescentando
-rolos de barro huns sobre outros, que se une com huma peça, chamada
-_atelle_.
-
-_Figura 4._ _na vinheta_, obreiro, que imprime na roda hum movimento
-circular com huma vara, ou páo _a_, chamado _tourneire_, este obreiro se
-assenta no assento inclinado _l_, e põem os pés nos entalhes _m_.
-
-_Figura 5._ obreiro, que imprimindo muito movimento na sua roda, faz
-entre as suas maõs hum jarro.
-
-_Figura 6._ garrafa, ou redoma de greda, cujo bojo se faz ao torno.
-
-_Figura 7._ louças, que se seccaõ arranjadas no recebedor.
-
-_Figura 8._ obreiro, que aperfeiçoa os potes na meza de os preparar.
-
-_Figura 9._ monte de barro preto para o trabalho.
-
-_Figura 10._ candieiro de barro, quasi totalmente feito ao torno.
-
-_Figura 11._ _G_, vista de hum moinho, para moer o verniz.
-
-_Figura 12._ _H_, mó do mesmo moinho.
-
-_Figura 13._ _E_, tijolo de barro para cadinhos, volteado para ficarem
-fixas as fornalhas.
-
-_Figura 14._ _G_, caixilho para moldar tijolos, o qual se faz de
-differentes tamanhos, e diversas figuras, como quadrados, e curvos.
-
-_Figura 15._ fornete de cadinhos.
-
-_Figura 16._ fornete de fusaõ, em que se deve animar o fogo com folles.
-
-_Figura 17._ pequeno _athanor_, ou fornete de digestaõ. Tem em _d_, hum
-reservatorio de carvaõ, que faz poder-se conservar por muito tempo hum
-fogo brando, sem se precisar lançar-lhe continuamente o carvaõ.
-
-
-_Estampa III._
-
-Nesta Estampa se representa hum forno, de que usaõ muitos Oleiros, mui
-parecido com os fornos das louças finas.
-
-_Figura 1._ mostra o exterior do forno. _A_, a boca da fornalha: deve-se
-descer por hum fosso para se lhe introduzir a lenha. _LM_, o _tetin_, ou
-abertura, pela qual se entra por baixo na camara para se pôrem os potes.
-A parede que fecha esta abertura, estando a camara cheia, naõ se dilata
-até o alto da abertura, por este lugar sahe a fumaça recebida no cabaz,
-e tubo. _N_, se sobe para a camara superior pela escada _P_, e a fumaça
-escapa pelas aberturas _K_. O _tetin_, para pôr a obra nesta camara, está
-no alto da escada _P_.
-
-_Figura 3._ he a fornalha, em que se mette a lenha: sua boca he em _A_.
-
-
-
-
-TABOA
-
-_Das Materias, e Explicaçaõ dos termos proprios á Arte do Louceiro._
-
-
- A.
-
- Abertura, que se dirige ao forno para o encher, a qual se fecha
- com huma parede de ladrilhos, antes de se introduzir o fogo.
- _Pag._ 51. 130.
-
- Acido vitriolico, se acha em muitas argillas §. 6.
-
- Agua grossa, agua em que se mistura huma pouca de argilla, serve
- para pegar o verniz em pó nas obras de louça 144.
-
- Alabastro, sorte de gesso empregado em Inglaterra na louça 231.
-
- Alquifoux, mina donde se tira o chumbo, que he brilhante azulada
- mui pezada quebradiça, e abundante de enxofar 141.
-
- Amassar a argilla 32.
-
- Ambert, Cidade da baixa Auvergne.
-
- Annel, _vid._ _Viret_.
-
- Aparas, obras que se naõ tem levado ao forno 31.
-
- Aperfeiçoar, concertar á maõ as obras que se fizeraõ ao torno, e
- pôr-lhe azas, e pés.
-
- Apodrecer, _vid._ Invernar.
-
- Arcueil, Cidade de França 27.
-
- Area misturada com argilla 13.
- Seu uso na louça 17. 32.
- Fusivel, vitrificavel, e metalica 18.
- Para fazer tijolos 25.
- Serve para moldar 48.
-
- Argamassar, amassar o barro, quer seja simples, quer se componha
- de muitas misturas juntas 4.
-
- Argilla, barro gordo compacto ductil, amolessendo-se em agua 2.
- Ductibilidade da argilla 5.
- Sua dureza depois de cozida 7.
- Sua côr 11.
-
- Argilla para as louças de Inglaterra 227.
- Para as louças brancas de Staffordshire 245.
-
- Assento, taboa inclinada, que faz parte do torno do Louceiro, sobre
- que se assenta o trabalhador.
-
- Ateille, pedaço de madeira, ou de ferro, que tem huma certa figura,
- e que se póde comparar com o que os pedreiros chamaõ calibre, para
- fazer as molduras 75. 95.
-
-
- B.
-
- Barro gordo _vid._ Argilla.
-
- Barro de ladrilhos 12.
-
- Barro de telhas _Ibid._
-
- Barro de tijolos _Ibid._
-
- Barro de cadinhos _Ibid._
-
- Barro de pitos _Ibid._
-
- Barro, bom barro 70.
-
- Barro branco 196.
-
- Batoques _vid._ Registros.
-
- Beauvais, Cidade Episcopal da Picardia.
-
- Bonnet les-Oules (Saint) Parroquial do Fores.
-
-
- C.
-
- Cadinho _vid._ Crizões.
-
- Calcaria (pedra) pedra, que pela calcinaçaõ naõ se vitrifica
- totalmente, mas se converte em cal 13.
-
- Calibre _vid._ Ateille.
-
- Candieiro de barro 122.
-
- Cassarolas, vasos de barro 118.
-
- Castellet, Villa de Auvergne 319.
-
- Champetieres, Villa de Auvergne 319.
-
- Chumbo (mina de) dá-se impropriamente este nome a huma _cal de
- Chumbo_, que pela calcinaçaõ toma huma côr vermelha, chamada
- chumbo vermelho, zarcaõ, ou minium.
-
- Coadores, vaso de barro 120.
-
- Cortar o barro, he dividillo em talhadas, mas delgadas que forem
- possiveis 30.
-
- Curto (barro) assim chamaõ os Oleiros a hum barro, que naõ sendo
- bem ductil, naõ se póde estender muito sem se quebrar.
-
- Cutelo _vid._ Faca.
-
- Creneaux, aberturas que se fazem no fornete, quer para dar huma
- communicaçaõ de ar quente, quer para sahir a fumaça 50. 134.
-
- Crisoes, ou cadinhos (barro de) 185.
- Cadinhos de Picardia 298.
- Seu cozimento 312.
-
- Crivo para passar o barro 71.
-
- Cozimento da louça 24.
-
-
- D.
-
- Devonshire, Provincia Meridional de Inglaterra, onde ha muito bons
- Pórtos frequentadissimos. Exeter he a sua Capital.
-
- Digestaõ (fornete de) 281.
-
-
- E.
-
- Ebauchoir, pequeno pedaço de madeira cortada de diversos modos, de
- que se servem os Escultores, para fazerem seu molde, ou em barro,
- ou em cera 127.
-
- Escalfador, sorte de vaso 94.
-
- Espinasse, Villa de Auvergne dependente da Paroquia de Marzac.
-
- Esquentador 125.
-
- Eutrope (Saint) Villa de Angomes.
-
-
- F.
-
- Faca de dous cabos para cortar o barro 30.
-
- Faca curva para aparar os ladrilhos 45. _est. I._ _fig. 6._
-
- Fargeau (Saint) Cidade de França no Gatinnes.
-
- Fausse tire, separaçaõ que formaõ os tijolos, apartando o fogaõ do
- corpo do forno 50.
-
- Fio de lataõ, instrumento para cortar o barro: he huma ponta de fio
- de arame guarnecida de hum punho em cada extremidade: faz-se a
- arbitrio, e se apropría conforme a posiçaõ que lhe querem dar 35.
-
- Fogareiros, ou fornalhas portateis, quadradas 274.
-
- Forno de cozer os tijolos 49. _est. I._ _fig. 7. 8. 9._
-
- Forno do Louceiro 129.
- Outro forno 132. _est. III._ _fig. 1. 2. 3._
- De Prá em Lionnes 163.
- De Franche ville 179.
- De Beauvais 187.
- De S. Fargeau 206.
- Do Condado de Northumberland, em Inglaterra 235.
- Do Condado de Stafford 256.
- Fornete de vento de Mr. Macquer 280.
- Forno dos Oleiros 313.
-
- Fornalha, lugar do forno, em que se põem a lenha, ou carvaõ 286.
-
- Fornalha de fusaõ 274. _est. II._ _fig. 16._
- De calcinaçaõ para o esmalte 93.
-
- Fornistas, trabalhadores que fazem fornetes, e cadinhos para os
- Chymicos 262.
-
- Franche-Ville, Aldêa no Leonnes, em que se faz louça 171.
-
- Fritar, calcinar a materia do vidro 100.
-
- Fusaõ (fornalha de) fornalha principalmente destinada para a fusaõ
- dos metaes, em que se accende o fogo com folles 279.
-
-
- G.
-
- Gauchis, especie de argamassa, a que se mistura huma porçaõ de gesso
- em pó, com argamassa de cal, e de area, ou bitume 62.
-
- Galmier (Saint) pequena Cidade do Forez.
-
- Gaubino, assim chamaõ no Lionnes a huma argilla cinzenta, muito pura,
- da qual se faz huma louça fechadissima, e pouco propria para o
- fogo 176.
-
- Gentilles, pequena Villa da Ilha de França.
-
- Gesso _vid._ Alabastro.
-
- Gimble, dá-se em alguns lugares este nome ao prato do torno que
- sustem a obra 75.
-
- Gournay, Cidade de Normandia no paiz de Bray, celebre pelas suas
- manteigas, de que se faz huma grande venda em París.
-
- Greda (louça de) saõ as que se aproximaõ mais a Porçolana 181.
-
- Greda de Normandia 23. 182.
- de Bretanha 23.
- de Beauvais 23.
- de S. Fargeau 23. 194.
- de Flandres 23.
-
- Gesso 231.
-
-
- H.
-
- Huma amassadura, o que se amassa de huma vez com os pés 32.
-
-
- I.
-
- Inglaterra (louça de) 218.
- Louça negra 240.
-
- Invernar, he deixar o barra extrahido da mina em hum fosso, ou em
- montes ao ar, o que contribue para se alisar melhor 28.
-
- Isigny, Cidade grande na baixa Normandia, com hum pequeno Porto 21.
-
- Issoire, Cidade de França na baixa Auvergne 317.
-
- Jonc _vid._ _Viret_.
-
- Junien (Saint) pequena Villa da baixa Marcha.
-
-
- K.
-
- Kaolin, he huma argilla branca, que ainda cozida, conserva a sua
- alvura, a qual naõ he muito ductil, e frequentemente se acha
- misturada de differentes substancias, como a mica, espato etc. 321.
-
-
- L.
-
- Laboratorio assim se chama, o lugar do forno, em que se põem os
- cadinhos cucurbitas, e as differentes substancias que se querem
- pôr ao fogo 274.
-
- Ladrilhos, modo de os fazer 30.
- Tijolos chamados ladrilhos 37.
- Caraolar _Ibid._
- Triangulares, quadrangulares _Ibid._
- Oitogonos 39.
- Hexagonos _Ibid._
-
- Langueta, uniaõ de ladrilhos, que termina alguns fornos de louças,
- em baixo desta estaõ as aberturas, chamadas _creneaux_ 49. 52. 130.
-
- Latier, ou Latter, escorias de ferro, que se desprendem nas fornalhas,
- e serve aos Louceiros para envernizarem as suas obras 211.
-
- Latier, _en Laquet_, he esta escoria de ferro reduzida a pó.
-
- Lithargirio, ou chumbo rubro _vid._ Chumbo.
-
- Louça de S. Germain, Parroquia de Beauvois 183.
-
-
- M.
-
- Masso de ferro, proprio para socar o barro 71.
-
- Malaise, Cidade no Lymoussin 320.
-
- Manganesia, mina de ferro pobre, e refractaria de hum azul denegrido
- cheia de granitos 144.
-
- Marcassita _vid._ Manganesia.
-
- Marzac, Villa de Auvergne, onde se fabricaõ cadinhos para os
- ourives 317.
-
- Meio, parte da roda do Louceiro de barro 75.
-
- Mealheiro, vaso de barro commum, inteiramente fechado só com huma
- fenda por cima por onde se introduz dinheiro, e para o tirar se
- precisa quebrar este vaso 88.
-
- Mica, especie de fragmentos talcosos, que se achaõ misturados com
- pedra, ou area 13.
-
- Meza de moldar 41. _est. I._ _fig. 4._
-
- Meza de madeira, em que se põem o barro amassado para se trabalhar
- 71. _est. I._ _fig. 5._
-
- Mina de chumbo _vid._ Chumbo.
-
- Minio _vid._ Chumbo.
-
- Montmoreau _vid._ S. Eutrope.
-
- Moufle, pequeno forno de barro cozido, que se põem nas fornalhas
- quadradas _vid._ Fornalhas portateis 277.
-
- Molde, os Oleiros daõ este nome a hum caixilho de madeira, em que
- elles formaõ os _creneaux_: tambem ha concavo de gesso, que serve
- para formar com o barro differentes ornatos 38. _est. I._ _fig.
- 5._
-
- Moldes para fazer os cadinhos 297.
-
- Moldar os ladrilhos 37.
-
- Moldes empregados nas Fabricas de louças de Inglaterra 251. 254.
-
- Moinho para moer a pedra para as louças de Inglaterra 155.
-
-
- N.
-
- Nibelle, pequena Villa de Gatinnes 25.
-
- Northumberland, Provincia de Inglaterra: louça deste París 219.
-
-
- P.
-
- Panellas, grandes vasos de barro, mas commummente de greda 216.
-
- Pedra calcaria 43.
-
- Pitos 32.
-
- Plaina, peça de madeira para moldar as obras 41.
-
- Prá en Forez, Aldêa do Lionnes, em que se fabríca Porçolana 157.
-
- Prevalais, Parroquia de Bretanha 190.
-
- Pyrites, substancia mineral que contém pouco metal, e muito enxofre,
- ou arsenico 13.
- Má liga para a louça 16.
-
-
- Q.
-
- Quartz, pedra dura côr de leite meia transparente, e vitrificavel 152.
-
- Qualidades da boa louça 19.
-
-
- R.
-
- Regadores feitos de barro 123.
-
- Registros, aberturas feitas em differentes lugares do forno, que se
- abrem, ou fechaõ com rolhas para diminuir, ou aumentar o fogo 275.
-
- Rodas empregadas na fabrica de louça 74.
- Roda de ferro 75. _est. I._ _fig. 5._
- Roda de madeira _vid._ Forno.
-
-
- S.
-
- Sal marinho, seu uso para as louças de Inglaterra 259.
-
- Savignier, pequena Cidade da Picardia 183.
-
- Sauxillanges, pequena Cidade de Auvergne, em que fazem crizoes para
- os ourives 317.
-
- Serra, fio de lataõ, que serve de desprender as obras de cima do
- prato _vid._ Fio de lataõ.
-
- Seccar as obras 44.
-
- Staffordshire, Provincia de Inglaterra, em que se fazem louças
- brancas 244.
-
-
- T.
-
- Taboa da roda 76.
-
- Talhas para ensaboar 89.
- Para brazas 121.
-
- Tamiz para passar a pederneira 249.
-
- Terra calcaria 13.
- Modo de a experimentar 14. 22.
-
- Tetin _vid._ Abertura.
-
- Toupiniers 321.
-
- Torno, roda de madeira, que se faz virar com o pé, para formar sobre
- o prato as obras, que se querem fazer, como se faz na roda do
- Louceiro 80. _est. I._ _fig. 18._
-
- Torno Inglez 250.
-
- Tounassin, instrumento de ferro algum tanto cortante, a que se dá
- differentes figuras; serve para trabalhar por baixo dos vasos,
- que se despegaõ de cima dos pratos 11.
-
- Tempera, lançar a agua sobre o barro para o amollecer 30.
-
- Temperar, dar hum pequeno fogo as louças para acabar de seccar antes
- de se dar o grande fogo para as cozer 54.
-
- Testos dos fogareiros, e escalfadores 94.
-
- Tutes, especie de cadinho com pé como o de hum vidro de beber agua 309.
-
-
- V.
-
- Urquain, pedra dura compacta, ou taboaõ de madeira, sobre que se
- põem molde, para formar as louças, e grandes tijolos 41.
-
- Vanvres, Parroquia, ou Freguezia da Ilha de França 70.
- Do Condado de Stafford 252.
-
- Vasos de despejo, sorte de pote sem fundo em forma de tubo redondo,
- mais largo de huma ponta do que da outra, serve para as decidas dos
- lugares de recreio 92. _est. I._ _fig. 20._ Tambem se fazem de pedra
- de roca.
-
- Vasos de Jardim 96. 126.
-
- Vasos para flores communs 91. _est. I._ _fig. 17._
-
- Verniz, reboco de huma substancia vitrificada, de que se cobre a louça
- de barro 18. 189.
- Outro methodo de applicar o verniz 146.
- De Prá em Lionnes 165.
- De Franche-ville 180.
- De S. Fargeau 212.
- Do condado de Northumberland em Inglaterra 236.
-
- Virador, vara que serve para imprimir o movimento circular na roda
- de ferro 79. _est. II._ _fig. 4._
-
- Viret, ou virola sorte de anel de barro que forma salientes.
-
- Voguer, manear, e amassar o barro á maõ para lhe separar os corpos
- estranhos, e alimpar mais perfeitamente 71.
-
-
- Z.
-
- Zimmeren, Villa de Luxembourgo, onde se faz louça 191.
-
-
-
-
-INDICE
-
-DOS ARTIGOS QUE SE CONTEM NESTA OBRA.
-
-
- _Observações preliminares._ Pag. 3.
-
- _Artigo I. Do trabalho da louça, segundo o uso de Pariz._ 22.
-
- _Artigo II. Dos ladrilhos, e como se amassa o barro, com que
- elles se fazem._ 23.
-
- _Como se moldaõ os ladrilhos._ 28.
-
- _Do forno, e do modo de se arranjar nelle os ladrilhos para
- se cozerem._ 35.
-
- _Artigo III. Das obras dos ladrilhos._ 41.
-
- _Artigo IV. Modo de fazer os differentes vasos; e utensilios
- domesticos com o mesmo barro, que serve para fazer os
- ladrilhos._ 49.
-
- _Modo de fazer os vasos na roda._ 52.
-
- _Descripçaõ da roda de ferro._ _Ibid._
-
- _Do torno, ou roda, que os Oleiros de obra grossa tomaráõ,
- dos de obra fina._ 55.
-
- _Trabalho do Oleiro sobre a roda._ 58.
-
- _Como se podem formar obras no torno com hum calibre._ 65.
-
- _Como se fazem ao torno os vasos grandes de Jardim._ 66.
-
- _Vasos grandes de barro cozido._ 69.
-
- _Artigo V. Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na
- meza para lhe pôr azas, e pés._ 74.
-
- _Artigo VI. De algumas que totalmente se fazem á maõ._ 80.
-
- _Artigo VII. Das obras, que se fazem com moldes._ 82.
-
- _Artigo VIII. Do modo de enfornar as obras de olaria, e
- cozellas._ 84.
-
- _Artigo IX. Descripçaõ de outra especie de forno, que
- usaõ os Oleiros dos arrabaldes de S. Antonio para cozer
- suas obras._ 86.
-
- _Artigo X. Do verniz, ou vidrado que se põem na louça._ 90.
-
- _Primeiro Methodo._ 92.
-
- _Sobre as louças de Lionnes._ 101.
-
- _Da louça de Prá, em Forez._ 102.
-
- _Louça de Franche ville, no Lionnes._ 105.
-
- _Artigo XI. Das louças, que se chamaõ de greda._ 108.
-
- _Das louças de S. Fargeau._ 116.
-
- _Modo de procurar para as louças huma côr negra, que de algum
- modo supre o verniz, ou vidrado._ 123.
-
- _Louça de Inglaterra._ 124.
-
- _Artigo XII. Do Oleiro de Fogareiros._ 144.
-
- _Notas da Academia Real das Sciencias._ 173.
-
- _Explicaçaõ das Figuras._ 176.
-
-
-
-
-ERRATAS
-
-Nota do transcritor: Corrigido; e alguns erros adicionais também foram
-corrigidos.
-
-
- _Pag._ _Lin._ _Erros_ _Emendas_
-
- 4 5 conisderar considerar
-
- 8 8 deffere differe
-
- 12 11 se ttrara se tirar a
-
- _Ibid._ 9 percente persente
-
- _Ibid._ 19 pricipitadas precipitadas
-
- 15 17 he saõ
-
- _Ibid._ 18 queima-se queimaõ-se
-
- 16 21 que que que
-
- 17 20 e precisa se precisa
-
- _Ibid._ 33 quando misturando quando se misturaõ
-
- 18 1 a seu o seu
-
- _Ibid._ 12 a hum de hum
-
- 19 13 commuus communs
-
- 20 7 salgadeiras saleiros
-
- _Ibid._ 27 as utensis os utensis
-
- 22 4 avou vou
-
- 22 11 seu o o seu
-
- 26 18 acabada acaba
-
- 31 23 tilheiros telheiros
-
- 34 4 sahe sahem
-
- _Ibid._ 29 defferentes differentes
-
- _Ibid._ 4 sahe sahem
-
- 43 27 elle estes
-
- 47 6 as portas os postos
-
- _Ibid._ 13 as levanta os levanta
-
- 48 13 e untaõ untaõ
-
- 52 10 _Fig. 15._ _Fig. 5._
-
- 53 26 e cambas cambas
-
- 54 17 caimba camba
-
- 57 16 perde ella _adde_ o seu movimento
-
- 60 7 mealheilro mealheiro
-
- _Ibid._ 30 o qual a qual
-
- 61 2 insaboar ensaboar
-
- _Ibid._ 19 esses estas
-
- 64 2 _tab._ _est._
-
- 68 4 se po-chegar se pode chegar
-
- _Ibid._ 5 e se de guraapertando e se segura apertando
-
- 71 11 destinadas destinados
-
- 74 3 torno; que torno; pois o que
-
- 75 13 indireitar endireitar
-
- 76 17 o pegar apegar
-
- 77 22 so poem se poem
-
- 80 18 moido, e passado moida, e passada
-
- 95 18 quer querem
-
- 102 10 Feroz Forez
-
- 103 19 do barro _adde_ escuro
-
- _Ibid._ 27 se estes amassaõ-se estes
-
- Onde se achar levigar, levigados, _lêa-se_ livigar, livigados.
-
- E onde invernizar, invernizadas, _lêa-se_ envernizar, envernizadas.
-
- 147 25 cenrada cenrrada
-
- 153 1 _fig._ _fig. 15._
-
- 158 28 a une o une
-
- 159 14 fazem-lhe fazem-lhes
-
-[Illustration: _Louceiro de barro Simples._ _Est. I._]
-
-[Illustration: _Louceiro de barro Simples._ _Est. II_]
-
-[Illustration: _Louceiro de barro Simples._ _Est. III._]
-
-
-
-
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