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If you are not located in the United States, you'll -have to check the laws of the country where you are located before using -this ebook. - - - -Title: Arte de louceiro - Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas - -Author: José Ferreira da Silva - -Release Date: May 13, 2020 [EBook #62115] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DE LOUCEIRO *** - - - - -Produced by Júlio Reis and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by The -Internet Archive/Canadian Libraries) - - - - - - - - - - ARTE DE LOUCEIRO - - OU - - TRATADO SOBRE O MODO DE FAZER - AS LOUÇAS DE BARRO MAIS - GROSSAS, - - TRADUZIDO DO FRANCEZ - - POR ORDEM - DE - SUA ALTEZA REAL, - O PRINCIPE REGENTE, - NOSSO SENHOR, - POR - JOSE FERREIRA DA SILVA - - [Illustration] - - LISBOA - NA IMPRESSAÕ REGIA. - ANNO DE 1804. - - _Por Ordem Superior._ - - _Ars dux certior._ - Cic. - - - - -ARTE DE LOUCEIRO DE BARRO SIMPLES. - - - - -INTRODUCÇAÕ. - - -1 A Arte do Louceiro consiste em fazer vasilhas, e outras obras de -barro, que se embebe em agua para o amolecer, e se amassa e se dá depois -differentes figuras; e se fazem cozer para lhe dar solidez, conforme esta -definiçaõ, o que faz pitos, o louceiro, e os que fazem porcelana saõ -oleiros; porém fazem obras mais perfeitas do que estes de que vamos a -fallar. Assim entende-se por oleiros, os que fazem obras communs, e que -por isso se podem dar baratas. - -2 A argilla[1], que se chama tambem terra barrenta, faz a base das -terras de que usaõ os oleiros, e he a proposito dar os caracteres que -a fazem particular destinguindo das outras terras. Para isto a vou -considerar em seu estado de pureza, ainda que he difficil, ou talvez -impossivel obtella sem mistura de differentes substancias estranhas, que -mudando sua natureza; humas vezes a tornaõ mais propria para as obras -de oleiro, e outras obrigaraõ os oleiros a trabalhos consideraveis para -purificar o barro, sem o que seria inutil.[2] - -3 A argilla[3] ou barro puro he formada de partes muito finas, que se -unem muito humas ás outras; porque estando amontuadas em massa, e unidas -humas ás outras, cheguando a hum grande gráo de secura, endurecem, de -sorte que hum torraõ de argilla exactamente amassado, e bem secco, -contrahe huma dureza de pedras: por causa das suas partes serem muito -finas, neste estado he susceptivel de tomar certo polimento: he macia, e -saponacea ao toque; e por isso he que se chama a esta _terra gorda_. Ella -atrahe a humidade, o que a faz pegar a lingua se acaso a toca; tambem -se une bem ás substancias gordas; e por isso serve para tirar certas -nodoas.[4] - -4 Depois de ter cortado, ou quebrado em molleculas de mediocre tamanho, -se deixaõ ficar na agua, de que ella se carrega em abundancia; ella -se incha á proporçaõ que se carrega da agua e se póde desfazer huma -pequena quantidade em muita agua. Mas quando se lhe naõ lança bastante -para a reduzir a huma especie de lama, e que se amassa como adiante -explicaremos, he o que se chama _argamassar_, ella se faz glutinosa, e -fórma huma massa muito ductivel, que se póde estender sem a quebrar; de -sorte, que hum habil oleiro chega a fazella tomar differentes figuras; e -quando se usa della em massa alguma cousa mais dura, se póde fazer hum -grande vaso, com pouca grossura sem este se desfazer pelo pezo. Quando a -argilla está assim bem amassada, ou argamassada, de sorte que faça huma -massa firme, naõ he penetravel á agua, em quanto naõ sécca, por isso se -usa della nas argamaças dos tanques, ou pias de conservar agua. Por isto -he que os bancos de argilla que estaõ debaixo da terra formaõ muitas -vezes tanques sobterraneos, dos quaes nascem fontes de agua, algumas -vezes assás boa: porque a argilla, que naõ está exposta ao ar, ao sol, ou -ao vento, conserva sua humidade, ductibilidade, e a propriedade de naõ -ser penetravel a agua. - -5 Os oleiros se aproveitaõ da ductibilidade da argilla para a trabalharem -na roda, e moldes; mas as argillas em seccando, quanto mais puras saõ, -mais encolhem, isto he diminuem muito do seu volume, á medida que a agua -se evapora: e neste estado estaõ sujeitas a rachar-se e seriaõ inuteis -aos oleiros, se elles naõ tivessem meios de lhe empedir o encolher tanto, -como adiante diremos. - -6 A argilla, pura tal, como nós ao presente a consideramos ou detodo, -naõ he atacada pelos acidos, ou muito pouco: digo muito pouco porque -em muitas argillas se pode descobrir o acido vitriolico. Esta argilla -resiste muito á acçaõ do fogo sem se derreter, e por conseguinte cozendo -se adquire huma dureza igual á dos seixos, a ponto de que certas argillas -bem cozidas chegaõ a deitar fogo sendo feridas com aço. Esta propriedade -parece indicar, que hum fogo muito activo as faz tomar hum principio -de defusaõ pois ainda que ella seccando indurece, com tudo naõ chega -ao gráo que lhe dá o fogo; a argilla, ou barro, nunca muda de natureza -por mais secca que fique; conserva a propriedade de ser penetrada pela -agua, e tornar-se em huma massa ductivel; pelo contrario cozendo-se -muda totalmente de natureza: já entaõ naõ he argilla, he huma argamassa -muito dura, ou huma especie de area impenetravel, á agua e que naõ póde -adquirir alguma ductibilidade com este fluido. - -7 Nisto a argilla differe muito das boas argamassas de cal, e arêa, que -endurecem, seccando, mas expondo-se a huma grande calcinaçaõ a perdem. A -dureza da argilla cozida he muito differente, das pedras calcares, ainda -as mais duras, como o marmore, porque estas pedras sendo expostas a hum -grande fogo, e reduzidas a cal perdem sua dureza, que parece depender em -parte da humidade, pois que ellas perdem a sua firmeza, logo que pela -calcinaçaõ, se lhe dissipou toda a humidade, que parece ser a que fórma -a uniaõ das partes; e quando fazendo a argamassa de cal e arêa se lhe -lança a humidade, ella pelo tempo toma huma dureza bem consideravel: pelo -contrario a dureza da boa argilla se augmenta á medida, que se faz passar -por hum grande fogo. A grande violencia do fogo a racha, defórma, e a -reduz a huma especie de vidro imperfeito, mas que conserva sua dureza. -Eis aqui o que me faz pensar, que a dureza da argilla cozida consiste, -em que suas partes adquirem hum principio da fusaõ ou brandura pela -grande acçaõ do fogo, e isto as une humas ás outras, brandura, que se -póde dizer, que as argillas saõ refractarias pella vitrificaçaõ, ou fusaõ -perfeita. - -8 Estas observações por mais sucintas, que sejaõ bastaõ para caracterizar -a argilla pura; mas como se naõ encontra sem estar unida ás substancias -estranhas, he mais importante para a arte de que tratamos, fallar das -argillas alliadas ou com mistura, e taes como ellas se achaõ na terra, -pois desta especie he que se usa nas olarias. As obras desta se vendem -muito baratas, e por isso se naõ póde ir buscar longe de casa, como se -faz para as obras preciosas, e porcelanas; he preciso que para ellas se -use de argillas que estejaõ perto de casa. Felizmente a argilla se acha -em muitos lugares em maior, ou menor profundeza da terra, se acaso se -dá attençaõ ás substancias com que se combina. Ha della muitas especies -differentes: acha-se humas vezes em grandes montes, e outras em bancos -que tem pouca espessura relativamente á sua extensaõ; em fim ella se -destribue algumas vezes pela terra por veias, que se devem seguir; a -especie de argilla naõ he sempre a mesma na continuaçaõ da mesma veia, ou -quando se tira da terra mais superficial, ou mais profunda. - -9 A respeito de suas côres ao sahir da terra, he branca, cinzenta, -asulada, tirando a côr da pedra asul _Ardosia_, verde, amarella, -vermelha, e de côr de marmore. - -10 Estas differentes côres de argillas só nos podem dar indicios pouco -certos da qualidade das louças que della se fará: com tudo naõ se devem -desprezar; porque estes indicios nos podem guiar a fazer experiencias -para certificar-nos da sua boa, ou má qualidade. Disso fallaremos nós -adiante. - -11 Em geral se preferem as argillas brancas, ou escuras ás amarellas, -vermelhas ou verdes, e algumas vezes ás que tem mistura de differentes -côres. Estas côres dependem de huma tintura metálica, sulfurea, ou -bituminosa; por que, como dissemos, no modo de fazer pitos, ha argillas -que augmentaõ á alvura quando se cozem, porque a substancia apparente que -alterava a sua côr era destructivel pelo fogo, e as outras cozendo-se -ficaõ vermelhas, amarellas, escuras, ou quasi negras. Parece que estas -côres fixas saõ causadas pelas differentes substancias metálicas, que se -dissolvem com os acidos especialmente o vitriolico: porque he preciso que -estas substancias colorantes se reduzaõ em particulas muito subtis, pois -estas argillas de differentes côres parecem muito macias, e impalpaveis -entre os dedos, e homogenias quando as cortaõ. As substancias tenues de -que acabamos de fallar, raras vezes alteraõ os barros communs, de que ao -presente fallamos. Digo raras vezes, porque algumas vezes as podem tornar -fussiveis: o que em alguns casos he grande defeito. Outras vezes lançaõ -vapores que fazem mal ao verniz, ou vidrado com que se cobrem: disto -fallarei em outra occasiaõ. - -12 Segundo a qualidade dos barros, e uso que delles se faz chamaõ-se -barro de tijollos, de ladrilhos, de panellas, de cadinhos, e pitos. - -13 Muitas vezes os oleiros se servem de argillas, que tem substancias -heterogeneas mais sensiveis, como a _mica_,[5] _pyrites_[6] terras -calcareas[7] arêas de differentes naturezas, e fragmentos de diversas -qualidades da mina. - -14 Naõ fallo aqui destas substancias, que se achaõ em grandes pedaços, -e que os oleiros apanhando-as, quando amassaõ o barro, as lançaõ fóra; -mas das que se achaõ em molleculas assás grossas, e que se persente -nos dedos, e se vê quando se corta hum pedaço de barro, com tudo -insufficientes para se tirar a maõ todas estas materias de qualquer -natureza, que sejaõ, prejudicaõ mais, ou menos a louça, quando seu volume -he hum um pouco consideravel, porque naõ se podem fazer obras asseadas, -e nem a superficie fica lisa. He verdade que desfazendo esta argilla -em muita agua, e passando-a para outro vazo depois de precipitadas as -substancias mais pezadas, se tiraõ argillas quasi isentas de partes -heterogeneas, e que serveriaõ para obras mais delicadas; mas esta -preparaçaõ do barro que se póde empregar em obras de louça fina requer -muitas manobras, quando se está fazendo louça grossa; e assim dos -barros areentos só se usa para fazer tijollos ou telha; para a louça se -escolhem veias de barro mais puro, e isento de huma mistura grosseira, -ou de natureza, que altere a bondade da louça. Vem a proposito entrar em -algumas individuações a este respeito, porque principalmente da natureza -destas misturas resulta a differente qualidade dos barros; e o oleiro que -se estabelece em hum lugar, deve procurar todos os meios de conhecer a -natureza do barro, de que se deve servir, sem se arriscar a perder muitas -fornadas, e arruinar-se. - -15 Deve-se esfregar entre os dedos para ver se he macio ao toque, e se he -ligado, e ductivel. E encontrando-se corpos estranhos, se devem alimpar, -e pôr de parte para conhecer de que natureza saõ. Naõ nos devemos -contentar só com isto; por que se a lavage, de que acima fallamos, para -as obras communs precisa muita despeza, deve-se sempre desfazer em -agua hum bocado de argilla, ao menos, para conhecer-lhe precisamente a -natureza, e a quantidade de substancias pouco mais ou menos, que estaõ -misturadas com ella: porque como as substancias de differentes generos -tem pezos especificos, que lhe saõ particulares, vasando muitas vezes -a agua em que se diluio a argilla v. g. passados cinco minutos, depois -passados dez, e depois quinze se chegaráõ a separar as substancias, que -segundo o seu pezo, se precipitarem mais depressa, ou mais de vagar, e -assim se poderáõ examinar separadamente estes differentes precipitados -para se poderem conhecer melhor por experiencias particulares; porque -destas differentes ligas dependem, em grande parte as qualidades das -argillas, e das louças, que dellas se fazem. He verdade, que apezar da -lavagem ellas conservaõ partes muito finas, e muito divididas, que lhe -daõ côr, como acima dissemos; porém estas partes heterogeneas muito finas -saõ pouco nocivas as louças communs. Por exemplo, se segundo diz Mr. -Pott, a argilla sendo misturada com substancias de gesso se torna muito -dura no fogo; diz tambem que os barros vitrificaveis, misturando-se com -a argilla firme ficaõ muito duros cozendo-se; mas he hum grande defeito -nas argillas o terem liga de pedras calcareas em molleculas de maior -tamanho, que se calcinaõ ao cozer; e depois quando sentem humidade, -inchaõ, e quebraõ a obra, se estaõ no meio do barro, e se ficaõ na -superficie, a agua as dissolve, e fica hum buraco em seu lugar: todavia -eu digo quando ellas saõ maiores; porque em certos casos as substancias -calcareas reduzidas a pó subtil, e misturadas em pequena quantidade com -substancias vitrificaveis, podem contribuir para a bondade da louça. -He de experiencia que algumas vezes duas substancias, que separadas -naõ saõ vitrificaveis, unidas se vitrificaõ; e com razaõ mais forte -se vitrificaráõ as particulas da cal combinando-se com substancias -vitrificaveis. - -16 As pyrites tambem saõ huma qualidade de liga muito má; queimaõ-se ao -cozer, e se dissipaõ inteiramente, e fica hum buraco em seu lugar, ou -quando menos, faz huma mancha negra, similhante a escorea de ferro, e com -difficuldade pega o verniz, ou vidrado sobre ella. Os oleiros dizem que o -mesmo vapor sulphureo, que della, se exhalla a queimar, offende ao verniz -das louças que estaõ visinhas. - -17 A arêa he necessaria para impedir ás argillas muito puras o -encolherem, e fazellas seccar e coser sem se quebrarem, para isto saõ -proprias as arêas refractarias, que com difficuldade derretem. Os vasos -que dellas se fazem, soffrem hum grande fogo, e naõ saõ sujeitos a -quebrarem pelas alternativas de frio, e calor: mas he preciso hum grande -fogo para as cozer, sem isto naõ fica o barro muito duravel. Póde-se com -tudo fazer dellas boa louça, e mesmo cadinhos; porém saõ permeaveis a -todas as substancias, que se tornaõ muito fluidas pela fusaõ, como os -saes, o chumbo; porque ficando com o tecido pouco tapado, naõ as póde -conter. Podia-se fazer o seu tecido mais tapado ajuntando lhe hum bocado -de barro vitrificavel. Com tudo se estas arêas fossem em muito grande -quantidade, diminuiriaõ totalmente a ductibilidade da argilla, e seria -muito difficil o trabalhalla particularmente na roda. He verdade, que -pella lavagem, se poderia tirar huma parte da arêa, que se achasse em -muita abundancia no barro; mas os oleiros naõ recorrem a este meio, que -precisa muita manobra: elles preferem misturar as argillas, que chamaõ -muito magras, com outras, que sendo muito gordas, fazem encolher muito a -louça, e quebra-se ao seccar. Deste modo com a mistura pouco dispendiosa -corrigem os defeitos dos dous barros, hum por muito gordo, e outro por -muito magro. - -18 As areias fusiveis, vitrificaveis, e metállicas tornaõ a argilla -fusivel, e a louça naõ póde supportar entaõ hum fogo consideravel -sem ficar com defeito; por isso quasi todas as obras destas argillas -fusiveis, saõ cozidas ligeiramente, seu interior he grosseiro, taõ -poroso, que a agua trespassa os vasos sobre tudo, quando para impedir o -encolher, se lhe ajunta muita arêa; e neste estado do barro só se podem -fazer delle vasos de Jardins, alguidares, e fogareiros, e para os utensis -communs do uso se precisa cubrillos de hum esmalte, que se chama verniz. - -19 A economia obriga a fazer estas louças que se trabalhaõ com -facilidade, encolhem pouco, e com hum fogo mediocre se cozem, e tem a -vantagem de se poderem expôr ao fogo sem se quebrarem. Estas louças muito -communs se fazem em grande quantidade, porque se daõ baratas; mas tem -pouca solidez, a menor queda as quebra, e por isso saõ pouco duraveis. - -20 Quando se misturaõ estas areias vitrificaveis com as argillas, ellas -se chegaõ a cozer bem, sem as obras ficarem com defeitos, o seu tecido -muitas vezes fica bem fechado; ellas se naõ dissolvem pelos acidos, e -conservaõ os metaes, e saes derretidos; porém, como se chegaõ muito á -natureza do vidro, os vasos naõ podem soffrer a alternativa do frio, e -do calor; e para que se naõ quebrem he preciso esquentallos com muito -cuidado. - -21 Os barros, de que se usa, para fazer as louças, que chamaõ de grêda, -commumente tem este defeito; sendo de hum tecido muito fechado, resistem -á fusaõ dos saes, e do vidro de chumbo: porém he preciso muito cuidado, -quando se passaõ do frio para o calor. Para ellas naõ terem este defeito, -he preciso que naõ fiquem taõ chegadas ao estado de vidro. Ha algumas que -saõ desta natureza, e que se poderiaõ ter por huma porcelana grosseira. -Eu supponho os barros de que se fazem tem a liga de areia refractaria, -e de arêa vitrificavel de donde resulta a vitrificaçaõ. Naõ tenho tido -commodo de examinar estes barros com bem cuidado para dar por certo, o -que acabo de dizer: o que posso certificar he que tendo dissolvido em -muita agua o barro de Gournay, de que se fazem os potes para a manteiga -de Isigny, e tendo-a vasado depois de se ter precipitado huma parte da -arêa, e pyrites, que elle continha, desta argilla privada de huma parte -da sua areia, mandei fazer cadinhos, que se podiaõ pôr vermelhos ao -fogo, e depois lançallos em agua fria sem se quebrarem. Se eu tivesse -á maõ estes barros, estou persuadido, que chegaria a fazer vasos, que -naõ teriaõ algum mericimento pela belleza, mas seriaõ taõ bons como a -porcelana, e teriaõ todas as perfeições, que podem haver nas louças -communs. - -22 Os oleiros naõ entraõ em exames taõ circunstanciados: se achaõ argilla -macia ao tacto julgaõ bem della amassaõ-na, e trabalhaõ: se a achaõ -muito magra, e pouco ductil, ajuntaõ-lhe argilla muito gorda: se vem que -argilla diminue muito de volume em secando, e que se fende, emmagrecem-na -ajuntando-lhe barro areento, ou mesmo arêa em proporçaõ que lhe permitta -conservar sua ductibilidade, e a fazem cozer; se ellas derretem, ou ficaõ -com defeito as peças no forno, diminuem a actividade do fogo, e só as -empregaõ nos utensis communs do uso, que cobrem de verniz. Se hum fogo -ordinario naõ basta para as cozer, ou dar-lhes toda a dureza, de que -saõ susceptiveis, ou vem que podem supportar grande fogo sem defeito, -cozem-nas como greda. Se com este grande fogo, alcançaõ que vaõ tomando -a natureza de vidro para poder resistir ao fogo, fazem utensis, que naõ -devem servir no fogo; como botelhas, potes para manteiga, saleiros, -alguidares, quartas, e potes para leiterias. Para torna-las menos frageis -ao fogo, ligaõ as argillas muito fortes com barros já cozidos, como potes -de greda reduzidos a pó; entaõ, sendo bem cozidos, podem ir ao fogo os -vasos ou peças, ainda que naõ haja o cuidado de as esquentar primeiro; -mas os cadinhos para ensaios de metaes, ou para saes derretidos, he -preciso que o barro naõ tenha substancia metálica, que se derretesse e -deixasse escapar o que estivesse derretido no cadinho. - -23 Algumas vezes estas ligas vem feitas por natureza, e os oleiros se -servem da argilla tal, qual a natureza lhas apresenta: da qui vem a -differença da louça de diversas Provincias, como as gredas escuras de -Normandia, as da Bretanha, que tiraõ sobre o azul, as de Beauvais, que -saõ amarelladas, tirando hum pouco a roxo, as de S. Fargeau que saõ -brancas, e finalmente nas de Flandres, que mais que todas, se chegaõ á -natureza da porcelana. - -24 Do que acabamos de dizer, se vê que hum oleiro, quando julga ter -adquirido os conhecimentos necessarios sobre a natureza do barro, de que -se deve servir, naõ está ainda no ponto de poder fazer indagações; porque -há barros, que, só podem admittir hum mediocre cozimento: outros, que -saõ os melhores, requerem ser cosidos em hum grande fogo. Para adquirir -estes conhecimentos, o oleiro deve fazer as primeiras fornadas com muita -attençaõ, e examinar o estado das obras, para se conduzirem melhor nas -fornadas seguintes. Mas quando o oleiro se estabelece em hum lugar, -aonde se costuma trabalhar em certos barros, está dispensado de fazer -as experiencias de que acabamos de fallar, aproveitando-se das que tem -feito, os que usaõ de trabalhar nelles. - -25 Nas bordas do bosque de Orleans, ha hum lugar, que se chama _Nibelle_, -onde ha muitos oleiros, que fazem vasos de huma argilla bem pura, que -cozendo-se fica preta, e naõ podem ir ao fogo. Esta louça he de hum -tecido muito fechado: e assim para os utensis de cozinha misturaõ hum -barro branco, e magro com esta argilla; mas a agua trespassaria estas -louças se naõ fossem envernizadas. - -26 O trabalho dos oleiros he pouco mais, ou menos, o mesmo em todas -as Provincias, onde se trabalha em barro. E assim vou explicar com -individuaçaõ a pratica dos oleiros de París, e quando houver occasiaõ -farei notar em que elles differem de outras partes. - - - - -ARTIGO I. - -_Trabalho da louça, segundo o uso de París._ - - -27 Os oleiros de París tiraõ o seu barro, de _Gentillis_, ou _Areueil_ -os que o cavaõ, seguindo as veias do barro bom, o tiraõ em pedaços quasi -cubicos, e vai para casa dos oleiros em carros, como vem o cascalho, ou -pedras. - -28 Quando os oleiros o recebem, lançaõ-no em covas, onde fica mais, ou -menos tempo para _invernar ou apodrecer_, como se diz em outros lugares; -de sorte, que o barro, que foi cavado no Outono, fica na cova todo o -Inverno, e he tanto mais facil de trabalhar, quanto mais tempo está na -cova. Em alguns lugares, os oleiros deixaõ ao ar o seu barro, e o movem -com enxadas todo o Inverno, por este meio o fazem mais ductivel. - -29 Este he o mesmo barro que serve para fazer ladrilhos, e obras -de louça. Com tudo elle he mais preto, ou mais branco, conforme a -profundeza, de que foi tirado: há alguns, que vem misturados com estas -duas côres, e este se julga hum pouco melhor que os outros, porém todos -se gastaõ sem distincçaõ em louça, e em ladrilhos. Começo agora a -explicar o que respeita aos ladrilhos. - - - - -ARTIGO II. - -_Dos ladrilhos, e modo de amassar o barro, com que elles se fazem._ - - -30 Quando se tiraõ da cova pedaços grandes de barro, he preciso cortallos -em pedaços, mais pequenos possiveis. Para isso se põe huma taboa _A_ -_fig. 1_, _est. I_, sobre huma celha: os oleiros chamaõ assim huma -pequena celha _B_ sem fundo em huma ponta: lança-se nesta pequena celha -seis baldes de agua com pouca differença, depois se põe hum bôlo de barro -sobre a taboa _A_, que dissemos se punha sobre a ponta sem fundo da celha -_B_. O oleiro corta em pequenos pedaços este bôlo de barro com huma faca -de dous cabos _D_ _fig. 2_; e logo que vai cortando o barro o vai lançando -na agua da celha; o barro, que se pôs de tarde a humedecer, na manhã -seguinte está bem brando, para se poder trabalhar; porque bastaõ oito -horas para ficar sufficiente para o trabalho, sendo pequenos os pedaços. - -31 As aparas das obras, que ainda naõ foraõ cozidas, se misturaõ com o -barro novo; este barro das aparas, que já tem a liga da arêa, e já foi -posto em camada amassado, e trabalhado, ajuda a trabalhar melhor o barro -novo. - -32 O barro, de que usaõ os oleiros de París, ou venha de _Areueil_, ou -_Gentillis_ he muito gordo, e por isso naõ póde servir sem liga: he -preciso ligallo com arêa para diminuir-lhe a força, e fazello assim -encolher menos. Talvez seria mais expediente, e mais economico trabalhar -o barro com a máquina representada na arte de fazer os pitos; mas segundo -o uso dos oleiros, se faz esta mistura amassando o barro com os pés. Para -isto, os oleiros de París, costumaõ misturar duas celhas de barro novo, -huma de aparas, se as há, e cinco cestos de arêa: diminuindo-se a arêa, -ficaõ mais duros os ladrilhos; porém custaõ mais a trabalhar. Seja como -for, os barros de _Belleville e Areueil_ ambos saõ bons, e finos, tem -poucos seixos; sua côr tira a amarella.[8] - -33 Para fazer huma amassadura, se começa estendendo arêa sobre toda -aquella porçaõ do pavimento, que occupará a camada; reserva-se só hum -cesto para o que adiante diremos; esta arêa, que se precisa misturar com -a argilla, tambem embaraça ao barro apegar-se. Tira-se das celhas o barro -das aparas, que estava humedecendo, como o novo; estende-se sobre arêa -em camada; porque como este barro he mais facil de amassar, que o novo, -põe-se no lugar, em que o barro se naõ amassa tambem. As duas celhas de -barro novo saõ distribuidas pela circunferencia, e por cima se lança hum -bocado de arêa, da qual se reserva só meio cesto para o uso, que adiante -se dirá. - -34 Tres celhas de barro bem pisado, bastaõ para fazer quinhentas telhas, -e viriaõ a fazer dous mil ladrilhos pequenos. Estando o barro disposto, -como já dissemos, o amassador descalço se chega ao monte de barro; a sua -postura he, com a maõ esquerda firmada sobre o joelho esquerdo, e porque -o barro escorrega, para naõ cahir, tem na maõ direita hum páo, em que se -firma. Separando entaõ das bordas hum pouco de barro com o pé esquerdo -o despega, e lança fóra do monte, dá hum pequeno passo adiante, e faz o -mesmo; de sorte que andando em roda de todo o monte, e separando em cada -passo quatro, ou cinco pollegadas de barro, ganha pouco a pouco o centro; -onde fica pouco barro, porque elle tem separado para as bordas a maior -parte. Como o do meio fica mais mal amassado, elle acaba de amassar, e -separar o barro, que ahi fica; com hum ferro proprio corta em pedaços -este barro, e o tira com as maõs com facilidade, porque se despega por -causa da arêa, que estava por baixo, e o distribue por todo o monte. -Depois de se ter tirado o barro, que está no meio da camada fica huma -coroa de dous circulos concentricos; mas com a mesma peça de ferro corta -as bordas da camada, e as lança no meio, depois amassa deste barro, como -fez a primeira vez, e depois de acabar esta manobra, naõ tira mais o -do meio: porêm depois de ter cortado o barro com a peça de ferro, elle -o ajunta com a maõ, e o põe no meio; depois o amassa de novo terceira, -e ultima vez, estendendo o barro mais do que nas camadas precedentes, -para assim ficar mais delgado na camada. Feito isto, está amassado, e em -termos de servir, como vamos explicar. - -35 Para apromptar assim tres pequenas celhas de barro, hum homem vigoroso -precisa ao menos quatro horas: depois amontoa o barro; e entaõ está em -termos de servir. - -36 Como he de muita importancia para a louça o distribuir-se igualmente -por toda a massa, o barro, que se mistura hum com o outro, ou a argilla -com a arêa, e que as differentes misturas façaõ hum todo uniforme, os -oleiros, para se certificarem disto, cortaõ o barro com hum arame de -lataõ, e examinaõ se a côr está uniforme em toda a extensaõ do golpe, e -se ha lugares mais brilhantes, que outros. A uniformidade próva que os -differentes barros estaõ bem misturados, e que o todo está bem amassado: -nos lugares brilhantes está a argilla mais pura. - - -_Como se moldaõ os ladrilhos._ - -37 Os ladrilhos se poderiaõ moldar, como dissemos na arte de fazer -tijollos, do mesmo modo que a telha, e o tijollo. Os telheiros naõ fazem -de outro modo os tijollos, ou chamados ladrilhos de telha, para os -distinguir dos ladrilhos de louça, que saõ muito melhores, e trabalhados -mais propriamente do que os de telha, ou tijollos. Os oleiros daõ a -figura quadrada em hum molde de páo aos tijollos, ou ladrilhos que -chamaõ de fornalha. Elles tambem fazem em hum molde inferior _fig. 3_, -os ladrilhos para os celleiros, ou quartos, que requerem pouca attençaõ; -elles naõ os aperfeiçoaõ, nem aparaõ como aquelles, que se destinaõ -para sallas, e quartos acceados; mas por este methodo a superficie dos -ladrilhos, naõ he bem dirigida, os angulos muitas vezes ficaõ rombos, e o -barro naõ fica suficientemente comprimido: por isto he que nos ladrilhos -de salla, os oleiros se aperfeiçoaõ mais. - -38 He verdade, que elles começaõ mettendo o barro em hum molde, segundo o -tamanho, que devem ter os ladrilhos para as peças de barro, que chamaõ -de culumnas: mas depois que o barro está meio secco, elles o batem, e -comprimem muito. Deste modo perdem os ladrilhos a figura regular, que o -molde lhe tinha dado, e isto os obriga a cortar por hum calibre de ferro, -que os oleiros chamaõ molde: este calibre, ou padraõ de ferro he cortado -regularmente, segundo o tamanho, e figura, que se quer dar aos ladrilhos. -Tudo isto se fará claro pelas indagações, em que vamos entrar; mas convém -fazer antes notar, que supposto se possaõ fazer ladrilhos triangulares, -quadrangulares com dous cantos obtusos, quadrados, longos, etc. Naõ se -fazem senaõ quadrados, ou de seis panos _fig. 3_, e tambem alguns meios -tijollos para os socalcos das fornalhas, dos muros, ou outras cousas. -Estas duas qualidades tem a vantagem, que os ladrilhos de hum mesmo -tamanho se unem exactamente huns aos outros sem deixar vacuo entre elles; -se fossem de cinco faces ficaria entre elles vacuo, que seria preciso -encher; e aliás sendo os angulos, agudos, com facilidade se quebrariaõ. - -39 Sendo outogonos, ou de oito faces, necessariamente entre quatro -ladrilhos, fica hum espaço quadrado, que he preciso encher com hum -ladrilho pequeno. Só se fazem estes ladrilhos de oito faces, quando o -ladrilho pequeno he de côr differente dos grandes; taes saõ os ladrilhos -pretos, e brancos, que fazem os que trabalhaõ em marmore. Tambem vi em -algumas Provincias ladrilhos, que sendo cobertos de verniz de differentes -côres, formavaõ huma boa vista. Variando a figura dos ladrilhos, e a côr -pelo verniz, e tambem a sua posiçaõ, se podem fazer muitos repartimentos -simetricos: disto fallarei adiante; porém, como os ladrilhos de qualquer -figura se fazem do mesmo modo, vou explicar com individuaçaõ, como os -oleiros fazem os ladrilhos hexagonos ou de seis faces. - -40 O oleiro começa fazendo no molde hum grande ladrilho quadrado. Este -molde he hum caixilho de páo que faz os ladrilhos mais grossos do que -devem ser; naõ só por que diminuem, quando seccaõ, mas tambem, porque -ficaõ mais delgados quando se batem. - -41 Para moldar os tijollos, tem o oleiro huma taboa grossa _a b_, _est. -I_, _fig. 4_, que está posta sobre cavalletes fortes, e põe no meio desta -taboa huma pedra dura e unida, ou hum pedaço de páo _g_, de tres ou -quatro pollegadas de grosso, que tem differentes nomes; em alguns lugares -se chama _urquain_ na ponta deste pedaço de páo _dd_ está posto hum vaso -cheio de agua _ee_, e sobre o vaso hum instrumento de páo que chamaõ -plaina _ff_ e por diante está o caixilho, ou molde _gg_. Alguns põe da -parte esquerda do moldador hum bôlo de barro _h_, destinado para encher o -molde: tambem se põe ahi o barro, que se tira com a plaina _ff_. Outros -tiraõ só a quantidade, que caressem, de hum monte de barro _H_, que está -sobre o soalho, perto delles. Á direita do moldador está hum monte de -arêa _i_, e se deve ter sobre a meza hum lugar _k_, para se porem as -obras já moldadas. - -42 O moldador posto adiante da mesa, toma com a maõ esquerda hum bocado -de arêa, e a espalha sobre a mesa, ou sobre o pedaço de páo _g_ _fig. 4_, -põe por cima o molde tambem esfregado na arêa; depois o enche de barro -comprimindo o com as maõs o mais que póde; porque este barro deve ser -mais duro, do que se servem os telheiros. Depois de estar o molde bem -cheio por todas as partes, o moldador toma a plaina _ff_ _fig. 4_; -molha-a na agua, e pegando nella com ambas as maõs, a passa fortemente -por cima do molde, para tirar todo o barro, que excede á grossura, que -deve ter; depois pegando no molde por hum dos cantos o puxa para si, e -mette a maõ esquerda por baixo da peça, para a soster a põe sobre as -outras _k_ _fig. 4_, e como este barro he amassado duro, se póde passar -de hum lugar para outro em as maõs sem ficar com defeito. A pouca arêa, -que fica por baixo da peça, basta para naõ a deixar pegar na outra sobre -que se põe. - -43 Depois de terem endurecido alguma cousa as peças, ou ladrilhos, que -se tem tirado do molde se lançaõ em huma especie de taboletas feitas -de varas á maneira de caniços, para o ar lhe dar de todas as partes; e -seccallas por cima se põe huma coberta de taboas para a chuva os naõ -molhar. - -44 Quando estaõ já meios seccos se viraõ debaixo para cima para seccar a -parte, que fica por baixo a polla no mesmo gráo de seccura, que a de cima. - -45 Em quanto estes ladrilhos estaõ ainda flexiveis se põe sobre hum -banco forte huns sobre os outros, e se batem com a parte chata do masso. -Depois de batidos assim os ladrilhos, se tornaõ a pôr sobre as varas, -aonde ficaõ mais ou menos tempo, conforme o calor do ar. Logo que o -oleiro os julga sufficientemente seccos, os tira das varas, mas como -o exterior sempre está mais secco que o interior, quebrar-se-hiaõ, -se acaso se tornassem a bater neste estado. Previne-se este accidente -pondo-os em pilha, huns sobre outros cinco ou seis dias, para amolecer -as superficies, que estavaõ seccas; estas pilhas se fazem em hum quarto -baixo, e alguma cousa humido. Além de que o ar humido deste lugar -abranda a superficie das obras feitas, e a humidade do seu interior se -communica á superficie, que já estava bem secca. Quando se achaõ já -bem flexiveis se tiraõ da pilha, e se tornaõ a bater com mais força do -que antes no mesmo banco, e logo se cortaõ por medida certa em quatro -partes; depois se põe em pilhas de vinte cada huma junto a huma parede, -defendidos da chuva por huma coberta: quando o barro está já hum pouco -secco, se põe na ponta de hum banco pilhas destes ladrilhos, hum obreiro -posto a cavallo no banco, pega em hum molde de ferro _est. I_, _fig. -5_, da grossura de cinco linhas, que está talhado em faces precisamente -do tamanho e da figura, que os ladrilhos devem ter, e com hum cutello -curvo _fig. 6_, corta tudo o que excede a peça de ferro, que os oleiros -chamaõ _molde_.[9] Hum bom obreiro póde aparar 1800 ladrilhos por dia. -As aparas cahem em hum peneiro, onde se conservaõ para as misturar com o -barro novo, quando se fizer nova amassadura. Quando sahem os ladrilhos da -maõ do aparador, vaõ já em figura de ir para o forno, logo que estiverem -bem seccos. - -46 Seria impossivel fazer o primeiro molde tamanho, que depois désse -quatro ladrilhos grandes; estes assim se moldaõ em huma fôrma maior cada -hum separado, como se fazem os tijollos de fornalhas; com a differença -porém de que os tijollos de fornalha, naõ se batem, nem se aparaõ; e os -ladrilhos grandes, que se fazem com aceio saõ batidos, e aparados por -moldes, como os pequenos. - -47 Os ladrilhos feitos como acabamos de explicar, carecem estar bem -seccos para irem para o forno: porém naõ se expõe ao Sol, mas sim em -parte onde lhe dê o vento, ou em lugar aonde chegue o calor do forno. - -48 Quando os ladrilhos estaõ de todo seccos, resta cozellos, o que se faz -como vamos a explicar. - - -_Do forno[10], e do modo de arranjar nelle os ladrilhos para se cozerem._ - -49 Na arte de telheiro, e de fazer tijollos se vem os fornos, de que se -servem alguns oleiros para cozer os ladrilhos: onde se póde consultar o -que nos dissemos a este respeito, aqui trataremos só, de duas qualidades -de fornos, de que se serve a maior parte dos oleiros de París naõ sómente -para coser seus ladrilhos, mas tambem toda a qualidade de louças: depois -fallarei dos fornos, de que se servem os oleiros dos arrebaldes de _Saint -Antoine_ para cozer suas obras: e por hora fallarei só dos fornos, que -estaõ mais em uso nos arrabaldes de _S. Marceau_; elles vem representados -na _est. I_, _fig. 7_, _8_, _9_. A _fig. 7_ representa o plano do forno; -a _fig. 8_ he a divisaõ deste mesmo forno no comprimento pela linha _A_, -_C_; e a _fig._ 9 he huma divisaõ transversal pela linha _G_, _H_, da -_fig. 7_: _A_ he a boca do forno, ou entrada da fornalha; na qual se -põe madeira para esquentar o forno, como se vê de _A_, até _B_, _fig. -7_, e _8_; de _B_, até _C_, he a capacidade interior do forno, aonde se -arranjaõ os ladrilhos, ou a louça, que se quer cozer; _C_, _D_, _fig. 8_, -he hum tubo da chaminé por onde sahe a fumaça. Como a communicaçaõ do -interior do forno com este tubo, para descarga da fumaça, he por baixo -perto do pavimento do forno em _C_, he preciso, que a corrente de ar, -que entra pela boca _A_, passe ao tubo _D_, pelos buracos _C_. Deste -modo, tendo seguido a curvatura da abobada, até perto de _M_, _fig. 8_; -o ar quente desce ao longo das paredes do tubo da chaminé, que se chama -_Lingueta_,[11] para ganhar os buracos, que estaõ em _C_, e tornar ao -tubo _C_, _D_. Por esta construcçaõ, que he bem entendida, o calor se -distribue muito bem por todo o comprimento do forno: mas, como he mais -estreito na sua entrada _K_, _I_, _fig. 7_, do que no fundo, os lados em -_G_, _H_ naõ recebem tanto calor, como no meio; mas isto se remedeia; -arrumando lenha nos dous lados, como se vê na _fig. 7_, e como adiante -explicaremos. _F_, _fig. 7_, he huma porta, por onde se entra no forno -para o encher; depois do forno cheio, se tapa com hum muro de tijollos, e -se accende o fogo. - -50 Antes de metter no forno alguma louça se levanta, com tijollos em -_I_, _H_, até a abobada, huma separaçaõ que tem aberturas, pois se deixa -entervallos entre os tijollos, ou como dizem os obreiros _crenaux_[12], -para que o calor do fornete _A B_. se communique o forno. Esta separaçaõ, -recebendo a mais viva acçaõ do fogo, chama-se _la fausse-tire_, a qual -se naõ desmancha em cáda huma fornada, pelo contrario se repara para que -dure o mais que for possivel. - -51 Como a parte de diante do forno está tapada em _I_, _K_, pela -_fausse-tire_[13] he preciso carregallo pela abertura _F_, e começa-se, -formando as tres primeiras ordens da parte da _fausse-tire_, para isto -se desmancha huma ordem de tijollos de fornalha, que se põe de parte, -como se vê em a _fig. 8_, entre as quaes se deixa huma aberta de quatro -pollegadas e meia, e se dispõe estas abertas para estabellecer debaixo -da fornalha huma corrente de ar quente, de modo, que pela subtileza do -ar esquentado, suba sempre melhor á abobada. Sobre estes tijollos se -arranjaõ as pilhas de ladrilhos, que se põe deitados, como se vê na _fig. -7_, de modo, que hajaõ dous dedos de distancia de hum ao outro ladrilho, -e que o meio do ladrilho da ordem superior corresponda ao vácuo dos -ladrilhos da ordem inferior. - -52 Depois de se terem levantado até á abobeda quatro pilhas de tijollos -ordinarios, se põe achas de lenha entre as paredes do forno, e as pilhas -de tijollos: depois se arranjaõ sobre o pavimento do forno, os tijollos -de fornalha, e por cima as pilhas de ladrilhos de Sala; acamaõ-se nos -lados as achas de lenha, como se vê _fig. 7_, e além de huma ordem de -achas em pé, que atravessaõ o forno, como se vê _fig. 7_, segundo a linha -de _G_, e _H_, e se continua a encher o forno pondo por baixo os tijollos -de fornalha, e por cima os ladrilhos. Depois de se terem formado duas, -ou tres pilhas, se põe achas de lenha entre as pilhas de tijollo, e as -paredes do forno, além disto se põe huma ordem de achas sobre a parede -do fundo do forno, que se chama _Lingueta_. Quando as achas de lenha, -que se põe de pé naõ tem o comprimento sufficiente para tocar na abobeda -do forno por naõ perder lugar, se põe por cima ladrilhos de sala dos -maiores. Continua-se, como temos explicado, até chegar á abertura _F_, -_fig. 10_; para formar as ultimas ordens se põe sempre tijollos de -fornalha: as pilhas de ladrilho ordinario, e as achas, como já dissemos; -porém por naõ fechar a entrada _F_, se começa, enchendo primeiro o lado -opposto á abertura, e se acaba por esta mesma abertura _L_, que se fecha -por huma parede de tijollos, como já dissemos. - -53 Em hum forno semelhante ao que se representa, que tem dez pés de _K_, -a _L_, e sete de _K_, a _I_, para cozer os ladrilhos se gasta carga, -e meia de madeira tanto para arranjar entre os ladrilhos como para a -tempêra[14], e huma camada de lenha rachada para queimar na fornalha -_A_, _B_, e fazer o cozimento da louça; a isto chamaõ os oleiros _la -chasse_.[15] - -54 Os que se lembrarem, do que dissemos na arte de telheiro, veraõ que he -preciso primeiro esquentar o forno com hum pequeno fogo de páos grossos, -que façaõ mais fumo, do que chamma. Por mais secco que pareça o barro, he -preciso lançar fóra ainda muita humidade no forno: se esta dissipaçaõ se -apressar, o barro se quebrará, indo porém de vagar, dissipa-se a humidade -sem fazer estrago. Este pequeno fogo, he que os oleiros chamaõ humedecer, -talvez porque a louça com este pequeno calor se faz humida. - -55 Accende-se hum pequeno fogo de páos grossos na boca da fornalha entre -_A_, e _B_, _fig. 7_, e _8_; isto se continúa trinta e seis horas, para -que as obras se esquentem pouco a pouco, e percaõ a humidade, que lhe -resta, ainda que os tijollos pareçaõ bem seccos quando se mettem no -forno. Nas doze ultimas horas augmenta-se hum pouco o fogo, e depois -se faz no mesmo lugar hum grande fogo de lavareda com lenha secca, -e se continúa por sete, ou oito horas, os páos que se metteraõ pelos -lados, e entre as pilhas dos ladrilhos, se queimaõ tambem e contribuem -para ficarem perfeitamente cozidos. Finalmente naõ se põe mais lenha na -fornalha, e se lhe tapa a boca com huma chapa de ferro, para ir esfriando -pouco a pouco, passados 7 ou 8 dias, se tira a louça do forno. - - - - -ARTIGO III. - -_Das obras de ladrilho._ - - -56 Como em París as obras de ladrilhos fazem parte do officio de Oleiro, -he preciso fallar aqui dellas. - -57 Nos lugares aonde ha gesso, todas as obras de ladrilho se fazem com -elle; mas aonde o naõ ha, se ladrilha com argamaça de cal, e arêa, -betume, ou algumas vezes com huma mistura de argamaça, e gesso; naõ fallo -aqui de hum máo modo de ladrilhar, de que usaõ os paisanos, assentando -os ladrilhos sobre a argilla bem amassados com bastante arêa, para naõ -encolher tanto o barro. - -58 Quando se tem de ladrilhar com argamassa, he preciso embeber bem de -agua o ladrilho logo ao sahir do forno: sem esta precauçaõ o ladrilho -atrahe a agua da argamaça, e em lugar de tomar corpo se descompõe, e se -torna quasi em arêa pura. - -59 Como a argamaça se pega menos ao barro do que o gesso, alguns mandaõ -fazer por baixo do ladrilho, regos, ou buracos com hum pedaço de páo, que -se mette por baixo do ladrilho depois de o bater, porém isto naõ está em -uso. - -60 Em París todas as obras de ladrilho se fazem com gesso; mas, como o -gesso vivo incha muito, quando se usa delle puro, por isso vem estas -obras a ficar com defeito. Póde-se prevenir este inconveniente, ou -misturando o gesso hum pouco molle com cal, ou ladrilhando por camadas, -e naõ pôr outra em quanto naõ séca a primeira; ao menos se deve evitar -pôr o ladrilho encostado á parede de encontro, e se deverá deixar -alguns pés em roda sem ladrilhar até o gesso dos ladrilhos do meio, ter -acabado de inchar; há bons ladrilhadores, que tendo precauçaõ, chegaõ a -ladrilhar com gesso só, e a sua obra he melhor; mas pela a maior parte os -ladrilhadores misturaõ o pó de carvaõ peneirado com o gesso, para elle -naõ inchar tanto; quanto mais pó lhe ajuntaõ, menos temem, que lhe inche -o gesso; e assim ladrilhaõ com mais facilidade; porque o gesso assim naõ -pega com tanta promptidaõ, e elles naõ gastaõ tanto; e isto he utilidade -sua, porque elles mesmos daõ o gesso. Por todos estes motivos ajuntaõ -elles tanto pó de carvaõ ao gesso, que elle naõ toma corpo, e quasi naõ -se péga ao ladrilho; ao contrario porém o gesso puro se péga tanto ao -barro cozido, que se naõ podem separar dous ladrilhos, estando unidos hum -ao outro com gesso. Seria melhor em lugar do pó de carvaõ misturar arêa -boa, que faz corpo com o gesso, e tambem o naõ deixa inchar tanto, como -se fôra o gesso vivo. - -61 Eu vi hum bom ladrilhador, que em lugar do pó de carvaõ ajuntava -ao gesso ferrugem de chaminé; esta mistura naõ deixa o gesso prender -com tanta promptidaõ, e assim tinha elle tempo de assentar melhor os -ladrilhos. Disse-me elle que este gesso assim naõ inchava tanto, e me -pareceo, que estes ficava muito duro, e muito adherente aos ladrilhos; -e por isso penso, que se deve adoptar este methodo, aonde ha gesso, e -ferrugem com facilidade. - -62 Quando o gesso he raro, e a ferrugem difficil, se póde segurar bem -o ladrilho com huma mistura de gesso, e argamaça de cal, e arêa, ou -betume. Esta especie de argamaça bastarda, que os nossos obreiros chamaõ -_gâchis_,[16] incha pouco; com o tempo se torna muito dura; e como se -demora em inchar, póde o ladrilhador com facilidade assentar os seus -ladrilhos. - -63 Em París os pedreiros saõ os que fazem o lugar em que se devem -assentar os ladrilhos; mas nas Provincias os ladrilhadores, põe ao nivel, -e apromptaõ o pavimento, e lugar em que haõ-de assentar os ladrilhos, ou -tijollos, elles o fazem ordinariamente espalhando carvaõ moido na parte, -e depois assentaõ em cima huma regua com hum nivel. Logo que o lugar está -prompto lançaõ por cima do pó huma agua de gesso muito clara, para lhe -dar alguma consistencia. - -64 Os ladrilhos ficaõ mais seguros, quando se assentaõ sobre o gesso -puro, ou simplesmente misturado com huma pouca de arêa boa; mas deve-se -assentar o ladrilho depois do lugar estar secco, e o gesso ter acabado -o seu effeito, hum assento da argamaça de cal, e arêa tambem he bom; e o -peior modo, he o de assentar o ladrilho sobre o pó de carvaõ puro, que -sendo comprimido, se abate, e se desordena com facilidade; por naõ poder -dar hum assento sólido ao ladrilho, ou tijollo. - -65 Em algumas Provincias se prepara o pavimento com tufo branco, que se -passa por grades, ou canissos, humedece-se hum pouco; para que sendo -batido tome alguma firmeza. - -66 Em outro tempo se carregavaõ muito os pavimentos; porém agora, como -os carpinteiros põe a madeira bem desempenada, e igual na grossura; -recommenda-se aos ladrilhadores, que naõ ponhaõ muita carga por naõ pezar -sobre as vigas. - -67 Quando os quartos ou celleiros, que se querem ladrilhar tem o assento -preparado, o ladrilhador estende huma corda por todo o comprimento da -peça, e põe por cima do gesso, ou argamaça, huma ordem de tijollos, -examinando sempre se vai direita, e ao nivel, porque esta primeira ordem -he a que regula as outras; pois, sendo todos os ladrilhos, ou tijollos -feitos exactamente do mesmo tamanho, formáraõ ordens iguaes, e bem -direitas, se o ladrilhador os põe de modo, que naõ haja junta. Com tudo -se por defeito do oleiro, ou do ladrilhador ficarem as ordens alguma -cousa curvas, se remediará esta falta, deixando huma junta, ou emenda -na curvatura. Isto sempre he hum defeito, mas pouco sensivel, quando a -curvatura he pouco consideravel, e que se indereita pouco a pouco. Como -esta primeira ordem, ou fileira deve dirigir todas as mais, logo que -estiver bem assentada, se deve recommendar o naõ andar sobre ella pela -naõ desordenar. Põe-se depois as outras fileiras, de sorte que hum dos -angulos que falta no tijollo, que se põe se assenta no angulo, que entra -dos tijollos, que estaõ postos na fileira, deste modo vem a formar linhas -obliquas. - -68 Os ladrilhadores conservaõ o nivel em toda a extensaõ do pavimento -por hum modo bem simples, e expediente; põe hum bocado de gesso, ou -argamaça no lado dos ladrilhos, já postos, tendo o cuidado, de que fique -a argamassa de huma grossura igual; se usaõ do gesso põe só em huma -extensaõ, que occupe oito tijollos ou ladrilhos, para terem tempo de os -pôr em seu lugar antes do gesso, indurecer muito: assentaõ, por cima dos -ladrilhos postos, huma régua de páo de duas pollegadas de grosso e tres -e meia de largo, e lhe batem fortemente. Levantaõ com a maõ esquerda esta -régua, e batem sobre os ladrilhos até ella assentar igualmente sobre -todos. Fica evidente, que os postos por ultimo estaõ ao nivel depois da -régua assentar em todos igualmente; o que se faz com facilidade pelas -pancadas fortes, que fazem enterrar os tijollos pelo gesso, ou argamaça. -Se alguns fogem da direcçaõ, se abatem muito por falta do gesso, o -ladrilhador os levanta com a colher; tira o gesso que estava por baixo, e -põe outro tijollo, que fique sem defeito. Finalmente, tendo acertado os -ladrilhos, rapa com o corte da colher o gesso, ou argamaça, que sobra por -cima delles, e põe outra vez ao lado dos tijollos hum bocado, como acima -se disse em extensaõ que occupe só 7, ou 8, tijollos, que põe de novo, e -assim segue até acabar. Indo a encontrar na parede, póde entaõ misturar -carvaõ em pó com o gesso, para que elle naõ inche; porque aqui naõ estaõ -sujeitos a sahirem do seu lugar como no meio. - -69 Os ladrilhadores enchem as juntas, que ficaõ entre os ladrilhos, -postos algumas vezes com gesso misturado com argamaça de cal bem dura, -que lançaõ com força entre as juntas que ficaõ; outros lançaõ sobre os -ladrilhos agua com gesso muito liquida. Tira-se o gesso, ou argamaça que -se acha por cima dos ladrilhos, esfregando-os com arêa, ou com palhas, -e depois de bem limpos se pintaõ com oleo, põe-se-lhe cêra, e esfregaõ. -Os tijollos de ladrilhar, como se gastaõ, e ficaõ com covas pelo lugar, -por onde se anda, e mesmo ao varrer por serem as vassouras commumente de -alamo por evitar estes inconvinientes, untaõ com sangue de boi, que lhe -dá huma sólidez muito duravel. Em algumas provincias se envernizaõ os -ladrilhos, como a louça, formaõ divisões bem agradaveis, que variaõ por -muitos modos.[17] - - - - -ARTIGO IV. - -_Modo de fazer os differentes vasos, e utensis de casa com o mesmo barro, -que serve para fazer os ladrilhos._ - - -70 Os oleiros de París para fazerem differentes obras se servem do mesmo -barro dos ladrilhos; só daõ a preferencia a certas veias onde a argilla -he mais branca tirando hum pouco sobre o vermelho a qual os oleiros -chamaõ bom barro; tira-se de _Arcueil_, e de _Vanvres_, como para o -ladrilho; ligaõ-na com a mesma arêa, e na mesma quantidade, que para os -ladrilhos. Como se amassa com mais cuidado, naõ se póde pôr a amassar -mais de huma celha, ou quando muito duas de barro por cada vez. - -71 Alguns oleiros, depois do barro amassado, lançaõ hum torraõ sobre -huma mesa grossa, e o batem com hum maço de ferro, como se faz no -barro de pitos, e esta operaçaõ he muito boa; porém ainda que elle -tenha sido amassado, e batido, he preciso repassallo pelas maõs para -lançar fóra algumas pyrites, e pedras, que possa ter ao que chamaõ -_voguer_.[18] Para este fim amassaõ o barro sobre a mesa de moldar, como -fazendo huma pasta; elles ajuntaõ depois hum torraõ grande, e passando -alternativamente a palma da maõ sobre este barro, tiraõ de cada vez huma -camada bem delgada; e assim com facilidade encontraõ os corpos estranhos, -e os lançaõ fóra. Depois de terem assim passado outro tanto, como o -volume de huma libra de manteiga, amassaõ este torraõ que daõ a figura -de hum cylindro, dividem-no em dous, e tendo huma ametade em cada maõ, -as unem batendo com força huma contra a outra; depois o tornaõ a amassar -de novo, e repetem esta manobra muitas vezes, e vaõ sempre lançando fóra -os corpos estranhos que encontraõ, e acabaõ fazendo torrões de barro -maiores, ou menores, segundo o tamanho dos vasos, que elles se propõe -fazer. Os oleiros tem differentes modos de vogar o barro: porém todos -consistem, em trabalhar muito o barro para o amassar bem, e separar-lhe -todos os corpos estranhos, que nelle se acharem; porque para as obras que -elles saõ obrigados a dar baratas, naõ podem fazer as despezas de lavar -seus barros, e de os passar pela peneira (ou por hum crivo feito de arame -de lataõ fino) como fazem os que trabalhaõ em louça fina. A operaçaõ de -vogar he trabalhosa; porque para a maior parte dos utensis, que fazem -os oleiros, se deve amassar o barro muito mais duro do que para os -ladrilhos, principalmente havendo se de fazer vasos grandes, porque naõ -se poderiaõ suster; e o barro voga-se com muito mais cuidado para humas -obras do que para outras. - -72 Das obras de oleiro, humas se fazem inteiramente á maõ, como as -caldeirinhas quadradas _F_, _fig. 10_ _est. I_, outras só se fazem na -roda, como os vasos de flores, as tijellas, e alguidares _K_, _fig. 11_, -que naõ tem azas, outras se fazem parte na roda, e parte a maõ, como os -vasos de tres pés, as marmitas _fig. 12_, os escalfadores _fig. 13_, as -caçarolas _fig. 14_, o corpo das quaes se faz na roda, e os pés, azas, e -orelhas se põe de fóra á maõ. - -73 Agora começo a dizer alguma cousa sobre o trabalho da roda, ou torno; -tambem explicarei como se acommodaõ nella differentes peças; depois darei -alguns exemplos das obras, que se fazem inteiramente á maõ. - - -_Do modo de fazer os vasos na roda._ - -74 Ha duas especies de rodas: huma he de ferro, e esta he verdadeiramente -a roda de oleiros; e outra he de páo e se chama o _torno_. Quasi todos os -oleiros de París se servem dellas; porém adoptaraõ a dos oleiros de louça -fina vidrada. - -75 Descripçaõ da roda de ferro _aa_ _Est. I_, _fig. 5_, he o meio da -roda, que tem a pequena roda _bb_, em alguns lugares se chama _gimble_, -sobre o qual está a obra _cc_, em que se trabalha. No meio _aa_, se -ajuntaõ os raios da roda _dd_, que saõ de ferro. Nesta figura só se -vem dous; porém a roda tem seis, como se vê na figura 16. Estes raios -vem dar em hum circulo de ferro, ou ambos, cuja grossura só se vê aqui -representada pela linha _ee_; o meio _aa_, diminue de grossura em _ff_, -e ainda mais em _gg_, esta parte, que he cylindrica, e pontuada na -figura, he recebida por hum buraco em hum grosso pedaço de páo _g_, que -fica bem seguro por huma cruz de páo _hh_, e pelas prisões _ii_. Em -primeiro lugar he preciso conceber, que o meio _aa_, a parte _ff_, e o -cylindro pontuado _g_, saõ tomadas em hum mesmo pedaço de páo; em segundo -lugar que a parte cylindrica pontuada he recebida em hum buraco fundo, -que está no centro do pedaço de páo _g_, no qual póde virar; que este -cylindro pontuado, que tem a parte _ff_ assim como este que nos temos -chamado o _meio aa_, por cima do qual está a pequena roda _bb_, sobre a -qual está a obra _cc_. Aqui se vê, que os raios _dd_, saõ obliquos, de -sorte que por suas revoluções, formaõ hum conico cortado em _aa_; _K_ -saõ as pequenas mesas, que estaõ em roda do obreiro, em que elle põe as -bolas de barro, de que vai fazer as obras, e as mesmas obras depois de -feitas, huma gamela com agua, hum calibre de ferro ordinariamente, a que -chamaõ _atelle L_, he huma taboa inclinada sobre a qual se assenta o -obreiro. Tudo isto se tornará mais claro lançando os olhos sobre o plano -perspectivo _fig. 17_. - -76 _A_ he o meio da roda: _b_ a pequena roda, que sustenta em si a obra -_c_, na qual se trabalha: _d_, os raios da roda _ee_, cambas da roda: _f_ -a parte cylindrica do meio, por baixo do qual fica a que está pontuada na -_fig. 1_, perto de _g_: _h_ a taboa que esta segura aqui por huma massa -de gesso: _k_ as mesas pequenas, sobre que se põe a obra logo depois de -feita: _l_, a taboa inclinada, em que se assenta o obreiro: _m_, taboas -grossas inclinadas, que tem entalhes profundos, em que os obreiros põe -os pés como se vê _fig. 16_, e _17_; estas especies de assento para os -pés se chamaõ _poiaes_: _n_ saõ as obras já acabadas: _o_, bôlos de barro -para fazer outras obras: _p_, os pilares, ou pés direitos, que sustém as -mesas _k_, _l_. - -77 A figura 16 representa a mesma maquina vista em plano, e virada para -se poder ver a roda por baixo: _g_, a parte cylindrica, que entra em hum -buraco fundo feito na peça _g_: _f_, parte cylindrica mais grossa; _aa_, -o meio da roda aonde se ajuntaõ os raios _d_: _ee_, a camba: _p_ saõ os -encaixes destinados para receber os pés direitos que sustem as mesas _k_, -e o assento _l_: _m_, lugar de pôr os pés. - -78 Nos campos muitas vezes he de páo, tudo o que aqui se representa de -ferro; neste caso a camba da roda he muito grossa: para que com o seu -peso conserve por mais tempo o movimento, que o oleiro lhe imprime. Como -ellas saõ menos perfeitas que as de ferro, escuso entrar em individuações -a seu respeito. - -79 Para se trabalhar sobre esta roda, he preciso imprimir-lhe hum -movimento circular rapido, com hum páo _a_, _est. II_, _fig. 4_, que se -chama virador. Vê-se nesta _fig. 4_, hum obreiro disposto para pôr a roda -em movimento; está sentado no assento _l_, os pés estaõ nos entalhes dos -lugares de ter os pés _m_; e com huma ponta do virador _a_, toca em hum -raio de roda para a fazer andar, e imprimir-lhe hum movimento circular, -que ella conserva bem tempo para o obreiro, _fig. 5_, poder formar hum -vaso. - - -_Do torno, ou roda, que os oleiros de obra grossa tomáraõ dos de obra -fina._ - -80 Esta roda _a_, _fig. 18_, _est. I_, he de páo, e tem de grosso tres ou -quatro pollegadas, para que o maior peso lhe faça conservar o movimento -mais tempo; ella he atravessada por hum eixo de páo, ou de ferro _b_, -que finda por baixo da roda em hum mancal: este eixo passa ao nivel da -mesa por hum colar, e tem na sua extremidade superior huma roda pequena -_c_, sobre a qual está a obra _d_; o obreiro _h_, estando assentado -hum pouco obliquamente sobre a taboa inclinada _i_, tem muitas vezes -as pernas ambas do mesmo lado de sorte, que o eixo _b_, lhe passa por -detraz da perna esquerda; muitas vezes tem as pernas abertas, e o eixo -lhe passa pelo meio, estando os pés apoiados, e o esquerdo fica na -travessa _g_, da mesa: _f_, he huma gamella com agua: tendo o obreiro o -pé esquerdo sobre a travessa _g_, apoia o pé direito ligeiramente sobre, -a roda e empurrando-a para diante lhe imprime hum movimento circular, -que se communica a roda pequena _c_, sobre a qual está a obra _d_. Como -esta roda naõ vira taõ veloz, quanto a de ferro, o obreiro póde formar -a sua obra com mais regularidade, e póde accelerar-lhe o movimento, ou -retardarllo conforme lhe parecer, e paralla mesmo quando quer: o que se -naõ póde fazer com a roda de ferro. - -81 Quando o obreiro tem as pernas ambas do mesmo lado, se tem a direita -cançada, póde tocar a roda com o pé esquerdo: algumas vezes para tocar a -roda mais ligeira se vale de ambos os pés para a tocar. - -82 Ha alguns oleiros Alemães, que tendo o eixo _b_, entre as pernas, se -servem de ambos os pés; mas he preciso entaõ, que o pé direito toque a -roda para diante, e com o esquerdo a puxe para si: com o uso se vem a -facilitar este movimento dos pés em sentidos contrarios. - -83 A roda de ferro he commoda para fazer obras, que naõ requerem muita -regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime o movimento com o virador, -ella vira com muita ligeireza, e seu movimento se enfraquece pouco a -pouco, e isto he muito vantajoso; porque, quando se começa huma peça a -roda naõ póde virar muito ligeira, mas para a acabar, carece mesmo de -virar devagar: algumas vezes perde ella o seu movimento antes da peça, -estar acabada, e entaõ precisa o oleiro com o virador tornar-lhe a dar -novo movimento. - -84 Como com a roda de páo está o oleiro senhor de augmentar, ou diminuir -o seu movimento, e ainda de interromper, fica esta mais commoda para -obras finas, e que requerem mais exacçaõ; e ao presente os oleiros de -París já naõ fazem uso da roda de ferro. - - -_Trabalho do Oleiro sobre a roda._ - -85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ só por se naõ pegar o barro a ellas, -mas tambem para alizar a obra, que começaõ entre as maõs ambas, tendo -huma dentro do vaso, e a outra fóra: outras vezes apertaõ o barro entre -o dedo pollegar e o index de ambas as maõs. He impossivel relatar todas -as differentes posições que o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ a -posiçaõ em huma mesma obra. Para aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe -a grossura, se servem do calibre, que elles chamaõ _atelli_; elles tem -muitos de differentes figuras, conforme requer a obra que elles fazem: -alguns destes calibres tem molduras, e a maior parte saõ de ferro; mas -tambem alguns saõ de páo. - -86 Quando se vê trabalhar hum habil oleiro de roda parece que o seu -trabalho he muito facil de executar; todavia requer muita destreza: -porque naõ he facil dar igualdade de grossura a hum vaso de barro tendo -huma maõ dentro delle, e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade, e -se faz conhecer mais a habilidade do obreiro, quando he preciso dar mais -grossura ao vaso em humas partes, do que em outras: seria, por exemplo, -mais facil fazer o fundo de hum alguidar mais grosso, do que os lados; -com tudo he melhor que o fundo seja mais delgado, que os lados. Outras -obras precisaõ maior grossura na barriga ou bojo; e hum habil obreiro -chega a executar todas estas cousas com bastante exactidaõ, sem se servir -de compaço, ou outra alguma medida. Naõ se limita só nisto; porque -estende, ou aperta o barro, á sua vontade, de sorte que tendo feito hum -vaso grande, o torna pequeno, querendo, e de largo o faz estreito, se -he alto o reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade do barro, -faz delle o que quer; com tudo nota-se, que os pratos razos e fundos, -etc. que foraõ feitos na roda, se quebraõ quasi sempre pellas linhas -circulares, o que naõ acontece aos vasos feitos em moldes; parece, que -trabalhando-se o barro na roda algumas camadas se naõ unem perfeitamente. - -87 Adiante representarei muitas obras, que se fazem na roda; mas para -dar hum exemplo do que podem fazer os oleiros de obra grossa, escolherei -hum mealheiro _Est. I_, _fig. 19_. Vou explicar como se faz esta pequena -peça taõ commum, que he de hum só pedaço, fechado de todas as partes, e -feito inteiramente sobre a roda, sem ser soldada, nem feita de tiras, ou -pedaços: o que parece difficil de executar. - -88 O oleiro torneia na roda a parte baixa, ou fundo do mealheiro, como se -quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno; depois recalca o barro, e aperta -a abertura; formando como hum pequeno zimborio, e isto faz huma especie -de aperto para isto aperta o barro da parte de fóra com o dedo pollegar, -e por dentro o sustenta com o index, e isto continúa em quanto póde ter -o dedo index dentro do mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo comprime -com o pollegar, e index huma porçaõ maior de barro, que fica reservada -em roda do buraco, e neste lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente -o mealheiro, depois com a folha de huma faca abre a fenda por onde se -introduz o dinheiro, e por dentro nas margens desta fenda se formaõ -rebarbas, que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando se sacode o mealheiro; -finalmente com hum fio de lataõ, ou arame, a que os oleiros chamaõ serra, -despega o mealheiro da roda pequena sobre a qual se fórma a louça. - -89 Havendo-se de fazer na roda hum grande alguidar para ensaboar; como as -bordas saõ grossas, e elle he muito mais largo na boca do que no fundo, -he preciso usar de hum barro mais duro, porque sendo molle, naõ se poderá -suster. Como nestes alguidares se costuma fazer lugar de escorrer ou -vazadouro a modo de goteira isto se faz antes de os despegar da roda; -para este fim se dobra com os dedos o lugar aonde se quer fazer a goteira -em quanto o barro ainda está molle. Em fim, estando feito o alguidar, ou -outra qualquer obra, se despega da roda com huma folha de faca, se a obra -he pequena, ou com hum arame se he grande. - -90 Há alguidares grandes, em que se põe orelhas; porém estas naõ se fazem -na roda; adiante fallaremos delles, assim como de outras muitas obras, -nas quaes he preciso pôr péz, e azas, etc. - -91 Os vasos communs de flores _n_, _fig. 17_, _est. I_, se fazem -inteiramente sobre a roda; devem ser hum pouco mais largos para cima do -que para baixo, para se poder tirar o torraõ direito, e levar as plantas -com o torraõ em que se criáraõ: em cima e na boca se lhe fórma hum cordaõ -que os fortifica, e os torna mais faceis de mudar de hum lugar para -outro. As gamelas tambem se fazem na roda, e acabaõ em cima com huma -borda grossa, ou cordaõ, como inteiramente os vasos de flores. Os pratos -se fazem do mesmo modo; mas para as bordas acabarem com regularidade se -servem do calibre. - -92 Os vasos de despejos _A_, _B_, _D_, _fig. 20_, _est. I_, se fazem por -duas vezes. Sabe-se que elles saõ mais largos por huma ponta, do que -pela outra _b_, que fórmaõ huma cinta, ou anel de barro, que se lhe põe -quatro dedos distante da sua borda, alguns oleiros chamaõ anel, e outros -_viret_. Com huma só operaçaõ se acaba todo o vaso, e na ponta _b_, fica -mais estreito, e ahi se fórma hum anel: e depois se despega de cima da -roda pequena ou prato, onde está pegado por hum bocado de barro, que ahi -se deixou; acaba-se a ponta _a_, mais larga, que deve receber em si a -ponta _b_, que he mais estreita, e tem o anel de que acima falamos; estes -vasos se fazem inteiramente na roda; porém por duas vezes. Naõ he o mesmo -a respeito dos vasos em dous _E_, _C_, _fig. 20_, ou que se dividem em -dous para corresponder á dous assentos. A este respeito se deve notar, -que há tubos de despejo que saõ mais largos, que outros; e por isso se -fazem tubos, que tem hum pé de diametro, e outros só tem oito, ou nove -pollegadas. Ora, quando se faz hum tubo de barro, que se deve dividir em -dous como _E_, _C_, a parte _A_, _B_, que corresponde a huma serie de -tubos, que se estende desde a cava, até a divisaõ, ordinariamente se faz -com tubos de maior diametro, e as divisões _E_, _C_, se fazem com tubos -de menor diametro. Para fazer o vaso ou tubo que se divide em dous, saõ -precisos tres tubos hum grande, e dous pequenos; põe-se a seccar hum -pouco _est. II_, _fig. 7_. o que explicarei com brevidade; e tendo posto -o grande pote sobre a mesa em que se ha de preparar _est. II_, _fig. 8_, -com a ponta rebaixada para baixo, chanfra-se a ponta larga que está para -cima, chanfraõ-se tambem as pontas mais estreitas dos dous tubos do molde -pequeno, para as soldar com o grande, como se dirá. Desta sorte os tubos, -que se dividem em dous se fazem parte na roda, e parte á maõ; mas por naõ -separar daqui cousa alguma, das que pertencem aos vasos de despejo, por -isso julguei dever fallar de tudo. Farei ver sómente, que se póde fazer -a separaçaõ dos tubos, sendo taõ grandes huns, como outros, como se -representou em _A_, _B_, _C_, _D_, _fig. 20_, _est. I_. Começo outra vés -a fallar nas obras que se fazem inteiramente na roda. - -93 Para fazer testos de potes, marmitas, escalfadores, fogareiros etc. -como _I_, _Est. I_, _fig. 12_, põe se sobre, a roda pequena, ou prato hum -bôlo de barro; do qual se querem fazer varios testos, começa-se primeiro -a formar a parte de baixo do testo, que he hum pouco convexa no meio; -depois apertando-se com os dedos da outra maõ o barro, que está por baixo -do testo, se forma a parte de cima, que he concava; faz-se no meio hum -botaõ, e se acaba despegando-o do barro com o dedo, ou folha de faca. -Depois querendo se se põe o testo sobre o barro que está na roda, e se -aperfeiçoa entaõ pela parte de cima; mas de ordinario se naõ pratica -isto: successivamente se tiraõ tantos testos, quantos póde dar o barro -que está na roda. - -94 Os testos de fogareiros, e escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se fazem -pouco mais, ou menos da mesma fórma, ainda que sejaõ hum pouco mais -compostos, porque devem ter hum circulo, ou anel que encaixa dentro da -bocca do escalfador. - - -_Como se podem formar obras no torno com hum calibre._ - -95 Para calibrar as obras, se usa de hum torno pouco mais ou menos, -como o da _fig. 18_. Elle tem huma roda _a_, hum eixo _b_, que tem a -roda pequena, ou prato _c_, sobre o qual está a obra _d_. Está claro -que ajustando-se por cima da mesa hum calibre, que se possa chegar -para diante, ou retirallo da obra _d_, á vontade do obreiro certamente -formará com exactidaõ as voltas, ou molduras, que se quizerem na obra, -tirando-lhe por fóra o barro, que se pôs de mais; porém este calibre só -póde formar o exterior, e naõ se póde usar delle nos vasos, que devem -ser trabalhados tambem por dentro; serve só para os pés destinados a -sustentar vasos, ou outras cousas de ornatos, que á maõ se alimpaõ por -dentro, por naõ ser o interior de alguma consequencia; mas póde-se fazer -uso de hum torno quasi semilhante para os vasos de jardim, como vou -explicar. - - -_Como se fazem no torno vasos grandes de jardim._ - -96 Quasi todos os vasos grandes de jardim se fazem por moldes; com -tudo elles se podem tambem fazer no torno, com hum calibre grande -_ee_, entalhado nos lugares, que devem sobresahir no vaso, e formar os -salientes nas partes onde os contornos do mesmo vaso devem ser ocas, ou -cavadas. Supponhamos, que se quer fazer, o vaso _Est. I_, _fig. 21_; -faz-se de tres pedaços; hum faz o pé, outro o corpo _l_, e outro o testo -_m_, ao qual se ajuntaõ alguns ornatos, como hum globo, huma pinha, pomo, -etc. Vou agora explicar como se faz o corpo _L_, sobre a mesa _B_, _Est. -I_, _fig. 21_. O calibre, que anda em roda se forma de hum páo vertical -_hh_, cuja ponta debaixo ou piaõ, se introdus em hum buraco, feito no -meio da mesa _aa_, que deve ser forte, e por cima he sustida por hum -cachimbo de páo _g_, que fica preza a huma peça tambem de páo, quadrada -_bb_, assim he preciso conhecer que o páo vertical _hh_, vira livremente -sobre si mesmo. Este páo deve ser bem forte para poder sustentar com -firmeza a potencia _ii_, que deve puxar o calibre _ee_, que algumas vezes -forceja muito pela impressaõ que faz no barro, que excede do corpo do -vaso. Tambem se ajuda a fazer firme o calibre segurando-o por baixo com -a maõ, que vai sobre a mesa em _o_, e com a outra maõ tirando o barro, -quando se vê que o calibre tem muito barro para levar. Percebe-se, que -as peças de páo quadradas _bb_, assim como a mesa _aa_, devem estar bem -firmes; mas como se fará por differentes modos, segundo o lugar, em que -se levantar o torno, eu me contento só em mostrallo. O oleiro põe o seu -barro sobre a mesa _aa_, e tendo huma maõ dentro do vaso, e outra fóra -lhe fará tomar pouco mais, ou menos a figura, que elle projecta dar ao -vaso; digo, pouco mais, ou menos; porque o calibre _ee_, he o que deve -aperfeiçoar a figura do vaso. Este calibre _ee_, he huma taboa pouco -grossa, cujas bordas terminaõ em chanfro, e saõ talhadas de modo, que -o contorno das bordas faz, por assim dizer, a contra prova do vaso que -se quer fazer. Deve-se segurar bem com parafusos em huma peça de páo -quadrada _ii_, que fórma huma potencia; para se adiantar, ou recuar este -calibre, segundo a grossura, que se quer dar ao vaso, a potencia _ii_, -he fendida, e tem hum grande encaixe; de sorte que afroxando o parafuso, -o calibre _ee_, se pode chegar-se para diante, ou recuar, e se segura -apertando o parafuso. Estando tudo assim disposto, se faz virar á maõ o -calibre _ee_, que leva diante de si o barro, que há de mais, e o oleiro -o accrescenta nos lugares aonde falta; ao mesmo tempo põe o vaso, quasi -igual na grossura com hum calibre por dentro, tirando o barro, que ha de -mais aonde he muito grosso. Finalmente, quando o corpo do vaso está bem -formado, se deixa hum par de dias sobre a mesa, para que o barro se faça -mais duro; depois se despega da mesa, com hum arame; tira-se o pedaço de -páo _g_, e tendo tirado o páo _hh_; como tambem o calibre _ee_, pega-se -no vaso com ambas as maõs, depois de tirado o páo _hh_, que o atravessa -em seu eixo; e se põe o vaso a seccar. Entaõ se faz o testo com outro -calibre, e o pé tambem com hum calibre proprio a figura que se lhe deve -dar. Depois de terem estado as peças algum tempo a seccar, viraõ-se sobre -a mesa, em que se aperfeiçoaõ, para se alimparem por dentro com hum -instrumento proprio para isso _Y_, _Est. II_, _fig. 1_, e formar-lhe -aneis para se ajustarem differentes peças. Parecendo conveniente ao -oleiro ajuntar azas ao corpo do vaso, e adiante se explicará o modo de o -fazer: algumas vezes se segura fixo, e immovel, o calibre e o vaso he que -vira sobre huma rodela, que se move á maõ. Tudo isto pouco mais ou menos -he o mesmo. - - -_Vasos grandes de barro cozido._ - -97 Todo o mundo conhece os vasos grandes de hum barro esbranquiçado, -vidrados por dentro, que chamaõ _talhas_, _A_, _fig. 20_, _Est. II_, -elles se fazem em Provença. Muitas pessoas attentas á sua saude, para -evitar os inconvenientes que poderiaõ resultar do cobre, mandaõ vir estas -talhas para conservar a agua de que usaõ. Ha algumas muito grandes, que -saõ grossas, e sólidas; com tudo cobrem-se tambem de esteiras de palha, e -com esta precauçaõ duraõ muito tempo sem se quebrarem; havendo cuidado no -Inverno de as ter em parte, onde naõ gele a agua, que tem dentro. Quasi -todos os Navios as levaõ para conservar a agua destinada para a meza do -Capitaõ; e em Provença se conserva o azeite nestas talhas. - -98 O gosto, que tem todos de conservar a agua em talhas, tem obrigado aos -oleiros, que trabalhaõ em greda, a fazer potes taõ grandes, quasi como os -vasos de que se acaba de fallar. Ha alguns, que levaõ a quarta parte de -hum almude. Eu os conservo no meu laboratorio de Chymica em _Campagne_ -feitos, em _Saint Fargeau_, vidrados por dentro; os que se vendem em -París, e os que tem torneira, ou esguicho, vem de Picardía. - -99 Porém vi em muitos lugares, e igualmente tenho á muito tempo vasos -grandes de barro vermelho, entre os quaes há alguns, que levaõ mais de -meio almude: os que saõ bem feitos a agua os naõ penetra, inda que naõ -sejaõ vidrados. Servem para muitos usos; para guardar lexivias; para -fazer salmouras em lugar de celhas de salgar carne; e vi em jardins -algumas, que, estando rodeadas de obras de pedra calcaria, serviaõ de -conservar a agua, para se regarem, ou aguarem as plantas. Eu naõ sabia -de donde vinhaõ estes vasos, e talvez se façaõ em muitos lugares; mas Mr -Desmarais me fez ver no calendario _Limousin_ do anno de 1770 hum artigo, -que julguei dever introduzir aqui. - -100 Hum quarto de legoa distante de _Montmoreau_ que fica seis legoas -ao Sul, de Angoulème se acha a Cidade _Saint Eutrope_, e quasi todos os -habitantes desta Cidade fazem louça. Contaõ-se ahi trinta familias todas -empregadas neste trabalho: vinte e cinco fornos estaõ sempre occupados -em cozer louça miuda, pratos pequenos, grandes, e panellas para o fogo -de differentes tamanhos; porém ha tres, que estaõ destinados para cozer -differentes obras, e principalmente vasos grandes para fazer Lixivia, e -salgar toucinho, etc. Todos os oleiros, que tem de cozer destes vasos -grandes, os levaõ a hum destes tres fornos. - -101 Para esta qualidade de louças servem-se de huma argilla muito ductil, -que se acha junto da aldêa. A occupaçaõ das mulheres, e dos meninos, he -humedecer, e amassar, esta argilla com huma massa de ferro sobre hum -pilaõ, tambem daõ os ultimos talhes á louça, o que se chama aperfeiçoar: -porém naõ he isto só o que elles fazem, ainda vaõ cortar arbustos, e páos -miudos para aquentar os fornos de cozer as louças. - -102 Os homens fazem vasos grandes em huma roda muito simples _D_, _Est -II_. _fig. 3_. ella se fórma de duas rodellas _E, _, semelhantes ás de -hum zimborio de moinho. Estas rodellas estaõ juntas huma á outra por seis -furos _G_: a rodella _F_, tem hum buraco em _H_, para receber a espiga -ou eixo _I_, que está bem segura por baixo na terra; de sorte, que este -zimborio em sua espiga, ou eixo, vem a formar como huma dobadoura. O -obreiro põe o barro sobre a rodella _E_, e com o pé que põe sobre a outra -roda _F_, a faz andar lentamente. Logo que está feita a primeira base do -vaso, elle trabalha os lados, accrescentando successivamente rolos de -barro, que liga huns sobre os outros, unindo as superficies interiores, e -exteriores com as maõs: deste modo chega a acabar vasos grandes, os quaes -torna redondos por meio do torno; e elle tem cuidado de dar pequenas -pancadas com a palma da maõ no barro para o comprimir. Depois de seccos -estes vasos se fazem cozer nos fornos grandes, quasi semilhantes aos -que se representaraõ na _Est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. Estas louças -se vendem principalmente em _Angouleme_, _Perigueux_, _Saintonge_, -_Bordeaux_. Os oleiros naõ podem dar vasaõ ás encommendas que tem dellas. - -103 Quando os vasos, de que se tem tratado, saõ muito grandes, se fazem -de muitas peças: huma fórma o fundo, outra o corpo, e outra a parte mais -alta; e todas estas peças se unem com aneis de barro, que se cozem com o -vaso, e ficaõ taõ sólidas, como se fossem de huma só peça. - -104 Vê-se em alguns vasos, feitos em Normandia, partes sahidas para fóra -e saõ adornos; algumas vezes estas partes postas circularmente, servem de -encobrir, e fortificar os lugares, em que foraõ as soldaduras. - -105 A _fig. 2_, _M_, he hum grande vaso de barro, no qual se põe algumas -vezes huma torneira, para fazer delle huma fonte, ou lavatorio, e -substituir os de cobre: há alguns que tem por dentro pratos desenhados -por linhas pontuadas; estes pratos estaõ cheios de buracos, e se lhe põe -arêa grossa para filtrar a agua, e fazer fontes areentas. - -106 Saõ bem conhecidos os potes cylindricos de Normandia, em que vem -as manteigas de Isignes. Depois de vazios, as familias pequenas se -servem delles para conservar agua. _A_ _fig. 6_, _P_, _est. II_, he huma -botelha de barro de Normandia. Quando se faz no torno a barriga _QQ_, e o -gargallo _R_, se solda na barriga no lugar _T_. - -107 Naõ faço huma maior relaçaõ das differentes obras, que se fazem -inteiramente no torno; pois o que se acaba de dizer bastará para fazer -perceber o modo porque se fazem aquelles, de que se naõ falla: agora vou -fallar das obras, que se fazem, parte no torno, e parte na mesa para lhes -pôr azas, e pés. - - - - -ARTIGO V. - -_Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na mesa para lhes pôr -azas, e pés._ - - -108 Depois de começadas estas obras no torno, e se lhes ter dado a -figura, que devem ter, se despega da rodella com o fio ou arame de latam, -e se põe sobre humas taboas, a que chamaõ armaçaõ de ripas, _D_ _Est. -III_, _fig. 4_, porque estaõ ao tempo, e se fórma de ripas; deixaõ-se -seccar as obras hum pouco, ou endurecer á sombra, mesmo defendidas de -huma grande corrente de ar, porque he preciso, que sequem lentamente. - -109 Depois das obras estarem alguma cousa duras sobre as ripas, se -transportaõ para huma mesa pondo humas ao pé das outras para as -aperfeiçoar. - -110 Esta operaçaõ consiste em remediar a maõ os defeitos, que se lhe -percebem; se ha barro pegado em huma parte, se tira com huma faca -de páo muito estreita que se molha; se as bordas de algum vaso se -inclinaraõ para alguma parte, indireitaõ-se; se na barriga se fez alguma -cova, passa-se a maõ por dentro do vaso para o endireitar fazendo vir -para fóra; se as boccas, que devem ser redondas, apparecem ovaes, se -indireitaõ apertando-as entre as maõs. Algumas vezes he preciso cortar -por baixo os vasos para ficarem com o assento mais firme; isto se faz -pondo a bocca do vaso sobre a mesa, e o fundo para cima; depois se tira -o barro com hum instrumento de ferro _Y_, _fig. 1_, _Est. II_, que tem -córte. Daõ-se de differentes formas huns saõ, direitos, outros curvos, -chamaõ-se _tournassin_. - -111 Sobre a mesa tambem he, que se põe os pés, os cabos, e azas nas -peças, que os devem ter. - -112 Todas estas cousas saõ peças relativas que se soldaõ nos lugares, -em que se devem pôr, tendo-se feito á maõ sobre huma mesa. O modo de -soldar os cabos, as azas, e os pés he o mesmo; porém devem haver certas -precauções por se naõ despegarem estas peças. Alguns exemplos bastaraõ -para se perceber esta pequena manobra. - -113 Tomo por exemplo huma marmita; fórma-se no torno a barriga, o -gargallo e a borda, e deixando-se sobre as ripas este corpo de marmita, -se põe sobre a mesa para o aperfeiçoar, e ajuntar-lhe as azas. Os oleiros -se portaõ nisto de dous modos differentes: huns formaõ a aza sobre a -mesa; daõ-lhe o contorno, que lhe convem; depois para apegar ao corpo da -marmita, raspaõ hum pouco os dous lugares, onde se deve pegar a aza ao -corpo da marmita; esfregaõ estes lugares com hum bocado de barro novo, -soldaõ a aza apertando-a fortemente com o dedo pollegar contra o corpo da -marmita, ou do fogareiro, etc. Outros, depois de ter raspado o corpo da -marmita, põe sobre o mesmo lugar hum pedaço de barro novo, que trabalhaõ -á maõ para o fazer tomar a figura de aza; e depois de o terem preparado -raspaõ o lugar aonde ella deve chegar, e pondo hum pouco de barro novo, e -apertando bem com os dedos a aza se pega de modo, que naõ despega mais. -Este methodo se tem por mais sólido, do que o precedente. - -114 As orelhas _aa_, dos potes _Est. I_, _fig. 12_ se soldaõ do mesmo -modo, que as azas das marmitas. - -115 Em geral para que duas peças se ajuntem bem, he preciso que os dous -barros estejaõ no mesmo gráo de seccura; naõ sendo assim, huma peça -encolheria mais do que outra, e se despegaria, ou quebraria. Com tudo se -o corpo da marmita seccasse muito se tornaria a humedecer no lugar, em -que se quizesse soldar, pondo-lhe por cima hum panno molhado, que dentro -em huma noite humedece quanto basta. - -116 O corpo dos potes de tres pés _fig. 15_, _Est. II_, se faz no torno, -depois se trazem para ahi os pés, e azas, como disse da marmita, e para -se soldarem se poem na mesa com a bocca para baixo; e testo _C_, naõ deve -ter borda com encaixe. - -117 O corpo dos escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se faz ao torno; -fórma-se a barriga _a_, redonda, depois aperta-se o barro para formar -a parte cylindrica _b_, fortifica-se o bordo com hum rôlo ou anel de -barro, faz-se-lhe hum pequeno bico, e quando estaõ já alguma cousa duros; -levaõ-se para a mesa de aperfeiçoar para se acabarem, e pôr-lhe a aza -_C_, como se disse da marmita. - -118 O corpo _b_. das cassarolas, etc. _Est. I_, _fig. 14_, se faz no -torno, ha oleiros que fazem no mesmo torno o cabo, outros o fazem á maõ -sobre huma taboa. Todos o soldaõ a cassarola, como já se explicou. - -119 Os cabos que se fazem no torno saõ muito mais proprios, do que os -feitos á maõ sobre a taboa; porém bom he explicar como se faz no torno -hum tubo ôco pelo qual apenas se póde introduzir hum dedo. Começa-se por -baixo, com sufficiente largura, para formar o tubo entre o pollegar, e -os outros dedos. Este tubo tem pouca altura, e deve ser grosso, porque -será preciso estendello no comprimento; para isto comprimindo brandamente -o tubo entre as maõs, se estende, levantando as maõs, e elle diminue de -grossura á proporçaõ que se estende em comprimento; acaba-se fazendo-lhe -huma pequena orla na borda _c_. Em fim se despega da rodella; e depois de -ter comprimido hum pouco a ponta, que ha-de pegar no corpo da cassarola, -como as azas dos fogareiros etc. - -120 Os coadores se fazem como as cassarolas, etc. só sim demais se lhe -abrem buracos com huma especie de buril, quando elles estaõ meios seccos. - -121 Tambem se fazem fogareiros pequenos, em que se põe brazas para os -esquentadores de madeira; fazem-se no torno, e antes de os tirar da -rodella, se faz chato hum dos lados que he formado em parte do fundo; -tira-se o barro, que excede o resto das bordas do fogareiro: forma-se á -maõ o outro lado, e ajusta-se no meio desta face hum botaõ; assim esta -pequena peça he quasi de todo feita a maõ, ainda que ella se começa, e se -aperfeiçoa sobre a rodella, sem a tirar para a mesa de aperfeiçõar. - -122 _R_, _Est. II_, _fig. 10_, he hum candeeiro quasi todo feito no -torno, ajunta-se sómente hum bocado de barro em _a_, e em _b_, com huma -aza em _c_. - -123 Tambem se fazem regadores de barro: o corpo se faz inteiramente sobre -o torno, assim como o tubo, que se faz como o cabo das cassarollas; -vaza-se hum pouco na ponta, que se tapa com huma placa de barro cheio -de buracos, põe-se por cima hum bucado de barro para tapar a metade da -embocadura; solda-se o tubo ao corpo do regador: sustem-se por aquella -parte, que naõ está ôca; solda-se a aza e rega admiravelmente. - - - - -ARTIGO VI. - -_De algumas obras, que se fazem inteiramente á maõ._ - - -124 Ja se disse que alguns oleiros faziaõ todas as suas obras á maõ. Para -dar huma idéa deste trabalho vou explicar como se fazem os esquentadores -quadrados _F_, _Est. I_, _fig. 10_. - -125 Os esquentadores, e fogareiros, que devem ter dentro em si o fogo, -se fazem com o mesmo barro de que se fazem os ladrilhos, excepto que, -em lugar de ajuntar arêa á argilla, os oleiros emmagrecem o barro -com a escoria de ferro moida; e passada por huma peneira de cabello, -ajuntando _hum demiqueve_ de barro a dez _boisseaux_ do pó de escumalha. -Amaça-se esta mistura como já disse, fallando os ladrilhos. Para fazer -hum esquentador, se molda sobre hum caixilho de madeira, se formaõ duas -como telhas, ou pastas de barro direitas, se põe nas varas a enxugar, -e se batem huma vez do mesmo modo, que os ladrilhos: depois em quanto -está ainda branda, se tomaõ estas duas telhas, que chegaõ para fazer -hum esquentador. Põe-se huma destas telhas na mesa de aperfeiçoar, -raspaõ-se-lhe as bordas sobre hum calibre de páo, para o acertar, -divide-se a largura em tres partes, das quaes a do meio faz o fundo -do esquentador _a_, e as outras duas fazem os grandes lados _bb_, -_bb_, levantando-os quasi perpendiculares, mas que fiquem alguma cousa -inclinadas para fóra, bem entendido, que com os dedos se fórma em baixo -hum angulo, quasi de quina viva; da outra telha, ou pasta de barro -se tiraõ os dous pedaços, que haõ-de tapar as pontas do esquentador; -soldaõ-se nos grandes lados _bb_, fazendo o mesmo que já disse a respeito -do modo de soldar as azas, e as orelhas dos vasos; finalmente a mesma -segunda telha chega para fazer o tampo de cima _dd_; no meio da qual se -faz hum buraco quadrado com a folha de huma faca molhada, que he para o -testo. Naõ se faz encaixe para receber este testo; mas quando se tira, -corta-se o barro obliquamente, para o chanfro servir de encaixe, para -que o testo naõ possa cahir dentro do esquentador; aperfeiçoaõ-se todos -os lugares das soldaduras, e se acaba fazendo buracos, tanto por cima, -como pelos lados do esquentador, com hum instrumento de ferro, que faz as -vezes de hum trado. Sobre a mesa se lhe fazem tambem as azas _ff_, e o -botaõ de testo _e_. - - - - -ARTIGO VII. - -_Das obras, que se fazem com moldes._ - - -126 Visto se ter fallado das obras feitas a maõ, parece justo explicar-se -como se fazem em moldes; mas, como este trabalho pertence mais ao -louceiro de obra fina, do que ao oleiro; por hora darei hum só exemplo, -descrevendo, como se póde fazer hum vaso de jardim. Molda-se com o gesso -hum vaso ôco, sobre outro, que tenha boa figura, mandado reparar por hum -escultor: divide-se em tres partes, segundo o comprimento, o gesso ôco -que se moldou sobre aquelle, que se quer imitar, bem entendido, que se -faz separadamente, o ôco que deve fazer o corpo do vaso, e o que deve -fazer o pé, e o que faz o testo. - -127 Reunem-se os tres pedaços, que tem fazer o corpo, põe-se firmes -segurando-os com cordas, e, tendo esfregado com alguma gordura o molde -por dentro, com a maõ, se põe huma camada grossa de barro dentro do -molde, e se aperta para tomar bem a figura do molde, deixa-se endurecer -hum pouco o barro no interior do molde: como ao seccar encolhe, elle se -despega do molde; mas, antes de estar inteiramente secco, se desataõ -as cordas, separaõ-se as tres peças, de que consta todo do molde, e -tira-se o vaso de barro, que se põe a enxugar nas ripas, prepara-se, ou -aperfeiçoa-se depois com hum pequeno pedaço de páo chamado, _bauehoir_, -especie de tasquinhador, ou goiva, e naõ precisa ser escultor para o -fazer. - -128 Com o instrumento de alimpar, chamado _tournassin_, se tira por -dentro o barro, que ha de mais, e se forma hum assento, ou encaixe por -onde se ajusta o pé, e o testo, depois de moldados, ao corpo do vaso. -Alguns fazem moldes particulares, para formarem as azas, e folhagens; mas -como já disse, só me propús fallar superficialmente das obras moldadas, -porque na arte de louceiro da obra fina se trata disso com individuaçaõ, -aonde se ensina a fazer pratos recortados, sopeiras, tigelas, e mais -utensis de meza com molduras, e mesmo figuras de homens, e animaes. - - - - -ARTIGO VIII. - -_Modo de enfornar as obras de olaria, e cozelas._ - - -129 Quando tratei dos ladrilhos, dei a descripçaõ dos fornos, de que -usaõ ordinariamente os oleiros de París, advertindo, que estas obras se -poderiaõ cozer nos mesmos fornos de telha, que ficaõ representados na -arte de telheiro. Aqui só fallarei dos fornos dos oleiros de París, que -saõ muito bem pensados, e de hum uso commodo: trazendo-se á lembrança, -o que fica dito no principio desta Memoria a respeito dos ladrilhos; he -superfluo dizer, como se arranjaõ as differentes obras nesta sorte de -fornos. - -130 Da parte da bocca por detraz da _Fausse-tire_ se arranjaõ os vasos, -que haõ-de ficar bem cozidos, huns sobre outros, os quaes correm menos -risco de se quebrarem: taes saõ os vasos de flores, e os tubos para -despejo etc. Tambem se põe junto ao fundo do forno _LM_, _fig. 8_, _est. -I_, que chamaõ lingueta, onde ha muito calor, porque o ar quente deve -descer a este lugar, para sahir pelas aberturas, por onde se descarrega a -fumaça, que ficaõ inteiramente por baixo. - -131 A primeira camada de baixo se faz com tijolos ou ladrilhos grosseiros -de assoalhar, ou vasos grandes de despejo, que se põe em lugar destes -ladrilhos. Como os vasos grandes tem bastante força para supportarem -a louça, que se lhe põe por cima, com elles se póde fazer a primeira -camada. Deve haver cuidado de se pôrem na mesma fileira os vasos de hum -tamanho, observando, como nos tijolos, que a ordem de cima leva no meio -vasos, que formaõ a ordem de baixo, como se vê _fig. 9_, _est. I_; mas, -como huma das principaes attenções, he exactamente encher o forno, e de -lhe meter a mais louça, que lhe he possivel, para tirar melhor partido da -lenha, que gastaõ; põe-se as peças pequenas dentro das grandes; os testos -dos esquentadores se põe nos mesmos esquentadores, em que haõ de servir, -os vasos pequenos tambem se põe entre os grandes, para encher os vaõs o -mais exactamente que fôr possivel. Põe-se páos, como para os tijolos, -ou ladrilhos, pelos lados, e se distribuem pelo forno de distancia, em -distancia por entre a obra. Cortaõ-se as rachas de páo, com que se forra -a louça, metendo-as entre a abobada de forno, e a mesma louça, e se acaba -fazendo hum muro de tijolo na porta falsa. Por fim esquenta a louça com -mais cuidado, de que com o tijolo, e o fogo se continúa pouco mais ou -menos o mesmo tempo, se saõ louças ordinarias, e continua-se por mais -tempo, se se trata de cozer louça de greda. - - - - -ARTIGO IX. - -_Descripçaõ de outra especie de forno, que usaõ os oleiros dos arrabaldes -de S. Antonio para cozer suas obras._ - - -132 Quasi todos os oleiros dos suburbios de S. Marçal, se servem do -forno, já descripto no tratado dos ladrilhos, e que está representado -na _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_, tanto para cozer os ladrilhos como -as louças; e estes fornos, que occupaõ muito pouco lugar, se imaginaraõ -mui engenhosamente, e saõ muito bons para a economia de lenha. Com tudo -a maior parte dos oleiros dos suburbios de S. Antonio só usaõ destes -fornos para os ladrilhos, e para cozer as outras louças, se servem de hum -forno, que se assemelha muito aos de oleiro de obra fina, cuja descripçaõ -vou agora dar. - -133 A _fig. 1_, _est. III_, representa a altura do forno, visto por -fóra da parte da boca da fornalha, ou a altura sobre a linha, _C D_, do -plano _fig. 2._ que he tomada rente ao nivel do forno. _A_, he o fogaõ -ou fornalha que está em terra em hum buraco; vê-se apontado pelas mesmas -letras nas figuras 1, 2, 3, e 14. O que conduz o fogo, desce dentro -desta cova, e forra de lenha pela boca da fornalha, debaixo do corpo do -forno, onde se metem as obras, que se querem cozer. Logo em principio -para temperar, faz hum pequeno fogo na entrada da fornalha em _A_, _fig. -3_, que representa toda a extensaõ da fornalha, e fundaçaõ do forno; -depois para fazer o fogo grande, chega o fogo até _E_, e o distribue por -dentro de toda a extensaõ da fornalha; porém entaõ accommoda a lenha em -pé na boca da fornalha, para diminuir a corrente do ár, que levaria o -calôr para o fundo do forno, e ao mesmo tempo a parte de diante receberia -pouco calor. Com tudo he preciso, que elle se distribua com a igualdade -possivel por toda a extensaõ do forno: e esta he huma attençaõ que deve -ter o atiçador.[19] - -134 A abobada _F_ _fig. 4._ que cobre a parte superior da fornalha tem -os buracos _aaa_, etc. Por estes buracos, que tambem se pódem vêr em _F_ -_fig. 2._ se representa o fundo, ou pavimento do forno, que está por cima -de abobada, que cobre a fornalha; por estes buracos _aaa_, he que passa -o ar quente da fornalha, _A_, _fig. 4._ para o corpo do forno _G_, que -está por cima, e no qual se arruma a obra que se quer cozer vidrada. Este -corpo do forno he fechado por cima, com huma abobada _H_, _fig. 4._ a -qual tem os buracos _bbb_, do mesmo modo que a abobada _F_; e isto mesmo -se vê tambem na _fig. 5._ em _H_; e por estes buracos he, que o ar quente -passa do corpo _G_, _fig. 4._ ao corpo _I_, aonde se põe as louças, que -se querem cozer em branco. Como o ar quente sempre sobe, logo que o forno -se esquente, no corpo _I_, he maior o calor do que no corpo _G_, que ao -principio tinha mais calor, do que o outro, que fica mais alto. - -135 Na parte mais alta de abobada, que cobre este corpo superior, ha hum -buraco _K_, _fig. 4_. de seis ou oito pollegadas em quadra, e de mais -quatro buracos _K_, _fig. 1_. e _5_. Estes cinco buracos servem para dar -sahida ao ar que entra pela boca da fornalha, para obrigar ao calor a -sobir até ao alto do forno. - -136 Enche-se a camera _G_, _fig. 4_. por huma porta _L_, _fig. 1_, e -_4_. que se fecha com huma parede de tijolos, ou pedaços de louça, logo -que se acabou de encher o forno, antes de accender o fogo: deixa se só -huma pequena abertura em _M_, _fig. 1_. para dar sahida a huma parte da -fumaça, que poderia enfraquecer a marcha do ar quente necessario para -cozer a obra. Por cima desta pequena abertura _M_, ha huma parede como -de huma chaminé de cozinha, e hum tubo _N_ _N_, _fig. 1_, e _4_. para -conduzir a fumaça por senaõ espalhar na officina. - -137 A camera ou o corpo superior _I_, _fig. 4_. se enche de louça, que se -quer cozer em branco, por huma porta que está em _O_, e que se fecha, -quando o corpo está cheio, fazendo no alto desta porta huma abertura -semilhante á que fica notada em _M_, _fig. 1_, e, como se naõ receia -incommodo de fumaça por ser esta abertura muito alta, se lhe naõ faz -cuberta, nem tubo de chaminé: sobe-se ao corpo do forno _I_, por huma -escada _P_. _fig. 1_. - -138 Por fim se gradua o fogo como acima fica dito; começando por hum fogo -pequeno para esquentar a obra, e acabando por hum fogo muito activo de -lenha rachada. - - - - -ARTIGO X. - -_Do verniz ou vidrado, que se põe na louça._ - - -139 A maior parte das obras de barro ordinarias deixaõ transpirar a -agua por seus poros, maiormente quando se mistura muita area no barro: -misturando-se pouca area, os vasos conservaõ bem a agua; mas naõ pódem -sofrer o fogo: ora, como a maior parte da louça, para os utensilios de -huma casa deve ir ao fogo, os louceiros naõ lhe poupaõ a area; porém -dando-lhe esta faculdade de rezistir ao fogo, se tornaõ penetraveis -a agua, como se acaba de dizer. Quasi todos estes utensis com tudo a -devem conter; para lhe dar esta propriedade, se cobrem de huma camada de -verniz, que, vitrificando-se, naõ deixa a agua passar. E assim para os -alguidares, e vasos do uso das leiterias, os oleiros se servem de hum -barro puro, que toma corpo, e naõ deixa transpirar a agua; porém estes -vasos se quebrariaõ, se os puzessem ao fogo: por isso lançaõ muita area -no barro, de que haõ-de fazer os vasos, que servem para o fogo; e depois -os vidraõ, para poderem reter a agua. - -140 Aqui só se fallará em resumo do verniz das louças, que he muito -grosseiro; porque o verdadeiro lugar de tratar disto a fundo, he quando -se tratar da louça fina. - -141 Os oleiros para vidrarem as suas obras, se servem da mina do -chumbo; e a isto he que se chama pedra de chumbo no commercio, e os -oleiros chamaõ verniz: ou se servem do zarcaõ, ou chumbo vermelho, que -impropriamente chamaõ mina de chumbo; que he huma cal de chumbo com huma -côr vermelha bem viva. O falecido Mr. Jars, nas memorias da Academia, -deo o modo de o fazer tomar esta côr vermelha pela calcinaçaõ. Tambem se -servem ainda do lithargirio, isto he, do chumbo calcinado, que perdeo -huma parte do seu phlogistico pela acçaõ do fogo, e que está em hum -estado de vitrificaçaõ imperfeita. Elles se servem destas substancias por -dous modos, como agora vou a explicar. - - -_Primeiro methodo._ - -142 Quebra-se a pedra de chumbo sobre huma peça de cobre para senaõ -perder cousa alguma; passa-se por huma peneira de cabello, e o resto se -piza em gral de ferro, e se torna a passar, até que tudo se passe pela -peneira. - -143 Alguns oleiros compraõ o chumbo em chapa, e elles mesmos o reduzem a -cal; julgo que seria melhor usar do lithargirio, ou chumbo vermelho.[20] - -144 Prepara-se o lithargirio como a pedra de chumbo; elle se reduz a pó -muito facilmente, e o zarcaõ ainda mais; ajunta-se a hum, ou a outro -destes pós por medida outra tanta quantidade de area como ha dos pós de -lithargirio, zarcaõ ou da pedra de chumbo; deve-se notar, que todas as -preparações de chumbo, se vitrificaõ, e facilitaõ muito a vitrificaçaõ -das substancias terreas; A area faz huma parte consideravel do verniz, -por meio de chumbo, que serve de fundente: como o chumbo he caro, e a -area naõ custa dinheiro, os oleiros poupaõ muito, misturando a area com o -chumbo e eu creio, que esta liga da area naõ altera a bondade do vidrado. -O chumbo só sobre o barro faz huma côr amarella, querendo-se que este -esmalte, ou verniz seja verde, em duzentas libras de lithargirio, ou -cal de chumbo se lançaõ sete, ou oito libras de limalha de cobre.[21] -Querendo-se, que tenha huma côr escura, mistura-se-lhe manganesia, que -he huma mina de ferro pobre e refractaria; ella he de hum azul denegrido -granulado. Della se servem os vidraceiros; mas quando lançaõ muita, faz -o vidro roxo. Acha-se em Piemonte, em Toscana, Bohemia, e Inglaterra. -A pedra, que se vende com o nome de marcassita differe della pouco, ou -nada. Estas materias, sendo pulverisadas, formaõ verdadeiramente o verniz -dos oleiros, que só falta applica-lo sobre os vasos, que naõ foraõ ainda -cozidos, porém que estaõ já seccos, e promptos para se cozerem. Para o -pó se pegar aos vasos se humedecem na agua chamada gorda, que he a agua, -em que se dissolveo a argilla; depois antes que esta agua se seque, se -espalha por cima os pós de que acabamos de fallar, virando a peça por -todos os lados, a fim de ficarem cobertos todos os lugares, que se querem -envernizar; e como ha muitas peças, que só se querem esmaltar por dentro, -nestas se naõ põe os pós pela parte de fóra. - -145 Deixaõ-se as peças suar hum pouco, depois se arrumaõ no forno do -modo, que já expliquei; de sorte que com huma só operaçaõ se coze o -barro, e se derrete o verniz, que vitrifica na superficie. Por este -methodo economiza-se a lenha; porém gasta muito chumbo: e tambem porque -o pó senaõ póde espalhar igualmente, em alguns lugares fica muito, -e quando se derrete, espalha se pelos outros vasos. Naõ he só este o -inconveniente: como he preciso meter muita lenha para cozer as obras -com grande fogo, ha tambem o inconveniente, de que, queimando-se esta, -levanta muita cinza, que vem a offender o esmalte, quando se está -derretendo. - -146 O outro methodo consiste em pôr o verniz nos vasos, que já estaõ -cozidos; gasta se mais lenha; porque as obras vaõ duas vezes a cozer ao -forno; porém evitaõ-se entaõ os inconvenientes de que acabo de fallar; -além do que, como os oleiros só depois das obras cozidas he que conhecem -a perfeiçaõ dellas, ha huma grande vantagem em pôr o verniz nas peças -depois de cozidas; pois em todas as fornadas, se quebraõ, e se desfiguraõ -algumas peças, e assim só se põe o verniz ou esmalte nas que sahem do -forno perfeitas. Daqui resulta ser menos o gasto do chumbo, naõ levando -verniz, as peças que quebraraõ; este methodo tambem contribue muito a -economisar o chumbo; porque os que o seguem livigaõ o lithargirio, e a -pedra de chumbo com agua em huma mó representada separadamente _est. II_, -_fig. 11_, e _12_. Elles livigaõ estas differentes substancias separadas, -e com agua de sorte, que correm á maneira de caldo, pelos vasos, que -lhe ficaõ por baixo, e põe o verniz liquido na louça, cozida, lançando -esta especie de caldo sobre os vasos, ou mettendo dentro nelle as peças, -que se querem envernizar por dentro, e por fóra; e isto he melhor, e de -mais economia. Applica-se o verniz com hum pincel, que o põe mais lizo, -e só se põe nos lugares onde se julga conveniente. Finalmente estas -substancias bem livigadas se applicaõ aos vasos em corpo o mais delgado, -que he possivel e se julga conveniente. - -147 Deixaõ-se seccar as peças, o que se faz em pouco tempo, porque a -louça que vem do forno atrahe promptamente a humidade. - -148 Põe-se no forno, onde se lhe dá hum fogo pouco mais ou menos igual -áquelle com que se coziaõ; mas naõ se deve meter lenha entre as peças, -e sobre a obra; por evitar, que a cinza senaõ espalhe sobre o verniz, -quando está derretido pelo fogo. Naõ ha inconveniente, em pôr lenha dos -lados, principalmente quando ha a precauçaõ de se pôr perto alguns vasos, -que naõ sejaõ envernizados, ou que se cozem a primeira vez; e he melhor -conservar o fogo por mais tempo no forno, do que meter lenha entre a -louça. Huma das vantagens do forno, que imita o dos louceiros de obra -fina, he naõ estar exposto ao inconveniente das cinzas. - -149 Os oleiros naõ concordaõ em dar a preferencia a hum destes methodos; -cada hum se encosta áquelle que pratíca. Os que applicaõ o verniz em pó -sobre o barro crú confessaõ, que gastaõ mais chumbo; porém dizem, que o -seu verniz ou esmalte penetra melhor o barro, e se pega mais intimamente. -Os outros sustentaõ que o verniz pega muito bem no barro cozido, e -allegaõ a favor do seu methodo o menor consummo do chumbo, e o aceio da -sua obra, sendo o verniz distribuido em huma grossura mais uniforme; -mas os que seguem este methodo, naõ estaõ ainda do mesmo parecer sobre -hum ponto, que me parece bem importante. Huns dizem que só basta cozer -medianamente a obra, antes de a meter no verniz, para que o verniz se -possa introduzir pelos poros do barro, e que ao depois he preciso dar hum -grande fogo para cozer as obras cubertas de verniz. - -150 Outros dizem, que da primeira vez, que se cozem, he preciso fazer -hum grande fogo, e da segunda quanto baste para derreter bem o verniz: -a favor desta pratica podem dizer, que, como o chumbo vitrifica a area, -produz este effeito naquella, que está na superficie dos vasos cozidos, o -que o faz muito adherente a estas qualidades de obras; em segundo lugar; -que naõ sendo preciso hum grande fogo para o cozimento, se evita o meter -lenha entre a louça, e por cima della, e isto a izenta dos maõs effeitos -da cinza. - -151 Eu me inclino á primeira pratica, porque se precisa hum fogo -violento, para fundir bem o esmalte, e este mesmo fogo acaba de cozer -o barro: preciza o verniz estar bem derretido, para o chumbo poder -vitrificar a area, que está na superficie da louça. Este sentimento he -conforme ao uso de quasi todos os oleiros; com tudo naõ me proponho a -decidir qual seja o methodo; porque naõ tive occaziaõ de fazer sobre isto -experiencias decisivas. - -152 Parece-me que o artigo do verniz se poderia aperfeiçoar, sem -obrigar os oleiros ás despezas consideraveis; julgo por exemplo, que -elles deveriaõ, misturar com o seu chumbo huma area, ou hum _quartz_ -fusivel[22] que se vitrifica facilmente com o chumbo, e deste modo -poderia economisar este metal; talvez mesmo, que achassem elles huma -vantajem em frittar[23] sua area antes de a misturar com o chumbo; e o -moido poderia ser melhor que a area. Por hora, saõ idéas, que se devem -olhar como simples conjecturas, até que se experimentem, e conbinem por -differentes modos. - -153 Todas as vezes, que se coze, se fecha exactamente o forno, logo -que cessa o fogo; para que conserve o calor, e as peças, esfriem pouco -a pouco: porque huma parte da louça quebraria se ao sahir quente do -forno, se expozessem ao ar frio. Quando o forno está já bem frio, e se -quer tirar a louça, se abre a parede, ou porta falsa, para por ella se -tirarem as obras que estaõ cozidas; porém muitas vezes succede, que, o -verniz derretendo-se, corre de hum vaso para outro, e se achaõ muitos -vasos pegados. Quando a adherencia he pouco consideravel, se separa -facilmente; mas algumas vezes se quebraõ os vasos, indo-se a separar, e -este inconveniente succede mais vezes áquelles que põe o verniz em pó, do -que os que usaõ delle diluido em agua, porque a camada do verniz he mais -delgada, e por isso menos sujeita a correr. - -154 Já disse, que o verniz naõ pegava sobre as manchas negras semilhantes -a escoria do ferro, que fazem os pyrites, que se queimaõ ao cozer. Quando -as peças valem o trabalho, os oleiros reparaõ em parte estes defeitos, -pondo muito verniz sobre as manchas negras; porém estas obras precizaõ -tornar outra vez ao forno, e causaõ grande incómmodo ao oleiro. Quando se -tiraõ do forno as peças, as mulheres com facas grossas tiraõ os pedaços -de barro, que se prendem aos vasos. - -155 Como sobre as louças de Lyones vi obras, e louças fabricadas nas -provincias vizinhas de Liaõ, tenho gosto de dizer tambem alguma cousa a -respeito dellas; e para isto procurei a Mr. de la Tourrette da Academia -de Liaõ, e correspondente da Academia das Sciencias de Pariz, que tem hum -zelo admiravel em ajudar com suas luzes todos, que emprendem indagações -uteis. - -156 As memorias, que me procurou Mr. de la Tourrette, dizem respeito -a tres qualidades de louças; que saõ a de Prá em Forez, a de Franche -ville em Liones, e a de S. Valerio no Delphinado. Agora só me servirei -das excellentes memorias, que recebi sobre a louça de S. Valerio, -porque, como as obras, que ahi se fazem, saõ de louça fina, he justo -fallar dellas, quando se tratar da arte de louça fina, que ao depois se -publicará. - - -_Da louça de Prá em Forez._[24] - -157 Prá he huma aldea junto á freguezia, e termo de S. Bonnet-Les-Oules -em Forez distante duas boas legoas de S. Estevaõ, e huma de S. Galmier. - -158 Dizem, que o estabelecimento desta fabrica de louças tem perto de -quatrocentos annos: em outro tempo haviaõ neste lugar quarenta olarias, -e cada huma tinha seu forno; agora só tem cinco, por causa das muitas -olarias, que se tem estabelecido na mesma provincia. - -159 Nestas louças se empregaõ duas qualidades de barro, que se misturaõ, -hum vermelho, e outro escuro, ambas se achaõ em abundancia perto de Prá -nos confins da freguezia de S. Bonnet, e nos das freguezias de Bauthcon, -e Vanche. - -160 Achaõ-se na terra em bancos mais, ou menos extensos, os do barro -escuro tem quasi dez pollegadas de alto, e os de barro vermelho saõ mais -grossos; o barro escuro he mais gordo que o vermelho. - -161 As louças de Prá soffrem melhor o fogo, do que outras muitas. - -162 Amassaõ-se estes barros com hum masso de ferro sobre huma prancha, ou -mesa forte, e depois se trabalhaõ na roda. - -163 Os fornos saõ redondos, tem cinco, ou seis pés de diametro, e sete, -ou oito de alto, sem cuberta; saõ feitos de tijolos grossos juntos com -barro gordo, e levaõ huma contra parede, feita de pedra de edificios com -argamassa de cal, e area. - -164 Estes fornos, que se assemelhaõ bem aos de telheiros se esquentaõ -com lenha por tempo de dez, ou doze horas, e mais segundo a estaçaõ: nas -primeiras quatro, ou cinco horas só se faz hum pequeno fogo; depois se -augmenta, e se faz muito activo. - -165 O verniz se faz da pedra de chumbo, ou do mesmo chumbo que se tira em -pedra das minas vizinhas: pizaõ se, e passaõ se por huma peneira, e se -livigaõ com pedras muito duras _Est. II_, _fig. 11_, e _12_. _G_, _H_. - -166 Tendo-se preparado assim o verniz se usa delle liquido; lança-se nos -vasos, e se voltaõ para todos os lados, como se os lavassem. Estando o -corpo da peça cuberto de verniz, se lança o resto em huma celha, para -servir para outros vasos. - -167 Applica-se o verniz sobre vasos côr de cinza, mas muito seccos; e -quando o verniz está secco, se põe as louças no forno. - -168 Querendo-se, que o verniz seja verde, mistura-se limalha de cobre com -o chumbo, como acima se disse. - -169 Os vasos desta qualidade de louça rezistem muito ao fogo, como tambem -os cadinhos para a fundiçaõ dos metaes; tem se feito muitas experiencias -em S. Estevaõ: elles se fazem dos dous barros misturados, e amassados -juntos, como já fica dito. - -170 Fazem-se nestas olarias, tijellas, pratos grandes, e pequenos. - - -_Louça de Franche ville em Lyones._ - -171 Julga-se em Lyones que esta olaria já existia no tempo dos Romanos. - -172 Usaõ ahi de duas sortes de barros, hum amarello, e outro côr de -cinza, e ha alguns, que tem mistura destas duas côres. O amarello se -acha ordinariamente em hum terreno magro, e areento, em lugares muitos -elevados; o côr de cinza em valles por bancos maiores, ou menores, e -mais, ou menos espessos; mas estes barros saõ muito abundantes, porque -neste lugar se fabríca muita louça, desde hum tempo immemoravel. - -173 O barro amarello he mais aspero ao toque, e mais grosseiro, do que o -côr de cinza, que he muito macio, e nelle senaõ encontraõ area. - -174 O amarello soffre melhor o fogo, do que o côr de cinza. - -175 Em Franche ville se fazem duas qualidades de louça; e isto depende da -especie de barro de que a fazem. - -176 O amarello resiste perfeitamente o fogo; o cinzento, que se chama -_gaubino_, como he hum barro mais puro faz huma louça mais compacta, -que naõ póde aturar o fogo; mas a louça feita com o barro amarello, se -descasca ao ar, isto he, cahe-lhe o verniz ou a superficie; o côr de -cinza supporta muito melhor as suas influencias. - -177 Dizem, que as plantas postas em vasos deste barro naõ produzem. -Misturaõ-se estes dous barros para hum corrigir as faltas do outro. - -178 Nas olarias se fazem vasos na roda, e outros em molde conforme requer -a sua figura. Finalmente amassaõ-se estes barros batendo-os com huma -massa de ferro como se faz em Prá. - -179 Os fornos, semelhantes aos dos telheiros, humas vezes saõ redondos, -e outras vezes quadrados. Faz-se o fogo debaixo de huma abobada, em -que ha buracos quadrados de tres, até quatro pollegadas de diametro, -separadas humas das outras seis, ou sete pollegadas; para que o ar quente -se communique ao interior do forno, onde se arrumaõ as obras, ellas devem -estar bem seccas antes de se expôr ao fogo, precisaõ-se quasi cento e -quarenta feixes pequenos de lenha para huma fornada. - -180 Para envernizar estas louças, querendo-se que o esmalte seja verde, -se usa do chumbo hermetico, ou mina de chumbo, que se liviga debaixo da -mó com agua, como fica dito, e a limalha de cobre. Querendo-se fazer o -verniz branco, naõ se lhe ajunta a limalha de cobre; e quando se usa do -chumbo só em huma louça de barro amarello, fica o esmalte avermelhado: -este verniz se emprega no barro crú. Limito-me a estas indicações geraes, -porque já se tratáraõ com individuaçaõ em outro lugar. - - - - -ARTIGO XI. - -_Das Louças, que se chamaõ de greda._ - - -181 A vista do que disse no principio deste pequeno tratado a argilla -he a baze dos barros, que servem para fazer as louças; porém segundo as -substancias, que se achaõ misturadas com a argilla, ha humas, que fazem -obras muito mais solidas do que outras. Quando estas substancias tornaõ -a argilla fusivel, se cozem com pouco fogo, e por isso se póde dar a -louça mais barata; destas he que acabei agora de tratar. A argilla pura, -sendo de natureza a encolher muito, se racha ao seccar, ou ao cozer; mas -quando a argilla se mistura com huma area refractaria, ou muito difficil -de derreter, resulta daqui hum barro, que póde seccar, e cozer-se sem -rachar, e que faz louças muito duras, quando experimentaõ hum grande -fogo. Em geral este he o motivo porque se chama louça de greda. Ha -qualidades dellas muito differentes; os vasos de greda côr de castanha, -em que vem as manteigas de Isigny, saõ muito duras, e sonoras; elles -rezistem muito bem a hum fogo grande, e naõ saõ atacaveis pelos acidos: -esta he huma excellente louça; he quasi taõ sonora como a porcelana, -quando se quebra a sua grã he muito fina, e hum pouco brilhante: e por -isso he muito chegada á natureza do vidro; tambem tem o defeito de se -quebrar, quando se faz passar subitamente do quente para o frio, ou ao -contrario. E porque suspeitei, que este defeito vinha, de estar a argilla -ligada com muita area que se tinha vitrificado pelo muito fogo, eu a fiz -lavar; e depois de se ter precipitado huma pouca de area mais pezada, -e mais grosseira, e pequenas pyrites, que tinha em grande quantidade, -mandei fazer cadinhos com o barro fino, que depois se precipitou. Estes -cadinhos vindo vermelhos do fogo, e depois mettendo-se em agua fria -senaõ quebráraõ. Se eu estivesse vizinho destas olarias, persuado-me que -poderia fazer vasos, naõ taõ formosos, como os de louça fina, a mais -commum, porém que seriaõ taõ bons para o uso como a melhor porcelana. -Fiz vir este barro de Gournai, a Normandia; mas como naõ me podia vir, -senaõ em pequena quantidade, só fiz muito poucas experiencias em obras -pequenas, porque se acabou logo o barro. Convido os phisicos, que -tiverem a maõ as olarias de greda, a fazerem experiencias mais decisivas -do que estas, que acabo de referir; porque esta especie de barro me -parece digna de sua attençaõ. - -182 Como quasi todas as louças de greda, que se vendem em París vem de -Beauvais, e que naõ ha lugares em todo o reino, aonde se trabalha nestas -qualidades de louças, que passaõ mesmo para os estrangeiros, desejei -ter maiores luzes sobre a posiçaõ das veias do barro proprio para estas -louças, sobre o modo de o preparar, finalmente sobre tudo, o que respeita -a esta qualidade de obras. - -183 Dizem, que as olarias se estabeleceraõ em outro tempo em huma -freguezia, que ainda agora se chama _S. Germano da olaria_; porém ellas -se tem abandonado: agora neste lugar só se fazem tijolos, telhas, e -ladrilhos. Na freguezia de _Savignier_, onde ha quatorze oleiros, -que trabalhaõ em greda, se acha hum barro muito proprio para estas -qualidades de obras, e os obreiros saõ peritos no modo de o trabalhar. -Em _Chapelle-au-Pot_, huma legoa distante de Savignier ha seis oleiros; -porém elles trabalhaõ por hum modo muito inferior neste barro, do que no -de Savignier; ainda que elle he quasi da mesma natureza. - -184 Huns, e outros ás vezes tem muito trabalho em achar veias de barro -de boa qualidade. Depois de se tirarem dous, ou tres pés da superficie, -se começaõ a perceber as veias dos barros, que se procuraõ; mas ellas -só saõ boas, de vinte pés de fundo por diante, e se tira barro ainda de -mais fundo; e entaõ os obreiros temem o cahir-lhe a terra em cima. Ha -veias mais grossas, e mais largas humas do que outras, que se seguem em -quanto se acha barro de boa qualidade: distinguem-se duas especies delle; -o que se chama greda, muitas vezes he bastantemente duro, e dificil de -tirar. Com estas duas qualidades de barros se fazem duas especies de -louças, huma com o barro, que se chama greda, e outra com hum barro hum -pouco differente; com este se fazem vasos, que pódem ir ao fogo; mas -as do outro se quebraõ, se senaõ esquentaõ com muito cuidado, com tudo -quebraõ-se menos do que os da greda escura de Normandia. Os cadinhos só -se fazem aqui de encomenda: o obreiro, que tem mais fama de os fazer bem, -passa o barro por huma peneira, escolhe-o, e amassa-o com mais cuidado -do que os outros: a preparaçaõ deste barro he, quasi a mesma, que os -oleiros de París daõ ao seu. - -185 Interrompo, o que hia a dizer das olarias de Beauvais, para fazer -notar, que os melhores cadinhos, que podem haver para os fundidores, saõ -os que se fazem de hum barro branco, que se acha em S. Samsaõ, quasi -seis legoas distante de Beauvais. Estes cadinhos esbranquiçados, bem -cozidos, muito sonoros, resistem ao maior fogo, sem se quebrarem, e sem -se penetrarem pelos saes; tem de mais a vantagem, de naõ precizarem tanto -cuidado como os cadinhos de greda, quando se metem no fogo, ou quando se -tiraõ. Agora torno a fallar do trabalho de Beauvais. - -186 Quando se tira a argilla da terra, leva-se para casa do obreiro, -põe-se em pequenos pedaços, lança-se em huma cova com agua, para ella -se penetrar, e fazer-se ductil; deixa-se até o outro dia, e entaõ se -tira em massa; o obreiro a corta, e a torna a pôr em camadas na mesma -cova de donde a tirou, para a amassar, e misturalla com huma pouca de -area, ligeiramente salpicada de cal: finalmente amassa-se como fazem os -oleiros de París; depois de se ter amassado, e tornado a ajuntar por -quatro vezes, se fazem bolos, que se levaõ a huma mesa, para o amassar, e -trabalhar bem, como fica já explicado a fundo. Trabalha-se depois sobre -huma roda de ferro _est. II_, _fig. 4_, e _5_. ou de páo que se faz mover -com o pé _fig. 18_, _est. I_; porque os oleiros de Savignier se servem -de humas, e outras, segundo as obras, que elles tem de fazer. Em huma -palavra o trabalho dos oleiros de Picardia naõ differe essencialmente, -do que acima disse tanto para a factura das obras, como para dar-lhe o -verniz. - -187 As louças de greda se cozem a grande fogo; os fornos estaõ postos em -pleno ar sobre huma pequena elevaçaõ de terra; differem pouco dos fornos -dos oleiros dos suburbios de S. Marçal _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. só -com a differença, que, sendo feitos sobre hum pequeno cabeço, se caminha -sempre subindo desde a entrada até o fundo do forno, e isto facilita a -distribuiçaõ do ar quente. Na parte opposta da fornalha, naõ ha o tubo -de chaminé _C D_, _fig. 3_. _est. I_; mas na parte baixa _C_, se formaõ -pequenas arcadas para a dissipaçaõ da fumaça; por este lugar he que se -metem as obras no forno, depois se fecha com huma parede de tijolos. -Estes fornos ordinariamente tem 45 até 50 pés de comprido, e dez, ou doze -de largo no meio, e huma altura igual debaixo da abobada; porém na sua -embocadura só tem quasi seis pés de alto. - -188 O fogo se faz diante da embocadura do forno em huma fornalha de -abobada, que tem quasi quatro pés de largo, e cinco de comprido, e outro -tanto de alto. Começa-se com hum pequeno fogo, depois se augmenta, e se -acaba com hum fogo de lenha miuda, que se inflama muito, e se continúa -oito dias, e oito noutes sem interrupçaõ. - -189 As louças, que devem servir no fogo, ou que haõ de ser envernizadas, -naõ levaõ hum fogo taõ violento: trabalhaõ-se quasi como as louças de -París; mas para cozer as louças de greda se gastaõ 16, ou 18 cordas -(_cada corda tem 4 pés d’alto, e 8 de comprido_) de páos grossos, e -quatro centos feixes de lenha mais fina para o ultimo fogo. - -190 A manteiga de Prevalais, vem em potes de huma greda azulada, que he -muito boa; mas eu naõ sei exactamente o modo de trabalhar esta pequena -louça, e por isso naõ entro em grandes individuações a este respeito. - -191 Em _Zimmeren_, quatro legoas de Treveris, e em muitos lugares na -provincia de Luxembourg, se faz huma especie de louça que he muito boa, -de huma greda muito fina, e branca, cuja superficie he luzente sem se -cubrir de verniz; este brilhante he formado pelo mesmo barro, que passou -por huma vitrificaçaõ superficial; eu penso que ella se forma pelo vapor -do sal marinho, que se lança no forno, como nas obras de barros brancos, -que se tem feito em Montereau. - -192 Os que vem da provincia de Luxembourg, trazem todos os annos desta -louça a París ao Armazem de louça fina, aonde vaõ comprar os que -contrataõ neste genero. Naõ pude ter maiores conhecimentos sobre o modo -trabalhar nestas louças. - -193 Julgo, que os barros, que fazem boas louças de greda, se preparaõ de -argilla, de hum bocado de area vitrificavel, e de area muito refractaria; -porque em todas as fabricas, onde se fazem boas louças, e ainda mesmo -nas de porcelana, se fazem entrar com successo na composiçaõ pedaços -de louças quebradas, reduzidas a pó, depois de se conhecer, que saõ de -qualidade capaz de resistir a hum grande gráo de fogo. - - -_Das Louças de S. Fargeau._ - -194 Além das louças de greda, que se fazem em Bretanha, Normandia, e -Picardia, se fazem muito boas em S. Fargeau. Como esta cidade, que he -huma das mais antigas de França, está distante de Briara quatro legoas. -O Loire serve para se transportar esta louça a muitos lugares. Leva-se -pelo Loire por exemplo a Chateauneuf, de donde se destribue por terra -a muitos lugares. Como daqui vem a Pithiviers, cidade muito visinha ás -nossas terras, tive occasiaõ de a comprar, e conhecer a bondade desta -louça; cheguei mesmo a prover-me de vasos de Chymica, que mandei fazer em -S. Fargeau por modelos, que enviei. Ha ahi louças, que saõ cubertas de -hum verniz escuro muito duro, e que resistem muito bem a acçaõ dos acidos -mais concentrados; tive cucurbitas, e capiteis de lambiques, em que -ajustei grandes refrigerantes de cobre; estes vasos saõ taõ impenetraveis -aos vapores os mais subtís, como o melhor vidro, e resistem muito melhor -a acçaõ do fogo. - -195 Como quiz adquirir conhecimentos sobre a natureza desta louça, -procurei com confiança a Mr. o Presidente de S. Fargeau, por conhecer o -seu zelo para tudo, o que tem relaçaõ com o progresso das artes, e que -pode utilisar ao bem público. Elle mesmo quiz responder em huma Memoria -as perguntas que lhe fiz por instruçaõ sua, e isto me põe em estado de -dar huma idéa bem exacta dos methodos, que seguem os oleiros deste lugar. -Ainda que estas louças saõ conhecidas pelo nome de greda de S. Farjeau, -com tudo ellas se naõ fazem nesta cidade mas sim em huma pequena povoaçaõ -que dista huma, ou duas legoas da cidade. - -196 Em geral a argilla, que se emprega para a louça que nos occupa, he -cinzenta; mas della se distinguem duas qualidades; huma mais branca, -que a outra, tem huma area fina; com este barro se fazem vasos de huma -greda mais compacta, e fina, do que com a outra, e se coze mais forte. -Ellas naõ vaõ ao fogo; e por isso desta greda se fazem potes de manteiga, -quartas, e botelhas etc. Este barro, depois de cozido, toma huma côr -amarella clara; com tudo, fazendo se passar por hum grande fogo, toma a -côr cinzenta. Com elle se fazem vasos, que se envernizaõ, e outros naõ: -para distinguir este barro do outro, eu o chamarei barro branco. - -197 A outra especie de barro tambem he côr de cinza, porém mais escura, -que a precedente; e por isso o chamarei escuro. Os oleiros achaõ esta -argilla mais forte, e mais pura, que a branca: com este barro he que -elles fazem os utensis do uso que devem ir ao fogo; naõ o cozem taõ -forte, como o outro, e huns vasos vaõ envernizados, e outros naõ. Estes -dous barros, sendo cozidos, tomaõ a mesma côr pouco mais, ou menos, e os -vasos, feitos de hum, ou outro barro destes, nos lugares, aonde ficaõ -mais expostos a acçaõ do fogo, se tornaõ brilhantes na superficie, como -se fossem envernizados. - -198 Os oleiros fazem muitas obras de cada hum destes barros separados, e -puros, sem mistura alguma; tambem as fazem de ambos os barros branco, e -escuro misturados, sem lhe ajuntarem outro barro, ou area. - -199 Ambos estes barros se achaõ mais, ou menos fundo em camadas de dous -pés, até seis de grosso. Estes bancos de argilla se cavaõ facilmente com -o enxadaõ, ou enxada. - -200 Estes barros saõ bem finos; e moem-se entre os dedos; com tudo entre -elles se encontraõ calháos, e pedras, e se lançaõ fóra quando se achaõ -nas maõs, ou debaixo dos pés. - -201 Este barro se reduz a pequenos pedaços com qualquer instrumento, -que corte; depois, humedecendo-se com agua, se amassa até tres vezes, e -depois se trabalha com as maõs, como fazem os oleiros de París. - -202 Muitas vezes o amassaõ, logo que o tiraõ; com tudo os oleiros convem, -que elle se trabalha melhor, depois de passar hum inverno ao ar; e este -sentimento he geral em todas as olarias. - -203 Como disse acima, que se humedecia para o pôr em estado de ser -amassado, devo advertir, que o naõ lançaõ na agua, como fazem os oleiros -de París; porém deitaõ de doze, até quinze baldes de agua em huma carrada -de barro. - -204 Os vasos se trabalhaõ em huma roda, que se faz andar com hum páo, -como se vê representado na _est. II_, _fig. 4_, e _5_. - -205 Põe-se as azas, e se aperfeiçoa a obra, do mesmo modo que fazem os -oleiros de París, como fica dito. - -206 O forno dos oleiros de S. Fargeau, com pouca differença, he o mesmo -que fica representado na _est. I_, porém he hum pouco metido pela terra; -de modo que para meter a lenha, se precisa descer a huma cova, que tem -quasi nove pés de largo, quatro de fundo, e quatro de vaõ. O corpo do -forno, aonde se arrumaõ os vasos, tem dezenove pés de comprido, dez de -largo, onde ha maior largura, e seis de alto. - -207 Para huma fornada se gastaõ vinte cordas de lenha miuda, ou nove de -lenha grossa; daqui se vê que estes fornos se esquentaõ por hum modo -muito differente dos de París. - -208 O fogo dura quatro dias, e tres noites sem parar; por doze horas -he o fogo brando para esquentar, e todo o mais tempo he com muito fogo -para cozer perfeitamente: quando se para com o fogo, se fecha o forno, -e fica assim tres dias, e tres noites, de sorte que, quando se tira a -louça, já ella está fria. Se a louça se tirasse logo huma parte quebraria -derrepente, e o resto seria muito fragil; e desta sorte o tempo, que -a louça fica no forno depois de cozida, equivale ao recozimento dos -vidraceiros, sem o qual tudo se quebraria, principalmente passando do -quente para o frio. - -209 Põe-se no mesmo forno os vasos de barro branco, que naõ se destinaõ -para servir no fogo, os de barro cinzento, que haõ-de ir ao fogo, e os da -mistura destes dous barros. Toda a differença, que se observa no cozer, -he pôr os vasos de barro branco perto da entrada do forno, no lugar aonde -ha maior calor, e os de barro misturado no meio do forno, e os de barro -cinzento na extremidade do forno, onde ha menos calor. - -210 Os oleiros de S. Fargeau fazem o seu verniz com duas materias mais, -ou menos vitrificaveis, a que chamaõ _Latier_; este _Latter_ vem das -fornalhas, em que se trabalha a mina de ferro. Hum he escuro, e em parte -vitrificado; o outro he verde, e he hum verdadeiro vidro muito duro. - -211 Achaõ-se estas substancias espalhadas sobre a terra; ainda que junto -a S. Fargeau naõ hajaõ fornalhas de ferro; presume-se que as houveraõ -antigamente. Reduzem a pó por meio de huma maquina de dous pilões que -se faz mover por huma manivela, e de huma roda; estes pilões na ponta -debaixo levaõ huma chapa de ferro, como a dos pilões de socar casca de -curtume. Quando se precisa pouca quantidade de verniz, se pulverisaõ as -materias, de que acabo de fallar em hum gral com maõ de ferro; passaõ-se -por huma peneira de cabello; este pó entaõ está da côr de cinza, e os -oleiros o chamaõ _Latier en laquet_, (escoria para verniz). - -212 Applica-se este verniz ao barro crú, porém bem secco; para o pó se -pegar, se humedecem os vasos em agua, e se pulverisaõ exactamente com -este pó, que fica muito adherente, quando se derrete pela acçaõ de hum -grande fogo, e se encorpora a superficie do barro. - -213 Como se applica sobre estes vasos crús, o mesmo fogo, que coze o -vaso, faz derreter o verniz, que se torna escuro côr de castanha, e muito -duro. - -214 Para os vasos de barro branco mais expostos ao fogo se mistura com a -escoria huma pouca de cinza fresca passada por peneira. Dizem os oleiros, -que sem isto, o verniz se queimaria. No meio do comprimento do forno se -põe simplesmente as escorias; e na ponta, aonde ha menos fogo, se ajunta -ás escorias hum bocado de cal de chumbo para ajudar a fusaõ. - -215 Este verniz, como já disse, toma huma côr da castanha muito unida, e -brilhante, e he taõ bom como o dos oleiros de París; mas he preciso hum -grande fogo para o fazer derreter: e nisto convem com louças que se cozem -em greda e todas as de S. Fargeau saõ desta qualidade. - - -_Modo de procurar as louças huma côr negra, que de algum modo supre o -verniz._ - -216 Eu tirei do Calendario Limousino, algumas individuações sobre as -louças de S. Eutropio em Angoumes especialmente sobre as que chamaõ -panellas, e destas humas saõ envernizadas, e outras naõ; estas vaõ huma -só vez ao forno, as outras vaõ duas vezes, e nelle se deixaõ tres dias -para ficarem perfeitamente cozidas. Seu verniz nada tem de particular: -porém he justo referir huma industria, com que os oleiros de algum modo -suprem o verniz, tingindo de preto os vasos, que em muitas serventias saõ -preferiveis aos envernizados. Consiste pois nisto sua industria. - -217 Assim que se põe a louça no forno, se lhe lança, por cima cinza -de Estevas, ou urzes, e se cobrem com ella o mais que póde ser. -Põe-se depois seis, ou sete feixes deste arbusto no fogo. Depois de se -inflammarem bem estes feixes se tapaõ as bocas superiores do forno, e se -sufoca o fogo: a louça deste modo recebe a fumaça, que a penetra, quando -ella está ainda humida (a que chamaõ suar a louça) quando se começa a -esquentar, ou a dar a tempera. Esta fumaça ajuntando-se com a cinza faz -huma côr negra, e muito solida ás louças. Depois desta fumigaçaõ, se -abrem os buracos superiores do forno, e se continua a cozer a louça. - - -_Louça de Inglaterra._ - -218 Mr. Jars, correspondente da Academia, sabendo, que eu me occupava -em fazer a arte de oleiro teve prazer em me communicar algumas memorias -sobre a louça de Inglaterra, que elle tinha achado entre os papeis do -falecido seu irmaõ da Academia das Sciencias. Naõ deve haver duvida, que -se Mr. Jars as tinha publicado, teria ajuntado muitas individuações, que -as fizessem mais claras; mas julguei devellas dar taes, quaes elle me -remetteo, persuadido que as pessoas já instruidas no trabalho da louça -poderaõ nellas achar algumas praticas, que cooperem para a perfeiçaõ -desta arte. - -219 _Comté de Nordhumberlane._ Nas visinhanças da Cidade de Neuwcastle -se estabeleceraõ differentes fabricas de louça; onde se fazem de toda a -qualidade, a excepçaõ só da branca, que em França chamamos de barro de -Inglaterra. - -220 Neuwcastle está situada com a maior vantagem para este commercio: o -carvaõ de pedra he muito, e barato, porque o do gasto do paiz naõ paga -direito algum. - -221 Em quanto aos materiaes proprios para fazer a louça estes tambem -lhes vem baratos, porque os Navios que vaõ levar o carvaõ a Londres, -na volta lhos trazem; visto deverem trazer lastro. A materia propria -para fazer a pederneira, ou pedras de tirar fogo: sabe-se que dellas ha -grande abundancia na parte Meridional de Inglaterra; pois de Douvres até -Londres, quasi todo o terreno he huma mistura de greda, e pederneiras. - -222 Destas materias fazem o lastro os mais dos Navios, que muitas vezes -voltaõ de Londres vazios; deves-se suppôr, que tornando a Neuwcastle -ellas se vendem baratas; os que tomaõ os fornos de cal de empreitada, -que saõ muitos na visinhança do rio, as compraõ; elles fazem huma mistura -de greda, pederneira, e pedra de cal sem distinçaõ alguma, e cozem tudo -acamado, huma cousa por cima de outra. Depois da calcinaçaõ he muito -facil distinguir a pederneira, ainda que se torna muito branca de escura -que era dantes; põe se de parte esta pederneira para se vender aos -oleiros, a razaõ de oito, ou nove xelins a tonelada; e cada huma tem -vinte quintaes de cento, e doze libras de pezo de Inglaterra. - -223 Em geral saõ semilhantes todos os fornos, de que se servem para cozer -a louça; só differem na construçaõ em serem maiores, ou mais pequenos. - -224 A louça ordinaria, que se chama louça fina, para a distinguir de huma -mais, commum, do que adiante se fallará, se faz de huma argila de côr -cinzenta, tirando mais a branca, e da pederneira calcinada, que entra na -composiçaõ de quasi todas as louças. Antes de misturar, ou preparar, como -se segue. - -225 Cada fabrica tem huma especie de moinho, para moer a pederneira, -que he tocado por agua, ou por hum cavallo; alguns donos destes moinhos -compraõ a pederneira, e a vendem, depois de moida aos oleiros. Este -moinho consiste em huma especie de pia de páo de cinco, ou seis pés de -diametro, cujo fundo se faz de humas grandes pederneiras naõ calcinadas, -postas humas ao pé das outras de modo, que deixaõ entre si vacuos bem -consideraveis; no meio deste fundo ha hum mancal, que recebe o piaõ de -hum páo vertical com hum braço em que se prende o cavallo, ou bois que -o tocao (no Brazil se chama atafona;) em roda deste páo estaõ muitas -pederneiras grandes encaixadas, e seguras com gatos de ferro, que servem -de mós. Mr. Jars, vio destes moinhos, aonde em lugares de pederneiras, se -servem de marmores durissimos, de que fazem a mó superior, unindo quatro -pedras grossas com gatos de ferro ao páo vertical. - -226 Nestes moinhos, e entre estas pedras, se moe a dita pederneira -calcinada, lançando-lhe sempre agua; quando a agua está já bem carregada, -se tira huma cavilha de páo, que está na pia, para cahir agua em huma -peneira de cabello, e desta em huma celha: lança-se nova agua no moinho, -e se procede do mesmo modo, que fica dito, lançando outra vez na pia, -o que naõ póde passar pela peneira; depois disto, se passa por huma -peneira de seda muito fina, quando se quer misturar com a argilla, que se -prepara do modo seguinte. - -227 A argilla, de que se faz a louça, se tira do condado de Devonshire, -de donde vem por mar, e serve de fazer lastro aos Navios de volta, como a -pederneira; tambem se servem della para fazer pitos: posta em Neuwcastle -custa sete, ou oito xelins a tonelada. He côr de cinza, tirando mais -o branco; tem a grã muito fina; dilue-se com agua em tanques grandes, -agitando-a bem para se dividir melhor; depois se passa esta argilla -desfeita n’agua por huma peneira de cabello taõ fina, como aquella, em -que se passou a pederneira, e depois em huma de seda taõ fina, como a da -pederneira; e entaõ se vai logo fazer a mistura. - -228 Misturaõ se dez partes de agua carregada de argilla com huma parte da -agua da pederneira: estando tudo bem misturado, se trata da evaporaçaõ -da humidade, e reduzir tudo a consistencia de massa, o mais breve que -for possivel, para que a pedra naõ tenha tempo de se separar da argilla, -e precipitar-se, o que faria a mistura desigual. Tem-se experimentado o -calor do sol, mas sem fruto; servem-se de humas especies de fornos para -esta opperaçaõ. - -229 Estes fornos consistem em huma caixa comprida, ou especie de bacia -formada de tijolos, sustida por cima com barras de ferro: tem huma grelha -para se fazer ahi fogo de carvaõ de terra, e na extremidade da caixa huma -chaminé para receber a fumaça. Esta mistura carregada de agua se põe -nestas para evaporar-lhe a humidade, até huma consistencia conveniente -para ser amassada; depois disto se tira este barro, e se põe em hum lar -liso, feito de pedras chatas, ou com taboas: aqui se trata de amassar -tudo, e pôr a massa em ponto de ser trabalhada. - -230 Formaõ-se logo obras a maõ na roda orisontal, quando ellas estaõ já -meias seccas, se acabaõ na roda vertical com os instrumentos; outras -finalmente se formaõ em moldes de gesso: para preparar estes moldes, o -melhor modo de queimar o gesso he o seguinte. - -231 O do uso ordinario, que se chama alabastro, parece ser hum gesso -branco semilhante ao que se tira nas visinhanças de Salins em _Franche -Comté_; reduz-se a pó que se passa por huma peneira muito fina; depois -se põe ao fogo dentro em hum vaso de barro; move-se bem com hum páo de -espaço em espaço; e logo que elle se agita pelos globulos de ar, que -delle sahem, se chama a isto _fazello ferver_. Continua-se até se julgar -bem calcinado, depois se humedece com agua para fazerem moldes do modo -que se quer. - -232 Mr. Jars vio preparar bules para chá, cujo corpo se fez com as duas -differentes rodas; mas a aza, e o bico se fazem em moldes de gesso; estes -moldes estaõ perto do fogo para estarem seccos. Quando se quer formar a -aza de hum bule de chá que está feito ordinariamente, se tem hum molde -que consiste de duas peças de gesso, se applica huma sobre a outra, e -que saõ ocas com a figura que deve ter a aza; faz-se hum rolo do barro, -e se estende no molde de maneira, que o encha perfeitamente; applica-se -por cima a outra a metade do molde; depois se põe tudo ao pé do fogo hum -bocado de tempo; tira-se a peça do molde, e se ajusta no corpo do bule -humedecendo o barro com agua no lugar aonde se soldar. - -233 Os bicos se fazem por modo alguma cousa differente, tem-se moldes -semelhantes aos precedentes, bem seccos, e applicados hum sobre outro: -em huma das extremidades, que communica na capacidade interior, tem hum -buraco, por onde se lança a massa muito clara, porém de modo, que fica -huma abertura no interior da peça formada, que vem a fazer o bico do -bule. O molde de gesso bem secco sem duvida, he o que ajuda a fazer este -vacuo, embebendo com a sua porozidade a agua da massa do barro, assim -que esta toca nas paredes do molde. Este molde se põe por algum tempo ao -pé do fogo, como o outro de que já fallei, antes de se tirar a peça, que -depois se solda no bule, do mesmo modo que se solda a aza. - -234 Mr. Jars, vio em differentes fabricas muitos moldes de gesso para -fazer pratos, e tigellas recortadas, e com differentes feitios: vantagem -consideravel, para diminuir o preço da maõ de obra. Toda a louça, feita -deste modo, se põe sobre taboas debaixo dos telheiros, ou alpendres -aonde secca; ha caixas redondas feitas de barro ordinario, peneirado -grosseiramente, porém amassado com muito cuidado; commummente tem duas -pollegadas de grosso, quatro, ou cinco de fundo, e hum pé de diametro; -nesta caixa se arruma de ordinario a louça; no forno, se põe huma sobre -outra; fazem-se muitas ordens no fundo: isto fórma differentes pilhas, -conforme o tamanho da fornalha. - -235 Assim que está quasi cheio se fecha a porta falsa com tijolos, e -barro, e se lança carvaõ nas cinco fornalhas de vento distribuidas em -roda da fornalha grande. Quando se accende, entra a chama naõ só pelas -cinco chaminés, mas tambem pelas pequenas aberturas, que vaõ ter a cada -huma dellas; assim o calor se introduz igualmente por todo o interior da -fornalha: este calor deve continuar trinta horas, depois que pára o fogo; -logo que esfria a fornalha, se tira a louça para a envernizar. - -236 Todos os vernizes, de que se usaõ, tem por base o chumbo; tambem se -servem da pedra, ou mina de chumbo, o zarcaõ, e o alvaiade, conforme a -qualidade da louça; accrescenta-se-lhe alguma outra materia para variar a -côr. Para diminuir o preço do verniz se lhe ajunta huma certa quantidade -de pederneira calcinada, e a mesma argilla, de que se faz a louça; assim -que secca o verniz, com que se cubrio a louça, se põe de novo nas caixas, -e depois na fornalha, como se fez d’antes, e ao cabo de trinta horas -está em termos de ser vendida. - -237 Pode-se usar de toda a qualidade de carvaõ para a cozer. - -238 A louça assim preparada, e cozida, como fica dito, naõ está subjeita -ao perigo de se quebrar pelo calor da agua fervendo, ou pelo fogo, -com tanto que se naõ ponha de repente em hum fogo muito ardente. Esta -louça serve para cozer no forno toda a qualidade de manjares, mas -principalmente a louça branca, que se fabríca no Condado de _Stafford_. A -sua descripçaõ tambem se ha de dar. - -239 O interior da louça cozida he muito branco, e de huma grà muito -compacta. Ainda que se lhe naõ percebe apparencia de vitrificaçaõ, se -pode dizer, que se avisinha muito a ella. - -240 Fabrica-se outra especie de louça no mesmo lugar, e fornalha, que -se faz com outra argilla escura, como a precedente: nesta naõ entra a -pederneira; mas a sessenta partes deste barro se ajunta huma parte de -magnesia reduzida a pó muito fino: depois desta mistura, se evapora a -maior parte da humidade em hum forno semelhante ao precedente; cobre-se -de hum verniz negro, em cuja composiçaõ entra tambem a magnesia; esta -louça passa pelas mesmas operações, que a primeira, e resiste igualmente -ao calor. - -241 Muitas vezes se applicaõ desenhos em ouro sobre esta louça negra; -para isto se tem hum licôr, que se chama _goldsize_ ou mordente, que se -traz de Londres: he huma especie de verniz composto de differentes modos; -com este verniz pinta o obreiro tudo, o que quer, sobre a louça alguma -cousa ainda quente; depois do que applica sobre a pintura folhas de ouro -batido (ou paõ de ouro,) e com hum pé de lebre se faz cahir o ouro dos -lugares, que naõ foraõ envernizados; põe-se depois esta louça em huma -pequena fornalha, que está de parte, com grades de ferro, e sua chaminé; -o fundo he huma chapa debaixo da qual se põe o carvaõ, a fumaça, e a -chama sahem pela chaminé. - -242 Pouco distante desta fabrica ha hum lugar em que se faz louça -grosseira, e que vai ao forno huma só vez, porém com hum fogo continuado -por quarenta horas. A fornalha he semelhante á precedente; porém muito -maior; tem sete fornalhas de vento, e sete chaminés, em lugar de cinco, -que a outra tem. Estas fornalhas de vento saõ quasi de cinco pés de -distancia de hum centro a outro. - -243 A argilla cinzenta que serve para a louça, de que se acabou de -fallar, na vista he em tudo muito semelhante á de que se servem em -Staffordshire para a louça branca; com tudo as experiencias, que della se -fizeraõ, tem provado, naõ ser susceptivel da mesma impressaõ do sal, para -a cobrir de hum bom verniz. - -244 _Louça do Condado de Stafford_. As minas de carvaõ tem dado lugar a -hum estabelecimento de fabricas de louça de todo o genero nas visinhanças -da Cidade de Neuwcastle; por isso as de louça branca saõ mais numerosas. -Dizem que ha de dez a quinze mil almas empregadas nas minas de carvaõ, e -nas fabricas de louças; mas sem contradiçaõ o maior numero se occupa na -louça. Naõ se vem ali senaõ pequenas povoações habitadas de oleiros, e -fabricas deste genero em toda esta parte do Condado de Stafford, e hum -grande numero de fornalhas, principalmente nos lugares aonde se tirou, e -aonde ainda se tira carvaõ. - -245 A argilla, de que usaõ para a louça branca, he de duas especies, -quasi semelhantes; só se faz differença dellas pelo uso como adiante se -dirá. Tira-se de Devonshire, e dizem, que esta provincia a dá para todas -as fabricas de louça de Inglaterra. A pederneira, de que se faz tambem -hum grande uso, se tira de Gravesande, ou verdadeiramente das margens do -Tamisa. - -246 O ponto principal desta louça, isto he, para a ter bem branca, e -livre de manchas, consiste na preparaçaõ da argilla, e em sua mistura -com a pederneira; põe-se a argilla em hum tanque com agua para a fazer -humedecer; dilue-se bem, agitando-a com hum pedaço de páo, esta agua -assim carregada se coa, para outro tanque por huma peneira de cabello, -para separar, o que naõ está diluido, esta se torna a lançar no primeiro -tanque. Espera-se que haja huma suficiente quantidade de argilla já -pãssada, e depois se agita fortemente, e se passa por huma peneira fina. -Para a misturar com a pederneira, se faz o mesmo, que em Neuwcastle em -Northumberland; a pederneira se calcina do mesmo modo em hum forno de -cal; e depois se pulverisa, e liviga em hum moinho tocado ordinariamente -pela agua; a pederneira neste estado he levada a fabrica. Para a mistura -ser perfeita, se deve diluir em agua na mesma consistencia, em que estava -a argilla. - -247 A proporçaõ he de ajuntar huma parte de pederneira a seis partes de -huma destas argillas; e a cinco partes da outra argilla se ajunta huma de -pederneira. Depois da argilla ter sido passada por peneiras duas vezes, -como acima se disse, se torna a passar terceira vez por huma peneira -ainda mais fina, e entaõ he que se medem as porções. - -248 Deve haver huma pequena celha, que se enche seis vezes da argilla -passada pela peneira; e depois se enche huma vez da agua da pederneira, -e assim se continua até haver a quantidade da massa, que se quer; para a -mistura ficar perfeita, precisaõ as duas massas, ou aguas de argilla, e -pederneira, ter igual consistencia, e se mexem bem ambas juntas; e depois -se tornaõ a passar quarta, e quinta vez por huma peneira fina e desta -ultima vez se coa no tanque de tijolos, que tem por baixo o fogo. - -249 As peneiras se fazem com fio de cambraia mais, ou menos fino; os -caixões, ou tanques de tijolo, onde se põe a seccar a materia, saõ -semelhantes áquelles que se usaõ nas fabricas, de que acima se fallou; -a mistura de barro e area secca nelles lentamente, agita-se huma vez por -outra com huma pá para seccar mais com igualdade; neste tanque fica até -ter a consistencia precisa para ser trabalhada; entaõ se leva esta pasta -para huma especie de sobrado bem limpo, e com muito aceio, aonde hum -homem com os pés o trabalha, e amassa até julgallo proprio para fazer a -louça. - -250 Todas as péças, que naõ levaõ molduras, nem saõ recortadas, se formaõ -sobre huma roda vertical, que hum menino faz mover; a que he de molduras, -se forma em moldes de gesso. Estes moldes de gesso consistem em huma peça -de gesso, que tem interiormente a figura que deve ter a peça ou seja -prato, ou tijella, ou outra qualquer, no qual gesso se gravou o desenho, -que se quer dar a peça. - -251 Bate-se e trabalha-se hum bolo de barro, depois se estende com hum -rolo. Depois que se estendeo o barro tanto, quanto quer o official, se -põe sobre o molde aonde se aperta bem com as maõs, e se molhaõ na agua, -se he preciso, para a massa se naõ pegar a elle, e tambem para fazer liza -a parte exterior do prato, ou tijella. - -252 Este trabalho se faz em hum quarto onde ha fogo, para que os moldes -sempre estejaõ bem seccos, e que, depois de algumas horas, se possaõ -tirar as peças, que nelles se formaraõ. - -253 Como he preciso pulir as louças nos lugares, aonde naõ levaõ verniz, -para tomarem melhor o verniz; logo que tem seccado alguma cousa á sombra -as mesmas obras, que se fizeraõ na roda vertical, se levaõ ao torno, -aonde se aperfeiçoaõ, e se fazem mais iguaes; e depois disto, se pulem na -mesma roda ou torno, applicando lhe por cima huma folha de ferro liza, -nos lugares, que devem ser pulidos. Da mesma sorte se fazem em moldes -peças redondas; as peças ovaes, que naõ podem ser pulidas no torno, se -lavaõ bem com huma esponja, e agua, e depois com hum pedaço do mesmo -barro cozido, e pulido, se pulem todas as partes, que o devem ser. -Esta louça ordinariamente se arruma em taboas a sombra para ahi seccar -inteiramente antes que se ponha no forno. - -254 Nas visinhança de Neuwcastle ha argilla propria, para fazer as caixas -em que se põe a louça; estas caixas saõ redondas, fazem se-lhe em roda -cinco, ou seis buracos de duas em duas pollegadas, e de meia pollegada -de diametro; seu tamanho he proporcionado aos das peças, que se querem -meter nellas. - -255 Quando se quer arrumar a louça nestas caixas, os meninos preparaõ o -que a deve suster; e saõ huns pequenos pedaços da mesma argilla formados -em parallelipipedos; e, estando ainda muito humidas, se applicaõ sobre -greda pizada grosseiramente, que se pega sobre toda sua superficie, com -isto se guarnece o fundo das caixas, e destes parallelipipedos se servem -para suster cada huma das peças, para que ellas naõ toquem humas nas -outras; por se naõ pegarem com o verniz; esta greda de todo se naõ pega a -louça, e nem lhe faz a menor marca, e se o faz em algumas peças, estas se -rejeitaõ. - -256 Os fornos, em que se faz cozer esta louça, saõ pouco mais, ou menos -semelhantes a estes, de que se tem fallado: a differença, que ha, -consiste só em que elles commummente tem oito fogos, e por conseguinte -oito chaminés interiores; mas estas chaminés só tem a abertura superior. -Dizem que estas pequenas aberturas, que os outros tem, para a louça -envernizada, faria mal a louça branca, porque a chama, que sahe da -envernizada indo dar nas caixas da louça branca a faria amarella. _Outra -differença_: toda a porçaõ espherica da abobada, está guarnecida de -buracos, que naõ saõ precisos para as outras louças; fazem-se logo oito -em roda da fornalha, no principio da abobada, postos entre cada chaminé, -depois outras dezeseis por cima, e finalmente seis em roda do buraco -principal, que estaõ no meio da abobada, e que serve de chaminé. Estes -buracos tem tres, ou quatro pollegadas de diametro; no tempo da operaçaõ -se tapaõ: seu uso adiante se dirá. - -257 Todas as caixas, que encerraõ a louça se põe humas sobres as outras, -e formaõ differentes pilhas; metem-se no forno de modo, que haja huma -pilha destas caixas debaixo de cada hum destes buracos, de que se acaba -de fallar. Como ha trinta e hum buracos, comprehendendo a abertura do -meio, ou chaminé principal, põe-se trinta, chamadas pilhas; a ultima -caixa, que faz a extremidade da pilha, se cobre com testo feito de barro, -de figura conica. - -258 A louça branca vai só huma vez ao fogo, mas he hum fogo continuo, que -atura quarenta, e oito horas. - -259 O tempo de lhe dar o verniz por meio, ou adjutorio do sal marinho, -he quasi quatro, ou cinco horas, antes de se acabar de cozer; depois -que a louça tem sofrido hum fogo de quarenta, e tres, ou quarenta, e -quatro horas, se trazem, para junto do forno, oito alqueires (medida -de Inglaterra) de sal marinho (que he quanto basta para hum forno da -capacidade deste, de que acabo de fallar.) Ha hum levantado em roda da -abobada ou corpo espherico do forno, sobre o qual sobem dous obreiros, -que com huma colher de ferro lançaõ pelos buracos sal marinho, sobre -cada huma das cubertas de cada pilha. Logo que lançaraõ o sal, tornaõ -a tapar os buracos, que tinhaõ aberto, para introduzir as colheres, e -continuaõ assim andando em roda do dito forno, lançando em cada buraco -a mesma quantidade de sal, pouco mais, ou menos. Elles fazem isto mesmo -por tempo de quatro, ou cinco horas, e naõ deixaõ outro intervallo, senaõ -o que he preciso, para sahir a grande fumaça, que faz o sal. A cuberta, -ou testo de cada pilha deve ser de tal figura, que o sal lançado por -cima, cubra inteiramente a pilha; quando cahe, entaõ o acido do sal se -introduz ao interior das caixas, toca a superficie da louça, e accelera -a vitrificaçaõ da pederneira, que entra na composiçaõ da mesma. Esta -vitrificaçaõ exterior he o unico verniz, que se lhe dá. - -260 O sal com que se faz esta operaçaõ, he muito branco, e em gràos -grossos, quasi semelhante ao que se faz em Lons-he-Saunier, para o gasto -dos Suissos. - -261 O preço desta louça he de meio xelim até dous xelins a duzia de -tijellas; este ultimo preço he o da louça melhor e de boa côr; o primeiro -preço he da louça de refugo. A qualidade do carvaõ naõ he essencial para -fazer a louça melhor, ou inferior. - - - - -ARTIGO XII. - -_Do oleiro de fogareiros._ - - -262 Ainda que os oleiros, que fazem os fogareiros, e cadinhos para os -Chymicos, chamados _fournalistas_ façaõ hum mesmo corpo com os que -fazem os ladrilhos, utensis do uso, e outras obras, de que já fallei, -pareceo-me justo tratar separadamente das obras dos que fazem fogareiros, -e mais instrumentos chymicos; porque seu modo de trabalhar he muito -differente da pratica dos outros oleiros. - -263 Os de París se servem como os outros oleiros da argilla, que -tiraõ em Gentilly. Para a amaciarem, e tornalla ductil, e propria a -ser trabalhada; cortaõ-na em pedaços sobre huma taboa, como os outros -oleiros; estes pedaços cahem em tinas, ou celhas com agua: quando está -já bem penetrada da agua, a tiraõ para a amassarem. Se a argilla he -muito forte, elles a fazem magra, como os outros oleiros; mas para -isto naõ se servem da area: quando elles se propõe fazer obras usuaes, -como esquentadores para serventias pequenas, ou fogareiros para fazer -esquentar os ferros de engomar, e outras obras, que se daõ baratas: neste -caso ligaõ o seu barro com escorias de ferro pizadas, e passadas por hum -crivo, misturando depois partes iguaes deste pó, e do barro; porém para -os fogareiros chymicos, como elles tem de soffrer hum fogo violento, e -continuo, convem substituir a area huma substancia capaz de resistir á -maior acçaõ do fogo, e naõ se tem achado outra cousa melhor para liga, -do que os pedaços destes vasos de greda escura, que serviraõ de trazer -manteiga de Isignes; dizem elles, e eu naõ sei se he com fundamento, que -a louça de Picardia naõ he taõ boa como a de Normandia. - -264 Seja como for elles compraõ aos tendeiros estes pedaços de greda de -Normandia ás medidas; elles os pizaõ com huma massa de ferro, ou de páo -guarnecida de ferro, sobre huma pedra muito dura, ou hum calháo, que se -põe sobre a ponta de hum páo grosso; depois os passaõ por hum crivo bem -fino, para que as molecudas da greda se reduzaõ, quando muito, ao tamanho -de hum graõ de milho: elles misturaõ pouco mais, ou menos tanto deste pó, -como da argilla, ou cinco partes deste pó com quatro de argilla; porque -elles dizem, e com razaõ, que os fogareiros saõ tanto mais fortes, quanta -maior porçaõ levaõ deste pó, e que argilla deve ser quanta baste para o -ligar, finalmente usaõ deste pó mais fino para os cadinhos, do que para -os fogareiros. - -265 Os oleiros que fazem os fogareiros preparaõ argilla, como os outros -oleiros; elles escolhem á maõ todos os corpos estranhos, que encontraõ, -quando a cortaõ, e amassaõ; mas escolhem com mais cuidado aquella, que -destinaõ para fazer cadinhos; elles a trabalhaõ, e a amassaõ sobre huma -meza, e lançaõ fóra com muito cuidado todos os calháos, pyrites, ou -fragmentos de pedra calcar, que encontraõ nas maõs. Alguns para fazerem -os cadinhos mais perfeitos, depois de terem feito seccar a argilla, a -pulverisaõ, e a passaõ pela peneira; se elles achaõ huma veia de barro, -que contém muitos destes corpos estranhos, o põe de parte para fazerem os -fogareiros, e reservaõ o barro mais puro para os cadinhos. - -266 Amassaõ o barro, como os outros oleiros, põe o pó do barro cozido -sobre hum sobrado, e a argilla por cima; depois de terem feito a -primeira amassadura, tiraõ o barro do meio para os lados, e dos lados -para o meio. Alguns amassaõ o barro batendo-o sobre huma meza com huma -massa de ferro, e acabaõ de o amassar trabalhando-o nas maõs. - -267 Até o presente se vê, que o trabalho destes differe pouco dos outros -oleiros; porém elles senaõ servem de roda nem de moldes ocos, para formar -suas obras; fazem-nas inteiramente a maõ, como explicarei. - -268 Os fogareiros portateis, que estes fazem naõ servem aos Chymicos; -pois para certas operações, se formaõ outros de hum feitio particular; -elles mesmos os fazem com tijollos, que unem com o barro dos fornos, ou -com argamassa de cal, e ladrilho moido, ou com hum luto, composto de huma -parte de barro, outra de esterco de cavallo secco, e de duas de area. - -269 Alguns fazem a sua argamassa com hum bocado de barro de fornos, -e muita cinza de lixivia, ou _cenrrada_, passada por huma peneira, -e humedecida com agua. Mas como os tijollos communs naõ resistiriaõ -a certas operações, por serem faceis de vitrificar, se fazem estas -fornalhas mais fixas com tijollos, e barro de cadinhos. - -270 O barro destes tijollos he o mesmo, que se usa para fazer os -fogareiros portateis; estes tijollos se fazem em moldes de páo, que -se enchem deste barro. Assim que os tijollos tomáraõ hum bocado de -consistencia, depois de tirados dos moldes, batem-nos sobre huma taboa -para comprimir o barro: mas com cuidado para os naõ desfigurar. - -271 Os mestres dos fornos fazem estes tijollos quadrados, quasi do mesmo -modo, que os ordinarios, e tambem os meios tijollos quadrados, para fazer -os igualamentos. - -272 Para dar varias figuras aos fornos os mestres fazem tijollos de certa -bitola, e figura _est. II_, _fig. 13_. E os Chymicos se servem delles -para fazer fornos redondos, de sorte que algumas vezes quatro tijollos -fazem a circunferencia de hum pequeno forno, para os grandes se carecem -muitos mais. Ainda que se mude a curvatura destes tijollos segundo a -figura, que se quer dar ao forno, sempre se tem meios tijollos, que saõ -muito commodos para igualar as superficies. Estes tijollos se fazem em -caixilhos, ou moldes, como os tijollos ordinarios: _a_ _est. II_, _fig. -14_. he para fazer os apoios dos cadinhos; e _b_, dos quadrados. - -273 Os mestres dos fogareiros saõ os que preparaõ os materiaes, e os -Chymicos as põe em obra, unindo os tijollos com barro de forno, ou com as -argamassas, de que já fallei. Entre o cinzeiro, e a fornalha se põe huma -grade de ferro, alguns tapaõ as portas ou aberturas com huma chapa de -ferro delgada; outros se contentaõ em pôr por cima das portas hum pedaço -de ferro chato, á maneira de portal. Dentro do laboratorio, que está por -cima da fornalha, se põe humas chapas de ferro para supportar hum banho -de area, ou cucurbitas, ou retortas, ou cadinhos; finalmente fazem mais -fortes estes fornos, pondo-lhes por fóra humas chapas delgadas de ferro, -que o cercaõ por todos os lados: porém naõ ha cousa melhor para segurar -os tijollos, e impedir, que se naõ despeguem com a força do fogo, do que -prender na argamassa, que os une pedaços de redes velhas de arame de -ferro de tostar o tabaco rapé: estas naõ fazem enchimento, e por causa -dos buracos, e desigualdades destas redes fazem huma excellente liga -com a argamassa. Naõ entro em grandes individuações sobre as fornalhas -fixas, porque isto naõ he huma parte essencial dos oleiros, que fazem -fogareiros; as fornalhas portateis, ou fogareiros para o uso dos -Chymicos, que verdadeiramente fazem a base desta arte, saõ os de que eu -vou tratar com alguma maior individuaçaõ. - -274 Os oleiros mestres de fogareiros, ou fornalhas portateis as fazem -quadradas; taes saõ as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_, -e algumas de fusaõ _fig. 16_; mas as fornalhas de digestaõ, e as -de reverbero, em huma palavra, quasi todas as fornalhas portateis -saõ redondas. Humas saõ de huma só peça isto he cinzeiro, fogaõ, e -laboratorio; naõ tem mais que por-lhe em cima a abobada: outras saõ -formadas de muitas corôas, que se põe humas sobre outras; algumas se põe -sobre huma trempe de ferro, e estas naõ tem cinzeiro, porque a cinza -cahe no chaõ; porém a maior parte tem hum cinzeiro, hum fogaõ, onde se -põe o carvaõ sobre huma grade, que deixa cahir a cinza, e dá passagem -ao ar, que aviva o fogo. Os mestres de fogareiros algumas vezes fazem -estas grades de barro; entaõ he huma chapa de barro redonda, em que se -abrem muitos buracos; outras se servem de grades de ferro. Por cima do -fogaõ está hum espaço, que se chama o _laboratorio_, porque neste lugar -he que se põe o banho de maria, ou de area, ou huma retorta: tem huma -abertura por onde se introduz o collo, ou huma cucurbita, ou cadinhos; e -todas estas cousas sustidas por algumas peças de ferro, e muitas vezes -acaba tudo por hum corpo espherico, ou zimborio, que serve de reverberar -o calor sobre a retorta, ou os cadinhos, que estaõ no laboratorio. Ha -sempre no alto do zimborio huma abertura de tres ou quatro pollegadas -de diametro conforme o tamanho da fornalha, e esta abertura tem algumas -vezes huma ponta de tubo, para se poderem ajustar nella tubos mais -compridos, quanto se quer augmentar a actividade do fogo; porque para -accender-se o carvaõ com mais vivacidade, e produzir muito mais calor, -se precisa estabelecer na fornalha huma corrente de ar, que entre pelo -cinzeiro, e saia por cima da fornalha. Ora esta corrente de ar depende -da ligeireza do ar quente, em comparaçaõ ao pezo do ar frio, e esta -ligeireza se augmenta a proporçaõ, que elle se esquenta mais, e tambem -á proporçaõ de huma maior columna de ar quente no cume da fornalha: -e assim para se augmentar a actividade do fogo na fornalha, precisa, -que possa entrar por baixo huma sufficiente quantidade de ar frio, e -ajuntar por cima da fornalha huma extensaõ de tubos, para se fazer assim -huma maior columna de ar quente, que serve como de huma bomba maior; he -preciso tambem, que o diametro deste tubo seja proporcionado ao tamanho -da fornalha; eu naõ envestiguei sobre estas proporções, porque ellas naõ -pertencem ao official: este se deve conformar com as ordens do Chymico, -que varia isto, conforme as operações, que pretende fazer. - -275 Ha outras mais aberturas, tanto no zimborio, como no corpo da -fornalha, que se abrem, ou se fechaõ para augmentar, ou diminuir o calor, -conforme se quer, e levallo mais para huma parte da fornalha, do que para -outra; para isto se deixaõ estes buracos abertos, ou se fechaõ, quando -se julga a proposito, com batoques feitos mesmo de barro: a isto chamaõ -registros. - -276 Devem-se fazer muito grossas as paredes das fornalhas, para que naõ -escape o calor para o laboratorio, onde incommoda ao artista, e ao mesmo -tempo falta para operaçaõ. - -277 Eu disse que os mestres de fogareiros faziaõ fornalhas quadradas, -e dei por exemplo as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_; -ellas tem hum cinzeiro _a_, que tem huma porta, por cima da qual está -o laboratorio _b_, e huma abertura que naõ se communica dentro da -fornalha, mas sim huma especie de forno, feito de barro de cadinhos -delgado, chamado _moufles_, ou receptaculo; delle fallarei, quando -tratar dos cadinhos: este laboratorio está sustido por grades de ferro, -que atravessaõ o interior da fornalha, e de todas as partes cercado por -carvões ardentes; no _moufle_, ou receptaculo he que se põe os cadinhos -para fazer as experiencias dos metaes, das peças esmaltadas, e dos -cadinhos para certas operações. A fornalha he cuberta por hum zimborio -quadrado, em cima do qual está huma grande abertura, que se póde tapar -com hum testo, ou se lhe põe hum tubo, quando se quer que o fogo tenha -huma grande actividade. Por meio deste receptaculo, se podem expôr a hum -grande calor as materias, sem receberem alguma impressaõ de fumaça, nem -mesmo vapores de carvaõ. - -278 A _fig. 16_. _C_, representa huma fornalha de fusaõ, na qual se -accende o fogo com hum folle; e por isso he que naõ tem grade no cinzeiro -_a_, nem abertura por baixo na parte _a_, _d_, nem tubo em cima para -fazer maior corrente, de ar na fornalha; o folle faz as vezes desta -corrente de ar. - -279 A parte _aa_, _aa_, _B_, he huma peça de barro, que fórma a parte -debaixo do cinzeiro, onde se póde notar huma abertura _b_, a qual vai ter -ao tubo do folle, e o vento sahe pela abertura _c_; o corpo da fornalha -_dd_, se põe sobre o fundo _aa_. He preciso notar no interior desta -fornalha huma sahida de barro _ee_, que circula ao redor da fornalha; -esta se destina para suster a parte _ff_, que fórma a parte baixa do -fogaõ na altura _dd_; porém tem nos angulos quatro aberturas _gg_, pelas -quaes o vento do folle entra no corpo da fornalha, que he ao mesmo tempo -fogaõ, e laboratorio, e aviva o fogo em todas as partes desta repartiçaõ, -e em toda a circunferencia do cadinho, que está posto no meio do fundo -_ff_, como se vê indicado nos pontos _dd_. Deste modo fica rodeado de hum -calor muito vivo, sem receber immediatamente o vento do folle, que sendo -frio, o refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar. A cuberta, ou testo -_C_, só se põe quando se tira o cadinho, para apagar o fogo, e fazer -esfriar a fornalha devagar. Esta fornalha chamada de fusaõ se vê, que he -muito bem ideada, a que se segue naõ carece de folles. - -280 Tambem se póde fazer uso de huma fornalha da invençaõ de Mr. Maquer, -que produz hum calor muito forte, e vitrifica quasi todas as substancias -que nella se põe. Esta fornalha naõ tem cinzeiro; põe-se sobre huma -trempe; por baixo tem huma grade, pela qual cahe a cinza, e dá huma -passagem livre ao ar. A porta só serve para facilmente se alimpar a -grade com o esborralhador, no cazo de precisar. A porta he destinada -para se ajustar por detraz hum cadinho para algumas operações, em que se -tomasse o fumo, ou vapores de carvaõ; a parte posterior está, como se vê, -inclinada para traz da fornalha: e a porta grande serve para metter o -carvaõ na fornalha; he preciso que ella seja grande, porque esta fornalha -consome muito carvaõ; esta parte faz vezes de zimborio, tem no meio hum -principio de tubo, para receber os outros tubos, que se ajustaõ huns por -cima dos outros, e quantos mais se mettem mais calor ha. Bem se vê que -esta fornalha deve ter muita actividade, porque se estabelece no interior -huma corrente do ar, estando o fundo todo aberto, e a columna de ar -quente se eleva muito. Finalmente põe-se no interior algumas grades de -ferro para sustentar o receptaculo, quando se põe hum cadinho, ou muitos, -e vasos que contém as materias de que se fazem as experiencias. - -281 A _fig. 17_, _est. II_, he hum pequeno forno, de digestaõ destinado -para entreter em hum calor brando certas substancias por hum tempo -consideravel. - -282 O que aqui se representa, he de folha de ferro, forrado por dentro -de barro de cadinhos; _a_ he o cinzeiro; _b_ lugar onde se põe o fogo; -_c_ he huma tapagem, que cobre todo o forno; _d_ he huma torre, onde se -põe huma provisaõ de carvaõ, por naõ ser preciso pollo a miudo pela porta -_e_: enche-se de area a capacidade _c_, _f_, e nesta area he que se põe -os crisoes, ou vasos, que contém as materias postas em digestaõ. Este -forno, ao contrario daquelles, de que acima fallei, he destinado para -entreter por muito tempo hum calor brando, e igual; para isto he preciso, -que a corrente de ar, que deve atravessar este forno, seja vagarosa, -e bem dirigida. He evidente, que fechando-se exactamente as portas -_g_, _e_, e os buracos, que estaõ no testo, ou cuberta _h_, da torre -_d_, o fogo se apagaria, e que, abrindo-se estes buracos, o carvaõ se -consumiria com presteza, e produziria muito calor. E assim para obter hum -meio conveniente, se devem abrir alguns dos buracos, que estaõ nas portas -_g_, _e_, e algumas das que estaõ na cuberta da torre _h_: por meio disto -o carvaõ, que se pôs na torre _d_, naõ se accende, mas cahe pouco a pouco -na parte _b_, a medida que se vai gastando o que ahi está; e quando a -torre he grande, o fogo se entretem por muito tempo no forno, sem ser -preciso haver com elle algum cuidado. - -283 Eu podia trazer hum maior numero de fornos, ou fogareiros, que fazem -estes oleiros; porém alguns exemplos bastaraõ para fazer comprehender seu -modo de trabalhar. - -284 Todas as fornalhas portateis, ou fogareiros saõ feitas á maõ com -argilla, misturada com o pó dos vasos de manteiga, como fica dito. - -285 Com hum compasso se risca em huma meza a largura, que a fornalha -deve ter no fundo; depois o oleiro tendo posto sobre a meza hum bocado -de cinza fina, para que o barro senaõ pegue, estende, como fazem os -pasteleiros, huma pasta de barro redonda, e a põe sobre o traço que fez -o compasso; este he o fundo da fornalha; depois com este mesmo barro faz -outra pasta, que põe em roda sobre a pasta de barro, que fórma o fundo, -tendo cuidado de os comprimir bem com os dedos, e dar-lhe mais grossura, -do que devem ter as paredes da fornalha, naõ só porque o barro encolhe, -mas tambem, porque batendo-o, diminue a grossura. Ajunta outros rolos -de barro huns sobre outros, e tem o cuidado de os comprimir, e unir -bem com os dedos para vir a fazer tudo hum só corpo, naõ ficando vacuo -interposto entre as camadas de barro, porque o ar contido neste vacuo -faria arrebentar o forno, quando se dilatasse pelo calor. Quando o forno -chega a altura, em que se deve pôr a grade, por cima do cinzeiro, fórma -huma pequena sahida ou borda com o mesmo barro para suster a grade. - -286 Pensaõ, e com razaõ, que os rolos de barro, comprimidos com os -dedos deixaõ desigualdades. Depois que o forno tem chegado a huma certa -altura, o official passa o gume da maõ, de cima a baixo, e ao través, e -deste modo o une, e torna igual. Esta operaçaõ une a obra, e destroe as -desigualdades, e a faz compacta, tirando-lhe os pequenos vacuos, que -teriaõ ficado. Continua por diante a pôr os rolos de barro para levantar -o forno, e formar a parte, que se chama fornalha, ou o fogaõ; depois -o laboratorio até o lugar, em que se deve pôr o zimborio, e de vez em -quando pule a obra, como já fica dito. - -287 Sabe-se muito bem, que os fornos saõ mais largos por cima do que -por baixo. O habito dos bons forneiros he, o que os obriga a observar -este methodo regularmente, vindo a dar ás paredes dos fornos a devida -grossura; fazem-lhes varios contornos muito regulares, e para tudo isto -naõ carecem de regua, nem compasso, he só com a vista, e nem tem outros -instrumentos, senaõ as maõs, e o instrumento de bater o barro em pasta. - -288 Querendo-se formar pequenas chaminés para dar sahida ao vapor do -fogo, se fazem no corpo do forno buracos, que se tapaõ com o mesmo barro -disposto na figura conveniente a maõ, ou em molde, e segura-se quasi -como as azas na louça. Os lugares, em que se péga, para mudar o forno de -hum lugar para outro, e as sahidas, ou crescimento de barro, que se faz -por baixo das portas, se começaõ, quando se fórma o corpo do forno, e -se aperfeiçoaõ, quando se acaba de bater. Feitos assim os fornos, como -se acaba de dizer, e aperfeiçoada a superficie com os dedos se põe a -enxugar, e depois se acaba; para isto se bate com huma taboasinha por -fóra, e mesmo por dentro, quando o diametro o permitte; abrem-se as -portas com huma faca molhada, finalmente em quanto o barro está ainda -mole, e ductil, se aperfeiçoaõ todas as partes do forno; e os habeis -obreiros os fazem com tanta perfeiçaõ, como se fossem feitos em moldes, -ou em roda. - -289 Fazem-se á parte batoques para os registros, e portas para fechar as -aberturas; escolhem-se em hum numero que ha de differentes tamanhos, as -peças, que servem: isto he facil; porque, como se fazem de cantos, ou -quadradas, servem nas aberturas, que se fizeraõ no forno. - -290 Os fornos grandes se fazem de muitas peças. O cinzeiro _a_, a -fornalha _b_, e o laboratorio _c_ saõ formados da differentes peças, -que se ajustaõ humas sobre outras com encaixes. Como estas peças devem -ser todas iguaes por medida, para ajustarem humas sobre as outras, os -oleiros logo que fazem o cinzeiro as medem exactamente o seu diametro -por cima com hum compasso, e riscaõ esta medida em huma meza, e em cima -formaõ a peça _c_, que deve ajustar por cima; deste modo o barro encolhe -com igualdade, e as peças se ajustaõ bem, depois do barro ter tomado -consistencia se aparaõ, e aperfeiçoaõ os encaixes, e se põe as peças -humas sobre outras, e se batem com a taboinha, de sorte que o forno -parece ser de huma peça só. - -291 Depois de começado hum forno, se precisa acabar sem parar; porque o -barro humido naõ se liga com o barro secco, e este já teria encolhido; -e por isso, sendo preciso parar com a obra, se deve cubrir com pannos -molhados por naõ seccar. - -292 Quando se acaba o forno, se devem fazer em roda, e em differentes -alturas rasgos fundos, para se passar hum fio de arame grosso, que abrace -toda a circunferencia do forno, em cada hum destes rasgos; porque isto -ajuda muito a conservar os fornos. - -293 A abobada, que se deve pôr sobre o forno como já disse, tambem se -faz a maõ e sem moldes, ajustando rolos de barro mais finos, do que -os do corpo do forno, huns sobre os outros; começa-se por hum traço -de compasso que mostra a largura de cima do forno, aonde se deve pôr -a abobada; e para o barro se poder suster toma-se de algum, que se -amassasse mais duro; e em geral o barro, em que trabalhaõ os forneiros, -he mais duro, do que o dos outros oleiros. - -294 Algumas vezes, em quanto o barro naõ está ainda muito duro, com -moldes lhe imprimem varias molduras para adorno dos fornos. - -295 Os fornos de cadinhos se trabalhaõ do mesmo modo que este, de que -acabo de fallar, tudo he a maõ; e sem usarem de regua nem compasso, lhe -daõ huma figura muito regular: só o cadinho deve ser trabalhado por -differente modo: delles fallarei, quando tratar dos cadinhos. - -296 Fazem tubos, para descarregar a fumaça, com o mesmo barro dos fornos, -e os formaõ com hum cilindro de páo, que he mais grosso em huma ponta do -que em outra para poder-se tirar o molde, depois do tubo feito, e para o -barro senaõ pegar ao páo, esfregaõ em cinza muito fina. Assim que o barro -do tubo ficou alguma cousa duro, batem-no com a taboinha para alizallo, e -fazello mais compacto. - -297 Os oleiros fazem os cadinhos na roda, e os forneiros as fazem a maõ -em huma especie de torno de páo, que elles chamaõ molde, _c d_, _fig. -22_, _est. I_. - -298 Suposto que disse que os oleiros de Picardia faziaõ bons cadinhos -com o seu barro de greda, toda via arrebentaõ no fogo, se os esquentaõ -precipitadamente; porém se os esquentaõ aos poucos resistem a hum fogo -violento sem se desfigurarem, e resistem a acçaõ dos saes, e metaes -derretidos.[25] - -299 O barro de Gournaes em Normandia he muito bom; elle sopporta hum -fogo muito grande sem se desfigurar; mas tem o defeito de conter em si -muita quantidade de pequenas pyrites, e fragmentos de mina de ferro. -Eu disse, que tinha chegado a remediar ao menos em partes, estas -faltas, dissolvendo-o em muita agua, e deixando precipitar o que era -mais pezado, e mais grosseiro, para me servir do barro fino, que se -precipitava depois. - -300 Para fazer os vasos das fabricas de vidros, em que se tem o vidro -derretido, tres semanas sem interrupçaõ, se escolhe da boa argilla, a -mais pura, que se possa achar; liga-se com esta mesma argilla bem cozida, -reduzida a pó. Esta liga se faz em differentes doses, segundo a argilla -he mais, ou menos macia e ductil, e mais disposta a fechar-se, sendo -cozida; de sorte que certas argillas cruas naõ podem soffrer senaõ partes -iguaes de argilla cozida, e outras muito macias podem soffrer cinco, e -seis partes de argilla cozida em quatro partes da crua. - -301 Ha fabricas de vidros, que fazem os seus grandes cadinhos, a que -elles chamaõ potes, com rolos de barro, como os nossos forneiros, outros -os fazem em moldes. - -302 Os forneiros de París fazem seus cadinhos com argilla cinzenta de -Gentilly; elles a escolhem, e alimpaõ com mais cuidado, do que para os -fornos; depois a ligaõ com pouco mais de outro tanto de barro cozido, que -passaõ por hum crivo hum pouco mais fino, do que para os fornos. Depois -de terem preparado o barro o estendem pouco a pouco sobre hum molde de -páo _c_ _est. I_, _fig. 22_, que tem a figura que deve ter o interior do -cadinho, tendo-o esfregado com area fina, para que o barro senaõ pegue; -começaõ pelo fundo do cadinho, cobrem o molde com huma camada de barro, -que tem tres, ou quatro linhas de grosso, e estendem-na pouco a pouco com -pequenos golpes; e isto fazem com muita destreza, e regularidade. Estes -cadinhos saõ bons para muitas operações, ainda que naõ podem supportar -hum fogo muito grande, nem ter saes em fusaõ, como fazem os cadinhos de -greda, e os de Allemanha. - -303 Do modo seguinte os tenho feito para as pequenas experiencias -de mina. Dissolvi a argilla de Gentilly em muita agua, e deixei -precipitar os corpos mais pezados; fiz depois seccar a argilla pura, -que se precipitou em ultimo lugar; depois a pizei, e passei por huma -peneira fina. Com estas preparações separei da argilla todos os corpos -estranhos, a excepçaõ só das substancias, que estavaõ muito soltas, e em -particulas minimas: liguei esta argilla com o pó dos vasos de manteiga -passados por peneira fina, e formei os cadinhos em hum molde de cobre -comprimindo-os, do modo que se faz o forno dos pitos. Estes cadinhos eraõ -bons; com tudo naõ podiaõ soffrer hum fogo grande, e me achei melhor -com a argilla branca, de que se fazem os pitos em Normandia; pois esta -argilla commummente he mais izenta de substancias estranhas, do que ás -argillas de côres. Digo commummente, porque ha argillas brancas, que saõ -mui fusiveis, e carregadas de partes metallicas; e por isso o mais seguro -he experimentallas antes de fazer uso dellas; visto que se pode dizer -em geral, que he preciso escolher huma argilla, que naõ seja fusivel, e -sobre tudo, que naõ tenha mistura de pyrites, de substancias metallicas, -nem de area vitrificavel; porque os saes, ou substancias metallicas, -que se põe nestes cadinhos vitrificaõ estas substancias estranhas ao -barro, e os cadinhos ou rachaõ, ou furaõ. Havendo huma argilla pura, -e refractaria, que dá ductilidade a pasta, se precisa, como já fica -dito, ligalla com algum pó de tijollo, para impedir á argilla, de se -encolher, e rachar ao cozer. He preciso, que estes pós de tijollos sejaõ -refractarios: por isto nas fabricas de vidros se servem da argilla, que -elles mesmos fizeraõ cozer; e para os cadinhos pequenos bastaõ os pitos -bem cozidos, e feitos em pó. Os forneiros fazem uso do pó dos vasos de -manteiga de Normandia: desgraçadamente sua argilla naõ he tal, como se -poderia desejar. Elles o sabem; e para fazer seus cadinhos melhores, -misturaõ muito pó de greda com a argilla; porém entaõ naõ fica muito -compacto o barro dos cadinhos, e deixa passar pelos poros as materias, -que tem em fusaõ, quando estaõ muito fluidas. Os cadinhos de greda naõ -tem este defeito; e assim he preciso observar huma justa proporçaõ nestas -ligas; porque, pondo-se muita argilla crua, he bem difficil de impedir o -racharem os cadinhos ao seccar, ou ao cozer; e pondo-se muito pó, ficaõ -os cadinhos com pouca firmeza, e naõ podem suster o pezo dos metaes, e -tendo os poros muito abertos, o metal, e sobre tudo os saes, os penetraõ: -por isso dizem alguns, que he preciso misturar-lhe hum bocado de area -vitrificavel. Mr. de Reaumur, por exemplo, se achou bem em fazer cadinhos -com partes iguaes de greda, area, e barro de pitos. - -304 As ligas seguintes saõ exageradas por alguns; mas eu nunca as -experimentei. - -305 Duas partes de argilla boa, pura, e bem secca, duas partes de pó de -vasos de greda, huma parte de area; alguns lhe ajuntaõ hum bocado de -limalha de ferro, e agua salgada. - -306 Outro: seis partes de argilla secca, duas partes de _caput mortuum_ -de agua forte, duas partes de pó de vasos de greda, huma parte de -escorias de ferro, e huma de vidro muido, e hum bocado de cal desfeita ao -ar. - -307 Outro: partes iguaes de argilla secca, de amianto, talco espurio, ou -terra de gelo, ou mica. - -308 Fazem-se cadinhos em figura de copos; algumas vezes se lhe faz hum -pequeno aperto por cima, formando bico: tambem se fazem triangulares, -para vasarem o metal com mais commodo. Finalmente fazem-se para ensaiar -minas de metaes preciosos; estes terminaõ em ponta _d_, para que o metal -derretido se ajunte melhor no fundo do cadinho; entaõ se lhe faz hum -pequeno pé para que elles se sustenhaõ melhor dentro, e fora do forno. - -309 A respeito das capsulas, e cabeças só differem dos cadinhos por sua -figura, assim como certos cadinhos com pé, a que os Francezes chamaõ -_tutes_. - -310 As mangas, ou receptaculos para os fornos de crisoes se fazem com o -mesmo barro dos cadinhos; estende-se o barro bem delgado sobre huma meza, -assim como fazem os pasteleiros; corta-se hum pedaço desta pasta para -fazer a parte de cima do receptaculo; põe-se este pedaço sobre hum molde -_a_, para lhe fazer tomar huma curvatura conveniente, e servindo-se do -mesmo molde se lhe ajusta por baixo o fundo, e por detraz outro pedaço -para fechar huma das pontas do receptaculo, estando bem justos estes -differentes pedaços, se deixa endurecer hum pouco o barro; entaõ se -acaba de fazer esta peça: com huma faca molhada se lhe abrem os pequenos -buracos dos lados, e estaõ promptos para se cozerem. - -311 Para fazer huma retorta o forneiro faz o corpo sobre hum torno, ou -molde de páo, como os cadinhos, e o bico em outro molde, que he huma -cavilha hum pouco curva; com a maõ aperfeiçoa a parte mais larga do bico; -e acaba soldando, e reunindo as duas peças. - - -_Do modo de cozer os fornos, e cadinhos._ - -312 Tem havido Chymicos, que pretenderaõ naõ ser preciso cozer os fornos; -porque elles servindo, viriaõ a adquirir o gráo de cozimento, que lhe -convem: eu naõ sou desta opiniaõ. Os fornos, que só saõ seccos sem se -cozerem, correm o risco de quebrar quando se faz preciso mudallos de -lugar; além disto, qualquer bocado de agua que lhe caia os humedece, e os -faz em pedaços. Por isso he preciso cozer os fornos, e os cadinhos; mas -os forneiros só daõ hum meio cozimento. - -313 O forno, de que se servem os louceiros, he quadrado, e rente com o -soalho; faz-se de tijollo a abobada: quasi em pé e meio do terreno se -põe huma grade de ferro; mette-se a obra no forno, entrando por baixo da -abobada pela porta. Quando ha obras pequenas, que podem caber por entre -as grades, interpõe-se grades miudas por entre as principaes. A grade de -ferro se põe quasi pé e meio por cima do soalho do forno. - -314 Estando o forno cheio de differentes obras, levanta-se sobre a grade -de ferro huma tapagem de tijollos. Sendo feita esta tapagem sobre a -grade, fica por baixo hum espaço, pelo qual se mette a lenha necessaria -para cozer: a tapagem só chega até tocar a abobada; fica hum espaço por -onde sahe a fumaça, que naõ tem outra sahida; ella he recebida pelo tubo -da chaminé. - -315 Accende-se de manhã hum pequeno fogo para esquentar, ou fazer seccar -as peças; augmenta-se pouco a pouco, e a obra em hum dia fica cozida -tendo gasto pouco menos de hum carro de lenha; prefere-se a lenha bem -secca para fazer maior chama. Deixa-se esfriar a obra hum dia, ou dous, -depois se tira, e esta em termos, de se entregar aos Chymicos. - -316 Fazem-se pratos de barro para cadinhos, que saõ de varios tamanhos: -servem ordinariamente de apoio, quando se mettem debaixo dos cadinhos, e -das retortas: algumas vezes se servem delles para cubrir os cadinhos. - - -_Aqui apresento tambem as seguintes notas que Mr. Dymares da Academia das -Sciencias me communicou, quando já estava quasi impressa esta arte do -louceiro._ - -317 Em Sauxillanges, e Marzac, duas pequenas cidades de Avergne, a -primeira vizinha de Issoire, e a segunda distante de Ambert, quasi duas -leguas, e meia, se fazem cadinhos para uso dos ourives; sua figura he -conica; onde os ha de todos os tamanhos; a sua principal venda se faz em -Leaõ. - -318 Os louceiros de Sauxillanges tiraõ seu barro perto de Monge no -dominio de Moye; elles naõ cavaõ mais de tres, até quatro pés de fundo; -he huma especie de Kaolin misturada com mica, e area grossa de quartz -em grande proporçaõ. Lava-se este barro para lhe tirar a area; dilue-se -o Kaolin na agua, que vai carregada delle, e a area de quartz fica no -fundo dos vasos. O Kaolin se deposita depois nas celhas, aonde se deixa -assentar todo o que a agua traz em si. - -319 O barro de que se usa em Marzac he da mesma natureza, e se trabalha -do mesmo modo, que o de Sauxillanges; tira-se trinta, ou quarenta pés de -fundo, perto da povoaçaõ de Espinasse, dependente da freguezia de Marzac. -Algumas vezes se mistura o Kaolin com o outro barro argiloso, que se tira -em Champetrieres, e Castellet perto de Ambert. Desta mistura resultaõ -cadinhos mais proprios para resistir ao fogo, que os primeiros, e nestas -vistas he que se cuida muito em cozellos. O barro de Sauxillanges, e de -Marzac empregados sem mistura ficaõ bem brancos depois de cozidos. - -320 Em S. Junien pequena cidade de Limousin tambem se fazem semelhantes -cadinhos destinados para os mesmos vasos, e de hum barro da mesma -natureza; tira-se de Malaise vizinha da grande estrada de Limoge para -S. Junien, e tambem duas leguas distante desta ultima cidade. Este -barro he a base de toda a louça, que se faz em S. Junien para outros -usos. Supposto que he muito branco, se coze muito mal, e he sujeito a -arrebentar ao fogo. - -321 Ha tambem muitas fabricas de louça nas cidades de Duris, de -Gandalounia, e Chavagnai em Limousin. O barro, que os oleiros chamaõ -neste paiz _toupiniers_, he huma especie de Kaolin, pouco ductil; mas -o que merece attençaõ he a composiçaõ do seu verniz. Mas para o fazer -se servem da mina do chumbo de Glanges, que elles calcinaõ, e lhe -ajuntaõ por fundentes quartz branco da area, de que se servem os nossos -louceiros. Para reduzir este quartz a pó com facilidade, o põe vermelho -ao fogo, e neste estado o lançaõ em agua fria; a subita passagem do -quente ao frio reduz a pó esta pedra: depois a misturaõ com cal de -chumbo, e livigaõ estas duas substancias juntas, em huma mó. - -FIM. - - - - -NOTAS - - -[1] Alguns chamaõ argilla a huma terra vermelha, gorda, muito cheia de -arêa, de que usaõ para os fornos, e por isso em Pariz a chamaõ barro -de fornos: este barro vem unido com arêa ferruginosa; porém na verdade -argilla, e barro, saõ dous termos synonimos. - -[2] Estes trabalhos consistem em differentes lavagens que naõ podem -servir para as louças communs por serem muito baratas. - -[3] Ha poucas argillas puras, pela maior parte trazem diversas uniões. -Destinguem-se muitas especies 1º. argilla branca em Alemanha _Weisser -thon_. Esta he a mais pura, e mais propria para as obras de louça, tambem -serve para pitos, de que fallarei em outra parte. Conserva a côr branca -no fogo, vitrifica-se com difficuldade, endurece a ponto de dar faiscas -de fogo. 2º. A argilla cinzenta em Alemanha _Schwarzgrauer thon_ menos -pura que a primeira, e por isso naõ he taõ propria para a louça fina, -e só serve para a grossa. 3º. A argilla negra, que toma esta côr dos -mineraes, de que está carregada, bem lavada e preparada póde servir para -louça. 4º. A argilla azulada he a mais commum de todas, della se fazem -tijollos, e telha. 5º. A argilla vermelha escura he a mais fussivel de -todas; serve para cobrir as outras obras inferiores. Ella tem muita -impureza, e por isso se passa por peneira antes de a pôr em obra. 6º. -A argilla amarella tirando a preto, he magra misturada com arêa; serve -para pratos grossos, e tigéllas, e outras obras que naõ vaõ ao fogo: -os Alemães a chamaõ _Schulf_. 7º. Argilla esponjoza, que se naõ póde -trabalhar na roda, he preciso trabalha-la quasi secca. 8º. A argilla -cinzenta de fazer bilhas como as que vem de Normandia. - -[4] Para ter conhecimento exacto da natureza destes barros, se deve -consultar Vallerio, M. Pott, e o Diccionario de Chymica de Maquer. - -[5] A mica he huma especie de pedra folhada, brilhante refractaria: ha -de muitas especies. Apparecem arêas, com mica, ou malacaxeta, cheias de -muitas partes brilhantes. As partes brilhantes da mica se asemelhaõ ao -talco. - -[6] Os pyritis saõ mineraes que se assemelhaõ a pedaços de mina por seu -pezo, e côr resplandecente; e com effeito contém alguma especie metálica; -porém raras vezes, e em pouca quantidade; e tem muito enxofre, e arsenico. - -[7] Terras calcareas saõ aquellas, que expostas a hum sufficiente gráo de -fogo adquirem todos os caracteres de cal viva. - -[8] A arêa para os tijollos deve ser mais grossa, e sem mistura de terra; -a que se lança na agua, e naõ a tolda he a melhor; a dos montes he -preferivel á dos rios; se esta estiver carregada de pedra. - -[9] _Molde_: os louceiros chamaõ assim hum caixilho de madeira, em que -elles formaõ os ladrilhos, e tambem, cavados em gesso, que servem para -fazer com o barro differentes ornatos. 38 _est. I_, _fig. 5_. - -[10] Comparando todos os fornos, conhecidos em França, Suissa, Alemanha, -e Hollanda os mais engenhosos para a economia da lenha, e perfeiçaõ de -cozer saõ os de Suecia descriptos por Wynblad em huma Memoria que vem no -Tom. IV. da Arte de telheiro desta obra pag. 112 §. 485. - -[11] _Lingueta_, he a separaçaõ dos ladrilhos, que termina alguns fornos -de louça, por baixo da qual estaõ as aberturas, chamadas _creneaux_ 49, -52, 130. - -[12] _Crenaux_, he a abertura, que se faz no forno, ou para dar huma -communicaçaõ ao ar quente, ou para escapar a fumaça 50, 134. - -[13] _Fausse-tire_, he a separaçaõ da abertura, que formaõ os ladrilhos, -separando a fornalha do corpo do forno. 50. - -[14] Entende-se aqui por tempêra aquelle pequeno calor, que se chega á -louça 36 horas primeiro a esquentalla só para depois lhe chegar fogo -forte. - -[15] _Chasse_; grande fogo de chama, que se faz no fim do cozimento com -feiches de lenha, ou madeira rachada. 53. - -[16] _Gâchis_ especie de argamassa, ou mistura de huma porçaõ de gesso em -pó com argamassa de cal, e arêa. 62. - -[17] Com ladrilhos de duas côres só assentados com differentes posições, -se podem formar muitas vistas agradaveis, o Author assevéra que se podem -fazer até 86 variedades. - -[18] _Voguer_ amassar á maõ. - -[19] O forno dos oleiros Alemães he muito simples; he quadrilongo, de hum -comprimento proporcionado a força de cada fabrica, da altura de hum homem -pouco mais, ou menos. A parte superior tem a figura de hum ovo, ou he -chata, e baixa compõe-se de terra gorda, e de palha picada para conservar -o calor. O interior, se faz de tijolos, e com abobada, as paredes de huma -parte, e outra devem ser fortes. - -[20] Os oleiros Alemães para as suas obras communs se servem só do -lithargirio, a que chamaõ _Glatte_, _Silberglatte_. Piza-se, passa-se -por huma peneira, e liviga-se sobre huma pedra. Para que o lithargirio -naõ corra muito, se lhe ajunta huma igual quantidade de area branca, e -fina. Esta mistura se põe liquida ao dezejo de cada hum; lança-se huma -quantidade sufficiente no vaso, que se quer envernizar, e que já está -cozido, move-se e se despeja aquella quantidade, que sobra, e já naõ -pega. Passado hum quarto de hora, já se póde levar o vaso para cozer o -verniz. O vaso com o verniz deve estar no forno 16. ou 18. horas. Se o -verniz, naõ foi bem livigado, fica desigual, e cheio de graõs. - -[21] Querendo-se que o esmalte seja branco, misturaõ-se cinco partes de -estanho com vinte de chumbo; fazem-se calcinar em hum vaso de barro no -forno de calcinaçaõ. A fornalha se deve esquentar algumas horas antes -de se lançar nella o chumbo, e a chama deve sempre dar sobre o chumbo, -para isto deve ser o forno de reverbéro. Deve-se mover o metal com -huma espatula de ferro até elle se reduzir em cinzas. Entaõ se lança o -estanho, e se move do mesmo modo, até que este tambem se converta em -cinzas. Augmenta-se o fogo, até que as cinzas estejaõ abrazadas; entaõ se -diminue o fogo, e se deixaõ esfriar, movendo-as sempre com a espatula. -Misturaõ-se estas cinzas com igual porçaõ de sal, e de area; põe-se tudo -em hum vaso descoberto, e se põe nesta segunda calcinaçaõ todo o sal se -evapora, a materia contida no vaso se abate, e o peso diminue; porém o -sal só se ajunta para facilitar a fusaõ. Piza-se a materia calcinada -em hum gral de ferro, e se liviga cuidadozamente em huma pedra, com -huma quantidade de agua sufficiente, para a tornar de huma consistencia -liquida. Cahindo sobre o verniz qualquer bocado de gordura, por pouca -que seja, desmancha todo o trabalho, porque os metaes tornaõ a tomar sua -primeira fórma, e o verniz desaparece de cima dos vasos, em que se tinha -applicado. O pó, cahindo sobre o verniz, faz no esmalte huns pequenos -buracos. - -[22] O _quartz_, he huma pedra dura, côr de leite, meia transparente, e -vitrificavel, que se acha em muitos lugares, especialmente nas minas. -Ainda que o _quartz_ se vitrifica, quando se mistura com huma argilla -vitrificavel, ou chumbo; com tudo por inadvertencia se inculcou esta -substancia; he melhor substituir o spath, fusivel que se vitrifica mais -facilmente. - -[23] Frittar, he calcinar a materia do vidro, para separar della todos os -corpos gordos, que dariaõ alguma côr suja ao vidro. - -[24] Naõ ha aqui país algum, em que se naõ faça louça para o uso dos -seus habitantes: ellas saõ mais, ou menos perfeitas segundo a qualidade -dos barros; mas todas se fazem sobre os principios já explicados. Hum -observador attento podera contribuir a aperfeiçoar esta arte no lugar, -que habita, applicando-se a examinar as differentes qualidades de barro, -suas composições, e suas misturas. - -[25] As operações Chimicas naõ se podem fazer, senaõ em cadinhos cozidos -para poderem resistir a acçaõ dos dissolventes Chimicos, e a hum calor -muito forte. Os de argilla boa tem o inconveniente de quebrar, passando -do quente para o frio. Foi preciso procurar-se misturas, que os fizessem -soffrer estas variações, e ao mesmo tempo conter os metaes derretidos por -hum grande espaço. Os melhores cadinhos vem de Hessa. Veja-se Arte de -Porcelana. - -Diz Mr. Pott que estes cadinhos se fazem com huma boa argilla -refractaria, misturada com duas partes de area de mediana grossura, -separando-se a mais fina por hum crivo. Esta mistura emmagrece o barro, -e naõ o deixa encolher, nem rachar, nem fazer-se muito compacto, sendo -cozido; A area deve ser de huma grossura mediana, sendo fina, os cadinhos -se quebraõ. Mr. Pott diz mais que os cadinhos destinados para fundiçaõ -de vidros, naõ devem levar area grossa, nem calháos, ou outras materias -semelhantes, que saõ sujeitas a derreter-se. Para evitar isto, se ajunta -a argilla o pó da mesma argilla cozida, e pizada grossa; a mistura se faz -com partes iguaes, ou duas desta argilla cozida; duas, e meia, e ainda -tres, e huma só da argilla nova, quanto melhor he esta tanta maior porçaõ -admittem da outra cozida; e deste modo se fazem os grandes cadinhos para -as fabricas de vidros. Mr. Pott fez hum grande numero de experiencias -a este respeito: elle misturou a argilla com as caes metallicas, ossos -calcinados, pedras calcares, talco, amianto, pedra pomes, esmeril, e -muitos outros, e de todas estas experiencias naõ lhe resultou hum cadinho -sem defeito em todas as vistas. Com tudo parece, que se poderiaõ fazer -cadinhos melhores do que todos os conhecidos. Para isto se precisaria -ter huma boa argilla bem refractaria, isenta de materias piritosas, e -ainda de barros ferruginosos; este deveria ser lavado com cuidado para -separar-lhe a area, e depois misturallo com duas, ou tres partes de -argilla cozida, e pizada grosseiramente. Os cadinhos formados em moldes -deveriaõ ser cozidos em hum fogo muito forte. - - - - -EXPLICAÇAÕ DAS FIGURAS. - -_Estampa I._ - - -_Figura 1._ _B_, tonel, em que está a agua, para cortar o barro, e o -diluir, a estampa _A_, o barro _C_, que se corta, o instrumento _D_, que -serve para cortar este barro. - -_Figura 2._ _D_, instrumento, com que se corta o barro. - -_Figura 3._ _H_, molde para fazer tijolos de seis faces _G_, _fig. 5_. - -_Figura 4._ meza para moldar, _ab_, sustida pelos pés _ee_, _g_, -_urquain_, que he huma pedra dura, sobre que se põem o molde _dd_, _e_, -vaso cheio de agua, _f_, plano, _k_, obras postas humas sobre as outras, -_h_, barro amassado para encher o molde, _i_, monte de area para se -espalhar sobre o _urquain_. - -_Figura 5._ _na vinheta_, monte de barro prestes para se trabalhar. - -_Figura 6._ cutelo curvo para cercear os tijolos. - -_Figuras 7. 8. e 9._ representaõ o forno, de que se servem quasi todos os -oleiros, maiormente para cozer os tijolos. - -_Figura 7._ representa o plano do forno ao nivel do terreno. _A_, entrada -da fornalha. _AB_, onde se faz o fogo, como se mostra pelas mesmas letras -_fig. 8_. _K_, _I_, separações dos ladrilhos, entre os quaes ha espaços -vasios, para que o ar quente se communique ao forno. Esta separaçaõ, -que divide a fornalha do interior do forno, se chama _la-fausse-tire_. -_F_, hum vaõ, ou buraco da porta, chamado _tetin_. Por este lugar se -entra no forno para lhe arranjar a louça: e em estando cheio, se fecha -este _tetin_ com hum muro de tijolos, a que chamaõ _la Languete_, em -baixo desta, ha duas portas, ou aberturas _L_, _fig. 8_. que se chama -_creneaux_, ou, como dizem os Louceiros _carneaux_: por estas aberturas -passa a fumaça para o tubo do chaminé _CD_, _fig. 8_. que representa a -vista do forno pela longitude. _AB_, he a fornalha: _KL_, assoalho do -forno. Vê-se acima do _K_, _la fausse-tire_. _A_, _E_, _M_, he a abobada -do forno; em _LM_, está a _lingueta_, abaixo de _C_, os _creneaux_, e -_CD_, tubo da chaminé para descarga da fumaça. Vê-se em _a_, os tijolos -da fornalha postos em carreira, para sustentar os tijolos, de que se -enche o forno. - -_Figura 9._ he huma vista do mesmo forno transversal pela linha _GH_, da -_fig. 7_. por baixo em _AB_, estaõ tijolos de assoalhar, ou vasilhas de -commodidades, sobre que se arranjaõ as louças, com que se enche o forno. - -_Figura 10._ _T_, caldeirinha quadrada, feita a maõ, e sobre a meza de -aperfeiçoar. - -_Figura 11._ alguidar, ou gamela commum de louça. - -_Figura 12._ especie de fogareiro chamado _toupine_. - -_Figura 13._ escalfador. - -_Figura 14._ pequena cassarola. - -_Figura 15._ roda dos oleiros vista em golpe. - -_Figura 16._ roda dos Oleiros, vista de perfil. - -_Fig. 17._ roda dos Oleiros, vista em plano _aa_, meio da roda _ff_, -arvore da roda, que víra em huma peça de madeira, que se acha acima -de _g_, a qual se conserva segura pela cruz _hh_, e as prisões _ii_, -acima do meio _aa_, está o prato _bb_, em que anda a obra _cc_, que se -trabalha. Os raios da roda se assignalaõ em _dd_, e as peças da roda -volteadas em _ee_, _K_, as taboletas sobre que se põem as louças _n_, -que se querem trabalhar sustentadas tambem como o assento _l_, que he -inclinado pelos montantes _pp_. Avista-se pela parte de dentro as peças -entalhadas, que servem de assento ao trabalhador. - -_Figura 18._ _A_, trabalhador que faz hum vaso na roda de fazer louça -fina. - -_Figura 19._ hum mealheiro, que tambem bem chamaõ _cache-maille_. - -_Figura 20._ _A_, _B_, _C_, _D_, _E_, serve para fazer ver como se fazem -ao torno as vasilhas para as decentes commodidades, como estes potes se -ajustaõ huns com os outros pelas bocas, como se fazem os potes de duas -bocas _E_, _C_. - -_Figura 21._ _A_, modo de fazer hum vaso com o calibre. O vaso está -firme, o calibre he que víra. - -_Figura 22._ _d_, cadinho com o molde _c_, sobre que o fazem. - - -_Estampa II._ - -_Figura 1._ 7. _tournassin_, ou _tournassir_, serve para aperfeiçoar o -fundo dos potes, que se fizeraõ ao torno. Este instrumento he de ferro, -que se tem de differentes tamanhos, e de diversas fórmas. - -_Figura 2._ vaso de greda de Picardia, mais delgado, do que os jarros -cobre-se por fóra do vime para se preservar. Os que receiaõ da agua, -que se guardou em vasos de metal, mandaõ pôr em baixo hum registo, ou -chave, de que se servem, como de huma fonte de cobre. Querendo-se que -este fique proprio para clarificar a agua, põem-se-lhe placas de estanho, -que descançaõ em aneis salientes pela parte de dentro, que o Oleiro -faz em lugares assignalados pelas linhas de pontuaçaõ _a_, e _b_. He -ainda melhor substituir as placas de estanho com testos de greda quasi -semelhantes a de _M_, proporcionando o seu tamanho, ao diametro interior -do vaso, e se põem area entre estes dous testos. - -_Figura 3._ vaso grande de barro, chamado _pounes_, do qual se servem -para salgar as carnes, para fazer as pequenas lexivias, e para conservar, -nos jardins, agua, que se destina para os regamentos. Faz-se em hum torno -_EFG_, que se assemelha a huma lanterna de moinho. _IKL_, he o seu eixo -que se firma na terra, e _u_, faz andar á roda brandamente a lanterna -_EF_, e a proporçaõ que vai virando se fórma o vaso, accrescentando -rolos de barro huns sobre outros, que se une com huma peça, chamada -_atelle_. - -_Figura 4._ _na vinheta_, obreiro, que imprime na roda hum movimento -circular com huma vara, ou páo _a_, chamado _tourneire_, este obreiro se -assenta no assento inclinado _l_, e põem os pés nos entalhes _m_. - -_Figura 5._ obreiro, que imprimindo muito movimento na sua roda, faz -entre as suas maõs hum jarro. - -_Figura 6._ garrafa, ou redoma de greda, cujo bojo se faz ao torno. - -_Figura 7._ louças, que se seccaõ arranjadas no recebedor. - -_Figura 8._ obreiro, que aperfeiçoa os potes na meza de os preparar. - -_Figura 9._ monte de barro preto para o trabalho. - -_Figura 10._ candieiro de barro, quasi totalmente feito ao torno. - -_Figura 11._ _G_, vista de hum moinho, para moer o verniz. - -_Figura 12._ _H_, mó do mesmo moinho. - -_Figura 13._ _E_, tijolo de barro para cadinhos, volteado para ficarem -fixas as fornalhas. - -_Figura 14._ _G_, caixilho para moldar tijolos, o qual se faz de -differentes tamanhos, e diversas figuras, como quadrados, e curvos. - -_Figura 15._ fornete de cadinhos. - -_Figura 16._ fornete de fusaõ, em que se deve animar o fogo com folles. - -_Figura 17._ pequeno _athanor_, ou fornete de digestaõ. Tem em _d_, hum -reservatorio de carvaõ, que faz poder-se conservar por muito tempo hum -fogo brando, sem se precisar lançar-lhe continuamente o carvaõ. - - -_Estampa III._ - -Nesta Estampa se representa hum forno, de que usaõ muitos Oleiros, mui -parecido com os fornos das louças finas. - -_Figura 1._ mostra o exterior do forno. _A_, a boca da fornalha: deve-se -descer por hum fosso para se lhe introduzir a lenha. _LM_, o _tetin_, ou -abertura, pela qual se entra por baixo na camara para se pôrem os potes. -A parede que fecha esta abertura, estando a camara cheia, naõ se dilata -até o alto da abertura, por este lugar sahe a fumaça recebida no cabaz, -e tubo. _N_, se sobe para a camara superior pela escada _P_, e a fumaça -escapa pelas aberturas _K_. O _tetin_, para pôr a obra nesta camara, está -no alto da escada _P_. - -_Figura 3._ he a fornalha, em que se mette a lenha: sua boca he em _A_. - - - - -TABOA - -_Das Materias, e Explicaçaõ dos termos proprios á Arte do Louceiro._ - - - A. - - Abertura, que se dirige ao forno para o encher, a qual se fecha - com huma parede de ladrilhos, antes de se introduzir o fogo. - _Pag._ 51. 130. - - Acido vitriolico, se acha em muitas argillas §. 6. - - Agua grossa, agua em que se mistura huma pouca de argilla, serve - para pegar o verniz em pó nas obras de louça 144. - - Alabastro, sorte de gesso empregado em Inglaterra na louça 231. - - Alquifoux, mina donde se tira o chumbo, que he brilhante azulada - mui pezada quebradiça, e abundante de enxofar 141. - - Amassar a argilla 32. - - Ambert, Cidade da baixa Auvergne. - - Annel, _vid._ _Viret_. - - Aparas, obras que se naõ tem levado ao forno 31. - - Aperfeiçoar, concertar á maõ as obras que se fizeraõ ao torno, e - pôr-lhe azas, e pés. - - Apodrecer, _vid._ Invernar. - - Arcueil, Cidade de França 27. - - Area misturada com argilla 13. - Seu uso na louça 17. 32. - Fusivel, vitrificavel, e metalica 18. - Para fazer tijolos 25. - Serve para moldar 48. - - Argamassar, amassar o barro, quer seja simples, quer se componha - de muitas misturas juntas 4. - - Argilla, barro gordo compacto ductil, amolessendo-se em agua 2. - Ductibilidade da argilla 5. - Sua dureza depois de cozida 7. - Sua côr 11. - - Argilla para as louças de Inglaterra 227. - Para as louças brancas de Staffordshire 245. - - Assento, taboa inclinada, que faz parte do torno do Louceiro, sobre - que se assenta o trabalhador. - - Ateille, pedaço de madeira, ou de ferro, que tem huma certa figura, - e que se póde comparar com o que os pedreiros chamaõ calibre, para - fazer as molduras 75. 95. - - - B. - - Barro gordo _vid._ Argilla. - - Barro de ladrilhos 12. - - Barro de telhas _Ibid._ - - Barro de tijolos _Ibid._ - - Barro de cadinhos _Ibid._ - - Barro de pitos _Ibid._ - - Barro, bom barro 70. - - Barro branco 196. - - Batoques _vid._ Registros. - - Beauvais, Cidade Episcopal da Picardia. - - Bonnet les-Oules (Saint) Parroquial do Fores. - - - C. - - Cadinho _vid._ Crizões. - - Calcaria (pedra) pedra, que pela calcinaçaõ naõ se vitrifica - totalmente, mas se converte em cal 13. - - Calibre _vid._ Ateille. - - Candieiro de barro 122. - - Cassarolas, vasos de barro 118. - - Castellet, Villa de Auvergne 319. - - Champetieres, Villa de Auvergne 319. - - Chumbo (mina de) dá-se impropriamente este nome a huma _cal de - Chumbo_, que pela calcinaçaõ toma huma côr vermelha, chamada - chumbo vermelho, zarcaõ, ou minium. - - Coadores, vaso de barro 120. - - Cortar o barro, he dividillo em talhadas, mas delgadas que forem - possiveis 30. - - Curto (barro) assim chamaõ os Oleiros a hum barro, que naõ sendo - bem ductil, naõ se póde estender muito sem se quebrar. - - Cutelo _vid._ Faca. - - Creneaux, aberturas que se fazem no fornete, quer para dar huma - communicaçaõ de ar quente, quer para sahir a fumaça 50. 134. - - Crisoes, ou cadinhos (barro de) 185. - Cadinhos de Picardia 298. - Seu cozimento 312. - - Crivo para passar o barro 71. - - Cozimento da louça 24. - - - D. - - Devonshire, Provincia Meridional de Inglaterra, onde ha muito bons - Pórtos frequentadissimos. Exeter he a sua Capital. - - Digestaõ (fornete de) 281. - - - E. - - Ebauchoir, pequeno pedaço de madeira cortada de diversos modos, de - que se servem os Escultores, para fazerem seu molde, ou em barro, - ou em cera 127. - - Escalfador, sorte de vaso 94. - - Espinasse, Villa de Auvergne dependente da Paroquia de Marzac. - - Esquentador 125. - - Eutrope (Saint) Villa de Angomes. - - - F. - - Faca de dous cabos para cortar o barro 30. - - Faca curva para aparar os ladrilhos 45. _est. I._ _fig. 6._ - - Fargeau (Saint) Cidade de França no Gatinnes. - - Fausse tire, separaçaõ que formaõ os tijolos, apartando o fogaõ do - corpo do forno 50. - - Fio de lataõ, instrumento para cortar o barro: he huma ponta de fio - de arame guarnecida de hum punho em cada extremidade: faz-se a - arbitrio, e se apropría conforme a posiçaõ que lhe querem dar 35. - - Fogareiros, ou fornalhas portateis, quadradas 274. - - Forno de cozer os tijolos 49. _est. I._ _fig. 7. 8. 9._ - - Forno do Louceiro 129. - Outro forno 132. _est. III._ _fig. 1. 2. 3._ - De Prá em Lionnes 163. - De Franche ville 179. - De Beauvais 187. - De S. Fargeau 206. - Do Condado de Northumberland, em Inglaterra 235. - Do Condado de Stafford 256. - Fornete de vento de Mr. Macquer 280. - Forno dos Oleiros 313. - - Fornalha, lugar do forno, em que se põem a lenha, ou carvaõ 286. - - Fornalha de fusaõ 274. _est. II._ _fig. 16._ - De calcinaçaõ para o esmalte 93. - - Fornistas, trabalhadores que fazem fornetes, e cadinhos para os - Chymicos 262. - - Franche-Ville, Aldêa no Leonnes, em que se faz louça 171. - - Fritar, calcinar a materia do vidro 100. - - Fusaõ (fornalha de) fornalha principalmente destinada para a fusaõ - dos metaes, em que se accende o fogo com folles 279. - - - G. - - Gauchis, especie de argamassa, a que se mistura huma porçaõ de gesso - em pó, com argamassa de cal, e de area, ou bitume 62. - - Galmier (Saint) pequena Cidade do Forez. - - Gaubino, assim chamaõ no Lionnes a huma argilla cinzenta, muito pura, - da qual se faz huma louça fechadissima, e pouco propria para o - fogo 176. - - Gentilles, pequena Villa da Ilha de França. - - Gesso _vid._ Alabastro. - - Gimble, dá-se em alguns lugares este nome ao prato do torno que - sustem a obra 75. - - Gournay, Cidade de Normandia no paiz de Bray, celebre pelas suas - manteigas, de que se faz huma grande venda em París. - - Greda (louça de) saõ as que se aproximaõ mais a Porçolana 181. - - Greda de Normandia 23. 182. - de Bretanha 23. - de Beauvais 23. - de S. Fargeau 23. 194. - de Flandres 23. - - Gesso 231. - - - H. - - Huma amassadura, o que se amassa de huma vez com os pés 32. - - - I. - - Inglaterra (louça de) 218. - Louça negra 240. - - Invernar, he deixar o barra extrahido da mina em hum fosso, ou em - montes ao ar, o que contribue para se alisar melhor 28. - - Isigny, Cidade grande na baixa Normandia, com hum pequeno Porto 21. - - Issoire, Cidade de França na baixa Auvergne 317. - - Jonc _vid._ _Viret_. - - Junien (Saint) pequena Villa da baixa Marcha. - - - K. - - Kaolin, he huma argilla branca, que ainda cozida, conserva a sua - alvura, a qual naõ he muito ductil, e frequentemente se acha - misturada de differentes substancias, como a mica, espato etc. 321. - - - L. - - Laboratorio assim se chama, o lugar do forno, em que se põem os - cadinhos cucurbitas, e as differentes substancias que se querem - pôr ao fogo 274. - - Ladrilhos, modo de os fazer 30. - Tijolos chamados ladrilhos 37. - Caraolar _Ibid._ - Triangulares, quadrangulares _Ibid._ - Oitogonos 39. - Hexagonos _Ibid._ - - Langueta, uniaõ de ladrilhos, que termina alguns fornos de louças, - em baixo desta estaõ as aberturas, chamadas _creneaux_ 49. 52. 130. - - Latier, ou Latter, escorias de ferro, que se desprendem nas fornalhas, - e serve aos Louceiros para envernizarem as suas obras 211. - - Latier, _en Laquet_, he esta escoria de ferro reduzida a pó. - - Lithargirio, ou chumbo rubro _vid._ Chumbo. - - Louça de S. Germain, Parroquia de Beauvois 183. - - - M. - - Masso de ferro, proprio para socar o barro 71. - - Malaise, Cidade no Lymoussin 320. - - Manganesia, mina de ferro pobre, e refractaria de hum azul denegrido - cheia de granitos 144. - - Marcassita _vid._ Manganesia. - - Marzac, Villa de Auvergne, onde se fabricaõ cadinhos para os - ourives 317. - - Meio, parte da roda do Louceiro de barro 75. - - Mealheiro, vaso de barro commum, inteiramente fechado só com huma - fenda por cima por onde se introduz dinheiro, e para o tirar se - precisa quebrar este vaso 88. - - Mica, especie de fragmentos talcosos, que se achaõ misturados com - pedra, ou area 13. - - Meza de moldar 41. _est. I._ _fig. 4._ - - Meza de madeira, em que se põem o barro amassado para se trabalhar - 71. _est. I._ _fig. 5._ - - Mina de chumbo _vid._ Chumbo. - - Minio _vid._ Chumbo. - - Montmoreau _vid._ S. Eutrope. - - Moufle, pequeno forno de barro cozido, que se põem nas fornalhas - quadradas _vid._ Fornalhas portateis 277. - - Molde, os Oleiros daõ este nome a hum caixilho de madeira, em que - elles formaõ os _creneaux_: tambem ha concavo de gesso, que serve - para formar com o barro differentes ornatos 38. _est. I._ _fig. - 5._ - - Moldes para fazer os cadinhos 297. - - Moldar os ladrilhos 37. - - Moldes empregados nas Fabricas de louças de Inglaterra 251. 254. - - Moinho para moer a pedra para as louças de Inglaterra 155. - - - N. - - Nibelle, pequena Villa de Gatinnes 25. - - Northumberland, Provincia de Inglaterra: louça deste París 219. - - - P. - - Panellas, grandes vasos de barro, mas commummente de greda 216. - - Pedra calcaria 43. - - Pitos 32. - - Plaina, peça de madeira para moldar as obras 41. - - Prá en Forez, Aldêa do Lionnes, em que se fabríca Porçolana 157. - - Prevalais, Parroquia de Bretanha 190. - - Pyrites, substancia mineral que contém pouco metal, e muito enxofre, - ou arsenico 13. - Má liga para a louça 16. - - - Q. - - Quartz, pedra dura côr de leite meia transparente, e vitrificavel 152. - - Qualidades da boa louça 19. - - - R. - - Regadores feitos de barro 123. - - Registros, aberturas feitas em differentes lugares do forno, que se - abrem, ou fechaõ com rolhas para diminuir, ou aumentar o fogo 275. - - Rodas empregadas na fabrica de louça 74. - Roda de ferro 75. _est. I._ _fig. 5._ - Roda de madeira _vid._ Forno. - - - S. - - Sal marinho, seu uso para as louças de Inglaterra 259. - - Savignier, pequena Cidade da Picardia 183. - - Sauxillanges, pequena Cidade de Auvergne, em que fazem crizoes para - os ourives 317. - - Serra, fio de lataõ, que serve de desprender as obras de cima do - prato _vid._ Fio de lataõ. - - Seccar as obras 44. - - Staffordshire, Provincia de Inglaterra, em que se fazem louças - brancas 244. - - - T. - - Taboa da roda 76. - - Talhas para ensaboar 89. - Para brazas 121. - - Tamiz para passar a pederneira 249. - - Terra calcaria 13. - Modo de a experimentar 14. 22. - - Tetin _vid._ Abertura. - - Toupiniers 321. - - Torno, roda de madeira, que se faz virar com o pé, para formar sobre - o prato as obras, que se querem fazer, como se faz na roda do - Louceiro 80. _est. I._ _fig. 18._ - - Torno Inglez 250. - - Tounassin, instrumento de ferro algum tanto cortante, a que se dá - differentes figuras; serve para trabalhar por baixo dos vasos, - que se despegaõ de cima dos pratos 11. - - Tempera, lançar a agua sobre o barro para o amollecer 30. - - Temperar, dar hum pequeno fogo as louças para acabar de seccar antes - de se dar o grande fogo para as cozer 54. - - Testos dos fogareiros, e escalfadores 94. - - Tutes, especie de cadinho com pé como o de hum vidro de beber agua 309. - - - V. - - Urquain, pedra dura compacta, ou taboaõ de madeira, sobre que se - põem molde, para formar as louças, e grandes tijolos 41. - - Vanvres, Parroquia, ou Freguezia da Ilha de França 70. - Do Condado de Stafford 252. - - Vasos de despejo, sorte de pote sem fundo em forma de tubo redondo, - mais largo de huma ponta do que da outra, serve para as decidas dos - lugares de recreio 92. _est. I._ _fig. 20._ Tambem se fazem de pedra - de roca. - - Vasos de Jardim 96. 126. - - Vasos para flores communs 91. _est. I._ _fig. 17._ - - Verniz, reboco de huma substancia vitrificada, de que se cobre a louça - de barro 18. 189. - Outro methodo de applicar o verniz 146. - De Prá em Lionnes 165. - De Franche-ville 180. - De S. Fargeau 212. - Do condado de Northumberland em Inglaterra 236. - - Virador, vara que serve para imprimir o movimento circular na roda - de ferro 79. _est. II._ _fig. 4._ - - Viret, ou virola sorte de anel de barro que forma salientes. - - Voguer, manear, e amassar o barro á maõ para lhe separar os corpos - estranhos, e alimpar mais perfeitamente 71. - - - Z. - - Zimmeren, Villa de Luxembourgo, onde se faz louça 191. - - - - -INDICE - -DOS ARTIGOS QUE SE CONTEM NESTA OBRA. - - - _Observações preliminares._ Pag. 3. - - _Artigo I. Do trabalho da louça, segundo o uso de Pariz._ 22. - - _Artigo II. Dos ladrilhos, e como se amassa o barro, com que - elles se fazem._ 23. - - _Como se moldaõ os ladrilhos._ 28. - - _Do forno, e do modo de se arranjar nelle os ladrilhos para - se cozerem._ 35. - - _Artigo III. Das obras dos ladrilhos._ 41. - - _Artigo IV. Modo de fazer os differentes vasos; e utensilios - domesticos com o mesmo barro, que serve para fazer os - ladrilhos._ 49. - - _Modo de fazer os vasos na roda._ 52. - - _Descripçaõ da roda de ferro._ _Ibid._ - - _Do torno, ou roda, que os Oleiros de obra grossa tomaráõ, - dos de obra fina._ 55. - - _Trabalho do Oleiro sobre a roda._ 58. - - _Como se podem formar obras no torno com hum calibre._ 65. - - _Como se fazem ao torno os vasos grandes de Jardim._ 66. - - _Vasos grandes de barro cozido._ 69. - - _Artigo V. Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na - meza para lhe pôr azas, e pés._ 74. - - _Artigo VI. De algumas que totalmente se fazem á maõ._ 80. - - _Artigo VII. Das obras, que se fazem com moldes._ 82. - - _Artigo VIII. Do modo de enfornar as obras de olaria, e - cozellas._ 84. - - _Artigo IX. Descripçaõ de outra especie de forno, que - usaõ os Oleiros dos arrabaldes de S. Antonio para cozer - suas obras._ 86. - - _Artigo X. Do verniz, ou vidrado que se põem na louça._ 90. - - _Primeiro Methodo._ 92. - - _Sobre as louças de Lionnes._ 101. - - _Da louça de Prá, em Forez._ 102. - - _Louça de Franche ville, no Lionnes._ 105. - - _Artigo XI. Das louças, que se chamaõ de greda._ 108. - - _Das louças de S. Fargeau._ 116. - - _Modo de procurar para as louças huma côr negra, que de algum - modo supre o verniz, ou vidrado._ 123. - - _Louça de Inglaterra._ 124. - - _Artigo XII. Do Oleiro de Fogareiros._ 144. - - _Notas da Academia Real das Sciencias._ 173. - - _Explicaçaõ das Figuras._ 176. - - - - -ERRATAS - -Nota do transcritor: Corrigido; e alguns erros adicionais também foram -corrigidos. - - - _Pag._ _Lin._ _Erros_ _Emendas_ - - 4 5 conisderar considerar - - 8 8 deffere differe - - 12 11 se ttrara se tirar a - - _Ibid._ 9 percente persente - - _Ibid._ 19 pricipitadas precipitadas - - 15 17 he saõ - - _Ibid._ 18 queima-se queimaõ-se - - 16 21 que que que - - 17 20 e precisa se precisa - - _Ibid._ 33 quando misturando quando se misturaõ - - 18 1 a seu o seu - - _Ibid._ 12 a hum de hum - - 19 13 commuus communs - - 20 7 salgadeiras saleiros - - _Ibid._ 27 as utensis os utensis - - 22 4 avou vou - - 22 11 seu o o seu - - 26 18 acabada acaba - - 31 23 tilheiros telheiros - - 34 4 sahe sahem - - _Ibid._ 29 defferentes differentes - - _Ibid._ 4 sahe sahem - - 43 27 elle estes - - 47 6 as portas os postos - - _Ibid._ 13 as levanta os levanta - - 48 13 e untaõ untaõ - - 52 10 _Fig. 15._ _Fig. 5._ - - 53 26 e cambas cambas - - 54 17 caimba camba - - 57 16 perde ella _adde_ o seu movimento - - 60 7 mealheilro mealheiro - - _Ibid._ 30 o qual a qual - - 61 2 insaboar ensaboar - - _Ibid._ 19 esses estas - - 64 2 _tab._ _est._ - - 68 4 se po-chegar se pode chegar - - _Ibid._ 5 e se de guraapertando e se segura apertando - - 71 11 destinadas destinados - - 74 3 torno; que torno; pois o que - - 75 13 indireitar endireitar - - 76 17 o pegar apegar - - 77 22 so poem se poem - - 80 18 moido, e passado moida, e passada - - 95 18 quer querem - - 102 10 Feroz Forez - - 103 19 do barro _adde_ escuro - - _Ibid._ 27 se estes amassaõ-se estes - - Onde se achar levigar, levigados, _lêa-se_ livigar, livigados. - - E onde invernizar, invernizadas, _lêa-se_ envernizar, envernizadas. - - 147 25 cenrada cenrrada - - 153 1 _fig._ _fig. 15._ - - 158 28 a une o une - - 159 14 fazem-lhe fazem-lhes - -[Illustration: _Louceiro de barro Simples._ _Est. I._] - -[Illustration: _Louceiro de barro Simples._ _Est. II_] - -[Illustration: _Louceiro de barro Simples._ _Est. III._] - - - - - -End of Project Gutenberg's Arte de louceiro, by José Ferreira da Silva - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DE LOUCEIRO *** - -***** This file should be named 62115-0.txt or 62115-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/1/1/62115/ - -Produced by Júlio Reis and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by The -Internet Archive/Canadian Libraries) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll -have to check the laws of the country where you are located before using -this ebook. - - - -Title: Arte de louceiro - Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas - -Author: José Ferreira da Silva - -Release Date: May 13, 2020 [EBook #62115] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DE LOUCEIRO *** - - - - -Produced by Júlio Reis and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by The -Internet Archive/Canadian Libraries) - - - - - - -</pre> - - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p> - -<p class="titlepage larger">ARTE DE LOUCEIRO</p> - -<p class="center">OU</p> - -<p class="center">TRATADO SOBRE O MODO DE FAZER<br /> -AS LOUÇAS DE BARRO MAIS<br /> -GROSSAS,</p> - -<p class="center">TRADUZIDO DO FRANCEZ<br /> -<span class="smaller">POR ORDEM<br /> -DE</span><br /> -SUA ALTEZA REAL,<br /> -O PRINCIPE REGENTE,<br /> -NOSSO SENHOR,<br /> -<span class="smaller">POR</span><br /> -JOSE FERREIRA DA SILVA</p> - -<div class="figcenter titlepage" style="width: 150px;"> -<img src="images/tp.jpg" width="150" height="120" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">LISBOA<br /> -<span class="smaller">NA IMPRESSAÕ REGIA.<br /> -ANNO DE 1804.</span></p> - -<p class="center"><i>Por Ordem Superior.</i></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse"><i>Ars dux certior.</i></div> -<div class="verse right">Cic.</div> -</div> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p> - -<h1><span class="smcap">ARTE de LOUCEIRO<br /> -DE BARRO SIMPLES.</span></h1> - -<h2 id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇAÕ.</h2> - -<p id="section1">1 A Arte do Louceiro consiste em -fazer vasilhas, e outras obras de barro, -que se embebe em agua para o amolecer, e -se amassa e se dá depois differentes figuras; -e se fazem cozer para lhe dar -solidez, conforme esta definiçaõ, o que -faz pitos, o louceiro, e os que fazem -porcelana saõ oleiros; porém fazem obras -mais perfeitas do que estes de que vamos -a fallar. Assim entende-se por oleiros, -os que fazem obras communs, e que -por isso se podem dar baratas.</p> - -<p id="section2">2 A argilla<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a>, que se chama tambem<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span> -terra barrenta, faz a base das terras de -que usaõ os oleiros, e he a proposito dar -os caracteres que a fazem particular destinguindo -das outras terras. Para isto a -vou considerar em seu estado de pureza, -ainda que he difficil, ou talvez impossivel -obtella sem mistura de differentes -substancias estranhas, que mudando -sua natureza; humas vezes a tornaõ -mais propria para as obras de oleiro, -e outras obrigaraõ os oleiros a trabalhos -consideraveis para purificar o barro, sem -o que seria inutil.<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a></p> - -<p id="section3">3 A argilla<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> ou barro puro he formada -de partes muito finas, que se unem<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span> -muito humas ás outras; porque estando -amontuadas em massa, e unidas humas -ás outras, cheguando a hum grande -gráo de secura, endurecem, de sorte -que hum torraõ de argilla exactamente -amassado, e bem secco, contrahe huma -dureza de pedras: por causa das suas partes -serem muito finas, neste estado he -susceptivel de tomar certo polimento: -he macia, e saponacea ao toque; e por isso -he que se chama a esta <i>terra gorda</i>. Ella -atrahe a humidade, o que a faz pegar a -lingua se acaso a toca; tambem se une -bem ás substancias gordas; e por isso -serve para tirar certas nodoas.<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p> - -<p id="section4">4 Depois de ter cortado, ou quebrado -em molleculas de mediocre tamanho, se -deixaõ ficar na agua, de que ella se carrega -em abundancia; ella se incha á proporçaõ -que se carrega da agua e se póde -desfazer huma pequena quantidade em -muita agua. Mas quando se lhe naõ lança -bastante para a reduzir a huma especie -de lama, e que se amassa como adiante -explicaremos, he o que se chama <i>argamassar</i>, -ella se faz glutinosa, e fórma -huma massa muito ductivel, que se póde -estender sem a quebrar; de sorte, que -hum habil oleiro chega a fazella tomar -differentes figuras; e quando se usa della -em massa alguma cousa mais dura, se póde -fazer hum grande vaso, com pouca grossura -sem este se desfazer pelo pezo. -Quando a argilla está assim bem amassada, -ou argamassada, de sorte que faça -huma massa firme, naõ he penetravel á -agua, em quanto naõ sécca, por isso se -usa della nas argamaças dos tanques, ou -pias de conservar agua. Por isto he que -os bancos de argilla que estaõ debaixo da -terra formaõ muitas vezes tanques sobterraneos, -dos quaes nascem fontes de -agua, algumas vezes assás boa: porque -a argilla, que naõ está exposta ao ar, -ao sol, ou ao vento, conserva sua humidade,<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span> -ductibilidade, e a propriedade de -naõ ser penetravel a agua.</p> - -<p id="section5">5 Os oleiros se aproveitaõ da ductibilidade -da argilla para a trabalharem na -roda, e moldes; mas as argillas em seccando, -quanto mais puras saõ, mais encolhem, -isto he diminuem muito do seu -volume, á medida que a agua se evapora: -e neste estado estaõ sujeitas a rachar-se -e seriaõ inuteis aos oleiros, se elles naõ -tivessem meios de lhe empedir o encolher -tanto, como adiante diremos.</p> - -<p id="section6">6 A argilla, pura tal, como nós ao -presente a consideramos ou detodo, naõ -he atacada pelos acidos, ou muito pouco: -digo muito pouco porque em muitas -argillas se pode descobrir o acido vitriolico. -Esta argilla resiste muito á acçaõ -do fogo sem se derreter, e por conseguinte -cozendo se adquire huma dureza igual á -dos seixos, a ponto de que certas argillas -bem cozidas chegaõ a deitar fogo sendo -feridas com aço. Esta propriedade parece -indicar, que hum fogo muito activo -as faz tomar hum principio de defusaõ -pois ainda que ella seccando indurece, -com tudo naõ chega ao gráo que lhe dá -o fogo; a argilla, ou barro, nunca muda -de natureza por mais secca que fique; -conserva a propriedade de ser penetrada<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span> -pela agua, e tornar-se em huma massa -ductivel; pelo contrario cozendo-se muda -totalmente de natureza: já entaõ naõ he -argilla, he huma argamassa muito dura, -ou huma especie de area impenetravel, -á agua e que naõ póde adquirir alguma -ductibilidade com este fluido.</p> - -<p id="section7">7 Nisto a argilla differe muito das -boas argamassas de cal, e arêa, que endurecem, -seccando, mas expondo-se a huma -grande calcinaçaõ a perdem. A dureza -da argilla cozida he muito differente, -das pedras calcares, ainda as mais duras, -como o marmore, porque estas pedras -sendo expostas a hum grande fogo, e reduzidas -a cal perdem sua dureza, que parece -depender em parte da humidade, -pois que ellas perdem a sua firmeza, logo -que pela calcinaçaõ, se lhe dissipou toda -a humidade, que parece ser a que fórma -a uniaõ das partes; e quando fazendo -a argamassa de cal e arêa se lhe lança a -humidade, ella pelo tempo toma huma -dureza bem consideravel: pelo contrario -a dureza da boa argilla se augmenta á -medida, que se faz passar por hum grande -fogo. A grande violencia do fogo a -racha, defórma, e a reduz a huma especie -de vidro imperfeito, mas que conserva -sua dureza. Eis aqui o que me faz<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span> -pensar, que a dureza da argilla cozida -consiste, em que suas partes adquirem -hum principio da fusaõ ou brandura pela -grande acçaõ do fogo, e isto as une humas -ás outras, brandura, que se póde -dizer, que as argillas saõ refractarias -pella vitrificaçaõ, ou fusaõ perfeita.</p> - -<p id="section8">8 Estas observações por mais sucintas, -que sejaõ bastaõ para caracterizar a argilla -pura; mas como se naõ encontra -sem estar unida ás substancias estranhas, -he mais importante para a arte de que -tratamos, fallar das argillas alliadas ou -com mistura, e taes como ellas se achaõ -na terra, pois desta especie he que se -usa nas olarias. As obras desta se vendem -muito baratas, e por isso se naõ póde -ir buscar longe de casa, como se faz para -as obras preciosas, e porcelanas; he preciso -que para ellas se use de argillas que -estejaõ perto de casa. Felizmente a argilla -se acha em muitos lugares em maior, -ou menor profundeza da terra, se acaso -se dá attençaõ ás substancias com que se -combina. Ha della muitas especies differentes: -acha-se humas vezes em grandes -montes, e outras em bancos que tem -pouca espessura relativamente á sua extensaõ; -em fim ella se destribue algumas -vezes pela terra por veias, que se devem<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span> -seguir; a especie de argilla naõ he sempre -a mesma na continuaçaõ da mesma -veia, ou quando se tira da terra mais superficial, -ou mais profunda.</p> - -<p id="section9">9 A respeito de suas côres ao sahir -da terra, he branca, cinzenta, asulada, -tirando a côr da pedra asul <i>Ardosia</i>, -verde, amarella, vermelha, e de côr de -marmore.</p> - -<p id="section10">10 Estas differentes côres de argillas -só nos podem dar indicios pouco certos -da qualidade das louças que della se fará: -com tudo naõ se devem desprezar; -porque estes indicios nos podem guiar -a fazer experiencias para certificar-nos da -sua boa, ou má qualidade. Disso fallaremos -nós adiante.</p> - -<p id="section11">11 Em geral se preferem as argillas -brancas, ou escuras ás amarellas, vermelhas -ou verdes, e algumas vezes ás que tem -mistura de differentes côres. Estas côres -dependem de huma tintura metálica, sulfurea, -ou bituminosa; por que, como dissemos, -no modo de fazer pitos, ha argillas -que augmentaõ á alvura quando -se cozem, porque a substancia apparente -que alterava a sua côr era destructivel -pelo fogo, e as outras cozendo-se ficaõ -vermelhas, amarellas, escuras, ou quasi -negras. Parece que estas côres fixas saõ<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span> -causadas pelas differentes substancias metálicas, -que se dissolvem com os acidos -especialmente o vitriolico: porque he -preciso que estas substancias colorantes -se reduzaõ em particulas muito subtis, -pois estas argillas de differentes côres -parecem muito macias, e impalpaveis -entre os dedos, e homogenias quando as -cortaõ. As substancias tenues de que acabamos -de fallar, raras vezes alteraõ os -barros communs, de que ao presente fallamos. -Digo raras vezes, porque algumas -vezes as podem tornar fussiveis: o que em -alguns casos he grande defeito. Outras -vezes lançaõ vapores que fazem mal ao -verniz, ou vidrado com que se cobrem: -disto fallarei em outra occasiaõ.</p> - -<p id="section12">12 Segundo a qualidade dos barros, -e uso que delles se faz chamaõ-se barro -de tijollos, de ladrilhos, de panellas, -de cadinhos, e pitos.</p> - -<p id="section13">13 Muitas vezes os oleiros se servem -de argillas, que tem substancias heterogeneas -mais sensiveis, como a <i>mica</i>,<a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span> -<i>pyrites</i><a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6"></a><a href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> terras calcareas<a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7"></a><a href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> arêas de -differentes naturezas, e fragmentos de -diversas qualidades da mina.</p> - -<p id="section14">14 Naõ fallo aqui destas substancias, -que se achaõ em grandes pedaços, e -que os oleiros apanhando-as, quando -amassaõ o barro, as lançaõ fóra; mas das -que se achaõ em molleculas assás grossas, -e que se persente nos dedos, e se -vê quando se corta hum pedaço de barro, -com tudo insufficientes para se tirar a maõ -todas estas materias de qualquer natureza, -que sejaõ, prejudicaõ mais, ou -menos a louça, quando seu volume he -hum um pouco consideravel, porque naõ se -podem fazer obras asseadas, e nem a superficie -fica lisa. He verdade que desfazendo -esta argilla em muita agua, e passando-a -para outro vazo depois de precipitadas -as substancias mais pezadas, se -tiraõ argillas quasi isentas de partes heterogeneas, -e que serveriaõ para obras mais -delicadas; mas esta preparaçaõ do barro<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span> -que se póde empregar em obras de louça -fina requer muitas manobras, quando se -está fazendo louça grossa; e assim dos -barros areentos só se usa para fazer tijollos -ou telha; para a louça se escolhem -veias de barro mais puro, e isento -de huma mistura grosseira, ou de natureza, -que altere a bondade da louça. -Vem a proposito entrar em algumas individuações -a este respeito, porque principalmente -da natureza destas misturas resulta -a differente qualidade dos barros; -e o oleiro que se estabelece em hum lugar, -deve procurar todos os meios de conhecer -a natureza do barro, de que se -deve servir, sem se arriscar a perder muitas -fornadas, e arruinar-se.</p> - -<p id="section15">15 Deve-se esfregar entre os dedos -para ver se he macio ao toque, e se he -ligado, e ductivel. E encontrando-se corpos -estranhos, se devem alimpar, e pôr de -parte para conhecer de que natureza saõ. -Naõ nos devemos contentar só com isto; -por que se a lavage, de que acima fallamos, -para as obras communs precisa -muita despeza, deve-se sempre desfazer -em agua hum bocado de argilla, ao -menos, para conhecer-lhe precisamente a -natureza, e a quantidade de substancias -pouco mais ou menos, que estaõ misturadas<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span> -com ella: porque como as substancias -de differentes generos tem pezos -especificos, que lhe saõ particulares, vasando -muitas vezes a agua em que se -diluio a argilla v. g. passados cinco minutos, -depois passados dez, e depois -quinze se chegaráõ a separar as substancias, -que segundo o seu pezo, se precipitarem -mais depressa, ou mais de vagar, -e assim se poderáõ examinar separadamente -estes differentes precipitados para -se poderem conhecer melhor por experiencias -particulares; porque destas differentes -ligas dependem, em grande parte -as qualidades das argillas, e das louças, -que dellas se fazem. He verdade, que -apezar da lavagem ellas conservaõ partes -muito finas, e muito divididas, que lhe -daõ côr, como acima dissemos; porém -estas partes heterogeneas muito finas -saõ pouco nocivas as louças communs. -Por exemplo, se segundo diz Mr. Pott, a -argilla sendo misturada com substancias -de gesso se torna muito dura no fogo; -diz tambem que os barros vitrificaveis, -misturando-se com a argilla firme ficaõ -muito duros cozendo-se; mas he hum -grande defeito nas argillas o terem liga -de pedras calcareas em molleculas de maior -tamanho, que se calcinaõ ao cozer; e<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span> -depois quando sentem humidade, inchaõ, -e quebraõ a obra, se estaõ no meio do -barro, e se ficaõ na superficie, a agua as -dissolve, e fica hum buraco em seu lugar: -todavia eu digo quando ellas saõ -maiores; porque em certos casos as substancias -calcareas reduzidas a pó subtil, e -misturadas em pequena quantidade com -substancias vitrificaveis, podem contribuir -para a bondade da louça. He de experiencia -que algumas vezes duas substancias, -que separadas naõ saõ vitrificaveis, -unidas se vitrificaõ; e com razaõ -mais forte se vitrificaráõ as particulas da -cal combinando-se com substancias vitrificaveis.</p> - -<p id="section16">16 As pyrites tambem saõ huma qualidade -de liga muito má; queimaõ-se ao -cozer, e se dissipaõ inteiramente, e fica -hum buraco em seu lugar, ou quando -menos, faz huma mancha negra, similhante -a escorea de ferro, e com difficuldade -pega o verniz, ou vidrado sobre -ella. Os oleiros dizem que o mesmo vapor -sulphureo, que della, se exhalla a -queimar, offende ao verniz das louças -que estaõ visinhas.</p> - -<p id="section17">17 A arêa he necessaria para impedir -ás argillas muito puras o encolherem, -e fazellas seccar e coser sem se quebrarem,<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span> -para isto saõ proprias as arêas refractarias, -que com difficuldade derretem. -Os vasos que dellas se fazem, soffrem hum -grande fogo, e naõ saõ sujeitos a quebrarem -pelas alternativas de frio, e calor: -mas he preciso hum grande fogo para -as cozer, sem isto naõ fica o barro muito -duravel. Póde-se com tudo fazer dellas -boa louça, e mesmo cadinhos; porém -saõ permeaveis a todas as substancias, -que se tornaõ muito fluidas pela fusaõ, -como os saes, o chumbo; porque ficando -com o tecido pouco tapado, naõ as póde -conter. Podia-se fazer o seu tecido mais -tapado ajuntando lhe hum bocado de -barro vitrificavel. Com tudo se estas arêas -fossem em muito grande quantidade, diminuiriaõ -totalmente a ductibilidade da -argilla, e seria muito difficil o trabalhalla -particularmente na roda. He verdade, -que pella lavagem, se poderia tirar -huma parte da arêa, que se achasse em -muita abundancia no barro; mas os oleiros -naõ recorrem a este meio, que precisa -muita manobra: elles preferem misturar -as argillas, que chamaõ muito magras, -com outras, que sendo muito gordas, -fazem encolher muito a louça, e -quebra-se ao seccar. Deste modo com a -mistura pouco dispendiosa corrigem os<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span> -defeitos dos dous barros, hum por muito -gordo, e outro por muito magro.</p> - -<p id="section18">18 As areias fusiveis, vitrificaveis, -e metállicas tornaõ a argilla fusivel, e -a louça naõ póde supportar entaõ hum -fogo consideravel sem ficar com defeito; -por isso quasi todas as obras destas argillas -fusiveis, saõ cozidas ligeiramente, -seu interior he grosseiro, taõ poroso, que -a agua trespassa os vasos sobre tudo, -quando para impedir o encolher, se lhe -ajunta muita arêa; e neste estado do -barro só se podem fazer delle vasos de -Jardins, alguidares, e fogareiros, e para -os utensis communs do uso se precisa -cubrillos de hum esmalte, que se chama -verniz.</p> - -<p id="section19">19 A economia obriga a fazer estas -louças que se trabalhaõ com facilidade, -encolhem pouco, e com hum fogo mediocre -se cozem, e tem a vantagem -de se poderem expôr ao fogo sem se -quebrarem. Estas louças muito communs -se fazem em grande quantidade, porque se -daõ baratas; mas tem pouca solidez, a -menor queda as quebra, e por isso saõ -pouco duraveis.</p> - -<p id="section20">20 Quando se misturaõ estas areias vitrificaveis -com as argillas, ellas se chegaõ -a cozer bem, sem as obras ficarem<span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span> -com defeitos, o seu tecido muitas vezes -fica bem fechado; ellas se naõ dissolvem -pelos acidos, e conservaõ os metaes, e -saes derretidos; porém, como se chegaõ -muito á natureza do vidro, os vasos -naõ podem soffrer a alternativa do frio, -e do calor; e para que se naõ quebrem -he preciso esquentallos com muito cuidado.</p> - -<p id="section21">21 Os barros, de que se usa, para -fazer as louças, que chamaõ de grêda, -commumente tem este defeito; sendo de -hum tecido muito fechado, resistem á -fusaõ dos saes, e do vidro de chumbo: -porém he preciso muito cuidado, quando -se passaõ do frio para o calor. Para ellas -naõ terem este defeito, he preciso que -naõ fiquem taõ chegadas ao estado de -vidro. Ha algumas que saõ desta natureza, -e que se poderiaõ ter por huma porcelana -grosseira. Eu supponho os barros de -que se fazem tem a liga de areia refractaria, -e de arêa vitrificavel de donde -resulta a vitrificaçaõ. Naõ tenho tido -commodo de examinar estes barros com -bem cuidado para dar por certo, o que -acabo de dizer: o que posso certificar he -que tendo dissolvido em muita agua o -barro de Gournay, de que se fazem os -potes para a manteiga de Isigny, e tendo-a<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span> -vasado depois de se ter precipitado -huma parte da arêa, e pyrites, que elle -continha, desta argilla privada de huma -parte da sua areia, mandei fazer cadinhos, -que se podiaõ pôr vermelhos ao -fogo, e depois lançallos em agua fria sem -se quebrarem. Se eu tivesse á maõ estes -barros, estou persuadido, que chegaria -a fazer vasos, que naõ teriaõ algum mericimento -pela belleza, mas seriaõ taõ bons -como a porcelana, e teriaõ todas as -perfeições, que podem haver nas louças -communs.</p> - -<p id="section22">22 Os oleiros naõ entraõ em exames -taõ circunstanciados: se achaõ argilla -macia ao tacto julgaõ bem della amassaõ-na, -e trabalhaõ: se a achaõ muito magra, -e pouco ductil, ajuntaõ-lhe argilla -muito gorda: se vem que argilla diminue -muito de volume em secando, e que se -fende, emmagrecem-na ajuntando-lhe barro -areento, ou mesmo arêa em proporçaõ -que lhe permitta conservar sua ductibilidade, -e a fazem cozer; se ellas derretem, -ou ficaõ com defeito as peças no forno, -diminuem a actividade do fogo, e só as -empregaõ nos utensis communs do uso, que -cobrem de verniz. Se hum fogo ordinario -naõ basta para as cozer, ou dar-lhes toda -a dureza, de que saõ susceptiveis, ou vem<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span> -que podem supportar grande fogo sem defeito, -cozem-nas como greda. Se com -este grande fogo, alcançaõ que vaõ tomando -a natureza de vidro para poder resistir -ao fogo, fazem utensis, que naõ -devem servir no fogo; como botelhas, -potes para manteiga, saleiros, alguidares, -quartas, e potes para leiterias. -Para torna-las menos frageis ao fogo, ligaõ -as argillas muito fortes com barros já cozidos, -como potes de greda reduzidos a pó; -entaõ, sendo bem cozidos, podem ir ao fogo -os vasos ou peças, ainda que naõ haja -o cuidado de as esquentar primeiro; mas -os cadinhos para ensaios de metaes, ou -para saes derretidos, he preciso que -o barro naõ tenha substancia metálica, que -se derretesse e deixasse escapar o que -estivesse derretido no cadinho.</p> - -<p id="section23">23 Algumas vezes estas ligas vem feitas -por natureza, e os oleiros se servem -da argilla tal, qual a natureza lhas apresenta: -da qui vem a differença da louça -de diversas Provincias, como as gredas -escuras de Normandia, as da Bretanha, que -tiraõ sobre o azul, as de Beauvais, que saõ -amarelladas, tirando hum pouco a roxo, as -de S. Fargeau que saõ brancas, e finalmente -nas de Flandres, que mais que todas, -se chegaõ á natureza da porcelana.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p> - -<p id="section24">24 Do que acabamos de dizer, se vê -que hum oleiro, quando julga ter adquirido -os conhecimentos necessarios sobre -a natureza do barro, de que se deve servir, -naõ está ainda no ponto de poder -fazer indagações; porque há barros, que, -só podem admittir hum mediocre cozimento: -outros, que saõ os melhores, requerem -ser cosidos em hum grande fogo. -Para adquirir estes conhecimentos, o -oleiro deve fazer as primeiras fornadas -com muita attençaõ, e examinar o estado -das obras, para se conduzirem melhor -nas fornadas seguintes. Mas quando -o oleiro se estabelece em hum lugar, -aonde se costuma trabalhar em certos -barros, está dispensado de fazer as experiencias -de que acabamos de fallar, aproveitando-se -das que tem feito, os que usaõ -de trabalhar nelles.</p> - -<p id="section25">25 Nas bordas do bosque de Orleans, -ha hum lugar, que se chama <i>Nibelle</i>, onde -ha muitos oleiros, que fazem vasos -de huma argilla bem pura, que cozendo-se -fica preta, e naõ podem ir ao fogo. -Esta louça he de hum tecido muito fechado: -e assim para os utensis de cozinha -misturaõ hum barro branco, e magro -com esta argilla; mas a agua trespassaria -estas louças se naõ fossem envernizadas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p> - -<p id="section26">26 O trabalho dos oleiros he pouco -mais, ou menos, o mesmo em todas as -Provincias, onde se trabalha em barro. -E assim vou explicar com individuaçaõ -a pratica dos oleiros de París, e quando -houver occasiaõ farei notar em que elles -differem de outras partes.</p> - -<hr /> - -<h2 id="ARTIGO_I">ARTIGO I.<br /> -<span class="smaller"><i>Trabalho da louça, segundo o uso de París.</i></span></h2> - -<p id="section27">27 Os oleiros de París tiraõ o seu barro, -de <i>Gentillis</i>, ou <i>Areueil</i> os que o cavaõ, -seguindo as veias do barro bom, o tiraõ -em pedaços quasi cubicos, e vai para -casa dos oleiros em carros, como vem o -cascalho, ou pedras.</p> - -<p id="section28">28 Quando os oleiros o recebem, lançaõ-no -em covas, onde fica mais, ou -menos tempo para <i>invernar ou apodrecer</i>, -como se diz em outros lugares; de sorte, -que o barro, que foi cavado no Outono, -fica na cova todo o Inverno, e he tanto -mais facil de trabalhar, quanto mais tempo -está na cova. Em alguns lugares, os oleiros -deixaõ ao ar o seu barro, e o movem -com enxadas todo o Inverno, por -este meio o fazem mais ductivel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p> - -<p id="section29">29 Este he o mesmo barro que serve -para fazer ladrilhos, e obras de louça. Com -tudo elle he mais preto, ou mais branco, -conforme a profundeza, de que foi tirado: -há alguns, que vem misturados com estas -duas côres, e este se julga hum pouco melhor -que os outros, porém todos se gastaõ -sem distincçaõ em louça, e em ladrilhos. -Começo agora a explicar o que respeita -aos ladrilhos.</p> - -<hr /> - -<h2 id="ARTIGO_II">ARTIGO II.<br /> -<span class="smaller"><i>Dos ladrilhos, e modo de amassar -o barro, com que elles se fazem.</i></span></h2> - -<p id="section30">30 Quando se tiraõ da cova pedaços -grandes de barro, he preciso cortallos em -pedaços, mais pequenos possiveis. Para isso -se põe huma taboa <i>A</i> <i>fig. 1</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, -sobre huma celha: os oleiros chamaõ assim -huma pequena celha <i>B</i> sem fundo -em huma ponta: lança-se nesta pequena -celha seis baldes de agua com pouca differença, -depois se põe hum bôlo de -barro sobre a taboa <i>A</i>, que dissemos se -punha sobre a ponta sem fundo da celha -<i>B</i>. O oleiro corta em pequenos pedaços -este bôlo de barro com huma faca de<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span> -dous cabos <i>D</i> <i>fig. 2</i>; e logo que vai cortando -o barro o vai lançando na agua da -celha; o barro, que se pôs de tarde a humedecer, -na manhã seguinte está bem -brando, para se poder trabalhar; porque -bastaõ oito horas para ficar sufficiente -para o trabalho, sendo pequenos os pedaços.</p> - -<p id="section31">31 As aparas das obras, que ainda naõ -foraõ cozidas, se misturaõ com o barro novo; -este barro das aparas, que já tem -a liga da arêa, e já foi posto em camada -amassado, e trabalhado, ajuda a trabalhar -melhor o barro novo.</p> - -<p id="section32">32 O barro, de que usaõ os oleiros de -París, ou venha de <i>Areueil</i>, ou <i>Gentillis</i> -he muito gordo, e por isso naõ póde servir -sem liga: he preciso ligallo com -arêa para diminuir-lhe a força, e fazello -assim encolher menos. Talvez seria mais -expediente, e mais economico trabalhar -o barro com a máquina representada na -arte de fazer os pitos; mas segundo o -uso dos oleiros, se faz esta mistura amassando -o barro com os pés. Para isto, os -oleiros de París, costumaõ misturar -duas celhas de barro novo, huma de -aparas, se as há, e cinco cestos de -arêa: diminuindo-se a arêa, ficaõ mais -duros os ladrilhos; porém custaõ mais a<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span> -trabalhar. Seja como for, os barros de <i>Belleville -e Areueil</i> ambos saõ bons, e finos, -tem poucos seixos; sua côr tira a amarella.<a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8"></a><a href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p> - -<p id="section33">33 Para fazer huma amassadura, se -começa estendendo arêa sobre toda aquella -porçaõ do pavimento, que occupará -a camada; reserva-se só hum cesto -para o que adiante diremos; esta arêa, -que se precisa misturar com a argilla, -tambem embaraça ao barro apegar-se. Tira-se -das celhas o barro das aparas, que -estava humedecendo, como o novo; estende-se -sobre arêa em camada; porque -como este barro he mais facil de amassar, -que o novo, põe-se no lugar, em que -o barro se naõ amassa tambem. As duas -celhas de barro novo saõ distribuidas pela -circunferencia, e por cima se lança hum -bocado de arêa, da qual se reserva só -meio cesto para o uso, que adiante se -dirá.</p> - -<p id="section34">34 Tres celhas de barro bem pisado, -bastaõ para fazer quinhentas telhas, e -viriaõ a fazer dous mil ladrilhos pequenos.<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span> -Estando o barro disposto, como já dissemos, -o amassador descalço se chega ao -monte de barro; a sua postura he, com -a maõ esquerda firmada sobre o joelho -esquerdo, e porque o barro escorrega, -para naõ cahir, tem na maõ direita hum -páo, em que se firma. Separando entaõ -das bordas hum pouco de barro com o -pé esquerdo o despega, e lança fóra do -monte, dá hum pequeno passo adiante, -e faz o mesmo; de sorte que andando -em roda de todo o monte, e separando -em cada passo quatro, ou cinco pollegadas -de barro, ganha pouco a pouco o centro; -onde fica pouco barro, porque elle tem -separado para as bordas a maior parte. -Como o do meio fica mais mal amassado, -elle acaba de amassar, e separar o -barro, que ahi fica; com hum ferro -proprio corta em pedaços este barro, e -o tira com as maõs com facilidade, porque -se despega por causa da arêa, que -estava por baixo, e o distribue por todo -o monte. Depois de se ter tirado o barro, -que está no meio da camada fica huma -coroa de dous circulos concentricos; mas -com a mesma peça de ferro corta as -bordas da camada, e as lança no meio, -depois amassa deste barro, como fez a -primeira vez, e depois de acabar esta<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span> -manobra, naõ tira mais o do meio: porêm -depois de ter cortado o barro com a peça -de ferro, elle o ajunta com a maõ, e o -põe no meio; depois o amassa de novo -terceira, e ultima vez, estendendo o -barro mais do que nas camadas precedentes, -para assim ficar mais delgado na -camada. Feito isto, está amassado, e em -termos de servir, como vamos explicar.</p> - -<p id="section35">35 Para apromptar assim tres pequenas -celhas de barro, hum homem vigoroso -precisa ao menos quatro horas: depois -amontoa o barro; e entaõ está em termos -de servir.</p> - -<p id="section36">36 Como he de muita importancia para -a louça o distribuir-se igualmente por toda -a massa, o barro, que se mistura hum -com o outro, ou a argilla com a arêa, -e que as differentes misturas façaõ hum -todo uniforme, os oleiros, para se certificarem -disto, cortaõ o barro com hum -arame de lataõ, e examinaõ se a côr está -uniforme em toda a extensaõ do golpe, -e se ha lugares mais brilhantes, que outros. -A uniformidade próva que os differentes -barros estaõ bem misturados, e -que o todo está bem amassado: nos lugares -brilhantes está a argilla mais pura.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span></p> - -<h3><i>Como se moldaõ os ladrilhos.</i></h3> - -<p id="section37">37 Os ladrilhos se poderiaõ moldar, -como dissemos na arte de fazer tijollos, -do mesmo modo que a telha, e o tijollo. -Os telheiros naõ fazem de outro modo -os tijollos, ou chamados ladrilhos de telha, -para os distinguir dos ladrilhos de -louça, que saõ muito melhores, e trabalhados -mais propriamente do que os de -telha, ou tijollos. Os oleiros daõ a figura -quadrada em hum molde de páo aos tijollos, -ou ladrilhos que chamaõ de fornalha. -Elles tambem fazem em hum molde -inferior <i>fig. 3</i>, os ladrilhos para os celleiros, -ou quartos, que requerem pouca -attençaõ; elles naõ os aperfeiçoaõ, nem -aparaõ como aquelles, que se destinaõ -para sallas, e quartos acceados; mas por -este methodo a superficie dos ladrilhos, -naõ he bem dirigida, os angulos muitas -vezes ficaõ rombos, e o barro naõ fica -suficientemente comprimido: por isto he -que nos ladrilhos de salla, os oleiros se aperfeiçoaõ -mais.</p> - -<p id="section38">38 He verdade, que elles começaõ -mettendo o barro em hum molde, segundo -o tamanho, que devem ter os ladrilhos -para as peças de barro, que chamaõ<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span> -de culumnas: mas depois que o -barro está meio secco, elles o batem, e -comprimem muito. Deste modo perdem -os ladrilhos a figura regular, que o molde -lhe tinha dado, e isto os obriga a cortar por -hum calibre de ferro, que os oleiros chamaõ -molde: este calibre, ou padraõ de ferro -he cortado regularmente, segundo o tamanho, -e figura, que se quer dar aos -ladrilhos. Tudo isto se fará claro pelas -indagações, em que vamos entrar; mas -convém fazer antes notar, que supposto -se possaõ fazer ladrilhos triangulares, quadrangulares -com dous cantos obtusos, quadrados, -longos, etc. Naõ se fazem senaõ -quadrados, ou de seis panos <i>fig. 3</i>, e tambem -alguns meios tijollos para os socalcos -das fornalhas, dos muros, ou outras -cousas. Estas duas qualidades tem a vantagem, -que os ladrilhos de hum mesmo tamanho -se unem exactamente huns aos -outros sem deixar vacuo entre elles; se -fossem de cinco faces ficaria entre elles -vacuo, que seria preciso encher; e aliás -sendo os angulos, agudos, com facilidade -se quebrariaõ.</p> - -<p id="section39">39 Sendo outogonos, ou de oito faces, -necessariamente entre quatro ladrilhos, -fica hum espaço quadrado, que he -preciso encher com hum ladrilho pequeno. -Só se fazem estes ladrilhos de oito faces,<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span> -quando o ladrilho pequeno he de côr differente -dos grandes; taes saõ os ladrilhos -pretos, e brancos, que fazem os que -trabalhaõ em marmore. Tambem vi em -algumas Provincias ladrilhos, que sendo -cobertos de verniz de differentes côres, -formavaõ huma boa vista. Variando a figura -dos ladrilhos, e a côr pelo verniz, -e tambem a sua posiçaõ, se podem fazer -muitos repartimentos simetricos: disto -fallarei adiante; porém, como os ladrilhos -de qualquer figura se fazem do mesmo -modo, vou explicar com individuaçaõ, -como os oleiros fazem os ladrilhos hexagonos -ou de seis faces.</p> - -<p id="section40">40 O oleiro começa fazendo no molde -hum grande ladrilho quadrado. Este -molde he hum caixilho de páo que faz -os ladrilhos mais grossos do que devem -ser; naõ só por que diminuem, quando -seccaõ, mas tambem, porque ficaõ mais -delgados quando se batem.</p> - -<p id="section41">41 Para moldar os tijollos, tem o oleiro -huma taboa grossa <i>a b</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 4</i>, que -está posta sobre cavalletes fortes, e põe -no meio desta taboa huma pedra dura e -unida, ou hum pedaço de páo <i>g</i>, de tres -ou quatro pollegadas de grosso, que tem -differentes nomes; em alguns lugares se -chama <i>urquain</i> na ponta deste pedaço de<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span> -páo <i>dd</i> está posto hum vaso cheio de -agua <i>ee</i>, e sobre o vaso hum instrumento -de páo que chamaõ plaina <i>ff</i> e por diante -está o caixilho, ou molde <i>gg</i>. Alguns põe -da parte esquerda do moldador hum bôlo -de barro <i>h</i>, destinado para encher o -molde: tambem se põe ahi o barro, que -se tira com a plaina <i>ff</i>. Outros tiraõ só a -quantidade, que caressem, de hum monte -de barro <i>H</i>, que está sobre o soalho, -perto delles. Á direita do moldador está -hum monte de arêa <i>i</i>, e se deve ter sobre -a meza hum lugar <i>k</i>, para se porem as -obras já moldadas.</p> - -<p id="section42">42 O moldador posto adiante da mesa, -toma com a maõ esquerda hum bocado -de arêa, e a espalha sobre a mesa, ou sobre -o pedaço de páo <i>g</i> <i>fig. 4</i>, põe por -cima o molde tambem esfregado na arêa; -depois o enche de barro comprimindo o -com as maõs o mais que póde; porque -este barro deve ser mais duro, do que se -servem os telheiros. Depois de estar o -molde bem cheio por todas as partes, o -moldador toma a plaina <i>ff</i> <i>fig. 4</i>; molha-a -na agua, e pegando nella com ambas -as maõs, a passa fortemente por cima do -molde, para tirar todo o barro, que excede -á grossura, que deve ter; depois -pegando no molde por hum dos cantos o<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span> -puxa para si, e mette a maõ esquerda por -baixo da peça, para a soster a põe sobre -as outras <i>k</i> <i>fig. 4</i>, e como este barro -he amassado duro, se póde passar de hum -lugar para outro em as maõs sem ficar -com defeito. A pouca arêa, que fica por -baixo da peça, basta para naõ a deixar -pegar na outra sobre que se põe.</p> - -<p id="section43">43 Depois de terem endurecido alguma -cousa as peças, ou ladrilhos, que -se tem tirado do molde se lançaõ em huma -especie de taboletas feitas de varas -á maneira de caniços, para o ar lhe dar -de todas as partes; e seccallas por cima -se põe huma coberta de taboas para a -chuva os naõ molhar.</p> - -<p id="section44">44 Quando estaõ já meios seccos se -viraõ debaixo para cima para seccar a -parte, que fica por baixo a polla no mesmo -gráo de seccura, que a de cima.</p> - -<p id="section45">45 Em quanto estes ladrilhos estaõ -ainda flexiveis se põe sobre hum banco -forte huns sobre os outros, e se batem -com a parte chata do masso. Depois de -batidos assim os ladrilhos, se tornaõ a -pôr sobre as varas, aonde ficaõ mais ou -menos tempo, conforme o calor do ar. -Logo que o oleiro os julga sufficientemente -seccos, os tira das varas, mas como -o exterior sempre está mais secco<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span> -que o interior, quebrar-se-hiaõ, se acaso -se tornassem a bater neste estado. Previne-se -este accidente pondo-os em pilha, -huns sobre outros cinco ou seis dias, -para amolecer as superficies, que estavaõ -seccas; estas pilhas se fazem em hum -quarto baixo, e alguma cousa humido. -Além de que o ar humido deste lugar -abranda a superficie das obras feitas, e -a humidade do seu interior se communica -á superficie, que já estava bem secca. -Quando se achaõ já bem flexiveis se tiraõ -da pilha, e se tornaõ a bater com -mais força do que antes no mesmo banco, -e logo se cortaõ por medida certa em -quatro partes; depois se põe em pilhas -de vinte cada huma junto a huma parede, -defendidos da chuva por huma coberta: -quando o barro está já hum pouco secco, -se põe na ponta de hum banco pilhas destes -ladrilhos, hum obreiro posto a cavallo -no banco, pega em hum molde de -ferro <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 5</i>, da grossura de cinco -linhas, que está talhado em faces precisamente -do tamanho e da figura, que -os ladrilhos devem ter, e com hum cutello -curvo <i>fig. 6</i>, corta tudo o que excede -a peça de ferro, que os oleiros chamaõ -<i>molde</i>.<a name="FNanchor_9" id="FNanchor_9"></a><a href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a> Hum bom obreiro póde aparar<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span> -1800 ladrilhos por dia. As aparas cahem -em hum peneiro, onde se conservaõ -para as misturar com o barro novo, quando -se fizer nova amassadura. Quando sahem -os ladrilhos da maõ do aparador, vaõ já -em figura de ir para o forno, logo que estiverem -bem seccos.</p> - -<p id="section46">46 Seria impossivel fazer o primeiro -molde tamanho, que depois désse quatro -ladrilhos grandes; estes assim se moldaõ -em huma fôrma maior cada hum separado, -como se fazem os tijollos de fornalhas; -com a differença porém de que os tijollos -de fornalha, naõ se batem, nem se -aparaõ; e os ladrilhos grandes, que se -fazem com aceio saõ batidos, e aparados -por moldes, como os pequenos.</p> - -<p id="section47">47 Os ladrilhos feitos como acabamos -de explicar, carecem estar bem seccos -para irem para o forno: porém naõ se expõe -ao Sol, mas sim em parte onde lhe -dê o vento, ou em lugar aonde chegue -o calor do forno.</p> - -<p id="section48">48 Quando os ladrilhos estaõ de todo -seccos, resta cozellos, o que se faz como -vamos a explicar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p> - -<h3><i>Do forno<a name="FNanchor_10" id="FNanchor_10"></a><a href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a>, e do modo de arranjar -nelle os ladrilhos -para se cozerem.</i></h3> - -<p id="section49">49 Na arte de telheiro, e de fazer -tijollos se vem os fornos, de que se servem -alguns oleiros para cozer os ladrilhos: -onde se póde consultar o que nos dissemos -a este respeito, aqui trataremos -só, de duas qualidades de fornos, de que -se serve a maior parte dos oleiros de París -naõ sómente para coser seus ladrilhos, -mas tambem toda a qualidade de louças: depois -fallarei dos fornos, de que se servem -os oleiros dos arrebaldes de <i>Saint Antoine</i> -para cozer suas obras: e por hora fallarei -só dos fornos, que estaõ mais em uso -nos arrabaldes de <i>S. Marceau</i>; elles vem -representados na <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 7</i>, <i>8</i>, <i>9</i>. A -<i>fig. 7</i> representa o plano do forno; a -<i>fig. 8</i> he a divisaõ deste mesmo forno -no comprimento pela linha <i>A</i>, <i>C</i>; e a -<i>fig.</i> 9 he huma divisaõ transversal pela<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span> -linha <i>G</i>, <i>H</i>, da <i>fig. 7</i>: <i>A</i> he a boca do -forno, ou entrada da fornalha; na qual -se põe madeira para esquentar o forno, -como se vê de <i>A</i>, até <i>B</i>, <i>fig. 7</i>, e <i>8</i>; -de <i>B</i>, até <i>C</i>, he a capacidade interior -do forno, aonde se arranjaõ os ladrilhos, -ou a louça, que se quer cozer; <i>C</i>, <i>D</i>, -<i>fig. 8</i>, he hum tubo da chaminé por onde -sahe a fumaça. Como a communicaçaõ -do interior do forno com este tubo, para -descarga da fumaça, he por baixo perto -do pavimento do forno em <i>C</i>, he preciso, -que a corrente de ar, que entra pela -boca <i>A</i>, passe ao tubo <i>D</i>, pelos buracos -<i>C</i>. Deste modo, tendo seguido a curvatura -da abobada, até perto de <i>M</i>, <i>fig. 8</i>; -o ar quente desce ao longo das paredes -do tubo da chaminé, que se chama <i>Lingueta</i>,<a name="FNanchor_11" id="FNanchor_11"></a><a href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> -para ganhar os buracos, que estaõ -em <i>C</i>, e tornar ao tubo <i>C</i>, <i>D</i>. Por esta -construcçaõ, que he bem entendida, o -calor se distribue muito bem por todo o -comprimento do forno: mas, como he -mais estreito na sua entrada <i>K</i>, <i>I</i>, <i>fig. 7</i>, -do que no fundo, os lados em <i>G</i>, <i>H</i> naõ -recebem tanto calor, como no meio; mas<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span> -isto se remedeia; arrumando lenha nos -dous lados, como se vê na <i>fig. 7</i>, e como -adiante explicaremos. <i>F</i>, <i>fig. 7</i>, he -huma porta, por onde se entra no forno -para o encher; depois do forno cheio, -se tapa com hum muro de tijollos, e se -accende o fogo.</p> - -<p id="section50">50 Antes de metter no forno alguma -louça se levanta, com tijollos em <i>I</i>, <i>H</i>, -até a abobada, huma separaçaõ que tem -aberturas, pois se deixa entervallos entre -os tijollos, ou como dizem os obreiros -<i>crenaux</i><a name="FNanchor_12" id="FNanchor_12"></a><a href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a>, para que o calor do fornete -<i>A B</i>. se communique o forno. Esta -separaçaõ, recebendo a mais viva acçaõ -do fogo, chama-se <i>la fausse-tire</i>, a qual -se naõ desmancha em cáda huma fornada, -pelo contrario se repara para que dure o -mais que for possivel.</p> - -<p id="section51">51 Como a parte de diante do forno -está tapada em <i>I</i>, <i>K</i>, pela <i>fausse-tire</i><a name="FNanchor_13" id="FNanchor_13"></a><a href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> -he preciso carregallo pela abertura <i>F</i>, -e começa-se, formando as tres primeiras -ordens da parte da <i>fausse-tire</i>, para isto<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span> -se desmancha huma ordem de tijollos de -fornalha, que se põe de parte, como se -vê em a <i>fig. 8</i>, entre as quaes se deixa -huma aberta de quatro pollegadas e -meia, e se dispõe estas abertas para estabellecer -debaixo da fornalha huma corrente -de ar quente, de modo, que pela -subtileza do ar esquentado, suba sempre -melhor á abobada. Sobre estes tijollos -se arranjaõ as pilhas de ladrilhos, -que se põe deitados, como se vê na -<i>fig. 7</i>, de modo, que hajaõ dous dedos -de distancia de hum ao outro ladrilho, -e que o meio do ladrilho da ordem superior -corresponda ao vácuo dos ladrilhos -da ordem inferior.</p> - -<p id="section52">52 Depois de se terem levantado até -á abobeda quatro pilhas de tijollos ordinarios, -se põe achas de lenha entre as -paredes do forno, e as pilhas de tijollos: -depois se arranjaõ sobre o pavimento do -forno, os tijollos de fornalha, e por cima -as pilhas de ladrilhos de Sala; acamaõ-se -nos lados as achas de lenha, como -se vê <i>fig. 7</i>, e além de huma ordem de -achas em pé, que atravessaõ o forno, -como se vê <i>fig. 7</i>, segundo a linha de -<i>G</i>, e <i>H</i>, e se continua a encher o forno -pondo por baixo os tijollos de fornalha, -e por cima os ladrilhos. Depois de se terem<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span> -formado duas, ou tres pilhas, se -põe achas de lenha entre as pilhas de -tijollo, e as paredes do forno, além disto -se põe huma ordem de achas sobre a -parede do fundo do forno, que se chama -<i>Lingueta</i>. Quando as achas de lenha, -que se põe de pé naõ tem o comprimento -sufficiente para tocar na abobeda do forno -por naõ perder lugar, se põe por cima ladrilhos -de sala dos maiores. Continua-se, -como temos explicado, até chegar á abertura -<i>F</i>, <i>fig. 10</i>; para formar as ultimas -ordens se põe sempre tijollos de fornalha: -as pilhas de ladrilho ordinario, e as achas, -como já dissemos; porém por naõ fechar -a entrada <i>F</i>, se começa, enchendo -primeiro o lado opposto á abertura, e se -acaba por esta mesma abertura <i>L</i>, que se -fecha por huma parede de tijollos, como -já dissemos.</p> - -<p id="section53">53 Em hum forno semelhante ao que -se representa, que tem dez pés de <i>K</i>, -a <i>L</i>, e sete de <i>K</i>, a <i>I</i>, para cozer os -ladrilhos se gasta carga, e meia de madeira -tanto para arranjar entre os ladrilhos -como para a tempêra<a name="FNanchor_14" id="FNanchor_14"></a><a href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a>, e huma camada<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span> -de lenha rachada para queimar na -fornalha <i>A</i>, <i>B</i>, e fazer o cozimento da louça; -a isto chamaõ os oleiros <i>la chasse</i>.<a name="FNanchor_15" id="FNanchor_15"></a><a href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a></p> - -<p id="section54">54 Os que se lembrarem, do que -dissemos na arte de telheiro, veraõ que -he preciso primeiro esquentar o forno -com hum pequeno fogo de páos grossos, -que façaõ mais fumo, do que chamma. -Por mais secco que pareça o barro, -he preciso lançar fóra ainda muita humidade -no forno: se esta dissipaçaõ se -apressar, o barro se quebrará, indo porém -de vagar, dissipa-se a humidade sem -fazer estrago. Este pequeno fogo, he que -os oleiros chamaõ humedecer, talvez porque -a louça com este pequeno calor se -faz humida.</p> - -<p id="section55">55 Accende-se hum pequeno fogo de -páos grossos na boca da fornalha entre -<i>A</i>, e <i>B</i>, <i>fig. 7</i>, e <i>8</i>; isto se continúa -trinta e seis horas, para que as obras se -esquentem pouco a pouco, e percaõ a -humidade, que lhe resta, ainda que os -tijollos pareçaõ bem seccos quando se -mettem no forno. Nas doze ultimas horas -augmenta-se hum pouco o fogo, e depois -se faz no mesmo lugar hum grande fogo<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span> -de lavareda com lenha secca, e se continúa -por sete, ou oito horas, os páos -que se metteraõ pelos lados, e entre as -pilhas dos ladrilhos, se queimaõ tambem -e contribuem para ficarem perfeitamente -cozidos. Finalmente naõ se põe mais lenha -na fornalha, e se lhe tapa a boca com -huma chapa de ferro, para ir esfriando -pouco a pouco, passados 7 ou 8 dias, -se tira a louça do forno.</p> - -<hr /> - -<h2 id="ARTIGO_III">ARTIGO III.<br /> -<span class="smaller"><i>Das obras de ladrilho.</i></span></h2> - -<p id="section56">56 Como em París as obras de ladrilhos -fazem parte do officio de Oleiro, -he preciso fallar aqui dellas.</p> - -<p id="section57">57 Nos lugares aonde ha gesso, todas -as obras de ladrilho se fazem com elle; -mas aonde o naõ ha, se ladrilha com -argamaça de cal, e arêa, betume, ou algumas -vezes com huma mistura de argamaça, -e gesso; naõ fallo aqui de hum -máo modo de ladrilhar, de que usaõ os -paisanos, assentando os ladrilhos sobre -a argilla bem amassados com bastante arêa, -para naõ encolher tanto o barro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p> - -<p id="section58">58 Quando se tem de ladrilhar com -argamassa, he preciso embeber bem de -agua o ladrilho logo ao sahir do forno: -sem esta precauçaõ o ladrilho atrahe a -agua da argamaça, e em lugar de tomar -corpo se descompõe, e se torna quasi -em arêa pura.</p> - -<p id="section59">59 Como a argamaça se pega menos -ao barro do que o gesso, alguns mandaõ -fazer por baixo do ladrilho, regos, ou -buracos com hum pedaço de páo, que se -mette por baixo do ladrilho depois de o -bater, porém isto naõ está em uso.</p> - -<p id="section60">60 Em París todas as obras de ladrilho -se fazem com gesso; mas, como o gesso -vivo incha muito, quando se usa delle -puro, por isso vem estas obras a ficar -com defeito. Póde-se prevenir este inconveniente, -ou misturando o gesso hum -pouco molle com cal, ou ladrilhando por -camadas, e naõ pôr outra em quanto naõ -séca a primeira; ao menos se deve evitar -pôr o ladrilho encostado á parede de -encontro, e se deverá deixar alguns pés -em roda sem ladrilhar até o gesso dos ladrilhos -do meio, ter acabado de inchar; -há bons ladrilhadores, que tendo precauçaõ, -chegaõ a ladrilhar com gesso só, -e a sua obra he melhor; mas pela a maior -parte os ladrilhadores misturaõ o pó de<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span> -carvaõ peneirado com o gesso, para elle -naõ inchar tanto; quanto mais pó lhe -ajuntaõ, menos temem, que lhe inche o -gesso; e assim ladrilhaõ com mais facilidade; -porque o gesso assim naõ pega com -tanta promptidaõ, e elles naõ gastaõ tanto; -e isto he utilidade sua, porque elles mesmos -daõ o gesso. Por todos estes motivos -ajuntaõ elles tanto pó de carvaõ ao -gesso, que elle naõ toma corpo, e quasi -naõ se péga ao ladrilho; ao contrario porém -o gesso puro se péga tanto ao barro -cozido, que se naõ podem separar dous -ladrilhos, estando unidos hum ao outro -com gesso. Seria melhor em lugar do pó -de carvaõ misturar arêa boa, que faz corpo -com o gesso, e tambem o naõ deixa -inchar tanto, como se fôra o gesso -vivo.</p> - -<p id="section61">61 Eu vi hum bom ladrilhador, que -em lugar do pó de carvaõ ajuntava ao -gesso ferrugem de chaminé; esta mistura -naõ deixa o gesso prender com tanta promptidaõ, -e assim tinha elle tempo de assentar -melhor os ladrilhos. Disse-me elle -que este gesso assim naõ inchava tanto, -e me pareceo, que estes ficava muito duro, -e muito adherente aos ladrilhos; e -por isso penso, que se deve adoptar este -methodo, aonde ha gesso, e ferrugem -com facilidade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span></p> - -<p id="section62">62 Quando o gesso he raro, e a ferrugem -difficil, se póde segurar bem o -ladrilho com huma mistura de gesso, e -argamaça de cal, e arêa, ou betume. -Esta especie de argamaça bastarda, que -os nossos obreiros chamaõ <i>gâchis</i>,<a name="FNanchor_16" id="FNanchor_16"></a><a href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> incha -pouco; com o tempo se torna muito dura; -e como se demora em inchar, póde o -ladrilhador com facilidade assentar os -seus ladrilhos.</p> - -<p id="section63">63 Em París os pedreiros saõ os que -fazem o lugar em que se devem assentar -os ladrilhos; mas nas Provincias os ladrilhadores, -põe ao nivel, e apromptaõ o pavimento, -e lugar em que haõ-de assentar -os ladrilhos, ou tijollos, elles o fazem -ordinariamente espalhando carvaõ moido -na parte, e depois assentaõ em cima huma -regua com hum nivel. Logo que o lugar -está prompto lançaõ por cima do pó -huma agua de gesso muito clara, para -lhe dar alguma consistencia.</p> - -<p id="section64">64 Os ladrilhos ficaõ mais seguros, -quando se assentaõ sobre o gesso puro, -ou simplesmente misturado com huma -pouca de arêa boa; mas deve-se assentar -o ladrilho depois do lugar estar secco,<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span> -e o gesso ter acabado o seu effeito, hum -assento da argamaça de cal, e arêa tambem -he bom; e o peior modo, he o de -assentar o ladrilho sobre o pó de carvaõ -puro, que sendo comprimido, se abate, e -se desordena com facilidade; por naõ poder -dar hum assento sólido ao ladrilho, -ou tijollo.</p> - -<p id="section65">65 Em algumas Provincias se prepara -o pavimento com tufo branco, que se -passa por grades, ou canissos, humedece-se -hum pouco; para que sendo batido -tome alguma firmeza.</p> - -<p id="section66">66 Em outro tempo se carregavaõ muito -os pavimentos; porém agora, como os -carpinteiros põe a madeira bem desempenada, -e igual na grossura; recommenda-se -aos ladrilhadores, que naõ ponhaõ -muita carga por naõ pezar sobre as vigas.</p> - -<p id="section67">67 Quando os quartos ou celleiros, -que se querem ladrilhar tem o assento -preparado, o ladrilhador estende huma -corda por todo o comprimento da peça, -e põe por cima do gesso, ou argamaça, -huma ordem de tijollos, examinando sempre -se vai direita, e ao nivel, porque -esta primeira ordem he a que regula as -outras; pois, sendo todos os ladrilhos, ou -tijollos feitos exactamente do mesmo tamanho, -formáraõ ordens iguaes, e bem<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span> -direitas, se o ladrilhador os põe de modo, -que naõ haja junta. Com tudo se por defeito -do oleiro, ou do ladrilhador ficarem -as ordens alguma cousa curvas, se remediará -esta falta, deixando huma junta, -ou emenda na curvatura. Isto sempre he -hum defeito, mas pouco sensivel, quando -a curvatura he pouco consideravel, e -que se indereita pouco a pouco. Como -esta primeira ordem, ou fileira deve dirigir -todas as mais, logo que estiver bem -assentada, se deve recommendar o naõ -andar sobre ella pela naõ desordenar. -Põe-se depois as outras fileiras, de sorte -que hum dos angulos que falta no tijollo, -que se põe se assenta no angulo, que entra -dos tijollos, que estaõ postos na fileira, -deste modo vem a formar linhas -obliquas.</p> - -<p id="section68">68 Os ladrilhadores conservaõ o nivel -em toda a extensaõ do pavimento por -hum modo bem simples, e expediente; -põe hum bocado de gesso, ou argamaça -no lado dos ladrilhos, já postos, tendo -o cuidado, de que fique a argamassa de huma -grossura igual; se usaõ do gesso põe só em -huma extensaõ, que occupe oito tijollos -ou ladrilhos, para terem tempo de os pôr -em seu lugar antes do gesso, indurecer -muito: assentaõ, por cima dos ladrilhos<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span> -postos, huma régua de páo de duas pollegadas -de grosso e tres e meia de largo, -e lhe batem fortemente. Levantaõ com a -maõ esquerda esta régua, e batem sobre -os ladrilhos até ella assentar igualmente -sobre todos. Fica evidente, que os postos -por ultimo estaõ ao nivel depois da régua -assentar em todos igualmente; o que -se faz com facilidade pelas pancadas fortes, -que fazem enterrar os tijollos pelo gesso, -ou argamaça. Se alguns fogem da direcçaõ, -se abatem muito por falta do gesso, o -ladrilhador os levanta com a colher; tira -o gesso que estava por baixo, e põe outro -tijollo, que fique sem defeito. Finalmente, -tendo acertado os ladrilhos, rapa -com o corte da colher o gesso, ou argamaça, -que sobra por cima delles, e põe -outra vez ao lado dos tijollos hum bocado, -como acima se disse em extensaõ que -occupe só 7, ou 8, tijollos, que põe de -novo, e assim segue até acabar. Indo a -encontrar na parede, póde entaõ misturar -carvaõ em pó com o gesso, para que elle -naõ inche; porque aqui naõ estaõ sujeitos -a sahirem do seu lugar como no -meio.</p> - -<p id="section69">69 Os ladrilhadores enchem as juntas, -que ficaõ entre os ladrilhos, postos algumas -vezes com gesso misturado com argamaça<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span> -de cal bem dura, que lançaõ -com força entre as juntas que ficaõ; outros -lançaõ sobre os ladrilhos agua com -gesso muito liquida. Tira-se o gesso, ou -argamaça que se acha por cima dos ladrilhos, -esfregando-os com arêa, ou com -palhas, e depois de bem limpos se pintaõ -com oleo, põe-se-lhe cêra, e esfregaõ. -Os tijollos de ladrilhar, como se gastaõ, e -ficaõ com covas pelo lugar, por onde se -anda, e mesmo ao varrer por serem as -vassouras commumente de alamo por evitar -estes inconvinientes, untaõ com sangue -de boi, que lhe dá huma sólidez -muito duravel. Em algumas provincias se -envernizaõ os ladrilhos, como a louça, -formaõ divisões bem agradaveis, que variaõ -por muitos modos.<a name="FNanchor_17" id="FNanchor_17"></a><a href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p> - -<h2 id="ARTIGO_IV">ARTIGO IV.<br /> -<span class="smaller"><i>Modo de fazer os differentes vasos, -e utensis de casa com o mesmo -barro, que serve para fazer -os ladrilhos.</i></span></h2> - -<p id="section70">70 Os oleiros de París para fazerem -differentes obras se servem do mesmo -barro dos ladrilhos; só daõ a preferencia -a certas veias onde a argilla he mais -branca tirando hum pouco sobre o vermelho -a qual os oleiros chamaõ bom barro; -tira-se de <i>Arcueil</i>, e de <i>Vanvres</i>, como -para o ladrilho; ligaõ-na com a mesma -arêa, e na mesma quantidade, que -para os ladrilhos. Como se amassa com -mais cuidado, naõ se póde pôr a amassar -mais de huma celha, ou quando muito -duas de barro por cada vez.</p> - -<p id="section71">71 Alguns oleiros, depois do barro -amassado, lançaõ hum torraõ sobre huma -mesa grossa, e o batem com hum maço -de ferro, como se faz no barro de pitos, e -esta operaçaõ he muito boa; porém ainda -que elle tenha sido amassado, e batido, -he preciso repassallo pelas maõs para -lançar fóra algumas pyrites, e pedras,<span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span> -que possa ter ao que chamaõ <i>voguer</i>.<a name="FNanchor_18" id="FNanchor_18"></a><a href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> -Para este fim amassaõ o barro sobre a -mesa de moldar, como fazendo huma -pasta; elles ajuntaõ depois hum torraõ -grande, e passando alternativamente a -palma da maõ sobre este barro, tiraõ de -cada vez huma camada bem delgada; e -assim com facilidade encontraõ os corpos -estranhos, e os lançaõ fóra. Depois de -terem assim passado outro tanto, como o -volume de huma libra de manteiga, amassaõ -este torraõ que daõ a figura de hum -cylindro, dividem-no em dous, e tendo -huma ametade em cada maõ, as unem -batendo com força huma contra a outra; -depois o tornaõ a amassar de novo, e repetem -esta manobra muitas vezes, e vaõ -sempre lançando fóra os corpos estranhos -que encontraõ, e acabaõ fazendo torrões -de barro maiores, ou menores, segundo -o tamanho dos vasos, que elles se propõe -fazer. Os oleiros tem differentes modos -de vogar o barro: porém todos consistem, -em trabalhar muito o barro para -o amassar bem, e separar-lhe todos os -corpos estranhos, que nelle se acharem; -porque para as obras que elles saõ obrigados -a dar baratas, naõ podem fazer as<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span> -despezas de lavar seus barros, e de os -passar pela peneira (ou por hum crivo -feito de arame de lataõ fino) como fazem -os que trabalhaõ em louça fina. A -operaçaõ de vogar he trabalhosa; porque -para a maior parte dos utensis, que fazem -os oleiros, se deve amassar o barro -muito mais duro do que para os ladrilhos, -principalmente havendo se de fazer vasos -grandes, porque naõ se poderiaõ suster; -e o barro voga-se com muito mais cuidado -para humas obras do que para outras.</p> - -<p id="section72">72 Das obras de oleiro, humas se fazem -inteiramente á maõ, como as caldeirinhas -quadradas <i>F</i>, <i>fig. 10</i> <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, outras -só se fazem na roda, como os vasos -de flores, as tijellas, e alguidares <i>K</i>, <i>fig. -11</i>, que naõ tem azas, outras se fazem -parte na roda, e parte a maõ, como os -vasos de tres pés, as marmitas <i>fig. 12</i>, -os escalfadores <i>fig. 13</i>, as caçarolas <i>fig. -14</i>, o corpo das quaes se faz na roda, -e os pés, azas, e orelhas se põe de fóra -á maõ.</p> - -<p id="section73">73 Agora começo a dizer alguma cousa -sobre o trabalho da roda, ou torno; tambem -explicarei como se acommodaõ nella -differentes peças; depois darei alguns -exemplos das obras, que se fazem inteiramente -á maõ.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span></p> - -<h3><i>Do modo de fazer os vasos na roda.</i></h3> - -<p id="section74">74 Ha duas especies de rodas: huma -he de ferro, e esta he verdadeiramente -a roda de oleiros; e outra he de -páo e se chama o <i>torno</i>. Quasi todos os -oleiros de París se servem dellas; porém -adoptaraõ a dos oleiros de louça fina -vidrada.</p> - -<p id="section75">75 Descripçaõ da roda de ferro <i>aa</i> <a href="#est1"><i>Est. -I</i></a>, <i>fig. 5</i>, he o meio da roda, que tem -a pequena roda <i>bb</i>, em alguns lugares -se chama <i>gimble</i>, sobre o qual está a obra -<i>cc</i>, em que se trabalha. No meio <i>aa</i>, -se ajuntaõ os raios da roda <i>dd</i>, que saõ -de ferro. Nesta figura só se vem dous; -porém a roda tem seis, como se vê na figura -16. Estes raios vem dar em hum -circulo de ferro, ou ambos, cuja grossura -só se vê aqui representada pela linha -<i>ee</i>; o meio <i>aa</i>, diminue de grossura -em <i>ff</i>, e ainda mais em <i>gg</i>, esta parte, -que he cylindrica, e pontuada na figura, -he recebida por hum buraco em hum -grosso pedaço de páo <i>g</i>, que fica bem -seguro por huma cruz de páo <i>hh</i>, e pelas -prisões <i>ii</i>. Em primeiro lugar he preciso -conceber, que o meio <i>aa</i>, a parte <i>ff</i>,<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span> -e o cylindro pontuado <i>g</i>, saõ tomadas em -hum mesmo pedaço de páo; em segundo -lugar que a parte cylindrica pontuada he -recebida em hum buraco fundo, que está -no centro do pedaço de páo <i>g</i>, no qual -póde virar; que este cylindro pontuado, -que tem a parte <i>ff</i> assim como este que -nos temos chamado o <i>meio aa</i>, por cima -do qual está a pequena roda <i>bb</i>, sobre a -qual está a obra <i>cc</i>. Aqui se vê, que os -raios <i>dd</i>, saõ obliquos, de sorte que por -suas revoluções, formaõ hum conico cortado -em <i>aa</i>; <i>K</i> saõ as pequenas mesas, -que estaõ em roda do obreiro, em que -elle põe as bolas de barro, de que vai -fazer as obras, e as mesmas obras depois -de feitas, huma gamela com agua, hum -calibre de ferro ordinariamente, a que chamaõ -<i>atelle L</i>, he huma taboa inclinada -sobre a qual se assenta o obreiro. Tudo -isto se tornará mais claro lançando os -olhos sobre o plano perspectivo <i>fig. 17</i>.</p> - -<p id="section76">76 <i>A</i> he o meio da roda: <i>b</i> a pequena -roda, que sustenta em si a obra <i>c</i>, na -qual se trabalha: <i>d</i>, os raios da roda <i>ee</i>, -cambas da roda: <i>f</i> a parte cylindrica do -meio, por baixo do qual fica a que está -pontuada na <i>fig. 1</i>, perto de <i>g</i>: <i>h</i> a taboa -que esta segura aqui por huma massa -de gesso: <i>k</i> as mesas pequenas, sobre que<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span> -se põe a obra logo depois de feita: <i>l</i>, a -taboa inclinada, em que se assenta o obreiro: -<i>m</i>, taboas grossas inclinadas, que tem -entalhes profundos, em que os obreiros -põe os pés como se vê <i>fig. 16</i>, e <i>17</i>; estas -especies de assento para os pés se -chamaõ <i>poiaes</i>: <i>n</i> saõ as obras já acabadas: -<i>o</i>, bôlos de barro para fazer outras obras: -<i>p</i>, os pilares, ou pés direitos, que sustém -as mesas <i>k</i>, <i>l</i>.</p> - -<p id="section77">77 A figura 16 representa a mesma -maquina vista em plano, e virada para se -poder ver a roda por baixo: <i>g</i>, a parte cylindrica, -que entra em hum buraco fundo -feito na peça <i>g</i>: <i>f</i>, parte cylindrica mais -grossa; <i>aa</i>, o meio da roda aonde se ajuntaõ -os raios <i>d</i>: <i>ee</i>, a camba: <i>p</i> saõ os encaixes -destinados para receber os pés direitos -que sustem as mesas <i>k</i>, e o assento <i>l</i>: -<i>m</i>, lugar de pôr os pés.</p> - -<p id="section78">78 Nos campos muitas vezes he de -páo, tudo o que aqui se representa de -ferro; neste caso a camba da roda he -muito grossa: para que com o seu peso -conserve por mais tempo o movimento, -que o oleiro lhe imprime. Como ellas saõ -menos perfeitas que as de ferro, escuso -entrar em individuações a seu respeito.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p> - -<p id="section79">79 Para se trabalhar sobre esta roda, he -preciso imprimir-lhe hum movimento circular -rapido, com hum páo <i>a</i>, <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, -<i>fig. 4</i>, que se chama virador. Vê-se nesta -<i>fig. 4</i>, hum obreiro disposto para pôr a -roda em movimento; está sentado no assento -<i>l</i>, os pés estaõ nos entalhes dos lugares -de ter os pés <i>m</i>; e com huma -ponta do virador <i>a</i>, toca em hum raio -de roda para a fazer andar, e imprimir-lhe -hum movimento circular, que ella -conserva bem tempo para o obreiro, <i>fig. -5</i>, poder formar hum vaso.</p> - -<h3><i>Do torno, ou roda, que os oleiros de -obra grossa tomáraõ dos de -obra fina.</i></h3> - -<p id="section80">80 Esta roda <i>a</i>, <i>fig. 18</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, he -de páo, e tem de grosso tres ou quatro -pollegadas, para que o maior peso lhe -faça conservar o movimento mais tempo; -ella he atravessada por hum eixo de páo, -ou de ferro <i>b</i>, que finda por baixo da -roda em hum mancal: este eixo passa -ao nivel da mesa por hum colar, e tem -na sua extremidade superior huma roda -pequena <i>c</i>, sobre a qual está a obra <i>d</i>; -o obreiro <i>h</i>, estando assentado hum pouco<span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span> -obliquamente sobre a taboa inclinada <i>i</i>, -tem muitas vezes as pernas ambas do -mesmo lado de sorte, que o eixo <i>b</i>, lhe -passa por detraz da perna esquerda; muitas -vezes tem as pernas abertas, e o eixo -lhe passa pelo meio, estando os pés -apoiados, e o esquerdo fica na travessa <i>g</i>, -da mesa: <i>f</i>, he huma gamella com agua: -tendo o obreiro o pé esquerdo sobre a -travessa <i>g</i>, apoia o pé direito ligeiramente -sobre, a roda e empurrando-a para -diante lhe imprime hum movimento circular, -que se communica a roda pequena -<i>c</i>, sobre a qual está a obra <i>d</i>. Como esta -roda naõ vira taõ veloz, quanto a de ferro, -o obreiro póde formar a sua obra com -mais regularidade, e póde accelerar-lhe -o movimento, ou retardarllo conforme -lhe parecer, e paralla mesmo quando -quer: o que se naõ póde fazer com a -roda de ferro.</p> - -<p id="section81">81 Quando o obreiro tem as pernas -ambas do mesmo lado, se tem a direita -cançada, póde tocar a roda com o pé esquerdo: -algumas vezes para tocar a roda -mais ligeira se vale de ambos os pés para -a tocar.</p> - -<p id="section82">82 Ha alguns oleiros Alemães, que -tendo o eixo <i>b</i>, entre as pernas, se servem -de ambos os pés; mas he preciso<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span> -entaõ, que o pé direito toque a roda -para diante, e com o esquerdo a puxe -para si: com o uso se vem a facilitar este -movimento dos pés em sentidos contrarios.</p> - -<p id="section83">83 A roda de ferro he commoda para -fazer obras, que naõ requerem muita -regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime -o movimento com o virador, ella -vira com muita ligeireza, e seu movimento -se enfraquece pouco a pouco, e -isto he muito vantajoso; porque, quando -se começa huma peça a roda naõ póde -virar muito ligeira, mas para a acabar, -carece mesmo de virar devagar: algumas -vezes perde ella o seu movimento antes da peça, estar acabada, -e entaõ precisa o oleiro com o virador -tornar-lhe a dar novo movimento.</p> - -<p id="section84">84 Como com a roda de páo está o -oleiro senhor de augmentar, ou diminuir -o seu movimento, e ainda de interromper, -fica esta mais commoda para obras finas, -e que requerem mais exacçaõ; e ao -presente os oleiros de París já naõ fazem -uso da roda de ferro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span></p> - -<h3><i>Trabalho do Oleiro sobre a roda.</i></h3> - -<p id="section85">85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ -só por se naõ pegar o barro a ellas, mas -tambem para alizar a obra, que começaõ -entre as maõs ambas, tendo huma dentro -do vaso, e a outra fóra: outras vezes -apertaõ o barro entre o dedo pollegar e -o index de ambas as maõs. He impossivel -relatar todas as differentes posições que -o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ -a posiçaõ em huma mesma obra. Para -aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe a -grossura, se servem do calibre, que elles -chamaõ <i>atelli</i>; elles tem muitos de -differentes figuras, conforme requer a -obra que elles fazem: alguns destes calibres -tem molduras, e a maior parte saõ -de ferro; mas tambem alguns saõ de páo.</p> - -<p id="section86">86 Quando se vê trabalhar hum habil -oleiro de roda parece que o seu trabalho -he muito facil de executar; todavia requer -muita destreza: porque naõ he facil -dar igualdade de grossura a hum vaso -de barro tendo huma maõ dentro delle, -e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade, -e se faz conhecer mais a habilidade -do obreiro, quando he preciso<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span> -dar mais grossura ao vaso em humas partes, -do que em outras: seria, por exemplo, -mais facil fazer o fundo de hum alguidar -mais grosso, do que os lados; com -tudo he melhor que o fundo seja mais -delgado, que os lados. Outras obras precisaõ -maior grossura na barriga ou bojo; -e hum habil obreiro chega a executar todas -estas cousas com bastante exactidaõ, -sem se servir de compaço, ou outra alguma -medida. Naõ se limita só nisto; -porque estende, ou aperta o barro, á sua -vontade, de sorte que tendo feito hum -vaso grande, o torna pequeno, querendo, -e de largo o faz estreito, se he alto o -reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade -do barro, faz delle o que quer; -com tudo nota-se, que os pratos razos e -fundos, etc. que foraõ feitos na roda, se -quebraõ quasi sempre pellas linhas circulares, -o que naõ acontece aos vasos -feitos em moldes; parece, que trabalhando-se -o barro na roda algumas camadas se -naõ unem perfeitamente.</p> - -<p id="section87">87 Adiante representarei muitas obras, -que se fazem na roda; mas para dar hum -exemplo do que podem fazer os oleiros -de obra grossa, escolherei hum mealheiro -<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 19</i>. Vou explicar como -se faz esta pequena peça taõ commum,<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span> -que he de hum só pedaço, fechado de -todas as partes, e feito inteiramente sobre -a roda, sem ser soldada, nem feita -de tiras, ou pedaços: o que parece difficil -de executar.</p> - -<p id="section88">88 O oleiro torneia na roda a parte -baixa, ou fundo do mealheiro, como se -quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno; -depois recalca o barro, e aperta a abertura; -formando como hum pequeno zimborio, -e isto faz huma especie de aperto -para isto aperta o barro da parte de fóra -com o dedo pollegar, e por dentro o sustenta -com o index, e isto continúa em -quanto póde ter o dedo index dentro do -mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo -comprime com o pollegar, e index -huma porçaõ maior de barro, que fica -reservada em roda do buraco, e neste -lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente -o mealheiro, depois com a folha -de huma faca abre a fenda por onde se -introduz o dinheiro, e por dentro nas -margens desta fenda se formaõ rebarbas, -que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando -se sacode o mealheiro; finalmente com -hum fio de lataõ, ou arame, a que os -oleiros chamaõ serra, despega o mealheiro -da roda pequena sobre a qual se fórma -a louça.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span></p> - -<p id="section89">89 Havendo-se de fazer na roda hum -grande alguidar para ensaboar; como as -bordas saõ grossas, e elle he muito mais -largo na boca do que no fundo, he preciso -usar de hum barro mais duro, porque -sendo molle, naõ se poderá suster. -Como nestes alguidares se costuma fazer -lugar de escorrer ou vazadouro a modo -de goteira isto se faz antes de os despegar -da roda; para este fim se dobra com -os dedos o lugar aonde se quer fazer a -goteira em quanto o barro ainda está -molle. Em fim, estando feito o alguidar, -ou outra qualquer obra, se despega da roda -com huma folha de faca, se a obra he -pequena, ou com hum arame se he grande.</p> - -<p id="section90">90 Há alguidares grandes, em que se -põe orelhas; porém estas naõ se fazem -na roda; adiante fallaremos delles, assim -como de outras muitas obras, nas quaes -he preciso pôr péz, e azas, etc.</p> - -<p id="section91">91 Os vasos communs de flores <i>n</i>, -<i>fig. 17</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, se fazem inteiramente sobre -a roda; devem ser hum pouco mais -largos para cima do que para baixo, para -se poder tirar o torraõ direito, e levar as -plantas com o torraõ em que se criáraõ: -em cima e na boca se lhe fórma hum cordaõ -que os fortifica, e os torna mais faceis de mudar<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span> -de hum lugar para outro. As gamelas -tambem se fazem na roda, e acabaõ em -cima com huma borda grossa, ou cordaõ, -como inteiramente os vasos de flores. Os -pratos se fazem do mesmo modo; mas -para as bordas acabarem com regularidade -se servem do calibre.</p> - -<p id="section92">92 Os vasos de despejos <i>A</i>, <i>B</i>, <i>D</i>, <i>fig. -20</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, se fazem por duas vezes. Sabe-se -que elles saõ mais largos por huma -ponta, do que pela outra <i>b</i>, que fórmaõ -huma cinta, ou anel de barro, que se -lhe põe quatro dedos distante da sua borda, -alguns oleiros chamaõ anel, e outros -<i>viret</i>. Com huma só operaçaõ se acaba -todo o vaso, e na ponta <i>b</i>, fica mais estreito, -e ahi se fórma hum anel: e depois -se despega de cima da roda pequena -ou prato, onde está pegado por hum bocado -de barro, que ahi se deixou; acaba-se -a ponta <i>a</i>, mais larga, que deve -receber em si a ponta <i>b</i>, que he mais -estreita, e tem o anel de que acima falamos; -estes vasos se fazem inteiramente -na roda; porém por duas vezes. Naõ he -o mesmo a respeito dos vasos em dous -<i>E</i>, <i>C</i>, <i>fig. 20</i>, ou que se dividem em -dous para corresponder á dous assentos. -A este respeito se deve notar, que há -tubos de despejo que saõ mais largos,<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span> -que outros; e por isso se fazem tubos, -que tem hum pé de diametro, e outros -só tem oito, ou nove pollegadas. Ora, -quando se faz hum tubo de barro, que -se deve dividir em dous como <i>E</i>, <i>C</i>, a -parte <i>A</i>, <i>B</i>, que corresponde a huma serie -de tubos, que se estende desde a cava, -até a divisaõ, ordinariamente se faz -com tubos de maior diametro, e as divisões -<i>E</i>, <i>C</i>, se fazem com tubos de -menor diametro. Para fazer o vaso ou tubo -que se divide em dous, saõ precisos -tres tubos hum grande, e dous pequenos; -põe-se a seccar hum pouco <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 7</i>. -o que explicarei com brevidade; e tendo -posto o grande pote sobre a mesa em -que se ha de preparar <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 8</i>, -com a ponta rebaixada para baixo, chanfra-se -a ponta larga que está para cima, chanfraõ-se -tambem as pontas mais estreitas -dos dous tubos do molde pequeno, para -as soldar com o grande, como se dirá. -Desta sorte os tubos, que se dividem em -dous se fazem parte na roda, e parte á -maõ; mas por naõ separar daqui cousa -alguma, das que pertencem aos vasos de -despejo, por isso julguei dever fallar -de tudo. Farei ver sómente, que se -póde fazer a separaçaõ dos tubos, sendo -taõ grandes huns, como outros, como se<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span> -representou em <i>A</i>, <i>B</i>, <i>C</i>, <i>D</i>, <i>fig. 20</i>, -<a href="#est1"><i>est. I</i></a>. Começo outra vés a fallar nas -obras que se fazem inteiramente na roda.</p> - -<p id="section93">93 Para fazer testos de potes, marmitas, -escalfadores, fogareiros etc. como -<i>I</i>, <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 12</i>, põe se sobre, a roda -pequena, ou prato hum bôlo de barro; -do qual se querem fazer varios testos, -começa-se primeiro a formar a parte de -baixo do testo, que he hum pouco convexa -no meio; depois apertando-se com -os dedos da outra maõ o barro, que está -por baixo do testo, se forma a parte -de cima, que he concava; faz-se no -meio hum botaõ, e se acaba despegando-o -do barro com o dedo, ou folha de -faca. Depois querendo se se põe o testo -sobre o barro que está na roda, e se -aperfeiçoa entaõ pela parte de cima; mas -de ordinario se naõ pratica isto: successivamente -se tiraõ tantos testos, quantos -póde dar o barro que está na roda.</p> - -<p id="section94">94 Os testos de fogareiros, e escalfadores -<i>fig. 13</i>, <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, se fazem pouco -mais, ou menos da mesma fórma, ainda -que sejaõ hum pouco mais compostos, -porque devem ter hum circulo, ou anel -que encaixa dentro da bocca do escalfador.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p> - -<h3><i>Como se podem formar obras no torno -com hum calibre.</i></h3> - -<p id="section95">95 Para calibrar as obras, se usa de -hum torno pouco mais ou menos, como -o da <i>fig. 18</i>. Elle tem huma roda <i>a</i>, hum -eixo <i>b</i>, que tem a roda pequena, ou prato -<i>c</i>, sobre o qual está a obra <i>d</i>. Está claro -que ajustando-se por cima da mesa hum -calibre, que se possa chegar para diante, -ou retirallo da obra <i>d</i>, á vontade -do obreiro certamente formará com exactidaõ -as voltas, ou molduras, que se -quizerem na obra, tirando-lhe por fóra -o barro, que se pôs de mais; porém este -calibre só póde formar o exterior, e -naõ se póde usar delle nos vasos, que -devem ser trabalhados tambem por dentro; -serve só para os pés destinados a -sustentar vasos, ou outras cousas de -ornatos, que á maõ se alimpaõ por dentro, -por naõ ser o interior de alguma -consequencia; mas póde-se fazer uso de -hum torno quasi semilhante para os vasos -de jardim, como vou explicar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p> - -<h3><i>Como se fazem no torno vasos -grandes de jardim.</i></h3> - -<p id="section96">96 Quasi todos os vasos grandes de -jardim se fazem por moldes; com tudo elles -se podem tambem fazer no torno, -com hum calibre grande <i>ee</i>, entalhado -nos lugares, que devem sobresahir no -vaso, e formar os salientes nas partes -onde os contornos do mesmo vaso devem -ser ocas, ou cavadas. Supponhamos, -que se quer fazer, o vaso <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, -<i>fig. 21</i>; faz-se de tres pedaços; hum faz -o pé, outro o corpo <i>l</i>, e outro o testo -<i>m</i>, ao qual se ajuntaõ alguns ornatos, -como hum globo, huma pinha, -pomo, etc. Vou agora explicar como -se faz o corpo <i>L</i>, sobre a mesa <i>B</i>, -<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 21</i>. O calibre, que anda em -roda se forma de hum páo vertical <i>hh</i>, -cuja ponta debaixo ou piaõ, se introdus -em hum buraco, feito no meio da mesa -<i>aa</i>, que deve ser forte, e por cima -he sustida por hum cachimbo de -páo <i>g</i>, que fica preza a huma peça tambem -de páo, quadrada <i>bb</i>, assim he preciso -conhecer que o páo vertical <i>hh</i>, -vira livremente sobre si mesmo. Este páo<span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span> -deve ser bem forte para poder sustentar -com firmeza a potencia <i>ii</i>, que deve puxar -o calibre <i>ee</i>, que algumas vezes forceja -muito pela impressaõ que faz no -barro, que excede do corpo do vaso. -Tambem se ajuda a fazer firme o calibre -segurando-o por baixo com a maõ, que -vai sobre a mesa em <i>o</i>, e com a outra -maõ tirando o barro, quando se vê que -o calibre tem muito barro para levar. Percebe-se, -que as peças de páo quadradas <i>bb</i>, -assim como a mesa <i>aa</i>, devem estar bem -firmes; mas como se fará por differentes -modos, segundo o lugar, em que se levantar -o torno, eu me contento só em mostrallo. -O oleiro põe o seu barro sobre a mesa -<i>aa</i>, e tendo huma maõ dentro do vaso, -e outra fóra lhe fará tomar pouco mais, -ou menos a figura, que elle projecta dar -ao vaso; digo, pouco mais, ou menos; -porque o calibre <i>ee</i>, he o que deve aperfeiçoar -a figura do vaso. Este calibre <i>ee</i>, -he huma taboa pouco grossa, cujas bordas -terminaõ em chanfro, e saõ talhadas -de modo, que o contorno das bordas faz, -por assim dizer, a contra prova do vaso -que se quer fazer. Deve-se segurar bem -com parafusos em huma peça de páo -quadrada <i>ii</i>, que fórma huma potencia; -para se adiantar, ou recuar este calibre,<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span> -segundo a grossura, que se quer dar ao -vaso, a potencia <i>ii</i>, he fendida, e tem -hum grande encaixe; de sorte que afroxando -o parafuso, o calibre <i>ee</i>, se pode chegar-se -para diante, ou recuar, e se segura -apertando o parafuso. Estando tudo -assim disposto, se faz virar á maõ o -calibre <i>ee</i>, que leva diante de si o barro, -que há de mais, e o oleiro o accrescenta -nos lugares aonde falta; ao mesmo -tempo põe o vaso, quasi igual na grossura -com hum calibre por dentro, tirando -o barro, que ha de mais aonde he muito -grosso. Finalmente, quando o corpo do -vaso está bem formado, se deixa hum -par de dias sobre a mesa, para que o -barro se faça mais duro; depois se despega -da mesa, com hum arame; tira-se -o pedaço de páo <i>g</i>, e tendo tirado o -páo <i>hh</i>; como tambem o calibre <i>ee</i>, -pega-se no vaso com ambas as maõs, -depois de tirado o páo <i>hh</i>, que o atravessa -em seu eixo; e se põe o vaso a -seccar. Entaõ se faz o testo com outro -calibre, e o pé tambem com hum calibre -proprio a figura que se lhe deve dar. -Depois de terem estado as peças algum -tempo a seccar, viraõ-se sobre a mesa, -em que se aperfeiçoaõ, para se alimparem -por dentro com hum instrumento proprio<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span> -para isso <i>Y</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, <i>fig. 1</i>, e formar-lhe -aneis para se ajustarem differentes peças. -Parecendo conveniente ao oleiro ajuntar -azas ao corpo do vaso, e adiante se explicará -o modo de o fazer: algumas vezes -se segura fixo, e immovel, o calibre e -o vaso he que vira sobre huma rodela, -que se move á maõ. Tudo isto pouco mais -ou menos he o mesmo.</p> - -<h3><i>Vasos grandes de barro cozido.</i></h3> - -<p id="section97">97 Todo o mundo conhece os vasos -grandes de hum barro esbranquiçado, vidrados -por dentro, que chamaõ <i>talhas</i>, -<i>A</i>, <i>fig. 20</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, elles se fazem em -Provença. Muitas pessoas attentas á sua -saude, para evitar os inconvenientes que -poderiaõ resultar do cobre, mandaõ vir -estas talhas para conservar a agua de -que usaõ. Ha algumas muito grandes, -que saõ grossas, e sólidas; com tudo cobrem-se -tambem de esteiras de palha, e -com esta precauçaõ duraõ muito tempo -sem se quebrarem; havendo cuidado no -Inverno de as ter em parte, onde naõ -gele a agua, que tem dentro. Quasi todos -os Navios as levaõ para conservar a agua -destinada para a meza do Capitaõ; e em<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span> -Provença se conserva o azeite nestas talhas.</p> - -<p id="section98">98 O gosto, que tem todos de conservar -a agua em talhas, tem obrigado aos -oleiros, que trabalhaõ em greda, a fazer -potes taõ grandes, quasi como os vasos -de que se acaba de fallar. Ha alguns, -que levaõ a quarta parte de hum almude. -Eu os conservo no meu laboratorio de -Chymica em <i>Campagne</i> feitos, em <i>Saint -Fargeau</i>, vidrados por dentro; os que -se vendem em París, e os que tem torneira, -ou esguicho, vem de Picardía.</p> - -<p id="section99">99 Porém vi em muitos lugares, e -igualmente tenho á muito tempo vasos -grandes de barro vermelho, entre os quaes -há alguns, que levaõ mais de meio almude: -os que saõ bem feitos a agua os -naõ penetra, inda que naõ sejaõ vidrados. -Servem para muitos usos; para guardar -lexivias; para fazer salmouras em lugar -de celhas de salgar carne; e vi em jardins -algumas, que, estando rodeadas de -obras de pedra calcaria, serviaõ de conservar -a agua, para se regarem, ou aguarem -as plantas. Eu naõ sabia de donde -vinhaõ estes vasos, e talvez se façaõ em -muitos lugares; mas Mr Desmarais me -fez ver no calendario <i>Limousin</i> do anno -de 1770 hum artigo, que julguei dever introduzir -aqui.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p> - -<p id="section100">100 Hum quarto de legoa distante de -<i>Montmoreau</i> que fica seis legoas ao Sul, -de Angoulème se acha a Cidade <i>Saint -Eutrope</i>, e quasi todos os habitantes desta -Cidade fazem louça. Contaõ-se ahi -trinta familias todas empregadas neste -trabalho: vinte e cinco fornos estaõ -sempre occupados em cozer louça miuda, -pratos pequenos, grandes, e panellas para -o fogo de differentes tamanhos; porém -ha tres, que estaõ destinados para cozer -differentes obras, e principalmente vasos -grandes para fazer Lixivia, e salgar toucinho, -etc. Todos os oleiros, que tem -de cozer destes vasos grandes, os levaõ a -hum destes tres fornos.</p> - -<p id="section101">101 Para esta qualidade de louças servem-se -de huma argilla muito ductil, que -se acha junto da aldêa. A occupaçaõ das -mulheres, e dos meninos, he humedecer, -e amassar, esta argilla com huma massa -de ferro sobre hum pilaõ, tambem daõ -os ultimos talhes á louça, o que se chama -aperfeiçoar: porém naõ he isto só o -que elles fazem, ainda vaõ cortar arbustos, -e páos miudos para aquentar os fornos -de cozer as louças.</p> - -<p id="section102">102 Os homens fazem vasos grandes -em huma roda muito simples <i>D</i>, <i>Est II</i>. -<i>fig. 3</i>. ella se fórma de duas rodellas <i>E,<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span> -</i>, semelhantes ás de hum zimborio de -moinho. Estas rodellas estaõ juntas huma -á outra por seis furos <i>G</i>: a rodella <i>F</i>, tem -hum buraco em <i>H</i>, para receber a espiga -ou eixo <i>I</i>, que está bem segura por baixo -na terra; de sorte, que este zimborio em -sua espiga, ou eixo, vem a formar como -huma dobadoura. O obreiro põe o barro -sobre a rodella <i>E</i>, e com o pé que põe -sobre a outra roda <i>F</i>, a faz andar lentamente. -Logo que está feita a primeira -base do vaso, elle trabalha os lados, -accrescentando successivamente rolos de -barro, que liga huns sobre os outros, -unindo as superficies interiores, e exteriores -com as maõs: deste modo chega -a acabar vasos grandes, os quaes torna -redondos por meio do torno; e elle tem -cuidado de dar pequenas pancadas com -a palma da maõ no barro para o comprimir. -Depois de seccos estes vasos se -fazem cozer nos fornos grandes, quasi -semilhantes aos que se representaraõ na -<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 7</i>, <i>8</i>, e <i>9</i>. Estas louças se -vendem principalmente em <i>Angouleme</i>, -<i>Perigueux</i>, <i>Saintonge</i>, <i>Bordeaux</i>. Os -oleiros naõ podem dar vasaõ ás encommendas -que tem dellas.</p> - -<p id="section103">103 Quando os vasos, de que se tem -tratado, saõ muito grandes, se fazem de<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span> -muitas peças: huma fórma o fundo, outra -o corpo, e outra a parte mais alta; -e todas estas peças se unem com aneis -de barro, que se cozem com o vaso, e ficaõ -taõ sólidas, como se fossem de huma -só peça.</p> - -<p id="section104">104 Vê-se em alguns vasos, feitos -em Normandia, partes sahidas para fóra -e saõ adornos; algumas vezes estas partes -postas circularmente, servem de encobrir, -e fortificar os lugares, em que foraõ -as soldaduras.</p> - -<p id="section105">105 A <i>fig. 2</i>, <i>M</i>, he hum grande vaso -de barro, no qual se põe algumas vezes huma -torneira, para fazer delle huma fonte, -ou lavatorio, e substituir os de cobre: -há alguns que tem por dentro pratos -desenhados por linhas pontuadas; estes -pratos estaõ cheios de buracos, e se -lhe põe arêa grossa para filtrar a agua, -e fazer fontes areentas.</p> - -<p id="section106">106 Saõ bem conhecidos os potes cylindricos -de Normandia, em que vem as -manteigas de Isignes. Depois de vazios, -as familias pequenas se servem delles -para conservar agua. <i>A</i> <i>fig. 6</i>, <i>P</i>, <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, -he huma botelha de barro de Normandia. -Quando se faz no torno a barriga -<i>QQ</i>, e o gargallo <i>R</i>, se solda na barriga -no lugar <i>T</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p> - -<p id="section107">107 Naõ faço huma maior relaçaõ das -differentes obras, que se fazem inteiramente -no torno; pois o que se acaba de -dizer bastará para fazer perceber o modo -porque se fazem aquelles, de que se -naõ falla: agora vou fallar das obras, que -se fazem, parte no torno, e parte na -mesa para lhes pôr azas, e pés.</p> - -<hr /> - -<h2 id="ARTIGO_V">ARTIGO V.<br /> -<span class="smaller"><i>Das obras, que se fazem parte na -roda, e parte na mesa para lhes -pôr azas, e pés.</i></span></h2> - -<p id="section108">108 Depois de começadas estas obras -no torno, e se lhes ter dado a figura, -que devem ter, se despega da rodella -com o fio ou arame de latam, e se põe -sobre humas taboas, a que chamaõ armaçaõ -de ripas, <i>D</i> <a href="#est3"><i>Est. III</i></a>, <i>fig. 4</i>, porque -estaõ ao tempo, e se fórma de ripas; -deixaõ-se seccar as obras hum pouco, -ou endurecer á sombra, mesmo defendidas -de huma grande corrente de ar, -porque he preciso, que sequem lentamente.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span></p> - -<p id="section109">109 Depois das obras estarem alguma -cousa duras sobre as ripas, se transportaõ -para huma mesa pondo humas ao pé das -outras para as aperfeiçoar.</p> - -<p id="section110">110 Esta operaçaõ consiste em remediar -a maõ os defeitos, que se lhe percebem; -se ha barro pegado em huma parte, -se tira com huma faca de páo muito estreita -que se molha; se as bordas de algum -vaso se inclinaraõ para alguma parte, -indireitaõ-se; se na barriga se fez alguma -cova, passa-se a maõ por dentro -do vaso para o endireitar fazendo vir para -fóra; se as boccas, que devem ser redondas, -apparecem ovaes, se indireitaõ apertando-as -entre as maõs. Algumas vezes -he preciso cortar por baixo os vasos -para ficarem com o assento mais firme; -isto se faz pondo a bocca do vaso sobre -a mesa, e o fundo para cima; depois se -tira o barro com hum instrumento de -ferro <i>Y</i>, <i>fig. 1</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, que tem córte. -Daõ-se de differentes formas huns saõ, -direitos, outros curvos, chamaõ-se <i>tournassin</i>.</p> - -<p id="section111">111 Sobre a mesa tambem he, que -se põe os pés, os cabos, e azas nas peças, -que os devem ter.</p> - -<p id="section112">112 Todas estas cousas saõ peças relativas -que se soldaõ nos lugares, em que<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span> -se devem pôr, tendo-se feito á maõ sobre -huma mesa. O modo de soldar os cabos, -as azas, e os pés he o mesmo; porém -devem haver certas precauções por se -naõ despegarem estas peças. Alguns exemplos -bastaraõ para se perceber esta pequena -manobra.</p> - -<p id="section113">113 Tomo por exemplo huma marmita; -fórma-se no torno a barriga, o gargallo -e a borda, e deixando-se sobre as -ripas este corpo de marmita, se põe sobre -a mesa para o aperfeiçoar, e ajuntar-lhe -as azas. Os oleiros se portaõ -nisto de dous modos differentes: huns -formaõ a aza sobre a mesa; daõ-lhe o -contorno, que lhe convem; depois para -apegar ao corpo da marmita, raspaõ hum -pouco os dous lugares, onde se deve pegar -a aza ao corpo da marmita; esfregaõ -estes lugares com hum bocado de barro -novo, soldaõ a aza apertando-a fortemente -com o dedo pollegar contra o corpo -da marmita, ou do fogareiro, etc. -Outros, depois de ter raspado o corpo da -marmita, põe sobre o mesmo lugar hum -pedaço de barro novo, que trabalhaõ á -maõ para o fazer tomar a figura de aza; -e depois de o terem preparado raspaõ o -lugar aonde ella deve chegar, e pondo -hum pouco de barro novo, e apertando<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span> -bem com os dedos a aza se pega de modo, -que naõ despega mais. Este methodo -se tem por mais sólido, do que o precedente.</p> - -<p id="section114">114 As orelhas <i>aa</i>, dos potes <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, -<i>fig. 12</i> se soldaõ do mesmo modo, que -as azas das marmitas.</p> - -<p id="section115">115 Em geral para que duas peças se -ajuntem bem, he preciso que os dous -barros estejaõ no mesmo gráo de seccura; -naõ sendo assim, huma peça encolheria -mais do que outra, e se despegaria, ou -quebraria. Com tudo se o corpo da marmita -seccasse muito se tornaria a humedecer -no lugar, em que se quizesse soldar, -pondo-lhe por cima hum panno molhado, -que dentro em huma noite humedece -quanto basta.</p> - -<p id="section116">116 O corpo dos potes de tres pés <i>fig. -15</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, se faz no torno, depois se trazem -para ahi os pés, e azas, como disse -da marmita, e para se soldarem se -poem na mesa com a bocca para baixo; e -testo <i>C</i>, naõ deve ter borda com encaixe.</p> - -<p id="section117">117 O corpo dos escalfadores <i>fig. 13</i>, -<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, se faz ao torno; fórma-se a barriga -<i>a</i>, redonda, depois aperta-se o barro -para formar a parte cylindrica <i>b</i>, fortifica-se -o bordo com hum rôlo ou anel<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span> -de barro, faz-se-lhe hum pequeno bico, -e quando estaõ já alguma cousa duros; -levaõ-se para a mesa de aperfeiçoar para -se acabarem, e pôr-lhe a aza <i>C</i>, como -se disse da marmita.</p> - -<p id="section118">118 O corpo <i>b</i>. das cassarolas, etc. -<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 14</i>, se faz no torno, ha oleiros -que fazem no mesmo torno o cabo, outros -o fazem á maõ sobre huma taboa. -Todos o soldaõ a cassarola, como já se -explicou.</p> - -<p id="section119">119 Os cabos que se fazem no torno -saõ muito mais proprios, do que os feitos -á maõ sobre a taboa; porém bom he -explicar como se faz no torno hum tubo -ôco pelo qual apenas se póde introduzir -hum dedo. Começa-se por baixo, com -sufficiente largura, para formar o tubo -entre o pollegar, e os outros dedos. -Este tubo tem pouca altura, e deve ser -grosso, porque será preciso estendello -no comprimento; para isto comprimindo -brandamente o tubo entre as maõs, se -estende, levantando as maõs, e elle diminue -de grossura á proporçaõ que se -estende em comprimento; acaba-se fazendo-lhe -huma pequena orla na borda -<i>c</i>. Em fim se despega da rodella; e depois -de ter comprimido hum pouco a -ponta, que ha-de pegar no corpo da<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span> -cassarola, como as azas dos fogareiros etc.</p> - -<p id="section120">120 Os coadores se fazem como as -cassarolas, etc. só sim demais se lhe abrem -buracos com huma especie de buril, -quando elles estaõ meios seccos.</p> - -<p id="section121">121 Tambem se fazem fogareiros pequenos, -em que se põe brazas para os -esquentadores de madeira; fazem-se no -torno, e antes de os tirar da rodella, se -faz chato hum dos lados que he formado -em parte do fundo; tira-se o barro, que -excede o resto das bordas do fogareiro: -forma-se á maõ o outro lado, e ajusta-se -no meio desta face hum botaõ; assim -esta pequena peça he quasi de todo feita -a maõ, ainda que ella se começa, e -se aperfeiçoa sobre a rodella, sem a tirar -para a mesa de aperfeiçõar.</p> - -<p id="section122">122 <i>R</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, <i>fig. 10</i>, he hum candeeiro -quasi todo feito no torno, ajunta-se -sómente hum bocado de barro em <i>a</i>, -e em <i>b</i>, com huma aza em <i>c</i>.</p> - -<p id="section123">123 Tambem se fazem regadores de -barro: o corpo se faz inteiramente sobre -o torno, assim como o tubo, que se -faz como o cabo das cassarollas; vaza-se -hum pouco na ponta, que se tapa com -huma placa de barro cheio de buracos, -põe-se por cima hum bucado de barro para -tapar a metade da embocadura; solda-se<span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span> -o tubo ao corpo do regador: sustem-se -por aquella parte, que naõ está -ôca; solda-se a aza e rega admiravelmente.</p> - -<hr /> - -<h2 id="ARTIGO_VI">ARTIGO VI.<br /> -<span class="smaller"><i>De algumas obras, que se fazem inteiramente á maõ.</i></span></h2> - -<p id="section124">124 Ja se disse que alguns oleiros -faziaõ todas as suas obras á maõ. Para -dar huma idéa deste trabalho vou explicar -como se fazem os esquentadores quadrados -<i>F</i>, <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 10</i>.</p> - -<p id="section125">125 Os esquentadores, e fogareiros, -que devem ter dentro em si o fogo, se -fazem com o mesmo barro de que se fazem -os ladrilhos, excepto que, em lugar -de ajuntar arêa á argilla, os oleiros emmagrecem -o barro com a escoria de ferro -moida; e passada por huma peneira -de cabello, ajuntando <i>hum demiqueve</i> -de barro a dez <i>boisseaux</i> do pó de escumalha. -Amaça-se esta mistura como já disse, -fallando os ladrilhos. Para fazer hum -esquentador, se molda sobre hum caixilho -de madeira, se formaõ duas como telhas, -ou pastas de barro direitas, se põe -nas varas a enxugar, e se batem huma -vez do mesmo modo, que os ladrilhos:<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span> -depois em quanto está ainda branda, se -tomaõ estas duas telhas, que chegaõ para -fazer hum esquentador. Põe-se huma -destas telhas na mesa de aperfeiçoar, raspaõ-se-lhe -as bordas sobre hum calibre -de páo, para o acertar, divide-se a largura -em tres partes, das quaes a do meio -faz o fundo do esquentador <i>a</i>, e as outras -duas fazem os grandes lados <i>bb</i>, <i>bb</i>, -levantando-os quasi perpendiculares, mas -que fiquem alguma cousa inclinadas para fóra, -bem entendido, que com os dedos -se fórma em baixo hum angulo, quasi -de quina viva; da outra telha, ou pasta -de barro se tiraõ os dous pedaços, que -haõ-de tapar as pontas do esquentador; -soldaõ-se nos grandes lados <i>bb</i>, fazendo -o mesmo que já disse a respeito do modo -de soldar as azas, e as orelhas dos vasos; -finalmente a mesma segunda telha -chega para fazer o tampo de cima <i>dd</i>; no -meio da qual se faz hum buraco quadrado -com a folha de huma faca molhada, -que he para o testo. Naõ se faz encaixe -para receber este testo; mas quando se -tira, corta-se o barro obliquamente, para -o chanfro servir de encaixe, para que -o testo naõ possa cahir dentro do esquentador; -aperfeiçoaõ-se todos os lugares das -soldaduras, e se acaba fazendo buracos,<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span> -tanto por cima, como pelos lados do esquentador, -com hum instrumento de ferro, -que faz as vezes de hum trado. Sobre -a mesa se lhe fazem tambem as azas -<i>ff</i>, e o botaõ de testo <i>e</i>.</p> - -<hr /> - -<h2 id="ARTIGO_VII">ARTIGO VII.<br /> -<span class="smaller"><i>Das obras, que se fazem com moldes.</i></span></h2> - -<p id="section126">126 Visto se ter fallado das obras -feitas a maõ, parece justo explicar-se -como se fazem em moldes; mas, como este -trabalho pertence mais ao louceiro de -obra fina, do que ao oleiro; por hora -darei hum só exemplo, descrevendo, -como se póde fazer hum vaso de jardim. -Molda-se com o gesso hum vaso ôco, sobre -outro, que tenha boa figura, mandado -reparar por hum escultor: divide-se -em tres partes, segundo o comprimento, -o gesso ôco que se moldou sobre -aquelle, que se quer imitar, bem entendido, -que se faz separadamente, o -ôco que deve fazer o corpo do vaso, e -o que deve fazer o pé, e o que faz o -testo.</p> - -<p id="section127">127 Reunem-se os tres pedaços, que -tem fazer o corpo, põe-se firmes segurando-os<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span> -com cordas, e, tendo esfregado -com alguma gordura o molde por -dentro, com a maõ, se põe huma camada -grossa de barro dentro do molde, e -se aperta para tomar bem a figura do -molde, deixa-se endurecer hum pouco -o barro no interior do molde: como ao -seccar encolhe, elle se despega do molde; -mas, antes de estar inteiramente secco, -se desataõ as cordas, separaõ-se as tres -peças, de que consta todo do molde, e -tira-se o vaso de barro, que se põe a enxugar -nas ripas, prepara-se, ou aperfeiçoa-se -depois com hum pequeno pedaço -de páo chamado, <i>bauehoir</i>, especie de -tasquinhador, ou goiva, e naõ precisa -ser escultor para o fazer.</p> - -<p id="section128">128 Com o instrumento de alimpar, -chamado <i>tournassin</i>, se tira por dentro -o barro, que ha de mais, e se forma -hum assento, ou encaixe por onde se -ajusta o pé, e o testo, depois de moldados, -ao corpo do vaso. Alguns fazem -moldes particulares, para formarem -as azas, e folhagens; mas como já -disse, só me propús fallar superficialmente -das obras moldadas, porque na arte -de louceiro da obra fina se trata disso -com individuaçaõ, aonde se ensina a fazer -pratos recortados, sopeiras, tigelas,<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span> -e mais utensis de meza com molduras, -e mesmo figuras de homens, e animaes.</p> - -<hr /> - -<h2 id="ARTIGO_VIII">ARTIGO VIII.<br /> -<span class="smaller"><i>Modo de enfornar as obras de olaria, -e cozelas.</i></span></h2> - -<p id="section129">129 Quando tratei dos ladrilhos, -dei a descripçaõ dos fornos, -de que usaõ ordinariamente os oleiros de -París, advertindo, que estas obras se poderiaõ -cozer nos mesmos fornos de telha, -que ficaõ representados na arte de -telheiro. Aqui só fallarei dos fornos dos -oleiros de París, que saõ muito bem pensados, -e de hum uso commodo: trazendo-se -á lembrança, o que fica dito no -principio desta Memoria a respeito dos -ladrilhos; he superfluo dizer, como se -arranjaõ as differentes obras nesta sorte -de fornos.</p> - -<p id="section130">130 Da parte da bocca por detraz da -<i>Fausse-tire</i> se arranjaõ os vasos, que haõ-de -ficar bem cozidos, huns sobre outros, -os quaes correm menos risco de se quebrarem: -taes saõ os vasos de flores, e os -tubos para despejo etc. Tambem se põe -junto ao fundo do forno <i>LM</i>, <i>fig. 8</i>, <a href="#est1"><i>est. -I</i></a>, que chamaõ lingueta, onde ha muito<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span> -calor, porque o ar quente deve descer a -este lugar, para sahir pelas aberturas, -por onde se descarrega a fumaça, que -ficaõ inteiramente por baixo.</p> - -<p id="section131">131 A primeira camada de baixo se -faz com tijolos ou ladrilhos grosseiros de -assoalhar, ou vasos grandes de despejo, -que se põe em lugar destes ladrilhos. -Como os vasos grandes tem bastante força -para supportarem a louça, que se lhe -põe por cima, com elles se póde fazer -a primeira camada. Deve haver cuidado -de se pôrem na mesma fileira os vasos -de hum tamanho, observando, como nos -tijolos, que a ordem de cima leva no meio -vasos, que formaõ a ordem de baixo, -como se vê <i>fig. 9</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>; mas, como huma -das principaes attenções, he exactamente -encher o forno, e de lhe meter a -mais louça, que lhe he possivel, para -tirar melhor partido da lenha, que gastaõ; -põe-se as peças pequenas dentro das -grandes; os testos dos esquentadores se -põe nos mesmos esquentadores, em que -haõ de servir, os vasos pequenos tambem -se põe entre os grandes, para encher os -vaõs o mais exactamente que fôr possivel. -Põe-se páos, como para os tijolos, -ou ladrilhos, pelos lados, e se distribuem -pelo forno de distancia, em distancia<span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span> -por entre a obra. Cortaõ-se as rachas -de páo, com que se forra a louça, -metendo-as entre a abobada de forno, e -a mesma louça, e se acaba fazendo hum -muro de tijolo na porta falsa. Por fim esquenta -a louça com mais cuidado, de que -com o tijolo, e o fogo se continúa pouco -mais ou menos o mesmo tempo, se -saõ louças ordinarias, e continua-se por -mais tempo, se se trata de cozer louça -de greda.</p> - -<hr /> - -<h2 id="ARTIGO_IX">ARTIGO IX.<br /> -<span class="smaller"><i>Descripçaõ de outra especie de forno, que -usaõ os oleiros dos arrabaldes de S. -Antonio para cozer suas obras.</i></span></h2> - -<p id="section132">132 Quasi todos os oleiros dos suburbios -de S. Marçal, se servem -do forno, já descripto no tratado dos -ladrilhos, e que está representado na -<a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 7</i>, <i>8</i>, e <i>9</i>, tanto para cozer -os ladrilhos como as louças; e estes fornos, -que occupaõ muito pouco lugar, se -imaginaraõ mui engenhosamente, e saõ -muito bons para a economia de lenha. -Com tudo a maior parte dos oleiros dos -suburbios de S. Antonio só usaõ destes<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span> -fornos para os ladrilhos, e para cozer -as outras louças, se servem de hum -forno, que se assemelha muito aos de -oleiro de obra fina, cuja descripçaõ vou -agora dar.</p> - -<p id="section133">133 A <i>fig. 1</i>, <a href="#est3"><i>est. III</i></a>, representa a altura -do forno, visto por fóra da parte da -boca da fornalha, ou a altura sobre a -linha, <i>C D</i>, do plano <i>fig. 2.</i> que he tomada -rente ao nivel do forno. <i>A</i>, he o -fogaõ ou fornalha que está em terra em -hum buraco; vê-se apontado pelas mesmas -letras nas figuras 1, 2, 3, e 14. O -que conduz o fogo, desce dentro desta -cova, e forra de lenha pela boca da fornalha, -debaixo do corpo do forno, onde -se metem as obras, que se querem cozer. -Logo em principio para temperar, -faz hum pequeno fogo na entrada da fornalha -em <i>A</i>, <i>fig. 3</i>, que representa toda -a extensaõ da fornalha, e fundaçaõ -do forno; depois para fazer o fogo grande, -chega o fogo até <i>E</i>, e o distribue -por dentro de toda a extensaõ da fornalha; -porém entaõ accommoda a lenha em -pé na boca da fornalha, para diminuir a -corrente do ár, que levaria o calôr para -o fundo do forno, e ao mesmo tempo -a parte de diante receberia pouco calor. -Com tudo he preciso, que elle se distribua<span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span> -com a igualdade possivel por toda a -extensaõ do forno: e esta he huma attençaõ -que deve ter o atiçador.<a name="FNanchor_19" id="FNanchor_19"></a><a href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></p> - -<p id="section134">134 A abobada <i>F</i> <i>fig. 4.</i> que cobre a -parte superior da fornalha tem os buracos -<i>aaa</i>, etc. Por estes buracos, que tambem -se pódem vêr em <i>F</i> <i>fig. 2.</i> se representa -o fundo, ou pavimento do forno, -que está por cima de abobada, que cobre -a fornalha; por estes buracos <i>aaa</i>, -he que passa o ar quente da fornalha, <i>A</i>, -<i>fig. 4.</i> para o corpo do forno <i>G</i>, que está -por cima, e no qual se arruma a obra -que se quer cozer vidrada. Este corpo -do forno he fechado por cima, com -huma abobada <i>H</i>, <i>fig. 4.</i> a qual tem os -buracos <i>bbb</i>, do mesmo modo que a abobada -<i>F</i>; e isto mesmo se vê tambem na -<i>fig. 5.</i> em <i>H</i>; e por estes buracos he, -que o ar quente passa do corpo <i>G</i>, <i>fig. -4.</i> ao corpo <i>I</i>, aonde se põe as louças,<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span> -que se querem cozer em branco. Como -o ar quente sempre sobe, logo que o forno -se esquente, no corpo <i>I</i>, he maior -o calor do que no corpo <i>G</i>, que ao principio -tinha mais calor, do que o outro, -que fica mais alto.</p> - -<p id="section135">135 Na parte mais alta de abobada, -que cobre este corpo superior, ha hum buraco -<i>K</i>, <i>fig. 4</i>. de seis ou oito pollegadas -em quadra, e de mais quatro buracos -<i>K</i>, <i>fig. 1</i>. e <i>5</i>. Estes cinco buracos servem -para dar sahida ao ar que entra pela -boca da fornalha, para obrigar ao calor -a sobir até ao alto do forno.</p> - -<p id="section136">136 Enche-se a camera <i>G</i>, <i>fig. 4</i>. por -huma porta <i>L</i>, <i>fig. 1</i>, e <i>4</i>. que se fecha -com huma parede de tijolos, ou pedaços -de louça, logo que se acabou de encher -o forno, antes de accender o fogo: -deixa se só huma pequena abertura em -<i>M</i>, <i>fig. 1</i>. para dar sahida a huma parte -da fumaça, que poderia enfraquecer a -marcha do ar quente necessario para cozer -a obra. Por cima desta pequena abertura -<i>M</i>, ha huma parede como de huma -chaminé de cozinha, e hum tubo <i>N</i> -<i>N</i>, <i>fig. 1</i>, e <i>4</i>. para conduzir a fumaça -por senaõ espalhar na officina.</p> - -<p id="section137">137 A camera ou o corpo superior -<i>I</i>, <i>fig. 4</i>. se enche de louça, que se quer<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span> -cozer em branco, por huma porta que está -em <i>O</i>, e que se fecha, quando o corpo -está cheio, fazendo no alto desta porta -huma abertura semilhante á que fica notada -em <i>M</i>, <i>fig. 1</i>, e, como se naõ receia -incommodo de fumaça por ser esta abertura -muito alta, se lhe naõ faz cuberta, -nem tubo de chaminé: sobe-se ao corpo -do forno <i>I</i>, por huma escada <i>P</i>. <i>fig. 1</i>.</p> - -<p id="section138">138 Por fim se gradua o fogo como -acima fica dito; começando por hum -fogo pequeno para esquentar a obra, -e acabando por hum fogo muito activo -de lenha rachada.</p> - -<hr /> - -<h2 id="ARTIGO_X">ARTIGO X.<br /> -<span class="smaller"><i>Do verniz ou vidrado, que se põe na -louça.</i></span></h2> - -<p id="section139">139 A maior parte das obras de -barro ordinarias deixaõ transpirar a agua -por seus poros, maiormente quando -se mistura muita area no barro: misturando-se -pouca area, os vasos conservaõ -bem a agua; mas naõ pódem sofrer -o fogo: ora, como a maior parte da -louça, para os utensilios de huma casa -deve ir ao fogo, os louceiros naõ lhe -poupaõ a area; porém dando-lhe esta faculdade<span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span> -de rezistir ao fogo, se tornaõ -penetraveis a agua, como se acaba de dizer. -Quasi todos estes utensis com tudo -a devem conter; para lhe dar esta propriedade, -se cobrem de huma camada -de verniz, que, vitrificando-se, naõ deixa -a agua passar. E assim para os alguidares, -e vasos do uso das leiterias, os oleiros -se servem de hum barro puro, que -toma corpo, e naõ deixa transpirar a -agua; porém estes vasos se quebrariaõ, -se os puzessem ao fogo: por isso lançaõ -muita area no barro, de que haõ-de fazer -os vasos, que servem para o fogo; e -depois os vidraõ, para poderem reter a -agua.</p> - -<p id="section140">140 Aqui só se fallará em resumo do -verniz das louças, que he muito grosseiro; -porque o verdadeiro lugar de tratar -disto a fundo, he quando se tratar da -louça fina.</p> - -<p id="section141">141 Os oleiros para vidrarem as suas -obras, se servem da mina do chumbo; -e a isto he que se chama pedra -de chumbo no commercio, e os oleiros -chamaõ verniz: ou se servem do zarcaõ, -ou chumbo vermelho, que impropriamente -chamaõ mina de chumbo; que -he huma cal de chumbo com huma côr -vermelha bem viva. O falecido Mr. Jars<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span>, -nas memorias da Academia, deo o modo -de o fazer tomar esta côr vermelha -pela calcinaçaõ. Tambem se servem ainda -do lithargirio, isto he, do chumbo -calcinado, que perdeo huma parte -do seu phlogistico pela acçaõ do fogo, e -que está em hum estado de vitrificaçaõ -imperfeita. Elles se servem destas substancias -por dous modos, como agora vou -a explicar.</p> - -<h3><i>Primeiro methodo.</i></h3> - -<p id="section142">142 Quebra-se a pedra de chumbo sobre -huma peça de cobre para senaõ perder -cousa alguma; passa-se por huma -peneira de cabello, e o resto se piza em -gral de ferro, e se torna a passar, até -que tudo se passe pela peneira.</p> - -<p id="section143">143 Alguns oleiros compraõ o chumbo -em chapa, e elles mesmos o reduzem a -cal; julgo que seria melhor usar do lithargirio, -ou chumbo vermelho.<a name="FNanchor_20" id="FNanchor_20"></a><a href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span></p> - -<p id="section144">144 Prepara-se o lithargirio como a -pedra de chumbo; elle se reduz a pó -muito facilmente, e o zarcaõ ainda mais; -ajunta-se a hum, ou a outro destes pós -por medida outra tanta quantidade de area -como ha dos pós de lithargirio, zarcaõ -ou da pedra de chumbo; deve-se notar, -que todas as preparações de chumbo, -se vitrificaõ, e facilitaõ muito a vitrificaçaõ -das substancias terreas; A area faz -huma parte consideravel do verniz, por -meio de chumbo, que serve de fundente: -como o chumbo he caro, e a area -naõ custa dinheiro, os oleiros poupaõ -muito, misturando a area com o chumbo -e eu creio, que esta liga da area naõ altera -a bondade do vidrado. O chumbo só -sobre o barro faz huma côr amarella, -querendo-se que este esmalte, ou verniz -seja verde, em duzentas libras de lithargirio, -ou cal de chumbo se lançaõ sete, -ou oito libras de limalha de cobre.<a name="FNanchor_21" id="FNanchor_21"></a><a href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span> -Querendo-se, que tenha huma côr escura, -mistura-se-lhe manganesia, que he huma -mina de ferro pobre e refractaria; -ella he de hum azul denegrido granulado. -Della se servem os vidraceiros; mas quando<span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span> -lançaõ muita, faz o vidro roxo. Acha-se -em Piemonte, em Toscana, Bohemia, -e Inglaterra. A pedra, que se vende -com o nome de marcassita differe della -pouco, ou nada. Estas materias, sendo -pulverisadas, formaõ verdadeiramente o -verniz dos oleiros, que só falta applica-lo -sobre os vasos, que naõ foraõ ainda -cozidos, porém que estaõ já seccos, e -promptos para se cozerem. Para o pó se -pegar aos vasos se humedecem na agua -chamada gorda, que he a agua, em que -se dissolveo a argilla; depois antes que -esta agua se seque, se espalha por cima -os pós de que acabamos de fallar, virando -a peça por todos os lados, a fim de -ficarem cobertos todos os lugares, que se -querem envernizar; e como ha muitas peças, -que só se querem esmaltar por dentro, -nestas se naõ põe os pós pela parte -de fóra.</p> - -<p id="section145">145 Deixaõ-se as peças suar hum pouco, -depois se arrumaõ no forno do modo, -que já expliquei; de sorte que com -huma só operaçaõ se coze o barro, e se -derrete o verniz, que vitrifica na superficie. -Por este methodo economiza-se a lenha; -porém gasta muito chumbo: e tambem -porque o pó senaõ póde espalhar -igualmente, em alguns lugares fica muito,<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span> -e quando se derrete, espalha se pelos -outros vasos. Naõ he só este o inconveniente: -como he preciso meter muita -lenha para cozer as obras com grande -fogo, ha tambem o inconveniente, de -que, queimando-se esta, levanta muita -cinza, que vem a offender o esmalte, -quando se está derretendo.</p> - -<p id="section146">146 O outro methodo consiste em pôr -o verniz nos vasos, que já estaõ cozidos; -gasta se mais lenha; porque as obras vaõ -duas vezes a cozer ao forno; porém evitaõ-se -entaõ os inconvenientes de que -acabo de fallar; além do que, como os -oleiros só depois das obras cozidas he que -conhecem a perfeiçaõ dellas, ha huma -grande vantagem em pôr o verniz nas peças -depois de cozidas; pois em todas as -fornadas, se quebraõ, e se desfiguraõ algumas -peças, e assim só se põe o verniz -ou esmalte nas que sahem do forno perfeitas. -Daqui resulta ser menos o gasto -do chumbo, naõ levando verniz, as peças -que quebraraõ; este methodo tambem -contribue muito a economisar o chumbo; -porque os que o seguem livigaõ o -lithargirio, e a pedra de chumbo com -agua em huma mó representada separadamente -<a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 11</i>, e <i>12</i>. Elles livigaõ -estas differentes substancias separadas, e<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span> -com agua de sorte, que correm á maneira -de caldo, pelos vasos, que lhe ficaõ -por baixo, e põe o verniz liquido na -louça, cozida, lançando esta especie de -caldo sobre os vasos, ou mettendo dentro -nelle as peças, que se querem envernizar -por dentro, e por fóra; e isto he melhor, -e de mais economia. Applica-se o -verniz com hum pincel, que o põe mais -lizo, e só se põe nos lugares onde se -julga conveniente. Finalmente estas substancias -bem livigadas se applicaõ aos vasos -em corpo o mais delgado, que he -possivel e se julga conveniente.</p> - -<p id="section147">147 Deixaõ-se seccar as peças, o que -se faz em pouco tempo, porque a louça -que vem do forno atrahe promptamente -a humidade.</p> - -<p id="section148">148 Põe-se no forno, onde se lhe dá -hum fogo pouco mais ou menos igual -áquelle com que se coziaõ; mas naõ se -deve meter lenha entre as peças, e sobre -a obra; por evitar, que a cinza senaõ -espalhe sobre o verniz, quando está -derretido pelo fogo. Naõ ha inconveniente, -em pôr lenha dos lados, principalmente -quando ha a precauçaõ de se -pôr perto alguns vasos, que naõ sejaõ -envernizados, ou que se cozem a primeira -vez; e he melhor conservar o fogo<span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span> -por mais tempo no forno, do que meter -lenha entre a louça. Huma das vantagens -do forno, que imita o dos louceiros -de obra fina, he naõ estar exposto -ao inconveniente das cinzas.</p> - -<p id="section149">149 Os oleiros naõ concordaõ em dar -a preferencia a hum destes methodos; -cada hum se encosta áquelle que pratíca. -Os que applicaõ o verniz em pó sobre -o barro crú confessaõ, que gastaõ -mais chumbo; porém dizem, que o seu -verniz ou esmalte penetra melhor o barro, -e se pega mais intimamente. Os outros -sustentaõ que o verniz pega muito -bem no barro cozido, e allegaõ a favor -do seu methodo o menor consummo do -chumbo, e o aceio da sua obra, sendo -o verniz distribuido em huma grossura -mais uniforme; mas os que seguem este -methodo, naõ estaõ ainda do mesmo parecer -sobre hum ponto, que me parece -bem importante. Huns dizem que só basta -cozer medianamente a obra, antes de -a meter no verniz, para que o verniz se -possa introduzir pelos poros do barro, e -que ao depois he preciso dar hum grande -fogo para cozer as obras cubertas de -verniz.</p> - -<p id="section150">150 Outros dizem, que da primeira -vez, que se cozem, he preciso fazer hum<span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span> -grande fogo, e da segunda quanto baste -para derreter bem o verniz: a favor desta -pratica podem dizer, que, como o chumbo -vitrifica a area, produz este effeito naquella, -que está na superficie dos vasos -cozidos, o que o faz muito adherente a estas -qualidades de obras; em segundo lugar; -que naõ sendo preciso hum grande -fogo para o cozimento, se evita o meter -lenha entre a louça, e por cima della, -e isto a izenta dos maõs effeitos da -cinza.</p> - -<p id="section151">151 Eu me inclino á primeira pratica, -porque se precisa hum fogo violento, -para fundir bem o esmalte, e este -mesmo fogo acaba de cozer o barro: -preciza o verniz estar bem derretido, -para o chumbo poder vitrificar a -area, que está na superficie da louça. -Este sentimento he conforme ao uso de -quasi todos os oleiros; com tudo naõ -me proponho a decidir qual seja o methodo; -porque naõ tive occaziaõ de fazer -sobre isto experiencias decisivas.</p> - -<p id="section152">152 Parece-me que o artigo do verniz -se poderia aperfeiçoar, sem obrigar -os oleiros ás despezas consideraveis; julgo -por exemplo, que elles deveriaõ, misturar -com o seu chumbo huma area, ou<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span> -hum <i>quartz</i> fusivel<a name="FNanchor_22" id="FNanchor_22"></a><a href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a> que se vitrifica facilmente -com o chumbo, e deste modo -poderia economisar este metal; talvez -mesmo, que achassem elles huma vantajem -em frittar<a name="FNanchor_23" id="FNanchor_23"></a><a href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> sua area antes de a -misturar com o chumbo; e o moido poderia -ser melhor que a area. Por hora, -saõ idéas, que se devem olhar como simples -conjecturas, até que se experimentem, -e conbinem por differentes modos.</p> - -<p id="section153">153 Todas as vezes, que se coze, se fecha -exactamente o forno, logo que cessa -o fogo; para que conserve o calor, e -as peças, esfriem pouco a pouco: porque -huma parte da louça quebraria se -ao sahir quente do forno, se expozessem -ao ar frio. Quando o forno está já bem -frio, e se quer tirar a louça, se abre a<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span> -parede, ou porta falsa, para por ella se -tirarem as obras que estaõ cozidas; porém -muitas vezes succede, que, o verniz -derretendo-se, corre de hum vaso para -outro, e se achaõ muitos vasos pegados. -Quando a adherencia he pouco consideravel, -se separa facilmente; mas algumas -vezes se quebraõ os vasos, indo-se a separar, -e este inconveniente succede mais -vezes áquelles que põe o verniz em pó, -do que os que usaõ delle diluido em agua, -porque a camada do verniz he mais delgada, -e por isso menos sujeita a correr.</p> - -<p id="section154">154 Já disse, que o verniz naõ pegava -sobre as manchas negras semilhantes -a escoria do ferro, que fazem os pyrites, -que se queimaõ ao cozer. Quando as peças -valem o trabalho, os oleiros reparaõ -em parte estes defeitos, pondo muito verniz -sobre as manchas negras; porém estas -obras precizaõ tornar outra vez ao -forno, e causaõ grande incómmodo ao -oleiro. Quando se tiraõ do forno as peças, -as mulheres com facas grossas tiraõ -os pedaços de barro, que se prendem -aos vasos.</p> - -<p id="section155">155 Como sobre as louças de Lyones -vi obras, e louças fabricadas nas provincias -vizinhas de Liaõ, tenho gosto de dizer -tambem alguma cousa a respeito dellas;<span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span> -e para isto procurei a Mr. de la Tourrette -da Academia de Liaõ, e correspondente -da Academia das Sciencias de -Pariz, que tem hum zelo admiravel em -ajudar com suas luzes todos, que emprendem -indagações uteis.</p> - -<p id="section156">156 As memorias, que me procurou -Mr. de la Tourrette, dizem respeito a -tres qualidades de louças; que saõ a de -Prá em Forez, a de Franche ville em -Liones, e a de S. Valerio no Delphinado. -Agora só me servirei das excellentes -memorias, que recebi sobre a louça -de S. Valerio, porque, como as obras, -que ahi se fazem, saõ de louça fina, he -justo fallar dellas, quando se tratar da -arte de louça fina, que ao depois se publicará.</p> - -<h3><i>Da louça de Prá em Forez.</i><a name="FNanchor_24" id="FNanchor_24"></a><a href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></h3> - -<p id="section157">157 Prá he huma aldea junto á freguezia,<span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span> -e termo de S. Bonnet-Les-Oules -em Forez distante duas boas legoas de -S. Estevaõ, e huma de S. Galmier.</p> - -<p id="section158">158 Dizem, que o estabelecimento -desta fabrica de louças tem perto de quatrocentos -annos: em outro tempo haviaõ -neste lugar quarenta olarias, e cada huma -tinha seu forno; agora só tem cinco, -por causa das muitas olarias, que se tem -estabelecido na mesma provincia.</p> - -<p id="section159">159 Nestas louças se empregaõ duas -qualidades de barro, que se misturaõ, -hum vermelho, e outro escuro, ambas -se achaõ em abundancia perto de Prá -nos confins da freguezia de S. Bonnet, -e nos das freguezias de Bauthcon, e Vanche.</p> - -<p id="section160">160 Achaõ-se na terra em bancos -mais, ou menos extensos, os do barro escuro -tem quasi dez pollegadas de alto, e os -de barro vermelho saõ mais grossos; o -barro escuro he mais gordo que o vermelho.</p> - -<p id="section161">161 As louças de Prá soffrem melhor -o fogo, do que outras muitas.</p> - -<p id="section162">162 Amassaõ-se estes barros com hum masso -de ferro sobre huma prancha, ou mesa -forte, e depois se trabalhaõ na roda.</p> - -<p id="section163">163 Os fornos saõ redondos, tem cinco,<span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span> -ou seis pés de diametro, e sete, ou -oito de alto, sem cuberta; saõ feitos de -tijolos grossos juntos com barro gordo, -e levaõ huma contra parede, feita de pedra -de edificios com argamassa de cal, -e area.</p> - -<p id="section164">164 Estes fornos, que se assemelhaõ -bem aos de telheiros se esquentaõ com -lenha por tempo de dez, ou doze horas, -e mais segundo a estaçaõ: nas primeiras -quatro, ou cinco horas só se faz hum -pequeno fogo; depois se augmenta, e -se faz muito activo.</p> - -<p id="section165">165 O verniz se faz da pedra de chumbo, -ou do mesmo chumbo que se tira -em pedra das minas vizinhas: pizaõ se, -e passaõ se por huma peneira, e se livigaõ -com pedras muito duras <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, <i>fig. -11</i>, e <i>12</i>. <i>G</i>, <i>H</i>.</p> - -<p id="section166">166 Tendo-se preparado assim o verniz -se usa delle liquido; lança-se nos vasos, -e se voltaõ para todos os lados, como -se os lavassem. Estando o corpo da -peça cuberto de verniz, se lança o resto -em huma celha, para servir para outros -vasos.</p> - -<p id="section167">167 Applica-se o verniz sobre vasos -côr de cinza, mas muito seccos; e quando -o verniz está secco, se põe as louças -no forno.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p> - -<p id="section168">168 Querendo-se, que o verniz seja -verde, mistura-se limalha de cobre com -o chumbo, como acima se disse.</p> - -<p id="section169">169 Os vasos desta qualidade de louça -rezistem muito ao fogo, como tambem -os cadinhos para a fundiçaõ dos metaes; -tem se feito muitas experiencias -em S. Estevaõ: elles se fazem dos dous -barros misturados, e amassados juntos, -como já fica dito.</p> - -<p id="section170">170 Fazem-se nestas olarias, tijellas, -pratos grandes, e pequenos.</p> - -<h3><i>Louça de Franche ville em Lyones.</i></h3> - -<p id="section171">171 Julga-se em Lyones que esta olaria -já existia no tempo dos Romanos.</p> - -<p id="section172">172 Usaõ ahi de duas sortes de barros, -hum amarello, e outro côr de cinza, -e ha alguns, que tem mistura destas -duas côres. O amarello se acha ordinariamente -em hum terreno magro, e -areento, em lugares muitos elevados; o -côr de cinza em valles por bancos maiores, -ou menores, e mais, ou menos espessos; -mas estes barros saõ muito abundantes, -porque neste lugar se fabríca muita -louça, desde hum tempo immemoravel.</p> - -<p id="section173">173 O barro amarello he mais aspero<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span> -ao toque, e mais grosseiro, do que o côr -de cinza, que he muito macio, e nelle -senaõ encontraõ area.</p> - -<p id="section174">174 O amarello soffre melhor o fogo, -do que o côr de cinza.</p> - -<p id="section175">175 Em Franche ville se fazem duas -qualidades de louça; e isto depende da -especie de barro de que a fazem.</p> - -<p id="section176">176 O amarello resiste perfeitamente -o fogo; o cinzento, que se chama <i>gaubino</i>, -como he hum barro mais puro -faz huma louça mais compacta, que naõ -póde aturar o fogo; mas a louça feita -com o barro amarello, se descasca ao -ar, isto he, cahe-lhe o verniz ou a superficie; -o côr de cinza supporta muito melhor -as suas influencias.</p> - -<p id="section177">177 Dizem, que as plantas postas em -vasos deste barro naõ produzem. Misturaõ-se -estes dous barros para hum corrigir -as faltas do outro.</p> - -<p id="section178">178 Nas olarias se fazem vasos na roda, -e outros em molde conforme requer -a sua figura. Finalmente amassaõ-se estes -barros batendo-os com huma massa -de ferro como se faz em Prá.</p> - -<p id="section179">179 Os fornos, semelhantes aos dos -telheiros, humas vezes saõ redondos, e -outras vezes quadrados. Faz-se o fogo debaixo -de huma abobada, em que ha buracos<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span> -quadrados de tres, até quatro pollegadas -de diametro, separadas humas -das outras seis, ou sete pollegadas; para -que o ar quente se communique ao interior -do forno, onde se arrumaõ as -obras, ellas devem estar bem seccas antes -de se expôr ao fogo, precisaõ-se quasi -cento e quarenta feixes pequenos de lenha -para huma fornada.</p> - -<p id="section180">180 Para envernizar estas louças, querendo-se -que o esmalte seja verde, se -usa do chumbo hermetico, ou mina de -chumbo, que se liviga debaixo da mó -com agua, como fica dito, e a limalha de -cobre. Querendo-se fazer o verniz branco, -naõ se lhe ajunta a limalha de cobre; -e quando se usa do chumbo só em -huma louça de barro amarello, fica o -esmalte avermelhado: este verniz se emprega -no barro crú. Limito-me a estas indicações -geraes, porque já se tratáraõ -com individuaçaõ em outro lugar.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span></p> - -<h2 id="ARTIGO_XI">ARTIGO XI.<br /> -<span class="smaller"><i>Das Louças, que se chamaõ de greda.</i></span></h2> - -<p id="section181">181 A vista do que disse no principio -deste pequeno tratado a argilla he a -baze dos barros, que servem para fazer -as louças; porém segundo as substancias, -que se achaõ misturadas com a argilla, -ha humas, que fazem obras muito mais -solidas do que outras. Quando estas substancias -tornaõ a argilla fusivel, se cozem -com pouco fogo, e por isso se póde dar -a louça mais barata; destas he que acabei -agora de tratar. A argilla pura, sendo -de natureza a encolher muito, se racha -ao seccar, ou ao cozer; mas quando -a argilla se mistura com huma area -refractaria, ou muito difficil de derreter, -resulta daqui hum barro, que póde seccar, -e cozer-se sem rachar, e que faz -louças muito duras, quando experimentaõ -hum grande fogo. Em geral este he -o motivo porque se chama louça de greda. -Ha qualidades dellas muito differentes; -os vasos de greda côr de castanha, -em que vem as manteigas de Isigny, -saõ muito duras, e sonoras; elles rezistem<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span> -muito bem a hum fogo grande, e -naõ saõ atacaveis pelos acidos: esta he -huma excellente louça; he quasi taõ sonora -como a porcelana, quando se quebra -a sua grã he muito fina, e hum pouco -brilhante: e por isso he muito chegada -á natureza do vidro; tambem tem -o defeito de se quebrar, quando se faz -passar subitamente do quente para o frio, -ou ao contrario. E porque suspeitei, que -este defeito vinha, de estar a argilla ligada -com muita area que se tinha vitrificado -pelo muito fogo, eu a fiz lavar; -e depois de se ter precipitado huma pouca -de area mais pezada, e mais grosseira, -e pequenas pyrites, que tinha em -grande quantidade, mandei fazer cadinhos -com o barro fino, que depois se -precipitou. Estes cadinhos vindo vermelhos -do fogo, e depois mettendo-se em -agua fria senaõ quebráraõ. Se eu estivesse -vizinho destas olarias, persuado-me -que poderia fazer vasos, naõ taõ formosos, -como os de louça fina, a mais commum, -porém que seriaõ taõ bons para o -uso como a melhor porcelana. Fiz vir -este barro de Gournai, a Normandia; -mas como naõ me podia vir, senaõ em -pequena quantidade, só fiz muito poucas -experiencias em obras pequenas, porque<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span> -se acabou logo o barro. Convido os phisicos, -que tiverem a maõ as olarias de -greda, a fazerem experiencias mais decisivas -do que estas, que acabo de referir; -porque esta especie de barro me -parece digna de sua attençaõ.</p> - -<p id="section182">182 Como quasi todas as louças de -greda, que se vendem em París vem de -Beauvais, e que naõ ha lugares em todo -o reino, aonde se trabalha nestas qualidades -de louças, que passaõ mesmo para -os estrangeiros, desejei ter maiores -luzes sobre a posiçaõ das veias do barro -proprio para estas louças, sobre o modo -de o preparar, finalmente sobre tudo, o -que respeita a esta qualidade de obras.</p> - -<p id="section183">183 Dizem, que as olarias se estabeleceraõ -em outro tempo em huma freguezia, -que ainda agora se chama <i>S. -Germano da olaria</i>; porém ellas se tem -abandonado: agora neste lugar só se fazem -tijolos, telhas, e ladrilhos. Na freguezia -de <i>Savignier</i>, onde ha quatorze -oleiros, que trabalhaõ em greda, se acha -hum barro muito proprio para estas qualidades -de obras, e os obreiros saõ peritos -no modo de o trabalhar. Em <i>Chapelle-au-Pot</i>, -huma legoa distante de Savignier -ha seis oleiros; porém elles trabalhaõ por -hum modo muito inferior neste barro,<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span> -do que no de Savignier; ainda que elle -he quasi da mesma natureza.</p> - -<p id="section184">184 Huns, e outros ás vezes tem muito -trabalho em achar veias de barro de -boa qualidade. Depois de se tirarem dous, -ou tres pés da superficie, se começaõ a -perceber as veias dos barros, que se procuraõ; -mas ellas só saõ boas, de vinte -pés de fundo por diante, e se tira barro -ainda de mais fundo; e entaõ os obreiros -temem o cahir-lhe a terra em cima. -Ha veias mais grossas, e mais largas humas -do que outras, que se seguem em -quanto se acha barro de boa qualidade: -distinguem-se duas especies delle; o que -se chama greda, muitas vezes he bastantemente -duro, e dificil de tirar. Com -estas duas qualidades de barros se fazem -duas especies de louças, huma com o -barro, que se chama greda, e outra com -hum barro hum pouco differente; com -este se fazem vasos, que pódem ir ao -fogo; mas as do outro se quebraõ, se -senaõ esquentaõ com muito cuidado, com -tudo quebraõ-se menos do que os da greda -escura de Normandia. Os cadinhos só -se fazem aqui de encomenda: o obreiro, -que tem mais fama de os fazer bem, -passa o barro por huma peneira, escolhe-o, -e amassa-o com mais cuidado do<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span> -que os outros: a preparaçaõ deste barro -he, quasi a mesma, que os oleiros de -París daõ ao seu.</p> - -<p id="section185">185 Interrompo, o que hia a dizer -das olarias de Beauvais, para fazer notar, -que os melhores cadinhos, que podem -haver para os fundidores, saõ os que se -fazem de hum barro branco, que se acha -em S. Samsaõ, quasi seis legoas distante -de Beauvais. Estes cadinhos esbranquiçados, -bem cozidos, muito sonoros, resistem -ao maior fogo, sem se quebrarem, -e sem se penetrarem pelos saes; tem -de mais a vantagem, de naõ precizarem -tanto cuidado como os cadinhos de greda, -quando se metem no fogo, ou quando -se tiraõ. Agora torno a fallar do trabalho -de Beauvais.</p> - -<p id="section186">186 Quando se tira a argilla da terra, -leva-se para casa do obreiro, põe-se em -pequenos pedaços, lança-se em huma cova -com agua, para ella se penetrar, e -fazer-se ductil; deixa-se até o outro dia, -e entaõ se tira em massa; o obreiro a -corta, e a torna a pôr em camadas na -mesma cova de donde a tirou, para a -amassar, e misturalla com huma pouca -de area, ligeiramente salpicada de cal: -finalmente amassa-se como fazem os oleiros -de París; depois de se ter amassado,<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span> -e tornado a ajuntar por quatro vezes, se -fazem bolos, que se levaõ a huma mesa, -para o amassar, e trabalhar bem, -como fica já explicado a fundo. Trabalha-se -depois sobre huma roda de ferro -<a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 4</i>, e <i>5</i>. ou de páo que se faz -mover com o pé <i>fig. 18</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>; porque -os oleiros de Savignier se servem de humas, -e outras, segundo as obras, que -elles tem de fazer. Em huma palavra o -trabalho dos oleiros de Picardia naõ differe -essencialmente, do que acima disse -tanto para a factura das obras, como para -dar-lhe o verniz.</p> - -<p id="section187">187 As louças de greda se cozem a -grande fogo; os fornos estaõ postos em -pleno ar sobre huma pequena elevaçaõ -de terra; differem pouco dos fornos dos -oleiros dos suburbios de S. Marçal <a href="#est1"><i>est. -I</i></a>, <i>fig. 7</i>, <i>8</i>, e <i>9</i>. só com a differença, -que, sendo feitos sobre hum pequeno cabeço, -se caminha sempre subindo desde -a entrada até o fundo do forno, e isto -facilita a distribuiçaõ do ar quente. Na -parte opposta da fornalha, naõ ha o tubo -de chaminé <i>C D</i>, <i>fig. 3</i>. <a href="#est1"><i>est. I</i></a>; mas -na parte baixa <i>C</i>, se formaõ pequenas -arcadas para a dissipaçaõ da fumaça; por -este lugar he que se metem as obras no -forno, depois se fecha com huma parede<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span> -de tijolos. Estes fornos ordinariamente -tem 45 até 50 pés de comprido, e dez, -ou doze de largo no meio, e huma altura -igual debaixo da abobada; porém na sua -embocadura só tem quasi seis pés de alto.</p> - -<p id="section188">188 O fogo se faz diante da embocadura -do forno em huma fornalha de abobada, -que tem quasi quatro pés de largo, -e cinco de comprido, e outro tanto -de alto. Começa-se com hum pequeno -fogo, depois se augmenta, e se acaba -com hum fogo de lenha miuda, que se -inflama muito, e se continúa oito dias, -e oito noutes sem interrupçaõ.</p> - -<p id="section189">189 As louças, que devem servir no -fogo, ou que haõ de ser envernizadas, -naõ levaõ hum fogo taõ violento: trabalhaõ-se -quasi como as louças de París; -mas para cozer as louças de greda se -gastaõ 16, ou 18 cordas (<i>cada corda tem -4 pés d’alto, e 8 de comprido</i>) de páos -grossos, e quatro centos feixes de lenha -mais fina para o ultimo fogo.</p> - -<p id="section190">190 A manteiga de Prevalais, vem -em potes de huma greda azulada, que -he muito boa; mas eu naõ sei exactamente -o modo de trabalhar esta pequena -louça, e por isso naõ entro em grandes -individuações a este respeito.</p> - -<p id="section191">191 Em <i>Zimmeren</i>, quatro legoas de<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span> -Treveris, e em muitos lugares na provincia -de Luxembourg, se faz huma especie -de louça que he muito boa, de huma -greda muito fina, e branca, cuja superficie -he luzente sem se cubrir de verniz; -este brilhante he formado pelo mesmo -barro, que passou por huma vitrificaçaõ -superficial; eu penso que ella se -forma pelo vapor do sal marinho, que -se lança no forno, como nas obras de -barros brancos, que se tem feito em -Montereau.</p> - -<p id="section192">192 Os que vem da provincia de Luxembourg, -trazem todos os annos desta -louça a París ao Armazem de louça fina, -aonde vaõ comprar os que contrataõ neste -genero. Naõ pude ter maiores conhecimentos -sobre o modo trabalhar nestas -louças.</p> - -<p id="section193">193 Julgo, que os barros, que fazem -boas louças de greda, se preparaõ de -argilla, de hum bocado de area vitrificavel, -e de area muito refractaria; porque -em todas as fabricas, onde se fazem boas -louças, e ainda mesmo nas de porcelana, -se fazem entrar com successo na -composiçaõ pedaços de louças quebradas, -reduzidas a pó, depois de se conhecer, -que saõ de qualidade capaz de resistir a -hum grande gráo de fogo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span></p> - -<h3><i>Das Louças de S. Fargeau.</i></h3> - -<p id="section194">194 Além das louças de greda, que -se fazem em Bretanha, Normandia, e -Picardia, se fazem muito boas em S. Fargeau. -Como esta cidade, que he huma -das mais antigas de França, está distante -de Briara quatro legoas. O Loire serve -para se transportar esta louça a muitos -lugares. Leva-se pelo Loire por exemplo -a Chateauneuf, de donde se destribue -por terra a muitos lugares. Como -daqui vem a Pithiviers, cidade muito visinha -ás nossas terras, tive occasiaõ de -a comprar, e conhecer a bondade desta -louça; cheguei mesmo a prover-me de vasos -de Chymica, que mandei fazer em -S. Fargeau por modelos, que enviei. Ha -ahi louças, que saõ cubertas de hum verniz -escuro muito duro, e que resistem -muito bem a acçaõ dos acidos mais concentrados; -tive cucurbitas, e capiteis de -lambiques, em que ajustei grandes refrigerantes -de cobre; estes vasos saõ taõ -impenetraveis aos vapores os mais subtís, -como o melhor vidro, e resistem muito -melhor a acçaõ do fogo.</p> - -<p id="section195">195 Como quiz adquirir conhecimentos<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span> -sobre a natureza desta louça, procurei -com confiança a Mr. o Presidente de -S. Fargeau, por conhecer o seu zelo -para tudo, o que tem relaçaõ com o progresso -das artes, e que pode utilisar ao -bem público. Elle mesmo quiz responder -em huma Memoria as perguntas que lhe -fiz por instruçaõ sua, e isto me põe em -estado de dar huma idéa bem exacta dos -methodos, que seguem os oleiros deste -lugar. Ainda que estas louças saõ conhecidas -pelo nome de greda de S. Farjeau, -com tudo ellas se naõ fazem nesta cidade -mas sim em huma pequena povoaçaõ -que dista huma, ou duas legoas da cidade.</p> - -<p id="section196">196 Em geral a argilla, que se emprega -para a louça que nos occupa, he -cinzenta; mas della se distinguem duas -qualidades; huma mais branca, que a -outra, tem huma area fina; com este -barro se fazem vasos de huma greda mais -compacta, e fina, do que com a outra, -e se coze mais forte. Ellas naõ vaõ ao -fogo; e por isso desta greda se fazem -potes de manteiga, quartas, e botelhas -etc. Este barro, depois de cozido, toma -huma côr amarella clara; com tudo, fazendo -se passar por hum grande fogo, -toma a côr cinzenta. Com elle se fazem<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span> -vasos, que se envernizaõ, e outros naõ: -para distinguir este barro do outro, eu -o chamarei barro branco.</p> - -<p id="section197">197 A outra especie de barro tambem -he côr de cinza, porém mais escura, -que a precedente; e por isso o chamarei -escuro. Os oleiros achaõ esta argilla mais -forte, e mais pura, que a branca: com -este barro he que elles fazem os utensis -do uso que devem ir ao fogo; naõ -o cozem taõ forte, como o outro, e huns -vasos vaõ envernizados, e outros naõ. -Estes dous barros, sendo cozidos, tomaõ a -mesma côr pouco mais, ou menos, e os -vasos, feitos de hum, ou outro barro -destes, nos lugares, aonde ficaõ mais expostos -a acçaõ do fogo, se tornaõ brilhantes -na superficie, como se fossem -envernizados.</p> - -<p id="section198">198 Os oleiros fazem muitas obras de -cada hum destes barros separados, e puros, -sem mistura alguma; tambem as fazem -de ambos os barros branco, e escuro -misturados, sem lhe ajuntarem outro -barro, ou area.</p> - -<p id="section199">199 Ambos estes barros se achaõ -mais, ou menos fundo em camadas de -dous pés, até seis de grosso. Estes bancos -de argilla se cavaõ facilmente com -o enxadaõ, ou enxada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p> - -<p id="section200">200 Estes barros saõ bem finos; e -moem-se entre os dedos; com tudo entre -elles se encontraõ calháos, e pedras, e -se lançaõ fóra quando se achaõ nas maõs, -ou debaixo dos pés.</p> - -<p id="section201">201 Este barro se reduz a pequenos -pedaços com qualquer instrumento, que -corte; depois, humedecendo-se com agua, -se amassa até tres vezes, e depois se trabalha -com as maõs, como fazem os oleiros -de París.</p> - -<p id="section202">202 Muitas vezes o amassaõ, logo -que o tiraõ; com tudo os oleiros convem, -que elle se trabalha melhor, depois -de passar hum inverno ao ar; e este -sentimento he geral em todas as olarias.</p> - -<p id="section203">203 Como disse acima, que se humedecia -para o pôr em estado de ser amassado, -devo advertir, que o naõ lançaõ -na agua, como fazem os oleiros de París; -porém deitaõ de doze, até quinze baldes -de agua em huma carrada de barro.</p> - -<p id="section204">204 Os vasos se trabalhaõ em huma -roda, que se faz andar com hum páo, -como se vê representado na <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. -4</i>, e <i>5</i>.</p> - -<p id="section205">205 Põe-se as azas, e se aperfeiçoa a -obra, do mesmo modo que fazem os -oleiros de París, como fica dito.</p> - -<p id="section206">206 O forno dos oleiros de S. Fargeau,<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span> -com pouca differença, he o mesmo -que fica representado na <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, porém -he hum pouco metido pela terra; -de modo que para meter a lenha, se precisa -descer a huma cova, que tem quasi -nove pés de largo, quatro de fundo, e -quatro de vaõ. O corpo do forno, aonde -se arrumaõ os vasos, tem dezenove pés -de comprido, dez de largo, onde ha -maior largura, e seis de alto.</p> - -<p id="section207">207 Para huma fornada se gastaõ vinte -cordas de lenha miuda, ou nove de -lenha grossa; daqui se vê que estes fornos -se esquentaõ por hum modo muito -differente dos de París.</p> - -<p id="section208">208 O fogo dura quatro dias, e tres -noites sem parar; por doze horas he o fogo -brando para esquentar, e todo o mais -tempo he com muito fogo para cozer perfeitamente: -quando se para com o fogo, -se fecha o forno, e fica assim tres dias, -e tres noites, de sorte que, quando se -tira a louça, já ella está fria. Se a louça -se tirasse logo huma parte quebraria derrepente, -e o resto seria muito fragil; e -desta sorte o tempo, que a louça fica no -forno depois de cozida, equivale ao recozimento -dos vidraceiros, sem o qual -tudo se quebraria, principalmente passando -do quente para o frio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span></p> - -<p id="section209">209 Põe-se no mesmo forno os vasos -de barro branco, que naõ se destinaõ -para servir no fogo, os de barro cinzento, -que haõ-de ir ao fogo, e os da mistura -destes dous barros. Toda a differença, -que se observa no cozer, he pôr os -vasos de barro branco perto da entrada -do forno, no lugar aonde ha maior calor, -e os de barro misturado no meio -do forno, e os de barro cinzento na extremidade -do forno, onde ha menos calor.</p> - -<p id="section210">210 Os oleiros de S. Fargeau fazem -o seu verniz com duas materias mais, -ou menos vitrificaveis, a que chamaõ -<i>Latier</i>; este <i>Latter</i> vem das fornalhas, -em que se trabalha a mina de ferro. Hum -he escuro, e em parte vitrificado; o outro -he verde, e he hum verdadeiro vidro -muito duro.</p> - -<p id="section211">211 Achaõ-se estas substancias espalhadas -sobre a terra; ainda que junto a -S. Fargeau naõ hajaõ fornalhas de ferro; -presume-se que as houveraõ antigamente. -Reduzem a pó por meio de huma maquina -de dous pilões que se faz mover por huma -manivela, e de huma roda; estes pilões -na ponta debaixo levaõ huma chapa de -ferro, como a dos pilões de socar casca -de curtume. Quando se precisa pouca<span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span> -quantidade de verniz, se pulverisaõ as -materias, de que acabo de fallar em hum -gral com maõ de ferro; passaõ-se por -huma peneira de cabello; este pó entaõ -está da côr de cinza, e os oleiros o chamaõ -<i>Latier en laquet</i>, (escoria para verniz).</p> - -<p id="section212">212 Applica-se este verniz ao barro -crú, porém bem secco; para o pó se -pegar, se humedecem os vasos em agua, -e se pulverisaõ exactamente com este -pó, que fica muito adherente, quando -se derrete pela acçaõ de hum grande fogo, -e se encorpora a superficie do barro.</p> - -<p id="section213">213 Como se applica sobre estes vasos -crús, o mesmo fogo, que coze o -vaso, faz derreter o verniz, que se torna -escuro côr de castanha, e muito duro.</p> - -<p id="section214">214 Para os vasos de barro branco -mais expostos ao fogo se mistura com a -escoria huma pouca de cinza fresca passada -por peneira. Dizem os oleiros, que -sem isto, o verniz se queimaria. No -meio do comprimento do forno se põe -simplesmente as escorias; e na ponta, -aonde ha menos fogo, se ajunta ás escorias -hum bocado de cal de chumbo para -ajudar a fusaõ.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span></p> - -<p id="section215">215 Este verniz, como já disse, toma -huma côr da castanha muito unida, e -brilhante, e he taõ bom como o dos oleiros -de París; mas he preciso hum grande -fogo para o fazer derreter: e nisto convem -com louças que se cozem em greda e todas -as de S. Fargeau saõ desta qualidade.</p> - -<h3><i>Modo de procurar as louças huma côr -negra, que de algum modo supre o -verniz.</i></h3> - -<p id="section216">216 Eu tirei do Calendario Limousino, -algumas individuações sobre as louças -de S. Eutropio em Angoumes especialmente -sobre as que chamaõ panellas, -e destas humas saõ envernizadas, e -outras naõ; estas vaõ huma só vez ao -forno, as outras vaõ duas vezes, e nelle -se deixaõ tres dias para ficarem perfeitamente -cozidas. Seu verniz nada tem de -particular: porém he justo referir huma industria, -com que os oleiros de algum modo -suprem o verniz, tingindo de preto -os vasos, que em muitas serventias saõ -preferiveis aos envernizados. Consiste pois -nisto sua industria.</p> - -<p id="section217">217 Assim que se põe a louça no forno, -se lhe lança, por cima cinza de Estevas, -ou urzes, e se cobrem com ella<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span> -o mais que póde ser. Põe-se depois seis, -ou sete feixes deste arbusto no fogo. Depois -de se inflammarem bem estes feixes -se tapaõ as bocas superiores do forno, -e se sufoca o fogo: a louça deste modo -recebe a fumaça, que a penetra, quando -ella está ainda humida (a que chamaõ -suar a louça) quando se começa a esquentar, -ou a dar a tempera. Esta fumaça -ajuntando-se com a cinza faz huma -côr negra, e muito solida ás louças. Depois -desta fumigaçaõ, se abrem os buracos -superiores do forno, e se continua -a cozer a louça.</p> - -<h3><i>Louça de Inglaterra.</i></h3> - -<p id="section218">218 Mr. Jars, correspondente da Academia, -sabendo, que eu me occupava -em fazer a arte de oleiro teve prazer em -me communicar algumas memorias sobre -a louça de Inglaterra, que elle tinha -achado entre os papeis do falecido seu -irmaõ da Academia das Sciencias. Naõ -deve haver duvida, que se Mr. Jars as -tinha publicado, teria ajuntado muitas individuações, -que as fizessem mais claras; -mas julguei devellas dar taes, quaes elle -me remetteo, persuadido que as pessoas -já instruidas no trabalho da louça poderaõ<span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span> -nellas achar algumas praticas, que -cooperem para a perfeiçaõ desta arte.</p> - -<p id="section219">219 <i>Comté de Nordhumberlane.</i> Nas -visinhanças da Cidade de Neuwcastle -se estabeleceraõ differentes fabricas de -louça; onde se fazem de toda a qualidade, -a excepçaõ só da branca, que em -França chamamos de barro de Inglaterra.</p> - -<p id="section220">220 Neuwcastle está situada com a -maior vantagem para este commercio: o -carvaõ de pedra he muito, e barato, porque -o do gasto do paiz naõ paga direito -algum.</p> - -<p id="section221">221 Em quanto aos materiaes proprios -para fazer a louça estes tambem lhes vem -baratos, porque os Navios que vaõ levar o -carvaõ a Londres, na volta lhos trazem; -visto deverem trazer lastro. A materia propria -para fazer a pederneira, ou pedras -de tirar fogo: sabe-se que dellas ha grande -abundancia na parte Meridional de Inglaterra; -pois de Douvres até Londres, -quasi todo o terreno he huma mistura -de greda, e pederneiras.</p> - -<p id="section222">222 Destas materias fazem o lastro os -mais dos Navios, que muitas vezes voltaõ -de Londres vazios; deves-se suppôr, que -tornando a Neuwcastle ellas se vendem -baratas; os que tomaõ os fornos de cal de<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span> -empreitada, que saõ muitos na visinhança -do rio, as compraõ; elles fazem huma -mistura de greda, pederneira, e pedra -de cal sem distinçaõ alguma, e cozem -tudo acamado, huma cousa por cima -de outra. Depois da calcinaçaõ he -muito facil distinguir a pederneira, ainda -que se torna muito branca de escura -que era dantes; põe se de parte esta pederneira -para se vender aos oleiros, -a razaõ de oito, ou nove xelins a tonelada; -e cada huma tem vinte quintaes de -cento, e doze libras de pezo de Inglaterra.</p> - -<p id="section223">223 Em geral saõ semilhantes todos -os fornos, de que se servem para cozer -a louça; só differem na construçaõ em serem -maiores, ou mais pequenos.</p> - -<p id="section224">224 A louça ordinaria, que se chama -louça fina, para a distinguir de huma mais, -commum, do que adiante se fallará, se -faz de huma argila de côr cinzenta, tirando -mais a branca, e da pederneira calcinada, -que entra na composiçaõ de quasi -todas as louças. Antes de misturar, ou -preparar, como se segue.</p> - -<p id="section225">225 Cada fabrica tem huma especie -de moinho, para moer a pederneira, que -he tocado por agua, ou por hum cavallo; -alguns donos destes moinhos compraõ a<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span> -pederneira, e a vendem, depois de moida -aos oleiros. Este moinho consiste -em huma especie de pia de páo de cinco, -ou seis pés de diametro, cujo fundo -se faz de humas grandes pederneiras -naõ calcinadas, postas humas ao pé das -outras de modo, que deixaõ entre si vacuos -bem consideraveis; no meio deste -fundo ha hum mancal, que recebe o piaõ -de hum páo vertical com hum braço em -que se prende o cavallo, ou bois que o tocao -(no Brazil se chama atafona;) em roda -deste páo estaõ muitas pederneiras grandes -encaixadas, e seguras com gatos de -ferro, que servem de mós. Mr. Jars, vio -destes moinhos, aonde em lugares de -pederneiras, se servem de marmores durissimos, -de que fazem a mó superior, -unindo quatro pedras grossas com gatos -de ferro ao páo vertical.</p> - -<p id="section226">226 Nestes moinhos, e entre estas -pedras, se moe a dita pederneira calcinada, -lançando-lhe sempre agua; quando -a agua está já bem carregada, se tira -huma cavilha de páo, que está na pia, -para cahir agua em huma peneira de cabello, -e desta em huma celha: lança-se -nova agua no moinho, e se procede do -mesmo modo, que fica dito, lançando outra -vez na pia, o que naõ póde passar pela<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span> -peneira; depois disto, se passa por huma -peneira de seda muito fina, quando -se quer misturar com a argilla, que se -prepara do modo seguinte.</p> - -<p id="section227">227 A argilla, de que se faz a louça, -se tira do condado de Devonshire, de donde -vem por mar, e serve de fazer lastro -aos Navios de volta, como a pederneira; -tambem se servem della para fazer pitos: -posta em Neuwcastle custa sete, ou -oito xelins a tonelada. He côr de cinza, -tirando mais o branco; tem a grã muito -fina; dilue-se com agua em tanques -grandes, agitando-a bem para se dividir -melhor; depois se passa esta argilla desfeita -n’agua por huma peneira de cabello -taõ fina, como aquella, em que se passou -a pederneira, e depois em huma de -seda taõ fina, como a da pederneira; e -entaõ se vai logo fazer a mistura.</p> - -<p id="section228">228 Misturaõ se dez partes de agua -carregada de argilla com huma parte da -agua da pederneira: estando tudo bem -misturado, se trata da evaporaçaõ da humidade, -e reduzir tudo a consistencia -de massa, o mais breve que for possivel, -para que a pedra naõ tenha tempo de se -separar da argilla, e precipitar-se, o que -faria a mistura desigual. Tem-se experimentado -o calor do sol, mas sem fruto;<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span> -servem-se de humas especies de fornos -para esta opperaçaõ.</p> - -<p id="section229">229 Estes fornos consistem em huma -caixa comprida, ou especie de bacia formada -de tijolos, sustida por cima com -barras de ferro: tem huma grelha para -se fazer ahi fogo de carvaõ de terra, e -na extremidade da caixa huma chaminé -para receber a fumaça. Esta mistura carregada -de agua se põe nestas para evaporar-lhe -a humidade, até huma consistencia -conveniente para ser amassada; -depois disto se tira este barro, e se põe -em hum lar liso, feito de pedras chatas, -ou com taboas: aqui se trata de -amassar tudo, e pôr a massa em ponto -de ser trabalhada.</p> - -<p id="section230">230 Formaõ-se logo obras a maõ na -roda orisontal, quando ellas estaõ já meias -seccas, se acabaõ na roda vertical com -os instrumentos; outras finalmente se -formaõ em moldes de gesso: para preparar -estes moldes, o melhor modo de -queimar o gesso he o seguinte.</p> - -<p id="section231">231 O do uso ordinario, que se chama -alabastro, parece ser hum gesso branco -semilhante ao que se tira nas visinhanças -de Salins em <i>Franche Comté</i>; reduz-se -a pó que se passa por huma peneira -muito fina; depois se põe ao fogo dentro<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span> -em hum vaso de barro; move-se bem com -hum páo de espaço em espaço; e logo -que elle se agita pelos globulos de ar, -que delle sahem, se chama a isto <i>fazello -ferver</i>. Continua-se até se julgar bem -calcinado, depois se humedece com -agua para fazerem moldes do modo que -se quer.</p> - -<p id="section232">232 Mr. Jars vio preparar bules para -chá, cujo corpo se fez com as duas differentes -rodas; mas a aza, e o bico se -fazem em moldes de gesso; estes moldes -estaõ perto do fogo para estarem seccos. -Quando se quer formar a aza de hum -bule de chá que está feito ordinariamente, -se tem hum molde que consiste de -duas peças de gesso, se applica huma sobre -a outra, e que saõ ocas com a figura -que deve ter a aza; faz-se hum -rolo do barro, e se estende no molde -de maneira, que o encha perfeitamente; -applica-se por cima a outra a metade do -molde; depois se põe tudo ao pé do fogo -hum bocado de tempo; tira-se a peça -do molde, e se ajusta no corpo do -bule humedecendo o barro com agua -no lugar aonde se soldar.</p> - -<p id="section233">233 Os bicos se fazem por modo alguma -cousa differente, tem-se moldes semelhantes -aos precedentes, bem seccos,<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span> -e applicados hum sobre outro: em huma -das extremidades, que communica -na capacidade interior, tem hum buraco, -por onde se lança a massa muito clara, -porém de modo, que fica huma abertura -no interior da peça formada, que vem -a fazer o bico do bule. O molde de gesso -bem secco sem duvida, he o que ajuda -a fazer este vacuo, embebendo com -a sua porozidade a agua da massa do barro, -assim que esta toca nas paredes do -molde. Este molde se põe por algum -tempo ao pé do fogo, como o outro de -que já fallei, antes de se tirar a peça, -que depois se solda no bule, do mesmo -modo que se solda a aza.</p> - -<p id="section234">234 Mr. Jars, vio em differentes fabricas -muitos moldes de gesso para fazer -pratos, e tigellas recortadas, e com differentes -feitios: vantagem consideravel, -para diminuir o preço da maõ de obra. -Toda a louça, feita deste modo, se põe -sobre taboas debaixo dos telheiros, ou -alpendres aonde secca; ha caixas redondas -feitas de barro ordinario, peneirado -grosseiramente, porém amassado com -muito cuidado; commummente tem duas -pollegadas de grosso, quatro, ou cinco -de fundo, e hum pé de diametro; nesta -caixa se arruma de ordinario a louça;<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span> -no forno, se põe huma sobre outra; fazem-se -muitas ordens no fundo: isto fórma -differentes pilhas, conforme o tamanho -da fornalha.</p> - -<p id="section235">235 Assim que está quasi cheio se -fecha a porta falsa com tijolos, e barro, -e se lança carvaõ nas cinco fornalhas de -vento distribuidas em roda da fornalha -grande. Quando se accende, entra a chama -naõ só pelas cinco chaminés, mas -tambem pelas pequenas aberturas, que -vaõ ter a cada huma dellas; assim o calor -se introduz igualmente por todo o interior -da fornalha: este calor deve continuar -trinta horas, depois que pára o -fogo; logo que esfria a fornalha, se tira -a louça para a envernizar.</p> - -<p id="section236">236 Todos os vernizes, de que se usaõ, -tem por base o chumbo; tambem se servem -da pedra, ou mina de chumbo, o -zarcaõ, e o alvaiade, conforme a qualidade -da louça; accrescenta-se-lhe alguma -outra materia para variar a côr. Para -diminuir o preço do verniz se lhe ajunta -huma certa quantidade de pederneira calcinada, -e a mesma argilla, de que se faz -a louça; assim que secca o verniz, com -que se cubrio a louça, se põe de novo -nas caixas, e depois na fornalha, como -se fez d’antes, e ao cabo de trinta<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span> -horas está em termos de ser vendida.</p> - -<p id="section237">237 Pode-se usar de toda a qualidade -de carvaõ para a cozer.</p> - -<p id="section238">238 A louça assim preparada, e cozida, -como fica dito, naõ está subjeita ao -perigo de se quebrar pelo calor da agua -fervendo, ou pelo fogo, com tanto que -se naõ ponha de repente em hum fogo -muito ardente. Esta louça serve para cozer -no forno toda a qualidade de manjares, -mas principalmente a louça branca, -que se fabríca no Condado de -<i>Stafford</i>. A sua descripçaõ tambem se -ha de dar.</p> - -<p id="section239">239 O interior da louça cozida he -muito branco, e de huma grà muito compacta. -Ainda que se lhe naõ percebe apparencia -de vitrificaçaõ, se pode dizer, -que se avisinha muito a ella.</p> - -<p id="section240">240 Fabrica-se outra especie de louça -no mesmo lugar, e fornalha, que se -faz com outra argilla escura, como a precedente: -nesta naõ entra a pederneira; -mas a sessenta partes deste barro se ajunta -huma parte de magnesia reduzida a -pó muito fino: depois desta mistura, se -evapora a maior parte da humidade em -hum forno semelhante ao precedente; cobre-se -de hum verniz negro, em cuja -composiçaõ entra tambem a magnesia;<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span> -esta louça passa pelas mesmas operações, -que a primeira, e resiste igualmente -ao calor.</p> - -<p id="section241">241 Muitas vezes se applicaõ desenhos -em ouro sobre esta louça negra; para isto -se tem hum licôr, que se chama <i>goldsize</i> -ou mordente, que se traz de Londres: -he huma especie de verniz composto -de differentes modos; com este -verniz pinta o obreiro tudo, o que quer, -sobre a louça alguma cousa ainda quente; -depois do que applica sobre a pintura -folhas de ouro batido (ou paõ de -ouro,) e com hum pé de lebre se faz -cahir o ouro dos lugares, que naõ foraõ -envernizados; põe-se depois esta louça -em huma pequena fornalha, que está de -parte, com grades de ferro, e sua chaminé; -o fundo he huma chapa debaixo -da qual se põe o carvaõ, a fumaça, e -a chama sahem pela chaminé.</p> - -<p id="section242">242 Pouco distante desta fabrica ha -hum lugar em que se faz louça grosseira, -e que vai ao forno huma só vez, porém -com hum fogo continuado por quarenta -horas. A fornalha he semelhante á -precedente; porém muito maior; tem -sete fornalhas de vento, e sete chaminés, -em lugar de cinco, que a outra -tem. Estas fornalhas de vento saõ quasi<span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span> -de cinco pés de distancia de hum centro -a outro.</p> - -<p id="section243">243 A argilla cinzenta que serve -para a louça, de que se acabou de fallar, -na vista he em tudo muito semelhante -á de que se servem em Staffordshire -para a louça branca; com tudo as -experiencias, que della se fizeraõ, tem -provado, naõ ser susceptivel da mesma -impressaõ do sal, para a cobrir de hum -bom verniz.</p> - -<p id="section244">244 <i>Louça do Condado de Stafford</i>. -As minas de carvaõ tem dado lugar a -hum estabelecimento de fabricas de louça -de todo o genero nas visinhanças da -Cidade de Neuwcastle; por isso as de -louça branca saõ mais numerosas. Dizem -que ha de dez a quinze mil almas empregadas -nas minas de carvaõ, e nas fabricas -de louças; mas sem contradiçaõ o -maior numero se occupa na louça. Naõ -se vem ali senaõ pequenas povoações habitadas -de oleiros, e fabricas deste genero -em toda esta parte do Condado de -Stafford, e hum grande numero de fornalhas, -principalmente nos lugares aonde -se tirou, e aonde ainda se tira carvaõ.</p> - -<p id="section245">245 A argilla, de que usaõ para a louça -branca, he de duas especies, quasi<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span> -semelhantes; só se faz differença dellas -pelo uso como adiante se dirá. Tira-se de -Devonshire, e dizem, que esta provincia -a dá para todas as fabricas de louça -de Inglaterra. A pederneira, de que se -faz tambem hum grande uso, se tira de -Gravesande, ou verdadeiramente das -margens do Tamisa.</p> - -<p id="section246">246 O ponto principal desta louça, -isto he, para a ter bem branca, e livre -de manchas, consiste na preparaçaõ da -argilla, e em sua mistura com a pederneira; -põe-se a argilla em hum tanque -com agua para a fazer humedecer; dilue-se -bem, agitando-a com hum pedaço -de páo, esta agua assim carregada se -coa, para outro tanque por huma peneira -de cabello, para separar, o que naõ está -diluido, esta se torna a lançar no primeiro -tanque. Espera-se que haja huma -suficiente quantidade de argilla já pãssada, -e depois se agita fortemente, e se -passa por huma peneira fina. Para a misturar -com a pederneira, se faz o mesmo, -que em Neuwcastle em Northumberland; -a pederneira se calcina do mesmo -modo em hum forno de cal; e depois -se pulverisa, e liviga em hum moinho -tocado ordinariamente pela agua; a -pederneira neste estado he levada a fabrica.<span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span> -Para a mistura ser perfeita, se deve -diluir em agua na mesma consistencia, -em que estava a argilla.</p> - -<p id="section247">247 A proporçaõ he de ajuntar huma -parte de pederneira a seis partes de huma -destas argillas; e a cinco partes da -outra argilla se ajunta huma de pederneira. -Depois da argilla ter sido passada por -peneiras duas vezes, como acima se disse, -se torna a passar terceira vez por huma -peneira ainda mais fina, e entaõ he que -se medem as porções.</p> - -<p id="section248">248 Deve haver huma pequena celha, -que se enche seis vezes da argilla passada -pela peneira; e depois se enche huma -vez da agua da pederneira, e assim -se continua até haver a quantidade da -massa, que se quer; para a mistura ficar -perfeita, precisaõ as duas massas, ou -aguas de argilla, e pederneira, ter igual -consistencia, e se mexem bem ambas -juntas; e depois se tornaõ a passar quarta, -e quinta vez por huma peneira fina -e desta ultima vez se coa no tanque de -tijolos, que tem por baixo o fogo.</p> - -<p id="section249">249 As peneiras se fazem com fio de -cambraia mais, ou menos fino; os caixões, -ou tanques de tijolo, onde se põe -a seccar a materia, saõ semelhantes áquelles -que se usaõ nas fabricas, de que acima<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span> -se fallou; a mistura de barro e area -secca nelles lentamente, agita-se huma -vez por outra com huma pá para seccar -mais com igualdade; neste tanque fica até -ter a consistencia precisa para ser trabalhada; -entaõ se leva esta pasta para -huma especie de sobrado bem limpo, e -com muito aceio, aonde hum homem -com os pés o trabalha, e amassa até julgallo -proprio para fazer a louça.</p> - -<p id="section250">250 Todas as péças, que naõ levaõ molduras, -nem saõ recortadas, se formaõ -sobre huma roda vertical, que hum menino -faz mover; a que he de molduras, -se forma em moldes de gesso. Estes moldes -de gesso consistem em huma peça -de gesso, que tem interiormente a figura -que deve ter a peça ou seja prato, -ou tijella, ou outra qualquer, no qual -gesso se gravou o desenho, que se quer -dar a peça.</p> - -<p id="section251">251 Bate-se e trabalha-se hum bolo -de barro, depois se estende com hum rolo. -Depois que se estendeo o barro tanto, -quanto quer o official, se põe sobre o -molde aonde se aperta bem com as maõs, -e se molhaõ na agua, se he preciso, -para a massa se naõ pegar a elle, e tambem -para fazer liza a parte exterior do -prato, ou tijella.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span></p> - -<p id="section252">252 Este trabalho se faz em hum quarto -onde ha fogo, para que os moldes -sempre estejaõ bem seccos, e que, depois -de algumas horas, se possaõ tirar as -peças, que nelles se formaraõ.</p> - -<p id="section253">253 Como he preciso pulir as louças -nos lugares, aonde naõ levaõ verniz, para -tomarem melhor o verniz; logo que tem -seccado alguma cousa á sombra as mesmas -obras, que se fizeraõ na roda vertical, -se levaõ ao torno, aonde se aperfeiçoaõ, -e se fazem mais iguaes; e depois disto, -se pulem na mesma roda ou torno, applicando -lhe por cima huma folha de ferro -liza, nos lugares, que devem ser pulidos. -Da mesma sorte se fazem em moldes -peças redondas; as peças ovaes, que -naõ podem ser pulidas no torno, se lavaõ -bem com huma esponja, e agua, e -depois com hum pedaço do mesmo barro -cozido, e pulido, se pulem todas as partes, -que o devem ser. Esta louça ordinariamente -se arruma em taboas a sombra -para ahi seccar inteiramente antes que -se ponha no forno.</p> - -<p id="section254">254 Nas visinhança de Neuwcastle -ha argilla propria, para fazer as caixas em -que se põe a louça; estas caixas saõ redondas, -fazem se-lhe em roda cinco, -ou seis buracos de duas em duas pollegadas,<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span> -e de meia pollegada de diametro; -seu tamanho he proporcionado aos das -peças, que se querem meter nellas.</p> - -<p id="section255">255 Quando se quer arrumar a louça -nestas caixas, os meninos preparaõ o que -a deve suster; e saõ huns pequenos pedaços -da mesma argilla formados em parallelipipedos; -e, estando ainda muito humidas, -se applicaõ sobre greda pizada grosseiramente, -que se pega sobre toda sua -superficie, com isto se guarnece o fundo -das caixas, e destes parallelipipedos se -servem para suster cada huma das peças, -para que ellas naõ toquem humas -nas outras; por se naõ pegarem com o -verniz; esta greda de todo se naõ pega a -louça, e nem lhe faz a menor marca, -e se o faz em algumas peças, estas se -rejeitaõ.</p> - -<p id="section256">256 Os fornos, em que se faz cozer -esta louça, saõ pouco mais, ou menos -semelhantes a estes, de que se tem fallado: -a differença, que ha, consiste só -em que elles commummente tem oito -fogos, e por conseguinte oito chaminés -interiores; mas estas chaminés só tem a -abertura superior. Dizem que estas pequenas -aberturas, que os outros tem, -para a louça envernizada, faria mal a -louça branca, porque a chama, que sahe<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span> -da envernizada indo dar nas caixas -da louça branca a faria amarella. <i>Outra -differença</i>: toda a porçaõ espherica da -abobada, está guarnecida de buracos, -que naõ saõ precisos para as outras louças; -fazem-se logo oito em roda da fornalha, -no principio da abobada, postos -entre cada chaminé, depois outras dezeseis -por cima, e finalmente seis em roda -do buraco principal, que estaõ no meio -da abobada, e que serve de chaminé. -Estes buracos tem tres, ou quatro pollegadas -de diametro; no tempo da operaçaõ -se tapaõ: seu uso adiante se dirá.</p> - -<p id="section257">257 Todas as caixas, que encerraõ a -louça se põe humas sobres as outras, e -formaõ differentes pilhas; metem-se no -forno de modo, que haja huma pilha -destas caixas debaixo de cada hum destes -buracos, de que se acaba de fallar. -Como ha trinta e hum buracos, comprehendendo -a abertura do meio, ou chaminé -principal, põe-se trinta, chamadas pilhas; -a ultima caixa, que faz a extremidade -da pilha, se cobre com testo feito -de barro, de figura conica.</p> - -<p id="section258">258 A louça branca vai só huma vez -ao fogo, mas he hum fogo continuo, que -atura quarenta, e oito horas.</p> - -<p id="section259">259 O tempo de lhe dar o verniz por<span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span> -meio, ou adjutorio do sal marinho, he -quasi quatro, ou cinco horas, antes de -se acabar de cozer; depois que a louça -tem sofrido hum fogo de quarenta, e -tres, ou quarenta, e quatro horas, se -trazem, para junto do forno, oito alqueires -(medida de Inglaterra) de sal marinho -(que he quanto basta para hum forno -da capacidade deste, de que acabo de -fallar.) Ha hum levantado em roda da -abobada ou corpo espherico do forno, sobre -o qual sobem dous obreiros, que com -huma colher de ferro lançaõ pelos buracos -sal marinho, sobre cada huma das -cubertas de cada pilha. Logo que lançaraõ -o sal, tornaõ a tapar os buracos, -que tinhaõ aberto, para introduzir as colheres, -e continuaõ assim andando em -roda do dito forno, lançando em cada -buraco a mesma quantidade de sal, pouco -mais, ou menos. Elles fazem isto -mesmo por tempo de quatro, ou cinco -horas, e naõ deixaõ outro intervallo, senaõ -o que he preciso, para sahir a grande -fumaça, que faz o sal. A cuberta, -ou testo de cada pilha deve ser de tal figura, -que o sal lançado por cima, cubra -inteiramente a pilha; quando cahe, entaõ -o acido do sal se introduz ao interior das -caixas, toca a superficie da louça, e accelera<span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span> -a vitrificaçaõ da pederneira, que -entra na composiçaõ da mesma. Esta vitrificaçaõ -exterior he o unico verniz, que -se lhe dá.</p> - -<p id="section260">260 O sal com que se faz esta operaçaõ, -he muito branco, e em gràos -grossos, quasi semelhante ao que se faz -em Lons-he-Saunier, para o gasto dos -Suissos.</p> - -<p id="section261">261 O preço desta louça he de meio -xelim até dous xelins a duzia de tijellas; -este ultimo preço he o da louça melhor -e de boa côr; o primeiro preço he da -louça de refugo. A qualidade do carvaõ -naõ he essencial para fazer a louça melhor, -ou inferior.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span></p> - -<h2 id="ARTIGO_XII">ARTIGO XII.<br /> -<span class="smaller"><i>Do oleiro de fogareiros.</i></span></h2> - -<p id="section262">262 Ainda que os oleiros, que fazem -os fogareiros, e cadinhos para os -Chymicos, chamados <i>fournalistas</i> façaõ -hum mesmo corpo com os que -fazem os ladrilhos, utensis do uso, e -outras obras, de que já fallei, pareceo-me -justo tratar separadamente das obras -dos que fazem fogareiros, e mais instrumentos -chymicos; porque seu modo de -trabalhar he muito differente da pratica -dos outros oleiros.</p> - -<p id="section263">263 Os de París se servem como os -outros oleiros da argilla, que tiraõ em -Gentilly. Para a amaciarem, e tornalla -ductil, e propria a ser trabalhada; cortaõ-na -em pedaços sobre huma taboa, -como os outros oleiros; estes pedaços -cahem em tinas, ou celhas com agua: -quando está já bem penetrada da agua, -a tiraõ para a amassarem. Se a argilla he -muito forte, elles a fazem magra, como -os outros oleiros; mas para isto naõ se -servem da area: quando elles se propõe -fazer obras usuaes, como esquentadores<span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span> -para serventias pequenas, ou fogareiros -para fazer esquentar os ferros de engomar, -e outras obras, que se daõ baratas: -neste caso ligaõ o seu barro com escorias -de ferro pizadas, e passadas por -hum crivo, misturando depois partes iguaes -deste pó, e do barro; porém para os -fogareiros chymicos, como elles tem de -soffrer hum fogo violento, e continuo, -convem substituir a area huma substancia -capaz de resistir á maior acçaõ do fogo, -e naõ se tem achado outra cousa melhor -para liga, do que os pedaços destes -vasos de greda escura, que serviraõ de -trazer manteiga de Isignes; dizem elles, -e eu naõ sei se he com fundamento, -que a louça de Picardia naõ he taõ boa -como a de Normandia.</p> - -<p id="section264">264 Seja como for elles compraõ aos -tendeiros estes pedaços de greda de Normandia -ás medidas; elles os pizaõ com -huma massa de ferro, ou de páo guarnecida -de ferro, sobre huma pedra muito -dura, ou hum calháo, que se põe sobre -a ponta de hum páo grosso; depois -os passaõ por hum crivo bem fino, para -que as molecudas da greda se reduzaõ, -quando muito, ao tamanho de hum graõ -de milho: elles misturaõ pouco mais, -ou menos tanto deste pó, como da argilla,<span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span> -ou cinco partes deste pó com quatro -de argilla; porque elles dizem, e com -razaõ, que os fogareiros saõ tanto mais -fortes, quanta maior porçaõ levaõ deste -pó, e que argilla deve ser quanta baste -para o ligar, finalmente usaõ deste pó -mais fino para os cadinhos, do que para -os fogareiros.</p> - -<p id="section265">265 Os oleiros que fazem os fogareiros -preparaõ argilla, como os outros oleiros; -elles escolhem á maõ todos os corpos -estranhos, que encontraõ, quando a -cortaõ, e amassaõ; mas escolhem com -mais cuidado aquella, que destinaõ para -fazer cadinhos; elles a trabalhaõ, e a -amassaõ sobre huma meza, e lançaõ fóra -com muito cuidado todos os calháos, -pyrites, ou fragmentos de pedra calcar, -que encontraõ nas maõs. Alguns para fazerem -os cadinhos mais perfeitos, depois -de terem feito seccar a argilla, a pulverisaõ, -e a passaõ pela peneira; se elles -achaõ huma veia de barro, que contém -muitos destes corpos estranhos, o põe -de parte para fazerem os fogareiros, e -reservaõ o barro mais puro para os cadinhos.</p> - -<p id="section266">266 Amassaõ o barro, como os outros -oleiros, põe o pó do barro cozido -sobre hum sobrado, e a argilla por cima;<span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span> -depois de terem feito a primeira -amassadura, tiraõ o barro do meio para -os lados, e dos lados para o meio. Alguns -amassaõ o barro batendo-o sobre huma -meza com huma massa de ferro, e acabaõ -de o amassar trabalhando-o nas maõs.</p> - -<p id="section267">267 Até o presente se vê, que o trabalho -destes differe pouco dos outros -oleiros; porém elles senaõ servem de roda -nem de moldes ocos, para formar suas -obras; fazem-nas inteiramente a maõ, -como explicarei.</p> - -<p id="section268">268 Os fogareiros portateis, que estes -fazem naõ servem aos Chymicos; pois para -certas operações, se formaõ outros de hum -feitio particular; elles mesmos os fazem -com tijollos, que unem com o barro dos -fornos, ou com argamassa de cal, e ladrilho -moido, ou com hum luto, composto -de huma parte de barro, outra de esterco -de cavallo secco, e de duas de -area.</p> - -<p id="section269">269 Alguns fazem a sua argamassa com -hum bocado de barro de fornos, e muita -cinza de lixivia, ou <i>cenrrada</i>, passada por -huma peneira, e humedecida com agua. -Mas como os tijollos communs naõ resistiriaõ -a certas operações, por serem faceis -de vitrificar, se fazem estas fornalhas mais -fixas com tijollos, e barro de cadinhos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p> - -<p id="section270">270 O barro destes tijollos he o mesmo, -que se usa para fazer os fogareiros -portateis; estes tijollos se fazem em moldes -de páo, que se enchem deste barro. -Assim que os tijollos tomáraõ hum -bocado de consistencia, depois de tirados -dos moldes, batem-nos sobre huma -taboa para comprimir o barro: mas com -cuidado para os naõ desfigurar.</p> - -<p id="section271">271 Os mestres dos fornos fazem estes -tijollos quadrados, quasi do mesmo -modo, que os ordinarios, e tambem -os meios tijollos quadrados, para fazer -os igualamentos.</p> - -<p id="section272">272 Para dar varias figuras aos fornos -os mestres fazem tijollos de certa bitola, -e figura <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 13</i>. E os Chymicos -se servem delles para fazer fornos redondos, -de sorte que algumas vezes quatro -tijollos fazem a circunferencia de hum -pequeno forno, para os grandes se carecem -muitos mais. Ainda que se mude a -curvatura destes tijollos segundo a figura, -que se quer dar ao forno, sempre se -tem meios tijollos, que saõ muito commodos -para igualar as superficies. Estes tijollos -se fazem em caixilhos, ou moldes, -como os tijollos ordinarios: <i>a</i> <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. -14</i>. he para fazer os apoios dos cadinhos; -e <i>b</i>, dos quadrados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p> - -<p id="section273">273 Os mestres dos fogareiros saõ os -que preparaõ os materiaes, e os Chymicos -as põe em obra, unindo os tijollos -com barro de forno, ou com as argamassas, -de que já fallei. Entre o cinzeiro, -e a fornalha se põe huma grade de -ferro, alguns tapaõ as portas ou aberturas -com huma chapa de ferro delgada; -outros se contentaõ em pôr por cima das -portas hum pedaço de ferro chato, á maneira -de portal. Dentro do laboratorio, -que está por cima da fornalha, se põe humas -chapas de ferro para supportar hum -banho de area, ou cucurbitas, ou retortas, -ou cadinhos; finalmente fazem mais -fortes estes fornos, pondo-lhes por fóra humas -chapas delgadas de ferro, que o cercaõ -por todos os lados: porém naõ ha -cousa melhor para segurar os tijollos, e -impedir, que se naõ despeguem com a força -do fogo, do que prender na argamassa, -que os une pedaços de redes velhas de arame -de ferro de tostar o tabaco rapé: estas -naõ fazem enchimento, e por causa dos -buracos, e desigualdades destas redes fazem -huma excellente liga com a argamassa. -Naõ entro em grandes individuações sobre -as fornalhas fixas, porque isto naõ he huma -parte essencial dos oleiros, que fazem fogareiros; -as fornalhas portateis, ou fogareiros<span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span> -para o uso dos Chymicos, que verdadeiramente -fazem a base desta arte, -saõ os de que eu vou tratar com alguma -maior individuaçaõ.</p> - -<p id="section274">274 Os oleiros mestres de fogareiros, -ou fornalhas portateis as fazem quadradas; -taes saõ as fornalhas de cadinho a -<a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 15</i>, e algumas de fusaõ <i>fig. -16</i>; mas as fornalhas de digestaõ, e as -de reverbero, em huma palavra, quasi -todas as fornalhas portateis saõ redondas. -Humas saõ de huma só peça isto he cinzeiro, -fogaõ, e laboratorio; naõ tem mais -que por-lhe em cima a abobada: outras saõ -formadas de muitas corôas, que se põe -humas sobre outras; algumas se põe sobre -huma trempe de ferro, e estas naõ -tem cinzeiro, porque a cinza cahe no -chaõ; porém a maior parte tem hum cinzeiro, -hum fogaõ, onde se põe o carvaõ -sobre huma grade, que deixa cahir a cinza, -e dá passagem ao ar, que aviva o -fogo. Os mestres de fogareiros algumas -vezes fazem estas grades de barro; entaõ -he huma chapa de barro redonda, em que -se abrem muitos buracos; outras se servem -de grades de ferro. Por cima do fogaõ -está hum espaço, que se chama o -<i>laboratorio</i>, porque neste lugar he que -se põe o banho de maria, ou de area,<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span> -ou huma retorta: tem huma abertura por -onde se introduz o collo, ou huma cucurbita, -ou cadinhos; e todas estas cousas -sustidas por algumas peças de ferro, -e muitas vezes acaba tudo por hum corpo -espherico, ou zimborio, que serve -de reverberar o calor sobre a retorta, -ou os cadinhos, que estaõ no laboratorio. -Ha sempre no alto do zimborio huma -abertura de tres ou quatro pollegadas de -diametro conforme o tamanho da fornalha, -e esta abertura tem algumas vezes -huma ponta de tubo, para se poderem -ajustar nella tubos mais compridos, quanto -se quer augmentar a actividade do fogo; -porque para accender-se o carvaõ -com mais vivacidade, e produzir muito -mais calor, se precisa estabelecer na -fornalha huma corrente de ar, que entre -pelo cinzeiro, e saia por cima da fornalha. -Ora esta corrente de ar depende -da ligeireza do ar quente, em comparaçaõ -ao pezo do ar frio, e esta ligeireza se -augmenta a proporçaõ, que elle se esquenta -mais, e tambem á proporçaõ de -huma maior columna de ar quente no -cume da fornalha: e assim para se augmentar -a actividade do fogo na fornalha, -precisa, que possa entrar por baixo -huma sufficiente quantidade de ar<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span> -frio, e ajuntar por cima da fornalha huma -extensaõ de tubos, para se fazer -assim huma maior columna de ar quente, -que serve como de huma bomba -maior; he preciso tambem, que o diametro -deste tubo seja proporcionado ao -tamanho da fornalha; eu naõ envestiguei -sobre estas proporções, porque ellas naõ -pertencem ao official: este se deve conformar -com as ordens do Chymico, que -varia isto, conforme as operações, que -pretende fazer.</p> - -<p id="section275">275 Ha outras mais aberturas, tanto -no zimborio, como no corpo da fornalha, -que se abrem, ou se fechaõ para augmentar, -ou diminuir o calor, conforme se -quer, e levallo mais para huma parte da -fornalha, do que para outra; para isto se -deixaõ estes buracos abertos, ou se fechaõ, -quando se julga a proposito, com -batoques feitos mesmo de barro: a isto -chamaõ registros.</p> - -<p id="section276">276 Devem-se fazer muito grossas as -paredes das fornalhas, para que naõ escape -o calor para o laboratorio, onde -incommoda ao artista, e ao mesmo tempo -falta para operaçaõ.</p> - -<p id="section277">277 Eu disse que os mestres de fogareiros -faziaõ fornalhas quadradas, e dei -por exemplo as fornalhas de cadinho<span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span> -a <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 15</i>; ellas tem hum cinzeiro <i>a</i>, -que tem huma porta, por cima da qual -está o laboratorio <i>b</i>, e huma abertura que -naõ se communica dentro da fornalha, mas -sim huma especie de forno, feito de -barro de cadinhos delgado, chamado -<i>moufles</i>, ou receptaculo; delle fallarei, -quando tratar dos cadinhos: este -laboratorio está sustido por grades de ferro, -que atravessaõ o interior da fornalha, -e de todas as partes cercado por carvões -ardentes; no <i>moufle</i>, ou receptaculo -he que se põe os cadinhos para fazer -as experiencias dos metaes, das peças -esmaltadas, e dos cadinhos para certas -operações. A fornalha he cuberta por hum -zimborio quadrado, em cima do qual está -huma grande abertura, que se póde -tapar com hum testo, ou se lhe põe hum -tubo, quando se quer que o fogo tenha -huma grande actividade. Por meio deste -receptaculo, se podem expôr a hum -grande calor as materias, sem receberem -alguma impressaõ de fumaça, nem mesmo -vapores de carvaõ.</p> - -<p id="section278">278 A <i>fig. 16</i>. <i>C</i>, representa huma -fornalha de fusaõ, na qual se accende o -fogo com hum folle; e por isso he que -naõ tem grade no cinzeiro <i>a</i>, nem abertura -por baixo na parte <i>a</i>, <i>d</i>, nem tubo<span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span> -em cima para fazer maior corrente, de -ar na fornalha; o folle faz as vezes desta -corrente de ar.</p> - -<p id="section279">279 A parte <i>aa</i>, <i>aa</i>, <i>B</i>, he huma -peça de barro, que fórma a parte debaixo -do cinzeiro, onde se póde notar huma -abertura <i>b</i>, a qual vai ter ao tubo do folle, -e o vento sahe pela abertura <i>c</i>; o -corpo da fornalha <i>dd</i>, se põe sobre o -fundo <i>aa</i>. He preciso notar no interior -desta fornalha huma sahida de barro <i>ee</i>, -que circula ao redor da fornalha; esta se -destina para suster a parte <i>ff</i>, que fórma -a parte baixa do fogaõ na altura <i>dd</i>; -porém tem nos angulos quatro aberturas -<i>gg</i>, pelas quaes o vento do folle entra -no corpo da fornalha, que he ao mesmo -tempo fogaõ, e laboratorio, e aviva -o fogo em todas as partes desta repartiçaõ, -e em toda a circunferencia do cadinho, -que está posto no meio do fundo -<i>ff</i>, como se vê indicado nos pontos <i>dd</i>. -Deste modo fica rodeado de hum calor -muito vivo, sem receber immediatamente -o vento do folle, que sendo frio, o -refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar. -A cuberta, ou testo <i>C</i>, só -se põe quando se tira o cadinho, para -apagar o fogo, e fazer esfriar a fornalha -devagar. Esta fornalha chamada de<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span> -fusaõ se vê, que he muito bem ideada, -a que se segue naõ carece de folles.</p> - -<p id="section280">280 Tambem se póde fazer uso de huma -fornalha da invençaõ de Mr. Maquer, -que produz hum calor muito forte, e -vitrifica quasi todas as substancias que -nella se põe. Esta fornalha naõ tem -cinzeiro; põe-se sobre huma trempe; -por baixo tem huma grade, pela qual -cahe a cinza, e dá huma passagem livre -ao ar. A porta só serve para facilmente -se alimpar a grade com o esborralhador, -no cazo de precisar. A porta he destinada -para se ajustar por detraz hum cadinho -para algumas operações, em que se -tomasse o fumo, ou vapores de carvaõ; -a parte posterior está, como se vê, inclinada -para traz da fornalha: e a porta -grande serve para metter o carvaõ na -fornalha; he preciso que ella seja grande, -porque esta fornalha consome muito -carvaõ; esta parte faz vezes de zimborio, -tem no meio hum principio de tubo, para -receber os outros tubos, que se ajustaõ -huns por cima dos outros, e quantos -mais se mettem mais calor ha. Bem se -vê que esta fornalha deve ter muita actividade, -porque se estabelece no interior -huma corrente do ar, estando o fundo -todo aberto, e a columna de ar quente<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span> -se eleva muito. Finalmente põe-se no -interior algumas grades de ferro para -sustentar o receptaculo, quando se põe -hum cadinho, ou muitos, e vasos que -contém as materias de que se fazem as -experiencias.</p> - -<p id="section281">281 A <i>fig. 17</i>, <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, he hum pequeno -forno, de digestaõ destinado para entreter -em hum calor brando certas substancias -por hum tempo consideravel.</p> - -<p id="section282">282 O que aqui se representa, he de -folha de ferro, forrado por dentro de -barro de cadinhos; <i>a</i> he o cinzeiro; <i>b</i> -lugar onde se põe o fogo; <i>c</i> he huma tapagem, -que cobre todo o forno; <i>d</i> he huma -torre, onde se põe huma provisaõ de -carvaõ, por naõ ser preciso pollo a miudo -pela porta <i>e</i>: enche-se de area a capacidade -<i>c</i>, <i>f</i>, e nesta area he que se põe -os crisoes, ou vasos, que contém as materias -postas em digestaõ. Este forno, ao contrario -daquelles, de que acima fallei, he -destinado para entreter por muito tempo -hum calor brando, e igual; para isto he -preciso, que a corrente de ar, que deve -atravessar este forno, seja vagarosa, -e bem dirigida. He evidente, que fechando-se -exactamente as portas <i>g</i>, <i>e</i>, e -os buracos, que estaõ no testo, ou cuberta -<i>h</i>, da torre <i>d</i>, o fogo se apagaria,<span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span> -e que, abrindo-se estes buracos, o carvaõ -se consumiria com presteza, e produziria -muito calor. E assim para obter hum -meio conveniente, se devem abrir alguns -dos buracos, que estaõ nas portas <i>g</i>, <i>e</i>, -e algumas das que estaõ na cuberta da -torre <i>h</i>: por meio disto o carvaõ, que -se pôs na torre <i>d</i>, naõ se accende, -mas cahe pouco a pouco na parte <i>b</i>, a -medida que se vai gastando o que ahi -está; e quando a torre he grande, o fogo -se entretem por muito tempo no forno, -sem ser preciso haver com elle algum -cuidado.</p> - -<p id="section283">283 Eu podia trazer hum maior numero -de fornos, ou fogareiros, que fazem -estes oleiros; porém alguns exemplos -bastaraõ para fazer comprehender seu -modo de trabalhar.</p> - -<p id="section284">284 Todas as fornalhas portateis, ou -fogareiros saõ feitas á maõ com argilla, -misturada com o pó dos vasos de manteiga, -como fica dito.</p> - -<p id="section285">285 Com hum compasso se risca em -huma meza a largura, que a fornalha deve -ter no fundo; depois o oleiro tendo posto -sobre a meza hum bocado de cinza -fina, para que o barro senaõ pegue, estende, -como fazem os pasteleiros, huma -pasta de barro redonda, e a põe sobre<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span> -o traço que fez o compasso; este he o -fundo da fornalha; depois com este mesmo -barro faz outra pasta, que põe em -roda sobre a pasta de barro, que fórma -o fundo, tendo cuidado de os comprimir -bem com os dedos, e dar-lhe mais -grossura, do que devem ter as paredes da -fornalha, naõ só porque o barro encolhe, -mas tambem, porque batendo-o, diminue -a grossura. Ajunta outros rolos de -barro huns sobre outros, e tem o cuidado -de os comprimir, e unir bem com -os dedos para vir a fazer tudo hum só -corpo, naõ ficando vacuo interposto entre -as camadas de barro, porque o ar -contido neste vacuo faria arrebentar o -forno, quando se dilatasse pelo calor. -Quando o forno chega a altura, em que -se deve pôr a grade, por cima do cinzeiro, -fórma huma pequena sahida ou -borda com o mesmo barro para suster a -grade.</p> - -<p id="section286">286 Pensaõ, e com razaõ, que os -rolos de barro, comprimidos com os dedos -deixaõ desigualdades. Depois que o -forno tem chegado a huma certa altura, -o official passa o gume da maõ, de cima a -baixo, e ao través, e deste modo o une, e -torna igual. Esta operaçaõ une a obra, -e destroe as desigualdades, e a faz compacta,<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span> -tirando-lhe os pequenos vacuos, -que teriaõ ficado. Continua por diante a -pôr os rolos de barro para levantar o -forno, e formar a parte, que se chama -fornalha, ou o fogaõ; depois o laboratorio -até o lugar, em que se deve pôr -o zimborio, e de vez em quando pule a -obra, como já fica dito.</p> - -<p id="section287">287 Sabe-se muito bem, que os fornos -saõ mais largos por cima do que por -baixo. O habito dos bons forneiros he, -o que os obriga a observar este methodo -regularmente, vindo a dar ás paredes -dos fornos a devida grossura; fazem-lhes -varios contornos muito regulares, e -para tudo isto naõ carecem de regua, -nem compasso, he só com a vista, e -nem tem outros instrumentos, senaõ as -maõs, e o instrumento de bater o barro -em pasta.</p> - -<p id="section288">288 Querendo-se formar pequenas -chaminés para dar sahida ao vapor do -fogo, se fazem no corpo do forno buracos, -que se tapaõ com o mesmo barro -disposto na figura conveniente a maõ, -ou em molde, e segura-se quasi como -as azas na louça. Os lugares, em que se -péga, para mudar o forno de hum lugar -para outro, e as sahidas, ou crescimento -de barro, que se faz por baixo das<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span> -portas, se começaõ, quando se fórma o -corpo do forno, e se aperfeiçoaõ, quando -se acaba de bater. Feitos assim os -fornos, como se acaba de dizer, e aperfeiçoada -a superficie com os dedos se -põe a enxugar, e depois se acaba; para -isto se bate com huma taboasinha por -fóra, e mesmo por dentro, quando o -diametro o permitte; abrem-se as portas -com huma faca molhada, finalmente em -quanto o barro está ainda mole, e ductil, -se aperfeiçoaõ todas as partes do forno; -e os habeis obreiros os fazem com tanta -perfeiçaõ, como se fossem feitos em -moldes, ou em roda.</p> - -<p id="section289">289 Fazem-se á parte batoques para -os registros, e portas para fechar as aberturas; -escolhem-se em hum numero -que ha de differentes tamanhos, as peças, -que servem: isto he facil; porque, -como se fazem de cantos, ou quadradas, -servem nas aberturas, que se fizeraõ no -forno.</p> - -<p id="section290">290 Os fornos grandes se fazem de -muitas peças. O cinzeiro <i>a</i>, a fornalha -<i>b</i>, e o laboratorio <i>c</i> saõ formados da -differentes peças, que se ajustaõ humas -sobre outras com encaixes. Como estas -peças devem ser todas iguaes por medida, -para ajustarem humas sobre as outras,<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span> -os oleiros logo que fazem o cinzeiro -as medem exactamente o seu diametro -por cima com hum compasso, e -riscaõ esta medida em huma meza, e em -cima formaõ a peça <i>c</i>, que deve ajustar -por cima; deste modo o barro encolhe -com igualdade, e as peças se ajustaõ bem, -depois do barro ter tomado consistencia -se aparaõ, e aperfeiçoaõ os encaixes, e -se põe as peças humas sobre outras, e -se batem com a taboinha, de sorte que -o forno parece ser de huma peça só.</p> - -<p id="section291">291 Depois de começado hum forno, -se precisa acabar sem parar; porque o -barro humido naõ se liga com o barro -secco, e este já teria encolhido; e por -isso, sendo preciso parar com a obra, se -deve cubrir com pannos molhados por -naõ seccar.</p> - -<p id="section292">292 Quando se acaba o forno, se devem -fazer em roda, e em differentes alturas -rasgos fundos, para se passar hum -fio de arame grosso, que abrace toda a -circunferencia do forno, em cada hum -destes rasgos; porque isto ajuda muito a -conservar os fornos.</p> - -<p id="section293">293 A abobada, que se deve pôr sobre -o forno como já disse, tambem se faz -a maõ e sem moldes, ajustando rolos de -barro mais finos, do que os do corpo do<span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span> -forno, huns sobre os outros; começa-se -por hum traço de compasso que mostra -a largura de cima do forno, aonde se deve -pôr a abobada; e para o barro se poder -suster toma-se de algum, que se amassasse -mais duro; e em geral o barro, em -que trabalhaõ os forneiros, he mais duro, -do que o dos outros oleiros.</p> - -<p id="section294">294 Algumas vezes, em quanto o barro -naõ está ainda muito duro, com moldes -lhe imprimem varias molduras para -adorno dos fornos.</p> - -<p id="section295">295 Os fornos de cadinhos se trabalhaõ -do mesmo modo que este, de que -acabo de fallar, tudo he a maõ; e sem -usarem de regua nem compasso, lhe daõ -huma figura muito regular: só o cadinho -deve ser trabalhado por differente modo: -delles fallarei, quando tratar dos cadinhos.</p> - -<p id="section296">296 Fazem tubos, para descarregar a -fumaça, com o mesmo barro dos fornos, -e os formaõ com hum cilindro de -páo, que he mais grosso em huma ponta -do que em outra para poder-se tirar -o molde, depois do tubo feito, e para o -barro senaõ pegar ao páo, esfregaõ em -cinza muito fina. Assim que o barro do -tubo ficou alguma cousa duro, batem-no -com a taboinha para alizallo, e fazello -mais compacto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p> - -<p id="section297">297 Os oleiros fazem os cadinhos na -roda, e os forneiros as fazem a maõ -em huma especie de torno de páo, que -elles chamaõ molde, <i>c d</i>, <i>fig. 22</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>.</p> - -<p id="section298">298 Suposto que disse que os oleiros -de Picardia faziaõ bons cadinhos com o -seu barro de greda, toda via arrebentaõ -no fogo, se os esquentaõ precipitadamente; -porém se os esquentaõ aos poucos -resistem a hum fogo violento sem se desfigurarem, -e resistem a acçaõ dos saes, -e metaes derretidos.<a name="FNanchor_25" id="FNanchor_25"></a><a href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span></p> - -<p id="section299">299 O barro de Gournaes em Normandia -he muito bom; elle sopporta -hum fogo muito grande sem se desfigurar; -mas tem o defeito de conter em si muita -quantidade de pequenas pyrites, e -fragmentos de mina de ferro. Eu disse, -que tinha chegado a remediar ao menos -em partes, estas faltas, dissolvendo-o em -muita agua, e deixando precipitar o que<span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span> -era mais pezado, e mais grosseiro, para -me servir do barro fino, que se precipitava -depois.</p> - -<p id="section300">300 Para fazer os vasos das fabricas -de vidros, em que se tem o vidro derretido, -tres semanas sem interrupçaõ, se -escolhe da boa argilla, a mais pura, que -se possa achar; liga-se com esta mesma -argilla bem cozida, reduzida a pó. Esta -liga se faz em differentes doses, segundo -a argilla he mais, ou menos macia -e ductil, e mais disposta a fechar-se, sendo -cozida; de sorte que certas argillas cruas -naõ podem soffrer senaõ partes iguaes de -argilla cozida, e outras muito macias podem -soffrer cinco, e seis partes de argilla -cozida em quatro partes da crua.</p> - -<p id="section301">301 Ha fabricas de vidros, que fazem -os seus grandes cadinhos, a que elles -chamaõ potes, com rolos de barro, como -os nossos forneiros, outros os fazem em -moldes.</p> - -<p id="section302">302 Os forneiros de París fazem seus -cadinhos com argilla cinzenta de Gentilly; -elles a escolhem, e alimpaõ com mais -cuidado, do que para os fornos; depois -a ligaõ com pouco mais de outro tanto -de barro cozido, que passaõ por hum -crivo hum pouco mais fino, do que para -os fornos. Depois de terem preparado o<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span> -barro o estendem pouco a pouco sobre -hum molde de páo <i>c</i> <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 22</i>, que -tem a figura que deve ter o interior do -cadinho, tendo-o esfregado com area -fina, para que o barro senaõ pegue; começaõ -pelo fundo do cadinho, cobrem o -molde com huma camada de barro, que -tem tres, ou quatro linhas de grosso, e -estendem-na pouco a pouco com pequenos -golpes; e isto fazem com muita destreza, -e regularidade. Estes cadinhos saõ -bons para muitas operações, ainda que -naõ podem supportar hum fogo muito -grande, nem ter saes em fusaõ, como -fazem os cadinhos de greda, e os de -Allemanha.</p> - -<p id="section303">303 Do modo seguinte os tenho feito -para as pequenas experiencias de mina. -Dissolvi a argilla de Gentilly em muita -agua, e deixei precipitar os corpos mais -pezados; fiz depois seccar a argilla pura, -que se precipitou em ultimo lugar; depois -a pizei, e passei por huma peneira -fina. Com estas preparações separei da -argilla todos os corpos estranhos, a excepçaõ -só das substancias, que estavaõ -muito soltas, e em particulas minimas: -liguei esta argilla com o pó dos vasos de -manteiga passados por peneira fina, e formei -os cadinhos em hum molde de cobre<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span> -comprimindo-os, do modo que se faz -o forno dos pitos. Estes cadinhos eraõ -bons; com tudo naõ podiaõ soffrer hum -fogo grande, e me achei melhor com a -argilla branca, de que se fazem os pitos -em Normandia; pois esta argilla commummente -he mais izenta de substancias -estranhas, do que ás argillas de côres. -Digo commummente, porque ha argillas -brancas, que saõ mui fusiveis, e carregadas -de partes metallicas; e por isso -o mais seguro he experimentallas antes -de fazer uso dellas; visto que se pode dizer -em geral, que he preciso escolher huma -argilla, que naõ seja fusivel, e sobre tudo, -que naõ tenha mistura de pyrites, de -substancias metallicas, nem de area vitrificavel; -porque os saes, ou substancias -metallicas, que se põe nestes cadinhos -vitrificaõ estas substancias estranhas -ao barro, e os cadinhos ou rachaõ, ou -furaõ. Havendo huma argilla pura, e refractaria, -que dá ductilidade a pasta, se -precisa, como já fica dito, ligalla com -algum pó de tijollo, para impedir á argilla, -de se encolher, e rachar ao cozer. -He preciso, que estes pós de tijollos -sejaõ refractarios: por isto nas fabricas -de vidros se servem da argilla, -que elles mesmos fizeraõ cozer; e para<span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span> -os cadinhos pequenos bastaõ os pitos bem -cozidos, e feitos em pó. Os forneiros fazem -uso do pó dos vasos de manteiga de -Normandia: desgraçadamente sua argilla -naõ he tal, como se poderia desejar. Elles -o sabem; e para fazer seus cadinhos melhores, -misturaõ muito pó de greda com -a argilla; porém entaõ naõ fica muito -compacto o barro dos cadinhos, e deixa -passar pelos poros as materias, que -tem em fusaõ, quando estaõ muito fluidas. -Os cadinhos de greda naõ tem este -defeito; e assim he preciso observar huma -justa proporçaõ nestas ligas; porque, -pondo-se muita argilla crua, he bem difficil -de impedir o racharem os cadinhos -ao seccar, ou ao cozer; e pondo-se muito -pó, ficaõ os cadinhos com pouca firmeza, -e naõ podem suster o pezo dos -metaes, e tendo os poros muito abertos, -o metal, e sobre tudo os saes, os -penetraõ: por isso dizem alguns, -que he preciso misturar-lhe hum bocado -de area vitrificavel. Mr. de Reaumur, -por exemplo, se achou bem em fazer -cadinhos com partes iguaes de greda, -area, e barro de pitos.</p> - -<p id="section304">304 As ligas seguintes saõ exageradas -por alguns; mas eu nunca as experimentei.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span></p> - -<p id="section305">305 Duas partes de argilla boa, pura, -e bem secca, duas partes de pó de -vasos de greda, huma parte de area; -alguns lhe ajuntaõ hum bocado de limalha -de ferro, e agua salgada.</p> - -<p id="section306">306 Outro: seis partes de argilla secca, -duas partes de <i>caput mortuum</i> de -agua forte, duas partes de pó de vasos -de greda, huma parte de escorias de ferro, -e huma de vidro muido, e hum bocado -de cal desfeita ao ar.</p> - -<p id="section307">307 Outro: partes iguaes de argilla -secca, de amianto, talco espurio, ou terra -de gelo, ou mica.</p> - -<p id="section308">308 Fazem-se cadinhos em figura de -copos; algumas vezes se lhe faz hum pequeno -aperto por cima, formando bico: -tambem se fazem triangulares, para vasarem -o metal com mais commodo. Finalmente -fazem-se para ensaiar minas de -metaes preciosos; estes terminaõ em ponta -<i>d</i>, para que o metal derretido se ajunte -melhor no fundo do cadinho; entaõ -se lhe faz hum pequeno pé para que elles -se sustenhaõ melhor dentro, e fora -do forno.</p> - -<p id="section309">309 A respeito das capsulas, e cabeças -só differem dos cadinhos por sua figura, -assim como certos cadinhos com pé, -a que os Francezes chamaõ <i>tutes</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span></p> - -<p id="section310">310 As mangas, ou receptaculos para -os fornos de crisoes se fazem com o -mesmo barro dos cadinhos; estende-se o -barro bem delgado sobre huma meza, -assim como fazem os pasteleiros; corta-se -hum pedaço desta pasta para fazer a -parte de cima do receptaculo; põe-se este -pedaço sobre hum molde <i>a</i>, para lhe -fazer tomar huma curvatura conveniente, -e servindo-se do mesmo molde se -lhe ajusta por baixo o fundo, e por -detraz outro pedaço para fechar huma -das pontas do receptaculo, estando -bem justos estes differentes pedaços, se -deixa endurecer hum pouco o barro; entaõ -se acaba de fazer esta peça: com -huma faca molhada se lhe abrem os pequenos -buracos dos lados, e estaõ promptos -para se cozerem.</p> - -<p id="section311">311 Para fazer huma retorta o forneiro -faz o corpo sobre hum torno, ou molde -de páo, como os cadinhos, e o bico -em outro molde, que he huma cavilha -hum pouco curva; com a maõ aperfeiçoa -a parte mais larga do bico; e acaba soldando, -e reunindo as duas peças.</p> - -<h3><i>Do modo de cozer os fornos, e cadinhos.</i></h3> - -<p id="section312">312 Tem havido Chymicos, que pretenderaõ -naõ ser preciso cozer os fornos; -porque elles servindo, viriaõ a adquirir<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span> -o gráo de cozimento, que lhe convem: -eu naõ sou desta opiniaõ. Os fornos, que -só saõ seccos sem se cozerem, correm -o risco de quebrar quando se faz preciso -mudallos de lugar; além disto, qualquer -bocado de agua que lhe caia os humedece, -e os faz em pedaços. Por isso -he preciso cozer os fornos, e os cadinhos; -mas os forneiros só daõ hum -meio cozimento.</p> - -<p id="section313">313 O forno, de que se servem os louceiros, -he quadrado, e rente com o soalho; -faz-se de tijollo a abobada: quasi -em pé e meio do terreno se põe huma -grade de ferro; mette-se a obra no forno, -entrando por baixo da abobada pela -porta. Quando ha obras pequenas, que -podem caber por entre as grades, interpõe-se -grades miudas por entre as principaes. -A grade de ferro se põe quasi -pé e meio por cima do soalho do forno.</p> - -<p id="section314">314 Estando o forno cheio de differentes -obras, levanta-se sobre a grade -de ferro huma tapagem de tijollos. Sendo -feita esta tapagem sobre a grade, fica -por baixo hum espaço, pelo qual se -mette a lenha necessaria para cozer: a -tapagem só chega até tocar a abobada; -fica hum espaço por onde sahe a -fumaça, que naõ tem outra sahida; ella<span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span> -he recebida pelo tubo da chaminé.</p> - -<p id="section315">315 Accende-se de manhã hum pequeno -fogo para esquentar, ou fazer seccar -as peças; augmenta-se pouco a pouco, -e a obra em hum dia fica cozida -tendo gasto pouco menos de hum carro -de lenha; prefere-se a lenha bem secca -para fazer maior chama. Deixa-se esfriar -a obra hum dia, ou dous, depois se tira, -e esta em termos, de se entregar aos -Chymicos.</p> - -<p id="section316">316 Fazem-se pratos de barro para -cadinhos, que saõ de varios tamanhos: -servem ordinariamente de apoio, quando -se mettem debaixo dos cadinhos, e das -retortas: algumas vezes se servem delles -para cubrir os cadinhos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span></p> - -<h3><i>Aqui apresento tambem as seguintes notas -que Mr. Dymares da Academia -das Sciencias me communicou, quando -já estava quasi impressa esta arte do -louceiro.</i></h3> - -<p id="section317">317 Em Sauxillanges, e Marzac, duas -pequenas cidades de Avergne, a primeira -vizinha de Issoire, e a segunda distante -de Ambert, quasi duas leguas, e -meia, se fazem cadinhos para uso dos -ourives; sua figura he conica; onde os ha -de todos os tamanhos; a sua principal venda -se faz em Leaõ.</p> - -<p id="section318">318 Os louceiros de Sauxillanges tiraõ -seu barro perto de Monge no dominio -de Moye; elles naõ cavaõ mais de tres, -até quatro pés de fundo; he huma especie -de Kaolin misturada com mica, e -area grossa de quartz em grande proporçaõ. -Lava-se este barro para lhe tirar a -area; dilue-se o Kaolin na agua, que vai -carregada delle, e a area de quartz fica -no fundo dos vasos. O Kaolin se deposita -depois nas celhas, aonde se deixa assentar -todo o que a agua traz em si.</p> - -<p id="section319">319 O barro de que se usa em Marzac -he da mesma natureza, e se trabalha -do mesmo modo, que o de Sauxillanges;<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span> -tira-se trinta, ou quarenta pés de fundo, -perto da povoaçaõ de Espinasse, dependente -da freguezia de Marzac. Algumas -vezes se mistura o Kaolin com o outro -barro argiloso, que se tira em Champetrieres, -e Castellet perto de Ambert. Desta -mistura resultaõ cadinhos mais proprios -para resistir ao fogo, que os primeiros, -e nestas vistas he que se cuida muito -em cozellos. O barro de Sauxillanges, -e de Marzac empregados sem mistura -ficaõ bem brancos depois de cozidos.</p> - -<p id="section320">320 Em S. Junien pequena cidade de -Limousin tambem se fazem semelhantes -cadinhos destinados para os mesmos vasos, -e de hum barro da mesma natureza; -tira-se de Malaise vizinha da grande -estrada de Limoge para S. Junien, e tambem -duas leguas distante desta ultima -cidade. Este barro he a base de toda a -louça, que se faz em S. Junien para outros -usos. Supposto que he muito branco, -se coze muito mal, e he sujeito a -arrebentar ao fogo.</p> - -<p id="section321">321 Ha tambem muitas fabricas de louça -nas cidades de Duris, de Gandalounia, e -Chavagnai em Limousin. O barro, que -os oleiros chamaõ neste paiz <i>toupiniers</i>, -he huma especie de Kaolin, pouco ductil; -mas o que merece attençaõ he a<span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span> -composiçaõ do seu verniz. Mas para o -fazer se servem da mina do chumbo de -Glanges, que elles calcinaõ, e lhe ajuntaõ -por fundentes quartz branco da area, -de que se servem os nossos louceiros. -Para reduzir este quartz a pó com facilidade, -o põe vermelho ao fogo, e neste -estado o lançaõ em agua fria; a subita -passagem do quente ao frio reduz a pó -esta pedra: depois a misturaõ com cal -de chumbo, e livigaõ estas duas substancias -juntas, em huma mó.</p> - -<p class="titlepage">FIM.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p> - -<div class="footnotes"> - -<h2 id="NOTAS">NOTAS</h2> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> Alguns chamaõ argilla a huma terra vermelha, -gorda, muito cheia de arêa, de que usaõ -para os fornos, e por isso em Pariz a chamaõ -barro de fornos: este barro vem unido com arêa -ferruginosa; porém na verdade argilla, e barro, -saõ dous termos synonimos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> Estes trabalhos consistem em differentes -lavagens que naõ podem servir para as louças -communs por serem muito baratas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Ha poucas argillas puras, pela maior parte -trazem diversas uniões. Destinguem-se muitas especies -1º. argilla branca em Alemanha <i>Weisser -thon</i>. Esta he a mais pura, e mais propria para -as obras de louça, tambem serve para pitos, de -que fallarei em outra parte. Conserva a côr branca -no fogo, vitrifica-se com difficuldade, endurece -a ponto de dar faiscas de fogo. 2º. A argilla cinzenta -em Alemanha <i>Schwarzgrauer thon</i> menos -pura que a primeira, e por isso naõ he taõ propria -para a louça fina, e só serve para a grossa. -3º. A argilla negra, que toma esta côr dos mineraes, -de que está carregada, bem lavada e preparada -póde servir para louça. 4º. A argilla azulada -he a mais commum de todas, della se fazem -tijollos, e telha. 5º. A argilla vermelha escura he -a mais fussivel de todas; serve para cobrir -as outras obras inferiores. Ella tem muita impureza, -e por isso se passa por peneira antes de -a pôr em obra. 6º. A argilla amarella tirando a -preto, he magra misturada com arêa; serve para -pratos grossos, e tigéllas, e outras obras que naõ -vaõ ao fogo: os Alemães a chamaõ <i>Schulf</i>. 7º. Argilla -esponjoza, que se naõ póde trabalhar na roda, -he preciso trabalha-la quasi secca. 8º. A argilla -cinzenta de fazer bilhas como as que vem de Normandia.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Para ter conhecimento exacto da natureza -destes barros, se deve consultar Vallerio, M. Pott, -e o Diccionario de Chymica de Maquer.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> A mica he huma especie de pedra folhada, -brilhante refractaria: ha de muitas especies. -Apparecem arêas, com mica, ou malacaxeta, -cheias de muitas partes brilhantes. As partes brilhantes -da mica se asemelhaõ ao talco.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6"></a><a href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a> Os pyritis saõ mineraes que se assemelhaõ -a pedaços de mina por seu pezo, e côr resplandecente; -e com effeito contém alguma especie -metálica; porém raras vezes, e em pouca quantidade; -e tem muito enxofre, e arsenico.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7"></a><a href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a> Terras calcareas saõ aquellas, que expostas -a hum sufficiente gráo de fogo adquirem todos os -caracteres de cal viva.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8"></a><a href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a> A arêa para os tijollos deve ser mais grossa, -e sem mistura de terra; a que se lança na agua, -e naõ a tolda he a melhor; a dos montes he preferivel -á dos rios; se esta estiver carregada de -pedra.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_9" id="Footnote_9"></a><a href="#FNanchor_9"><span class="label">[9]</span></a> <i>Molde</i>: os louceiros chamaõ assim hum -caixilho de madeira, em que elles formaõ os ladrilhos, -e tambem, cavados em gesso, que servem -para fazer com o barro differentes ornatos. -<a href="#section38">38</a> <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 5</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_10" id="Footnote_10"></a><a href="#FNanchor_10"><span class="label">[10]</span></a> Comparando todos os fornos, conhecidos -em França, Suissa, Alemanha, e Hollanda os mais -engenhosos para a economia da lenha, e perfeiçaõ -de cozer saõ os de Suecia descriptos por Wynblad -em huma Memoria que vem no Tom. IV. da Arte -de telheiro desta obra pag. 112 §. 485.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_11" id="Footnote_11"></a><a href="#FNanchor_11"><span class="label">[11]</span></a> <i>Lingueta</i>, he a separaçaõ dos ladrilhos, -que termina alguns fornos de louça, por baixo da -qual estaõ as aberturas, chamadas <i>creneaux</i> <a href="#section49">49</a>, -<a href="#section52">52</a>, <a href="#section130">130</a>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_12" id="Footnote_12"></a><a href="#FNanchor_12"><span class="label">[12]</span></a> <i>Crenaux</i>, he a abertura, que se faz no -forno, ou para dar huma communicaçaõ ao ar -quente, ou para escapar a fumaça <a href="#section50">50</a>, <a href="#section134">134</a>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_13" id="Footnote_13"></a><a href="#FNanchor_13"><span class="label">[13]</span></a> <i>Fausse-tire</i>, he a separaçaõ da abertura, -que formaõ os ladrilhos, separando a fornalha do -corpo do forno. <a href="#section50">50.</a></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_14" id="Footnote_14"></a><a href="#FNanchor_14"><span class="label">[14]</span></a> Entende-se aqui por tempêra aquelle pequeno -calor, que se chega á louça 36 horas primeiro -a esquentalla só para depois lhe chegar fogo -forte.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_15" id="Footnote_15"></a><a href="#FNanchor_15"><span class="label">[15]</span></a> <i>Chasse</i>; grande fogo de chama, que se -faz no fim do cozimento com feiches de lenha, -ou madeira rachada. <a href="#section53">53.</a></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_16" id="Footnote_16"></a><a href="#FNanchor_16"><span class="label">[16]</span></a> <i>Gâchis</i> especie de argamassa, ou mistura -de huma porçaõ de gesso em pó com argamassa de -cal, e arêa. <a href="#section62">62.</a></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_17" id="Footnote_17"></a><a href="#FNanchor_17"><span class="label">[17]</span></a> Com ladrilhos de duas côres só assentados -com differentes posições, se podem formar muitas -vistas agradaveis, o Author assevéra que se podem -fazer até 86 variedades.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_18" id="Footnote_18"></a><a href="#FNanchor_18"><span class="label">[18]</span></a> <i>Voguer</i> amassar á maõ.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_19" id="Footnote_19"></a><a href="#FNanchor_19"><span class="label">[19]</span></a> O forno dos oleiros Alemães he muito -simples; he quadrilongo, de hum comprimento -proporcionado a força de cada fabrica, da altura -de hum homem pouco mais, ou menos. A parte -superior tem a figura de hum ovo, ou he chata, -e baixa compõe-se de terra gorda, e de palha picada -para conservar o calor. O interior, se faz de -tijolos, e com abobada, as paredes de huma parte, -e outra devem ser fortes.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_20" id="Footnote_20"></a><a href="#FNanchor_20"><span class="label">[20]</span></a> Os oleiros Alemães para as suas obras communs -se servem só do lithargirio, a que chamaõ <i>Glatte</i>, -<i>Silberglatte</i>. Piza-se, passa-se por huma peneira, -e liviga-se sobre huma pedra. Para que -o lithargirio naõ corra muito, se lhe ajunta huma -igual quantidade de area branca, e fina. Esta -mistura se põe liquida ao dezejo de cada hum; -lança-se huma quantidade sufficiente no vaso, que -se quer envernizar, e que já está cozido, move-se -e se despeja aquella quantidade, que sobra, -e já naõ pega. Passado hum quarto de hora, já -se póde levar o vaso para cozer o verniz. O vaso -com o verniz deve estar no forno 16. ou 18. horas. -Se o verniz, naõ foi bem livigado, fica desigual, -e cheio de graõs.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_21" id="Footnote_21"></a><a href="#FNanchor_21"><span class="label">[21]</span></a> Querendo-se que o esmalte seja branco, -misturaõ-se cinco partes de estanho com vinte de -chumbo; fazem-se calcinar em hum vaso de barro -no forno de calcinaçaõ. A fornalha se deve esquentar -algumas horas antes de se lançar nella o -chumbo, e a chama deve sempre dar sobre o -chumbo, para isto deve ser o forno de reverbéro. -Deve-se mover o metal com huma espatula -de ferro até elle se reduzir em cinzas. Entaõ se -lança o estanho, e se move do mesmo modo, até -que este tambem se converta em cinzas. Augmenta-se -o fogo, até que as cinzas estejaõ abrazadas; -entaõ se diminue o fogo, e se deixaõ esfriar, -movendo-as sempre com a espatula. Misturaõ-se -estas cinzas com igual porçaõ de sal, e de area; -põe-se tudo em hum vaso descoberto, e se põe -nesta segunda calcinaçaõ todo o sal se evapora, a -materia contida no vaso se abate, e o peso diminue; -porém o sal só se ajunta para facilitar a -fusaõ. Piza-se a materia calcinada em hum gral -de ferro, e se liviga cuidadozamente em huma -pedra, com huma quantidade de agua sufficiente, -para a tornar de huma consistencia liquida. Cahindo -sobre o verniz qualquer bocado de gordura, -por pouca que seja, desmancha todo o trabalho, -porque os metaes tornaõ a tomar sua primeira -fórma, e o verniz desaparece de cima dos -vasos, em que se tinha applicado. O pó, cahindo -sobre o verniz, faz no esmalte huns pequenos -buracos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_22" id="Footnote_22"></a><a href="#FNanchor_22"><span class="label">[22]</span></a> O <i>quartz</i>, he huma pedra dura, côr de -leite, meia transparente, e vitrificavel, que se -acha em muitos lugares, especialmente nas minas. -Ainda que o <i>quartz</i> se vitrifica, quando se -mistura com huma argilla vitrificavel, ou chumbo; -com tudo por inadvertencia se inculcou esta -substancia; he melhor substituir o spath, fusivel -que se vitrifica mais facilmente.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_23" id="Footnote_23"></a><a href="#FNanchor_23"><span class="label">[23]</span></a> Frittar, he calcinar a materia do vidro, -para separar della todos os corpos gordos, que -dariaõ alguma côr suja ao vidro.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_24" id="Footnote_24"></a><a href="#FNanchor_24"><span class="label">[24]</span></a> Naõ ha aqui país algum, em que se naõ -faça louça para o uso dos seus habitantes: ellas -saõ mais, ou menos perfeitas segundo a qualidade -dos barros; mas todas se fazem sobre os principios -já explicados. Hum observador attento podera -contribuir a aperfeiçoar esta arte no lugar, -que habita, applicando-se a examinar as differentes -qualidades de barro, suas composições, e -suas misturas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_25" id="Footnote_25"></a><a href="#FNanchor_25"><span class="label">[25]</span></a> As operações Chimicas naõ se podem fazer, -senaõ em cadinhos cozidos para poderem resistir -a acçaõ dos dissolventes Chimicos, e a hum calor -muito forte. Os de argilla boa tem o inconveniente -de quebrar, passando do quente para o -frio. Foi preciso procurar-se misturas, que os fizessem -soffrer estas variações, e ao mesmo tempo -conter os metaes derretidos por hum grande espaço. -Os melhores cadinhos vem de Hessa. Veja-se Arte -de Porcelana.</p> - -<p>Diz Mr. Pott que estes cadinhos se fazem com -huma boa argilla refractaria, misturada com duas -partes de area de mediana grossura, separando-se -a mais fina por hum crivo. Esta mistura emmagrece -o barro, e naõ o deixa encolher, nem rachar, -nem fazer-se muito compacto, sendo cozido; -A area deve ser de huma grossura mediana, -sendo fina, os cadinhos se quebraõ. Mr. Pott diz mais -que os cadinhos destinados para fundiçaõ de vidros, -naõ devem levar area grossa, nem calháos, -ou outras materias semelhantes, que saõ sujeitas -a derreter-se. Para evitar isto, se ajunta a argilla -o pó da mesma argilla cozida, e pizada grossa; -a mistura se faz com partes iguaes, ou duas desta -argilla cozida; duas, e meia, e ainda tres, e -huma só da argilla nova, quanto melhor he esta -tanta maior porçaõ admittem da outra cozida; e -deste modo se fazem os grandes cadinhos para as -fabricas de vidros. Mr. Pott fez hum grande numero -de experiencias a este respeito: elle misturou -a argilla com as caes metallicas, ossos calcinados, -pedras calcares, talco, amianto, pedra -pomes, esmeril, e muitos outros, e de todas estas -experiencias naõ lhe resultou hum cadinho -sem defeito em todas as vistas. Com tudo parece, -que se poderiaõ fazer cadinhos melhores do que -todos os conhecidos. Para isto se precisaria ter -huma boa argilla bem refractaria, isenta de materias -piritosas, e ainda de barros ferruginosos; -este deveria ser lavado com cuidado para separar-lhe -a area, e depois misturallo com duas, ou -tres partes de argilla cozida, e pizada grosseiramente. -Os cadinhos formados em moldes deveriaõ -ser cozidos em hum fogo muito forte.</p> - -</div> - -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p> - -<h2 id="EXPLICACAO_DAS_FIGURAS">EXPLICAÇAÕ DAS FIGURAS.</h2> - -<h3><a href="#est1"><i>Estampa I.</i></a></h3> - -<p><i>Figura 1.</i> <i>B</i>, tonel, em que está a -agua, para cortar o barro, e o diluir, a -estampa <i>A</i>, o barro <i>C</i>, que se corta, o -instrumento <i>D</i>, que serve para cortar este -barro.</p> - -<p><i>Figura 2.</i> <i>D</i>, instrumento, com que -se corta o barro.</p> - -<p><i>Figura 3.</i> <i>H</i>, molde para fazer tijolos -de seis faces <i>G</i>, <i>fig. 5</i>.</p> - -<p><i>Figura 4.</i> meza para moldar, <i>ab</i>, -sustida pelos pés <i>ee</i>, <i>g</i>, <i>urquain</i>, que -he huma pedra dura, sobre que se põem -o molde <i>dd</i>, <i>e</i>, vaso cheio de agua, <i>f</i>, -plano, <i>k</i>, obras postas humas sobre as -outras, <i>h</i>, barro amassado para encher -o molde, <i>i</i>, monte de area para se espalhar -sobre o <i>urquain</i>.</p> - -<p><i>Figura 5.</i> <i>na vinheta</i>, monte de barro -prestes para se trabalhar.</p> - -<p><i>Figura 6.</i> cutelo curvo para cercear -os tijolos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span></p> - -<p><i>Figuras 7. 8. e 9.</i> representaõ o forno, -de que se servem quasi todos os -oleiros, maiormente para cozer os tijolos.</p> - -<p><i>Figura 7.</i> representa o plano do forno -ao nivel do terreno. <i>A</i>, entrada da -fornalha. <i>AB</i>, onde se faz o fogo, como -se mostra pelas mesmas letras <i>fig. 8</i>. <i>K</i>, -<i>I</i>, separações dos ladrilhos, entre os -quaes ha espaços vasios, para que o ar -quente se communique ao forno. Esta -separaçaõ, que divide a fornalha do interior -do forno, se chama <i>la-fausse-tire</i>. -<i>F</i>, hum vaõ, ou buraco da porta, chamado -<i>tetin</i>. Por este lugar se entra no -forno para lhe arranjar a louça: e em -estando cheio, se fecha este <i>tetin</i> com -hum muro de tijolos, a que chamaõ <i>la Languete</i>, -em baixo desta, ha duas portas, -ou aberturas <i>L</i>, <i>fig. 8</i>. que se chama -<i>creneaux</i>, ou, como dizem os Louceiros -<i>carneaux</i>: por estas aberturas passa -a fumaça para o tubo do chaminé -<i>CD</i>, <i>fig. 8</i>. que representa a vista do -forno pela longitude. <i>AB</i>, he a fornalha: -<i>KL</i>, assoalho do forno. Vê-se acima do -<i>K</i>, <i>la fausse-tire</i>. <i>A</i>, <i>E</i>, <i>M</i>, he a abobada -do forno; em <i>LM</i>, está a <i>lingueta</i>, -abaixo de <i>C</i>, os <i>creneaux</i>, e <i>CD</i>, -tubo da chaminé para descarga da fumaça. -Vê-se em <i>a</i>, os tijolos da fornalha<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span> -postos em carreira, para sustentar os tijolos, -de que se enche o forno.</p> - -<p><i>Figura 9.</i> he huma vista do mesmo -forno transversal pela linha <i>GH</i>, da <i>fig. -7</i>. por baixo em <i>AB</i>, estaõ tijolos de -assoalhar, ou vasilhas de commodidades, -sobre que se arranjaõ as louças, com que -se enche o forno.</p> - -<p><i>Figura 10.</i> <i>T</i>, caldeirinha quadrada, -feita a maõ, e sobre a meza de aperfeiçoar.</p> - -<p><i>Figura 11.</i> alguidar, ou gamela commum -de louça.</p> - -<p><i>Figura 12.</i> especie de fogareiro chamado -<i>toupine</i>.</p> - -<p><i>Figura 13.</i> escalfador.</p> - -<p><i>Figura 14.</i> pequena cassarola.</p> - -<p><i>Figura 15.</i> roda dos oleiros vista em -golpe.</p> - -<p><i>Figura 16.</i> roda dos Oleiros, vista -de perfil.</p> - -<p><i>Fig. 17.</i> roda dos Oleiros, vista em -plano <i>aa</i>, meio da roda <i>ff</i>, arvore da -roda, que víra em huma peça de madeira, -que se acha acima de <i>g</i>, a qual -se conserva segura pela cruz <i>hh</i>, e as -prisões <i>ii</i>, acima do meio <i>aa</i>, está o -prato <i>bb</i>, em que anda a obra <i>cc</i>, que -se trabalha. Os raios da roda se assignalaõ -em <i>dd</i>, e as peças da roda volteadas<span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span> -em <i>ee</i>, <i>K</i>, as taboletas sobre que se -põem as louças <i>n</i>, que se querem trabalhar -sustentadas tambem como o assento <i>l</i>, -que he inclinado pelos montantes <i>pp</i>. Avista-se -pela parte de dentro as peças entalhadas, -que servem de assento ao trabalhador.</p> - -<p><i>Figura 18.</i> <i>A</i>, trabalhador que faz -hum vaso na roda de fazer louça fina.</p> - -<p><i>Figura 19.</i> hum mealheiro, que tambem -bem chamaõ <i>cache-maille</i>.</p> - -<p><i>Figura 20.</i> <i>A</i>, <i>B</i>, <i>C</i>, <i>D</i>, <i>E</i>, serve -para fazer ver como se fazem ao torno -as vasilhas para as decentes commodidades, -como estes potes se ajustaõ huns com -os outros pelas bocas, como se fazem os -potes de duas bocas <i>E</i>, <i>C</i>.</p> - -<p><i>Figura 21.</i> <i>A</i>, modo de fazer hum -vaso com o calibre. O vaso está firme, -o calibre he que víra.</p> - -<p><i>Figura 22.</i> <i>d</i>, cadinho com o molde -<i>c</i>, sobre que o fazem.</p> - -<h3><a href="#est2"><i>Estampa II.</i></a></h3> - -<p><i>Figura 1.</i> 7. <i>tournassin</i>, ou <i>tournassir</i>, -serve para aperfeiçoar o fundo -dos potes, que se fizeraõ ao torno. Este -instrumento he de ferro, que se tem de<span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span> -differentes tamanhos, e de diversas fórmas.</p> - -<p><i>Figura 2.</i> vaso de greda de Picardia, -mais delgado, do que os jarros cobre-se -por fóra do vime para se preservar. -Os que receiaõ da agua, que se -guardou em vasos de metal, mandaõ pôr -em baixo hum registo, ou chave, de que -se servem, como de huma fonte de cobre. -Querendo-se que este fique proprio -para clarificar a agua, põem-se-lhe placas -de estanho, que descançaõ em aneis -salientes pela parte de dentro, que o Oleiro -faz em lugares assignalados pelas linhas -de pontuaçaõ <i>a</i>, e <i>b</i>. He ainda melhor -substituir as placas de estanho com -testos de greda quasi semelhantes a de -<i>M</i>, proporcionando o seu tamanho, ao -diametro interior do vaso, e se põem area -entre estes dous testos.</p> - -<p><i>Figura 3.</i> vaso grande de barro, chamado -<i>pounes</i>, do qual se servem para -salgar as carnes, para fazer as pequenas -lexivias, e para conservar, nos jardins, -agua, que se destina para os regamentos. -Faz-se em hum torno <i>EFG</i>, que se -assemelha a huma lanterna de moinho. -<i>IKL</i>, he o seu eixo que se firma na terra, -e <i>u</i>, faz andar á roda brandamente -a lanterna <i>EF</i>, e a proporçaõ que vai<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span> -virando se fórma o vaso, accrescentando -rolos de barro huns sobre outros, que -se une com huma peça, chamada <i>atelle</i>.</p> - -<p><i>Figura 4.</i> <i>na vinheta</i>, obreiro, que -imprime na roda hum movimento circular -com huma vara, ou páo <i>a</i>, chamado -<i>tourneire</i>, este obreiro se assenta no assento -inclinado <i>l</i>, e põem os pés nos -entalhes <i>m</i>.</p> - -<p><i>Figura 5.</i> obreiro, que imprimindo -muito movimento na sua roda, faz entre -as suas maõs hum jarro.</p> - -<p><i>Figura 6.</i> garrafa, ou redoma de greda, -cujo bojo se faz ao torno.</p> - -<p><i>Figura 7.</i> louças, que se seccaõ arranjadas -no recebedor.</p> - -<p><i>Figura 8.</i> obreiro, que aperfeiçoa os -potes na meza de os preparar.</p> - -<p><i>Figura 9.</i> monte de barro preto para -o trabalho.</p> - -<p><i>Figura 10.</i> candieiro de barro, quasi -totalmente feito ao torno.</p> - -<p><i>Figura 11.</i> <i>G</i>, vista de hum moinho, -para moer o verniz.</p> - -<p><i>Figura 12.</i> <i>H</i>, mó do mesmo moinho.</p> - -<p><i>Figura 13.</i> <i>E</i>, tijolo de barro para -cadinhos, volteado para ficarem fixas as -fornalhas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span></p> - -<p><i>Figura 14.</i> <i>G</i>, caixilho para moldar -tijolos, o qual se faz de differentes tamanhos, -e diversas figuras, como quadrados, -e curvos.</p> - -<p><i>Figura 15.</i> fornete de cadinhos.</p> - -<p><i>Figura 16.</i> fornete de fusaõ, em -que se deve animar o fogo com folles.</p> - -<p><i>Figura 17.</i> pequeno <i>athanor</i>, ou fornete -de digestaõ. Tem em <i>d</i>, hum reservatorio -de carvaõ, que faz poder-se -conservar por muito tempo hum fogo -brando, sem se precisar lançar-lhe continuamente -o carvaõ.</p> - -<h3><a href="#est3"><i>Estampa III.</i></a></h3> - -<p>Nesta Estampa se representa hum -forno, de que usaõ muitos Oleiros, mui -parecido com os fornos das louças finas.</p> - -<p><i>Figura 1.</i> mostra o exterior do forno. -<i>A</i>, a boca da fornalha: deve-se descer -por hum fosso para se lhe introduzir -a lenha. <i>LM</i>, o <i>tetin</i>, ou abertura, -pela qual se entra por baixo na camara -para se pôrem os potes. A parede que -fecha esta abertura, estando a camara -cheia, naõ se dilata até o alto da abertura, -por este lugar sahe a fumaça recebida<span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span> -no cabaz, e tubo. <i>N</i>, se sobe -para a camara superior pela escada <i>P</i>, e -a fumaça escapa pelas aberturas <i>K</i>. O <i>tetin</i>, -para pôr a obra nesta camara, está -no alto da escada <i>P</i>.</p> - -<p><i>Figura 3.</i> he a fornalha, em que -se mette a lenha: sua boca he em <i>A</i>.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span></p> - -<h2 id="TABOA">TABOA<br /> -<span class="smaller"><i>Das Materias, e Explicaçaõ dos termos proprios á Arte do Louceiro.</i></span></h2> - -<ul> - -<li class="ifrst">A.</li> - -<li class="indx" id="Abertura">Abertura, que se dirige ao forno para o encher, a qual se fecha com huma parede de ladrilhos, antes de se introduzir o fogo. <i>Pag.</i> <a href="#Page_51">51.</a> <a href="#Page_130">130.</a></li> - -<li class="indx">Acido vitriolico, se acha em muitas argillas <a href="#section6">§. 6.</a></li> - -<li class="indx">Agua grossa, agua em que se mistura huma pouca de argilla, serve para pegar o verniz em pó nas obras de louça <a href="#section144">144.</a></li> - -<li class="indx" id="Alabastro">Alabastro, sorte de gesso empregado em Inglaterra na louça <a href="#section231">231.</a></li> - -<li class="indx">Alquifoux, mina donde se tira o chumbo, que he brilhante azulada mui pezada quebradiça, e abundante de enxofar <a href="#section141">141.</a></li> - -<li class="indx">Amassar a argilla <a href="#section32">32.</a></li> - -<li class="indx">Ambert, Cidade da baixa Auvergne.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span>Annel, <i>vid.</i> <a href="#Viret"><i>Viret</i></a>.</li> - -<li class="indx">Aparas, obras que se naõ tem levado ao forno <a href="#section31">31.</a></li> - -<li class="indx">Aperfeiçoar, concertar á maõ as obras que se fizeraõ ao torno, e pôr-lhe azas, e pés.</li> - -<li class="indx">Apodrecer, <i>vid.</i> <a href="#Invernar">Invernar</a>.</li> - -<li class="indx">Arcueil, Cidade de França <a href="#section27">27.</a></li> - -<li class="indx">Area misturada com argilla <a href="#section13">13.</a></li> -<li class="isub1">Seu uso na louça <a href="#section17">17.</a> <a href="#section32">32.</a></li> -<li class="isub1">Fusivel, vitrificavel, e metalica <a href="#section18">18.</a></li> -<li class="isub1">Para fazer tijolos <a href="#section25">25.</a></li> -<li class="isub1">Serve para moldar <a href="#section48">48.</a></li> - -<li class="indx">Argamassar, amassar o barro, quer seja simples, quer se componha de muitas misturas juntas <a href="#section4">4.</a></li> - -<li class="indx" id="Argilla">Argilla, barro gordo compacto ductil, amolessendo-se em agua <a href="#section2">2.</a></li> -<li class="isub1">Ductibilidade da argilla <a href="#section5">5.</a></li> -<li class="isub1">Sua dureza depois de cozida <a href="#section7">7.</a></li> -<li class="isub1">Sua côr <a href="#section11">11.</a></li> - -<li class="indx">Argilla para as louças de Inglaterra <a href="#section227">227.</a></li> -<li class="isub1">Para as louças brancas de Staffordshire <a href="#section245">245.</a></li> - -<li class="indx">Assento, taboa inclinada, que faz parte do torno do Louceiro, sobre que se assenta o trabalhador.</li> - -<li class="indx" id="Ateille"><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span>Ateille, pedaço de madeira, ou de ferro, que tem huma certa figura, e que se póde comparar com o que os pedreiros chamaõ calibre, para fazer as molduras <a href="#section75">75.</a> <a href="#section95">95.</a></li> - -<li class="ifrst">B.</li> - -<li class="indx">Barro gordo <i>vid.</i> <a href="#Argilla">Argilla</a>.</li> - -<li class="indx">Barro de ladrilhos <a href="#section12">12.</a></li> - -<li class="indx">Barro de telhas <a href="#section12"><i>Ibid.</i></a></li> - -<li class="indx">Barro de tijolos <a href="#section12"><i>Ibid.</i></a></li> - -<li class="indx">Barro de cadinhos <a href="#section12"><i>Ibid.</i></a></li> - -<li class="indx">Barro de pitos <a href="#section12"><i>Ibid.</i></a></li> - -<li class="indx">Barro, bom barro <a href="#section70">70.</a></li> - -<li class="indx">Barro branco <a href="#section196">196.</a></li> - -<li class="indx">Batoques <i>vid.</i> <a href="#Registros">Registros</a>.</li> - -<li class="indx">Beauvais, Cidade Episcopal da Picardia.</li> - -<li class="indx">Bonnet les-Oules (Saint) Parroquial do Fores.</li> - -<li class="ifrst">C.</li> - -<li class="indx">Cadinho <i>vid.</i> <a href="#Crizoes">Crizões</a>.</li> - -<li class="indx">Calcaria (pedra) pedra, que pela calcinaçaõ naõ se vitrifica totalmente, mas se converte em cal <a href="#section13">13.</a></li> - -<li class="indx">Calibre <i>vid.</i> <a href="#Ateille">Ateille</a>.</li> - -<li class="indx">Candieiro de barro <a href="#section122">122.</a></li> - -<li class="indx">Cassarolas, vasos de barro <a href="#section118">118.</a></li> - -<li class="indx">Castellet, Villa de Auvergne <a href="#section319">319.</a></li> - -<li class="indx">Champetieres, Villa de Auvergne <a href="#section319">319.</a></li> - -<li class="indx" id="Chumbo"><span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span>Chumbo (mina de) dá-se impropriamente este nome a huma <i>cal de Chumbo</i>, que pela calcinaçaõ toma huma côr vermelha, chamada chumbo vermelho, zarcaõ, ou minium.</li> - -<li class="indx">Coadores, vaso de barro <a href="#section120">120.</a></li> - -<li class="indx">Cortar o barro, he dividillo em talhadas, mas delgadas que forem possiveis <a href="#section30">30.</a></li> - -<li class="indx">Curto (barro) assim chamaõ os Oleiros a hum barro, que naõ sendo bem ductil, naõ se póde estender muito sem se quebrar.</li> - -<li class="indx">Cutelo <i>vid.</i> <a href="#Faca">Faca</a>.</li> - -<li class="indx">Creneaux, aberturas que se fazem no fornete, quer para dar huma communicaçaõ de ar quente, quer para sahir a fumaça <a href="#section50">50.</a> <a href="#section134">134.</a></li> - -<li class="indx" id="Crizoes">Crisoes, ou cadinhos (barro de) <a href="#section185">185.</a></li> -<li class="isub1">Cadinhos de Picardia <a href="#section298">298.</a></li> -<li class="isub1">Seu cozimento <a href="#section312">312.</a></li> - -<li class="indx">Crivo para passar o barro <a href="#section71">71.</a></li> - -<li class="indx">Cozimento da louça <a href="#section24">24.</a></li> - -<li class="ifrst">D.</li> - -<li class="indx">Devonshire, Provincia Meridional de Inglaterra, onde ha muito bons Pórtos frequentadissimos. Exeter he a sua Capital.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span>Digestaõ (fornete de) <a href="#section281">281.</a></li> - -<li class="ifrst">E.</li> - -<li class="indx">Ebauchoir, pequeno pedaço de madeira cortada de diversos modos, de que se servem os Escultores, para fazerem seu molde, ou em barro, ou em cera <a href="#section127">127.</a></li> - -<li class="indx">Escalfador, sorte de vaso <a href="#section94">94.</a></li> - -<li class="indx">Espinasse, Villa de Auvergne dependente da Paroquia de Marzac.</li> - -<li class="indx">Esquentador <a href="#section125">125.</a></li> - -<li class="indx" id="Eutrope">Eutrope (Saint) Villa de Angomes.</li> - -<li class="ifrst">F.</li> - -<li class="indx" id="Faca">Faca de dous cabos para cortar o barro <a href="#section30">30.</a></li> - -<li class="indx">Faca curva para aparar os ladrilhos <a href="#section45">45.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 6.</i></li> - -<li class="indx">Fargeau (Saint) Cidade de França no Gatinnes.</li> - -<li class="indx">Fausse tire, separaçaõ que formaõ os tijolos, apartando o fogaõ do corpo do forno <a href="#section50">50.</a></li> - -<li class="indx" id="Fio">Fio de lataõ, instrumento para cortar o barro: he huma ponta de fio de arame guarnecida de hum punho em cada extremidade: faz-se a arbitrio, e se apropría conforme a posiçaõ que lhe querem dar <a href="#section35">35.</a></li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span>Fogareiros, ou fornalhas portateis, quadradas <a href="#section274">274.</a></li> - -<li class="indx">Forno de cozer os tijolos <a href="#section49">49.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 7. 8. 9.</i></li> - -<li class="indx" id="Forno">Forno do Louceiro <a href="#section129">129.</a></li> -<li class="isub1">Outro forno <a href="#section132">132.</a> <i><a href="#est3">est. III.</a></i> <i>fig. 1. 2. 3.</i></li> -<li class="isub1">De Prá em Lionnes <a href="#section163">163.</a></li> -<li class="isub1">De Franche ville <a href="#section179">179.</a></li> -<li class="isub1">De Beauvais <a href="#section187">187.</a></li> -<li class="isub1">De S. Fargeau <a href="#section206">206.</a></li> -<li class="isub1">Do Condado de Northumberland, em Inglaterra <a href="#section235">235.</a></li> -<li class="isub1">Do Condado de Stafford <a href="#section256">256.</a></li> -<li class="isub1">Fornete de vento de Mr. Macquer <a href="#section280">280.</a></li> -<li class="isub1">Forno dos Oleiros <a href="#section313">313.</a></li> - -<li class="indx" id="Fornalhas">Fornalha, lugar do forno, em que se põem a lenha, ou carvaõ <a href="#section286">286.</a></li> - -<li class="indx">Fornalha de fusaõ <a href="#section274">274.</a> <i><a href="#est2">est. II.</a></i> <i>fig. 16.</i></li> -<li class="isub1">De calcinaçaõ para o esmalte <a href="#section93">93.</a></li> - -<li class="indx">Fornistas, trabalhadores que fazem fornetes, e cadinhos para os Chymicos <a href="#section262">262.</a></li> - -<li class="indx">Franche-Ville, Aldêa no Leonnes, em que se faz louça <a href="#section171">171.</a></li> - -<li class="indx">Fritar, calcinar a materia do vidro <a href="#section100">100.</a></li> - -<li class="indx">Fusaõ (fornalha de) fornalha principalmente destinada para a fusaõ dos metaes, em que se accende o fogo com folles <a href="#section279">279.</a></li> - -<li class="ifrst">G.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span>Gauchis, especie de argamassa, a que se mistura huma porçaõ de gesso em pó, com argamassa de cal, e de area, ou bitume <a href="#section62">62.</a></li> - -<li class="indx">Galmier (Saint) pequena Cidade do Forez.</li> - -<li class="indx">Gaubino, assim chamaõ no Lionnes a huma argilla cinzenta, muito pura, da qual se faz huma louça fechadissima, e pouco propria para o fogo <a href="#section176">176.</a></li> - -<li class="indx">Gentilles, pequena Villa da Ilha de França.</li> - -<li class="indx">Gesso <i>vid.</i> <a href="#Alabastro">Alabastro</a>.</li> - -<li class="indx">Gimble, dá-se em alguns lugares este nome ao prato do torno que sustem a obra <a href="#section75">75.</a></li> - -<li class="indx">Gournay, Cidade de Normandia no paiz de Bray, celebre pelas suas manteigas, de que se faz huma grande venda em París.</li> - -<li class="indx">Greda (louça de) saõ as que se aproximaõ mais a Porçolana <a href="#section181">181.</a></li> - -<li class="indx">Greda de Normandia <a href="#section23">23.</a> <a href="#section182">182.</a></li> -<li class="isub1">de Bretanha <a href="#section23">23.</a></li> -<li class="isub1">de Beauvais <a href="#section23">23.</a></li> -<li class="isub1">de S. Fargeau <a href="#section23">23.</a> <a href="#section194">194.</a></li> -<li class="isub1">de Flandres <a href="#section23">23.</a></li> - -<li class="indx">Gesso <a href="#section231">231.</a></li> - -<li class="ifrst">H.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span>Huma amassadura, o que se amassa de huma vez com os pés <a href="#section32">32.</a></li> - -<li class="ifrst">I.</li> - -<li class="indx">Inglaterra (louça de) <a href="#section218">218.</a></li> -<li class="isub1">Louça negra <a href="#section240">240.</a></li> - -<li class="indx" id="Invernar">Invernar, he deixar o barra extrahido da mina em hum fosso, ou em montes ao ar, o que contribue para se alisar melhor <a href="#section28">28.</a></li> - -<li class="indx">Isigny, Cidade grande na baixa Normandia, com hum pequeno Porto <a href="#section21">21.</a></li> - -<li class="indx">Issoire, Cidade de França na baixa Auvergne <a href="#section317">317.</a></li> - -<li class="indx">Jonc <i>vid.</i> <a href="#Viret"><i>Viret</i></a>.</li> - -<li class="indx">Junien (Saint) pequena Villa da baixa Marcha.</li> - -<li class="ifrst">K.</li> - -<li class="indx">Kaolin, he huma argilla branca, que ainda cozida, conserva a sua alvura, a qual naõ he muito ductil, e frequentemente se acha misturada de differentes substancias, como a mica, espato etc. <a href="#section321">321.</a></li> - -<li class="ifrst">L.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span>Laboratorio assim se chama, o lugar do forno, em que se põem os cadinhos cucurbitas, e as differentes substancias que se querem pôr ao fogo <a href="#section274">274.</a></li> - -<li class="indx">Ladrilhos, modo de os fazer <a href="#section30">30.</a></li> -<li class="isub1">Tijolos chamados ladrilhos <a href="#section37">37.</a></li> -<li class="isub1">Caraolar <a href="#section37"><i>Ibid.</i></a></li> -<li class="isub1">Triangulares, quadrangulares <a href="#section37"><i>Ibid.</i></a></li> -<li class="isub1">Oitogonos <a href="#section39">39.</a></li> -<li class="isub1">Hexagonos <a href="#section39"><i>Ibid.</i></a></li> - -<li class="indx">Langueta, uniaõ de ladrilhos, que termina alguns fornos de louças, em baixo desta estaõ as aberturas, chamadas <i>creneaux</i> <a href="#section49">49.</a> <a href="#section52">52.</a> <a href="#section130">130.</a></li> - -<li class="indx">Latier, ou Latter, escorias de ferro, que se desprendem nas fornalhas, e serve aos Louceiros para envernizarem as suas obras <a href="#section211">211.</a></li> - -<li class="indx">Latier, <i>en Laquet</i>, he esta escoria de ferro reduzida a pó.</li> - -<li class="indx">Lithargirio, ou chumbo rubro <i>vid.</i> <a href="#Chumbo">Chumbo</a>.</li> - -<li class="indx">Louça de S. Germain, Parroquia de Beauvois <a href="#section183">183.</a></li> - -<li class="ifrst">M.</li> - -<li class="indx">Masso de ferro, proprio para socar o barro <a href="#section71">71.</a></li> - -<li class="indx">Malaise, Cidade no Lymoussin <a href="#section320">320.</a></li> - -<li class="indx" id="Manganesia">Manganesia, mina de ferro pobre, e refractaria de hum azul denegrido cheia de granitos <a href="#section144">144.</a></li> - -<li class="indx">Marcassita <i>vid.</i> <a href="#Manganesia">Manganesia</a>.</li> - -<li class="indx">Marzac, Villa de Auvergne, onde se fabricaõ cadinhos para os ourives <a href="#section317">317.</a></li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span>Meio, parte da roda do Louceiro de barro <a href="#section75">75.</a></li> - -<li class="indx">Mealheiro, vaso de barro commum, inteiramente fechado só com huma fenda por cima por onde se introduz dinheiro, e para o tirar se precisa quebrar este vaso <a href="#section88">88.</a></li> - -<li class="indx">Mica, especie de fragmentos talcosos, que se achaõ misturados com pedra, ou area <a href="#section13">13.</a></li> - -<li class="indx">Meza de moldar <a href="#section41">41.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 4.</i></li> - -<li class="indx">Meza de madeira, em que se põem o barro amassado para se trabalhar <a href="#section71">71.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 5.</i></li> - -<li class="indx">Mina de chumbo <i>vid.</i> <a href="#Chumbo">Chumbo</a>.</li> - -<li class="indx">Minio <i>vid.</i> <a href="#Chumbo">Chumbo</a>.</li> - -<li class="indx">Montmoreau <i>vid.</i> <a href="#Eutrope">S. Eutrope</a>.</li> - -<li class="indx">Moufle, pequeno forno de barro cozido, que se põem nas fornalhas quadradas <i>vid.</i> <a href="#section277">Fornalhas portateis 277.</a></li> - -<li class="indx">Molde, os Oleiros daõ este nome a hum caixilho de madeira, em que elles formaõ os <i>creneaux</i>: tambem ha concavo de gesso, que serve para formar com o barro differentes ornatos <a href="#section38">38.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 5.</i></li> - -<li class="indx">Moldes para fazer os cadinhos <a href="#section297">297.</a></li> - -<li class="indx">Moldar os ladrilhos <a href="#section37">37.</a></li> - -<li class="indx">Moldes empregados nas Fabricas de louças de Inglaterra <a href="#section251">251.</a> <a href="#section254">254.</a></li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span>Moinho para moer a pedra para as louças de Inglaterra <a href="#section155">155.</a></li> - -<li class="ifrst">N.</li> - -<li class="indx">Nibelle, pequena Villa de Gatinnes <a href="#section25">25.</a></li> - -<li class="indx">Northumberland, Provincia de Inglaterra: louça deste París <a href="#section219">219.</a></li> - -<li class="ifrst">P.</li> - -<li class="indx">Panellas, grandes vasos de barro, mas commummente de greda <a href="#section216">216.</a></li> - -<li class="indx">Pedra calcaria <a href="#section43">43.</a></li> - -<li class="indx">Pitos <a href="#section32">32.</a></li> - -<li class="indx">Plaina, peça de madeira para moldar as obras <a href="#section41">41.</a></li> - -<li class="indx">Prá en Forez, Aldêa do Lionnes, em que se fabríca Porçolana <a href="#section157">157.</a></li> - -<li class="indx">Prevalais, Parroquia de Bretanha <a href="#section190">190.</a></li> - -<li class="indx">Pyrites, substancia mineral que contém pouco metal, e muito enxofre, ou arsenico <a href="#section13">13.</a></li> -<li class="isub1">Má liga para a louça <a href="#section16">16.</a></li> - -<li class="ifrst">Q.</li> - -<li class="indx">Quartz, pedra dura côr de leite meia transparente, e vitrificavel <a href="#section152">152.</a></li> - -<li class="indx">Qualidades da boa louça <a href="#section19">19.</a></li> - -<li class="ifrst">R.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span>Regadores feitos de barro <a href="#section123">123.</a></li> - -<li class="indx" id="Registros">Registros, aberturas feitas em differentes lugares do forno, que se abrem, ou fechaõ com rolhas para diminuir, ou aumentar o fogo <a href="#section275">275.</a></li> - -<li class="indx">Rodas empregadas na fabrica de louça <a href="#section74">74.</a></li> -<li class="isub1">Roda de ferro <a href="#section75">75.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 5.</i></li> -<li class="isub1">Roda de madeira <i>vid.</i> <a href="#Forno">Forno</a>.</li> - -<li class="ifrst">S.</li> - -<li class="indx">Sal marinho, seu uso para as louças de Inglaterra <a href="#section259">259.</a></li> - -<li class="indx">Savignier, pequena Cidade da Picardia <a href="#section183">183.</a></li> - -<li class="indx">Sauxillanges, pequena Cidade de Auvergne, em que fazem crizoes para os ourives <a href="#section317">317.</a></li> - -<li class="indx">Serra, fio de lataõ, que serve de desprender as obras de cima do prato <i>vid.</i> <a href="#Fio">Fio de lataõ</a>.</li> - -<li class="indx">Seccar as obras <a href="#section44">44.</a></li> - -<li class="indx">Staffordshire, Provincia de Inglaterra, em que se fazem louças brancas <a href="#section244">244.</a></li> - -<li class="ifrst">T.</li> - -<li class="indx">Taboa da roda <a href="#section76">76.</a></li> - -<li class="indx">Talhas para ensaboar <a href="#section89">89.</a></li> -<li class="isub1">Para brazas <a href="#section121">121.</a></li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span>Tamiz para passar a pederneira <a href="#section249">249.</a></li> - -<li class="indx">Terra calcaria <a href="#section13">13.</a></li> -<li class="isub1">Modo de a experimentar <a href="#section14">14.</a> <a href="#section22">22.</a></li> - -<li class="indx">Tetin <i>vid.</i> <a href="#Abertura">Abertura</a>.</li> - -<li class="indx">Toupiniers <a href="#section321">321.</a></li> - -<li class="indx">Torno, roda de madeira, que se faz virar com o pé, para formar sobre o prato as obras, que se querem fazer, como se faz na roda do Louceiro <a href="#section80">80.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 18.</i></li> - -<li class="indx">Torno Inglez <a href="#section250">250.</a></li> - -<li class="indx">Tounassin, instrumento de ferro algum tanto cortante, a que se dá differentes figuras; serve para trabalhar por baixo dos vasos, que se despegaõ de cima dos pratos <a href="#section11">11.</a></li> - -<li class="indx">Tempera, lançar a agua sobre o barro para o amollecer <a href="#section30">30.</a></li> - -<li class="indx">Temperar, dar hum pequeno fogo as louças para acabar de seccar antes de se dar o grande fogo para as cozer <a href="#section54">54.</a></li> - -<li class="indx">Testos dos fogareiros, e escalfadores <a href="#section94">94.</a></li> - -<li class="indx">Tutes, especie de cadinho com pé como o de hum vidro de beber agua <a href="#section309">309.</a></li> - -<li class="ifrst">V.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span>Urquain, pedra dura compacta, ou taboaõ de madeira, sobre que se põem molde, para formar as louças, e grandes tijolos <a href="#section41">41.</a></li> - -<li class="indx">Vanvres, Parroquia, ou Freguezia da Ilha de França <a href="#section70">70.</a></li> -<li class="isub1">Do Condado de Stafford <a href="#section252">252.</a></li> - -<li class="indx">Vasos de despejo, sorte de pote sem fundo em forma de tubo redondo, mais largo de huma ponta do que da outra, serve para as decidas dos lugares de recreio <a href="#section92">92.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 20.</i> Tambem se fazem de pedra de roca.</li> - -<li class="indx">Vasos de Jardim <a href="#section96">96.</a> <a href="#section126">126.</a></li> - -<li class="indx">Vasos para flores communs <a href="#section91">91.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 17.</i></li> - -<li class="indx">Verniz, reboco de huma substancia vitrificada, de que se cobre a louça de barro <a href="#section18">18.</a> <a href="#section189">189.</a></li> -<li class="isub1">Outro methodo de applicar o verniz <a href="#section146">146.</a></li> -<li class="isub1">De Prá em Lionnes <a href="#section165">165.</a></li> -<li class="isub1">De Franche-ville <a href="#section180">180.</a></li> -<li class="isub1">De S. Fargeau <a href="#section212">212.</a></li> -<li class="isub1">Do condado de Northumberland em Inglaterra <a href="#section236">236.</a></li> - -<li class="indx">Virador, vara que serve para imprimir o movimento circular na roda de ferro <a href="#section79">79.</a> <i><a href="#est2">est. II.</a></i> <i>fig. 4.</i></li> - -<li class="indx" id="Viret">Viret, ou virola sorte de anel de barro que forma salientes.</li> - -<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span>Voguer, manear, e amassar o barro á maõ para lhe separar os corpos estranhos, e alimpar mais perfeitamente <a href="#section71">71.</a></li> - -<li class="ifrst">Z.</li> - -<li class="indx">Zimmeren, Villa de Luxembourgo, onde se faz louça <a href="#section191">191.</a></li> - -</ul> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span></p> - -<h2 id="INDICE">INDICE<br /> -<span class="smaller">DOS ARTIGOS QUE SE CONTEM NESTA OBRA.</span></h2> - -<table summary="Indice"> - <tr> - <td><i>Observações preliminares.</i></td> - <td class="tdpg">Pag. <a href="#INTRODUCCAO">3.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo I. Do trabalho da louça, segundo o uso de Pariz.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_I">22.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo II. Dos ladrilhos, e como se amassa o barro, - com que elles se fazem.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_II">23.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Como se moldaõ os ladrilhos.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_28">28.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Do forno, e do modo de se arranjar nelle os ladrilhos - para se cozerem.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_35">35.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo III. Das obras dos ladrilhos.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_III">41.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo IV. Modo de fazer os differentes vasos; e utensilios - domesticos com o mesmo barro, que serve para fazer os ladrilhos.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_IV">49.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Modo de fazer os vasos na roda.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_52">52.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Descripçaõ da roda de ferro.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_52"><i>Ibid.</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Do torno, ou roda, que os Oleiros de obra grossa tomaráõ, - dos de obra fina.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_55">55.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Trabalho do Oleiro sobre a roda.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_58">58.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Como se podem formar obras no torno com hum calibre.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_65">65.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span> - <i>Como se fazem ao torno os vasos grandes de Jardim.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_66">66.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Vasos grandes de barro cozido.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_69">69.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo V. Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na - meza para lhe pôr azas, e pés.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_V">74.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo VI. De algumas que totalmente se fazem á maõ.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_VI">80.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo VII. Das obras, que se fazem com moldes.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_VII">82.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo VIII. Do modo de enfornar as obras de olaria, - e cozellas.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_VIII">84.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo IX. Descripçaõ de outra especie de forno, que - usaõ os Oleiros dos arrabaldes de S. Antonio para cozer - suas obras.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_IX">86.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo X. Do verniz, ou vidrado que se põem na louça.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_X">90.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Primeiro Methodo.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_92">92.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Sobre as louças de Lionnes.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_101">101.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Da louça de Prá, em Forez.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_102">102.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Louça de Franche ville, no Lionnes.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_105">105.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo XI. Das louças, que se chamaõ de greda.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_XI">108.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Das louças de S. Fargeau.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_116">116.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Modo de procurar para as louças huma côr negra, que de algum modo - supre o verniz, ou vidrado.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_123">123.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span> - <i>Louça de Inglaterra.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_124">124.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Artigo XII. Do Oleiro de Fogareiros.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_XII">144.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Notas da Academia Real das Sciencias.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Page_173">173.</a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Explicaçaõ das Figuras.</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#EXPLICACAO_DAS_FIGURAS">176.</a></td> - </tr> -</table> - -<hr /> - -<h2 id="ERRATAS">ERRATAS</h2> - -<p class="transnote"><b>Nota do transcritor:</b> Corrigido; e alguns erros adicionais também -foram corrigidos.</p> - -<table summary="Erratas"> - <tr> - <td class="tdr"><i>Pag.</i></td> - <td class="tdr"><i>Lin.</i></td> - <td><i>Erros</i></td> - <td><i>Emendas</i></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_4">4</a></td> - <td class="tdr">5</td> - <td>conisderar</td> - <td>considerar</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_8">8</a></td> - <td class="tdr">8</td> - <td>deffere</td> - <td>differe</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_12">12</a></td> - <td class="tdr">11</td> - <td>se ttrara</td> - <td>se tirar a</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_12"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">9</td> - <td>percente</td> - <td>persente</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_12"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">19</td> - <td>pricipitadas</td> - <td>precipitadas</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_15">15</a></td> - <td class="tdr">17</td> - <td>he</td> - <td>saõ</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_15"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">18</td> - <td>queima-se</td> - <td>queimaõ-se</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_16">16</a></td> - <td class="tdr">21</td> - <td>que que</td> - <td>que</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_17">17</a></td> - <td class="tdr">20</td> - <td>e precisa</td> - <td>se precisa</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_17"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">33</td> - <td>quando misturando</td> - <td>quando se misturaõ</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_18">18</a></td> - <td class="tdr">1</td> - <td>a seu</td> - <td>o seu</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_18"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">12</td> - <td>a hum</td> - <td>de hum</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_19">19</a></td> - <td class="tdr">13</td> - <td>commuus</td> - <td>communs</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_20">20</a></td> - <td class="tdr">7</td> - <td>salgadeiras</td> - <td>saleiros</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_20"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">27</td> - <td>as utensis</td> - <td>os utensis</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_22">22</a></td> - <td class="tdr">4</td> - <td>avou</td> - <td>vou</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_22">22</a></td> - <td class="tdr">11</td> - <td>seu o</td> - <td>o seu</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_26">26</a></td> - <td class="tdr">18</td> - <td>acabada</td> - <td>acaba</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_31">31</a></td> - <td class="tdr">23</td> - <td>tilheiros</td> - <td>telheiros</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_34">34</a></td> - <td class="tdr">4</td> - <td>sahe</td> - <td>sahem</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_34"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">29</td> - <td>defferentes</td> - <td>differentes</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_34"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">4</td> - <td>sahe</td> - <td>sahem</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_43">43</a></td> - <td class="tdr">27</td> - <td>elle</td> - <td>estes</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_47">47</a></td> - <td class="tdr">6</td> - <td>as portas</td> - <td>os postos</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_47"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">13</td> - <td>as levanta</td> - <td>os levanta</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_48">48</a></td> - <td class="tdr">13</td> - <td>e untaõ</td> - <td>untaõ</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_52">52</a></td> - <td class="tdr">10</td> - <td><i>Fig. 15.</i></td> - <td><i>Fig. 5.</i></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_53">53</a></td> - <td class="tdr">26</td> - <td>e cambas</td> - <td>cambas</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_54">54</a></td> - <td class="tdr">17</td> - <td>caimba</td> - <td>camba</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_57">57</a></td> - <td class="tdr">16</td> - <td>perde ella <i>adde</i></td> - <td>o seu movimento</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_60">60</a></td> - <td class="tdr">7</td> - <td>mealheilro</td> - <td>mealheiro</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_60"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">30</td> - <td>o qual</td> - <td>a qual</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_61">61</a></td> - <td class="tdr">2</td> - <td>insaboar</td> - <td>ensaboar</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_61"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">19</td> - <td>esses</td> - <td>estas</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_64">64</a></td> - <td class="tdr">2</td> - <td><i>tab.</i></td> - <td><i>est.</i></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_68">68</a></td> - <td class="tdr">4</td> - <td>se po-chegar</td> - <td>se pode chegar</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_68"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">5</td> - <td>e se de guraapertando</td> - <td>e se segura apertando</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_71">71</a></td> - <td class="tdr">11</td> - <td>destinadas</td> - <td>destinados</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_74">74</a></td> - <td class="tdr">3</td> - <td>torno; que</td> - <td>torno; pois o que</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_75">75</a></td> - <td class="tdr">13</td> - <td>indireitar</td> - <td>endireitar</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_76">76</a></td> - <td class="tdr">17</td> - <td>o pegar</td> - <td>apegar</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_77">77</a></td> - <td class="tdr">22</td> - <td>so poem</td> - <td>se poem</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_80">80</a></td> - <td class="tdr">18</td> - <td>moido, e passado</td> - <td>moida, e passada</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_95">95</a></td> - <td class="tdr">18</td> - <td>quer</td> - <td>querem</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_102">102</a></td> - <td class="tdr">10</td> - <td>Feroz</td> - <td>Forez</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_103">103</a></td> - <td class="tdr">19</td> - <td>do barro <i>adde</i></td> - <td>escuro</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_103"><i>Ibid.</i></a></td> - <td class="tdr">27</td> - <td>se estes</td> - <td>amassaõ-se estes</td> - </tr> - <tr> - <td></td> - <td colspan="3">Onde se achar levigar, levigados, <i>lêa-se</i> - livigar, livigados.</td> - </tr> - <tr> - <td></td> - <td colspan="3">E onde invernizar, invernizadas, <i>lêa-se</i> - envernizar, envernizadas.</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_147">147</a></td> - <td class="tdr">25</td> - <td>cenrada</td> - <td>cenrrada</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_153">153</a></td> - <td class="tdr">1</td> - <td><i>fig.</i></td> - <td><i>fig. 15.</i></td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_158">158</a></td> - <td class="tdr">28</td> - <td>a une</td> - <td>o une</td> - </tr> - <tr> - <td class="tdr"><a href="#Page_159">159</a></td> - <td class="tdr">14</td> - <td>fazem-lhe</td> - <td>fazem-lhes</td> - </tr> -</table> - -<hr /> - -<div class="figcenter" style="width: 300px;" id="est1"> -<p class="caption"><i>Louceiro de barro Simples.</i> <i>Est. I.</i></p> -<a href="images/est1.jpg"><img class="link" src="images/est1-small.jpg" width="200" height="240" alt="" /></a> -</div> - -<hr /> - -<div class="figcenter" style="width: 300px;" id="est2"> -<p class="caption"><i>Louceiro de barro Simples.</i> <i>Est. II</i></p> -<a href="images/est2.jpg"><img class="link" src="images/est2-small.jpg" width="200" height="240" alt="" /></a> -</div> - -<hr /> - -<div class="figcenter" style="width: 300px;" id="est3"> -<p class="caption"><i>Louceiro de barro Simples.</i> <i>Est. III.</i></p> -<a href="images/est3.jpg"><img class="link" src="images/est3-small.jpg" width="200" height="240" alt="" /></a> -</div> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of Project Gutenberg's Arte de louceiro, by José Ferreira da Silva - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DE LOUCEIRO *** - -***** This file should be named 62115-h.htm or 62115-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/1/1/62115/ - -Produced by Júlio Reis and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by The -Internet Archive/Canadian Libraries) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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