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-The Project Gutenberg EBook of Arte de louceiro, by José Ferreira da Silva
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
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-this ebook.
-
-
-
-Title: Arte de louceiro
- Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas
-
-Author: José Ferreira da Silva
-
-Release Date: May 13, 2020 [EBook #62115]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DE LOUCEIRO ***
-
-
-
-
-Produced by Júlio Reis and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
-produced from images generously made available by The
-Internet Archive/Canadian Libraries)
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- ARTE DE LOUCEIRO
-
- OU
-
- TRATADO SOBRE O MODO DE FAZER
- AS LOUÇAS DE BARRO MAIS
- GROSSAS,
-
- TRADUZIDO DO FRANCEZ
-
- POR ORDEM
- DE
- SUA ALTEZA REAL,
- O PRINCIPE REGENTE,
- NOSSO SENHOR,
- POR
- JOSE FERREIRA DA SILVA
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- NA IMPRESSAÕ REGIA.
- ANNO DE 1804.
-
- _Por Ordem Superior._
-
- _Ars dux certior._
- Cic.
-
-
-
-
-ARTE DE LOUCEIRO DE BARRO SIMPLES.
-
-
-
-
-INTRODUCÇAÕ.
-
-
-1 A Arte do Louceiro consiste em fazer vasilhas, e outras obras de
-barro, que se embebe em agua para o amolecer, e se amassa e se dá depois
-differentes figuras; e se fazem cozer para lhe dar solidez, conforme esta
-definiçaõ, o que faz pitos, o louceiro, e os que fazem porcelana saõ
-oleiros; porém fazem obras mais perfeitas do que estes de que vamos a
-fallar. Assim entende-se por oleiros, os que fazem obras communs, e que
-por isso se podem dar baratas.
-
-2 A argilla[1], que se chama tambem terra barrenta, faz a base das
-terras de que usaõ os oleiros, e he a proposito dar os caracteres que
-a fazem particular destinguindo das outras terras. Para isto a vou
-considerar em seu estado de pureza, ainda que he difficil, ou talvez
-impossivel obtella sem mistura de differentes substancias estranhas, que
-mudando sua natureza; humas vezes a tornaõ mais propria para as obras
-de oleiro, e outras obrigaraõ os oleiros a trabalhos consideraveis para
-purificar o barro, sem o que seria inutil.[2]
-
-3 A argilla[3] ou barro puro he formada de partes muito finas, que se
-unem muito humas ás outras; porque estando amontuadas em massa, e unidas
-humas ás outras, cheguando a hum grande gráo de secura, endurecem, de
-sorte que hum torraõ de argilla exactamente amassado, e bem secco,
-contrahe huma dureza de pedras: por causa das suas partes serem muito
-finas, neste estado he susceptivel de tomar certo polimento: he macia, e
-saponacea ao toque; e por isso he que se chama a esta _terra gorda_. Ella
-atrahe a humidade, o que a faz pegar a lingua se acaso a toca; tambem
-se une bem ás substancias gordas; e por isso serve para tirar certas
-nodoas.[4]
-
-4 Depois de ter cortado, ou quebrado em molleculas de mediocre tamanho,
-se deixaõ ficar na agua, de que ella se carrega em abundancia; ella
-se incha á proporçaõ que se carrega da agua e se póde desfazer huma
-pequena quantidade em muita agua. Mas quando se lhe naõ lança bastante
-para a reduzir a huma especie de lama, e que se amassa como adiante
-explicaremos, he o que se chama _argamassar_, ella se faz glutinosa, e
-fórma huma massa muito ductivel, que se póde estender sem a quebrar; de
-sorte, que hum habil oleiro chega a fazella tomar differentes figuras; e
-quando se usa della em massa alguma cousa mais dura, se póde fazer hum
-grande vaso, com pouca grossura sem este se desfazer pelo pezo. Quando a
-argilla está assim bem amassada, ou argamassada, de sorte que faça huma
-massa firme, naõ he penetravel á agua, em quanto naõ sécca, por isso se
-usa della nas argamaças dos tanques, ou pias de conservar agua. Por isto
-he que os bancos de argilla que estaõ debaixo da terra formaõ muitas
-vezes tanques sobterraneos, dos quaes nascem fontes de agua, algumas
-vezes assás boa: porque a argilla, que naõ está exposta ao ar, ao sol, ou
-ao vento, conserva sua humidade, ductibilidade, e a propriedade de naõ
-ser penetravel a agua.
-
-5 Os oleiros se aproveitaõ da ductibilidade da argilla para a trabalharem
-na roda, e moldes; mas as argillas em seccando, quanto mais puras saõ,
-mais encolhem, isto he diminuem muito do seu volume, á medida que a agua
-se evapora: e neste estado estaõ sujeitas a rachar-se e seriaõ inuteis
-aos oleiros, se elles naõ tivessem meios de lhe empedir o encolher tanto,
-como adiante diremos.
-
-6 A argilla, pura tal, como nós ao presente a consideramos ou detodo,
-naõ he atacada pelos acidos, ou muito pouco: digo muito pouco porque
-em muitas argillas se pode descobrir o acido vitriolico. Esta argilla
-resiste muito á acçaõ do fogo sem se derreter, e por conseguinte cozendo
-se adquire huma dureza igual á dos seixos, a ponto de que certas argillas
-bem cozidas chegaõ a deitar fogo sendo feridas com aço. Esta propriedade
-parece indicar, que hum fogo muito activo as faz tomar hum principio
-de defusaõ pois ainda que ella seccando indurece, com tudo naõ chega
-ao gráo que lhe dá o fogo; a argilla, ou barro, nunca muda de natureza
-por mais secca que fique; conserva a propriedade de ser penetrada pela
-agua, e tornar-se em huma massa ductivel; pelo contrario cozendo-se
-muda totalmente de natureza: já entaõ naõ he argilla, he huma argamassa
-muito dura, ou huma especie de area impenetravel, á agua e que naõ póde
-adquirir alguma ductibilidade com este fluido.
-
-7 Nisto a argilla differe muito das boas argamassas de cal, e arêa, que
-endurecem, seccando, mas expondo-se a huma grande calcinaçaõ a perdem. A
-dureza da argilla cozida he muito differente, das pedras calcares, ainda
-as mais duras, como o marmore, porque estas pedras sendo expostas a hum
-grande fogo, e reduzidas a cal perdem sua dureza, que parece depender em
-parte da humidade, pois que ellas perdem a sua firmeza, logo que pela
-calcinaçaõ, se lhe dissipou toda a humidade, que parece ser a que fórma
-a uniaõ das partes; e quando fazendo a argamassa de cal e arêa se lhe
-lança a humidade, ella pelo tempo toma huma dureza bem consideravel: pelo
-contrario a dureza da boa argilla se augmenta á medida, que se faz passar
-por hum grande fogo. A grande violencia do fogo a racha, defórma, e a
-reduz a huma especie de vidro imperfeito, mas que conserva sua dureza.
-Eis aqui o que me faz pensar, que a dureza da argilla cozida consiste,
-em que suas partes adquirem hum principio da fusaõ ou brandura pela
-grande acçaõ do fogo, e isto as une humas ás outras, brandura, que se
-póde dizer, que as argillas saõ refractarias pella vitrificaçaõ, ou fusaõ
-perfeita.
-
-8 Estas observações por mais sucintas, que sejaõ bastaõ para caracterizar
-a argilla pura; mas como se naõ encontra sem estar unida ás substancias
-estranhas, he mais importante para a arte de que tratamos, fallar das
-argillas alliadas ou com mistura, e taes como ellas se achaõ na terra,
-pois desta especie he que se usa nas olarias. As obras desta se vendem
-muito baratas, e por isso se naõ póde ir buscar longe de casa, como se
-faz para as obras preciosas, e porcelanas; he preciso que para ellas se
-use de argillas que estejaõ perto de casa. Felizmente a argilla se acha
-em muitos lugares em maior, ou menor profundeza da terra, se acaso se
-dá attençaõ ás substancias com que se combina. Ha della muitas especies
-differentes: acha-se humas vezes em grandes montes, e outras em bancos
-que tem pouca espessura relativamente á sua extensaõ; em fim ella se
-destribue algumas vezes pela terra por veias, que se devem seguir; a
-especie de argilla naõ he sempre a mesma na continuaçaõ da mesma veia, ou
-quando se tira da terra mais superficial, ou mais profunda.
-
-9 A respeito de suas côres ao sahir da terra, he branca, cinzenta,
-asulada, tirando a côr da pedra asul _Ardosia_, verde, amarella,
-vermelha, e de côr de marmore.
-
-10 Estas differentes côres de argillas só nos podem dar indicios pouco
-certos da qualidade das louças que della se fará: com tudo naõ se devem
-desprezar; porque estes indicios nos podem guiar a fazer experiencias
-para certificar-nos da sua boa, ou má qualidade. Disso fallaremos nós
-adiante.
-
-11 Em geral se preferem as argillas brancas, ou escuras ás amarellas,
-vermelhas ou verdes, e algumas vezes ás que tem mistura de differentes
-côres. Estas côres dependem de huma tintura metálica, sulfurea, ou
-bituminosa; por que, como dissemos, no modo de fazer pitos, ha argillas
-que augmentaõ á alvura quando se cozem, porque a substancia apparente que
-alterava a sua côr era destructivel pelo fogo, e as outras cozendo-se
-ficaõ vermelhas, amarellas, escuras, ou quasi negras. Parece que estas
-côres fixas saõ causadas pelas differentes substancias metálicas, que se
-dissolvem com os acidos especialmente o vitriolico: porque he preciso que
-estas substancias colorantes se reduzaõ em particulas muito subtis, pois
-estas argillas de differentes côres parecem muito macias, e impalpaveis
-entre os dedos, e homogenias quando as cortaõ. As substancias tenues de
-que acabamos de fallar, raras vezes alteraõ os barros communs, de que ao
-presente fallamos. Digo raras vezes, porque algumas vezes as podem tornar
-fussiveis: o que em alguns casos he grande defeito. Outras vezes lançaõ
-vapores que fazem mal ao verniz, ou vidrado com que se cobrem: disto
-fallarei em outra occasiaõ.
-
-12 Segundo a qualidade dos barros, e uso que delles se faz chamaõ-se
-barro de tijollos, de ladrilhos, de panellas, de cadinhos, e pitos.
-
-13 Muitas vezes os oleiros se servem de argillas, que tem substancias
-heterogeneas mais sensiveis, como a _mica_,[5] _pyrites_[6] terras
-calcareas[7] arêas de differentes naturezas, e fragmentos de diversas
-qualidades da mina.
-
-14 Naõ fallo aqui destas substancias, que se achaõ em grandes pedaços,
-e que os oleiros apanhando-as, quando amassaõ o barro, as lançaõ fóra;
-mas das que se achaõ em molleculas assás grossas, e que se persente
-nos dedos, e se vê quando se corta hum pedaço de barro, com tudo
-insufficientes para se tirar a maõ todas estas materias de qualquer
-natureza, que sejaõ, prejudicaõ mais, ou menos a louça, quando seu volume
-he hum um pouco consideravel, porque naõ se podem fazer obras asseadas,
-e nem a superficie fica lisa. He verdade que desfazendo esta argilla
-em muita agua, e passando-a para outro vazo depois de precipitadas as
-substancias mais pezadas, se tiraõ argillas quasi isentas de partes
-heterogeneas, e que serveriaõ para obras mais delicadas; mas esta
-preparaçaõ do barro que se póde empregar em obras de louça fina requer
-muitas manobras, quando se está fazendo louça grossa; e assim dos
-barros areentos só se usa para fazer tijollos ou telha; para a louça se
-escolhem veias de barro mais puro, e isento de huma mistura grosseira,
-ou de natureza, que altere a bondade da louça. Vem a proposito entrar em
-algumas individuações a este respeito, porque principalmente da natureza
-destas misturas resulta a differente qualidade dos barros; e o oleiro que
-se estabelece em hum lugar, deve procurar todos os meios de conhecer a
-natureza do barro, de que se deve servir, sem se arriscar a perder muitas
-fornadas, e arruinar-se.
-
-15 Deve-se esfregar entre os dedos para ver se he macio ao toque, e se he
-ligado, e ductivel. E encontrando-se corpos estranhos, se devem alimpar,
-e pôr de parte para conhecer de que natureza saõ. Naõ nos devemos
-contentar só com isto; por que se a lavage, de que acima fallamos, para
-as obras communs precisa muita despeza, deve-se sempre desfazer em
-agua hum bocado de argilla, ao menos, para conhecer-lhe precisamente a
-natureza, e a quantidade de substancias pouco mais ou menos, que estaõ
-misturadas com ella: porque como as substancias de differentes generos
-tem pezos especificos, que lhe saõ particulares, vasando muitas vezes
-a agua em que se diluio a argilla v. g. passados cinco minutos, depois
-passados dez, e depois quinze se chegaráõ a separar as substancias, que
-segundo o seu pezo, se precipitarem mais depressa, ou mais de vagar, e
-assim se poderáõ examinar separadamente estes differentes precipitados
-para se poderem conhecer melhor por experiencias particulares; porque
-destas differentes ligas dependem, em grande parte as qualidades das
-argillas, e das louças, que dellas se fazem. He verdade, que apezar da
-lavagem ellas conservaõ partes muito finas, e muito divididas, que lhe
-daõ côr, como acima dissemos; porém estas partes heterogeneas muito finas
-saõ pouco nocivas as louças communs. Por exemplo, se segundo diz Mr.
-Pott, a argilla sendo misturada com substancias de gesso se torna muito
-dura no fogo; diz tambem que os barros vitrificaveis, misturando-se com
-a argilla firme ficaõ muito duros cozendo-se; mas he hum grande defeito
-nas argillas o terem liga de pedras calcareas em molleculas de maior
-tamanho, que se calcinaõ ao cozer; e depois quando sentem humidade,
-inchaõ, e quebraõ a obra, se estaõ no meio do barro, e se ficaõ na
-superficie, a agua as dissolve, e fica hum buraco em seu lugar: todavia
-eu digo quando ellas saõ maiores; porque em certos casos as substancias
-calcareas reduzidas a pó subtil, e misturadas em pequena quantidade com
-substancias vitrificaveis, podem contribuir para a bondade da louça.
-He de experiencia que algumas vezes duas substancias, que separadas
-naõ saõ vitrificaveis, unidas se vitrificaõ; e com razaõ mais forte
-se vitrificaráõ as particulas da cal combinando-se com substancias
-vitrificaveis.
-
-16 As pyrites tambem saõ huma qualidade de liga muito má; queimaõ-se ao
-cozer, e se dissipaõ inteiramente, e fica hum buraco em seu lugar, ou
-quando menos, faz huma mancha negra, similhante a escorea de ferro, e com
-difficuldade pega o verniz, ou vidrado sobre ella. Os oleiros dizem que o
-mesmo vapor sulphureo, que della, se exhalla a queimar, offende ao verniz
-das louças que estaõ visinhas.
-
-17 A arêa he necessaria para impedir ás argillas muito puras o
-encolherem, e fazellas seccar e coser sem se quebrarem, para isto saõ
-proprias as arêas refractarias, que com difficuldade derretem. Os vasos
-que dellas se fazem, soffrem hum grande fogo, e naõ saõ sujeitos a
-quebrarem pelas alternativas de frio, e calor: mas he preciso hum grande
-fogo para as cozer, sem isto naõ fica o barro muito duravel. Póde-se com
-tudo fazer dellas boa louça, e mesmo cadinhos; porém saõ permeaveis a
-todas as substancias, que se tornaõ muito fluidas pela fusaõ, como os
-saes, o chumbo; porque ficando com o tecido pouco tapado, naõ as póde
-conter. Podia-se fazer o seu tecido mais tapado ajuntando lhe hum bocado
-de barro vitrificavel. Com tudo se estas arêas fossem em muito grande
-quantidade, diminuiriaõ totalmente a ductibilidade da argilla, e seria
-muito difficil o trabalhalla particularmente na roda. He verdade, que
-pella lavagem, se poderia tirar huma parte da arêa, que se achasse em
-muita abundancia no barro; mas os oleiros naõ recorrem a este meio, que
-precisa muita manobra: elles preferem misturar as argillas, que chamaõ
-muito magras, com outras, que sendo muito gordas, fazem encolher muito a
-louça, e quebra-se ao seccar. Deste modo com a mistura pouco dispendiosa
-corrigem os defeitos dos dous barros, hum por muito gordo, e outro por
-muito magro.
-
-18 As areias fusiveis, vitrificaveis, e metállicas tornaõ a argilla
-fusivel, e a louça naõ póde supportar entaõ hum fogo consideravel
-sem ficar com defeito; por isso quasi todas as obras destas argillas
-fusiveis, saõ cozidas ligeiramente, seu interior he grosseiro, taõ
-poroso, que a agua trespassa os vasos sobre tudo, quando para impedir o
-encolher, se lhe ajunta muita arêa; e neste estado do barro só se podem
-fazer delle vasos de Jardins, alguidares, e fogareiros, e para os utensis
-communs do uso se precisa cubrillos de hum esmalte, que se chama verniz.
-
-19 A economia obriga a fazer estas louças que se trabalhaõ com
-facilidade, encolhem pouco, e com hum fogo mediocre se cozem, e tem a
-vantagem de se poderem expôr ao fogo sem se quebrarem. Estas louças muito
-communs se fazem em grande quantidade, porque se daõ baratas; mas tem
-pouca solidez, a menor queda as quebra, e por isso saõ pouco duraveis.
-
-20 Quando se misturaõ estas areias vitrificaveis com as argillas, ellas
-se chegaõ a cozer bem, sem as obras ficarem com defeitos, o seu tecido
-muitas vezes fica bem fechado; ellas se naõ dissolvem pelos acidos, e
-conservaõ os metaes, e saes derretidos; porém, como se chegaõ muito á
-natureza do vidro, os vasos naõ podem soffrer a alternativa do frio, e
-do calor; e para que se naõ quebrem he preciso esquentallos com muito
-cuidado.
-
-21 Os barros, de que se usa, para fazer as louças, que chamaõ de grêda,
-commumente tem este defeito; sendo de hum tecido muito fechado, resistem
-á fusaõ dos saes, e do vidro de chumbo: porém he preciso muito cuidado,
-quando se passaõ do frio para o calor. Para ellas naõ terem este defeito,
-he preciso que naõ fiquem taõ chegadas ao estado de vidro. Ha algumas que
-saõ desta natureza, e que se poderiaõ ter por huma porcelana grosseira.
-Eu supponho os barros de que se fazem tem a liga de areia refractaria,
-e de arêa vitrificavel de donde resulta a vitrificaçaõ. Naõ tenho tido
-commodo de examinar estes barros com bem cuidado para dar por certo, o
-que acabo de dizer: o que posso certificar he que tendo dissolvido em
-muita agua o barro de Gournay, de que se fazem os potes para a manteiga
-de Isigny, e tendo-a vasado depois de se ter precipitado huma parte da
-arêa, e pyrites, que elle continha, desta argilla privada de huma parte
-da sua areia, mandei fazer cadinhos, que se podiaõ pôr vermelhos ao
-fogo, e depois lançallos em agua fria sem se quebrarem. Se eu tivesse
-á maõ estes barros, estou persuadido, que chegaria a fazer vasos, que
-naõ teriaõ algum mericimento pela belleza, mas seriaõ taõ bons como a
-porcelana, e teriaõ todas as perfeições, que podem haver nas louças
-communs.
-
-22 Os oleiros naõ entraõ em exames taõ circunstanciados: se achaõ argilla
-macia ao tacto julgaõ bem della amassaõ-na, e trabalhaõ: se a achaõ
-muito magra, e pouco ductil, ajuntaõ-lhe argilla muito gorda: se vem que
-argilla diminue muito de volume em secando, e que se fende, emmagrecem-na
-ajuntando-lhe barro areento, ou mesmo arêa em proporçaõ que lhe permitta
-conservar sua ductibilidade, e a fazem cozer; se ellas derretem, ou ficaõ
-com defeito as peças no forno, diminuem a actividade do fogo, e só as
-empregaõ nos utensis communs do uso, que cobrem de verniz. Se hum fogo
-ordinario naõ basta para as cozer, ou dar-lhes toda a dureza, de que
-saõ susceptiveis, ou vem que podem supportar grande fogo sem defeito,
-cozem-nas como greda. Se com este grande fogo, alcançaõ que vaõ tomando
-a natureza de vidro para poder resistir ao fogo, fazem utensis, que naõ
-devem servir no fogo; como botelhas, potes para manteiga, saleiros,
-alguidares, quartas, e potes para leiterias. Para torna-las menos frageis
-ao fogo, ligaõ as argillas muito fortes com barros já cozidos, como potes
-de greda reduzidos a pó; entaõ, sendo bem cozidos, podem ir ao fogo os
-vasos ou peças, ainda que naõ haja o cuidado de as esquentar primeiro;
-mas os cadinhos para ensaios de metaes, ou para saes derretidos, he
-preciso que o barro naõ tenha substancia metálica, que se derretesse e
-deixasse escapar o que estivesse derretido no cadinho.
-
-23 Algumas vezes estas ligas vem feitas por natureza, e os oleiros se
-servem da argilla tal, qual a natureza lhas apresenta: da qui vem a
-differença da louça de diversas Provincias, como as gredas escuras de
-Normandia, as da Bretanha, que tiraõ sobre o azul, as de Beauvais, que
-saõ amarelladas, tirando hum pouco a roxo, as de S. Fargeau que saõ
-brancas, e finalmente nas de Flandres, que mais que todas, se chegaõ á
-natureza da porcelana.
-
-24 Do que acabamos de dizer, se vê que hum oleiro, quando julga ter
-adquirido os conhecimentos necessarios sobre a natureza do barro, de que
-se deve servir, naõ está ainda no ponto de poder fazer indagações; porque
-há barros, que, só podem admittir hum mediocre cozimento: outros, que
-saõ os melhores, requerem ser cosidos em hum grande fogo. Para adquirir
-estes conhecimentos, o oleiro deve fazer as primeiras fornadas com muita
-attençaõ, e examinar o estado das obras, para se conduzirem melhor nas
-fornadas seguintes. Mas quando o oleiro se estabelece em hum lugar,
-aonde se costuma trabalhar em certos barros, está dispensado de fazer
-as experiencias de que acabamos de fallar, aproveitando-se das que tem
-feito, os que usaõ de trabalhar nelles.
-
-25 Nas bordas do bosque de Orleans, ha hum lugar, que se chama _Nibelle_,
-onde ha muitos oleiros, que fazem vasos de huma argilla bem pura, que
-cozendo-se fica preta, e naõ podem ir ao fogo. Esta louça he de hum
-tecido muito fechado: e assim para os utensis de cozinha misturaõ hum
-barro branco, e magro com esta argilla; mas a agua trespassaria estas
-louças se naõ fossem envernizadas.
-
-26 O trabalho dos oleiros he pouco mais, ou menos, o mesmo em todas
-as Provincias, onde se trabalha em barro. E assim vou explicar com
-individuaçaõ a pratica dos oleiros de París, e quando houver occasiaõ
-farei notar em que elles differem de outras partes.
-
-
-
-
-ARTIGO I.
-
-_Trabalho da louça, segundo o uso de París._
-
-
-27 Os oleiros de París tiraõ o seu barro, de _Gentillis_, ou _Areueil_
-os que o cavaõ, seguindo as veias do barro bom, o tiraõ em pedaços quasi
-cubicos, e vai para casa dos oleiros em carros, como vem o cascalho, ou
-pedras.
-
-28 Quando os oleiros o recebem, lançaõ-no em covas, onde fica mais, ou
-menos tempo para _invernar ou apodrecer_, como se diz em outros lugares;
-de sorte, que o barro, que foi cavado no Outono, fica na cova todo o
-Inverno, e he tanto mais facil de trabalhar, quanto mais tempo está na
-cova. Em alguns lugares, os oleiros deixaõ ao ar o seu barro, e o movem
-com enxadas todo o Inverno, por este meio o fazem mais ductivel.
-
-29 Este he o mesmo barro que serve para fazer ladrilhos, e obras
-de louça. Com tudo elle he mais preto, ou mais branco, conforme a
-profundeza, de que foi tirado: há alguns, que vem misturados com estas
-duas côres, e este se julga hum pouco melhor que os outros, porém todos
-se gastaõ sem distincçaõ em louça, e em ladrilhos. Começo agora a
-explicar o que respeita aos ladrilhos.
-
-
-
-
-ARTIGO II.
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-_Dos ladrilhos, e modo de amassar o barro, com que elles se fazem._
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-30 Quando se tiraõ da cova pedaços grandes de barro, he preciso cortallos
-em pedaços, mais pequenos possiveis. Para isso se põe huma taboa _A_
-_fig. 1_, _est. I_, sobre huma celha: os oleiros chamaõ assim huma
-pequena celha _B_ sem fundo em huma ponta: lança-se nesta pequena celha
-seis baldes de agua com pouca differença, depois se põe hum bôlo de barro
-sobre a taboa _A_, que dissemos se punha sobre a ponta sem fundo da celha
-_B_. O oleiro corta em pequenos pedaços este bôlo de barro com huma faca
-de dous cabos _D_ _fig. 2_; e logo que vai cortando o barro o vai lançando
-na agua da celha; o barro, que se pôs de tarde a humedecer, na manhã
-seguinte está bem brando, para se poder trabalhar; porque bastaõ oito
-horas para ficar sufficiente para o trabalho, sendo pequenos os pedaços.
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-31 As aparas das obras, que ainda naõ foraõ cozidas, se misturaõ com o
-barro novo; este barro das aparas, que já tem a liga da arêa, e já foi
-posto em camada amassado, e trabalhado, ajuda a trabalhar melhor o barro
-novo.
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-32 O barro, de que usaõ os oleiros de París, ou venha de _Areueil_, ou
-_Gentillis_ he muito gordo, e por isso naõ póde servir sem liga: he
-preciso ligallo com arêa para diminuir-lhe a força, e fazello assim
-encolher menos. Talvez seria mais expediente, e mais economico trabalhar
-o barro com a máquina representada na arte de fazer os pitos; mas segundo
-o uso dos oleiros, se faz esta mistura amassando o barro com os pés. Para
-isto, os oleiros de París, costumaõ misturar duas celhas de barro novo,
-huma de aparas, se as há, e cinco cestos de arêa: diminuindo-se a arêa,
-ficaõ mais duros os ladrilhos; porém custaõ mais a trabalhar. Seja como
-for, os barros de _Belleville e Areueil_ ambos saõ bons, e finos, tem
-poucos seixos; sua côr tira a amarella.[8]
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-33 Para fazer huma amassadura, se começa estendendo arêa sobre toda
-aquella porçaõ do pavimento, que occupará a camada; reserva-se só hum
-cesto para o que adiante diremos; esta arêa, que se precisa misturar com
-a argilla, tambem embaraça ao barro apegar-se. Tira-se das celhas o barro
-das aparas, que estava humedecendo, como o novo; estende-se sobre arêa
-em camada; porque como este barro he mais facil de amassar, que o novo,
-põe-se no lugar, em que o barro se naõ amassa tambem. As duas celhas de
-barro novo saõ distribuidas pela circunferencia, e por cima se lança hum
-bocado de arêa, da qual se reserva só meio cesto para o uso, que adiante
-se dirá.
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-34 Tres celhas de barro bem pisado, bastaõ para fazer quinhentas telhas,
-e viriaõ a fazer dous mil ladrilhos pequenos. Estando o barro disposto,
-como já dissemos, o amassador descalço se chega ao monte de barro; a sua
-postura he, com a maõ esquerda firmada sobre o joelho esquerdo, e porque
-o barro escorrega, para naõ cahir, tem na maõ direita hum páo, em que se
-firma. Separando entaõ das bordas hum pouco de barro com o pé esquerdo
-o despega, e lança fóra do monte, dá hum pequeno passo adiante, e faz o
-mesmo; de sorte que andando em roda de todo o monte, e separando em cada
-passo quatro, ou cinco pollegadas de barro, ganha pouco a pouco o centro;
-onde fica pouco barro, porque elle tem separado para as bordas a maior
-parte. Como o do meio fica mais mal amassado, elle acaba de amassar, e
-separar o barro, que ahi fica; com hum ferro proprio corta em pedaços
-este barro, e o tira com as maõs com facilidade, porque se despega por
-causa da arêa, que estava por baixo, e o distribue por todo o monte.
-Depois de se ter tirado o barro, que está no meio da camada fica huma
-coroa de dous circulos concentricos; mas com a mesma peça de ferro corta
-as bordas da camada, e as lança no meio, depois amassa deste barro, como
-fez a primeira vez, e depois de acabar esta manobra, naõ tira mais o
-do meio: porêm depois de ter cortado o barro com a peça de ferro, elle
-o ajunta com a maõ, e o põe no meio; depois o amassa de novo terceira,
-e ultima vez, estendendo o barro mais do que nas camadas precedentes,
-para assim ficar mais delgado na camada. Feito isto, está amassado, e em
-termos de servir, como vamos explicar.
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-35 Para apromptar assim tres pequenas celhas de barro, hum homem vigoroso
-precisa ao menos quatro horas: depois amontoa o barro; e entaõ está em
-termos de servir.
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-36 Como he de muita importancia para a louça o distribuir-se igualmente
-por toda a massa, o barro, que se mistura hum com o outro, ou a argilla
-com a arêa, e que as differentes misturas façaõ hum todo uniforme, os
-oleiros, para se certificarem disto, cortaõ o barro com hum arame de
-lataõ, e examinaõ se a côr está uniforme em toda a extensaõ do golpe, e
-se ha lugares mais brilhantes, que outros. A uniformidade próva que os
-differentes barros estaõ bem misturados, e que o todo está bem amassado:
-nos lugares brilhantes está a argilla mais pura.
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-_Como se moldaõ os ladrilhos._
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-37 Os ladrilhos se poderiaõ moldar, como dissemos na arte de fazer
-tijollos, do mesmo modo que a telha, e o tijollo. Os telheiros naõ fazem
-de outro modo os tijollos, ou chamados ladrilhos de telha, para os
-distinguir dos ladrilhos de louça, que saõ muito melhores, e trabalhados
-mais propriamente do que os de telha, ou tijollos. Os oleiros daõ a
-figura quadrada em hum molde de páo aos tijollos, ou ladrilhos que
-chamaõ de fornalha. Elles tambem fazem em hum molde inferior _fig. 3_,
-os ladrilhos para os celleiros, ou quartos, que requerem pouca attençaõ;
-elles naõ os aperfeiçoaõ, nem aparaõ como aquelles, que se destinaõ
-para sallas, e quartos acceados; mas por este methodo a superficie dos
-ladrilhos, naõ he bem dirigida, os angulos muitas vezes ficaõ rombos, e o
-barro naõ fica suficientemente comprimido: por isto he que nos ladrilhos
-de salla, os oleiros se aperfeiçoaõ mais.
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-38 He verdade, que elles começaõ mettendo o barro em hum molde, segundo o
-tamanho, que devem ter os ladrilhos para as peças de barro, que chamaõ
-de culumnas: mas depois que o barro está meio secco, elles o batem, e
-comprimem muito. Deste modo perdem os ladrilhos a figura regular, que o
-molde lhe tinha dado, e isto os obriga a cortar por hum calibre de ferro,
-que os oleiros chamaõ molde: este calibre, ou padraõ de ferro he cortado
-regularmente, segundo o tamanho, e figura, que se quer dar aos ladrilhos.
-Tudo isto se fará claro pelas indagações, em que vamos entrar; mas convém
-fazer antes notar, que supposto se possaõ fazer ladrilhos triangulares,
-quadrangulares com dous cantos obtusos, quadrados, longos, etc. Naõ se
-fazem senaõ quadrados, ou de seis panos _fig. 3_, e tambem alguns meios
-tijollos para os socalcos das fornalhas, dos muros, ou outras cousas.
-Estas duas qualidades tem a vantagem, que os ladrilhos de hum mesmo
-tamanho se unem exactamente huns aos outros sem deixar vacuo entre elles;
-se fossem de cinco faces ficaria entre elles vacuo, que seria preciso
-encher; e aliás sendo os angulos, agudos, com facilidade se quebrariaõ.
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-39 Sendo outogonos, ou de oito faces, necessariamente entre quatro
-ladrilhos, fica hum espaço quadrado, que he preciso encher com hum
-ladrilho pequeno. Só se fazem estes ladrilhos de oito faces, quando o
-ladrilho pequeno he de côr differente dos grandes; taes saõ os ladrilhos
-pretos, e brancos, que fazem os que trabalhaõ em marmore. Tambem vi em
-algumas Provincias ladrilhos, que sendo cobertos de verniz de differentes
-côres, formavaõ huma boa vista. Variando a figura dos ladrilhos, e a côr
-pelo verniz, e tambem a sua posiçaõ, se podem fazer muitos repartimentos
-simetricos: disto fallarei adiante; porém, como os ladrilhos de qualquer
-figura se fazem do mesmo modo, vou explicar com individuaçaõ, como os
-oleiros fazem os ladrilhos hexagonos ou de seis faces.
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-40 O oleiro começa fazendo no molde hum grande ladrilho quadrado. Este
-molde he hum caixilho de páo que faz os ladrilhos mais grossos do que
-devem ser; naõ só por que diminuem, quando seccaõ, mas tambem, porque
-ficaõ mais delgados quando se batem.
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-41 Para moldar os tijollos, tem o oleiro huma taboa grossa _a b_, _est.
-I_, _fig. 4_, que está posta sobre cavalletes fortes, e põe no meio desta
-taboa huma pedra dura e unida, ou hum pedaço de páo _g_, de tres ou
-quatro pollegadas de grosso, que tem differentes nomes; em alguns lugares
-se chama _urquain_ na ponta deste pedaço de páo _dd_ está posto hum vaso
-cheio de agua _ee_, e sobre o vaso hum instrumento de páo que chamaõ
-plaina _ff_ e por diante está o caixilho, ou molde _gg_. Alguns põe da
-parte esquerda do moldador hum bôlo de barro _h_, destinado para encher o
-molde: tambem se põe ahi o barro, que se tira com a plaina _ff_. Outros
-tiraõ só a quantidade, que caressem, de hum monte de barro _H_, que está
-sobre o soalho, perto delles. Á direita do moldador está hum monte de
-arêa _i_, e se deve ter sobre a meza hum lugar _k_, para se porem as
-obras já moldadas.
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-42 O moldador posto adiante da mesa, toma com a maõ esquerda hum bocado
-de arêa, e a espalha sobre a mesa, ou sobre o pedaço de páo _g_ _fig. 4_,
-põe por cima o molde tambem esfregado na arêa; depois o enche de barro
-comprimindo o com as maõs o mais que póde; porque este barro deve ser
-mais duro, do que se servem os telheiros. Depois de estar o molde bem
-cheio por todas as partes, o moldador toma a plaina _ff_ _fig. 4_;
-molha-a na agua, e pegando nella com ambas as maõs, a passa fortemente
-por cima do molde, para tirar todo o barro, que excede á grossura, que
-deve ter; depois pegando no molde por hum dos cantos o puxa para si, e
-mette a maõ esquerda por baixo da peça, para a soster a põe sobre as
-outras _k_ _fig. 4_, e como este barro he amassado duro, se póde passar
-de hum lugar para outro em as maõs sem ficar com defeito. A pouca arêa,
-que fica por baixo da peça, basta para naõ a deixar pegar na outra sobre
-que se põe.
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-43 Depois de terem endurecido alguma cousa as peças, ou ladrilhos, que
-se tem tirado do molde se lançaõ em huma especie de taboletas feitas
-de varas á maneira de caniços, para o ar lhe dar de todas as partes; e
-seccallas por cima se põe huma coberta de taboas para a chuva os naõ
-molhar.
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-44 Quando estaõ já meios seccos se viraõ debaixo para cima para seccar a
-parte, que fica por baixo a polla no mesmo gráo de seccura, que a de cima.
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-45 Em quanto estes ladrilhos estaõ ainda flexiveis se põe sobre hum
-banco forte huns sobre os outros, e se batem com a parte chata do masso.
-Depois de batidos assim os ladrilhos, se tornaõ a pôr sobre as varas,
-aonde ficaõ mais ou menos tempo, conforme o calor do ar. Logo que o
-oleiro os julga sufficientemente seccos, os tira das varas, mas como
-o exterior sempre está mais secco que o interior, quebrar-se-hiaõ,
-se acaso se tornassem a bater neste estado. Previne-se este accidente
-pondo-os em pilha, huns sobre outros cinco ou seis dias, para amolecer
-as superficies, que estavaõ seccas; estas pilhas se fazem em hum quarto
-baixo, e alguma cousa humido. Além de que o ar humido deste lugar
-abranda a superficie das obras feitas, e a humidade do seu interior se
-communica á superficie, que já estava bem secca. Quando se achaõ já
-bem flexiveis se tiraõ da pilha, e se tornaõ a bater com mais força do
-que antes no mesmo banco, e logo se cortaõ por medida certa em quatro
-partes; depois se põe em pilhas de vinte cada huma junto a huma parede,
-defendidos da chuva por huma coberta: quando o barro está já hum pouco
-secco, se põe na ponta de hum banco pilhas destes ladrilhos, hum obreiro
-posto a cavallo no banco, pega em hum molde de ferro _est. I_, _fig.
-5_, da grossura de cinco linhas, que está talhado em faces precisamente
-do tamanho e da figura, que os ladrilhos devem ter, e com hum cutello
-curvo _fig. 6_, corta tudo o que excede a peça de ferro, que os oleiros
-chamaõ _molde_.[9] Hum bom obreiro póde aparar 1800 ladrilhos por dia.
-As aparas cahem em hum peneiro, onde se conservaõ para as misturar com o
-barro novo, quando se fizer nova amassadura. Quando sahem os ladrilhos da
-maõ do aparador, vaõ já em figura de ir para o forno, logo que estiverem
-bem seccos.
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-46 Seria impossivel fazer o primeiro molde tamanho, que depois désse
-quatro ladrilhos grandes; estes assim se moldaõ em huma fôrma maior cada
-hum separado, como se fazem os tijollos de fornalhas; com a differença
-porém de que os tijollos de fornalha, naõ se batem, nem se aparaõ; e os
-ladrilhos grandes, que se fazem com aceio saõ batidos, e aparados por
-moldes, como os pequenos.
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-47 Os ladrilhos feitos como acabamos de explicar, carecem estar bem
-seccos para irem para o forno: porém naõ se expõe ao Sol, mas sim em
-parte onde lhe dê o vento, ou em lugar aonde chegue o calor do forno.
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-48 Quando os ladrilhos estaõ de todo seccos, resta cozellos, o que se faz
-como vamos a explicar.
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-_Do forno[10], e do modo de arranjar nelle os ladrilhos para se cozerem._
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-49 Na arte de telheiro, e de fazer tijollos se vem os fornos, de que se
-servem alguns oleiros para cozer os ladrilhos: onde se póde consultar o
-que nos dissemos a este respeito, aqui trataremos só, de duas qualidades
-de fornos, de que se serve a maior parte dos oleiros de París naõ sómente
-para coser seus ladrilhos, mas tambem toda a qualidade de louças: depois
-fallarei dos fornos, de que se servem os oleiros dos arrebaldes de _Saint
-Antoine_ para cozer suas obras: e por hora fallarei só dos fornos, que
-estaõ mais em uso nos arrabaldes de _S. Marceau_; elles vem representados
-na _est. I_, _fig. 7_, _8_, _9_. A _fig. 7_ representa o plano do forno;
-a _fig. 8_ he a divisaõ deste mesmo forno no comprimento pela linha _A_,
-_C_; e a _fig._ 9 he huma divisaõ transversal pela linha _G_, _H_, da
-_fig. 7_: _A_ he a boca do forno, ou entrada da fornalha; na qual se
-põe madeira para esquentar o forno, como se vê de _A_, até _B_, _fig.
-7_, e _8_; de _B_, até _C_, he a capacidade interior do forno, aonde se
-arranjaõ os ladrilhos, ou a louça, que se quer cozer; _C_, _D_, _fig. 8_,
-he hum tubo da chaminé por onde sahe a fumaça. Como a communicaçaõ do
-interior do forno com este tubo, para descarga da fumaça, he por baixo
-perto do pavimento do forno em _C_, he preciso, que a corrente de ar,
-que entra pela boca _A_, passe ao tubo _D_, pelos buracos _C_. Deste
-modo, tendo seguido a curvatura da abobada, até perto de _M_, _fig. 8_;
-o ar quente desce ao longo das paredes do tubo da chaminé, que se chama
-_Lingueta_,[11] para ganhar os buracos, que estaõ em _C_, e tornar ao
-tubo _C_, _D_. Por esta construcçaõ, que he bem entendida, o calor se
-distribue muito bem por todo o comprimento do forno: mas, como he mais
-estreito na sua entrada _K_, _I_, _fig. 7_, do que no fundo, os lados em
-_G_, _H_ naõ recebem tanto calor, como no meio; mas isto se remedeia;
-arrumando lenha nos dous lados, como se vê na _fig. 7_, e como adiante
-explicaremos. _F_, _fig. 7_, he huma porta, por onde se entra no forno
-para o encher; depois do forno cheio, se tapa com hum muro de tijollos, e
-se accende o fogo.
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-50 Antes de metter no forno alguma louça se levanta, com tijollos em
-_I_, _H_, até a abobada, huma separaçaõ que tem aberturas, pois se deixa
-entervallos entre os tijollos, ou como dizem os obreiros _crenaux_[12],
-para que o calor do fornete _A B_. se communique o forno. Esta separaçaõ,
-recebendo a mais viva acçaõ do fogo, chama-se _la fausse-tire_, a qual
-se naõ desmancha em cáda huma fornada, pelo contrario se repara para que
-dure o mais que for possivel.
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-51 Como a parte de diante do forno está tapada em _I_, _K_, pela
-_fausse-tire_[13] he preciso carregallo pela abertura _F_, e começa-se,
-formando as tres primeiras ordens da parte da _fausse-tire_, para isto
-se desmancha huma ordem de tijollos de fornalha, que se põe de parte,
-como se vê em a _fig. 8_, entre as quaes se deixa huma aberta de quatro
-pollegadas e meia, e se dispõe estas abertas para estabellecer debaixo
-da fornalha huma corrente de ar quente, de modo, que pela subtileza do
-ar esquentado, suba sempre melhor á abobada. Sobre estes tijollos se
-arranjaõ as pilhas de ladrilhos, que se põe deitados, como se vê na _fig.
-7_, de modo, que hajaõ dous dedos de distancia de hum ao outro ladrilho,
-e que o meio do ladrilho da ordem superior corresponda ao vácuo dos
-ladrilhos da ordem inferior.
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-52 Depois de se terem levantado até á abobeda quatro pilhas de tijollos
-ordinarios, se põe achas de lenha entre as paredes do forno, e as pilhas
-de tijollos: depois se arranjaõ sobre o pavimento do forno, os tijollos
-de fornalha, e por cima as pilhas de ladrilhos de Sala; acamaõ-se nos
-lados as achas de lenha, como se vê _fig. 7_, e além de huma ordem de
-achas em pé, que atravessaõ o forno, como se vê _fig. 7_, segundo a linha
-de _G_, e _H_, e se continua a encher o forno pondo por baixo os tijollos
-de fornalha, e por cima os ladrilhos. Depois de se terem formado duas,
-ou tres pilhas, se põe achas de lenha entre as pilhas de tijollo, e as
-paredes do forno, além disto se põe huma ordem de achas sobre a parede
-do fundo do forno, que se chama _Lingueta_. Quando as achas de lenha,
-que se põe de pé naõ tem o comprimento sufficiente para tocar na abobeda
-do forno por naõ perder lugar, se põe por cima ladrilhos de sala dos
-maiores. Continua-se, como temos explicado, até chegar á abertura _F_,
-_fig. 10_; para formar as ultimas ordens se põe sempre tijollos de
-fornalha: as pilhas de ladrilho ordinario, e as achas, como já dissemos;
-porém por naõ fechar a entrada _F_, se começa, enchendo primeiro o lado
-opposto á abertura, e se acaba por esta mesma abertura _L_, que se fecha
-por huma parede de tijollos, como já dissemos.
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-53 Em hum forno semelhante ao que se representa, que tem dez pés de _K_,
-a _L_, e sete de _K_, a _I_, para cozer os ladrilhos se gasta carga,
-e meia de madeira tanto para arranjar entre os ladrilhos como para a
-tempêra[14], e huma camada de lenha rachada para queimar na fornalha
-_A_, _B_, e fazer o cozimento da louça; a isto chamaõ os oleiros _la
-chasse_.[15]
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-54 Os que se lembrarem, do que dissemos na arte de telheiro, veraõ que he
-preciso primeiro esquentar o forno com hum pequeno fogo de páos grossos,
-que façaõ mais fumo, do que chamma. Por mais secco que pareça o barro, he
-preciso lançar fóra ainda muita humidade no forno: se esta dissipaçaõ se
-apressar, o barro se quebrará, indo porém de vagar, dissipa-se a humidade
-sem fazer estrago. Este pequeno fogo, he que os oleiros chamaõ humedecer,
-talvez porque a louça com este pequeno calor se faz humida.
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-55 Accende-se hum pequeno fogo de páos grossos na boca da fornalha entre
-_A_, e _B_, _fig. 7_, e _8_; isto se continúa trinta e seis horas, para
-que as obras se esquentem pouco a pouco, e percaõ a humidade, que lhe
-resta, ainda que os tijollos pareçaõ bem seccos quando se mettem no
-forno. Nas doze ultimas horas augmenta-se hum pouco o fogo, e depois
-se faz no mesmo lugar hum grande fogo de lavareda com lenha secca,
-e se continúa por sete, ou oito horas, os páos que se metteraõ pelos
-lados, e entre as pilhas dos ladrilhos, se queimaõ tambem e contribuem
-para ficarem perfeitamente cozidos. Finalmente naõ se põe mais lenha na
-fornalha, e se lhe tapa a boca com huma chapa de ferro, para ir esfriando
-pouco a pouco, passados 7 ou 8 dias, se tira a louça do forno.
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-ARTIGO III.
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-_Das obras de ladrilho._
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-56 Como em París as obras de ladrilhos fazem parte do officio de Oleiro,
-he preciso fallar aqui dellas.
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-57 Nos lugares aonde ha gesso, todas as obras de ladrilho se fazem com
-elle; mas aonde o naõ ha, se ladrilha com argamaça de cal, e arêa,
-betume, ou algumas vezes com huma mistura de argamaça, e gesso; naõ fallo
-aqui de hum máo modo de ladrilhar, de que usaõ os paisanos, assentando
-os ladrilhos sobre a argilla bem amassados com bastante arêa, para naõ
-encolher tanto o barro.
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-58 Quando se tem de ladrilhar com argamassa, he preciso embeber bem de
-agua o ladrilho logo ao sahir do forno: sem esta precauçaõ o ladrilho
-atrahe a agua da argamaça, e em lugar de tomar corpo se descompõe, e se
-torna quasi em arêa pura.
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-59 Como a argamaça se pega menos ao barro do que o gesso, alguns mandaõ
-fazer por baixo do ladrilho, regos, ou buracos com hum pedaço de páo, que
-se mette por baixo do ladrilho depois de o bater, porém isto naõ está em
-uso.
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-60 Em París todas as obras de ladrilho se fazem com gesso; mas, como o
-gesso vivo incha muito, quando se usa delle puro, por isso vem estas
-obras a ficar com defeito. Póde-se prevenir este inconveniente, ou
-misturando o gesso hum pouco molle com cal, ou ladrilhando por camadas,
-e naõ pôr outra em quanto naõ séca a primeira; ao menos se deve evitar
-pôr o ladrilho encostado á parede de encontro, e se deverá deixar
-alguns pés em roda sem ladrilhar até o gesso dos ladrilhos do meio, ter
-acabado de inchar; há bons ladrilhadores, que tendo precauçaõ, chegaõ a
-ladrilhar com gesso só, e a sua obra he melhor; mas pela a maior parte os
-ladrilhadores misturaõ o pó de carvaõ peneirado com o gesso, para elle
-naõ inchar tanto; quanto mais pó lhe ajuntaõ, menos temem, que lhe inche
-o gesso; e assim ladrilhaõ com mais facilidade; porque o gesso assim naõ
-pega com tanta promptidaõ, e elles naõ gastaõ tanto; e isto he utilidade
-sua, porque elles mesmos daõ o gesso. Por todos estes motivos ajuntaõ
-elles tanto pó de carvaõ ao gesso, que elle naõ toma corpo, e quasi naõ
-se péga ao ladrilho; ao contrario porém o gesso puro se péga tanto ao
-barro cozido, que se naõ podem separar dous ladrilhos, estando unidos hum
-ao outro com gesso. Seria melhor em lugar do pó de carvaõ misturar arêa
-boa, que faz corpo com o gesso, e tambem o naõ deixa inchar tanto, como
-se fôra o gesso vivo.
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-61 Eu vi hum bom ladrilhador, que em lugar do pó de carvaõ ajuntava
-ao gesso ferrugem de chaminé; esta mistura naõ deixa o gesso prender
-com tanta promptidaõ, e assim tinha elle tempo de assentar melhor os
-ladrilhos. Disse-me elle que este gesso assim naõ inchava tanto, e me
-pareceo, que estes ficava muito duro, e muito adherente aos ladrilhos;
-e por isso penso, que se deve adoptar este methodo, aonde ha gesso, e
-ferrugem com facilidade.
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-62 Quando o gesso he raro, e a ferrugem difficil, se póde segurar bem
-o ladrilho com huma mistura de gesso, e argamaça de cal, e arêa, ou
-betume. Esta especie de argamaça bastarda, que os nossos obreiros chamaõ
-_gâchis_,[16] incha pouco; com o tempo se torna muito dura; e como se
-demora em inchar, póde o ladrilhador com facilidade assentar os seus
-ladrilhos.
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-63 Em París os pedreiros saõ os que fazem o lugar em que se devem
-assentar os ladrilhos; mas nas Provincias os ladrilhadores, põe ao nivel,
-e apromptaõ o pavimento, e lugar em que haõ-de assentar os ladrilhos, ou
-tijollos, elles o fazem ordinariamente espalhando carvaõ moido na parte,
-e depois assentaõ em cima huma regua com hum nivel. Logo que o lugar está
-prompto lançaõ por cima do pó huma agua de gesso muito clara, para lhe
-dar alguma consistencia.
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-64 Os ladrilhos ficaõ mais seguros, quando se assentaõ sobre o gesso
-puro, ou simplesmente misturado com huma pouca de arêa boa; mas deve-se
-assentar o ladrilho depois do lugar estar secco, e o gesso ter acabado
-o seu effeito, hum assento da argamaça de cal, e arêa tambem he bom; e o
-peior modo, he o de assentar o ladrilho sobre o pó de carvaõ puro, que
-sendo comprimido, se abate, e se desordena com facilidade; por naõ poder
-dar hum assento sólido ao ladrilho, ou tijollo.
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-65 Em algumas Provincias se prepara o pavimento com tufo branco, que se
-passa por grades, ou canissos, humedece-se hum pouco; para que sendo
-batido tome alguma firmeza.
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-66 Em outro tempo se carregavaõ muito os pavimentos; porém agora, como
-os carpinteiros põe a madeira bem desempenada, e igual na grossura;
-recommenda-se aos ladrilhadores, que naõ ponhaõ muita carga por naõ pezar
-sobre as vigas.
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-67 Quando os quartos ou celleiros, que se querem ladrilhar tem o assento
-preparado, o ladrilhador estende huma corda por todo o comprimento da
-peça, e põe por cima do gesso, ou argamaça, huma ordem de tijollos,
-examinando sempre se vai direita, e ao nivel, porque esta primeira ordem
-he a que regula as outras; pois, sendo todos os ladrilhos, ou tijollos
-feitos exactamente do mesmo tamanho, formáraõ ordens iguaes, e bem
-direitas, se o ladrilhador os põe de modo, que naõ haja junta. Com tudo
-se por defeito do oleiro, ou do ladrilhador ficarem as ordens alguma
-cousa curvas, se remediará esta falta, deixando huma junta, ou emenda
-na curvatura. Isto sempre he hum defeito, mas pouco sensivel, quando a
-curvatura he pouco consideravel, e que se indereita pouco a pouco. Como
-esta primeira ordem, ou fileira deve dirigir todas as mais, logo que
-estiver bem assentada, se deve recommendar o naõ andar sobre ella pela
-naõ desordenar. Põe-se depois as outras fileiras, de sorte que hum dos
-angulos que falta no tijollo, que se põe se assenta no angulo, que entra
-dos tijollos, que estaõ postos na fileira, deste modo vem a formar linhas
-obliquas.
-
-68 Os ladrilhadores conservaõ o nivel em toda a extensaõ do pavimento
-por hum modo bem simples, e expediente; põe hum bocado de gesso, ou
-argamaça no lado dos ladrilhos, já postos, tendo o cuidado, de que fique
-a argamassa de huma grossura igual; se usaõ do gesso põe só em huma
-extensaõ, que occupe oito tijollos ou ladrilhos, para terem tempo de os
-pôr em seu lugar antes do gesso, indurecer muito: assentaõ, por cima dos
-ladrilhos postos, huma régua de páo de duas pollegadas de grosso e tres
-e meia de largo, e lhe batem fortemente. Levantaõ com a maõ esquerda esta
-régua, e batem sobre os ladrilhos até ella assentar igualmente sobre
-todos. Fica evidente, que os postos por ultimo estaõ ao nivel depois da
-régua assentar em todos igualmente; o que se faz com facilidade pelas
-pancadas fortes, que fazem enterrar os tijollos pelo gesso, ou argamaça.
-Se alguns fogem da direcçaõ, se abatem muito por falta do gesso, o
-ladrilhador os levanta com a colher; tira o gesso que estava por baixo, e
-põe outro tijollo, que fique sem defeito. Finalmente, tendo acertado os
-ladrilhos, rapa com o corte da colher o gesso, ou argamaça, que sobra por
-cima delles, e põe outra vez ao lado dos tijollos hum bocado, como acima
-se disse em extensaõ que occupe só 7, ou 8, tijollos, que põe de novo, e
-assim segue até acabar. Indo a encontrar na parede, póde entaõ misturar
-carvaõ em pó com o gesso, para que elle naõ inche; porque aqui naõ estaõ
-sujeitos a sahirem do seu lugar como no meio.
-
-69 Os ladrilhadores enchem as juntas, que ficaõ entre os ladrilhos,
-postos algumas vezes com gesso misturado com argamaça de cal bem dura,
-que lançaõ com força entre as juntas que ficaõ; outros lançaõ sobre os
-ladrilhos agua com gesso muito liquida. Tira-se o gesso, ou argamaça que
-se acha por cima dos ladrilhos, esfregando-os com arêa, ou com palhas,
-e depois de bem limpos se pintaõ com oleo, põe-se-lhe cêra, e esfregaõ.
-Os tijollos de ladrilhar, como se gastaõ, e ficaõ com covas pelo lugar,
-por onde se anda, e mesmo ao varrer por serem as vassouras commumente de
-alamo por evitar estes inconvinientes, untaõ com sangue de boi, que lhe
-dá huma sólidez muito duravel. Em algumas provincias se envernizaõ os
-ladrilhos, como a louça, formaõ divisões bem agradaveis, que variaõ por
-muitos modos.[17]
-
-
-
-
-ARTIGO IV.
-
-_Modo de fazer os differentes vasos, e utensis de casa com o mesmo barro,
-que serve para fazer os ladrilhos._
-
-
-70 Os oleiros de París para fazerem differentes obras se servem do mesmo
-barro dos ladrilhos; só daõ a preferencia a certas veias onde a argilla
-he mais branca tirando hum pouco sobre o vermelho a qual os oleiros
-chamaõ bom barro; tira-se de _Arcueil_, e de _Vanvres_, como para o
-ladrilho; ligaõ-na com a mesma arêa, e na mesma quantidade, que para os
-ladrilhos. Como se amassa com mais cuidado, naõ se póde pôr a amassar
-mais de huma celha, ou quando muito duas de barro por cada vez.
-
-71 Alguns oleiros, depois do barro amassado, lançaõ hum torraõ sobre
-huma mesa grossa, e o batem com hum maço de ferro, como se faz no
-barro de pitos, e esta operaçaõ he muito boa; porém ainda que elle
-tenha sido amassado, e batido, he preciso repassallo pelas maõs para
-lançar fóra algumas pyrites, e pedras, que possa ter ao que chamaõ
-_voguer_.[18] Para este fim amassaõ o barro sobre a mesa de moldar, como
-fazendo huma pasta; elles ajuntaõ depois hum torraõ grande, e passando
-alternativamente a palma da maõ sobre este barro, tiraõ de cada vez huma
-camada bem delgada; e assim com facilidade encontraõ os corpos estranhos,
-e os lançaõ fóra. Depois de terem assim passado outro tanto, como o
-volume de huma libra de manteiga, amassaõ este torraõ que daõ a figura
-de hum cylindro, dividem-no em dous, e tendo huma ametade em cada maõ,
-as unem batendo com força huma contra a outra; depois o tornaõ a amassar
-de novo, e repetem esta manobra muitas vezes, e vaõ sempre lançando fóra
-os corpos estranhos que encontraõ, e acabaõ fazendo torrões de barro
-maiores, ou menores, segundo o tamanho dos vasos, que elles se propõe
-fazer. Os oleiros tem differentes modos de vogar o barro: porém todos
-consistem, em trabalhar muito o barro para o amassar bem, e separar-lhe
-todos os corpos estranhos, que nelle se acharem; porque para as obras que
-elles saõ obrigados a dar baratas, naõ podem fazer as despezas de lavar
-seus barros, e de os passar pela peneira (ou por hum crivo feito de arame
-de lataõ fino) como fazem os que trabalhaõ em louça fina. A operaçaõ de
-vogar he trabalhosa; porque para a maior parte dos utensis, que fazem
-os oleiros, se deve amassar o barro muito mais duro do que para os
-ladrilhos, principalmente havendo se de fazer vasos grandes, porque naõ
-se poderiaõ suster; e o barro voga-se com muito mais cuidado para humas
-obras do que para outras.
-
-72 Das obras de oleiro, humas se fazem inteiramente á maõ, como as
-caldeirinhas quadradas _F_, _fig. 10_ _est. I_, outras só se fazem na
-roda, como os vasos de flores, as tijellas, e alguidares _K_, _fig. 11_,
-que naõ tem azas, outras se fazem parte na roda, e parte a maõ, como os
-vasos de tres pés, as marmitas _fig. 12_, os escalfadores _fig. 13_, as
-caçarolas _fig. 14_, o corpo das quaes se faz na roda, e os pés, azas, e
-orelhas se põe de fóra á maõ.
-
-73 Agora começo a dizer alguma cousa sobre o trabalho da roda, ou torno;
-tambem explicarei como se acommodaõ nella differentes peças; depois darei
-alguns exemplos das obras, que se fazem inteiramente á maõ.
-
-
-_Do modo de fazer os vasos na roda._
-
-74 Ha duas especies de rodas: huma he de ferro, e esta he verdadeiramente
-a roda de oleiros; e outra he de páo e se chama o _torno_. Quasi todos os
-oleiros de París se servem dellas; porém adoptaraõ a dos oleiros de louça
-fina vidrada.
-
-75 Descripçaõ da roda de ferro _aa_ _Est. I_, _fig. 5_, he o meio da
-roda, que tem a pequena roda _bb_, em alguns lugares se chama _gimble_,
-sobre o qual está a obra _cc_, em que se trabalha. No meio _aa_, se
-ajuntaõ os raios da roda _dd_, que saõ de ferro. Nesta figura só se
-vem dous; porém a roda tem seis, como se vê na figura 16. Estes raios
-vem dar em hum circulo de ferro, ou ambos, cuja grossura só se vê aqui
-representada pela linha _ee_; o meio _aa_, diminue de grossura em _ff_,
-e ainda mais em _gg_, esta parte, que he cylindrica, e pontuada na
-figura, he recebida por hum buraco em hum grosso pedaço de páo _g_, que
-fica bem seguro por huma cruz de páo _hh_, e pelas prisões _ii_. Em
-primeiro lugar he preciso conceber, que o meio _aa_, a parte _ff_, e o
-cylindro pontuado _g_, saõ tomadas em hum mesmo pedaço de páo; em segundo
-lugar que a parte cylindrica pontuada he recebida em hum buraco fundo,
-que está no centro do pedaço de páo _g_, no qual póde virar; que este
-cylindro pontuado, que tem a parte _ff_ assim como este que nos temos
-chamado o _meio aa_, por cima do qual está a pequena roda _bb_, sobre a
-qual está a obra _cc_. Aqui se vê, que os raios _dd_, saõ obliquos, de
-sorte que por suas revoluções, formaõ hum conico cortado em _aa_; _K_
-saõ as pequenas mesas, que estaõ em roda do obreiro, em que elle põe as
-bolas de barro, de que vai fazer as obras, e as mesmas obras depois de
-feitas, huma gamela com agua, hum calibre de ferro ordinariamente, a que
-chamaõ _atelle L_, he huma taboa inclinada sobre a qual se assenta o
-obreiro. Tudo isto se tornará mais claro lançando os olhos sobre o plano
-perspectivo _fig. 17_.
-
-76 _A_ he o meio da roda: _b_ a pequena roda, que sustenta em si a obra
-_c_, na qual se trabalha: _d_, os raios da roda _ee_, cambas da roda: _f_
-a parte cylindrica do meio, por baixo do qual fica a que está pontuada na
-_fig. 1_, perto de _g_: _h_ a taboa que esta segura aqui por huma massa
-de gesso: _k_ as mesas pequenas, sobre que se põe a obra logo depois de
-feita: _l_, a taboa inclinada, em que se assenta o obreiro: _m_, taboas
-grossas inclinadas, que tem entalhes profundos, em que os obreiros põe
-os pés como se vê _fig. 16_, e _17_; estas especies de assento para os
-pés se chamaõ _poiaes_: _n_ saõ as obras já acabadas: _o_, bôlos de barro
-para fazer outras obras: _p_, os pilares, ou pés direitos, que sustém as
-mesas _k_, _l_.
-
-77 A figura 16 representa a mesma maquina vista em plano, e virada para
-se poder ver a roda por baixo: _g_, a parte cylindrica, que entra em hum
-buraco fundo feito na peça _g_: _f_, parte cylindrica mais grossa; _aa_,
-o meio da roda aonde se ajuntaõ os raios _d_: _ee_, a camba: _p_ saõ os
-encaixes destinados para receber os pés direitos que sustem as mesas _k_,
-e o assento _l_: _m_, lugar de pôr os pés.
-
-78 Nos campos muitas vezes he de páo, tudo o que aqui se representa de
-ferro; neste caso a camba da roda he muito grossa: para que com o seu
-peso conserve por mais tempo o movimento, que o oleiro lhe imprime. Como
-ellas saõ menos perfeitas que as de ferro, escuso entrar em individuações
-a seu respeito.
-
-79 Para se trabalhar sobre esta roda, he preciso imprimir-lhe hum
-movimento circular rapido, com hum páo _a_, _est. II_, _fig. 4_, que se
-chama virador. Vê-se nesta _fig. 4_, hum obreiro disposto para pôr a roda
-em movimento; está sentado no assento _l_, os pés estaõ nos entalhes dos
-lugares de ter os pés _m_; e com huma ponta do virador _a_, toca em hum
-raio de roda para a fazer andar, e imprimir-lhe hum movimento circular,
-que ella conserva bem tempo para o obreiro, _fig. 5_, poder formar hum
-vaso.
-
-
-_Do torno, ou roda, que os oleiros de obra grossa tomáraõ dos de obra
-fina._
-
-80 Esta roda _a_, _fig. 18_, _est. I_, he de páo, e tem de grosso tres ou
-quatro pollegadas, para que o maior peso lhe faça conservar o movimento
-mais tempo; ella he atravessada por hum eixo de páo, ou de ferro _b_,
-que finda por baixo da roda em hum mancal: este eixo passa ao nivel da
-mesa por hum colar, e tem na sua extremidade superior huma roda pequena
-_c_, sobre a qual está a obra _d_; o obreiro _h_, estando assentado
-hum pouco obliquamente sobre a taboa inclinada _i_, tem muitas vezes
-as pernas ambas do mesmo lado de sorte, que o eixo _b_, lhe passa por
-detraz da perna esquerda; muitas vezes tem as pernas abertas, e o eixo
-lhe passa pelo meio, estando os pés apoiados, e o esquerdo fica na
-travessa _g_, da mesa: _f_, he huma gamella com agua: tendo o obreiro o
-pé esquerdo sobre a travessa _g_, apoia o pé direito ligeiramente sobre,
-a roda e empurrando-a para diante lhe imprime hum movimento circular,
-que se communica a roda pequena _c_, sobre a qual está a obra _d_. Como
-esta roda naõ vira taõ veloz, quanto a de ferro, o obreiro póde formar
-a sua obra com mais regularidade, e póde accelerar-lhe o movimento, ou
-retardarllo conforme lhe parecer, e paralla mesmo quando quer: o que se
-naõ póde fazer com a roda de ferro.
-
-81 Quando o obreiro tem as pernas ambas do mesmo lado, se tem a direita
-cançada, póde tocar a roda com o pé esquerdo: algumas vezes para tocar a
-roda mais ligeira se vale de ambos os pés para a tocar.
-
-82 Ha alguns oleiros Alemães, que tendo o eixo _b_, entre as pernas, se
-servem de ambos os pés; mas he preciso entaõ, que o pé direito toque a
-roda para diante, e com o esquerdo a puxe para si: com o uso se vem a
-facilitar este movimento dos pés em sentidos contrarios.
-
-83 A roda de ferro he commoda para fazer obras, que naõ requerem muita
-regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime o movimento com o virador,
-ella vira com muita ligeireza, e seu movimento se enfraquece pouco a
-pouco, e isto he muito vantajoso; porque, quando se começa huma peça a
-roda naõ póde virar muito ligeira, mas para a acabar, carece mesmo de
-virar devagar: algumas vezes perde ella o seu movimento antes da peça,
-estar acabada, e entaõ precisa o oleiro com o virador tornar-lhe a dar
-novo movimento.
-
-84 Como com a roda de páo está o oleiro senhor de augmentar, ou diminuir
-o seu movimento, e ainda de interromper, fica esta mais commoda para
-obras finas, e que requerem mais exacçaõ; e ao presente os oleiros de
-París já naõ fazem uso da roda de ferro.
-
-
-_Trabalho do Oleiro sobre a roda._
-
-85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ só por se naõ pegar o barro a ellas,
-mas tambem para alizar a obra, que começaõ entre as maõs ambas, tendo
-huma dentro do vaso, e a outra fóra: outras vezes apertaõ o barro entre
-o dedo pollegar e o index de ambas as maõs. He impossivel relatar todas
-as differentes posições que o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ a
-posiçaõ em huma mesma obra. Para aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe
-a grossura, se servem do calibre, que elles chamaõ _atelli_; elles tem
-muitos de differentes figuras, conforme requer a obra que elles fazem:
-alguns destes calibres tem molduras, e a maior parte saõ de ferro; mas
-tambem alguns saõ de páo.
-
-86 Quando se vê trabalhar hum habil oleiro de roda parece que o seu
-trabalho he muito facil de executar; todavia requer muita destreza:
-porque naõ he facil dar igualdade de grossura a hum vaso de barro tendo
-huma maõ dentro delle, e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade, e
-se faz conhecer mais a habilidade do obreiro, quando he preciso dar mais
-grossura ao vaso em humas partes, do que em outras: seria, por exemplo,
-mais facil fazer o fundo de hum alguidar mais grosso, do que os lados;
-com tudo he melhor que o fundo seja mais delgado, que os lados. Outras
-obras precisaõ maior grossura na barriga ou bojo; e hum habil obreiro
-chega a executar todas estas cousas com bastante exactidaõ, sem se servir
-de compaço, ou outra alguma medida. Naõ se limita só nisto; porque
-estende, ou aperta o barro, á sua vontade, de sorte que tendo feito hum
-vaso grande, o torna pequeno, querendo, e de largo o faz estreito, se
-he alto o reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade do barro,
-faz delle o que quer; com tudo nota-se, que os pratos razos e fundos,
-etc. que foraõ feitos na roda, se quebraõ quasi sempre pellas linhas
-circulares, o que naõ acontece aos vasos feitos em moldes; parece, que
-trabalhando-se o barro na roda algumas camadas se naõ unem perfeitamente.
-
-87 Adiante representarei muitas obras, que se fazem na roda; mas para
-dar hum exemplo do que podem fazer os oleiros de obra grossa, escolherei
-hum mealheiro _Est. I_, _fig. 19_. Vou explicar como se faz esta pequena
-peça taõ commum, que he de hum só pedaço, fechado de todas as partes, e
-feito inteiramente sobre a roda, sem ser soldada, nem feita de tiras, ou
-pedaços: o que parece difficil de executar.
-
-88 O oleiro torneia na roda a parte baixa, ou fundo do mealheiro, como se
-quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno; depois recalca o barro, e aperta
-a abertura; formando como hum pequeno zimborio, e isto faz huma especie
-de aperto para isto aperta o barro da parte de fóra com o dedo pollegar,
-e por dentro o sustenta com o index, e isto continúa em quanto póde ter
-o dedo index dentro do mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo comprime
-com o pollegar, e index huma porçaõ maior de barro, que fica reservada
-em roda do buraco, e neste lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente
-o mealheiro, depois com a folha de huma faca abre a fenda por onde se
-introduz o dinheiro, e por dentro nas margens desta fenda se formaõ
-rebarbas, que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando se sacode o mealheiro;
-finalmente com hum fio de lataõ, ou arame, a que os oleiros chamaõ serra,
-despega o mealheiro da roda pequena sobre a qual se fórma a louça.
-
-89 Havendo-se de fazer na roda hum grande alguidar para ensaboar; como as
-bordas saõ grossas, e elle he muito mais largo na boca do que no fundo,
-he preciso usar de hum barro mais duro, porque sendo molle, naõ se poderá
-suster. Como nestes alguidares se costuma fazer lugar de escorrer ou
-vazadouro a modo de goteira isto se faz antes de os despegar da roda;
-para este fim se dobra com os dedos o lugar aonde se quer fazer a goteira
-em quanto o barro ainda está molle. Em fim, estando feito o alguidar, ou
-outra qualquer obra, se despega da roda com huma folha de faca, se a obra
-he pequena, ou com hum arame se he grande.
-
-90 Há alguidares grandes, em que se põe orelhas; porém estas naõ se fazem
-na roda; adiante fallaremos delles, assim como de outras muitas obras,
-nas quaes he preciso pôr péz, e azas, etc.
-
-91 Os vasos communs de flores _n_, _fig. 17_, _est. I_, se fazem
-inteiramente sobre a roda; devem ser hum pouco mais largos para cima do
-que para baixo, para se poder tirar o torraõ direito, e levar as plantas
-com o torraõ em que se criáraõ: em cima e na boca se lhe fórma hum cordaõ
-que os fortifica, e os torna mais faceis de mudar de hum lugar para
-outro. As gamelas tambem se fazem na roda, e acabaõ em cima com huma
-borda grossa, ou cordaõ, como inteiramente os vasos de flores. Os pratos
-se fazem do mesmo modo; mas para as bordas acabarem com regularidade se
-servem do calibre.
-
-92 Os vasos de despejos _A_, _B_, _D_, _fig. 20_, _est. I_, se fazem por
-duas vezes. Sabe-se que elles saõ mais largos por huma ponta, do que
-pela outra _b_, que fórmaõ huma cinta, ou anel de barro, que se lhe põe
-quatro dedos distante da sua borda, alguns oleiros chamaõ anel, e outros
-_viret_. Com huma só operaçaõ se acaba todo o vaso, e na ponta _b_, fica
-mais estreito, e ahi se fórma hum anel: e depois se despega de cima da
-roda pequena ou prato, onde está pegado por hum bocado de barro, que ahi
-se deixou; acaba-se a ponta _a_, mais larga, que deve receber em si a
-ponta _b_, que he mais estreita, e tem o anel de que acima falamos; estes
-vasos se fazem inteiramente na roda; porém por duas vezes. Naõ he o mesmo
-a respeito dos vasos em dous _E_, _C_, _fig. 20_, ou que se dividem em
-dous para corresponder á dous assentos. A este respeito se deve notar,
-que há tubos de despejo que saõ mais largos, que outros; e por isso se
-fazem tubos, que tem hum pé de diametro, e outros só tem oito, ou nove
-pollegadas. Ora, quando se faz hum tubo de barro, que se deve dividir em
-dous como _E_, _C_, a parte _A_, _B_, que corresponde a huma serie de
-tubos, que se estende desde a cava, até a divisaõ, ordinariamente se faz
-com tubos de maior diametro, e as divisões _E_, _C_, se fazem com tubos
-de menor diametro. Para fazer o vaso ou tubo que se divide em dous, saõ
-precisos tres tubos hum grande, e dous pequenos; põe-se a seccar hum
-pouco _est. II_, _fig. 7_. o que explicarei com brevidade; e tendo posto
-o grande pote sobre a mesa em que se ha de preparar _est. II_, _fig. 8_,
-com a ponta rebaixada para baixo, chanfra-se a ponta larga que está para
-cima, chanfraõ-se tambem as pontas mais estreitas dos dous tubos do molde
-pequeno, para as soldar com o grande, como se dirá. Desta sorte os tubos,
-que se dividem em dous se fazem parte na roda, e parte á maõ; mas por naõ
-separar daqui cousa alguma, das que pertencem aos vasos de despejo, por
-isso julguei dever fallar de tudo. Farei ver sómente, que se póde fazer
-a separaçaõ dos tubos, sendo taõ grandes huns, como outros, como se
-representou em _A_, _B_, _C_, _D_, _fig. 20_, _est. I_. Começo outra vés
-a fallar nas obras que se fazem inteiramente na roda.
-
-93 Para fazer testos de potes, marmitas, escalfadores, fogareiros etc.
-como _I_, _Est. I_, _fig. 12_, põe se sobre, a roda pequena, ou prato hum
-bôlo de barro; do qual se querem fazer varios testos, começa-se primeiro
-a formar a parte de baixo do testo, que he hum pouco convexa no meio;
-depois apertando-se com os dedos da outra maõ o barro, que está por baixo
-do testo, se forma a parte de cima, que he concava; faz-se no meio hum
-botaõ, e se acaba despegando-o do barro com o dedo, ou folha de faca.
-Depois querendo se se põe o testo sobre o barro que está na roda, e se
-aperfeiçoa entaõ pela parte de cima; mas de ordinario se naõ pratica
-isto: successivamente se tiraõ tantos testos, quantos póde dar o barro
-que está na roda.
-
-94 Os testos de fogareiros, e escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se fazem
-pouco mais, ou menos da mesma fórma, ainda que sejaõ hum pouco mais
-compostos, porque devem ter hum circulo, ou anel que encaixa dentro da
-bocca do escalfador.
-
-
-_Como se podem formar obras no torno com hum calibre._
-
-95 Para calibrar as obras, se usa de hum torno pouco mais ou menos,
-como o da _fig. 18_. Elle tem huma roda _a_, hum eixo _b_, que tem a
-roda pequena, ou prato _c_, sobre o qual está a obra _d_. Está claro
-que ajustando-se por cima da mesa hum calibre, que se possa chegar
-para diante, ou retirallo da obra _d_, á vontade do obreiro certamente
-formará com exactidaõ as voltas, ou molduras, que se quizerem na obra,
-tirando-lhe por fóra o barro, que se pôs de mais; porém este calibre só
-póde formar o exterior, e naõ se póde usar delle nos vasos, que devem
-ser trabalhados tambem por dentro; serve só para os pés destinados a
-sustentar vasos, ou outras cousas de ornatos, que á maõ se alimpaõ por
-dentro, por naõ ser o interior de alguma consequencia; mas póde-se fazer
-uso de hum torno quasi semilhante para os vasos de jardim, como vou
-explicar.
-
-
-_Como se fazem no torno vasos grandes de jardim._
-
-96 Quasi todos os vasos grandes de jardim se fazem por moldes; com
-tudo elles se podem tambem fazer no torno, com hum calibre grande
-_ee_, entalhado nos lugares, que devem sobresahir no vaso, e formar os
-salientes nas partes onde os contornos do mesmo vaso devem ser ocas, ou
-cavadas. Supponhamos, que se quer fazer, o vaso _Est. I_, _fig. 21_;
-faz-se de tres pedaços; hum faz o pé, outro o corpo _l_, e outro o testo
-_m_, ao qual se ajuntaõ alguns ornatos, como hum globo, huma pinha, pomo,
-etc. Vou agora explicar como se faz o corpo _L_, sobre a mesa _B_, _Est.
-I_, _fig. 21_. O calibre, que anda em roda se forma de hum páo vertical
-_hh_, cuja ponta debaixo ou piaõ, se introdus em hum buraco, feito no
-meio da mesa _aa_, que deve ser forte, e por cima he sustida por hum
-cachimbo de páo _g_, que fica preza a huma peça tambem de páo, quadrada
-_bb_, assim he preciso conhecer que o páo vertical _hh_, vira livremente
-sobre si mesmo. Este páo deve ser bem forte para poder sustentar com
-firmeza a potencia _ii_, que deve puxar o calibre _ee_, que algumas vezes
-forceja muito pela impressaõ que faz no barro, que excede do corpo do
-vaso. Tambem se ajuda a fazer firme o calibre segurando-o por baixo com
-a maõ, que vai sobre a mesa em _o_, e com a outra maõ tirando o barro,
-quando se vê que o calibre tem muito barro para levar. Percebe-se, que
-as peças de páo quadradas _bb_, assim como a mesa _aa_, devem estar bem
-firmes; mas como se fará por differentes modos, segundo o lugar, em que
-se levantar o torno, eu me contento só em mostrallo. O oleiro põe o seu
-barro sobre a mesa _aa_, e tendo huma maõ dentro do vaso, e outra fóra
-lhe fará tomar pouco mais, ou menos a figura, que elle projecta dar ao
-vaso; digo, pouco mais, ou menos; porque o calibre _ee_, he o que deve
-aperfeiçoar a figura do vaso. Este calibre _ee_, he huma taboa pouco
-grossa, cujas bordas terminaõ em chanfro, e saõ talhadas de modo, que
-o contorno das bordas faz, por assim dizer, a contra prova do vaso que
-se quer fazer. Deve-se segurar bem com parafusos em huma peça de páo
-quadrada _ii_, que fórma huma potencia; para se adiantar, ou recuar este
-calibre, segundo a grossura, que se quer dar ao vaso, a potencia _ii_,
-he fendida, e tem hum grande encaixe; de sorte que afroxando o parafuso,
-o calibre _ee_, se pode chegar-se para diante, ou recuar, e se segura
-apertando o parafuso. Estando tudo assim disposto, se faz virar á maõ o
-calibre _ee_, que leva diante de si o barro, que há de mais, e o oleiro
-o accrescenta nos lugares aonde falta; ao mesmo tempo põe o vaso, quasi
-igual na grossura com hum calibre por dentro, tirando o barro, que ha de
-mais aonde he muito grosso. Finalmente, quando o corpo do vaso está bem
-formado, se deixa hum par de dias sobre a mesa, para que o barro se faça
-mais duro; depois se despega da mesa, com hum arame; tira-se o pedaço de
-páo _g_, e tendo tirado o páo _hh_; como tambem o calibre _ee_, pega-se
-no vaso com ambas as maõs, depois de tirado o páo _hh_, que o atravessa
-em seu eixo; e se põe o vaso a seccar. Entaõ se faz o testo com outro
-calibre, e o pé tambem com hum calibre proprio a figura que se lhe deve
-dar. Depois de terem estado as peças algum tempo a seccar, viraõ-se sobre
-a mesa, em que se aperfeiçoaõ, para se alimparem por dentro com hum
-instrumento proprio para isso _Y_, _Est. II_, _fig. 1_, e formar-lhe
-aneis para se ajustarem differentes peças. Parecendo conveniente ao
-oleiro ajuntar azas ao corpo do vaso, e adiante se explicará o modo de o
-fazer: algumas vezes se segura fixo, e immovel, o calibre e o vaso he que
-vira sobre huma rodela, que se move á maõ. Tudo isto pouco mais ou menos
-he o mesmo.
-
-
-_Vasos grandes de barro cozido._
-
-97 Todo o mundo conhece os vasos grandes de hum barro esbranquiçado,
-vidrados por dentro, que chamaõ _talhas_, _A_, _fig. 20_, _Est. II_,
-elles se fazem em Provença. Muitas pessoas attentas á sua saude, para
-evitar os inconvenientes que poderiaõ resultar do cobre, mandaõ vir estas
-talhas para conservar a agua de que usaõ. Ha algumas muito grandes, que
-saõ grossas, e sólidas; com tudo cobrem-se tambem de esteiras de palha, e
-com esta precauçaõ duraõ muito tempo sem se quebrarem; havendo cuidado no
-Inverno de as ter em parte, onde naõ gele a agua, que tem dentro. Quasi
-todos os Navios as levaõ para conservar a agua destinada para a meza do
-Capitaõ; e em Provença se conserva o azeite nestas talhas.
-
-98 O gosto, que tem todos de conservar a agua em talhas, tem obrigado aos
-oleiros, que trabalhaõ em greda, a fazer potes taõ grandes, quasi como os
-vasos de que se acaba de fallar. Ha alguns, que levaõ a quarta parte de
-hum almude. Eu os conservo no meu laboratorio de Chymica em _Campagne_
-feitos, em _Saint Fargeau_, vidrados por dentro; os que se vendem em
-París, e os que tem torneira, ou esguicho, vem de Picardía.
-
-99 Porém vi em muitos lugares, e igualmente tenho á muito tempo vasos
-grandes de barro vermelho, entre os quaes há alguns, que levaõ mais de
-meio almude: os que saõ bem feitos a agua os naõ penetra, inda que naõ
-sejaõ vidrados. Servem para muitos usos; para guardar lexivias; para
-fazer salmouras em lugar de celhas de salgar carne; e vi em jardins
-algumas, que, estando rodeadas de obras de pedra calcaria, serviaõ de
-conservar a agua, para se regarem, ou aguarem as plantas. Eu naõ sabia
-de donde vinhaõ estes vasos, e talvez se façaõ em muitos lugares; mas Mr
-Desmarais me fez ver no calendario _Limousin_ do anno de 1770 hum artigo,
-que julguei dever introduzir aqui.
-
-100 Hum quarto de legoa distante de _Montmoreau_ que fica seis legoas
-ao Sul, de Angoulème se acha a Cidade _Saint Eutrope_, e quasi todos os
-habitantes desta Cidade fazem louça. Contaõ-se ahi trinta familias todas
-empregadas neste trabalho: vinte e cinco fornos estaõ sempre occupados
-em cozer louça miuda, pratos pequenos, grandes, e panellas para o fogo
-de differentes tamanhos; porém ha tres, que estaõ destinados para cozer
-differentes obras, e principalmente vasos grandes para fazer Lixivia, e
-salgar toucinho, etc. Todos os oleiros, que tem de cozer destes vasos
-grandes, os levaõ a hum destes tres fornos.
-
-101 Para esta qualidade de louças servem-se de huma argilla muito ductil,
-que se acha junto da aldêa. A occupaçaõ das mulheres, e dos meninos, he
-humedecer, e amassar, esta argilla com huma massa de ferro sobre hum
-pilaõ, tambem daõ os ultimos talhes á louça, o que se chama aperfeiçoar:
-porém naõ he isto só o que elles fazem, ainda vaõ cortar arbustos, e páos
-miudos para aquentar os fornos de cozer as louças.
-
-102 Os homens fazem vasos grandes em huma roda muito simples _D_, _Est
-II_. _fig. 3_. ella se fórma de duas rodellas _E, _, semelhantes ás de
-hum zimborio de moinho. Estas rodellas estaõ juntas huma á outra por seis
-furos _G_: a rodella _F_, tem hum buraco em _H_, para receber a espiga
-ou eixo _I_, que está bem segura por baixo na terra; de sorte, que este
-zimborio em sua espiga, ou eixo, vem a formar como huma dobadoura. O
-obreiro põe o barro sobre a rodella _E_, e com o pé que põe sobre a outra
-roda _F_, a faz andar lentamente. Logo que está feita a primeira base do
-vaso, elle trabalha os lados, accrescentando successivamente rolos de
-barro, que liga huns sobre os outros, unindo as superficies interiores, e
-exteriores com as maõs: deste modo chega a acabar vasos grandes, os quaes
-torna redondos por meio do torno; e elle tem cuidado de dar pequenas
-pancadas com a palma da maõ no barro para o comprimir. Depois de seccos
-estes vasos se fazem cozer nos fornos grandes, quasi semilhantes aos
-que se representaraõ na _Est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. Estas louças
-se vendem principalmente em _Angouleme_, _Perigueux_, _Saintonge_,
-_Bordeaux_. Os oleiros naõ podem dar vasaõ ás encommendas que tem dellas.
-
-103 Quando os vasos, de que se tem tratado, saõ muito grandes, se fazem
-de muitas peças: huma fórma o fundo, outra o corpo, e outra a parte mais
-alta; e todas estas peças se unem com aneis de barro, que se cozem com o
-vaso, e ficaõ taõ sólidas, como se fossem de huma só peça.
-
-104 Vê-se em alguns vasos, feitos em Normandia, partes sahidas para fóra
-e saõ adornos; algumas vezes estas partes postas circularmente, servem de
-encobrir, e fortificar os lugares, em que foraõ as soldaduras.
-
-105 A _fig. 2_, _M_, he hum grande vaso de barro, no qual se põe algumas
-vezes huma torneira, para fazer delle huma fonte, ou lavatorio, e
-substituir os de cobre: há alguns que tem por dentro pratos desenhados
-por linhas pontuadas; estes pratos estaõ cheios de buracos, e se lhe põe
-arêa grossa para filtrar a agua, e fazer fontes areentas.
-
-106 Saõ bem conhecidos os potes cylindricos de Normandia, em que vem
-as manteigas de Isignes. Depois de vazios, as familias pequenas se
-servem delles para conservar agua. _A_ _fig. 6_, _P_, _est. II_, he huma
-botelha de barro de Normandia. Quando se faz no torno a barriga _QQ_, e o
-gargallo _R_, se solda na barriga no lugar _T_.
-
-107 Naõ faço huma maior relaçaõ das differentes obras, que se fazem
-inteiramente no torno; pois o que se acaba de dizer bastará para fazer
-perceber o modo porque se fazem aquelles, de que se naõ falla: agora vou
-fallar das obras, que se fazem, parte no torno, e parte na mesa para lhes
-pôr azas, e pés.
-
-
-
-
-ARTIGO V.
-
-_Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na mesa para lhes pôr
-azas, e pés._
-
-
-108 Depois de começadas estas obras no torno, e se lhes ter dado a
-figura, que devem ter, se despega da rodella com o fio ou arame de latam,
-e se põe sobre humas taboas, a que chamaõ armaçaõ de ripas, _D_ _Est.
-III_, _fig. 4_, porque estaõ ao tempo, e se fórma de ripas; deixaõ-se
-seccar as obras hum pouco, ou endurecer á sombra, mesmo defendidas de
-huma grande corrente de ar, porque he preciso, que sequem lentamente.
-
-109 Depois das obras estarem alguma cousa duras sobre as ripas, se
-transportaõ para huma mesa pondo humas ao pé das outras para as
-aperfeiçoar.
-
-110 Esta operaçaõ consiste em remediar a maõ os defeitos, que se lhe
-percebem; se ha barro pegado em huma parte, se tira com huma faca
-de páo muito estreita que se molha; se as bordas de algum vaso se
-inclinaraõ para alguma parte, indireitaõ-se; se na barriga se fez alguma
-cova, passa-se a maõ por dentro do vaso para o endireitar fazendo vir
-para fóra; se as boccas, que devem ser redondas, apparecem ovaes, se
-indireitaõ apertando-as entre as maõs. Algumas vezes he preciso cortar
-por baixo os vasos para ficarem com o assento mais firme; isto se faz
-pondo a bocca do vaso sobre a mesa, e o fundo para cima; depois se tira
-o barro com hum instrumento de ferro _Y_, _fig. 1_, _Est. II_, que tem
-córte. Daõ-se de differentes formas huns saõ, direitos, outros curvos,
-chamaõ-se _tournassin_.
-
-111 Sobre a mesa tambem he, que se põe os pés, os cabos, e azas nas
-peças, que os devem ter.
-
-112 Todas estas cousas saõ peças relativas que se soldaõ nos lugares,
-em que se devem pôr, tendo-se feito á maõ sobre huma mesa. O modo de
-soldar os cabos, as azas, e os pés he o mesmo; porém devem haver certas
-precauções por se naõ despegarem estas peças. Alguns exemplos bastaraõ
-para se perceber esta pequena manobra.
-
-113 Tomo por exemplo huma marmita; fórma-se no torno a barriga, o
-gargallo e a borda, e deixando-se sobre as ripas este corpo de marmita,
-se põe sobre a mesa para o aperfeiçoar, e ajuntar-lhe as azas. Os oleiros
-se portaõ nisto de dous modos differentes: huns formaõ a aza sobre a
-mesa; daõ-lhe o contorno, que lhe convem; depois para apegar ao corpo da
-marmita, raspaõ hum pouco os dous lugares, onde se deve pegar a aza ao
-corpo da marmita; esfregaõ estes lugares com hum bocado de barro novo,
-soldaõ a aza apertando-a fortemente com o dedo pollegar contra o corpo da
-marmita, ou do fogareiro, etc. Outros, depois de ter raspado o corpo da
-marmita, põe sobre o mesmo lugar hum pedaço de barro novo, que trabalhaõ
-á maõ para o fazer tomar a figura de aza; e depois de o terem preparado
-raspaõ o lugar aonde ella deve chegar, e pondo hum pouco de barro novo, e
-apertando bem com os dedos a aza se pega de modo, que naõ despega mais.
-Este methodo se tem por mais sólido, do que o precedente.
-
-114 As orelhas _aa_, dos potes _Est. I_, _fig. 12_ se soldaõ do mesmo
-modo, que as azas das marmitas.
-
-115 Em geral para que duas peças se ajuntem bem, he preciso que os dous
-barros estejaõ no mesmo gráo de seccura; naõ sendo assim, huma peça
-encolheria mais do que outra, e se despegaria, ou quebraria. Com tudo se
-o corpo da marmita seccasse muito se tornaria a humedecer no lugar, em
-que se quizesse soldar, pondo-lhe por cima hum panno molhado, que dentro
-em huma noite humedece quanto basta.
-
-116 O corpo dos potes de tres pés _fig. 15_, _Est. II_, se faz no torno,
-depois se trazem para ahi os pés, e azas, como disse da marmita, e para
-se soldarem se poem na mesa com a bocca para baixo; e testo _C_, naõ deve
-ter borda com encaixe.
-
-117 O corpo dos escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se faz ao torno;
-fórma-se a barriga _a_, redonda, depois aperta-se o barro para formar
-a parte cylindrica _b_, fortifica-se o bordo com hum rôlo ou anel de
-barro, faz-se-lhe hum pequeno bico, e quando estaõ já alguma cousa duros;
-levaõ-se para a mesa de aperfeiçoar para se acabarem, e pôr-lhe a aza
-_C_, como se disse da marmita.
-
-118 O corpo _b_. das cassarolas, etc. _Est. I_, _fig. 14_, se faz no
-torno, ha oleiros que fazem no mesmo torno o cabo, outros o fazem á maõ
-sobre huma taboa. Todos o soldaõ a cassarola, como já se explicou.
-
-119 Os cabos que se fazem no torno saõ muito mais proprios, do que os
-feitos á maõ sobre a taboa; porém bom he explicar como se faz no torno
-hum tubo ôco pelo qual apenas se póde introduzir hum dedo. Começa-se por
-baixo, com sufficiente largura, para formar o tubo entre o pollegar, e
-os outros dedos. Este tubo tem pouca altura, e deve ser grosso, porque
-será preciso estendello no comprimento; para isto comprimindo brandamente
-o tubo entre as maõs, se estende, levantando as maõs, e elle diminue de
-grossura á proporçaõ que se estende em comprimento; acaba-se fazendo-lhe
-huma pequena orla na borda _c_. Em fim se despega da rodella; e depois de
-ter comprimido hum pouco a ponta, que ha-de pegar no corpo da cassarola,
-como as azas dos fogareiros etc.
-
-120 Os coadores se fazem como as cassarolas, etc. só sim demais se lhe
-abrem buracos com huma especie de buril, quando elles estaõ meios seccos.
-
-121 Tambem se fazem fogareiros pequenos, em que se põe brazas para os
-esquentadores de madeira; fazem-se no torno, e antes de os tirar da
-rodella, se faz chato hum dos lados que he formado em parte do fundo;
-tira-se o barro, que excede o resto das bordas do fogareiro: forma-se á
-maõ o outro lado, e ajusta-se no meio desta face hum botaõ; assim esta
-pequena peça he quasi de todo feita a maõ, ainda que ella se começa, e se
-aperfeiçoa sobre a rodella, sem a tirar para a mesa de aperfeiçõar.
-
-122 _R_, _Est. II_, _fig. 10_, he hum candeeiro quasi todo feito no
-torno, ajunta-se sómente hum bocado de barro em _a_, e em _b_, com huma
-aza em _c_.
-
-123 Tambem se fazem regadores de barro: o corpo se faz inteiramente sobre
-o torno, assim como o tubo, que se faz como o cabo das cassarollas;
-vaza-se hum pouco na ponta, que se tapa com huma placa de barro cheio
-de buracos, põe-se por cima hum bucado de barro para tapar a metade da
-embocadura; solda-se o tubo ao corpo do regador: sustem-se por aquella
-parte, que naõ está ôca; solda-se a aza e rega admiravelmente.
-
-
-
-
-ARTIGO VI.
-
-_De algumas obras, que se fazem inteiramente á maõ._
-
-
-124 Ja se disse que alguns oleiros faziaõ todas as suas obras á maõ. Para
-dar huma idéa deste trabalho vou explicar como se fazem os esquentadores
-quadrados _F_, _Est. I_, _fig. 10_.
-
-125 Os esquentadores, e fogareiros, que devem ter dentro em si o fogo,
-se fazem com o mesmo barro de que se fazem os ladrilhos, excepto que,
-em lugar de ajuntar arêa á argilla, os oleiros emmagrecem o barro
-com a escoria de ferro moida; e passada por huma peneira de cabello,
-ajuntando _hum demiqueve_ de barro a dez _boisseaux_ do pó de escumalha.
-Amaça-se esta mistura como já disse, fallando os ladrilhos. Para fazer
-hum esquentador, se molda sobre hum caixilho de madeira, se formaõ duas
-como telhas, ou pastas de barro direitas, se põe nas varas a enxugar,
-e se batem huma vez do mesmo modo, que os ladrilhos: depois em quanto
-está ainda branda, se tomaõ estas duas telhas, que chegaõ para fazer
-hum esquentador. Põe-se huma destas telhas na mesa de aperfeiçoar,
-raspaõ-se-lhe as bordas sobre hum calibre de páo, para o acertar,
-divide-se a largura em tres partes, das quaes a do meio faz o fundo
-do esquentador _a_, e as outras duas fazem os grandes lados _bb_,
-_bb_, levantando-os quasi perpendiculares, mas que fiquem alguma cousa
-inclinadas para fóra, bem entendido, que com os dedos se fórma em baixo
-hum angulo, quasi de quina viva; da outra telha, ou pasta de barro
-se tiraõ os dous pedaços, que haõ-de tapar as pontas do esquentador;
-soldaõ-se nos grandes lados _bb_, fazendo o mesmo que já disse a respeito
-do modo de soldar as azas, e as orelhas dos vasos; finalmente a mesma
-segunda telha chega para fazer o tampo de cima _dd_; no meio da qual se
-faz hum buraco quadrado com a folha de huma faca molhada, que he para o
-testo. Naõ se faz encaixe para receber este testo; mas quando se tira,
-corta-se o barro obliquamente, para o chanfro servir de encaixe, para
-que o testo naõ possa cahir dentro do esquentador; aperfeiçoaõ-se todos
-os lugares das soldaduras, e se acaba fazendo buracos, tanto por cima,
-como pelos lados do esquentador, com hum instrumento de ferro, que faz as
-vezes de hum trado. Sobre a mesa se lhe fazem tambem as azas _ff_, e o
-botaõ de testo _e_.
-
-
-
-
-ARTIGO VII.
-
-_Das obras, que se fazem com moldes._
-
-
-126 Visto se ter fallado das obras feitas a maõ, parece justo explicar-se
-como se fazem em moldes; mas, como este trabalho pertence mais ao
-louceiro de obra fina, do que ao oleiro; por hora darei hum só exemplo,
-descrevendo, como se póde fazer hum vaso de jardim. Molda-se com o gesso
-hum vaso ôco, sobre outro, que tenha boa figura, mandado reparar por hum
-escultor: divide-se em tres partes, segundo o comprimento, o gesso ôco
-que se moldou sobre aquelle, que se quer imitar, bem entendido, que se
-faz separadamente, o ôco que deve fazer o corpo do vaso, e o que deve
-fazer o pé, e o que faz o testo.
-
-127 Reunem-se os tres pedaços, que tem fazer o corpo, põe-se firmes
-segurando-os com cordas, e, tendo esfregado com alguma gordura o molde
-por dentro, com a maõ, se põe huma camada grossa de barro dentro do
-molde, e se aperta para tomar bem a figura do molde, deixa-se endurecer
-hum pouco o barro no interior do molde: como ao seccar encolhe, elle se
-despega do molde; mas, antes de estar inteiramente secco, se desataõ
-as cordas, separaõ-se as tres peças, de que consta todo do molde, e
-tira-se o vaso de barro, que se põe a enxugar nas ripas, prepara-se, ou
-aperfeiçoa-se depois com hum pequeno pedaço de páo chamado, _bauehoir_,
-especie de tasquinhador, ou goiva, e naõ precisa ser escultor para o
-fazer.
-
-128 Com o instrumento de alimpar, chamado _tournassin_, se tira por
-dentro o barro, que ha de mais, e se forma hum assento, ou encaixe por
-onde se ajusta o pé, e o testo, depois de moldados, ao corpo do vaso.
-Alguns fazem moldes particulares, para formarem as azas, e folhagens; mas
-como já disse, só me propús fallar superficialmente das obras moldadas,
-porque na arte de louceiro da obra fina se trata disso com individuaçaõ,
-aonde se ensina a fazer pratos recortados, sopeiras, tigelas, e mais
-utensis de meza com molduras, e mesmo figuras de homens, e animaes.
-
-
-
-
-ARTIGO VIII.
-
-_Modo de enfornar as obras de olaria, e cozelas._
-
-
-129 Quando tratei dos ladrilhos, dei a descripçaõ dos fornos, de que
-usaõ ordinariamente os oleiros de París, advertindo, que estas obras se
-poderiaõ cozer nos mesmos fornos de telha, que ficaõ representados na
-arte de telheiro. Aqui só fallarei dos fornos dos oleiros de París, que
-saõ muito bem pensados, e de hum uso commodo: trazendo-se á lembrança,
-o que fica dito no principio desta Memoria a respeito dos ladrilhos; he
-superfluo dizer, como se arranjaõ as differentes obras nesta sorte de
-fornos.
-
-130 Da parte da bocca por detraz da _Fausse-tire_ se arranjaõ os vasos,
-que haõ-de ficar bem cozidos, huns sobre outros, os quaes correm menos
-risco de se quebrarem: taes saõ os vasos de flores, e os tubos para
-despejo etc. Tambem se põe junto ao fundo do forno _LM_, _fig. 8_, _est.
-I_, que chamaõ lingueta, onde ha muito calor, porque o ar quente deve
-descer a este lugar, para sahir pelas aberturas, por onde se descarrega a
-fumaça, que ficaõ inteiramente por baixo.
-
-131 A primeira camada de baixo se faz com tijolos ou ladrilhos grosseiros
-de assoalhar, ou vasos grandes de despejo, que se põe em lugar destes
-ladrilhos. Como os vasos grandes tem bastante força para supportarem
-a louça, que se lhe põe por cima, com elles se póde fazer a primeira
-camada. Deve haver cuidado de se pôrem na mesma fileira os vasos de hum
-tamanho, observando, como nos tijolos, que a ordem de cima leva no meio
-vasos, que formaõ a ordem de baixo, como se vê _fig. 9_, _est. I_; mas,
-como huma das principaes attenções, he exactamente encher o forno, e de
-lhe meter a mais louça, que lhe he possivel, para tirar melhor partido da
-lenha, que gastaõ; põe-se as peças pequenas dentro das grandes; os testos
-dos esquentadores se põe nos mesmos esquentadores, em que haõ de servir,
-os vasos pequenos tambem se põe entre os grandes, para encher os vaõs o
-mais exactamente que fôr possivel. Põe-se páos, como para os tijolos,
-ou ladrilhos, pelos lados, e se distribuem pelo forno de distancia, em
-distancia por entre a obra. Cortaõ-se as rachas de páo, com que se forra
-a louça, metendo-as entre a abobada de forno, e a mesma louça, e se acaba
-fazendo hum muro de tijolo na porta falsa. Por fim esquenta a louça com
-mais cuidado, de que com o tijolo, e o fogo se continúa pouco mais ou
-menos o mesmo tempo, se saõ louças ordinarias, e continua-se por mais
-tempo, se se trata de cozer louça de greda.
-
-
-
-
-ARTIGO IX.
-
-_Descripçaõ de outra especie de forno, que usaõ os oleiros dos arrabaldes
-de S. Antonio para cozer suas obras._
-
-
-132 Quasi todos os oleiros dos suburbios de S. Marçal, se servem do
-forno, já descripto no tratado dos ladrilhos, e que está representado
-na _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_, tanto para cozer os ladrilhos como
-as louças; e estes fornos, que occupaõ muito pouco lugar, se imaginaraõ
-mui engenhosamente, e saõ muito bons para a economia de lenha. Com tudo
-a maior parte dos oleiros dos suburbios de S. Antonio só usaõ destes
-fornos para os ladrilhos, e para cozer as outras louças, se servem de hum
-forno, que se assemelha muito aos de oleiro de obra fina, cuja descripçaõ
-vou agora dar.
-
-133 A _fig. 1_, _est. III_, representa a altura do forno, visto por
-fóra da parte da boca da fornalha, ou a altura sobre a linha, _C D_, do
-plano _fig. 2._ que he tomada rente ao nivel do forno. _A_, he o fogaõ
-ou fornalha que está em terra em hum buraco; vê-se apontado pelas mesmas
-letras nas figuras 1, 2, 3, e 14. O que conduz o fogo, desce dentro
-desta cova, e forra de lenha pela boca da fornalha, debaixo do corpo do
-forno, onde se metem as obras, que se querem cozer. Logo em principio
-para temperar, faz hum pequeno fogo na entrada da fornalha em _A_, _fig.
-3_, que representa toda a extensaõ da fornalha, e fundaçaõ do forno;
-depois para fazer o fogo grande, chega o fogo até _E_, e o distribue por
-dentro de toda a extensaõ da fornalha; porém entaõ accommoda a lenha em
-pé na boca da fornalha, para diminuir a corrente do ár, que levaria o
-calôr para o fundo do forno, e ao mesmo tempo a parte de diante receberia
-pouco calor. Com tudo he preciso, que elle se distribua com a igualdade
-possivel por toda a extensaõ do forno: e esta he huma attençaõ que deve
-ter o atiçador.[19]
-
-134 A abobada _F_ _fig. 4._ que cobre a parte superior da fornalha tem
-os buracos _aaa_, etc. Por estes buracos, que tambem se pódem vêr em _F_
-_fig. 2._ se representa o fundo, ou pavimento do forno, que está por cima
-de abobada, que cobre a fornalha; por estes buracos _aaa_, he que passa
-o ar quente da fornalha, _A_, _fig. 4._ para o corpo do forno _G_, que
-está por cima, e no qual se arruma a obra que se quer cozer vidrada. Este
-corpo do forno he fechado por cima, com huma abobada _H_, _fig. 4._ a
-qual tem os buracos _bbb_, do mesmo modo que a abobada _F_; e isto mesmo
-se vê tambem na _fig. 5._ em _H_; e por estes buracos he, que o ar quente
-passa do corpo _G_, _fig. 4._ ao corpo _I_, aonde se põe as louças, que
-se querem cozer em branco. Como o ar quente sempre sobe, logo que o forno
-se esquente, no corpo _I_, he maior o calor do que no corpo _G_, que ao
-principio tinha mais calor, do que o outro, que fica mais alto.
-
-135 Na parte mais alta de abobada, que cobre este corpo superior, ha hum
-buraco _K_, _fig. 4_. de seis ou oito pollegadas em quadra, e de mais
-quatro buracos _K_, _fig. 1_. e _5_. Estes cinco buracos servem para dar
-sahida ao ar que entra pela boca da fornalha, para obrigar ao calor a
-sobir até ao alto do forno.
-
-136 Enche-se a camera _G_, _fig. 4_. por huma porta _L_, _fig. 1_, e
-_4_. que se fecha com huma parede de tijolos, ou pedaços de louça, logo
-que se acabou de encher o forno, antes de accender o fogo: deixa se só
-huma pequena abertura em _M_, _fig. 1_. para dar sahida a huma parte da
-fumaça, que poderia enfraquecer a marcha do ar quente necessario para
-cozer a obra. Por cima desta pequena abertura _M_, ha huma parede como
-de huma chaminé de cozinha, e hum tubo _N_ _N_, _fig. 1_, e _4_. para
-conduzir a fumaça por senaõ espalhar na officina.
-
-137 A camera ou o corpo superior _I_, _fig. 4_. se enche de louça, que se
-quer cozer em branco, por huma porta que está em _O_, e que se fecha,
-quando o corpo está cheio, fazendo no alto desta porta huma abertura
-semilhante á que fica notada em _M_, _fig. 1_, e, como se naõ receia
-incommodo de fumaça por ser esta abertura muito alta, se lhe naõ faz
-cuberta, nem tubo de chaminé: sobe-se ao corpo do forno _I_, por huma
-escada _P_. _fig. 1_.
-
-138 Por fim se gradua o fogo como acima fica dito; começando por hum fogo
-pequeno para esquentar a obra, e acabando por hum fogo muito activo de
-lenha rachada.
-
-
-
-
-ARTIGO X.
-
-_Do verniz ou vidrado, que se põe na louça._
-
-
-139 A maior parte das obras de barro ordinarias deixaõ transpirar a
-agua por seus poros, maiormente quando se mistura muita area no barro:
-misturando-se pouca area, os vasos conservaõ bem a agua; mas naõ pódem
-sofrer o fogo: ora, como a maior parte da louça, para os utensilios de
-huma casa deve ir ao fogo, os louceiros naõ lhe poupaõ a area; porém
-dando-lhe esta faculdade de rezistir ao fogo, se tornaõ penetraveis
-a agua, como se acaba de dizer. Quasi todos estes utensis com tudo a
-devem conter; para lhe dar esta propriedade, se cobrem de huma camada de
-verniz, que, vitrificando-se, naõ deixa a agua passar. E assim para os
-alguidares, e vasos do uso das leiterias, os oleiros se servem de hum
-barro puro, que toma corpo, e naõ deixa transpirar a agua; porém estes
-vasos se quebrariaõ, se os puzessem ao fogo: por isso lançaõ muita area
-no barro, de que haõ-de fazer os vasos, que servem para o fogo; e depois
-os vidraõ, para poderem reter a agua.
-
-140 Aqui só se fallará em resumo do verniz das louças, que he muito
-grosseiro; porque o verdadeiro lugar de tratar disto a fundo, he quando
-se tratar da louça fina.
-
-141 Os oleiros para vidrarem as suas obras, se servem da mina do
-chumbo; e a isto he que se chama pedra de chumbo no commercio, e os
-oleiros chamaõ verniz: ou se servem do zarcaõ, ou chumbo vermelho, que
-impropriamente chamaõ mina de chumbo; que he huma cal de chumbo com huma
-côr vermelha bem viva. O falecido Mr. Jars, nas memorias da Academia,
-deo o modo de o fazer tomar esta côr vermelha pela calcinaçaõ. Tambem se
-servem ainda do lithargirio, isto he, do chumbo calcinado, que perdeo
-huma parte do seu phlogistico pela acçaõ do fogo, e que está em hum
-estado de vitrificaçaõ imperfeita. Elles se servem destas substancias por
-dous modos, como agora vou a explicar.
-
-
-_Primeiro methodo._
-
-142 Quebra-se a pedra de chumbo sobre huma peça de cobre para senaõ
-perder cousa alguma; passa-se por huma peneira de cabello, e o resto se
-piza em gral de ferro, e se torna a passar, até que tudo se passe pela
-peneira.
-
-143 Alguns oleiros compraõ o chumbo em chapa, e elles mesmos o reduzem a
-cal; julgo que seria melhor usar do lithargirio, ou chumbo vermelho.[20]
-
-144 Prepara-se o lithargirio como a pedra de chumbo; elle se reduz a pó
-muito facilmente, e o zarcaõ ainda mais; ajunta-se a hum, ou a outro
-destes pós por medida outra tanta quantidade de area como ha dos pós de
-lithargirio, zarcaõ ou da pedra de chumbo; deve-se notar, que todas as
-preparações de chumbo, se vitrificaõ, e facilitaõ muito a vitrificaçaõ
-das substancias terreas; A area faz huma parte consideravel do verniz,
-por meio de chumbo, que serve de fundente: como o chumbo he caro, e a
-area naõ custa dinheiro, os oleiros poupaõ muito, misturando a area com o
-chumbo e eu creio, que esta liga da area naõ altera a bondade do vidrado.
-O chumbo só sobre o barro faz huma côr amarella, querendo-se que este
-esmalte, ou verniz seja verde, em duzentas libras de lithargirio, ou
-cal de chumbo se lançaõ sete, ou oito libras de limalha de cobre.[21]
-Querendo-se, que tenha huma côr escura, mistura-se-lhe manganesia, que
-he huma mina de ferro pobre e refractaria; ella he de hum azul denegrido
-granulado. Della se servem os vidraceiros; mas quando lançaõ muita, faz
-o vidro roxo. Acha-se em Piemonte, em Toscana, Bohemia, e Inglaterra.
-A pedra, que se vende com o nome de marcassita differe della pouco, ou
-nada. Estas materias, sendo pulverisadas, formaõ verdadeiramente o verniz
-dos oleiros, que só falta applica-lo sobre os vasos, que naõ foraõ ainda
-cozidos, porém que estaõ já seccos, e promptos para se cozerem. Para o
-pó se pegar aos vasos se humedecem na agua chamada gorda, que he a agua,
-em que se dissolveo a argilla; depois antes que esta agua se seque, se
-espalha por cima os pós de que acabamos de fallar, virando a peça por
-todos os lados, a fim de ficarem cobertos todos os lugares, que se querem
-envernizar; e como ha muitas peças, que só se querem esmaltar por dentro,
-nestas se naõ põe os pós pela parte de fóra.
-
-145 Deixaõ-se as peças suar hum pouco, depois se arrumaõ no forno do
-modo, que já expliquei; de sorte que com huma só operaçaõ se coze o
-barro, e se derrete o verniz, que vitrifica na superficie. Por este
-methodo economiza-se a lenha; porém gasta muito chumbo: e tambem porque
-o pó senaõ póde espalhar igualmente, em alguns lugares fica muito,
-e quando se derrete, espalha se pelos outros vasos. Naõ he só este o
-inconveniente: como he preciso meter muita lenha para cozer as obras
-com grande fogo, ha tambem o inconveniente, de que, queimando-se esta,
-levanta muita cinza, que vem a offender o esmalte, quando se está
-derretendo.
-
-146 O outro methodo consiste em pôr o verniz nos vasos, que já estaõ
-cozidos; gasta se mais lenha; porque as obras vaõ duas vezes a cozer ao
-forno; porém evitaõ-se entaõ os inconvenientes de que acabo de fallar;
-além do que, como os oleiros só depois das obras cozidas he que conhecem
-a perfeiçaõ dellas, ha huma grande vantagem em pôr o verniz nas peças
-depois de cozidas; pois em todas as fornadas, se quebraõ, e se desfiguraõ
-algumas peças, e assim só se põe o verniz ou esmalte nas que sahem do
-forno perfeitas. Daqui resulta ser menos o gasto do chumbo, naõ levando
-verniz, as peças que quebraraõ; este methodo tambem contribue muito a
-economisar o chumbo; porque os que o seguem livigaõ o lithargirio, e a
-pedra de chumbo com agua em huma mó representada separadamente _est. II_,
-_fig. 11_, e _12_. Elles livigaõ estas differentes substancias separadas,
-e com agua de sorte, que correm á maneira de caldo, pelos vasos, que
-lhe ficaõ por baixo, e põe o verniz liquido na louça, cozida, lançando
-esta especie de caldo sobre os vasos, ou mettendo dentro nelle as peças,
-que se querem envernizar por dentro, e por fóra; e isto he melhor, e de
-mais economia. Applica-se o verniz com hum pincel, que o põe mais lizo,
-e só se põe nos lugares onde se julga conveniente. Finalmente estas
-substancias bem livigadas se applicaõ aos vasos em corpo o mais delgado,
-que he possivel e se julga conveniente.
-
-147 Deixaõ-se seccar as peças, o que se faz em pouco tempo, porque a
-louça que vem do forno atrahe promptamente a humidade.
-
-148 Põe-se no forno, onde se lhe dá hum fogo pouco mais ou menos igual
-áquelle com que se coziaõ; mas naõ se deve meter lenha entre as peças,
-e sobre a obra; por evitar, que a cinza senaõ espalhe sobre o verniz,
-quando está derretido pelo fogo. Naõ ha inconveniente, em pôr lenha dos
-lados, principalmente quando ha a precauçaõ de se pôr perto alguns vasos,
-que naõ sejaõ envernizados, ou que se cozem a primeira vez; e he melhor
-conservar o fogo por mais tempo no forno, do que meter lenha entre a
-louça. Huma das vantagens do forno, que imita o dos louceiros de obra
-fina, he naõ estar exposto ao inconveniente das cinzas.
-
-149 Os oleiros naõ concordaõ em dar a preferencia a hum destes methodos;
-cada hum se encosta áquelle que pratíca. Os que applicaõ o verniz em pó
-sobre o barro crú confessaõ, que gastaõ mais chumbo; porém dizem, que o
-seu verniz ou esmalte penetra melhor o barro, e se pega mais intimamente.
-Os outros sustentaõ que o verniz pega muito bem no barro cozido, e
-allegaõ a favor do seu methodo o menor consummo do chumbo, e o aceio da
-sua obra, sendo o verniz distribuido em huma grossura mais uniforme;
-mas os que seguem este methodo, naõ estaõ ainda do mesmo parecer sobre
-hum ponto, que me parece bem importante. Huns dizem que só basta cozer
-medianamente a obra, antes de a meter no verniz, para que o verniz se
-possa introduzir pelos poros do barro, e que ao depois he preciso dar hum
-grande fogo para cozer as obras cubertas de verniz.
-
-150 Outros dizem, que da primeira vez, que se cozem, he preciso fazer
-hum grande fogo, e da segunda quanto baste para derreter bem o verniz:
-a favor desta pratica podem dizer, que, como o chumbo vitrifica a area,
-produz este effeito naquella, que está na superficie dos vasos cozidos, o
-que o faz muito adherente a estas qualidades de obras; em segundo lugar;
-que naõ sendo preciso hum grande fogo para o cozimento, se evita o meter
-lenha entre a louça, e por cima della, e isto a izenta dos maõs effeitos
-da cinza.
-
-151 Eu me inclino á primeira pratica, porque se precisa hum fogo
-violento, para fundir bem o esmalte, e este mesmo fogo acaba de cozer
-o barro: preciza o verniz estar bem derretido, para o chumbo poder
-vitrificar a area, que está na superficie da louça. Este sentimento he
-conforme ao uso de quasi todos os oleiros; com tudo naõ me proponho a
-decidir qual seja o methodo; porque naõ tive occaziaõ de fazer sobre isto
-experiencias decisivas.
-
-152 Parece-me que o artigo do verniz se poderia aperfeiçoar, sem
-obrigar os oleiros ás despezas consideraveis; julgo por exemplo, que
-elles deveriaõ, misturar com o seu chumbo huma area, ou hum _quartz_
-fusivel[22] que se vitrifica facilmente com o chumbo, e deste modo
-poderia economisar este metal; talvez mesmo, que achassem elles huma
-vantajem em frittar[23] sua area antes de a misturar com o chumbo; e o
-moido poderia ser melhor que a area. Por hora, saõ idéas, que se devem
-olhar como simples conjecturas, até que se experimentem, e conbinem por
-differentes modos.
-
-153 Todas as vezes, que se coze, se fecha exactamente o forno, logo
-que cessa o fogo; para que conserve o calor, e as peças, esfriem pouco
-a pouco: porque huma parte da louça quebraria se ao sahir quente do
-forno, se expozessem ao ar frio. Quando o forno está já bem frio, e se
-quer tirar a louça, se abre a parede, ou porta falsa, para por ella se
-tirarem as obras que estaõ cozidas; porém muitas vezes succede, que, o
-verniz derretendo-se, corre de hum vaso para outro, e se achaõ muitos
-vasos pegados. Quando a adherencia he pouco consideravel, se separa
-facilmente; mas algumas vezes se quebraõ os vasos, indo-se a separar, e
-este inconveniente succede mais vezes áquelles que põe o verniz em pó, do
-que os que usaõ delle diluido em agua, porque a camada do verniz he mais
-delgada, e por isso menos sujeita a correr.
-
-154 Já disse, que o verniz naõ pegava sobre as manchas negras semilhantes
-a escoria do ferro, que fazem os pyrites, que se queimaõ ao cozer. Quando
-as peças valem o trabalho, os oleiros reparaõ em parte estes defeitos,
-pondo muito verniz sobre as manchas negras; porém estas obras precizaõ
-tornar outra vez ao forno, e causaõ grande incómmodo ao oleiro. Quando se
-tiraõ do forno as peças, as mulheres com facas grossas tiraõ os pedaços
-de barro, que se prendem aos vasos.
-
-155 Como sobre as louças de Lyones vi obras, e louças fabricadas nas
-provincias vizinhas de Liaõ, tenho gosto de dizer tambem alguma cousa a
-respeito dellas; e para isto procurei a Mr. de la Tourrette da Academia
-de Liaõ, e correspondente da Academia das Sciencias de Pariz, que tem hum
-zelo admiravel em ajudar com suas luzes todos, que emprendem indagações
-uteis.
-
-156 As memorias, que me procurou Mr. de la Tourrette, dizem respeito
-a tres qualidades de louças; que saõ a de Prá em Forez, a de Franche
-ville em Liones, e a de S. Valerio no Delphinado. Agora só me servirei
-das excellentes memorias, que recebi sobre a louça de S. Valerio,
-porque, como as obras, que ahi se fazem, saõ de louça fina, he justo
-fallar dellas, quando se tratar da arte de louça fina, que ao depois se
-publicará.
-
-
-_Da louça de Prá em Forez._[24]
-
-157 Prá he huma aldea junto á freguezia, e termo de S. Bonnet-Les-Oules
-em Forez distante duas boas legoas de S. Estevaõ, e huma de S. Galmier.
-
-158 Dizem, que o estabelecimento desta fabrica de louças tem perto de
-quatrocentos annos: em outro tempo haviaõ neste lugar quarenta olarias,
-e cada huma tinha seu forno; agora só tem cinco, por causa das muitas
-olarias, que se tem estabelecido na mesma provincia.
-
-159 Nestas louças se empregaõ duas qualidades de barro, que se misturaõ,
-hum vermelho, e outro escuro, ambas se achaõ em abundancia perto de Prá
-nos confins da freguezia de S. Bonnet, e nos das freguezias de Bauthcon,
-e Vanche.
-
-160 Achaõ-se na terra em bancos mais, ou menos extensos, os do barro
-escuro tem quasi dez pollegadas de alto, e os de barro vermelho saõ mais
-grossos; o barro escuro he mais gordo que o vermelho.
-
-161 As louças de Prá soffrem melhor o fogo, do que outras muitas.
-
-162 Amassaõ-se estes barros com hum masso de ferro sobre huma prancha, ou
-mesa forte, e depois se trabalhaõ na roda.
-
-163 Os fornos saõ redondos, tem cinco, ou seis pés de diametro, e sete,
-ou oito de alto, sem cuberta; saõ feitos de tijolos grossos juntos com
-barro gordo, e levaõ huma contra parede, feita de pedra de edificios com
-argamassa de cal, e area.
-
-164 Estes fornos, que se assemelhaõ bem aos de telheiros se esquentaõ
-com lenha por tempo de dez, ou doze horas, e mais segundo a estaçaõ: nas
-primeiras quatro, ou cinco horas só se faz hum pequeno fogo; depois se
-augmenta, e se faz muito activo.
-
-165 O verniz se faz da pedra de chumbo, ou do mesmo chumbo que se tira em
-pedra das minas vizinhas: pizaõ se, e passaõ se por huma peneira, e se
-livigaõ com pedras muito duras _Est. II_, _fig. 11_, e _12_. _G_, _H_.
-
-166 Tendo-se preparado assim o verniz se usa delle liquido; lança-se nos
-vasos, e se voltaõ para todos os lados, como se os lavassem. Estando o
-corpo da peça cuberto de verniz, se lança o resto em huma celha, para
-servir para outros vasos.
-
-167 Applica-se o verniz sobre vasos côr de cinza, mas muito seccos; e
-quando o verniz está secco, se põe as louças no forno.
-
-168 Querendo-se, que o verniz seja verde, mistura-se limalha de cobre com
-o chumbo, como acima se disse.
-
-169 Os vasos desta qualidade de louça rezistem muito ao fogo, como tambem
-os cadinhos para a fundiçaõ dos metaes; tem se feito muitas experiencias
-em S. Estevaõ: elles se fazem dos dous barros misturados, e amassados
-juntos, como já fica dito.
-
-170 Fazem-se nestas olarias, tijellas, pratos grandes, e pequenos.
-
-
-_Louça de Franche ville em Lyones._
-
-171 Julga-se em Lyones que esta olaria já existia no tempo dos Romanos.
-
-172 Usaõ ahi de duas sortes de barros, hum amarello, e outro côr de
-cinza, e ha alguns, que tem mistura destas duas côres. O amarello se
-acha ordinariamente em hum terreno magro, e areento, em lugares muitos
-elevados; o côr de cinza em valles por bancos maiores, ou menores, e
-mais, ou menos espessos; mas estes barros saõ muito abundantes, porque
-neste lugar se fabríca muita louça, desde hum tempo immemoravel.
-
-173 O barro amarello he mais aspero ao toque, e mais grosseiro, do que o
-côr de cinza, que he muito macio, e nelle senaõ encontraõ area.
-
-174 O amarello soffre melhor o fogo, do que o côr de cinza.
-
-175 Em Franche ville se fazem duas qualidades de louça; e isto depende da
-especie de barro de que a fazem.
-
-176 O amarello resiste perfeitamente o fogo; o cinzento, que se chama
-_gaubino_, como he hum barro mais puro faz huma louça mais compacta,
-que naõ póde aturar o fogo; mas a louça feita com o barro amarello, se
-descasca ao ar, isto he, cahe-lhe o verniz ou a superficie; o côr de
-cinza supporta muito melhor as suas influencias.
-
-177 Dizem, que as plantas postas em vasos deste barro naõ produzem.
-Misturaõ-se estes dous barros para hum corrigir as faltas do outro.
-
-178 Nas olarias se fazem vasos na roda, e outros em molde conforme requer
-a sua figura. Finalmente amassaõ-se estes barros batendo-os com huma
-massa de ferro como se faz em Prá.
-
-179 Os fornos, semelhantes aos dos telheiros, humas vezes saõ redondos,
-e outras vezes quadrados. Faz-se o fogo debaixo de huma abobada, em
-que ha buracos quadrados de tres, até quatro pollegadas de diametro,
-separadas humas das outras seis, ou sete pollegadas; para que o ar quente
-se communique ao interior do forno, onde se arrumaõ as obras, ellas devem
-estar bem seccas antes de se expôr ao fogo, precisaõ-se quasi cento e
-quarenta feixes pequenos de lenha para huma fornada.
-
-180 Para envernizar estas louças, querendo-se que o esmalte seja verde,
-se usa do chumbo hermetico, ou mina de chumbo, que se liviga debaixo da
-mó com agua, como fica dito, e a limalha de cobre. Querendo-se fazer o
-verniz branco, naõ se lhe ajunta a limalha de cobre; e quando se usa do
-chumbo só em huma louça de barro amarello, fica o esmalte avermelhado:
-este verniz se emprega no barro crú. Limito-me a estas indicações geraes,
-porque já se tratáraõ com individuaçaõ em outro lugar.
-
-
-
-
-ARTIGO XI.
-
-_Das Louças, que se chamaõ de greda._
-
-
-181 A vista do que disse no principio deste pequeno tratado a argilla
-he a baze dos barros, que servem para fazer as louças; porém segundo as
-substancias, que se achaõ misturadas com a argilla, ha humas, que fazem
-obras muito mais solidas do que outras. Quando estas substancias tornaõ
-a argilla fusivel, se cozem com pouco fogo, e por isso se póde dar a
-louça mais barata; destas he que acabei agora de tratar. A argilla pura,
-sendo de natureza a encolher muito, se racha ao seccar, ou ao cozer; mas
-quando a argilla se mistura com huma area refractaria, ou muito difficil
-de derreter, resulta daqui hum barro, que póde seccar, e cozer-se sem
-rachar, e que faz louças muito duras, quando experimentaõ hum grande
-fogo. Em geral este he o motivo porque se chama louça de greda. Ha
-qualidades dellas muito differentes; os vasos de greda côr de castanha,
-em que vem as manteigas de Isigny, saõ muito duras, e sonoras; elles
-rezistem muito bem a hum fogo grande, e naõ saõ atacaveis pelos acidos:
-esta he huma excellente louça; he quasi taõ sonora como a porcelana,
-quando se quebra a sua grã he muito fina, e hum pouco brilhante: e por
-isso he muito chegada á natureza do vidro; tambem tem o defeito de se
-quebrar, quando se faz passar subitamente do quente para o frio, ou ao
-contrario. E porque suspeitei, que este defeito vinha, de estar a argilla
-ligada com muita area que se tinha vitrificado pelo muito fogo, eu a fiz
-lavar; e depois de se ter precipitado huma pouca de area mais pezada,
-e mais grosseira, e pequenas pyrites, que tinha em grande quantidade,
-mandei fazer cadinhos com o barro fino, que depois se precipitou. Estes
-cadinhos vindo vermelhos do fogo, e depois mettendo-se em agua fria
-senaõ quebráraõ. Se eu estivesse vizinho destas olarias, persuado-me que
-poderia fazer vasos, naõ taõ formosos, como os de louça fina, a mais
-commum, porém que seriaõ taõ bons para o uso como a melhor porcelana.
-Fiz vir este barro de Gournai, a Normandia; mas como naõ me podia vir,
-senaõ em pequena quantidade, só fiz muito poucas experiencias em obras
-pequenas, porque se acabou logo o barro. Convido os phisicos, que
-tiverem a maõ as olarias de greda, a fazerem experiencias mais decisivas
-do que estas, que acabo de referir; porque esta especie de barro me
-parece digna de sua attençaõ.
-
-182 Como quasi todas as louças de greda, que se vendem em París vem de
-Beauvais, e que naõ ha lugares em todo o reino, aonde se trabalha nestas
-qualidades de louças, que passaõ mesmo para os estrangeiros, desejei
-ter maiores luzes sobre a posiçaõ das veias do barro proprio para estas
-louças, sobre o modo de o preparar, finalmente sobre tudo, o que respeita
-a esta qualidade de obras.
-
-183 Dizem, que as olarias se estabeleceraõ em outro tempo em huma
-freguezia, que ainda agora se chama _S. Germano da olaria_; porém ellas
-se tem abandonado: agora neste lugar só se fazem tijolos, telhas, e
-ladrilhos. Na freguezia de _Savignier_, onde ha quatorze oleiros,
-que trabalhaõ em greda, se acha hum barro muito proprio para estas
-qualidades de obras, e os obreiros saõ peritos no modo de o trabalhar.
-Em _Chapelle-au-Pot_, huma legoa distante de Savignier ha seis oleiros;
-porém elles trabalhaõ por hum modo muito inferior neste barro, do que no
-de Savignier; ainda que elle he quasi da mesma natureza.
-
-184 Huns, e outros ás vezes tem muito trabalho em achar veias de barro
-de boa qualidade. Depois de se tirarem dous, ou tres pés da superficie,
-se começaõ a perceber as veias dos barros, que se procuraõ; mas ellas
-só saõ boas, de vinte pés de fundo por diante, e se tira barro ainda de
-mais fundo; e entaõ os obreiros temem o cahir-lhe a terra em cima. Ha
-veias mais grossas, e mais largas humas do que outras, que se seguem em
-quanto se acha barro de boa qualidade: distinguem-se duas especies delle;
-o que se chama greda, muitas vezes he bastantemente duro, e dificil de
-tirar. Com estas duas qualidades de barros se fazem duas especies de
-louças, huma com o barro, que se chama greda, e outra com hum barro hum
-pouco differente; com este se fazem vasos, que pódem ir ao fogo; mas
-as do outro se quebraõ, se senaõ esquentaõ com muito cuidado, com tudo
-quebraõ-se menos do que os da greda escura de Normandia. Os cadinhos só
-se fazem aqui de encomenda: o obreiro, que tem mais fama de os fazer bem,
-passa o barro por huma peneira, escolhe-o, e amassa-o com mais cuidado
-do que os outros: a preparaçaõ deste barro he, quasi a mesma, que os
-oleiros de París daõ ao seu.
-
-185 Interrompo, o que hia a dizer das olarias de Beauvais, para fazer
-notar, que os melhores cadinhos, que podem haver para os fundidores, saõ
-os que se fazem de hum barro branco, que se acha em S. Samsaõ, quasi
-seis legoas distante de Beauvais. Estes cadinhos esbranquiçados, bem
-cozidos, muito sonoros, resistem ao maior fogo, sem se quebrarem, e sem
-se penetrarem pelos saes; tem de mais a vantagem, de naõ precizarem tanto
-cuidado como os cadinhos de greda, quando se metem no fogo, ou quando se
-tiraõ. Agora torno a fallar do trabalho de Beauvais.
-
-186 Quando se tira a argilla da terra, leva-se para casa do obreiro,
-põe-se em pequenos pedaços, lança-se em huma cova com agua, para ella
-se penetrar, e fazer-se ductil; deixa-se até o outro dia, e entaõ se
-tira em massa; o obreiro a corta, e a torna a pôr em camadas na mesma
-cova de donde a tirou, para a amassar, e misturalla com huma pouca de
-area, ligeiramente salpicada de cal: finalmente amassa-se como fazem os
-oleiros de París; depois de se ter amassado, e tornado a ajuntar por
-quatro vezes, se fazem bolos, que se levaõ a huma mesa, para o amassar, e
-trabalhar bem, como fica já explicado a fundo. Trabalha-se depois sobre
-huma roda de ferro _est. II_, _fig. 4_, e _5_. ou de páo que se faz mover
-com o pé _fig. 18_, _est. I_; porque os oleiros de Savignier se servem
-de humas, e outras, segundo as obras, que elles tem de fazer. Em huma
-palavra o trabalho dos oleiros de Picardia naõ differe essencialmente,
-do que acima disse tanto para a factura das obras, como para dar-lhe o
-verniz.
-
-187 As louças de greda se cozem a grande fogo; os fornos estaõ postos em
-pleno ar sobre huma pequena elevaçaõ de terra; differem pouco dos fornos
-dos oleiros dos suburbios de S. Marçal _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. só
-com a differença, que, sendo feitos sobre hum pequeno cabeço, se caminha
-sempre subindo desde a entrada até o fundo do forno, e isto facilita a
-distribuiçaõ do ar quente. Na parte opposta da fornalha, naõ ha o tubo
-de chaminé _C D_, _fig. 3_. _est. I_; mas na parte baixa _C_, se formaõ
-pequenas arcadas para a dissipaçaõ da fumaça; por este lugar he que se
-metem as obras no forno, depois se fecha com huma parede de tijolos.
-Estes fornos ordinariamente tem 45 até 50 pés de comprido, e dez, ou doze
-de largo no meio, e huma altura igual debaixo da abobada; porém na sua
-embocadura só tem quasi seis pés de alto.
-
-188 O fogo se faz diante da embocadura do forno em huma fornalha de
-abobada, que tem quasi quatro pés de largo, e cinco de comprido, e outro
-tanto de alto. Começa-se com hum pequeno fogo, depois se augmenta, e se
-acaba com hum fogo de lenha miuda, que se inflama muito, e se continúa
-oito dias, e oito noutes sem interrupçaõ.
-
-189 As louças, que devem servir no fogo, ou que haõ de ser envernizadas,
-naõ levaõ hum fogo taõ violento: trabalhaõ-se quasi como as louças de
-París; mas para cozer as louças de greda se gastaõ 16, ou 18 cordas
-(_cada corda tem 4 pés d’alto, e 8 de comprido_) de páos grossos, e
-quatro centos feixes de lenha mais fina para o ultimo fogo.
-
-190 A manteiga de Prevalais, vem em potes de huma greda azulada, que he
-muito boa; mas eu naõ sei exactamente o modo de trabalhar esta pequena
-louça, e por isso naõ entro em grandes individuações a este respeito.
-
-191 Em _Zimmeren_, quatro legoas de Treveris, e em muitos lugares na
-provincia de Luxembourg, se faz huma especie de louça que he muito boa,
-de huma greda muito fina, e branca, cuja superficie he luzente sem se
-cubrir de verniz; este brilhante he formado pelo mesmo barro, que passou
-por huma vitrificaçaõ superficial; eu penso que ella se forma pelo vapor
-do sal marinho, que se lança no forno, como nas obras de barros brancos,
-que se tem feito em Montereau.
-
-192 Os que vem da provincia de Luxembourg, trazem todos os annos desta
-louça a París ao Armazem de louça fina, aonde vaõ comprar os que
-contrataõ neste genero. Naõ pude ter maiores conhecimentos sobre o modo
-trabalhar nestas louças.
-
-193 Julgo, que os barros, que fazem boas louças de greda, se preparaõ de
-argilla, de hum bocado de area vitrificavel, e de area muito refractaria;
-porque em todas as fabricas, onde se fazem boas louças, e ainda mesmo
-nas de porcelana, se fazem entrar com successo na composiçaõ pedaços
-de louças quebradas, reduzidas a pó, depois de se conhecer, que saõ de
-qualidade capaz de resistir a hum grande gráo de fogo.
-
-
-_Das Louças de S. Fargeau._
-
-194 Além das louças de greda, que se fazem em Bretanha, Normandia, e
-Picardia, se fazem muito boas em S. Fargeau. Como esta cidade, que he
-huma das mais antigas de França, está distante de Briara quatro legoas.
-O Loire serve para se transportar esta louça a muitos lugares. Leva-se
-pelo Loire por exemplo a Chateauneuf, de donde se destribue por terra
-a muitos lugares. Como daqui vem a Pithiviers, cidade muito visinha ás
-nossas terras, tive occasiaõ de a comprar, e conhecer a bondade desta
-louça; cheguei mesmo a prover-me de vasos de Chymica, que mandei fazer em
-S. Fargeau por modelos, que enviei. Ha ahi louças, que saõ cubertas de
-hum verniz escuro muito duro, e que resistem muito bem a acçaõ dos acidos
-mais concentrados; tive cucurbitas, e capiteis de lambiques, em que
-ajustei grandes refrigerantes de cobre; estes vasos saõ taõ impenetraveis
-aos vapores os mais subtís, como o melhor vidro, e resistem muito melhor
-a acçaõ do fogo.
-
-195 Como quiz adquirir conhecimentos sobre a natureza desta louça,
-procurei com confiança a Mr. o Presidente de S. Fargeau, por conhecer o
-seu zelo para tudo, o que tem relaçaõ com o progresso das artes, e que
-pode utilisar ao bem público. Elle mesmo quiz responder em huma Memoria
-as perguntas que lhe fiz por instruçaõ sua, e isto me põe em estado de
-dar huma idéa bem exacta dos methodos, que seguem os oleiros deste lugar.
-Ainda que estas louças saõ conhecidas pelo nome de greda de S. Farjeau,
-com tudo ellas se naõ fazem nesta cidade mas sim em huma pequena povoaçaõ
-que dista huma, ou duas legoas da cidade.
-
-196 Em geral a argilla, que se emprega para a louça que nos occupa, he
-cinzenta; mas della se distinguem duas qualidades; huma mais branca,
-que a outra, tem huma area fina; com este barro se fazem vasos de huma
-greda mais compacta, e fina, do que com a outra, e se coze mais forte.
-Ellas naõ vaõ ao fogo; e por isso desta greda se fazem potes de manteiga,
-quartas, e botelhas etc. Este barro, depois de cozido, toma huma côr
-amarella clara; com tudo, fazendo se passar por hum grande fogo, toma a
-côr cinzenta. Com elle se fazem vasos, que se envernizaõ, e outros naõ:
-para distinguir este barro do outro, eu o chamarei barro branco.
-
-197 A outra especie de barro tambem he côr de cinza, porém mais escura,
-que a precedente; e por isso o chamarei escuro. Os oleiros achaõ esta
-argilla mais forte, e mais pura, que a branca: com este barro he que
-elles fazem os utensis do uso que devem ir ao fogo; naõ o cozem taõ
-forte, como o outro, e huns vasos vaõ envernizados, e outros naõ. Estes
-dous barros, sendo cozidos, tomaõ a mesma côr pouco mais, ou menos, e os
-vasos, feitos de hum, ou outro barro destes, nos lugares, aonde ficaõ
-mais expostos a acçaõ do fogo, se tornaõ brilhantes na superficie, como
-se fossem envernizados.
-
-198 Os oleiros fazem muitas obras de cada hum destes barros separados, e
-puros, sem mistura alguma; tambem as fazem de ambos os barros branco, e
-escuro misturados, sem lhe ajuntarem outro barro, ou area.
-
-199 Ambos estes barros se achaõ mais, ou menos fundo em camadas de dous
-pés, até seis de grosso. Estes bancos de argilla se cavaõ facilmente com
-o enxadaõ, ou enxada.
-
-200 Estes barros saõ bem finos; e moem-se entre os dedos; com tudo entre
-elles se encontraõ calháos, e pedras, e se lançaõ fóra quando se achaõ
-nas maõs, ou debaixo dos pés.
-
-201 Este barro se reduz a pequenos pedaços com qualquer instrumento,
-que corte; depois, humedecendo-se com agua, se amassa até tres vezes, e
-depois se trabalha com as maõs, como fazem os oleiros de París.
-
-202 Muitas vezes o amassaõ, logo que o tiraõ; com tudo os oleiros convem,
-que elle se trabalha melhor, depois de passar hum inverno ao ar; e este
-sentimento he geral em todas as olarias.
-
-203 Como disse acima, que se humedecia para o pôr em estado de ser
-amassado, devo advertir, que o naõ lançaõ na agua, como fazem os oleiros
-de París; porém deitaõ de doze, até quinze baldes de agua em huma carrada
-de barro.
-
-204 Os vasos se trabalhaõ em huma roda, que se faz andar com hum páo,
-como se vê representado na _est. II_, _fig. 4_, e _5_.
-
-205 Põe-se as azas, e se aperfeiçoa a obra, do mesmo modo que fazem os
-oleiros de París, como fica dito.
-
-206 O forno dos oleiros de S. Fargeau, com pouca differença, he o mesmo
-que fica representado na _est. I_, porém he hum pouco metido pela terra;
-de modo que para meter a lenha, se precisa descer a huma cova, que tem
-quasi nove pés de largo, quatro de fundo, e quatro de vaõ. O corpo do
-forno, aonde se arrumaõ os vasos, tem dezenove pés de comprido, dez de
-largo, onde ha maior largura, e seis de alto.
-
-207 Para huma fornada se gastaõ vinte cordas de lenha miuda, ou nove de
-lenha grossa; daqui se vê que estes fornos se esquentaõ por hum modo
-muito differente dos de París.
-
-208 O fogo dura quatro dias, e tres noites sem parar; por doze horas
-he o fogo brando para esquentar, e todo o mais tempo he com muito fogo
-para cozer perfeitamente: quando se para com o fogo, se fecha o forno,
-e fica assim tres dias, e tres noites, de sorte que, quando se tira a
-louça, já ella está fria. Se a louça se tirasse logo huma parte quebraria
-derrepente, e o resto seria muito fragil; e desta sorte o tempo, que
-a louça fica no forno depois de cozida, equivale ao recozimento dos
-vidraceiros, sem o qual tudo se quebraria, principalmente passando do
-quente para o frio.
-
-209 Põe-se no mesmo forno os vasos de barro branco, que naõ se destinaõ
-para servir no fogo, os de barro cinzento, que haõ-de ir ao fogo, e os da
-mistura destes dous barros. Toda a differença, que se observa no cozer,
-he pôr os vasos de barro branco perto da entrada do forno, no lugar aonde
-ha maior calor, e os de barro misturado no meio do forno, e os de barro
-cinzento na extremidade do forno, onde ha menos calor.
-
-210 Os oleiros de S. Fargeau fazem o seu verniz com duas materias mais,
-ou menos vitrificaveis, a que chamaõ _Latier_; este _Latter_ vem das
-fornalhas, em que se trabalha a mina de ferro. Hum he escuro, e em parte
-vitrificado; o outro he verde, e he hum verdadeiro vidro muito duro.
-
-211 Achaõ-se estas substancias espalhadas sobre a terra; ainda que junto
-a S. Fargeau naõ hajaõ fornalhas de ferro; presume-se que as houveraõ
-antigamente. Reduzem a pó por meio de huma maquina de dous pilões que
-se faz mover por huma manivela, e de huma roda; estes pilões na ponta
-debaixo levaõ huma chapa de ferro, como a dos pilões de socar casca de
-curtume. Quando se precisa pouca quantidade de verniz, se pulverisaõ as
-materias, de que acabo de fallar em hum gral com maõ de ferro; passaõ-se
-por huma peneira de cabello; este pó entaõ está da côr de cinza, e os
-oleiros o chamaõ _Latier en laquet_, (escoria para verniz).
-
-212 Applica-se este verniz ao barro crú, porém bem secco; para o pó se
-pegar, se humedecem os vasos em agua, e se pulverisaõ exactamente com
-este pó, que fica muito adherente, quando se derrete pela acçaõ de hum
-grande fogo, e se encorpora a superficie do barro.
-
-213 Como se applica sobre estes vasos crús, o mesmo fogo, que coze o
-vaso, faz derreter o verniz, que se torna escuro côr de castanha, e muito
-duro.
-
-214 Para os vasos de barro branco mais expostos ao fogo se mistura com a
-escoria huma pouca de cinza fresca passada por peneira. Dizem os oleiros,
-que sem isto, o verniz se queimaria. No meio do comprimento do forno se
-põe simplesmente as escorias; e na ponta, aonde ha menos fogo, se ajunta
-ás escorias hum bocado de cal de chumbo para ajudar a fusaõ.
-
-215 Este verniz, como já disse, toma huma côr da castanha muito unida, e
-brilhante, e he taõ bom como o dos oleiros de París; mas he preciso hum
-grande fogo para o fazer derreter: e nisto convem com louças que se cozem
-em greda e todas as de S. Fargeau saõ desta qualidade.
-
-
-_Modo de procurar as louças huma côr negra, que de algum modo supre o
-verniz._
-
-216 Eu tirei do Calendario Limousino, algumas individuações sobre as
-louças de S. Eutropio em Angoumes especialmente sobre as que chamaõ
-panellas, e destas humas saõ envernizadas, e outras naõ; estas vaõ huma
-só vez ao forno, as outras vaõ duas vezes, e nelle se deixaõ tres dias
-para ficarem perfeitamente cozidas. Seu verniz nada tem de particular:
-porém he justo referir huma industria, com que os oleiros de algum modo
-suprem o verniz, tingindo de preto os vasos, que em muitas serventias saõ
-preferiveis aos envernizados. Consiste pois nisto sua industria.
-
-217 Assim que se põe a louça no forno, se lhe lança, por cima cinza
-de Estevas, ou urzes, e se cobrem com ella o mais que póde ser.
-Põe-se depois seis, ou sete feixes deste arbusto no fogo. Depois de se
-inflammarem bem estes feixes se tapaõ as bocas superiores do forno, e se
-sufoca o fogo: a louça deste modo recebe a fumaça, que a penetra, quando
-ella está ainda humida (a que chamaõ suar a louça) quando se começa a
-esquentar, ou a dar a tempera. Esta fumaça ajuntando-se com a cinza faz
-huma côr negra, e muito solida ás louças. Depois desta fumigaçaõ, se
-abrem os buracos superiores do forno, e se continua a cozer a louça.
-
-
-_Louça de Inglaterra._
-
-218 Mr. Jars, correspondente da Academia, sabendo, que eu me occupava
-em fazer a arte de oleiro teve prazer em me communicar algumas memorias
-sobre a louça de Inglaterra, que elle tinha achado entre os papeis do
-falecido seu irmaõ da Academia das Sciencias. Naõ deve haver duvida, que
-se Mr. Jars as tinha publicado, teria ajuntado muitas individuações, que
-as fizessem mais claras; mas julguei devellas dar taes, quaes elle me
-remetteo, persuadido que as pessoas já instruidas no trabalho da louça
-poderaõ nellas achar algumas praticas, que cooperem para a perfeiçaõ
-desta arte.
-
-219 _Comté de Nordhumberlane._ Nas visinhanças da Cidade de Neuwcastle
-se estabeleceraõ differentes fabricas de louça; onde se fazem de toda a
-qualidade, a excepçaõ só da branca, que em França chamamos de barro de
-Inglaterra.
-
-220 Neuwcastle está situada com a maior vantagem para este commercio: o
-carvaõ de pedra he muito, e barato, porque o do gasto do paiz naõ paga
-direito algum.
-
-221 Em quanto aos materiaes proprios para fazer a louça estes tambem
-lhes vem baratos, porque os Navios que vaõ levar o carvaõ a Londres,
-na volta lhos trazem; visto deverem trazer lastro. A materia propria
-para fazer a pederneira, ou pedras de tirar fogo: sabe-se que dellas ha
-grande abundancia na parte Meridional de Inglaterra; pois de Douvres até
-Londres, quasi todo o terreno he huma mistura de greda, e pederneiras.
-
-222 Destas materias fazem o lastro os mais dos Navios, que muitas vezes
-voltaõ de Londres vazios; deves-se suppôr, que tornando a Neuwcastle
-ellas se vendem baratas; os que tomaõ os fornos de cal de empreitada,
-que saõ muitos na visinhança do rio, as compraõ; elles fazem huma mistura
-de greda, pederneira, e pedra de cal sem distinçaõ alguma, e cozem tudo
-acamado, huma cousa por cima de outra. Depois da calcinaçaõ he muito
-facil distinguir a pederneira, ainda que se torna muito branca de escura
-que era dantes; põe se de parte esta pederneira para se vender aos
-oleiros, a razaõ de oito, ou nove xelins a tonelada; e cada huma tem
-vinte quintaes de cento, e doze libras de pezo de Inglaterra.
-
-223 Em geral saõ semilhantes todos os fornos, de que se servem para cozer
-a louça; só differem na construçaõ em serem maiores, ou mais pequenos.
-
-224 A louça ordinaria, que se chama louça fina, para a distinguir de huma
-mais, commum, do que adiante se fallará, se faz de huma argila de côr
-cinzenta, tirando mais a branca, e da pederneira calcinada, que entra na
-composiçaõ de quasi todas as louças. Antes de misturar, ou preparar, como
-se segue.
-
-225 Cada fabrica tem huma especie de moinho, para moer a pederneira,
-que he tocado por agua, ou por hum cavallo; alguns donos destes moinhos
-compraõ a pederneira, e a vendem, depois de moida aos oleiros. Este
-moinho consiste em huma especie de pia de páo de cinco, ou seis pés de
-diametro, cujo fundo se faz de humas grandes pederneiras naõ calcinadas,
-postas humas ao pé das outras de modo, que deixaõ entre si vacuos bem
-consideraveis; no meio deste fundo ha hum mancal, que recebe o piaõ de
-hum páo vertical com hum braço em que se prende o cavallo, ou bois que
-o tocao (no Brazil se chama atafona;) em roda deste páo estaõ muitas
-pederneiras grandes encaixadas, e seguras com gatos de ferro, que servem
-de mós. Mr. Jars, vio destes moinhos, aonde em lugares de pederneiras, se
-servem de marmores durissimos, de que fazem a mó superior, unindo quatro
-pedras grossas com gatos de ferro ao páo vertical.
-
-226 Nestes moinhos, e entre estas pedras, se moe a dita pederneira
-calcinada, lançando-lhe sempre agua; quando a agua está já bem carregada,
-se tira huma cavilha de páo, que está na pia, para cahir agua em huma
-peneira de cabello, e desta em huma celha: lança-se nova agua no moinho,
-e se procede do mesmo modo, que fica dito, lançando outra vez na pia,
-o que naõ póde passar pela peneira; depois disto, se passa por huma
-peneira de seda muito fina, quando se quer misturar com a argilla, que se
-prepara do modo seguinte.
-
-227 A argilla, de que se faz a louça, se tira do condado de Devonshire,
-de donde vem por mar, e serve de fazer lastro aos Navios de volta, como a
-pederneira; tambem se servem della para fazer pitos: posta em Neuwcastle
-custa sete, ou oito xelins a tonelada. He côr de cinza, tirando mais
-o branco; tem a grã muito fina; dilue-se com agua em tanques grandes,
-agitando-a bem para se dividir melhor; depois se passa esta argilla
-desfeita n’agua por huma peneira de cabello taõ fina, como aquella, em
-que se passou a pederneira, e depois em huma de seda taõ fina, como a da
-pederneira; e entaõ se vai logo fazer a mistura.
-
-228 Misturaõ se dez partes de agua carregada de argilla com huma parte da
-agua da pederneira: estando tudo bem misturado, se trata da evaporaçaõ
-da humidade, e reduzir tudo a consistencia de massa, o mais breve que
-for possivel, para que a pedra naõ tenha tempo de se separar da argilla,
-e precipitar-se, o que faria a mistura desigual. Tem-se experimentado o
-calor do sol, mas sem fruto; servem-se de humas especies de fornos para
-esta opperaçaõ.
-
-229 Estes fornos consistem em huma caixa comprida, ou especie de bacia
-formada de tijolos, sustida por cima com barras de ferro: tem huma grelha
-para se fazer ahi fogo de carvaõ de terra, e na extremidade da caixa huma
-chaminé para receber a fumaça. Esta mistura carregada de agua se põe
-nestas para evaporar-lhe a humidade, até huma consistencia conveniente
-para ser amassada; depois disto se tira este barro, e se põe em hum lar
-liso, feito de pedras chatas, ou com taboas: aqui se trata de amassar
-tudo, e pôr a massa em ponto de ser trabalhada.
-
-230 Formaõ-se logo obras a maõ na roda orisontal, quando ellas estaõ já
-meias seccas, se acabaõ na roda vertical com os instrumentos; outras
-finalmente se formaõ em moldes de gesso: para preparar estes moldes, o
-melhor modo de queimar o gesso he o seguinte.
-
-231 O do uso ordinario, que se chama alabastro, parece ser hum gesso
-branco semilhante ao que se tira nas visinhanças de Salins em _Franche
-Comté_; reduz-se a pó que se passa por huma peneira muito fina; depois
-se põe ao fogo dentro em hum vaso de barro; move-se bem com hum páo de
-espaço em espaço; e logo que elle se agita pelos globulos de ar, que
-delle sahem, se chama a isto _fazello ferver_. Continua-se até se julgar
-bem calcinado, depois se humedece com agua para fazerem moldes do modo
-que se quer.
-
-232 Mr. Jars vio preparar bules para chá, cujo corpo se fez com as duas
-differentes rodas; mas a aza, e o bico se fazem em moldes de gesso; estes
-moldes estaõ perto do fogo para estarem seccos. Quando se quer formar a
-aza de hum bule de chá que está feito ordinariamente, se tem hum molde
-que consiste de duas peças de gesso, se applica huma sobre a outra, e
-que saõ ocas com a figura que deve ter a aza; faz-se hum rolo do barro,
-e se estende no molde de maneira, que o encha perfeitamente; applica-se
-por cima a outra a metade do molde; depois se põe tudo ao pé do fogo hum
-bocado de tempo; tira-se a peça do molde, e se ajusta no corpo do bule
-humedecendo o barro com agua no lugar aonde se soldar.
-
-233 Os bicos se fazem por modo alguma cousa differente, tem-se moldes
-semelhantes aos precedentes, bem seccos, e applicados hum sobre outro:
-em huma das extremidades, que communica na capacidade interior, tem hum
-buraco, por onde se lança a massa muito clara, porém de modo, que fica
-huma abertura no interior da peça formada, que vem a fazer o bico do
-bule. O molde de gesso bem secco sem duvida, he o que ajuda a fazer este
-vacuo, embebendo com a sua porozidade a agua da massa do barro, assim
-que esta toca nas paredes do molde. Este molde se põe por algum tempo ao
-pé do fogo, como o outro de que já fallei, antes de se tirar a peça, que
-depois se solda no bule, do mesmo modo que se solda a aza.
-
-234 Mr. Jars, vio em differentes fabricas muitos moldes de gesso para
-fazer pratos, e tigellas recortadas, e com differentes feitios: vantagem
-consideravel, para diminuir o preço da maõ de obra. Toda a louça, feita
-deste modo, se põe sobre taboas debaixo dos telheiros, ou alpendres
-aonde secca; ha caixas redondas feitas de barro ordinario, peneirado
-grosseiramente, porém amassado com muito cuidado; commummente tem duas
-pollegadas de grosso, quatro, ou cinco de fundo, e hum pé de diametro;
-nesta caixa se arruma de ordinario a louça; no forno, se põe huma sobre
-outra; fazem-se muitas ordens no fundo: isto fórma differentes pilhas,
-conforme o tamanho da fornalha.
-
-235 Assim que está quasi cheio se fecha a porta falsa com tijolos, e
-barro, e se lança carvaõ nas cinco fornalhas de vento distribuidas em
-roda da fornalha grande. Quando se accende, entra a chama naõ só pelas
-cinco chaminés, mas tambem pelas pequenas aberturas, que vaõ ter a cada
-huma dellas; assim o calor se introduz igualmente por todo o interior da
-fornalha: este calor deve continuar trinta horas, depois que pára o fogo;
-logo que esfria a fornalha, se tira a louça para a envernizar.
-
-236 Todos os vernizes, de que se usaõ, tem por base o chumbo; tambem se
-servem da pedra, ou mina de chumbo, o zarcaõ, e o alvaiade, conforme a
-qualidade da louça; accrescenta-se-lhe alguma outra materia para variar a
-côr. Para diminuir o preço do verniz se lhe ajunta huma certa quantidade
-de pederneira calcinada, e a mesma argilla, de que se faz a louça; assim
-que secca o verniz, com que se cubrio a louça, se põe de novo nas caixas,
-e depois na fornalha, como se fez d’antes, e ao cabo de trinta horas
-está em termos de ser vendida.
-
-237 Pode-se usar de toda a qualidade de carvaõ para a cozer.
-
-238 A louça assim preparada, e cozida, como fica dito, naõ está subjeita
-ao perigo de se quebrar pelo calor da agua fervendo, ou pelo fogo,
-com tanto que se naõ ponha de repente em hum fogo muito ardente. Esta
-louça serve para cozer no forno toda a qualidade de manjares, mas
-principalmente a louça branca, que se fabríca no Condado de _Stafford_. A
-sua descripçaõ tambem se ha de dar.
-
-239 O interior da louça cozida he muito branco, e de huma grà muito
-compacta. Ainda que se lhe naõ percebe apparencia de vitrificaçaõ, se
-pode dizer, que se avisinha muito a ella.
-
-240 Fabrica-se outra especie de louça no mesmo lugar, e fornalha, que
-se faz com outra argilla escura, como a precedente: nesta naõ entra a
-pederneira; mas a sessenta partes deste barro se ajunta huma parte de
-magnesia reduzida a pó muito fino: depois desta mistura, se evapora a
-maior parte da humidade em hum forno semelhante ao precedente; cobre-se
-de hum verniz negro, em cuja composiçaõ entra tambem a magnesia; esta
-louça passa pelas mesmas operações, que a primeira, e resiste igualmente
-ao calor.
-
-241 Muitas vezes se applicaõ desenhos em ouro sobre esta louça negra;
-para isto se tem hum licôr, que se chama _goldsize_ ou mordente, que se
-traz de Londres: he huma especie de verniz composto de differentes modos;
-com este verniz pinta o obreiro tudo, o que quer, sobre a louça alguma
-cousa ainda quente; depois do que applica sobre a pintura folhas de ouro
-batido (ou paõ de ouro,) e com hum pé de lebre se faz cahir o ouro dos
-lugares, que naõ foraõ envernizados; põe-se depois esta louça em huma
-pequena fornalha, que está de parte, com grades de ferro, e sua chaminé;
-o fundo he huma chapa debaixo da qual se põe o carvaõ, a fumaça, e a
-chama sahem pela chaminé.
-
-242 Pouco distante desta fabrica ha hum lugar em que se faz louça
-grosseira, e que vai ao forno huma só vez, porém com hum fogo continuado
-por quarenta horas. A fornalha he semelhante á precedente; porém muito
-maior; tem sete fornalhas de vento, e sete chaminés, em lugar de cinco,
-que a outra tem. Estas fornalhas de vento saõ quasi de cinco pés de
-distancia de hum centro a outro.
-
-243 A argilla cinzenta que serve para a louça, de que se acabou de
-fallar, na vista he em tudo muito semelhante á de que se servem em
-Staffordshire para a louça branca; com tudo as experiencias, que della se
-fizeraõ, tem provado, naõ ser susceptivel da mesma impressaõ do sal, para
-a cobrir de hum bom verniz.
-
-244 _Louça do Condado de Stafford_. As minas de carvaõ tem dado lugar a
-hum estabelecimento de fabricas de louça de todo o genero nas visinhanças
-da Cidade de Neuwcastle; por isso as de louça branca saõ mais numerosas.
-Dizem que ha de dez a quinze mil almas empregadas nas minas de carvaõ, e
-nas fabricas de louças; mas sem contradiçaõ o maior numero se occupa na
-louça. Naõ se vem ali senaõ pequenas povoações habitadas de oleiros, e
-fabricas deste genero em toda esta parte do Condado de Stafford, e hum
-grande numero de fornalhas, principalmente nos lugares aonde se tirou, e
-aonde ainda se tira carvaõ.
-
-245 A argilla, de que usaõ para a louça branca, he de duas especies,
-quasi semelhantes; só se faz differença dellas pelo uso como adiante se
-dirá. Tira-se de Devonshire, e dizem, que esta provincia a dá para todas
-as fabricas de louça de Inglaterra. A pederneira, de que se faz tambem
-hum grande uso, se tira de Gravesande, ou verdadeiramente das margens do
-Tamisa.
-
-246 O ponto principal desta louça, isto he, para a ter bem branca, e
-livre de manchas, consiste na preparaçaõ da argilla, e em sua mistura
-com a pederneira; põe-se a argilla em hum tanque com agua para a fazer
-humedecer; dilue-se bem, agitando-a com hum pedaço de páo, esta agua
-assim carregada se coa, para outro tanque por huma peneira de cabello,
-para separar, o que naõ está diluido, esta se torna a lançar no primeiro
-tanque. Espera-se que haja huma suficiente quantidade de argilla já
-pãssada, e depois se agita fortemente, e se passa por huma peneira fina.
-Para a misturar com a pederneira, se faz o mesmo, que em Neuwcastle em
-Northumberland; a pederneira se calcina do mesmo modo em hum forno de
-cal; e depois se pulverisa, e liviga em hum moinho tocado ordinariamente
-pela agua; a pederneira neste estado he levada a fabrica. Para a mistura
-ser perfeita, se deve diluir em agua na mesma consistencia, em que estava
-a argilla.
-
-247 A proporçaõ he de ajuntar huma parte de pederneira a seis partes de
-huma destas argillas; e a cinco partes da outra argilla se ajunta huma de
-pederneira. Depois da argilla ter sido passada por peneiras duas vezes,
-como acima se disse, se torna a passar terceira vez por huma peneira
-ainda mais fina, e entaõ he que se medem as porções.
-
-248 Deve haver huma pequena celha, que se enche seis vezes da argilla
-passada pela peneira; e depois se enche huma vez da agua da pederneira,
-e assim se continua até haver a quantidade da massa, que se quer; para a
-mistura ficar perfeita, precisaõ as duas massas, ou aguas de argilla, e
-pederneira, ter igual consistencia, e se mexem bem ambas juntas; e depois
-se tornaõ a passar quarta, e quinta vez por huma peneira fina e desta
-ultima vez se coa no tanque de tijolos, que tem por baixo o fogo.
-
-249 As peneiras se fazem com fio de cambraia mais, ou menos fino; os
-caixões, ou tanques de tijolo, onde se põe a seccar a materia, saõ
-semelhantes áquelles que se usaõ nas fabricas, de que acima se fallou;
-a mistura de barro e area secca nelles lentamente, agita-se huma vez por
-outra com huma pá para seccar mais com igualdade; neste tanque fica até
-ter a consistencia precisa para ser trabalhada; entaõ se leva esta pasta
-para huma especie de sobrado bem limpo, e com muito aceio, aonde hum
-homem com os pés o trabalha, e amassa até julgallo proprio para fazer a
-louça.
-
-250 Todas as péças, que naõ levaõ molduras, nem saõ recortadas, se formaõ
-sobre huma roda vertical, que hum menino faz mover; a que he de molduras,
-se forma em moldes de gesso. Estes moldes de gesso consistem em huma peça
-de gesso, que tem interiormente a figura que deve ter a peça ou seja
-prato, ou tijella, ou outra qualquer, no qual gesso se gravou o desenho,
-que se quer dar a peça.
-
-251 Bate-se e trabalha-se hum bolo de barro, depois se estende com hum
-rolo. Depois que se estendeo o barro tanto, quanto quer o official, se
-põe sobre o molde aonde se aperta bem com as maõs, e se molhaõ na agua,
-se he preciso, para a massa se naõ pegar a elle, e tambem para fazer liza
-a parte exterior do prato, ou tijella.
-
-252 Este trabalho se faz em hum quarto onde ha fogo, para que os moldes
-sempre estejaõ bem seccos, e que, depois de algumas horas, se possaõ
-tirar as peças, que nelles se formaraõ.
-
-253 Como he preciso pulir as louças nos lugares, aonde naõ levaõ verniz,
-para tomarem melhor o verniz; logo que tem seccado alguma cousa á sombra
-as mesmas obras, que se fizeraõ na roda vertical, se levaõ ao torno,
-aonde se aperfeiçoaõ, e se fazem mais iguaes; e depois disto, se pulem na
-mesma roda ou torno, applicando lhe por cima huma folha de ferro liza,
-nos lugares, que devem ser pulidos. Da mesma sorte se fazem em moldes
-peças redondas; as peças ovaes, que naõ podem ser pulidas no torno, se
-lavaõ bem com huma esponja, e agua, e depois com hum pedaço do mesmo
-barro cozido, e pulido, se pulem todas as partes, que o devem ser.
-Esta louça ordinariamente se arruma em taboas a sombra para ahi seccar
-inteiramente antes que se ponha no forno.
-
-254 Nas visinhança de Neuwcastle ha argilla propria, para fazer as caixas
-em que se põe a louça; estas caixas saõ redondas, fazem se-lhe em roda
-cinco, ou seis buracos de duas em duas pollegadas, e de meia pollegada
-de diametro; seu tamanho he proporcionado aos das peças, que se querem
-meter nellas.
-
-255 Quando se quer arrumar a louça nestas caixas, os meninos preparaõ o
-que a deve suster; e saõ huns pequenos pedaços da mesma argilla formados
-em parallelipipedos; e, estando ainda muito humidas, se applicaõ sobre
-greda pizada grosseiramente, que se pega sobre toda sua superficie, com
-isto se guarnece o fundo das caixas, e destes parallelipipedos se servem
-para suster cada huma das peças, para que ellas naõ toquem humas nas
-outras; por se naõ pegarem com o verniz; esta greda de todo se naõ pega a
-louça, e nem lhe faz a menor marca, e se o faz em algumas peças, estas se
-rejeitaõ.
-
-256 Os fornos, em que se faz cozer esta louça, saõ pouco mais, ou menos
-semelhantes a estes, de que se tem fallado: a differença, que ha,
-consiste só em que elles commummente tem oito fogos, e por conseguinte
-oito chaminés interiores; mas estas chaminés só tem a abertura superior.
-Dizem que estas pequenas aberturas, que os outros tem, para a louça
-envernizada, faria mal a louça branca, porque a chama, que sahe da
-envernizada indo dar nas caixas da louça branca a faria amarella. _Outra
-differença_: toda a porçaõ espherica da abobada, está guarnecida de
-buracos, que naõ saõ precisos para as outras louças; fazem-se logo oito
-em roda da fornalha, no principio da abobada, postos entre cada chaminé,
-depois outras dezeseis por cima, e finalmente seis em roda do buraco
-principal, que estaõ no meio da abobada, e que serve de chaminé. Estes
-buracos tem tres, ou quatro pollegadas de diametro; no tempo da operaçaõ
-se tapaõ: seu uso adiante se dirá.
-
-257 Todas as caixas, que encerraõ a louça se põe humas sobres as outras,
-e formaõ differentes pilhas; metem-se no forno de modo, que haja huma
-pilha destas caixas debaixo de cada hum destes buracos, de que se acaba
-de fallar. Como ha trinta e hum buracos, comprehendendo a abertura do
-meio, ou chaminé principal, põe-se trinta, chamadas pilhas; a ultima
-caixa, que faz a extremidade da pilha, se cobre com testo feito de barro,
-de figura conica.
-
-258 A louça branca vai só huma vez ao fogo, mas he hum fogo continuo, que
-atura quarenta, e oito horas.
-
-259 O tempo de lhe dar o verniz por meio, ou adjutorio do sal marinho,
-he quasi quatro, ou cinco horas, antes de se acabar de cozer; depois
-que a louça tem sofrido hum fogo de quarenta, e tres, ou quarenta, e
-quatro horas, se trazem, para junto do forno, oito alqueires (medida
-de Inglaterra) de sal marinho (que he quanto basta para hum forno da
-capacidade deste, de que acabo de fallar.) Ha hum levantado em roda da
-abobada ou corpo espherico do forno, sobre o qual sobem dous obreiros,
-que com huma colher de ferro lançaõ pelos buracos sal marinho, sobre
-cada huma das cubertas de cada pilha. Logo que lançaraõ o sal, tornaõ
-a tapar os buracos, que tinhaõ aberto, para introduzir as colheres, e
-continuaõ assim andando em roda do dito forno, lançando em cada buraco
-a mesma quantidade de sal, pouco mais, ou menos. Elles fazem isto mesmo
-por tempo de quatro, ou cinco horas, e naõ deixaõ outro intervallo, senaõ
-o que he preciso, para sahir a grande fumaça, que faz o sal. A cuberta,
-ou testo de cada pilha deve ser de tal figura, que o sal lançado por
-cima, cubra inteiramente a pilha; quando cahe, entaõ o acido do sal se
-introduz ao interior das caixas, toca a superficie da louça, e accelera
-a vitrificaçaõ da pederneira, que entra na composiçaõ da mesma. Esta
-vitrificaçaõ exterior he o unico verniz, que se lhe dá.
-
-260 O sal com que se faz esta operaçaõ, he muito branco, e em gràos
-grossos, quasi semelhante ao que se faz em Lons-he-Saunier, para o gasto
-dos Suissos.
-
-261 O preço desta louça he de meio xelim até dous xelins a duzia de
-tijellas; este ultimo preço he o da louça melhor e de boa côr; o primeiro
-preço he da louça de refugo. A qualidade do carvaõ naõ he essencial para
-fazer a louça melhor, ou inferior.
-
-
-
-
-ARTIGO XII.
-
-_Do oleiro de fogareiros._
-
-
-262 Ainda que os oleiros, que fazem os fogareiros, e cadinhos para os
-Chymicos, chamados _fournalistas_ façaõ hum mesmo corpo com os que
-fazem os ladrilhos, utensis do uso, e outras obras, de que já fallei,
-pareceo-me justo tratar separadamente das obras dos que fazem fogareiros,
-e mais instrumentos chymicos; porque seu modo de trabalhar he muito
-differente da pratica dos outros oleiros.
-
-263 Os de París se servem como os outros oleiros da argilla, que
-tiraõ em Gentilly. Para a amaciarem, e tornalla ductil, e propria a
-ser trabalhada; cortaõ-na em pedaços sobre huma taboa, como os outros
-oleiros; estes pedaços cahem em tinas, ou celhas com agua: quando está
-já bem penetrada da agua, a tiraõ para a amassarem. Se a argilla he
-muito forte, elles a fazem magra, como os outros oleiros; mas para
-isto naõ se servem da area: quando elles se propõe fazer obras usuaes,
-como esquentadores para serventias pequenas, ou fogareiros para fazer
-esquentar os ferros de engomar, e outras obras, que se daõ baratas: neste
-caso ligaõ o seu barro com escorias de ferro pizadas, e passadas por hum
-crivo, misturando depois partes iguaes deste pó, e do barro; porém para
-os fogareiros chymicos, como elles tem de soffrer hum fogo violento, e
-continuo, convem substituir a area huma substancia capaz de resistir á
-maior acçaõ do fogo, e naõ se tem achado outra cousa melhor para liga,
-do que os pedaços destes vasos de greda escura, que serviraõ de trazer
-manteiga de Isignes; dizem elles, e eu naõ sei se he com fundamento, que
-a louça de Picardia naõ he taõ boa como a de Normandia.
-
-264 Seja como for elles compraõ aos tendeiros estes pedaços de greda de
-Normandia ás medidas; elles os pizaõ com huma massa de ferro, ou de páo
-guarnecida de ferro, sobre huma pedra muito dura, ou hum calháo, que se
-põe sobre a ponta de hum páo grosso; depois os passaõ por hum crivo bem
-fino, para que as molecudas da greda se reduzaõ, quando muito, ao tamanho
-de hum graõ de milho: elles misturaõ pouco mais, ou menos tanto deste pó,
-como da argilla, ou cinco partes deste pó com quatro de argilla; porque
-elles dizem, e com razaõ, que os fogareiros saõ tanto mais fortes, quanta
-maior porçaõ levaõ deste pó, e que argilla deve ser quanta baste para o
-ligar, finalmente usaõ deste pó mais fino para os cadinhos, do que para
-os fogareiros.
-
-265 Os oleiros que fazem os fogareiros preparaõ argilla, como os outros
-oleiros; elles escolhem á maõ todos os corpos estranhos, que encontraõ,
-quando a cortaõ, e amassaõ; mas escolhem com mais cuidado aquella, que
-destinaõ para fazer cadinhos; elles a trabalhaõ, e a amassaõ sobre huma
-meza, e lançaõ fóra com muito cuidado todos os calháos, pyrites, ou
-fragmentos de pedra calcar, que encontraõ nas maõs. Alguns para fazerem
-os cadinhos mais perfeitos, depois de terem feito seccar a argilla, a
-pulverisaõ, e a passaõ pela peneira; se elles achaõ huma veia de barro,
-que contém muitos destes corpos estranhos, o põe de parte para fazerem os
-fogareiros, e reservaõ o barro mais puro para os cadinhos.
-
-266 Amassaõ o barro, como os outros oleiros, põe o pó do barro cozido
-sobre hum sobrado, e a argilla por cima; depois de terem feito a
-primeira amassadura, tiraõ o barro do meio para os lados, e dos lados
-para o meio. Alguns amassaõ o barro batendo-o sobre huma meza com huma
-massa de ferro, e acabaõ de o amassar trabalhando-o nas maõs.
-
-267 Até o presente se vê, que o trabalho destes differe pouco dos outros
-oleiros; porém elles senaõ servem de roda nem de moldes ocos, para formar
-suas obras; fazem-nas inteiramente a maõ, como explicarei.
-
-268 Os fogareiros portateis, que estes fazem naõ servem aos Chymicos;
-pois para certas operações, se formaõ outros de hum feitio particular;
-elles mesmos os fazem com tijollos, que unem com o barro dos fornos, ou
-com argamassa de cal, e ladrilho moido, ou com hum luto, composto de huma
-parte de barro, outra de esterco de cavallo secco, e de duas de area.
-
-269 Alguns fazem a sua argamassa com hum bocado de barro de fornos,
-e muita cinza de lixivia, ou _cenrrada_, passada por huma peneira,
-e humedecida com agua. Mas como os tijollos communs naõ resistiriaõ
-a certas operações, por serem faceis de vitrificar, se fazem estas
-fornalhas mais fixas com tijollos, e barro de cadinhos.
-
-270 O barro destes tijollos he o mesmo, que se usa para fazer os
-fogareiros portateis; estes tijollos se fazem em moldes de páo, que
-se enchem deste barro. Assim que os tijollos tomáraõ hum bocado de
-consistencia, depois de tirados dos moldes, batem-nos sobre huma taboa
-para comprimir o barro: mas com cuidado para os naõ desfigurar.
-
-271 Os mestres dos fornos fazem estes tijollos quadrados, quasi do mesmo
-modo, que os ordinarios, e tambem os meios tijollos quadrados, para fazer
-os igualamentos.
-
-272 Para dar varias figuras aos fornos os mestres fazem tijollos de certa
-bitola, e figura _est. II_, _fig. 13_. E os Chymicos se servem delles
-para fazer fornos redondos, de sorte que algumas vezes quatro tijollos
-fazem a circunferencia de hum pequeno forno, para os grandes se carecem
-muitos mais. Ainda que se mude a curvatura destes tijollos segundo a
-figura, que se quer dar ao forno, sempre se tem meios tijollos, que saõ
-muito commodos para igualar as superficies. Estes tijollos se fazem em
-caixilhos, ou moldes, como os tijollos ordinarios: _a_ _est. II_, _fig.
-14_. he para fazer os apoios dos cadinhos; e _b_, dos quadrados.
-
-273 Os mestres dos fogareiros saõ os que preparaõ os materiaes, e os
-Chymicos as põe em obra, unindo os tijollos com barro de forno, ou com as
-argamassas, de que já fallei. Entre o cinzeiro, e a fornalha se põe huma
-grade de ferro, alguns tapaõ as portas ou aberturas com huma chapa de
-ferro delgada; outros se contentaõ em pôr por cima das portas hum pedaço
-de ferro chato, á maneira de portal. Dentro do laboratorio, que está por
-cima da fornalha, se põe humas chapas de ferro para supportar hum banho
-de area, ou cucurbitas, ou retortas, ou cadinhos; finalmente fazem mais
-fortes estes fornos, pondo-lhes por fóra humas chapas delgadas de ferro,
-que o cercaõ por todos os lados: porém naõ ha cousa melhor para segurar
-os tijollos, e impedir, que se naõ despeguem com a força do fogo, do que
-prender na argamassa, que os une pedaços de redes velhas de arame de
-ferro de tostar o tabaco rapé: estas naõ fazem enchimento, e por causa
-dos buracos, e desigualdades destas redes fazem huma excellente liga
-com a argamassa. Naõ entro em grandes individuações sobre as fornalhas
-fixas, porque isto naõ he huma parte essencial dos oleiros, que fazem
-fogareiros; as fornalhas portateis, ou fogareiros para o uso dos
-Chymicos, que verdadeiramente fazem a base desta arte, saõ os de que eu
-vou tratar com alguma maior individuaçaõ.
-
-274 Os oleiros mestres de fogareiros, ou fornalhas portateis as fazem
-quadradas; taes saõ as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_,
-e algumas de fusaõ _fig. 16_; mas as fornalhas de digestaõ, e as
-de reverbero, em huma palavra, quasi todas as fornalhas portateis
-saõ redondas. Humas saõ de huma só peça isto he cinzeiro, fogaõ, e
-laboratorio; naõ tem mais que por-lhe em cima a abobada: outras saõ
-formadas de muitas corôas, que se põe humas sobre outras; algumas se põe
-sobre huma trempe de ferro, e estas naõ tem cinzeiro, porque a cinza
-cahe no chaõ; porém a maior parte tem hum cinzeiro, hum fogaõ, onde se
-põe o carvaõ sobre huma grade, que deixa cahir a cinza, e dá passagem
-ao ar, que aviva o fogo. Os mestres de fogareiros algumas vezes fazem
-estas grades de barro; entaõ he huma chapa de barro redonda, em que se
-abrem muitos buracos; outras se servem de grades de ferro. Por cima do
-fogaõ está hum espaço, que se chama o _laboratorio_, porque neste lugar
-he que se põe o banho de maria, ou de area, ou huma retorta: tem huma
-abertura por onde se introduz o collo, ou huma cucurbita, ou cadinhos; e
-todas estas cousas sustidas por algumas peças de ferro, e muitas vezes
-acaba tudo por hum corpo espherico, ou zimborio, que serve de reverberar
-o calor sobre a retorta, ou os cadinhos, que estaõ no laboratorio. Ha
-sempre no alto do zimborio huma abertura de tres ou quatro pollegadas
-de diametro conforme o tamanho da fornalha, e esta abertura tem algumas
-vezes huma ponta de tubo, para se poderem ajustar nella tubos mais
-compridos, quanto se quer augmentar a actividade do fogo; porque para
-accender-se o carvaõ com mais vivacidade, e produzir muito mais calor,
-se precisa estabelecer na fornalha huma corrente de ar, que entre pelo
-cinzeiro, e saia por cima da fornalha. Ora esta corrente de ar depende
-da ligeireza do ar quente, em comparaçaõ ao pezo do ar frio, e esta
-ligeireza se augmenta a proporçaõ, que elle se esquenta mais, e tambem
-á proporçaõ de huma maior columna de ar quente no cume da fornalha:
-e assim para se augmentar a actividade do fogo na fornalha, precisa,
-que possa entrar por baixo huma sufficiente quantidade de ar frio, e
-ajuntar por cima da fornalha huma extensaõ de tubos, para se fazer assim
-huma maior columna de ar quente, que serve como de huma bomba maior; he
-preciso tambem, que o diametro deste tubo seja proporcionado ao tamanho
-da fornalha; eu naõ envestiguei sobre estas proporções, porque ellas naõ
-pertencem ao official: este se deve conformar com as ordens do Chymico,
-que varia isto, conforme as operações, que pretende fazer.
-
-275 Ha outras mais aberturas, tanto no zimborio, como no corpo da
-fornalha, que se abrem, ou se fechaõ para augmentar, ou diminuir o calor,
-conforme se quer, e levallo mais para huma parte da fornalha, do que para
-outra; para isto se deixaõ estes buracos abertos, ou se fechaõ, quando
-se julga a proposito, com batoques feitos mesmo de barro: a isto chamaõ
-registros.
-
-276 Devem-se fazer muito grossas as paredes das fornalhas, para que naõ
-escape o calor para o laboratorio, onde incommoda ao artista, e ao mesmo
-tempo falta para operaçaõ.
-
-277 Eu disse que os mestres de fogareiros faziaõ fornalhas quadradas,
-e dei por exemplo as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_;
-ellas tem hum cinzeiro _a_, que tem huma porta, por cima da qual está
-o laboratorio _b_, e huma abertura que naõ se communica dentro da
-fornalha, mas sim huma especie de forno, feito de barro de cadinhos
-delgado, chamado _moufles_, ou receptaculo; delle fallarei, quando
-tratar dos cadinhos: este laboratorio está sustido por grades de ferro,
-que atravessaõ o interior da fornalha, e de todas as partes cercado por
-carvões ardentes; no _moufle_, ou receptaculo he que se põe os cadinhos
-para fazer as experiencias dos metaes, das peças esmaltadas, e dos
-cadinhos para certas operações. A fornalha he cuberta por hum zimborio
-quadrado, em cima do qual está huma grande abertura, que se póde tapar
-com hum testo, ou se lhe põe hum tubo, quando se quer que o fogo tenha
-huma grande actividade. Por meio deste receptaculo, se podem expôr a hum
-grande calor as materias, sem receberem alguma impressaõ de fumaça, nem
-mesmo vapores de carvaõ.
-
-278 A _fig. 16_. _C_, representa huma fornalha de fusaõ, na qual se
-accende o fogo com hum folle; e por isso he que naõ tem grade no cinzeiro
-_a_, nem abertura por baixo na parte _a_, _d_, nem tubo em cima para
-fazer maior corrente, de ar na fornalha; o folle faz as vezes desta
-corrente de ar.
-
-279 A parte _aa_, _aa_, _B_, he huma peça de barro, que fórma a parte
-debaixo do cinzeiro, onde se póde notar huma abertura _b_, a qual vai ter
-ao tubo do folle, e o vento sahe pela abertura _c_; o corpo da fornalha
-_dd_, se põe sobre o fundo _aa_. He preciso notar no interior desta
-fornalha huma sahida de barro _ee_, que circula ao redor da fornalha;
-esta se destina para suster a parte _ff_, que fórma a parte baixa do
-fogaõ na altura _dd_; porém tem nos angulos quatro aberturas _gg_, pelas
-quaes o vento do folle entra no corpo da fornalha, que he ao mesmo tempo
-fogaõ, e laboratorio, e aviva o fogo em todas as partes desta repartiçaõ,
-e em toda a circunferencia do cadinho, que está posto no meio do fundo
-_ff_, como se vê indicado nos pontos _dd_. Deste modo fica rodeado de hum
-calor muito vivo, sem receber immediatamente o vento do folle, que sendo
-frio, o refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar. A cuberta, ou testo
-_C_, só se põe quando se tira o cadinho, para apagar o fogo, e fazer
-esfriar a fornalha devagar. Esta fornalha chamada de fusaõ se vê, que he
-muito bem ideada, a que se segue naõ carece de folles.
-
-280 Tambem se póde fazer uso de huma fornalha da invençaõ de Mr. Maquer,
-que produz hum calor muito forte, e vitrifica quasi todas as substancias
-que nella se põe. Esta fornalha naõ tem cinzeiro; põe-se sobre huma
-trempe; por baixo tem huma grade, pela qual cahe a cinza, e dá huma
-passagem livre ao ar. A porta só serve para facilmente se alimpar a
-grade com o esborralhador, no cazo de precisar. A porta he destinada
-para se ajustar por detraz hum cadinho para algumas operações, em que se
-tomasse o fumo, ou vapores de carvaõ; a parte posterior está, como se vê,
-inclinada para traz da fornalha: e a porta grande serve para metter o
-carvaõ na fornalha; he preciso que ella seja grande, porque esta fornalha
-consome muito carvaõ; esta parte faz vezes de zimborio, tem no meio hum
-principio de tubo, para receber os outros tubos, que se ajustaõ huns por
-cima dos outros, e quantos mais se mettem mais calor ha. Bem se vê que
-esta fornalha deve ter muita actividade, porque se estabelece no interior
-huma corrente do ar, estando o fundo todo aberto, e a columna de ar
-quente se eleva muito. Finalmente põe-se no interior algumas grades de
-ferro para sustentar o receptaculo, quando se põe hum cadinho, ou muitos,
-e vasos que contém as materias de que se fazem as experiencias.
-
-281 A _fig. 17_, _est. II_, he hum pequeno forno, de digestaõ destinado
-para entreter em hum calor brando certas substancias por hum tempo
-consideravel.
-
-282 O que aqui se representa, he de folha de ferro, forrado por dentro
-de barro de cadinhos; _a_ he o cinzeiro; _b_ lugar onde se põe o fogo;
-_c_ he huma tapagem, que cobre todo o forno; _d_ he huma torre, onde se
-põe huma provisaõ de carvaõ, por naõ ser preciso pollo a miudo pela porta
-_e_: enche-se de area a capacidade _c_, _f_, e nesta area he que se põe
-os crisoes, ou vasos, que contém as materias postas em digestaõ. Este
-forno, ao contrario daquelles, de que acima fallei, he destinado para
-entreter por muito tempo hum calor brando, e igual; para isto he preciso,
-que a corrente de ar, que deve atravessar este forno, seja vagarosa,
-e bem dirigida. He evidente, que fechando-se exactamente as portas
-_g_, _e_, e os buracos, que estaõ no testo, ou cuberta _h_, da torre
-_d_, o fogo se apagaria, e que, abrindo-se estes buracos, o carvaõ se
-consumiria com presteza, e produziria muito calor. E assim para obter hum
-meio conveniente, se devem abrir alguns dos buracos, que estaõ nas portas
-_g_, _e_, e algumas das que estaõ na cuberta da torre _h_: por meio disto
-o carvaõ, que se pôs na torre _d_, naõ se accende, mas cahe pouco a pouco
-na parte _b_, a medida que se vai gastando o que ahi está; e quando a
-torre he grande, o fogo se entretem por muito tempo no forno, sem ser
-preciso haver com elle algum cuidado.
-
-283 Eu podia trazer hum maior numero de fornos, ou fogareiros, que fazem
-estes oleiros; porém alguns exemplos bastaraõ para fazer comprehender seu
-modo de trabalhar.
-
-284 Todas as fornalhas portateis, ou fogareiros saõ feitas á maõ com
-argilla, misturada com o pó dos vasos de manteiga, como fica dito.
-
-285 Com hum compasso se risca em huma meza a largura, que a fornalha
-deve ter no fundo; depois o oleiro tendo posto sobre a meza hum bocado
-de cinza fina, para que o barro senaõ pegue, estende, como fazem os
-pasteleiros, huma pasta de barro redonda, e a põe sobre o traço que fez
-o compasso; este he o fundo da fornalha; depois com este mesmo barro faz
-outra pasta, que põe em roda sobre a pasta de barro, que fórma o fundo,
-tendo cuidado de os comprimir bem com os dedos, e dar-lhe mais grossura,
-do que devem ter as paredes da fornalha, naõ só porque o barro encolhe,
-mas tambem, porque batendo-o, diminue a grossura. Ajunta outros rolos
-de barro huns sobre outros, e tem o cuidado de os comprimir, e unir
-bem com os dedos para vir a fazer tudo hum só corpo, naõ ficando vacuo
-interposto entre as camadas de barro, porque o ar contido neste vacuo
-faria arrebentar o forno, quando se dilatasse pelo calor. Quando o forno
-chega a altura, em que se deve pôr a grade, por cima do cinzeiro, fórma
-huma pequena sahida ou borda com o mesmo barro para suster a grade.
-
-286 Pensaõ, e com razaõ, que os rolos de barro, comprimidos com os
-dedos deixaõ desigualdades. Depois que o forno tem chegado a huma certa
-altura, o official passa o gume da maõ, de cima a baixo, e ao través, e
-deste modo o une, e torna igual. Esta operaçaõ une a obra, e destroe as
-desigualdades, e a faz compacta, tirando-lhe os pequenos vacuos, que
-teriaõ ficado. Continua por diante a pôr os rolos de barro para levantar
-o forno, e formar a parte, que se chama fornalha, ou o fogaõ; depois
-o laboratorio até o lugar, em que se deve pôr o zimborio, e de vez em
-quando pule a obra, como já fica dito.
-
-287 Sabe-se muito bem, que os fornos saõ mais largos por cima do que
-por baixo. O habito dos bons forneiros he, o que os obriga a observar
-este methodo regularmente, vindo a dar ás paredes dos fornos a devida
-grossura; fazem-lhes varios contornos muito regulares, e para tudo isto
-naõ carecem de regua, nem compasso, he só com a vista, e nem tem outros
-instrumentos, senaõ as maõs, e o instrumento de bater o barro em pasta.
-
-288 Querendo-se formar pequenas chaminés para dar sahida ao vapor do
-fogo, se fazem no corpo do forno buracos, que se tapaõ com o mesmo barro
-disposto na figura conveniente a maõ, ou em molde, e segura-se quasi
-como as azas na louça. Os lugares, em que se péga, para mudar o forno de
-hum lugar para outro, e as sahidas, ou crescimento de barro, que se faz
-por baixo das portas, se começaõ, quando se fórma o corpo do forno, e
-se aperfeiçoaõ, quando se acaba de bater. Feitos assim os fornos, como
-se acaba de dizer, e aperfeiçoada a superficie com os dedos se põe a
-enxugar, e depois se acaba; para isto se bate com huma taboasinha por
-fóra, e mesmo por dentro, quando o diametro o permitte; abrem-se as
-portas com huma faca molhada, finalmente em quanto o barro está ainda
-mole, e ductil, se aperfeiçoaõ todas as partes do forno; e os habeis
-obreiros os fazem com tanta perfeiçaõ, como se fossem feitos em moldes,
-ou em roda.
-
-289 Fazem-se á parte batoques para os registros, e portas para fechar as
-aberturas; escolhem-se em hum numero que ha de differentes tamanhos, as
-peças, que servem: isto he facil; porque, como se fazem de cantos, ou
-quadradas, servem nas aberturas, que se fizeraõ no forno.
-
-290 Os fornos grandes se fazem de muitas peças. O cinzeiro _a_, a
-fornalha _b_, e o laboratorio _c_ saõ formados da differentes peças,
-que se ajustaõ humas sobre outras com encaixes. Como estas peças devem
-ser todas iguaes por medida, para ajustarem humas sobre as outras, os
-oleiros logo que fazem o cinzeiro as medem exactamente o seu diametro
-por cima com hum compasso, e riscaõ esta medida em huma meza, e em cima
-formaõ a peça _c_, que deve ajustar por cima; deste modo o barro encolhe
-com igualdade, e as peças se ajustaõ bem, depois do barro ter tomado
-consistencia se aparaõ, e aperfeiçoaõ os encaixes, e se põe as peças
-humas sobre outras, e se batem com a taboinha, de sorte que o forno
-parece ser de huma peça só.
-
-291 Depois de começado hum forno, se precisa acabar sem parar; porque o
-barro humido naõ se liga com o barro secco, e este já teria encolhido;
-e por isso, sendo preciso parar com a obra, se deve cubrir com pannos
-molhados por naõ seccar.
-
-292 Quando se acaba o forno, se devem fazer em roda, e em differentes
-alturas rasgos fundos, para se passar hum fio de arame grosso, que abrace
-toda a circunferencia do forno, em cada hum destes rasgos; porque isto
-ajuda muito a conservar os fornos.
-
-293 A abobada, que se deve pôr sobre o forno como já disse, tambem se
-faz a maõ e sem moldes, ajustando rolos de barro mais finos, do que
-os do corpo do forno, huns sobre os outros; começa-se por hum traço
-de compasso que mostra a largura de cima do forno, aonde se deve pôr
-a abobada; e para o barro se poder suster toma-se de algum, que se
-amassasse mais duro; e em geral o barro, em que trabalhaõ os forneiros,
-he mais duro, do que o dos outros oleiros.
-
-294 Algumas vezes, em quanto o barro naõ está ainda muito duro, com
-moldes lhe imprimem varias molduras para adorno dos fornos.
-
-295 Os fornos de cadinhos se trabalhaõ do mesmo modo que este, de que
-acabo de fallar, tudo he a maõ; e sem usarem de regua nem compasso, lhe
-daõ huma figura muito regular: só o cadinho deve ser trabalhado por
-differente modo: delles fallarei, quando tratar dos cadinhos.
-
-296 Fazem tubos, para descarregar a fumaça, com o mesmo barro dos fornos,
-e os formaõ com hum cilindro de páo, que he mais grosso em huma ponta do
-que em outra para poder-se tirar o molde, depois do tubo feito, e para o
-barro senaõ pegar ao páo, esfregaõ em cinza muito fina. Assim que o barro
-do tubo ficou alguma cousa duro, batem-no com a taboinha para alizallo, e
-fazello mais compacto.
-
-297 Os oleiros fazem os cadinhos na roda, e os forneiros as fazem a maõ
-em huma especie de torno de páo, que elles chamaõ molde, _c d_, _fig.
-22_, _est. I_.
-
-298 Suposto que disse que os oleiros de Picardia faziaõ bons cadinhos
-com o seu barro de greda, toda via arrebentaõ no fogo, se os esquentaõ
-precipitadamente; porém se os esquentaõ aos poucos resistem a hum fogo
-violento sem se desfigurarem, e resistem a acçaõ dos saes, e metaes
-derretidos.[25]
-
-299 O barro de Gournaes em Normandia he muito bom; elle sopporta hum
-fogo muito grande sem se desfigurar; mas tem o defeito de conter em si
-muita quantidade de pequenas pyrites, e fragmentos de mina de ferro.
-Eu disse, que tinha chegado a remediar ao menos em partes, estas
-faltas, dissolvendo-o em muita agua, e deixando precipitar o que era
-mais pezado, e mais grosseiro, para me servir do barro fino, que se
-precipitava depois.
-
-300 Para fazer os vasos das fabricas de vidros, em que se tem o vidro
-derretido, tres semanas sem interrupçaõ, se escolhe da boa argilla, a
-mais pura, que se possa achar; liga-se com esta mesma argilla bem cozida,
-reduzida a pó. Esta liga se faz em differentes doses, segundo a argilla
-he mais, ou menos macia e ductil, e mais disposta a fechar-se, sendo
-cozida; de sorte que certas argillas cruas naõ podem soffrer senaõ partes
-iguaes de argilla cozida, e outras muito macias podem soffrer cinco, e
-seis partes de argilla cozida em quatro partes da crua.
-
-301 Ha fabricas de vidros, que fazem os seus grandes cadinhos, a que
-elles chamaõ potes, com rolos de barro, como os nossos forneiros, outros
-os fazem em moldes.
-
-302 Os forneiros de París fazem seus cadinhos com argilla cinzenta de
-Gentilly; elles a escolhem, e alimpaõ com mais cuidado, do que para os
-fornos; depois a ligaõ com pouco mais de outro tanto de barro cozido, que
-passaõ por hum crivo hum pouco mais fino, do que para os fornos. Depois
-de terem preparado o barro o estendem pouco a pouco sobre hum molde de
-páo _c_ _est. I_, _fig. 22_, que tem a figura que deve ter o interior do
-cadinho, tendo-o esfregado com area fina, para que o barro senaõ pegue;
-começaõ pelo fundo do cadinho, cobrem o molde com huma camada de barro,
-que tem tres, ou quatro linhas de grosso, e estendem-na pouco a pouco com
-pequenos golpes; e isto fazem com muita destreza, e regularidade. Estes
-cadinhos saõ bons para muitas operações, ainda que naõ podem supportar
-hum fogo muito grande, nem ter saes em fusaõ, como fazem os cadinhos de
-greda, e os de Allemanha.
-
-303 Do modo seguinte os tenho feito para as pequenas experiencias
-de mina. Dissolvi a argilla de Gentilly em muita agua, e deixei
-precipitar os corpos mais pezados; fiz depois seccar a argilla pura,
-que se precipitou em ultimo lugar; depois a pizei, e passei por huma
-peneira fina. Com estas preparações separei da argilla todos os corpos
-estranhos, a excepçaõ só das substancias, que estavaõ muito soltas, e em
-particulas minimas: liguei esta argilla com o pó dos vasos de manteiga
-passados por peneira fina, e formei os cadinhos em hum molde de cobre
-comprimindo-os, do modo que se faz o forno dos pitos. Estes cadinhos eraõ
-bons; com tudo naõ podiaõ soffrer hum fogo grande, e me achei melhor
-com a argilla branca, de que se fazem os pitos em Normandia; pois esta
-argilla commummente he mais izenta de substancias estranhas, do que ás
-argillas de côres. Digo commummente, porque ha argillas brancas, que saõ
-mui fusiveis, e carregadas de partes metallicas; e por isso o mais seguro
-he experimentallas antes de fazer uso dellas; visto que se pode dizer
-em geral, que he preciso escolher huma argilla, que naõ seja fusivel, e
-sobre tudo, que naõ tenha mistura de pyrites, de substancias metallicas,
-nem de area vitrificavel; porque os saes, ou substancias metallicas,
-que se põe nestes cadinhos vitrificaõ estas substancias estranhas ao
-barro, e os cadinhos ou rachaõ, ou furaõ. Havendo huma argilla pura,
-e refractaria, que dá ductilidade a pasta, se precisa, como já fica
-dito, ligalla com algum pó de tijollo, para impedir á argilla, de se
-encolher, e rachar ao cozer. He preciso, que estes pós de tijollos sejaõ
-refractarios: por isto nas fabricas de vidros se servem da argilla, que
-elles mesmos fizeraõ cozer; e para os cadinhos pequenos bastaõ os pitos
-bem cozidos, e feitos em pó. Os forneiros fazem uso do pó dos vasos de
-manteiga de Normandia: desgraçadamente sua argilla naõ he tal, como se
-poderia desejar. Elles o sabem; e para fazer seus cadinhos melhores,
-misturaõ muito pó de greda com a argilla; porém entaõ naõ fica muito
-compacto o barro dos cadinhos, e deixa passar pelos poros as materias,
-que tem em fusaõ, quando estaõ muito fluidas. Os cadinhos de greda naõ
-tem este defeito; e assim he preciso observar huma justa proporçaõ nestas
-ligas; porque, pondo-se muita argilla crua, he bem difficil de impedir o
-racharem os cadinhos ao seccar, ou ao cozer; e pondo-se muito pó, ficaõ
-os cadinhos com pouca firmeza, e naõ podem suster o pezo dos metaes, e
-tendo os poros muito abertos, o metal, e sobre tudo os saes, os penetraõ:
-por isso dizem alguns, que he preciso misturar-lhe hum bocado de area
-vitrificavel. Mr. de Reaumur, por exemplo, se achou bem em fazer cadinhos
-com partes iguaes de greda, area, e barro de pitos.
-
-304 As ligas seguintes saõ exageradas por alguns; mas eu nunca as
-experimentei.
-
-305 Duas partes de argilla boa, pura, e bem secca, duas partes de pó de
-vasos de greda, huma parte de area; alguns lhe ajuntaõ hum bocado de
-limalha de ferro, e agua salgada.
-
-306 Outro: seis partes de argilla secca, duas partes de _caput mortuum_
-de agua forte, duas partes de pó de vasos de greda, huma parte de
-escorias de ferro, e huma de vidro muido, e hum bocado de cal desfeita ao
-ar.
-
-307 Outro: partes iguaes de argilla secca, de amianto, talco espurio, ou
-terra de gelo, ou mica.
-
-308 Fazem-se cadinhos em figura de copos; algumas vezes se lhe faz hum
-pequeno aperto por cima, formando bico: tambem se fazem triangulares,
-para vasarem o metal com mais commodo. Finalmente fazem-se para ensaiar
-minas de metaes preciosos; estes terminaõ em ponta _d_, para que o metal
-derretido se ajunte melhor no fundo do cadinho; entaõ se lhe faz hum
-pequeno pé para que elles se sustenhaõ melhor dentro, e fora do forno.
-
-309 A respeito das capsulas, e cabeças só differem dos cadinhos por sua
-figura, assim como certos cadinhos com pé, a que os Francezes chamaõ
-_tutes_.
-
-310 As mangas, ou receptaculos para os fornos de crisoes se fazem com o
-mesmo barro dos cadinhos; estende-se o barro bem delgado sobre huma meza,
-assim como fazem os pasteleiros; corta-se hum pedaço desta pasta para
-fazer a parte de cima do receptaculo; põe-se este pedaço sobre hum molde
-_a_, para lhe fazer tomar huma curvatura conveniente, e servindo-se do
-mesmo molde se lhe ajusta por baixo o fundo, e por detraz outro pedaço
-para fechar huma das pontas do receptaculo, estando bem justos estes
-differentes pedaços, se deixa endurecer hum pouco o barro; entaõ se
-acaba de fazer esta peça: com huma faca molhada se lhe abrem os pequenos
-buracos dos lados, e estaõ promptos para se cozerem.
-
-311 Para fazer huma retorta o forneiro faz o corpo sobre hum torno, ou
-molde de páo, como os cadinhos, e o bico em outro molde, que he huma
-cavilha hum pouco curva; com a maõ aperfeiçoa a parte mais larga do bico;
-e acaba soldando, e reunindo as duas peças.
-
-
-_Do modo de cozer os fornos, e cadinhos._
-
-312 Tem havido Chymicos, que pretenderaõ naõ ser preciso cozer os fornos;
-porque elles servindo, viriaõ a adquirir o gráo de cozimento, que lhe
-convem: eu naõ sou desta opiniaõ. Os fornos, que só saõ seccos sem se
-cozerem, correm o risco de quebrar quando se faz preciso mudallos de
-lugar; além disto, qualquer bocado de agua que lhe caia os humedece, e os
-faz em pedaços. Por isso he preciso cozer os fornos, e os cadinhos; mas
-os forneiros só daõ hum meio cozimento.
-
-313 O forno, de que se servem os louceiros, he quadrado, e rente com o
-soalho; faz-se de tijollo a abobada: quasi em pé e meio do terreno se
-põe huma grade de ferro; mette-se a obra no forno, entrando por baixo da
-abobada pela porta. Quando ha obras pequenas, que podem caber por entre
-as grades, interpõe-se grades miudas por entre as principaes. A grade de
-ferro se põe quasi pé e meio por cima do soalho do forno.
-
-314 Estando o forno cheio de differentes obras, levanta-se sobre a grade
-de ferro huma tapagem de tijollos. Sendo feita esta tapagem sobre a
-grade, fica por baixo hum espaço, pelo qual se mette a lenha necessaria
-para cozer: a tapagem só chega até tocar a abobada; fica hum espaço por
-onde sahe a fumaça, que naõ tem outra sahida; ella he recebida pelo tubo
-da chaminé.
-
-315 Accende-se de manhã hum pequeno fogo para esquentar, ou fazer seccar
-as peças; augmenta-se pouco a pouco, e a obra em hum dia fica cozida
-tendo gasto pouco menos de hum carro de lenha; prefere-se a lenha bem
-secca para fazer maior chama. Deixa-se esfriar a obra hum dia, ou dous,
-depois se tira, e esta em termos, de se entregar aos Chymicos.
-
-316 Fazem-se pratos de barro para cadinhos, que saõ de varios tamanhos:
-servem ordinariamente de apoio, quando se mettem debaixo dos cadinhos, e
-das retortas: algumas vezes se servem delles para cubrir os cadinhos.
-
-
-_Aqui apresento tambem as seguintes notas que Mr. Dymares da Academia das
-Sciencias me communicou, quando já estava quasi impressa esta arte do
-louceiro._
-
-317 Em Sauxillanges, e Marzac, duas pequenas cidades de Avergne, a
-primeira vizinha de Issoire, e a segunda distante de Ambert, quasi duas
-leguas, e meia, se fazem cadinhos para uso dos ourives; sua figura he
-conica; onde os ha de todos os tamanhos; a sua principal venda se faz em
-Leaõ.
-
-318 Os louceiros de Sauxillanges tiraõ seu barro perto de Monge no
-dominio de Moye; elles naõ cavaõ mais de tres, até quatro pés de fundo;
-he huma especie de Kaolin misturada com mica, e area grossa de quartz
-em grande proporçaõ. Lava-se este barro para lhe tirar a area; dilue-se
-o Kaolin na agua, que vai carregada delle, e a area de quartz fica no
-fundo dos vasos. O Kaolin se deposita depois nas celhas, aonde se deixa
-assentar todo o que a agua traz em si.
-
-319 O barro de que se usa em Marzac he da mesma natureza, e se trabalha
-do mesmo modo, que o de Sauxillanges; tira-se trinta, ou quarenta pés de
-fundo, perto da povoaçaõ de Espinasse, dependente da freguezia de Marzac.
-Algumas vezes se mistura o Kaolin com o outro barro argiloso, que se tira
-em Champetrieres, e Castellet perto de Ambert. Desta mistura resultaõ
-cadinhos mais proprios para resistir ao fogo, que os primeiros, e nestas
-vistas he que se cuida muito em cozellos. O barro de Sauxillanges, e de
-Marzac empregados sem mistura ficaõ bem brancos depois de cozidos.
-
-320 Em S. Junien pequena cidade de Limousin tambem se fazem semelhantes
-cadinhos destinados para os mesmos vasos, e de hum barro da mesma
-natureza; tira-se de Malaise vizinha da grande estrada de Limoge para
-S. Junien, e tambem duas leguas distante desta ultima cidade. Este
-barro he a base de toda a louça, que se faz em S. Junien para outros
-usos. Supposto que he muito branco, se coze muito mal, e he sujeito a
-arrebentar ao fogo.
-
-321 Ha tambem muitas fabricas de louça nas cidades de Duris, de
-Gandalounia, e Chavagnai em Limousin. O barro, que os oleiros chamaõ
-neste paiz _toupiniers_, he huma especie de Kaolin, pouco ductil; mas
-o que merece attençaõ he a composiçaõ do seu verniz. Mas para o fazer
-se servem da mina do chumbo de Glanges, que elles calcinaõ, e lhe
-ajuntaõ por fundentes quartz branco da area, de que se servem os nossos
-louceiros. Para reduzir este quartz a pó com facilidade, o põe vermelho
-ao fogo, e neste estado o lançaõ em agua fria; a subita passagem do
-quente ao frio reduz a pó esta pedra: depois a misturaõ com cal de
-chumbo, e livigaõ estas duas substancias juntas, em huma mó.
-
-FIM.
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] Alguns chamaõ argilla a huma terra vermelha, gorda, muito cheia de
-arêa, de que usaõ para os fornos, e por isso em Pariz a chamaõ barro
-de fornos: este barro vem unido com arêa ferruginosa; porém na verdade
-argilla, e barro, saõ dous termos synonimos.
-
-[2] Estes trabalhos consistem em differentes lavagens que naõ podem
-servir para as louças communs por serem muito baratas.
-
-[3] Ha poucas argillas puras, pela maior parte trazem diversas uniões.
-Destinguem-se muitas especies 1º. argilla branca em Alemanha _Weisser
-thon_. Esta he a mais pura, e mais propria para as obras de louça, tambem
-serve para pitos, de que fallarei em outra parte. Conserva a côr branca
-no fogo, vitrifica-se com difficuldade, endurece a ponto de dar faiscas
-de fogo. 2º. A argilla cinzenta em Alemanha _Schwarzgrauer thon_ menos
-pura que a primeira, e por isso naõ he taõ propria para a louça fina,
-e só serve para a grossa. 3º. A argilla negra, que toma esta côr dos
-mineraes, de que está carregada, bem lavada e preparada póde servir para
-louça. 4º. A argilla azulada he a mais commum de todas, della se fazem
-tijollos, e telha. 5º. A argilla vermelha escura he a mais fussivel de
-todas; serve para cobrir as outras obras inferiores. Ella tem muita
-impureza, e por isso se passa por peneira antes de a pôr em obra. 6º.
-A argilla amarella tirando a preto, he magra misturada com arêa; serve
-para pratos grossos, e tigéllas, e outras obras que naõ vaõ ao fogo:
-os Alemães a chamaõ _Schulf_. 7º. Argilla esponjoza, que se naõ póde
-trabalhar na roda, he preciso trabalha-la quasi secca. 8º. A argilla
-cinzenta de fazer bilhas como as que vem de Normandia.
-
-[4] Para ter conhecimento exacto da natureza destes barros, se deve
-consultar Vallerio, M. Pott, e o Diccionario de Chymica de Maquer.
-
-[5] A mica he huma especie de pedra folhada, brilhante refractaria: ha
-de muitas especies. Apparecem arêas, com mica, ou malacaxeta, cheias de
-muitas partes brilhantes. As partes brilhantes da mica se asemelhaõ ao
-talco.
-
-[6] Os pyritis saõ mineraes que se assemelhaõ a pedaços de mina por seu
-pezo, e côr resplandecente; e com effeito contém alguma especie metálica;
-porém raras vezes, e em pouca quantidade; e tem muito enxofre, e arsenico.
-
-[7] Terras calcareas saõ aquellas, que expostas a hum sufficiente gráo de
-fogo adquirem todos os caracteres de cal viva.
-
-[8] A arêa para os tijollos deve ser mais grossa, e sem mistura de terra;
-a que se lança na agua, e naõ a tolda he a melhor; a dos montes he
-preferivel á dos rios; se esta estiver carregada de pedra.
-
-[9] _Molde_: os louceiros chamaõ assim hum caixilho de madeira, em que
-elles formaõ os ladrilhos, e tambem, cavados em gesso, que servem para
-fazer com o barro differentes ornatos. 38 _est. I_, _fig. 5_.
-
-[10] Comparando todos os fornos, conhecidos em França, Suissa, Alemanha,
-e Hollanda os mais engenhosos para a economia da lenha, e perfeiçaõ de
-cozer saõ os de Suecia descriptos por Wynblad em huma Memoria que vem no
-Tom. IV. da Arte de telheiro desta obra pag. 112 §. 485.
-
-[11] _Lingueta_, he a separaçaõ dos ladrilhos, que termina alguns fornos
-de louça, por baixo da qual estaõ as aberturas, chamadas _creneaux_ 49,
-52, 130.
-
-[12] _Crenaux_, he a abertura, que se faz no forno, ou para dar huma
-communicaçaõ ao ar quente, ou para escapar a fumaça 50, 134.
-
-[13] _Fausse-tire_, he a separaçaõ da abertura, que formaõ os ladrilhos,
-separando a fornalha do corpo do forno. 50.
-
-[14] Entende-se aqui por tempêra aquelle pequeno calor, que se chega á
-louça 36 horas primeiro a esquentalla só para depois lhe chegar fogo
-forte.
-
-[15] _Chasse_; grande fogo de chama, que se faz no fim do cozimento com
-feiches de lenha, ou madeira rachada. 53.
-
-[16] _Gâchis_ especie de argamassa, ou mistura de huma porçaõ de gesso em
-pó com argamassa de cal, e arêa. 62.
-
-[17] Com ladrilhos de duas côres só assentados com differentes posições,
-se podem formar muitas vistas agradaveis, o Author assevéra que se podem
-fazer até 86 variedades.
-
-[18] _Voguer_ amassar á maõ.
-
-[19] O forno dos oleiros Alemães he muito simples; he quadrilongo, de hum
-comprimento proporcionado a força de cada fabrica, da altura de hum homem
-pouco mais, ou menos. A parte superior tem a figura de hum ovo, ou he
-chata, e baixa compõe-se de terra gorda, e de palha picada para conservar
-o calor. O interior, se faz de tijolos, e com abobada, as paredes de huma
-parte, e outra devem ser fortes.
-
-[20] Os oleiros Alemães para as suas obras communs se servem só do
-lithargirio, a que chamaõ _Glatte_, _Silberglatte_. Piza-se, passa-se
-por huma peneira, e liviga-se sobre huma pedra. Para que o lithargirio
-naõ corra muito, se lhe ajunta huma igual quantidade de area branca, e
-fina. Esta mistura se põe liquida ao dezejo de cada hum; lança-se huma
-quantidade sufficiente no vaso, que se quer envernizar, e que já está
-cozido, move-se e se despeja aquella quantidade, que sobra, e já naõ
-pega. Passado hum quarto de hora, já se póde levar o vaso para cozer o
-verniz. O vaso com o verniz deve estar no forno 16. ou 18. horas. Se o
-verniz, naõ foi bem livigado, fica desigual, e cheio de graõs.
-
-[21] Querendo-se que o esmalte seja branco, misturaõ-se cinco partes de
-estanho com vinte de chumbo; fazem-se calcinar em hum vaso de barro no
-forno de calcinaçaõ. A fornalha se deve esquentar algumas horas antes
-de se lançar nella o chumbo, e a chama deve sempre dar sobre o chumbo,
-para isto deve ser o forno de reverbéro. Deve-se mover o metal com
-huma espatula de ferro até elle se reduzir em cinzas. Entaõ se lança o
-estanho, e se move do mesmo modo, até que este tambem se converta em
-cinzas. Augmenta-se o fogo, até que as cinzas estejaõ abrazadas; entaõ se
-diminue o fogo, e se deixaõ esfriar, movendo-as sempre com a espatula.
-Misturaõ-se estas cinzas com igual porçaõ de sal, e de area; põe-se tudo
-em hum vaso descoberto, e se põe nesta segunda calcinaçaõ todo o sal se
-evapora, a materia contida no vaso se abate, e o peso diminue; porém o
-sal só se ajunta para facilitar a fusaõ. Piza-se a materia calcinada
-em hum gral de ferro, e se liviga cuidadozamente em huma pedra, com
-huma quantidade de agua sufficiente, para a tornar de huma consistencia
-liquida. Cahindo sobre o verniz qualquer bocado de gordura, por pouca
-que seja, desmancha todo o trabalho, porque os metaes tornaõ a tomar sua
-primeira fórma, e o verniz desaparece de cima dos vasos, em que se tinha
-applicado. O pó, cahindo sobre o verniz, faz no esmalte huns pequenos
-buracos.
-
-[22] O _quartz_, he huma pedra dura, côr de leite, meia transparente, e
-vitrificavel, que se acha em muitos lugares, especialmente nas minas.
-Ainda que o _quartz_ se vitrifica, quando se mistura com huma argilla
-vitrificavel, ou chumbo; com tudo por inadvertencia se inculcou esta
-substancia; he melhor substituir o spath, fusivel que se vitrifica mais
-facilmente.
-
-[23] Frittar, he calcinar a materia do vidro, para separar della todos os
-corpos gordos, que dariaõ alguma côr suja ao vidro.
-
-[24] Naõ ha aqui país algum, em que se naõ faça louça para o uso dos
-seus habitantes: ellas saõ mais, ou menos perfeitas segundo a qualidade
-dos barros; mas todas se fazem sobre os principios já explicados. Hum
-observador attento podera contribuir a aperfeiçoar esta arte no lugar,
-que habita, applicando-se a examinar as differentes qualidades de barro,
-suas composições, e suas misturas.
-
-[25] As operações Chimicas naõ se podem fazer, senaõ em cadinhos cozidos
-para poderem resistir a acçaõ dos dissolventes Chimicos, e a hum calor
-muito forte. Os de argilla boa tem o inconveniente de quebrar, passando
-do quente para o frio. Foi preciso procurar-se misturas, que os fizessem
-soffrer estas variações, e ao mesmo tempo conter os metaes derretidos por
-hum grande espaço. Os melhores cadinhos vem de Hessa. Veja-se Arte de
-Porcelana.
-
-Diz Mr. Pott que estes cadinhos se fazem com huma boa argilla
-refractaria, misturada com duas partes de area de mediana grossura,
-separando-se a mais fina por hum crivo. Esta mistura emmagrece o barro,
-e naõ o deixa encolher, nem rachar, nem fazer-se muito compacto, sendo
-cozido; A area deve ser de huma grossura mediana, sendo fina, os cadinhos
-se quebraõ. Mr. Pott diz mais que os cadinhos destinados para fundiçaõ
-de vidros, naõ devem levar area grossa, nem calháos, ou outras materias
-semelhantes, que saõ sujeitas a derreter-se. Para evitar isto, se ajunta
-a argilla o pó da mesma argilla cozida, e pizada grossa; a mistura se faz
-com partes iguaes, ou duas desta argilla cozida; duas, e meia, e ainda
-tres, e huma só da argilla nova, quanto melhor he esta tanta maior porçaõ
-admittem da outra cozida; e deste modo se fazem os grandes cadinhos para
-as fabricas de vidros. Mr. Pott fez hum grande numero de experiencias
-a este respeito: elle misturou a argilla com as caes metallicas, ossos
-calcinados, pedras calcares, talco, amianto, pedra pomes, esmeril, e
-muitos outros, e de todas estas experiencias naõ lhe resultou hum cadinho
-sem defeito em todas as vistas. Com tudo parece, que se poderiaõ fazer
-cadinhos melhores do que todos os conhecidos. Para isto se precisaria
-ter huma boa argilla bem refractaria, isenta de materias piritosas, e
-ainda de barros ferruginosos; este deveria ser lavado com cuidado para
-separar-lhe a area, e depois misturallo com duas, ou tres partes de
-argilla cozida, e pizada grosseiramente. Os cadinhos formados em moldes
-deveriaõ ser cozidos em hum fogo muito forte.
-
-
-
-
-EXPLICAÇAÕ DAS FIGURAS.
-
-_Estampa I._
-
-
-_Figura 1._ _B_, tonel, em que está a agua, para cortar o barro, e o
-diluir, a estampa _A_, o barro _C_, que se corta, o instrumento _D_, que
-serve para cortar este barro.
-
-_Figura 2._ _D_, instrumento, com que se corta o barro.
-
-_Figura 3._ _H_, molde para fazer tijolos de seis faces _G_, _fig. 5_.
-
-_Figura 4._ meza para moldar, _ab_, sustida pelos pés _ee_, _g_,
-_urquain_, que he huma pedra dura, sobre que se põem o molde _dd_, _e_,
-vaso cheio de agua, _f_, plano, _k_, obras postas humas sobre as outras,
-_h_, barro amassado para encher o molde, _i_, monte de area para se
-espalhar sobre o _urquain_.
-
-_Figura 5._ _na vinheta_, monte de barro prestes para se trabalhar.
-
-_Figura 6._ cutelo curvo para cercear os tijolos.
-
-_Figuras 7. 8. e 9._ representaõ o forno, de que se servem quasi todos os
-oleiros, maiormente para cozer os tijolos.
-
-_Figura 7._ representa o plano do forno ao nivel do terreno. _A_, entrada
-da fornalha. _AB_, onde se faz o fogo, como se mostra pelas mesmas letras
-_fig. 8_. _K_, _I_, separações dos ladrilhos, entre os quaes ha espaços
-vasios, para que o ar quente se communique ao forno. Esta separaçaõ,
-que divide a fornalha do interior do forno, se chama _la-fausse-tire_.
-_F_, hum vaõ, ou buraco da porta, chamado _tetin_. Por este lugar se
-entra no forno para lhe arranjar a louça: e em estando cheio, se fecha
-este _tetin_ com hum muro de tijolos, a que chamaõ _la Languete_, em
-baixo desta, ha duas portas, ou aberturas _L_, _fig. 8_. que se chama
-_creneaux_, ou, como dizem os Louceiros _carneaux_: por estas aberturas
-passa a fumaça para o tubo do chaminé _CD_, _fig. 8_. que representa a
-vista do forno pela longitude. _AB_, he a fornalha: _KL_, assoalho do
-forno. Vê-se acima do _K_, _la fausse-tire_. _A_, _E_, _M_, he a abobada
-do forno; em _LM_, está a _lingueta_, abaixo de _C_, os _creneaux_, e
-_CD_, tubo da chaminé para descarga da fumaça. Vê-se em _a_, os tijolos
-da fornalha postos em carreira, para sustentar os tijolos, de que se
-enche o forno.
-
-_Figura 9._ he huma vista do mesmo forno transversal pela linha _GH_, da
-_fig. 7_. por baixo em _AB_, estaõ tijolos de assoalhar, ou vasilhas de
-commodidades, sobre que se arranjaõ as louças, com que se enche o forno.
-
-_Figura 10._ _T_, caldeirinha quadrada, feita a maõ, e sobre a meza de
-aperfeiçoar.
-
-_Figura 11._ alguidar, ou gamela commum de louça.
-
-_Figura 12._ especie de fogareiro chamado _toupine_.
-
-_Figura 13._ escalfador.
-
-_Figura 14._ pequena cassarola.
-
-_Figura 15._ roda dos oleiros vista em golpe.
-
-_Figura 16._ roda dos Oleiros, vista de perfil.
-
-_Fig. 17._ roda dos Oleiros, vista em plano _aa_, meio da roda _ff_,
-arvore da roda, que víra em huma peça de madeira, que se acha acima
-de _g_, a qual se conserva segura pela cruz _hh_, e as prisões _ii_,
-acima do meio _aa_, está o prato _bb_, em que anda a obra _cc_, que se
-trabalha. Os raios da roda se assignalaõ em _dd_, e as peças da roda
-volteadas em _ee_, _K_, as taboletas sobre que se põem as louças _n_,
-que se querem trabalhar sustentadas tambem como o assento _l_, que he
-inclinado pelos montantes _pp_. Avista-se pela parte de dentro as peças
-entalhadas, que servem de assento ao trabalhador.
-
-_Figura 18._ _A_, trabalhador que faz hum vaso na roda de fazer louça
-fina.
-
-_Figura 19._ hum mealheiro, que tambem bem chamaõ _cache-maille_.
-
-_Figura 20._ _A_, _B_, _C_, _D_, _E_, serve para fazer ver como se fazem
-ao torno as vasilhas para as decentes commodidades, como estes potes se
-ajustaõ huns com os outros pelas bocas, como se fazem os potes de duas
-bocas _E_, _C_.
-
-_Figura 21._ _A_, modo de fazer hum vaso com o calibre. O vaso está
-firme, o calibre he que víra.
-
-_Figura 22._ _d_, cadinho com o molde _c_, sobre que o fazem.
-
-
-_Estampa II._
-
-_Figura 1._ 7. _tournassin_, ou _tournassir_, serve para aperfeiçoar o
-fundo dos potes, que se fizeraõ ao torno. Este instrumento he de ferro,
-que se tem de differentes tamanhos, e de diversas fórmas.
-
-_Figura 2._ vaso de greda de Picardia, mais delgado, do que os jarros
-cobre-se por fóra do vime para se preservar. Os que receiaõ da agua,
-que se guardou em vasos de metal, mandaõ pôr em baixo hum registo, ou
-chave, de que se servem, como de huma fonte de cobre. Querendo-se que
-este fique proprio para clarificar a agua, põem-se-lhe placas de estanho,
-que descançaõ em aneis salientes pela parte de dentro, que o Oleiro
-faz em lugares assignalados pelas linhas de pontuaçaõ _a_, e _b_. He
-ainda melhor substituir as placas de estanho com testos de greda quasi
-semelhantes a de _M_, proporcionando o seu tamanho, ao diametro interior
-do vaso, e se põem area entre estes dous testos.
-
-_Figura 3._ vaso grande de barro, chamado _pounes_, do qual se servem
-para salgar as carnes, para fazer as pequenas lexivias, e para conservar,
-nos jardins, agua, que se destina para os regamentos. Faz-se em hum torno
-_EFG_, que se assemelha a huma lanterna de moinho. _IKL_, he o seu eixo
-que se firma na terra, e _u_, faz andar á roda brandamente a lanterna
-_EF_, e a proporçaõ que vai virando se fórma o vaso, accrescentando
-rolos de barro huns sobre outros, que se une com huma peça, chamada
-_atelle_.
-
-_Figura 4._ _na vinheta_, obreiro, que imprime na roda hum movimento
-circular com huma vara, ou páo _a_, chamado _tourneire_, este obreiro se
-assenta no assento inclinado _l_, e põem os pés nos entalhes _m_.
-
-_Figura 5._ obreiro, que imprimindo muito movimento na sua roda, faz
-entre as suas maõs hum jarro.
-
-_Figura 6._ garrafa, ou redoma de greda, cujo bojo se faz ao torno.
-
-_Figura 7._ louças, que se seccaõ arranjadas no recebedor.
-
-_Figura 8._ obreiro, que aperfeiçoa os potes na meza de os preparar.
-
-_Figura 9._ monte de barro preto para o trabalho.
-
-_Figura 10._ candieiro de barro, quasi totalmente feito ao torno.
-
-_Figura 11._ _G_, vista de hum moinho, para moer o verniz.
-
-_Figura 12._ _H_, mó do mesmo moinho.
-
-_Figura 13._ _E_, tijolo de barro para cadinhos, volteado para ficarem
-fixas as fornalhas.
-
-_Figura 14._ _G_, caixilho para moldar tijolos, o qual se faz de
-differentes tamanhos, e diversas figuras, como quadrados, e curvos.
-
-_Figura 15._ fornete de cadinhos.
-
-_Figura 16._ fornete de fusaõ, em que se deve animar o fogo com folles.
-
-_Figura 17._ pequeno _athanor_, ou fornete de digestaõ. Tem em _d_, hum
-reservatorio de carvaõ, que faz poder-se conservar por muito tempo hum
-fogo brando, sem se precisar lançar-lhe continuamente o carvaõ.
-
-
-_Estampa III._
-
-Nesta Estampa se representa hum forno, de que usaõ muitos Oleiros, mui
-parecido com os fornos das louças finas.
-
-_Figura 1._ mostra o exterior do forno. _A_, a boca da fornalha: deve-se
-descer por hum fosso para se lhe introduzir a lenha. _LM_, o _tetin_, ou
-abertura, pela qual se entra por baixo na camara para se pôrem os potes.
-A parede que fecha esta abertura, estando a camara cheia, naõ se dilata
-até o alto da abertura, por este lugar sahe a fumaça recebida no cabaz,
-e tubo. _N_, se sobe para a camara superior pela escada _P_, e a fumaça
-escapa pelas aberturas _K_. O _tetin_, para pôr a obra nesta camara, está
-no alto da escada _P_.
-
-_Figura 3._ he a fornalha, em que se mette a lenha: sua boca he em _A_.
-
-
-
-
-TABOA
-
-_Das Materias, e Explicaçaõ dos termos proprios á Arte do Louceiro._
-
-
- A.
-
- Abertura, que se dirige ao forno para o encher, a qual se fecha
- com huma parede de ladrilhos, antes de se introduzir o fogo.
- _Pag._ 51. 130.
-
- Acido vitriolico, se acha em muitas argillas §. 6.
-
- Agua grossa, agua em que se mistura huma pouca de argilla, serve
- para pegar o verniz em pó nas obras de louça 144.
-
- Alabastro, sorte de gesso empregado em Inglaterra na louça 231.
-
- Alquifoux, mina donde se tira o chumbo, que he brilhante azulada
- mui pezada quebradiça, e abundante de enxofar 141.
-
- Amassar a argilla 32.
-
- Ambert, Cidade da baixa Auvergne.
-
- Annel, _vid._ _Viret_.
-
- Aparas, obras que se naõ tem levado ao forno 31.
-
- Aperfeiçoar, concertar á maõ as obras que se fizeraõ ao torno, e
- pôr-lhe azas, e pés.
-
- Apodrecer, _vid._ Invernar.
-
- Arcueil, Cidade de França 27.
-
- Area misturada com argilla 13.
- Seu uso na louça 17. 32.
- Fusivel, vitrificavel, e metalica 18.
- Para fazer tijolos 25.
- Serve para moldar 48.
-
- Argamassar, amassar o barro, quer seja simples, quer se componha
- de muitas misturas juntas 4.
-
- Argilla, barro gordo compacto ductil, amolessendo-se em agua 2.
- Ductibilidade da argilla 5.
- Sua dureza depois de cozida 7.
- Sua côr 11.
-
- Argilla para as louças de Inglaterra 227.
- Para as louças brancas de Staffordshire 245.
-
- Assento, taboa inclinada, que faz parte do torno do Louceiro, sobre
- que se assenta o trabalhador.
-
- Ateille, pedaço de madeira, ou de ferro, que tem huma certa figura,
- e que se póde comparar com o que os pedreiros chamaõ calibre, para
- fazer as molduras 75. 95.
-
-
- B.
-
- Barro gordo _vid._ Argilla.
-
- Barro de ladrilhos 12.
-
- Barro de telhas _Ibid._
-
- Barro de tijolos _Ibid._
-
- Barro de cadinhos _Ibid._
-
- Barro de pitos _Ibid._
-
- Barro, bom barro 70.
-
- Barro branco 196.
-
- Batoques _vid._ Registros.
-
- Beauvais, Cidade Episcopal da Picardia.
-
- Bonnet les-Oules (Saint) Parroquial do Fores.
-
-
- C.
-
- Cadinho _vid._ Crizões.
-
- Calcaria (pedra) pedra, que pela calcinaçaõ naõ se vitrifica
- totalmente, mas se converte em cal 13.
-
- Calibre _vid._ Ateille.
-
- Candieiro de barro 122.
-
- Cassarolas, vasos de barro 118.
-
- Castellet, Villa de Auvergne 319.
-
- Champetieres, Villa de Auvergne 319.
-
- Chumbo (mina de) dá-se impropriamente este nome a huma _cal de
- Chumbo_, que pela calcinaçaõ toma huma côr vermelha, chamada
- chumbo vermelho, zarcaõ, ou minium.
-
- Coadores, vaso de barro 120.
-
- Cortar o barro, he dividillo em talhadas, mas delgadas que forem
- possiveis 30.
-
- Curto (barro) assim chamaõ os Oleiros a hum barro, que naõ sendo
- bem ductil, naõ se póde estender muito sem se quebrar.
-
- Cutelo _vid._ Faca.
-
- Creneaux, aberturas que se fazem no fornete, quer para dar huma
- communicaçaõ de ar quente, quer para sahir a fumaça 50. 134.
-
- Crisoes, ou cadinhos (barro de) 185.
- Cadinhos de Picardia 298.
- Seu cozimento 312.
-
- Crivo para passar o barro 71.
-
- Cozimento da louça 24.
-
-
- D.
-
- Devonshire, Provincia Meridional de Inglaterra, onde ha muito bons
- Pórtos frequentadissimos. Exeter he a sua Capital.
-
- Digestaõ (fornete de) 281.
-
-
- E.
-
- Ebauchoir, pequeno pedaço de madeira cortada de diversos modos, de
- que se servem os Escultores, para fazerem seu molde, ou em barro,
- ou em cera 127.
-
- Escalfador, sorte de vaso 94.
-
- Espinasse, Villa de Auvergne dependente da Paroquia de Marzac.
-
- Esquentador 125.
-
- Eutrope (Saint) Villa de Angomes.
-
-
- F.
-
- Faca de dous cabos para cortar o barro 30.
-
- Faca curva para aparar os ladrilhos 45. _est. I._ _fig. 6._
-
- Fargeau (Saint) Cidade de França no Gatinnes.
-
- Fausse tire, separaçaõ que formaõ os tijolos, apartando o fogaõ do
- corpo do forno 50.
-
- Fio de lataõ, instrumento para cortar o barro: he huma ponta de fio
- de arame guarnecida de hum punho em cada extremidade: faz-se a
- arbitrio, e se apropría conforme a posiçaõ que lhe querem dar 35.
-
- Fogareiros, ou fornalhas portateis, quadradas 274.
-
- Forno de cozer os tijolos 49. _est. I._ _fig. 7. 8. 9._
-
- Forno do Louceiro 129.
- Outro forno 132. _est. III._ _fig. 1. 2. 3._
- De Prá em Lionnes 163.
- De Franche ville 179.
- De Beauvais 187.
- De S. Fargeau 206.
- Do Condado de Northumberland, em Inglaterra 235.
- Do Condado de Stafford 256.
- Fornete de vento de Mr. Macquer 280.
- Forno dos Oleiros 313.
-
- Fornalha, lugar do forno, em que se põem a lenha, ou carvaõ 286.
-
- Fornalha de fusaõ 274. _est. II._ _fig. 16._
- De calcinaçaõ para o esmalte 93.
-
- Fornistas, trabalhadores que fazem fornetes, e cadinhos para os
- Chymicos 262.
-
- Franche-Ville, Aldêa no Leonnes, em que se faz louça 171.
-
- Fritar, calcinar a materia do vidro 100.
-
- Fusaõ (fornalha de) fornalha principalmente destinada para a fusaõ
- dos metaes, em que se accende o fogo com folles 279.
-
-
- G.
-
- Gauchis, especie de argamassa, a que se mistura huma porçaõ de gesso
- em pó, com argamassa de cal, e de area, ou bitume 62.
-
- Galmier (Saint) pequena Cidade do Forez.
-
- Gaubino, assim chamaõ no Lionnes a huma argilla cinzenta, muito pura,
- da qual se faz huma louça fechadissima, e pouco propria para o
- fogo 176.
-
- Gentilles, pequena Villa da Ilha de França.
-
- Gesso _vid._ Alabastro.
-
- Gimble, dá-se em alguns lugares este nome ao prato do torno que
- sustem a obra 75.
-
- Gournay, Cidade de Normandia no paiz de Bray, celebre pelas suas
- manteigas, de que se faz huma grande venda em París.
-
- Greda (louça de) saõ as que se aproximaõ mais a Porçolana 181.
-
- Greda de Normandia 23. 182.
- de Bretanha 23.
- de Beauvais 23.
- de S. Fargeau 23. 194.
- de Flandres 23.
-
- Gesso 231.
-
-
- H.
-
- Huma amassadura, o que se amassa de huma vez com os pés 32.
-
-
- I.
-
- Inglaterra (louça de) 218.
- Louça negra 240.
-
- Invernar, he deixar o barra extrahido da mina em hum fosso, ou em
- montes ao ar, o que contribue para se alisar melhor 28.
-
- Isigny, Cidade grande na baixa Normandia, com hum pequeno Porto 21.
-
- Issoire, Cidade de França na baixa Auvergne 317.
-
- Jonc _vid._ _Viret_.
-
- Junien (Saint) pequena Villa da baixa Marcha.
-
-
- K.
-
- Kaolin, he huma argilla branca, que ainda cozida, conserva a sua
- alvura, a qual naõ he muito ductil, e frequentemente se acha
- misturada de differentes substancias, como a mica, espato etc. 321.
-
-
- L.
-
- Laboratorio assim se chama, o lugar do forno, em que se põem os
- cadinhos cucurbitas, e as differentes substancias que se querem
- pôr ao fogo 274.
-
- Ladrilhos, modo de os fazer 30.
- Tijolos chamados ladrilhos 37.
- Caraolar _Ibid._
- Triangulares, quadrangulares _Ibid._
- Oitogonos 39.
- Hexagonos _Ibid._
-
- Langueta, uniaõ de ladrilhos, que termina alguns fornos de louças,
- em baixo desta estaõ as aberturas, chamadas _creneaux_ 49. 52. 130.
-
- Latier, ou Latter, escorias de ferro, que se desprendem nas fornalhas,
- e serve aos Louceiros para envernizarem as suas obras 211.
-
- Latier, _en Laquet_, he esta escoria de ferro reduzida a pó.
-
- Lithargirio, ou chumbo rubro _vid._ Chumbo.
-
- Louça de S. Germain, Parroquia de Beauvois 183.
-
-
- M.
-
- Masso de ferro, proprio para socar o barro 71.
-
- Malaise, Cidade no Lymoussin 320.
-
- Manganesia, mina de ferro pobre, e refractaria de hum azul denegrido
- cheia de granitos 144.
-
- Marcassita _vid._ Manganesia.
-
- Marzac, Villa de Auvergne, onde se fabricaõ cadinhos para os
- ourives 317.
-
- Meio, parte da roda do Louceiro de barro 75.
-
- Mealheiro, vaso de barro commum, inteiramente fechado só com huma
- fenda por cima por onde se introduz dinheiro, e para o tirar se
- precisa quebrar este vaso 88.
-
- Mica, especie de fragmentos talcosos, que se achaõ misturados com
- pedra, ou area 13.
-
- Meza de moldar 41. _est. I._ _fig. 4._
-
- Meza de madeira, em que se põem o barro amassado para se trabalhar
- 71. _est. I._ _fig. 5._
-
- Mina de chumbo _vid._ Chumbo.
-
- Minio _vid._ Chumbo.
-
- Montmoreau _vid._ S. Eutrope.
-
- Moufle, pequeno forno de barro cozido, que se põem nas fornalhas
- quadradas _vid._ Fornalhas portateis 277.
-
- Molde, os Oleiros daõ este nome a hum caixilho de madeira, em que
- elles formaõ os _creneaux_: tambem ha concavo de gesso, que serve
- para formar com o barro differentes ornatos 38. _est. I._ _fig.
- 5._
-
- Moldes para fazer os cadinhos 297.
-
- Moldar os ladrilhos 37.
-
- Moldes empregados nas Fabricas de louças de Inglaterra 251. 254.
-
- Moinho para moer a pedra para as louças de Inglaterra 155.
-
-
- N.
-
- Nibelle, pequena Villa de Gatinnes 25.
-
- Northumberland, Provincia de Inglaterra: louça deste París 219.
-
-
- P.
-
- Panellas, grandes vasos de barro, mas commummente de greda 216.
-
- Pedra calcaria 43.
-
- Pitos 32.
-
- Plaina, peça de madeira para moldar as obras 41.
-
- Prá en Forez, Aldêa do Lionnes, em que se fabríca Porçolana 157.
-
- Prevalais, Parroquia de Bretanha 190.
-
- Pyrites, substancia mineral que contém pouco metal, e muito enxofre,
- ou arsenico 13.
- Má liga para a louça 16.
-
-
- Q.
-
- Quartz, pedra dura côr de leite meia transparente, e vitrificavel 152.
-
- Qualidades da boa louça 19.
-
-
- R.
-
- Regadores feitos de barro 123.
-
- Registros, aberturas feitas em differentes lugares do forno, que se
- abrem, ou fechaõ com rolhas para diminuir, ou aumentar o fogo 275.
-
- Rodas empregadas na fabrica de louça 74.
- Roda de ferro 75. _est. I._ _fig. 5._
- Roda de madeira _vid._ Forno.
-
-
- S.
-
- Sal marinho, seu uso para as louças de Inglaterra 259.
-
- Savignier, pequena Cidade da Picardia 183.
-
- Sauxillanges, pequena Cidade de Auvergne, em que fazem crizoes para
- os ourives 317.
-
- Serra, fio de lataõ, que serve de desprender as obras de cima do
- prato _vid._ Fio de lataõ.
-
- Seccar as obras 44.
-
- Staffordshire, Provincia de Inglaterra, em que se fazem louças
- brancas 244.
-
-
- T.
-
- Taboa da roda 76.
-
- Talhas para ensaboar 89.
- Para brazas 121.
-
- Tamiz para passar a pederneira 249.
-
- Terra calcaria 13.
- Modo de a experimentar 14. 22.
-
- Tetin _vid._ Abertura.
-
- Toupiniers 321.
-
- Torno, roda de madeira, que se faz virar com o pé, para formar sobre
- o prato as obras, que se querem fazer, como se faz na roda do
- Louceiro 80. _est. I._ _fig. 18._
-
- Torno Inglez 250.
-
- Tounassin, instrumento de ferro algum tanto cortante, a que se dá
- differentes figuras; serve para trabalhar por baixo dos vasos,
- que se despegaõ de cima dos pratos 11.
-
- Tempera, lançar a agua sobre o barro para o amollecer 30.
-
- Temperar, dar hum pequeno fogo as louças para acabar de seccar antes
- de se dar o grande fogo para as cozer 54.
-
- Testos dos fogareiros, e escalfadores 94.
-
- Tutes, especie de cadinho com pé como o de hum vidro de beber agua 309.
-
-
- V.
-
- Urquain, pedra dura compacta, ou taboaõ de madeira, sobre que se
- põem molde, para formar as louças, e grandes tijolos 41.
-
- Vanvres, Parroquia, ou Freguezia da Ilha de França 70.
- Do Condado de Stafford 252.
-
- Vasos de despejo, sorte de pote sem fundo em forma de tubo redondo,
- mais largo de huma ponta do que da outra, serve para as decidas dos
- lugares de recreio 92. _est. I._ _fig. 20._ Tambem se fazem de pedra
- de roca.
-
- Vasos de Jardim 96. 126.
-
- Vasos para flores communs 91. _est. I._ _fig. 17._
-
- Verniz, reboco de huma substancia vitrificada, de que se cobre a louça
- de barro 18. 189.
- Outro methodo de applicar o verniz 146.
- De Prá em Lionnes 165.
- De Franche-ville 180.
- De S. Fargeau 212.
- Do condado de Northumberland em Inglaterra 236.
-
- Virador, vara que serve para imprimir o movimento circular na roda
- de ferro 79. _est. II._ _fig. 4._
-
- Viret, ou virola sorte de anel de barro que forma salientes.
-
- Voguer, manear, e amassar o barro á maõ para lhe separar os corpos
- estranhos, e alimpar mais perfeitamente 71.
-
-
- Z.
-
- Zimmeren, Villa de Luxembourgo, onde se faz louça 191.
-
-
-
-
-INDICE
-
-DOS ARTIGOS QUE SE CONTEM NESTA OBRA.
-
-
- _Observações preliminares._ Pag. 3.
-
- _Artigo I. Do trabalho da louça, segundo o uso de Pariz._ 22.
-
- _Artigo II. Dos ladrilhos, e como se amassa o barro, com que
- elles se fazem._ 23.
-
- _Como se moldaõ os ladrilhos._ 28.
-
- _Do forno, e do modo de se arranjar nelle os ladrilhos para
- se cozerem._ 35.
-
- _Artigo III. Das obras dos ladrilhos._ 41.
-
- _Artigo IV. Modo de fazer os differentes vasos; e utensilios
- domesticos com o mesmo barro, que serve para fazer os
- ladrilhos._ 49.
-
- _Modo de fazer os vasos na roda._ 52.
-
- _Descripçaõ da roda de ferro._ _Ibid._
-
- _Do torno, ou roda, que os Oleiros de obra grossa tomaráõ,
- dos de obra fina._ 55.
-
- _Trabalho do Oleiro sobre a roda._ 58.
-
- _Como se podem formar obras no torno com hum calibre._ 65.
-
- _Como se fazem ao torno os vasos grandes de Jardim._ 66.
-
- _Vasos grandes de barro cozido._ 69.
-
- _Artigo V. Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na
- meza para lhe pôr azas, e pés._ 74.
-
- _Artigo VI. De algumas que totalmente se fazem á maõ._ 80.
-
- _Artigo VII. Das obras, que se fazem com moldes._ 82.
-
- _Artigo VIII. Do modo de enfornar as obras de olaria, e
- cozellas._ 84.
-
- _Artigo IX. Descripçaõ de outra especie de forno, que
- usaõ os Oleiros dos arrabaldes de S. Antonio para cozer
- suas obras._ 86.
-
- _Artigo X. Do verniz, ou vidrado que se põem na louça._ 90.
-
- _Primeiro Methodo._ 92.
-
- _Sobre as louças de Lionnes._ 101.
-
- _Da louça de Prá, em Forez._ 102.
-
- _Louça de Franche ville, no Lionnes._ 105.
-
- _Artigo XI. Das louças, que se chamaõ de greda._ 108.
-
- _Das louças de S. Fargeau._ 116.
-
- _Modo de procurar para as louças huma côr negra, que de algum
- modo supre o verniz, ou vidrado._ 123.
-
- _Louça de Inglaterra._ 124.
-
- _Artigo XII. Do Oleiro de Fogareiros._ 144.
-
- _Notas da Academia Real das Sciencias._ 173.
-
- _Explicaçaõ das Figuras._ 176.
-
-
-
-
-ERRATAS
-
-Nota do transcritor: Corrigido; e alguns erros adicionais também foram
-corrigidos.
-
-
- _Pag._ _Lin._ _Erros_ _Emendas_
-
- 4 5 conisderar considerar
-
- 8 8 deffere differe
-
- 12 11 se ttrara se tirar a
-
- _Ibid._ 9 percente persente
-
- _Ibid._ 19 pricipitadas precipitadas
-
- 15 17 he saõ
-
- _Ibid._ 18 queima-se queimaõ-se
-
- 16 21 que que que
-
- 17 20 e precisa se precisa
-
- _Ibid._ 33 quando misturando quando se misturaõ
-
- 18 1 a seu o seu
-
- _Ibid._ 12 a hum de hum
-
- 19 13 commuus communs
-
- 20 7 salgadeiras saleiros
-
- _Ibid._ 27 as utensis os utensis
-
- 22 4 avou vou
-
- 22 11 seu o o seu
-
- 26 18 acabada acaba
-
- 31 23 tilheiros telheiros
-
- 34 4 sahe sahem
-
- _Ibid._ 29 defferentes differentes
-
- _Ibid._ 4 sahe sahem
-
- 43 27 elle estes
-
- 47 6 as portas os postos
-
- _Ibid._ 13 as levanta os levanta
-
- 48 13 e untaõ untaõ
-
- 52 10 _Fig. 15._ _Fig. 5._
-
- 53 26 e cambas cambas
-
- 54 17 caimba camba
-
- 57 16 perde ella _adde_ o seu movimento
-
- 60 7 mealheilro mealheiro
-
- _Ibid._ 30 o qual a qual
-
- 61 2 insaboar ensaboar
-
- _Ibid._ 19 esses estas
-
- 64 2 _tab._ _est._
-
- 68 4 se po-chegar se pode chegar
-
- _Ibid._ 5 e se de guraapertando e se segura apertando
-
- 71 11 destinadas destinados
-
- 74 3 torno; que torno; pois o que
-
- 75 13 indireitar endireitar
-
- 76 17 o pegar apegar
-
- 77 22 so poem se poem
-
- 80 18 moido, e passado moida, e passada
-
- 95 18 quer querem
-
- 102 10 Feroz Forez
-
- 103 19 do barro _adde_ escuro
-
- _Ibid._ 27 se estes amassaõ-se estes
-
- Onde se achar levigar, levigados, _lêa-se_ livigar, livigados.
-
- E onde invernizar, invernizadas, _lêa-se_ envernizar, envernizadas.
-
- 147 25 cenrada cenrrada
-
- 153 1 _fig._ _fig. 15._
-
- 158 28 a une o une
-
- 159 14 fazem-lhe fazem-lhes
-
-[Illustration: _Louceiro de barro Simples._ _Est. I._]
-
-[Illustration: _Louceiro de barro Simples._ _Est. II_]
-
-[Illustration: _Louceiro de barro Simples._ _Est. III._]
-
-
-
-
-
-End of Project Gutenberg's Arte de louceiro, by José Ferreira da Silva
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DE LOUCEIRO ***
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Arte de louceiro, by José Ferreira da Silva
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
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-
-
-
-Title: Arte de louceiro
- Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas
-
-Author: José Ferreira da Silva
-
-Release Date: May 13, 2020 [EBook #62115]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DE LOUCEIRO ***
-
-
-
-
-Produced by Júlio Reis and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
-produced from images generously made available by The
-Internet Archive/Canadian Libraries)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage larger">ARTE DE LOUCEIRO</p>
-
-<p class="center">OU</p>
-
-<p class="center">TRATADO SOBRE O MODO DE FAZER<br />
-AS LOUÇAS DE BARRO MAIS<br />
-GROSSAS,</p>
-
-<p class="center">TRADUZIDO DO FRANCEZ<br />
-<span class="smaller">POR ORDEM<br />
-DE</span><br />
-SUA ALTEZA REAL,<br />
-O PRINCIPE REGENTE,<br />
-NOSSO SENHOR,<br />
-<span class="smaller">POR</span><br />
-JOSE FERREIRA DA SILVA</p>
-
-<div class="figcenter titlepage" style="width: 150px;">
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-</div>
-
-<p class="titlepage">LISBOA<br />
-<span class="smaller">NA IMPRESSAÕ REGIA.<br />
-ANNO DE 1804.</span></p>
-
-<p class="center"><i>Por Ordem Superior.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse"><i>Ars dux certior.</i></div>
-<div class="verse right">Cic.</div>
-</div>
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p>
-
-<h1><span class="smcap">ARTE de LOUCEIRO<br />
-DE BARRO SIMPLES.</span></h1>
-
-<h2 id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇAÕ.</h2>
-
-<p id="section1">1 A Arte do Louceiro consiste em
-fazer vasilhas, e outras obras de barro,
-que se embebe em agua para o amolecer, e
-se amassa e se dá depois differentes figuras;
-e se fazem cozer para lhe dar
-solidez, conforme esta definiçaõ, o que
-faz pitos, o louceiro, e os que fazem
-porcelana saõ oleiros; porém fazem obras
-mais perfeitas do que estes de que vamos
-a fallar. Assim entende-se por oleiros,
-os que fazem obras communs, e que
-por isso se podem dar baratas.</p>
-
-<p id="section2">2 A argilla<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a>, que se chama tambem<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span>
-terra barrenta, faz a base das terras de
-que usaõ os oleiros, e he a proposito dar
-os caracteres que a fazem particular destinguindo
-das outras terras. Para isto a
-vou considerar em seu estado de pureza,
-ainda que he difficil, ou talvez impossivel
-obtella sem mistura de differentes
-substancias estranhas, que mudando
-sua natureza; humas vezes a tornaõ
-mais propria para as obras de oleiro,
-e outras obrigaraõ os oleiros a trabalhos
-consideraveis para purificar o barro, sem
-o que seria inutil.<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a></p>
-
-<p id="section3">3 A argilla<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> ou barro puro he formada
-de partes muito finas, que se unem<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span>
-muito humas ás outras; porque estando
-amontuadas em massa, e unidas humas
-ás outras, cheguando a hum grande
-gráo de secura, endurecem, de sorte
-que hum torraõ de argilla exactamente
-amassado, e bem secco, contrahe huma
-dureza de pedras: por causa das suas partes
-serem muito finas, neste estado he
-susceptivel de tomar certo polimento:
-he macia, e saponacea ao toque; e por isso
-he que se chama a esta <i>terra gorda</i>. Ella
-atrahe a humidade, o que a faz pegar a
-lingua se acaso a toca; tambem se une
-bem ás substancias gordas; e por isso
-serve para tirar certas nodoas.<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p>
-
-<p id="section4">4 Depois de ter cortado, ou quebrado
-em molleculas de mediocre tamanho, se
-deixaõ ficar na agua, de que ella se carrega
-em abundancia; ella se incha á proporçaõ
-que se carrega da agua e se póde
-desfazer huma pequena quantidade em
-muita agua. Mas quando se lhe naõ lança
-bastante para a reduzir a huma especie
-de lama, e que se amassa como adiante
-explicaremos, he o que se chama <i>argamassar</i>,
-ella se faz glutinosa, e fórma
-huma massa muito ductivel, que se póde
-estender sem a quebrar; de sorte, que
-hum habil oleiro chega a fazella tomar
-differentes figuras; e quando se usa della
-em massa alguma cousa mais dura, se póde
-fazer hum grande vaso, com pouca grossura
-sem este se desfazer pelo pezo.
-Quando a argilla está assim bem amassada,
-ou argamassada, de sorte que faça
-huma massa firme, naõ he penetravel á
-agua, em quanto naõ sécca, por isso se
-usa della nas argamaças dos tanques, ou
-pias de conservar agua. Por isto he que
-os bancos de argilla que estaõ debaixo da
-terra formaõ muitas vezes tanques sobterraneos,
-dos quaes nascem fontes de
-agua, algumas vezes assás boa: porque
-a argilla, que naõ está exposta ao ar,
-ao sol, ou ao vento, conserva sua humidade,<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span>
-ductibilidade, e a propriedade de
-naõ ser penetravel a agua.</p>
-
-<p id="section5">5 Os oleiros se aproveitaõ da ductibilidade
-da argilla para a trabalharem na
-roda, e moldes; mas as argillas em seccando,
-quanto mais puras saõ, mais encolhem,
-isto he diminuem muito do seu
-volume, á medida que a agua se evapora:
-e neste estado estaõ sujeitas a rachar-se
-e seriaõ inuteis aos oleiros, se elles naõ
-tivessem meios de lhe empedir o encolher
-tanto, como adiante diremos.</p>
-
-<p id="section6">6 A argilla, pura tal, como nós ao
-presente a consideramos ou detodo, naõ
-he atacada pelos acidos, ou muito pouco:
-digo muito pouco porque em muitas
-argillas se pode descobrir o acido vitriolico.
-Esta argilla resiste muito á acçaõ
-do fogo sem se derreter, e por conseguinte
-cozendo se adquire huma dureza igual á
-dos seixos, a ponto de que certas argillas
-bem cozidas chegaõ a deitar fogo sendo
-feridas com aço. Esta propriedade parece
-indicar, que hum fogo muito activo
-as faz tomar hum principio de defusaõ
-pois ainda que ella seccando indurece,
-com tudo naõ chega ao gráo que lhe dá
-o fogo; a argilla, ou barro, nunca muda
-de natureza por mais secca que fique;
-conserva a propriedade de ser penetrada<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span>
-pela agua, e tornar-se em huma massa
-ductivel; pelo contrario cozendo-se muda
-totalmente de natureza: já entaõ naõ he
-argilla, he huma argamassa muito dura,
-ou huma especie de area impenetravel,
-á agua e que naõ póde adquirir alguma
-ductibilidade com este fluido.</p>
-
-<p id="section7">7 Nisto a argilla differe muito das
-boas argamassas de cal, e arêa, que endurecem,
-seccando, mas expondo-se a huma
-grande calcinaçaõ a perdem. A dureza
-da argilla cozida he muito differente,
-das pedras calcares, ainda as mais duras,
-como o marmore, porque estas pedras
-sendo expostas a hum grande fogo, e reduzidas
-a cal perdem sua dureza, que parece
-depender em parte da humidade,
-pois que ellas perdem a sua firmeza, logo
-que pela calcinaçaõ, se lhe dissipou toda
-a humidade, que parece ser a que fórma
-a uniaõ das partes; e quando fazendo
-a argamassa de cal e arêa se lhe lança a
-humidade, ella pelo tempo toma huma
-dureza bem consideravel: pelo contrario
-a dureza da boa argilla se augmenta á
-medida, que se faz passar por hum grande
-fogo. A grande violencia do fogo a
-racha, defórma, e a reduz a huma especie
-de vidro imperfeito, mas que conserva
-sua dureza. Eis aqui o que me faz<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span>
-pensar, que a dureza da argilla cozida
-consiste, em que suas partes adquirem
-hum principio da fusaõ ou brandura pela
-grande acçaõ do fogo, e isto as une humas
-ás outras, brandura, que se póde
-dizer, que as argillas saõ refractarias
-pella vitrificaçaõ, ou fusaõ perfeita.</p>
-
-<p id="section8">8 Estas observações por mais sucintas,
-que sejaõ bastaõ para caracterizar a argilla
-pura; mas como se naõ encontra
-sem estar unida ás substancias estranhas,
-he mais importante para a arte de que
-tratamos, fallar das argillas alliadas ou
-com mistura, e taes como ellas se achaõ
-na terra, pois desta especie he que se
-usa nas olarias. As obras desta se vendem
-muito baratas, e por isso se naõ póde
-ir buscar longe de casa, como se faz para
-as obras preciosas, e porcelanas; he preciso
-que para ellas se use de argillas que
-estejaõ perto de casa. Felizmente a argilla
-se acha em muitos lugares em maior,
-ou menor profundeza da terra, se acaso
-se dá attençaõ ás substancias com que se
-combina. Ha della muitas especies differentes:
-acha-se humas vezes em grandes
-montes, e outras em bancos que tem
-pouca espessura relativamente á sua extensaõ;
-em fim ella se destribue algumas
-vezes pela terra por veias, que se devem<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span>
-seguir; a especie de argilla naõ he sempre
-a mesma na continuaçaõ da mesma
-veia, ou quando se tira da terra mais superficial,
-ou mais profunda.</p>
-
-<p id="section9">9 A respeito de suas côres ao sahir
-da terra, he branca, cinzenta, asulada,
-tirando a côr da pedra asul <i>Ardosia</i>,
-verde, amarella, vermelha, e de côr de
-marmore.</p>
-
-<p id="section10">10 Estas differentes côres de argillas
-só nos podem dar indicios pouco certos
-da qualidade das louças que della se fará:
-com tudo naõ se devem desprezar;
-porque estes indicios nos podem guiar
-a fazer experiencias para certificar-nos da
-sua boa, ou má qualidade. Disso fallaremos
-nós adiante.</p>
-
-<p id="section11">11 Em geral se preferem as argillas
-brancas, ou escuras ás amarellas, vermelhas
-ou verdes, e algumas vezes ás que tem
-mistura de differentes côres. Estas côres
-dependem de huma tintura metálica, sulfurea,
-ou bituminosa; por que, como dissemos,
-no modo de fazer pitos, ha argillas
-que augmentaõ á alvura quando
-se cozem, porque a substancia apparente
-que alterava a sua côr era destructivel
-pelo fogo, e as outras cozendo-se ficaõ
-vermelhas, amarellas, escuras, ou quasi
-negras. Parece que estas côres fixas saõ<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span>
-causadas pelas differentes substancias metálicas,
-que se dissolvem com os acidos
-especialmente o vitriolico: porque he
-preciso que estas substancias colorantes
-se reduzaõ em particulas muito subtis,
-pois estas argillas de differentes côres
-parecem muito macias, e impalpaveis
-entre os dedos, e homogenias quando as
-cortaõ. As substancias tenues de que acabamos
-de fallar, raras vezes alteraõ os
-barros communs, de que ao presente fallamos.
-Digo raras vezes, porque algumas
-vezes as podem tornar fussiveis: o que em
-alguns casos he grande defeito. Outras
-vezes lançaõ vapores que fazem mal ao
-verniz, ou vidrado com que se cobrem:
-disto fallarei em outra occasiaõ.</p>
-
-<p id="section12">12 Segundo a qualidade dos barros,
-e uso que delles se faz chamaõ-se barro
-de tijollos, de ladrilhos, de panellas,
-de cadinhos, e pitos.</p>
-
-<p id="section13">13 Muitas vezes os oleiros se servem
-de argillas, que tem substancias heterogeneas
-mais sensiveis, como a <i>mica</i>,<a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span>
-<i>pyrites</i><a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6"></a><a href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> terras calcareas<a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7"></a><a href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> arêas de
-differentes naturezas, e fragmentos de
-diversas qualidades da mina.</p>
-
-<p id="section14">14 Naõ fallo aqui destas substancias,
-que se achaõ em grandes pedaços, e
-que os oleiros apanhando-as, quando
-amassaõ o barro, as lançaõ fóra; mas das
-que se achaõ em molleculas assás grossas,
-e que se persente nos dedos, e se
-vê quando se corta hum pedaço de barro,
-com tudo insufficientes para se tirar a maõ
-todas estas materias de qualquer natureza,
-que sejaõ, prejudicaõ mais, ou
-menos a louça, quando seu volume he
-hum um pouco consideravel, porque naõ se
-podem fazer obras asseadas, e nem a superficie
-fica lisa. He verdade que desfazendo
-esta argilla em muita agua, e passando-a
-para outro vazo depois de precipitadas
-as substancias mais pezadas, se
-tiraõ argillas quasi isentas de partes heterogeneas,
-e que serveriaõ para obras mais
-delicadas; mas esta preparaçaõ do barro<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span>
-que se póde empregar em obras de louça
-fina requer muitas manobras, quando se
-está fazendo louça grossa; e assim dos
-barros areentos só se usa para fazer tijollos
-ou telha; para a louça se escolhem
-veias de barro mais puro, e isento
-de huma mistura grosseira, ou de natureza,
-que altere a bondade da louça.
-Vem a proposito entrar em algumas individuações
-a este respeito, porque principalmente
-da natureza destas misturas resulta
-a differente qualidade dos barros;
-e o oleiro que se estabelece em hum lugar,
-deve procurar todos os meios de conhecer
-a natureza do barro, de que se
-deve servir, sem se arriscar a perder muitas
-fornadas, e arruinar-se.</p>
-
-<p id="section15">15 Deve-se esfregar entre os dedos
-para ver se he macio ao toque, e se he
-ligado, e ductivel. E encontrando-se corpos
-estranhos, se devem alimpar, e pôr de
-parte para conhecer de que natureza saõ.
-Naõ nos devemos contentar só com isto;
-por que se a lavage, de que acima fallamos,
-para as obras communs precisa
-muita despeza, deve-se sempre desfazer
-em agua hum bocado de argilla, ao
-menos, para conhecer-lhe precisamente a
-natureza, e a quantidade de substancias
-pouco mais ou menos, que estaõ misturadas<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span>
-com ella: porque como as substancias
-de differentes generos tem pezos
-especificos, que lhe saõ particulares, vasando
-muitas vezes a agua em que se
-diluio a argilla v. g. passados cinco minutos,
-depois passados dez, e depois
-quinze se chegaráõ a separar as substancias,
-que segundo o seu pezo, se precipitarem
-mais depressa, ou mais de vagar,
-e assim se poderáõ examinar separadamente
-estes differentes precipitados para
-se poderem conhecer melhor por experiencias
-particulares; porque destas differentes
-ligas dependem, em grande parte
-as qualidades das argillas, e das louças,
-que dellas se fazem. He verdade, que
-apezar da lavagem ellas conservaõ partes
-muito finas, e muito divididas, que lhe
-daõ côr, como acima dissemos; porém
-estas partes heterogeneas muito finas
-saõ pouco nocivas as louças communs.
-Por exemplo, se segundo diz Mr. Pott, a
-argilla sendo misturada com substancias
-de gesso se torna muito dura no fogo;
-diz tambem que os barros vitrificaveis,
-misturando-se com a argilla firme ficaõ
-muito duros cozendo-se; mas he hum
-grande defeito nas argillas o terem liga
-de pedras calcareas em molleculas de maior
-tamanho, que se calcinaõ ao cozer; e<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span>
-depois quando sentem humidade, inchaõ,
-e quebraõ a obra, se estaõ no meio do
-barro, e se ficaõ na superficie, a agua as
-dissolve, e fica hum buraco em seu lugar:
-todavia eu digo quando ellas saõ
-maiores; porque em certos casos as substancias
-calcareas reduzidas a pó subtil, e
-misturadas em pequena quantidade com
-substancias vitrificaveis, podem contribuir
-para a bondade da louça. He de experiencia
-que algumas vezes duas substancias,
-que separadas naõ saõ vitrificaveis,
-unidas se vitrificaõ; e com razaõ
-mais forte se vitrificaráõ as particulas da
-cal combinando-se com substancias vitrificaveis.</p>
-
-<p id="section16">16 As pyrites tambem saõ huma qualidade
-de liga muito má; queimaõ-se ao
-cozer, e se dissipaõ inteiramente, e fica
-hum buraco em seu lugar, ou quando
-menos, faz huma mancha negra, similhante
-a escorea de ferro, e com difficuldade
-pega o verniz, ou vidrado sobre
-ella. Os oleiros dizem que o mesmo vapor
-sulphureo, que della, se exhalla a
-queimar, offende ao verniz das louças
-que estaõ visinhas.</p>
-
-<p id="section17">17 A arêa he necessaria para impedir
-ás argillas muito puras o encolherem,
-e fazellas seccar e coser sem se quebrarem,<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span>
-para isto saõ proprias as arêas refractarias,
-que com difficuldade derretem.
-Os vasos que dellas se fazem, soffrem hum
-grande fogo, e naõ saõ sujeitos a quebrarem
-pelas alternativas de frio, e calor:
-mas he preciso hum grande fogo para
-as cozer, sem isto naõ fica o barro muito
-duravel. Póde-se com tudo fazer dellas
-boa louça, e mesmo cadinhos; porém
-saõ permeaveis a todas as substancias,
-que se tornaõ muito fluidas pela fusaõ,
-como os saes, o chumbo; porque ficando
-com o tecido pouco tapado, naõ as póde
-conter. Podia-se fazer o seu tecido mais
-tapado ajuntando lhe hum bocado de
-barro vitrificavel. Com tudo se estas arêas
-fossem em muito grande quantidade, diminuiriaõ
-totalmente a ductibilidade da
-argilla, e seria muito difficil o trabalhalla
-particularmente na roda. He verdade,
-que pella lavagem, se poderia tirar
-huma parte da arêa, que se achasse em
-muita abundancia no barro; mas os oleiros
-naõ recorrem a este meio, que precisa
-muita manobra: elles preferem misturar
-as argillas, que chamaõ muito magras,
-com outras, que sendo muito gordas,
-fazem encolher muito a louça, e
-quebra-se ao seccar. Deste modo com a
-mistura pouco dispendiosa corrigem os<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span>
-defeitos dos dous barros, hum por muito
-gordo, e outro por muito magro.</p>
-
-<p id="section18">18 As areias fusiveis, vitrificaveis,
-e metállicas tornaõ a argilla fusivel, e
-a louça naõ póde supportar entaõ hum
-fogo consideravel sem ficar com defeito;
-por isso quasi todas as obras destas argillas
-fusiveis, saõ cozidas ligeiramente,
-seu interior he grosseiro, taõ poroso, que
-a agua trespassa os vasos sobre tudo,
-quando para impedir o encolher, se lhe
-ajunta muita arêa; e neste estado do
-barro só se podem fazer delle vasos de
-Jardins, alguidares, e fogareiros, e para
-os utensis communs do uso se precisa
-cubrillos de hum esmalte, que se chama
-verniz.</p>
-
-<p id="section19">19 A economia obriga a fazer estas
-louças que se trabalhaõ com facilidade,
-encolhem pouco, e com hum fogo mediocre
-se cozem, e tem a vantagem
-de se poderem expôr ao fogo sem se
-quebrarem. Estas louças muito communs
-se fazem em grande quantidade, porque se
-daõ baratas; mas tem pouca solidez, a
-menor queda as quebra, e por isso saõ
-pouco duraveis.</p>
-
-<p id="section20">20 Quando se misturaõ estas areias vitrificaveis
-com as argillas, ellas se chegaõ
-a cozer bem, sem as obras ficarem<span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span>
-com defeitos, o seu tecido muitas vezes
-fica bem fechado; ellas se naõ dissolvem
-pelos acidos, e conservaõ os metaes, e
-saes derretidos; porém, como se chegaõ
-muito á natureza do vidro, os vasos
-naõ podem soffrer a alternativa do frio,
-e do calor; e para que se naõ quebrem
-he preciso esquentallos com muito cuidado.</p>
-
-<p id="section21">21 Os barros, de que se usa, para
-fazer as louças, que chamaõ de grêda,
-commumente tem este defeito; sendo de
-hum tecido muito fechado, resistem á
-fusaõ dos saes, e do vidro de chumbo:
-porém he preciso muito cuidado, quando
-se passaõ do frio para o calor. Para ellas
-naõ terem este defeito, he preciso que
-naõ fiquem taõ chegadas ao estado de
-vidro. Ha algumas que saõ desta natureza,
-e que se poderiaõ ter por huma porcelana
-grosseira. Eu supponho os barros de
-que se fazem tem a liga de areia refractaria,
-e de arêa vitrificavel de donde
-resulta a vitrificaçaõ. Naõ tenho tido
-commodo de examinar estes barros com
-bem cuidado para dar por certo, o que
-acabo de dizer: o que posso certificar he
-que tendo dissolvido em muita agua o
-barro de Gournay, de que se fazem os
-potes para a manteiga de Isigny, e tendo-a<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span>
-vasado depois de se ter precipitado
-huma parte da arêa, e pyrites, que elle
-continha, desta argilla privada de huma
-parte da sua areia, mandei fazer cadinhos,
-que se podiaõ pôr vermelhos ao
-fogo, e depois lançallos em agua fria sem
-se quebrarem. Se eu tivesse á maõ estes
-barros, estou persuadido, que chegaria
-a fazer vasos, que naõ teriaõ algum mericimento
-pela belleza, mas seriaõ taõ bons
-como a porcelana, e teriaõ todas as
-perfeições, que podem haver nas louças
-communs.</p>
-
-<p id="section22">22 Os oleiros naõ entraõ em exames
-taõ circunstanciados: se achaõ argilla
-macia ao tacto julgaõ bem della amassaõ-na,
-e trabalhaõ: se a achaõ muito magra,
-e pouco ductil, ajuntaõ-lhe argilla
-muito gorda: se vem que argilla diminue
-muito de volume em secando, e que se
-fende, emmagrecem-na ajuntando-lhe barro
-areento, ou mesmo arêa em proporçaõ
-que lhe permitta conservar sua ductibilidade,
-e a fazem cozer; se ellas derretem,
-ou ficaõ com defeito as peças no forno,
-diminuem a actividade do fogo, e só as
-empregaõ nos utensis communs do uso, que
-cobrem de verniz. Se hum fogo ordinario
-naõ basta para as cozer, ou dar-lhes toda
-a dureza, de que saõ susceptiveis, ou vem<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span>
-que podem supportar grande fogo sem defeito,
-cozem-nas como greda. Se com
-este grande fogo, alcançaõ que vaõ tomando
-a natureza de vidro para poder resistir
-ao fogo, fazem utensis, que naõ
-devem servir no fogo; como botelhas,
-potes para manteiga, saleiros, alguidares,
-quartas, e potes para leiterias.
-Para torna-las menos frageis ao fogo, ligaõ
-as argillas muito fortes com barros já cozidos,
-como potes de greda reduzidos a pó;
-entaõ, sendo bem cozidos, podem ir ao fogo
-os vasos ou peças, ainda que naõ haja
-o cuidado de as esquentar primeiro; mas
-os cadinhos para ensaios de metaes, ou
-para saes derretidos, he preciso que
-o barro naõ tenha substancia metálica, que
-se derretesse e deixasse escapar o que
-estivesse derretido no cadinho.</p>
-
-<p id="section23">23 Algumas vezes estas ligas vem feitas
-por natureza, e os oleiros se servem
-da argilla tal, qual a natureza lhas apresenta:
-da qui vem a differença da louça
-de diversas Provincias, como as gredas
-escuras de Normandia, as da Bretanha, que
-tiraõ sobre o azul, as de Beauvais, que saõ
-amarelladas, tirando hum pouco a roxo, as
-de S. Fargeau que saõ brancas, e finalmente
-nas de Flandres, que mais que todas,
-se chegaõ á natureza da porcelana.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p>
-
-<p id="section24">24 Do que acabamos de dizer, se vê
-que hum oleiro, quando julga ter adquirido
-os conhecimentos necessarios sobre
-a natureza do barro, de que se deve servir,
-naõ está ainda no ponto de poder
-fazer indagações; porque há barros, que,
-só podem admittir hum mediocre cozimento:
-outros, que saõ os melhores, requerem
-ser cosidos em hum grande fogo.
-Para adquirir estes conhecimentos, o
-oleiro deve fazer as primeiras fornadas
-com muita attençaõ, e examinar o estado
-das obras, para se conduzirem melhor
-nas fornadas seguintes. Mas quando
-o oleiro se estabelece em hum lugar,
-aonde se costuma trabalhar em certos
-barros, está dispensado de fazer as experiencias
-de que acabamos de fallar, aproveitando-se
-das que tem feito, os que usaõ
-de trabalhar nelles.</p>
-
-<p id="section25">25 Nas bordas do bosque de Orleans,
-ha hum lugar, que se chama <i>Nibelle</i>, onde
-ha muitos oleiros, que fazem vasos
-de huma argilla bem pura, que cozendo-se
-fica preta, e naõ podem ir ao fogo.
-Esta louça he de hum tecido muito fechado:
-e assim para os utensis de cozinha
-misturaõ hum barro branco, e magro
-com esta argilla; mas a agua trespassaria
-estas louças se naõ fossem envernizadas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p>
-
-<p id="section26">26 O trabalho dos oleiros he pouco
-mais, ou menos, o mesmo em todas as
-Provincias, onde se trabalha em barro.
-E assim vou explicar com individuaçaõ
-a pratica dos oleiros de París, e quando
-houver occasiaõ farei notar em que elles
-differem de outras partes.</p>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ARTIGO_I">ARTIGO I.<br />
-<span class="smaller"><i>Trabalho da louça, segundo o uso de París.</i></span></h2>
-
-<p id="section27">27 Os oleiros de París tiraõ o seu barro,
-de <i>Gentillis</i>, ou <i>Areueil</i> os que o cavaõ,
-seguindo as veias do barro bom, o tiraõ
-em pedaços quasi cubicos, e vai para
-casa dos oleiros em carros, como vem o
-cascalho, ou pedras.</p>
-
-<p id="section28">28 Quando os oleiros o recebem, lançaõ-no
-em covas, onde fica mais, ou
-menos tempo para <i>invernar ou apodrecer</i>,
-como se diz em outros lugares; de sorte,
-que o barro, que foi cavado no Outono,
-fica na cova todo o Inverno, e he tanto
-mais facil de trabalhar, quanto mais tempo
-está na cova. Em alguns lugares, os oleiros
-deixaõ ao ar o seu barro, e o movem
-com enxadas todo o Inverno, por
-este meio o fazem mais ductivel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p>
-
-<p id="section29">29 Este he o mesmo barro que serve
-para fazer ladrilhos, e obras de louça. Com
-tudo elle he mais preto, ou mais branco,
-conforme a profundeza, de que foi tirado:
-há alguns, que vem misturados com estas
-duas côres, e este se julga hum pouco melhor
-que os outros, porém todos se gastaõ
-sem distincçaõ em louça, e em ladrilhos.
-Começo agora a explicar o que respeita
-aos ladrilhos.</p>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ARTIGO_II">ARTIGO II.<br />
-<span class="smaller"><i>Dos ladrilhos, e modo de amassar
-o barro, com que elles se fazem.</i></span></h2>
-
-<p id="section30">30 Quando se tiraõ da cova pedaços
-grandes de barro, he preciso cortallos em
-pedaços, mais pequenos possiveis. Para isso
-se põe huma taboa <i>A</i> <i>fig. 1</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>,
-sobre huma celha: os oleiros chamaõ assim
-huma pequena celha <i>B</i> sem fundo
-em huma ponta: lança-se nesta pequena
-celha seis baldes de agua com pouca differença,
-depois se põe hum bôlo de
-barro sobre a taboa <i>A</i>, que dissemos se
-punha sobre a ponta sem fundo da celha
-<i>B</i>. O oleiro corta em pequenos pedaços
-este bôlo de barro com huma faca de<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span>
-dous cabos <i>D</i> <i>fig. 2</i>; e logo que vai cortando
-o barro o vai lançando na agua da
-celha; o barro, que se pôs de tarde a humedecer,
-na manhã seguinte está bem
-brando, para se poder trabalhar; porque
-bastaõ oito horas para ficar sufficiente
-para o trabalho, sendo pequenos os pedaços.</p>
-
-<p id="section31">31 As aparas das obras, que ainda naõ
-foraõ cozidas, se misturaõ com o barro novo;
-este barro das aparas, que já tem
-a liga da arêa, e já foi posto em camada
-amassado, e trabalhado, ajuda a trabalhar
-melhor o barro novo.</p>
-
-<p id="section32">32 O barro, de que usaõ os oleiros de
-París, ou venha de <i>Areueil</i>, ou <i>Gentillis</i>
-he muito gordo, e por isso naõ póde servir
-sem liga: he preciso ligallo com
-arêa para diminuir-lhe a força, e fazello
-assim encolher menos. Talvez seria mais
-expediente, e mais economico trabalhar
-o barro com a máquina representada na
-arte de fazer os pitos; mas segundo o
-uso dos oleiros, se faz esta mistura amassando
-o barro com os pés. Para isto, os
-oleiros de París, costumaõ misturar
-duas celhas de barro novo, huma de
-aparas, se as há, e cinco cestos de
-arêa: diminuindo-se a arêa, ficaõ mais
-duros os ladrilhos; porém custaõ mais a<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span>
-trabalhar. Seja como for, os barros de <i>Belleville
-e Areueil</i> ambos saõ bons, e finos,
-tem poucos seixos; sua côr tira a amarella.<a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8"></a><a href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p>
-
-<p id="section33">33 Para fazer huma amassadura, se
-começa estendendo arêa sobre toda aquella
-porçaõ do pavimento, que occupará
-a camada; reserva-se só hum cesto
-para o que adiante diremos; esta arêa,
-que se precisa misturar com a argilla,
-tambem embaraça ao barro apegar-se. Tira-se
-das celhas o barro das aparas, que
-estava humedecendo, como o novo; estende-se
-sobre arêa em camada; porque
-como este barro he mais facil de amassar,
-que o novo, põe-se no lugar, em que
-o barro se naõ amassa tambem. As duas
-celhas de barro novo saõ distribuidas pela
-circunferencia, e por cima se lança hum
-bocado de arêa, da qual se reserva só
-meio cesto para o uso, que adiante se
-dirá.</p>
-
-<p id="section34">34 Tres celhas de barro bem pisado,
-bastaõ para fazer quinhentas telhas, e
-viriaõ a fazer dous mil ladrilhos pequenos.<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span>
-Estando o barro disposto, como já dissemos,
-o amassador descalço se chega ao
-monte de barro; a sua postura he, com
-a maõ esquerda firmada sobre o joelho
-esquerdo, e porque o barro escorrega,
-para naõ cahir, tem na maõ direita hum
-páo, em que se firma. Separando entaõ
-das bordas hum pouco de barro com o
-pé esquerdo o despega, e lança fóra do
-monte, dá hum pequeno passo adiante,
-e faz o mesmo; de sorte que andando
-em roda de todo o monte, e separando
-em cada passo quatro, ou cinco pollegadas
-de barro, ganha pouco a pouco o centro;
-onde fica pouco barro, porque elle tem
-separado para as bordas a maior parte.
-Como o do meio fica mais mal amassado,
-elle acaba de amassar, e separar o
-barro, que ahi fica; com hum ferro
-proprio corta em pedaços este barro, e
-o tira com as maõs com facilidade, porque
-se despega por causa da arêa, que
-estava por baixo, e o distribue por todo
-o monte. Depois de se ter tirado o barro,
-que está no meio da camada fica huma
-coroa de dous circulos concentricos; mas
-com a mesma peça de ferro corta as
-bordas da camada, e as lança no meio,
-depois amassa deste barro, como fez a
-primeira vez, e depois de acabar esta<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span>
-manobra, naõ tira mais o do meio: porêm
-depois de ter cortado o barro com a peça
-de ferro, elle o ajunta com a maõ, e o
-põe no meio; depois o amassa de novo
-terceira, e ultima vez, estendendo o
-barro mais do que nas camadas precedentes,
-para assim ficar mais delgado na
-camada. Feito isto, está amassado, e em
-termos de servir, como vamos explicar.</p>
-
-<p id="section35">35 Para apromptar assim tres pequenas
-celhas de barro, hum homem vigoroso
-precisa ao menos quatro horas: depois
-amontoa o barro; e entaõ está em termos
-de servir.</p>
-
-<p id="section36">36 Como he de muita importancia para
-a louça o distribuir-se igualmente por toda
-a massa, o barro, que se mistura hum
-com o outro, ou a argilla com a arêa,
-e que as differentes misturas façaõ hum
-todo uniforme, os oleiros, para se certificarem
-disto, cortaõ o barro com hum
-arame de lataõ, e examinaõ se a côr está
-uniforme em toda a extensaõ do golpe,
-e se ha lugares mais brilhantes, que outros.
-A uniformidade próva que os differentes
-barros estaõ bem misturados, e
-que o todo está bem amassado: nos lugares
-brilhantes está a argilla mais pura.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span></p>
-
-<h3><i>Como se moldaõ os ladrilhos.</i></h3>
-
-<p id="section37">37 Os ladrilhos se poderiaõ moldar,
-como dissemos na arte de fazer tijollos,
-do mesmo modo que a telha, e o tijollo.
-Os telheiros naõ fazem de outro modo
-os tijollos, ou chamados ladrilhos de telha,
-para os distinguir dos ladrilhos de
-louça, que saõ muito melhores, e trabalhados
-mais propriamente do que os de
-telha, ou tijollos. Os oleiros daõ a figura
-quadrada em hum molde de páo aos tijollos,
-ou ladrilhos que chamaõ de fornalha.
-Elles tambem fazem em hum molde
-inferior <i>fig. 3</i>, os ladrilhos para os celleiros,
-ou quartos, que requerem pouca
-attençaõ; elles naõ os aperfeiçoaõ, nem
-aparaõ como aquelles, que se destinaõ
-para sallas, e quartos acceados; mas por
-este methodo a superficie dos ladrilhos,
-naõ he bem dirigida, os angulos muitas
-vezes ficaõ rombos, e o barro naõ fica
-suficientemente comprimido: por isto he
-que nos ladrilhos de salla, os oleiros se aperfeiçoaõ
-mais.</p>
-
-<p id="section38">38 He verdade, que elles começaõ
-mettendo o barro em hum molde, segundo
-o tamanho, que devem ter os ladrilhos
-para as peças de barro, que chamaõ<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span>
-de culumnas: mas depois que o
-barro está meio secco, elles o batem, e
-comprimem muito. Deste modo perdem
-os ladrilhos a figura regular, que o molde
-lhe tinha dado, e isto os obriga a cortar por
-hum calibre de ferro, que os oleiros chamaõ
-molde: este calibre, ou padraõ de ferro
-he cortado regularmente, segundo o tamanho,
-e figura, que se quer dar aos
-ladrilhos. Tudo isto se fará claro pelas
-indagações, em que vamos entrar; mas
-convém fazer antes notar, que supposto
-se possaõ fazer ladrilhos triangulares, quadrangulares
-com dous cantos obtusos, quadrados,
-longos, etc. Naõ se fazem senaõ
-quadrados, ou de seis panos <i>fig. 3</i>, e tambem
-alguns meios tijollos para os socalcos
-das fornalhas, dos muros, ou outras
-cousas. Estas duas qualidades tem a vantagem,
-que os ladrilhos de hum mesmo tamanho
-se unem exactamente huns aos
-outros sem deixar vacuo entre elles; se
-fossem de cinco faces ficaria entre elles
-vacuo, que seria preciso encher; e aliás
-sendo os angulos, agudos, com facilidade
-se quebrariaõ.</p>
-
-<p id="section39">39 Sendo outogonos, ou de oito faces,
-necessariamente entre quatro ladrilhos,
-fica hum espaço quadrado, que he
-preciso encher com hum ladrilho pequeno.
-Só se fazem estes ladrilhos de oito faces,<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span>
-quando o ladrilho pequeno he de côr differente
-dos grandes; taes saõ os ladrilhos
-pretos, e brancos, que fazem os que
-trabalhaõ em marmore. Tambem vi em
-algumas Provincias ladrilhos, que sendo
-cobertos de verniz de differentes côres,
-formavaõ huma boa vista. Variando a figura
-dos ladrilhos, e a côr pelo verniz,
-e tambem a sua posiçaõ, se podem fazer
-muitos repartimentos simetricos: disto
-fallarei adiante; porém, como os ladrilhos
-de qualquer figura se fazem do mesmo
-modo, vou explicar com individuaçaõ,
-como os oleiros fazem os ladrilhos hexagonos
-ou de seis faces.</p>
-
-<p id="section40">40 O oleiro começa fazendo no molde
-hum grande ladrilho quadrado. Este
-molde he hum caixilho de páo que faz
-os ladrilhos mais grossos do que devem
-ser; naõ só por que diminuem, quando
-seccaõ, mas tambem, porque ficaõ mais
-delgados quando se batem.</p>
-
-<p id="section41">41 Para moldar os tijollos, tem o oleiro
-huma taboa grossa <i>a b</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 4</i>, que
-está posta sobre cavalletes fortes, e põe
-no meio desta taboa huma pedra dura e
-unida, ou hum pedaço de páo <i>g</i>, de tres
-ou quatro pollegadas de grosso, que tem
-differentes nomes; em alguns lugares se
-chama <i>urquain</i> na ponta deste pedaço de<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span>
-páo <i>dd</i> está posto hum vaso cheio de
-agua <i>ee</i>, e sobre o vaso hum instrumento
-de páo que chamaõ plaina <i>ff</i> e por diante
-está o caixilho, ou molde <i>gg</i>. Alguns põe
-da parte esquerda do moldador hum bôlo
-de barro <i>h</i>, destinado para encher o
-molde: tambem se põe ahi o barro, que
-se tira com a plaina <i>ff</i>. Outros tiraõ só a
-quantidade, que caressem, de hum monte
-de barro <i>H</i>, que está sobre o soalho,
-perto delles. Á direita do moldador está
-hum monte de arêa <i>i</i>, e se deve ter sobre
-a meza hum lugar <i>k</i>, para se porem as
-obras já moldadas.</p>
-
-<p id="section42">42 O moldador posto adiante da mesa,
-toma com a maõ esquerda hum bocado
-de arêa, e a espalha sobre a mesa, ou sobre
-o pedaço de páo <i>g</i> <i>fig. 4</i>, põe por
-cima o molde tambem esfregado na arêa;
-depois o enche de barro comprimindo o
-com as maõs o mais que póde; porque
-este barro deve ser mais duro, do que se
-servem os telheiros. Depois de estar o
-molde bem cheio por todas as partes, o
-moldador toma a plaina <i>ff</i> <i>fig. 4</i>; molha-a
-na agua, e pegando nella com ambas
-as maõs, a passa fortemente por cima do
-molde, para tirar todo o barro, que excede
-á grossura, que deve ter; depois
-pegando no molde por hum dos cantos o<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span>
-puxa para si, e mette a maõ esquerda por
-baixo da peça, para a soster a põe sobre
-as outras <i>k</i> <i>fig. 4</i>, e como este barro
-he amassado duro, se póde passar de hum
-lugar para outro em as maõs sem ficar
-com defeito. A pouca arêa, que fica por
-baixo da peça, basta para naõ a deixar
-pegar na outra sobre que se põe.</p>
-
-<p id="section43">43 Depois de terem endurecido alguma
-cousa as peças, ou ladrilhos, que
-se tem tirado do molde se lançaõ em huma
-especie de taboletas feitas de varas
-á maneira de caniços, para o ar lhe dar
-de todas as partes; e seccallas por cima
-se põe huma coberta de taboas para a
-chuva os naõ molhar.</p>
-
-<p id="section44">44 Quando estaõ já meios seccos se
-viraõ debaixo para cima para seccar a
-parte, que fica por baixo a polla no mesmo
-gráo de seccura, que a de cima.</p>
-
-<p id="section45">45 Em quanto estes ladrilhos estaõ
-ainda flexiveis se põe sobre hum banco
-forte huns sobre os outros, e se batem
-com a parte chata do masso. Depois de
-batidos assim os ladrilhos, se tornaõ a
-pôr sobre as varas, aonde ficaõ mais ou
-menos tempo, conforme o calor do ar.
-Logo que o oleiro os julga sufficientemente
-seccos, os tira das varas, mas como
-o exterior sempre está mais secco<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span>
-que o interior, quebrar-se-hiaõ, se acaso
-se tornassem a bater neste estado. Previne-se
-este accidente pondo-os em pilha,
-huns sobre outros cinco ou seis dias,
-para amolecer as superficies, que estavaõ
-seccas; estas pilhas se fazem em hum
-quarto baixo, e alguma cousa humido.
-Além de que o ar humido deste lugar
-abranda a superficie das obras feitas, e
-a humidade do seu interior se communica
-á superficie, que já estava bem secca.
-Quando se achaõ já bem flexiveis se tiraõ
-da pilha, e se tornaõ a bater com
-mais força do que antes no mesmo banco,
-e logo se cortaõ por medida certa em
-quatro partes; depois se põe em pilhas
-de vinte cada huma junto a huma parede,
-defendidos da chuva por huma coberta:
-quando o barro está já hum pouco secco,
-se põe na ponta de hum banco pilhas destes
-ladrilhos, hum obreiro posto a cavallo
-no banco, pega em hum molde de
-ferro <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 5</i>, da grossura de cinco
-linhas, que está talhado em faces precisamente
-do tamanho e da figura, que
-os ladrilhos devem ter, e com hum cutello
-curvo <i>fig. 6</i>, corta tudo o que excede
-a peça de ferro, que os oleiros chamaõ
-<i>molde</i>.<a name="FNanchor_9" id="FNanchor_9"></a><a href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a> Hum bom obreiro póde aparar<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span>
-1800 ladrilhos por dia. As aparas cahem
-em hum peneiro, onde se conservaõ
-para as misturar com o barro novo, quando
-se fizer nova amassadura. Quando sahem
-os ladrilhos da maõ do aparador, vaõ já
-em figura de ir para o forno, logo que estiverem
-bem seccos.</p>
-
-<p id="section46">46 Seria impossivel fazer o primeiro
-molde tamanho, que depois désse quatro
-ladrilhos grandes; estes assim se moldaõ
-em huma fôrma maior cada hum separado,
-como se fazem os tijollos de fornalhas;
-com a differença porém de que os tijollos
-de fornalha, naõ se batem, nem se
-aparaõ; e os ladrilhos grandes, que se
-fazem com aceio saõ batidos, e aparados
-por moldes, como os pequenos.</p>
-
-<p id="section47">47 Os ladrilhos feitos como acabamos
-de explicar, carecem estar bem seccos
-para irem para o forno: porém naõ se expõe
-ao Sol, mas sim em parte onde lhe
-dê o vento, ou em lugar aonde chegue
-o calor do forno.</p>
-
-<p id="section48">48 Quando os ladrilhos estaõ de todo
-seccos, resta cozellos, o que se faz como
-vamos a explicar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p>
-
-<h3><i>Do forno<a name="FNanchor_10" id="FNanchor_10"></a><a href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a>, e do modo de arranjar
-nelle os ladrilhos
-para se cozerem.</i></h3>
-
-<p id="section49">49 Na arte de telheiro, e de fazer
-tijollos se vem os fornos, de que se servem
-alguns oleiros para cozer os ladrilhos:
-onde se póde consultar o que nos dissemos
-a este respeito, aqui trataremos
-só, de duas qualidades de fornos, de que
-se serve a maior parte dos oleiros de París
-naõ sómente para coser seus ladrilhos,
-mas tambem toda a qualidade de louças: depois
-fallarei dos fornos, de que se servem
-os oleiros dos arrebaldes de <i>Saint Antoine</i>
-para cozer suas obras: e por hora fallarei
-só dos fornos, que estaõ mais em uso
-nos arrabaldes de <i>S. Marceau</i>; elles vem
-representados na <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 7</i>, <i>8</i>, <i>9</i>. A
-<i>fig. 7</i> representa o plano do forno; a
-<i>fig. 8</i> he a divisaõ deste mesmo forno
-no comprimento pela linha <i>A</i>, <i>C</i>; e a
-<i>fig.</i> 9 he huma divisaõ transversal pela<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span>
-linha <i>G</i>, <i>H</i>, da <i>fig. 7</i>: <i>A</i> he a boca do
-forno, ou entrada da fornalha; na qual
-se põe madeira para esquentar o forno,
-como se vê de <i>A</i>, até <i>B</i>, <i>fig. 7</i>, e <i>8</i>;
-de <i>B</i>, até <i>C</i>, he a capacidade interior
-do forno, aonde se arranjaõ os ladrilhos,
-ou a louça, que se quer cozer; <i>C</i>, <i>D</i>,
-<i>fig. 8</i>, he hum tubo da chaminé por onde
-sahe a fumaça. Como a communicaçaõ
-do interior do forno com este tubo, para
-descarga da fumaça, he por baixo perto
-do pavimento do forno em <i>C</i>, he preciso,
-que a corrente de ar, que entra pela
-boca <i>A</i>, passe ao tubo <i>D</i>, pelos buracos
-<i>C</i>. Deste modo, tendo seguido a curvatura
-da abobada, até perto de <i>M</i>, <i>fig. 8</i>;
-o ar quente desce ao longo das paredes
-do tubo da chaminé, que se chama <i>Lingueta</i>,<a name="FNanchor_11" id="FNanchor_11"></a><a href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a>
-para ganhar os buracos, que estaõ
-em <i>C</i>, e tornar ao tubo <i>C</i>, <i>D</i>. Por esta
-construcçaõ, que he bem entendida, o
-calor se distribue muito bem por todo o
-comprimento do forno: mas, como he
-mais estreito na sua entrada <i>K</i>, <i>I</i>, <i>fig. 7</i>,
-do que no fundo, os lados em <i>G</i>, <i>H</i> naõ
-recebem tanto calor, como no meio; mas<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span>
-isto se remedeia; arrumando lenha nos
-dous lados, como se vê na <i>fig. 7</i>, e como
-adiante explicaremos. <i>F</i>, <i>fig. 7</i>, he
-huma porta, por onde se entra no forno
-para o encher; depois do forno cheio,
-se tapa com hum muro de tijollos, e se
-accende o fogo.</p>
-
-<p id="section50">50 Antes de metter no forno alguma
-louça se levanta, com tijollos em <i>I</i>, <i>H</i>,
-até a abobada, huma separaçaõ que tem
-aberturas, pois se deixa entervallos entre
-os tijollos, ou como dizem os obreiros
-<i>crenaux</i><a name="FNanchor_12" id="FNanchor_12"></a><a href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a>, para que o calor do fornete
-<i>A B</i>. se communique o forno. Esta
-separaçaõ, recebendo a mais viva acçaõ
-do fogo, chama-se <i>la fausse-tire</i>, a qual
-se naõ desmancha em cáda huma fornada,
-pelo contrario se repara para que dure o
-mais que for possivel.</p>
-
-<p id="section51">51 Como a parte de diante do forno
-está tapada em <i>I</i>, <i>K</i>, pela <i>fausse-tire</i><a name="FNanchor_13" id="FNanchor_13"></a><a href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a>
-he preciso carregallo pela abertura <i>F</i>,
-e começa-se, formando as tres primeiras
-ordens da parte da <i>fausse-tire</i>, para isto<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span>
-se desmancha huma ordem de tijollos de
-fornalha, que se põe de parte, como se
-vê em a <i>fig. 8</i>, entre as quaes se deixa
-huma aberta de quatro pollegadas e
-meia, e se dispõe estas abertas para estabellecer
-debaixo da fornalha huma corrente
-de ar quente, de modo, que pela
-subtileza do ar esquentado, suba sempre
-melhor á abobada. Sobre estes tijollos
-se arranjaõ as pilhas de ladrilhos,
-que se põe deitados, como se vê na
-<i>fig. 7</i>, de modo, que hajaõ dous dedos
-de distancia de hum ao outro ladrilho,
-e que o meio do ladrilho da ordem superior
-corresponda ao vácuo dos ladrilhos
-da ordem inferior.</p>
-
-<p id="section52">52 Depois de se terem levantado até
-á abobeda quatro pilhas de tijollos ordinarios,
-se põe achas de lenha entre as
-paredes do forno, e as pilhas de tijollos:
-depois se arranjaõ sobre o pavimento do
-forno, os tijollos de fornalha, e por cima
-as pilhas de ladrilhos de Sala; acamaõ-se
-nos lados as achas de lenha, como
-se vê <i>fig. 7</i>, e além de huma ordem de
-achas em pé, que atravessaõ o forno,
-como se vê <i>fig. 7</i>, segundo a linha de
-<i>G</i>, e <i>H</i>, e se continua a encher o forno
-pondo por baixo os tijollos de fornalha,
-e por cima os ladrilhos. Depois de se terem<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span>
-formado duas, ou tres pilhas, se
-põe achas de lenha entre as pilhas de
-tijollo, e as paredes do forno, além disto
-se põe huma ordem de achas sobre a
-parede do fundo do forno, que se chama
-<i>Lingueta</i>. Quando as achas de lenha,
-que se põe de pé naõ tem o comprimento
-sufficiente para tocar na abobeda do forno
-por naõ perder lugar, se põe por cima ladrilhos
-de sala dos maiores. Continua-se,
-como temos explicado, até chegar á abertura
-<i>F</i>, <i>fig. 10</i>; para formar as ultimas
-ordens se põe sempre tijollos de fornalha:
-as pilhas de ladrilho ordinario, e as achas,
-como já dissemos; porém por naõ fechar
-a entrada <i>F</i>, se começa, enchendo
-primeiro o lado opposto á abertura, e se
-acaba por esta mesma abertura <i>L</i>, que se
-fecha por huma parede de tijollos, como
-já dissemos.</p>
-
-<p id="section53">53 Em hum forno semelhante ao que
-se representa, que tem dez pés de <i>K</i>,
-a <i>L</i>, e sete de <i>K</i>, a <i>I</i>, para cozer os
-ladrilhos se gasta carga, e meia de madeira
-tanto para arranjar entre os ladrilhos
-como para a tempêra<a name="FNanchor_14" id="FNanchor_14"></a><a href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a>, e huma camada<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span>
-de lenha rachada para queimar na
-fornalha <i>A</i>, <i>B</i>, e fazer o cozimento da louça;
-a isto chamaõ os oleiros <i>la chasse</i>.<a name="FNanchor_15" id="FNanchor_15"></a><a href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a></p>
-
-<p id="section54">54 Os que se lembrarem, do que
-dissemos na arte de telheiro, veraõ que
-he preciso primeiro esquentar o forno
-com hum pequeno fogo de páos grossos,
-que façaõ mais fumo, do que chamma.
-Por mais secco que pareça o barro,
-he preciso lançar fóra ainda muita humidade
-no forno: se esta dissipaçaõ se
-apressar, o barro se quebrará, indo porém
-de vagar, dissipa-se a humidade sem
-fazer estrago. Este pequeno fogo, he que
-os oleiros chamaõ humedecer, talvez porque
-a louça com este pequeno calor se
-faz humida.</p>
-
-<p id="section55">55 Accende-se hum pequeno fogo de
-páos grossos na boca da fornalha entre
-<i>A</i>, e <i>B</i>, <i>fig. 7</i>, e <i>8</i>; isto se continúa
-trinta e seis horas, para que as obras se
-esquentem pouco a pouco, e percaõ a
-humidade, que lhe resta, ainda que os
-tijollos pareçaõ bem seccos quando se
-mettem no forno. Nas doze ultimas horas
-augmenta-se hum pouco o fogo, e depois
-se faz no mesmo lugar hum grande fogo<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span>
-de lavareda com lenha secca, e se continúa
-por sete, ou oito horas, os páos
-que se metteraõ pelos lados, e entre as
-pilhas dos ladrilhos, se queimaõ tambem
-e contribuem para ficarem perfeitamente
-cozidos. Finalmente naõ se põe mais lenha
-na fornalha, e se lhe tapa a boca com
-huma chapa de ferro, para ir esfriando
-pouco a pouco, passados 7 ou 8 dias,
-se tira a louça do forno.</p>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ARTIGO_III">ARTIGO III.<br />
-<span class="smaller"><i>Das obras de ladrilho.</i></span></h2>
-
-<p id="section56">56 Como em París as obras de ladrilhos
-fazem parte do officio de Oleiro,
-he preciso fallar aqui dellas.</p>
-
-<p id="section57">57 Nos lugares aonde ha gesso, todas
-as obras de ladrilho se fazem com elle;
-mas aonde o naõ ha, se ladrilha com
-argamaça de cal, e arêa, betume, ou algumas
-vezes com huma mistura de argamaça,
-e gesso; naõ fallo aqui de hum
-máo modo de ladrilhar, de que usaõ os
-paisanos, assentando os ladrilhos sobre
-a argilla bem amassados com bastante arêa,
-para naõ encolher tanto o barro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p>
-
-<p id="section58">58 Quando se tem de ladrilhar com
-argamassa, he preciso embeber bem de
-agua o ladrilho logo ao sahir do forno:
-sem esta precauçaõ o ladrilho atrahe a
-agua da argamaça, e em lugar de tomar
-corpo se descompõe, e se torna quasi
-em arêa pura.</p>
-
-<p id="section59">59 Como a argamaça se pega menos
-ao barro do que o gesso, alguns mandaõ
-fazer por baixo do ladrilho, regos, ou
-buracos com hum pedaço de páo, que se
-mette por baixo do ladrilho depois de o
-bater, porém isto naõ está em uso.</p>
-
-<p id="section60">60 Em París todas as obras de ladrilho
-se fazem com gesso; mas, como o gesso
-vivo incha muito, quando se usa delle
-puro, por isso vem estas obras a ficar
-com defeito. Póde-se prevenir este inconveniente,
-ou misturando o gesso hum
-pouco molle com cal, ou ladrilhando por
-camadas, e naõ pôr outra em quanto naõ
-séca a primeira; ao menos se deve evitar
-pôr o ladrilho encostado á parede de
-encontro, e se deverá deixar alguns pés
-em roda sem ladrilhar até o gesso dos ladrilhos
-do meio, ter acabado de inchar;
-há bons ladrilhadores, que tendo precauçaõ,
-chegaõ a ladrilhar com gesso só,
-e a sua obra he melhor; mas pela a maior
-parte os ladrilhadores misturaõ o pó de<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span>
-carvaõ peneirado com o gesso, para elle
-naõ inchar tanto; quanto mais pó lhe
-ajuntaõ, menos temem, que lhe inche o
-gesso; e assim ladrilhaõ com mais facilidade;
-porque o gesso assim naõ pega com
-tanta promptidaõ, e elles naõ gastaõ tanto;
-e isto he utilidade sua, porque elles mesmos
-daõ o gesso. Por todos estes motivos
-ajuntaõ elles tanto pó de carvaõ ao
-gesso, que elle naõ toma corpo, e quasi
-naõ se péga ao ladrilho; ao contrario porém
-o gesso puro se péga tanto ao barro
-cozido, que se naõ podem separar dous
-ladrilhos, estando unidos hum ao outro
-com gesso. Seria melhor em lugar do pó
-de carvaõ misturar arêa boa, que faz corpo
-com o gesso, e tambem o naõ deixa
-inchar tanto, como se fôra o gesso
-vivo.</p>
-
-<p id="section61">61 Eu vi hum bom ladrilhador, que
-em lugar do pó de carvaõ ajuntava ao
-gesso ferrugem de chaminé; esta mistura
-naõ deixa o gesso prender com tanta promptidaõ,
-e assim tinha elle tempo de assentar
-melhor os ladrilhos. Disse-me elle
-que este gesso assim naõ inchava tanto,
-e me pareceo, que estes ficava muito duro,
-e muito adherente aos ladrilhos; e
-por isso penso, que se deve adoptar este
-methodo, aonde ha gesso, e ferrugem
-com facilidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span></p>
-
-<p id="section62">62 Quando o gesso he raro, e a ferrugem
-difficil, se póde segurar bem o
-ladrilho com huma mistura de gesso, e
-argamaça de cal, e arêa, ou betume.
-Esta especie de argamaça bastarda, que
-os nossos obreiros chamaõ <i>gâchis</i>,<a name="FNanchor_16" id="FNanchor_16"></a><a href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> incha
-pouco; com o tempo se torna muito dura;
-e como se demora em inchar, póde o
-ladrilhador com facilidade assentar os
-seus ladrilhos.</p>
-
-<p id="section63">63 Em París os pedreiros saõ os que
-fazem o lugar em que se devem assentar
-os ladrilhos; mas nas Provincias os ladrilhadores,
-põe ao nivel, e apromptaõ o pavimento,
-e lugar em que haõ-de assentar
-os ladrilhos, ou tijollos, elles o fazem
-ordinariamente espalhando carvaõ moido
-na parte, e depois assentaõ em cima huma
-regua com hum nivel. Logo que o lugar
-está prompto lançaõ por cima do pó
-huma agua de gesso muito clara, para
-lhe dar alguma consistencia.</p>
-
-<p id="section64">64 Os ladrilhos ficaõ mais seguros,
-quando se assentaõ sobre o gesso puro,
-ou simplesmente misturado com huma
-pouca de arêa boa; mas deve-se assentar
-o ladrilho depois do lugar estar secco,<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span>
-e o gesso ter acabado o seu effeito, hum
-assento da argamaça de cal, e arêa tambem
-he bom; e o peior modo, he o de
-assentar o ladrilho sobre o pó de carvaõ
-puro, que sendo comprimido, se abate, e
-se desordena com facilidade; por naõ poder
-dar hum assento sólido ao ladrilho,
-ou tijollo.</p>
-
-<p id="section65">65 Em algumas Provincias se prepara
-o pavimento com tufo branco, que se
-passa por grades, ou canissos, humedece-se
-hum pouco; para que sendo batido
-tome alguma firmeza.</p>
-
-<p id="section66">66 Em outro tempo se carregavaõ muito
-os pavimentos; porém agora, como os
-carpinteiros põe a madeira bem desempenada,
-e igual na grossura; recommenda-se
-aos ladrilhadores, que naõ ponhaõ
-muita carga por naõ pezar sobre as vigas.</p>
-
-<p id="section67">67 Quando os quartos ou celleiros,
-que se querem ladrilhar tem o assento
-preparado, o ladrilhador estende huma
-corda por todo o comprimento da peça,
-e põe por cima do gesso, ou argamaça,
-huma ordem de tijollos, examinando sempre
-se vai direita, e ao nivel, porque
-esta primeira ordem he a que regula as
-outras; pois, sendo todos os ladrilhos, ou
-tijollos feitos exactamente do mesmo tamanho,
-formáraõ ordens iguaes, e bem<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>
-direitas, se o ladrilhador os põe de modo,
-que naõ haja junta. Com tudo se por defeito
-do oleiro, ou do ladrilhador ficarem
-as ordens alguma cousa curvas, se remediará
-esta falta, deixando huma junta,
-ou emenda na curvatura. Isto sempre he
-hum defeito, mas pouco sensivel, quando
-a curvatura he pouco consideravel, e
-que se indereita pouco a pouco. Como
-esta primeira ordem, ou fileira deve dirigir
-todas as mais, logo que estiver bem
-assentada, se deve recommendar o naõ
-andar sobre ella pela naõ desordenar.
-Põe-se depois as outras fileiras, de sorte
-que hum dos angulos que falta no tijollo,
-que se põe se assenta no angulo, que entra
-dos tijollos, que estaõ postos na fileira,
-deste modo vem a formar linhas
-obliquas.</p>
-
-<p id="section68">68 Os ladrilhadores conservaõ o nivel
-em toda a extensaõ do pavimento por
-hum modo bem simples, e expediente;
-põe hum bocado de gesso, ou argamaça
-no lado dos ladrilhos, já postos, tendo
-o cuidado, de que fique a argamassa de huma
-grossura igual; se usaõ do gesso põe só em
-huma extensaõ, que occupe oito tijollos
-ou ladrilhos, para terem tempo de os pôr
-em seu lugar antes do gesso, indurecer
-muito: assentaõ, por cima dos ladrilhos<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span>
-postos, huma régua de páo de duas pollegadas
-de grosso e tres e meia de largo,
-e lhe batem fortemente. Levantaõ com a
-maõ esquerda esta régua, e batem sobre
-os ladrilhos até ella assentar igualmente
-sobre todos. Fica evidente, que os postos
-por ultimo estaõ ao nivel depois da régua
-assentar em todos igualmente; o que
-se faz com facilidade pelas pancadas fortes,
-que fazem enterrar os tijollos pelo gesso,
-ou argamaça. Se alguns fogem da direcçaõ,
-se abatem muito por falta do gesso, o
-ladrilhador os levanta com a colher; tira
-o gesso que estava por baixo, e põe outro
-tijollo, que fique sem defeito. Finalmente,
-tendo acertado os ladrilhos, rapa
-com o corte da colher o gesso, ou argamaça,
-que sobra por cima delles, e põe
-outra vez ao lado dos tijollos hum bocado,
-como acima se disse em extensaõ que
-occupe só 7, ou 8, tijollos, que põe de
-novo, e assim segue até acabar. Indo a
-encontrar na parede, póde entaõ misturar
-carvaõ em pó com o gesso, para que elle
-naõ inche; porque aqui naõ estaõ sujeitos
-a sahirem do seu lugar como no
-meio.</p>
-
-<p id="section69">69 Os ladrilhadores enchem as juntas,
-que ficaõ entre os ladrilhos, postos algumas
-vezes com gesso misturado com argamaça<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span>
-de cal bem dura, que lançaõ
-com força entre as juntas que ficaõ; outros
-lançaõ sobre os ladrilhos agua com
-gesso muito liquida. Tira-se o gesso, ou
-argamaça que se acha por cima dos ladrilhos,
-esfregando-os com arêa, ou com
-palhas, e depois de bem limpos se pintaõ
-com oleo, põe-se-lhe cêra, e esfregaõ.
-Os tijollos de ladrilhar, como se gastaõ, e
-ficaõ com covas pelo lugar, por onde se
-anda, e mesmo ao varrer por serem as
-vassouras commumente de alamo por evitar
-estes inconvinientes, untaõ com sangue
-de boi, que lhe dá huma sólidez
-muito duravel. Em algumas provincias se
-envernizaõ os ladrilhos, como a louça,
-formaõ divisões bem agradaveis, que variaõ
-por muitos modos.<a name="FNanchor_17" id="FNanchor_17"></a><a href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p>
-
-<h2 id="ARTIGO_IV">ARTIGO IV.<br />
-<span class="smaller"><i>Modo de fazer os differentes vasos,
-e utensis de casa com o mesmo
-barro, que serve para fazer
-os ladrilhos.</i></span></h2>
-
-<p id="section70">70 Os oleiros de París para fazerem
-differentes obras se servem do mesmo
-barro dos ladrilhos; só daõ a preferencia
-a certas veias onde a argilla he mais
-branca tirando hum pouco sobre o vermelho
-a qual os oleiros chamaõ bom barro;
-tira-se de <i>Arcueil</i>, e de <i>Vanvres</i>, como
-para o ladrilho; ligaõ-na com a mesma
-arêa, e na mesma quantidade, que
-para os ladrilhos. Como se amassa com
-mais cuidado, naõ se póde pôr a amassar
-mais de huma celha, ou quando muito
-duas de barro por cada vez.</p>
-
-<p id="section71">71 Alguns oleiros, depois do barro
-amassado, lançaõ hum torraõ sobre huma
-mesa grossa, e o batem com hum maço
-de ferro, como se faz no barro de pitos, e
-esta operaçaõ he muito boa; porém ainda
-que elle tenha sido amassado, e batido,
-he preciso repassallo pelas maõs para
-lançar fóra algumas pyrites, e pedras,<span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span>
-que possa ter ao que chamaõ <i>voguer</i>.<a name="FNanchor_18" id="FNanchor_18"></a><a href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a>
-Para este fim amassaõ o barro sobre a
-mesa de moldar, como fazendo huma
-pasta; elles ajuntaõ depois hum torraõ
-grande, e passando alternativamente a
-palma da maõ sobre este barro, tiraõ de
-cada vez huma camada bem delgada; e
-assim com facilidade encontraõ os corpos
-estranhos, e os lançaõ fóra. Depois de
-terem assim passado outro tanto, como o
-volume de huma libra de manteiga, amassaõ
-este torraõ que daõ a figura de hum
-cylindro, dividem-no em dous, e tendo
-huma ametade em cada maõ, as unem
-batendo com força huma contra a outra;
-depois o tornaõ a amassar de novo, e repetem
-esta manobra muitas vezes, e vaõ
-sempre lançando fóra os corpos estranhos
-que encontraõ, e acabaõ fazendo torrões
-de barro maiores, ou menores, segundo
-o tamanho dos vasos, que elles se propõe
-fazer. Os oleiros tem differentes modos
-de vogar o barro: porém todos consistem,
-em trabalhar muito o barro para
-o amassar bem, e separar-lhe todos os
-corpos estranhos, que nelle se acharem;
-porque para as obras que elles saõ obrigados
-a dar baratas, naõ podem fazer as<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span>
-despezas de lavar seus barros, e de os
-passar pela peneira (ou por hum crivo
-feito de arame de lataõ fino) como fazem
-os que trabalhaõ em louça fina. A
-operaçaõ de vogar he trabalhosa; porque
-para a maior parte dos utensis, que fazem
-os oleiros, se deve amassar o barro
-muito mais duro do que para os ladrilhos,
-principalmente havendo se de fazer vasos
-grandes, porque naõ se poderiaõ suster;
-e o barro voga-se com muito mais cuidado
-para humas obras do que para outras.</p>
-
-<p id="section72">72 Das obras de oleiro, humas se fazem
-inteiramente á maõ, como as caldeirinhas
-quadradas <i>F</i>, <i>fig. 10</i> <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, outras
-só se fazem na roda, como os vasos
-de flores, as tijellas, e alguidares <i>K</i>, <i>fig.
-11</i>, que naõ tem azas, outras se fazem
-parte na roda, e parte a maõ, como os
-vasos de tres pés, as marmitas <i>fig. 12</i>,
-os escalfadores <i>fig. 13</i>, as caçarolas <i>fig.
-14</i>, o corpo das quaes se faz na roda,
-e os pés, azas, e orelhas se põe de fóra
-á maõ.</p>
-
-<p id="section73">73 Agora começo a dizer alguma cousa
-sobre o trabalho da roda, ou torno; tambem
-explicarei como se acommodaõ nella
-differentes peças; depois darei alguns
-exemplos das obras, que se fazem inteiramente
-á maõ.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span></p>
-
-<h3><i>Do modo de fazer os vasos na roda.</i></h3>
-
-<p id="section74">74 Ha duas especies de rodas: huma
-he de ferro, e esta he verdadeiramente
-a roda de oleiros; e outra he de
-páo e se chama o <i>torno</i>. Quasi todos os
-oleiros de París se servem dellas; porém
-adoptaraõ a dos oleiros de louça fina
-vidrada.</p>
-
-<p id="section75">75 Descripçaõ da roda de ferro <i>aa</i> <a href="#est1"><i>Est.
-I</i></a>, <i>fig. 5</i>, he o meio da roda, que tem
-a pequena roda <i>bb</i>, em alguns lugares
-se chama <i>gimble</i>, sobre o qual está a obra
-<i>cc</i>, em que se trabalha. No meio <i>aa</i>,
-se ajuntaõ os raios da roda <i>dd</i>, que saõ
-de ferro. Nesta figura só se vem dous;
-porém a roda tem seis, como se vê na figura
-16. Estes raios vem dar em hum
-circulo de ferro, ou ambos, cuja grossura
-só se vê aqui representada pela linha
-<i>ee</i>; o meio <i>aa</i>, diminue de grossura
-em <i>ff</i>, e ainda mais em <i>gg</i>, esta parte,
-que he cylindrica, e pontuada na figura,
-he recebida por hum buraco em hum
-grosso pedaço de páo <i>g</i>, que fica bem
-seguro por huma cruz de páo <i>hh</i>, e pelas
-prisões <i>ii</i>. Em primeiro lugar he preciso
-conceber, que o meio <i>aa</i>, a parte <i>ff</i>,<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span>
-e o cylindro pontuado <i>g</i>, saõ tomadas em
-hum mesmo pedaço de páo; em segundo
-lugar que a parte cylindrica pontuada he
-recebida em hum buraco fundo, que está
-no centro do pedaço de páo <i>g</i>, no qual
-póde virar; que este cylindro pontuado,
-que tem a parte <i>ff</i> assim como este que
-nos temos chamado o <i>meio aa</i>, por cima
-do qual está a pequena roda <i>bb</i>, sobre a
-qual está a obra <i>cc</i>. Aqui se vê, que os
-raios <i>dd</i>, saõ obliquos, de sorte que por
-suas revoluções, formaõ hum conico cortado
-em <i>aa</i>; <i>K</i> saõ as pequenas mesas,
-que estaõ em roda do obreiro, em que
-elle põe as bolas de barro, de que vai
-fazer as obras, e as mesmas obras depois
-de feitas, huma gamela com agua, hum
-calibre de ferro ordinariamente, a que chamaõ
-<i>atelle L</i>, he huma taboa inclinada
-sobre a qual se assenta o obreiro. Tudo
-isto se tornará mais claro lançando os
-olhos sobre o plano perspectivo <i>fig. 17</i>.</p>
-
-<p id="section76">76 <i>A</i> he o meio da roda: <i>b</i> a pequena
-roda, que sustenta em si a obra <i>c</i>, na
-qual se trabalha: <i>d</i>, os raios da roda <i>ee</i>,
-cambas da roda: <i>f</i> a parte cylindrica do
-meio, por baixo do qual fica a que está
-pontuada na <i>fig. 1</i>, perto de <i>g</i>: <i>h</i> a taboa
-que esta segura aqui por huma massa
-de gesso: <i>k</i> as mesas pequenas, sobre que<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span>
-se põe a obra logo depois de feita: <i>l</i>, a
-taboa inclinada, em que se assenta o obreiro:
-<i>m</i>, taboas grossas inclinadas, que tem
-entalhes profundos, em que os obreiros
-põe os pés como se vê <i>fig. 16</i>, e <i>17</i>; estas
-especies de assento para os pés se
-chamaõ <i>poiaes</i>: <i>n</i> saõ as obras já acabadas:
-<i>o</i>, bôlos de barro para fazer outras obras:
-<i>p</i>, os pilares, ou pés direitos, que sustém
-as mesas <i>k</i>, <i>l</i>.</p>
-
-<p id="section77">77 A figura 16 representa a mesma
-maquina vista em plano, e virada para se
-poder ver a roda por baixo: <i>g</i>, a parte cylindrica,
-que entra em hum buraco fundo
-feito na peça <i>g</i>: <i>f</i>, parte cylindrica mais
-grossa; <i>aa</i>, o meio da roda aonde se ajuntaõ
-os raios <i>d</i>: <i>ee</i>, a camba: <i>p</i> saõ os encaixes
-destinados para receber os pés direitos
-que sustem as mesas <i>k</i>, e o assento <i>l</i>:
-<i>m</i>, lugar de pôr os pés.</p>
-
-<p id="section78">78 Nos campos muitas vezes he de
-páo, tudo o que aqui se representa de
-ferro; neste caso a camba da roda he
-muito grossa: para que com o seu peso
-conserve por mais tempo o movimento,
-que o oleiro lhe imprime. Como ellas saõ
-menos perfeitas que as de ferro, escuso
-entrar em individuações a seu respeito.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p>
-
-<p id="section79">79 Para se trabalhar sobre esta roda, he
-preciso imprimir-lhe hum movimento circular
-rapido, com hum páo <i>a</i>, <a href="#est2"><i>est. II</i></a>,
-<i>fig. 4</i>, que se chama virador. Vê-se nesta
-<i>fig. 4</i>, hum obreiro disposto para pôr a
-roda em movimento; está sentado no assento
-<i>l</i>, os pés estaõ nos entalhes dos lugares
-de ter os pés <i>m</i>; e com huma
-ponta do virador <i>a</i>, toca em hum raio
-de roda para a fazer andar, e imprimir-lhe
-hum movimento circular, que ella
-conserva bem tempo para o obreiro, <i>fig.
-5</i>, poder formar hum vaso.</p>
-
-<h3><i>Do torno, ou roda, que os oleiros de
-obra grossa tomáraõ dos de
-obra fina.</i></h3>
-
-<p id="section80">80 Esta roda <i>a</i>, <i>fig. 18</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, he
-de páo, e tem de grosso tres ou quatro
-pollegadas, para que o maior peso lhe
-faça conservar o movimento mais tempo;
-ella he atravessada por hum eixo de páo,
-ou de ferro <i>b</i>, que finda por baixo da
-roda em hum mancal: este eixo passa
-ao nivel da mesa por hum colar, e tem
-na sua extremidade superior huma roda
-pequena <i>c</i>, sobre a qual está a obra <i>d</i>;
-o obreiro <i>h</i>, estando assentado hum pouco<span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span>
-obliquamente sobre a taboa inclinada <i>i</i>,
-tem muitas vezes as pernas ambas do
-mesmo lado de sorte, que o eixo <i>b</i>, lhe
-passa por detraz da perna esquerda; muitas
-vezes tem as pernas abertas, e o eixo
-lhe passa pelo meio, estando os pés
-apoiados, e o esquerdo fica na travessa <i>g</i>,
-da mesa: <i>f</i>, he huma gamella com agua:
-tendo o obreiro o pé esquerdo sobre a
-travessa <i>g</i>, apoia o pé direito ligeiramente
-sobre, a roda e empurrando-a para
-diante lhe imprime hum movimento circular,
-que se communica a roda pequena
-<i>c</i>, sobre a qual está a obra <i>d</i>. Como esta
-roda naõ vira taõ veloz, quanto a de ferro,
-o obreiro póde formar a sua obra com
-mais regularidade, e póde accelerar-lhe
-o movimento, ou retardarllo conforme
-lhe parecer, e paralla mesmo quando
-quer: o que se naõ póde fazer com a
-roda de ferro.</p>
-
-<p id="section81">81 Quando o obreiro tem as pernas
-ambas do mesmo lado, se tem a direita
-cançada, póde tocar a roda com o pé esquerdo:
-algumas vezes para tocar a roda
-mais ligeira se vale de ambos os pés para
-a tocar.</p>
-
-<p id="section82">82 Ha alguns oleiros Alemães, que
-tendo o eixo <i>b</i>, entre as pernas, se servem
-de ambos os pés; mas he preciso<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span>
-entaõ, que o pé direito toque a roda
-para diante, e com o esquerdo a puxe
-para si: com o uso se vem a facilitar este
-movimento dos pés em sentidos contrarios.</p>
-
-<p id="section83">83 A roda de ferro he commoda para
-fazer obras, que naõ requerem muita
-regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime
-o movimento com o virador, ella
-vira com muita ligeireza, e seu movimento
-se enfraquece pouco a pouco, e
-isto he muito vantajoso; porque, quando
-se começa huma peça a roda naõ póde
-virar muito ligeira, mas para a acabar,
-carece mesmo de virar devagar: algumas
-vezes perde ella o seu movimento antes da peça, estar acabada,
-e entaõ precisa o oleiro com o virador
-tornar-lhe a dar novo movimento.</p>
-
-<p id="section84">84 Como com a roda de páo está o
-oleiro senhor de augmentar, ou diminuir
-o seu movimento, e ainda de interromper,
-fica esta mais commoda para obras finas,
-e que requerem mais exacçaõ; e ao
-presente os oleiros de París já naõ fazem
-uso da roda de ferro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span></p>
-
-<h3><i>Trabalho do Oleiro sobre a roda.</i></h3>
-
-<p id="section85">85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ
-só por se naõ pegar o barro a ellas, mas
-tambem para alizar a obra, que começaõ
-entre as maõs ambas, tendo huma dentro
-do vaso, e a outra fóra: outras vezes
-apertaõ o barro entre o dedo pollegar e
-o index de ambas as maõs. He impossivel
-relatar todas as differentes posições que
-o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ
-a posiçaõ em huma mesma obra. Para
-aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe a
-grossura, se servem do calibre, que elles
-chamaõ <i>atelli</i>; elles tem muitos de
-differentes figuras, conforme requer a
-obra que elles fazem: alguns destes calibres
-tem molduras, e a maior parte saõ
-de ferro; mas tambem alguns saõ de páo.</p>
-
-<p id="section86">86 Quando se vê trabalhar hum habil
-oleiro de roda parece que o seu trabalho
-he muito facil de executar; todavia requer
-muita destreza: porque naõ he facil
-dar igualdade de grossura a hum vaso
-de barro tendo huma maõ dentro delle,
-e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade,
-e se faz conhecer mais a habilidade
-do obreiro, quando he preciso<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span>
-dar mais grossura ao vaso em humas partes,
-do que em outras: seria, por exemplo,
-mais facil fazer o fundo de hum alguidar
-mais grosso, do que os lados; com
-tudo he melhor que o fundo seja mais
-delgado, que os lados. Outras obras precisaõ
-maior grossura na barriga ou bojo;
-e hum habil obreiro chega a executar todas
-estas cousas com bastante exactidaõ,
-sem se servir de compaço, ou outra alguma
-medida. Naõ se limita só nisto;
-porque estende, ou aperta o barro, á sua
-vontade, de sorte que tendo feito hum
-vaso grande, o torna pequeno, querendo,
-e de largo o faz estreito, se he alto o
-reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade
-do barro, faz delle o que quer;
-com tudo nota-se, que os pratos razos e
-fundos, etc. que foraõ feitos na roda, se
-quebraõ quasi sempre pellas linhas circulares,
-o que naõ acontece aos vasos
-feitos em moldes; parece, que trabalhando-se
-o barro na roda algumas camadas se
-naõ unem perfeitamente.</p>
-
-<p id="section87">87 Adiante representarei muitas obras,
-que se fazem na roda; mas para dar hum
-exemplo do que podem fazer os oleiros
-de obra grossa, escolherei hum mealheiro
-<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 19</i>. Vou explicar como
-se faz esta pequena peça taõ commum,<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span>
-que he de hum só pedaço, fechado de
-todas as partes, e feito inteiramente sobre
-a roda, sem ser soldada, nem feita
-de tiras, ou pedaços: o que parece difficil
-de executar.</p>
-
-<p id="section88">88 O oleiro torneia na roda a parte
-baixa, ou fundo do mealheiro, como se
-quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno;
-depois recalca o barro, e aperta a abertura;
-formando como hum pequeno zimborio,
-e isto faz huma especie de aperto
-para isto aperta o barro da parte de fóra
-com o dedo pollegar, e por dentro o sustenta
-com o index, e isto continúa em
-quanto póde ter o dedo index dentro do
-mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo
-comprime com o pollegar, e index
-huma porçaõ maior de barro, que fica
-reservada em roda do buraco, e neste
-lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente
-o mealheiro, depois com a folha
-de huma faca abre a fenda por onde se
-introduz o dinheiro, e por dentro nas
-margens desta fenda se formaõ rebarbas,
-que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando
-se sacode o mealheiro; finalmente com
-hum fio de lataõ, ou arame, a que os
-oleiros chamaõ serra, despega o mealheiro
-da roda pequena sobre a qual se fórma
-a louça.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span></p>
-
-<p id="section89">89 Havendo-se de fazer na roda hum
-grande alguidar para ensaboar; como as
-bordas saõ grossas, e elle he muito mais
-largo na boca do que no fundo, he preciso
-usar de hum barro mais duro, porque
-sendo molle, naõ se poderá suster.
-Como nestes alguidares se costuma fazer
-lugar de escorrer ou vazadouro a modo
-de goteira isto se faz antes de os despegar
-da roda; para este fim se dobra com
-os dedos o lugar aonde se quer fazer a
-goteira em quanto o barro ainda está
-molle. Em fim, estando feito o alguidar,
-ou outra qualquer obra, se despega da roda
-com huma folha de faca, se a obra he
-pequena, ou com hum arame se he grande.</p>
-
-<p id="section90">90 Há alguidares grandes, em que se
-põe orelhas; porém estas naõ se fazem
-na roda; adiante fallaremos delles, assim
-como de outras muitas obras, nas quaes
-he preciso pôr péz, e azas, etc.</p>
-
-<p id="section91">91 Os vasos communs de flores <i>n</i>,
-<i>fig. 17</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, se fazem inteiramente sobre
-a roda; devem ser hum pouco mais
-largos para cima do que para baixo, para
-se poder tirar o torraõ direito, e levar as
-plantas com o torraõ em que se criáraõ:
-em cima e na boca se lhe fórma hum cordaõ
-que os fortifica, e os torna mais faceis de mudar<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span>
-de hum lugar para outro. As gamelas
-tambem se fazem na roda, e acabaõ em
-cima com huma borda grossa, ou cordaõ,
-como inteiramente os vasos de flores. Os
-pratos se fazem do mesmo modo; mas
-para as bordas acabarem com regularidade
-se servem do calibre.</p>
-
-<p id="section92">92 Os vasos de despejos <i>A</i>, <i>B</i>, <i>D</i>, <i>fig.
-20</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, se fazem por duas vezes. Sabe-se
-que elles saõ mais largos por huma
-ponta, do que pela outra <i>b</i>, que fórmaõ
-huma cinta, ou anel de barro, que se
-lhe põe quatro dedos distante da sua borda,
-alguns oleiros chamaõ anel, e outros
-<i>viret</i>. Com huma só operaçaõ se acaba
-todo o vaso, e na ponta <i>b</i>, fica mais estreito,
-e ahi se fórma hum anel: e depois
-se despega de cima da roda pequena
-ou prato, onde está pegado por hum bocado
-de barro, que ahi se deixou; acaba-se
-a ponta <i>a</i>, mais larga, que deve
-receber em si a ponta <i>b</i>, que he mais
-estreita, e tem o anel de que acima falamos;
-estes vasos se fazem inteiramente
-na roda; porém por duas vezes. Naõ he
-o mesmo a respeito dos vasos em dous
-<i>E</i>, <i>C</i>, <i>fig. 20</i>, ou que se dividem em
-dous para corresponder á dous assentos.
-A este respeito se deve notar, que há
-tubos de despejo que saõ mais largos,<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span>
-que outros; e por isso se fazem tubos,
-que tem hum pé de diametro, e outros
-só tem oito, ou nove pollegadas. Ora,
-quando se faz hum tubo de barro, que
-se deve dividir em dous como <i>E</i>, <i>C</i>, a
-parte <i>A</i>, <i>B</i>, que corresponde a huma serie
-de tubos, que se estende desde a cava,
-até a divisaõ, ordinariamente se faz
-com tubos de maior diametro, e as divisões
-<i>E</i>, <i>C</i>, se fazem com tubos de
-menor diametro. Para fazer o vaso ou tubo
-que se divide em dous, saõ precisos
-tres tubos hum grande, e dous pequenos;
-põe-se a seccar hum pouco <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 7</i>.
-o que explicarei com brevidade; e tendo
-posto o grande pote sobre a mesa em
-que se ha de preparar <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 8</i>,
-com a ponta rebaixada para baixo, chanfra-se
-a ponta larga que está para cima, chanfraõ-se
-tambem as pontas mais estreitas
-dos dous tubos do molde pequeno, para
-as soldar com o grande, como se dirá.
-Desta sorte os tubos, que se dividem em
-dous se fazem parte na roda, e parte á
-maõ; mas por naõ separar daqui cousa
-alguma, das que pertencem aos vasos de
-despejo, por isso julguei dever fallar
-de tudo. Farei ver sómente, que se
-póde fazer a separaçaõ dos tubos, sendo
-taõ grandes huns, como outros, como se<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span>
-representou em <i>A</i>, <i>B</i>, <i>C</i>, <i>D</i>, <i>fig. 20</i>,
-<a href="#est1"><i>est. I</i></a>. Começo outra vés a fallar nas
-obras que se fazem inteiramente na roda.</p>
-
-<p id="section93">93 Para fazer testos de potes, marmitas,
-escalfadores, fogareiros etc. como
-<i>I</i>, <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 12</i>, põe se sobre, a roda
-pequena, ou prato hum bôlo de barro;
-do qual se querem fazer varios testos,
-começa-se primeiro a formar a parte de
-baixo do testo, que he hum pouco convexa
-no meio; depois apertando-se com
-os dedos da outra maõ o barro, que está
-por baixo do testo, se forma a parte
-de cima, que he concava; faz-se no
-meio hum botaõ, e se acaba despegando-o
-do barro com o dedo, ou folha de
-faca. Depois querendo se se põe o testo
-sobre o barro que está na roda, e se
-aperfeiçoa entaõ pela parte de cima; mas
-de ordinario se naõ pratica isto: successivamente
-se tiraõ tantos testos, quantos
-póde dar o barro que está na roda.</p>
-
-<p id="section94">94 Os testos de fogareiros, e escalfadores
-<i>fig. 13</i>, <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, se fazem pouco
-mais, ou menos da mesma fórma, ainda
-que sejaõ hum pouco mais compostos,
-porque devem ter hum circulo, ou anel
-que encaixa dentro da bocca do escalfador.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p>
-
-<h3><i>Como se podem formar obras no torno
-com hum calibre.</i></h3>
-
-<p id="section95">95 Para calibrar as obras, se usa de
-hum torno pouco mais ou menos, como
-o da <i>fig. 18</i>. Elle tem huma roda <i>a</i>, hum
-eixo <i>b</i>, que tem a roda pequena, ou prato
-<i>c</i>, sobre o qual está a obra <i>d</i>. Está claro
-que ajustando-se por cima da mesa hum
-calibre, que se possa chegar para diante,
-ou retirallo da obra <i>d</i>, á vontade
-do obreiro certamente formará com exactidaõ
-as voltas, ou molduras, que se
-quizerem na obra, tirando-lhe por fóra
-o barro, que se pôs de mais; porém este
-calibre só póde formar o exterior, e
-naõ se póde usar delle nos vasos, que
-devem ser trabalhados tambem por dentro;
-serve só para os pés destinados a
-sustentar vasos, ou outras cousas de
-ornatos, que á maõ se alimpaõ por dentro,
-por naõ ser o interior de alguma
-consequencia; mas póde-se fazer uso de
-hum torno quasi semilhante para os vasos
-de jardim, como vou explicar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p>
-
-<h3><i>Como se fazem no torno vasos
-grandes de jardim.</i></h3>
-
-<p id="section96">96 Quasi todos os vasos grandes de
-jardim se fazem por moldes; com tudo elles
-se podem tambem fazer no torno,
-com hum calibre grande <i>ee</i>, entalhado
-nos lugares, que devem sobresahir no
-vaso, e formar os salientes nas partes
-onde os contornos do mesmo vaso devem
-ser ocas, ou cavadas. Supponhamos,
-que se quer fazer, o vaso <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>,
-<i>fig. 21</i>; faz-se de tres pedaços; hum faz
-o pé, outro o corpo <i>l</i>, e outro o testo
-<i>m</i>, ao qual se ajuntaõ alguns ornatos,
-como hum globo, huma pinha,
-pomo, etc. Vou agora explicar como
-se faz o corpo <i>L</i>, sobre a mesa <i>B</i>,
-<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 21</i>. O calibre, que anda em
-roda se forma de hum páo vertical <i>hh</i>,
-cuja ponta debaixo ou piaõ, se introdus
-em hum buraco, feito no meio da mesa
-<i>aa</i>, que deve ser forte, e por cima
-he sustida por hum cachimbo de
-páo <i>g</i>, que fica preza a huma peça tambem
-de páo, quadrada <i>bb</i>, assim he preciso
-conhecer que o páo vertical <i>hh</i>,
-vira livremente sobre si mesmo. Este páo<span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span>
-deve ser bem forte para poder sustentar
-com firmeza a potencia <i>ii</i>, que deve puxar
-o calibre <i>ee</i>, que algumas vezes forceja
-muito pela impressaõ que faz no
-barro, que excede do corpo do vaso.
-Tambem se ajuda a fazer firme o calibre
-segurando-o por baixo com a maõ, que
-vai sobre a mesa em <i>o</i>, e com a outra
-maõ tirando o barro, quando se vê que
-o calibre tem muito barro para levar. Percebe-se,
-que as peças de páo quadradas <i>bb</i>,
-assim como a mesa <i>aa</i>, devem estar bem
-firmes; mas como se fará por differentes
-modos, segundo o lugar, em que se levantar
-o torno, eu me contento só em mostrallo.
-O oleiro põe o seu barro sobre a mesa
-<i>aa</i>, e tendo huma maõ dentro do vaso,
-e outra fóra lhe fará tomar pouco mais,
-ou menos a figura, que elle projecta dar
-ao vaso; digo, pouco mais, ou menos;
-porque o calibre <i>ee</i>, he o que deve aperfeiçoar
-a figura do vaso. Este calibre <i>ee</i>,
-he huma taboa pouco grossa, cujas bordas
-terminaõ em chanfro, e saõ talhadas
-de modo, que o contorno das bordas faz,
-por assim dizer, a contra prova do vaso
-que se quer fazer. Deve-se segurar bem
-com parafusos em huma peça de páo
-quadrada <i>ii</i>, que fórma huma potencia;
-para se adiantar, ou recuar este calibre,<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span>
-segundo a grossura, que se quer dar ao
-vaso, a potencia <i>ii</i>, he fendida, e tem
-hum grande encaixe; de sorte que afroxando
-o parafuso, o calibre <i>ee</i>, se pode chegar-se
-para diante, ou recuar, e se segura
-apertando o parafuso. Estando tudo
-assim disposto, se faz virar á maõ o
-calibre <i>ee</i>, que leva diante de si o barro,
-que há de mais, e o oleiro o accrescenta
-nos lugares aonde falta; ao mesmo
-tempo põe o vaso, quasi igual na grossura
-com hum calibre por dentro, tirando
-o barro, que ha de mais aonde he muito
-grosso. Finalmente, quando o corpo do
-vaso está bem formado, se deixa hum
-par de dias sobre a mesa, para que o
-barro se faça mais duro; depois se despega
-da mesa, com hum arame; tira-se
-o pedaço de páo <i>g</i>, e tendo tirado o
-páo <i>hh</i>; como tambem o calibre <i>ee</i>,
-pega-se no vaso com ambas as maõs,
-depois de tirado o páo <i>hh</i>, que o atravessa
-em seu eixo; e se põe o vaso a
-seccar. Entaõ se faz o testo com outro
-calibre, e o pé tambem com hum calibre
-proprio a figura que se lhe deve dar.
-Depois de terem estado as peças algum
-tempo a seccar, viraõ-se sobre a mesa,
-em que se aperfeiçoaõ, para se alimparem
-por dentro com hum instrumento proprio<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span>
-para isso <i>Y</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, <i>fig. 1</i>, e formar-lhe
-aneis para se ajustarem differentes peças.
-Parecendo conveniente ao oleiro ajuntar
-azas ao corpo do vaso, e adiante se explicará
-o modo de o fazer: algumas vezes
-se segura fixo, e immovel, o calibre e
-o vaso he que vira sobre huma rodela,
-que se move á maõ. Tudo isto pouco mais
-ou menos he o mesmo.</p>
-
-<h3><i>Vasos grandes de barro cozido.</i></h3>
-
-<p id="section97">97 Todo o mundo conhece os vasos
-grandes de hum barro esbranquiçado, vidrados
-por dentro, que chamaõ <i>talhas</i>,
-<i>A</i>, <i>fig. 20</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, elles se fazem em
-Provença. Muitas pessoas attentas á sua
-saude, para evitar os inconvenientes que
-poderiaõ resultar do cobre, mandaõ vir
-estas talhas para conservar a agua de
-que usaõ. Ha algumas muito grandes,
-que saõ grossas, e sólidas; com tudo cobrem-se
-tambem de esteiras de palha, e
-com esta precauçaõ duraõ muito tempo
-sem se quebrarem; havendo cuidado no
-Inverno de as ter em parte, onde naõ
-gele a agua, que tem dentro. Quasi todos
-os Navios as levaõ para conservar a agua
-destinada para a meza do Capitaõ; e em<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span>
-Provença se conserva o azeite nestas talhas.</p>
-
-<p id="section98">98 O gosto, que tem todos de conservar
-a agua em talhas, tem obrigado aos
-oleiros, que trabalhaõ em greda, a fazer
-potes taõ grandes, quasi como os vasos
-de que se acaba de fallar. Ha alguns,
-que levaõ a quarta parte de hum almude.
-Eu os conservo no meu laboratorio de
-Chymica em <i>Campagne</i> feitos, em <i>Saint
-Fargeau</i>, vidrados por dentro; os que
-se vendem em París, e os que tem torneira,
-ou esguicho, vem de Picardía.</p>
-
-<p id="section99">99 Porém vi em muitos lugares, e
-igualmente tenho á muito tempo vasos
-grandes de barro vermelho, entre os quaes
-há alguns, que levaõ mais de meio almude:
-os que saõ bem feitos a agua os
-naõ penetra, inda que naõ sejaõ vidrados.
-Servem para muitos usos; para guardar
-lexivias; para fazer salmouras em lugar
-de celhas de salgar carne; e vi em jardins
-algumas, que, estando rodeadas de
-obras de pedra calcaria, serviaõ de conservar
-a agua, para se regarem, ou aguarem
-as plantas. Eu naõ sabia de donde
-vinhaõ estes vasos, e talvez se façaõ em
-muitos lugares; mas Mr Desmarais me
-fez ver no calendario <i>Limousin</i> do anno
-de 1770 hum artigo, que julguei dever introduzir
-aqui.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p>
-
-<p id="section100">100 Hum quarto de legoa distante de
-<i>Montmoreau</i> que fica seis legoas ao Sul,
-de Angoulème se acha a Cidade <i>Saint
-Eutrope</i>, e quasi todos os habitantes desta
-Cidade fazem louça. Contaõ-se ahi
-trinta familias todas empregadas neste
-trabalho: vinte e cinco fornos estaõ
-sempre occupados em cozer louça miuda,
-pratos pequenos, grandes, e panellas para
-o fogo de differentes tamanhos; porém
-ha tres, que estaõ destinados para cozer
-differentes obras, e principalmente vasos
-grandes para fazer Lixivia, e salgar toucinho,
-etc. Todos os oleiros, que tem
-de cozer destes vasos grandes, os levaõ a
-hum destes tres fornos.</p>
-
-<p id="section101">101 Para esta qualidade de louças servem-se
-de huma argilla muito ductil, que
-se acha junto da aldêa. A occupaçaõ das
-mulheres, e dos meninos, he humedecer,
-e amassar, esta argilla com huma massa
-de ferro sobre hum pilaõ, tambem daõ
-os ultimos talhes á louça, o que se chama
-aperfeiçoar: porém naõ he isto só o
-que elles fazem, ainda vaõ cortar arbustos,
-e páos miudos para aquentar os fornos
-de cozer as louças.</p>
-
-<p id="section102">102 Os homens fazem vasos grandes
-em huma roda muito simples <i>D</i>, <i>Est II</i>.
-<i>fig. 3</i>. ella se fórma de duas rodellas <i>E,<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span>
-</i>, semelhantes ás de hum zimborio de
-moinho. Estas rodellas estaõ juntas huma
-á outra por seis furos <i>G</i>: a rodella <i>F</i>, tem
-hum buraco em <i>H</i>, para receber a espiga
-ou eixo <i>I</i>, que está bem segura por baixo
-na terra; de sorte, que este zimborio em
-sua espiga, ou eixo, vem a formar como
-huma dobadoura. O obreiro põe o barro
-sobre a rodella <i>E</i>, e com o pé que põe
-sobre a outra roda <i>F</i>, a faz andar lentamente.
-Logo que está feita a primeira
-base do vaso, elle trabalha os lados,
-accrescentando successivamente rolos de
-barro, que liga huns sobre os outros,
-unindo as superficies interiores, e exteriores
-com as maõs: deste modo chega
-a acabar vasos grandes, os quaes torna
-redondos por meio do torno; e elle tem
-cuidado de dar pequenas pancadas com
-a palma da maõ no barro para o comprimir.
-Depois de seccos estes vasos se
-fazem cozer nos fornos grandes, quasi
-semilhantes aos que se representaraõ na
-<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 7</i>, <i>8</i>, e <i>9</i>. Estas louças se
-vendem principalmente em <i>Angouleme</i>,
-<i>Perigueux</i>, <i>Saintonge</i>, <i>Bordeaux</i>. Os
-oleiros naõ podem dar vasaõ ás encommendas
-que tem dellas.</p>
-
-<p id="section103">103 Quando os vasos, de que se tem
-tratado, saõ muito grandes, se fazem de<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span>
-muitas peças: huma fórma o fundo, outra
-o corpo, e outra a parte mais alta;
-e todas estas peças se unem com aneis
-de barro, que se cozem com o vaso, e ficaõ
-taõ sólidas, como se fossem de huma
-só peça.</p>
-
-<p id="section104">104 Vê-se em alguns vasos, feitos
-em Normandia, partes sahidas para fóra
-e saõ adornos; algumas vezes estas partes
-postas circularmente, servem de encobrir,
-e fortificar os lugares, em que foraõ
-as soldaduras.</p>
-
-<p id="section105">105 A <i>fig. 2</i>, <i>M</i>, he hum grande vaso
-de barro, no qual se põe algumas vezes huma
-torneira, para fazer delle huma fonte,
-ou lavatorio, e substituir os de cobre:
-há alguns que tem por dentro pratos
-desenhados por linhas pontuadas; estes
-pratos estaõ cheios de buracos, e se
-lhe põe arêa grossa para filtrar a agua,
-e fazer fontes areentas.</p>
-
-<p id="section106">106 Saõ bem conhecidos os potes cylindricos
-de Normandia, em que vem as
-manteigas de Isignes. Depois de vazios,
-as familias pequenas se servem delles
-para conservar agua. <i>A</i> <i>fig. 6</i>, <i>P</i>, <a href="#est2"><i>est. II</i></a>,
-he huma botelha de barro de Normandia.
-Quando se faz no torno a barriga
-<i>QQ</i>, e o gargallo <i>R</i>, se solda na barriga
-no lugar <i>T</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p>
-
-<p id="section107">107 Naõ faço huma maior relaçaõ das
-differentes obras, que se fazem inteiramente
-no torno; pois o que se acaba de
-dizer bastará para fazer perceber o modo
-porque se fazem aquelles, de que se
-naõ falla: agora vou fallar das obras, que
-se fazem, parte no torno, e parte na
-mesa para lhes pôr azas, e pés.</p>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ARTIGO_V">ARTIGO V.<br />
-<span class="smaller"><i>Das obras, que se fazem parte na
-roda, e parte na mesa para lhes
-pôr azas, e pés.</i></span></h2>
-
-<p id="section108">108 Depois de começadas estas obras
-no torno, e se lhes ter dado a figura,
-que devem ter, se despega da rodella
-com o fio ou arame de latam, e se põe
-sobre humas taboas, a que chamaõ armaçaõ
-de ripas, <i>D</i> <a href="#est3"><i>Est. III</i></a>, <i>fig. 4</i>, porque
-estaõ ao tempo, e se fórma de ripas;
-deixaõ-se seccar as obras hum pouco,
-ou endurecer á sombra, mesmo defendidas
-de huma grande corrente de ar,
-porque he preciso, que sequem lentamente.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span></p>
-
-<p id="section109">109 Depois das obras estarem alguma
-cousa duras sobre as ripas, se transportaõ
-para huma mesa pondo humas ao pé das
-outras para as aperfeiçoar.</p>
-
-<p id="section110">110 Esta operaçaõ consiste em remediar
-a maõ os defeitos, que se lhe percebem;
-se ha barro pegado em huma parte,
-se tira com huma faca de páo muito estreita
-que se molha; se as bordas de algum
-vaso se inclinaraõ para alguma parte,
-indireitaõ-se; se na barriga se fez alguma
-cova, passa-se a maõ por dentro
-do vaso para o endireitar fazendo vir para
-fóra; se as boccas, que devem ser redondas,
-apparecem ovaes, se indireitaõ apertando-as
-entre as maõs. Algumas vezes
-he preciso cortar por baixo os vasos
-para ficarem com o assento mais firme;
-isto se faz pondo a bocca do vaso sobre
-a mesa, e o fundo para cima; depois se
-tira o barro com hum instrumento de
-ferro <i>Y</i>, <i>fig. 1</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, que tem córte.
-Daõ-se de differentes formas huns saõ,
-direitos, outros curvos, chamaõ-se <i>tournassin</i>.</p>
-
-<p id="section111">111 Sobre a mesa tambem he, que
-se põe os pés, os cabos, e azas nas peças,
-que os devem ter.</p>
-
-<p id="section112">112 Todas estas cousas saõ peças relativas
-que se soldaõ nos lugares, em que<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span>
-se devem pôr, tendo-se feito á maõ sobre
-huma mesa. O modo de soldar os cabos,
-as azas, e os pés he o mesmo; porém
-devem haver certas precauções por se
-naõ despegarem estas peças. Alguns exemplos
-bastaraõ para se perceber esta pequena
-manobra.</p>
-
-<p id="section113">113 Tomo por exemplo huma marmita;
-fórma-se no torno a barriga, o gargallo
-e a borda, e deixando-se sobre as
-ripas este corpo de marmita, se põe sobre
-a mesa para o aperfeiçoar, e ajuntar-lhe
-as azas. Os oleiros se portaõ
-nisto de dous modos differentes: huns
-formaõ a aza sobre a mesa; daõ-lhe o
-contorno, que lhe convem; depois para
-apegar ao corpo da marmita, raspaõ hum
-pouco os dous lugares, onde se deve pegar
-a aza ao corpo da marmita; esfregaõ
-estes lugares com hum bocado de barro
-novo, soldaõ a aza apertando-a fortemente
-com o dedo pollegar contra o corpo
-da marmita, ou do fogareiro, etc.
-Outros, depois de ter raspado o corpo da
-marmita, põe sobre o mesmo lugar hum
-pedaço de barro novo, que trabalhaõ á
-maõ para o fazer tomar a figura de aza;
-e depois de o terem preparado raspaõ o
-lugar aonde ella deve chegar, e pondo
-hum pouco de barro novo, e apertando<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span>
-bem com os dedos a aza se pega de modo,
-que naõ despega mais. Este methodo
-se tem por mais sólido, do que o precedente.</p>
-
-<p id="section114">114 As orelhas <i>aa</i>, dos potes <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>,
-<i>fig. 12</i> se soldaõ do mesmo modo, que
-as azas das marmitas.</p>
-
-<p id="section115">115 Em geral para que duas peças se
-ajuntem bem, he preciso que os dous
-barros estejaõ no mesmo gráo de seccura;
-naõ sendo assim, huma peça encolheria
-mais do que outra, e se despegaria, ou
-quebraria. Com tudo se o corpo da marmita
-seccasse muito se tornaria a humedecer
-no lugar, em que se quizesse soldar,
-pondo-lhe por cima hum panno molhado,
-que dentro em huma noite humedece
-quanto basta.</p>
-
-<p id="section116">116 O corpo dos potes de tres pés <i>fig.
-15</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, se faz no torno, depois se trazem
-para ahi os pés, e azas, como disse
-da marmita, e para se soldarem se
-poem na mesa com a bocca para baixo; e
-testo <i>C</i>, naõ deve ter borda com encaixe.</p>
-
-<p id="section117">117 O corpo dos escalfadores <i>fig. 13</i>,
-<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, se faz ao torno; fórma-se a barriga
-<i>a</i>, redonda, depois aperta-se o barro
-para formar a parte cylindrica <i>b</i>, fortifica-se
-o bordo com hum rôlo ou anel<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span>
-de barro, faz-se-lhe hum pequeno bico,
-e quando estaõ já alguma cousa duros;
-levaõ-se para a mesa de aperfeiçoar para
-se acabarem, e pôr-lhe a aza <i>C</i>, como
-se disse da marmita.</p>
-
-<p id="section118">118 O corpo <i>b</i>. das cassarolas, etc.
-<a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 14</i>, se faz no torno, ha oleiros
-que fazem no mesmo torno o cabo, outros
-o fazem á maõ sobre huma taboa.
-Todos o soldaõ a cassarola, como já se
-explicou.</p>
-
-<p id="section119">119 Os cabos que se fazem no torno
-saõ muito mais proprios, do que os feitos
-á maõ sobre a taboa; porém bom he
-explicar como se faz no torno hum tubo
-ôco pelo qual apenas se póde introduzir
-hum dedo. Começa-se por baixo, com
-sufficiente largura, para formar o tubo
-entre o pollegar, e os outros dedos.
-Este tubo tem pouca altura, e deve ser
-grosso, porque será preciso estendello
-no comprimento; para isto comprimindo
-brandamente o tubo entre as maõs, se
-estende, levantando as maõs, e elle diminue
-de grossura á proporçaõ que se
-estende em comprimento; acaba-se fazendo-lhe
-huma pequena orla na borda
-<i>c</i>. Em fim se despega da rodella; e depois
-de ter comprimido hum pouco a
-ponta, que ha-de pegar no corpo da<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span>
-cassarola, como as azas dos fogareiros etc.</p>
-
-<p id="section120">120 Os coadores se fazem como as
-cassarolas, etc. só sim demais se lhe abrem
-buracos com huma especie de buril,
-quando elles estaõ meios seccos.</p>
-
-<p id="section121">121 Tambem se fazem fogareiros pequenos,
-em que se põe brazas para os
-esquentadores de madeira; fazem-se no
-torno, e antes de os tirar da rodella, se
-faz chato hum dos lados que he formado
-em parte do fundo; tira-se o barro, que
-excede o resto das bordas do fogareiro:
-forma-se á maõ o outro lado, e ajusta-se
-no meio desta face hum botaõ; assim
-esta pequena peça he quasi de todo feita
-a maõ, ainda que ella se começa, e
-se aperfeiçoa sobre a rodella, sem a tirar
-para a mesa de aperfeiçõar.</p>
-
-<p id="section122">122 <i>R</i>, <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, <i>fig. 10</i>, he hum candeeiro
-quasi todo feito no torno, ajunta-se
-sómente hum bocado de barro em <i>a</i>,
-e em <i>b</i>, com huma aza em <i>c</i>.</p>
-
-<p id="section123">123 Tambem se fazem regadores de
-barro: o corpo se faz inteiramente sobre
-o torno, assim como o tubo, que se
-faz como o cabo das cassarollas; vaza-se
-hum pouco na ponta, que se tapa com
-huma placa de barro cheio de buracos,
-põe-se por cima hum bucado de barro para
-tapar a metade da embocadura; solda-se<span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span>
-o tubo ao corpo do regador: sustem-se
-por aquella parte, que naõ está
-ôca; solda-se a aza e rega admiravelmente.</p>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ARTIGO_VI">ARTIGO VI.<br />
-<span class="smaller"><i>De algumas obras, que se fazem inteiramente á maõ.</i></span></h2>
-
-<p id="section124">124 Ja se disse que alguns oleiros
-faziaõ todas as suas obras á maõ. Para
-dar huma idéa deste trabalho vou explicar
-como se fazem os esquentadores quadrados
-<i>F</i>, <a href="#est1"><i>Est. I</i></a>, <i>fig. 10</i>.</p>
-
-<p id="section125">125 Os esquentadores, e fogareiros,
-que devem ter dentro em si o fogo, se
-fazem com o mesmo barro de que se fazem
-os ladrilhos, excepto que, em lugar
-de ajuntar arêa á argilla, os oleiros emmagrecem
-o barro com a escoria de ferro
-moida; e passada por huma peneira
-de cabello, ajuntando <i>hum demiqueve</i>
-de barro a dez <i>boisseaux</i> do pó de escumalha.
-Amaça-se esta mistura como já disse,
-fallando os ladrilhos. Para fazer hum
-esquentador, se molda sobre hum caixilho
-de madeira, se formaõ duas como telhas,
-ou pastas de barro direitas, se põe
-nas varas a enxugar, e se batem huma
-vez do mesmo modo, que os ladrilhos:<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span>
-depois em quanto está ainda branda, se
-tomaõ estas duas telhas, que chegaõ para
-fazer hum esquentador. Põe-se huma
-destas telhas na mesa de aperfeiçoar, raspaõ-se-lhe
-as bordas sobre hum calibre
-de páo, para o acertar, divide-se a largura
-em tres partes, das quaes a do meio
-faz o fundo do esquentador <i>a</i>, e as outras
-duas fazem os grandes lados <i>bb</i>, <i>bb</i>,
-levantando-os quasi perpendiculares, mas
-que fiquem alguma cousa inclinadas para fóra,
-bem entendido, que com os dedos
-se fórma em baixo hum angulo, quasi
-de quina viva; da outra telha, ou pasta
-de barro se tiraõ os dous pedaços, que
-haõ-de tapar as pontas do esquentador;
-soldaõ-se nos grandes lados <i>bb</i>, fazendo
-o mesmo que já disse a respeito do modo
-de soldar as azas, e as orelhas dos vasos;
-finalmente a mesma segunda telha
-chega para fazer o tampo de cima <i>dd</i>; no
-meio da qual se faz hum buraco quadrado
-com a folha de huma faca molhada,
-que he para o testo. Naõ se faz encaixe
-para receber este testo; mas quando se
-tira, corta-se o barro obliquamente, para
-o chanfro servir de encaixe, para que
-o testo naõ possa cahir dentro do esquentador;
-aperfeiçoaõ-se todos os lugares das
-soldaduras, e se acaba fazendo buracos,<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span>
-tanto por cima, como pelos lados do esquentador,
-com hum instrumento de ferro,
-que faz as vezes de hum trado. Sobre
-a mesa se lhe fazem tambem as azas
-<i>ff</i>, e o botaõ de testo <i>e</i>.</p>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ARTIGO_VII">ARTIGO VII.<br />
-<span class="smaller"><i>Das obras, que se fazem com moldes.</i></span></h2>
-
-<p id="section126">126 Visto se ter fallado das obras
-feitas a maõ, parece justo explicar-se
-como se fazem em moldes; mas, como este
-trabalho pertence mais ao louceiro de
-obra fina, do que ao oleiro; por hora
-darei hum só exemplo, descrevendo,
-como se póde fazer hum vaso de jardim.
-Molda-se com o gesso hum vaso ôco, sobre
-outro, que tenha boa figura, mandado
-reparar por hum escultor: divide-se
-em tres partes, segundo o comprimento,
-o gesso ôco que se moldou sobre
-aquelle, que se quer imitar, bem entendido,
-que se faz separadamente, o
-ôco que deve fazer o corpo do vaso, e
-o que deve fazer o pé, e o que faz o
-testo.</p>
-
-<p id="section127">127 Reunem-se os tres pedaços, que
-tem fazer o corpo, põe-se firmes segurando-os<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span>
-com cordas, e, tendo esfregado
-com alguma gordura o molde por
-dentro, com a maõ, se põe huma camada
-grossa de barro dentro do molde, e
-se aperta para tomar bem a figura do
-molde, deixa-se endurecer hum pouco
-o barro no interior do molde: como ao
-seccar encolhe, elle se despega do molde;
-mas, antes de estar inteiramente secco,
-se desataõ as cordas, separaõ-se as tres
-peças, de que consta todo do molde, e
-tira-se o vaso de barro, que se põe a enxugar
-nas ripas, prepara-se, ou aperfeiçoa-se
-depois com hum pequeno pedaço
-de páo chamado, <i>bauehoir</i>, especie de
-tasquinhador, ou goiva, e naõ precisa
-ser escultor para o fazer.</p>
-
-<p id="section128">128 Com o instrumento de alimpar,
-chamado <i>tournassin</i>, se tira por dentro
-o barro, que ha de mais, e se forma
-hum assento, ou encaixe por onde se
-ajusta o pé, e o testo, depois de moldados,
-ao corpo do vaso. Alguns fazem
-moldes particulares, para formarem
-as azas, e folhagens; mas como já
-disse, só me propús fallar superficialmente
-das obras moldadas, porque na arte
-de louceiro da obra fina se trata disso
-com individuaçaõ, aonde se ensina a fazer
-pratos recortados, sopeiras, tigelas,<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span>
-e mais utensis de meza com molduras,
-e mesmo figuras de homens, e animaes.</p>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ARTIGO_VIII">ARTIGO VIII.<br />
-<span class="smaller"><i>Modo de enfornar as obras de olaria,
-e cozelas.</i></span></h2>
-
-<p id="section129">129 Quando tratei dos ladrilhos,
-dei a descripçaõ dos fornos,
-de que usaõ ordinariamente os oleiros de
-París, advertindo, que estas obras se poderiaõ
-cozer nos mesmos fornos de telha,
-que ficaõ representados na arte de
-telheiro. Aqui só fallarei dos fornos dos
-oleiros de París, que saõ muito bem pensados,
-e de hum uso commodo: trazendo-se
-á lembrança, o que fica dito no
-principio desta Memoria a respeito dos
-ladrilhos; he superfluo dizer, como se
-arranjaõ as differentes obras nesta sorte
-de fornos.</p>
-
-<p id="section130">130 Da parte da bocca por detraz da
-<i>Fausse-tire</i> se arranjaõ os vasos, que haõ-de
-ficar bem cozidos, huns sobre outros,
-os quaes correm menos risco de se quebrarem:
-taes saõ os vasos de flores, e os
-tubos para despejo etc. Tambem se põe
-junto ao fundo do forno <i>LM</i>, <i>fig. 8</i>, <a href="#est1"><i>est.
-I</i></a>, que chamaõ lingueta, onde ha muito<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span>
-calor, porque o ar quente deve descer a
-este lugar, para sahir pelas aberturas,
-por onde se descarrega a fumaça, que
-ficaõ inteiramente por baixo.</p>
-
-<p id="section131">131 A primeira camada de baixo se
-faz com tijolos ou ladrilhos grosseiros de
-assoalhar, ou vasos grandes de despejo,
-que se põe em lugar destes ladrilhos.
-Como os vasos grandes tem bastante força
-para supportarem a louça, que se lhe
-põe por cima, com elles se póde fazer
-a primeira camada. Deve haver cuidado
-de se pôrem na mesma fileira os vasos
-de hum tamanho, observando, como nos
-tijolos, que a ordem de cima leva no meio
-vasos, que formaõ a ordem de baixo,
-como se vê <i>fig. 9</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>; mas, como huma
-das principaes attenções, he exactamente
-encher o forno, e de lhe meter a
-mais louça, que lhe he possivel, para
-tirar melhor partido da lenha, que gastaõ;
-põe-se as peças pequenas dentro das
-grandes; os testos dos esquentadores se
-põe nos mesmos esquentadores, em que
-haõ de servir, os vasos pequenos tambem
-se põe entre os grandes, para encher os
-vaõs o mais exactamente que fôr possivel.
-Põe-se páos, como para os tijolos,
-ou ladrilhos, pelos lados, e se distribuem
-pelo forno de distancia, em distancia<span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span>
-por entre a obra. Cortaõ-se as rachas
-de páo, com que se forra a louça,
-metendo-as entre a abobada de forno, e
-a mesma louça, e se acaba fazendo hum
-muro de tijolo na porta falsa. Por fim esquenta
-a louça com mais cuidado, de que
-com o tijolo, e o fogo se continúa pouco
-mais ou menos o mesmo tempo, se
-saõ louças ordinarias, e continua-se por
-mais tempo, se se trata de cozer louça
-de greda.</p>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ARTIGO_IX">ARTIGO IX.<br />
-<span class="smaller"><i>Descripçaõ de outra especie de forno, que
-usaõ os oleiros dos arrabaldes de S.
-Antonio para cozer suas obras.</i></span></h2>
-
-<p id="section132">132 Quasi todos os oleiros dos suburbios
-de S. Marçal, se servem
-do forno, já descripto no tratado dos
-ladrilhos, e que está representado na
-<a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 7</i>, <i>8</i>, e <i>9</i>, tanto para cozer
-os ladrilhos como as louças; e estes fornos,
-que occupaõ muito pouco lugar, se
-imaginaraõ mui engenhosamente, e saõ
-muito bons para a economia de lenha.
-Com tudo a maior parte dos oleiros dos
-suburbios de S. Antonio só usaõ destes<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span>
-fornos para os ladrilhos, e para cozer
-as outras louças, se servem de hum
-forno, que se assemelha muito aos de
-oleiro de obra fina, cuja descripçaõ vou
-agora dar.</p>
-
-<p id="section133">133 A <i>fig. 1</i>, <a href="#est3"><i>est. III</i></a>, representa a altura
-do forno, visto por fóra da parte da
-boca da fornalha, ou a altura sobre a
-linha, <i>C D</i>, do plano <i>fig. 2.</i> que he tomada
-rente ao nivel do forno. <i>A</i>, he o
-fogaõ ou fornalha que está em terra em
-hum buraco; vê-se apontado pelas mesmas
-letras nas figuras 1, 2, 3, e 14. O
-que conduz o fogo, desce dentro desta
-cova, e forra de lenha pela boca da fornalha,
-debaixo do corpo do forno, onde
-se metem as obras, que se querem cozer.
-Logo em principio para temperar,
-faz hum pequeno fogo na entrada da fornalha
-em <i>A</i>, <i>fig. 3</i>, que representa toda
-a extensaõ da fornalha, e fundaçaõ
-do forno; depois para fazer o fogo grande,
-chega o fogo até <i>E</i>, e o distribue
-por dentro de toda a extensaõ da fornalha;
-porém entaõ accommoda a lenha em
-pé na boca da fornalha, para diminuir a
-corrente do ár, que levaria o calôr para
-o fundo do forno, e ao mesmo tempo
-a parte de diante receberia pouco calor.
-Com tudo he preciso, que elle se distribua<span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span>
-com a igualdade possivel por toda a
-extensaõ do forno: e esta he huma attençaõ
-que deve ter o atiçador.<a name="FNanchor_19" id="FNanchor_19"></a><a href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></p>
-
-<p id="section134">134 A abobada <i>F</i> <i>fig. 4.</i> que cobre a
-parte superior da fornalha tem os buracos
-<i>aaa</i>, etc. Por estes buracos, que tambem
-se pódem vêr em <i>F</i> <i>fig. 2.</i> se representa
-o fundo, ou pavimento do forno,
-que está por cima de abobada, que cobre
-a fornalha; por estes buracos <i>aaa</i>,
-he que passa o ar quente da fornalha, <i>A</i>,
-<i>fig. 4.</i> para o corpo do forno <i>G</i>, que está
-por cima, e no qual se arruma a obra
-que se quer cozer vidrada. Este corpo
-do forno he fechado por cima, com
-huma abobada <i>H</i>, <i>fig. 4.</i> a qual tem os
-buracos <i>bbb</i>, do mesmo modo que a abobada
-<i>F</i>; e isto mesmo se vê tambem na
-<i>fig. 5.</i> em <i>H</i>; e por estes buracos he,
-que o ar quente passa do corpo <i>G</i>, <i>fig.
-4.</i> ao corpo <i>I</i>, aonde se põe as louças,<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span>
-que se querem cozer em branco. Como
-o ar quente sempre sobe, logo que o forno
-se esquente, no corpo <i>I</i>, he maior
-o calor do que no corpo <i>G</i>, que ao principio
-tinha mais calor, do que o outro,
-que fica mais alto.</p>
-
-<p id="section135">135 Na parte mais alta de abobada,
-que cobre este corpo superior, ha hum buraco
-<i>K</i>, <i>fig. 4</i>. de seis ou oito pollegadas
-em quadra, e de mais quatro buracos
-<i>K</i>, <i>fig. 1</i>. e <i>5</i>. Estes cinco buracos servem
-para dar sahida ao ar que entra pela
-boca da fornalha, para obrigar ao calor
-a sobir até ao alto do forno.</p>
-
-<p id="section136">136 Enche-se a camera <i>G</i>, <i>fig. 4</i>. por
-huma porta <i>L</i>, <i>fig. 1</i>, e <i>4</i>. que se fecha
-com huma parede de tijolos, ou pedaços
-de louça, logo que se acabou de encher
-o forno, antes de accender o fogo:
-deixa se só huma pequena abertura em
-<i>M</i>, <i>fig. 1</i>. para dar sahida a huma parte
-da fumaça, que poderia enfraquecer a
-marcha do ar quente necessario para cozer
-a obra. Por cima desta pequena abertura
-<i>M</i>, ha huma parede como de huma
-chaminé de cozinha, e hum tubo <i>N</i>
-<i>N</i>, <i>fig. 1</i>, e <i>4</i>. para conduzir a fumaça
-por senaõ espalhar na officina.</p>
-
-<p id="section137">137 A camera ou o corpo superior
-<i>I</i>, <i>fig. 4</i>. se enche de louça, que se quer<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span>
-cozer em branco, por huma porta que está
-em <i>O</i>, e que se fecha, quando o corpo
-está cheio, fazendo no alto desta porta
-huma abertura semilhante á que fica notada
-em <i>M</i>, <i>fig. 1</i>, e, como se naõ receia
-incommodo de fumaça por ser esta abertura
-muito alta, se lhe naõ faz cuberta,
-nem tubo de chaminé: sobe-se ao corpo
-do forno <i>I</i>, por huma escada <i>P</i>. <i>fig. 1</i>.</p>
-
-<p id="section138">138 Por fim se gradua o fogo como
-acima fica dito; começando por hum
-fogo pequeno para esquentar a obra,
-e acabando por hum fogo muito activo
-de lenha rachada.</p>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ARTIGO_X">ARTIGO X.<br />
-<span class="smaller"><i>Do verniz ou vidrado, que se põe na
-louça.</i></span></h2>
-
-<p id="section139">139 A maior parte das obras de
-barro ordinarias deixaõ transpirar a agua
-por seus poros, maiormente quando
-se mistura muita area no barro: misturando-se
-pouca area, os vasos conservaõ
-bem a agua; mas naõ pódem sofrer
-o fogo: ora, como a maior parte da
-louça, para os utensilios de huma casa
-deve ir ao fogo, os louceiros naõ lhe
-poupaõ a area; porém dando-lhe esta faculdade<span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span>
-de rezistir ao fogo, se tornaõ
-penetraveis a agua, como se acaba de dizer.
-Quasi todos estes utensis com tudo
-a devem conter; para lhe dar esta propriedade,
-se cobrem de huma camada
-de verniz, que, vitrificando-se, naõ deixa
-a agua passar. E assim para os alguidares,
-e vasos do uso das leiterias, os oleiros
-se servem de hum barro puro, que
-toma corpo, e naõ deixa transpirar a
-agua; porém estes vasos se quebrariaõ,
-se os puzessem ao fogo: por isso lançaõ
-muita area no barro, de que haõ-de fazer
-os vasos, que servem para o fogo; e
-depois os vidraõ, para poderem reter a
-agua.</p>
-
-<p id="section140">140 Aqui só se fallará em resumo do
-verniz das louças, que he muito grosseiro;
-porque o verdadeiro lugar de tratar
-disto a fundo, he quando se tratar da
-louça fina.</p>
-
-<p id="section141">141 Os oleiros para vidrarem as suas
-obras, se servem da mina do chumbo;
-e a isto he que se chama pedra
-de chumbo no commercio, e os oleiros
-chamaõ verniz: ou se servem do zarcaõ,
-ou chumbo vermelho, que impropriamente
-chamaõ mina de chumbo; que
-he huma cal de chumbo com huma côr
-vermelha bem viva. O falecido Mr. Jars<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span>,
-nas memorias da Academia, deo o modo
-de o fazer tomar esta côr vermelha
-pela calcinaçaõ. Tambem se servem ainda
-do lithargirio, isto he, do chumbo
-calcinado, que perdeo huma parte
-do seu phlogistico pela acçaõ do fogo, e
-que está em hum estado de vitrificaçaõ
-imperfeita. Elles se servem destas substancias
-por dous modos, como agora vou
-a explicar.</p>
-
-<h3><i>Primeiro methodo.</i></h3>
-
-<p id="section142">142 Quebra-se a pedra de chumbo sobre
-huma peça de cobre para senaõ perder
-cousa alguma; passa-se por huma
-peneira de cabello, e o resto se piza em
-gral de ferro, e se torna a passar, até
-que tudo se passe pela peneira.</p>
-
-<p id="section143">143 Alguns oleiros compraõ o chumbo
-em chapa, e elles mesmos o reduzem a
-cal; julgo que seria melhor usar do lithargirio,
-ou chumbo vermelho.<a name="FNanchor_20" id="FNanchor_20"></a><a href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span></p>
-
-<p id="section144">144 Prepara-se o lithargirio como a
-pedra de chumbo; elle se reduz a pó
-muito facilmente, e o zarcaõ ainda mais;
-ajunta-se a hum, ou a outro destes pós
-por medida outra tanta quantidade de area
-como ha dos pós de lithargirio, zarcaõ
-ou da pedra de chumbo; deve-se notar,
-que todas as preparações de chumbo,
-se vitrificaõ, e facilitaõ muito a vitrificaçaõ
-das substancias terreas; A area faz
-huma parte consideravel do verniz, por
-meio de chumbo, que serve de fundente:
-como o chumbo he caro, e a area
-naõ custa dinheiro, os oleiros poupaõ
-muito, misturando a area com o chumbo
-e eu creio, que esta liga da area naõ altera
-a bondade do vidrado. O chumbo só
-sobre o barro faz huma côr amarella,
-querendo-se que este esmalte, ou verniz
-seja verde, em duzentas libras de lithargirio,
-ou cal de chumbo se lançaõ sete,
-ou oito libras de limalha de cobre.<a name="FNanchor_21" id="FNanchor_21"></a><a href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span>
-Querendo-se, que tenha huma côr escura,
-mistura-se-lhe manganesia, que he huma
-mina de ferro pobre e refractaria;
-ella he de hum azul denegrido granulado.
-Della se servem os vidraceiros; mas quando<span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span>
-lançaõ muita, faz o vidro roxo. Acha-se
-em Piemonte, em Toscana, Bohemia,
-e Inglaterra. A pedra, que se vende
-com o nome de marcassita differe della
-pouco, ou nada. Estas materias, sendo
-pulverisadas, formaõ verdadeiramente o
-verniz dos oleiros, que só falta applica-lo
-sobre os vasos, que naõ foraõ ainda
-cozidos, porém que estaõ já seccos, e
-promptos para se cozerem. Para o pó se
-pegar aos vasos se humedecem na agua
-chamada gorda, que he a agua, em que
-se dissolveo a argilla; depois antes que
-esta agua se seque, se espalha por cima
-os pós de que acabamos de fallar, virando
-a peça por todos os lados, a fim de
-ficarem cobertos todos os lugares, que se
-querem envernizar; e como ha muitas peças,
-que só se querem esmaltar por dentro,
-nestas se naõ põe os pós pela parte
-de fóra.</p>
-
-<p id="section145">145 Deixaõ-se as peças suar hum pouco,
-depois se arrumaõ no forno do modo,
-que já expliquei; de sorte que com
-huma só operaçaõ se coze o barro, e se
-derrete o verniz, que vitrifica na superficie.
-Por este methodo economiza-se a lenha;
-porém gasta muito chumbo: e tambem
-porque o pó senaõ póde espalhar
-igualmente, em alguns lugares fica muito,<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span>
-e quando se derrete, espalha se pelos
-outros vasos. Naõ he só este o inconveniente:
-como he preciso meter muita
-lenha para cozer as obras com grande
-fogo, ha tambem o inconveniente, de
-que, queimando-se esta, levanta muita
-cinza, que vem a offender o esmalte,
-quando se está derretendo.</p>
-
-<p id="section146">146 O outro methodo consiste em pôr
-o verniz nos vasos, que já estaõ cozidos;
-gasta se mais lenha; porque as obras vaõ
-duas vezes a cozer ao forno; porém evitaõ-se
-entaõ os inconvenientes de que
-acabo de fallar; além do que, como os
-oleiros só depois das obras cozidas he que
-conhecem a perfeiçaõ dellas, ha huma
-grande vantagem em pôr o verniz nas peças
-depois de cozidas; pois em todas as
-fornadas, se quebraõ, e se desfiguraõ algumas
-peças, e assim só se põe o verniz
-ou esmalte nas que sahem do forno perfeitas.
-Daqui resulta ser menos o gasto
-do chumbo, naõ levando verniz, as peças
-que quebraraõ; este methodo tambem
-contribue muito a economisar o chumbo;
-porque os que o seguem livigaõ o
-lithargirio, e a pedra de chumbo com
-agua em huma mó representada separadamente
-<a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 11</i>, e <i>12</i>. Elles livigaõ
-estas differentes substancias separadas, e<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span>
-com agua de sorte, que correm á maneira
-de caldo, pelos vasos, que lhe ficaõ
-por baixo, e põe o verniz liquido na
-louça, cozida, lançando esta especie de
-caldo sobre os vasos, ou mettendo dentro
-nelle as peças, que se querem envernizar
-por dentro, e por fóra; e isto he melhor,
-e de mais economia. Applica-se o
-verniz com hum pincel, que o põe mais
-lizo, e só se põe nos lugares onde se
-julga conveniente. Finalmente estas substancias
-bem livigadas se applicaõ aos vasos
-em corpo o mais delgado, que he
-possivel e se julga conveniente.</p>
-
-<p id="section147">147 Deixaõ-se seccar as peças, o que
-se faz em pouco tempo, porque a louça
-que vem do forno atrahe promptamente
-a humidade.</p>
-
-<p id="section148">148 Põe-se no forno, onde se lhe dá
-hum fogo pouco mais ou menos igual
-áquelle com que se coziaõ; mas naõ se
-deve meter lenha entre as peças, e sobre
-a obra; por evitar, que a cinza senaõ
-espalhe sobre o verniz, quando está
-derretido pelo fogo. Naõ ha inconveniente,
-em pôr lenha dos lados, principalmente
-quando ha a precauçaõ de se
-pôr perto alguns vasos, que naõ sejaõ
-envernizados, ou que se cozem a primeira
-vez; e he melhor conservar o fogo<span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span>
-por mais tempo no forno, do que meter
-lenha entre a louça. Huma das vantagens
-do forno, que imita o dos louceiros
-de obra fina, he naõ estar exposto
-ao inconveniente das cinzas.</p>
-
-<p id="section149">149 Os oleiros naõ concordaõ em dar
-a preferencia a hum destes methodos;
-cada hum se encosta áquelle que pratíca.
-Os que applicaõ o verniz em pó sobre
-o barro crú confessaõ, que gastaõ
-mais chumbo; porém dizem, que o seu
-verniz ou esmalte penetra melhor o barro,
-e se pega mais intimamente. Os outros
-sustentaõ que o verniz pega muito
-bem no barro cozido, e allegaõ a favor
-do seu methodo o menor consummo do
-chumbo, e o aceio da sua obra, sendo
-o verniz distribuido em huma grossura
-mais uniforme; mas os que seguem este
-methodo, naõ estaõ ainda do mesmo parecer
-sobre hum ponto, que me parece
-bem importante. Huns dizem que só basta
-cozer medianamente a obra, antes de
-a meter no verniz, para que o verniz se
-possa introduzir pelos poros do barro, e
-que ao depois he preciso dar hum grande
-fogo para cozer as obras cubertas de
-verniz.</p>
-
-<p id="section150">150 Outros dizem, que da primeira
-vez, que se cozem, he preciso fazer hum<span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span>
-grande fogo, e da segunda quanto baste
-para derreter bem o verniz: a favor desta
-pratica podem dizer, que, como o chumbo
-vitrifica a area, produz este effeito naquella,
-que está na superficie dos vasos
-cozidos, o que o faz muito adherente a estas
-qualidades de obras; em segundo lugar;
-que naõ sendo preciso hum grande
-fogo para o cozimento, se evita o meter
-lenha entre a louça, e por cima della,
-e isto a izenta dos maõs effeitos da
-cinza.</p>
-
-<p id="section151">151 Eu me inclino á primeira pratica,
-porque se precisa hum fogo violento,
-para fundir bem o esmalte, e este
-mesmo fogo acaba de cozer o barro:
-preciza o verniz estar bem derretido,
-para o chumbo poder vitrificar a
-area, que está na superficie da louça.
-Este sentimento he conforme ao uso de
-quasi todos os oleiros; com tudo naõ
-me proponho a decidir qual seja o methodo;
-porque naõ tive occaziaõ de fazer
-sobre isto experiencias decisivas.</p>
-
-<p id="section152">152 Parece-me que o artigo do verniz
-se poderia aperfeiçoar, sem obrigar
-os oleiros ás despezas consideraveis; julgo
-por exemplo, que elles deveriaõ, misturar
-com o seu chumbo huma area, ou<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span>
-hum <i>quartz</i> fusivel<a name="FNanchor_22" id="FNanchor_22"></a><a href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a> que se vitrifica facilmente
-com o chumbo, e deste modo
-poderia economisar este metal; talvez
-mesmo, que achassem elles huma vantajem
-em frittar<a name="FNanchor_23" id="FNanchor_23"></a><a href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> sua area antes de a
-misturar com o chumbo; e o moido poderia
-ser melhor que a area. Por hora,
-saõ idéas, que se devem olhar como simples
-conjecturas, até que se experimentem,
-e conbinem por differentes modos.</p>
-
-<p id="section153">153 Todas as vezes, que se coze, se fecha
-exactamente o forno, logo que cessa
-o fogo; para que conserve o calor, e
-as peças, esfriem pouco a pouco: porque
-huma parte da louça quebraria se
-ao sahir quente do forno, se expozessem
-ao ar frio. Quando o forno está já bem
-frio, e se quer tirar a louça, se abre a<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span>
-parede, ou porta falsa, para por ella se
-tirarem as obras que estaõ cozidas; porém
-muitas vezes succede, que, o verniz
-derretendo-se, corre de hum vaso para
-outro, e se achaõ muitos vasos pegados.
-Quando a adherencia he pouco consideravel,
-se separa facilmente; mas algumas
-vezes se quebraõ os vasos, indo-se a separar,
-e este inconveniente succede mais
-vezes áquelles que põe o verniz em pó,
-do que os que usaõ delle diluido em agua,
-porque a camada do verniz he mais delgada,
-e por isso menos sujeita a correr.</p>
-
-<p id="section154">154 Já disse, que o verniz naõ pegava
-sobre as manchas negras semilhantes
-a escoria do ferro, que fazem os pyrites,
-que se queimaõ ao cozer. Quando as peças
-valem o trabalho, os oleiros reparaõ
-em parte estes defeitos, pondo muito verniz
-sobre as manchas negras; porém estas
-obras precizaõ tornar outra vez ao
-forno, e causaõ grande incómmodo ao
-oleiro. Quando se tiraõ do forno as peças,
-as mulheres com facas grossas tiraõ
-os pedaços de barro, que se prendem
-aos vasos.</p>
-
-<p id="section155">155 Como sobre as louças de Lyones
-vi obras, e louças fabricadas nas provincias
-vizinhas de Liaõ, tenho gosto de dizer
-tambem alguma cousa a respeito dellas;<span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span>
-e para isto procurei a Mr. de la Tourrette
-da Academia de Liaõ, e correspondente
-da Academia das Sciencias de
-Pariz, que tem hum zelo admiravel em
-ajudar com suas luzes todos, que emprendem
-indagações uteis.</p>
-
-<p id="section156">156 As memorias, que me procurou
-Mr. de la Tourrette, dizem respeito a
-tres qualidades de louças; que saõ a de
-Prá em Forez, a de Franche ville em
-Liones, e a de S. Valerio no Delphinado.
-Agora só me servirei das excellentes
-memorias, que recebi sobre a louça
-de S. Valerio, porque, como as obras,
-que ahi se fazem, saõ de louça fina, he
-justo fallar dellas, quando se tratar da
-arte de louça fina, que ao depois se publicará.</p>
-
-<h3><i>Da louça de Prá em Forez.</i><a name="FNanchor_24" id="FNanchor_24"></a><a href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></h3>
-
-<p id="section157">157 Prá he huma aldea junto á freguezia,<span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span>
-e termo de S. Bonnet-Les-Oules
-em Forez distante duas boas legoas de
-S. Estevaõ, e huma de S. Galmier.</p>
-
-<p id="section158">158 Dizem, que o estabelecimento
-desta fabrica de louças tem perto de quatrocentos
-annos: em outro tempo haviaõ
-neste lugar quarenta olarias, e cada huma
-tinha seu forno; agora só tem cinco,
-por causa das muitas olarias, que se tem
-estabelecido na mesma provincia.</p>
-
-<p id="section159">159 Nestas louças se empregaõ duas
-qualidades de barro, que se misturaõ,
-hum vermelho, e outro escuro, ambas
-se achaõ em abundancia perto de Prá
-nos confins da freguezia de S. Bonnet,
-e nos das freguezias de Bauthcon, e Vanche.</p>
-
-<p id="section160">160 Achaõ-se na terra em bancos
-mais, ou menos extensos, os do barro escuro
-tem quasi dez pollegadas de alto, e os
-de barro vermelho saõ mais grossos; o
-barro escuro he mais gordo que o vermelho.</p>
-
-<p id="section161">161 As louças de Prá soffrem melhor
-o fogo, do que outras muitas.</p>
-
-<p id="section162">162 Amassaõ-se estes barros com hum masso
-de ferro sobre huma prancha, ou mesa
-forte, e depois se trabalhaõ na roda.</p>
-
-<p id="section163">163 Os fornos saõ redondos, tem cinco,<span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span>
-ou seis pés de diametro, e sete, ou
-oito de alto, sem cuberta; saõ feitos de
-tijolos grossos juntos com barro gordo,
-e levaõ huma contra parede, feita de pedra
-de edificios com argamassa de cal,
-e area.</p>
-
-<p id="section164">164 Estes fornos, que se assemelhaõ
-bem aos de telheiros se esquentaõ com
-lenha por tempo de dez, ou doze horas,
-e mais segundo a estaçaõ: nas primeiras
-quatro, ou cinco horas só se faz hum
-pequeno fogo; depois se augmenta, e
-se faz muito activo.</p>
-
-<p id="section165">165 O verniz se faz da pedra de chumbo,
-ou do mesmo chumbo que se tira
-em pedra das minas vizinhas: pizaõ se,
-e passaõ se por huma peneira, e se livigaõ
-com pedras muito duras <a href="#est2"><i>Est. II</i></a>, <i>fig.
-11</i>, e <i>12</i>. <i>G</i>, <i>H</i>.</p>
-
-<p id="section166">166 Tendo-se preparado assim o verniz
-se usa delle liquido; lança-se nos vasos,
-e se voltaõ para todos os lados, como
-se os lavassem. Estando o corpo da
-peça cuberto de verniz, se lança o resto
-em huma celha, para servir para outros
-vasos.</p>
-
-<p id="section167">167 Applica-se o verniz sobre vasos
-côr de cinza, mas muito seccos; e quando
-o verniz está secco, se põe as louças
-no forno.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p>
-
-<p id="section168">168 Querendo-se, que o verniz seja
-verde, mistura-se limalha de cobre com
-o chumbo, como acima se disse.</p>
-
-<p id="section169">169 Os vasos desta qualidade de louça
-rezistem muito ao fogo, como tambem
-os cadinhos para a fundiçaõ dos metaes;
-tem se feito muitas experiencias
-em S. Estevaõ: elles se fazem dos dous
-barros misturados, e amassados juntos,
-como já fica dito.</p>
-
-<p id="section170">170 Fazem-se nestas olarias, tijellas,
-pratos grandes, e pequenos.</p>
-
-<h3><i>Louça de Franche ville em Lyones.</i></h3>
-
-<p id="section171">171 Julga-se em Lyones que esta olaria
-já existia no tempo dos Romanos.</p>
-
-<p id="section172">172 Usaõ ahi de duas sortes de barros,
-hum amarello, e outro côr de cinza,
-e ha alguns, que tem mistura destas
-duas côres. O amarello se acha ordinariamente
-em hum terreno magro, e
-areento, em lugares muitos elevados; o
-côr de cinza em valles por bancos maiores,
-ou menores, e mais, ou menos espessos;
-mas estes barros saõ muito abundantes,
-porque neste lugar se fabríca muita
-louça, desde hum tempo immemoravel.</p>
-
-<p id="section173">173 O barro amarello he mais aspero<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span>
-ao toque, e mais grosseiro, do que o côr
-de cinza, que he muito macio, e nelle
-senaõ encontraõ area.</p>
-
-<p id="section174">174 O amarello soffre melhor o fogo,
-do que o côr de cinza.</p>
-
-<p id="section175">175 Em Franche ville se fazem duas
-qualidades de louça; e isto depende da
-especie de barro de que a fazem.</p>
-
-<p id="section176">176 O amarello resiste perfeitamente
-o fogo; o cinzento, que se chama <i>gaubino</i>,
-como he hum barro mais puro
-faz huma louça mais compacta, que naõ
-póde aturar o fogo; mas a louça feita
-com o barro amarello, se descasca ao
-ar, isto he, cahe-lhe o verniz ou a superficie;
-o côr de cinza supporta muito melhor
-as suas influencias.</p>
-
-<p id="section177">177 Dizem, que as plantas postas em
-vasos deste barro naõ produzem. Misturaõ-se
-estes dous barros para hum corrigir
-as faltas do outro.</p>
-
-<p id="section178">178 Nas olarias se fazem vasos na roda,
-e outros em molde conforme requer
-a sua figura. Finalmente amassaõ-se estes
-barros batendo-os com huma massa
-de ferro como se faz em Prá.</p>
-
-<p id="section179">179 Os fornos, semelhantes aos dos
-telheiros, humas vezes saõ redondos, e
-outras vezes quadrados. Faz-se o fogo debaixo
-de huma abobada, em que ha buracos<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span>
-quadrados de tres, até quatro pollegadas
-de diametro, separadas humas
-das outras seis, ou sete pollegadas; para
-que o ar quente se communique ao interior
-do forno, onde se arrumaõ as
-obras, ellas devem estar bem seccas antes
-de se expôr ao fogo, precisaõ-se quasi
-cento e quarenta feixes pequenos de lenha
-para huma fornada.</p>
-
-<p id="section180">180 Para envernizar estas louças, querendo-se
-que o esmalte seja verde, se
-usa do chumbo hermetico, ou mina de
-chumbo, que se liviga debaixo da mó
-com agua, como fica dito, e a limalha de
-cobre. Querendo-se fazer o verniz branco,
-naõ se lhe ajunta a limalha de cobre;
-e quando se usa do chumbo só em
-huma louça de barro amarello, fica o
-esmalte avermelhado: este verniz se emprega
-no barro crú. Limito-me a estas indicações
-geraes, porque já se tratáraõ
-com individuaçaõ em outro lugar.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span></p>
-
-<h2 id="ARTIGO_XI">ARTIGO XI.<br />
-<span class="smaller"><i>Das Louças, que se chamaõ de greda.</i></span></h2>
-
-<p id="section181">181 A vista do que disse no principio
-deste pequeno tratado a argilla he a
-baze dos barros, que servem para fazer
-as louças; porém segundo as substancias,
-que se achaõ misturadas com a argilla,
-ha humas, que fazem obras muito mais
-solidas do que outras. Quando estas substancias
-tornaõ a argilla fusivel, se cozem
-com pouco fogo, e por isso se póde dar
-a louça mais barata; destas he que acabei
-agora de tratar. A argilla pura, sendo
-de natureza a encolher muito, se racha
-ao seccar, ou ao cozer; mas quando
-a argilla se mistura com huma area
-refractaria, ou muito difficil de derreter,
-resulta daqui hum barro, que póde seccar,
-e cozer-se sem rachar, e que faz
-louças muito duras, quando experimentaõ
-hum grande fogo. Em geral este he
-o motivo porque se chama louça de greda.
-Ha qualidades dellas muito differentes;
-os vasos de greda côr de castanha,
-em que vem as manteigas de Isigny,
-saõ muito duras, e sonoras; elles rezistem<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span>
-muito bem a hum fogo grande, e
-naõ saõ atacaveis pelos acidos: esta he
-huma excellente louça; he quasi taõ sonora
-como a porcelana, quando se quebra
-a sua grã he muito fina, e hum pouco
-brilhante: e por isso he muito chegada
-á natureza do vidro; tambem tem
-o defeito de se quebrar, quando se faz
-passar subitamente do quente para o frio,
-ou ao contrario. E porque suspeitei, que
-este defeito vinha, de estar a argilla ligada
-com muita area que se tinha vitrificado
-pelo muito fogo, eu a fiz lavar;
-e depois de se ter precipitado huma pouca
-de area mais pezada, e mais grosseira,
-e pequenas pyrites, que tinha em
-grande quantidade, mandei fazer cadinhos
-com o barro fino, que depois se
-precipitou. Estes cadinhos vindo vermelhos
-do fogo, e depois mettendo-se em
-agua fria senaõ quebráraõ. Se eu estivesse
-vizinho destas olarias, persuado-me
-que poderia fazer vasos, naõ taõ formosos,
-como os de louça fina, a mais commum,
-porém que seriaõ taõ bons para o
-uso como a melhor porcelana. Fiz vir
-este barro de Gournai, a Normandia;
-mas como naõ me podia vir, senaõ em
-pequena quantidade, só fiz muito poucas
-experiencias em obras pequenas, porque<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span>
-se acabou logo o barro. Convido os phisicos,
-que tiverem a maõ as olarias de
-greda, a fazerem experiencias mais decisivas
-do que estas, que acabo de referir;
-porque esta especie de barro me
-parece digna de sua attençaõ.</p>
-
-<p id="section182">182 Como quasi todas as louças de
-greda, que se vendem em París vem de
-Beauvais, e que naõ ha lugares em todo
-o reino, aonde se trabalha nestas qualidades
-de louças, que passaõ mesmo para
-os estrangeiros, desejei ter maiores
-luzes sobre a posiçaõ das veias do barro
-proprio para estas louças, sobre o modo
-de o preparar, finalmente sobre tudo, o
-que respeita a esta qualidade de obras.</p>
-
-<p id="section183">183 Dizem, que as olarias se estabeleceraõ
-em outro tempo em huma freguezia,
-que ainda agora se chama <i>S.
-Germano da olaria</i>; porém ellas se tem
-abandonado: agora neste lugar só se fazem
-tijolos, telhas, e ladrilhos. Na freguezia
-de <i>Savignier</i>, onde ha quatorze
-oleiros, que trabalhaõ em greda, se acha
-hum barro muito proprio para estas qualidades
-de obras, e os obreiros saõ peritos
-no modo de o trabalhar. Em <i>Chapelle-au-Pot</i>,
-huma legoa distante de Savignier
-ha seis oleiros; porém elles trabalhaõ por
-hum modo muito inferior neste barro,<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span>
-do que no de Savignier; ainda que elle
-he quasi da mesma natureza.</p>
-
-<p id="section184">184 Huns, e outros ás vezes tem muito
-trabalho em achar veias de barro de
-boa qualidade. Depois de se tirarem dous,
-ou tres pés da superficie, se começaõ a
-perceber as veias dos barros, que se procuraõ;
-mas ellas só saõ boas, de vinte
-pés de fundo por diante, e se tira barro
-ainda de mais fundo; e entaõ os obreiros
-temem o cahir-lhe a terra em cima.
-Ha veias mais grossas, e mais largas humas
-do que outras, que se seguem em
-quanto se acha barro de boa qualidade:
-distinguem-se duas especies delle; o que
-se chama greda, muitas vezes he bastantemente
-duro, e dificil de tirar. Com
-estas duas qualidades de barros se fazem
-duas especies de louças, huma com o
-barro, que se chama greda, e outra com
-hum barro hum pouco differente; com
-este se fazem vasos, que pódem ir ao
-fogo; mas as do outro se quebraõ, se
-senaõ esquentaõ com muito cuidado, com
-tudo quebraõ-se menos do que os da greda
-escura de Normandia. Os cadinhos só
-se fazem aqui de encomenda: o obreiro,
-que tem mais fama de os fazer bem,
-passa o barro por huma peneira, escolhe-o,
-e amassa-o com mais cuidado do<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span>
-que os outros: a preparaçaõ deste barro
-he, quasi a mesma, que os oleiros de
-París daõ ao seu.</p>
-
-<p id="section185">185 Interrompo, o que hia a dizer
-das olarias de Beauvais, para fazer notar,
-que os melhores cadinhos, que podem
-haver para os fundidores, saõ os que se
-fazem de hum barro branco, que se acha
-em S. Samsaõ, quasi seis legoas distante
-de Beauvais. Estes cadinhos esbranquiçados,
-bem cozidos, muito sonoros, resistem
-ao maior fogo, sem se quebrarem,
-e sem se penetrarem pelos saes; tem
-de mais a vantagem, de naõ precizarem
-tanto cuidado como os cadinhos de greda,
-quando se metem no fogo, ou quando
-se tiraõ. Agora torno a fallar do trabalho
-de Beauvais.</p>
-
-<p id="section186">186 Quando se tira a argilla da terra,
-leva-se para casa do obreiro, põe-se em
-pequenos pedaços, lança-se em huma cova
-com agua, para ella se penetrar, e
-fazer-se ductil; deixa-se até o outro dia,
-e entaõ se tira em massa; o obreiro a
-corta, e a torna a pôr em camadas na
-mesma cova de donde a tirou, para a
-amassar, e misturalla com huma pouca
-de area, ligeiramente salpicada de cal:
-finalmente amassa-se como fazem os oleiros
-de París; depois de se ter amassado,<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span>
-e tornado a ajuntar por quatro vezes, se
-fazem bolos, que se levaõ a huma mesa,
-para o amassar, e trabalhar bem,
-como fica já explicado a fundo. Trabalha-se
-depois sobre huma roda de ferro
-<a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 4</i>, e <i>5</i>. ou de páo que se faz
-mover com o pé <i>fig. 18</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>; porque
-os oleiros de Savignier se servem de humas,
-e outras, segundo as obras, que
-elles tem de fazer. Em huma palavra o
-trabalho dos oleiros de Picardia naõ differe
-essencialmente, do que acima disse
-tanto para a factura das obras, como para
-dar-lhe o verniz.</p>
-
-<p id="section187">187 As louças de greda se cozem a
-grande fogo; os fornos estaõ postos em
-pleno ar sobre huma pequena elevaçaõ
-de terra; differem pouco dos fornos dos
-oleiros dos suburbios de S. Marçal <a href="#est1"><i>est.
-I</i></a>, <i>fig. 7</i>, <i>8</i>, e <i>9</i>. só com a differença,
-que, sendo feitos sobre hum pequeno cabeço,
-se caminha sempre subindo desde
-a entrada até o fundo do forno, e isto
-facilita a distribuiçaõ do ar quente. Na
-parte opposta da fornalha, naõ ha o tubo
-de chaminé <i>C D</i>, <i>fig. 3</i>. <a href="#est1"><i>est. I</i></a>; mas
-na parte baixa <i>C</i>, se formaõ pequenas
-arcadas para a dissipaçaõ da fumaça; por
-este lugar he que se metem as obras no
-forno, depois se fecha com huma parede<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span>
-de tijolos. Estes fornos ordinariamente
-tem 45 até 50 pés de comprido, e dez,
-ou doze de largo no meio, e huma altura
-igual debaixo da abobada; porém na sua
-embocadura só tem quasi seis pés de alto.</p>
-
-<p id="section188">188 O fogo se faz diante da embocadura
-do forno em huma fornalha de abobada,
-que tem quasi quatro pés de largo,
-e cinco de comprido, e outro tanto
-de alto. Começa-se com hum pequeno
-fogo, depois se augmenta, e se acaba
-com hum fogo de lenha miuda, que se
-inflama muito, e se continúa oito dias,
-e oito noutes sem interrupçaõ.</p>
-
-<p id="section189">189 As louças, que devem servir no
-fogo, ou que haõ de ser envernizadas,
-naõ levaõ hum fogo taõ violento: trabalhaõ-se
-quasi como as louças de París;
-mas para cozer as louças de greda se
-gastaõ 16, ou 18 cordas (<i>cada corda tem
-4 pés d’alto, e 8 de comprido</i>) de páos
-grossos, e quatro centos feixes de lenha
-mais fina para o ultimo fogo.</p>
-
-<p id="section190">190 A manteiga de Prevalais, vem
-em potes de huma greda azulada, que
-he muito boa; mas eu naõ sei exactamente
-o modo de trabalhar esta pequena
-louça, e por isso naõ entro em grandes
-individuações a este respeito.</p>
-
-<p id="section191">191 Em <i>Zimmeren</i>, quatro legoas de<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span>
-Treveris, e em muitos lugares na provincia
-de Luxembourg, se faz huma especie
-de louça que he muito boa, de huma
-greda muito fina, e branca, cuja superficie
-he luzente sem se cubrir de verniz;
-este brilhante he formado pelo mesmo
-barro, que passou por huma vitrificaçaõ
-superficial; eu penso que ella se
-forma pelo vapor do sal marinho, que
-se lança no forno, como nas obras de
-barros brancos, que se tem feito em
-Montereau.</p>
-
-<p id="section192">192 Os que vem da provincia de Luxembourg,
-trazem todos os annos desta
-louça a París ao Armazem de louça fina,
-aonde vaõ comprar os que contrataõ neste
-genero. Naõ pude ter maiores conhecimentos
-sobre o modo trabalhar nestas
-louças.</p>
-
-<p id="section193">193 Julgo, que os barros, que fazem
-boas louças de greda, se preparaõ de
-argilla, de hum bocado de area vitrificavel,
-e de area muito refractaria; porque
-em todas as fabricas, onde se fazem boas
-louças, e ainda mesmo nas de porcelana,
-se fazem entrar com successo na
-composiçaõ pedaços de louças quebradas,
-reduzidas a pó, depois de se conhecer,
-que saõ de qualidade capaz de resistir a
-hum grande gráo de fogo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span></p>
-
-<h3><i>Das Louças de S. Fargeau.</i></h3>
-
-<p id="section194">194 Além das louças de greda, que
-se fazem em Bretanha, Normandia, e
-Picardia, se fazem muito boas em S. Fargeau.
-Como esta cidade, que he huma
-das mais antigas de França, está distante
-de Briara quatro legoas. O Loire serve
-para se transportar esta louça a muitos
-lugares. Leva-se pelo Loire por exemplo
-a Chateauneuf, de donde se destribue
-por terra a muitos lugares. Como
-daqui vem a Pithiviers, cidade muito visinha
-ás nossas terras, tive occasiaõ de
-a comprar, e conhecer a bondade desta
-louça; cheguei mesmo a prover-me de vasos
-de Chymica, que mandei fazer em
-S. Fargeau por modelos, que enviei. Ha
-ahi louças, que saõ cubertas de hum verniz
-escuro muito duro, e que resistem
-muito bem a acçaõ dos acidos mais concentrados;
-tive cucurbitas, e capiteis de
-lambiques, em que ajustei grandes refrigerantes
-de cobre; estes vasos saõ taõ
-impenetraveis aos vapores os mais subtís,
-como o melhor vidro, e resistem muito
-melhor a acçaõ do fogo.</p>
-
-<p id="section195">195 Como quiz adquirir conhecimentos<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span>
-sobre a natureza desta louça, procurei
-com confiança a Mr. o Presidente de
-S. Fargeau, por conhecer o seu zelo
-para tudo, o que tem relaçaõ com o progresso
-das artes, e que pode utilisar ao
-bem público. Elle mesmo quiz responder
-em huma Memoria as perguntas que lhe
-fiz por instruçaõ sua, e isto me põe em
-estado de dar huma idéa bem exacta dos
-methodos, que seguem os oleiros deste
-lugar. Ainda que estas louças saõ conhecidas
-pelo nome de greda de S. Farjeau,
-com tudo ellas se naõ fazem nesta cidade
-mas sim em huma pequena povoaçaõ
-que dista huma, ou duas legoas da cidade.</p>
-
-<p id="section196">196 Em geral a argilla, que se emprega
-para a louça que nos occupa, he
-cinzenta; mas della se distinguem duas
-qualidades; huma mais branca, que a
-outra, tem huma area fina; com este
-barro se fazem vasos de huma greda mais
-compacta, e fina, do que com a outra,
-e se coze mais forte. Ellas naõ vaõ ao
-fogo; e por isso desta greda se fazem
-potes de manteiga, quartas, e botelhas
-etc. Este barro, depois de cozido, toma
-huma côr amarella clara; com tudo, fazendo
-se passar por hum grande fogo,
-toma a côr cinzenta. Com elle se fazem<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span>
-vasos, que se envernizaõ, e outros naõ:
-para distinguir este barro do outro, eu
-o chamarei barro branco.</p>
-
-<p id="section197">197 A outra especie de barro tambem
-he côr de cinza, porém mais escura,
-que a precedente; e por isso o chamarei
-escuro. Os oleiros achaõ esta argilla mais
-forte, e mais pura, que a branca: com
-este barro he que elles fazem os utensis
-do uso que devem ir ao fogo; naõ
-o cozem taõ forte, como o outro, e huns
-vasos vaõ envernizados, e outros naõ.
-Estes dous barros, sendo cozidos, tomaõ a
-mesma côr pouco mais, ou menos, e os
-vasos, feitos de hum, ou outro barro
-destes, nos lugares, aonde ficaõ mais expostos
-a acçaõ do fogo, se tornaõ brilhantes
-na superficie, como se fossem
-envernizados.</p>
-
-<p id="section198">198 Os oleiros fazem muitas obras de
-cada hum destes barros separados, e puros,
-sem mistura alguma; tambem as fazem
-de ambos os barros branco, e escuro
-misturados, sem lhe ajuntarem outro
-barro, ou area.</p>
-
-<p id="section199">199 Ambos estes barros se achaõ
-mais, ou menos fundo em camadas de
-dous pés, até seis de grosso. Estes bancos
-de argilla se cavaõ facilmente com
-o enxadaõ, ou enxada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p>
-
-<p id="section200">200 Estes barros saõ bem finos; e
-moem-se entre os dedos; com tudo entre
-elles se encontraõ calháos, e pedras, e
-se lançaõ fóra quando se achaõ nas maõs,
-ou debaixo dos pés.</p>
-
-<p id="section201">201 Este barro se reduz a pequenos
-pedaços com qualquer instrumento, que
-corte; depois, humedecendo-se com agua,
-se amassa até tres vezes, e depois se trabalha
-com as maõs, como fazem os oleiros
-de París.</p>
-
-<p id="section202">202 Muitas vezes o amassaõ, logo
-que o tiraõ; com tudo os oleiros convem,
-que elle se trabalha melhor, depois
-de passar hum inverno ao ar; e este
-sentimento he geral em todas as olarias.</p>
-
-<p id="section203">203 Como disse acima, que se humedecia
-para o pôr em estado de ser amassado,
-devo advertir, que o naõ lançaõ
-na agua, como fazem os oleiros de París;
-porém deitaõ de doze, até quinze baldes
-de agua em huma carrada de barro.</p>
-
-<p id="section204">204 Os vasos se trabalhaõ em huma
-roda, que se faz andar com hum páo,
-como se vê representado na <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig.
-4</i>, e <i>5</i>.</p>
-
-<p id="section205">205 Põe-se as azas, e se aperfeiçoa a
-obra, do mesmo modo que fazem os
-oleiros de París, como fica dito.</p>
-
-<p id="section206">206 O forno dos oleiros de S. Fargeau,<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span>
-com pouca differença, he o mesmo
-que fica representado na <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, porém
-he hum pouco metido pela terra;
-de modo que para meter a lenha, se precisa
-descer a huma cova, que tem quasi
-nove pés de largo, quatro de fundo, e
-quatro de vaõ. O corpo do forno, aonde
-se arrumaõ os vasos, tem dezenove pés
-de comprido, dez de largo, onde ha
-maior largura, e seis de alto.</p>
-
-<p id="section207">207 Para huma fornada se gastaõ vinte
-cordas de lenha miuda, ou nove de
-lenha grossa; daqui se vê que estes fornos
-se esquentaõ por hum modo muito
-differente dos de París.</p>
-
-<p id="section208">208 O fogo dura quatro dias, e tres
-noites sem parar; por doze horas he o fogo
-brando para esquentar, e todo o mais
-tempo he com muito fogo para cozer perfeitamente:
-quando se para com o fogo,
-se fecha o forno, e fica assim tres dias,
-e tres noites, de sorte que, quando se
-tira a louça, já ella está fria. Se a louça
-se tirasse logo huma parte quebraria derrepente,
-e o resto seria muito fragil; e
-desta sorte o tempo, que a louça fica no
-forno depois de cozida, equivale ao recozimento
-dos vidraceiros, sem o qual
-tudo se quebraria, principalmente passando
-do quente para o frio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span></p>
-
-<p id="section209">209 Põe-se no mesmo forno os vasos
-de barro branco, que naõ se destinaõ
-para servir no fogo, os de barro cinzento,
-que haõ-de ir ao fogo, e os da mistura
-destes dous barros. Toda a differença,
-que se observa no cozer, he pôr os
-vasos de barro branco perto da entrada
-do forno, no lugar aonde ha maior calor,
-e os de barro misturado no meio
-do forno, e os de barro cinzento na extremidade
-do forno, onde ha menos calor.</p>
-
-<p id="section210">210 Os oleiros de S. Fargeau fazem
-o seu verniz com duas materias mais,
-ou menos vitrificaveis, a que chamaõ
-<i>Latier</i>; este <i>Latter</i> vem das fornalhas,
-em que se trabalha a mina de ferro. Hum
-he escuro, e em parte vitrificado; o outro
-he verde, e he hum verdadeiro vidro
-muito duro.</p>
-
-<p id="section211">211 Achaõ-se estas substancias espalhadas
-sobre a terra; ainda que junto a
-S. Fargeau naõ hajaõ fornalhas de ferro;
-presume-se que as houveraõ antigamente.
-Reduzem a pó por meio de huma maquina
-de dous pilões que se faz mover por huma
-manivela, e de huma roda; estes pilões
-na ponta debaixo levaõ huma chapa de
-ferro, como a dos pilões de socar casca
-de curtume. Quando se precisa pouca<span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span>
-quantidade de verniz, se pulverisaõ as
-materias, de que acabo de fallar em hum
-gral com maõ de ferro; passaõ-se por
-huma peneira de cabello; este pó entaõ
-está da côr de cinza, e os oleiros o chamaõ
-<i>Latier en laquet</i>, (escoria para verniz).</p>
-
-<p id="section212">212 Applica-se este verniz ao barro
-crú, porém bem secco; para o pó se
-pegar, se humedecem os vasos em agua,
-e se pulverisaõ exactamente com este
-pó, que fica muito adherente, quando
-se derrete pela acçaõ de hum grande fogo,
-e se encorpora a superficie do barro.</p>
-
-<p id="section213">213 Como se applica sobre estes vasos
-crús, o mesmo fogo, que coze o
-vaso, faz derreter o verniz, que se torna
-escuro côr de castanha, e muito duro.</p>
-
-<p id="section214">214 Para os vasos de barro branco
-mais expostos ao fogo se mistura com a
-escoria huma pouca de cinza fresca passada
-por peneira. Dizem os oleiros, que
-sem isto, o verniz se queimaria. No
-meio do comprimento do forno se põe
-simplesmente as escorias; e na ponta,
-aonde ha menos fogo, se ajunta ás escorias
-hum bocado de cal de chumbo para
-ajudar a fusaõ.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span></p>
-
-<p id="section215">215 Este verniz, como já disse, toma
-huma côr da castanha muito unida, e
-brilhante, e he taõ bom como o dos oleiros
-de París; mas he preciso hum grande
-fogo para o fazer derreter: e nisto convem
-com louças que se cozem em greda e todas
-as de S. Fargeau saõ desta qualidade.</p>
-
-<h3><i>Modo de procurar as louças huma côr
-negra, que de algum modo supre o
-verniz.</i></h3>
-
-<p id="section216">216 Eu tirei do Calendario Limousino,
-algumas individuações sobre as louças
-de S. Eutropio em Angoumes especialmente
-sobre as que chamaõ panellas,
-e destas humas saõ envernizadas, e
-outras naõ; estas vaõ huma só vez ao
-forno, as outras vaõ duas vezes, e nelle
-se deixaõ tres dias para ficarem perfeitamente
-cozidas. Seu verniz nada tem de
-particular: porém he justo referir huma industria,
-com que os oleiros de algum modo
-suprem o verniz, tingindo de preto
-os vasos, que em muitas serventias saõ
-preferiveis aos envernizados. Consiste pois
-nisto sua industria.</p>
-
-<p id="section217">217 Assim que se põe a louça no forno,
-se lhe lança, por cima cinza de Estevas,
-ou urzes, e se cobrem com ella<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span>
-o mais que póde ser. Põe-se depois seis,
-ou sete feixes deste arbusto no fogo. Depois
-de se inflammarem bem estes feixes
-se tapaõ as bocas superiores do forno,
-e se sufoca o fogo: a louça deste modo
-recebe a fumaça, que a penetra, quando
-ella está ainda humida (a que chamaõ
-suar a louça) quando se começa a esquentar,
-ou a dar a tempera. Esta fumaça
-ajuntando-se com a cinza faz huma
-côr negra, e muito solida ás louças. Depois
-desta fumigaçaõ, se abrem os buracos
-superiores do forno, e se continua
-a cozer a louça.</p>
-
-<h3><i>Louça de Inglaterra.</i></h3>
-
-<p id="section218">218 Mr. Jars, correspondente da Academia,
-sabendo, que eu me occupava
-em fazer a arte de oleiro teve prazer em
-me communicar algumas memorias sobre
-a louça de Inglaterra, que elle tinha
-achado entre os papeis do falecido seu
-irmaõ da Academia das Sciencias. Naõ
-deve haver duvida, que se Mr. Jars as
-tinha publicado, teria ajuntado muitas individuações,
-que as fizessem mais claras;
-mas julguei devellas dar taes, quaes elle
-me remetteo, persuadido que as pessoas
-já instruidas no trabalho da louça poderaõ<span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span>
-nellas achar algumas praticas, que
-cooperem para a perfeiçaõ desta arte.</p>
-
-<p id="section219">219 <i>Comté de Nordhumberlane.</i> Nas
-visinhanças da Cidade de Neuwcastle
-se estabeleceraõ differentes fabricas de
-louça; onde se fazem de toda a qualidade,
-a excepçaõ só da branca, que em
-França chamamos de barro de Inglaterra.</p>
-
-<p id="section220">220 Neuwcastle está situada com a
-maior vantagem para este commercio: o
-carvaõ de pedra he muito, e barato, porque
-o do gasto do paiz naõ paga direito
-algum.</p>
-
-<p id="section221">221 Em quanto aos materiaes proprios
-para fazer a louça estes tambem lhes vem
-baratos, porque os Navios que vaõ levar o
-carvaõ a Londres, na volta lhos trazem;
-visto deverem trazer lastro. A materia propria
-para fazer a pederneira, ou pedras
-de tirar fogo: sabe-se que dellas ha grande
-abundancia na parte Meridional de Inglaterra;
-pois de Douvres até Londres,
-quasi todo o terreno he huma mistura
-de greda, e pederneiras.</p>
-
-<p id="section222">222 Destas materias fazem o lastro os
-mais dos Navios, que muitas vezes voltaõ
-de Londres vazios; deves-se suppôr, que
-tornando a Neuwcastle ellas se vendem
-baratas; os que tomaõ os fornos de cal de<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span>
-empreitada, que saõ muitos na visinhança
-do rio, as compraõ; elles fazem huma
-mistura de greda, pederneira, e pedra
-de cal sem distinçaõ alguma, e cozem
-tudo acamado, huma cousa por cima
-de outra. Depois da calcinaçaõ he
-muito facil distinguir a pederneira, ainda
-que se torna muito branca de escura
-que era dantes; põe se de parte esta pederneira
-para se vender aos oleiros,
-a razaõ de oito, ou nove xelins a tonelada;
-e cada huma tem vinte quintaes de
-cento, e doze libras de pezo de Inglaterra.</p>
-
-<p id="section223">223 Em geral saõ semilhantes todos
-os fornos, de que se servem para cozer
-a louça; só differem na construçaõ em serem
-maiores, ou mais pequenos.</p>
-
-<p id="section224">224 A louça ordinaria, que se chama
-louça fina, para a distinguir de huma mais,
-commum, do que adiante se fallará, se
-faz de huma argila de côr cinzenta, tirando
-mais a branca, e da pederneira calcinada,
-que entra na composiçaõ de quasi
-todas as louças. Antes de misturar, ou
-preparar, como se segue.</p>
-
-<p id="section225">225 Cada fabrica tem huma especie
-de moinho, para moer a pederneira, que
-he tocado por agua, ou por hum cavallo;
-alguns donos destes moinhos compraõ a<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span>
-pederneira, e a vendem, depois de moida
-aos oleiros. Este moinho consiste
-em huma especie de pia de páo de cinco,
-ou seis pés de diametro, cujo fundo
-se faz de humas grandes pederneiras
-naõ calcinadas, postas humas ao pé das
-outras de modo, que deixaõ entre si vacuos
-bem consideraveis; no meio deste
-fundo ha hum mancal, que recebe o piaõ
-de hum páo vertical com hum braço em
-que se prende o cavallo, ou bois que o tocao
-(no Brazil se chama atafona;) em roda
-deste páo estaõ muitas pederneiras grandes
-encaixadas, e seguras com gatos de
-ferro, que servem de mós. Mr. Jars, vio
-destes moinhos, aonde em lugares de
-pederneiras, se servem de marmores durissimos,
-de que fazem a mó superior,
-unindo quatro pedras grossas com gatos
-de ferro ao páo vertical.</p>
-
-<p id="section226">226 Nestes moinhos, e entre estas
-pedras, se moe a dita pederneira calcinada,
-lançando-lhe sempre agua; quando
-a agua está já bem carregada, se tira
-huma cavilha de páo, que está na pia,
-para cahir agua em huma peneira de cabello,
-e desta em huma celha: lança-se
-nova agua no moinho, e se procede do
-mesmo modo, que fica dito, lançando outra
-vez na pia, o que naõ póde passar pela<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span>
-peneira; depois disto, se passa por huma
-peneira de seda muito fina, quando
-se quer misturar com a argilla, que se
-prepara do modo seguinte.</p>
-
-<p id="section227">227 A argilla, de que se faz a louça,
-se tira do condado de Devonshire, de donde
-vem por mar, e serve de fazer lastro
-aos Navios de volta, como a pederneira;
-tambem se servem della para fazer pitos:
-posta em Neuwcastle custa sete, ou
-oito xelins a tonelada. He côr de cinza,
-tirando mais o branco; tem a grã muito
-fina; dilue-se com agua em tanques
-grandes, agitando-a bem para se dividir
-melhor; depois se passa esta argilla desfeita
-n’agua por huma peneira de cabello
-taõ fina, como aquella, em que se passou
-a pederneira, e depois em huma de
-seda taõ fina, como a da pederneira; e
-entaõ se vai logo fazer a mistura.</p>
-
-<p id="section228">228 Misturaõ se dez partes de agua
-carregada de argilla com huma parte da
-agua da pederneira: estando tudo bem
-misturado, se trata da evaporaçaõ da humidade,
-e reduzir tudo a consistencia
-de massa, o mais breve que for possivel,
-para que a pedra naõ tenha tempo de se
-separar da argilla, e precipitar-se, o que
-faria a mistura desigual. Tem-se experimentado
-o calor do sol, mas sem fruto;<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span>
-servem-se de humas especies de fornos
-para esta opperaçaõ.</p>
-
-<p id="section229">229 Estes fornos consistem em huma
-caixa comprida, ou especie de bacia formada
-de tijolos, sustida por cima com
-barras de ferro: tem huma grelha para
-se fazer ahi fogo de carvaõ de terra, e
-na extremidade da caixa huma chaminé
-para receber a fumaça. Esta mistura carregada
-de agua se põe nestas para evaporar-lhe
-a humidade, até huma consistencia
-conveniente para ser amassada;
-depois disto se tira este barro, e se põe
-em hum lar liso, feito de pedras chatas,
-ou com taboas: aqui se trata de
-amassar tudo, e pôr a massa em ponto
-de ser trabalhada.</p>
-
-<p id="section230">230 Formaõ-se logo obras a maõ na
-roda orisontal, quando ellas estaõ já meias
-seccas, se acabaõ na roda vertical com
-os instrumentos; outras finalmente se
-formaõ em moldes de gesso: para preparar
-estes moldes, o melhor modo de
-queimar o gesso he o seguinte.</p>
-
-<p id="section231">231 O do uso ordinario, que se chama
-alabastro, parece ser hum gesso branco
-semilhante ao que se tira nas visinhanças
-de Salins em <i>Franche Comté</i>; reduz-se
-a pó que se passa por huma peneira
-muito fina; depois se põe ao fogo dentro<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span>
-em hum vaso de barro; move-se bem com
-hum páo de espaço em espaço; e logo
-que elle se agita pelos globulos de ar,
-que delle sahem, se chama a isto <i>fazello
-ferver</i>. Continua-se até se julgar bem
-calcinado, depois se humedece com
-agua para fazerem moldes do modo que
-se quer.</p>
-
-<p id="section232">232 Mr. Jars vio preparar bules para
-chá, cujo corpo se fez com as duas differentes
-rodas; mas a aza, e o bico se
-fazem em moldes de gesso; estes moldes
-estaõ perto do fogo para estarem seccos.
-Quando se quer formar a aza de hum
-bule de chá que está feito ordinariamente,
-se tem hum molde que consiste de
-duas peças de gesso, se applica huma sobre
-a outra, e que saõ ocas com a figura
-que deve ter a aza; faz-se hum
-rolo do barro, e se estende no molde
-de maneira, que o encha perfeitamente;
-applica-se por cima a outra a metade do
-molde; depois se põe tudo ao pé do fogo
-hum bocado de tempo; tira-se a peça
-do molde, e se ajusta no corpo do
-bule humedecendo o barro com agua
-no lugar aonde se soldar.</p>
-
-<p id="section233">233 Os bicos se fazem por modo alguma
-cousa differente, tem-se moldes semelhantes
-aos precedentes, bem seccos,<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span>
-e applicados hum sobre outro: em huma
-das extremidades, que communica
-na capacidade interior, tem hum buraco,
-por onde se lança a massa muito clara,
-porém de modo, que fica huma abertura
-no interior da peça formada, que vem
-a fazer o bico do bule. O molde de gesso
-bem secco sem duvida, he o que ajuda
-a fazer este vacuo, embebendo com
-a sua porozidade a agua da massa do barro,
-assim que esta toca nas paredes do
-molde. Este molde se põe por algum
-tempo ao pé do fogo, como o outro de
-que já fallei, antes de se tirar a peça,
-que depois se solda no bule, do mesmo
-modo que se solda a aza.</p>
-
-<p id="section234">234 Mr. Jars, vio em differentes fabricas
-muitos moldes de gesso para fazer
-pratos, e tigellas recortadas, e com differentes
-feitios: vantagem consideravel,
-para diminuir o preço da maõ de obra.
-Toda a louça, feita deste modo, se põe
-sobre taboas debaixo dos telheiros, ou
-alpendres aonde secca; ha caixas redondas
-feitas de barro ordinario, peneirado
-grosseiramente, porém amassado com
-muito cuidado; commummente tem duas
-pollegadas de grosso, quatro, ou cinco
-de fundo, e hum pé de diametro; nesta
-caixa se arruma de ordinario a louça;<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span>
-no forno, se põe huma sobre outra; fazem-se
-muitas ordens no fundo: isto fórma
-differentes pilhas, conforme o tamanho
-da fornalha.</p>
-
-<p id="section235">235 Assim que está quasi cheio se
-fecha a porta falsa com tijolos, e barro,
-e se lança carvaõ nas cinco fornalhas de
-vento distribuidas em roda da fornalha
-grande. Quando se accende, entra a chama
-naõ só pelas cinco chaminés, mas
-tambem pelas pequenas aberturas, que
-vaõ ter a cada huma dellas; assim o calor
-se introduz igualmente por todo o interior
-da fornalha: este calor deve continuar
-trinta horas, depois que pára o
-fogo; logo que esfria a fornalha, se tira
-a louça para a envernizar.</p>
-
-<p id="section236">236 Todos os vernizes, de que se usaõ,
-tem por base o chumbo; tambem se servem
-da pedra, ou mina de chumbo, o
-zarcaõ, e o alvaiade, conforme a qualidade
-da louça; accrescenta-se-lhe alguma
-outra materia para variar a côr. Para
-diminuir o preço do verniz se lhe ajunta
-huma certa quantidade de pederneira calcinada,
-e a mesma argilla, de que se faz
-a louça; assim que secca o verniz, com
-que se cubrio a louça, se põe de novo
-nas caixas, e depois na fornalha, como
-se fez d’antes, e ao cabo de trinta<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span>
-horas está em termos de ser vendida.</p>
-
-<p id="section237">237 Pode-se usar de toda a qualidade
-de carvaõ para a cozer.</p>
-
-<p id="section238">238 A louça assim preparada, e cozida,
-como fica dito, naõ está subjeita ao
-perigo de se quebrar pelo calor da agua
-fervendo, ou pelo fogo, com tanto que
-se naõ ponha de repente em hum fogo
-muito ardente. Esta louça serve para cozer
-no forno toda a qualidade de manjares,
-mas principalmente a louça branca,
-que se fabríca no Condado de
-<i>Stafford</i>. A sua descripçaõ tambem se
-ha de dar.</p>
-
-<p id="section239">239 O interior da louça cozida he
-muito branco, e de huma grà muito compacta.
-Ainda que se lhe naõ percebe apparencia
-de vitrificaçaõ, se pode dizer,
-que se avisinha muito a ella.</p>
-
-<p id="section240">240 Fabrica-se outra especie de louça
-no mesmo lugar, e fornalha, que se
-faz com outra argilla escura, como a precedente:
-nesta naõ entra a pederneira;
-mas a sessenta partes deste barro se ajunta
-huma parte de magnesia reduzida a
-pó muito fino: depois desta mistura, se
-evapora a maior parte da humidade em
-hum forno semelhante ao precedente; cobre-se
-de hum verniz negro, em cuja
-composiçaõ entra tambem a magnesia;<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span>
-esta louça passa pelas mesmas operações,
-que a primeira, e resiste igualmente
-ao calor.</p>
-
-<p id="section241">241 Muitas vezes se applicaõ desenhos
-em ouro sobre esta louça negra; para isto
-se tem hum licôr, que se chama <i>goldsize</i>
-ou mordente, que se traz de Londres:
-he huma especie de verniz composto
-de differentes modos; com este
-verniz pinta o obreiro tudo, o que quer,
-sobre a louça alguma cousa ainda quente;
-depois do que applica sobre a pintura
-folhas de ouro batido (ou paõ de
-ouro,) e com hum pé de lebre se faz
-cahir o ouro dos lugares, que naõ foraõ
-envernizados; põe-se depois esta louça
-em huma pequena fornalha, que está de
-parte, com grades de ferro, e sua chaminé;
-o fundo he huma chapa debaixo
-da qual se põe o carvaõ, a fumaça, e
-a chama sahem pela chaminé.</p>
-
-<p id="section242">242 Pouco distante desta fabrica ha
-hum lugar em que se faz louça grosseira,
-e que vai ao forno huma só vez, porém
-com hum fogo continuado por quarenta
-horas. A fornalha he semelhante á
-precedente; porém muito maior; tem
-sete fornalhas de vento, e sete chaminés,
-em lugar de cinco, que a outra
-tem. Estas fornalhas de vento saõ quasi<span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span>
-de cinco pés de distancia de hum centro
-a outro.</p>
-
-<p id="section243">243 A argilla cinzenta que serve
-para a louça, de que se acabou de fallar,
-na vista he em tudo muito semelhante
-á de que se servem em Staffordshire
-para a louça branca; com tudo as
-experiencias, que della se fizeraõ, tem
-provado, naõ ser susceptivel da mesma
-impressaõ do sal, para a cobrir de hum
-bom verniz.</p>
-
-<p id="section244">244 <i>Louça do Condado de Stafford</i>.
-As minas de carvaõ tem dado lugar a
-hum estabelecimento de fabricas de louça
-de todo o genero nas visinhanças da
-Cidade de Neuwcastle; por isso as de
-louça branca saõ mais numerosas. Dizem
-que ha de dez a quinze mil almas empregadas
-nas minas de carvaõ, e nas fabricas
-de louças; mas sem contradiçaõ o
-maior numero se occupa na louça. Naõ
-se vem ali senaõ pequenas povoações habitadas
-de oleiros, e fabricas deste genero
-em toda esta parte do Condado de
-Stafford, e hum grande numero de fornalhas,
-principalmente nos lugares aonde
-se tirou, e aonde ainda se tira carvaõ.</p>
-
-<p id="section245">245 A argilla, de que usaõ para a louça
-branca, he de duas especies, quasi<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span>
-semelhantes; só se faz differença dellas
-pelo uso como adiante se dirá. Tira-se de
-Devonshire, e dizem, que esta provincia
-a dá para todas as fabricas de louça
-de Inglaterra. A pederneira, de que se
-faz tambem hum grande uso, se tira de
-Gravesande, ou verdadeiramente das
-margens do Tamisa.</p>
-
-<p id="section246">246 O ponto principal desta louça,
-isto he, para a ter bem branca, e livre
-de manchas, consiste na preparaçaõ da
-argilla, e em sua mistura com a pederneira;
-põe-se a argilla em hum tanque
-com agua para a fazer humedecer; dilue-se
-bem, agitando-a com hum pedaço
-de páo, esta agua assim carregada se
-coa, para outro tanque por huma peneira
-de cabello, para separar, o que naõ está
-diluido, esta se torna a lançar no primeiro
-tanque. Espera-se que haja huma
-suficiente quantidade de argilla já pãssada,
-e depois se agita fortemente, e se
-passa por huma peneira fina. Para a misturar
-com a pederneira, se faz o mesmo,
-que em Neuwcastle em Northumberland;
-a pederneira se calcina do mesmo
-modo em hum forno de cal; e depois
-se pulverisa, e liviga em hum moinho
-tocado ordinariamente pela agua; a
-pederneira neste estado he levada a fabrica.<span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span>
-Para a mistura ser perfeita, se deve
-diluir em agua na mesma consistencia,
-em que estava a argilla.</p>
-
-<p id="section247">247 A proporçaõ he de ajuntar huma
-parte de pederneira a seis partes de huma
-destas argillas; e a cinco partes da
-outra argilla se ajunta huma de pederneira.
-Depois da argilla ter sido passada por
-peneiras duas vezes, como acima se disse,
-se torna a passar terceira vez por huma
-peneira ainda mais fina, e entaõ he que
-se medem as porções.</p>
-
-<p id="section248">248 Deve haver huma pequena celha,
-que se enche seis vezes da argilla passada
-pela peneira; e depois se enche huma
-vez da agua da pederneira, e assim
-se continua até haver a quantidade da
-massa, que se quer; para a mistura ficar
-perfeita, precisaõ as duas massas, ou
-aguas de argilla, e pederneira, ter igual
-consistencia, e se mexem bem ambas
-juntas; e depois se tornaõ a passar quarta,
-e quinta vez por huma peneira fina
-e desta ultima vez se coa no tanque de
-tijolos, que tem por baixo o fogo.</p>
-
-<p id="section249">249 As peneiras se fazem com fio de
-cambraia mais, ou menos fino; os caixões,
-ou tanques de tijolo, onde se põe
-a seccar a materia, saõ semelhantes áquelles
-que se usaõ nas fabricas, de que acima<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span>
-se fallou; a mistura de barro e area
-secca nelles lentamente, agita-se huma
-vez por outra com huma pá para seccar
-mais com igualdade; neste tanque fica até
-ter a consistencia precisa para ser trabalhada;
-entaõ se leva esta pasta para
-huma especie de sobrado bem limpo, e
-com muito aceio, aonde hum homem
-com os pés o trabalha, e amassa até julgallo
-proprio para fazer a louça.</p>
-
-<p id="section250">250 Todas as péças, que naõ levaõ molduras,
-nem saõ recortadas, se formaõ
-sobre huma roda vertical, que hum menino
-faz mover; a que he de molduras,
-se forma em moldes de gesso. Estes moldes
-de gesso consistem em huma peça
-de gesso, que tem interiormente a figura
-que deve ter a peça ou seja prato,
-ou tijella, ou outra qualquer, no qual
-gesso se gravou o desenho, que se quer
-dar a peça.</p>
-
-<p id="section251">251 Bate-se e trabalha-se hum bolo
-de barro, depois se estende com hum rolo.
-Depois que se estendeo o barro tanto,
-quanto quer o official, se põe sobre o
-molde aonde se aperta bem com as maõs,
-e se molhaõ na agua, se he preciso,
-para a massa se naõ pegar a elle, e tambem
-para fazer liza a parte exterior do
-prato, ou tijella.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span></p>
-
-<p id="section252">252 Este trabalho se faz em hum quarto
-onde ha fogo, para que os moldes
-sempre estejaõ bem seccos, e que, depois
-de algumas horas, se possaõ tirar as
-peças, que nelles se formaraõ.</p>
-
-<p id="section253">253 Como he preciso pulir as louças
-nos lugares, aonde naõ levaõ verniz, para
-tomarem melhor o verniz; logo que tem
-seccado alguma cousa á sombra as mesmas
-obras, que se fizeraõ na roda vertical,
-se levaõ ao torno, aonde se aperfeiçoaõ,
-e se fazem mais iguaes; e depois disto,
-se pulem na mesma roda ou torno, applicando
-lhe por cima huma folha de ferro
-liza, nos lugares, que devem ser pulidos.
-Da mesma sorte se fazem em moldes
-peças redondas; as peças ovaes, que
-naõ podem ser pulidas no torno, se lavaõ
-bem com huma esponja, e agua, e
-depois com hum pedaço do mesmo barro
-cozido, e pulido, se pulem todas as partes,
-que o devem ser. Esta louça ordinariamente
-se arruma em taboas a sombra
-para ahi seccar inteiramente antes que
-se ponha no forno.</p>
-
-<p id="section254">254 Nas visinhança de Neuwcastle
-ha argilla propria, para fazer as caixas em
-que se põe a louça; estas caixas saõ redondas,
-fazem se-lhe em roda cinco,
-ou seis buracos de duas em duas pollegadas,<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span>
-e de meia pollegada de diametro;
-seu tamanho he proporcionado aos das
-peças, que se querem meter nellas.</p>
-
-<p id="section255">255 Quando se quer arrumar a louça
-nestas caixas, os meninos preparaõ o que
-a deve suster; e saõ huns pequenos pedaços
-da mesma argilla formados em parallelipipedos;
-e, estando ainda muito humidas,
-se applicaõ sobre greda pizada grosseiramente,
-que se pega sobre toda sua
-superficie, com isto se guarnece o fundo
-das caixas, e destes parallelipipedos se
-servem para suster cada huma das peças,
-para que ellas naõ toquem humas
-nas outras; por se naõ pegarem com o
-verniz; esta greda de todo se naõ pega a
-louça, e nem lhe faz a menor marca,
-e se o faz em algumas peças, estas se
-rejeitaõ.</p>
-
-<p id="section256">256 Os fornos, em que se faz cozer
-esta louça, saõ pouco mais, ou menos
-semelhantes a estes, de que se tem fallado:
-a differença, que ha, consiste só
-em que elles commummente tem oito
-fogos, e por conseguinte oito chaminés
-interiores; mas estas chaminés só tem a
-abertura superior. Dizem que estas pequenas
-aberturas, que os outros tem,
-para a louça envernizada, faria mal a
-louça branca, porque a chama, que sahe<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span>
-da envernizada indo dar nas caixas
-da louça branca a faria amarella. <i>Outra
-differença</i>: toda a porçaõ espherica da
-abobada, está guarnecida de buracos,
-que naõ saõ precisos para as outras louças;
-fazem-se logo oito em roda da fornalha,
-no principio da abobada, postos
-entre cada chaminé, depois outras dezeseis
-por cima, e finalmente seis em roda
-do buraco principal, que estaõ no meio
-da abobada, e que serve de chaminé.
-Estes buracos tem tres, ou quatro pollegadas
-de diametro; no tempo da operaçaõ
-se tapaõ: seu uso adiante se dirá.</p>
-
-<p id="section257">257 Todas as caixas, que encerraõ a
-louça se põe humas sobres as outras, e
-formaõ differentes pilhas; metem-se no
-forno de modo, que haja huma pilha
-destas caixas debaixo de cada hum destes
-buracos, de que se acaba de fallar.
-Como ha trinta e hum buracos, comprehendendo
-a abertura do meio, ou chaminé
-principal, põe-se trinta, chamadas pilhas;
-a ultima caixa, que faz a extremidade
-da pilha, se cobre com testo feito
-de barro, de figura conica.</p>
-
-<p id="section258">258 A louça branca vai só huma vez
-ao fogo, mas he hum fogo continuo, que
-atura quarenta, e oito horas.</p>
-
-<p id="section259">259 O tempo de lhe dar o verniz por<span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span>
-meio, ou adjutorio do sal marinho, he
-quasi quatro, ou cinco horas, antes de
-se acabar de cozer; depois que a louça
-tem sofrido hum fogo de quarenta, e
-tres, ou quarenta, e quatro horas, se
-trazem, para junto do forno, oito alqueires
-(medida de Inglaterra) de sal marinho
-(que he quanto basta para hum forno
-da capacidade deste, de que acabo de
-fallar.) Ha hum levantado em roda da
-abobada ou corpo espherico do forno, sobre
-o qual sobem dous obreiros, que com
-huma colher de ferro lançaõ pelos buracos
-sal marinho, sobre cada huma das
-cubertas de cada pilha. Logo que lançaraõ
-o sal, tornaõ a tapar os buracos,
-que tinhaõ aberto, para introduzir as colheres,
-e continuaõ assim andando em
-roda do dito forno, lançando em cada
-buraco a mesma quantidade de sal, pouco
-mais, ou menos. Elles fazem isto
-mesmo por tempo de quatro, ou cinco
-horas, e naõ deixaõ outro intervallo, senaõ
-o que he preciso, para sahir a grande
-fumaça, que faz o sal. A cuberta,
-ou testo de cada pilha deve ser de tal figura,
-que o sal lançado por cima, cubra
-inteiramente a pilha; quando cahe, entaõ
-o acido do sal se introduz ao interior das
-caixas, toca a superficie da louça, e accelera<span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span>
-a vitrificaçaõ da pederneira, que
-entra na composiçaõ da mesma. Esta vitrificaçaõ
-exterior he o unico verniz, que
-se lhe dá.</p>
-
-<p id="section260">260 O sal com que se faz esta operaçaõ,
-he muito branco, e em gràos
-grossos, quasi semelhante ao que se faz
-em Lons-he-Saunier, para o gasto dos
-Suissos.</p>
-
-<p id="section261">261 O preço desta louça he de meio
-xelim até dous xelins a duzia de tijellas;
-este ultimo preço he o da louça melhor
-e de boa côr; o primeiro preço he da
-louça de refugo. A qualidade do carvaõ
-naõ he essencial para fazer a louça melhor,
-ou inferior.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span></p>
-
-<h2 id="ARTIGO_XII">ARTIGO XII.<br />
-<span class="smaller"><i>Do oleiro de fogareiros.</i></span></h2>
-
-<p id="section262">262 Ainda que os oleiros, que fazem
-os fogareiros, e cadinhos para os
-Chymicos, chamados <i>fournalistas</i> façaõ
-hum mesmo corpo com os que
-fazem os ladrilhos, utensis do uso, e
-outras obras, de que já fallei, pareceo-me
-justo tratar separadamente das obras
-dos que fazem fogareiros, e mais instrumentos
-chymicos; porque seu modo de
-trabalhar he muito differente da pratica
-dos outros oleiros.</p>
-
-<p id="section263">263 Os de París se servem como os
-outros oleiros da argilla, que tiraõ em
-Gentilly. Para a amaciarem, e tornalla
-ductil, e propria a ser trabalhada; cortaõ-na
-em pedaços sobre huma taboa,
-como os outros oleiros; estes pedaços
-cahem em tinas, ou celhas com agua:
-quando está já bem penetrada da agua,
-a tiraõ para a amassarem. Se a argilla he
-muito forte, elles a fazem magra, como
-os outros oleiros; mas para isto naõ se
-servem da area: quando elles se propõe
-fazer obras usuaes, como esquentadores<span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span>
-para serventias pequenas, ou fogareiros
-para fazer esquentar os ferros de engomar,
-e outras obras, que se daõ baratas:
-neste caso ligaõ o seu barro com escorias
-de ferro pizadas, e passadas por
-hum crivo, misturando depois partes iguaes
-deste pó, e do barro; porém para os
-fogareiros chymicos, como elles tem de
-soffrer hum fogo violento, e continuo,
-convem substituir a area huma substancia
-capaz de resistir á maior acçaõ do fogo,
-e naõ se tem achado outra cousa melhor
-para liga, do que os pedaços destes
-vasos de greda escura, que serviraõ de
-trazer manteiga de Isignes; dizem elles,
-e eu naõ sei se he com fundamento,
-que a louça de Picardia naõ he taõ boa
-como a de Normandia.</p>
-
-<p id="section264">264 Seja como for elles compraõ aos
-tendeiros estes pedaços de greda de Normandia
-ás medidas; elles os pizaõ com
-huma massa de ferro, ou de páo guarnecida
-de ferro, sobre huma pedra muito
-dura, ou hum calháo, que se põe sobre
-a ponta de hum páo grosso; depois
-os passaõ por hum crivo bem fino, para
-que as molecudas da greda se reduzaõ,
-quando muito, ao tamanho de hum graõ
-de milho: elles misturaõ pouco mais,
-ou menos tanto deste pó, como da argilla,<span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span>
-ou cinco partes deste pó com quatro
-de argilla; porque elles dizem, e com
-razaõ, que os fogareiros saõ tanto mais
-fortes, quanta maior porçaõ levaõ deste
-pó, e que argilla deve ser quanta baste
-para o ligar, finalmente usaõ deste pó
-mais fino para os cadinhos, do que para
-os fogareiros.</p>
-
-<p id="section265">265 Os oleiros que fazem os fogareiros
-preparaõ argilla, como os outros oleiros;
-elles escolhem á maõ todos os corpos
-estranhos, que encontraõ, quando a
-cortaõ, e amassaõ; mas escolhem com
-mais cuidado aquella, que destinaõ para
-fazer cadinhos; elles a trabalhaõ, e a
-amassaõ sobre huma meza, e lançaõ fóra
-com muito cuidado todos os calháos,
-pyrites, ou fragmentos de pedra calcar,
-que encontraõ nas maõs. Alguns para fazerem
-os cadinhos mais perfeitos, depois
-de terem feito seccar a argilla, a pulverisaõ,
-e a passaõ pela peneira; se elles
-achaõ huma veia de barro, que contém
-muitos destes corpos estranhos, o põe
-de parte para fazerem os fogareiros, e
-reservaõ o barro mais puro para os cadinhos.</p>
-
-<p id="section266">266 Amassaõ o barro, como os outros
-oleiros, põe o pó do barro cozido
-sobre hum sobrado, e a argilla por cima;<span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span>
-depois de terem feito a primeira
-amassadura, tiraõ o barro do meio para
-os lados, e dos lados para o meio. Alguns
-amassaõ o barro batendo-o sobre huma
-meza com huma massa de ferro, e acabaõ
-de o amassar trabalhando-o nas maõs.</p>
-
-<p id="section267">267 Até o presente se vê, que o trabalho
-destes differe pouco dos outros
-oleiros; porém elles senaõ servem de roda
-nem de moldes ocos, para formar suas
-obras; fazem-nas inteiramente a maõ,
-como explicarei.</p>
-
-<p id="section268">268 Os fogareiros portateis, que estes
-fazem naõ servem aos Chymicos; pois para
-certas operações, se formaõ outros de hum
-feitio particular; elles mesmos os fazem
-com tijollos, que unem com o barro dos
-fornos, ou com argamassa de cal, e ladrilho
-moido, ou com hum luto, composto
-de huma parte de barro, outra de esterco
-de cavallo secco, e de duas de
-area.</p>
-
-<p id="section269">269 Alguns fazem a sua argamassa com
-hum bocado de barro de fornos, e muita
-cinza de lixivia, ou <i>cenrrada</i>, passada por
-huma peneira, e humedecida com agua.
-Mas como os tijollos communs naõ resistiriaõ
-a certas operações, por serem faceis
-de vitrificar, se fazem estas fornalhas mais
-fixas com tijollos, e barro de cadinhos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p>
-
-<p id="section270">270 O barro destes tijollos he o mesmo,
-que se usa para fazer os fogareiros
-portateis; estes tijollos se fazem em moldes
-de páo, que se enchem deste barro.
-Assim que os tijollos tomáraõ hum
-bocado de consistencia, depois de tirados
-dos moldes, batem-nos sobre huma
-taboa para comprimir o barro: mas com
-cuidado para os naõ desfigurar.</p>
-
-<p id="section271">271 Os mestres dos fornos fazem estes
-tijollos quadrados, quasi do mesmo
-modo, que os ordinarios, e tambem
-os meios tijollos quadrados, para fazer
-os igualamentos.</p>
-
-<p id="section272">272 Para dar varias figuras aos fornos
-os mestres fazem tijollos de certa bitola,
-e figura <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 13</i>. E os Chymicos
-se servem delles para fazer fornos redondos,
-de sorte que algumas vezes quatro
-tijollos fazem a circunferencia de hum
-pequeno forno, para os grandes se carecem
-muitos mais. Ainda que se mude a
-curvatura destes tijollos segundo a figura,
-que se quer dar ao forno, sempre se
-tem meios tijollos, que saõ muito commodos
-para igualar as superficies. Estes tijollos
-se fazem em caixilhos, ou moldes,
-como os tijollos ordinarios: <i>a</i> <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig.
-14</i>. he para fazer os apoios dos cadinhos;
-e <i>b</i>, dos quadrados.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p>
-
-<p id="section273">273 Os mestres dos fogareiros saõ os
-que preparaõ os materiaes, e os Chymicos
-as põe em obra, unindo os tijollos
-com barro de forno, ou com as argamassas,
-de que já fallei. Entre o cinzeiro,
-e a fornalha se põe huma grade de
-ferro, alguns tapaõ as portas ou aberturas
-com huma chapa de ferro delgada;
-outros se contentaõ em pôr por cima das
-portas hum pedaço de ferro chato, á maneira
-de portal. Dentro do laboratorio,
-que está por cima da fornalha, se põe humas
-chapas de ferro para supportar hum
-banho de area, ou cucurbitas, ou retortas,
-ou cadinhos; finalmente fazem mais
-fortes estes fornos, pondo-lhes por fóra humas
-chapas delgadas de ferro, que o cercaõ
-por todos os lados: porém naõ ha
-cousa melhor para segurar os tijollos, e
-impedir, que se naõ despeguem com a força
-do fogo, do que prender na argamassa,
-que os une pedaços de redes velhas de arame
-de ferro de tostar o tabaco rapé: estas
-naõ fazem enchimento, e por causa dos
-buracos, e desigualdades destas redes fazem
-huma excellente liga com a argamassa.
-Naõ entro em grandes individuações sobre
-as fornalhas fixas, porque isto naõ he huma
-parte essencial dos oleiros, que fazem fogareiros;
-as fornalhas portateis, ou fogareiros<span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span>
-para o uso dos Chymicos, que verdadeiramente
-fazem a base desta arte,
-saõ os de que eu vou tratar com alguma
-maior individuaçaõ.</p>
-
-<p id="section274">274 Os oleiros mestres de fogareiros,
-ou fornalhas portateis as fazem quadradas;
-taes saõ as fornalhas de cadinho a
-<a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 15</i>, e algumas de fusaõ <i>fig.
-16</i>; mas as fornalhas de digestaõ, e as
-de reverbero, em huma palavra, quasi
-todas as fornalhas portateis saõ redondas.
-Humas saõ de huma só peça isto he cinzeiro,
-fogaõ, e laboratorio; naõ tem mais
-que por-lhe em cima a abobada: outras saõ
-formadas de muitas corôas, que se põe
-humas sobre outras; algumas se põe sobre
-huma trempe de ferro, e estas naõ
-tem cinzeiro, porque a cinza cahe no
-chaõ; porém a maior parte tem hum cinzeiro,
-hum fogaõ, onde se põe o carvaõ
-sobre huma grade, que deixa cahir a cinza,
-e dá passagem ao ar, que aviva o
-fogo. Os mestres de fogareiros algumas
-vezes fazem estas grades de barro; entaõ
-he huma chapa de barro redonda, em que
-se abrem muitos buracos; outras se servem
-de grades de ferro. Por cima do fogaõ
-está hum espaço, que se chama o
-<i>laboratorio</i>, porque neste lugar he que
-se põe o banho de maria, ou de area,<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span>
-ou huma retorta: tem huma abertura por
-onde se introduz o collo, ou huma cucurbita,
-ou cadinhos; e todas estas cousas
-sustidas por algumas peças de ferro,
-e muitas vezes acaba tudo por hum corpo
-espherico, ou zimborio, que serve
-de reverberar o calor sobre a retorta,
-ou os cadinhos, que estaõ no laboratorio.
-Ha sempre no alto do zimborio huma
-abertura de tres ou quatro pollegadas de
-diametro conforme o tamanho da fornalha,
-e esta abertura tem algumas vezes
-huma ponta de tubo, para se poderem
-ajustar nella tubos mais compridos, quanto
-se quer augmentar a actividade do fogo;
-porque para accender-se o carvaõ
-com mais vivacidade, e produzir muito
-mais calor, se precisa estabelecer na
-fornalha huma corrente de ar, que entre
-pelo cinzeiro, e saia por cima da fornalha.
-Ora esta corrente de ar depende
-da ligeireza do ar quente, em comparaçaõ
-ao pezo do ar frio, e esta ligeireza se
-augmenta a proporçaõ, que elle se esquenta
-mais, e tambem á proporçaõ de
-huma maior columna de ar quente no
-cume da fornalha: e assim para se augmentar
-a actividade do fogo na fornalha,
-precisa, que possa entrar por baixo
-huma sufficiente quantidade de ar<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span>
-frio, e ajuntar por cima da fornalha huma
-extensaõ de tubos, para se fazer
-assim huma maior columna de ar quente,
-que serve como de huma bomba
-maior; he preciso tambem, que o diametro
-deste tubo seja proporcionado ao
-tamanho da fornalha; eu naõ envestiguei
-sobre estas proporções, porque ellas naõ
-pertencem ao official: este se deve conformar
-com as ordens do Chymico, que
-varia isto, conforme as operações, que
-pretende fazer.</p>
-
-<p id="section275">275 Ha outras mais aberturas, tanto
-no zimborio, como no corpo da fornalha,
-que se abrem, ou se fechaõ para augmentar,
-ou diminuir o calor, conforme se
-quer, e levallo mais para huma parte da
-fornalha, do que para outra; para isto se
-deixaõ estes buracos abertos, ou se fechaõ,
-quando se julga a proposito, com
-batoques feitos mesmo de barro: a isto
-chamaõ registros.</p>
-
-<p id="section276">276 Devem-se fazer muito grossas as
-paredes das fornalhas, para que naõ escape
-o calor para o laboratorio, onde
-incommoda ao artista, e ao mesmo tempo
-falta para operaçaõ.</p>
-
-<p id="section277">277 Eu disse que os mestres de fogareiros
-faziaõ fornalhas quadradas, e dei
-por exemplo as fornalhas de cadinho<span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span>
-a <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, <i>fig. 15</i>; ellas tem hum cinzeiro <i>a</i>,
-que tem huma porta, por cima da qual
-está o laboratorio <i>b</i>, e huma abertura que
-naõ se communica dentro da fornalha, mas
-sim huma especie de forno, feito de
-barro de cadinhos delgado, chamado
-<i>moufles</i>, ou receptaculo; delle fallarei,
-quando tratar dos cadinhos: este
-laboratorio está sustido por grades de ferro,
-que atravessaõ o interior da fornalha,
-e de todas as partes cercado por carvões
-ardentes; no <i>moufle</i>, ou receptaculo
-he que se põe os cadinhos para fazer
-as experiencias dos metaes, das peças
-esmaltadas, e dos cadinhos para certas
-operações. A fornalha he cuberta por hum
-zimborio quadrado, em cima do qual está
-huma grande abertura, que se póde
-tapar com hum testo, ou se lhe põe hum
-tubo, quando se quer que o fogo tenha
-huma grande actividade. Por meio deste
-receptaculo, se podem expôr a hum
-grande calor as materias, sem receberem
-alguma impressaõ de fumaça, nem mesmo
-vapores de carvaõ.</p>
-
-<p id="section278">278 A <i>fig. 16</i>. <i>C</i>, representa huma
-fornalha de fusaõ, na qual se accende o
-fogo com hum folle; e por isso he que
-naõ tem grade no cinzeiro <i>a</i>, nem abertura
-por baixo na parte <i>a</i>, <i>d</i>, nem tubo<span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span>
-em cima para fazer maior corrente, de
-ar na fornalha; o folle faz as vezes desta
-corrente de ar.</p>
-
-<p id="section279">279 A parte <i>aa</i>, <i>aa</i>, <i>B</i>, he huma
-peça de barro, que fórma a parte debaixo
-do cinzeiro, onde se póde notar huma
-abertura <i>b</i>, a qual vai ter ao tubo do folle,
-e o vento sahe pela abertura <i>c</i>; o
-corpo da fornalha <i>dd</i>, se põe sobre o
-fundo <i>aa</i>. He preciso notar no interior
-desta fornalha huma sahida de barro <i>ee</i>,
-que circula ao redor da fornalha; esta se
-destina para suster a parte <i>ff</i>, que fórma
-a parte baixa do fogaõ na altura <i>dd</i>;
-porém tem nos angulos quatro aberturas
-<i>gg</i>, pelas quaes o vento do folle entra
-no corpo da fornalha, que he ao mesmo
-tempo fogaõ, e laboratorio, e aviva
-o fogo em todas as partes desta repartiçaõ,
-e em toda a circunferencia do cadinho,
-que está posto no meio do fundo
-<i>ff</i>, como se vê indicado nos pontos <i>dd</i>.
-Deste modo fica rodeado de hum calor
-muito vivo, sem receber immediatamente
-o vento do folle, que sendo frio, o
-refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar.
-A cuberta, ou testo <i>C</i>, só
-se põe quando se tira o cadinho, para
-apagar o fogo, e fazer esfriar a fornalha
-devagar. Esta fornalha chamada de<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span>
-fusaõ se vê, que he muito bem ideada,
-a que se segue naõ carece de folles.</p>
-
-<p id="section280">280 Tambem se póde fazer uso de huma
-fornalha da invençaõ de Mr. Maquer,
-que produz hum calor muito forte, e
-vitrifica quasi todas as substancias que
-nella se põe. Esta fornalha naõ tem
-cinzeiro; põe-se sobre huma trempe;
-por baixo tem huma grade, pela qual
-cahe a cinza, e dá huma passagem livre
-ao ar. A porta só serve para facilmente
-se alimpar a grade com o esborralhador,
-no cazo de precisar. A porta he destinada
-para se ajustar por detraz hum cadinho
-para algumas operações, em que se
-tomasse o fumo, ou vapores de carvaõ;
-a parte posterior está, como se vê, inclinada
-para traz da fornalha: e a porta
-grande serve para metter o carvaõ na
-fornalha; he preciso que ella seja grande,
-porque esta fornalha consome muito
-carvaõ; esta parte faz vezes de zimborio,
-tem no meio hum principio de tubo, para
-receber os outros tubos, que se ajustaõ
-huns por cima dos outros, e quantos
-mais se mettem mais calor ha. Bem se
-vê que esta fornalha deve ter muita actividade,
-porque se estabelece no interior
-huma corrente do ar, estando o fundo
-todo aberto, e a columna de ar quente<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span>
-se eleva muito. Finalmente põe-se no
-interior algumas grades de ferro para
-sustentar o receptaculo, quando se põe
-hum cadinho, ou muitos, e vasos que
-contém as materias de que se fazem as
-experiencias.</p>
-
-<p id="section281">281 A <i>fig. 17</i>, <a href="#est2"><i>est. II</i></a>, he hum pequeno
-forno, de digestaõ destinado para entreter
-em hum calor brando certas substancias
-por hum tempo consideravel.</p>
-
-<p id="section282">282 O que aqui se representa, he de
-folha de ferro, forrado por dentro de
-barro de cadinhos; <i>a</i> he o cinzeiro; <i>b</i>
-lugar onde se põe o fogo; <i>c</i> he huma tapagem,
-que cobre todo o forno; <i>d</i> he huma
-torre, onde se põe huma provisaõ de
-carvaõ, por naõ ser preciso pollo a miudo
-pela porta <i>e</i>: enche-se de area a capacidade
-<i>c</i>, <i>f</i>, e nesta area he que se põe
-os crisoes, ou vasos, que contém as materias
-postas em digestaõ. Este forno, ao contrario
-daquelles, de que acima fallei, he
-destinado para entreter por muito tempo
-hum calor brando, e igual; para isto he
-preciso, que a corrente de ar, que deve
-atravessar este forno, seja vagarosa,
-e bem dirigida. He evidente, que fechando-se
-exactamente as portas <i>g</i>, <i>e</i>, e
-os buracos, que estaõ no testo, ou cuberta
-<i>h</i>, da torre <i>d</i>, o fogo se apagaria,<span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span>
-e que, abrindo-se estes buracos, o carvaõ
-se consumiria com presteza, e produziria
-muito calor. E assim para obter hum
-meio conveniente, se devem abrir alguns
-dos buracos, que estaõ nas portas <i>g</i>, <i>e</i>,
-e algumas das que estaõ na cuberta da
-torre <i>h</i>: por meio disto o carvaõ, que
-se pôs na torre <i>d</i>, naõ se accende,
-mas cahe pouco a pouco na parte <i>b</i>, a
-medida que se vai gastando o que ahi
-está; e quando a torre he grande, o fogo
-se entretem por muito tempo no forno,
-sem ser preciso haver com elle algum
-cuidado.</p>
-
-<p id="section283">283 Eu podia trazer hum maior numero
-de fornos, ou fogareiros, que fazem
-estes oleiros; porém alguns exemplos
-bastaraõ para fazer comprehender seu
-modo de trabalhar.</p>
-
-<p id="section284">284 Todas as fornalhas portateis, ou
-fogareiros saõ feitas á maõ com argilla,
-misturada com o pó dos vasos de manteiga,
-como fica dito.</p>
-
-<p id="section285">285 Com hum compasso se risca em
-huma meza a largura, que a fornalha deve
-ter no fundo; depois o oleiro tendo posto
-sobre a meza hum bocado de cinza
-fina, para que o barro senaõ pegue, estende,
-como fazem os pasteleiros, huma
-pasta de barro redonda, e a põe sobre<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span>
-o traço que fez o compasso; este he o
-fundo da fornalha; depois com este mesmo
-barro faz outra pasta, que põe em
-roda sobre a pasta de barro, que fórma
-o fundo, tendo cuidado de os comprimir
-bem com os dedos, e dar-lhe mais
-grossura, do que devem ter as paredes da
-fornalha, naõ só porque o barro encolhe,
-mas tambem, porque batendo-o, diminue
-a grossura. Ajunta outros rolos de
-barro huns sobre outros, e tem o cuidado
-de os comprimir, e unir bem com
-os dedos para vir a fazer tudo hum só
-corpo, naõ ficando vacuo interposto entre
-as camadas de barro, porque o ar
-contido neste vacuo faria arrebentar o
-forno, quando se dilatasse pelo calor.
-Quando o forno chega a altura, em que
-se deve pôr a grade, por cima do cinzeiro,
-fórma huma pequena sahida ou
-borda com o mesmo barro para suster a
-grade.</p>
-
-<p id="section286">286 Pensaõ, e com razaõ, que os
-rolos de barro, comprimidos com os dedos
-deixaõ desigualdades. Depois que o
-forno tem chegado a huma certa altura,
-o official passa o gume da maõ, de cima a
-baixo, e ao través, e deste modo o une, e
-torna igual. Esta operaçaõ une a obra,
-e destroe as desigualdades, e a faz compacta,<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span>
-tirando-lhe os pequenos vacuos,
-que teriaõ ficado. Continua por diante a
-pôr os rolos de barro para levantar o
-forno, e formar a parte, que se chama
-fornalha, ou o fogaõ; depois o laboratorio
-até o lugar, em que se deve pôr
-o zimborio, e de vez em quando pule a
-obra, como já fica dito.</p>
-
-<p id="section287">287 Sabe-se muito bem, que os fornos
-saõ mais largos por cima do que por
-baixo. O habito dos bons forneiros he,
-o que os obriga a observar este methodo
-regularmente, vindo a dar ás paredes
-dos fornos a devida grossura; fazem-lhes
-varios contornos muito regulares, e
-para tudo isto naõ carecem de regua,
-nem compasso, he só com a vista, e
-nem tem outros instrumentos, senaõ as
-maõs, e o instrumento de bater o barro
-em pasta.</p>
-
-<p id="section288">288 Querendo-se formar pequenas
-chaminés para dar sahida ao vapor do
-fogo, se fazem no corpo do forno buracos,
-que se tapaõ com o mesmo barro
-disposto na figura conveniente a maõ,
-ou em molde, e segura-se quasi como
-as azas na louça. Os lugares, em que se
-péga, para mudar o forno de hum lugar
-para outro, e as sahidas, ou crescimento
-de barro, que se faz por baixo das<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span>
-portas, se começaõ, quando se fórma o
-corpo do forno, e se aperfeiçoaõ, quando
-se acaba de bater. Feitos assim os
-fornos, como se acaba de dizer, e aperfeiçoada
-a superficie com os dedos se
-põe a enxugar, e depois se acaba; para
-isto se bate com huma taboasinha por
-fóra, e mesmo por dentro, quando o
-diametro o permitte; abrem-se as portas
-com huma faca molhada, finalmente em
-quanto o barro está ainda mole, e ductil,
-se aperfeiçoaõ todas as partes do forno;
-e os habeis obreiros os fazem com tanta
-perfeiçaõ, como se fossem feitos em
-moldes, ou em roda.</p>
-
-<p id="section289">289 Fazem-se á parte batoques para
-os registros, e portas para fechar as aberturas;
-escolhem-se em hum numero
-que ha de differentes tamanhos, as peças,
-que servem: isto he facil; porque,
-como se fazem de cantos, ou quadradas,
-servem nas aberturas, que se fizeraõ no
-forno.</p>
-
-<p id="section290">290 Os fornos grandes se fazem de
-muitas peças. O cinzeiro <i>a</i>, a fornalha
-<i>b</i>, e o laboratorio <i>c</i> saõ formados da
-differentes peças, que se ajustaõ humas
-sobre outras com encaixes. Como estas
-peças devem ser todas iguaes por medida,
-para ajustarem humas sobre as outras,<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span>
-os oleiros logo que fazem o cinzeiro
-as medem exactamente o seu diametro
-por cima com hum compasso, e
-riscaõ esta medida em huma meza, e em
-cima formaõ a peça <i>c</i>, que deve ajustar
-por cima; deste modo o barro encolhe
-com igualdade, e as peças se ajustaõ bem,
-depois do barro ter tomado consistencia
-se aparaõ, e aperfeiçoaõ os encaixes, e
-se põe as peças humas sobre outras, e
-se batem com a taboinha, de sorte que
-o forno parece ser de huma peça só.</p>
-
-<p id="section291">291 Depois de começado hum forno,
-se precisa acabar sem parar; porque o
-barro humido naõ se liga com o barro
-secco, e este já teria encolhido; e por
-isso, sendo preciso parar com a obra, se
-deve cubrir com pannos molhados por
-naõ seccar.</p>
-
-<p id="section292">292 Quando se acaba o forno, se devem
-fazer em roda, e em differentes alturas
-rasgos fundos, para se passar hum
-fio de arame grosso, que abrace toda a
-circunferencia do forno, em cada hum
-destes rasgos; porque isto ajuda muito a
-conservar os fornos.</p>
-
-<p id="section293">293 A abobada, que se deve pôr sobre
-o forno como já disse, tambem se faz
-a maõ e sem moldes, ajustando rolos de
-barro mais finos, do que os do corpo do<span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span>
-forno, huns sobre os outros; começa-se
-por hum traço de compasso que mostra
-a largura de cima do forno, aonde se deve
-pôr a abobada; e para o barro se poder
-suster toma-se de algum, que se amassasse
-mais duro; e em geral o barro, em
-que trabalhaõ os forneiros, he mais duro,
-do que o dos outros oleiros.</p>
-
-<p id="section294">294 Algumas vezes, em quanto o barro
-naõ está ainda muito duro, com moldes
-lhe imprimem varias molduras para
-adorno dos fornos.</p>
-
-<p id="section295">295 Os fornos de cadinhos se trabalhaõ
-do mesmo modo que este, de que
-acabo de fallar, tudo he a maõ; e sem
-usarem de regua nem compasso, lhe daõ
-huma figura muito regular: só o cadinho
-deve ser trabalhado por differente modo:
-delles fallarei, quando tratar dos cadinhos.</p>
-
-<p id="section296">296 Fazem tubos, para descarregar a
-fumaça, com o mesmo barro dos fornos,
-e os formaõ com hum cilindro de
-páo, que he mais grosso em huma ponta
-do que em outra para poder-se tirar
-o molde, depois do tubo feito, e para o
-barro senaõ pegar ao páo, esfregaõ em
-cinza muito fina. Assim que o barro do
-tubo ficou alguma cousa duro, batem-no
-com a taboinha para alizallo, e fazello
-mais compacto.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p>
-
-<p id="section297">297 Os oleiros fazem os cadinhos na
-roda, e os forneiros as fazem a maõ
-em huma especie de torno de páo, que
-elles chamaõ molde, <i>c d</i>, <i>fig. 22</i>, <a href="#est1"><i>est. I</i></a>.</p>
-
-<p id="section298">298 Suposto que disse que os oleiros
-de Picardia faziaõ bons cadinhos com o
-seu barro de greda, toda via arrebentaõ
-no fogo, se os esquentaõ precipitadamente;
-porém se os esquentaõ aos poucos
-resistem a hum fogo violento sem se desfigurarem,
-e resistem a acçaõ dos saes,
-e metaes derretidos.<a name="FNanchor_25" id="FNanchor_25"></a><a href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span></p>
-
-<p id="section299">299 O barro de Gournaes em Normandia
-he muito bom; elle sopporta
-hum fogo muito grande sem se desfigurar;
-mas tem o defeito de conter em si muita
-quantidade de pequenas pyrites, e
-fragmentos de mina de ferro. Eu disse,
-que tinha chegado a remediar ao menos
-em partes, estas faltas, dissolvendo-o em
-muita agua, e deixando precipitar o que<span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span>
-era mais pezado, e mais grosseiro, para
-me servir do barro fino, que se precipitava
-depois.</p>
-
-<p id="section300">300 Para fazer os vasos das fabricas
-de vidros, em que se tem o vidro derretido,
-tres semanas sem interrupçaõ, se
-escolhe da boa argilla, a mais pura, que
-se possa achar; liga-se com esta mesma
-argilla bem cozida, reduzida a pó. Esta
-liga se faz em differentes doses, segundo
-a argilla he mais, ou menos macia
-e ductil, e mais disposta a fechar-se, sendo
-cozida; de sorte que certas argillas cruas
-naõ podem soffrer senaõ partes iguaes de
-argilla cozida, e outras muito macias podem
-soffrer cinco, e seis partes de argilla
-cozida em quatro partes da crua.</p>
-
-<p id="section301">301 Ha fabricas de vidros, que fazem
-os seus grandes cadinhos, a que elles
-chamaõ potes, com rolos de barro, como
-os nossos forneiros, outros os fazem em
-moldes.</p>
-
-<p id="section302">302 Os forneiros de París fazem seus
-cadinhos com argilla cinzenta de Gentilly;
-elles a escolhem, e alimpaõ com mais
-cuidado, do que para os fornos; depois
-a ligaõ com pouco mais de outro tanto
-de barro cozido, que passaõ por hum
-crivo hum pouco mais fino, do que para
-os fornos. Depois de terem preparado o<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span>
-barro o estendem pouco a pouco sobre
-hum molde de páo <i>c</i> <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 22</i>, que
-tem a figura que deve ter o interior do
-cadinho, tendo-o esfregado com area
-fina, para que o barro senaõ pegue; começaõ
-pelo fundo do cadinho, cobrem o
-molde com huma camada de barro, que
-tem tres, ou quatro linhas de grosso, e
-estendem-na pouco a pouco com pequenos
-golpes; e isto fazem com muita destreza,
-e regularidade. Estes cadinhos saõ
-bons para muitas operações, ainda que
-naõ podem supportar hum fogo muito
-grande, nem ter saes em fusaõ, como
-fazem os cadinhos de greda, e os de
-Allemanha.</p>
-
-<p id="section303">303 Do modo seguinte os tenho feito
-para as pequenas experiencias de mina.
-Dissolvi a argilla de Gentilly em muita
-agua, e deixei precipitar os corpos mais
-pezados; fiz depois seccar a argilla pura,
-que se precipitou em ultimo lugar; depois
-a pizei, e passei por huma peneira
-fina. Com estas preparações separei da
-argilla todos os corpos estranhos, a excepçaõ
-só das substancias, que estavaõ
-muito soltas, e em particulas minimas:
-liguei esta argilla com o pó dos vasos de
-manteiga passados por peneira fina, e formei
-os cadinhos em hum molde de cobre<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span>
-comprimindo-os, do modo que se faz
-o forno dos pitos. Estes cadinhos eraõ
-bons; com tudo naõ podiaõ soffrer hum
-fogo grande, e me achei melhor com a
-argilla branca, de que se fazem os pitos
-em Normandia; pois esta argilla commummente
-he mais izenta de substancias
-estranhas, do que ás argillas de côres.
-Digo commummente, porque ha argillas
-brancas, que saõ mui fusiveis, e carregadas
-de partes metallicas; e por isso
-o mais seguro he experimentallas antes
-de fazer uso dellas; visto que se pode dizer
-em geral, que he preciso escolher huma
-argilla, que naõ seja fusivel, e sobre tudo,
-que naõ tenha mistura de pyrites, de
-substancias metallicas, nem de area vitrificavel;
-porque os saes, ou substancias
-metallicas, que se põe nestes cadinhos
-vitrificaõ estas substancias estranhas
-ao barro, e os cadinhos ou rachaõ, ou
-furaõ. Havendo huma argilla pura, e refractaria,
-que dá ductilidade a pasta, se
-precisa, como já fica dito, ligalla com
-algum pó de tijollo, para impedir á argilla,
-de se encolher, e rachar ao cozer.
-He preciso, que estes pós de tijollos
-sejaõ refractarios: por isto nas fabricas
-de vidros se servem da argilla,
-que elles mesmos fizeraõ cozer; e para<span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span>
-os cadinhos pequenos bastaõ os pitos bem
-cozidos, e feitos em pó. Os forneiros fazem
-uso do pó dos vasos de manteiga de
-Normandia: desgraçadamente sua argilla
-naõ he tal, como se poderia desejar. Elles
-o sabem; e para fazer seus cadinhos melhores,
-misturaõ muito pó de greda com
-a argilla; porém entaõ naõ fica muito
-compacto o barro dos cadinhos, e deixa
-passar pelos poros as materias, que
-tem em fusaõ, quando estaõ muito fluidas.
-Os cadinhos de greda naõ tem este
-defeito; e assim he preciso observar huma
-justa proporçaõ nestas ligas; porque,
-pondo-se muita argilla crua, he bem difficil
-de impedir o racharem os cadinhos
-ao seccar, ou ao cozer; e pondo-se muito
-pó, ficaõ os cadinhos com pouca firmeza,
-e naõ podem suster o pezo dos
-metaes, e tendo os poros muito abertos,
-o metal, e sobre tudo os saes, os
-penetraõ: por isso dizem alguns,
-que he preciso misturar-lhe hum bocado
-de area vitrificavel. Mr. de Reaumur,
-por exemplo, se achou bem em fazer
-cadinhos com partes iguaes de greda,
-area, e barro de pitos.</p>
-
-<p id="section304">304 As ligas seguintes saõ exageradas
-por alguns; mas eu nunca as experimentei.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span></p>
-
-<p id="section305">305 Duas partes de argilla boa, pura,
-e bem secca, duas partes de pó de
-vasos de greda, huma parte de area;
-alguns lhe ajuntaõ hum bocado de limalha
-de ferro, e agua salgada.</p>
-
-<p id="section306">306 Outro: seis partes de argilla secca,
-duas partes de <i>caput mortuum</i> de
-agua forte, duas partes de pó de vasos
-de greda, huma parte de escorias de ferro,
-e huma de vidro muido, e hum bocado
-de cal desfeita ao ar.</p>
-
-<p id="section307">307 Outro: partes iguaes de argilla
-secca, de amianto, talco espurio, ou terra
-de gelo, ou mica.</p>
-
-<p id="section308">308 Fazem-se cadinhos em figura de
-copos; algumas vezes se lhe faz hum pequeno
-aperto por cima, formando bico:
-tambem se fazem triangulares, para vasarem
-o metal com mais commodo. Finalmente
-fazem-se para ensaiar minas de
-metaes preciosos; estes terminaõ em ponta
-<i>d</i>, para que o metal derretido se ajunte
-melhor no fundo do cadinho; entaõ
-se lhe faz hum pequeno pé para que elles
-se sustenhaõ melhor dentro, e fora
-do forno.</p>
-
-<p id="section309">309 A respeito das capsulas, e cabeças
-só differem dos cadinhos por sua figura,
-assim como certos cadinhos com pé,
-a que os Francezes chamaõ <i>tutes</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span></p>
-
-<p id="section310">310 As mangas, ou receptaculos para
-os fornos de crisoes se fazem com o
-mesmo barro dos cadinhos; estende-se o
-barro bem delgado sobre huma meza,
-assim como fazem os pasteleiros; corta-se
-hum pedaço desta pasta para fazer a
-parte de cima do receptaculo; põe-se este
-pedaço sobre hum molde <i>a</i>, para lhe
-fazer tomar huma curvatura conveniente,
-e servindo-se do mesmo molde se
-lhe ajusta por baixo o fundo, e por
-detraz outro pedaço para fechar huma
-das pontas do receptaculo, estando
-bem justos estes differentes pedaços, se
-deixa endurecer hum pouco o barro; entaõ
-se acaba de fazer esta peça: com
-huma faca molhada se lhe abrem os pequenos
-buracos dos lados, e estaõ promptos
-para se cozerem.</p>
-
-<p id="section311">311 Para fazer huma retorta o forneiro
-faz o corpo sobre hum torno, ou molde
-de páo, como os cadinhos, e o bico
-em outro molde, que he huma cavilha
-hum pouco curva; com a maõ aperfeiçoa
-a parte mais larga do bico; e acaba soldando,
-e reunindo as duas peças.</p>
-
-<h3><i>Do modo de cozer os fornos, e cadinhos.</i></h3>
-
-<p id="section312">312 Tem havido Chymicos, que pretenderaõ
-naõ ser preciso cozer os fornos;
-porque elles servindo, viriaõ a adquirir<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span>
-o gráo de cozimento, que lhe convem:
-eu naõ sou desta opiniaõ. Os fornos, que
-só saõ seccos sem se cozerem, correm
-o risco de quebrar quando se faz preciso
-mudallos de lugar; além disto, qualquer
-bocado de agua que lhe caia os humedece,
-e os faz em pedaços. Por isso
-he preciso cozer os fornos, e os cadinhos;
-mas os forneiros só daõ hum
-meio cozimento.</p>
-
-<p id="section313">313 O forno, de que se servem os louceiros,
-he quadrado, e rente com o soalho;
-faz-se de tijollo a abobada: quasi
-em pé e meio do terreno se põe huma
-grade de ferro; mette-se a obra no forno,
-entrando por baixo da abobada pela
-porta. Quando ha obras pequenas, que
-podem caber por entre as grades, interpõe-se
-grades miudas por entre as principaes.
-A grade de ferro se põe quasi
-pé e meio por cima do soalho do forno.</p>
-
-<p id="section314">314 Estando o forno cheio de differentes
-obras, levanta-se sobre a grade
-de ferro huma tapagem de tijollos. Sendo
-feita esta tapagem sobre a grade, fica
-por baixo hum espaço, pelo qual se
-mette a lenha necessaria para cozer: a
-tapagem só chega até tocar a abobada;
-fica hum espaço por onde sahe a
-fumaça, que naõ tem outra sahida; ella<span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span>
-he recebida pelo tubo da chaminé.</p>
-
-<p id="section315">315 Accende-se de manhã hum pequeno
-fogo para esquentar, ou fazer seccar
-as peças; augmenta-se pouco a pouco,
-e a obra em hum dia fica cozida
-tendo gasto pouco menos de hum carro
-de lenha; prefere-se a lenha bem secca
-para fazer maior chama. Deixa-se esfriar
-a obra hum dia, ou dous, depois se tira,
-e esta em termos, de se entregar aos
-Chymicos.</p>
-
-<p id="section316">316 Fazem-se pratos de barro para
-cadinhos, que saõ de varios tamanhos:
-servem ordinariamente de apoio, quando
-se mettem debaixo dos cadinhos, e das
-retortas: algumas vezes se servem delles
-para cubrir os cadinhos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span></p>
-
-<h3><i>Aqui apresento tambem as seguintes notas
-que Mr. Dymares da Academia
-das Sciencias me communicou, quando
-já estava quasi impressa esta arte do
-louceiro.</i></h3>
-
-<p id="section317">317 Em Sauxillanges, e Marzac, duas
-pequenas cidades de Avergne, a primeira
-vizinha de Issoire, e a segunda distante
-de Ambert, quasi duas leguas, e
-meia, se fazem cadinhos para uso dos
-ourives; sua figura he conica; onde os ha
-de todos os tamanhos; a sua principal venda
-se faz em Leaõ.</p>
-
-<p id="section318">318 Os louceiros de Sauxillanges tiraõ
-seu barro perto de Monge no dominio
-de Moye; elles naõ cavaõ mais de tres,
-até quatro pés de fundo; he huma especie
-de Kaolin misturada com mica, e
-area grossa de quartz em grande proporçaõ.
-Lava-se este barro para lhe tirar a
-area; dilue-se o Kaolin na agua, que vai
-carregada delle, e a area de quartz fica
-no fundo dos vasos. O Kaolin se deposita
-depois nas celhas, aonde se deixa assentar
-todo o que a agua traz em si.</p>
-
-<p id="section319">319 O barro de que se usa em Marzac
-he da mesma natureza, e se trabalha
-do mesmo modo, que o de Sauxillanges;<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span>
-tira-se trinta, ou quarenta pés de fundo,
-perto da povoaçaõ de Espinasse, dependente
-da freguezia de Marzac. Algumas
-vezes se mistura o Kaolin com o outro
-barro argiloso, que se tira em Champetrieres,
-e Castellet perto de Ambert. Desta
-mistura resultaõ cadinhos mais proprios
-para resistir ao fogo, que os primeiros,
-e nestas vistas he que se cuida muito
-em cozellos. O barro de Sauxillanges,
-e de Marzac empregados sem mistura
-ficaõ bem brancos depois de cozidos.</p>
-
-<p id="section320">320 Em S. Junien pequena cidade de
-Limousin tambem se fazem semelhantes
-cadinhos destinados para os mesmos vasos,
-e de hum barro da mesma natureza;
-tira-se de Malaise vizinha da grande
-estrada de Limoge para S. Junien, e tambem
-duas leguas distante desta ultima
-cidade. Este barro he a base de toda a
-louça, que se faz em S. Junien para outros
-usos. Supposto que he muito branco,
-se coze muito mal, e he sujeito a
-arrebentar ao fogo.</p>
-
-<p id="section321">321 Ha tambem muitas fabricas de louça
-nas cidades de Duris, de Gandalounia, e
-Chavagnai em Limousin. O barro, que
-os oleiros chamaõ neste paiz <i>toupiniers</i>,
-he huma especie de Kaolin, pouco ductil;
-mas o que merece attençaõ he a<span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span>
-composiçaõ do seu verniz. Mas para o
-fazer se servem da mina do chumbo de
-Glanges, que elles calcinaõ, e lhe ajuntaõ
-por fundentes quartz branco da area,
-de que se servem os nossos louceiros.
-Para reduzir este quartz a pó com facilidade,
-o põe vermelho ao fogo, e neste
-estado o lançaõ em agua fria; a subita
-passagem do quente ao frio reduz a pó
-esta pedra: depois a misturaõ com cal
-de chumbo, e livigaõ estas duas substancias
-juntas, em huma mó.</p>
-
-<p class="titlepage">FIM.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p>
-
-<div class="footnotes">
-
-<h2 id="NOTAS">NOTAS</h2>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> Alguns chamaõ argilla a huma terra vermelha,
-gorda, muito cheia de arêa, de que usaõ
-para os fornos, e por isso em Pariz a chamaõ
-barro de fornos: este barro vem unido com arêa
-ferruginosa; porém na verdade argilla, e barro,
-saõ dous termos synonimos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> Estes trabalhos consistem em differentes
-lavagens que naõ podem servir para as louças
-communs por serem muito baratas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Ha poucas argillas puras, pela maior parte
-trazem diversas uniões. Destinguem-se muitas especies
-1º. argilla branca em Alemanha <i>Weisser
-thon</i>. Esta he a mais pura, e mais propria para
-as obras de louça, tambem serve para pitos, de
-que fallarei em outra parte. Conserva a côr branca
-no fogo, vitrifica-se com difficuldade, endurece
-a ponto de dar faiscas de fogo. 2º. A argilla cinzenta
-em Alemanha <i>Schwarzgrauer thon</i> menos
-pura que a primeira, e por isso naõ he taõ propria
-para a louça fina, e só serve para a grossa.
-3º. A argilla negra, que toma esta côr dos mineraes,
-de que está carregada, bem lavada e preparada
-póde servir para louça. 4º. A argilla azulada
-he a mais commum de todas, della se fazem
-tijollos, e telha. 5º. A argilla vermelha escura he
-a mais fussivel de todas; serve para cobrir
-as outras obras inferiores. Ella tem muita impureza,
-e por isso se passa por peneira antes de
-a pôr em obra. 6º. A argilla amarella tirando a
-preto, he magra misturada com arêa; serve para
-pratos grossos, e tigéllas, e outras obras que naõ
-vaõ ao fogo: os Alemães a chamaõ <i>Schulf</i>. 7º. Argilla
-esponjoza, que se naõ póde trabalhar na roda,
-he preciso trabalha-la quasi secca. 8º. A argilla
-cinzenta de fazer bilhas como as que vem de Normandia.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Para ter conhecimento exacto da natureza
-destes barros, se deve consultar Vallerio, M. Pott,
-e o Diccionario de Chymica de Maquer.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> A mica he huma especie de pedra folhada,
-brilhante refractaria: ha de muitas especies.
-Apparecem arêas, com mica, ou malacaxeta,
-cheias de muitas partes brilhantes. As partes brilhantes
-da mica se asemelhaõ ao talco.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6"></a><a href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a> Os pyritis saõ mineraes que se assemelhaõ
-a pedaços de mina por seu pezo, e côr resplandecente;
-e com effeito contém alguma especie
-metálica; porém raras vezes, e em pouca quantidade;
-e tem muito enxofre, e arsenico.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7"></a><a href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a> Terras calcareas saõ aquellas, que expostas
-a hum sufficiente gráo de fogo adquirem todos os
-caracteres de cal viva.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8"></a><a href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a> A arêa para os tijollos deve ser mais grossa,
-e sem mistura de terra; a que se lança na agua,
-e naõ a tolda he a melhor; a dos montes he preferivel
-á dos rios; se esta estiver carregada de
-pedra.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_9" id="Footnote_9"></a><a href="#FNanchor_9"><span class="label">[9]</span></a> <i>Molde</i>: os louceiros chamaõ assim hum
-caixilho de madeira, em que elles formaõ os ladrilhos,
-e tambem, cavados em gesso, que servem
-para fazer com o barro differentes ornatos.
-<a href="#section38">38</a> <a href="#est1"><i>est. I</i></a>, <i>fig. 5</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_10" id="Footnote_10"></a><a href="#FNanchor_10"><span class="label">[10]</span></a> Comparando todos os fornos, conhecidos
-em França, Suissa, Alemanha, e Hollanda os mais
-engenhosos para a economia da lenha, e perfeiçaõ
-de cozer saõ os de Suecia descriptos por Wynblad
-em huma Memoria que vem no Tom. IV. da Arte
-de telheiro desta obra pag. 112 §. 485.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_11" id="Footnote_11"></a><a href="#FNanchor_11"><span class="label">[11]</span></a> <i>Lingueta</i>, he a separaçaõ dos ladrilhos,
-que termina alguns fornos de louça, por baixo da
-qual estaõ as aberturas, chamadas <i>creneaux</i> <a href="#section49">49</a>,
-<a href="#section52">52</a>, <a href="#section130">130</a>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_12" id="Footnote_12"></a><a href="#FNanchor_12"><span class="label">[12]</span></a> <i>Crenaux</i>, he a abertura, que se faz no
-forno, ou para dar huma communicaçaõ ao ar
-quente, ou para escapar a fumaça <a href="#section50">50</a>, <a href="#section134">134</a>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_13" id="Footnote_13"></a><a href="#FNanchor_13"><span class="label">[13]</span></a> <i>Fausse-tire</i>, he a separaçaõ da abertura,
-que formaõ os ladrilhos, separando a fornalha do
-corpo do forno. <a href="#section50">50.</a></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_14" id="Footnote_14"></a><a href="#FNanchor_14"><span class="label">[14]</span></a> Entende-se aqui por tempêra aquelle pequeno
-calor, que se chega á louça 36 horas primeiro
-a esquentalla só para depois lhe chegar fogo
-forte.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_15" id="Footnote_15"></a><a href="#FNanchor_15"><span class="label">[15]</span></a> <i>Chasse</i>; grande fogo de chama, que se
-faz no fim do cozimento com feiches de lenha,
-ou madeira rachada. <a href="#section53">53.</a></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_16" id="Footnote_16"></a><a href="#FNanchor_16"><span class="label">[16]</span></a> <i>Gâchis</i> especie de argamassa, ou mistura
-de huma porçaõ de gesso em pó com argamassa de
-cal, e arêa. <a href="#section62">62.</a></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_17" id="Footnote_17"></a><a href="#FNanchor_17"><span class="label">[17]</span></a> Com ladrilhos de duas côres só assentados
-com differentes posições, se podem formar muitas
-vistas agradaveis, o Author assevéra que se podem
-fazer até 86 variedades.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_18" id="Footnote_18"></a><a href="#FNanchor_18"><span class="label">[18]</span></a> <i>Voguer</i> amassar á maõ.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_19" id="Footnote_19"></a><a href="#FNanchor_19"><span class="label">[19]</span></a> O forno dos oleiros Alemães he muito
-simples; he quadrilongo, de hum comprimento
-proporcionado a força de cada fabrica, da altura
-de hum homem pouco mais, ou menos. A parte
-superior tem a figura de hum ovo, ou he chata,
-e baixa compõe-se de terra gorda, e de palha picada
-para conservar o calor. O interior, se faz de
-tijolos, e com abobada, as paredes de huma parte,
-e outra devem ser fortes.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_20" id="Footnote_20"></a><a href="#FNanchor_20"><span class="label">[20]</span></a> Os oleiros Alemães para as suas obras communs
-se servem só do lithargirio, a que chamaõ <i>Glatte</i>,
-<i>Silberglatte</i>. Piza-se, passa-se por huma peneira,
-e liviga-se sobre huma pedra. Para que
-o lithargirio naõ corra muito, se lhe ajunta huma
-igual quantidade de area branca, e fina. Esta
-mistura se põe liquida ao dezejo de cada hum;
-lança-se huma quantidade sufficiente no vaso, que
-se quer envernizar, e que já está cozido, move-se
-e se despeja aquella quantidade, que sobra,
-e já naõ pega. Passado hum quarto de hora, já
-se póde levar o vaso para cozer o verniz. O vaso
-com o verniz deve estar no forno 16. ou 18. horas.
-Se o verniz, naõ foi bem livigado, fica desigual,
-e cheio de graõs.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_21" id="Footnote_21"></a><a href="#FNanchor_21"><span class="label">[21]</span></a> Querendo-se que o esmalte seja branco,
-misturaõ-se cinco partes de estanho com vinte de
-chumbo; fazem-se calcinar em hum vaso de barro
-no forno de calcinaçaõ. A fornalha se deve esquentar
-algumas horas antes de se lançar nella o
-chumbo, e a chama deve sempre dar sobre o
-chumbo, para isto deve ser o forno de reverbéro.
-Deve-se mover o metal com huma espatula
-de ferro até elle se reduzir em cinzas. Entaõ se
-lança o estanho, e se move do mesmo modo, até
-que este tambem se converta em cinzas. Augmenta-se
-o fogo, até que as cinzas estejaõ abrazadas;
-entaõ se diminue o fogo, e se deixaõ esfriar,
-movendo-as sempre com a espatula. Misturaõ-se
-estas cinzas com igual porçaõ de sal, e de area;
-põe-se tudo em hum vaso descoberto, e se põe
-nesta segunda calcinaçaõ todo o sal se evapora, a
-materia contida no vaso se abate, e o peso diminue;
-porém o sal só se ajunta para facilitar a
-fusaõ. Piza-se a materia calcinada em hum gral
-de ferro, e se liviga cuidadozamente em huma
-pedra, com huma quantidade de agua sufficiente,
-para a tornar de huma consistencia liquida. Cahindo
-sobre o verniz qualquer bocado de gordura,
-por pouca que seja, desmancha todo o trabalho,
-porque os metaes tornaõ a tomar sua primeira
-fórma, e o verniz desaparece de cima dos
-vasos, em que se tinha applicado. O pó, cahindo
-sobre o verniz, faz no esmalte huns pequenos
-buracos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_22" id="Footnote_22"></a><a href="#FNanchor_22"><span class="label">[22]</span></a> O <i>quartz</i>, he huma pedra dura, côr de
-leite, meia transparente, e vitrificavel, que se
-acha em muitos lugares, especialmente nas minas.
-Ainda que o <i>quartz</i> se vitrifica, quando se
-mistura com huma argilla vitrificavel, ou chumbo;
-com tudo por inadvertencia se inculcou esta
-substancia; he melhor substituir o spath, fusivel
-que se vitrifica mais facilmente.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_23" id="Footnote_23"></a><a href="#FNanchor_23"><span class="label">[23]</span></a> Frittar, he calcinar a materia do vidro,
-para separar della todos os corpos gordos, que
-dariaõ alguma côr suja ao vidro.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_24" id="Footnote_24"></a><a href="#FNanchor_24"><span class="label">[24]</span></a> Naõ ha aqui país algum, em que se naõ
-faça louça para o uso dos seus habitantes: ellas
-saõ mais, ou menos perfeitas segundo a qualidade
-dos barros; mas todas se fazem sobre os principios
-já explicados. Hum observador attento podera
-contribuir a aperfeiçoar esta arte no lugar,
-que habita, applicando-se a examinar as differentes
-qualidades de barro, suas composições, e
-suas misturas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_25" id="Footnote_25"></a><a href="#FNanchor_25"><span class="label">[25]</span></a> As operações Chimicas naõ se podem fazer,
-senaõ em cadinhos cozidos para poderem resistir
-a acçaõ dos dissolventes Chimicos, e a hum calor
-muito forte. Os de argilla boa tem o inconveniente
-de quebrar, passando do quente para o
-frio. Foi preciso procurar-se misturas, que os fizessem
-soffrer estas variações, e ao mesmo tempo
-conter os metaes derretidos por hum grande espaço.
-Os melhores cadinhos vem de Hessa. Veja-se Arte
-de Porcelana.</p>
-
-<p>Diz Mr. Pott que estes cadinhos se fazem com
-huma boa argilla refractaria, misturada com duas
-partes de area de mediana grossura, separando-se
-a mais fina por hum crivo. Esta mistura emmagrece
-o barro, e naõ o deixa encolher, nem rachar,
-nem fazer-se muito compacto, sendo cozido;
-A area deve ser de huma grossura mediana,
-sendo fina, os cadinhos se quebraõ. Mr. Pott diz mais
-que os cadinhos destinados para fundiçaõ de vidros,
-naõ devem levar area grossa, nem calháos,
-ou outras materias semelhantes, que saõ sujeitas
-a derreter-se. Para evitar isto, se ajunta a argilla
-o pó da mesma argilla cozida, e pizada grossa;
-a mistura se faz com partes iguaes, ou duas desta
-argilla cozida; duas, e meia, e ainda tres, e
-huma só da argilla nova, quanto melhor he esta
-tanta maior porçaõ admittem da outra cozida; e
-deste modo se fazem os grandes cadinhos para as
-fabricas de vidros. Mr. Pott fez hum grande numero
-de experiencias a este respeito: elle misturou
-a argilla com as caes metallicas, ossos calcinados,
-pedras calcares, talco, amianto, pedra
-pomes, esmeril, e muitos outros, e de todas estas
-experiencias naõ lhe resultou hum cadinho
-sem defeito em todas as vistas. Com tudo parece,
-que se poderiaõ fazer cadinhos melhores do que
-todos os conhecidos. Para isto se precisaria ter
-huma boa argilla bem refractaria, isenta de materias
-piritosas, e ainda de barros ferruginosos;
-este deveria ser lavado com cuidado para separar-lhe
-a area, e depois misturallo com duas, ou
-tres partes de argilla cozida, e pizada grosseiramente.
-Os cadinhos formados em moldes deveriaõ
-ser cozidos em hum fogo muito forte.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p>
-
-<h2 id="EXPLICACAO_DAS_FIGURAS">EXPLICAÇAÕ DAS FIGURAS.</h2>
-
-<h3><a href="#est1"><i>Estampa I.</i></a></h3>
-
-<p><i>Figura 1.</i> <i>B</i>, tonel, em que está a
-agua, para cortar o barro, e o diluir, a
-estampa <i>A</i>, o barro <i>C</i>, que se corta, o
-instrumento <i>D</i>, que serve para cortar este
-barro.</p>
-
-<p><i>Figura 2.</i> <i>D</i>, instrumento, com que
-se corta o barro.</p>
-
-<p><i>Figura 3.</i> <i>H</i>, molde para fazer tijolos
-de seis faces <i>G</i>, <i>fig. 5</i>.</p>
-
-<p><i>Figura 4.</i> meza para moldar, <i>ab</i>,
-sustida pelos pés <i>ee</i>, <i>g</i>, <i>urquain</i>, que
-he huma pedra dura, sobre que se põem
-o molde <i>dd</i>, <i>e</i>, vaso cheio de agua, <i>f</i>,
-plano, <i>k</i>, obras postas humas sobre as
-outras, <i>h</i>, barro amassado para encher
-o molde, <i>i</i>, monte de area para se espalhar
-sobre o <i>urquain</i>.</p>
-
-<p><i>Figura 5.</i> <i>na vinheta</i>, monte de barro
-prestes para se trabalhar.</p>
-
-<p><i>Figura 6.</i> cutelo curvo para cercear
-os tijolos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span></p>
-
-<p><i>Figuras 7. 8. e 9.</i> representaõ o forno,
-de que se servem quasi todos os
-oleiros, maiormente para cozer os tijolos.</p>
-
-<p><i>Figura 7.</i> representa o plano do forno
-ao nivel do terreno. <i>A</i>, entrada da
-fornalha. <i>AB</i>, onde se faz o fogo, como
-se mostra pelas mesmas letras <i>fig. 8</i>. <i>K</i>,
-<i>I</i>, separações dos ladrilhos, entre os
-quaes ha espaços vasios, para que o ar
-quente se communique ao forno. Esta
-separaçaõ, que divide a fornalha do interior
-do forno, se chama <i>la-fausse-tire</i>.
-<i>F</i>, hum vaõ, ou buraco da porta, chamado
-<i>tetin</i>. Por este lugar se entra no
-forno para lhe arranjar a louça: e em
-estando cheio, se fecha este <i>tetin</i> com
-hum muro de tijolos, a que chamaõ <i>la Languete</i>,
-em baixo desta, ha duas portas,
-ou aberturas <i>L</i>, <i>fig. 8</i>. que se chama
-<i>creneaux</i>, ou, como dizem os Louceiros
-<i>carneaux</i>: por estas aberturas passa
-a fumaça para o tubo do chaminé
-<i>CD</i>, <i>fig. 8</i>. que representa a vista do
-forno pela longitude. <i>AB</i>, he a fornalha:
-<i>KL</i>, assoalho do forno. Vê-se acima do
-<i>K</i>, <i>la fausse-tire</i>. <i>A</i>, <i>E</i>, <i>M</i>, he a abobada
-do forno; em <i>LM</i>, está a <i>lingueta</i>,
-abaixo de <i>C</i>, os <i>creneaux</i>, e <i>CD</i>,
-tubo da chaminé para descarga da fumaça.
-Vê-se em <i>a</i>, os tijolos da fornalha<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span>
-postos em carreira, para sustentar os tijolos,
-de que se enche o forno.</p>
-
-<p><i>Figura 9.</i> he huma vista do mesmo
-forno transversal pela linha <i>GH</i>, da <i>fig.
-7</i>. por baixo em <i>AB</i>, estaõ tijolos de
-assoalhar, ou vasilhas de commodidades,
-sobre que se arranjaõ as louças, com que
-se enche o forno.</p>
-
-<p><i>Figura 10.</i> <i>T</i>, caldeirinha quadrada,
-feita a maõ, e sobre a meza de aperfeiçoar.</p>
-
-<p><i>Figura 11.</i> alguidar, ou gamela commum
-de louça.</p>
-
-<p><i>Figura 12.</i> especie de fogareiro chamado
-<i>toupine</i>.</p>
-
-<p><i>Figura 13.</i> escalfador.</p>
-
-<p><i>Figura 14.</i> pequena cassarola.</p>
-
-<p><i>Figura 15.</i> roda dos oleiros vista em
-golpe.</p>
-
-<p><i>Figura 16.</i> roda dos Oleiros, vista
-de perfil.</p>
-
-<p><i>Fig. 17.</i> roda dos Oleiros, vista em
-plano <i>aa</i>, meio da roda <i>ff</i>, arvore da
-roda, que víra em huma peça de madeira,
-que se acha acima de <i>g</i>, a qual
-se conserva segura pela cruz <i>hh</i>, e as
-prisões <i>ii</i>, acima do meio <i>aa</i>, está o
-prato <i>bb</i>, em que anda a obra <i>cc</i>, que
-se trabalha. Os raios da roda se assignalaõ
-em <i>dd</i>, e as peças da roda volteadas<span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span>
-em <i>ee</i>, <i>K</i>, as taboletas sobre que se
-põem as louças <i>n</i>, que se querem trabalhar
-sustentadas tambem como o assento <i>l</i>,
-que he inclinado pelos montantes <i>pp</i>. Avista-se
-pela parte de dentro as peças entalhadas,
-que servem de assento ao trabalhador.</p>
-
-<p><i>Figura 18.</i> <i>A</i>, trabalhador que faz
-hum vaso na roda de fazer louça fina.</p>
-
-<p><i>Figura 19.</i> hum mealheiro, que tambem
-bem chamaõ <i>cache-maille</i>.</p>
-
-<p><i>Figura 20.</i> <i>A</i>, <i>B</i>, <i>C</i>, <i>D</i>, <i>E</i>, serve
-para fazer ver como se fazem ao torno
-as vasilhas para as decentes commodidades,
-como estes potes se ajustaõ huns com
-os outros pelas bocas, como se fazem os
-potes de duas bocas <i>E</i>, <i>C</i>.</p>
-
-<p><i>Figura 21.</i> <i>A</i>, modo de fazer hum
-vaso com o calibre. O vaso está firme,
-o calibre he que víra.</p>
-
-<p><i>Figura 22.</i> <i>d</i>, cadinho com o molde
-<i>c</i>, sobre que o fazem.</p>
-
-<h3><a href="#est2"><i>Estampa II.</i></a></h3>
-
-<p><i>Figura 1.</i> 7. <i>tournassin</i>, ou <i>tournassir</i>,
-serve para aperfeiçoar o fundo
-dos potes, que se fizeraõ ao torno. Este
-instrumento he de ferro, que se tem de<span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span>
-differentes tamanhos, e de diversas fórmas.</p>
-
-<p><i>Figura 2.</i> vaso de greda de Picardia,
-mais delgado, do que os jarros cobre-se
-por fóra do vime para se preservar.
-Os que receiaõ da agua, que se
-guardou em vasos de metal, mandaõ pôr
-em baixo hum registo, ou chave, de que
-se servem, como de huma fonte de cobre.
-Querendo-se que este fique proprio
-para clarificar a agua, põem-se-lhe placas
-de estanho, que descançaõ em aneis
-salientes pela parte de dentro, que o Oleiro
-faz em lugares assignalados pelas linhas
-de pontuaçaõ <i>a</i>, e <i>b</i>. He ainda melhor
-substituir as placas de estanho com
-testos de greda quasi semelhantes a de
-<i>M</i>, proporcionando o seu tamanho, ao
-diametro interior do vaso, e se põem area
-entre estes dous testos.</p>
-
-<p><i>Figura 3.</i> vaso grande de barro, chamado
-<i>pounes</i>, do qual se servem para
-salgar as carnes, para fazer as pequenas
-lexivias, e para conservar, nos jardins,
-agua, que se destina para os regamentos.
-Faz-se em hum torno <i>EFG</i>, que se
-assemelha a huma lanterna de moinho.
-<i>IKL</i>, he o seu eixo que se firma na terra,
-e <i>u</i>, faz andar á roda brandamente
-a lanterna <i>EF</i>, e a proporçaõ que vai<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span>
-virando se fórma o vaso, accrescentando
-rolos de barro huns sobre outros, que
-se une com huma peça, chamada <i>atelle</i>.</p>
-
-<p><i>Figura 4.</i> <i>na vinheta</i>, obreiro, que
-imprime na roda hum movimento circular
-com huma vara, ou páo <i>a</i>, chamado
-<i>tourneire</i>, este obreiro se assenta no assento
-inclinado <i>l</i>, e põem os pés nos
-entalhes <i>m</i>.</p>
-
-<p><i>Figura 5.</i> obreiro, que imprimindo
-muito movimento na sua roda, faz entre
-as suas maõs hum jarro.</p>
-
-<p><i>Figura 6.</i> garrafa, ou redoma de greda,
-cujo bojo se faz ao torno.</p>
-
-<p><i>Figura 7.</i> louças, que se seccaõ arranjadas
-no recebedor.</p>
-
-<p><i>Figura 8.</i> obreiro, que aperfeiçoa os
-potes na meza de os preparar.</p>
-
-<p><i>Figura 9.</i> monte de barro preto para
-o trabalho.</p>
-
-<p><i>Figura 10.</i> candieiro de barro, quasi
-totalmente feito ao torno.</p>
-
-<p><i>Figura 11.</i> <i>G</i>, vista de hum moinho,
-para moer o verniz.</p>
-
-<p><i>Figura 12.</i> <i>H</i>, mó do mesmo moinho.</p>
-
-<p><i>Figura 13.</i> <i>E</i>, tijolo de barro para
-cadinhos, volteado para ficarem fixas as
-fornalhas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span></p>
-
-<p><i>Figura 14.</i> <i>G</i>, caixilho para moldar
-tijolos, o qual se faz de differentes tamanhos,
-e diversas figuras, como quadrados,
-e curvos.</p>
-
-<p><i>Figura 15.</i> fornete de cadinhos.</p>
-
-<p><i>Figura 16.</i> fornete de fusaõ, em
-que se deve animar o fogo com folles.</p>
-
-<p><i>Figura 17.</i> pequeno <i>athanor</i>, ou fornete
-de digestaõ. Tem em <i>d</i>, hum reservatorio
-de carvaõ, que faz poder-se
-conservar por muito tempo hum fogo
-brando, sem se precisar lançar-lhe continuamente
-o carvaõ.</p>
-
-<h3><a href="#est3"><i>Estampa III.</i></a></h3>
-
-<p>Nesta Estampa se representa hum
-forno, de que usaõ muitos Oleiros, mui
-parecido com os fornos das louças finas.</p>
-
-<p><i>Figura 1.</i> mostra o exterior do forno.
-<i>A</i>, a boca da fornalha: deve-se descer
-por hum fosso para se lhe introduzir
-a lenha. <i>LM</i>, o <i>tetin</i>, ou abertura,
-pela qual se entra por baixo na camara
-para se pôrem os potes. A parede que
-fecha esta abertura, estando a camara
-cheia, naõ se dilata até o alto da abertura,
-por este lugar sahe a fumaça recebida<span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span>
-no cabaz, e tubo. <i>N</i>, se sobe
-para a camara superior pela escada <i>P</i>, e
-a fumaça escapa pelas aberturas <i>K</i>. O <i>tetin</i>,
-para pôr a obra nesta camara, está
-no alto da escada <i>P</i>.</p>
-
-<p><i>Figura 3.</i> he a fornalha, em que
-se mette a lenha: sua boca he em <i>A</i>.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span></p>
-
-<h2 id="TABOA">TABOA<br />
-<span class="smaller"><i>Das Materias, e Explicaçaõ dos termos proprios á Arte do Louceiro.</i></span></h2>
-
-<ul>
-
-<li class="ifrst">A.</li>
-
-<li class="indx" id="Abertura">Abertura, que se dirige ao forno para o encher, a qual se fecha com huma parede de ladrilhos, antes de se introduzir o fogo. <i>Pag.</i> <a href="#Page_51">51.</a> <a href="#Page_130">130.</a></li>
-
-<li class="indx">Acido vitriolico, se acha em muitas argillas <a href="#section6">§. 6.</a></li>
-
-<li class="indx">Agua grossa, agua em que se mistura huma pouca de argilla, serve para pegar o verniz em pó nas obras de louça <a href="#section144">144.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Alabastro">Alabastro, sorte de gesso empregado em Inglaterra na louça <a href="#section231">231.</a></li>
-
-<li class="indx">Alquifoux, mina donde se tira o chumbo, que he brilhante azulada mui pezada quebradiça, e abundante de enxofar <a href="#section141">141.</a></li>
-
-<li class="indx">Amassar a argilla <a href="#section32">32.</a></li>
-
-<li class="indx">Ambert, Cidade da baixa Auvergne.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span>Annel, <i>vid.</i> <a href="#Viret"><i>Viret</i></a>.</li>
-
-<li class="indx">Aparas, obras que se naõ tem levado ao forno <a href="#section31">31.</a></li>
-
-<li class="indx">Aperfeiçoar, concertar á maõ as obras que se fizeraõ ao torno, e pôr-lhe azas, e pés.</li>
-
-<li class="indx">Apodrecer, <i>vid.</i> <a href="#Invernar">Invernar</a>.</li>
-
-<li class="indx">Arcueil, Cidade de França <a href="#section27">27.</a></li>
-
-<li class="indx">Area misturada com argilla <a href="#section13">13.</a></li>
-<li class="isub1">Seu uso na louça <a href="#section17">17.</a> <a href="#section32">32.</a></li>
-<li class="isub1">Fusivel, vitrificavel, e metalica <a href="#section18">18.</a></li>
-<li class="isub1">Para fazer tijolos <a href="#section25">25.</a></li>
-<li class="isub1">Serve para moldar <a href="#section48">48.</a></li>
-
-<li class="indx">Argamassar, amassar o barro, quer seja simples, quer se componha de muitas misturas juntas <a href="#section4">4.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Argilla">Argilla, barro gordo compacto ductil, amolessendo-se em agua <a href="#section2">2.</a></li>
-<li class="isub1">Ductibilidade da argilla <a href="#section5">5.</a></li>
-<li class="isub1">Sua dureza depois de cozida <a href="#section7">7.</a></li>
-<li class="isub1">Sua côr <a href="#section11">11.</a></li>
-
-<li class="indx">Argilla para as louças de Inglaterra <a href="#section227">227.</a></li>
-<li class="isub1">Para as louças brancas de Staffordshire <a href="#section245">245.</a></li>
-
-<li class="indx">Assento, taboa inclinada, que faz parte do torno do Louceiro, sobre que se assenta o trabalhador.</li>
-
-<li class="indx" id="Ateille"><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span>Ateille, pedaço de madeira, ou de ferro, que tem huma certa figura, e que se póde comparar com o que os pedreiros chamaõ calibre, para fazer as molduras <a href="#section75">75.</a> <a href="#section95">95.</a></li>
-
-<li class="ifrst">B.</li>
-
-<li class="indx">Barro gordo <i>vid.</i> <a href="#Argilla">Argilla</a>.</li>
-
-<li class="indx">Barro de ladrilhos <a href="#section12">12.</a></li>
-
-<li class="indx">Barro de telhas <a href="#section12"><i>Ibid.</i></a></li>
-
-<li class="indx">Barro de tijolos <a href="#section12"><i>Ibid.</i></a></li>
-
-<li class="indx">Barro de cadinhos <a href="#section12"><i>Ibid.</i></a></li>
-
-<li class="indx">Barro de pitos <a href="#section12"><i>Ibid.</i></a></li>
-
-<li class="indx">Barro, bom barro <a href="#section70">70.</a></li>
-
-<li class="indx">Barro branco <a href="#section196">196.</a></li>
-
-<li class="indx">Batoques <i>vid.</i> <a href="#Registros">Registros</a>.</li>
-
-<li class="indx">Beauvais, Cidade Episcopal da Picardia.</li>
-
-<li class="indx">Bonnet les-Oules (Saint) Parroquial do Fores.</li>
-
-<li class="ifrst">C.</li>
-
-<li class="indx">Cadinho <i>vid.</i> <a href="#Crizoes">Crizões</a>.</li>
-
-<li class="indx">Calcaria (pedra) pedra, que pela calcinaçaõ naõ se vitrifica totalmente, mas se converte em cal <a href="#section13">13.</a></li>
-
-<li class="indx">Calibre <i>vid.</i> <a href="#Ateille">Ateille</a>.</li>
-
-<li class="indx">Candieiro de barro <a href="#section122">122.</a></li>
-
-<li class="indx">Cassarolas, vasos de barro <a href="#section118">118.</a></li>
-
-<li class="indx">Castellet, Villa de Auvergne <a href="#section319">319.</a></li>
-
-<li class="indx">Champetieres, Villa de Auvergne <a href="#section319">319.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Chumbo"><span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span>Chumbo (mina de) dá-se impropriamente este nome a huma <i>cal de Chumbo</i>, que pela calcinaçaõ toma huma côr vermelha, chamada chumbo vermelho, zarcaõ, ou minium.</li>
-
-<li class="indx">Coadores, vaso de barro <a href="#section120">120.</a></li>
-
-<li class="indx">Cortar o barro, he dividillo em talhadas, mas delgadas que forem possiveis <a href="#section30">30.</a></li>
-
-<li class="indx">Curto (barro) assim chamaõ os Oleiros a hum barro, que naõ sendo bem ductil, naõ se póde estender muito sem se quebrar.</li>
-
-<li class="indx">Cutelo <i>vid.</i> <a href="#Faca">Faca</a>.</li>
-
-<li class="indx">Creneaux, aberturas que se fazem no fornete, quer para dar huma communicaçaõ de ar quente, quer para sahir a fumaça <a href="#section50">50.</a> <a href="#section134">134.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Crizoes">Crisoes, ou cadinhos (barro de) <a href="#section185">185.</a></li>
-<li class="isub1">Cadinhos de Picardia <a href="#section298">298.</a></li>
-<li class="isub1">Seu cozimento <a href="#section312">312.</a></li>
-
-<li class="indx">Crivo para passar o barro <a href="#section71">71.</a></li>
-
-<li class="indx">Cozimento da louça <a href="#section24">24.</a></li>
-
-<li class="ifrst">D.</li>
-
-<li class="indx">Devonshire, Provincia Meridional de Inglaterra, onde ha muito bons Pórtos frequentadissimos. Exeter he a sua Capital.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span>Digestaõ (fornete de) <a href="#section281">281.</a></li>
-
-<li class="ifrst">E.</li>
-
-<li class="indx">Ebauchoir, pequeno pedaço de madeira cortada de diversos modos, de que se servem os Escultores, para fazerem seu molde, ou em barro, ou em cera <a href="#section127">127.</a></li>
-
-<li class="indx">Escalfador, sorte de vaso <a href="#section94">94.</a></li>
-
-<li class="indx">Espinasse, Villa de Auvergne dependente da Paroquia de Marzac.</li>
-
-<li class="indx">Esquentador <a href="#section125">125.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Eutrope">Eutrope (Saint) Villa de Angomes.</li>
-
-<li class="ifrst">F.</li>
-
-<li class="indx" id="Faca">Faca de dous cabos para cortar o barro <a href="#section30">30.</a></li>
-
-<li class="indx">Faca curva para aparar os ladrilhos <a href="#section45">45.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 6.</i></li>
-
-<li class="indx">Fargeau (Saint) Cidade de França no Gatinnes.</li>
-
-<li class="indx">Fausse tire, separaçaõ que formaõ os tijolos, apartando o fogaõ do corpo do forno <a href="#section50">50.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Fio">Fio de lataõ, instrumento para cortar o barro: he huma ponta de fio de arame guarnecida de hum punho em cada extremidade: faz-se a arbitrio, e se apropría conforme a posiçaõ que lhe querem dar <a href="#section35">35.</a></li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span>Fogareiros, ou fornalhas portateis, quadradas <a href="#section274">274.</a></li>
-
-<li class="indx">Forno de cozer os tijolos <a href="#section49">49.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 7. 8. 9.</i></li>
-
-<li class="indx" id="Forno">Forno do Louceiro <a href="#section129">129.</a></li>
-<li class="isub1">Outro forno <a href="#section132">132.</a> <i><a href="#est3">est. III.</a></i> <i>fig. 1. 2. 3.</i></li>
-<li class="isub1">De Prá em Lionnes <a href="#section163">163.</a></li>
-<li class="isub1">De Franche ville <a href="#section179">179.</a></li>
-<li class="isub1">De Beauvais <a href="#section187">187.</a></li>
-<li class="isub1">De S. Fargeau <a href="#section206">206.</a></li>
-<li class="isub1">Do Condado de Northumberland, em Inglaterra <a href="#section235">235.</a></li>
-<li class="isub1">Do Condado de Stafford <a href="#section256">256.</a></li>
-<li class="isub1">Fornete de vento de Mr. Macquer <a href="#section280">280.</a></li>
-<li class="isub1">Forno dos Oleiros <a href="#section313">313.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Fornalhas">Fornalha, lugar do forno, em que se põem a lenha, ou carvaõ <a href="#section286">286.</a></li>
-
-<li class="indx">Fornalha de fusaõ <a href="#section274">274.</a> <i><a href="#est2">est. II.</a></i> <i>fig. 16.</i></li>
-<li class="isub1">De calcinaçaõ para o esmalte <a href="#section93">93.</a></li>
-
-<li class="indx">Fornistas, trabalhadores que fazem fornetes, e cadinhos para os Chymicos <a href="#section262">262.</a></li>
-
-<li class="indx">Franche-Ville, Aldêa no Leonnes, em que se faz louça <a href="#section171">171.</a></li>
-
-<li class="indx">Fritar, calcinar a materia do vidro <a href="#section100">100.</a></li>
-
-<li class="indx">Fusaõ (fornalha de) fornalha principalmente destinada para a fusaõ dos metaes, em que se accende o fogo com folles <a href="#section279">279.</a></li>
-
-<li class="ifrst">G.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span>Gauchis, especie de argamassa, a que se mistura huma porçaõ de gesso em pó, com argamassa de cal, e de area, ou bitume <a href="#section62">62.</a></li>
-
-<li class="indx">Galmier (Saint) pequena Cidade do Forez.</li>
-
-<li class="indx">Gaubino, assim chamaõ no Lionnes a huma argilla cinzenta, muito pura, da qual se faz huma louça fechadissima, e pouco propria para o fogo <a href="#section176">176.</a></li>
-
-<li class="indx">Gentilles, pequena Villa da Ilha de França.</li>
-
-<li class="indx">Gesso <i>vid.</i> <a href="#Alabastro">Alabastro</a>.</li>
-
-<li class="indx">Gimble, dá-se em alguns lugares este nome ao prato do torno que sustem a obra <a href="#section75">75.</a></li>
-
-<li class="indx">Gournay, Cidade de Normandia no paiz de Bray, celebre pelas suas manteigas, de que se faz huma grande venda em París.</li>
-
-<li class="indx">Greda (louça de) saõ as que se aproximaõ mais a Porçolana <a href="#section181">181.</a></li>
-
-<li class="indx">Greda de Normandia <a href="#section23">23.</a> <a href="#section182">182.</a></li>
-<li class="isub1">de Bretanha <a href="#section23">23.</a></li>
-<li class="isub1">de Beauvais <a href="#section23">23.</a></li>
-<li class="isub1">de S. Fargeau <a href="#section23">23.</a> <a href="#section194">194.</a></li>
-<li class="isub1">de Flandres <a href="#section23">23.</a></li>
-
-<li class="indx">Gesso <a href="#section231">231.</a></li>
-
-<li class="ifrst">H.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span>Huma amassadura, o que se amassa de huma vez com os pés <a href="#section32">32.</a></li>
-
-<li class="ifrst">I.</li>
-
-<li class="indx">Inglaterra (louça de) <a href="#section218">218.</a></li>
-<li class="isub1">Louça negra <a href="#section240">240.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Invernar">Invernar, he deixar o barra extrahido da mina em hum fosso, ou em montes ao ar, o que contribue para se alisar melhor <a href="#section28">28.</a></li>
-
-<li class="indx">Isigny, Cidade grande na baixa Normandia, com hum pequeno Porto <a href="#section21">21.</a></li>
-
-<li class="indx">Issoire, Cidade de França na baixa Auvergne <a href="#section317">317.</a></li>
-
-<li class="indx">Jonc <i>vid.</i> <a href="#Viret"><i>Viret</i></a>.</li>
-
-<li class="indx">Junien (Saint) pequena Villa da baixa Marcha.</li>
-
-<li class="ifrst">K.</li>
-
-<li class="indx">Kaolin, he huma argilla branca, que ainda cozida, conserva a sua alvura, a qual naõ he muito ductil, e frequentemente se acha misturada de differentes substancias, como a mica, espato etc. <a href="#section321">321.</a></li>
-
-<li class="ifrst">L.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span>Laboratorio assim se chama, o lugar do forno, em que se põem os cadinhos cucurbitas, e as differentes substancias que se querem pôr ao fogo <a href="#section274">274.</a></li>
-
-<li class="indx">Ladrilhos, modo de os fazer <a href="#section30">30.</a></li>
-<li class="isub1">Tijolos chamados ladrilhos <a href="#section37">37.</a></li>
-<li class="isub1">Caraolar <a href="#section37"><i>Ibid.</i></a></li>
-<li class="isub1">Triangulares, quadrangulares <a href="#section37"><i>Ibid.</i></a></li>
-<li class="isub1">Oitogonos <a href="#section39">39.</a></li>
-<li class="isub1">Hexagonos <a href="#section39"><i>Ibid.</i></a></li>
-
-<li class="indx">Langueta, uniaõ de ladrilhos, que termina alguns fornos de louças, em baixo desta estaõ as aberturas, chamadas <i>creneaux</i> <a href="#section49">49.</a> <a href="#section52">52.</a> <a href="#section130">130.</a></li>
-
-<li class="indx">Latier, ou Latter, escorias de ferro, que se desprendem nas fornalhas, e serve aos Louceiros para envernizarem as suas obras <a href="#section211">211.</a></li>
-
-<li class="indx">Latier, <i>en Laquet</i>, he esta escoria de ferro reduzida a pó.</li>
-
-<li class="indx">Lithargirio, ou chumbo rubro <i>vid.</i> <a href="#Chumbo">Chumbo</a>.</li>
-
-<li class="indx">Louça de S. Germain, Parroquia de Beauvois <a href="#section183">183.</a></li>
-
-<li class="ifrst">M.</li>
-
-<li class="indx">Masso de ferro, proprio para socar o barro <a href="#section71">71.</a></li>
-
-<li class="indx">Malaise, Cidade no Lymoussin <a href="#section320">320.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Manganesia">Manganesia, mina de ferro pobre, e refractaria de hum azul denegrido cheia de granitos <a href="#section144">144.</a></li>
-
-<li class="indx">Marcassita <i>vid.</i> <a href="#Manganesia">Manganesia</a>.</li>
-
-<li class="indx">Marzac, Villa de Auvergne, onde se fabricaõ cadinhos para os ourives <a href="#section317">317.</a></li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span>Meio, parte da roda do Louceiro de barro <a href="#section75">75.</a></li>
-
-<li class="indx">Mealheiro, vaso de barro commum, inteiramente fechado só com huma fenda por cima por onde se introduz dinheiro, e para o tirar se precisa quebrar este vaso <a href="#section88">88.</a></li>
-
-<li class="indx">Mica, especie de fragmentos talcosos, que se achaõ misturados com pedra, ou area <a href="#section13">13.</a></li>
-
-<li class="indx">Meza de moldar <a href="#section41">41.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 4.</i></li>
-
-<li class="indx">Meza de madeira, em que se põem o barro amassado para se trabalhar <a href="#section71">71.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 5.</i></li>
-
-<li class="indx">Mina de chumbo <i>vid.</i> <a href="#Chumbo">Chumbo</a>.</li>
-
-<li class="indx">Minio <i>vid.</i> <a href="#Chumbo">Chumbo</a>.</li>
-
-<li class="indx">Montmoreau <i>vid.</i> <a href="#Eutrope">S. Eutrope</a>.</li>
-
-<li class="indx">Moufle, pequeno forno de barro cozido, que se põem nas fornalhas quadradas <i>vid.</i> <a href="#section277">Fornalhas portateis 277.</a></li>
-
-<li class="indx">Molde, os Oleiros daõ este nome a hum caixilho de madeira, em que elles formaõ os <i>creneaux</i>: tambem ha concavo de gesso, que serve para formar com o barro differentes ornatos <a href="#section38">38.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 5.</i></li>
-
-<li class="indx">Moldes para fazer os cadinhos <a href="#section297">297.</a></li>
-
-<li class="indx">Moldar os ladrilhos <a href="#section37">37.</a></li>
-
-<li class="indx">Moldes empregados nas Fabricas de louças de Inglaterra <a href="#section251">251.</a> <a href="#section254">254.</a></li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span>Moinho para moer a pedra para as louças de Inglaterra <a href="#section155">155.</a></li>
-
-<li class="ifrst">N.</li>
-
-<li class="indx">Nibelle, pequena Villa de Gatinnes <a href="#section25">25.</a></li>
-
-<li class="indx">Northumberland, Provincia de Inglaterra: louça deste París <a href="#section219">219.</a></li>
-
-<li class="ifrst">P.</li>
-
-<li class="indx">Panellas, grandes vasos de barro, mas commummente de greda <a href="#section216">216.</a></li>
-
-<li class="indx">Pedra calcaria <a href="#section43">43.</a></li>
-
-<li class="indx">Pitos <a href="#section32">32.</a></li>
-
-<li class="indx">Plaina, peça de madeira para moldar as obras <a href="#section41">41.</a></li>
-
-<li class="indx">Prá en Forez, Aldêa do Lionnes, em que se fabríca Porçolana <a href="#section157">157.</a></li>
-
-<li class="indx">Prevalais, Parroquia de Bretanha <a href="#section190">190.</a></li>
-
-<li class="indx">Pyrites, substancia mineral que contém pouco metal, e muito enxofre, ou arsenico <a href="#section13">13.</a></li>
-<li class="isub1">Má liga para a louça <a href="#section16">16.</a></li>
-
-<li class="ifrst">Q.</li>
-
-<li class="indx">Quartz, pedra dura côr de leite meia transparente, e vitrificavel <a href="#section152">152.</a></li>
-
-<li class="indx">Qualidades da boa louça <a href="#section19">19.</a></li>
-
-<li class="ifrst">R.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span>Regadores feitos de barro <a href="#section123">123.</a></li>
-
-<li class="indx" id="Registros">Registros, aberturas feitas em differentes lugares do forno, que se abrem, ou fechaõ com rolhas para diminuir, ou aumentar o fogo <a href="#section275">275.</a></li>
-
-<li class="indx">Rodas empregadas na fabrica de louça <a href="#section74">74.</a></li>
-<li class="isub1">Roda de ferro <a href="#section75">75.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 5.</i></li>
-<li class="isub1">Roda de madeira <i>vid.</i> <a href="#Forno">Forno</a>.</li>
-
-<li class="ifrst">S.</li>
-
-<li class="indx">Sal marinho, seu uso para as louças de Inglaterra <a href="#section259">259.</a></li>
-
-<li class="indx">Savignier, pequena Cidade da Picardia <a href="#section183">183.</a></li>
-
-<li class="indx">Sauxillanges, pequena Cidade de Auvergne, em que fazem crizoes para os ourives <a href="#section317">317.</a></li>
-
-<li class="indx">Serra, fio de lataõ, que serve de desprender as obras de cima do prato <i>vid.</i> <a href="#Fio">Fio de lataõ</a>.</li>
-
-<li class="indx">Seccar as obras <a href="#section44">44.</a></li>
-
-<li class="indx">Staffordshire, Provincia de Inglaterra, em que se fazem louças brancas <a href="#section244">244.</a></li>
-
-<li class="ifrst">T.</li>
-
-<li class="indx">Taboa da roda <a href="#section76">76.</a></li>
-
-<li class="indx">Talhas para ensaboar <a href="#section89">89.</a></li>
-<li class="isub1">Para brazas <a href="#section121">121.</a></li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span>Tamiz para passar a pederneira <a href="#section249">249.</a></li>
-
-<li class="indx">Terra calcaria <a href="#section13">13.</a></li>
-<li class="isub1">Modo de a experimentar <a href="#section14">14.</a> <a href="#section22">22.</a></li>
-
-<li class="indx">Tetin <i>vid.</i> <a href="#Abertura">Abertura</a>.</li>
-
-<li class="indx">Toupiniers <a href="#section321">321.</a></li>
-
-<li class="indx">Torno, roda de madeira, que se faz virar com o pé, para formar sobre o prato as obras, que se querem fazer, como se faz na roda do Louceiro <a href="#section80">80.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 18.</i></li>
-
-<li class="indx">Torno Inglez <a href="#section250">250.</a></li>
-
-<li class="indx">Tounassin, instrumento de ferro algum tanto cortante, a que se dá differentes figuras; serve para trabalhar por baixo dos vasos, que se despegaõ de cima dos pratos <a href="#section11">11.</a></li>
-
-<li class="indx">Tempera, lançar a agua sobre o barro para o amollecer <a href="#section30">30.</a></li>
-
-<li class="indx">Temperar, dar hum pequeno fogo as louças para acabar de seccar antes de se dar o grande fogo para as cozer <a href="#section54">54.</a></li>
-
-<li class="indx">Testos dos fogareiros, e escalfadores <a href="#section94">94.</a></li>
-
-<li class="indx">Tutes, especie de cadinho com pé como o de hum vidro de beber agua <a href="#section309">309.</a></li>
-
-<li class="ifrst">V.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span>Urquain, pedra dura compacta, ou taboaõ de madeira, sobre que se põem molde, para formar as louças, e grandes tijolos <a href="#section41">41.</a></li>
-
-<li class="indx">Vanvres, Parroquia, ou Freguezia da Ilha de França <a href="#section70">70.</a></li>
-<li class="isub1">Do Condado de Stafford <a href="#section252">252.</a></li>
-
-<li class="indx">Vasos de despejo, sorte de pote sem fundo em forma de tubo redondo, mais largo de huma ponta do que da outra, serve para as decidas dos lugares de recreio <a href="#section92">92.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 20.</i> Tambem se fazem de pedra de roca.</li>
-
-<li class="indx">Vasos de Jardim <a href="#section96">96.</a> <a href="#section126">126.</a></li>
-
-<li class="indx">Vasos para flores communs <a href="#section91">91.</a> <i><a href="#est1">est. I.</a></i> <i>fig. 17.</i></li>
-
-<li class="indx">Verniz, reboco de huma substancia vitrificada, de que se cobre a louça de barro <a href="#section18">18.</a> <a href="#section189">189.</a></li>
-<li class="isub1">Outro methodo de applicar o verniz <a href="#section146">146.</a></li>
-<li class="isub1">De Prá em Lionnes <a href="#section165">165.</a></li>
-<li class="isub1">De Franche-ville <a href="#section180">180.</a></li>
-<li class="isub1">De S. Fargeau <a href="#section212">212.</a></li>
-<li class="isub1">Do condado de Northumberland em Inglaterra <a href="#section236">236.</a></li>
-
-<li class="indx">Virador, vara que serve para imprimir o movimento circular na roda de ferro <a href="#section79">79.</a> <i><a href="#est2">est. II.</a></i> <i>fig. 4.</i></li>
-
-<li class="indx" id="Viret">Viret, ou virola sorte de anel de barro que forma salientes.</li>
-
-<li class="indx"><span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span>Voguer, manear, e amassar o barro á maõ para lhe separar os corpos estranhos, e alimpar mais perfeitamente <a href="#section71">71.</a></li>
-
-<li class="ifrst">Z.</li>
-
-<li class="indx">Zimmeren, Villa de Luxembourgo, onde se faz louça <a href="#section191">191.</a></li>
-
-</ul>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span></p>
-
-<h2 id="INDICE">INDICE<br />
-<span class="smaller">DOS ARTIGOS QUE SE CONTEM NESTA OBRA.</span></h2>
-
-<table summary="Indice">
- <tr>
- <td><i>Observações preliminares.</i></td>
- <td class="tdpg">Pag.&nbsp;<a href="#INTRODUCCAO">3.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo I. Do trabalho da louça, segundo o uso de Pariz.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_I">22.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo II. Dos ladrilhos, e como se amassa o barro,
- com que elles se fazem.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_II">23.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Como se moldaõ os ladrilhos.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_28">28.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Do forno, e do modo de se arranjar nelle os ladrilhos
- para se cozerem.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_35">35.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo III. Das obras dos ladrilhos.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_III">41.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo IV. Modo de fazer os differentes vasos; e utensilios
- domesticos com o mesmo barro, que serve para fazer os ladrilhos.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_IV">49.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Modo de fazer os vasos na roda.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_52">52.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Descripçaõ da roda de ferro.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_52"><i>Ibid.</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Do torno, ou roda, que os Oleiros de obra grossa tomaráõ,
- dos de obra fina.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_55">55.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Trabalho do Oleiro sobre a roda.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_58">58.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Como se podem formar obras no torno com hum calibre.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_65">65.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span>
- <i>Como se fazem ao torno os vasos grandes de Jardim.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_66">66.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Vasos grandes de barro cozido.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_69">69.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo V. Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na
- meza para lhe pôr azas, e pés.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_V">74.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo VI. De algumas que totalmente se fazem á maõ.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_VI">80.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo VII. Das obras, que se fazem com moldes.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_VII">82.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo VIII. Do modo de enfornar as obras de olaria,
- e cozellas.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_VIII">84.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo IX. Descripçaõ de outra especie de forno, que
- usaõ os Oleiros dos arrabaldes de S. Antonio para cozer
- suas obras.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_IX">86.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo X. Do verniz, ou vidrado que se põem na louça.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_X">90.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Primeiro Methodo.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_92">92.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Sobre as louças de Lionnes.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_101">101.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Da louça de Prá, em Forez.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_102">102.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Louça de Franche ville, no Lionnes.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_105">105.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo XI. Das louças, que se chamaõ de greda.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_XI">108.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Das louças de S. Fargeau.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_116">116.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Modo de procurar para as louças huma côr negra, que de algum modo
- supre o verniz, ou vidrado.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_123">123.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span>
- <i>Louça de Inglaterra.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_124">124.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Artigo XII. Do Oleiro de Fogareiros.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#ARTIGO_XII">144.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Notas da Academia Real das Sciencias.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Page_173">173.</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Explicaçaõ das Figuras.</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#EXPLICACAO_DAS_FIGURAS">176.</a></td>
- </tr>
-</table>
-
-<hr />
-
-<h2 id="ERRATAS">ERRATAS</h2>
-
-<p class="transnote"><b>Nota do transcritor:</b> Corrigido; e alguns erros adicionais também
-foram corrigidos.</p>
-
-<table summary="Erratas">
- <tr>
- <td class="tdr"><i>Pag.</i></td>
- <td class="tdr"><i>Lin.</i></td>
- <td><i>Erros</i></td>
- <td><i>Emendas</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_4">4</a></td>
- <td class="tdr">5</td>
- <td>conisderar</td>
- <td>considerar</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_8">8</a></td>
- <td class="tdr">8</td>
- <td>deffere</td>
- <td>differe</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_12">12</a></td>
- <td class="tdr">11</td>
- <td>se ttrara</td>
- <td>se tirar a</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_12"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">9</td>
- <td>percente</td>
- <td>persente</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_12"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">19</td>
- <td>pricipitadas</td>
- <td>precipitadas</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_15">15</a></td>
- <td class="tdr">17</td>
- <td>he</td>
- <td>saõ</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_15"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">18</td>
- <td>queima-se</td>
- <td>queimaõ-se</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_16">16</a></td>
- <td class="tdr">21</td>
- <td>que que</td>
- <td>que</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_17">17</a></td>
- <td class="tdr">20</td>
- <td>e precisa</td>
- <td>se precisa</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_17"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">33</td>
- <td>quando misturando</td>
- <td>quando se misturaõ</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_18">18</a></td>
- <td class="tdr">1</td>
- <td>a seu</td>
- <td>o seu</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_18"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">12</td>
- <td>a hum</td>
- <td>de hum</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_19">19</a></td>
- <td class="tdr">13</td>
- <td>commuus</td>
- <td>communs</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_20">20</a></td>
- <td class="tdr">7</td>
- <td>salgadeiras</td>
- <td>saleiros</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_20"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">27</td>
- <td>as utensis</td>
- <td>os utensis</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_22">22</a></td>
- <td class="tdr">4</td>
- <td>avou</td>
- <td>vou</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_22">22</a></td>
- <td class="tdr">11</td>
- <td>seu o</td>
- <td>o seu</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_26">26</a></td>
- <td class="tdr">18</td>
- <td>acabada</td>
- <td>acaba</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_31">31</a></td>
- <td class="tdr">23</td>
- <td>tilheiros</td>
- <td>telheiros</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_34">34</a></td>
- <td class="tdr">4</td>
- <td>sahe</td>
- <td>sahem</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_34"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">29</td>
- <td>defferentes</td>
- <td>differentes</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_34"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">4</td>
- <td>sahe</td>
- <td>sahem</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_43">43</a></td>
- <td class="tdr">27</td>
- <td>elle</td>
- <td>estes</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_47">47</a></td>
- <td class="tdr">6</td>
- <td>as portas</td>
- <td>os postos</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_47"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">13</td>
- <td>as levanta</td>
- <td>os levanta</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_48">48</a></td>
- <td class="tdr">13</td>
- <td>e untaõ</td>
- <td>untaõ</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_52">52</a></td>
- <td class="tdr">10</td>
- <td><i>Fig. 15.</i></td>
- <td><i>Fig. 5.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_53">53</a></td>
- <td class="tdr">26</td>
- <td>e cambas</td>
- <td>cambas</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_54">54</a></td>
- <td class="tdr">17</td>
- <td>caimba</td>
- <td>camba</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_57">57</a></td>
- <td class="tdr">16</td>
- <td>perde ella <i>adde</i></td>
- <td>o seu movimento</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_60">60</a></td>
- <td class="tdr">7</td>
- <td>mealheilro</td>
- <td>mealheiro</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_60"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">30</td>
- <td>o qual</td>
- <td>a qual</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_61">61</a></td>
- <td class="tdr">2</td>
- <td>insaboar</td>
- <td>ensaboar</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_61"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">19</td>
- <td>esses</td>
- <td>estas</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_64">64</a></td>
- <td class="tdr">2</td>
- <td><i>tab.</i></td>
- <td><i>est.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_68">68</a></td>
- <td class="tdr">4</td>
- <td>se po-chegar</td>
- <td>se pode chegar</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_68"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">5</td>
- <td>e se de guraapertando</td>
- <td>e se segura apertando</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_71">71</a></td>
- <td class="tdr">11</td>
- <td>destinadas</td>
- <td>destinados</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_74">74</a></td>
- <td class="tdr">3</td>
- <td>torno; que</td>
- <td>torno; pois o que</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_75">75</a></td>
- <td class="tdr">13</td>
- <td>indireitar</td>
- <td>endireitar</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_76">76</a></td>
- <td class="tdr">17</td>
- <td>o pegar</td>
- <td>apegar</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_77">77</a></td>
- <td class="tdr">22</td>
- <td>so poem</td>
- <td>se poem</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_80">80</a></td>
- <td class="tdr">18</td>
- <td>moido, e passado</td>
- <td>moida, e passada</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_95">95</a></td>
- <td class="tdr">18</td>
- <td>quer</td>
- <td>querem</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_102">102</a></td>
- <td class="tdr">10</td>
- <td>Feroz</td>
- <td>Forez</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_103">103</a></td>
- <td class="tdr">19</td>
- <td>do barro <i>adde</i></td>
- <td>escuro</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_103"><i>Ibid.</i></a></td>
- <td class="tdr">27</td>
- <td>se estes</td>
- <td>amassaõ-se estes</td>
- </tr>
- <tr>
- <td></td>
- <td colspan="3">Onde se achar levigar, levigados, <i>lêa-se</i>
- livigar, livigados.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td></td>
- <td colspan="3">E onde invernizar, invernizadas, <i>lêa-se</i>
- envernizar, envernizadas.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_147">147</a></td>
- <td class="tdr">25</td>
- <td>cenrada</td>
- <td>cenrrada</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_153">153</a></td>
- <td class="tdr">1</td>
- <td><i>fig.</i></td>
- <td><i>fig. 15.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_158">158</a></td>
- <td class="tdr">28</td>
- <td>a une</td>
- <td>o une</td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr"><a href="#Page_159">159</a></td>
- <td class="tdr">14</td>
- <td>fazem-lhe</td>
- <td>fazem-lhes</td>
- </tr>
-</table>
-
-<hr />
-
-<div class="figcenter" style="width: 300px;" id="est1">
-<p class="caption"><i>Louceiro de barro Simples.</i> <i>Est. I.</i></p>
-<a href="images/est1.jpg"><img class="link" src="images/est1-small.jpg" width="200" height="240" alt="" /></a>
-</div>
-
-<hr />
-
-<div class="figcenter" style="width: 300px;" id="est2">
-<p class="caption"><i>Louceiro de barro Simples.</i> <i>Est. II</i></p>
-<a href="images/est2.jpg"><img class="link" src="images/est2-small.jpg" width="200" height="240" alt="" /></a>
-</div>
-
-<hr />
-
-<div class="figcenter" style="width: 300px;" id="est3">
-<p class="caption"><i>Louceiro de barro Simples.</i> <i>Est. III.</i></p>
-<a href="images/est3.jpg"><img class="link" src="images/est3-small.jpg" width="200" height="240" alt="" /></a>
-</div>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of Project Gutenberg's Arte de louceiro, by José Ferreira da Silva
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DE LOUCEIRO ***
-
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