diff options
Diffstat (limited to '56737-8.txt')
| -rw-r--r-- | 56737-8.txt | 9674 |
1 files changed, 0 insertions, 9674 deletions
diff --git a/56737-8.txt b/56737-8.txt deleted file mode 100644 index 724339b..0000000 --- a/56737-8.txt +++ /dev/null @@ -1,9674 +0,0 @@ -The Project Gutenberg EBook of Esau e Jacob, by Machado de Assis - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most -other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Esau e Jacob - -Author: Machado de Assis - -Release Date: March 14, 2018 [EBook #56737] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESAU E JACOB *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodrigues & Marc D'Hooghe at Free Literature - - - - -ESAÚ E JACOB - -POR - -MACHADO DE ASSIS - -(_da Academia Brasileira_) - -LIVRARIA GARNIER - -109, RUA DO OUVIDOR, 109 - -6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6 - -RIO DE JANEIRO - -PARIS - - - - -Indice - -ADVERTÊNCIA - - -Quando o conselheiro Ayres falleceu, acharam-se lhe na secretaria sete -cadernos manuscriptos, rijamente encapados em papelão. Cada um dos -primeiros seis tinha o seu numero de ordem, por algarismos romanos, I, -II, III, IV, V, VI, escriptos a tinta encarnada. O setimo trazia este -titulo: _Ultimo._ - -A razão desta designação especial não se comprehendeu então nem depois. -Sim, era o ultimo dos sete cadernos, com a particularidade de ser o -mais grosso, mas não fazia parte do _Memorial_, diario de lembranças -que o conselheiro escrevia desde muitos annos e era a materia dos seis. -Não trazia a mesma ordem de datas, com indicação da hora e do minuto, -como usava nelles. Era uma narrativa; e, posto figure aqui o proprio -Ayres, com o seu nome e titulo de conselho, e, por allusão, algumas -aventuras, nem assim deixava de ser a narrativa extranha á materia dos -seis cadernos. _Ultimo_ porquê? - -A hypothese de que o desejo do finado fosse imprimir este caderno em -seguida aos outros, não é natural, salvo se queria obrigar a leitura -dos seis, em que tratava de si, antes que lhe conhecessem esta outra -historia, escripta com um pensamento interior e unico, atravez das -paginas diversas. Nesse caso, era a vaidade do homem que falava, mas -a vaidade não fazia parte dos seus defeitos. Quando fizesse, valia a -pena satisfazel-a? Elle não representou papel eminente neste mundo; -percorreu a carreira diplomatica, e aposentou-se. Nos lazeres do -officio, escreveu o _Memorial_, que, aparado das paginas mortas ou -escuras, apenas daria (e talvez dê) para matar o tempo da barça de -Petropolis. - -Tal foi a razão de se publicar sómente a narrativa. Quanto ao titulo, -fôram lembrados varios, em que o assumpto se pudesse resumir, _Ab ovo_, -por exemplo, apesar do latim; venceu, porém, a ideia de lhe dar estes -dous nomes que o proprio Ayres citou uma vez: - -ESAÚ E JACOB - - - -Dico, che quando l'anima mal nata... - -DANTE. - - - -CAPITULO PRIMEIRO - - -Cousas futuras! - - -Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castello. Começaram de -subir pelo lado da rua do Carmo. Muita gente ha no Rio de Janeiro que -nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá -pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um -velho inglez, que aliás andára terras e terras, confiava-me ha muitos -annos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu club, e era o que -lhe bastava da metropole e do mundo. - -Natividade e Perpetua conheciam outras partes, além de Botafogo, mas -o morro do Castello, por mais que ouvissem falar delle e da cabocla -que lá reinava em 1811, era-lhes tão extranho e remoto como o club. O -ingreme, o desegual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés ás -duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como se fosse -penitencia, devagarinho, cara no chão, veu para baixo. A manhã trazia -certo movimento; mulheres, homens, creanças que desciam ou subiam, -lavadeiras e soldados, algum empregado, algum logista, algum padre, -todos olhavam espantados para ellas, que aliás vestiam com grande -simplicidade; mas lia um donaire que se não perde, e não era vulgar -naquellas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada á rapidez das -outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que alli iam. -Uma creoula perguntou a um sargento: «Você quer vêr que ellas vão á -cabocla?» E ambos pararam a distancia, tomados daquelle invencivel -desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade -humana. - -Com effeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o numero da casa -da cabocla, até que deram com elle. A casa era como as outras, trepada -no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita, sombria, adequada á -aventura. Quizeram entrar depressa, mas esbarraram com dous sujeitos -que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um delles perguntou-lhes -familiarmente se iam consultar a adivinha. - ---Perdem o seu tempo, concluiu furioso, e hão de ouvir muito -disparate... - ---É mentira delle, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde -tem o nariz. - -Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras do -primeiro eram signal certo da videncia e da franqueza da adivinha; nem -todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de Natividade podia -ser miseravel, e então... Em quanto cogitavam passou fóra um carteiro, -que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham fé, -mas tinham tambem vexame da opinião, como um devoto que se benzesse ás -escondidas. - -Velho caboclo, pae da adivinha, conduziu as senhoras á sala. Esta era -simples, as paredes nuas, nada que lembrasse mysterio ou incutisse -pavor, nenhum petrecho symbolico, nenhum bicho empalhado, esqueleto ou -desenho de aleijões. Quando muito um registo da Conceição collado á -parede podia lembrar um mysterio, apesar de encardido e roido, mas não -mettia medo. Sobre uma cadeira, uma viola. - ---Minha filha já vem, disse o velho. As senhoras como se chamam? - -Natividade deu o nome de baptismo sómente, Maria, como um veu mais -espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um cartão,--porque a -consulta era só de uma,--com o numero 1,012. Não ha que pasmar do -algarismo; a freguezia era numerosa, e vinha de muitos mezes. Tambem -não ha que dizer do costume, que é velho e velhissimo. Relê Eschylo, -meu amigo, relê as _Eumenides_, lá verás a Pythia, chamando os que iam -á consulta: «Se ha aqui Hellenos, venham, approximem-se, segundo o uso, -_na ordem marcada pela sorte..._» A sorte outr'ora, a numeração agora, -tudo é que a verdade se ajuste á prioridade, e ninguem perca a sua vez -de audiencia. Natividade guardou o bilhete, e ambas fôram á janella. - -A falar verdade, temiam o seu tanto, Perpetua menos que Natividade. -A aventura parecia audaz, e algum perigo possivel. Não ponho aqui os -seus gestos; imaginae que eram inquietos e desconcertados. Nenhuma -dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um nó na garganta. -Felizmente, a cabocla não se demorou muito; ao cabo de trez ou quatro -minutos, o pae a trouxe pela mão, erguendo a cortina do fundo. - ---Entra, Barbara. - -Barbara entrou, emquanto o pae pegou da viola e passou ao patamar de -pedra, á porta da esquerda. Era uma creaturinha leve e breve, saia -bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso. -Os cabellos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita -enxovalhada, faziam-lhe um solideu natural, cuja borla era supprida por -um raminho de arruda. Já vae nisto um pouco de sacerdotiza. O mysterio -estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não -fossem tambem lucidos e agudos, e neste ultimo estado eram egualmente -compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo, -revolviam o coração e tornavam cá fóra, promptos para nova entrada e -outro revolvimento. Não te minto dizendo que as duas sentiram tal ou -qual fascinação. Barbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha -e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabellos cortados, por lhe -haverem dito que bastava. - ---Basta, confirmou Barbara. Os meninos são seu filhos? - ---São. - ---Cara de um é cara de outro. - ---São gemeos; nasceram ha pouco mais de um anno. - ---As senhoras podem sentar-se. - -Natividade disse baixinho á outra que «a cabocla era sympathica», não -tão baixo que esta não pudesse ouvir tambem; e dahi pôde ser que ella, -receiosa da predicção, quizesse aquillo mesmo para obter um bom destino -aos filhos. A cabocla foi sentar-se á mesa redonda que estava no centro -da sala, virada para as duas. Poz os cabellos e os retratos defronte de -si. Olhou alternadamente para elles e para a mãe, fez algumas perguntas -a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabellos, bôca aberta, -sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que accendeu um cigarro, mas -digo, porque é verdade, e o fumo concorda com o officio. Fóra, o pae -roçava os dedos na viola, murmurando uma cantiga do sertão do norte: - - Menina da saia branca, - Saltadeira de riacho... - -Emquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de -expressão, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa. -Barbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabellos em -cada mão, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem a affectação -que por ventura aches nesta linha. Taes gestos não se poderiam contar -naturalmente. Natividade não tirava os olhos della, como se quizesse -lel-a por dentro. E não foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar -se os meninos tinham brigado antes de nascer. - ---Brigado? - ---Brigado, sim, senhora. - ---Antes de nascer? - ---Sim, senhora, pergunto se não teriam brigado no ventre de sua mãe; -não se lembra? - -Natividade, que não tivera a gestação socegada, respondeu que -effectivamente sentira movimentos extraordinarios, repetidos, e dôres, -e insomnias... Mas então que era? Brigariam porquê? A cabocla não -respondeu. Ergueu-se pouco depois, e andou á volta da mesa, lenta, -como somnambula, os olhos abertos e fixos; depois entrou a dividil-os -novamente entre a mãe e os retratos. Agitava-se agora mais, respirando -grosso. Toda ella, cara e braços, hombros e pernas, toda era pouca para -arrancar a palavra ao Destino. Emfim, parou, sentou-se exhausta, até -que se ergueu de salto e foi ter com as duas, tão radiante, os olhos -tão vivos e callidos, que a mãe ficou pendente delles, e não se poude -ter que lhe não pegasse das mãos e lhe perguntasse anciosa: - ---Então? Diga, posso ouvir tudo. - -Barbara, cheia de alma e riso, deu um respiro de gosto. A primeira -palavra parece que lhe chegou á bôca, mas recolheu-se ao coração, -virgem dos labios della e de alheios ouvidos. Natividade instou pela -resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta... - ---Cousas futuras! murmurou finalmente a cabocla. - ---Mas, cousas feias? - ---Oh! não! não! Cousas bonitas, cousas futuras! - ---Mas isso não basta; diga-me o resto. Esta senhora é minha irmã e de -segredo, mas se é preciso sair, ella sae; eu fico, diga-me a mim só... -Serão felizes? - ---Sim. - ---Serão grandes? - ---Serão grandes, oh! grandes! Deus ha de dar-lhes muitos beneficios. -Elles hão de subir, subir, subir... Brigaram no ventre de sua mãe, que -tem? Cá fóra tambem se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só o que -lhe digo. Quanto á qualidade da gloria, cousas futuras! - -Lá dentro, a voz do caboclo velho ainda uma vez continuava a cantiga do -sertão: - - Trepa-me neste coqueiro. - Bota-me os cocos abaixo. - -E a filha, não tendo mais que dizer, ou não sabendo que explicar, dava -aos quadris o gesto da toada, que o velho repetia lá dentro: - - Menina da saia branca, - Saltadeira de riacho, - Trepa-me neste coqueiro, - Bota-me os cocos abaixo. - Quebra coco, sinhá, - Lá no cocá, - Se te dá na cabeça, - Hade rachá; - Muito heide me ri, - Muito heide gostá, - Lelê, coco, nayá. - - - - -CAPITULO II - - -Melhor de descer que de subir - - -Todos os oraculos tem o falar dobrado, mas entendem-se. Natividade -acabou entendendo a cabocla, apesar de lhe não ouvir mais nada; bastou -saber que as cousas futuras seriam bonitas, e os filhos grandes e -gloriosos para ficar alegre e tirar da bolsa uma nota de cincoenta mil -reis. Era cinco vezes o preço do costume, e valia tanto ou mais que as -ricas dadivas de Créso á Pythia. Arrecadou os retratos e os cabellos, -e as duas sairam, em quanto a cabocla ia para os fundos, á espera de -outros. Já havia alguns freguezes á porta, com os numeros de ordem, e -ellas desceram rapidamente, escondendo a cara. - -Perpetua compartia as alegrias da irmã, as pedras tambem, o muro do -lado do mar, as camisas penduradas ás janellas, as cascas de banana -no chão. Os mesmos sapatos de um _irmão das almas_, que ia a dobrar -a esquina da rua da Misericordia para a de S. José, pareciam rir de -alegria, quando realmente gemiam de cançasso. Natividade estava tão -fóra de si que, ao ouvir-lhe pedir: «Para a missa das almas!» tirou da -bolsa uma nota de dous mil reis, nova era folha, e deitou-a á bacia. A -irmã chamou-lhe a attenção para o engano, mas não era engano, era para -as almas do purgatorio. - -E seguiram lepidas para o _coupé_, que as esperava no espaço que fica -entre a egreja de S. José e a camara dos deputados. Não tinham querido -que o carro as levasse até ao principio da ladeira, para que o cocheiro -e o lacaio não desconfiassem da consulta. Toda a gente falava então da -cabocla do Castello, era o assumpto da cidade; attribuiam-lhe um poder -infinito, uma serie de milagres, sortes, achados, casamentos. Se as -descobrissem, estavam perdidas, embora muita gente boa lá fosse. Ao -vel-as dando a esmola ao irmão das almas, o lacaio trepou á almofada e -o cocheiro tocou os cavallos, a carruagem veiu buscal-as, e guiou para -Botafogo. - - - - -CAPITULO III - - -A esmola da felicidade - - ---Deus lhe accrescente, minha senhora devota! exclamou o irmão das -almas ao ver a nota cair em cima de dous nickeis de tostão e alguns -vintens antigos. Deus lhe dê todas as felicidades do céu e da terra, -e as almas do purgatorio peçam a Maria Santissima que recommende a -senhora dona a seu bemdito filho! - -Quando a sorte ri, toda a natureza ri tambem, e o coração ri como -tudo o mais. Tal foi a explicação que, por outras palavras menos -especulativas, deu o irmão das almas aos dous mil reis. A suspeita -de ser a nota falsa não chegou a tomar pé no cerebro deste: foi -allucinação rapida. Comprehendeu que as damas eram felizes, e, tendo o -uso de pensar alto, disse piscando o olho, emquanto ellas entravam no -carro: - ---Aquellas duas viram passarinho verde, com certeza. - -Sem rodeios, suppoz que as duas senhoras vinham de alguma aventura -amorosa, e deduziu isto de trez factos, que sou obrigado a enfileirar -aqui para não deixar este homem sob a suspeita de calumniador gratuito. -O primeiro foi a alegria dellas, o segundo o valor da esmola, o -terceiro o carro que as esperava a um canto, como se ellas quizessem -esconder do cocheiro o ponto dos namorados. Não concluas tu que elle -tivesse sido cocheiro algum dia, e andasse a conduzir moças antes de -servir ás almas. Tambem não creias que fosse outr'ora rico e adultero, -aberto de mãos, quando vinha de dizer adeus ás suas amigas. _Ni cet -excès d'honneur, ni cette indignité._ Era um pobre diabo sem mais -officio que a devoção. Demais, não teria tido tempo; contava apenas -vinte e sete annos. - -Comprimentou as senhoras, quando o carro passou. Depois ficou a olhar -para a nota tão fresca, tão valiosa, nota que almas nunca viram sair -das mãos delle. Foi subindo a rua de S. José. Já não tinna animo de -pedir; a nota fazia-se ouro, e a ideia de ser falsa voltou-lhe ao -cerebro, e agora mais frequente, até que se lhe pegou por alguns -instantes. Se fosse falsa... «Para a missa das almas!» gemeu á porta de -uma quitanda, e deram-lhe um vintem,--um vintem sujo e triste, ao pé da -nota tão novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se um corredor de -sobrado. Entrou, subiu, pediu, deram-lhedous vintens,--o dobro da outra -moeda no valor e no azinhavre. - -E a nota sempre limpa, uns dous mil reis que pareciam vinte. Não, não -era falsa. No corredor pegou della, mirou-a bem; era verdadeira. De -repente, ouviu abrir a cancella em cima, e uns passos rapidos. Elle, -mais rapido, amarrotou a nota e metteu-a na algibeira das calças; -ficaram só os vintens azinhavrados e tristes, o obolo da viuva. Saiu, -foi á primeira officina, á primeira loja, ao primeiro corredor, pedindo -longa e lastimosamente: - ---Para a missa das almas! - -Na egreja, ao tirar a opa, depois de entregar a bacia ao sacristão, -ouviu uma voz debil como de almas remotas que lhe perguntavam se os -dous mil reis... Os dous mil reis, dizia outra voz menos debil, eram -naturalmente delle, que, em primeiro logar, tambem tinha alma, e, em -segundo logar, não recebera nunca tão grande esmola. Quem quer dar -tanto vae á egreja ou compra uma vela, não põe assim uma nota na bacia -das esmolas pequenas. - -Se minto, não é de intenção. Em verdade, as palavras não sairam assim -articuladas e claras, nem as debeis, nem as menos debeis; todas faziam -uma zoeira aos ouvidos da consciencia. Traduzi-as em lingua falada, -afim de ser entendido das pessoas que me lêem; não sei como se poderia -transcrever para o papel um rumor surdo e outro menos surdo, um atraz -de outro e todos confusos para o fim, até que o segundo ficou só: «não -tirou a nota a ninguem... a dona é que a poz na bacia por sua mão... -tambem elle era alma...» À porta da sacristia que dava para a rua, ao -deixar cair o reposteiro azul escuro debruado de amarello, não ouviu -mais nada. Viu um mendigo que lhe estendia o chapeo roto e sebento; -metteu vagarosamente a mão no bolso do collete, tambem roto, e aventou -uma moedinha de cobre que deitou ao chapeo do mendigo, rapido, ás -escondidas, como quer o Evangelho. Eram dous vintens; ficavam-lhe -mil novecentos e noventa e oito reis. E o mendigo, como elle saisse -depressa, mandou-lhe atraz estas palavras de agradecimento, parecidas -com as suas: - ---Deus lhe accrescente, meu senhor, e lhe dê... - - - - -CAPITULO IV - - -A missa do _coupé_ - - -Natividade ia pensando na cabocla do Castello, na predicção da grandeza -e na noticia da briga. Tornava a lembrar-se que, de facto, a gestação -não fôra socegada; mas só lhe ficava a sorte da gloria e da grandeza. A -briga lá ia, se a houve; o futuro, sim, esse é que era o principal ou -tudo. Não deu pela praia de Santa Luzia. No largo da Lapa interrogou a -irmã sobre o que pensava da adivinha. Perpetua respondeu que bem, que -acreditava, e ambas concordaram que ella parecia falar dos proprios -filhos, tal era o enthusiasmo. Perpetua ainda a reprehendeu pelos -cincoenta mil reis dados em paga; bastavam vinte. - ---Não faz mal. Cousas futuras! - ---Que cousas serão? - ---Não sei; futuras. - -Mergulharam,outra vez no silencio. Ao entrar no Cattete, Natividade -recordou a manhã em que alli passou, naquelle mesmo _coupé_, e confiou -ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na -egreja de S. Domingos... - -«Na egreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de João de -Mello, fallecido em Maricá.» Tal foi o annuncio que ainda agora pódes -ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia, o mez foi agosto. O -annuncio está certo, foi aquillo mesmo, sem mais nada, nem o nome da -pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite. -Não se disse sequer que o defunto era escrivão, officio que só perdeu -com a morte. Emfim, parece que até lhe tiraram um nome; elle era, se -estou bem informado, João de Mello e Barros. - -Não se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguem lá foi. A egreja -escolhida deu ainda menos relevo ao acto; não era vistosa, nem buscada, -mas velhota, sem galas nem gente, mettida ao canto de um pequeno largo, -adequada á missa recondita e anonyma. - -Às oito horas parou um _coupé_ á porta; o lacaio desceu, abriu a -portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a mão -a uma senhora, a senhora saiu e tomou o braço ao senhor, atravessaram -o pedacinho de largo e entraram na egreja. Na sacristia era tudo -espanto. A alma que a taes sitios attrahira um carro de luxo, cavallos -de raça, e duas pessoas tão finas não seria como as outras almas alli -suffragadas. A missa foi ouvida sem pesames nem lagrimas. Quando -acabou, o senhor foi á sacristia dar as esportulas. O sacristão, -agasalhando na algibeira a nota de dez mil reis que recebeu, achou que -ella provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O -mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse, quando a luva da senhora -deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostões. Já então havia na -egreja meia duzia de creanças maltrapilhas, e, fóra, alguma gente ás -portas e no largo, esperando. O senhor, chegando á porta, relanceou -os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objecto de curiosidade. -A senhora trazia os seus no chão. E os dous entraram no carro, com o -mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram. - -A gente local não falou de outra cousa naquelle e nos dias seguintes. -Sacristão e visinhos relembravam o _coupé_, com orgulho. Era a missa do -_coupé._ As outras missas vieram vindo, todas a pé, algumas de sapato -roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas -de chita, ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume, mas a -missa do _coupé_ viveu na memoria por muitos mezes. Afinal não se falou -mais nella; esqueceu como um baile. - -Pois o _coupé_ era este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquelle -senhor, cujo nome é Santos, e o defunto era seu parente, ainda que -pobre. Tambem elle foi pobre; tambem elle nasceu em Maricá. Vindo para -o Rio de Janeiro, por occasião da _febre das acções_ (1855), dizem que -revellou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo -muito, e fel-o perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que -ia então nos vinte annos e não tinha dinheiro, mas era bella e amava -apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Annos depois -tinham elles uma casa nobre, carruagem, cavallos e relações novas e -distinctas. Dos dous parentes pobres de Natividade morreu o pae em -1866; restava-lhe uma irmã. Santos tinha alguns em Maricá, a quem nunca -mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez não -creio; elle gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria; -tirava-lhes o gosto de vir cá pedir-lhe mais. - -Não lhe valeu isto com João de Mello, que um dia appareceu aqui, a -pedir-lhe emprego. Queria ser, como elle, director de banco. Santos -arranjou-lhe depressa um logar de escrivão do civel em Maricá, e -despachou-o com os melhores conselhos deste mundo. - -João de Mello retirou-se com a escrevania, e dizem que uma grande -paixão tambem. Natividade era a mais bella mulher daquelle tempo. No -fim, com os seus cabellos quasi sexagenarios, fazia crêr na tradicção. -João de Mello ficou allucinado quando a viu; ella conheceu isso, e -portou-se bem. Não lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bella -assim que zangada; tambem não lhe fechou os olhos, que eram negros -e callidos. Só lhe fechou o coração, um coração que devia amar como -nenhum outro, foi a conclusão de João de Mello uma noite em que a viu -ir decotada a um baile. Teve impeto de pegar della, descer, voar, -perderem-se... - -Em vez disso, uma escrevania e Maricá; era um abysmo. Caiu nelle; -trez dias depois saiu do Rio de Janeiro para não voltar. A principio -escreveu muitas cartas ao parente, com a esperança de que ella as lesse -tambem, e comprehendesse que algumas palavras eram para si. Mas Santos -não lhe deu resposta, e o tempo e a ausencia acabaram por fazer de João -de Mello um excellente escrivão. Morreu de uma pneumonia. - -Que o motivo da pratinha de Natividade deitada á caixa das almas fosse -pagar a adoração do defunto não digo que sim, nem que não; faltam-me -pormenores. Mas póde ser que sim, porque esta senhora era não menos -grata que honesta. Quanto ás larguezas do marido, não esqueças que o -parente era defunto, e o defunto um parente menos. - - - - -CAPITULO V - - -Ha contradicções explicaveis - - -Não me peças a causa de tanto encolhimento no annuncio e na missa, -e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré. Ha contradicções -explicaveis. Um bom autor, que inventasse a sua historia, ou prezasse -a logica apparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou -em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as cousas -se passaram, e refiro-as taes quaes. Quando muito, explico-as, com a -condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel, -demoram a acção e acabam por enfadar. O melhor é ler com attenção. - -Quanto á contradicção de que se trata aqui, é de ver que naquelle -recanto de um larguinho modesto, nenhum conhecido daria com elles, -ao passo que elles gozariam o assombro local; tal foi a reflexão de -Santos, se se póde dar semelhante nome a um movimento interior que -leva a gente a fazer antes uma cousa que outra. Resta a missa; a missa -em si mesma bastava que fosse sabida no céu e em Maricá. Propriamente -vestiram-se para o céu. O luxo do casal temperava a pobreza da oração; -era uma especie de homenagem ao finado. Se a alma de João de Mello os -visse de cima, alegrar-se-hia do apuro em que elles fôram rezar por um -pobre escrivão. Não sou eu que o digo; Santos é que o pensou. - - - - -CAPITULO VI - - -Maternidade - - -A principio, vieram calados. Quando muito, Natividade queixou-se da -egreja, que lhe sujára o vestido. - ---Venho cheia de pulgas, continuou ella: porque não fômos a S. -Francisco de Paula ou á Gloria, que estão mais perto, e são limpas? - -Santos trocou as mãos á conversa, e falou das ruas mal calçadas, que -faziam dar solavancos ao carro. Com certeza, quebravam-lhe as molas. - -Natividade não replicou, mergulhou no silencio, como naquelle outro -capitulo, vinte mezes depois, quando tornava do Castello com a irmã. -Os olhos não tinham a nota de deslumbramento que trariam então; iam -parados e sombrios, como de manhã e na vespera. Santos, que já reparára -nisso, perguntou-lhe o que é que tinha; ella não sei se lhe respondeu -de palavra; se alguma disse, foi tão breve e surda que inteiramente se -perdeu. Talvez não passasse de um simples gesto de olhos, um suspiro, -ou cousa assim. Fosse o que fosse, quando o _coupé_ chegou ao meio do -Cattete, os dous levavam as mãos presas, e a expressão do rosto era de -abençoados. Não davam sequer pela gente das ruas; não davam talvez por -si mesmos. - -Leitor, não é muito que percebas a causa daquella expressão e desses -dedos abotoados. Já lá ficou dita atraz, quando era melhor deixar que -a adivinhasses; mas provavelmente não a adivinharias, não que tenhas -o entendimento curto ou escuro, mas porque o homem varia do homem, -e tu talvez ficasses com egual expressão, simplesmente por saber -que ias dançar sabbado. Santos não dançava; preferia o voltarete, -como distracção. A causa era virtuosa, como sabes; Natividade estava -gravida, acabava de o dizer ao marido. - -Aos trinta annos não era cedo nem tarde; era imprevisto. Santos sentiu -mais que ella o prazer da vida nova. Eis ahi vinha a realidade do sonho -de dez annos, uma creatura tirada da coxa de Abrahão, como diziam -aquelles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora empresta -generosamente o seu dinheiro ás companhias e ás nações. Levam juro por -elle; mas os hebraismos são dados de graça. Aquelle é desses. Santos, -que só conhecia a parte do emprestimo, sentia inconscientemente a do -hebraismo, e deleitava-se com elle. A emoção atava-lhe a lingua; os -olhos que estendia á esposa e a cobriam eram de patriarcha; o sorriso -parecia chover luz sobre a pessoa amada, abençoada e formosa entre as -formosas. - -Natividade não foi logo, logo, assim; a pouco e pouco é que veiu -sendo vencida e tinha já a expressão da esperança e da maternidade. -Nos primeiros dias, os symptomas desconcertaram a nossa amiga. É duro -dizel-o, mas é verdade. Lá se iam bailes e festas, lá ia a liberdade e -a folga. Natividade andava já na alta roda do tempo; acabou de entrar -por ella, com tal arte que parecia haver alli nascido. Carteava-se -com grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas. Nem tinha -só esta casa de Botafogo, mas tambem outra em Petropolis; nem só -carro, mas tambem camarote no Theatro-Lyrico, não contando os bailes -do Cassino Fluminense, os das amigas e os seus; todo o repertorio, em -summa, da vida elegante. Era nomeada nas gazetas, pertencia áquella -duzia de nomes planetarios que figuram no meio da plebe de estrellas. O -marido era capitalista e director de um banco. - -No meio disso, a que vinha agora uma creança deformal-a por mezes, -obrigal-a a recolher-se, pedir-lhe as noites, adoecer dos dentes e o -resto? Tal foi a primeira sensação da mãe, e o primeiro impeto foi -esmagar o germen. Criou raiva ao marido. A segunda sensação foi melhor. -A maternidade, chegando ao meio dia, era como uma aurora nova e fresca. -Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva da chacara -ou no regaço da aia, com trez annos de edade, e este quadro daria aos -trinta e quatro annos que teria então um aspecto de vinte e poucos... - -Foi o que a reconciliou com o marido. Não exagero; tambem não quero mal -a esta senhora. Algumas teriam medo, a maior parte amor. A conclusão é -que, por uma ou por outra porta, amor ou vaidade, o que o embryão quer -é entrar na vida. Cesar ou João Fernandes, tudo é viver, assegurar a -dynastia e sair do mundo o mais tarde que puder. - -O casal ia calado. Ao desembocar na praia de Botafogo, a enseada trouxe -o gosto de costume. A casa descobria-se a distancia, magnifica; Santos -deleitou-se de a ver, mirou-se nella, cresceu com ella, subiu por ella. -A estatueta de Narciso no meio do jardim, sorriu á entrada delles, -a areia fez-se relva, duas andorinhas cruzaram por cima do repuxo, -figurando no ar a alegria de ambos. A mesma ceremonia á descida. Santos -ainda parou alguns instantes para ver o _coupé_ dar a volta, sair e -tornar á cocheira; depois seguiu a mulher que entrava no saguão. - - - - -CAPITULO VII - - -Gestação - - -Em cima, esperava por elles Perpetua, aquella irmã de Natividade, que a -acompanhou ao Castello, e lá ficou no carro, onde as deixei para narrar -os antecedentes dos meninos. - ---Então? Houve muita gente? - ---Não, ninguem; pulgas. - -Perpetua tambem não entendera a escolha da egreja. Quanto á -concurrencia, sempre lhe pareceu que seria pouca ou nenhuma; mas o -cunhado vinha entrando, e ella calou o resto. Era pessoa circumspecta, -que não se perdia por um dito ou gesto descuidado. Entretanto, foi-lhe -impossivel calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar á mulher -um abraço longo e terno, abrochado por um beijo. - ---Que é isso? exclamou espantada. - -Sem reparar no vexame da mulher, Santos deu um abraço á cunhada, e ia a -dar-lhe um beijo tambem, se ella não recuasse a tempo e com força. - ---Mas que é isso? Você tirou a sorte grande de Hespanha? - ---Não, cousa melhor, gente nova. - -Santos conservára alguns gestos e modos de dizer dos primeiros annos, -taes que o leitor não chamará propriamente familiares; tambem não é -preciso chamar-lhes nada. Perpetua, affeita a elles, acabou sorrindo e -dando-lhe parabens. Já então Natividade os deixára para se ir despir. -Santos, meio arrependido da expansão, fez-se serio e conversou da missa -e da egreja. Concordou que esta era decrepita e mettida a um canto, -mas allegou razões espirituaes. Que a oração era sempre oração, onde -quer que a alma falasse a Deus. Que a missa, a rigor, não precisava -estrictamente de altar; o rito e o padre bastavam ao sacrificio. Talvez -essas razões não fossem propriamente delle, mas ouvidas a alguem, -decoradas sem esforço e repetidas com convicção. A cunhada opinou -de cabeça que sim. Depois falaram do parente morto e concordaram -piamente que era um asno;--não disseram este nome, mas a totalidade das -apreciações vinha a dar nelle, accrescentado de honesto e honestissimo. - ---Era uma perola, concluiu Santos. - -Foi a ultima palavra da necrologia; paz aos mortos. Dalli em deante, -vingou a soberania da creança que alvorecia. Não alteraram os habitos, -nos primeiros tempos, e as visitas e os bailes continuaram como -d'antes, até que pouco a pouco, Natividade se fechou totalmente em -casa. As amigas iam vel-a. Os amigos iam visital-os ou jogar cartas com -o marido. - -Natividade queria um filho, Santos uma filha, e cada um pleiteava a sua -escolha com tão boas razões, que acabavam trocando de parecer. Então -ella ficava com a filha, e vestia-lhe as melhores rendas e cambraias, -emquanto elle enfiava uma beca no joven advogado, dava-lhe um logar -no parlamento, outro no ministerio. tambem lhe ensinava a enriquecer -depressa; e ajudal-o-hia começando por uma caderneta na Caixa -Economica, desde o dia em que nascesse até os vinte e um annos. Alguma -vez, ás noites, se estavam sós, Santos pegava de um lapis e desenhava a -figura do filho, com bigodes,--ou então riscava uma menina vaporosa. - ---Deixa, Agostinho, disse-lhe a mulher uma noite; você sempre ha de ser -creança. - -E pouco depois, deu por si a desenhar de palavra a figura do filho -ou filha, e ambos escolhiam a côr dos olhos, os cabellos, a tez, a -estatura. Vês que tambem ella era creança. A maternidade tem dessas -incoherencias, a felicidade tambem, e porfim a esperança, que é a -meninice do mundo. - -A perfeição seria nascer um casal. Assim os desejos do pae e da mãe -ficariam satisfeitos. Santos pensou em fazer sobre isso uma consulta -spirita. Começava a ser iniciado nessa religião, e tinha a fé noviça e -firme. Mas a mulher oppoz-se; a consultar alguem, antes a cabocla do -Castello, a adivinha celebre do tempo, que descobria as cousas perdidas -e predizia as futuras. Entretanto, recusava tambem, por desnecessario. -A que vinha consultar sobre uma duvida, que dalli a mezes estaria -esclarecida? Santos achou, em relação á cabocla, que seria imitar as -crendices da gente réles; mas a cunhada acudiu que não, e citou um -caso recente de pessoa distincta, um juiz municipal, cuja nomeação foi -annunciada pela cabocla. - ---Talvez o ministro da justiça goste da cabocla, explicou Santos. - -As duas riram da graça, e assim se fechou uma vez o capitulo da -adivinha, pura se abrir muis tarde. Por agora é deixar que o feto se -desenvolva, a creança se agite e se atire, como impaciente de nascer. -Em verdade, a mãe padeceu muito durante a gestação, e principalmente -nas ultimas semanas. Cuidava trazer um general que iniciava a campanha -da vida, a não ser um casal que aprendia a desamar de vespera. - - - - -CAPITULO VIII - - -Nem casal, nem general - - -Nem casal, nem general. No dia sete de abril de 1870 veiu á luz um par -de varões tão eguaes, que antes pareciam a sombra um do outro, se não -era simplesmente a impressão do olho, que via dobrado. - -Tudo esperavam, menos os dous gemeos, e nem por ser o espanto grande, -foi menor o amor. Entende-se isto sem ser preciso insistir, assim -como se entende que a mãe désse aos dous filhos aquelle pão inteiro -e dividido do poeta; eu accrescento que o pae fazia a mesma cousa. -Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos, a comparal-os, a -medil-os, a pesal-os. Tinham o mesmo peso e cresciam por egual medida. -A mudança ia-se fazendo por um só teor. O rosto comprido, cabellos -castanhos, dedos finos e taes que, cruzados os da mão direita de um com -os da esquerda de outro, não se podia saber que eram de duas pessoas. -Viriam a ter genio differente, mas por ora eram os mesmos extranhões. -Começaram a sorrir no mesmo dia. O mesmo dia os viu baptizar. - -Antes do parto, tinham combinado em dar o nome do pae ou da mãe, -segundo fosse o sexo da creança. Sendo um par de rapazes, e não havendo -a fórma masculina do nome materno, não quiz o pae que figurasse só -o delle, e metteram-se a catar outros. A mãe propunha francezes ou -inglezes, conforme os romances que lia. Algumas novellas russas em moda -suggeriram nomes slavos. O pae acceitava uns e outros, mas consultava -a terceiros, e não acertava com opinião definitiva. Geralmente, os -consultados trariam outro nome, que não era acceito em casa. Tambem -veiu a antiga onomastica luzitana, mas sem melhor fortuna. Um dia, -estando Perpetua á missa, rezou o _Credo_, advertiu nas palavras: -«....os santos apostolos S. Pedro e S. Paulo», e mal pôde acabar a -oração. Tinha descoberto os nomes; eram simples e gemeos. Os paes -concordaram com ella e a pendencia acabou. - -A alegria de Perpetua foi quasi tamanha como a do pae e da mãe, se -não maior. Maior não foi, nem tão profunda, mas foi grande, ainda que -rapida. O achado dos nomes valia quasi que pela feitura das creanças. -Viuva, sem filhos, não se julgava incapaz de os ter, e era alguma -cousa nomeal-os. Contava mais cinco ou seis annos que a irmã. Casara -com um tenente de artilharia que morreu capitão na guerra do Paraguay. -Era mais baixa que alta, e era gorda, ao contrario de Natividade que, -sem ser magra, não tinha as mesmas carnes, e era alta e recta. Ambas -vendiam saúde. - ---Pedro e Paulo, disse Perpetua á irmã e ao cunhado, quando rezei estes -dous nomes senti uma cousa no coração... - ---Você será madrinha de um, disse a irmã. - -Os pequenos, que se distinguiam por uma fita de côr, passaram a receber -medalhas de ouro, uma com a imagem de S. Pedro, outra com a de S. -Paulo. A confusão não cedeu logo, mas tarde, lento e pouco, ficando tal -semelhança que os advertidos se enganavam muita vez ou sempre. A mãe -é que não precisou de grandes signaes externos para saber quem eram -aquelles dous pedaços de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem -entre si, não deixavam de querer mal uma á outra, pelo motivo da -semelhança dos «seus filhos de criação». Cada uma affirmava que o seu -era mais bonito. Natividade concordava com ambas. - -Pedro seria medico, Paulo advogado; tal foi a primeira escolha das -profissões. Mas logo depois trocaram de carreira. Tambem pensaram em -dar um delles á engenharia. A marinha sorria á mãe, pela distincção -particular da escola. Tinha só o inconveniente da primeira viagem -remota; mas Natividade pensou em metter empenhos com o ministro. Santos -falava em fazer um delles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas -vadias. Intimos da casa entravam nos calculos. Houve quem os fizesse -ministros, dezembargadores, bispos, cardeaes... - ---Não peço tanto, dizia o pae. - -Natividade não dizia nada ao pé de extranhos, apenas sorria, como se -tratasse de folguedo de São João, um lançar de dados e ler no livro de -sortes a quadra correspondente ao numero. Não importa; lá dentro de si -cobiçava algum brilhante destino aos filhos. Cria deveras, esperava, -rezava ás noites, pedia ao céu que os fizesse grandes homens. - -Uma das amas, parece que a de Pedro, sabendo daquellas ancias e -conversas, perguntou a Natividade por que é que não ia consultar a -cabocla do Castello. Affirmou que ella adivinhava tudo, o que era e o -que viria a ser; conhecia o numero da sorte grande, não dizia qual era -nem comprava bilhete para não roubar os escolhidos de Nosso Senhor. -Parece que era mandada de Deus. - -A outra ama confirmou as noticias e accrescentou novas. Conhecia -pessoas que tinham perdido e achado joias e escravos. A policia mesma, -quando não acabava de apanhar um criminoso, ia ao Castello falar á -cabocla e descia sabendo; por isso é que não a botava para fóra, como -os invejosos andavam a pedir. Muita gente não embarcava sem subir -primeiro ao morro. A cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de -quebranto... - -Ao jantar, Natividade repetiu ao marido a lembrança das amas. Santos -encolheu os hombros. Depois examinou rindo a sabedoria da cabocla; -principalmente a sorte grande era incrivel que, conhecendo o numero, -não comprasse bilhete. Natividade achou que era o mais difficil -de explicar, mas podia ser invenção do povo. _On ne prête qu'aux -riches_, accrescentou rindo. O marido, que estivera na vespera com um -dezembargador, repetiu as palavras delle que «emquanto a policia não -puzesse côbro ao escandalo...» O dezembargador não concluira. Santos -concluiu com um gesto vago. - ---Mas você é spirita, ponderou a mulher. - ---Perdão, não confundamos, replicou elle com gravidade. - -Sim, podia consentir n'uma consulta spirita; já pensara nella. Algum -espirito podia dizer-lhe a verdade em vez de uma adivinha de farça... -Natividade defendeu a cabocla. Pessoas da sociedade falavam della a -serio. Não queria confessar ainda que tinha fé, mas tinha. Recusando -ir outr'ora, foi naturalmente a insufficiencia do motivo que lhe deu -a força negativa. Que importava saber o sexo do filho? Conhecer o -destino dos dous era mais imperioso e util. Velhas ideias que lhe -incutiram em creança vinham agora emergindo do cerebro e descendo ao -coração. Imaginava ir com os pequenos ao morro do Castello, a titulo -de passeio... Para que? Para confirmal-a na esperança de que seriam -grandes homens. Não lhe passara pela cabeça a predicção contraria. -Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando o destino; mas a -leitora, além de não crêr (nem todos crêem) póde ser que não conte mais -de vinte a vinte e dous annos de edade, e terá a paciencia de esperar. -Natividade, de si para si, confessava os trinta e um, e temia não ver a -grandeza dos filhos. Podia ser que a visse, pois tambem se morre velha, -e alguma vez de velhice, mas acaso teria o mesmo gosto? - -Ao serão, a materia da palestra foi a cabocla do Castello, por -iniciativa de Santos, que repetia as opiniões da vespera e do jantar. -Das visitas algumas contavam o que ouviam della. Natividade não dormiu -aquella noite sem obter do marido que a deixasse ir com a irmã á -cabocla. Não se perdia nada; bastava levar os retratos dos meninos e um -pouco dos cabellos. As amas não saberiam nada da aventura. - -No dia aprazado metteram-se as duas no carro, entre sete e oito horas -com pretexto de passeio, e lá se fôram para a rua da Misericordia. -Sabes já que alli se apearam, entre a egreja de S. José e a Camara dos -deputados, e subiram aquella até á rua do Carmo, onde esta pega com -a ladeira do Castello. Indo a subir, hesitaram, mas a mãe era mãe, e -já agora faltava pouco para ouvir o destino. Viste que subiram, que -desceram, deram os dous mil reis ás almas, entraram no carro e voltaram -para Botafogo. - - - - -CAPITULO IX - - -Vista de palacio - - -No Cattete, o _coupé_ e uma victoria cruzaram-se e pararam a um tempo. -Um homem saltou da victoria e caminhou para o _coupé._ Era o marido de -Natividade, que ia agora para o escriptorio, um pouco mais tarde que de -costume, por haver esperado a volta da mulher. Ia pensando nella e nos -negocios da praça, nos meninos e na lei Rio Branco, então discutida na -Camara dos deputados; o banco era credor da lavoura. Tambem pensava na -cabocla do Castello e no que teria dito á mulher... - -Ao passar pelo palacio Nova-Friburgo, levantou os olhos para elle com -o desejo do costume, uma cobiça de possuil-o, sem prever os altos -destinos que o palacio viria a ter na Republica; mas quem então previa -nada? Quem prevê cousa nenhuma? Para Santos a questão era só possuil-o, -dar alli grandes festas unicas, celebradas nas gazetas, narradas na -cidade entre amigos e inimigos, cheios de admiração, de rancor ou de -inveja. Não pensava nas saudades que as matronas futura contariam ás -suas netas, menos ainda nos livros de chronicas, escriptos e impressos -neste outro seculo. Santos não tinha a imaginação da posteridade. Via o -presente e suas maravilhas. - -Já lhe não bastava o que era. A casa de Botafogo, posto que bella, -não era um palacio, e depois, não estava tão exposta como aqui no -Cattete, passagem obrigada de toda a gente, que olharia para as grandes -janellas, as grandes portas, as grandes aguias no alto, de azas -abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palacio, os -jardins e os lagos... Oh! goso infinito! Santos imaginava os bronzes, -marmores, luzes, flores, danças, carruagens, musicas, ceias... Tudo -isso foi pensado depressa, porque a victoria, embora não corresse (os -cavallos tinham ordem de moderar a andadura), todavia, não atrazava as -rodas para que os sonhos de Santos acabassem. Assim foi que, antes de -chegar á praça da Gloria, a victoria avistou o _coupé_ da familia, e as -duas carragens pararam, a curta distancia uma da outra, como ficou dito. - - - - -CAPITULO X - - -O juramento - - -Tambem ficou dito que o marido saiu da victoria e caminhou para o -_coupé_, onde a mulher e a cunhada, adivinhando que elle vinha ter com -ellas, sorriam de ante-mão. - ---Não lhe digas nada, aconselhou Perpetua. - -A cabeça de Santos appareceu logo, com as suissas curtas, o cabello -rente, o bigode rapado. Era homem sympathico. Quieto, não ficava mal. A -agitação com que chegou, parou e falou tirou-lhe a gravidade com que ia -no carro, as mãos postas sobre o castão de ouro da bengala, e a bengala -entre os joelhos. - ---Então? então? perguntou. - ---Logo digo. - ---Mas que foi? - ---Logo. - ---Bem ou mal? Dize só se bem. - ---Bem. Cousas futuras. - ---É pessoa séria? - ---Séria, sim; até logo, repetiu Natividade estendendo-lhe os dedos. - -Mas o marido não podia despegar-se do _coupé_; queria saber alli mesmo -tudo, as perguntas e as respostas, a gente que lá estava á espera, e se -era o mesmo destino para os dous, ou se cada um tinha o seu. Nada disso -foi escripto como aqui vae, devagar, para que a ruim letra do autor -não faça mal á sua prosa. Não, senhor; as palavras de Santos sairam de -atropello, umas sobre outras, embrulhadas, sem principio ou sem fim. -A bella esposa tinha já as orelhas tão affeitas ao falar do marido, -mórmente em lances de emoção ou curiosidade, que entendia tudo, e ia -dizendo que não. A cabeça e o dedo sublinhavam a negativa. Santos não -teve remedio e despediu-se. - -Em caminho, advertiu que, não crendo na cabocla, era ocioso instar pela -predicção. Era mais; era dar razão á mulher. Prometteu não indagar nada -quando voltasse. Não prometteu esquecer, e dahi a teima com que pensou -muitas vezes no oraculo. De resto, ellas lhe diriam tudo sem que elle -perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia. - -Não concluas daqui que os freguezes do banco padecessem alguma -desattenção aos seus negocios. Tudo correu bem, como se elle não -tivesse mulher nem filhos ou não houvesse Castello nem cabocla. Não -era só a mão que fazia o seu officio, assignando; a bôca ia falando, -mandando, chamando e rindo, se era preciso. Não obstante, a ancia -existia e as figuras passavam e repassavam deante delle; no intervallo -de duas letras, Santos resolvia uma cousa ou outra, se não eram ambas -a um tempo. Entrando no carro, á tarde, agarrou-se inteiramente ao -oraculo. Trazia as mãos sobre o castão, a bengala entre os joelhos, -como de manhã, mas vinha pensando os destino dos filhos. - -Quando chegou a casa, viu Natividade a contemplar os meninos, ambos -nos berços, as amas ao pé, um pouco admiradas da insistencia com que -ella os procurava desde manhã. Não era só fital-os, ou perder os olhos -no espaço e no tempo; era beijal-os tambem e apertal-os ao coração. -Esqueceu-me dizer que, de manhã, Perpetua mudou primeiro de roupa que a -irmã e foi achal-a deante dos berços, vestida como viera do Castello. - ---Logo vi que você estava com os grandes homens, disse ella. - ---Estou, mas não sei em que é que elles serão grandes. - ---Seja em que fôr, vamos almoçar. - -Ao almoço e durante o dia, falaram muita vez da cabocla e da predicção. -Agora, ao ver entrar o marido, Natividade leu-lhe a dissimulação nos -olhos. Quiz calar e esperar, mas estava tão anciosa de lhe dizer tudo, -e era tão boa, que resolveu o contrario. Unicamente não teve o tempo -de cumpril-o; antes mesmo de começar, já elle acabava de perguntar o -que era. Natividade referiu a subida, a consulta, a resposta e o resto; -descreveu a cabocla e o pae. - ---Mas então grandes destinos? - ---Cousas futuras, repetiu ella. - ---Seguramente futuras. Só a pergunta da briga é que não entendo. Brigar -porquê? E brigar como? E teriam deveras brigado? - -Natividade recordou os seus padecimentos do tempo da gestação, -confessando que não falou mais delles para o não affligir; naturalmente -é o que a outra adivinhou que fosse briga. - ---Mas briga porquê? - ---Isso não sei, nem creio que fosse nada mau. - ---Vou consultar... - ---Consultar a quem? - ---Uma pessoa. - ---Já sei, o seu amigo Placido. - ---Se fosse só amigo não consultava, mas elle é o meu chefe e mestre, -tem uma vista clara e comprida, dada pelo céu... Consulto só por -hypothese, não digo os nossos nomes... - ---Não! não! não! - ---Só por hypothese. - ---Não, Agostinho, não fale disto. Não interrogue ninguem a meu -respeito, ouviu? Ande, prometta que não falará disto a ninguem, -spiritas nem amigos. O melhor é calar. Basta saber que terão sorte -feliz. Grandes homens, cousas futuras... Jure, Agostinho. - ---Mas você não foi em pessoa á cabocla? - ---Não me conhece, nem de nome; viu-me uma vez, não me tornará a ver. -Ande, jure! - ---Você é exquisita. Vá lá, prometto. Que tem que falasse, assim, por -acaso? - ---Não quero. Jure! - ---Pois isto é cousa de juramento? - ---Sem isso, não confio, disse ella sorrindo. - ---Juro. - ---Jure por Deus Nosso Senhor! - ---Juro por Deus Nosso Senhor. - - - - -CAPITULO XI - - -Um caso unico! - - -Santos cria na santidade do juramento; por isso, resistiu, mas emfim -cedeu e jurou. Entretanto, o pensamento não lhe saiu mais da briga -uterina dos filhos. Quiz esquecel-a. Jogou essa noite, como de -costume; na seguinte, foi ao theatro; na outra a uma visita; e tornou -ao voltarete do costume, e a briga sempre com elle. Era um mysterio. -Talvez fosse um caso unico... Unico! Um caso unico! A singularidade -do caso fel-o aggarrar-se mais á ideia, ou a ideia a elle; não posso -explicar melhor este phenomeno intimo, passado lá onde não entra olho -de homem, nem bastam reflexões ou conjecturas. Nem por isso durou muito -tempo. No primeiro domingo, Santos pegou em si, e foi á casa do doutor -Placido, rua do Senador Vergueiro, uma casa baixa, de trez janellas, -com muito terreno para o lado do mar. Creio que já não existe: datava -do tempo em que a rua era o Caminho Velho, para differençar do Caminho -Novo. - -Perdoa estas minucias. A acção podia ir sem ellas, mas eu quero que -saibas que casa era, e que rua, e mais digo que alli havia uma especie -de club, templo ou o que quer que era spirita. Placido fazia de -sacerdote e presidente a um tempo. Era um velho de grandes barbas, olho -azul e brilhante, enfiado em larga camisola de seda. Põe-lhe uma vara -na mão, e fica um magico, mas, em verdade, as barbas e a camisola não -as trazia por lhe darem tal aspecto. Ao contrario de Santos, que teria -trocado dez vezes a cara, se não fôra a opposição da mulher, Placido -usava as barbas inteiras desde moço e a camisola ha dez annos. - ---Venha, venha, disse elle, ande ajudar-me a converter o nosso amigo -Ayres; ha meia hora que procuro incutir-lhe as verdades eternas, mas -elle resiste. - ---Não, não, não resisto, acudiu um homem de cerca de quarenta annos, -estendendo a mão ao recem-chegado. - - - - -CAPITULO XII - - -Esse Ayres - - -Esse Ayres que ahi apparece conserva ainda agora algumas das virtudes -d'aquelle tempo, e quasi nenhum vicio. Não attribuas tal estado a -qualquer proposito. Nem creias que vae nisto um pouco de homenagem á -modestia da pessoa. Não, senhor, é verdade pura e natural effeito. -Apesar dos quarenta annos, ou quarenta e dous, e talvez por isso mesmo, -era um bello typo de homem. Diplomata de carreira, chegára dias antes -do Pacifico, com uma licença de seis mezes. - -Não me demoro em descrevel-o. Imagina só que trazia o callo do officio, -o sorriso approvador, a fala branda e cautelosa, o ar da occasião, a -expressão adequada, tudo tão bem distribuido que era um gosto ouvil-o -e vel-o. Talvez a pelle da cara rapada estivesse prestes a mostrar os -primeiros signaes do tempo. Ainda assim o bigode, que era moço na côr e -no apuro com que acabava em ponta fina e rija, daria um ar de frescura -ao rosto, quando o meio seculo chegasse. O mesmo faria o cabello, -vagamente grisalho, apartado ao centro. No alto da cabeça havia um -inicio de calva. Na botoeira uma flor eterna. - -Tempo houve,--foi por occasião da anterior licença, sendo elle apenas -secretario de legação,--tempo houve em que tambem elle gostou de -Nativividade. Não foi propriamente paixão; não era homem disso. Gostou -della, como de outras joias e raridades, mas tão depressa viu que -não era acceito, trocou de conversação. Não era frouxidão ou frieza. -Gostava assaz de mulheres e ainda mais se eram bonitas. A questão para -elle é que nem as queria á força, nem curava de as persuadir. Não era -general para escala á vista, nem para assedios demorados; contentava-se -de simples passeios militares,--longos ou breves, conforme o tempo -fosse claro ou turvo. Em summa, extremamente cordato. - -Coincidencia interessante; foi por esse tempo que Santos pensou em -casal-o com a cunhada, recentemente viuva. Esta parece que queria. -Natividade oppoz se, nunca se soube porquê. Não eram ciumes; invejas -não creio que fossem. O simples desejo de o não ver entrar na familia -pela porta lateral é apenas uma figura, que vale qualquer das primeiras -hypotheses negadas. O desgosto de cedel-o a outra, ou tel-os felizes ao -pé de si, não podia ser, posto que o coração seja o abysmo dos abysmos. -Supponhamos que era com o fim de o punir por havel-a amado. - -Póde ser; em todo caso, o maior obstaculo viria delle mesmo. Posto que -viuvo, Ayres não foi propriamente casado. Não amava o casamento. Casou -por necessidade do officio; cuidou que era melhor ser diplomata casado -que solteiro, e pediu a primeira moça que lhe pareceu adequada ao seu -destino. Enganou-se: a differença de temperamento e de espirito era tal -que elle, ainda vivendo com a mulher, era como se vivesse só. Não se -affligiu com a perda; tinha o feitio do solteirão. - -Era cordato, repito, embora esta palavra não exprima exactamente o -que quero dizer. Tinha o coração disposto a acceitar tudo, não por -inclinação á harmonia, senão por tedio á controversia. Para conhecer -esta aversão, bastava tel-o visto entrar, antes, em visita ao casal -Santos. Pessoas de fóra e da familia conversavam da cabocla do Castello. - ---Chega a proposito, conselheiro, disse Perpetua. Que pensa o senhor da -cabocla do Castello? - -Ayres não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma -cousa, e fez um gesto de dous sexos. Como insistissem, não escolheu -nenhuma das duas opiniões, achou outra, media, que contentou a -ambos os lados, cousa rara em opiniões medias. Sabes que o destino -dellas é serem desdenhadas. Mas este Ayres,--José da Costa Marcondes -Ayres,--tinha que nas controversias uma opinião dubia ou media póde -trazer a opportunidade de uma pilula, e compunha as suas de tal geito, -que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pilulas. -Não lhe queiras mal por isso; a droga amarga engole-se com assucar. -Ayres opinou com pausa, delicadeza, circumloquios, limpando o monoculo -ao lenço de seda, pingando as palavras graves e obscuras, fitando os -olhos no ar, como quem busca uma lembrança, e achava a lembrança, e -arredondava com ella o parecer. Um dos ouvintes acceitou-o logo, outro -divergiu um pouco e acabou de accordo, assim terceiro, e quarto, e a -sala toda. - -Não cuides que não era sincero, era-o. Quando não acertava de ter a -mesma opinião, e valia a pena escrever a sua, escrevia-a. Usava tambem -guardar por escripto as descobertas, observações, reflexões, criticas e -anecdotas, tendo para isso uma serie de cadernos, a que dava o nome de -_Memorial._ Naquella noite escreveu estas linhas: - -«Noite em casa da familia Santos, sem voltarete. Falou-se na cabocla do -Castello. Desconfio que Natividade ou a irmã quer consultal-a; não será -de certo a meu respeito. - -«Natividade e um padre Guedes que lá estava, gordo e maduro, eram as -unicas pessoas interessantes da noite. O resto insipido, mas insipido -por necessidade, não podendo ser outra cousa mais que insipido. Quando -o padre e Natividade me deixavam entregue a insipidez dos outros, -eu tentava fugir-lhe pela memoria, recordando sensações, revivendo -quadros, viagens, pessoas. Foi assim que pensei na Capponi, a quem vi -hoje pelas costas, na rua da Quitanda. Conheci-a aqui no finado Hotel -de D. Pedro, lá vão annos. Era dançarina; eu mesmo já a tinha visto -dançar em Veneza. Pobre Capponi! Andando, o pé esquerdo saia-lhe do -sapato e mostrava no calcanhar da meia um buraquinho de saudade. - -«Afinal tornei á eterna insipidez dos outros. Não acabo de crêr como é -que esta senhora, aliás tão fina, pôde organisar noites como a de hoje. -Não é que os outros não buscassem ser interessantes, e, se intenções -valessem, nenhum livro os valeria; mas não o eram, por mais que -tentassem. Emfim, lá vão; esperemos outras noites que tragam melhores -sujeitos sem esforço algum. O que o berço dá só a cova o tira, diz um -velho adagio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever -de taes insipidos: - - Dico, che quando l'anima mal nata... - - - - -CAPITULO XIII - - -A epigraphe - - -Ora, alli está justamente a epigraphe do livro, se eu lhe quizesse pôr -alguma, e não me occorresse outra. Não é sómente um meio de completar -as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de -lunetas para que o leitor do livro penetre o que fôr menos claro ou -totalmente escuro. - -Por outro lado, ha proveito em irem as pessoas da minha historia -collaborando nella, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade, -especie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus trebelhos. - -Se acceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o -cavallo, sem que o cavallo possa fazer de torre, nem a torre de pião. -Ha ainda a differença da côr, branca e preta, mas esta não tira o -poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a -partida, e assim vae o mundo. Talvez conviesse pôr aqui, de quando -em quando, como nas publicações do jogo, um diagramma das posições -bellas ou difficeis. Não havendo taboleiro, é um grande auxilio este -processo para acompanhar os lances, mas tambem póde ser que tenhas -visão bastante para reproduzir na memoria as situações diversas. Creio -que sim. Fóra com diagrammas! Tudo irá como se realmente visses jogar a -partida entre pessoa e pessoa, ou mais claramente, entre Deus e o Diabo. - - - - -CAPITULO XIV - - -A licção do discipulo - - ---Fique, fique, conselheiro, disse Santos apertando a mão ao diplomata. -Aprenda as verdades eternas. - ---Verdades eternas pedem horas eternas, ponderou este, consultando o -relogio. - -Um tal Ayres não era facil de convencer. Placido falou-lhe de leis -scientificas para excluir qualquer macula de seita, e Santos foi -com elle. Toda a terminologia spirita saiu fóra, e mais os casos, -phenomenos, mysterios, testemunhos, attestados verbaes e escriptos... -Santos acudiu com um exemplo: dous espiritos podiam tornar juntos a -este mundo; e, se brigassem antes de nascer? - ---Antes de nascer, creanças não brigam, replicou Ayres, temperando o -sentido affirmativo com a intonação dubitativa. - ---Então nega que dous espiritos...? Essa cá me fica, conselheiro! Pois -que impede que dous espiritos?... - -Ayres viu o abysmo da controversia, e forrou- se á vertigem por uma -concessão, dizendo: - ---Esaú e Jacob brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a -causa do conflicto. Quanto a outros, dado que briguem tambem, tudo está -em saber a causa do conflicto, e não a sabendo, porque a Providencia -a esconde da noticia humana... Se fosse uma causa espiritual, por -exemplo... - ---Por exemplo? - ---Por exemplo, se as duas creanças quizerem ajoelhar-se ao mesmo tempo -para adorar o Creador. Ahi está um caso de conflicto, mas de conflicto -espiritual, cujos processos escapam á sagacidade humana. Tambem poderia -ser um motivo temporal. Supponhamos a necessidade de se acotovellarem -para ficar melhor accommodados; é uma hypothese que a sciencia -acceitaria; isto é, não sei... Ha ainda o caso de quererem ambos a -primogenitura. - ---Para que? perguntou Placido. - ---Com quanto este privilegio esteja hoje limitado ás familias regias, -á camara dos Iords e não sei se mais, tem todavia um valor symbolico. -O simples gosto de nascer primeiro, sem outra vantagem social ou -politica, póde dar-se por instincto, principalmente se as creanças se -destinarem a galgar os altos deste mundo. - -Santos afiou o ouvido neste ponto, lembrando-se das «cousas futuras». -Ayres disse ainda algumas palavras bonitas, e accrescentou outras -feias, admittindo que a briga podia ser prenuncio de graves conflictos -na terra; mas logo temperou esse conceito com este outro: - ---Não importa; não esqueçamos o que dizia um antigo, que «a guerra é a -mãe de todas as cousas». Nia minha opinião, Empedocles, referindo-se -á guerra, não o fez só no sentido technico. O amor, que é a primeira -das artes da paz, póde-se dizer que é um duello, não de morte, mas de -vida,--concluiu Ayres sorrindo leve, como falava baixo, e despediu-se. - - - - -CAPITULO XV - - -_Teste David cum Sibylla_ - - ---E então? disse Santos. Não é que o conselheiro, em vez de aprender, -ensina-nos? Eu acho que elle deu algumas razões boas. - ---Quando menos, plausiveis, completou mestre Placido. - ---Foi pena que se despedisse, continuou Santos, mas felizmente o -meu caso é com o senhor. Venho consultal-o, e as suas luzes são as -verdadeiras do mundo. - -Placido agradeceu sorrindo. Não era novo o elogio, ao contrario; mas -elle estava tão acostumado a ouvil-o que o sorriso era já agora um -sestro. Não podia deixar de pagar com essa moeda aos seus discipulos. - ---Trata-se... - ---Trata-se disto. Aquella hypothese que eu formulei é um facto real; -succedeu com os meus filhos... - ---Como? - ---É o que me parece, e vim justamente para que me explique. Nunca lhe -falei por temer que achasse absurdo, mas tenho pensado, e suspeito que -tal briga se deu, e que é um caso extraordinario. - -Santos expoz então a consulta, gravemente, com um gesto particular que -tinha de arregalar os olhos para arregalar a novidade. Não esqueceu nem -escondeu nada; contou a propria ida da mulher ao Castello, com desdem, -é verdade, mas ponto por ponto. Placido ouvia attento, perguntando, -voltando atraz, e acabou por meditar alguns minutos. Emfim, declarou -que o phenomeno, caso se houvesse dado, era raro, se não unico, mas -possivel. Já o facto de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma -rivalidade, porque esses dous apostolos brigaram tambem. - ---Perdão, mas o baptismo... - ---Foi posterior, sei, mas os nomes podem ter sido predestinados, -tanto mais que a escolha dos nomes veiu, como o senhor me disse, por -inspiração á tia dos meninos. - ---Justamente. - ---D. Perpetua é muito devota. - ---Muito. - ---Creio que os proprios espiritos de S. Pedro e S. Paulo houvessem -escolhido aquella senhora para inspirar os nomes que estão no Credo; -advirta que ella reza muitas vezes o Credo, mas foi naquella occasião -que se lembrou delles. - ---Exacto, exacto! - -O doutor foi á estante e tirou uma Biblia, encadernada em couro, com -grandes fechos de metal. Abriu a Epistola de S. Paulo _aos Galatas_, e -leu a passagem do capitulo II, versículo 11, em que o apostolo conta -que, indo a Antiochia, onde estava S. Pedro, «resistiu-lhe na cara». - -Santos leu e teve uma ideia. As ideias querem-se festejadas, quando -são bellas, e examinadas, quando novas; a delle era a um tempo nova e -bella. Deslumbrado, ergueu a mão e deu uma palmada na folha, bradando: - ---Sem contar que este numero _onze_ do versiculo, composto de dous -algarismos eguaes, 1 e 1, é um numero gemeo, não lhe parece? - ---Justamente. E mais: o capitulo é o segundo, isto é, dous, que é o -proprio numero dos irmãos gemeos. - -Mysterio engendra mysterio. Havia mais de um elo intimo, substancial, -escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e Paulo, irmãos gemeos, -numeros gemeos, tudo eram aguas de mysterio que elles agora rasgavam, -nadando e bracejando com força. Santos foi mais ao fundo; não seriam -os dous meninos os proprios espiritos de S. Pedro e de S. Paulo, que -renasciam agora, e elle, pae dos dous apostolos?... A fé transfigura; -Santos tinha um ar quasi divino, trepou em si mesmo, e os olhos -ordinariamente sem expressão, pareciam entornar a chamma da vida. Pae -de apostolos! e que apostolos! Placido esteve quasi, quasi a crêr -tambem, achava-se dentro de um mar torvo, soturno, onde as vozes -do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia que os espiritos de S. -Pedro e S. Paulo tinham chegado á perfeição; não tornariam cá. Não -importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos podiam ser -brilhantes; tinha razão a cabocla, sem saber o que dizia. - ---Deixe ás senhoras as suas crenças da meninice, concluiu; se ellas tem -fé na tal mulher do Castello, e acham que é um vehiculo de verdade, -não as desminta por ora. Diga-lhes que eu estou de accordo com o seu -oraculo. _Teste David cum Sibylla._ - ---Digo, digo! escreva a phrase. - -Placido foi á secretaria, escreveu o verso, e deu-lhe o papel, mas já -então Santos advertira que mostral-o á mulher era confessar a consulta -spirita, e naturalmente o perjurio. Referiu ao amigo os escrupulos de -Natividade e pediu que calassem tudo. - ---Estando com ella, não lhe diga o que se passou entre nós. - -Saiu logo depois, arrependido da indiscrição, mas deslumbrado da -revelação. Ia cheio de numeros da Escriptura, de Pedro e Paulo, de Esaú -e Jacob. O ar da rua não espanou a poeira do mysterio; ao contrario, -o céu azul, a praia socegada, os montes verdes como que o cercavam e -cobriam de um veu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos, -facto raro ou unico, era uma distincção divina. Contrariamente á -esposa, que cuidava sómente da grandeza futura dos filhos, Santos -pensava no conflicto passado. - -Entrou em casa, correu aos pequenos, e acarinhou-os com tão estranha -expressão, que a mãe desconfiou alguma cousa, e quiz saber o que era. - ---Não é nada, respondeu elle rindo. - ---É alguma cousa, anda, acaba. - ---Que ha de ser? - ---Seja o que fôr, Agostinho, acaba. - -Santos pediu-lhe que se não zangasse, e contou tudo, a sorte, a rixa, -a Escriptura, os apostolos, o symbolo, tudo tão espalhadamente, que -ella mal pôde entender, mas entendeu ao final, e replicou com os dentes -cerrados: - ---Ah! você! você! - ---Perdoa, amiguinha; estava tão ancioso de saber a verdade... E nota -que eu creio na cabocla, e o doutor tambem; elle até me escreveu isto -em latim, concluiu tirando e lendo o papelinho: _Teste David cum -Sibylla._ - - - - -CAPITULO XVI - - -Paternalismo - - -D'ahi a pouco, Santos pegou na mão da mulher, que a deixou ir á toa, -sem apertar a delle; ambos fitavam os meninos, tendo esquecido a zanga -para só ficarem paes. - -Já não era spiritismo, nem outra religião nova; era a mais velha de -todas, fundada por Adão e Eva, á qual chama, se queres, paternalismo. -Rezavam sem palavras, persignavam-se sem dedos, uma especie de -ceremonia quieta e muda, que abrangia o passado e o futuro. Qual delles -era o padre, qual o sacristão, não sei, nem é preciso. A missa é que -era a mesma, e o evangelho começava como o de S. João (emendado): «No -principio era o amor, e o amor se fez carne». Mas venhamos aos nossos -gemeos. - - - - -CAPITULO XVII - - -Tudo o que restrinjo - - -Os gemeos, não tendo que fazer, iam mamando. Nesse officio portavam-se -sem rivalidade, a não ser quando as amas estavam ás boas, e elles -mamavam ao pé um do outro; cada qual então parecia querer mostrar que -mamava mais e melhor, passeando os dedos pelo seio amigo, e chupando -com alma. Ellas, á sua parte tinham gloria dos peitos e os comparavam -entre si; os pequenos, fartos, soltavam afinal os bicos e riam para -ellas. - -Se não fosse a necessidade de pôr os meninos em pé, crescidos e homens, -espraiava este capitulo. Realmente, o espectaculo, posto que commum, -era bello. Os peraltas nutriam-se ao contrario dos paes, sem as artes -do cozinheiro, nem a vista das comidas e bebidas, todas postas em -crystaes e porcelanas para emendar ou colorir a dura necessidade de -comer. A elles nem se lhes via a comida; a boca ligada ao peito não -deixava apparecer o leite. A natureza mostrava-se satisfeita pelo riso -ou pelo somno. Quando era o somno, cada uma levava o seu menino ao -berço, e ia cuidar de outra cousa. Este cotejo dar-me-ia trez ou quatro -paginas solidas. - -Uma pagina bastava para os chocalhos que embellezavam os pequenos, -como se fosse a propria musica do céu. Elles sorriam, estendiam as -mãos, alguma vez zangavam-se com as negaças, mas tanto que lh'os davam, -calavam-se, e se não podiam tocar não se zangavam por isso. A proposito -de chocalhos, diria que esses instrumentos não deixam memoria de si; -alguem que os veja em mãos de creanças, se parecer que lhe lembram os -seus, cae logo no engano, e adverte que a recordação ha de ser mais -recente, alguma arenga do anno passado, se não foi a vacca de leite da -vespera. - -A operação de desmamar podia fazer-se em meia linha, mas as lástimas -das amas, as despedidas, as bichas de ouro que a mãe deu a cada uma -dellas, como um presente final, tudo isso exigia uma boa pagina ou -mais. Poucas linhas bastariam para as amas seccas, porquanto não diria -se eram altas nem baixas, feias ou bonitas. Eram mansas, zelosas do -officio, amigas dos pequenos, e logo uma da outra. Cavallinhos de -pau, bandeirolas, theatros de bonecos, barretinas e tambores, toda a -quinquilharia da infancia occuparia muito mais que o logar de seus -nomes. - -Tudo isso restrinjo só para não enfadar a leitora curiosa de ver os -meus meninos homens e acabados. Vamos vel-os, querida. Com pouco, estão -crescidos e fortes. Depois, entrego-os a si mesmos; elles que abram a -ferro ou lingua, ou simples cotovellos, o caminho da vida e do mundo. - - - - -CAPITULO XVIII - - -De como vieram crescendo - - -Eil -os que vem crescendo. A semelhança, sem os confundir já, -continuava a ser grande. Os mesmos olhos claros e attentos, a mesma -bôca cheia de graça, as mãos finas, e uma côr viva nas faces que as -fazia crêr pintadas de sangue. Eram sadios; exceptuada a crise dos -dentes, não tiveram molestia alguma, porque eu não conto uma ou outra -indigestão de doces, que os paes lhes davam, ou elles tiravam ás -escondidas. Eram ambos gulosos, Pedro mais que Paulo, e Paulo mais que -ninguem. - -Aos sete annos eram duas obras-primas, ou antes uma só em dous volumes, -como quizeres. Em verdade, não havia por toda aquella praia, nem por -Flamengos ou Glorias, Cajus e outras redondezas, não havia uma, quanto -mais duas creanças tão graciosas. Nota que eram tambem robustos. Pedro -com um murro derrubava Paulo; em compensação, Paulo com um ponta-pé -deitava Pedro ao chão. Corriam muito na chacara por aposta. Alguma vez -quizeram trepar ás arvores, mas a mãe não consentia; não era bonito. -Contentavam-se de espiar cá de baixo a fructa. - -Paulo era mais aggressivo, Pedro mais dissimulado, e, como ambos -acabavam por comer a fructa das arvores, era um moleque que a ia buscar -acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro. A promessa não -se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se sempre, -e ás vezes com repetição depois do serviço. Não digo com isto que um -e outro dos gemeos não soubessem aggredir e dissimular; a differença -é que cada um sabia melhor o seu gosto, cousa tão obvia que custa -escrever. - -Obedeciam aos paes sem grande esforço, posto fossem teimosos. Nem -mentiam mais que outros meninos da cidade. Ao cabo, a mentira é -alguma vez meia virtude. Assim é que, quando elles disseram não ter -visto furtar um relogio da mãe, presente do pae, quando eram noivos, -mentiram conscientemente, porque a criada que o tirou foi apanhada por -elles em plena acção de furto. Mas era tão amiga delles! e com taes -lagrimas lhes pediu que não dissessem a ninguem, que os gemeos negaram -absolutamente ter visto nada. Contavam sete annos. Aos nove, quando já -a moça ia longe, é que descobriram, não sei a que proposito, o caso -escondido. A mãe quiz saber porque é que elles calaram outrora; não -souberam explicar-se, mas é claro que o silencio de 1878 foi obra da -affeição e da piedade, e dahi a meia-virtude, porque é alguma cousa -pagar amor com amor. Quanto á revelação de 1880 só se póde explicar -pela distancia do tempo. Já não estava presente a boa Miquelina; talvez -ja estivesse morta. Demais, veiu tão naturalmente a referencia... - ---Mas, porque é que vocês até agora não me disseram? teimava a mãe. - -Não sabendo mais que razão déssem, um delles, creio que Pedro, resolveu -accusar o irmão: - ---Foi elle, mamãe! - ---Eu? redarguiu Paulo. Foi elle, mamãe, elle é que não disse nada. - ---Foi você! - ---Foi você! não minta! - ---Mentiroso é elle! - -Cresceram um para o outro. Natividade acudiu prestemente, não tanto -que impedisse a troca dos primeiros murros. Segurou-lhes os braços a -tempo de evitar outros, e, em vez de os castigar ou ameaçar, beijou-os -com tamanha ternura que elles não acharam melhor occasião de lhe pedir -doce. Tiveram doce; tiveram tambem um passeio, á tarde, no carrinho do -pae. - -Na volta estavam amigos ou reconciliados. Contaram á mãe o passeio, a -gente da rua, as outras creanças que olhavam para elles com inveja, uma -que mettia o dedo na bôca, outro no nariz, e as moças que estavam ás -janellas, algumas que os acharam bonitos. Neste ultimo ponto divergiam, -porque cada um delles tomava para si só as admirações; mas a mãe -interveiu: - ---Foi para ambos. Vocês são tão parecidos, que não podia ser senão para -ambos. E sabem porque é que as moças elogiaram vocês? Foi por ver que -iam amigos, chegadinhos um ao outro. Meninos bonitos não brigam, ainda -menos sendo irmãos. Quero vel-os quietos e amigos, brincando juntos sem -rusga nem nada. Estão entendendo? - -Pedro respondeu que sim; Paulo esperou que a mãe repetisse a pergunta, -e deu egual resposta. Emfim, porque esta mandasse, abraçaram-se, mas -foi um abraçar sem gosto, sem força, quasi sem braços; encostaram-se um -ao outro, estenderam as mãos ás costas do irmão, e deixaram-n'as cair. - -De noite, na alcova, cada um delles concluiu para si que devia os -obsequios daquella tarde, o doce, os beijos e o carro, á briga que -tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, -como um romance ao piano, resolveram ir á cara um do outro, na primeira -occasião. Isto que devia ser um laço armado á ternura da mãe, trouxe -ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e -desforra do socco recebido naquelle dia, mas tambem satisfação de um -desejo intimo, profundo, necessario. Sem odio, disseram ainda algumas -palavras de cama a cama, riram de uma ou outra lembrança da rua, ate -que o somno entrou com os seus pés de lã e bico calado, e tomou conta -da alcova inteira. - - - - -CAPITULO XIX - - -Apenas duas.--Quarenta annos. Terceira causa - - -Um dos meus proposrtos neste livro é não lhe pôr lagrimas. Entretanto, -não posso calar as duas que rebentaram certa vez dos olhos de -Natividade, depois de uma rixa dos pequenos. Apenas duas, e fôram -morrer-lhe aos cantos da bôca. Tão depressa as verteu como as engoliu, -renovando ás avessas e por palavras mudas o fecho daquellas historias -de creanças: «entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei -nosso senhor que nos conte outra.» E a segunda creança contava segunda -historia, a terceira terceira, a quarta quarta, até que vinha o -fastio ou o somno. Pessoas que datam do tempo em que se contavam taes -historias affirmam que creanças não punham naquella formula nenhuma -monarchica, fosse absoluta, fosse constitucional; era um modo de ligar -o seu _Decameron_ dellas, herdado do velho reino portuguez, quando os -reis mandavam o que queriam, e a nação dizia que era muito bem. - -Engolidas as duas lagrimas, Natividade riu da propria fraqueza. Não -se chamou tola, porque esses desabafos raramente se usam, ainda em -particular; mas no secreto do coração, lá muito ao fundo, onde não -penetra olho de homem, creio que sentiu alguma cousa parecida com isso. -Não tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona. - -Em verdade, qualquer outra viveria a tremer pela sorte dos filhos, -uma vez que houvera a rixa anterior e interior. Agora as lutas eram -mais frequentes, as mãos cada vez mais aptas, e tudo fazia receiar que -elles acabassem estripando-se um ao outro... Mas aqui surgia a ideia da -grandeza e da prosperidade,--cousas futuras!--e esta esperança era como -um lenço que enxugasse os olhos da bella senhora. As Sibyllas não terão -dito só do mal, nem os Prophetas, mas ainda do bem, e principalmente -delle. - -Com esse lenço verde enxugou ella os olhos, e teria outros lenços, -se aquelle ficasse roto ou enxovalhado; um, por exemplo, não verde -como a esperança, mas azul, como a alma della. Ainda lhes não disse -que a alma de Natividade era azul. Ahi fica. Um azul celeste, claro e -transparente, que alguma vez se embruscava, raro tempestuava, e nunca a -noite escurecia. - -Não, leitor, não me esqueceu a edade da nossa amiga; lembra-me como se -fosse hoje. Chegou assim aos quarenta annos. Não importa; o céu é mais -velho e não trocou de côr. Uma vez que lhe não attribuas ao azul da -alma nenhuma significação romantica, estás na conta. Quando muito, no -dia em que perfez aquella edade, a nossa dona sentiu um calefrio. Que -passára? Nada, um dia mais que na vespera, algumas horas apenas. Toda -uma questão de numero, menos que numero, o nome do numero, esta palavra -_quarenta_, eis o mal unico. Dahi a melancolia com que ella disse ao -marido, agradecendo o mimo do anniversario: «Estou velha, Agostinho!» -Santos quiz esganal-a brincando. - -Pois faria mal se a esganasse. Natividade ainda tinha as fôrmas do -tempo anterior á concepção, a mesma flexibilidade, a mesma graça miuda -e viva. Conservava o donaire dos trinta. A costureira punha em relevo -todos os pensamentos restantes da figura, e ainda lhe emprestava alguns -do seu bolsinho. A cintura teimava em não querer engrossar, e os -quadris e o collo eram do mesmo estofador antigo. - -Ha dessas regiões em que o verão se confunde com o outono, como se dá -na nossa terra, onde as duas estações só differem pela temperatura. -Nella nem pela temperatura. Maio tinha o calor de janeiro. Ella, aos -quarenta annos, era a mesma senhora verde, com a mesmissima alma azul. - -Esta côr vinha-lhe do pae e do avô, mas o pae morreu cedo, antes do -avô, que chegara aos oitenta e quatro. Nessa edade cria sinceramente -que todas as delicias deste mundo, desde o café de manhã até os somnos -socegados haviam sido inventados sómente para elle. O melhor cozinheiro -da terra nascera na China, para o unico fim de deixar familia, patria, -lingua, religião, tudo, e vir assar-lhe as costelletas e fazer-lhe o -chá. As estrellas davam ás _suas_ noites una aspecto esplendido, o luar -tambem, e a chuva, se chovia, era para que elle descançasse do sol. Lá -está agora no cemiterio de S. Francisco Xavier; se alguem pudesse ouvir -a voz dos mortos, dentro das sepulturas, ouviria a delle, bradando que -é tempo de fechar a porta ao cemiterio e não deixar entrar ninguem, uma -vez que elle já lá descança para todo sempre. Morreu azul; se chegasse -aos cem annos, nao teria outra côr. - -Ora, se a natureza queria poupar esta senhora, a riqueza dava a mão á -natureza, e de uma e de outra saía a mais bella côr que alma de gente -póde ter. Tudo concorria assim para lhe seccarem os olhos depressa, -como vimos atraz. Se ella bebeu aquellas duas lagrimas solitarias, -pudera ter bebido outras pela edade adeante, e isto é ainda uma -prova daquelle matiz espiritual; mostrará assim que as tem poucas, e -engole-as para poupal-as. - -Mas ha ainda uma terceira causa que dava a esta senhora o sentimento da -côr azul, causa tão particular que merecia ir em capitulo seu, mas não -vae, por economia. Era a isenção, era o ter atravessado a vida intacta -e pura. O cabo das Tormentas converteu-se em cabo da Boa Esperança, -e ella venceu a primeira e a segunda mocidade, sem que os ventos lhe -derribassem a nau, nem as ondas a engolissem. Não negaria que alguma -lufada mais rija pudera levar-lhe a vela do traquete, como no caso -de João de Mello, ou ainda peor, no de Ayres, mas fôram bocejos de -Adamastor. Concertou a vela depressa e o gigante ficou atraz cercado de -Thetis, emquanto ella seguiu o caminho da India. Agora lembrava-se da -viagem prospera. Honrava-se dos ventos inuteis e perdidos. A memoria -trazia-lhe o sabor do perigo passado. Eis aqui a terra encoberta, os -dous filhos nados, criados e amados da fortuna. - - - - -CAPITULO XX - - -A joia - - -Os quarenta e um annos não lhe trouxeram arrepio. Já estava acostumada -á casa dos quarenta. Sentiu sim, um grande espanto; acordou e não viu o -presente do costume, a «sorpreza» do marido ao pé da cama. Não a achou -no toucador; abriu gavetas, espiou, nada. Creu que o marido esquecera -a data e ficou triste; era a primeira vez! Desceu olhando; nada. No -gabinete estava o marido, calado, mettido comsigo, a ler jornaes, mal -lhe estendeu a mão. Os rapazes, apesar de ser domingo, estudavam a um -canto; vieram dar-lhe o beijo do costume e tornaram aos livros. A mãe -ainda relanceou os olhos pelo gabinete, a ver se achava algum mimo, um -painel, um vestido, foi tudo vão. Embaixo de uma das folhas do dia que -estava na cadeira fronteira á do marido podia ser que... Nada. Então -sentou-se, e, abrindo a folha, ia dizendo comsigo: «Será possivel que -não se lembre do dia de hoje? Será possivel?» Os olhos entraram a ler á -toa, saltando as noticias, tornando atraz... - -Defronte o marido espreitava a mulher, sem absolutamente importar-lhe o -que parecia ler. Assim se passaram alguns minutos. De repente, Santos -viu uma expressão nova no rosto de Natividade; os olhos della pareciam -crescer, a bôca entre-abriu-se, a cabeça ergueu-se, a delle tambem, -ambos deixaram a cadeira, deram dous passos e cairam nos braços um do -outro, como dous namorados desesperados de amor. Um, dous, trez, muitos -beijos. Pedro e Paulo, espantados, estavam ao canto, de pé. O pae, -quando pôde falar, disse-lhes: - ---Venham beijar a mão da senhora baroneza de Santos. - -Não entenderam logo. Natividade não sabia que fizesse; dava a mão aos -filhos, ao marido, e tornava ao jornal para ler e reler que no despacho -imperial da vespera o Sr. Agostinho José dos Santos fôra agraciado com -o titulo de Barão de Santos. Comprehendeu tudo. O presente do dia era -aquelle; o ourives desta vez foi o imperador. - ---Vão, vão, agora podem ir brincar, disse o pae aos filhos. - -E os rapazes sairam a espalhar a noticia pela casa. Os criados ficaram -felizes com a mudança dos amos. Os proprios escravos pareciam receber -uma parcella de liberdade e condecoravam-se com ella: «Nhã Baroneza!» -exclamavam saltando. E João puxava Maria, batendo castanholas com os -dedos: «Gente, quem é esta creoula? Sou escrava de Nhã Baroneza!» - -Mas o imperador não foi o unico ourives. Santos tirou do bolso uma -caixinha, com um broche em que a corôa nova rutilava de brilhantes. -Natividade agradeceu-lhe a joia e consentiu em pol-a, para que o marido -a visse. Santos sentia-se autor da joia, inventor da fórma e das -pedras; mas deixou logo que ella a tirasse e guardasse, e pegou das -gazetas, para lhe mostrar que em todas vinha a noticia, algumas com -adjectivo, _conceituado_ aqui, alli _distincto_, etc. - -Quando Perpetua entrou no gabinete, achou-os andando de um lado para -outro, com os braços passados pela cintura, conversando, calando, -mirando os pés. Tambem ella deu e recebeu abraços. - -Toda a casa estava alegre. Na chacara as arvores pareciam mais verdes -que nunca, os botões do jardim explicavam as folhas, e o sol cobria a -terra de uma claridade infinita. O céu, para collaborar com o resto, -ficou azul o dia inteiro. Logo cedo entraram a vir cartões e cartas -de parabens. Mais tarde visitas. Homens do foro, homens do commercio, -homens de sociedade, muitas senhoras, algumas titulares tambem, vieram -ou mandaram. Devedores de Santos acudiram depressa, outros preferiram -continuar o esquecimento. Nomes houve que elles só puderam reconhecer á -força de grande pesquiza e muito almanaque. - - - - -CAPITULO XXI - - -Um ponto escuro - - -Sei que ha um ponto escuro no capitulo que passou; escrevo este para -esclarecel-o. - -Quando a esposa inquiriu dos antecendentes e circumstancias do -despacho, Santos deu as explicações pedidas. Nem todas seriam -estrictamente exactas; o tempo é um rato roedor das cousas, que as -diminue ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. Demais, a -materia era tão propicia ao alvoroço que facilmente traria confusão á -memoria. Ha, nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se -perdem, outros que a imaginação inventa para supprir os perdidos, e nem -por isso a historia morre. - -Resta saber (é o ponto escuro) como é que Santos pôde calar por longos -dias um negocio tão importante para elle e para a esposa. Em verdade, -esteve mais de uma vez a dizer por palavra ou por gesto, se achasse -algum, aquelle segredo de poucos; mas, sempre havia uma força maior que -lhe tapava a bôca. Ao que parece, foi a expectação de uma alegria nova -e inesperada que lhe deu a alma de pacientar. - -Naquella scena do gabinete tudo foi composto de antemão, o silencio, -a indifferença, os filhos que elle poz alli, estudando ao domingo, -só para o effeito daquella phrase: «Venham beijar a mão da senhora -baroneza de Santos!» - - - - -CAPITULO XXII - - -Agora um salto - - -Que os dous gemeos participassem da lua de mel nobiliaria dos paes -não é cousa que se precise escrever. O amor que lhes tinham bastava -a explical-o, mas accresce que, havendo o titulo produzido em outros -meninos dous sentimentos oppostos, um de estima, outro de inveja, Pedro -e Paulo concluiram ter recebido com elle um merito especial. Quando, -mais tarde, Paulo adoptou a opinião republicana nunca envolveu aquella -distincção da familia na condemnação das instituições. Os estados de -alma que daqui nasceram davam materia a um capitulo especial, se eu não -preferisse agora um salto, e ir a 1886. O salto é grande, mas o tempo é -um tecido invisivel em que se póde bordar tudo, uma flor, um passaro, -uma dama, um castello, um tumulo. Tambem se póde bordar nada. Nada em -cima de invisivel é a mais subtil obra deste mundo, e acaso do outro. - - - - -CAPITULO XXIII - - -Quando tiverem barbas - - -Naquelle anno, uma noite de agosto, como estivessem algumas pessoas na -casa de Botafogo, succedeu que uma dellas, não sei se homem ou mulher, -perguntou aos dous irmãos que edade tinham. - -Paulo respondeu: - ---Nasci no anniversario do dia em que Pedro I caiu do throno. - -E Pedro: - ---Nasci no anniversario do dia em que Sua Majestade subiu ao throno. - -As respostas foram simultaneas, não successivas, tanto que a pessoa -pediu-lhes que falasse cada um por sua vez. A mãe explicou: - ---Nasceram no dia 7 de Abril de 1870. - -Pedro repetiu vagarosamente: - ---Nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao throno. - -E Paulo, em seguida: - ---Nasci no dia em que Pedro I caiu do throno. - -Natividade reprehendeu a Paulo a sua resposta subversiva. Paulo -explicou-se, Pedro contestou a explicação e deu outra, e a sala viraria -club, se a mãe não os accommodasse por esta maneira: - ---Isto hão de ser grupos de collegio; vocês não estão em edade de falar -em politica. Quando tiverem barbas. - -As barbas não queriam vir, por mais que elles chamassem o buço com -os dedos, mas as opiniões politicas e outras vinham e cresciam. Não -eram propriamente opiniões, não tinham raizes grandes nem pequenas. -Eram (mal comparando) gravatas de côr particular, que elles atavam -ao pescoço, á espera que a côr cançasse e viesse outra. Naturalmente -cada um tinha a sua. Tambem se póde crêr que a de cada um era, mais -ou menos, adequada á pessoa. Como recebiam as mesmas approvações e -distincções nos exames, faltava-lhes materia a invejas; e, se a ambição -os dividisse algum dia, não era por ora aguia nem condor, ou sequer -filhote; quando muito, um ovo. No collegio de Pedro II todos lhes -queriam bem. - -As barbas é que não queriam vir. Que é que se lhes ha de fazer quando -as barbas não querem vir? Esperar que venham por seu pé, que appareçam, -que cresçam, que embranqueçam, como é seu costume dellas, salvo as que -não embranquecem nunca, ou só em parte e temporariamente. Tudo isto é -sabido e banal, mas dá ensejo a dizer de duas barbas do ultimo genero, -celebres naquelle tempo, e ora totalmente esquecidas. Não tendo outro -logar em que fale dellas, aproveito este capitulo, e o leitor que volte -a pagina, se prefere ir atraz da historia. Eu ficarei durante algumas -linhas, recordando as duas barbas mortas, sem as entender agora, como -não as entendemos então, as mais inexplicaveis barbas do mundo. - -A primeira daquellas barbas era de um amigo de Pedro, um capucho, -um italiano, frei ***. Podia escrever-lhe o nome,--ninguem mais o -conheceria,--mas prefiro esse signal trino, numero de mysterio, -expresso por estrellas, que são os olhos do céu. Trata-se de um frade. -Pedro não lhe conheceu a barba preta, mas já grisalha, longa e basta, -adornando uma cabeça mascula e formosa. A bôca era risonha, os olhos -rutilos. Ria por ella e por elles, tão docemente que mettia a gente -no coração. Tinha o peito largo, as espaduas fortes. O pé nú, atado -á sandalia, mostrava aguentar um corpo de Hercules. Tudo isso meigo -e espiritual, como uma pagina evangelica. A fé era viva, a affeição -segura, a paciencia infinita. - -Frei *** despediu-se um dia de Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio -Janeiro, S. Paulo,--creio que ao Paraná tambem,--viagem espiritual, -como a de outros confrades, e lá ficou por um semestre ou mais. Quando -voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba -estava negra, não sei se tanto ou mais que d'antes, mas negrissima -e brilhantissima. Não explicou a mudança, nem ninguem lhe perguntou -por ella; podia ser milagre ou capricho da natureza; tambem podia ser -correcção de homem, posto que o ultimo caso fosse mais difficil de -crêr que o primeiro. Durou nove mezes esta côr; feita outra viagem por -trinta dias, a barba appareceu de prata ou de neve, como vos parecer -mais branca. - -Quanto á segunda de taes barbas, foi ainda mais espantosa. Não era -de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que vivia de dividas, e na -mocidade corrigira um velho rifão da nossa lingua por esta maneira: -«Paga o que deves, vê o que te _não_ fica.» - -Chegou aos cincoenta annos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A -roupa teria a mesma edade, os sapatos não menor que ella. A barba é que -não chegou aos cincoenta; elle pintava-a de negro e mal, provavelmente -por não ser a tinta de primeira qualidade e não possuir espelho. Andava -só, descia ou subia muita vez a mesma rua. Um dia dobrou a esquina da -Vida e caiu na praça da Morte, com as barbas enxovalhadas, por não -haver quem lh'as pintasse na Santa Casa. - -_Or, benè_, para falar como o meu capucho, porque é que este e o -maltrapilho voltaram do grisalho ao negro? A leitora que adivinhe, se -póde: dou-lhe vinte capitulos para alcançal-o. Talvez eu, por essas -alturas, lobrigue alguma explicação, mas por ora não sei nem aventuro -nada. Vá que malignos attribuam a frei *** alguma paixão profana; ainda -assim não se comprehende que elle se descobrisse por aquelle modo. -Quanto ao maltrapilho, a que damas queria elle agradar, a ponto de -trocar alguma vez o pão pela tinta? Que um e outro cedessem ao desejo -de prender a mocidade fugitiva, póde ser. O frade, lido na Escriptura, -sabendo que Israel chorou pelas cebolas do Egypto, teria tambem -chorado, e as suas lagrimas cairam negras. Póde ser, repito. Este -desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas -ao tempo dá Deus _habeas-corpus._ - - - - -CAPITULO XXIV - - -Robespierre e Luiz XVI - - -Tanto cresceram as opiniões de Pedro e Paulo que, um dia, chegaram a -incorporar-se em alguma cousa. Iam descendo pela rua da Carioca. Havia -alli uma loja de vidraceiro, com espelhos de vario tamanho, e, mais que -espelhos, tambem tinha retratos velhos e gravuras baratas, com e sem -caixilho. Pararam alguns instantes, olhando á toa. Logo depois, Pedro -viu pendurado um retrato de Luiz XVI, entrou e comprou-o por oitocentos -reis; era uma simples gravura atada ao mostrador por um barbante. -Paulo quiz ter egual fortuna, adequada ás suas opiniões, e descobriu -um Robespierre. Como o logista pedisse por este mil e duzentos, Pedro -exaltou-se um pouco. - ---Então o senhor vende mais barato um rei, e um rei martyr? - ---Ha de perdoar, mas é que esta outra gravura custou-me mais caro, -redarguiu o velho logista. Nós vendemos conforme o preço da compra. -Veja; está mais nova. - ---Lá isso, não, acudiu Paulo. São do mesmo tempo; mas é que este vale -mais que aquelle. - ---Ouvi dizer que tambem era rei... - ---Qual, rei! responderam os dous. - ---Ou quiz sel-o, não sei bem... Que eu de historias, apenas conheço -a dos mouros que aprendi na minha terra com a avó, alguns bocados em -verso. E elle ainda ha mouras lindas; por exemplo, esta; apesar do -nome, creio que era moura, ou ainda é, se vive... Mal lhe saiba ao -marido! - -Foi a um canto e trouxe um retrato de Madame de Stael, com o famoso -turbante na cabeça. Ó effeito da belleza! Os rapazes esqueceram por um -instante as opiniões politicas e ficaram a olhar longamente a figura -de Corinna. O logista, apesar dos seus setenta annos, tinha os olhos -babados. Cuidou de sublinhar as formas, a cabeça, a bôca um tanto -grossa, mas expressiva, e dizia que não era caro. Como nenhum quizesse -compral-a, talvez por ser só uma, disse-lhes que ainda tinha outro, mas -esse era «uma pouca vergonha,» phrase que os deuses lhe perdoariam, -quando soubessem que elle não quiz mais que abrir o appetite aos -freguezes. E foi a um armario, tirou de lá, e trouxe uma Diana, núa -como vivia cá em baixo, outr'ora, nos mattos. Nem por isso a vendeu. -Teve de contentar-se com os retratos politicos. - -Quiz ainda ver se colhia algum dinheiro, vendendo-lhes um retrato de -Pedro I, encaixilhado, que pendia da parede; mas, Pedro recusou por não -ter dinheiro disponivel, e Paulo disse que não daria um vintem pela -«cara de traidores». Antes não dissesse nada! O logista, tão depressa -lhe ouviu a resposta como despiu as fôrmas obsequiosas, vestiu outras -indignadas, e bradou que sim, senhor, que o moço tinha razão. - ---Tem muita razão. Foi um traidor, mau filho. mau irmão, mau tudo. -Fez todo o mal que pôde a este mundo; e no inferno, onde está, se a -religião não mente, deve ainda fazer mal ao Diabo. Este moço falou ha -pouco em rei martyr,--continuou mostrando-lhes um retrato de D. Miguel -de Bragança, meio perfil, sobrecasaca, mão ao peito,--este é que foi -um verdadeiro martyr daquelle, que lhe roubou o throno, que não era -seu, para dal-o a quem não pertencia; e foi morrer á mingua o meu pobre -rei e senhor, dizem que na Allemanha, ou não sei onde. Ah! _malhados!_ -Ah! filhos do Diabo! Os senhores não podem imaginar o que era aquella -canalha de liberaes. Liberaes! Liberaes do alheio! - ---É tudo a mesma farinha, reflexionou Paulo. - ---Eu não sei se elles eram de farinha, sei que levaram muita pancada. -Venceram, mas apanharam deveras. Meu pobre rei! - -Pedro quiz responder ao remoque do irmão, e propoz comprar o retrato -de Pedro I. Quando o logista tornou a si, começou a negociar a venda, -mas não poderam entender-se no preço; Pedro dava os mesmos oitocentos -reis do outro, o logista pedia dous mil reis. Notava-lhe que estava -encaixilhado, e Luiz XVI não; além disso, era mais novo. E vinha á -porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a attenção para o rosto, -os olhos principalmente, que bella expressão que tinham! E o manto -imperial... - ---Que lhe custa dar dous mil reis? - ---Dou-lhe dez tostões; serve? - ---Não serve. Mais que isso me custou elle. - ---Pois então... - ---Veja sempre. Pois isto não vale até trez mil reis? 0 papel não está -encardido; a gravura é fina. - ---Dez tostões, já disse. - ---Não, senhor. Olhe, por dez tostões leve este de D. Miguel; o papel -está bem conservado, e, com pouco dinheiro, manda lhe pôr um caixilho. -Vá; dez tostões. - ---Se eu já estou arrependido... Dez tostões pelo imperador. - ---Ah! isso não! Custou-me mil e setecentos, ha trez semanas; ganho uns -trezentos reis, quasi nada. Ganho menos com o senhor D. Miguel, mas -tambem concordo que é menos procurado. Este de D. Pedro I, se passar -amanhã, talvez já o não ache. Vá, sim? - ---Eu passo depois. - -Paulo já ia andando e mirando Robespierre; Pedro alcançou-o. - ---Olhe, leve por sete tostões o senhor D. Miguel! - -Pedro abanou a cabeça. - ---Seis tostões serve? - -Pedro, ao lado do irmão, desenrolára a sua gravura. O velho logista -quiz ainda bradar: «Cinco tostões!» mas iam já longe, e ficava mal -negociar assim. - - - - -CAPITULO XXV - - -D. Miguel - - ---Assim como assim, ficou pensando o velho, não ha de ser enrolado e -guardado que o hei de vender; vou mandal-o encaixilhar; põem-se-lhe -aqui umas taboinhas velhas... - -D. Miguel voltou para elle os olhos turvos de tristeza e reproche; -assim lhe pareceu ao vidraceiro, mas podia ter sido illusão. Em todo -caso, pareceu tambem que os olhos tornavam ao seu logar, fitando á -direita, ao longe... Para onde? Para onde ha justiça eterna, cuidou -naturalmente o dono. Como estivesse a contemplal-o, á porta, parou um -homem, entrou, e olhou com interesse para o retrato. O logista reparou -na expressão; podia ser algum miguelista, mas tambem podia ser um -colleccionador... - ---Quanto pede o senhor por isto? - ---Isto? Ha de perdoar; quer saber quanto peço pelo meu rico senhor -D. Miguel? Não peço muito, está um tanto encardido, mas ainda se lhe -aprecia bem a figura. Que soberba que ella é! Não é caro; dou-lhe pelo -custo; se estivesse encaixilhado, valeria uns quatro mil reis. Leve-o -por trez. - -O freguez tirou tranquillamente o dinheiro do bolso, emquanto o velho -enrolava o retrato, e, trocados um por outro, despediram-se cortezes e -satisfeitos; o logista, depois de ir até a porta, tornou á cadeira do -costume. Talvez pensasse no mal a que escapára, se vendesse o retrato -por dez tostões. Em todo caso, ficou a olhar para fóra, para longe, -para onde ha justiça eterna... Trez mil reis! - - - - -CAPITULO XXVI - - -A luta dos retratos - - -Quasi que não é preciso dizer o destino dos retratos do rei e do -convencional. Cada um dos pequenos pregou o seu á cabeceira da cama. -Pouco durou esta situação, porque ambos faziam pirraças ás pobres -gravuras, que não tinham culpa de nada. Eram orelhas de burro, nomes -feios, desenhos de animaes, até que um dia Paulo rasgou a de Pedro, -e Pedro a de Paulo. Naturalmente, vingaram-se a murro; a mãe ouviu -rumor e subiu apressada. Conteve os filhos, mas já os achou arranhados -e recolheu-se triste. Nunca mais acabaria aquella maldição de -rivalidade? Fez esta pergunta calada, atirada á cama, a cara mettida no -travesseiro, que desta vez ficou secco, mas a alma chorou. - -Natividade confiava na educação, mas a educação, por mais que ella -a apurasse, apenas quebrava as arestas ao caracter dos pequenos, o -essencial ficava; as paixões embryonarias trabalhavam por viver, -crescer, romper, taes quaes ella sentira os dous no proprio seio, -durante a gestação... E recordava a crise de então, acabando por -maldizer da cabocla do Castello. Realmente, a cabocla devia ter calado; -o mal calado não se muda, mas não se sabe. Agora, póde ser que isto -de não calar confirme a opinião de que a cabocla era mandada por Deus -para dizer a verdade aos homens. E afinal o que é que ella disse a -Natividade? Não fez mais que uma pergunta mysteriosa; a predicção é que -foi luminosa e clara... E outra vez as palavras do Castello resoaram -aos ouvidos da mãe, e a imaginação fez o resto. Cousas futuras! Eil-os -grandes e sublimes. Algumas brigas em pequenos, que importa? Natividade -sorriu, ergueu-se, foi á porta, deu com o filho Pedro, que vinha -explicar-se. - ---Mamãe, Paulo é mau. Se mamãe ouvisse os horrores que elle solta pela -bôca fóra, mamãe morria de medo. Custa-me muito não ir á cara delle; -ainda lhe não tirei um olho... - ---Meu filho, não fales assim, é teu irmão. - ---Pois que não se metta commigo, não me aborreça. Que blasphemias que -elle dizia! Como eu rezava por alma de Luiz XVI, elle, para machucar-me -bem, rezava a Robespierre; compoz uma ladainha chamando santo ao outro -e cantarolava baixinho para que papae nem mamãe ouvissem. Eu sempre lhe -dei alguns cascudos... - ---Ahi está! - ---Mas é que elle é que me dava primeiro, porque eu punha orelhas de -burro em Robespierre... Então, eu havia de apanhar calado? - ---Nem calado, nem falando. - ---Então, como? Apanhar sempre, não é? - ---Não, senhor; não quero pancadas; o melhor é que esqueçam tudo e se -queiram bem. Você não vê como seus paes se querem? As brigas acabaram -de todo. Não quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal que tem vocês com -um sujeito mau que morreu ha tantos annos? - ---É o que eu digo, mas elle não se emenda. - ---Ha de emendar-se; os estudos fazem esquecer creancices. Você tambem -quando fôr medico tem muito que brigar com as molestias e a morte; é -melhor que andar dando pancada em seu irmão... Que é lá isso? Não quero -arremeços, Pedro! Socegue, ouça-me. - ---Mamãe é sempre contra mim. - ---Não sou contra nenhum, sou por ambos, ambos são meus filhos. E -demais gemeos. Anda cá, Pedro. Não penses que eu desapprovo as tuas -opiniões politicas. Até gósto; são as minhas, são as nossas. Paulo ha -de tel-as tambem. Na edade delle acceita-se quanta tolice ha, mas o -tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperança é que vocês sejam grandes -homens, mas com a condição de serem tambem grandes amigos. - ---Eu estou prompto a ser grande homem, assentiu Pedro com ingenuidade, -quasi com resignação. - ---E grande amigo tambem. - ---Se elle fôr, serei. - ---Grandes homens! exclamou Natividade, dando-lhe dous abraços, um para -elle, outro para o irmão quando viesse. - -Mas Paulo veiu logo, e recebeu o abraço inteiro e de verdade. Vinha -tambem queixar-se, e sempre resmungou alguma cousa, mas a mãe não quiz -ouvil-o, e falou outra vez a linguagem das grandezas. Paulo consentiu -tambem em ser grande. - ---Você será medico, disse Natividade a Pedro, e você advogado. Quero -ver quem faz as melhores curas, e ganha as peiores demandas. - ---Eu, disseram ambos a um tempo. - ---Patetas! Cada um terá a sua carreira especial, a sua sciencia -differente. Já estão curados do nariz? Já; não ha mais sangue. Agora o -primeiro que ferir seu irmão será degradado. - -Foi um recurso habil separal-os; um ficava no Rio, estudando medicina, -outro ia para S. Paulo, estudar direito. O tempo faria o resto, não -contando que cada um casava e iria com a mulher para o seu lado. Era a -paz perpetua; mais tarde viria a perpetua amizade. - - - - -CAPITULO XXVII - - -De uma reflexão intempestiva - - -Eis aqui entra uma reflexão da leitora: «Mas se duas velhas gravuras os -levam a murro e sangue, contentar-se-hão elles com a sua esposa? Não -quererão a mesma e unica mulher?» - -O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capitulo do amor -ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Dahi a -habilidade da pergunta, como se dissesse: «Olhe que o senhor ainda nos -não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas ou pleiteadas por -estes dous jovens inimigos. Já estou cançada de saber que os rapazes -não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto ás -blandicias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, ás -duas, se não é uma só a pessoa...» - -Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um -livro que está sendo escripto com methodo. A insistencia da leitora em -falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Supponha que elles -devéras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a -leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que -succedeu e póde ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora -minha, não puz a penna na mão, á espreita do que me viessem suggerindo. -Se quer compôr o livro, aqui tem a penna, aqui tem papel, aqui tem um -admirador; mas, se quer ler sómente, deixe-se estar quieta, vá de linha -em linha; dou-lhe que boceje entre dous capitulos, mas espere o resto, -tenha confiança no relator destas aventuras. - - - - -CAPITULO XXVIII - - -O resto é certo - - -Sim, houve uma pessoa, mais moça que elles, um a dous annos, que os -agrilhoou, á força de costume ou de natureza, se não foi de ambas as -cousas. Antes d'essa, póde ser que houvesse outras e mais velhas que -elles, mas de taes não rezam as notas que servem a este livro. Se -brigaram por ellas, não ficou memoria disso, mas é possivel, dado que -tivessem tido as mesmas preferencias; no caso contrario tambem, como -succedia aos cavalleiros que defendiam a sua dama. - -Conjecturas tudo. Era natural que, assim bonitos, eguaes, elegantes, -dados á vida e ao passeio, á conversação e á dança, finalmente -herdeiros, era natural que mais de uma menina gostasse delles. As que -os viam passar a cavallo, praia fóra ou rua acima, ficavam namoradas -daquella ordem perfeita de aspecto e de movimento. Os proprios cavallos -eram eguaesinhos, quasi gemeos, e batiam as patas com o mesmo rythmo, -a mesma força e a mesma graça. Não creias que o gesto da cauda e das -crinas fosse simultaneo nos dous animaes; não é verdade e póde fazer -duvidar do resto. Pois o resto é certo. - - - -CAPITULO XXIX - - -A pessoa mais moça - - -A pessoa mais moça não entra já neste capitulo por uma razão valiosa, -que é a conveniencia de apresentar primeiro os paes. Não é que se -não possa vel-a bem sem elles; póde-se, os trez são diversos, acaso -contrarios, e, por mais especial que a acheis, não é preciso que os -paes estejam presentes. Nem sempre os filhos reproduzem os paes. Camões -affirmou que de certo pae só se podia esperar tal filho, e a sciencia -confirma esta regra poetica. Pela minha parte creio na sciencia como na -poesia, mas ha excepções, amigo. Succede, ás vezes, que a natureza faz -outra cousa, e nem por isso as plantas deixam de crescer e as estrellas -de luzir. O que se deve crêr sem erro é que Deus é Deus; e, se alguma -rapariga arabe me estiver lendo, ponha-lhe Allah. Todas as linguas vão -dar ao céu. - - - - -CAPITULO XXX - - -A gente Baptista - - -A gente Baptista conheceu a gente Santos em não sei que fazenda da -provincia do Rio. Não foi Maricá, embora alli tivesse nascido o pae dos -gemeos; seria em qualquer outro municipio. Fosse qual fosse, alli é que -se conheceram as duas familias, e como morassem proximas em Botafogo, a -assiduidade e a sympathia vieram ajudando o caso fortuito. - -Baptista, o pae da donzella, era homem de quarenta e tantos annos, -advogado do civel, ex-presidente de provincia e membro do partido -conservador. A ida á fazenda tivera por objecto exactamente uma -conferencia politica para fins eleitoraes, mas tão esteril que elle -tornou de lá sem, ao menos, um ramo de esperança. Apesar de ter amigos -no governo, não alcançára nada, nem deputação, nem presidencia. -Interrompêra a carreira desde que foi exonerado daquelle cargo «a -pedido», disse o decreto, mas as queixas do exonerado fariam crêr outra -cousa. De facto, perdera as eleições, e attribuia a esse desastre -politico a demissão do cargo. - ---Não sei o que é que elle queria que eu fizesse mais, dizia Baptista -falando do ministro. Cerquei egrejas; nenhum amigo pediu policia que eu -não mandasse; processei talvez umas vinte pessoas, outras foram para a -cadeia sem processo. Havia de enforcar gente? Ainda assim houve duas -mortes no Ribeirão das Moças. - -O final era excessivo, porque as mortes não fôram obra delle; quando -muito, elle mandou abafar o inquerito, si se póde chamar inquerito a -uma simples conversação sobre a ferocidade dos dous defuntos. Em summa, -as eleições fôram incruentas. - -Baptista dizia que por causa das eleições perdera a presidencia, -mas corria outra versão, um negocio de aguas, concessão feita a um -hespanhol, a pedido do irmão da esposa do presidente. O pedido era -verdadeiro, a imputação de socio é que era falsa. Não importa; tanto -bastou para que a folha da opposição dissesse que houve naquillo um -bom «arranjo de familia», accrescentando que, como era de aguas, devia -ser negocio limpo. A folha da administração retorquiu que, se aguas -havia, não eram bastantes para lavar o sujo do carvão deixado pela -ultima presidencia liberal, um fornecimento de palacio. Não era exacto; -a folha da opposição reviveu o processo antigo e mostrou que a defeza -fôra cabal. Podia parar aqui, mas continuou que, «como agora estavamos -em Hespanha», o presidente emendou o poeta hespanhol, autor daquelle -epitaphio: - - Cuñados y juntos: - Es cierto que estan difuntos; - -e emendou-o por não ser obrigado a matar ninguem, antes deu vida a si e -aos seus, dizendo pela nossa lingua: - - Cunhados e cunhadissimos; - É certo que são vivissimos! - -Baptista acudiu depressa ao mal, declarando sem effeito a concessão, -mas isso mesmo serviu á opposição para novos arremeços: «Temos a -confissão do reu!» foi o titulo do primeiro artigo que rendeu á folha -da opposição o acto do presidente. Os correspondentes tinham já -escripto para o Rio de Janeiro falando da concessão, e o governo acabou -por demittir o seu delegado. Em verdade, só os politicos cuidaram do -negocio. D. Claudia apenas alludia á campanha da imprensa, que foi -violentissima. - ---Não valia a pena sair daqui, disse Natividade. - ---Lá isso não, baroneza! - -E D. Claudia affirmou que valia. Soffre-se, mas paciencia. Era tão bom -chegar á provincia! Tudo annunciado, as visitas a bordo, o desembarque, -a posse, os comprimentos... Ver a magistratura, o funcionalismo, a -officialidade, muita calva, muito cabello branco, a flor da terra, -emfim, com as suas cortezias longas e demoradas, todas em angulo ou em -curva, e os louvores impressos. As mesmas descomposturas da opposição -eram agradaveis. Ouvir chamar tyranno ao marido, que ella sabia ter -um coração de pomba, ia bem á alma della. A sêde de sangue que se lhe -attribuia, elle que nem bebia vinho, o guante de ferro de um homem -que era uma luva de pellica, a immoralidade, a desfaçatez, a falta de -brio, todos os nomes injustos, mas fortes, que ella gostava de ler, -como verdades eternas, onde iam elles agora? A folha da opposição era -a primeira que D. Claudia lia em palacio. Sentia-se vergastada tambem -e tinha nisso uma grande volupia, como si fosse na propria pelle; -almoçava melhor. Onde iam os lategos daquelle tempo? Agora mal podia -ler o nome delle impresso no fim de algumas razões do foro, ou então na -lista das pessoas que iam visitar o imperador. - ---Nem sempre, explicou D. Claudia; Baptista é muito acanhado; vae de -longe em longe a S. Christovão, para não parecer que se faz lembrado, -como se isto fosse crime; ao contrario, não ir nunca é que póde parecer -arrufo. Note que o imperador nunca deixou de recebel-o com muita -benevolencia, e a mim tambem. Nunca esqueceu o meu nome. Já deixei de -lá ir dous annos, e quando appareci, perguntou-me logo: «Como vae, D. -Claudia?» - -Afóra essas saudades do poder, D. Claudia era uma creatura feliz. A -viveza das palavras e das maneiras, os olhos que pareciam não ver nada -á força de não pararem nunca, e o sorriso benevolo, e a admiração -constante, tudo nella era ajustado a curar as melancolias alheias. -Quando beijava ou mirava as amigas era como se as quizesse comer vivas, -comer de amor, não de odio, mettel-as em si, muito em si, no mais fundo -de si. - -Baptista não tinha as mesmas expansões. Era alto e o ar socegado dava -um bom aspecto de governo. Só lhe faltava acção, mas a mullher podia -inspirar-lh'a; nunca deixou de consultal-a nas crises da presidencia. -Agora mesmo, se lhe désse ouvidos, já teria ido pedir alguma cousa -ao governo, mas neste ponto era firme, de uma firmeza que nascia da -fraqueza: «Hão de chamar-me, deixa estar,» dizia elle a D. Claudia, -quando apparecia alguma vaga de governo provincial. Certo é que elle -sentia a necessidade de tornar á vida activa. Nelle a politica era -menos uma opinião que uma sarna; precisava coçar-se a miudo e com força. - - - - -CAPITULO XXXI - - -Flora - - -Tal era aquelle casal de politicos. Um filho, se elles tivessem um -filho varão, podia ser a fusão das suas qualidades oppostas, e talvez -um homem de Estado. Mas o céu negou-lhes essa consolação dynastica. - -Tinham uma filha unica, que era tudo o contrario d'elles. Nem a paixão -de D. Claudia, nem o aspecto governamental de Baptista distinguia a -alma ou a figura da joven Flora. Quem a conhecesse por esses dias, -poderia comparal-a a um vaso quebradiço ou á flor de uma só manhã, e -teria materia para uma doce elegia. Já então possuia os olhos grandes -e claros, menos sabedores, mas dotados de um mover particular, que -não era o espalhado da mãe, nem o apagado do pae, antes mavioso e -pensativo, tão cheio de graça que faria amavel a cara de um avarento. -Põe-lhe o nariz aquilino, rasga-lhe a bôca meio risonha, formando tudo -um rosto comprido, alisa-lhe os cabellos ruivos, e ahi tens a moça -Flora. - -Nasceu em agosto de 1871. A mãe, que datava por ministerios, nunca -negou a edade da filha: - ---Flora nasceu no ministerio Rio-Branco, e foi sempre tão facil de -aprender, que já no ministerio Sinimbú sabia ler escrever correntemente. - -Era retrahida e modesta, avêssa a festas publicas, e difficilmente -consentiu em aprender a dançar. Gostava de musica, e mais do piano que -do canto. Ao piano, entregue a si mesma, era capaz de não comer um -dia inteiro. Ha ahi o seu tanto de exagerado, mas a hyperbole é deste -mundo, e as orelhas da gente andam já tão entupidas que só á força de -muita rhetorica se póde metter por ellas um sopro de verdade. - -Até aqui nada ha que extraordinariamente distinga esta moça das outras, -suas contemporaneas, desde que a modestia vae com a graça, e em certa -edade é tão natural o devaneio como a travessura. Flora, aos quinze -annos, dava-lhe para se metter comsigo. Ayres, que a conheceu por esse -tempo, em casa de Natividade, acreditava que a moça viria a ser uma -inexplicavel. - ---Como diz? inquiriu a mãe. - ---Verdadeiramente, não digo nada, emendou Ayres; mas, se me permitte -dizer alguma cousa, direi que esta moça resume as raras prendas de sua -mãe. - ---Mas eu não sou inexplicavel, replicou D. Claudia sorrindo. - ---Ao contrario, minha senhora. Tudo está, porem, na definição que -dermos a esta palavra. Talvez não haja nenhuma certa. Supponhamos uma -creatura para quem não exista perfeição na terra, e julgue que a mais -bella alma não passa de um ponto de vista; se tudo muda com o o ponto -de vista, a perfeição... - ---A perfeição é copas, insinuou Santos. - -Era um convite ao voltarete. Ayres não teve animo de acceitar, tão -inquieta lhe pareceu Flora, com os olhos nelle, interrogativos, -curiosos de saber porque é que ella era ou viria a ser inexplicavel. -Além disso, preferia a conversação das mulheres. É delle esta phrase do -_Memorial:_ «Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no homem, aggrava.» - -Não foi preciso acceitar nem recusar o convite de Santos; chegaram dous -habituados do jogo, e com elles Baptista, que estava na saleta proxima, -Santos foi ao recreio de todas as noites. Um daquelles era o velho -Placido, doutor em spiritismo; o segundo era um corretor da praça, -chamado Lopes, que amava as cartas pelas cartas, e sentia menos perder -dinheiro que partidas. Lá se fôram ao voltarete, emquanto Ayres ficava -no salão, a ouvir a um canto as damas, sem que os olhos de Flora se -despegassem d'elle. - - - - -CAPITULO XXXII - - -O aposentado - - -Já então este ex-ministro estava aposentado. Regressou ao Rio de -Janeiro, depois de um ultimo olhar ás cousas vistas, para aqui viver -o resto dos seus dias. Podia fazel-o em qualquer cidade, era homem de -todos os climas, mas tinha particular amor á sua terra, e por ventura -estava cançado de outras. Não attribuia a esta tantas calamidades. A -febre amarella, por exemplo, á força de a desmentir lá fóra, perdeu-lhe -a fé, e cá dentro, quando via publicados alguns casos, estava já -corrompido por aquelle credo que attribue todas as molestias a uma -variedade de nomes. Talvez porque era homem sadio. - -Não mudára inteiramente; era o mesmo ou quasi. Encalveceu mais, é -certo, terá menos carnes, algumas rugas; ao cabo, uma velhice rija de -sessenta annos. Os bigodes continuam a trazer as pontas finas e agudas. -O passo é firme, o gesto grave, com aquelle toque de galanteria, que -nunca perdeu. Na botoeira, a mesma flor eterna. - -Tambem a cidade não lhe pareceu que houvesse mudado muito. Achou algum -movimento mais, alguma opera menos, cabeças brancas, pessoas defuntas; -mas a velha cidade era a mesma. A propria casa delle no Cattete estava -bem conservada. Ayres despediu o inquilino, tão polidamente como se -recebesse o ministro dos negocios estrangeiros, e metteu-se nella a si -e a um criado, por mais que a irmã teimasse em leval-o para Andarahy. - ---Não, mana Rita, deixe-me ficar no meu canto. - ---Mas eu sou a sua ultima parenta, disse ella. - ---De sangue e de coração, isso é, concordou elle; póde accrescentar que -a melhor de todas e a mais pia. Onde estão aquelles cabellos...? Não -precisa baixar os olhos. Você os cortou para metter no caixão de seu -finado marido. Os que ahi estão embranqueceram; mas os que lá ficaram -eram pretos, e mais de uma viuva os teria guardado todos para as -segundas nupcias. - -Rita gostou de ouvir aquella referencia. Outr'ora, não; pouco depois de -viuva, tinha vexame de um acto tão sincero; achava-se quasi ridicula. -Que valia cortar os cabellos por haver perdido o melhor dos maridos? -Mas, andando o tempo, entrou a ver que fizera bem, a approvar que lh'o -dissessem, e, na intimidade, a lembral-o. Agora serviu a allusão para -replicar: - ---Pois se eu sou isso, porque é que você prefere viver com extranhos? - ---Que extranhos? Não vou viver com ninguem. Viverei com o Cattete, o -largo do Machado, a praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das -pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das -lojas. Ha lá cousas exquisitas, mas sei eu se venho achar em Andarahy -uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que -sabemos. Lá os meus pés andam por si. Ha alli cousas petrificadas e -pessoas immortaes, como aquelle Custodio da confeitaria, lembra-se? - ---Lembra-me, a _Confeitaria do Imperio._ - ---Ha quarenta annos que a estabeleceu; era ainda no tempo em que os -carros pagavam imposto de passagem. Pois o diabo está velho, mas não -acaba; ainda me ha de enterrar. Parece rapaz; apparece-me lá todas as -semanas. - ---Você tambem parece rapaz. - ---Não brinque, mana; eu estou acabado. Sou um velho gamenho, pôde ser; -mas não é por agradar a moças, é porque me ficou este geito... E a -proposito, porque não vae você morar commigo? - ---Ah! é para saber que tambem eu gosto de estar commigo. Irei lá de vez -em quando, mas já não saio d'aqui, se não para o cemiterio. - -Ajustaram visitar um ao outro; Ayres viria jantar ás quinta-feiras. -D. Rita ainda lhe falou dos casos de molestia d'elle, ao que Ayres -replicou que não adoecia nunca, mas se adoecesse viria para Andarahy; -o coração della era o melhor dos hospitaes. Talvez que em todas essas -recusas houvesse tambem a necessidade de fugir á contradicção, porque a -irmã sabia inventar occasiões de dissidencia. Naquelle mesmo dia (era -ao almoço) elle achou o café delicioso, mas a irmã disse que era ruim, -obrigando-o a um grande esforço para tornar atraz e achal-o detestavel. - -A principio, Ayres cumpriu a solidão, separou-se da sociedade, -metteu-se em casa, não apparecia a ninguem ou a raros e de longe em -longe. Em verdade estava cançado de homens e de mulheres, de festas -e de vigilias. Fez um programma. Como era dado a letras classicas, -achou no padre Bernardes esta traducção daquelle psalmo: «Alonguei-me -fugindo e morei na soedade.» Foi a sua divisa. Santos, se lh'a dessem, -fal-a-hia esculpir, á entrada do salão, para regalo dos seus numerosos -amigos. Ayres deixou-a estar em si. Alguma vez gostava de a recitar -calado, parte pelo sentido, parte pela linguagem velha: «Alonguei-me -fugindo e morei na soedade.» - -Assim foi a principio, Às quinta-feiras ia jantar com a irmã. Às -noites passeava pelas praias, ou pelas ruas do bairro. O mais do tempo -era gasto em ler e reler, compôr o _Memorial_ ou rever o composto, -para relembrar as cousas passadas. Estas eram muitas e de feição -diversa, desde a alegria até a melancolia, enterramentos e recepções -diplomaticas, uma braçada de folhas seccas, que lhe pareciam verdes -agora. Alguma vez as pessoas eram designadas por um X ou ***, e elle -não acertava logo quem fossem, mas era um recreio procural-as, achal-as -e completal-as. - -Mandou fazer um armario envidraçado, onde metteu as reliquias da vida, -retratos velhos, mimos de governos e de particulares, um leque, uma -luva, uma fita e outras memorias femininas, medalhas e medalhões, -camafeus, pedaços de ruinas gregas e romanas, uma infinidade de cousas -que não nomeio, para não encher papel. As cartas não estavam lá, viviam -dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por linguas, -por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capitulos e seriam -lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete -encardido e sem data, moço como os bilhetes velhos, assignado por -iniciaes, um M e um P, que elle traduzia com saudades. Não vale a pena -dizer o nome. - - - - -CAPITULO XXXIII - - -A solidão tambem cança - - -Mas tudo cança, até a solidão. Ayres entrou a sentir uma ponta -de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha sede de gente viva, -extranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Mettia-se por bairros -excentricos, trepava aos morros, ia ás egrejas velhas, ás ruas novas, -á Copacabana e á Tijuca. O mar alli, aqui o matto e a vista acordavam -nelle uma infinidade de ecos, que pareciam as proprias vozes antigas. -Tudo isso escrevia, ás noites, para se fortalecer no proposito da vida -solitaria. Mas não ha proposito contra a necessidade. - -A gente extranha tinha a vantagem de lhe tirar a solidão, sem lhe dar a -conversação. As visitas de rigor que elle fazia eram poucas, breves e -apenas faladas. E tudo isso fôram os primeiros passos. A pouco e pouco -sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das salas, a saudade -do riso, e não tardou que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado -no emprego da recreação. A solidão, tanto no texto biblico, como na -traducção do padre, era archaica. Ayres trocou-lhe uma palavra e o -sentido; «Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente.» - -Assim se foi o programma da vida nova. Não é que elle já a não -entendesse nem amasse, ou que a não praticasse ainda alguma vez, a -espaços, como se faz uso de um remedio que obriga a ficar na cama ou -na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a -outra gente, ouvil-a, cheiral-a, gostal-a, apalpal-a, applicar todos os -sentidos a um mundo que podia matar o tempo, o immortal tempo. - - - - -CAPITULO XXXIV - - -Inexplicavel - - -Assim o deixámos, ha apenas dous capitulos, a um canto da sala da gente -Santos, em conversação com as senhoras. Has de lembrar-te que Flora -não despegava os olhos delle, anciosa de saber porque é que a achava -inexplicavel. A palavra rasgava-lhe o cerebro, ferindo sem penetrar. -Inexplicavel que era? Que se não explica, sabia; mas que se não explica -porquê? - -Quiz perguntal-o ao conselheiro, mas não achou occasião, e elle saiu -cedo. A primeira vez, porém, que Ayres foi a S. Clemente, Flora -pediu-lhe familiarmente o obsequio de uma definição mais desenvolvida. -Ayres sorriu e pegou na mão da mocinha, que estava de pé. Foi só o -tempo de inventar esta resposta: - ---Inexplicavel é o nome que podemos dar aos artistas que pintam sem -acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra tinta, muita tinta, -pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a arvore é arvore, nem -a choupana choupana. Se se trata então de gente, adeus. Por mais que -os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que elles não -dizem nada. E retocam com tanta paciencia, que alguns morrem entre dous -olhos, outros matam-se de desespero. - -Flora achou a explicação obscura; e tu, amiga minha leitora, se acaso -és mais velha e mais fina que ella, póde ser que a não aches mais -clara. Elle é que não accrescentou nada, para não ficar incluido entre -os artistas daquella especie. Bateu paternalmente na palma da mão de -Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem; como é que não -iriam bem os estudos? E sentando-se ao pé delle, a mocinha confessou -que tinha ideia justamente de aprender desenho e pintura, mas se havia -de pôr tinta de mais ou de menos, e acabar não pintando nada, melhor -seria ficar só na musica. A musica ia bem com ella, o francez tambem, e -o inglez. - ---Pois só a musica, o inglez e o francez, concordou Ayres. - ---Mas o senhor promette que não me achará inexplicavel? pergunta ella -com doçura. - -Antes que elle respondesse, entrarám na sala os dous gemeos. Flora -esqueceu um assumpto por outro, e o velho pelos rapazes. Ayres não se -demorou mais que o tempo de a ver rir com elles, e sentir em si alguma -cousa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer, creio. - - - - -CAPITULO XXXV - - -Em volta da moça - - -Já então os dous gemeos cursavam, um a Faculdade de Direito, em S. -Paulo; outro a Escola de Medicina, no Rio. Não tardaria muito que -saissem formados e promptos, um para defender o direito e o torto da -gente, outro para ajudal-a a viver e a morrer. Todos os contrastes -estão no homem. - -Não era tanta a politica que os fizesse esquecer Flora, nem tanta -Flora que os fizesse esquecer a politica. Tambem não eram taes as duas -que prejudicassem estudos e recreios. Estavam na edade em que tudo se -combina sem quebra de essencia de cada cousa. Lá que viessem a amar a -pequena com egual força é o que se podia admittir desde já, sem ser -preciso que ella os attrahisse de vontade. Ao contrario, Flora ria com -ambos, sem rejeitar nem acceitar especialmente nenhum; póde ser até que -nem percebesse nada. Paulo vivia mais tempo ausente. Quando tornava -pelas férias, como que a achava mais cheia de graça. Era então que -Pedro multiplicava as suas finezas para se não deixar vencer do irmão, -que vinha prodigo dellas. E Flora recebia-as todas com o mesmo rosto -amigo. - -Note-se--e este ponto deve ser tirado á luz,--note-se que os dous -gemeos continuavam a ser parecidos e eram cada vez mais esbeltos. -Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança diminuia em -cada um delles a feição pessoal. Demais, Flora simulava ás vezes -confundil-os, para rir com ambos. E dizia a Pedro: - ---Dr. Paulo! - -E dizia a Paulo: - ---Dr. Pedro! - -Em vão elles mudávam da esquerda para a direita e da direita para a -esquerda. Flora mudava os nomes tambem, e os trez acabávam rindo. A -familiaridade desculpava a acção e crescia com ella. Paulo gostava mais -de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com o piano -que com a conversa; Flora tocava. Ou então fazia ambas as cousas, e -tocava falando, soltava a rédea aos dedos e á lingua. - -Taes artes, postas ao serviço de taes graças, eram realmente de -accender os gemeos, e foi o que succedeu pouco a pouco. A mãe della -cuido que percebeu alguma cousa; mas a principio não lhe deu grande -cuidado. Tambem ella foi menina e moça, tambem se dividiu a si sem se -dar nada a ninguem. Póde ser até que, a seu parecer, fosse um exercicio -necessario aos olhos do espirito e da cara. A questão é que estes se -não corrompessem, nem se deixassem ir atraz de cantigas, como diz o -povo, que assim exprime os feitiços de Orpheu. Ao contrario, Flora -é que fazia de Orpheu, ella é que era a cantiga. Opportunamente, -escolheria a um delles, pensava a mãe. - -A intimidade tinha intervallos grandes, além das ausencias obrigadas -de Paulo. Apesar de não sair, Pedro não a buscava sempre, nem ella ia -muita vez á casa da praia. Não se viam dias e dias. Que pensassem um no -outro, é possivel; mas não possuo o menor documento disto. A verdade -é que Pedro tinha os seus companheiros de escola, os namoros de rua -e de aventura, os partidos de theatro, os passeios á Tijuca e outros -arrabaldes. Ao demais, os dous gemeos estavam ainda no ponto de falar -della nas cartas, louval-a, descrevel-a, dizer mil cousas doces, sem -ciume. - - - - -CAPITULO XXXVI - - -A discordia não é tão feia como se pinta - - -A discordia não é tão feia como se pinta, meu amigo. Nem feia, nem -esteril. Conta só os livros que tem produzido, desde Homero até cá, sem -excluir... Sem excluir qual? Ia dizer que este, mas a Modestia acena-me -de longe que pare aqui. Paro aqui; e viva a Modestia, que mal supporta -a letra capital que lhe ponho, a letra e os vivas, mas ha de ir com -ella e com elles. Viva a Modestia, e excluamos este livro; fiquem só -os grandes livros epicos e tragicos, a que a Discordia deu vida, e -digam-me se tamanhos effeitos não provam a grandeza da causa. Não, a -discordia não é tão feia como se pinta. - -Teimo nisto para que as almas sensiveis não comecem de tremer pela moça -ou pelos rapazes. Não ha mister tremer, tanto mais que a discordia dos -dous começou por um simples accordo, naquella noite. Costeavam a praia, -calados, pensando só, até que ambos, como se falassem para si, soltaram -esta phrase unica: - ---Está ficando bem bonita. - -E voltando-se um para outro: - ---Quem? - -Ambos sorriram; acharam pico ao simultaneo da reflexão e da pergunta. -Sei que este phenomeno é tal qual o do capitulo XXV, quando elles -disseram da edade, mas não me culpem a mim; eram gemeos, podiam ter -o falar gemeo. O principal é que não se amofináram; não era ainda -amor o que sentiam. Cada um expoz a sua opinião ácerca das graças da -pequena, o gesto, a voz, os olhos e as mãos, tudo com tão boa sombra, -que excluia a ideia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha -da melhor prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura; -mas como acabavam achando um total harmonico, era visto que não -brigavam por isso. Nenhum delles attribuia ao outro a cousa vaga ou o -qur quer que era que principiavam a sentir, e mais pareciam esthetas -que enamorados. Aliás, a mesma politica os deixou em paz essa noite: -não brigaram por ella. Não é que não sentissem alguma cousa opposta, -á vista da praia e do céu, que estavam deliciosos. Lua cheia, agua -quieta, vozes confusas e esparsas, algum tilbury a passo ou a trote, -segundo ia vasio ou com gente. Tal ou qual brisa fresca. - -A imaginação os levou então ao futuro, a um futuro brilhante, como elle -é em tal edade. Botafogo teria um papel historico, uma enseada imperial -para Pedro, uma Veneza republicana para Paulo, sem doge, nem conselho -dos dez, ou então um doge com outro titulo, um simples presidente, que -se casaria em nome do povo com este pequenino Adriatico. Talvez o doge -fosse elle mesmo. Esta possibilidade, apesar dos annos verdes, enfunou -a alma do moço. Paulo viu-se á testa de uma republica, em que o antigo -e o moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma -Convenção Nacional, a Republica Franceza e os Estados-Unidos da America. - -Pedro, á sua parte, construia a meio caminho como um palacio para a -representação nacional, outro para o imperador, e via-se a si mesmo -ministro e presidente do conselho. Falava, dominava o tumulto e as -opiniões, arrancava um voto á Camara dos deputados ou então expedia -um decreto de dissolução. É uma minucia, mas merece inseril-a aqui: -Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente nos decretos de -dissolução. Via-se em casa, com o acto assignado, referendado, copiado, -mandado aos jornaes e ás Camaras, lido pelos secretarios, archivado -na secretaria, e os deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando, -outros irados. Só elle estava tranquillo, no gabinete, recebendo os -amigos que iam comprimental-o e pedir os recados para a provincia. - -Taes eram as grandes pinceladas da imaginação dos dous. As estrellas -recebiam no céu todos os pensamentos dos rapazes, a lua seguia quieta -e a vaga da praia estirava-se com a preguiça do costume. Voltaram a si -ao pé de casa. Tal ou qual impulso quiz leval-os a discutir ácerca do -tempo e da noite, da temperatura e da enseada. Algum murmurio vago póde -ser que lhes fizesse mover os beiços e começar a quebrar o silencio, -mas o silencio era tão augusto que concordáram em respeital-o. E logo -acháram de si para si, que a lua era esplendida, a enseada bella e a -temperatura divina. - - - - -CAPITULO XXXVII - - -Desaccordo no accordo - - -Não esqueça dizer que, em 1888, uma questão grave e gravissima os fez -concordar tambem, ainda que por diversa razão. A data explica o facto: -foi a emancipação dos escravos. Estavam então longe um do outro, mas a -opinião uniu-os. - -A differença unica entre elles dizia respeito á significação da -reforma, que para Pedro era um acto de justiça, e para Paulo era o -inicio da revolução. Elle mesmo o disse, concluindo um discurso em -S. Paulo, no dia 20 de maio: «A abolição é a aurora da liberdade; -esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco.» - -Natividade ficou attonita quando leu isto; pegou da penna e escreveu -uma carta longa e maternal. Paulo respondeu com trinta mil expressões -de ternura, declarando no fim que tudo lhe poderia sacrificar, -inclusive a vida e até a honra; as opiniões é que não. «Não, mamãe; as -opiniões é que não.» - ---As opiniões é que não, repetiu Natividade acabando de ler a carta. - -Natividade não acabava de entender os sentimentos do filho, ella que -sacrificára as opiniões aos principios, como no caso de Ayres, e -continuou a viver sem macula. Como então não sacrificar...? Não achava -explicação. Relia a phrase da carta e a do discurso; tinha medo de o -ver perder a carreira politica, se era a politica que o faria grande -homem. «Emancipado o preto, resta emancipar o branco», era uma ameaça -ao imperador e ao imperio. - -Não atinou... Nem sempre as mães atinam. Não atinou que a phrase do -discurso não era propriamente do filho; não era de ninguem. alguem a -proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de -terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era -nova, era energica, era expressiva, ficou sendo patrimonio commum. - -Ha phrases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre; -quando menos pensam, estão governando o mundo, á semelhança das ideias. -As proprias ideias nem sempre conservam o nome do pae; muitas apparecem -orphãs, nascidas de nada e de ninguem. Cada um pega dellas, verte-as -como póde, e vae leval-as á feira, onde todos as têm por suas. - - - - -CAPITULO XXXVIII - - -Chegada a proposito - - -Quando, ás duas horas da tarde do dia seguinte, Natividade se metteu no -bonde, para ir a não sei que compras na rua do Ouvidor, levava a phrase -comsigo. A vista da enseada não a distraiu, nem a gente que passava, -nem os incidentes da rua, nada; a phrase ia diante e dentro della, com -o seu aspecto e tom de ameaça. No Cattete, alguem entrou de salto, -sem fazer parar o vehiculo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha -tambem que, posto o pé no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga, -caminhou para lá rapido e acceitou a ponta do banco que ella lhe -offereceu. Depois dos primeiros comprimentos: - ---Pareceu-me vel-a olhar assustada, disse Ayres. - ---Naturalmente, não imaginei que fosse capaz deste acto de gymnastica. - ---Questão de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me -cair, as rodam passam por cima... - ---Fosse como fosse, chegou a proposito. - ---Chego sempre a proposito. Já lhe ouvi isso, uma vez, ha muitos -annos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não me esqueceu o motivo; -creio que falavam da cabocla do Castello. Não se lembra de uma tal ou -qual cabocla que morava no Castello, e adivinhava a sorte da gente? -Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer cousas do arco da velha. Como -sempre tive fé em Sybillas, acreditei na cabocla. Que fim levou ella? - -Natividade olhou para elle, como receiando se teria adivinhado então -a consulta que ella fez á cabocla. Pareceu-lhe que não, sorriu e -chamou-lhe incredulo. Ayres negou que fosse incredulo; ao contrario, -sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo. -E concluiu: - ---Mas, emfim, porque é que chego a proposito? - -Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espirito -repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta -senhora, uma confiança que ella não achava agora em ninguem, ou acharia -em poucos. Falou-lhe de uma confidencia, um papel que não mostraria ao -marido. - ---Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incommodar a meu -marido? Quando muito, contarei o negocio a mana Perpetua. Acho melhor -não dizer nada a Agostinho. - -Ayres concordou que não valia a pena aborrecel-o se era caso disso, e -esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade -dos filhos, já manifesta em politica, e tratando especialmente de -Paulo, repetiu-lhe a phrase da carta e perguntou o que compria fazer -mais util. Ayres entendeu que que eram ardores da mocidade. Que não -teimasse; teimando, elle mudaria de palavras, mas não de sentimentos. - ---Então crê que Paulo será sempre isto? - ---Sempre, não digo; tambem não digo o contrario. Baroneza, a senhora -exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que ha definitivo -neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha. -Ha quantos dias não sei o que é uma licença? É verdade que não tenho -apparecido. E depois, o prazer da conversação paga bem o das cartas. -Aposto que os homens casados que lá vão são de outro parecer? - ---Talvez. - ---Só os solteirões podem avaliar as ideias das mulheres. Um viuvo sem -filhos, como eu, vale por um solteirão; minto, aos sessenta annos, como -eu, vale por dous ou trez. Quanto ao joven Paulo, não pense mais no -discurso. tambem eu discursei em rapaz. - ---Já cuidei em casal-os. - ---Casar é bom, assentiu Ayres. - ---Não digo casar já, mas daqui a dous ou trez annos. Talvez faça -antes uma viagem com elles. Que lhe parece? Vamos lá, não me responda -repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que -uma viagem?... - ---Acho que uma viagem... - ---Acabe. - ---As viagens fazem bem, mormente na edade delles. Formam-se para o -anno, não é? Pois então! Antes de começar qualquer carreira, casados ou -não, é util ver outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de -ir com elles? - ---As mães... - ---Mas eu tambem (desculpe interrompel-a) mas eu tambem sou seu filho. -Não acha que o costume, o bom rosto, a graça, a affeição e todas as -prendas grisalhas que a adornam compõem uma especie maternidade? Eu -confesso-lhe que ficaria orphão. - ---Pois venha comnosco. - ---Ah! baroneza, para mim ja não ha mundo que valha um bilhete de -passagem. Vi tudo por varias linguas. Agora o mundo começa aqui no -caes da Gloria ou na rua do Ouvidor e acaba no cemiterio de S. João -Baptista. Ouço que ha uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do -Cajú, mas eu sou um velho incredulo, como a senhora dizia ha pouco, -e não acceito essas noticias sem prova cabal e visual, e para ir -averigual-as, faltam-me pernas. - ---Sempre gracioso! Não as vi treparem agora? Sua irmã disse-me outro -dia que o senhor anda como aos trinta annos. - ---Rita exagera. Mas, voltando á viagem, a senhora ainda não comprou os -bilhetes? - ---Não. - ---Não os encommendou sequer? - ---Tambem não. - ---Então, pensemos em outra cousa. Cada dia traz a sua occupação, quanto -mais as semanas e os mezes. Pensemos em outra cousa, e deixe lá o Paulo -pedir a republica. - -Natividade achou comsigo que elle tinha razão; depois, pensou em -outra cousa, e esta foi a ideia do principio. Não disse logo o que -era; preferiu conversar alguns minutos. Não era difficil com este -sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair na -banalidade nem subir ás nuvens; tinha um modo particular, que não sei -se estava na ideia, se no gesto, se na palavra. Não é que falasse mal -de ninguem, e aliás seria uma distracção. Quero crêr que não dissesse -mal por indifferença ou cautella; provisoriamente, ponhamos caridade. - ---Mas, a senhora ainda me não disse o que queria de mim, além do -conselho. Ou não quer mais nada? - ---Custa-me pedir-lhe. - ---Peça sempre. - ---Sabe que os meus dous gemeos não combinam em nada, ou só em pouco, -por mais esforços que eu tenha feito para os trazer a certa harmonia. -Agostinho não me ajuda; tem outros cuidados. Eu mesma já não me sinto -com forças, e então pensei que um amigo, um homem moderado, um homem de -sociedade, habil, fino, cautelloso, intelligente, instruido... - ---Eu, em summa? - ---Adivinhou. - ---Não adivinhei; é o meu retrato em pessoa. Mas então que lhe parece -que possa fazer? - ---Póde corrigil-os por boas maneiras, fazel-os unidos, ainda quando -discordem, e que discordem pouco ou nada. Não imagina; parece até -proposito. Não discordam da côr da lua, por exemplo, mas aos onze -annos, Pedro descobriu que as sombras da lua eram nuvens, e Paulo -que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu é que os separei. -Imagine em politica... - ---Imagine em amores, diga logo; mas não é propriamente para este caso... - ---Oh! não! - ---Para os outros é egualmente inutil, mas eu nasci para servir, ainda -inutilmente. Baroneza, o seu pedido equivale a nomear-me aio ou -preceptor... Não faça gestos; não me dou por diminuido. Comtanto que -me pague os ordenados... E não se assuste; peço pouco, pague-me em -palavras; as suas palavras são de ouro. Já lhe disse que toda a minha -acção é inutil. - ---Porque? - ---É inutil. - ---Uma pessoa de autoridade, como o senhor, póde muito, comtanto que os -ame, por que elles são bons, creia. Conhece-os bem? - ---Pouco. - ---Conheça-os mais e verá. - -Ayres concordou rindo. Para Natividade valia por uma tentativa nova. -Confiava na acção do conselheiro, e para dizer tudo... Não sei se -diga... Digo. Natividade contava com a antiga inclinação do velho -diplomata. As cans não lhe tirariam o desejo de a servir. Não sei quem -me lê nesta occasião. Se é homem, talvez não entenda logo, mas se é -mulher creio que entenderá. Se ninguem entender, paciencia; baste saber -que elle prometteu o que ella quiz, e tambem prometteu calar-se; foi a -condição que a outra lhe poz. Tudo isso polido, sincero e incredulo. - - - - -CAPITULO XXXIX - - -Um gatuno - - -Chegaram ao largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ella entrou -pela rua Gonçalves Dias, elle enfiou pela da Carioca. No meio desta, -Ayres encontrou um magote de gente parada, logo depois andando em -direcção ao largo. Ayres quiz arrepiar caminho, não de medo, mas de -horror. Tinha horror á multidão. Viu que a gente era pouca, cincoenta -ou sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a prisão de um homem. -Entrou n'um corredor, á espera que o magote passasse. Duas praças -de policia traziam o preso pelo braço. De quando em quando, este -resistia, e então era preciso arrastal-o ou forçal-o por outro methodo. -Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira. - ---Não furtei nada! bradava o preso detendo o passo. É falso! -Larguem-me! sou um cidadão livre! Protesto! protesto! - ---Siga para a estação! - ---Não sigo! - ---Não siga! bradava a gente anonyma. Não siga! não siga! - -Uma das praças quiz convencer a multidão que era verdade, que o sujeito -furtara uma carteira, e o desassocego pareceu minorar um pouco; mas, -indo a praça a andar com a outra e o preso,--cada uma pegando-lhe um -dos braços, a multidão recomeçou a bradar contra a violencia. O preso -sentiu-se animado, e ora lastimoso, ora aggressivo, convidava a defeza. -Foi então que a outra praça desembainhou a espada para fazer um claro. -A gente voou, não airosamente, como a andorinha ou a pomba, em busca -do ninho ou do alimento, voou de atropello, pula aqui, pula alli, pula -acolá, para todos os lados. A espada entrou na bainha, e o preso seguiu -com as praças. Mas logo os peitos tomaram vingança das pernas, e um -clamor ingente, largo, desaffrontado, encheu a rua e a alma do preso. A -multidão fez-se outra vez compacta e caminhou para a estação policial. -Ayres seguiu caminho. - -A vozeria morreu pouco a pouco, e Ayres entrou na Secretaria do -Imperio. Não achou o ministro, parece, ou a conferencia foi curta. -Certo é que, saindo á praça, encontrou partes do magote que tornavam -commentando a prisão e o ladrão. Não diziam ladrão, mas gatuno, fiando -que era mais doce, e tanto bradavam ha pouco contra a acção das praças, -como riam agora das lastimas do preso. - ---Ora o sujeito! - -Mas então?... perguntarás tu. Ayres não perguntou nada. Ao cabo, havia -um fundo de justiça naquella manifestação dupla e contradictoria; foi o -que elle pensou. Depois, imaginou que a grita da multidão protestante -era filha de um velho instincto de resistencia á autoridade. Advertiu -que o homem, uma vez creado, desobedeceu logo ao Creador, que aliás -lhe dera um paraiso para viver; mas não ha paraiso que valha o gosto -da opposição. Que o homem se acostume ás leis, vá; que incline o collo -á força e ao bel-prazer, vá tambem; é o que se dá com a planta, quando -sopra o vento. Mas que abençoe a força e cumpra as leis sempre, sempre, -sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão. Ia -assim cogitando o conselheiro Ayres. - -Não lhe attribuam todas essas ideias. Pensava assim, como se falasse -alto, á mesa ou na sala de alguem. Era um processo de critica mansa e -delicada, tão convencida em apparencia, que algum ouvinte, á cata de -ideias, acabava por lhe apanhar uma ou duas... - -Ia a descer pela rua Sete de Setembro, quando a lembrança da vozeria -trouxe a de outra, maior e mais remota. - - - - -CAPITULO XL - - -Recuerdos - - -Essa outra vozeria maior e mais remota não caberia aqui, se não fosse -a necessidade de explicar o gesto repentino com que Ayres parou na -calçada. Parou, tornou a si e continuou a andar com os olhos no chão e -a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde elle servira na qualidade de -addido de legação. Estava em casa, de palestra com uma actriz da moda, -pessoa chistosa e garrida. De repente, ouviram um clamor grande, vozes -tumultuosas, vibrantes, crescentes... - ---Que rumor é este, Carmen? perguntou elle entre duas caricias. - ---Não se assuste, amigo meu; é o governo que cae. - ---Mas eu ouço acclamações... - ---Então é o governo que sobe. Não se assuste. Amanhã é tempo de ir -comprimental-o. - -Ayres deixou-se ir rio abaixo daquella memoria velha, que lhe surdia -agora do alarido de cincoenta ou sessenta pessoas. Essa especie de -lembranças tinha mais effeito nelle que outras. Recompoz a hora, o -logar e a pessoa da sevilhana. Carmen era de Sevilla. O ex-rapaz ainda -agora recordava a cantiga popular que lhe ouvia, á despedida, depois de -rectificar as ligas, compôr as saias, e cravar o pente no cabello,--no -momento em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graça: - - Tienen las sevillanas, - En la mantilla, - Um letrero que dice: - Viva Sevilla! - - -Não posso dar a toada, mas Ayres ainda a trazia de cór, e vinha a -repetil-a comsigo, vagarosamente, como ia andando. Outrosim, meditava -na ausencia de vocação diplomatica. A ascenção de um governo,--de -um regimen que fosse,--com as suas ideias novas, os seus homens -frescos, leis e acclamações, valia menos para elle que o riso da joven -comediante. Onde iria ella? A sombra da moça varreu tudo o mais, a -rua, a gente, o gatuno, para ficar só deante do velho Ayres, dando aos -quadris e cantarolando a trova andaluza: - - Tienen las sevillanas - En la mantilla... - - - - -CAPITULO XLI - - -Caso do burro - - -Se Ayres obedecesse ao seu gosto, e eu a elle, nem elle continuaria a -andar, nem eu começaria este capitulo; ficariamos no outro, sem nunca -mais acabal-o. Mas não ha na memoria que dure, se outro negocio mais -forte puxa pela attenção, e um simples burro fez desapparecer Carmen e -a sua trova. - -Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da travessa de S. -Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita -pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este espectaculo fez -parar o nosso Ayres, não menos condoido do asno que do homem. A força -despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não -sair do logar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o -diabo. Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos -durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha á pancada, -tirou a carroça do logar e foi andando. - -Nos olhos redondos do animal viu Ayres uma expressão profunda de -ironia e paciencia. Pareceu-lhe o gesto largo de espjrito invencivel. -Depois leu nelles este monologo: «Anda, patrão, atalha a carroça de -carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para -comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um -nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido -patrão. Emquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o -teu dominio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de -teimar... - ---Vê-se, quasi que se lhe ouve a reflexão, notou Ayres comsigo. - -Depois ria de si para si, e foi andando. Inventára tanta cousa no -serviço diplomatico, que talvez inventasse o monologo do burro. Assim -foi; não lhe leu nada nos olhos, a não ser a ironia e a paciencia, mas -não se pôde ter que lhes não désse uma forma de palavra, com as suas -regras de syntaxe. A propria ironia estaria acaso na retina delle. O -olho do homem serve de photographia ao invisivel, como o ouvido serve -de eco ao silencio. Tudo é que o dono tenha um lampejo de imaginação -para ajudar a memoria a esquecer Caracas e Carmen, os seus beijos e -experiencia politica. - - - - -CAPITULO XLII - - -Uma hypothese - - -Visões e reminiscencias iam assim comendo o tempo e o espaço ao -conselheiro, a ponto de lhe fazerem esquecer o pedido de Natividade; -mas não o esqueceu de todo, e as palavras trocadas ha pouco surdiam-lhe -das pedras da rua. Considerou que não perdia muito em estudar os -rapazes. Chegou a apanhar uma hypothese, especie de andorinha, que -avoaça entre arvores, abaixo e acima, pousa aqui, pousa alli, arranca -de novo um surto e toda se despeja em movimentos. Tal foi a hypothese -vaga e colorida, a saber, que se os gemeos tivessem nascido delle -talvez não divergissem tanto nem nada, graças ao equilibrio do seu -espirito. A alma do velho entrou a ramalhar não sei que desejos -retrospectivos, e a rever essa hypothese, outra Caracas, outra Carmen, -elle pae, estes meninos seus, toda a andorinha que se dispersava n'um -farfalhar calado de gestos. - - - - -CAPITULO XLIII - - -O discurso - - -Natividade é que não teve distracções de especie alguma. Toda ella -estava nos filhos, e agora especialmente na carta e no discurso. -Começou por não dar resposta ás effusões politicas de Paulo; foi um -dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas ferias tinha -esquecido a carta que escrevêra. O discurso é que elle não esqueceu, -mas quem é que esquece os discursos que faz? Se são bons, a memoria os -grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O -melhor dos remedios, no segundo caso, é suppol-os excellentes, e, se a -razão não acceita esta imaginação, consultar pessoas que a acceitem, e -crêr nellas. A opinião é um velho oleo incorruptivel. - -Paulo tinha talento. O discurso daquelle dia podia peccar aqui ou alli -por alguma emphasis, e uma ou outra ideia vulgar e exhausta. Tinha -talento Paulo. Em summa, o discurso era bom. Santos achou-o excellente, -leu-o aos amigos e resolveu transcrevel-o nos jornaes. Natividade não -se oppoz, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas. - ---Cortadas, porque? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta. - ---Pois você não vê, Agostinho; estas palavras tem sentido republicano, -explicou ella relendo a phrase que a affligira. - -Santos ouviu-as ler, leu-as para si, e não deixou de lhe achar razão. -Entretanto, não havia de as supprimir. - ---Pois não se transcreve o discurso. - ---Ah! isso não! O discurso é magnifico, e não ha de morrer em S. Paulo; -é preciso que a Côrte o leia, e as provincias tambem, e até não se me -daria fazel-o traduzir em francez. Em francez, póde ser que fique ainda -melhor. - ---Mas, Agostinho, isto póde fazer mal á carreira do rapaz; o imperador -póde ser que não goste... - -Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveiu -docemente para dizer que os receios da mãe não tinham base; era bom por -a phrase toda, e, a rigor, não difteria muito do que os liberaes diziam -em 1848. - ---Um monarchista liberal póde muito bem assignar esse trecho, concluiu -elle depois de reler as palavras do irmão. - ---Justamente! assentiu o pae. - -Natividade, que em tudo via a inimizade dos gemeos, suspeitou que o -intuito de Pedro fosse justamente comprometter Paulo. Olhou para elle -a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho -tinha então o aspecto do enthusiasmo. Pedro lia trechos do discurso, -accentuando as bellezas, repetindo as phrases mais novas, cantando as -mais redondas, revolvendo-as na bôca, tudo com tão boa sombra que a mãe -perdeu a suspeita, e a reimpressão do discurso foi resolvida. Tambem -se tirou uma edição em folheto, e o pae mandou encadernar ricamente -sete exemplares, que levou aos ministros, e um ainda mais rico para a -Regente. - ---Você diga-lhe, aconselhou Natividade, que o nosso Paulo é liberal -ardente... - ---Liberal de 1848, completou Santos lembrando as palavras de Pedro. - -Santos cumpriu tudo á risca. A entrega se fez naturalmente, e, no -palacio Isabel, a definição do «liberal de 1848» saiu mais viva que -as outras palavras, ou para diminuir o cheiro revolucionario da -phrase condemnada pela mulher, ou porque trazia valor historico. -Quando elle voltou a casa, a primeira cousa que lhe disse foi que a -Regente perguntara por ella, mas apesar de lisongeada com a lembrança, -Natividade quiz saber da impressão que lhe fizera o discurso, se já o -lêra. - ---Parece que foi boa. Disse-me que já havia lido o discurso. Nem por -isso deixei de lhe dizer que os sentimentos de Paulo eram bons; que, se -lhes notavamos certo ardor, comprehendiamos sempre que elles eram os de -um liberal de 1848... - ---Papae disse isso? perguntou Pedro. - ---Porque não, se é verdade? Paulo é o que se póde chamar um liberal de -1848, repetiu Santos querendo convencer o filho. - - - - -CAPITULO XLIV - - -O salmão - - -Pelas férias é que Paulo soube da interpretação que o pae dera á -Regente daquelle trecho do discurso. Protestou contra ella, em casa; -quiz fazel-o tambem em publico, mas Natividade interveiu a tempo. Ayres -pôz agua na fervura, dizendo ao futuro bacharel: - ---Não vale a pena, moço; o que importa é que cada um tenha a suas -ideias e se bata por ellas, até que ellas vençam. Agora que outros as -interpretem mal é cousa que não deve affligir o autor. - ---Affligir, sim, senhor; pôde parecer que é assim mesmo... Vou escrever -um artigo a proposito de qualquer cousa, e não deixarei duvidas... - ---Para que? inquiriu Ayres. - ---Não quero que supponham... - ---Mas quem duvida dos seus sentimentos? - ---Podem duvidar. - ---Ora, qual! Em todo caso, vá primeiro almoçar commigo um dia destes... -Olhe, vá domingo, e seu irmão Pedro tambem. Seremos trez á meza, um -almoço de rapazes. Beberemos certo vinho que me deu o ministro da -Allemanha... - -No domingo fôram os dous ao Cattete, menos pelo almoço que pelo -amphytrião. Ayres era amado dos dous; gostavam de ouvil-o, de -interrogal-o, pediam-lhe anecdotas politicas de outro tempo, descripção -de festas, noticias de sociedade. - ---Vivam os meus dous jovens, disse o conselheiro, vivam os meus dous -jovens que não esqueceram o amigo velho. Papae como está? E mamãe? - ---Estão bons, disse Pedro. - -Paulo accrescentou que ambos lhe mandavam lembranças. - ---E tia Perpetua? - ---Tambem está boa, disse Paulo. - ---Sempre com a homoepathia e as suas historias do Paraguay, -accrescentou Pedro. - -Pedro estava alegre, Paulo preoccupado. Depois das primeiras saudações -e noticias, Ayres notou essa differença, e achou que era bom para tirar -a monotonia da semelhança; mas, emfim, não queria caras fechadas, e -indagou do estudante de direito o que é que elle tinha. - ---Nada. - ---Não póde ser; acho-lhe um ar meio sorumbatico. Pois eu acordei -disposto a rir, e desejo que ambos riam commigo. - -Paulo rosnou uma palavra que nenhum delles entendeu e saccou do bolso -um maço de folhas de de papel. Era um artigo... - ---Um artigo? - ---Um artigo em que tiro todas as duvidas a meu respeito, e peço ao -senhor que me ouça, é pequeno. Escrevi-o a noite passada. - -Ayres propoz ouvil-o depois do almoço, mas o rapaz pediu que fosse -logo, e Pedro concordou com esto alvitre, allegando que, sobre o -almoço, podia perturbar a digestão, como ruim droga que devia ser, -naturalmente. Ayres metteu o caso á bulha e acceitou ouvir o artigo. - ---É pequeno, sete tiras. - ---Letra miuda? - ---Não, senhor; assim, assim. - -Paulo leu o artigo. Tinha por epigraphe isto de Amós: «Ouvi esta -palavra, vaccas gordas que estaes no monte de Samaria...» As vaccas -gordas eram o pessoal do regimen, explicou Paulo. Não atacava o -imperador, por attenção á mãe, mas com o principio e o pessoal era -violento e aspero. Ayres sentiu-lhe aquillo que, em tempo, se chamou «a -bossa da combatividade». Quando Paulo acabou, Pedro disse em ar de mofa: - ---Conheço tudo isso, são ideias paulistas. - ---As tuas são ideias coloniaes, replicou Paulo. - -Deste introito podiam nascer peores palavras, mas felizmente um criado -chegou á porta annunciando que o almoço estava na mesa. Ayres ergueu-se -e disse que á mesa daria a sua opinião. - ---Primeiro o almoço, tanto mais que temos um salmão, cousa especial. -Vamos a elle. - -Ayres queria cumprir deveras o officio que acceitara de Natividade. -Quem sabe se a ideia de pae espiritual dos gemeos, pae de desejo -somente, pae que não foi, que teria sido, não lhe dava uma affeição -particular e um dever mais alto que o de simples amigo? Nem é fóra de -proposito que elle buscasse sómente materia nova para as paginas nuas -de seu _Memorial._ - -Ao almoço, ainda se falou do artigo, Paulo com amor, Pedro com desdem, -Ayres sem uma nem outra cousa. O almoço ia fazendo o seu officio. Ayres -estudava os dous rapazes e suas opiniões. Talvez estas não passassem de -uma erupção de pelle da edade. E sorria, fazia-os comer e beber, chegou -a falar de moças, mas aqui os rapazes, vexados e respeitosos, não -acompanharam o ex-ministro. A politica veiu morrendo. Na verdade, Paulo -ainda se declarou capaz de derribar a monarchia com dez homens, e Pedro -de extirpar o germen republicano com um decreto. Mas o ex-ministro, sem -mais decreto que uma caçarola, nem mais homens que o seu cozinheiro, -envolveu os dous regimens no mesmo salmão delicioso. - - - - -CAPITULO XLV - - -Musa, canta... - - -No fim do almoço, Ayres deu-lhes uma citação de Homero, aliás duas, uma -para cada um, dizendo-lhes que o velho poeta os cantara separadamente, -Paulo no começo da _Illiada_: - ---«Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu, colera funesta aos -gregos, que precipitou á estancia de Plutão tantas almas válidas de -heroes, entregues os corpos ás aves e aos cães...» - -Pedro estava no começo da _Odyssea_: - ---«Musa, canta aquelle heroe astuto, que errou por tantos tempos, -depois de destruida a santa Illion...» - -Era um modo de definir o caracter de ambos, e nenhum delles levou -a mal a applicação. Ao contrario, a citação poetica valia por um -diploma particular. O facto é que ambos sorriram de fé, de acceitação, -de agradecimento, sem que achassem uma palavra ou syllaba com que -desmentissem o adequado dos versos. Que elle, o conselheiro, depois de -os citar em prosa nossa, repetiu-os no proprio texto grego e os dous -gemeos sentiram-se ainda mais épicos, tão certo é que traducções não -valem originaes. O que elles fizeram foi dar um sentido deprimente ao -que era applicavel ao irmão: - ---Tem razão, Sr. conselheiro,--disse Paulo,--Pedro é um velhaco... - ---E você é um furioso... - ---Em grego, meninos, em grego e em verso, que é melhor que a nossa -lingua e a prosa do nosso tempo. - - - - -CAPITULO XLVI - - -Entre um acto e outro - - -Aquelles almoços repetiram-se, os mezes passaram, vieram férias, -acabaram-se férias, e Ayres penetrava bem os gemeos. Escrevia-os no -_Memorial_, onde se lê que a consulta ao velho Placido dizia respeito -aos dous, e mais a ida á cabocla do Castello e a briga antes de nascer, -casos velhos e obscuros que elle relembrou, ligou e decifrou. - -Emquanto os mezes passam, faze de conta que estás no theatro, entre um -acto e outro, conversando. Lá dentro preparam a scena, e os artistas -mudam de roupa. Não vás lá; deixa que a dama, no camarim, ria com os -seus amigos o que chorou cá fóra com os espectadores. Quanto ao jardim -que se está fazendo, não te exponhas a vel-o pelas costas; é pura lona -velha sem pintura, porque só a parte do espectador é que tem verdes e -flores. Deixa-te estar cá fóra no camarote desta senhora. Examina-lhe -os olhos; tem ainda as lagrimas que lhe arrancou a a dama da peça. -Fala-lhe da peça e dos artistas. Que é obscura. Que não sabem os -papeis. Ou então que que é tudo sublime. Depois percorre os camarotes -com o binoculo, distribue justiça, chama bellas ás bellas e feias ás -feias, e não te esqueças de contar anecdotas que desfeiem as bellas, -e virtudes que componham as feias. As virtudes devem ser grandes e -as anecdotas engraçadas. Tambem as ha banaes, mas a mesma banalidade -na bôca de um bom narrador faz-se rara e preciosa. E verás como as -lagrimas séccam inteiramente, e a realidade substitue a ficção. Falo -por imagem; sabes que tudo aqui é verdade pura e sem choro. - - - - -CAPITULO XLVII - - -S. Matheus, IV, 1-10 - - -Se ha muito riso quando um partido sobe, tambem ha muita lagrima do -outro que desce, e do riso e da lagrima se faz o primeiro dia da -situação, como no Genesis. Venhamos ao evangelista que serve de titulo -ao capitulo. Os liberaes fôram chamados ao poder, que os conservadores -tiveram de deixar. Não é mister dizer que o abatimento de Baptista foi -enorme. - ---Justamente agora que eu tinha esperanças, disse elle á mulher. - ---De quê? - ---Ora de quê! de uma presidencia. Não disse nada, porque podiam falhar, -mas é quasi certo que não. Tive duas conferencias, não com ministros, -mas com pessoa influente que sabia, e era negocio de esperar um mez ou -dous... - ---Presidencia boa? - ---Boa. - ---Se você tivesse trabalhado bem... - ---Se tivesse trabalhado bem, podia estar já de posse, mas vinhamos -agora a toque de caixa. - ---Isso é verdade, concordou D. Claudia olhando para o futuro. - -Baptista passeava, as mãos nas costas, os olhos no chão, suspirando, -sem prever o tempo em que os conservadores tornariam ao poder. Os -liberaes estavam fortes e resolutos. As mesmas ideias pairavam na -cabeça de D. Claudia. Este casal só não era egual na vontade; as ideias -eram muitas vezes taes que, se apparecessem cá fóra, ninguem diria -quaes eram as delle, nem quaes as della, pareciam vir de um cerebro -unico. Naquelle momento nenhum achava esperança immediata ou remota. -Uma só ideia vaga... E foi aqui que a vontade de D. Claudia fincou os -pés no chão e cresceu. Não falo só por imagem; D. Claudia levantou-se -da cadeira, rapida, e disparou esta pergunta ao marido: - ---Mas, Baptista, você o que é que espera mais dos conservadores? - -Baptista parou com um ar digno e respondeu com simplicidade: - ---Espero que subam. - ---Que subam? Espera oito ou dez annos, o fim do seculo, não é? E nessa -occasião você sabe se será aproveitado? Quem se lembrará de você? - ---Posso fundar um jornal. - ---Deixe-se de jornaes. E se morrer? - ---Morro no meu posto de honra. - -D. Claudia olhou fixa para elle. Os seus olhos miudos enterravam-se -pelos delle abaixo, como duas verrumas pacientes. Subito, levantando as -mãos abertas: - ---Baptista, você nunca foi conservador! - -O marido empallideceu e recuou, como se ouvira a propria ingratidão de -um partido. Nunca fôra conservador? Mas que era elle então, que podia -ser neste mundo? Que é que lhe dava a estima dos seus chefes? Não lhe -faltava mais nada... D. Claudia não attendeu a explicações; repetiu-lhe -as palavras, e accrescentou. - ---Você estava com elles, Como a gente está n'um baile, onde não é -preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha. - -Baptista sorriu leve e rapido; amava as imagens graciosas e aquella -pareceu-lhe graciosissima, tanto que concordou logo; mas a sua estrella -inspirou-lhe uma refutação prompta. - ---Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com pernas. - ---Dance com que fôr, a verdade é que todas as suas ideias iam para os -liberaes; lembre-se que os dissidentes na provincia accusavam a você de -apoiar os liberaes... - ---Era falso; o governo é que me recommendava moderação. Posso mostrar -cartas. - ---Qual moderação! Você é liberal. - ---Eu liberal? - ---Um liberalão, nunca foi outra cousa. - ---Pense no que diz, Claudia. Se alguem a ouvir é capaz de crêr, e dahi -a espalhar... - ---Que tem que espalhe? Espalha a verdade, espalha a justiça, porque os -seus verdadeiros amigos não o hão de deixar na rua, agora que tudo se -organisa. Você tem amigos pessoaes no ministerio; porque é que os não -procura? - -Baptista recuou com horror. Isto de subir as escadas do poder e -dizer-lhe que estava ás ordens não era concebivel sequer. D. Claudia -admittiu que não, mas um amigo faria tudo, um amigo intimo do governo -que dissesse ao Ouro-Preto: «Visconde, você porque é que não convida -o Baptista? Foi sempre liberal nas ideias. Dê-lhe uma presidencia, -pequena que seja, e...» - -Baptista fez um gesto de hombros, outro de mão que se calasse. A -mulher não se calou; foi dizendo as mesmas cousas, agora mais graves -pela insistencia e pelo tom. Na alma do marido a catastrophe era já -tremenda. Pensando bem, não recusaria passar o Rubicon; só lhe faltava -a força necessaria. Quizera querer. Quizera não ver nada, nem passado, -nem presente, nem futuro, não saber de homens nem de cousas, e obedecer -aos dados da sorte, mas não podia. - -E façamos justiça ao homem. Quando elle pensava só na fidelidade aos -amigos sentia-se melhor; a mesma fé existia, o mesmo costume, a mesma -esperança. O mal vinha de olhar para o lado de lá; e era D. Claudia que -lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a vida, a marcha certa e -longa, a presidencia, o ministerio... Elle torcia os olhos e ficava. - -A sós comsigo, Baptista pensou muita vez na situação pessoal e -politica. Apalpava-se moralmente. Claudia podia ter razão. Que é que -havia nelle propriamente conservador, a não ser esse instincto de -toda creatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador em -politica, porque o pae o era, o tio, os amigos da casa, o vigario da -parochia, e elle começou na escola a execrar os liberaes. E depois não -era propriamente conservador, mas _saquarema_, como os liberaes eram -_luzias._ Baptista agarrava-se agora a estas designações obsoletas e -deprimentes que mudavam o estylo aos partidos; donde vinha que hoje -não havia entre elles o grande abysmo de 1842 e 1848. E lembrava-se -do visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso -não haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e -vice-versa. E evocava exemplos, o partido progressista, Olinda, Nabuco, -Zacharias, que fôram elles senão conservadores que comprehenderam -os tempos novos e tiraram ás ideias liberaes aquelle sangue das -revoluções, para lhes pôr uma côr viva, sim, mas serena. Nem o mundo -era dos emperrados... Neste ponto passou-lhe um frio pela espinha. -Justamente nessa occasião appareceu Flora. O pae abraçou-a com amor, e -perguntou-lhe se queria ir para alguma provincia, sendo elle presidente. - ---Mas os conservadores não cairam? - ---Cairam, sim, mas suppõe que... - ---Ah! não, papae! - ---Não, porquê? - ---Não desejo sair do Rio de Janeiro. - -Talvez o Rio de Janeiro para ella fosse Botafogo, e propriamente a -casa de Natividade. O pae não apurou as causas da recusa; suppol-as -politicas, e achou novas forças para resistir ás tentações de D. -Claudia: «Vae-te, Satanaz; porque escripto está: Ao Senhor teu Deus -adorarás, e a elle servirás.» E seguiu-se como na Escriptura: «Então -o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram.» Os anjos -fôram só um, que valia por muitos; e o pae lhe disse beijando-a -carinhosamente: - ---Muito bem, muito bem, minha filha. - ---Não é, papae? - -Não, não foi a filha que tolheu a deserção do pae. Ao contrario. -Baptista, se tivesse de ceder, cederia á mulher ou ao Diabo, synonimos -neste capitulo. Não cedeu de fraqueza. Não tinha a força precisa de -trahir os amigos, por mais que estes parecessem havel-o abandonado. -Ha dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos -lucrativas, moralmente falando. Não valem só stoicos e martyres. -Virtudes meninas tambem são virtudes. É certo, porém, que a linguagem -delle, em relação aos liberaes, não era já de odio ou impaciencia; -chegava á tolerancia, roçava pela justiça. Concordava que a alternação -dos partidos era um principio de necessidade publica. O que fazia era -animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D. Claudia opinava o -contrario; para ella, os liberaes iriam ao fim do seculo. Quando muito, -admittiu que na primeira entrada não déssem logar a um converso da -ultima hora; era preciso esperar um anno ou dous, uma vaga na camara, -uma commissão, a vice-presidencia do Rio... - - - - -CAPITULO XLVIII - - -Terpsichore - - -Nenhuma dessas cousas preoccupava Natividade. Mais depressa cuidaria -do baile da ilha Fiscal, que se realisou em novembro para honrar os -officiaes chilenos. Não é que ainda dançasse, mas sabia-lhe bem ver -dançar os outros, e tinha agora a opinião de que a dança é um prazer -dos olhos. Esta opinião é um dos effeitos daquelle mau costume de -envelhecer. Não pegues tal costume, leitora. Ha outros tambem ruins, -nenhum peor, este é o pessimo. Deixa lá dizerem philosophos que a -velhice é um estado util pela experiencia e outras vantagens. Não -envelheças, amiga minha, por mais que os annos te convidem a deixar a -primavera; quando muito, acceita o estio. O estio é bom, callido, as -noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o -céu apparece logo azul. Assim dançarás sempre. - -Bem sei que ha gente para quem a dança é antes um prazer dos olhos. Nem -as bailadeiras são outra cousa mais que mulheres de officio. Tambem -eu, se é licito citar alguem a si mesmo, tambem eu acho que a dança é -antes prazer dos olhos que dos pés, e a razão não é só dos annos longos -e grisalhos, mas tambem outra que não digo, por não valer a pena. Ao -cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem -nada que não seja das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso -pôr aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm. -Entende-se isto, sem ser preciso notal-o, mas não se perde nada em -repetil-o. - -Por exemplo, D. Claudia. tambem ella pensava no baile da ilha Fiscal, -sem a menor ideia de dançar, nem a razão esthetica da outra. Para ella, -o baile da ilha era um facto politico, era o baile do ministerio, -uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma -presidencia. Via-se já com a familia imperial. Ouvia a princeza: - ---Como vae, D. Claudia? - ---Perfeitamente bem, Serenissima senhora. - -E Baptista conversaria com o imperador, a um canto, deante dos olhos -invejosos que tentariam ouvir o dialogo, á força de os fitarem de -longe. O marido é que... Não sei que diga do marido relativamente ao -baile da ilha. Contava lá ir, mas não se acharia a gosto; póde ser que -traduzissem esse acto por meia conversão. Não é que só fossem liberaes -ao baile, tambem iriam conservadores, e aqui cabia bem o aphorismo de -D. Claudia que não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma -quadrilha. - -Santos é que não precisava de ideias para dançar. Não dançaria sequer. -Em moço dançou muito, quadrilhas, polkas, valsas, a valsa arrastada -e a valsa pulada, como diziam então, sem que eu possa definir melhor -a differença; presumo que na primeira os pés não saiam de chão, e na -segunda não caiam do ar. Tudo isso até os vinte e cinco annos. Então os -negocios pegaram delle e o metteram naquella outra contradança, em que -nem sempre se volta ao mesmo logar ou nunca se sáe delle. Santos saiu -e já sabemos onde está. UItimamente teve a fantasia de ser deputado. -Natividade abanou a cabeça, por mais que elle explicasse que não queria -ser orador nem ministro, mas tão sómente fazer da camara um degrau para -o senado, onde possuia amigos, pessoas de merecimento, e que era eterno. - ---Eterno? interrompeu ella com um sorriso fino e descorado. - ---Vitalicio, quero dizer. - -Natividade teimou que não, que a posição delle era commercial e -bancaria. Accrescentou que politica era uma cousa e industria outra. -Santos replicou, citando o barão de Mauá, que as fundiu ambas. Então a -mulher declarou por um modo secco e duro que aos sessenta annos ninguem -começa a ser deputado. - ---Mas é de passagem; os senadores são edosos. - ---Não, Agostinho, concluiu a baroneza com um gesto definitivo. - -Não conto Ayres, que provavelmente dançaria, a despeito dos annos; -tambem não falo de D. Perpetua, que nem iria lá. Pedro iria, e é -natural que dançasse, e muito, não obstante o afinco e paixão dos -seus estudos. Vivia enfeitiçado pela medicina. No quarto de dormir, -além do busto de Hyppocrates, tinha os retratos de algumas summidades -medicas da Europa, muito esqueleto gravado, muita molestia pintada, -peitos cortados verticalmente para se lhe verem os vasos, cerebros -descobertos, um cancro de lingua, alguns aleijões, cousas todas que a -mãe, por seu gosto mandaria deitar fóra, mas era a sciencia do filho, e -bastava. Contentava-se de não olhar para os quadros. - -Quanto a Flora, ainda verde para os meneios de Terpsichore, era -acanhada ou arrepiada, como dizia a mãe. E isto era o menos; o mais -era que com pouco se enfadaria, e, se não pudesse vir logo para casa, -ficaria adoentada o resto do tempo. Note-se que, estando na ilha, teria -o mar em volta, e o mar era um dos seus encantos; mas, se lhe lembrasse -o mar, e se consolasse com a esperança de o mirar, advertiria tambem -que a noite escura tolheria a consolação. Que multidão de dependencias -na vida, leitor! Umas cousas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, -confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si. - -Mas donde viria o tedio a Flora, se viesse? Com Pedro no baile, não; -este era, como sabes, um dos dous que lhe queriam bem. Salvo se ella -queria principalmente ao que estava em S. Paulo. Conclusão duvidosa, -pois não é certo que preferisse um a outro. Se já a vimos falar a -ambos com a mesma sympathia, o que fazia agora a Pedro na ausencia de -Paulo, e faria a Paulo na ausencia de Pedro, não me faltará leitora que -presuma um terceiro... Um terceiro explicaria tudo, um terceiro que não -fosse ao baile, algum estudante pobre, sem outro amigo nem mais casaca -que o coração verde e quente. Pois nem esse, leitora curiosa, nem -terceiro, nem quarto, nem quinto, ninguem mais. Uma exquisitona, como -lhe chamava a mãe. - -Não importa; a exquisitona foi ao baile da ilha Fiscal com a mãe e o -pae. Assim tambem Natividade, o marido e Pedro, assim Ayres, assim a -demais gente convidada para a grande festa. Foi uma bella ideia do -governo, leitor. Dentro e fóra, do mar e de terra, era como ura sonho -veneziano; toda aquella sociedade viveu algumas horas sumptuosas, novas -para uns, saudosas para outros, e de futuro para todos,--ou, quando -menos, para a nossa amiga Natividade--e para o conservador Baptista. - -Aquella considerava o destino dos filhos,--cousas futuras! Pedro bem -podia inaugurar, como ministro, o século XX e o terceiro reinado. -Natividade imaginava outro e maior baile naquella mesma ilha. Compunha -a ornamentação, via as pessoas e as danças, toda uma festa magna que -entraria na historia. Tambem ella alli estaria, sentada a um canto, -sem se lhe dar do peso dos annos, uma vez que visse a grandeza e a -prosperidade dos filhos. Era assim que enfiara os olhos pelo tempo -adiante, descontando no presente a felicidade futura, caso viesse a -morrer antes das prophecias, Tinha a mesma sensação que ora lhe dava -aquella cesta de luzes no meio da escuridão tranquilla do mar. - -A imaginação de Baptista era menos longa que a de Natividade. Quero -dizer que ia antes do principio do seculo, Deus sabe se antes do fim -do anno. Ao som da musica, á vista das galas, ouvia umas feiticeiras -cariocas, que se pareciam com as escossezas; pelo menos, as palavras -eram analogas ás que saudaram Macbeth:--«Salve, Baptista, ex-presidente -de provincia!»--«Salve, Baptista, proximo presidente de provincia!»-- -«Salve, Baptista, tu serás ministro um dia!» A linguagem dessas -prophecias era liberal, sem sombra de solecismo. Verdade é que elle se -arrependia de as escutar, e forcejava por traduzil-as no velho idioma -conservador, mas já lhe iam faltando diccionarios. A primeira palavra -ainda trazia o sotaque antigo: «Salve, Baptista, ex-presidente de -provincia!» mas a segunda e a ultima eram ambas daquella outra lingua -liberal, que sempre lhe pareceu lingua de preto. Emfim, a mulher, -como lady Macbeth, dizia nos olhos o que esta dizia pela bôca, isto -é, que já sentia em si aquellas futurações. O mesmo lhe repetiu na -manhã seguinte, em casa. Baptista, com um sorriso disfarçado, descria -das feiticeiras, mas a memoria guardava as palavras da ilha: «Salve, -Baptista, proximo presidente!» Ao que elle respondia com um suspiro: -Não, não, filhas do Diabo... - -Ao contrario do que ficou dito atraz, Flora não se aborreceu na ilha. -Conjecturei mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões -que lá ficara, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em -verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a visinhança do mar, -os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampiões de -gaz, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis ahi aspectos novos -que a encantaram durante aquellas horas rapidas. - -Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e propria. -Toda ella compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, corria, -esquecia-se do resto para se metter comsigo. Tambem invejava a princeza -imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto poder de -despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no -mais recondito do paço, fartando-se de contemplação ou de musica. Era -assim que Flora definia o officio de governar. Taes ideias passavam e -tornavam. De uma vez alguem lhe disse, como para lhe dar força: «Toda -alma livre é imperatriz!» - -Não foi outra voz, semelhante á das feiticeiras do pae nem ás que -falavam interiormente a Natividade, acerca dos filhos. Não; seria pôr -aqui muitas vozes de mysterio, cousa que, além do fastio da repetição, -mentiria á realidade dos factos. A voz que falou a Flora saiu da bôca -do velho Ayres, que se fôra sentar ao pé d'ella e lhe perguntara: - ---Em que é que está pensando? - ---Em nada, respondeu Flora. - -Ora, o conselheiro tinha visto no rosto da moça a expressão de alguma -cousa e insistia por ella. Flora disse como pôde a inveja que lhe -mettia a vista da princeza, não para brilhar um dia, mas para fugir ao -brilho e ao mando, sempre que quizesse ficar subdita de si mesma. Foi -então que elle lhe murmurou, como acima: - ---Toda alma livre é imperatriz. - -A phrase era boa, sonora, parecia conter a maior somma de verdade que -ha na terra e nos planetas. Valia por uma pagina de Plutarcho. Se algum -politico a ouvisse poderia guardal-a para os seus dias de opposição -ao governo, quando viesse o terceiro reinado. Foi o que elle mesmo -escreveu no _Memorial._ Com esta nota: «A meiga creatura agradeceu-me -estas cinco palavras». - - - - -CAPITULO XLIX - - -Taboleta velha - - -Toda a gente voltou da ilha com o baile na cabeça muita sonhou com -elle, alguma dormiu mal ou nada. Ayres foi dos que acordaram tarde; -eram onze horas. Ao meio dia almoçou; depois escreveu no _Memorial_ as -impressões da vespera, notou varias espaduas, fez reparos politicos e -acabou com as palavras que lá ficam no cabo do outro capitulo. Fumou, -leu, até que resolveu ir á rua do Ouvidor. Como chegasse á vidraça -de uma das janellas da frente, viu á porta da confeitaria uma figura -inesperada, o velho Custodio, cheio de melancolia. Era tão novo o -espectaculo que alli se deixou estar por alguns instantes; foi então -que o confeiteiro, levantando os olhos, deu com elle entre as cortinas, -e emquanto Ayres voltava para dentro, Custodio atravessou a rua e -entrou-lhe em casa. - ---Que suba, disse o conselheiro ao criado. - -Custodio foi recebido com a benevolencia de outros dias e um pouco mais -de interesse. Ayres queria saber o que é que o entristecia. - ---Vim para contal-o a V.-Ex.; é a taboleta. - ---Que taboleta? - ---Queira V.-Ex. ver por seus olhos, disse o confeiteiro, pedindo-lhe o -favor de ir á janella. - ---Não vejo nada. - ---Justamente, é isso mesmo. Tanto me aconselharam que fizesse reformar -a taboleta que afinal consenti, e fil-a tirar por dous empregados. A -visinhança veiu para a rua assistir ao trabalho e parecia rir de mim. -Já tinha falado a um pintor da rua da Assembléa; não ajustei o preço -porque elle queria ver primeiro a obra. Hontem, á tarde, lá foi um -caixeiro, e sabe V.-Ex. o que me mandou dizer o pintor? Que a taboa -está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta tinta. Lá fui ás -carreiras. Não pude convencel-o de pintar na mesma madeira; mostrou-me -que estava rachada e comida de bichos. Pois cá debaixo não se via. -Teimei que pintasse assim mesmo; respondeu-me que era artista e não -faria obra que se estragasse logo. - ---Pois reforme tudo. Pintura nova em madeira velha não vale nada. Agora -verá que dura pelo resto da nossa vida. - ---A outra tambem durava; bastava só avivar as letras. - -Era tarde, a ordem fora expedida, a madeira devia estar comprada, -serrada e pregada, pintado o fundo para então se desenhar e pintar -o titulo. Custodio não disse que o artista lhe perguntára pela côr -das letras, se vermelha, se amarella, se verde em cima de branco ou -vice-versa, e que elle, cautelosamente, indagára do preço de cada côr -para escolher as mais baratas. Não interessa saber quaes fôram. - -Quaesquer que fossem as côres, eram tintas novas, táboas novas, uma -reforma que elle, mais por economia que por affeição, não quizera -fazer; mas a affeição valia muito. Agora que ia trocar de taboleta -sentia perder algo do corpo,--cousa que outros do mesmo ou diverso ramo -de negocio não comprehenderiam, tal gosto acham em renovar as caras e -fazer crescer com ellas a nomeada. São naturezas. Ayres ia pensando em -escrever uma Philosophia das Taboletas, na qual poria taes e outras -observações, mas nunca deu começo a obra. - ---V.-Ex. hade-me perdoar o incommodo que lhe trouxe, vindo contar-lhe -isto, mas V.-Ex. é sempre tão bom commigo, fala-me com tanta amizade, -que eu me atrevi... Perdoa-me, sim? - ---Sim, homem de Deus. - ---Comquanto V.-Ex. approve a reforma da taboleta, sentirá commigo a -separação da outra, a minha amiga velha, que nunca me deixou, que eu, -nas noites de luminarias, por S. Sebastião e outras, fazia apparecer -aos olhos da gente. V.-Ex., quando se aposentou, veiu achal-a no mesmo -logar em que a deixou por occasião de ser nomeado. E tive alma para me -separar della! - ---Está bom, lá vae; agora é receber a nova, e verá como daqui a pouco -são amigos. - -Custodio saiu recuando, como era seu costume, e desceu tropego as -escadas. Deante da confeitaria deteve-se um instante, para ver o logar -onde estivera a taboleta velha. Deveras, tinha saudades. - - - - -CAPITULO L - - -O tinteiro de Evaristo - - ---...Este caso prova que tudo se póde amar muito bem, ainda um pedaço -de madeira velha. Creiam que não era só a despeza que elle naturalmente -sentia, eram tambem saudades. Ninguem se despega assim de um objecto -tão intimo, que faz parte integral da casa e da pelle, porque a -taboleta não foi sequer arriada um dia. Custodio não teve occasião de -ver se estava estragada. Vivia alli como as portadas e a parede. - -Era ao jantar, em Botafogo. Só quatro pessoas, as duas irmãs, Santos e -Ayres. Pedro fôra jantar a S. Clemente, com a familia Baptista. - -D. Perpetua approvou os sentimentos do confeiteiro. Citou, a proposito, -o tinteiro de Evaristo. A irmã sorriu para o marido, e este para a -mulher, como se dissessem: «lá vem elle!» Era um tinteiro que servira -ao famoso jornalista do primeiro reinado e da Regencia, obra simples, -feita de barro, egual aos tinteiros que a gente chã comprava nas lojas -de papel daquelle e deste tempo. O sogro de D. Perpetua, que lh'o dera -em lembrança, tivera um da mesma edade, massa e feição. - ---Veiu assim de mão em mão parar ás minhas. Não chega aos tinteiros -do mano Agostinho nem de Natividade, que são luxuosos, mas tem grande -valor para mim. - ---Sem duvida, concordou Ayres, valor historico e politico. - ---Meu sogro dizia que delle sairam os grandes artigos da _Aurora._ A -falar verdade, eu nunca li taes artigos, mas meu sogro era homem de -verdade. Conhecia a vida de Evaristo, por ouvil-a a outros, e fazia-lhe -louvores que não acabavam mais... - -Natividade buscou desviar a conversação para o baile da vespera. Tinham -já falado delle, mas não achou outro derivativo. Entretanto, o tinteiro -ainda ficou algum tempo. Não era só uma das lembranças de D. Perpetua, -reliquia de familia, era tambem uma de suas ideias. Prometteu mostral-o -ao conselheiro. Elle prometteu vel-o com muito gosto. Confessou que -tinha veneração aos objectos de uso dos grandes homens. Emfim, o jantar -acabou, e elles passaram ao salão. Ayres, falando da enseada: - ---Aqui está uma obra, que é mais velha que o tinteiro do Evaristo e a -taboleta do Custodio, e, não obstante, parece mais moça, não é verdade, -D. Perpetua? A noite é clara e quente; podia ser escura e fria, e o -effeito seria o mesmo. A enseada não differe de si. Talvez os homens -venham algum dia atulhal-a de terra e pedras para levantar casas em -cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corrida de -cavallos. Tudo é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, -barão, é que morreremos antes. - ---Nao fale em morte, conselheiro. - ---A morte é uma hypothese, redarguiu Ayres, talvez uma lenda. ninguem -morre de uma boa digestão, e os seus charutos são deliciosos. - ---Estes são novos. Perecem-lhe bons? - ---Deliciosos. - -Santos estimou ouvir este louvor; achava-lhe uma intenção directa á -sua pessoa, aos seus meritos, ao seu nome, á posição que tinha na -sociedade, á casa, á chacara, ao Banco, aos colletes. É talvez muito; -seria um modo emphatico de explicar a força da ligação delle aos -charutos. Valiam pela taboleta e pelo tinteiro, com a differença que -estes significavam só affeicção e veneração, e aquelles, valendo pelo -sabor e pelo preço, tinham a superioridade do milagre, pela reproducção -de todos os dias. - -Taes eram as suspeitas que vagavam no cerebro de Ayres, emquanto elle -olhava mansamente para o amphytrião. Ayres não podia negar a si mesmo a -aversão que este lhe inspirava. Não lhe queria mal, de certo; podia até -querer-lhe bem, se houvesse um muro entre ambos. Era a pessoa, eram as -sensações, os dizeres, os gestos, o riso, a alma toda que lhe fazia mal. - - - -CAPITULO LI - - -Aqui presente - - -Perto das nove horas, ou logo depois, chegou Pedro com o casal Baptista -e Flora. - ---Vimos trazer o seu menino, disse Baptista a Natividade. - ---Obrigado, doutor, acudiu Santos, mas elle je não está em edade de -se perder por essas ruas, e, se se perder, acha-se logo, accrescentou -sorrindo. - -Natividade não gostou da graça, tratando-se do filho e ao pé della. Era -talvez excesso de pudor. Ha muito excesso nesse sentido, e o acertado -é perdoal-o. Ha tambem excessos contrarios, condescendencias faceis, -pessoas que entram com prazer na troca de allusões picantes. tambem se -devem perdoar. Em summa, o perdão chega ao céu. Perdoai-vos uns aos -outros, é a lei do Evangelho. - -Elle, o rapaz, é que não ouviu nada; interrompera a conversa que trazia -com Flora, e trocadas algumas palavras, os dous fôram reatar o fio a um -canto. Ayres reparou na attitude de ambos; ninguem mais lhes prestava -attenção. Ao cabo, a conversa era em voz surda; não os poderiam ouvir. -Ella escutava, elle falava; depois era o contrario, ella é que falava, -elle é que ouvia, tão absortos que pareciam não attender a ninguem, mas -attendiam. Possuiam o sexto sentido dos conspiradores e dos namorados. -Que conversassem de amores, é possivel; mas que conspiravam, é certo. -Quanto á materia da conspiração, podereis sabel-a depois, brevemente, -daqui a um capitulo. O proprio Ayres não descobriu nada, por mais que -quizesse fartar os olhos naquelle dialogo de mysterios. Persuadiu-se -que não era grave, porque elles sorriam com frequencia; mas podia -ser intimo, escondido, pessoal, e acaso extranho. Suppõe um fio de -anecdotas ou uma historia comprida, cousa alheia; ainda assim podia ser -delles sómente, porque ha estados da alma em que a materia da narração -é nada, o gosto de a fazer e de a ouvir é que é tudo. Tambem podia ser -isto. - -Vêde, porém, como a natureza encaminha as cousas minimas ou maximas, -mormente se a fortuna a ajuda. A conversação tão doce, ao que parecia, -começou por um enfado. A causa foi uma carta de Paulo, escripta ao -irmão, e que este se lembrou de mostrar a Flora, dizendo-lhe que tambem -a mostrára á mãe, e a mãe se zangára muito. - ---Com o senhor? - ---Com Paulo. - ---Mas que dizia a carta? - -Pedro leu-lhe o ponto principal, que era quasi toda a carta; falava da -questão militar. Já havia a «questão militar», um conflicto de generaes -e ministros, e a linguagem de Paulo era contra os ministros. - ---Mas porque é que o senhor foi mostrar essa carta a sua mãe? - ---Mamãe quiz saber o que é que elle me dizia. - ---E sua mãe zangou-se, ahi está; vae talvez reprehendel-o. - ---Tanto melhor; Paulo precisa ser emendado; mas, diga-me, porque é que -a senhora defende sempre a meu irmão? - ---Para ter o direito de defender tambem ao senhor. - ---Então elle já lhe tem falado mal de mim? - -Flora quiz dizer que sim, depois que não, afinal calou. Desconversou, -perguntando porque elles se davam mal. Pedro negou que se dessem mal. -Ao contrario, viviam bem. Não teriam as mesmas opiniões, e tambem podia -ser que tivessem o mesmo gosto... Daqui a dizer que ambos a amavam era -uma virgula; Pedro pingou o ponto final. Esse astuto era tambem timido. -Mais tarde, comprehendeu que, calando, andou melhor, e deu a si mesmo o -applauso da escolha; mas era falso, não escolhera nada. Não digo isto -para fazel-o desmerecer; sim, porque o medo acerta muitas vezes, e é -mister deixar aqui esta reflexão. - -Veiu a zanga. Flora não replicou mais nada, e, por seu gosto, não teria -jantado, a tal ponto sentia piedade do outro. Felizmente, o outro era -este mesmo, aqui presente, com os olhos presentes, as mãos presentes, -as palavras presentes. Não tardou que a zanga fugisse deante da graça, -da brandura e da adoração. Bem-aventurados os que ficam, porque elles -serão compensados. - - - -CAPITULO LII - - -Um segredo - - -Eis agora a materia da conspiração. Na rua, ao virem de S. Clemente, -foi que Pedro, gastado o melhor do tempo com a carta e o jantar, pôde -revelar á moça um segredo: - ---Titia disse lá em casa que D. Claudia lhe contára em segredo (não -diga nada) que seu pae vae ser nomeado presidente de provincia. - ---Não sei nada disso, mas não creio, porque papae é conservador. - ---D. Claudia disse a titia que elle é liberal, quasi radical. Parece -que a presidencia é certa; ella pediu segredo, e titia, quando nos -contou, tambem pediu segredo. Eu tambem lhe peço que não diga nada, mas -é verdade. - ---Verdade como? Papae não vae com liberaes; o senhor não sabe como -papae é conservador. Se elle defende os liberaes é porque é tolerante. - ---Se a provincia fosse a do Rio de Janeiro, eu gostaria, porque não era -preciso ir morar na Praia Grande, e se elle fosse, a viagem é só de -meia hora, eu podia ir lá todos os dias. - ---Era capaz? - ---Apostemos. - -Flora, depois de um instante: - ---Para que, se não ha presidencia? - ---Supponha que ha. - ---É preciso suppôr muito,--que ha presidencia e que a provincia é a do -Rio. Não, não ha nada. - ---Então supponha só metade,--que ha presidencia e que é Matto-Grosso. - -Flora teve um calefrio. Sem admittir a nomeação, tremeu ao nome da -provincia. Pedro lembrou ainda o Amazonas, Pará, Piauhy... Era o -infinito, mormente se o pae fizesse boa administração, porque não -voltaria tão cedo. Já agora a moça resistia menos, achava possivel e -abominavel, mas dizia isto para si, dentro do coração. De repente, -Pedro, quasi estacando o passo: - ---Se elle fôr, eu peço ao governo o logar de secretario e vou tambem. - -A luz intermittente das lojas reflectindo no resto da moça, á medida -que elles iam passando por ellas, ajudava a dos lampiões da rua, e -mostrava a emoção daquella promessa. Sentia-se que o coração de Flora -devia estar batendo muito. Em breve, porém, começou ella a pensar em -outra cousa. Natividade não consentiria nunca; depois, um estudante... -Não podia ser. Pensou em algum escandalo. Que elle fugisse, embarcasse, -fosse atraz della... - -Tudo isto era visto ou pensado em silencio. Flora não se admirava -de pensar tanto e tão atrevidamente; era como o peso do corpo, que -não sentia: andava, pensava, como transpirava. Não calculou sequer -o tempo que ia gastando em imaginar e desfazer ideias. Que isto lhe -désse mais prazer que desprazer, é certo. Ao pé della, Pedro ia -naturalmente cuidando, com os olhos nos pés, e os pés nas nuvens. Não -sabia que dissesse no meio de tão longo silencio. Entretanto, a solução -parecia-lhe unica. Já não pensava na presidencia do Rio. Queria-se com -ella, no ponto mais remoto do imperio, sem o irmão. A esperança de se -desterrarem assim de Paulo verdejou na alma de Pedro. Sim, Paulo não -iria tambem; a mãe não se deixaria ficar desamparada. Que perdesse um -filho, vá; mas ambos... - -A quem quer que este final do monologo pareça egoista, peço-lhe -pelas almas dos seus parentes amigos, que estão no céu, peço-lhe -que considere bem as causas. Considere o estado da alma do rapaz, -a contiguidade da moça, as raizes e as flores da paixão, a propria -edade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma terra. Considere mais -a vontade do céu, que vela por todas as creaturas que se querem, -salvo se uma só é que quer a outra, porque então o céu é um abysmo de -iniquidades, e não lhe importe esta imagem. Considere tudo, amigo; -deixe-me ir contando só e contando mal o que se passou naquelle curto -transito entre as duas casas. Quando lá chegaram, falavam de bôca. - -Em cima, como viste, continuaram a falar, até que o assumpto da -presidencia voltou. Flora notou então a cautelosa insistencia com -que Ayres olhava para elles, como se buscasse adivinhar a materia da -conversação. Sentia que não estivesse alli tambem, ouvindo e falando, -finalmente promettendo fazer alguma cousa por ella. Ayres podia, -sim,--era seu amigo e todos o tinham em grande conta,--podia intervir e -destruir o projecto da presidencia. - -Sem querer nem saber, diria isto mesmo com os olhos ao velho diplomata. -Retirava-os, mas elles iam de si mesmos repetir o monologo, e acaso -perguntar alguma cousa que Ayres não percebia e devia ser interessante. -Póde ser que reflectissem a angustia ou o que quer que era que lhe doia -dentro. Póde ser; a verdade é que Ayres começou a ficar curioso, e tão -depressa Pedro deixou o logar para acudir ao chamado da mãe, deixou -elle Natividade para ir falar á moça. - -Flora, já de pé, mal teve tempo de trocar duas palavras, dessas -que se não podem interromper sem dôr ou prurido, ao menos. Ayres -perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar. - ---Não, senhor. - ---Pois sei; adivinhei agora mesmo que me quer dizer um segredo. - -Flora ficou espantada. Não querendo negar nem confessar, respondeu-lhe -que só adivinhára metade. - ---A outra é...? - ---A outra é pedir-lhe um obsequio de amizade. - ---Peça. - ---Não, agora não, já nos vamos embora; mamãe e papae estão fazendo as -despedidas. Só se fôr na rua. Quer vir comnosco a S. Clemente? - ---Com o maior prazer. - - - - -CAPITULO LIII - - -De confidencias - - -Entenda-se que não. Não era com prazer maior nem menor. Era imposição -de sociedade, desde que Flora o pedira, não sei se discretamente. Que -a isto ligasse tal ou qual desejo de saber algum segredo, não serei -eu que o negue, nem tu, nem elle mesmo. Ao cabo de alguns instantes, -Ayres ia sentindo como esta pequena lhe acordava umas vozes mortas, -falhadas ou não nascidas, vozes de pae. Os gemeos não lhe deram um dia -a mesma sensação, senão porque eram filhos de Natividade. Aqui não era -a mãe, era a mesma Flora, o seu gesto, a sua fala, e por ventura a sua -fatalidade. - ---Mas quer-me parecer que desta vez ella está presa; escolheu emfim, -pensou Ayres. - -Flora falou-lhe da presidencia, mas não lhe pediu segredo, como as -outras pessoas; confessou-lhe que não queria ir daqui, fosse para onde -fosse, e acabou dizendo que tudo estava nas mãos delle. Só elle podia -despersuadir o pae de acceitar a presidencia. Ayres achou tão absurdo -este pedido que esteve quasi a rir, mas susteve-se bem. A palavra de -Flora era grave e triste. Ayres respondeu, com brandura, que não podia -nada. - ---Póde muito, todos attendem aos seus conselhos. - ---Mas eu não dou conselhos a ninguem, acudiu Ayres. Conselheiro é um -titulo que o imperador me conferiu, poi achar que o merecia, mas não -obriga a dar conselhos; a elle mesmo só lh'os darei, se m'os pedir. -Imagine agora se eu vou á casa de um homem ou mando chamal-o á minha -para lhe dizer que não seja presidente de provincia. Que razão lhe -daria? - -Não tinha razões a moça; tinha necessidade. Appellou para os talentos -do ex-ministro, que acharia uma razão boa. Nem se precisavam razões, -bastava o falar delle, a arte que Deus lhe dera de agradar a toda a -gente, de a arrastar, de influir, de obter o que quizesse. Ayres viu -que ella exagerava para o attrair, e não lhe pareceu mal. Não obstante, -contestou taes meritos e virtudes. Deus não lhe dera arte nenhuma, -disse elle, mas a moça ia sempre affirmando, em tal maneira que Ayres -suspendeu a contestação, e fez uma promessa. - ---Vou pensar; amanhã ou depois, se achar algum recurso, tentarei o -negocio. - -Era um palliativo. Era tambem um modo de fazer cessar a conversação, -estando a casa proxima. Não contava com o pae de Flora, que á fina -força lhe quiz mostrar, áquella hora, uma novidade, aliás uma velharia, -um documento de valor diplomatico. «Venha, suba, cinco minutos apenas, -conselheiro.» - -Ayres suspirou em segredo, e curvou a cabeça ao Destino. Não se luta -contra elle, dirás tu; o melhor é deixar que pegue pelos cabellos e nos -arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos. Baptista nem lhe -deu tempo de reflectir; era todo desculpas. - ---Cinco minutos e está livre de mim, mas verá que lhe pago o sacrificio. - -O gabinete era pequeno; poucos livros e bons, os moveis graves, um -retrato de Baptista com a farda de presidente, um almanaque sobre a -mesa, um mappa na parede, algumas lembranças do governo da provincia. -Emquanto Ayres circulava os olhos, Baptista foi buscar o documento. -Abriu uma gaveta, tirou uma pasta, abriu a pasta, tirou o documento, -que não estava só, mas com outros. Conhecia-se logo por ser um papel -velho, amarello, em partes roido. Era uma carta do conde de Oeyras, -escripta ao ministro de Portugal na Hollanda. - ---É o dia das antiquidades, pensou Ayres; a taboleta, o tinteiro, este -autographo... - ---A carta é importante, mas longa, disse Baptista, não podemos lel-a -agora. Quer leval-a? - -Não lhe deu tempo de responder; pegou de uma sobrecarta grande e metteu -dentro o manuscripto, com esta nota por fóra: «Ao meu excellentissimo -amigo conselheiro Ayres.» Emquanto elle fazia isto, Ayres passava -os olhos pela lombada de alguns livros. Entre elles havia dous -_Relatorios_ da presidencia de Baptista, ricamente encadernados. - ---Não me attribua esse luxo, acudiu o ex-presidente; foi um mimo da -secretaria do Governo que nunca fez isto ninguem. Era um pessoal muito -distincto. - -E foi á estante e tirou um dos relatorios para ser melhor visto. -Aberto, mostrou a impressão e as vinhetas; lido, podia mostrar o estylo -por um lado, e, por outro, a prosperidade das finanças. Baptista -limitou-se aos algarismos totaes: despeza, mil duzentos e noventa e -quatro contos, setecentos e noventa mil reis; receita, mil, quinhentos -quarenta e quatro contos duzentos e nove mil reis; saldo, duzentos e -quarenta e nove contos, quatrocentos e dezenove mil reis. Verbalmente, -explicou o saldo, que alcançou pela modificação de alguns serviços, e -por um pequeno augmento de impostos. Reduziu a divida provincial, que -achou em trezentos e oitenta e quatro contos, e deixou em trezentos e -cincoenta contos. Fez obras novas e concertos importantes; iniciou uma -ponte... - ---A encadernação corresponde á materia, disse Ayres para concluir a -visita. - -Baptista fechou o livro, e redarguiu que já agora não iria sem lhe -resolver uma consulta. - ---Tudo ás avessas, concluiu; eu de manhã resolvo consultas, agora á -noite sou eu que as faço. - -Tal foi o introito, mas do introito ao Credo ha sempre um passo -estirado, e o principal da missa para elle estava no Credo. Não -achando o texto do missal, explicou-lhe um sinete, uma penna de ouro, -um exemplar do Codigo Criminal. O Codigo, posto que velho, valia -por trinta novos, não que tivesse melhor rosto, se não que trazia -annotações manuscriptas de um grande jurista, Fulano. Tendo passado -longa parte da vida no exterior, o conselheiro mal conhecera o autor -das notas, mas desde que ouviu chamar-lhe grande, assumiu a expressão -adequada. Pegou do codigo com cuidado, leu algumas das notas com -veneração. - -Durante esse tempo, Baptista ia criando folego. Compoz uma phrase para -iniciar a consulta, e só esperava que Ayres fechasse o livro para -soltal-a; mas o outro ia demorando o exame do Codigo. Podia ser uma -pontinha de malignidade, mas não era. Os olhos de Ayres tinham uma -faculdade particular, menos particular do que parece, porque outros -a possuirão calados. Vinha a ser que elles não saíam da pagina, mas -em verdade já lhe prestava menos attenção; o tempo, a gente, a vida, -cousas passadas, surdiam a espial-o por detraz do livro com que tinham -vivido, e Ayres ia tornando a ver um Rio de Janeiro que não era este, -ou apenas o fazia lembrado. Nem cuides que eram só reos e juizes, era -o passeio, a rua, a festa, velhos patuscos e mortos, rapazes frescos -e agora enferrujados como elle. Baptista tossiu. Ayres voltou a si e -leu alguma das notas que o outro devia trazer de cór, mas eram tão -profundas! Emfim, mirou a encadernação, achou o livro bem conservado, -fechou-o e restituiu-o á bibliotheca. - -Baptista não perdeu um instante, correu inmediato ao assumpto, com medo -de o ver pegar em outro livro. - ---Confesso-lhe que tenho o temperamento conservador. - ---Tambem eu guardo presentes antigos. - ---Não é isso: refiro-me ao temperamento politico. Verdadeiramente ha -opiniões e temperamentos. Um homem póde muito bem ter o temperamento -opposto ás suas ideias. As minhas ideias, se as cotejarmos com os -programmas politicos do mundo, são antes liberaes e algumas liberrimas -O suffragio universal por exemplo, é para mim a pedra augular de um bom -regimen representativo. Ao contrario, os liberaes pediram e fizeram -o voto censitario. Hoje estou mais adiantado que elles; acceito o -que está, por ora. mas antes do fim do seculo é preciso rever alguns -artigos da Constituição, dous ou trez. - -Ayres escondia o espanto... Convidado assim áquella hora... Uma -profissão de fé politica... Baptista insistia na distincção do -temperamento e das ideias. Alguns amigos velhos, que conheciam esta -dualidade moral e mental, é que teimavam em querer que elle acceitasse -uma presidencia; elle não queria. Francamente, que lhe parecia ao -conselheiro? - ---Francamente, acho que não tem razão. - ---Que não tenho razão em quê? - ---Em recusar. - ---Propriamente, não recusei nada; ha um grande trabalho neste sentido, -e o meu desejo,--accrescentou com mais clareza,--é que os bons amigos -sagazes me digam se tal cousa é acertada; não me parece que seja... - ---Eu penso que é. - ---De maneira que, se o caso fosse com o senhor... - ---Commigo não podia ser. Sabe que eu já não sou deste mundo, e -politicamente nunca figurei em nada. A diplomacia tem este effeito que -separa o funccionario dos partidos e o deixa tão alheio a elles, que -fica impossivel de opinar com verdade, ou, quando menos, com certeza. - ---Mas não me disse que acha... - ---Acho. - ---... Que posso acceitar uma presidencia, se me offerecerem? - ---Póde; uma presidencia acceita-se. - ---Pois então saiba tudo; é a unica pessoa de sociedade com quem me abro -assim francamente. A presidencia foi-me offerecida. - ---Acceite, acceite. - ---Está acceita. - ---Já? - ---O decreto assigna-se sabbado. - ---Então acceite tambem os meus parabens. - ---Propriamente, a lembrança não foi do ministerio; ao contrario, o -ministerio não se resolveu antes de saber se effectivamente fiz uma -eleição contra os liberaes, ha annos; mas logo que soube que por não -os perseguir é que fui demittido, acceitou a indicação de chefes -politicos, e recebi pouco depois este bilhete. - -O bilhete estava no bolso, dentro da carteira. Qualquer outro, -alvoroçado com a nomeação proxima, levaria tempo a achar o bilhete -no meio dos papeis; mas Baptista possuia o tacto dos textos. Tirou -a carteira, abriu-a descançado e com os dedos saccou o bilhete do -ministro convidando-o a uma conversação. Na conversação ficou tudo -assentado. - - - - -CAPITULO LIV - - -Emfim, só! - - -Emfim, só! Quando Ayres se achou na rua, só, livre, solto, entregue -a si mesmo, sem grilhões nem considerações, respirou largo. Fez um -monologo, que d'ahi a pouco interrompeu por se lembrar de Flora. Tudo -o que ella não quizera ia acontecer; lá ia o pae a uma presidencia, e -ella com elle, e a recente inclinação ao joven Pedro vinha parar a meio -caminho. Entretanto, não se arrependia do que dissera e ainda menos do -que não dissera. Os dados estavam lançados. Agora era cuidar de outra -cousa. - - - -CAPITULO LV - - -«A mulher é a desolação do homem» - - -Ao despedir-se, fez Ayres uma reflexão, que ponho aqui, para o caso -de que algum leitor a tenha feito tambem. A reflexão foi obra de -espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem tão difficil em ceder -ás instigações da esposa (Vae-te, Satanaz, etc.; capitulo XLVII) -deitou tão facilmente o habito ás ortigas. Não achou explicação, -nem a acharia, se não soubesse o que lhe disseram mais tarde, que -os primeiros passos da conversão do homem fôram dados pela mulher. -«A mulher é a desolação do homem», dizia não sei que philosopho -socialista, creio que Proudhon. Foi ella, a viuva da presidencia, que -por meios varios e secretos, tramou passar a segundas nupcias. Quando -elle soube do namoro, já os banhos estavam corridos; não havia mais que -consentir e casar tambem. - -Ainda assim, custou-lhe muito. O clamor dos seus aturdia-lhe de antemão -os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a esposa servia-lhe de guia e -amparo, e, com poucas horas, Baptista viu claro e ficou firme. - ---Estamos á porta do terceiro reinado, ponderou D. Claudia, e -certamente o partido liberal não deixa tão cedo o poder. Os seus homens -são válidos, a inclinação dos tempos é para o liberalismo, e você -mesmo... - ---Sim, eu... suspirou Baptista. - -D. Claudia não suspirou, cantou victoria; a reticencia do marido era -a primeira figura de acquiescencia. Não lhe disse isto assim, nu e -cru; tambem não revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem -da razão fria e da vontade certa. Baptista, sentindo-se apoiado, -caminhou para o abysmo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça, -nem com ella. Posto que a vontade que trazia fosse de emprestimo, não -lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Dahi a -autoria de que se investiu e acabou confessando. - -Tal foi a conclusão de Ayres, segundo se lê no _Memorial._ Tal será a -do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui lhe poupei o trabalho de -Ayres; não o obriguei a achar por si o que, de outras vezes, é obrigado -a fazer. O leitor attento, verdadeiramente ruminante, tem quatro -estomagos no cerebro, e por elles faz passar e repassar os actos e os -factos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida. - - - - -CAPITULO LVI - - -O golpe - - -O dia seguinte trouxe á menina Flora a grande novidade. Sabbado seria -assignado o decreto; a presidencia era no norte. D. Claudia não lhe viu -a pallidez, nem sentiu as mãos frias, continuou a falar do caso e do -futuro, até que Flora, querendo sentar-se, quasi caiu. A mãe acudiu-lhe: - ---Que é? Que tens? - ---Nada, mamãe não é nada. - -A mãe fel-a sentar-se. - ---Foi uma tonteira, passou. - -D. Claudia deu-lhe a cheirar um pouco de vinagre, esfregou-lhe os -pulsos; Flora sorriu. - ---Este sabbado? perguntou. - ---O decreto? Sim, este sabbado. Mas não digas por ora a ninguem; são -segredos de gabinete. É cousa certa; emfim, alguem nos fez justiça; -provavelmente o imperador. Amanhã irás commigo a algumas encommendas. -Faze uma lista do que precisas. - -Flora precisava não ir e só pensava nisso. Uma vez que o decreto -estava prestes a ser assignado, não havia já desaconselhar a nomeação; -restava-lhe a ella ficar. Mas como? Todos os sonhos são proprios ao -somno de uma creança. Não era facil, mas não seria impossivel. Flora -cria tudo; não tirava o pensamento de Ayres, e já agora de Natividade -tambem. Os dous podiam fazel-o, ou antes os trez, se contardes tambem -o barão, e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro as cinco -estrellas do Cruzeiro, as nove musas, anjos e archanjos, virgens e -martyres... Juntai-os todos, e todos poderiam fazer esta simples acção -de impedir que Flora fosse para a provincia. Taes eram as esperanças -vagas, rapidas, que corriam a substituir as tristezas do rosto da moça, -emquanto a mãe, attribuindo o effeito ao vinagre, ajustava a rolha de -vidro ao frasco, e restituía o frasco ao toucador. - ---Faze uma lista do que precisas, repetiu á filha. - ---Não, mamãe, eu não preciso nada. - ---Precisas, sim, eu sei o que precisas. - - - - -CAPITULO LVII - - -Das encommendas - - -Não escreveria este capitulo, se elle fosse propriamente das -encommendas, mas não é. Tudo são instrumentos nas mãos da Vida. As duas -sairam de casa, urna lepida, a outra melancolica, e lá fôram a escolher -uma quantidade de objectos de viagem e de uso pessoal. D. Claudia -pensava nos vestidos da primeira recepção e de visitas; tambem ideou o -do desembarque. Tinha ordem do marido para comprar algumas gravatas. Os -chapeos, entretanto, fôram o principal artigo da lista. Ao parecer de -D. Claudia, o chapeo da mulher é que dava a nota verdadeira do gosto, -das maneiras e da cultura de uma sociedade. Não valia a pena acceitar -uma presidencia para levar chapeos sem graça, dizia ella sem convicção, -porque intimamente pensava que a presidencia dá graça a tudo. - -Estavam justamente na loja de chapeos, rua do Ouvidor, sentadas, -os olhos fóra e longe, quando a verdadeira materia deste capitulo -appareceu. Era o gemeo Paulo, que chegara pelo trem nocturno, e sabendo -que ellas andavam a compras, viera procural-as. - ---O senhor! exclamaram. - ---Cheguei esta manhã. - -Flora tinha-se levantado, com o alvoroço que lhe deu a vista inesperada -de Paulo. Elle correu a ellas, apertou-lhes as mãos, indagou da -saúde, e reconheceu que pareciam vender saúde e alegria. A impressão -era exacta; Flora tinha agora uma agitação, que contrastava cora o -abatimento daquella triste manhã, e um riso que a fazia alegre. - ---Tive sempre noticias das senhoras, que mamãe me dava, e Pedro tambem, -ás vezes. Da senhora, continuou elle falando a D. Claudia, recebi duas -cartas. Como vae o doutor? - ---Bem. - ---Ora, em fim, cá estou! - -E Paulo dividia os olhos com as duas, mas a melhor parte ia natural -mente para a filha. Pouco depois era todo e pouco para esta. D. -Claudia voltára á escolha dos chapeos, e Flora, que até então opinava -de cabeça, perdeu este ultimo gesto. Paulo sentou-se na cadeira que -um empregado lhe trouxe, e ficou a olhar para a moça; falavam de -cousas minimas, alheias ou proprias, tudo o que bastasse para os reter -disfarçadamente na contemplação um do outro. Paulo viera o mesmo que -fôra, o mesmo que Pedro, sempre com alguma nota particular, que ella -não podia achar claramente, menos ainda definir. Era um mysterio; Pedro -teria o seu. - -D. Claudia interrompia-os, de vez em quando, a proposito da escolha; -mas, tudo acaba, até a escolha de chapeos. Foram d'alli aos vestidos. -Paulo, não sabendo da presidencia, estimou esta casualidade para as -acompanhar de loja em loja. Contava anecdotas de S. Paulo, sem grande -interesse para Flora; as noticias que ella lhe dava acerca das amigas, -eram mais ou menos dispensaveis. Tudo valia pelos dous interlocutores. -A rua ajudava aquella absorpção reciproca; as pessoas que iam ou -vinham, damas ou cavalheiros, parassem ou não, serviam de ponto de -partida a alguma digressão. As digressões entraram a dar as mãos ao -silencio, e os dous seguiam com os olhos espraiados e a cabeça alta, -elle mais que ella, porque uma pontinha de melancolia começava a -espancar do rosto da moça a alegria da hora recente. - -Na rua Gonçalves Dias, indo para o largo da Carioca, Paulo viu dous -ou trez politicos de S. Paulo, republicanos, parece que fazendeiros. -Havendo-os deixado lá, admirou-se de os ver aqui, sem advertir que a -ultima vez que os vira ia já a alguma distancia. - ---Conhecem? perguntou ás duas. - -Não, não os conheciam. Paulo disse-lhes os nomes. A mãe talvez fizesse -alguma pergunta politica, mas deu por falta de um objecto, advertiu que -o não comprára, e propoz voltarem atraz. Tudo era acceito por ambos, -com docilidade, apesar do veu de tristeza, que se ia cerrando mais no -rosto da moça. Aquellas encommendas tinham já um ar de bilhetes de -passagem, não tardava o paquete, iam correr ás malas, aos arranjos, ás -despedidas, ao camarote de bordo, ao enjôo de mar, e áquelle outro de -mar e terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Dahi o silencio -crescente, que Paulo mal podia vencer, de quando em quando; e comtudo -ella estava bem com elle, gostava de lhe ouvir dizer cousas soltas, -algumas novas, outras velhas, recordações anteriores á partida daqui -para S. Paulo. - -Assim se deixaram ir, guiados por D. Claudia, quasi esquecida delles. -No meio daquella conversação truncada, mais entretida por elle que por -ella, Paulo sentia impetos de lhe perguntar, ao ouvido, na rua, se -pensára nelle, ou, ao menos, sonhára com elle algumas noites. Ouvindo -que não, daria espansão á colera, dizendo-lhe os ultimos improperios; -se ella corresse, correria tambem, até pegal-a pelas fitas do chapeo ou -pela manga do vestido, e, em vez de a esganar, dançaria com ella uma -valsa de Strauss ou uma polka de ***. Logo depois, ria destes delirios, -porque, a despeito da melancolia da moça, os olhos que ella erguia -para elle eram de quem sonhou e pensou muito na pessoa, e agora cuida -de descobrir se é a mesma do sonho e do pensamento. Assim lhe parecia -ao estudante de direito; pelo que, quando elle desviava o rosto, era -para repetir a experiencia e tornar a ver-lhe os olhos aguçados do -mesmo espirito critico e de livre exame. Quanto ao tempo que os trez -gastaram nessa agitação de compras e escolhas, visões e comparações, -não ha memoria delle, nem necessidade. Tempo é propriamente officio de -relogio, e nenhum delles consultou o relogio que trazia. - - - - -CAPITULO LVIII - - -Matar saudades - - -Ora bem, acabas de ver como Flora recebeu o irmão de Pedro; tal qual -recebia o irmão de Paulo. Ambos eram apostolos. Paulo achava-a agora -mais bonita que alguns mezes antes, e disse-lh'o n'essa mesma tarde em -S. Clemente, com esta palavra familiar e cordial: - ---A senhora enfeitou muito. - -Flora julgava a mesma cousa, relativamente ao estudante de direito; -calou a impressão. Ou a tristeza que trazia, ou qualquer outra sensação -particular, fel-a acanhada, a principio. Não tardou, porém, que achasse -outra vez o gemeo no gemeo, e que elle e ella matassem saudades. - -Como é que se matam saudades não é cousa que se explique de um modo -claro. Elle não ha ferro nem fogo, corda nem veneno, e todavia as -saudades expiram, para a resurreição, alguma vez antes do terceiro dia. -Ha quem creia que, ainda mortas, são doces, mais que doces. Esse ponto, -no nosso caso, não póde ser ventilado, nem eu quero desenvolvel-o, como -aliás cumpria. - -As saudades morreram, não todas, nem logo, logo, mas em parte e tão -vagarosamente que Paulo acceitou o convite de lá jantar. Era o dia da -chegada; Natividade quizera tel-o comsigo á mesa, ao pé de Pedro, para -cimentar a pacificação começada pela distancia. Paulo nem se deu ao -trabalho de lá mandar; deixou-se estar com a bella creatura, entre o -pae e a mãe que pensavam em outra cousa, proxima no tempo e remota no -espaço. Sabendo o que era, Flora passava do prazer ao tedio, e Paulo -não entendia essa alternação de sentimentos. De quando em quando, vendo -a mãe agitada e preoccupada, mas com outra expressão, Paulo interrogava -a filha. Em vez de dar uma explicação qualquer, Flora passou uma vez a -mão pelos olhos e ficou alguns instantes sem os descobrir. A acção do -estudante de direito, devia ser arredar-lhe a mão, encaral-a de perto, -mais perto, totalmente perto, e repetir a pergunta por um modo em que a -eloquencia do gesto dispensasse a fala. Se tal ideia teve, não saiu cá -fóra. Nem ella lhe consentiu mais tempo que o da pergunta: - ---Que é que tem? - ---Nada, respondeu Flora. - ---Tem alguma cousa, insistiu elle querendo pegar-lhe na mão. - -Não acabou o gesto, não o começou sequer; abriu e fechou os dedos -apenas, emquanto sorria para sacudir tristezas, e deixou-se estar a -matar saudades. - - - - -CAPITULO LIX - - -Noite de 14 - - -Tudo se explicou à noite, em casa da familia Santos. O ex-presidente -de provincia confessou as esperanças de uma investidura nova; a esposa -affirmou a eminencia do ato. Dahi a publicidade da noticia, que pouco -antes D. Claudia só dizia em segredo. Já não havia segredos que calar. - -Paulo soube então tudo, e Pedro, que conhecia alguns preliminares, -acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente sentiram a separação -proxima. A dôr os fez amigos por instantes; é uma das vantagens dessa -grande e nobre sensação. Já me não lembra quem affirmava, ao contrario, -que um odio commum é o que mais liga duas pessoas. Creio que sim, mas -não descreio do meu postulado, por esta razão que uma coisa não tolhe a -outra, e ambas podem ser verdadeiras. - -Demais, a dôr não era ainda o desespero. Havia até uma consolação para -os dous gemeos; é que a moça ficaria longe de ambos. Nenhum delles -teria o gozo exclusivo ao pé da porta. Não há mal que não traga um -pouco de bem, e por isso é que o mal é util, muita vez indispensavel, -alguma vez delicioso. Os dous quizeram falar á amiguinha, em -particular, para sondal-a ácerca daquella separação, já agora certa, -mas nenhum conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe -falavam, era sempre juntos, e de cousas familiares e ordinarias. O -gesto de Flora não traduzia o estado da alma; este podia ser lepido, -melancolico, ou indifferente, não vinha cá fóra. Em verdade, ella -falava pouco. Os olhos tambem não diziam muito. Mais de uma vez, Pedro -deu com ella fitando Paulo, e gemeu com a preferencia, mas tambem elle -era preferido depois, e achava compensação; Paulo então é que rangia -os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue á sua recepção, -que era a ultima do anno, não acompanhou de perto as agitações moraes -daquelle trio. Quando deu por ellas, chegou a sentil-as tambem. - -Pouco a pouco, a gente se foi dispersando. Não era muita, e dominava -a nota intima. Quando a maioria saiu, ficou só a porção mais intima, -trez ou quatro homens a um canto da sala, falando e rindo de ditos e -anecdotas. Não conversavam de politica, e aliás não faltaria materia. -As moças, pela segunda ou terceira vez, trocavam as impressões do -grande baile recente. Tambem falavam de musicas e theatros, das festas -proximas de Petropolis, da gente que ia naquelle anno, e da que só iria -em Janeiro. Natividade dividia-se com todos, até que, podendo ficar -alguns instantes com Ayres, confiara-lhe o seu receio ácerca do amor -dos filhos, e ao mesmo tempo o prazer que lhe trazia a esperança de uma -longa separação de Flora. O conselheiro não desdizia do receio, nem da -esperança. - ---É uma felicidade que o Baptista seja nomeado e leve a filha daqui, -disse ella. - ---Certamente, mas... - ---Mas quê? - ---Certamente a levará, mas a senhora póde não conhecer bem aquella -menina. - ---Penso que é boa. - ---Tambem eu penso assim. A bondade, porém, não tem nada com o resto -da pessoa. Flora é, como já lhe disse ha tempos, uma inexplicavel. -Agora é tarde para lhe expor os fundamentos da minha impressão; depois -lhe direi. Note que gósto muito della; acho-lhe um sabor particular -naquelle contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão fóra do -mundo, tão etherea e tão ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambição -recondita... Vá perdoando estas palavras mal embrulhadas, e até amanhã, -concluiu elle, estendendo-lhe a mão. Amanhã virei explical-as. - ---Explique-as agora, emquanto os outros parecem rir de algum dito -engraçado. - -Effectivamente, os homens riam de algum dito ou trocadilho; Ayres quiz -falar, mas reteve a lingua, e desculpou-se. A explicação era longa e -dificil, e não era urgente, disse elle. - ---Eu mesmo não sei se me entendo, baroneza, nem se penso a verdade; -póde ser. Em todo caso, minha boa amiga, até amanhã ou até Petropolis. -Quando espera subir? - ---Lá para o fim do anno. - ---Então ainda nos veremos algumas vezes. - ---Sim, e, se me não vir a mim, quero que veja os meus rapazes, que -os receba e estime. Elles o têm em grande conta; não lhe fazem senão -justiça. Pedro acha que o senhor é o espirito mais fino, e Paulo o mais -rijo da nossa terra... - ---Veja como a senhora os educa, ensinando-lhes a pensar errado, disse -Ayres sorrindo e fazendo um gesto de agradecimento. Eu rijo? - ---O mais rijo e o mais fino. - -Os ultimos habituados da casa vieram dar boa noite á dona. Dez minutos -depois, Ayres despedia-se do casal Santos. - -A noite era clara e tranquilla. Ayres recompoz uma parte do serão para -escrevel-a no _Memorial._ Poucas linhas, mas interessantes, nas quaes -Flora era a principal figura: «Que o Diabo a entenda, se puder; eu, -que sou menos que elle, não acerto de a entender nunca. Hontem parecia -querer a um, hoje quiz ao outro; pouco antes das despedidas, queria a -ambos. Encontrei outr'ora desses sentimentos alternos e simultaneos; -eu mesmo fui uma e outra cousa, e sempre me entendi a mim. Mas aquella -menina e moça... A condição dos gemeos explicará esta inclinação dupla; -póde ser tambem que alguma qualidade falte a um que sóbre a outro, -e vice-versa, e ella, pelo gosto de ambas, não acaba de escolher de -vez. É phantastico, sei; menos phantastico é se elles, destinados á -inimizade, acharem nesta mesma creatura um campo estreito de odio, -mas isto os explicaria a elles, não a ella... Seja o que fôr, a nossa -organisação politica é util; a presidencia de provincia, arredando -Flora daqui, por algum tempo, tira esta moça da situação em que se -acha, como a asna de Buridan. Quando voltar, a agua estará bebida e a -cevada comida. Um decreto ajudará a natureza.» - -Isto feito, Ayres metteu-se na cama, rezou uma ode do seu Horacio e -fechou os olhos. Nem por isso dormiu. Tentou então uma pagina do seu -Cervantes, outra do seu Erasmo, fechou novamente os olhos, até que -dormiu. Pouco foi; ás cinco horas e quarenta minutos estava de pé. Era -novembro, sabes que é dia. - - - - -CAPITULO LX - - -Manhã de 15 - - -Quando lhe acontecia o que ficou contado, era costume de Ayres sair -cedo, a espairecer. Nem sempre acertava. Desta vez foi ao Passeio -Publico. Chegou ás sete horas e meia, entrou, subiu ao terraço e olhou -para o mar. O mar estava crespo. Ayres começou a passear ao longo do -terraço, ouvindo as ondas, e chegando-se á borda, de quando em quando, -para vel-as bater e recuar. Gostava dellas assim; achava-lhes uma -especie de alma forte, que as movia para metter medo á terra. A agua, -enroscando-se em si mesma, dava-lhe uma sensação, mais que de vida, de -pessoa tambem, a que não faltavam nervos nem musculos, nem a voz que -bradava as suas coleras. - -Emfim, cançou e desceu, foi-se ao lago, ao arvoredo e passeou á toa, -revivendo homens e cousas, até que se sentou em um banco. Notou que -a pouca gente que havia alli não estava sentada, como de costume, -olhando á toa, lendo gazetas ou cochilando a vigilia de uma noite sem -cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando -na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, -ao menos. Ouviu umas palavras soltas, _Deodoro, batalhões, campo, -ministerio_, etc. Algumas, ditas em tom alto, vinham acaso para elle, -a ver se lhe espertavam a curiosidade, e se obtinham mais uma orelha -ás noticias. Não juro que assim fosse, porque o dia vae longe, e as -pessoas não eram conhecidas. O proprio Ayres, se tal cousa suspeitou, -não a disse a ninguem; tambem não afiou o ouvido para alcançar o resto. -Ao contrario, lembrando-lhe algo particular, escreveu a lapis uma nota -na carteira. Tanto bastou para que os curiosos se dispersassem, não sem -algum epitheto de louvor, uns ao governo, outros ao exercito: podia ser -amigo de um ou de outro. - -Quando Ayres saiu do Passeio Publico, suspeitava alguma cousa, e seguiu -até o largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras -espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma noticia clara -nem completa. Na rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito -uma revolução, ouviu descripções da marcha e das pessoas, e noticias -desencontradas. Voltou ao largo, onde trez tilburys o disputaram; elle -entrou no que lhe ficou mais á mão, e mandou tocar para o Cattete. -Não perguntou nada ao cocheiro; este é que lhe disse tudo e o resto. -Falou de uma revolução, de dous ministros mortos, um fugido, os demais -presos. O imperador, capturado em Petropolis, vinha descendo a serra. - -Ayres olhava para o cocheiro, cuja palavra saía deliciosa de novidade. -Não lhe era desconhecida esta creatura. Já a vira, sem o tilbury, -na rua ou na sala, á missa ou a bordo, nem sempre homem, alguma vez -mulher, vestida de seda ou do chita. Quiz saber mais, mostrou-se -interessado e curioso, e acabou perguntando se realmente houvera o que -dizia. O cocheiro contou que ouvira tudo a um homem que trouxera da -rua dos Invalidos e levára ao largo da Gloria, por signal que estava -assombrado, não podia falar, pedia-lhe que corresse, que lhe pagaria o -dobro; e pagou. - ---Talvez fosse algum implicado no barulho, suggeriu Ayres. - ---Tambem póde ser, porque elle levava o chapéo derrubado, e a principio -pensei que tinha sangue nos dedos, mas reparei e vi que era barro; com -certeza, vinha de descer algum muro. Mas, pensando bem, creio que era -sangue; barro não tem aquella côr. A verdade é que elle pagou o dobro -da viagem, e com razão, porque a cidade não está segura, e a gente -corre grande risco levando pessoas de um lado para outro... - -Chegavam justamente á porta de Ayres; este mandou parar o vehiculo, -pagou pela tabella e desceu. Subindo a escada, ia naturalmente pensando -nos acontecimentos possiveis. No alto achou o criado que sabia tudo, e -lhe perguntou se era certo... - ---O que é que não é certo, José? É mais que certo. - ---Que matáram trez ministros? - ---Não; ha só um ferido. - ---Eu ouvi que mais gente tambem, falaram em dez mortos... - ---A morte é um phenomeno egual á vida; talvez os mortos vivam. Em todo -caso, não lhes rezes por alma, porque não és bom catholico, José. - - - - -CAPITULO LXI - - -Lendo Xenophonte - - -Como é que, tendo ouvido falar da morte de dous e trez ministros, Ayres -affirmou apenas o ferimento de um, ao rectificar a noticia do criado? -Só se póde explicar de dous modos,--ou por um nobre sentimento de -piedade, ou pela opinião de que toda a noticia publica cresce de dous -terços, ao menos. Qualquer que fosse a causa, a versão do ferimento era -a unica verdadeira. Pouco depois passava pela rua do Cattete a padiola -que levava um ministro, ferido. Sabendo que os outros estavam vivos e -sãos e o imperador era esperado de Petropolis, não acreditou na mudança -de regimen que ouvira ao cocheiro de tilbury e ao criado José. Reduziu -tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal. - ---Temos gabinete novo, disse comsigo. - -Almoçou tranquillo, lendo Xenophonte: «Considerava eu um dia quantas -republicas tem sido derribadas por cidadãos que desejam outra especie -de governo, e quantas monarchias e olygarchias são destruidas pela -sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa -derribados, outros, se duram, são admirados por habeis e felizes...» -Sabes a conclusão do autor, em prol da these de que o homem é difficil -de governar; mas logo depois a pessoa de Cyro destróe aquella -conclusão, mostrando um só homem que regeu milhões de outros, os quaes -não só o temiam, mas ainda lutavam por lhe fazer as vontades. Tudo isto -em grego, e com tal pausa que elle chegou ao fim do almoço, sem chegar -ao fim do primeiro capitulo. - - - - -CAPITULO LXII - - -«Pare no D.» - - ---Mas, S. Ex. está almoçando, dizia o criado no patamar da escada a -alguem que pedia para falar ao conselheiro. - -Era falso, Ayres acabava justamente de almoçar; mas o criado sabia que -o amo gostava de saborear o charuto depois do almoço, sem interrupção. -Agora estava no canapé e ouviu o dialogo do patamar. A pessoa insistia -em dizer uma palavrinha. - ---Não póde ser. - ---Bem, eu espero; logo que S. Ex. acabe... - ---O melhor é voltar depois; não mora alli defronte? Pois volte daqui a -uma hora ou duas... - -A pessoa era o Custodio e foi para casa, mas o velho diplomata, sabendo -quem era, não esperou que acabasse o charuto; mandou-lhe dizer que -viesse. Custodio saiu, correu, subiu e entrou assombrado. - ---Que é isso, Sr. Custodio? disse-lhe Ayres. O senhor anda a fazer -revoluções? - ---Eu, senhor? Ah! senhor! Se V. Ex. soubesse... - ---Se soubesse o quê? - -Custodio explicou-se. Vá, resumamos a explicação. - -Na vespera, tendo de ir abaixo, Custodio foi á rua da Assembléa, onde -se pintava a taboleta. Era já tarde; o pintor suspendera o trabalho. Só -algumas das letras ficaram pintadas,--a palavra _Confeitaria_ e a letra -_d._ A letra _o_ e a palavra _imperio_ estavam só debuxadas a giz. -Gostou da tinta e da côr, reconciliou-se com a fórma, e apenas perdoou -a despeza. Recommendou pressa. Queria inaugurar a taboleta no domingo. - -Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera na cidade, mas pouco -a pouco vieram vindo as noticias, viu passar um batalhão, e creu que -lhe diziam a verdade os que affirmavam a revolução e vagamente a -republica. A principio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a taboleta. -Quando se lembrou della, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu -ás pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia -só isto: «Pare no _D._» Com effeito, não era preciso pintar o resto, -que seria perdido, nem perder o principio, que podia valer. Sempre -haveria palavra que occupasse o logar das letras restantes. «Pare no D.» - -Quando o portador voltou trouxe a noticia de que a taboleta estava -prompta. - ---Você viu-a prompta? - ---Vi, patrão. - ---Tinha escripto o nome antigo? - ---Tinha, sim, senhor: «Confeitaria do imperio.» - -Custodio enfiou um casaco de alpaca e voou á rua da Assembléa. Lá -estava a taboleta, por signal que coberta com um pedaço de chita; -alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua, quizeram -rasgal-a; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais -efficaz cobril-a. Levantada a cortina, Custodio leu: «_Confeitaria -do imperio._» Era o nome antigo, o proprio, o celebre, mas era a -destruição agora; não podia conservar um dia a taboleta, ainda que -fosse em becco escuro, quanto mais na rua do Cattete... - ---O senhor vae despintar tudo isto, disse elle. - ---Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despeza. Depois, -pinto outra cousa. - ---Mas que perde o senhor em substituir a ultima palavra por outra? A -primeira póde ficar, e mesmo o _d..._ Não leu o meu bilhete? - ---Chegou tarde. - ---E porque pintou, depois de tão graves acontecimentos? - ---O senhor tinha pressa, e eu accordei ás cinco e meia para servil-o. -Quando me deram as noticias, a taboleta estava prompta. Não me disse -que queria pendural-a domingo? Tive de pôr muito seccante na tinta, e, -além da tinta, gastei tempo e trabalho. - -Custodio quiz repudiar a obra, mas o pintor ameaçou de pôr o numero da -confeitaria e o nome do dono na taboleta, e expol-a assim, para que os -revolucionarios lhe fossem quebrar as vidraças do Cattete. Não teve -remedio se não capitular. Que esperasse; ia pensar na substituição; em -todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa do abate e -voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de titulo,--uma -casa tão conhecida, desde annos e annos! Diabos levassem a revolução! -Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o visinho Ayres e correu a -ouvil-o. - - - - -CAPITULO LXIII - - -Taboleta nova - - -Referido o que lá fica atraz, Custodio confessou tudo o que perdia no -titulo e na despeza, o mal que lhe trazia a conservação do nome da -casa, a impossibilidade de achar outro, um abysmo, em summa. Não sabia -que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de espirito. Se pudesse, -liquidava a confeitaria. E afinal que tinha elle com politica? Era -um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguezado, -respeitado, e principalmente respeitador da ordem publica... - ---Mas o que é que ha? perguntou Ayres. - ---A republica está proclamada. - ---Já ha governo? - ---Penso que já; mas diga-me V. Ex. ouviu alguem accusar-me jamais de -attacar o governo? Ninguem. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu -soccorro, Excellentissimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A taboleta -está prompta, o nome todo pintado.--«Confeitaria do Imperio», a tinta é -viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então -fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de titulo, por -mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Ex. -crê que, se ficar «Imperio,» venham quebrar-me as as vidraças? - ---Isso não sei. - ---Realmente, não ha motivo: é o nome da casa, nome de trinta annos. -ninguem a conhece de outro modo... - ---Mas póde pôr «Confeitaria da Republica...» - ---Lembrou-me isso, em caminho, mas tambem me lembrou que, se daqui a -um ou dous mezes, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou -hoje, e perco outra vez o dinheiro. - ---Tem razão... Sente-se. - ---Estou bem. - ---Sente-se e fume um charuto. - -Custudio recusou o charuto, não fumava. Acceitou a cadeira. Estava -no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a -attenção, se não fosse o atordoamento do espirito. Continuou a implorar -o soccorro do visinho. S. Ex., com a grande intelligencia que Deus lhe -dera, podia salval-o. Ayres propoz-lhe um meio termo, um titulo que -iria com ambas as hypotheses,--«Confeitaria do governo». - ---Tanto serve para um regimen como para outro. - ---Não digo que não, e, a não ser a despeza perdida... Ha, porém, uma -razão contra. V. Ex. sabe que nenhum governo deixa de ter opposição. As -opposições, quando descerem á rua, podem implicar commigo, imaginar que -as desafio, e quebrarem-me a taboleta; entretanto, o que eu procuro é o -respeito de todos. - -Ayres comprehendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o visinho -não queria barulhos á porta, nem malquerenças gratuitas, nem odios de -quem quer que fosse; mas, não o affligia menos a despeza que teria de -fazer de quando em quando, se não achasse titulo definitivo, popular -e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de -perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguem lhe compraria uma -taboleta condemnada. Já era muito ter o nome e o titulo no _Almanack_ -de Laemmert, onde podia lel-o algum abelhudo e ir com outros, punil-o -do que estava impresso desde o principio do anno... - ---Isso não, interrompeu Ayres; o senhor não ha de recolher a edição de -um almanaque. - -E depois de alguns instantes: - ---Olhe, dou-lhe uma ideia, que póde ser aproveitada, e, se não a achar -boa, tenho outra á mão, e será a ultima. Mas eu creio que qualquer -dellas serve. Deixe a taboleta pintada como está, e á direita, na -ponta, por baixo do titulo, mande escrever estas palayras que explicam -o titulo: «Fundada em 1860.» Não foi em 1860 que abriu a casa? - ---Foi, respondeu Custodio. - ---Pois... - -Custodio reflectia. Não se lhe podia ler _sim_ nem _não_; attonito, -a bôca entre-aberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão, -nem para as paredes ou moveis, mas para o ar. Como Ayres insistisse, -elle acordou e confessou que a ideia era boa. Realmente, mantinha o -titulo e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. -Entretanto, a outra ideia podia ser egual ou melhor, e quizera comparar -as duas. - ---A outra ideia não tem a vantagem de pôr a data á fundação da -casa, tem só a de definir o titulo, que fica sendo o mesmo, de uma -maneira alheia ao regimen. Deixe-lhe estar a palavra _imperio_ e -accrescente-lhe em baixo, ao centro, estas duas, que não precisam -ser graúdas: _das leis._ Olhe, assim, concluiu Ayres sentando-se á -secretaria, e escrevendo em uma tira de papel o que dizia. - -Custodio leu, releu e achou que a ideia era util; sim, não lhe parecia -má. Só lhe viu um defeito; sendo as letras de baixo menores, podiam -não ser lidas tão depressa e claramente, com as de cima, e estas é que -se metteriam pelos olhos ao que passasse. Dahi a que algum politico ou -sequer inimigo pessoal não entendesse logo e... A primeira ideia, bem -considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o -confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo. -Quem sabe se não era peor que nada? - ---Tudo é peor que nada. - ---Procuremos. - -Ayres achou outro titulo, o nome da rua, «Confeitaria do Cattete», sem -advertir que, havendo outra confeitaria na mesma rua, era attribuir -exclusivamente á do Custodio a designação local. Quando o visinho lhe -fez tal ponderação, Ayres achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza -de sentimentos do homem; mas logo depois descubriu que o que fez -falar o Custodio foi a ideia de que esse titulo ficava commum ás duas -casas. Muita gente não atinaria com o titulo escripto, e compraria -na primeira que lhe ficassse á mão, de maneira que só elle faria as -despezas da pintura, e ainda por cima perdia a freguezia. Ao perceber -isto, Ayres não admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de -tantas tribulações, contava os maus fructos de um equivoco. Disse-lhe -então que o melhor seria pagar a despeza feita e não pôr nada, a não -ser que preferisse o seu proprio nome: «Confeitaria do Custodio.» -Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. -Um nome, o proprio nome do dono, não tinha significação politica ou -figuração historica, odio nem amor, nada que chamasse a attenção dos -dous regimens, e conseguintemente que puzesse em perigo os seus pasteis -de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietario e dos empregados. -Porque é que não adoptava esse alvitre? Gastava alguma cousa com a -troca de uma palavra por outra, _Custodio_ em vez de _Imperio_, mas as -revoluções trazem sempre despezas. - ---Sim, vou pensar, Excellentissimo. Talvez convenha esperar um ou dous -dias, a ver em que param as modas, disse Custodio agradecendo. - -Curvou-se, recuou e saiu. Ayres foi á janella para vel-o atravessar a -rua. Imaginou que elle levaria da casa do ministro aposentado um lustre -particular que faria esquecer por instantes a crise da taboleta. Nem -tudo são despezas na vida, e a gloria das relações podia amaciar as -agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custodio atravessou a rua, -sem parar nem olhar para traz, e enfiou pela confeitaria dentro com -todo o seu desespero. - - - - -CAPITULO LXIV - - -Paz! - - -Que, em meio de tão graves successos, Ayres tivesse bastante pausa e -claridade para imaginar tal descoberta no visinho, só se póde explicar -pela incredulidade com que recebera as noticias. A propria afflicção de -Custodio não lhe dera fé. Vira nascer e morrer muito boato falso. Uma -de suas maximas é que o homem vive para espalhar a primeira invenção -de rua, e que tudo se fará crêr a cem pessoas juntas ou separadas. Só -ás duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou em casa, acreditou na -queda do imperio. - ---É verdade, conselheiro, vi descer as tropas pela rua do Ouvidor, ouvi -as acclamações á republica. As lojas estão fechadas, os bancos tambem, -e o peor é se se não abrem mais, se vamos cair na desordem publica; é -uma calamidade. - -Ayres quiz aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria; o regimen, sim, era -possivel, mas tambem se muda de roupa sem trocar de pelle. Commercio -é preciso. Os bancos são indispensaveis. No sabbado, ou quando muito -na segunda feira, tudo voltaria ao que era na vespera, menos a -constituição. - ---Não sei, tenho medo, conselheiro. - ---Não tenha medo. A baroneza já sabe o que ha? - ---Quando eu sai de casa, não sabia, mas agora é provavel. - ---Pois vá tranquillisal-a; naturalmente está afflicta. - -Santos receiava os fuzilamentos; por exemplo, se fuzilassem o -imperador, e com elle as pessoas de sociedade? Recordou que o Terror... -Ayres tirou-lhe o Terror da cabeça. As occasiões fazem as revoluções, -disse elle, sem intenção de rimar, mas gostou que rimasse, para -dar fórma fixa á ideia. Depois lembrou a indole branda do povo. O -povo mudaria de governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de -generosidade. Para provar o que dizia referiu um caso que lhe contara -um velho amigo, o marechal Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regencia. -O imperador fôra ao theatro de S. Pedro de Alcantara. No fim do -espectaculo, o amigo, então moço, ouviu grande rumor do lado da egreja -de S. Francisco, e correu a saber o que era. Falou a um homem, que -bradava indignado, e soube delle que o cocheiro do imperador não tirara -o chapeo no momento em que este chegára á porta para entrar no coche; -o homem accrescentou: «Eu sou _ré..._» Naquelle tempo os republicanos -por brevidade eram assim chamados. «Eu sou _ré_, mas não consinto que -faltem ao respeito a este menino!» - -Nenhuma feição de Santos mostrou apreciar ou entender aquelle rasgo -anonymo. Ao contrario, todo elle parecia entregue ao presente, ao -momento, ao commercio fechado, aos bancos sem operações, ao receio de -uma suspensão total de negocios, durante prazo indeterminado. Cruzava e -descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou. - ---Então, parece-lhe...? - ---Que descance. - -Santos acceitou o conselho, mas vae muito do acceitar ao cumprir, e a -apparencia era mui diversa do coração. O coração batia-lhe. A cabeça -via esboroar-se tudo. Quiz despedir-se, mas fez duas ou trez investidas -antes de pousar o pé fora do gabinete e caminhar para a escada. Instava -pela certeza. Com quanto tivesse visto e ouvido a republica, podia -ser... Em todo caso, a paz é que era necessaria, e haveria paz? Ayres -inclinava-se a crêr que sim, e novamente o convidou a descançar. - ---Até logo, concluiu. - ---Porque não vae lá jantar comnosco? - ---Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois, -talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquillisar a baroneza, e os rapazes. Os -rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pol-os em ordem. - ---O senhor podia ajudar-me nisso. Vá lá de noite. - ---Póde ser; se puder, vou. Amanhã com certeza. - -Santos saiu; tinha o carro á espera, entrou e seguiu para Botafogo. Não -levava a paz comsigo, não a poderia dar á mulher, nem á cunhada, nem -aos filhos. Quizera chegar a casa, por medo da rua, mas quizera tambem -ficar na rua, por não saber que palavras nem que conselhos daria aos -seus. - -O espaço do carro era pequeno e bastante para um homem; mas, emfim, -não viviria alli a tarde inteira. Ao demais, a rua estava quieta. Via -gente á porta das lojas. No largo do Machado viu outra que ria, alguma -calada, havia espanto, mas não havia propriamente susto. - - - - -CAPITULO LXV - - -Entre os filhos - - -Quando Santos chegou a casa, Natividade estava inquieta, sem noticia -exacta e definitiva dos acontecimentos. Não sabia da republica. Não -sabia do marido nem dos filhos. Aquelle saira antes dos primeiros -rumores, estes iam fazer a mesma cousa, logo que os boatos chegaram. O -primeiro gesto da mãe foi para impedir que os filhos saissem, mas não -pôde, era tarde. Não os podendo reter, pegou-se com a Virgem Maria, -afim de que os poupasse, e esperou. A irmã fez o mesmo. Era perto de -meio dia; foi então que os minutos entraram a parecer seculos. - -A ancia da mãe era naturalmente maior que a da tia. Natividade via -andar o tempo com ferros aos pés. Não havia alvoroço que atasse um par -de azas áquellas horas longas do relogio da casa, nem aos do cinto, o -della e o da irmã; todos elles coxeavam de ambos os ponteiros. Emfim, -ouviu na areia do jardim as rodas de um carro; era Santos. - -Natividade acudiu ao patamar da escada. Santos subiu, e as mãos de -ambos estenderam-se e agarraram-se. Longa vida conjunta acaba por fazer -da ternura uma coisa grave e espiritual. Entretanto, parece que o gesto -do marido não foi original, mas secundario, filho ou imitativo do da -mulher. Póde ser que a corda da sensibilidade fosse menos vibrante na -lira dele que na della, posto que muitos anos atraz, aquele outro gesto -no _coupé_, quando voltavam da missa de S. Domingos, lembras-te?... -Sobre isto escrevi agora algumas linhas, que não ficariam mal, se as -acabasse, mas recuo a tempo, e risco-as. Não vale a pena ir à cata das -palavras riscadas. Menos vale supri-las. - -Que nos bastam as quatro mãos apertadas. Natividade perguntou pelos -filhos. Santos opinou que não tivesse medo. Não havia nada; tudo -parecia estar como no dia anterior, as ruas socegadas, as caras mudas. -Não correria sangue, o commercio ia continuar. Toda a animação de Ayres -tinha agora brotado nele, com a mesma verdura e o mesmo estylo. - -Os filhos chegaram tarde, cada um por sua vez, e Pedro mais cedo que -Paulo. A melancolia de um ia com a alma da casa, a alegria de outro -destoava desta, mas tais eram uma e outra que, apesar da expansão da -segunda, não houve repressão nem briga. Ao jantar, falaram pouco. -Paulo referia os sucessos amorosamente. Conversara com alguns -co-religionarios e soube do que se passára á noite e de manhã, a -marcha e a reunião dos batalhões no campo, as palavras de Ouro Preto -ao marechal Floriano, a resposta deste, a aclamação da Republica. A -familia ouvia e perguntava, não discutia, e esta moderação contrastava -com a gloria de Paulo. O silencio de Pedro principalmente era como um -desafio. Não sabia Paulo que a propria mãe é que o pedira ao irmão com -muitos beijos, motivo que em tal momento, ia com o aperto do coração do -rapaz. - -O coração de Paulo, ao contrario, era livre, deixava circular o sangue, -como a felicidade. Os sentimentos republicanos, em que os principios -se incrustavam viviam alli tão fortes e quentes, que mal deixavam ver -o abatimento de Pedro e o acanhamento da outra gente sua. Ao fim do -jantar, bebeu á Republica, mas calado, sem ostentação, apenas olhando -paaa o tecto, e levantando o copo um tantinho mais que de costume. -Ninguem replicou por outro gesto ou palavra. - -Certamente, o moço Pedro quiz dizer alguma phrase de piedade -relativamente ao regimen imperial e ás pessoas de Bragança, mas a -mãe quasi que não tirava os olhos delle, como impondo ou pedindo -silencio. De mais, elle não cria nada mudado; a despeito de decretos -e proclamações, Pedro imaginava que tudo podia ficar como d'antes, -alterado apenas o pessoal do governo. Custa pouco, dizia elle baixinho -á mãe, ao deixarem a mesa; é só o imperador falar ao Deodoro. - -Paulo saiu, logo depois do jantar, promettendo vir cedo. A mãe, -receiosa de o ver mettido em barulhos, não queria que elle saisse; mas -outro receio fel-a consentir, e este era que os dous irmãos brigassem -finalmente. Assim um medo vence a outro, e a gente acaba por dar o -que negou. Não é menos certo que ella raciocinou alguns minutos antes -de resolver, do mesmo modo que eu escrevi uma pagina antes da que vou -escrever agora; mas ambos nós, Natividade e eu, acabamos por deixar que -os actos se praticassem, sem opposição della, nem commentario meu. - - - -CAPITULO LXVI - - -O basto e a espadilha - - -Vieram amigos da casa, trazendo noticias e boatos. Variavam pouco e -geralmente não havia opinião segura acerca do resultado. Ninguem sabia -se a victoria do movimento era um bem, se um mal, apenas sabiam que -era um facto. Dalli a ingenuidade com que alguem propoz o voltarete -do costume, e a boa vontade de outros em acceital-o. Santos, embora -declarase que não jogava, mandou pôr as cartas e os tentos, mas os -outros opinaram que sempre faltava um parceiro, e sem elle, não -havia graça. Quiz resistir; não era bonito que no proprio dia em que -o regimen caira ou ia cair, entregasse o espirito a recreações de -sociedade... Não pensou isto em voz alta nem baixa, mas comsigo, e -talvez o leu no rosto da mulher. Acharia um pretexto para resistir, -se buscasse algum, mas amigos e cartas não deixavam buscar nada. -Santos acabou acceitando. Provalmente era essa mesma a inclinação -intima. Muitas ha que precisam ser attrahidas cá fora, como um favor -ou concessão da pessoa. Emfim, o basto e a espadilha fizeram naquella -noite o seu officio, como as mariposas e as ratos, os ventos e as -ondas, o lume das estrellas e o somno dos cidadãos. - - - - -CAPITULO LXVII - - -A noite inteira - - -Saindo de casa, Paulo foi á de um amigo, e os dous entraram a buscar -outros da mesma edade e egual intimidade. Fôram aos jornaes, ao quartel -do Campo, e passaram algum tempo deante da casa de Deodoro. Gostavam -de ver os soldados, a pé ou a cavallo, pediam licença, falavam-lhes, -offereciam cigarros. Era a unica concessão destes; nenhum lhes contou o -que se passara, nem todos saberiam nada. - -Não importa, iam cheios de si. Paulo era o mais enthusiasta e convicto. -Aos outros valia só a mocidade, que é utn programma, mas o filho de -Santos tinha frescas todas as ideias do novo regimen, e possuia ainda -outras que não via acceitar; bater-se-ia por ellas. Trazia até a desejo -de achar alguem na rua, que soltasse um grito, já agora sedicioso, para -íhe quebrar a cabeça com a bengala. Note-se que esquecera ou perdera a -bengala. Não deu por falta della; se désse, bastavam-lhe os braços e as -mãos. - -Propoz cantarem a _Marselheza_; os outros não quizeram ir tão longe, -não por medo, senão de cançados. Paulo, que resistia mais que elles á -fadiga, lembrou-lhes esperar a aurora. - ---Vamos esperal-a do alto de um morro, ou da praia do Flamengo; teremos -tempo de dormir amanhã. - ---Eu não posso, disse um. - -Os outros repetiram a recusa, e assentaram de ir para suas casas. Era -perto de duas horas. Paulo acompanhou-os a todos, e só depois de ver o -ultimo recolhido foi sósinho para Botafogo. - -Quando entrou, deu com a mãe que esperava por elle, inquieta e -arrependida de o haver deixado sair. Paulo não achou desculpa e -censurou a mãe por não dormir, á espera delle. Natividade confessou que -não teria somno, antes de o saber em casa são e salvo. Falavam baixo e -pouco; tendo-se beijado antes, beijaram-se depois e despediram-se. - ---Olha, disse Natividade, se achares Pedro acordado não lhe contes nem -lhe perguntes nada; dorme, e amanhã saberemos tudo e o mais que se -passar esta noite. - -Paulo entrou no quarto pé ante pé. Era ainda aquelle vasto quarto -em que os dous gemeos brigaram por causa de duas velhas gravuras, -Robespierre e Luiz XVI. Agora, havia mais que os retratos, uma -revolução de poucas horas e um governo fresco. Obedecendo ao conselho -da mãe, Paulo não quiz saber se Pedro dormia, posto desconfiasse que -não. Effectivamente, não. Pedro viu as cautellas de Paulo, e cumpriu -tambem os conselhos da mãe; fingiu que não via nada. Até ahi os -conselhos; mas um pouco de gloria fez com que Paulo cantarolasse entre -os dentes, baixinho, para si, a primeira estrophe da _Marselheza_ que -os amigos tinham recusado fóra: - - Allons, enfants de la patrie, - Le jour de gloire est arrivé! - -Pedro percebeu antes pela toada que pela letra, e concluiu que a -intenção do outro era affligil-o. Não era, mas podia ser. Vacillou -entre a réplica e o silencio, até que uma ideia fantastica lhe -atravessou o cerebro, cantarolar, tambem baixinho, a segunda parte -da estrophe: «_Entendez-vous dans vos campagnes..._», que allude ás -tropas estrangeiras, mas desviada do natural sentido historico, para -restringil-a ás tropas nacionaes. Era um desforço vago, a ideia passou -depressa. Pedro contentou-se de simular a indifferença suprema do -somno. Paulo não acabou a estrophe; despiu-se agitado, sem tirar o -pensamento da victoria dos seus sonhos politicos. Não se metteu logo -na cama; foi primeiro á do irmão, a ver se dormia. Pedro respirava -tão naturalmente, como se não perdera nada. Teve impeto de acordal-o, -bradar-lhe que perdera tudo, se alguma cousa era a instituição -derribada. Recuou a tempo e foi metter-se entre os lençóes. - -Nenhum dormia. Emquanto o somno não chegava, iam pensando nos -acontecimentos do dia, ambos espantados de como fôram faceis e rapidos. -Depois cogitavam no dia seguinte e nos effeitos ulteriores. Não admira -que não chegassem á mesma conclusão. - ---Como diabo é que elles fizeram isto, sem que ninguem désse pela -cousa? reflectia Paulo. Podia ter sido mais turbulento. Conspiração -houve, de certo, mas uma barricada não faria mal. Seja como fôr, -venceu-se a campanha. O que é preciso é não deixar esfriar o ferro, -batel-o sempre, e renoval-o. Deodoro é uma bella figura. Dizem que a -entrada do marechal no quartel, e a saida, puxando os batalhões, fôram -esplendidas. Talvez faceis de mais; é que o regimen estava pôdre e caiu -por si... - -Emquanto a cabeça de Paulo ia formulando essas ideias, a de Pedro ia -pensando o contrario; chamava ao movimento um crime. - ---Um crime e um disparate, além de ingratidão; o imperador devia ter -pegado os principaes cabeças e mandal-os executar. Infelizmente, as -tropas iam com elles. Mas nem tudo acabou. Isto é fogo de palha; -daqui a pouco está apagado, e o que antes era torna a ser. Eu acharei -duzentos rapazes bons e promptos, e desfaremos esta caranquejola. A -apparencia é que dá um ar de solidez, mas isto é nada. Hão de ver que -o imperador não sae daqui, e, ainda que não queira, ha de governar; -ou governará a filha, e, na falta della, o neto. Tambem elle ficou -menino e governou. Amanhã é tempo; por ora tudo são flores. Ha ainda um -punhado de homens... - -A reticencia final dos discursos de ambos quer dizer que as ideias -se iam tornando esgarçadas, nevoentas e repetidas, até que se -perderam e elles dormiram. Durante o somno, cessou a rovolução e a -contra-revolução, não houve monarchia nem republica, D. Pedro II nem -marechal Deodoro, nada que cheirasse a politica. Um e outro sonharam -com a bella enseada de Botafogo, um céu claro, uma tarde clara e uma só -pessoa: Flora. - - - - -CAPITULO LXVIII - - -De manhã - - -Flora abriu os olhos de ambos, e esvaiu-se tão depressa que elles mal -puderam ver a harpa do vestido e ouvir uma palavrinha meiga e remota. -Olharam um para o outro, sem rancor apparente. O receio de um e a -esperança de outro deram tregoas. Correram aos jornaes. Paulo, meio -tonto, temia alguma traição sobre a madrugada. Pedro tinha uma ideia -vaga de restauração, e contava ler nas folhas um decreto imperial da -amnistia. Nem traição nem decreto, A esperança e o receio fugiram deste -mundo. - - - - -CAPITULO LXIX - - -Ao piano - - -Emquanto elles sonhavam com Flora, esta não sonhou com a republica. -Teve uma daquellas noites em que a imaginação dorme tambem, sem olhos -nem ouvjdos, ou, quando muito, a retina não deixa ver claro, e as -orelhas confundem o som de um rio com o latir de um cão remoto. Não -posso dar melhor definição, nem ella é precisa; cada um de nós terá -tido dessas noites mudas e apagadas. - -Não sonhou sequer com musica; e, aliás tocára antes algumas das suas -paginas queridas. Não as tocou somente por gostar dellas, senão -por fugir á consternação dos paes, que era grande. Nenhum d'estes -podia crêr que as instituições tivessem caido, outras nascido, tudo -mudado. D. Claudia ainda appellava para o dia seguinte e perguntava -ao marido se vira bem, e o que é que vira; elle mordia os beições, -batia na perna, erguia-se, dava alguns passos, e tornava a narrar os -acontecimentos, as noticias colladas ás portas dos jornaes, a prisão -dos ministros, a situação, tudo extincto, extincto, extincto... - -Flora não era avessa á piedade, nem á esperança, como sabeis; mas -não ia com a agitação dos paes, e metteu-se com o seu piano e as -suas musicas. Escolheu não sei que sonata. Tanto bastou para lhe -tirar o presente. A musica tinha para ella a vantagem de não ser -presente, passado ou futuro; era uma cousa fóra do tempo e do espaço, -uma idealidade pura. Quando parava, succedia-lhe ouvir alguma -phrase solta do pae ou da mãe: «...Mas como foi que...?»--«Tudo ás -escondidas...»--«Ha sangue?» Às vezes um delles fazia algum gesto, -e ella não via o gesto. O pae, com a alma tropega, falava muito e -incoherente. A mãe trazia outro vigor. Já lhe succedia calar por -instantes, como se pensasse, ao contrario do marido que, em se calando, -coçava a cabeça, apertava as mãos ou suspirava, quando não ameaçava o -tecto com o punho. - ---_Lá, lá, dó, ré, sol, ré, ré, lá_, ia dizendo o piano da filha, por -essas ou por outras notas, mas eram notas que vibravam para fugir aos -homens e suas dissensões. - -Tambem se póde achar na sonata de Flora uma especie de accordo com -a hora presente. Não havia governo definitivo. A alma da moça ia -com esse primeiro albor do dia, ou com esse derradeiro crepusculo -da tarde,--como queiras,--em que nada é tão claro ou tão escuro que -convide a deixar a cama ou accender velas. Quando muito, ia haver -um governo provisorio. Flora não entendia de fórmas nem de nomes. A -sonata trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarchia da -innocencia primitiva naquelle recanto do Paraiso que o homem perdeu -por desobediente, e um dia ganhará, quando a perfeição trouxer a -ordem eterna e unica. Não haverá então progresso nem regresso, mas -estabilidade. O seio de Abrahão agazalhará todas as cousas e pessoas, e -a vida será um céu aberto. Era o que as teclas lhe diziam sem palavras, -_ré, ré, lá, sol, lá, lá, dó..._ - - - - -CAPITULO LXX - - -De uma conclusão errada - - -Os successos vieram vindo, á medida que as flores iam nascendo. Destas -houve que serviram ao ultimo baile do anno. Outras morreram na vespera. -Poetas de um e outro regimen tiraram imagem do facto para cantarem a -alegria e a melancolia do mundo. A differença é que a segunda abafava -os seus suspiros, em quanto a primeira levava longe os seus tripudios. -O metal das trompas dava outro som que o das harpas. As flores é que -continuavam a nascer e morrer, egual e regularmente. - -D. Claudia colheu as rosas do ultimo baile do anno, primeiro da -Republica, e adornou a filha com ellas. Flora obedeceu e acceitou-as. -Pae de familia antes de tudo, Baptista acompanhou a esposa e a -filha ao baile. Tambem lá foi Paulo, pela moça e pelo regimen. Se, -em conversa com o ex-presidente de provincia, disse todo o bem que -pensava do Governo Provisorio, não lhe ouviu palavras de accordo nem de -contestação. Não entrou mais fundo na confissão do homem, porque a moça -o attraia, e elle gostava mais della que do pae. - -Flora viu uma semelhança entre o baile da ilha Fiscal e este, apesar de -particular e modesto. Este era dado por pessoa que vinha dos tempos da -propaganda e um dos ministros lá esteve, ainda que só meia hora. Dahi a -ausencia de Pedro, apesar de convidado. Flora sentiu a falta de Pedro, -como sentira a de Paulo na ilha; tal era a semelhança das duas festas. -Ambas traziam a ausencia de um gemeo. - ---Porque é que seu irmão não veiu? perguntou ella. - -Paulo enfiou; depois de alguns instantes: - ---Pedro é teimoso, disse. Teimou em recusar o convite. Crê naturalmente -que a monarchia levou a arte de dançar. Não faça caso; é um lunatico. - ---Não diga isso. - ---Acha tambem que a dança se foi com o imperio? - ---Não, a prova é que estamos dançando. Não; digo que lhe não chame -nomes feios. - ---Parece-lhe então que Pedro é um rapaz de juizo? - ---Certamente, como o senhor. - ---Mas... - -Paulo ia a perguntar-lhe qual d'elles, tendo ella de jurar por um ou -por outro, lhe mereceria o juramento; mas recuou a tempo. Então ella -falou do calor, e elle achou que sim, que estava quente. Acharia que -estava frio, se ella se queixasse de frio. Flora, se só cedesse á -vista, era tambem capaz de acceitar todas as opiniões de Paulo, para ir -com elle. Em verdade, Paulo tinha agora um ar brilhante e petulante, -olhava por cima, firme em que os seus escriptos de um anno é que haviam -feito a Republica, posto que incompleta, sem certas ideias que expozera -e defendera, e teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo á moça, e -ella escutava com prazer, sem opinião; era só o gosto de o escutar. -Quando a lembrança de Pedro surgia na cabeça da moça, a tristeza -empanava a alegria, mas a alegria vencia depressa a outra, e assim -acabou o baile. Então as duas, tristeza e alegria, agazalharam-se no -coração de Flora, como as suas gemeas que eram. - -O baile acabou. O capitulo é que não acaba sem que deixe um pouco de -espaço a quem quizer pensar naquella creatura. Pae nem mãe podiam -entendel-a, os rapazes tambem não, e provavelmente Santos e Natividade -menos que ninguem. Tu, mestra de amores ou alumna delles, tu que -escutas a diversos, conclues que ella era... Custa pôr o nome do -officio. Se não fosse a obrigação de contar a historia com as proprias -palavras, preferia calal-o, mas tu sabes qual é elle, e aqui fica. -Conclues que Flora era namoradeira, e conclues mal. - -Leitora, é melhor negar já isto que esperar pelo tempo. Flora não -conhecia as doçuras do namoro, e menos ainda se podia dizer namoradeira -de officio. A namoradeira de officio é a planta das esperanças, -e alguma vez das realidades, se a vocação o impõe e a occasião o -permitte. Tambem é preciso ter em lembrança aquillo de um publicista, -filho de Minas e do outro seculo, que acabou senador, e escrevia contra -os ministros adversarios: «Pitangueira não dá manga.» Não, Flora não -dava para namorados. - -A prova disto é que no Estado em que viveu alguns mezes de 1801, com o -pae e a mãe, para o fim que direi adiante, ninguem alcançou o menor dos -seus olhares amigos ou sequer complacentes. Mais de um rapaz consumiu -o tempo em se fazer visto e attrahido della. Mais de uma gravata, mais -de uma bengala, mais de uma luneta levaram-lhe as côres, os gestos e os -vidros, sem obter outra cousa que a attenção cortez e acaso uma palavra -sem valor. - -Flora só se lembrava dos gemeos. Se nenhum delles a esqueceu, ella não -os perdeu de memoria, Ao contrario, escrevia por todos os correios a -Natividade para se fazer lembrada de ambos. As cartas falavam pouco da -terra ou da gente, e não diziam mal nem bem. Usavam muito a palavra -saudades, que cada um dos dous gemeos lia para si. Tambem elles a -escreviam nas cartas que mandavam a D. Claudia e a Baptista, com a -mesma intenção duplicada e e mysteriosa, que ella entendia muito bem. - -Taes eram de longe, ella e elles. A rixa velha, que os desunia na vida, -continuava a desunil-os no amor. Podiam amar cada um a sua moça, casar -com ella e ter os seus filhos, mas preferiam amar a mesma, e não ver -o mundo por outros olhos, nem ouvir melhor verbo, nem diversa musica, -antes, durante e depois da commissão do Baptista. - - - - -CAPITULO LXXI - - -A commissão - - -Lá me escapou a palavra. Sim, foi uma commissão dada ao pae, e da qual -não sei nada, nem ella. Negocio reservado. Flora chamava-lhe commissão -do inferno. O pae, sem ir tão fundo, concordava mentalmente com ella; -verbalmente, desmentia a definição. - ---Não digas isso, Flora; é commissão de confiança para fins nobremente -politicos. - -Creio que sim, mas dahi a saber o objecto especial e real, ia largo -espaço. Tambem não se sabe como foi parar ás mãos de Baptista aquelle -recado do governo. Sabe-se que elle não desprezou a escolha, quando -um amigo intimo correu a chamal-o ao palacio do generalissimo. Viu -que era reconhecer nelle muita finura e capacidade de trabalho. Não -é menos certo, porém, que a commissão entrava a aborrecel-o, posto -que na correspondencia official dissesse exactamente o contrario. Se -taes papeis mostrassem sempre o coração da gente, Baptista, cujas -instrucções eram, aliás, de concordia, parecia querer levar a concordia -a ferro e fogo; mas o estylo não é o homem. O coração de Baptista -fechava-se, quando elle escrevia, e deixava ir a mão adiante, com a -chave do coração apertada... «Já é tempo, suspirava o musculo, já é -tempo de um logar de governador.» - -Quanto a D. Claudia, nao queria ver acabada a commissão, que restituia -ao esposo a acção politica; faltava-lhe sómente uma cousa, opposição. -Nenhum jornal dizia mal delle. Aquelle prazer de ler todas as manhãs -as descomposturas dos adversarios, lel-as e relel-as com os seus nomes -feios, como lategos de muitas pontas, que lhe rascavam as carnes e -a excitavam ao mesmo tempo, esse prazer não lhe dava a commissão -reservada. Ao contrario, havia uma especie de aposta em achar o -commissario justo, equitativo e conciliador, digno de admiração, typo -civico, caracter sem macula. Tudo isto ella conheceu outr'ora, mas para -lhe achar sabor foi sempre preciso que viesse entremeado de ralhos -e calumnias. Sem elles, era agua ensossa. Tambem não tinha aquella -parte de ceremonias a que obrigava o summo cargo, mas não lhe faltavam -attenções, e era alguma cousa. - - - - -CAPITULO LXXII - - -O regresso - - -Quando o marechal Deodoro dissolveu o congresso nacional, em 3 de -novembro, Baptista recordou o tempo dos manifestos liberaes, e quiz -fazer um. Chegou a principial-o, em segredo, empregando as belIas -phrases que trazia de cór, citações latinas, duas ou trez apostrophes. -D. Claudia reteve-o á beira do abysmo, com razões claras e robustas. -Antes de tudo, o golpe de Estado podia ser um beneficio. Serve-se muita -vez a liberdade parecendo suffocal-a. Depois, era o mesmo homem que a -havia proclamado que convidava agora a nação a dizer o que queria, e -a emendar a constituição, salvo nas partes essenciaes. A palavra do -generalissimo, como a sua espada, bastava a defender e consummar a obra -principiada. D. Claudia não tinha estylo proprio, mas sabia communicar -o calor do discurso ao coração de um homem de boa vontade. Baptista, -depois de a escutar e pensar, bateu-lhe no hombro imperativamente. - ---Tens razão, filha. - -Não rasgou o papel escripto; queria guardal-o como simples lembrança, -e a prova é que ia escrever uma carta ao presidente. D. Claudia tambem -lhe tirou esta ideia da cabeça. Não havia necessidade de lhe mandar o -seu suffragio; bastava conservar-se na commissão. - ---O governo não está satisfeito com você? - ---Está. - ---Vendo que você se conserva, conclue que approva tudo, e basta. - ---Sim, Claudia, concordou elle após alguns instantes. Ao contrario, -qualquer cousa que escrevesse contra a assembléa sediciosa que o -presidente acaba de dissolver, pareceria falta de piedade. Paz aos -mortos! Tens razão, filha. - -Conservou-se calado, operando, fiel ás instrucções recebidas. Vinte -dias depois, o marechal Deodoro passava o governo ás mãos do marechal -Floriano, o congresso era restabelecido e todos os decretos do dia 3 -annullados. - -Ao saber de taes factos, Baptista pensou morrer. Ficou sem fala por -alguns instantes, e D. Claudia não achou a menor parcella de animo -que lhe désse. Nenhum contára com a marcha rapida dos acontecimentos, -uns sobre outros, com tal atropello que parecia um bando de gente que -fugia. Vinte dias apenas; vinte dias de força e socego, esperanças e -grande futuro. Um dia mais e tudo ruiu como casa velha. - -Agora é que Baptista comprehendeu o erro de haver dado ouvidos á -esposa. Se tem acabado e publicado o manifesto no dia 4 ou 5, estaria -com um documento de resistencia na mão para reivindicar um posto de -honra qualquer,--ou só estima que fosse. Releu o manifesto; chegou a -pensar em imprimil-o, embora incompleto. Tinha conceitos bons, como -este; «O dia da oppressão é a vespera da liberdade.» Citava a bella -Roland caminhando para a guilhotina; «Ó liberdade, quantos crimes em -teu nome!» D. Claudia fez-lhe ver que era tarde, e elle concordou. - ---Sim, é tarde. Naquelle dia é que não era tarde, vinha á hora propria, -para o effeito certo. - -Baptista amarrotou o papel distrahidaraente; depois alisou-o e -guardou-o. Em seguida, fez um exame de consciencia, profundo e sincero. -Não devia ter cedido; a resistencia era o melhor; se tem resistido ás -palavras da mulher, a situação seria outra. Apalpou-se, achou que sim, -que podia muito bem haver-lhe trancado os ouvidos e passado adiante. -Insistiu muito neste ponto. Se pudesse, faria voltar atraz o tempo, e -mostraria como é que a alma escolhe de si mesma o melhor dos partidos. -Não era preciso saber nada do que anteriormente succedeu; a consciencia -dizia-lhe que, era situação identica á do dia 3, faria outra cousa... -Oh! com certeza! faria cousa muito diversa, e mudaria o seu destino. - -Um officio ou telegrarama veiu arrancar Baptista á commissão politica -e reservada, A volta para o Rio de Janeiro foi breve e triste, sem os -epithetos que o haviam regalado por alguns mezes, nem acompanhamento de -amigos. Só uma pessoa vinha alegre, a filha, que rezara todas as noites -pela terminação daquelle exilio. - ---Parece que estás contente com o desastre de teu pae, disse-lhe a mãe -já a bordo. - ---Não, mamãe; alegro-me de ver que acabou esta canceira. Papae póde -muito bem fazer politica no Rio de Janeiro, onde é muito apreciado, -A senhora verá. Eu, se fosse papae, apenas desembarcasse, ia logo ao -marechal explicar tudo, mostrar as instrucções e dizer o que tinha -feito; dizia mais que a dispensa veiu muito a proposito, afim de não -parecer que ficara amofinado. Depois pedia-lhe para trabalhar lá -mesmo... - -D. Claudia, a despeito do amargor dos tempos, gostou de ver que a filha -pensava e dava conselhos em politica. Não advertiu, como fez o leitor, -que a alma do discurso da moça era não sair da capital, fazer aqui -mesmo o seu congresso, que em breve seria uma só assembléa legislativa, -como no Rio Grande do Sul; mas a qual das cantaras, Pedro ou Paulo, -caberia esse unico poder politico? Eis o que ella mesma não sabia. - -Ambos se lhe apresentaram a bordo, logo que o paquete entrou no -porto do Rio de Janeiro. Não fôram em duas lanchas, fôram na mesmo, -e saltaram com tal presteza para a escada, que escaparam de cair ao -mar. Talvez fosse o melhor desfecho do livro. Ainda assim não acaba -mal o capitulo, porque a razão da presteza com que elles saltaram para -a escada foi a ambição de ser o primeiro que comprimentasse a moça; -aposta de amor, que ainda uma vez os egualou na alma della. Emfim -chegaram, e não consta qual effectivamente a cumprimentou primeiro; -póde ser que ambos. - - - - -CAPITULO LXXIII - - -Um El-Dorado - - -No caes Pharoux esperavam por elles trez carruagens,--dous _coupés_ e -um _landau_, com trez bellas parelhas de cavallos. A gente Baptista -ficou lisonjeada com a fineza da gente Santos, e entrou no _landau._ Os -gemeos foram cada um no seu _coupé._ A primeira carruagem tinha o seu -cocheiro e o seu lacaio, fardados de castanho, botões de metal branco, -em que se podiam ver as armas da casa. Cada uma das outras tinha -apenas o cocheiro, com egual libré. E todas trez se puzeram a andar, -estas atraz daquella, os animaes batendo rijo e compassado, a golpes -certos, como se houvessem ensaiado, por longos dias, aquella recepção. -De quando em quando, encontravam outros trens, outras librés, outras -parelhas, a mesma belleza e o mesmo luxo. - -A capital offerecia ainda aos recem-chegados um espectaculo magnifico. -Vivia-se dos restos daquelle deslumbramento e agitação, epopeia de ouro -da cidade e do mundo, porque a impressão total é que o mundo inteiro -era assim mesmo. Certo, não lhe esqueceste o nome, encilhamento, a -grande quadra das emprezas e companhias de toda especie. Quem não viu -aquillo não viu nada. Cascatas de ideias, de invenções, de concessões -rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de -reis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares -de milhares de milhares de contos de reis. Todos os papeis, aliás -acções, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro, -bancos, fabricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação, -importação, ensaques, emprestimos, todas as uniões, todas as regiões, -tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava -nas ruas e praças, com estatutos, organisadores e listas. Letras -grandes enchiam as folhas publicas, os titulos succediam-se, sem que se -repetissem, raro morria, e só morria o que era frouxo, mas a principio -nada era frouxo. Cada acção trazia a vida intensa e liberal, alguma vez -immortal, que se multiplicava daquella outra vida com que a alma acolhe -as religiões novas. Nasciam as acções a preço alto, mais numerosas que -as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos. - -Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro -brotava do chão, mas não é verdade. Quando muito, caia do céu. Candido -e Cacambo... Ai, pobre Cacambo nosso! Sabes que é o nome daquelle -indio que Basilio da Gama cantou no _Uruguay._ Voltaire pegou delle -para o metter no seu livro, e a ironia do philosopho venceu a doçura -do poeta. Pobre José Basilio! tinhas contra ti o assumpto estreito e a -lingua escusa. O grande homem não te arrebatou Lindoya, felizmente, mas -Cacambo é delle, mais delle que teu, patricio da minha alma. - -Candido e Cacambo, ia eu dizendo, ao entrarem no El-Dorado, conta -Voltaire que viram creanças brincando na rua com rodelas de ouro, -esmeralda e rubi; apanharam algumas, e na primeira hospedaria em que -comeram quizeram pagar o jantar com duas dellas. Sabes que o dono da -casa riu ás bandeiras despregadas, já por quererem pagar-lhe com pedras -do calçamento, já porque alli ninguem pagava o que comia; era o governo -que pagava tudo. Foi essa hilaridade do hospedeiro, com a liberalidade -attribuida ao Estado, que fez crêr eguaes phenomenos entre nós, mas é -tudo mentira. - -O que parece ser verdade é que as nossas carruagens brotavam do chão. -Ás tardes, quando uma centena dellas se ia enfileirar no largo de S. -Francisco de Paula, á espera das pessoas, era um gosto subir a rua -do Ouvidor, parar e contemplal-as. As parelhas arrancavam os olhos á -gente; todas pareciam descer das rhapsodias de Homero, posto fossem -corceis de paz. As carruagens tambem. Juno certamente as apparelhára -com suas correias de ouro, freios de ouro, redeas de ouro, tudo de -ouro incorruptivel. Mas nem ella nem Minerva entravam nos vehiculos de -ouro para os fins da guerra contra Illion. Tudo alli respirava a paz. -Cocheiros e lacaios, barbeados e graves, esperando tezos e compostos, -davam uma bella ideia do officio. Nenhum aguardava o patrão, deitado -no interior dos carros, com as pernas de fóra. A impressão que davam -era de uma disciplina rigida e elegante, aprendida em alta escola e -conservada pela dignidade do individuo. - -«Casos ha,--escrevia o nosso Ayres--em que a impassibilidade do -cocheiro na boléa contrasta com a agitação do dono no interior da -carruagem, fazendo crêr que é o patrão que, por desfastio, trepou á -boléa e leva o cocheiro a passear.» - - - - -CAPITULO LXXIV - - -A allusão do texto - - -Antes de continuar, é preciso dizer que o nosso Ayres não se referia -vagamente ou de modo generico a algumas pessoas, mas a uma só pessoa -particular. Chamava-se então Nobrega; outr'ora não se chamava nada, era -aquelle simples andador das almas que encontrou Natividade e Perpetua -na rua de S. José, esquina da da Misericordia. Não esqueceste que a -recente mãe deitou uma nota de dous mil reis á bacia do andador. A nota -era nova e bella; passou da bacia á algibeira, no fundo de um corredor, -não sem algum combate. - -Poucos mezes depois, Nobrega abandonou as almas a si mesmas, e foi a -outros purgatorios, para os quaes achou outras opas, outras bacias e -finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz. Quero dizer que foi -a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade, e não se sabe se tambem -o paiz. Quando tornou, trazia alguns pares de contos de reis, que a -fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Emfim, alvoreceu a famosa quadra -do «encilhamento». Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande -esmola, o grande purgatorio. Quem já sabia do andador das almas? A -antiga roda perdera-se na obscuridade e na morte. Elle era outro; as -feições não eram as mesmas, senão as que o tempo lhe veiu compondo e -melhorando. - -Se a grande bacia, ou qualqer das outras recebeu notas que tivessem o -destino da primeira, é o que se não sabe, mas é possivel. Foi por esse -tempo que Ayres o viu de carro, quasi a sair pela portinhola fóra, -comprimentando muito, espiando tudo. Como o cocheiro e o lacaio (creio -que eram escossezes) salvassem a dignidade pessoal da casa, Ayres fez a -observação do fim do outro capitulo, sem nenhuma intenção geral. - -Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nobrega tinha medo de -tornar ao bairro, onde andára a pedir para as primeiras almas. Um dia, -porém, taes fôram as saudades delle que pensou em affrontar o perigo e -lá foi. Tinha cocegas de mirar as ruas e as pessoas, recordava as casas -e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde appareciam -taes e taes moças... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou -por outra parte. Só passava de carro; depois quiz ver tudo a pé, -devagar, parando, se fosse possivel, e revivendo o extincto. - -Lá se foi a pé; desceu pela rua de S. José, dobrou a da Misericordia, -foi parar á praia de Santa Luzia, tornou pela rua de D. Manuel, enfiou -de becco em becco. A principio olhava de esguelha, rapido, os olhos no -chão. Aqui via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro. Dos sobrados -de grade de pau debruçaram-se ainda moças, velhas e meninas e nenhuma -era a mesma. Nobrega foi-se animando e. encarando. Talvez esta velha -fosse moça, ha vinte annos; a moça talvez mamasse, e dá agora de mamar -a outra creança. Nobrega acabou parando e andando de vagar. - -Voltou mais vezes. Só as casas, que eram as mesmas, pareciam -reconhecel-o, e algumas quasi que lhe falavam. Não é poesia. O -ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras, ouvir-se -admirar dellas, contar-lhes a vida, obrigal-as a comparar o modesto -de outr'ora com o garrido de hoje, e escutar-lhes as palavras -mudas: «Vejam, manas, é elle mesmo.» Passava por,ellas, fitava-as, -interrogava-as, quasi ria, quasi as tocava para sacudil-as com força: -«Falem, diabos, falem!» - -Não confiaria de homem aquelle passado, mas ás paredes mudas, ás -grades velhas, ás portas gretadas, aos lampiões antigos, se os havia -ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quizera dar olhos, ouvidos e -bôca, uma bôca que só elle escutasse, e que proclamasse a prosperidade -daquelle velho andador. - -Uma vez, viu a matriz de S. José aberta e entrou. A egreja era a mesma; -aqui estão os altares, aqui está a solidão, aqui está o silencio. -Persignou-se, mas não orou; olhava só a um lado e outro, andando na -direcção do altar-mór. Tinha receio de ver apparecer o sacristão, podia -ser o mesmo, e conhecel-o. Ouviu passos, recuou depressa e saiu. - -Ao subir pela rua de S. José, encostou-se á parede, para deixar passar -uma carroça. A carroça subiu a calçada, elle refugiou-se n'um corredor. -O corredor podia ser qualquer; aquelle era o proprio em que elle fez -a operação da nota de dous mil reis de Natividade. Olhou bem, era o -mesmo. Ao fundo estavam os trez ou quatro degráos da primeira escada -que dobrava á esquerda e pegava com a grande. Sorriu do acaso, reviu -por um instante aquella manhã, viu no ar a nota de dous mil reis. -Outras lhe teriam vindo ás mãos por maneiras assim faceis, mas nunca -lhe esqueceu aquella graciosa folha gravada com tantos symbolos, -numeros, datas e promessas, entregue por uma senhora desconhecida, sabe -Deus se a propria Santa Rita de Cassia. Era a sua particular devoção. -Sem duvida, trocou a nota e gastou-a, mas as partes dispersas não fôram -senão levar a outras notas um convite para a algibeira do dono, e todas -acudiram a mancheias, obedientes e caladas, para que não as ouvissem -crescer. - -Por mais que elle olhasse pela vida dentro, não achava egual obsequio -do céu, ou sequer do inferno. Mais tarde, se alguma joia lhe levou os -olhos, não lhe levou as mãos. Tinha aprendido a respeitar o alheio, ou -ganhára com que o comprar. A nota de dous mil reis... Um dia, ousando -mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor. - -Não, leitor, não me apanhas em contradicção. Eu bem sei que a principio -o andador das almas attribuiu a nota ao prazer que a dama traria de -alguma aventura. Ainda me lembram as palavras delle: «Aquellas duas -viram passarinho verde!» Mas se agora attribuia a nota á protecção da -santa, não mentia então nem agora. Era difficil atinar com a verdade. -A unica verdade certa eram os dous mil reis. Nem se póde dizer que era -a mesma em ambos os tempos. Então, a nota de dous mil reis equivalia, -pelo menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora não -subia de uma gorgeta de cocheiro. - -Tambem não ha contradicção em pôr a santa agora e a namorada outr'ora. -Era mais natural o contrario, quando era maior a intimidade delle com -egreja. Mas, leitor dos meus peccados, amava-se muito em 1871, como -já se amava em 1861, 1851 e 1841, não menos que em 1881, 1891 e 1901. -O seculo dirá o resto. E depois, é preciso não esquecer que a opinião -do andador das almas ácerca de Natividade foi anterior ao gesto do -corredor, quando elle agazalhou a nota na algibeira. É duvidoso que, -depois do gesto, a opinião fosse a mesma. - - - - -CAPITULO LXXV - - -Proverbio errado - - -Pessoa a quem li confidencialmente o capitulo passado, escreve-me -dizendo que a causa de tudo foi a cabocla do Castello. Sem as suas -predicções grandiosas, a esmola de Natividade seria minima ou nenhuma, -e o gesto do corredor não se daria por falta de nota. «A occasião faz o -ladrão», conclue o meu correspondente. - -Não conclue mal. Ha todavia alguma injustiça ou esquecimento porque as -razões do gesto do corredor fôram todas pias. Além disso, o proverbio -póde estar errado. Uma das affirmações de Ayres, que tambem gostava de -estudar adagios, é que esse não estava certo. - ---Não é a occasião que faz o ladrão, dizia elle a alguem; o proverbio -está errado. A fórma exacta deve ser esta: «A occasião faz o furto; o -ladrão nasce feito.» - - - - -CAPITULO LXXVI - - -Talvez fosse a mesma! - - -Nobrega saiu emfim do corredor, mas foi obrigado a deter-se, porque uma -mulher lhe estendia a mão: - ---Meu senhor, uma esmolinha por amor de Deus! - -Nobrega metteu a mão no bolso do collete e pegou um nickel, entre dous -que lá havia, um de tostão, outro de dous. Pegou o primeiro, mas indo a -darlh'o, mudou de ideia; não deu o nickel; disse á velha que esperasse, -e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua, introduziu a mão -na algibeira das calças e saccou um maço de dinheiro; procurou e achou -uma nota de dous mil reis, não nova, antes velha, tão velha como a -mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde -com a velhice. - ---Tome lá, murmurou elle. - -Quando a mendiga voltou do espanto, Nobrega acabava de restituir o -maço á algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga então disse veiu -entremeado de lagrimas: - ---Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem -Santissima... - -E beijava a nota, e queria beijar a mão que lhe dera a esmola, mas -elle a escondeu, como no Evangelho, murmurando que não, que se fosse -embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som quasi mystico, -uma especie de melodia do céu, um côro de anjos, e fazia bem fitar-lhe -os olhos encarquilhados, a mão tremula, segurando a nota. Nobrega não -esperou que ella se fosse, saiu, desceu a rua, com as bençãos da mulher -atraz de si; dobrou a esquina, a passo rapido, e ahi foi pensando não -se sabe em quê. - -Atravessou a praça, passou a cathedral e a egreja do Carmo, e chegou -ao Carceller, onde entregou as botas a um italiano para que lh'as -engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo, para a direita -ou para esquerda,--em todo caso para longe,--e acabou murmurando -esta phrase, que tanto podia referir-se á nota. como á mendiga, mas -provavelmente era á nota: - ---Talvez fosse a mesma! - -Nenhum obsequio, por infimo que seja, esquece ao beneficiado. Ha -excepções. tambem ha casos em que a memoria dos obsequios afflige, -persegue e morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra é -guardal-os na memoria, como as joias nos seus escrinios; comparação -justa, porque o obsequio é muita vez alguma joia, que o obsequiado -esqueceu de restituir. - - - - -CAPITULO LXXVII - - -Hospedagem - - -A família Baptista foi aposentada em casa de Santos. Natividade não -pôde ir a bordo, e o marido estava occupado em «lançar uma companhia»; -mandaram recado pelos filhos que a casa de Botafogo tinha já os quartos -preparados. Desde que o carro se poz a andar, Baptista confessou que ia -ficar constrangido por alguns dias. - ---N'uma casa de pensão era melhor, até que nos despejassem a de S. -Clemente. - ---Que queria você? Não havia remedio senão acceitar, ponderou a mulher. - -Flora não disse nada, mas sentia o contrario do pae e da mãe. Pensar -não pensou; ia tão atordoada com a vista dos rapazes que as ideias não -se enfileiraram naquella forma logica do pensamento. A propria sensação -não era nitida. Era uma mistura de oppressivo e delicioso, de turvo e -claro, uma felicidade truncada, uma afflicção consoladora, e o mais que -puderes achar no capitulo das contradicções. Eu nada mais lhe ponho. -Nem ella saberia dizer o que sentia. Teve allucinações extraordinarias. - -Agora o que é mister dizer é que a ideia da hospedagem cabe toda aos -dous jovens doutores. Que elles eram já doutores, posto não houvessem -ainda encetado a carreira de advogado nem de medico. Viviam do amor -da mãe e da bolsa do pae, inexgotaveis ambos. O pae abanou as orelhas -á lembrança, mas os gemeos insistiram pelo obsequio, a tal ponto que -a mãe, contente de os ver de accordo, saiu do silencio e concordou -com elles. A ideia de ter a pequena ao pé de si, por alguns dias, e -discernir qual era o melhor acceito, e o que devéras a amava, póde ser -que tambem influisse na adopção do voto, mas não affirmo nada a tal -respeito. Tambem não asseguro que tivesse grande gosto em agazalhar a -mãe e o pae de Flora. Não obstante, o encontro foi cordial de parte a -parte. Foi um abraçar, um beijar, um perguntar, um trocar de mimos que -não acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra côr, outro ar. Flora -era um encanto para Natividade e Perpetua; nenhuma destas sabia aonde -iria parar aquella moça tão senhoril, tão esbelta, tão... - ---Não digam o resto, interrompeu a moça sorrindo; eu tenho a mesma -opinião. - -Santos recebeu-os, á tarde, com a mesma cordialidade,--talvez menos -apparente, mas tudo se desculpa a quem anda com grandes negocios. - ---Uma ideia sublime, disse elle ao pae de Flora; a que lancei hoje foi -das melhores, e as acções valem já ouro. Trata-se de lã de carneiro, -e começa pela criação deste mammifero nos campos do Paraná. Em cinco -annos poderemos vestir a America e a Europa. Viu o programma nos -jornaes? - ---Não, não leio jornaes daquir desde que embarquei. - ---Pois verá! - -No dia seguinte, antes de almoçar, mostrou ao hospede o programma e os -estatutos. As acções eram maços e maços, e Santos ia dizendo o valor -de cada um. Baptista sommava mal, em regra; daquella vez, peor. Mas os -algarismos cresciam á vista, trepavam uns nos outros, enchiam o espaço, -desde o chão até ás janellas, e precipitavam-se por ellas abaixo, com -um rumor de ouro que ensurdecia. Baptista saiu d'alli fascinado, e foi -repetir tudo á mulher. - - - - -CAPITULO LXXVIII - - -Visita ao marechal - - -D. Claudia, quando elle acabou, perguntou-lhe com simplicidade: - ---Você vae hoje ao marechal? - -Baptista, caindo em si: - ---Naturalmente. - -Tinham ajustado que elle iria ter com o presidente da Republica -explicar-lhe a commissão que exercera, toda reservada, e, sem embargo, -imparcial. Diria o espirito de concordia com que andou e a estima que -adquiriu. Em seguida, falaria da conveniencia de um governo que, pela -fortaleza e pela liberdade, excedesse o do generalissimo; e uma phrase -final bem estudada. - ---Isso na occasião, disse Baptista. - ---Não, é melhor leval-a feita. Eu lembrei-me desta: «Creia V. Ex. que -Deus está com os fortes e os bons.» - ---Sim, não é má. - ---Você póde accrescentar um gesto que indique céu. - ---Isso é que não. Você sabe que eu não dou para gestos, não sou actor. -Eu, sem mexer um pé, inspiro respeito. - -D. Claudia dispensou o gesto; não era essencial. Quiz que elle -escrevesse a phrase, mas já estava de cór. Baptista tinha boa memoria. - -Naquelle mesmo dia, Baptista foi ao marechal Floriano. Não disse nada -ás pessoas da casa; contaria tudo na volta. D. Claudia tambem calou, -era por pouco tempo; ficou esperando anciosa. Esperou duas mortaes -horas, chegou a imaginar que lhe tivessem encarcerado o esposo, por -intrigas. Não era devota, mas o medo inspira devoção, e ella rezou -comsigo. Emfim, chegou Baptista. Ella correu a recebel-o, alvoroçada, -pegou-lhe na mão e recolheram-se ao quarto. Perpetua (vêde o que são -testemunhos pessoaes na historia!) exclamou enternecida: - ---Parecem dous pombinhos! - -Baptista contou que a recepção foi melhor do que esperava, comquanto o -marechal não lhe dissesse nada, mas escutou-o com interesse. A phrase? -A phrase saiu bem, apenas com uma emenda. Não estando certo se elle -preferia _bons a fortes_, ou se _fortes a bons..._ - ---Deviam ser as duas palavras, interrompeu a mulher. - ---Sim, mas lembrou-me empregar uma terceira: «Creia V. Ex. que Deus -está com os dignos!» - -Com effeito, a ultima palavra podia abranger as duas, e trazia esta -vantagem de dar á phrase um arranjo pessoal delle. - ---Mas o marechal que disse? - ---Não disse nada; ouviu-me com attenção obsequiosa e chegou a -sorrir,--um sorriso leve, um sorriso de accordo... - ---Ou seria... Quem sabe... Você não andou bem, de certo. Commigo elle -diria alguma cousa. Você expoz tudo, conforme tinhamos combinado? - ---Tudo. - ---Expoz as razões da commissão, o desempenho, a nossa moderação...? - ---Tudo, Claudia. - ---E o aperto de mão do marechal? - ---Não estendeu a mão, a principio; fez um gesto de cabeça; eu é que -estendi a minha, dizendo: Sempre ás ordens de V. Ex. - ---E elle? - ---Elle apertou-me a mão. - ---Apertou bem? - ---Você sabe, não podia ser um apertão de amigo, mas deve ter sido -cordial. - ---E nenhuma palavra? Um _passe bem_, ao menos? - ---Não, nem era preciso. Cortejei-o e saí. - -D. Claudia deixou-se estar pensando. A recepção não lhe pareceu que -fosse má, mas podia ser melhor. Com ella, seria muito melhor. - - - - -CAPITULO LXXIX - - -Fusão, diffusão, confusão... - - -Atraz falei das allucinações de Flora. Realmente, eram extraordinarias. - -Em caminho, depois do desembarque, não obstante virem os gemeos -separados e sós, cada um no seu _coupé_, scismou que os ouvia -falar; primeira parte da allucinação. Segunda parte: as duas vozes -confundiam-se, de tão eguaes que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, -a imaginação fez dos dous moços uma pessoa unica. - -Este phenomeno não creio que possa ser commum. Ao contrario, não -faltará quem absolutamente me não creia, e supponha invenção pura o que -é verdade purissima. Ora, é de saber que, durante a commissão do pae, -Flora ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na mesma voz e -mesma creatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o phenomeno. -Quando ouvia os dous, sem os ver, a imaginação acabava a fusão do -ouvido pela da vista, e um só homem lhe dizia palavras extraordinarias. - -Tudo isto não é menos extraordinario, concordo. Se eu consultasse o meu -gosto, nem os dous rapazes fariam um só mancebo, nem a moça seria uma -só donzella. Corrigiria a natureza desdobrando Flora. Não podendo ser -assim, consinto na unificação de Pedro e Paulo. Porquanto, esse effeito -de visão repetia-se ao pé delles, tal qual na ausencia, quando ella se -deixava esquecer do logar, e soltava a redea a si mesma. Ao piano, á -palestra, ao passeio na chacara, á mesa de jantar, tinha dessas visões -repentinas e breves, e das quaes ella mesma sorria, a principio. - -Se alguem quizer explicar este phenomeno pela lei da hereditariedade, -suppondo que elle era a forma affectiva da variação politica da mãe -de Flora, não achará apoio em mim, e creio que em ninguem. São cousas -diversas. Conheceis os motivos de D. Claudia; a filha teria outros -que ella propria não sabia. O unico ponto de semelhança é que, tanto -na mãe como na filha, o phenomeno era agora mais frequente, mas em -relação á primeira vinha do atropello dos acontecimentos exteriores. -Nenhuma revolução se faz como a simples passagem de uma sala a outra; -as mesmas revoluções chamadas de palacio trazem alguma agitação que -fica por certo prazo, até que a agua volte ao nivel. D. Claudia cedia á -inquietação dos tempos. - -A filha obedeceria a outra causa qualquer, que se não podia descobrir -logo, nem sequer entender. Era um espectaculo mysterioso, vago, -obscuro, em que ás figuras visiveis se faziam impalpaveis, o dobrado -ficava unico, o unico desdobrado, uma fusão, uma confusão, uma -diffusão... - - - -CAPITULO LXXX - - -Transfusão, emfim - - -Uma transfusão, tudo o que puder definir melhor, pela repetição e -graduação das fórmas e dos estados, aquelle particular phenomeno, pódes -empregal-o no outro e neste capitulo. - -Dito o phenomeno, é preciso dizer tambem que Flora, a principio, -achava-lhe graça. Minto; nos primeiros tempos, como estava longe, não -lhe achou nada; depois, sentiu uma especie de susto ou vertigem, mas -logo que se acostumou a passar de dous a um e de um a dous, pareceu-lhe -graciosa a alternação, e chegava a evocal-a com o proposito de divertir -a vista. Afinal nem isto era preciso, a alternação fazia-se de si -mesma. Umas vezes era mais lenta que outras, alguma instantanea. Não -eram tão frequentes que confinassem com o delirio. Emfim, ella se foi -acostumando e deleitando. - -Uma ou outra vez, na cama, antes de dormir, repetia-se o phenomeno, -depois de muita resistencia da parte della, que não queria perder -o somno. Mas o somno vinha, e o sonho completava a vigilia. Flora -passeava então pelo braço do mesmo garção amado, Paulo se não Pedro, e -ambos iam admirar estrellas e montanhas, ou então o mar, que suspirava -ou tempestuava, e as flores e as ruinas. Não era raro ficarem os dous -a sós, deante de uma nesga de céu, claro de luar, ou todo repregado -de estrellas como um panno azul escuro. Era á janella, suppõe; vinha -de fóra a cantiga dos ventos mansos, um espelho grande, pendente da -parede, reproduzia as figuras della e delle, confirmando a imaginação -della. Como era sonho, a imaginação trazia espectaculos desconhecidos, -taes e tantos que mal se podia crêr bastasse o espaço de uma noite. E -bastava. E sobrava. Succedia que Flora acordava de repente, perdia o -quadro e o vulto, e persuadia-se que era tudo illusão, e raro então -dormia. Se era cedo, erguia-se, andava, cançava-se, até adormecer -novamente e sonhar outra cousa. - -Outras vezes, a visão ficava sem o sonho, e diante della uma só figura -esbelta, com a mesma voz namorada, o mesmo gesto supplice. Uma noite, -indo a deitar-lhe os braços sobre os hombros com o fim inconsciente -de cruzar os dedos atraz do pescoço, a realidade, posto que ausente, -clamou pelos seus fóros, e o unico moço se desdobrou na duas pessoas -semelhantes. - -A differença deu ás duas visões de acordada um tal cunho de -fantasmagoria que Flora teve medo e pensou no Diabo. - - - - -CAPITULO LXXXI - - -Ai, duas almas... - - -Anda, Flora, ajuda-me, citando alguma cousa, verso ou prosa, que -exprima a tua situação. Cita Goethe, amiga minha, cita um verso do -Fausto, adequado: - - Ai, duas almas no meu seio moram! - -A mãe dos gemeos, a bella Natividade podia havel-o citado tambem, antes -delles nascerem, quando ella os sentia lutando dentro em si mesma: - - Ai, duas almas no meu seio moram! - -Nisto as duas se parecem,--uma os concebeu, outra os recolheu. -Agora, como é que se dá ou se dará a escolha de Flora, nem o proprio -Mephistopheles nol-o explicaria de modo claro e certo. O verso basta: - - Ai, duas almas no meu seio moram! - -Talvez aquelle velho Placido, que lá deixamos nas primeiras paginas, -chegasse a deslindar estas outras. Doutor em materias escuras e -complicadas, sabia muito bem o valor dos numeros, a significação dos -gestos não só visiveis como invisiveis, a estatistica da eternidade, -a divisibilidade do infinito. Era já morto deste alguns annos. Has de -lembrar-te que elle, consultado pelo pae de Pedro e Paulo, acerca da -hostilidade original dos gemeos, explicou-a promptamente. Morreu no seu -officio; expunha a trez discipulos novos a correspondencia das letras -vogaes com os sentidos do homem, quando caiu de bruços e expirou. - -Já então os adversarios de Placido,--que os tinha na propria -seita,--affirmavam haver elle aberrado da doutrina, e, por natural -effeito, enlouquecido. Santos nunca se deixou ir com esses divergentes -da casa commum, que acabaram formando outra egrejinha em outro bairro, -onde pregavam que a correspondencia exacta não era entre as vogaes e -os sentidos, mas entre os sentidos e as vogaes. Esta outra formula, -parecendo mais clara, fez com que muitos discipulos da primeira hora -acompanhassem os da ultima, e proclamem agora, como conclusão final, -que o homem é um alphabeto de sensações. - -Venceram estes, ficando mui poucos fieis á doutrina do velho Placido. -Evocado algum tempo depois de morto, confessou elle ainda uma vez a sua -formula, como a unica das unicas, e excommungou a quantos prégassem -o contrario. Aliás, os dissidentes já o haviam excommungado tambem, -declarando abominavel a sua memoria, com aquelle odio rijo, que -fortalece alguma vez o homem contra a frouxidão da piedade. - -Talvez o velho Placido deslindasse o problema em cinco minutos. Mas -para isso era preciso evocal-o, e o discipulo Santos cuidava agora de -umas liquidações ultimas e lucrativas. Não só de fé vive o homem, mas -tambem de pão e seus compostos e similares. - - - - -CAPITULO LXXXII - - -Em S. Clemente - - -Ao cabo de poucas semanas, a familia Baptista saiu da casa Santos, -e tornou á rua de S. Clemente. A despedida foi terna, as saudades -começaram antes da separação, mas a affeição, o costume, a estima,--a -necessidade, em summa, de se verem a miudo compensaram a melancolia, e -a gente Baptista levou promessa de que a gente Santos iria vel-a dahi a -poucos dias. - -Os gemeos cumpriram cedo a promessa. Um delles, parece que Paulo, foi -lá nessa mesma noite com recado da mãe para saber se tinham chegado -bem. Disseram-lhe que sim, accrescentando Baptista, para abreviar a -visita, que estavam bastante cançados. Os olhos de Flora desmentiram -esta affirmação; mas dentro em pouco achavam-se não menos tristes que -alegres. A alegria vinha da promptidão de Paulo, a tristeza da ausencia -de Pedro. Quizera-os ambos naturalmente; mas, como é que as duas -sensações se mostravam a um tempo, eis o que não entenderás bem nem -mal. Certamente, os olhos iam diversas vezes para a porta, e uma vez -pareceu á moça ouvir rumor na escada; tudo illusão. Mas estes gestos, -que Paulo não viu, tão contente estava de se haver adiantado ao irmão, -não eram taes que a fizessem esquecer o irmão presente. - -Paulo saiu tarde, não só para o fim de aproveitar a ausencia de Pedro, -mas ainda porque Flora o fazia demorar, com o intuito de ver se o outro -chegava. Assim que, a mesma dualidade de sensação enchia os olhos da -moça, até á hora da despedida, em que a parte triste foi maior que a -alegre, pois que eram duas ausencias, em vez de uma. Conclue o que -quizeres, minha dona; ella recolheu-se para dormir, e reconheceu que, -se se não dorme com uma tristeza na alma, muito menos com duas. - - - - -CAPITULO LXXXIII - - -A grande noite - - -Ha muito remedio contra a insomnia. O mais vulgar é contar de um -até mil, dous mil, trez mil ou mais, se a insomnia não ceder logo. -É remedio que ainda não fez dormir ninguem, ao que parece, mas não -importa. Até agora, todas as applicações efficazes contra a tisica vão -de par com a noção de que a tisica é incuravel. Convem que os homens -affirmem o que não sabem, e, por officio, o contrario do que sabem; -assim se fórma esta outra incuravel, a Esperança. - -Flora, incuravel tambem, se não preferes a definição de inexplicavel, -que lhe deu Ayres, a graciosa Flora teve naquella noite a sua insomnia. -Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar quietinha e dormir com -os anjos, achou melhor velar com um ou dous delles, e gastar uma parte -da noite, á janella ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar e a -completar, mettida no roupão de linho, com os cabellos atados para -dormir. - -A principio pensou no que lá estivera, e evocou todas as suas graças, -realçadas pela virtude particular de a ter ido ver á noite, sem embargo -de se terem visto de manhã. Sentia-se grata. Toda a conversação foi -alli repetida na solidão da alcova, com as intonações diversas, o vario -assumpto, e as interrupções frequentes, ora dos outros, ora della -mesma. Ella, em verdade, só interrompia, para pensar no ausente,--e -portanto não fazia mais que converter o dialogo em monologo, o qual por -sua vez acabava em silencio e contemplação. - -Agora, pensando em Paulo, queria saber porque é que o não escolhia para -noivo. Tinha uma qualidade a mais, a nota aventurosa do caracter, e -esta feição não lhe desprazia. Inexplicavel ou não, deixava-se levar -pelos impotos do rapaz, que queria trocar o mundo e o tempo por outros -mais puros e felizes. Aquella cabeça, apenas masculina, era destinada -a mudar a marcha do sol, que andava errado. A lua tambem. A lua pedia -um contacto mais frequente com os homens, menos quartos, não descendo o -minguante do metade. Visivel todas as noites, sem que isso acarretasse -a decadencia das estrellas, continuaria modestamente o officio do sol, -e faria sonhar os olhos insomnes ou só cançados de dormir. Tudo isso -cumpriria a alma de Paulo, faminta de perfeição. Era um bom marido, em -summa. Flora cerrou as palpebras, para vel-o melhor, o achou-o a seus -pés, com as mãos della entre as suas, risonho e extatico. - ---Paulo! meu querido Paulo! - -Inclinou-se, para vel-o de mais perto, e não perdeu o tempo nem a -intenção. Visto assim, era mais bello que simplesmente couversando -das cousas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos olhos, e -achou-se dentro da alma do rapaz. O que lá viu não soube dizel-o bem; -foi tudo tão novo e radiante que a pobre retina de moça não podia -fitar nada com segurança nem continuidade. As ideias faiscavam como -saindo de um fogareiro á força de abano, as sensações batiam-se em -duelo, as reminiscencias subiam frescas, algumas saudades, e ambições -principalmente, umas ambições de azas largas, que faziam vento só com -agital-as. Sobre toda essa mescla e confusão chovia ternura, muita -ternura... - -Flora recolheu os olhos, Paulo estava na mesma postura; mas do lado -da porta, mettido na penumbra, a figura de Pedro apparecia, não menos -bella, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada daquella tristeza. -Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo podia -chorar lagrimas de sangue, sem lhe merecer a menor sympathia. Que o -amor, conforme as nymphas antigas e modernas, não tem piedade. Quando -ha piedade para outro, dizem ellas, é que o amor ainda não nasceu de -verdade, ou já morreu de todo, e assim o coração não lhe importa vestir -essa primeira camisa do affecto. Perdoa a figura; não é nobre, nem -clara, mas a situação não me dá tempo de ir á cata de outra. - -Pedro approximou-se, a passo lento, ajoelhou-se tambem e tomou-lhe -as mãos que Paulo apertava entre as suas. Paulo ergueu-se e sumiu-se -pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava entre ellas. -Talvez Paulo fosse bramindo de colera; ella é que não ouviu nada, tão -docemente vivo era o gesto de Pedro, já agora sem melancolia, e os -olhos tão extaticos como os do irmão. Não eram taes que saissem, como -os deste, ás aventuras. Tinham a quietação de quem não queria mais sol -nem lua que esses que andam ahi, que se contenta de ambos, e, se os -acha divinos, não cuida de os trocar por novos. Era a ordem, se queres, -a estabilidade, o accordo entre si e as cousas, não menos sympathicos -ao coração da moça, ou por trazerem a ideia de perpetua ventura, ou por -darem a sensação de uma alma capaz de resistir. - -Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro, até -chegar á alma do rapaz. O motivo secreto desta outra entrada podia -ser o escrupulo de cotejar as duas para julgal-as, se não era sómente -o desejo de não parecer menos curiosa de uma que de outra. Ambas as -razões são boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de fitar -os olhos de Pedro era tão natural que não exigia intenção particular -nenhuma, e bastava fital-os para escorregar e cair dentro da alma -namorada. Era gemea da outra; não lhe viu mais nem menos que nesta. - -Unicamente,--e aqui toco o ponto escabroso do capitulo,--achou cá -alguma cousa indefinivel que não sentira lá; em compensação sentiu lá -outra que não se lhe deparou cá. Indefinivel, não esqueças. E escabroso -porque nada ha peor que falar de sensações sem nome. Crêde-me, amigo -meu, e tu, não menos amiga minha, crêde-me que eu preferia contar as -rendas do roupão da moça, os cabellos apanhados atraz, os fios do -tapete, as taboas do tecto e porfim os estalinhos da lamparina que vae -morrendo... Seria enfadonho, mas entendia-se. - -Sim, a lamparina ia morrendo, mas ainda podia dar luz ao regresso de -Paulo. Quando Flora o viu entrar e ajoelhar-se outra vez, ao pé do -irmão, e ambos dividirem entre si as mãos della, mansos e cordatos, -ficou longa mente attonita. Obra de um credo, como diziam os nossos -antigos, quando havia mais religião que relogios. Voltando a si, -puxou as mãos, estendeu-as depois sobre a cabeça delles, como se lhes -apalpasse a differença, o _quid_, o algo, o indefinivel. A lamparina ia -morrendo... Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamações, por exhortações, -por supplicas, a que ella respondia mal e tortamente, não que os não -entendesse, mas por não os aggravar, ou acaso por não saber a qual -delles diria melhor. A ultima hypothese tem ar de ser a mais provavel. -Em todo caso, é o prologo do que succedeu, quando a lamparina chegou -aos ultimos arrancos. - -Tudo se mistura, á meia claridade; tal seria a causa da fusão dos -vultos, que de dous que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo -visto sair nenhum dos gemeos, mal podia crêr que formassem agora uma -só pessoa, mas acabou crêndo, mormente depois que esta unica pessoa -solitaria parecia completal-a interiormente, melhor que nenhuma das -outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar. -Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si -mesma, que sentia bater nella o coração. Estava tão cançada de emoções -que tentou erguer-se e ir fóra, mas não pôde; as pernas pareciam de -chumbo e colladas ao solo. Assim esteve, até que a lamparina, ao canto, -morreu de todo. Flora teve um sobresalto na poltrona, e ergueu-se: - ---Que é isto? - -A lamparina apagou-se. Foi accendel-a. Viu então que estava sem um nem -outro, sem dous nem um só fundido de ambos. Toda a fantasmagoria se -desfizera. A lamparina (agora nova) alumiava o seu quarto de dormir, -e á imaginação creára tudo. Foi o que ella suppoz, e o leitor sabe. -Flora comprehendeu que era tarde, e um gallo confirmou essa opinião, -cantando; outros gallos fizeram a mesma cousa. - ---Ora, meus Deus! exclamou a filha de Baptista. - -Metteu-se na cama, e, se não dormiu logo, tambem não se demorou muito; -não tardou a estar com os anjos. Sonhou com o canto dos gallos, uma -carroça, um lago, uma scena de viagem do mar, um discurso e um artigo. -O artigo era de verdade. A mãe veiu acordal-a, ás dez horas da manhã, -chamando-lhe dorminhoca, e alli mesmo, na cama, lhe leu uma folha da -manhã que recommendava o marido ao governo. Flora ouviu satisfeita; -acabara a grande noite. - - - - -CAPITULO LXXXIV - - -O velho segredo - - -Natividade dormiu tranquilla, em Botafogo, mas acordou pensando nos -filhos e na moça de S. Clemente. Viera reparando nos trez. Parecera-lhe -antes que Flora não acceitava um nem outro, logo depois que os -acceitava a ambos, e mais tarde um e outro alternadamente. Concluiu -que ainda não sentiria nada particular e decisivo; naturalmente iria -com os tempos, a ver qual destes a merecia deveras. Elles é que -pareciam sentir egual inclinação e egual ciume. Dahi alguma possivel -catastrophe. A separação não supprimiria tudo; mas, além de que, -separadas as familias, nem tudo seria presente a seus olhos, as visitas -podiam ser menos frequentes e até raras. Tinha assim o que quizera. - -Ao demais, ia chegando o tempo de ir para Petropolis; propriamente, -chegára. Natividade cuidava de subir com os filhos. Sempre haveria lá -no alto damas elegantes, diversões, alegria. Podia ser até que elles -achassem noivas, e bastava uma para um. O que ficasse sem ella teria -a liberdade de desposar Flora. Calculos de mãe; vieram outros que os -modificaram, e outros que os restauraram. Quem fôr mãe que lhe atire a -primeira pedra. - -Nenhuma outra mãe atirou a primeira pedra á nossa amiga. Quero crêr -que a razão disto não foi senão a propria discrição de Natividade. -Suspeitas e calculos iam ficando no coração della. Calou tudo e esperou. - -Ao cabo, Flora cada vez gostava mais de Natividade. Queria-lhe como se -ella fosse sua mãe, duplamente mãe, uma vez que não escolhera ainda -nenhum dos filhos. A causa podia ser que as duas indoles se ajustassem -melhor que entre Flora e D. Claudia. A principio, sentiu não sei que -inveja amiga, antes desejo, quando via que as fórmas da outra, embora -arruinadas pelo tempo, ainda conservavam alguma linha da esculptura -antiga. Pouco a pouco, foi descobrindo em si mesma o introito de uma -belleza, que devia ser longa e fina, e de uma vida, que podia ser -grande... - -Flora conhecia a predicção da cabocla do Castello, relativamente aos -dous gemeos. A predicção não era já segredo para ninguem. Santos falara -della em tempo, apenas occultando a subida de Natividade ao Castello; -emendou a verdade, dizendo que a cabocla é que viera a Botafogo. O -resto foi revelado em confiança, como ao finado Placido, e ainda depois -de alguma luta. Trez ou quatro vezes investiu e recuou. Um dia, a -lingua deu sete voltas na bôca, e o segredo saiu medroso e sussurrado, -mas perdeu o medo pelo gosto de mostrar que os rapazes seriam grandes. -Emfim, o segredo foi esquecendo. Mas Perpetua, por isto ou aquillo, -contou-o agora á moça Baptista, que a ouviu incredula. Que podia saber -a cabocla do futuro? - ---Sabia, e a prova é que adivinhou outras cousas, que não posso contar -e eram verdadeiras. Você não imagina como o diacho da cabocla via -longe. E tinha uns olhos de espetar o coração. - ---Não acredito, D. Perpetua. Pois agora o futuro da gente... E grandes -como? - ---Isso não disse por mais que Natividade lhe perguntasse; disse só -que seriam grandes e subiriam muito. Talvez venham a ser ministros de -Estado. - -Perpetua parecia haver comprado os olhos á cabocla. Enfiava-os pela -amiga abaixo, até o coração, que aliás não batia com força nem -apressado, mas tão regular como de costume. Entretanto, não sendo -impossivel que os dous rapazes chegassem aos altos deste mundo, Flora -deixou de objectar e acceitou a predicção, sem outra palavra mais que -um gesto,--sabes, creio,--um gesto de boca, fazendo descair os cantos -della, levantando os hombros levemente, e espalmando as mãos, como se -dissesse: Emfim, póde ser. - -Perpetua accresceptou que, mudado o regimen, era natural que Paulo -chegasse primeiro á grandeza,--e aqui espetou bem os olhos. Era um -modo de de apanhar os sentimentos de Flora, acenando-lhe com a elevação -de Paulo, pois bem podia ser que viesse a amar antes o destino que a -pessoa. Não achou nada. Flora continuou a não se deixar ler. Não lhe -attribuas isto a calculo, não era calculo. Seriamente, não pensava em -nada acima de si. - - - - -CAPITULO LXXXV - - -Trez constituições - - ---Você crê deveras que venhamos a ser grandes homens? perguntára Pedro -a Paulo, antes da queda do imperio. - ---Não sei; você pode vir a ser, quando menos, primeiro ministro. - -Depois de 15 de novembro, Paulo retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu -como o irmão, emendando o resto: - ---Não sei; você póde vir a ser presidente da republica. - -Já lá iam dous annos. Agora pensavam mais em Flora que na subida. A -boa moral pede que ponhamos a cousa publica acima das pessoaes, mas os -moços nisto se parecem com velhos e varões de outra edade, que muita -vez pensam mais em si que em todos. Ha excepções, nobres algumas, -outras nobilissimas. A historia guarda muitas dellas, e os poetas, -epicos e tragicos, estão cheios de casos e modelos de abnegação. - -Praticamente, seria exigir muito de Pedro e Paulo que cuidassem mais -da constituição de 24 de fevereiro que da moça Baptista. Pensavam em -ambas, é verdade, e a primeira já dera logar a alguma troca de palavras -acerbas. A constituição, se fosse gente viva, e estivesse ao pé delles, -ouviria os ditos mais contrarios deste mundo, porque Pedro ia ao ponto -de a achar um poço de iniquidades, e Paulo a propria Minerva nascida -da cabeça de Jove. Falo por metaphora para não descair do estylo. Em -verdade, elles empregavam palavras menos nobres e mais emphaticas, e -acabavam trocando as primeiras entre si. Na rua, onde o encontro de -manifestações politicas era commum, e as noticias á porta dos jornaes -frequente, tudo era occasião de debate. - -Quando, porém, a imagem de Flora apparecia entre elles por imaginação, -o debate esmorecia, mas as injurias continuavam e até cresciam, -sem confissão do novo motivo, que era ainda maior que o primeiro. -Effectivamente, elles iam chegando ao ponto em que dariam as duas -constituições, a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moça, -se tanto fosse exigido. Cada um faria com ella a sua constituição, -melhor que outra qualquer deste mundo. - - - - -CAPITULO LXXXVI - - -Antes que me esqueça - - -Uma cousa é preciso dizer antes que me esqueça. Sabes que os dous -gemeos eram bellos e continuavam parecidos; por esse lado não suppunham -ter motivo de inveja entre si. Ao contrario, um e outro achavam em si -qualquer cousa que accentuava, senão melhorava, as graças communs. Não -era verdade, mas não é a verdade que vence, é a convicção. Convence-te -de uma ideia, e morrerás por ella, escreveu Ayres por esse tempo no -_Memorial_, e accrescentou: «nem é outra a grandeza dos sacrificios, -mas se a verdade acerta com a convicção, então nasce o sublime, e atraz -delle o util...» Não acabou ou não explicou esta phrase. - - - - -CAPITULO LXXXVII - - -Entre Ayres e Flora - - -Aquella citação do velho Ayres faz-me lembrar um ponto em que elle e a -moça Flora divergiam ainda mais que na edade. Já contei que ella, antes -da commissão do pae, defendia Pedro e Paulo, conforme estes diziam mal -um do outro, Naturalmente fazia agora a mesma cousa, mas a mudança do -regimen trouxe occasião de defender tambem monarchistas e republicanos, -segundo ouvia as opiniões de Paulo ou de Pedro. Espirito de conciliação -ou de justiça, applacava a ira ou o desdem do interlocutor: «Não diga -isso... São patriotas tambem... Convem desculpar algum excesso...» -Eram só phrases, sem impeto de paixão nem estimulo de principios; e o -interlocutor concluia sempre: - ---A senhora é boa. - -Ora, o costume de Ayres era o opposto dessa contradicção benigna. -Has-de lembrar-te que elle usava sempre concordar com o interlocutor, -não por desdem da pessoa, mas para não dissentir nem brigar. Tinha -observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto -á gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar á sua um -aspecto abominavel. Se lucrasse alguma cousa, vá; mas, não lucrando -nada, preferia ficar em paz com Deus e os homens. Dahi a arranjo de -gestos e phrases affirmativas que deixavam os partidos quietos, e mais -quieto a si mesmo. - -Um dia, como ella estivesse com Flora, falou daquelle costume della, -dizendo-lhe que parecia estudado. Flora negou que o fosse; era -inclinação natural defender os ausentes, que não podiam responder por -nada; demais, applacava assim um dos gemeos com quem falasse, e depois -o outro. - ---Tambem concordo. - ---E porque ha de o senhor concordar sempre? perguntou ella sorrindo. - ---Posso concordar com a senhora, porque é uma delicia ir com as suas -opiniões, e seria mau gosto rebatel-as, mas, em verdade, não ha -calculo. Com os mais, se concordo, é porque elles só dizem o que eu -penso. - ---Ja o tenho achado em contradicção. - ---Póde ser. A vida e o mundo não são outra cousa. A senhora não saberá -isto bem, porque é moça e ingenua, mas creia que a vantagem é toda -sua. A ingenuidade é o melhor livro e a mocidade a melhor escola. Vá -desculpando esta minha pedanteria; alguma vez é um mal necessario. - ---Não se accuse, conselheiro. O senhor sabe que eu não creio nada -contra a sua palavra, nem contra a sua pessoa; a propria contradicção -que lhe acho é agradavel. - ---Tambem concordo. - ---Concorda com tudo. - ---Olha aqui, Flora; dá licença, conselheiro? - -Esqueceu-me dizer que esta conversação era á porta de uma loja de -fazendas e modas, rua do Ouvidor. Ayres ia na direcção do largo de S. -Francisco de Paula e viu a mãe e a filha dentro, sentadas, a escolher -um tecido. Entrou, comprimentou-as, e veiu á porta com a filha. O -chamado de D. Claudia interrompeu a conversação por alguns instantes. -Ayres ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam mulheres de todas -as classes, homens de todos os officios, sem contar as pessoas paradas -de ambos os lados e no centro. Não havia borborinho grande, nem socego -puro, um meio termo. - -Talvez algumas pessoas fossem conhecidas de Ayres e o comprimentassem; -mas este tinha a alma tão mettida em si mesma que, se falou a uma ou -duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a cabeça para dentro, -onde Flora e a mãe faziam a sua consulta. Ouvia as palavras trocadas -ainda agora. Sentia-se curioso de saber se finalmente a moça escolhia -a um dos gemeos, e qual destes. Vá tudo; tinha já pezar que não fosse -algum, posto não lhe importasse saber se Pedro ou Paulo. Quizera vel-a -feliz, se a felicidade era o casamento, e feliz o marido, sem embargo -da exclusão; o excluido seria consolado. Agora, se era por amor delles, -se della, é o que propriamente se não póde dizer com verdade. Quando -muito, para levantar a ponta do veu, seria preciso entrar na alma -delle, ainda mais fundo que elle mesmo. Lá se descobriria acaso, entre -as ruinas de meio celibato, uma flôr descorada e tardia de paternidade, -ou, mais propriamente, de saudade della... - -Flora trouxe novamente a rosa fresca e rubra da primeira hora. Não -falaram mais de contradicção, mas da rua, da gente e do dia. Nenhuma -palavra ácerca de Pedro ou Paulo. - - - - -CAPITULO LXXXVIII - - -Não, não, não - - -Elles, onde quer que estivessem naquelle momento, podiam falar ou não. -A verdade é que, se nenhum consentia em deixar a moça, tambem nenhum -contava obtel-a, por mais que a achassem inclinada. Tinham já combinado -que o rejeitado acceitaria a sorte, e deixaria o campo ao vencedor. Não -chegando a victoria, não sabiam como resolver a batalha. Esperar, seria -o mais facil, se a paixão não crescesse, mas a paixão crescia. - -Talvez não fosse exactamente paixão, se dermos a esta palavra o sentido -de violencia; mas, se lhe reconhecermos uma forte inclinação de amor, -um amor adolescente ou pouco mais, era o caso. Pedro e Paulo cederiam a -mão da pequena, se houvessem de consultar só a razão, e mais de uma vez -estiveram a pique de o fazer; raro lampejo, que para logo desapparecia. -A ausencia era já insoffrivel, a presença necessaria. Se não fôra o que -aconteceu e se contará por essas paginas adiante, haveria materia para -não acabar mais o livro; era só dizer que sim e que não, e o que estes -pensaram e sentiram, e o que ella sentia e pensou, até que o editor -dissesse: basta! Seria um livro de moral e de verdade, mas a historia -começada ficaria sem fim. Não, não, não... Força é continual-a e -acabal-a. Comecemos por dizer o que os dous gemeos ajustaram entre si, -poucos dias depois daquelle sonho ou delirio da moça Flora, á noite, no -quarto. - - - -CAPITULO LXXXIX - - -O dragão - - -Vejamos o que é que estes ajustaram. Vinham de estar com Ayres no -theatro, uma noite, matando o tempo. Conheceis este dragão; toda a -gente lhe tem dado os mais fundos golpes que póde, elle esperneia, -expira e renasce. Assim se fez naquella noite. Não sei que theatro foi, -nem que peça, nem que genero; fosse o que fosse, a questão era matar o -tempo, e os trez o deixaram estirado no chão. - -Fôram dallí a um _restaurant._ Ayres disse-lhes que, antigamente, -em rapaz, acabava a noite com amigos da mesma edade. Era o tempo de -Offenbach e dá opereta. Contou anecdotas, disse as peças, descreveu -as damas e os partidos, quasi deu por si repetindo um trecho, musica -e palavras. Pedro e Paulo ouviam com attenção, mas não sentiam nada -do que espertava os écos da alma do diplomata. Ao contrario, tinham -vontade de rir. Que lhes importava a noticia da um velho café da rua -Uruguayana, trocado depois em theatro, agora em nada, uma gente que -viveu e brilhou, passou e acabou antes que elles viessem ao mundo? O -mundo começou vinte annos antes daquella noite, e não acabaria mais, -como um viveiro de moços eternos que era. - -Ayres sorriu, porquanto elle tambem assim cuidou, aos vinte e dous -annos de edade, e ainda se lembrava do sorriso do pae, já velho, quando -lhe disse algo parecido com isso. Mais tarde, tendo adquerido do tempo -a noção idealista que ora possuia, comprehendeu que tal dragão era -juntamente vivo e defunto, e tanto valia matal-o como nutril-o. Não -obstante, as recordações eram doces, e muitas dellas viviam ainda -frescas, como se viessem da vespera. - -A differença da edade era grande, não podia entrar em pormenores com -elles. Ficou só em lembranças, e cuidou de outra cousa. Pedro e Paulo, -entretanto, receiosos de que elle os adivinhasse e comprehendesse o -desprezo que lhes inspiravam as saudades de tempos remotos e extranhos, -pediram-lhe informações, e elle deu as que podia, sem intimidade. - -Ao cabo, a conversação valeu mais que este resumo, e a separação não -custou pouco. Paulo ainda lhe pediu Offenbach, Pedro uma descripção das -paradas de 7 de setembro e 2 de dezembro; mas o diplomata achou meio de -saltar ao presente e particularmente a Flora, que louvou como uma bella -creatura. Os olhos de ambos concordaram que era bellissima. Tambem -louvou as qualidades moraes, a finura do espirito, taes dotes que Pedro -e Paulo reconheceram tambem, e dahi a conversação, e porfim o ajuste a -que me referi no começo deste capitulo e pede outro. - - - -CAPITULO XC - - -O ajuste - - ---Quanto a mim, um de vocês gosta della, senão ambos, disse Ayres. - -Pedro mordeu os beiços, Paulo consultou o relogio; iam já na rua. -Ayres concluiu o que sabia, que sim, que ambos, e não trepidou em -dizel-o, accrescentando que a moça não era como a Republica, que um -podia defender e outro atacar; cumpria ganhal-a ou perdel-a de vez. -Que fariam elles, dada a escolha? Ou já estava feita a escolha, e o -preterido teimava em a torcer para si? - -Nenhum, falou logo, posto que ambos sentissem necessidade de explicar -alguma cousa. Tinham que a escolha não era clara ou decisiva. -Outrosim, que lhes cabia o direito de esperar a preferencia, e fariam -o diabo para alcançal-a. Taes e outras ideias vagavam silenciosamente -nelles, sem sair cá fóra. A razão percebe-se, e devia ser mais de -uma,--primeiro, a materia da conversação,--depois, a gravidade do -interlocutor. Por mais que Ayres abrisse as portas á franqueza dos -rapazes, estes eram rapazes e elle velho. Mas o assumpto em si era tão -seductor, o coração, apesar de tudo, tão indiscreto, que não houve -remedio se não falar, mas falar negando. - ---Não me neguem, interrompeu Ayres; a gente madura sabe as manhas da -gente nova, e adivinha com facilidade o que ella faz. Nem é preciso -adivinhar; basta ver e ouvir. Vocês gostam della. - -Elles sorriam, mas já agora com tal amargor e acanhamento que mostravam -o desgosto da rivalidade, aliás sabida delles. Tal rivalidade era -tambem sabida de outros, devia sel-o de Flora, e a situação lhes -parecia agora mais complicada e fechada que d'antes. - -Tinham chegado ao largo da Carioca, era uma hora da noite. Uma victoria -da Santos esperava alli os rapazes, a conselho e por ordem da mãe, -que buscava todas as occasiões e meios de os fazer andar juntos e -familiares. Teimava em emendara natureza. Levava-os muita vez a -passeio, ao theatro, a visitas. Naquella noite, como soubesse que iam -ao theatro, mandou aprestar a victoria que os conduziu para a cidade, e -ficou á espera delles. - ---Entre, conselheiro, disse Pedro, o carro dá para, trez: eu vou no -banquinho da frente. - -Entraram e partiram. - ---Bem, continuou Ayres, é certo que vocês gostam della, e egualmente -certo que ella ainda não escolheu entre os dous. Provavelmente, -não sabe que faça. Um terceiro resolveria a crise porque vocês se -consolariam depressa; tambem eu me consolei em rapaz. Não havendo -terceiro, e não se podendo prolongar a situação, porque é que vocês não -combinam alguma cousa? - ---Combinar quê? perguntou Pedro sorrindo. - ---Qualquer cousa. Combinem um modo de cortar este nó gordio. Cada um -que siga a sua vocação. Você Pedro, tentará primeiro desatal-o; se elle -não puder, Paulo, você pegue da espada de Alexandre, e dê-lhe o golpe. -Fica tudo feito e acabado. Então o destino, que os espera, com duas -bellas creaturas, virá trazel-as pela mão a um e a outro, e tudo se -compõe na terra como no céu. - -Ayres disse mais cousas antes de se apear á porta da casa. Apeado, -ainda lhes perguntou: - ---Estamos de accordo? - -Os dous responderam de cabeça affirmativamente, e, ficando sós, não -disseram nada. Que fossem pensando, é natural, e porventura o tempo -lhes pareceu curto entre o Cattete e Botafogo. Chegaram á casa, subiram -a escada do jardim, falaram da temperatura, que Pedro achava deliciosa -e Paulo abominavel, mas não disseram assim para não irritar um ao -outro. A esperança do ajuste é que os levava á moderação relativa e -passageira. Vivam os fructos pendentes do dia seguinte! - -Cá estava o quarto á espera delles, um brinco de arranjo e graça, de -commodidade e repouso. Era a mãe que dava os últimos retoques todos -os dias; ella cuidava das flôres que seriam postas nos vasinhos de -porcellana, e ella mesma as ia tirar á noite e pôr fóra das janellas -para que elles não as respirassem dormindo. Cá estavam as velas ao pé -das duas camas, mettidas nos seus castiçaes de prata, um com o nome de -Pedro, outro com o de Paulo, gravados. Tapetinhos de suas mãos, laços -dados por ella nos cortinados, finalmente o retrato della e o do marido -pendurados á parede, entre as duas camas, naquelle mesmo logar em que -estiveram os de Luiz XVI e Robespierre, comprados na rua da Carioca. - -Ao pé de cada um dos castiçaes acharam um biIhetinho de Natividade. -Aqui está o que ella dizia: «Algum de vocês quer ir commigo á missa, -amanhã? Faz annos que seu avô morreu, e Perpetua está adoentada.» -Natividade esquecera de lhes falar antes, e, aliás, andava bem sem -elles, mormente de carruagem; mas gostava de os ter comsigo. - -Pedro e Paulo riram do convite e da fórma, e um delles propoz que, -para agradar á mãe, fossem ambos á missa. A acceitação da proposta -veiu prompta; já não era harmonia, era uma especie de dialogo na mesma -pessoa. O céu parecia escrever o tratado de paz que ambos teriam de -assignar; ou, se preferes, a natureza corrigia as indoles, e os dous -rixosos começavam a ajustar o ser e o parecer. Tambem não juro isto, -digo o que se póde crêr só pelo aspecto das cousas. - ---Vamos á missa, repetiram. - -Seguiu-se um grande silencio. Cada um ruminava o ajuste e o modo -de o propor. Emfim, de cama a cama, disseram o que lhes parecia -melhor, propuzeram, discutiram, emendaram e concluiram sem escriptura -de tabellião, apenas por acceitação de palavra. Poucas clausulas. -Confessando que não podiam assegurar a escolha de Flora, concordaram em -esperar por ella durante um prazo curto; trez mezes. Dada a escolha, o -rejeitado obrigava-se a não tentar mais nada. Como tivessem a certeza -final da escolha, o accordo era facil; cada um não faria mais que -excluir o outro. Não obstante, se ao fim do prazo, nenhuma escolha -houvesse, cumpria adoptar uma clausula ultima. A primeira que acudiu -foi deixarem ambos o campo, mas não os seduziu. Lembrou-lhes recorrer -á sorte, e aquelle que fosse designado por ella, deixaria o campo ao -rival. Assim passou uma hora de conversação, após a qual, cuidaram de -dormir. - - - - -CAPITULO XCI - - -Nem só a verdade se deve ás mães - - -Às nove horas da manhã seguinte, Natividade estava prompta para ir á -missa que mandava dizer na matriz da Gloria; nenhum dos filhos se lhe -apresentou. - ---Parece que dormem. - -E duas, trez, quatro, cinco vezes, foi até á porta do quarto a ver -se ouvia rumor, como resposta ao bilhete que deixara. Nada. Concluiu -que teriam entrado tarde. Só não atinou que dormissem sobre o ajuste, -nem que ajuste era. Uma vez que o fizessem em cama fôfa, tudo ia bem. -Emfim, acabou de calçar as luvas, desceu, entrou no carro e foi para a -egreja. - -A missa era anniversaria, como dizia o bilhete. Uso velho; o pae -tinha a sua missa, a mãe outra, os irmãos e parentes outras. Não -lhe esqueciam datas obituarias, como não lhe esqueciam natalicias, -quaesquer que fossem, amigas ou parentas; trazia-as todas de cór. Doce -memoria! Ha pessoas a quem não ajudas, e chegam a brigar comsigo e com -outros por abandono teu. Felizes os que tu proteges; esses sabem o -que é 24 de março, 10 de agosto, 2 de abril, 7 e 31 de outubro, 10 de -novembro, o anno todo, suas tristezas e alegrias particulares. - -Voltando á casa, viu Natividade os dous filhos no jardim, á espera -della. Elles correram a abrir-lhe a portinhola do carro, e depois de a -apearem e lhe beijarem a mão, explicaram a falta. Tinham resolvido ir -ambos, mas o somno... - ---O somno e a preguiça, concluiu a mãe rindo. - ---Foi só o somno, disse Pedro. - ---Accordamos agora mesmo, acabou Paulo. - -Disputaram dar-lhe o braço; Natividade os satisfez dando um braço a -cada um. Em casa, ao mudar de roupa, Natividade reflectiu que, se Flora -lhes tivesse feito algum pedido, elles accordariam cedo, por mais tarde -que se deitassem; a memoria serviria de despertador. Passou-lhe uma -sombra rapida, mas depressa se reconciliou com a differença. Assim que, -não foi por ciume, mas para os trazer a outras seducções e separal-os -da guerra ante a bella Flora, que a mãe teimou em levar os filhos para -Petropolis. Subiriam na primeira semana de janeiro. A estação seria -excellente; annunciou festas, citou nomes, notou-lhes que Petropolis -era a cidade da paz. O governo póde mudar cá embaixo e nas provincias... - ---Que provincias, mamãe? atalhou Paulo. - -Natividade sorriu e emendou. - ---Nos Estados. Vae desculpando os descuidos de tua mãe. Bem sei que -são Estados; não são como as provindas antigas, não esperam que o -presidente lhes vá aqui da Côrte... - ---Que Côrte, baroneza? - -Agora os dous riram, mãe e filho. Passado o riso, Natividade continuou: - ---Petropolis é a cidade da paz; é, como dizia outro dia o conselheiro -Ayres, é a cidade neutra, é a cidade das nações. Se a capital do Estado -fosse alli, não haveria deposição de governo. Petropolis,--vejam vocês -que o nome, apesar da origem, ficou e ficará,--é de todos. A estação -dizem que vae ser encantadora... - ---Eu não sei se posso ir já, disse Paulo. - ---Nem eu, acudiu Pedro. - -Ainda uma vez estavam de accordo, mas aqui o accordo trazia -provavelmente o divorcio, reflectiu a mãe, e o prazer que lhe deram -aquellas duas palavras morreu depressa. Perguntou-lhes que razão -tinham para ficar e até quando. Se estivessem estabelecidos com o seu -consultorio medico e a sua banca de advogado, era bem; mas, se nenhum -delles começara ainda a carreira, que fariam cá embaixo, quando ella e -o marido... - ---Justamente; eu tenho que fazer uns estudos de clinica na Santa Casa, -respondeu Pedro. - -Paulo explicou-se. Não ia praticar a advocacia, mas precisava de -consultar certos documentos do século XVII na Bibliotheca Nacional; ia -escrever uma historia das terras possuidas. - -Nada era verdade, mas nem só a verdade se deve dizer ás mães. -Natividade ponderou que elles podiam fazer tudo entre as duas barças -de Petropolis; desciam, almoçavam, trabalhavam, e ás quatro horas -subiriam, como a demais gente. Em cima achariam visitas, musica, -bailes, mil cousas bellas, sem contar as manhãs, a temperatura e os -domingos. Elles defenderam o estudo, como sendo melhor por muitas horas -seguidas. - -Natividade não teimou. Mais depressa ficaria esperando que os filhos -acabassem os documentos da Bibliotheca e a clinica da Santa Casa. Esta -ideia fel-a attentar para a necessidade de ver estabelecidos o joven -medico e o joven advogado. Trabalhariam com outros profissionaes de -reputação e iriam adiante e acima. Talvez a carreira scientifica lhes -désse a grandeza annunciada pela cabocla do Castello, e não a politica -ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a critica de -si mesma, quando imaginou que Baptista abriria a carreira politica de -algum delles, sem advertir que o pae de Flora mal continuaria a propria -carreira, aliás obscura. Mas a ideia do mando tornava a óccupar a -cabeça da mãe, e cheios della os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo. - -Chegaram a accordo. Elles subiriam aos sabbados e desceriam ás -segundas; o mesmo por occasião de dias santos e festas de gala. -Natividade contava com o costume e as attracções. - -Na barca e em Petropolis era objecto de conversação a differença entre -os filhos, que só iam lá uma vez por semana, e o pae, que trazia tantos -negocios ás costas, e subia todas as tardes. Que fariam elles cá em -baixo, quando alguns olhos podiam attrail-os e agarral-os lá em cima? -Natividade defendia os gemeos, dizendo que um ia á Santa Casa e outro -á Bibliotheca Nacional, e estudavam muito, ás noites. A explicação era -acceitavel, mas, além de fazer perder um assumpto aos bonitos dentes do -verão, podia ser invenção dos rapazes; naturalmente, iriam ás moças. - -A verdade é que elles faziam rumor em Petropolis, durante as poucas -horas que lá passavam. Além do mais, tinham a semelhança e a graça. -As mães diziam bonitas cousas á mãe delles, e indagavam da razão -verdadeira que os prendia á capital, não assim como eu digo, nu e cru, -mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a mãe insistia na -Bibliotheca e na Santa Casa. Deste geito, a mentira, já servida em -primeira mão, era servida em segunda, e nem por isso melhor acceita. - - - - -CAPITULO XCII - - -Segredo acordado - - -Emfim, que segredo ha que se não descubra? Sagacidade, boa vontade, -curiosidade, chama-lhe o que quizeres, ha uma força que deita cá para -fóra tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os proprios segredos -cançam de calar,--calar ou dormir; fiquemos com este outro verbo, -que serve melhor á imagem. Cançam, e ajudam a seu modo aquillo que -imputamos á indiscrição alheia. - -Quando elles abrem os olhos, faz-lhes mal a escuridão. Um raio de sol -basta. Então pedem aos deuses (porque os segredos são pagãos) um quasi -nada de crepusculo, aurora ou tarde, posto que a aurora prometta dia, -emquanto a tarde cae outra vez na noite, mas tarde que seja, tudo é -respirar claridade. Que os segredos, amiga minha, tambem são gente; -nascem, vivem e morrem. Agora o que succede, quando um olhar de sol -penetra na solidão delles, é que difficilmente sae mais, e geralmente -cresce, rasga, alaga, e os traz pela orelha cá para fóra. Vexados da -grande luz, elles a principio andam de ouvido em ouvido, cochichados, -alguma vez escriptos em bilhetes, ainda que tão vagamente e sem nomes, -que mal se adivinhará quaes sejam. É o periodo da infancia, que passa -depressa; a mocidade pula por cima da adolescencia, e elles apparecem -fortes e derramados, sabidos como gazetas. Emfim, se a velhice chega, -e elles não se vexam dos cabellos brancos, tomam conta do mundo, e -acaso conseguem, não digo esquecer, mas aborrecer; entram na familia do -proprio sol, que quando nasce é para todos, segundo dizia uma taboleta -da minha infancia. - -Taboletas da minha infancia, ai, taboletas! Quizera acabar por ellas -este capitulo, mas o assumpto não teria nobreza nem interesse, e -ainda uma vez interromperiamos a nossa historia. Fiquemos no segredo -divulgado; é quanto basta. Uma veranista elegante não dissimulou o seu -espanto ao saber que os dous irmãos combinavam n'um ponto que faria -romper os maiores amigos deste mundo. Um secretario de legação insinuou -que podia ser brincadeira dos dous. - ---Ou dos trez, accrescentou outra veranista. - -Iam de passeio á Quitandinha, a cavallo. Ayres acompanhava-os, e não -dizia nada. Quando lhe perguntaram se Flora era bonita, respondeu que -sim, e falou da temperatura. A primeira veranista perguntou-lhe se era -capaz de supportar aquella situação. Ayres respirou, como quem vem de -longe, e declarou que aos pés de um padre seria obrigado a mentir, -taes eram os seus peccados; mas alli, na estrada, ao ar livre, entre -senhoras, confessou que matara mais de um rival. Que se lembrasse -trazia sete mortes ás costas, com varias armas. As senhoras riam; elle -falava soturno. Só uma vez escapou de morrer primeiro, e inventou uma -anecdota napolitana. Fez a apologia do punhal. Um que tivera, ha muitos -annos, o melhor aço do mundo, foi obrigado a dal-o de presente a um -bandido, seu amigo, quando lhe provou que completára na vespera o seu -vigesimo nono assassinato. - ---Aqui está para o trigesimo, disse-lhe entregando a arma. - -Poucos dias depois soube que o bandido, com aquelle punhal, matara o -marido de uma senhora, e depois a senhora, a quem amava sem ventura. - ---Deixei-o com trinta e um crimes de primeira ordem. - -As damas continuavam a rir; elle conseguiu assim desviar a conversação -de Flora e seus namorados. - - - - -CAPITULO XCIII - - -Não ata nem desata - - -Emquanto indagavam della em Petropolis, a situação moral de Flora era -a mesma,--o mesmo conflicto de affinidades, o mesmo equilibrio de -preferencias. Cessado o conflicto, roto o equilibrio, a solução viria -de prompto, e, por mais que doesse a um dos namorados, venceria o -outro, a menos que interviesse o punhal da anecdota de Ayres. - -Assim passaram algumas semanas desde a subida de Natividade. Quando -Ayres vinha ao Rio de Janeiro, não deixava de ir vel-a a S. Clemente, -onde a achava qual era d'antes, salvo um pouco de silencio em que -a viu mettida uma vez. No dia seguinte recebeu uma carta de Flora, -pedindo-lhe desculpa da desattenção, se a houve, e mandando-lhe -saudades. «Mamãe pede que a recommende tambem ao senhor e á familia da -baroneza.» Esta recommendação exprimia o consentimento obtido da mãe -para que lhe escrevesse a carta. Quando elle tornou ao Rio, correu a S. -Clemente e Flora pagou-lhe com alegria grande o silencio daquella outra -manhã. Todavia, não era espontanea nem constante; tinha seus cochilos -de melancolia. Ayres voltou ainda algumas vezes na mesma semana. Flora -apparecia-lhe com a alegria costumada, e, para o fim, a mesma alteração -dos ultimos dias. - -Talvez a causa daquellas syncopes da conversação fosse a viagem que -o espirito da moça fazia á casa da gente Santos. Uma das vezes, o -espirito voltou para dizer estas palavras ao coração: «Quem és tu, que -não atas nem desatas? Melhor é que os deixes de vez. Não será difficil -a acção, porque a lembrança de um acabará por destruir a de outro, e -ambas se irão perder com o vento, que arrasta as folhas velhas e novas, -além das particulas de cousas, tão leves e pequenas, que escapam ao -olho humano. Anda, esquece-os; se os não pódes esquecer, faze por não -os ver mais; o tempo e a distancia farão o resto.» - -Tudo estava acabado. Era só escrever no coração as palavras do -espirito, para que lhe servissem de lembrança. Flora escreveu-as, com a -mão tremula e a vista turva; logo que acabou, viu que as palavras não -combinavam, as letras confundiam-se, depois iam morrendo, não todas, -mas salteadamente, até que o musculo as lançou de si. No valor e no -impeto podia comparar o coração ao gemeo Paulo; o espirito, pela arte -e subtileza, seria o gemeo Pedro. Foi o que ella achou no fim de algum -tempo, e com isso explicou o inexplicavel. - -Apesar de tudo, não acabava de entender a situação, e resolveu acabar -com ella ou comsigo. Todo esse dia foi inquieto e complicado. Flora -pensou em ir ao theatro para que os gemeos não a achassem á noite. Iria -cedo, antes da hora da visita. A mãe mandou comprar o camarote, e o pae -approvou a diversão, quando veiu jantar, mas a filha acabou com dôr de -cabeça, e o camarote ficou perdido. - ---Vou mandal-o aos jovens Santos, insinuou Baptista. - -D. Claudia oppôz-see guardou o camarote. A razão era de mãe; posto lhe -tardasse a escolha e o casamento, ella queria vel-os alli comsigo, -falando, rindo, debatendo que fosse, com os olhos pendentes da filha. -Baptista não entendeu logo nem depois; mas para não desagradar á -esposa, deixou de obsequiar os rapazes. Uma occasião tão boa! Não -era muito para elles que possuiam com que despender, e despendiam; o -obsequio estava na lembrança, e tambem na cartinha que lhes escreveria, -mandando o camarote. Chegou a redigil-a de cabeça, apesar de já inutil. -A mulher, ao vel-o calado e serio, cuidou que fosse zanga e quiz fazer -as pazes; o marido arredou-a brandamente com a mão. Redigia a cartinha, -punha no texto um gracejo sizudo, dobrava o papel e lançava-lhe este -sobrescripto gemeo: «Aos jovens apostolos Pedro e Paulo.» O trabalho -intellectual tornou mais dura a opposiçâo de D. Claudia. Uma cartinha -tão bonita! - - - - -CAPITULO XCIV - - -Gestos oppostos - - -Como póde um só tecto cobrir tão diversos pensamentos? Assim é tambem -este céu claro ou brusco,--outro tecto vastissimo que os cobre com o -mesmo zelo da gallinha aos seus pintos... Nem esqueça o proprio craneo -do homem, que os cobre igualmente, não só diversos, senão oppostos. - -Flora, no quarto, não cuidava então de bilhetes nem camarotes; tambem -não acudia á dôr de cabeça, que não tinha. Se falou nella foi por ser -uma razão proxima e acceitavel, breve ou longa, conforme a necessidade -da occasião. Não supponhas que está rezando, embora tenha alli um -oratorio e um crucifixo. Não viria pedir a Jesus que lhe livrasse a -alma daquella inclinação desencontrada. Posta á beira da cama, os -olhos no chão, pensava naturalmente em alguma cousa grave, se não era -nada, que tambem agarra os olhos e o pensamento de uma pessoa. Mordeu -os beiços sem raiva; metteu a cabeça entre as mãos, como se quizesse -concertar os cabellos, mas os cabellos estavam e ficavam como dantes. - -Quando se levantou era totalmente noite, e accendeu uma vela. Não -queria gaz. Queria uma claridade branda que désse pouca vida ao quarto -e aos seus moveis, que deixasse algumas partes na meia escuridade. -O espelho, se fosse a elle, não lhe repetiria a belleza de todos os -dias, com a vela posta em cima de uma papeleira antiga, a distancia. -Mostrar-lhe-hia a nota de pallidez e de melancolia, é verdade, mas a -nossa amiguinha não se sabia pallida, nem se sentia melancolica. Tinha -na tristeza desvairada daquella occasião uma pontinha de abatimento. - -Como tudo isso se combinava, não sei, nem ella mesma. Ao contrario, -Flora parecia, ás vezes, tomada de um espanto, outras de uma -inquietação vaga, e, se buscava o repouso de uma cadeira de balanço, -era para o deixar logo. Ouviu bater oito horas. Dahi a pouco, entrariam -provavelmente Pedro e Paulo. Teve lembrança de ir dizer á mãe que a não -mandasse chamar; estava de cama. Esta ideia não durou o que me custa -escrevel-a, e aliás já lá vae na outra linha. Recuou a tempo. - ---É um desproposito, disse comsigo; basta não apparecer. Mamãe dirá -que estou adoentada, tanto que perdemos o theatro, e, se vier aqui, -digo-lhe que não posso apparecer... - -As ultimas palavras sairam-lhe de viva voz, para maior firmeza da -resolução. Projectou reclinar-se já na cama; depois achou melhor -fazel-o quando ouvisse o passo da mãe no corredor. Todas essas -alternativas podiam vir de si mesmas; entretanto, não é impossivel que -fosse tambem um modo de sacudir quaesquer lembranças aborreciveis. A -moça temia ir atraz dellas. - - - - -CAPITULO XCV - - -O terceiro - - -Temendo ir atraz dellas, que havia de fazer Flora? Abriu uma das -janellas do quarto, que dava para a rua, encostou-se á grade e enfiou -os olhos para baixo e para cima. Viu a noite sem estrellas, pouca -gente que passava, calada ou conversando, algumas salas abertas, com -luzes, uma com piano. Não viu certa figura de homem na calçada opposta, -parada, olhando para a casa de Baptista. Nem a viu, nem lhe importaria -saber quem fosse. A figura é que tão depressa a viu como estremeceu e -não despegou mais os olhos della, nem os pés do chão. - -Lembras-te daquella veranista de Petropolis que attribuiu um terceiro -namorado á nossa amiguinha? «Um dos trez», disse ella. Pois aqui -está o terceiro namorado, e póde ser que ainda appareça outro. Este -mundo é dos namorados. Tudo se póde dispensar nelle; dia virá em que -se dispensem até os governos, a anarchia se organisará de si mesma, -como nos primeiros dias do paraiso. Quanto á comida, virá de Boston -ou de Nova-York um processo para que a gente se nutra com a simples -respiração do ar. Os namorados é que serão perpetuos. - -Aquelle era official de secretaria. Geralmente os empregados de -secretaria casam cedo. Gouvêa era solteiro, andava ás moças. Um -domingo, á missa, reparou na filha do ex-presidente, e saiu da egreja -tão apaixonado que não quiz outra promoção. Tinha gostado de muitas, -acompanhou algumas, esta foi a primeira que o feriu devéras. Pensava -nella dia e noite. A rua de S. Clemente era o caminho que o levava e -trazia da Repartição. Se a via, olhava muito para ella, detinha-se a -distancia, á porta de uma casa, ou então fingia acompanhar com os olhos -um carro que passava, e tirava-os do carro para a moça. - -Quando amanuense, fizéra versos; nomeado official, perdeu o costume, -mas um dos effeitos da paixão foi restituir-lh'o. Comsigo, em casa -da mãe, gastava papel e tinta a metrificar as esperanças. Os versos -escorriam da penna, a rima com elles, e as estrophes vinham seguindo -direitas e alinhadas, como companhias de batalhão; o titulo seria -o coronel, a epigraphe a musica, uma vez que regulava a marcha dos -pensamentos. Bastaria essa força á conquista? Gouvêa imprimiu alguns em -jornaes, com esta dedicatoria: _A alguem._ Nem assim a praça se rendia. - -Uma vez deu-lhe na cabeça mandar uma declaração de amor. Paixão -concebe despropositos. Escreveu duas cartas, sem o mesmo estylo, antes -contrario. A primeira era de poeta; dava-lhe _tu_, como nos versos, -adjectivava muito, chamava-lhe deusa por afiusão ao nome de Flora, e -citava Musset e Casimiro de Abreu. A segunda carta foi um desforço -do official sobre o amanuense. Saiu-lhe ao estylo das informações e -dos officios, grave, respeitoso, com Excellencias. Comparando as duas -cartas, não acabou de escolher nenhuma. Não foi só o texto diverso -e contrario, foi principalmente a falta de autorisação que o levou -a rasgar as cartas. Flora não o conhecia; quando menos, fugia de o -conhecer. Os olhos della, se encontravam os delle, retiravam-se logo -indifferentes. Uma só vez cuidou que traziam a intenção de perdoar. Que -esse breve raio de luz lhe desabotoasse as flores da esperança (começo -a falar como a primeira carta) era possivel e até certo; tão certo que -lhe fez perder o ponto na Repartição. Felizmente, era optimo empregado; -o director ampliou o quarto de hora de tolerancia, e attendeu á dôr de -cabeça, causa de triste insomnia. - ---Dormi sobre a madrugada, acabou o official. - ---Assigne. - -Senão quando, morre-lhe o padrinho ao Gouvêa, e em testamento deixou -ao afilhado trez contos de reis. Qualquer acharia nisso um beneficio, -Gouvêa achou dous: o legado e a occasião de travar relações com o pae -de Flora. Correu a pedir-lhe que acceitasse a procuração de legatario, -ajustando logo os honorarios e as despezas. Com pouco, foi procural-o á -casa, e para que o advogado désse a noticia do constituinte á familia, -empregou muitos ditos subtis e graciosos, contou anecdotas do padrinho, -expoz conceitos philosophicos e um programma de marido. Descreveu -tambem a situação administrativa, a promoção eminente, os louvores -recebidos, commissões e gratificações, tudo o que o distinguia de -outros companheiros. De resto, ninguem na Repartição lhe queria mal. -Aquelles mesmos que se creram prejudicados, acabavam confessando que -era justa a preferencia dada ao Gouvêa. Não seria tudo exacto; elle o -cria assim, ao menos, e, se não cria tudo, não desmentiu nada. Perdeu -tempo e trabalho. Flora não soube da conversação. - -Nem soube da conversação, nem deu agora pelo vulto, como lá disse. -tambem disse que a noite era escura. Accrescento que começou a pingar -fino e a ventar fresco. Gouvêa trazia guarda-chuva e ia a abril-o, mas -recuou. O que se passou na alma delle foi uma luta egual á dos dous -textos da carta. O official queria abrigar-se da chuva, o amanuense -queria apanhal-a, isto é, o poeta renascia contra as intemperies, -sem medo ao mal, prestes a morrer por sua dama, como nos tempos -da cavallaria. Guarda-chuva era ridiculo; poupar-se á constipação -desmentia a adoração. Tal foi a luta e o desfecho; venceu o amanuense, -emquanto a chuva ia pingando grosso, e outra gente passava abrigada e -depressa. Flora entrou e fechou a janella. O amanuense esperou ainda -algum tempo, até que o official abriu o guarda-chuva e fez como os -outros. Em casa achou a triste consolação da mãe. - - - - -CAPITULO XCVI - - -Retraimento - - -Aquella noite acabou sem incidente. Os gemeos viéram, Flora não -appareceu, e no dia seguinte duas cartinhas perguntavam a D. Claudia -como passára a filha. A mãe respondeu que bem. Nem por isso Flora os -recebeu com a alegria do costume. Tinha alguma cousa que a fazia falar -pouco. Pediram-lhe musica, tocou; foi bom, porque era um meio de se -metter comsigo. Não respondeu aos apertos de mão, como elles suppunham -que fazia até ha pouco. Assim foi essa noite, assim fôram as outras. -Ora um, ora outro chegava primeiro, imaginando que a presença do rival -é que tolhia a moça; mas a precedencia não valia nada. - - - - -CAPITULO XCVII - - -Um Christo particular - - -Tudo isso lhe custava tanto, que ella acabou pedindo ao seu Christo -um logar de governador para o pae,--ou qualquer commissão fóra daqui. -Jesus-Christo não distribue os governos deste mundo. O povo é que -os entrega a quem merece, por meio de cedulas fechadas, mettidas -dentro de uma urna de madeira, contadas, abertas, lidas, sommadas e -multiplicadas. A commissão podia vir, isso sim; a questão era saber -se Jesus-Christo acudirá a todos os que lhe pedem a mesma cousa. -Os commissarios seriam infinitamente mais que as commissões. Esta -objecção foi logo expellida do espirito de Flora, porque ella pedia ao -seu Christo, um de marfim velho, deixa da avó, um Christo que nunca -lhe negou nada, e a quem as outras pessoas não vinham importunar -com supplicas. A propria mãe tinha o seu particular, confidente de -ambições, consolo de desenganos; não recorria ao da filha. Tal era a fé -ingenua da moça. - -Certarmente, já lhe havia pedido que a livrasse daquella complicação de -sentimentos, que não acabavam de ceder um ao outro, daquella hesitação -cançativa, daquelle empuxar para ambos os lados. Não foi ouvida. A -causa seria talvez por não haver dado ao pedido a fórma clara que aqui -lhe ponho, com escandalo do leitor. Effectivamente, não era facil -pedir assim por palavras seguidas, faladas ou só pensadas; Flora não -formulou a supplica. Poz os olhos na imagem e esqueceu-se de si, para -que a imagem lêsse dentro della o seu desejo. Era demais; requerer o -favor do céu e obrigal-o a adivinhar o que era... Assim cuidou Flora, -e resolveu emendar a mão. Não chegou lá; não ousou dizer a Jesus o que -não dizia a si mesma. Pensava nos dous, sem confessar a nenhum. Sentia -a contradicção, sem ousar encaral-a por muito tempo. - - - - -CAPITULO XCVIII - - -O medico Ayres - - -Um dia pareceu á mãe que a filha andava nervosa. Interrogou-a e -apenas descobriu que Flora padecia de vertigens e esquecimentos. Foi -justamente um dia em que Ayres lá appareceu de visita, com recados de -Natividade. A mãe falou-lhe primeiro e confiou-lhe os seus sustos. -Pediu-lhe que a interrogasse tambem. Ayres fez de medico, e, quando -a moça appareceu e a mãe os deixou na sala, cuidou de a interrogar -cautelosamente. - -Vão proposito, porque ella mesma iniciou a conversação, queixando-se de -dôr de cabeça. Ayres observou que dôr de cabeça era molestia de moça -bonita, e, tendo confessado que este dito era banal, descobriu-lhe o -motivo. Não queria perder a occasião de lhe dizer o que toda a gente -sabia e dizia, não só aqui, como em Petropolis. - ---Porque não vae a Petropolis? concluiu. - ---Espero fazer outra viagem mais longa, muito longa... - ---Para o outro mundo, aposto? - ---Acertou. - ---Já tem bilhete de passagem? - ---Comprarei no dia do embarque. - ---Talvez não ache. Ha grande concurrencia para aquellas paragens; -melhor é comprar antes, e, se quer, eu me encarrego disso; comprarei -outro para mim, e iremos juntos. A travessia, quando não ha conhecidos, -deve ser fastidiosa; ás vezes, os proprios conhecidos aborrecem, como -succede neste mundo. As saudades da vida é que são agradaveis. A gente -de bordo é vulgar, mas o commandante impõe confiança. Não abre a bôca, -dá as suas ordens por gestos, e não consta que haja naufragado. - ---O senhor está caçoando commigo; eu creio até que estou com febre. - ---Deixe ver. - -Flora estendeu-lhe o pulso; elle, com ar profundo: - ---Está; febre de quarenta e sete grãos, a mão está ardendo, mas isto -mesmo prova que não é nada, porque aquellas viagens fazem-se com as -mãos frias. Ha de ser constipação, fale a sua mãe. - ---Mamãe não cura. - ---Póde curar, ha remedios caseiros; em todo caso, peça-lhe, e ella póde -mandar chamar um medico. - ---Medico dá tizanas, e eu não gósto de tizanas. - ---Nem eu, mas tolero-as. Porque não experimenta a homoeopathia, que não -tem gosto, como a allopathia? - ---Qual é a que lhe parece melhor? - ---A melhor? Só Deus é grande. - -Flora sorriu, de um sorriso pallido, e o conselheiro percebeu algo que -não era tristeza de passagem ou de creança. Novamente lhe falou de -Petropolis, mas não insistiu. Petropolis era a aggravação do momento -actual. - ---Petropolis tem o mal das chuvas, continuou. Eu, se fosse a senhora, -saía desta casa e desta rua; vá para outro bairro, casa amiga, com sua -mãe ou sem ella... - ---Para onde? perguntou Flora anciosa. - -E ficou a olhar, esperando. Não tinha casa amiga, ou não se lembrava, e -queria que elle mesmo escolhesse alguma, onde quer que fosse, e quanto -mais longe, melhor. Foi o que elle leu nos olhos parados. É ler muito, -mas os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o que lhes diz -um rosto calado, e até o contrario. Ayres fôra diplomata excellente, -apesar da aventura de Caracas, se não é que essa mesma lhe aguçou a -vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dous -verbos parentes. - - - - -CAPITULO XCIX - - -A titulo de ares novos... - - ---Vou arranjar-lhe uma casa boa, disse elle, á despedida. - -Desde que estava em Petropolis, Ayres não ia jantar a Andarahy, com a -irmã, ás quintas-feiras, segundo ajustára e consta do cap. XXXII. Agora -foi lá, e cinco dias depois Flora transferia-se para a casa della, a -titulo de ares novos. D. Rita não consentiu que D. Claudia lhe levasse -a filha, ella mesma a foi buscar a S. Clemente, e Ayres acompanhou as -trez. - -A mocidade de Flora na casa de D. Rita foi como uma rosa nascida ao pé -de paredão velho. O paredão remoçou. A simples flôr, ainda que pallida, -alegrou o barro gretado e as pedras despidas. D. Rita vivia encantada; -Flora pagava o agazalho da dona da casa com tanta ingenuidade e graça, -que esta acabou por lhe dizer que a roubaria á mãe e ao pae, e foi -ainda occasião de riso para as duas. - -«Você me deu um lindo presente com esta moça, escrevia D. Rita ao -irmão; foi uma alma nova, e veiu em boa occasião, porque a minha anda -já caduca. É muito docilzinha, conversa, toca e desenha que faz gosto, -tem aqui tirado riscos de varias cousas, e eu saio com ella para lhe -mostrar vistas apreciaveis. Às vezes, apresenta uma cara triste, -olha vagamente, e suspira; mas eu pergunto-lhe se são saudades de S. -Clemente, ella sorri e faz ura gesto de indifferença. Não lhe falo dos -nervos, para não a affligir, mas creio que vae melhor...» - -Flora tambem escreveu as conselheiro Ayres, e as duas cartas chegaram -á mesma hora a Petropolis. A de Flora era um agradecimento grande e -cordial, mal entremeado de alguma palavra saudosa; confirmava assim -a carta da outra, posto não a houvesse lido. Ayres comparou-as, -lendo duas vezes a da moça para ver se ella escondia mais do que -transparencia do papel. Em summa, confiava no remedio. - ---Não os vendo, esquece-os, pensou elle; e se na visinhança houver -alguem que pense em gostar della, é possivel que acabe casando. - -Respondeu a ambas, na mesma noite, dizendo-lhes que na quinta-feira -iria almoçar com ellas. A D. Claudia escreveu mandando-lhe a carta da -irmã, e foi passar a noite em casa de Natividade, a quem deu a ler as -cinco cartas. Natividade approvou tudo. Notava só que os filhos não lhe -escreviam, e deviam estar desesperados. - ---A Santa Casa cura, e a Bibliotheca Nacional tambem, retorquiu Ayres. - -Na quinta feira, Ayres desceu e foi almoçar a Andarahy. Achou-as como -as tinha lido nas cartas. Interrogou-as separadamente para ouvir por -bôca as confissões do papel; eram as mesmas. D. Rita parecia ainda -mais encantada. Talvez a causa recente fosse a confidencia que fez a -moça, na vespera. Como falassem de cabellos, D. Rita referiu o que -tambem consta do cap. XXXII, isto é, que cortára os seus para os metter -no caixão do marido, quando o levaram a enterrar. Flora não a deixou -acabar; pegou-lhe das mãos e apertou-as muito. - ---Nenhuma outra viuva faria isto, disse ella. - -Aqui foi D. Rita que lhe pegou nas mãos, pôl-as sobre os seus hombros, -e concluiu o gesto por um abraço. Todas as pessoas louvaram-lhe a -abnegação do acto; esta era a primeira que a achou unica. E dahi outro -abraço longo, mais longo... - - - - -CAPITULO C - - -Duas cabeças - - -Tão longo foi o abraço que tomou o resto ao capitulo. Este começa -sem elle nem outro. O mesmo aperto de mão de Ayres e Flora, se foi -demorado, tambem acabou. O almoço fez gastar algum tempo mais que de -costume, porque Ayres, além de conversador emerito, não se fartava de -ouvir as duas, principalmente a moça. Achava-lhe um toque de languidez, -abatimento ou cousa proxima, que não encontro no meu vocabulario. - -Flora mostrou-lhe os desenhos que fizera, paisagens, figuras, um pedaço -da estrada da Tijuca, um chafariz antigo, um _Principio de casa._ Era -umas dessas casas, que alguem começou muitos annos antes, e ninguem -acabou, ficando só duas ou trez paredes, ruina sem historia. Havia -ainda outros desenhos, uma revoada de passaros, um vaso á janella. -Ayres ia folheando, cheio de curiosidade e paciencia; a intenção da -obra suppria a perfeição, e a fidelidade devia ser approximada. Emfim, -a moça atou os cordões á pasta. Ayres, parecendo-lhe que ficara um -desenho ultimo r escondido, pediu que lh'o mostrasse. - ---É um esboço, não vale a pena. - ---Tudo vale a pena; quero acompanhar as tentativas da artista; deixe -ver. - ---Não vale a pena... - -Ayres insistiu; ella não pôde recusar mais tempo, abriu a pasta, -e tirou um pedaço de papel grosso em que estavam desenhadas duas -cabeças juntas e eguaes. Não teriam a perfeição desejada por ella; não -obstante, dispensavam os nomes. Ayres considerou a obra, durante alguns -minutos, e duas ou trez vezes levantou os olhos para a autora. Flora -já os esperava, interrogativa; queria ouvir o louvor ou a critica, mas -não ouviu nada. Ayres acabou de observar as duas cabeças, e pousou o -desenho entre os papeis. - ---Não lhe dizia que era um esboço? perguntou Flora, a ver se lhe -arrancava uma palavra. - -Mas o ex-ministro preferiu não dizer nada. Em vez de achar quasi -extincta a influencia dos gemeos, vinha dar com ella feita consolação -da ausencia, tão viva que bastava a memoria, sem presença dos modelos. -As duas cabeças estavam ligadas por um vinculo escondido. Flora, -vendo continuar o silencio de Ayres, comprehendeu acaso parte do que -lhe passava no espirito. Com um gesto prompto, pegou do desenho e -deu-lh'o. Não lhe disse nada, menos ainda escreveu qualquer palavra. -Qualquer que fosse, seria indiscreta. De mais, era o unico desenho -a que ella não pôz assignatura. Deu-lh'o como se fôra um penhor de -arrependimento. Em seguida, atou novamente as fitas da pasta, emquanto -Ayres, rasgava calado o desenho e mettia os pedaços no bolso. Flora -ficou por um instante parada, bôca entre-aberta, mas logo lhe apertou -a mão, agradecida. Não pôde evitar que lhe caissem duas pequeninas -lagrimas,--como outras tantas fitas que lhe atavam para sempre a pasta -do passado. - -A imagem não é boa, nem verdadeira; foi a que acudiu ao conselheiro, -andando, ao voltar de Andarahy. Chegou a escrevel-a no _Memorial_, -depois riscou-a, e escreveu uma reflexão menos definitiva: «Talvez seja -uma lagrima para cada gemeo.» - ---Póde acabar com o tempo, pensou elle indo para a barca de Petropolis. -Não importa; é um caso embrulhado. - - - - -CAPITULO CI - - -O caso embrulhado - - -Tambem os gemeos achavam o caso embrulhado. Quando iam a S. Clemente, -tinham noticias da moça, sem que lhes déssem certeza do regresso. O -tempo andava; não tardaria que consultassem a sorte, como dous antigos. - -A rigor, não contavam as semanas de interrupção, uma vez que a -escolha se não dava, e elles podiam trazer da consulta o contrario da -inclinação definitiva da moça. Reflexão justa, posto que interessada. -Cada um delles não queria mais que prolongar a batalha, esperando -vencel-a. Entretanto, não confiavam um do outro este pensamento gemeo, -como elles. Ambos se iam sentindo exclusivos, a affeição tinha agora o -seu pudor e necessidade de calar. Já não falavam de Flora. - -Nem só de Flora. Crescendo a opposição, recorriam ao silencio. -Evitavam-se; se podiam, não comiam juntos; se comiam juntos, diziam -pouco ou nada. Às vezes, falavam para tirar aos criados qualquer -suspeita, mas não advertiam que falavam mal e forçadamente, e que os -criados iam commentar as palavras e a expressão delles na copa. A -satisfação com que estes communicavam os seus achados e conclusões -é das poucas que adoçam o serviço domestico, geralmente rude. Não -chegavam, porém, ao ponto de concluir tudo o que os ia tornando -cada vez mais avessos, a ponto de odio que crescia com a ausencia -da mãe. Era mais que Flora, como sabeis; eram as proprias pessoas -inconciliaveis. Um dia houve na copa e na cozinha grande novidade, -Pedro, a pretexto de sentir mais calor que Paulo, mudou de quarto e foi -dormir mal em outro não menos quente que o primeiro. - - - - -CAPITULO CII - - -Visão pede meia sombra - - -Entretanto, a bella moça não os tirava da mesma alcova sua, por mais -que buscasse devéras fugir-lhes. A memoria os trazia pela mão, elles -entravam e ficavam. Iam depois embora, ou de si mesmos, ou empurrados -por ella. Quando tornavam, era de sorpresa. Um dia, Flora aproveitou a -presença para fazer um desenho egual ao que dera ao conselheiro, mais -perfeito agora, muito mais acabado. - -Tambem cançava. Então saía do quarto e ia para o piano. Elles iam com -ella, sentavam-se aos lados ou ficavam defronte, em pé, e ouviam com -attenção religiosa, ora um nocturno, ora uma tarantella. Flora tocava -ao sabor de ambos, sem deliberação; os dedos é que obedeciam á mecanica -da alma. Para os não ver, inclinava a cabeça sobre o teclado; mas o -campo da visão os guardava, se não era a respiração que se fazia sentir -defronte ou dos lados. Tal era a subtileza dos seus sentidos. - -Se fechava o piano e descia ao jardim, succedia muita vez que os ia -achar alli, passeando, e a comprimentavam com tão boa sombra, que ella -esquecia por instantes a impaciencia. Depois, sem que os mandasse, -iam embora. Nos primeiros tempos. Flora tinha medo que a houvessem -abandonado de todo, e chamava-os dentro de si. Ambos tornavam logo, tão -doceis, que ella acabou de se convencer que a fuga não era fuga. nem -elles sentiam desprezo, e não os evocou mais. No jardim era mais rapido -o desapparecimento, talvez pela extrema claridade do logar. Visão pede -meia sombra. - - - - -CAPITULO CIII - - -O quarto - - -Sei, sei, trez vezes sei que ha muitas visões dessas nas paginas que lá -ficam. Ulysses confessa a Alcinoos que lhe é enfadonho contar as mesmas -cousas. Tambem a mim. Sou, porém, obrigado a ellas, porque sem ellas -a nossa Flora seria menos Flora, seria outra pessoa que não conheci. -Conheci esta, com as suas obsessões ou como quer que lhes chames. - -Nem por isso, nem ainda porque houvesse colhido algum abatimento e -nervos, deixava Flora de enfeitar muito, de se fazer mais linda, e ter -mais de um namorado incognito, que suspirava por ella. Não faltava quem -a admirasse de passagem, e fosse vel-a, quando menos, no banco verde, á -porta do jardim, ao pé da irmã de Ayres. Póde ser que conhecesse algum, -Gouvêa, por exemplo; em verdade, era como se os não visse. - -Um delles valia mais que todos pela carruagem,--tirada por uma bella -parelha de cavallos,--capitalista do bairro. A casa delle era um -palacete, os moveis feitos na Europa, estylo imperio, apparelhos de -Sèvres e de prata, tapetes de Smyrna, e uma vasta camara com dous -leitos, um de solteiro, outro de casados. O segundo esperava a esposa. - ---A esposa ha de ser esta, pensou elle um dia, ao ver Flora. - -Era maduro; trazia o rosto batido dos ventos da vida, a despeito das -muitas aguas de toucador; ao corpo faltava aprumo, e as maneiras não -tinham graça nem naturalidade. Era o Nobrega, aquelle da nota de dous -mil reis, nota fecunda, que deitou de si muitas outras, mais de dous -mil contos de reis. Para as notas recentes, a avó perdia-se na noite -dos tempos. Agora os tempos eram claros, a manhã doce e pura. - -Quando viu a moça, e fez a reflexão que lá fica, extranhou-se a si -proprio. Vira outras damas, e mais de uma com escriptos nos olhos, -dizendo-lhe o vasio do coração. Esta era a primeira que veramente lhe -prendeu a vontade e lhe deteve o pensamento. Tornou a vêl-a; a gente -visinha notou porv'entura a frequencia recente do capitalista. Emfim, -Nobrega acabou por se fazer entrado na casa de D. Rita, com desgosto -dos seus habituados, que assim se viam esquecidos do amphytrião. -Nobrega, entretanto, dera ordens bastantes para que fossem todos -servidos e agazalhados, como se elle estivesse presente. - -A ausencia não lhe faria perder as loas dos amigos. Ao contrario, os -servos podiam dar testemunho do que todos elles pensavam do «grande -homem.» Tal era o nome que lhe applicara o secretario particular, e -pegou. Nobrega sabia pouca orthographia, nenhuma syntaxe, licções -uteis, de certo, mas que não valiam a moral, e a moral, diziam todos, -acompanhando o secretario, era o seu principal e maior merito. O fiel -escriba accrescentava, que sendo preciso despir a camisa e dal-a a um -mendigo, Nobrega o faria, ainda que a camisa fosse bordada. - -Agora mesmo, este amor era, ao cabo, um movimento de caridade. Em pouco -tempo, aquelle gosto de relance passou a grande paixão, tão grande que -elle não a pôde conter, e resolveu confessal-a. Hesitou se o faria á -propria moça ou á dona da casa. Não tinha animo para uma nem outra. Uma -carta suppria tudo, mas a carta pedia lingua, calor e respeito. Se, ao -menos, o gesto de Flora lhe dissesse alguma cousa, ainda que pouca, vá; -a carta seria então uma resposta. Mas não lhe dizia nada o gesto da -moça. Era só cortez e gracioso; não ia além dessas duas expressões. - -D. Rita percebeu a inclinação de Nobrega e achou que era a melhor -solução da vida para a hospede. Todas as incertezas, angustias -e melancolias vinham acabar nos braços de um ricasso, estimado, -respeitado, dentro de um palacete com uma carruagem ás ordens... Ella -mesma punha em relevo este premio grande da loteria de Hespanha. - -Emfim, o secretario de Nobrega redigiu com a melhor linguagem que -possuia uma carta em que o capitalista pedia a D. Rita o favor de -consultar a moça amada. - ---Não escreva palavrinhas doces, recommendou elle ao secretario. Gósto -dessa moça com um sentimento de protecção, antes que outra cousa. Não é -carta de namorado. Estylo grave... - ---Uma carta secca, concluiu o secretario. - ---Totalmente secca, não, emendou Nobrega, uma carta lisongeira, sem -esquecer que não sou creança. - -Assim se cumpriu. Ia a cumprir-se demais; Nobrega achou que o estylo -podia ser um tanto ameno; não fazia mal pôr duas ou trez palavras -apropriadas ao objecto, _belleza, coração, sentimento..._ Assim se -cumpriu fmalmente, e a carta foi levada ao seu destino. D. Rita ficou -contentissima. Justamente o que ella queria. Tinha o plano feito de -concluir, por acto seu, uma historia melancolica, a que daria, por -derradeira pagina, conclusão deslumbrante. Não pensou em dizel-o -primeiro ao irmão, pela razão de querer que elle recebesse a noticia -completa, tudo feito e acabado. Releu a carta; dispoz-se a ir logo, -mas ha pessoas para quem o adagio que diz que «o melhor da festa é -esperar por ella», resume todo o prazer da vida. D. Rita tinha essa -opinião. Todavia, entendeu que taes cartas não são das que se guardam -largo tempo, nem aliás das que se communicam sem cautella. Esperou -vinte e quatro horas. Na manhã seguinte, depois de almoçadas, leu a -carta á moça. O natural é que Flora ficasse espantada. Ficou, mas não -tardou que risse, de um riso franco e sonoro, como ainda não rira em -Andarahy. D. Rita ficou espantadissima. Suppunha que, não a pessoa, -mas as vantagens e circumstancias pleiteassem a favor do candidato. -Esquecia os seus cabellos entregues á sepultura do marido. Deu -conselhos á moça, poz em relevo a posição do pretendente, o presente e -o futuro, a situação esplendida que lhe dava este casamento, e por fim -as qualidades moraes de Nobrega. A moça escutou calada, e acabou rindo -outra vez. - ---A senhora sabe se serei feliz? perguntou. - ---Creio que sim; agora, o futuro é que confirmará ou não. - ---Esperemos que o futuro chegue, comquanto me pareça muito demorado. -Não nego as qualidades daquelle homem, parece bom, e trata-me bem, mas -eu não quero casar, D. Rita. - ---Realmente, a edade... Mas nem, ao menos, quer pensar alguns dias? - ---Está pensado. - -D. Rita ainda esperou um dia. A resposta negativa, dado que Flora -viesse a mudar de opinião, podia ser uma desgraça para esta. Uso os -proprios termos della, comsigo, _grande desgraça, posição esplendida, -sentimento profundo._ D. Rita ia aos extremos, deante daquelle -rico-homem dos ultimos annos do seculo. - - - - -CAPITULO CIV - - -A resposta - - -Não querendo dar a resposta nua e crua, D. Rita consultou a moça, que -lhe respondeu simplesmente: - ---Diga que não pretendo casar. - -Quando Nobrega recebeu as poucas linhas que D. Rita lhe mandou, ficou -assombrado. Não contava com recusa. Ao contrario, era tão certa a -acceitação que elle tinha já um programma do noivado. Imaginava a -moça, os olhos timidos, a bôca cerrada, o veu que lhe cobriria a linda -carinha, a delicadeza delle, as palavras que lhe diria entrando em -casa. Tinha já composto uma invocação á Mãe Santíssima, para que os -fizesse felizes. «Dou-lhe carro, dizia comsigo, joias, muitas joias, as -melhores joias do mundo... » Nobrega não fazia ideia exacta do mundo; -era uma expressão. «Hei de dar-lhe tudo, sapatinhos de seda, meias de -seda, que eu mesmo lhe calçarei...» Estremecia de cór, ao calçar-lhe as -meias. Beijava-lhe os pés e os joelhos. - -Tinha imaginado que ella, ao ler a carta, devia ficar tão pasmada e -agradecida, que nos primeiros instantes não pudera responder a D. -Rita; mas logo depois as palavras sairiam do coração ás golfadas. -«Sim, senhora, queria, acceitava; não pensara em outra cousa.» -Escreveria logo ao pae e á mãe para lhes pedir licença; elles viriam -correndo, incredulos, mas, vendo a carta, ouvindo a filha e D. Rita, -não duvidariam da verdade, e dariam o consentimento. Talvez o pae -lh'o fosse dar em pessoa. E nada, nada, nada, absolutamente nada, uma -simples recusa, uma recusa atrevida, porque em fim quem era ella, -apesar da belleza? Uma creatura sem vintem, modestamente vestida, sem -brincos, nunca lhe vira brincos ás orelhas, duas perolasinhas que -fossem. E porque é que lhe furaram as orelhas, se não tinham brincos -que lhe dar? Considerou que ás mais pobres meninas do mundo furam as -orelhas para os brincos que lhes possam cair do céu. E vem esta, e -recusa os mais ricos brincos que o céu ia chover sobre ella... - -Ao jantar, os amigos da casa notaram que elle estava preoccupado. -De noite, elle e o secretario sairam a pé. Nobrega buscou em si o -gesto mais frio e indifferente que pôde, quasi alegre, e annunciou ao -secretario que Flora não queria casar. Não se descreve a admiração do -secretario, em seguida a consternação, finalmente a indignação. Nobrega -respondia magnanimo: - ---Não foi por mal; foi talvez por se julgar abaixo, muito abaixo da -fortuna. Creia que é boa moça. Póde ser tambem, quem sabe? Por ter sido -um mau conselho do coração. Aquella moça é doente. - ---Doente? - ---Não affirmo; digo que póde ser. - -O secretario affirmou. - ---Só a doença, disse elle, explicará a ingratidão, por que o acto é de -pura ingratidão. - -Aqui tornou a nota da indignação, nota sincera, como as outras. Nobrega -gostou de ouvil-a; era um compadecimento. No fim, cumpriu a ideia que -trazia ao sair de casa; augmentou-lhe o ordenado. Podia ser a paga -da sympathia; o beneficiado foi mais longe, achou que era o preço do -silencio, e ninguem soube de nada. - - - - -CAPITULO CV - - -A realidade - - -A molestia, dada por explicação á recusa do casamento, passou á -realidade dahi a dias. Flora adoeceu levemente; D. Rita, para não -alarmar os paes, cuidou de a tratar com remedios caseiros; depois, -mandou chamar um medico, o seu medico, e a cara que este fez não -foi boa, antes má. D. Rita, que costumava ler a gravidade das suas -molestias no rosto delle, e sempre as achava gravissimas, cuidou de -avisar os paes da moça. Os paes viéram logo. Natividade tambem desceu -de Petropolis, não de vez; em cima, tinham medo de algum movimento -cá embaixo. Veiu a visitar a moça, e, a pedido desta, ficou alguns -dias.--Só a senhora me póde curar, disse Flora; não creio nos remedios -que me dão. As suas palavras é que são boas, e os seus carinhos... -Mamãe tambem, e D. Rita, mas não sei, ha uma differença, uma cousa... -Veja: parece-me que até já rio. - ---Já, já; ria mais. - -Flora sorriu, ainda que daquelle sorriso descorado que apparece na -bôca do enfermo, quando a molestia consente, ou elle fórça a seriedade -propria da dôr. Natividade dizia-lhe palavras de animação; fel-a -prometter que iria convalecer em Petropolis. A enfermidade começou a -ceder. D. Claudia acceitou a offerta de D. Rita, e lá ficou aposentada. -Natividade ia á noite para Botafogo e voltava de manhã. Ayres descia de -Petropolis um dia sim, um dia não. - -Tambem os gemeos lá iam saber da enferma. Agora mais que d'antes, -sentiam a fortaleza do vinculo que os prendia á moça. Pedro, já medico, -ainda que sem pratica, punha mais autoridade nas perguntas, concluia -melhor dos symptomas, mas as esperanças e os receios eram de ambos. -Algumas vezes, falavam mais alto que de costume e de conveniencia. A -razão, por egoista que fosse, era perdoavel. Suppõe que os cartões de -visita falassem; alguns, mais soffregos, proclamariam os seus nomes, -para que soubessem logo da presença, da cortezia e da anciedade. Tal -cuidado da parte dos dous era inutil, porque ella sabia delles e -recebia as lembranças que lhe deixavam. - -Flora ia assim passando os dias. Queria Natividade sempre ao pé de si, -pela razão que já deu, e por outra que não disse, nem porventura soube, -mas podemos suspeital-a e imprimir. Estava alli o ventre abençoado que -gerára os dous gemeos. De instincto, achava nella algo particular. -Quanto ao influxo que exercia nella, por essa ou qualquer outra causa, -não a sabia Natividade; contentava-se em ver que, ainda agora, e em tal -crise, Flora não perdera a amizade que lhe tinha. Passavam as horas -juntas, falando, se não fazia mal falar, ou então uma com as mãos -da outra entre as suas. Quando Flora adormecia, Natividade ficava a -contemplal-a, com o rosto pallido, os olhos fundos, as mãos quentes, -mas sem perder a graça dos dias da saúde. As outras entravam no quarto, -pé ante pé, esticavam os pescoços para vel-a dormir, falavam por gestos -ou tão baixo que só o coração as adivinharia. - -Quando pareceu melhorar, Flora pediu um pouco mais de luz e de céu. Uma -das duas janellas foi então escancarada, e a enferma encheu-se de vida -e riso. Não é que a Febre se fosse de todo. Essa bruxa livida estava ao -canto do quarto, com os olhos espetados nella; mas, ou de cançada, ou -por obrigação imposta, cochilava a miudo, e longamente. Então a enferma -sentia só o calor do Mal, que o medico graduava em trinta e nove ou -trinta e nove e meio, depois de consultar o thermometro. A Febre, ao -ver esse gesto, ria sem escandalo, ria para si. - - - - -CAPITULO CVI - - -Ambos quaes? - - -Ficámos no ponto cm que uma das janellas do quarto augmentou a dóse -do luz e de céu que Flora pediu, sem embargo da febre, aliás pouca. O -mais que se passou valia a pena de um livro. Não foi logo, logo, gastou -longas horas e alguns dias. Houve tempo bastante para que entre a vida -e Flora se fizesse a reconciliação ou a despedida. Uma e outra podiam -ser extensas; tambem podiam ser curtas. Conheci um homem que adoeceu -velho, se não de velho, e despendeu no rompimento final um tempo quasi -infinito. Já pedia a morte, mas quando via o rosto descarnado da -derradeira amiga espiar da porta entre-aberta, voltava o seu para outro -lado e engrolava uma cantiga da infancia, para enganal-a e viver. - -Flora não recorria a taes cantigas, aliás tão proximas. Quando via o -céu e um pedaço de sol no muro, deleitava-se naturalmente, e uma vez -quiz desenhar, mas não lh'o consentiram. Se a morte a espiava da porta, -tinha um calefrio, é verdade, e fechava os olhos. Ao abril-os fitava a -triste figura, sem lhe fugir nem chamar por ella. - ---Você amanhã está prompta, e de hoje a oito dias, ou antes, vamos para -Petropolis, disse Natividade disfarçando as lagrimas, mas a voz fazia o -officio dos olhos. - ---Petropolis? suspirou a doente. - ---Lá terá muito que desenhar. - -Eram sete horas da manhã. Na vespera, quando os gemeos sairam de lá, já -tarde, os receios da morte cresciam; mas não bastam receios, é preciso -que a realidade venha atraz delles; dahi as esperanças. Tambem não -bastam esperanças, a realidade é sempre urgente. A madrugada trouxe -algum socego; ás sete horas, depois daquellas palavras de Natividade, -Flora pôde dormir. - -Quando Pedro e Paulo voltaram a Andarahy, a enferma estava acordada, -e o medico, sem dar grandes esperanças, mandou fazer applicações, que -declarou energicas. Todos tinham signaes de lagrimas. De noite, Ayres -appareceu trazendo noticias de agitação na cidade. - ---Que é? - ---Não sei; uns falam de manifestações ao marechal Deodoro, outros de -conspiração contra o marechal Floriano. Ha alguma cousa. - -Natividade pediu aos filhos que se não mettessem em barulhos; ambos -prometteram e cumpriram. Ao ver o aspecto de algumas ruas, grupos, -patrulhas, armas, duas metralhadoras, Itamaraty illuminado, tiveram a -curiosidade de saber o que houve e havia; vaga suggestão, que não durou -dous minutos. Correram a metter-se em casa, e a dormir mal a noite. Na -manhã seguinte os criados levaram os jornaes com as noticias da vespera. - ---Veiu algum recado de Andarahy? perguntou um. - ---Não, senhor. - -Ainda quizeram ler, por alto, alguma cousa. Não puderam; estavam -anciosos de sair de casa e saber noticias da noite. Posto levassem os -jornaes comsigo, não leram claramente nem seguidamente. Viram nomes de -pessoas prezas, um decreto, movimento de gente e de tropas, tão confuso -tudo, que deram por si na casa de D. Rita, antes de entender o que -houvera. Flora ainda vivia. - ---Mamãe, a senhora está mais triste hoje que estes dias. - ---Não fales tanto, minha filha, acudiu D. Claudia. Triste estou sempre -que adoeces. Fica boa e verás. - ---Fica, fica boa, interveiu Natividade. Eu em moça, tive uma doença -egual que me prostrou por duas semanas, até que me levantei, quando já -ninguem esperava. - ---Então já não esperam que me levante? - -Natividade quiz rir da conclusão tão prompta, com o fim de a animar. A -doente fechou os olhos, abriu-os dahi a pouco, e pediu que vissem se -estava com febre. Viram; tinha, tinha muita. - ---Abram-me a janella toda. - ---Não sei se fará bem, ponderou D. Rita. - ---Mal não faz, disse Natividade. - -E foi abrir, não toda, mas metade da janella. Flora, posto que já mui -caida, fez esforço e voltou-se para o lado da luz. Nessa posição ficou -sem dar de si; os olhos, a principio vagos, entraram a parar, até que -ficaram fixos. A gente entrava no quarto devagar, e abafando os passos, -trazendo recados e levando-os; fóra, espreitavam o medico. - ---Demora-se; já devia cá estar, dizia Baptista. - -Pedro era medico, propoz-se a ir ver a enferma; Paulo, não podendo -entrar tambem, ponderou que seria desagradavel ao medico assistente; -além disso, faltava-lhe pratica. Um e outro queriam assistir ao -passamento de Flora, se tinha de vir. A mãe, que os ouviu, saiu á sala, -e, sabendo o que era, respondeu negativamente. Não podiam entrar; era -melhor que fossem chamar o medico. - ---Quem é? perguntou Flora, ao vel-a tornar ao quarto. - ---São os meus filhos que queriam entrar ambos. - ---Ambos quaes? perguntou Flora. - -Esta palavra fez crêr que era o delirio que começava, se não é que -acabava, porque, em verdade, Flora não proferiu mais nada. Natividade -ia pelo delirio. Ayres, quando lhe repetiram o dialogo, rejeitou o -delirio. - -A morte não tardou. Veiu mais depressa do que se receiava agora. -Todas e o pae acudiram a rodear o leito, onde os signaes da agonia se -precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes rapidas, não tanto -que não façam ir doendo as saudades do dia; acabou tão serenamente -que a expressão do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de -defunta que de esculptura. As janellas, escancaradas, deixavam entrar o -sol e o céu. - - - - -CAPITULO CVII - - -Estado de sitio - - -Não ha novidade nos enterros. Aquelle teve a circumstancia de percorrer -as ruas em estado de sitio. Bem pensado, a morte não é outra cousa -mais que uma cessação da liberdade de viver, cessação perpetua, ao -passo que o decreto daquelle dia valeu só por 72 horas. Ao cabo de 72 -horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver. Quem -morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria commettido -aquella moça, além do de viver, e porventura o de amar, não se sabe a -quem, mas amar? Perdoai estas perguntas obscuras, que se não ajustam, -antes se contrariam. A razão é que não recordo este obito sem pena, e -ainda trago o enterro á vista... - - - - -CAPITULO CVIII - - -Velhas ceremonias - - -Aqui vae a sair o caixão. Todos tiram o chapeu, logo que elle assoma -á porta. Gente que passa, pára. Das janellas debruça-se a visinhança, -em algumas atopeta-se, por serem as familias maiores que o espaço; ás -portas, os criados. Todos os olhos examinam as pessoas que pegam nas -alças do caixão, Baptista, Santos, Ayres, Pedro, Paulo, Nobrega. - -Este, posto já não frequentasse a casa, mandara saber da enferma, e -foi convidado a carregar o gracioso corpo. No carro, em que levava o -secretario, e era puxado pela mais bella parelha do prestito, quasi -unica, lembrava Nobrega ao secretario. - ---Não lhe dizia eu que ella era doente? Era muito doente. - ---Muito. - -Não vou ao ponto de affirmar que teve prazer com a morte de Flora, -só por havel-o feito acertar na noticia da doença, estando ella -perfeitamente sã. Mas que ninguem fosse seu marido, foi uma especie -de consolação. Houve mais; suppondo que ella o tivesse acceitado e -casassem, pensava agora no esplendido enterro que lhe faria. Desenhava -na imaginação o carro, o mais rico de todos, os cavallos e as suas -plumas negras, o caixão, uma infinidade de cousas que, á força de -compôr, cuidava feitas. Depois o tumulo; marmore, letras de ouro... O -secretario para o arrancar á tristeza, falava dos objectos da rua. - ---V. Ex. lembra-se do chafariz que havia aqui ha annos? - ---Não, resmungava Nobrega. - -Ainda uma vez, não ha novidade nos enterros. Dahi o provavel tedio dos -coveiros, abrindo e fechando covas todos os dias. Não cantam, como os -de _Hamlet_, que temperam as tristezas do officio com as trovas do -mesmo officio. Trazem o caixão da cal e a colher para os convidados, -e para si as pás com que deitam a terra para dentro da cova. O pae -e alguns amigos ficaram ao pé da cova de Flora, a ver cair a terra, -a principio com aquelle baque soturno, depois com aquelle vagar -cançativo, por mais que os pobres homens se apressem. Enifim, caiu toda -a terra, e elles puzeram em cima as grinaldas dos paes e dos amigos: -«_À nossa querida filha»;--«À nossa santa amiguinha Flora a saudosa -amiga Natividade»;--À Flora, um amigo velho_», etc. Tudo feito, vieram -saindo; o pae, entre Ayres e Santos, que lhe davam o braço, cambaleava. -Ao portão, foram tomando os carros e partindo. Não deram pela falta de -Pedro e Paulo que ficaram ao pé da cova. - - - - -CAPITULO CIX - - -Ao pé da cova - - -Nenhum delles contou o tempo gasto naquelle logar. Sabem só que foi de -silencio, de contemplação e de saudade. Não digo, para os não vexar -agora, mas é possivel que chorassem tambem. Tinham um lenço na mão, -enxugavam os olhos; depois com os braços caidos, as mãos prendendo o -chapeo, olhavam apparentemente para as flôres que cobriam a sepultura, -mas na realidade para a creatura que lá estava embaixo. - -Emfim, cuidaram de arrancar-se dalli, e despedir-se da defunta, não se -sabe com que palavras, nem se eram as mesmas; o sentido seria egual. -Como estivessem defronte um do outro, acudiu-lhes a ideia de um aperto -de mão por cima da cova. Era uma promessa, um juramento. Juntaram-se -e vieram descendo, calados. Antes de chegar ao portão, reduziram á -palavra o gesto das mãos feito sobre a cova. Que juravam a conciliação -perpetua. - ---Ella nos separou, disse Pedro; agora, que desappareceu, que nos una. - -Paulo confirmou de cabeça. - ---Talvez morresse para isso mesmo, accrescentou. - -Depois, abraçaram-se. Gesto nem palavra traziam emphasis ou affectação; -eram simples e sinceros. A sombra de Flora de certo os viu, ouviu e -inscreveu aquella promessa de reconciliação nas taboas da eternidade. -Ambos, por um impulso commum, voltaram os olhos para ver ainda uma -vez a cova de Flora, mas a cova ficava longe e encoberta por grandes -sepulchros, cruzes, collumnas, um mundo inteiro de gente passada, quasi -esquecida. O cemiterio tinha um ar meio alegre, com todas aquellas -grinaldas de flôres, baixo-relevos, bustos, e a côr branca dos marmores -e da cal. Comparado á cova recente, parecia um renascimento de vida, -que ficou deslembrada a um canto da cidade. - -Custou-lhes sair do cemiterio. Não suppunham estar tão presos á -defunta. Cada um d'elles ouvia a mesma voz, com egual doçura e palavras -especiaes. Tinham chegado ao portão e o carro veiu buscal-os. A cara do -cocheiro era radiosa. - -Não se explica esta expressão do cocheiro, se não porque, inquieto da -demora, não cuidando que os dous freguezes ficassem tanto tempo ao pé -da cova, entrara a receiar que tivessem aceitado o convite de algum -amigo e voltado para casa. Tinha já resolvido esperar poucos minutos -mais, e ir embora; mas a gorjeta? A gorjeta foi dobrada, como a dôr e o -amor; digamos, gemea. - - - - -CAPITULO CX - - -Que vôa - - -Assim como o carro veiu voando do cemiterio, assim voará este capitulo, -destinado a dizer primeira que a mãe dos gemeos conseguiu leval-os para -Petropolis. Já não allegaram a clinica da Santa Caza nem os documentos -da Bibliotheca Nacional. Clinica e documentos repousam agora na cova -n... Não ponho o numero, para que algum curioso, se achar este livro na -dita Bibliotheca, se dê ao trabalho de investigar e completar o texto. -Basta o nome da defunta, que lá ficou dito e redito. - -Vôe este capitulo, como o trem de Mauá, serra acima, até á cidade do -repouso, do luxo e da galanteria. Vá Natividade com os filhos, e Ayres -com os trez. Em cima, á noite, voltando este á casa do barão, pôde -ver os effeitos da paz jurada, a conciliação final. Não sabia nada do -pacto dos dous moços. Pae nem mãe sabiam cousa nenhuma. Foi um segredo -guardado no silencio e no desejo sincero de commemorar uma creatura que -os ligára, morrendo. - -Natividade vivia agora enamorada dos filhos. Levava-os a toda parte, -ou guardava-os para si, afim de os gostar mais deliciosamente, de os -approvar por actos, de auxiliar a obra correctiva do tempo. Noticias -e boatos do Rio de Janeiro eram objecto de conversação nas casas a -que estes iam, sem os convidar a sair da abstenção voluntaria. As -recreações pouco a pouco os tomaram, algum passeio de carro ou a -cavallo, e outras diversões os traziam unidos. - -Assim chegaram ao tempo em que a familia Santos desceu, ainda que a -contra-gosto de Natividade. Ella temia que, mais perto do governo, a -discordia politica acabasse com a recente harmonia dos filhos, mas não -podia lá ficar. A outra gente vinha descendo. Santos queria os seus -velhos habitos, e deu algumas razões boas, que Natividade ouviu depois -ao proprio Ayres. Podia ser um encontro de ideias, mas se estas eram -boas, deviam ser acceitas. - -Natividade confiava ao tempo a perfeição da obra; Cria no tempo. Eu, -em menino, sempre o vi pintado como um velho de barbas brancas e foice -na mão, que me mettia medo. Quanto a ti, amigo meu, ou amiga minha, -segundo fôr o sexo da pessoa que me lê, se não fôrem duas, e os sexos -ambos,--um casal de noivos, por exemplo,--curiosos de saber como é -que Pedro e Paulo puderam estar no mesmo Credo... Não falemos desse -mysterio.... Contenta-te de saber que elles tinham em mente cumprir o -juramento daquelle logar e occasião. O tempo trouxe o fim da estação, -como nos outros annos, e Petropolis deixou Petropolis. - - - -CAPITULO CXI - - -Um resumo de esperanças - - -«Quando um não quer, dous não brigam» tal é o velho proverbio que ouvi -em rapaz, a melhor edade para ouvir proverbios. Na edade madura elles -devem já fazer parte da bagagem da vida, fructos da experiencia antiga -e commum. Eu cria neste; mas não foi elle que me deu a resolução de não -brigar nunca. Foi por achal-o em mim que lhe dei credito. Ainda que -não existisse, era a mesma cousa. Quanto ao modo de não querer, não -respondo, não sei. Ninguem me constrangia. Todos os temperamentos iam -commigo; poucas divergencias tive, e perdi só uma ou duas amizades, tão -pacificamente aliás, que os amigos perdidos não deixaram de me tirar o -chapeo. Um delles pediu-me perdão no testamento. - -No caso dos gemeos eram ambos que não queriam; parecia-lhes ouvir uma -voz de fóra ou de alto que lhes pedia constantemente a paz. Força -maior, portanto, e troca de formula: «Se nenhum quer, nenhum briga.» - -Naturalmente os actos do governo eram approvados e desapprovados, mas -a certeza de que podia accender-Ihes novamente os odios fazia com que -as opiniões de Pedro e de Paulo ficassem entre os seus amigos pessoaes. -Não pensavam nada á vista um do outro. Divergencias de theatro ou de -rua, eram sopitadas logo, por mais que lhes doesse o silencio. Não -doeria tanto a Pedro, como a Paulo, mas sempre era padecer alguma -cousa. Mudando de pensamento, esqueciam de todo, e o riso da mãe era a -paga de ambos. - -A carreira differente ia separal-os depressa, comquanto a residencia -commum os trouxesse unidos. Tudo se podia combinar; os interesses -do officio serviriam a este effeito, as relações pessoaes tambem, e -afinal o uso, que vale por muito. Vou aqui resumindo, como posso, as -esperanças de Natividade. Outras havia a que chamarei conjugaes; os -rapazes porém, não pareciain inclinados a ellas, e a mãe, quem lhe -apalpasse o coração sentiria já um anticipado ciume das noras. - - - -CAPITULO CXII - - -O primeiro mez - - -Na vespera do dia em que se completou o primeiro mez da morte de Flora, -Pedro teve uma ideia, que não communicou ao irmão. Não perderia nada em -fazel-o, porque Paulo teve a mesma ideia, e tambem a calou. Della nasce -este capitulo. - -A pretexto de ir visitar um doente, Pedro saiu de casa, antes das -sete horas. Paulo saiu pouco depois, sem pretexto algum. Pia leitora, -adivinhas que ambos fôram ao cemiterio; não adivinhas, nem é facil -adivinhar que cada um delles levava uma grinalda. Não digo que fossem -das mesmas flores, não só para respeitar a verdade, senão tambem para -afastar qualquer ideia intencional de symetria na acção e no acaso. -Uma era de myosotis, outra creio que de perpetuas. Qual fosse a de um, -qual a do outro, não se sabe nem interessa á narração. Nenhuma tinha -letreiro. - -Quando Paulo chegou ao cemiterio, e viu de longe o irmão, teve -a sensação de pessoa roubada. Cuidava ser unico e era ultimo. A -presumpção, porém, de que Pedro não levára nada, uma folha sequer, -consolou-o da antecipação da visita. Esperou alguns instantes; -advertindo que podia ser visto, desviou-se do caminho, metteu-se por -entre sepulturas, até ir collocar-se atraz daquella. Ahi esperou cerca -de um quarto de hora. Pedro não se queria arrancar dalli; parecia falar -e escutar. Emfim, despediu-se e desceu. - -Paulo, vagorosamente, caminhou para a sepultura. Indo a depositar a -grinalda, viu alli outra posta de fresco, e entendendo que era do -irmão, teve impeto de ir atraz delle e pedir-lhe contas da lembrança e -da visita. Não lhe leves a mal o impeto; passou immediatamente. O que -elle fez foi collocar a coroa que levava no lado correspondente aos -pés da defunta, para não a irmanar com a outra, que estava do lado da -cabeça. - -Não viu, não adivinhou sequer que Pedro naturalmente pararia um -instante, para voltar a cara e mandar um derradeiro olhar á moça -enterrada. Assim foi, mas quando Pedro deu com o irmão, no mesmo logar -que elle, os olhos no chão, teve tambem o seu impulso de ir buscal-o -e trazel-o daquella cova sagrada. Preferiu esconder-se e esperar. Os -gestos de piedade, quaesquer que fossem, elle os deu primeiro á querida -commum. Foi o primeiro em evocar a sombra de Flora, falar-lhe, ouvil-a, -gemer com ella a separação eterna. Viera adiante do outro; lembrara-se -della mais cedo. - -Assim consolado, podia seguir caminho; Paulo, se saisse atraz delle, -e o visse, entenderia que fizera a sua visita em segundo logar, e -receberia um golpe grande. Deu alguns passos na direcção do portão, -estacou, recuou e novamente se escondeu. Queria ver os gestos delle, -ver se rezava, se se benzia, para desmentil-o quando lhe ouvisse mofar -das ceremonias ecclesiasticas. Logo sentiu que era um erro; não iria -confessar a ninguem que o vira rezando ao pé da cova de Flora. Ao -contrario, era capaz de o desmentir,--ou, quando menos, fazer um gesto -de incredulidade... - -Emquanto estas imaginações lhe passavam pela cabeça, desfazendo-se -umas ás outras, discursando sem palavras, acceitando, repellindo, -esperando, os olhos não se retiravam do irmão, nem este da sepultura. -Paulo não fazia gesto, não mexia os labios, tinha os braços cruzados, -o chapeo na mão. Não obstante, podia estar rezando. Tambem podia -falar calado, para a sombra ou para a memoria da defunta. A verdade é -que não saiu do logar. Então Pedro viu que a conversação, evocação, -adoração, o que quer que fosse que atava Paulo á sepultura, vinha sendo -muito mais demorado que as suas orações. Não marcára o seu tempo, mas -evidentemente o de Paulo era já maior. Descontando a impaciencia, -que sempre faz crescer os minutos, ainda assim parecia certo que -Paulo gastava mais saudades que elle. Deste modo, ganhava na extensão -da visita o que perdera na chegada ao cemiterio. Pedro, á sua vez, -achou-se roubado. - -Quiz sair; mas, uma força, que elle não sabia explicar, não lhe -consentia levantar os pés, nem tirar os olhos do gemeo. A custo, pôde -emfim trazer a estes e fazel-os andar de volta pelas outras campas, -onde leu alguns epitaphios. Um de 1865 não se podia ler bem se era -tributo de amor filial ou conjugal, maternal ou paternal, por estar -já apagado o adjectivo. Tributo era, tinha a formula adoptada pelos -marmoristas, para poupar estylo aos freguezes. Notando que o adjectivo -estava comido do tempo, Pedro disse comsigo que o seu amor é que era um -substantivo perpetuo, não precisando mais nada para se definir. - -Pensou outras cousas com que foi disfarçando a humilhação. Fizera tudo -ás carreiras. Se se demorasse mais, era o outro que estaria agora -á espreita. O tempo andava, o sol batia no rosto do irmão, e este -não arredava pé. Emfim, deu mostras de deixar a cova, mas foi para -rodeal-a, e deter-se em todos os quatro lados, como se buscasse o -melhor logar de ver ou evocar a pessoa guardada no fundo. - -Tudo feito, Paulo arredou-se, desceu e saiu, levando as maldições -de Pedro. Este teve uma ideia que desprezou logo, e tu farias o -mesmo, amigo leitor; foi tornar á sepultura e emendar ao tempo gasto -anteriormente outro pedaço maior. Desprezada a ideia, vagou alguns -minutos, até que saiu, sem achar sombra de Paulo. - - - -CAPITULO CXIII - - -Uma Beatriz para dous - - -Flora, se visse os gestos de ambos, é provavel que descesse do céu, e -buscasse maneira de os ouvir perpetuamente, uma Beatriz para dous. Mas -não viu ou não lhe pareceu bem descer. Talvez não achasse necessidade -de tornar cá, para servir de madrinha a um duello que deixara em meio. - -Quanto a este, se ia continuar, não era pela mesma injuria. Não -esqueças que foi ao pé daquella mesma campa que os dous fizeram as -pazes eternas, e, posto não lh'as desfizesse a campa, é certo que -accendeu um pouco da ira antiga. Dir-me-has, e com apparencia de razão, -que, se enterrada ainda os separava, mais os separaria se alli descesse -em espirito. Puro engano, amigo. No começo, ao menos, elles jurariam o -que ella mandasse. - - - - -CAPITULO CXIV - - -Consultorio e banca - - -Mezes depois, Pedro abria consultorio medico, aonde iam pessoas -doentes, Paulo banca de advogado, que procuravam os carecidos de -justiça. Um promettia saude, outro ganho de causa, e acertavam -muita vez, porque não lhes faltava talento nem fortuna. Demais, não -trabalhavam sós, mas cada qual com um collega de nomeada e pratico. - -No meio dos successos do tempo, entre os quaes avultavam a rebellião -da esquadra e os combates do sul, a fuzilaria contra a cidade, os -discursos inflammados, prisões, musicas e outros rumores, não lhes -faltava campo em que divergissem. Nem era preciso politica.. Cresciam -agora mais em numero as occasiões e as materias. Ainda quando -combinassem de acaso e de apparencia, era para discordar logo e de vez, -não deliberamente, mas por não poder ser de outro modo. - -Tinham perdido o accordo, feito pela razão, jurado pelo amor, em honra -da moça defunta e da mãe viva. Mal se podiam ver, mal ou peor ouvir. -Cuidaram de evitar tudo o que o logar e a occasião ajustassem para -os separar mais. Desta maneira, a profissão torceu-lhes o caminho e -dividiu as relações de ambos. Natividade apenas daria pela má vontade -dos filhos, desde que os dous pareciam apostados em lhe querer bem, -mas dava por ella, e tentava ligal-os apertadamente e de todo. Santos -folgava de se prolongar pela medicina e pela advocacia dos filhos. -Só receiava que Paulo, dada a inclinação partidaria, buscasse noiva -jacobina. Não ousando dizer-lhe nada a tal respeito, refugiava-se na -religião, e não ouvia missa que lhe não mettesse uma oração particular -e secreta, para obter a protecção do céu. - - - - - -CAPITULO CXV - - -Troca de opiniões - - -Se não quando, viu Natividade os primeiros signaes de uma troca de -inclinação, que mais parecia proposito que effeito natural. Entretanto, -era naturalissimo. Paulo entrou a fazer opposição ao governo, ao passo -que Pedro moderava o tom e o sentido, e acabava acceitando o regimen -republicano, objecto de tantas desavenças. - -A acceitação por parte deste não foi rapida nem total; era, porém, -bastante para sentir que não havia entre elle e o novo governo um -abysmo. Naturalmente o tempo e a reflexão consummaram este effeito no -espirito de Pedro, a não admittir que tambem nelle vingasse a ambição -de um grande destino, esperança da mãe. Natividade, com effeito, ficou -deliciada. Tambem ella mudara, se havia que mudar na simples alma -materna para quem todos os regimens valiam pela gloria dos filhos. -Pedro, aliás, não se dava todo, restringia alguma cousa ás pessoas e -ao systema, mas acceitava o principio, e bastava; o resto viria com a -edade, dizia ella. - -A opposição de Paulo não era ao principio, mas á execução. Não é esta -a republica dos meus sonhos, dizia elle; e dispunha-se a reformal-a em -trez tempos, com a fina flor das instituições humanas, não presentes -nem passadas, mas futuras. Quando falava dellas, via-se-lhe a convicção -nos labios e nos olhos, estes alongados, como alma de propheta. Era -outro ensejo de se não entenderem os dous. D. Claudia tinha que era -calculo de ambos para se não juntarem nunca;--opinião que Natividade -acceitaria, finalmente, se não fôra a de Ayres. - -Tambem este notára a mudança, e estava prestes a acceitar a explicação, -por aquella razão de commodidade que achava em concordar com as -opiniões alheias; não se cançava nem aborrecia. Tanto melhor, se o -accordo se fazia com um simples gesto. Desta vez, porém, valeu a pessoa. - ---Não, baroneza, disse elle, não creia em propositos. - ---Mas que póde ser então? - -Ayres gastou algum tempo na escolha das palavras, afim de lhe não -sairem pedantescas nem insignificantes; queria dizer o que pensava. -Às vezes, falar não custa menos que pensar. Ao fim de trez minutos, -segredou a Natividade: - ---A razão parece-me ser que o espirito de inquietação reside em Paulo, -e o de conservação em Pedro. Um já se contenta do que está, outro -acha que é pouco e pouquissimo, e quizera ir ao ponto a que não fôram -homens. Em summa, não lhes importam formas de governo, comtanto que a -sociedade fique firme ou se atire para diante. Se não concorda commigo, -concorde com D. Claudia. - -Ayres não tinha aquelle triste peccado dos opiniaticos; não lhe -importava ser ou não acceito. Não é a primeira vez que o digo, mas -provavelmente é a ultima. Em verdade, a mãe dos gemeos não quiz -outra explicação. Nem por isso a discordia morreria entre elles, que -apenas trocavam de armas para continuar o mesmo duello. Ouvindo esta -conclusão, Ayres fez um gesto affirmativo, e chamou a attenção de -Natividade para a côr do céu, que era a mesma, antes e depois da chuva. -Suppondo que havia nisto algo symbolico, ella entrou a procural-o, e o -mesmo farias tú, leitor, se lá estivesses; mas não havia nada. - ---Tenha confiança, baroneza, proseguiu elle pouco depois. Conte com -as circumstancias, que tambem são fadas. Conte mais com o imprevisto. -O imprevisto é uma especie de deus avulso, ao qual é preciso dar -algumas acções de graças; póde ter voto decisivo na assembléa dos -acontecimentos. Supponha um despota, uma côrte, uma mensagem. A côrte -discute a mensagem, a mensagem canonisa o despota. Cada cortezão toma -a si definir uma das virtudes do despota, a mansidão, a piedade, a -justiça, a modestia... Chega a vez da grandeza da alma; chega tambem a -noticia de que o despota morreu de apoplexia, que um cidadão assumiu -o poder e a liberdade foi proclamada do alto do throno. A mensagem é -approvada e copiada. Um amanuense basta para trocar as mãos á Historia; -tudo é que o nome do novo chefe seja conhecido, e o contrario é -impossivel; ninguem trepa ao solio sem isso, nem a senhora sabe o que é -memoria de amanuense. Como nas missas funebres, só se troca o nome do -encommendado,--Petrus, Paulus... - ---Oh! não agoure meus filhos! exclamou Natividade. - - - - -CAPITULO CXVI - - -De regresso - - ---Então foram eleitos deputados? - ---Fôram; tomam assento quinta-feira. Se não fôssem meus filhos, diria -que os vem achar mais bellos do que os deixou, ha um anno. - ---Diga, diga, baroneza; faça de conta que são meus filhos. - -Ayres voltava de Europa, aonde fôra com promessa de ficar seis mezes -apenas. Enganou-se; gastou onze. Natividade é que lhe pôz um anno para -arredondar a ausencia, que sentira devéras, como D. Rita. O sangue em -uma, o costume na outra, custou-lhes a supportar a separação. Elle fôra -a pretexto de aguas, e, por mais que lhe recommendassem as do Brasil, -não as quiz experimentar. Não estava acostumado ás denominações locaes. -Tinha esta impressão que as aguas de Carlsbad ou Vichy, sem estes -nomes, não curariam tanto. D. Rita insinuou que elle ia para ver como -estavam as moças que deixou, e concluiu: - ---Hão de estar tão velhas, como você. - ---Quem sabe se mais? O officio dellas é envelhecer, redarguiu o -conselheiro. - -Quiz rir, mas não pôde ir além da ameaça. Não era a lembrança da -propria velhice, nem da caducidade alheia, era a injustiça da sorte que -lhe tomou a vista interior. As moças elle sabia muito bem que cediam -ao tempo, como as cidades e as instituições, e ainda mais depressa que -ellas. Nem todas iriam logo cedo, a cumprir a sentença que attribue ao -amor dos deuses a morte prematura das pessoas; mas viu algumas dessas, -e agora lhe lembrou a meiga Flora, que lá se fôra com as suas graças -finas... Não passou da ameaça de riso. - -Quizeram retel-o as duas, Santos tambem, que perdia nelle uma figura -certa das suas noites; mas o nosso homem resistiu, embarcou e partiu. -Como escrevia sempre á irmã e aos amigos, dava a causa exacta da -demora, e não eram amores, salvo se mentia, mas passara a edade de -mentir. Affirmou, sim, que recuperara algumas forças, e assim o pareceu -quando desembarcou, onze mezes depois, no caes Pharoux. Trazia o mesmo -ar de velho elegante, fresco e bem posto. - ---Mas então eleitos? - ---Eleitos; tomam assento quinta-feira. - - - - -CAPITULO CXVII - - -Posse das cadeiras - - -Quinta-feira, quando os gemeos tomaram assento na camara, Natividade -e Perpetua fôram ver a ceremonia. Pedro ou Paulo arranjou-lhes uma -tribuna. A mãe desejou que Ayres fosse tambem. Quando este alli chegou, -já as achou sentadas, Natividade a fitar com a luneta o presidente e -os deputados. Um destes falava sobre a acta,e ninguem lhe prestava -attenção. Ayres sentou-se um pouco mais dentro, e após alguns minutos, -disse a Natividade: - ---A senhora escreveu-me que eram candidatos de dous partidos contrarios. - -Natividade confirmou a noticia; fôram eleitos em opposição um ao -outro. Ambos apoiavam a Republica, mas Paulo queria mais do que ella -era, e Pedro achava que era bastante e sobeja. Mostravam-se sinceros, -ardentes, ambiciosos; eram bem acceitos dos amigos, estudiosos, -instruidos... - ---Amam-se finalmente? - ---Amam-se em mim, respondeu ella depois de formular essa phrase na -cabeça. - ---Pois basta esse terreno amigo. - ---Amigo, mas caduco; amanhã posso faltar-lhes. - ---Não falta; a senhora tem muitos e muitos annos de vida. Faça uma -viagem á Europa com elles, e verá que regressa ainda mais robusta. Eu -sinto-me duplicado, por mais que me custe á modestia, mas a modestia -perdoa tudo. E depois, quando os vir encarreirados e grandes homens... - ---Porque é que a politica os ha de separar? - ---Sim, podiam ser grandes na sciencia, um grande medico, um grande -jurisconsulto... - -Natividade não quiz confessar que a sciencia não bastava. A gloria -scientifica parecia-lhe comparativamente obscura; era calada, de -gabinete, entendida de poucos. Politica, não. Quizera só a politica, -mas que não brigassem, que se amassem, que subissem de mãos dadas... -Assim ia pensando comsigo, emquanto Ayres, abrindo mão da sciencia, -acabou declarando que, sem amor, não se faria nada. - ---Paixão, disse elle, é meio caminho andado. - ---A politica é a paixão delles; paixão e ambição. Talvez já pensem na -presidencia da Republica. - ---Já? - ---Não... isto é, sim; guarde segredo. Interroguei-os separadamente; -confessaram-me que este era o seu sonho imperial. Resta saber o que -fará um, se o outro subir primeiro. - ---Derrubal-o-ha, naturalmente. - ---Não graceje, conselheiro. - ---Não é gracejo, baroneza. A senhora cuida que a politica os desune; -francamente, não. A politica é um incidente, como a moça Flora foi -outro... - ---Ainda se lembram della. - ---Ainda? - ---Foram á missa anniversaria, e desconfio que fôram tambem -ao cemiterio, não juntos, nem á mesma hora. Se fôram, é que -verdadeiramente gostavam della; logo, não foi um incidente. - -Sem embargo do que Natividade lhe merecia, Ayres não insistiu na -opinião, antes deu mais relevo á della, com o proprio facto da visita -ao cemiterio. - ---Não sei se fôram, emendou Natividade; desconfio. - ---Devem ter ido; elles gostavam realmente da pequena. Tambem ella -gostava delles; a differença é que, não alcançando unifical-os, como -os via em si, preferiu fechar os olhos. Não lhe importe o mysterio. Ha -outros mais escuros. - ---Parece que vae entrar a ceremonia, disse Perpetua que olhava para o -recinto. - ---Chegue-se para a frente, conselheiro. - -A ceremonia era a do costume. Natividade cuidou que ia vel-os entrar -juntos e affirmarem juntos o compromisso regimental. Viriam assim -como os trouxera no ventre e na vida. Contentou-se de os admirar -separadamente, Paulo primeiro, Pedro depois, ambos graves, e ouviu-lhes -cá de cima repetira formula com voz clara e segura. A ceremonia foi -curiosa para as galerias, graças á semelhança dos dous; para a mãe foi -commovedora. - ---Estão legisladores, disse Ayres no fim. - -Natividade tinha os olhos gloriosos. Ergueu-se e pediu ao velho amigo -que as acompanhasse á carruagem. No corredor acharam os dous recentes -deputados, que vinham ter com a mãe Não consta qual delles a beijou -primeiro; não havendo regimento interno nesta outra camara, póde ser -que fossem ambos a um tempo, mettendo-lhes ella a cara entre as bocas, -uma face para cada um. A verdade é que o fizeram com egual ternura. -Depois voltaram ao recinto. - - - - -CAPITULO CXVIII - - -Cousas passadas, cousas futuras - - -Indo a entrar na carruagem, Natividade deu com a egreja de S. José, ao -lado, e um pedaço do morro do Castello, a distancia. Estacou. - ---Que é? perguntou Ayres. - ---Nada, respondeu ella entrando e estendendo-lhe a mão. Até logo? - ---Até logo. - -A vista da egreja e do morro despertou nella todas as scenas e palavras -que lá ficaram transcriptas nos dous ou trez primeiros capitulos. -Não esqueceste que foi ao pé da egreja, entre esta e a camara, que o -_coupé_ esperou então por ella e pela irmã. - ---Você lembra-se, Perpetua? disse Natividade, quando o carro começou a -andar. - ---De que? - ---Não se lembra que foi alli que ficou o carro, quando fômos á cabocla -do Castello? - -Perpetua lembrava-se. Natividade advertiu ques devia ser alli perto a -ladeira por onde subiram com difficuldade e curiosidade, até á casa da -cabocla, no meio da outra gente, que descia ou subia tambem. A casa era -á direita, tinha a escada de pedra... - -Descança, amigo, não repito as paginas. Ella é que não podia deixar de -as evocar, nem impedir que viessem de si mesmas. Tudo reapparecia com -a frescura antiga. Não esquecera a figurinha da cabocla, quando o pae -a fez entrar na sala: entra, Barbara. A ideia de estar agora madura e -longe, restituida ao Estado, que deixou Provincia, rica onde nasceu -pobre, não acudiu á nossa amiga. Não, toda ella voltou áquella manhã -de 1871. A caboclinha era esta mesma creatura leve e breve, com os -cabellos atados no alto da cabeça, olhando, falando, dansando... Cousas -passadas. - -Quando a carruagem ia a dobrar a praia de Santa Luzia, ladeando a Santa -Casa, Natividade teve ideia, mas só ideia, de voltar e ir ter á ladeira -do Castello, subir por ella, a ver se achava a adivinha no mesmo logar. -Contar-lhe-hia que os dous meninos de mama, que ella predisse seriam -grandes, eram já deputados e acabavam de tomar assento na camara. -Quando cumpririam elles o seu destino? Viveria o tempo de os ver -grandes homens, ainda que muito velha? - -A presidencia da Republica não podia ser para dous, mas um teria a -vice-presidencia, e se este a achasse pouco, trocariam mais tarde os -cargos. Nem faltavam grandezas. Ainda se lembrava das palavras que -ouviu á cabocla, quando lhe perguntou pela especie de grandeza que -caberia aos filhos. Cousas futuras! respondeu a Pythia do Norte, com -tal voz que nunca lhe esqueceu. Agora mesmo parece-lhe que a ouve, mas -é illusão. Quando muito, são as rodas do carro que vão rolando e as -patas dos cavallos que batem: Cousas futuras! cousas futuras! - - - - -CAPITULO CXIX - - -Que annuncia os seguintes - - -Todas as historias, se as cortam em fatias, acabam com um capitulo -ultimo e outro penultimo, mas nenhum autor os confessa taes; todos -preferem dar-lhes um titulo proprio. Eu adopto o methodo opposto; -escrevo no alto de cada um dos capitulos seguintes os seus nomes de -remate, e, sem dizer a materia particular de nenhum, indico o kilometro -em que estamos da linha. Isto suppondo que a historia seja um trem de -ferro. A minha não é propriamente isso. Poderia ser uma canoa, se lhe -tivesse posto aguas e ventos, mas tu viste que só andamos por terra, -a pé ou de carro, e mais cuidosos da gente que do chão. Não é trem -nem barco; é uma historia simples, acontecida e por acontecer; o que -poderás ver nos dous capitulos que faltam, e são curtos. - - - - -CAPITULO CXX - - -Penultimo - - -Este é ainda um obito. Ja lá ficou defunta a joven Flora, aqui vae -morta a velha Natividade. Chamo-lhe velha, porque li a certidão de -baptismo; mas, em verdade, nem os filhos deputados, nem os cabellos -brancos davam a esta senhora o aspecto correspondente á edade. A -elegancia, que era o seu sexto sentido, enganava os tempos de tal -maneira que ella conservava, não digo a frescura, mas a graça antiga. - -Não morreu sem ter uma conferencia particular com os dous filhos,--tão -particular, que nem o marido assistiu a ella. Tambem não instou por -isso. Verdade, verdade, Santos andava a chorar pelos cantos; mal -poderia reter as lagrimas, se ouvisse a mulher fazer aos filhos os seus -finaes pedidos. Porquanto, os medicos já a haviam desenganado. Se eu -não visse nesses officiaes da saúde os escrutadores da vida e da morte, -podia torcer a penna, e, contra a predicção scientifica, fazer escapar -Natividade. Commetteria uma acção facil e réles, além de mentirosa. -Não, senhor, ella morreu sem falta, poucas semanas depois daquella -sessão da camara. Morreu de typho. - -Tão secreta foi a conferencia della e dos filhos que estes não quizeram -contal-a a ninguem, salvo ao conselheiro Ayres, que a adivinhou em -parte. Paulo e Pedro confessaram a outra parte, pedindo-lhe silencio. - ---Não juraram calar? - ---Positivamente, não, disse um. - ---Juramos só o que ella nos pediu, explicou o outro. - ---Pois então podem contal-o a mim. Eu serei discreto como um tumulo. - -Ayres sabia que os tumulos não são discretos. Se não dizem nada, é -porque diriam sempre a mesma historia; dahi a fama de discrição. Não é -virtude, é falta de novidade. - -Ora, o que a mãe fez, quando elles entraram e fecharam a porta do -quarto, foi pedir-lhes que ficasse cada um do lado da cama e lhe -estendessem a dextra. Juntou-as sem força e fechou-as nas suas mãos -ardentes. Depois, com a voz expirante e os olhos accesos apenas de -febre, pediu-lhes um favor grande e unico. Elles iam chorando e -calando, porventura adivinhando o favor. - ---Um favor derradeiro, insistiu ella. - ---Diga, mamãe. - ---Vocês vão ser amigos. Sua mãe padecerá no outro mundo, se os não -vir amigos neste. Peço pouco; a vossa vida custou-me muito, a criação -tambem, e a minha esperança era vel-os grandes homens. Deus não quer, -paciencia. Eu é que quero saber que não deixo dous ingratos. Anda, -Pedro, anda, Paulo, jurem que serão amigos. - -Os moços choravam. Se não falavam, é porque a voz não lhes queria sair -da garganta. Quando pôde, saiu tremula, mas clara e forte: - ---Juro, mamãe! - ---Juro, mamãe! - ---Amigos para todo sempre? - ---Sim. - ---Não quero outras saudades. Estas sómente, a amizade verdadeira, e que -se não quebre nunca mais. - -Natividade ainda conservou as mãos delles presas, sentiu-as tremulas de -commoção, e esteve calada alguns instantes. - ---Posso morrer tranquilla. - ---Não, mamãe não morre, interromperam ambos. Parece que a mãe quiz -sorrir a esta palavra de confiança, mas a bôca não respondeu á -intenção, antes fez um tregeito que assustou os filhos. Paulo correu a -pedir soccorro. Santos entrou desorientado no quarto, a tempo de ouvir -á esposa algumas palavras suspiradas e derradeiras. A agonia começou -logo, e durou algumas horas. Contadas todas as horas de agonia que tem -havido no mundo, quantos seculos farão? Desses terão sido tenebrosos -alguns, outros melancolicos, muitos desesperados, raros enfadonhos. -Emflm, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao -pranto ou ao silencio. - - - - - -ÍNDICE - - - - I -- Cousas futuras! - II -- Melhor de descer que de subir - III -- A esmola da felicidade - IV -- A missa do _coupé_ - V -- Ha contradicções explicaveis - VI -- Maternidade - VII -- Gestação - VIII -- Nem casal, nem general - IX -- Vista de palacio - X -- O juramento - XI -- Um caso unico! - XII -- Esse Ayres - XIII -- A epigraphe - XIV -- A licção do discipulo - XV -- _Teste David cum Sibylla_ - XVI -- Paternalismo - XVII -- Tudo o que restrinjo - XVIII -- De como vieram crescendo - XIX -- Apenas duas.--Quarenta annos. Terceira causa - XX -- A joia - XXI -- Um ponto escuro - XXII -- Agora um salto - XXIII -- Quando tiverem barbas - XXIV -- Robespierre e Luiz XVI - XXV -- D. Miguel - XXVI -- A luta dos retratos - XXVII -- De uma reflexão intempestiva - XXVIII -- O resto é certo - XXIX -- A pessoa mais moça - XXX -- A gente Baptista - XXXI -- Flora - XXXII -- O aposentado - XXXIII -- A solidão tambem cança - XXXIV -- Inexplicavel - XXXV -- Em volta da moça - XXXVI -- A discordia não é tão feia como se pinta - XXXVII -- Desaccordo no accordo - XXXVIII -- Chegada a proposito - XXXIX -- Um gatuno - XL -- Recuerdos - XLI -- Caso do burro - XLII -- Uma hypothese - XLIII -- O discurso - XLIV -- O salmão - XLV -- Musa, canta... - XLVI -- Entre um acto e outro - XLVII -- S. Matheus, IV, 1-10 - XLVIII -- Terpsichore - XLIX -- Taboleta velha - L -- O tinteiro de Evaristo - LI -- Aqui presente - LII -- Um segredo - LIII -- De confidencias - LIV -- Emfim, só! - LV -- «A mulher é a desolação do homem» - LVI -- O golpe - LVII -- Das encommendas - LVIII -- Matar saudades - LIX -- Noite de 14 - LX -- Manhã de 15 - LXI -- Lendo Xenophonte - LXII -- «Pare no D.» - LXIII -- Taboleta nova - LXIV -- Paz! - LXV -- Entre os filhos - LXVI -- O basto e a espadilha - LXVII -- A noite inteira - LXVIII -- De manhã - LXIX -- Ao piano - LXX -- De uma conclusão errada - LXXI -- A commissão - LXXII -- O regresso - LXXIII -- Um El-Dorado - LXXIV -- A allusão do texto - LXXV -- Proverbio errado - LXXVI -- Talvez fosse a mesma! - LXXVII -- Hospedagem - LXXVIII -- Visita ao marechal - LXXIX -- Fusão, diffusão, confusão... - LXXX -- Transfusão, emfim - LXXXI -- Ai, duas almas... - LXXXII -- Em S. Clemente - LXXXIII -- A grande noite - LXXXIV -- O velho segredo - LXXXV -- Trez constituições - LXXXVI -- Antes que me esqueça - LXXXVII -- Entre Ayres e Flora - LXXXVIII -- Não, não, não - LXXXIX -- O dragão - XC -- O ajuste - XCI -- Nem só a verdade se deve ás mães - XCII -- Segredo acordado - XCIII -- Não ata nem desata - XCIV -- Gestos oppostos - XCV -- O terceiro - XCVI -- Retraimento - XCVII -- Um Christo particular - XCVIII -- O medico Ayres - XCIX -- A titulo de ares novos... - C -- Duas cabeças - CI -- O caso embrulhado - CII -- Visão pede meia sombra - CIII -- O quarto - CIV -- A resposta - CV -- A realidade - CVI -- Ambos quaes? - CVII -- Estado de sitio - CVIII -- Velhas cerimonias - CIX -- Ao pé da cova - CX -- Que vôa - CXI -- Um resumo de esperanças - CXII -- O primeiro mez - CXIII -- Uma Beatriz para dous - CXIV -- Consultorio e banca - CXV -- Troca de opiniões - CXVI -- De regresso - CXVII -- Posse das cadeiras - CXVIII -- Cousas passadas, cousas futuras - CXIX -- Que annuncia os seguintes - CXX -- Penultimo - - - - - - - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Esau e Jacob, by Machado de Assis - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESAU E JACOB *** - -***** This file should be named 56737-8.txt or 56737-8.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/5/6/7/3/56737/ - -Produced by Laura Natal Rodrigues & Marc D'Hooghe at Free Literature -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country outside the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you'll have to check the laws of the country where you - are located before using this ebook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm web site -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The -Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm -trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - - - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - |
