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-The Project Gutenberg EBook of Esau e Jacob, by Machado de Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Esau e Jacob
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: March 14, 2018 [EBook #56737]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESAU E JACOB ***
-
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-
-
-Produced by Laura Natal Rodrigues & Marc D'Hooghe at Free Literature
-
-
-
-
-ESAÚ E JACOB
-
-POR
-
-MACHADO DE ASSIS
-
-(_da Academia Brasileira_)
-
-LIVRARIA GARNIER
-
-109, RUA DO OUVIDOR, 109
-
-6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
-
-RIO DE JANEIRO
-
-PARIS
-
-
-
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-Indice
-
-ADVERTÊNCIA
-
-
-Quando o conselheiro Ayres falleceu, acharam-se lhe na secretaria sete
-cadernos manuscriptos, rijamente encapados em papelão. Cada um dos
-primeiros seis tinha o seu numero de ordem, por algarismos romanos, I,
-II, III, IV, V, VI, escriptos a tinta encarnada. O setimo trazia este
-titulo: _Ultimo._
-
-A razão desta designação especial não se comprehendeu então nem depois.
-Sim, era o ultimo dos sete cadernos, com a particularidade de ser o
-mais grosso, mas não fazia parte do _Memorial_, diario de lembranças
-que o conselheiro escrevia desde muitos annos e era a materia dos seis.
-Não trazia a mesma ordem de datas, com indicação da hora e do minuto,
-como usava nelles. Era uma narrativa; e, posto figure aqui o proprio
-Ayres, com o seu nome e titulo de conselho, e, por allusão, algumas
-aventuras, nem assim deixava de ser a narrativa extranha á materia dos
-seis cadernos. _Ultimo_ porquê?
-
-A hypothese de que o desejo do finado fosse imprimir este caderno em
-seguida aos outros, não é natural, salvo se queria obrigar a leitura
-dos seis, em que tratava de si, antes que lhe conhecessem esta outra
-historia, escripta com um pensamento interior e unico, atravez das
-paginas diversas. Nesse caso, era a vaidade do homem que falava, mas
-a vaidade não fazia parte dos seus defeitos. Quando fizesse, valia a
-pena satisfazel-a? Elle não representou papel eminente neste mundo;
-percorreu a carreira diplomatica, e aposentou-se. Nos lazeres do
-officio, escreveu o _Memorial_, que, aparado das paginas mortas ou
-escuras, apenas daria (e talvez dê) para matar o tempo da barça de
-Petropolis.
-
-Tal foi a razão de se publicar sómente a narrativa. Quanto ao titulo,
-fôram lembrados varios, em que o assumpto se pudesse resumir, _Ab ovo_,
-por exemplo, apesar do latim; venceu, porém, a ideia de lhe dar estes
-dous nomes que o proprio Ayres citou uma vez:
-
-ESAÚ E JACOB
-
-
-
-Dico, che quando l'anima mal nata...
-
-DANTE.
-
-
-
-CAPITULO PRIMEIRO
-
-
-Cousas futuras!
-
-
-Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castello. Começaram de
-subir pelo lado da rua do Carmo. Muita gente ha no Rio de Janeiro que
-nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá
-pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um
-velho inglez, que aliás andára terras e terras, confiava-me ha muitos
-annos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu club, e era o que
-lhe bastava da metropole e do mundo.
-
-Natividade e Perpetua conheciam outras partes, além de Botafogo, mas
-o morro do Castello, por mais que ouvissem falar delle e da cabocla
-que lá reinava em 1811, era-lhes tão extranho e remoto como o club. O
-ingreme, o desegual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés ás
-duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como se fosse
-penitencia, devagarinho, cara no chão, veu para baixo. A manhã trazia
-certo movimento; mulheres, homens, creanças que desciam ou subiam,
-lavadeiras e soldados, algum empregado, algum logista, algum padre,
-todos olhavam espantados para ellas, que aliás vestiam com grande
-simplicidade; mas lia um donaire que se não perde, e não era vulgar
-naquellas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada á rapidez das
-outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que alli iam.
-Uma creoula perguntou a um sargento: «Você quer vêr que ellas vão á
-cabocla?» E ambos pararam a distancia, tomados daquelle invencivel
-desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade
-humana.
-
-Com effeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o numero da casa
-da cabocla, até que deram com elle. A casa era como as outras, trepada
-no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita, sombria, adequada á
-aventura. Quizeram entrar depressa, mas esbarraram com dous sujeitos
-que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um delles perguntou-lhes
-familiarmente se iam consultar a adivinha.
-
---Perdem o seu tempo, concluiu furioso, e hão de ouvir muito
-disparate...
-
---É mentira delle, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde
-tem o nariz.
-
-Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras do
-primeiro eram signal certo da videncia e da franqueza da adivinha; nem
-todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de Natividade podia
-ser miseravel, e então... Em quanto cogitavam passou fóra um carteiro,
-que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham fé,
-mas tinham tambem vexame da opinião, como um devoto que se benzesse ás
-escondidas.
-
-Velho caboclo, pae da adivinha, conduziu as senhoras á sala. Esta era
-simples, as paredes nuas, nada que lembrasse mysterio ou incutisse
-pavor, nenhum petrecho symbolico, nenhum bicho empalhado, esqueleto ou
-desenho de aleijões. Quando muito um registo da Conceição collado á
-parede podia lembrar um mysterio, apesar de encardido e roido, mas não
-mettia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.
-
---Minha filha já vem, disse o velho. As senhoras como se chamam?
-
-Natividade deu o nome de baptismo sómente, Maria, como um veu mais
-espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um cartão,--porque a
-consulta era só de uma,--com o numero 1,012. Não ha que pasmar do
-algarismo; a freguezia era numerosa, e vinha de muitos mezes. Tambem
-não ha que dizer do costume, que é velho e velhissimo. Relê Eschylo,
-meu amigo, relê as _Eumenides_, lá verás a Pythia, chamando os que iam
-á consulta: «Se ha aqui Hellenos, venham, approximem-se, segundo o uso,
-_na ordem marcada pela sorte..._» A sorte outr'ora, a numeração agora,
-tudo é que a verdade se ajuste á prioridade, e ninguem perca a sua vez
-de audiencia. Natividade guardou o bilhete, e ambas fôram á janella.
-
-A falar verdade, temiam o seu tanto, Perpetua menos que Natividade.
-A aventura parecia audaz, e algum perigo possivel. Não ponho aqui os
-seus gestos; imaginae que eram inquietos e desconcertados. Nenhuma
-dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um nó na garganta.
-Felizmente, a cabocla não se demorou muito; ao cabo de trez ou quatro
-minutos, o pae a trouxe pela mão, erguendo a cortina do fundo.
-
---Entra, Barbara.
-
-Barbara entrou, emquanto o pae pegou da viola e passou ao patamar de
-pedra, á porta da esquerda. Era uma creaturinha leve e breve, saia
-bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso.
-Os cabellos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita
-enxovalhada, faziam-lhe um solideu natural, cuja borla era supprida por
-um raminho de arruda. Já vae nisto um pouco de sacerdotiza. O mysterio
-estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não
-fossem tambem lucidos e agudos, e neste ultimo estado eram egualmente
-compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo,
-revolviam o coração e tornavam cá fóra, promptos para nova entrada e
-outro revolvimento. Não te minto dizendo que as duas sentiram tal ou
-qual fascinação. Barbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha
-e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabellos cortados, por lhe
-haverem dito que bastava.
-
---Basta, confirmou Barbara. Os meninos são seu filhos?
-
---São.
-
---Cara de um é cara de outro.
-
---São gemeos; nasceram ha pouco mais de um anno.
-
---As senhoras podem sentar-se.
-
-Natividade disse baixinho á outra que «a cabocla era sympathica», não
-tão baixo que esta não pudesse ouvir tambem; e dahi pôde ser que ella,
-receiosa da predicção, quizesse aquillo mesmo para obter um bom destino
-aos filhos. A cabocla foi sentar-se á mesa redonda que estava no centro
-da sala, virada para as duas. Poz os cabellos e os retratos defronte de
-si. Olhou alternadamente para elles e para a mãe, fez algumas perguntas
-a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabellos, bôca aberta,
-sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que accendeu um cigarro, mas
-digo, porque é verdade, e o fumo concorda com o officio. Fóra, o pae
-roçava os dedos na viola, murmurando uma cantiga do sertão do norte:
-
- Menina da saia branca,
- Saltadeira de riacho...
-
-Emquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de
-expressão, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa.
-Barbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabellos em
-cada mão, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem a affectação
-que por ventura aches nesta linha. Taes gestos não se poderiam contar
-naturalmente. Natividade não tirava os olhos della, como se quizesse
-lel-a por dentro. E não foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar
-se os meninos tinham brigado antes de nascer.
-
---Brigado?
-
---Brigado, sim, senhora.
-
---Antes de nascer?
-
---Sim, senhora, pergunto se não teriam brigado no ventre de sua mãe;
-não se lembra?
-
-Natividade, que não tivera a gestação socegada, respondeu que
-effectivamente sentira movimentos extraordinarios, repetidos, e dôres,
-e insomnias... Mas então que era? Brigariam porquê? A cabocla não
-respondeu. Ergueu-se pouco depois, e andou á volta da mesa, lenta,
-como somnambula, os olhos abertos e fixos; depois entrou a dividil-os
-novamente entre a mãe e os retratos. Agitava-se agora mais, respirando
-grosso. Toda ella, cara e braços, hombros e pernas, toda era pouca para
-arrancar a palavra ao Destino. Emfim, parou, sentou-se exhausta, até
-que se ergueu de salto e foi ter com as duas, tão radiante, os olhos
-tão vivos e callidos, que a mãe ficou pendente delles, e não se poude
-ter que lhe não pegasse das mãos e lhe perguntasse anciosa:
-
---Então? Diga, posso ouvir tudo.
-
-Barbara, cheia de alma e riso, deu um respiro de gosto. A primeira
-palavra parece que lhe chegou á bôca, mas recolheu-se ao coração,
-virgem dos labios della e de alheios ouvidos. Natividade instou pela
-resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta...
-
---Cousas futuras! murmurou finalmente a cabocla.
-
---Mas, cousas feias?
-
---Oh! não! não! Cousas bonitas, cousas futuras!
-
---Mas isso não basta; diga-me o resto. Esta senhora é minha irmã e de
-segredo, mas se é preciso sair, ella sae; eu fico, diga-me a mim só...
-Serão felizes?
-
---Sim.
-
---Serão grandes?
-
---Serão grandes, oh! grandes! Deus ha de dar-lhes muitos beneficios.
-Elles hão de subir, subir, subir... Brigaram no ventre de sua mãe, que
-tem? Cá fóra tambem se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só o que
-lhe digo. Quanto á qualidade da gloria, cousas futuras!
-
-Lá dentro, a voz do caboclo velho ainda uma vez continuava a cantiga do
-sertão:
-
- Trepa-me neste coqueiro.
- Bota-me os cocos abaixo.
-
-E a filha, não tendo mais que dizer, ou não sabendo que explicar, dava
-aos quadris o gesto da toada, que o velho repetia lá dentro:
-
- Menina da saia branca,
- Saltadeira de riacho,
- Trepa-me neste coqueiro,
- Bota-me os cocos abaixo.
- Quebra coco, sinhá,
- Lá no cocá,
- Se te dá na cabeça,
- Hade rachá;
- Muito heide me ri,
- Muito heide gostá,
- Lelê, coco, nayá.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-
-Melhor de descer que de subir
-
-
-Todos os oraculos tem o falar dobrado, mas entendem-se. Natividade
-acabou entendendo a cabocla, apesar de lhe não ouvir mais nada; bastou
-saber que as cousas futuras seriam bonitas, e os filhos grandes e
-gloriosos para ficar alegre e tirar da bolsa uma nota de cincoenta mil
-reis. Era cinco vezes o preço do costume, e valia tanto ou mais que as
-ricas dadivas de Créso á Pythia. Arrecadou os retratos e os cabellos,
-e as duas sairam, em quanto a cabocla ia para os fundos, á espera de
-outros. Já havia alguns freguezes á porta, com os numeros de ordem, e
-ellas desceram rapidamente, escondendo a cara.
-
-Perpetua compartia as alegrias da irmã, as pedras tambem, o muro do
-lado do mar, as camisas penduradas ás janellas, as cascas de banana
-no chão. Os mesmos sapatos de um _irmão das almas_, que ia a dobrar
-a esquina da rua da Misericordia para a de S. José, pareciam rir de
-alegria, quando realmente gemiam de cançasso. Natividade estava tão
-fóra de si que, ao ouvir-lhe pedir: «Para a missa das almas!» tirou da
-bolsa uma nota de dous mil reis, nova era folha, e deitou-a á bacia. A
-irmã chamou-lhe a attenção para o engano, mas não era engano, era para
-as almas do purgatorio.
-
-E seguiram lepidas para o _coupé_, que as esperava no espaço que fica
-entre a egreja de S. José e a camara dos deputados. Não tinham querido
-que o carro as levasse até ao principio da ladeira, para que o cocheiro
-e o lacaio não desconfiassem da consulta. Toda a gente falava então da
-cabocla do Castello, era o assumpto da cidade; attribuiam-lhe um poder
-infinito, uma serie de milagres, sortes, achados, casamentos. Se as
-descobrissem, estavam perdidas, embora muita gente boa lá fosse. Ao
-vel-as dando a esmola ao irmão das almas, o lacaio trepou á almofada e
-o cocheiro tocou os cavallos, a carruagem veiu buscal-as, e guiou para
-Botafogo.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-
-A esmola da felicidade
-
-
---Deus lhe accrescente, minha senhora devota! exclamou o irmão das
-almas ao ver a nota cair em cima de dous nickeis de tostão e alguns
-vintens antigos. Deus lhe dê todas as felicidades do céu e da terra,
-e as almas do purgatorio peçam a Maria Santissima que recommende a
-senhora dona a seu bemdito filho!
-
-Quando a sorte ri, toda a natureza ri tambem, e o coração ri como
-tudo o mais. Tal foi a explicação que, por outras palavras menos
-especulativas, deu o irmão das almas aos dous mil reis. A suspeita
-de ser a nota falsa não chegou a tomar pé no cerebro deste: foi
-allucinação rapida. Comprehendeu que as damas eram felizes, e, tendo o
-uso de pensar alto, disse piscando o olho, emquanto ellas entravam no
-carro:
-
---Aquellas duas viram passarinho verde, com certeza.
-
-Sem rodeios, suppoz que as duas senhoras vinham de alguma aventura
-amorosa, e deduziu isto de trez factos, que sou obrigado a enfileirar
-aqui para não deixar este homem sob a suspeita de calumniador gratuito.
-O primeiro foi a alegria dellas, o segundo o valor da esmola, o
-terceiro o carro que as esperava a um canto, como se ellas quizessem
-esconder do cocheiro o ponto dos namorados. Não concluas tu que elle
-tivesse sido cocheiro algum dia, e andasse a conduzir moças antes de
-servir ás almas. Tambem não creias que fosse outr'ora rico e adultero,
-aberto de mãos, quando vinha de dizer adeus ás suas amigas. _Ni cet
-excès d'honneur, ni cette indignité._ Era um pobre diabo sem mais
-officio que a devoção. Demais, não teria tido tempo; contava apenas
-vinte e sete annos.
-
-Comprimentou as senhoras, quando o carro passou. Depois ficou a olhar
-para a nota tão fresca, tão valiosa, nota que almas nunca viram sair
-das mãos delle. Foi subindo a rua de S. José. Já não tinna animo de
-pedir; a nota fazia-se ouro, e a ideia de ser falsa voltou-lhe ao
-cerebro, e agora mais frequente, até que se lhe pegou por alguns
-instantes. Se fosse falsa... «Para a missa das almas!» gemeu á porta de
-uma quitanda, e deram-lhe um vintem,--um vintem sujo e triste, ao pé da
-nota tão novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se um corredor de
-sobrado. Entrou, subiu, pediu, deram-lhedous vintens,--o dobro da outra
-moeda no valor e no azinhavre.
-
-E a nota sempre limpa, uns dous mil reis que pareciam vinte. Não, não
-era falsa. No corredor pegou della, mirou-a bem; era verdadeira. De
-repente, ouviu abrir a cancella em cima, e uns passos rapidos. Elle,
-mais rapido, amarrotou a nota e metteu-a na algibeira das calças;
-ficaram só os vintens azinhavrados e tristes, o obolo da viuva. Saiu,
-foi á primeira officina, á primeira loja, ao primeiro corredor, pedindo
-longa e lastimosamente:
-
---Para a missa das almas!
-
-Na egreja, ao tirar a opa, depois de entregar a bacia ao sacristão,
-ouviu uma voz debil como de almas remotas que lhe perguntavam se os
-dous mil reis... Os dous mil reis, dizia outra voz menos debil, eram
-naturalmente delle, que, em primeiro logar, tambem tinha alma, e, em
-segundo logar, não recebera nunca tão grande esmola. Quem quer dar
-tanto vae á egreja ou compra uma vela, não põe assim uma nota na bacia
-das esmolas pequenas.
-
-Se minto, não é de intenção. Em verdade, as palavras não sairam assim
-articuladas e claras, nem as debeis, nem as menos debeis; todas faziam
-uma zoeira aos ouvidos da consciencia. Traduzi-as em lingua falada,
-afim de ser entendido das pessoas que me lêem; não sei como se poderia
-transcrever para o papel um rumor surdo e outro menos surdo, um atraz
-de outro e todos confusos para o fim, até que o segundo ficou só: «não
-tirou a nota a ninguem... a dona é que a poz na bacia por sua mão...
-tambem elle era alma...» À porta da sacristia que dava para a rua, ao
-deixar cair o reposteiro azul escuro debruado de amarello, não ouviu
-mais nada. Viu um mendigo que lhe estendia o chapeo roto e sebento;
-metteu vagarosamente a mão no bolso do collete, tambem roto, e aventou
-uma moedinha de cobre que deitou ao chapeo do mendigo, rapido, ás
-escondidas, como quer o Evangelho. Eram dous vintens; ficavam-lhe
-mil novecentos e noventa e oito reis. E o mendigo, como elle saisse
-depressa, mandou-lhe atraz estas palavras de agradecimento, parecidas
-com as suas:
-
---Deus lhe accrescente, meu senhor, e lhe dê...
-
-
-
-
-CAPITULO IV
-
-
-A missa do _coupé_
-
-
-Natividade ia pensando na cabocla do Castello, na predicção da grandeza
-e na noticia da briga. Tornava a lembrar-se que, de facto, a gestação
-não fôra socegada; mas só lhe ficava a sorte da gloria e da grandeza. A
-briga lá ia, se a houve; o futuro, sim, esse é que era o principal ou
-tudo. Não deu pela praia de Santa Luzia. No largo da Lapa interrogou a
-irmã sobre o que pensava da adivinha. Perpetua respondeu que bem, que
-acreditava, e ambas concordaram que ella parecia falar dos proprios
-filhos, tal era o enthusiasmo. Perpetua ainda a reprehendeu pelos
-cincoenta mil reis dados em paga; bastavam vinte.
-
---Não faz mal. Cousas futuras!
-
---Que cousas serão?
-
---Não sei; futuras.
-
-Mergulharam,outra vez no silencio. Ao entrar no Cattete, Natividade
-recordou a manhã em que alli passou, naquelle mesmo _coupé_, e confiou
-ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na
-egreja de S. Domingos...
-
-«Na egreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de João de
-Mello, fallecido em Maricá.» Tal foi o annuncio que ainda agora pódes
-ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia, o mez foi agosto. O
-annuncio está certo, foi aquillo mesmo, sem mais nada, nem o nome da
-pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite.
-Não se disse sequer que o defunto era escrivão, officio que só perdeu
-com a morte. Emfim, parece que até lhe tiraram um nome; elle era, se
-estou bem informado, João de Mello e Barros.
-
-Não se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguem lá foi. A egreja
-escolhida deu ainda menos relevo ao acto; não era vistosa, nem buscada,
-mas velhota, sem galas nem gente, mettida ao canto de um pequeno largo,
-adequada á missa recondita e anonyma.
-
-Às oito horas parou um _coupé_ á porta; o lacaio desceu, abriu a
-portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a mão
-a uma senhora, a senhora saiu e tomou o braço ao senhor, atravessaram
-o pedacinho de largo e entraram na egreja. Na sacristia era tudo
-espanto. A alma que a taes sitios attrahira um carro de luxo, cavallos
-de raça, e duas pessoas tão finas não seria como as outras almas alli
-suffragadas. A missa foi ouvida sem pesames nem lagrimas. Quando
-acabou, o senhor foi á sacristia dar as esportulas. O sacristão,
-agasalhando na algibeira a nota de dez mil reis que recebeu, achou que
-ella provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O
-mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse, quando a luva da senhora
-deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostões. Já então havia na
-egreja meia duzia de creanças maltrapilhas, e, fóra, alguma gente ás
-portas e no largo, esperando. O senhor, chegando á porta, relanceou
-os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objecto de curiosidade.
-A senhora trazia os seus no chão. E os dous entraram no carro, com o
-mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram.
-
-A gente local não falou de outra cousa naquelle e nos dias seguintes.
-Sacristão e visinhos relembravam o _coupé_, com orgulho. Era a missa do
-_coupé._ As outras missas vieram vindo, todas a pé, algumas de sapato
-roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas
-de chita, ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume, mas a
-missa do _coupé_ viveu na memoria por muitos mezes. Afinal não se falou
-mais nella; esqueceu como um baile.
-
-Pois o _coupé_ era este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquelle
-senhor, cujo nome é Santos, e o defunto era seu parente, ainda que
-pobre. Tambem elle foi pobre; tambem elle nasceu em Maricá. Vindo para
-o Rio de Janeiro, por occasião da _febre das acções_ (1855), dizem que
-revellou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo
-muito, e fel-o perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que
-ia então nos vinte annos e não tinha dinheiro, mas era bella e amava
-apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Annos depois
-tinham elles uma casa nobre, carruagem, cavallos e relações novas e
-distinctas. Dos dous parentes pobres de Natividade morreu o pae em
-1866; restava-lhe uma irmã. Santos tinha alguns em Maricá, a quem nunca
-mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez não
-creio; elle gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria;
-tirava-lhes o gosto de vir cá pedir-lhe mais.
-
-Não lhe valeu isto com João de Mello, que um dia appareceu aqui, a
-pedir-lhe emprego. Queria ser, como elle, director de banco. Santos
-arranjou-lhe depressa um logar de escrivão do civel em Maricá, e
-despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.
-
-João de Mello retirou-se com a escrevania, e dizem que uma grande
-paixão tambem. Natividade era a mais bella mulher daquelle tempo. No
-fim, com os seus cabellos quasi sexagenarios, fazia crêr na tradicção.
-João de Mello ficou allucinado quando a viu; ella conheceu isso, e
-portou-se bem. Não lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bella
-assim que zangada; tambem não lhe fechou os olhos, que eram negros
-e callidos. Só lhe fechou o coração, um coração que devia amar como
-nenhum outro, foi a conclusão de João de Mello uma noite em que a viu
-ir decotada a um baile. Teve impeto de pegar della, descer, voar,
-perderem-se...
-
-Em vez disso, uma escrevania e Maricá; era um abysmo. Caiu nelle;
-trez dias depois saiu do Rio de Janeiro para não voltar. A principio
-escreveu muitas cartas ao parente, com a esperança de que ella as lesse
-tambem, e comprehendesse que algumas palavras eram para si. Mas Santos
-não lhe deu resposta, e o tempo e a ausencia acabaram por fazer de João
-de Mello um excellente escrivão. Morreu de uma pneumonia.
-
-Que o motivo da pratinha de Natividade deitada á caixa das almas fosse
-pagar a adoração do defunto não digo que sim, nem que não; faltam-me
-pormenores. Mas póde ser que sim, porque esta senhora era não menos
-grata que honesta. Quanto ás larguezas do marido, não esqueças que o
-parente era defunto, e o defunto um parente menos.
-
-
-
-
-CAPITULO V
-
-
-Ha contradicções explicaveis
-
-
-Não me peças a causa de tanto encolhimento no annuncio e na missa,
-e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré. Ha contradicções
-explicaveis. Um bom autor, que inventasse a sua historia, ou prezasse
-a logica apparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou
-em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as cousas
-se passaram, e refiro-as taes quaes. Quando muito, explico-as, com a
-condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel,
-demoram a acção e acabam por enfadar. O melhor é ler com attenção.
-
-Quanto á contradicção de que se trata aqui, é de ver que naquelle
-recanto de um larguinho modesto, nenhum conhecido daria com elles,
-ao passo que elles gozariam o assombro local; tal foi a reflexão de
-Santos, se se póde dar semelhante nome a um movimento interior que
-leva a gente a fazer antes uma cousa que outra. Resta a missa; a missa
-em si mesma bastava que fosse sabida no céu e em Maricá. Propriamente
-vestiram-se para o céu. O luxo do casal temperava a pobreza da oração;
-era uma especie de homenagem ao finado. Se a alma de João de Mello os
-visse de cima, alegrar-se-hia do apuro em que elles fôram rezar por um
-pobre escrivão. Não sou eu que o digo; Santos é que o pensou.
-
-
-
-
-CAPITULO VI
-
-
-Maternidade
-
-
-A principio, vieram calados. Quando muito, Natividade queixou-se da
-egreja, que lhe sujára o vestido.
-
---Venho cheia de pulgas, continuou ella: porque não fômos a S.
-Francisco de Paula ou á Gloria, que estão mais perto, e são limpas?
-
-Santos trocou as mãos á conversa, e falou das ruas mal calçadas, que
-faziam dar solavancos ao carro. Com certeza, quebravam-lhe as molas.
-
-Natividade não replicou, mergulhou no silencio, como naquelle outro
-capitulo, vinte mezes depois, quando tornava do Castello com a irmã.
-Os olhos não tinham a nota de deslumbramento que trariam então; iam
-parados e sombrios, como de manhã e na vespera. Santos, que já reparára
-nisso, perguntou-lhe o que é que tinha; ella não sei se lhe respondeu
-de palavra; se alguma disse, foi tão breve e surda que inteiramente se
-perdeu. Talvez não passasse de um simples gesto de olhos, um suspiro,
-ou cousa assim. Fosse o que fosse, quando o _coupé_ chegou ao meio do
-Cattete, os dous levavam as mãos presas, e a expressão do rosto era de
-abençoados. Não davam sequer pela gente das ruas; não davam talvez por
-si mesmos.
-
-Leitor, não é muito que percebas a causa daquella expressão e desses
-dedos abotoados. Já lá ficou dita atraz, quando era melhor deixar que
-a adivinhasses; mas provavelmente não a adivinharias, não que tenhas
-o entendimento curto ou escuro, mas porque o homem varia do homem,
-e tu talvez ficasses com egual expressão, simplesmente por saber
-que ias dançar sabbado. Santos não dançava; preferia o voltarete,
-como distracção. A causa era virtuosa, como sabes; Natividade estava
-gravida, acabava de o dizer ao marido.
-
-Aos trinta annos não era cedo nem tarde; era imprevisto. Santos sentiu
-mais que ella o prazer da vida nova. Eis ahi vinha a realidade do sonho
-de dez annos, uma creatura tirada da coxa de Abrahão, como diziam
-aquelles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora empresta
-generosamente o seu dinheiro ás companhias e ás nações. Levam juro por
-elle; mas os hebraismos são dados de graça. Aquelle é desses. Santos,
-que só conhecia a parte do emprestimo, sentia inconscientemente a do
-hebraismo, e deleitava-se com elle. A emoção atava-lhe a lingua; os
-olhos que estendia á esposa e a cobriam eram de patriarcha; o sorriso
-parecia chover luz sobre a pessoa amada, abençoada e formosa entre as
-formosas.
-
-Natividade não foi logo, logo, assim; a pouco e pouco é que veiu
-sendo vencida e tinha já a expressão da esperança e da maternidade.
-Nos primeiros dias, os symptomas desconcertaram a nossa amiga. É duro
-dizel-o, mas é verdade. Lá se iam bailes e festas, lá ia a liberdade e
-a folga. Natividade andava já na alta roda do tempo; acabou de entrar
-por ella, com tal arte que parecia haver alli nascido. Carteava-se
-com grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas. Nem tinha
-só esta casa de Botafogo, mas tambem outra em Petropolis; nem só
-carro, mas tambem camarote no Theatro-Lyrico, não contando os bailes
-do Cassino Fluminense, os das amigas e os seus; todo o repertorio, em
-summa, da vida elegante. Era nomeada nas gazetas, pertencia áquella
-duzia de nomes planetarios que figuram no meio da plebe de estrellas. O
-marido era capitalista e director de um banco.
-
-No meio disso, a que vinha agora uma creança deformal-a por mezes,
-obrigal-a a recolher-se, pedir-lhe as noites, adoecer dos dentes e o
-resto? Tal foi a primeira sensação da mãe, e o primeiro impeto foi
-esmagar o germen. Criou raiva ao marido. A segunda sensação foi melhor.
-A maternidade, chegando ao meio dia, era como uma aurora nova e fresca.
-Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva da chacara
-ou no regaço da aia, com trez annos de edade, e este quadro daria aos
-trinta e quatro annos que teria então um aspecto de vinte e poucos...
-
-Foi o que a reconciliou com o marido. Não exagero; tambem não quero mal
-a esta senhora. Algumas teriam medo, a maior parte amor. A conclusão é
-que, por uma ou por outra porta, amor ou vaidade, o que o embryão quer
-é entrar na vida. Cesar ou João Fernandes, tudo é viver, assegurar a
-dynastia e sair do mundo o mais tarde que puder.
-
-O casal ia calado. Ao desembocar na praia de Botafogo, a enseada trouxe
-o gosto de costume. A casa descobria-se a distancia, magnifica; Santos
-deleitou-se de a ver, mirou-se nella, cresceu com ella, subiu por ella.
-A estatueta de Narciso no meio do jardim, sorriu á entrada delles,
-a areia fez-se relva, duas andorinhas cruzaram por cima do repuxo,
-figurando no ar a alegria de ambos. A mesma ceremonia á descida. Santos
-ainda parou alguns instantes para ver o _coupé_ dar a volta, sair e
-tornar á cocheira; depois seguiu a mulher que entrava no saguão.
-
-
-
-
-CAPITULO VII
-
-
-Gestação
-
-
-Em cima, esperava por elles Perpetua, aquella irmã de Natividade, que a
-acompanhou ao Castello, e lá ficou no carro, onde as deixei para narrar
-os antecedentes dos meninos.
-
---Então? Houve muita gente?
-
---Não, ninguem; pulgas.
-
-Perpetua tambem não entendera a escolha da egreja. Quanto á
-concurrencia, sempre lhe pareceu que seria pouca ou nenhuma; mas o
-cunhado vinha entrando, e ella calou o resto. Era pessoa circumspecta,
-que não se perdia por um dito ou gesto descuidado. Entretanto, foi-lhe
-impossivel calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar á mulher
-um abraço longo e terno, abrochado por um beijo.
-
---Que é isso? exclamou espantada.
-
-Sem reparar no vexame da mulher, Santos deu um abraço á cunhada, e ia a
-dar-lhe um beijo tambem, se ella não recuasse a tempo e com força.
-
---Mas que é isso? Você tirou a sorte grande de Hespanha?
-
---Não, cousa melhor, gente nova.
-
-Santos conservára alguns gestos e modos de dizer dos primeiros annos,
-taes que o leitor não chamará propriamente familiares; tambem não é
-preciso chamar-lhes nada. Perpetua, affeita a elles, acabou sorrindo e
-dando-lhe parabens. Já então Natividade os deixára para se ir despir.
-Santos, meio arrependido da expansão, fez-se serio e conversou da missa
-e da egreja. Concordou que esta era decrepita e mettida a um canto,
-mas allegou razões espirituaes. Que a oração era sempre oração, onde
-quer que a alma falasse a Deus. Que a missa, a rigor, não precisava
-estrictamente de altar; o rito e o padre bastavam ao sacrificio. Talvez
-essas razões não fossem propriamente delle, mas ouvidas a alguem,
-decoradas sem esforço e repetidas com convicção. A cunhada opinou
-de cabeça que sim. Depois falaram do parente morto e concordaram
-piamente que era um asno;--não disseram este nome, mas a totalidade das
-apreciações vinha a dar nelle, accrescentado de honesto e honestissimo.
-
---Era uma perola, concluiu Santos.
-
-Foi a ultima palavra da necrologia; paz aos mortos. Dalli em deante,
-vingou a soberania da creança que alvorecia. Não alteraram os habitos,
-nos primeiros tempos, e as visitas e os bailes continuaram como
-d'antes, até que pouco a pouco, Natividade se fechou totalmente em
-casa. As amigas iam vel-a. Os amigos iam visital-os ou jogar cartas com
-o marido.
-
-Natividade queria um filho, Santos uma filha, e cada um pleiteava a sua
-escolha com tão boas razões, que acabavam trocando de parecer. Então
-ella ficava com a filha, e vestia-lhe as melhores rendas e cambraias,
-emquanto elle enfiava uma beca no joven advogado, dava-lhe um logar
-no parlamento, outro no ministerio. tambem lhe ensinava a enriquecer
-depressa; e ajudal-o-hia começando por uma caderneta na Caixa
-Economica, desde o dia em que nascesse até os vinte e um annos. Alguma
-vez, ás noites, se estavam sós, Santos pegava de um lapis e desenhava a
-figura do filho, com bigodes,--ou então riscava uma menina vaporosa.
-
---Deixa, Agostinho, disse-lhe a mulher uma noite; você sempre ha de ser
-creança.
-
-E pouco depois, deu por si a desenhar de palavra a figura do filho
-ou filha, e ambos escolhiam a côr dos olhos, os cabellos, a tez, a
-estatura. Vês que tambem ella era creança. A maternidade tem dessas
-incoherencias, a felicidade tambem, e porfim a esperança, que é a
-meninice do mundo.
-
-A perfeição seria nascer um casal. Assim os desejos do pae e da mãe
-ficariam satisfeitos. Santos pensou em fazer sobre isso uma consulta
-spirita. Começava a ser iniciado nessa religião, e tinha a fé noviça e
-firme. Mas a mulher oppoz-se; a consultar alguem, antes a cabocla do
-Castello, a adivinha celebre do tempo, que descobria as cousas perdidas
-e predizia as futuras. Entretanto, recusava tambem, por desnecessario.
-A que vinha consultar sobre uma duvida, que dalli a mezes estaria
-esclarecida? Santos achou, em relação á cabocla, que seria imitar as
-crendices da gente réles; mas a cunhada acudiu que não, e citou um
-caso recente de pessoa distincta, um juiz municipal, cuja nomeação foi
-annunciada pela cabocla.
-
---Talvez o ministro da justiça goste da cabocla, explicou Santos.
-
-As duas riram da graça, e assim se fechou uma vez o capitulo da
-adivinha, pura se abrir muis tarde. Por agora é deixar que o feto se
-desenvolva, a creança se agite e se atire, como impaciente de nascer.
-Em verdade, a mãe padeceu muito durante a gestação, e principalmente
-nas ultimas semanas. Cuidava trazer um general que iniciava a campanha
-da vida, a não ser um casal que aprendia a desamar de vespera.
-
-
-
-
-CAPITULO VIII
-
-
-Nem casal, nem general
-
-
-Nem casal, nem general. No dia sete de abril de 1870 veiu á luz um par
-de varões tão eguaes, que antes pareciam a sombra um do outro, se não
-era simplesmente a impressão do olho, que via dobrado.
-
-Tudo esperavam, menos os dous gemeos, e nem por ser o espanto grande,
-foi menor o amor. Entende-se isto sem ser preciso insistir, assim
-como se entende que a mãe désse aos dous filhos aquelle pão inteiro
-e dividido do poeta; eu accrescento que o pae fazia a mesma cousa.
-Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos, a comparal-os, a
-medil-os, a pesal-os. Tinham o mesmo peso e cresciam por egual medida.
-A mudança ia-se fazendo por um só teor. O rosto comprido, cabellos
-castanhos, dedos finos e taes que, cruzados os da mão direita de um com
-os da esquerda de outro, não se podia saber que eram de duas pessoas.
-Viriam a ter genio differente, mas por ora eram os mesmos extranhões.
-Começaram a sorrir no mesmo dia. O mesmo dia os viu baptizar.
-
-Antes do parto, tinham combinado em dar o nome do pae ou da mãe,
-segundo fosse o sexo da creança. Sendo um par de rapazes, e não havendo
-a fórma masculina do nome materno, não quiz o pae que figurasse só
-o delle, e metteram-se a catar outros. A mãe propunha francezes ou
-inglezes, conforme os romances que lia. Algumas novellas russas em moda
-suggeriram nomes slavos. O pae acceitava uns e outros, mas consultava
-a terceiros, e não acertava com opinião definitiva. Geralmente, os
-consultados trariam outro nome, que não era acceito em casa. Tambem
-veiu a antiga onomastica luzitana, mas sem melhor fortuna. Um dia,
-estando Perpetua á missa, rezou o _Credo_, advertiu nas palavras:
-«....os santos apostolos S. Pedro e S. Paulo», e mal pôde acabar a
-oração. Tinha descoberto os nomes; eram simples e gemeos. Os paes
-concordaram com ella e a pendencia acabou.
-
-A alegria de Perpetua foi quasi tamanha como a do pae e da mãe, se
-não maior. Maior não foi, nem tão profunda, mas foi grande, ainda que
-rapida. O achado dos nomes valia quasi que pela feitura das creanças.
-Viuva, sem filhos, não se julgava incapaz de os ter, e era alguma
-cousa nomeal-os. Contava mais cinco ou seis annos que a irmã. Casara
-com um tenente de artilharia que morreu capitão na guerra do Paraguay.
-Era mais baixa que alta, e era gorda, ao contrario de Natividade que,
-sem ser magra, não tinha as mesmas carnes, e era alta e recta. Ambas
-vendiam saúde.
-
---Pedro e Paulo, disse Perpetua á irmã e ao cunhado, quando rezei estes
-dous nomes senti uma cousa no coração...
-
---Você será madrinha de um, disse a irmã.
-
-Os pequenos, que se distinguiam por uma fita de côr, passaram a receber
-medalhas de ouro, uma com a imagem de S. Pedro, outra com a de S.
-Paulo. A confusão não cedeu logo, mas tarde, lento e pouco, ficando tal
-semelhança que os advertidos se enganavam muita vez ou sempre. A mãe
-é que não precisou de grandes signaes externos para saber quem eram
-aquelles dous pedaços de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem
-entre si, não deixavam de querer mal uma á outra, pelo motivo da
-semelhança dos «seus filhos de criação». Cada uma affirmava que o seu
-era mais bonito. Natividade concordava com ambas.
-
-Pedro seria medico, Paulo advogado; tal foi a primeira escolha das
-profissões. Mas logo depois trocaram de carreira. Tambem pensaram em
-dar um delles á engenharia. A marinha sorria á mãe, pela distincção
-particular da escola. Tinha só o inconveniente da primeira viagem
-remota; mas Natividade pensou em metter empenhos com o ministro. Santos
-falava em fazer um delles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas
-vadias. Intimos da casa entravam nos calculos. Houve quem os fizesse
-ministros, dezembargadores, bispos, cardeaes...
-
---Não peço tanto, dizia o pae.
-
-Natividade não dizia nada ao pé de extranhos, apenas sorria, como se
-tratasse de folguedo de São João, um lançar de dados e ler no livro de
-sortes a quadra correspondente ao numero. Não importa; lá dentro de si
-cobiçava algum brilhante destino aos filhos. Cria deveras, esperava,
-rezava ás noites, pedia ao céu que os fizesse grandes homens.
-
-Uma das amas, parece que a de Pedro, sabendo daquellas ancias e
-conversas, perguntou a Natividade por que é que não ia consultar a
-cabocla do Castello. Affirmou que ella adivinhava tudo, o que era e o
-que viria a ser; conhecia o numero da sorte grande, não dizia qual era
-nem comprava bilhete para não roubar os escolhidos de Nosso Senhor.
-Parece que era mandada de Deus.
-
-A outra ama confirmou as noticias e accrescentou novas. Conhecia
-pessoas que tinham perdido e achado joias e escravos. A policia mesma,
-quando não acabava de apanhar um criminoso, ia ao Castello falar á
-cabocla e descia sabendo; por isso é que não a botava para fóra, como
-os invejosos andavam a pedir. Muita gente não embarcava sem subir
-primeiro ao morro. A cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de
-quebranto...
-
-Ao jantar, Natividade repetiu ao marido a lembrança das amas. Santos
-encolheu os hombros. Depois examinou rindo a sabedoria da cabocla;
-principalmente a sorte grande era incrivel que, conhecendo o numero,
-não comprasse bilhete. Natividade achou que era o mais difficil
-de explicar, mas podia ser invenção do povo. _On ne prête qu'aux
-riches_, accrescentou rindo. O marido, que estivera na vespera com um
-dezembargador, repetiu as palavras delle que «emquanto a policia não
-puzesse côbro ao escandalo...» O dezembargador não concluira. Santos
-concluiu com um gesto vago.
-
---Mas você é spirita, ponderou a mulher.
-
---Perdão, não confundamos, replicou elle com gravidade.
-
-Sim, podia consentir n'uma consulta spirita; já pensara nella. Algum
-espirito podia dizer-lhe a verdade em vez de uma adivinha de farça...
-Natividade defendeu a cabocla. Pessoas da sociedade falavam della a
-serio. Não queria confessar ainda que tinha fé, mas tinha. Recusando
-ir outr'ora, foi naturalmente a insufficiencia do motivo que lhe deu
-a força negativa. Que importava saber o sexo do filho? Conhecer o
-destino dos dous era mais imperioso e util. Velhas ideias que lhe
-incutiram em creança vinham agora emergindo do cerebro e descendo ao
-coração. Imaginava ir com os pequenos ao morro do Castello, a titulo
-de passeio... Para que? Para confirmal-a na esperança de que seriam
-grandes homens. Não lhe passara pela cabeça a predicção contraria.
-Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando o destino; mas a
-leitora, além de não crêr (nem todos crêem) póde ser que não conte mais
-de vinte a vinte e dous annos de edade, e terá a paciencia de esperar.
-Natividade, de si para si, confessava os trinta e um, e temia não ver a
-grandeza dos filhos. Podia ser que a visse, pois tambem se morre velha,
-e alguma vez de velhice, mas acaso teria o mesmo gosto?
-
-Ao serão, a materia da palestra foi a cabocla do Castello, por
-iniciativa de Santos, que repetia as opiniões da vespera e do jantar.
-Das visitas algumas contavam o que ouviam della. Natividade não dormiu
-aquella noite sem obter do marido que a deixasse ir com a irmã á
-cabocla. Não se perdia nada; bastava levar os retratos dos meninos e um
-pouco dos cabellos. As amas não saberiam nada da aventura.
-
-No dia aprazado metteram-se as duas no carro, entre sete e oito horas
-com pretexto de passeio, e lá se fôram para a rua da Misericordia.
-Sabes já que alli se apearam, entre a egreja de S. José e a Camara dos
-deputados, e subiram aquella até á rua do Carmo, onde esta pega com
-a ladeira do Castello. Indo a subir, hesitaram, mas a mãe era mãe, e
-já agora faltava pouco para ouvir o destino. Viste que subiram, que
-desceram, deram os dous mil reis ás almas, entraram no carro e voltaram
-para Botafogo.
-
-
-
-
-CAPITULO IX
-
-
-Vista de palacio
-
-
-No Cattete, o _coupé_ e uma victoria cruzaram-se e pararam a um tempo.
-Um homem saltou da victoria e caminhou para o _coupé._ Era o marido de
-Natividade, que ia agora para o escriptorio, um pouco mais tarde que de
-costume, por haver esperado a volta da mulher. Ia pensando nella e nos
-negocios da praça, nos meninos e na lei Rio Branco, então discutida na
-Camara dos deputados; o banco era credor da lavoura. Tambem pensava na
-cabocla do Castello e no que teria dito á mulher...
-
-Ao passar pelo palacio Nova-Friburgo, levantou os olhos para elle com
-o desejo do costume, uma cobiça de possuil-o, sem prever os altos
-destinos que o palacio viria a ter na Republica; mas quem então previa
-nada? Quem prevê cousa nenhuma? Para Santos a questão era só possuil-o,
-dar alli grandes festas unicas, celebradas nas gazetas, narradas na
-cidade entre amigos e inimigos, cheios de admiração, de rancor ou de
-inveja. Não pensava nas saudades que as matronas futura contariam ás
-suas netas, menos ainda nos livros de chronicas, escriptos e impressos
-neste outro seculo. Santos não tinha a imaginação da posteridade. Via o
-presente e suas maravilhas.
-
-Já lhe não bastava o que era. A casa de Botafogo, posto que bella,
-não era um palacio, e depois, não estava tão exposta como aqui no
-Cattete, passagem obrigada de toda a gente, que olharia para as grandes
-janellas, as grandes portas, as grandes aguias no alto, de azas
-abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palacio, os
-jardins e os lagos... Oh! goso infinito! Santos imaginava os bronzes,
-marmores, luzes, flores, danças, carruagens, musicas, ceias... Tudo
-isso foi pensado depressa, porque a victoria, embora não corresse (os
-cavallos tinham ordem de moderar a andadura), todavia, não atrazava as
-rodas para que os sonhos de Santos acabassem. Assim foi que, antes de
-chegar á praça da Gloria, a victoria avistou o _coupé_ da familia, e as
-duas carragens pararam, a curta distancia uma da outra, como ficou dito.
-
-
-
-
-CAPITULO X
-
-
-O juramento
-
-
-Tambem ficou dito que o marido saiu da victoria e caminhou para o
-_coupé_, onde a mulher e a cunhada, adivinhando que elle vinha ter com
-ellas, sorriam de ante-mão.
-
---Não lhe digas nada, aconselhou Perpetua.
-
-A cabeça de Santos appareceu logo, com as suissas curtas, o cabello
-rente, o bigode rapado. Era homem sympathico. Quieto, não ficava mal. A
-agitação com que chegou, parou e falou tirou-lhe a gravidade com que ia
-no carro, as mãos postas sobre o castão de ouro da bengala, e a bengala
-entre os joelhos.
-
---Então? então? perguntou.
-
---Logo digo.
-
---Mas que foi?
-
---Logo.
-
---Bem ou mal? Dize só se bem.
-
---Bem. Cousas futuras.
-
---É pessoa séria?
-
---Séria, sim; até logo, repetiu Natividade estendendo-lhe os dedos.
-
-Mas o marido não podia despegar-se do _coupé_; queria saber alli mesmo
-tudo, as perguntas e as respostas, a gente que lá estava á espera, e se
-era o mesmo destino para os dous, ou se cada um tinha o seu. Nada disso
-foi escripto como aqui vae, devagar, para que a ruim letra do autor
-não faça mal á sua prosa. Não, senhor; as palavras de Santos sairam de
-atropello, umas sobre outras, embrulhadas, sem principio ou sem fim.
-A bella esposa tinha já as orelhas tão affeitas ao falar do marido,
-mórmente em lances de emoção ou curiosidade, que entendia tudo, e ia
-dizendo que não. A cabeça e o dedo sublinhavam a negativa. Santos não
-teve remedio e despediu-se.
-
-Em caminho, advertiu que, não crendo na cabocla, era ocioso instar pela
-predicção. Era mais; era dar razão á mulher. Prometteu não indagar nada
-quando voltasse. Não prometteu esquecer, e dahi a teima com que pensou
-muitas vezes no oraculo. De resto, ellas lhe diriam tudo sem que elle
-perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.
-
-Não concluas daqui que os freguezes do banco padecessem alguma
-desattenção aos seus negocios. Tudo correu bem, como se elle não
-tivesse mulher nem filhos ou não houvesse Castello nem cabocla. Não
-era só a mão que fazia o seu officio, assignando; a bôca ia falando,
-mandando, chamando e rindo, se era preciso. Não obstante, a ancia
-existia e as figuras passavam e repassavam deante delle; no intervallo
-de duas letras, Santos resolvia uma cousa ou outra, se não eram ambas
-a um tempo. Entrando no carro, á tarde, agarrou-se inteiramente ao
-oraculo. Trazia as mãos sobre o castão, a bengala entre os joelhos,
-como de manhã, mas vinha pensando os destino dos filhos.
-
-Quando chegou a casa, viu Natividade a contemplar os meninos, ambos
-nos berços, as amas ao pé, um pouco admiradas da insistencia com que
-ella os procurava desde manhã. Não era só fital-os, ou perder os olhos
-no espaço e no tempo; era beijal-os tambem e apertal-os ao coração.
-Esqueceu-me dizer que, de manhã, Perpetua mudou primeiro de roupa que a
-irmã e foi achal-a deante dos berços, vestida como viera do Castello.
-
---Logo vi que você estava com os grandes homens, disse ella.
-
---Estou, mas não sei em que é que elles serão grandes.
-
---Seja em que fôr, vamos almoçar.
-
-Ao almoço e durante o dia, falaram muita vez da cabocla e da predicção.
-Agora, ao ver entrar o marido, Natividade leu-lhe a dissimulação nos
-olhos. Quiz calar e esperar, mas estava tão anciosa de lhe dizer tudo,
-e era tão boa, que resolveu o contrario. Unicamente não teve o tempo
-de cumpril-o; antes mesmo de começar, já elle acabava de perguntar o
-que era. Natividade referiu a subida, a consulta, a resposta e o resto;
-descreveu a cabocla e o pae.
-
---Mas então grandes destinos?
-
---Cousas futuras, repetiu ella.
-
---Seguramente futuras. Só a pergunta da briga é que não entendo. Brigar
-porquê? E brigar como? E teriam deveras brigado?
-
-Natividade recordou os seus padecimentos do tempo da gestação,
-confessando que não falou mais delles para o não affligir; naturalmente
-é o que a outra adivinhou que fosse briga.
-
---Mas briga porquê?
-
---Isso não sei, nem creio que fosse nada mau.
-
---Vou consultar...
-
---Consultar a quem?
-
---Uma pessoa.
-
---Já sei, o seu amigo Placido.
-
---Se fosse só amigo não consultava, mas elle é o meu chefe e mestre,
-tem uma vista clara e comprida, dada pelo céu... Consulto só por
-hypothese, não digo os nossos nomes...
-
---Não! não! não!
-
---Só por hypothese.
-
---Não, Agostinho, não fale disto. Não interrogue ninguem a meu
-respeito, ouviu? Ande, prometta que não falará disto a ninguem,
-spiritas nem amigos. O melhor é calar. Basta saber que terão sorte
-feliz. Grandes homens, cousas futuras... Jure, Agostinho.
-
---Mas você não foi em pessoa á cabocla?
-
---Não me conhece, nem de nome; viu-me uma vez, não me tornará a ver.
-Ande, jure!
-
---Você é exquisita. Vá lá, prometto. Que tem que falasse, assim, por
-acaso?
-
---Não quero. Jure!
-
---Pois isto é cousa de juramento?
-
---Sem isso, não confio, disse ella sorrindo.
-
---Juro.
-
---Jure por Deus Nosso Senhor!
-
---Juro por Deus Nosso Senhor.
-
-
-
-
-CAPITULO XI
-
-
-Um caso unico!
-
-
-Santos cria na santidade do juramento; por isso, resistiu, mas emfim
-cedeu e jurou. Entretanto, o pensamento não lhe saiu mais da briga
-uterina dos filhos. Quiz esquecel-a. Jogou essa noite, como de
-costume; na seguinte, foi ao theatro; na outra a uma visita; e tornou
-ao voltarete do costume, e a briga sempre com elle. Era um mysterio.
-Talvez fosse um caso unico... Unico! Um caso unico! A singularidade
-do caso fel-o aggarrar-se mais á ideia, ou a ideia a elle; não posso
-explicar melhor este phenomeno intimo, passado lá onde não entra olho
-de homem, nem bastam reflexões ou conjecturas. Nem por isso durou muito
-tempo. No primeiro domingo, Santos pegou em si, e foi á casa do doutor
-Placido, rua do Senador Vergueiro, uma casa baixa, de trez janellas,
-com muito terreno para o lado do mar. Creio que já não existe: datava
-do tempo em que a rua era o Caminho Velho, para differençar do Caminho
-Novo.
-
-Perdoa estas minucias. A acção podia ir sem ellas, mas eu quero que
-saibas que casa era, e que rua, e mais digo que alli havia uma especie
-de club, templo ou o que quer que era spirita. Placido fazia de
-sacerdote e presidente a um tempo. Era um velho de grandes barbas, olho
-azul e brilhante, enfiado em larga camisola de seda. Põe-lhe uma vara
-na mão, e fica um magico, mas, em verdade, as barbas e a camisola não
-as trazia por lhe darem tal aspecto. Ao contrario de Santos, que teria
-trocado dez vezes a cara, se não fôra a opposição da mulher, Placido
-usava as barbas inteiras desde moço e a camisola ha dez annos.
-
---Venha, venha, disse elle, ande ajudar-me a converter o nosso amigo
-Ayres; ha meia hora que procuro incutir-lhe as verdades eternas, mas
-elle resiste.
-
---Não, não, não resisto, acudiu um homem de cerca de quarenta annos,
-estendendo a mão ao recem-chegado.
-
-
-
-
-CAPITULO XII
-
-
-Esse Ayres
-
-
-Esse Ayres que ahi apparece conserva ainda agora algumas das virtudes
-d'aquelle tempo, e quasi nenhum vicio. Não attribuas tal estado a
-qualquer proposito. Nem creias que vae nisto um pouco de homenagem á
-modestia da pessoa. Não, senhor, é verdade pura e natural effeito.
-Apesar dos quarenta annos, ou quarenta e dous, e talvez por isso mesmo,
-era um bello typo de homem. Diplomata de carreira, chegára dias antes
-do Pacifico, com uma licença de seis mezes.
-
-Não me demoro em descrevel-o. Imagina só que trazia o callo do officio,
-o sorriso approvador, a fala branda e cautelosa, o ar da occasião, a
-expressão adequada, tudo tão bem distribuido que era um gosto ouvil-o
-e vel-o. Talvez a pelle da cara rapada estivesse prestes a mostrar os
-primeiros signaes do tempo. Ainda assim o bigode, que era moço na côr e
-no apuro com que acabava em ponta fina e rija, daria um ar de frescura
-ao rosto, quando o meio seculo chegasse. O mesmo faria o cabello,
-vagamente grisalho, apartado ao centro. No alto da cabeça havia um
-inicio de calva. Na botoeira uma flor eterna.
-
-Tempo houve,--foi por occasião da anterior licença, sendo elle apenas
-secretario de legação,--tempo houve em que tambem elle gostou de
-Nativividade. Não foi propriamente paixão; não era homem disso. Gostou
-della, como de outras joias e raridades, mas tão depressa viu que
-não era acceito, trocou de conversação. Não era frouxidão ou frieza.
-Gostava assaz de mulheres e ainda mais se eram bonitas. A questão para
-elle é que nem as queria á força, nem curava de as persuadir. Não era
-general para escala á vista, nem para assedios demorados; contentava-se
-de simples passeios militares,--longos ou breves, conforme o tempo
-fosse claro ou turvo. Em summa, extremamente cordato.
-
-Coincidencia interessante; foi por esse tempo que Santos pensou em
-casal-o com a cunhada, recentemente viuva. Esta parece que queria.
-Natividade oppoz se, nunca se soube porquê. Não eram ciumes; invejas
-não creio que fossem. O simples desejo de o não ver entrar na familia
-pela porta lateral é apenas uma figura, que vale qualquer das primeiras
-hypotheses negadas. O desgosto de cedel-o a outra, ou tel-os felizes ao
-pé de si, não podia ser, posto que o coração seja o abysmo dos abysmos.
-Supponhamos que era com o fim de o punir por havel-a amado.
-
-Póde ser; em todo caso, o maior obstaculo viria delle mesmo. Posto que
-viuvo, Ayres não foi propriamente casado. Não amava o casamento. Casou
-por necessidade do officio; cuidou que era melhor ser diplomata casado
-que solteiro, e pediu a primeira moça que lhe pareceu adequada ao seu
-destino. Enganou-se: a differença de temperamento e de espirito era tal
-que elle, ainda vivendo com a mulher, era como se vivesse só. Não se
-affligiu com a perda; tinha o feitio do solteirão.
-
-Era cordato, repito, embora esta palavra não exprima exactamente o
-que quero dizer. Tinha o coração disposto a acceitar tudo, não por
-inclinação á harmonia, senão por tedio á controversia. Para conhecer
-esta aversão, bastava tel-o visto entrar, antes, em visita ao casal
-Santos. Pessoas de fóra e da familia conversavam da cabocla do Castello.
-
---Chega a proposito, conselheiro, disse Perpetua. Que pensa o senhor da
-cabocla do Castello?
-
-Ayres não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma
-cousa, e fez um gesto de dous sexos. Como insistissem, não escolheu
-nenhuma das duas opiniões, achou outra, media, que contentou a
-ambos os lados, cousa rara em opiniões medias. Sabes que o destino
-dellas é serem desdenhadas. Mas este Ayres,--José da Costa Marcondes
-Ayres,--tinha que nas controversias uma opinião dubia ou media póde
-trazer a opportunidade de uma pilula, e compunha as suas de tal geito,
-que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pilulas.
-Não lhe queiras mal por isso; a droga amarga engole-se com assucar.
-Ayres opinou com pausa, delicadeza, circumloquios, limpando o monoculo
-ao lenço de seda, pingando as palavras graves e obscuras, fitando os
-olhos no ar, como quem busca uma lembrança, e achava a lembrança, e
-arredondava com ella o parecer. Um dos ouvintes acceitou-o logo, outro
-divergiu um pouco e acabou de accordo, assim terceiro, e quarto, e a
-sala toda.
-
-Não cuides que não era sincero, era-o. Quando não acertava de ter a
-mesma opinião, e valia a pena escrever a sua, escrevia-a. Usava tambem
-guardar por escripto as descobertas, observações, reflexões, criticas e
-anecdotas, tendo para isso uma serie de cadernos, a que dava o nome de
-_Memorial._ Naquella noite escreveu estas linhas:
-
-«Noite em casa da familia Santos, sem voltarete. Falou-se na cabocla do
-Castello. Desconfio que Natividade ou a irmã quer consultal-a; não será
-de certo a meu respeito.
-
-«Natividade e um padre Guedes que lá estava, gordo e maduro, eram as
-unicas pessoas interessantes da noite. O resto insipido, mas insipido
-por necessidade, não podendo ser outra cousa mais que insipido. Quando
-o padre e Natividade me deixavam entregue a insipidez dos outros,
-eu tentava fugir-lhe pela memoria, recordando sensações, revivendo
-quadros, viagens, pessoas. Foi assim que pensei na Capponi, a quem vi
-hoje pelas costas, na rua da Quitanda. Conheci-a aqui no finado Hotel
-de D. Pedro, lá vão annos. Era dançarina; eu mesmo já a tinha visto
-dançar em Veneza. Pobre Capponi! Andando, o pé esquerdo saia-lhe do
-sapato e mostrava no calcanhar da meia um buraquinho de saudade.
-
-«Afinal tornei á eterna insipidez dos outros. Não acabo de crêr como é
-que esta senhora, aliás tão fina, pôde organisar noites como a de hoje.
-Não é que os outros não buscassem ser interessantes, e, se intenções
-valessem, nenhum livro os valeria; mas não o eram, por mais que
-tentassem. Emfim, lá vão; esperemos outras noites que tragam melhores
-sujeitos sem esforço algum. O que o berço dá só a cova o tira, diz um
-velho adagio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever
-de taes insipidos:
-
- Dico, che quando l'anima mal nata...
-
-
-
-
-CAPITULO XIII
-
-
-A epigraphe
-
-
-Ora, alli está justamente a epigraphe do livro, se eu lhe quizesse pôr
-alguma, e não me occorresse outra. Não é sómente um meio de completar
-as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de
-lunetas para que o leitor do livro penetre o que fôr menos claro ou
-totalmente escuro.
-
-Por outro lado, ha proveito em irem as pessoas da minha historia
-collaborando nella, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade,
-especie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus trebelhos.
-
-Se acceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o
-cavallo, sem que o cavallo possa fazer de torre, nem a torre de pião.
-Ha ainda a differença da côr, branca e preta, mas esta não tira o
-poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a
-partida, e assim vae o mundo. Talvez conviesse pôr aqui, de quando
-em quando, como nas publicações do jogo, um diagramma das posições
-bellas ou difficeis. Não havendo taboleiro, é um grande auxilio este
-processo para acompanhar os lances, mas tambem póde ser que tenhas
-visão bastante para reproduzir na memoria as situações diversas. Creio
-que sim. Fóra com diagrammas! Tudo irá como se realmente visses jogar a
-partida entre pessoa e pessoa, ou mais claramente, entre Deus e o Diabo.
-
-
-
-
-CAPITULO XIV
-
-
-A licção do discipulo
-
-
---Fique, fique, conselheiro, disse Santos apertando a mão ao diplomata.
-Aprenda as verdades eternas.
-
---Verdades eternas pedem horas eternas, ponderou este, consultando o
-relogio.
-
-Um tal Ayres não era facil de convencer. Placido falou-lhe de leis
-scientificas para excluir qualquer macula de seita, e Santos foi
-com elle. Toda a terminologia spirita saiu fóra, e mais os casos,
-phenomenos, mysterios, testemunhos, attestados verbaes e escriptos...
-Santos acudiu com um exemplo: dous espiritos podiam tornar juntos a
-este mundo; e, se brigassem antes de nascer?
-
---Antes de nascer, creanças não brigam, replicou Ayres, temperando o
-sentido affirmativo com a intonação dubitativa.
-
---Então nega que dous espiritos...? Essa cá me fica, conselheiro! Pois
-que impede que dous espiritos?...
-
-Ayres viu o abysmo da controversia, e forrou- se á vertigem por uma
-concessão, dizendo:
-
---Esaú e Jacob brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a
-causa do conflicto. Quanto a outros, dado que briguem tambem, tudo está
-em saber a causa do conflicto, e não a sabendo, porque a Providencia
-a esconde da noticia humana... Se fosse uma causa espiritual, por
-exemplo...
-
---Por exemplo?
-
---Por exemplo, se as duas creanças quizerem ajoelhar-se ao mesmo tempo
-para adorar o Creador. Ahi está um caso de conflicto, mas de conflicto
-espiritual, cujos processos escapam á sagacidade humana. Tambem poderia
-ser um motivo temporal. Supponhamos a necessidade de se acotovellarem
-para ficar melhor accommodados; é uma hypothese que a sciencia
-acceitaria; isto é, não sei... Ha ainda o caso de quererem ambos a
-primogenitura.
-
---Para que? perguntou Placido.
-
---Com quanto este privilegio esteja hoje limitado ás familias regias,
-á camara dos Iords e não sei se mais, tem todavia um valor symbolico.
-O simples gosto de nascer primeiro, sem outra vantagem social ou
-politica, póde dar-se por instincto, principalmente se as creanças se
-destinarem a galgar os altos deste mundo.
-
-Santos afiou o ouvido neste ponto, lembrando-se das «cousas futuras».
-Ayres disse ainda algumas palavras bonitas, e accrescentou outras
-feias, admittindo que a briga podia ser prenuncio de graves conflictos
-na terra; mas logo temperou esse conceito com este outro:
-
---Não importa; não esqueçamos o que dizia um antigo, que «a guerra é a
-mãe de todas as cousas». Nia minha opinião, Empedocles, referindo-se
-á guerra, não o fez só no sentido technico. O amor, que é a primeira
-das artes da paz, póde-se dizer que é um duello, não de morte, mas de
-vida,--concluiu Ayres sorrindo leve, como falava baixo, e despediu-se.
-
-
-
-
-CAPITULO XV
-
-
-_Teste David cum Sibylla_
-
-
---E então? disse Santos. Não é que o conselheiro, em vez de aprender,
-ensina-nos? Eu acho que elle deu algumas razões boas.
-
---Quando menos, plausiveis, completou mestre Placido.
-
---Foi pena que se despedisse, continuou Santos, mas felizmente o
-meu caso é com o senhor. Venho consultal-o, e as suas luzes são as
-verdadeiras do mundo.
-
-Placido agradeceu sorrindo. Não era novo o elogio, ao contrario; mas
-elle estava tão acostumado a ouvil-o que o sorriso era já agora um
-sestro. Não podia deixar de pagar com essa moeda aos seus discipulos.
-
---Trata-se...
-
---Trata-se disto. Aquella hypothese que eu formulei é um facto real;
-succedeu com os meus filhos...
-
---Como?
-
---É o que me parece, e vim justamente para que me explique. Nunca lhe
-falei por temer que achasse absurdo, mas tenho pensado, e suspeito que
-tal briga se deu, e que é um caso extraordinario.
-
-Santos expoz então a consulta, gravemente, com um gesto particular que
-tinha de arregalar os olhos para arregalar a novidade. Não esqueceu nem
-escondeu nada; contou a propria ida da mulher ao Castello, com desdem,
-é verdade, mas ponto por ponto. Placido ouvia attento, perguntando,
-voltando atraz, e acabou por meditar alguns minutos. Emfim, declarou
-que o phenomeno, caso se houvesse dado, era raro, se não unico, mas
-possivel. Já o facto de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma
-rivalidade, porque esses dous apostolos brigaram tambem.
-
---Perdão, mas o baptismo...
-
---Foi posterior, sei, mas os nomes podem ter sido predestinados,
-tanto mais que a escolha dos nomes veiu, como o senhor me disse, por
-inspiração á tia dos meninos.
-
---Justamente.
-
---D. Perpetua é muito devota.
-
---Muito.
-
---Creio que os proprios espiritos de S. Pedro e S. Paulo houvessem
-escolhido aquella senhora para inspirar os nomes que estão no Credo;
-advirta que ella reza muitas vezes o Credo, mas foi naquella occasião
-que se lembrou delles.
-
---Exacto, exacto!
-
-O doutor foi á estante e tirou uma Biblia, encadernada em couro, com
-grandes fechos de metal. Abriu a Epistola de S. Paulo _aos Galatas_, e
-leu a passagem do capitulo II, versículo 11, em que o apostolo conta
-que, indo a Antiochia, onde estava S. Pedro, «resistiu-lhe na cara».
-
-Santos leu e teve uma ideia. As ideias querem-se festejadas, quando
-são bellas, e examinadas, quando novas; a delle era a um tempo nova e
-bella. Deslumbrado, ergueu a mão e deu uma palmada na folha, bradando:
-
---Sem contar que este numero _onze_ do versiculo, composto de dous
-algarismos eguaes, 1 e 1, é um numero gemeo, não lhe parece?
-
---Justamente. E mais: o capitulo é o segundo, isto é, dous, que é o
-proprio numero dos irmãos gemeos.
-
-Mysterio engendra mysterio. Havia mais de um elo intimo, substancial,
-escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e Paulo, irmãos gemeos,
-numeros gemeos, tudo eram aguas de mysterio que elles agora rasgavam,
-nadando e bracejando com força. Santos foi mais ao fundo; não seriam
-os dous meninos os proprios espiritos de S. Pedro e de S. Paulo, que
-renasciam agora, e elle, pae dos dous apostolos?... A fé transfigura;
-Santos tinha um ar quasi divino, trepou em si mesmo, e os olhos
-ordinariamente sem expressão, pareciam entornar a chamma da vida. Pae
-de apostolos! e que apostolos! Placido esteve quasi, quasi a crêr
-tambem, achava-se dentro de um mar torvo, soturno, onde as vozes
-do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia que os espiritos de S.
-Pedro e S. Paulo tinham chegado á perfeição; não tornariam cá. Não
-importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos podiam ser
-brilhantes; tinha razão a cabocla, sem saber o que dizia.
-
---Deixe ás senhoras as suas crenças da meninice, concluiu; se ellas tem
-fé na tal mulher do Castello, e acham que é um vehiculo de verdade,
-não as desminta por ora. Diga-lhes que eu estou de accordo com o seu
-oraculo. _Teste David cum Sibylla._
-
---Digo, digo! escreva a phrase.
-
-Placido foi á secretaria, escreveu o verso, e deu-lhe o papel, mas já
-então Santos advertira que mostral-o á mulher era confessar a consulta
-spirita, e naturalmente o perjurio. Referiu ao amigo os escrupulos de
-Natividade e pediu que calassem tudo.
-
---Estando com ella, não lhe diga o que se passou entre nós.
-
-Saiu logo depois, arrependido da indiscrição, mas deslumbrado da
-revelação. Ia cheio de numeros da Escriptura, de Pedro e Paulo, de Esaú
-e Jacob. O ar da rua não espanou a poeira do mysterio; ao contrario,
-o céu azul, a praia socegada, os montes verdes como que o cercavam e
-cobriam de um veu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos,
-facto raro ou unico, era uma distincção divina. Contrariamente á
-esposa, que cuidava sómente da grandeza futura dos filhos, Santos
-pensava no conflicto passado.
-
-Entrou em casa, correu aos pequenos, e acarinhou-os com tão estranha
-expressão, que a mãe desconfiou alguma cousa, e quiz saber o que era.
-
---Não é nada, respondeu elle rindo.
-
---É alguma cousa, anda, acaba.
-
---Que ha de ser?
-
---Seja o que fôr, Agostinho, acaba.
-
-Santos pediu-lhe que se não zangasse, e contou tudo, a sorte, a rixa,
-a Escriptura, os apostolos, o symbolo, tudo tão espalhadamente, que
-ella mal pôde entender, mas entendeu ao final, e replicou com os dentes
-cerrados:
-
---Ah! você! você!
-
---Perdoa, amiguinha; estava tão ancioso de saber a verdade... E nota
-que eu creio na cabocla, e o doutor tambem; elle até me escreveu isto
-em latim, concluiu tirando e lendo o papelinho: _Teste David cum
-Sibylla._
-
-
-
-
-CAPITULO XVI
-
-
-Paternalismo
-
-
-D'ahi a pouco, Santos pegou na mão da mulher, que a deixou ir á toa,
-sem apertar a delle; ambos fitavam os meninos, tendo esquecido a zanga
-para só ficarem paes.
-
-Já não era spiritismo, nem outra religião nova; era a mais velha de
-todas, fundada por Adão e Eva, á qual chama, se queres, paternalismo.
-Rezavam sem palavras, persignavam-se sem dedos, uma especie de
-ceremonia quieta e muda, que abrangia o passado e o futuro. Qual delles
-era o padre, qual o sacristão, não sei, nem é preciso. A missa é que
-era a mesma, e o evangelho começava como o de S. João (emendado): «No
-principio era o amor, e o amor se fez carne». Mas venhamos aos nossos
-gemeos.
-
-
-
-
-CAPITULO XVII
-
-
-Tudo o que restrinjo
-
-
-Os gemeos, não tendo que fazer, iam mamando. Nesse officio portavam-se
-sem rivalidade, a não ser quando as amas estavam ás boas, e elles
-mamavam ao pé um do outro; cada qual então parecia querer mostrar que
-mamava mais e melhor, passeando os dedos pelo seio amigo, e chupando
-com alma. Ellas, á sua parte tinham gloria dos peitos e os comparavam
-entre si; os pequenos, fartos, soltavam afinal os bicos e riam para
-ellas.
-
-Se não fosse a necessidade de pôr os meninos em pé, crescidos e homens,
-espraiava este capitulo. Realmente, o espectaculo, posto que commum,
-era bello. Os peraltas nutriam-se ao contrario dos paes, sem as artes
-do cozinheiro, nem a vista das comidas e bebidas, todas postas em
-crystaes e porcelanas para emendar ou colorir a dura necessidade de
-comer. A elles nem se lhes via a comida; a boca ligada ao peito não
-deixava apparecer o leite. A natureza mostrava-se satisfeita pelo riso
-ou pelo somno. Quando era o somno, cada uma levava o seu menino ao
-berço, e ia cuidar de outra cousa. Este cotejo dar-me-ia trez ou quatro
-paginas solidas.
-
-Uma pagina bastava para os chocalhos que embellezavam os pequenos,
-como se fosse a propria musica do céu. Elles sorriam, estendiam as
-mãos, alguma vez zangavam-se com as negaças, mas tanto que lh'os davam,
-calavam-se, e se não podiam tocar não se zangavam por isso. A proposito
-de chocalhos, diria que esses instrumentos não deixam memoria de si;
-alguem que os veja em mãos de creanças, se parecer que lhe lembram os
-seus, cae logo no engano, e adverte que a recordação ha de ser mais
-recente, alguma arenga do anno passado, se não foi a vacca de leite da
-vespera.
-
-A operação de desmamar podia fazer-se em meia linha, mas as lástimas
-das amas, as despedidas, as bichas de ouro que a mãe deu a cada uma
-dellas, como um presente final, tudo isso exigia uma boa pagina ou
-mais. Poucas linhas bastariam para as amas seccas, porquanto não diria
-se eram altas nem baixas, feias ou bonitas. Eram mansas, zelosas do
-officio, amigas dos pequenos, e logo uma da outra. Cavallinhos de
-pau, bandeirolas, theatros de bonecos, barretinas e tambores, toda a
-quinquilharia da infancia occuparia muito mais que o logar de seus
-nomes.
-
-Tudo isso restrinjo só para não enfadar a leitora curiosa de ver os
-meus meninos homens e acabados. Vamos vel-os, querida. Com pouco, estão
-crescidos e fortes. Depois, entrego-os a si mesmos; elles que abram a
-ferro ou lingua, ou simples cotovellos, o caminho da vida e do mundo.
-
-
-
-
-CAPITULO XVIII
-
-
-De como vieram crescendo
-
-
-Eil -os que vem crescendo. A semelhança, sem os confundir já,
-continuava a ser grande. Os mesmos olhos claros e attentos, a mesma
-bôca cheia de graça, as mãos finas, e uma côr viva nas faces que as
-fazia crêr pintadas de sangue. Eram sadios; exceptuada a crise dos
-dentes, não tiveram molestia alguma, porque eu não conto uma ou outra
-indigestão de doces, que os paes lhes davam, ou elles tiravam ás
-escondidas. Eram ambos gulosos, Pedro mais que Paulo, e Paulo mais que
-ninguem.
-
-Aos sete annos eram duas obras-primas, ou antes uma só em dous volumes,
-como quizeres. Em verdade, não havia por toda aquella praia, nem por
-Flamengos ou Glorias, Cajus e outras redondezas, não havia uma, quanto
-mais duas creanças tão graciosas. Nota que eram tambem robustos. Pedro
-com um murro derrubava Paulo; em compensação, Paulo com um ponta-pé
-deitava Pedro ao chão. Corriam muito na chacara por aposta. Alguma vez
-quizeram trepar ás arvores, mas a mãe não consentia; não era bonito.
-Contentavam-se de espiar cá de baixo a fructa.
-
-Paulo era mais aggressivo, Pedro mais dissimulado, e, como ambos
-acabavam por comer a fructa das arvores, era um moleque que a ia buscar
-acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro. A promessa não
-se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se sempre,
-e ás vezes com repetição depois do serviço. Não digo com isto que um
-e outro dos gemeos não soubessem aggredir e dissimular; a differença
-é que cada um sabia melhor o seu gosto, cousa tão obvia que custa
-escrever.
-
-Obedeciam aos paes sem grande esforço, posto fossem teimosos. Nem
-mentiam mais que outros meninos da cidade. Ao cabo, a mentira é
-alguma vez meia virtude. Assim é que, quando elles disseram não ter
-visto furtar um relogio da mãe, presente do pae, quando eram noivos,
-mentiram conscientemente, porque a criada que o tirou foi apanhada por
-elles em plena acção de furto. Mas era tão amiga delles! e com taes
-lagrimas lhes pediu que não dissessem a ninguem, que os gemeos negaram
-absolutamente ter visto nada. Contavam sete annos. Aos nove, quando já
-a moça ia longe, é que descobriram, não sei a que proposito, o caso
-escondido. A mãe quiz saber porque é que elles calaram outrora; não
-souberam explicar-se, mas é claro que o silencio de 1878 foi obra da
-affeição e da piedade, e dahi a meia-virtude, porque é alguma cousa
-pagar amor com amor. Quanto á revelação de 1880 só se póde explicar
-pela distancia do tempo. Já não estava presente a boa Miquelina; talvez
-ja estivesse morta. Demais, veiu tão naturalmente a referencia...
-
---Mas, porque é que vocês até agora não me disseram? teimava a mãe.
-
-Não sabendo mais que razão déssem, um delles, creio que Pedro, resolveu
-accusar o irmão:
-
---Foi elle, mamãe!
-
---Eu? redarguiu Paulo. Foi elle, mamãe, elle é que não disse nada.
-
---Foi você!
-
---Foi você! não minta!
-
---Mentiroso é elle!
-
-Cresceram um para o outro. Natividade acudiu prestemente, não tanto
-que impedisse a troca dos primeiros murros. Segurou-lhes os braços a
-tempo de evitar outros, e, em vez de os castigar ou ameaçar, beijou-os
-com tamanha ternura que elles não acharam melhor occasião de lhe pedir
-doce. Tiveram doce; tiveram tambem um passeio, á tarde, no carrinho do
-pae.
-
-Na volta estavam amigos ou reconciliados. Contaram á mãe o passeio, a
-gente da rua, as outras creanças que olhavam para elles com inveja, uma
-que mettia o dedo na bôca, outro no nariz, e as moças que estavam ás
-janellas, algumas que os acharam bonitos. Neste ultimo ponto divergiam,
-porque cada um delles tomava para si só as admirações; mas a mãe
-interveiu:
-
---Foi para ambos. Vocês são tão parecidos, que não podia ser senão para
-ambos. E sabem porque é que as moças elogiaram vocês? Foi por ver que
-iam amigos, chegadinhos um ao outro. Meninos bonitos não brigam, ainda
-menos sendo irmãos. Quero vel-os quietos e amigos, brincando juntos sem
-rusga nem nada. Estão entendendo?
-
-Pedro respondeu que sim; Paulo esperou que a mãe repetisse a pergunta,
-e deu egual resposta. Emfim, porque esta mandasse, abraçaram-se, mas
-foi um abraçar sem gosto, sem força, quasi sem braços; encostaram-se um
-ao outro, estenderam as mãos ás costas do irmão, e deixaram-n'as cair.
-
-De noite, na alcova, cada um delles concluiu para si que devia os
-obsequios daquella tarde, o doce, os beijos e o carro, á briga que
-tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras,
-como um romance ao piano, resolveram ir á cara um do outro, na primeira
-occasião. Isto que devia ser um laço armado á ternura da mãe, trouxe
-ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e
-desforra do socco recebido naquelle dia, mas tambem satisfação de um
-desejo intimo, profundo, necessario. Sem odio, disseram ainda algumas
-palavras de cama a cama, riram de uma ou outra lembrança da rua, ate
-que o somno entrou com os seus pés de lã e bico calado, e tomou conta
-da alcova inteira.
-
-
-
-
-CAPITULO XIX
-
-
-Apenas duas.--Quarenta annos. Terceira causa
-
-
-Um dos meus proposrtos neste livro é não lhe pôr lagrimas. Entretanto,
-não posso calar as duas que rebentaram certa vez dos olhos de
-Natividade, depois de uma rixa dos pequenos. Apenas duas, e fôram
-morrer-lhe aos cantos da bôca. Tão depressa as verteu como as engoliu,
-renovando ás avessas e por palavras mudas o fecho daquellas historias
-de creanças: «entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei
-nosso senhor que nos conte outra.» E a segunda creança contava segunda
-historia, a terceira terceira, a quarta quarta, até que vinha o
-fastio ou o somno. Pessoas que datam do tempo em que se contavam taes
-historias affirmam que creanças não punham naquella formula nenhuma
-monarchica, fosse absoluta, fosse constitucional; era um modo de ligar
-o seu _Decameron_ dellas, herdado do velho reino portuguez, quando os
-reis mandavam o que queriam, e a nação dizia que era muito bem.
-
-Engolidas as duas lagrimas, Natividade riu da propria fraqueza. Não
-se chamou tola, porque esses desabafos raramente se usam, ainda em
-particular; mas no secreto do coração, lá muito ao fundo, onde não
-penetra olho de homem, creio que sentiu alguma cousa parecida com isso.
-Não tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona.
-
-Em verdade, qualquer outra viveria a tremer pela sorte dos filhos,
-uma vez que houvera a rixa anterior e interior. Agora as lutas eram
-mais frequentes, as mãos cada vez mais aptas, e tudo fazia receiar que
-elles acabassem estripando-se um ao outro... Mas aqui surgia a ideia da
-grandeza e da prosperidade,--cousas futuras!--e esta esperança era como
-um lenço que enxugasse os olhos da bella senhora. As Sibyllas não terão
-dito só do mal, nem os Prophetas, mas ainda do bem, e principalmente
-delle.
-
-Com esse lenço verde enxugou ella os olhos, e teria outros lenços,
-se aquelle ficasse roto ou enxovalhado; um, por exemplo, não verde
-como a esperança, mas azul, como a alma della. Ainda lhes não disse
-que a alma de Natividade era azul. Ahi fica. Um azul celeste, claro e
-transparente, que alguma vez se embruscava, raro tempestuava, e nunca a
-noite escurecia.
-
-Não, leitor, não me esqueceu a edade da nossa amiga; lembra-me como se
-fosse hoje. Chegou assim aos quarenta annos. Não importa; o céu é mais
-velho e não trocou de côr. Uma vez que lhe não attribuas ao azul da
-alma nenhuma significação romantica, estás na conta. Quando muito, no
-dia em que perfez aquella edade, a nossa dona sentiu um calefrio. Que
-passára? Nada, um dia mais que na vespera, algumas horas apenas. Toda
-uma questão de numero, menos que numero, o nome do numero, esta palavra
-_quarenta_, eis o mal unico. Dahi a melancolia com que ella disse ao
-marido, agradecendo o mimo do anniversario: «Estou velha, Agostinho!»
-Santos quiz esganal-a brincando.
-
-Pois faria mal se a esganasse. Natividade ainda tinha as fôrmas do
-tempo anterior á concepção, a mesma flexibilidade, a mesma graça miuda
-e viva. Conservava o donaire dos trinta. A costureira punha em relevo
-todos os pensamentos restantes da figura, e ainda lhe emprestava alguns
-do seu bolsinho. A cintura teimava em não querer engrossar, e os
-quadris e o collo eram do mesmo estofador antigo.
-
-Ha dessas regiões em que o verão se confunde com o outono, como se dá
-na nossa terra, onde as duas estações só differem pela temperatura.
-Nella nem pela temperatura. Maio tinha o calor de janeiro. Ella, aos
-quarenta annos, era a mesma senhora verde, com a mesmissima alma azul.
-
-Esta côr vinha-lhe do pae e do avô, mas o pae morreu cedo, antes do
-avô, que chegara aos oitenta e quatro. Nessa edade cria sinceramente
-que todas as delicias deste mundo, desde o café de manhã até os somnos
-socegados haviam sido inventados sómente para elle. O melhor cozinheiro
-da terra nascera na China, para o unico fim de deixar familia, patria,
-lingua, religião, tudo, e vir assar-lhe as costelletas e fazer-lhe o
-chá. As estrellas davam ás _suas_ noites una aspecto esplendido, o luar
-tambem, e a chuva, se chovia, era para que elle descançasse do sol. Lá
-está agora no cemiterio de S. Francisco Xavier; se alguem pudesse ouvir
-a voz dos mortos, dentro das sepulturas, ouviria a delle, bradando que
-é tempo de fechar a porta ao cemiterio e não deixar entrar ninguem, uma
-vez que elle já lá descança para todo sempre. Morreu azul; se chegasse
-aos cem annos, nao teria outra côr.
-
-Ora, se a natureza queria poupar esta senhora, a riqueza dava a mão á
-natureza, e de uma e de outra saía a mais bella côr que alma de gente
-póde ter. Tudo concorria assim para lhe seccarem os olhos depressa,
-como vimos atraz. Se ella bebeu aquellas duas lagrimas solitarias,
-pudera ter bebido outras pela edade adeante, e isto é ainda uma
-prova daquelle matiz espiritual; mostrará assim que as tem poucas, e
-engole-as para poupal-as.
-
-Mas ha ainda uma terceira causa que dava a esta senhora o sentimento da
-côr azul, causa tão particular que merecia ir em capitulo seu, mas não
-vae, por economia. Era a isenção, era o ter atravessado a vida intacta
-e pura. O cabo das Tormentas converteu-se em cabo da Boa Esperança,
-e ella venceu a primeira e a segunda mocidade, sem que os ventos lhe
-derribassem a nau, nem as ondas a engolissem. Não negaria que alguma
-lufada mais rija pudera levar-lhe a vela do traquete, como no caso
-de João de Mello, ou ainda peor, no de Ayres, mas fôram bocejos de
-Adamastor. Concertou a vela depressa e o gigante ficou atraz cercado de
-Thetis, emquanto ella seguiu o caminho da India. Agora lembrava-se da
-viagem prospera. Honrava-se dos ventos inuteis e perdidos. A memoria
-trazia-lhe o sabor do perigo passado. Eis aqui a terra encoberta, os
-dous filhos nados, criados e amados da fortuna.
-
-
-
-
-CAPITULO XX
-
-
-A joia
-
-
-Os quarenta e um annos não lhe trouxeram arrepio. Já estava acostumada
-á casa dos quarenta. Sentiu sim, um grande espanto; acordou e não viu o
-presente do costume, a «sorpreza» do marido ao pé da cama. Não a achou
-no toucador; abriu gavetas, espiou, nada. Creu que o marido esquecera
-a data e ficou triste; era a primeira vez! Desceu olhando; nada. No
-gabinete estava o marido, calado, mettido comsigo, a ler jornaes, mal
-lhe estendeu a mão. Os rapazes, apesar de ser domingo, estudavam a um
-canto; vieram dar-lhe o beijo do costume e tornaram aos livros. A mãe
-ainda relanceou os olhos pelo gabinete, a ver se achava algum mimo, um
-painel, um vestido, foi tudo vão. Embaixo de uma das folhas do dia que
-estava na cadeira fronteira á do marido podia ser que... Nada. Então
-sentou-se, e, abrindo a folha, ia dizendo comsigo: «Será possivel que
-não se lembre do dia de hoje? Será possivel?» Os olhos entraram a ler á
-toa, saltando as noticias, tornando atraz...
-
-Defronte o marido espreitava a mulher, sem absolutamente importar-lhe o
-que parecia ler. Assim se passaram alguns minutos. De repente, Santos
-viu uma expressão nova no rosto de Natividade; os olhos della pareciam
-crescer, a bôca entre-abriu-se, a cabeça ergueu-se, a delle tambem,
-ambos deixaram a cadeira, deram dous passos e cairam nos braços um do
-outro, como dous namorados desesperados de amor. Um, dous, trez, muitos
-beijos. Pedro e Paulo, espantados, estavam ao canto, de pé. O pae,
-quando pôde falar, disse-lhes:
-
---Venham beijar a mão da senhora baroneza de Santos.
-
-Não entenderam logo. Natividade não sabia que fizesse; dava a mão aos
-filhos, ao marido, e tornava ao jornal para ler e reler que no despacho
-imperial da vespera o Sr. Agostinho José dos Santos fôra agraciado com
-o titulo de Barão de Santos. Comprehendeu tudo. O presente do dia era
-aquelle; o ourives desta vez foi o imperador.
-
---Vão, vão, agora podem ir brincar, disse o pae aos filhos.
-
-E os rapazes sairam a espalhar a noticia pela casa. Os criados ficaram
-felizes com a mudança dos amos. Os proprios escravos pareciam receber
-uma parcella de liberdade e condecoravam-se com ella: «Nhã Baroneza!»
-exclamavam saltando. E João puxava Maria, batendo castanholas com os
-dedos: «Gente, quem é esta creoula? Sou escrava de Nhã Baroneza!»
-
-Mas o imperador não foi o unico ourives. Santos tirou do bolso uma
-caixinha, com um broche em que a corôa nova rutilava de brilhantes.
-Natividade agradeceu-lhe a joia e consentiu em pol-a, para que o marido
-a visse. Santos sentia-se autor da joia, inventor da fórma e das
-pedras; mas deixou logo que ella a tirasse e guardasse, e pegou das
-gazetas, para lhe mostrar que em todas vinha a noticia, algumas com
-adjectivo, _conceituado_ aqui, alli _distincto_, etc.
-
-Quando Perpetua entrou no gabinete, achou-os andando de um lado para
-outro, com os braços passados pela cintura, conversando, calando,
-mirando os pés. Tambem ella deu e recebeu abraços.
-
-Toda a casa estava alegre. Na chacara as arvores pareciam mais verdes
-que nunca, os botões do jardim explicavam as folhas, e o sol cobria a
-terra de uma claridade infinita. O céu, para collaborar com o resto,
-ficou azul o dia inteiro. Logo cedo entraram a vir cartões e cartas
-de parabens. Mais tarde visitas. Homens do foro, homens do commercio,
-homens de sociedade, muitas senhoras, algumas titulares tambem, vieram
-ou mandaram. Devedores de Santos acudiram depressa, outros preferiram
-continuar o esquecimento. Nomes houve que elles só puderam reconhecer á
-força de grande pesquiza e muito almanaque.
-
-
-
-
-CAPITULO XXI
-
-
-Um ponto escuro
-
-
-Sei que ha um ponto escuro no capitulo que passou; escrevo este para
-esclarecel-o.
-
-Quando a esposa inquiriu dos antecendentes e circumstancias do
-despacho, Santos deu as explicações pedidas. Nem todas seriam
-estrictamente exactas; o tempo é um rato roedor das cousas, que as
-diminue ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. Demais, a
-materia era tão propicia ao alvoroço que facilmente traria confusão á
-memoria. Ha, nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se
-perdem, outros que a imaginação inventa para supprir os perdidos, e nem
-por isso a historia morre.
-
-Resta saber (é o ponto escuro) como é que Santos pôde calar por longos
-dias um negocio tão importante para elle e para a esposa. Em verdade,
-esteve mais de uma vez a dizer por palavra ou por gesto, se achasse
-algum, aquelle segredo de poucos; mas, sempre havia uma força maior que
-lhe tapava a bôca. Ao que parece, foi a expectação de uma alegria nova
-e inesperada que lhe deu a alma de pacientar.
-
-Naquella scena do gabinete tudo foi composto de antemão, o silencio,
-a indifferença, os filhos que elle poz alli, estudando ao domingo,
-só para o effeito daquella phrase: «Venham beijar a mão da senhora
-baroneza de Santos!»
-
-
-
-
-CAPITULO XXII
-
-
-Agora um salto
-
-
-Que os dous gemeos participassem da lua de mel nobiliaria dos paes
-não é cousa que se precise escrever. O amor que lhes tinham bastava
-a explical-o, mas accresce que, havendo o titulo produzido em outros
-meninos dous sentimentos oppostos, um de estima, outro de inveja, Pedro
-e Paulo concluiram ter recebido com elle um merito especial. Quando,
-mais tarde, Paulo adoptou a opinião republicana nunca envolveu aquella
-distincção da familia na condemnação das instituições. Os estados de
-alma que daqui nasceram davam materia a um capitulo especial, se eu não
-preferisse agora um salto, e ir a 1886. O salto é grande, mas o tempo é
-um tecido invisivel em que se póde bordar tudo, uma flor, um passaro,
-uma dama, um castello, um tumulo. Tambem se póde bordar nada. Nada em
-cima de invisivel é a mais subtil obra deste mundo, e acaso do outro.
-
-
-
-
-CAPITULO XXIII
-
-
-Quando tiverem barbas
-
-
-Naquelle anno, uma noite de agosto, como estivessem algumas pessoas na
-casa de Botafogo, succedeu que uma dellas, não sei se homem ou mulher,
-perguntou aos dous irmãos que edade tinham.
-
-Paulo respondeu:
-
---Nasci no anniversario do dia em que Pedro I caiu do throno.
-
-E Pedro:
-
---Nasci no anniversario do dia em que Sua Majestade subiu ao throno.
-
-As respostas foram simultaneas, não successivas, tanto que a pessoa
-pediu-lhes que falasse cada um por sua vez. A mãe explicou:
-
---Nasceram no dia 7 de Abril de 1870.
-
-Pedro repetiu vagarosamente:
-
---Nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao throno.
-
-E Paulo, em seguida:
-
---Nasci no dia em que Pedro I caiu do throno.
-
-Natividade reprehendeu a Paulo a sua resposta subversiva. Paulo
-explicou-se, Pedro contestou a explicação e deu outra, e a sala viraria
-club, se a mãe não os accommodasse por esta maneira:
-
---Isto hão de ser grupos de collegio; vocês não estão em edade de falar
-em politica. Quando tiverem barbas.
-
-As barbas não queriam vir, por mais que elles chamassem o buço com
-os dedos, mas as opiniões politicas e outras vinham e cresciam. Não
-eram propriamente opiniões, não tinham raizes grandes nem pequenas.
-Eram (mal comparando) gravatas de côr particular, que elles atavam
-ao pescoço, á espera que a côr cançasse e viesse outra. Naturalmente
-cada um tinha a sua. Tambem se póde crêr que a de cada um era, mais
-ou menos, adequada á pessoa. Como recebiam as mesmas approvações e
-distincções nos exames, faltava-lhes materia a invejas; e, se a ambição
-os dividisse algum dia, não era por ora aguia nem condor, ou sequer
-filhote; quando muito, um ovo. No collegio de Pedro II todos lhes
-queriam bem.
-
-As barbas é que não queriam vir. Que é que se lhes ha de fazer quando
-as barbas não querem vir? Esperar que venham por seu pé, que appareçam,
-que cresçam, que embranqueçam, como é seu costume dellas, salvo as que
-não embranquecem nunca, ou só em parte e temporariamente. Tudo isto é
-sabido e banal, mas dá ensejo a dizer de duas barbas do ultimo genero,
-celebres naquelle tempo, e ora totalmente esquecidas. Não tendo outro
-logar em que fale dellas, aproveito este capitulo, e o leitor que volte
-a pagina, se prefere ir atraz da historia. Eu ficarei durante algumas
-linhas, recordando as duas barbas mortas, sem as entender agora, como
-não as entendemos então, as mais inexplicaveis barbas do mundo.
-
-A primeira daquellas barbas era de um amigo de Pedro, um capucho,
-um italiano, frei ***. Podia escrever-lhe o nome,--ninguem mais o
-conheceria,--mas prefiro esse signal trino, numero de mysterio,
-expresso por estrellas, que são os olhos do céu. Trata-se de um frade.
-Pedro não lhe conheceu a barba preta, mas já grisalha, longa e basta,
-adornando uma cabeça mascula e formosa. A bôca era risonha, os olhos
-rutilos. Ria por ella e por elles, tão docemente que mettia a gente
-no coração. Tinha o peito largo, as espaduas fortes. O pé nú, atado
-á sandalia, mostrava aguentar um corpo de Hercules. Tudo isso meigo
-e espiritual, como uma pagina evangelica. A fé era viva, a affeição
-segura, a paciencia infinita.
-
-Frei *** despediu-se um dia de Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio
-Janeiro, S. Paulo,--creio que ao Paraná tambem,--viagem espiritual,
-como a de outros confrades, e lá ficou por um semestre ou mais. Quando
-voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba
-estava negra, não sei se tanto ou mais que d'antes, mas negrissima
-e brilhantissima. Não explicou a mudança, nem ninguem lhe perguntou
-por ella; podia ser milagre ou capricho da natureza; tambem podia ser
-correcção de homem, posto que o ultimo caso fosse mais difficil de
-crêr que o primeiro. Durou nove mezes esta côr; feita outra viagem por
-trinta dias, a barba appareceu de prata ou de neve, como vos parecer
-mais branca.
-
-Quanto á segunda de taes barbas, foi ainda mais espantosa. Não era
-de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que vivia de dividas, e na
-mocidade corrigira um velho rifão da nossa lingua por esta maneira:
-«Paga o que deves, vê o que te _não_ fica.»
-
-Chegou aos cincoenta annos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A
-roupa teria a mesma edade, os sapatos não menor que ella. A barba é que
-não chegou aos cincoenta; elle pintava-a de negro e mal, provavelmente
-por não ser a tinta de primeira qualidade e não possuir espelho. Andava
-só, descia ou subia muita vez a mesma rua. Um dia dobrou a esquina da
-Vida e caiu na praça da Morte, com as barbas enxovalhadas, por não
-haver quem lh'as pintasse na Santa Casa.
-
-_Or, benè_, para falar como o meu capucho, porque é que este e o
-maltrapilho voltaram do grisalho ao negro? A leitora que adivinhe, se
-póde: dou-lhe vinte capitulos para alcançal-o. Talvez eu, por essas
-alturas, lobrigue alguma explicação, mas por ora não sei nem aventuro
-nada. Vá que malignos attribuam a frei *** alguma paixão profana; ainda
-assim não se comprehende que elle se descobrisse por aquelle modo.
-Quanto ao maltrapilho, a que damas queria elle agradar, a ponto de
-trocar alguma vez o pão pela tinta? Que um e outro cedessem ao desejo
-de prender a mocidade fugitiva, póde ser. O frade, lido na Escriptura,
-sabendo que Israel chorou pelas cebolas do Egypto, teria tambem
-chorado, e as suas lagrimas cairam negras. Póde ser, repito. Este
-desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas
-ao tempo dá Deus _habeas-corpus._
-
-
-
-
-CAPITULO XXIV
-
-
-Robespierre e Luiz XVI
-
-
-Tanto cresceram as opiniões de Pedro e Paulo que, um dia, chegaram a
-incorporar-se em alguma cousa. Iam descendo pela rua da Carioca. Havia
-alli uma loja de vidraceiro, com espelhos de vario tamanho, e, mais que
-espelhos, tambem tinha retratos velhos e gravuras baratas, com e sem
-caixilho. Pararam alguns instantes, olhando á toa. Logo depois, Pedro
-viu pendurado um retrato de Luiz XVI, entrou e comprou-o por oitocentos
-reis; era uma simples gravura atada ao mostrador por um barbante.
-Paulo quiz ter egual fortuna, adequada ás suas opiniões, e descobriu
-um Robespierre. Como o logista pedisse por este mil e duzentos, Pedro
-exaltou-se um pouco.
-
---Então o senhor vende mais barato um rei, e um rei martyr?
-
---Ha de perdoar, mas é que esta outra gravura custou-me mais caro,
-redarguiu o velho logista. Nós vendemos conforme o preço da compra.
-Veja; está mais nova.
-
---Lá isso, não, acudiu Paulo. São do mesmo tempo; mas é que este vale
-mais que aquelle.
-
---Ouvi dizer que tambem era rei...
-
---Qual, rei! responderam os dous.
-
---Ou quiz sel-o, não sei bem... Que eu de historias, apenas conheço
-a dos mouros que aprendi na minha terra com a avó, alguns bocados em
-verso. E elle ainda ha mouras lindas; por exemplo, esta; apesar do
-nome, creio que era moura, ou ainda é, se vive... Mal lhe saiba ao
-marido!
-
-Foi a um canto e trouxe um retrato de Madame de Stael, com o famoso
-turbante na cabeça. Ó effeito da belleza! Os rapazes esqueceram por um
-instante as opiniões politicas e ficaram a olhar longamente a figura
-de Corinna. O logista, apesar dos seus setenta annos, tinha os olhos
-babados. Cuidou de sublinhar as formas, a cabeça, a bôca um tanto
-grossa, mas expressiva, e dizia que não era caro. Como nenhum quizesse
-compral-a, talvez por ser só uma, disse-lhes que ainda tinha outro, mas
-esse era «uma pouca vergonha,» phrase que os deuses lhe perdoariam,
-quando soubessem que elle não quiz mais que abrir o appetite aos
-freguezes. E foi a um armario, tirou de lá, e trouxe uma Diana, núa
-como vivia cá em baixo, outr'ora, nos mattos. Nem por isso a vendeu.
-Teve de contentar-se com os retratos politicos.
-
-Quiz ainda ver se colhia algum dinheiro, vendendo-lhes um retrato de
-Pedro I, encaixilhado, que pendia da parede; mas, Pedro recusou por não
-ter dinheiro disponivel, e Paulo disse que não daria um vintem pela
-«cara de traidores». Antes não dissesse nada! O logista, tão depressa
-lhe ouviu a resposta como despiu as fôrmas obsequiosas, vestiu outras
-indignadas, e bradou que sim, senhor, que o moço tinha razão.
-
---Tem muita razão. Foi um traidor, mau filho. mau irmão, mau tudo.
-Fez todo o mal que pôde a este mundo; e no inferno, onde está, se a
-religião não mente, deve ainda fazer mal ao Diabo. Este moço falou ha
-pouco em rei martyr,--continuou mostrando-lhes um retrato de D. Miguel
-de Bragança, meio perfil, sobrecasaca, mão ao peito,--este é que foi
-um verdadeiro martyr daquelle, que lhe roubou o throno, que não era
-seu, para dal-o a quem não pertencia; e foi morrer á mingua o meu pobre
-rei e senhor, dizem que na Allemanha, ou não sei onde. Ah! _malhados!_
-Ah! filhos do Diabo! Os senhores não podem imaginar o que era aquella
-canalha de liberaes. Liberaes! Liberaes do alheio!
-
---É tudo a mesma farinha, reflexionou Paulo.
-
---Eu não sei se elles eram de farinha, sei que levaram muita pancada.
-Venceram, mas apanharam deveras. Meu pobre rei!
-
-Pedro quiz responder ao remoque do irmão, e propoz comprar o retrato
-de Pedro I. Quando o logista tornou a si, começou a negociar a venda,
-mas não poderam entender-se no preço; Pedro dava os mesmos oitocentos
-reis do outro, o logista pedia dous mil reis. Notava-lhe que estava
-encaixilhado, e Luiz XVI não; além disso, era mais novo. E vinha á
-porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a attenção para o rosto,
-os olhos principalmente, que bella expressão que tinham! E o manto
-imperial...
-
---Que lhe custa dar dous mil reis?
-
---Dou-lhe dez tostões; serve?
-
---Não serve. Mais que isso me custou elle.
-
---Pois então...
-
---Veja sempre. Pois isto não vale até trez mil reis? 0 papel não está
-encardido; a gravura é fina.
-
---Dez tostões, já disse.
-
---Não, senhor. Olhe, por dez tostões leve este de D. Miguel; o papel
-está bem conservado, e, com pouco dinheiro, manda lhe pôr um caixilho.
-Vá; dez tostões.
-
---Se eu já estou arrependido... Dez tostões pelo imperador.
-
---Ah! isso não! Custou-me mil e setecentos, ha trez semanas; ganho uns
-trezentos reis, quasi nada. Ganho menos com o senhor D. Miguel, mas
-tambem concordo que é menos procurado. Este de D. Pedro I, se passar
-amanhã, talvez já o não ache. Vá, sim?
-
---Eu passo depois.
-
-Paulo já ia andando e mirando Robespierre; Pedro alcançou-o.
-
---Olhe, leve por sete tostões o senhor D. Miguel!
-
-Pedro abanou a cabeça.
-
---Seis tostões serve?
-
-Pedro, ao lado do irmão, desenrolára a sua gravura. O velho logista
-quiz ainda bradar: «Cinco tostões!» mas iam já longe, e ficava mal
-negociar assim.
-
-
-
-
-CAPITULO XXV
-
-
-D. Miguel
-
-
---Assim como assim, ficou pensando o velho, não ha de ser enrolado e
-guardado que o hei de vender; vou mandal-o encaixilhar; põem-se-lhe
-aqui umas taboinhas velhas...
-
-D. Miguel voltou para elle os olhos turvos de tristeza e reproche;
-assim lhe pareceu ao vidraceiro, mas podia ter sido illusão. Em todo
-caso, pareceu tambem que os olhos tornavam ao seu logar, fitando á
-direita, ao longe... Para onde? Para onde ha justiça eterna, cuidou
-naturalmente o dono. Como estivesse a contemplal-o, á porta, parou um
-homem, entrou, e olhou com interesse para o retrato. O logista reparou
-na expressão; podia ser algum miguelista, mas tambem podia ser um
-colleccionador...
-
---Quanto pede o senhor por isto?
-
---Isto? Ha de perdoar; quer saber quanto peço pelo meu rico senhor
-D. Miguel? Não peço muito, está um tanto encardido, mas ainda se lhe
-aprecia bem a figura. Que soberba que ella é! Não é caro; dou-lhe pelo
-custo; se estivesse encaixilhado, valeria uns quatro mil reis. Leve-o
-por trez.
-
-O freguez tirou tranquillamente o dinheiro do bolso, emquanto o velho
-enrolava o retrato, e, trocados um por outro, despediram-se cortezes e
-satisfeitos; o logista, depois de ir até a porta, tornou á cadeira do
-costume. Talvez pensasse no mal a que escapára, se vendesse o retrato
-por dez tostões. Em todo caso, ficou a olhar para fóra, para longe,
-para onde ha justiça eterna... Trez mil reis!
-
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-CAPITULO XXVI
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-A luta dos retratos
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-Quasi que não é preciso dizer o destino dos retratos do rei e do
-convencional. Cada um dos pequenos pregou o seu á cabeceira da cama.
-Pouco durou esta situação, porque ambos faziam pirraças ás pobres
-gravuras, que não tinham culpa de nada. Eram orelhas de burro, nomes
-feios, desenhos de animaes, até que um dia Paulo rasgou a de Pedro,
-e Pedro a de Paulo. Naturalmente, vingaram-se a murro; a mãe ouviu
-rumor e subiu apressada. Conteve os filhos, mas já os achou arranhados
-e recolheu-se triste. Nunca mais acabaria aquella maldição de
-rivalidade? Fez esta pergunta calada, atirada á cama, a cara mettida no
-travesseiro, que desta vez ficou secco, mas a alma chorou.
-
-Natividade confiava na educação, mas a educação, por mais que ella
-a apurasse, apenas quebrava as arestas ao caracter dos pequenos, o
-essencial ficava; as paixões embryonarias trabalhavam por viver,
-crescer, romper, taes quaes ella sentira os dous no proprio seio,
-durante a gestação... E recordava a crise de então, acabando por
-maldizer da cabocla do Castello. Realmente, a cabocla devia ter calado;
-o mal calado não se muda, mas não se sabe. Agora, póde ser que isto
-de não calar confirme a opinião de que a cabocla era mandada por Deus
-para dizer a verdade aos homens. E afinal o que é que ella disse a
-Natividade? Não fez mais que uma pergunta mysteriosa; a predicção é que
-foi luminosa e clara... E outra vez as palavras do Castello resoaram
-aos ouvidos da mãe, e a imaginação fez o resto. Cousas futuras! Eil-os
-grandes e sublimes. Algumas brigas em pequenos, que importa? Natividade
-sorriu, ergueu-se, foi á porta, deu com o filho Pedro, que vinha
-explicar-se.
-
---Mamãe, Paulo é mau. Se mamãe ouvisse os horrores que elle solta pela
-bôca fóra, mamãe morria de medo. Custa-me muito não ir á cara delle;
-ainda lhe não tirei um olho...
-
---Meu filho, não fales assim, é teu irmão.
-
---Pois que não se metta commigo, não me aborreça. Que blasphemias que
-elle dizia! Como eu rezava por alma de Luiz XVI, elle, para machucar-me
-bem, rezava a Robespierre; compoz uma ladainha chamando santo ao outro
-e cantarolava baixinho para que papae nem mamãe ouvissem. Eu sempre lhe
-dei alguns cascudos...
-
---Ahi está!
-
---Mas é que elle é que me dava primeiro, porque eu punha orelhas de
-burro em Robespierre... Então, eu havia de apanhar calado?
-
---Nem calado, nem falando.
-
---Então, como? Apanhar sempre, não é?
-
---Não, senhor; não quero pancadas; o melhor é que esqueçam tudo e se
-queiram bem. Você não vê como seus paes se querem? As brigas acabaram
-de todo. Não quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal que tem vocês com
-um sujeito mau que morreu ha tantos annos?
-
---É o que eu digo, mas elle não se emenda.
-
---Ha de emendar-se; os estudos fazem esquecer creancices. Você tambem
-quando fôr medico tem muito que brigar com as molestias e a morte; é
-melhor que andar dando pancada em seu irmão... Que é lá isso? Não quero
-arremeços, Pedro! Socegue, ouça-me.
-
---Mamãe é sempre contra mim.
-
---Não sou contra nenhum, sou por ambos, ambos são meus filhos. E
-demais gemeos. Anda cá, Pedro. Não penses que eu desapprovo as tuas
-opiniões politicas. Até gósto; são as minhas, são as nossas. Paulo ha
-de tel-as tambem. Na edade delle acceita-se quanta tolice ha, mas o
-tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperança é que vocês sejam grandes
-homens, mas com a condição de serem tambem grandes amigos.
-
---Eu estou prompto a ser grande homem, assentiu Pedro com ingenuidade,
-quasi com resignação.
-
---E grande amigo tambem.
-
---Se elle fôr, serei.
-
---Grandes homens! exclamou Natividade, dando-lhe dous abraços, um para
-elle, outro para o irmão quando viesse.
-
-Mas Paulo veiu logo, e recebeu o abraço inteiro e de verdade. Vinha
-tambem queixar-se, e sempre resmungou alguma cousa, mas a mãe não quiz
-ouvil-o, e falou outra vez a linguagem das grandezas. Paulo consentiu
-tambem em ser grande.
-
---Você será medico, disse Natividade a Pedro, e você advogado. Quero
-ver quem faz as melhores curas, e ganha as peiores demandas.
-
---Eu, disseram ambos a um tempo.
-
---Patetas! Cada um terá a sua carreira especial, a sua sciencia
-differente. Já estão curados do nariz? Já; não ha mais sangue. Agora o
-primeiro que ferir seu irmão será degradado.
-
-Foi um recurso habil separal-os; um ficava no Rio, estudando medicina,
-outro ia para S. Paulo, estudar direito. O tempo faria o resto, não
-contando que cada um casava e iria com a mulher para o seu lado. Era a
-paz perpetua; mais tarde viria a perpetua amizade.
-
-
-
-
-CAPITULO XXVII
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-De uma reflexão intempestiva
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-
-Eis aqui entra uma reflexão da leitora: «Mas se duas velhas gravuras os
-levam a murro e sangue, contentar-se-hão elles com a sua esposa? Não
-quererão a mesma e unica mulher?»
-
-O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capitulo do amor
-ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Dahi a
-habilidade da pergunta, como se dissesse: «Olhe que o senhor ainda nos
-não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas ou pleiteadas por
-estes dous jovens inimigos. Já estou cançada de saber que os rapazes
-não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto ás
-blandicias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, ás
-duas, se não é uma só a pessoa...»
-
-Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um
-livro que está sendo escripto com methodo. A insistencia da leitora em
-falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Supponha que elles
-devéras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a
-leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que
-succedeu e póde ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora
-minha, não puz a penna na mão, á espreita do que me viessem suggerindo.
-Se quer compôr o livro, aqui tem a penna, aqui tem papel, aqui tem um
-admirador; mas, se quer ler sómente, deixe-se estar quieta, vá de linha
-em linha; dou-lhe que boceje entre dous capitulos, mas espere o resto,
-tenha confiança no relator destas aventuras.
-
-
-
-
-CAPITULO XXVIII
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-O resto é certo
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-
-Sim, houve uma pessoa, mais moça que elles, um a dous annos, que os
-agrilhoou, á força de costume ou de natureza, se não foi de ambas as
-cousas. Antes d'essa, póde ser que houvesse outras e mais velhas que
-elles, mas de taes não rezam as notas que servem a este livro. Se
-brigaram por ellas, não ficou memoria disso, mas é possivel, dado que
-tivessem tido as mesmas preferencias; no caso contrario tambem, como
-succedia aos cavalleiros que defendiam a sua dama.
-
-Conjecturas tudo. Era natural que, assim bonitos, eguaes, elegantes,
-dados á vida e ao passeio, á conversação e á dança, finalmente
-herdeiros, era natural que mais de uma menina gostasse delles. As que
-os viam passar a cavallo, praia fóra ou rua acima, ficavam namoradas
-daquella ordem perfeita de aspecto e de movimento. Os proprios cavallos
-eram eguaesinhos, quasi gemeos, e batiam as patas com o mesmo rythmo,
-a mesma força e a mesma graça. Não creias que o gesto da cauda e das
-crinas fosse simultaneo nos dous animaes; não é verdade e póde fazer
-duvidar do resto. Pois o resto é certo.
-
-
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-CAPITULO XXIX
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-A pessoa mais moça
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-
-A pessoa mais moça não entra já neste capitulo por uma razão valiosa,
-que é a conveniencia de apresentar primeiro os paes. Não é que se
-não possa vel-a bem sem elles; póde-se, os trez são diversos, acaso
-contrarios, e, por mais especial que a acheis, não é preciso que os
-paes estejam presentes. Nem sempre os filhos reproduzem os paes. Camões
-affirmou que de certo pae só se podia esperar tal filho, e a sciencia
-confirma esta regra poetica. Pela minha parte creio na sciencia como na
-poesia, mas ha excepções, amigo. Succede, ás vezes, que a natureza faz
-outra cousa, e nem por isso as plantas deixam de crescer e as estrellas
-de luzir. O que se deve crêr sem erro é que Deus é Deus; e, se alguma
-rapariga arabe me estiver lendo, ponha-lhe Allah. Todas as linguas vão
-dar ao céu.
-
-
-
-
-CAPITULO XXX
-
-
-A gente Baptista
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-
-A gente Baptista conheceu a gente Santos em não sei que fazenda da
-provincia do Rio. Não foi Maricá, embora alli tivesse nascido o pae dos
-gemeos; seria em qualquer outro municipio. Fosse qual fosse, alli é que
-se conheceram as duas familias, e como morassem proximas em Botafogo, a
-assiduidade e a sympathia vieram ajudando o caso fortuito.
-
-Baptista, o pae da donzella, era homem de quarenta e tantos annos,
-advogado do civel, ex-presidente de provincia e membro do partido
-conservador. A ida á fazenda tivera por objecto exactamente uma
-conferencia politica para fins eleitoraes, mas tão esteril que elle
-tornou de lá sem, ao menos, um ramo de esperança. Apesar de ter amigos
-no governo, não alcançára nada, nem deputação, nem presidencia.
-Interrompêra a carreira desde que foi exonerado daquelle cargo «a
-pedido», disse o decreto, mas as queixas do exonerado fariam crêr outra
-cousa. De facto, perdera as eleições, e attribuia a esse desastre
-politico a demissão do cargo.
-
---Não sei o que é que elle queria que eu fizesse mais, dizia Baptista
-falando do ministro. Cerquei egrejas; nenhum amigo pediu policia que eu
-não mandasse; processei talvez umas vinte pessoas, outras foram para a
-cadeia sem processo. Havia de enforcar gente? Ainda assim houve duas
-mortes no Ribeirão das Moças.
-
-O final era excessivo, porque as mortes não fôram obra delle; quando
-muito, elle mandou abafar o inquerito, si se póde chamar inquerito a
-uma simples conversação sobre a ferocidade dos dous defuntos. Em summa,
-as eleições fôram incruentas.
-
-Baptista dizia que por causa das eleições perdera a presidencia,
-mas corria outra versão, um negocio de aguas, concessão feita a um
-hespanhol, a pedido do irmão da esposa do presidente. O pedido era
-verdadeiro, a imputação de socio é que era falsa. Não importa; tanto
-bastou para que a folha da opposição dissesse que houve naquillo um
-bom «arranjo de familia», accrescentando que, como era de aguas, devia
-ser negocio limpo. A folha da administração retorquiu que, se aguas
-havia, não eram bastantes para lavar o sujo do carvão deixado pela
-ultima presidencia liberal, um fornecimento de palacio. Não era exacto;
-a folha da opposição reviveu o processo antigo e mostrou que a defeza
-fôra cabal. Podia parar aqui, mas continuou que, «como agora estavamos
-em Hespanha», o presidente emendou o poeta hespanhol, autor daquelle
-epitaphio:
-
- Cuñados y juntos:
- Es cierto que estan difuntos;
-
-e emendou-o por não ser obrigado a matar ninguem, antes deu vida a si e
-aos seus, dizendo pela nossa lingua:
-
- Cunhados e cunhadissimos;
- É certo que são vivissimos!
-
-Baptista acudiu depressa ao mal, declarando sem effeito a concessão,
-mas isso mesmo serviu á opposição para novos arremeços: «Temos a
-confissão do reu!» foi o titulo do primeiro artigo que rendeu á folha
-da opposição o acto do presidente. Os correspondentes tinham já
-escripto para o Rio de Janeiro falando da concessão, e o governo acabou
-por demittir o seu delegado. Em verdade, só os politicos cuidaram do
-negocio. D. Claudia apenas alludia á campanha da imprensa, que foi
-violentissima.
-
---Não valia a pena sair daqui, disse Natividade.
-
---Lá isso não, baroneza!
-
-E D. Claudia affirmou que valia. Soffre-se, mas paciencia. Era tão bom
-chegar á provincia! Tudo annunciado, as visitas a bordo, o desembarque,
-a posse, os comprimentos... Ver a magistratura, o funcionalismo, a
-officialidade, muita calva, muito cabello branco, a flor da terra,
-emfim, com as suas cortezias longas e demoradas, todas em angulo ou em
-curva, e os louvores impressos. As mesmas descomposturas da opposição
-eram agradaveis. Ouvir chamar tyranno ao marido, que ella sabia ter
-um coração de pomba, ia bem á alma della. A sêde de sangue que se lhe
-attribuia, elle que nem bebia vinho, o guante de ferro de um homem
-que era uma luva de pellica, a immoralidade, a desfaçatez, a falta de
-brio, todos os nomes injustos, mas fortes, que ella gostava de ler,
-como verdades eternas, onde iam elles agora? A folha da opposição era
-a primeira que D. Claudia lia em palacio. Sentia-se vergastada tambem
-e tinha nisso uma grande volupia, como si fosse na propria pelle;
-almoçava melhor. Onde iam os lategos daquelle tempo? Agora mal podia
-ler o nome delle impresso no fim de algumas razões do foro, ou então na
-lista das pessoas que iam visitar o imperador.
-
---Nem sempre, explicou D. Claudia; Baptista é muito acanhado; vae de
-longe em longe a S. Christovão, para não parecer que se faz lembrado,
-como se isto fosse crime; ao contrario, não ir nunca é que póde parecer
-arrufo. Note que o imperador nunca deixou de recebel-o com muita
-benevolencia, e a mim tambem. Nunca esqueceu o meu nome. Já deixei de
-lá ir dous annos, e quando appareci, perguntou-me logo: «Como vae, D.
-Claudia?»
-
-Afóra essas saudades do poder, D. Claudia era uma creatura feliz. A
-viveza das palavras e das maneiras, os olhos que pareciam não ver nada
-á força de não pararem nunca, e o sorriso benevolo, e a admiração
-constante, tudo nella era ajustado a curar as melancolias alheias.
-Quando beijava ou mirava as amigas era como se as quizesse comer vivas,
-comer de amor, não de odio, mettel-as em si, muito em si, no mais fundo
-de si.
-
-Baptista não tinha as mesmas expansões. Era alto e o ar socegado dava
-um bom aspecto de governo. Só lhe faltava acção, mas a mullher podia
-inspirar-lh'a; nunca deixou de consultal-a nas crises da presidencia.
-Agora mesmo, se lhe désse ouvidos, já teria ido pedir alguma cousa
-ao governo, mas neste ponto era firme, de uma firmeza que nascia da
-fraqueza: «Hão de chamar-me, deixa estar,» dizia elle a D. Claudia,
-quando apparecia alguma vaga de governo provincial. Certo é que elle
-sentia a necessidade de tornar á vida activa. Nelle a politica era
-menos uma opinião que uma sarna; precisava coçar-se a miudo e com força.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXI
-
-
-Flora
-
-
-Tal era aquelle casal de politicos. Um filho, se elles tivessem um
-filho varão, podia ser a fusão das suas qualidades oppostas, e talvez
-um homem de Estado. Mas o céu negou-lhes essa consolação dynastica.
-
-Tinham uma filha unica, que era tudo o contrario d'elles. Nem a paixão
-de D. Claudia, nem o aspecto governamental de Baptista distinguia a
-alma ou a figura da joven Flora. Quem a conhecesse por esses dias,
-poderia comparal-a a um vaso quebradiço ou á flor de uma só manhã, e
-teria materia para uma doce elegia. Já então possuia os olhos grandes
-e claros, menos sabedores, mas dotados de um mover particular, que
-não era o espalhado da mãe, nem o apagado do pae, antes mavioso e
-pensativo, tão cheio de graça que faria amavel a cara de um avarento.
-Põe-lhe o nariz aquilino, rasga-lhe a bôca meio risonha, formando tudo
-um rosto comprido, alisa-lhe os cabellos ruivos, e ahi tens a moça
-Flora.
-
-Nasceu em agosto de 1871. A mãe, que datava por ministerios, nunca
-negou a edade da filha:
-
---Flora nasceu no ministerio Rio-Branco, e foi sempre tão facil de
-aprender, que já no ministerio Sinimbú sabia ler escrever correntemente.
-
-Era retrahida e modesta, avêssa a festas publicas, e difficilmente
-consentiu em aprender a dançar. Gostava de musica, e mais do piano que
-do canto. Ao piano, entregue a si mesma, era capaz de não comer um
-dia inteiro. Ha ahi o seu tanto de exagerado, mas a hyperbole é deste
-mundo, e as orelhas da gente andam já tão entupidas que só á força de
-muita rhetorica se póde metter por ellas um sopro de verdade.
-
-Até aqui nada ha que extraordinariamente distinga esta moça das outras,
-suas contemporaneas, desde que a modestia vae com a graça, e em certa
-edade é tão natural o devaneio como a travessura. Flora, aos quinze
-annos, dava-lhe para se metter comsigo. Ayres, que a conheceu por esse
-tempo, em casa de Natividade, acreditava que a moça viria a ser uma
-inexplicavel.
-
---Como diz? inquiriu a mãe.
-
---Verdadeiramente, não digo nada, emendou Ayres; mas, se me permitte
-dizer alguma cousa, direi que esta moça resume as raras prendas de sua
-mãe.
-
---Mas eu não sou inexplicavel, replicou D. Claudia sorrindo.
-
---Ao contrario, minha senhora. Tudo está, porem, na definição que
-dermos a esta palavra. Talvez não haja nenhuma certa. Supponhamos uma
-creatura para quem não exista perfeição na terra, e julgue que a mais
-bella alma não passa de um ponto de vista; se tudo muda com o o ponto
-de vista, a perfeição...
-
---A perfeição é copas, insinuou Santos.
-
-Era um convite ao voltarete. Ayres não teve animo de acceitar, tão
-inquieta lhe pareceu Flora, com os olhos nelle, interrogativos,
-curiosos de saber porque é que ella era ou viria a ser inexplicavel.
-Além disso, preferia a conversação das mulheres. É delle esta phrase do
-_Memorial:_ «Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no homem, aggrava.»
-
-Não foi preciso acceitar nem recusar o convite de Santos; chegaram dous
-habituados do jogo, e com elles Baptista, que estava na saleta proxima,
-Santos foi ao recreio de todas as noites. Um daquelles era o velho
-Placido, doutor em spiritismo; o segundo era um corretor da praça,
-chamado Lopes, que amava as cartas pelas cartas, e sentia menos perder
-dinheiro que partidas. Lá se fôram ao voltarete, emquanto Ayres ficava
-no salão, a ouvir a um canto as damas, sem que os olhos de Flora se
-despegassem d'elle.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXII
-
-
-O aposentado
-
-
-Já então este ex-ministro estava aposentado. Regressou ao Rio de
-Janeiro, depois de um ultimo olhar ás cousas vistas, para aqui viver
-o resto dos seus dias. Podia fazel-o em qualquer cidade, era homem de
-todos os climas, mas tinha particular amor á sua terra, e por ventura
-estava cançado de outras. Não attribuia a esta tantas calamidades. A
-febre amarella, por exemplo, á força de a desmentir lá fóra, perdeu-lhe
-a fé, e cá dentro, quando via publicados alguns casos, estava já
-corrompido por aquelle credo que attribue todas as molestias a uma
-variedade de nomes. Talvez porque era homem sadio.
-
-Não mudára inteiramente; era o mesmo ou quasi. Encalveceu mais, é
-certo, terá menos carnes, algumas rugas; ao cabo, uma velhice rija de
-sessenta annos. Os bigodes continuam a trazer as pontas finas e agudas.
-O passo é firme, o gesto grave, com aquelle toque de galanteria, que
-nunca perdeu. Na botoeira, a mesma flor eterna.
-
-Tambem a cidade não lhe pareceu que houvesse mudado muito. Achou algum
-movimento mais, alguma opera menos, cabeças brancas, pessoas defuntas;
-mas a velha cidade era a mesma. A propria casa delle no Cattete estava
-bem conservada. Ayres despediu o inquilino, tão polidamente como se
-recebesse o ministro dos negocios estrangeiros, e metteu-se nella a si
-e a um criado, por mais que a irmã teimasse em leval-o para Andarahy.
-
---Não, mana Rita, deixe-me ficar no meu canto.
-
---Mas eu sou a sua ultima parenta, disse ella.
-
---De sangue e de coração, isso é, concordou elle; póde accrescentar que
-a melhor de todas e a mais pia. Onde estão aquelles cabellos...? Não
-precisa baixar os olhos. Você os cortou para metter no caixão de seu
-finado marido. Os que ahi estão embranqueceram; mas os que lá ficaram
-eram pretos, e mais de uma viuva os teria guardado todos para as
-segundas nupcias.
-
-Rita gostou de ouvir aquella referencia. Outr'ora, não; pouco depois de
-viuva, tinha vexame de um acto tão sincero; achava-se quasi ridicula.
-Que valia cortar os cabellos por haver perdido o melhor dos maridos?
-Mas, andando o tempo, entrou a ver que fizera bem, a approvar que lh'o
-dissessem, e, na intimidade, a lembral-o. Agora serviu a allusão para
-replicar:
-
---Pois se eu sou isso, porque é que você prefere viver com extranhos?
-
---Que extranhos? Não vou viver com ninguem. Viverei com o Cattete, o
-largo do Machado, a praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das
-pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das
-lojas. Ha lá cousas exquisitas, mas sei eu se venho achar em Andarahy
-uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que
-sabemos. Lá os meus pés andam por si. Ha alli cousas petrificadas e
-pessoas immortaes, como aquelle Custodio da confeitaria, lembra-se?
-
---Lembra-me, a _Confeitaria do Imperio._
-
---Ha quarenta annos que a estabeleceu; era ainda no tempo em que os
-carros pagavam imposto de passagem. Pois o diabo está velho, mas não
-acaba; ainda me ha de enterrar. Parece rapaz; apparece-me lá todas as
-semanas.
-
---Você tambem parece rapaz.
-
---Não brinque, mana; eu estou acabado. Sou um velho gamenho, pôde ser;
-mas não é por agradar a moças, é porque me ficou este geito... E a
-proposito, porque não vae você morar commigo?
-
---Ah! é para saber que tambem eu gosto de estar commigo. Irei lá de vez
-em quando, mas já não saio d'aqui, se não para o cemiterio.
-
-Ajustaram visitar um ao outro; Ayres viria jantar ás quinta-feiras.
-D. Rita ainda lhe falou dos casos de molestia d'elle, ao que Ayres
-replicou que não adoecia nunca, mas se adoecesse viria para Andarahy;
-o coração della era o melhor dos hospitaes. Talvez que em todas essas
-recusas houvesse tambem a necessidade de fugir á contradicção, porque a
-irmã sabia inventar occasiões de dissidencia. Naquelle mesmo dia (era
-ao almoço) elle achou o café delicioso, mas a irmã disse que era ruim,
-obrigando-o a um grande esforço para tornar atraz e achal-o detestavel.
-
-A principio, Ayres cumpriu a solidão, separou-se da sociedade,
-metteu-se em casa, não apparecia a ninguem ou a raros e de longe em
-longe. Em verdade estava cançado de homens e de mulheres, de festas
-e de vigilias. Fez um programma. Como era dado a letras classicas,
-achou no padre Bernardes esta traducção daquelle psalmo: «Alonguei-me
-fugindo e morei na soedade.» Foi a sua divisa. Santos, se lh'a dessem,
-fal-a-hia esculpir, á entrada do salão, para regalo dos seus numerosos
-amigos. Ayres deixou-a estar em si. Alguma vez gostava de a recitar
-calado, parte pelo sentido, parte pela linguagem velha: «Alonguei-me
-fugindo e morei na soedade.»
-
-Assim foi a principio, Às quinta-feiras ia jantar com a irmã. Às
-noites passeava pelas praias, ou pelas ruas do bairro. O mais do tempo
-era gasto em ler e reler, compôr o _Memorial_ ou rever o composto,
-para relembrar as cousas passadas. Estas eram muitas e de feição
-diversa, desde a alegria até a melancolia, enterramentos e recepções
-diplomaticas, uma braçada de folhas seccas, que lhe pareciam verdes
-agora. Alguma vez as pessoas eram designadas por um X ou ***, e elle
-não acertava logo quem fossem, mas era um recreio procural-as, achal-as
-e completal-as.
-
-Mandou fazer um armario envidraçado, onde metteu as reliquias da vida,
-retratos velhos, mimos de governos e de particulares, um leque, uma
-luva, uma fita e outras memorias femininas, medalhas e medalhões,
-camafeus, pedaços de ruinas gregas e romanas, uma infinidade de cousas
-que não nomeio, para não encher papel. As cartas não estavam lá, viviam
-dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por linguas,
-por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capitulos e seriam
-lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete
-encardido e sem data, moço como os bilhetes velhos, assignado por
-iniciaes, um M e um P, que elle traduzia com saudades. Não vale a pena
-dizer o nome.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXIII
-
-
-A solidão tambem cança
-
-
-Mas tudo cança, até a solidão. Ayres entrou a sentir uma ponta
-de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha sede de gente viva,
-extranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Mettia-se por bairros
-excentricos, trepava aos morros, ia ás egrejas velhas, ás ruas novas,
-á Copacabana e á Tijuca. O mar alli, aqui o matto e a vista acordavam
-nelle uma infinidade de ecos, que pareciam as proprias vozes antigas.
-Tudo isso escrevia, ás noites, para se fortalecer no proposito da vida
-solitaria. Mas não ha proposito contra a necessidade.
-
-A gente extranha tinha a vantagem de lhe tirar a solidão, sem lhe dar a
-conversação. As visitas de rigor que elle fazia eram poucas, breves e
-apenas faladas. E tudo isso fôram os primeiros passos. A pouco e pouco
-sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das salas, a saudade
-do riso, e não tardou que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado
-no emprego da recreação. A solidão, tanto no texto biblico, como na
-traducção do padre, era archaica. Ayres trocou-lhe uma palavra e o
-sentido; «Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente.»
-
-Assim se foi o programma da vida nova. Não é que elle já a não
-entendesse nem amasse, ou que a não praticasse ainda alguma vez, a
-espaços, como se faz uso de um remedio que obriga a ficar na cama ou
-na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a
-outra gente, ouvil-a, cheiral-a, gostal-a, apalpal-a, applicar todos os
-sentidos a um mundo que podia matar o tempo, o immortal tempo.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXIV
-
-
-Inexplicavel
-
-
-Assim o deixámos, ha apenas dous capitulos, a um canto da sala da gente
-Santos, em conversação com as senhoras. Has de lembrar-te que Flora
-não despegava os olhos delle, anciosa de saber porque é que a achava
-inexplicavel. A palavra rasgava-lhe o cerebro, ferindo sem penetrar.
-Inexplicavel que era? Que se não explica, sabia; mas que se não explica
-porquê?
-
-Quiz perguntal-o ao conselheiro, mas não achou occasião, e elle saiu
-cedo. A primeira vez, porém, que Ayres foi a S. Clemente, Flora
-pediu-lhe familiarmente o obsequio de uma definição mais desenvolvida.
-Ayres sorriu e pegou na mão da mocinha, que estava de pé. Foi só o
-tempo de inventar esta resposta:
-
---Inexplicavel é o nome que podemos dar aos artistas que pintam sem
-acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra tinta, muita tinta,
-pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a arvore é arvore, nem
-a choupana choupana. Se se trata então de gente, adeus. Por mais que
-os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que elles não
-dizem nada. E retocam com tanta paciencia, que alguns morrem entre dous
-olhos, outros matam-se de desespero.
-
-Flora achou a explicação obscura; e tu, amiga minha leitora, se acaso
-és mais velha e mais fina que ella, póde ser que a não aches mais
-clara. Elle é que não accrescentou nada, para não ficar incluido entre
-os artistas daquella especie. Bateu paternalmente na palma da mão de
-Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem; como é que não
-iriam bem os estudos? E sentando-se ao pé delle, a mocinha confessou
-que tinha ideia justamente de aprender desenho e pintura, mas se havia
-de pôr tinta de mais ou de menos, e acabar não pintando nada, melhor
-seria ficar só na musica. A musica ia bem com ella, o francez tambem, e
-o inglez.
-
---Pois só a musica, o inglez e o francez, concordou Ayres.
-
---Mas o senhor promette que não me achará inexplicavel? pergunta ella
-com doçura.
-
-Antes que elle respondesse, entrarám na sala os dous gemeos. Flora
-esqueceu um assumpto por outro, e o velho pelos rapazes. Ayres não se
-demorou mais que o tempo de a ver rir com elles, e sentir em si alguma
-cousa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer, creio.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXV
-
-
-Em volta da moça
-
-
-Já então os dous gemeos cursavam, um a Faculdade de Direito, em S.
-Paulo; outro a Escola de Medicina, no Rio. Não tardaria muito que
-saissem formados e promptos, um para defender o direito e o torto da
-gente, outro para ajudal-a a viver e a morrer. Todos os contrastes
-estão no homem.
-
-Não era tanta a politica que os fizesse esquecer Flora, nem tanta
-Flora que os fizesse esquecer a politica. Tambem não eram taes as duas
-que prejudicassem estudos e recreios. Estavam na edade em que tudo se
-combina sem quebra de essencia de cada cousa. Lá que viessem a amar a
-pequena com egual força é o que se podia admittir desde já, sem ser
-preciso que ella os attrahisse de vontade. Ao contrario, Flora ria com
-ambos, sem rejeitar nem acceitar especialmente nenhum; póde ser até que
-nem percebesse nada. Paulo vivia mais tempo ausente. Quando tornava
-pelas férias, como que a achava mais cheia de graça. Era então que
-Pedro multiplicava as suas finezas para se não deixar vencer do irmão,
-que vinha prodigo dellas. E Flora recebia-as todas com o mesmo rosto
-amigo.
-
-Note-se--e este ponto deve ser tirado á luz,--note-se que os dous
-gemeos continuavam a ser parecidos e eram cada vez mais esbeltos.
-Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança diminuia em
-cada um delles a feição pessoal. Demais, Flora simulava ás vezes
-confundil-os, para rir com ambos. E dizia a Pedro:
-
---Dr. Paulo!
-
-E dizia a Paulo:
-
---Dr. Pedro!
-
-Em vão elles mudávam da esquerda para a direita e da direita para a
-esquerda. Flora mudava os nomes tambem, e os trez acabávam rindo. A
-familiaridade desculpava a acção e crescia com ella. Paulo gostava mais
-de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com o piano
-que com a conversa; Flora tocava. Ou então fazia ambas as cousas, e
-tocava falando, soltava a rédea aos dedos e á lingua.
-
-Taes artes, postas ao serviço de taes graças, eram realmente de
-accender os gemeos, e foi o que succedeu pouco a pouco. A mãe della
-cuido que percebeu alguma cousa; mas a principio não lhe deu grande
-cuidado. Tambem ella foi menina e moça, tambem se dividiu a si sem se
-dar nada a ninguem. Póde ser até que, a seu parecer, fosse um exercicio
-necessario aos olhos do espirito e da cara. A questão é que estes se
-não corrompessem, nem se deixassem ir atraz de cantigas, como diz o
-povo, que assim exprime os feitiços de Orpheu. Ao contrario, Flora
-é que fazia de Orpheu, ella é que era a cantiga. Opportunamente,
-escolheria a um delles, pensava a mãe.
-
-A intimidade tinha intervallos grandes, além das ausencias obrigadas
-de Paulo. Apesar de não sair, Pedro não a buscava sempre, nem ella ia
-muita vez á casa da praia. Não se viam dias e dias. Que pensassem um no
-outro, é possivel; mas não possuo o menor documento disto. A verdade
-é que Pedro tinha os seus companheiros de escola, os namoros de rua
-e de aventura, os partidos de theatro, os passeios á Tijuca e outros
-arrabaldes. Ao demais, os dous gemeos estavam ainda no ponto de falar
-della nas cartas, louval-a, descrevel-a, dizer mil cousas doces, sem
-ciume.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXVI
-
-
-A discordia não é tão feia como se pinta
-
-
-A discordia não é tão feia como se pinta, meu amigo. Nem feia, nem
-esteril. Conta só os livros que tem produzido, desde Homero até cá, sem
-excluir... Sem excluir qual? Ia dizer que este, mas a Modestia acena-me
-de longe que pare aqui. Paro aqui; e viva a Modestia, que mal supporta
-a letra capital que lhe ponho, a letra e os vivas, mas ha de ir com
-ella e com elles. Viva a Modestia, e excluamos este livro; fiquem só
-os grandes livros epicos e tragicos, a que a Discordia deu vida, e
-digam-me se tamanhos effeitos não provam a grandeza da causa. Não, a
-discordia não é tão feia como se pinta.
-
-Teimo nisto para que as almas sensiveis não comecem de tremer pela moça
-ou pelos rapazes. Não ha mister tremer, tanto mais que a discordia dos
-dous começou por um simples accordo, naquella noite. Costeavam a praia,
-calados, pensando só, até que ambos, como se falassem para si, soltaram
-esta phrase unica:
-
---Está ficando bem bonita.
-
-E voltando-se um para outro:
-
---Quem?
-
-Ambos sorriram; acharam pico ao simultaneo da reflexão e da pergunta.
-Sei que este phenomeno é tal qual o do capitulo XXV, quando elles
-disseram da edade, mas não me culpem a mim; eram gemeos, podiam ter
-o falar gemeo. O principal é que não se amofináram; não era ainda
-amor o que sentiam. Cada um expoz a sua opinião ácerca das graças da
-pequena, o gesto, a voz, os olhos e as mãos, tudo com tão boa sombra,
-que excluia a ideia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha
-da melhor prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura;
-mas como acabavam achando um total harmonico, era visto que não
-brigavam por isso. Nenhum delles attribuia ao outro a cousa vaga ou o
-qur quer que era que principiavam a sentir, e mais pareciam esthetas
-que enamorados. Aliás, a mesma politica os deixou em paz essa noite:
-não brigaram por ella. Não é que não sentissem alguma cousa opposta,
-á vista da praia e do céu, que estavam deliciosos. Lua cheia, agua
-quieta, vozes confusas e esparsas, algum tilbury a passo ou a trote,
-segundo ia vasio ou com gente. Tal ou qual brisa fresca.
-
-A imaginação os levou então ao futuro, a um futuro brilhante, como elle
-é em tal edade. Botafogo teria um papel historico, uma enseada imperial
-para Pedro, uma Veneza republicana para Paulo, sem doge, nem conselho
-dos dez, ou então um doge com outro titulo, um simples presidente, que
-se casaria em nome do povo com este pequenino Adriatico. Talvez o doge
-fosse elle mesmo. Esta possibilidade, apesar dos annos verdes, enfunou
-a alma do moço. Paulo viu-se á testa de uma republica, em que o antigo
-e o moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma
-Convenção Nacional, a Republica Franceza e os Estados-Unidos da America.
-
-Pedro, á sua parte, construia a meio caminho como um palacio para a
-representação nacional, outro para o imperador, e via-se a si mesmo
-ministro e presidente do conselho. Falava, dominava o tumulto e as
-opiniões, arrancava um voto á Camara dos deputados ou então expedia
-um decreto de dissolução. É uma minucia, mas merece inseril-a aqui:
-Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente nos decretos de
-dissolução. Via-se em casa, com o acto assignado, referendado, copiado,
-mandado aos jornaes e ás Camaras, lido pelos secretarios, archivado
-na secretaria, e os deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando,
-outros irados. Só elle estava tranquillo, no gabinete, recebendo os
-amigos que iam comprimental-o e pedir os recados para a provincia.
-
-Taes eram as grandes pinceladas da imaginação dos dous. As estrellas
-recebiam no céu todos os pensamentos dos rapazes, a lua seguia quieta
-e a vaga da praia estirava-se com a preguiça do costume. Voltaram a si
-ao pé de casa. Tal ou qual impulso quiz leval-os a discutir ácerca do
-tempo e da noite, da temperatura e da enseada. Algum murmurio vago póde
-ser que lhes fizesse mover os beiços e começar a quebrar o silencio,
-mas o silencio era tão augusto que concordáram em respeital-o. E logo
-acháram de si para si, que a lua era esplendida, a enseada bella e a
-temperatura divina.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXVII
-
-
-Desaccordo no accordo
-
-
-Não esqueça dizer que, em 1888, uma questão grave e gravissima os fez
-concordar tambem, ainda que por diversa razão. A data explica o facto:
-foi a emancipação dos escravos. Estavam então longe um do outro, mas a
-opinião uniu-os.
-
-A differença unica entre elles dizia respeito á significação da
-reforma, que para Pedro era um acto de justiça, e para Paulo era o
-inicio da revolução. Elle mesmo o disse, concluindo um discurso em
-S. Paulo, no dia 20 de maio: «A abolição é a aurora da liberdade;
-esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco.»
-
-Natividade ficou attonita quando leu isto; pegou da penna e escreveu
-uma carta longa e maternal. Paulo respondeu com trinta mil expressões
-de ternura, declarando no fim que tudo lhe poderia sacrificar,
-inclusive a vida e até a honra; as opiniões é que não. «Não, mamãe; as
-opiniões é que não.»
-
---As opiniões é que não, repetiu Natividade acabando de ler a carta.
-
-Natividade não acabava de entender os sentimentos do filho, ella que
-sacrificára as opiniões aos principios, como no caso de Ayres, e
-continuou a viver sem macula. Como então não sacrificar...? Não achava
-explicação. Relia a phrase da carta e a do discurso; tinha medo de o
-ver perder a carreira politica, se era a politica que o faria grande
-homem. «Emancipado o preto, resta emancipar o branco», era uma ameaça
-ao imperador e ao imperio.
-
-Não atinou... Nem sempre as mães atinam. Não atinou que a phrase do
-discurso não era propriamente do filho; não era de ninguem. alguem a
-proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de
-terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era
-nova, era energica, era expressiva, ficou sendo patrimonio commum.
-
-Ha phrases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre;
-quando menos pensam, estão governando o mundo, á semelhança das ideias.
-As proprias ideias nem sempre conservam o nome do pae; muitas apparecem
-orphãs, nascidas de nada e de ninguem. Cada um pega dellas, verte-as
-como póde, e vae leval-as á feira, onde todos as têm por suas.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXVIII
-
-
-Chegada a proposito
-
-
-Quando, ás duas horas da tarde do dia seguinte, Natividade se metteu no
-bonde, para ir a não sei que compras na rua do Ouvidor, levava a phrase
-comsigo. A vista da enseada não a distraiu, nem a gente que passava,
-nem os incidentes da rua, nada; a phrase ia diante e dentro della, com
-o seu aspecto e tom de ameaça. No Cattete, alguem entrou de salto,
-sem fazer parar o vehiculo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha
-tambem que, posto o pé no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga,
-caminhou para lá rapido e acceitou a ponta do banco que ella lhe
-offereceu. Depois dos primeiros comprimentos:
-
---Pareceu-me vel-a olhar assustada, disse Ayres.
-
---Naturalmente, não imaginei que fosse capaz deste acto de gymnastica.
-
---Questão de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me
-cair, as rodam passam por cima...
-
---Fosse como fosse, chegou a proposito.
-
---Chego sempre a proposito. Já lhe ouvi isso, uma vez, ha muitos
-annos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não me esqueceu o motivo;
-creio que falavam da cabocla do Castello. Não se lembra de uma tal ou
-qual cabocla que morava no Castello, e adivinhava a sorte da gente?
-Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer cousas do arco da velha. Como
-sempre tive fé em Sybillas, acreditei na cabocla. Que fim levou ella?
-
-Natividade olhou para elle, como receiando se teria adivinhado então
-a consulta que ella fez á cabocla. Pareceu-lhe que não, sorriu e
-chamou-lhe incredulo. Ayres negou que fosse incredulo; ao contrario,
-sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo.
-E concluiu:
-
---Mas, emfim, porque é que chego a proposito?
-
-Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espirito
-repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta
-senhora, uma confiança que ella não achava agora em ninguem, ou acharia
-em poucos. Falou-lhe de uma confidencia, um papel que não mostraria ao
-marido.
-
---Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incommodar a meu
-marido? Quando muito, contarei o negocio a mana Perpetua. Acho melhor
-não dizer nada a Agostinho.
-
-Ayres concordou que não valia a pena aborrecel-o se era caso disso, e
-esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade
-dos filhos, já manifesta em politica, e tratando especialmente de
-Paulo, repetiu-lhe a phrase da carta e perguntou o que compria fazer
-mais util. Ayres entendeu que que eram ardores da mocidade. Que não
-teimasse; teimando, elle mudaria de palavras, mas não de sentimentos.
-
---Então crê que Paulo será sempre isto?
-
---Sempre, não digo; tambem não digo o contrario. Baroneza, a senhora
-exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que ha definitivo
-neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha.
-Ha quantos dias não sei o que é uma licença? É verdade que não tenho
-apparecido. E depois, o prazer da conversação paga bem o das cartas.
-Aposto que os homens casados que lá vão são de outro parecer?
-
---Talvez.
-
---Só os solteirões podem avaliar as ideias das mulheres. Um viuvo sem
-filhos, como eu, vale por um solteirão; minto, aos sessenta annos, como
-eu, vale por dous ou trez. Quanto ao joven Paulo, não pense mais no
-discurso. tambem eu discursei em rapaz.
-
---Já cuidei em casal-os.
-
---Casar é bom, assentiu Ayres.
-
---Não digo casar já, mas daqui a dous ou trez annos. Talvez faça
-antes uma viagem com elles. Que lhe parece? Vamos lá, não me responda
-repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que
-uma viagem?...
-
---Acho que uma viagem...
-
---Acabe.
-
---As viagens fazem bem, mormente na edade delles. Formam-se para o
-anno, não é? Pois então! Antes de começar qualquer carreira, casados ou
-não, é util ver outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de
-ir com elles?
-
---As mães...
-
---Mas eu tambem (desculpe interrompel-a) mas eu tambem sou seu filho.
-Não acha que o costume, o bom rosto, a graça, a affeição e todas as
-prendas grisalhas que a adornam compõem uma especie maternidade? Eu
-confesso-lhe que ficaria orphão.
-
---Pois venha comnosco.
-
---Ah! baroneza, para mim ja não ha mundo que valha um bilhete de
-passagem. Vi tudo por varias linguas. Agora o mundo começa aqui no
-caes da Gloria ou na rua do Ouvidor e acaba no cemiterio de S. João
-Baptista. Ouço que ha uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do
-Cajú, mas eu sou um velho incredulo, como a senhora dizia ha pouco,
-e não acceito essas noticias sem prova cabal e visual, e para ir
-averigual-as, faltam-me pernas.
-
---Sempre gracioso! Não as vi treparem agora? Sua irmã disse-me outro
-dia que o senhor anda como aos trinta annos.
-
---Rita exagera. Mas, voltando á viagem, a senhora ainda não comprou os
-bilhetes?
-
---Não.
-
---Não os encommendou sequer?
-
---Tambem não.
-
---Então, pensemos em outra cousa. Cada dia traz a sua occupação, quanto
-mais as semanas e os mezes. Pensemos em outra cousa, e deixe lá o Paulo
-pedir a republica.
-
-Natividade achou comsigo que elle tinha razão; depois, pensou em
-outra cousa, e esta foi a ideia do principio. Não disse logo o que
-era; preferiu conversar alguns minutos. Não era difficil com este
-sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair na
-banalidade nem subir ás nuvens; tinha um modo particular, que não sei
-se estava na ideia, se no gesto, se na palavra. Não é que falasse mal
-de ninguem, e aliás seria uma distracção. Quero crêr que não dissesse
-mal por indifferença ou cautella; provisoriamente, ponhamos caridade.
-
---Mas, a senhora ainda me não disse o que queria de mim, além do
-conselho. Ou não quer mais nada?
-
---Custa-me pedir-lhe.
-
---Peça sempre.
-
---Sabe que os meus dous gemeos não combinam em nada, ou só em pouco,
-por mais esforços que eu tenha feito para os trazer a certa harmonia.
-Agostinho não me ajuda; tem outros cuidados. Eu mesma já não me sinto
-com forças, e então pensei que um amigo, um homem moderado, um homem de
-sociedade, habil, fino, cautelloso, intelligente, instruido...
-
---Eu, em summa?
-
---Adivinhou.
-
---Não adivinhei; é o meu retrato em pessoa. Mas então que lhe parece
-que possa fazer?
-
---Póde corrigil-os por boas maneiras, fazel-os unidos, ainda quando
-discordem, e que discordem pouco ou nada. Não imagina; parece até
-proposito. Não discordam da côr da lua, por exemplo, mas aos onze
-annos, Pedro descobriu que as sombras da lua eram nuvens, e Paulo
-que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu é que os separei.
-Imagine em politica...
-
---Imagine em amores, diga logo; mas não é propriamente para este caso...
-
---Oh! não!
-
---Para os outros é egualmente inutil, mas eu nasci para servir, ainda
-inutilmente. Baroneza, o seu pedido equivale a nomear-me aio ou
-preceptor... Não faça gestos; não me dou por diminuido. Comtanto que
-me pague os ordenados... E não se assuste; peço pouco, pague-me em
-palavras; as suas palavras são de ouro. Já lhe disse que toda a minha
-acção é inutil.
-
---Porque?
-
---É inutil.
-
---Uma pessoa de autoridade, como o senhor, póde muito, comtanto que os
-ame, por que elles são bons, creia. Conhece-os bem?
-
---Pouco.
-
---Conheça-os mais e verá.
-
-Ayres concordou rindo. Para Natividade valia por uma tentativa nova.
-Confiava na acção do conselheiro, e para dizer tudo... Não sei se
-diga... Digo. Natividade contava com a antiga inclinação do velho
-diplomata. As cans não lhe tirariam o desejo de a servir. Não sei quem
-me lê nesta occasião. Se é homem, talvez não entenda logo, mas se é
-mulher creio que entenderá. Se ninguem entender, paciencia; baste saber
-que elle prometteu o que ella quiz, e tambem prometteu calar-se; foi a
-condição que a outra lhe poz. Tudo isso polido, sincero e incredulo.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXIX
-
-
-Um gatuno
-
-
-Chegaram ao largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ella entrou
-pela rua Gonçalves Dias, elle enfiou pela da Carioca. No meio desta,
-Ayres encontrou um magote de gente parada, logo depois andando em
-direcção ao largo. Ayres quiz arrepiar caminho, não de medo, mas de
-horror. Tinha horror á multidão. Viu que a gente era pouca, cincoenta
-ou sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a prisão de um homem.
-Entrou n'um corredor, á espera que o magote passasse. Duas praças
-de policia traziam o preso pelo braço. De quando em quando, este
-resistia, e então era preciso arrastal-o ou forçal-o por outro methodo.
-Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira.
-
---Não furtei nada! bradava o preso detendo o passo. É falso!
-Larguem-me! sou um cidadão livre! Protesto! protesto!
-
---Siga para a estação!
-
---Não sigo!
-
---Não siga! bradava a gente anonyma. Não siga! não siga!
-
-Uma das praças quiz convencer a multidão que era verdade, que o sujeito
-furtara uma carteira, e o desassocego pareceu minorar um pouco; mas,
-indo a praça a andar com a outra e o preso,--cada uma pegando-lhe um
-dos braços, a multidão recomeçou a bradar contra a violencia. O preso
-sentiu-se animado, e ora lastimoso, ora aggressivo, convidava a defeza.
-Foi então que a outra praça desembainhou a espada para fazer um claro.
-A gente voou, não airosamente, como a andorinha ou a pomba, em busca
-do ninho ou do alimento, voou de atropello, pula aqui, pula alli, pula
-acolá, para todos os lados. A espada entrou na bainha, e o preso seguiu
-com as praças. Mas logo os peitos tomaram vingança das pernas, e um
-clamor ingente, largo, desaffrontado, encheu a rua e a alma do preso. A
-multidão fez-se outra vez compacta e caminhou para a estação policial.
-Ayres seguiu caminho.
-
-A vozeria morreu pouco a pouco, e Ayres entrou na Secretaria do
-Imperio. Não achou o ministro, parece, ou a conferencia foi curta.
-Certo é que, saindo á praça, encontrou partes do magote que tornavam
-commentando a prisão e o ladrão. Não diziam ladrão, mas gatuno, fiando
-que era mais doce, e tanto bradavam ha pouco contra a acção das praças,
-como riam agora das lastimas do preso.
-
---Ora o sujeito!
-
-Mas então?... perguntarás tu. Ayres não perguntou nada. Ao cabo, havia
-um fundo de justiça naquella manifestação dupla e contradictoria; foi o
-que elle pensou. Depois, imaginou que a grita da multidão protestante
-era filha de um velho instincto de resistencia á autoridade. Advertiu
-que o homem, uma vez creado, desobedeceu logo ao Creador, que aliás
-lhe dera um paraiso para viver; mas não ha paraiso que valha o gosto
-da opposição. Que o homem se acostume ás leis, vá; que incline o collo
-á força e ao bel-prazer, vá tambem; é o que se dá com a planta, quando
-sopra o vento. Mas que abençoe a força e cumpra as leis sempre, sempre,
-sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão. Ia
-assim cogitando o conselheiro Ayres.
-
-Não lhe attribuam todas essas ideias. Pensava assim, como se falasse
-alto, á mesa ou na sala de alguem. Era um processo de critica mansa e
-delicada, tão convencida em apparencia, que algum ouvinte, á cata de
-ideias, acabava por lhe apanhar uma ou duas...
-
-Ia a descer pela rua Sete de Setembro, quando a lembrança da vozeria
-trouxe a de outra, maior e mais remota.
-
-
-
-
-CAPITULO XL
-
-
-Recuerdos
-
-
-Essa outra vozeria maior e mais remota não caberia aqui, se não fosse
-a necessidade de explicar o gesto repentino com que Ayres parou na
-calçada. Parou, tornou a si e continuou a andar com os olhos no chão e
-a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde elle servira na qualidade de
-addido de legação. Estava em casa, de palestra com uma actriz da moda,
-pessoa chistosa e garrida. De repente, ouviram um clamor grande, vozes
-tumultuosas, vibrantes, crescentes...
-
---Que rumor é este, Carmen? perguntou elle entre duas caricias.
-
---Não se assuste, amigo meu; é o governo que cae.
-
---Mas eu ouço acclamações...
-
---Então é o governo que sobe. Não se assuste. Amanhã é tempo de ir
-comprimental-o.
-
-Ayres deixou-se ir rio abaixo daquella memoria velha, que lhe surdia
-agora do alarido de cincoenta ou sessenta pessoas. Essa especie de
-lembranças tinha mais effeito nelle que outras. Recompoz a hora, o
-logar e a pessoa da sevilhana. Carmen era de Sevilla. O ex-rapaz ainda
-agora recordava a cantiga popular que lhe ouvia, á despedida, depois de
-rectificar as ligas, compôr as saias, e cravar o pente no cabello,--no
-momento em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graça:
-
- Tienen las sevillanas,
- En la mantilla,
- Um letrero que dice:
- Viva Sevilla!
-
-
-Não posso dar a toada, mas Ayres ainda a trazia de cór, e vinha a
-repetil-a comsigo, vagarosamente, como ia andando. Outrosim, meditava
-na ausencia de vocação diplomatica. A ascenção de um governo,--de
-um regimen que fosse,--com as suas ideias novas, os seus homens
-frescos, leis e acclamações, valia menos para elle que o riso da joven
-comediante. Onde iria ella? A sombra da moça varreu tudo o mais, a
-rua, a gente, o gatuno, para ficar só deante do velho Ayres, dando aos
-quadris e cantarolando a trova andaluza:
-
- Tienen las sevillanas
- En la mantilla...
-
-
-
-
-CAPITULO XLI
-
-
-Caso do burro
-
-
-Se Ayres obedecesse ao seu gosto, e eu a elle, nem elle continuaria a
-andar, nem eu começaria este capitulo; ficariamos no outro, sem nunca
-mais acabal-o. Mas não ha na memoria que dure, se outro negocio mais
-forte puxa pela attenção, e um simples burro fez desapparecer Carmen e
-a sua trova.
-
-Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da travessa de S.
-Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita
-pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este espectaculo fez
-parar o nosso Ayres, não menos condoido do asno que do homem. A força
-despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não
-sair do logar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o
-diabo. Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos
-durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha á pancada,
-tirou a carroça do logar e foi andando.
-
-Nos olhos redondos do animal viu Ayres uma expressão profunda de
-ironia e paciencia. Pareceu-lhe o gesto largo de espjrito invencivel.
-Depois leu nelles este monologo: «Anda, patrão, atalha a carroça de
-carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para
-comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um
-nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido
-patrão. Emquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o
-teu dominio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de
-teimar...
-
---Vê-se, quasi que se lhe ouve a reflexão, notou Ayres comsigo.
-
-Depois ria de si para si, e foi andando. Inventára tanta cousa no
-serviço diplomatico, que talvez inventasse o monologo do burro. Assim
-foi; não lhe leu nada nos olhos, a não ser a ironia e a paciencia, mas
-não se pôde ter que lhes não désse uma forma de palavra, com as suas
-regras de syntaxe. A propria ironia estaria acaso na retina delle. O
-olho do homem serve de photographia ao invisivel, como o ouvido serve
-de eco ao silencio. Tudo é que o dono tenha um lampejo de imaginação
-para ajudar a memoria a esquecer Caracas e Carmen, os seus beijos e
-experiencia politica.
-
-
-
-
-CAPITULO XLII
-
-
-Uma hypothese
-
-
-Visões e reminiscencias iam assim comendo o tempo e o espaço ao
-conselheiro, a ponto de lhe fazerem esquecer o pedido de Natividade;
-mas não o esqueceu de todo, e as palavras trocadas ha pouco surdiam-lhe
-das pedras da rua. Considerou que não perdia muito em estudar os
-rapazes. Chegou a apanhar uma hypothese, especie de andorinha, que
-avoaça entre arvores, abaixo e acima, pousa aqui, pousa alli, arranca
-de novo um surto e toda se despeja em movimentos. Tal foi a hypothese
-vaga e colorida, a saber, que se os gemeos tivessem nascido delle
-talvez não divergissem tanto nem nada, graças ao equilibrio do seu
-espirito. A alma do velho entrou a ramalhar não sei que desejos
-retrospectivos, e a rever essa hypothese, outra Caracas, outra Carmen,
-elle pae, estes meninos seus, toda a andorinha que se dispersava n'um
-farfalhar calado de gestos.
-
-
-
-
-CAPITULO XLIII
-
-
-O discurso
-
-
-Natividade é que não teve distracções de especie alguma. Toda ella
-estava nos filhos, e agora especialmente na carta e no discurso.
-Começou por não dar resposta ás effusões politicas de Paulo; foi um
-dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas ferias tinha
-esquecido a carta que escrevêra. O discurso é que elle não esqueceu,
-mas quem é que esquece os discursos que faz? Se são bons, a memoria os
-grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O
-melhor dos remedios, no segundo caso, é suppol-os excellentes, e, se a
-razão não acceita esta imaginação, consultar pessoas que a acceitem, e
-crêr nellas. A opinião é um velho oleo incorruptivel.
-
-Paulo tinha talento. O discurso daquelle dia podia peccar aqui ou alli
-por alguma emphasis, e uma ou outra ideia vulgar e exhausta. Tinha
-talento Paulo. Em summa, o discurso era bom. Santos achou-o excellente,
-leu-o aos amigos e resolveu transcrevel-o nos jornaes. Natividade não
-se oppoz, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas.
-
---Cortadas, porque? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta.
-
---Pois você não vê, Agostinho; estas palavras tem sentido republicano,
-explicou ella relendo a phrase que a affligira.
-
-Santos ouviu-as ler, leu-as para si, e não deixou de lhe achar razão.
-Entretanto, não havia de as supprimir.
-
---Pois não se transcreve o discurso.
-
---Ah! isso não! O discurso é magnifico, e não ha de morrer em S. Paulo;
-é preciso que a Côrte o leia, e as provincias tambem, e até não se me
-daria fazel-o traduzir em francez. Em francez, póde ser que fique ainda
-melhor.
-
---Mas, Agostinho, isto póde fazer mal á carreira do rapaz; o imperador
-póde ser que não goste...
-
-Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveiu
-docemente para dizer que os receios da mãe não tinham base; era bom por
-a phrase toda, e, a rigor, não difteria muito do que os liberaes diziam
-em 1848.
-
---Um monarchista liberal póde muito bem assignar esse trecho, concluiu
-elle depois de reler as palavras do irmão.
-
---Justamente! assentiu o pae.
-
-Natividade, que em tudo via a inimizade dos gemeos, suspeitou que o
-intuito de Pedro fosse justamente comprometter Paulo. Olhou para elle
-a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho
-tinha então o aspecto do enthusiasmo. Pedro lia trechos do discurso,
-accentuando as bellezas, repetindo as phrases mais novas, cantando as
-mais redondas, revolvendo-as na bôca, tudo com tão boa sombra que a mãe
-perdeu a suspeita, e a reimpressão do discurso foi resolvida. Tambem
-se tirou uma edição em folheto, e o pae mandou encadernar ricamente
-sete exemplares, que levou aos ministros, e um ainda mais rico para a
-Regente.
-
---Você diga-lhe, aconselhou Natividade, que o nosso Paulo é liberal
-ardente...
-
---Liberal de 1848, completou Santos lembrando as palavras de Pedro.
-
-Santos cumpriu tudo á risca. A entrega se fez naturalmente, e, no
-palacio Isabel, a definição do «liberal de 1848» saiu mais viva que
-as outras palavras, ou para diminuir o cheiro revolucionario da
-phrase condemnada pela mulher, ou porque trazia valor historico.
-Quando elle voltou a casa, a primeira cousa que lhe disse foi que a
-Regente perguntara por ella, mas apesar de lisongeada com a lembrança,
-Natividade quiz saber da impressão que lhe fizera o discurso, se já o
-lêra.
-
---Parece que foi boa. Disse-me que já havia lido o discurso. Nem por
-isso deixei de lhe dizer que os sentimentos de Paulo eram bons; que, se
-lhes notavamos certo ardor, comprehendiamos sempre que elles eram os de
-um liberal de 1848...
-
---Papae disse isso? perguntou Pedro.
-
---Porque não, se é verdade? Paulo é o que se póde chamar um liberal de
-1848, repetiu Santos querendo convencer o filho.
-
-
-
-
-CAPITULO XLIV
-
-
-O salmão
-
-
-Pelas férias é que Paulo soube da interpretação que o pae dera á
-Regente daquelle trecho do discurso. Protestou contra ella, em casa;
-quiz fazel-o tambem em publico, mas Natividade interveiu a tempo. Ayres
-pôz agua na fervura, dizendo ao futuro bacharel:
-
---Não vale a pena, moço; o que importa é que cada um tenha a suas
-ideias e se bata por ellas, até que ellas vençam. Agora que outros as
-interpretem mal é cousa que não deve affligir o autor.
-
---Affligir, sim, senhor; pôde parecer que é assim mesmo... Vou escrever
-um artigo a proposito de qualquer cousa, e não deixarei duvidas...
-
---Para que? inquiriu Ayres.
-
---Não quero que supponham...
-
---Mas quem duvida dos seus sentimentos?
-
---Podem duvidar.
-
---Ora, qual! Em todo caso, vá primeiro almoçar commigo um dia destes...
-Olhe, vá domingo, e seu irmão Pedro tambem. Seremos trez á meza, um
-almoço de rapazes. Beberemos certo vinho que me deu o ministro da
-Allemanha...
-
-No domingo fôram os dous ao Cattete, menos pelo almoço que pelo
-amphytrião. Ayres era amado dos dous; gostavam de ouvil-o, de
-interrogal-o, pediam-lhe anecdotas politicas de outro tempo, descripção
-de festas, noticias de sociedade.
-
---Vivam os meus dous jovens, disse o conselheiro, vivam os meus dous
-jovens que não esqueceram o amigo velho. Papae como está? E mamãe?
-
---Estão bons, disse Pedro.
-
-Paulo accrescentou que ambos lhe mandavam lembranças.
-
---E tia Perpetua?
-
---Tambem está boa, disse Paulo.
-
---Sempre com a homoepathia e as suas historias do Paraguay,
-accrescentou Pedro.
-
-Pedro estava alegre, Paulo preoccupado. Depois das primeiras saudações
-e noticias, Ayres notou essa differença, e achou que era bom para tirar
-a monotonia da semelhança; mas, emfim, não queria caras fechadas, e
-indagou do estudante de direito o que é que elle tinha.
-
---Nada.
-
---Não póde ser; acho-lhe um ar meio sorumbatico. Pois eu acordei
-disposto a rir, e desejo que ambos riam commigo.
-
-Paulo rosnou uma palavra que nenhum delles entendeu e saccou do bolso
-um maço de folhas de de papel. Era um artigo...
-
---Um artigo?
-
---Um artigo em que tiro todas as duvidas a meu respeito, e peço ao
-senhor que me ouça, é pequeno. Escrevi-o a noite passada.
-
-Ayres propoz ouvil-o depois do almoço, mas o rapaz pediu que fosse
-logo, e Pedro concordou com esto alvitre, allegando que, sobre o
-almoço, podia perturbar a digestão, como ruim droga que devia ser,
-naturalmente. Ayres metteu o caso á bulha e acceitou ouvir o artigo.
-
---É pequeno, sete tiras.
-
---Letra miuda?
-
---Não, senhor; assim, assim.
-
-Paulo leu o artigo. Tinha por epigraphe isto de Amós: «Ouvi esta
-palavra, vaccas gordas que estaes no monte de Samaria...» As vaccas
-gordas eram o pessoal do regimen, explicou Paulo. Não atacava o
-imperador, por attenção á mãe, mas com o principio e o pessoal era
-violento e aspero. Ayres sentiu-lhe aquillo que, em tempo, se chamou «a
-bossa da combatividade». Quando Paulo acabou, Pedro disse em ar de mofa:
-
---Conheço tudo isso, são ideias paulistas.
-
---As tuas são ideias coloniaes, replicou Paulo.
-
-Deste introito podiam nascer peores palavras, mas felizmente um criado
-chegou á porta annunciando que o almoço estava na mesa. Ayres ergueu-se
-e disse que á mesa daria a sua opinião.
-
---Primeiro o almoço, tanto mais que temos um salmão, cousa especial.
-Vamos a elle.
-
-Ayres queria cumprir deveras o officio que acceitara de Natividade.
-Quem sabe se a ideia de pae espiritual dos gemeos, pae de desejo
-somente, pae que não foi, que teria sido, não lhe dava uma affeição
-particular e um dever mais alto que o de simples amigo? Nem é fóra de
-proposito que elle buscasse sómente materia nova para as paginas nuas
-de seu _Memorial._
-
-Ao almoço, ainda se falou do artigo, Paulo com amor, Pedro com desdem,
-Ayres sem uma nem outra cousa. O almoço ia fazendo o seu officio. Ayres
-estudava os dous rapazes e suas opiniões. Talvez estas não passassem de
-uma erupção de pelle da edade. E sorria, fazia-os comer e beber, chegou
-a falar de moças, mas aqui os rapazes, vexados e respeitosos, não
-acompanharam o ex-ministro. A politica veiu morrendo. Na verdade, Paulo
-ainda se declarou capaz de derribar a monarchia com dez homens, e Pedro
-de extirpar o germen republicano com um decreto. Mas o ex-ministro, sem
-mais decreto que uma caçarola, nem mais homens que o seu cozinheiro,
-envolveu os dous regimens no mesmo salmão delicioso.
-
-
-
-
-CAPITULO XLV
-
-
-Musa, canta...
-
-
-No fim do almoço, Ayres deu-lhes uma citação de Homero, aliás duas, uma
-para cada um, dizendo-lhes que o velho poeta os cantara separadamente,
-Paulo no começo da _Illiada_:
-
---«Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu, colera funesta aos
-gregos, que precipitou á estancia de Plutão tantas almas válidas de
-heroes, entregues os corpos ás aves e aos cães...»
-
-Pedro estava no começo da _Odyssea_:
-
---«Musa, canta aquelle heroe astuto, que errou por tantos tempos,
-depois de destruida a santa Illion...»
-
-Era um modo de definir o caracter de ambos, e nenhum delles levou
-a mal a applicação. Ao contrario, a citação poetica valia por um
-diploma particular. O facto é que ambos sorriram de fé, de acceitação,
-de agradecimento, sem que achassem uma palavra ou syllaba com que
-desmentissem o adequado dos versos. Que elle, o conselheiro, depois de
-os citar em prosa nossa, repetiu-os no proprio texto grego e os dous
-gemeos sentiram-se ainda mais épicos, tão certo é que traducções não
-valem originaes. O que elles fizeram foi dar um sentido deprimente ao
-que era applicavel ao irmão:
-
---Tem razão, Sr. conselheiro,--disse Paulo,--Pedro é um velhaco...
-
---E você é um furioso...
-
---Em grego, meninos, em grego e em verso, que é melhor que a nossa
-lingua e a prosa do nosso tempo.
-
-
-
-
-CAPITULO XLVI
-
-
-Entre um acto e outro
-
-
-Aquelles almoços repetiram-se, os mezes passaram, vieram férias,
-acabaram-se férias, e Ayres penetrava bem os gemeos. Escrevia-os no
-_Memorial_, onde se lê que a consulta ao velho Placido dizia respeito
-aos dous, e mais a ida á cabocla do Castello e a briga antes de nascer,
-casos velhos e obscuros que elle relembrou, ligou e decifrou.
-
-Emquanto os mezes passam, faze de conta que estás no theatro, entre um
-acto e outro, conversando. Lá dentro preparam a scena, e os artistas
-mudam de roupa. Não vás lá; deixa que a dama, no camarim, ria com os
-seus amigos o que chorou cá fóra com os espectadores. Quanto ao jardim
-que se está fazendo, não te exponhas a vel-o pelas costas; é pura lona
-velha sem pintura, porque só a parte do espectador é que tem verdes e
-flores. Deixa-te estar cá fóra no camarote desta senhora. Examina-lhe
-os olhos; tem ainda as lagrimas que lhe arrancou a a dama da peça.
-Fala-lhe da peça e dos artistas. Que é obscura. Que não sabem os
-papeis. Ou então que que é tudo sublime. Depois percorre os camarotes
-com o binoculo, distribue justiça, chama bellas ás bellas e feias ás
-feias, e não te esqueças de contar anecdotas que desfeiem as bellas,
-e virtudes que componham as feias. As virtudes devem ser grandes e
-as anecdotas engraçadas. Tambem as ha banaes, mas a mesma banalidade
-na bôca de um bom narrador faz-se rara e preciosa. E verás como as
-lagrimas séccam inteiramente, e a realidade substitue a ficção. Falo
-por imagem; sabes que tudo aqui é verdade pura e sem choro.
-
-
-
-
-CAPITULO XLVII
-
-
-S. Matheus, IV, 1-10
-
-
-Se ha muito riso quando um partido sobe, tambem ha muita lagrima do
-outro que desce, e do riso e da lagrima se faz o primeiro dia da
-situação, como no Genesis. Venhamos ao evangelista que serve de titulo
-ao capitulo. Os liberaes fôram chamados ao poder, que os conservadores
-tiveram de deixar. Não é mister dizer que o abatimento de Baptista foi
-enorme.
-
---Justamente agora que eu tinha esperanças, disse elle á mulher.
-
---De quê?
-
---Ora de quê! de uma presidencia. Não disse nada, porque podiam falhar,
-mas é quasi certo que não. Tive duas conferencias, não com ministros,
-mas com pessoa influente que sabia, e era negocio de esperar um mez ou
-dous...
-
---Presidencia boa?
-
---Boa.
-
---Se você tivesse trabalhado bem...
-
---Se tivesse trabalhado bem, podia estar já de posse, mas vinhamos
-agora a toque de caixa.
-
---Isso é verdade, concordou D. Claudia olhando para o futuro.
-
-Baptista passeava, as mãos nas costas, os olhos no chão, suspirando,
-sem prever o tempo em que os conservadores tornariam ao poder. Os
-liberaes estavam fortes e resolutos. As mesmas ideias pairavam na
-cabeça de D. Claudia. Este casal só não era egual na vontade; as ideias
-eram muitas vezes taes que, se apparecessem cá fóra, ninguem diria
-quaes eram as delle, nem quaes as della, pareciam vir de um cerebro
-unico. Naquelle momento nenhum achava esperança immediata ou remota.
-Uma só ideia vaga... E foi aqui que a vontade de D. Claudia fincou os
-pés no chão e cresceu. Não falo só por imagem; D. Claudia levantou-se
-da cadeira, rapida, e disparou esta pergunta ao marido:
-
---Mas, Baptista, você o que é que espera mais dos conservadores?
-
-Baptista parou com um ar digno e respondeu com simplicidade:
-
---Espero que subam.
-
---Que subam? Espera oito ou dez annos, o fim do seculo, não é? E nessa
-occasião você sabe se será aproveitado? Quem se lembrará de você?
-
---Posso fundar um jornal.
-
---Deixe-se de jornaes. E se morrer?
-
---Morro no meu posto de honra.
-
-D. Claudia olhou fixa para elle. Os seus olhos miudos enterravam-se
-pelos delle abaixo, como duas verrumas pacientes. Subito, levantando as
-mãos abertas:
-
---Baptista, você nunca foi conservador!
-
-O marido empallideceu e recuou, como se ouvira a propria ingratidão de
-um partido. Nunca fôra conservador? Mas que era elle então, que podia
-ser neste mundo? Que é que lhe dava a estima dos seus chefes? Não lhe
-faltava mais nada... D. Claudia não attendeu a explicações; repetiu-lhe
-as palavras, e accrescentou.
-
---Você estava com elles, Como a gente está n'um baile, onde não é
-preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.
-
-Baptista sorriu leve e rapido; amava as imagens graciosas e aquella
-pareceu-lhe graciosissima, tanto que concordou logo; mas a sua estrella
-inspirou-lhe uma refutação prompta.
-
---Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com pernas.
-
---Dance com que fôr, a verdade é que todas as suas ideias iam para os
-liberaes; lembre-se que os dissidentes na provincia accusavam a você de
-apoiar os liberaes...
-
---Era falso; o governo é que me recommendava moderação. Posso mostrar
-cartas.
-
---Qual moderação! Você é liberal.
-
---Eu liberal?
-
---Um liberalão, nunca foi outra cousa.
-
---Pense no que diz, Claudia. Se alguem a ouvir é capaz de crêr, e dahi
-a espalhar...
-
---Que tem que espalhe? Espalha a verdade, espalha a justiça, porque os
-seus verdadeiros amigos não o hão de deixar na rua, agora que tudo se
-organisa. Você tem amigos pessoaes no ministerio; porque é que os não
-procura?
-
-Baptista recuou com horror. Isto de subir as escadas do poder e
-dizer-lhe que estava ás ordens não era concebivel sequer. D. Claudia
-admittiu que não, mas um amigo faria tudo, um amigo intimo do governo
-que dissesse ao Ouro-Preto: «Visconde, você porque é que não convida
-o Baptista? Foi sempre liberal nas ideias. Dê-lhe uma presidencia,
-pequena que seja, e...»
-
-Baptista fez um gesto de hombros, outro de mão que se calasse. A
-mulher não se calou; foi dizendo as mesmas cousas, agora mais graves
-pela insistencia e pelo tom. Na alma do marido a catastrophe era já
-tremenda. Pensando bem, não recusaria passar o Rubicon; só lhe faltava
-a força necessaria. Quizera querer. Quizera não ver nada, nem passado,
-nem presente, nem futuro, não saber de homens nem de cousas, e obedecer
-aos dados da sorte, mas não podia.
-
-E façamos justiça ao homem. Quando elle pensava só na fidelidade aos
-amigos sentia-se melhor; a mesma fé existia, o mesmo costume, a mesma
-esperança. O mal vinha de olhar para o lado de lá; e era D. Claudia que
-lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a vida, a marcha certa e
-longa, a presidencia, o ministerio... Elle torcia os olhos e ficava.
-
-A sós comsigo, Baptista pensou muita vez na situação pessoal e
-politica. Apalpava-se moralmente. Claudia podia ter razão. Que é que
-havia nelle propriamente conservador, a não ser esse instincto de
-toda creatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador em
-politica, porque o pae o era, o tio, os amigos da casa, o vigario da
-parochia, e elle começou na escola a execrar os liberaes. E depois não
-era propriamente conservador, mas _saquarema_, como os liberaes eram
-_luzias._ Baptista agarrava-se agora a estas designações obsoletas e
-deprimentes que mudavam o estylo aos partidos; donde vinha que hoje
-não havia entre elles o grande abysmo de 1842 e 1848. E lembrava-se
-do visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso
-não haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e
-vice-versa. E evocava exemplos, o partido progressista, Olinda, Nabuco,
-Zacharias, que fôram elles senão conservadores que comprehenderam
-os tempos novos e tiraram ás ideias liberaes aquelle sangue das
-revoluções, para lhes pôr uma côr viva, sim, mas serena. Nem o mundo
-era dos emperrados... Neste ponto passou-lhe um frio pela espinha.
-Justamente nessa occasião appareceu Flora. O pae abraçou-a com amor, e
-perguntou-lhe se queria ir para alguma provincia, sendo elle presidente.
-
---Mas os conservadores não cairam?
-
---Cairam, sim, mas suppõe que...
-
---Ah! não, papae!
-
---Não, porquê?
-
---Não desejo sair do Rio de Janeiro.
-
-Talvez o Rio de Janeiro para ella fosse Botafogo, e propriamente a
-casa de Natividade. O pae não apurou as causas da recusa; suppol-as
-politicas, e achou novas forças para resistir ás tentações de D.
-Claudia: «Vae-te, Satanaz; porque escripto está: Ao Senhor teu Deus
-adorarás, e a elle servirás.» E seguiu-se como na Escriptura: «Então
-o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram.» Os anjos
-fôram só um, que valia por muitos; e o pae lhe disse beijando-a
-carinhosamente:
-
---Muito bem, muito bem, minha filha.
-
---Não é, papae?
-
-Não, não foi a filha que tolheu a deserção do pae. Ao contrario.
-Baptista, se tivesse de ceder, cederia á mulher ou ao Diabo, synonimos
-neste capitulo. Não cedeu de fraqueza. Não tinha a força precisa de
-trahir os amigos, por mais que estes parecessem havel-o abandonado.
-Ha dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos
-lucrativas, moralmente falando. Não valem só stoicos e martyres.
-Virtudes meninas tambem são virtudes. É certo, porém, que a linguagem
-delle, em relação aos liberaes, não era já de odio ou impaciencia;
-chegava á tolerancia, roçava pela justiça. Concordava que a alternação
-dos partidos era um principio de necessidade publica. O que fazia era
-animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D. Claudia opinava o
-contrario; para ella, os liberaes iriam ao fim do seculo. Quando muito,
-admittiu que na primeira entrada não déssem logar a um converso da
-ultima hora; era preciso esperar um anno ou dous, uma vaga na camara,
-uma commissão, a vice-presidencia do Rio...
-
-
-
-
-CAPITULO XLVIII
-
-
-Terpsichore
-
-
-Nenhuma dessas cousas preoccupava Natividade. Mais depressa cuidaria
-do baile da ilha Fiscal, que se realisou em novembro para honrar os
-officiaes chilenos. Não é que ainda dançasse, mas sabia-lhe bem ver
-dançar os outros, e tinha agora a opinião de que a dança é um prazer
-dos olhos. Esta opinião é um dos effeitos daquelle mau costume de
-envelhecer. Não pegues tal costume, leitora. Ha outros tambem ruins,
-nenhum peor, este é o pessimo. Deixa lá dizerem philosophos que a
-velhice é um estado util pela experiencia e outras vantagens. Não
-envelheças, amiga minha, por mais que os annos te convidem a deixar a
-primavera; quando muito, acceita o estio. O estio é bom, callido, as
-noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o
-céu apparece logo azul. Assim dançarás sempre.
-
-Bem sei que ha gente para quem a dança é antes um prazer dos olhos. Nem
-as bailadeiras são outra cousa mais que mulheres de officio. Tambem
-eu, se é licito citar alguem a si mesmo, tambem eu acho que a dança é
-antes prazer dos olhos que dos pés, e a razão não é só dos annos longos
-e grisalhos, mas tambem outra que não digo, por não valer a pena. Ao
-cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem
-nada que não seja das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso
-pôr aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm.
-Entende-se isto, sem ser preciso notal-o, mas não se perde nada em
-repetil-o.
-
-Por exemplo, D. Claudia. tambem ella pensava no baile da ilha Fiscal,
-sem a menor ideia de dançar, nem a razão esthetica da outra. Para ella,
-o baile da ilha era um facto politico, era o baile do ministerio,
-uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma
-presidencia. Via-se já com a familia imperial. Ouvia a princeza:
-
---Como vae, D. Claudia?
-
---Perfeitamente bem, Serenissima senhora.
-
-E Baptista conversaria com o imperador, a um canto, deante dos olhos
-invejosos que tentariam ouvir o dialogo, á força de os fitarem de
-longe. O marido é que... Não sei que diga do marido relativamente ao
-baile da ilha. Contava lá ir, mas não se acharia a gosto; póde ser que
-traduzissem esse acto por meia conversão. Não é que só fossem liberaes
-ao baile, tambem iriam conservadores, e aqui cabia bem o aphorismo de
-D. Claudia que não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma
-quadrilha.
-
-Santos é que não precisava de ideias para dançar. Não dançaria sequer.
-Em moço dançou muito, quadrilhas, polkas, valsas, a valsa arrastada
-e a valsa pulada, como diziam então, sem que eu possa definir melhor
-a differença; presumo que na primeira os pés não saiam de chão, e na
-segunda não caiam do ar. Tudo isso até os vinte e cinco annos. Então os
-negocios pegaram delle e o metteram naquella outra contradança, em que
-nem sempre se volta ao mesmo logar ou nunca se sáe delle. Santos saiu
-e já sabemos onde está. UItimamente teve a fantasia de ser deputado.
-Natividade abanou a cabeça, por mais que elle explicasse que não queria
-ser orador nem ministro, mas tão sómente fazer da camara um degrau para
-o senado, onde possuia amigos, pessoas de merecimento, e que era eterno.
-
---Eterno? interrompeu ella com um sorriso fino e descorado.
-
---Vitalicio, quero dizer.
-
-Natividade teimou que não, que a posição delle era commercial e
-bancaria. Accrescentou que politica era uma cousa e industria outra.
-Santos replicou, citando o barão de Mauá, que as fundiu ambas. Então a
-mulher declarou por um modo secco e duro que aos sessenta annos ninguem
-começa a ser deputado.
-
---Mas é de passagem; os senadores são edosos.
-
---Não, Agostinho, concluiu a baroneza com um gesto definitivo.
-
-Não conto Ayres, que provavelmente dançaria, a despeito dos annos;
-tambem não falo de D. Perpetua, que nem iria lá. Pedro iria, e é
-natural que dançasse, e muito, não obstante o afinco e paixão dos
-seus estudos. Vivia enfeitiçado pela medicina. No quarto de dormir,
-além do busto de Hyppocrates, tinha os retratos de algumas summidades
-medicas da Europa, muito esqueleto gravado, muita molestia pintada,
-peitos cortados verticalmente para se lhe verem os vasos, cerebros
-descobertos, um cancro de lingua, alguns aleijões, cousas todas que a
-mãe, por seu gosto mandaria deitar fóra, mas era a sciencia do filho, e
-bastava. Contentava-se de não olhar para os quadros.
-
-Quanto a Flora, ainda verde para os meneios de Terpsichore, era
-acanhada ou arrepiada, como dizia a mãe. E isto era o menos; o mais
-era que com pouco se enfadaria, e, se não pudesse vir logo para casa,
-ficaria adoentada o resto do tempo. Note-se que, estando na ilha, teria
-o mar em volta, e o mar era um dos seus encantos; mas, se lhe lembrasse
-o mar, e se consolasse com a esperança de o mirar, advertiria tambem
-que a noite escura tolheria a consolação. Que multidão de dependencias
-na vida, leitor! Umas cousas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se,
-confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si.
-
-Mas donde viria o tedio a Flora, se viesse? Com Pedro no baile, não;
-este era, como sabes, um dos dous que lhe queriam bem. Salvo se ella
-queria principalmente ao que estava em S. Paulo. Conclusão duvidosa,
-pois não é certo que preferisse um a outro. Se já a vimos falar a
-ambos com a mesma sympathia, o que fazia agora a Pedro na ausencia de
-Paulo, e faria a Paulo na ausencia de Pedro, não me faltará leitora que
-presuma um terceiro... Um terceiro explicaria tudo, um terceiro que não
-fosse ao baile, algum estudante pobre, sem outro amigo nem mais casaca
-que o coração verde e quente. Pois nem esse, leitora curiosa, nem
-terceiro, nem quarto, nem quinto, ninguem mais. Uma exquisitona, como
-lhe chamava a mãe.
-
-Não importa; a exquisitona foi ao baile da ilha Fiscal com a mãe e o
-pae. Assim tambem Natividade, o marido e Pedro, assim Ayres, assim a
-demais gente convidada para a grande festa. Foi uma bella ideia do
-governo, leitor. Dentro e fóra, do mar e de terra, era como ura sonho
-veneziano; toda aquella sociedade viveu algumas horas sumptuosas, novas
-para uns, saudosas para outros, e de futuro para todos,--ou, quando
-menos, para a nossa amiga Natividade--e para o conservador Baptista.
-
-Aquella considerava o destino dos filhos,--cousas futuras! Pedro bem
-podia inaugurar, como ministro, o século XX e o terceiro reinado.
-Natividade imaginava outro e maior baile naquella mesma ilha. Compunha
-a ornamentação, via as pessoas e as danças, toda uma festa magna que
-entraria na historia. Tambem ella alli estaria, sentada a um canto,
-sem se lhe dar do peso dos annos, uma vez que visse a grandeza e a
-prosperidade dos filhos. Era assim que enfiara os olhos pelo tempo
-adiante, descontando no presente a felicidade futura, caso viesse a
-morrer antes das prophecias, Tinha a mesma sensação que ora lhe dava
-aquella cesta de luzes no meio da escuridão tranquilla do mar.
-
-A imaginação de Baptista era menos longa que a de Natividade. Quero
-dizer que ia antes do principio do seculo, Deus sabe se antes do fim
-do anno. Ao som da musica, á vista das galas, ouvia umas feiticeiras
-cariocas, que se pareciam com as escossezas; pelo menos, as palavras
-eram analogas ás que saudaram Macbeth:--«Salve, Baptista, ex-presidente
-de provincia!»--«Salve, Baptista, proximo presidente de provincia!»--
-«Salve, Baptista, tu serás ministro um dia!» A linguagem dessas
-prophecias era liberal, sem sombra de solecismo. Verdade é que elle se
-arrependia de as escutar, e forcejava por traduzil-as no velho idioma
-conservador, mas já lhe iam faltando diccionarios. A primeira palavra
-ainda trazia o sotaque antigo: «Salve, Baptista, ex-presidente de
-provincia!» mas a segunda e a ultima eram ambas daquella outra lingua
-liberal, que sempre lhe pareceu lingua de preto. Emfim, a mulher,
-como lady Macbeth, dizia nos olhos o que esta dizia pela bôca, isto
-é, que já sentia em si aquellas futurações. O mesmo lhe repetiu na
-manhã seguinte, em casa. Baptista, com um sorriso disfarçado, descria
-das feiticeiras, mas a memoria guardava as palavras da ilha: «Salve,
-Baptista, proximo presidente!» Ao que elle respondia com um suspiro:
-Não, não, filhas do Diabo...
-
-Ao contrario do que ficou dito atraz, Flora não se aborreceu na ilha.
-Conjecturei mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões
-que lá ficara, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em
-verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a visinhança do mar,
-os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampiões de
-gaz, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis ahi aspectos novos
-que a encantaram durante aquellas horas rapidas.
-
-Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e propria.
-Toda ella compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, corria,
-esquecia-se do resto para se metter comsigo. Tambem invejava a princeza
-imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto poder de
-despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no
-mais recondito do paço, fartando-se de contemplação ou de musica. Era
-assim que Flora definia o officio de governar. Taes ideias passavam e
-tornavam. De uma vez alguem lhe disse, como para lhe dar força: «Toda
-alma livre é imperatriz!»
-
-Não foi outra voz, semelhante á das feiticeiras do pae nem ás que
-falavam interiormente a Natividade, acerca dos filhos. Não; seria pôr
-aqui muitas vozes de mysterio, cousa que, além do fastio da repetição,
-mentiria á realidade dos factos. A voz que falou a Flora saiu da bôca
-do velho Ayres, que se fôra sentar ao pé d'ella e lhe perguntara:
-
---Em que é que está pensando?
-
---Em nada, respondeu Flora.
-
-Ora, o conselheiro tinha visto no rosto da moça a expressão de alguma
-cousa e insistia por ella. Flora disse como pôde a inveja que lhe
-mettia a vista da princeza, não para brilhar um dia, mas para fugir ao
-brilho e ao mando, sempre que quizesse ficar subdita de si mesma. Foi
-então que elle lhe murmurou, como acima:
-
---Toda alma livre é imperatriz.
-
-A phrase era boa, sonora, parecia conter a maior somma de verdade que
-ha na terra e nos planetas. Valia por uma pagina de Plutarcho. Se algum
-politico a ouvisse poderia guardal-a para os seus dias de opposição
-ao governo, quando viesse o terceiro reinado. Foi o que elle mesmo
-escreveu no _Memorial._ Com esta nota: «A meiga creatura agradeceu-me
-estas cinco palavras».
-
-
-
-
-CAPITULO XLIX
-
-
-Taboleta velha
-
-
-Toda a gente voltou da ilha com o baile na cabeça muita sonhou com
-elle, alguma dormiu mal ou nada. Ayres foi dos que acordaram tarde;
-eram onze horas. Ao meio dia almoçou; depois escreveu no _Memorial_ as
-impressões da vespera, notou varias espaduas, fez reparos politicos e
-acabou com as palavras que lá ficam no cabo do outro capitulo. Fumou,
-leu, até que resolveu ir á rua do Ouvidor. Como chegasse á vidraça
-de uma das janellas da frente, viu á porta da confeitaria uma figura
-inesperada, o velho Custodio, cheio de melancolia. Era tão novo o
-espectaculo que alli se deixou estar por alguns instantes; foi então
-que o confeiteiro, levantando os olhos, deu com elle entre as cortinas,
-e emquanto Ayres voltava para dentro, Custodio atravessou a rua e
-entrou-lhe em casa.
-
---Que suba, disse o conselheiro ao criado.
-
-Custodio foi recebido com a benevolencia de outros dias e um pouco mais
-de interesse. Ayres queria saber o que é que o entristecia.
-
---Vim para contal-o a V.-Ex.; é a taboleta.
-
---Que taboleta?
-
---Queira V.-Ex. ver por seus olhos, disse o confeiteiro, pedindo-lhe o
-favor de ir á janella.
-
---Não vejo nada.
-
---Justamente, é isso mesmo. Tanto me aconselharam que fizesse reformar
-a taboleta que afinal consenti, e fil-a tirar por dous empregados. A
-visinhança veiu para a rua assistir ao trabalho e parecia rir de mim.
-Já tinha falado a um pintor da rua da Assembléa; não ajustei o preço
-porque elle queria ver primeiro a obra. Hontem, á tarde, lá foi um
-caixeiro, e sabe V.-Ex. o que me mandou dizer o pintor? Que a taboa
-está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta tinta. Lá fui ás
-carreiras. Não pude convencel-o de pintar na mesma madeira; mostrou-me
-que estava rachada e comida de bichos. Pois cá debaixo não se via.
-Teimei que pintasse assim mesmo; respondeu-me que era artista e não
-faria obra que se estragasse logo.
-
---Pois reforme tudo. Pintura nova em madeira velha não vale nada. Agora
-verá que dura pelo resto da nossa vida.
-
---A outra tambem durava; bastava só avivar as letras.
-
-Era tarde, a ordem fora expedida, a madeira devia estar comprada,
-serrada e pregada, pintado o fundo para então se desenhar e pintar
-o titulo. Custodio não disse que o artista lhe perguntára pela côr
-das letras, se vermelha, se amarella, se verde em cima de branco ou
-vice-versa, e que elle, cautelosamente, indagára do preço de cada côr
-para escolher as mais baratas. Não interessa saber quaes fôram.
-
-Quaesquer que fossem as côres, eram tintas novas, táboas novas, uma
-reforma que elle, mais por economia que por affeição, não quizera
-fazer; mas a affeição valia muito. Agora que ia trocar de taboleta
-sentia perder algo do corpo,--cousa que outros do mesmo ou diverso ramo
-de negocio não comprehenderiam, tal gosto acham em renovar as caras e
-fazer crescer com ellas a nomeada. São naturezas. Ayres ia pensando em
-escrever uma Philosophia das Taboletas, na qual poria taes e outras
-observações, mas nunca deu começo a obra.
-
---V.-Ex. hade-me perdoar o incommodo que lhe trouxe, vindo contar-lhe
-isto, mas V.-Ex. é sempre tão bom commigo, fala-me com tanta amizade,
-que eu me atrevi... Perdoa-me, sim?
-
---Sim, homem de Deus.
-
---Comquanto V.-Ex. approve a reforma da taboleta, sentirá commigo a
-separação da outra, a minha amiga velha, que nunca me deixou, que eu,
-nas noites de luminarias, por S. Sebastião e outras, fazia apparecer
-aos olhos da gente. V.-Ex., quando se aposentou, veiu achal-a no mesmo
-logar em que a deixou por occasião de ser nomeado. E tive alma para me
-separar della!
-
---Está bom, lá vae; agora é receber a nova, e verá como daqui a pouco
-são amigos.
-
-Custodio saiu recuando, como era seu costume, e desceu tropego as
-escadas. Deante da confeitaria deteve-se um instante, para ver o logar
-onde estivera a taboleta velha. Deveras, tinha saudades.
-
-
-
-
-CAPITULO L
-
-
-O tinteiro de Evaristo
-
-
---...Este caso prova que tudo se póde amar muito bem, ainda um pedaço
-de madeira velha. Creiam que não era só a despeza que elle naturalmente
-sentia, eram tambem saudades. Ninguem se despega assim de um objecto
-tão intimo, que faz parte integral da casa e da pelle, porque a
-taboleta não foi sequer arriada um dia. Custodio não teve occasião de
-ver se estava estragada. Vivia alli como as portadas e a parede.
-
-Era ao jantar, em Botafogo. Só quatro pessoas, as duas irmãs, Santos e
-Ayres. Pedro fôra jantar a S. Clemente, com a familia Baptista.
-
-D. Perpetua approvou os sentimentos do confeiteiro. Citou, a proposito,
-o tinteiro de Evaristo. A irmã sorriu para o marido, e este para a
-mulher, como se dissessem: «lá vem elle!» Era um tinteiro que servira
-ao famoso jornalista do primeiro reinado e da Regencia, obra simples,
-feita de barro, egual aos tinteiros que a gente chã comprava nas lojas
-de papel daquelle e deste tempo. O sogro de D. Perpetua, que lh'o dera
-em lembrança, tivera um da mesma edade, massa e feição.
-
---Veiu assim de mão em mão parar ás minhas. Não chega aos tinteiros
-do mano Agostinho nem de Natividade, que são luxuosos, mas tem grande
-valor para mim.
-
---Sem duvida, concordou Ayres, valor historico e politico.
-
---Meu sogro dizia que delle sairam os grandes artigos da _Aurora._ A
-falar verdade, eu nunca li taes artigos, mas meu sogro era homem de
-verdade. Conhecia a vida de Evaristo, por ouvil-a a outros, e fazia-lhe
-louvores que não acabavam mais...
-
-Natividade buscou desviar a conversação para o baile da vespera. Tinham
-já falado delle, mas não achou outro derivativo. Entretanto, o tinteiro
-ainda ficou algum tempo. Não era só uma das lembranças de D. Perpetua,
-reliquia de familia, era tambem uma de suas ideias. Prometteu mostral-o
-ao conselheiro. Elle prometteu vel-o com muito gosto. Confessou que
-tinha veneração aos objectos de uso dos grandes homens. Emfim, o jantar
-acabou, e elles passaram ao salão. Ayres, falando da enseada:
-
---Aqui está uma obra, que é mais velha que o tinteiro do Evaristo e a
-taboleta do Custodio, e, não obstante, parece mais moça, não é verdade,
-D. Perpetua? A noite é clara e quente; podia ser escura e fria, e o
-effeito seria o mesmo. A enseada não differe de si. Talvez os homens
-venham algum dia atulhal-a de terra e pedras para levantar casas em
-cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corrida de
-cavallos. Tudo é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade,
-barão, é que morreremos antes.
-
---Nao fale em morte, conselheiro.
-
---A morte é uma hypothese, redarguiu Ayres, talvez uma lenda. ninguem
-morre de uma boa digestão, e os seus charutos são deliciosos.
-
---Estes são novos. Perecem-lhe bons?
-
---Deliciosos.
-
-Santos estimou ouvir este louvor; achava-lhe uma intenção directa á
-sua pessoa, aos seus meritos, ao seu nome, á posição que tinha na
-sociedade, á casa, á chacara, ao Banco, aos colletes. É talvez muito;
-seria um modo emphatico de explicar a força da ligação delle aos
-charutos. Valiam pela taboleta e pelo tinteiro, com a differença que
-estes significavam só affeicção e veneração, e aquelles, valendo pelo
-sabor e pelo preço, tinham a superioridade do milagre, pela reproducção
-de todos os dias.
-
-Taes eram as suspeitas que vagavam no cerebro de Ayres, emquanto elle
-olhava mansamente para o amphytrião. Ayres não podia negar a si mesmo a
-aversão que este lhe inspirava. Não lhe queria mal, de certo; podia até
-querer-lhe bem, se houvesse um muro entre ambos. Era a pessoa, eram as
-sensações, os dizeres, os gestos, o riso, a alma toda que lhe fazia mal.
-
-
-
-CAPITULO LI
-
-
-Aqui presente
-
-
-Perto das nove horas, ou logo depois, chegou Pedro com o casal Baptista
-e Flora.
-
---Vimos trazer o seu menino, disse Baptista a Natividade.
-
---Obrigado, doutor, acudiu Santos, mas elle je não está em edade de
-se perder por essas ruas, e, se se perder, acha-se logo, accrescentou
-sorrindo.
-
-Natividade não gostou da graça, tratando-se do filho e ao pé della. Era
-talvez excesso de pudor. Ha muito excesso nesse sentido, e o acertado
-é perdoal-o. Ha tambem excessos contrarios, condescendencias faceis,
-pessoas que entram com prazer na troca de allusões picantes. tambem se
-devem perdoar. Em summa, o perdão chega ao céu. Perdoai-vos uns aos
-outros, é a lei do Evangelho.
-
-Elle, o rapaz, é que não ouviu nada; interrompera a conversa que trazia
-com Flora, e trocadas algumas palavras, os dous fôram reatar o fio a um
-canto. Ayres reparou na attitude de ambos; ninguem mais lhes prestava
-attenção. Ao cabo, a conversa era em voz surda; não os poderiam ouvir.
-Ella escutava, elle falava; depois era o contrario, ella é que falava,
-elle é que ouvia, tão absortos que pareciam não attender a ninguem, mas
-attendiam. Possuiam o sexto sentido dos conspiradores e dos namorados.
-Que conversassem de amores, é possivel; mas que conspiravam, é certo.
-Quanto á materia da conspiração, podereis sabel-a depois, brevemente,
-daqui a um capitulo. O proprio Ayres não descobriu nada, por mais que
-quizesse fartar os olhos naquelle dialogo de mysterios. Persuadiu-se
-que não era grave, porque elles sorriam com frequencia; mas podia
-ser intimo, escondido, pessoal, e acaso extranho. Suppõe um fio de
-anecdotas ou uma historia comprida, cousa alheia; ainda assim podia ser
-delles sómente, porque ha estados da alma em que a materia da narração
-é nada, o gosto de a fazer e de a ouvir é que é tudo. Tambem podia ser
-isto.
-
-Vêde, porém, como a natureza encaminha as cousas minimas ou maximas,
-mormente se a fortuna a ajuda. A conversação tão doce, ao que parecia,
-começou por um enfado. A causa foi uma carta de Paulo, escripta ao
-irmão, e que este se lembrou de mostrar a Flora, dizendo-lhe que tambem
-a mostrára á mãe, e a mãe se zangára muito.
-
---Com o senhor?
-
---Com Paulo.
-
---Mas que dizia a carta?
-
-Pedro leu-lhe o ponto principal, que era quasi toda a carta; falava da
-questão militar. Já havia a «questão militar», um conflicto de generaes
-e ministros, e a linguagem de Paulo era contra os ministros.
-
---Mas porque é que o senhor foi mostrar essa carta a sua mãe?
-
---Mamãe quiz saber o que é que elle me dizia.
-
---E sua mãe zangou-se, ahi está; vae talvez reprehendel-o.
-
---Tanto melhor; Paulo precisa ser emendado; mas, diga-me, porque é que
-a senhora defende sempre a meu irmão?
-
---Para ter o direito de defender tambem ao senhor.
-
---Então elle já lhe tem falado mal de mim?
-
-Flora quiz dizer que sim, depois que não, afinal calou. Desconversou,
-perguntando porque elles se davam mal. Pedro negou que se dessem mal.
-Ao contrario, viviam bem. Não teriam as mesmas opiniões, e tambem podia
-ser que tivessem o mesmo gosto... Daqui a dizer que ambos a amavam era
-uma virgula; Pedro pingou o ponto final. Esse astuto era tambem timido.
-Mais tarde, comprehendeu que, calando, andou melhor, e deu a si mesmo o
-applauso da escolha; mas era falso, não escolhera nada. Não digo isto
-para fazel-o desmerecer; sim, porque o medo acerta muitas vezes, e é
-mister deixar aqui esta reflexão.
-
-Veiu a zanga. Flora não replicou mais nada, e, por seu gosto, não teria
-jantado, a tal ponto sentia piedade do outro. Felizmente, o outro era
-este mesmo, aqui presente, com os olhos presentes, as mãos presentes,
-as palavras presentes. Não tardou que a zanga fugisse deante da graça,
-da brandura e da adoração. Bem-aventurados os que ficam, porque elles
-serão compensados.
-
-
-
-CAPITULO LII
-
-
-Um segredo
-
-
-Eis agora a materia da conspiração. Na rua, ao virem de S. Clemente,
-foi que Pedro, gastado o melhor do tempo com a carta e o jantar, pôde
-revelar á moça um segredo:
-
---Titia disse lá em casa que D. Claudia lhe contára em segredo (não
-diga nada) que seu pae vae ser nomeado presidente de provincia.
-
---Não sei nada disso, mas não creio, porque papae é conservador.
-
---D. Claudia disse a titia que elle é liberal, quasi radical. Parece
-que a presidencia é certa; ella pediu segredo, e titia, quando nos
-contou, tambem pediu segredo. Eu tambem lhe peço que não diga nada, mas
-é verdade.
-
---Verdade como? Papae não vae com liberaes; o senhor não sabe como
-papae é conservador. Se elle defende os liberaes é porque é tolerante.
-
---Se a provincia fosse a do Rio de Janeiro, eu gostaria, porque não era
-preciso ir morar na Praia Grande, e se elle fosse, a viagem é só de
-meia hora, eu podia ir lá todos os dias.
-
---Era capaz?
-
---Apostemos.
-
-Flora, depois de um instante:
-
---Para que, se não ha presidencia?
-
---Supponha que ha.
-
---É preciso suppôr muito,--que ha presidencia e que a provincia é a do
-Rio. Não, não ha nada.
-
---Então supponha só metade,--que ha presidencia e que é Matto-Grosso.
-
-Flora teve um calefrio. Sem admittir a nomeação, tremeu ao nome da
-provincia. Pedro lembrou ainda o Amazonas, Pará, Piauhy... Era o
-infinito, mormente se o pae fizesse boa administração, porque não
-voltaria tão cedo. Já agora a moça resistia menos, achava possivel e
-abominavel, mas dizia isto para si, dentro do coração. De repente,
-Pedro, quasi estacando o passo:
-
---Se elle fôr, eu peço ao governo o logar de secretario e vou tambem.
-
-A luz intermittente das lojas reflectindo no resto da moça, á medida
-que elles iam passando por ellas, ajudava a dos lampiões da rua, e
-mostrava a emoção daquella promessa. Sentia-se que o coração de Flora
-devia estar batendo muito. Em breve, porém, começou ella a pensar em
-outra cousa. Natividade não consentiria nunca; depois, um estudante...
-Não podia ser. Pensou em algum escandalo. Que elle fugisse, embarcasse,
-fosse atraz della...
-
-Tudo isto era visto ou pensado em silencio. Flora não se admirava
-de pensar tanto e tão atrevidamente; era como o peso do corpo, que
-não sentia: andava, pensava, como transpirava. Não calculou sequer
-o tempo que ia gastando em imaginar e desfazer ideias. Que isto lhe
-désse mais prazer que desprazer, é certo. Ao pé della, Pedro ia
-naturalmente cuidando, com os olhos nos pés, e os pés nas nuvens. Não
-sabia que dissesse no meio de tão longo silencio. Entretanto, a solução
-parecia-lhe unica. Já não pensava na presidencia do Rio. Queria-se com
-ella, no ponto mais remoto do imperio, sem o irmão. A esperança de se
-desterrarem assim de Paulo verdejou na alma de Pedro. Sim, Paulo não
-iria tambem; a mãe não se deixaria ficar desamparada. Que perdesse um
-filho, vá; mas ambos...
-
-A quem quer que este final do monologo pareça egoista, peço-lhe
-pelas almas dos seus parentes amigos, que estão no céu, peço-lhe
-que considere bem as causas. Considere o estado da alma do rapaz,
-a contiguidade da moça, as raizes e as flores da paixão, a propria
-edade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma terra. Considere mais
-a vontade do céu, que vela por todas as creaturas que se querem,
-salvo se uma só é que quer a outra, porque então o céu é um abysmo de
-iniquidades, e não lhe importe esta imagem. Considere tudo, amigo;
-deixe-me ir contando só e contando mal o que se passou naquelle curto
-transito entre as duas casas. Quando lá chegaram, falavam de bôca.
-
-Em cima, como viste, continuaram a falar, até que o assumpto da
-presidencia voltou. Flora notou então a cautelosa insistencia com
-que Ayres olhava para elles, como se buscasse adivinhar a materia da
-conversação. Sentia que não estivesse alli tambem, ouvindo e falando,
-finalmente promettendo fazer alguma cousa por ella. Ayres podia,
-sim,--era seu amigo e todos o tinham em grande conta,--podia intervir e
-destruir o projecto da presidencia.
-
-Sem querer nem saber, diria isto mesmo com os olhos ao velho diplomata.
-Retirava-os, mas elles iam de si mesmos repetir o monologo, e acaso
-perguntar alguma cousa que Ayres não percebia e devia ser interessante.
-Póde ser que reflectissem a angustia ou o que quer que era que lhe doia
-dentro. Póde ser; a verdade é que Ayres começou a ficar curioso, e tão
-depressa Pedro deixou o logar para acudir ao chamado da mãe, deixou
-elle Natividade para ir falar á moça.
-
-Flora, já de pé, mal teve tempo de trocar duas palavras, dessas
-que se não podem interromper sem dôr ou prurido, ao menos. Ayres
-perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar.
-
---Não, senhor.
-
---Pois sei; adivinhei agora mesmo que me quer dizer um segredo.
-
-Flora ficou espantada. Não querendo negar nem confessar, respondeu-lhe
-que só adivinhára metade.
-
---A outra é...?
-
---A outra é pedir-lhe um obsequio de amizade.
-
---Peça.
-
---Não, agora não, já nos vamos embora; mamãe e papae estão fazendo as
-despedidas. Só se fôr na rua. Quer vir comnosco a S. Clemente?
-
---Com o maior prazer.
-
-
-
-
-CAPITULO LIII
-
-
-De confidencias
-
-
-Entenda-se que não. Não era com prazer maior nem menor. Era imposição
-de sociedade, desde que Flora o pedira, não sei se discretamente. Que
-a isto ligasse tal ou qual desejo de saber algum segredo, não serei
-eu que o negue, nem tu, nem elle mesmo. Ao cabo de alguns instantes,
-Ayres ia sentindo como esta pequena lhe acordava umas vozes mortas,
-falhadas ou não nascidas, vozes de pae. Os gemeos não lhe deram um dia
-a mesma sensação, senão porque eram filhos de Natividade. Aqui não era
-a mãe, era a mesma Flora, o seu gesto, a sua fala, e por ventura a sua
-fatalidade.
-
---Mas quer-me parecer que desta vez ella está presa; escolheu emfim,
-pensou Ayres.
-
-Flora falou-lhe da presidencia, mas não lhe pediu segredo, como as
-outras pessoas; confessou-lhe que não queria ir daqui, fosse para onde
-fosse, e acabou dizendo que tudo estava nas mãos delle. Só elle podia
-despersuadir o pae de acceitar a presidencia. Ayres achou tão absurdo
-este pedido que esteve quasi a rir, mas susteve-se bem. A palavra de
-Flora era grave e triste. Ayres respondeu, com brandura, que não podia
-nada.
-
---Póde muito, todos attendem aos seus conselhos.
-
---Mas eu não dou conselhos a ninguem, acudiu Ayres. Conselheiro é um
-titulo que o imperador me conferiu, poi achar que o merecia, mas não
-obriga a dar conselhos; a elle mesmo só lh'os darei, se m'os pedir.
-Imagine agora se eu vou á casa de um homem ou mando chamal-o á minha
-para lhe dizer que não seja presidente de provincia. Que razão lhe
-daria?
-
-Não tinha razões a moça; tinha necessidade. Appellou para os talentos
-do ex-ministro, que acharia uma razão boa. Nem se precisavam razões,
-bastava o falar delle, a arte que Deus lhe dera de agradar a toda a
-gente, de a arrastar, de influir, de obter o que quizesse. Ayres viu
-que ella exagerava para o attrair, e não lhe pareceu mal. Não obstante,
-contestou taes meritos e virtudes. Deus não lhe dera arte nenhuma,
-disse elle, mas a moça ia sempre affirmando, em tal maneira que Ayres
-suspendeu a contestação, e fez uma promessa.
-
---Vou pensar; amanhã ou depois, se achar algum recurso, tentarei o
-negocio.
-
-Era um palliativo. Era tambem um modo de fazer cessar a conversação,
-estando a casa proxima. Não contava com o pae de Flora, que á fina
-força lhe quiz mostrar, áquella hora, uma novidade, aliás uma velharia,
-um documento de valor diplomatico. «Venha, suba, cinco minutos apenas,
-conselheiro.»
-
-Ayres suspirou em segredo, e curvou a cabeça ao Destino. Não se luta
-contra elle, dirás tu; o melhor é deixar que pegue pelos cabellos e nos
-arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos. Baptista nem lhe
-deu tempo de reflectir; era todo desculpas.
-
---Cinco minutos e está livre de mim, mas verá que lhe pago o sacrificio.
-
-O gabinete era pequeno; poucos livros e bons, os moveis graves, um
-retrato de Baptista com a farda de presidente, um almanaque sobre a
-mesa, um mappa na parede, algumas lembranças do governo da provincia.
-Emquanto Ayres circulava os olhos, Baptista foi buscar o documento.
-Abriu uma gaveta, tirou uma pasta, abriu a pasta, tirou o documento,
-que não estava só, mas com outros. Conhecia-se logo por ser um papel
-velho, amarello, em partes roido. Era uma carta do conde de Oeyras,
-escripta ao ministro de Portugal na Hollanda.
-
---É o dia das antiquidades, pensou Ayres; a taboleta, o tinteiro, este
-autographo...
-
---A carta é importante, mas longa, disse Baptista, não podemos lel-a
-agora. Quer leval-a?
-
-Não lhe deu tempo de responder; pegou de uma sobrecarta grande e metteu
-dentro o manuscripto, com esta nota por fóra: «Ao meu excellentissimo
-amigo conselheiro Ayres.» Emquanto elle fazia isto, Ayres passava
-os olhos pela lombada de alguns livros. Entre elles havia dous
-_Relatorios_ da presidencia de Baptista, ricamente encadernados.
-
---Não me attribua esse luxo, acudiu o ex-presidente; foi um mimo da
-secretaria do Governo que nunca fez isto ninguem. Era um pessoal muito
-distincto.
-
-E foi á estante e tirou um dos relatorios para ser melhor visto.
-Aberto, mostrou a impressão e as vinhetas; lido, podia mostrar o estylo
-por um lado, e, por outro, a prosperidade das finanças. Baptista
-limitou-se aos algarismos totaes: despeza, mil duzentos e noventa e
-quatro contos, setecentos e noventa mil reis; receita, mil, quinhentos
-quarenta e quatro contos duzentos e nove mil reis; saldo, duzentos e
-quarenta e nove contos, quatrocentos e dezenove mil reis. Verbalmente,
-explicou o saldo, que alcançou pela modificação de alguns serviços, e
-por um pequeno augmento de impostos. Reduziu a divida provincial, que
-achou em trezentos e oitenta e quatro contos, e deixou em trezentos e
-cincoenta contos. Fez obras novas e concertos importantes; iniciou uma
-ponte...
-
---A encadernação corresponde á materia, disse Ayres para concluir a
-visita.
-
-Baptista fechou o livro, e redarguiu que já agora não iria sem lhe
-resolver uma consulta.
-
---Tudo ás avessas, concluiu; eu de manhã resolvo consultas, agora á
-noite sou eu que as faço.
-
-Tal foi o introito, mas do introito ao Credo ha sempre um passo
-estirado, e o principal da missa para elle estava no Credo. Não
-achando o texto do missal, explicou-lhe um sinete, uma penna de ouro,
-um exemplar do Codigo Criminal. O Codigo, posto que velho, valia
-por trinta novos, não que tivesse melhor rosto, se não que trazia
-annotações manuscriptas de um grande jurista, Fulano. Tendo passado
-longa parte da vida no exterior, o conselheiro mal conhecera o autor
-das notas, mas desde que ouviu chamar-lhe grande, assumiu a expressão
-adequada. Pegou do codigo com cuidado, leu algumas das notas com
-veneração.
-
-Durante esse tempo, Baptista ia criando folego. Compoz uma phrase para
-iniciar a consulta, e só esperava que Ayres fechasse o livro para
-soltal-a; mas o outro ia demorando o exame do Codigo. Podia ser uma
-pontinha de malignidade, mas não era. Os olhos de Ayres tinham uma
-faculdade particular, menos particular do que parece, porque outros
-a possuirão calados. Vinha a ser que elles não saíam da pagina, mas
-em verdade já lhe prestava menos attenção; o tempo, a gente, a vida,
-cousas passadas, surdiam a espial-o por detraz do livro com que tinham
-vivido, e Ayres ia tornando a ver um Rio de Janeiro que não era este,
-ou apenas o fazia lembrado. Nem cuides que eram só reos e juizes, era
-o passeio, a rua, a festa, velhos patuscos e mortos, rapazes frescos
-e agora enferrujados como elle. Baptista tossiu. Ayres voltou a si e
-leu alguma das notas que o outro devia trazer de cór, mas eram tão
-profundas! Emfim, mirou a encadernação, achou o livro bem conservado,
-fechou-o e restituiu-o á bibliotheca.
-
-Baptista não perdeu um instante, correu inmediato ao assumpto, com medo
-de o ver pegar em outro livro.
-
---Confesso-lhe que tenho o temperamento conservador.
-
---Tambem eu guardo presentes antigos.
-
---Não é isso: refiro-me ao temperamento politico. Verdadeiramente ha
-opiniões e temperamentos. Um homem póde muito bem ter o temperamento
-opposto ás suas ideias. As minhas ideias, se as cotejarmos com os
-programmas politicos do mundo, são antes liberaes e algumas liberrimas
-O suffragio universal por exemplo, é para mim a pedra augular de um bom
-regimen representativo. Ao contrario, os liberaes pediram e fizeram
-o voto censitario. Hoje estou mais adiantado que elles; acceito o
-que está, por ora. mas antes do fim do seculo é preciso rever alguns
-artigos da Constituição, dous ou trez.
-
-Ayres escondia o espanto... Convidado assim áquella hora... Uma
-profissão de fé politica... Baptista insistia na distincção do
-temperamento e das ideias. Alguns amigos velhos, que conheciam esta
-dualidade moral e mental, é que teimavam em querer que elle acceitasse
-uma presidencia; elle não queria. Francamente, que lhe parecia ao
-conselheiro?
-
---Francamente, acho que não tem razão.
-
---Que não tenho razão em quê?
-
---Em recusar.
-
---Propriamente, não recusei nada; ha um grande trabalho neste sentido,
-e o meu desejo,--accrescentou com mais clareza,--é que os bons amigos
-sagazes me digam se tal cousa é acertada; não me parece que seja...
-
---Eu penso que é.
-
---De maneira que, se o caso fosse com o senhor...
-
---Commigo não podia ser. Sabe que eu já não sou deste mundo, e
-politicamente nunca figurei em nada. A diplomacia tem este effeito que
-separa o funccionario dos partidos e o deixa tão alheio a elles, que
-fica impossivel de opinar com verdade, ou, quando menos, com certeza.
-
---Mas não me disse que acha...
-
---Acho.
-
---... Que posso acceitar uma presidencia, se me offerecerem?
-
---Póde; uma presidencia acceita-se.
-
---Pois então saiba tudo; é a unica pessoa de sociedade com quem me abro
-assim francamente. A presidencia foi-me offerecida.
-
---Acceite, acceite.
-
---Está acceita.
-
---Já?
-
---O decreto assigna-se sabbado.
-
---Então acceite tambem os meus parabens.
-
---Propriamente, a lembrança não foi do ministerio; ao contrario, o
-ministerio não se resolveu antes de saber se effectivamente fiz uma
-eleição contra os liberaes, ha annos; mas logo que soube que por não
-os perseguir é que fui demittido, acceitou a indicação de chefes
-politicos, e recebi pouco depois este bilhete.
-
-O bilhete estava no bolso, dentro da carteira. Qualquer outro,
-alvoroçado com a nomeação proxima, levaria tempo a achar o bilhete
-no meio dos papeis; mas Baptista possuia o tacto dos textos. Tirou
-a carteira, abriu-a descançado e com os dedos saccou o bilhete do
-ministro convidando-o a uma conversação. Na conversação ficou tudo
-assentado.
-
-
-
-
-CAPITULO LIV
-
-
-Emfim, só!
-
-
-Emfim, só! Quando Ayres se achou na rua, só, livre, solto, entregue
-a si mesmo, sem grilhões nem considerações, respirou largo. Fez um
-monologo, que d'ahi a pouco interrompeu por se lembrar de Flora. Tudo
-o que ella não quizera ia acontecer; lá ia o pae a uma presidencia, e
-ella com elle, e a recente inclinação ao joven Pedro vinha parar a meio
-caminho. Entretanto, não se arrependia do que dissera e ainda menos do
-que não dissera. Os dados estavam lançados. Agora era cuidar de outra
-cousa.
-
-
-
-CAPITULO LV
-
-
-«A mulher é a desolação do homem»
-
-
-Ao despedir-se, fez Ayres uma reflexão, que ponho aqui, para o caso
-de que algum leitor a tenha feito tambem. A reflexão foi obra de
-espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem tão difficil em ceder
-ás instigações da esposa (Vae-te, Satanaz, etc.; capitulo XLVII)
-deitou tão facilmente o habito ás ortigas. Não achou explicação,
-nem a acharia, se não soubesse o que lhe disseram mais tarde, que
-os primeiros passos da conversão do homem fôram dados pela mulher.
-«A mulher é a desolação do homem», dizia não sei que philosopho
-socialista, creio que Proudhon. Foi ella, a viuva da presidencia, que
-por meios varios e secretos, tramou passar a segundas nupcias. Quando
-elle soube do namoro, já os banhos estavam corridos; não havia mais que
-consentir e casar tambem.
-
-Ainda assim, custou-lhe muito. O clamor dos seus aturdia-lhe de antemão
-os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a esposa servia-lhe de guia e
-amparo, e, com poucas horas, Baptista viu claro e ficou firme.
-
---Estamos á porta do terceiro reinado, ponderou D. Claudia, e
-certamente o partido liberal não deixa tão cedo o poder. Os seus homens
-são válidos, a inclinação dos tempos é para o liberalismo, e você
-mesmo...
-
---Sim, eu... suspirou Baptista.
-
-D. Claudia não suspirou, cantou victoria; a reticencia do marido era
-a primeira figura de acquiescencia. Não lhe disse isto assim, nu e
-cru; tambem não revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem
-da razão fria e da vontade certa. Baptista, sentindo-se apoiado,
-caminhou para o abysmo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça,
-nem com ella. Posto que a vontade que trazia fosse de emprestimo, não
-lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Dahi a
-autoria de que se investiu e acabou confessando.
-
-Tal foi a conclusão de Ayres, segundo se lê no _Memorial._ Tal será a
-do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui lhe poupei o trabalho de
-Ayres; não o obriguei a achar por si o que, de outras vezes, é obrigado
-a fazer. O leitor attento, verdadeiramente ruminante, tem quatro
-estomagos no cerebro, e por elles faz passar e repassar os actos e os
-factos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.
-
-
-
-
-CAPITULO LVI
-
-
-O golpe
-
-
-O dia seguinte trouxe á menina Flora a grande novidade. Sabbado seria
-assignado o decreto; a presidencia era no norte. D. Claudia não lhe viu
-a pallidez, nem sentiu as mãos frias, continuou a falar do caso e do
-futuro, até que Flora, querendo sentar-se, quasi caiu. A mãe acudiu-lhe:
-
---Que é? Que tens?
-
---Nada, mamãe não é nada.
-
-A mãe fel-a sentar-se.
-
---Foi uma tonteira, passou.
-
-D. Claudia deu-lhe a cheirar um pouco de vinagre, esfregou-lhe os
-pulsos; Flora sorriu.
-
---Este sabbado? perguntou.
-
---O decreto? Sim, este sabbado. Mas não digas por ora a ninguem; são
-segredos de gabinete. É cousa certa; emfim, alguem nos fez justiça;
-provavelmente o imperador. Amanhã irás commigo a algumas encommendas.
-Faze uma lista do que precisas.
-
-Flora precisava não ir e só pensava nisso. Uma vez que o decreto
-estava prestes a ser assignado, não havia já desaconselhar a nomeação;
-restava-lhe a ella ficar. Mas como? Todos os sonhos são proprios ao
-somno de uma creança. Não era facil, mas não seria impossivel. Flora
-cria tudo; não tirava o pensamento de Ayres, e já agora de Natividade
-tambem. Os dous podiam fazel-o, ou antes os trez, se contardes tambem
-o barão, e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro as cinco
-estrellas do Cruzeiro, as nove musas, anjos e archanjos, virgens e
-martyres... Juntai-os todos, e todos poderiam fazer esta simples acção
-de impedir que Flora fosse para a provincia. Taes eram as esperanças
-vagas, rapidas, que corriam a substituir as tristezas do rosto da moça,
-emquanto a mãe, attribuindo o effeito ao vinagre, ajustava a rolha de
-vidro ao frasco, e restituía o frasco ao toucador.
-
---Faze uma lista do que precisas, repetiu á filha.
-
---Não, mamãe, eu não preciso nada.
-
---Precisas, sim, eu sei o que precisas.
-
-
-
-
-CAPITULO LVII
-
-
-Das encommendas
-
-
-Não escreveria este capitulo, se elle fosse propriamente das
-encommendas, mas não é. Tudo são instrumentos nas mãos da Vida. As duas
-sairam de casa, urna lepida, a outra melancolica, e lá fôram a escolher
-uma quantidade de objectos de viagem e de uso pessoal. D. Claudia
-pensava nos vestidos da primeira recepção e de visitas; tambem ideou o
-do desembarque. Tinha ordem do marido para comprar algumas gravatas. Os
-chapeos, entretanto, fôram o principal artigo da lista. Ao parecer de
-D. Claudia, o chapeo da mulher é que dava a nota verdadeira do gosto,
-das maneiras e da cultura de uma sociedade. Não valia a pena acceitar
-uma presidencia para levar chapeos sem graça, dizia ella sem convicção,
-porque intimamente pensava que a presidencia dá graça a tudo.
-
-Estavam justamente na loja de chapeos, rua do Ouvidor, sentadas,
-os olhos fóra e longe, quando a verdadeira materia deste capitulo
-appareceu. Era o gemeo Paulo, que chegara pelo trem nocturno, e sabendo
-que ellas andavam a compras, viera procural-as.
-
---O senhor! exclamaram.
-
---Cheguei esta manhã.
-
-Flora tinha-se levantado, com o alvoroço que lhe deu a vista inesperada
-de Paulo. Elle correu a ellas, apertou-lhes as mãos, indagou da
-saúde, e reconheceu que pareciam vender saúde e alegria. A impressão
-era exacta; Flora tinha agora uma agitação, que contrastava cora o
-abatimento daquella triste manhã, e um riso que a fazia alegre.
-
---Tive sempre noticias das senhoras, que mamãe me dava, e Pedro tambem,
-ás vezes. Da senhora, continuou elle falando a D. Claudia, recebi duas
-cartas. Como vae o doutor?
-
---Bem.
-
---Ora, em fim, cá estou!
-
-E Paulo dividia os olhos com as duas, mas a melhor parte ia natural
-mente para a filha. Pouco depois era todo e pouco para esta. D.
-Claudia voltára á escolha dos chapeos, e Flora, que até então opinava
-de cabeça, perdeu este ultimo gesto. Paulo sentou-se na cadeira que
-um empregado lhe trouxe, e ficou a olhar para a moça; falavam de
-cousas minimas, alheias ou proprias, tudo o que bastasse para os reter
-disfarçadamente na contemplação um do outro. Paulo viera o mesmo que
-fôra, o mesmo que Pedro, sempre com alguma nota particular, que ella
-não podia achar claramente, menos ainda definir. Era um mysterio; Pedro
-teria o seu.
-
-D. Claudia interrompia-os, de vez em quando, a proposito da escolha;
-mas, tudo acaba, até a escolha de chapeos. Foram d'alli aos vestidos.
-Paulo, não sabendo da presidencia, estimou esta casualidade para as
-acompanhar de loja em loja. Contava anecdotas de S. Paulo, sem grande
-interesse para Flora; as noticias que ella lhe dava acerca das amigas,
-eram mais ou menos dispensaveis. Tudo valia pelos dous interlocutores.
-A rua ajudava aquella absorpção reciproca; as pessoas que iam ou
-vinham, damas ou cavalheiros, parassem ou não, serviam de ponto de
-partida a alguma digressão. As digressões entraram a dar as mãos ao
-silencio, e os dous seguiam com os olhos espraiados e a cabeça alta,
-elle mais que ella, porque uma pontinha de melancolia começava a
-espancar do rosto da moça a alegria da hora recente.
-
-Na rua Gonçalves Dias, indo para o largo da Carioca, Paulo viu dous
-ou trez politicos de S. Paulo, republicanos, parece que fazendeiros.
-Havendo-os deixado lá, admirou-se de os ver aqui, sem advertir que a
-ultima vez que os vira ia já a alguma distancia.
-
---Conhecem? perguntou ás duas.
-
-Não, não os conheciam. Paulo disse-lhes os nomes. A mãe talvez fizesse
-alguma pergunta politica, mas deu por falta de um objecto, advertiu que
-o não comprára, e propoz voltarem atraz. Tudo era acceito por ambos,
-com docilidade, apesar do veu de tristeza, que se ia cerrando mais no
-rosto da moça. Aquellas encommendas tinham já um ar de bilhetes de
-passagem, não tardava o paquete, iam correr ás malas, aos arranjos, ás
-despedidas, ao camarote de bordo, ao enjôo de mar, e áquelle outro de
-mar e terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Dahi o silencio
-crescente, que Paulo mal podia vencer, de quando em quando; e comtudo
-ella estava bem com elle, gostava de lhe ouvir dizer cousas soltas,
-algumas novas, outras velhas, recordações anteriores á partida daqui
-para S. Paulo.
-
-Assim se deixaram ir, guiados por D. Claudia, quasi esquecida delles.
-No meio daquella conversação truncada, mais entretida por elle que por
-ella, Paulo sentia impetos de lhe perguntar, ao ouvido, na rua, se
-pensára nelle, ou, ao menos, sonhára com elle algumas noites. Ouvindo
-que não, daria espansão á colera, dizendo-lhe os ultimos improperios;
-se ella corresse, correria tambem, até pegal-a pelas fitas do chapeo ou
-pela manga do vestido, e, em vez de a esganar, dançaria com ella uma
-valsa de Strauss ou uma polka de ***. Logo depois, ria destes delirios,
-porque, a despeito da melancolia da moça, os olhos que ella erguia
-para elle eram de quem sonhou e pensou muito na pessoa, e agora cuida
-de descobrir se é a mesma do sonho e do pensamento. Assim lhe parecia
-ao estudante de direito; pelo que, quando elle desviava o rosto, era
-para repetir a experiencia e tornar a ver-lhe os olhos aguçados do
-mesmo espirito critico e de livre exame. Quanto ao tempo que os trez
-gastaram nessa agitação de compras e escolhas, visões e comparações,
-não ha memoria delle, nem necessidade. Tempo é propriamente officio de
-relogio, e nenhum delles consultou o relogio que trazia.
-
-
-
-
-CAPITULO LVIII
-
-
-Matar saudades
-
-
-Ora bem, acabas de ver como Flora recebeu o irmão de Pedro; tal qual
-recebia o irmão de Paulo. Ambos eram apostolos. Paulo achava-a agora
-mais bonita que alguns mezes antes, e disse-lh'o n'essa mesma tarde em
-S. Clemente, com esta palavra familiar e cordial:
-
---A senhora enfeitou muito.
-
-Flora julgava a mesma cousa, relativamente ao estudante de direito;
-calou a impressão. Ou a tristeza que trazia, ou qualquer outra sensação
-particular, fel-a acanhada, a principio. Não tardou, porém, que achasse
-outra vez o gemeo no gemeo, e que elle e ella matassem saudades.
-
-Como é que se matam saudades não é cousa que se explique de um modo
-claro. Elle não ha ferro nem fogo, corda nem veneno, e todavia as
-saudades expiram, para a resurreição, alguma vez antes do terceiro dia.
-Ha quem creia que, ainda mortas, são doces, mais que doces. Esse ponto,
-no nosso caso, não póde ser ventilado, nem eu quero desenvolvel-o, como
-aliás cumpria.
-
-As saudades morreram, não todas, nem logo, logo, mas em parte e tão
-vagarosamente que Paulo acceitou o convite de lá jantar. Era o dia da
-chegada; Natividade quizera tel-o comsigo á mesa, ao pé de Pedro, para
-cimentar a pacificação começada pela distancia. Paulo nem se deu ao
-trabalho de lá mandar; deixou-se estar com a bella creatura, entre o
-pae e a mãe que pensavam em outra cousa, proxima no tempo e remota no
-espaço. Sabendo o que era, Flora passava do prazer ao tedio, e Paulo
-não entendia essa alternação de sentimentos. De quando em quando, vendo
-a mãe agitada e preoccupada, mas com outra expressão, Paulo interrogava
-a filha. Em vez de dar uma explicação qualquer, Flora passou uma vez a
-mão pelos olhos e ficou alguns instantes sem os descobrir. A acção do
-estudante de direito, devia ser arredar-lhe a mão, encaral-a de perto,
-mais perto, totalmente perto, e repetir a pergunta por um modo em que a
-eloquencia do gesto dispensasse a fala. Se tal ideia teve, não saiu cá
-fóra. Nem ella lhe consentiu mais tempo que o da pergunta:
-
---Que é que tem?
-
---Nada, respondeu Flora.
-
---Tem alguma cousa, insistiu elle querendo pegar-lhe na mão.
-
-Não acabou o gesto, não o começou sequer; abriu e fechou os dedos
-apenas, emquanto sorria para sacudir tristezas, e deixou-se estar a
-matar saudades.
-
-
-
-
-CAPITULO LIX
-
-
-Noite de 14
-
-
-Tudo se explicou à noite, em casa da familia Santos. O ex-presidente
-de provincia confessou as esperanças de uma investidura nova; a esposa
-affirmou a eminencia do ato. Dahi a publicidade da noticia, que pouco
-antes D. Claudia só dizia em segredo. Já não havia segredos que calar.
-
-Paulo soube então tudo, e Pedro, que conhecia alguns preliminares,
-acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente sentiram a separação
-proxima. A dôr os fez amigos por instantes; é uma das vantagens dessa
-grande e nobre sensação. Já me não lembra quem affirmava, ao contrario,
-que um odio commum é o que mais liga duas pessoas. Creio que sim, mas
-não descreio do meu postulado, por esta razão que uma coisa não tolhe a
-outra, e ambas podem ser verdadeiras.
-
-Demais, a dôr não era ainda o desespero. Havia até uma consolação para
-os dous gemeos; é que a moça ficaria longe de ambos. Nenhum delles
-teria o gozo exclusivo ao pé da porta. Não há mal que não traga um
-pouco de bem, e por isso é que o mal é util, muita vez indispensavel,
-alguma vez delicioso. Os dous quizeram falar á amiguinha, em
-particular, para sondal-a ácerca daquella separação, já agora certa,
-mas nenhum conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe
-falavam, era sempre juntos, e de cousas familiares e ordinarias. O
-gesto de Flora não traduzia o estado da alma; este podia ser lepido,
-melancolico, ou indifferente, não vinha cá fóra. Em verdade, ella
-falava pouco. Os olhos tambem não diziam muito. Mais de uma vez, Pedro
-deu com ella fitando Paulo, e gemeu com a preferencia, mas tambem elle
-era preferido depois, e achava compensação; Paulo então é que rangia
-os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue á sua recepção,
-que era a ultima do anno, não acompanhou de perto as agitações moraes
-daquelle trio. Quando deu por ellas, chegou a sentil-as tambem.
-
-Pouco a pouco, a gente se foi dispersando. Não era muita, e dominava
-a nota intima. Quando a maioria saiu, ficou só a porção mais intima,
-trez ou quatro homens a um canto da sala, falando e rindo de ditos e
-anecdotas. Não conversavam de politica, e aliás não faltaria materia.
-As moças, pela segunda ou terceira vez, trocavam as impressões do
-grande baile recente. Tambem falavam de musicas e theatros, das festas
-proximas de Petropolis, da gente que ia naquelle anno, e da que só iria
-em Janeiro. Natividade dividia-se com todos, até que, podendo ficar
-alguns instantes com Ayres, confiara-lhe o seu receio ácerca do amor
-dos filhos, e ao mesmo tempo o prazer que lhe trazia a esperança de uma
-longa separação de Flora. O conselheiro não desdizia do receio, nem da
-esperança.
-
---É uma felicidade que o Baptista seja nomeado e leve a filha daqui,
-disse ella.
-
---Certamente, mas...
-
---Mas quê?
-
---Certamente a levará, mas a senhora póde não conhecer bem aquella
-menina.
-
---Penso que é boa.
-
---Tambem eu penso assim. A bondade, porém, não tem nada com o resto
-da pessoa. Flora é, como já lhe disse ha tempos, uma inexplicavel.
-Agora é tarde para lhe expor os fundamentos da minha impressão; depois
-lhe direi. Note que gósto muito della; acho-lhe um sabor particular
-naquelle contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão fóra do
-mundo, tão etherea e tão ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambição
-recondita... Vá perdoando estas palavras mal embrulhadas, e até amanhã,
-concluiu elle, estendendo-lhe a mão. Amanhã virei explical-as.
-
---Explique-as agora, emquanto os outros parecem rir de algum dito
-engraçado.
-
-Effectivamente, os homens riam de algum dito ou trocadilho; Ayres quiz
-falar, mas reteve a lingua, e desculpou-se. A explicação era longa e
-dificil, e não era urgente, disse elle.
-
---Eu mesmo não sei se me entendo, baroneza, nem se penso a verdade;
-póde ser. Em todo caso, minha boa amiga, até amanhã ou até Petropolis.
-Quando espera subir?
-
---Lá para o fim do anno.
-
---Então ainda nos veremos algumas vezes.
-
---Sim, e, se me não vir a mim, quero que veja os meus rapazes, que
-os receba e estime. Elles o têm em grande conta; não lhe fazem senão
-justiça. Pedro acha que o senhor é o espirito mais fino, e Paulo o mais
-rijo da nossa terra...
-
---Veja como a senhora os educa, ensinando-lhes a pensar errado, disse
-Ayres sorrindo e fazendo um gesto de agradecimento. Eu rijo?
-
---O mais rijo e o mais fino.
-
-Os ultimos habituados da casa vieram dar boa noite á dona. Dez minutos
-depois, Ayres despedia-se do casal Santos.
-
-A noite era clara e tranquilla. Ayres recompoz uma parte do serão para
-escrevel-a no _Memorial._ Poucas linhas, mas interessantes, nas quaes
-Flora era a principal figura: «Que o Diabo a entenda, se puder; eu,
-que sou menos que elle, não acerto de a entender nunca. Hontem parecia
-querer a um, hoje quiz ao outro; pouco antes das despedidas, queria a
-ambos. Encontrei outr'ora desses sentimentos alternos e simultaneos;
-eu mesmo fui uma e outra cousa, e sempre me entendi a mim. Mas aquella
-menina e moça... A condição dos gemeos explicará esta inclinação dupla;
-póde ser tambem que alguma qualidade falte a um que sóbre a outro,
-e vice-versa, e ella, pelo gosto de ambas, não acaba de escolher de
-vez. É phantastico, sei; menos phantastico é se elles, destinados á
-inimizade, acharem nesta mesma creatura um campo estreito de odio,
-mas isto os explicaria a elles, não a ella... Seja o que fôr, a nossa
-organisação politica é util; a presidencia de provincia, arredando
-Flora daqui, por algum tempo, tira esta moça da situação em que se
-acha, como a asna de Buridan. Quando voltar, a agua estará bebida e a
-cevada comida. Um decreto ajudará a natureza.»
-
-Isto feito, Ayres metteu-se na cama, rezou uma ode do seu Horacio e
-fechou os olhos. Nem por isso dormiu. Tentou então uma pagina do seu
-Cervantes, outra do seu Erasmo, fechou novamente os olhos, até que
-dormiu. Pouco foi; ás cinco horas e quarenta minutos estava de pé. Era
-novembro, sabes que é dia.
-
-
-
-
-CAPITULO LX
-
-
-Manhã de 15
-
-
-Quando lhe acontecia o que ficou contado, era costume de Ayres sair
-cedo, a espairecer. Nem sempre acertava. Desta vez foi ao Passeio
-Publico. Chegou ás sete horas e meia, entrou, subiu ao terraço e olhou
-para o mar. O mar estava crespo. Ayres começou a passear ao longo do
-terraço, ouvindo as ondas, e chegando-se á borda, de quando em quando,
-para vel-as bater e recuar. Gostava dellas assim; achava-lhes uma
-especie de alma forte, que as movia para metter medo á terra. A agua,
-enroscando-se em si mesma, dava-lhe uma sensação, mais que de vida, de
-pessoa tambem, a que não faltavam nervos nem musculos, nem a voz que
-bradava as suas coleras.
-
-Emfim, cançou e desceu, foi-se ao lago, ao arvoredo e passeou á toa,
-revivendo homens e cousas, até que se sentou em um banco. Notou que
-a pouca gente que havia alli não estava sentada, como de costume,
-olhando á toa, lendo gazetas ou cochilando a vigilia de uma noite sem
-cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando
-na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu,
-ao menos. Ouviu umas palavras soltas, _Deodoro, batalhões, campo,
-ministerio_, etc. Algumas, ditas em tom alto, vinham acaso para elle,
-a ver se lhe espertavam a curiosidade, e se obtinham mais uma orelha
-ás noticias. Não juro que assim fosse, porque o dia vae longe, e as
-pessoas não eram conhecidas. O proprio Ayres, se tal cousa suspeitou,
-não a disse a ninguem; tambem não afiou o ouvido para alcançar o resto.
-Ao contrario, lembrando-lhe algo particular, escreveu a lapis uma nota
-na carteira. Tanto bastou para que os curiosos se dispersassem, não sem
-algum epitheto de louvor, uns ao governo, outros ao exercito: podia ser
-amigo de um ou de outro.
-
-Quando Ayres saiu do Passeio Publico, suspeitava alguma cousa, e seguiu
-até o largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras
-espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma noticia clara
-nem completa. Na rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito
-uma revolução, ouviu descripções da marcha e das pessoas, e noticias
-desencontradas. Voltou ao largo, onde trez tilburys o disputaram; elle
-entrou no que lhe ficou mais á mão, e mandou tocar para o Cattete.
-Não perguntou nada ao cocheiro; este é que lhe disse tudo e o resto.
-Falou de uma revolução, de dous ministros mortos, um fugido, os demais
-presos. O imperador, capturado em Petropolis, vinha descendo a serra.
-
-Ayres olhava para o cocheiro, cuja palavra saía deliciosa de novidade.
-Não lhe era desconhecida esta creatura. Já a vira, sem o tilbury,
-na rua ou na sala, á missa ou a bordo, nem sempre homem, alguma vez
-mulher, vestida de seda ou do chita. Quiz saber mais, mostrou-se
-interessado e curioso, e acabou perguntando se realmente houvera o que
-dizia. O cocheiro contou que ouvira tudo a um homem que trouxera da
-rua dos Invalidos e levára ao largo da Gloria, por signal que estava
-assombrado, não podia falar, pedia-lhe que corresse, que lhe pagaria o
-dobro; e pagou.
-
---Talvez fosse algum implicado no barulho, suggeriu Ayres.
-
---Tambem póde ser, porque elle levava o chapéo derrubado, e a principio
-pensei que tinha sangue nos dedos, mas reparei e vi que era barro; com
-certeza, vinha de descer algum muro. Mas, pensando bem, creio que era
-sangue; barro não tem aquella côr. A verdade é que elle pagou o dobro
-da viagem, e com razão, porque a cidade não está segura, e a gente
-corre grande risco levando pessoas de um lado para outro...
-
-Chegavam justamente á porta de Ayres; este mandou parar o vehiculo,
-pagou pela tabella e desceu. Subindo a escada, ia naturalmente pensando
-nos acontecimentos possiveis. No alto achou o criado que sabia tudo, e
-lhe perguntou se era certo...
-
---O que é que não é certo, José? É mais que certo.
-
---Que matáram trez ministros?
-
---Não; ha só um ferido.
-
---Eu ouvi que mais gente tambem, falaram em dez mortos...
-
---A morte é um phenomeno egual á vida; talvez os mortos vivam. Em todo
-caso, não lhes rezes por alma, porque não és bom catholico, José.
-
-
-
-
-CAPITULO LXI
-
-
-Lendo Xenophonte
-
-
-Como é que, tendo ouvido falar da morte de dous e trez ministros, Ayres
-affirmou apenas o ferimento de um, ao rectificar a noticia do criado?
-Só se póde explicar de dous modos,--ou por um nobre sentimento de
-piedade, ou pela opinião de que toda a noticia publica cresce de dous
-terços, ao menos. Qualquer que fosse a causa, a versão do ferimento era
-a unica verdadeira. Pouco depois passava pela rua do Cattete a padiola
-que levava um ministro, ferido. Sabendo que os outros estavam vivos e
-sãos e o imperador era esperado de Petropolis, não acreditou na mudança
-de regimen que ouvira ao cocheiro de tilbury e ao criado José. Reduziu
-tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.
-
---Temos gabinete novo, disse comsigo.
-
-Almoçou tranquillo, lendo Xenophonte: «Considerava eu um dia quantas
-republicas tem sido derribadas por cidadãos que desejam outra especie
-de governo, e quantas monarchias e olygarchias são destruidas pela
-sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa
-derribados, outros, se duram, são admirados por habeis e felizes...»
-Sabes a conclusão do autor, em prol da these de que o homem é difficil
-de governar; mas logo depois a pessoa de Cyro destróe aquella
-conclusão, mostrando um só homem que regeu milhões de outros, os quaes
-não só o temiam, mas ainda lutavam por lhe fazer as vontades. Tudo isto
-em grego, e com tal pausa que elle chegou ao fim do almoço, sem chegar
-ao fim do primeiro capitulo.
-
-
-
-
-CAPITULO LXII
-
-
-«Pare no D.»
-
-
---Mas, S. Ex. está almoçando, dizia o criado no patamar da escada a
-alguem que pedia para falar ao conselheiro.
-
-Era falso, Ayres acabava justamente de almoçar; mas o criado sabia que
-o amo gostava de saborear o charuto depois do almoço, sem interrupção.
-Agora estava no canapé e ouviu o dialogo do patamar. A pessoa insistia
-em dizer uma palavrinha.
-
---Não póde ser.
-
---Bem, eu espero; logo que S. Ex. acabe...
-
---O melhor é voltar depois; não mora alli defronte? Pois volte daqui a
-uma hora ou duas...
-
-A pessoa era o Custodio e foi para casa, mas o velho diplomata, sabendo
-quem era, não esperou que acabasse o charuto; mandou-lhe dizer que
-viesse. Custodio saiu, correu, subiu e entrou assombrado.
-
---Que é isso, Sr. Custodio? disse-lhe Ayres. O senhor anda a fazer
-revoluções?
-
---Eu, senhor? Ah! senhor! Se V. Ex. soubesse...
-
---Se soubesse o quê?
-
-Custodio explicou-se. Vá, resumamos a explicação.
-
-Na vespera, tendo de ir abaixo, Custodio foi á rua da Assembléa, onde
-se pintava a taboleta. Era já tarde; o pintor suspendera o trabalho. Só
-algumas das letras ficaram pintadas,--a palavra _Confeitaria_ e a letra
-_d._ A letra _o_ e a palavra _imperio_ estavam só debuxadas a giz.
-Gostou da tinta e da côr, reconciliou-se com a fórma, e apenas perdoou
-a despeza. Recommendou pressa. Queria inaugurar a taboleta no domingo.
-
-Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera na cidade, mas pouco
-a pouco vieram vindo as noticias, viu passar um batalhão, e creu que
-lhe diziam a verdade os que affirmavam a revolução e vagamente a
-republica. A principio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a taboleta.
-Quando se lembrou della, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu
-ás pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia
-só isto: «Pare no _D._» Com effeito, não era preciso pintar o resto,
-que seria perdido, nem perder o principio, que podia valer. Sempre
-haveria palavra que occupasse o logar das letras restantes. «Pare no D.»
-
-Quando o portador voltou trouxe a noticia de que a taboleta estava
-prompta.
-
---Você viu-a prompta?
-
---Vi, patrão.
-
---Tinha escripto o nome antigo?
-
---Tinha, sim, senhor: «Confeitaria do imperio.»
-
-Custodio enfiou um casaco de alpaca e voou á rua da Assembléa. Lá
-estava a taboleta, por signal que coberta com um pedaço de chita;
-alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua, quizeram
-rasgal-a; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais
-efficaz cobril-a. Levantada a cortina, Custodio leu: «_Confeitaria
-do imperio._» Era o nome antigo, o proprio, o celebre, mas era a
-destruição agora; não podia conservar um dia a taboleta, ainda que
-fosse em becco escuro, quanto mais na rua do Cattete...
-
---O senhor vae despintar tudo isto, disse elle.
-
---Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despeza. Depois,
-pinto outra cousa.
-
---Mas que perde o senhor em substituir a ultima palavra por outra? A
-primeira póde ficar, e mesmo o _d..._ Não leu o meu bilhete?
-
---Chegou tarde.
-
---E porque pintou, depois de tão graves acontecimentos?
-
---O senhor tinha pressa, e eu accordei ás cinco e meia para servil-o.
-Quando me deram as noticias, a taboleta estava prompta. Não me disse
-que queria pendural-a domingo? Tive de pôr muito seccante na tinta, e,
-além da tinta, gastei tempo e trabalho.
-
-Custodio quiz repudiar a obra, mas o pintor ameaçou de pôr o numero da
-confeitaria e o nome do dono na taboleta, e expol-a assim, para que os
-revolucionarios lhe fossem quebrar as vidraças do Cattete. Não teve
-remedio se não capitular. Que esperasse; ia pensar na substituição; em
-todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa do abate e
-voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de titulo,--uma
-casa tão conhecida, desde annos e annos! Diabos levassem a revolução!
-Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o visinho Ayres e correu a
-ouvil-o.
-
-
-
-
-CAPITULO LXIII
-
-
-Taboleta nova
-
-
-Referido o que lá fica atraz, Custodio confessou tudo o que perdia no
-titulo e na despeza, o mal que lhe trazia a conservação do nome da
-casa, a impossibilidade de achar outro, um abysmo, em summa. Não sabia
-que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de espirito. Se pudesse,
-liquidava a confeitaria. E afinal que tinha elle com politica? Era
-um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguezado,
-respeitado, e principalmente respeitador da ordem publica...
-
---Mas o que é que ha? perguntou Ayres.
-
---A republica está proclamada.
-
---Já ha governo?
-
---Penso que já; mas diga-me V. Ex. ouviu alguem accusar-me jamais de
-attacar o governo? Ninguem. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu
-soccorro, Excellentissimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A taboleta
-está prompta, o nome todo pintado.--«Confeitaria do Imperio», a tinta é
-viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então
-fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de titulo, por
-mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Ex.
-crê que, se ficar «Imperio,» venham quebrar-me as as vidraças?
-
---Isso não sei.
-
---Realmente, não ha motivo: é o nome da casa, nome de trinta annos.
-ninguem a conhece de outro modo...
-
---Mas póde pôr «Confeitaria da Republica...»
-
---Lembrou-me isso, em caminho, mas tambem me lembrou que, se daqui a
-um ou dous mezes, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou
-hoje, e perco outra vez o dinheiro.
-
---Tem razão... Sente-se.
-
---Estou bem.
-
---Sente-se e fume um charuto.
-
-Custudio recusou o charuto, não fumava. Acceitou a cadeira. Estava
-no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a
-attenção, se não fosse o atordoamento do espirito. Continuou a implorar
-o soccorro do visinho. S. Ex., com a grande intelligencia que Deus lhe
-dera, podia salval-o. Ayres propoz-lhe um meio termo, um titulo que
-iria com ambas as hypotheses,--«Confeitaria do governo».
-
---Tanto serve para um regimen como para outro.
-
---Não digo que não, e, a não ser a despeza perdida... Ha, porém, uma
-razão contra. V. Ex. sabe que nenhum governo deixa de ter opposição. As
-opposições, quando descerem á rua, podem implicar commigo, imaginar que
-as desafio, e quebrarem-me a taboleta; entretanto, o que eu procuro é o
-respeito de todos.
-
-Ayres comprehendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o visinho
-não queria barulhos á porta, nem malquerenças gratuitas, nem odios de
-quem quer que fosse; mas, não o affligia menos a despeza que teria de
-fazer de quando em quando, se não achasse titulo definitivo, popular
-e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de
-perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguem lhe compraria uma
-taboleta condemnada. Já era muito ter o nome e o titulo no _Almanack_
-de Laemmert, onde podia lel-o algum abelhudo e ir com outros, punil-o
-do que estava impresso desde o principio do anno...
-
---Isso não, interrompeu Ayres; o senhor não ha de recolher a edição de
-um almanaque.
-
-E depois de alguns instantes:
-
---Olhe, dou-lhe uma ideia, que póde ser aproveitada, e, se não a achar
-boa, tenho outra á mão, e será a ultima. Mas eu creio que qualquer
-dellas serve. Deixe a taboleta pintada como está, e á direita, na
-ponta, por baixo do titulo, mande escrever estas palayras que explicam
-o titulo: «Fundada em 1860.» Não foi em 1860 que abriu a casa?
-
---Foi, respondeu Custodio.
-
---Pois...
-
-Custodio reflectia. Não se lhe podia ler _sim_ nem _não_; attonito,
-a bôca entre-aberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão,
-nem para as paredes ou moveis, mas para o ar. Como Ayres insistisse,
-elle acordou e confessou que a ideia era boa. Realmente, mantinha o
-titulo e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura.
-Entretanto, a outra ideia podia ser egual ou melhor, e quizera comparar
-as duas.
-
---A outra ideia não tem a vantagem de pôr a data á fundação da
-casa, tem só a de definir o titulo, que fica sendo o mesmo, de uma
-maneira alheia ao regimen. Deixe-lhe estar a palavra _imperio_ e
-accrescente-lhe em baixo, ao centro, estas duas, que não precisam
-ser graúdas: _das leis._ Olhe, assim, concluiu Ayres sentando-se á
-secretaria, e escrevendo em uma tira de papel o que dizia.
-
-Custodio leu, releu e achou que a ideia era util; sim, não lhe parecia
-má. Só lhe viu um defeito; sendo as letras de baixo menores, podiam
-não ser lidas tão depressa e claramente, com as de cima, e estas é que
-se metteriam pelos olhos ao que passasse. Dahi a que algum politico ou
-sequer inimigo pessoal não entendesse logo e... A primeira ideia, bem
-considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o
-confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo.
-Quem sabe se não era peor que nada?
-
---Tudo é peor que nada.
-
---Procuremos.
-
-Ayres achou outro titulo, o nome da rua, «Confeitaria do Cattete», sem
-advertir que, havendo outra confeitaria na mesma rua, era attribuir
-exclusivamente á do Custodio a designação local. Quando o visinho lhe
-fez tal ponderação, Ayres achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza
-de sentimentos do homem; mas logo depois descubriu que o que fez
-falar o Custodio foi a ideia de que esse titulo ficava commum ás duas
-casas. Muita gente não atinaria com o titulo escripto, e compraria
-na primeira que lhe ficassse á mão, de maneira que só elle faria as
-despezas da pintura, e ainda por cima perdia a freguezia. Ao perceber
-isto, Ayres não admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de
-tantas tribulações, contava os maus fructos de um equivoco. Disse-lhe
-então que o melhor seria pagar a despeza feita e não pôr nada, a não
-ser que preferisse o seu proprio nome: «Confeitaria do Custodio.»
-Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação.
-Um nome, o proprio nome do dono, não tinha significação politica ou
-figuração historica, odio nem amor, nada que chamasse a attenção dos
-dous regimens, e conseguintemente que puzesse em perigo os seus pasteis
-de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietario e dos empregados.
-Porque é que não adoptava esse alvitre? Gastava alguma cousa com a
-troca de uma palavra por outra, _Custodio_ em vez de _Imperio_, mas as
-revoluções trazem sempre despezas.
-
---Sim, vou pensar, Excellentissimo. Talvez convenha esperar um ou dous
-dias, a ver em que param as modas, disse Custodio agradecendo.
-
-Curvou-se, recuou e saiu. Ayres foi á janella para vel-o atravessar a
-rua. Imaginou que elle levaria da casa do ministro aposentado um lustre
-particular que faria esquecer por instantes a crise da taboleta. Nem
-tudo são despezas na vida, e a gloria das relações podia amaciar as
-agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custodio atravessou a rua,
-sem parar nem olhar para traz, e enfiou pela confeitaria dentro com
-todo o seu desespero.
-
-
-
-
-CAPITULO LXIV
-
-
-Paz!
-
-
-Que, em meio de tão graves successos, Ayres tivesse bastante pausa e
-claridade para imaginar tal descoberta no visinho, só se póde explicar
-pela incredulidade com que recebera as noticias. A propria afflicção de
-Custodio não lhe dera fé. Vira nascer e morrer muito boato falso. Uma
-de suas maximas é que o homem vive para espalhar a primeira invenção
-de rua, e que tudo se fará crêr a cem pessoas juntas ou separadas. Só
-ás duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou em casa, acreditou na
-queda do imperio.
-
---É verdade, conselheiro, vi descer as tropas pela rua do Ouvidor, ouvi
-as acclamações á republica. As lojas estão fechadas, os bancos tambem,
-e o peor é se se não abrem mais, se vamos cair na desordem publica; é
-uma calamidade.
-
-Ayres quiz aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria; o regimen, sim, era
-possivel, mas tambem se muda de roupa sem trocar de pelle. Commercio
-é preciso. Os bancos são indispensaveis. No sabbado, ou quando muito
-na segunda feira, tudo voltaria ao que era na vespera, menos a
-constituição.
-
---Não sei, tenho medo, conselheiro.
-
---Não tenha medo. A baroneza já sabe o que ha?
-
---Quando eu sai de casa, não sabia, mas agora é provavel.
-
---Pois vá tranquillisal-a; naturalmente está afflicta.
-
-Santos receiava os fuzilamentos; por exemplo, se fuzilassem o
-imperador, e com elle as pessoas de sociedade? Recordou que o Terror...
-Ayres tirou-lhe o Terror da cabeça. As occasiões fazem as revoluções,
-disse elle, sem intenção de rimar, mas gostou que rimasse, para
-dar fórma fixa á ideia. Depois lembrou a indole branda do povo. O
-povo mudaria de governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de
-generosidade. Para provar o que dizia referiu um caso que lhe contara
-um velho amigo, o marechal Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regencia.
-O imperador fôra ao theatro de S. Pedro de Alcantara. No fim do
-espectaculo, o amigo, então moço, ouviu grande rumor do lado da egreja
-de S. Francisco, e correu a saber o que era. Falou a um homem, que
-bradava indignado, e soube delle que o cocheiro do imperador não tirara
-o chapeo no momento em que este chegára á porta para entrar no coche;
-o homem accrescentou: «Eu sou _ré..._» Naquelle tempo os republicanos
-por brevidade eram assim chamados. «Eu sou _ré_, mas não consinto que
-faltem ao respeito a este menino!»
-
-Nenhuma feição de Santos mostrou apreciar ou entender aquelle rasgo
-anonymo. Ao contrario, todo elle parecia entregue ao presente, ao
-momento, ao commercio fechado, aos bancos sem operações, ao receio de
-uma suspensão total de negocios, durante prazo indeterminado. Cruzava e
-descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou.
-
---Então, parece-lhe...?
-
---Que descance.
-
-Santos acceitou o conselho, mas vae muito do acceitar ao cumprir, e a
-apparencia era mui diversa do coração. O coração batia-lhe. A cabeça
-via esboroar-se tudo. Quiz despedir-se, mas fez duas ou trez investidas
-antes de pousar o pé fora do gabinete e caminhar para a escada. Instava
-pela certeza. Com quanto tivesse visto e ouvido a republica, podia
-ser... Em todo caso, a paz é que era necessaria, e haveria paz? Ayres
-inclinava-se a crêr que sim, e novamente o convidou a descançar.
-
---Até logo, concluiu.
-
---Porque não vae lá jantar comnosco?
-
---Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois,
-talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquillisar a baroneza, e os rapazes. Os
-rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pol-os em ordem.
-
---O senhor podia ajudar-me nisso. Vá lá de noite.
-
---Póde ser; se puder, vou. Amanhã com certeza.
-
-Santos saiu; tinha o carro á espera, entrou e seguiu para Botafogo. Não
-levava a paz comsigo, não a poderia dar á mulher, nem á cunhada, nem
-aos filhos. Quizera chegar a casa, por medo da rua, mas quizera tambem
-ficar na rua, por não saber que palavras nem que conselhos daria aos
-seus.
-
-O espaço do carro era pequeno e bastante para um homem; mas, emfim,
-não viviria alli a tarde inteira. Ao demais, a rua estava quieta. Via
-gente á porta das lojas. No largo do Machado viu outra que ria, alguma
-calada, havia espanto, mas não havia propriamente susto.
-
-
-
-
-CAPITULO LXV
-
-
-Entre os filhos
-
-
-Quando Santos chegou a casa, Natividade estava inquieta, sem noticia
-exacta e definitiva dos acontecimentos. Não sabia da republica. Não
-sabia do marido nem dos filhos. Aquelle saira antes dos primeiros
-rumores, estes iam fazer a mesma cousa, logo que os boatos chegaram. O
-primeiro gesto da mãe foi para impedir que os filhos saissem, mas não
-pôde, era tarde. Não os podendo reter, pegou-se com a Virgem Maria,
-afim de que os poupasse, e esperou. A irmã fez o mesmo. Era perto de
-meio dia; foi então que os minutos entraram a parecer seculos.
-
-A ancia da mãe era naturalmente maior que a da tia. Natividade via
-andar o tempo com ferros aos pés. Não havia alvoroço que atasse um par
-de azas áquellas horas longas do relogio da casa, nem aos do cinto, o
-della e o da irmã; todos elles coxeavam de ambos os ponteiros. Emfim,
-ouviu na areia do jardim as rodas de um carro; era Santos.
-
-Natividade acudiu ao patamar da escada. Santos subiu, e as mãos de
-ambos estenderam-se e agarraram-se. Longa vida conjunta acaba por fazer
-da ternura uma coisa grave e espiritual. Entretanto, parece que o gesto
-do marido não foi original, mas secundario, filho ou imitativo do da
-mulher. Póde ser que a corda da sensibilidade fosse menos vibrante na
-lira dele que na della, posto que muitos anos atraz, aquele outro gesto
-no _coupé_, quando voltavam da missa de S. Domingos, lembras-te?...
-Sobre isto escrevi agora algumas linhas, que não ficariam mal, se as
-acabasse, mas recuo a tempo, e risco-as. Não vale a pena ir à cata das
-palavras riscadas. Menos vale supri-las.
-
-Que nos bastam as quatro mãos apertadas. Natividade perguntou pelos
-filhos. Santos opinou que não tivesse medo. Não havia nada; tudo
-parecia estar como no dia anterior, as ruas socegadas, as caras mudas.
-Não correria sangue, o commercio ia continuar. Toda a animação de Ayres
-tinha agora brotado nele, com a mesma verdura e o mesmo estylo.
-
-Os filhos chegaram tarde, cada um por sua vez, e Pedro mais cedo que
-Paulo. A melancolia de um ia com a alma da casa, a alegria de outro
-destoava desta, mas tais eram uma e outra que, apesar da expansão da
-segunda, não houve repressão nem briga. Ao jantar, falaram pouco.
-Paulo referia os sucessos amorosamente. Conversara com alguns
-co-religionarios e soube do que se passára á noite e de manhã, a
-marcha e a reunião dos batalhões no campo, as palavras de Ouro Preto
-ao marechal Floriano, a resposta deste, a aclamação da Republica. A
-familia ouvia e perguntava, não discutia, e esta moderação contrastava
-com a gloria de Paulo. O silencio de Pedro principalmente era como um
-desafio. Não sabia Paulo que a propria mãe é que o pedira ao irmão com
-muitos beijos, motivo que em tal momento, ia com o aperto do coração do
-rapaz.
-
-O coração de Paulo, ao contrario, era livre, deixava circular o sangue,
-como a felicidade. Os sentimentos republicanos, em que os principios
-se incrustavam viviam alli tão fortes e quentes, que mal deixavam ver
-o abatimento de Pedro e o acanhamento da outra gente sua. Ao fim do
-jantar, bebeu á Republica, mas calado, sem ostentação, apenas olhando
-paaa o tecto, e levantando o copo um tantinho mais que de costume.
-Ninguem replicou por outro gesto ou palavra.
-
-Certamente, o moço Pedro quiz dizer alguma phrase de piedade
-relativamente ao regimen imperial e ás pessoas de Bragança, mas a
-mãe quasi que não tirava os olhos delle, como impondo ou pedindo
-silencio. De mais, elle não cria nada mudado; a despeito de decretos
-e proclamações, Pedro imaginava que tudo podia ficar como d'antes,
-alterado apenas o pessoal do governo. Custa pouco, dizia elle baixinho
-á mãe, ao deixarem a mesa; é só o imperador falar ao Deodoro.
-
-Paulo saiu, logo depois do jantar, promettendo vir cedo. A mãe,
-receiosa de o ver mettido em barulhos, não queria que elle saisse; mas
-outro receio fel-a consentir, e este era que os dous irmãos brigassem
-finalmente. Assim um medo vence a outro, e a gente acaba por dar o
-que negou. Não é menos certo que ella raciocinou alguns minutos antes
-de resolver, do mesmo modo que eu escrevi uma pagina antes da que vou
-escrever agora; mas ambos nós, Natividade e eu, acabamos por deixar que
-os actos se praticassem, sem opposição della, nem commentario meu.
-
-
-
-CAPITULO LXVI
-
-
-O basto e a espadilha
-
-
-Vieram amigos da casa, trazendo noticias e boatos. Variavam pouco e
-geralmente não havia opinião segura acerca do resultado. Ninguem sabia
-se a victoria do movimento era um bem, se um mal, apenas sabiam que
-era um facto. Dalli a ingenuidade com que alguem propoz o voltarete
-do costume, e a boa vontade de outros em acceital-o. Santos, embora
-declarase que não jogava, mandou pôr as cartas e os tentos, mas os
-outros opinaram que sempre faltava um parceiro, e sem elle, não
-havia graça. Quiz resistir; não era bonito que no proprio dia em que
-o regimen caira ou ia cair, entregasse o espirito a recreações de
-sociedade... Não pensou isto em voz alta nem baixa, mas comsigo, e
-talvez o leu no rosto da mulher. Acharia um pretexto para resistir,
-se buscasse algum, mas amigos e cartas não deixavam buscar nada.
-Santos acabou acceitando. Provalmente era essa mesma a inclinação
-intima. Muitas ha que precisam ser attrahidas cá fora, como um favor
-ou concessão da pessoa. Emfim, o basto e a espadilha fizeram naquella
-noite o seu officio, como as mariposas e as ratos, os ventos e as
-ondas, o lume das estrellas e o somno dos cidadãos.
-
-
-
-
-CAPITULO LXVII
-
-
-A noite inteira
-
-
-Saindo de casa, Paulo foi á de um amigo, e os dous entraram a buscar
-outros da mesma edade e egual intimidade. Fôram aos jornaes, ao quartel
-do Campo, e passaram algum tempo deante da casa de Deodoro. Gostavam
-de ver os soldados, a pé ou a cavallo, pediam licença, falavam-lhes,
-offereciam cigarros. Era a unica concessão destes; nenhum lhes contou o
-que se passara, nem todos saberiam nada.
-
-Não importa, iam cheios de si. Paulo era o mais enthusiasta e convicto.
-Aos outros valia só a mocidade, que é utn programma, mas o filho de
-Santos tinha frescas todas as ideias do novo regimen, e possuia ainda
-outras que não via acceitar; bater-se-ia por ellas. Trazia até a desejo
-de achar alguem na rua, que soltasse um grito, já agora sedicioso, para
-íhe quebrar a cabeça com a bengala. Note-se que esquecera ou perdera a
-bengala. Não deu por falta della; se désse, bastavam-lhe os braços e as
-mãos.
-
-Propoz cantarem a _Marselheza_; os outros não quizeram ir tão longe,
-não por medo, senão de cançados. Paulo, que resistia mais que elles á
-fadiga, lembrou-lhes esperar a aurora.
-
---Vamos esperal-a do alto de um morro, ou da praia do Flamengo; teremos
-tempo de dormir amanhã.
-
---Eu não posso, disse um.
-
-Os outros repetiram a recusa, e assentaram de ir para suas casas. Era
-perto de duas horas. Paulo acompanhou-os a todos, e só depois de ver o
-ultimo recolhido foi sósinho para Botafogo.
-
-Quando entrou, deu com a mãe que esperava por elle, inquieta e
-arrependida de o haver deixado sair. Paulo não achou desculpa e
-censurou a mãe por não dormir, á espera delle. Natividade confessou que
-não teria somno, antes de o saber em casa são e salvo. Falavam baixo e
-pouco; tendo-se beijado antes, beijaram-se depois e despediram-se.
-
---Olha, disse Natividade, se achares Pedro acordado não lhe contes nem
-lhe perguntes nada; dorme, e amanhã saberemos tudo e o mais que se
-passar esta noite.
-
-Paulo entrou no quarto pé ante pé. Era ainda aquelle vasto quarto
-em que os dous gemeos brigaram por causa de duas velhas gravuras,
-Robespierre e Luiz XVI. Agora, havia mais que os retratos, uma
-revolução de poucas horas e um governo fresco. Obedecendo ao conselho
-da mãe, Paulo não quiz saber se Pedro dormia, posto desconfiasse que
-não. Effectivamente, não. Pedro viu as cautellas de Paulo, e cumpriu
-tambem os conselhos da mãe; fingiu que não via nada. Até ahi os
-conselhos; mas um pouco de gloria fez com que Paulo cantarolasse entre
-os dentes, baixinho, para si, a primeira estrophe da _Marselheza_ que
-os amigos tinham recusado fóra:
-
- Allons, enfants de la patrie,
- Le jour de gloire est arrivé!
-
-Pedro percebeu antes pela toada que pela letra, e concluiu que a
-intenção do outro era affligil-o. Não era, mas podia ser. Vacillou
-entre a réplica e o silencio, até que uma ideia fantastica lhe
-atravessou o cerebro, cantarolar, tambem baixinho, a segunda parte
-da estrophe: «_Entendez-vous dans vos campagnes..._», que allude ás
-tropas estrangeiras, mas desviada do natural sentido historico, para
-restringil-a ás tropas nacionaes. Era um desforço vago, a ideia passou
-depressa. Pedro contentou-se de simular a indifferença suprema do
-somno. Paulo não acabou a estrophe; despiu-se agitado, sem tirar o
-pensamento da victoria dos seus sonhos politicos. Não se metteu logo
-na cama; foi primeiro á do irmão, a ver se dormia. Pedro respirava
-tão naturalmente, como se não perdera nada. Teve impeto de acordal-o,
-bradar-lhe que perdera tudo, se alguma cousa era a instituição
-derribada. Recuou a tempo e foi metter-se entre os lençóes.
-
-Nenhum dormia. Emquanto o somno não chegava, iam pensando nos
-acontecimentos do dia, ambos espantados de como fôram faceis e rapidos.
-Depois cogitavam no dia seguinte e nos effeitos ulteriores. Não admira
-que não chegassem á mesma conclusão.
-
---Como diabo é que elles fizeram isto, sem que ninguem désse pela
-cousa? reflectia Paulo. Podia ter sido mais turbulento. Conspiração
-houve, de certo, mas uma barricada não faria mal. Seja como fôr,
-venceu-se a campanha. O que é preciso é não deixar esfriar o ferro,
-batel-o sempre, e renoval-o. Deodoro é uma bella figura. Dizem que a
-entrada do marechal no quartel, e a saida, puxando os batalhões, fôram
-esplendidas. Talvez faceis de mais; é que o regimen estava pôdre e caiu
-por si...
-
-Emquanto a cabeça de Paulo ia formulando essas ideias, a de Pedro ia
-pensando o contrario; chamava ao movimento um crime.
-
---Um crime e um disparate, além de ingratidão; o imperador devia ter
-pegado os principaes cabeças e mandal-os executar. Infelizmente, as
-tropas iam com elles. Mas nem tudo acabou. Isto é fogo de palha;
-daqui a pouco está apagado, e o que antes era torna a ser. Eu acharei
-duzentos rapazes bons e promptos, e desfaremos esta caranquejola. A
-apparencia é que dá um ar de solidez, mas isto é nada. Hão de ver que
-o imperador não sae daqui, e, ainda que não queira, ha de governar;
-ou governará a filha, e, na falta della, o neto. Tambem elle ficou
-menino e governou. Amanhã é tempo; por ora tudo são flores. Ha ainda um
-punhado de homens...
-
-A reticencia final dos discursos de ambos quer dizer que as ideias
-se iam tornando esgarçadas, nevoentas e repetidas, até que se
-perderam e elles dormiram. Durante o somno, cessou a rovolução e a
-contra-revolução, não houve monarchia nem republica, D. Pedro II nem
-marechal Deodoro, nada que cheirasse a politica. Um e outro sonharam
-com a bella enseada de Botafogo, um céu claro, uma tarde clara e uma só
-pessoa: Flora.
-
-
-
-
-CAPITULO LXVIII
-
-
-De manhã
-
-
-Flora abriu os olhos de ambos, e esvaiu-se tão depressa que elles mal
-puderam ver a harpa do vestido e ouvir uma palavrinha meiga e remota.
-Olharam um para o outro, sem rancor apparente. O receio de um e a
-esperança de outro deram tregoas. Correram aos jornaes. Paulo, meio
-tonto, temia alguma traição sobre a madrugada. Pedro tinha uma ideia
-vaga de restauração, e contava ler nas folhas um decreto imperial da
-amnistia. Nem traição nem decreto, A esperança e o receio fugiram deste
-mundo.
-
-
-
-
-CAPITULO LXIX
-
-
-Ao piano
-
-
-Emquanto elles sonhavam com Flora, esta não sonhou com a republica.
-Teve uma daquellas noites em que a imaginação dorme tambem, sem olhos
-nem ouvjdos, ou, quando muito, a retina não deixa ver claro, e as
-orelhas confundem o som de um rio com o latir de um cão remoto. Não
-posso dar melhor definição, nem ella é precisa; cada um de nós terá
-tido dessas noites mudas e apagadas.
-
-Não sonhou sequer com musica; e, aliás tocára antes algumas das suas
-paginas queridas. Não as tocou somente por gostar dellas, senão
-por fugir á consternação dos paes, que era grande. Nenhum d'estes
-podia crêr que as instituições tivessem caido, outras nascido, tudo
-mudado. D. Claudia ainda appellava para o dia seguinte e perguntava
-ao marido se vira bem, e o que é que vira; elle mordia os beições,
-batia na perna, erguia-se, dava alguns passos, e tornava a narrar os
-acontecimentos, as noticias colladas ás portas dos jornaes, a prisão
-dos ministros, a situação, tudo extincto, extincto, extincto...
-
-Flora não era avessa á piedade, nem á esperança, como sabeis; mas
-não ia com a agitação dos paes, e metteu-se com o seu piano e as
-suas musicas. Escolheu não sei que sonata. Tanto bastou para lhe
-tirar o presente. A musica tinha para ella a vantagem de não ser
-presente, passado ou futuro; era uma cousa fóra do tempo e do espaço,
-uma idealidade pura. Quando parava, succedia-lhe ouvir alguma
-phrase solta do pae ou da mãe: «...Mas como foi que...?»--«Tudo ás
-escondidas...»--«Ha sangue?» Às vezes um delles fazia algum gesto,
-e ella não via o gesto. O pae, com a alma tropega, falava muito e
-incoherente. A mãe trazia outro vigor. Já lhe succedia calar por
-instantes, como se pensasse, ao contrario do marido que, em se calando,
-coçava a cabeça, apertava as mãos ou suspirava, quando não ameaçava o
-tecto com o punho.
-
---_Lá, lá, dó, ré, sol, ré, ré, lá_, ia dizendo o piano da filha, por
-essas ou por outras notas, mas eram notas que vibravam para fugir aos
-homens e suas dissensões.
-
-Tambem se póde achar na sonata de Flora uma especie de accordo com
-a hora presente. Não havia governo definitivo. A alma da moça ia
-com esse primeiro albor do dia, ou com esse derradeiro crepusculo
-da tarde,--como queiras,--em que nada é tão claro ou tão escuro que
-convide a deixar a cama ou accender velas. Quando muito, ia haver
-um governo provisorio. Flora não entendia de fórmas nem de nomes. A
-sonata trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarchia da
-innocencia primitiva naquelle recanto do Paraiso que o homem perdeu
-por desobediente, e um dia ganhará, quando a perfeição trouxer a
-ordem eterna e unica. Não haverá então progresso nem regresso, mas
-estabilidade. O seio de Abrahão agazalhará todas as cousas e pessoas, e
-a vida será um céu aberto. Era o que as teclas lhe diziam sem palavras,
-_ré, ré, lá, sol, lá, lá, dó..._
-
-
-
-
-CAPITULO LXX
-
-
-De uma conclusão errada
-
-
-Os successos vieram vindo, á medida que as flores iam nascendo. Destas
-houve que serviram ao ultimo baile do anno. Outras morreram na vespera.
-Poetas de um e outro regimen tiraram imagem do facto para cantarem a
-alegria e a melancolia do mundo. A differença é que a segunda abafava
-os seus suspiros, em quanto a primeira levava longe os seus tripudios.
-O metal das trompas dava outro som que o das harpas. As flores é que
-continuavam a nascer e morrer, egual e regularmente.
-
-D. Claudia colheu as rosas do ultimo baile do anno, primeiro da
-Republica, e adornou a filha com ellas. Flora obedeceu e acceitou-as.
-Pae de familia antes de tudo, Baptista acompanhou a esposa e a
-filha ao baile. Tambem lá foi Paulo, pela moça e pelo regimen. Se,
-em conversa com o ex-presidente de provincia, disse todo o bem que
-pensava do Governo Provisorio, não lhe ouviu palavras de accordo nem de
-contestação. Não entrou mais fundo na confissão do homem, porque a moça
-o attraia, e elle gostava mais della que do pae.
-
-Flora viu uma semelhança entre o baile da ilha Fiscal e este, apesar de
-particular e modesto. Este era dado por pessoa que vinha dos tempos da
-propaganda e um dos ministros lá esteve, ainda que só meia hora. Dahi a
-ausencia de Pedro, apesar de convidado. Flora sentiu a falta de Pedro,
-como sentira a de Paulo na ilha; tal era a semelhança das duas festas.
-Ambas traziam a ausencia de um gemeo.
-
---Porque é que seu irmão não veiu? perguntou ella.
-
-Paulo enfiou; depois de alguns instantes:
-
---Pedro é teimoso, disse. Teimou em recusar o convite. Crê naturalmente
-que a monarchia levou a arte de dançar. Não faça caso; é um lunatico.
-
---Não diga isso.
-
---Acha tambem que a dança se foi com o imperio?
-
---Não, a prova é que estamos dançando. Não; digo que lhe não chame
-nomes feios.
-
---Parece-lhe então que Pedro é um rapaz de juizo?
-
---Certamente, como o senhor.
-
---Mas...
-
-Paulo ia a perguntar-lhe qual d'elles, tendo ella de jurar por um ou
-por outro, lhe mereceria o juramento; mas recuou a tempo. Então ella
-falou do calor, e elle achou que sim, que estava quente. Acharia que
-estava frio, se ella se queixasse de frio. Flora, se só cedesse á
-vista, era tambem capaz de acceitar todas as opiniões de Paulo, para ir
-com elle. Em verdade, Paulo tinha agora um ar brilhante e petulante,
-olhava por cima, firme em que os seus escriptos de um anno é que haviam
-feito a Republica, posto que incompleta, sem certas ideias que expozera
-e defendera, e teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo á moça, e
-ella escutava com prazer, sem opinião; era só o gosto de o escutar.
-Quando a lembrança de Pedro surgia na cabeça da moça, a tristeza
-empanava a alegria, mas a alegria vencia depressa a outra, e assim
-acabou o baile. Então as duas, tristeza e alegria, agazalharam-se no
-coração de Flora, como as suas gemeas que eram.
-
-O baile acabou. O capitulo é que não acaba sem que deixe um pouco de
-espaço a quem quizer pensar naquella creatura. Pae nem mãe podiam
-entendel-a, os rapazes tambem não, e provavelmente Santos e Natividade
-menos que ninguem. Tu, mestra de amores ou alumna delles, tu que
-escutas a diversos, conclues que ella era... Custa pôr o nome do
-officio. Se não fosse a obrigação de contar a historia com as proprias
-palavras, preferia calal-o, mas tu sabes qual é elle, e aqui fica.
-Conclues que Flora era namoradeira, e conclues mal.
-
-Leitora, é melhor negar já isto que esperar pelo tempo. Flora não
-conhecia as doçuras do namoro, e menos ainda se podia dizer namoradeira
-de officio. A namoradeira de officio é a planta das esperanças,
-e alguma vez das realidades, se a vocação o impõe e a occasião o
-permitte. Tambem é preciso ter em lembrança aquillo de um publicista,
-filho de Minas e do outro seculo, que acabou senador, e escrevia contra
-os ministros adversarios: «Pitangueira não dá manga.» Não, Flora não
-dava para namorados.
-
-A prova disto é que no Estado em que viveu alguns mezes de 1801, com o
-pae e a mãe, para o fim que direi adiante, ninguem alcançou o menor dos
-seus olhares amigos ou sequer complacentes. Mais de um rapaz consumiu
-o tempo em se fazer visto e attrahido della. Mais de uma gravata, mais
-de uma bengala, mais de uma luneta levaram-lhe as côres, os gestos e os
-vidros, sem obter outra cousa que a attenção cortez e acaso uma palavra
-sem valor.
-
-Flora só se lembrava dos gemeos. Se nenhum delles a esqueceu, ella não
-os perdeu de memoria, Ao contrario, escrevia por todos os correios a
-Natividade para se fazer lembrada de ambos. As cartas falavam pouco da
-terra ou da gente, e não diziam mal nem bem. Usavam muito a palavra
-saudades, que cada um dos dous gemeos lia para si. Tambem elles a
-escreviam nas cartas que mandavam a D. Claudia e a Baptista, com a
-mesma intenção duplicada e e mysteriosa, que ella entendia muito bem.
-
-Taes eram de longe, ella e elles. A rixa velha, que os desunia na vida,
-continuava a desunil-os no amor. Podiam amar cada um a sua moça, casar
-com ella e ter os seus filhos, mas preferiam amar a mesma, e não ver
-o mundo por outros olhos, nem ouvir melhor verbo, nem diversa musica,
-antes, durante e depois da commissão do Baptista.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXI
-
-
-A commissão
-
-
-Lá me escapou a palavra. Sim, foi uma commissão dada ao pae, e da qual
-não sei nada, nem ella. Negocio reservado. Flora chamava-lhe commissão
-do inferno. O pae, sem ir tão fundo, concordava mentalmente com ella;
-verbalmente, desmentia a definição.
-
---Não digas isso, Flora; é commissão de confiança para fins nobremente
-politicos.
-
-Creio que sim, mas dahi a saber o objecto especial e real, ia largo
-espaço. Tambem não se sabe como foi parar ás mãos de Baptista aquelle
-recado do governo. Sabe-se que elle não desprezou a escolha, quando
-um amigo intimo correu a chamal-o ao palacio do generalissimo. Viu
-que era reconhecer nelle muita finura e capacidade de trabalho. Não
-é menos certo, porém, que a commissão entrava a aborrecel-o, posto
-que na correspondencia official dissesse exactamente o contrario. Se
-taes papeis mostrassem sempre o coração da gente, Baptista, cujas
-instrucções eram, aliás, de concordia, parecia querer levar a concordia
-a ferro e fogo; mas o estylo não é o homem. O coração de Baptista
-fechava-se, quando elle escrevia, e deixava ir a mão adiante, com a
-chave do coração apertada... «Já é tempo, suspirava o musculo, já é
-tempo de um logar de governador.»
-
-Quanto a D. Claudia, nao queria ver acabada a commissão, que restituia
-ao esposo a acção politica; faltava-lhe sómente uma cousa, opposição.
-Nenhum jornal dizia mal delle. Aquelle prazer de ler todas as manhãs
-as descomposturas dos adversarios, lel-as e relel-as com os seus nomes
-feios, como lategos de muitas pontas, que lhe rascavam as carnes e
-a excitavam ao mesmo tempo, esse prazer não lhe dava a commissão
-reservada. Ao contrario, havia uma especie de aposta em achar o
-commissario justo, equitativo e conciliador, digno de admiração, typo
-civico, caracter sem macula. Tudo isto ella conheceu outr'ora, mas para
-lhe achar sabor foi sempre preciso que viesse entremeado de ralhos
-e calumnias. Sem elles, era agua ensossa. Tambem não tinha aquella
-parte de ceremonias a que obrigava o summo cargo, mas não lhe faltavam
-attenções, e era alguma cousa.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXII
-
-
-O regresso
-
-
-Quando o marechal Deodoro dissolveu o congresso nacional, em 3 de
-novembro, Baptista recordou o tempo dos manifestos liberaes, e quiz
-fazer um. Chegou a principial-o, em segredo, empregando as belIas
-phrases que trazia de cór, citações latinas, duas ou trez apostrophes.
-D. Claudia reteve-o á beira do abysmo, com razões claras e robustas.
-Antes de tudo, o golpe de Estado podia ser um beneficio. Serve-se muita
-vez a liberdade parecendo suffocal-a. Depois, era o mesmo homem que a
-havia proclamado que convidava agora a nação a dizer o que queria, e
-a emendar a constituição, salvo nas partes essenciaes. A palavra do
-generalissimo, como a sua espada, bastava a defender e consummar a obra
-principiada. D. Claudia não tinha estylo proprio, mas sabia communicar
-o calor do discurso ao coração de um homem de boa vontade. Baptista,
-depois de a escutar e pensar, bateu-lhe no hombro imperativamente.
-
---Tens razão, filha.
-
-Não rasgou o papel escripto; queria guardal-o como simples lembrança,
-e a prova é que ia escrever uma carta ao presidente. D. Claudia tambem
-lhe tirou esta ideia da cabeça. Não havia necessidade de lhe mandar o
-seu suffragio; bastava conservar-se na commissão.
-
---O governo não está satisfeito com você?
-
---Está.
-
---Vendo que você se conserva, conclue que approva tudo, e basta.
-
---Sim, Claudia, concordou elle após alguns instantes. Ao contrario,
-qualquer cousa que escrevesse contra a assembléa sediciosa que o
-presidente acaba de dissolver, pareceria falta de piedade. Paz aos
-mortos! Tens razão, filha.
-
-Conservou-se calado, operando, fiel ás instrucções recebidas. Vinte
-dias depois, o marechal Deodoro passava o governo ás mãos do marechal
-Floriano, o congresso era restabelecido e todos os decretos do dia 3
-annullados.
-
-Ao saber de taes factos, Baptista pensou morrer. Ficou sem fala por
-alguns instantes, e D. Claudia não achou a menor parcella de animo
-que lhe désse. Nenhum contára com a marcha rapida dos acontecimentos,
-uns sobre outros, com tal atropello que parecia um bando de gente que
-fugia. Vinte dias apenas; vinte dias de força e socego, esperanças e
-grande futuro. Um dia mais e tudo ruiu como casa velha.
-
-Agora é que Baptista comprehendeu o erro de haver dado ouvidos á
-esposa. Se tem acabado e publicado o manifesto no dia 4 ou 5, estaria
-com um documento de resistencia na mão para reivindicar um posto de
-honra qualquer,--ou só estima que fosse. Releu o manifesto; chegou a
-pensar em imprimil-o, embora incompleto. Tinha conceitos bons, como
-este; «O dia da oppressão é a vespera da liberdade.» Citava a bella
-Roland caminhando para a guilhotina; «Ó liberdade, quantos crimes em
-teu nome!» D. Claudia fez-lhe ver que era tarde, e elle concordou.
-
---Sim, é tarde. Naquelle dia é que não era tarde, vinha á hora propria,
-para o effeito certo.
-
-Baptista amarrotou o papel distrahidaraente; depois alisou-o e
-guardou-o. Em seguida, fez um exame de consciencia, profundo e sincero.
-Não devia ter cedido; a resistencia era o melhor; se tem resistido ás
-palavras da mulher, a situação seria outra. Apalpou-se, achou que sim,
-que podia muito bem haver-lhe trancado os ouvidos e passado adiante.
-Insistiu muito neste ponto. Se pudesse, faria voltar atraz o tempo, e
-mostraria como é que a alma escolhe de si mesma o melhor dos partidos.
-Não era preciso saber nada do que anteriormente succedeu; a consciencia
-dizia-lhe que, era situação identica á do dia 3, faria outra cousa...
-Oh! com certeza! faria cousa muito diversa, e mudaria o seu destino.
-
-Um officio ou telegrarama veiu arrancar Baptista á commissão politica
-e reservada, A volta para o Rio de Janeiro foi breve e triste, sem os
-epithetos que o haviam regalado por alguns mezes, nem acompanhamento de
-amigos. Só uma pessoa vinha alegre, a filha, que rezara todas as noites
-pela terminação daquelle exilio.
-
---Parece que estás contente com o desastre de teu pae, disse-lhe a mãe
-já a bordo.
-
---Não, mamãe; alegro-me de ver que acabou esta canceira. Papae póde
-muito bem fazer politica no Rio de Janeiro, onde é muito apreciado,
-A senhora verá. Eu, se fosse papae, apenas desembarcasse, ia logo ao
-marechal explicar tudo, mostrar as instrucções e dizer o que tinha
-feito; dizia mais que a dispensa veiu muito a proposito, afim de não
-parecer que ficara amofinado. Depois pedia-lhe para trabalhar lá
-mesmo...
-
-D. Claudia, a despeito do amargor dos tempos, gostou de ver que a filha
-pensava e dava conselhos em politica. Não advertiu, como fez o leitor,
-que a alma do discurso da moça era não sair da capital, fazer aqui
-mesmo o seu congresso, que em breve seria uma só assembléa legislativa,
-como no Rio Grande do Sul; mas a qual das cantaras, Pedro ou Paulo,
-caberia esse unico poder politico? Eis o que ella mesma não sabia.
-
-Ambos se lhe apresentaram a bordo, logo que o paquete entrou no
-porto do Rio de Janeiro. Não fôram em duas lanchas, fôram na mesmo,
-e saltaram com tal presteza para a escada, que escaparam de cair ao
-mar. Talvez fosse o melhor desfecho do livro. Ainda assim não acaba
-mal o capitulo, porque a razão da presteza com que elles saltaram para
-a escada foi a ambição de ser o primeiro que comprimentasse a moça;
-aposta de amor, que ainda uma vez os egualou na alma della. Emfim
-chegaram, e não consta qual effectivamente a cumprimentou primeiro;
-póde ser que ambos.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXIII
-
-
-Um El-Dorado
-
-
-No caes Pharoux esperavam por elles trez carruagens,--dous _coupés_ e
-um _landau_, com trez bellas parelhas de cavallos. A gente Baptista
-ficou lisonjeada com a fineza da gente Santos, e entrou no _landau._ Os
-gemeos foram cada um no seu _coupé._ A primeira carruagem tinha o seu
-cocheiro e o seu lacaio, fardados de castanho, botões de metal branco,
-em que se podiam ver as armas da casa. Cada uma das outras tinha
-apenas o cocheiro, com egual libré. E todas trez se puzeram a andar,
-estas atraz daquella, os animaes batendo rijo e compassado, a golpes
-certos, como se houvessem ensaiado, por longos dias, aquella recepção.
-De quando em quando, encontravam outros trens, outras librés, outras
-parelhas, a mesma belleza e o mesmo luxo.
-
-A capital offerecia ainda aos recem-chegados um espectaculo magnifico.
-Vivia-se dos restos daquelle deslumbramento e agitação, epopeia de ouro
-da cidade e do mundo, porque a impressão total é que o mundo inteiro
-era assim mesmo. Certo, não lhe esqueceste o nome, encilhamento, a
-grande quadra das emprezas e companhias de toda especie. Quem não viu
-aquillo não viu nada. Cascatas de ideias, de invenções, de concessões
-rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de
-reis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares
-de milhares de milhares de contos de reis. Todos os papeis, aliás
-acções, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro,
-bancos, fabricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação,
-importação, ensaques, emprestimos, todas as uniões, todas as regiões,
-tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava
-nas ruas e praças, com estatutos, organisadores e listas. Letras
-grandes enchiam as folhas publicas, os titulos succediam-se, sem que se
-repetissem, raro morria, e só morria o que era frouxo, mas a principio
-nada era frouxo. Cada acção trazia a vida intensa e liberal, alguma vez
-immortal, que se multiplicava daquella outra vida com que a alma acolhe
-as religiões novas. Nasciam as acções a preço alto, mais numerosas que
-as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos.
-
-Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro
-brotava do chão, mas não é verdade. Quando muito, caia do céu. Candido
-e Cacambo... Ai, pobre Cacambo nosso! Sabes que é o nome daquelle
-indio que Basilio da Gama cantou no _Uruguay._ Voltaire pegou delle
-para o metter no seu livro, e a ironia do philosopho venceu a doçura
-do poeta. Pobre José Basilio! tinhas contra ti o assumpto estreito e a
-lingua escusa. O grande homem não te arrebatou Lindoya, felizmente, mas
-Cacambo é delle, mais delle que teu, patricio da minha alma.
-
-Candido e Cacambo, ia eu dizendo, ao entrarem no El-Dorado, conta
-Voltaire que viram creanças brincando na rua com rodelas de ouro,
-esmeralda e rubi; apanharam algumas, e na primeira hospedaria em que
-comeram quizeram pagar o jantar com duas dellas. Sabes que o dono da
-casa riu ás bandeiras despregadas, já por quererem pagar-lhe com pedras
-do calçamento, já porque alli ninguem pagava o que comia; era o governo
-que pagava tudo. Foi essa hilaridade do hospedeiro, com a liberalidade
-attribuida ao Estado, que fez crêr eguaes phenomenos entre nós, mas é
-tudo mentira.
-
-O que parece ser verdade é que as nossas carruagens brotavam do chão.
-Ás tardes, quando uma centena dellas se ia enfileirar no largo de S.
-Francisco de Paula, á espera das pessoas, era um gosto subir a rua
-do Ouvidor, parar e contemplal-as. As parelhas arrancavam os olhos á
-gente; todas pareciam descer das rhapsodias de Homero, posto fossem
-corceis de paz. As carruagens tambem. Juno certamente as apparelhára
-com suas correias de ouro, freios de ouro, redeas de ouro, tudo de
-ouro incorruptivel. Mas nem ella nem Minerva entravam nos vehiculos de
-ouro para os fins da guerra contra Illion. Tudo alli respirava a paz.
-Cocheiros e lacaios, barbeados e graves, esperando tezos e compostos,
-davam uma bella ideia do officio. Nenhum aguardava o patrão, deitado
-no interior dos carros, com as pernas de fóra. A impressão que davam
-era de uma disciplina rigida e elegante, aprendida em alta escola e
-conservada pela dignidade do individuo.
-
-«Casos ha,--escrevia o nosso Ayres--em que a impassibilidade do
-cocheiro na boléa contrasta com a agitação do dono no interior da
-carruagem, fazendo crêr que é o patrão que, por desfastio, trepou á
-boléa e leva o cocheiro a passear.»
-
-
-
-
-CAPITULO LXXIV
-
-
-A allusão do texto
-
-
-Antes de continuar, é preciso dizer que o nosso Ayres não se referia
-vagamente ou de modo generico a algumas pessoas, mas a uma só pessoa
-particular. Chamava-se então Nobrega; outr'ora não se chamava nada, era
-aquelle simples andador das almas que encontrou Natividade e Perpetua
-na rua de S. José, esquina da da Misericordia. Não esqueceste que a
-recente mãe deitou uma nota de dous mil reis á bacia do andador. A nota
-era nova e bella; passou da bacia á algibeira, no fundo de um corredor,
-não sem algum combate.
-
-Poucos mezes depois, Nobrega abandonou as almas a si mesmas, e foi a
-outros purgatorios, para os quaes achou outras opas, outras bacias e
-finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz. Quero dizer que foi
-a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade, e não se sabe se tambem
-o paiz. Quando tornou, trazia alguns pares de contos de reis, que a
-fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Emfim, alvoreceu a famosa quadra
-do «encilhamento». Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande
-esmola, o grande purgatorio. Quem já sabia do andador das almas? A
-antiga roda perdera-se na obscuridade e na morte. Elle era outro; as
-feições não eram as mesmas, senão as que o tempo lhe veiu compondo e
-melhorando.
-
-Se a grande bacia, ou qualqer das outras recebeu notas que tivessem o
-destino da primeira, é o que se não sabe, mas é possivel. Foi por esse
-tempo que Ayres o viu de carro, quasi a sair pela portinhola fóra,
-comprimentando muito, espiando tudo. Como o cocheiro e o lacaio (creio
-que eram escossezes) salvassem a dignidade pessoal da casa, Ayres fez a
-observação do fim do outro capitulo, sem nenhuma intenção geral.
-
-Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nobrega tinha medo de
-tornar ao bairro, onde andára a pedir para as primeiras almas. Um dia,
-porém, taes fôram as saudades delle que pensou em affrontar o perigo e
-lá foi. Tinha cocegas de mirar as ruas e as pessoas, recordava as casas
-e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde appareciam
-taes e taes moças... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou
-por outra parte. Só passava de carro; depois quiz ver tudo a pé,
-devagar, parando, se fosse possivel, e revivendo o extincto.
-
-Lá se foi a pé; desceu pela rua de S. José, dobrou a da Misericordia,
-foi parar á praia de Santa Luzia, tornou pela rua de D. Manuel, enfiou
-de becco em becco. A principio olhava de esguelha, rapido, os olhos no
-chão. Aqui via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro. Dos sobrados
-de grade de pau debruçaram-se ainda moças, velhas e meninas e nenhuma
-era a mesma. Nobrega foi-se animando e. encarando. Talvez esta velha
-fosse moça, ha vinte annos; a moça talvez mamasse, e dá agora de mamar
-a outra creança. Nobrega acabou parando e andando de vagar.
-
-Voltou mais vezes. Só as casas, que eram as mesmas, pareciam
-reconhecel-o, e algumas quasi que lhe falavam. Não é poesia. O
-ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras, ouvir-se
-admirar dellas, contar-lhes a vida, obrigal-as a comparar o modesto
-de outr'ora com o garrido de hoje, e escutar-lhes as palavras
-mudas: «Vejam, manas, é elle mesmo.» Passava por,ellas, fitava-as,
-interrogava-as, quasi ria, quasi as tocava para sacudil-as com força:
-«Falem, diabos, falem!»
-
-Não confiaria de homem aquelle passado, mas ás paredes mudas, ás
-grades velhas, ás portas gretadas, aos lampiões antigos, se os havia
-ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quizera dar olhos, ouvidos e
-bôca, uma bôca que só elle escutasse, e que proclamasse a prosperidade
-daquelle velho andador.
-
-Uma vez, viu a matriz de S. José aberta e entrou. A egreja era a mesma;
-aqui estão os altares, aqui está a solidão, aqui está o silencio.
-Persignou-se, mas não orou; olhava só a um lado e outro, andando na
-direcção do altar-mór. Tinha receio de ver apparecer o sacristão, podia
-ser o mesmo, e conhecel-o. Ouviu passos, recuou depressa e saiu.
-
-Ao subir pela rua de S. José, encostou-se á parede, para deixar passar
-uma carroça. A carroça subiu a calçada, elle refugiou-se n'um corredor.
-O corredor podia ser qualquer; aquelle era o proprio em que elle fez
-a operação da nota de dous mil reis de Natividade. Olhou bem, era o
-mesmo. Ao fundo estavam os trez ou quatro degráos da primeira escada
-que dobrava á esquerda e pegava com a grande. Sorriu do acaso, reviu
-por um instante aquella manhã, viu no ar a nota de dous mil reis.
-Outras lhe teriam vindo ás mãos por maneiras assim faceis, mas nunca
-lhe esqueceu aquella graciosa folha gravada com tantos symbolos,
-numeros, datas e promessas, entregue por uma senhora desconhecida, sabe
-Deus se a propria Santa Rita de Cassia. Era a sua particular devoção.
-Sem duvida, trocou a nota e gastou-a, mas as partes dispersas não fôram
-senão levar a outras notas um convite para a algibeira do dono, e todas
-acudiram a mancheias, obedientes e caladas, para que não as ouvissem
-crescer.
-
-Por mais que elle olhasse pela vida dentro, não achava egual obsequio
-do céu, ou sequer do inferno. Mais tarde, se alguma joia lhe levou os
-olhos, não lhe levou as mãos. Tinha aprendido a respeitar o alheio, ou
-ganhára com que o comprar. A nota de dous mil reis... Um dia, ousando
-mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.
-
-Não, leitor, não me apanhas em contradicção. Eu bem sei que a principio
-o andador das almas attribuiu a nota ao prazer que a dama traria de
-alguma aventura. Ainda me lembram as palavras delle: «Aquellas duas
-viram passarinho verde!» Mas se agora attribuia a nota á protecção da
-santa, não mentia então nem agora. Era difficil atinar com a verdade.
-A unica verdade certa eram os dous mil reis. Nem se póde dizer que era
-a mesma em ambos os tempos. Então, a nota de dous mil reis equivalia,
-pelo menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora não
-subia de uma gorgeta de cocheiro.
-
-Tambem não ha contradicção em pôr a santa agora e a namorada outr'ora.
-Era mais natural o contrario, quando era maior a intimidade delle com
-egreja. Mas, leitor dos meus peccados, amava-se muito em 1871, como
-já se amava em 1861, 1851 e 1841, não menos que em 1881, 1891 e 1901.
-O seculo dirá o resto. E depois, é preciso não esquecer que a opinião
-do andador das almas ácerca de Natividade foi anterior ao gesto do
-corredor, quando elle agazalhou a nota na algibeira. É duvidoso que,
-depois do gesto, a opinião fosse a mesma.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXV
-
-
-Proverbio errado
-
-
-Pessoa a quem li confidencialmente o capitulo passado, escreve-me
-dizendo que a causa de tudo foi a cabocla do Castello. Sem as suas
-predicções grandiosas, a esmola de Natividade seria minima ou nenhuma,
-e o gesto do corredor não se daria por falta de nota. «A occasião faz o
-ladrão», conclue o meu correspondente.
-
-Não conclue mal. Ha todavia alguma injustiça ou esquecimento porque as
-razões do gesto do corredor fôram todas pias. Além disso, o proverbio
-póde estar errado. Uma das affirmações de Ayres, que tambem gostava de
-estudar adagios, é que esse não estava certo.
-
---Não é a occasião que faz o ladrão, dizia elle a alguem; o proverbio
-está errado. A fórma exacta deve ser esta: «A occasião faz o furto; o
-ladrão nasce feito.»
-
-
-
-
-CAPITULO LXXVI
-
-
-Talvez fosse a mesma!
-
-
-Nobrega saiu emfim do corredor, mas foi obrigado a deter-se, porque uma
-mulher lhe estendia a mão:
-
---Meu senhor, uma esmolinha por amor de Deus!
-
-Nobrega metteu a mão no bolso do collete e pegou um nickel, entre dous
-que lá havia, um de tostão, outro de dous. Pegou o primeiro, mas indo a
-darlh'o, mudou de ideia; não deu o nickel; disse á velha que esperasse,
-e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua, introduziu a mão
-na algibeira das calças e saccou um maço de dinheiro; procurou e achou
-uma nota de dous mil reis, não nova, antes velha, tão velha como a
-mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde
-com a velhice.
-
---Tome lá, murmurou elle.
-
-Quando a mendiga voltou do espanto, Nobrega acabava de restituir o
-maço á algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga então disse veiu
-entremeado de lagrimas:
-
---Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem
-Santissima...
-
-E beijava a nota, e queria beijar a mão que lhe dera a esmola, mas
-elle a escondeu, como no Evangelho, murmurando que não, que se fosse
-embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som quasi mystico,
-uma especie de melodia do céu, um côro de anjos, e fazia bem fitar-lhe
-os olhos encarquilhados, a mão tremula, segurando a nota. Nobrega não
-esperou que ella se fosse, saiu, desceu a rua, com as bençãos da mulher
-atraz de si; dobrou a esquina, a passo rapido, e ahi foi pensando não
-se sabe em quê.
-
-Atravessou a praça, passou a cathedral e a egreja do Carmo, e chegou
-ao Carceller, onde entregou as botas a um italiano para que lh'as
-engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo, para a direita
-ou para esquerda,--em todo caso para longe,--e acabou murmurando
-esta phrase, que tanto podia referir-se á nota. como á mendiga, mas
-provavelmente era á nota:
-
---Talvez fosse a mesma!
-
-Nenhum obsequio, por infimo que seja, esquece ao beneficiado. Ha
-excepções. tambem ha casos em que a memoria dos obsequios afflige,
-persegue e morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra é
-guardal-os na memoria, como as joias nos seus escrinios; comparação
-justa, porque o obsequio é muita vez alguma joia, que o obsequiado
-esqueceu de restituir.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXVII
-
-
-Hospedagem
-
-
-A família Baptista foi aposentada em casa de Santos. Natividade não
-pôde ir a bordo, e o marido estava occupado em «lançar uma companhia»;
-mandaram recado pelos filhos que a casa de Botafogo tinha já os quartos
-preparados. Desde que o carro se poz a andar, Baptista confessou que ia
-ficar constrangido por alguns dias.
-
---N'uma casa de pensão era melhor, até que nos despejassem a de S.
-Clemente.
-
---Que queria você? Não havia remedio senão acceitar, ponderou a mulher.
-
-Flora não disse nada, mas sentia o contrario do pae e da mãe. Pensar
-não pensou; ia tão atordoada com a vista dos rapazes que as ideias não
-se enfileiraram naquella forma logica do pensamento. A propria sensação
-não era nitida. Era uma mistura de oppressivo e delicioso, de turvo e
-claro, uma felicidade truncada, uma afflicção consoladora, e o mais que
-puderes achar no capitulo das contradicções. Eu nada mais lhe ponho.
-Nem ella saberia dizer o que sentia. Teve allucinações extraordinarias.
-
-Agora o que é mister dizer é que a ideia da hospedagem cabe toda aos
-dous jovens doutores. Que elles eram já doutores, posto não houvessem
-ainda encetado a carreira de advogado nem de medico. Viviam do amor
-da mãe e da bolsa do pae, inexgotaveis ambos. O pae abanou as orelhas
-á lembrança, mas os gemeos insistiram pelo obsequio, a tal ponto que
-a mãe, contente de os ver de accordo, saiu do silencio e concordou
-com elles. A ideia de ter a pequena ao pé de si, por alguns dias, e
-discernir qual era o melhor acceito, e o que devéras a amava, póde ser
-que tambem influisse na adopção do voto, mas não affirmo nada a tal
-respeito. Tambem não asseguro que tivesse grande gosto em agazalhar a
-mãe e o pae de Flora. Não obstante, o encontro foi cordial de parte a
-parte. Foi um abraçar, um beijar, um perguntar, um trocar de mimos que
-não acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra côr, outro ar. Flora
-era um encanto para Natividade e Perpetua; nenhuma destas sabia aonde
-iria parar aquella moça tão senhoril, tão esbelta, tão...
-
---Não digam o resto, interrompeu a moça sorrindo; eu tenho a mesma
-opinião.
-
-Santos recebeu-os, á tarde, com a mesma cordialidade,--talvez menos
-apparente, mas tudo se desculpa a quem anda com grandes negocios.
-
---Uma ideia sublime, disse elle ao pae de Flora; a que lancei hoje foi
-das melhores, e as acções valem já ouro. Trata-se de lã de carneiro,
-e começa pela criação deste mammifero nos campos do Paraná. Em cinco
-annos poderemos vestir a America e a Europa. Viu o programma nos
-jornaes?
-
---Não, não leio jornaes daquir desde que embarquei.
-
---Pois verá!
-
-No dia seguinte, antes de almoçar, mostrou ao hospede o programma e os
-estatutos. As acções eram maços e maços, e Santos ia dizendo o valor
-de cada um. Baptista sommava mal, em regra; daquella vez, peor. Mas os
-algarismos cresciam á vista, trepavam uns nos outros, enchiam o espaço,
-desde o chão até ás janellas, e precipitavam-se por ellas abaixo, com
-um rumor de ouro que ensurdecia. Baptista saiu d'alli fascinado, e foi
-repetir tudo á mulher.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXVIII
-
-
-Visita ao marechal
-
-
-D. Claudia, quando elle acabou, perguntou-lhe com simplicidade:
-
---Você vae hoje ao marechal?
-
-Baptista, caindo em si:
-
---Naturalmente.
-
-Tinham ajustado que elle iria ter com o presidente da Republica
-explicar-lhe a commissão que exercera, toda reservada, e, sem embargo,
-imparcial. Diria o espirito de concordia com que andou e a estima que
-adquiriu. Em seguida, falaria da conveniencia de um governo que, pela
-fortaleza e pela liberdade, excedesse o do generalissimo; e uma phrase
-final bem estudada.
-
---Isso na occasião, disse Baptista.
-
---Não, é melhor leval-a feita. Eu lembrei-me desta: «Creia V. Ex. que
-Deus está com os fortes e os bons.»
-
---Sim, não é má.
-
---Você póde accrescentar um gesto que indique céu.
-
---Isso é que não. Você sabe que eu não dou para gestos, não sou actor.
-Eu, sem mexer um pé, inspiro respeito.
-
-D. Claudia dispensou o gesto; não era essencial. Quiz que elle
-escrevesse a phrase, mas já estava de cór. Baptista tinha boa memoria.
-
-Naquelle mesmo dia, Baptista foi ao marechal Floriano. Não disse nada
-ás pessoas da casa; contaria tudo na volta. D. Claudia tambem calou,
-era por pouco tempo; ficou esperando anciosa. Esperou duas mortaes
-horas, chegou a imaginar que lhe tivessem encarcerado o esposo, por
-intrigas. Não era devota, mas o medo inspira devoção, e ella rezou
-comsigo. Emfim, chegou Baptista. Ella correu a recebel-o, alvoroçada,
-pegou-lhe na mão e recolheram-se ao quarto. Perpetua (vêde o que são
-testemunhos pessoaes na historia!) exclamou enternecida:
-
---Parecem dous pombinhos!
-
-Baptista contou que a recepção foi melhor do que esperava, comquanto o
-marechal não lhe dissesse nada, mas escutou-o com interesse. A phrase?
-A phrase saiu bem, apenas com uma emenda. Não estando certo se elle
-preferia _bons a fortes_, ou se _fortes a bons..._
-
---Deviam ser as duas palavras, interrompeu a mulher.
-
---Sim, mas lembrou-me empregar uma terceira: «Creia V. Ex. que Deus
-está com os dignos!»
-
-Com effeito, a ultima palavra podia abranger as duas, e trazia esta
-vantagem de dar á phrase um arranjo pessoal delle.
-
---Mas o marechal que disse?
-
---Não disse nada; ouviu-me com attenção obsequiosa e chegou a
-sorrir,--um sorriso leve, um sorriso de accordo...
-
---Ou seria... Quem sabe... Você não andou bem, de certo. Commigo elle
-diria alguma cousa. Você expoz tudo, conforme tinhamos combinado?
-
---Tudo.
-
---Expoz as razões da commissão, o desempenho, a nossa moderação...?
-
---Tudo, Claudia.
-
---E o aperto de mão do marechal?
-
---Não estendeu a mão, a principio; fez um gesto de cabeça; eu é que
-estendi a minha, dizendo: Sempre ás ordens de V. Ex.
-
---E elle?
-
---Elle apertou-me a mão.
-
---Apertou bem?
-
---Você sabe, não podia ser um apertão de amigo, mas deve ter sido
-cordial.
-
---E nenhuma palavra? Um _passe bem_, ao menos?
-
---Não, nem era preciso. Cortejei-o e saí.
-
-D. Claudia deixou-se estar pensando. A recepção não lhe pareceu que
-fosse má, mas podia ser melhor. Com ella, seria muito melhor.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXIX
-
-
-Fusão, diffusão, confusão...
-
-
-Atraz falei das allucinações de Flora. Realmente, eram extraordinarias.
-
-Em caminho, depois do desembarque, não obstante virem os gemeos
-separados e sós, cada um no seu _coupé_, scismou que os ouvia
-falar; primeira parte da allucinação. Segunda parte: as duas vozes
-confundiam-se, de tão eguaes que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal,
-a imaginação fez dos dous moços uma pessoa unica.
-
-Este phenomeno não creio que possa ser commum. Ao contrario, não
-faltará quem absolutamente me não creia, e supponha invenção pura o que
-é verdade purissima. Ora, é de saber que, durante a commissão do pae,
-Flora ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na mesma voz e
-mesma creatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o phenomeno.
-Quando ouvia os dous, sem os ver, a imaginação acabava a fusão do
-ouvido pela da vista, e um só homem lhe dizia palavras extraordinarias.
-
-Tudo isto não é menos extraordinario, concordo. Se eu consultasse o meu
-gosto, nem os dous rapazes fariam um só mancebo, nem a moça seria uma
-só donzella. Corrigiria a natureza desdobrando Flora. Não podendo ser
-assim, consinto na unificação de Pedro e Paulo. Porquanto, esse effeito
-de visão repetia-se ao pé delles, tal qual na ausencia, quando ella se
-deixava esquecer do logar, e soltava a redea a si mesma. Ao piano, á
-palestra, ao passeio na chacara, á mesa de jantar, tinha dessas visões
-repentinas e breves, e das quaes ella mesma sorria, a principio.
-
-Se alguem quizer explicar este phenomeno pela lei da hereditariedade,
-suppondo que elle era a forma affectiva da variação politica da mãe
-de Flora, não achará apoio em mim, e creio que em ninguem. São cousas
-diversas. Conheceis os motivos de D. Claudia; a filha teria outros
-que ella propria não sabia. O unico ponto de semelhança é que, tanto
-na mãe como na filha, o phenomeno era agora mais frequente, mas em
-relação á primeira vinha do atropello dos acontecimentos exteriores.
-Nenhuma revolução se faz como a simples passagem de uma sala a outra;
-as mesmas revoluções chamadas de palacio trazem alguma agitação que
-fica por certo prazo, até que a agua volte ao nivel. D. Claudia cedia á
-inquietação dos tempos.
-
-A filha obedeceria a outra causa qualquer, que se não podia descobrir
-logo, nem sequer entender. Era um espectaculo mysterioso, vago,
-obscuro, em que ás figuras visiveis se faziam impalpaveis, o dobrado
-ficava unico, o unico desdobrado, uma fusão, uma confusão, uma
-diffusão...
-
-
-
-CAPITULO LXXX
-
-
-Transfusão, emfim
-
-
-Uma transfusão, tudo o que puder definir melhor, pela repetição e
-graduação das fórmas e dos estados, aquelle particular phenomeno, pódes
-empregal-o no outro e neste capitulo.
-
-Dito o phenomeno, é preciso dizer tambem que Flora, a principio,
-achava-lhe graça. Minto; nos primeiros tempos, como estava longe, não
-lhe achou nada; depois, sentiu uma especie de susto ou vertigem, mas
-logo que se acostumou a passar de dous a um e de um a dous, pareceu-lhe
-graciosa a alternação, e chegava a evocal-a com o proposito de divertir
-a vista. Afinal nem isto era preciso, a alternação fazia-se de si
-mesma. Umas vezes era mais lenta que outras, alguma instantanea. Não
-eram tão frequentes que confinassem com o delirio. Emfim, ella se foi
-acostumando e deleitando.
-
-Uma ou outra vez, na cama, antes de dormir, repetia-se o phenomeno,
-depois de muita resistencia da parte della, que não queria perder
-o somno. Mas o somno vinha, e o sonho completava a vigilia. Flora
-passeava então pelo braço do mesmo garção amado, Paulo se não Pedro, e
-ambos iam admirar estrellas e montanhas, ou então o mar, que suspirava
-ou tempestuava, e as flores e as ruinas. Não era raro ficarem os dous
-a sós, deante de uma nesga de céu, claro de luar, ou todo repregado
-de estrellas como um panno azul escuro. Era á janella, suppõe; vinha
-de fóra a cantiga dos ventos mansos, um espelho grande, pendente da
-parede, reproduzia as figuras della e delle, confirmando a imaginação
-della. Como era sonho, a imaginação trazia espectaculos desconhecidos,
-taes e tantos que mal se podia crêr bastasse o espaço de uma noite. E
-bastava. E sobrava. Succedia que Flora acordava de repente, perdia o
-quadro e o vulto, e persuadia-se que era tudo illusão, e raro então
-dormia. Se era cedo, erguia-se, andava, cançava-se, até adormecer
-novamente e sonhar outra cousa.
-
-Outras vezes, a visão ficava sem o sonho, e diante della uma só figura
-esbelta, com a mesma voz namorada, o mesmo gesto supplice. Uma noite,
-indo a deitar-lhe os braços sobre os hombros com o fim inconsciente
-de cruzar os dedos atraz do pescoço, a realidade, posto que ausente,
-clamou pelos seus fóros, e o unico moço se desdobrou na duas pessoas
-semelhantes.
-
-A differença deu ás duas visões de acordada um tal cunho de
-fantasmagoria que Flora teve medo e pensou no Diabo.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXI
-
-
-Ai, duas almas...
-
-
-Anda, Flora, ajuda-me, citando alguma cousa, verso ou prosa, que
-exprima a tua situação. Cita Goethe, amiga minha, cita um verso do
-Fausto, adequado:
-
- Ai, duas almas no meu seio moram!
-
-A mãe dos gemeos, a bella Natividade podia havel-o citado tambem, antes
-delles nascerem, quando ella os sentia lutando dentro em si mesma:
-
- Ai, duas almas no meu seio moram!
-
-Nisto as duas se parecem,--uma os concebeu, outra os recolheu.
-Agora, como é que se dá ou se dará a escolha de Flora, nem o proprio
-Mephistopheles nol-o explicaria de modo claro e certo. O verso basta:
-
- Ai, duas almas no meu seio moram!
-
-Talvez aquelle velho Placido, que lá deixamos nas primeiras paginas,
-chegasse a deslindar estas outras. Doutor em materias escuras e
-complicadas, sabia muito bem o valor dos numeros, a significação dos
-gestos não só visiveis como invisiveis, a estatistica da eternidade,
-a divisibilidade do infinito. Era já morto deste alguns annos. Has de
-lembrar-te que elle, consultado pelo pae de Pedro e Paulo, acerca da
-hostilidade original dos gemeos, explicou-a promptamente. Morreu no seu
-officio; expunha a trez discipulos novos a correspondencia das letras
-vogaes com os sentidos do homem, quando caiu de bruços e expirou.
-
-Já então os adversarios de Placido,--que os tinha na propria
-seita,--affirmavam haver elle aberrado da doutrina, e, por natural
-effeito, enlouquecido. Santos nunca se deixou ir com esses divergentes
-da casa commum, que acabaram formando outra egrejinha em outro bairro,
-onde pregavam que a correspondencia exacta não era entre as vogaes e
-os sentidos, mas entre os sentidos e as vogaes. Esta outra formula,
-parecendo mais clara, fez com que muitos discipulos da primeira hora
-acompanhassem os da ultima, e proclamem agora, como conclusão final,
-que o homem é um alphabeto de sensações.
-
-Venceram estes, ficando mui poucos fieis á doutrina do velho Placido.
-Evocado algum tempo depois de morto, confessou elle ainda uma vez a sua
-formula, como a unica das unicas, e excommungou a quantos prégassem
-o contrario. Aliás, os dissidentes já o haviam excommungado tambem,
-declarando abominavel a sua memoria, com aquelle odio rijo, que
-fortalece alguma vez o homem contra a frouxidão da piedade.
-
-Talvez o velho Placido deslindasse o problema em cinco minutos. Mas
-para isso era preciso evocal-o, e o discipulo Santos cuidava agora de
-umas liquidações ultimas e lucrativas. Não só de fé vive o homem, mas
-tambem de pão e seus compostos e similares.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXII
-
-
-Em S. Clemente
-
-
-Ao cabo de poucas semanas, a familia Baptista saiu da casa Santos,
-e tornou á rua de S. Clemente. A despedida foi terna, as saudades
-começaram antes da separação, mas a affeição, o costume, a estima,--a
-necessidade, em summa, de se verem a miudo compensaram a melancolia, e
-a gente Baptista levou promessa de que a gente Santos iria vel-a dahi a
-poucos dias.
-
-Os gemeos cumpriram cedo a promessa. Um delles, parece que Paulo, foi
-lá nessa mesma noite com recado da mãe para saber se tinham chegado
-bem. Disseram-lhe que sim, accrescentando Baptista, para abreviar a
-visita, que estavam bastante cançados. Os olhos de Flora desmentiram
-esta affirmação; mas dentro em pouco achavam-se não menos tristes que
-alegres. A alegria vinha da promptidão de Paulo, a tristeza da ausencia
-de Pedro. Quizera-os ambos naturalmente; mas, como é que as duas
-sensações se mostravam a um tempo, eis o que não entenderás bem nem
-mal. Certamente, os olhos iam diversas vezes para a porta, e uma vez
-pareceu á moça ouvir rumor na escada; tudo illusão. Mas estes gestos,
-que Paulo não viu, tão contente estava de se haver adiantado ao irmão,
-não eram taes que a fizessem esquecer o irmão presente.
-
-Paulo saiu tarde, não só para o fim de aproveitar a ausencia de Pedro,
-mas ainda porque Flora o fazia demorar, com o intuito de ver se o outro
-chegava. Assim que, a mesma dualidade de sensação enchia os olhos da
-moça, até á hora da despedida, em que a parte triste foi maior que a
-alegre, pois que eram duas ausencias, em vez de uma. Conclue o que
-quizeres, minha dona; ella recolheu-se para dormir, e reconheceu que,
-se se não dorme com uma tristeza na alma, muito menos com duas.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXIII
-
-
-A grande noite
-
-
-Ha muito remedio contra a insomnia. O mais vulgar é contar de um
-até mil, dous mil, trez mil ou mais, se a insomnia não ceder logo.
-É remedio que ainda não fez dormir ninguem, ao que parece, mas não
-importa. Até agora, todas as applicações efficazes contra a tisica vão
-de par com a noção de que a tisica é incuravel. Convem que os homens
-affirmem o que não sabem, e, por officio, o contrario do que sabem;
-assim se fórma esta outra incuravel, a Esperança.
-
-Flora, incuravel tambem, se não preferes a definição de inexplicavel,
-que lhe deu Ayres, a graciosa Flora teve naquella noite a sua insomnia.
-Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar quietinha e dormir com
-os anjos, achou melhor velar com um ou dous delles, e gastar uma parte
-da noite, á janella ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar e a
-completar, mettida no roupão de linho, com os cabellos atados para
-dormir.
-
-A principio pensou no que lá estivera, e evocou todas as suas graças,
-realçadas pela virtude particular de a ter ido ver á noite, sem embargo
-de se terem visto de manhã. Sentia-se grata. Toda a conversação foi
-alli repetida na solidão da alcova, com as intonações diversas, o vario
-assumpto, e as interrupções frequentes, ora dos outros, ora della
-mesma. Ella, em verdade, só interrompia, para pensar no ausente,--e
-portanto não fazia mais que converter o dialogo em monologo, o qual por
-sua vez acabava em silencio e contemplação.
-
-Agora, pensando em Paulo, queria saber porque é que o não escolhia para
-noivo. Tinha uma qualidade a mais, a nota aventurosa do caracter, e
-esta feição não lhe desprazia. Inexplicavel ou não, deixava-se levar
-pelos impotos do rapaz, que queria trocar o mundo e o tempo por outros
-mais puros e felizes. Aquella cabeça, apenas masculina, era destinada
-a mudar a marcha do sol, que andava errado. A lua tambem. A lua pedia
-um contacto mais frequente com os homens, menos quartos, não descendo o
-minguante do metade. Visivel todas as noites, sem que isso acarretasse
-a decadencia das estrellas, continuaria modestamente o officio do sol,
-e faria sonhar os olhos insomnes ou só cançados de dormir. Tudo isso
-cumpriria a alma de Paulo, faminta de perfeição. Era um bom marido, em
-summa. Flora cerrou as palpebras, para vel-o melhor, o achou-o a seus
-pés, com as mãos della entre as suas, risonho e extatico.
-
---Paulo! meu querido Paulo!
-
-Inclinou-se, para vel-o de mais perto, e não perdeu o tempo nem a
-intenção. Visto assim, era mais bello que simplesmente couversando
-das cousas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos olhos, e
-achou-se dentro da alma do rapaz. O que lá viu não soube dizel-o bem;
-foi tudo tão novo e radiante que a pobre retina de moça não podia
-fitar nada com segurança nem continuidade. As ideias faiscavam como
-saindo de um fogareiro á força de abano, as sensações batiam-se em
-duelo, as reminiscencias subiam frescas, algumas saudades, e ambições
-principalmente, umas ambições de azas largas, que faziam vento só com
-agital-as. Sobre toda essa mescla e confusão chovia ternura, muita
-ternura...
-
-Flora recolheu os olhos, Paulo estava na mesma postura; mas do lado
-da porta, mettido na penumbra, a figura de Pedro apparecia, não menos
-bella, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada daquella tristeza.
-Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo podia
-chorar lagrimas de sangue, sem lhe merecer a menor sympathia. Que o
-amor, conforme as nymphas antigas e modernas, não tem piedade. Quando
-ha piedade para outro, dizem ellas, é que o amor ainda não nasceu de
-verdade, ou já morreu de todo, e assim o coração não lhe importa vestir
-essa primeira camisa do affecto. Perdoa a figura; não é nobre, nem
-clara, mas a situação não me dá tempo de ir á cata de outra.
-
-Pedro approximou-se, a passo lento, ajoelhou-se tambem e tomou-lhe
-as mãos que Paulo apertava entre as suas. Paulo ergueu-se e sumiu-se
-pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava entre ellas.
-Talvez Paulo fosse bramindo de colera; ella é que não ouviu nada, tão
-docemente vivo era o gesto de Pedro, já agora sem melancolia, e os
-olhos tão extaticos como os do irmão. Não eram taes que saissem, como
-os deste, ás aventuras. Tinham a quietação de quem não queria mais sol
-nem lua que esses que andam ahi, que se contenta de ambos, e, se os
-acha divinos, não cuida de os trocar por novos. Era a ordem, se queres,
-a estabilidade, o accordo entre si e as cousas, não menos sympathicos
-ao coração da moça, ou por trazerem a ideia de perpetua ventura, ou por
-darem a sensação de uma alma capaz de resistir.
-
-Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro, até
-chegar á alma do rapaz. O motivo secreto desta outra entrada podia
-ser o escrupulo de cotejar as duas para julgal-as, se não era sómente
-o desejo de não parecer menos curiosa de uma que de outra. Ambas as
-razões são boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de fitar
-os olhos de Pedro era tão natural que não exigia intenção particular
-nenhuma, e bastava fital-os para escorregar e cair dentro da alma
-namorada. Era gemea da outra; não lhe viu mais nem menos que nesta.
-
-Unicamente,--e aqui toco o ponto escabroso do capitulo,--achou cá
-alguma cousa indefinivel que não sentira lá; em compensação sentiu lá
-outra que não se lhe deparou cá. Indefinivel, não esqueças. E escabroso
-porque nada ha peor que falar de sensações sem nome. Crêde-me, amigo
-meu, e tu, não menos amiga minha, crêde-me que eu preferia contar as
-rendas do roupão da moça, os cabellos apanhados atraz, os fios do
-tapete, as taboas do tecto e porfim os estalinhos da lamparina que vae
-morrendo... Seria enfadonho, mas entendia-se.
-
-Sim, a lamparina ia morrendo, mas ainda podia dar luz ao regresso de
-Paulo. Quando Flora o viu entrar e ajoelhar-se outra vez, ao pé do
-irmão, e ambos dividirem entre si as mãos della, mansos e cordatos,
-ficou longa mente attonita. Obra de um credo, como diziam os nossos
-antigos, quando havia mais religião que relogios. Voltando a si,
-puxou as mãos, estendeu-as depois sobre a cabeça delles, como se lhes
-apalpasse a differença, o _quid_, o algo, o indefinivel. A lamparina ia
-morrendo... Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamações, por exhortações,
-por supplicas, a que ella respondia mal e tortamente, não que os não
-entendesse, mas por não os aggravar, ou acaso por não saber a qual
-delles diria melhor. A ultima hypothese tem ar de ser a mais provavel.
-Em todo caso, é o prologo do que succedeu, quando a lamparina chegou
-aos ultimos arrancos.
-
-Tudo se mistura, á meia claridade; tal seria a causa da fusão dos
-vultos, que de dous que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo
-visto sair nenhum dos gemeos, mal podia crêr que formassem agora uma
-só pessoa, mas acabou crêndo, mormente depois que esta unica pessoa
-solitaria parecia completal-a interiormente, melhor que nenhuma das
-outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar.
-Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si
-mesma, que sentia bater nella o coração. Estava tão cançada de emoções
-que tentou erguer-se e ir fóra, mas não pôde; as pernas pareciam de
-chumbo e colladas ao solo. Assim esteve, até que a lamparina, ao canto,
-morreu de todo. Flora teve um sobresalto na poltrona, e ergueu-se:
-
---Que é isto?
-
-A lamparina apagou-se. Foi accendel-a. Viu então que estava sem um nem
-outro, sem dous nem um só fundido de ambos. Toda a fantasmagoria se
-desfizera. A lamparina (agora nova) alumiava o seu quarto de dormir,
-e á imaginação creára tudo. Foi o que ella suppoz, e o leitor sabe.
-Flora comprehendeu que era tarde, e um gallo confirmou essa opinião,
-cantando; outros gallos fizeram a mesma cousa.
-
---Ora, meus Deus! exclamou a filha de Baptista.
-
-Metteu-se na cama, e, se não dormiu logo, tambem não se demorou muito;
-não tardou a estar com os anjos. Sonhou com o canto dos gallos, uma
-carroça, um lago, uma scena de viagem do mar, um discurso e um artigo.
-O artigo era de verdade. A mãe veiu acordal-a, ás dez horas da manhã,
-chamando-lhe dorminhoca, e alli mesmo, na cama, lhe leu uma folha da
-manhã que recommendava o marido ao governo. Flora ouviu satisfeita;
-acabara a grande noite.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXIV
-
-
-O velho segredo
-
-
-Natividade dormiu tranquilla, em Botafogo, mas acordou pensando nos
-filhos e na moça de S. Clemente. Viera reparando nos trez. Parecera-lhe
-antes que Flora não acceitava um nem outro, logo depois que os
-acceitava a ambos, e mais tarde um e outro alternadamente. Concluiu
-que ainda não sentiria nada particular e decisivo; naturalmente iria
-com os tempos, a ver qual destes a merecia deveras. Elles é que
-pareciam sentir egual inclinação e egual ciume. Dahi alguma possivel
-catastrophe. A separação não supprimiria tudo; mas, além de que,
-separadas as familias, nem tudo seria presente a seus olhos, as visitas
-podiam ser menos frequentes e até raras. Tinha assim o que quizera.
-
-Ao demais, ia chegando o tempo de ir para Petropolis; propriamente,
-chegára. Natividade cuidava de subir com os filhos. Sempre haveria lá
-no alto damas elegantes, diversões, alegria. Podia ser até que elles
-achassem noivas, e bastava uma para um. O que ficasse sem ella teria
-a liberdade de desposar Flora. Calculos de mãe; vieram outros que os
-modificaram, e outros que os restauraram. Quem fôr mãe que lhe atire a
-primeira pedra.
-
-Nenhuma outra mãe atirou a primeira pedra á nossa amiga. Quero crêr
-que a razão disto não foi senão a propria discrição de Natividade.
-Suspeitas e calculos iam ficando no coração della. Calou tudo e esperou.
-
-Ao cabo, Flora cada vez gostava mais de Natividade. Queria-lhe como se
-ella fosse sua mãe, duplamente mãe, uma vez que não escolhera ainda
-nenhum dos filhos. A causa podia ser que as duas indoles se ajustassem
-melhor que entre Flora e D. Claudia. A principio, sentiu não sei que
-inveja amiga, antes desejo, quando via que as fórmas da outra, embora
-arruinadas pelo tempo, ainda conservavam alguma linha da esculptura
-antiga. Pouco a pouco, foi descobrindo em si mesma o introito de uma
-belleza, que devia ser longa e fina, e de uma vida, que podia ser
-grande...
-
-Flora conhecia a predicção da cabocla do Castello, relativamente aos
-dous gemeos. A predicção não era já segredo para ninguem. Santos falara
-della em tempo, apenas occultando a subida de Natividade ao Castello;
-emendou a verdade, dizendo que a cabocla é que viera a Botafogo. O
-resto foi revelado em confiança, como ao finado Placido, e ainda depois
-de alguma luta. Trez ou quatro vezes investiu e recuou. Um dia, a
-lingua deu sete voltas na bôca, e o segredo saiu medroso e sussurrado,
-mas perdeu o medo pelo gosto de mostrar que os rapazes seriam grandes.
-Emfim, o segredo foi esquecendo. Mas Perpetua, por isto ou aquillo,
-contou-o agora á moça Baptista, que a ouviu incredula. Que podia saber
-a cabocla do futuro?
-
---Sabia, e a prova é que adivinhou outras cousas, que não posso contar
-e eram verdadeiras. Você não imagina como o diacho da cabocla via
-longe. E tinha uns olhos de espetar o coração.
-
---Não acredito, D. Perpetua. Pois agora o futuro da gente... E grandes
-como?
-
---Isso não disse por mais que Natividade lhe perguntasse; disse só
-que seriam grandes e subiriam muito. Talvez venham a ser ministros de
-Estado.
-
-Perpetua parecia haver comprado os olhos á cabocla. Enfiava-os pela
-amiga abaixo, até o coração, que aliás não batia com força nem
-apressado, mas tão regular como de costume. Entretanto, não sendo
-impossivel que os dous rapazes chegassem aos altos deste mundo, Flora
-deixou de objectar e acceitou a predicção, sem outra palavra mais que
-um gesto,--sabes, creio,--um gesto de boca, fazendo descair os cantos
-della, levantando os hombros levemente, e espalmando as mãos, como se
-dissesse: Emfim, póde ser.
-
-Perpetua accresceptou que, mudado o regimen, era natural que Paulo
-chegasse primeiro á grandeza,--e aqui espetou bem os olhos. Era um
-modo de de apanhar os sentimentos de Flora, acenando-lhe com a elevação
-de Paulo, pois bem podia ser que viesse a amar antes o destino que a
-pessoa. Não achou nada. Flora continuou a não se deixar ler. Não lhe
-attribuas isto a calculo, não era calculo. Seriamente, não pensava em
-nada acima de si.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXV
-
-
-Trez constituições
-
-
---Você crê deveras que venhamos a ser grandes homens? perguntára Pedro
-a Paulo, antes da queda do imperio.
-
---Não sei; você pode vir a ser, quando menos, primeiro ministro.
-
-Depois de 15 de novembro, Paulo retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu
-como o irmão, emendando o resto:
-
---Não sei; você póde vir a ser presidente da republica.
-
-Já lá iam dous annos. Agora pensavam mais em Flora que na subida. A
-boa moral pede que ponhamos a cousa publica acima das pessoaes, mas os
-moços nisto se parecem com velhos e varões de outra edade, que muita
-vez pensam mais em si que em todos. Ha excepções, nobres algumas,
-outras nobilissimas. A historia guarda muitas dellas, e os poetas,
-epicos e tragicos, estão cheios de casos e modelos de abnegação.
-
-Praticamente, seria exigir muito de Pedro e Paulo que cuidassem mais
-da constituição de 24 de fevereiro que da moça Baptista. Pensavam em
-ambas, é verdade, e a primeira já dera logar a alguma troca de palavras
-acerbas. A constituição, se fosse gente viva, e estivesse ao pé delles,
-ouviria os ditos mais contrarios deste mundo, porque Pedro ia ao ponto
-de a achar um poço de iniquidades, e Paulo a propria Minerva nascida
-da cabeça de Jove. Falo por metaphora para não descair do estylo. Em
-verdade, elles empregavam palavras menos nobres e mais emphaticas, e
-acabavam trocando as primeiras entre si. Na rua, onde o encontro de
-manifestações politicas era commum, e as noticias á porta dos jornaes
-frequente, tudo era occasião de debate.
-
-Quando, porém, a imagem de Flora apparecia entre elles por imaginação,
-o debate esmorecia, mas as injurias continuavam e até cresciam,
-sem confissão do novo motivo, que era ainda maior que o primeiro.
-Effectivamente, elles iam chegando ao ponto em que dariam as duas
-constituições, a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moça,
-se tanto fosse exigido. Cada um faria com ella a sua constituição,
-melhor que outra qualquer deste mundo.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXVI
-
-
-Antes que me esqueça
-
-
-Uma cousa é preciso dizer antes que me esqueça. Sabes que os dous
-gemeos eram bellos e continuavam parecidos; por esse lado não suppunham
-ter motivo de inveja entre si. Ao contrario, um e outro achavam em si
-qualquer cousa que accentuava, senão melhorava, as graças communs. Não
-era verdade, mas não é a verdade que vence, é a convicção. Convence-te
-de uma ideia, e morrerás por ella, escreveu Ayres por esse tempo no
-_Memorial_, e accrescentou: «nem é outra a grandeza dos sacrificios,
-mas se a verdade acerta com a convicção, então nasce o sublime, e atraz
-delle o util...» Não acabou ou não explicou esta phrase.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXVII
-
-
-Entre Ayres e Flora
-
-
-Aquella citação do velho Ayres faz-me lembrar um ponto em que elle e a
-moça Flora divergiam ainda mais que na edade. Já contei que ella, antes
-da commissão do pae, defendia Pedro e Paulo, conforme estes diziam mal
-um do outro, Naturalmente fazia agora a mesma cousa, mas a mudança do
-regimen trouxe occasião de defender tambem monarchistas e republicanos,
-segundo ouvia as opiniões de Paulo ou de Pedro. Espirito de conciliação
-ou de justiça, applacava a ira ou o desdem do interlocutor: «Não diga
-isso... São patriotas tambem... Convem desculpar algum excesso...»
-Eram só phrases, sem impeto de paixão nem estimulo de principios; e o
-interlocutor concluia sempre:
-
---A senhora é boa.
-
-Ora, o costume de Ayres era o opposto dessa contradicção benigna.
-Has-de lembrar-te que elle usava sempre concordar com o interlocutor,
-não por desdem da pessoa, mas para não dissentir nem brigar. Tinha
-observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto
-á gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar á sua um
-aspecto abominavel. Se lucrasse alguma cousa, vá; mas, não lucrando
-nada, preferia ficar em paz com Deus e os homens. Dahi a arranjo de
-gestos e phrases affirmativas que deixavam os partidos quietos, e mais
-quieto a si mesmo.
-
-Um dia, como ella estivesse com Flora, falou daquelle costume della,
-dizendo-lhe que parecia estudado. Flora negou que o fosse; era
-inclinação natural defender os ausentes, que não podiam responder por
-nada; demais, applacava assim um dos gemeos com quem falasse, e depois
-o outro.
-
---Tambem concordo.
-
---E porque ha de o senhor concordar sempre? perguntou ella sorrindo.
-
---Posso concordar com a senhora, porque é uma delicia ir com as suas
-opiniões, e seria mau gosto rebatel-as, mas, em verdade, não ha
-calculo. Com os mais, se concordo, é porque elles só dizem o que eu
-penso.
-
---Ja o tenho achado em contradicção.
-
---Póde ser. A vida e o mundo não são outra cousa. A senhora não saberá
-isto bem, porque é moça e ingenua, mas creia que a vantagem é toda
-sua. A ingenuidade é o melhor livro e a mocidade a melhor escola. Vá
-desculpando esta minha pedanteria; alguma vez é um mal necessario.
-
---Não se accuse, conselheiro. O senhor sabe que eu não creio nada
-contra a sua palavra, nem contra a sua pessoa; a propria contradicção
-que lhe acho é agradavel.
-
---Tambem concordo.
-
---Concorda com tudo.
-
---Olha aqui, Flora; dá licença, conselheiro?
-
-Esqueceu-me dizer que esta conversação era á porta de uma loja de
-fazendas e modas, rua do Ouvidor. Ayres ia na direcção do largo de S.
-Francisco de Paula e viu a mãe e a filha dentro, sentadas, a escolher
-um tecido. Entrou, comprimentou-as, e veiu á porta com a filha. O
-chamado de D. Claudia interrompeu a conversação por alguns instantes.
-Ayres ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam mulheres de todas
-as classes, homens de todos os officios, sem contar as pessoas paradas
-de ambos os lados e no centro. Não havia borborinho grande, nem socego
-puro, um meio termo.
-
-Talvez algumas pessoas fossem conhecidas de Ayres e o comprimentassem;
-mas este tinha a alma tão mettida em si mesma que, se falou a uma ou
-duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a cabeça para dentro,
-onde Flora e a mãe faziam a sua consulta. Ouvia as palavras trocadas
-ainda agora. Sentia-se curioso de saber se finalmente a moça escolhia
-a um dos gemeos, e qual destes. Vá tudo; tinha já pezar que não fosse
-algum, posto não lhe importasse saber se Pedro ou Paulo. Quizera vel-a
-feliz, se a felicidade era o casamento, e feliz o marido, sem embargo
-da exclusão; o excluido seria consolado. Agora, se era por amor delles,
-se della, é o que propriamente se não póde dizer com verdade. Quando
-muito, para levantar a ponta do veu, seria preciso entrar na alma
-delle, ainda mais fundo que elle mesmo. Lá se descobriria acaso, entre
-as ruinas de meio celibato, uma flôr descorada e tardia de paternidade,
-ou, mais propriamente, de saudade della...
-
-Flora trouxe novamente a rosa fresca e rubra da primeira hora. Não
-falaram mais de contradicção, mas da rua, da gente e do dia. Nenhuma
-palavra ácerca de Pedro ou Paulo.
-
-
-
-
-CAPITULO LXXXVIII
-
-
-Não, não, não
-
-
-Elles, onde quer que estivessem naquelle momento, podiam falar ou não.
-A verdade é que, se nenhum consentia em deixar a moça, tambem nenhum
-contava obtel-a, por mais que a achassem inclinada. Tinham já combinado
-que o rejeitado acceitaria a sorte, e deixaria o campo ao vencedor. Não
-chegando a victoria, não sabiam como resolver a batalha. Esperar, seria
-o mais facil, se a paixão não crescesse, mas a paixão crescia.
-
-Talvez não fosse exactamente paixão, se dermos a esta palavra o sentido
-de violencia; mas, se lhe reconhecermos uma forte inclinação de amor,
-um amor adolescente ou pouco mais, era o caso. Pedro e Paulo cederiam a
-mão da pequena, se houvessem de consultar só a razão, e mais de uma vez
-estiveram a pique de o fazer; raro lampejo, que para logo desapparecia.
-A ausencia era já insoffrivel, a presença necessaria. Se não fôra o que
-aconteceu e se contará por essas paginas adiante, haveria materia para
-não acabar mais o livro; era só dizer que sim e que não, e o que estes
-pensaram e sentiram, e o que ella sentia e pensou, até que o editor
-dissesse: basta! Seria um livro de moral e de verdade, mas a historia
-começada ficaria sem fim. Não, não, não... Força é continual-a e
-acabal-a. Comecemos por dizer o que os dous gemeos ajustaram entre si,
-poucos dias depois daquelle sonho ou delirio da moça Flora, á noite, no
-quarto.
-
-
-
-CAPITULO LXXXIX
-
-
-O dragão
-
-
-Vejamos o que é que estes ajustaram. Vinham de estar com Ayres no
-theatro, uma noite, matando o tempo. Conheceis este dragão; toda a
-gente lhe tem dado os mais fundos golpes que póde, elle esperneia,
-expira e renasce. Assim se fez naquella noite. Não sei que theatro foi,
-nem que peça, nem que genero; fosse o que fosse, a questão era matar o
-tempo, e os trez o deixaram estirado no chão.
-
-Fôram dallí a um _restaurant._ Ayres disse-lhes que, antigamente,
-em rapaz, acabava a noite com amigos da mesma edade. Era o tempo de
-Offenbach e dá opereta. Contou anecdotas, disse as peças, descreveu
-as damas e os partidos, quasi deu por si repetindo um trecho, musica
-e palavras. Pedro e Paulo ouviam com attenção, mas não sentiam nada
-do que espertava os écos da alma do diplomata. Ao contrario, tinham
-vontade de rir. Que lhes importava a noticia da um velho café da rua
-Uruguayana, trocado depois em theatro, agora em nada, uma gente que
-viveu e brilhou, passou e acabou antes que elles viessem ao mundo? O
-mundo começou vinte annos antes daquella noite, e não acabaria mais,
-como um viveiro de moços eternos que era.
-
-Ayres sorriu, porquanto elle tambem assim cuidou, aos vinte e dous
-annos de edade, e ainda se lembrava do sorriso do pae, já velho, quando
-lhe disse algo parecido com isso. Mais tarde, tendo adquerido do tempo
-a noção idealista que ora possuia, comprehendeu que tal dragão era
-juntamente vivo e defunto, e tanto valia matal-o como nutril-o. Não
-obstante, as recordações eram doces, e muitas dellas viviam ainda
-frescas, como se viessem da vespera.
-
-A differença da edade era grande, não podia entrar em pormenores com
-elles. Ficou só em lembranças, e cuidou de outra cousa. Pedro e Paulo,
-entretanto, receiosos de que elle os adivinhasse e comprehendesse o
-desprezo que lhes inspiravam as saudades de tempos remotos e extranhos,
-pediram-lhe informações, e elle deu as que podia, sem intimidade.
-
-Ao cabo, a conversação valeu mais que este resumo, e a separação não
-custou pouco. Paulo ainda lhe pediu Offenbach, Pedro uma descripção das
-paradas de 7 de setembro e 2 de dezembro; mas o diplomata achou meio de
-saltar ao presente e particularmente a Flora, que louvou como uma bella
-creatura. Os olhos de ambos concordaram que era bellissima. Tambem
-louvou as qualidades moraes, a finura do espirito, taes dotes que Pedro
-e Paulo reconheceram tambem, e dahi a conversação, e porfim o ajuste a
-que me referi no começo deste capitulo e pede outro.
-
-
-
-CAPITULO XC
-
-
-O ajuste
-
-
---Quanto a mim, um de vocês gosta della, senão ambos, disse Ayres.
-
-Pedro mordeu os beiços, Paulo consultou o relogio; iam já na rua.
-Ayres concluiu o que sabia, que sim, que ambos, e não trepidou em
-dizel-o, accrescentando que a moça não era como a Republica, que um
-podia defender e outro atacar; cumpria ganhal-a ou perdel-a de vez.
-Que fariam elles, dada a escolha? Ou já estava feita a escolha, e o
-preterido teimava em a torcer para si?
-
-Nenhum, falou logo, posto que ambos sentissem necessidade de explicar
-alguma cousa. Tinham que a escolha não era clara ou decisiva.
-Outrosim, que lhes cabia o direito de esperar a preferencia, e fariam
-o diabo para alcançal-a. Taes e outras ideias vagavam silenciosamente
-nelles, sem sair cá fóra. A razão percebe-se, e devia ser mais de
-uma,--primeiro, a materia da conversação,--depois, a gravidade do
-interlocutor. Por mais que Ayres abrisse as portas á franqueza dos
-rapazes, estes eram rapazes e elle velho. Mas o assumpto em si era tão
-seductor, o coração, apesar de tudo, tão indiscreto, que não houve
-remedio se não falar, mas falar negando.
-
---Não me neguem, interrompeu Ayres; a gente madura sabe as manhas da
-gente nova, e adivinha com facilidade o que ella faz. Nem é preciso
-adivinhar; basta ver e ouvir. Vocês gostam della.
-
-Elles sorriam, mas já agora com tal amargor e acanhamento que mostravam
-o desgosto da rivalidade, aliás sabida delles. Tal rivalidade era
-tambem sabida de outros, devia sel-o de Flora, e a situação lhes
-parecia agora mais complicada e fechada que d'antes.
-
-Tinham chegado ao largo da Carioca, era uma hora da noite. Uma victoria
-da Santos esperava alli os rapazes, a conselho e por ordem da mãe,
-que buscava todas as occasiões e meios de os fazer andar juntos e
-familiares. Teimava em emendara natureza. Levava-os muita vez a
-passeio, ao theatro, a visitas. Naquella noite, como soubesse que iam
-ao theatro, mandou aprestar a victoria que os conduziu para a cidade, e
-ficou á espera delles.
-
---Entre, conselheiro, disse Pedro, o carro dá para, trez: eu vou no
-banquinho da frente.
-
-Entraram e partiram.
-
---Bem, continuou Ayres, é certo que vocês gostam della, e egualmente
-certo que ella ainda não escolheu entre os dous. Provavelmente,
-não sabe que faça. Um terceiro resolveria a crise porque vocês se
-consolariam depressa; tambem eu me consolei em rapaz. Não havendo
-terceiro, e não se podendo prolongar a situação, porque é que vocês não
-combinam alguma cousa?
-
---Combinar quê? perguntou Pedro sorrindo.
-
---Qualquer cousa. Combinem um modo de cortar este nó gordio. Cada um
-que siga a sua vocação. Você Pedro, tentará primeiro desatal-o; se elle
-não puder, Paulo, você pegue da espada de Alexandre, e dê-lhe o golpe.
-Fica tudo feito e acabado. Então o destino, que os espera, com duas
-bellas creaturas, virá trazel-as pela mão a um e a outro, e tudo se
-compõe na terra como no céu.
-
-Ayres disse mais cousas antes de se apear á porta da casa. Apeado,
-ainda lhes perguntou:
-
---Estamos de accordo?
-
-Os dous responderam de cabeça affirmativamente, e, ficando sós, não
-disseram nada. Que fossem pensando, é natural, e porventura o tempo
-lhes pareceu curto entre o Cattete e Botafogo. Chegaram á casa, subiram
-a escada do jardim, falaram da temperatura, que Pedro achava deliciosa
-e Paulo abominavel, mas não disseram assim para não irritar um ao
-outro. A esperança do ajuste é que os levava á moderação relativa e
-passageira. Vivam os fructos pendentes do dia seguinte!
-
-Cá estava o quarto á espera delles, um brinco de arranjo e graça, de
-commodidade e repouso. Era a mãe que dava os últimos retoques todos
-os dias; ella cuidava das flôres que seriam postas nos vasinhos de
-porcellana, e ella mesma as ia tirar á noite e pôr fóra das janellas
-para que elles não as respirassem dormindo. Cá estavam as velas ao pé
-das duas camas, mettidas nos seus castiçaes de prata, um com o nome de
-Pedro, outro com o de Paulo, gravados. Tapetinhos de suas mãos, laços
-dados por ella nos cortinados, finalmente o retrato della e o do marido
-pendurados á parede, entre as duas camas, naquelle mesmo logar em que
-estiveram os de Luiz XVI e Robespierre, comprados na rua da Carioca.
-
-Ao pé de cada um dos castiçaes acharam um biIhetinho de Natividade.
-Aqui está o que ella dizia: «Algum de vocês quer ir commigo á missa,
-amanhã? Faz annos que seu avô morreu, e Perpetua está adoentada.»
-Natividade esquecera de lhes falar antes, e, aliás, andava bem sem
-elles, mormente de carruagem; mas gostava de os ter comsigo.
-
-Pedro e Paulo riram do convite e da fórma, e um delles propoz que,
-para agradar á mãe, fossem ambos á missa. A acceitação da proposta
-veiu prompta; já não era harmonia, era uma especie de dialogo na mesma
-pessoa. O céu parecia escrever o tratado de paz que ambos teriam de
-assignar; ou, se preferes, a natureza corrigia as indoles, e os dous
-rixosos começavam a ajustar o ser e o parecer. Tambem não juro isto,
-digo o que se póde crêr só pelo aspecto das cousas.
-
---Vamos á missa, repetiram.
-
-Seguiu-se um grande silencio. Cada um ruminava o ajuste e o modo
-de o propor. Emfim, de cama a cama, disseram o que lhes parecia
-melhor, propuzeram, discutiram, emendaram e concluiram sem escriptura
-de tabellião, apenas por acceitação de palavra. Poucas clausulas.
-Confessando que não podiam assegurar a escolha de Flora, concordaram em
-esperar por ella durante um prazo curto; trez mezes. Dada a escolha, o
-rejeitado obrigava-se a não tentar mais nada. Como tivessem a certeza
-final da escolha, o accordo era facil; cada um não faria mais que
-excluir o outro. Não obstante, se ao fim do prazo, nenhuma escolha
-houvesse, cumpria adoptar uma clausula ultima. A primeira que acudiu
-foi deixarem ambos o campo, mas não os seduziu. Lembrou-lhes recorrer
-á sorte, e aquelle que fosse designado por ella, deixaria o campo ao
-rival. Assim passou uma hora de conversação, após a qual, cuidaram de
-dormir.
-
-
-
-
-CAPITULO XCI
-
-
-Nem só a verdade se deve ás mães
-
-
-Às nove horas da manhã seguinte, Natividade estava prompta para ir á
-missa que mandava dizer na matriz da Gloria; nenhum dos filhos se lhe
-apresentou.
-
---Parece que dormem.
-
-E duas, trez, quatro, cinco vezes, foi até á porta do quarto a ver
-se ouvia rumor, como resposta ao bilhete que deixara. Nada. Concluiu
-que teriam entrado tarde. Só não atinou que dormissem sobre o ajuste,
-nem que ajuste era. Uma vez que o fizessem em cama fôfa, tudo ia bem.
-Emfim, acabou de calçar as luvas, desceu, entrou no carro e foi para a
-egreja.
-
-A missa era anniversaria, como dizia o bilhete. Uso velho; o pae
-tinha a sua missa, a mãe outra, os irmãos e parentes outras. Não
-lhe esqueciam datas obituarias, como não lhe esqueciam natalicias,
-quaesquer que fossem, amigas ou parentas; trazia-as todas de cór. Doce
-memoria! Ha pessoas a quem não ajudas, e chegam a brigar comsigo e com
-outros por abandono teu. Felizes os que tu proteges; esses sabem o
-que é 24 de março, 10 de agosto, 2 de abril, 7 e 31 de outubro, 10 de
-novembro, o anno todo, suas tristezas e alegrias particulares.
-
-Voltando á casa, viu Natividade os dous filhos no jardim, á espera
-della. Elles correram a abrir-lhe a portinhola do carro, e depois de a
-apearem e lhe beijarem a mão, explicaram a falta. Tinham resolvido ir
-ambos, mas o somno...
-
---O somno e a preguiça, concluiu a mãe rindo.
-
---Foi só o somno, disse Pedro.
-
---Accordamos agora mesmo, acabou Paulo.
-
-Disputaram dar-lhe o braço; Natividade os satisfez dando um braço a
-cada um. Em casa, ao mudar de roupa, Natividade reflectiu que, se Flora
-lhes tivesse feito algum pedido, elles accordariam cedo, por mais tarde
-que se deitassem; a memoria serviria de despertador. Passou-lhe uma
-sombra rapida, mas depressa se reconciliou com a differença. Assim que,
-não foi por ciume, mas para os trazer a outras seducções e separal-os
-da guerra ante a bella Flora, que a mãe teimou em levar os filhos para
-Petropolis. Subiriam na primeira semana de janeiro. A estação seria
-excellente; annunciou festas, citou nomes, notou-lhes que Petropolis
-era a cidade da paz. O governo póde mudar cá embaixo e nas provincias...
-
---Que provincias, mamãe? atalhou Paulo.
-
-Natividade sorriu e emendou.
-
---Nos Estados. Vae desculpando os descuidos de tua mãe. Bem sei que
-são Estados; não são como as provindas antigas, não esperam que o
-presidente lhes vá aqui da Côrte...
-
---Que Côrte, baroneza?
-
-Agora os dous riram, mãe e filho. Passado o riso, Natividade continuou:
-
---Petropolis é a cidade da paz; é, como dizia outro dia o conselheiro
-Ayres, é a cidade neutra, é a cidade das nações. Se a capital do Estado
-fosse alli, não haveria deposição de governo. Petropolis,--vejam vocês
-que o nome, apesar da origem, ficou e ficará,--é de todos. A estação
-dizem que vae ser encantadora...
-
---Eu não sei se posso ir já, disse Paulo.
-
---Nem eu, acudiu Pedro.
-
-Ainda uma vez estavam de accordo, mas aqui o accordo trazia
-provavelmente o divorcio, reflectiu a mãe, e o prazer que lhe deram
-aquellas duas palavras morreu depressa. Perguntou-lhes que razão
-tinham para ficar e até quando. Se estivessem estabelecidos com o seu
-consultorio medico e a sua banca de advogado, era bem; mas, se nenhum
-delles começara ainda a carreira, que fariam cá embaixo, quando ella e
-o marido...
-
---Justamente; eu tenho que fazer uns estudos de clinica na Santa Casa,
-respondeu Pedro.
-
-Paulo explicou-se. Não ia praticar a advocacia, mas precisava de
-consultar certos documentos do século XVII na Bibliotheca Nacional; ia
-escrever uma historia das terras possuidas.
-
-Nada era verdade, mas nem só a verdade se deve dizer ás mães.
-Natividade ponderou que elles podiam fazer tudo entre as duas barças
-de Petropolis; desciam, almoçavam, trabalhavam, e ás quatro horas
-subiriam, como a demais gente. Em cima achariam visitas, musica,
-bailes, mil cousas bellas, sem contar as manhãs, a temperatura e os
-domingos. Elles defenderam o estudo, como sendo melhor por muitas horas
-seguidas.
-
-Natividade não teimou. Mais depressa ficaria esperando que os filhos
-acabassem os documentos da Bibliotheca e a clinica da Santa Casa. Esta
-ideia fel-a attentar para a necessidade de ver estabelecidos o joven
-medico e o joven advogado. Trabalhariam com outros profissionaes de
-reputação e iriam adiante e acima. Talvez a carreira scientifica lhes
-désse a grandeza annunciada pela cabocla do Castello, e não a politica
-ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a critica de
-si mesma, quando imaginou que Baptista abriria a carreira politica de
-algum delles, sem advertir que o pae de Flora mal continuaria a propria
-carreira, aliás obscura. Mas a ideia do mando tornava a óccupar a
-cabeça da mãe, e cheios della os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo.
-
-Chegaram a accordo. Elles subiriam aos sabbados e desceriam ás
-segundas; o mesmo por occasião de dias santos e festas de gala.
-Natividade contava com o costume e as attracções.
-
-Na barca e em Petropolis era objecto de conversação a differença entre
-os filhos, que só iam lá uma vez por semana, e o pae, que trazia tantos
-negocios ás costas, e subia todas as tardes. Que fariam elles cá em
-baixo, quando alguns olhos podiam attrail-os e agarral-os lá em cima?
-Natividade defendia os gemeos, dizendo que um ia á Santa Casa e outro
-á Bibliotheca Nacional, e estudavam muito, ás noites. A explicação era
-acceitavel, mas, além de fazer perder um assumpto aos bonitos dentes do
-verão, podia ser invenção dos rapazes; naturalmente, iriam ás moças.
-
-A verdade é que elles faziam rumor em Petropolis, durante as poucas
-horas que lá passavam. Além do mais, tinham a semelhança e a graça.
-As mães diziam bonitas cousas á mãe delles, e indagavam da razão
-verdadeira que os prendia á capital, não assim como eu digo, nu e cru,
-mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a mãe insistia na
-Bibliotheca e na Santa Casa. Deste geito, a mentira, já servida em
-primeira mão, era servida em segunda, e nem por isso melhor acceita.
-
-
-
-
-CAPITULO XCII
-
-
-Segredo acordado
-
-
-Emfim, que segredo ha que se não descubra? Sagacidade, boa vontade,
-curiosidade, chama-lhe o que quizeres, ha uma força que deita cá para
-fóra tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os proprios segredos
-cançam de calar,--calar ou dormir; fiquemos com este outro verbo,
-que serve melhor á imagem. Cançam, e ajudam a seu modo aquillo que
-imputamos á indiscrição alheia.
-
-Quando elles abrem os olhos, faz-lhes mal a escuridão. Um raio de sol
-basta. Então pedem aos deuses (porque os segredos são pagãos) um quasi
-nada de crepusculo, aurora ou tarde, posto que a aurora prometta dia,
-emquanto a tarde cae outra vez na noite, mas tarde que seja, tudo é
-respirar claridade. Que os segredos, amiga minha, tambem são gente;
-nascem, vivem e morrem. Agora o que succede, quando um olhar de sol
-penetra na solidão delles, é que difficilmente sae mais, e geralmente
-cresce, rasga, alaga, e os traz pela orelha cá para fóra. Vexados da
-grande luz, elles a principio andam de ouvido em ouvido, cochichados,
-alguma vez escriptos em bilhetes, ainda que tão vagamente e sem nomes,
-que mal se adivinhará quaes sejam. É o periodo da infancia, que passa
-depressa; a mocidade pula por cima da adolescencia, e elles apparecem
-fortes e derramados, sabidos como gazetas. Emfim, se a velhice chega,
-e elles não se vexam dos cabellos brancos, tomam conta do mundo, e
-acaso conseguem, não digo esquecer, mas aborrecer; entram na familia do
-proprio sol, que quando nasce é para todos, segundo dizia uma taboleta
-da minha infancia.
-
-Taboletas da minha infancia, ai, taboletas! Quizera acabar por ellas
-este capitulo, mas o assumpto não teria nobreza nem interesse, e
-ainda uma vez interromperiamos a nossa historia. Fiquemos no segredo
-divulgado; é quanto basta. Uma veranista elegante não dissimulou o seu
-espanto ao saber que os dous irmãos combinavam n'um ponto que faria
-romper os maiores amigos deste mundo. Um secretario de legação insinuou
-que podia ser brincadeira dos dous.
-
---Ou dos trez, accrescentou outra veranista.
-
-Iam de passeio á Quitandinha, a cavallo. Ayres acompanhava-os, e não
-dizia nada. Quando lhe perguntaram se Flora era bonita, respondeu que
-sim, e falou da temperatura. A primeira veranista perguntou-lhe se era
-capaz de supportar aquella situação. Ayres respirou, como quem vem de
-longe, e declarou que aos pés de um padre seria obrigado a mentir,
-taes eram os seus peccados; mas alli, na estrada, ao ar livre, entre
-senhoras, confessou que matara mais de um rival. Que se lembrasse
-trazia sete mortes ás costas, com varias armas. As senhoras riam; elle
-falava soturno. Só uma vez escapou de morrer primeiro, e inventou uma
-anecdota napolitana. Fez a apologia do punhal. Um que tivera, ha muitos
-annos, o melhor aço do mundo, foi obrigado a dal-o de presente a um
-bandido, seu amigo, quando lhe provou que completára na vespera o seu
-vigesimo nono assassinato.
-
---Aqui está para o trigesimo, disse-lhe entregando a arma.
-
-Poucos dias depois soube que o bandido, com aquelle punhal, matara o
-marido de uma senhora, e depois a senhora, a quem amava sem ventura.
-
---Deixei-o com trinta e um crimes de primeira ordem.
-
-As damas continuavam a rir; elle conseguiu assim desviar a conversação
-de Flora e seus namorados.
-
-
-
-
-CAPITULO XCIII
-
-
-Não ata nem desata
-
-
-Emquanto indagavam della em Petropolis, a situação moral de Flora era
-a mesma,--o mesmo conflicto de affinidades, o mesmo equilibrio de
-preferencias. Cessado o conflicto, roto o equilibrio, a solução viria
-de prompto, e, por mais que doesse a um dos namorados, venceria o
-outro, a menos que interviesse o punhal da anecdota de Ayres.
-
-Assim passaram algumas semanas desde a subida de Natividade. Quando
-Ayres vinha ao Rio de Janeiro, não deixava de ir vel-a a S. Clemente,
-onde a achava qual era d'antes, salvo um pouco de silencio em que
-a viu mettida uma vez. No dia seguinte recebeu uma carta de Flora,
-pedindo-lhe desculpa da desattenção, se a houve, e mandando-lhe
-saudades. «Mamãe pede que a recommende tambem ao senhor e á familia da
-baroneza.» Esta recommendação exprimia o consentimento obtido da mãe
-para que lhe escrevesse a carta. Quando elle tornou ao Rio, correu a S.
-Clemente e Flora pagou-lhe com alegria grande o silencio daquella outra
-manhã. Todavia, não era espontanea nem constante; tinha seus cochilos
-de melancolia. Ayres voltou ainda algumas vezes na mesma semana. Flora
-apparecia-lhe com a alegria costumada, e, para o fim, a mesma alteração
-dos ultimos dias.
-
-Talvez a causa daquellas syncopes da conversação fosse a viagem que
-o espirito da moça fazia á casa da gente Santos. Uma das vezes, o
-espirito voltou para dizer estas palavras ao coração: «Quem és tu, que
-não atas nem desatas? Melhor é que os deixes de vez. Não será difficil
-a acção, porque a lembrança de um acabará por destruir a de outro, e
-ambas se irão perder com o vento, que arrasta as folhas velhas e novas,
-além das particulas de cousas, tão leves e pequenas, que escapam ao
-olho humano. Anda, esquece-os; se os não pódes esquecer, faze por não
-os ver mais; o tempo e a distancia farão o resto.»
-
-Tudo estava acabado. Era só escrever no coração as palavras do
-espirito, para que lhe servissem de lembrança. Flora escreveu-as, com a
-mão tremula e a vista turva; logo que acabou, viu que as palavras não
-combinavam, as letras confundiam-se, depois iam morrendo, não todas,
-mas salteadamente, até que o musculo as lançou de si. No valor e no
-impeto podia comparar o coração ao gemeo Paulo; o espirito, pela arte
-e subtileza, seria o gemeo Pedro. Foi o que ella achou no fim de algum
-tempo, e com isso explicou o inexplicavel.
-
-Apesar de tudo, não acabava de entender a situação, e resolveu acabar
-com ella ou comsigo. Todo esse dia foi inquieto e complicado. Flora
-pensou em ir ao theatro para que os gemeos não a achassem á noite. Iria
-cedo, antes da hora da visita. A mãe mandou comprar o camarote, e o pae
-approvou a diversão, quando veiu jantar, mas a filha acabou com dôr de
-cabeça, e o camarote ficou perdido.
-
---Vou mandal-o aos jovens Santos, insinuou Baptista.
-
-D. Claudia oppôz-see guardou o camarote. A razão era de mãe; posto lhe
-tardasse a escolha e o casamento, ella queria vel-os alli comsigo,
-falando, rindo, debatendo que fosse, com os olhos pendentes da filha.
-Baptista não entendeu logo nem depois; mas para não desagradar á
-esposa, deixou de obsequiar os rapazes. Uma occasião tão boa! Não
-era muito para elles que possuiam com que despender, e despendiam; o
-obsequio estava na lembrança, e tambem na cartinha que lhes escreveria,
-mandando o camarote. Chegou a redigil-a de cabeça, apesar de já inutil.
-A mulher, ao vel-o calado e serio, cuidou que fosse zanga e quiz fazer
-as pazes; o marido arredou-a brandamente com a mão. Redigia a cartinha,
-punha no texto um gracejo sizudo, dobrava o papel e lançava-lhe este
-sobrescripto gemeo: «Aos jovens apostolos Pedro e Paulo.» O trabalho
-intellectual tornou mais dura a opposiçâo de D. Claudia. Uma cartinha
-tão bonita!
-
-
-
-
-CAPITULO XCIV
-
-
-Gestos oppostos
-
-
-Como póde um só tecto cobrir tão diversos pensamentos? Assim é tambem
-este céu claro ou brusco,--outro tecto vastissimo que os cobre com o
-mesmo zelo da gallinha aos seus pintos... Nem esqueça o proprio craneo
-do homem, que os cobre igualmente, não só diversos, senão oppostos.
-
-Flora, no quarto, não cuidava então de bilhetes nem camarotes; tambem
-não acudia á dôr de cabeça, que não tinha. Se falou nella foi por ser
-uma razão proxima e acceitavel, breve ou longa, conforme a necessidade
-da occasião. Não supponhas que está rezando, embora tenha alli um
-oratorio e um crucifixo. Não viria pedir a Jesus que lhe livrasse a
-alma daquella inclinação desencontrada. Posta á beira da cama, os
-olhos no chão, pensava naturalmente em alguma cousa grave, se não era
-nada, que tambem agarra os olhos e o pensamento de uma pessoa. Mordeu
-os beiços sem raiva; metteu a cabeça entre as mãos, como se quizesse
-concertar os cabellos, mas os cabellos estavam e ficavam como dantes.
-
-Quando se levantou era totalmente noite, e accendeu uma vela. Não
-queria gaz. Queria uma claridade branda que désse pouca vida ao quarto
-e aos seus moveis, que deixasse algumas partes na meia escuridade.
-O espelho, se fosse a elle, não lhe repetiria a belleza de todos os
-dias, com a vela posta em cima de uma papeleira antiga, a distancia.
-Mostrar-lhe-hia a nota de pallidez e de melancolia, é verdade, mas a
-nossa amiguinha não se sabia pallida, nem se sentia melancolica. Tinha
-na tristeza desvairada daquella occasião uma pontinha de abatimento.
-
-Como tudo isso se combinava, não sei, nem ella mesma. Ao contrario,
-Flora parecia, ás vezes, tomada de um espanto, outras de uma
-inquietação vaga, e, se buscava o repouso de uma cadeira de balanço,
-era para o deixar logo. Ouviu bater oito horas. Dahi a pouco, entrariam
-provavelmente Pedro e Paulo. Teve lembrança de ir dizer á mãe que a não
-mandasse chamar; estava de cama. Esta ideia não durou o que me custa
-escrevel-a, e aliás já lá vae na outra linha. Recuou a tempo.
-
---É um desproposito, disse comsigo; basta não apparecer. Mamãe dirá
-que estou adoentada, tanto que perdemos o theatro, e, se vier aqui,
-digo-lhe que não posso apparecer...
-
-As ultimas palavras sairam-lhe de viva voz, para maior firmeza da
-resolução. Projectou reclinar-se já na cama; depois achou melhor
-fazel-o quando ouvisse o passo da mãe no corredor. Todas essas
-alternativas podiam vir de si mesmas; entretanto, não é impossivel que
-fosse tambem um modo de sacudir quaesquer lembranças aborreciveis. A
-moça temia ir atraz dellas.
-
-
-
-
-CAPITULO XCV
-
-
-O terceiro
-
-
-Temendo ir atraz dellas, que havia de fazer Flora? Abriu uma das
-janellas do quarto, que dava para a rua, encostou-se á grade e enfiou
-os olhos para baixo e para cima. Viu a noite sem estrellas, pouca
-gente que passava, calada ou conversando, algumas salas abertas, com
-luzes, uma com piano. Não viu certa figura de homem na calçada opposta,
-parada, olhando para a casa de Baptista. Nem a viu, nem lhe importaria
-saber quem fosse. A figura é que tão depressa a viu como estremeceu e
-não despegou mais os olhos della, nem os pés do chão.
-
-Lembras-te daquella veranista de Petropolis que attribuiu um terceiro
-namorado á nossa amiguinha? «Um dos trez», disse ella. Pois aqui
-está o terceiro namorado, e póde ser que ainda appareça outro. Este
-mundo é dos namorados. Tudo se póde dispensar nelle; dia virá em que
-se dispensem até os governos, a anarchia se organisará de si mesma,
-como nos primeiros dias do paraiso. Quanto á comida, virá de Boston
-ou de Nova-York um processo para que a gente se nutra com a simples
-respiração do ar. Os namorados é que serão perpetuos.
-
-Aquelle era official de secretaria. Geralmente os empregados de
-secretaria casam cedo. Gouvêa era solteiro, andava ás moças. Um
-domingo, á missa, reparou na filha do ex-presidente, e saiu da egreja
-tão apaixonado que não quiz outra promoção. Tinha gostado de muitas,
-acompanhou algumas, esta foi a primeira que o feriu devéras. Pensava
-nella dia e noite. A rua de S. Clemente era o caminho que o levava e
-trazia da Repartição. Se a via, olhava muito para ella, detinha-se a
-distancia, á porta de uma casa, ou então fingia acompanhar com os olhos
-um carro que passava, e tirava-os do carro para a moça.
-
-Quando amanuense, fizéra versos; nomeado official, perdeu o costume,
-mas um dos effeitos da paixão foi restituir-lh'o. Comsigo, em casa
-da mãe, gastava papel e tinta a metrificar as esperanças. Os versos
-escorriam da penna, a rima com elles, e as estrophes vinham seguindo
-direitas e alinhadas, como companhias de batalhão; o titulo seria
-o coronel, a epigraphe a musica, uma vez que regulava a marcha dos
-pensamentos. Bastaria essa força á conquista? Gouvêa imprimiu alguns em
-jornaes, com esta dedicatoria: _A alguem._ Nem assim a praça se rendia.
-
-Uma vez deu-lhe na cabeça mandar uma declaração de amor. Paixão
-concebe despropositos. Escreveu duas cartas, sem o mesmo estylo, antes
-contrario. A primeira era de poeta; dava-lhe _tu_, como nos versos,
-adjectivava muito, chamava-lhe deusa por afiusão ao nome de Flora, e
-citava Musset e Casimiro de Abreu. A segunda carta foi um desforço
-do official sobre o amanuense. Saiu-lhe ao estylo das informações e
-dos officios, grave, respeitoso, com Excellencias. Comparando as duas
-cartas, não acabou de escolher nenhuma. Não foi só o texto diverso
-e contrario, foi principalmente a falta de autorisação que o levou
-a rasgar as cartas. Flora não o conhecia; quando menos, fugia de o
-conhecer. Os olhos della, se encontravam os delle, retiravam-se logo
-indifferentes. Uma só vez cuidou que traziam a intenção de perdoar. Que
-esse breve raio de luz lhe desabotoasse as flores da esperança (começo
-a falar como a primeira carta) era possivel e até certo; tão certo que
-lhe fez perder o ponto na Repartição. Felizmente, era optimo empregado;
-o director ampliou o quarto de hora de tolerancia, e attendeu á dôr de
-cabeça, causa de triste insomnia.
-
---Dormi sobre a madrugada, acabou o official.
-
---Assigne.
-
-Senão quando, morre-lhe o padrinho ao Gouvêa, e em testamento deixou
-ao afilhado trez contos de reis. Qualquer acharia nisso um beneficio,
-Gouvêa achou dous: o legado e a occasião de travar relações com o pae
-de Flora. Correu a pedir-lhe que acceitasse a procuração de legatario,
-ajustando logo os honorarios e as despezas. Com pouco, foi procural-o á
-casa, e para que o advogado désse a noticia do constituinte á familia,
-empregou muitos ditos subtis e graciosos, contou anecdotas do padrinho,
-expoz conceitos philosophicos e um programma de marido. Descreveu
-tambem a situação administrativa, a promoção eminente, os louvores
-recebidos, commissões e gratificações, tudo o que o distinguia de
-outros companheiros. De resto, ninguem na Repartição lhe queria mal.
-Aquelles mesmos que se creram prejudicados, acabavam confessando que
-era justa a preferencia dada ao Gouvêa. Não seria tudo exacto; elle o
-cria assim, ao menos, e, se não cria tudo, não desmentiu nada. Perdeu
-tempo e trabalho. Flora não soube da conversação.
-
-Nem soube da conversação, nem deu agora pelo vulto, como lá disse.
-tambem disse que a noite era escura. Accrescento que começou a pingar
-fino e a ventar fresco. Gouvêa trazia guarda-chuva e ia a abril-o, mas
-recuou. O que se passou na alma delle foi uma luta egual á dos dous
-textos da carta. O official queria abrigar-se da chuva, o amanuense
-queria apanhal-a, isto é, o poeta renascia contra as intemperies,
-sem medo ao mal, prestes a morrer por sua dama, como nos tempos
-da cavallaria. Guarda-chuva era ridiculo; poupar-se á constipação
-desmentia a adoração. Tal foi a luta e o desfecho; venceu o amanuense,
-emquanto a chuva ia pingando grosso, e outra gente passava abrigada e
-depressa. Flora entrou e fechou a janella. O amanuense esperou ainda
-algum tempo, até que o official abriu o guarda-chuva e fez como os
-outros. Em casa achou a triste consolação da mãe.
-
-
-
-
-CAPITULO XCVI
-
-
-Retraimento
-
-
-Aquella noite acabou sem incidente. Os gemeos viéram, Flora não
-appareceu, e no dia seguinte duas cartinhas perguntavam a D. Claudia
-como passára a filha. A mãe respondeu que bem. Nem por isso Flora os
-recebeu com a alegria do costume. Tinha alguma cousa que a fazia falar
-pouco. Pediram-lhe musica, tocou; foi bom, porque era um meio de se
-metter comsigo. Não respondeu aos apertos de mão, como elles suppunham
-que fazia até ha pouco. Assim foi essa noite, assim fôram as outras.
-Ora um, ora outro chegava primeiro, imaginando que a presença do rival
-é que tolhia a moça; mas a precedencia não valia nada.
-
-
-
-
-CAPITULO XCVII
-
-
-Um Christo particular
-
-
-Tudo isso lhe custava tanto, que ella acabou pedindo ao seu Christo
-um logar de governador para o pae,--ou qualquer commissão fóra daqui.
-Jesus-Christo não distribue os governos deste mundo. O povo é que
-os entrega a quem merece, por meio de cedulas fechadas, mettidas
-dentro de uma urna de madeira, contadas, abertas, lidas, sommadas e
-multiplicadas. A commissão podia vir, isso sim; a questão era saber
-se Jesus-Christo acudirá a todos os que lhe pedem a mesma cousa.
-Os commissarios seriam infinitamente mais que as commissões. Esta
-objecção foi logo expellida do espirito de Flora, porque ella pedia ao
-seu Christo, um de marfim velho, deixa da avó, um Christo que nunca
-lhe negou nada, e a quem as outras pessoas não vinham importunar
-com supplicas. A propria mãe tinha o seu particular, confidente de
-ambições, consolo de desenganos; não recorria ao da filha. Tal era a fé
-ingenua da moça.
-
-Certarmente, já lhe havia pedido que a livrasse daquella complicação de
-sentimentos, que não acabavam de ceder um ao outro, daquella hesitação
-cançativa, daquelle empuxar para ambos os lados. Não foi ouvida. A
-causa seria talvez por não haver dado ao pedido a fórma clara que aqui
-lhe ponho, com escandalo do leitor. Effectivamente, não era facil
-pedir assim por palavras seguidas, faladas ou só pensadas; Flora não
-formulou a supplica. Poz os olhos na imagem e esqueceu-se de si, para
-que a imagem lêsse dentro della o seu desejo. Era demais; requerer o
-favor do céu e obrigal-o a adivinhar o que era... Assim cuidou Flora,
-e resolveu emendar a mão. Não chegou lá; não ousou dizer a Jesus o que
-não dizia a si mesma. Pensava nos dous, sem confessar a nenhum. Sentia
-a contradicção, sem ousar encaral-a por muito tempo.
-
-
-
-
-CAPITULO XCVIII
-
-
-O medico Ayres
-
-
-Um dia pareceu á mãe que a filha andava nervosa. Interrogou-a e
-apenas descobriu que Flora padecia de vertigens e esquecimentos. Foi
-justamente um dia em que Ayres lá appareceu de visita, com recados de
-Natividade. A mãe falou-lhe primeiro e confiou-lhe os seus sustos.
-Pediu-lhe que a interrogasse tambem. Ayres fez de medico, e, quando
-a moça appareceu e a mãe os deixou na sala, cuidou de a interrogar
-cautelosamente.
-
-Vão proposito, porque ella mesma iniciou a conversação, queixando-se de
-dôr de cabeça. Ayres observou que dôr de cabeça era molestia de moça
-bonita, e, tendo confessado que este dito era banal, descobriu-lhe o
-motivo. Não queria perder a occasião de lhe dizer o que toda a gente
-sabia e dizia, não só aqui, como em Petropolis.
-
---Porque não vae a Petropolis? concluiu.
-
---Espero fazer outra viagem mais longa, muito longa...
-
---Para o outro mundo, aposto?
-
---Acertou.
-
---Já tem bilhete de passagem?
-
---Comprarei no dia do embarque.
-
---Talvez não ache. Ha grande concurrencia para aquellas paragens;
-melhor é comprar antes, e, se quer, eu me encarrego disso; comprarei
-outro para mim, e iremos juntos. A travessia, quando não ha conhecidos,
-deve ser fastidiosa; ás vezes, os proprios conhecidos aborrecem, como
-succede neste mundo. As saudades da vida é que são agradaveis. A gente
-de bordo é vulgar, mas o commandante impõe confiança. Não abre a bôca,
-dá as suas ordens por gestos, e não consta que haja naufragado.
-
---O senhor está caçoando commigo; eu creio até que estou com febre.
-
---Deixe ver.
-
-Flora estendeu-lhe o pulso; elle, com ar profundo:
-
---Está; febre de quarenta e sete grãos, a mão está ardendo, mas isto
-mesmo prova que não é nada, porque aquellas viagens fazem-se com as
-mãos frias. Ha de ser constipação, fale a sua mãe.
-
---Mamãe não cura.
-
---Póde curar, ha remedios caseiros; em todo caso, peça-lhe, e ella póde
-mandar chamar um medico.
-
---Medico dá tizanas, e eu não gósto de tizanas.
-
---Nem eu, mas tolero-as. Porque não experimenta a homoeopathia, que não
-tem gosto, como a allopathia?
-
---Qual é a que lhe parece melhor?
-
---A melhor? Só Deus é grande.
-
-Flora sorriu, de um sorriso pallido, e o conselheiro percebeu algo que
-não era tristeza de passagem ou de creança. Novamente lhe falou de
-Petropolis, mas não insistiu. Petropolis era a aggravação do momento
-actual.
-
---Petropolis tem o mal das chuvas, continuou. Eu, se fosse a senhora,
-saía desta casa e desta rua; vá para outro bairro, casa amiga, com sua
-mãe ou sem ella...
-
---Para onde? perguntou Flora anciosa.
-
-E ficou a olhar, esperando. Não tinha casa amiga, ou não se lembrava, e
-queria que elle mesmo escolhesse alguma, onde quer que fosse, e quanto
-mais longe, melhor. Foi o que elle leu nos olhos parados. É ler muito,
-mas os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o que lhes diz
-um rosto calado, e até o contrario. Ayres fôra diplomata excellente,
-apesar da aventura de Caracas, se não é que essa mesma lhe aguçou a
-vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dous
-verbos parentes.
-
-
-
-
-CAPITULO XCIX
-
-
-A titulo de ares novos...
-
-
---Vou arranjar-lhe uma casa boa, disse elle, á despedida.
-
-Desde que estava em Petropolis, Ayres não ia jantar a Andarahy, com a
-irmã, ás quintas-feiras, segundo ajustára e consta do cap. XXXII. Agora
-foi lá, e cinco dias depois Flora transferia-se para a casa della, a
-titulo de ares novos. D. Rita não consentiu que D. Claudia lhe levasse
-a filha, ella mesma a foi buscar a S. Clemente, e Ayres acompanhou as
-trez.
-
-A mocidade de Flora na casa de D. Rita foi como uma rosa nascida ao pé
-de paredão velho. O paredão remoçou. A simples flôr, ainda que pallida,
-alegrou o barro gretado e as pedras despidas. D. Rita vivia encantada;
-Flora pagava o agazalho da dona da casa com tanta ingenuidade e graça,
-que esta acabou por lhe dizer que a roubaria á mãe e ao pae, e foi
-ainda occasião de riso para as duas.
-
-«Você me deu um lindo presente com esta moça, escrevia D. Rita ao
-irmão; foi uma alma nova, e veiu em boa occasião, porque a minha anda
-já caduca. É muito docilzinha, conversa, toca e desenha que faz gosto,
-tem aqui tirado riscos de varias cousas, e eu saio com ella para lhe
-mostrar vistas apreciaveis. Às vezes, apresenta uma cara triste,
-olha vagamente, e suspira; mas eu pergunto-lhe se são saudades de S.
-Clemente, ella sorri e faz ura gesto de indifferença. Não lhe falo dos
-nervos, para não a affligir, mas creio que vae melhor...»
-
-Flora tambem escreveu as conselheiro Ayres, e as duas cartas chegaram
-á mesma hora a Petropolis. A de Flora era um agradecimento grande e
-cordial, mal entremeado de alguma palavra saudosa; confirmava assim
-a carta da outra, posto não a houvesse lido. Ayres comparou-as,
-lendo duas vezes a da moça para ver se ella escondia mais do que
-transparencia do papel. Em summa, confiava no remedio.
-
---Não os vendo, esquece-os, pensou elle; e se na visinhança houver
-alguem que pense em gostar della, é possivel que acabe casando.
-
-Respondeu a ambas, na mesma noite, dizendo-lhes que na quinta-feira
-iria almoçar com ellas. A D. Claudia escreveu mandando-lhe a carta da
-irmã, e foi passar a noite em casa de Natividade, a quem deu a ler as
-cinco cartas. Natividade approvou tudo. Notava só que os filhos não lhe
-escreviam, e deviam estar desesperados.
-
---A Santa Casa cura, e a Bibliotheca Nacional tambem, retorquiu Ayres.
-
-Na quinta feira, Ayres desceu e foi almoçar a Andarahy. Achou-as como
-as tinha lido nas cartas. Interrogou-as separadamente para ouvir por
-bôca as confissões do papel; eram as mesmas. D. Rita parecia ainda
-mais encantada. Talvez a causa recente fosse a confidencia que fez a
-moça, na vespera. Como falassem de cabellos, D. Rita referiu o que
-tambem consta do cap. XXXII, isto é, que cortára os seus para os metter
-no caixão do marido, quando o levaram a enterrar. Flora não a deixou
-acabar; pegou-lhe das mãos e apertou-as muito.
-
---Nenhuma outra viuva faria isto, disse ella.
-
-Aqui foi D. Rita que lhe pegou nas mãos, pôl-as sobre os seus hombros,
-e concluiu o gesto por um abraço. Todas as pessoas louvaram-lhe a
-abnegação do acto; esta era a primeira que a achou unica. E dahi outro
-abraço longo, mais longo...
-
-
-
-
-CAPITULO C
-
-
-Duas cabeças
-
-
-Tão longo foi o abraço que tomou o resto ao capitulo. Este começa
-sem elle nem outro. O mesmo aperto de mão de Ayres e Flora, se foi
-demorado, tambem acabou. O almoço fez gastar algum tempo mais que de
-costume, porque Ayres, além de conversador emerito, não se fartava de
-ouvir as duas, principalmente a moça. Achava-lhe um toque de languidez,
-abatimento ou cousa proxima, que não encontro no meu vocabulario.
-
-Flora mostrou-lhe os desenhos que fizera, paisagens, figuras, um pedaço
-da estrada da Tijuca, um chafariz antigo, um _Principio de casa._ Era
-umas dessas casas, que alguem começou muitos annos antes, e ninguem
-acabou, ficando só duas ou trez paredes, ruina sem historia. Havia
-ainda outros desenhos, uma revoada de passaros, um vaso á janella.
-Ayres ia folheando, cheio de curiosidade e paciencia; a intenção da
-obra suppria a perfeição, e a fidelidade devia ser approximada. Emfim,
-a moça atou os cordões á pasta. Ayres, parecendo-lhe que ficara um
-desenho ultimo r escondido, pediu que lh'o mostrasse.
-
---É um esboço, não vale a pena.
-
---Tudo vale a pena; quero acompanhar as tentativas da artista; deixe
-ver.
-
---Não vale a pena...
-
-Ayres insistiu; ella não pôde recusar mais tempo, abriu a pasta,
-e tirou um pedaço de papel grosso em que estavam desenhadas duas
-cabeças juntas e eguaes. Não teriam a perfeição desejada por ella; não
-obstante, dispensavam os nomes. Ayres considerou a obra, durante alguns
-minutos, e duas ou trez vezes levantou os olhos para a autora. Flora
-já os esperava, interrogativa; queria ouvir o louvor ou a critica, mas
-não ouviu nada. Ayres acabou de observar as duas cabeças, e pousou o
-desenho entre os papeis.
-
---Não lhe dizia que era um esboço? perguntou Flora, a ver se lhe
-arrancava uma palavra.
-
-Mas o ex-ministro preferiu não dizer nada. Em vez de achar quasi
-extincta a influencia dos gemeos, vinha dar com ella feita consolação
-da ausencia, tão viva que bastava a memoria, sem presença dos modelos.
-As duas cabeças estavam ligadas por um vinculo escondido. Flora,
-vendo continuar o silencio de Ayres, comprehendeu acaso parte do que
-lhe passava no espirito. Com um gesto prompto, pegou do desenho e
-deu-lh'o. Não lhe disse nada, menos ainda escreveu qualquer palavra.
-Qualquer que fosse, seria indiscreta. De mais, era o unico desenho
-a que ella não pôz assignatura. Deu-lh'o como se fôra um penhor de
-arrependimento. Em seguida, atou novamente as fitas da pasta, emquanto
-Ayres, rasgava calado o desenho e mettia os pedaços no bolso. Flora
-ficou por um instante parada, bôca entre-aberta, mas logo lhe apertou
-a mão, agradecida. Não pôde evitar que lhe caissem duas pequeninas
-lagrimas,--como outras tantas fitas que lhe atavam para sempre a pasta
-do passado.
-
-A imagem não é boa, nem verdadeira; foi a que acudiu ao conselheiro,
-andando, ao voltar de Andarahy. Chegou a escrevel-a no _Memorial_,
-depois riscou-a, e escreveu uma reflexão menos definitiva: «Talvez seja
-uma lagrima para cada gemeo.»
-
---Póde acabar com o tempo, pensou elle indo para a barca de Petropolis.
-Não importa; é um caso embrulhado.
-
-
-
-
-CAPITULO CI
-
-
-O caso embrulhado
-
-
-Tambem os gemeos achavam o caso embrulhado. Quando iam a S. Clemente,
-tinham noticias da moça, sem que lhes déssem certeza do regresso. O
-tempo andava; não tardaria que consultassem a sorte, como dous antigos.
-
-A rigor, não contavam as semanas de interrupção, uma vez que a
-escolha se não dava, e elles podiam trazer da consulta o contrario da
-inclinação definitiva da moça. Reflexão justa, posto que interessada.
-Cada um delles não queria mais que prolongar a batalha, esperando
-vencel-a. Entretanto, não confiavam um do outro este pensamento gemeo,
-como elles. Ambos se iam sentindo exclusivos, a affeição tinha agora o
-seu pudor e necessidade de calar. Já não falavam de Flora.
-
-Nem só de Flora. Crescendo a opposição, recorriam ao silencio.
-Evitavam-se; se podiam, não comiam juntos; se comiam juntos, diziam
-pouco ou nada. Às vezes, falavam para tirar aos criados qualquer
-suspeita, mas não advertiam que falavam mal e forçadamente, e que os
-criados iam commentar as palavras e a expressão delles na copa. A
-satisfação com que estes communicavam os seus achados e conclusões
-é das poucas que adoçam o serviço domestico, geralmente rude. Não
-chegavam, porém, ao ponto de concluir tudo o que os ia tornando
-cada vez mais avessos, a ponto de odio que crescia com a ausencia
-da mãe. Era mais que Flora, como sabeis; eram as proprias pessoas
-inconciliaveis. Um dia houve na copa e na cozinha grande novidade,
-Pedro, a pretexto de sentir mais calor que Paulo, mudou de quarto e foi
-dormir mal em outro não menos quente que o primeiro.
-
-
-
-
-CAPITULO CII
-
-
-Visão pede meia sombra
-
-
-Entretanto, a bella moça não os tirava da mesma alcova sua, por mais
-que buscasse devéras fugir-lhes. A memoria os trazia pela mão, elles
-entravam e ficavam. Iam depois embora, ou de si mesmos, ou empurrados
-por ella. Quando tornavam, era de sorpresa. Um dia, Flora aproveitou a
-presença para fazer um desenho egual ao que dera ao conselheiro, mais
-perfeito agora, muito mais acabado.
-
-Tambem cançava. Então saía do quarto e ia para o piano. Elles iam com
-ella, sentavam-se aos lados ou ficavam defronte, em pé, e ouviam com
-attenção religiosa, ora um nocturno, ora uma tarantella. Flora tocava
-ao sabor de ambos, sem deliberação; os dedos é que obedeciam á mecanica
-da alma. Para os não ver, inclinava a cabeça sobre o teclado; mas o
-campo da visão os guardava, se não era a respiração que se fazia sentir
-defronte ou dos lados. Tal era a subtileza dos seus sentidos.
-
-Se fechava o piano e descia ao jardim, succedia muita vez que os ia
-achar alli, passeando, e a comprimentavam com tão boa sombra, que ella
-esquecia por instantes a impaciencia. Depois, sem que os mandasse,
-iam embora. Nos primeiros tempos. Flora tinha medo que a houvessem
-abandonado de todo, e chamava-os dentro de si. Ambos tornavam logo, tão
-doceis, que ella acabou de se convencer que a fuga não era fuga. nem
-elles sentiam desprezo, e não os evocou mais. No jardim era mais rapido
-o desapparecimento, talvez pela extrema claridade do logar. Visão pede
-meia sombra.
-
-
-
-
-CAPITULO CIII
-
-
-O quarto
-
-
-Sei, sei, trez vezes sei que ha muitas visões dessas nas paginas que lá
-ficam. Ulysses confessa a Alcinoos que lhe é enfadonho contar as mesmas
-cousas. Tambem a mim. Sou, porém, obrigado a ellas, porque sem ellas
-a nossa Flora seria menos Flora, seria outra pessoa que não conheci.
-Conheci esta, com as suas obsessões ou como quer que lhes chames.
-
-Nem por isso, nem ainda porque houvesse colhido algum abatimento e
-nervos, deixava Flora de enfeitar muito, de se fazer mais linda, e ter
-mais de um namorado incognito, que suspirava por ella. Não faltava quem
-a admirasse de passagem, e fosse vel-a, quando menos, no banco verde, á
-porta do jardim, ao pé da irmã de Ayres. Póde ser que conhecesse algum,
-Gouvêa, por exemplo; em verdade, era como se os não visse.
-
-Um delles valia mais que todos pela carruagem,--tirada por uma bella
-parelha de cavallos,--capitalista do bairro. A casa delle era um
-palacete, os moveis feitos na Europa, estylo imperio, apparelhos de
-Sèvres e de prata, tapetes de Smyrna, e uma vasta camara com dous
-leitos, um de solteiro, outro de casados. O segundo esperava a esposa.
-
---A esposa ha de ser esta, pensou elle um dia, ao ver Flora.
-
-Era maduro; trazia o rosto batido dos ventos da vida, a despeito das
-muitas aguas de toucador; ao corpo faltava aprumo, e as maneiras não
-tinham graça nem naturalidade. Era o Nobrega, aquelle da nota de dous
-mil reis, nota fecunda, que deitou de si muitas outras, mais de dous
-mil contos de reis. Para as notas recentes, a avó perdia-se na noite
-dos tempos. Agora os tempos eram claros, a manhã doce e pura.
-
-Quando viu a moça, e fez a reflexão que lá fica, extranhou-se a si
-proprio. Vira outras damas, e mais de uma com escriptos nos olhos,
-dizendo-lhe o vasio do coração. Esta era a primeira que veramente lhe
-prendeu a vontade e lhe deteve o pensamento. Tornou a vêl-a; a gente
-visinha notou porv'entura a frequencia recente do capitalista. Emfim,
-Nobrega acabou por se fazer entrado na casa de D. Rita, com desgosto
-dos seus habituados, que assim se viam esquecidos do amphytrião.
-Nobrega, entretanto, dera ordens bastantes para que fossem todos
-servidos e agazalhados, como se elle estivesse presente.
-
-A ausencia não lhe faria perder as loas dos amigos. Ao contrario, os
-servos podiam dar testemunho do que todos elles pensavam do «grande
-homem.» Tal era o nome que lhe applicara o secretario particular, e
-pegou. Nobrega sabia pouca orthographia, nenhuma syntaxe, licções
-uteis, de certo, mas que não valiam a moral, e a moral, diziam todos,
-acompanhando o secretario, era o seu principal e maior merito. O fiel
-escriba accrescentava, que sendo preciso despir a camisa e dal-a a um
-mendigo, Nobrega o faria, ainda que a camisa fosse bordada.
-
-Agora mesmo, este amor era, ao cabo, um movimento de caridade. Em pouco
-tempo, aquelle gosto de relance passou a grande paixão, tão grande que
-elle não a pôde conter, e resolveu confessal-a. Hesitou se o faria á
-propria moça ou á dona da casa. Não tinha animo para uma nem outra. Uma
-carta suppria tudo, mas a carta pedia lingua, calor e respeito. Se, ao
-menos, o gesto de Flora lhe dissesse alguma cousa, ainda que pouca, vá;
-a carta seria então uma resposta. Mas não lhe dizia nada o gesto da
-moça. Era só cortez e gracioso; não ia além dessas duas expressões.
-
-D. Rita percebeu a inclinação de Nobrega e achou que era a melhor
-solução da vida para a hospede. Todas as incertezas, angustias
-e melancolias vinham acabar nos braços de um ricasso, estimado,
-respeitado, dentro de um palacete com uma carruagem ás ordens... Ella
-mesma punha em relevo este premio grande da loteria de Hespanha.
-
-Emfim, o secretario de Nobrega redigiu com a melhor linguagem que
-possuia uma carta em que o capitalista pedia a D. Rita o favor de
-consultar a moça amada.
-
---Não escreva palavrinhas doces, recommendou elle ao secretario. Gósto
-dessa moça com um sentimento de protecção, antes que outra cousa. Não é
-carta de namorado. Estylo grave...
-
---Uma carta secca, concluiu o secretario.
-
---Totalmente secca, não, emendou Nobrega, uma carta lisongeira, sem
-esquecer que não sou creança.
-
-Assim se cumpriu. Ia a cumprir-se demais; Nobrega achou que o estylo
-podia ser um tanto ameno; não fazia mal pôr duas ou trez palavras
-apropriadas ao objecto, _belleza, coração, sentimento..._ Assim se
-cumpriu fmalmente, e a carta foi levada ao seu destino. D. Rita ficou
-contentissima. Justamente o que ella queria. Tinha o plano feito de
-concluir, por acto seu, uma historia melancolica, a que daria, por
-derradeira pagina, conclusão deslumbrante. Não pensou em dizel-o
-primeiro ao irmão, pela razão de querer que elle recebesse a noticia
-completa, tudo feito e acabado. Releu a carta; dispoz-se a ir logo,
-mas ha pessoas para quem o adagio que diz que «o melhor da festa é
-esperar por ella», resume todo o prazer da vida. D. Rita tinha essa
-opinião. Todavia, entendeu que taes cartas não são das que se guardam
-largo tempo, nem aliás das que se communicam sem cautella. Esperou
-vinte e quatro horas. Na manhã seguinte, depois de almoçadas, leu a
-carta á moça. O natural é que Flora ficasse espantada. Ficou, mas não
-tardou que risse, de um riso franco e sonoro, como ainda não rira em
-Andarahy. D. Rita ficou espantadissima. Suppunha que, não a pessoa,
-mas as vantagens e circumstancias pleiteassem a favor do candidato.
-Esquecia os seus cabellos entregues á sepultura do marido. Deu
-conselhos á moça, poz em relevo a posição do pretendente, o presente e
-o futuro, a situação esplendida que lhe dava este casamento, e por fim
-as qualidades moraes de Nobrega. A moça escutou calada, e acabou rindo
-outra vez.
-
---A senhora sabe se serei feliz? perguntou.
-
---Creio que sim; agora, o futuro é que confirmará ou não.
-
---Esperemos que o futuro chegue, comquanto me pareça muito demorado.
-Não nego as qualidades daquelle homem, parece bom, e trata-me bem, mas
-eu não quero casar, D. Rita.
-
---Realmente, a edade... Mas nem, ao menos, quer pensar alguns dias?
-
---Está pensado.
-
-D. Rita ainda esperou um dia. A resposta negativa, dado que Flora
-viesse a mudar de opinião, podia ser uma desgraça para esta. Uso os
-proprios termos della, comsigo, _grande desgraça, posição esplendida,
-sentimento profundo._ D. Rita ia aos extremos, deante daquelle
-rico-homem dos ultimos annos do seculo.
-
-
-
-
-CAPITULO CIV
-
-
-A resposta
-
-
-Não querendo dar a resposta nua e crua, D. Rita consultou a moça, que
-lhe respondeu simplesmente:
-
---Diga que não pretendo casar.
-
-Quando Nobrega recebeu as poucas linhas que D. Rita lhe mandou, ficou
-assombrado. Não contava com recusa. Ao contrario, era tão certa a
-acceitação que elle tinha já um programma do noivado. Imaginava a
-moça, os olhos timidos, a bôca cerrada, o veu que lhe cobriria a linda
-carinha, a delicadeza delle, as palavras que lhe diria entrando em
-casa. Tinha já composto uma invocação á Mãe Santíssima, para que os
-fizesse felizes. «Dou-lhe carro, dizia comsigo, joias, muitas joias, as
-melhores joias do mundo... » Nobrega não fazia ideia exacta do mundo;
-era uma expressão. «Hei de dar-lhe tudo, sapatinhos de seda, meias de
-seda, que eu mesmo lhe calçarei...» Estremecia de cór, ao calçar-lhe as
-meias. Beijava-lhe os pés e os joelhos.
-
-Tinha imaginado que ella, ao ler a carta, devia ficar tão pasmada e
-agradecida, que nos primeiros instantes não pudera responder a D.
-Rita; mas logo depois as palavras sairiam do coração ás golfadas.
-«Sim, senhora, queria, acceitava; não pensara em outra cousa.»
-Escreveria logo ao pae e á mãe para lhes pedir licença; elles viriam
-correndo, incredulos, mas, vendo a carta, ouvindo a filha e D. Rita,
-não duvidariam da verdade, e dariam o consentimento. Talvez o pae
-lh'o fosse dar em pessoa. E nada, nada, nada, absolutamente nada, uma
-simples recusa, uma recusa atrevida, porque em fim quem era ella,
-apesar da belleza? Uma creatura sem vintem, modestamente vestida, sem
-brincos, nunca lhe vira brincos ás orelhas, duas perolasinhas que
-fossem. E porque é que lhe furaram as orelhas, se não tinham brincos
-que lhe dar? Considerou que ás mais pobres meninas do mundo furam as
-orelhas para os brincos que lhes possam cair do céu. E vem esta, e
-recusa os mais ricos brincos que o céu ia chover sobre ella...
-
-Ao jantar, os amigos da casa notaram que elle estava preoccupado.
-De noite, elle e o secretario sairam a pé. Nobrega buscou em si o
-gesto mais frio e indifferente que pôde, quasi alegre, e annunciou ao
-secretario que Flora não queria casar. Não se descreve a admiração do
-secretario, em seguida a consternação, finalmente a indignação. Nobrega
-respondia magnanimo:
-
---Não foi por mal; foi talvez por se julgar abaixo, muito abaixo da
-fortuna. Creia que é boa moça. Póde ser tambem, quem sabe? Por ter sido
-um mau conselho do coração. Aquella moça é doente.
-
---Doente?
-
---Não affirmo; digo que póde ser.
-
-O secretario affirmou.
-
---Só a doença, disse elle, explicará a ingratidão, por que o acto é de
-pura ingratidão.
-
-Aqui tornou a nota da indignação, nota sincera, como as outras. Nobrega
-gostou de ouvil-a; era um compadecimento. No fim, cumpriu a ideia que
-trazia ao sair de casa; augmentou-lhe o ordenado. Podia ser a paga
-da sympathia; o beneficiado foi mais longe, achou que era o preço do
-silencio, e ninguem soube de nada.
-
-
-
-
-CAPITULO CV
-
-
-A realidade
-
-
-A molestia, dada por explicação á recusa do casamento, passou á
-realidade dahi a dias. Flora adoeceu levemente; D. Rita, para não
-alarmar os paes, cuidou de a tratar com remedios caseiros; depois,
-mandou chamar um medico, o seu medico, e a cara que este fez não
-foi boa, antes má. D. Rita, que costumava ler a gravidade das suas
-molestias no rosto delle, e sempre as achava gravissimas, cuidou de
-avisar os paes da moça. Os paes viéram logo. Natividade tambem desceu
-de Petropolis, não de vez; em cima, tinham medo de algum movimento
-cá embaixo. Veiu a visitar a moça, e, a pedido desta, ficou alguns
-dias.--Só a senhora me póde curar, disse Flora; não creio nos remedios
-que me dão. As suas palavras é que são boas, e os seus carinhos...
-Mamãe tambem, e D. Rita, mas não sei, ha uma differença, uma cousa...
-Veja: parece-me que até já rio.
-
---Já, já; ria mais.
-
-Flora sorriu, ainda que daquelle sorriso descorado que apparece na
-bôca do enfermo, quando a molestia consente, ou elle fórça a seriedade
-propria da dôr. Natividade dizia-lhe palavras de animação; fel-a
-prometter que iria convalecer em Petropolis. A enfermidade começou a
-ceder. D. Claudia acceitou a offerta de D. Rita, e lá ficou aposentada.
-Natividade ia á noite para Botafogo e voltava de manhã. Ayres descia de
-Petropolis um dia sim, um dia não.
-
-Tambem os gemeos lá iam saber da enferma. Agora mais que d'antes,
-sentiam a fortaleza do vinculo que os prendia á moça. Pedro, já medico,
-ainda que sem pratica, punha mais autoridade nas perguntas, concluia
-melhor dos symptomas, mas as esperanças e os receios eram de ambos.
-Algumas vezes, falavam mais alto que de costume e de conveniencia. A
-razão, por egoista que fosse, era perdoavel. Suppõe que os cartões de
-visita falassem; alguns, mais soffregos, proclamariam os seus nomes,
-para que soubessem logo da presença, da cortezia e da anciedade. Tal
-cuidado da parte dos dous era inutil, porque ella sabia delles e
-recebia as lembranças que lhe deixavam.
-
-Flora ia assim passando os dias. Queria Natividade sempre ao pé de si,
-pela razão que já deu, e por outra que não disse, nem porventura soube,
-mas podemos suspeital-a e imprimir. Estava alli o ventre abençoado que
-gerára os dous gemeos. De instincto, achava nella algo particular.
-Quanto ao influxo que exercia nella, por essa ou qualquer outra causa,
-não a sabia Natividade; contentava-se em ver que, ainda agora, e em tal
-crise, Flora não perdera a amizade que lhe tinha. Passavam as horas
-juntas, falando, se não fazia mal falar, ou então uma com as mãos
-da outra entre as suas. Quando Flora adormecia, Natividade ficava a
-contemplal-a, com o rosto pallido, os olhos fundos, as mãos quentes,
-mas sem perder a graça dos dias da saúde. As outras entravam no quarto,
-pé ante pé, esticavam os pescoços para vel-a dormir, falavam por gestos
-ou tão baixo que só o coração as adivinharia.
-
-Quando pareceu melhorar, Flora pediu um pouco mais de luz e de céu. Uma
-das duas janellas foi então escancarada, e a enferma encheu-se de vida
-e riso. Não é que a Febre se fosse de todo. Essa bruxa livida estava ao
-canto do quarto, com os olhos espetados nella; mas, ou de cançada, ou
-por obrigação imposta, cochilava a miudo, e longamente. Então a enferma
-sentia só o calor do Mal, que o medico graduava em trinta e nove ou
-trinta e nove e meio, depois de consultar o thermometro. A Febre, ao
-ver esse gesto, ria sem escandalo, ria para si.
-
-
-
-
-CAPITULO CVI
-
-
-Ambos quaes?
-
-
-Ficámos no ponto cm que uma das janellas do quarto augmentou a dóse
-do luz e de céu que Flora pediu, sem embargo da febre, aliás pouca. O
-mais que se passou valia a pena de um livro. Não foi logo, logo, gastou
-longas horas e alguns dias. Houve tempo bastante para que entre a vida
-e Flora se fizesse a reconciliação ou a despedida. Uma e outra podiam
-ser extensas; tambem podiam ser curtas. Conheci um homem que adoeceu
-velho, se não de velho, e despendeu no rompimento final um tempo quasi
-infinito. Já pedia a morte, mas quando via o rosto descarnado da
-derradeira amiga espiar da porta entre-aberta, voltava o seu para outro
-lado e engrolava uma cantiga da infancia, para enganal-a e viver.
-
-Flora não recorria a taes cantigas, aliás tão proximas. Quando via o
-céu e um pedaço de sol no muro, deleitava-se naturalmente, e uma vez
-quiz desenhar, mas não lh'o consentiram. Se a morte a espiava da porta,
-tinha um calefrio, é verdade, e fechava os olhos. Ao abril-os fitava a
-triste figura, sem lhe fugir nem chamar por ella.
-
---Você amanhã está prompta, e de hoje a oito dias, ou antes, vamos para
-Petropolis, disse Natividade disfarçando as lagrimas, mas a voz fazia o
-officio dos olhos.
-
---Petropolis? suspirou a doente.
-
---Lá terá muito que desenhar.
-
-Eram sete horas da manhã. Na vespera, quando os gemeos sairam de lá, já
-tarde, os receios da morte cresciam; mas não bastam receios, é preciso
-que a realidade venha atraz delles; dahi as esperanças. Tambem não
-bastam esperanças, a realidade é sempre urgente. A madrugada trouxe
-algum socego; ás sete horas, depois daquellas palavras de Natividade,
-Flora pôde dormir.
-
-Quando Pedro e Paulo voltaram a Andarahy, a enferma estava acordada,
-e o medico, sem dar grandes esperanças, mandou fazer applicações, que
-declarou energicas. Todos tinham signaes de lagrimas. De noite, Ayres
-appareceu trazendo noticias de agitação na cidade.
-
---Que é?
-
---Não sei; uns falam de manifestações ao marechal Deodoro, outros de
-conspiração contra o marechal Floriano. Ha alguma cousa.
-
-Natividade pediu aos filhos que se não mettessem em barulhos; ambos
-prometteram e cumpriram. Ao ver o aspecto de algumas ruas, grupos,
-patrulhas, armas, duas metralhadoras, Itamaraty illuminado, tiveram a
-curiosidade de saber o que houve e havia; vaga suggestão, que não durou
-dous minutos. Correram a metter-se em casa, e a dormir mal a noite. Na
-manhã seguinte os criados levaram os jornaes com as noticias da vespera.
-
---Veiu algum recado de Andarahy? perguntou um.
-
---Não, senhor.
-
-Ainda quizeram ler, por alto, alguma cousa. Não puderam; estavam
-anciosos de sair de casa e saber noticias da noite. Posto levassem os
-jornaes comsigo, não leram claramente nem seguidamente. Viram nomes de
-pessoas prezas, um decreto, movimento de gente e de tropas, tão confuso
-tudo, que deram por si na casa de D. Rita, antes de entender o que
-houvera. Flora ainda vivia.
-
---Mamãe, a senhora está mais triste hoje que estes dias.
-
---Não fales tanto, minha filha, acudiu D. Claudia. Triste estou sempre
-que adoeces. Fica boa e verás.
-
---Fica, fica boa, interveiu Natividade. Eu em moça, tive uma doença
-egual que me prostrou por duas semanas, até que me levantei, quando já
-ninguem esperava.
-
---Então já não esperam que me levante?
-
-Natividade quiz rir da conclusão tão prompta, com o fim de a animar. A
-doente fechou os olhos, abriu-os dahi a pouco, e pediu que vissem se
-estava com febre. Viram; tinha, tinha muita.
-
---Abram-me a janella toda.
-
---Não sei se fará bem, ponderou D. Rita.
-
---Mal não faz, disse Natividade.
-
-E foi abrir, não toda, mas metade da janella. Flora, posto que já mui
-caida, fez esforço e voltou-se para o lado da luz. Nessa posição ficou
-sem dar de si; os olhos, a principio vagos, entraram a parar, até que
-ficaram fixos. A gente entrava no quarto devagar, e abafando os passos,
-trazendo recados e levando-os; fóra, espreitavam o medico.
-
---Demora-se; já devia cá estar, dizia Baptista.
-
-Pedro era medico, propoz-se a ir ver a enferma; Paulo, não podendo
-entrar tambem, ponderou que seria desagradavel ao medico assistente;
-além disso, faltava-lhe pratica. Um e outro queriam assistir ao
-passamento de Flora, se tinha de vir. A mãe, que os ouviu, saiu á sala,
-e, sabendo o que era, respondeu negativamente. Não podiam entrar; era
-melhor que fossem chamar o medico.
-
---Quem é? perguntou Flora, ao vel-a tornar ao quarto.
-
---São os meus filhos que queriam entrar ambos.
-
---Ambos quaes? perguntou Flora.
-
-Esta palavra fez crêr que era o delirio que começava, se não é que
-acabava, porque, em verdade, Flora não proferiu mais nada. Natividade
-ia pelo delirio. Ayres, quando lhe repetiram o dialogo, rejeitou o
-delirio.
-
-A morte não tardou. Veiu mais depressa do que se receiava agora.
-Todas e o pae acudiram a rodear o leito, onde os signaes da agonia se
-precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes rapidas, não tanto
-que não façam ir doendo as saudades do dia; acabou tão serenamente
-que a expressão do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de
-defunta que de esculptura. As janellas, escancaradas, deixavam entrar o
-sol e o céu.
-
-
-
-
-CAPITULO CVII
-
-
-Estado de sitio
-
-
-Não ha novidade nos enterros. Aquelle teve a circumstancia de percorrer
-as ruas em estado de sitio. Bem pensado, a morte não é outra cousa
-mais que uma cessação da liberdade de viver, cessação perpetua, ao
-passo que o decreto daquelle dia valeu só por 72 horas. Ao cabo de 72
-horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver. Quem
-morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria commettido
-aquella moça, além do de viver, e porventura o de amar, não se sabe a
-quem, mas amar? Perdoai estas perguntas obscuras, que se não ajustam,
-antes se contrariam. A razão é que não recordo este obito sem pena, e
-ainda trago o enterro á vista...
-
-
-
-
-CAPITULO CVIII
-
-
-Velhas ceremonias
-
-
-Aqui vae a sair o caixão. Todos tiram o chapeu, logo que elle assoma
-á porta. Gente que passa, pára. Das janellas debruça-se a visinhança,
-em algumas atopeta-se, por serem as familias maiores que o espaço; ás
-portas, os criados. Todos os olhos examinam as pessoas que pegam nas
-alças do caixão, Baptista, Santos, Ayres, Pedro, Paulo, Nobrega.
-
-Este, posto já não frequentasse a casa, mandara saber da enferma, e
-foi convidado a carregar o gracioso corpo. No carro, em que levava o
-secretario, e era puxado pela mais bella parelha do prestito, quasi
-unica, lembrava Nobrega ao secretario.
-
---Não lhe dizia eu que ella era doente? Era muito doente.
-
---Muito.
-
-Não vou ao ponto de affirmar que teve prazer com a morte de Flora,
-só por havel-o feito acertar na noticia da doença, estando ella
-perfeitamente sã. Mas que ninguem fosse seu marido, foi uma especie
-de consolação. Houve mais; suppondo que ella o tivesse acceitado e
-casassem, pensava agora no esplendido enterro que lhe faria. Desenhava
-na imaginação o carro, o mais rico de todos, os cavallos e as suas
-plumas negras, o caixão, uma infinidade de cousas que, á força de
-compôr, cuidava feitas. Depois o tumulo; marmore, letras de ouro... O
-secretario para o arrancar á tristeza, falava dos objectos da rua.
-
---V. Ex. lembra-se do chafariz que havia aqui ha annos?
-
---Não, resmungava Nobrega.
-
-Ainda uma vez, não ha novidade nos enterros. Dahi o provavel tedio dos
-coveiros, abrindo e fechando covas todos os dias. Não cantam, como os
-de _Hamlet_, que temperam as tristezas do officio com as trovas do
-mesmo officio. Trazem o caixão da cal e a colher para os convidados,
-e para si as pás com que deitam a terra para dentro da cova. O pae
-e alguns amigos ficaram ao pé da cova de Flora, a ver cair a terra,
-a principio com aquelle baque soturno, depois com aquelle vagar
-cançativo, por mais que os pobres homens se apressem. Enifim, caiu toda
-a terra, e elles puzeram em cima as grinaldas dos paes e dos amigos:
-«_À nossa querida filha»;--«À nossa santa amiguinha Flora a saudosa
-amiga Natividade»;--À Flora, um amigo velho_», etc. Tudo feito, vieram
-saindo; o pae, entre Ayres e Santos, que lhe davam o braço, cambaleava.
-Ao portão, foram tomando os carros e partindo. Não deram pela falta de
-Pedro e Paulo que ficaram ao pé da cova.
-
-
-
-
-CAPITULO CIX
-
-
-Ao pé da cova
-
-
-Nenhum delles contou o tempo gasto naquelle logar. Sabem só que foi de
-silencio, de contemplação e de saudade. Não digo, para os não vexar
-agora, mas é possivel que chorassem tambem. Tinham um lenço na mão,
-enxugavam os olhos; depois com os braços caidos, as mãos prendendo o
-chapeo, olhavam apparentemente para as flôres que cobriam a sepultura,
-mas na realidade para a creatura que lá estava embaixo.
-
-Emfim, cuidaram de arrancar-se dalli, e despedir-se da defunta, não se
-sabe com que palavras, nem se eram as mesmas; o sentido seria egual.
-Como estivessem defronte um do outro, acudiu-lhes a ideia de um aperto
-de mão por cima da cova. Era uma promessa, um juramento. Juntaram-se
-e vieram descendo, calados. Antes de chegar ao portão, reduziram á
-palavra o gesto das mãos feito sobre a cova. Que juravam a conciliação
-perpetua.
-
---Ella nos separou, disse Pedro; agora, que desappareceu, que nos una.
-
-Paulo confirmou de cabeça.
-
---Talvez morresse para isso mesmo, accrescentou.
-
-Depois, abraçaram-se. Gesto nem palavra traziam emphasis ou affectação;
-eram simples e sinceros. A sombra de Flora de certo os viu, ouviu e
-inscreveu aquella promessa de reconciliação nas taboas da eternidade.
-Ambos, por um impulso commum, voltaram os olhos para ver ainda uma
-vez a cova de Flora, mas a cova ficava longe e encoberta por grandes
-sepulchros, cruzes, collumnas, um mundo inteiro de gente passada, quasi
-esquecida. O cemiterio tinha um ar meio alegre, com todas aquellas
-grinaldas de flôres, baixo-relevos, bustos, e a côr branca dos marmores
-e da cal. Comparado á cova recente, parecia um renascimento de vida,
-que ficou deslembrada a um canto da cidade.
-
-Custou-lhes sair do cemiterio. Não suppunham estar tão presos á
-defunta. Cada um d'elles ouvia a mesma voz, com egual doçura e palavras
-especiaes. Tinham chegado ao portão e o carro veiu buscal-os. A cara do
-cocheiro era radiosa.
-
-Não se explica esta expressão do cocheiro, se não porque, inquieto da
-demora, não cuidando que os dous freguezes ficassem tanto tempo ao pé
-da cova, entrara a receiar que tivessem aceitado o convite de algum
-amigo e voltado para casa. Tinha já resolvido esperar poucos minutos
-mais, e ir embora; mas a gorjeta? A gorjeta foi dobrada, como a dôr e o
-amor; digamos, gemea.
-
-
-
-
-CAPITULO CX
-
-
-Que vôa
-
-
-Assim como o carro veiu voando do cemiterio, assim voará este capitulo,
-destinado a dizer primeira que a mãe dos gemeos conseguiu leval-os para
-Petropolis. Já não allegaram a clinica da Santa Caza nem os documentos
-da Bibliotheca Nacional. Clinica e documentos repousam agora na cova
-n... Não ponho o numero, para que algum curioso, se achar este livro na
-dita Bibliotheca, se dê ao trabalho de investigar e completar o texto.
-Basta o nome da defunta, que lá ficou dito e redito.
-
-Vôe este capitulo, como o trem de Mauá, serra acima, até á cidade do
-repouso, do luxo e da galanteria. Vá Natividade com os filhos, e Ayres
-com os trez. Em cima, á noite, voltando este á casa do barão, pôde
-ver os effeitos da paz jurada, a conciliação final. Não sabia nada do
-pacto dos dous moços. Pae nem mãe sabiam cousa nenhuma. Foi um segredo
-guardado no silencio e no desejo sincero de commemorar uma creatura que
-os ligára, morrendo.
-
-Natividade vivia agora enamorada dos filhos. Levava-os a toda parte,
-ou guardava-os para si, afim de os gostar mais deliciosamente, de os
-approvar por actos, de auxiliar a obra correctiva do tempo. Noticias
-e boatos do Rio de Janeiro eram objecto de conversação nas casas a
-que estes iam, sem os convidar a sair da abstenção voluntaria. As
-recreações pouco a pouco os tomaram, algum passeio de carro ou a
-cavallo, e outras diversões os traziam unidos.
-
-Assim chegaram ao tempo em que a familia Santos desceu, ainda que a
-contra-gosto de Natividade. Ella temia que, mais perto do governo, a
-discordia politica acabasse com a recente harmonia dos filhos, mas não
-podia lá ficar. A outra gente vinha descendo. Santos queria os seus
-velhos habitos, e deu algumas razões boas, que Natividade ouviu depois
-ao proprio Ayres. Podia ser um encontro de ideias, mas se estas eram
-boas, deviam ser acceitas.
-
-Natividade confiava ao tempo a perfeição da obra; Cria no tempo. Eu,
-em menino, sempre o vi pintado como um velho de barbas brancas e foice
-na mão, que me mettia medo. Quanto a ti, amigo meu, ou amiga minha,
-segundo fôr o sexo da pessoa que me lê, se não fôrem duas, e os sexos
-ambos,--um casal de noivos, por exemplo,--curiosos de saber como é
-que Pedro e Paulo puderam estar no mesmo Credo... Não falemos desse
-mysterio.... Contenta-te de saber que elles tinham em mente cumprir o
-juramento daquelle logar e occasião. O tempo trouxe o fim da estação,
-como nos outros annos, e Petropolis deixou Petropolis.
-
-
-
-CAPITULO CXI
-
-
-Um resumo de esperanças
-
-
-«Quando um não quer, dous não brigam» tal é o velho proverbio que ouvi
-em rapaz, a melhor edade para ouvir proverbios. Na edade madura elles
-devem já fazer parte da bagagem da vida, fructos da experiencia antiga
-e commum. Eu cria neste; mas não foi elle que me deu a resolução de não
-brigar nunca. Foi por achal-o em mim que lhe dei credito. Ainda que
-não existisse, era a mesma cousa. Quanto ao modo de não querer, não
-respondo, não sei. Ninguem me constrangia. Todos os temperamentos iam
-commigo; poucas divergencias tive, e perdi só uma ou duas amizades, tão
-pacificamente aliás, que os amigos perdidos não deixaram de me tirar o
-chapeo. Um delles pediu-me perdão no testamento.
-
-No caso dos gemeos eram ambos que não queriam; parecia-lhes ouvir uma
-voz de fóra ou de alto que lhes pedia constantemente a paz. Força
-maior, portanto, e troca de formula: «Se nenhum quer, nenhum briga.»
-
-Naturalmente os actos do governo eram approvados e desapprovados, mas
-a certeza de que podia accender-Ihes novamente os odios fazia com que
-as opiniões de Pedro e de Paulo ficassem entre os seus amigos pessoaes.
-Não pensavam nada á vista um do outro. Divergencias de theatro ou de
-rua, eram sopitadas logo, por mais que lhes doesse o silencio. Não
-doeria tanto a Pedro, como a Paulo, mas sempre era padecer alguma
-cousa. Mudando de pensamento, esqueciam de todo, e o riso da mãe era a
-paga de ambos.
-
-A carreira differente ia separal-os depressa, comquanto a residencia
-commum os trouxesse unidos. Tudo se podia combinar; os interesses
-do officio serviriam a este effeito, as relações pessoaes tambem, e
-afinal o uso, que vale por muito. Vou aqui resumindo, como posso, as
-esperanças de Natividade. Outras havia a que chamarei conjugaes; os
-rapazes porém, não pareciain inclinados a ellas, e a mãe, quem lhe
-apalpasse o coração sentiria já um anticipado ciume das noras.
-
-
-
-CAPITULO CXII
-
-
-O primeiro mez
-
-
-Na vespera do dia em que se completou o primeiro mez da morte de Flora,
-Pedro teve uma ideia, que não communicou ao irmão. Não perderia nada em
-fazel-o, porque Paulo teve a mesma ideia, e tambem a calou. Della nasce
-este capitulo.
-
-A pretexto de ir visitar um doente, Pedro saiu de casa, antes das
-sete horas. Paulo saiu pouco depois, sem pretexto algum. Pia leitora,
-adivinhas que ambos fôram ao cemiterio; não adivinhas, nem é facil
-adivinhar que cada um delles levava uma grinalda. Não digo que fossem
-das mesmas flores, não só para respeitar a verdade, senão tambem para
-afastar qualquer ideia intencional de symetria na acção e no acaso.
-Uma era de myosotis, outra creio que de perpetuas. Qual fosse a de um,
-qual a do outro, não se sabe nem interessa á narração. Nenhuma tinha
-letreiro.
-
-Quando Paulo chegou ao cemiterio, e viu de longe o irmão, teve
-a sensação de pessoa roubada. Cuidava ser unico e era ultimo. A
-presumpção, porém, de que Pedro não levára nada, uma folha sequer,
-consolou-o da antecipação da visita. Esperou alguns instantes;
-advertindo que podia ser visto, desviou-se do caminho, metteu-se por
-entre sepulturas, até ir collocar-se atraz daquella. Ahi esperou cerca
-de um quarto de hora. Pedro não se queria arrancar dalli; parecia falar
-e escutar. Emfim, despediu-se e desceu.
-
-Paulo, vagorosamente, caminhou para a sepultura. Indo a depositar a
-grinalda, viu alli outra posta de fresco, e entendendo que era do
-irmão, teve impeto de ir atraz delle e pedir-lhe contas da lembrança e
-da visita. Não lhe leves a mal o impeto; passou immediatamente. O que
-elle fez foi collocar a coroa que levava no lado correspondente aos
-pés da defunta, para não a irmanar com a outra, que estava do lado da
-cabeça.
-
-Não viu, não adivinhou sequer que Pedro naturalmente pararia um
-instante, para voltar a cara e mandar um derradeiro olhar á moça
-enterrada. Assim foi, mas quando Pedro deu com o irmão, no mesmo logar
-que elle, os olhos no chão, teve tambem o seu impulso de ir buscal-o
-e trazel-o daquella cova sagrada. Preferiu esconder-se e esperar. Os
-gestos de piedade, quaesquer que fossem, elle os deu primeiro á querida
-commum. Foi o primeiro em evocar a sombra de Flora, falar-lhe, ouvil-a,
-gemer com ella a separação eterna. Viera adiante do outro; lembrara-se
-della mais cedo.
-
-Assim consolado, podia seguir caminho; Paulo, se saisse atraz delle,
-e o visse, entenderia que fizera a sua visita em segundo logar, e
-receberia um golpe grande. Deu alguns passos na direcção do portão,
-estacou, recuou e novamente se escondeu. Queria ver os gestos delle,
-ver se rezava, se se benzia, para desmentil-o quando lhe ouvisse mofar
-das ceremonias ecclesiasticas. Logo sentiu que era um erro; não iria
-confessar a ninguem que o vira rezando ao pé da cova de Flora. Ao
-contrario, era capaz de o desmentir,--ou, quando menos, fazer um gesto
-de incredulidade...
-
-Emquanto estas imaginações lhe passavam pela cabeça, desfazendo-se
-umas ás outras, discursando sem palavras, acceitando, repellindo,
-esperando, os olhos não se retiravam do irmão, nem este da sepultura.
-Paulo não fazia gesto, não mexia os labios, tinha os braços cruzados,
-o chapeo na mão. Não obstante, podia estar rezando. Tambem podia
-falar calado, para a sombra ou para a memoria da defunta. A verdade é
-que não saiu do logar. Então Pedro viu que a conversação, evocação,
-adoração, o que quer que fosse que atava Paulo á sepultura, vinha sendo
-muito mais demorado que as suas orações. Não marcára o seu tempo, mas
-evidentemente o de Paulo era já maior. Descontando a impaciencia,
-que sempre faz crescer os minutos, ainda assim parecia certo que
-Paulo gastava mais saudades que elle. Deste modo, ganhava na extensão
-da visita o que perdera na chegada ao cemiterio. Pedro, á sua vez,
-achou-se roubado.
-
-Quiz sair; mas, uma força, que elle não sabia explicar, não lhe
-consentia levantar os pés, nem tirar os olhos do gemeo. A custo, pôde
-emfim trazer a estes e fazel-os andar de volta pelas outras campas,
-onde leu alguns epitaphios. Um de 1865 não se podia ler bem se era
-tributo de amor filial ou conjugal, maternal ou paternal, por estar
-já apagado o adjectivo. Tributo era, tinha a formula adoptada pelos
-marmoristas, para poupar estylo aos freguezes. Notando que o adjectivo
-estava comido do tempo, Pedro disse comsigo que o seu amor é que era um
-substantivo perpetuo, não precisando mais nada para se definir.
-
-Pensou outras cousas com que foi disfarçando a humilhação. Fizera tudo
-ás carreiras. Se se demorasse mais, era o outro que estaria agora
-á espreita. O tempo andava, o sol batia no rosto do irmão, e este
-não arredava pé. Emfim, deu mostras de deixar a cova, mas foi para
-rodeal-a, e deter-se em todos os quatro lados, como se buscasse o
-melhor logar de ver ou evocar a pessoa guardada no fundo.
-
-Tudo feito, Paulo arredou-se, desceu e saiu, levando as maldições
-de Pedro. Este teve uma ideia que desprezou logo, e tu farias o
-mesmo, amigo leitor; foi tornar á sepultura e emendar ao tempo gasto
-anteriormente outro pedaço maior. Desprezada a ideia, vagou alguns
-minutos, até que saiu, sem achar sombra de Paulo.
-
-
-
-CAPITULO CXIII
-
-
-Uma Beatriz para dous
-
-
-Flora, se visse os gestos de ambos, é provavel que descesse do céu, e
-buscasse maneira de os ouvir perpetuamente, uma Beatriz para dous. Mas
-não viu ou não lhe pareceu bem descer. Talvez não achasse necessidade
-de tornar cá, para servir de madrinha a um duello que deixara em meio.
-
-Quanto a este, se ia continuar, não era pela mesma injuria. Não
-esqueças que foi ao pé daquella mesma campa que os dous fizeram as
-pazes eternas, e, posto não lh'as desfizesse a campa, é certo que
-accendeu um pouco da ira antiga. Dir-me-has, e com apparencia de razão,
-que, se enterrada ainda os separava, mais os separaria se alli descesse
-em espirito. Puro engano, amigo. No começo, ao menos, elles jurariam o
-que ella mandasse.
-
-
-
-
-CAPITULO CXIV
-
-
-Consultorio e banca
-
-
-Mezes depois, Pedro abria consultorio medico, aonde iam pessoas
-doentes, Paulo banca de advogado, que procuravam os carecidos de
-justiça. Um promettia saude, outro ganho de causa, e acertavam
-muita vez, porque não lhes faltava talento nem fortuna. Demais, não
-trabalhavam sós, mas cada qual com um collega de nomeada e pratico.
-
-No meio dos successos do tempo, entre os quaes avultavam a rebellião
-da esquadra e os combates do sul, a fuzilaria contra a cidade, os
-discursos inflammados, prisões, musicas e outros rumores, não lhes
-faltava campo em que divergissem. Nem era preciso politica.. Cresciam
-agora mais em numero as occasiões e as materias. Ainda quando
-combinassem de acaso e de apparencia, era para discordar logo e de vez,
-não deliberamente, mas por não poder ser de outro modo.
-
-Tinham perdido o accordo, feito pela razão, jurado pelo amor, em honra
-da moça defunta e da mãe viva. Mal se podiam ver, mal ou peor ouvir.
-Cuidaram de evitar tudo o que o logar e a occasião ajustassem para
-os separar mais. Desta maneira, a profissão torceu-lhes o caminho e
-dividiu as relações de ambos. Natividade apenas daria pela má vontade
-dos filhos, desde que os dous pareciam apostados em lhe querer bem,
-mas dava por ella, e tentava ligal-os apertadamente e de todo. Santos
-folgava de se prolongar pela medicina e pela advocacia dos filhos.
-Só receiava que Paulo, dada a inclinação partidaria, buscasse noiva
-jacobina. Não ousando dizer-lhe nada a tal respeito, refugiava-se na
-religião, e não ouvia missa que lhe não mettesse uma oração particular
-e secreta, para obter a protecção do céu.
-
-
-
-
-
-CAPITULO CXV
-
-
-Troca de opiniões
-
-
-Se não quando, viu Natividade os primeiros signaes de uma troca de
-inclinação, que mais parecia proposito que effeito natural. Entretanto,
-era naturalissimo. Paulo entrou a fazer opposição ao governo, ao passo
-que Pedro moderava o tom e o sentido, e acabava acceitando o regimen
-republicano, objecto de tantas desavenças.
-
-A acceitação por parte deste não foi rapida nem total; era, porém,
-bastante para sentir que não havia entre elle e o novo governo um
-abysmo. Naturalmente o tempo e a reflexão consummaram este effeito no
-espirito de Pedro, a não admittir que tambem nelle vingasse a ambição
-de um grande destino, esperança da mãe. Natividade, com effeito, ficou
-deliciada. Tambem ella mudara, se havia que mudar na simples alma
-materna para quem todos os regimens valiam pela gloria dos filhos.
-Pedro, aliás, não se dava todo, restringia alguma cousa ás pessoas e
-ao systema, mas acceitava o principio, e bastava; o resto viria com a
-edade, dizia ella.
-
-A opposição de Paulo não era ao principio, mas á execução. Não é esta
-a republica dos meus sonhos, dizia elle; e dispunha-se a reformal-a em
-trez tempos, com a fina flor das instituições humanas, não presentes
-nem passadas, mas futuras. Quando falava dellas, via-se-lhe a convicção
-nos labios e nos olhos, estes alongados, como alma de propheta. Era
-outro ensejo de se não entenderem os dous. D. Claudia tinha que era
-calculo de ambos para se não juntarem nunca;--opinião que Natividade
-acceitaria, finalmente, se não fôra a de Ayres.
-
-Tambem este notára a mudança, e estava prestes a acceitar a explicação,
-por aquella razão de commodidade que achava em concordar com as
-opiniões alheias; não se cançava nem aborrecia. Tanto melhor, se o
-accordo se fazia com um simples gesto. Desta vez, porém, valeu a pessoa.
-
---Não, baroneza, disse elle, não creia em propositos.
-
---Mas que póde ser então?
-
-Ayres gastou algum tempo na escolha das palavras, afim de lhe não
-sairem pedantescas nem insignificantes; queria dizer o que pensava.
-Às vezes, falar não custa menos que pensar. Ao fim de trez minutos,
-segredou a Natividade:
-
---A razão parece-me ser que o espirito de inquietação reside em Paulo,
-e o de conservação em Pedro. Um já se contenta do que está, outro
-acha que é pouco e pouquissimo, e quizera ir ao ponto a que não fôram
-homens. Em summa, não lhes importam formas de governo, comtanto que a
-sociedade fique firme ou se atire para diante. Se não concorda commigo,
-concorde com D. Claudia.
-
-Ayres não tinha aquelle triste peccado dos opiniaticos; não lhe
-importava ser ou não acceito. Não é a primeira vez que o digo, mas
-provavelmente é a ultima. Em verdade, a mãe dos gemeos não quiz
-outra explicação. Nem por isso a discordia morreria entre elles, que
-apenas trocavam de armas para continuar o mesmo duello. Ouvindo esta
-conclusão, Ayres fez um gesto affirmativo, e chamou a attenção de
-Natividade para a côr do céu, que era a mesma, antes e depois da chuva.
-Suppondo que havia nisto algo symbolico, ella entrou a procural-o, e o
-mesmo farias tú, leitor, se lá estivesses; mas não havia nada.
-
---Tenha confiança, baroneza, proseguiu elle pouco depois. Conte com
-as circumstancias, que tambem são fadas. Conte mais com o imprevisto.
-O imprevisto é uma especie de deus avulso, ao qual é preciso dar
-algumas acções de graças; póde ter voto decisivo na assembléa dos
-acontecimentos. Supponha um despota, uma côrte, uma mensagem. A côrte
-discute a mensagem, a mensagem canonisa o despota. Cada cortezão toma
-a si definir uma das virtudes do despota, a mansidão, a piedade, a
-justiça, a modestia... Chega a vez da grandeza da alma; chega tambem a
-noticia de que o despota morreu de apoplexia, que um cidadão assumiu
-o poder e a liberdade foi proclamada do alto do throno. A mensagem é
-approvada e copiada. Um amanuense basta para trocar as mãos á Historia;
-tudo é que o nome do novo chefe seja conhecido, e o contrario é
-impossivel; ninguem trepa ao solio sem isso, nem a senhora sabe o que é
-memoria de amanuense. Como nas missas funebres, só se troca o nome do
-encommendado,--Petrus, Paulus...
-
---Oh! não agoure meus filhos! exclamou Natividade.
-
-
-
-
-CAPITULO CXVI
-
-
-De regresso
-
-
---Então foram eleitos deputados?
-
---Fôram; tomam assento quinta-feira. Se não fôssem meus filhos, diria
-que os vem achar mais bellos do que os deixou, ha um anno.
-
---Diga, diga, baroneza; faça de conta que são meus filhos.
-
-Ayres voltava de Europa, aonde fôra com promessa de ficar seis mezes
-apenas. Enganou-se; gastou onze. Natividade é que lhe pôz um anno para
-arredondar a ausencia, que sentira devéras, como D. Rita. O sangue em
-uma, o costume na outra, custou-lhes a supportar a separação. Elle fôra
-a pretexto de aguas, e, por mais que lhe recommendassem as do Brasil,
-não as quiz experimentar. Não estava acostumado ás denominações locaes.
-Tinha esta impressão que as aguas de Carlsbad ou Vichy, sem estes
-nomes, não curariam tanto. D. Rita insinuou que elle ia para ver como
-estavam as moças que deixou, e concluiu:
-
---Hão de estar tão velhas, como você.
-
---Quem sabe se mais? O officio dellas é envelhecer, redarguiu o
-conselheiro.
-
-Quiz rir, mas não pôde ir além da ameaça. Não era a lembrança da
-propria velhice, nem da caducidade alheia, era a injustiça da sorte que
-lhe tomou a vista interior. As moças elle sabia muito bem que cediam
-ao tempo, como as cidades e as instituições, e ainda mais depressa que
-ellas. Nem todas iriam logo cedo, a cumprir a sentença que attribue ao
-amor dos deuses a morte prematura das pessoas; mas viu algumas dessas,
-e agora lhe lembrou a meiga Flora, que lá se fôra com as suas graças
-finas... Não passou da ameaça de riso.
-
-Quizeram retel-o as duas, Santos tambem, que perdia nelle uma figura
-certa das suas noites; mas o nosso homem resistiu, embarcou e partiu.
-Como escrevia sempre á irmã e aos amigos, dava a causa exacta da
-demora, e não eram amores, salvo se mentia, mas passara a edade de
-mentir. Affirmou, sim, que recuperara algumas forças, e assim o pareceu
-quando desembarcou, onze mezes depois, no caes Pharoux. Trazia o mesmo
-ar de velho elegante, fresco e bem posto.
-
---Mas então eleitos?
-
---Eleitos; tomam assento quinta-feira.
-
-
-
-
-CAPITULO CXVII
-
-
-Posse das cadeiras
-
-
-Quinta-feira, quando os gemeos tomaram assento na camara, Natividade
-e Perpetua fôram ver a ceremonia. Pedro ou Paulo arranjou-lhes uma
-tribuna. A mãe desejou que Ayres fosse tambem. Quando este alli chegou,
-já as achou sentadas, Natividade a fitar com a luneta o presidente e
-os deputados. Um destes falava sobre a acta,e ninguem lhe prestava
-attenção. Ayres sentou-se um pouco mais dentro, e após alguns minutos,
-disse a Natividade:
-
---A senhora escreveu-me que eram candidatos de dous partidos contrarios.
-
-Natividade confirmou a noticia; fôram eleitos em opposição um ao
-outro. Ambos apoiavam a Republica, mas Paulo queria mais do que ella
-era, e Pedro achava que era bastante e sobeja. Mostravam-se sinceros,
-ardentes, ambiciosos; eram bem acceitos dos amigos, estudiosos,
-instruidos...
-
---Amam-se finalmente?
-
---Amam-se em mim, respondeu ella depois de formular essa phrase na
-cabeça.
-
---Pois basta esse terreno amigo.
-
---Amigo, mas caduco; amanhã posso faltar-lhes.
-
---Não falta; a senhora tem muitos e muitos annos de vida. Faça uma
-viagem á Europa com elles, e verá que regressa ainda mais robusta. Eu
-sinto-me duplicado, por mais que me custe á modestia, mas a modestia
-perdoa tudo. E depois, quando os vir encarreirados e grandes homens...
-
---Porque é que a politica os ha de separar?
-
---Sim, podiam ser grandes na sciencia, um grande medico, um grande
-jurisconsulto...
-
-Natividade não quiz confessar que a sciencia não bastava. A gloria
-scientifica parecia-lhe comparativamente obscura; era calada, de
-gabinete, entendida de poucos. Politica, não. Quizera só a politica,
-mas que não brigassem, que se amassem, que subissem de mãos dadas...
-Assim ia pensando comsigo, emquanto Ayres, abrindo mão da sciencia,
-acabou declarando que, sem amor, não se faria nada.
-
---Paixão, disse elle, é meio caminho andado.
-
---A politica é a paixão delles; paixão e ambição. Talvez já pensem na
-presidencia da Republica.
-
---Já?
-
---Não... isto é, sim; guarde segredo. Interroguei-os separadamente;
-confessaram-me que este era o seu sonho imperial. Resta saber o que
-fará um, se o outro subir primeiro.
-
---Derrubal-o-ha, naturalmente.
-
---Não graceje, conselheiro.
-
---Não é gracejo, baroneza. A senhora cuida que a politica os desune;
-francamente, não. A politica é um incidente, como a moça Flora foi
-outro...
-
---Ainda se lembram della.
-
---Ainda?
-
---Foram á missa anniversaria, e desconfio que fôram tambem
-ao cemiterio, não juntos, nem á mesma hora. Se fôram, é que
-verdadeiramente gostavam della; logo, não foi um incidente.
-
-Sem embargo do que Natividade lhe merecia, Ayres não insistiu na
-opinião, antes deu mais relevo á della, com o proprio facto da visita
-ao cemiterio.
-
---Não sei se fôram, emendou Natividade; desconfio.
-
---Devem ter ido; elles gostavam realmente da pequena. Tambem ella
-gostava delles; a differença é que, não alcançando unifical-os, como
-os via em si, preferiu fechar os olhos. Não lhe importe o mysterio. Ha
-outros mais escuros.
-
---Parece que vae entrar a ceremonia, disse Perpetua que olhava para o
-recinto.
-
---Chegue-se para a frente, conselheiro.
-
-A ceremonia era a do costume. Natividade cuidou que ia vel-os entrar
-juntos e affirmarem juntos o compromisso regimental. Viriam assim
-como os trouxera no ventre e na vida. Contentou-se de os admirar
-separadamente, Paulo primeiro, Pedro depois, ambos graves, e ouviu-lhes
-cá de cima repetira formula com voz clara e segura. A ceremonia foi
-curiosa para as galerias, graças á semelhança dos dous; para a mãe foi
-commovedora.
-
---Estão legisladores, disse Ayres no fim.
-
-Natividade tinha os olhos gloriosos. Ergueu-se e pediu ao velho amigo
-que as acompanhasse á carruagem. No corredor acharam os dous recentes
-deputados, que vinham ter com a mãe Não consta qual delles a beijou
-primeiro; não havendo regimento interno nesta outra camara, póde ser
-que fossem ambos a um tempo, mettendo-lhes ella a cara entre as bocas,
-uma face para cada um. A verdade é que o fizeram com egual ternura.
-Depois voltaram ao recinto.
-
-
-
-
-CAPITULO CXVIII
-
-
-Cousas passadas, cousas futuras
-
-
-Indo a entrar na carruagem, Natividade deu com a egreja de S. José, ao
-lado, e um pedaço do morro do Castello, a distancia. Estacou.
-
---Que é? perguntou Ayres.
-
---Nada, respondeu ella entrando e estendendo-lhe a mão. Até logo?
-
---Até logo.
-
-A vista da egreja e do morro despertou nella todas as scenas e palavras
-que lá ficaram transcriptas nos dous ou trez primeiros capitulos.
-Não esqueceste que foi ao pé da egreja, entre esta e a camara, que o
-_coupé_ esperou então por ella e pela irmã.
-
---Você lembra-se, Perpetua? disse Natividade, quando o carro começou a
-andar.
-
---De que?
-
---Não se lembra que foi alli que ficou o carro, quando fômos á cabocla
-do Castello?
-
-Perpetua lembrava-se. Natividade advertiu ques devia ser alli perto a
-ladeira por onde subiram com difficuldade e curiosidade, até á casa da
-cabocla, no meio da outra gente, que descia ou subia tambem. A casa era
-á direita, tinha a escada de pedra...
-
-Descança, amigo, não repito as paginas. Ella é que não podia deixar de
-as evocar, nem impedir que viessem de si mesmas. Tudo reapparecia com
-a frescura antiga. Não esquecera a figurinha da cabocla, quando o pae
-a fez entrar na sala: entra, Barbara. A ideia de estar agora madura e
-longe, restituida ao Estado, que deixou Provincia, rica onde nasceu
-pobre, não acudiu á nossa amiga. Não, toda ella voltou áquella manhã
-de 1871. A caboclinha era esta mesma creatura leve e breve, com os
-cabellos atados no alto da cabeça, olhando, falando, dansando... Cousas
-passadas.
-
-Quando a carruagem ia a dobrar a praia de Santa Luzia, ladeando a Santa
-Casa, Natividade teve ideia, mas só ideia, de voltar e ir ter á ladeira
-do Castello, subir por ella, a ver se achava a adivinha no mesmo logar.
-Contar-lhe-hia que os dous meninos de mama, que ella predisse seriam
-grandes, eram já deputados e acabavam de tomar assento na camara.
-Quando cumpririam elles o seu destino? Viveria o tempo de os ver
-grandes homens, ainda que muito velha?
-
-A presidencia da Republica não podia ser para dous, mas um teria a
-vice-presidencia, e se este a achasse pouco, trocariam mais tarde os
-cargos. Nem faltavam grandezas. Ainda se lembrava das palavras que
-ouviu á cabocla, quando lhe perguntou pela especie de grandeza que
-caberia aos filhos. Cousas futuras! respondeu a Pythia do Norte, com
-tal voz que nunca lhe esqueceu. Agora mesmo parece-lhe que a ouve, mas
-é illusão. Quando muito, são as rodas do carro que vão rolando e as
-patas dos cavallos que batem: Cousas futuras! cousas futuras!
-
-
-
-
-CAPITULO CXIX
-
-
-Que annuncia os seguintes
-
-
-Todas as historias, se as cortam em fatias, acabam com um capitulo
-ultimo e outro penultimo, mas nenhum autor os confessa taes; todos
-preferem dar-lhes um titulo proprio. Eu adopto o methodo opposto;
-escrevo no alto de cada um dos capitulos seguintes os seus nomes de
-remate, e, sem dizer a materia particular de nenhum, indico o kilometro
-em que estamos da linha. Isto suppondo que a historia seja um trem de
-ferro. A minha não é propriamente isso. Poderia ser uma canoa, se lhe
-tivesse posto aguas e ventos, mas tu viste que só andamos por terra,
-a pé ou de carro, e mais cuidosos da gente que do chão. Não é trem
-nem barco; é uma historia simples, acontecida e por acontecer; o que
-poderás ver nos dous capitulos que faltam, e são curtos.
-
-
-
-
-CAPITULO CXX
-
-
-Penultimo
-
-
-Este é ainda um obito. Ja lá ficou defunta a joven Flora, aqui vae
-morta a velha Natividade. Chamo-lhe velha, porque li a certidão de
-baptismo; mas, em verdade, nem os filhos deputados, nem os cabellos
-brancos davam a esta senhora o aspecto correspondente á edade. A
-elegancia, que era o seu sexto sentido, enganava os tempos de tal
-maneira que ella conservava, não digo a frescura, mas a graça antiga.
-
-Não morreu sem ter uma conferencia particular com os dous filhos,--tão
-particular, que nem o marido assistiu a ella. Tambem não instou por
-isso. Verdade, verdade, Santos andava a chorar pelos cantos; mal
-poderia reter as lagrimas, se ouvisse a mulher fazer aos filhos os seus
-finaes pedidos. Porquanto, os medicos já a haviam desenganado. Se eu
-não visse nesses officiaes da saúde os escrutadores da vida e da morte,
-podia torcer a penna, e, contra a predicção scientifica, fazer escapar
-Natividade. Commetteria uma acção facil e réles, além de mentirosa.
-Não, senhor, ella morreu sem falta, poucas semanas depois daquella
-sessão da camara. Morreu de typho.
-
-Tão secreta foi a conferencia della e dos filhos que estes não quizeram
-contal-a a ninguem, salvo ao conselheiro Ayres, que a adivinhou em
-parte. Paulo e Pedro confessaram a outra parte, pedindo-lhe silencio.
-
---Não juraram calar?
-
---Positivamente, não, disse um.
-
---Juramos só o que ella nos pediu, explicou o outro.
-
---Pois então podem contal-o a mim. Eu serei discreto como um tumulo.
-
-Ayres sabia que os tumulos não são discretos. Se não dizem nada, é
-porque diriam sempre a mesma historia; dahi a fama de discrição. Não é
-virtude, é falta de novidade.
-
-Ora, o que a mãe fez, quando elles entraram e fecharam a porta do
-quarto, foi pedir-lhes que ficasse cada um do lado da cama e lhe
-estendessem a dextra. Juntou-as sem força e fechou-as nas suas mãos
-ardentes. Depois, com a voz expirante e os olhos accesos apenas de
-febre, pediu-lhes um favor grande e unico. Elles iam chorando e
-calando, porventura adivinhando o favor.
-
---Um favor derradeiro, insistiu ella.
-
---Diga, mamãe.
-
---Vocês vão ser amigos. Sua mãe padecerá no outro mundo, se os não
-vir amigos neste. Peço pouco; a vossa vida custou-me muito, a criação
-tambem, e a minha esperança era vel-os grandes homens. Deus não quer,
-paciencia. Eu é que quero saber que não deixo dous ingratos. Anda,
-Pedro, anda, Paulo, jurem que serão amigos.
-
-Os moços choravam. Se não falavam, é porque a voz não lhes queria sair
-da garganta. Quando pôde, saiu tremula, mas clara e forte:
-
---Juro, mamãe!
-
---Juro, mamãe!
-
---Amigos para todo sempre?
-
---Sim.
-
---Não quero outras saudades. Estas sómente, a amizade verdadeira, e que
-se não quebre nunca mais.
-
-Natividade ainda conservou as mãos delles presas, sentiu-as tremulas de
-commoção, e esteve calada alguns instantes.
-
---Posso morrer tranquilla.
-
---Não, mamãe não morre, interromperam ambos. Parece que a mãe quiz
-sorrir a esta palavra de confiança, mas a bôca não respondeu á
-intenção, antes fez um tregeito que assustou os filhos. Paulo correu a
-pedir soccorro. Santos entrou desorientado no quarto, a tempo de ouvir
-á esposa algumas palavras suspiradas e derradeiras. A agonia começou
-logo, e durou algumas horas. Contadas todas as horas de agonia que tem
-havido no mundo, quantos seculos farão? Desses terão sido tenebrosos
-alguns, outros melancolicos, muitos desesperados, raros enfadonhos.
-Emflm, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao
-pranto ou ao silencio.
-
-
-
-
-
-ÍNDICE
-
-
-
- I -- Cousas futuras!
- II -- Melhor de descer que de subir
- III -- A esmola da felicidade
- IV -- A missa do _coupé_
- V -- Ha contradicções explicaveis
- VI -- Maternidade
- VII -- Gestação
- VIII -- Nem casal, nem general
- IX -- Vista de palacio
- X -- O juramento
- XI -- Um caso unico!
- XII -- Esse Ayres
- XIII -- A epigraphe
- XIV -- A licção do discipulo
- XV -- _Teste David cum Sibylla_
- XVI -- Paternalismo
- XVII -- Tudo o que restrinjo
- XVIII -- De como vieram crescendo
- XIX -- Apenas duas.--Quarenta annos. Terceira causa
- XX -- A joia
- XXI -- Um ponto escuro
- XXII -- Agora um salto
- XXIII -- Quando tiverem barbas
- XXIV -- Robespierre e Luiz XVI
- XXV -- D. Miguel
- XXVI -- A luta dos retratos
- XXVII -- De uma reflexão intempestiva
- XXVIII -- O resto é certo
- XXIX -- A pessoa mais moça
- XXX -- A gente Baptista
- XXXI -- Flora
- XXXII -- O aposentado
- XXXIII -- A solidão tambem cança
- XXXIV -- Inexplicavel
- XXXV -- Em volta da moça
- XXXVI -- A discordia não é tão feia como se pinta
- XXXVII -- Desaccordo no accordo
- XXXVIII -- Chegada a proposito
- XXXIX -- Um gatuno
- XL -- Recuerdos
- XLI -- Caso do burro
- XLII -- Uma hypothese
- XLIII -- O discurso
- XLIV -- O salmão
- XLV -- Musa, canta...
- XLVI -- Entre um acto e outro
- XLVII -- S. Matheus, IV, 1-10
- XLVIII -- Terpsichore
- XLIX -- Taboleta velha
- L -- O tinteiro de Evaristo
- LI -- Aqui presente
- LII -- Um segredo
- LIII -- De confidencias
- LIV -- Emfim, só!
- LV -- «A mulher é a desolação do homem»
- LVI -- O golpe
- LVII -- Das encommendas
- LVIII -- Matar saudades
- LIX -- Noite de 14
- LX -- Manhã de 15
- LXI -- Lendo Xenophonte
- LXII -- «Pare no D.»
- LXIII -- Taboleta nova
- LXIV -- Paz!
- LXV -- Entre os filhos
- LXVI -- O basto e a espadilha
- LXVII -- A noite inteira
- LXVIII -- De manhã
- LXIX -- Ao piano
- LXX -- De uma conclusão errada
- LXXI -- A commissão
- LXXII -- O regresso
- LXXIII -- Um El-Dorado
- LXXIV -- A allusão do texto
- LXXV -- Proverbio errado
- LXXVI -- Talvez fosse a mesma!
- LXXVII -- Hospedagem
- LXXVIII -- Visita ao marechal
- LXXIX -- Fusão, diffusão, confusão...
- LXXX -- Transfusão, emfim
- LXXXI -- Ai, duas almas...
- LXXXII -- Em S. Clemente
- LXXXIII -- A grande noite
- LXXXIV -- O velho segredo
- LXXXV -- Trez constituições
- LXXXVI -- Antes que me esqueça
- LXXXVII -- Entre Ayres e Flora
- LXXXVIII -- Não, não, não
- LXXXIX -- O dragão
- XC -- O ajuste
- XCI -- Nem só a verdade se deve ás mães
- XCII -- Segredo acordado
- XCIII -- Não ata nem desata
- XCIV -- Gestos oppostos
- XCV -- O terceiro
- XCVI -- Retraimento
- XCVII -- Um Christo particular
- XCVIII -- O medico Ayres
- XCIX -- A titulo de ares novos...
- C -- Duas cabeças
- CI -- O caso embrulhado
- CII -- Visão pede meia sombra
- CIII -- O quarto
- CIV -- A resposta
- CV -- A realidade
- CVI -- Ambos quaes?
- CVII -- Estado de sitio
- CVIII -- Velhas cerimonias
- CIX -- Ao pé da cova
- CX -- Que vôa
- CXI -- Um resumo de esperanças
- CXII -- O primeiro mez
- CXIII -- Uma Beatriz para dous
- CXIV -- Consultorio e banca
- CXV -- Troca de opiniões
- CXVI -- De regresso
- CXVII -- Posse das cadeiras
- CXVIII -- Cousas passadas, cousas futuras
- CXIX -- Que annuncia os seguintes
- CXX -- Penultimo
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Esau e Jacob, by Machado de Assis
-
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