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- The Project Gutenberg eBook of Dom Casmurro by Machado de Assis.
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-
-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Dom Casmurro, by Machado de Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Dom Casmurro
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: October 15, 2017 [EBook #55752]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
-Literature (online soon in an extended version,also linking
-to free sources for education worldwide ... MOOC's,
-educational materials,...) (Images generously made available
-by the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.)
-
-
-
-
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-
-</pre>
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-</div>
-<h1>DOM CASMURRO</h1>
-
-<h1>POR</h1>
-
-<h1>MACHADO DE ASSIS</h1>
-
-<h4>DA ACADEMIA BRAZILEIRA</h4>
-
-<h5>B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR</h5>
-
-<h5>RUA MOREIRA CEZAR, 71</h5>
-
-<h5>RIO DE JANEIRO</h5>
-
-<h5>6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6</h5>
-
-<h5>PARIZ</h5>
-
-<h5>1899</h5>
-
-<hr class="full" />
-
-<p><a href="#INDICE">Indice</a></p>
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="I" id="I">I</a></h5>
-
-<h4>Do titulo.</h4>
-
-
-<p>Uma noite destas, vindo da cidade para o
-Engenho Novo, encontrei no trem da Central um
-rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de
-chapéo. Comprimentou-me, sentou-se ao pé de
-mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me
-versos. A viagem era curta, e os versos
-póde ser que não fossem inteiramente maus. Succedeu,
-porém, que como eu estava cançado,
-fechei os olhos tres ou quatro vezes; tanto bastou
-para que elle interrompesse a leitura e mettesse os
-versos no bolso.</p>
-
-<p>&mdash;Continue, disse eu accordando.</p>
-
-<p>&mdash;Já acabei, murmurou elle.</p>
-
-<p>&mdash;São muito bonitos.</p>
-
-<p>Vi-lhe fazer um gesto para tiral-os outra vez do
-bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No
-dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e
-acabou alcunhando-me <i>Dom Casmurro.</i> Os visinhos,
-que não gostam dos meus habitos reclusos e calados,
-deram curso á alcunha, que afinal pegou.
-Nem por isso me zanguei. Contei a anecdota aos
-amigos da cidade, e elles, por graça, chamam-me
-assim, alguns em bilhetes: «Dom Casmurro, domingo
-vou jantar com você.»&mdash;«Vou para Petropolis,
-Dom Casmurro; a casa é a mesma da Rhenania;
-vê se deixas essa caverna do Engenho Novo,
-e vae lá passar uns quinze dias commigo.»&mdash;«Meu
-caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso
-do theatro amanhã; venha e dormirá aqui na
-cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe
-cama; só não lhe dou moça.»</p>
-
-<p>Não consultes diccionarios. <i>Casmurro</i> não está
-aqui no sentido que elles lhe dão, mas no que lhe
-poz o vulgo de homem calado e mettido comsigo.
-<i>Dom</i> veiu por ironia, para attribuir-me fumos de
-fidalgo. Tudo por estar cochilando! Tambem não
-achei melhor titulo para a minha narração; se não
-tiver outro d'aqui até ao fim do livro, vae este
-mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que
-não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço,
-sendo o titulo seu, poderá cuidar que a obra é sua.
-Ha livros que apenas terão isso dos seus autores;
-alguns nem tanto.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="II" id="II">II</a></h5>
-
-<h4>Do livro.</h4>
-
-
-<p>Agora que expliquei o titulo, passo a escrever
-o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos
-que me põem a penna na mão.</p>
-
-<p>Vivo só, com um creado. A casa em que moro é
-propria; fil-a construir de proposito, levado de um
-desejo tão particular que me vexa imprimil-o, mas
-vá lá. Um dia, ha bastantes annos, lembrou-me
-reproduzir no Engenho Novo a casa em que me
-criei na antiga rua de Matacavallos, dando-lhe o
-mesmo aspecto e economia daquella outra, que
-desappareceu. Constructor e pintor entenderam
-bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo predio
-assobradado, tres janellas de frente, varanda ao
-fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal
-destas, a pintura do tecto e das paredes é mais ou
-menos egual, umas grinaldas de flores miudas e
-grandes passaros que as tomam nos bicos, de espaço
-a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras
-das estações, e ao centro das paredes os medalhões
-de Cesar, Augusto, Nero e Massinissa, com
-os nomes por baixo... Não alcanço a razão de taes
-personagens. Quando fomos para a casa de Matacavallos,
-já ella estava assim decorada; vinha
-do decennio anterior. Naturalmente era gosto do
-tempo metter sabor classico e figuras antigas em
-pinturas americanas. O mais é tambem analogo e
-parecido. Tenho chacarinha, flôres, legume, uma
-casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e
-mobilia velha. Emfim, agora, como outr'ora, ha
-aqui o mesmo contraste da vida interior, que é
-pacata, com a exterior, que é ruidosa.</p>
-
-<p>O meu fim evidente era atar as duas pontas da
-vida, e restaurar na velhice a adolescencia. Pois,
-senhor, não consegui recompor o que foi nem o
-que fui. Em tudo, se o rosto é egual, a physionomia
-é differente. Se só me faltassem os outros, vá; um
-homem consola-se mais ou menos das pessoas que
-perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.
-O que aqui está é, mal comparando, semelhante á
-pintura que se põe na barba e nos cabellos, e que
-apenas conserva o habito externo, como se diz nas
-autopsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão
-que me desse vinte annos de edade poderia
-enganar os extranhos, como todos os documentos
-falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam
-são de data recente; todos os antigos foram estudar
-a geologia dos campos santos. Quanto ás amigas,
-algumas datam de quinze annos, outras de menos,
-e quasi todas creem na mocidade. Duas ou tres
-fariam crer nella aos outros, mas a lingua que
-falam obriga muita vez a consultar os diccionarios,
-e tal frequencia é cançativa.</p>
-
-<p>Entretanto, vida differente não quer dizer vida
-peor; é outra cousa. A certos respeitos, aquella
-vida antiga apparece-me despida de muitos encantos
-que lhe achei; mas é tambem exacto que
-perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memoria,
-conservo alguma recordação doce e feiticeira.
-Em verdade, pouco appareco e menos falo.
-Distracções raras. O mais do tempo é gasto em
-hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.</p>
-
-<p>Ora, como tudo cança, esta monotonia acabou
-por exhaurir-me tambem. Quiz variar, e lembrou-me
-escrever um livro. Jurisprudencia, philosophia
-e politica acudiram-me, mas não me acudiram as
-forças necessarias. Depois, pensei em fazer uma
-<i>Historia dos Suburbios</i>, menos secca que as memorias
-do padre Luiz Gonçalves dos Santos, relativas
-á cidade; era obra modesta, mas exigia documentos
-e datas, como preliminares, tudo arido e longo.
-Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram
-a falar-me e a dizer-me que, uma vez que
-elles não alcançavam reconstituir-me os tempos
-idos, pegasse da penna e contasse alguns. Talvez a
-narração me désse a illusão, e as sombras viessem
-perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem,
-mas o do <i>Fausto: Ahi vindes outra vez, inquietas
-sombras...?</i></p>
-
-<p>Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda
-agora me treme a penna na mão. Sim, Nero, Augusto,
-Massinissa, e tu, grande Cesar, que me
-incitas a fazer os meus commentarios, agradeço-vos
-o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscencias
-que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que
-vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior
-tomo. Eia, comecemos a evocação por uma celebre
-tarde de Novembro, que nunca me esqueceu. Tive
-outras muitas, melhores, e peores, mas aquella
-nunca se me apagou do espirito. É o que vás entender,
-lendo.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="III" id="III">III</a></h5>
-
-<h4>A denuncia.</h4>
-
-
-<p>Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi
-proferir o meu nome e escondi-me atraz da porta.
-A casa era a da rua de Matacavallos, o mez Novembro,
-o anno é que é um tanto remoto, mas eu
-não hei de trocar as datas á minha vida só para
-agradar ás pessoas que não amam historias velhas;
-o anno era de 1857.</p>
-
-<p>&mdash;D. Gloria, a senhora persiste na ideia de
-metter o nosso Bentinho no seminario? É mais que
-tempo, e já agora póde haver uma difficuldade.</p>
-
-<p>&mdash;Que difficuldade?</p>
-
-<p>&mdash;Uma grande difficuldade.</p>
-
-<p>Minha mãe quiz saber o que era. José Dias, depois
-de alguns instantes de concentrarão, veiu ver
-se havia alguem no corredor; não deu por mim,
-voltou e, abafando a voz, disse que a difficuldade
-estava na casa ao pé, a gente do Padua.</p>
-
-<p>&mdash;A gente do Padua?</p>
-
-<p>&mdash;Ha algum tempo estou para lhe dizer isto,
-mas não me atrevia. Não me parece bonito que o
-nosso Bentinho ande mettido nos cantos com a
-filha do <i>Tartaruga</i>, e esta é a difficuldade, porque
-se elles pegam de namoro, a senhora terá muito
-que lutar para separal-os.</p>
-
-<p>&mdash;Não acho. Mettidos nos cantos?</p>
-
-<p>&mdash;É um modo de falar. Em segredinhos, sempre
-juntos. Bentinho quasi que não sae de lá. A pequena
-é uma desmiolada; o pae faz que não vê; tomara
-elle que as cousas corressem de maneira,
-que... Comprehendo o seu gesto; a senhora não crê
-em taes calculos, parece-lhe que todos têm a alma
-candida...</p>
-
-<p>&mdash;Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos
-brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar.
-Basta a edade; Bentinho mal tem quinze annos.
-Capitú fez quatorze á semana passada; são dous
-creançolas. Não se esqueça que foram criados juntos,
-desde aquella grande enchente, ha dez annos,
-em que a familia Padua perdeu tanta cousa; d'ahi
-vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer...?
-Mano Cosme, você que acha?</p>
-
-<p>Tio Cosme respondeu com um «Ora!» que,
-traduzido em vulgar, queria dizer: «São imaginações
-do José Dias; os pequenos divertem-se, eu
-divirto-me; onde está o gamão?»</p>
-
-<p>&mdash;Sim, creio que o senhor está enganado.</p>
-
-<p>&mdash;Póde ser, minha senhora. Oxalá tenham
-razão; mas creia que não falei senão depois de
-muito examinar...</p>
-
-<p>&mdash;Em todo caso, vae sendo tempo, interrompeu
-minha mãe; vou tratar de mettel-o no seminario
-quanto antes.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o
-fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho
-ha de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois a
-egreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos
-que um bispo presidiu a Constituinte, e que o padre
-Feijó governou o imperio...</p>
-
-<p>&mdash;Governou como a cara d'elle! atalhou tio
-Cosme, cedendo a antigos rancores politicos.</p>
-
-<p>&mdash;Perdão, doutor, não estou defendendo ninguem,
-estou citando. O que eu quero é dizer que
-o clero ainda tem grande papel no Brasil.</p>
-
-<p>&mdash;Você o que quer é um capote; ande, vá buscar
-o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser
-padre, realmente é melhor que não comece a dizer
-missa atraz das portas. Mas, olhe cá, mana Gloria,
-ha mesmo necessidade de fazel-o padre?</p>
-
-<p>&mdash;É promessa, ha de cumprir-se.</p>
-
-<p>&mdash;Sei que você fez promessa... mas, uma promessa
-assim... não sei... Creio que, bem pensado...
-Você que acha, prima Justina?</p>
-
-<p>&mdash;Eu?</p>
-
-<p>&mdash;Verdade é que cada um sabe melhor de si,
-continuou tio Cosme; Deus é que sabe do todos.
-Comtudo, uma promessa de tantos annos... Mas,
-que é isso, mana Gloria? Está chorando? Ora esta!
-Pois isto é cousa de lagrimas?</p>
-
-<p>Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina
-creio que se levantou e foi ter com ella. Seguiu-se
-um alto silencio, durante o qual estive a pique de
-entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção...
-Não pude ouvir as palavras que tio Cosme
-entrou a dizer. Prima Justina exhortava: «Prima
-Gloria! prima Gloria!» José Dias desculpava-se:
-«Se soubesse, não teria falado, mas falei pela
-veneração, pela estima, pelo affecto, para cumprir
-um dever amargo, um dever amarissimo...»</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="IV" id="IV">IV</a></h5>
-
-<h4>Um dever amarissimo!</h4>
-
-
-<p>José Dias amava os superlativos. Era um modo
-de dar feição monumental ás ideias; não as havendo,
-servir a prolongar as phrases. Levantou-se para ir
-buscar o gamão, que estava no interior da casa.
-Cosi-me muito á parede, e vi-o passar com as
-suas calças brancas engommadas, presilhas, rodaque
-e gravata de mola. Foi dos ultimos que usaram
-presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo.
-Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem
-esticadas. A gravata de setim preto, com um aro de
-aço por dentro, immobilisava-lhe o pescoço; era
-então moda. O rodaque de chita, veste caseira o
-leve, parecia nelle uma casaca de cerimonia. Era
-magro, chupado, com um principio de calva; teria
-os seus cincoenta e cinco annos. Levantou-se com o
-passo vagaroso do costume, não aquelle vagar arrastado
-dos preguiçosos, mas um vagar calculado e
-deduzido, um syllogismo completo, a premissa antes
-da consequencia, a consequencia antes da conclusão.
-Um dever amarissimo!</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="V" id="V">V</a></h5>
-
-<h4>O aggregado.</h4>
-
-
-<p>Nem sempre ia naquelle passo vagaroso e rigido.
-Tambem se descompunha em accionados, era muita
-vez rapido e lepido nos movimentos, tão natural
-nesta como naquella maneira. Outrosim, ria largo,
-se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas
-communicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes,
-os olhos, toda a cara, todo a pessoa, todo o mundo
-pareciam rir nelle. Nos lances graves, gravissimo.</p>
-
-<p>Era nosso aggregado desde muitos annos; meu
-pae ainda estava na antiga fazenda de Itaguahy, e
-eu acabava de nascer. Um dia appareceu alli vendendo-se
-por medico homeopatha; levava um <i>Manual</i>
-e uma botica. Havia então um andaço de
-febres; José Dias curou o feitor e uma escrava, e
-não quiz receber nenhuma remuneração. Então meu
-pae propoz-lhe ficar alli vivendo, com pequeno ordenado.
-José Dias recusou, dizendo que era justo
-levar a saude á casa de sapé do pobre.</p>
-
-<p>&mdash;Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá
-aonde quizer, mas fique morando comnosco.</p>
-
-<p>&mdash;Voltarei daqui a tres mezes.</p>
-
-<p>Voltou dalli a duas semanas, acceitou casa e
-comida sem outro estipendio, salvo o que quizessem
-dar por festas. Quando meu pae foi eleito deputado
-e veiu para o Rio de Janeiro com a familia, elle
-veiu tambem, e teve o seu quarto ao fundo da chacara.
-Um dia, reinando outra vez febres em Itaguahy,
-disse-lhe meu pae que fosse ver a nossa
-escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou
-e acabou confessando que não era medico.
-Tomára este titulo para ajudar a propaganda da
-nova escola, e não o fez sem estudar muito e muito;
-mas a consciencia não lhe permittia acceitar mais
-doentes.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, você curou das outras vezes.</p>
-
-<p>&mdash;Creio que sim; o mais acertado, porém, é
-dizer que foram os remedios indicados nos livros.
-Elles, sim, elles, abaixo de Deus. Eu era um charlatão...
-Não negue; os motivos do meu procedimento
-podiam ser e eram dignos; a homeopathia é
-a verdade, e, para servir á verdade, menti; mas é
-tempo de restabelecer tudo.</p>
-
-<p>Não foi despedido, como pedia então; meu pae
-já não podia dispensal-o. Tinha o dom de se fazer
-acceito e necessario; dava-se por falta delle, como
-de pessoa de familia. Quando meu pae morreu, a
-dôr que o pungiu foi enorme, disseram-me, não me
-lembra. Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não
-consentiu que elle deixasse o quarto da chacara; ao
-setimo dia, depois da missa, elle foi despedir-se
-della.</p>
-
-<p>&mdash;Fique, José Dias.</p>
-
-<p>&mdash;Obedeço, minha senhora.</p>
-
-<p>Teve um pequeno legado no testamento, uma
-apolice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras,
-encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por
-cima da cama. «Esta é a melhor apolice», dizia
-elle muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade
-na familia, certa audiencia, ao menos; não
-abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era
-amigo, não direi optimo, mas nem tudo é optimo
-neste mundo. E não lhe supponhas alma subalterna;
-as cortezias que fizesse vinham antes do calculo
-que da indole. A roupa durava-lhe muito; ao
-contrario das pessoas que enxovalham depressa o
-vestido novo, elle trazia o velho escovado e liso,
-cirzido, abotoado, de uma elegancia pobre e modesta.
-Era lido, posto que de atropello, o bastante
-para divertir ao serão e á sobremesa, ou explicar
-algum phenomeno, falar dos effeitos do calor e do
-frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez
-uma viagem que fizera á Europa, e confessava que
-a não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha
-amigos em Lisboa, mas a nossa familia, dizia elle,
-abaixo de Deus, era tudo.</p>
-
-<p>&mdash;Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme
-um dia.</p>
-
-<p>&mdash;Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração.</p>
-
-<p>E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver
-que elle punha Deus no devido logar, e sorriu approvando.
-José Dias agradeceu de cabeça. Minha mãe
-dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio
-Cosme, que era advogado, confiava-lhe a copia de
-papeis de autos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="VI" id="VI">VI</a></h5>
-
-<h4>Tio Cosme.</h4>
-
-
-<p>Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ella
-enviuvou. Já então era viuvo, como prima Justina;
-era a casa dos tres viuvos.</p>
-
-<p>A fortuna troca muita vez as mãos á natureza.
-Formado para as serenas funccões do capitalismo,
-tio Cosme não enriquecia no fòro: ia comendo.
-Tinha o escriptorio na antiga rua das Violas, perto
-do jury, que era no extincto Aljube. Trabalhava no
-crime. José Dias não perdia as defesas oraes de
-tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com
-muitos comprimentos no fim. Em casa, referia os
-debates. Tio Cosme, por mais modesto que quizesse
-ser, sorria de persuasão.</p>
-
-<p>Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os
-olhos dorminhocos. Uma das minhas recordações
-mais antigas era vel-o montar todas as manhãs a
-besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao
-escriptorio. O preto que a tinha ido buscar á cocheira,
-segurava o freio, emquanto elle erguia o pé
-e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de
-descanço ou reflexão. Depois, dava um impulso, o
-primeiro, o corpo ameaçava subir, mas não subia;
-segundo impulso, egual effeito. Emfim, após alguns
-instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forças
-physicas e moraes, dava o ultimo surto da terra, e
-desta vez caía em cima do selim. Raramente a besta
-deixava de mostrar por um gesto que acabava de
-receber o mundo. Tio Cosme accommodava as
-carnes, e a besta partia a trote.</p>
-
-<p>Tambem não me esqueceu o que elle me fez uma
-tarde. Posto que nascido na roça (donde vim com
-dous annos) e apezar dos costumes do tempo, eu
-não sabia montar, e tinha medo ao cavallo. Tio
-Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima
-da besta. Quando me vi no alto (tinha nove annos),
-sósinho e desamparado, o chão lá embaixo, entrei
-a gritar desesperadamente: «Mamãe! mamãe!»
-Ella acudiu pallida e tremula, cuidou que me estivessem
-matando, apeou-me, affagou-me, emquanto
-o irmão perguntava:</p>
-
-<p>&mdash;Mana Gloria, pois um tamanhão destes tem
-medo de besta mansa?</p>
-
-<p>&mdash;Não está acostumado.</p>
-
-<p>&mdash;Deve acostumar-se. Padre que seja, se fôr
-vigario na roça, é preciso que monte a cavallo; e,
-aqui mesmo, ainda não sendo padre, se quizer
-florear como os outros rapazes, e não souber, ha de
-queixar-se de você, mana Gloria.</p>
-
-<p>&mdash;Pois que se queixe; tenho medo.</p>
-
-<p>&mdash;Medo! Ora, medo!</p>
-
-<p>A verdade é que eu só vim a apprender equitação
-mais tarde, menos por gosto que por vergonha
-de dizer que não sabia montar. «Agora é
-que elle vae namorar devéras», disseram quando
-eu comecei as licções. Não se diria o mesmo de tio
-Cosme. Nelle era velho costume e necessidade. Já
-não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi
-acceito de muitas damas, além de partidario exaltado;
-mas os annos levaram-lhe o mais do ardor
-politico e sexual, e a gordura acabou com o resto
-de ideias publicas e especificas. Agora só cumpria
-as obrigações do officio e sem amor. Nas horas de
-lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez
-dizia pilherias.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="VII" id="VII">VII</a></h5>
-
-<h4>D. Gloria.</h4>
-
-
-<p>Minha mãe era boa creatura. Quando lhe morreu
-o marido, Pedro de Albuquerque Santiago, contava
-trinta e um annos de edade, e podia voltar
-para Itaguahy. Não quiz; preferiu ficar perto da
-egreja em que meu pae fòra sepultado. Vendeu a
-fazendola e os escravos, comprou alguns que pôz
-ao ganho ou alugou, uma duzia de predios, certo
-numero de apolices, e deixou-se estar na casa de
-Matacavallos, onde vivera os dous ultimos annos
-de casada. Era filha de uma senhora mineira,
-descendente de outra paulista, a familia Fernandes.</p>
-
-<p>Ora, pois, naquelle anno da graça de 1857,
-D. Maria da Gloria Fernandes Santiago contava
-quarenta e dous annos de edade. Era ainda bonita
-e moça, mas teimava em esconder os saldos da
-juventude, por mais que a natureza quizesse preserval-a
-da acção do tempo. Vivia mettida em um
-eterno vestido escuro, sem adornos, com um chale
-preto, dobrado em triangulo e abrochado ao peito
-por um camafeu. Os cabellos, em bandós, eram
-apanhados sobre a nuca por um velho pente de
-tartaruga; alguma vez trazia touca branca de fólhos.
-Lidava assim, com os seus sapatos de cordavão
-rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e
-guiando os serviços todos da casa inteira, desde
-manhã até á noite.</p>
-
-<p>Tenho alli na parede o retrato della, ao lado do
-do marido, taes quaes na outra casa. A pintura
-escureceu muito, mas ainda dá ideia de ambos. Não
-me lembra nada delle, a não ser vagamente que era
-alto e usava cabelleira grande; o retrato mostra
-uns olhos redondos, que me acompanham para
-todos os lados, effeito da pintura que me assombrava
-em pequeno. O pescoço sae de uma gravata
-preta de muitas voltas, a cara é toda rapada, salvo
-um trechosinho pegado ás orelhas. O de minha mãe
-mostra que era linda. Contava então vinte annos,
-e tinha uma flôr entre os dedos. No painel parece
-offerecer a flòr ao marido. O que se lè na cara do
-ambos é que, se a felicidade conjugal póde ser
-comparada á sorte grande, elles a tiraram no bilhete
-comprado de sociedade.</p>
-
-<p>Concluo que não se devem abolir as loterias.
-Nenhum premiado as accusou ainda de immoraes,
-como ninguem tachou de má a boceta de Pandora,
-por lhe ter tirado a esperança no fundo; em
-alguma parte ha de ella ficar. Aqui os tenho aos
-dous bem casados de outr'ora, os bem-amados, os
-bem-aventurados, que se foram desta para a outra
-vida, continuar um sonho provavelmente. Quando a
-loteria e Pandora me aborrecem, ergo os olhos para
-elles, e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatidica.
-São retratos que valem por originaes. O de
-minha mãe, estendendo a flôr ao marido, parece
-dizer: «Sou toda sua, meu guapo cavalheiro!» O
-de meu pae, olhando para a gente, faz este commentario:
-«Vejam como esta moça me quer...» Se
-padeceram molestias, não sei, como não sei se tiveram
-desgostos: era creança e comecei por não ser
-nascido. Depois da morte delle, lembra-me que ella
-chorou muito; mas aqui estão os retratos de ambos,
-sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira
-expressão. São como photographias instantaneas
-da felicidade.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="VIII" id="VIII">VIII</a></h5>
-
-<h4>É tempo!</h4>
-
-
-<p>Mas é tempo de tomar áquella tarde de Novembro,
-uma tarde clara e fresca, socegada como a
-nossa casa e o trecho da rua em que moravamos.
-Verdadeiramente foi o principio da minha vida;
-tudo o que succedera antes foi como o pintar e vestir
-das pessoas que tinham de entrar em scena, o
-accender das luzes, o preparo das rabecas, a symphonia...
-Agora é que eu ia começar a minha opera.
-«A vida é uma opera,» dizia-me um velho tenor
-italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um
-dia a definição, em tal maneira que me fez crer
-nella. Talvez valha a pena dal-a; é só um capitulo.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="IX" id="IX">IX</a></h5>
-
-<h4>A opera.</h4>
-
-
-<p>Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a
-tinha. «O desuso é que me faz mal», accrescentava.
-Sempre que uma companhia nova chegava da
-Europa, ia ao empresario e expunha-lhe todas as
-injustiças da terra e do ceu; o empresario commettia
-mais uma, e elle saía a bradar contra a iniquidade.
-Trazia ainda os bigodes dos seus papeis.
-Quando andava, apezar de velho, parecia cortejar
-uma princeza de Babylonia. Ás vezes, cantarolava,
-sem abrir a bocca, algum trecho ainda mais edoso
-que elle ou tanto; vozes assim abafadas são sempre
-possiveis. Vinha aqui jantar commigo algumas vezes.
-Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me
-a definição do costume, e como eu lhe dissesse que
-a vida tanto podia sor uma opera, como uma viagem
-de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e
-replicou:</p>
-
-<p>&mdash;A vida é uma opera e uma grande opera. O
-tenor e o barytono lutam pelo soprano, em presença
-do baixo e dos comprimarios, quando não são o
-soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em
-presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimarios.
-Ha córos numerosos, muitos bailados, e a
-orchestração é excellente...</p>
-
-<p>&mdash;Mas, meu caro Marcolini...</p>
-
-<p>&mdash;Quê...?</p>
-
-<p>E, depois de beber um gole de licor, pousou o
-calix, e expoz-me a historia da creação, com palavras
-que vou resumir.</p>
-
-<p>Deus é o poeta. A musica é de Satanaz, joven
-maestro de muito futuro, que apprendeu no conservatorio
-do ceu. Rival de Miguel, Raphael e
-Gabriel, não tolerava a precedencia que elles
-tinham na distribuição dos premios. Póde ser tambem
-que a musica em demasia doce e mystica daquelles
-outros condiscipulos fosse aborrecivel ao
-seu genio essencialmente tragico. Tramou uma
-rebellião que foi descoberta a tempo, e elle expulso
-do conservatorio. Tudo se teria passado sem mais
-nada, se Deus não houvesse escripto um libretto de
-opera, do qual abrira mão, por entender que tal
-genero de recreio era improprio da sua eternidade.
-Satanaz levou o manuscripto comsigo para o inferno.
-Com o fim de mostrar que valia mais que
-os outros,&mdash;e acaso para reconciliar-se com o ceu&mdash;compoz
-a partitura, e logo que a acabou foi
-leval-a ao Padre Eterno.</p>
-
-<p>&mdash;Senhor, não desapprendi as licções recebidas,
-disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a,
-fazei-a executar, e se a achardes digna das
-alturas, admitti-me com ella a vossos pés...</p>
-
-<p>&mdash;Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir
-nada.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, Senhor...</p>
-
-<p>&mdash;Nada! nada!</p>
-
-<p>Satanaz supplicou ainda, sem melhor fortuna,
-até que Deus, cançado e cheio de misericordia, consentiu
-em que a opera fosse executada, mas fóra do
-ceu. Creou um theatro especial, este planeta, e
-inventou uma companhia inteira, com todas as
-partes, primarias e comprimarias, córos e bailarinos.</p>
-
-<p>&mdash;Ouvi agora alguns ensaios!</p>
-
-<p>&mdash;Não, não quero saber de ensaios. Basta-me
-haver composto o libretto; estou prompto a dividir
-comtigo os direitos de autor.</p>
-
-<p>Foi talvez um mal esta recusa; della resultaram
-alguns desconcertos que a audiencia prévia e a collaboração
-amiga teriam evitado. Com effeito, ha
-logares em que o verso vae para a direita e a musica
-para a esquerda. Não falta quem diga que nisso
-mesmo está a belleza da composição, fugindo á
-monotonia, e assim explicam o tercetto do Eden, a
-aria de Abel, os córos da guilhotina e da escravidão.
-Não é raro que os mesmos lances se reproduzam,
-sem razao sufficiente. Certos motivos cançam
-á força de repetição. Tambem ha obscuridades; o
-maestro abusa das massas choraes, encobrindo muita
-vez o sentido por um modo confuso. As partes
-orchestraes são aliás tratadas com grande pericia.
-Tal é a opinião dos imparciaes.</p>
-
-<p>Os amigos do maestro querem que difficilmente se
-possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro
-admitte certas rudezas e taes ou quaes lacunas,
-mas com o andar da opera é provavel que estas
-sejam preenchidas ou explicadas, e aquellas desapparecam
-inteiramente, não se negando o maestro a
-emendar a obra onde achar que não responde de
-todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem
-o mesmo os amigos deste. Juram que o libretto foi
-sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da
-lettra, e, posto seja bonita em alguns logares, e trabalhada
-com arte em outros, é absolutamente
-diversa e até contraria ao drama. O grotesco, por
-exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescencia
-para imitar as <i>Mulheres patuscas de Windsor.</i>
-Este ponto é contestado pelos satanistas com
-alguma apparencia de razão. Dizem elles que, ao
-tempo em que o joven Satanaz compoz a grande
-opera, nem essa farça nem Shakespeare eram nascidos.
-Chegam a affirmar que o poeta inglez não
-teve outro genio senão transcrever a lettra da opera,
-com tal arte e fidelidade, que parece elle proprio
-o autor da composição; mas, evidentemente, é um
-plagiario.</p>
-
-<p>&mdash;Esta peça, concluiu o velho tenor, durará emquanto
-durar o theatro, não se podendo calcular em
-que tempo será elle demolido por utilidade astronomica.
-O exito é crescente. Poeta e musico recebem
-pontualmente os seus direitos autoraes, que não
-são os mesmos, porque a regra da divisão é aquillo
-da Escriptura: «Muitos são os chamados, poucos
-os escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanaz em
-papel.</p>
-
-<p>&mdash;Tem graça...</p>
-
-<p>&mdash;Graça? bradou elle com furia; mas aquietou-se
-logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho
-graça, eu tenho horror á graça. Isto que digo é a
-verdade pura e ultima. Um dia, quando todos os
-livros forem queimados por inuteis, ha de haver
-alguem, póde ser que tenor, e talvez italiano, que
-ensine esta verdade aos homens. Tudo é musica,
-meu amigo. No principio era o <i>dó</i>, e o <i>dó</i> fez-se
-<i>ré</i>, etc. Este calix (e enchia-o novamente) este calix
-é um breve estribilho. Não se ouve? Tambem
-não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na
-mesma opera...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="X" id="X">X</a></h5>
-
-<h4>Acceito a theoria.</h4>
-
-
-<p>Que é demasiada metaphysica para um só tenor,
-não ha duvida; mas a perda da voz explica tudo, e
-ha philosophos que são, em resumo, tenores desempregados.</p>
-
-<p>Eu, leitor amigo, acceito a theoria do meu velho
-Marcolini, não só pela verosimilhança, que é muita
-vez toda a verdade, mas porque a minha vida
-se casa bem á definição. Cantei um <i>duo</i> ternissimo,
-depois um <i>trio</i>, depois um <i>quatuor...</i> Mas não adeantemos;
-vamos á primeira tarde, em que eu vim a
-saber que já cantava, porque a denuncia de José
-Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a
-mim. A mim é que elle me denunciou.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XI" id="XI">XI</a></h5>
-
-<h4>A promessa.</h4>
-
-
-<p>Tão depressa vi desapparecer o aggregado no
-corredor, deixei o esconderijo, e corri á varanda
-do fundo. Não quiz saber de lagrimas nem da causa
-que as fazia verter a minha mãe. A causa eram
-provavelmente os seus projectos ecclesiasticos, e a
-occasião destes é a que vou dizer, por ser já então
-historia velha; datava de dezeseis annos.</p>
-
-<p>Os projectos vinham do tempo em que fui concebido.
-Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho,
-minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo
-vingasse, promettendo, se fosse varão, mettel-o na
-egreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse
-nada a meu pae, nem antes, nem depois de me dar
-á luz; contava fazel-o quando eu entrasse para a
-escola, mas enviuvou antes disso. Viuva, sentiu
-terror de separar-se de mim; mas era tão devota,
-tão temente a Deus, que buscou testemunhas da
-obrigação, confiando a promessa a parentes e familiares.
-Unicamente, para que nos separassemos o
-mais tarde possivel, fez-me apprender em casa primeiras
-lettras, latim e doutrina, por aquelle padre
-Cabral, velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar
-ás noites.</p>
-
-<p>Prazos largos são faceis de subscrever; a imaginação
-os faz infinitos. Minha mãe esperou que os
-annos viessem vindo. Entretanto, ia-me affeiçoando
-á ideia da egreja; brincos de creança, livros devotos,
-imagens de santos, conversações de casa, tudo convergia
-para o altar. Quando iamos á missa, dizia-me
-sempre que era para apprender a ser padre, e
-que reparasse no padre, não tirasse os olhos do
-padre. Em casa, brincava de missa,&mdash;um tanto ás
-escondidas, porque minha mãe dizia que missa não
-era cousa de brincadeira. Arranjavamos um altar,
-Capitú e eu. Ella servia de sacristão, e alteravamos
-o ritual, no sentido do dividirmos a hostia entre nós;
-a hostia era sempre um doce. No tempo em que
-brincavamos assim, era muito commum ouvir á
-minha visinha: «Hoje ha missa?» Eu já sabia o
-que isto queria dizer, respondia affirmativamente, e
-ia pedir hostia por outro nome. Voltava com ella,
-arranjavamos o altar, engrolavamos o latim e precipitavamos
-as cerimonias. <i>Dominus, non sum
-dignus...</i> Isto, que eu devia dizer tres vezes, penso
-que só dizia uma, tal era a golodice do padre e do
-sacristão. Não bebiamos vinho nem agua; não
-tinhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o
-gosto do sacrificio.</p>
-
-<p>Ultimamente não me falavam já do seminario, a
-tal ponto que eu suppunha ser negocio findo.
-Quinze annos, não havendo vocação, pediam antes o
-seminario do mundo que o de S. José. Minha mãe
-ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida,
-ou pegava-me na mão, a pretexto de nada,
-para apertal-a muito.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XII" id="XII">XII</a></h5>
-
-<h4>Na varanda.</h4>
-
-
-<p>Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas
-bambas, o coração parecendo querer sair-me pela
-bocca fóra. Não me atrevia a descer á chacara, e
-passar ao quintal visinho. Comecei a andar de um
-lado para outro, estacando para amparar-me, e
-andava outra vez e estacava. Vozes confusas repetiam
-o discurso do José Dias:</p>
-
-<p>«Sempre juntos...»</p>
-
-<p>«Em segredinhos...»</p>
-
-<p>«Se elles pegam de namoro...»</p>
-
-<p>Tijolos que pisei e repisei naquella tarde, columnas
-amarelladas que me passastes á direita ou á
-esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vós me ficou
-a melhor parte da crise, a sensação de um goso novo,
-que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava,
-e me trazia arrepios, e me derramava não
-sei que balsamo interior. Ás vezes dava por mim,
-sorrindo, um ar do riso de satisfação, que desmentia
-a abominação do meu peccado. E as vozes repetiam-se
-confusas:</p>
-
-<p>«Em segredinhos...»</p>
-
-<p>«Sempre juntos...»</p>
-
-<p>«Se elles pegam de namoro...»</p>
-
-<p>Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando
-a causa, murmurou de cima de si que não era feio
-que os meninos de quinze annos andassem nos
-cantos com as meninas de quatorze; ao contrario,
-os adolescentes daquella edade não tinham outro
-officio, nem os cantos outra utilidade. Era um
-coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais
-ainda que nos velhos livros. Passaros, borboletas,
-uma cigarra que ensaiava o estio, toda a gente viva
-do ar era da mesma opinião.</p>
-
-<p>Com que então eu amava Capitú, e Capitú a
-mim? Realmente, andava cosido ás saias della, mas
-não me occorria nada entre nós que fosse devéras
-secreto. Antes della ir para o collegio, eram tudo
-travessuras de creanca; depois que saiu do collegio,
-é certo que não restabelecemos logo a antiga intimidade,
-mas esta voltou pouco a pouco, e no
-ultimo anno era completa. Entretanto, a materia
-das nossas conversações era a de sempre. Capitú
-chamava-me ás vezes bonito, mocetão, uma flòr;
-outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos.
-E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras,
-o prazer que sentia quando ella me passava a
-mão pelos cabellos, dizendo que os achava lindissimos.
-Eu, sem fazer o mesmo aos della, dizia que
-os della eram muito mais lindos que os meus. Então
-Capitú abanava a cabeça com uma grande expressão
-de desengano e melancolia, tanto mais de espantar
-quanto que tinha os cabellos realmente admiraveis;
-mas eu retorquia chamando-lhe maluca.
-Quando me perguntava se sonhára com ella na
-vespera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que
-sonhára commigo, e eram aventuras extraordinarias,
-que subiamos ao Corcovado pelo ar, que
-dansavamos na lua, ou então que os anjos vinham
-perguntar-nos pelos nomes, afim de os dar a outros
-anjos que acabavam de nascer. Em todos esses
-sonhos andavamos unidinhos. Os que eu tinha com
-ella não eram assim, apenas reproduziam a nossa
-familiaridade, e muita vez não passavam da simples
-repetição do dia, alguma phrase, algum gesto. Tambem
-eu os contava. Capitú um dia notou a differença,
-dizendo que os della eram mais bonitos que
-os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe
-que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se còr
-de pitanga.</p>
-
-<p>Pois, francamente, só agora entendia a emoção
-que me davam essas e outras confidencias. A emoção
-era doce e nova, mas a causa della fugia-me,
-sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os silencios
-dos ultimos dias, que me não descobriam nada,
-agora os sentia como signaes de alguma cousa, e
-assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as
-respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar
-a infancia. Tambem adverti que era phenomeno
-recente accordar com o pensamento em Capitú, e
-escutal-a de memoria, e estremecer quando lhe
-ouvia os passos. Se se falava nella, em minha casa,
-prestava mais altenção que d'antes, e, segundo era
-louvor ou critica, assim me trazia gosto ou desgosto
-mais intensos que outr'ora, quando eramos sómente
-companheiros de travessuras. Cheguei a pensar
-nella durante as missas daquelle mez, com intervallos,
-é verdade, mas com exclusivismo tambem.</p>
-
-<p>Tudo isto me era agora apresentado pela bocca de
-José Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a
-quem eu perdoava tudo, o mal que dissera, o mal
-que fizera, e o que pudesse vir de um e do outro.
-Naquelle instante, a eterna Verdade não valeria
-mais que elle, nem a eterna Bondade, nem as demais
-Virtudes eternas. Em amava Capitú! Capitú
-amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam,
-estacavam, tremulas e crentes de abarcar
-o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa
-revelação da consciencia a si propria, nunca mais
-me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparavel
-qualquer outra sensação da mesma especie. Naturalmente
-por ser minha. Naturalmente tambem por
-ser a primeira.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XIII" id="XIII">XIII</a></h5>
-
-<h4>Capitú.</h4>
-
-
-<p>De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da
-casa ao pé:</p>
-
-<p>&mdash;Capitú!</p>
-
-<p>E no quintal:</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe!</p>
-
-<p>E outra vez na casa:</p>
-
-<p>&mdash;Vem cá!</p>
-
-<p>Não me pude ter. As pernas desceram-me os tres
-degraus que davam para a chacara, e caminharam
-para o quintal visinho. Era costume dellas, ás tardes,
-e ás manhãs tambem. Que as pernas tambem são
-pessoas, apenas interiores aos braços, e valem de
-si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio
-de ideias. As minhas chegaram ao pé do muro.
-Havia alli uma porta de communicação mandada
-rasgar por minha mãe, quando Capitú e eu éramos
-pequenos. A porta não tinha chave nem taramela,
-abria-se empurrando de um lado ou puxando de
-outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente
-de uma corda. Era quasi que exclusivamente nossa.
-Em creancas, faziamos visita batendo de um lado,
-e sendo recebidos do outro com muitas mesuras.
-Quando as bonecas de Capitú adoeciam, o medico
-era eu. Entrava no quintal della com um pau debaixo
-do braço, para imitar o bengalão do doutor João da
-Costa; tomava o pulso á doente, e pedia-lhe que
-mostrasse a lingua. «É surda, coitada!» exclamava
-Capitú. Então eu coçava o queixo, como o doutor,
-e acabava mandando applicar-lhe umas sanguesugas
-ou dar-lhe um vomitorio: era a therapeutica
-habitual do medico.</p>
-
-<p>&mdash;Capitú!</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe!</p>
-
-<p>&mdash;Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.</p>
-
-<p>A voz da mãe era agora mais perto, como se
-viesse já da porta dos fundos. Quiz passar ao quintal,
-mas as pernas, ha pouco tão andarilhas, pareciam
-agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço,
-empurrei a porta, e entrei. Capitú estava ao pé do
-muro fronteiro, voltada para elle, riscando com um
-prego. O rumor da porta fel-a olhar para traz; ao
-dar commigo, encostou-se ao muro, como se quizesse
-esconder alguma cousa. Caminhei para ella;
-naturalmente levava o gesto mudado, porque ella
-veiu a mim, e perguntou-me inquieta:</p>
-
-<p>&mdash;Que é que você tem?</p>
-
-<p>&mdash;Eu? Nada.</p>
-
-<p>&mdash;Nada, não; você tem alguma cousa.</p>
-
-<p>Quiz insistir que nada, mas não achei lingua.
-Todo eu era olhos e coração, um coração que desta
-vez ia sair, com certeza, pela bocca fora. Não podia
-tirar os olhos daquella creatura de quatorze annos,
-alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita,
-meio desbotado. Os cabellos grossos, feitos em duas
-tranças, com as pontas atadas uma á outra, á moda
-do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos
-claros e grandes, nariz recto e comprido, tinha a
-bocca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de
-alguns officios rudes, eram curadas com amor; não
-cheiravam a sabões finos nem aguas de toucador,
-mas com agua do poço e sabão commum trazia-as
-sem macula. Calçava sapatos de duraque, rasos e
-velhos, a que ella mesma dera alguns pontos.</p>
-
-<p>&mdash;Que é que você tem? repetiu.</p>
-
-<p>&mdash;Não é nada, balbuciei finalmente.</p>
-
-<p>E emendei logo:</p>
-
-<p>&mdash;É uma noticia.</p>
-
-<p>&mdash;Noticia de què?</p>
-
-<p>Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminario
-e espreitar a impressão que lhe faria. Se a
-consternasse é que realmente gostava de mim; se
-não, é que não gostava. Mas todo esse calculo foi
-obscuro e rapido; senti que não poderia falar claramente,
-tinha agora a vista não sei como...</p>
-
-<p>&mdash;Então?</p>
-
-<p>&mdash;Você sabe...</p>
-
-<p>Nisto olhei para o muro, o logar em que ella estivera
-riscando, escrevendo ou esburacando, como
-dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me
-o gesto que ella fizera para cobril-os. Então quiz
-vel-os de perto, e dei um passo. Capitú agarrou-me,
-mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou
-por negar de outra maneira, correu adeante e apagou
-o escripto. Foi o mesmo que accender em mim o
-desejo de ler o que era.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XIV" id="XIV">XIV</a></h5>
-
-<h4>A inscripção.</h4>
-
-
-<p>Tudo o que contei no fim do outro capitulo foi
-obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda
-mais rapido. Dei um pulo, e antes que ella raspasse
-o muro, li estes dous nomes, abertos ao prego, o
-assim dispostos:</p>
-
-<p class="center">
- BENTO<br />
- CAPITOLINA
-</p>
-
-<p>Voltei-me para ella; Capitú tinha os olhos no
-chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficámos a olhar
-um para o outro... Confissão de creanças, tu valias
-bem duas ou tres paginas, mas quero ser poupado.
-Em verdade, não falámos nada; o muro falou por
-nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam
-pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se,
-fundindo-se. Não marquei a hora exacta daquelle
-gesto. Devia tel-a marcado; sinto a falta de uma
-nota escripta naquella mesma noite, e que eu poria
-aqui com os erros de orthographia que trouxesse,
-mas não traria nenhum, tal era a differença entre
-o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do
-escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias
-de latim e era virgem de mulheres.</p>
-
-<p>Não soltámos as mãos, nem ellas se deixaram cair
-de cançadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se
-e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam
-a metter-se uns pelos outros... Padre futuro,
-estava assim deante della como de um altar, sendo
-uma das faces a Epistola e a outra o Evangelho. A
-bocca podia ser o calix, os labios a patena. Faltava
-dizer a missa nova, por um latim que ninguem
-apprende, e é a lingua catholica dos homens. Não
-me tenhas por sacrilego, leitora minha devota; a
-limpeza da intenção lava o que puder haver menos
-curial no estylo. Estavamos alli com o ceu em nós.
-As mãos, unindo os nervos, faziam das duas creaturas
-uma só, mas uma só creatura seraphica. Os
-olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras
-de bocca é que nem tentavam sair, tornavam
-ao coração caladas como vinham...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XV" id="XV">XV</a></h5>
-
-<h4>Outra voz repentina.</h4>
-
-
-<p>Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de
-homem:</p>
-
-<p>&mdash;Vocès estão jogando o siso?</p>
-
-<p>Era o pae de Capitú, que estava á porta dos fundos,
-ao pé da mulher. Soltámos as mãos depressa,
-e ficámos atrapalhados. Capitú foi ao muro, e, com
-o prego, disfarçadamente, apagou os nossos nomes
-escriptos.</p>
-
-<p>&mdash;Capitú!</p>
-
-<p>&mdash;Papae!</p>
-
-<p>&mdash;Não me estragues o reboco do muro.</p>
-
-<p>Capitú riscava sobre o riscado, para apagar bem o
-escripto. Padua saiu ao quintal, a ver o que era,
-mas já a filha tinha começado outra cousa, um perfil,
-que disse ser o retrato delle, e tanto podia ser delle
-como da mãe; fel-o rir, era o essencial. De resto, elle
-chegou sem colera, todo meigo, apezar do gesto duvidoso
-ou menos que duvidoso em que nos apanhou.
-Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos,
-costas abahuladas, donde lhe veiu a alcunha de
-Tartaruga, que José Dias lhe poz. Ninguem lhe
-chamava assim lá em casa; era só o aggregado.</p>
-
-<p>&mdash;Vocês estavam jogando o siso? perguntou.</p>
-
-<p>Olhei para um pé do sabugueiro que ficava perto;
-Capitú respondeu por ambos.</p>
-
-<p>&mdash;Estavamos, sim, senhor, mas Bentinho ri
-logo, não aguenta.</p>
-
-<p>&mdash;Quando eu cheguei á porta, não ria.</p>
-
-<p>&mdash;Já tinha rido das outras vezes; não póde.
-Papae quer ver?</p>
-
-<p>E séria, fitou em mim os olhos, convidando-me
-ao jogo. O susto é naturalmente serio; eu estava
-ainda sob a acção do que trouxe a entrada de
-Padua, e não fui capaz de rir, por mais que devesse
-fazel-o, para legitimar a resposta de Capitú. Esta,
-cançada de esperar, desviou o rosto, dizendo que
-eu não ria daquella vez por estar ao pé do pae. E
-nem assim ri. Ha cousas que só se apprendem tarde;
-é mister nascer com ellas para fazel-as cedo. E melhor
-é naturalmente cedo que artificialmente tarde.
-Capitú, após duas voltas, foi ter com a mãe, que
-continuava á porta da casa, deixando-nos a mim
-e ao pae encantados della; o pae, olhando para ella
-e para mim, dizia-me, cheio de ternura:</p>
-
-<p>&mdash;Quem dirá que esta pequena tem quatorze
-annos? Parece dezesete. Mamãe está boa? continuou
-voltando-se inteiramente para mim.</p>
-
-<p>&mdash;Está.</p>
-
-<p>&mdash;Ha muitos dias que não a vejo. Estou com
-vontade de dar um capote ao doutor, mas não tenho
-podido, ando com trabalhos da repartição, em casa;
-escrevo todos os noites que é em desespero; negocio
-de relatorio. Você já viu o meu gaturamo? Está
-alli no fundo. Ia agora mesmo buscar a gaiola;
-ande ver.</p>
-
-<p>Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente,
-sem ser preciso jurar pelo ceu nem pela
-terra. Meu desejo era ir atraz de Capitú e falar-lhe
-agora do mal que nos esperava, mas o pae era o
-pae, e demais amava particularmente os passarinhos.
-Tinha-os de varia especie, côr e tamanho. A
-área que havia no centro da casa era cercada de
-gaiolas de canarios, que faziam cantando um barulho
-de todos os diabos. Trocava passaros com
-outros amadores, comprava-os, apanhava alguns,
-no proprio quintal, armando alçapões. Tambem, se
-adoeciam, tratava delles como se fossem gente.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XVI" id="XVI">XVI</a></h5>
-
-<h4>O administrador interino.</h4>
-
-
-<p>Padua era empregado em repartição dependente
-do ministerio da guerra. Não ganhava muito, mas
-a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais,
-a casa em que morava, assobradada como a nossa,
-posto que menor, era propriedade delle. Comprou-a
-com a sorte grande que lhe saiu n'um meio bilhete
-de loteria, dez contos de reis. A primeira ideia do
-Padua, quando lhe saiu o premio, foi comprar um
-cavallo do Cabo, um adereço de brilhantes para a
-mulher, uma sepultura perpetua de familia, mandar
-vir da Europa alguns passaros, etc.; mas a mulher,
-esta D. Fortunata que alli está á porta dos fundos
-da casa, em pé, falando á filha, alta, forte, cheia,
-como a filha, a mesma cabeça, os mesmos olhos
-claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era
-comprar a casa, e guardar o que sobrasse para
-acudir ás molestias grandes. Padua hesitou muito;
-afinal, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a
-quem D. Fortunata pediu auxilio. Nem foi só nessa
-occasião que minha mãe lhes valeu; um dia chegou
-a salvar a vida ao Padua. Escutai; a anecdota é
-curta.</p>
-
-<p>O administrador da repartição em que Padua trabalhava
-teve de ir ao Norte, em commissão. Padua,
-ou por ordem regulamentar, ou por especial designação,
-ficou substituindo o administrador com os
-respectivos honorarios. Esta mudança de fortuna
-trouxe-lhe certa vertigem: era antes dos dez contos.
-Não se contentou de reformar a roupa e a copa,
-atirou-se ás despezas superfluas, deu joias á mulher,
-nos dias de festa matava um leitão, era visto em
-theatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim
-vinte e dous mezes na supposição de uma eterna
-interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa,
-afflicto e desvairado, ia perder o logar, porque chegara
-o effectivo naquella manhã. Pediu a minha mãe
-que velasse pelas infelizes que deixava; não podia
-soffrer a desgraça, matava-se. Minha mãe falou-lhe
-com bondade, mas elle não attendia a cousa nenhuma.</p>
-
-<p>&mdash;Não, minha senhora, não consentirei em tal
-vergonha! Fazer descer a familia, tornar atraz...
-Já disse, mato-me! Não hei de confessar á minha
-gente esta miseria. E os outros? Que dirão os visinhos?
-E os amigos? E o publico?</p>
-
-<p>&mdash;Que publico, Sr. Padua? Deixe-se disso;
-seja homem. Lembre-se que sua mulher não tem
-outra pessoa... e que ha de fazer? Pois um homem...
-Seja homem, ande.</p>
-
-<p>Padua enxugou os olhos e foi para casa, onde
-viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na
-alcova,&mdash;ou então no quintal, ao pé do poço,
-como se a ideia da morte teimasse nelle. D. Fortunata
-ralhava:</p>
-
-<p>&mdash;Joãosinho, você é creança?</p>
-
-<p>Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve
-medo, e um dia correu a pedir a minha mãe que
-lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido
-que se queria matar. Minha mãe foi achal-o á beira
-do poço, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice
-era aquella de parecer que ia ficar desgraçado, por
-causa de uma gratificação menos, e perder um
-emprego interino? Não, senhor, devia ser homem,
-pae de familia, imitar a mulher e a filha... Padua
-obedeceu; confessou que acharia forças para cumprir
-a vontade de minha mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Vontade minha, não; é obrigação sua.</p>
-
-<p>&mdash;Pois seja obrigação; não desconheço que é
-assim mesmo.</p>
-
-<p>Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de
-casa, cosido á parede, cara no chão. Não era o
-mesmo homem que estragava o chapéo em cortejar
-a visinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo
-da administração interina. Vieram as semanas, a
-ferida foi sarando. Padua começou a interessar-se
-pelos negocios domesticos, a cuidar dos passarinhos,
-a dormir tranquillo as noites e as tardes, a conversar
-e dar noticias da rua. A serenidade regressou;
-atraz della veiu a alegria, um domingo, na
-figura de dous amigos, que iam jogar o solo, a
-tentos. Já elle ria, já brincava, tinha o ar do costume;
-a ferida sarou de todo.</p>
-
-<p>Com o tempo veiu um phenomeno interessante.
-Padua começou a falar da administração interina,
-não sómente sem as saudades dos honorarios, nem
-o vexame da perda, mas até com desvanecimento e
-orgulho. A administração ficou sendo a hegyra,
-donde elle contava para deante e para traz.</p>
-
-<p>&mdash;No tempo em que eu era administrador...</p>
-
-<p>Ou então:</p>
-
-<p>&mdash;Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha
-administração, um ou dous mezes antes... Ora
-espere; a minha administração começou... É isto,
-mez e meio antes; foi mez e meio antes, não foi
-mais.</p>
-
-<p>Ou ainda:</p>
-
-<p>&mdash;Justamente; havia já seis mezes que eu
-administrava...</p>
-
-<p>Tal é o sabor posthumo das glorias interinas.
-José Dias bradava que era a vaidade sobrevivente;
-mas o padre Cabral, que levava tudo para a Escriptura,
-dizia que com o visinho Padua se dava a
-licção de Eliphaz a Job: «Não desprezes a correcção
-do Senhor; elle fere e cura.»</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XVII" id="XVII">XVII</a></h5>
-
-<h4>Os vermes.</h4>
-
-
-<p>«Elle fere e cura!» Quando, mais tarde, vim a
-saber que a lança de Achilles tambem curou uma ferida
-que fez, tive taes ou quaes velleidades de escrever
-uma dissertação a este proposito. Cheguei a
-pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados,
-a abril-os, a comparal-os, calando o texto e o
-sentido, para achar a origem commum do oraculo
-pagão e do pensamento israelita. Catei os proprios
-vermes dos livros, para que me dissessem o que
-havia nos textos roidos por elles.</p>
-
-<p>&mdash;Meu senhor, respondeu-me um longo verme
-gordo, uns não sabemos absolutamente nada dos
-textos que roemos, nem escolhemos o que roemos,
-nem amamos ou detestamos o que roemos; nós
-roemos.</p>
-
-<p>Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos,
-como se houvessem passado palavra, repeliam a
-mesma cantilena. Talvez esse discreto silencio sobre
-os textos roidos, fosse ainda um modo de roer o
-roido.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XVIII" id="XVIII">XVIII</a></h5>
-
-<h4>Um plano.</h4>
-
-
-<p>Pae nem mãe foram ter comnosco, quando
-Capitú e eu, na sala de visitas, falavamos do seminario.
-Com os olhos em mim, Capitú queria saber
-que noticia era a que me affligia tanto. Quando lhe
-disse o que era, fez-se còr de cêra.</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu não quero, acudi logo, não quero
-entrar em seminarios; não entro, é excusado teimarem
-commigo, não entro.</p>
-
-<p>Capitú, a principio não disse nada. Recolheu os
-olhos, metteu-os em si e deixou-se estar com as
-pupillas vagas e surdas, a bocca entre-aberta, toda
-parada. Então eu, para dar forca ás affirmações,
-comecei a jurar que não seria padre. Naquelle
-tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte.
-Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na
-hora da morte se fosse para o seminario. Capitú
-não parecia crer nem descrer, não parecia sequer
-ouvir; era uma figura de pau. Quiz chamal-a,
-sacudil-a, mas faltou-me animo. Essa creatura que
-brincára commigo, que pulára, dansára, creio até
-que dormira commigo, deixava-me agora com os
-braços atados e medrosos. Emfim, tornou a si, mas
-tinha a cara livida, e rompeu nestas palavras
-furiosas:</p>
-
-<p>&mdash;Beata! carola! papa-missas!</p>
-
-<p>Fiquei aturdido. Capitú gostava tanto de minha
-mãe, e minha mãe della, que eu não podia entender
-tamanha explosão. É verdade que tambem gostava
-de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de
-outra maneira, cousa bastante a explicar o despeito
-que lhe trazia a ameaça da separação; mas
-os improperios, como entender que lhe chamasse
-nomes tão feios, e principalmente para deprimir
-costumes religiosos, que eram os seus? Que ella
-tambem ia á missa, e tres ou quatro vezes minha
-mãe é que a levou, na nossa velha sege. Tambem
-lhe dera um rosario, uma cruz de ouro e um livro
-de <i>Horas...</i> Quiz defendel-a, mas Capitú não me
-deixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em
-voz tão alta que tive medo fosse ouvida dos paes.
-Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta
-a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes,
-abanava a cabeça... Eu, assustado, não sabia que
-fizesse; repetia os juramentos, promettia ir naquella
-mesma noite declarar em casa que, por
-nada neste mundo, entraria no seminario.</p>
-
-<p>&mdash;Você? Você entra.</p>
-
-<p>&mdash;Não entro.</p>
-
-<p>&mdash;Você verá se entra ou não.</p>
-
-<p>Calou-se outra vez. Quando tornou a falar, tinha
-mudado; não era ainda a Capitú do costume, mas
-quasi. Estava seria, sem afflicção, falava baixo.
-Quiz saber a conversação da minha casa; eu contei-lh'a
-toda, menos a parte que lhe dizia respeito.</p>
-
-<p>&mdash;E que interesse tem José Dias em lembrar
-isto? perguntou-me no fim.</p>
-
-<p>&mdash;Acho que nenhum; foi só para fazer mal. É
-um sujeito muito ruim; mas, deixe estar que me
-ha de pagar. Quando eu fòr dono da casa, quem
-vae para a rua é elle, você verá; não me fica um
-instante. Mamãe é boa de mais; dá-lhe attenção de
-mais. Parece até que chorou.</p>
-
-<p>&mdash;José Dias?</p>
-
-<p>&mdash;Não, mamãe.</p>
-
-<p>&mdash;Chorou porque?</p>
-
-<p>&mdash;Não sei; ouvi só dizer que ella não chorasse,
-que não era cousa de choro... Elle chegou a mostrar-se
-arrependido, e saiu; eu então, para não ser
-apanhado, deixei o canto e corri para a varanda.
-Mas, deixe estar, que elle me paga!</p>
-
-<p>Disse isto fechando o punho, e proferi outras
-ameaças. Ao relembral-as, não me acho ridiculo; a
-adolescencia e a infancia não são, neste ponto,
-ridiculas; e um dos seus privilegios. Este mal ou
-este perigo começa na mocidade, cresce na madurera
-e attinge o maior grão na velhice. Aos quinze
-annos, ha até certa graça em ameaçar muito e não
-executar nada.</p>
-
-<p>Capitú reflectia. A reflexão não era cousa rara
-nella, e conheciam-se as occasiões pelo apertado
-dos olhos. Pediu-me algumas circumstancias mais,
-as proprias palavras de uns e de outros, e o tom
-dellas. Como eu não queria dizer o ponto inicial da
-conversa, que era ella mesma, não lhe pude dar
-toda a significação. A attenção de Capitú estava
-agora particularmente nas lagrimas de minha mãe;
-não acabava de entendel-as. Em meio disto, confessou
-que certamente não era por mal que minha
-mãe me queria fazer padre; era a promessa antiga,
-que ella, temente a Deus, não podia deixar de
-cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assim
-espontaneamente reparava as injurias que lhe
-sairam do peito, pouco antes, que peguei da mão
-della e apertei-a muito. Capitú deixou-se ir, rindo;
-depois a conversa entrou a cochilar e dormir.
-Tinhamos chegado á janella; um preto, que, desde
-algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou
-em frente e perguntou:</p>
-
-<p>&mdash;Sinhásinha, qué cocada hoje?</p>
-
-<p>&mdash;Não, respondeu Capitú.</p>
-
-<p>&mdash;Cocadinha tá boa.</p>
-
-<p>&mdash;Vá-se embora, replicou ella sem rispidez.</p>
-
-<p>&mdash;Dê ca! disse eu descendo o braço para receber
-duas.</p>
-
-<p>Comprei-as, mas tive de as comer sósinho; Capitú
-recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava
-um canto para as cocadas, o que tanto póde
-ser perfeição como imperfeição, mas o momento não
-é para definições taes; fiquemos em que a minha
-amiga, apezar de equilibrada e lucida, não quiz
-saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrario,
-o pregão que o preto foi cantando, o prégão
-das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa
-infancia:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
- Chora, menina, chora,<br />
- Chora, porque não tem<br />
- Vintem,<br />
-</p>
-
-<p>a modo que lhe deixára uma impressão aborrecida,
-Da toada não era; ella a sabia de cór e de longe,
-usava repetil-a nos nossos jogos da puericia, rindo,
-saltando, trocando os papeis commigo, ora vendendo,
-ora comprando um doce ausente. Creio que
-a lettra, destinada a picar a vaidade das crianças,
-foi que a enojou agora, porque logo depois me disse:</p>
-
-<p>&mdash;Se eu fosse rica, vocè fugia, mettia-se no
-paquete e ia para a Europa.</p>
-
-<p>Dito isto, espreitou-me os olhos, mas creio que
-elles não lhe disseram nada, ou só agradeceram a
-boa intenção. Com effeito, o sentimento era tão
-amigo que eu podia excusar o extraordinario da
-aventura.</p>
-
-<p>Como vês, Capitú, aos quatorze annos, tinha já
-ideias atrevidas, muito menos que outras que lhe
-vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na pratica
-faziam-se habeis, sinuosas, surdas, e alcançavam
-o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos.
-não sei se me explico bem. Supponde uma concepção
-grande executada por meios pequenos. Assim,
-para não sair do desejo vago e hypothetico de me
-mandar para a Europa, Capitú, se pudesse cumpril-o,
-não me faria embarcar no paquete e fugir;
-estenderia uma fila de canoas daqui até lá, por onde
-eu, parecendo ir á fortaleza da Lage em ponte movediça,
-iria realmente até Bordéos, deixando minha
-mãe na praia, á espera. Tal era a feição particular
-do caracter da minha amiga; pelo que, não admira
-que, combatendo os meus projectos de resistencia
-franca, fosse antes pelos meios brandos, pela acção
-do empenho, da palavra, da persuasão lenta e
-diuturna, e examinasse antes as pessoas com quem
-podiamos contar. Rejeitou tio Cosme; era um «boa-vida»;
-se não approvava a minha ordenação, não
-era capaz de dar um passo para suspendel-a. Prima
-Justina era melhor que elle, e melhor que os dous
-seria o padre Cabral, pela autoridade, mas o padre
-não havia de trabalhar contra a egreja; só se eu
-lhe confessasse que não tinha vocação....</p>
-
-<p>&mdash;Posso confessar?</p>
-
-<p>&mdash;Pois, sim, mas seria apparecer francamente,
-e o melhor é outra cousa. José Dias....</p>
-
-<p>&mdash;Que tem José Dias?</p>
-
-<p>&mdash;Póde ser um bom empenho.</p>
-
-<p>&mdash;Mas se foi elle mesmo que falou....</p>
-
-<p>&mdash;Não importa, continuou Capitú; dirá agora
-outra cousa. Elle gosta muito de você. Não lhe fale
-acanhado. Tudo é que você não tenha medo, mostre
-que ha de vir a ser dono da casa, mostre que quer
-e que póde. Dê-lhe bem a entender que não é favor.
-Faça-lhe tambem elogios; elle gosta muito de ser
-elogiado. D. Gloria presta-lhe attenção; mas o principal
-não é isso; é que elle, tendo de servir a você,
-falará com muito mais calor que outra pessoa.</p>
-
-<p>&mdash;Não acho. não, Capitú.</p>
-
-<p>&mdash;Então vá para o seminario.</p>
-
-<p>&mdash;Isso não.</p>
-
-<p>&mdash;Mas que se perde em experimentar? Experimentemos;
-faça o que lhe digo. D. Gloria póde
-ser que mude de resolução; se não mudar, faz-se
-outra cousa, mette-se então o padre Cabral. Você
-não se lembra como é que foi ao theatro pela primeira
-vez, ha dous mezes? D. Gloria não queria,
-e bastava isso para que José Dias não teimasse;
-mas elle queria ir, e fez um discurso, lembra-se?</p>
-
-<p>&mdash;Lembra-me; disse que o theatro era uma escola
-de costumes.</p>
-
-<p>&mdash;Justo; tanto falou que sua mãe acabou consentindo,
-e pagou a entrada aos dous.... Ande, peça,
-mande. Olhe; diga-lhe que está prompto a ir estudar
-leis em S. Paulo.</p>
-
-<p>Estremeci de prazer. S. Paulo era um fragil biombo,
-destinado a ser arredado um dia, em vez da
-grossa parede espiritual e eterna. Prometti falar a
-José Dias nos termos propostos. Capitú repetiu-os,
-accentuando alguns, como principaes; e inquiria-me
-depois sobre elles, a ver se entendera bem, se
-não trocara uns por outros. E insistia em que pedisse
-com boa cara, mas assim como quem pede um
-copo de agua a pessoa que tem obrigação de o trazer.
-Conto estas minucias para que melhor se entenda
-aquella manhã da minha amiga; logo virá a
-tarde, e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia,
-como no Genesis, onde se fizeram successivamente
-sete.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XIX" id="XIX">XIX</a></h5>
-
-<h4>Sem falta.</h4>
-
-
-<p>Quando voltei a casa era noite. Vim depressa, não
-tanto, porém, que não pensasse nos termos em que
-falaria ao aggregado. Formulei o pedido de cabeça,
-escolhendo as palavras que diria e o tom dellas,
-entre secco e benevolo. Na chacara, antes de entrar
-em casa, repeti-as commigo, depois em voz alta,
-para ver se eram adequadas e se obedeciam ás recommendações
-de Capitú: «Preciso falar-lhe, <i>sem
-falta</i>, amanhã; escolha o logar e diga-me.» Proferi-as
-lentamente, e mais lentamente ainda as palavras
-<i>sem falta</i>, como para sublinhal-as. Repeti-as
-ainda, e então achei-as seccas de mais, quasi rispidas,
-e, francamente, improprias de um creançola
-para um homem maduro. Cuidei de escolher outras,
-e parei.</p>
-
-<p>Afinal disse commigo que as palavras podiam
-servir, tudo era dizel-as em tom que não offendesse.
-E a prova é que, repetindo-as novamente, saíram-me
-quasi supplices. Bastava não carregar tanto,
-nem adoçar muito, um meio termo. «E Capitú tem
-razão, pensei, a casa é minha, elle é um simples
-aggregado... Geitoso é, póde muito bem trabalhar
-por mim, e desfazer o plano de mamãe.»</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XX" id="XX">XX</a></h5>
-
-<h4>Mil padre-nossos e mil ave-marias.</h4>
-
-
-<p>Levantei os olhos ao ceu, que começava a embruscar-se,
-mas não foi para vel-o coberto ou descoberto.
-Era ao outro ceu que eu erguia a minha
-alma; era ao meu refugio, ao meu amigo. E então
-disse de mim para mim:</p>
-
-<p>&mdash;Prometto rezar mil padre-nossos e mil ave-marias,
-se José Dias arranjar que eu não vá para
-o seminario.</p>
-
-<p>A somma era enorme. A razão é que eu andava
-carregado de promessas não cumpridas. A ultima
-foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias,
-se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa
-Theresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações.
-Desde pequenino acostumara-me a pedir ao ceu os
-seus favores, mediante orações que diria, se elles
-viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas,
-e á medida que se amontoavam iam sendo esquecidas.
-Assim cheguei aos numeros vinte, trinta,
-cincoenta. Entrei nas centenas e agora no milhar.
-Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia
-das orações; além disso, cada promessa nova era
-feita e jurada no sentido de pagar a divida antiga.
-Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a
-trazia do berço e não a sentia attenuada pela vida!
-O ceu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal
-perdi-me nas contas.</p>
-
-<p>&mdash;Mil, mil, repeti commigo.</p>
-
-<p>Realmente, a materia do beneficio era agora immensa,
-não menos que a salvação ou o naufragio
-da minha existencia inteira. Mil, mil, mil. Era
-preciso uma somma que pagasse os atrazados
-todos. Deus podia muito bem, irritado com os
-esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito
-dinheiro.... Homem grave, é possivel que estas agitações
-de menino te enfadem, se é que não as achas
-ridiculas. Sublimes não eram. Cogitei muito no
-modo de resgatar a divida espiritual. Não achava
-outra especie em que, mediante a intenção, tudo se
-cumprisse, fechando a escripturação da minha consciencia
-moral sem <i>deficit.</i> Mandar dizer cem missas,
-ou subir do joelhos a ladeira da Gloria para ouvir
-uma, ir á Terra-Santa, tudo o que as velhas escravas
-me contavam de promessas celebres, tudo me
-acudia sem se fixar de vez no espirito. Era muito
-duro subir uma ladeira de joelhos; devia feril-os
-por força. A Terra-Santa ficava muito longe. As
-missas eram numerosas, podiam empenhar-mo outra
-vez a alma....</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXI" id="XXI">XXI</a></h5>
-
-<h4>Prima Justina.</h4>
-
-
-<p>Na varanda achei prima Justina, passeando de
-um lado para outro. Veiu ao patamar e perguntou-me
-onde estivera.</p>
-
-<p>&mdash;Estive aqui ao pé, conversando com D. Fortunata,
-e distraí-me. É tarde, não é? Mamãe perguntou
-por mim?</p>
-
-<p>&mdash;Perguntou, mas eu disse que você já tinha
-vindo.</p>
-
-<p>A mentira espantou-me, não menos que a franqueza
-da noticia. Não é que prima Justina fosse de
-biocos; dizia francamente a Pedro o mal que pensava
-de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro;
-mas, confessar que mentira é que me pareceu novidade.
-Era quadragenaria, magra e pallida, bocca
-fina e olhos curiosos. Vivia comnosco por favor
-de minha mãe, e tambem por interesse; minha
-mãe queria ter uma senhora intima ao pé de si, e
-antes parenta que extranha.</p>
-
-<p>Passeámos alguns minutos na varanda, alumiada
-por um lampião. Quiz saber se eu não esquecera
-os projectos ecclesiasticos de minha mãe, e
-dizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto
-que eu tinha á vida de padre. Respondi esquivo:</p>
-
-<p>&mdash;Vida de padre é muito bonita.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você
-gostaria de ser padre, explicou rindo.</p>
-
-<p>&mdash;Eu gósto do que mamãe quizer.</p>
-
-<p>&mdash;Prima Gloria deseja muito que você se ordene,
-mas ainda que não desejasse, ha cá em casa quem
-lhe metta isso na cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Quem é?</p>
-
-<p>&mdash;Ora, quem! Quem é que hade ser? Primo
-Cosme não é, que não se importa com isso; eu
-tambem não.</p>
-
-<p>&mdash;José Dias? conclui.</p>
-
-<p>&mdash;Naturalmente.</p>
-
-<p>Enruguei a testa interrogativamente, como se
-não soubesse nada. Prima Justina completou a
-noticia dizendo que ainda naquella tarde José Dias
-lembrára a minha mãe a promessa antiga.</p>
-
-<p>&mdash;Prima Gloria póde ser que, em passando os
-dias, vá esquecendo a promessa; mas como ha de
-esquecer se uma pessoa estiver sempre, nos ouvidos,
-zás que darás, falando do seminario? E os discursos
-que elle faz, os elogios da egreja, e que a vida de
-padre é isto e aquillo, tudo com aquellas palavras
-que só elle conhece, e aquella affectação... Note
-que é só para fazer mal, porque elle é tão religioso,
-como este lampião. Pois é verdade, ainda
-hoje. Você não se dè por achado... Hoje de tarde
-falou como você não imagina.</p>
-
-<p>&mdash;Mas falou á toa? perguntei, a ver se ella contava
-a denuncia do meu namoro com a visinha.</p>
-
-<p>Não contou; fez apenas um gesto como indicando
-que havia outra cousa que não podia dizer.
-Novamente me recommendou que não me désse
-por achado, e recapitulou todo o mal que pensava
-de José Dias, e não era pouco, um intrigante, um
-bajulador, um especulador, e, apezar da casca de
-polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes,
-disse:</p>
-
-<p>&mdash;Prima Justina, a senhora era capaz de uma
-cousa?</p>
-
-<p>&mdash;De quê?</p>
-
-<p>&mdash;Era capaz de... Supponha que eu não gostasse
-de ser padre... a senhora podia pedir a mamãe...</p>
-
-<p>&mdash;Isso não, atalhou promptamente; prima Gloria
-tem este negocio firme na cabeça, e não ha nada no
-mundo que a faça mudar de resolução; só o tempo.
-Você ainda era pequenino, já ella contava isto a
-todas as pessoas da nossa amizade, ou só conhecidas.
-Lá avivar-lhe a memoria, não, que eu não trabalho
-para a desgraça dos outros; mas tambem, pedir
-outra cousa, não peço. Se ella me consultasse, bem;
-se ella me dissesse: «Prima Justina, você que
-acha?» a minha resposta era: «Prima Gloria, eu
-penso que, se elle gosta de ser padre, póde ir; mas,
-se não gosta, o melhor é ficar.» E o que eu diria
-e direi se ella me consultar algum dia. Agora, ir
-falar-lhe sem ser chamada, não faço.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXII" id="XXII">XXII</a></h5>
-
-<h4>Sensações alheias.</h4>
-
-
-<p>Não alcancei mais nada, e para o fim arrependi-me
-do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitú.
-Então, como eu quizesse ir para dentro, prima
-Justina reteve-me alguns minutos, falando do calor
-e da proxima festa da Conceição, dos meus velhos
-oratorios, e finalmente de Capitú. Não disse mal
-della; ao contrario insinuou-me que podia vir a ser
-uma moça bonita. Eu, que já a achava lindissima,
-bradaria que era a mais bella creatura do mundo,
-se o receio me não fizesse discreto. Entretanto,
-como prima Justina se mettesse a elogiar-lhe os
-modos, a gravidade, os costumes, o trabalhar para
-os seus, o amor que tinha a minha mãe, tudo isto
-me accendeu a ponto de elogial-a tambem. Quando
-não era com palavras, era com o gesto de approvação
-que dava a cada uma das assersões da outra,
-e certamente com a felicidade que devia illuminar-me
-a cara. Não adverti que assim confirmava a denuncia
-de José Dias, ouvida por ella, á tarde, na
-sala de visitas, se é que tambem ella não desconfiava
-já. Só pensei nisso na cama. Só então senti
-que os olhos de prima Justina, quando eu falava,
-pareciam apalpar-me, ouvir-me, cheirar-me, gostar-me,
-fazer o officio de todos os sentidos. Ciumes não
-podiam ser; entre um pirralho da minha edade e
-uma viuva quarentona não havia logar para ciumes.
-É certo que, após algum tempo, modificou os elogios
-a Capitú, e até lhe fez algumas criticas, disse-me
-que era um pouco trefega e olhava por baixo;
-mas ainda assim, não creio que fossem ciumes.
-Creio antes... sim... sim, creio isto. Creio que
-prima Justina achou no espectaculo das sensações
-alheias uma resurreição vaga das proprias. Tambem
-se goza por influição dos labios que narram.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXIII" id="XXIII">XXIII</a></h5>
-
-<h4>Prazo dado.</h4>
-
-
-<p>&mdash;Preciso falar-lhe amanhã, sem falta; escolha
-o logar e diga-me.</p>
-
-<p>Creio que José Dias achou desusado este meu
-falar. O tom não me sairia tão imperativo como eu
-receiava, mas as palavras o eram, e o não interrogar,
-não pedir, não hesitar, como era proprio da
-creança e do meu estylo habitual, certamente lhe
-deu ideia de uma pessoa nova e de uma nova situação.
-Foi no corredor, quando iamos para o chá;
-José Dias vinha andando cheio da leitura de Walter
-Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina.
-Lia cantado e compassado. Os castellos e os parques
-saíam maiores da bocca delle, os lagos tinham
-mais agua e a «abobada celeste» contava alguns
-milhares mais de estrellas centelhantes. Nos dialogos,
-alternava o som das vozes, que eram levemente
-grossas ou finas, conforme o sexo dos interlocutores,
-e reproduziam com moderação a ternura
-e a colera.</p>
-
-<p>Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me
-elle:</p>
-
-<p>&mdash;Amanhã, na rua. Tenho umas compras que
-fazer, você póde ir commigo, pedirei a mamãe. É
-dia de licção?</p>
-
-<p>&mdash;A licção foi hoje.</p>
-
-<p>&mdash;Perfeitamente. Não lhe pergunto o que é;
-affirmo desde já que é materia grave e pura.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Até amanhã.</p>
-
-<p>Fez-se tudo o melhor possivel. Houve só uma
-alteração: minha mãe achou o dia quente e não
-consentiu que eu fosse a pé; entrámos no omnibus,
-á porta de casa.</p>
-
-<p>&mdash;Não importa, disse-me José Dias; podemos
-apear-nos á porta do Passeio Publico.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXIV" id="XXIV">XXIV</a></h5>
-
-<h4>De mãe e de servo.</h4>
-
-
-<p>José Dias tratava-me com extremos de mãe e
-attenções de servo. A primeira cousa que conseguiu
-logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o
-pagem; fez-se pagem, ia commigo á rua. Cuidava
-dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos
-meus sapatos, da minha hygiene e da minha prosodia.
-Aos oito annos os meus pluraes careciam, alguma vez,
-da desinencia exacta, elle a corrigia,
-meio serio para dar autoridade á licção, meio risonho
-para obter o perdão da emenda. Ajudava assim
-o mestre de primeiras lettras. Mais tarde, quando o
-padre Cabral me ensinava latim, doutrina e historia
-sagrada, elle assistia ás licções, fazia reflexões
-ecclesiasticas, e, no fim, perguntava ao padre:
-«Não é verdade que o nosso joven amigo caminha
-depressa?» Chamava-me «um prodigio»; dizia a
-minha mãe ter conhecido outr'ora meninos muito
-intelligentes, mas que eu excedia a todos esses,
-sem contar que, para a minha edade, possuia já
-certo numero de qualidades moraes solidas. Eu,
-posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio,
-gostava do elogio; era um elogio.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXV" id="XXV">XXV</a></h5>
-
-<h4>No Passeio Publico.</h4>
-
-
-<p>Entrámos no Passeio Publico. Algumas caras
-velhas, outras doentes ou só vadias espalhavam-se
-melancolicamente no caminho que vae da porta ao
-terraço. Seguimos para o terraço. Andando, para
-me dar animo, falei do jardim:</p>
-
-<p>&mdash;Ha muito tempo que não venho aqui, talvez
-um anno.</p>
-
-<p>&mdash;Perdôe-me, atalhou elle, não ha tres mezes
-que esteve aqui com o nosso visinho Padua; não
-se lembra?</p>
-
-<p>&mdash;É verdade, mas foi tão de passagem...</p>
-
-<p>&mdash;Elle pediu a sua mãe que o deixasse trazer
-comsigo, e ella, que é boa como a mãe de Deus,
-consentiu; mas ouça-me, já que falamos nisto, não
-é bonito que você ande com o Padua na rua.</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu andei algumas vezes...</p>
-
-<p>&mdash;Quando era mais joven; em creança, era
-natural, elle podia passar por creado. Mas você
-está ficando moço, e elle vae tomando confiança.
-D. Gloria, afinal, não pode gostar disto. A gente
-Padua não é de todo má. Capitú, apesar daquelles
-olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos
-olhos della? São assim de cigana obliqua e dissimulada.
-Pois, apesar delles, poderia passar, se não
-fosse a vaidade e a adulação. Oh! a adulação!
-D. Fortunata merece estima, e elle não nego que
-seja honesto, tem um bom emprego, possue a casa
-em que móra, mas honestidade e estima não bastam,
-e as outras qualidades perdem muito de valor
-com as más companhias em que elle anda. Padua
-tem uma tendencia para gente réles. Em lhe cheirando
-a homem chulo é com elle. Não digo isto por
-odio, nem por que elle fale mal de mim e se ria,
-como se riu, ha dias, dos meus sapatos acalcanhados...</p>
-
-<p>&mdash;Perdão, interrompi suspendendo o passo,
-nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contrario,
-um dia, não ha muito tempo, disse elle a um
-sujeito, em minha presença, que o senhor era «um
-homem de capacidade e sabia falar corno um deputado
-nas camaras.»</p>
-
-<p>José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço
-grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:</p>
-
-<p>&mdash;Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor
-sangue, me tem feito o favor de juizos altos. E
-nada disso impede que elle seja o que lhe digo.</p>
-
-<p>Tinhamos outra vez andado, subimos ao terraço,
-e olhámos para o mar.</p>
-
-<p>&mdash;Vejo que o senhor não quer senão o meu
-beneficio, disse eu depois de alguns instantes.</p>
-
-<p>&mdash;Pois que outra cousa, Bentinho?</p>
-
-<p>&mdash;Neste caso, peço-lhe um favor.</p>
-
-<p>&mdash;Um favor? Mande, ordene, que é?</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe...</p>
-
-<p>Durante algum tempo não pude dizer o resto, que
-era pouco, e vinha de cór. José Dias tornou a perguntar
-o que era, sacudia-me com brandura, levantava-me
-o queixo e espetava os olhos em mim,
-ancioso tambem, como a prima Justina na vespera.</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe què? Que é que tem mamãe?</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe quer que eu seja padre, mas eu não
-posso ser padre, disse finalmente.</p>
-
-<p>José Dias endireitou-se pasmado.</p>
-
-<p>&mdash;Não posso, continuei eu, não menos pasmado
-que elle, não tenho geito, não gósto da vida de
-padre. Estou por tudo o que ella quizer; mamãe
-sabe que eu faço tudo o que ella manda; estou
-prompto a ser o que fôr do seu agrado, até cocheiro
-de omnibus. Padre, não; não posso ser padre.
-A carreira é bonita, mas não é para mim.</p>
-
-<p>Todo esse discurso não me saiu assim, de vez,
-enfiado naturalmente, peremptorio, como póde parecer
-do texto, mas aos pedaços, mastigado, em
-voz um pouco surda e timida. Não obstante, José
-Dias ouvira-o espantado. Não contava certamente
-com a resistencia, por mais acanhada que fosse;
-mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão:</p>
-
-<p>&mdash;Conto com o senhor para salvar-me.</p>
-
-<p>Os olhos do aggregado escancararam-se, as
-sobrancelhas arquearam-se, e o prazer que eu contava
-dar-lhe com a escolha da protecção não se mostrou
-em nenhum dos musculos. Toda a cara delle
-era pouca para a estupefacção. Realmente, a materia
-do discurso revelára em mim uma alma nova;
-eu proprio não me conhecia. Mas a palavra final é
-que trouxe um vigor unico. José Dias ficou aturdido.
-Quando os olhos tornaram ás dimensões ordinarias:</p>
-
-<p>&mdash;Mas que posso eu fazer? perguntou.</p>
-
-<p>&mdash;Póde muito. O senhor sabe que, em nossa
-casa, todos o apreciam. Mamãe pede muita vez os
-seus conselhos, não é? Tio Cosme diz que o senhor
-é pessoa de talento...</p>
-
-<p>&mdash;São bondades, retorquiu lisonjeado. São favores
-de pessoas dignas, que merecem tudo... Ahi
-está! nunca ninguem me ha de ouvir dizer nada de
-pessoas taes; porque? porque são illustres e virtuosas.
-Sua mãe é uma santa, seu tio é um cavalheiro
-perfeitissimo. Tenho conhecido familias distinctas;
-nenhuma poderá vencer a sua em nobreza
-de sentimentos. O talento que seu tio acha em mim
-confesso que o tenho, mas é só um,&mdash;é o talento
-de saber o que é bom e digno de admiração e de
-apreço.</p>
-
-<p>&mdash;Ha de ter tambem o de proteger os amigos,
-como eu.</p>
-
-<p>&mdash;Em que lhe posso valer, anjo do ceu? Não
-hei de dissuadir sua mãe de um projecto que é,
-além de promessa, a ambição e o sonho de longos
-annos. Quando pudesse, é tarde. Ainda hontem
-fez-me o favor de dizer: «José Dias, preciso metter
-Bentinho no seminario.»</p>
-
-<p>Timidez não é tão ruim moeda, como parece. Se
-eu fosse destemido, é provavel que, com a indignação
-que experimentei, rompesse a chamar-lhe mentiroso,
-mas então seria preciso confessar-lhe que estivera
-á escuta, atraz da porta, e uma acção valia
-outra. Contentei-me de responder que não era
-tarde.</p>
-
-<p>&mdash;Não é tarde, ainda é tempo, se o senhor
-quizer.</p>
-
-<p>&mdash;Se eu quizer? Mas que outra cousa quero eu,
-senão servil-o? Que desejo, senão que seja feliz,
-como merece?</p>
-
-<p>&mdash;Pois ainda é tempo. Olhe, não é por vadiação.
-Estou prompto para tudo; se ella quizer que eu
-estude leis, vou para S. Paulo...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXVI" id="XXVI">XXVI</a></h5>
-
-<h4>As leis são bellas.</h4>
-
-
-<p>Pela cara de José Dias passou algo parecido com
-o reflexo de uma ideia,&mdash;uma ideia que o alegrou
-extraordinariamente. Calou-se alguns instantes; eu
-tinha os olhos nelle, elle voltara os seus para o
-lado da barra. Como insistisse:</p>
-
-<p>&mdash;É tarde, disse elle; mas, para lhe provar que
-não ha falta de vontade, irei falar a sua mãe. Não
-prometto vencer, mas lutar; trabalharei com alma.
-Devéras, não quer ser padre? As leis são bellas,
-meu querido... Póde ir a S. Paulo, a Pernambuco,
-ou ainda mais longe. Ha boas universidades por
-esse mundo fóra. Vá para as leis, se tal é a sua
-vocação. Vou falar a D. Gloria, mas não conte só
-commigo; fale tambem a seu tio.</p>
-
-<p>&mdash;Hei de falar.</p>
-
-<p>&mdash;Pegue-se tambem com Deus,&mdash;com Deus e
-a Virgem Santissima, concluiu apontando para o
-ceu.</p>
-
-<p>O ceu estava meio enfarruscado. No ar, perto da
-praia, grandes passaros negros faziam giros, avoaçando
-ou pairando, e desciam a roçar os pés, na
-agua, e tornavam a erguer-se para descer novamente.
-Mas nem as sombras do ceu, nem as dansas
-fantasticas dos passaros me desviavam o espirito do
-meu interlocutor. Depois de lhe responder que sim,
-emendei-me:</p>
-
-<p>&mdash;Deus fará o que o senhor quizer.</p>
-
-<p>&mdash;Não blaspheme. Deus é dono de tudo; elle é,
-só por si, a terra e o ceu, o passado, o presente e o
-futuro. Peça-lhe a sua felicidade, que eu não faço
-outra cousa... Uma vez que você não póde ser
-padre, e prefere as leis... As leis são bellas, sem desfazer
-na theologia, que é melhor que tudo, como a
-vida ecclesiastica é a mais santa... Porque não
-ha de ir estudar leis fóra daqui? Melhor é ir logo
-para alguma universidade, e ao mesmo tempo que
-estuda, viaja. Podemos ir juntos; veremos as terras
-estranjeiras, ouviremos inglez, francez, italiano,
-hespanhol, russo e até sueco. D. Gloria provavelmente
-não poderá acompanhal-o; ainda que possa
-e vá, não quererá guiar os negocios, papeis, matriculas,
-e cuidar de hospedarias, e andar com você
-de um lado para outro... Oh! as leis são bellissimas!</p>
-
-<p>&mdash;Está dito, pede a mamãe que me não metia
-no seminario?</p>
-
-<p>&mdash;Pedir, peço, mas pedir não é alcançar. Anjo
-do meu coração, se vontade de servir é poder de
-mandar, estamos aqui, estamos a bordo. Ali! você
-não imagina o que é a Europa; oh! a Europa...</p>
-
-<p>Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma das
-suas ambições era tornar á Europa, falava della
-muitos vezes, sem acabar de tentar minha mãe nem
-tio Cosme, por mais que louvasse os ares e as bellezas... Não
-contava com esta possibilidade de ir
-commigo, e lá ficar durante a eternidade dos meus
-estudos.</p>
-
-<p>&mdash;Estamos a bordo, Bentinho, estamos a bordo!</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXVII" id="XXVII">XXVII</a></h5>
-
-<h4>Ao portão.</h4>
-
-
-<p>Ao portão do Passeio, um mendigo estendeu-nos
-a mão. José Dias passou adiante, mas eu pensei em
-Capitú e no seminario, tirei dous vintens do bolso
-e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe
-que rogasse a Deus por mim, afim de que eu pudesse
-satisfazer todos os meus desejos.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, meu devoto!</p>
-
-<p>&mdash;Chamo-me Bento, accrescentei para esclarecel-o.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXVIII" id="XXVIII">XXVIII</a></h5>
-
-<h4>Na rua.</h4>
-
-
-<p>José Dias ia tão contente que trocou o homem
-dos momentos graves, como era á rua, pelo homem
-dobradiço e inquieto. Mexia-se todo, falava de tudo,
-fazia-me parar a cada passo deante de um mostrador
-ou de um cartaz de theatro. Contava-me o
-enredo de algumas peças, recitava monologos em
-verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu
-alugueis de casa; para si comprou um vigesimo de
-loteria. Afinal, o homem tezo rendeu o flexivel, e
-passou a falar pausado, com superlativos. Não vi
-que a mudança era natural; temi que houvesse
-mudado a resolução assentada, e entrei a tratal-o
-com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no
-omnibus.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXIX" id="XXIX">XXIX</a></h5>
-
-<h4>O imperador.</h4>
-
-
-<p>Em caminho, encontrámos o imperador, que
-vinha da Escola de Medicina. O omnibus em que
-iamos parou, como todos os vehiculos; os passageiros
-desceram á rua e tiraram o chapeu, até que
-o coche imperial passasse. Quanto tornei ao meu
-logar, trazia uma ideia fantastica, a ideia de ir ter
-com o imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a
-intervenção. Não confiaria. esta ideia a Capitú.
-«Sua Majestade pedindo, mamãe cede,» pensei
-commigo.</p>
-
-<p>Vi então o imperador escutando-me, reflectindo
-e acabando por dizer que sim, que iria falar a
-minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lagrimas.
-E logo me achei em casa, á espera, até que ouvi os
-batedores e o piquete de cavallaria; é o imperador!
-é o imperador! toda a gente chegava ás janellas
-para vel-o passar, mas não passava, o coche parava
-á nossa porta, o imperador apeava-se e entrava.
-Grande alvoroço na visinhança: «O imperador entrou
-em casa de D. Gloria! Que será? Que não
-será? «A nossa familia saía a recebel-o; minha mãe
-era a primeira que lhe beijava a mão. Então o imperador,
-todo risonho, sem entrar na sala ou entrando,&mdash;não
-me lembra bem, os sonhos são muita vez
-confusos,&mdash;pedia a minha mãe que me não fizesse
-padre,&mdash;e ella, lisongeada e obediente, promettia
-que não.</p>
-
-<p>&mdash;A medicina,&mdash;porque lhe não manda ensinar
-medicina?</p>
-
-<p>Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade...</p>
-
-<p>&mdash;Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita
-carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca
-foi á nossa Escola? É uma bella Escola. Já temos
-medicos de primeira ordem, que pódem hombrear
-com os melhores de outras terras. A medicina é
-uma grande sciencia; basta só isto de dar a saude
-aos outros, conhecer as molestias, combatel-as, vencel-as... A
-senhora mesma ha de ter visto milagres.
-Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e elle
-não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira;
-mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim,
-sim? Você quer, Bentinho?</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe querendo.</p>
-
-<p>&mdash;Quero, meu filho. Sua Majestade manda.</p>
-
-<p>Então o imperador dava outra vez a mão a beijar,
-e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de
-gente, as janellas atopetadas, um silencio de assombro;
-o imperador entrava no coche, inclinava-se e
-fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: «A
-medicina, a nossa Escola.» E o coche partia entre
-invejas e agradecimentos.</p>
-
-<p>Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de
-Ariosto não é mais fertil que a das creanças e dos
-namorados, nem a visão do impossivel precisa mais
-que de um recanto de omnibus. Consolei-me por
-instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano
-e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus
-companheiros.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXX" id="XXX">XXX</a></h5>
-
-<h4>O Santissimo.</h4>
-
-
-<p>Terás entendido que aquella lembrança do imperador
-ácerca da medicina não era mais que a suggestão
-da minha pouca vontade de sair do Rio de
-Janeiro. Os sonhos do accordado são como os outros
-sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações
-e das nossas recordações. Vá que fosse para
-S. Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito
-mar e muito tempo. Viva a medicina! Iria contar
-estas esperanças a Capitú.</p>
-
-<p>&mdash;Parece que vae sair o Santíssimo, disse
-alguem no omnibus. Ouço um sino; é, creio que é
-em Santo Antonio dos Pobres. Pare, Sr. recebedor!</p>
-
-<p>O recebedor das passagens puxou a correia que ia
-ter ao braço do cocheiro, o omnibus parou, e o
-homem desceu. José Dias deu duas voltas rapidas
-á cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer comsigo.
-Iriamos tambem acompanhar o Santissimo.
-Effectivamente, o sino chamava os fieis áquelle
-serviço da ultima hora. Já havia algumas pessoas
-na sacristia. Era a primeira vez que me achava em
-momento tão grave; obedeci, a principio constrangido,
-mas logo depois satisfeito, menos pela caridade
-do serviço que por me dar um officio de
-homem. Quando o sacristão começou a distribuir as
-opas, entrou um sujeito esbaforido; era o meu
-visinho Padua, que tambem ia acompanhar o Santissimo.
-Deu comnosco, veiu comprimentar-nos.
-José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe
-respondeu com uma palavra secca, olhando para o
-padre, que lavava as mãos. Depois, como Padua
-falasse ao sacristão, baixinho, approximou-se delles;
-eu fiz a mesma cousa. Padua solicitava do sacristão
-uma das varas do pallio. José Dias pediu uma
-para si.</p>
-
-<p>&mdash;Ha só uma disponivel, disse o sacristão.</p>
-
-<p>&mdash;Pois essa, disse José Dias.</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou
-Padua.</p>
-
-<p>&mdash;Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu
-José Dias; eu já cá estava. Leve uma tocha.</p>
-
-<p>Padua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava
-em querer a vara, tudo isto em voz baixa e
-surda. O sacristão achou meio de conciliar a rivalidade,
-tomando a si obter de um dos outros seguradores
-do pallio que cedesse a vara ao Padua,
-conhecido na parochia, como José Dias. Assim fez;
-mas José Dias transtornou ainda esta combinação.
-Não, uma vez que tinhamos outra vara disponivel,
-pedia-a para mim, «joven seminarista», a quem
-esta distincção cabia mais direitamente. Padua
-ficou pallido, como as tochas. Era pôr á prova o
-coração de um pae. O sacristão, que me conhecia
-de me ver alli com minha mãe, aos domingos, perguntou
-de curioso se eu era devéras seminarista.</p>
-
-<p>&mdash;Ainda não, mas vae sel-o, respondeu José
-Dias piscando o olho esquerdo para mim, que,
-apesar do aviso, fiquei zangado.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pae
-de Capitú.</p>
-
-<p>Pela minha parte, quiz ceder-lhe a vara; lembrou-me
-que elle costumava acompanhar o Santissimo
-Sacramento aos moribundos, levando uma
-tocha, mas que a ultima vez conseguira uma vara
-do pallio. A distincção especial do pallio vinha de
-cobrir o vigario e o sacramento; para tocha qualquer
-pessoa servia. Foi elle mesmo que me contou
-e explicou isto, cheio de uma gloria pia e risonha.
-Assim fica entendido o alvoroço com que entrára na
-egreja; era a segunda vez do pallio, tanto que cuidou
-logo de ir pedil-o. E nada! E tornava á tocha commum,
-outra vez a interinidade interrompida; o administrador
-regressava ao antigo cargo... Quiz ceder-lhe
-a vara; o aggregado tolheu-me esse acto de
-generosidade, e pediu ao sacristão que nos puzesse,
-a elle e a mim, com as duas varas da frente,
-rompendo a marcha do pallio.</p>
-
-<p>Opas enfiadas, tochas distribuidas e accesas,
-padre e ciborio promptos, o sacristão de hyssope e
-campainha nos mãos, saiu o prestito á rua. Quando
-me vi com uma das varas, passando pelos fieis, que
-se ajoelhavam, fiquei commovido. Padua roía a
-tocha amargamente. É uma metaphora, não acho
-outra fórma mais viva de dizer a dôr e a humilhação
-do meu visinho. De resto, não pude miral-o
-por muito tempo, nem ao aggregado, que, parallelamente
-a mim, erguia a cabeça com o ar de ser elle
-proprio o Deus dos exercitos. Com pouco, senti-me
-cançado; os braços caíam-me, felizmente a casa
-era perto, na rua do Senado.</p>
-
-<p>A enferma era uma senhora viuva, tisica, tinha
-uma filha de quinze ou dezeseis annos, que estava
-chorando á porta do quarto. A moça não era formosa,
-talvez nem tivesse graça; os cabellos caíam despenteados,
-e as lagrimas faziam-lhe encarquilhar
-os olhos. Não obstante, o total falava e captivava o
-coração. O vigario confessou a doente, deu-lhe a
-communhão e os santos oleos. O pranto da moça
-redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e
-fugi. Vim para porto de uma jannela. Pobre creatura!
-A dor era communicativa em si mesma; complicada
-da lembrança de minha mãe, doeu-me mais,
-e, quando emfim pensei em Capitú, senti um impeto
-de soluçar tambem, enfiei pelo corredor, e ouvi
-alguem dizer-me:</p>
-
-<p>&mdash;Não chore assim!</p>
-
-<p>A imagem de Capitú ia commigo, e a minha imaginação,
-assim como lhe attribuira lagrimas, ha
-pouco, assim lhe encheu a bocca de riso agora; vi-a
-escrever no muro, falar-me, andar á volta, com os
-braços no ar; ouvi distinctamente o meu nome, de
-uma doçura que me embriagou, e a voz era della.
-As tochas accesas, tão lugubres na occasião,
-tinham-me ares de um lustre nupcial... Que era
-lustre nupcial? Não sei; era alguma cousa contraria
-á morte, e não vejo outra mais que bodas. Esta
-nova sensação me dominou tanto que José Dias
-veiu a mim, e me disse ao ouvido, em voz baixa:</p>
-
-<p>&mdash;Não ria assim!</p>
-
-<p>Fiquei serio depressa. Era o momento da saida.
-Peguei da minha vara; e, como já conhecia a distancia,
-e agora voltavamos para a egreja, o que
-fazia a distancia menor,&mdash;o peso da vara era mui
-pequeno. Demais, o sol cá fora, a animação da rua,
-os rapazes da minha edade que me fitavam cheios
-de inveja, as devotas que chegavam ás janellas ou
-entravam nos corredores e se ajoelhavam á nossa
-passagem, tudo me enchia a alma de lepidez nova.</p>
-
-<p>Padua, ao contrario, ia mais humilhado. Apesar
-de substituido por mim, não acabava de se consolar
-da tocha, da miseravel tocha. E comtudo havia
-outros que tambem traziam tocha, e apenas mostravam
-a compostura do acto; não iam garridos, mas
-tambem não iam tristes. Via-se que caminhavam
-com honra.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXXI" id="XXXI">XXXI</a></h5>
-
-<h4>As curiosidades de Capitú.</h4>
-
-
-<p>Capitú preferia tudo ao seminario. Em vez de
-ficar abatida com a ameaça da larga separação, se
-vingasse a ideia da Europa, mostrou-se satisfeita.
-E quando eu lhe contei o meu sonho imperial:</p>
-
-<p>&mdash;Não, Bentinho, deixemos o imperador socegado,
-replicou; fiquemos por ora com a promessa
-de José Dias. Quando é que elle disse que falaria a
-sua mãe?</p>
-
-<p>&mdash;Não marcou dia; prometteu que ia ver, que
-falaria logo que pudesse, e que me pegasse com
-Deus.</p>
-
-<p>Capitú quiz que lhe repetisse as respostas todas
-do aggregado, as alterações do gesto e até a pirueta,
-que apenas lhe contára. Pedia o som das palavras.
-Era minuciosa e attenta; a narração e o dialogo,
-tudo parecia remoer comsigo. Tambem se póde
-dizer que conferia, rotulava e pregava na memoria
-a minha exposição. Esta imagem é por ventura
-melhor que a outra, mas a optima dellas é nenhuma.
-Capitú era Capitú, isto é, uma creatura mui particular,
-mais mulher do que eu era homem. Se ainda
-o não disse, ahi fica. Se disse, fica tambem. Ha conceitos
-que se devem incutir na alma do leitor, á
-força de repetição.</p>
-
-<p>Era tambem mais curiosa. As curiosidades de
-Capitú dão para um capitulo. Eram de varia especie,
-explicaveis e inexplicaveis, assim uteis como inuteis,
-umas graves, outras frivolas; gostava de saber
-tudo. No collegio onde, desde os sete annos, apprendera
-a ler, escrever e contar, francez, doutrina e
-obras de agulha, não apprendeu, por exemplo, a
-fazer renda; por isso mesmo, quiz que prima Justina
-lh'o ensinasse. Se não estudou latim com o
-padre Cabral foi porque o padre, depois de lh'o propôr
-gracejando, acabou dizendo que latim não era
-lingua de meninas. Capitú confessou-me um dia que
-esta razão accendeu nella o desejo de o saber. Em
-compensação, quiz apprender inglez com um velho
-professor amigo do pae e parceiro deste ao sólo,
-mas não foi adeante. Tio Cosme ensinou-lhe gamão.</p>
-
-<p>&mdash;Anda apanhar um capotinho, Capitú, dizia-lhe
-elle.</p>
-
-<p>Capitú obedecia e jogava com facilidade, com
-attenção, não sei se diga com amor. Um dia fui
-achal-a desenhando a lapís um retrato; dava os
-ultimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver
-se estava parecido. Era o de meu pae, copiado da
-tela que minha mãe tinha na sala e que ainda agora
-está commigo. Perfeição não era; ao contrario, os
-olhos sairam esbogalhados, e os cabellos eram
-pequenos circulos uns sobre outros. Mas, não tendo
-ella rudimento algum de arte, e havendo feito
-aquillo de memoria em poucos minutos, achei que
-era obra de muito merecimento; descontai-me a
-edade e a sympathia. Ainda assim, estou que apprenderia
-facilmente pintura, como apprendeu musica
-mais tarde. Já então namorava o piano da
-nossa casa, velho traste inutil, apenas de estimação.
-Lia os nossos romances, folheava os nossos
-livros de gravuras, querendo saber das ruinas, das
-pessoas, das campanhas, o nome, a historia, o
-lograr. José Dias dava-lhe essas noticias com certo
-orgulho de erudito. A erudição deste não avultava
-muito mais que a sua homoepathia de Cantagallo.</p>
-
-<p>Um dia, Capitú quiz saber o que eram as figuras
-da sala de visitas. O aggregado disse-lh'o summariamente,
-demorando-se um pouco mais em Cesar,
-com exclamações e latins:</p>
-
-<p>&mdash;Cesar! Julio Cesar! Grande homem! <i>Tu quoque, Brute?</i></p>
-
-<p>Capitú não achava bonito o perfil de Cesar, mas
-as acções citadas por José Dias davam-lhe gestos de
-admiração. Ficou muito tempo com a cara virada
-para elle. Um homem que podia tudo! que fazia
-tudo! Um homem que dava a uma senhora uma
-perola do valor de seis milhões de sestercios!</p>
-
-<p>&mdash;E quanto valia cada sestercio?</p>
-
-<p>José Dias, não tendo presente o valor do sestercio,
-respondeu enthusiasmado:</p>
-
-<p>&mdash;É o maior homem da historia!</p>
-
-<p>A perola de César accendia os olhos de Capitú.
-Foi nessa occasião que ella perguntou a minha mãe
-porque é que já não usava as joias do retrato; preferia-se
-ao que estava na sala, com o de meu pae;
-tinha um grande collar, um diadema e brincos.</p>
-
-<p>&mdash;São joias viuvas, como eu, Capitú.</p>
-
-<p>&mdash;Quando é que botou estas?</p>
-
-<p>&mdash;Foi pelas festas da Coroação.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! conte-me as festas da Coroação!</p>
-
-<p>Sabia já o que os paes lhe haviam dito, mas naturalmente
-tinha para si que elles pouco mais conheceriam
-do que o que se passou nas ruas. Queria a
-noticia das tribunas da Capella Imperial e dos salões
-dos bailes. Nascera muito depois daquellas festas
-celebres. Ouvindo falar varias vezes da Maioridade,
-teimou um dia em saber o que fora este acontecimento;
-disseram-lh'o, e achou que o imperador
-fizera muito bem em querer subir ao throno aos
-quinze annos. Tudo era materia ás curiosidades de
-Capitú, mobilias antigas, alfaias velhas, costumes,
-noticias de Itaguahy, a infancia e a mocidade de
-minha mãe, um dito daqui, uma lembrança dalli,
-um adagio d'acolá...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXXII" id="XXXII">XXXII</a></h5>
-
-<h4>Olhos de ressaca.</h4>
-
-
-<p>Tudo era materia ás curiosidades de Capitú. Caso
-houve, porém, no qual não sei se apprendeu ou
-ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. É o
-que contarei no outro capitulo. N'este direi sómente
-que, passados alguns dias do ajuste com o
-aggregado, fui ver a minha amiga; eram dez horas
-da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal, nem
-esperou que eu lhe perguntasse pela filha.</p>
-
-<p>&mdash;Está na sala penteando o cabello, disse-me; vá
-devagarzinho para lhe pregar um susto.</p>
-
-<p>Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me.
-Este póde ser que não fosse; era um espelhinho de
-pataca (perdoai a barateza), comprado a um mascate
-italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente
-da parede, entre as duas janellas. Se não foi
-elle, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas
-entrei na sala, pente, cabellos, toda ella voou pelos
-ares, e só lhe ouvi esta pergunta:</p>
-
-<p>&mdash;Ha alguma cousa?</p>
-
-<p>&mdash;Não ha nada, respondi; vim ver você antes
-que o padre Cabral chegue para a licção. Como
-passou a noite?</p>
-
-<p>&mdash;Eu bem. José Dias ainda não falou?</p>
-
-<p>&mdash;Parece que não.</p>
-
-<p>&mdash;Mas então quando fala?</p>
-
-<p>&mdash;Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar
-no assumpto; não vae logo de pancada, falará assim
-por alto e por longe, um toque. Depois, entrará em
-materia. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução
-feita...</p>
-
-<p>&mdash;Que tem, tem, interrompeu Capitú. E se não
-fosse preciso alguem para vencer já, e de todo, não
-se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá
-influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que
-você realmente não quer ser padre, mas poderá
-alcançar...? Elle é attendido; se, porém... É um
-inferno isto! Você teime com elle, Bentinho.</p>
-
-<p>&mdash;Teimo; hoje mesmo elle ha de falar.</p>
-
-<p>&mdash;Você jura?</p>
-
-<p>&mdash;Juro! Deixe ver os olhos, Capitú.</p>
-
-<p>Tinha-me lembrado a definição que José
-dera delles, «olhos de cigana obliqua e dissimulada.»
-Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada
-sabia, e queria ver se se podiam chamar
-assim. Capitú deixou-se fitar e examinar. Só me
-perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada
-achei extraordinario; a côr e a doçura eram minhas
-conhecidas. A demora da contemplação creio que
-lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que
-era um pretexto para miral-os mais de perto, com
-os meus olhos longos, constantes, enfiados nelles, e
-á isto attribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos
-e sombrios, com tal expressão que...</p>
-
-<p>Rhetorica dos namorados, dá-me uma comparação
-exacta e poetica para dizer o que foram
-aquelles olhos de Capitú. Não me acode imagem
-capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estylo,
-o que elles foram e me fizeram. Olhos de ressaca?
-Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquella
-feição nova. Traziam não sei que fluido mysterioso
-e energico, uma força que arrastava para dentro,
-como a vaga que se retira da praia, nos dias de
-ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me ás
-outras partes visinhas, ás orelhas, aos braços, aos
-cabellos espalhados pelos hombros; mas tão depressa
-buscava as pupillas, a onda que saía dellas
-vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me,
-puxar-me e tragar-me. Quantos minutos
-gastámos naquelle jogo? Só os relogios do ceu
-terão marcado esse tempo infinito e breve. A
-eternidade tem as suas pendulas nem por não
-acabar nunca deixa de querer saber a duração das
-felicidades e dos supplicios. Ha de dobrar o gozo
-aos bemaventurados do ceu conhecer a somma dos
-tormentos que já terão padecido no inferno os seus
-inimigos; assim tambem a quantidade das delicias
-que terão gozado no ceu os seus desaffectos augmentará
-as dores aos condemnados do inferno. Este
-outro supplicio escapou ao divino Dante; mas eu
-não estou aqui para emendar poetas. Estou para
-contar que, ao cabo de um tempo não marcado,
-agarrei-me definitivamente aos cabellos de Capitú,
-mas então com as mãos, e disse-lhe,&mdash;para dizer
-alguma cousa,&mdash;que era capaz de os pentear, se
-quizesse.</p>
-
-<p>&mdash;Você?</p>
-
-<p>&mdash;Eu mesmo.</p>
-
-<p>&mdash;Vae embaraçar-me o cabello todo, isso, sim.</p>
-
-<p>&mdash;Se embaraçar, você desembaraça depois.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos ver.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXXIII" id="XXXIII">XXXIII</a></h5>
-
-<h4>O penteado.</h4>
-
-
-<p>Capitú deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho.
-Peguei-lhe dos cabellos, colhi-os todos e
-entrei a alisal-os com o pente, desde a testa até ás
-ultimas pontas, que lhe desciam á cintura. Em pé
-não dava geito: não esquecestes que ella era um
-nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da
-mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.</p>
-
-<p>&mdash;Senta aqui, é melhor.</p>
-
-<p>Sentou-se. «Vamos ver o grande cabelleireiro»,
-disse-me rindo. Continuei a alisar os cabellos,
-com muito cuidado, e dividi-os em duas porções
-eguaes, para compor as duas trancas. Não as fiz
-logo, nem assim depressa, como podem suppôr os
-cabelleireiros de officio, mas devagar, devagarinho,
-saboreando pelo tacto aquelles fios grossos, que
-eram parte della. O trabalho era atrapálhado, ás
-vezes por desaso, outras de proposito, para desfazer
-o feito e refazel-o. Os dedos roçavam na nuca
-da pequena ou nas espaduas vestidas de chita, e a
-sensação era um deleite. Mas, emfim, os cabellos
-iam acabando, por mais que eu os quizesse interminaveis.
-Não pedi ao ceu que elles fossem tão longos
-como os da Aurora, porque não conhecia ainda
-esta divindade que os velhos poetas me apresentaram
-depois; mas, desejei penteal-os por todos os
-seculos dos seculos, tecer duas tranças que pudessem
-envolver o infinito por um numero innominavel
-de vezes. Se isto vos parecer emphatico, desgraçado
-leitor, é que nunca penteastes uma pequena,
-nunca puzestes aos mãos adolescentes na
-joven cabeça de uma nympha... Uma nympha!
-Todo eu estou mythologico. Ainda ha pouco, falando
-dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Thetis;
-risquei Thetis, risquemos nympha; digamos somente
-uma creatura amada, palavra que envolve todas as
-potencias christãs e pagãs. Emfim, acabei as duas
-tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas?
-Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada.
-Juntei as pontas das tranças, uni-as por
-um laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando
-alli, até que exclamei:</p>
-
-<p>&mdash;Prompto!</p>
-
-<p>&mdash;Estará bom?</p>
-
-<p>&mdash;Veja no espelho.</p>
-
-<p>Em vez de ir ao espelho, que pensaes que fez
-Capitú? Não vos esqueçaes quo estava sentada, de
-costas para mim. Capitú derreou a cabeça, a tal
-ponto que me foi preciso acudir com as mãos e amparal-a;
-o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me
-depois sobre ella, rosto a rosto, mas trocados, os
-olhos de um na linha da bocca do outro. Pedi-lhe
-que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar
-o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava
-feia; mas nem esta razão a moveu.</p>
-
-<p>&mdash;Levanta, Capitú!</p>
-
-<p>Não quiz, não levantou a cabeça, e ficámos assim
-a olhar um para o outro, até que ella abrochou os
-labios, eu desci os meus, e...</p>
-
-<p>Grande foi a sensação do beijo; Capitú ergueu-se,
-rapida, eu recuei até á parede com uma especie de
-vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando elles
-me clarearam, vi que Capitú tinha os seus no chão.
-Não me atrevi a dizer nada; ainda que quizesse,
-faltava-me lingua. Preso, atordoado, não achava
-gesto nem impeto que me descolasse da parede e
-me atirasse a ella com mil palavras callidas e mimosas... Não
-mofes dos meus quinze annos, leitor
-precoce. Com dezesete, Des Grieux (e mais era
-Des Grieux) não pensava ainda na differença dos
-sexos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXXIV" id="XXXIV">XXXIV</a></h5>
-
-<h4>Sou homem!</h4>
-
-
-<p>Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata.
-Capitú compoz-se depressa, tão depressa que, quando
-a mãe apontou á porta, ella abanava a cabeça e ria.
-Nenhum laivo amarello. nenhuma contracção de
-acanhamento, um riso espontaneo e claro, que ella
-explicou por estas palavras alegres:</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe, olhe como este senhor cabelleireiro
-me penteou; pediu-me para acabar o penteado, e
-fez isto. Veja que tranças!</p>
-
-<p>&mdash;Que tem? acudiu a mãe, transbordando de
-benevolencia. Está muito bem, ninguem dirá que é
-de pessoa que não sabe pentear.</p>
-
-<p>&mdash;O que, mamãe? Isto? redarguiu Capitú desfazendo
-as tranças. Ora, mamãe!</p>
-
-<p>E com um enfadamento gracioso e voluntario que
-ás vezes tinha, pegou do pente e alisou os cabellos
-para renovar o penteado. D. Fortunata chamou-lhe
-tonta, e disse-me que não fizesse caso, não era
-nada, maluquices da filha. Olhava com ternura
-para mim e para ella. Depois, parece-me que desconfiou.
-Vendo-me calado, enfiado, cosido á parede,
-achou talvez que houvera entre nós algo mais que
-penteado, e sorriu por dissimulação...</p>
-
-<p>Como eu quizesse falar tambem para disfarçar o
-meu estado, chamei algumas palavras cá de dentro,
-e ellas acudiram de prompto, mas de atropello, e
-encheram-me a bocca sem poder sair nenhuma.
-O beijo de Capitú fechava-me os labios. Uma exclamação,
-um simples artigo, por mais que investissem
-com força, não logravam romper de dentro.
-E todas as palavras recolheram-se ao coração, murmurando:
-«Eis aqui um que não fará grande carreira
-no mundo, por menos que as emoções o dominem...»</p>
-
-<p>Assim, apanhados pela mãe, éramos dous e contrarios,
-ella encobrindo com a palavra o que eu
-publicava pelo silencio. D. Fortunata tirou-me daquella
-hesitação, dizendo que minha mãe me mandára
-chamar para a licção de latim; o padre Cabral
-estava á minha espera. Era uma saida; despedi-me
-e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a mãe
-censurava as maneiras da filha, mas a filha não
-dizia nada.</p>
-
-<p>Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas não
-passei a sala da licção; sentei-me na cama, recordando
-o penteado e o resto. Tinha estremeções,
-tinha uns esquecimentos em que perdia a consciencia
-de mim e das cousas que me rodeavam, para
-viver não sei onde nem como. E tornava a mim, e
-via a cama, as paredes, os livros, o chão, ouvia
-algum som de fóra, vago, proximo ou remoto, e
-logo perdia tudo para sentir sómente os beiços de
-Capitú... Sentia-os estirados, embaixo dos meus,
-egualmente esticados para os della, e unindo-se uns
-aos outros. De repente, sem querer, sem pensar,
-saiu-me da boca esta palavra de orgulho:</p>
-
-<p>&mdash;Sou homem!</p>
-
-<p>Suppuz que me tivessem ouvido, porque a palavra
-saiu em voz alta, e corri á porta da alcova. Não
-havia ninguem fóra. Voltei para dentro, e, baixinho,
-repeti que era homem. Ainda agora tenho o éco aos
-meus ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme.
-Colombo não o teve maior, descobrindo a America,
-e perdoai a banalidade em favor do cabimento; com
-effeito, ha em cada adolescente um mundo encoberto,
-um almirante e um sol de Outubro. Fiz outros
-achados mais tarde; nenhum me deslumbrou tanto.
-A denuncia de José Dias alvoroçara-me, a licção do
-velho coqueiro tambem, a vista dos nossos nomes
-abertos por ella no muro do quintal deu-me grande
-abalo, como vistes; nada disso valeu a sensação do
-beijo. Podiam ser mentira ou illusão. Sendo verdade,
-eram os ossos da verdade, não eram a carne
-e o sangue della. As proprias mãos tocadas, apertadas,
-como que fundidas, não podiam dizer tudo.</p>
-
-<p>&mdash;Sou homem!</p>
-
-<p>Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no
-seminario, mas como se pensa em perigo que passou,
-um mal abortado, um pesadelo extincto; todos
-os meus nervos me disseram que homens não são
-padres. O sangue era da mesma opinião. Outra vez
-senti os beiços de Capitú. Talvez abuso um pouco
-das reminiscencias osculares; mas a saudade é isto
-mesmo; é o passar e repassar das memorias antigas.
-Ora, de todas as daquelle tempo creio que a
-mais doce é esta, a mais nova, a mais comprehensiva,
-a que inteiramente me revelou a mim mesmo.
-Outras tenho, vastas e numerosas, doces tambem,
-de varia especie, muitas intellectuaes, egualmente
-intensas. Grande homem que fosse, a recordação
-era menor que esta.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXXV" id="XXXV">XXXV</a></h5>
-
-<h4>O protonotario apostolico.</h4>
-
-
-<p>Enfim, peguei dos livros e corri á licção. Não
-corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo
-que devia ser muito tarde, e podiam ler-me
-no semblante alguma cousa. Tive ideia de mentir,
-allegar uma vertigem que me houvesse deitado ao
-chão; mas o susto que causaria a minha mãe fez-me
-rejeital-a. Pensei em prometter algumas dezenas
-de padre-nossos; tinha, porém, outra promessa
-em aberto e outro favor pendente... Não, vamos
-ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversavam
-cuidadosamente. Quando entrei na sala, ninguem ralhou
-commigo.</p>
-
-<p>O padre Cabral recebera na vespera um recado
-do internuncio; foi ter com elle, e soube que, por
-decreto pontificio, acabava de ser nomeado protonotario
-apostolico. Esta distincção do papa dera-lhe
-grande contentamento e a todos os nossos. Tio
-Cosme e prima Justina repetiam o titulo com admiração;
-era a primeira vez que elle soava aos nossos
-ouvidos, acostumados a conegos, monsenhores,
-bispos, nuncios, e internuncios; mas que era protonotario
-apostolico? O padre Cabral explicou que
-não era propriamente o cargo da curia, mas as
-honras delle. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro
-de voltarete, e repetia:</p>
-
-<p>&mdash;Protonotario apostolico!</p>
-
-<p>E voltando-se para mim:</p>
-
-<p>&mdash;Prepara-te, Bentinho; tu pódes vir a ser protonotario
-apostolico.</p>
-
-<p>Cabral ouvia com gosto a repetição do titulo. Estava
-em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava
-na tampa da boceta. O tamanho do titulo como
-que lhe dobrava a magnificencia, posto que, para
-ligal-o ao nome, era demasiado comprido; esta segunda
-reflexão foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral
-acudiu que não era preciso dizel-o todo, bastava
-que lhe chamassem o protonotario Cabral. Subentendia-se
-apostolico.</p>
-
-<p>&mdash;Protonotario Cabral.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, tem razão; protonotario Cabral.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, Sr. protonotario,&mdash;acudiu prima Justina
-para se ir acostumando ao uso do titulo,&mdash;isto o
-obriga a ir a Roma?</p>
-
-<p>&mdash;Não, D. Justina.</p>
-
-<p>&mdash;Não, são só as honras, observou minha mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Agora, não impede,&mdash;disse Cabral, que continuava
-a reflectir,&mdash;não impede que nos casos de
-maior formalidade, actos publicos, cartas de cerimonia,
-etc., se empregue o titulo inteiro: protonotario
-apostolico. No uso commum, basta protonotario.</p>
-
-<p>&mdash;Justamente, assentiram todos.</p>
-
-<p>José Dias, que entrou pouco depois de mim,
-applaudiu a distincção, e recordou, a proposito, os
-primeiros actos politicos de Pio IX, grandes esperanças
-da Italia; mas ninguem pegou do assumpto; o
-principal da hora e do logar era o meu velho mestre
-de latim. Eu, voltando a mim do receio, entendi
-que devia comprimental-o tambem, e este applauso
-não lhe foi menos ao coração que os outros. Bateu-me
-na bochecha paternalmente, e acabou dando-me
-férias. Era muita felicidade para uma só hora. Um
-beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto
-mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a barriga,
-chamou-me peralta; mas José Dias corrigiu a alegria:</p>
-
-<p>&mdash;Não tem que festejar a vadiação; o latim
-sempre lhe ha de ser preciso, <i>ainda que não venha
-a ser padre.</i></p>
-
-<p>Conheci aqui o meu homem. Era a primeira
-palavra, a semente lançada á terra, assim de passagem,
-como para acostumar os ouvidos da familia.
-Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de
-tristeza, mas respondeu logo:</p>
-
-<p>&mdash;Ha de ser padre, e padre bonito.</p>
-
-<p>&mdash;Não esqueça, mana Gloria, e protonotario
-tambem. Protonotario apostolico.</p>
-
-<p>&mdash;O protonotario Santiago, accentuou Cabral.</p>
-
-<p>Se a intenção tio meu mestre de latim era ir acostumando
-ao uso do titulo com o nome, não sei bem;
-o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a
-tal titulo, deu-me vontade de dizer um desaforo.
-Mas a vontade aqui foi antes uma ideia, uma ideia
-sem lingua, que se deixou ficar quieta e muda, tal
-como d'ahi a pouco outras ideias... Mas essas pedem
-um capitulo especial. Rematemos este dizendo que
-o mestre de latim falou algum tempo da minha ordenação
-ecclesiastica, ainda que sem grande interesse.
-Elle buscava um assumpto alheio para se mostrar
-esquecido da propria gloria, mas era esta que o
-deslumbrava na occasião. Era um velho magro,
-sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos
-tinha; o mais excelso delles era ser guloso, não
-propriamente glotão; comia pouco, mas estimava o
-fino e o raro, e a nossa cosinha, se era simples, era
-menos pobre que a delle. Assim, quando minha mãe
-lhe disse que viesse jantar, afim de se lhe fazer uma
-saude, os olhos com que acceitou seriam de protonotario,
-mas não eram aposlolicos. E para agradar a
-minha mãe novamente pegou em mim, descrevendo
-o meu futuro ecclesiastico, e queria saber se ia para
-o seminario agora, no anuo proximo, e offerecia-se
-a falar ao «senhor bispo», tudo marchetado do
-«protonotario Santiago.»</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXXVI" id="XXXVI">XXXVI</a></h5>
-
-<h4>Ideia sem pernas e ideia sem braços.</h4>
-
-
-<p>Deixei-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra
-vez a pensar na aventura da manhã. Era o que melhor
-podia fazer, sem latim, e até com latim. Ao
-cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo á
-casa visinha, agarrar Capitú, desfazer-lhe as tranças,
-refazel-as e concluil-as daquella maneira particular,
-bocca sobre bocca. É isto, vamos, é isto... Ideia
-só! ideia sem pernas! As outras pernas não
-queriam correr nem andar. Muito depois é que
-sairam vagarosamente e levaram-me á casa de Capitú.
-Quando alli cheguei, dei com ella na sala, na
-mesma sala, sentada na marqueza, almofada no
-regaço, cosendo em paz. Não me olhou de rosto,
-mas a furto e a medo, ou, se preferes a phraseologia
-do aggregado, obliqua e dissimulada. As mãos pararam,
-depois de encravada a agulha no panno. Eu,
-do lado opposto da mesa, não sabia que fizesse; e
-outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim
-gastámos alguns minutos compridos, até que ella
-deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me.
-Fui ter com ella, e perguntei se a mãe havia
-dito alguma cousa; respondeu-me que não. A bocca
-com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado
-um gesto de approximação. Certo é que Capitú
-recuou um pouco.</p>
-
-<p>Era occasião de pegal-a, puxal-a e beijal-a... Ideia
-só ideia sem braços! Os meus ficaram caidos
-e mortos. Não conhecia nada da Escriptura. Se
-conhecesse, é provavel que o espirito de Satanaz me
-fizesse dar a lingua mystica do <i>Cantico</i> um sentido
-directo e natural. Então obedeceria ao primeiro
-versiculo; «Applique elle os labios, dando-me o
-osculo da sua bocca.» E pelo que respeita aos braços,
-que tinha inertes, bastaria cumprir o vers. 6.<sup>o</sup>
-do cap. II: «A sua mão esquerda se pôz já debaixo
-da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará
-depois.» Vedes ahi a chronologia dos gestos. Era
-só executal-a; mas ainda que eu conhecesse o texto,
-as attitudes de Capitú eram agora tão retrahidas,
-que não sei se não continuaria parado, foi ella
-entretanto, que me tirou daquella situação.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXXVII" id="XXXVII">XXXVII</a></h5>
-
-<h4>A alma é cheia de mysterios.</h4>
-
-
-<p>Padre Cabral eslava esperando ha muito
-tempo?</p>
-
-<p>&mdash;Hoje não dei licção; tive férias.</p>
-
-<p>Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe tambem
-que o padre Cabral falara da minha entrada
-no seminario, apoiando a resolução de minha mãe,
-e disse delle cousas feias e duras. Capitú reflectiu
-algum tempo, e acabou perguntando-me se podia ir
-comprimentar o padre, á tarde, em minha casa.</p>
-
-<p>&mdash;Póde, mas para que?</p>
-
-<p>Papae naturalmente ha de querer ir tambem,
-mas é melhor que elle vá á casa do padre; é mais
-bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu
-rindo.</p>
-
-<p>O riso animou-me. As palavras pareciam ser
-uma troça comsigo mesma, uma vez que, desde manhã,
-era mulher, como eu era homem. Achei-lhe
-graça, e, para dizer tudo, quiz provar-lhe que era
-moça inteira. Peguei-lhe levemente na mão direita,
-depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e tremulo.
-Era a ideia com mãos. Quiz puxar as de
-Capitú, para obrigal-a a vir atraz dellas, mas ainda
-agora a acção não respondeu á intenção. Comtudo,
-achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguem;
-não vivia com rapazes, que me ensinassem anecdotas
-de amor. Não conhecia a violação de Lucrecia.
-Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha
-do padre Pereira e eram patricios de Poncio Pilatos.
-Não nego que o final do penteado da manhã era
-um grande passo no caminho da movimentação
-amorosa, mas o gesto de então foi justamente o
-contrario deste. De manhã, ella derreou a cabeça,
-agora fugia-me; nem é só nisso que os lances differiam;
-em outro ponto, parecendo haver repetição,
-houve contraste.</p>
-
-<p>Penso que ameacei puxal-a a mim. Não juro,
-começava a estar tão alvoroçado, que não pude ter
-toda a consciência dos meus actos; mas concluo que
-sim, porque ella recuou e quiz tirar as mãos das
-minhas; depois, talvez por não poder recuar mais,
-collocou um dos pés adeante e o outro atraz, e fugiu
-com o busto. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe
-as mãos com força. O busto afinal cançou e cedeu,
-mas a cabeça não quiz ceder tambem, e, caida para
-traz, inutilisava lodos os meus esforços, porque
-eu já fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo
-a licção do <i>Cantico</i>, não me acudiu estender a mão
-esquerda por baixo do cabeça della; demais, este
-gesto suppõe um accordo de vontades, e Capitú, que
-me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se
-á outra mão e fugir-me inteiramente. Ficámos
-naquelle luta, sem estrepito, porque apesar do
-ataque e da defesa, não perdiamos a cautela necessaria
-para não sermos ouvidos lá de dentro; a
-alma é cheia de mysterios. Agora sei que a puxava;
-a cabeça continuou a recuar, até que cançou; mas
-então foi a vez da bocca. A bocca de Capitú iniciou
-um movimento inverso, relativamente á minha, indo
-para um lado, quando eu a buscava do lado opposto.
-Naquelle desencontro estivemos, sem que ousasse
-um pouco mais, e bastaria um pouco mais...</p>
-
-<p>Nisto ouvimos bater á porta e falar no corredor.
-Era o pae de Capitú, que voltava da repartição um
-pouco mais cedo, como usava ás vezes. «Abre, Nanata!
-Capitú, abre!» Apparentemente era o mesmo
-lance da manhã, quando a mãe deu comnosco, mas
-só apparentemente; em verdade, era outro. Considerai
-que de manhã tudo estava acabado, e o passo
-de D. Fortunata foi um aviso para que nos compuzessemos.
-Agora lutavamos com as mãos presas, e
-nada estava sequer começado.</p>
-
-<p>Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor
-interno; era a mãe que abria. Eu, uma vez
-que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo de
-soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei
-a tental-o, mas Capitú, antes que o pae acabasse
-de entrar, fez um gesto inesperado, pousou a
-bocca na minha bocca, e deu de vontade o que estava
-a recusar á força. Repito, a alma é cheia de mysterios.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXXVIII" id="XXXVIII">XXXVIII</a></h5>
-
-<h4>Que susto, meu Deus!</h4>
-
-
-<p>Quando Padua, vindo pelo interior, entrou na
-sala de visitas, Capitú, em pé, de costas para mim,
-inclinada sobre a costura, como a recolhel-a, perguntava
-em voz alta:</p>
-
-<p>&mdash;Mas, Bentinho, que ó protonotario apostolico?</p>
-
-<p>&mdash;Ora, vivam! exclamou o pae.</p>
-
-<p>&mdash;Que susto, meu Deus!</p>
-
-<p>Agora é que o lance é o mesmo; mas se conto
-aqui, taes quaes, os dous lances de ha quarenta
-annos, é para mostrar que Capitú não se dominava
-só em presença da mãe; o pae não lhe metteu mais
-medo. No meio de uma situação que me atava a
-lingua, usava da palavra com a maior ingenuidade
-deste mundo. A minha persuasão é que o coração
-não lhe batia mais mais nem menos. Allegou susto,
-e deu á cara um ar meio enfiado; mas eu, que sabia
-tudo, vi que era mentira e fiquei com inveja. Foi
-logo falar ao pae, que apertou a minha mão, e quiz
-saber porque a filha falava em protonotario apostolico.
-Capitú repeliu-lhe o que ouvira de mim, e
-opinou logo que o pae devia ir comprimentar o padre
-em casa delle; ella iria á minha. E colligindo os
-petrechos da costura, enfiou pelo corredor, bradando
-infantilmente:</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe, jantar, papae chegou!</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XXXIX" id="XXXIX">XXXIX</a></h5>
-
-<h4>A vocação.</h4>
-
-
-<p>Padre Cabral estava naquella primeira hora das
-honras em que as minimas congratulações valem
-por odes. Tempo chega em que os dignificados recebem
-os louvores como um tributo usual, cara morta,
-sem agradecimentos. O alvoroço da primeira hora
-é melhor; esse estado da alma que vê na inclinação
-do arbusto, tocado do vento, um parabem da flora
-universal, traz sensações mais intimas e finas que
-qualquer outro. Cabral ouviu as palavras de Capitú
-com infinito prazer.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigado, Capitú, muito obrigado; estimo que
-você goste tambem. Papae está bom? E mamãe? A
-voce não se pergunta; essa cara é mesmo de quem
-vende saude. E como vamos de rezas?</p>
-
-<p>A todas as perguntas, Capitú ia respondendo
-promptamente e bem. Trazia um vestidinho melhor
-e os sapatos de sair. Não entrou com a familiaridade
-do costume, deteve-se um instante á porta da
-sala, antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao
-padre. Como désse a este, duas vezes em cinco
-minutos, o titulo de protonotario, José Dias, para
-se desforrar da concurrencia, fez um pequeno discurso
-em honra «ao coração paternal e augustissimo
-de Pio IX.»</p>
-
-<p>&mdash;Você é um grande <i>prosa</i>, disse tio Cosme,
-quando elle acabou.</p>
-
-<p>José Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral confirmou
-os louvores do aggregado, sem os seus superlativos;
-ao que este accrescentou que o cardeal
-Mastai evidentemente fôra talhado para a tiára desde
-o principio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:</p>
-
-<p>&mdash;A vocação é tudo. O estado ecclesiastico é
-perfeitissimo, comtanto que o sacerdote venha já
-destinado do berço. Não havendo vocação, falo de
-vocação sincera e real, um joven póde muito bem
-estudar as lettras humanas, que tambem são uteis
-e honradas.</p>
-
-<p>Padre Cabral retorquia:</p>
-
-<p>&mdash;A vocação é muito, mas o poder de Deus é
-soberano. Um homem póde não ter gosto á egreja
-e até perseguil-a, e um dia a voz de Deus lhe fala, e
-elle sae apostolo; veja S. Paulo.</p>
-
-<p>&mdash;Não contesto, mas o que eu digo é outra
-cousa. O que eu digo é que se póde muito bem
-servir a Deus sem ser padre, cá fóra; póde-se ou
-não se póde?</p>
-
-<p>&mdash;Póde-se.</p>
-
-<p>&mdash;Pois então! exclamou José Dias triumphalmente,
-olhando em volta de si. Sem vocação é que
-não ha bom padre, e em qualquer profissão liberal
-se serve a Deus, como todos devemos.</p>
-
-<p>&mdash;Perfeitamente, mas vocação não é só do berço
-que se traz.</p>
-
-<p>&mdash;Homem, é a melhor.</p>
-
-<p>&mdash;Um moço sem gosto nenhum á vida ecclesiastica
-póde acabar por ser muito bom padre; tudo é
-que Deus o determine. Não me quero dar por modelo,
-mas aqui estou eu que nasci com a vocação
-da medicina; meu padrinho, que era coadjutor de
-Santa Rita, teimou com meu pae para que me mettesse
-no seminario; meu pae cedeu. Pois, senhor,
-tomei tal gosto aos estudos e á companhia dos
-padres, que acabei ordenando-me. Mas, supponha
-que não acontecia assim, e que eu não mudava de
-vocação, o que é que acontecia? Tinha estudado no
-seminario algumas materias que é bom saber, e são
-sempre melhor ensinadas naquellas casas.</p>
-
-<p>Prima Justina interveiu:</p>
-
-<p>&mdash;Como? Então póde-se entrar para o seminario
-e não sair padre?</p>
-
-<p>Padre Cabral respondeu que sim, que se podia,
-e, voltando-se para mim, falou da minha vocação,
-que era manifesta; os meus brinquedos foram sempre
-de egreja, e eu adorava os officios divinos. A prova
-não provava; todas as creanças do meu tempo eram
-devotas. Cabral accrescentou que o reitor de S. José,
-a quem contara ultimamente a promessa de minha
-mãe, tinha o meu nascimento por milagre; elle era
-da mesma opinião. Capitú, cosida ás saias de minha
-mãe, não attendia aos olhos anciosos que eu lhe
-mandava; tambem não parecia escutar a conversação
-sobre o seminario e suas consequencias, e, aliás,
-decorou o principal, como vim a saber depois. Duas
-vezes fui á janella, esperando que ella fosse tambem,
-e ficassemos á vontade, sósinhos, até acabar o
-mundo, se acabasse, mas Capitú não me appareceu.
-Não deixou minha mãe, senão para ir embora.
-Eram ave-marias, despediu-se.</p>
-
-<p>&mdash;Vae com ella, Bentinho, disse minha mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Não precisa, não, D. Gloria, acudiu ella rindo,
-eu sei o caminho. Adeus, Sr. protonotario...</p>
-
-<p>&mdash;Adeus, Capitú.</p>
-
-<p>Tendo dado um passo no sentido de atravessar a
-sala, é claro que o meu dever, o meu gosto, todos
-os impulsos da edade e da occasião eram atravessal-a
-de todo, seguir a visinha corredor fóra, descer
-á chacara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo,
-e despedir-me. Não me importou a recusa, que
-cuidei simulada, e enfiei pelo corredor; mas, Capitú
-que ia depressa, estacou e fez-me signal que
-voltasse. Não obedeci; cheguei-me a ella.</p>
-
-<p>&mdash;Não venha, não; amanhã falaremos.</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu queria dizer a você...</p>
-
-<p>&mdash;Amanhã.</p>
-
-<p>&mdash;Escuta!</p>
-
-<p>&mdash;Fica!</p>
-
-<p>Falava baixinho; pegou-me na mão, e poz o dedo
-na bocca. Uma preta, que veiu de dentro accender
-o lampião do corredor, vendo-nos naquella attitude,
-quasi ás escuras, riu de sympathia e murmurou em
-tom que ouvissemos alguma cousa que não entendí
-bem nem mal. Capitú segredou-me que a escrava
-desconfiara, e ia talvez contar ás outras. Novamente
-me intimou que ficasse, e retirou-se; eu deixei-me
-estar parado, pregado, agarrado ao chão.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XL" id="XL">XL</a></h5>
-
-<h4>Uma egua.</h4>
-
-
-<p>Ficando só, reflecti algum tempo, e tive uma fantasia.
-Já conheceis as minhas fantasias. Contei-vos
-a da visita imperial; disse-vos a desta casa do
-Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavallos...
-A imaginação foi a companheira de toda a minha
-existencia, viva, rapida, inquieta, alguma vez timida
-e amiga de empacar, as mais dellas capaz de engolir
-campanhas e campanhas, correndo. Creio haver
-lido em Tacito que as eguas iberas concebiam pelo
-vento; se não foi nelle, foi n'outro autor antigo, que
-entendeu guardar essa crendice nos seus livros.
-Neste particular, a minha imaginação era uma
-grande egua ibera; a menor brisa lhe dava um
-potro, que saía logo cavallo de Alexandre; mas
-deixemos metaphoras atrevidas e improprias dos
-meus quinze annos. Digamos o caso simplesmente.
-A fantasia daquella hora foi confessar a minha mãe
-os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação
-ecclesiastica. A conversa sobre vocação tornava-me
-agora toda inteira, e, ao passo que me
-assustava, abria-me uma porta de saida. «Sim, é
-isto, pensei; vou dizer a mamãe que não tenho vocação
-e confesso o nosso namoro; se ella duvidar,
-conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o
-resto... »</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XLI" id="XLI">XLI</a></h5>
-
-<h4>A audiencia secreta.</h4>
-
-
-<p>O resto fez-me ficar mais algum tempo, no corredor,
-pensando. Vi entrar o doutor João da Costa,
-e preparou-se logo o voltarete do costume. Minha
-mãe saiu da sala, e, dando commigo, perguntou se
-acompanhara Capitú.</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhora, ella foi só.</p>
-
-<p>E quasi investindo para ella:</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe, eu queria dizer-lhe uma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Que é?</p>
-
-<p>Toda assustada, quiz saber o que é que me doia,
-se a cabeça, se o peito, se o estomago, e apalpava-me
-a testa para ver se tinha febre.</p>
-
-<p>&mdash;Não tenho nada, não, senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Mas então que é?</p>
-
-<p>&mdash;É uma cousa, mamãe... Mas, escute, olhe, é
-melhor depois do chá; logo... Não é nada mau;
-mamãe assusta-se por tudo; não é cousa de cuidado.</p>
-
-<p>&mdash;Não é molestia?</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhora.</p>
-
-<p>&mdash;É, isso é volta de constipação. Disfarças para
-não tomar suadouro, mas tu estás constipado; conhece-se
-pela voz.</p>
-
-<p>Tentei rir, para mostrar que não tinha nada. Nem
-por isso permittiu adiar a confidencia, pegou em
-mim, levou-me ao quarto della, accendeu vela, e
-ordenou-me que lhe dissesse tudo. Então eu perguntei-lhe,
-para principiar, quando é que ia para o
-seminario.</p>
-
-<p>&mdash;Agora só para o anno, depois das férias.</p>
-
-<p>&mdash;Vou... para ficar?</p>
-
-<p>&mdash;Como ficar?</p>
-
-<p>&mdash;Não volto para casa?</p>
-
-<p>&mdash;Voltas aos sabbados e pelas férias; é melhor.
-Quando te ordenares padre, vens morar commigo.</p>
-
-<p>Enxuguei os olhos e o nariz. Ella afagou-me,
-depois quiz reprehender-me, mas creio que a voz lhe
-tremia, e pareceu-me que tinha os olhos humidos.
-Disse-lhe que tambem sentia a nossa separação.
-Negou que fosse separação; era só alguma ausencia,
-por causa dos estudos; só os primeiros dias. Em
-pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros
-e aos mestres, e acabaria gostando de viver com
-elles.</p>
-
-<p>&mdash;Eu só gosto de mamãe.</p>
-
-<p>Não houve calculo nesta palavra, mas estimei
-dizel-a, por fazer crer que ella era a minha unica
-affeição; desviava as suspeitas de cima de Capitú.
-Quantas intenções viciosas ha assim que embarcam,
-a meio caminho, n'uma phrase innocente e pura!
-Chega a fazer suspeitar que a mentira é, muita vez,
-tão involuntaria como a transpiração. Por outro
-lado, leitor amigo, nota que eu queria desviar as
-suspeitas de cima de Capitú, quando havia chamado
-minha mãe justamente para confirmal-as; mas as
-contradicções são deste mundo. A verdade é que
-minha mãe era candida como a primeira aurora,
-anterior ao primeiro peccado; nem por simples intuição
-era capaz de deduzir uma cousa de outra, isto
-é, não concluiria da minha repentina opposição que
-eu andasse em segredinhos com Capitú, como lhe
-dissera José Dias. Calou-se durante alguns instantes;
-depois replicou-me sem imposição nem autoridade,
-o que me veiu animando á resistencia. Dahi o falar-lhe
-na vocação que se discutira naquella tarde, e
-que eu confessei não sentir em mim.</p>
-
-<p>&mdash;Mas tu gostavas tanto de ser padre, disse ella;
-não te lembras que até pedias para ir ver sair os
-seminaristas de S. José, com as suas batinas? Em
-casa, quando José Dias te chamava Reverendissimo,
-tu rias com tanto gosto! Como é que agora...? Não
-creio, não, Bentinho. E depois... Vocação? Mas a
-vocação vem com o costume, continuou repetindo
-as reflexões que ouvira ao meu professor de latim.</p>
-
-<p>Como eu buscasse contestal-a, reprehendeu-me
-sem aspereza, mas com alguma força, e eu tornei ao
-filho submisso que era. Depois, ainda falou gravemente
-e longamente sobre a promessa que fizera; não
-me disse as circumstancias, nem a occasião, nem os
-motivos della, cousas que só vim a saber mais tarde.
-Affirmou o principal, isto é, que a havia do cumprir,
-em pagamento a Deus.</p>
-
-<p>&mdash;Nosso Senhor me acudiu, salvando a tua existencia,
-não lhe hei de mentir nem faltar, Bentinho;
-são cousas que não se fazem sem peccado, e Deus
-que é grande e poderoso, não me deixaria assim,
-não, Bentinho; eu sei que seria castigada e bem
-castigada. Ser padre é bom e santo; você conhece
-muitos, como o padre Cabral, que vive tao feliz com
-a irmã; um tio meu tambem foi padre, e escapou de
-ser bispo, dizem... Deixa de manha, Bentinho.</p>
-
-<p>Creio que os olhos que lhe deitei foram tão
-queixosos, que ella emendou logo a palavra; manha,
-não, não podia ser manha, sabia muito bem que eu
-era amigo della, e não seria capaz de fingir um
-sentimento que não tivesse. Molleza é o que queria
-dizer, que me deixasse de molleza, que me fizesse
-homem e obedecesse ao que cumpria, em beneficio
-della e para bem da minha alma. Todas essas cousas
-e outras foram ditas um pouco atropelladamente, e
-a voz não lhe saia clara, mas velada e esganada.
-Vi que a emoção della era outra vez grande, mas
-não recuava dos seus propositos, e aventurei-me a
-perguntar-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse
-da promessa?</p>
-
-<p>&mdash;Não, não peço. Estás tonto, Bentinho? E como
-havia de saber que Deus me dispensava?</p>
-
-<p>&mdash;Talvez em sonho; eu sonho as vezes com
-anjos e santos.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem eu, num filho; mas é inútil... Vamos,
-é tarde; vamos para a sala. Está entendido: no primeiro
-ou no segundo mez do anno que vem, irás para
-o seminario. O que eu quero é que saibas bem os
-livros que estás estudando; é bonito, não só para
-ti, como para o padre Cabral. No seminario ha
-interesse em conhecer-te, porque o padre Cabral
-fala de ti com enthusiasmo.</p>
-
-<p>Caminhou para a porta, saimos ambos. Antes de
-sair, voltou-se para mim, e quasi a vi saltar-me ao
-collo e dizer-me que não seria padre. Este era já o
-seu desejo intimo, á proporção que se approximava
-o tempo. Quizera um modo de pagar a divida contrahida,
-outra moeda, que valesse tanto ou mais, e
-não achava nenhuma.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XLII" id="XLII">XLII</a></h5>
-
-<h4>Capitú reflectindo.</h4>
-
-
-<p>No dia seguinte fui á casa visinha, logo que
-pude. Capitú despedia-se de tres amigas que tinham
-ido visital-a, Paula e Sandia, companheiras de collegio,
-aquella de quinze, esta de desessete annos, a
-primeira filha de um medico, a segunda de um
-commerciante de objectos americanos. Estava abatida,
-trazia um lenço atado na cabeça; a mãe contou-me
-que fora excesso de leitura na vespera, antes
-e depois do chá, na sala e na cama, até muito depois
-da meia noite, e com lamparina...</p>
-
-<p>&mdash;Se eu accendesse vela, mamãe zangava-se.
-Já estou boa.</p>
-
-<p>E como desatasse o lenço, a mãe disse-lhe timidamente
-que era melhor atal-o, mas Capitú respondeu
-que não era preciso, estava boa.</p>
-
-<p>Ficámos sós na sala; Capitú continuou a narração
-da mãe, accrescentando que passara mal por
-causa do que ouvira em minha casa. Tambem eu
-lhe contei o que se déra commigo, a entrevista com
-minha mãe, as minhas supplicas, as lagrimas della,
-e por fim as ultimas respostas decisivas: dentro de
-dous ou tres mezes iria para o seminario. Que fariamos
-agora? Capitú ouvia-me com attenção sofrega,
-depois sombria; quando acabei, respirava a
-custo, como prestes a estalar de colera, mas conteve-se.</p>
-
-<p>Ha tanto tempo que isto succedeu que não posso
-dizer com segurança se chorou devéras, ou se sómente
-enxugou os olhos; cuido que os enxugou sómente.
-Vendo-lhe o gesto, peguei-lhe na mão para
-animal-a, mas tambem eu precisava ser animado.
-Caimos no canapé, e ficámos a olhar para o ar.
-Minto; ella olhava para o chão. Fiz o mesmo, logo
-que a vi assim... Mas eu creio que Capitú olhava
-para dentro de si mesma, emquanto que eu fitava
-devéras o chão, o roido das fendas, duas moscas
-andando e um pé de cadeira lascado. Era pouco,
-mas distraía-me da afflicção. Quando tornei a olhar
-para Capitú, vi que não se mexia, e fiquei com tal
-medo que a sacudi brandamente. Capitú tornou cá
-para fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que
-se passára com minha mãe. Satisfil-a, attenuando
-o texto desta vez, para não amofinal-a. Não me
-chames dissimulado, chama-me compassivo; é certo
-que receiava perder Capitú, se lhe morressem as
-esperanças todas, mas doia-me vel-a padecer. Agora,
-a verdade ultima, a verdade das verdades, é que já
-me arrependia de haver falado a minha mãe, antes
-de qualquer trabalho effectivo por parte de José
-Dias; examinando bem, não quizera ter ouvido um
-desengano que eu reputava certo, ainda que demorado.
-Capitú reflectia, reflectia, reflectia...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XLIII" id="XLIII">XLIII</a></h5>
-
-<h4>Você tem medo?</h4>
-
-
-<p>De repente, cessando a reflexão, fitou em mim
-os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo.</p>
-
-<p>&mdash;Medo?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, pergunto se você tem medo.</p>
-
-<p>&mdash;Medo de que?</p>
-
-<p>&mdash;Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, do
-andar, de trabalhar...</p>
-
-<p>Não entendi. Se ella me tem dito simplesmente:
-«Vamos embora!» póde ser que eu obedecesse
-ou não; em todo caso, entenderia. Mas aquella
-pergunta assim, vaga e solta, não pude atinar o
-que era.</p>
-
-<p>&mdash;Mas... não entendo. De apanhar?</p>
-
-<p>&mdash;Sim.</p>
-
-<p>&mdash;Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada?</p>
-
-<p>Capitú fez um gesto de impaciencia. Os olhos de
-ressaca não se mexiam e pareciam crescer. Sem
-saber de mim, e, não querendo interrogal-a novamente,
-entrei a cogitar d'onde me viriam pancadas,
-e porque, e tambem porque é que seria preso, e
-quem é que me havia de prender. Valha-me Deus!
-vi de imaginação o aljube, uma casa escura e infecta.
-Tambem vi a presiganga, o quartel dos Barbonos
-e a Casa de Correcção. Todas essas bellas
-instituições sociaes me envolviam no seu mysterio,
-sem que os olhos de ressaca de Capitú deixassem
-de crescer para mim, a tal ponto que as fizeram
-esquecer de todo. O erro de Capitú foi não deixal-os
-crescer infinitamente, antes diminuir até ás dimensões
-normaes, e dar-lhes o movimento do costume.
-Capitú tornou ao que era, disse-me que estava
-brincando, não precisava affligir-me, e, com
-um gesto cheio de graça, bateu-me na casa sorrindo,
-e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Medroso!</p>
-
-<p>&mdash;Eu? Mas...</p>
-
-<p>&mdash;Não é nada, Bentinho. Pois quem é que ha de
-dar pancada ou prender você? Desculpe que eu hoje
-estou meia maluca; quero brincar, e...</p>
-
-<p>&mdash;Não, Capitú; você não está brincando; nesta
-occasião, nenhum de nós tom vontade de brincar.</p>
-
-<p>&mdash;Tem razão, foi só maluquice; até logo.</p>
-
-<p>&mdash;Como até logo?</p>
-
-<p>&mdash;Está-me voltando a dôr do cabeça; vou botar
-uma rodella de limão nas fontes.</p>
-
-<p>Fez o que disse, e atou o lenço outra vez na testa.
-Em seguida, acompanhou-me ao quintal para se despedir
-de mim; mas, ainda ahi nos detivemos por
-alguns minutos, sentados sobre a borda do poço.
-Ventava, o ceu estava coberto. Capitú falou novamente
-da nossa separação, como de um facto certo
-e definitivo, por mais que eu, receioso disso mesmo,
-buscasse agora razões para animal-a. Capitú,
-quando não falava, riscava no chão, com um pedaço
-de taquara, narizes e perfis. Desde que se mettera
-a desenhar, era uma das suas diversões; tudo lhe
-servia de papel e lapis. Como me lembrassem os
-nossos nomes abertos por ella no muro, quiz fazer
-o mesmo no chão, e pedi-lhe a taquara. Não me
-ouviu ou não me attendeu.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XLIV" id="XLIV">XLIV</a></h5>
-
-<h4>O primeiro filho.</h4>
-
-
-<p>&mdash;Dê cá, deixe escrever uma cousa.</p>
-
-<p>Capitú olhou para mim, mas de um modo que
-me fez lembrar a definição de José Dias, obliquo e
-dissimulado; levantou o olhar, sem levantar os
-olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:</p>
-
-<p>&mdash;Diga-me uma cousa, mas fale verdade, não
-quero disfarce; ha de responder com o coração na
-mão.</p>
-
-<p>&mdash;Que é? Diga.</p>
-
-<p>&mdash;Se você tivesse de escolher entre mim e sua
-mãe, a quem é que escolhia?</p>
-
-<p>&mdash;Eu?</p>
-
-<p>Fez-me signal que sim.</p>
-
-<p>&mdash;Eu escolhia... mas para que escolher? Mamãe
-não é capaz de me perguntar isso.</p>
-
-<p>&mdash;Pois, sim, mas eu pergunto. Supponha você
-que está no seminario e recebe a noticia de que eu
-vou morrer...</p>
-
-<p>&mdash;Não diga isso!</p>
-
-<p>&mdash;... Ou que me mato de saudades, se você não
-vier logo, e sua mãe não quizer que você venha,
-diga-me, você vem?</p>
-
-<p>&mdash;Venho.</p>
-
-<p>&mdash;Contra a ordem de sua mãe?</p>
-
-<p>&mdash;Contra a ordem de mamãe.</p>
-
-<p>&mdash;Você deixa seminario, deixa sua mãe, deixa
-tudo, para me ver morrer?</p>
-
-<p>&mdash;Não fale em morrer, Capitú!</p>
-
-<p>Capitú teve um risinho descorado e incredulo,
-e com a taquara escreveu uma palavra no chão; inclinei-me
-e li: <i>mentiroso.</i></p>
-
-<p>Era tão extranho tudo aquillo, que não achei resposta.
-Não atinava com a razão do escripto, como
-não atinava com a do falado. Se me acudisse alli
-uma injuria grande ou pequena, é possivel que a
-escrevesse tambem, com a mesma taquara, mas não
-me lembrava nada. Tinha a cabeça vazia. Ao
-mesmo tempo tomei-me de receio de que alguem
-nos pudesse ouvir ou ler. Quem, se eramos sós?
-D. Fortunata chegara uma vez á porta da casa,
-mas entrou logo depois. A solidão era completa.
-Lembra-me que umas andorinhas passaram por
-cima do quintal e foram para os lados do morro
-de Santa Theresa; ninguem mais. Ao longe, vozes
-vagas e confusas, na rua um tropel de bestas,
-do lado da casa o chilrear dos passarinhos do
-Padua. Nada mais, ou sómente este phenomeno
-curioso, que o nome escripto por ella, não só me
-espiava do chão com gesto escarninho, mas até
-me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma
-ideia ruim; disse-lhe que, afinal de contas, a vida
-de padre não era má, e eu podia acceital-a sem
-grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu
-sentia a secreta esperança de vel-a atirar-se a mim
-lavada em lagrimas. Capitú limitou-se a arregalar
-muito os olhos, e acabou por dizer:</p>
-
-<p>&mdash;Padre é bom, não ha duvida; melhor que
-padre só conego, por causa das meias roxas. O
-roxo é côr muito bonita. Pensando bem, é melhor
-conego.</p>
-
-<p>&mdash;Mas não se póde ser conego sem ser primeiramente
-padre, disse-lhe eu mordendo os beiços.</p>
-
-<p>&mdash;Bem; comece pelas meias pretas, depois virão
-as roxas. O que eu não quero perder é a sua
-missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido
-á moda, saia balão e babados grandes... Mas
-talvez nesse tempo a moda seja outra. A egreja
-ha de ser grande, Carmo ou S. Francisco.</p>
-
-<p>&mdash;Ou Candelaria.</p>
-
-<p>&mdash;Candelaria tambem. Qualquer sorve, comtanto
-que eu ouça a missa nova. Hei de fazer um
-figurão. Muita gente ha de perguntar: «Quem é
-aquella moça faceira que alli está com um vestido
-tão bonito?»--«Aquella é D. Capitolina, uma
-moça que morou na rua de Matacavallos...»</p>
-
-<p>&mdash;Que morou? Você vae mudar-se?</p>
-
-<p>&mdash;Quem sabe onde é que ha do morar amanhã?
-disse ella com um tom leve de melancolia; mas tornando
-logo ao sarcasmo: E você no altar, mettido
-na alva, com a capa de ouro por cima, cantando...
-<i>Pater noster...</i></p>
-
-<p>Ah! como eu sinto não ser um poeta romantico
-para dizer que isto era um duello de ironias! Contaria
-os meus botes e os della, a graça de um e a
-promptidão de outro, e o sangue correndo, e o furor
-na alma, até ao meu golpe final que foi este:</p>
-
-<p>&mdash;Pois, sim, Capitú, você ouvirá a minha missa
-nova, mas com uma condição.</p>
-
-<p>Ao que ella respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;Vossa Reverendíssima póde falar.</p>
-
-<p>&mdash;Promette uma cousa?</p>
-
-<p>&mdash;Que é?</p>
-
-<p>&mdash;Diga se promette.</p>
-
-<p>&mdash;Não sabendo o que é, não prometto.</p>
-
-<p>&mdash;A falar verdade são duas cousas, continuei
-eu, por haver-me acudido outra ideia.</p>
-
-<p>&mdash;Duas? Diga quaes são.</p>
-
-<p>&mdash;A primeira é que só se ha de confessar commigo,
-para eu lhe dar a penitencia e a absolvição.
-A segunda é que...</p>
-
-<p>&mdash;A primeira está promettida, disse ella vendo-me
-hesitar, e accrescentou que esperava a segunda.</p>
-
-<p>Palavra que me custou, e antes não me chegasse
-a sair da boca; não ouviria o que ouvi, o não escreveria
-aqui uma cousa que vae talvez achar incredulos.</p>
-
-<p>&mdash;A segunda... sim... é que... Promette-me
-que seja eu o padre que case você?</p>
-
-<p>Que me case? disso ella um tanto commovida.</p>
-
-<p>Logo depois fez descair os labios, e abanou a
-cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Não, Bentinho, disse, seria esperar muito
-tempo; você não vae ser padre já amanhã, leva
-muitos annos... Olhe, prometto outra cousa; prometto
-que ha de baptisar o meu primeiro filho.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XLV" id="XLV">XLV</a></h5>
-
-<h4>Abane a cabeça, leitor.</h4>
-
-
-<p>Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de
-incredulidade. Chegue a deitar fóra este livro, se o
-tédio já o não obrigou a isso antes; tudo é possivel.
-Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a
-pegar do livro e que o abra na mesma pagina, sem
-crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não
-ha nada mais exacto. Foi assim mesmo que Capitú
-falou, com taes palavras e maneiras. Falou do primeiro
-filho, como se fosse a primeira boneca.</p>
-
-<p>Quanto ao meu espanto, se tambem foi grande,
-veiu de mistura com uma sensação exquisita. Percorreu-me
-um fluido. Aquella ameaça de um primeiro
-filho, o primeiro filho de Capitú, o casamento
-della com outro, portanto, a separação absoluta, a
-perda, a anniquilação, tudo isso produzia um tal
-effeito, que não achei palavra nem gesto; fiquei estupido.
-Capitú sorria; eu via o primeiro filho brincando
-no chão...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XLVI" id="XLVI">XLVI</a></h5>
-
-<h4>As pazes.</h4>
-
-
-<p>As pazes fizeram-se como a guerra, depressa.
-Buscasse eu neste livro a minha gloria, e diria que
-as negociações partiram de mim; mas não, foi ella
-que as iniciou. Alguns instantes depois, como eu
-estivesse cabisbaixo, ella abaixou tambem a cabeça,
-mas voltando os olhos para cima afim de ver
-os meus. Fiz-me de rogado; depois quiz levantar-me
-para ir embora, mas nem me levantei, nem
-sei se iria. Capitú fitou-me uns olhos tao ternos, e a
-posição os fazia tão supplices, que me deixei ficar,
-passei-lhe o braço pela cintura, ella pegou-me na
-ponta dos dedos, e...</p>
-
-<p>Outra vez D. Fortunata appareceu á porta da
-casa; não sei para quê, se nem me deixou tempo
-de puxar o braço; desappareceu logo. Podia ser um
-simples descargo de consciencia, uma cerimonia,
-como as rezas de obrigação, sem devoção, que se
-dizem de tropel; a não ser que fosse para certificar
-aos proprios olhos a realidade que o coração lhe
-dizia...</p>
-
-<p>Fosse o que fosse, o meu braço continuou a apertar
-a cintura da filha, e foi assim que nos pacificámos.
-O bonito é que cada um de nós queria agora as
-culpas para si, e pediamos reciprocamente perdão.
-Capitú allegava a insomnia, a dôr de cabeça, o abatimento
-do espirito, e finalmente «os seus calundús.»
-Eu, que era muito chorão por esse tempo,
-sentia os olhos molhados... Era amor puro, era
-effeito dos padecimentos da amiguinha, era a ternura
-da reconciliação.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XLVII" id="XLVII">XLVII</a></h5>
-
-<h4>«A senhora saiu.»</h4>
-
-
-<p>&mdash;Está bom, acabou, disso eu finalmente; mas,
-explique-me só uma cousa, porque é que você me
-perguntou se eu tinha medo de apanhar?</p>
-
-<p>&mdash;Não foi por nada, respondeu Capitú, depois de
-alguma hesitação... Para que bolir nisso?</p>
-
-<p>&mdash;Diga sempre. Foi por causa do seminario?</p>
-
-<p>&mdash;Foi; ouvi dizer que lá dão pancada... Não?
-Eu tambem não creio.</p>
-
-<p>A explicação agradou-me; não tinha outra. Se,
-como penso, Capitú não disse a verdade, força é
-reconhecer que não podia dizel-a, e a mentira é
-dessas creadas que se dão pressa em responder ás
-visitas que «a senhora saiu», quando a senhora
-não quer falar a ninguem. Ha nessa cumplicidade
-um gosto particular; o peccado em commum eguala
-por instantes a condição das pessoas, não contando
-o prazer que dá a cara das visitas enganadas, e as
-costas com que ellas descem... A verdade não saiu,
-ficou em casa, no coração de Capitú, cochilando o
-seu arrependimento. E eu não desci triste nem
-zangado; achei a creada galante, appetecivel, melhor
-que a ama.</p>
-
-<p>As andorinhas vinham agora em sentido contrario,
-ou não seriam as mesmas. Nós é que eramos os
-mesmos; alli ficámos sommando as nossas illusões,
-os nossos temores, começando já a sommar as
-nossas saudades.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XLVIII" id="XLVIII">XLVIII</a></h5>
-
-<h4>Juramento do poço.</h4>
-
-
-<p>&mdash;Não! exclamei de repente.</p>
-
-<p>&mdash;Não quê?</p>
-
-<p>Tinha havido alguns minutos de silencio, durante
-os quaes reflecti muito e acabei por uma
-ideia; o tom da exclamação, porém, foi tão alto
-que espantou a minha visinha.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha de ser assim, continuei. Dizem que
-não estamos em edade de casar, que somos creanças,
-creançolas,&mdash;já ouvi dizer creançolas. Bem;
-mas dous ou tres annos passam depressa. Você jura
-uma cousa? Jura que só ha de casar commigo?</p>
-
-<p>Capitú não hesitou em jurar, e até lhe vi as
-faces vermelhas de prazer. Jurou duas vezes e uma
-terceira:</p>
-
-<p>&mdash;Ainda que você case com outra, cumprirei o
-meu juramento, não casando nunca.</p>
-
-<p>&mdash;Que eu case com outra?</p>
-
-<p>&mdash;Tudo póde ser, Bentinho. Você póde achar
-outra moça que lhe queira, apaixonar-se por ella e
-casar. Quem sou eu para você lembrar-se de mim
-nessa occasião?</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu tambem juro! Juro, Capitú, juro por
-Deus Nosso Senhor que só me casarei com você.
-Basta isto?</p>
-
-<p>&mdash;Devia bastar, disse ella; eu não me atrevo a
-pedir mais. Sim, você jura... Mas juremos por outro
-modo; juremos que nos havemos de casar um com
-outro, haja o que houver.</p>
-
-<p>Comprehendeis a differença; era mais que a eleição
-do conjuge, era a affirmação do matrimonio. A
-cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa.
-Realmente, a formula anterior era limitada,
-apenas exclusiva. Podiamos acabar solteirões,
-como o sol e a lua, sem mentir ao juramento do
-poço. Esta formula era melhor, e tinha a vantagem
-de me fortalecer o coração contra a investidura
-ecclesiastica. Jurámos pela segunda formula, e ficámos
-tão felizes que todo receio de perigo desappareceu.
-Eramos religiosos, tínhamos o ceu por testemunha.
-Eu nem já temia o seminario.</p>
-
-<p>&mdash;Se teimarem muito, irei; mas faço de conta
-que é um collegio qualquer; não tomo ordens.</p>
-
-<p>Capitú temia a nossa separação, mas acabou
-acceitando este alvitre, que era o melhor. Não affligiamos
-minha mãe, e o tempo correria até o ponto
-em que o casamento pudesse fazer-se. Ao contrario,
-qualquer resistencia ao seminario confirmaria a
-denuncia de José Dias. Esta reflexão não foi minha,
-mas della.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XLIX" id="XLIX">XLIX</a></h5>
-
-<h4>Uma vela aos sabbados.</h4>
-
-
-<p>Eis aqui como, após tantas canceiras, tocavamos
-o porto a que nos deviamos ter abrigado logo. Não
-nos censures, piloto de má sorte, não se navegam
-corações como os outros mares deste mundo. Estavamos
-contentes, entramos a falar do futuro. Eu
-promettia a minha esposa uma vida socegada e
-bella, na roça ou fóra da cidade. Viriamos aqui
-uma vez por anno. Se fosse em arrabalde, seria
-longe, onde ninguem nos fosse aborrecer. A casa,
-na minha opinião, não devia ser grande nem pequena,
-um meio termo; plantei-lhe flôres, escolhi
-moveis, uma sege e um oratorio. Sim, haviamos de
-ter um oratorio bonito, alto, de jacarandá, com a
-imagem de Nossa Senhora da Conceição. Demorei-me
-mais nisto que no resto, em parte porque eramos
-religiosos, em parte para compensar a batina
-que eu ia deitar as ortigas: mas ainda restava uma
-parte que attribuo ao intuito secreto e inconsciente
-de captara protecção do ceu. Haviamos de accender
-uma vela aos sabbabos...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="L" id="L">L</a></h5>
-
-<h4>Um meio termo.</h4>
-
-
-<p>Mezes depois fui para o seminario de S. José.
-Se eu pudesse contar as lagrimas que chorei na
-vespera e na manhã, sommaria mais que todas as
-vertidas desde Adão e Eva. Ha nisto alguma exageração;
-mas é bom ser emphatico, uma ou outra
-vez, para compensar este escrupulo de exactidão
-que me afflige. Entretanto, se eu me ativer só á
-lembrança da sensação, não fico longe da verdade;
-aos quinze annos, tudo é infinito. Realmente, por
-mais preparado que estivesse, padeci muito. Minha
-mãe tambem padeceu, mas soffria com alma e
-coração; demais, o padre Cabral achára um meio
-termo, experimentar-me a vocação; se no fim de
-dous annos, eu não revelasse vocação ecclesiastica,
-seguiria outra carreira.</p>
-
-<p>&mdash;As promessas devem ser cumpridas conforme
-Deus quer. Supponha que Nosso Senhor nega disposição
-a seu filho, e que o costume do seminario
-não lhe dá o gosto que me concedeu a mim, é que
-a vontade divina é outra. A senhora não podia pôr
-em seu filho, antes de nascido, uma vocação que
-Nosso Senhor lhe recusou...</p>
-
-<p>Era uma concessão do padre. Dava a minha mãe
-um perdão antecipado, fazendo vir do credor a relevação
-da divida. Os olhos della brilharam, mas a
-bocca disse que não. José Dias, não tendo alcançado
-ir commigo para a Europa, agarrou-se ao mais
-proximo, e apoiou o «alvitre do Sr. protonotario»;
-só lhe parecia que um anno era bastante.</p>
-
-<p>&mdash;Estou certo, disse elle, piscando-me o olho,
-que dentro de um anno a vocação ecclesiastica do
-nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. Ha de
-dar um padre de mão cheia. Tambem se não vier
-em um anno...</p>
-
-<p>E a mim, mais tarde, em particular:</p>
-
-<p>&mdash;Vá por um anno; um anno passa depressa.
-Se não sentir gosto nenhum, é que Deus não quer,
-como diz o padre, e nesse caso, meu amiguinho, o
-melhor remedio é a Europa.</p>
-
-<p>Capitú deu-me egual conselho, quando minha
-mãe lhe annunciou a minha ida definitiva para o
-seminario:</p>
-
-<p>&mdash;Minha filha, você vae perder o seu companheiro
-de creança...</p>
-
-<p>Fez-lhe tão bem este tratamento de <i>filha</i> (era a
-primeira vez que minha mãe lh'o dava), que nem
-teve tempo de ficar triste; beijou-lhe a mão, e
-disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. Em
-particular animou-me a supportar tudo com paciencia;
-no fim de um anno as cousas estariam mudadas,
-e um anno andava depressa. Não foi ainda a
-nossa despedida; esta fez-se na vespera, por um
-modo que pede capitulo especial. O que unicamente
-digo aqui é que, ao passo que nos prendiamos um
-ao outro, ella ia prendendo minha mãe, fez-se mais
-assidua e terna, vivia ao pé della, com os olhos
-nella. Minha mãe era de natural sympathico, e
-egualmente sensivel; tanto se doía como se aprazia
-de qualquer cousa. Entrou a achar em Capitú uma
-porção de graças novas, de dotes finos e raros;
-deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias.
-Não consentiu em photographar-se, como a pequena
-lhe pedia, para lhe dar um retrato; mas tinha uma
-miniatura, feita aos vinte e cinco annos, e, depois
-de algumas hesitações, resolveu dar-lh'a. Os olhos
-de Capitú, quando recebeu o mimo, não se descrevem;
-não eram obliquos, nem de ressaca, eram
-direitos, claros, lucidos. Beijou o retrato com paixão,
-minha mãe fez-lhe a mesma cousa a ella. Tudo isto
-me lembra a nossa despedida.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LI" id="LI">LI</a></h5>
-
-<h4>Entre luz e fusco.</h4>
-
-
-<p>Entre luz e fusco, tudo ha de ser breve como esse
-instante. Nem durou muito a nossa despedida, foi
-o mais que pôde, em casa della, na sala de visitas,
-antes do accender das velas; ahi é que nos despedimos
-de uma vez. Jurámos novamente que
-haviamos de casar um com outro, e não foi só o
-aperto de mão que sellou o contracto, como no
-quintal, foi a conjuncção das nossas boccas amorosas...
-Talvez risque isto na impressão, se até lá não
-pensar de outra maneira; se pensar, fica. E desde
-já fica, porque, em verdade, é a nossa defesa. O
-que o mandamento divino quer é que não juremos
-<i>em vão</i> pelo santo nome de Deus. Eu não ia mentir
-ao seminario, uma vez que levava um contracto
-feito no proprio cartorio do ceu. Quanto ao sello,
-Deus, como fez os mãos limpas, assim fez os labios
-limpos, e a malicia está antes na tua cabeça perversa
-que na daquelle casal de adolescentes... Oh!
-minha doce companheira da meninice, eu era puro,
-e puro fiquei, e puro entrei na aula de S. José, a
-buscar de apparencia a investidura sacerdotal, e
-antes della a vocação. Mas a vocação eras tu, a
-investidura eras tu.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LII" id="LII">LII</a></h5>
-
-<h4>O velho Padua.</h4>
-
-
-<p>Ja agora conto tambem os adeuses do velho Padua.
-Logo cedo veiu á nossa casa. Minha mãe
-disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.</p>
-
-<p>&mdash;Dá licença? perguntou mettendo a cabeça
-pela porta.</p>
-
-<p>Fui apertar-lhe a mão; elle abraçou-me com ternura.</p>
-
-<p>&mdash;Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha
-gente creia que ficam muitas saudades. Todos nós
-estimamos muito o senhor, como merece. Se lhe
-disserem outra cousa, não acredite. São intrigas.
-Tambem eu, quando me casei, fui victima de intrigas;
-desfizeram-se. Deus é grande e descobre a
-verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio,&mdash;cousa
-que eu, por esta luz que me allumia, não
-desejo, porque são boas pessoas, excedentes pessoas,
-e eu sou grato ás finezas recebidas... Não, eu
-não sou como outros, certos parasitas, vindos de
-fóra para desunião das familias, aduladores baixos,
-não; eu sou de outra especie; não vivo papando os
-jantares nem morando em casa alheia... Emfim,
-são os mais felizes!</p>
-
-<p>&mdash;Porque falará assim? pensei. Naturalmente
-sabe que José Dias diz mal delle.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, como ia dizendo, se algum dia perder
-os seus parentes, póde contar com a nossa companhia.
-Não é sufficiente em importancia, mas a
-affeição é immensa, creia. Padre que seja, a nossa
-casa está ás suas ordens. Quero só que me não esqueça;
-não esqueça o velho Padua...</p>
-
-<p>Suspirou e continuou:</p>
-
-<p>&mdash;Não esqueça o seu velho Padua, e, se tem
-algum trapinho que me deixe em lembrança, um
-caderno latino, qualquer cousa, um botão de collete,
-cousa que já lhe não preste para nada. O valer é a
-lembrança.</p>
-
-<p>Tive um sobresalto. Havia embrulhado em um
-papel um cacho dos meus cabellos, tão grandes e
-tão bonitos, cortados na vespera. A intenção era
-leval-os a Capitú, ao sair; mas tive ideia de dal-o
-ao pae, a filha saberia lomal-o e guardal-o. Peguei
-do embrulho e dei-lh'o.</p>
-
-<p>&mdash;Aqui está, guarde.</p>
-
-<p>&mdash;Um cachinho dos seus cabellos! exclamou
-Padua abrindo e fechando o embrulho. Oh! obrigado!
-obrigado por mim e pela minha gente! Vou
-dai-o á velha, para guardal-o, ou á pequena, que é
-mais cuidadosa que a mãe. Que lindos que são!
-Como é que se corta uma belleza destas? Dê cá um
-abraço! outro! mais outro! adeus!</p>
-
-<p>Tinha os olhos humidos devéras; levava a cara
-dos desenganados, como quem empregou em um só
-bilhete todas as suas economias de esperanças, e vê
-sair branco o maldito numero,&mdash;um numero tão
-bonito!</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LIII" id="LIII">LIII</a></h5>
-
-<h4>A caminho!</h4>
-
-
-<p>Fui para o seminario. Poupa-me as outras despedidas.
-Minha mãe apertava-me ao peito. Prima
-Justina suspirava. Talvez chorasse mal ou nada.
-Ha pessoas a quem as lagrimas não acodem logo
-nem nunca; diz-se que padecem mais que as outras.
-Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos
-intimos, emendando os descuidos de
-minha mãe, fazendo-me recommendações, dando
-ordens. Tio Cosme, quando eu lhe beijei a mão em
-despedida, disse-me rindo:</p>
-
-<p>&mdash;Anda lá, rapaz, volta-me papa!</p>
-
-<p>José Dias, composto e grave, não dizia nada a
-principio; tinhamos falado na vespera, no quarto
-delle, onde fui ver se era ainda possivel evitar o
-seminario. Já não era, mas deu-me esperanças e
-principalmente animou-me muito. Antes de um
-anno estariamos a bordo. Como eu achasse muito
-breve, explicou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Dizem que não é bom tempo de atravessar o
-Atlantico, vou indagar; se não fôr, iremos em Março
-ou Abril.</p>
-
-<p>&mdash;Posso estudar medicina aqui mesmo.</p>
-
-<p>José Dias correu os dedos pelos suspensorios com
-um gesto de impaciencia, apertou os beiços, até que
-formalmente rejeitou o alvitre.</p>
-
-<p>&mdash;Não duvidaria approvar a ideia, disse elle, se
-na Escola de Medicina não ensinassem, exclusivamente,
-a podridão allopatha. A allopathia é o erro
-dos seculos, e vae morrer; é o assassinato, é a
-mentira, é a illusão. Se lhe disserem que póde
-apprender na Escola de Medicina aquella parte da
-sciencia commum a todos os systemas, é verdade;
-a allopathia é erro na therapeutica. Physiologia,
-anatomia, pathologia, não são allopathicas nem
-homeopathicas, mas é melhor apprender logo tudo
-de uma vez, por livros e por lingua de homens cultores
-da verdade...</p>
-
-<p>Assim falára na vespera e no quarto. Agora não
-dizia nada, ou proferia algum aphorismo sobre a
-religião e a familia; lembro-me deste: «Dividil-o
-com Deus é ainda possuil-o.» Quando minha mãe
-me deu o ultimo beijo: «Quadro amantissimo!»
-suspirou elle. Era manhã de um lindo dia. Os moleques
-cochichavam; as escravas tomavam a benção:
-«Benção, nhõ Bentinho! não se esqueça de sua
-Joanna! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!»
-Na rua José Dias insistiu nas esperanças:</p>
-
-<p>&mdash;Aguente um anno; até lá tudo estará arranjado.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LIV" id="LIV">LIV</a></h5>
-
-<h4>Panegyrico de Santa Monica.</h4>
-
-
-<p>No seminario... Ah! não vou contar o seminario,
-nem me bastaria a isso um capitulo. Não, senhor
-meu amigo; algum dia, sim, é possivel que componha
-um abreviado do que alli vi e vivi, das
-pessoas que tratei, dos costumes, de todo o resto.
-Esta sarna de escrever, quando pega aos cincoenta
-annos, não despega mais. Na mocidade é
-possivel curar-se um homem della; e, sem ir mais
-longe, aqui mesmo no seminario tive um companheiro
-que compoz versos, a maneira dos de Junqueira
-Freire, cujo livro de frade poeta era recente.
-Ordenou-se: annos depois encontrei-o no còro de
-S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos
-novos.</p>
-
-<p>&mdash;Que versos? perguntou meio espantado.</p>
-
-<p>&mdash;Os seus. Pois não se lembra que no seminario...</p>
-
-<p>&mdash;Ah! sorriu elle.</p>
-
-<p>Sorriu, e continuando a procurar n'um livro
-aberto a hora em que tinha do cantar no dia
-seguinte, confessou-me que não fizera mais versos
-depois de ordenado. Foram cocegas da mocidade;
-coçou-se, passou, estava bom. E falou-me em prosa
-de uma infinidade de cousas do dia, a vida cara,
-um sermão do padre X... uma vigairaria mineira...</p>
-
-<p>Contrario a isso foi um seminarista que não
-seguiu a carreira. Chamava-se... Não é preciso
-dizer o nome; baste o caso. Tinha composto um
-<i>Panegyrico de Santa Monica</i>, elogiado por algumas
-pessoas e então lido entre os seminaristas.
-Alcançou licença de imprimil-o, o dedicou-o a
-Santo Agostinho. Tudo isso é historia velha; o
-que é mais moço é que um dia, em 1882,
-indo ver certo negocio em repartição de marinha,
-alli dei com este meu collega, feito chefe de uma
-secção administrativa. Deixára seminario, deixára
-lettras, casára e esquecera tudo, menos o <i>Panegyrico
-de Santa Monica</i>, umas vinte e nove paginas,
-que veiu distribuindo pela vida fóra. Como eu precisasse
-de algumas informações, fui pedir-lh'as, e
-seria impossivel achar melhor nem mais prompta
-vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso. Naturalmente
-conversamos do passado, memorias pessoaes,
-casos de estudo, incidentes de nada, um livro,
-um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá
-fóra, e rimos juntos, e suspiramos de companhia.
-Vivemos algum tempo do nosso velho seminario. Ou
-porque eram delle, ou porque eramos então moços,
-as recordações traziam tal poder de felicidade que,
-se alguma sombra contraria houve então, não appareceu
-agora. Elle confessou-me que perdera de
-vista todos os companheiros do seminario.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem eu, quasi todos; uma vez ordenados,
-voltaram naturalmente ás suas provincias, e os
-daqui tomaram vigairarias fóra.</p>
-
-<p>&mdash;Bom tempo! suspirou elle.</p>
-
-<p>E, após alguma reflexão, fitando em mim uns
-olhos murchos e teimosos, perguntou-me:</p>
-
-<p>&mdash;Conservou o meu <i>Panegyrico?</i></p>
-
-<p>Não achei que dizer; tentei mover os beiços, mas
-não tinha palavra; afinal, perguntei:</p>
-
-<p>&mdash;Panegyrico? Que panegyrico?</p>
-
-<p>&mdash;O meu <i>Panegyrico de Santa Monica.</i></p>
-
-<p>Não me lembrou logo, mas a explicação devia
-bastar; e depois de alguns instantes de pesquiza
-mental, respondi que por muito tempo o conservára,
-mas as mudanças, as viagens...</p>
-
-<p>&mdash;Hei de levar-lhe um exemplar.</p>
-
-<p>Antes de vinte e quatro horas estava em minha
-casa, com o folheto, um velho folheto de vinte e seis
-annos, encardido, manchado do tempo, mas sem
-lacuna, e com uma dedicatoria manuscripta e respeitosa.</p>
-
-<p>&mdash;E o penultimo exemplar, disse-me; agora só
-me resta um, que não posso dar a ninguem.</p>
-
-<p>E como me visse folhear o opusculo:</p>
-
-<p>&mdash;Veja se lhe lembra algum pedaço, disse-me.</p>
-
-<p>Vinte e seis annos de intervallo fazem morrer
-amizades mais estreitas e assiduas, mas era cortezia,
-era quasi caridade recordar alguma lauda; li
-uma dellas, accentuando certas phrases para lhe
-dar a impressão de que achavam echo em minha
-memoria. Concordou que fossem bellas, mas preferia
-outras, e apontou-as.</p>
-
-<p>&mdash;Recorda-se bem?</p>
-
-<p>&mdash;Perfeitamente. <i>Panegyrico de Santa Monica!</i>
-Como isto me faz remontar os annos da minha
-mocidade! Nunca me esqueceu o seminario, creia.
-Os annos passam, os acontecimentos vêm uns sobre
-outros, e as sensações tambem, e vieram amizades
-novas, que tambem se foram depois, como é lei da
-vida... Pois, meu caro collega, nada fez apagar
-aquelle tempo da nossa convivencia, os padres, as
-licções, os recreios... os nossos recreios, lembra-se?
-o padre Lopes, oh! o padre Lopes...</p>
-
-<p>Elle, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e
-naturalmente ouvia, mas só me disse uma palavra,
-e ainda assim depois de algum tempo de silencio,
-recolhendo os olhos e um suspiro!</p>
-
-<p>&mdash;Tem agradado muito este meu <i>Panegyrico!</i></p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LV" id="LV">LV</a></h5>
-
-<h4>Um soneto.</h4>
-
-
-<p>Dita a palavra, apertou-me as mãos com as forças
-todas de um vasto agradecimento, despediu-se
-e saiu. Fiquei só com o <i>Panegyrico</i>, e o que as
-folhas delle me lembraram foi tal que merece um
-capitulo ou mais. Antes, porém, e porque tambem
-eu tive o meu <i>Panegyrico</i>, contarei a historia de
-um soneto que nunca fiz; era no tempo do seminario,
-e o primeiro verso é o que ides ler:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
- Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!<br />
-</p>
-
-<p>Como e porque me saiu este verso da cabeça,
-não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma
-exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida
-de verso, pensei em compòr com elle alguma cousa,
-um soneto. A insonmia, musa de olhos arregalados,
-não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as
-cocegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma.
-Não escolhi logo, logo o soneto; a principio cuidei
-de outra fórma, e tanto de rima como de verso solto,
-mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve
-e prestadio. Quanto á ideia, o primeiro verso não
-era ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia
-viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol,
-tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe que sente
-o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir
-com aquelle monge da Bahia, pouco antes revelado,
-e então na moda; eu, seminarista, diria em
-verso as minhas tristezas, como elle dissera as suas
-no claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em
-voz baixa, aos lençóes; francamente, achava-o bonito,
-e ainda agora não me parece máu:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
- Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!<br />
-</p>
-
-<p>Quem era a flòr? Capitú, naturalmente; mas podia
-ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro
-conceito a que coubesse a metaphora da flòr, e flòr
-do ceu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso,
-e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo;
-atinai deixei-me estar de costas, com os
-olhos no tecto, mas nem assim vinha mais nada.
-Então adverti que os sonetos mais gabados eram
-os que concluiam com chave de ouro, isto é, um
-desses versos capitaes no sentido e na fórma. Pensei
-em forjar uma de taes chaves, considerando que
-o verso final, saindo chronologicamente dos treze
-anteriores, com difficuldade traria a perfeição louvada;
-imaginei que taes chaves eram fundidas antes
-da fechadura. Assim foi que me determinei a compôr
-o ultimo verso do soneto, e, depois de muito suar,
-saiu este:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
- Perde-se a vida, ganha-se a batalha!<br />
-</p>
-
-<p>Sem vaidade, e falando como se fosse de outro,
-era um verso magnifico. Sonoro, não ha duvida.
-E tinha um pensamento, a victoria ganha á custa da
-propria vida, pensamento alevantado e nobre. Que
-não fosse novidade, é possivel, mas tambem não era
-vulgar; e ainda agora não explico por que via mysteriosa
-entrou n'uma cabeça de tão poucos annos.
-Naquella occasião achei-o sublime. Recitei uma e
-muitas vezes a chave de ouro; depois repeti os dous
-versos seguidamente, e dispuz-me a ligal-os pelos
-doze centraes. A ideia agora, á vista do ultimo verso,
-pareceu-me melhor não ser Capitú; seria a justiça.
-Era mais proprio dizer que, na pugna pela justiça,
-perder-se-hia acaso a vida, mas a batalha ficava
-ganha. Tambem me occorreu acceitar a batalha, no
-sentido natural, e fazer della a lula pela patria, por
-exemplo; nesse caso a flor do ceu seria a liberdade.
-Esta accepção, porém, sendo o poeta um seminarista,
-podia não caber tanto como a primeira, e
-gastei alguns minutos em escolher uma ou outra.
-Achei melhor a justiça, mas afinal acceitei definitivamente
-uma ideia nova, a caridade, e recitei os
-dous versos, cada um a sou modo, um languidamente:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
- Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!<br />
-</p>
-
-<p>e o outro com grande brio:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
- Perde-se a vida, ganha-se a batalha!<br />
-</p>
-
-<p>A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito.
-Começar bem e acabar bem não era pouco.
-Para me dar um banho de inspiração, evoquei
-alguns sonetos celebres, e notei que os mais delles
-eram facilimos; os versos saíam uns dos outros,
-com a ideia em si, tão naturalmente, que se não acabava
-de crer se ella é que os fizera, se elles é que
-a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente
-repetia o primeiro verso e esperava o segundo;
-o segundo não vinha, nem terceiro, nem
-quarto; não vinha nenhum. Tive alguns impetos
-de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama
-e ir ver tinta e papel; póde ser que, escrevendo,
-os versos acudissem, mas...</p>
-
-<p>Cançado de esperar, lembrou-me alterar o sentido
-do ultimo verso, com a simples transposição do
-duas palavras, assim:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
- Ganha-se a vida, perde-se a batalha!<br />
-</p>
-
-<p>O sentido vinha a ser justamente o contrario,
-mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste
-caso, era uma ironia: não exercendo a caridade,
-póde-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do
-ceu. Criei forças novas o esperei. Não tinha janella;
-se tivesse, é possivel que fosse pedir uma ideia á
-noite. E quem sabe se os vagalumes, luzindo cá em
-baixo, não seriam para mim como rimas das estrellas,
-e esta viva metaphora não me daria os versos
-esquivos, com os seus consoantes e sentidos proprios?</p>
-
-<p>Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não
-vieram os versos. Pelo tempo adeante escrevi algumas
-paginas em prosa, e agora estou compondo
-esta narração, não achando maior difficuldade que
-escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me
-consola daquelle soneto que não fiz. Mas, como eu
-creio que os sonetos existem feitos, como as odes e
-os dramas, e as demais obras de arte, por uma
-razão de ordem metaphysica, dou esses dous versos
-ao primeiro desoccupado que os quizer. Ao domingo,
-ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer
-occasião de lazer, póde tentar ver se o soneto
-sae. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro
-que falta.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LVI" id="LVI">LVI</a></h5>
-
-<h4>Um seminarista.</h4>
-
-
-<p>Tudo me ia repetindo o diabo do opusculo, com
-as suas lettras velhas e citações latinas. Vi sair
-daquellas folhas muitos perfis de seminaristas, os
-irmãos Albuquerques, por exemplo, um dos quaes
-é conego na Bahia, emquanto o outro seguiu medicina
-e dizem haver descoberto um especifico contra
-a febre amarella. Vi o Bastos, um magricella, que
-está de vigario em Meia-Ponte, se não morreu já;
-Luiz Borges, apesar de padre, fez-se politico, e
-acabou senador do imperio... Quantas outras caras
-me fitavam das paginas frias do <i>Panegyrico!</i> Não,
-não eram frias; traziam o calor da juventude nascente,
-o calor do passado, o meu proprio calor.
-Queria lel-as outra vez, e lograva entender algum
-texto, tão recente como no primeiro dia, ainda que
-mais breve. Era um encanto ir por elle; ás vezes,
-inconscientemente, dobrava a folha como se estivesse
-lendo de verdade; creio que era quando os
-olhos me caíam na palavra do fim da pagina, e a
-mão, acostumada a ajudal-os, faziam o seu officio...</p>
-
-<p>Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel
-de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos
-claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os
-pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse
-acostumado com elle podia acaso sentir-se mal, não
-sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto,
-não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam
-as outras, nem se deixavam apertar dellas,
-porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando
-a gente cuidava tel-os entre os seus, já não tinha
-nada. O mesmo digo dos pés, que tão depressa estavam
-aqui como lá. Esta difficuldade em pousar foi
-o maior obstaculo que achou para tomar os costumes
-do seminario. O sorriso era instantaneo, mas
-tambem ria folgado e largo. Uma cousa não seria
-tão fugitiva, como o resto, a reflexão; iamos dar
-com elle, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando.
-Respondia-nus sempre que meditava algum ponto
-espiritual, ou então que recordava a licção da vespera.
-Quando elle entrou na minha intimidade
-pedia-me frequentemente explicações e repetições
-miudas, e tinha memoria para guardal-as todas, até
-as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse
-alguma outra.</p>
-
-<p>Era mais velho que eu trez annos, filho de um
-advogado de Corityba, aparentado com um commerciante
-do Rio de Janeiro, que servia de correspondente
-ao pae. Este era homem de fortes sentimentos
-catholicos. Escobar tinha uma irmã, que era
-um anjo, dizia elle.</p>
-
-<p>&mdash;Não é só na belleza que é um anjo, mas tambem
-na bondade. Não imagina que boa creatura que
-ella é. Escreve-me muita vez, hei de mostrar-lhe as
-cartas della.</p>
-
-<p>De facto, eram simples e affectuosas, cheias de
-caricias e conselhos. Escobar contava-me historias
-della, interessantes, todas as quaes vinham a dar
-na bondade e no espirito daquella creatura; taes
-eram que me fariam capaz de acabar casando com
-ella, se não fosse Capitú. Morreu pouco depois. Eu,
-seduzido pelas palavras delle, estive quasi a contar-lhe
-logo, logo, a minha historia. A principio fui
-timido, mas elle fez-se entrado na minha confiança.
-Aquelles modos fugitivos cessavam quando elle
-queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados.
-Escobar veiu abrindo a alma toda, desde a
-porta da rua até ao fundo do quintal. A alma da
-gente, como sabes, e uma casa assim disposta, não
-raro com janellas para todos os lados, muita luz e
-ar puro. Tambem as ha fechadas e escuras, sem
-janellas, ou com poucas e gradeadas, á semelhança
-de conventos o prisões. Outrosim, capellas e bazares,
-simples alpendres ou paços sumptuosos.</p>
-
-<p>Não sei o que era a minha. Eu não era ainda
-casmurro, nem dom casmurro; o receio é que me
-tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham
-chaves nem fechaduras, bastava empurral-as, e Escobar
-empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá
-ficou, até que...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LVII" id="LVII">LVII</a></h5>
-
-<h4>De preparação.</h4>
-
-
-<p>Ah! mas não eram só os seminaristas que me iam
-saindo daquellas folhas velhas do <i>Panegyrico.</i> Ellas
-me trouxeram tambem sensações passadas, taes e
-tantas que eu não poderia dizel-as todas, sem tirar
-espaço ao resto. Uma dessas, e das primeiras, quizera
-contal'a aqui eu latim. Não é que a materia
-não ache termos honestos em nossa lingua, que é
-casta para os castos, como póde ser torpe para os
-torpes. Sim, leitora castissima, como diria o meu
-finado José Dias, podeis ler o capitulo até ao fim, sem
-susto nem vexame.</p>
-
-<p>Já agora metto a historia em outro capitulo. Por
-mais composto que este me saia, ha sempre no
-assumpto alguma cousa menos austera, que pede
-umas linhas de repouso e preparação. Sirva este de
-preparação. E isto é muito, leitor meu amigo; o
-coração, quando examina a possibilidade do que
-ha de vir. as proporções dos acontecimentos e a
-copia delles, fica robusto e disposto, e o mal é
-menor mal. Tambem, se não fica então, não fica
-nunca. E aqui verás tal ou qual esperteza minha;
-porquanto, ao ler o que vás ler, é provavel que o
-aches menos cru do que esperavas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LVIII" id="LVIII">LVIII</a></h5>
-
-<h4>O tratado.</h4>
-
-
-<p>Foi o caso que, uma segunda-feira, voltando eu
-para o seminario, vi cair na rua uma senhora. O
-meu primeiro gesto, em tal caso, devia ser de pena
-ou de riso; não foi uma nem outra cousa, porquanto
-(e é isto que eu quizera dizer em latim) porquanto,
-a senhora tinha as meias mui lavadas, e
-não as sujou, levava ligas de seda, e não as perdeu.
-Varias pessoas acudiram, mas não tiveram tempo
-de a levantar; ella ergueu-se muito vexada, sacudiu-se,
-agradeceu, e enfiou pela rua proxima.</p>
-
-<p>&mdash;Este gosto de imitar as francezas da rua do
-Ouvidor, dizia-me José Dias andando e commentando
-a queda, é evidentemente um erro. As nossas
-moças devem andar como sempre andaram, com
-sou vagar e paciencia, e não este tique-tique afrancezado...</p>
-
-<p>Eu mal podia ouvil-o. As meias e as ligas da
-senhora branqueavam e enroscavam-se deante de
-mim, e andavam, caíam, erguiam-se e iam-se embora.
-Quando chegámos á esquina, olhei para a
-outra rua, e vi, a distancia, a nossa desastrada, que
-ia no mesmo passo, tique-tique, tique-tique...</p>
-
-<p>&mdash;Parece que não se machucou, disse eu.</p>
-
-<p>&mdash;Tanto melhor para ella, mas é impossivel que
-não tenha arranhado os joelhos; aquella presteza é
-manha...</p>
-
-<p>Creio que foi «manha» que elle disse; eu fiquei
-«nos joelhos arranhados». Dalli em deante, até o
-seminario, não vi mulher na rua, a quem não desejasse
-uma quéda; a algumas adivinhei que trazia
-as meias esticadas e as ligas, justas... Tal haveria
-que nem levasse meias... Mas eu as via com ellas...
-Ou então... Tambem é possivel...</p>
-
-<p>Vou esgarçando isto com reticencias, para dar
-uma ideia das minhas ideias, que eram assim diffusas
-e confusas; com certeza não dou nada. A
-cabeça ia-me quente, e o andar não era seguro. No
-seminario, a primeira hora foi insupportavel. As
-batinas traziam ar de saias, e lembravam-me a
-quéda da senhora. Já não era uma só que eu via
-cair; todas as que eu encontrara na rua, mostravam-me
-agora de relance as ligas azues; eram
-azues. De noite, sonhei com ellas. Uma multidão de
-abominaveis creaturas veiu andar á roda de mim,
-tique-tique... Eram bellas, umas finas, outras grossas,
-todas ageis como o diabo. Accordei, busquei
-afugental-as com esconjuros e outros methodos, mas
-tão depressa dormi como tornaram, e, com as mãos
-presas em volta de mim, faziam um vasto circulo de
-saias, ou, trepadas no ar, choviam pés e pernas
-sobre a minha cabeça. Assim fui até madrugada.
-Não dormi mais; rezei padre-nossos, ave-marias, e
-credos, e sendo este livro a verdade pura, é força
-confessar que tive de interromper mais de uma vez
-as minhas orações para acompanhar no escuro uma
-figura ao longe, tique-tique, tique-tique... Pegava
-depressa na oração, sempre no meio para concertal-a
-bem, como se não tivesse havido interrupção,
-mas certamente não unia a phrase nova á antiga.</p>
-
-<p>Vindo o mal pela manha adeante, tentei vencel-o,
-mas por um modo que o não perdesse de todo.
-Sabios da escriptura, adivinhai o que podia ser.
-Foi isto. Não podendo rejeitar de mim aquelles
-quadros, recorri a um tratado entre a minha consciencia
-e a minha imaginação. As visões feminis
-seriam de ora avante consideradas como simples
-encarnações dos vicios, e por isso mesmo contemplaveis,
-como o melhor modo de temperar o caracter
-e aguerril-o para os combates asperos da vida. Não
-formulei isto por palavras, nem fui preciso; o contracto
-fez-se tacitamente, com alguma repugnancia,
-mas fez-se. E por alguns dias, era eu mesmo que
-evocava as visões para fortalecer-me, e não as rejeitava,
-senão quando ellas mesmas, de cançadas, se
-iam embora.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LIX" id="LIX">LIX</a></h5>
-
-<h4>Convivas de boa memoria.</h4>
-
-
-<p>Ha dessas reminiscencias que não descançam
-antes que a penna ou a lingua as publique. Um
-antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memoria.
-A vida é cheia de taes convivas, e eu sou
-acaso um delles, comquanto a prova de ter a memoria
-fraca seja exactamente não me acudir agora
-o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.</p>
-
-<p>Não, não, a minha memoria não é boa. Ao contrario,
-é comparavel a alguem que tivesse vivido
-por hospedarias, sem guardar dellas nem caras nem
-nomes, e sómente raras circumstancias. A quem
-passe a vida na mesma casa de familia, com os seus
-eternos moveis e costumes, pessoas e affeições, é que
-se lhe grava tudo pela continuidade e repetição.
-Como eu invejo os que não esqueceram a còr das
-primeiras calças que vestiram! Eu não atino com
-a das que enfiei hontem. Juro só que não eram amarellas
-porque execro essa côr; mas isso mesmo póde
-ser olvido e confusão.</p>
-
-<p>E antes seja olvido que confusão; explico-me.
-Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo
-se póde metter nos livros omissos. Eu, quando leio
-algum desta outra casta, não me afflijo nunca. O
-que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e
-evocar todas as cousas que não achei nelle. Quantas
-ideias finas me acodem então! Que de reflexões
-profundas! Os rios, as montanhas, as egrejas que
-não vi nas folhas lidas, todos me apparecem agora
-com as suas aguas, as suas arvores, os seus altares,
-e os generaes sacam das espadas que tinham
-ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que
-dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma
-imprevista.</p>
-
-<p>É que tudo se acha fóra de um livro falho, leitor
-amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim
-pódes tambem preencher as minhas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LX" id="LX">LX</a></h5>
-
-<h4>Querido opusculo!</h4>
-
-
-<p>Assim fiz eu ao <i>Panegyrico de Santa Monica</i>,
-e fiz mais: puz-lhe não só o que faltava da santa,
-mas ainda cousas que não eram della. Viste o soneto,
-as meias, as ligas, o seminarista Escobar e
-varios outros. Vás agora ver o mais que naquelle
-dia me foi saindo das paginas amarellas do opusculo.</p>
-
-<p>Querido opusculo, tu não prestavas para nada,
-mas que mais presta um velho par de chinellas?
-Entretanto, ha muita vez no casal de chinellas um
-como aroma e calor de dous pés. Gastas e rotas,
-não deixam de lembrar que uma pessoa as calçava
-de manhã, ao erguer da cama, ou as descalçava á
-noite, ao entrar nella. E se a comparação não vale,
-porque as chinellas são ainda uma parte da pessoa
-e tiveram o contacto dos pés, aqui estão outras
-lembranças, como a pedra da rua, a porta da casa,
-um assobio particular, um prégão de quitanda,
-como aquelle das cocadas que contei no cap. XVIII.
-Justamente, quando contei o prégão das cocadas,
-fiquei tão curtido de saudades que me lembrou
-fazel-o escrever por um amigo, mestre de musica, e
-grudal-o ás pernas do capitulo. Se depois jarretei o
-capitulo, foi porque outro musico, a quem o mostrei,
-me confessou ingenuamente não achar no trecho
-escripto nada que lhe accordasse saudades. Para
-que não aconteça o mesmo aos outros profissionaes
-que por ventura me lerem, melhor é poupar ao
-editor do livro o trabalho e a despeza da gravura.
-Vès que não puz nada, nem ponho. Já agora creio
-que não basta que os pregões de rua, como os
-opusculos de seminario, encerrem casos, pessoas e
-sensações; é preciso que a gente os tenha conhecido
-e padecido no tempo, sem o que tudo é calado
-e incolor.</p>
-
-<p>Mas, vamos ao mais que me foi saindo das paginas
-amarellas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXI" id="LXI">LXI</a></h5>
-
-<h4>A vacca de Homero.</h4>
-
-
-<p>O mais foi muito. Vi sairem os primeiros dias da
-separação, duros e opacos, sem embargo das palavras
-de conforto que me deram os padres e os seminaristas,
-e as de minha mãe e tio Cosme, trazidas
-por José Dias ao seminario.</p>
-
-<p>&mdash;Todos estão saudosos, disse-me este, mas a
-maior saudade está naturalmente no maior dos
-corações; e qual é elle? perguntou escrevendo a
-resposta nos olhos.</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe, acudi eu.</p>
-
-<p>José Dias apertou-me as mãos com alvoroço, e
-logo pintou a tristeza de minha mãe, que falava
-de mim todos os dias, quasi a todas as horas. Como
-a approvasse sempre, e accrescentasse alguma palavra
-relativamente aos dotes que Deus me dera,
-o desvanecimento de minha mãe nessas occasiões
-era indescriptivel; e contava-me tudo isso cheio de
-uma admiração lacrimosa. Tio Cosme tambem se
-enternecia muito.</p>
-
-<p>&mdash;Hontem até se deu um caso interessante.
-Tendo eu dito á Excellentissima que Deus lhe dera,
-não um filho, mas um anjo do ceu, o doutor ficou
-tão commovido que não achou outro modo de vencer
-o choro senão fazendo-me um daquelles elogios de
-galhofa que só elle sabe. Não é preciso dizer que
-D. Gloria enxugou furtivamente uma lagrima. Ou
-ella não fosse mãe! Que coração amantissimo!</p>
-
-<p>&mdash;Mas, Sr. José Dias, e a minha saida daqui?</p>
-
-<p>&mdash;Isso é negocio meu. A viagem á Europa é o
-que é preciso, mas póde fazer-se daqui a um ou
-dous annos, em 1859 ou 1860...</p>
-
-<p>&mdash;Tão tarde!</p>
-
-<p>&mdash;Era melhor que fosse este mesmo anno, mas
-demos tempo ao tempo. Tenha paciencia, vá estudando,
-não se perde nada em ir sabendo já daqui
-alguma cousa; e, demais, ainda não acabando
-padre, a vida do seminario é util, e vale sempre
-entrar no mundo ungido com os santos oleos da
-theologia...</p>
-
-<p>Neste ponto,&mdash;lembra-me como se fosse hoje,&mdash;os
-olhos de José Dias fulguraram tão intensamente
-que me encheram de espanto. As palpebras
-cairam depois, e assim ficaram por alguns instantes,
-até que novamente se ergueram, e os olhos
-fixaram-se na parede do palco, como que embebidos
-em alguma cousa, se não era em si mesmos;
-depois despegaram-se da parede e entraram a
-vagar pelo pateo todo. Podia comparal-o aqui á
-vacca de Homero; andava e gemia em volta da
-cria que acabava de parir. Não lhe perguntei o que
-é que tinha, já por acanhamento, já porque dous
-lentes, um delles de theologia, vinham caminhando
-na nossa direcção. Ao passarem por nós, o aggregado,
-que os conhecia, cortejou-os com as deferencias
-devidas, e pediu-lhes noticias minhas.</p>
-
-<p>&mdash;Por ora nada se póde affiançar, disse um
-delles, mas parece que dará conta da mão.</p>
-
-<p>&mdash;É o que eu lhe dizia agora mesmo, acudiu
-José Dias. Conto ouvir-lhe a missa nova; mas ainda
-que não chegue a ordenar-se, não póde ter melhores
-estudos que os que fizer aqui. Para a viagem da
-existencia, concluiu demorando mais as palavras,
-irá ungido com os santos oleos da theologia...</p>
-
-<p>Desta vez a fulguração dos olhos foi menor, as
-palpebras não lhe cairam nem as pupillas fizeram
-os movimentos anteriores. Ao contrario, todo elle
-era attenção e interrogação; quando muito, um
-sorriso claro e amigo lhe errava nos labios. O lente
-de theologia gostou da metaphora, e disse-lh'o; elle
-agradeceu, explicando que eram ideias que lhe
-escapavam no correr da conversação; não escrevia
-nem orava. Eu é que não gostei nada; e logo que
-os lentes se foram, sacudi a cabeça:</p>
-
-<p>&mdash;Não quero saber dos santos oleos da theologia;
-desejo sair daqui o mais cedo que puder, ou
-já...</p>
-
-<p>&mdash;Já, meu anjo, não póde ser; mas póde succeder
-que muito antes do que imaginamos. Quem
-sabe se este mesmo anno de 58? Tenho um plano
-feito, e penso já nas palavras com que hei de expôl-o
-a D. Gloria; estou certo que ella cederá e irá
-comnosco.</p>
-
-<p>&mdash;Duvido que mamãe embarque.</p>
-
-<p>&mdash;Veremos. Mãe é capaz de tudo; mas, com ella
-ou sem ella, tenho por certa a nossa ida, e não
-haverá esforço que eu não empregue, deixe estar.
-Paciencia é que é preciso. E não faça aqui nada
-que dê logar a censuras ou queixas; muita docilidade
-e toda a apparente satisfação. Não ouviu o
-elogio do lente? E que você tem-se portado bem.
-Pois continue.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.</p>
-
-<p>&mdash;Será este anno, replicou José Dias.</p>
-
-<p>&mdash;Daqui a tres mezes?</p>
-
-<p>&mdash;Ou seis.</p>
-
-<p>&mdash;Não; tres mezes.</p>
-
-<p>&mdash;Pois sim. Tenho agora um plano, que me
-parece melhor que outro qualquer. É combinar a
-ausencia de vocação ecclesiastica e a necessidade
-de mudar de ares. Você porque não tosse?</p>
-
-<p>&mdash;Por que não tusso?</p>
-
-<p>&mdash;Já, já, não, mas eu hei de avisar você para
-tossir, quando fôr preciso, aos poucos, uma tossesinha
-secca, e algum fastio; eu irei preparando a
-Excellentissima... Oh! tudo isto é em beneficio
-della. Uma vez que o filho não póde servir a egreja,
-como deve ser servida, o melhor modo de cumprir
-a vontade de Deus é dedical-o a outra cousa. O
-mundo tambem é egreja para os bons...</p>
-
-<p>Pareceu-me outra vez a vacca de Homero, como
-se este «mundo tambem é egreja para os bons»,
-fosse outro bezerro, irmão dos «santos oleos da
-theologia.» Mas não dei tempo á ternura materna,
-e repliquei:</p>
-
-<p>&mdash;Ah! entendo! mostrar que estou doente para
-embarcar, não é?</p>
-
-<p>José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:</p>
-
-<p>&mdash;Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho,
-eu ha mezes que desconfio do seu peito. Você
-não anda bom do peito. Em pequeno, teve umas
-febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas ha dias
-em que está mais descorado. Não digo que já seja o
-mal, mas o mal póde vir depressa. N'uma hora cae
-a casa. Por isso, se aquella santa senhora não quizer
-ir comnosco,&mdash;ou para que vá mais depressa,
-acho que uma boa tosse... Se a tosse ha de vir de
-verdade, melhor é apressal-a... Deixe estar, eu
-aviso...</p>
-
-<p>&mdash;Bem, mas em saindo daqui não ha de ser
-para embarcar logo; saio primeiro, depois cuidaremos
-do embarque; o embarque é que póde ficar
-para o anno. Não dizem que o melhor tempo é abril
-ou maio? Pois seja maio. Primeiro deixo o seminario,
-daqui a dous mezes...</p>
-
-<p>E porque a palavra me estivesse a pigarrear na
-garganta, dei uma volta rapida, e perguntei-lhe á
-queima-roupa:</p>
-
-<p>&mdash;Capitú como vae?</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXII" id="LXII">LXII</a></h5>
-
-<h4>Uma ponta de Iago.</h4>
-
-
-<p>A pergunta era imprudente, na occasião em que
-eu cuidava de transferir o embarque. Equivalia a
-confessar que o motivo principal ou unico da minha
-repulsa ao seminario era Capitú, e fazer crer improvavel
-a viagem. Comprehendi isto depois que falei;
-quiz emendar-me, mas nem soube como, nem elle
-me deu tempo.</p>
-
-<p>&mdash;Tem andado alegre, como sempre; é uma
-tontinha. Aquillo emquanto não pegar algum
-peralta da visinhança, que case com ella...</p>
-
-<p>Estou que empallideci; pelo menos, senti correr
-um frio pelo corpo todo. A noticia de que ella vivia
-alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me
-aquelle effeito, acompanhado de um bater
-de coração, tão violento, que ainda agora cuido
-ouvil-o. Ha alguma exageração nisto; mas o discurso
-humano é assim mesmo, um composto de
-partes excessivas e partes diminutas, que se compensam,
-ajustando-se. Por outro lado, se entendermos
-que a audiencia aqui não é das orelhas,
-senão da memoria, chegaremos á exacta verdade. A
-minha memoria ouve ainda agora as pancadas do
-coração naquelle instante. Não esqueças que era a
-emoção do primeiro amor. Estive quasi a perguntar
-a José Dias que me explicasse a alegria de Capitú,
-o que é que ella fazia, se vivia rindo, cantando ou
-pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra
-ideia...</p>
-
-<p>Outra ideia, não,&mdash;um sentimento cruel e desconhecido,
-o puro ciume, leitor das minhas entranhas.
-Tal foi o que me mordeu, ao repetir commigo
-as palavras de José Dias: « Algum peralta da
-visinhança.» Em verdade, nunca pensara em tal
-desastre. Vivia tão nella, della e para ella, que a
-intervenção de um peralta era como uma noção sem
-realidade; nunca me acudiu que havia peraltas na
-visinhança, vária idade e feitio, grandes passeadores
-das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam
-para Capitú,&mdash;e tão senhor me sentia della que era
-como se olhassem para mim, um simples dever de
-admiração e de inveja. Separados um do outro pelo
-espaço e pelo destino, o mal apparecia-me agora,
-não só possivel, mas certo. E a alegria de Capitú
-confirmava a suspeita; se ella vivia alegre é que já
-namorava a outro, acompanhal-o-hia com os olhos
-na rua, falar-lhe-hia á janella, ás ave-marias, trocariam
-flores e...</p>
-
-<p>E... que? Sabes o que é que trocariam mais; se
-o não achas por ti mesmo, escusado é ler o resto do
-capitulo e do livro, não acharás mais nada, ainda
-que eu o diga com todas as lettras da etymologia.
-Mas se o achaste, comprehenderás que eu, depois
-de estremecer, tivesse um impeto de atirar-me pelo
-portão fora, descer o resto da ladeira, correr, chegar
-a casa do Padua, agarrar Capitú e intimar-lhe
-que me confessasse quantos, quantos,
-quantos já lhe dera o peralta da visinhança. Não fiz
-nada. Os mesmos sonhos que ora conto não tiveram,
-naquelles tres ou quatro minutos, esta logica
-de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados
-e mal emendados, com o desenho truncado e
-torto, uma confusão, um turbilhão, que me cegava
-e ensurdecia. Quando tornei a mim, José Dias
-concluía uma phrase, cujo principio não ouvi, e o
-mesmo fim era vago: «A conta que dará de si.»
-Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava
-ainda de Capitú, e quiz perguntar-lh'o, mas a vontade
-morreu ao nascer, como tantas outras gerações
-dellas. Limitei-me a inquirir do aggregado quando
-é que iria a casa ver minha mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Estou com saudades de mamãe. Posso ir já
-esta semana?</p>
-
-<p>&mdash;Vae sabbado.</p>
-
-<p>&mdash;Sabbado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que
-me mande buscar sabbado! Sabbado! Este sabbado,
-não? Que me mande buscar, sem falta.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXIII" id="LXIII">LXIII</a></h5>
-
-<h4>Metades de um sonho.</h4>
-
-
-<p>Fiquei ancioso pelo sabbado. Até lá os sonhos
-perseguiam-me, ainda accordado, e não os digo
-aqui para não alongar esta parte do livro. Um só
-ponho, e no menor numero de palavras, ou antes
-porei dous, porque um nasceu de outro, a não ser
-que ambos formem duas metades de um só. Tudo isto
-é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso
-sexo, que perturbava assim a adolescencia de um
-pobre seminarista. Não fosse elle, e este livro seria
-talvez uma simples pratica parochial, se eu fosse
-padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma encyclica,
-se papa, como me recommendára tio Cosme: «Anda
-lá, meu rapaz, volta-me papa!» Ah! porque não
-cumpri esse desejo? Depois de Napoleão, tenente
-e imperador, todos os destinos estão neste seculo.</p>
-
-<p>Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar
-os peraltas da visinhança, vi um destes que conversava
-com a minha amiga ao pé da janella. Corri ao
-logar, elle fugiu; avancei para Capitú, mas não
-estava só, tinha o pae ao pé de si, enxugando os
-olhos e mirando um triste bilhete de loteria. Não
-me parecendo isto claro, ia pedir a explicação,
-quando elle de si mesmo a deu; o peralta fôra
-levar-lhe a lista dos premios da loteria, e o bilhete
-saira branco. Tinha o numero 4004. Disse-me que
-esta symetria de algarismos era mysteriosa e bella,
-e provavelmente a roda andára mal; era impossivel
-que não devesse ter a sorte grande. Emquanto elle
-falava, Capitú dava-me com os olhos todas as sortes
-grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada
-com a bocca. E aqui entra a segunda parte do
-sonho. Padua desappareceu, como as suas esperanças
-do bilhete. Capitú inclinou-se para fóra, eu
-relancei do olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe
-nas mãos, resmunguei não sei que palavras, e
-accordei sósinho no dormitorio.</p>
-
-<p>O interesse do que acabas de ler não está na
-materia do sonho, mas nos esforços que fiz para
-ver se dormia novamente e pegava nelle outra vez.
-Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação
-que empreguei em fechar os olhos, apertal-os
-bem, esquecer tudo para dormir, mas não dormia.
-Esse mesmo trabalho fez-me perder o somno até á
-madrugada. Sobre a madrugada, consegui concilial-o,
-mas então nem peraltas, nem bilhetes de loteria,
-nem sortes grandes ou pequenas,--nada dos
-nadas veiu ter commigo. Não sonhei mais aquella
-noite, e dei mal as licções daquelle dia.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXIV" id="LXIV">LXIV</a></h5>
-
-<h4>Uma ideia e um escrupulo.</h4>
-
-
-<p>Relendo o capitulo passado, acóde-me uma ideia
-e um escrupulo. O escrupulo é justamente de escrever
-a ideia, não a havendo mais banal na terra,
-posto que daquella banalidade do sol e da lua, que
-o ceu nos dá todos os dias e todos os mezes. Deixei
-o manuscripto, e olhei para as paredes. Sabes que
-esta casa do Engenho Novo, nas dimensões, disposições
-e pinturas, é reproducção da minha antiga
-casa de Matacavallos. Outrosim, como te disse no
-capitulo II, o meu fim em imitar a outra foi ligar
-as duas pontas da vida, o que aliás não alcancei.
-Pois o mesmo succedeu áquelle sonho do seminario,
-por mais que tentasse dormir e dormisse. Donde
-concluo que um dos officios do homem é fechar e
-apertar muito os olhos, a ver se continua pela noite
-velha o sonho truncado da noite moça. Tal é a ideia
-banal e nova que eu não quizera pôr aqui, e só provisoriamente
-a escrevo.</p>
-
-<p>Antes de concluir este capitulo, fui á janella
-indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser
-assim tão tenues que se esgarçam ao menor abrir
-de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais.
-A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente
-bella, os morros pallejavam de luar e o espaço
-morria de silencio. Como eu insistisse, declarou-me
-que os sonhos já não pertencem á sua jurisdicção.
-Quando elles moravam na ilha que Luciano lhes
-deu, onde ella tinha o seu palacio, e donde os fazia
-sair com as suas caras de varia feição, dar-me-hia
-explicações possiveis. Mas os tempos mudaram
-tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os
-modernos moram no cerebro da pessoa. Estes,
-ainda que quizessem imitar os outros, não poderiam
-fazel-o; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como
-todas as ilhas de todos os mares, são agora objecto
-da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados-Unidos.</p>
-
-<p>Era uma allusão ás Fillipinas. Pois que não amo
-a politica, e ainda menos a politica internacional,
-fechei a janella e vim acabar este capitulo para ir
-dormir. Não peço agora os sonhos de Luciano, nem
-outros, filhos da memoria ou da digestão; basta-me
-um somno quieto e apagado. De manhã, com a
-fresca, irei dizendo o mais da minha historia e suas
-pessoas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXV" id="LXV">LXV</a></h5>
-
-<h4>A dissimulação.</h4>
-
-
-<p>Chegou o sabbado, chegaram outros sabbados, e
-eu acabei affeiçoando-me á vida nova. Ia alternando
-a casa e o seminario. Os padres gostavam de
-mim, os rapazes tambem, e Escobar mais que os
-rapazes e os padres. No fim de cinco semanas estive
-quasi a contar a este as minhas penas e esperanças;
-Capitú refreou-me.</p>
-
-<p>&mdash;Escobar é muito meu amigo, Capitú!</p>
-
-<p>&mdash;Mas não é meu amigo.</p>
-
-<p>&mdash;Póde vir a ser; elle já me disse que ha de vir
-cá para conhecer mamãe.</p>
-
-<p>&mdash;Não importa; você não tem direito de contar
-um segredo que não é só seu, mas tambem meu, e
-eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa
-nenhuma.</p>
-
-<p>Era justo, calei-me e obedeci. Outra cousa em
-que obedeci ás suas reflexões foi, logo no primeiro
-sabbado, quando eu fui á casa della, e, após alguns
-minutos de conversa, me aconselhou a ir embora.</p>
-
-<p>&mdash;Hoje não fique aqui mais tempo; vá para casa,
-que eu lá vou logo. É natural que D. Gloria queira
-estar com você muito tempo, ou todo, se puder.</p>
-
-<p>Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez
-que eu bem podia deixar de citar um terceiro
-exemplo, mas os exemplos não se fizeram senão
-para ser citados, e este é tão bom que a omissão
-seria um crime. Foi á minha terceira ou quarta
-vinda á casa. Minha mãe depois que lhe respondi
-ás mil perguntas que me fez sobre o tratamento
-que me davam, os estudos, as relações, a disciplina,
-e se me doia alguma cousa, e se dormia bem, tudo
-o que a ternura das mães inventa para cançar a
-paciencia de um filho, concluiu voltando-se para
-José Dias:</p>
-
-<p>&mdash;Sr. José Dias, ainda duvida que saia daqui
-um bom padre?</p>
-
-<p>&mdash;Excellentissima...</p>
-
-<p>&mdash;E você, Capitú, interrompeu minha mãe voltando-se
-para a filha do Padua que estava na sala,
-com ella,&mdash;você não acha que o nosso Bentinho
-dará um bom padre?</p>
-
-<p>&mdash;Acho que sim, senhora, respondeu Capitú
-cheia de convicção.</p>
-
-<p>Não gostei da convicção. Assim lh'o disse, na
-manhã seguinte, na quintal della, recordando as
-palavras da vespera, e lançando-lho em rosto, pela
-primeira vez, a alegria que ella mostrára desde a
-minha entrada no seminario, quando eu vivia
-curtido de saudades. Capitú fez-se muito séria, e
-perguntou-me como é que queria que se portasse,
-uma vez que suspeitavam de nós; tambem tivera
-noites desconsoladas, e os dias, em casa della,
-foram tão tristes como os meus; podia indagal-o do
-pae e da mãe. A mãe chegou a dizer-lhe, por palavras
-encobertas, que não pensasse mais em mim.</p>
-
-<p>&mdash;Com D. Gloria e D. Justina mostro-me naturalmente
-alegre, para que não pareça que a denuncia
-de José Dias é verdadeira. Se parecesse, ellas
-tratariam de separar-nos mais, e talvez acabassem
-não me recebendo... Para mim, basta o nosso juramento
-de que nos havemos de casar um com outro.</p>
-
-<p>Era isto mesmo; deviamos dissimular para matar
-qualquer suspeita, e ao mesmo tempo gosar
-toda a liberdade anterior, e construir tranquillos o
-nosso futuro. Mas o exemplo completa-se com o
-que ouvi no dia seguinte, ao almoço; minha mãe,
-dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que
-mão havia en de abençoar o povo á missa, contou
-que, dias antes, estando a falar de moças que se
-casam cedo, Capitú lhe dissera: «Pois a mim
-quem me ha de casar ha de ser o padre Bentinho; eu
-espero que elle se ordene!» Tio Cosme riu da
-graça, José Dias não dessorriu, só prima Justina é
-que franziu a testa, e olhou para mim interrogativamente.
-Eu, que havia olhado para todos, não pude
-resistir ao gesto da prima, e tratei de comer. Mas
-comi mal; estava tão contente com aquella grande
-dissimulação de Capitú que não vi mais nada, e,
-logo que almocei, corri a referir-lhe a conversa e a
-louvar-lhe a astucia. Capitú sorriu de agradecida.</p>
-
-<p>&mdash;Você tem razão, Capitú, concluí eu; vamos
-enganar toda esta gente.</p>
-
-<p>&mdash;Não é? disse ella com ingenuidade.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXVI" id="LXVI">LXVI</a></h5>
-
-<h4>Intimidade.</h4>
-
-
-<p>Capitú ia agora entrando na alma de minha mãe.
-Viviam o mais do tempo juntas, falando de mim, a
-proposito do sol e da chuva, ou de nada; Capitú ia
-lá coser, ás manhãs; alguma vez ficava para jantar.</p>
-
-<p>Prima Justina não acompanhava a parenta naquellas
-finezas, mas não tratava de todo mal a
-minha amiga. Era assaz sincera para dizer o mal
-que sentia de alguem, e não sentia bem de pessoa
-alguma. Talvez do marido, mas o marido era morto;
-em todo caso, não existira homem capaz de competir
-com elle na affeição, no trabalho e na honestidade,
-nas maneiras e na agudeza de espirito. Esta
-opinião, segundo tio Cosme, era posthuma, pois
-em vida andavam ás brigas, e os ultimos seis mezes
-acabaram separados. Tanto melhor para a justiça
-della; o louvor dos mortos é um modo de orar por
-elles. Tambem gostaria de minha mãe, ou se algum
-mal pensou della foi entre si e o travesseiro. Comprehende-se
-que, de apparencia, lhe désse a estima
-devida. Não penso que ella aspirasse a algum legado;
-as pessoas assim dispostas excedem os serviços
-naturaes, fazem-se mais risonhas, mais assiduas,
-multiplicam os cuidados, precedem os famulos.
-Tudo isso era contrario á natureza de prima Justina,
-feita de azedume e de implicancia. Como vivesse de
-favor na casa, explica-se que não desestimasse a
-dona e calasse os seus resentimentos, ou só dissesse
-mal della a Deus e ao diabo.</p>
-
-<p>Caso tivesse resentimentos de minha mãe, não
-era uma razão mais para detestar Capitú, nem ella
-precisava de razões supplementares. Comtudo, a
-intimidade de Capitú fel-o mais aborrecivel á minha
-parenta. Se a principio não a tratava mal, com o
-tempo trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe.
-Capitú, attenta, desde que a não via, indagava della
-e ia procural-a. Prima Justina tolerava esses cuidados.
-A vida é cheia de obrigações que a gente
-cumpre, por mais vontade que tenha de os infringir
-deslavadamente. Demais, Capitú usava certa magia
-que captiva; prima Justina acabava sorrindo, ainda
-que azedo, mas a sós com minha mãe achava
-alguma palavra ruim que dizer da menina.</p>
-
-<p>Como minha mãe adoecesse de uma febre, que a
-pòz ás portas da morte, quiz que Capitú lhe servisse
-de enfermeira. Prima Justina, posto que isto a aliviasse
-de cuidados penosos, não perdoou á minha
-amiga a intervenção. Um dia, perguntou-lhe se não
-tinha que fazer em casa; outro dia, rindo, soltou-lhe
-este epigramma: «Não precisa correr tanto; o
-que tiver de ser seu ás mãos lhe ha de ir.»</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXVII" id="LXVII">LXVII</a></h5>
-
-<h4>Um peccado.</h4>
-
-
-<p>Já agora não tiro a doente da cama sem contar o
-que se deu commigo. Ao cabo de cinco dias, minha
-mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me
-mandassem buscar ao seminario. Em vão tio Cosme:</p>
-
-<p>&mdash;Mana Gloria, você assusta-se sem motivo, a
-febre passa...</p>
-
-<p>&mdash;Não! não! mandem buscal-o! Posso morrer,
-e a minha alma não se salva, se Bentinho não estiver
-ao pé de mim.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos assustal-o.</p>
-
-<p>&mdash;Pois não lhe digam nada, mas vão buscal-o,
-já, já, não se demorem.</p>
-
-<p>Cuidaram fosse delirio; mas, não custando nada
-trazer-me, José Dias foi incumbido do recado. Entrou
-tão atordoado que me assustou. Contou particularmente
-ao reitor o que havia, e recebi licença
-para ir a casa. Na rua, iamos calados, elle não
-alterando o passo do costume,&mdash;a premissa antes
-da consequencia, a consequencia antes do conclusão,&mdash;mas
-cabisbaixo e suspirando, eu temendo
-ler no rosto delle alguma noticia dura e definitiva.
-Só me falára na doença, como negocio simples;
-mas o chamado, o silencio, os suspiros podiam dizer
-alguma cousa mais. O coração batia-me com força,
-as pernas bambeavam-me, mais de uma vez cuidei
-cair...</p>
-
-<p>O anceio de escutar a verdade complicava-se em
-mim com o temor de a saber. Era a primeira vez
-que a morte me apparecia assim perto, me envolvia,
-me encarava com os olhos furados e escuros. Quanto
-mais andava aquella rua dos Barbonos, mais me
-aterrava a ideia de chegar a casa, de entrar, de
-ouvir os prantos, de ver um corpo defuncto... Oh!
-eu não poderia nunca expòr aqui tudo o que senti
-naquelles terriveis minutos. A rua, por mais que
-José Dias andasse superlativamente devagar, parecia
-fugir-me debaixo dos pés, as casas voavam de
-um e outro lado, e uma corneta que nessa occasião
-tocava no quartel dos Municipaes Permanentes resoava
-aos meus ouvidos como a trombeta do juizo
-final.</p>
-
-<p>Fui, cheguei aos Arcos, entrei na rua de Matacavallos.
-A casa não era logo alli, mas muito além
-da dos Invalidos, perto da do Senado. Trez ou quatro
-vezes, quizera interrogar o meu companheiro, sem
-ousar abrir a bocca; mas agora, já nem tinha tal
-desejo. Ia só andando, acceitando o peor, como um
-gesto do destino, como uma necessidade da obra
-humana, e foi então que a Esperança, para combater
-o Terror, me segredou ao coração, não estas
-palavras, pois nada articulou parecido com palavras,
-mas uma ideia que poderia ser traduzida por ellas:
-«Mamãe defuncta, acaba o seminario.»</p>
-
-<p>Leitor, foi um relampago. Tão depressa alumiou
-a noite, como se esvaiu, e a escuridão fez-se mais
-cerrada, pelo effeito do remorso que me ficou. Foi
-uma suggestão da luxuria e do egoismo. A piedade
-filial desmaiou um instante, com a perspectiva da
-liberdade certa, pelo desapparecimento da divida e
-do devedor; foi um instante, menos que um instante,
-o centesimo de um instante, ainda assim o
-sufficiente para complicar a minha afflicção com
-um remorso.</p>
-
-<p>José Dias suspirava. Uma vez olhou para mim
-tão cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado,
-e eu quiz pedir-lhe que não dissesse nada a
-ninguem, que eu ia castigar-me, etc. Mas a pena
-trazia tanto amor, que não podia ser pezar do meu
-peccado; mas então era sempre a morte de minha
-mãe... Senti uma angustia grande, um nó na garganta,
-e não pude mais, chorei de uma vez.</p>
-
-<p>&mdash;Que é, Bentinho?</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe...?</p>
-
-<p>&mdash;Não! não! Que ideia é essa? O estado della é
-gravissimo, mas não é mal de morte, e Deus póde
-tudo. Enxugue os olhos, que é feio um mocinho da
-sua edade andar chorando na rua. Não ha de ser
-nada, uma febre... As febres, assim como dão com
-força assim tambem se vão embora... Com os dedos,
-não; onde está o lenço?</p>
-
-<p>Enxuguei os olhos, posto que de todas as palavras
-de José Dias uma só me ficasse no coração; foi
-aquelle <i>gravissimo.</i> Vi depois que elle só queria
-dizer <i>grave</i>, mas o uso do superlativo faz a bocca
-longa, e, por amor do periodo, José Dias fez crescer
-a minha tristeza. Se achares neste livro algum caso
-da mesma familia, avisa-me, leitor, para que o
-emende na segunda edição; nada ha mais feio que
-dar pernas longuissimas a ideias brevissimas. Enxuguei
-os olhos, repito, e fui andando, ancioso agora
-por chegar a casa, e pedir perdão a minha mãe do
-ruim pensamento que tive. Emfim, chegámos, entramos,
-subi tremulo os seis degraus da escada, e
-d'ahi a pouco, debruçado sobre a cama, ouvia as
-palavras ternas de minha mãe que me apertava
-muito as mãos, chamando-me seu filho. Estava
-queimando, os olhos ardiam nos meus, toda ella parecia
-consumida por um volcão interno. Ajoelhei-me
-ao pé do leito, mas como este era alto, fiquei
-longe das suas caricias:</p>
-
-<p>&mdash;Não, meu filho, levanta, levanta!</p>
-
-<p>Capitú, que estava na alcova, gostou de ver a
-minha entrada, os meus gestos, palavras e lagrimas,
-segundo me disse depois; mas não suspeitou naturalmente
-todas as causas da minha afflicção. Entrando
-no meu quarto, pensei em dizer tudo a minha
-mãe, logo que ella ficasse boa, mas esta ideia não me
-mordia, era uma velleidade pura, uma acção que
-eu não faria nunca, por mais que o peccado me
-doesse. Então, levado do remorso, usei ainda uma
-vez do meu velho meio das promessas espirituaes,
-e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida
-de minha mãe, e eu lhe rezaria dous mil padre-nossos.
-Padre que me lês, perdoa este recurso; foi
-a ultima vez que o empreguei. A crise em que me
-achava, não menos que o costume e a fé, explica
-tudo. Eram mais dous mil; onde iam os antigos?
-Não paguei uns nem outros, mas saindo de almas
-candidas e verdadeiras taes promessas são como
-a moeda fiduciaria,&mdash;ainda que o devedor as não
-pague, valem a somma que dizem.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXVIII" id="LXVIII">LXVIII</a></h5>
-
-<h4>Adiemos a virtude.</h4>
-
-
-<p>Poucos teriam animo de confessar aquelle meu
-pensamento da rua de Matacavallos. Eu confessarei
-tudo o que importar á minha historia. Montaigne
-escreveu de si: <i>ce ne sont pas mes gestes que
-j'ecris; c'est moi, c'est mon essence.</i> Ora, ha só
-um modo de escrever a propria essencia, é contal-a
-toda, o bem e o mal. Tal faço eu, á medida que me
-vae lembrando o convindo á construção ou reconstrucção
-de mim mesmo. Por exemplo, agora que
-contei um peccado, diria com muito gosto alguma
-bella acção contemporanea, se me lembrasse, mas
-não me lembra; fica transferida a melhor opportunidade.</p>
-
-<p>Nem perderás em esperar, meu amigo; ao contrario,
-acóde-me agora que... Não só as bellas acções
-são bellas em qualquer occasião, como são tambem
-possiveis e provaveis, pela theoria que tenho dos
-peccados e das virtudes, não menos simples que
-clara. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com
-certo numero delles e dellas, alliados por matrimonio
-para se compensarem na vida. Quando um
-de taes conjuges é mais forte que o outro, elle só
-guia o individuo, sem que este, por não haver praticado
-tal virtude ou commettido tal peccado, se
-possa dizer isento de um ou de outro; mas a regra
-é dar-se a pratica simultanea dos dous, com vantagem
-do portador de ambos, e alguma vez com
-resplendor maior da terra e do ceu. É pena que eu
-não possa fundamentar isto com um ou mais casos
-extranhos; falta-me tempo.</p>
-
-<p>Pelo que me toca, é certo que nasci com alguns
-daquelles casaes, e naturalmente ainda os possuo.
-Já me succedeu, aqui no Engenho Novo, por estar
-uma noite com muita dòr de cabeça, desejar que o
-trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos
-e interrompesse a linha por muitas horas, ainda que
-morresse alguem; e no dia seguinte perdi o trem da
-mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a
-um cego que não trazia bordão. <i>Voilà mes gestes,
-voilà mon essence.</i></p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXIX" id="LXIX">LXIX</a></h5>
-
-<h4>A missa.</h4>
-
-
-<p>Um dos gestos que melhor exprimem a minha
-essencia foi a devoção com que corri no domingo
-proximo a ouvir missa em S. Antonio dos Pobres. O
-aggregado quiz ir commigo, e principiou a vestir-se,
-mas era tão lento nos suspensorios e nas presilhas,
-que não pude esperar por elle. Demais, eu queria
-estar só. Sentia necessidade de evitar qualquer
-conversação que me desviasse o pensamento do fim
-a que ia, e era reconciliar-me com Deus, depois
-do que se passou no capitulo LXVII. Nem era só
-pedir-lhe perdão do peccado, era tambem agradecer
-o restabelecimento de minha mãe, e, visto que digo
-tudo, fazel-o renunciar ao pagamento da minha
-promessa. Jehovah, posto que divino, ou por isso
-mesmo, é um Rothschild muito mais humano, e não
-faz moratorias, perdoa as dividas integralmente,
-uma vez que o devedor queira devéras emendar a
-vida e cortar nas despezas. Ora, eu não queria
-outra cousa; dalli em deante não faria mais promessas
-que não pudesse pagar, e pagaria logo as
-que fizesse.</p>
-
-<p>Ouvi missa; ao levantar a Deus, agradeci a vida
-e saude de minha mãe; depois pedi perdão do peccado
-e relevação da divida, e recebi a benção final
-do officiante como um acto solemne de reconciliação.
-No fim, lembrou-me que a egreja estabeleceu
-no confessionario um cartorio seguro, e na confissão
-o mais authentico dos instrumentos para o
-ajuste de contas moraes entre o homem e Deus.
-Mas a minha incorrigivel timidez me fechou essa
-porta certa; receiei não achar palavras com que
-dizer ao confessor o meu segredo. Como o homem
-muda! Hoje chego a publical-o.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXX" id="LXX">LXX</a></h5>
-
-<h4>Depois da missa.</h4>
-
-
-<p>Rezei ainda, persignei-me, fechei o livro de missa
-e caminhei para a porta. A gente mão era muita,
-mas a egreja tambem não é grande, e não pude sair
-logo, logo, mas devagar. Havia homens e mulheres,
-velhos e moços, sedas e chitas, e provavelmente
-olhos feios e bellos, mas eu não vi uns nem outros.
-Ia na direcção da porta, com a onda, ouvindo as
-saudações e os cochichos. No adro, onde se fez
-claro, parei e olhei para todos. Vi então uma moça
-e um homem, que saíam da egreja e pararam; e a
-moça olhava para mim falando ao homem, e o
-homem olhava para mim, ouvindo a moça. E chegaram-me
-estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;Mas que queres?</p>
-
-<p>&mdash;Queria saber della; papae pergunte.</p>
-
-<p>Era sinhásinha Sancha, a companheira de collegio
-de Capitú, que queria noticias de minha mãe. O pae
-veiu a mim; disse-lhe que estava restabelecida. Depois
-saimos, mostrou-me a casa delle, e, como eu
-vinha na mesma direcção, viemos juntos. Gurgel
-era homem de quarenta annos ou pouco mais, com
-propensão a engrossar o ventre; era muito obsequioso;
-chegando á porta da casa, quiz por força
-que eu fosse almoçar com elle.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigado; mamãe espera-me.</p>
-
-<p>&mdash;Manda-se lá um preto dizer que o senhor
-fica almoçando, e irá mais tarde.</p>
-
-<p>&mdash;Venho outro dia.</p>
-
-<p>Sinhásinha Sancha, voltada para o pae, ouvia e
-esperava. Não era feia; só se lhe podia notar a semelhança
-do nariz, que tambem acabava grosso,
-mas ha feições que tiram a graça de uns para dal-a
-a outros. Vestia simples. Gurgel era viuvo e morria
-pela filha. Como eu recusasse o almoço, quiz que
-descançasse alguns minutos. Não pude recusar e
-subi. Quis saber a minha edade, os meus estudos,
-a minha fé, e dava-me conselhos para o caso de
-vir a ser padre; disse-me o numero do armazem,
-rua da Quitanda. Emfim, despedi-me, veiu ao patamar
-da escada; a filha deu-me rocommendações
-para Capitú e para minha mãe. Da rua olhei para
-cima; o pae estava á janella e fez-me um gosto largo
-de despedida.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXI" id="LXXI">LXXI</a></h5>
-
-<h4>Visita de Escobar.</h4>
-
-
-<p>Em casa, tinham já mentido dizendo a minha
-mãe que eu voltára e estava mudando de roupa.</p>
-
-<p>«A missa das oito já ha de ter acabado... Bentinho
-devia estar de volta... Teria acontecido alguma
-cousa, mano Cosme?... Mandem ver...» Assim
-falava ella, de minuto a minuto, mas eu entrei
-e commigo a tranquillidade.</p>
-
-<p>Era o dia das boas sensações. Escobar foi visitar-me
-e saber da saude de minha mãe. Nunca me visitára
-até alli, nem as nossas relações estavam já
-tão estreitas, como vieram a ser depois; mas sabendo
-a razão da minha saida, tres dias antes,
-aproveitou o domingo para ir ter commigo e perguntar
-se continuava o perigo ou não. Quando lhe
-disse que não, respirou.</p>
-
-<p>&mdash;Tive receio, disse elle.</p>
-
-<p>&mdash;Os outros souberam?</p>
-
-<p>&mdash;Parece que sim: alguns souberam.</p>
-
-<p>Tio Cosme e José Dias gostaram do moço; o
-aggregado disse-lhe que vira uma vez o pae no Rio
-de Janeiro. Escobar era muito polido; e, comquanto
-falasse mais do que veiu a falar depois, ainda
-assim não era tanto como os rapazes da nossa
-edade; naquelle dia achei-o um pouco mais expansivo
-que de costume. Tio Cosme quiz que jantasse
-comnosco. Escobar reflectiu um instante e acabou
-dizendo que o correspondente do pae esperava por
-elle. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel,
-repeti-as:</p>
-
-<p>&mdash;Manda-se lá um preto dizer que o senhor
-janta aqui, e irá depois.</p>
-
-<p>&mdash;Tanto incommodo!</p>
-
-<p>&mdash;Incommodo nenhum, interveiu tio Cosme.</p>
-
-<p>Escobar acceitou, e jantou. Notei que os movimentos
-rápidos que tinha e dominava na aula tambem
-os dominava agora, na sala como na mesa. A hora
-que passou commigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe
-os poucos livros que possuia. Gostou muito
-do retrato de meu pae; depois de alguns instantes
-de contemplação, virou-se e disse-me:</p>
-
-<p>&mdash;Vê-se que era um coração puro!</p>
-
-<p>Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram
-dulcissimos; assim os definiu José Dias, depois que
-elle saiu, e mantenho esta palavra, apesar dos quarenta
-annos que traz em cima de si. Nisto não houve
-exageração do aggregado. A cara rapada mostrava
-uma pelle alva e lisa. A testa é que era um pouco
-baixa, vindo a risca do cabello quasi em cima da
-sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura
-necessaria para não affrontar as outras feições,
-nem diminuir a graça dellas. Realmente, era interessante
-de rosto, a bocca fina e chocarreira, o nariz
-curvo e delgado. Tinha o séstro de sacudir o hombro
-direito, de quando em quando, e veiu a perdel-o,
-desde que um de nós lh'o notou um dia no seminario;
-primeiro exemplo que vi de que um homem
-póde corrigir-se muito bem dos defeitos miudos.</p>
-
-<p>Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento
-em que os meus amigos agradassem a todos.
-Em casa, ficaram querendo bem a Escobar; a
-mesma prima Justina achou que era um moço muito
-apreciavel, apesar... Apesar de que? perguntou-lhe
-José Dias, vendo que ella não acabava a phrase.
-Não teve resposta, nem podia tel-a; prima Justina
-provavelmente não viu defeito claro ou importante
-no nosso hospede; o <i>apesar</i> era uma especie de resalva
-para algum que lhe viesse a descobrir um dia;
-ou então foi obra de uso velho, que a levou a restringir,
-onde não achára restricção.</p>
-
-<p>Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui
-leval-o á porta, onde esperámos a passagem de um
-omnibus. Disse-me que o armazem do correspondente
-era na rua dos Pescadores, e ficava aberto
-até ás nove horas: elle é que se não queria demorar
-fóra. Separámo-nos com muito affecto: elle, de
-dentro do omnibus, ainda me disse adeus, com a
-mão. Conservei-me á porta, a ver se, ao longe,
-ainda olharia para traz, mas não olhou.</p>
-
-<p>&mdash;Que amigo é esse tamanho? perguntou alguem
-de uma janella ao pé.</p>
-
-<p>Não é preciso dizer que era Capitú. São cousas
-que se adivinham na vida, como nos livros, sejam
-romances, sejam historias verdadeiras. Era Capitú,
-que nos espreitara desde algum tempo, por dentro
-da veneziana, e agora abrira inteiramente a janella,
-e apparecera. Viu as nossas despedidas tão
-rasgadas e affectuosas, e quiz saber quem era que
-me merecia tanto.</p>
-
-<p>&mdash;É o Escobar, disse eu indo pôr-me embaixo
-da janella, a olhar para cima.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXII" id="LXXII">LXXII</a></h5>
-
-<h4>Uma reforma dramatica.</h4>
-
-
-<p>Nem eu, nem tu, nem ella, nem qualquer outra
-pessoa desta historia poderia responder mais, tão
-certo é que o destino, como todos os dramaturgos,
-não annuncia as peripecias nem o desfecho. Elles
-chegam a seu tempo, até que o panno cae, apagam-se
-as luzes, e os espectadores vão dormir. Nesse
-genero ha porventura alguma cousa que reformar,
-e eu proporia, como ensaio, que as peças começassem
-pelo fim. Othello mataria a si e a Desdemona
-no primeiro acto, os tres seguintes seriam dados á
-acção lenta e decrescente do ciume, e o ultimo ficaria
-só com as scenas iniciaes da ameaça dos turcos,
-as explicações de Othello e Desdemona, e o bom
-conselho do fino Iago: «Mette dinheiro na bolsa.»
-Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia
-no theatro a charada habitual que os periodicos lhe
-dão, porque os ultimos actos explicariam o desfecho
-do primeiro, especie de conceito, e, por outro lado,
-ia para a cama com uma boa impressão de ternura
-e de amor:</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">
- Ella amou o que me affligira,<br />
- Eu amei a piedade della.<br />
-</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXIII" id="LXXIII">LXXIII</a></h5>
-
-<h4>O contra-regra.</h4>
-
-
-<p>O destino não é só dramaturgo, é tambem o seu
-proprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos
-personagens em scena, dá-lhes as cartas e outros
-objectos, e executa dentro os signaes correspondentes
-ao dialogo, uma trovoada, um carro, um
-tiro. Quando eu era moço, representou-se ahi, em
-não sei que theatro, um drama que acabava pelo
-juizo final. O principal personagem era Ashaverus,
-que no ultimo quadro concluia um monologo por
-esta exclamação: «Ouço a trombeta do archanjo!»
-Não se ouviu trombeta nenhuma. Ashaverus, envergonhado,
-repetiu a palavra, agora mais alto, para
-advertir o contra-regra, mas ainda nada. Então
-caminhou para o fundo, disfarçamente tragico, mas
-effectivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer
-em voz surda: «O piston! o piston! o piston!» O
-publico ouviu esta palavra e desatou a rir, até que,
-quando a trombeta soou devéras, e Ashaverus bradou
-pela terceira vez que era a do archanjo, um
-gaiato da platéa corrigiu cá debaixo: «Não, senhor,
-é o piston do archanjo!»</p>
-
-<p>Assim se explicam a minha estada debaixo da
-janella de Capitú e a passagem de um cavalleiro,
-um <i>dandy</i>, como então diziamos. Montava um bello
-cavallo alazão, firme na sella, redea na mão esquerda,
-a direita á cinta, botas de verniz, figura e
-postura esbeltas: a cara não me era desconhecida.
-Tinham passado outros, e ainda outros viriam atraz;
-todos iam ás suas namoradas. Era uso do tempo
-namorar a cavallo. Relê Alencar: «Porque um
-estudante (dizia um dos seus personagens de theatro
-de 1858) não póde estar sem estas duas cousas, um
-cavallo e uma namorada.» Relê Alvares de Azevedo.
-Uma das suas poesias é destinada a contar
-(1851) que residia em Catumby, e, para ver a namorada
-no Cattete, alugara um cavallo por trez mil
-reis... Trez mil reis! tudo se perde na noite dos
-tempos!</p>
-
-<p>Ora, o <i>dandy</i> do cavallo baio não passou como
-os outros; era a trombeta do juizo final e soou a
-tempo; assim faz o Destino, que é o seu proprio
-contra-regra. O cavalleiro não se contentou de ir
-andando, mas voltou a cabeça para o nosso lado, o
-lado de Capitú, e olhou para Capitú, e Capitú para
-elle; o cavallo andava, a cabeça do homem deixava-se
-ir voltando para traz. Tal foi o segundo dente de
-ciume que me mordeu. A rigor, era natural admirar
-as bellas figuras; mas aquelle sujeito costumava
-pagar alli, ás tardes; morava no antigo Campo da
-Acclamação, e depois... e depois... Vão lá raciocinar
-com um coração de braza, como era o meu!</p>
-
-<p>Nem disse nada a Capitú; saí da rua á pressa,
-enfiei pelo meu corredor, e, quando dei por mim,
-estava na sala de visitas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXIV" id="LXXIV">LXXIV</a></h5>
-
-<h4>A presilha.</h4>
-
-
-<p>Na sala de visitas, tio Cosme e José Dias conversavam,
-um sentado, outro andando e parando.
-A vista de José Dias lembrou-me o que elle me
-disséra no seminario: «Aquillo emquanto não
-pegar algum peralta da visinhança que case com
-ella....» Era certamente allusão ao cavalleiro. Tal
-recordação aggravou a impressão que eu trazia da
-rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente
-guardada, que me dispoz a crer na malicia dos
-seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José
-Dias pela gola, leval-o ao corredor e perguntar-lhe
-se falara de verdade ou por hypothese; mas José
-Dias, que parára ao ver-me entrar, continuou a
-andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir á casa ao
-pé, imaginava que Capitú saisse da janella assustada
-e não tardasse a apparecer, para indagar e
-explicar.... E os dous falavam, até que tio Cosme
-ergueu-se para ir ver a doente, e José Dias veiu ter
-commigo, ao vão da outra janella.</p>
-
-<p>Ha um instante tinha eu desejo de lhe perguntar
-o que havia entre Capitú e os peraltas do bairro;
-agora, imaginando que vinha justamente dizer-m'o,
-fiquei com medo de ouvil-o. Quiz tapar-lhe a bocca.
-José Dias viu no meu rosto algum signal differente
-da expressão habitual, e perguntou-me com interesse:</p>
-
-<p>&mdash;Que é, Bentinho?</p>
-
-<p>Para não fital-o, deixei cair os olhos. Os olhos,
-caindo, viram que uma das presilhas das calças do
-aggregado estava desabotoada, e, como elle insistisse
-em saber o que é que eu tinha, respondi apontando
-com o dedo:</p>
-
-<p>&mdash;Olhe a presilha, abotoe a presilha.</p>
-
-<p>José Dias inclinou-se, eu saí correndo.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXV" id="LXXV">LXXV</a></h5>
-
-<h4>O desespero.</h4>
-
-
-<p>Escapei ao aggregado, escapei a minha mãe não
-indo ao quarto della, mas não escapei a mim mesmo.
-Corri ao meu quarto, e entrei atraz de mim. Eu
-falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me á cama,
-e rolava commigo, e chorava, e abafava os soluços
-com a ponta do lençol. Jurei não ir ver Capitú aquella
-tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma
-vez. Via-me já ordenado, deante d'ella, que choraria
-de arrependimento e me pediria perdão, mas
-eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito
-desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa.
-Duas vezes dei por mim mordendo os dentes,
-como se a tivesse entre elles.</p>
-
-<p>Da cama ouvia voz della, que viera passar o resto
-da tarde com minha mãe, e naturalmente commigo,
-como das outras vezes; mas, por maior que fosse o
-abalo que me deu, não me fez sair do quarto. Capitú
-ria alto, falava alto, como se me avisasse; eu continuava
-surdo, a sós commigo e o meu desprezo. A
-vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no
-pescoço, enterral-as bem, até ver-lhe sair a vida
-com o sangue....</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXVI" id="LXXVI">LXXVI</a></h5>
-
-<h4>Explicação.</h4>
-
-
-<p>Ao fim de algum tempo, estava socegado, mas
-abatido. Como me achasse estirado na cama, com
-os olhos no tecto, lembrou-me a recommendação
-que minha mãe fazia de me não deitar depois de
-jantar para evitar alguma congestão. Ergui-me de
-golpe, mas não saí do quarto. Capitú ria agora
-menos e falava mais baixo; estaria afflicta com a
-minha reclusão, mas nem por isso me abalou.</p>
-
-<p>Não ceei e dormi mal. Na manhã seguinte não
-estava melhor, estava differente. A minha dòr agora
-complicava-se do receio de haver ido além do que
-convinha, deixando de examinar o negocio. Posto
-que a cabeça me doesse um pouco, simulei maior incommodo,
-com o fim de não ir ao seminario e falar
-a Capitú. Podia estar zangada commigo, podia não
-querer-me agora e preferir o cavalleiro. Quiz resolver
-tudo, ouvil-a e julgal-a; podia ser que tivesse defesa
-e explicação.</p>
-
-<p>Tinha ambas as cousas. Quando soube a causa
-da minha reclusão da vespera, disse-me que era
-grande injuria que lhe fazia; não podia crer que
-depois da nossa troca de juramentos, tão leviana a
-julgasse que pudesse crer.... E aqui romperam-lhe
-lagrimas, e fez um gesto de separação; mas eu
-acudi de prompto, peguei-lhe das mãos e beijei-as
-com tanta alma e calor que as senti estremecer. Enxugou
-os olhos com os dedos, eu os beijei de novo,
-por elles e pelas lagrimas; depois suspirou, depois
-abanou a cabeça. Confessou-me que não conhecia o
-rapaz, senão como os outros que alli passavam ás
-tardes, a cavallo ou a pé. Se olhara para elle, era
-prova exactamente de não haver nada entre ambos;
-se houvesse, era natural dissimular.</p>
-
-<p>&mdash;E que poderia haver, se elle vae casar? concluiu.</p>
-
-<p>&mdash;Vae casar?</p>
-
-<p>Ia casar, disse-me com quem, com uma moça da
-rua dos Barbonos. Esta razão quadrou-me mais que
-tudo, e ella o sentiu no meu gesto; nem por isso
-deixou de dizer que, para evitar nova equivocação,
-deixaria de ir mais á janella.</p>
-
-<p>&mdash;Não! não! não! não lhe peço isto!</p>
-
-<p>Consentiu em retirar a promessa, mas fez outra,
-e foi que, á primeira suspeita da minha parte, tudo
-estaria dissolvido entro nós. Acceitei a ameaça, e
-jurei que nunca a haveria de cumprir: era a primeira
-suspeita e a ultima.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXVII" id="LXXVII">LXXVII</a></h5>
-
-<h4>Prazer das dôres velhas.</h4>
-
-
-<p>Contando aquella crise do meu amor adolescente,
-sinto uma cousa que não sei se explico bem, e é que
-as dôres daquella quadra, a tal ponto se espiritualisaram
-com o tempo, que chegam a diluir-se no prazer.
-Não é claro isto, mas nem tudo é claro na vida
-ou nos livros. A verdade é que sinto um gosto
-particular em referir tal aborrecimento, quando é
-certo que elle me lembra outros que não quizera
-lembrar por nada.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXVIII" id="LXXVIII">LXXVIII</a></h5>
-
-<h4>Segredo por segredo.</h4>
-
-
-<p>De resto, naquelle mesmo tempo senti tal ou qual
-necessidade de contar a alguem o que se passava
-entre mim e Capitú. Não referi tudo, mas só uma
-parte, e foi Escobar que a recebeu. Quando voltei ao
-seminario, na quarta-feira, achei-o inquieto; disse-me
-que era sua intenção ir ver-me, se eu me demorasse
-mais um dia em casa. Perguntava-me com
-interesse o que é que tivera, e se estava bom de todo.</p>
-
-<p>&mdash;Estou.</p>
-
-<p>Ouvia, espetando-me os olhos. Tres dias depois
-disse que me estavam achando muito distrahido;
-era bom disfarçar o mais que pudesse. Elle, á sua
-parte, tinha razões para andar distrahido tambem,
-mas buscava ficar attento.</p>
-
-<p>&mdash;Então parece-lhe....?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, você ás vezes está que não ouve nada,
-olhando para hontem; disfarce, Santiago.</p>
-
-<p>&mdash;Tenho motivos....</p>
-
-<p>&mdash;Creio; ninguem se distrae á toa.</p>
-
-<p>&mdash;Escobar....</p>
-
-<p>Hesitei; elle esperou.</p>
-
-<p>&mdash;Que é?</p>
-
-<p>&mdash;Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo
-tambem; aqui no seminario você é a pessoa que
-mais me tem entrado no coração, e lá fóra, a não
-ser a gente da familia, não tenho propriamente um
-amigo.</p>
-
-<p>&mdash;Se eu disser a mesma cousa, retorquiu elle sorrindo,
-perde a graça; parece que estou repetindo.
-Mas a verdade é que não tenho aqui relações com
-ninguem, você é o primeiro e creio que já notaram;
-mas eu não me importo com isso.</p>
-
-<p>Commovido, senti que a voz se me precipitava da
-garganta.</p>
-
-<p>&mdash;Escobar, você é capaz de guardar um segredo?</p>
-
-<p>&mdash;Você que pergunta é porque duvida, e nesse
-caso....</p>
-
-<p>&mdash;Desculpe, é um modo de falar. Eu sei que é
-moço serio, e faço de conta que me confesso a um
-padre.</p>
-
-<p>&mdash;Se precisa de absolvição, está absolvido.</p>
-
-<p>&mdash;Escobar, eu não posso ser padre. Estou aqui,
-os meus acreditam, o esperam; mas eu não posso
-ser padre.</p>
-
-<p>&mdash;Nem eu, Santiago.</p>
-
-<p>&mdash;Nem você?</p>
-
-<p>&mdash;Segredo por segredo; tambem eu tenho o proposito
-de não acabar o curso; meu desejo é o commercio,
-mas não diga nada, absolutamente nada;
-fica só entre nós. E não é que eu não seja religioso;
-sou religioso, mas o commercio é a minha paixão.</p>
-
-<p>&mdash;Só isso?</p>
-
-<p>&mdash;Que mais ha de ser?</p>
-
-<p>Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da
-minha confidencia, tão escassa e surda, que não a
-ouvi eu mesmo; sei porém que disse «uma pessoa...»
-com reticencia. Uma pessoa....? Não foi preciso mais
-para que elle entendesse. Uma pessoa devia ser uma
-moça. Nem cuides que pasmou de me ver namorado;
-achou até natural e espetou-me outra vez os olhos.
-Então contei-lhe por alto o que podia, mas demoradamente
-para ter o gosto de repisar o assumpto. Escobar
-escutava com interesse; no fim da nossa conversação,
-declarou-me que era segredo enterrado
-em cemiterio. Deu-me de conselho que não me fizesse
-padre. Não podia levar para a egreja um coração
-que não era do ceu, mas da terra; seria um mau
-padre, nem seria padre. Ao contrario. Deus protegia
-os sinceros; uma vez que eu só podia servil-o no
-mundo, ahi me cumpria ficar.</p>
-
-<p>Não calculas o prazer que me deu a confidencia
-que lhe fiz. Era como que uma felicidade mais.
-Aquelle coração moço que me ouvia e me dava
-razão, trazia a este mundo um aspecto extraordinario.
-Era um grande e bello mundo, a vida uma
-carreira excellente, e eu nem mais nem menos
-um mimoso do ceu; eis a minha sensação. Nota
-que eu não lhe disse tudo, nem o melhor; não lhe
-referi o capitulo do penteado, por exemplo, nem
-outros assim; mas o contado era muito.</p>
-
-<p>Que voltámos ao assumpto, não é preciso dizel-o.
-Voltámos uma e muitas vezes; eu louvava as qualidades
-moraes de Capitú, materia adequada á admiração
-de um seminarista, a simpleza, a modestia, o
-amor do trabalho e os costumes religiosos. Não lhe
-tocava nas graças physicas, nem elle me perguntava
-por ellas; apenas insinuei a conveniencia de a
-conhecer de vista.</p>
-
-<p>&mdash;Agora não é possivel, disse-lhe na primeira
-semana, ao voltar de casa; Capitú vae passar uns
-dias com uma amiga da rua dos Invalidos. Quando
-ella vier, você irá lá; mas póde ir antes, póde ir
-sempre; porque não foi hontem jantar commigo?</p>
-
-<p>&mdash;Você não me convidou.</p>
-
-<p>&mdash;Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram
-gostando muito de você.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem eu fiquei gostando de todos, mas se
-é possivel fazer distincção, confesso-lhe que sua mãe
-é uma senhora adoravel.</p>
-
-<p>&mdash;Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXIX" id="LXXIX">LXXIX</a></h5>
-
-<h4>Vamos ao capitulo.</h4>
-
-
-<p>Com effeito, gostei de ouvil-o falar assim. Sabes
-a opinião que eu tinha de minha mãe. Ainda agora,
-depois de interromper esta linha para mirar-lhe o
-retrato que pende da parede, acho que trazia no
-rosto impressa aquella qualidade. Nem de outro
-modo se explica a opinião de Escobar, que apenas
-trocara com ella quatro palavras. Uma só bastava
-a penetrar-lhe a essencia intima; sim, sim, minha
-mãe era adoravel. Por mais que me estivesse então
-obrigando a uma carreira que eu não queria, não
-podia deixar de sentir que era adoravel, como uma
-santa.</p>
-
-<p>E por ventura era certo que me obrigava á carreira
-ecclesiastica? Aqui chego a um ponto, que esperei
-viesse depois, tanto que já pesquizava em que
-altura lhe daria um capitulo. Realmente, não cabia
-dizer agora o que só mais tarde presumi descobrir;
-mas, uma vez que toquei no ponto, melhor é acabar
-com elle. É grave e complexo, delicado e subtil,
-um destes em que o autor tem de attender ao filho,
-e o filho ha de ouvir o autor, para que um e outro
-digam a verdade, só a verdade, mas toda a verdade.
-Cabe ainda notar que esse ponto é que torna
-justamente a santa mais adoravel, sem prejuizo
-(ao contrario!) da parte humana e terrestre que
-havia nella. Basta de prefacio ao capitulo; vamos
-ao capitulo.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXX" id="LXXX">LXXX</a></h5>
-
-<h4>Venhamos ao capitulo.</h4>
-
-
-<p>Venhamos ao capitulo. Minha mãe era temente
-a Deus; sabes disto, e das suas praticas
-religiosas, e da fé pura que as animava. Nem
-ignoras que a minha carreira ecclesiastica era
-objecto de promessa feita quando fui concebido.
-Tudo está contado opportunamente. Outrosim, sabes
-que para o fim de apertar o vinculo moral
-da obrigação, confiou os seus projectos e motivos
-a parentes e familiares. A promessa, feita com
-fervor, acceita com misericordia, foi guardada por
-ella, com alegria, no mais intimo do coração.
-Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite
-que me deu a mamar. Meu pae, se vivesse, é possivel
-que alterasse os planos, e, como tinha a vocação
-da politica, é provavel que me encaminhasse
-somente á politica, embora os dous officios não fossem
-nem sejam inconciliaveis, e mais de um padre
-entre na luta dos partidos e no governo dos homens.
-Mas meu pae morrera sem saber nada, e ella ficou
-deante do contracto, como unica devedora.</p>
-
-<p>Um dos aphorismos de Franklin é que, para
-quem tem de pagar na paschoa, a quaresma é curta.
-A nossa quaresma não foi mais longa que as outras,
-e minha mãe, posto me mandasse ensinar latim e
-doutrina, começou a adiar a minha entrada no
-seminario. É o que se chama, commercialmente
-falando, reformar uma lettra. O credor era archi-millionario,
-não dependia daquella quantia para
-comer, e consentiu nas transferencias de pagamento,
-sem sequer aggravar a taxa do juro. Um
-dia, porém, um dos familiares que serviam de endossantes
-da letra, falou da necessidade de entregar
-o preço ajustado; está n'um dos capitulos primeiros.
-Minha mãe concordou e recolhi-me a S. José.</p>
-
-<p>Ora, nesse mesmo capitulo, verteu ella umas
-lagrimas, que enxugou sem explicar, e que nenhum
-dos presentes, nem tio Cosme, mau prima Justina,
-nem o aggregado José Dias entendeu absolutamente;
-eu, que estava atraz da porta, não as entendi
-mais que elles. Bem examinadas, apesar da
-distancia, vê-se que eram saudades prévias, a magoa
-da separação,&mdash;e póde ser tambem (é o principio
-do ponto), póde ser que arrependimento da promessa.
-Catholica e devota, sentia muito bem que as
-promessas se cumprem; a questão é se é opportuno
-e adequado fazel-as todas, e naturalmente inclinava-se
-á negativa. Porque é que Deus a puniria,
-negando-lhe um segundo filho? A vontade divina
-podia ser a minha vida, sem necessidade de lh'a
-dedicar <i>ab ovo.</i> Era um raciocinio tardio; devia
-ter sido feito no dia em que fui gerado. Em todo
-caso, era uma conclusão primeira; mas, não bastando
-concluir para destruir, tudo se manteve, e eu
-fui para o seminario.</p>
-
-<p>Um cochilo da fé teria resolvido a questão a
-meu favor, mas a fé velava com os seus grandes
-olhos ingenuos. Minha mãe faria, se pudesse, uma
-troca de promessa, dando parte dos seus annos
-para conservar-me comsigo, fóra do clero, casado e
-pae; é o que presumo, assim como supponho que
-rejeitou tal ideia, por lhe parecer uma deslealdade.
-Assim a senti sempre na corrente da vida ordinaria.</p>
-
-<p>Succedeu que a minha ausencia foi logo temperada
-pela assiduidade de Capitú. Esta começou a
-fazer-se-lhe necessaria. Pouco a pouco veiu-lhe a
-persuasão de que a pequena me faria feliz. Então
-(é o final do ponto annunciado), a esperança de
-que o nosso amor, tornando-me absolutamente incompativel
-com o seminario, me levasse a não ficar
-lá nem por Deus nem pelo diabo, esta esperança
-intima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe.
-Neste caso, eu romperia o contracto sem
-que ella tivesse culpa. Ella ficava commigo sem
-acto propriamente seu. Era como se, tendo confiado
-a alguem a importancia de uma divida para leval-a
-ao credor, o portador guardasse o dinheiro comsigo
-e não levasse nada. Na vida commum, o acto de
-terceiro não desobriga o contractante; mas a vantagem
-de contractar com o ceu é que intenção vale
-dinheiro.</p>
-
-<p>Has de ter tido conflictos parecidos com esse, e,
-se és religioso, haverás buscado alguma vez conciliar
-o ceu e a terra, por modo identico ou analogo.
-O ceu e a terra acabam conciliando-se; elles são
-quasi irmãos gemeos, tendo o ceu sido feito no
-segundo dia e a terra no terceiro. Como Abrahão,
-minha mãe levou o filho ao monte da Visão, e mais
-a lenha para o holocausto, o fogo e o cutello. E
-atou Isaac em cima do feixe de lenha, pegou do
-cutello e levantou-o ao alto. No momento de fazel-o
-cair, ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do
-Senhor: «Não faças mal algum a teu filho;
-conheci que temes a Deus.» Tal seria a esperança
-secreta de minha mãe.</p>
-
-<p>Capitú era naturalmente o anjo da Escriptura.
-A verdade é que minha mãe não podia tel-a agora
-longe de si. A affeição crescente era manifesta por
-actos extraordinarios. Capitú passou a ser a flôr
-da casa, o sol das manhãs, o frescor das tardes, a
-lua das noites; lá vivia horas e horas, ouvindo,
-falando e cantando. Minha mãe apalpava-lhe o
-coração, revolvia-lhe os olhos, e o meu nome era
-entre ambas como a senha da vida futura.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXXI" id="LXXXI">LXXXI</a></h5>
-
-<h4>Uma palavra.</h4>
-
-
-<p>Assim contado o que descobri mais tarde, posso
-trasladar para aqui uma palavra de minha mãe.
-Agora se entenderá que ella me dissesse, no primeiro
-sabbado, quando eu cheguei a casa, e soube
-que Capitú estava na rua dos Invalidos, com Sinhásinha
-Gurgel.</p>
-
-<p>&mdash;Porque não vaes vel-a? Não me disseste que
-o pae de Sancha te offereceu a casa?</p>
-
-<p>&mdash;Offereceu.</p>
-
-<p>&mdash;Pois então? Mas é se queres. Capitú devia
-ter voltado hoje para acabar um trabalho commigo;
-certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá.</p>
-
-<p>&mdash;Talvez ficassem namorando, insinuou prima
-Justina.</p>
-
-<p>Não a matei por não ter a mão ferro nem corda,
-pistola nem punhal; mas os olhos que lhe deitei, se
-pudessem matar, teriam supprido tudo. Um dos erros
-da Providencia foi deixar ao homem unicamente os
-braços e os dentes, como armas de ataque, e as
-pernas como armas de fuga ou de defesa. Os olhos
-bastavam ao primeiro effeito. Um mover delles
-faria parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam
-vingança prompta, com este accressimo que,
-para desnortear a justiça, os mesmos olhos matadores
-seriam olhos piedosos, e correriam a chorar
-a victima. Prima Justina escapou aos meus; eu é
-que não escapei ao effeito da insinuação, e no domingo,
-ás onze horas, corri á rua dos Invalidos.</p>
-
-<p>O pae de Sancha recebeu-me em desalinho
-e triste. A filha estava enferma; caira na vespera
-com uma febre, que se ia aggravando. Como elle
-queria muito á filha, pensava já vel-a morta, e
-annunciou-me que se mataria tambem. Eis aqui um
-capitulo funebre como um cemiterio, mortes, suicidios
-e assassinatos. Eu anciava por um raio de luz
-clara e ceu azul. Foi Capitú que os trouxe á porta
-da sala, vindo dizer ao pae de Sancha que a filha
-o mandara chamar.</p>
-
-<p>&mdash;Está peor? perguntou Gurgel assustado.</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhor, mas quer falar-lhe.</p>
-
-<p>&mdash;Fique aqui um bocadinho, disse-lhe elle; e
-voltando-se para mim: É a enfermeira de Sancha,
-que não quer outra; eu já volto.</p>
-
-<p>Capitú trazia signaes de fadiga e commoção,
-mas tão depressa me viu, ficou toda outra, a mocinha
-de sempre, fresca e lepida, não menos que
-espantada. Custou-lhe a crer que fosse eu. Falou-me,
-quiz que lhe falasse, e effectivamente conversámos
-por alguns minutos, mas tão baixo e abafado
-que nem as paredes ouviram, ellas que tèm
-ouvidos. De resto, se ellas ouviram algo, nada entenderam,
-nem ellas nem os moveis, que estavam
-tão tristes como o dono.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXXII" id="LXXXII">LXXXII</a></h5>
-
-<h4>O canapé.</h4>
-
-
-<p>Delles, só o canapé pareceu haver comprehendido
-a nossa situação moral, visto que nos offereceu os
-serviços da sua palhinha, com tal insistencia que
-os acceitámos e nos sentámos. Data dahi a opinião
-particular que tenho do canapé. Elle faz alliar a
-intimidade e o decoro, e mostra a casa toda sem
-sair da sala. Dous homens sentados nelle pódem
-debater o destino de um imperio, e duas mulheres
-a graça de um vestido; mas, um homem e uma
-mulher só por aberração das leis naturaes dirão
-outra cousa que não seja de si mesmos. Foi o que
-fizemos, Capitú e eu. Vagamente lembra-me que
-lhe perguntei se a demora alli seria grande...</p>
-
-<p>&mdash;Não sei; a febre parece que cede... mas...</p>
-
-<p>Tambem me lembra, vagamente, que lhe expliquei
-a minha visita á rua dos Invalidos, com a
-pura verdade, isto é, a conselho de minha mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Conselho della? murmurou Capitú.</p>
-
-<p>E accrescentou com os olhos, que brilhavam
-extraordinariamente:</p>
-
-<p>&mdash;Seremos felizes!</p>
-
-<p>Repeti esta palavras, com os simples dedos,
-apertando os della. O canapé, quer visse ou não,
-continuou a prestar os seus serviços ás nossas mãos
-presas e ás nossas cabeças juntas ou quasi juntas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXXIII" id="LXXXIII">LXXXIII</a></h5>
-
-<h4>O retrato.</h4>
-
-
-<p>Gurgel tornou á sala e disse a Capitú que a filha
-chamava por ella. Eu levantei-me depressa e não
-achei compostura; mettia os olhos pelas cadeiras.
-Ao contrario, Capitú ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe
-se a febre augmentára.</p>
-
-<p>&mdash;Não, disse elle.</p>
-
-<p>Nem sobresalto nem nada, nenhum ar de mysterio
-da parte de Capitú; voltou-se para mim, e disse-me
-que levasse lembranças a minha mãe e a
-prima Justina, e que até breve; estendeu-me a mão
-e enfiou pelo corredor. Todas as minhas invejas
-foram com ella. Como era possivel que Capitú se
-governasse tão facilmente e eu não?</p>
-
-<p>&mdash;Está uma moça, observou Gurgel olhando
-tambem para ella.</p>
-
-<p>Murmurei que sim. Na verdade, Capitú ia crescendo
-ás carreiras, as fórmas arredondavam-se e
-avigoravam-se com grande intensidade; moralmente,
-a mesma cousa. Era mulher por dentro e
-por fóra, mulher á direita e á esquerda, mulher por
-todos os lados, e desde os pés até á cabeça. Esse
-arvorecer era mais apressado, agora que eu a via
-de dias a dias; de cada vez que vinha a casa
-achava-a mais alta e mais cheia; os olhos pareciam
-ter outra reflexão, e a bocca outro imperio. Gurgel,
-voltando-se para a parede da sala, onde pendia um
-retrato de moça, perguntou-me se Capitú era parecida
-com o retrato.</p>
-
-<p>Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar
-com a opinião provavel do meu interlocutor,
-desde que a materia não me aggrava, aborrece ou
-impõe. Antes de examinar se effectivamente Capitú
-era parecida com o retrato, fui respondendo que
-sim. Então elle disse que era o retrato da mulher
-delle, e que as pessoas que a conheceram diziam a
-mesma cousa. Tambem achava que as feições eram
-semelhantes, a testa principalmente e os olhos.
-Quanto ao genio, era um; pareciam irmãs.</p>
-
-<p>&mdash;Finalmente, até a amizade que ella tem a
-Sanchinha; a mãe não era mais amiga della... Na
-vida ha dessas semelhanças assim exquisitas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXXIV" id="LXXXIV">LXXXIV</a></h5>
-
-<h4>Chamado.</h4>
-
-
-<p>No saguão e na rua, examinei ainda commigo se
-effectivamente elle teria desconfiado alguma cousa,
-mas achei que não e puz-me a andar. Ia satisfeito
-com a visita, com a alegria de Capitú, com os louvores
-de Gurgel, a tal ponto que não acudi logo a
-uma voz que me chamava:</p>
-
-<p>&mdash;Sr. Bentinho! Sr. Bentinho!</p>
-
-<p>Só depois que a voz cresceu e o dono della chegou
-á porta é que eu parei e vi o que era e onde estava.
-Estava já na rua de Matacavallos. A casa era uma
-loja de louça, escassa e pobre; tinha as portas
-meio-cerradas, e a pessoa que me chamava era um
-pobre homem grisalho e mal vestido.</p>
-
-<p>&mdash;Sr. Bentinho, disse-me elle chorando; sabe
-que meu filho Manduca morreu?</p>
-
-<p>&mdash;Morreu?</p>
-
-<p>&mdash;Morreu ha meia hora, enterra-se amanhã. Mandei
-recado a sua mãe agora mesmo, e ella fez-me a
-caridade de mandar algumas flores para botar no
-caixão. Meu pobre filho! Tinha de morrer, e foi
-bom que morresse, coitado, mas apesar de tudo
-sempre doe. Que vida que elle teve!... Um dia
-destes ainda se lembrou do senhor, e perguntou se
-estava no seminario... Quer vel-o? Entre, ande
-vel-o...</p>
-
-<p>Custa-me dizer isto, mas antes peque por excessivo
-que por diminuto. Quiz responder que não,
-que não queria ver o Manduca, e fiz até um gesto
-para fugir. Não era medo; n'outra occasião póde
-ser até que entrasse com facilidade e curiosidade,
-mas agora ia tão contente! Ver um defuncto ao
-voltar de uma namorada... Ha cousas que se não
-ajustam nem combinam. A simples noticia era já
-uma turvação grande. Às minhas ideias de ouro
-perderam todas a côr e o metal para se trocarem
-em cinza escura e feia, e não distingui mais nada.
-Penso que cheguei a dizer que tinha pressa, mas
-provavelmente não falei por palavras claras, nem
-sequer humanas, porque elle, encostado ao portal,
-abria-me espaço com o gesto, e eu, sem alma para
-entrar nem fugir, deixei ao corpo fazer o que pudesse,
-e o corpo acabou entrando.</p>
-
-<p>Não culpo ao homem; para elle, a cousa mais
-importante do momento era o filho. Mas tambem
-não me culpem a mim; para mim, a cousa mais
-importante era Capitú. O mal foi que os dous casos
-se conjugassem na mesma tarde, e que a morte de
-um viesse metter o nariz na vida do outro. Eis o
-mal todo. Se eu passasse antes ou depois, ou se o
-Manduca esperasse algumas horas para morrer,
-nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias
-da minha alma. Porque morrer exactamente
-ha meia hora? Toda hora é apropriada ao obito;
-morre-se muito bem ás seis ou sete horas da tarde.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXXV" id="LXXXV">LXXXV</a></h5>
-
-<h4>O defuncto.</h4>
-
-
-<p>Tal foi o sentimento confuso com que entrei na
-loja de louça. A loja era escura, e o interior da casa
-menos luz tinha, agora que as janellas da área estavam
-cerradas. A um canto da sala de jantar vi a
-mãe chorando; á porta da alcova duas creanças
-olhavam espantadas para dentro, com o dedo na
-bocca. O cadaver jazia na cama; a cama...</p>
-
-<p>Suspendamos a penna e vamos á janella espairecer
-a memoria. Realmente, o quadro era feio, já
-pela morte, já pelo defuncto, que era horrivel...
-Isto aqui, sim, é outra cousa. Tudo o que vejo lá
-fóra respira vida, a cabra que rumina ao pé de uma
-carroça, a gallinha que marisca no chão da rua, o
-trem da Estrada Central que bufa, assobia, fumega
-e passa, a palmeira que investe para o ceu, e finalmente
-aquella torre de egreja, apesar de não ter
-musculos nem folhagem. Um rapaz, que alli no
-becco empina um papagaio de papel, não morreu
-nem morre, posto tambem se chame Manduca.</p>
-
-<p>Verdade é que o outro Manduca era mais velho
-que este, pouco mais velho. Teria dezoito ou dezenove
-annos, mas tanto lhe darias quinze como vinte
-e dous, a cara não permittia trazer a edade á vista,
-antes a escondia nas dobras da... Vá, diga-se tudo;
-é morto, os seus parentes são mortos, se existe
-algum não é em tal evidencia que se vexe ou dôa.
-Diga-se tudo; Manduca padecia de uma cruel enfermidade,
-nada menos que a lepra. Vivo era
-feio; morto pareceu-me horrivel. Quando eu vi,
-estendido na cama, o triste corpo daquelle meu
-visinho, fiquei apavorado e desviei os olhos. Não
-sei que mão occulta me compelliu a olhar outra vez,
-ainda que de fugida; cedi, olhei, tornei a olhar, até
-que recuei de todo e saí do quarto.</p>
-
-<p>&mdash;Padeceu muito! suspirou o pae.</p>
-
-<p>&mdash;Coitado de Manduca! soluçava a mãe.</p>
-
-<p>Eu cuidei de sair, disse que era esperado em
-casa, e despedi-me. O pae perguntou-me se lhe
-faria o favor de ir ao enterro; respondi com a verdade,
-que não sabia, faria o que minha mãe quizesse.
-E rapido saí, atravessei a loja, e saltei á
-rua.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXXVI" id="LXXXVI">LXXXVI</a></h5>
-
-<h4>Amai, rapazes!</h4>
-
-
-<p>Era tão perto, que antes de tres minutos me achei
-em casa. Parei no corredor, a tomar folego; buscava
-esquecer o defuncto, pallido e disforme, e o
-mais que não disse para não dar a estas paginas
-um aspecto repugnante, mas pódes imaginal-o.
-Tudo arredei da vista, em poucos segundos; bastou-me
-pensar na outra casa, e mais na vida e na
-cara fresca e lepida de Capitú... Amai, rapazes! e,
-principalmente, amai moças lindase graciosas; ellas
-dão remedio ao mal, aroma ao infecto, trocam a
-morte pela vida... Amai, rapazes!</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXXVII" id="LXXXVII">LXXXVII</a></h5>
-
-<h4>A sege.</h4>
-
-
-<p>Chegara ao ultimo degrau, e uma ideia me entrou
-no cerebro, como se estivesse a esperar por mim,
-entre as grades da cancella. Ouvi de memoria as
-palavras do pae de Manduca pedindo-me que fosse
-ao enterro no dia seguinte. Parei no degrau. Reflecti
-um instante; sim, podia ir ao enterro, pediria a
-minha mãe que me alugasse um carro...</p>
-
-<p>Não cuides que era o desejo de andar de carro,
-por mais que tivesse o gosto da conducção. Em
-pequeno, lembra-me que ia assim muita vez com
-minha mãe ás visitas de amizade ou de ceremonia,
-e á missa, se chovia. Era uma velha sege de meu pae,
-que ella conservou o mais que poude. O cocheiro,
-que era nosso escravo, tão velho como a sege,
-quando me via á poria, vestido, esperando minha
-mãe, dizia-me rindo:</p>
-
-<p>&mdash;Pae João vae levar nhonhô!</p>
-
-<p>E era raro que eu não lhe recommendasse:</p>
-
-<p>&mdash;João, demora muito as bestas; vae devagar.</p>
-
-<p>&mdash;Nhã Gloria não gosta.</p>
-
-<p>&mdash;Mas demora!</p>
-
-<p>Fica entendido que era para saborear a sege,
-não pela vaidade, porque ella não permittia ver as
-pessoas que iam dentro. Era uma velha sege obsoleta,
-de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas
-de couro na frente, que corriam para os lados
-quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina
-tinha um oculo de vidro, por onde eu gostava de
-espiar para fóra.</p>
-
-<p>&mdash;Senta, Bentinho!</p>
-
-<p>&mdash;Deixa espiar, mamãe!</p>
-
-<p>E em pé, quando era mais pequeno, mettia a
-cara no vidro, e via o cocheiro com as suas grandes
-botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando
-a redea da outra; na mão levava o chicote
-grosso e comprido. Tudo incommodo, as botas, o
-chicote e as mulas, mas elle gostava e eu tambem.
-Dos lados via passar as casas, lojas ou não, abertas
-ou fechadas, com gente ou sem ella, e na rua as
-pessoas que iam e vinham, ou atravessavam deante
-da sege, com grandes pernadas ou passos miudos.
-Quando havia impedimento de gente ou de animaes,
-a sege parava, e então o espectaculo era particularmente
-interessante; as pessoas paradas na calçada
-ou á porta das casas, olhavam para a sege e
-falavam entre si, naturalmente sobre quem iria
-dentro. Quando fui crescendo em edade imaginei
-que adivinhavam e diziam: «É aquella senhora
-da rua de Matacavallos, que tem um filho, Bentinho...»</p>
-
-<p>A sege ia tanto com a vida recondita de minha
-mãe, que quando já não havia nenhuma outra,
-continuámos a andar nella, e era conhecida na rua
-e no bairro pela «sege antiga». Afinal minha mãe
-consentiu em deixal-a, sem a vender logo; só abriu
-mão della porque as despezas de cocheira a
-obrigaram a isso. A razão de a guardar inutil foi
-exclusivamente sentimental; era a lembrança do
-marido. Tudo o que vinha de meu pae era conservado
-como um pedaço delle, um resto da pessoa,
-a mesma alma integral e pura. Mas o uso,
-esse era filho tambem do carrancismo que ella confessava
-aos amigos. Minha mãe exprimia bem a
-fidelidade aos velhos habitos, velhas maneiras,
-velhas ideias, velhas modas. Tinha o seu museo de
-reliquias, pentes desusados, um trecho de mantilha,
-umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825, e,
-para que tudo fosse antigo, a si mesma se queria fazer
-velha; mas já deixei dito que, neste ponto, não alcançava
-tudo o que queria.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXXVIII" id="LXXXVIII">LXXXVIII</a></h5>
-
-<h4>Um pretexto honesto.</h4>
-
-
-<p>Não, a ideia de ir ao enterro não vinha da lembrança
-do carro e suas doçuras. A origem era outra:
-era porque, acompanhando o enterro no dia
-seguinte, não iria ao seminario, e podia fazer outra
-visita a Capitú, um tanto mais demorada. Eis ahi o
-que era. A lembrança do carro podia vir accessoriamente
-depois, mas a principal e immediata foi
-aquella. Voltaria á rua dos Invalidos, a pretexto de
-saber de Sinházinha Gurgel. Contava que tudo me
-saisse como naquelle dia, Gurgel afflicto, Capitú
-commigo no canapé, as mãos presas, o penteado...</p>
-
-<p>&mdash;Vou pedir a mamãe.</p>
-
-<p>Abri a cancella. Antes de transpôl-a, assim como
-ouvira da memoria a palavra do pae do morto,
-ouvi agora a da mãe, e repeti a meia voz:</p>
-
-<p>&mdash;Coitado de Manduca!</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="LXXXIX" id="LXXXIX">LXXXIX</a></h5>
-
-<h4>A recusa.</h4>
-
-
-<p>Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para
-ir ao enterro.</p>
-
-<p>&mdash;Perder um dia de seminario...</p>
-
-<p>Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha,
-e depois era gente pobre... Tudo o que me lembrou
-dizer, disse. Prima Justina opinou pela negativa.</p>
-
-<p>&mdash;Você acha que não deve ir? perguntou-lhe
-minha mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Acho que não. Que amizade é essa que eu
-nunca vi?</p>
-
-<p>Prima Justina venceu. Quando referi o caso ao
-aggregado, este sorriu, e disse-me que o motivo
-escondido da prima era provavelmente não dar ao
-enterro «o lustre da minha pessoa.» Fosse o que
-fosse, fiquei amuado; no dia seguinte, pensando no
-motivo, não me desagradou; mais tarde achei-lhe
-um sabor particular.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XC" id="XC">XC</a></h5>
-
-<h4>A polemica.</h4>
-
-
-<p>No dia seguinte, passei pela casa do defuncto,
-sem entrar nem parar,&mdash;ou, se parei, foi só um
-instante, ainda mais breve que este em que vol-o
-digo. Se me não engano, andei até mais depressa,
-receiando que me chamassem como na vespera.
-Uma vez que não ia ao enterro, antes longe que
-proximo. Fui andando e pensando no pobre diabo.</p>
-
-<p>Não eramos amigos, nem nos conheciamos de
-muito. Intimidade, que intimidade podia haver entre
-a doença delle e a minha saude? Tivemos relações
-breves e distantes. Fui pensando nellas, recordando
-algumas. Reduziam-se todas a uma polemica,
-entre nós, dous annos antes, a proposito... Mal
-podeis crer a que proposito foi. Foi a guerra da
-Criméa.</p>
-
-<p>Manduca vivia no interior da casa, deitado na
-cama, lendo por desfastio. Ao domingo, sobre a
-tarde, o pae enfiava-lhe uma camisola escura, e
-trazia-o para o fundo da loja, donde elle espiava
-um palmo da rua e a gente que passava. Era todo
-o seu recreio. Foi alli que o vi uma vez, e não fiquei
-pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte
-das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto
-não attrahia, de certo. Tinha eu de treze para quatorze
-annos. Da segunda vez que o vi alli, como
-falassemos da guerra da Criméa, que então ardia e
-andava nos jornaes, Manduca disse que os alliados
-haviam de vencer, e eu respondi que não.</p>
-
-<p>&mdash;Pois veremos, tornou elle. Só se a justiça não
-vencer neste mundo, o que é impossivel, e a justiça
-está com os alliados.</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhor, a razão é dos russos.</p>
-
-<p>Naturalmente, iamos com o que nos diziam os
-jornaes da cidade, transcrevendo os de fóra, mas
-póde ser tambem que cada um de nós tivesse a opinião
-do seu temperamento. Fui sempre um tanto
-moscovita nas minhas ideias. Defendi o direito da
-Russia, Manduca fez o mesmo ao dos alliados, e o
-terceiro domingo em que entrei na loja tocámos
-outra vez no assumpto. Então Manduca propoz que
-trocassemos a argumentação por escripto, e na terça
-ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo
-a exposição e defesa do direito dos alliados, e
-da integridade da Turquia, concluindo por esta
-phrase prophetica:</p>
-
-<p>«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»</p>
-
-<p>Li-a e metti-me a refutal-a. Não me recorda um
-só dos argumentos que empreguei, nem talvez interesse
-conhecel-os, agora que o seculo está a expirar;
-mas a ideia que me ficou delles é que eram irrespondiveis.
-Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel.
-Fizeram-me entrar na alcova, onde elle jazia estirado
-na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos.
-Ou gosto da polemica ou qualquer outra causa
-que não alcanço, não me deixou sentir toda a repugnancia
-que saía da cama e do doente, e o prazer
-com que lhe dei o papel foi sincero. Manduca, pela
-sua parte, por mais nojosa que tivesse então a cara,
-o sorriso que a accendou dissimulou o mal physico.
-A convicção com que me recebeu o papel e disse
-que ia ler e responderia é que não tem palavras
-nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade;
-não era exaltada, não era ruidosa, não tinha
-gestos, nem a molestia os permittiria, era simples,
-grande, profunda, um goso infinito de victoria,
-antes de saber os meus argumentos. Tinha já papel,
-penna e tinta ao pé da cama. Dias depois recebi a
-réplica; não me lembra se trazia cousas novas ou
-não; o calor é que crescia, e o final era o mesmo:</p>
-
-<p>«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»</p>
-
-<p>Trepliquei, e dahi continuou por algum tempo
-uma polemica ardente, em que nenhum de nós
-cedia, defendendo cada um os seus clientes com
-força e brio. Manduca era mais longo e prompto
-que eu. Naturalmente a mim sobravam mil cousas
-que distrahiam, o estudo, os recreios, a familia, e
-a propria saude, que me chamava a outros exercicios.
-Manduca, salvo o palmo de rua ao domingo de
-tarde, tinha só esta guerra, assumpto da cidade e
-do mundo, mas que ninguem ia tratar com elle.
-O acaso dera-lhe em mim um adversario; elle, que
-tinha gosto á escripta, deitou-se ao debate, como a
-um remedio novo e radical. As horas tristes e compridas
-eram agora breves e alegres; os olhos desapprenderam
-de chorar, se por ventura choravam
-antes. Senti esta mudança delle nas proprias maneiras
-do pae e da mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Não imagina como elle anda agora, depois
-que o senhor lhe escreve aquelles papeis, dizia-me o
-dono da loja, uma vez, á porta da rua. Fala e ri
-muito. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os
-papeis delle, entra a indagar da resposta, e se demorará
-muito, e que pergunte ao moleque, quando
-passar. Emquanto espera, relê jornaes e toma
-notas. Mas tambem, apenas recebe os seus papeis,
-atira-se a lel-os, e começa logo a escrever a resposta.
-Ha occasiões em que não come ou come mal;
-tanto que eu queria pedir-lhe uma cousa, é que não
-os mande á hora do almoço ou de jantar...</p>
-
-<p>Fui eu que cancei primeiro. Comecei a demorar
-as respostas, até que não dei mais nenhuma; elle
-ainda teimou duas ou tres vezes depois do meu
-silencio, mas não recebendo contestação alguma,
-por fadiga tambem ou por não aborrecer, acabou de
-todo com as suas apologias. A ultima, como a primeira,
-como todas, affirmava a mesma predicção
-eterna:</p>
-
-<p>«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»</p>
-
-<p>Não entraram, effectivamente, nem então, nem
-depois, nem até agora. Mas a predicção será eterna?
-Não chegarão a entrar algum dia? Problema difficil.
-O proprio Manduca, para entrar na sepultura,
-gastou tres annos de dissolução, tão certo é que a
-natureza, como a historia, não se faz brincando.
-A vida delle resistiu como a Turquia; se afinal
-cedeu foi porque lhe faltou uma alliança como a
-anglo-franceza, não se podendo considerar tal o
-simples accordo da medicina e da pharmacia. Morreu
-afinal, como os Estados morrem; no nosso caso
-particular, a questão é saber, não se a Turquia
-morrerá, porque a morte não poupa a ninguem,
-mas se os russos entrarão algum dia em Constantinopla;
-essa era a questão para o meu visinho leproso,
-debaixo da triste, rota e infecta colcha de
-retalhos...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XCI" id="XCI">XCI</a></h5>
-
-<h4>Achado que consola.</h4>
-
-
-<p>É claro que as reflexões que ahi deixo não foram
-feitas então, a caminho do seminario, mas agora no
-gabinete do Engenho Novo. Então, não fiz propriamente
-nenhuma, a não ser esta: que servi de allivio
-um dia ao meu visinho Manduca. Hoje, pensando
-melhor, acho que não só servi de allivio, mas até
-lhe dei felicidade. E o achado consola-me; já agora
-não esquecerei mais que dei dous ou tres mezes
-de felicidade a um pobre diabo, fazendo-lhe esquecer
-o mal e o resto. É alguma cousa na liquidação
-da minha vida. Se ha no outro mundo tal ou qual
-premio para as virtudes sem intenção, esta pagará
-um ou dous dos meus muitos peccados. Quanto ao
-Manduca, não creio que fosse peccado opinar contra
-a Russia, mas, se era, elle estará purgando ha
-quarenta annos a felicidade que alcançou em dous
-ou tres mezes,&mdash;donde concluirá (já tarde) que
-era ainda melhor haver gemido sómente, sem opinar
-cousa nenhuma.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XCII" id="XCII">XCII</a></h5>
-
-<h4>O diabo não é tão feio como se pinta.</h4>
-
-
-<p>Manduca enterrou-se sem mim. A muitas outros
-aconteceu a mesma cousa, sem que eu sentisse
-nada, mas este caso affligiu-me particularmente
-pela razão já dita. Tambem senti não sei que melancolia
-ao recordar a primeira polemica da vida, o
-gosto com que elle recebia os meus papeis e se propunha
-a refutal-os, não contando o gosto do carro...
-Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades
-e resurreições. Nem foi só elle; duas pessoas vieram
-ajudal-o, Capitú, cuja imagem dormiu commigo
-na mesma noite, e outra que direi no capitulo
-que vem. O resto deste capitulo e só para pedir que,
-se alguem tiver de ler o meu livro com alguma
-attenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar,
-não deixe de concluir que o diabo não é tão
-feio como se pinta. Quero dizer...</p>
-
-<p>Quero dizer que o meu visinho de Matacavallos,
-temperando o mal com a opinião anti-russa, dava
-á podridão das suas carnes um reflexo espiritual
-que as consolava. Ha consolações maiores, de certo,
-e uma das mais excellentes é não padecer esse nem
-outro mal algum, mas a natureza é tão divina que
-se diverte com taes contrastes, e aos mais nojentos
-ou mais afflictos acena com uma flòr. E talvez
-saia assim a flòr mais bella; o meu jardineiro
-affirma que as violetas, para terem um cheiro superior,
-hão mister de estrume de porco. Não examinei,
-mas deve ser verdade.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XCIII" id="XCIII">XCIII</a></h5>
-
-<h4>Um amigo por um defuncto.</h4>
-
-
-<p>Quanto á outra pessoa que teve a força obliterativa,
-foi o meu collega Escobar que no domingo,
-antes do meio dia, veiu ter a Matacavallos. Um
-amigo suppria assim um defuncto, e tal amigo que
-durante cerca de cinco minutos esteve com a minha
-mão entre as suas, como se me não visse desde
-longos mezes.</p>
-
-<p>&mdash;Você janta commigo, Escobar?</p>
-
-<p>&mdash;Vim para isto mesmo.</p>
-
-<p>Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me
-tinha, e elle respondeu com muita polidez, ainda
-que um tanto atado, como se carecesse de palavra
-prompta. Já viste que não era assim, a palavra
-obedecia-lhe, mas o homem não é sempre o
-mesmo em todos os instantes. O que elle disse, em
-resumo, foi que me estimava pelas minhas boas
-qualidades e aprimorada educação; no seminario
-todos me queriam bem, nem podia deixar de ser
-assim, accrescentou. Insistia na educação, nos bons
-exemplos, «na doce e rara mãe» que o ceu me
-deu... Tudo isso com a voz engasgada e tremula.</p>
-
-<p>Todos ficaram gostando delle. Eu estava tão contente
-como se Escobar fosse invenção minha. José
-Dias desfechou-lhe dous superlativos, tio Cosme
-dous capotes, e prima Justina não achou tacha que
-lhe pôr; depois, sim, no segundo ou terceiro domingo,
-veiu ella confessar-nos que o meu amigo
-Escobar era um tanto mettidiço e tinha uns olhos
-policiaes a que não escapava nada.</p>
-
-<p>&mdash;São os olhos delle, expliquei.</p>
-
-<p>&mdash;Nem eu digo que sejam de outro.</p>
-
-<p>&mdash;São olhos reflectidos, opinou tio Cosme.</p>
-
-<p>&mdash;Seguramente, acudiu José Dias, entretanto,
-póde ser que a senhora D. Justina tenha alguma
-razão. A verdade é que uma cousa não impede
-outra, e a reflexão casa-se muito bem á curiosidade
-natural. Parece curioso, isso parece, mas...</p>
-
-<p>&mdash;A mim parece-me um mocinho muito serio,
-disse minha mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Justamente! confirmou José Dias para não
-discordar della.</p>
-
-<p>Quando eu referi a Escobar aquella opinião de
-minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente)
-vi que o prazer delle foi extraordinario. Agradeceu,
-dizendo que eram bondades, e elogiou tambem
-minha mãe, senhora grave, distincta e moça, muito
-moça... Que edade teria?</p>
-
-<p>&mdash;Já fez quarenta, respondi eu vagamente por
-vaidade.</p>
-
-<p>&mdash;Não é possivel! exclamou Escobar. Quarenta
-annos! Nem parece trinta; está muito moça e
-bonita. Tambem a alguem ha de você sair, com
-esses olhos que Deus lhe deu; são exactamente os
-della. Enviuvou ha muitos annos?</p>
-
-<p>Contei-lhe o que sabia da vida della e de meu
-pae. Escobar escutava attento, perguntando mais,
-pedindo explicação das passagens omissas ou só
-escuras. Quando eu lhe disse que não me lembrava
-nada da roça, tão pequenino viera, contou-me duas
-ou tres reminiscencias dos seus tres annos de edade,
-ainda agora frescas. E não contavamos voltar á
-roça?</p>
-
-<p>&mdash;Não, agora não voltamos mais. Olhe, aquelle
-preto que alli vae passando, é de lá. Thomaz!</p>
-
-<p>&mdash;Nhonhô!</p>
-
-<p>Estavamos na horta da minha casa, e o preto
-andava em serviço; chegou-se a nós e esperou.</p>
-
-<p>&mdash;É casado, disse eu para Escobar. Maria onde
-está?</p>
-
-<p>&mdash;Está soccando milho, sim, senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Você ainda se lembra da roça, Thomaz?</p>
-
-<p>&mdash;Alembra, sim, senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, vá-se embora.</p>
-
-<p>Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este
-Pedro, aquelle José, aquelle outro Damião...</p>
-
-<p>&mdash;Todas as lettras do alphabeto, interrompeu
-Escobar.</p>
-
-<p>Com effeito, eram differentes lettras, e só então
-reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns
-com os mesmos nomes, distinguindo-se por um
-appellido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria
-Gorda, ou de nação como Pedro Benguella, Antonio
-Moçambique...</p>
-
-<p>&mdash;E estão todos aqui em casa? perguntou elle.</p>
-
-<p>&mdash;Não, alguns andam ganhando na rua, outros
-estão alugados. Não era possivel ter todos em casa.
-Nem são todos os da roça; a maior parte ficou lá.</p>
-
-<p>&mdash;O que me admira é que D. Gloria se acostumasse
-logo a viver em casa da cidade, onde tudo é
-apertado; a de lá é naturalmente grande.</p>
-
-<p>&mdash;Não sei, mas parece. Mamãe tem outras casas
-maiores que esta; diz porém que ha de morrer aqui.
-As outras estão alugadas. Algumas são bem
-grandes, como a da rua da Quitanda...</p>
-
-<p>&mdash;Conheço essa; é bonita.</p>
-
-<p>&mdash;Tem tambem no Rio Comprido, na Cidade-Nova,
-uma no Cattete...</p>
-
-<p>&mdash;Não lhe hão de faltar tectos, concluiu elle
-sorrindo com sympathia.</p>
-
-<p>Caminhámos para o fundo. Passámos o lavadouro;
-elle parou um instante ahi, mirando a pedra
-de bater roupa e fazendo reflexões a proposito do
-asseio; depois continuámos. Quaes foram as reflexões
-não me lembra agora; lembra-me só que as
-achei engenhosas, e ri, elle riu tambem. A minha
-alegria accordava a delle, e o ceu estava tão azul,
-e o ar tão claro, que a natureza parecia rir tambem
-comnosco. São assim as boas horas deste mundo.
-Escobar confessou esse accordo do interno com o
-externo, por palavras tão finas e altas que me commoveram;
-depois, a proposito da belleza moral que
-se ajusta á physica, tornou a falar de minha mãe,
-«um anjo dobrado», disse elle.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XCIV" id="XCIV">XCIV</a></h5>
-
-<h4>Ideias arithmeticas.</h4>
-
-
-<p>Não digo o mais, que foi muito. Nem elle sabia
-só elogiar e pensar, sabia tambem calcular depressa
-e bem. Era das cabeças arithmeticas de Holmes
-(2+2=4). Não se imagina a facilidade com que
-elle sommava ou multiplicava de cór. A divisão,
-que foi sempre uma das operações difficeis para
-mim, era para elle como nada: cerrava um pouco
-os olhos, voltados para cima, e sussurrava as denominações
-dos algarismos: estava prompto. Isto
-com sete, treze, vinte algarismos. A vocação era
-tal que o fazia amar os proprios signaes das sommas,
-e tinha esta opinião que os algarismos, sendo
-poucos, eram muito mais conceituosos que as vinte
-e cinco letras do alphabeto.</p>
-
-<p>&mdash;Ha lettras inuteis e lettras dispensaveis, dizia
-elle. Que serviço diverso prestam o <i>d</i> e o <i>t</i>? Tem
-quasi o mesmo som. O mesmo digo do <i>b</i> e do <i>p</i>, o
-mesmo do <i>s</i>, do <i>c</i> e do <i>z</i>, o mesmo do <i>k</i> e do <i>g</i>, etc.
-São trapalhices calligraphicas. Veja os algarismos:
-não ha dous que façam o mesmo officio; 4 é 4,
-e 7 é 7. E admire a belleza com que um 4 e um 7
-formam esta cousa que se exprime por 11. Agora
-dobre 11 e terá 22; multiplique por egual numero,
-dá 484, e assim por deante. Mas onde o perfeição é
-maior é no emprego do <i>zero.</i> O valor do <i>zero</i> é, em
-si mesmo, nada; mas o officio deste signal negativo
-é justamente augmentar. Um 5 sósinho é um 5;
-ponha-lhe dous 00, é 500. Assim, o que não vale
-nada faz valer muito, cousa que não fazem as letras
-dobradas, pois eu tanto <i>approvo</i> com um <i>p</i> como
-com dous <i>pp.</i></p>
-
-<p>Criado na orthographia de meus paes, custava-me
-a ouvir taes blasphemias, mas não ousava refutal-o.
-Com tudo, um dia, proferi algumas palavras
-de defesa, ao que elle respondeu que era um preconceito,
-e accrescentou que as ideias arithmeticas
-podiam ir ao infinito, com a vantagem que eram
-mais faceis de menear. Assim que, eu não era capaz
-de resolver de momento um problema philosophico
-ou linguistico, ao passo que elle podia sommar, em
-tres minutos, quaesquer quantias.</p>
-
-<p>&mdash;Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma
-porção de numeros que eu não saiba nem possa
-saber antes... olhe, dê-me o numero das casas de
-sua mãe e os alugueis de cada uma, e se eu não
-disser a somma total em dous, em um minuto,
-enforque-me!</p>
-
-<p>Acceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe
-escriptos em um papel os algarismos das casas e
-dos alugueis. Escobar pegou no papel, passou-os
-pelos olhos afim de os decorar, e emquanto eu fitava
-o relogio, elle erguia as pupillas, cerrava as palpebras,
-e sussurrava... Oh! o vento não é mais rápido!
-Foi dito e feito; em meio minuto bradava-me:</p>
-
-<p>&mdash;Dá tudo 1:070$000 mensaes.</p>
-
-<p>Fiquei pasmado. Considera que eram não menos
-de nove casas, e que os alugueis variavam de uma
-para outra, indo de 70$000 a 180$000. Pois tudo
-isto em que eu gastaria tres ou quatro minutos,&mdash;e
-havia de ser no papel,&mdash;fel-o Escobar de cór,
-brincando. Olhava-me triumphalmente, e perguntava
-se não era exacto. Eu, só por lhe mostrar que
-sim, tirei do bolso o papelinho que levava com a
-somma total, e mostrei-lh'o; era aquillo mesmo,
-nem um erro: 1:070$000.</p>
-
-<p>&mdash;Isto prova que as ideias arithmeticas são mais
-simples, e portanto mais naturaes. A natureza é
-simples. A arte é atrapalhada.</p>
-
-<p>Fiquei tão enthusiasmado com a facilidade
-mental do meu amigo, que não pude deixar de
-abraçal-o. Era no pateo; outros seminaristas notaram
-a nossa effusão; um padre que estava com
-elles não gostou.</p>
-
-<p>&mdash;A modestia, disse-nos, não consente esses
-gestos excessivos; pódem estimar-se com moderação.</p>
-
-<p>Escobar observou-me que os outros e o padre
-falavam de inveja e propoz-me viver separados.
-Interrompi-o dizendo que não; se era inveja, tanto
-peor para elles.</p>
-
-<p>&mdash;Quebremos-lhe a castanha na bocca!</p>
-
-<p>&mdash;Mas...</p>
-
-<p>&mdash;Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.</p>
-
-<p>Escobar apertou-me a mão ás escondidas, com
-tal força que ainda me doem os dedos. É illusão,
-de certo, se não é effeito das longas horas que
-tenho estado a escrever sem parar. Suspendamos a
-penna por alguns instantes...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XCV" id="XCV">XCV</a></h5>
-
-<h4>O papa.</h4>
-
-
-<p>A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda;
-a de José Dias não lhe quiz ficar atraz. Na primeira
-semana disse-me este em casa:</p>
-
-<p>&mdash;Agora é certo que você vae sair já do seminario.</p>
-
-<p>&mdash;Como?</p>
-
-<p>&mdash;Espere até amanhã. Vou jogar com elles que
-me chamaram; amanhã, lá no quarto, no quintal,
-ou na rua, indo á missa, conto-lhe o que ha. A ideia
-é tão santa que não está mal no santuario. Amanhã,
-Bentinho.</p>
-
-<p>&mdash;Mas é cousa certa?</p>
-
-<p>&mdash;Certíssima!</p>
-
-<p>No dia seguinte revelou-me o mysterio. Ao primeiro
-aspecto, confesso que fiquei deslumbrado.
-Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade
-que falava aos meus olhos de seminarista. Era não
-menos que isto. Minha mãe, ao parecer delle,
-estava arrependida do que fizera, e desejaria ver-me
-cá fóra, mas entendia que o vinculo moral da
-promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria
-rompel-o, e para tanto valia a Escriptura, com o
-poder de desligar dado aos apostolos. Assim que,
-elle e eu iriamos a Roma pedir a absolvição do
-papa... Que me parecia?</p>
-
-<p>&mdash;Parece-me bem, respondi depois de alguns
-segundos de reflexão. Póde ser um bom remedio.</p>
-
-<p>&mdash;É o unico, Bentinho, é o unico! Vou já hoje
-conversar com D. Gloria, exponho-lhe tudo, e podemos
-partir daqui a dous mezes, ou antes...</p>
-
-<p>&mdash;Melhor é falar domingo que vem; deixe-me
-pensar primeiro...</p>
-
-<p>&mdash;Oh! Bentinho! interrompeu o aggregado.
-Pensar em que? Você o que quer... Digo? não se
-amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar
-a uma pessoa.</p>
-
-<p>Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitú e Escobar,
-mas eu neguei a pés juntos que quizesse
-consultar ninguem. E que pessoa, o reitor? Não era
-natural que lhe confiasse tal assumpto. Não, nem
-reitor, nem professor, nem ninguem; era só o
-tempo de reflectir, uma semana, no domingo daria
-a resposta, e desde já lhe dizia que a ideia não me
-parecia má.</p>
-
-<p>&mdash;Não?</p>
-
-<p>&mdash;Não.</p>
-
-<p>&mdash;Pois resolvamos hoje mesmo.</p>
-
-<p>&mdash;Não se vae a Roma brincando.</p>
-
-<p>&mdash;Quem tem bocca vae a Roma, e bocca no nosso
-caso é a moeda. Ora, você póde muito bem gastar
-comsigo... Commigo, não; um par de calças, tres
-camisas e o pão diário, não preciso mais. Serei
-como S. Paulo, que vivia do officio emquanto ia
-prégando a palavra divina. Pois eu vou, não prégal-a,
-mas buscal-a. Levaremos cartas do internuncio
-e do bispo, cartas para o nosso ministro,
-cartas de capuchinhos... Bem sei a objecção que se
-póde oppôr a esta ideia; dirão que é dado pedir a
-dispensa cá de longe; mas, além do mais que não
-digo, basta reflectir que é muito mais solemne e
-bonito ver entrar no Vaticano, e prostrar-se aos pés
-do papa o proprio objecto do favor, o levita promettido,
-que vae pedir para sua mãe ternissima e dulcissima
-a dispensa de Deus. Considere o quadro,
-você beijando o pé ao príncipe dos apostolos; Sua
-Santidade, com o sorriso evangelico, inclina-se,
-interroga, ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam,
-a Virgem recommenda ao santissimo filho
-que todos os seus desejos, Bentinho, sejam satisfeitos,
-e que o que você amar na terra seja egualmente
-amado no ceu...</p>
-
-<p>Não digo mais, porque é preciso acabar o capitulo,
-e elle não acabou o discurso. Falou a todos os
-meus sentimentos de catholico e de namorado. Vi a
-alma alliviada de minha mãe, vi a alma feliz de
-Capitú, ambas em casa, e eu com ellas, e elle comnosco,
-tudo mediante uma pequena viagem a Roma,
-que eu só geographicamente sabia onde ficava; espiritualmente,
-tambem, mas a distancia que estaria
-da vontade de Capitú é que não. Eis o ponto essencial.
-Se Capitú achasse longe, não iria; mas era
-preciso ouvil-a, e assim tambem a Escobar, que me
-daria um bom conselho.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XCVI" id="XCVI">XCVI</a></h5>
-
-<h4>Um substituto.</h4>
-
-
-<p>Expuz a Capitú a ideia de José Dias. Ouviu-me
-attentamente, e acabou triste.</p>
-
-<p>&mdash;Você indo, disse ella, esquece-me inteiramente.</p>
-
-<p>&mdash;Nunca!</p>
-
-<p>&mdash;Esquece. A Europa dizem que é tão bonita, e
-a Italia principalmente. Não é de lá que vêm as
-cantoras? Você esquece-me, Bentinho. E não haverá
-outro meio? D. Gloria está morta para que você
-saia do seminario.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, mas julga-se presa pela promessa.</p>
-
-<p>Capitú não achava outra ideia, nem acabava de
-adoptar esta. De caminho, pediu-me que, se acaso
-fosse a Roma, jurasse que no fim de seis mezes estaria
-de volta.</p>
-
-<p>&mdash;Juro.</p>
-
-<p>&mdash;Por Deus?</p>
-
-<p>&mdash;Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis
-mezes estarei de volta.</p>
-
-<p>&mdash;Mas se o papa não tiver ainda soltado a você?</p>
-
-<p>&mdash;Mando dizer isso mesmo.</p>
-
-<p>&mdash;E se você mentir?</p>
-
-<p>Esta palavra doeu-me muito, e não achei logo que
-lhe replicasse. Capitú metteu o negocio á bulha,
-rindo e chamando-me disfarçado. Depois, declarou
-crer que eu cumpriria o juramento, mas ainda
-assim não consentiu logo; ia ver se não haveria
-outra cousa, e eu que visse tambem por meu lado.</p>
-
-<p>Quando voltei ao seminario, contei tudo ao meu
-amigo Escobar, que me ouviu com egual attenção e
-acabou com a mesma tristeza da outra. Os olhos, de
-costume fugidios, quasi me comeram de contemplação.
-De repente, vi-lhe no rosto um clarão, um
-reflexo de ideia. E ouvi-lhe dizer com volubilidade:</p>
-
-<p>&mdash;Não, Bentinho, não é preciso isso. Ha melhor,&mdash;não
-digo melhor, porque o Santo Padre vale
-sempre mais que tudo,&mdash;mas ha cousa que produz
-o mesmo effeito.</p>
-
-<p>&mdash;Que é?</p>
-
-<p>&mdash;Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um
-sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote,
-que não seja você. Ella póde muito bem tomar a si
-algum mocinho orphão, fazel-o ordenar á sua custa,
-está dado um padre ao altar, sem que você...</p>
-
-<p>&mdash;Entendo, entendo, é isso mesmo.</p>
-
-<p>&mdash;Não acha? continuou elle. Consulte sobre isto
-o protonotario; elle lhe dirá se não é a mesma
-cousa, ou eu mesmo consulto, se quer; e se elle
-hesitar, fala-se ao Sr. bispo.</p>
-
-<p>Eu, reflectindo:</p>
-
-<p>&mdash;Sim, parece que é isso; realmente, a promessa
-cumpre-se, não se perdendo o padre.</p>
-
-<p>Escobar observou que, pelo lado economico, a
-questão era facil; minha mãe gastaria o mesmo
-que commigo, e um orphão não precisaria grandes
-commodidades. Citou a somma dos alugueis das
-casas, 1:070$000, além dos escravos...</p>
-
-<p>&mdash;Não ha outra cousa, disse eu.</p>
-
-<p>&mdash;E saimos juntos.</p>
-
-<p>&mdash;Você tambem?</p>
-
-<p>&mdash;Tambem eu. Vou melhorar o meu latim e
-saio; nem dou theologia. O proprio latim não é
-preciso; para quê no commercio?</p>
-
-<p>&mdash;<i>In hoc signo vinces</i>, disse eu rindo.</p>
-
-<p>Sentia-me pilherico. Oh! como a esperança alegra
-tudo. Escobar sorriu, parecendo gostar da resposta.
-Depois ficámos a cuidar de nós mesmos, cada um
-com os seus olhos perdidos, provavelmente. Os delle
-estavam assim, quando tornei de longe, e agradeci
-de novo o plano lembrado; não podia havel-o
-melhor. Escobar ouviu-me contentissimo.</p>
-
-<p>&mdash;Ainda uma vez, disse elle gravemente, a religião
-e a liberdade fazem boa companhia.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XCVII" id="XCVII">XCVII</a></h5>
-
-<h4>A saida.</h4>
-
-
-<p>Tudo se fez por esse teor. Minha mãe hesitou um
-pouco, mas acabou cedendo, depois que o padre
-Cabral, tendo consultado o bispo, voltou a dizer-lhe
-que sim, que podia ser. Saí do seminario no
-fim do anno.</p>
-
-<p>Tinha então pouco mais de dezesete... Aqui
-devia ser o meio do livro, mas a inexperiencia fez-me
-ir atraz da penna, e chego quasi ao fim do papel,
-com o melhor da narração por dizer. Agora não ha
-mais que leval-a a grandes pernadas, capitulo sobre
-capitulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em
-resumo. Já esta pagina vale por mezes, outras valerão
-por annos, e assim chegaremos ao fim. Um
-dos sacrificios que faço a esta dura necessidade é a
-analyse das minhas emoções dos dezesete annos.
-Não sei se alguma vez tiveste dezesete annos. Se
-sim, deves saber que é a edade em que a metade
-do homem e a metade do menino formam um só
-curioso. Eu era um curiosissimo, diria o meu
-aggregado José Dias, e não diria mal. O que essa
-qualidade superlativa me rendeu não poderia nunca
-dizel-o aqui, sem cair no erro que acabo de condemnar;
-a analyse das minhas emoções daquelle
-tempo é que entrava no meu plano. Posto que filho
-do seminario e de minha mãe, sentia já, debaixo do
-recolhimento casto, uns assomos de petulancia e de
-atrevimento; eram do sangue, mas eram tambem
-das moças que na rua ou da janella não me deixavam
-viver socegado. Achavam-me lindo, e diziam-m'o;
-algumas queriam mirar de mais perto a minha
-belleza, e a vaidade é um principio de corrupção.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XCVIII" id="XCVIII">XCVIII</a></h5>
-
-<h4>Cinco annos.</h4>
-
-
-<p>Venceu a razão; fui-me aos estudos. Passei os
-dezoito annos, os dezenove, os vinte, os vinte e um;
-aos vinte e dous era bacharel em direito.</p>
-
-<p>Tudo mudára em volta de mim. Minha mãe resolvera-se
-a envelhecer; ainda assim os cabellos
-brancos vinham de má vontade, aos poucos e espalhadamente;
-a touca, os vestidos, os sapatos rasos
-e surdos eram os mesmos de outr'ora. Já não andaria
-tanto de um lado para outro. Tio Cosme padecia
-do coração e ia descançar. A prima Justina
-apenas estava mais edosa. José Dias tambem, não
-tanto que me não fizesse a fineza de ir assistir á
-minha graduação, e descer commigo a serra, lepido
-e viçoso, como se o bacharel fosse elle. A mãe de
-Capitú fallecera, o pae aposentára-se no mesmo
-cargo em que quiz dar demissão da vida.</p>
-
-<p>Escobar começava a negociar em café depois de
-haver trabalhado quatro annos em uma das primeiras
-casas do Rio de Janeiro. Era opinião de
-prima Justina que elle affagára a ideia de convidar
-minha mãe a segundas nupcias; mas, se tal ideia
-houve, cumpre não esquecer a grande differença de
-edade. Talvez elle não pensasse em mais que associal-a
-aos seus primeiros tentamens commerciaes,
-e de facto, a pedido meu, minha mãe adeantou-lhe
-alguns dinheiros, que elle lhe restituiu, logo que
-poude, não sem este remoque: «D. Gloria é medrosa
-e não tem ambição.»</p>
-
-<p>A separação não nos esfriou. Elle foi o terceiro
-na troca das cartas entre mim e Capitú. Desde que
-a viu animou-me muito no nosso amor. As relações
-que travou com o pae de Sancha estreitaram as
-que já trazia com Capitú, e fel-o servir a ambos nós,
-como amigo. A principio, custou-lhe a ella acceital-o,
-preferia José Dias, mas José Dias repugnava-me
-por um resto de respeito de creança. Venceu Escobar;
-posto que vexada, Capitú entregou-lhe a primeira
-carta, que foi mãe e avó das outras. Nem
-depois de casado suspendeu elle o obsequio... Que
-elle casou,&mdash;adivinha com quem,&mdash;casou com a
-boa Sancha, a amiga de Capitú, quasi irmã della,
-tanto que alguma vez, escrevendo-me, chamava a
-esta a «sua cunhadinha.» Assim se formam as
-affeições e os parentescos, as aventuras e os livros.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="XCIX" id="XCIX">XCIX</a></h5>
-
-<h4>O filho é a cara do pae.</h4>
-
-
-<p>Minha mãe, quando eu regressei bacharel quasi
-estalou de felicidade. Ainda ouço a voz de José Dias,
-lembrando o evangelho de S. João, e dizendo ao
-ver-nos abraçados.</p>
-
-<p>&mdash;Mulher, eis ahi o teu filho! Filho, eis ahi a
-tua mãe!</p>
-
-<p>Minha mãe, entre lagrimas:</p>
-
-<p>&mdash;Mano Cosme, é a cara do pae, não é?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, tem alguma cousa, os olhos, a disposição
-do rosto. É o pae, um pouco mais moderno, concluiu
-por chalaça. E diga-me agora, mana Gloria,
-não foi melhor que elle não teimasse em ser padre?
-Veja se este peralta daria um padre capaz.</p>
-
-<p>&mdash;Como vae o meu substituto?</p>
-
-<p>&mdash;Vae indo, ordena-se para o anno, respondeu
-tio Cosme. Has de ir ver a ordenação; eu tambem,
-se o meu senhor coração consentir. É bom que te
-sintas na alma do outro, como se recebesses em ti
-mesmo a sagração.</p>
-
-<p>&mdash;Justamente! exclamou minha mãe. Mas veja
-bem, mano Cosme, veja se não é a figura do meu
-defuncto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre
-achei que te parecias com elle, agora é muito
-mais. O bigode é que desfaz um pouco...</p>
-
-<p>&mdash;Sim, mana Gloria, o bigode realmente... mas
-é muito parecido.</p>
-
-<p>E minha mãe beijava-me com uma ternura que
-não sei escrever. Tio Cosme, para alegral-a, chamava-me
-doutor, José Dias tambem, e todos em
-casa, a prima, os escravos, as visitas, Padua, a filha,
-e ella mesma repetiam-me o titulo.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="C" id="C">C</a></h5>
-
-<h4>«Tu serás feliz, Bentinho!»</h4>
-
-
-<p>No quarto, desfazendo a mala e tirando a carta
-de bacharel de dentro da lata, ia pensando na felicidade
-e na gloria. Via o casamento e a carreira
-illustre, emquanto José Dias me ajudava calado e
-zeloso. Uma fada invisivel desceu alli, e me disse
-em voz egualmente macia e callida: «Tu serás
-feliz, Bentinho; tu vaes ser feliz.»</p>
-
-<p>&mdash;E porque não seria feliz? perguntou José Dias
-endireitando o tronco e fitando-me.</p>
-
-<p>&mdash;Você ouviu? perguntei eu erguendo-me tambem,
-espantado.</p>
-
-<p>&mdash;Ouvi o que?</p>
-
-<p>&mdash;Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz?</p>
-
-<p>&mdash;É boa! Você mesmo é que está dizendo...</p>
-
-<p>Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da
-fada; naturalmente as fadas, expulsas dos contos e
-dos versos, metteram-se no coração da gente e falam
-de dentro para fóra. Esta, por exemplo, muita vez
-a ouvi clara e distincta. Ha de ser prima das feiticeiras
-da Escocia: «Tu serás rei, Macbeth!»&mdash;«Tu
-serás feliz, Bentinho!» Ao cabo, é a mesma
-predicção, pela mesma toada universal e eterna.
-Quando voltei do meu espanto, ouvi o resto do discurso
-de José Dias:</p>
-
-<p>&mdash;... Ha de ser feliz, como merece, assim como
-mereceu esse diploma que alli está, que não é favor
-de ninguem. A distincção que tirou em todas as materias
-é prova disso; já lhe contei que ouvi da bocca
-dos lentes, em particular, os maiores elogios. Demais,
-a felicidade não é só a gloria, é tambem outra
-cousa... Ah! você não confiou tudo ao velho José
-Dias! O pobre José Dias está ahi para um canto, é
-cajú chupado, não vale nada; agora são os novos,
-os Escobares... Não lhe nego que é moço muito distincto,
-e trabalhador, e marido de truz; mas, enfim,
-velho tambem sabe amar...</p>
-
-<p>&mdash;Mas que é?</p>
-
-<p>&mdash;Que ha de ser? Quem é que não sabe tudo?...
-Aquella intimidade de visinhos tinha de acabar
-nisto, que é verdadeiramente uma benção do ceu,
-porque ella é um anjo, é um <i>anjissimo...</i> Perdoe
-a cincada, Bentinho, foi um modo de accentuar a
-perfeição daquella moça. Cuidei o contrario, outr'ora;
-confundi os modos de creança com expressões
-de caracter, e não vi que essa menina travêssa
-e já de olhos pensativos era a flòr caprichosa de
-um fructo sadio e doce... Porque é que não me contou
-tambem o que outros sabem, e cá em casa está
-mais que adivinhado e approvado?</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe approva devéras?</p>
-
-<p>&mdash;Pois então? Temos falado sobre isso, e ella
-fez-me o favor de pedir a minha opinião. Pergunte-lhe
-o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos;
-pergunte-lhe. Disse-lhe que não podia desejar
-melhor nora para si, boa, discreta, prendada,
-amiga da gente... e uma dona de casa, que não lhe
-digo nada. Depois da morte da mãe, tomou conta de
-tudo. Padua, agora que se aposentou, não faz mais
-que receber o ordenado e entregal-o á filha. A filha
-é que distribue o dinheiro, paga as contas, faz o rol
-das despezas, cuida de tudo, mantimento, roupa,
-luz; você já a viu o anno passado. E quanto á formosura
-você sabe melhor que ninguem...</p>
-
-<p>&mdash;Mas, devéras, mamãe consultou o senhor sobre
-o nosso casamento?</p>
-
-<p>&mdash;Positivamente, não; fez-me o favor de perguntar
-se Capitú não daria uma boa esposa; eu é
-que, na resposta, falei em nora. D. Gloria não
-negou e até deu um ar de riso.</p>
-
-<p>&mdash;Mamãe sempre que me escrevia, falava de
-Capitú.</p>
-
-<p>&mdash;Você sabe que ellas se dão muito, e por isso
-é que sua prima anda cada vez mais amuada. Talvez
-agora case mais depressa,</p>
-
-<p>&mdash;Prima Justina?</p>
-
-<p>&mdash;Não sabe? São contos, naturalmente; mas
-emfim, o doutor João da Costa enviuvou ha poucos
-mezes, e dizem (não sei, o protonotario é que me
-contou) dizem que os dous andam meio inclinados a
-acabar com a viuvez, entre si, casando-se. Ha de
-ver que não ha nada, mas não é fora de proposito,
-comquanto ella sempre achasse que o doutor era
-um feixe de ossos... Só se ella é um cemiterio, commentou
-rindo; e logo serio: Digo isto por gracejo...</p>
-
-<p>Não ouvi o resto. Ouvia só a voz da minha fada
-interior, que me repetia, mas já então sem palavras:
-«Tu serás feliz, Bentinho! » E a voz de
-Capitú me disse a mesma cousa, com termos diversos,
-e assim tambem a de Escobar, os quaes
-ambos me confirmaram a noticia de José Dias pela
-sua propria impressão. Emfim, minha mãe, algumas
-semanas depois, quando lhe fui pedir licença para
-casar, além do consentimento, deu-me egual prophecia,
-salva a redacção própria de mãe: «Tu
-serás feliz, meu filho!»</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CI" id="CI">CI</a></h5>
-
-<h4>No ceu.</h4>
-
-
-<p>Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor
-pegue em si, morto de esperar, e vá espairecer a
-outra parte; casemo-nos. Foi em 1865, uma tarde
-do março, por signal que chovia. Quando chegámos
-ao alto da Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos,
-o ceu recolheu a chuva e accendeu as estrellas, não
-só as já conhecidas, mas ainda as que só serão descobertas
-daqui a muitos seculos. Foi grande fineza
-e não foi unica. S. Pedro, que tem as chaves do
-ceu, abriu-nos as portas delle, fez-nos entrar, e
-depois de tocar-nos com o baculo, recitou alguns
-versiculos da sua primeira epistola: «As mulheres
-sejam sujeitas a seus maridos... Não seja o adorno
-dellas o enfeite dos cabellos riçados ou as rendas
-de ouro, mas o homem que está escondido no coração....
-Do mesmo modo, vós, maridos, co-habitai
-com ellas, tratando-as com honra, como a vasos
-mais fracos, e herdeiras comvosco da graça da
-vida....» Em seguida, fez signal aos anjos, e elles
-entoaram um trecho do <i>Cantico</i>, tão concertadamente,
-que desmentiriam a hypothese do tenor
-italiano, se a execução fosse na terra; mas era no
-ceu. A musica ia com o texto, como se houvessem
-nascido juntos, á maneira de uma opera de Wagner.
-Depois, visitámos uma parte daquelle logar infinito.
-Descança que não farei descripção alguma, nem a
-lingua humana possue fórmas idoneas para tanto.</p>
-
-<p>Ao cabo, póde ser que tudo fosse um sonho; nada
-mais natural a um ex-seminarista que ouvir por
-toda a parte latim e Escriptura. É verdade que Capitú,
-que não sabia Escriptura nem latim, decorou
-algumas palavras, como estas, por exemplo: «Sentei-me
-á sombra daquelle que tanto havia desejado.»
-Quanto ás de S. Pedro, disse-me no dia seguinte
-que estava por tudo, que eu era a unica renda e o
-unico enfeite que jamais poria em si. Ao que eu
-repliquei que a minha esposa teria sempre as mais
-finas rendas deste mundo.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CII" id="CII">CII</a></h5>
-
-<h4>De casada.</h4>
-
-
-<p>Imagina um relogio que só tivesse pendulo, sem
-mostrador, de maneira que não se vissem as horas
-escriptas. O pendulo iria de um lado para outro,
-mas nenhum signal externo mostraria a marcha do
-tempo. Tal foi aquella semana da Tijuca.</p>
-
-<p>De quando em quando, tornavamos ao passado e
-divertiamo-nos em relembrar as nossas tristezas e
-calamidades, mas isso mesmo era um modo de não
-sairmos de nós. Assim vivemos novamente a nossa
-longa espera de namorados, os annos da adolescencia,
-a denuncia que está nos primeiros capitulos,
-e riamos de José Dias, que conspirou a nossa desunião,
-e acabou festejando o nosso consorcio. Uma
-ou outra vez, falavamos em descer, mas as manhãs
-marcadas eram sempre de chuva ou de sol, e nós
-esperávamos um dia encoberto, que teimava em
-não vir.</p>
-
-<p>Não obstante, achei que Capitú estava um tanto
-impaciente por descer. Concordava em ficar, mas
-ia falando do pae e de minha mãe, da falta de noticias
-nossas, disto e daquillo, a ponto que nos arrufámos
-um pouco. Perguntei-lhe se já estava aborrecida
-de mim.</p>
-
-<p>&mdash;Eu?</p>
-
-<p>&mdash;Parece.</p>
-
-<p>&mdash;Você ha de ser sempre creança, disse ella fechando-me
-a cara entre as mãos e chegando muito
-os olhos aos meus. Então eu esperei tantos annos
-para aborrecer-me em sete dias? Não, Bentinho;
-digo isto porque é realmente assim, creio que elles
-pódem estar desejosos de ver-nos e imaginar alguma
-doença, e, confesso, pela minha parte, que
-queria ver papae.</p>
-
-<p>&mdash;Pois vamos amanhã.</p>
-
-<p>&mdash;Não; ha de ser com tempo encoberto, redarguiu
-rindo.</p>
-
-<p>Peguei-lhe no riso e na palavra, mas a impaciencia
-continuou, e descemos com sol.</p>
-
-<p>A alegria com que poz o seu chapéo de casada, e
-o ar de casada com que me deu a mão para entrar
-e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo
-me mostrou que a causa da impaciencia de Capitú
-eram os signaes exteriores do novo estado. Não lhe
-bastava ser casada entre quatro paredes e algumas
-arvores; precisava do resto do mundo tambem. E
-quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ella,
-parando, olhando, falando, senti a mesma cousa.
-Inventava passeios para que me vissem, me confirmasses
-e me invejassem. Na rua, muitos voltavam
-a cabeça curiosos, outros paravam, alguns perguntavam:
-«Quem são?» e um sabido explicava:
-«Este é o doutor Santiago, que casou ha dias com
-aquella moça, D. Capitolina, depois de uma longa
-paixão de creanças; moram na Gloria, as familias
-residem em Matacavallos.» E ambos os dous: « É
-uma mocetona!»</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CIII" id="CIII">CIII</a></h5>
-
-<h4>A felicidade tem boa alma.</h4>
-
-
-<p>Mocetona é vulgar; José Dias achou melhor. Foi
-a unica pessoa cá de baixo que nos visitou
-na Tijuca, levando abraços dos nossos e palavras
-suas, mas palavras que eram musicas verdadeiras;
-não as ponho aqui para ir poupando papel, mas foram
-deliciosas. Um dia, comparou-nos a aves criadas
-em dous vãos de telhado contiguos. Imagina o resto,
-as aves emplumando as azas e surtindo ao ceu, e o
-ceu agora mais largo para poder contel-as tambem.
-Nenhum de nós riu; ambos escutavamos commovidos
-e convencidos, esquecendo tudo, desde a tarde
-de 1858.... A felicidade tem boa alma.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CIV" id="CIV">CIV</a></h5>
-
-<h4>As pyramides.</h4>
-
-
-<p>José Dias dividia-se agora entre mim e minha
-mãe, alternando os jantares da Gloria com os almoços
-de Matacavallos. Tudo corria bem. Ao fim
-de dous annos de casado, salvo o desgosto grande
-de não ter um filho, tudo corria bem. Perdera meu
-sogro, é verdade, e o tio Cosme estava por pouco,
-mas a saude de minha mãe era boa; a nossa excellente.</p>
-
-<p>Eu era advogado de algumas casas ricas, e os
-processos vinham chegando. Escobar contribuira
-muito para as minhas estréas no fòro. Interveiu
-com um advogado celebre para que me admitisse
-á sua banca, e arranjou-me algumas procurações,
-tudo espontaneamente.</p>
-
-<p>Demais, as nossas relações de familia estavam previamente
-feitas; Sancha e Capitú continuavam depois
-de casadas a amizade da escola, Escobar e eu
-a do seminario. Elles moravam em Andarahy, aonde
-queriam que fossemos muitas vezes, e, não podendo
-ser tantas como desejavamos, iamos lá jantar alguns
-domingos, ou elles vinham fazel-o comnosco.
-Jantar é pouco. Iamos sempre muito cedo, logo
-depois do almoço, para gozarmos o dia compridamente,
-e só nos separavamos ás nove, dez e onze
-horas, quando não podia ser mais. Agora que penso
-naquelles dias de Andarahy e da Gloria, sinto que a
-vida e o resto não sejam tão rijos como as Pyramides.</p>
-
-<p>Escobar e a mulher viviam felizes; tinham uma
-filhinha. Em tempo ouvi falar de uma aventura do
-marido, negocio de theatro, não sei que actriz ou
-bailarina, mas se foi certo, não deu escandalo. Sancha
-era modesta, o marido trabalhador. Como eu um
-dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um
-filho, replicou-me:</p>
-
-<p>&mdash;Homem, deixa lá. Deus os dará quando quizer,
-e se não der nenhum é que os quer para si, e melhor
-será que fiquem no ceu.</p>
-
-<p>&mdash;Uma creanca, um filho é o complemento natural
-da vida.</p>
-
-<p>&mdash;Virá, so fòr necessário.</p>
-
-<p>Não vinha. Capitú pedia-o em suas orações, eu
-mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedil-o.
-Já não era como em creança; agora pagava antecipadamente,
-como os alugueis da casa.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CV" id="CV">CV</a></h5>
-
-<h4>Os braços.</h4>
-
-
-<p>No mais, tudo corria bem. Capitú gostava de rir
-e divertir-se, e, nos primeiros tempos, quando iamos
-a passeios ou espectaculos, era como um passaro
-que saisse da gaiola. Arranjava-se com graça e
-modestia. Embora gostasse de joias, como as outras
-moças, não queria que eu lhe comprasse muitas nem
-caras, e um dia affligiu-se tanto que prometti não
-comprar mais nenhuma; mas foi só por pouco
-tempo.</p>
-
-<p>A nossa vida era mais ou menos placida. Quando
-não estavamos com a familia ou com amigos, ou se
-não iamos a algum espectaculo ou serão particular
-(e estes eram raros) passavamos as noites á nossa
-janella da Gloria, mirando o mar e o ceu, a sombra
-das montanhas e dos navios, ou a gente que passava
-na praia. Ás vezes, eu contava a Capitú a
-historia da cidade, outras dava-lhe noticias de astronomia;
-noticias de amador que ella escutava attenta
-e curiosa, nem sempre tanto que não cochillasse
-um pouco. Não sabendo piano, apprendeu depois
-de casada, e depressa, e dahi a pouco tocava nas
-casas de amizade. Na Gloria era uma das nossas
-recreações; tambem cantava, mas pouco e raro,
-por não ter voz; um dia chegou a entender que era
-melhor não cantar nada e cumpriu o alvitre. De
-dansar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia
-a um baile; os braços é que... Os braços merecem
-um periodo.</p>
-
-<p>Eram bellos, e na primeira noite que os levou nús
-a um baile, não creio que houvesse eguaes na cidade,
-nem os seus, leitora, que eram então de menina,
-se eram nascidos, mas provavelmente estariam
-ainda no marmore, donde vieram, ou nas mãos do
-divino esculptor. Eram os mais bellos da noite, a
-ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava
-mal com as outras pessoas, só para vel-os,
-por mais que elles se entrelaçassem aos das casacas
-alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse,
-quando vi que os homens não se fartavam de olhar
-para elles, de os buscar, quasi de os pedir, e que
-roçavam por elles as mangas pretas, fiquei vexado
-e aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o apoio
-de Escobar, a quem confiei candidamente os meus
-tedios; concordou logo commigo.</p>
-
-<p>&mdash;Sanchinha tambem não vae, ou irá de mangas
-compridas; o contrario parece-me indecente.</p>
-
-<p>&mdash;Não é? Mas não diga o motivo; hão de chamar-nos
-seminaristas. Capitú já me chamou assim.</p>
-
-<p>Nem por isso deixei de contar a Capitú a approvação
-de Escobar. Ella sorriu e respondeu que os
-braços de Sanchinha eram mal feitos, mas cedeu
-depressa, e não foi ao baile; a outros foi, mas levou-os
-meio vestidos de escomilha ou não sei quê, que
-nem cobria nem descobria inteiramente, como o
-sendal de Camões.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CVI" id="CVI">CVI</a></h5>
-
-<h4>Dez libras esterlinas.</h4>
-
-
-<p>Já disse que era poupada, ou fica dito agora,
-e não só de dinheiro mas tambem de cousas
-usadas, dessas que se guardam por tradição, por
-lembrança ou por saudade. Uns sapatos, por exemplo,
-uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam
-no peito do pé e principio da perna, os ultimos
-que usou antes de calçar botinas, trouxe-os para
-casa, e tirava-os de longe em longe da gaveta da
-commoda, com outras velharias, dizendo-me que
-eram pedaços de creança. Minha mãe, que tinha o
-mesmo genio, gostava de ouvir falar e fazer assim.</p>
-
-<p>Quanto ás puras economias de dinheiro, direi um
-caso, e basta. Foi justamente por occasião de uma
-licção de astronomia, á praia da Gloria. Sabes
-que alguma vez a fiz cochilar um pouco. Uma noite
-perdeu-se em fitar o mar, com tal força e concentração,
-que me deu ciumes.</p>
-
-<p>&mdash;Você não me ouve, Capitú.</p>
-
-<p>&mdash;Eu? Ouço perfeitamente.</p>
-
-<p>&mdash;O que é que eu dizia?</p>
-
-<p>&mdash;Você... você falava de Sirius.</p>
-
-<p>&mdash;Qual, Sirius, Capitú. Ha vinte minutos que
-eu falei de Sirius.</p>
-
-<p>&mdash;Falava de... falava de Marte, emendou ella
-apressada.</p>
-
-<p>Realmente, era de Marte, mas é claro que só
-apanhára o som da palavra, não o sentido. Fiquei
-serio, e o impeto que me deu foi deixar a sala;
-Capitú, ao percebel-o, fez-se a mais mimosa das
-creaturas, pegou-me na mão, confessou-me que estivera
-contando, isto é, sommando uns dinheiros
-para descobrir certa parcella que não achava. Tratava-se
-de uma conversão de papel em ouro. A
-principio suppuz que era um recurso para desentadar-me,
-mas d'ahi a pouco estava eu mesmo calculando
-tambem, já então com papel e lapis,
-sobre o joelho, e dava a differença que ella buscam.</p>
-
-<p>&mdash;Mas que libras são essas? perguntei-lhe no
-fim.</p>
-
-<p>Capitú fitou-me rindo, e replicou que a culpa de
-romper o segredo era minha. Ergueu-se, foi ao
-quarto e voltou com dez libras esterlinas, na mão;
-eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente
-para as despezas.</p>
-
-<p>&mdash;Tudo isto?</p>
-
-<p>&mdash;Não é muito, dez libras só; é o que a avarenta
-de sua mulher poude arranjar, em alguns mezes,
-concluiu fazendo tinir o ouro na mão.</p>
-
-<p>&mdash;Quem foi o corretor?</p>
-
-<p>&mdash;O seu amigo Escobar.</p>
-
-<p>&mdash;Como é que elle não me disse nada?</p>
-
-<p>&mdash;Foi hoje mesmo.</p>
-
-<p>&mdash;Elle esteve cá?</p>
-
-<p>&mdash;Pouco antes de você chegar; eu não disse
-para que você não desconfiasse.</p>
-
-<p>Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum
-presente commemorativo, mas Capitú deteve-me.
-Ao contrario, consultou-me sobre o que haviamos
-de fazer daquellas libras.</p>
-
-<p>&mdash;São suas, respondi.</p>
-
-<p>&mdash;São nossas, emendou.</p>
-
-<p>&mdash;Pois você guarde-as.</p>
-
-<p>No dia seguinte, fui ter com Escobar ao armazem,
-e ri-me do segredo de ambos. Escobar sorriu
-e disse-me que estava para ir ao meu escriptorio
-contar-me tudo. A cunhadinha (continuava a dar
-este nome a Capitú) tinha-lhe falado naquillo por
-occasião da nossa ultima visita a Andarahy, e
-disse-lhe a razão do segredo.</p>
-
-<p>&mdash;Quando contei isto a Sanchinha, concluiu elle,
-ficou espantada: «Como é que Capitú póde economisar,
-agora que tudo está tão caro?»&mdash;«Não
-sei, filha; sei que arranjou dez libras.»</p>
-
-<p>&mdash;Vê se ella apprende tambem.</p>
-
-<p>&mdash;Não creio; Sanchinha não é gastadeira, mas
-tambem não é poupada; o que lhe dou chega, mas
-só chega.</p>
-
-<p>Eu, depois de alguns instantes de reflexão:</p>
-
-<p>&mdash;Capitú é um anjo!</p>
-
-<p>Escobar concordou de cabeça, mas sem enthusiasmo,
-como quem sentia não poder dizer o mesmo
-da mulher. Assim pensarias tu tambem, tão certo
-é que as virtudes das pessoas proximas nos dão tal
-ou qual vaidade, orgulho ou consolação.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CVII" id="CVII">CVII</a></h5>
-
-<h4>Ciumes do mar.</h4>
-
-
-<p>Se não fosse a astronomia, não descobriria eu tão
-cedo as dez libras de Capitú; mas não é por isso
-que torno a ella, é para que não cuides que a vaidade
-de professor é que me fez padecer com a desattenção
-de Capitú e ter ciumes do mar. Não, meu
-amigo. Venho explicar-te que tive taes ciumes pelo
-que podia estar na cabeça de minha mulher, não
-fóra ou acima della. É sabido que as distracções de
-uma pessoa pódem ser culpadas, metade culpadas,
-um terço, um quinto, um decimo de culpadas, pois
-que em materia de culpa a graduação é infinita.
-A recordação de uns simples olhos basta para
-fixar outros que os recordem e se deleitem com a
-imaginação delles. Não é mister peccado effectivo
-e mortal, nem papel trocado, simples palavra, aceno,
-suspiro ou signal ainda mais miudo e leve. Um anonymo
-ou anonyma que passe na esquina da rua faz
-com que mettamos Sirius dentro do Marte, e tu
-sabes, leitor, a differença que ha de um a outro na
-distancia e no tamanho, mas a astronomia tem dessas
-confusões. Foi isto que mo fez empallidecer, calar
-e querer fugir da sala para voltar. Deus sabe
-quando; provavelmente, dez minutos depois. Dez
-minutos depois, estaria eu outra vez na sala, ao
-piano ou á janella, continuando a licção interrompida:</p>
-
-<p>&mdash;Marte está a distancia de...</p>
-
-<p>Tão pouco tempo? Sim, tão pouco tempo, dez
-minutos. Os meus ciumes eram intensos, mas curtos;
-com pouco derrubaria tudo, mas com o mesmo
-pouco ou menos reconstruiria o ceu, a terra e as
-estrellas.</p>
-
-<p>A verdade é que fiquei mais amigo de Capitú, se
-era possivel, ella ainda mais meiga, o ar mais
-brando, as noites mais claras, e Deus mais Deus.
-E não foram propriamente as dez libras esterlinas
-que fizeram isto, nem o sentimento de economia que
-revelavam e que eu conhecia, mas as cautelas que
-Capitú empregou para o fim de descobrir-me um
-dia o cuidado de todos os dias. Escobar tambem se
-me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas
-foram-se tornando mais proximas, e as nossas conversações
-mais intimas.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CVIII" id="CVIII">CVIII</a></h5>
-
-<h4>Um filho.</h4>
-
-
-<p>Pois nem todo isso me matava a sède de um filho,
-um triste menino que fosse, amarello e magro, mas
-um filho, um filho proprio da minha pessoa. Quando
-iamos a Andarahy e viamos a filha de Escobar e
-Sancha, familiarmente Capitúsinha, por differençal-a
-de minha mulher, visto que lhe deram o
-mesmo nome á pia, ficavamos cheios de invejas.
-A pequena era graciosa e gorducha, faladeira e
-curiosa. Os paes, como os outros paes, contavam as
-travessuras e agudezas da menina, e nós, quando
-voltavamos á noite para a Gloria, vinhamos suspirando
-as nossas invejas, e pedindo mentalmente ao
-ceu que nol-as matassem...</p>
-
-<p>...As invejas morreram, as esperanças nasceram,
-e não tardou que viesse ao mundo o fructo
-dellas. Não era escasso nem feio, como eu já pedia,
-mas um rapagão robusto e lindo.</p>
-
-<p>A minha alegria quando elle nasceu, não sei dizel-a;
-nunca a tive egual, nem creio que a possa
-haver identica, ou que de longe ou de perto se pareça
-com ella. Foi uma vertigem e uma loucura.
-Não cantava na rua por natural vergonha, nem em
-casa para não affligir Capitú convalescente. Tambem
-não caía, porque ha um deus para os paes novos.
-Fóra, vivia com o espirito no menino; em casa,
-com os olhos, a observal-o, a miral-o, a perguntar-lhe
-donde vinha, e porque é que eu estava tão inteiramente
-nelle, e varias outras tolices sem palavras,
-mas pensadas ou deliradas a cada instante.
-Talvez perdi algumas causas no fòro por descuido.</p>
-
-<p>Capitú não era menos terna para elle e para mim.
-Davamos as mãos um ao outro, e, quando não olhavamos
-para o nosso filho, conversavamos de nós, do
-nosso passado e do nosso futuro. As horas de maior
-encanto e mysterio eram as de amamentação.
-Quando eu via o meu filho chupando o leite da mãe,
-e toda aquella união da natureza para a nutrição
-e vida de um ser que não fòra nada, mas que o
-nosso destino affirmou que seria, e a nossa constancia
-e o nosso amor fizeram que chegasse a ser,
-ficava que não sei dizer nem digo; positivamente
-não me lembra, e receio que o que dissesse me
-saisse escuro.</p>
-
-<p>Escusai minucias. Assim que, não é preciso contar
-a dedicação de minha mãe e de Sancha, que tambem
-foi passar com Capitú os primeiros dias e
-noites. Quiz rejeitar o obsequio de Sandia; respondeu-me
-que eu não tinha nada com isso; tambem
-Capitú, em solteira, fora tratal-a á rua dos Invalidos.</p>
-
-<p>&mdash;Não se lembra que o senhor foi lá vel-a?</p>
-
-<p>&mdash;Lembra-me; mas Escobar...</p>
-
-<p>&mdash;Eu virei jantar com vocês, e ás noites sigo para
-Andarahy; oito dias, e está tudo passado. Bem se
-vê que você é pae de primeira viagem.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem você; onde está a segunda?</p>
-
-<p>Usavamos então estas graças em familia. Hoje,
-que me recolhi á minha casmurrice, não sei se
-ainda ha tal linguagem, mas deve haver. Escobar
-cumpriu o que disse; jantava comnosco, e ia-se á
-noite. Sobre tarde desciamos á praia ou iamos ao
-Passeio Publico, fazendo elle os seus calculos, eu
-os meus sonhos. Eu via o meu filho medico, advogado,
-negociante, metti-o em varias universidades e
-bancos, e até acceitei a hypothese de ser poeta. A
-possibilidade de politico foi consultada, e cri que
-me saisse orador, e grande orador.</p>
-
-<p>&mdash;Póde ser, redarguia Escobar; ninguem diria
-o que veiu a ser Desmosthenes.</p>
-
-<p>Escobar acompanhava muita vez as minhas creancices;
-tambem interrogava o futuro. Chegou a falar
-da hypothese de casar o pequeno com a filha. A
-amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei
-as de Escobar, ao ouvir-lhe isto, e na total ausencia
-de palavras com que alli assignei o pacto;
-estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração,
-que batia com grande força. Acceitei a lembrança,
-e propuz que os encaminhassemos a este
-fim, pela educarão egual e commum, pela infancia
-unida e correcta.</p>
-
-<p>Era minha ideia que Escobar fosse padrinho do
-pequeno; a madrinha devia ser e seria minha mãe.
-Mas a primeira parte se trocou por intervenção do
-tio Cosme, que, ao ver a creança, disse-lhe entre
-outros carinhos </p>
-
-<p>&mdash;Anda, toma o benção a teu padrinho, velhaco.</p>
-
-<p>E, voltando-se para mim:</p>
-
-<p>&mdash;Não desisto do favor; e ha de ser depressa o
-baptisado, antes que a minha doença me leve de
-vez.</p>
-
-<p>Contei discretamente a anecdota a Escobar, para
-que elle me comprehendesse e desculpasse; riu-se
-e não se magoou. Fez mais, quiz que o almoço do
-baptisado fosse na chacara delle, e foi. Eu ainda
-tentei espaçar a cerimonia a ver se tio Cosme succumbia
-primeiro á doença, mas parece que esta era
-mais de aborrecer que de matar. Não houve remedio
-senão levar o menino á pia, onde se lhe deu o
-nome de Ezequiel; era o de Escobar, e eu quiz supprir
-deste modo a falta de compadrio.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CIX" id="CIX">CIX</a></h5>
-
-<h4>Um filho unico.</h4>
-
-
-<p>Ezequiel, quando começou o capitulo anterior,
-não era ainda gerado; quando acabou era christão e
-catholico. Este outro é destinado a fazer chegar o
-meu Ezequiel aos cinco annos, um rapagão bonito,
-com os seus olhos claros, já inquietos, como se quizessem
-namorar todas as moças da visinhança, ou
-quasi todas.</p>
-
-<p>Agora, se considerares que elle foi unico, que
-nenhum outro veiu, certo nem incerto, morto nem
-vivo, um só e unico, imaginarás os cuidados que nos
-deu, os somnos que nos tirou, e que sustos nos
-metteram as crises dos dentes e outras, a menor febricula,
-toda a existencia commum das creanças. A
-tudo acudiamos, segundo cumpria e urgia, cousa
-que não era necessario dizer, mas ha leitores tão
-obtusos, que nada entendem, se se lhes não relata
-tudo e o resto. Vamos ao resto.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CX" id="CX">CX</a></h5>
-
-<h4>Rasgos da infancia.</h4>
-
-
-<p>O resto come-me ainda muitos capitulos; ha
-vidas que os tem menos, e fazem-se ainda assim
-completas e acabadas.</p>
-
-<p>Aos cinco e seis annos, Ezequiel não parecia desmentir
-os meus sonhos da praia da Gloria; ao contrario,
-adivinhavam-se nelle todos as vocações possiveis,
-desde vadio até apostolo. Vadio é aqui posto
-no bom sentido, no sentido de homem que pensa e
-cala; mettia-se ás vezes comsigo, e nisto fazia lembrar
-a mãe, desde pequena. Assim tambem, agitava-se
-todo e instava por ir persuadir ás visinhas
-que os doces que eu lhe trazia eram doces devéras;
-não o fazia antes de farto d'elles, mas tambem os
-apostolos não levam a boa doutrina senão depois de
-a terem toda no coração. Escobar, bom negociante,
-opinava que a causa principal desta outra inclinação,
-talvez fosse convidar implicitamente as visinhas a
-egual apostolado, quando os paes lhe trouxessem
-doces; e ria-se da propria graça, e annunciava-me
-que o faria seu socio.</p>
-
-<p>Gostava de musica, não menos que de doce, e
-eu disse a Capitú que lhe tirasse ao piano o prégão
-do preto das cocadas de Matacavallos...</p>
-
-<p>&mdash;Não me lembra.</p>
-
-<p>&mdash;Não diga isso; você não se lembra daquelle
-preto que vendia doce, ás tardes...</p>
-
-<p>&mdash;Lembro-me de um preto que vendia doce, mas
-não sei mais da toada.</p>
-
-<p>&mdash;Nem das palavras?</p>
-
-<p>&mdash;Nem das palavras.</p>
-
-<p>A leitora, que ainda se lembrará das palavras,
-dado que me tenha lido com attenção, ficará espantada
-de tamanho esquecimento, tanto mais que lhe
-lembrarão ainda as vozes da sua infancia e adolescencia;
-haverá olvidado algumas, mas nem tudo
-fica na cabeça. Assim me replicou Capitú, e não
-achei treplica. Fiz, porém, o que ella não esperava;
-corri aos meus papeis velhos. Em S. Paulo, quando
-estudante, pedi a um professor de musica que me
-transcrevesse a toada do prégão; elle o fez com
-prazer (bastou-me repetir-lh'o de memoria), e eu
-guardei o papelinho; fui procural-o. D'ahi a pouco
-interrompi um romance que ella tocava, com o pedacinho
-de papel na mão. Expliquei-lh'o; ella teclou
-as dezeseis notas.</p>
-
-<p>Capitú achou á toada um sabor particular, quasi
-delicioso; contou ao filho a historia do prégão, e
-assim o cantava e teclava. Ezequiel aproveitou a
-musica para pedir-me que desmentisse o texto
-dando-lhe algum dinheiro.</p>
-
-<p>Fazia de medico, de militar, de actor e bailarino.
-Nunca lhe dei oratorios; mas cavallos de pau
-e espada á cinta eram com elle. Já não falo dos
-batalhões que passavam na rua, e que elle corria a
-ver: todas as creancas o fazem. O que nem todas
-fazem é ter os olhos que esta tinha. Em nenhuma
-vi as ancias de gosto com que assistia á passagem
-da tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores.</p>
-
-<p>&mdash;Olha, papae! olha!</p>
-
-<p>&mdash;Estou vendo, meu filho!</p>
-
-<p>&mdash;Olha o commandante! Olha o cavallo do
-commandante! Olha os soldados!</p>
-
-<p>Um dia amanheceu tocando corneta com a mão;
-dei-lhe uma cornetinha de metal. Comprei-lhe soldadinhos
-de chumbo, gravuras de batalhas que elle
-mirava por muito tempo, querendo que lhe explicasse
-uma peça de artilharia, um soldado caído,
-outro de espada alçada, e todos os seus amores iam
-para o de espada alçada. Um dia (ingenua edade!)
-perguntou-me impaciente:</p>
-
-<p>&mdash;Mas, papae, porque é que elle não deixa cair
-a espada de uma vez?</p>
-
-<p>&mdash;Meu filho, é porque é pintado.</p>
-
-<p>&mdash;Mas então porque é que elle se pintou?</p>
-
-<p>Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o
-soldado que se tinha pintado no papel, mas o gravador,
-e tive de explicar tambem, o que era gravador
-e o que era gravura: as curiosidades de Capitú,
-em summa.</p>
-
-<p>Taes são os principaes rasgos da infancia: mais
-um e acabo o capitulo. Um dia, na chacara de
-Escobar, deu com um gato que tinha um rato atravessado
-na bocca. O gato nem deixava a presa, nem
-via por onde fugisse. Ezequiel não disse nada, deteve-se,
-acocorou-se, e ficou olhando. Ao vel-o assim
-attento, perguntámos-lhe de longe o que era; fez-nos
-signal que nos calassemos. Escobar concluiu:</p>
-
-<p>&mdash;Vão ver que é o gato que apanhou algum rato.
-Os ratos continuam a infestar-me a casa, que é o
-diabo. Vamos ver.</p>
-
-<p>Capitú quiz tambem ver o filho; acompanhei-os.
-Effectivamente, era um gato e um rato, lance banal,
-sem interesse nem graça. A unica circumstancia
-particular era estar o rato vivo, esperneando, e o
-meu pequeno enlevado. De resto, o instante foi curto.
-O gato, logo que sentiu mais gente, dispoz-se a correr;
-o menino, sem tirar-lhe os olhos de cima, fez-nos
-outro signal de silencio; e o silencio não podia
-ser maior. Ia dizer religioso, risquei a palavra, mas
-aqui a ponho outra vez, não só por significar a totalidade
-do silencio, mas tambem porque havia naquella
-acção do gato e do rato alguma cousa que
-prendia com ritual. O unico rumor eram os ultimos
-guinchos do rato, aliás frouxissimos; as pernas mal
-se lhe moviam e desordenadamente. Um tanto
-aborrecido, bati palmas para que o gato fugisse, e o
-gato fugiu. Os outros nem tiveram tempo de atalhar-me,
-Ezequiel ficou abatido.</p>
-
-<p>&mdash;Ora, papae!</p>
-
-<p>&mdash;Que foi? A esta hora o rato está comido.</p>
-
-<p>&mdash;Pois sim, mas eu queria ver.</p>
-
-<p>Os dous riram-se; eu mesmo achei-lhe graça.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXI" id="CXI">CXI</a></h5>
-
-<h4>Contado depressa.</h4>
-
-
-<p>Achei-lhe graça, e não lh'a nego ainda agora,
-apesar do tempo passado, dos successos occorridos,
-e da tal ou qual sympathia ao rato que acho em
-mim; teve graça. Não me pesa dizel-o; os que amam
-a natureza como ella quer ser amada, sem repudio
-parcial nem exclusões injustas, não acham nella
-nada inferior. Amo o rato, não desamo o gato. Já
-pensei em os fazer viver juntos, mas vi que são
-incompativeis. Em verdade, um roe-me os livros,
-outro o queijo; mas não é muito que eu lhes perdoe,
-se já perdoei a um cachorro que me levou o descanço
-em peores circumstancias. Contarei o caso
-depressa.</p>
-
-<p>Foi quando nasceu Ezequiel; a mãe estava com
-febre, Sancha vivia ao pé della, e tres cães na rua
-latiam toda a noite. Procurei o fiscal, e foi como
-se procurasse o leitor, que só agora sabe disto. Então
-resolvi matal-os; comprei veneno, mandei fazer tres
-bolas de carne, e eu mesmo inseri nellas a droga.
-De noite, saí; era uma hora; nem a doente, nem a
-enfermeira podiam dormir, com a bulha dos cães.
-Quando elles me viram, afastaram-se, dous desceram
-para o lado da praia do Flamengo, um ficou a
-curta distancia, como que esperando. Fui-me a elle,
-assobiando e dando estalinhos com os dedos. O diabo
-ainda latiu, mas fiado nos signaes de amizade, foi-se
-calando, até que se calou de todo. Como eu
-continuasse, elle veiu a mim, devagar, mexendo a
-cauda, que é o seu modo de rir delles; eu tinha já
-na mão as bolas envenenadas, e ia deitar-lhe uma
-dellas, quando aquelle riso especial, carinho, confiança
-ou o que quer que seja, me atou a vontade;
-fiquei assim não sei como, tocado de pena e guardei
-as bolas no bolso. Ao leitor póde parecer que foi o
-cheiro da carne que remetteu o cão ao silencio. Não
-digo que não; eu cuido que elle não me quiz attribuir
-perfidia ao gesto, e entregou-se-me. A conclusão
-é que se livrou.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXII" id="CXII">CXII</a></h5>
-
-<h4>As imitações de Ezequiel.</h4>
-
-
-<p>Tal não faria Ezequiel. Não comporia bolas envenenadas,
-supponho, mas não as recusaria tambem.
-O que faria com certeza era ir atraz dos cães, a
-pedrada, até onde lhe dessem as pernas. E se tivesse
-um pau, iria a pau. Capitú morria por aquelle batalhador
-futuro.</p>
-
-<p>&mdash;Não sae a nós, que gostamos da paz, disse-me
-ella um dia, mas papae em moço era assim tambem;
-mamãe é que contava.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, não sairá maricas, repliquei; eu só lhe
-descubro um defeitosinho, gosta de imitar os outros.</p>
-
-<p>&mdash;Imitar como?</p>
-
-<p>&mdash;Imitar os gestos, as modos, os altitudes; imita
-prima Justina, imita José Dias; já lhe achei até um
-geito dos pés de Escobar e dos olhos...</p>
-
-<p>Capitú deixou-se estar pensando e olhando para
-mim, e disse afinal que era preciso emendal-o. Agora
-reparava que realmente era vezo do filho, mas parecia-lhe
-que era só imitar por imitar, como succede
-a muitas pessoas grandes, que tomam as maneiras
-dos outros; e para que não fosse mais longe...</p>
-
-<p>&mdash;Tambem não vamos mortifical-o. Sempre ha
-tempo de corrigil-o.</p>
-
-<p>&mdash;Ha, vou ver. Você tambem não era assim,
-quando se zangava com alguem...</p>
-
-<p>&mdash;Quando me zangava, concordo; vingança de
-menino.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, mas eu não gosto de imitações em casa.</p>
-
-<p>&mdash;E naquelle tempo gostavas de mim? disse eu
-batendo-lhe na face.</p>
-
-<p>A resposta do Capitú foi um riso doce de escarneo,
-um desses risos que não se descrevem, e apenas
-se pintarão; depois estirou os braços e atirou-m'os
-sobre os hombros, tão cheios de graça que pareciam
-(velha imagem!) um collar de flores. Eu fiz o
-mesmo aos meus, e senti não haver alli um esculptor
-que nos transferisse a altitude a um pedaço
-de marmore. Só brilharia o artista, é certo. Quando
-uma pessoa ou um grupo saem bem, ninguem quer
-saber de modelo, mas da obra, e a obra é que fica.
-Não importa; nós saberiamos que eramos nós.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXIII" id="CXIII">CXIII</a></h5>
-
-<h4>Embargos de terceiro.</h4>
-
-
-<p>Por falar nisto, é natural que me perguntes se,
-sendo antes tão cioso della, não continuei a sel-o
-apesar do filho e dos annos. Sim, senhor, continuei.
-Continuei, a tal ponto que o menor gesto me affligia,
-a mais intima palavra, uma insistencia qualquer:
-muita vez só a indifferença bastava. Cheguei a ter
-ciumes de tudo e de todos. Um visinho, um par de
-valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia
-de terror ou desconfiança. E certo que Capitú
-gostava de ser vista, e o meio mais proprio a tal
-fim (disse-me uma senhora, um dia) é ver tambem,
-e não ha ver sem mostrar que se vê.</p>
-
-<p>A senhora que me disse isto cuido que gostou de
-mim, e foi naturalmente por não achar da minha
-parte correspondencia aos seus affectos que me
-explicou daquella maneira os seus olhos teimosos.
-Outros olhos me procuravam tambem, não muitos,
-e não digo nada sobre elles, tendo aliás confessado
-a principio as minhas aventuras vindouras, mas
-eram ainda vindouras. Naquelle tempo, por mais
-mulheres bonitas que achasse, nenhuma receberia
-a minima parte do amor que tinha a Capitú. A
-minha propria mãe não queria mais que metade.
-Capitú era tudo e mais que tudo; não vivia nem
-trabalhava que não fosse pensando nella. Ao theatro
-iamos juntos; só me lembra que fosse duas vezes
-sem ella, um beneficio de actor, e uma estréa de
-opera, a que ella não foi por ter adoecido, mas quiz
-por força que eu fosse. Era tarde para mandar o camarote
-a Escobar; saí, mas voltei no fim do primeiro
-acto. Encontrei Escobar á porta do corredor.</p>
-
-<p>&mdash;Vinha falar-te, disse-me elle.</p>
-
-<p>Expliquei-lhe que tenha saido para o theatro,
-donde voltára receioso de Capitú, que ficára doente.</p>
-
-<p>&mdash;Doente de que? perguntou Escobar.</p>
-
-<p>&mdash;Queixava-se da cabeça e do estomago.</p>
-
-<p>&mdash;Então, vou-me embora. Vinha para aquelle
-negocio dos embargos...</p>
-
-<p>Eram uns embargos de terceiro; occorrera um
-incidente importante, e, tendo elle jantado na cidade,
-não quiz ir para casa sem dizer-me o que era, mas
-já agora falaria depois...</p>
-
-<p>&mdash;Não, falemos já, sóbe; ella póde estar melhor.
-Se estiver peor, desces.</p>
-
-<p>Capitú estava melhor e até boa. Confessou-me
-que apenas tivera uma dor de cabeça de nada, mas
-aggravára o padecimento para que eu fosse divertir-me.
-Não falava alegre, o que me fez desconfiar quo
-mentia, para me não metter medo, mas jurou que
-era a verdade pura. Escobar sorriu e disse:</p>
-
-<p>&mdash;A cunhadinha está tão doente como você ou
-eu. Vamos aos embargos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXIV" id="CXIV">CXIV</a></h5>
-
-<h4>Em que se explica o explicado.</h4>
-
-
-<p>Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um
-ponto que já ficou explicado, mas não bem explicado.
-Viste que eu pedi (cap. CX) a um professor
-de musica de S. Paulo que me escrevesse a toada
-daquelle prégão de doces de Matacavallos. Em si,
-a materia é chocha, e não vale a pena de um capitulo,
-quanto mais dous; mas ha materias taes que
-trazem ensinamentos interessantes, senão agradaveis.
-Expliquemos o explicado.</p>
-
-<p>Capitú e eu tinhamos jurado não esquecer mais
-aquelle prégão; foi em momento de grande ternura,
-e o tabellião divino sabe as cousas que se juram
-em taes momentos, elle que as registra nos livros
-eternos.</p>
-
-<p>&mdash;Você jura?</p>
-
-<p>&mdash;Juro, disse ella estendendo tragicamente o
-braço.</p>
-
-<p>Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão; estava
-ainda no seminario. Quando fui para S. Paulo, querendo
-um dia relembrar a toada, vi que a ia perdendo
-inteiramente; consegui recordal-a e corri ao
-professor, que me fez o obsequio de a escrever no
-pedacinho de papel. Foi para não faltar ao juramento
-que fiz isto. Mas has de crer que, quando
-corri aos papeis velhos, naquelle noite da Gloria,
-tambem me não lembrava já da toada nem do texto?
-Fiz-me de pontual ao juramento, e este é que foi o
-meu peccado; esquecer, qualquer esquece.</p>
-
-<p>Ao certo, ninguem sabe se ha de manter ou não
-um juramento. Cousas futuras! Portanto, a nossa
-constituição politica, transferindo o juramento á
-affirmação simples, é profundamente moral. Acabou
-com um peccado terrivel. Faltar ao compromisso é
-sempre infidelidade, mas a alguem que tenha mais
-temor a Deus que aos homens não lhe importara
-mentir, uma vez ou outra, desde que não mette a
-alma no purgatorio. Não confundam purgatorio com
-inferno, que é o eterno naufragio. Purgatorio é uma
-casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes,
-a juro alto e prazo curto. Mas os prazos renovam-se,
-até que um dia uma ou duas virtudes
-medianas pagam todos os peccados grandes e pequenos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXV" id="CXV">CXV</a></h5>
-
-<h4>Duvidas sobre duvidas.</h4>
-
-
-<p>Vamos agora aos embargos... E porque iremos
-aos embargos? Deus sabe o que custa escrevel-os,
-quanto mais contal-os. Da circumstancia nova que
-Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse
-então, isto é, que não valia nada.</p>
-
-<p>&mdash;Nada?</p>
-
-<p>&mdash;Quasi nada.</p>
-
-<p>&mdash;Então vale alguma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Para reforçar as razões que já temos vale
-menos que o chá que você vae tomar commigo.</p>
-
-<p>&mdash;É tarde para tomar chá.</p>
-
-<p>&mdash;Tomaremos depressa.</p>
-
-<p>Tomámos depressa. Durante elle, Escobar olhava
-para mim desconfiado, como se cuidasse que eu
-recusava a circumstancia nova por forrar-me a
-escrevel-a; mas tal suspeita não ia com a nossa amizade.</p>
-
-<p>Quando elle saiu, referi as minhas duvidas a
-Capitú; ella as desfez com a arte fina que possuia,
-um geito, uma graça toda sua, capaz de dissipar
-as mesmas tristezas de Olympio.</p>
-
-<p>&mdash;Seria o negocio dos embargos, concluiu; e
-elle que veiu até aqui, a esta hora, é que está impressionado
-com a demanda.</p>
-
-<p>&mdash;Tens razão.</p>
-
-<p>Palavra puxa palavra, falei de outras duvidas.
-Eu era então um poço dellas; coaxavam dentro do
-mim, como verdadeiras rans, a ponto de me tirarem
-o somno algumas vezes. Disse-lhe que começava a
-achar minha mãe um tanto fria e arredia com ella.
-Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitú!</p>
-
-<p>&mdash;Ja disse a você o que é; cousas de sogra.
-Mamãesinha tem ciumes de você; logo que elles
-passem e as saudades augmentem, ella torna a ser
-o que era. Em lhe faltando o neto...</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu tenho notado que já é fria tambem
-com Ezequiel. Quando elle vae commigo, mamãe
-não lhe faz as mesmas graças.</p>
-
-<p>&mdash;Quem sabe se não anda doente?</p>
-
-<p>&mdash;Vamos nós jantar com ella amanhã?</p>
-
-<p>&mdash;Vamos... Não... Pois vamos.</p>
-
-<p>Fomos jantar com a minha velha. Já lhe podia
-chamar assim, posto que os seus cabellos brancos
-não o fossem todos nem totalmente, e o rosto estivesse
-comparativamente fresco; era uma especie de
-mocidade quinquagenaria ou do ancianidade viçosa,
-á escolha... Mas nada de melancolias; não quer
-falar dos olhos molhados, á entrada e á saida. Pouco
-entrou na conversação. Tambem não era differente
-da costumada. José Dias falou do casamento e
-suas bellezas, da politica, da Europa e da homeopathia,
-tio Cosme das suas molestias, prima Justina
-da visinhança, ou de José Dias, quando este saía da
-sala.</p>
-
-<p>Quando voltámos, á noite, viemos por alli a pé,
-falando das minhas duvidas. Capitú novamente me
-aconselhou que esperassemos. Sogras eram todas
-assim; lá vinha um dia e mudavam. Ao passo que
-me falava, recrudescia de ternura. Dalli em deante
-foi cada vez mais doce commigo; não me ia esperar
-á janella, para não espertar-me os ciumes, mas
-quando eu subia, via no alto da escada, entre as
-grades da cancella, a cara deliciosa da minha amiga
-e esposa, risonha como toda a nossa infancia. Ezequiel
-ás vezes estava com ella; nós o havíamos
-acostumado a ver o osculo da chegada e da saida,
-e elle enchia-me a cara de beijos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXVI" id="CXVI">CXVI</a></h5>
-
-<h4>Filho do homem.</h4>
-
-
-<p>Apalpei José Dias sobre as maneiras novas de
-minha mãe; ficou espantado. Não havia nada, nem
-podia haver cousa nenhuma, tantos eram os louvores
-incessantes que elle ouvia «á bella e virtuosa
-Capitú.»</p>
-
-<p>&mdash;Agora, quando os ouço, entro tambem no côro,
-mas a principio ficava envergonhadissimo. Para
-quem chegou, como eu, a arrenegar deste casamento,
-era duro confessar que elle foi uma verdadeira
-benção do ceu. Que digna senhora nos saiu a
-creança travessa de Matacavallos! O pae é que nos
-separou um pouco, em quanto não nos conheciamos,
-mas tudo acabou em bem. Pois, sim, senhor,
-quando D. Gloria elogia a sua nora e comadre...</p>
-
-<p>&mdash;Então mamãe?...</p>
-
-<p>&mdash;Perfeitamente!</p>
-
-<p>&mdash;Mas, porque e não nos visita ha tanto tempo?</p>
-
-<p>&mdash;Creio que tem andando mais achacada dos
-seus rheumatismos. Este anno tem feito muito frio...
-Imagine a afflicção della, que andava o dia inteiro;
-agora é obrigada a estar quieta, ao pé do irmão, que
-lá tem o seu mal...</p>
-
-<p>Quiz observar-lhe que tal razão explicava a interrupção
-das visitas, e não a frieza quando iamos nós
-a Matacavallos; mas não estendi tão longe a intimidade
-do aggregado. José Dias pediu para ver o
-nosso «prophetasinho» (assim chamava a Ezequiel)
-e fez-lhe as festas do costume. Desta vez falou ao
-modo biblico (estivera na vespera a folhear o livro de
-Ezequiel, como soube depois), e perguntava-lhe:
-«Como vae isso, filho do homem?» «Dize-me, filho
-do homem, onde estão os teus brinquedos?» «Queres
-comer doce, filho do homem?»</p>
-
-<p>&mdash;Que filho do homem é esse, perguntou-lhe
-Capitú agastada.</p>
-
-<p>&mdash;São os modos de dizer da Biblia.</p>
-
-<p>&mdash;Pois eu não gosto delles, replicou ella com
-aspereza.</p>
-
-<p>&mdash;Tem razão, Capitú, concordou o aggregado.
-Voce não imagina como a Biblia é cheia de expressões
-cruas e grosseiras. Eu falava assim para variar...
-Tu como vaes, meu anjo? Meu anjo, como
-é que eu ando na rua?</p>
-
-<p>&mdash;Não, atalhou Capitú; já lhe vou tirando esse
-costume do imitar os outros.</p>
-
-<p>&mdash;Mas tem muita graça; a mim, quando elle
-copia os meus gestos, parece-me que sou eu mesmo,
-pequenino. Outro dia chegou a fazer um gesto de
-D. Gloria, tão bom que ella lhe deu um beijo em
-paga. Vamos, como é que eu ando?</p>
-
-<p>&mdash;Não, Ezequiel, disse eu, mamãe não quer.</p>
-
-<p>Eu mesmo achava feio tal séstro. Alguns dos
-gestos já lhe iam ficando mais repetidos, como
-o das mãos e pés de Escobar; ultimamente, até
-apanhara o modo de voltar da cabeça deste, quando
-falava, e o de deixal-a cair, quando ria. Capitú
-ralhava. Mas o menino era travesso, como o diabo;
-apenas começámos a falar de outra cousa, saltou
-ao meio da sala, dizendo a José Dias:</p>
-
-<p>&mdash;O senhor anda assim.</p>
-
-<p>Não podemos deixar de rir, eu mais que ninguem.
-A primeira pessoa que fechou a cara, que o
-reprehendeu e chamou a si foi Capitú.</p>
-
-<p>&mdash;Não quero isso, ouviu?</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXVII" id="CXVII">CXVII</a></h5>
-
-<h4>Amigos proximos.</h4>
-
-
-<p>Já então Escobar deixára Andarahy e comprára
-uma casa no Flamengo, casa que ainda alli vi, ha
-dias, quando me deu na gana experimentar se as sensações
-antigas estavam mortas ou dormiam só; não
-posso dizel-o bem, porque os somnos, quando são
-pesados, confundem vivos e defunctos, a não ser
-a respiração. Eu respirava um pouco, mas póde ser
-que fosse do mar, meio agitado. Emfim, passei,
-accendi um charuto, e dei por mim no Cattete; tinha
-subido pela rua da Princeza, uma rua antiga...
-Ó ruas antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas!
-Todos nós éramos antigos, e não é preciso dizer que
-no máu sentido, no sentido de velho e acabado.</p>
-
-<p>Velha é a casa, mas não lhe alteraram nada. Não
-sei até se ainda tem o mesmo numero. Não digo
-que numero é para não irem indagar e cavar a historia.
-Não é que Escobar ainda lá more nem sequer
-viva; morreu pouco depois, por um modo que
-hei de contar. Emquanto viveu, uma vez que estavamos
-tão proximos, tinhamos por assim dizer uma
-só casa, eu vivia na delle, elle na minha, e o pedaço
-de praia entre a Gloria e o Flamengo era como um
-caminho de uso proprio e particular. Fazia-me
-pensar nas duas casas de Matacavallos, com o seu
-muro de permeio.</p>
-
-<p>Um historiador da nossa lingua, creio que João
-de Barros, põe na boca de um rei barbaro algumas
-palavras mansas, quando os portuguezes lhe propunham
-estabelecer alli ao pé uma fortaleza; dizia
-o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos
-outros, não perto, para se não zangarem como as
-aguas do mar que batiam furiosas no rochedo que
-elles viam dalli. Que a sombra do escriptor me perdoe,
-se eu duvido que o rei dissesse tal palavra
-nem que ella seja verdadeira. Provavelmente foi o
-mesmo escriptor que a inventou para adornar o
-texto, e não fez mal, porque é bonita; realmente, é
-bonita. Eu creio que o mar então batia na pedra,
-como é seu costume, desde Ullysses e antes. Agora
-que a comparação seja verdadeira é que não. Seguramente
-ha inimigos contiguos, mas tambem ha
-amigos do perto e do peito. E o escriptor esquecia
-(salvo se ainda não era do seu tempo) esquecia o
-adagio: longe dos olhos, longe do coração. Nós não
-podiamos ter os corações agora mais perto. As
-nossas mulheres viviam na casa uma da outra, nós
-passavamos as noites cá ou lá conversando, jogando
-ou mirando o mar. Os dous pequenos passavam
-dias, ora no Flamengo, ora na Gloria.</p>
-
-<p>Como eu observasse que podia acontecer com
-elles o que se dera entre mim e Capitú, acharam
-todos que sim, e Sancha accrescentou que até já se
-iam parecendo. Eu expliquei:</p>
-
-<p>&mdash;Não; é porque Ezequiel imita os gestos dos
-outros.</p>
-
-<p>Escobar concordou commigo, e insinuou que
-alguma vez as creanças que se frequentam muito
-acabam parecendo-se umas com as outras. Opinei
-de cabeça, como me succedia nas materias que eu
-não sabia bem nem mal. Tudo podia ser. O certo
-é que elles se queriam muito, e podiam acabar
-casados, mas não acabaram casados.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXVIII" id="CXVIII">CXVIII</a></h5>
-
-<h4>A mão de Sancha.</h4>
-
-
-<p>Tudo acaba, leitor; é um velho truismo, a que
-se póde accrescentar que nem tudo o que dura dura
-muito tempo. Esta segunda parte não acha crentes
-faceis; ao contrario, a ideia de que um castello de
-vento dura mais que o mesmo vento de que é feito,
-difficilmente se despegará da cabeça, e é bom
-que seja assim, para que se não perca o costume
-daquellas construcções quasi eternas.</p>
-
-<p>O nosso castello era solido, mas um domingo...
-Na vespera tinhamos passado a noite no Flamengo,
-não só os dous casaes inseparaveis, como ainda o
-aggregado e prima Justina. Foi então que Escobar,
-falando-me á janella, disse-me que fossemos lá
-jantar no dia seguinte; precisavamos falar de um
-projecto em familia, um projecto para os quatro.</p>
-
-<p>&mdash;Para os quatro? Uma contradança.</p>
-
-<p>&mdash;Não. Não és capaz de adivinhar o que seja,
-nem eu digo. Vem amanhã.</p>
-
-<p>Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa,
-ao canto da janella. Quando o marido saiu,
-veiu ter commigo. Perguntou-me de que é que
-falaramos; disse-lhe que de um projecto que eu
-não sabia qual fosse; ella pediu-me segredo, e
-revelou-me o que era: uma viagem á Europa dalli
-a dous annos. Disse isto de costas para dentro,
-quasi suspirando. O mar batia com grande força na
-praia; havia ressaca.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos todos? perguntei por fim.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos.</p>
-
-<p>Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com
-tanto prazer que eu, graças ás relações della e
-Capitú, não se me daria beijal-a na testa. Entretanto,
-os olhos de Sancha não convidavam a expansões
-fraternaes, pareciam quentes e intimativos,
-diziam outra cousa, e não tardou que se afastassem
-da janella, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo.
-A noite era clara.</p>
-
-<p>Dalli mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé
-do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os
-quatro e ficaram deante uns dos outros, uns esperando
-que os outros passassem, mas nenhuns passavam.
-Tal se dá na rua entre dous teimosos. A
-cautela desligou-nos; eu tornei a voltar-me para
-fóra. E assim posto entrei a cavar na memoria se a
-alguma vez olhára para ella com a mesma expressão,
-e fiquei incerto. Tive uma certeza só, é que
-um dia pensei nella, como se pensa na bella desconhecida
-que passa; mas então dar-se-hia que ella
-adivinhando... Talvez o simples pensamento me
-transluzisse cá fóra, e ella me fugisse outr'ora
-irritada ou acanhada, e agora por um movimento
-invencivel... Invencivel; esta palavra foi como uma
-benção de padre á missa, que a gente recebe e
-repete em si mesma.</p>
-
-<p>&mdash;O mar amanhã está de desafiar a gente,
-disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.</p>
-
-<p>&mdash;Você entra no mar amanhã?</p>
-
-<p>Tenho entrado com mares maiores, muito
-maiores.&mdash;Você não imagina o que é um bom mar
-em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter
-estes pulmões,&mdash;disse elle batendo no peito, e estes
-braços; apalpa.</p>
-
-<p>Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha.
-Custa-me esta confissão, mas não posso supprimil-a;
-era jarretar a verdade. Nem só os apalpei com essa
-ideia, mas ainda senti outra cousa: achei-os mais
-grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja;
-accresce que sabiam nadar.</p>
-
-<p>Quando saímos, tornei a falar com os olhos á
-dona da casa. A mão della apertou muito a minha,
-e demorou-se mais que de costume.</p>
-
-<p>A modestia pedia então, como agora, que eu visse
-naquelle gesto de Sancha uma sancção ao projecto
-do marido e um agradecimento. Assim devia ser,
-mas um fluido particular que me correu todo o
-corpo desviou de mim a conclusão que deixo
-escripta. Senti ainda os dedos de Sancha entre os
-meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de
-vertigem e de peccado. Passou depressa no relogio
-do tempo; quando cheguei o relogio ao ouvido,
-trabalhavam só os minutos da virtude e da razão.</p>
-
-<p>&mdash;...Uma senhora deliciosissima, concluiu José
-Dias um discurso que vinha fazendo.</p>
-
-<p>&mdash;Deliciosissima! repeti com algum ardor, que
-moderei logo, emendando-me: Realmente, uma
-bella noite!</p>
-
-<p>&mdash;Como devem ser todas as daquella casa, continuou
-o aggregado. Cá fóra, não; cá fóra o mar
-está zangado; escute.</p>
-
-<p>Ouvia-se o mar forte,&mdash;como já se ouvia de
-casa,&mdash;a ressaca era grande, e, a distancia, viam-se
-crescer as ondas. Capitú e prima Justina, que
-iam adeante, detiveram-se n'uma das voltas da
-praia, e fomos conversando os quatro; mas eu
-conversava mal. Não havia meio de esquecer inteiramente
-a mão de Sancha nem os olhos que trocámos.
-Agora achava-lhes isto, agora aquillo. Os instantes
-do diabo intercalavam-se nos minutos de
-Deus, e o relogio foi assim marcando alternativamente
-a minha perdição e a minha salvação. José
-Dias despediu-se de nós á porta. Prima Justina
-dormiu em nossa casa; iria embora, no dia seguinte,
-depois do almoço e da missa. Eu recolhi-me ao meu
-gabinete, onde me demorei mais que de costume.</p>
-
-<p>O retrato de Escobar, que eu tinha alli, ao pé do
-de minha mãe, falou-me como se fosse a propria
-pessoa. Combati sinceramente os impulsos que
-trazia do Flamengo; rejeitei a figura da mulher do
-meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem
-me affirmava que houvesse alguma intenção daquella
-especie no gesto da despedida e nos anteriores?
-Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa
-viagem. Sancha e Capitú eram tão amigas que seria
-um prazer mais para ellas irem juntas. Quando
-houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria
-que não era mais que uma sensação fulgurante,
-destinada a morrer com a noite e o somno? Ha
-remorsos que não nascem de outro peccado, nem
-tem maior duração. Agarrei-me a esta hypothese
-que se conciliava com a mão de Sancha, que eu
-sentia de memoria dentro da minha mão, quente e
-demorada, apertada e apertando...</p>
-
-<p>Sinceramente, eu achava-me mal entre um amigo
-e a attracção. A timidez póde ser que fosse outra
-causa daquella crise; não é só o ceu que dá as
-nossas virtudes, a timidez tambem, não contando o
-acaso, mas o acaso é um méro accidente; a melhor
-origem dellas é o ceu. Entretanto, como a timidez
-vem do ceu, que nos dá a compleição, a virtude,
-filha della é, genealogicamente, o mesmo sangue
-celestial. Assim reflectiria, se pudesse; mas a principio
-vaguei á tôa. Paixão não era nem inclinação.
-Capricho seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era
-nada, inteiramente nada. O retrato de Escobar
-pareceu falar-me; vi-lhe a altitude franca e simples,
-sacudi a cabeça e fui deitar-me.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXIX" id="CXIX">CXIX</a></h5>
-
-<h4>Não faça isso, querida.</h4>
-
-
-<p>A leitora, que é minha amiga e abriu este livro
-com o fim de descançar da cavatina de hontem
-para a valsa de hoje, quer fechal-o ás pressas, ao
-ver que beiramos um abysmo. Não faça isso, querida;
-eu mudo de rumo.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXX" id="CXX">CXX</a></h5>
-
-<h4>Os autos.</h4>
-
-
-<p>Na manhã seguinte accordei livre das abominações
-da vespera; chamei-lhes allucinações, tomei
-café, percorri os jornaes e fui estudar uns autos.
-Capitú e prima Justina sairam para a missa das
-nove, na Lapa. A figura de Sancha desappareceu
-inteiramente no meio das allegações da parte
-adversa, que eu ia lendo nos autos, allegações
-falsas, inadmissiveis, sem apoio na lei nem nas
-praxes. Vi que era facil ganhar a demanda; consultei
-Dalloz, Pereira e Souza...</p>
-
-<p>Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. Era
-uma bella photographia tirada um anno antes.
-Estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda
-no dorso de uma cadeira, a direita mettida ao
-peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador.
-Tinha garbo e naturalidade. A moldura
-que lhe mandei pôr não encobria a dedicatoria,
-escripta embaixo, não nas costas do cartão: «Ao
-meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70.»
-Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos
-daquella manhã, e espancaram de todo as
-recordações da vespera. Naquelle tempo a minha
-vista era boa; eu podia lel-as do logar em que
-estava. Tornei aos autos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXI" id="CXXI">CXXI</a></h5>
-
-<h4>A catastrophe.</h4>
-
-
-<p>No melhor delles, ouvi passos precipitados na
-escada, a campainha soou, soaram palmas, golpes
-na cancella, vozes, acudiram todos, acudi eu mesmo.
-Era um escravo da casa de Sancha que me chamava:</p>
-
-<p>&mdash;Para ir lá... sinhô nadando, sinhô morrendo.</p>
-
-<p>Não disse mais nada, ou eu não lhe ouvi o resto.
-Vesti-me, deixei recado a Capitú e corri ao Flamengo.</p>
-
-<p>Em caminho, fui adivinhando a verdade. Escobar
-metteu-se a nadar, como usava fazer, arriscou-se
-um pouco mais fóra que de costume, apesar do mar
-bravio, foi enrolado e morreu. As canoas que acudiram
-mal puderam trazer-lhe o cadaver.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXII" id="CXXII">CXXII</a></h5>
-
-<h4>O enterro.</h4>
-
-
-<p>A viuva... Poupo-vos as lagrimas da viuva, as
-minhas, as da outra gente. Sai de lá cerca de onze
-horas; Capitú e prima Justina esperavam-me,
-uma com o parecer abatido e estupido, outra enfastiada
-apenas.</p>
-
-<p>&mdash;Vão fazer companhia a pobre Sanchinha; eu
-vou cuidar do enterro.</p>
-
-<p>Assim fizemos. Quiz que o enterro fosse pomposo,
-e a affluencia dos amigos foi numerosa. Praia, ruas,
-praça da Gloria, tudo eram carros, muitos delles
-particulares. A casa, não sendo grande, não podiam
-lá caber todos; muitos estavam na praia, falando
-do desastre, apontando o logar em que Escobar
-fallecèra, ouvindo referir a chegada do morto. José
-Dias ouviu tambem falar dos negocios do finado,
-divergindo alguns na avaliação dos bens, mas
-havendo accordo em que o passivo devia ser pequeno.
-Elogiavam as qualidades de Escobar. Um ou outro
-discutia o recente gabinete Rio Branco; estavamos
-em Março de 1871. Nunca me esqueceu o mez nem
-o anno.</p>
-
-<p>Como eu houvesse resolvido falar no cemiterio,
-escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José
-Dias, que as achou realmente dignas do morto e de
-mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso,
-pesando as palavras, e confirmou a primeira
-opinião; no Flamengo espalhou a noticia. Alguns
-conhecidos vieram interrogar-me:</p>
-
-<p>&mdash;Então, vamos ouvil-o?</p>
-
-<p>&mdash;Quatro palavras.</p>
-
-<p>Poucas mais seriam. Tinha-as escripto com receio
-de que a emoção me impedisse de improvisar. No
-tilbury em que andei uma ou duas horas, não fizera
-mais que recordar o tempo do seminario, as relações
-de Escobar, as nossas sympathias, a nossa
-amizade, começada, continuada e nunca interrompida,
-até que um lance da fortuna fez separar para
-sempre duas creaturas que promettiam ficar por
-muito tempo unidas. De quando em quando enxugava
-os olhos. O cocheiro aventurou duas ou tres
-perguntas sobre a minha situação moral; não me
-arrancando nada, continuou o seu officio. Chegando
-a casa, deitei aquellas emoções ao papel; tal seria
-o discurso.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXIII" id="CXXIII">CXXIII</a></h5>
-
-<h4>Olhos de ressaca.</h4>
-
-
-<p>Emfim, chegou a hora da encommendação e da
-partida. Sancha quiz despedir-se do marido, e o
-desespero daquelle lance consternou a todos. Muitos
-homem choravam tambem, as mulheres todas. Só
-Capitú, amparando a viuva, parecia vencer-se a si
-mesma. Consolava a outra, queria arrancal-a dalli.
-A confusão era geral. No meio della, Capitú olhou
-alguns instantes para o cadaver tão fixa, tão apaixonadamente
-fixa, que não admira lhe saltassem
-algumas lagrimas poucas e caladas...</p>
-
-<p>As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as della;
-Capitú enxugou-as depressa, olhando a furto para a
-gente que estava na sala. Redobrou de caricias
-para a amiga, e quiz leval-a; mas o cadaver parece
-que a retinha tambem. Momento houve em que os
-olhos de Capitú fitaram o defuncto, quaes os da
-viuva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes
-e abertos, como a vaga do mar lá fóra, como se
-quizesse tragar tambem o nadador da manhã.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXIV" id="CXXIV">CXXIV</a></h5>
-
-<h4>O discurso.</h4>
-
-
-<p>&mdash;Vamos, são horas...</p>
-
-<p>Era José Dias que me convidava a fechar o
-ataúde. Fechámol-o, e eu peguei n'uma das argolas;
-rompeu o alarido final. Palavra que, quando cheguei
-á porta, vi o sol claro, tudo gente e carros, as
-cabeças descobertas, tive um daquelles meus impulsos
-que nunca chegavam á execução: foi atirar á
-rua caixao, defuncto e tudo. No carro disse a José
-Dias que se calasse. No cemiterio tive de repetir a
-cerimonia da casa, desatar as correias, e ajudar a
-levar o feretro á cova. O que isto me custou imagina.
-Descido o cadaver á cova, trouxeram a cal e
-a pá; sabes disto, terás ido a mais de um enterro,
-mas o que não sabes nem póde saber nenhum dos
-teus amigos, leitor, ou qualquer outro extranho, é
-a crise que me tornou quando vi todos os olhos em
-mim, os pés quietos, as orelhas attentas, e, ao cabo
-de alguns instantes de total silencio, um sussurro
-vago, algumas vozes interrogativas, signaes, e alguem,
-José Dias, que me dizia ao ouvido:</p>
-
-<p>&mdash;Então, fale.</p>
-
-<p>Era o discurso. Queriam o discurso. Tinham jus
-ao discurso annunciado. Machinalmente, metti a
-mão no bolso, saquei o papel e li-o aos trambolhões,
-não todo, nem seguido, nem claro; a voz parecia-me
-entrar em vez de sair, as mãos tremiam-me. Não
-era só a emoção nova que me fazia assim, era o proprio
-texto, as memorias do amigo, as saudades confessadas,
-os louvores á pessoa e aos seus meritos;
-tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal.
-Ao mesmo tempo, temendo que me adivinhassem a
-verdade, forcejava por escondel-a bem. Creio que
-poucos me ouviram, mas o gesto geral foi de comprehensão
-e de approvação. As mãos que me deram
-a apertar eram de solidariedade; alguns diziam:
-«Muito bonito! muito bem! magnifico!» José Dias
-achou que a eloquencia estivera na altura da piedade.
-Um homem, que me pareceu jornalista, pediu-me
-licença para levar o manuscripto e imprimil-o.
-Só a minha grande turvação recusaria um obsequio
-tão simples.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXV" id="CXXV">CXXV</a></h5>
-
-<h4>Uma comparação.</h4>
-
-
-<p>Priamo julga-se o mais infeliz dos homens, por
-beijar a mão daquelle que lhe matou o filho. Homero
-é que relata isto, e é um bom autor, não obstante
-contal-o em verso, mas ha narrações exactas
-em verso, e até mau verso. Compara tu a situação
-de Priamo com a minha; eu acabava de louvar as
-virtudes do homem que recebera defuncto aquelles
-olhos... E impossivel que algum Homero não tirasse
-da minha situação muito melhor effeito, ou quando
-menos, egual. Nem digas que nos faltam Homeros,
-pela causa apontada em Camões; não, senhor, faltam-nos,
-é certo, mas é porque os Priamos procuram
-a sombra e o silencio. As lagrimas, se as tèm,
-são enxugadas atraz da porta, para que as caras
-appareçam limpas e serenas; os discursos são antes
-de alegria que do melancolia, e tudo passa como se
-Achilles não matasse Heitor.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXVI" id="CXXVI">CXXVI</a></h5>
-
-<h4>Scismando.</h4>
-
-
-<p>Pouco depois de sair do cemiterio, rasguei o discurso
-e deitei os pedaços pela portinhola fóra, sem
-embargo dos esforços de José Dias para impedil-o.</p>
-
-<p>&mdash;Não presta para nada, disse-lhe eu, e como
-posso ter a tentação de dal-o a imprimir, fica já destruido
-de uma vez. Não presta, não vale nada.</p>
-
-<p>José Dias demonstrou longamente o contrario,
-depois elogiou o enterro, e por ultimo fez o panegyrico
-do morto, uma grande alma, espirito activo,
-coração recto, amigo, bom amigo, digno da esposa
-amantissima que Deus lhe dera...</p>
-
-<p>Neste ponto do discurso, deixei-o falar sósinho e
-peguei a scismar commigo. O que scismei foi tão
-escuro e confuso que não me deixou tomar pé. No
-Cattete mandei parar o carro, disse a José Dias que
-fosse buscar as senhoras ao Flamengo e as levasse
-para casa; eu iria a pé.</p>
-
-<p>&mdash;Mas...</p>
-
-<p>&mdash;Vou fazer uma visita.</p>
-
-<p>A razão d'isto era acabar de scismar, e escolher
-uma resolução que fosse adequada ao momento. O
-carro andaria mais depressa que as pernas; estas
-iriam pausadas ou não, podiam afrouxar o passo,
-parar, arrepiar caminho, e deixar que a cabeça scismasse
-á vontade. Fui andando e scismando. Tinha
-já comparado o gesto de Sancha na vespera e o
-desespero daquelle dia; eram inconciliaveis. A
-viuva era realmente amantissima. Assim se desvaneceu
-de todo a illusão da minha vaidade. Não seria
-o mesmo caso de Capitú? Cuidei de recompôr-lhe
-os olhos, a posição em que a vi, o ajuntamento de
-pessoas que devia naturalmente impôr-lhe a dissimulação,
-se houvesse algo que dissimular. O que
-aqui vae por ordem logica e deductiva, tinha sido
-antes uma barafunda de ideias e sensações, graças
-aos solavancos do carro e ás interrupções de José
-Dias. Agora, porém, raciocinava e evocava claro e
-bem. Conclui de mim para mim que era a antiga
-paixão que me offuscava ainda e me fazia desvairar
-como sempre.</p>
-
-<p>Quando cheguei a esta conclusão final, chegava
-tambem á porta de casa, mas voltei para traz, e subi
-outra vez a rua do Cattete. Eram as duvidas que
-me affligiam ou a necessidade de affligir Capitú
-com a minha grande demora? Ponhamos que eram
-as duas causas; andei largo espaço, até que me senti
-socegar, e endireitei para casa. Batiam oito hora
-n'uma padaria.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXVII" id="CXXVII">CXXVII</a></h5>
-
-<h4>O barbeiro.</h4>
-
-
-<p>Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia
-de vista, amava a rabeca e não tocava inteiramente
-mal. Na occasião em que ia passando, executava
-não sei que peça. Parei na calçada a ouvil-o (tudo
-são pretextos a um coração agoniado), elle viu-me,
-o continuou a tocar. Não attendeu a um freguez, e
-logo a outro, que alli foram, a despeito da hora e
-de ser domingo, confiar-lhe as caras á navalha.
-Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando para
-mim. Esta consideração fez-me chegar francamente
-a porta da loja, voltado para elle. Ao fundo, levantando
-a cortina de chita que fechava o interior da
-casa, vi apontar uma moça trigueira, vestido claro,
-flôr no cabello. Era a mulher delle; creio que me
-descobriu de dentro, e veiu agradecer-me com a
-presença o favor que eu fazia ao marido. Se me
-não engano, chegou a dizel-o com os olhos. Quanto
-ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a
-mulher, sem ver freguezes, grudava a face ao instrumento,
-passava a alma ao arco, e tocava, tocava...</p>
-
-<p>Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei
-a porta da loja e vim andando para casa; enfiei
-pelo corredor e subi as escadas sem estrepito. Nunca
-me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar ligado
-a um momento grave da minha vida, ou por
-esta maxima, que os compiladores, pódem tirar
-daqui e inserir nos compendios de escola. A maxima
-é que a gente esquece devagar as boas acções que
-pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca.
-Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquella
-noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser
-ouvido de um transeunte. Suppõe agora que este,
-em vez de ir-se embora, como eu fui, ficava á porta
-a ouvil-o e a namorar-lhe a mulher; então é que
-elle, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente.
-Divina arte!</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXVIII" id="CXXVIII">CXXVIII</a></h5>
-
-<h4>Punhado de successos.</h4>
-
-
-<p>Como ia dizendo, subi as escadas sem estrepito,
-empurrei a cancella, que estava apenas encostada,
-o dei com prima Justina e José Dias jogando cartas
-na saleta proxima. Capitú levantou-se do canapé
-e veiu a mim. O rosto della era agora sereno e
-puro. Os outros suspenderam o jogo, e todos falámos
-do desastre e da viuva. Capitú censurou a
-imprudencia de Escobar, e não dissimulou a tristeza
-que lhe trazia a dor da amiga. Perguntei-lhe por
-que não ficára com Sancha aquella noite.</p>
-
-<p>&mdash;Tem lá muita gente; ainda assim offereci-me,
-mas não quiz. Tambem lhe disse que era melhor vir
-para cá, e passar aqui uns dias comnosco.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem não quiz?</p>
-
-<p>&mdash;Tambem não.</p>
-
-<p>&mdash;Entretanto, a vista do mar ha de ser-lhe penosa,
-todas as manhãs, ponderou José Dias, e não
-sei como poderá...</p>
-
-<p>&mdash;Mas, passa; o que é que não passa? atalhou
-prima Justina.</p>
-
-<p>E como em torno desta ideia, começassemos uma
-troca de palavras, Capitú saiu para ir ver se o filho
-dormia. Ao passar pelo espelho, concertou os cabellos
-tão demoradamente que pareceria affectação,
-se não soubessemos que ella era muito amiga
-de si. Quando tornou trazia os olhos vermelhos;
-disse-nos que, ao mirar o filho dormindo pensára
-na filhinha de Sancha, e na afflicção da viuva. E,
-sem se lhe dar das visitas, nem reparar se havia
-algum criado, abraçou-me e disse-me que, se quizesse
-pensar nella, era preciso pensar primeiro na
-minha vida. José Dias achou a phrase «lindissima»,
-e perguntou a Capitú porque é que não fazia
-versos. Tentei metter o caso á bulha, e assim acabámos
-a noite.</p>
-
-<p>No dia seguinte, arrependi-me de haver rasgado
-o discurso, não que quizesse dal-o a imprimir, mas
-era lembrança do finado. Pensei em recompôl-o,
-mas só achei phrases soltas, que uma vez juntas
-não tinham sentido. Tambem pensei em fazer outro,
-mas era já difficil, e podia ser apanhado em falso
-pelos que me tinham ouvido no cemiterio. Quanto
-a recolher os pedacinhos de papel deitados á rua,
-era tarde; estariam já varridos.</p>
-
-<p>Inventariei as lembranças de Escobar, livros, um
-tinteiro de bronze, uma bengala de marfim, um
-passaro, o album de Capitú, duas paizagens do Paraná
-e outras. Tambem elle as possuia de minha
-mão. Vivemos assim a trocar memorias e regalos,
-ora em dia de annos, ora sem razão particular. Tudo
-isso me empanava os olhos... Vieram os jornaes do
-dia: davam noticia do desastre e da morte de Escobar,
-os estudos e os negocios deste, as qualidades
-pessoaes, a sympathia do commercio, e tambem falavam
-dos bens deixados, da mulher e da filha.
-Todo isso foi na segunda feira. Na terça-feira foi
-aberto o testamento, que me nomeava segundo testamenteiro;
-o primeiro logar cabia á mulher. Não
-me deixava nada, mas as palavras que me escrevera
-em carta separada eram sublimes de amizade
-e estima. Capitú desta vez chorou muito; mas
-compoz-se depressa.</p>
-
-<p>Testamento, inventario, tudo andou quasi tão
-depressa como aqui vae dito. Ao cabo de pouco
-tempo, Sancha retirou-se para a casa dos parentes
-no Paraná.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXIX" id="CXXIX">CXXIX</a></h5>
-
-<h4>A D. Sancha.</h4>
-
-
-<p>D. Sancha, peço-lhe que não leia este livro; ou,
-se o houver lido até aqui, abandone o resto. Basta
-fechal-o; melhor será queimal-o, para lhe não dar
-tentação e abril-o outra vez. Se, apesar do aviso,
-quizer ir até o fim, a culpa é sua; não respondo pelo
-mal que receber. O que já lhe tiver feito, contando
-os gestos daquelle sabbado, esse acabou, uma vez
-que os acontecimentos, e eu com elles, desmentimos
-a minha illusão; mas o que agora a alcançar,
-esse é indelevel. Não, amiga minha, não leia mais.
-Vá envelhecendo, sem marido nem filha, que eu
-faço a mesma cousa, e é ainda o melhor que se póde
-fazer depois da mocidade. Um dia, iremos daqui
-até a porta do ceu, onde nos encontraremos renovados,
-como as plantas novas, <i>come piante novelle</i>,</p>
-
-<p style="text-align: right;">
- Rinovalatte di novelle fronde.<br />
-</p>
-
-<p>O resto em Dante.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXX" id="CXXX">CXXX</a></h5>
-
-<h4>Um dia...</h4>
-
-
-<p>Porquanto, um dia Capitú quiz saber o que é que
-me fazia andar calado e aborrecido. E propoz-me
-a Europa, Minas, Petropolis, uma serie de bailes,
-mil desses remedios aconselhados aos melancolicos.
-Eu não sabia que lhe respondesse; recusei as diversões.
-Como insistisse, repliquei-lhe que os meus
-negocios andavam mal. Capitú sorriu para animar-me.
-E que tinha que andassem mal? Tornariam a
-andar bem, e até lá as joias, os objectos de algum
-valor seriam vendidos, e iriamos residir em algum
-becco. Viveriamos socegados e esquecidos; depois
-tornariamos á tona da agua. A ternura com que me
-disse isto era de commover as pedras. Pois nem
-assim. Respondi-lhe seccamente que não era preciso
-vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido.
-Ella propoz-me jogar cartas ou damas, um
-passeio a pé, uma visita a Matacavallos; e, como
-eu não acceitasse nada, foi para a sala, abriu o
-piano, e começou a tocar; eu aproveitei a ausencia,
-peguei do chapéo e saí.</p>
-
-<p>...Perdão, mas este capitulo devia ser precedido
-de outro, em que contasse um incidente, occorrido
-poucas semanas antes, dous mezes depois da partida
-de Sancha. Vou escrevel-o; podia antepôl-o a
-este, antes de mandar o livro ao prélo, mas custa
-muito alterar o numero dos paginas; vae assim
-mesmo, depois a narração seguirá direita até o fim.
-Demais, é curto.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXXI" id="CXXXI">CXXXI</a></h5>
-
-<h4>Anterior ao anterior.</h4>
-
-
-<p>Foi o caso que a minha vida em outra vez doce
-e placida, a banca do advogado rendia-me bastante,
-Capitú estava mais bella, Ezequiel ia crescendo.
-Começava o anno de 1872.</p>
-
-<p>&mdash;Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos
-uma espressão exquisita? perguntou-me Capitú. Só
-vi duas pessoas assim, um amigo de papae e o defuncto
-Escobar. Olha, Ezequiel; olha firme, assim,
-vira para o lado de papae, não precisa revirar os
-olhos, assim, assim...</p>
-
-<p>Era depois de jantar; estavamos ainda á mesa,
-Capitú brincava com o filho, ou elle com ella, ou
-um com outro, porque, em verdade, queriam-se
-muito, mas é tambem certo que elle me queria
-ainda mais a mim. Approximei-me de Ezequiel,
-achei que Capitú tinha razão; eram os olhos de Escobar,
-mas não me pareceram exquisitos por isso.
-Afinal não haveria mais que meia duzia de expressões
-no mundo, e muitas semelhanças se dariam
-naturalmente. Ezequiel não entendeu nada, olhou
-espantado para ella e para mim, e afinal saltou-me
-ao collo:</p>
-
-<p>&mdash;Vamos passear, papae?</p>
-
-<p>&mdash;Logo, meu filho.</p>
-
-<p>Capitú, alheia a ambos, fitava agora a outra borda
-da mesa; mas, dizendo-lhe eu que, na belleza, os
-olhos de Ezequiel saíam aos da mãe, Capitú sorriu
-abanando a cabeça com um ar que nunca achei em
-mulher alguma, provavelmente porque não gostei
-tanto das outras. As pessoas valem o que vale a
-affeição da gente, e é dahi que mestre Povo tirou
-aquelle adagio que quem o feio ama bonito lhe parece.
-Capitú tinha meia duzia de gestos unicos na
-terra. Aquelle entrou-me pela alma dentro. Assim
-fica explicado que eu corresse á minha esposa e
-amiga e lhe enchesse a cara de beijos; mas este
-outro incidente não é radicalmente necessario á
-comprehensão do capitulo passado e dos futuros;
-fiquemos nos olhos de Ezequiel.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXXII" id="CXXXII">CXXXII</a></h5>
-
-<h4>O debuxo e o colorido.</h4>
-
-
-<p>Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara,
-o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o
-tempo. Eram como um debuxo primitivo que o
-artista vae enchendo e colorindo aos poucos, e a
-figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quasi, até
-que a familia pendura o quadro na parede, em
-memoria do que foi e já não póde ser. Aqui podia
-ser e era. O costume valeu muito contra o effeito da
-mudança: mas a mudança fez-se, não á maneira de
-theatro, fez-se como a manhã que aponta vagarosa,
-primeiro que se possa ler uma carta, depois
-lê-se a carta na rua, em casa, no gabinete, sem
-abrir as janellas; a luz coada pelas persianas basta
-a distinguir as lettras. Li a carta, mal a principio e
-não toda, depois fui lendo melhor. Fugia-lhe, é
-certo, mettia o papel no bolso, corria a casa, fechava-me,
-não abria as vidraças, chegava a fechar os
-olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta,
-a lettra era clara e a noticia clarissima.</p>
-
-<p>Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do
-seminario e do Flamengo para se sentar commigo
-á mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete
-de manhã, ou pedir-me á noite a benção do
-costume. Todas essas acções eram repulsivas; eu
-tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir
-a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular
-ao mundo, não podia fazel-o a mim, que
-vivia mais perto de mim que ninguem. Quando nem
-mãe nem filho estavam commigo o meu desespero
-era grande, e eu jurava matal-os a ambos, ora de
-golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte
-todas os minutos da vida embaçada e agoniada.
-Quando, porém, tornava a casa e via no alto da
-escada a creaturinha que me queria e esperava,
-ficava desarmado e differia o castigo de um dia para
-outro.</p>
-
-<p>O que se passava entre mim e Capitú naquelles
-dias sombrios, não se notará aqui, por ser tão
-miudo e repetido, e já tão tarde que não se poderá
-dizel-o sem falha nem canceira. Mas o principal
-irá. E o principal é que os nossos temporaes eram
-agora continuos e terriveis. Antes de descoberta
-aquella má terra da verdade, tivemos outros de
-pouca dura; não tardava que o ceu se fizesse azul,
-o sol claro e o mar chão, por onde abríamos novamente
-as velas que nos levavam ás ilhas e costas
-mais bellas do universo, até que outro pé de vento
-desbaratava tudo, e nós, postos á capa, esperavamos
-outra bonança, que não era tardia nem dubia,
-antes total, proxima e firme.</p>
-
-<p>Releva-me estas metaphoras; cheiram ao mar e
-á maré que deram morte ao meu amigo e comborço
-Escobar. Cheiram tambem aos olhos de ressaca de
-Capitú. Assim, posto sempre fosse homem de terra,
-conto aquella parte da minha vida, como um marujo
-contaria o seu naufragio.</p>
-
-<p>Já entre nós só faltava dizer a palavra ultima;
-nós a liamos, porém, nos olhos um do outro,
-vibrante e decisiva, e sempre que Ezequiel vinha
-para nós não fazia mais que separar-nos. Capitú
-propoz mettel-o em um collegio, donde só viesse aos
-sabbados; custou muito ao menino acceitar esta
-situação.</p>
-
-<p>&mdash;Quero ir com papae! Papae ha de ir commigo!
-bradava elle.</p>
-
-<p>Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã,
-uma segunda feira. Era no antigo largo da Lapa,
-perto da nossa casa. Levei-o a pé, pela mão, como
-levára o ataúde do outro. O pequeno ia chorando
-e fazendo perguntas a cada passo, se voltaria para
-casa, e quando, e se eu iria vel-o...</p>
-
-<p>&mdash;Vou.</p>
-
-<p>&mdash;Papae não vae!</p>
-
-<p>&mdash;Vou sim.</p>
-
-<p>&mdash;Jura, papae!</p>
-
-<p>&mdash;Pois sim.</p>
-
-<p>&mdash;Papae não diz que jura.</p>
-
-<p>&mdash;Pois juro.</p>
-
-<p>E lá o levei e deixei. A ausencia temporaria não
-atalhou o mal, e toda a arte fina de Capitú para
-fazel-o attenuar, ao menos, foi como se não fosse;
-eu sentia-me cada vez peor. A mesma situação nova
-aggravou a minha paixão. Ezequiel vivia agora
-mais fóra da minha vista; mas a volta delle, ao fim
-das semanas, ou pelo descostume em que eu ficava,
-ou porque o tempo fosse andando e completando a
-semelhança, era a volta de Escobar mais vivo e
-ruidoso. Até a voz; dentro de pouco, já me parecia
-a mesma. Aos sabbados, buscava não jantar em
-casa e só entrar quando elle estivesse dormindo;
-mas não escapava ao domingo, no gabinete, quando
-eu me achava entre jornaes e autos. Ezequiel entrava
-turbulento, expansivo, cheio de riso e de amor,
-porque o demo do pequeno cada vez morria mais
-por mim. Eu, a falar verdade, sentia agora uma
-aversão que mal podia disfarçar, tanto a ella como
-aos outros. Não podendo encobrir inteiramente esta
-disposição moral, cuidava de me não fazer encontradiço
-com elle, ou só o menos que pudesse; ora
-tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete,
-ora saía ao domingo para ir passear pela cidade o
-arrebaldes o meu mal secreto.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXXIII" id="CXXXIII">CXXXIII</a></h5>
-
-<h4>Uma ideia.</h4>
-
-
-<p>Um dia,&mdash;era uma sexta feira,&mdash;não pude
-mais. Certa ideia, que negrejava em mim, abriu as
-azas e entrou a batel-as de um lado para outro,
-como fazem as ideias que querem sair. O ser sexta-feira
-creio que foi acaso, mas tambem póde ter sido
-proposito; fui educado no terror daquelle dia; ouvi
-cantar balladas em casa, vindas da roça e da antiga
-metropole, nas quaes a sexta-feira era o dia de
-agouro. Entretanto, não havendo almanaks no
-cerebro, é provavel que a ideia não batesse as azas
-senão pela necessidade que sentia do vir ao ar e á
-vida. A vida é tão bella que a mesma ideia da morte
-precisa de vir primeiro a ella, antes de se ver cumprida.
-Já me vás entendendo; lê agora outro capitulo.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXXIV" id="CXXXIV">CXXXIV</a></h5>
-
-<h4>O dia de sabbado.</h4>
-
-
-<p>A ideia saiu finalmente do cerebro. Era noite, e
-não pude dormir, por mais que a sacudisse de mim.
-Tambem nenhuma noite me passou tão curta.
-Amanheceu, quando cuidava não ser mais que
-uma ou duas horas. Sai, suppondo deixar a ideia
-em casa; ella veiu commigo. Cá fóra tinha a mesma
-côr escura, as mesmas azas trepidas, e posto avoasse
-com ellas, era como se fosse fixa; eu a levava na
-retina, não que me encobrisse as cousas externas,
-mas via-as atra vez della, com a côr mais pallida
-que de costume, e sem se demorarem nada.</p>
-
-<p>Não me lembra bem o resto do dia. Sei que
-escrevi algumas cartas, comprei uma substancia,
-que não digo, para não espertar o desejo de proval-a.
-A pharmacia falliu, é verdade; o dono fez-se
-banqueiro, e o banco prospera. Quando me achei
-com a morte no bolso senti tamanha alegria como
-se acabasse de tirar a sorte grande, ou ainda maior,
-porque o premio da loteria gasta-se, e a morte não
-se gasta. Fui a casa de minha mãe, com o fim de
-despedir-me, a titulo de visita. Ou de verdade ou
-por illusão, tudo alli me pareceu melhor nesse dia,
-minha mãe menos triste, tio Cosme esquecido do
-coração, prima Justina da lingua. Passei uma hora
-em paz. Cheguei a abrir mão do projecto. Que era
-preciso para viver? Nunca mais deixar aquella casa,
-ou prender aquella hora a mim mesmo...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXXV" id="CXXXV">CXXXV</a></h5>
-
-<h4>Othello.</h4>
-
-
-<p>Jantei fóra. De noite fui ao theatro. Representava-se
-justamente <i>Othello</i>, que eu não vira nem lera
-nunca; sabia apenas o assumpto, e estimei a coincidencia.
-Vi as grandes raivas do mouro, por causa
-de um lenço,&mdash;um simples lenço!&mdash;e aqui dou
-materia á meditação dos psychologos deste e de
-outros continentes, pois não me pude furtar á observação
-de que um lenço bastou a accender os ciumes
-de Othello e compor a mais sublime tragedia deste
-mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos
-os proprios lençóes; alguma vez nem lençóes ha, e
-valem só as camisas. Taes eram as ideias que me
-iam passando pela cabeça, vagas e turvas, á medida
-que o mouro rolava convulso, e Iago distilava
-a sua calumnia. Nos intervallos não me levantava da
-cadeira; não queria expôr-me a encontrar algum
-conhecido. As senhoras ficavam quasi todas nos
-camarotes, emquanto os homens iam fumar. Então
-eu perguntava a mim mesmo se alguma daquellas
-não teria amado alguem que jazesse agora no cemiterio,
-e vinham outras incoherencias, até que o
-panno subia e continuava a peça. O ultimo acto
-mostrou-me que não eu, mas Capitú devia morrer.
-Ouvi as supplicas de Desdemona, as suas palavras
-amorosas e puras, e a furia do mouro, e a morte
-que este lhe deu entre applausos freneticos do publico.</p>
-
-<p>&mdash;E era innocente, vinha eu dizendo rua abaixo;&mdash;que
-faria o publico, se ella devéras fosse culpada,
-tão culpada como Capitú? E que morte lhe
-daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era
-preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que
-a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó
-seria lançado ao vento, como eterna extincção...</p>
-
-<p>Vaguei pelas ruas o resto da noite. Ceei, é verdade,
-um quasi nada, mas o bastante para ir até á
-manhã. Vi as ultimas horas da noite e as primeiras
-do dia, vi os derradeiros passeadores e os primeiros
-varredores, as primeiras carroças, os primeiros
-ruidos, os primeiros albores, um dia que vinha depois
-do outro e me veria ir para nunca mais voltar.
-As ruas que eu andava como que me fugiam por si
-mesmas. Não tornaria a contemplar o mar da Gloria,
-nem a serra dos Orgãos, nem a fortaleza de
-Santa-Cruz e as outras. A gente que passava não
-era tanta, como nos dias communs da semana, mas
-era já numerosa e ia a algum trabalho, que repetiria
-depois; eu é que não repetiria mais nada.</p>
-
-<p>Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi
-pé ante-pé, e metti-me no gabinete; iam dar seis
-horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas de
-camisa, e escrevi ainda uma carta, a ultima, dirigida
-a Capitú. Nenhuma das outras era para ella;
-senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que
-lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi dous
-textos. O primeiro queimei-o por ser longo e diffuso.
-O segundo continha só o necessário, claro e
-breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as
-lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe só
-de Escobar e da necessidade de morrer.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXXVI" id="CXXXVI">CXXXVI</a></h5>
-
-<h4>A chicara de café.</h4>
-
-
-<p>O meu plano foi esperar o café, dissolver nelle
-a droga e ingeril-a. Até lá, não tendo esquecido de
-todo a minha historia romana, lembrou-me que
-Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de
-Platão. Não tinha Platão commigo; mas um tomo
-truncado de Plutarcho, em que era narrada a vida
-do celebre romano, bastou-me a occupar aquelle
-pouco tempo, e, para em tudo imital-o, estirei-me
-no canapé. Nem era só imital-o nisso; tinha necessidade
-de incutir em mim a coragem delle, assim
-como elle precisára dos sentimentos do philosopho,
-para intrepidamente morrer. Um dos males da ignorancia
-é não ter este remedio á ultima hora. Ha
-muita gente que se mata sem elle, e nobremente
-expira; mas estou que muita mais gente poria
-termo aos seus dias, se pudesse achar essa especie
-de cocaina moral dos bons livros. Entretanto,
-querendo fugir a qualquer suspeita de imitação,
-lembra-me bem que, para não ser encontrado ao pé
-de mim o livro de Plutarcho, nem ser dada a noticia
-nas gazetas com a da côr das calças que eu
-então vestia, assentei de pôl-o novamente no seu
-logar, antes de beber o veneno.</p>
-
-<p>O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o
-livro, e fui para a mesa onde ficára a chicara. Já
-a casa estava em rumores; era tempo de acabar
-commigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que
-trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive animo
-de despejar a substancia na chicara, e comecei a
-mexer o café, os olhos vagos, a memoria em Desdemona
-innocente; o espectaculo da vespera vinha
-intrometter-se na realidade da manhã. Mas a photographia
-de Escobar deu-me o animo que me ia
-faltando; lá estava elle, com a mão nas costas da
-cadeira, a olhar ao longe...</p>
-
-<p>&mdash;Acabemos com isto, pensei.</p>
-
-<p>Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor
-esperar que Capitú e o filho saissem para a missa;
-beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei
-a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no
-corredor, vi-o entrar e correr a mim bradando:</p>
-
-<p>&mdash;Papae! papae!</p>
-
-<p>Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo
-por havel-o inteiramente esquecido, mas crê que foi
-bello e tragico. Effectivamente, a figura do pequeno
-fez-me recuar até dar de costas na estante. Ezequiel
-abraçou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos pés,
-como querendo subir e dar-me o beijo do costume;
-e repetia, puxando-me:</p>
-
-<p>&mdash;Papae! papae!</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXXVII" id="CXXXVII">CXXXVII</a></h5>
-
-<h4>Segundo impulso.</h4>
-
-
-<p>Se eu não olhasse para Ezequiel, é provavel que
-não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o
-meu primeiro impeto foi correr ao café e bebel-o.
-Cheguei a pegar na chicara, mas o pequeno beijava-me
-a mão, como de costume, e a vista delle, como
-o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer
-aqui; mas vã lá, diga-se tudo. Chamem-me embora
-assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga;
-o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me
-e perguntei a Ezequiel se já tomára café.</p>
-
-<p>&mdash;Já, papae; vou á missa com mamãe.</p>
-
-<p>&mdash;Toma outra chicara, meia chicara só.</p>
-
-<p>&mdash;E papae?</p>
-
-<p>&mdash;Eu mando vir mais; anda, bebe!</p>
-
-<p>Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a chicara, tão
-tremulo que quasi a entornei, mas disposto a fazel-a
-cair pela guela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse,
-ou a temperatura, porque o café estava
-frio... Mas não sei que senti que me fez recuar.
-Puz a chicara em cima da mesa, e dei por mim a
-beijar doudamente a cabeça do menino.</p>
-
-<p>&mdash;Papae papae! exclamava Ezequiel.</p>
-
-<p>&mdash;Não, não, eu não sou teu pae!</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXXVIII" id="CXXXVIII">CXXXVIII</a></h5>
-
-<h4>Capitú que entra.</h4>
-
-
-<p>Quando levantei a cabeça, dei com a figura de
-Capitú deante de mim. Eis ahi outro lance, que
-parecerá de theatro, e é tão natural como o primeiro,
-uma vez que a mãe e o filho iam á missa, e Capitú
-não saía sem falar-me. Era já um falar secco e
-breve; a mór parte das vezes, eu nem olhava para
-ella. Ella olhava sempre, esperando.</p>
-
-<p>Desta vez, ao dar com ella, não sei se era dos
-meus olhos, mas Capitú pareceu-me livida. Seguiu-se
-um daquelles silencios, a que, sem mentir, se
-pódem chamar de um seculo, tal é a extensão do
-tempo nas grandes crises. Capitú recompoz-se;
-disse ao filho que se fosse embora, e pediu-me que
-lhe explicasse...</p>
-
-<p>&mdash;Não ha que explicar, disse eu.</p>
-
-<p>&mdash;Ha tudo; não entendo as tuas lagrimas nem
-as de Ezequiel. Que houve entre vocês?</p>
-
-<p>&mdash;Não ouviu o que lhe disse?</p>
-
-<p>Capitú respondeu que ouvira choro e rumor de
-palavras. Eu creio que ouvira tudo claramente, mas
-confessal-o seria perder a esperança do silencio e da
-reconciliação; por isso negou a audiencia e confirmou
-unicamente a vista. Sem lhe contar o episodio
-do café, repeti-lhe as palavras do final do capitulo.</p>
-
-<p>&mdash;O que? perguntou ella como se ouvira mal.</p>
-
-<p>&mdash;Que não é meu filho.</p>
-
-<p>Grande foi a estupefacção de Capitú, e não menor
-a indignação que lhe succedeu, tão naturaes ambas
-que fariam duvidar as primeiras testemunhas de
-vista do nosso fôro. Já ouvi que as ha para varios
-casos, questão de preço; eu não creio, tanto mais
-que a pessoa que me contou isto acabava de perder
-uma demanda. Mas, haja ou não testemunhas alugadas,
-a minha era verdadeira; a propria natureza
-jurava por si, e eu não queria duvidar della. Assim
-que, sem attender á linguagem de Capitú, aos seus
-gestos, á dôr que a retorcia, a cousa nenhuma, repeti
-as palavras ditas duas vezes com tal resolução que
-a fizeram afrouxar. Após alguns instantes,disse-me
-ella:</p>
-
-<p>&mdash;Só se póde explicar tal injuria pela convicção
-sincera; entretanto, você que era tão cioso dos menores
-gestos, nunca revelou a menor sombra de
-desconfiança. Que é que lhe deu tal ideia? Diga,&mdash;continuou
-vendo que eu não respondia nada,&mdash;diga
-tudo; depois do que ouvi, posso ouvir o resto, não
-póde ser muito. Que é que lhe deu agora tal convicção?
-Ande, Bentinho, fale! fale! Despeça-me
-d'aqui, mas diga tudo primeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Ha cousas que se não dizem.</p>
-
-<p>&mdash;Que se não dizem só metade; mas já que disse
-metade, diga tudo.</p>
-
-<p>Tinha-se sentado n'uma cadeira ao pé da mesa.
-Podia estar um tanto confusa, o porte não era de
-accusada. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse.</p>
-
-<p>&mdash;Não, Bentinho, ou conte o resto, para que eu
-me defenda, se você acha que tenho defesa, ou peço-lhe
-desde já a nossa separação: não posso mais!</p>
-
-<p>&mdash;A separação é cousa decidida, redargui pegando-lhe
-na proposta. Era melhor que a fizessemos
-por meias palavras ou em silencio; cada um iria
-com a sua ferida. Uma vez, porém, que a senhora
-insiste, aqui vae o que lhe posso dizer, e é tudo.</p>
-
-<p>Não disse tudo; mal pude alludir aos amores de
-Escobar sem proferir-lhe o nome. Capitú não poude
-deixar de rir, de um riso que eu sinto não poder
-transcrever aqui; depois, em um tom juntamente
-ironico e melancolico:</p>
-
-<p>&mdash;Pois até os defunctos! Nem os mortos escapam
-aos seus ciumes!</p>
-
-<p>Concertou a capinha e ergueu-se. Suspirou, creio
-que suspirou, emquanto eu, que não pedia outra
-cousa mais que a plena justificação della, disse-lhe
-não sei que palavras adequadas a este fim. Capitú
-olhou para mim com desdem, e murmurou:</p>
-
-<p>&mdash;Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança...
-A vontade de Deus explicará tudo... Ri-se?
-É natural; apesar do seminario, não acredita em
-Deus; eu creio... Mas não falemos nisto; não nos
-fica bem dizer mais nada.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXXXIX" id="CXXXIX">CXXXIX</a></h5>
-
-<h4>A photographia.</h4>
-
-
-<p>Palavra que estive a pique de crer que era victima
-de uma grande illusão, uma phantasmagoria de allucinado;
-mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando:&mdash;«Mamãe!
-mamãe! é hora da missa!»
-restituiu-me á consciencia da realidade. Capitú e eu,
-involuntariamente, olhámos para a photographia de
-Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão
-della fez-se confissão pura. Este era aquelle;
-havia por força alguma photographia de Escobar
-pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De
-bocca, porém, não confessou nada; repetiu as ultimas
-palavras, puxou do filho e sairam para a missa.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXL" id="CXL">CXL</a></h5>
-
-<h4>Volta da egreja.</h4>
-
-
-<p>Ficando só, era natural pegar do café e bebel-o.
-Pois, não, senhor; tinha perdido o gosto á morte.
-A morte era uma solução; eu acabava de achar
-outra, tanto melhor quanto que não era definitiva,
-e deixava a porta aberta á reparação, se devesse
-havel-a. Não disse <i>perdão</i>, mas <i>reparação</i>, isto é,
-justiça. Qualquer que fosse a razão do acto, rejeitei
-a morte, e esperei o regresso de Capitú. Este foi
-mais demorado que de costume; cheguei a temer
-que ella houvesse ido á casa de minha mãe, mas
-não foi.</p>
-
-<p>&mdash;Confiei a Deus todas as minhas amarguras,
-disse-me Capitú ao voltar da egreja; ouvi dentro
-de mim que a nossa separação é indispensavel, e
-estou ás suas ordens.</p>
-
-<p>Os olhos com que me disse isto eram embuçados,
-como espreitando um gesto de recusa ou de espera.
-Contava com a minha debilidade ou com a propria
-incerteza em que eu podia estar da paternidade do
-outro, mas falhou tudo. Acaso haveria em mim um
-homem novo, um que apparecia agora, desde que
-impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso
-era um homem apenas encoberto. Respondi-lhe que
-ia pensar, e fariamos o que eu pensasse. Em verdade
-vos digo que tudo estava pensado e feito.</p>
-
-<p>No intervallo, evocára as palavras do finado
-Gurgel, quando me mostrou em casa delle o retrato
-da mulher, parecido com Capitú. Has de lembrar-te
-dellas; se não, relê o capitulo, cujo numero não
-ponho aqui, por não me lembrar já qual seja, mas
-não fica longe. Reduzem-se a dizer que ha taes
-semelhanças inexplicaveis... Pelo dia adeante, e nos
-outros dias, Ezequiel ia ter commigo ao gabinete, e
-as feições do pequeno davam ideia clara das do
-outro, ou eu ia attentando mais nellas. De envolta,
-lembravam-me episodios vagos e remotos, palavras,
-encontros e incidentes, tudo em que a minha cegueira
-não poz malicia, e a que faltou o meu velho ciume.
-Uma vez em que os fui achar sósinhos e calados, um
-segredo que me fez rir, uma palavra della sonhando,
-todas essas reminiscencias vieram vindo agora, em
-tal atropello que me atordoaram... E porque os não
-esganei um dia, quando desviei os olhos da rua
-onde estavam duas andorinhas trepadas no fio telegraphico?
-Dentro, as minhas outras andorinhas
-estavam trepadas no ar, os olhos enfiados nos olhos,
-mas tão cautelosos que se desenfiaram logo, dizendo-me
-uma palavra amiga e alegre. Contei-lhes o
-namoro das andorinhas de fóra, e acharam-lhe graça;
-Escobar declarou que, para elle, seria melhor se as
-andorinhas, em vez de trepadas no fio de arame,
-estivessem á mesa do jantar cosidas. «Nunca comi
-os ninhos dellas, continuou, mas devem ser bons,
-se os chins os inventaram.» E ficámos a tratar dos
-chins e dos classicos que falaram delles, emquanto
-Capitú, confessando que a aborreciamos, foi a outros
-cuidados. Agora lembrava-me tudo o que então me
-pareceu nada.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXLI" id="CXLI">CXLI</a></h5>
-
-<h4>A solução.</h4>
-
-
-<p>Aqui está o que fizemos. Pegámos em nós e fomos
-para a Europa, não passear, nem ver nada, novo
-nem velho; parámos na Suissa. Uma professora do
-Rio-Grande, que foi comnosco, ficou de companhia
-a Capitú, ensinando a lingua materna a Ezequiel,
-que apprenderia o resto nas escolas do paiz. Assim
-regulada a vida, tornei ao Brazil.</p>
-
-<p>Ao cabo de alguns mezes, Capitú começára a
-escrever-me cartas, a que respondi com brevidade
-e sequidão. As della eram submissas, sem odio,
-acaso affectuosas, e para o fim saudosas; pedia-me
-que a fosse ver. Embarquei um anno depois, mas
-não a procurei, e repeti a viagem com o mesmo
-resultado. Na volta, os que se lembravam della,
-queriam noticias, e eu dava-lh'as, como se acabasse
-de viver com ella; naturalmente as viagens eram
-feitas com o intuito de simular isto mesmo, e enganar
-a opinião. Um dia, finalmente...</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXLII" id="CXLII">CXLII</a></h5>
-
-<h4>Uma santa.</h4>
-
-
-<p>Entenda-se que, se nas viagens que fiz á Europa,
-José Dias não foi commigo, não é que lhe faltasse
-vontade; ficava de companhia a tio Cosme, quasi
-invalido, e a minha mãe, que envelheceu depressa.
-Tambem elle estava velho, posto que rijo. Ia a
-bordo despedir-se de mim, e as palavras que me
-dizia, os gestos de lenço, os proprios olhos que
-enxugava eram taes que me commoviam tambem.
-A ultima vez não foi o bordo.</p>
-
-<p>&mdash;Venha...</p>
-
-<p>&mdash;Não posso.</p>
-
-<p>&mdash;Está com medo?</p>
-
-<p>&mdash;Não; não posso. Agora, adeus, Bentinho, não
-sei sé me verá mais; creio que vou para a outra
-Europa, a eterna...</p>
-
-<p>Não foi logo; minha mãe embarcou primeiro.
-Procura no cemiterio de S. João Baptista uma sepultura
-sem nome, com esta unica indicação:
-<i>Uma santa.</i> É ahi. Fiz fazer essa inscripção com
-alguma difficuldade. O esculptor achou-a exquisita;
-o administrador do cemiterio consultou o vigario
-da parochia; este ponderou-me que as santas estão
-no altar e no ceu.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, perdão, atalhei, eu não quero dizer que
-naquella sepultura está uma canonisada. A minha
-ideia é dar com tal palavra uma definição terrena
-de todas as virtudes que a finada possuiu na vida.
-Tanto é assim que, sendo a modestia uma dellas,
-desejo conserval-a postuma, não lhe escrevendo o
-nome.</p>
-
-<p>&mdash;Todavia, o nome, afiliação, as datas...</p>
-
-<p>&mdash;Quem lhe importará com datas, filiação, nem
-nomes, depois que eu acabar?</p>
-
-<p>&mdash;Quer dizer que era uma santa senhora, não?</p>
-
-<p>&mdash;Justamente. O protonotario Cabral, se fosse
-vivo, confirmaria aqui o que lhe digo.</p>
-
-<p>&mdash;Nem eu contesto a verdade, hesito só na formula.
-Conheceu então o protonotario?</p>
-
-<p>&mdash;Conheci-o. Era um padre-modelo.</p>
-
-<p>&mdash;Bom canonista, bom latinista, pio e caridoso,
-continuou o vigario.</p>
-
-<p>&mdash;E possuia algumas prendas de sociedade,
-disse eu; lá em casa sempre ouvi que era insigne
-parceiro ao gamão...</p>
-
-<p>&mdash;Tinha muito bom dado! suspirou lentamente
-o vigario. Um dado de mestre!</p>
-
-<p>&mdash;Então, parece-lhe...?</p>
-
-<p>&mdash;Uma vez que não ha outro sentido, nem poderia
-havel-o, sim, senhor, admitte-se...</p>
-
-<p>José Dias assistiu a estas diligencias, com grande
-melancolia. No fim, quando saimos, disse mal do
-padre, chamou-lhe meticuloso. Só lhe achava desculpa
-por não ter conhecido minha mãe, nem elle
-nem os outros homens do cemiterio.</p>
-
-<p>&mdash;Não a conheceram; se a conhecessem, mandariam
-esculpir <i>santissima.</i></p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXLIII" id="CXLIII">CXLIII</a></h5>
-
-<h4>O ultimo superlativo.</h4>
-
-
-<p>Não foi o ultimo superlativo de José Dias. Outros
-teve que não vale a pena escrever aqui, até que
-veiu o ultimo, o melhor delles, o mais doce, o que
-lhe fez da morte um pedaço de vida. Já então morava
-commigo; posto que minha mãe lhe deixasse
-uma pequena lembrança, veiu dizer-me que, com
-legado ou sem elle, não se separaria de mim.
-Talvez a esperança delle fosse enterrar-me. Correspondia-se
-com Capitú, a quem pedia que lhe mandasse
-o retrato de Ezequiel; mas Capitú ia adiando
-a remessa de correio a correio, até que elle não
-pediu mais nada, a não ser o coração do joven
-estudante; pedia-lhe tambem que não deixasse de
-falar a Ezequiel no velho amigo do pae e do avô,
-«destinado pelo ceu a amar o mesmo sangue.»
-Era assim que elle preparava os cuidados da terceira
-geração; mas a morte veiu antes de Ezequiel.
-A doença foi rapida. Mandei chamar um medico
-homeopatha.</p>
-
-<p>&mdash;Não, Bentinho, disse elle; basta um allopatha;
-em todas as escolas se morre. Demais, foram ideias
-da mocidade, que o tempo levou; converto-me á fé
-de meus paes. A allopathia é o catholicismo da
-medicina...</p>
-
-<p>Morreu sereno, após uma agonia curta. Pouco
-antes ouviu que o ceu estava lindo, e pediu que
-abrissemos a janella.</p>
-
-<p>&mdash;Não, o ar póde fazer-lhe mal.</p>
-
-<p>&mdash;Que mal? Ar é vida.</p>
-
-<p>Abrimos a janella. Realmente, estava um ceu
-azul e claro. José Dias soergueu-se e olhou para
-fóra; após alguns instantes, deixou cair a cabeça,
-murmurando: Lindissimo! Foi a ultima palavra
-que proferiu neste mundo. Pobre José Dias! Porque
-hei de negar que chorei por elle?</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXLIV" id="CXLIV">CXLIV</a></h5>
-
-<h4>Uma pergunta tardia.</h4>
-
-
-<p>Assim chorem por mim todos os olhos de amigos
-e amigas que deixo neste mundo, mas não é provavel.
-Tenho-me feito esquecer. Móro longe e saio
-pouco. Não é que haja effectivamente ligado as
-duas pontas da vida. Esta casa do Engenho Novo,
-comquanto reproduza a de Matacavallos, apenas
-me lembra aquella, e mais por effeito de comparação
-e de reflexão que de sentimento. Já disse isto
-mesmo.</p>
-
-<p>Hão de perguntar-me por que razão, tendo a propria
-casa velha, na mesma rua antiga, não impedi
-que a demolissem e vim reproduzil-a nesta. A pergunta
-devia ser feita a principio, mas aqui vae a
-resposta. A razão é que, logo que minha mãe morreu,
-querendo ir para lá, fiz primeiro uma longa
-visita de inspecção por alguns dias, e toda a casa
-me desconheceu. No quintal a aroeira e a pitangueira,
-o poço, a caçamba velha e o lavadouro,
-nada sabia de mim. A casuarina era a mesma que
-eu deixara ao fundo, mas o tronco, em vez de recto,
-como outr'ora, tinha agora um ar de ponto de interrogação;
-naturalmente pasmava do intruso.
-Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento
-que alli deixasse, e não achei nenhum. Ao contrario,
-a ramagem começou a sussurrar alguma cousa
-que não entendi logo, e parece que era a cantiga
-das manhãs novas. Ao pé dessa musica sonora e
-jovial, ouvi tambem o grunhir dos porcos, especie
-de troça concentrada e philosophica.</p>
-
-<p>Tudo me era extranho e adverso. Deixei que
-demolissem a casa, e, mais tarde, quando vim para
-o Engenho Novo, lembrou-me fazer esta reproducção
-por explicações que dei ao architecto segundo
-contei em tempo.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXLV" id="CXLV">CXLV</a></h5>
-
-<h4>O regresso.</h4>
-
-
-<p>Ora, foi já nesta casa que um dia, estando a
-vestir-me para almoçar, recebi um cartão com este
-nome:</p>
-
-<p>
- EZEQUIEL A. DE SANTIAGO class="center"<br />
-</p>
-
-<p>&mdash;A pessoa está ahi? perguntei ao criado.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, senhor; ficou esperando.</p>
-
-<p>Não fui logo, logo; fil-o esperar um dez ou quinze
-minutos na sala. Só depois é que me lembrou que
-cumpria ter certo alvoroço e correr, abraçal-o, falar-lhe
-na mãe. A mãe,&mdash;creio que ainda não disse
-que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa
-na velha Suissa. Acabei de vestir-me ás pressas.
-Quando saí do quarto, tomei ares de pae, um pae
-entre manso e crespo, metade Dom Casmurro. Ao
-entrar na sala, dei com um rapaz, de costas, mirando
-o busto de Massinissa, pintado na parede.
-Vim cauteloso, e não fiz rumor. Não obstante,
-ouviu-me os passos, e voltou-se depressa. Conheceu-me
-pelos retratos e correu para mim. Não me
-mexi; era nem mais nem menos o meu antigo e
-joven companheiro do seminario de S. José, um
-pouco mais baixo, menos cheio de corpo, e, salvo
-as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu
-amigo. Trajava á moderna, naturalmente, e as maneiras
-eram differentes, mas o aspecto geral reproduzia
-a pessoa morta. Era o proprio, o exacto, o
-verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o
-filho de seu pae. Vestia de luto pela mãe; eu tambem
-estava de preto. Sentámo-nos.</p>
-
-<p>&mdash;Papae não faz differença dos ultimos retratos,
-disse-me elle.</p>
-
-<p>A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era
-afrancezado. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia
-do que era, e comecei um interrogatorio para
-ter menos que falar e dominar assim a minha emoção.
-Mas isto mesmo dava animação á cara delle, e
-o meu collega do seminario ia resurgindo cada vez
-mais do cemiterio. Eil-o aqui, deante de mim, com
-egual riso e maior respeito; total, o mesmo obsequio
-e a mesma graça. Anciava por ver-me. A mãe falava
-muito em mim, louvando-me extraordinariamente,
-como o homem mais puro do mundo, o mais digno
-de ser querido.</p>
-
-<p>&mdash;Morreu bonita, concluiu.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos almoçar.</p>
-
-<p>Se pensas que o almoço foi amargo, enganas-te.
-Teve seus minutos de aborrecimento, é verdade; a
-principio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente
-meu filho, que me não completasse e continuasse.
-Se o rapaz tem saido á mae, eu acabava crendo tudo,
-tanto mais facilmente quanto que elle parecia haver-me
-deixado na vespera, evocava a meninice, scenas
-e palavras, a ida para o collegio...</p>
-
-<p>&mdash;Papae ainda se lembra quando me levou para
-o collegio? perguntou rindo.</p>
-
-<p>&mdash;Pois não hei de lembrar-me?</p>
-
-<p>&mdash;Era na Lapa; eu ia desesperado, e papae não
-parava, dava-me cada puxão, e eu com as perninhas....
-Sim, senhor, acceito.</p>
-
-<p>Estendeu o copo ao vinho que eu lhe offerecia,
-bebeu um gole, e continuou a comer. Escobar comia
-assim tambem, com a cara mettida no prato. Contou-me
-a vida na Europa, os estudos, particularmente
-os de archeologia, que era a sua paixão.
-Falava da antiguidade com amor, contava o Egypto
-e os seus milhares de seculos, sem se perder nos
-algarismos; tinha a cabeça arithmetica do pae. Eu,
-posto que a ideia da paternidade do outro me estivesse
-já familiar, não gostava da resurreição. Ás
-vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem
-nada, mas o diabrete falava e ria, e o defuncto falava
-e ria por elle.</p>
-
-<p>Não havendo remedio senão ficar com elle, fiz-me
-pae deveras. A ideia de que pudesse ter visto
-alguma photographia de Escobar, que Capitú por
-descuido levasse comsigo, não me acudiu, nem, se
-acudisse, persistiria. Ezequiel cria em mim, como
-na mãe. Se fosse vivo José Dias, acharia nelle a
-minha propria pessoa. Prima Justina quiz vel-o,
-mas estando enferma, pediu-me que o levasse lá.
-Conhecia aquella parenta. Creio que o desejo de
-ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço
-o debuxo que por ventura houvesse achado no menino.
-Seria um regalo ultimo; atalhei-o a tempo.</p>
-
-<p>&mdash;Está muito mal, disse eu a Ezequiel que queria
-ir vel-a, qualquer emoção póde trazer-lhe a morte.
-Iremos vel-a, quando ficar melhor.</p>
-
-<p>Não fomos; a morte levou-a dentro de poucos
-dias. Ella descança no Senhor ou como quer que
-seja. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a
-conheceu, nem podia, tão outra a fizeram os annos
-e a morte. No caminho para o cemiterio, iam-lhe
-lembrando uma porção de cousas, alguma rua, alguma
-torre, um trecho de praia, e era todo alegria.
-Assim acontecia sempre que voltava para casa, ao
-fim do dia; contava-me as recordações que ia recebendo
-das ruas e das casas. Admirava-se que muitas
-destas fossem as mesmas que elle deixára, como se
-as casas morressem meninas.</p>
-
-<p>Ao cabo de seis mezes, Ezequiel falou-me em
-uma viagem á Grecia, ao Egypto, e á Palestina,
-viagem scientifica, promessa feita a alguns amigos.</p>
-
-<p>&mdash;De que sexo? perguntei rindo.</p>
-
-<p>Sorriu vexado, e respondeu-me que as mulheres
-eram creaturas tão da moda e do dia que nunca
-haviam de entender uma ruina de trinta seculos.
-Eram dous collegas da universidade. Prometti-lhe
-recursos, e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos.
-Commigo disse que uma das consequencias
-dos amores furtivos do pae era pagar eu as archeologias
-do filho; antes lhe pagasse a lepra.... Quando
-esta ideia me atravessou o cerebro, senti-me tão
-cruel e perverso que peguei no rapaz, e quiz
-apertal-o ao coração, mas recuei; encarei-o depois,
-como se faz a um filho de verdade; os olhos que elle
-me deitou foram ternos e agradecidos.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXLVI" id="CXLVI">CXLVI</a></h5>
-
-<h4>Não houve lepra.</h4>
-
-
-<p>Não houve lepra, mas ha febres por todas essas
-terras humanas, sejam velhas ou novas. Onze mezes
-depois, Ezequiel morreu de uma febre typhoide, e
-foi enterrado nas immediações de Jerusalem, onde
-os dous amigos da universidade lhe levantaram um
-tumulo com esta inscripção, tirada do propheta Ezequiel,
-em grego: «Tu eras perfeito nos teus caminhos.»
-Mandaram-me ambos os textos, grego e
-latino, o desenho da sepultura, a conta das despesas
-e o resto do dinheiro que elle levava; pagaria o
-triplo para não tornar a vel-o.</p>
-
-<p>Como quizesse verificar o texto, consultei a minha
-Vulgata, e achei que era exacto, mas tinha ainda
-um complemento: «Tu eras perfeito nos teus caminhos,
-<i>desde o dia da tua creação.</i>» Parei e
-perguntei calado: «Quando seria o dia da creação
-de Ezequiel?» Ninguem me respondeu. Eis ahi
-mais um mysterio para ajuntar aos tantos deste
-mundo. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao theatro.</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXLVII" id="CXLVII">CXLVII</a></h5>
-
-<h4>A exposição retrospectiva.</h4>
-
-
-<p>Já sabes que a minha alma, por mais lacerada
-que tenha sido, não ficou ahi para um canto como
-uma flor livida e solitaria. Não lhe dei essa côr ou
-descôr. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem
-amigas que me consolassem da primeira. Caprichos
-de pouca dura, é verdade. Ellas é que me deixavam
-como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva,
-e, ou se fartam de vel-a, ou a luz da sala
-esmorece. Uma só dessas visitas tinha carro á porta
-e cocheiro de libré. As outras iam modestamente,
-<i>calcante pede</i>, e, se chovia, eu é que ia buscar um
-carro de praça, e as mettia dentro, com grandes
-despedidas, e maiores recommendações:</p>
-
-<p>&mdash;Levas o catalogo?</p>
-
-<p>&mdash;Levo; até amanhã.</p>
-
-<p>&mdash;Até amanhã.</p>
-
-<p>Não voltavam mais. Eu ficava á porta, esperando,
-ia até á esquina, espiava, consultava o relogio, e
-não via nada nem ninguem. Então, se apparecia
-outra visita, dava-lhe o braço, entravamos, mostrava-lhe
-as paizagens, os quadros historicos ou de genero,
-uma aquarella, um pastel, uma <i>gouache</i>, e tambem
-esta cançava, e ia embora com o catalogo na mão....</p>
-
-
-
-<hr class="chap" />
-<h5><a name="CXLVIII" id="CXLVIII">CXLVIII</a></h5>
-
-<h4>E bem, e o resto?</h4>
-
-
-<p>Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas
-me fez esquecer a primeira amada do meu coração?
-Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca,
-nem os de cigana obliqua e dissimulada. Mas não
-é este propriamente o resto do livro. O resto é saber
-se a Capitú da praia da Gloria já estava dentro da
-de Matacavallos, ou se esta foi mudada naquella
-por effeito de algum caso incidente. Jesus, filho de
-Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciumes,
-dir-me-hia, como no seu cap. IX, vers. 1: «Não
-tenhas ciumes de tua mulher para que ella não se
-metta a enganar-te com a malicia que apprender de
-ti.» Mas eu creio que não, e tu concordarás commigo;
-se te lembras bem da Capitú menina, has de
-reconhecer que uma estava dentro da outra, como a
-fruta dentro da casca.</p>
-
-<p>E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa
-fica, e é a summa das summas, ou o resto dos restos,
-a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior
-amigo, tão extremosos ambos e tão queridos tambem,
-quiz o destino que acabassem juntando-se e
-enganando-me.... A terra lhes seja leve! Vamos á
-<i>Historia dos suburbios.</i></p>
-
-
-<h4>FIM</h4>
-
-<hr class="full" />
-
-
-<h4><a id="INDICE"></a>INDICE</h4>
-
-
-<div class="center">
-<table border="0" cellpadding="4" cellspacing="0" summary="">
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#I">I</a></td><td align="left">Do titulo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#II">II</a></td><td align="left">Do livro</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#III">III</a></td><td align="left">A denuncia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#IV">IV</a></td><td align="left">Um dever amarissimo!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#V">V</a></td><td align="left">O aggregado</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#VI">VI</a></td><td align="left">Tio Cosme</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#VII">VII</a></td><td align="left">D. Gloria</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#VIII">VIII</a></td><td align="left">É tempo!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#IX">IX</a></td><td align="left">A opera</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#X">X</a></td><td align="left">Acceito a theoria</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XI">XI</a></td><td align="left">A promessa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XII">XII</a></td><td align="left">Na varanda</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XIII">XIII</a></td><td align="left">Capitú</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XIV">XIV</a></td><td align="left">A inscripção</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XV">XV</a></td><td align="left">Outra voz repentina</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XVI">XVI</a></td><td align="left">O administrador interino</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XVII">XVII</a></td><td align="left">Os vermes</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XVIII">XVIII</a></td><td align="left">Um plano</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XIX">XIX</a></td><td align="left">Sem falta</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XX">XX</a></td><td align="left">Mil padre-nossos e mil ave-marias</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXI">XXI</a></td><td align="left">Prima Justina</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXII">XXII</a></td><td align="left">Sensações alheias</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXIII">XXIII</a></td><td align="left">Prazo dado</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXIV">XXIV</a></td><td align="left">De mãe e de servo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXV">XXV</a></td><td align="left">No Passeio Publico</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXVI">XXVI</a></td><td align="left">As leis são bellas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXVII">XXVII</a></td><td align="left">Ao portão</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXVIII">XXVIII</a></td><td align="left">Na rua</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXIX">XXIX</a></td><td align="left">O imperador</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXX">XXX</a></td><td align="left">O Santissimo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXI">XXXI</a></td><td align="left">As curiosidades de Capitú</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXII">XXXII</a></td><td align="left">Olhos de ressaca</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXIII">XXXIII</a></td><td align="left">O penteado</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXIV">XXXIV</a></td><td align="left">Sou homem!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXV">XXXV</a></td><td align="left">O protonotario apostolico</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXVI">XXXVI</a></td><td align="left">Ideia sem pernas e ideia sem braços</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXVII">XXXVII</a></td><td align="left">A alma é cheia de mysterios</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXVIII">XXXVIII</a></td><td align="left">Que susto, meu Deus!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXIX">XXXIX</a></td><td align="left">A vocação</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XL">XL</a></td><td align="left">Uma egua</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLI">XLI</a></td><td align="left">A audiencia secreta</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLII">XLII</a></td><td align="left">Capitú reflectindo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLIII">XLIII</a></td><td align="left">Você tem medo?</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLIV">XLIV</a></td><td align="left">O primeiro filho</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLV">XLV</a></td><td align="left">Abane a cabeça, leitor</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLVI">XLVI</a></td><td align="left">As pazes</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLVII">XLVII</a></td><td align="left">«A senhora saiu»</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLVIII">XLVIII</a></td><td align="left">Juramento do poço</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLIX">XLIX</a></td><td align="left">Uma vela aos sabbados</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#L">L</a></td><td align="left">Um meio termo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LI">LI</a></td><td align="left">Entre luz e fusco</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LII">LII</a></td><td align="left">O velho Padua</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LIII">LIII</a></td><td align="left">A caminho!</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LIV">LIV</a></td><td align="left">Panegyrico de Santa Monica</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LV">LV</a></td><td align="left">Um soneto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LVI">LVI</a></td><td align="left">Um seminarista</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LVII">LVII</a></td><td align="left">De preparação</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LVIII">LVIII</a></td><td align="left">O tratado</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LIX">LIX</a></td><td align="left">Convivas de boa memoria</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LX">LX</a></td><td align="left">Querido opusculo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXI">LXI</a></td><td align="left">A vacca de Homero</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXII">LXII</a></td><td align="left">Uma ponta de Iago</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXIII">LXIII</a></td><td align="left">Metades de um sonho</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXIV">LXIV</a></td><td align="left">Uma ideia e um escrupulo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXV">LXV</a></td><td align="left">A dissimulação</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXVI">LXVI</a></td><td align="left">Intimidade</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXVII">LXVII</a></td><td align="left">Um peccado</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXVIII">LXVIII</a></td><td align="left">Adiemos a virtude</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXIX">LXIX</a></td><td align="left">A missa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXX">LXX></a></td><td align="left">Depois da missa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXI">LXXI</a></td><td align="left">Visita de Escobar</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXII">LXXII</a></td><td align="left">Uma reforma dramatica</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXIII">LXXIII</a></td><td align="left">O contra-regra</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXIV">LXXIV</a></td><td align="left">A presilha</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXV">LXXV</a></td><td align="left">O desespero</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXVI">LXXVI</a></td><td align="left">Explicação</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXVII">LXXVII</a></td><td align="left">Prazer das dôres velhas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXVIII">LXXVIII</a></td><td align="left">Segredo por segredo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXIX">LXXIX</a></td><td align="left">Vamos ao capitulo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXX">LXXX</a></td><td align="left">Venhamos ao capitulo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXI">LXXXI</a></td><td align="left">Uma palavra</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXII">LXXXII</a></td><td align="left">O canapé</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXIII">LXXXIII</a></td><td align="left">O retrato</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXIV">LXXXIV</a></td><td align="left">Chamado</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXV">LXXXV</a></td><td align="left">O defuncto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXVI">LXXXVI</a></td><td align="left">Amai, rapazes</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXVII">LXXXVII</a></td><td align="left">A sege</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXVIII">LXXXVIII</a></td><td align="left">Um pretexto honesto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXIX">LXXXIX</a></td><td align="left">A recusa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XC">XC</a></td><td align="left">A polemica</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCI">XCI</a></td><td align="left">Achado que consola</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCII">XCII</a></td><td align="left">O diabo não é tão feio como se pinta</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCIII">XCIII</a></td><td align="left">Um amigo por um defuncto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCIV">XCIV</a></td><td align="left">Ideias arithmeticas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCV">XCV</a></td><td align="left">O papa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCVI">XCVI</a></td><td align="left">Um substituto</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCVII">XCVII</a></td><td align="left">A saida</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCVIII">XCVIII</a></td><td align="left">Cinco annos</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCIX">XCIX</a></td><td align="left">O filho é a cara do pae</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#C">C</a></td><td align="left">«Tu serás feliz, Bentinho!»</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CI">CI</a></td><td align="left">No ceu</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CII">CII</a></td><td align="left">De casada</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CIII">CIII</a></td><td align="left">A felicidade tem boa alma</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CIV">CIV</a></td><td align="left">As pyramides</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CV">CV</a></td><td align="left">Os braços</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CVI">CVI</a></td><td align="left">Dez libras esterlinas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CVII">CVII</a></td><td align="left">Ciumes do mar</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CVIII">CVIII</a></td><td align="left">Um filho</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CIX">CIX</a></td><td align="left">Um filho unico</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CX">CX</a></td><td align="left">Rasgos da infancia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXI">CXI</a></td><td align="left">Contado depressa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXII">CXII</a></td><td align="left">As imitações de Ezequiel</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXIII">CXIII</a></td><td align="left">Embargos de terceiro</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXIV">CXIV</a></td><td align="left">Em que se explica o explicado</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXV">CXV</a></td><td align="left">Duvidas sobre duvidas</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXVI">CXVI</a></td><td align="left">Filho do homem</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXVII">CXVII</a></td><td align="left">Amigos proximos</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXVIII">CXVIII</a></td><td align="left">A mão de Sancha</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXIX">CXIX</a></td><td align="left">Não faça isso, querida</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXX">CXX</a></td><td align="left">Os autos</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXI">CXXI</a></td><td align="left">A catastrophe</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXII">CXXII</a></td><td align="left">O enterro</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXIII">CXXIII</a></td><td align="left">Olhos de ressaca</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXIV">CXXIV</a></td><td align="left">O discurso</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXV">CXXV</a></td><td align="left">Uma comparação</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXVI">CXXVI</a></td><td align="left">Scismando</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXVII">CXXVII</a></td><td align="left">O barbeiro</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXVIII">CXXVIII</a></td><td align="left">Punhado de successos</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXIX">CXXIX</a></td><td align="left">A D. Sancha</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXX">CXXX</a></td><td align="left">Um dia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXI">CXXXI</a></td><td align="left">Anterior ao anterior</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXII">CXXXII</a></td><td align="left">O debuxo e o colorido</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXIII">CXXXIII</a></td><td align="left">Uma ideia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXIV">CXXXIV</a></td><td align="left">O dia de sabbado</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXV">CXXXV</a></td><td align="left">Othello</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXVI">CXXXVI</a></td><td align="left">A chicara de café</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXVII">CXXXVII</a></td><td align="left">Segundo impulso</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXVIII">CXXXVIII</a></td><td align="left">Capitú que entra</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXIX">CXXXIX</a></td><td align="left">A photographia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXL">CXL</a></td><td align="left">Volta da egreja</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLI">CXLI</a></td><td align="left">A solução</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLII">CXLII</a></td><td align="left">Uma santa</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLIII">CXLIII</a></td><td align="left">O ultimo superlativo</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLIV">CXLIV</a></td><td align="left">Uma pergunta tardia</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLV">CXLV</a></td><td align="left">O regresso</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLVI">CXLVI</a></td><td align="left">Não houve lepra</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLVII">CXLVII</a></td><td align="left">A exposição retrospectiva</td></tr>
-<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLVIII">CXLVIII</a></td><td align="left">É bem, e o resto?</td></tr>
-</table></div>
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-<pre>
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-End of the Project Gutenberg EBook of Dom Casmurro, by Machado de Assis
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