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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Dom Casmurro - -Author: Machado de Assis - -Release Date: October 15, 2017 [EBook #55752] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free -Literature (online soon in an extended version,also linking -to free sources for education worldwide ... MOOC's, -educational materials,...) (Images generously made available -by the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.) - - - - - - -</pre> - -<div class="figcenter" style="width: 450px;"> -<img src="images/cover02.jpg" width="450" alt="" /> -</div> -<h1>DOM CASMURRO</h1> - -<h1>POR</h1> - -<h1>MACHADO DE ASSIS</h1> - -<h4>DA ACADEMIA BRAZILEIRA</h4> - -<h5>B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR</h5> - -<h5>RUA MOREIRA CEZAR, 71</h5> - -<h5>RIO DE JANEIRO</h5> - -<h5>6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6</h5> - -<h5>PARIZ</h5> - -<h5>1899</h5> - -<hr class="full" /> - -<p><a href="#INDICE">Indice</a></p> - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="I" id="I">I</a></h5> - -<h4>Do titulo.</h4> - - -<p>Uma noite destas, vindo da cidade para o -Engenho Novo, encontrei no trem da Central um -rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de -chapéo. Comprimentou-me, sentou-se ao pé de -mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me -versos. A viagem era curta, e os versos -póde ser que não fossem inteiramente maus. Succedeu, -porém, que como eu estava cançado, -fechei os olhos tres ou quatro vezes; tanto bastou -para que elle interrompesse a leitura e mettesse os -versos no bolso.</p> - -<p>—Continue, disse eu accordando.</p> - -<p>—Já acabei, murmurou elle.</p> - -<p>—São muito bonitos.</p> - -<p>Vi-lhe fazer um gesto para tiral-os outra vez do -bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No -dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e -acabou alcunhando-me <i>Dom Casmurro.</i> Os visinhos, -que não gostam dos meus habitos reclusos e calados, -deram curso á alcunha, que afinal pegou. -Nem por isso me zanguei. Contei a anecdota aos -amigos da cidade, e elles, por graça, chamam-me -assim, alguns em bilhetes: «Dom Casmurro, domingo -vou jantar com você.»—«Vou para Petropolis, -Dom Casmurro; a casa é a mesma da Rhenania; -vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, -e vae lá passar uns quinze dias commigo.»—«Meu -caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso -do theatro amanhã; venha e dormirá aqui na -cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe -cama; só não lhe dou moça.»</p> - -<p>Não consultes diccionarios. <i>Casmurro</i> não está -aqui no sentido que elles lhe dão, mas no que lhe -poz o vulgo de homem calado e mettido comsigo. -<i>Dom</i> veiu por ironia, para attribuir-me fumos de -fidalgo. Tudo por estar cochilando! Tambem não -achei melhor titulo para a minha narração; se não -tiver outro d'aqui até ao fim do livro, vae este -mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que -não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, -sendo o titulo seu, poderá cuidar que a obra é sua. -Ha livros que apenas terão isso dos seus autores; -alguns nem tanto.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="II" id="II">II</a></h5> - -<h4>Do livro.</h4> - - -<p>Agora que expliquei o titulo, passo a escrever -o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos -que me põem a penna na mão.</p> - -<p>Vivo só, com um creado. A casa em que moro é -propria; fil-a construir de proposito, levado de um -desejo tão particular que me vexa imprimil-o, mas -vá lá. Um dia, ha bastantes annos, lembrou-me -reproduzir no Engenho Novo a casa em que me -criei na antiga rua de Matacavallos, dando-lhe o -mesmo aspecto e economia daquella outra, que -desappareceu. Constructor e pintor entenderam -bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo predio -assobradado, tres janellas de frente, varanda ao -fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal -destas, a pintura do tecto e das paredes é mais ou -menos egual, umas grinaldas de flores miudas e -grandes passaros que as tomam nos bicos, de espaço -a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras -das estações, e ao centro das paredes os medalhões -de Cesar, Augusto, Nero e Massinissa, com -os nomes por baixo... Não alcanço a razão de taes -personagens. Quando fomos para a casa de Matacavallos, -já ella estava assim decorada; vinha -do decennio anterior. Naturalmente era gosto do -tempo metter sabor classico e figuras antigas em -pinturas americanas. O mais é tambem analogo e -parecido. Tenho chacarinha, flôres, legume, uma -casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e -mobilia velha. Emfim, agora, como outr'ora, ha -aqui o mesmo contraste da vida interior, que é -pacata, com a exterior, que é ruidosa.</p> - -<p>O meu fim evidente era atar as duas pontas da -vida, e restaurar na velhice a adolescencia. Pois, -senhor, não consegui recompor o que foi nem o -que fui. Em tudo, se o rosto é egual, a physionomia -é differente. Se só me faltassem os outros, vá; um -homem consola-se mais ou menos das pessoas que -perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. -O que aqui está é, mal comparando, semelhante á -pintura que se põe na barba e nos cabellos, e que -apenas conserva o habito externo, como se diz nas -autopsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão -que me desse vinte annos de edade poderia -enganar os extranhos, como todos os documentos -falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam -são de data recente; todos os antigos foram estudar -a geologia dos campos santos. Quanto ás amigas, -algumas datam de quinze annos, outras de menos, -e quasi todas creem na mocidade. Duas ou tres -fariam crer nella aos outros, mas a lingua que -falam obriga muita vez a consultar os diccionarios, -e tal frequencia é cançativa.</p> - -<p>Entretanto, vida differente não quer dizer vida -peor; é outra cousa. A certos respeitos, aquella -vida antiga apparece-me despida de muitos encantos -que lhe achei; mas é tambem exacto que -perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memoria, -conservo alguma recordação doce e feiticeira. -Em verdade, pouco appareco e menos falo. -Distracções raras. O mais do tempo é gasto em -hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.</p> - -<p>Ora, como tudo cança, esta monotonia acabou -por exhaurir-me tambem. Quiz variar, e lembrou-me -escrever um livro. Jurisprudencia, philosophia -e politica acudiram-me, mas não me acudiram as -forças necessarias. Depois, pensei em fazer uma -<i>Historia dos Suburbios</i>, menos secca que as memorias -do padre Luiz Gonçalves dos Santos, relativas -á cidade; era obra modesta, mas exigia documentos -e datas, como preliminares, tudo arido e longo. -Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram -a falar-me e a dizer-me que, uma vez que -elles não alcançavam reconstituir-me os tempos -idos, pegasse da penna e contasse alguns. Talvez a -narração me désse a illusão, e as sombras viessem -perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, -mas o do <i>Fausto: Ahi vindes outra vez, inquietas -sombras...?</i></p> - -<p>Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda -agora me treme a penna na mão. Sim, Nero, Augusto, -Massinissa, e tu, grande Cesar, que me -incitas a fazer os meus commentarios, agradeço-vos -o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscencias -que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que -vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior -tomo. Eia, comecemos a evocação por uma celebre -tarde de Novembro, que nunca me esqueceu. Tive -outras muitas, melhores, e peores, mas aquella -nunca se me apagou do espirito. É o que vás entender, -lendo.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="III" id="III">III</a></h5> - -<h4>A denuncia.</h4> - - -<p>Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi -proferir o meu nome e escondi-me atraz da porta. -A casa era a da rua de Matacavallos, o mez Novembro, -o anno é que é um tanto remoto, mas eu -não hei de trocar as datas á minha vida só para -agradar ás pessoas que não amam historias velhas; -o anno era de 1857.</p> - -<p>—D. Gloria, a senhora persiste na ideia de -metter o nosso Bentinho no seminario? É mais que -tempo, e já agora póde haver uma difficuldade.</p> - -<p>—Que difficuldade?</p> - -<p>—Uma grande difficuldade.</p> - -<p>Minha mãe quiz saber o que era. José Dias, depois -de alguns instantes de concentrarão, veiu ver -se havia alguem no corredor; não deu por mim, -voltou e, abafando a voz, disse que a difficuldade -estava na casa ao pé, a gente do Padua.</p> - -<p>—A gente do Padua?</p> - -<p>—Ha algum tempo estou para lhe dizer isto, -mas não me atrevia. Não me parece bonito que o -nosso Bentinho ande mettido nos cantos com a -filha do <i>Tartaruga</i>, e esta é a difficuldade, porque -se elles pegam de namoro, a senhora terá muito -que lutar para separal-os.</p> - -<p>—Não acho. Mettidos nos cantos?</p> - -<p>—É um modo de falar. Em segredinhos, sempre -juntos. Bentinho quasi que não sae de lá. A pequena -é uma desmiolada; o pae faz que não vê; tomara -elle que as cousas corressem de maneira, -que... Comprehendo o seu gesto; a senhora não crê -em taes calculos, parece-lhe que todos têm a alma -candida...</p> - -<p>—Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos -brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. -Basta a edade; Bentinho mal tem quinze annos. -Capitú fez quatorze á semana passada; são dous -creançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, -desde aquella grande enchente, ha dez annos, -em que a familia Padua perdeu tanta cousa; d'ahi -vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer...? -Mano Cosme, você que acha?</p> - -<p>Tio Cosme respondeu com um «Ora!» que, -traduzido em vulgar, queria dizer: «São imaginações -do José Dias; os pequenos divertem-se, eu -divirto-me; onde está o gamão?»</p> - -<p>—Sim, creio que o senhor está enganado.</p> - -<p>—Póde ser, minha senhora. Oxalá tenham -razão; mas creia que não falei senão depois de -muito examinar...</p> - -<p>—Em todo caso, vae sendo tempo, interrompeu -minha mãe; vou tratar de mettel-o no seminario -quanto antes.</p> - -<p>—Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o -fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho -ha de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois a -egreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos -que um bispo presidiu a Constituinte, e que o padre -Feijó governou o imperio...</p> - -<p>—Governou como a cara d'elle! atalhou tio -Cosme, cedendo a antigos rancores politicos.</p> - -<p>—Perdão, doutor, não estou defendendo ninguem, -estou citando. O que eu quero é dizer que -o clero ainda tem grande papel no Brasil.</p> - -<p>—Você o que quer é um capote; ande, vá buscar -o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser -padre, realmente é melhor que não comece a dizer -missa atraz das portas. Mas, olhe cá, mana Gloria, -ha mesmo necessidade de fazel-o padre?</p> - -<p>—É promessa, ha de cumprir-se.</p> - -<p>—Sei que você fez promessa... mas, uma promessa -assim... não sei... Creio que, bem pensado... -Você que acha, prima Justina?</p> - -<p>—Eu?</p> - -<p>—Verdade é que cada um sabe melhor de si, -continuou tio Cosme; Deus é que sabe do todos. -Comtudo, uma promessa de tantos annos... Mas, -que é isso, mana Gloria? Está chorando? Ora esta! -Pois isto é cousa de lagrimas?</p> - -<p>Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina -creio que se levantou e foi ter com ella. Seguiu-se -um alto silencio, durante o qual estive a pique de -entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... -Não pude ouvir as palavras que tio Cosme -entrou a dizer. Prima Justina exhortava: «Prima -Gloria! prima Gloria!» José Dias desculpava-se: -«Se soubesse, não teria falado, mas falei pela -veneração, pela estima, pelo affecto, para cumprir -um dever amargo, um dever amarissimo...»</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="IV" id="IV">IV</a></h5> - -<h4>Um dever amarissimo!</h4> - - -<p>José Dias amava os superlativos. Era um modo -de dar feição monumental ás ideias; não as havendo, -servir a prolongar as phrases. Levantou-se para ir -buscar o gamão, que estava no interior da casa. -Cosi-me muito á parede, e vi-o passar com as -suas calças brancas engommadas, presilhas, rodaque -e gravata de mola. Foi dos ultimos que usaram -presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. -Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem -esticadas. A gravata de setim preto, com um aro de -aço por dentro, immobilisava-lhe o pescoço; era -então moda. O rodaque de chita, veste caseira o -leve, parecia nelle uma casaca de cerimonia. Era -magro, chupado, com um principio de calva; teria -os seus cincoenta e cinco annos. Levantou-se com o -passo vagaroso do costume, não aquelle vagar arrastado -dos preguiçosos, mas um vagar calculado e -deduzido, um syllogismo completo, a premissa antes -da consequencia, a consequencia antes da conclusão. -Um dever amarissimo!</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="V" id="V">V</a></h5> - -<h4>O aggregado.</h4> - - -<p>Nem sempre ia naquelle passo vagaroso e rigido. -Tambem se descompunha em accionados, era muita -vez rapido e lepido nos movimentos, tão natural -nesta como naquella maneira. Outrosim, ria largo, -se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas -communicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes, -os olhos, toda a cara, todo a pessoa, todo o mundo -pareciam rir nelle. Nos lances graves, gravissimo.</p> - -<p>Era nosso aggregado desde muitos annos; meu -pae ainda estava na antiga fazenda de Itaguahy, e -eu acabava de nascer. Um dia appareceu alli vendendo-se -por medico homeopatha; levava um <i>Manual</i> -e uma botica. Havia então um andaço de -febres; José Dias curou o feitor e uma escrava, e -não quiz receber nenhuma remuneração. Então meu -pae propoz-lhe ficar alli vivendo, com pequeno ordenado. -José Dias recusou, dizendo que era justo -levar a saude á casa de sapé do pobre.</p> - -<p>—Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá -aonde quizer, mas fique morando comnosco.</p> - -<p>—Voltarei daqui a tres mezes.</p> - -<p>Voltou dalli a duas semanas, acceitou casa e -comida sem outro estipendio, salvo o que quizessem -dar por festas. Quando meu pae foi eleito deputado -e veiu para o Rio de Janeiro com a familia, elle -veiu tambem, e teve o seu quarto ao fundo da chacara. -Um dia, reinando outra vez febres em Itaguahy, -disse-lhe meu pae que fosse ver a nossa -escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou -e acabou confessando que não era medico. -Tomára este titulo para ajudar a propaganda da -nova escola, e não o fez sem estudar muito e muito; -mas a consciencia não lhe permittia acceitar mais -doentes.</p> - -<p>—Mas, você curou das outras vezes.</p> - -<p>—Creio que sim; o mais acertado, porém, é -dizer que foram os remedios indicados nos livros. -Elles, sim, elles, abaixo de Deus. Eu era um charlatão... -Não negue; os motivos do meu procedimento -podiam ser e eram dignos; a homeopathia é -a verdade, e, para servir á verdade, menti; mas é -tempo de restabelecer tudo.</p> - -<p>Não foi despedido, como pedia então; meu pae -já não podia dispensal-o. Tinha o dom de se fazer -acceito e necessario; dava-se por falta delle, como -de pessoa de familia. Quando meu pae morreu, a -dôr que o pungiu foi enorme, disseram-me, não me -lembra. Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não -consentiu que elle deixasse o quarto da chacara; ao -setimo dia, depois da missa, elle foi despedir-se -della.</p> - -<p>—Fique, José Dias.</p> - -<p>—Obedeço, minha senhora.</p> - -<p>Teve um pequeno legado no testamento, uma -apolice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, -encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por -cima da cama. «Esta é a melhor apolice», dizia -elle muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade -na familia, certa audiencia, ao menos; não -abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era -amigo, não direi optimo, mas nem tudo é optimo -neste mundo. E não lhe supponhas alma subalterna; -as cortezias que fizesse vinham antes do calculo -que da indole. A roupa durava-lhe muito; ao -contrario das pessoas que enxovalham depressa o -vestido novo, elle trazia o velho escovado e liso, -cirzido, abotoado, de uma elegancia pobre e modesta. -Era lido, posto que de atropello, o bastante -para divertir ao serão e á sobremesa, ou explicar -algum phenomeno, falar dos effeitos do calor e do -frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez -uma viagem que fizera á Europa, e confessava que -a não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha -amigos em Lisboa, mas a nossa familia, dizia elle, -abaixo de Deus, era tudo.</p> - -<p>—Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme -um dia.</p> - -<p>—Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração.</p> - -<p>E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver -que elle punha Deus no devido logar, e sorriu approvando. -José Dias agradeceu de cabeça. Minha mãe -dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio -Cosme, que era advogado, confiava-lhe a copia de -papeis de autos.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="VI" id="VI">VI</a></h5> - -<h4>Tio Cosme.</h4> - - -<p>Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ella -enviuvou. Já então era viuvo, como prima Justina; -era a casa dos tres viuvos.</p> - -<p>A fortuna troca muita vez as mãos á natureza. -Formado para as serenas funccões do capitalismo, -tio Cosme não enriquecia no fòro: ia comendo. -Tinha o escriptorio na antiga rua das Violas, perto -do jury, que era no extincto Aljube. Trabalhava no -crime. José Dias não perdia as defesas oraes de -tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com -muitos comprimentos no fim. Em casa, referia os -debates. Tio Cosme, por mais modesto que quizesse -ser, sorria de persuasão.</p> - -<p>Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os -olhos dorminhocos. Uma das minhas recordações -mais antigas era vel-o montar todas as manhãs a -besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao -escriptorio. O preto que a tinha ido buscar á cocheira, -segurava o freio, emquanto elle erguia o pé -e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de -descanço ou reflexão. Depois, dava um impulso, o -primeiro, o corpo ameaçava subir, mas não subia; -segundo impulso, egual effeito. Emfim, após alguns -instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forças -physicas e moraes, dava o ultimo surto da terra, e -desta vez caía em cima do selim. Raramente a besta -deixava de mostrar por um gesto que acabava de -receber o mundo. Tio Cosme accommodava as -carnes, e a besta partia a trote.</p> - -<p>Tambem não me esqueceu o que elle me fez uma -tarde. Posto que nascido na roça (donde vim com -dous annos) e apezar dos costumes do tempo, eu -não sabia montar, e tinha medo ao cavallo. Tio -Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima -da besta. Quando me vi no alto (tinha nove annos), -sósinho e desamparado, o chão lá embaixo, entrei -a gritar desesperadamente: «Mamãe! mamãe!» -Ella acudiu pallida e tremula, cuidou que me estivessem -matando, apeou-me, affagou-me, emquanto -o irmão perguntava:</p> - -<p>—Mana Gloria, pois um tamanhão destes tem -medo de besta mansa?</p> - -<p>—Não está acostumado.</p> - -<p>—Deve acostumar-se. Padre que seja, se fôr -vigario na roça, é preciso que monte a cavallo; e, -aqui mesmo, ainda não sendo padre, se quizer -florear como os outros rapazes, e não souber, ha de -queixar-se de você, mana Gloria.</p> - -<p>—Pois que se queixe; tenho medo.</p> - -<p>—Medo! Ora, medo!</p> - -<p>A verdade é que eu só vim a apprender equitação -mais tarde, menos por gosto que por vergonha -de dizer que não sabia montar. «Agora é -que elle vae namorar devéras», disseram quando -eu comecei as licções. Não se diria o mesmo de tio -Cosme. Nelle era velho costume e necessidade. Já -não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi -acceito de muitas damas, além de partidario exaltado; -mas os annos levaram-lhe o mais do ardor -politico e sexual, e a gordura acabou com o resto -de ideias publicas e especificas. Agora só cumpria -as obrigações do officio e sem amor. Nas horas de -lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez -dizia pilherias.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="VII" id="VII">VII</a></h5> - -<h4>D. Gloria.</h4> - - -<p>Minha mãe era boa creatura. Quando lhe morreu -o marido, Pedro de Albuquerque Santiago, contava -trinta e um annos de edade, e podia voltar -para Itaguahy. Não quiz; preferiu ficar perto da -egreja em que meu pae fòra sepultado. Vendeu a -fazendola e os escravos, comprou alguns que pôz -ao ganho ou alugou, uma duzia de predios, certo -numero de apolices, e deixou-se estar na casa de -Matacavallos, onde vivera os dous ultimos annos -de casada. Era filha de uma senhora mineira, -descendente de outra paulista, a familia Fernandes.</p> - -<p>Ora, pois, naquelle anno da graça de 1857, -D. Maria da Gloria Fernandes Santiago contava -quarenta e dous annos de edade. Era ainda bonita -e moça, mas teimava em esconder os saldos da -juventude, por mais que a natureza quizesse preserval-a -da acção do tempo. Vivia mettida em um -eterno vestido escuro, sem adornos, com um chale -preto, dobrado em triangulo e abrochado ao peito -por um camafeu. Os cabellos, em bandós, eram -apanhados sobre a nuca por um velho pente de -tartaruga; alguma vez trazia touca branca de fólhos. -Lidava assim, com os seus sapatos de cordavão -rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e -guiando os serviços todos da casa inteira, desde -manhã até á noite.</p> - -<p>Tenho alli na parede o retrato della, ao lado do -do marido, taes quaes na outra casa. A pintura -escureceu muito, mas ainda dá ideia de ambos. Não -me lembra nada delle, a não ser vagamente que era -alto e usava cabelleira grande; o retrato mostra -uns olhos redondos, que me acompanham para -todos os lados, effeito da pintura que me assombrava -em pequeno. O pescoço sae de uma gravata -preta de muitas voltas, a cara é toda rapada, salvo -um trechosinho pegado ás orelhas. O de minha mãe -mostra que era linda. Contava então vinte annos, -e tinha uma flôr entre os dedos. No painel parece -offerecer a flòr ao marido. O que se lè na cara do -ambos é que, se a felicidade conjugal póde ser -comparada á sorte grande, elles a tiraram no bilhete -comprado de sociedade.</p> - -<p>Concluo que não se devem abolir as loterias. -Nenhum premiado as accusou ainda de immoraes, -como ninguem tachou de má a boceta de Pandora, -por lhe ter tirado a esperança no fundo; em -alguma parte ha de ella ficar. Aqui os tenho aos -dous bem casados de outr'ora, os bem-amados, os -bem-aventurados, que se foram desta para a outra -vida, continuar um sonho provavelmente. Quando a -loteria e Pandora me aborrecem, ergo os olhos para -elles, e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatidica. -São retratos que valem por originaes. O de -minha mãe, estendendo a flôr ao marido, parece -dizer: «Sou toda sua, meu guapo cavalheiro!» O -de meu pae, olhando para a gente, faz este commentario: -«Vejam como esta moça me quer...» Se -padeceram molestias, não sei, como não sei se tiveram -desgostos: era creança e comecei por não ser -nascido. Depois da morte delle, lembra-me que ella -chorou muito; mas aqui estão os retratos de ambos, -sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira -expressão. São como photographias instantaneas -da felicidade.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="VIII" id="VIII">VIII</a></h5> - -<h4>É tempo!</h4> - - -<p>Mas é tempo de tomar áquella tarde de Novembro, -uma tarde clara e fresca, socegada como a -nossa casa e o trecho da rua em que moravamos. -Verdadeiramente foi o principio da minha vida; -tudo o que succedera antes foi como o pintar e vestir -das pessoas que tinham de entrar em scena, o -accender das luzes, o preparo das rabecas, a symphonia... -Agora é que eu ia começar a minha opera. -«A vida é uma opera,» dizia-me um velho tenor -italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um -dia a definição, em tal maneira que me fez crer -nella. Talvez valha a pena dal-a; é só um capitulo.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="IX" id="IX">IX</a></h5> - -<h4>A opera.</h4> - - -<p>Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a -tinha. «O desuso é que me faz mal», accrescentava. -Sempre que uma companhia nova chegava da -Europa, ia ao empresario e expunha-lhe todas as -injustiças da terra e do ceu; o empresario commettia -mais uma, e elle saía a bradar contra a iniquidade. -Trazia ainda os bigodes dos seus papeis. -Quando andava, apezar de velho, parecia cortejar -uma princeza de Babylonia. Ás vezes, cantarolava, -sem abrir a bocca, algum trecho ainda mais edoso -que elle ou tanto; vozes assim abafadas são sempre -possiveis. Vinha aqui jantar commigo algumas vezes. -Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me -a definição do costume, e como eu lhe dissesse que -a vida tanto podia sor uma opera, como uma viagem -de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e -replicou:</p> - -<p>—A vida é uma opera e uma grande opera. O -tenor e o barytono lutam pelo soprano, em presença -do baixo e dos comprimarios, quando não são o -soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em -presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimarios. -Ha córos numerosos, muitos bailados, e a -orchestração é excellente...</p> - -<p>—Mas, meu caro Marcolini...</p> - -<p>—Quê...?</p> - -<p>E, depois de beber um gole de licor, pousou o -calix, e expoz-me a historia da creação, com palavras -que vou resumir.</p> - -<p>Deus é o poeta. A musica é de Satanaz, joven -maestro de muito futuro, que apprendeu no conservatorio -do ceu. Rival de Miguel, Raphael e -Gabriel, não tolerava a precedencia que elles -tinham na distribuição dos premios. Póde ser tambem -que a musica em demasia doce e mystica daquelles -outros condiscipulos fosse aborrecivel ao -seu genio essencialmente tragico. Tramou uma -rebellião que foi descoberta a tempo, e elle expulso -do conservatorio. Tudo se teria passado sem mais -nada, se Deus não houvesse escripto um libretto de -opera, do qual abrira mão, por entender que tal -genero de recreio era improprio da sua eternidade. -Satanaz levou o manuscripto comsigo para o inferno. -Com o fim de mostrar que valia mais que -os outros,—e acaso para reconciliar-se com o ceu—compoz -a partitura, e logo que a acabou foi -leval-a ao Padre Eterno.</p> - -<p>—Senhor, não desapprendi as licções recebidas, -disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, -fazei-a executar, e se a achardes digna das -alturas, admitti-me com ella a vossos pés...</p> - -<p>—Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir -nada.</p> - -<p>—Mas, Senhor...</p> - -<p>—Nada! nada!</p> - -<p>Satanaz supplicou ainda, sem melhor fortuna, -até que Deus, cançado e cheio de misericordia, consentiu -em que a opera fosse executada, mas fóra do -ceu. Creou um theatro especial, este planeta, e -inventou uma companhia inteira, com todas as -partes, primarias e comprimarias, córos e bailarinos.</p> - -<p>—Ouvi agora alguns ensaios!</p> - -<p>—Não, não quero saber de ensaios. Basta-me -haver composto o libretto; estou prompto a dividir -comtigo os direitos de autor.</p> - -<p>Foi talvez um mal esta recusa; della resultaram -alguns desconcertos que a audiencia prévia e a collaboração -amiga teriam evitado. Com effeito, ha -logares em que o verso vae para a direita e a musica -para a esquerda. Não falta quem diga que nisso -mesmo está a belleza da composição, fugindo á -monotonia, e assim explicam o tercetto do Eden, a -aria de Abel, os córos da guilhotina e da escravidão. -Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, -sem razao sufficiente. Certos motivos cançam -á força de repetição. Tambem ha obscuridades; o -maestro abusa das massas choraes, encobrindo muita -vez o sentido por um modo confuso. As partes -orchestraes são aliás tratadas com grande pericia. -Tal é a opinião dos imparciaes.</p> - -<p>Os amigos do maestro querem que difficilmente se -possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro -admitte certas rudezas e taes ou quaes lacunas, -mas com o andar da opera é provavel que estas -sejam preenchidas ou explicadas, e aquellas desapparecam -inteiramente, não se negando o maestro a -emendar a obra onde achar que não responde de -todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem -o mesmo os amigos deste. Juram que o libretto foi -sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da -lettra, e, posto seja bonita em alguns logares, e trabalhada -com arte em outros, é absolutamente -diversa e até contraria ao drama. O grotesco, por -exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescencia -para imitar as <i>Mulheres patuscas de Windsor.</i> -Este ponto é contestado pelos satanistas com -alguma apparencia de razão. Dizem elles que, ao -tempo em que o joven Satanaz compoz a grande -opera, nem essa farça nem Shakespeare eram nascidos. -Chegam a affirmar que o poeta inglez não -teve outro genio senão transcrever a lettra da opera, -com tal arte e fidelidade, que parece elle proprio -o autor da composição; mas, evidentemente, é um -plagiario.</p> - -<p>—Esta peça, concluiu o velho tenor, durará emquanto -durar o theatro, não se podendo calcular em -que tempo será elle demolido por utilidade astronomica. -O exito é crescente. Poeta e musico recebem -pontualmente os seus direitos autoraes, que não -são os mesmos, porque a regra da divisão é aquillo -da Escriptura: «Muitos são os chamados, poucos -os escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanaz em -papel.</p> - -<p>—Tem graça...</p> - -<p>—Graça? bradou elle com furia; mas aquietou-se -logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho -graça, eu tenho horror á graça. Isto que digo é a -verdade pura e ultima. Um dia, quando todos os -livros forem queimados por inuteis, ha de haver -alguem, póde ser que tenor, e talvez italiano, que -ensine esta verdade aos homens. Tudo é musica, -meu amigo. No principio era o <i>dó</i>, e o <i>dó</i> fez-se -<i>ré</i>, etc. Este calix (e enchia-o novamente) este calix -é um breve estribilho. Não se ouve? Tambem -não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na -mesma opera...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="X" id="X">X</a></h5> - -<h4>Acceito a theoria.</h4> - - -<p>Que é demasiada metaphysica para um só tenor, -não ha duvida; mas a perda da voz explica tudo, e -ha philosophos que são, em resumo, tenores desempregados.</p> - -<p>Eu, leitor amigo, acceito a theoria do meu velho -Marcolini, não só pela verosimilhança, que é muita -vez toda a verdade, mas porque a minha vida -se casa bem á definição. Cantei um <i>duo</i> ternissimo, -depois um <i>trio</i>, depois um <i>quatuor...</i> Mas não adeantemos; -vamos á primeira tarde, em que eu vim a -saber que já cantava, porque a denuncia de José -Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a -mim. A mim é que elle me denunciou.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XI" id="XI">XI</a></h5> - -<h4>A promessa.</h4> - - -<p>Tão depressa vi desapparecer o aggregado no -corredor, deixei o esconderijo, e corri á varanda -do fundo. Não quiz saber de lagrimas nem da causa -que as fazia verter a minha mãe. A causa eram -provavelmente os seus projectos ecclesiasticos, e a -occasião destes é a que vou dizer, por ser já então -historia velha; datava de dezeseis annos.</p> - -<p>Os projectos vinham do tempo em que fui concebido. -Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, -minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo -vingasse, promettendo, se fosse varão, mettel-o na -egreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse -nada a meu pae, nem antes, nem depois de me dar -á luz; contava fazel-o quando eu entrasse para a -escola, mas enviuvou antes disso. Viuva, sentiu -terror de separar-se de mim; mas era tão devota, -tão temente a Deus, que buscou testemunhas da -obrigação, confiando a promessa a parentes e familiares. -Unicamente, para que nos separassemos o -mais tarde possivel, fez-me apprender em casa primeiras -lettras, latim e doutrina, por aquelle padre -Cabral, velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar -ás noites.</p> - -<p>Prazos largos são faceis de subscrever; a imaginação -os faz infinitos. Minha mãe esperou que os -annos viessem vindo. Entretanto, ia-me affeiçoando -á ideia da egreja; brincos de creança, livros devotos, -imagens de santos, conversações de casa, tudo convergia -para o altar. Quando iamos á missa, dizia-me -sempre que era para apprender a ser padre, e -que reparasse no padre, não tirasse os olhos do -padre. Em casa, brincava de missa,—um tanto ás -escondidas, porque minha mãe dizia que missa não -era cousa de brincadeira. Arranjavamos um altar, -Capitú e eu. Ella servia de sacristão, e alteravamos -o ritual, no sentido do dividirmos a hostia entre nós; -a hostia era sempre um doce. No tempo em que -brincavamos assim, era muito commum ouvir á -minha visinha: «Hoje ha missa?» Eu já sabia o -que isto queria dizer, respondia affirmativamente, e -ia pedir hostia por outro nome. Voltava com ella, -arranjavamos o altar, engrolavamos o latim e precipitavamos -as cerimonias. <i>Dominus, non sum -dignus...</i> Isto, que eu devia dizer tres vezes, penso -que só dizia uma, tal era a golodice do padre e do -sacristão. Não bebiamos vinho nem agua; não -tinhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o -gosto do sacrificio.</p> - -<p>Ultimamente não me falavam já do seminario, a -tal ponto que eu suppunha ser negocio findo. -Quinze annos, não havendo vocação, pediam antes o -seminario do mundo que o de S. José. Minha mãe -ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida, -ou pegava-me na mão, a pretexto de nada, -para apertal-a muito.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XII" id="XII">XII</a></h5> - -<h4>Na varanda.</h4> - - -<p>Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas -bambas, o coração parecendo querer sair-me pela -bocca fóra. Não me atrevia a descer á chacara, e -passar ao quintal visinho. Comecei a andar de um -lado para outro, estacando para amparar-me, e -andava outra vez e estacava. Vozes confusas repetiam -o discurso do José Dias:</p> - -<p>«Sempre juntos...»</p> - -<p>«Em segredinhos...»</p> - -<p>«Se elles pegam de namoro...»</p> - -<p>Tijolos que pisei e repisei naquella tarde, columnas -amarelladas que me passastes á direita ou á -esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vós me ficou -a melhor parte da crise, a sensação de um goso novo, -que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, -e me trazia arrepios, e me derramava não -sei que balsamo interior. Ás vezes dava por mim, -sorrindo, um ar do riso de satisfação, que desmentia -a abominação do meu peccado. E as vozes repetiam-se -confusas:</p> - -<p>«Em segredinhos...»</p> - -<p>«Sempre juntos...»</p> - -<p>«Se elles pegam de namoro...»</p> - -<p>Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando -a causa, murmurou de cima de si que não era feio -que os meninos de quinze annos andassem nos -cantos com as meninas de quatorze; ao contrario, -os adolescentes daquella edade não tinham outro -officio, nem os cantos outra utilidade. Era um -coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais -ainda que nos velhos livros. Passaros, borboletas, -uma cigarra que ensaiava o estio, toda a gente viva -do ar era da mesma opinião.</p> - -<p>Com que então eu amava Capitú, e Capitú a -mim? Realmente, andava cosido ás saias della, mas -não me occorria nada entre nós que fosse devéras -secreto. Antes della ir para o collegio, eram tudo -travessuras de creanca; depois que saiu do collegio, -é certo que não restabelecemos logo a antiga intimidade, -mas esta voltou pouco a pouco, e no -ultimo anno era completa. Entretanto, a materia -das nossas conversações era a de sempre. Capitú -chamava-me ás vezes bonito, mocetão, uma flòr; -outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. -E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, -o prazer que sentia quando ella me passava a -mão pelos cabellos, dizendo que os achava lindissimos. -Eu, sem fazer o mesmo aos della, dizia que -os della eram muito mais lindos que os meus. Então -Capitú abanava a cabeça com uma grande expressão -de desengano e melancolia, tanto mais de espantar -quanto que tinha os cabellos realmente admiraveis; -mas eu retorquia chamando-lhe maluca. -Quando me perguntava se sonhára com ella na -vespera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que -sonhára commigo, e eram aventuras extraordinarias, -que subiamos ao Corcovado pelo ar, que -dansavamos na lua, ou então que os anjos vinham -perguntar-nos pelos nomes, afim de os dar a outros -anjos que acabavam de nascer. Em todos esses -sonhos andavamos unidinhos. Os que eu tinha com -ella não eram assim, apenas reproduziam a nossa -familiaridade, e muita vez não passavam da simples -repetição do dia, alguma phrase, algum gesto. Tambem -eu os contava. Capitú um dia notou a differença, -dizendo que os della eram mais bonitos que -os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe -que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se còr -de pitanga.</p> - -<p>Pois, francamente, só agora entendia a emoção -que me davam essas e outras confidencias. A emoção -era doce e nova, mas a causa della fugia-me, -sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os silencios -dos ultimos dias, que me não descobriam nada, -agora os sentia como signaes de alguma cousa, e -assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as -respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar -a infancia. Tambem adverti que era phenomeno -recente accordar com o pensamento em Capitú, e -escutal-a de memoria, e estremecer quando lhe -ouvia os passos. Se se falava nella, em minha casa, -prestava mais altenção que d'antes, e, segundo era -louvor ou critica, assim me trazia gosto ou desgosto -mais intensos que outr'ora, quando eramos sómente -companheiros de travessuras. Cheguei a pensar -nella durante as missas daquelle mez, com intervallos, -é verdade, mas com exclusivismo tambem.</p> - -<p>Tudo isto me era agora apresentado pela bocca de -José Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a -quem eu perdoava tudo, o mal que dissera, o mal -que fizera, e o que pudesse vir de um e do outro. -Naquelle instante, a eterna Verdade não valeria -mais que elle, nem a eterna Bondade, nem as demais -Virtudes eternas. Em amava Capitú! Capitú -amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, -estacavam, tremulas e crentes de abarcar -o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa -revelação da consciencia a si propria, nunca mais -me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparavel -qualquer outra sensação da mesma especie. Naturalmente -por ser minha. Naturalmente tambem por -ser a primeira.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XIII" id="XIII">XIII</a></h5> - -<h4>Capitú.</h4> - - -<p>De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da -casa ao pé:</p> - -<p>—Capitú!</p> - -<p>E no quintal:</p> - -<p>—Mamãe!</p> - -<p>E outra vez na casa:</p> - -<p>—Vem cá!</p> - -<p>Não me pude ter. As pernas desceram-me os tres -degraus que davam para a chacara, e caminharam -para o quintal visinho. Era costume dellas, ás tardes, -e ás manhãs tambem. Que as pernas tambem são -pessoas, apenas interiores aos braços, e valem de -si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio -de ideias. As minhas chegaram ao pé do muro. -Havia alli uma porta de communicação mandada -rasgar por minha mãe, quando Capitú e eu éramos -pequenos. A porta não tinha chave nem taramela, -abria-se empurrando de um lado ou puxando de -outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente -de uma corda. Era quasi que exclusivamente nossa. -Em creancas, faziamos visita batendo de um lado, -e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. -Quando as bonecas de Capitú adoeciam, o medico -era eu. Entrava no quintal della com um pau debaixo -do braço, para imitar o bengalão do doutor João da -Costa; tomava o pulso á doente, e pedia-lhe que -mostrasse a lingua. «É surda, coitada!» exclamava -Capitú. Então eu coçava o queixo, como o doutor, -e acabava mandando applicar-lhe umas sanguesugas -ou dar-lhe um vomitorio: era a therapeutica -habitual do medico.</p> - -<p>—Capitú!</p> - -<p>—Mamãe!</p> - -<p>—Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.</p> - -<p>A voz da mãe era agora mais perto, como se -viesse já da porta dos fundos. Quiz passar ao quintal, -mas as pernas, ha pouco tão andarilhas, pareciam -agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço, -empurrei a porta, e entrei. Capitú estava ao pé do -muro fronteiro, voltada para elle, riscando com um -prego. O rumor da porta fel-a olhar para traz; ao -dar commigo, encostou-se ao muro, como se quizesse -esconder alguma cousa. Caminhei para ella; -naturalmente levava o gesto mudado, porque ella -veiu a mim, e perguntou-me inquieta:</p> - -<p>—Que é que você tem?</p> - -<p>—Eu? Nada.</p> - -<p>—Nada, não; você tem alguma cousa.</p> - -<p>Quiz insistir que nada, mas não achei lingua. -Todo eu era olhos e coração, um coração que desta -vez ia sair, com certeza, pela bocca fora. Não podia -tirar os olhos daquella creatura de quatorze annos, -alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, -meio desbotado. Os cabellos grossos, feitos em duas -tranças, com as pontas atadas uma á outra, á moda -do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos -claros e grandes, nariz recto e comprido, tinha a -bocca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de -alguns officios rudes, eram curadas com amor; não -cheiravam a sabões finos nem aguas de toucador, -mas com agua do poço e sabão commum trazia-as -sem macula. Calçava sapatos de duraque, rasos e -velhos, a que ella mesma dera alguns pontos.</p> - -<p>—Que é que você tem? repetiu.</p> - -<p>—Não é nada, balbuciei finalmente.</p> - -<p>E emendei logo:</p> - -<p>—É uma noticia.</p> - -<p>—Noticia de què?</p> - -<p>Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminario -e espreitar a impressão que lhe faria. Se a -consternasse é que realmente gostava de mim; se -não, é que não gostava. Mas todo esse calculo foi -obscuro e rapido; senti que não poderia falar claramente, -tinha agora a vista não sei como...</p> - -<p>—Então?</p> - -<p>—Você sabe...</p> - -<p>Nisto olhei para o muro, o logar em que ella estivera -riscando, escrevendo ou esburacando, como -dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me -o gesto que ella fizera para cobril-os. Então quiz -vel-os de perto, e dei um passo. Capitú agarrou-me, -mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou -por negar de outra maneira, correu adeante e apagou -o escripto. Foi o mesmo que accender em mim o -desejo de ler o que era.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XIV" id="XIV">XIV</a></h5> - -<h4>A inscripção.</h4> - - -<p>Tudo o que contei no fim do outro capitulo foi -obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda -mais rapido. Dei um pulo, e antes que ella raspasse -o muro, li estes dous nomes, abertos ao prego, o -assim dispostos:</p> - -<p class="center"> - BENTO<br /> - CAPITOLINA -</p> - -<p>Voltei-me para ella; Capitú tinha os olhos no -chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficámos a olhar -um para o outro... Confissão de creanças, tu valias -bem duas ou tres paginas, mas quero ser poupado. -Em verdade, não falámos nada; o muro falou por -nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam -pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, -fundindo-se. Não marquei a hora exacta daquelle -gesto. Devia tel-a marcado; sinto a falta de uma -nota escripta naquella mesma noite, e que eu poria -aqui com os erros de orthographia que trouxesse, -mas não traria nenhum, tal era a differença entre -o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do -escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias -de latim e era virgem de mulheres.</p> - -<p>Não soltámos as mãos, nem ellas se deixaram cair -de cançadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se -e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam -a metter-se uns pelos outros... Padre futuro, -estava assim deante della como de um altar, sendo -uma das faces a Epistola e a outra o Evangelho. A -bocca podia ser o calix, os labios a patena. Faltava -dizer a missa nova, por um latim que ninguem -apprende, e é a lingua catholica dos homens. Não -me tenhas por sacrilego, leitora minha devota; a -limpeza da intenção lava o que puder haver menos -curial no estylo. Estavamos alli com o ceu em nós. -As mãos, unindo os nervos, faziam das duas creaturas -uma só, mas uma só creatura seraphica. Os -olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras -de bocca é que nem tentavam sair, tornavam -ao coração caladas como vinham...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XV" id="XV">XV</a></h5> - -<h4>Outra voz repentina.</h4> - - -<p>Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de -homem:</p> - -<p>—Vocès estão jogando o siso?</p> - -<p>Era o pae de Capitú, que estava á porta dos fundos, -ao pé da mulher. Soltámos as mãos depressa, -e ficámos atrapalhados. Capitú foi ao muro, e, com -o prego, disfarçadamente, apagou os nossos nomes -escriptos.</p> - -<p>—Capitú!</p> - -<p>—Papae!</p> - -<p>—Não me estragues o reboco do muro.</p> - -<p>Capitú riscava sobre o riscado, para apagar bem o -escripto. Padua saiu ao quintal, a ver o que era, -mas já a filha tinha começado outra cousa, um perfil, -que disse ser o retrato delle, e tanto podia ser delle -como da mãe; fel-o rir, era o essencial. De resto, elle -chegou sem colera, todo meigo, apezar do gesto duvidoso -ou menos que duvidoso em que nos apanhou. -Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos, -costas abahuladas, donde lhe veiu a alcunha de -Tartaruga, que José Dias lhe poz. Ninguem lhe -chamava assim lá em casa; era só o aggregado.</p> - -<p>—Vocês estavam jogando o siso? perguntou.</p> - -<p>Olhei para um pé do sabugueiro que ficava perto; -Capitú respondeu por ambos.</p> - -<p>—Estavamos, sim, senhor, mas Bentinho ri -logo, não aguenta.</p> - -<p>—Quando eu cheguei á porta, não ria.</p> - -<p>—Já tinha rido das outras vezes; não póde. -Papae quer ver?</p> - -<p>E séria, fitou em mim os olhos, convidando-me -ao jogo. O susto é naturalmente serio; eu estava -ainda sob a acção do que trouxe a entrada de -Padua, e não fui capaz de rir, por mais que devesse -fazel-o, para legitimar a resposta de Capitú. Esta, -cançada de esperar, desviou o rosto, dizendo que -eu não ria daquella vez por estar ao pé do pae. E -nem assim ri. Ha cousas que só se apprendem tarde; -é mister nascer com ellas para fazel-as cedo. E melhor -é naturalmente cedo que artificialmente tarde. -Capitú, após duas voltas, foi ter com a mãe, que -continuava á porta da casa, deixando-nos a mim -e ao pae encantados della; o pae, olhando para ella -e para mim, dizia-me, cheio de ternura:</p> - -<p>—Quem dirá que esta pequena tem quatorze -annos? Parece dezesete. Mamãe está boa? continuou -voltando-se inteiramente para mim.</p> - -<p>—Está.</p> - -<p>—Ha muitos dias que não a vejo. Estou com -vontade de dar um capote ao doutor, mas não tenho -podido, ando com trabalhos da repartição, em casa; -escrevo todos os noites que é em desespero; negocio -de relatorio. Você já viu o meu gaturamo? Está -alli no fundo. Ia agora mesmo buscar a gaiola; -ande ver.</p> - -<p>Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente, -sem ser preciso jurar pelo ceu nem pela -terra. Meu desejo era ir atraz de Capitú e falar-lhe -agora do mal que nos esperava, mas o pae era o -pae, e demais amava particularmente os passarinhos. -Tinha-os de varia especie, côr e tamanho. A -área que havia no centro da casa era cercada de -gaiolas de canarios, que faziam cantando um barulho -de todos os diabos. Trocava passaros com -outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, -no proprio quintal, armando alçapões. Tambem, se -adoeciam, tratava delles como se fossem gente.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XVI" id="XVI">XVI</a></h5> - -<h4>O administrador interino.</h4> - - -<p>Padua era empregado em repartição dependente -do ministerio da guerra. Não ganhava muito, mas -a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais, -a casa em que morava, assobradada como a nossa, -posto que menor, era propriedade delle. Comprou-a -com a sorte grande que lhe saiu n'um meio bilhete -de loteria, dez contos de reis. A primeira ideia do -Padua, quando lhe saiu o premio, foi comprar um -cavallo do Cabo, um adereço de brilhantes para a -mulher, uma sepultura perpetua de familia, mandar -vir da Europa alguns passaros, etc.; mas a mulher, -esta D. Fortunata que alli está á porta dos fundos -da casa, em pé, falando á filha, alta, forte, cheia, -como a filha, a mesma cabeça, os mesmos olhos -claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era -comprar a casa, e guardar o que sobrasse para -acudir ás molestias grandes. Padua hesitou muito; -afinal, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a -quem D. Fortunata pediu auxilio. Nem foi só nessa -occasião que minha mãe lhes valeu; um dia chegou -a salvar a vida ao Padua. Escutai; a anecdota é -curta.</p> - -<p>O administrador da repartição em que Padua trabalhava -teve de ir ao Norte, em commissão. Padua, -ou por ordem regulamentar, ou por especial designação, -ficou substituindo o administrador com os -respectivos honorarios. Esta mudança de fortuna -trouxe-lhe certa vertigem: era antes dos dez contos. -Não se contentou de reformar a roupa e a copa, -atirou-se ás despezas superfluas, deu joias á mulher, -nos dias de festa matava um leitão, era visto em -theatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim -vinte e dous mezes na supposição de uma eterna -interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa, -afflicto e desvairado, ia perder o logar, porque chegara -o effectivo naquella manhã. Pediu a minha mãe -que velasse pelas infelizes que deixava; não podia -soffrer a desgraça, matava-se. Minha mãe falou-lhe -com bondade, mas elle não attendia a cousa nenhuma.</p> - -<p>—Não, minha senhora, não consentirei em tal -vergonha! Fazer descer a familia, tornar atraz... -Já disse, mato-me! Não hei de confessar á minha -gente esta miseria. E os outros? Que dirão os visinhos? -E os amigos? E o publico?</p> - -<p>—Que publico, Sr. Padua? Deixe-se disso; -seja homem. Lembre-se que sua mulher não tem -outra pessoa... e que ha de fazer? Pois um homem... -Seja homem, ande.</p> - -<p>Padua enxugou os olhos e foi para casa, onde -viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na -alcova,—ou então no quintal, ao pé do poço, -como se a ideia da morte teimasse nelle. D. Fortunata -ralhava:</p> - -<p>—Joãosinho, você é creança?</p> - -<p>Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve -medo, e um dia correu a pedir a minha mãe que -lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido -que se queria matar. Minha mãe foi achal-o á beira -do poço, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice -era aquella de parecer que ia ficar desgraçado, por -causa de uma gratificação menos, e perder um -emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, -pae de familia, imitar a mulher e a filha... Padua -obedeceu; confessou que acharia forças para cumprir -a vontade de minha mãe.</p> - -<p>—Vontade minha, não; é obrigação sua.</p> - -<p>—Pois seja obrigação; não desconheço que é -assim mesmo.</p> - -<p>Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de -casa, cosido á parede, cara no chão. Não era o -mesmo homem que estragava o chapéo em cortejar -a visinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo -da administração interina. Vieram as semanas, a -ferida foi sarando. Padua começou a interessar-se -pelos negocios domesticos, a cuidar dos passarinhos, -a dormir tranquillo as noites e as tardes, a conversar -e dar noticias da rua. A serenidade regressou; -atraz della veiu a alegria, um domingo, na -figura de dous amigos, que iam jogar o solo, a -tentos. Já elle ria, já brincava, tinha o ar do costume; -a ferida sarou de todo.</p> - -<p>Com o tempo veiu um phenomeno interessante. -Padua começou a falar da administração interina, -não sómente sem as saudades dos honorarios, nem -o vexame da perda, mas até com desvanecimento e -orgulho. A administração ficou sendo a hegyra, -donde elle contava para deante e para traz.</p> - -<p>—No tempo em que eu era administrador...</p> - -<p>Ou então:</p> - -<p>—Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha -administração, um ou dous mezes antes... Ora -espere; a minha administração começou... É isto, -mez e meio antes; foi mez e meio antes, não foi -mais.</p> - -<p>Ou ainda:</p> - -<p>—Justamente; havia já seis mezes que eu -administrava...</p> - -<p>Tal é o sabor posthumo das glorias interinas. -José Dias bradava que era a vaidade sobrevivente; -mas o padre Cabral, que levava tudo para a Escriptura, -dizia que com o visinho Padua se dava a -licção de Eliphaz a Job: «Não desprezes a correcção -do Senhor; elle fere e cura.»</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XVII" id="XVII">XVII</a></h5> - -<h4>Os vermes.</h4> - - -<p>«Elle fere e cura!» Quando, mais tarde, vim a -saber que a lança de Achilles tambem curou uma ferida -que fez, tive taes ou quaes velleidades de escrever -uma dissertação a este proposito. Cheguei a -pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, -a abril-os, a comparal-os, calando o texto e o -sentido, para achar a origem commum do oraculo -pagão e do pensamento israelita. Catei os proprios -vermes dos livros, para que me dissessem o que -havia nos textos roidos por elles.</p> - -<p>—Meu senhor, respondeu-me um longo verme -gordo, uns não sabemos absolutamente nada dos -textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, -nem amamos ou detestamos o que roemos; nós -roemos.</p> - -<p>Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, -como se houvessem passado palavra, repeliam a -mesma cantilena. Talvez esse discreto silencio sobre -os textos roidos, fosse ainda um modo de roer o -roido.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XVIII" id="XVIII">XVIII</a></h5> - -<h4>Um plano.</h4> - - -<p>Pae nem mãe foram ter comnosco, quando -Capitú e eu, na sala de visitas, falavamos do seminario. -Com os olhos em mim, Capitú queria saber -que noticia era a que me affligia tanto. Quando lhe -disse o que era, fez-se còr de cêra.</p> - -<p>—Mas eu não quero, acudi logo, não quero -entrar em seminarios; não entro, é excusado teimarem -commigo, não entro.</p> - -<p>Capitú, a principio não disse nada. Recolheu os -olhos, metteu-os em si e deixou-se estar com as -pupillas vagas e surdas, a bocca entre-aberta, toda -parada. Então eu, para dar forca ás affirmações, -comecei a jurar que não seria padre. Naquelle -tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte. -Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na -hora da morte se fosse para o seminario. Capitú -não parecia crer nem descrer, não parecia sequer -ouvir; era uma figura de pau. Quiz chamal-a, -sacudil-a, mas faltou-me animo. Essa creatura que -brincára commigo, que pulára, dansára, creio até -que dormira commigo, deixava-me agora com os -braços atados e medrosos. Emfim, tornou a si, mas -tinha a cara livida, e rompeu nestas palavras -furiosas:</p> - -<p>—Beata! carola! papa-missas!</p> - -<p>Fiquei aturdido. Capitú gostava tanto de minha -mãe, e minha mãe della, que eu não podia entender -tamanha explosão. É verdade que tambem gostava -de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de -outra maneira, cousa bastante a explicar o despeito -que lhe trazia a ameaça da separação; mas -os improperios, como entender que lhe chamasse -nomes tão feios, e principalmente para deprimir -costumes religiosos, que eram os seus? Que ella -tambem ia á missa, e tres ou quatro vezes minha -mãe é que a levou, na nossa velha sege. Tambem -lhe dera um rosario, uma cruz de ouro e um livro -de <i>Horas...</i> Quiz defendel-a, mas Capitú não me -deixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em -voz tão alta que tive medo fosse ouvida dos paes. -Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta -a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes, -abanava a cabeça... Eu, assustado, não sabia que -fizesse; repetia os juramentos, promettia ir naquella -mesma noite declarar em casa que, por -nada neste mundo, entraria no seminario.</p> - -<p>—Você? Você entra.</p> - -<p>—Não entro.</p> - -<p>—Você verá se entra ou não.</p> - -<p>Calou-se outra vez. Quando tornou a falar, tinha -mudado; não era ainda a Capitú do costume, mas -quasi. Estava seria, sem afflicção, falava baixo. -Quiz saber a conversação da minha casa; eu contei-lh'a -toda, menos a parte que lhe dizia respeito.</p> - -<p>—E que interesse tem José Dias em lembrar -isto? perguntou-me no fim.</p> - -<p>—Acho que nenhum; foi só para fazer mal. É -um sujeito muito ruim; mas, deixe estar que me -ha de pagar. Quando eu fòr dono da casa, quem -vae para a rua é elle, você verá; não me fica um -instante. Mamãe é boa de mais; dá-lhe attenção de -mais. Parece até que chorou.</p> - -<p>—José Dias?</p> - -<p>—Não, mamãe.</p> - -<p>—Chorou porque?</p> - -<p>—Não sei; ouvi só dizer que ella não chorasse, -que não era cousa de choro... Elle chegou a mostrar-se -arrependido, e saiu; eu então, para não ser -apanhado, deixei o canto e corri para a varanda. -Mas, deixe estar, que elle me paga!</p> - -<p>Disse isto fechando o punho, e proferi outras -ameaças. Ao relembral-as, não me acho ridiculo; a -adolescencia e a infancia não são, neste ponto, -ridiculas; e um dos seus privilegios. Este mal ou -este perigo começa na mocidade, cresce na madurera -e attinge o maior grão na velhice. Aos quinze -annos, ha até certa graça em ameaçar muito e não -executar nada.</p> - -<p>Capitú reflectia. A reflexão não era cousa rara -nella, e conheciam-se as occasiões pelo apertado -dos olhos. Pediu-me algumas circumstancias mais, -as proprias palavras de uns e de outros, e o tom -dellas. Como eu não queria dizer o ponto inicial da -conversa, que era ella mesma, não lhe pude dar -toda a significação. A attenção de Capitú estava -agora particularmente nas lagrimas de minha mãe; -não acabava de entendel-as. Em meio disto, confessou -que certamente não era por mal que minha -mãe me queria fazer padre; era a promessa antiga, -que ella, temente a Deus, não podia deixar de -cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assim -espontaneamente reparava as injurias que lhe -sairam do peito, pouco antes, que peguei da mão -della e apertei-a muito. Capitú deixou-se ir, rindo; -depois a conversa entrou a cochilar e dormir. -Tinhamos chegado á janella; um preto, que, desde -algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou -em frente e perguntou:</p> - -<p>—Sinhásinha, qué cocada hoje?</p> - -<p>—Não, respondeu Capitú.</p> - -<p>—Cocadinha tá boa.</p> - -<p>—Vá-se embora, replicou ella sem rispidez.</p> - -<p>—Dê ca! disse eu descendo o braço para receber -duas.</p> - -<p>Comprei-as, mas tive de as comer sósinho; Capitú -recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava -um canto para as cocadas, o que tanto póde -ser perfeição como imperfeição, mas o momento não -é para definições taes; fiquemos em que a minha -amiga, apezar de equilibrada e lucida, não quiz -saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrario, -o pregão que o preto foi cantando, o prégão -das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa -infancia:</p> - -<p style="margin-left: 10%;"> - Chora, menina, chora,<br /> - Chora, porque não tem<br /> - Vintem,<br /> -</p> - -<p>a modo que lhe deixára uma impressão aborrecida, -Da toada não era; ella a sabia de cór e de longe, -usava repetil-a nos nossos jogos da puericia, rindo, -saltando, trocando os papeis commigo, ora vendendo, -ora comprando um doce ausente. Creio que -a lettra, destinada a picar a vaidade das crianças, -foi que a enojou agora, porque logo depois me disse:</p> - -<p>—Se eu fosse rica, vocè fugia, mettia-se no -paquete e ia para a Europa.</p> - -<p>Dito isto, espreitou-me os olhos, mas creio que -elles não lhe disseram nada, ou só agradeceram a -boa intenção. Com effeito, o sentimento era tão -amigo que eu podia excusar o extraordinario da -aventura.</p> - -<p>Como vês, Capitú, aos quatorze annos, tinha já -ideias atrevidas, muito menos que outras que lhe -vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na pratica -faziam-se habeis, sinuosas, surdas, e alcançavam -o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos. -não sei se me explico bem. Supponde uma concepção -grande executada por meios pequenos. Assim, -para não sair do desejo vago e hypothetico de me -mandar para a Europa, Capitú, se pudesse cumpril-o, -não me faria embarcar no paquete e fugir; -estenderia uma fila de canoas daqui até lá, por onde -eu, parecendo ir á fortaleza da Lage em ponte movediça, -iria realmente até Bordéos, deixando minha -mãe na praia, á espera. Tal era a feição particular -do caracter da minha amiga; pelo que, não admira -que, combatendo os meus projectos de resistencia -franca, fosse antes pelos meios brandos, pela acção -do empenho, da palavra, da persuasão lenta e -diuturna, e examinasse antes as pessoas com quem -podiamos contar. Rejeitou tio Cosme; era um «boa-vida»; -se não approvava a minha ordenação, não -era capaz de dar um passo para suspendel-a. Prima -Justina era melhor que elle, e melhor que os dous -seria o padre Cabral, pela autoridade, mas o padre -não havia de trabalhar contra a egreja; só se eu -lhe confessasse que não tinha vocação....</p> - -<p>—Posso confessar?</p> - -<p>—Pois, sim, mas seria apparecer francamente, -e o melhor é outra cousa. José Dias....</p> - -<p>—Que tem José Dias?</p> - -<p>—Póde ser um bom empenho.</p> - -<p>—Mas se foi elle mesmo que falou....</p> - -<p>—Não importa, continuou Capitú; dirá agora -outra cousa. Elle gosta muito de você. Não lhe fale -acanhado. Tudo é que você não tenha medo, mostre -que ha de vir a ser dono da casa, mostre que quer -e que póde. Dê-lhe bem a entender que não é favor. -Faça-lhe tambem elogios; elle gosta muito de ser -elogiado. D. Gloria presta-lhe attenção; mas o principal -não é isso; é que elle, tendo de servir a você, -falará com muito mais calor que outra pessoa.</p> - -<p>—Não acho. não, Capitú.</p> - -<p>—Então vá para o seminario.</p> - -<p>—Isso não.</p> - -<p>—Mas que se perde em experimentar? Experimentemos; -faça o que lhe digo. D. Gloria póde -ser que mude de resolução; se não mudar, faz-se -outra cousa, mette-se então o padre Cabral. Você -não se lembra como é que foi ao theatro pela primeira -vez, ha dous mezes? D. Gloria não queria, -e bastava isso para que José Dias não teimasse; -mas elle queria ir, e fez um discurso, lembra-se?</p> - -<p>—Lembra-me; disse que o theatro era uma escola -de costumes.</p> - -<p>—Justo; tanto falou que sua mãe acabou consentindo, -e pagou a entrada aos dous.... Ande, peça, -mande. Olhe; diga-lhe que está prompto a ir estudar -leis em S. Paulo.</p> - -<p>Estremeci de prazer. S. Paulo era um fragil biombo, -destinado a ser arredado um dia, em vez da -grossa parede espiritual e eterna. Prometti falar a -José Dias nos termos propostos. Capitú repetiu-os, -accentuando alguns, como principaes; e inquiria-me -depois sobre elles, a ver se entendera bem, se -não trocara uns por outros. E insistia em que pedisse -com boa cara, mas assim como quem pede um -copo de agua a pessoa que tem obrigação de o trazer. -Conto estas minucias para que melhor se entenda -aquella manhã da minha amiga; logo virá a -tarde, e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia, -como no Genesis, onde se fizeram successivamente -sete.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XIX" id="XIX">XIX</a></h5> - -<h4>Sem falta.</h4> - - -<p>Quando voltei a casa era noite. Vim depressa, não -tanto, porém, que não pensasse nos termos em que -falaria ao aggregado. Formulei o pedido de cabeça, -escolhendo as palavras que diria e o tom dellas, -entre secco e benevolo. Na chacara, antes de entrar -em casa, repeti-as commigo, depois em voz alta, -para ver se eram adequadas e se obedeciam ás recommendações -de Capitú: «Preciso falar-lhe, <i>sem -falta</i>, amanhã; escolha o logar e diga-me.» Proferi-as -lentamente, e mais lentamente ainda as palavras -<i>sem falta</i>, como para sublinhal-as. Repeti-as -ainda, e então achei-as seccas de mais, quasi rispidas, -e, francamente, improprias de um creançola -para um homem maduro. Cuidei de escolher outras, -e parei.</p> - -<p>Afinal disse commigo que as palavras podiam -servir, tudo era dizel-as em tom que não offendesse. -E a prova é que, repetindo-as novamente, saíram-me -quasi supplices. Bastava não carregar tanto, -nem adoçar muito, um meio termo. «E Capitú tem -razão, pensei, a casa é minha, elle é um simples -aggregado... Geitoso é, póde muito bem trabalhar -por mim, e desfazer o plano de mamãe.»</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XX" id="XX">XX</a></h5> - -<h4>Mil padre-nossos e mil ave-marias.</h4> - - -<p>Levantei os olhos ao ceu, que começava a embruscar-se, -mas não foi para vel-o coberto ou descoberto. -Era ao outro ceu que eu erguia a minha -alma; era ao meu refugio, ao meu amigo. E então -disse de mim para mim:</p> - -<p>—Prometto rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, -se José Dias arranjar que eu não vá para -o seminario.</p> - -<p>A somma era enorme. A razão é que eu andava -carregado de promessas não cumpridas. A ultima -foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias, -se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa -Theresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. -Desde pequenino acostumara-me a pedir ao ceu os -seus favores, mediante orações que diria, se elles -viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, -e á medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. -Assim cheguei aos numeros vinte, trinta, -cincoenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. -Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia -das orações; além disso, cada promessa nova era -feita e jurada no sentido de pagar a divida antiga. -Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a -trazia do berço e não a sentia attenuada pela vida! -O ceu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal -perdi-me nas contas.</p> - -<p>—Mil, mil, repeti commigo.</p> - -<p>Realmente, a materia do beneficio era agora immensa, -não menos que a salvação ou o naufragio -da minha existencia inteira. Mil, mil, mil. Era -preciso uma somma que pagasse os atrazados -todos. Deus podia muito bem, irritado com os -esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito -dinheiro.... Homem grave, é possivel que estas agitações -de menino te enfadem, se é que não as achas -ridiculas. Sublimes não eram. Cogitei muito no -modo de resgatar a divida espiritual. Não achava -outra especie em que, mediante a intenção, tudo se -cumprisse, fechando a escripturação da minha consciencia -moral sem <i>deficit.</i> Mandar dizer cem missas, -ou subir do joelhos a ladeira da Gloria para ouvir -uma, ir á Terra-Santa, tudo o que as velhas escravas -me contavam de promessas celebres, tudo me -acudia sem se fixar de vez no espirito. Era muito -duro subir uma ladeira de joelhos; devia feril-os -por força. A Terra-Santa ficava muito longe. As -missas eram numerosas, podiam empenhar-mo outra -vez a alma....</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXI" id="XXI">XXI</a></h5> - -<h4>Prima Justina.</h4> - - -<p>Na varanda achei prima Justina, passeando de -um lado para outro. Veiu ao patamar e perguntou-me -onde estivera.</p> - -<p>—Estive aqui ao pé, conversando com D. Fortunata, -e distraí-me. É tarde, não é? Mamãe perguntou -por mim?</p> - -<p>—Perguntou, mas eu disse que você já tinha -vindo.</p> - -<p>A mentira espantou-me, não menos que a franqueza -da noticia. Não é que prima Justina fosse de -biocos; dizia francamente a Pedro o mal que pensava -de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; -mas, confessar que mentira é que me pareceu novidade. -Era quadragenaria, magra e pallida, bocca -fina e olhos curiosos. Vivia comnosco por favor -de minha mãe, e tambem por interesse; minha -mãe queria ter uma senhora intima ao pé de si, e -antes parenta que extranha.</p> - -<p>Passeámos alguns minutos na varanda, alumiada -por um lampião. Quiz saber se eu não esquecera -os projectos ecclesiasticos de minha mãe, e -dizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto -que eu tinha á vida de padre. Respondi esquivo:</p> - -<p>—Vida de padre é muito bonita.</p> - -<p>—Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você -gostaria de ser padre, explicou rindo.</p> - -<p>—Eu gósto do que mamãe quizer.</p> - -<p>—Prima Gloria deseja muito que você se ordene, -mas ainda que não desejasse, ha cá em casa quem -lhe metta isso na cabeça.</p> - -<p>—Quem é?</p> - -<p>—Ora, quem! Quem é que hade ser? Primo -Cosme não é, que não se importa com isso; eu -tambem não.</p> - -<p>—José Dias? conclui.</p> - -<p>—Naturalmente.</p> - -<p>Enruguei a testa interrogativamente, como se -não soubesse nada. Prima Justina completou a -noticia dizendo que ainda naquella tarde José Dias -lembrára a minha mãe a promessa antiga.</p> - -<p>—Prima Gloria póde ser que, em passando os -dias, vá esquecendo a promessa; mas como ha de -esquecer se uma pessoa estiver sempre, nos ouvidos, -zás que darás, falando do seminario? E os discursos -que elle faz, os elogios da egreja, e que a vida de -padre é isto e aquillo, tudo com aquellas palavras -que só elle conhece, e aquella affectação... Note -que é só para fazer mal, porque elle é tão religioso, -como este lampião. Pois é verdade, ainda -hoje. Você não se dè por achado... Hoje de tarde -falou como você não imagina.</p> - -<p>—Mas falou á toa? perguntei, a ver se ella contava -a denuncia do meu namoro com a visinha.</p> - -<p>Não contou; fez apenas um gesto como indicando -que havia outra cousa que não podia dizer. -Novamente me recommendou que não me désse -por achado, e recapitulou todo o mal que pensava -de José Dias, e não era pouco, um intrigante, um -bajulador, um especulador, e, apezar da casca de -polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes, -disse:</p> - -<p>—Prima Justina, a senhora era capaz de uma -cousa?</p> - -<p>—De quê?</p> - -<p>—Era capaz de... Supponha que eu não gostasse -de ser padre... a senhora podia pedir a mamãe...</p> - -<p>—Isso não, atalhou promptamente; prima Gloria -tem este negocio firme na cabeça, e não ha nada no -mundo que a faça mudar de resolução; só o tempo. -Você ainda era pequenino, já ella contava isto a -todas as pessoas da nossa amizade, ou só conhecidas. -Lá avivar-lhe a memoria, não, que eu não trabalho -para a desgraça dos outros; mas tambem, pedir -outra cousa, não peço. Se ella me consultasse, bem; -se ella me dissesse: «Prima Justina, você que -acha?» a minha resposta era: «Prima Gloria, eu -penso que, se elle gosta de ser padre, póde ir; mas, -se não gosta, o melhor é ficar.» E o que eu diria -e direi se ella me consultar algum dia. Agora, ir -falar-lhe sem ser chamada, não faço.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXII" id="XXII">XXII</a></h5> - -<h4>Sensações alheias.</h4> - - -<p>Não alcancei mais nada, e para o fim arrependi-me -do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitú. -Então, como eu quizesse ir para dentro, prima -Justina reteve-me alguns minutos, falando do calor -e da proxima festa da Conceição, dos meus velhos -oratorios, e finalmente de Capitú. Não disse mal -della; ao contrario insinuou-me que podia vir a ser -uma moça bonita. Eu, que já a achava lindissima, -bradaria que era a mais bella creatura do mundo, -se o receio me não fizesse discreto. Entretanto, -como prima Justina se mettesse a elogiar-lhe os -modos, a gravidade, os costumes, o trabalhar para -os seus, o amor que tinha a minha mãe, tudo isto -me accendeu a ponto de elogial-a tambem. Quando -não era com palavras, era com o gesto de approvação -que dava a cada uma das assersões da outra, -e certamente com a felicidade que devia illuminar-me -a cara. Não adverti que assim confirmava a denuncia -de José Dias, ouvida por ella, á tarde, na -sala de visitas, se é que tambem ella não desconfiava -já. Só pensei nisso na cama. Só então senti -que os olhos de prima Justina, quando eu falava, -pareciam apalpar-me, ouvir-me, cheirar-me, gostar-me, -fazer o officio de todos os sentidos. Ciumes não -podiam ser; entre um pirralho da minha edade e -uma viuva quarentona não havia logar para ciumes. -É certo que, após algum tempo, modificou os elogios -a Capitú, e até lhe fez algumas criticas, disse-me -que era um pouco trefega e olhava por baixo; -mas ainda assim, não creio que fossem ciumes. -Creio antes... sim... sim, creio isto. Creio que -prima Justina achou no espectaculo das sensações -alheias uma resurreição vaga das proprias. Tambem -se goza por influição dos labios que narram.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXIII" id="XXIII">XXIII</a></h5> - -<h4>Prazo dado.</h4> - - -<p>—Preciso falar-lhe amanhã, sem falta; escolha -o logar e diga-me.</p> - -<p>Creio que José Dias achou desusado este meu -falar. O tom não me sairia tão imperativo como eu -receiava, mas as palavras o eram, e o não interrogar, -não pedir, não hesitar, como era proprio da -creança e do meu estylo habitual, certamente lhe -deu ideia de uma pessoa nova e de uma nova situação. -Foi no corredor, quando iamos para o chá; -José Dias vinha andando cheio da leitura de Walter -Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina. -Lia cantado e compassado. Os castellos e os parques -saíam maiores da bocca delle, os lagos tinham -mais agua e a «abobada celeste» contava alguns -milhares mais de estrellas centelhantes. Nos dialogos, -alternava o som das vozes, que eram levemente -grossas ou finas, conforme o sexo dos interlocutores, -e reproduziam com moderação a ternura -e a colera.</p> - -<p>Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me -elle:</p> - -<p>—Amanhã, na rua. Tenho umas compras que -fazer, você póde ir commigo, pedirei a mamãe. É -dia de licção?</p> - -<p>—A licção foi hoje.</p> - -<p>—Perfeitamente. Não lhe pergunto o que é; -affirmo desde já que é materia grave e pura.</p> - -<p>—Sim, senhor.</p> - -<p>—Até amanhã.</p> - -<p>Fez-se tudo o melhor possivel. Houve só uma -alteração: minha mãe achou o dia quente e não -consentiu que eu fosse a pé; entrámos no omnibus, -á porta de casa.</p> - -<p>—Não importa, disse-me José Dias; podemos -apear-nos á porta do Passeio Publico.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXIV" id="XXIV">XXIV</a></h5> - -<h4>De mãe e de servo.</h4> - - -<p>José Dias tratava-me com extremos de mãe e -attenções de servo. A primeira cousa que conseguiu -logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o -pagem; fez-se pagem, ia commigo á rua. Cuidava -dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos -meus sapatos, da minha hygiene e da minha prosodia. -Aos oito annos os meus pluraes careciam, alguma vez, -da desinencia exacta, elle a corrigia, -meio serio para dar autoridade á licção, meio risonho -para obter o perdão da emenda. Ajudava assim -o mestre de primeiras lettras. Mais tarde, quando o -padre Cabral me ensinava latim, doutrina e historia -sagrada, elle assistia ás licções, fazia reflexões -ecclesiasticas, e, no fim, perguntava ao padre: -«Não é verdade que o nosso joven amigo caminha -depressa?» Chamava-me «um prodigio»; dizia a -minha mãe ter conhecido outr'ora meninos muito -intelligentes, mas que eu excedia a todos esses, -sem contar que, para a minha edade, possuia já -certo numero de qualidades moraes solidas. Eu, -posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, -gostava do elogio; era um elogio.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXV" id="XXV">XXV</a></h5> - -<h4>No Passeio Publico.</h4> - - -<p>Entrámos no Passeio Publico. Algumas caras -velhas, outras doentes ou só vadias espalhavam-se -melancolicamente no caminho que vae da porta ao -terraço. Seguimos para o terraço. Andando, para -me dar animo, falei do jardim:</p> - -<p>—Ha muito tempo que não venho aqui, talvez -um anno.</p> - -<p>—Perdôe-me, atalhou elle, não ha tres mezes -que esteve aqui com o nosso visinho Padua; não -se lembra?</p> - -<p>—É verdade, mas foi tão de passagem...</p> - -<p>—Elle pediu a sua mãe que o deixasse trazer -comsigo, e ella, que é boa como a mãe de Deus, -consentiu; mas ouça-me, já que falamos nisto, não -é bonito que você ande com o Padua na rua.</p> - -<p>—Mas eu andei algumas vezes...</p> - -<p>—Quando era mais joven; em creança, era -natural, elle podia passar por creado. Mas você -está ficando moço, e elle vae tomando confiança. -D. Gloria, afinal, não pode gostar disto. A gente -Padua não é de todo má. Capitú, apesar daquelles -olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos -olhos della? São assim de cigana obliqua e dissimulada. -Pois, apesar delles, poderia passar, se não -fosse a vaidade e a adulação. Oh! a adulação! -D. Fortunata merece estima, e elle não nego que -seja honesto, tem um bom emprego, possue a casa -em que móra, mas honestidade e estima não bastam, -e as outras qualidades perdem muito de valor -com as más companhias em que elle anda. Padua -tem uma tendencia para gente réles. Em lhe cheirando -a homem chulo é com elle. Não digo isto por -odio, nem por que elle fale mal de mim e se ria, -como se riu, ha dias, dos meus sapatos acalcanhados...</p> - -<p>—Perdão, interrompi suspendendo o passo, -nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contrario, -um dia, não ha muito tempo, disse elle a um -sujeito, em minha presença, que o senhor era «um -homem de capacidade e sabia falar corno um deputado -nas camaras.»</p> - -<p>José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço -grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:</p> - -<p>—Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor -sangue, me tem feito o favor de juizos altos. E -nada disso impede que elle seja o que lhe digo.</p> - -<p>Tinhamos outra vez andado, subimos ao terraço, -e olhámos para o mar.</p> - -<p>—Vejo que o senhor não quer senão o meu -beneficio, disse eu depois de alguns instantes.</p> - -<p>—Pois que outra cousa, Bentinho?</p> - -<p>—Neste caso, peço-lhe um favor.</p> - -<p>—Um favor? Mande, ordene, que é?</p> - -<p>—Mamãe...</p> - -<p>Durante algum tempo não pude dizer o resto, que -era pouco, e vinha de cór. José Dias tornou a perguntar -o que era, sacudia-me com brandura, levantava-me -o queixo e espetava os olhos em mim, -ancioso tambem, como a prima Justina na vespera.</p> - -<p>—Mamãe què? Que é que tem mamãe?</p> - -<p>—Mamãe quer que eu seja padre, mas eu não -posso ser padre, disse finalmente.</p> - -<p>José Dias endireitou-se pasmado.</p> - -<p>—Não posso, continuei eu, não menos pasmado -que elle, não tenho geito, não gósto da vida de -padre. Estou por tudo o que ella quizer; mamãe -sabe que eu faço tudo o que ella manda; estou -prompto a ser o que fôr do seu agrado, até cocheiro -de omnibus. Padre, não; não posso ser padre. -A carreira é bonita, mas não é para mim.</p> - -<p>Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, -enfiado naturalmente, peremptorio, como póde parecer -do texto, mas aos pedaços, mastigado, em -voz um pouco surda e timida. Não obstante, José -Dias ouvira-o espantado. Não contava certamente -com a resistencia, por mais acanhada que fosse; -mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão:</p> - -<p>—Conto com o senhor para salvar-me.</p> - -<p>Os olhos do aggregado escancararam-se, as -sobrancelhas arquearam-se, e o prazer que eu contava -dar-lhe com a escolha da protecção não se mostrou -em nenhum dos musculos. Toda a cara delle -era pouca para a estupefacção. Realmente, a materia -do discurso revelára em mim uma alma nova; -eu proprio não me conhecia. Mas a palavra final é -que trouxe um vigor unico. José Dias ficou aturdido. -Quando os olhos tornaram ás dimensões ordinarias:</p> - -<p>—Mas que posso eu fazer? perguntou.</p> - -<p>—Póde muito. O senhor sabe que, em nossa -casa, todos o apreciam. Mamãe pede muita vez os -seus conselhos, não é? Tio Cosme diz que o senhor -é pessoa de talento...</p> - -<p>—São bondades, retorquiu lisonjeado. São favores -de pessoas dignas, que merecem tudo... Ahi -está! nunca ninguem me ha de ouvir dizer nada de -pessoas taes; porque? porque são illustres e virtuosas. -Sua mãe é uma santa, seu tio é um cavalheiro -perfeitissimo. Tenho conhecido familias distinctas; -nenhuma poderá vencer a sua em nobreza -de sentimentos. O talento que seu tio acha em mim -confesso que o tenho, mas é só um,—é o talento -de saber o que é bom e digno de admiração e de -apreço.</p> - -<p>—Ha de ter tambem o de proteger os amigos, -como eu.</p> - -<p>—Em que lhe posso valer, anjo do ceu? Não -hei de dissuadir sua mãe de um projecto que é, -além de promessa, a ambição e o sonho de longos -annos. Quando pudesse, é tarde. Ainda hontem -fez-me o favor de dizer: «José Dias, preciso metter -Bentinho no seminario.»</p> - -<p>Timidez não é tão ruim moeda, como parece. Se -eu fosse destemido, é provavel que, com a indignação -que experimentei, rompesse a chamar-lhe mentiroso, -mas então seria preciso confessar-lhe que estivera -á escuta, atraz da porta, e uma acção valia -outra. Contentei-me de responder que não era -tarde.</p> - -<p>—Não é tarde, ainda é tempo, se o senhor -quizer.</p> - -<p>—Se eu quizer? Mas que outra cousa quero eu, -senão servil-o? Que desejo, senão que seja feliz, -como merece?</p> - -<p>—Pois ainda é tempo. Olhe, não é por vadiação. -Estou prompto para tudo; se ella quizer que eu -estude leis, vou para S. Paulo...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXVI" id="XXVI">XXVI</a></h5> - -<h4>As leis são bellas.</h4> - - -<p>Pela cara de José Dias passou algo parecido com -o reflexo de uma ideia,—uma ideia que o alegrou -extraordinariamente. Calou-se alguns instantes; eu -tinha os olhos nelle, elle voltara os seus para o -lado da barra. Como insistisse:</p> - -<p>—É tarde, disse elle; mas, para lhe provar que -não ha falta de vontade, irei falar a sua mãe. Não -prometto vencer, mas lutar; trabalharei com alma. -Devéras, não quer ser padre? As leis são bellas, -meu querido... Póde ir a S. Paulo, a Pernambuco, -ou ainda mais longe. Ha boas universidades por -esse mundo fóra. Vá para as leis, se tal é a sua -vocação. Vou falar a D. Gloria, mas não conte só -commigo; fale tambem a seu tio.</p> - -<p>—Hei de falar.</p> - -<p>—Pegue-se tambem com Deus,—com Deus e -a Virgem Santissima, concluiu apontando para o -ceu.</p> - -<p>O ceu estava meio enfarruscado. No ar, perto da -praia, grandes passaros negros faziam giros, avoaçando -ou pairando, e desciam a roçar os pés, na -agua, e tornavam a erguer-se para descer novamente. -Mas nem as sombras do ceu, nem as dansas -fantasticas dos passaros me desviavam o espirito do -meu interlocutor. Depois de lhe responder que sim, -emendei-me:</p> - -<p>—Deus fará o que o senhor quizer.</p> - -<p>—Não blaspheme. Deus é dono de tudo; elle é, -só por si, a terra e o ceu, o passado, o presente e o -futuro. Peça-lhe a sua felicidade, que eu não faço -outra cousa... Uma vez que você não póde ser -padre, e prefere as leis... As leis são bellas, sem desfazer -na theologia, que é melhor que tudo, como a -vida ecclesiastica é a mais santa... Porque não -ha de ir estudar leis fóra daqui? Melhor é ir logo -para alguma universidade, e ao mesmo tempo que -estuda, viaja. Podemos ir juntos; veremos as terras -estranjeiras, ouviremos inglez, francez, italiano, -hespanhol, russo e até sueco. D. Gloria provavelmente -não poderá acompanhal-o; ainda que possa -e vá, não quererá guiar os negocios, papeis, matriculas, -e cuidar de hospedarias, e andar com você -de um lado para outro... Oh! as leis são bellissimas!</p> - -<p>—Está dito, pede a mamãe que me não metia -no seminario?</p> - -<p>—Pedir, peço, mas pedir não é alcançar. Anjo -do meu coração, se vontade de servir é poder de -mandar, estamos aqui, estamos a bordo. Ali! você -não imagina o que é a Europa; oh! a Europa...</p> - -<p>Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma das -suas ambições era tornar á Europa, falava della -muitos vezes, sem acabar de tentar minha mãe nem -tio Cosme, por mais que louvasse os ares e as bellezas... Não -contava com esta possibilidade de ir -commigo, e lá ficar durante a eternidade dos meus -estudos.</p> - -<p>—Estamos a bordo, Bentinho, estamos a bordo!</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXVII" id="XXVII">XXVII</a></h5> - -<h4>Ao portão.</h4> - - -<p>Ao portão do Passeio, um mendigo estendeu-nos -a mão. José Dias passou adiante, mas eu pensei em -Capitú e no seminario, tirei dous vintens do bolso -e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe -que rogasse a Deus por mim, afim de que eu pudesse -satisfazer todos os meus desejos.</p> - -<p>—Sim, meu devoto!</p> - -<p>—Chamo-me Bento, accrescentei para esclarecel-o.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXVIII" id="XXVIII">XXVIII</a></h5> - -<h4>Na rua.</h4> - - -<p>José Dias ia tão contente que trocou o homem -dos momentos graves, como era á rua, pelo homem -dobradiço e inquieto. Mexia-se todo, falava de tudo, -fazia-me parar a cada passo deante de um mostrador -ou de um cartaz de theatro. Contava-me o -enredo de algumas peças, recitava monologos em -verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu -alugueis de casa; para si comprou um vigesimo de -loteria. Afinal, o homem tezo rendeu o flexivel, e -passou a falar pausado, com superlativos. Não vi -que a mudança era natural; temi que houvesse -mudado a resolução assentada, e entrei a tratal-o -com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no -omnibus.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXIX" id="XXIX">XXIX</a></h5> - -<h4>O imperador.</h4> - - -<p>Em caminho, encontrámos o imperador, que -vinha da Escola de Medicina. O omnibus em que -iamos parou, como todos os vehiculos; os passageiros -desceram á rua e tiraram o chapeu, até que -o coche imperial passasse. Quanto tornei ao meu -logar, trazia uma ideia fantastica, a ideia de ir ter -com o imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a -intervenção. Não confiaria. esta ideia a Capitú. -«Sua Majestade pedindo, mamãe cede,» pensei -commigo.</p> - -<p>Vi então o imperador escutando-me, reflectindo -e acabando por dizer que sim, que iria falar a -minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lagrimas. -E logo me achei em casa, á espera, até que ouvi os -batedores e o piquete de cavallaria; é o imperador! -é o imperador! toda a gente chegava ás janellas -para vel-o passar, mas não passava, o coche parava -á nossa porta, o imperador apeava-se e entrava. -Grande alvoroço na visinhança: «O imperador entrou -em casa de D. Gloria! Que será? Que não -será? «A nossa familia saía a recebel-o; minha mãe -era a primeira que lhe beijava a mão. Então o imperador, -todo risonho, sem entrar na sala ou entrando,—não -me lembra bem, os sonhos são muita vez -confusos,—pedia a minha mãe que me não fizesse -padre,—e ella, lisongeada e obediente, promettia -que não.</p> - -<p>—A medicina,—porque lhe não manda ensinar -medicina?</p> - -<p>Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade...</p> - -<p>—Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita -carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca -foi á nossa Escola? É uma bella Escola. Já temos -medicos de primeira ordem, que pódem hombrear -com os melhores de outras terras. A medicina é -uma grande sciencia; basta só isto de dar a saude -aos outros, conhecer as molestias, combatel-as, vencel-as... A -senhora mesma ha de ter visto milagres. -Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e elle -não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira; -mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, -sim? Você quer, Bentinho?</p> - -<p>—Mamãe querendo.</p> - -<p>—Quero, meu filho. Sua Majestade manda.</p> - -<p>Então o imperador dava outra vez a mão a beijar, -e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de -gente, as janellas atopetadas, um silencio de assombro; -o imperador entrava no coche, inclinava-se e -fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: «A -medicina, a nossa Escola.» E o coche partia entre -invejas e agradecimentos.</p> - -<p>Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de -Ariosto não é mais fertil que a das creanças e dos -namorados, nem a visão do impossivel precisa mais -que de um recanto de omnibus. Consolei-me por -instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano -e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus -companheiros.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXX" id="XXX">XXX</a></h5> - -<h4>O Santissimo.</h4> - - -<p>Terás entendido que aquella lembrança do imperador -ácerca da medicina não era mais que a suggestão -da minha pouca vontade de sair do Rio de -Janeiro. Os sonhos do accordado são como os outros -sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações -e das nossas recordações. Vá que fosse para -S. Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito -mar e muito tempo. Viva a medicina! Iria contar -estas esperanças a Capitú.</p> - -<p>—Parece que vae sair o Santíssimo, disse -alguem no omnibus. Ouço um sino; é, creio que é -em Santo Antonio dos Pobres. Pare, Sr. recebedor!</p> - -<p>O recebedor das passagens puxou a correia que ia -ter ao braço do cocheiro, o omnibus parou, e o -homem desceu. José Dias deu duas voltas rapidas -á cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer comsigo. -Iriamos tambem acompanhar o Santissimo. -Effectivamente, o sino chamava os fieis áquelle -serviço da ultima hora. Já havia algumas pessoas -na sacristia. Era a primeira vez que me achava em -momento tão grave; obedeci, a principio constrangido, -mas logo depois satisfeito, menos pela caridade -do serviço que por me dar um officio de -homem. Quando o sacristão começou a distribuir as -opas, entrou um sujeito esbaforido; era o meu -visinho Padua, que tambem ia acompanhar o Santissimo. -Deu comnosco, veiu comprimentar-nos. -José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe -respondeu com uma palavra secca, olhando para o -padre, que lavava as mãos. Depois, como Padua -falasse ao sacristão, baixinho, approximou-se delles; -eu fiz a mesma cousa. Padua solicitava do sacristão -uma das varas do pallio. José Dias pediu uma -para si.</p> - -<p>—Ha só uma disponivel, disse o sacristão.</p> - -<p>—Pois essa, disse José Dias.</p> - -<p>—Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou -Padua.</p> - -<p>—Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu -José Dias; eu já cá estava. Leve uma tocha.</p> - -<p>Padua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava -em querer a vara, tudo isto em voz baixa e -surda. O sacristão achou meio de conciliar a rivalidade, -tomando a si obter de um dos outros seguradores -do pallio que cedesse a vara ao Padua, -conhecido na parochia, como José Dias. Assim fez; -mas José Dias transtornou ainda esta combinação. -Não, uma vez que tinhamos outra vara disponivel, -pedia-a para mim, «joven seminarista», a quem -esta distincção cabia mais direitamente. Padua -ficou pallido, como as tochas. Era pôr á prova o -coração de um pae. O sacristão, que me conhecia -de me ver alli com minha mãe, aos domingos, perguntou -de curioso se eu era devéras seminarista.</p> - -<p>—Ainda não, mas vae sel-o, respondeu José -Dias piscando o olho esquerdo para mim, que, -apesar do aviso, fiquei zangado.</p> - -<p>—Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pae -de Capitú.</p> - -<p>Pela minha parte, quiz ceder-lhe a vara; lembrou-me -que elle costumava acompanhar o Santissimo -Sacramento aos moribundos, levando uma -tocha, mas que a ultima vez conseguira uma vara -do pallio. A distincção especial do pallio vinha de -cobrir o vigario e o sacramento; para tocha qualquer -pessoa servia. Foi elle mesmo que me contou -e explicou isto, cheio de uma gloria pia e risonha. -Assim fica entendido o alvoroço com que entrára na -egreja; era a segunda vez do pallio, tanto que cuidou -logo de ir pedil-o. E nada! E tornava á tocha commum, -outra vez a interinidade interrompida; o administrador -regressava ao antigo cargo... Quiz ceder-lhe -a vara; o aggregado tolheu-me esse acto de -generosidade, e pediu ao sacristão que nos puzesse, -a elle e a mim, com as duas varas da frente, -rompendo a marcha do pallio.</p> - -<p>Opas enfiadas, tochas distribuidas e accesas, -padre e ciborio promptos, o sacristão de hyssope e -campainha nos mãos, saiu o prestito á rua. Quando -me vi com uma das varas, passando pelos fieis, que -se ajoelhavam, fiquei commovido. Padua roía a -tocha amargamente. É uma metaphora, não acho -outra fórma mais viva de dizer a dôr e a humilhação -do meu visinho. De resto, não pude miral-o -por muito tempo, nem ao aggregado, que, parallelamente -a mim, erguia a cabeça com o ar de ser elle -proprio o Deus dos exercitos. Com pouco, senti-me -cançado; os braços caíam-me, felizmente a casa -era perto, na rua do Senado.</p> - -<p>A enferma era uma senhora viuva, tisica, tinha -uma filha de quinze ou dezeseis annos, que estava -chorando á porta do quarto. A moça não era formosa, -talvez nem tivesse graça; os cabellos caíam despenteados, -e as lagrimas faziam-lhe encarquilhar -os olhos. Não obstante, o total falava e captivava o -coração. O vigario confessou a doente, deu-lhe a -communhão e os santos oleos. O pranto da moça -redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e -fugi. Vim para porto de uma jannela. Pobre creatura! -A dor era communicativa em si mesma; complicada -da lembrança de minha mãe, doeu-me mais, -e, quando emfim pensei em Capitú, senti um impeto -de soluçar tambem, enfiei pelo corredor, e ouvi -alguem dizer-me:</p> - -<p>—Não chore assim!</p> - -<p>A imagem de Capitú ia commigo, e a minha imaginação, -assim como lhe attribuira lagrimas, ha -pouco, assim lhe encheu a bocca de riso agora; vi-a -escrever no muro, falar-me, andar á volta, com os -braços no ar; ouvi distinctamente o meu nome, de -uma doçura que me embriagou, e a voz era della. -As tochas accesas, tão lugubres na occasião, -tinham-me ares de um lustre nupcial... Que era -lustre nupcial? Não sei; era alguma cousa contraria -á morte, e não vejo outra mais que bodas. Esta -nova sensação me dominou tanto que José Dias -veiu a mim, e me disse ao ouvido, em voz baixa:</p> - -<p>—Não ria assim!</p> - -<p>Fiquei serio depressa. Era o momento da saida. -Peguei da minha vara; e, como já conhecia a distancia, -e agora voltavamos para a egreja, o que -fazia a distancia menor,—o peso da vara era mui -pequeno. Demais, o sol cá fora, a animação da rua, -os rapazes da minha edade que me fitavam cheios -de inveja, as devotas que chegavam ás janellas ou -entravam nos corredores e se ajoelhavam á nossa -passagem, tudo me enchia a alma de lepidez nova.</p> - -<p>Padua, ao contrario, ia mais humilhado. Apesar -de substituido por mim, não acabava de se consolar -da tocha, da miseravel tocha. E comtudo havia -outros que tambem traziam tocha, e apenas mostravam -a compostura do acto; não iam garridos, mas -tambem não iam tristes. Via-se que caminhavam -com honra.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXXI" id="XXXI">XXXI</a></h5> - -<h4>As curiosidades de Capitú.</h4> - - -<p>Capitú preferia tudo ao seminario. Em vez de -ficar abatida com a ameaça da larga separação, se -vingasse a ideia da Europa, mostrou-se satisfeita. -E quando eu lhe contei o meu sonho imperial:</p> - -<p>—Não, Bentinho, deixemos o imperador socegado, -replicou; fiquemos por ora com a promessa -de José Dias. Quando é que elle disse que falaria a -sua mãe?</p> - -<p>—Não marcou dia; prometteu que ia ver, que -falaria logo que pudesse, e que me pegasse com -Deus.</p> - -<p>Capitú quiz que lhe repetisse as respostas todas -do aggregado, as alterações do gesto e até a pirueta, -que apenas lhe contára. Pedia o som das palavras. -Era minuciosa e attenta; a narração e o dialogo, -tudo parecia remoer comsigo. Tambem se póde -dizer que conferia, rotulava e pregava na memoria -a minha exposição. Esta imagem é por ventura -melhor que a outra, mas a optima dellas é nenhuma. -Capitú era Capitú, isto é, uma creatura mui particular, -mais mulher do que eu era homem. Se ainda -o não disse, ahi fica. Se disse, fica tambem. Ha conceitos -que se devem incutir na alma do leitor, á -força de repetição.</p> - -<p>Era tambem mais curiosa. As curiosidades de -Capitú dão para um capitulo. Eram de varia especie, -explicaveis e inexplicaveis, assim uteis como inuteis, -umas graves, outras frivolas; gostava de saber -tudo. No collegio onde, desde os sete annos, apprendera -a ler, escrever e contar, francez, doutrina e -obras de agulha, não apprendeu, por exemplo, a -fazer renda; por isso mesmo, quiz que prima Justina -lh'o ensinasse. Se não estudou latim com o -padre Cabral foi porque o padre, depois de lh'o propôr -gracejando, acabou dizendo que latim não era -lingua de meninas. Capitú confessou-me um dia que -esta razão accendeu nella o desejo de o saber. Em -compensação, quiz apprender inglez com um velho -professor amigo do pae e parceiro deste ao sólo, -mas não foi adeante. Tio Cosme ensinou-lhe gamão.</p> - -<p>—Anda apanhar um capotinho, Capitú, dizia-lhe -elle.</p> - -<p>Capitú obedecia e jogava com facilidade, com -attenção, não sei se diga com amor. Um dia fui -achal-a desenhando a lapís um retrato; dava os -ultimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver -se estava parecido. Era o de meu pae, copiado da -tela que minha mãe tinha na sala e que ainda agora -está commigo. Perfeição não era; ao contrario, os -olhos sairam esbogalhados, e os cabellos eram -pequenos circulos uns sobre outros. Mas, não tendo -ella rudimento algum de arte, e havendo feito -aquillo de memoria em poucos minutos, achei que -era obra de muito merecimento; descontai-me a -edade e a sympathia. Ainda assim, estou que apprenderia -facilmente pintura, como apprendeu musica -mais tarde. Já então namorava o piano da -nossa casa, velho traste inutil, apenas de estimação. -Lia os nossos romances, folheava os nossos -livros de gravuras, querendo saber das ruinas, das -pessoas, das campanhas, o nome, a historia, o -lograr. José Dias dava-lhe essas noticias com certo -orgulho de erudito. A erudição deste não avultava -muito mais que a sua homoepathia de Cantagallo.</p> - -<p>Um dia, Capitú quiz saber o que eram as figuras -da sala de visitas. O aggregado disse-lh'o summariamente, -demorando-se um pouco mais em Cesar, -com exclamações e latins:</p> - -<p>—Cesar! Julio Cesar! Grande homem! <i>Tu quoque, Brute?</i></p> - -<p>Capitú não achava bonito o perfil de Cesar, mas -as acções citadas por José Dias davam-lhe gestos de -admiração. Ficou muito tempo com a cara virada -para elle. Um homem que podia tudo! que fazia -tudo! Um homem que dava a uma senhora uma -perola do valor de seis milhões de sestercios!</p> - -<p>—E quanto valia cada sestercio?</p> - -<p>José Dias, não tendo presente o valor do sestercio, -respondeu enthusiasmado:</p> - -<p>—É o maior homem da historia!</p> - -<p>A perola de César accendia os olhos de Capitú. -Foi nessa occasião que ella perguntou a minha mãe -porque é que já não usava as joias do retrato; preferia-se -ao que estava na sala, com o de meu pae; -tinha um grande collar, um diadema e brincos.</p> - -<p>—São joias viuvas, como eu, Capitú.</p> - -<p>—Quando é que botou estas?</p> - -<p>—Foi pelas festas da Coroação.</p> - -<p>—Oh! conte-me as festas da Coroação!</p> - -<p>Sabia já o que os paes lhe haviam dito, mas naturalmente -tinha para si que elles pouco mais conheceriam -do que o que se passou nas ruas. Queria a -noticia das tribunas da Capella Imperial e dos salões -dos bailes. Nascera muito depois daquellas festas -celebres. Ouvindo falar varias vezes da Maioridade, -teimou um dia em saber o que fora este acontecimento; -disseram-lh'o, e achou que o imperador -fizera muito bem em querer subir ao throno aos -quinze annos. Tudo era materia ás curiosidades de -Capitú, mobilias antigas, alfaias velhas, costumes, -noticias de Itaguahy, a infancia e a mocidade de -minha mãe, um dito daqui, uma lembrança dalli, -um adagio d'acolá...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXXII" id="XXXII">XXXII</a></h5> - -<h4>Olhos de ressaca.</h4> - - -<p>Tudo era materia ás curiosidades de Capitú. Caso -houve, porém, no qual não sei se apprendeu ou -ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. É o -que contarei no outro capitulo. N'este direi sómente -que, passados alguns dias do ajuste com o -aggregado, fui ver a minha amiga; eram dez horas -da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal, nem -esperou que eu lhe perguntasse pela filha.</p> - -<p>—Está na sala penteando o cabello, disse-me; vá -devagarzinho para lhe pregar um susto.</p> - -<p>Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. -Este póde ser que não fosse; era um espelhinho de -pataca (perdoai a barateza), comprado a um mascate -italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente -da parede, entre as duas janellas. Se não foi -elle, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas -entrei na sala, pente, cabellos, toda ella voou pelos -ares, e só lhe ouvi esta pergunta:</p> - -<p>—Ha alguma cousa?</p> - -<p>—Não ha nada, respondi; vim ver você antes -que o padre Cabral chegue para a licção. Como -passou a noite?</p> - -<p>—Eu bem. José Dias ainda não falou?</p> - -<p>—Parece que não.</p> - -<p>—Mas então quando fala?</p> - -<p>—Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar -no assumpto; não vae logo de pancada, falará assim -por alto e por longe, um toque. Depois, entrará em -materia. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução -feita...</p> - -<p>—Que tem, tem, interrompeu Capitú. E se não -fosse preciso alguem para vencer já, e de todo, não -se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá -influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que -você realmente não quer ser padre, mas poderá -alcançar...? Elle é attendido; se, porém... É um -inferno isto! Você teime com elle, Bentinho.</p> - -<p>—Teimo; hoje mesmo elle ha de falar.</p> - -<p>—Você jura?</p> - -<p>—Juro! Deixe ver os olhos, Capitú.</p> - -<p>Tinha-me lembrado a definição que José -dera delles, «olhos de cigana obliqua e dissimulada.» -Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada -sabia, e queria ver se se podiam chamar -assim. Capitú deixou-se fitar e examinar. Só me -perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada -achei extraordinario; a côr e a doçura eram minhas -conhecidas. A demora da contemplação creio que -lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que -era um pretexto para miral-os mais de perto, com -os meus olhos longos, constantes, enfiados nelles, e -á isto attribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos -e sombrios, com tal expressão que...</p> - -<p>Rhetorica dos namorados, dá-me uma comparação -exacta e poetica para dizer o que foram -aquelles olhos de Capitú. Não me acode imagem -capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estylo, -o que elles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? -Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquella -feição nova. Traziam não sei que fluido mysterioso -e energico, uma força que arrastava para dentro, -como a vaga que se retira da praia, nos dias de -ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me ás -outras partes visinhas, ás orelhas, aos braços, aos -cabellos espalhados pelos hombros; mas tão depressa -buscava as pupillas, a onda que saía dellas -vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, -puxar-me e tragar-me. Quantos minutos -gastámos naquelle jogo? Só os relogios do ceu -terão marcado esse tempo infinito e breve. A -eternidade tem as suas pendulas nem por não -acabar nunca deixa de querer saber a duração das -felicidades e dos supplicios. Ha de dobrar o gozo -aos bemaventurados do ceu conhecer a somma dos -tormentos que já terão padecido no inferno os seus -inimigos; assim tambem a quantidade das delicias -que terão gozado no ceu os seus desaffectos augmentará -as dores aos condemnados do inferno. Este -outro supplicio escapou ao divino Dante; mas eu -não estou aqui para emendar poetas. Estou para -contar que, ao cabo de um tempo não marcado, -agarrei-me definitivamente aos cabellos de Capitú, -mas então com as mãos, e disse-lhe,—para dizer -alguma cousa,—que era capaz de os pentear, se -quizesse.</p> - -<p>—Você?</p> - -<p>—Eu mesmo.</p> - -<p>—Vae embaraçar-me o cabello todo, isso, sim.</p> - -<p>—Se embaraçar, você desembaraça depois.</p> - -<p>—Vamos ver.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXXIII" id="XXXIII">XXXIII</a></h5> - -<h4>O penteado.</h4> - - -<p>Capitú deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. -Peguei-lhe dos cabellos, colhi-os todos e -entrei a alisal-os com o pente, desde a testa até ás -ultimas pontas, que lhe desciam á cintura. Em pé -não dava geito: não esquecestes que ella era um -nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da -mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.</p> - -<p>—Senta aqui, é melhor.</p> - -<p>Sentou-se. «Vamos ver o grande cabelleireiro», -disse-me rindo. Continuei a alisar os cabellos, -com muito cuidado, e dividi-os em duas porções -eguaes, para compor as duas trancas. Não as fiz -logo, nem assim depressa, como podem suppôr os -cabelleireiros de officio, mas devagar, devagarinho, -saboreando pelo tacto aquelles fios grossos, que -eram parte della. O trabalho era atrapálhado, ás -vezes por desaso, outras de proposito, para desfazer -o feito e refazel-o. Os dedos roçavam na nuca -da pequena ou nas espaduas vestidas de chita, e a -sensação era um deleite. Mas, emfim, os cabellos -iam acabando, por mais que eu os quizesse interminaveis. -Não pedi ao ceu que elles fossem tão longos -como os da Aurora, porque não conhecia ainda -esta divindade que os velhos poetas me apresentaram -depois; mas, desejei penteal-os por todos os -seculos dos seculos, tecer duas tranças que pudessem -envolver o infinito por um numero innominavel -de vezes. Se isto vos parecer emphatico, desgraçado -leitor, é que nunca penteastes uma pequena, -nunca puzestes aos mãos adolescentes na -joven cabeça de uma nympha... Uma nympha! -Todo eu estou mythologico. Ainda ha pouco, falando -dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Thetis; -risquei Thetis, risquemos nympha; digamos somente -uma creatura amada, palavra que envolve todas as -potencias christãs e pagãs. Emfim, acabei as duas -tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? -Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. -Juntei as pontas das tranças, uni-as por -um laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando -alli, até que exclamei:</p> - -<p>—Prompto!</p> - -<p>—Estará bom?</p> - -<p>—Veja no espelho.</p> - -<p>Em vez de ir ao espelho, que pensaes que fez -Capitú? Não vos esqueçaes quo estava sentada, de -costas para mim. Capitú derreou a cabeça, a tal -ponto que me foi preciso acudir com as mãos e amparal-a; -o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me -depois sobre ella, rosto a rosto, mas trocados, os -olhos de um na linha da bocca do outro. Pedi-lhe -que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar -o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava -feia; mas nem esta razão a moveu.</p> - -<p>—Levanta, Capitú!</p> - -<p>Não quiz, não levantou a cabeça, e ficámos assim -a olhar um para o outro, até que ella abrochou os -labios, eu desci os meus, e...</p> - -<p>Grande foi a sensação do beijo; Capitú ergueu-se, -rapida, eu recuei até á parede com uma especie de -vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando elles -me clarearam, vi que Capitú tinha os seus no chão. -Não me atrevi a dizer nada; ainda que quizesse, -faltava-me lingua. Preso, atordoado, não achava -gesto nem impeto que me descolasse da parede e -me atirasse a ella com mil palavras callidas e mimosas... Não -mofes dos meus quinze annos, leitor -precoce. Com dezesete, Des Grieux (e mais era -Des Grieux) não pensava ainda na differença dos -sexos.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXXIV" id="XXXIV">XXXIV</a></h5> - -<h4>Sou homem!</h4> - - -<p>Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. -Capitú compoz-se depressa, tão depressa que, quando -a mãe apontou á porta, ella abanava a cabeça e ria. -Nenhum laivo amarello. nenhuma contracção de -acanhamento, um riso espontaneo e claro, que ella -explicou por estas palavras alegres:</p> - -<p>—Mamãe, olhe como este senhor cabelleireiro -me penteou; pediu-me para acabar o penteado, e -fez isto. Veja que tranças!</p> - -<p>—Que tem? acudiu a mãe, transbordando de -benevolencia. Está muito bem, ninguem dirá que é -de pessoa que não sabe pentear.</p> - -<p>—O que, mamãe? Isto? redarguiu Capitú desfazendo -as tranças. Ora, mamãe!</p> - -<p>E com um enfadamento gracioso e voluntario que -ás vezes tinha, pegou do pente e alisou os cabellos -para renovar o penteado. D. Fortunata chamou-lhe -tonta, e disse-me que não fizesse caso, não era -nada, maluquices da filha. Olhava com ternura -para mim e para ella. Depois, parece-me que desconfiou. -Vendo-me calado, enfiado, cosido á parede, -achou talvez que houvera entre nós algo mais que -penteado, e sorriu por dissimulação...</p> - -<p>Como eu quizesse falar tambem para disfarçar o -meu estado, chamei algumas palavras cá de dentro, -e ellas acudiram de prompto, mas de atropello, e -encheram-me a bocca sem poder sair nenhuma. -O beijo de Capitú fechava-me os labios. Uma exclamação, -um simples artigo, por mais que investissem -com força, não logravam romper de dentro. -E todas as palavras recolheram-se ao coração, murmurando: -«Eis aqui um que não fará grande carreira -no mundo, por menos que as emoções o dominem...»</p> - -<p>Assim, apanhados pela mãe, éramos dous e contrarios, -ella encobrindo com a palavra o que eu -publicava pelo silencio. D. Fortunata tirou-me daquella -hesitação, dizendo que minha mãe me mandára -chamar para a licção de latim; o padre Cabral -estava á minha espera. Era uma saida; despedi-me -e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a mãe -censurava as maneiras da filha, mas a filha não -dizia nada.</p> - -<p>Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas não -passei a sala da licção; sentei-me na cama, recordando -o penteado e o resto. Tinha estremeções, -tinha uns esquecimentos em que perdia a consciencia -de mim e das cousas que me rodeavam, para -viver não sei onde nem como. E tornava a mim, e -via a cama, as paredes, os livros, o chão, ouvia -algum som de fóra, vago, proximo ou remoto, e -logo perdia tudo para sentir sómente os beiços de -Capitú... Sentia-os estirados, embaixo dos meus, -egualmente esticados para os della, e unindo-se uns -aos outros. De repente, sem querer, sem pensar, -saiu-me da boca esta palavra de orgulho:</p> - -<p>—Sou homem!</p> - -<p>Suppuz que me tivessem ouvido, porque a palavra -saiu em voz alta, e corri á porta da alcova. Não -havia ninguem fóra. Voltei para dentro, e, baixinho, -repeti que era homem. Ainda agora tenho o éco aos -meus ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. -Colombo não o teve maior, descobrindo a America, -e perdoai a banalidade em favor do cabimento; com -effeito, ha em cada adolescente um mundo encoberto, -um almirante e um sol de Outubro. Fiz outros -achados mais tarde; nenhum me deslumbrou tanto. -A denuncia de José Dias alvoroçara-me, a licção do -velho coqueiro tambem, a vista dos nossos nomes -abertos por ella no muro do quintal deu-me grande -abalo, como vistes; nada disso valeu a sensação do -beijo. Podiam ser mentira ou illusão. Sendo verdade, -eram os ossos da verdade, não eram a carne -e o sangue della. As proprias mãos tocadas, apertadas, -como que fundidas, não podiam dizer tudo.</p> - -<p>—Sou homem!</p> - -<p>Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no -seminario, mas como se pensa em perigo que passou, -um mal abortado, um pesadelo extincto; todos -os meus nervos me disseram que homens não são -padres. O sangue era da mesma opinião. Outra vez -senti os beiços de Capitú. Talvez abuso um pouco -das reminiscencias osculares; mas a saudade é isto -mesmo; é o passar e repassar das memorias antigas. -Ora, de todas as daquelle tempo creio que a -mais doce é esta, a mais nova, a mais comprehensiva, -a que inteiramente me revelou a mim mesmo. -Outras tenho, vastas e numerosas, doces tambem, -de varia especie, muitas intellectuaes, egualmente -intensas. Grande homem que fosse, a recordação -era menor que esta.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXXV" id="XXXV">XXXV</a></h5> - -<h4>O protonotario apostolico.</h4> - - -<p>Enfim, peguei dos livros e corri á licção. Não -corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo -que devia ser muito tarde, e podiam ler-me -no semblante alguma cousa. Tive ideia de mentir, -allegar uma vertigem que me houvesse deitado ao -chão; mas o susto que causaria a minha mãe fez-me -rejeital-a. Pensei em prometter algumas dezenas -de padre-nossos; tinha, porém, outra promessa -em aberto e outro favor pendente... Não, vamos -ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversavam -cuidadosamente. Quando entrei na sala, ninguem ralhou -commigo.</p> - -<p>O padre Cabral recebera na vespera um recado -do internuncio; foi ter com elle, e soube que, por -decreto pontificio, acabava de ser nomeado protonotario -apostolico. Esta distincção do papa dera-lhe -grande contentamento e a todos os nossos. Tio -Cosme e prima Justina repetiam o titulo com admiração; -era a primeira vez que elle soava aos nossos -ouvidos, acostumados a conegos, monsenhores, -bispos, nuncios, e internuncios; mas que era protonotario -apostolico? O padre Cabral explicou que -não era propriamente o cargo da curia, mas as -honras delle. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro -de voltarete, e repetia:</p> - -<p>—Protonotario apostolico!</p> - -<p>E voltando-se para mim:</p> - -<p>—Prepara-te, Bentinho; tu pódes vir a ser protonotario -apostolico.</p> - -<p>Cabral ouvia com gosto a repetição do titulo. Estava -em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava -na tampa da boceta. O tamanho do titulo como -que lhe dobrava a magnificencia, posto que, para -ligal-o ao nome, era demasiado comprido; esta segunda -reflexão foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral -acudiu que não era preciso dizel-o todo, bastava -que lhe chamassem o protonotario Cabral. Subentendia-se -apostolico.</p> - -<p>—Protonotario Cabral.</p> - -<p>—Sim, tem razão; protonotario Cabral.</p> - -<p>—Mas, Sr. protonotario,—acudiu prima Justina -para se ir acostumando ao uso do titulo,—isto o -obriga a ir a Roma?</p> - -<p>—Não, D. Justina.</p> - -<p>—Não, são só as honras, observou minha mãe.</p> - -<p>—Agora, não impede,—disse Cabral, que continuava -a reflectir,—não impede que nos casos de -maior formalidade, actos publicos, cartas de cerimonia, -etc., se empregue o titulo inteiro: protonotario -apostolico. No uso commum, basta protonotario.</p> - -<p>—Justamente, assentiram todos.</p> - -<p>José Dias, que entrou pouco depois de mim, -applaudiu a distincção, e recordou, a proposito, os -primeiros actos politicos de Pio IX, grandes esperanças -da Italia; mas ninguem pegou do assumpto; o -principal da hora e do logar era o meu velho mestre -de latim. Eu, voltando a mim do receio, entendi -que devia comprimental-o tambem, e este applauso -não lhe foi menos ao coração que os outros. Bateu-me -na bochecha paternalmente, e acabou dando-me -férias. Era muita felicidade para uma só hora. Um -beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto -mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a barriga, -chamou-me peralta; mas José Dias corrigiu a alegria:</p> - -<p>—Não tem que festejar a vadiação; o latim -sempre lhe ha de ser preciso, <i>ainda que não venha -a ser padre.</i></p> - -<p>Conheci aqui o meu homem. Era a primeira -palavra, a semente lançada á terra, assim de passagem, -como para acostumar os ouvidos da familia. -Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de -tristeza, mas respondeu logo:</p> - -<p>—Ha de ser padre, e padre bonito.</p> - -<p>—Não esqueça, mana Gloria, e protonotario -tambem. Protonotario apostolico.</p> - -<p>—O protonotario Santiago, accentuou Cabral.</p> - -<p>Se a intenção tio meu mestre de latim era ir acostumando -ao uso do titulo com o nome, não sei bem; -o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a -tal titulo, deu-me vontade de dizer um desaforo. -Mas a vontade aqui foi antes uma ideia, uma ideia -sem lingua, que se deixou ficar quieta e muda, tal -como d'ahi a pouco outras ideias... Mas essas pedem -um capitulo especial. Rematemos este dizendo que -o mestre de latim falou algum tempo da minha ordenação -ecclesiastica, ainda que sem grande interesse. -Elle buscava um assumpto alheio para se mostrar -esquecido da propria gloria, mas era esta que o -deslumbrava na occasião. Era um velho magro, -sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos -tinha; o mais excelso delles era ser guloso, não -propriamente glotão; comia pouco, mas estimava o -fino e o raro, e a nossa cosinha, se era simples, era -menos pobre que a delle. Assim, quando minha mãe -lhe disse que viesse jantar, afim de se lhe fazer uma -saude, os olhos com que acceitou seriam de protonotario, -mas não eram aposlolicos. E para agradar a -minha mãe novamente pegou em mim, descrevendo -o meu futuro ecclesiastico, e queria saber se ia para -o seminario agora, no anuo proximo, e offerecia-se -a falar ao «senhor bispo», tudo marchetado do -«protonotario Santiago.»</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXXVI" id="XXXVI">XXXVI</a></h5> - -<h4>Ideia sem pernas e ideia sem braços.</h4> - - -<p>Deixei-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra -vez a pensar na aventura da manhã. Era o que melhor -podia fazer, sem latim, e até com latim. Ao -cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo á -casa visinha, agarrar Capitú, desfazer-lhe as tranças, -refazel-as e concluil-as daquella maneira particular, -bocca sobre bocca. É isto, vamos, é isto... Ideia -só! ideia sem pernas! As outras pernas não -queriam correr nem andar. Muito depois é que -sairam vagarosamente e levaram-me á casa de Capitú. -Quando alli cheguei, dei com ella na sala, na -mesma sala, sentada na marqueza, almofada no -regaço, cosendo em paz. Não me olhou de rosto, -mas a furto e a medo, ou, se preferes a phraseologia -do aggregado, obliqua e dissimulada. As mãos pararam, -depois de encravada a agulha no panno. Eu, -do lado opposto da mesa, não sabia que fizesse; e -outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim -gastámos alguns minutos compridos, até que ella -deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me. -Fui ter com ella, e perguntei se a mãe havia -dito alguma cousa; respondeu-me que não. A bocca -com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado -um gesto de approximação. Certo é que Capitú -recuou um pouco.</p> - -<p>Era occasião de pegal-a, puxal-a e beijal-a... Ideia -só ideia sem braços! Os meus ficaram caidos -e mortos. Não conhecia nada da Escriptura. Se -conhecesse, é provavel que o espirito de Satanaz me -fizesse dar a lingua mystica do <i>Cantico</i> um sentido -directo e natural. Então obedeceria ao primeiro -versiculo; «Applique elle os labios, dando-me o -osculo da sua bocca.» E pelo que respeita aos braços, -que tinha inertes, bastaria cumprir o vers. 6.<sup>o</sup> -do cap. II: «A sua mão esquerda se pôz já debaixo -da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará -depois.» Vedes ahi a chronologia dos gestos. Era -só executal-a; mas ainda que eu conhecesse o texto, -as attitudes de Capitú eram agora tão retrahidas, -que não sei se não continuaria parado, foi ella -entretanto, que me tirou daquella situação.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXXVII" id="XXXVII">XXXVII</a></h5> - -<h4>A alma é cheia de mysterios.</h4> - - -<p>Padre Cabral eslava esperando ha muito -tempo?</p> - -<p>—Hoje não dei licção; tive férias.</p> - -<p>Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe tambem -que o padre Cabral falara da minha entrada -no seminario, apoiando a resolução de minha mãe, -e disse delle cousas feias e duras. Capitú reflectiu -algum tempo, e acabou perguntando-me se podia ir -comprimentar o padre, á tarde, em minha casa.</p> - -<p>—Póde, mas para que?</p> - -<p>Papae naturalmente ha de querer ir tambem, -mas é melhor que elle vá á casa do padre; é mais -bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu -rindo.</p> - -<p>O riso animou-me. As palavras pareciam ser -uma troça comsigo mesma, uma vez que, desde manhã, -era mulher, como eu era homem. Achei-lhe -graça, e, para dizer tudo, quiz provar-lhe que era -moça inteira. Peguei-lhe levemente na mão direita, -depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e tremulo. -Era a ideia com mãos. Quiz puxar as de -Capitú, para obrigal-a a vir atraz dellas, mas ainda -agora a acção não respondeu á intenção. Comtudo, -achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguem; -não vivia com rapazes, que me ensinassem anecdotas -de amor. Não conhecia a violação de Lucrecia. -Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha -do padre Pereira e eram patricios de Poncio Pilatos. -Não nego que o final do penteado da manhã era -um grande passo no caminho da movimentação -amorosa, mas o gesto de então foi justamente o -contrario deste. De manhã, ella derreou a cabeça, -agora fugia-me; nem é só nisso que os lances differiam; -em outro ponto, parecendo haver repetição, -houve contraste.</p> - -<p>Penso que ameacei puxal-a a mim. Não juro, -começava a estar tão alvoroçado, que não pude ter -toda a consciência dos meus actos; mas concluo que -sim, porque ella recuou e quiz tirar as mãos das -minhas; depois, talvez por não poder recuar mais, -collocou um dos pés adeante e o outro atraz, e fugiu -com o busto. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe -as mãos com força. O busto afinal cançou e cedeu, -mas a cabeça não quiz ceder tambem, e, caida para -traz, inutilisava lodos os meus esforços, porque -eu já fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo -a licção do <i>Cantico</i>, não me acudiu estender a mão -esquerda por baixo do cabeça della; demais, este -gesto suppõe um accordo de vontades, e Capitú, que -me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se -á outra mão e fugir-me inteiramente. Ficámos -naquelle luta, sem estrepito, porque apesar do -ataque e da defesa, não perdiamos a cautela necessaria -para não sermos ouvidos lá de dentro; a -alma é cheia de mysterios. Agora sei que a puxava; -a cabeça continuou a recuar, até que cançou; mas -então foi a vez da bocca. A bocca de Capitú iniciou -um movimento inverso, relativamente á minha, indo -para um lado, quando eu a buscava do lado opposto. -Naquelle desencontro estivemos, sem que ousasse -um pouco mais, e bastaria um pouco mais...</p> - -<p>Nisto ouvimos bater á porta e falar no corredor. -Era o pae de Capitú, que voltava da repartição um -pouco mais cedo, como usava ás vezes. «Abre, Nanata! -Capitú, abre!» Apparentemente era o mesmo -lance da manhã, quando a mãe deu comnosco, mas -só apparentemente; em verdade, era outro. Considerai -que de manhã tudo estava acabado, e o passo -de D. Fortunata foi um aviso para que nos compuzessemos. -Agora lutavamos com as mãos presas, e -nada estava sequer começado.</p> - -<p>Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor -interno; era a mãe que abria. Eu, uma vez -que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo de -soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei -a tental-o, mas Capitú, antes que o pae acabasse -de entrar, fez um gesto inesperado, pousou a -bocca na minha bocca, e deu de vontade o que estava -a recusar á força. Repito, a alma é cheia de mysterios.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXXVIII" id="XXXVIII">XXXVIII</a></h5> - -<h4>Que susto, meu Deus!</h4> - - -<p>Quando Padua, vindo pelo interior, entrou na -sala de visitas, Capitú, em pé, de costas para mim, -inclinada sobre a costura, como a recolhel-a, perguntava -em voz alta:</p> - -<p>—Mas, Bentinho, que ó protonotario apostolico?</p> - -<p>—Ora, vivam! exclamou o pae.</p> - -<p>—Que susto, meu Deus!</p> - -<p>Agora é que o lance é o mesmo; mas se conto -aqui, taes quaes, os dous lances de ha quarenta -annos, é para mostrar que Capitú não se dominava -só em presença da mãe; o pae não lhe metteu mais -medo. No meio de uma situação que me atava a -lingua, usava da palavra com a maior ingenuidade -deste mundo. A minha persuasão é que o coração -não lhe batia mais mais nem menos. Allegou susto, -e deu á cara um ar meio enfiado; mas eu, que sabia -tudo, vi que era mentira e fiquei com inveja. Foi -logo falar ao pae, que apertou a minha mão, e quiz -saber porque a filha falava em protonotario apostolico. -Capitú repeliu-lhe o que ouvira de mim, e -opinou logo que o pae devia ir comprimentar o padre -em casa delle; ella iria á minha. E colligindo os -petrechos da costura, enfiou pelo corredor, bradando -infantilmente:</p> - -<p>—Mamãe, jantar, papae chegou!</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XXXIX" id="XXXIX">XXXIX</a></h5> - -<h4>A vocação.</h4> - - -<p>Padre Cabral estava naquella primeira hora das -honras em que as minimas congratulações valem -por odes. Tempo chega em que os dignificados recebem -os louvores como um tributo usual, cara morta, -sem agradecimentos. O alvoroço da primeira hora -é melhor; esse estado da alma que vê na inclinação -do arbusto, tocado do vento, um parabem da flora -universal, traz sensações mais intimas e finas que -qualquer outro. Cabral ouviu as palavras de Capitú -com infinito prazer.</p> - -<p>—Obrigado, Capitú, muito obrigado; estimo que -você goste tambem. Papae está bom? E mamãe? A -voce não se pergunta; essa cara é mesmo de quem -vende saude. E como vamos de rezas?</p> - -<p>A todas as perguntas, Capitú ia respondendo -promptamente e bem. Trazia um vestidinho melhor -e os sapatos de sair. Não entrou com a familiaridade -do costume, deteve-se um instante á porta da -sala, antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao -padre. Como désse a este, duas vezes em cinco -minutos, o titulo de protonotario, José Dias, para -se desforrar da concurrencia, fez um pequeno discurso -em honra «ao coração paternal e augustissimo -de Pio IX.»</p> - -<p>—Você é um grande <i>prosa</i>, disse tio Cosme, -quando elle acabou.</p> - -<p>José Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral confirmou -os louvores do aggregado, sem os seus superlativos; -ao que este accrescentou que o cardeal -Mastai evidentemente fôra talhado para a tiára desde -o principio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:</p> - -<p>—A vocação é tudo. O estado ecclesiastico é -perfeitissimo, comtanto que o sacerdote venha já -destinado do berço. Não havendo vocação, falo de -vocação sincera e real, um joven póde muito bem -estudar as lettras humanas, que tambem são uteis -e honradas.</p> - -<p>Padre Cabral retorquia:</p> - -<p>—A vocação é muito, mas o poder de Deus é -soberano. Um homem póde não ter gosto á egreja -e até perseguil-a, e um dia a voz de Deus lhe fala, e -elle sae apostolo; veja S. Paulo.</p> - -<p>—Não contesto, mas o que eu digo é outra -cousa. O que eu digo é que se póde muito bem -servir a Deus sem ser padre, cá fóra; póde-se ou -não se póde?</p> - -<p>—Póde-se.</p> - -<p>—Pois então! exclamou José Dias triumphalmente, -olhando em volta de si. Sem vocação é que -não ha bom padre, e em qualquer profissão liberal -se serve a Deus, como todos devemos.</p> - -<p>—Perfeitamente, mas vocação não é só do berço -que se traz.</p> - -<p>—Homem, é a melhor.</p> - -<p>—Um moço sem gosto nenhum á vida ecclesiastica -póde acabar por ser muito bom padre; tudo é -que Deus o determine. Não me quero dar por modelo, -mas aqui estou eu que nasci com a vocação -da medicina; meu padrinho, que era coadjutor de -Santa Rita, teimou com meu pae para que me mettesse -no seminario; meu pae cedeu. Pois, senhor, -tomei tal gosto aos estudos e á companhia dos -padres, que acabei ordenando-me. Mas, supponha -que não acontecia assim, e que eu não mudava de -vocação, o que é que acontecia? Tinha estudado no -seminario algumas materias que é bom saber, e são -sempre melhor ensinadas naquellas casas.</p> - -<p>Prima Justina interveiu:</p> - -<p>—Como? Então póde-se entrar para o seminario -e não sair padre?</p> - -<p>Padre Cabral respondeu que sim, que se podia, -e, voltando-se para mim, falou da minha vocação, -que era manifesta; os meus brinquedos foram sempre -de egreja, e eu adorava os officios divinos. A prova -não provava; todas as creanças do meu tempo eram -devotas. Cabral accrescentou que o reitor de S. José, -a quem contara ultimamente a promessa de minha -mãe, tinha o meu nascimento por milagre; elle era -da mesma opinião. Capitú, cosida ás saias de minha -mãe, não attendia aos olhos anciosos que eu lhe -mandava; tambem não parecia escutar a conversação -sobre o seminario e suas consequencias, e, aliás, -decorou o principal, como vim a saber depois. Duas -vezes fui á janella, esperando que ella fosse tambem, -e ficassemos á vontade, sósinhos, até acabar o -mundo, se acabasse, mas Capitú não me appareceu. -Não deixou minha mãe, senão para ir embora. -Eram ave-marias, despediu-se.</p> - -<p>—Vae com ella, Bentinho, disse minha mãe.</p> - -<p>—Não precisa, não, D. Gloria, acudiu ella rindo, -eu sei o caminho. Adeus, Sr. protonotario...</p> - -<p>—Adeus, Capitú.</p> - -<p>Tendo dado um passo no sentido de atravessar a -sala, é claro que o meu dever, o meu gosto, todos -os impulsos da edade e da occasião eram atravessal-a -de todo, seguir a visinha corredor fóra, descer -á chacara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo, -e despedir-me. Não me importou a recusa, que -cuidei simulada, e enfiei pelo corredor; mas, Capitú -que ia depressa, estacou e fez-me signal que -voltasse. Não obedeci; cheguei-me a ella.</p> - -<p>—Não venha, não; amanhã falaremos.</p> - -<p>—Mas eu queria dizer a você...</p> - -<p>—Amanhã.</p> - -<p>—Escuta!</p> - -<p>—Fica!</p> - -<p>Falava baixinho; pegou-me na mão, e poz o dedo -na bocca. Uma preta, que veiu de dentro accender -o lampião do corredor, vendo-nos naquella attitude, -quasi ás escuras, riu de sympathia e murmurou em -tom que ouvissemos alguma cousa que não entendí -bem nem mal. Capitú segredou-me que a escrava -desconfiara, e ia talvez contar ás outras. Novamente -me intimou que ficasse, e retirou-se; eu deixei-me -estar parado, pregado, agarrado ao chão.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XL" id="XL">XL</a></h5> - -<h4>Uma egua.</h4> - - -<p>Ficando só, reflecti algum tempo, e tive uma fantasia. -Já conheceis as minhas fantasias. Contei-vos -a da visita imperial; disse-vos a desta casa do -Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavallos... -A imaginação foi a companheira de toda a minha -existencia, viva, rapida, inquieta, alguma vez timida -e amiga de empacar, as mais dellas capaz de engolir -campanhas e campanhas, correndo. Creio haver -lido em Tacito que as eguas iberas concebiam pelo -vento; se não foi nelle, foi n'outro autor antigo, que -entendeu guardar essa crendice nos seus livros. -Neste particular, a minha imaginação era uma -grande egua ibera; a menor brisa lhe dava um -potro, que saía logo cavallo de Alexandre; mas -deixemos metaphoras atrevidas e improprias dos -meus quinze annos. Digamos o caso simplesmente. -A fantasia daquella hora foi confessar a minha mãe -os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação -ecclesiastica. A conversa sobre vocação tornava-me -agora toda inteira, e, ao passo que me -assustava, abria-me uma porta de saida. «Sim, é -isto, pensei; vou dizer a mamãe que não tenho vocação -e confesso o nosso namoro; se ella duvidar, -conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o -resto... »</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XLI" id="XLI">XLI</a></h5> - -<h4>A audiencia secreta.</h4> - - -<p>O resto fez-me ficar mais algum tempo, no corredor, -pensando. Vi entrar o doutor João da Costa, -e preparou-se logo o voltarete do costume. Minha -mãe saiu da sala, e, dando commigo, perguntou se -acompanhara Capitú.</p> - -<p>—Não, senhora, ella foi só.</p> - -<p>E quasi investindo para ella:</p> - -<p>—Mamãe, eu queria dizer-lhe uma cousa.</p> - -<p>—Que é?</p> - -<p>Toda assustada, quiz saber o que é que me doia, -se a cabeça, se o peito, se o estomago, e apalpava-me -a testa para ver se tinha febre.</p> - -<p>—Não tenho nada, não, senhora.</p> - -<p>—Mas então que é?</p> - -<p>—É uma cousa, mamãe... Mas, escute, olhe, é -melhor depois do chá; logo... Não é nada mau; -mamãe assusta-se por tudo; não é cousa de cuidado.</p> - -<p>—Não é molestia?</p> - -<p>—Não, senhora.</p> - -<p>—É, isso é volta de constipação. Disfarças para -não tomar suadouro, mas tu estás constipado; conhece-se -pela voz.</p> - -<p>Tentei rir, para mostrar que não tinha nada. Nem -por isso permittiu adiar a confidencia, pegou em -mim, levou-me ao quarto della, accendeu vela, e -ordenou-me que lhe dissesse tudo. Então eu perguntei-lhe, -para principiar, quando é que ia para o -seminario.</p> - -<p>—Agora só para o anno, depois das férias.</p> - -<p>—Vou... para ficar?</p> - -<p>—Como ficar?</p> - -<p>—Não volto para casa?</p> - -<p>—Voltas aos sabbados e pelas férias; é melhor. -Quando te ordenares padre, vens morar commigo.</p> - -<p>Enxuguei os olhos e o nariz. Ella afagou-me, -depois quiz reprehender-me, mas creio que a voz lhe -tremia, e pareceu-me que tinha os olhos humidos. -Disse-lhe que tambem sentia a nossa separação. -Negou que fosse separação; era só alguma ausencia, -por causa dos estudos; só os primeiros dias. Em -pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros -e aos mestres, e acabaria gostando de viver com -elles.</p> - -<p>—Eu só gosto de mamãe.</p> - -<p>Não houve calculo nesta palavra, mas estimei -dizel-a, por fazer crer que ella era a minha unica -affeição; desviava as suspeitas de cima de Capitú. -Quantas intenções viciosas ha assim que embarcam, -a meio caminho, n'uma phrase innocente e pura! -Chega a fazer suspeitar que a mentira é, muita vez, -tão involuntaria como a transpiração. Por outro -lado, leitor amigo, nota que eu queria desviar as -suspeitas de cima de Capitú, quando havia chamado -minha mãe justamente para confirmal-as; mas as -contradicções são deste mundo. A verdade é que -minha mãe era candida como a primeira aurora, -anterior ao primeiro peccado; nem por simples intuição -era capaz de deduzir uma cousa de outra, isto -é, não concluiria da minha repentina opposição que -eu andasse em segredinhos com Capitú, como lhe -dissera José Dias. Calou-se durante alguns instantes; -depois replicou-me sem imposição nem autoridade, -o que me veiu animando á resistencia. Dahi o falar-lhe -na vocação que se discutira naquella tarde, e -que eu confessei não sentir em mim.</p> - -<p>—Mas tu gostavas tanto de ser padre, disse ella; -não te lembras que até pedias para ir ver sair os -seminaristas de S. José, com as suas batinas? Em -casa, quando José Dias te chamava Reverendissimo, -tu rias com tanto gosto! Como é que agora...? Não -creio, não, Bentinho. E depois... Vocação? Mas a -vocação vem com o costume, continuou repetindo -as reflexões que ouvira ao meu professor de latim.</p> - -<p>Como eu buscasse contestal-a, reprehendeu-me -sem aspereza, mas com alguma força, e eu tornei ao -filho submisso que era. Depois, ainda falou gravemente -e longamente sobre a promessa que fizera; não -me disse as circumstancias, nem a occasião, nem os -motivos della, cousas que só vim a saber mais tarde. -Affirmou o principal, isto é, que a havia do cumprir, -em pagamento a Deus.</p> - -<p>—Nosso Senhor me acudiu, salvando a tua existencia, -não lhe hei de mentir nem faltar, Bentinho; -são cousas que não se fazem sem peccado, e Deus -que é grande e poderoso, não me deixaria assim, -não, Bentinho; eu sei que seria castigada e bem -castigada. Ser padre é bom e santo; você conhece -muitos, como o padre Cabral, que vive tao feliz com -a irmã; um tio meu tambem foi padre, e escapou de -ser bispo, dizem... Deixa de manha, Bentinho.</p> - -<p>Creio que os olhos que lhe deitei foram tão -queixosos, que ella emendou logo a palavra; manha, -não, não podia ser manha, sabia muito bem que eu -era amigo della, e não seria capaz de fingir um -sentimento que não tivesse. Molleza é o que queria -dizer, que me deixasse de molleza, que me fizesse -homem e obedecesse ao que cumpria, em beneficio -della e para bem da minha alma. Todas essas cousas -e outras foram ditas um pouco atropelladamente, e -a voz não lhe saia clara, mas velada e esganada. -Vi que a emoção della era outra vez grande, mas -não recuava dos seus propositos, e aventurei-me a -perguntar-lhe:</p> - -<p>—E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse -da promessa?</p> - -<p>—Não, não peço. Estás tonto, Bentinho? E como -havia de saber que Deus me dispensava?</p> - -<p>—Talvez em sonho; eu sonho as vezes com -anjos e santos.</p> - -<p>—Tambem eu, num filho; mas é inútil... Vamos, -é tarde; vamos para a sala. Está entendido: no primeiro -ou no segundo mez do anno que vem, irás para -o seminario. O que eu quero é que saibas bem os -livros que estás estudando; é bonito, não só para -ti, como para o padre Cabral. No seminario ha -interesse em conhecer-te, porque o padre Cabral -fala de ti com enthusiasmo.</p> - -<p>Caminhou para a porta, saimos ambos. Antes de -sair, voltou-se para mim, e quasi a vi saltar-me ao -collo e dizer-me que não seria padre. Este era já o -seu desejo intimo, á proporção que se approximava -o tempo. Quizera um modo de pagar a divida contrahida, -outra moeda, que valesse tanto ou mais, e -não achava nenhuma.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XLII" id="XLII">XLII</a></h5> - -<h4>Capitú reflectindo.</h4> - - -<p>No dia seguinte fui á casa visinha, logo que -pude. Capitú despedia-se de tres amigas que tinham -ido visital-a, Paula e Sandia, companheiras de collegio, -aquella de quinze, esta de desessete annos, a -primeira filha de um medico, a segunda de um -commerciante de objectos americanos. Estava abatida, -trazia um lenço atado na cabeça; a mãe contou-me -que fora excesso de leitura na vespera, antes -e depois do chá, na sala e na cama, até muito depois -da meia noite, e com lamparina...</p> - -<p>—Se eu accendesse vela, mamãe zangava-se. -Já estou boa.</p> - -<p>E como desatasse o lenço, a mãe disse-lhe timidamente -que era melhor atal-o, mas Capitú respondeu -que não era preciso, estava boa.</p> - -<p>Ficámos sós na sala; Capitú continuou a narração -da mãe, accrescentando que passara mal por -causa do que ouvira em minha casa. Tambem eu -lhe contei o que se déra commigo, a entrevista com -minha mãe, as minhas supplicas, as lagrimas della, -e por fim as ultimas respostas decisivas: dentro de -dous ou tres mezes iria para o seminario. Que fariamos -agora? Capitú ouvia-me com attenção sofrega, -depois sombria; quando acabei, respirava a -custo, como prestes a estalar de colera, mas conteve-se.</p> - -<p>Ha tanto tempo que isto succedeu que não posso -dizer com segurança se chorou devéras, ou se sómente -enxugou os olhos; cuido que os enxugou sómente. -Vendo-lhe o gesto, peguei-lhe na mão para -animal-a, mas tambem eu precisava ser animado. -Caimos no canapé, e ficámos a olhar para o ar. -Minto; ella olhava para o chão. Fiz o mesmo, logo -que a vi assim... Mas eu creio que Capitú olhava -para dentro de si mesma, emquanto que eu fitava -devéras o chão, o roido das fendas, duas moscas -andando e um pé de cadeira lascado. Era pouco, -mas distraía-me da afflicção. Quando tornei a olhar -para Capitú, vi que não se mexia, e fiquei com tal -medo que a sacudi brandamente. Capitú tornou cá -para fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que -se passára com minha mãe. Satisfil-a, attenuando -o texto desta vez, para não amofinal-a. Não me -chames dissimulado, chama-me compassivo; é certo -que receiava perder Capitú, se lhe morressem as -esperanças todas, mas doia-me vel-a padecer. Agora, -a verdade ultima, a verdade das verdades, é que já -me arrependia de haver falado a minha mãe, antes -de qualquer trabalho effectivo por parte de José -Dias; examinando bem, não quizera ter ouvido um -desengano que eu reputava certo, ainda que demorado. -Capitú reflectia, reflectia, reflectia...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XLIII" id="XLIII">XLIII</a></h5> - -<h4>Você tem medo?</h4> - - -<p>De repente, cessando a reflexão, fitou em mim -os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo.</p> - -<p>—Medo?</p> - -<p>—Sim, pergunto se você tem medo.</p> - -<p>—Medo de que?</p> - -<p>—Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, do -andar, de trabalhar...</p> - -<p>Não entendi. Se ella me tem dito simplesmente: -«Vamos embora!» póde ser que eu obedecesse -ou não; em todo caso, entenderia. Mas aquella -pergunta assim, vaga e solta, não pude atinar o -que era.</p> - -<p>—Mas... não entendo. De apanhar?</p> - -<p>—Sim.</p> - -<p>—Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada?</p> - -<p>Capitú fez um gesto de impaciencia. Os olhos de -ressaca não se mexiam e pareciam crescer. Sem -saber de mim, e, não querendo interrogal-a novamente, -entrei a cogitar d'onde me viriam pancadas, -e porque, e tambem porque é que seria preso, e -quem é que me havia de prender. Valha-me Deus! -vi de imaginação o aljube, uma casa escura e infecta. -Tambem vi a presiganga, o quartel dos Barbonos -e a Casa de Correcção. Todas essas bellas -instituições sociaes me envolviam no seu mysterio, -sem que os olhos de ressaca de Capitú deixassem -de crescer para mim, a tal ponto que as fizeram -esquecer de todo. O erro de Capitú foi não deixal-os -crescer infinitamente, antes diminuir até ás dimensões -normaes, e dar-lhes o movimento do costume. -Capitú tornou ao que era, disse-me que estava -brincando, não precisava affligir-me, e, com -um gesto cheio de graça, bateu-me na casa sorrindo, -e disse:</p> - -<p>—Medroso!</p> - -<p>—Eu? Mas...</p> - -<p>—Não é nada, Bentinho. Pois quem é que ha de -dar pancada ou prender você? Desculpe que eu hoje -estou meia maluca; quero brincar, e...</p> - -<p>—Não, Capitú; você não está brincando; nesta -occasião, nenhum de nós tom vontade de brincar.</p> - -<p>—Tem razão, foi só maluquice; até logo.</p> - -<p>—Como até logo?</p> - -<p>—Está-me voltando a dôr do cabeça; vou botar -uma rodella de limão nas fontes.</p> - -<p>Fez o que disse, e atou o lenço outra vez na testa. -Em seguida, acompanhou-me ao quintal para se despedir -de mim; mas, ainda ahi nos detivemos por -alguns minutos, sentados sobre a borda do poço. -Ventava, o ceu estava coberto. Capitú falou novamente -da nossa separação, como de um facto certo -e definitivo, por mais que eu, receioso disso mesmo, -buscasse agora razões para animal-a. Capitú, -quando não falava, riscava no chão, com um pedaço -de taquara, narizes e perfis. Desde que se mettera -a desenhar, era uma das suas diversões; tudo lhe -servia de papel e lapis. Como me lembrassem os -nossos nomes abertos por ella no muro, quiz fazer -o mesmo no chão, e pedi-lhe a taquara. Não me -ouviu ou não me attendeu.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XLIV" id="XLIV">XLIV</a></h5> - -<h4>O primeiro filho.</h4> - - -<p>—Dê cá, deixe escrever uma cousa.</p> - -<p>Capitú olhou para mim, mas de um modo que -me fez lembrar a definição de José Dias, obliquo e -dissimulado; levantou o olhar, sem levantar os -olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:</p> - -<p>—Diga-me uma cousa, mas fale verdade, não -quero disfarce; ha de responder com o coração na -mão.</p> - -<p>—Que é? Diga.</p> - -<p>—Se você tivesse de escolher entre mim e sua -mãe, a quem é que escolhia?</p> - -<p>—Eu?</p> - -<p>Fez-me signal que sim.</p> - -<p>—Eu escolhia... mas para que escolher? Mamãe -não é capaz de me perguntar isso.</p> - -<p>—Pois, sim, mas eu pergunto. Supponha você -que está no seminario e recebe a noticia de que eu -vou morrer...</p> - -<p>—Não diga isso!</p> - -<p>—... Ou que me mato de saudades, se você não -vier logo, e sua mãe não quizer que você venha, -diga-me, você vem?</p> - -<p>—Venho.</p> - -<p>—Contra a ordem de sua mãe?</p> - -<p>—Contra a ordem de mamãe.</p> - -<p>—Você deixa seminario, deixa sua mãe, deixa -tudo, para me ver morrer?</p> - -<p>—Não fale em morrer, Capitú!</p> - -<p>Capitú teve um risinho descorado e incredulo, -e com a taquara escreveu uma palavra no chão; inclinei-me -e li: <i>mentiroso.</i></p> - -<p>Era tão extranho tudo aquillo, que não achei resposta. -Não atinava com a razão do escripto, como -não atinava com a do falado. Se me acudisse alli -uma injuria grande ou pequena, é possivel que a -escrevesse tambem, com a mesma taquara, mas não -me lembrava nada. Tinha a cabeça vazia. Ao -mesmo tempo tomei-me de receio de que alguem -nos pudesse ouvir ou ler. Quem, se eramos sós? -D. Fortunata chegara uma vez á porta da casa, -mas entrou logo depois. A solidão era completa. -Lembra-me que umas andorinhas passaram por -cima do quintal e foram para os lados do morro -de Santa Theresa; ninguem mais. Ao longe, vozes -vagas e confusas, na rua um tropel de bestas, -do lado da casa o chilrear dos passarinhos do -Padua. Nada mais, ou sómente este phenomeno -curioso, que o nome escripto por ella, não só me -espiava do chão com gesto escarninho, mas até -me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma -ideia ruim; disse-lhe que, afinal de contas, a vida -de padre não era má, e eu podia acceital-a sem -grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu -sentia a secreta esperança de vel-a atirar-se a mim -lavada em lagrimas. Capitú limitou-se a arregalar -muito os olhos, e acabou por dizer:</p> - -<p>—Padre é bom, não ha duvida; melhor que -padre só conego, por causa das meias roxas. O -roxo é côr muito bonita. Pensando bem, é melhor -conego.</p> - -<p>—Mas não se póde ser conego sem ser primeiramente -padre, disse-lhe eu mordendo os beiços.</p> - -<p>—Bem; comece pelas meias pretas, depois virão -as roxas. O que eu não quero perder é a sua -missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido -á moda, saia balão e babados grandes... Mas -talvez nesse tempo a moda seja outra. A egreja -ha de ser grande, Carmo ou S. Francisco.</p> - -<p>—Ou Candelaria.</p> - -<p>—Candelaria tambem. Qualquer sorve, comtanto -que eu ouça a missa nova. Hei de fazer um -figurão. Muita gente ha de perguntar: «Quem é -aquella moça faceira que alli está com um vestido -tão bonito?»--«Aquella é D. Capitolina, uma -moça que morou na rua de Matacavallos...»</p> - -<p>—Que morou? Você vae mudar-se?</p> - -<p>—Quem sabe onde é que ha do morar amanhã? -disse ella com um tom leve de melancolia; mas tornando -logo ao sarcasmo: E você no altar, mettido -na alva, com a capa de ouro por cima, cantando... -<i>Pater noster...</i></p> - -<p>Ah! como eu sinto não ser um poeta romantico -para dizer que isto era um duello de ironias! Contaria -os meus botes e os della, a graça de um e a -promptidão de outro, e o sangue correndo, e o furor -na alma, até ao meu golpe final que foi este:</p> - -<p>—Pois, sim, Capitú, você ouvirá a minha missa -nova, mas com uma condição.</p> - -<p>Ao que ella respondeu:</p> - -<p>—Vossa Reverendíssima póde falar.</p> - -<p>—Promette uma cousa?</p> - -<p>—Que é?</p> - -<p>—Diga se promette.</p> - -<p>—Não sabendo o que é, não prometto.</p> - -<p>—A falar verdade são duas cousas, continuei -eu, por haver-me acudido outra ideia.</p> - -<p>—Duas? Diga quaes são.</p> - -<p>—A primeira é que só se ha de confessar commigo, -para eu lhe dar a penitencia e a absolvição. -A segunda é que...</p> - -<p>—A primeira está promettida, disse ella vendo-me -hesitar, e accrescentou que esperava a segunda.</p> - -<p>Palavra que me custou, e antes não me chegasse -a sair da boca; não ouviria o que ouvi, o não escreveria -aqui uma cousa que vae talvez achar incredulos.</p> - -<p>—A segunda... sim... é que... Promette-me -que seja eu o padre que case você?</p> - -<p>Que me case? disso ella um tanto commovida.</p> - -<p>Logo depois fez descair os labios, e abanou a -cabeça.</p> - -<p>—Não, Bentinho, disse, seria esperar muito -tempo; você não vae ser padre já amanhã, leva -muitos annos... Olhe, prometto outra cousa; prometto -que ha de baptisar o meu primeiro filho.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XLV" id="XLV">XLV</a></h5> - -<h4>Abane a cabeça, leitor.</h4> - - -<p>Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de -incredulidade. Chegue a deitar fóra este livro, se o -tédio já o não obrigou a isso antes; tudo é possivel. -Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a -pegar do livro e que o abra na mesma pagina, sem -crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não -ha nada mais exacto. Foi assim mesmo que Capitú -falou, com taes palavras e maneiras. Falou do primeiro -filho, como se fosse a primeira boneca.</p> - -<p>Quanto ao meu espanto, se tambem foi grande, -veiu de mistura com uma sensação exquisita. Percorreu-me -um fluido. Aquella ameaça de um primeiro -filho, o primeiro filho de Capitú, o casamento -della com outro, portanto, a separação absoluta, a -perda, a anniquilação, tudo isso produzia um tal -effeito, que não achei palavra nem gesto; fiquei estupido. -Capitú sorria; eu via o primeiro filho brincando -no chão...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XLVI" id="XLVI">XLVI</a></h5> - -<h4>As pazes.</h4> - - -<p>As pazes fizeram-se como a guerra, depressa. -Buscasse eu neste livro a minha gloria, e diria que -as negociações partiram de mim; mas não, foi ella -que as iniciou. Alguns instantes depois, como eu -estivesse cabisbaixo, ella abaixou tambem a cabeça, -mas voltando os olhos para cima afim de ver -os meus. Fiz-me de rogado; depois quiz levantar-me -para ir embora, mas nem me levantei, nem -sei se iria. Capitú fitou-me uns olhos tao ternos, e a -posição os fazia tão supplices, que me deixei ficar, -passei-lhe o braço pela cintura, ella pegou-me na -ponta dos dedos, e...</p> - -<p>Outra vez D. Fortunata appareceu á porta da -casa; não sei para quê, se nem me deixou tempo -de puxar o braço; desappareceu logo. Podia ser um -simples descargo de consciencia, uma cerimonia, -como as rezas de obrigação, sem devoção, que se -dizem de tropel; a não ser que fosse para certificar -aos proprios olhos a realidade que o coração lhe -dizia...</p> - -<p>Fosse o que fosse, o meu braço continuou a apertar -a cintura da filha, e foi assim que nos pacificámos. -O bonito é que cada um de nós queria agora as -culpas para si, e pediamos reciprocamente perdão. -Capitú allegava a insomnia, a dôr de cabeça, o abatimento -do espirito, e finalmente «os seus calundús.» -Eu, que era muito chorão por esse tempo, -sentia os olhos molhados... Era amor puro, era -effeito dos padecimentos da amiguinha, era a ternura -da reconciliação.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XLVII" id="XLVII">XLVII</a></h5> - -<h4>«A senhora saiu.»</h4> - - -<p>—Está bom, acabou, disso eu finalmente; mas, -explique-me só uma cousa, porque é que você me -perguntou se eu tinha medo de apanhar?</p> - -<p>—Não foi por nada, respondeu Capitú, depois de -alguma hesitação... Para que bolir nisso?</p> - -<p>—Diga sempre. Foi por causa do seminario?</p> - -<p>—Foi; ouvi dizer que lá dão pancada... Não? -Eu tambem não creio.</p> - -<p>A explicação agradou-me; não tinha outra. Se, -como penso, Capitú não disse a verdade, força é -reconhecer que não podia dizel-a, e a mentira é -dessas creadas que se dão pressa em responder ás -visitas que «a senhora saiu», quando a senhora -não quer falar a ninguem. Ha nessa cumplicidade -um gosto particular; o peccado em commum eguala -por instantes a condição das pessoas, não contando -o prazer que dá a cara das visitas enganadas, e as -costas com que ellas descem... A verdade não saiu, -ficou em casa, no coração de Capitú, cochilando o -seu arrependimento. E eu não desci triste nem -zangado; achei a creada galante, appetecivel, melhor -que a ama.</p> - -<p>As andorinhas vinham agora em sentido contrario, -ou não seriam as mesmas. Nós é que eramos os -mesmos; alli ficámos sommando as nossas illusões, -os nossos temores, começando já a sommar as -nossas saudades.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XLVIII" id="XLVIII">XLVIII</a></h5> - -<h4>Juramento do poço.</h4> - - -<p>—Não! exclamei de repente.</p> - -<p>—Não quê?</p> - -<p>Tinha havido alguns minutos de silencio, durante -os quaes reflecti muito e acabei por uma -ideia; o tom da exclamação, porém, foi tão alto -que espantou a minha visinha.</p> - -<p>—Não ha de ser assim, continuei. Dizem que -não estamos em edade de casar, que somos creanças, -creançolas,—já ouvi dizer creançolas. Bem; -mas dous ou tres annos passam depressa. Você jura -uma cousa? Jura que só ha de casar commigo?</p> - -<p>Capitú não hesitou em jurar, e até lhe vi as -faces vermelhas de prazer. Jurou duas vezes e uma -terceira:</p> - -<p>—Ainda que você case com outra, cumprirei o -meu juramento, não casando nunca.</p> - -<p>—Que eu case com outra?</p> - -<p>—Tudo póde ser, Bentinho. Você póde achar -outra moça que lhe queira, apaixonar-se por ella e -casar. Quem sou eu para você lembrar-se de mim -nessa occasião?</p> - -<p>—Mas eu tambem juro! Juro, Capitú, juro por -Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. -Basta isto?</p> - -<p>—Devia bastar, disse ella; eu não me atrevo a -pedir mais. Sim, você jura... Mas juremos por outro -modo; juremos que nos havemos de casar um com -outro, haja o que houver.</p> - -<p>Comprehendeis a differença; era mais que a eleição -do conjuge, era a affirmação do matrimonio. A -cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa. -Realmente, a formula anterior era limitada, -apenas exclusiva. Podiamos acabar solteirões, -como o sol e a lua, sem mentir ao juramento do -poço. Esta formula era melhor, e tinha a vantagem -de me fortalecer o coração contra a investidura -ecclesiastica. Jurámos pela segunda formula, e ficámos -tão felizes que todo receio de perigo desappareceu. -Eramos religiosos, tínhamos o ceu por testemunha. -Eu nem já temia o seminario.</p> - -<p>—Se teimarem muito, irei; mas faço de conta -que é um collegio qualquer; não tomo ordens.</p> - -<p>Capitú temia a nossa separação, mas acabou -acceitando este alvitre, que era o melhor. Não affligiamos -minha mãe, e o tempo correria até o ponto -em que o casamento pudesse fazer-se. Ao contrario, -qualquer resistencia ao seminario confirmaria a -denuncia de José Dias. Esta reflexão não foi minha, -mas della.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XLIX" id="XLIX">XLIX</a></h5> - -<h4>Uma vela aos sabbados.</h4> - - -<p>Eis aqui como, após tantas canceiras, tocavamos -o porto a que nos deviamos ter abrigado logo. Não -nos censures, piloto de má sorte, não se navegam -corações como os outros mares deste mundo. Estavamos -contentes, entramos a falar do futuro. Eu -promettia a minha esposa uma vida socegada e -bella, na roça ou fóra da cidade. Viriamos aqui -uma vez por anno. Se fosse em arrabalde, seria -longe, onde ninguem nos fosse aborrecer. A casa, -na minha opinião, não devia ser grande nem pequena, -um meio termo; plantei-lhe flôres, escolhi -moveis, uma sege e um oratorio. Sim, haviamos de -ter um oratorio bonito, alto, de jacarandá, com a -imagem de Nossa Senhora da Conceição. Demorei-me -mais nisto que no resto, em parte porque eramos -religiosos, em parte para compensar a batina -que eu ia deitar as ortigas: mas ainda restava uma -parte que attribuo ao intuito secreto e inconsciente -de captara protecção do ceu. Haviamos de accender -uma vela aos sabbabos...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="L" id="L">L</a></h5> - -<h4>Um meio termo.</h4> - - -<p>Mezes depois fui para o seminario de S. José. -Se eu pudesse contar as lagrimas que chorei na -vespera e na manhã, sommaria mais que todas as -vertidas desde Adão e Eva. Ha nisto alguma exageração; -mas é bom ser emphatico, uma ou outra -vez, para compensar este escrupulo de exactidão -que me afflige. Entretanto, se eu me ativer só á -lembrança da sensação, não fico longe da verdade; -aos quinze annos, tudo é infinito. Realmente, por -mais preparado que estivesse, padeci muito. Minha -mãe tambem padeceu, mas soffria com alma e -coração; demais, o padre Cabral achára um meio -termo, experimentar-me a vocação; se no fim de -dous annos, eu não revelasse vocação ecclesiastica, -seguiria outra carreira.</p> - -<p>—As promessas devem ser cumpridas conforme -Deus quer. Supponha que Nosso Senhor nega disposição -a seu filho, e que o costume do seminario -não lhe dá o gosto que me concedeu a mim, é que -a vontade divina é outra. A senhora não podia pôr -em seu filho, antes de nascido, uma vocação que -Nosso Senhor lhe recusou...</p> - -<p>Era uma concessão do padre. Dava a minha mãe -um perdão antecipado, fazendo vir do credor a relevação -da divida. Os olhos della brilharam, mas a -bocca disse que não. José Dias, não tendo alcançado -ir commigo para a Europa, agarrou-se ao mais -proximo, e apoiou o «alvitre do Sr. protonotario»; -só lhe parecia que um anno era bastante.</p> - -<p>—Estou certo, disse elle, piscando-me o olho, -que dentro de um anno a vocação ecclesiastica do -nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. Ha de -dar um padre de mão cheia. Tambem se não vier -em um anno...</p> - -<p>E a mim, mais tarde, em particular:</p> - -<p>—Vá por um anno; um anno passa depressa. -Se não sentir gosto nenhum, é que Deus não quer, -como diz o padre, e nesse caso, meu amiguinho, o -melhor remedio é a Europa.</p> - -<p>Capitú deu-me egual conselho, quando minha -mãe lhe annunciou a minha ida definitiva para o -seminario:</p> - -<p>—Minha filha, você vae perder o seu companheiro -de creança...</p> - -<p>Fez-lhe tão bem este tratamento de <i>filha</i> (era a -primeira vez que minha mãe lh'o dava), que nem -teve tempo de ficar triste; beijou-lhe a mão, e -disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. Em -particular animou-me a supportar tudo com paciencia; -no fim de um anno as cousas estariam mudadas, -e um anno andava depressa. Não foi ainda a -nossa despedida; esta fez-se na vespera, por um -modo que pede capitulo especial. O que unicamente -digo aqui é que, ao passo que nos prendiamos um -ao outro, ella ia prendendo minha mãe, fez-se mais -assidua e terna, vivia ao pé della, com os olhos -nella. Minha mãe era de natural sympathico, e -egualmente sensivel; tanto se doía como se aprazia -de qualquer cousa. Entrou a achar em Capitú uma -porção de graças novas, de dotes finos e raros; -deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. -Não consentiu em photographar-se, como a pequena -lhe pedia, para lhe dar um retrato; mas tinha uma -miniatura, feita aos vinte e cinco annos, e, depois -de algumas hesitações, resolveu dar-lh'a. Os olhos -de Capitú, quando recebeu o mimo, não se descrevem; -não eram obliquos, nem de ressaca, eram -direitos, claros, lucidos. Beijou o retrato com paixão, -minha mãe fez-lhe a mesma cousa a ella. Tudo isto -me lembra a nossa despedida.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LI" id="LI">LI</a></h5> - -<h4>Entre luz e fusco.</h4> - - -<p>Entre luz e fusco, tudo ha de ser breve como esse -instante. Nem durou muito a nossa despedida, foi -o mais que pôde, em casa della, na sala de visitas, -antes do accender das velas; ahi é que nos despedimos -de uma vez. Jurámos novamente que -haviamos de casar um com outro, e não foi só o -aperto de mão que sellou o contracto, como no -quintal, foi a conjuncção das nossas boccas amorosas... -Talvez risque isto na impressão, se até lá não -pensar de outra maneira; se pensar, fica. E desde -já fica, porque, em verdade, é a nossa defesa. O -que o mandamento divino quer é que não juremos -<i>em vão</i> pelo santo nome de Deus. Eu não ia mentir -ao seminario, uma vez que levava um contracto -feito no proprio cartorio do ceu. Quanto ao sello, -Deus, como fez os mãos limpas, assim fez os labios -limpos, e a malicia está antes na tua cabeça perversa -que na daquelle casal de adolescentes... Oh! -minha doce companheira da meninice, eu era puro, -e puro fiquei, e puro entrei na aula de S. José, a -buscar de apparencia a investidura sacerdotal, e -antes della a vocação. Mas a vocação eras tu, a -investidura eras tu.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LII" id="LII">LII</a></h5> - -<h4>O velho Padua.</h4> - - -<p>Ja agora conto tambem os adeuses do velho Padua. -Logo cedo veiu á nossa casa. Minha mãe -disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.</p> - -<p>—Dá licença? perguntou mettendo a cabeça -pela porta.</p> - -<p>Fui apertar-lhe a mão; elle abraçou-me com ternura.</p> - -<p>—Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha -gente creia que ficam muitas saudades. Todos nós -estimamos muito o senhor, como merece. Se lhe -disserem outra cousa, não acredite. São intrigas. -Tambem eu, quando me casei, fui victima de intrigas; -desfizeram-se. Deus é grande e descobre a -verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio,—cousa -que eu, por esta luz que me allumia, não -desejo, porque são boas pessoas, excedentes pessoas, -e eu sou grato ás finezas recebidas... Não, eu -não sou como outros, certos parasitas, vindos de -fóra para desunião das familias, aduladores baixos, -não; eu sou de outra especie; não vivo papando os -jantares nem morando em casa alheia... Emfim, -são os mais felizes!</p> - -<p>—Porque falará assim? pensei. Naturalmente -sabe que José Dias diz mal delle.</p> - -<p>—Mas, como ia dizendo, se algum dia perder -os seus parentes, póde contar com a nossa companhia. -Não é sufficiente em importancia, mas a -affeição é immensa, creia. Padre que seja, a nossa -casa está ás suas ordens. Quero só que me não esqueça; -não esqueça o velho Padua...</p> - -<p>Suspirou e continuou:</p> - -<p>—Não esqueça o seu velho Padua, e, se tem -algum trapinho que me deixe em lembrança, um -caderno latino, qualquer cousa, um botão de collete, -cousa que já lhe não preste para nada. O valer é a -lembrança.</p> - -<p>Tive um sobresalto. Havia embrulhado em um -papel um cacho dos meus cabellos, tão grandes e -tão bonitos, cortados na vespera. A intenção era -leval-os a Capitú, ao sair; mas tive ideia de dal-o -ao pae, a filha saberia lomal-o e guardal-o. Peguei -do embrulho e dei-lh'o.</p> - -<p>—Aqui está, guarde.</p> - -<p>—Um cachinho dos seus cabellos! exclamou -Padua abrindo e fechando o embrulho. Oh! obrigado! -obrigado por mim e pela minha gente! Vou -dai-o á velha, para guardal-o, ou á pequena, que é -mais cuidadosa que a mãe. Que lindos que são! -Como é que se corta uma belleza destas? Dê cá um -abraço! outro! mais outro! adeus!</p> - -<p>Tinha os olhos humidos devéras; levava a cara -dos desenganados, como quem empregou em um só -bilhete todas as suas economias de esperanças, e vê -sair branco o maldito numero,—um numero tão -bonito!</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LIII" id="LIII">LIII</a></h5> - -<h4>A caminho!</h4> - - -<p>Fui para o seminario. Poupa-me as outras despedidas. -Minha mãe apertava-me ao peito. Prima -Justina suspirava. Talvez chorasse mal ou nada. -Ha pessoas a quem as lagrimas não acodem logo -nem nunca; diz-se que padecem mais que as outras. -Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos -intimos, emendando os descuidos de -minha mãe, fazendo-me recommendações, dando -ordens. Tio Cosme, quando eu lhe beijei a mão em -despedida, disse-me rindo:</p> - -<p>—Anda lá, rapaz, volta-me papa!</p> - -<p>José Dias, composto e grave, não dizia nada a -principio; tinhamos falado na vespera, no quarto -delle, onde fui ver se era ainda possivel evitar o -seminario. Já não era, mas deu-me esperanças e -principalmente animou-me muito. Antes de um -anno estariamos a bordo. Como eu achasse muito -breve, explicou-se.</p> - -<p>—Dizem que não é bom tempo de atravessar o -Atlantico, vou indagar; se não fôr, iremos em Março -ou Abril.</p> - -<p>—Posso estudar medicina aqui mesmo.</p> - -<p>José Dias correu os dedos pelos suspensorios com -um gesto de impaciencia, apertou os beiços, até que -formalmente rejeitou o alvitre.</p> - -<p>—Não duvidaria approvar a ideia, disse elle, se -na Escola de Medicina não ensinassem, exclusivamente, -a podridão allopatha. A allopathia é o erro -dos seculos, e vae morrer; é o assassinato, é a -mentira, é a illusão. Se lhe disserem que póde -apprender na Escola de Medicina aquella parte da -sciencia commum a todos os systemas, é verdade; -a allopathia é erro na therapeutica. Physiologia, -anatomia, pathologia, não são allopathicas nem -homeopathicas, mas é melhor apprender logo tudo -de uma vez, por livros e por lingua de homens cultores -da verdade...</p> - -<p>Assim falára na vespera e no quarto. Agora não -dizia nada, ou proferia algum aphorismo sobre a -religião e a familia; lembro-me deste: «Dividil-o -com Deus é ainda possuil-o.» Quando minha mãe -me deu o ultimo beijo: «Quadro amantissimo!» -suspirou elle. Era manhã de um lindo dia. Os moleques -cochichavam; as escravas tomavam a benção: -«Benção, nhõ Bentinho! não se esqueça de sua -Joanna! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!» -Na rua José Dias insistiu nas esperanças:</p> - -<p>—Aguente um anno; até lá tudo estará arranjado.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LIV" id="LIV">LIV</a></h5> - -<h4>Panegyrico de Santa Monica.</h4> - - -<p>No seminario... Ah! não vou contar o seminario, -nem me bastaria a isso um capitulo. Não, senhor -meu amigo; algum dia, sim, é possivel que componha -um abreviado do que alli vi e vivi, das -pessoas que tratei, dos costumes, de todo o resto. -Esta sarna de escrever, quando pega aos cincoenta -annos, não despega mais. Na mocidade é -possivel curar-se um homem della; e, sem ir mais -longe, aqui mesmo no seminario tive um companheiro -que compoz versos, a maneira dos de Junqueira -Freire, cujo livro de frade poeta era recente. -Ordenou-se: annos depois encontrei-o no còro de -S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos -novos.</p> - -<p>—Que versos? perguntou meio espantado.</p> - -<p>—Os seus. Pois não se lembra que no seminario...</p> - -<p>—Ah! sorriu elle.</p> - -<p>Sorriu, e continuando a procurar n'um livro -aberto a hora em que tinha do cantar no dia -seguinte, confessou-me que não fizera mais versos -depois de ordenado. Foram cocegas da mocidade; -coçou-se, passou, estava bom. E falou-me em prosa -de uma infinidade de cousas do dia, a vida cara, -um sermão do padre X... uma vigairaria mineira...</p> - -<p>Contrario a isso foi um seminarista que não -seguiu a carreira. Chamava-se... Não é preciso -dizer o nome; baste o caso. Tinha composto um -<i>Panegyrico de Santa Monica</i>, elogiado por algumas -pessoas e então lido entre os seminaristas. -Alcançou licença de imprimil-o, o dedicou-o a -Santo Agostinho. Tudo isso é historia velha; o -que é mais moço é que um dia, em 1882, -indo ver certo negocio em repartição de marinha, -alli dei com este meu collega, feito chefe de uma -secção administrativa. Deixára seminario, deixára -lettras, casára e esquecera tudo, menos o <i>Panegyrico -de Santa Monica</i>, umas vinte e nove paginas, -que veiu distribuindo pela vida fóra. Como eu precisasse -de algumas informações, fui pedir-lh'as, e -seria impossivel achar melhor nem mais prompta -vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso. Naturalmente -conversamos do passado, memorias pessoaes, -casos de estudo, incidentes de nada, um livro, -um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá -fóra, e rimos juntos, e suspiramos de companhia. -Vivemos algum tempo do nosso velho seminario. Ou -porque eram delle, ou porque eramos então moços, -as recordações traziam tal poder de felicidade que, -se alguma sombra contraria houve então, não appareceu -agora. Elle confessou-me que perdera de -vista todos os companheiros do seminario.</p> - -<p>—Tambem eu, quasi todos; uma vez ordenados, -voltaram naturalmente ás suas provincias, e os -daqui tomaram vigairarias fóra.</p> - -<p>—Bom tempo! suspirou elle.</p> - -<p>E, após alguma reflexão, fitando em mim uns -olhos murchos e teimosos, perguntou-me:</p> - -<p>—Conservou o meu <i>Panegyrico?</i></p> - -<p>Não achei que dizer; tentei mover os beiços, mas -não tinha palavra; afinal, perguntei:</p> - -<p>—Panegyrico? Que panegyrico?</p> - -<p>—O meu <i>Panegyrico de Santa Monica.</i></p> - -<p>Não me lembrou logo, mas a explicação devia -bastar; e depois de alguns instantes de pesquiza -mental, respondi que por muito tempo o conservára, -mas as mudanças, as viagens...</p> - -<p>—Hei de levar-lhe um exemplar.</p> - -<p>Antes de vinte e quatro horas estava em minha -casa, com o folheto, um velho folheto de vinte e seis -annos, encardido, manchado do tempo, mas sem -lacuna, e com uma dedicatoria manuscripta e respeitosa.</p> - -<p>—E o penultimo exemplar, disse-me; agora só -me resta um, que não posso dar a ninguem.</p> - -<p>E como me visse folhear o opusculo:</p> - -<p>—Veja se lhe lembra algum pedaço, disse-me.</p> - -<p>Vinte e seis annos de intervallo fazem morrer -amizades mais estreitas e assiduas, mas era cortezia, -era quasi caridade recordar alguma lauda; li -uma dellas, accentuando certas phrases para lhe -dar a impressão de que achavam echo em minha -memoria. Concordou que fossem bellas, mas preferia -outras, e apontou-as.</p> - -<p>—Recorda-se bem?</p> - -<p>—Perfeitamente. <i>Panegyrico de Santa Monica!</i> -Como isto me faz remontar os annos da minha -mocidade! Nunca me esqueceu o seminario, creia. -Os annos passam, os acontecimentos vêm uns sobre -outros, e as sensações tambem, e vieram amizades -novas, que tambem se foram depois, como é lei da -vida... Pois, meu caro collega, nada fez apagar -aquelle tempo da nossa convivencia, os padres, as -licções, os recreios... os nossos recreios, lembra-se? -o padre Lopes, oh! o padre Lopes...</p> - -<p>Elle, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e -naturalmente ouvia, mas só me disse uma palavra, -e ainda assim depois de algum tempo de silencio, -recolhendo os olhos e um suspiro!</p> - -<p>—Tem agradado muito este meu <i>Panegyrico!</i></p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LV" id="LV">LV</a></h5> - -<h4>Um soneto.</h4> - - -<p>Dita a palavra, apertou-me as mãos com as forças -todas de um vasto agradecimento, despediu-se -e saiu. Fiquei só com o <i>Panegyrico</i>, e o que as -folhas delle me lembraram foi tal que merece um -capitulo ou mais. Antes, porém, e porque tambem -eu tive o meu <i>Panegyrico</i>, contarei a historia de -um soneto que nunca fiz; era no tempo do seminario, -e o primeiro verso é o que ides ler:</p> - -<p style="margin-left: 10%;"> - Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!<br /> -</p> - -<p>Como e porque me saiu este verso da cabeça, -não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma -exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida -de verso, pensei em compòr com elle alguma cousa, -um soneto. A insonmia, musa de olhos arregalados, -não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as -cocegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. -Não escolhi logo, logo o soneto; a principio cuidei -de outra fórma, e tanto de rima como de verso solto, -mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve -e prestadio. Quanto á ideia, o primeiro verso não -era ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia -viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol, -tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe que sente -o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir -com aquelle monge da Bahia, pouco antes revelado, -e então na moda; eu, seminarista, diria em -verso as minhas tristezas, como elle dissera as suas -no claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em -voz baixa, aos lençóes; francamente, achava-o bonito, -e ainda agora não me parece máu:</p> - -<p style="margin-left: 10%;"> - Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!<br /> -</p> - -<p>Quem era a flòr? Capitú, naturalmente; mas podia -ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro -conceito a que coubesse a metaphora da flòr, e flòr -do ceu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso, -e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; -atinai deixei-me estar de costas, com os -olhos no tecto, mas nem assim vinha mais nada. -Então adverti que os sonetos mais gabados eram -os que concluiam com chave de ouro, isto é, um -desses versos capitaes no sentido e na fórma. Pensei -em forjar uma de taes chaves, considerando que -o verso final, saindo chronologicamente dos treze -anteriores, com difficuldade traria a perfeição louvada; -imaginei que taes chaves eram fundidas antes -da fechadura. Assim foi que me determinei a compôr -o ultimo verso do soneto, e, depois de muito suar, -saiu este:</p> - -<p style="margin-left: 10%;"> - Perde-se a vida, ganha-se a batalha!<br /> -</p> - -<p>Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, -era um verso magnifico. Sonoro, não ha duvida. -E tinha um pensamento, a victoria ganha á custa da -propria vida, pensamento alevantado e nobre. Que -não fosse novidade, é possivel, mas tambem não era -vulgar; e ainda agora não explico por que via mysteriosa -entrou n'uma cabeça de tão poucos annos. -Naquella occasião achei-o sublime. Recitei uma e -muitas vezes a chave de ouro; depois repeti os dous -versos seguidamente, e dispuz-me a ligal-os pelos -doze centraes. A ideia agora, á vista do ultimo verso, -pareceu-me melhor não ser Capitú; seria a justiça. -Era mais proprio dizer que, na pugna pela justiça, -perder-se-hia acaso a vida, mas a batalha ficava -ganha. Tambem me occorreu acceitar a batalha, no -sentido natural, e fazer della a lula pela patria, por -exemplo; nesse caso a flor do ceu seria a liberdade. -Esta accepção, porém, sendo o poeta um seminarista, -podia não caber tanto como a primeira, e -gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. -Achei melhor a justiça, mas afinal acceitei definitivamente -uma ideia nova, a caridade, e recitei os -dous versos, cada um a sou modo, um languidamente:</p> - -<p style="margin-left: 10%;"> - Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!<br /> -</p> - -<p>e o outro com grande brio:</p> - -<p style="margin-left: 10%;"> - Perde-se a vida, ganha-se a batalha!<br /> -</p> - -<p>A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. -Começar bem e acabar bem não era pouco. -Para me dar um banho de inspiração, evoquei -alguns sonetos celebres, e notei que os mais delles -eram facilimos; os versos saíam uns dos outros, -com a ideia em si, tão naturalmente, que se não acabava -de crer se ella é que os fizera, se elles é que -a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente -repetia o primeiro verso e esperava o segundo; -o segundo não vinha, nem terceiro, nem -quarto; não vinha nenhum. Tive alguns impetos -de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama -e ir ver tinta e papel; póde ser que, escrevendo, -os versos acudissem, mas...</p> - -<p>Cançado de esperar, lembrou-me alterar o sentido -do ultimo verso, com a simples transposição do -duas palavras, assim:</p> - -<p style="margin-left: 10%;"> - Ganha-se a vida, perde-se a batalha!<br /> -</p> - -<p>O sentido vinha a ser justamente o contrario, -mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste -caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, -póde-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do -ceu. Criei forças novas o esperei. Não tinha janella; -se tivesse, é possivel que fosse pedir uma ideia á -noite. E quem sabe se os vagalumes, luzindo cá em -baixo, não seriam para mim como rimas das estrellas, -e esta viva metaphora não me daria os versos -esquivos, com os seus consoantes e sentidos proprios?</p> - -<p>Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não -vieram os versos. Pelo tempo adeante escrevi algumas -paginas em prosa, e agora estou compondo -esta narração, não achando maior difficuldade que -escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me -consola daquelle soneto que não fiz. Mas, como eu -creio que os sonetos existem feitos, como as odes e -os dramas, e as demais obras de arte, por uma -razão de ordem metaphysica, dou esses dous versos -ao primeiro desoccupado que os quizer. Ao domingo, -ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer -occasião de lazer, póde tentar ver se o soneto -sae. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro -que falta.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LVI" id="LVI">LVI</a></h5> - -<h4>Um seminarista.</h4> - - -<p>Tudo me ia repetindo o diabo do opusculo, com -as suas lettras velhas e citações latinas. Vi sair -daquellas folhas muitos perfis de seminaristas, os -irmãos Albuquerques, por exemplo, um dos quaes -é conego na Bahia, emquanto o outro seguiu medicina -e dizem haver descoberto um especifico contra -a febre amarella. Vi o Bastos, um magricella, que -está de vigario em Meia-Ponte, se não morreu já; -Luiz Borges, apesar de padre, fez-se politico, e -acabou senador do imperio... Quantas outras caras -me fitavam das paginas frias do <i>Panegyrico!</i> Não, -não eram frias; traziam o calor da juventude nascente, -o calor do passado, o meu proprio calor. -Queria lel-as outra vez, e lograva entender algum -texto, tão recente como no primeiro dia, ainda que -mais breve. Era um encanto ir por elle; ás vezes, -inconscientemente, dobrava a folha como se estivesse -lendo de verdade; creio que era quando os -olhos me caíam na palavra do fim da pagina, e a -mão, acostumada a ajudal-os, faziam o seu officio...</p> - -<p>Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel -de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos -claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os -pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse -acostumado com elle podia acaso sentir-se mal, não -sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, -não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam -as outras, nem se deixavam apertar dellas, -porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando -a gente cuidava tel-os entre os seus, já não tinha -nada. O mesmo digo dos pés, que tão depressa estavam -aqui como lá. Esta difficuldade em pousar foi -o maior obstaculo que achou para tomar os costumes -do seminario. O sorriso era instantaneo, mas -tambem ria folgado e largo. Uma cousa não seria -tão fugitiva, como o resto, a reflexão; iamos dar -com elle, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando. -Respondia-nus sempre que meditava algum ponto -espiritual, ou então que recordava a licção da vespera. -Quando elle entrou na minha intimidade -pedia-me frequentemente explicações e repetições -miudas, e tinha memoria para guardal-as todas, até -as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse -alguma outra.</p> - -<p>Era mais velho que eu trez annos, filho de um -advogado de Corityba, aparentado com um commerciante -do Rio de Janeiro, que servia de correspondente -ao pae. Este era homem de fortes sentimentos -catholicos. Escobar tinha uma irmã, que era -um anjo, dizia elle.</p> - -<p>—Não é só na belleza que é um anjo, mas tambem -na bondade. Não imagina que boa creatura que -ella é. Escreve-me muita vez, hei de mostrar-lhe as -cartas della.</p> - -<p>De facto, eram simples e affectuosas, cheias de -caricias e conselhos. Escobar contava-me historias -della, interessantes, todas as quaes vinham a dar -na bondade e no espirito daquella creatura; taes -eram que me fariam capaz de acabar casando com -ella, se não fosse Capitú. Morreu pouco depois. Eu, -seduzido pelas palavras delle, estive quasi a contar-lhe -logo, logo, a minha historia. A principio fui -timido, mas elle fez-se entrado na minha confiança. -Aquelles modos fugitivos cessavam quando elle -queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. -Escobar veiu abrindo a alma toda, desde a -porta da rua até ao fundo do quintal. A alma da -gente, como sabes, e uma casa assim disposta, não -raro com janellas para todos os lados, muita luz e -ar puro. Tambem as ha fechadas e escuras, sem -janellas, ou com poucas e gradeadas, á semelhança -de conventos o prisões. Outrosim, capellas e bazares, -simples alpendres ou paços sumptuosos.</p> - -<p>Não sei o que era a minha. Eu não era ainda -casmurro, nem dom casmurro; o receio é que me -tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham -chaves nem fechaduras, bastava empurral-as, e Escobar -empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá -ficou, até que...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LVII" id="LVII">LVII</a></h5> - -<h4>De preparação.</h4> - - -<p>Ah! mas não eram só os seminaristas que me iam -saindo daquellas folhas velhas do <i>Panegyrico.</i> Ellas -me trouxeram tambem sensações passadas, taes e -tantas que eu não poderia dizel-as todas, sem tirar -espaço ao resto. Uma dessas, e das primeiras, quizera -contal'a aqui eu latim. Não é que a materia -não ache termos honestos em nossa lingua, que é -casta para os castos, como póde ser torpe para os -torpes. Sim, leitora castissima, como diria o meu -finado José Dias, podeis ler o capitulo até ao fim, sem -susto nem vexame.</p> - -<p>Já agora metto a historia em outro capitulo. Por -mais composto que este me saia, ha sempre no -assumpto alguma cousa menos austera, que pede -umas linhas de repouso e preparação. Sirva este de -preparação. E isto é muito, leitor meu amigo; o -coração, quando examina a possibilidade do que -ha de vir. as proporções dos acontecimentos e a -copia delles, fica robusto e disposto, e o mal é -menor mal. Tambem, se não fica então, não fica -nunca. E aqui verás tal ou qual esperteza minha; -porquanto, ao ler o que vás ler, é provavel que o -aches menos cru do que esperavas.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LVIII" id="LVIII">LVIII</a></h5> - -<h4>O tratado.</h4> - - -<p>Foi o caso que, uma segunda-feira, voltando eu -para o seminario, vi cair na rua uma senhora. O -meu primeiro gesto, em tal caso, devia ser de pena -ou de riso; não foi uma nem outra cousa, porquanto -(e é isto que eu quizera dizer em latim) porquanto, -a senhora tinha as meias mui lavadas, e -não as sujou, levava ligas de seda, e não as perdeu. -Varias pessoas acudiram, mas não tiveram tempo -de a levantar; ella ergueu-se muito vexada, sacudiu-se, -agradeceu, e enfiou pela rua proxima.</p> - -<p>—Este gosto de imitar as francezas da rua do -Ouvidor, dizia-me José Dias andando e commentando -a queda, é evidentemente um erro. As nossas -moças devem andar como sempre andaram, com -sou vagar e paciencia, e não este tique-tique afrancezado...</p> - -<p>Eu mal podia ouvil-o. As meias e as ligas da -senhora branqueavam e enroscavam-se deante de -mim, e andavam, caíam, erguiam-se e iam-se embora. -Quando chegámos á esquina, olhei para a -outra rua, e vi, a distancia, a nossa desastrada, que -ia no mesmo passo, tique-tique, tique-tique...</p> - -<p>—Parece que não se machucou, disse eu.</p> - -<p>—Tanto melhor para ella, mas é impossivel que -não tenha arranhado os joelhos; aquella presteza é -manha...</p> - -<p>Creio que foi «manha» que elle disse; eu fiquei -«nos joelhos arranhados». Dalli em deante, até o -seminario, não vi mulher na rua, a quem não desejasse -uma quéda; a algumas adivinhei que trazia -as meias esticadas e as ligas, justas... Tal haveria -que nem levasse meias... Mas eu as via com ellas... -Ou então... Tambem é possivel...</p> - -<p>Vou esgarçando isto com reticencias, para dar -uma ideia das minhas ideias, que eram assim diffusas -e confusas; com certeza não dou nada. A -cabeça ia-me quente, e o andar não era seguro. No -seminario, a primeira hora foi insupportavel. As -batinas traziam ar de saias, e lembravam-me a -quéda da senhora. Já não era uma só que eu via -cair; todas as que eu encontrara na rua, mostravam-me -agora de relance as ligas azues; eram -azues. De noite, sonhei com ellas. Uma multidão de -abominaveis creaturas veiu andar á roda de mim, -tique-tique... Eram bellas, umas finas, outras grossas, -todas ageis como o diabo. Accordei, busquei -afugental-as com esconjuros e outros methodos, mas -tão depressa dormi como tornaram, e, com as mãos -presas em volta de mim, faziam um vasto circulo de -saias, ou, trepadas no ar, choviam pés e pernas -sobre a minha cabeça. Assim fui até madrugada. -Não dormi mais; rezei padre-nossos, ave-marias, e -credos, e sendo este livro a verdade pura, é força -confessar que tive de interromper mais de uma vez -as minhas orações para acompanhar no escuro uma -figura ao longe, tique-tique, tique-tique... Pegava -depressa na oração, sempre no meio para concertal-a -bem, como se não tivesse havido interrupção, -mas certamente não unia a phrase nova á antiga.</p> - -<p>Vindo o mal pela manha adeante, tentei vencel-o, -mas por um modo que o não perdesse de todo. -Sabios da escriptura, adivinhai o que podia ser. -Foi isto. Não podendo rejeitar de mim aquelles -quadros, recorri a um tratado entre a minha consciencia -e a minha imaginação. As visões feminis -seriam de ora avante consideradas como simples -encarnações dos vicios, e por isso mesmo contemplaveis, -como o melhor modo de temperar o caracter -e aguerril-o para os combates asperos da vida. Não -formulei isto por palavras, nem fui preciso; o contracto -fez-se tacitamente, com alguma repugnancia, -mas fez-se. E por alguns dias, era eu mesmo que -evocava as visões para fortalecer-me, e não as rejeitava, -senão quando ellas mesmas, de cançadas, se -iam embora.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LIX" id="LIX">LIX</a></h5> - -<h4>Convivas de boa memoria.</h4> - - -<p>Ha dessas reminiscencias que não descançam -antes que a penna ou a lingua as publique. Um -antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memoria. -A vida é cheia de taes convivas, e eu sou -acaso um delles, comquanto a prova de ter a memoria -fraca seja exactamente não me acudir agora -o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.</p> - -<p>Não, não, a minha memoria não é boa. Ao contrario, -é comparavel a alguem que tivesse vivido -por hospedarias, sem guardar dellas nem caras nem -nomes, e sómente raras circumstancias. A quem -passe a vida na mesma casa de familia, com os seus -eternos moveis e costumes, pessoas e affeições, é que -se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. -Como eu invejo os que não esqueceram a còr das -primeiras calças que vestiram! Eu não atino com -a das que enfiei hontem. Juro só que não eram amarellas -porque execro essa côr; mas isso mesmo póde -ser olvido e confusão.</p> - -<p>E antes seja olvido que confusão; explico-me. -Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo -se póde metter nos livros omissos. Eu, quando leio -algum desta outra casta, não me afflijo nunca. O -que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e -evocar todas as cousas que não achei nelle. Quantas -ideias finas me acodem então! Que de reflexões -profundas! Os rios, as montanhas, as egrejas que -não vi nas folhas lidas, todos me apparecem agora -com as suas aguas, as suas arvores, os seus altares, -e os generaes sacam das espadas que tinham -ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que -dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma -imprevista.</p> - -<p>É que tudo se acha fóra de um livro falho, leitor -amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim -pódes tambem preencher as minhas.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LX" id="LX">LX</a></h5> - -<h4>Querido opusculo!</h4> - - -<p>Assim fiz eu ao <i>Panegyrico de Santa Monica</i>, -e fiz mais: puz-lhe não só o que faltava da santa, -mas ainda cousas que não eram della. Viste o soneto, -as meias, as ligas, o seminarista Escobar e -varios outros. Vás agora ver o mais que naquelle -dia me foi saindo das paginas amarellas do opusculo.</p> - -<p>Querido opusculo, tu não prestavas para nada, -mas que mais presta um velho par de chinellas? -Entretanto, ha muita vez no casal de chinellas um -como aroma e calor de dous pés. Gastas e rotas, -não deixam de lembrar que uma pessoa as calçava -de manhã, ao erguer da cama, ou as descalçava á -noite, ao entrar nella. E se a comparação não vale, -porque as chinellas são ainda uma parte da pessoa -e tiveram o contacto dos pés, aqui estão outras -lembranças, como a pedra da rua, a porta da casa, -um assobio particular, um prégão de quitanda, -como aquelle das cocadas que contei no cap. XVIII. -Justamente, quando contei o prégão das cocadas, -fiquei tão curtido de saudades que me lembrou -fazel-o escrever por um amigo, mestre de musica, e -grudal-o ás pernas do capitulo. Se depois jarretei o -capitulo, foi porque outro musico, a quem o mostrei, -me confessou ingenuamente não achar no trecho -escripto nada que lhe accordasse saudades. Para -que não aconteça o mesmo aos outros profissionaes -que por ventura me lerem, melhor é poupar ao -editor do livro o trabalho e a despeza da gravura. -Vès que não puz nada, nem ponho. Já agora creio -que não basta que os pregões de rua, como os -opusculos de seminario, encerrem casos, pessoas e -sensações; é preciso que a gente os tenha conhecido -e padecido no tempo, sem o que tudo é calado -e incolor.</p> - -<p>Mas, vamos ao mais que me foi saindo das paginas -amarellas.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXI" id="LXI">LXI</a></h5> - -<h4>A vacca de Homero.</h4> - - -<p>O mais foi muito. Vi sairem os primeiros dias da -separação, duros e opacos, sem embargo das palavras -de conforto que me deram os padres e os seminaristas, -e as de minha mãe e tio Cosme, trazidas -por José Dias ao seminario.</p> - -<p>—Todos estão saudosos, disse-me este, mas a -maior saudade está naturalmente no maior dos -corações; e qual é elle? perguntou escrevendo a -resposta nos olhos.</p> - -<p>—Mamãe, acudi eu.</p> - -<p>José Dias apertou-me as mãos com alvoroço, e -logo pintou a tristeza de minha mãe, que falava -de mim todos os dias, quasi a todas as horas. Como -a approvasse sempre, e accrescentasse alguma palavra -relativamente aos dotes que Deus me dera, -o desvanecimento de minha mãe nessas occasiões -era indescriptivel; e contava-me tudo isso cheio de -uma admiração lacrimosa. Tio Cosme tambem se -enternecia muito.</p> - -<p>—Hontem até se deu um caso interessante. -Tendo eu dito á Excellentissima que Deus lhe dera, -não um filho, mas um anjo do ceu, o doutor ficou -tão commovido que não achou outro modo de vencer -o choro senão fazendo-me um daquelles elogios de -galhofa que só elle sabe. Não é preciso dizer que -D. Gloria enxugou furtivamente uma lagrima. Ou -ella não fosse mãe! Que coração amantissimo!</p> - -<p>—Mas, Sr. José Dias, e a minha saida daqui?</p> - -<p>—Isso é negocio meu. A viagem á Europa é o -que é preciso, mas póde fazer-se daqui a um ou -dous annos, em 1859 ou 1860...</p> - -<p>—Tão tarde!</p> - -<p>—Era melhor que fosse este mesmo anno, mas -demos tempo ao tempo. Tenha paciencia, vá estudando, -não se perde nada em ir sabendo já daqui -alguma cousa; e, demais, ainda não acabando -padre, a vida do seminario é util, e vale sempre -entrar no mundo ungido com os santos oleos da -theologia...</p> - -<p>Neste ponto,—lembra-me como se fosse hoje,—os -olhos de José Dias fulguraram tão intensamente -que me encheram de espanto. As palpebras -cairam depois, e assim ficaram por alguns instantes, -até que novamente se ergueram, e os olhos -fixaram-se na parede do palco, como que embebidos -em alguma cousa, se não era em si mesmos; -depois despegaram-se da parede e entraram a -vagar pelo pateo todo. Podia comparal-o aqui á -vacca de Homero; andava e gemia em volta da -cria que acabava de parir. Não lhe perguntei o que -é que tinha, já por acanhamento, já porque dous -lentes, um delles de theologia, vinham caminhando -na nossa direcção. Ao passarem por nós, o aggregado, -que os conhecia, cortejou-os com as deferencias -devidas, e pediu-lhes noticias minhas.</p> - -<p>—Por ora nada se póde affiançar, disse um -delles, mas parece que dará conta da mão.</p> - -<p>—É o que eu lhe dizia agora mesmo, acudiu -José Dias. Conto ouvir-lhe a missa nova; mas ainda -que não chegue a ordenar-se, não póde ter melhores -estudos que os que fizer aqui. Para a viagem da -existencia, concluiu demorando mais as palavras, -irá ungido com os santos oleos da theologia...</p> - -<p>Desta vez a fulguração dos olhos foi menor, as -palpebras não lhe cairam nem as pupillas fizeram -os movimentos anteriores. Ao contrario, todo elle -era attenção e interrogação; quando muito, um -sorriso claro e amigo lhe errava nos labios. O lente -de theologia gostou da metaphora, e disse-lh'o; elle -agradeceu, explicando que eram ideias que lhe -escapavam no correr da conversação; não escrevia -nem orava. Eu é que não gostei nada; e logo que -os lentes se foram, sacudi a cabeça:</p> - -<p>—Não quero saber dos santos oleos da theologia; -desejo sair daqui o mais cedo que puder, ou -já...</p> - -<p>—Já, meu anjo, não póde ser; mas póde succeder -que muito antes do que imaginamos. Quem -sabe se este mesmo anno de 58? Tenho um plano -feito, e penso já nas palavras com que hei de expôl-o -a D. Gloria; estou certo que ella cederá e irá -comnosco.</p> - -<p>—Duvido que mamãe embarque.</p> - -<p>—Veremos. Mãe é capaz de tudo; mas, com ella -ou sem ella, tenho por certa a nossa ida, e não -haverá esforço que eu não empregue, deixe estar. -Paciencia é que é preciso. E não faça aqui nada -que dê logar a censuras ou queixas; muita docilidade -e toda a apparente satisfação. Não ouviu o -elogio do lente? E que você tem-se portado bem. -Pois continue.</p> - -<p>—Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.</p> - -<p>—Será este anno, replicou José Dias.</p> - -<p>—Daqui a tres mezes?</p> - -<p>—Ou seis.</p> - -<p>—Não; tres mezes.</p> - -<p>—Pois sim. Tenho agora um plano, que me -parece melhor que outro qualquer. É combinar a -ausencia de vocação ecclesiastica e a necessidade -de mudar de ares. Você porque não tosse?</p> - -<p>—Por que não tusso?</p> - -<p>—Já, já, não, mas eu hei de avisar você para -tossir, quando fôr preciso, aos poucos, uma tossesinha -secca, e algum fastio; eu irei preparando a -Excellentissima... Oh! tudo isto é em beneficio -della. Uma vez que o filho não póde servir a egreja, -como deve ser servida, o melhor modo de cumprir -a vontade de Deus é dedical-o a outra cousa. O -mundo tambem é egreja para os bons...</p> - -<p>Pareceu-me outra vez a vacca de Homero, como -se este «mundo tambem é egreja para os bons», -fosse outro bezerro, irmão dos «santos oleos da -theologia.» Mas não dei tempo á ternura materna, -e repliquei:</p> - -<p>—Ah! entendo! mostrar que estou doente para -embarcar, não é?</p> - -<p>José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:</p> - -<p>—Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, -eu ha mezes que desconfio do seu peito. Você -não anda bom do peito. Em pequeno, teve umas -febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas ha dias -em que está mais descorado. Não digo que já seja o -mal, mas o mal póde vir depressa. N'uma hora cae -a casa. Por isso, se aquella santa senhora não quizer -ir comnosco,—ou para que vá mais depressa, -acho que uma boa tosse... Se a tosse ha de vir de -verdade, melhor é apressal-a... Deixe estar, eu -aviso...</p> - -<p>—Bem, mas em saindo daqui não ha de ser -para embarcar logo; saio primeiro, depois cuidaremos -do embarque; o embarque é que póde ficar -para o anno. Não dizem que o melhor tempo é abril -ou maio? Pois seja maio. Primeiro deixo o seminario, -daqui a dous mezes...</p> - -<p>E porque a palavra me estivesse a pigarrear na -garganta, dei uma volta rapida, e perguntei-lhe á -queima-roupa:</p> - -<p>—Capitú como vae?</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXII" id="LXII">LXII</a></h5> - -<h4>Uma ponta de Iago.</h4> - - -<p>A pergunta era imprudente, na occasião em que -eu cuidava de transferir o embarque. Equivalia a -confessar que o motivo principal ou unico da minha -repulsa ao seminario era Capitú, e fazer crer improvavel -a viagem. Comprehendi isto depois que falei; -quiz emendar-me, mas nem soube como, nem elle -me deu tempo.</p> - -<p>—Tem andado alegre, como sempre; é uma -tontinha. Aquillo emquanto não pegar algum -peralta da visinhança, que case com ella...</p> - -<p>Estou que empallideci; pelo menos, senti correr -um frio pelo corpo todo. A noticia de que ella vivia -alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me -aquelle effeito, acompanhado de um bater -de coração, tão violento, que ainda agora cuido -ouvil-o. Ha alguma exageração nisto; mas o discurso -humano é assim mesmo, um composto de -partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, -ajustando-se. Por outro lado, se entendermos -que a audiencia aqui não é das orelhas, -senão da memoria, chegaremos á exacta verdade. A -minha memoria ouve ainda agora as pancadas do -coração naquelle instante. Não esqueças que era a -emoção do primeiro amor. Estive quasi a perguntar -a José Dias que me explicasse a alegria de Capitú, -o que é que ella fazia, se vivia rindo, cantando ou -pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra -ideia...</p> - -<p>Outra ideia, não,—um sentimento cruel e desconhecido, -o puro ciume, leitor das minhas entranhas. -Tal foi o que me mordeu, ao repetir commigo -as palavras de José Dias: « Algum peralta da -visinhança.» Em verdade, nunca pensara em tal -desastre. Vivia tão nella, della e para ella, que a -intervenção de um peralta era como uma noção sem -realidade; nunca me acudiu que havia peraltas na -visinhança, vária idade e feitio, grandes passeadores -das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam -para Capitú,—e tão senhor me sentia della que era -como se olhassem para mim, um simples dever de -admiração e de inveja. Separados um do outro pelo -espaço e pelo destino, o mal apparecia-me agora, -não só possivel, mas certo. E a alegria de Capitú -confirmava a suspeita; se ella vivia alegre é que já -namorava a outro, acompanhal-o-hia com os olhos -na rua, falar-lhe-hia á janella, ás ave-marias, trocariam -flores e...</p> - -<p>E... que? Sabes o que é que trocariam mais; se -o não achas por ti mesmo, escusado é ler o resto do -capitulo e do livro, não acharás mais nada, ainda -que eu o diga com todas as lettras da etymologia. -Mas se o achaste, comprehenderás que eu, depois -de estremecer, tivesse um impeto de atirar-me pelo -portão fora, descer o resto da ladeira, correr, chegar -a casa do Padua, agarrar Capitú e intimar-lhe -que me confessasse quantos, quantos, -quantos já lhe dera o peralta da visinhança. Não fiz -nada. Os mesmos sonhos que ora conto não tiveram, -naquelles tres ou quatro minutos, esta logica -de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados -e mal emendados, com o desenho truncado e -torto, uma confusão, um turbilhão, que me cegava -e ensurdecia. Quando tornei a mim, José Dias -concluía uma phrase, cujo principio não ouvi, e o -mesmo fim era vago: «A conta que dará de si.» -Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava -ainda de Capitú, e quiz perguntar-lh'o, mas a vontade -morreu ao nascer, como tantas outras gerações -dellas. Limitei-me a inquirir do aggregado quando -é que iria a casa ver minha mãe.</p> - -<p>—Estou com saudades de mamãe. Posso ir já -esta semana?</p> - -<p>—Vae sabbado.</p> - -<p>—Sabbado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que -me mande buscar sabbado! Sabbado! Este sabbado, -não? Que me mande buscar, sem falta.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXIII" id="LXIII">LXIII</a></h5> - -<h4>Metades de um sonho.</h4> - - -<p>Fiquei ancioso pelo sabbado. Até lá os sonhos -perseguiam-me, ainda accordado, e não os digo -aqui para não alongar esta parte do livro. Um só -ponho, e no menor numero de palavras, ou antes -porei dous, porque um nasceu de outro, a não ser -que ambos formem duas metades de um só. Tudo isto -é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso -sexo, que perturbava assim a adolescencia de um -pobre seminarista. Não fosse elle, e este livro seria -talvez uma simples pratica parochial, se eu fosse -padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma encyclica, -se papa, como me recommendára tio Cosme: «Anda -lá, meu rapaz, volta-me papa!» Ah! porque não -cumpri esse desejo? Depois de Napoleão, tenente -e imperador, todos os destinos estão neste seculo.</p> - -<p>Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar -os peraltas da visinhança, vi um destes que conversava -com a minha amiga ao pé da janella. Corri ao -logar, elle fugiu; avancei para Capitú, mas não -estava só, tinha o pae ao pé de si, enxugando os -olhos e mirando um triste bilhete de loteria. Não -me parecendo isto claro, ia pedir a explicação, -quando elle de si mesmo a deu; o peralta fôra -levar-lhe a lista dos premios da loteria, e o bilhete -saira branco. Tinha o numero 4004. Disse-me que -esta symetria de algarismos era mysteriosa e bella, -e provavelmente a roda andára mal; era impossivel -que não devesse ter a sorte grande. Emquanto elle -falava, Capitú dava-me com os olhos todas as sortes -grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada -com a bocca. E aqui entra a segunda parte do -sonho. Padua desappareceu, como as suas esperanças -do bilhete. Capitú inclinou-se para fóra, eu -relancei do olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe -nas mãos, resmunguei não sei que palavras, e -accordei sósinho no dormitorio.</p> - -<p>O interesse do que acabas de ler não está na -materia do sonho, mas nos esforços que fiz para -ver se dormia novamente e pegava nelle outra vez. -Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação -que empreguei em fechar os olhos, apertal-os -bem, esquecer tudo para dormir, mas não dormia. -Esse mesmo trabalho fez-me perder o somno até á -madrugada. Sobre a madrugada, consegui concilial-o, -mas então nem peraltas, nem bilhetes de loteria, -nem sortes grandes ou pequenas,--nada dos -nadas veiu ter commigo. Não sonhei mais aquella -noite, e dei mal as licções daquelle dia.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXIV" id="LXIV">LXIV</a></h5> - -<h4>Uma ideia e um escrupulo.</h4> - - -<p>Relendo o capitulo passado, acóde-me uma ideia -e um escrupulo. O escrupulo é justamente de escrever -a ideia, não a havendo mais banal na terra, -posto que daquella banalidade do sol e da lua, que -o ceu nos dá todos os dias e todos os mezes. Deixei -o manuscripto, e olhei para as paredes. Sabes que -esta casa do Engenho Novo, nas dimensões, disposições -e pinturas, é reproducção da minha antiga -casa de Matacavallos. Outrosim, como te disse no -capitulo II, o meu fim em imitar a outra foi ligar -as duas pontas da vida, o que aliás não alcancei. -Pois o mesmo succedeu áquelle sonho do seminario, -por mais que tentasse dormir e dormisse. Donde -concluo que um dos officios do homem é fechar e -apertar muito os olhos, a ver se continua pela noite -velha o sonho truncado da noite moça. Tal é a ideia -banal e nova que eu não quizera pôr aqui, e só provisoriamente -a escrevo.</p> - -<p>Antes de concluir este capitulo, fui á janella -indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser -assim tão tenues que se esgarçam ao menor abrir -de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. -A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente -bella, os morros pallejavam de luar e o espaço -morria de silencio. Como eu insistisse, declarou-me -que os sonhos já não pertencem á sua jurisdicção. -Quando elles moravam na ilha que Luciano lhes -deu, onde ella tinha o seu palacio, e donde os fazia -sair com as suas caras de varia feição, dar-me-hia -explicações possiveis. Mas os tempos mudaram -tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os -modernos moram no cerebro da pessoa. Estes, -ainda que quizessem imitar os outros, não poderiam -fazel-o; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como -todas as ilhas de todos os mares, são agora objecto -da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados-Unidos.</p> - -<p>Era uma allusão ás Fillipinas. Pois que não amo -a politica, e ainda menos a politica internacional, -fechei a janella e vim acabar este capitulo para ir -dormir. Não peço agora os sonhos de Luciano, nem -outros, filhos da memoria ou da digestão; basta-me -um somno quieto e apagado. De manhã, com a -fresca, irei dizendo o mais da minha historia e suas -pessoas.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXV" id="LXV">LXV</a></h5> - -<h4>A dissimulação.</h4> - - -<p>Chegou o sabbado, chegaram outros sabbados, e -eu acabei affeiçoando-me á vida nova. Ia alternando -a casa e o seminario. Os padres gostavam de -mim, os rapazes tambem, e Escobar mais que os -rapazes e os padres. No fim de cinco semanas estive -quasi a contar a este as minhas penas e esperanças; -Capitú refreou-me.</p> - -<p>—Escobar é muito meu amigo, Capitú!</p> - -<p>—Mas não é meu amigo.</p> - -<p>—Póde vir a ser; elle já me disse que ha de vir -cá para conhecer mamãe.</p> - -<p>—Não importa; você não tem direito de contar -um segredo que não é só seu, mas tambem meu, e -eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa -nenhuma.</p> - -<p>Era justo, calei-me e obedeci. Outra cousa em -que obedeci ás suas reflexões foi, logo no primeiro -sabbado, quando eu fui á casa della, e, após alguns -minutos de conversa, me aconselhou a ir embora.</p> - -<p>—Hoje não fique aqui mais tempo; vá para casa, -que eu lá vou logo. É natural que D. Gloria queira -estar com você muito tempo, ou todo, se puder.</p> - -<p>Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez -que eu bem podia deixar de citar um terceiro -exemplo, mas os exemplos não se fizeram senão -para ser citados, e este é tão bom que a omissão -seria um crime. Foi á minha terceira ou quarta -vinda á casa. Minha mãe depois que lhe respondi -ás mil perguntas que me fez sobre o tratamento -que me davam, os estudos, as relações, a disciplina, -e se me doia alguma cousa, e se dormia bem, tudo -o que a ternura das mães inventa para cançar a -paciencia de um filho, concluiu voltando-se para -José Dias:</p> - -<p>—Sr. José Dias, ainda duvida que saia daqui -um bom padre?</p> - -<p>—Excellentissima...</p> - -<p>—E você, Capitú, interrompeu minha mãe voltando-se -para a filha do Padua que estava na sala, -com ella,—você não acha que o nosso Bentinho -dará um bom padre?</p> - -<p>—Acho que sim, senhora, respondeu Capitú -cheia de convicção.</p> - -<p>Não gostei da convicção. Assim lh'o disse, na -manhã seguinte, na quintal della, recordando as -palavras da vespera, e lançando-lho em rosto, pela -primeira vez, a alegria que ella mostrára desde a -minha entrada no seminario, quando eu vivia -curtido de saudades. Capitú fez-se muito séria, e -perguntou-me como é que queria que se portasse, -uma vez que suspeitavam de nós; tambem tivera -noites desconsoladas, e os dias, em casa della, -foram tão tristes como os meus; podia indagal-o do -pae e da mãe. A mãe chegou a dizer-lhe, por palavras -encobertas, que não pensasse mais em mim.</p> - -<p>—Com D. Gloria e D. Justina mostro-me naturalmente -alegre, para que não pareça que a denuncia -de José Dias é verdadeira. Se parecesse, ellas -tratariam de separar-nos mais, e talvez acabassem -não me recebendo... Para mim, basta o nosso juramento -de que nos havemos de casar um com outro.</p> - -<p>Era isto mesmo; deviamos dissimular para matar -qualquer suspeita, e ao mesmo tempo gosar -toda a liberdade anterior, e construir tranquillos o -nosso futuro. Mas o exemplo completa-se com o -que ouvi no dia seguinte, ao almoço; minha mãe, -dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que -mão havia en de abençoar o povo á missa, contou -que, dias antes, estando a falar de moças que se -casam cedo, Capitú lhe dissera: «Pois a mim -quem me ha de casar ha de ser o padre Bentinho; eu -espero que elle se ordene!» Tio Cosme riu da -graça, José Dias não dessorriu, só prima Justina é -que franziu a testa, e olhou para mim interrogativamente. -Eu, que havia olhado para todos, não pude -resistir ao gesto da prima, e tratei de comer. Mas -comi mal; estava tão contente com aquella grande -dissimulação de Capitú que não vi mais nada, e, -logo que almocei, corri a referir-lhe a conversa e a -louvar-lhe a astucia. Capitú sorriu de agradecida.</p> - -<p>—Você tem razão, Capitú, concluí eu; vamos -enganar toda esta gente.</p> - -<p>—Não é? disse ella com ingenuidade.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXVI" id="LXVI">LXVI</a></h5> - -<h4>Intimidade.</h4> - - -<p>Capitú ia agora entrando na alma de minha mãe. -Viviam o mais do tempo juntas, falando de mim, a -proposito do sol e da chuva, ou de nada; Capitú ia -lá coser, ás manhãs; alguma vez ficava para jantar.</p> - -<p>Prima Justina não acompanhava a parenta naquellas -finezas, mas não tratava de todo mal a -minha amiga. Era assaz sincera para dizer o mal -que sentia de alguem, e não sentia bem de pessoa -alguma. Talvez do marido, mas o marido era morto; -em todo caso, não existira homem capaz de competir -com elle na affeição, no trabalho e na honestidade, -nas maneiras e na agudeza de espirito. Esta -opinião, segundo tio Cosme, era posthuma, pois -em vida andavam ás brigas, e os ultimos seis mezes -acabaram separados. Tanto melhor para a justiça -della; o louvor dos mortos é um modo de orar por -elles. Tambem gostaria de minha mãe, ou se algum -mal pensou della foi entre si e o travesseiro. Comprehende-se -que, de apparencia, lhe désse a estima -devida. Não penso que ella aspirasse a algum legado; -as pessoas assim dispostas excedem os serviços -naturaes, fazem-se mais risonhas, mais assiduas, -multiplicam os cuidados, precedem os famulos. -Tudo isso era contrario á natureza de prima Justina, -feita de azedume e de implicancia. Como vivesse de -favor na casa, explica-se que não desestimasse a -dona e calasse os seus resentimentos, ou só dissesse -mal della a Deus e ao diabo.</p> - -<p>Caso tivesse resentimentos de minha mãe, não -era uma razão mais para detestar Capitú, nem ella -precisava de razões supplementares. Comtudo, a -intimidade de Capitú fel-o mais aborrecivel á minha -parenta. Se a principio não a tratava mal, com o -tempo trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe. -Capitú, attenta, desde que a não via, indagava della -e ia procural-a. Prima Justina tolerava esses cuidados. -A vida é cheia de obrigações que a gente -cumpre, por mais vontade que tenha de os infringir -deslavadamente. Demais, Capitú usava certa magia -que captiva; prima Justina acabava sorrindo, ainda -que azedo, mas a sós com minha mãe achava -alguma palavra ruim que dizer da menina.</p> - -<p>Como minha mãe adoecesse de uma febre, que a -pòz ás portas da morte, quiz que Capitú lhe servisse -de enfermeira. Prima Justina, posto que isto a aliviasse -de cuidados penosos, não perdoou á minha -amiga a intervenção. Um dia, perguntou-lhe se não -tinha que fazer em casa; outro dia, rindo, soltou-lhe -este epigramma: «Não precisa correr tanto; o -que tiver de ser seu ás mãos lhe ha de ir.»</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXVII" id="LXVII">LXVII</a></h5> - -<h4>Um peccado.</h4> - - -<p>Já agora não tiro a doente da cama sem contar o -que se deu commigo. Ao cabo de cinco dias, minha -mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me -mandassem buscar ao seminario. Em vão tio Cosme:</p> - -<p>—Mana Gloria, você assusta-se sem motivo, a -febre passa...</p> - -<p>—Não! não! mandem buscal-o! Posso morrer, -e a minha alma não se salva, se Bentinho não estiver -ao pé de mim.</p> - -<p>—Vamos assustal-o.</p> - -<p>—Pois não lhe digam nada, mas vão buscal-o, -já, já, não se demorem.</p> - -<p>Cuidaram fosse delirio; mas, não custando nada -trazer-me, José Dias foi incumbido do recado. Entrou -tão atordoado que me assustou. Contou particularmente -ao reitor o que havia, e recebi licença -para ir a casa. Na rua, iamos calados, elle não -alterando o passo do costume,—a premissa antes -da consequencia, a consequencia antes do conclusão,—mas -cabisbaixo e suspirando, eu temendo -ler no rosto delle alguma noticia dura e definitiva. -Só me falára na doença, como negocio simples; -mas o chamado, o silencio, os suspiros podiam dizer -alguma cousa mais. O coração batia-me com força, -as pernas bambeavam-me, mais de uma vez cuidei -cair...</p> - -<p>O anceio de escutar a verdade complicava-se em -mim com o temor de a saber. Era a primeira vez -que a morte me apparecia assim perto, me envolvia, -me encarava com os olhos furados e escuros. Quanto -mais andava aquella rua dos Barbonos, mais me -aterrava a ideia de chegar a casa, de entrar, de -ouvir os prantos, de ver um corpo defuncto... Oh! -eu não poderia nunca expòr aqui tudo o que senti -naquelles terriveis minutos. A rua, por mais que -José Dias andasse superlativamente devagar, parecia -fugir-me debaixo dos pés, as casas voavam de -um e outro lado, e uma corneta que nessa occasião -tocava no quartel dos Municipaes Permanentes resoava -aos meus ouvidos como a trombeta do juizo -final.</p> - -<p>Fui, cheguei aos Arcos, entrei na rua de Matacavallos. -A casa não era logo alli, mas muito além -da dos Invalidos, perto da do Senado. Trez ou quatro -vezes, quizera interrogar o meu companheiro, sem -ousar abrir a bocca; mas agora, já nem tinha tal -desejo. Ia só andando, acceitando o peor, como um -gesto do destino, como uma necessidade da obra -humana, e foi então que a Esperança, para combater -o Terror, me segredou ao coração, não estas -palavras, pois nada articulou parecido com palavras, -mas uma ideia que poderia ser traduzida por ellas: -«Mamãe defuncta, acaba o seminario.»</p> - -<p>Leitor, foi um relampago. Tão depressa alumiou -a noite, como se esvaiu, e a escuridão fez-se mais -cerrada, pelo effeito do remorso que me ficou. Foi -uma suggestão da luxuria e do egoismo. A piedade -filial desmaiou um instante, com a perspectiva da -liberdade certa, pelo desapparecimento da divida e -do devedor; foi um instante, menos que um instante, -o centesimo de um instante, ainda assim o -sufficiente para complicar a minha afflicção com -um remorso.</p> - -<p>José Dias suspirava. Uma vez olhou para mim -tão cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado, -e eu quiz pedir-lhe que não dissesse nada a -ninguem, que eu ia castigar-me, etc. Mas a pena -trazia tanto amor, que não podia ser pezar do meu -peccado; mas então era sempre a morte de minha -mãe... Senti uma angustia grande, um nó na garganta, -e não pude mais, chorei de uma vez.</p> - -<p>—Que é, Bentinho?</p> - -<p>—Mamãe...?</p> - -<p>—Não! não! Que ideia é essa? O estado della é -gravissimo, mas não é mal de morte, e Deus póde -tudo. Enxugue os olhos, que é feio um mocinho da -sua edade andar chorando na rua. Não ha de ser -nada, uma febre... As febres, assim como dão com -força assim tambem se vão embora... Com os dedos, -não; onde está o lenço?</p> - -<p>Enxuguei os olhos, posto que de todas as palavras -de José Dias uma só me ficasse no coração; foi -aquelle <i>gravissimo.</i> Vi depois que elle só queria -dizer <i>grave</i>, mas o uso do superlativo faz a bocca -longa, e, por amor do periodo, José Dias fez crescer -a minha tristeza. Se achares neste livro algum caso -da mesma familia, avisa-me, leitor, para que o -emende na segunda edição; nada ha mais feio que -dar pernas longuissimas a ideias brevissimas. Enxuguei -os olhos, repito, e fui andando, ancioso agora -por chegar a casa, e pedir perdão a minha mãe do -ruim pensamento que tive. Emfim, chegámos, entramos, -subi tremulo os seis degraus da escada, e -d'ahi a pouco, debruçado sobre a cama, ouvia as -palavras ternas de minha mãe que me apertava -muito as mãos, chamando-me seu filho. Estava -queimando, os olhos ardiam nos meus, toda ella parecia -consumida por um volcão interno. Ajoelhei-me -ao pé do leito, mas como este era alto, fiquei -longe das suas caricias:</p> - -<p>—Não, meu filho, levanta, levanta!</p> - -<p>Capitú, que estava na alcova, gostou de ver a -minha entrada, os meus gestos, palavras e lagrimas, -segundo me disse depois; mas não suspeitou naturalmente -todas as causas da minha afflicção. Entrando -no meu quarto, pensei em dizer tudo a minha -mãe, logo que ella ficasse boa, mas esta ideia não me -mordia, era uma velleidade pura, uma acção que -eu não faria nunca, por mais que o peccado me -doesse. Então, levado do remorso, usei ainda uma -vez do meu velho meio das promessas espirituaes, -e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida -de minha mãe, e eu lhe rezaria dous mil padre-nossos. -Padre que me lês, perdoa este recurso; foi -a ultima vez que o empreguei. A crise em que me -achava, não menos que o costume e a fé, explica -tudo. Eram mais dous mil; onde iam os antigos? -Não paguei uns nem outros, mas saindo de almas -candidas e verdadeiras taes promessas são como -a moeda fiduciaria,—ainda que o devedor as não -pague, valem a somma que dizem.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXVIII" id="LXVIII">LXVIII</a></h5> - -<h4>Adiemos a virtude.</h4> - - -<p>Poucos teriam animo de confessar aquelle meu -pensamento da rua de Matacavallos. Eu confessarei -tudo o que importar á minha historia. Montaigne -escreveu de si: <i>ce ne sont pas mes gestes que -j'ecris; c'est moi, c'est mon essence.</i> Ora, ha só -um modo de escrever a propria essencia, é contal-a -toda, o bem e o mal. Tal faço eu, á medida que me -vae lembrando o convindo á construção ou reconstrucção -de mim mesmo. Por exemplo, agora que -contei um peccado, diria com muito gosto alguma -bella acção contemporanea, se me lembrasse, mas -não me lembra; fica transferida a melhor opportunidade.</p> - -<p>Nem perderás em esperar, meu amigo; ao contrario, -acóde-me agora que... Não só as bellas acções -são bellas em qualquer occasião, como são tambem -possiveis e provaveis, pela theoria que tenho dos -peccados e das virtudes, não menos simples que -clara. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com -certo numero delles e dellas, alliados por matrimonio -para se compensarem na vida. Quando um -de taes conjuges é mais forte que o outro, elle só -guia o individuo, sem que este, por não haver praticado -tal virtude ou commettido tal peccado, se -possa dizer isento de um ou de outro; mas a regra -é dar-se a pratica simultanea dos dous, com vantagem -do portador de ambos, e alguma vez com -resplendor maior da terra e do ceu. É pena que eu -não possa fundamentar isto com um ou mais casos -extranhos; falta-me tempo.</p> - -<p>Pelo que me toca, é certo que nasci com alguns -daquelles casaes, e naturalmente ainda os possuo. -Já me succedeu, aqui no Engenho Novo, por estar -uma noite com muita dòr de cabeça, desejar que o -trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos -e interrompesse a linha por muitas horas, ainda que -morresse alguem; e no dia seguinte perdi o trem da -mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a -um cego que não trazia bordão. <i>Voilà mes gestes, -voilà mon essence.</i></p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXIX" id="LXIX">LXIX</a></h5> - -<h4>A missa.</h4> - - -<p>Um dos gestos que melhor exprimem a minha -essencia foi a devoção com que corri no domingo -proximo a ouvir missa em S. Antonio dos Pobres. O -aggregado quiz ir commigo, e principiou a vestir-se, -mas era tão lento nos suspensorios e nas presilhas, -que não pude esperar por elle. Demais, eu queria -estar só. Sentia necessidade de evitar qualquer -conversação que me desviasse o pensamento do fim -a que ia, e era reconciliar-me com Deus, depois -do que se passou no capitulo LXVII. Nem era só -pedir-lhe perdão do peccado, era tambem agradecer -o restabelecimento de minha mãe, e, visto que digo -tudo, fazel-o renunciar ao pagamento da minha -promessa. Jehovah, posto que divino, ou por isso -mesmo, é um Rothschild muito mais humano, e não -faz moratorias, perdoa as dividas integralmente, -uma vez que o devedor queira devéras emendar a -vida e cortar nas despezas. Ora, eu não queria -outra cousa; dalli em deante não faria mais promessas -que não pudesse pagar, e pagaria logo as -que fizesse.</p> - -<p>Ouvi missa; ao levantar a Deus, agradeci a vida -e saude de minha mãe; depois pedi perdão do peccado -e relevação da divida, e recebi a benção final -do officiante como um acto solemne de reconciliação. -No fim, lembrou-me que a egreja estabeleceu -no confessionario um cartorio seguro, e na confissão -o mais authentico dos instrumentos para o -ajuste de contas moraes entre o homem e Deus. -Mas a minha incorrigivel timidez me fechou essa -porta certa; receiei não achar palavras com que -dizer ao confessor o meu segredo. Como o homem -muda! Hoje chego a publical-o.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXX" id="LXX">LXX</a></h5> - -<h4>Depois da missa.</h4> - - -<p>Rezei ainda, persignei-me, fechei o livro de missa -e caminhei para a porta. A gente mão era muita, -mas a egreja tambem não é grande, e não pude sair -logo, logo, mas devagar. Havia homens e mulheres, -velhos e moços, sedas e chitas, e provavelmente -olhos feios e bellos, mas eu não vi uns nem outros. -Ia na direcção da porta, com a onda, ouvindo as -saudações e os cochichos. No adro, onde se fez -claro, parei e olhei para todos. Vi então uma moça -e um homem, que saíam da egreja e pararam; e a -moça olhava para mim falando ao homem, e o -homem olhava para mim, ouvindo a moça. E chegaram-me -estas palavras:</p> - -<p>—Mas que queres?</p> - -<p>—Queria saber della; papae pergunte.</p> - -<p>Era sinhásinha Sancha, a companheira de collegio -de Capitú, que queria noticias de minha mãe. O pae -veiu a mim; disse-lhe que estava restabelecida. Depois -saimos, mostrou-me a casa delle, e, como eu -vinha na mesma direcção, viemos juntos. Gurgel -era homem de quarenta annos ou pouco mais, com -propensão a engrossar o ventre; era muito obsequioso; -chegando á porta da casa, quiz por força -que eu fosse almoçar com elle.</p> - -<p>—Obrigado; mamãe espera-me.</p> - -<p>—Manda-se lá um preto dizer que o senhor -fica almoçando, e irá mais tarde.</p> - -<p>—Venho outro dia.</p> - -<p>Sinhásinha Sancha, voltada para o pae, ouvia e -esperava. Não era feia; só se lhe podia notar a semelhança -do nariz, que tambem acabava grosso, -mas ha feições que tiram a graça de uns para dal-a -a outros. Vestia simples. Gurgel era viuvo e morria -pela filha. Como eu recusasse o almoço, quiz que -descançasse alguns minutos. Não pude recusar e -subi. Quis saber a minha edade, os meus estudos, -a minha fé, e dava-me conselhos para o caso de -vir a ser padre; disse-me o numero do armazem, -rua da Quitanda. Emfim, despedi-me, veiu ao patamar -da escada; a filha deu-me rocommendações -para Capitú e para minha mãe. Da rua olhei para -cima; o pae estava á janella e fez-me um gosto largo -de despedida.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXI" id="LXXI">LXXI</a></h5> - -<h4>Visita de Escobar.</h4> - - -<p>Em casa, tinham já mentido dizendo a minha -mãe que eu voltára e estava mudando de roupa.</p> - -<p>«A missa das oito já ha de ter acabado... Bentinho -devia estar de volta... Teria acontecido alguma -cousa, mano Cosme?... Mandem ver...» Assim -falava ella, de minuto a minuto, mas eu entrei -e commigo a tranquillidade.</p> - -<p>Era o dia das boas sensações. Escobar foi visitar-me -e saber da saude de minha mãe. Nunca me visitára -até alli, nem as nossas relações estavam já -tão estreitas, como vieram a ser depois; mas sabendo -a razão da minha saida, tres dias antes, -aproveitou o domingo para ir ter commigo e perguntar -se continuava o perigo ou não. Quando lhe -disse que não, respirou.</p> - -<p>—Tive receio, disse elle.</p> - -<p>—Os outros souberam?</p> - -<p>—Parece que sim: alguns souberam.</p> - -<p>Tio Cosme e José Dias gostaram do moço; o -aggregado disse-lhe que vira uma vez o pae no Rio -de Janeiro. Escobar era muito polido; e, comquanto -falasse mais do que veiu a falar depois, ainda -assim não era tanto como os rapazes da nossa -edade; naquelle dia achei-o um pouco mais expansivo -que de costume. Tio Cosme quiz que jantasse -comnosco. Escobar reflectiu um instante e acabou -dizendo que o correspondente do pae esperava por -elle. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, -repeti-as:</p> - -<p>—Manda-se lá um preto dizer que o senhor -janta aqui, e irá depois.</p> - -<p>—Tanto incommodo!</p> - -<p>—Incommodo nenhum, interveiu tio Cosme.</p> - -<p>Escobar acceitou, e jantou. Notei que os movimentos -rápidos que tinha e dominava na aula tambem -os dominava agora, na sala como na mesa. A hora -que passou commigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe -os poucos livros que possuia. Gostou muito -do retrato de meu pae; depois de alguns instantes -de contemplação, virou-se e disse-me:</p> - -<p>—Vê-se que era um coração puro!</p> - -<p>Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram -dulcissimos; assim os definiu José Dias, depois que -elle saiu, e mantenho esta palavra, apesar dos quarenta -annos que traz em cima de si. Nisto não houve -exageração do aggregado. A cara rapada mostrava -uma pelle alva e lisa. A testa é que era um pouco -baixa, vindo a risca do cabello quasi em cima da -sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura -necessaria para não affrontar as outras feições, -nem diminuir a graça dellas. Realmente, era interessante -de rosto, a bocca fina e chocarreira, o nariz -curvo e delgado. Tinha o séstro de sacudir o hombro -direito, de quando em quando, e veiu a perdel-o, -desde que um de nós lh'o notou um dia no seminario; -primeiro exemplo que vi de que um homem -póde corrigir-se muito bem dos defeitos miudos.</p> - -<p>Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento -em que os meus amigos agradassem a todos. -Em casa, ficaram querendo bem a Escobar; a -mesma prima Justina achou que era um moço muito -apreciavel, apesar... Apesar de que? perguntou-lhe -José Dias, vendo que ella não acabava a phrase. -Não teve resposta, nem podia tel-a; prima Justina -provavelmente não viu defeito claro ou importante -no nosso hospede; o <i>apesar</i> era uma especie de resalva -para algum que lhe viesse a descobrir um dia; -ou então foi obra de uso velho, que a levou a restringir, -onde não achára restricção.</p> - -<p>Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui -leval-o á porta, onde esperámos a passagem de um -omnibus. Disse-me que o armazem do correspondente -era na rua dos Pescadores, e ficava aberto -até ás nove horas: elle é que se não queria demorar -fóra. Separámo-nos com muito affecto: elle, de -dentro do omnibus, ainda me disse adeus, com a -mão. Conservei-me á porta, a ver se, ao longe, -ainda olharia para traz, mas não olhou.</p> - -<p>—Que amigo é esse tamanho? perguntou alguem -de uma janella ao pé.</p> - -<p>Não é preciso dizer que era Capitú. São cousas -que se adivinham na vida, como nos livros, sejam -romances, sejam historias verdadeiras. Era Capitú, -que nos espreitara desde algum tempo, por dentro -da veneziana, e agora abrira inteiramente a janella, -e apparecera. Viu as nossas despedidas tão -rasgadas e affectuosas, e quiz saber quem era que -me merecia tanto.</p> - -<p>—É o Escobar, disse eu indo pôr-me embaixo -da janella, a olhar para cima.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXII" id="LXXII">LXXII</a></h5> - -<h4>Uma reforma dramatica.</h4> - - -<p>Nem eu, nem tu, nem ella, nem qualquer outra -pessoa desta historia poderia responder mais, tão -certo é que o destino, como todos os dramaturgos, -não annuncia as peripecias nem o desfecho. Elles -chegam a seu tempo, até que o panno cae, apagam-se -as luzes, e os espectadores vão dormir. Nesse -genero ha porventura alguma cousa que reformar, -e eu proporia, como ensaio, que as peças começassem -pelo fim. Othello mataria a si e a Desdemona -no primeiro acto, os tres seguintes seriam dados á -acção lenta e decrescente do ciume, e o ultimo ficaria -só com as scenas iniciaes da ameaça dos turcos, -as explicações de Othello e Desdemona, e o bom -conselho do fino Iago: «Mette dinheiro na bolsa.» -Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia -no theatro a charada habitual que os periodicos lhe -dão, porque os ultimos actos explicariam o desfecho -do primeiro, especie de conceito, e, por outro lado, -ia para a cama com uma boa impressão de ternura -e de amor:</p> - -<p style="margin-left: 10%;"> - Ella amou o que me affligira,<br /> - Eu amei a piedade della.<br /> -</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXIII" id="LXXIII">LXXIII</a></h5> - -<h4>O contra-regra.</h4> - - -<p>O destino não é só dramaturgo, é tambem o seu -proprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos -personagens em scena, dá-lhes as cartas e outros -objectos, e executa dentro os signaes correspondentes -ao dialogo, uma trovoada, um carro, um -tiro. Quando eu era moço, representou-se ahi, em -não sei que theatro, um drama que acabava pelo -juizo final. O principal personagem era Ashaverus, -que no ultimo quadro concluia um monologo por -esta exclamação: «Ouço a trombeta do archanjo!» -Não se ouviu trombeta nenhuma. Ashaverus, envergonhado, -repetiu a palavra, agora mais alto, para -advertir o contra-regra, mas ainda nada. Então -caminhou para o fundo, disfarçamente tragico, mas -effectivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer -em voz surda: «O piston! o piston! o piston!» O -publico ouviu esta palavra e desatou a rir, até que, -quando a trombeta soou devéras, e Ashaverus bradou -pela terceira vez que era a do archanjo, um -gaiato da platéa corrigiu cá debaixo: «Não, senhor, -é o piston do archanjo!»</p> - -<p>Assim se explicam a minha estada debaixo da -janella de Capitú e a passagem de um cavalleiro, -um <i>dandy</i>, como então diziamos. Montava um bello -cavallo alazão, firme na sella, redea na mão esquerda, -a direita á cinta, botas de verniz, figura e -postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. -Tinham passado outros, e ainda outros viriam atraz; -todos iam ás suas namoradas. Era uso do tempo -namorar a cavallo. Relê Alencar: «Porque um -estudante (dizia um dos seus personagens de theatro -de 1858) não póde estar sem estas duas cousas, um -cavallo e uma namorada.» Relê Alvares de Azevedo. -Uma das suas poesias é destinada a contar -(1851) que residia em Catumby, e, para ver a namorada -no Cattete, alugara um cavallo por trez mil -reis... Trez mil reis! tudo se perde na noite dos -tempos!</p> - -<p>Ora, o <i>dandy</i> do cavallo baio não passou como -os outros; era a trombeta do juizo final e soou a -tempo; assim faz o Destino, que é o seu proprio -contra-regra. O cavalleiro não se contentou de ir -andando, mas voltou a cabeça para o nosso lado, o -lado de Capitú, e olhou para Capitú, e Capitú para -elle; o cavallo andava, a cabeça do homem deixava-se -ir voltando para traz. Tal foi o segundo dente de -ciume que me mordeu. A rigor, era natural admirar -as bellas figuras; mas aquelle sujeito costumava -pagar alli, ás tardes; morava no antigo Campo da -Acclamação, e depois... e depois... Vão lá raciocinar -com um coração de braza, como era o meu!</p> - -<p>Nem disse nada a Capitú; saí da rua á pressa, -enfiei pelo meu corredor, e, quando dei por mim, -estava na sala de visitas.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXIV" id="LXXIV">LXXIV</a></h5> - -<h4>A presilha.</h4> - - -<p>Na sala de visitas, tio Cosme e José Dias conversavam, -um sentado, outro andando e parando. -A vista de José Dias lembrou-me o que elle me -disséra no seminario: «Aquillo emquanto não -pegar algum peralta da visinhança que case com -ella....» Era certamente allusão ao cavalleiro. Tal -recordação aggravou a impressão que eu trazia da -rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente -guardada, que me dispoz a crer na malicia dos -seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José -Dias pela gola, leval-o ao corredor e perguntar-lhe -se falara de verdade ou por hypothese; mas José -Dias, que parára ao ver-me entrar, continuou a -andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir á casa ao -pé, imaginava que Capitú saisse da janella assustada -e não tardasse a apparecer, para indagar e -explicar.... E os dous falavam, até que tio Cosme -ergueu-se para ir ver a doente, e José Dias veiu ter -commigo, ao vão da outra janella.</p> - -<p>Ha um instante tinha eu desejo de lhe perguntar -o que havia entre Capitú e os peraltas do bairro; -agora, imaginando que vinha justamente dizer-m'o, -fiquei com medo de ouvil-o. Quiz tapar-lhe a bocca. -José Dias viu no meu rosto algum signal differente -da expressão habitual, e perguntou-me com interesse:</p> - -<p>—Que é, Bentinho?</p> - -<p>Para não fital-o, deixei cair os olhos. Os olhos, -caindo, viram que uma das presilhas das calças do -aggregado estava desabotoada, e, como elle insistisse -em saber o que é que eu tinha, respondi apontando -com o dedo:</p> - -<p>—Olhe a presilha, abotoe a presilha.</p> - -<p>José Dias inclinou-se, eu saí correndo.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXV" id="LXXV">LXXV</a></h5> - -<h4>O desespero.</h4> - - -<p>Escapei ao aggregado, escapei a minha mãe não -indo ao quarto della, mas não escapei a mim mesmo. -Corri ao meu quarto, e entrei atraz de mim. Eu -falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me á cama, -e rolava commigo, e chorava, e abafava os soluços -com a ponta do lençol. Jurei não ir ver Capitú aquella -tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma -vez. Via-me já ordenado, deante d'ella, que choraria -de arrependimento e me pediria perdão, mas -eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito -desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. -Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, -como se a tivesse entre elles.</p> - -<p>Da cama ouvia voz della, que viera passar o resto -da tarde com minha mãe, e naturalmente commigo, -como das outras vezes; mas, por maior que fosse o -abalo que me deu, não me fez sair do quarto. Capitú -ria alto, falava alto, como se me avisasse; eu continuava -surdo, a sós commigo e o meu desprezo. A -vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no -pescoço, enterral-as bem, até ver-lhe sair a vida -com o sangue....</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXVI" id="LXXVI">LXXVI</a></h5> - -<h4>Explicação.</h4> - - -<p>Ao fim de algum tempo, estava socegado, mas -abatido. Como me achasse estirado na cama, com -os olhos no tecto, lembrou-me a recommendação -que minha mãe fazia de me não deitar depois de -jantar para evitar alguma congestão. Ergui-me de -golpe, mas não saí do quarto. Capitú ria agora -menos e falava mais baixo; estaria afflicta com a -minha reclusão, mas nem por isso me abalou.</p> - -<p>Não ceei e dormi mal. Na manhã seguinte não -estava melhor, estava differente. A minha dòr agora -complicava-se do receio de haver ido além do que -convinha, deixando de examinar o negocio. Posto -que a cabeça me doesse um pouco, simulei maior incommodo, -com o fim de não ir ao seminario e falar -a Capitú. Podia estar zangada commigo, podia não -querer-me agora e preferir o cavalleiro. Quiz resolver -tudo, ouvil-a e julgal-a; podia ser que tivesse defesa -e explicação.</p> - -<p>Tinha ambas as cousas. Quando soube a causa -da minha reclusão da vespera, disse-me que era -grande injuria que lhe fazia; não podia crer que -depois da nossa troca de juramentos, tão leviana a -julgasse que pudesse crer.... E aqui romperam-lhe -lagrimas, e fez um gesto de separação; mas eu -acudi de prompto, peguei-lhe das mãos e beijei-as -com tanta alma e calor que as senti estremecer. Enxugou -os olhos com os dedos, eu os beijei de novo, -por elles e pelas lagrimas; depois suspirou, depois -abanou a cabeça. Confessou-me que não conhecia o -rapaz, senão como os outros que alli passavam ás -tardes, a cavallo ou a pé. Se olhara para elle, era -prova exactamente de não haver nada entre ambos; -se houvesse, era natural dissimular.</p> - -<p>—E que poderia haver, se elle vae casar? concluiu.</p> - -<p>—Vae casar?</p> - -<p>Ia casar, disse-me com quem, com uma moça da -rua dos Barbonos. Esta razão quadrou-me mais que -tudo, e ella o sentiu no meu gesto; nem por isso -deixou de dizer que, para evitar nova equivocação, -deixaria de ir mais á janella.</p> - -<p>—Não! não! não! não lhe peço isto!</p> - -<p>Consentiu em retirar a promessa, mas fez outra, -e foi que, á primeira suspeita da minha parte, tudo -estaria dissolvido entro nós. Acceitei a ameaça, e -jurei que nunca a haveria de cumprir: era a primeira -suspeita e a ultima.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXVII" id="LXXVII">LXXVII</a></h5> - -<h4>Prazer das dôres velhas.</h4> - - -<p>Contando aquella crise do meu amor adolescente, -sinto uma cousa que não sei se explico bem, e é que -as dôres daquella quadra, a tal ponto se espiritualisaram -com o tempo, que chegam a diluir-se no prazer. -Não é claro isto, mas nem tudo é claro na vida -ou nos livros. A verdade é que sinto um gosto -particular em referir tal aborrecimento, quando é -certo que elle me lembra outros que não quizera -lembrar por nada.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXVIII" id="LXXVIII">LXXVIII</a></h5> - -<h4>Segredo por segredo.</h4> - - -<p>De resto, naquelle mesmo tempo senti tal ou qual -necessidade de contar a alguem o que se passava -entre mim e Capitú. Não referi tudo, mas só uma -parte, e foi Escobar que a recebeu. Quando voltei ao -seminario, na quarta-feira, achei-o inquieto; disse-me -que era sua intenção ir ver-me, se eu me demorasse -mais um dia em casa. Perguntava-me com -interesse o que é que tivera, e se estava bom de todo.</p> - -<p>—Estou.</p> - -<p>Ouvia, espetando-me os olhos. Tres dias depois -disse que me estavam achando muito distrahido; -era bom disfarçar o mais que pudesse. Elle, á sua -parte, tinha razões para andar distrahido tambem, -mas buscava ficar attento.</p> - -<p>—Então parece-lhe....?</p> - -<p>—Sim, você ás vezes está que não ouve nada, -olhando para hontem; disfarce, Santiago.</p> - -<p>—Tenho motivos....</p> - -<p>—Creio; ninguem se distrae á toa.</p> - -<p>—Escobar....</p> - -<p>Hesitei; elle esperou.</p> - -<p>—Que é?</p> - -<p>—Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo -tambem; aqui no seminario você é a pessoa que -mais me tem entrado no coração, e lá fóra, a não -ser a gente da familia, não tenho propriamente um -amigo.</p> - -<p>—Se eu disser a mesma cousa, retorquiu elle sorrindo, -perde a graça; parece que estou repetindo. -Mas a verdade é que não tenho aqui relações com -ninguem, você é o primeiro e creio que já notaram; -mas eu não me importo com isso.</p> - -<p>Commovido, senti que a voz se me precipitava da -garganta.</p> - -<p>—Escobar, você é capaz de guardar um segredo?</p> - -<p>—Você que pergunta é porque duvida, e nesse -caso....</p> - -<p>—Desculpe, é um modo de falar. Eu sei que é -moço serio, e faço de conta que me confesso a um -padre.</p> - -<p>—Se precisa de absolvição, está absolvido.</p> - -<p>—Escobar, eu não posso ser padre. Estou aqui, -os meus acreditam, o esperam; mas eu não posso -ser padre.</p> - -<p>—Nem eu, Santiago.</p> - -<p>—Nem você?</p> - -<p>—Segredo por segredo; tambem eu tenho o proposito -de não acabar o curso; meu desejo é o commercio, -mas não diga nada, absolutamente nada; -fica só entre nós. E não é que eu não seja religioso; -sou religioso, mas o commercio é a minha paixão.</p> - -<p>—Só isso?</p> - -<p>—Que mais ha de ser?</p> - -<p>Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da -minha confidencia, tão escassa e surda, que não a -ouvi eu mesmo; sei porém que disse «uma pessoa...» -com reticencia. Uma pessoa....? Não foi preciso mais -para que elle entendesse. Uma pessoa devia ser uma -moça. Nem cuides que pasmou de me ver namorado; -achou até natural e espetou-me outra vez os olhos. -Então contei-lhe por alto o que podia, mas demoradamente -para ter o gosto de repisar o assumpto. Escobar -escutava com interesse; no fim da nossa conversação, -declarou-me que era segredo enterrado -em cemiterio. Deu-me de conselho que não me fizesse -padre. Não podia levar para a egreja um coração -que não era do ceu, mas da terra; seria um mau -padre, nem seria padre. Ao contrario. Deus protegia -os sinceros; uma vez que eu só podia servil-o no -mundo, ahi me cumpria ficar.</p> - -<p>Não calculas o prazer que me deu a confidencia -que lhe fiz. Era como que uma felicidade mais. -Aquelle coração moço que me ouvia e me dava -razão, trazia a este mundo um aspecto extraordinario. -Era um grande e bello mundo, a vida uma -carreira excellente, e eu nem mais nem menos -um mimoso do ceu; eis a minha sensação. Nota -que eu não lhe disse tudo, nem o melhor; não lhe -referi o capitulo do penteado, por exemplo, nem -outros assim; mas o contado era muito.</p> - -<p>Que voltámos ao assumpto, não é preciso dizel-o. -Voltámos uma e muitas vezes; eu louvava as qualidades -moraes de Capitú, materia adequada á admiração -de um seminarista, a simpleza, a modestia, o -amor do trabalho e os costumes religiosos. Não lhe -tocava nas graças physicas, nem elle me perguntava -por ellas; apenas insinuei a conveniencia de a -conhecer de vista.</p> - -<p>—Agora não é possivel, disse-lhe na primeira -semana, ao voltar de casa; Capitú vae passar uns -dias com uma amiga da rua dos Invalidos. Quando -ella vier, você irá lá; mas póde ir antes, póde ir -sempre; porque não foi hontem jantar commigo?</p> - -<p>—Você não me convidou.</p> - -<p>—Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram -gostando muito de você.</p> - -<p>—Tambem eu fiquei gostando de todos, mas se -é possivel fazer distincção, confesso-lhe que sua mãe -é uma senhora adoravel.</p> - -<p>—Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXIX" id="LXXIX">LXXIX</a></h5> - -<h4>Vamos ao capitulo.</h4> - - -<p>Com effeito, gostei de ouvil-o falar assim. Sabes -a opinião que eu tinha de minha mãe. Ainda agora, -depois de interromper esta linha para mirar-lhe o -retrato que pende da parede, acho que trazia no -rosto impressa aquella qualidade. Nem de outro -modo se explica a opinião de Escobar, que apenas -trocara com ella quatro palavras. Uma só bastava -a penetrar-lhe a essencia intima; sim, sim, minha -mãe era adoravel. Por mais que me estivesse então -obrigando a uma carreira que eu não queria, não -podia deixar de sentir que era adoravel, como uma -santa.</p> - -<p>E por ventura era certo que me obrigava á carreira -ecclesiastica? Aqui chego a um ponto, que esperei -viesse depois, tanto que já pesquizava em que -altura lhe daria um capitulo. Realmente, não cabia -dizer agora o que só mais tarde presumi descobrir; -mas, uma vez que toquei no ponto, melhor é acabar -com elle. É grave e complexo, delicado e subtil, -um destes em que o autor tem de attender ao filho, -e o filho ha de ouvir o autor, para que um e outro -digam a verdade, só a verdade, mas toda a verdade. -Cabe ainda notar que esse ponto é que torna -justamente a santa mais adoravel, sem prejuizo -(ao contrario!) da parte humana e terrestre que -havia nella. Basta de prefacio ao capitulo; vamos -ao capitulo.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXX" id="LXXX">LXXX</a></h5> - -<h4>Venhamos ao capitulo.</h4> - - -<p>Venhamos ao capitulo. Minha mãe era temente -a Deus; sabes disto, e das suas praticas -religiosas, e da fé pura que as animava. Nem -ignoras que a minha carreira ecclesiastica era -objecto de promessa feita quando fui concebido. -Tudo está contado opportunamente. Outrosim, sabes -que para o fim de apertar o vinculo moral -da obrigação, confiou os seus projectos e motivos -a parentes e familiares. A promessa, feita com -fervor, acceita com misericordia, foi guardada por -ella, com alegria, no mais intimo do coração. -Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite -que me deu a mamar. Meu pae, se vivesse, é possivel -que alterasse os planos, e, como tinha a vocação -da politica, é provavel que me encaminhasse -somente á politica, embora os dous officios não fossem -nem sejam inconciliaveis, e mais de um padre -entre na luta dos partidos e no governo dos homens. -Mas meu pae morrera sem saber nada, e ella ficou -deante do contracto, como unica devedora.</p> - -<p>Um dos aphorismos de Franklin é que, para -quem tem de pagar na paschoa, a quaresma é curta. -A nossa quaresma não foi mais longa que as outras, -e minha mãe, posto me mandasse ensinar latim e -doutrina, começou a adiar a minha entrada no -seminario. É o que se chama, commercialmente -falando, reformar uma lettra. O credor era archi-millionario, -não dependia daquella quantia para -comer, e consentiu nas transferencias de pagamento, -sem sequer aggravar a taxa do juro. Um -dia, porém, um dos familiares que serviam de endossantes -da letra, falou da necessidade de entregar -o preço ajustado; está n'um dos capitulos primeiros. -Minha mãe concordou e recolhi-me a S. José.</p> - -<p>Ora, nesse mesmo capitulo, verteu ella umas -lagrimas, que enxugou sem explicar, e que nenhum -dos presentes, nem tio Cosme, mau prima Justina, -nem o aggregado José Dias entendeu absolutamente; -eu, que estava atraz da porta, não as entendi -mais que elles. Bem examinadas, apesar da -distancia, vê-se que eram saudades prévias, a magoa -da separação,—e póde ser tambem (é o principio -do ponto), póde ser que arrependimento da promessa. -Catholica e devota, sentia muito bem que as -promessas se cumprem; a questão é se é opportuno -e adequado fazel-as todas, e naturalmente inclinava-se -á negativa. Porque é que Deus a puniria, -negando-lhe um segundo filho? A vontade divina -podia ser a minha vida, sem necessidade de lh'a -dedicar <i>ab ovo.</i> Era um raciocinio tardio; devia -ter sido feito no dia em que fui gerado. Em todo -caso, era uma conclusão primeira; mas, não bastando -concluir para destruir, tudo se manteve, e eu -fui para o seminario.</p> - -<p>Um cochilo da fé teria resolvido a questão a -meu favor, mas a fé velava com os seus grandes -olhos ingenuos. Minha mãe faria, se pudesse, uma -troca de promessa, dando parte dos seus annos -para conservar-me comsigo, fóra do clero, casado e -pae; é o que presumo, assim como supponho que -rejeitou tal ideia, por lhe parecer uma deslealdade. -Assim a senti sempre na corrente da vida ordinaria.</p> - -<p>Succedeu que a minha ausencia foi logo temperada -pela assiduidade de Capitú. Esta começou a -fazer-se-lhe necessaria. Pouco a pouco veiu-lhe a -persuasão de que a pequena me faria feliz. Então -(é o final do ponto annunciado), a esperança de -que o nosso amor, tornando-me absolutamente incompativel -com o seminario, me levasse a não ficar -lá nem por Deus nem pelo diabo, esta esperança -intima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe. -Neste caso, eu romperia o contracto sem -que ella tivesse culpa. Ella ficava commigo sem -acto propriamente seu. Era como se, tendo confiado -a alguem a importancia de uma divida para leval-a -ao credor, o portador guardasse o dinheiro comsigo -e não levasse nada. Na vida commum, o acto de -terceiro não desobriga o contractante; mas a vantagem -de contractar com o ceu é que intenção vale -dinheiro.</p> - -<p>Has de ter tido conflictos parecidos com esse, e, -se és religioso, haverás buscado alguma vez conciliar -o ceu e a terra, por modo identico ou analogo. -O ceu e a terra acabam conciliando-se; elles são -quasi irmãos gemeos, tendo o ceu sido feito no -segundo dia e a terra no terceiro. Como Abrahão, -minha mãe levou o filho ao monte da Visão, e mais -a lenha para o holocausto, o fogo e o cutello. E -atou Isaac em cima do feixe de lenha, pegou do -cutello e levantou-o ao alto. No momento de fazel-o -cair, ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do -Senhor: «Não faças mal algum a teu filho; -conheci que temes a Deus.» Tal seria a esperança -secreta de minha mãe.</p> - -<p>Capitú era naturalmente o anjo da Escriptura. -A verdade é que minha mãe não podia tel-a agora -longe de si. A affeição crescente era manifesta por -actos extraordinarios. Capitú passou a ser a flôr -da casa, o sol das manhãs, o frescor das tardes, a -lua das noites; lá vivia horas e horas, ouvindo, -falando e cantando. Minha mãe apalpava-lhe o -coração, revolvia-lhe os olhos, e o meu nome era -entre ambas como a senha da vida futura.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXXI" id="LXXXI">LXXXI</a></h5> - -<h4>Uma palavra.</h4> - - -<p>Assim contado o que descobri mais tarde, posso -trasladar para aqui uma palavra de minha mãe. -Agora se entenderá que ella me dissesse, no primeiro -sabbado, quando eu cheguei a casa, e soube -que Capitú estava na rua dos Invalidos, com Sinhásinha -Gurgel.</p> - -<p>—Porque não vaes vel-a? Não me disseste que -o pae de Sancha te offereceu a casa?</p> - -<p>—Offereceu.</p> - -<p>—Pois então? Mas é se queres. Capitú devia -ter voltado hoje para acabar um trabalho commigo; -certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá.</p> - -<p>—Talvez ficassem namorando, insinuou prima -Justina.</p> - -<p>Não a matei por não ter a mão ferro nem corda, -pistola nem punhal; mas os olhos que lhe deitei, se -pudessem matar, teriam supprido tudo. Um dos erros -da Providencia foi deixar ao homem unicamente os -braços e os dentes, como armas de ataque, e as -pernas como armas de fuga ou de defesa. Os olhos -bastavam ao primeiro effeito. Um mover delles -faria parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam -vingança prompta, com este accressimo que, -para desnortear a justiça, os mesmos olhos matadores -seriam olhos piedosos, e correriam a chorar -a victima. Prima Justina escapou aos meus; eu é -que não escapei ao effeito da insinuação, e no domingo, -ás onze horas, corri á rua dos Invalidos.</p> - -<p>O pae de Sancha recebeu-me em desalinho -e triste. A filha estava enferma; caira na vespera -com uma febre, que se ia aggravando. Como elle -queria muito á filha, pensava já vel-a morta, e -annunciou-me que se mataria tambem. Eis aqui um -capitulo funebre como um cemiterio, mortes, suicidios -e assassinatos. Eu anciava por um raio de luz -clara e ceu azul. Foi Capitú que os trouxe á porta -da sala, vindo dizer ao pae de Sancha que a filha -o mandara chamar.</p> - -<p>—Está peor? perguntou Gurgel assustado.</p> - -<p>—Não, senhor, mas quer falar-lhe.</p> - -<p>—Fique aqui um bocadinho, disse-lhe elle; e -voltando-se para mim: É a enfermeira de Sancha, -que não quer outra; eu já volto.</p> - -<p>Capitú trazia signaes de fadiga e commoção, -mas tão depressa me viu, ficou toda outra, a mocinha -de sempre, fresca e lepida, não menos que -espantada. Custou-lhe a crer que fosse eu. Falou-me, -quiz que lhe falasse, e effectivamente conversámos -por alguns minutos, mas tão baixo e abafado -que nem as paredes ouviram, ellas que tèm -ouvidos. De resto, se ellas ouviram algo, nada entenderam, -nem ellas nem os moveis, que estavam -tão tristes como o dono.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXXII" id="LXXXII">LXXXII</a></h5> - -<h4>O canapé.</h4> - - -<p>Delles, só o canapé pareceu haver comprehendido -a nossa situação moral, visto que nos offereceu os -serviços da sua palhinha, com tal insistencia que -os acceitámos e nos sentámos. Data dahi a opinião -particular que tenho do canapé. Elle faz alliar a -intimidade e o decoro, e mostra a casa toda sem -sair da sala. Dous homens sentados nelle pódem -debater o destino de um imperio, e duas mulheres -a graça de um vestido; mas, um homem e uma -mulher só por aberração das leis naturaes dirão -outra cousa que não seja de si mesmos. Foi o que -fizemos, Capitú e eu. Vagamente lembra-me que -lhe perguntei se a demora alli seria grande...</p> - -<p>—Não sei; a febre parece que cede... mas...</p> - -<p>Tambem me lembra, vagamente, que lhe expliquei -a minha visita á rua dos Invalidos, com a -pura verdade, isto é, a conselho de minha mãe.</p> - -<p>—Conselho della? murmurou Capitú.</p> - -<p>E accrescentou com os olhos, que brilhavam -extraordinariamente:</p> - -<p>—Seremos felizes!</p> - -<p>Repeti esta palavras, com os simples dedos, -apertando os della. O canapé, quer visse ou não, -continuou a prestar os seus serviços ás nossas mãos -presas e ás nossas cabeças juntas ou quasi juntas.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXXIII" id="LXXXIII">LXXXIII</a></h5> - -<h4>O retrato.</h4> - - -<p>Gurgel tornou á sala e disse a Capitú que a filha -chamava por ella. Eu levantei-me depressa e não -achei compostura; mettia os olhos pelas cadeiras. -Ao contrario, Capitú ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe -se a febre augmentára.</p> - -<p>—Não, disse elle.</p> - -<p>Nem sobresalto nem nada, nenhum ar de mysterio -da parte de Capitú; voltou-se para mim, e disse-me -que levasse lembranças a minha mãe e a -prima Justina, e que até breve; estendeu-me a mão -e enfiou pelo corredor. Todas as minhas invejas -foram com ella. Como era possivel que Capitú se -governasse tão facilmente e eu não?</p> - -<p>—Está uma moça, observou Gurgel olhando -tambem para ella.</p> - -<p>Murmurei que sim. Na verdade, Capitú ia crescendo -ás carreiras, as fórmas arredondavam-se e -avigoravam-se com grande intensidade; moralmente, -a mesma cousa. Era mulher por dentro e -por fóra, mulher á direita e á esquerda, mulher por -todos os lados, e desde os pés até á cabeça. Esse -arvorecer era mais apressado, agora que eu a via -de dias a dias; de cada vez que vinha a casa -achava-a mais alta e mais cheia; os olhos pareciam -ter outra reflexão, e a bocca outro imperio. Gurgel, -voltando-se para a parede da sala, onde pendia um -retrato de moça, perguntou-me se Capitú era parecida -com o retrato.</p> - -<p>Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar -com a opinião provavel do meu interlocutor, -desde que a materia não me aggrava, aborrece ou -impõe. Antes de examinar se effectivamente Capitú -era parecida com o retrato, fui respondendo que -sim. Então elle disse que era o retrato da mulher -delle, e que as pessoas que a conheceram diziam a -mesma cousa. Tambem achava que as feições eram -semelhantes, a testa principalmente e os olhos. -Quanto ao genio, era um; pareciam irmãs.</p> - -<p>—Finalmente, até a amizade que ella tem a -Sanchinha; a mãe não era mais amiga della... Na -vida ha dessas semelhanças assim exquisitas.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXXIV" id="LXXXIV">LXXXIV</a></h5> - -<h4>Chamado.</h4> - - -<p>No saguão e na rua, examinei ainda commigo se -effectivamente elle teria desconfiado alguma cousa, -mas achei que não e puz-me a andar. Ia satisfeito -com a visita, com a alegria de Capitú, com os louvores -de Gurgel, a tal ponto que não acudi logo a -uma voz que me chamava:</p> - -<p>—Sr. Bentinho! Sr. Bentinho!</p> - -<p>Só depois que a voz cresceu e o dono della chegou -á porta é que eu parei e vi o que era e onde estava. -Estava já na rua de Matacavallos. A casa era uma -loja de louça, escassa e pobre; tinha as portas -meio-cerradas, e a pessoa que me chamava era um -pobre homem grisalho e mal vestido.</p> - -<p>—Sr. Bentinho, disse-me elle chorando; sabe -que meu filho Manduca morreu?</p> - -<p>—Morreu?</p> - -<p>—Morreu ha meia hora, enterra-se amanhã. Mandei -recado a sua mãe agora mesmo, e ella fez-me a -caridade de mandar algumas flores para botar no -caixão. Meu pobre filho! Tinha de morrer, e foi -bom que morresse, coitado, mas apesar de tudo -sempre doe. Que vida que elle teve!... Um dia -destes ainda se lembrou do senhor, e perguntou se -estava no seminario... Quer vel-o? Entre, ande -vel-o...</p> - -<p>Custa-me dizer isto, mas antes peque por excessivo -que por diminuto. Quiz responder que não, -que não queria ver o Manduca, e fiz até um gesto -para fugir. Não era medo; n'outra occasião póde -ser até que entrasse com facilidade e curiosidade, -mas agora ia tão contente! Ver um defuncto ao -voltar de uma namorada... Ha cousas que se não -ajustam nem combinam. A simples noticia era já -uma turvação grande. Às minhas ideias de ouro -perderam todas a côr e o metal para se trocarem -em cinza escura e feia, e não distingui mais nada. -Penso que cheguei a dizer que tinha pressa, mas -provavelmente não falei por palavras claras, nem -sequer humanas, porque elle, encostado ao portal, -abria-me espaço com o gesto, e eu, sem alma para -entrar nem fugir, deixei ao corpo fazer o que pudesse, -e o corpo acabou entrando.</p> - -<p>Não culpo ao homem; para elle, a cousa mais -importante do momento era o filho. Mas tambem -não me culpem a mim; para mim, a cousa mais -importante era Capitú. O mal foi que os dous casos -se conjugassem na mesma tarde, e que a morte de -um viesse metter o nariz na vida do outro. Eis o -mal todo. Se eu passasse antes ou depois, ou se o -Manduca esperasse algumas horas para morrer, -nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias -da minha alma. Porque morrer exactamente -ha meia hora? Toda hora é apropriada ao obito; -morre-se muito bem ás seis ou sete horas da tarde.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXXV" id="LXXXV">LXXXV</a></h5> - -<h4>O defuncto.</h4> - - -<p>Tal foi o sentimento confuso com que entrei na -loja de louça. A loja era escura, e o interior da casa -menos luz tinha, agora que as janellas da área estavam -cerradas. A um canto da sala de jantar vi a -mãe chorando; á porta da alcova duas creanças -olhavam espantadas para dentro, com o dedo na -bocca. O cadaver jazia na cama; a cama...</p> - -<p>Suspendamos a penna e vamos á janella espairecer -a memoria. Realmente, o quadro era feio, já -pela morte, já pelo defuncto, que era horrivel... -Isto aqui, sim, é outra cousa. Tudo o que vejo lá -fóra respira vida, a cabra que rumina ao pé de uma -carroça, a gallinha que marisca no chão da rua, o -trem da Estrada Central que bufa, assobia, fumega -e passa, a palmeira que investe para o ceu, e finalmente -aquella torre de egreja, apesar de não ter -musculos nem folhagem. Um rapaz, que alli no -becco empina um papagaio de papel, não morreu -nem morre, posto tambem se chame Manduca.</p> - -<p>Verdade é que o outro Manduca era mais velho -que este, pouco mais velho. Teria dezoito ou dezenove -annos, mas tanto lhe darias quinze como vinte -e dous, a cara não permittia trazer a edade á vista, -antes a escondia nas dobras da... Vá, diga-se tudo; -é morto, os seus parentes são mortos, se existe -algum não é em tal evidencia que se vexe ou dôa. -Diga-se tudo; Manduca padecia de uma cruel enfermidade, -nada menos que a lepra. Vivo era -feio; morto pareceu-me horrivel. Quando eu vi, -estendido na cama, o triste corpo daquelle meu -visinho, fiquei apavorado e desviei os olhos. Não -sei que mão occulta me compelliu a olhar outra vez, -ainda que de fugida; cedi, olhei, tornei a olhar, até -que recuei de todo e saí do quarto.</p> - -<p>—Padeceu muito! suspirou o pae.</p> - -<p>—Coitado de Manduca! soluçava a mãe.</p> - -<p>Eu cuidei de sair, disse que era esperado em -casa, e despedi-me. O pae perguntou-me se lhe -faria o favor de ir ao enterro; respondi com a verdade, -que não sabia, faria o que minha mãe quizesse. -E rapido saí, atravessei a loja, e saltei á -rua.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXXVI" id="LXXXVI">LXXXVI</a></h5> - -<h4>Amai, rapazes!</h4> - - -<p>Era tão perto, que antes de tres minutos me achei -em casa. Parei no corredor, a tomar folego; buscava -esquecer o defuncto, pallido e disforme, e o -mais que não disse para não dar a estas paginas -um aspecto repugnante, mas pódes imaginal-o. -Tudo arredei da vista, em poucos segundos; bastou-me -pensar na outra casa, e mais na vida e na -cara fresca e lepida de Capitú... Amai, rapazes! e, -principalmente, amai moças lindase graciosas; ellas -dão remedio ao mal, aroma ao infecto, trocam a -morte pela vida... Amai, rapazes!</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXXVII" id="LXXXVII">LXXXVII</a></h5> - -<h4>A sege.</h4> - - -<p>Chegara ao ultimo degrau, e uma ideia me entrou -no cerebro, como se estivesse a esperar por mim, -entre as grades da cancella. Ouvi de memoria as -palavras do pae de Manduca pedindo-me que fosse -ao enterro no dia seguinte. Parei no degrau. Reflecti -um instante; sim, podia ir ao enterro, pediria a -minha mãe que me alugasse um carro...</p> - -<p>Não cuides que era o desejo de andar de carro, -por mais que tivesse o gosto da conducção. Em -pequeno, lembra-me que ia assim muita vez com -minha mãe ás visitas de amizade ou de ceremonia, -e á missa, se chovia. Era uma velha sege de meu pae, -que ella conservou o mais que poude. O cocheiro, -que era nosso escravo, tão velho como a sege, -quando me via á poria, vestido, esperando minha -mãe, dizia-me rindo:</p> - -<p>—Pae João vae levar nhonhô!</p> - -<p>E era raro que eu não lhe recommendasse:</p> - -<p>—João, demora muito as bestas; vae devagar.</p> - -<p>—Nhã Gloria não gosta.</p> - -<p>—Mas demora!</p> - -<p>Fica entendido que era para saborear a sege, -não pela vaidade, porque ella não permittia ver as -pessoas que iam dentro. Era uma velha sege obsoleta, -de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas -de couro na frente, que corriam para os lados -quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina -tinha um oculo de vidro, por onde eu gostava de -espiar para fóra.</p> - -<p>—Senta, Bentinho!</p> - -<p>—Deixa espiar, mamãe!</p> - -<p>E em pé, quando era mais pequeno, mettia a -cara no vidro, e via o cocheiro com as suas grandes -botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando -a redea da outra; na mão levava o chicote -grosso e comprido. Tudo incommodo, as botas, o -chicote e as mulas, mas elle gostava e eu tambem. -Dos lados via passar as casas, lojas ou não, abertas -ou fechadas, com gente ou sem ella, e na rua as -pessoas que iam e vinham, ou atravessavam deante -da sege, com grandes pernadas ou passos miudos. -Quando havia impedimento de gente ou de animaes, -a sege parava, e então o espectaculo era particularmente -interessante; as pessoas paradas na calçada -ou á porta das casas, olhavam para a sege e -falavam entre si, naturalmente sobre quem iria -dentro. Quando fui crescendo em edade imaginei -que adivinhavam e diziam: «É aquella senhora -da rua de Matacavallos, que tem um filho, Bentinho...»</p> - -<p>A sege ia tanto com a vida recondita de minha -mãe, que quando já não havia nenhuma outra, -continuámos a andar nella, e era conhecida na rua -e no bairro pela «sege antiga». Afinal minha mãe -consentiu em deixal-a, sem a vender logo; só abriu -mão della porque as despezas de cocheira a -obrigaram a isso. A razão de a guardar inutil foi -exclusivamente sentimental; era a lembrança do -marido. Tudo o que vinha de meu pae era conservado -como um pedaço delle, um resto da pessoa, -a mesma alma integral e pura. Mas o uso, -esse era filho tambem do carrancismo que ella confessava -aos amigos. Minha mãe exprimia bem a -fidelidade aos velhos habitos, velhas maneiras, -velhas ideias, velhas modas. Tinha o seu museo de -reliquias, pentes desusados, um trecho de mantilha, -umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825, e, -para que tudo fosse antigo, a si mesma se queria fazer -velha; mas já deixei dito que, neste ponto, não alcançava -tudo o que queria.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXXVIII" id="LXXXVIII">LXXXVIII</a></h5> - -<h4>Um pretexto honesto.</h4> - - -<p>Não, a ideia de ir ao enterro não vinha da lembrança -do carro e suas doçuras. A origem era outra: -era porque, acompanhando o enterro no dia -seguinte, não iria ao seminario, e podia fazer outra -visita a Capitú, um tanto mais demorada. Eis ahi o -que era. A lembrança do carro podia vir accessoriamente -depois, mas a principal e immediata foi -aquella. Voltaria á rua dos Invalidos, a pretexto de -saber de Sinházinha Gurgel. Contava que tudo me -saisse como naquelle dia, Gurgel afflicto, Capitú -commigo no canapé, as mãos presas, o penteado...</p> - -<p>—Vou pedir a mamãe.</p> - -<p>Abri a cancella. Antes de transpôl-a, assim como -ouvira da memoria a palavra do pae do morto, -ouvi agora a da mãe, e repeti a meia voz:</p> - -<p>—Coitado de Manduca!</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="LXXXIX" id="LXXXIX">LXXXIX</a></h5> - -<h4>A recusa.</h4> - - -<p>Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para -ir ao enterro.</p> - -<p>—Perder um dia de seminario...</p> - -<p>Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha, -e depois era gente pobre... Tudo o que me lembrou -dizer, disse. Prima Justina opinou pela negativa.</p> - -<p>—Você acha que não deve ir? perguntou-lhe -minha mãe.</p> - -<p>—Acho que não. Que amizade é essa que eu -nunca vi?</p> - -<p>Prima Justina venceu. Quando referi o caso ao -aggregado, este sorriu, e disse-me que o motivo -escondido da prima era provavelmente não dar ao -enterro «o lustre da minha pessoa.» Fosse o que -fosse, fiquei amuado; no dia seguinte, pensando no -motivo, não me desagradou; mais tarde achei-lhe -um sabor particular.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XC" id="XC">XC</a></h5> - -<h4>A polemica.</h4> - - -<p>No dia seguinte, passei pela casa do defuncto, -sem entrar nem parar,—ou, se parei, foi só um -instante, ainda mais breve que este em que vol-o -digo. Se me não engano, andei até mais depressa, -receiando que me chamassem como na vespera. -Uma vez que não ia ao enterro, antes longe que -proximo. Fui andando e pensando no pobre diabo.</p> - -<p>Não eramos amigos, nem nos conheciamos de -muito. Intimidade, que intimidade podia haver entre -a doença delle e a minha saude? Tivemos relações -breves e distantes. Fui pensando nellas, recordando -algumas. Reduziam-se todas a uma polemica, -entre nós, dous annos antes, a proposito... Mal -podeis crer a que proposito foi. Foi a guerra da -Criméa.</p> - -<p>Manduca vivia no interior da casa, deitado na -cama, lendo por desfastio. Ao domingo, sobre a -tarde, o pae enfiava-lhe uma camisola escura, e -trazia-o para o fundo da loja, donde elle espiava -um palmo da rua e a gente que passava. Era todo -o seu recreio. Foi alli que o vi uma vez, e não fiquei -pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte -das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto -não attrahia, de certo. Tinha eu de treze para quatorze -annos. Da segunda vez que o vi alli, como -falassemos da guerra da Criméa, que então ardia e -andava nos jornaes, Manduca disse que os alliados -haviam de vencer, e eu respondi que não.</p> - -<p>—Pois veremos, tornou elle. Só se a justiça não -vencer neste mundo, o que é impossivel, e a justiça -está com os alliados.</p> - -<p>—Não, senhor, a razão é dos russos.</p> - -<p>Naturalmente, iamos com o que nos diziam os -jornaes da cidade, transcrevendo os de fóra, mas -póde ser tambem que cada um de nós tivesse a opinião -do seu temperamento. Fui sempre um tanto -moscovita nas minhas ideias. Defendi o direito da -Russia, Manduca fez o mesmo ao dos alliados, e o -terceiro domingo em que entrei na loja tocámos -outra vez no assumpto. Então Manduca propoz que -trocassemos a argumentação por escripto, e na terça -ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo -a exposição e defesa do direito dos alliados, e -da integridade da Turquia, concluindo por esta -phrase prophetica:</p> - -<p>«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»</p> - -<p>Li-a e metti-me a refutal-a. Não me recorda um -só dos argumentos que empreguei, nem talvez interesse -conhecel-os, agora que o seculo está a expirar; -mas a ideia que me ficou delles é que eram irrespondiveis. -Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. -Fizeram-me entrar na alcova, onde elle jazia estirado -na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos. -Ou gosto da polemica ou qualquer outra causa -que não alcanço, não me deixou sentir toda a repugnancia -que saía da cama e do doente, e o prazer -com que lhe dei o papel foi sincero. Manduca, pela -sua parte, por mais nojosa que tivesse então a cara, -o sorriso que a accendou dissimulou o mal physico. -A convicção com que me recebeu o papel e disse -que ia ler e responderia é que não tem palavras -nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade; -não era exaltada, não era ruidosa, não tinha -gestos, nem a molestia os permittiria, era simples, -grande, profunda, um goso infinito de victoria, -antes de saber os meus argumentos. Tinha já papel, -penna e tinta ao pé da cama. Dias depois recebi a -réplica; não me lembra se trazia cousas novas ou -não; o calor é que crescia, e o final era o mesmo:</p> - -<p>«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»</p> - -<p>Trepliquei, e dahi continuou por algum tempo -uma polemica ardente, em que nenhum de nós -cedia, defendendo cada um os seus clientes com -força e brio. Manduca era mais longo e prompto -que eu. Naturalmente a mim sobravam mil cousas -que distrahiam, o estudo, os recreios, a familia, e -a propria saude, que me chamava a outros exercicios. -Manduca, salvo o palmo de rua ao domingo de -tarde, tinha só esta guerra, assumpto da cidade e -do mundo, mas que ninguem ia tratar com elle. -O acaso dera-lhe em mim um adversario; elle, que -tinha gosto á escripta, deitou-se ao debate, como a -um remedio novo e radical. As horas tristes e compridas -eram agora breves e alegres; os olhos desapprenderam -de chorar, se por ventura choravam -antes. Senti esta mudança delle nas proprias maneiras -do pae e da mãe.</p> - -<p>—Não imagina como elle anda agora, depois -que o senhor lhe escreve aquelles papeis, dizia-me o -dono da loja, uma vez, á porta da rua. Fala e ri -muito. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os -papeis delle, entra a indagar da resposta, e se demorará -muito, e que pergunte ao moleque, quando -passar. Emquanto espera, relê jornaes e toma -notas. Mas tambem, apenas recebe os seus papeis, -atira-se a lel-os, e começa logo a escrever a resposta. -Ha occasiões em que não come ou come mal; -tanto que eu queria pedir-lhe uma cousa, é que não -os mande á hora do almoço ou de jantar...</p> - -<p>Fui eu que cancei primeiro. Comecei a demorar -as respostas, até que não dei mais nenhuma; elle -ainda teimou duas ou tres vezes depois do meu -silencio, mas não recebendo contestação alguma, -por fadiga tambem ou por não aborrecer, acabou de -todo com as suas apologias. A ultima, como a primeira, -como todas, affirmava a mesma predicção -eterna:</p> - -<p>«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»</p> - -<p>Não entraram, effectivamente, nem então, nem -depois, nem até agora. Mas a predicção será eterna? -Não chegarão a entrar algum dia? Problema difficil. -O proprio Manduca, para entrar na sepultura, -gastou tres annos de dissolução, tão certo é que a -natureza, como a historia, não se faz brincando. -A vida delle resistiu como a Turquia; se afinal -cedeu foi porque lhe faltou uma alliança como a -anglo-franceza, não se podendo considerar tal o -simples accordo da medicina e da pharmacia. Morreu -afinal, como os Estados morrem; no nosso caso -particular, a questão é saber, não se a Turquia -morrerá, porque a morte não poupa a ninguem, -mas se os russos entrarão algum dia em Constantinopla; -essa era a questão para o meu visinho leproso, -debaixo da triste, rota e infecta colcha de -retalhos...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XCI" id="XCI">XCI</a></h5> - -<h4>Achado que consola.</h4> - - -<p>É claro que as reflexões que ahi deixo não foram -feitas então, a caminho do seminario, mas agora no -gabinete do Engenho Novo. Então, não fiz propriamente -nenhuma, a não ser esta: que servi de allivio -um dia ao meu visinho Manduca. Hoje, pensando -melhor, acho que não só servi de allivio, mas até -lhe dei felicidade. E o achado consola-me; já agora -não esquecerei mais que dei dous ou tres mezes -de felicidade a um pobre diabo, fazendo-lhe esquecer -o mal e o resto. É alguma cousa na liquidação -da minha vida. Se ha no outro mundo tal ou qual -premio para as virtudes sem intenção, esta pagará -um ou dous dos meus muitos peccados. Quanto ao -Manduca, não creio que fosse peccado opinar contra -a Russia, mas, se era, elle estará purgando ha -quarenta annos a felicidade que alcançou em dous -ou tres mezes,—donde concluirá (já tarde) que -era ainda melhor haver gemido sómente, sem opinar -cousa nenhuma.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XCII" id="XCII">XCII</a></h5> - -<h4>O diabo não é tão feio como se pinta.</h4> - - -<p>Manduca enterrou-se sem mim. A muitas outros -aconteceu a mesma cousa, sem que eu sentisse -nada, mas este caso affligiu-me particularmente -pela razão já dita. Tambem senti não sei que melancolia -ao recordar a primeira polemica da vida, o -gosto com que elle recebia os meus papeis e se propunha -a refutal-os, não contando o gosto do carro... -Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades -e resurreições. Nem foi só elle; duas pessoas vieram -ajudal-o, Capitú, cuja imagem dormiu commigo -na mesma noite, e outra que direi no capitulo -que vem. O resto deste capitulo e só para pedir que, -se alguem tiver de ler o meu livro com alguma -attenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, -não deixe de concluir que o diabo não é tão -feio como se pinta. Quero dizer...</p> - -<p>Quero dizer que o meu visinho de Matacavallos, -temperando o mal com a opinião anti-russa, dava -á podridão das suas carnes um reflexo espiritual -que as consolava. Ha consolações maiores, de certo, -e uma das mais excellentes é não padecer esse nem -outro mal algum, mas a natureza é tão divina que -se diverte com taes contrastes, e aos mais nojentos -ou mais afflictos acena com uma flòr. E talvez -saia assim a flòr mais bella; o meu jardineiro -affirma que as violetas, para terem um cheiro superior, -hão mister de estrume de porco. Não examinei, -mas deve ser verdade.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XCIII" id="XCIII">XCIII</a></h5> - -<h4>Um amigo por um defuncto.</h4> - - -<p>Quanto á outra pessoa que teve a força obliterativa, -foi o meu collega Escobar que no domingo, -antes do meio dia, veiu ter a Matacavallos. Um -amigo suppria assim um defuncto, e tal amigo que -durante cerca de cinco minutos esteve com a minha -mão entre as suas, como se me não visse desde -longos mezes.</p> - -<p>—Você janta commigo, Escobar?</p> - -<p>—Vim para isto mesmo.</p> - -<p>Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me -tinha, e elle respondeu com muita polidez, ainda -que um tanto atado, como se carecesse de palavra -prompta. Já viste que não era assim, a palavra -obedecia-lhe, mas o homem não é sempre o -mesmo em todos os instantes. O que elle disse, em -resumo, foi que me estimava pelas minhas boas -qualidades e aprimorada educação; no seminario -todos me queriam bem, nem podia deixar de ser -assim, accrescentou. Insistia na educação, nos bons -exemplos, «na doce e rara mãe» que o ceu me -deu... Tudo isso com a voz engasgada e tremula.</p> - -<p>Todos ficaram gostando delle. Eu estava tão contente -como se Escobar fosse invenção minha. José -Dias desfechou-lhe dous superlativos, tio Cosme -dous capotes, e prima Justina não achou tacha que -lhe pôr; depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, -veiu ella confessar-nos que o meu amigo -Escobar era um tanto mettidiço e tinha uns olhos -policiaes a que não escapava nada.</p> - -<p>—São os olhos delle, expliquei.</p> - -<p>—Nem eu digo que sejam de outro.</p> - -<p>—São olhos reflectidos, opinou tio Cosme.</p> - -<p>—Seguramente, acudiu José Dias, entretanto, -póde ser que a senhora D. Justina tenha alguma -razão. A verdade é que uma cousa não impede -outra, e a reflexão casa-se muito bem á curiosidade -natural. Parece curioso, isso parece, mas...</p> - -<p>—A mim parece-me um mocinho muito serio, -disse minha mãe.</p> - -<p>—Justamente! confirmou José Dias para não -discordar della.</p> - -<p>Quando eu referi a Escobar aquella opinião de -minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente) -vi que o prazer delle foi extraordinario. Agradeceu, -dizendo que eram bondades, e elogiou tambem -minha mãe, senhora grave, distincta e moça, muito -moça... Que edade teria?</p> - -<p>—Já fez quarenta, respondi eu vagamente por -vaidade.</p> - -<p>—Não é possivel! exclamou Escobar. Quarenta -annos! Nem parece trinta; está muito moça e -bonita. Tambem a alguem ha de você sair, com -esses olhos que Deus lhe deu; são exactamente os -della. Enviuvou ha muitos annos?</p> - -<p>Contei-lhe o que sabia da vida della e de meu -pae. Escobar escutava attento, perguntando mais, -pedindo explicação das passagens omissas ou só -escuras. Quando eu lhe disse que não me lembrava -nada da roça, tão pequenino viera, contou-me duas -ou tres reminiscencias dos seus tres annos de edade, -ainda agora frescas. E não contavamos voltar á -roça?</p> - -<p>—Não, agora não voltamos mais. Olhe, aquelle -preto que alli vae passando, é de lá. Thomaz!</p> - -<p>—Nhonhô!</p> - -<p>Estavamos na horta da minha casa, e o preto -andava em serviço; chegou-se a nós e esperou.</p> - -<p>—É casado, disse eu para Escobar. Maria onde -está?</p> - -<p>—Está soccando milho, sim, senhor.</p> - -<p>—Você ainda se lembra da roça, Thomaz?</p> - -<p>—Alembra, sim, senhor.</p> - -<p>—Bem, vá-se embora.</p> - -<p>Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este -Pedro, aquelle José, aquelle outro Damião...</p> - -<p>—Todas as lettras do alphabeto, interrompeu -Escobar.</p> - -<p>Com effeito, eram differentes lettras, e só então -reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns -com os mesmos nomes, distinguindo-se por um -appellido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria -Gorda, ou de nação como Pedro Benguella, Antonio -Moçambique...</p> - -<p>—E estão todos aqui em casa? perguntou elle.</p> - -<p>—Não, alguns andam ganhando na rua, outros -estão alugados. Não era possivel ter todos em casa. -Nem são todos os da roça; a maior parte ficou lá.</p> - -<p>—O que me admira é que D. Gloria se acostumasse -logo a viver em casa da cidade, onde tudo é -apertado; a de lá é naturalmente grande.</p> - -<p>—Não sei, mas parece. Mamãe tem outras casas -maiores que esta; diz porém que ha de morrer aqui. -As outras estão alugadas. Algumas são bem -grandes, como a da rua da Quitanda...</p> - -<p>—Conheço essa; é bonita.</p> - -<p>—Tem tambem no Rio Comprido, na Cidade-Nova, -uma no Cattete...</p> - -<p>—Não lhe hão de faltar tectos, concluiu elle -sorrindo com sympathia.</p> - -<p>Caminhámos para o fundo. Passámos o lavadouro; -elle parou um instante ahi, mirando a pedra -de bater roupa e fazendo reflexões a proposito do -asseio; depois continuámos. Quaes foram as reflexões -não me lembra agora; lembra-me só que as -achei engenhosas, e ri, elle riu tambem. A minha -alegria accordava a delle, e o ceu estava tão azul, -e o ar tão claro, que a natureza parecia rir tambem -comnosco. São assim as boas horas deste mundo. -Escobar confessou esse accordo do interno com o -externo, por palavras tão finas e altas que me commoveram; -depois, a proposito da belleza moral que -se ajusta á physica, tornou a falar de minha mãe, -«um anjo dobrado», disse elle.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XCIV" id="XCIV">XCIV</a></h5> - -<h4>Ideias arithmeticas.</h4> - - -<p>Não digo o mais, que foi muito. Nem elle sabia -só elogiar e pensar, sabia tambem calcular depressa -e bem. Era das cabeças arithmeticas de Holmes -(2+2=4). Não se imagina a facilidade com que -elle sommava ou multiplicava de cór. A divisão, -que foi sempre uma das operações difficeis para -mim, era para elle como nada: cerrava um pouco -os olhos, voltados para cima, e sussurrava as denominações -dos algarismos: estava prompto. Isto -com sete, treze, vinte algarismos. A vocação era -tal que o fazia amar os proprios signaes das sommas, -e tinha esta opinião que os algarismos, sendo -poucos, eram muito mais conceituosos que as vinte -e cinco letras do alphabeto.</p> - -<p>—Ha lettras inuteis e lettras dispensaveis, dizia -elle. Que serviço diverso prestam o <i>d</i> e o <i>t</i>? Tem -quasi o mesmo som. O mesmo digo do <i>b</i> e do <i>p</i>, o -mesmo do <i>s</i>, do <i>c</i> e do <i>z</i>, o mesmo do <i>k</i> e do <i>g</i>, etc. -São trapalhices calligraphicas. Veja os algarismos: -não ha dous que façam o mesmo officio; 4 é 4, -e 7 é 7. E admire a belleza com que um 4 e um 7 -formam esta cousa que se exprime por 11. Agora -dobre 11 e terá 22; multiplique por egual numero, -dá 484, e assim por deante. Mas onde o perfeição é -maior é no emprego do <i>zero.</i> O valor do <i>zero</i> é, em -si mesmo, nada; mas o officio deste signal negativo -é justamente augmentar. Um 5 sósinho é um 5; -ponha-lhe dous 00, é 500. Assim, o que não vale -nada faz valer muito, cousa que não fazem as letras -dobradas, pois eu tanto <i>approvo</i> com um <i>p</i> como -com dous <i>pp.</i></p> - -<p>Criado na orthographia de meus paes, custava-me -a ouvir taes blasphemias, mas não ousava refutal-o. -Com tudo, um dia, proferi algumas palavras -de defesa, ao que elle respondeu que era um preconceito, -e accrescentou que as ideias arithmeticas -podiam ir ao infinito, com a vantagem que eram -mais faceis de menear. Assim que, eu não era capaz -de resolver de momento um problema philosophico -ou linguistico, ao passo que elle podia sommar, em -tres minutos, quaesquer quantias.</p> - -<p>—Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma -porção de numeros que eu não saiba nem possa -saber antes... olhe, dê-me o numero das casas de -sua mãe e os alugueis de cada uma, e se eu não -disser a somma total em dous, em um minuto, -enforque-me!</p> - -<p>Acceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe -escriptos em um papel os algarismos das casas e -dos alugueis. Escobar pegou no papel, passou-os -pelos olhos afim de os decorar, e emquanto eu fitava -o relogio, elle erguia as pupillas, cerrava as palpebras, -e sussurrava... Oh! o vento não é mais rápido! -Foi dito e feito; em meio minuto bradava-me:</p> - -<p>—Dá tudo 1:070$000 mensaes.</p> - -<p>Fiquei pasmado. Considera que eram não menos -de nove casas, e que os alugueis variavam de uma -para outra, indo de 70$000 a 180$000. Pois tudo -isto em que eu gastaria tres ou quatro minutos,—e -havia de ser no papel,—fel-o Escobar de cór, -brincando. Olhava-me triumphalmente, e perguntava -se não era exacto. Eu, só por lhe mostrar que -sim, tirei do bolso o papelinho que levava com a -somma total, e mostrei-lh'o; era aquillo mesmo, -nem um erro: 1:070$000.</p> - -<p>—Isto prova que as ideias arithmeticas são mais -simples, e portanto mais naturaes. A natureza é -simples. A arte é atrapalhada.</p> - -<p>Fiquei tão enthusiasmado com a facilidade -mental do meu amigo, que não pude deixar de -abraçal-o. Era no pateo; outros seminaristas notaram -a nossa effusão; um padre que estava com -elles não gostou.</p> - -<p>—A modestia, disse-nos, não consente esses -gestos excessivos; pódem estimar-se com moderação.</p> - -<p>Escobar observou-me que os outros e o padre -falavam de inveja e propoz-me viver separados. -Interrompi-o dizendo que não; se era inveja, tanto -peor para elles.</p> - -<p>—Quebremos-lhe a castanha na bocca!</p> - -<p>—Mas...</p> - -<p>—Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.</p> - -<p>Escobar apertou-me a mão ás escondidas, com -tal força que ainda me doem os dedos. É illusão, -de certo, se não é effeito das longas horas que -tenho estado a escrever sem parar. Suspendamos a -penna por alguns instantes...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XCV" id="XCV">XCV</a></h5> - -<h4>O papa.</h4> - - -<p>A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; -a de José Dias não lhe quiz ficar atraz. Na primeira -semana disse-me este em casa:</p> - -<p>—Agora é certo que você vae sair já do seminario.</p> - -<p>—Como?</p> - -<p>—Espere até amanhã. Vou jogar com elles que -me chamaram; amanhã, lá no quarto, no quintal, -ou na rua, indo á missa, conto-lhe o que ha. A ideia -é tão santa que não está mal no santuario. Amanhã, -Bentinho.</p> - -<p>—Mas é cousa certa?</p> - -<p>—Certíssima!</p> - -<p>No dia seguinte revelou-me o mysterio. Ao primeiro -aspecto, confesso que fiquei deslumbrado. -Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade -que falava aos meus olhos de seminarista. Era não -menos que isto. Minha mãe, ao parecer delle, -estava arrependida do que fizera, e desejaria ver-me -cá fóra, mas entendia que o vinculo moral da -promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria -rompel-o, e para tanto valia a Escriptura, com o -poder de desligar dado aos apostolos. Assim que, -elle e eu iriamos a Roma pedir a absolvição do -papa... Que me parecia?</p> - -<p>—Parece-me bem, respondi depois de alguns -segundos de reflexão. Póde ser um bom remedio.</p> - -<p>—É o unico, Bentinho, é o unico! Vou já hoje -conversar com D. Gloria, exponho-lhe tudo, e podemos -partir daqui a dous mezes, ou antes...</p> - -<p>—Melhor é falar domingo que vem; deixe-me -pensar primeiro...</p> - -<p>—Oh! Bentinho! interrompeu o aggregado. -Pensar em que? Você o que quer... Digo? não se -amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar -a uma pessoa.</p> - -<p>Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitú e Escobar, -mas eu neguei a pés juntos que quizesse -consultar ninguem. E que pessoa, o reitor? Não era -natural que lhe confiasse tal assumpto. Não, nem -reitor, nem professor, nem ninguem; era só o -tempo de reflectir, uma semana, no domingo daria -a resposta, e desde já lhe dizia que a ideia não me -parecia má.</p> - -<p>—Não?</p> - -<p>—Não.</p> - -<p>—Pois resolvamos hoje mesmo.</p> - -<p>—Não se vae a Roma brincando.</p> - -<p>—Quem tem bocca vae a Roma, e bocca no nosso -caso é a moeda. Ora, você póde muito bem gastar -comsigo... Commigo, não; um par de calças, tres -camisas e o pão diário, não preciso mais. Serei -como S. Paulo, que vivia do officio emquanto ia -prégando a palavra divina. Pois eu vou, não prégal-a, -mas buscal-a. Levaremos cartas do internuncio -e do bispo, cartas para o nosso ministro, -cartas de capuchinhos... Bem sei a objecção que se -póde oppôr a esta ideia; dirão que é dado pedir a -dispensa cá de longe; mas, além do mais que não -digo, basta reflectir que é muito mais solemne e -bonito ver entrar no Vaticano, e prostrar-se aos pés -do papa o proprio objecto do favor, o levita promettido, -que vae pedir para sua mãe ternissima e dulcissima -a dispensa de Deus. Considere o quadro, -você beijando o pé ao príncipe dos apostolos; Sua -Santidade, com o sorriso evangelico, inclina-se, -interroga, ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam, -a Virgem recommenda ao santissimo filho -que todos os seus desejos, Bentinho, sejam satisfeitos, -e que o que você amar na terra seja egualmente -amado no ceu...</p> - -<p>Não digo mais, porque é preciso acabar o capitulo, -e elle não acabou o discurso. Falou a todos os -meus sentimentos de catholico e de namorado. Vi a -alma alliviada de minha mãe, vi a alma feliz de -Capitú, ambas em casa, e eu com ellas, e elle comnosco, -tudo mediante uma pequena viagem a Roma, -que eu só geographicamente sabia onde ficava; espiritualmente, -tambem, mas a distancia que estaria -da vontade de Capitú é que não. Eis o ponto essencial. -Se Capitú achasse longe, não iria; mas era -preciso ouvil-a, e assim tambem a Escobar, que me -daria um bom conselho.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XCVI" id="XCVI">XCVI</a></h5> - -<h4>Um substituto.</h4> - - -<p>Expuz a Capitú a ideia de José Dias. Ouviu-me -attentamente, e acabou triste.</p> - -<p>—Você indo, disse ella, esquece-me inteiramente.</p> - -<p>—Nunca!</p> - -<p>—Esquece. A Europa dizem que é tão bonita, e -a Italia principalmente. Não é de lá que vêm as -cantoras? Você esquece-me, Bentinho. E não haverá -outro meio? D. Gloria está morta para que você -saia do seminario.</p> - -<p>—Sim, mas julga-se presa pela promessa.</p> - -<p>Capitú não achava outra ideia, nem acabava de -adoptar esta. De caminho, pediu-me que, se acaso -fosse a Roma, jurasse que no fim de seis mezes estaria -de volta.</p> - -<p>—Juro.</p> - -<p>—Por Deus?</p> - -<p>—Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis -mezes estarei de volta.</p> - -<p>—Mas se o papa não tiver ainda soltado a você?</p> - -<p>—Mando dizer isso mesmo.</p> - -<p>—E se você mentir?</p> - -<p>Esta palavra doeu-me muito, e não achei logo que -lhe replicasse. Capitú metteu o negocio á bulha, -rindo e chamando-me disfarçado. Depois, declarou -crer que eu cumpriria o juramento, mas ainda -assim não consentiu logo; ia ver se não haveria -outra cousa, e eu que visse tambem por meu lado.</p> - -<p>Quando voltei ao seminario, contei tudo ao meu -amigo Escobar, que me ouviu com egual attenção e -acabou com a mesma tristeza da outra. Os olhos, de -costume fugidios, quasi me comeram de contemplação. -De repente, vi-lhe no rosto um clarão, um -reflexo de ideia. E ouvi-lhe dizer com volubilidade:</p> - -<p>—Não, Bentinho, não é preciso isso. Ha melhor,—não -digo melhor, porque o Santo Padre vale -sempre mais que tudo,—mas ha cousa que produz -o mesmo effeito.</p> - -<p>—Que é?</p> - -<p>—Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um -sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote, -que não seja você. Ella póde muito bem tomar a si -algum mocinho orphão, fazel-o ordenar á sua custa, -está dado um padre ao altar, sem que você...</p> - -<p>—Entendo, entendo, é isso mesmo.</p> - -<p>—Não acha? continuou elle. Consulte sobre isto -o protonotario; elle lhe dirá se não é a mesma -cousa, ou eu mesmo consulto, se quer; e se elle -hesitar, fala-se ao Sr. bispo.</p> - -<p>Eu, reflectindo:</p> - -<p>—Sim, parece que é isso; realmente, a promessa -cumpre-se, não se perdendo o padre.</p> - -<p>Escobar observou que, pelo lado economico, a -questão era facil; minha mãe gastaria o mesmo -que commigo, e um orphão não precisaria grandes -commodidades. Citou a somma dos alugueis das -casas, 1:070$000, além dos escravos...</p> - -<p>—Não ha outra cousa, disse eu.</p> - -<p>—E saimos juntos.</p> - -<p>—Você tambem?</p> - -<p>—Tambem eu. Vou melhorar o meu latim e -saio; nem dou theologia. O proprio latim não é -preciso; para quê no commercio?</p> - -<p>—<i>In hoc signo vinces</i>, disse eu rindo.</p> - -<p>Sentia-me pilherico. Oh! como a esperança alegra -tudo. Escobar sorriu, parecendo gostar da resposta. -Depois ficámos a cuidar de nós mesmos, cada um -com os seus olhos perdidos, provavelmente. Os delle -estavam assim, quando tornei de longe, e agradeci -de novo o plano lembrado; não podia havel-o -melhor. Escobar ouviu-me contentissimo.</p> - -<p>—Ainda uma vez, disse elle gravemente, a religião -e a liberdade fazem boa companhia.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XCVII" id="XCVII">XCVII</a></h5> - -<h4>A saida.</h4> - - -<p>Tudo se fez por esse teor. Minha mãe hesitou um -pouco, mas acabou cedendo, depois que o padre -Cabral, tendo consultado o bispo, voltou a dizer-lhe -que sim, que podia ser. Saí do seminario no -fim do anno.</p> - -<p>Tinha então pouco mais de dezesete... Aqui -devia ser o meio do livro, mas a inexperiencia fez-me -ir atraz da penna, e chego quasi ao fim do papel, -com o melhor da narração por dizer. Agora não ha -mais que leval-a a grandes pernadas, capitulo sobre -capitulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em -resumo. Já esta pagina vale por mezes, outras valerão -por annos, e assim chegaremos ao fim. Um -dos sacrificios que faço a esta dura necessidade é a -analyse das minhas emoções dos dezesete annos. -Não sei se alguma vez tiveste dezesete annos. Se -sim, deves saber que é a edade em que a metade -do homem e a metade do menino formam um só -curioso. Eu era um curiosissimo, diria o meu -aggregado José Dias, e não diria mal. O que essa -qualidade superlativa me rendeu não poderia nunca -dizel-o aqui, sem cair no erro que acabo de condemnar; -a analyse das minhas emoções daquelle -tempo é que entrava no meu plano. Posto que filho -do seminario e de minha mãe, sentia já, debaixo do -recolhimento casto, uns assomos de petulancia e de -atrevimento; eram do sangue, mas eram tambem -das moças que na rua ou da janella não me deixavam -viver socegado. Achavam-me lindo, e diziam-m'o; -algumas queriam mirar de mais perto a minha -belleza, e a vaidade é um principio de corrupção.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XCVIII" id="XCVIII">XCVIII</a></h5> - -<h4>Cinco annos.</h4> - - -<p>Venceu a razão; fui-me aos estudos. Passei os -dezoito annos, os dezenove, os vinte, os vinte e um; -aos vinte e dous era bacharel em direito.</p> - -<p>Tudo mudára em volta de mim. Minha mãe resolvera-se -a envelhecer; ainda assim os cabellos -brancos vinham de má vontade, aos poucos e espalhadamente; -a touca, os vestidos, os sapatos rasos -e surdos eram os mesmos de outr'ora. Já não andaria -tanto de um lado para outro. Tio Cosme padecia -do coração e ia descançar. A prima Justina -apenas estava mais edosa. José Dias tambem, não -tanto que me não fizesse a fineza de ir assistir á -minha graduação, e descer commigo a serra, lepido -e viçoso, como se o bacharel fosse elle. A mãe de -Capitú fallecera, o pae aposentára-se no mesmo -cargo em que quiz dar demissão da vida.</p> - -<p>Escobar começava a negociar em café depois de -haver trabalhado quatro annos em uma das primeiras -casas do Rio de Janeiro. Era opinião de -prima Justina que elle affagára a ideia de convidar -minha mãe a segundas nupcias; mas, se tal ideia -houve, cumpre não esquecer a grande differença de -edade. Talvez elle não pensasse em mais que associal-a -aos seus primeiros tentamens commerciaes, -e de facto, a pedido meu, minha mãe adeantou-lhe -alguns dinheiros, que elle lhe restituiu, logo que -poude, não sem este remoque: «D. Gloria é medrosa -e não tem ambição.»</p> - -<p>A separação não nos esfriou. Elle foi o terceiro -na troca das cartas entre mim e Capitú. Desde que -a viu animou-me muito no nosso amor. As relações -que travou com o pae de Sancha estreitaram as -que já trazia com Capitú, e fel-o servir a ambos nós, -como amigo. A principio, custou-lhe a ella acceital-o, -preferia José Dias, mas José Dias repugnava-me -por um resto de respeito de creança. Venceu Escobar; -posto que vexada, Capitú entregou-lhe a primeira -carta, que foi mãe e avó das outras. Nem -depois de casado suspendeu elle o obsequio... Que -elle casou,—adivinha com quem,—casou com a -boa Sancha, a amiga de Capitú, quasi irmã della, -tanto que alguma vez, escrevendo-me, chamava a -esta a «sua cunhadinha.» Assim se formam as -affeições e os parentescos, as aventuras e os livros.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="XCIX" id="XCIX">XCIX</a></h5> - -<h4>O filho é a cara do pae.</h4> - - -<p>Minha mãe, quando eu regressei bacharel quasi -estalou de felicidade. Ainda ouço a voz de José Dias, -lembrando o evangelho de S. João, e dizendo ao -ver-nos abraçados.</p> - -<p>—Mulher, eis ahi o teu filho! Filho, eis ahi a -tua mãe!</p> - -<p>Minha mãe, entre lagrimas:</p> - -<p>—Mano Cosme, é a cara do pae, não é?</p> - -<p>—Sim, tem alguma cousa, os olhos, a disposição -do rosto. É o pae, um pouco mais moderno, concluiu -por chalaça. E diga-me agora, mana Gloria, -não foi melhor que elle não teimasse em ser padre? -Veja se este peralta daria um padre capaz.</p> - -<p>—Como vae o meu substituto?</p> - -<p>—Vae indo, ordena-se para o anno, respondeu -tio Cosme. Has de ir ver a ordenação; eu tambem, -se o meu senhor coração consentir. É bom que te -sintas na alma do outro, como se recebesses em ti -mesmo a sagração.</p> - -<p>—Justamente! exclamou minha mãe. Mas veja -bem, mano Cosme, veja se não é a figura do meu -defuncto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre -achei que te parecias com elle, agora é muito -mais. O bigode é que desfaz um pouco...</p> - -<p>—Sim, mana Gloria, o bigode realmente... mas -é muito parecido.</p> - -<p>E minha mãe beijava-me com uma ternura que -não sei escrever. Tio Cosme, para alegral-a, chamava-me -doutor, José Dias tambem, e todos em -casa, a prima, os escravos, as visitas, Padua, a filha, -e ella mesma repetiam-me o titulo.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="C" id="C">C</a></h5> - -<h4>«Tu serás feliz, Bentinho!»</h4> - - -<p>No quarto, desfazendo a mala e tirando a carta -de bacharel de dentro da lata, ia pensando na felicidade -e na gloria. Via o casamento e a carreira -illustre, emquanto José Dias me ajudava calado e -zeloso. Uma fada invisivel desceu alli, e me disse -em voz egualmente macia e callida: «Tu serás -feliz, Bentinho; tu vaes ser feliz.»</p> - -<p>—E porque não seria feliz? perguntou José Dias -endireitando o tronco e fitando-me.</p> - -<p>—Você ouviu? perguntei eu erguendo-me tambem, -espantado.</p> - -<p>—Ouvi o que?</p> - -<p>—Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz?</p> - -<p>—É boa! Você mesmo é que está dizendo...</p> - -<p>Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da -fada; naturalmente as fadas, expulsas dos contos e -dos versos, metteram-se no coração da gente e falam -de dentro para fóra. Esta, por exemplo, muita vez -a ouvi clara e distincta. Ha de ser prima das feiticeiras -da Escocia: «Tu serás rei, Macbeth!»—«Tu -serás feliz, Bentinho!» Ao cabo, é a mesma -predicção, pela mesma toada universal e eterna. -Quando voltei do meu espanto, ouvi o resto do discurso -de José Dias:</p> - -<p>—... Ha de ser feliz, como merece, assim como -mereceu esse diploma que alli está, que não é favor -de ninguem. A distincção que tirou em todas as materias -é prova disso; já lhe contei que ouvi da bocca -dos lentes, em particular, os maiores elogios. Demais, -a felicidade não é só a gloria, é tambem outra -cousa... Ah! você não confiou tudo ao velho José -Dias! O pobre José Dias está ahi para um canto, é -cajú chupado, não vale nada; agora são os novos, -os Escobares... Não lhe nego que é moço muito distincto, -e trabalhador, e marido de truz; mas, enfim, -velho tambem sabe amar...</p> - -<p>—Mas que é?</p> - -<p>—Que ha de ser? Quem é que não sabe tudo?... -Aquella intimidade de visinhos tinha de acabar -nisto, que é verdadeiramente uma benção do ceu, -porque ella é um anjo, é um <i>anjissimo...</i> Perdoe -a cincada, Bentinho, foi um modo de accentuar a -perfeição daquella moça. Cuidei o contrario, outr'ora; -confundi os modos de creança com expressões -de caracter, e não vi que essa menina travêssa -e já de olhos pensativos era a flòr caprichosa de -um fructo sadio e doce... Porque é que não me contou -tambem o que outros sabem, e cá em casa está -mais que adivinhado e approvado?</p> - -<p>—Mamãe approva devéras?</p> - -<p>—Pois então? Temos falado sobre isso, e ella -fez-me o favor de pedir a minha opinião. Pergunte-lhe -o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos; -pergunte-lhe. Disse-lhe que não podia desejar -melhor nora para si, boa, discreta, prendada, -amiga da gente... e uma dona de casa, que não lhe -digo nada. Depois da morte da mãe, tomou conta de -tudo. Padua, agora que se aposentou, não faz mais -que receber o ordenado e entregal-o á filha. A filha -é que distribue o dinheiro, paga as contas, faz o rol -das despezas, cuida de tudo, mantimento, roupa, -luz; você já a viu o anno passado. E quanto á formosura -você sabe melhor que ninguem...</p> - -<p>—Mas, devéras, mamãe consultou o senhor sobre -o nosso casamento?</p> - -<p>—Positivamente, não; fez-me o favor de perguntar -se Capitú não daria uma boa esposa; eu é -que, na resposta, falei em nora. D. Gloria não -negou e até deu um ar de riso.</p> - -<p>—Mamãe sempre que me escrevia, falava de -Capitú.</p> - -<p>—Você sabe que ellas se dão muito, e por isso -é que sua prima anda cada vez mais amuada. Talvez -agora case mais depressa,</p> - -<p>—Prima Justina?</p> - -<p>—Não sabe? São contos, naturalmente; mas -emfim, o doutor João da Costa enviuvou ha poucos -mezes, e dizem (não sei, o protonotario é que me -contou) dizem que os dous andam meio inclinados a -acabar com a viuvez, entre si, casando-se. Ha de -ver que não ha nada, mas não é fora de proposito, -comquanto ella sempre achasse que o doutor era -um feixe de ossos... Só se ella é um cemiterio, commentou -rindo; e logo serio: Digo isto por gracejo...</p> - -<p>Não ouvi o resto. Ouvia só a voz da minha fada -interior, que me repetia, mas já então sem palavras: -«Tu serás feliz, Bentinho! » E a voz de -Capitú me disse a mesma cousa, com termos diversos, -e assim tambem a de Escobar, os quaes -ambos me confirmaram a noticia de José Dias pela -sua propria impressão. Emfim, minha mãe, algumas -semanas depois, quando lhe fui pedir licença para -casar, além do consentimento, deu-me egual prophecia, -salva a redacção própria de mãe: «Tu -serás feliz, meu filho!»</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CI" id="CI">CI</a></h5> - -<h4>No ceu.</h4> - - -<p>Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor -pegue em si, morto de esperar, e vá espairecer a -outra parte; casemo-nos. Foi em 1865, uma tarde -do março, por signal que chovia. Quando chegámos -ao alto da Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos, -o ceu recolheu a chuva e accendeu as estrellas, não -só as já conhecidas, mas ainda as que só serão descobertas -daqui a muitos seculos. Foi grande fineza -e não foi unica. S. Pedro, que tem as chaves do -ceu, abriu-nos as portas delle, fez-nos entrar, e -depois de tocar-nos com o baculo, recitou alguns -versiculos da sua primeira epistola: «As mulheres -sejam sujeitas a seus maridos... Não seja o adorno -dellas o enfeite dos cabellos riçados ou as rendas -de ouro, mas o homem que está escondido no coração.... -Do mesmo modo, vós, maridos, co-habitai -com ellas, tratando-as com honra, como a vasos -mais fracos, e herdeiras comvosco da graça da -vida....» Em seguida, fez signal aos anjos, e elles -entoaram um trecho do <i>Cantico</i>, tão concertadamente, -que desmentiriam a hypothese do tenor -italiano, se a execução fosse na terra; mas era no -ceu. A musica ia com o texto, como se houvessem -nascido juntos, á maneira de uma opera de Wagner. -Depois, visitámos uma parte daquelle logar infinito. -Descança que não farei descripção alguma, nem a -lingua humana possue fórmas idoneas para tanto.</p> - -<p>Ao cabo, póde ser que tudo fosse um sonho; nada -mais natural a um ex-seminarista que ouvir por -toda a parte latim e Escriptura. É verdade que Capitú, -que não sabia Escriptura nem latim, decorou -algumas palavras, como estas, por exemplo: «Sentei-me -á sombra daquelle que tanto havia desejado.» -Quanto ás de S. Pedro, disse-me no dia seguinte -que estava por tudo, que eu era a unica renda e o -unico enfeite que jamais poria em si. Ao que eu -repliquei que a minha esposa teria sempre as mais -finas rendas deste mundo.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CII" id="CII">CII</a></h5> - -<h4>De casada.</h4> - - -<p>Imagina um relogio que só tivesse pendulo, sem -mostrador, de maneira que não se vissem as horas -escriptas. O pendulo iria de um lado para outro, -mas nenhum signal externo mostraria a marcha do -tempo. Tal foi aquella semana da Tijuca.</p> - -<p>De quando em quando, tornavamos ao passado e -divertiamo-nos em relembrar as nossas tristezas e -calamidades, mas isso mesmo era um modo de não -sairmos de nós. Assim vivemos novamente a nossa -longa espera de namorados, os annos da adolescencia, -a denuncia que está nos primeiros capitulos, -e riamos de José Dias, que conspirou a nossa desunião, -e acabou festejando o nosso consorcio. Uma -ou outra vez, falavamos em descer, mas as manhãs -marcadas eram sempre de chuva ou de sol, e nós -esperávamos um dia encoberto, que teimava em -não vir.</p> - -<p>Não obstante, achei que Capitú estava um tanto -impaciente por descer. Concordava em ficar, mas -ia falando do pae e de minha mãe, da falta de noticias -nossas, disto e daquillo, a ponto que nos arrufámos -um pouco. Perguntei-lhe se já estava aborrecida -de mim.</p> - -<p>—Eu?</p> - -<p>—Parece.</p> - -<p>—Você ha de ser sempre creança, disse ella fechando-me -a cara entre as mãos e chegando muito -os olhos aos meus. Então eu esperei tantos annos -para aborrecer-me em sete dias? Não, Bentinho; -digo isto porque é realmente assim, creio que elles -pódem estar desejosos de ver-nos e imaginar alguma -doença, e, confesso, pela minha parte, que -queria ver papae.</p> - -<p>—Pois vamos amanhã.</p> - -<p>—Não; ha de ser com tempo encoberto, redarguiu -rindo.</p> - -<p>Peguei-lhe no riso e na palavra, mas a impaciencia -continuou, e descemos com sol.</p> - -<p>A alegria com que poz o seu chapéo de casada, e -o ar de casada com que me deu a mão para entrar -e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo -me mostrou que a causa da impaciencia de Capitú -eram os signaes exteriores do novo estado. Não lhe -bastava ser casada entre quatro paredes e algumas -arvores; precisava do resto do mundo tambem. E -quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ella, -parando, olhando, falando, senti a mesma cousa. -Inventava passeios para que me vissem, me confirmasses -e me invejassem. Na rua, muitos voltavam -a cabeça curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: -«Quem são?» e um sabido explicava: -«Este é o doutor Santiago, que casou ha dias com -aquella moça, D. Capitolina, depois de uma longa -paixão de creanças; moram na Gloria, as familias -residem em Matacavallos.» E ambos os dous: « É -uma mocetona!»</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CIII" id="CIII">CIII</a></h5> - -<h4>A felicidade tem boa alma.</h4> - - -<p>Mocetona é vulgar; José Dias achou melhor. Foi -a unica pessoa cá de baixo que nos visitou -na Tijuca, levando abraços dos nossos e palavras -suas, mas palavras que eram musicas verdadeiras; -não as ponho aqui para ir poupando papel, mas foram -deliciosas. Um dia, comparou-nos a aves criadas -em dous vãos de telhado contiguos. Imagina o resto, -as aves emplumando as azas e surtindo ao ceu, e o -ceu agora mais largo para poder contel-as tambem. -Nenhum de nós riu; ambos escutavamos commovidos -e convencidos, esquecendo tudo, desde a tarde -de 1858.... A felicidade tem boa alma.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CIV" id="CIV">CIV</a></h5> - -<h4>As pyramides.</h4> - - -<p>José Dias dividia-se agora entre mim e minha -mãe, alternando os jantares da Gloria com os almoços -de Matacavallos. Tudo corria bem. Ao fim -de dous annos de casado, salvo o desgosto grande -de não ter um filho, tudo corria bem. Perdera meu -sogro, é verdade, e o tio Cosme estava por pouco, -mas a saude de minha mãe era boa; a nossa excellente.</p> - -<p>Eu era advogado de algumas casas ricas, e os -processos vinham chegando. Escobar contribuira -muito para as minhas estréas no fòro. Interveiu -com um advogado celebre para que me admitisse -á sua banca, e arranjou-me algumas procurações, -tudo espontaneamente.</p> - -<p>Demais, as nossas relações de familia estavam previamente -feitas; Sancha e Capitú continuavam depois -de casadas a amizade da escola, Escobar e eu -a do seminario. Elles moravam em Andarahy, aonde -queriam que fossemos muitas vezes, e, não podendo -ser tantas como desejavamos, iamos lá jantar alguns -domingos, ou elles vinham fazel-o comnosco. -Jantar é pouco. Iamos sempre muito cedo, logo -depois do almoço, para gozarmos o dia compridamente, -e só nos separavamos ás nove, dez e onze -horas, quando não podia ser mais. Agora que penso -naquelles dias de Andarahy e da Gloria, sinto que a -vida e o resto não sejam tão rijos como as Pyramides.</p> - -<p>Escobar e a mulher viviam felizes; tinham uma -filhinha. Em tempo ouvi falar de uma aventura do -marido, negocio de theatro, não sei que actriz ou -bailarina, mas se foi certo, não deu escandalo. Sancha -era modesta, o marido trabalhador. Como eu um -dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um -filho, replicou-me:</p> - -<p>—Homem, deixa lá. Deus os dará quando quizer, -e se não der nenhum é que os quer para si, e melhor -será que fiquem no ceu.</p> - -<p>—Uma creanca, um filho é o complemento natural -da vida.</p> - -<p>—Virá, so fòr necessário.</p> - -<p>Não vinha. Capitú pedia-o em suas orações, eu -mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedil-o. -Já não era como em creança; agora pagava antecipadamente, -como os alugueis da casa.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CV" id="CV">CV</a></h5> - -<h4>Os braços.</h4> - - -<p>No mais, tudo corria bem. Capitú gostava de rir -e divertir-se, e, nos primeiros tempos, quando iamos -a passeios ou espectaculos, era como um passaro -que saisse da gaiola. Arranjava-se com graça e -modestia. Embora gostasse de joias, como as outras -moças, não queria que eu lhe comprasse muitas nem -caras, e um dia affligiu-se tanto que prometti não -comprar mais nenhuma; mas foi só por pouco -tempo.</p> - -<p>A nossa vida era mais ou menos placida. Quando -não estavamos com a familia ou com amigos, ou se -não iamos a algum espectaculo ou serão particular -(e estes eram raros) passavamos as noites á nossa -janella da Gloria, mirando o mar e o ceu, a sombra -das montanhas e dos navios, ou a gente que passava -na praia. Ás vezes, eu contava a Capitú a -historia da cidade, outras dava-lhe noticias de astronomia; -noticias de amador que ella escutava attenta -e curiosa, nem sempre tanto que não cochillasse -um pouco. Não sabendo piano, apprendeu depois -de casada, e depressa, e dahi a pouco tocava nas -casas de amizade. Na Gloria era uma das nossas -recreações; tambem cantava, mas pouco e raro, -por não ter voz; um dia chegou a entender que era -melhor não cantar nada e cumpriu o alvitre. De -dansar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia -a um baile; os braços é que... Os braços merecem -um periodo.</p> - -<p>Eram bellos, e na primeira noite que os levou nús -a um baile, não creio que houvesse eguaes na cidade, -nem os seus, leitora, que eram então de menina, -se eram nascidos, mas provavelmente estariam -ainda no marmore, donde vieram, ou nas mãos do -divino esculptor. Eram os mais bellos da noite, a -ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava -mal com as outras pessoas, só para vel-os, -por mais que elles se entrelaçassem aos das casacas -alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse, -quando vi que os homens não se fartavam de olhar -para elles, de os buscar, quasi de os pedir, e que -roçavam por elles as mangas pretas, fiquei vexado -e aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o apoio -de Escobar, a quem confiei candidamente os meus -tedios; concordou logo commigo.</p> - -<p>—Sanchinha tambem não vae, ou irá de mangas -compridas; o contrario parece-me indecente.</p> - -<p>—Não é? Mas não diga o motivo; hão de chamar-nos -seminaristas. Capitú já me chamou assim.</p> - -<p>Nem por isso deixei de contar a Capitú a approvação -de Escobar. Ella sorriu e respondeu que os -braços de Sanchinha eram mal feitos, mas cedeu -depressa, e não foi ao baile; a outros foi, mas levou-os -meio vestidos de escomilha ou não sei quê, que -nem cobria nem descobria inteiramente, como o -sendal de Camões.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CVI" id="CVI">CVI</a></h5> - -<h4>Dez libras esterlinas.</h4> - - -<p>Já disse que era poupada, ou fica dito agora, -e não só de dinheiro mas tambem de cousas -usadas, dessas que se guardam por tradição, por -lembrança ou por saudade. Uns sapatos, por exemplo, -uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam -no peito do pé e principio da perna, os ultimos -que usou antes de calçar botinas, trouxe-os para -casa, e tirava-os de longe em longe da gaveta da -commoda, com outras velharias, dizendo-me que -eram pedaços de creança. Minha mãe, que tinha o -mesmo genio, gostava de ouvir falar e fazer assim.</p> - -<p>Quanto ás puras economias de dinheiro, direi um -caso, e basta. Foi justamente por occasião de uma -licção de astronomia, á praia da Gloria. Sabes -que alguma vez a fiz cochilar um pouco. Uma noite -perdeu-se em fitar o mar, com tal força e concentração, -que me deu ciumes.</p> - -<p>—Você não me ouve, Capitú.</p> - -<p>—Eu? Ouço perfeitamente.</p> - -<p>—O que é que eu dizia?</p> - -<p>—Você... você falava de Sirius.</p> - -<p>—Qual, Sirius, Capitú. Ha vinte minutos que -eu falei de Sirius.</p> - -<p>—Falava de... falava de Marte, emendou ella -apressada.</p> - -<p>Realmente, era de Marte, mas é claro que só -apanhára o som da palavra, não o sentido. Fiquei -serio, e o impeto que me deu foi deixar a sala; -Capitú, ao percebel-o, fez-se a mais mimosa das -creaturas, pegou-me na mão, confessou-me que estivera -contando, isto é, sommando uns dinheiros -para descobrir certa parcella que não achava. Tratava-se -de uma conversão de papel em ouro. A -principio suppuz que era um recurso para desentadar-me, -mas d'ahi a pouco estava eu mesmo calculando -tambem, já então com papel e lapis, -sobre o joelho, e dava a differença que ella buscam.</p> - -<p>—Mas que libras são essas? perguntei-lhe no -fim.</p> - -<p>Capitú fitou-me rindo, e replicou que a culpa de -romper o segredo era minha. Ergueu-se, foi ao -quarto e voltou com dez libras esterlinas, na mão; -eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente -para as despezas.</p> - -<p>—Tudo isto?</p> - -<p>—Não é muito, dez libras só; é o que a avarenta -de sua mulher poude arranjar, em alguns mezes, -concluiu fazendo tinir o ouro na mão.</p> - -<p>—Quem foi o corretor?</p> - -<p>—O seu amigo Escobar.</p> - -<p>—Como é que elle não me disse nada?</p> - -<p>—Foi hoje mesmo.</p> - -<p>—Elle esteve cá?</p> - -<p>—Pouco antes de você chegar; eu não disse -para que você não desconfiasse.</p> - -<p>Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum -presente commemorativo, mas Capitú deteve-me. -Ao contrario, consultou-me sobre o que haviamos -de fazer daquellas libras.</p> - -<p>—São suas, respondi.</p> - -<p>—São nossas, emendou.</p> - -<p>—Pois você guarde-as.</p> - -<p>No dia seguinte, fui ter com Escobar ao armazem, -e ri-me do segredo de ambos. Escobar sorriu -e disse-me que estava para ir ao meu escriptorio -contar-me tudo. A cunhadinha (continuava a dar -este nome a Capitú) tinha-lhe falado naquillo por -occasião da nossa ultima visita a Andarahy, e -disse-lhe a razão do segredo.</p> - -<p>—Quando contei isto a Sanchinha, concluiu elle, -ficou espantada: «Como é que Capitú póde economisar, -agora que tudo está tão caro?»—«Não -sei, filha; sei que arranjou dez libras.»</p> - -<p>—Vê se ella apprende tambem.</p> - -<p>—Não creio; Sanchinha não é gastadeira, mas -tambem não é poupada; o que lhe dou chega, mas -só chega.</p> - -<p>Eu, depois de alguns instantes de reflexão:</p> - -<p>—Capitú é um anjo!</p> - -<p>Escobar concordou de cabeça, mas sem enthusiasmo, -como quem sentia não poder dizer o mesmo -da mulher. Assim pensarias tu tambem, tão certo -é que as virtudes das pessoas proximas nos dão tal -ou qual vaidade, orgulho ou consolação.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CVII" id="CVII">CVII</a></h5> - -<h4>Ciumes do mar.</h4> - - -<p>Se não fosse a astronomia, não descobriria eu tão -cedo as dez libras de Capitú; mas não é por isso -que torno a ella, é para que não cuides que a vaidade -de professor é que me fez padecer com a desattenção -de Capitú e ter ciumes do mar. Não, meu -amigo. Venho explicar-te que tive taes ciumes pelo -que podia estar na cabeça de minha mulher, não -fóra ou acima della. É sabido que as distracções de -uma pessoa pódem ser culpadas, metade culpadas, -um terço, um quinto, um decimo de culpadas, pois -que em materia de culpa a graduação é infinita. -A recordação de uns simples olhos basta para -fixar outros que os recordem e se deleitem com a -imaginação delles. Não é mister peccado effectivo -e mortal, nem papel trocado, simples palavra, aceno, -suspiro ou signal ainda mais miudo e leve. Um anonymo -ou anonyma que passe na esquina da rua faz -com que mettamos Sirius dentro do Marte, e tu -sabes, leitor, a differença que ha de um a outro na -distancia e no tamanho, mas a astronomia tem dessas -confusões. Foi isto que mo fez empallidecer, calar -e querer fugir da sala para voltar. Deus sabe -quando; provavelmente, dez minutos depois. Dez -minutos depois, estaria eu outra vez na sala, ao -piano ou á janella, continuando a licção interrompida:</p> - -<p>—Marte está a distancia de...</p> - -<p>Tão pouco tempo? Sim, tão pouco tempo, dez -minutos. Os meus ciumes eram intensos, mas curtos; -com pouco derrubaria tudo, mas com o mesmo -pouco ou menos reconstruiria o ceu, a terra e as -estrellas.</p> - -<p>A verdade é que fiquei mais amigo de Capitú, se -era possivel, ella ainda mais meiga, o ar mais -brando, as noites mais claras, e Deus mais Deus. -E não foram propriamente as dez libras esterlinas -que fizeram isto, nem o sentimento de economia que -revelavam e que eu conhecia, mas as cautelas que -Capitú empregou para o fim de descobrir-me um -dia o cuidado de todos os dias. Escobar tambem se -me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas -foram-se tornando mais proximas, e as nossas conversações -mais intimas.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CVIII" id="CVIII">CVIII</a></h5> - -<h4>Um filho.</h4> - - -<p>Pois nem todo isso me matava a sède de um filho, -um triste menino que fosse, amarello e magro, mas -um filho, um filho proprio da minha pessoa. Quando -iamos a Andarahy e viamos a filha de Escobar e -Sancha, familiarmente Capitúsinha, por differençal-a -de minha mulher, visto que lhe deram o -mesmo nome á pia, ficavamos cheios de invejas. -A pequena era graciosa e gorducha, faladeira e -curiosa. Os paes, como os outros paes, contavam as -travessuras e agudezas da menina, e nós, quando -voltavamos á noite para a Gloria, vinhamos suspirando -as nossas invejas, e pedindo mentalmente ao -ceu que nol-as matassem...</p> - -<p>...As invejas morreram, as esperanças nasceram, -e não tardou que viesse ao mundo o fructo -dellas. Não era escasso nem feio, como eu já pedia, -mas um rapagão robusto e lindo.</p> - -<p>A minha alegria quando elle nasceu, não sei dizel-a; -nunca a tive egual, nem creio que a possa -haver identica, ou que de longe ou de perto se pareça -com ella. Foi uma vertigem e uma loucura. -Não cantava na rua por natural vergonha, nem em -casa para não affligir Capitú convalescente. Tambem -não caía, porque ha um deus para os paes novos. -Fóra, vivia com o espirito no menino; em casa, -com os olhos, a observal-o, a miral-o, a perguntar-lhe -donde vinha, e porque é que eu estava tão inteiramente -nelle, e varias outras tolices sem palavras, -mas pensadas ou deliradas a cada instante. -Talvez perdi algumas causas no fòro por descuido.</p> - -<p>Capitú não era menos terna para elle e para mim. -Davamos as mãos um ao outro, e, quando não olhavamos -para o nosso filho, conversavamos de nós, do -nosso passado e do nosso futuro. As horas de maior -encanto e mysterio eram as de amamentação. -Quando eu via o meu filho chupando o leite da mãe, -e toda aquella união da natureza para a nutrição -e vida de um ser que não fòra nada, mas que o -nosso destino affirmou que seria, e a nossa constancia -e o nosso amor fizeram que chegasse a ser, -ficava que não sei dizer nem digo; positivamente -não me lembra, e receio que o que dissesse me -saisse escuro.</p> - -<p>Escusai minucias. Assim que, não é preciso contar -a dedicação de minha mãe e de Sancha, que tambem -foi passar com Capitú os primeiros dias e -noites. Quiz rejeitar o obsequio de Sandia; respondeu-me -que eu não tinha nada com isso; tambem -Capitú, em solteira, fora tratal-a á rua dos Invalidos.</p> - -<p>—Não se lembra que o senhor foi lá vel-a?</p> - -<p>—Lembra-me; mas Escobar...</p> - -<p>—Eu virei jantar com vocês, e ás noites sigo para -Andarahy; oito dias, e está tudo passado. Bem se -vê que você é pae de primeira viagem.</p> - -<p>—Tambem você; onde está a segunda?</p> - -<p>Usavamos então estas graças em familia. Hoje, -que me recolhi á minha casmurrice, não sei se -ainda ha tal linguagem, mas deve haver. Escobar -cumpriu o que disse; jantava comnosco, e ia-se á -noite. Sobre tarde desciamos á praia ou iamos ao -Passeio Publico, fazendo elle os seus calculos, eu -os meus sonhos. Eu via o meu filho medico, advogado, -negociante, metti-o em varias universidades e -bancos, e até acceitei a hypothese de ser poeta. A -possibilidade de politico foi consultada, e cri que -me saisse orador, e grande orador.</p> - -<p>—Póde ser, redarguia Escobar; ninguem diria -o que veiu a ser Desmosthenes.</p> - -<p>Escobar acompanhava muita vez as minhas creancices; -tambem interrogava o futuro. Chegou a falar -da hypothese de casar o pequeno com a filha. A -amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei -as de Escobar, ao ouvir-lhe isto, e na total ausencia -de palavras com que alli assignei o pacto; -estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, -que batia com grande força. Acceitei a lembrança, -e propuz que os encaminhassemos a este -fim, pela educarão egual e commum, pela infancia -unida e correcta.</p> - -<p>Era minha ideia que Escobar fosse padrinho do -pequeno; a madrinha devia ser e seria minha mãe. -Mas a primeira parte se trocou por intervenção do -tio Cosme, que, ao ver a creança, disse-lhe entre -outros carinhos </p> - -<p>—Anda, toma o benção a teu padrinho, velhaco.</p> - -<p>E, voltando-se para mim:</p> - -<p>—Não desisto do favor; e ha de ser depressa o -baptisado, antes que a minha doença me leve de -vez.</p> - -<p>Contei discretamente a anecdota a Escobar, para -que elle me comprehendesse e desculpasse; riu-se -e não se magoou. Fez mais, quiz que o almoço do -baptisado fosse na chacara delle, e foi. Eu ainda -tentei espaçar a cerimonia a ver se tio Cosme succumbia -primeiro á doença, mas parece que esta era -mais de aborrecer que de matar. Não houve remedio -senão levar o menino á pia, onde se lhe deu o -nome de Ezequiel; era o de Escobar, e eu quiz supprir -deste modo a falta de compadrio.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CIX" id="CIX">CIX</a></h5> - -<h4>Um filho unico.</h4> - - -<p>Ezequiel, quando começou o capitulo anterior, -não era ainda gerado; quando acabou era christão e -catholico. Este outro é destinado a fazer chegar o -meu Ezequiel aos cinco annos, um rapagão bonito, -com os seus olhos claros, já inquietos, como se quizessem -namorar todas as moças da visinhança, ou -quasi todas.</p> - -<p>Agora, se considerares que elle foi unico, que -nenhum outro veiu, certo nem incerto, morto nem -vivo, um só e unico, imaginarás os cuidados que nos -deu, os somnos que nos tirou, e que sustos nos -metteram as crises dos dentes e outras, a menor febricula, -toda a existencia commum das creanças. A -tudo acudiamos, segundo cumpria e urgia, cousa -que não era necessario dizer, mas ha leitores tão -obtusos, que nada entendem, se se lhes não relata -tudo e o resto. Vamos ao resto.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CX" id="CX">CX</a></h5> - -<h4>Rasgos da infancia.</h4> - - -<p>O resto come-me ainda muitos capitulos; ha -vidas que os tem menos, e fazem-se ainda assim -completas e acabadas.</p> - -<p>Aos cinco e seis annos, Ezequiel não parecia desmentir -os meus sonhos da praia da Gloria; ao contrario, -adivinhavam-se nelle todos as vocações possiveis, -desde vadio até apostolo. Vadio é aqui posto -no bom sentido, no sentido de homem que pensa e -cala; mettia-se ás vezes comsigo, e nisto fazia lembrar -a mãe, desde pequena. Assim tambem, agitava-se -todo e instava por ir persuadir ás visinhas -que os doces que eu lhe trazia eram doces devéras; -não o fazia antes de farto d'elles, mas tambem os -apostolos não levam a boa doutrina senão depois de -a terem toda no coração. Escobar, bom negociante, -opinava que a causa principal desta outra inclinação, -talvez fosse convidar implicitamente as visinhas a -egual apostolado, quando os paes lhe trouxessem -doces; e ria-se da propria graça, e annunciava-me -que o faria seu socio.</p> - -<p>Gostava de musica, não menos que de doce, e -eu disse a Capitú que lhe tirasse ao piano o prégão -do preto das cocadas de Matacavallos...</p> - -<p>—Não me lembra.</p> - -<p>—Não diga isso; você não se lembra daquelle -preto que vendia doce, ás tardes...</p> - -<p>—Lembro-me de um preto que vendia doce, mas -não sei mais da toada.</p> - -<p>—Nem das palavras?</p> - -<p>—Nem das palavras.</p> - -<p>A leitora, que ainda se lembrará das palavras, -dado que me tenha lido com attenção, ficará espantada -de tamanho esquecimento, tanto mais que lhe -lembrarão ainda as vozes da sua infancia e adolescencia; -haverá olvidado algumas, mas nem tudo -fica na cabeça. Assim me replicou Capitú, e não -achei treplica. Fiz, porém, o que ella não esperava; -corri aos meus papeis velhos. Em S. Paulo, quando -estudante, pedi a um professor de musica que me -transcrevesse a toada do prégão; elle o fez com -prazer (bastou-me repetir-lh'o de memoria), e eu -guardei o papelinho; fui procural-o. D'ahi a pouco -interrompi um romance que ella tocava, com o pedacinho -de papel na mão. Expliquei-lh'o; ella teclou -as dezeseis notas.</p> - -<p>Capitú achou á toada um sabor particular, quasi -delicioso; contou ao filho a historia do prégão, e -assim o cantava e teclava. Ezequiel aproveitou a -musica para pedir-me que desmentisse o texto -dando-lhe algum dinheiro.</p> - -<p>Fazia de medico, de militar, de actor e bailarino. -Nunca lhe dei oratorios; mas cavallos de pau -e espada á cinta eram com elle. Já não falo dos -batalhões que passavam na rua, e que elle corria a -ver: todas as creancas o fazem. O que nem todas -fazem é ter os olhos que esta tinha. Em nenhuma -vi as ancias de gosto com que assistia á passagem -da tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores.</p> - -<p>—Olha, papae! olha!</p> - -<p>—Estou vendo, meu filho!</p> - -<p>—Olha o commandante! Olha o cavallo do -commandante! Olha os soldados!</p> - -<p>Um dia amanheceu tocando corneta com a mão; -dei-lhe uma cornetinha de metal. Comprei-lhe soldadinhos -de chumbo, gravuras de batalhas que elle -mirava por muito tempo, querendo que lhe explicasse -uma peça de artilharia, um soldado caído, -outro de espada alçada, e todos os seus amores iam -para o de espada alçada. Um dia (ingenua edade!) -perguntou-me impaciente:</p> - -<p>—Mas, papae, porque é que elle não deixa cair -a espada de uma vez?</p> - -<p>—Meu filho, é porque é pintado.</p> - -<p>—Mas então porque é que elle se pintou?</p> - -<p>Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o -soldado que se tinha pintado no papel, mas o gravador, -e tive de explicar tambem, o que era gravador -e o que era gravura: as curiosidades de Capitú, -em summa.</p> - -<p>Taes são os principaes rasgos da infancia: mais -um e acabo o capitulo. Um dia, na chacara de -Escobar, deu com um gato que tinha um rato atravessado -na bocca. O gato nem deixava a presa, nem -via por onde fugisse. Ezequiel não disse nada, deteve-se, -acocorou-se, e ficou olhando. Ao vel-o assim -attento, perguntámos-lhe de longe o que era; fez-nos -signal que nos calassemos. Escobar concluiu:</p> - -<p>—Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. -Os ratos continuam a infestar-me a casa, que é o -diabo. Vamos ver.</p> - -<p>Capitú quiz tambem ver o filho; acompanhei-os. -Effectivamente, era um gato e um rato, lance banal, -sem interesse nem graça. A unica circumstancia -particular era estar o rato vivo, esperneando, e o -meu pequeno enlevado. De resto, o instante foi curto. -O gato, logo que sentiu mais gente, dispoz-se a correr; -o menino, sem tirar-lhe os olhos de cima, fez-nos -outro signal de silencio; e o silencio não podia -ser maior. Ia dizer religioso, risquei a palavra, mas -aqui a ponho outra vez, não só por significar a totalidade -do silencio, mas tambem porque havia naquella -acção do gato e do rato alguma cousa que -prendia com ritual. O unico rumor eram os ultimos -guinchos do rato, aliás frouxissimos; as pernas mal -se lhe moviam e desordenadamente. Um tanto -aborrecido, bati palmas para que o gato fugisse, e o -gato fugiu. Os outros nem tiveram tempo de atalhar-me, -Ezequiel ficou abatido.</p> - -<p>—Ora, papae!</p> - -<p>—Que foi? A esta hora o rato está comido.</p> - -<p>—Pois sim, mas eu queria ver.</p> - -<p>Os dous riram-se; eu mesmo achei-lhe graça.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXI" id="CXI">CXI</a></h5> - -<h4>Contado depressa.</h4> - - -<p>Achei-lhe graça, e não lh'a nego ainda agora, -apesar do tempo passado, dos successos occorridos, -e da tal ou qual sympathia ao rato que acho em -mim; teve graça. Não me pesa dizel-o; os que amam -a natureza como ella quer ser amada, sem repudio -parcial nem exclusões injustas, não acham nella -nada inferior. Amo o rato, não desamo o gato. Já -pensei em os fazer viver juntos, mas vi que são -incompativeis. Em verdade, um roe-me os livros, -outro o queijo; mas não é muito que eu lhes perdoe, -se já perdoei a um cachorro que me levou o descanço -em peores circumstancias. Contarei o caso -depressa.</p> - -<p>Foi quando nasceu Ezequiel; a mãe estava com -febre, Sancha vivia ao pé della, e tres cães na rua -latiam toda a noite. Procurei o fiscal, e foi como -se procurasse o leitor, que só agora sabe disto. Então -resolvi matal-os; comprei veneno, mandei fazer tres -bolas de carne, e eu mesmo inseri nellas a droga. -De noite, saí; era uma hora; nem a doente, nem a -enfermeira podiam dormir, com a bulha dos cães. -Quando elles me viram, afastaram-se, dous desceram -para o lado da praia do Flamengo, um ficou a -curta distancia, como que esperando. Fui-me a elle, -assobiando e dando estalinhos com os dedos. O diabo -ainda latiu, mas fiado nos signaes de amizade, foi-se -calando, até que se calou de todo. Como eu -continuasse, elle veiu a mim, devagar, mexendo a -cauda, que é o seu modo de rir delles; eu tinha já -na mão as bolas envenenadas, e ia deitar-lhe uma -dellas, quando aquelle riso especial, carinho, confiança -ou o que quer que seja, me atou a vontade; -fiquei assim não sei como, tocado de pena e guardei -as bolas no bolso. Ao leitor póde parecer que foi o -cheiro da carne que remetteu o cão ao silencio. Não -digo que não; eu cuido que elle não me quiz attribuir -perfidia ao gesto, e entregou-se-me. A conclusão -é que se livrou.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXII" id="CXII">CXII</a></h5> - -<h4>As imitações de Ezequiel.</h4> - - -<p>Tal não faria Ezequiel. Não comporia bolas envenenadas, -supponho, mas não as recusaria tambem. -O que faria com certeza era ir atraz dos cães, a -pedrada, até onde lhe dessem as pernas. E se tivesse -um pau, iria a pau. Capitú morria por aquelle batalhador -futuro.</p> - -<p>—Não sae a nós, que gostamos da paz, disse-me -ella um dia, mas papae em moço era assim tambem; -mamãe é que contava.</p> - -<p>—Sim, não sairá maricas, repliquei; eu só lhe -descubro um defeitosinho, gosta de imitar os outros.</p> - -<p>—Imitar como?</p> - -<p>—Imitar os gestos, as modos, os altitudes; imita -prima Justina, imita José Dias; já lhe achei até um -geito dos pés de Escobar e dos olhos...</p> - -<p>Capitú deixou-se estar pensando e olhando para -mim, e disse afinal que era preciso emendal-o. Agora -reparava que realmente era vezo do filho, mas parecia-lhe -que era só imitar por imitar, como succede -a muitas pessoas grandes, que tomam as maneiras -dos outros; e para que não fosse mais longe...</p> - -<p>—Tambem não vamos mortifical-o. Sempre ha -tempo de corrigil-o.</p> - -<p>—Ha, vou ver. Você tambem não era assim, -quando se zangava com alguem...</p> - -<p>—Quando me zangava, concordo; vingança de -menino.</p> - -<p>—Sim, mas eu não gosto de imitações em casa.</p> - -<p>—E naquelle tempo gostavas de mim? disse eu -batendo-lhe na face.</p> - -<p>A resposta do Capitú foi um riso doce de escarneo, -um desses risos que não se descrevem, e apenas -se pintarão; depois estirou os braços e atirou-m'os -sobre os hombros, tão cheios de graça que pareciam -(velha imagem!) um collar de flores. Eu fiz o -mesmo aos meus, e senti não haver alli um esculptor -que nos transferisse a altitude a um pedaço -de marmore. Só brilharia o artista, é certo. Quando -uma pessoa ou um grupo saem bem, ninguem quer -saber de modelo, mas da obra, e a obra é que fica. -Não importa; nós saberiamos que eramos nós.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXIII" id="CXIII">CXIII</a></h5> - -<h4>Embargos de terceiro.</h4> - - -<p>Por falar nisto, é natural que me perguntes se, -sendo antes tão cioso della, não continuei a sel-o -apesar do filho e dos annos. Sim, senhor, continuei. -Continuei, a tal ponto que o menor gesto me affligia, -a mais intima palavra, uma insistencia qualquer: -muita vez só a indifferença bastava. Cheguei a ter -ciumes de tudo e de todos. Um visinho, um par de -valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia -de terror ou desconfiança. E certo que Capitú -gostava de ser vista, e o meio mais proprio a tal -fim (disse-me uma senhora, um dia) é ver tambem, -e não ha ver sem mostrar que se vê.</p> - -<p>A senhora que me disse isto cuido que gostou de -mim, e foi naturalmente por não achar da minha -parte correspondencia aos seus affectos que me -explicou daquella maneira os seus olhos teimosos. -Outros olhos me procuravam tambem, não muitos, -e não digo nada sobre elles, tendo aliás confessado -a principio as minhas aventuras vindouras, mas -eram ainda vindouras. Naquelle tempo, por mais -mulheres bonitas que achasse, nenhuma receberia -a minima parte do amor que tinha a Capitú. A -minha propria mãe não queria mais que metade. -Capitú era tudo e mais que tudo; não vivia nem -trabalhava que não fosse pensando nella. Ao theatro -iamos juntos; só me lembra que fosse duas vezes -sem ella, um beneficio de actor, e uma estréa de -opera, a que ella não foi por ter adoecido, mas quiz -por força que eu fosse. Era tarde para mandar o camarote -a Escobar; saí, mas voltei no fim do primeiro -acto. Encontrei Escobar á porta do corredor.</p> - -<p>—Vinha falar-te, disse-me elle.</p> - -<p>Expliquei-lhe que tenha saido para o theatro, -donde voltára receioso de Capitú, que ficára doente.</p> - -<p>—Doente de que? perguntou Escobar.</p> - -<p>—Queixava-se da cabeça e do estomago.</p> - -<p>—Então, vou-me embora. Vinha para aquelle -negocio dos embargos...</p> - -<p>Eram uns embargos de terceiro; occorrera um -incidente importante, e, tendo elle jantado na cidade, -não quiz ir para casa sem dizer-me o que era, mas -já agora falaria depois...</p> - -<p>—Não, falemos já, sóbe; ella póde estar melhor. -Se estiver peor, desces.</p> - -<p>Capitú estava melhor e até boa. Confessou-me -que apenas tivera uma dor de cabeça de nada, mas -aggravára o padecimento para que eu fosse divertir-me. -Não falava alegre, o que me fez desconfiar quo -mentia, para me não metter medo, mas jurou que -era a verdade pura. Escobar sorriu e disse:</p> - -<p>—A cunhadinha está tão doente como você ou -eu. Vamos aos embargos.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXIV" id="CXIV">CXIV</a></h5> - -<h4>Em que se explica o explicado.</h4> - - -<p>Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um -ponto que já ficou explicado, mas não bem explicado. -Viste que eu pedi (cap. CX) a um professor -de musica de S. Paulo que me escrevesse a toada -daquelle prégão de doces de Matacavallos. Em si, -a materia é chocha, e não vale a pena de um capitulo, -quanto mais dous; mas ha materias taes que -trazem ensinamentos interessantes, senão agradaveis. -Expliquemos o explicado.</p> - -<p>Capitú e eu tinhamos jurado não esquecer mais -aquelle prégão; foi em momento de grande ternura, -e o tabellião divino sabe as cousas que se juram -em taes momentos, elle que as registra nos livros -eternos.</p> - -<p>—Você jura?</p> - -<p>—Juro, disse ella estendendo tragicamente o -braço.</p> - -<p>Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão; estava -ainda no seminario. Quando fui para S. Paulo, querendo -um dia relembrar a toada, vi que a ia perdendo -inteiramente; consegui recordal-a e corri ao -professor, que me fez o obsequio de a escrever no -pedacinho de papel. Foi para não faltar ao juramento -que fiz isto. Mas has de crer que, quando -corri aos papeis velhos, naquelle noite da Gloria, -tambem me não lembrava já da toada nem do texto? -Fiz-me de pontual ao juramento, e este é que foi o -meu peccado; esquecer, qualquer esquece.</p> - -<p>Ao certo, ninguem sabe se ha de manter ou não -um juramento. Cousas futuras! Portanto, a nossa -constituição politica, transferindo o juramento á -affirmação simples, é profundamente moral. Acabou -com um peccado terrivel. Faltar ao compromisso é -sempre infidelidade, mas a alguem que tenha mais -temor a Deus que aos homens não lhe importara -mentir, uma vez ou outra, desde que não mette a -alma no purgatorio. Não confundam purgatorio com -inferno, que é o eterno naufragio. Purgatorio é uma -casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, -a juro alto e prazo curto. Mas os prazos renovam-se, -até que um dia uma ou duas virtudes -medianas pagam todos os peccados grandes e pequenos.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXV" id="CXV">CXV</a></h5> - -<h4>Duvidas sobre duvidas.</h4> - - -<p>Vamos agora aos embargos... E porque iremos -aos embargos? Deus sabe o que custa escrevel-os, -quanto mais contal-os. Da circumstancia nova que -Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse -então, isto é, que não valia nada.</p> - -<p>—Nada?</p> - -<p>—Quasi nada.</p> - -<p>—Então vale alguma cousa.</p> - -<p>—Para reforçar as razões que já temos vale -menos que o chá que você vae tomar commigo.</p> - -<p>—É tarde para tomar chá.</p> - -<p>—Tomaremos depressa.</p> - -<p>Tomámos depressa. Durante elle, Escobar olhava -para mim desconfiado, como se cuidasse que eu -recusava a circumstancia nova por forrar-me a -escrevel-a; mas tal suspeita não ia com a nossa amizade.</p> - -<p>Quando elle saiu, referi as minhas duvidas a -Capitú; ella as desfez com a arte fina que possuia, -um geito, uma graça toda sua, capaz de dissipar -as mesmas tristezas de Olympio.</p> - -<p>—Seria o negocio dos embargos, concluiu; e -elle que veiu até aqui, a esta hora, é que está impressionado -com a demanda.</p> - -<p>—Tens razão.</p> - -<p>Palavra puxa palavra, falei de outras duvidas. -Eu era então um poço dellas; coaxavam dentro do -mim, como verdadeiras rans, a ponto de me tirarem -o somno algumas vezes. Disse-lhe que começava a -achar minha mãe um tanto fria e arredia com ella. -Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitú!</p> - -<p>—Ja disse a você o que é; cousas de sogra. -Mamãesinha tem ciumes de você; logo que elles -passem e as saudades augmentem, ella torna a ser -o que era. Em lhe faltando o neto...</p> - -<p>—Mas eu tenho notado que já é fria tambem -com Ezequiel. Quando elle vae commigo, mamãe -não lhe faz as mesmas graças.</p> - -<p>—Quem sabe se não anda doente?</p> - -<p>—Vamos nós jantar com ella amanhã?</p> - -<p>—Vamos... Não... Pois vamos.</p> - -<p>Fomos jantar com a minha velha. Já lhe podia -chamar assim, posto que os seus cabellos brancos -não o fossem todos nem totalmente, e o rosto estivesse -comparativamente fresco; era uma especie de -mocidade quinquagenaria ou do ancianidade viçosa, -á escolha... Mas nada de melancolias; não quer -falar dos olhos molhados, á entrada e á saida. Pouco -entrou na conversação. Tambem não era differente -da costumada. José Dias falou do casamento e -suas bellezas, da politica, da Europa e da homeopathia, -tio Cosme das suas molestias, prima Justina -da visinhança, ou de José Dias, quando este saía da -sala.</p> - -<p>Quando voltámos, á noite, viemos por alli a pé, -falando das minhas duvidas. Capitú novamente me -aconselhou que esperassemos. Sogras eram todas -assim; lá vinha um dia e mudavam. Ao passo que -me falava, recrudescia de ternura. Dalli em deante -foi cada vez mais doce commigo; não me ia esperar -á janella, para não espertar-me os ciumes, mas -quando eu subia, via no alto da escada, entre as -grades da cancella, a cara deliciosa da minha amiga -e esposa, risonha como toda a nossa infancia. Ezequiel -ás vezes estava com ella; nós o havíamos -acostumado a ver o osculo da chegada e da saida, -e elle enchia-me a cara de beijos.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXVI" id="CXVI">CXVI</a></h5> - -<h4>Filho do homem.</h4> - - -<p>Apalpei José Dias sobre as maneiras novas de -minha mãe; ficou espantado. Não havia nada, nem -podia haver cousa nenhuma, tantos eram os louvores -incessantes que elle ouvia «á bella e virtuosa -Capitú.»</p> - -<p>—Agora, quando os ouço, entro tambem no côro, -mas a principio ficava envergonhadissimo. Para -quem chegou, como eu, a arrenegar deste casamento, -era duro confessar que elle foi uma verdadeira -benção do ceu. Que digna senhora nos saiu a -creança travessa de Matacavallos! O pae é que nos -separou um pouco, em quanto não nos conheciamos, -mas tudo acabou em bem. Pois, sim, senhor, -quando D. Gloria elogia a sua nora e comadre...</p> - -<p>—Então mamãe?...</p> - -<p>—Perfeitamente!</p> - -<p>—Mas, porque e não nos visita ha tanto tempo?</p> - -<p>—Creio que tem andando mais achacada dos -seus rheumatismos. Este anno tem feito muito frio... -Imagine a afflicção della, que andava o dia inteiro; -agora é obrigada a estar quieta, ao pé do irmão, que -lá tem o seu mal...</p> - -<p>Quiz observar-lhe que tal razão explicava a interrupção -das visitas, e não a frieza quando iamos nós -a Matacavallos; mas não estendi tão longe a intimidade -do aggregado. José Dias pediu para ver o -nosso «prophetasinho» (assim chamava a Ezequiel) -e fez-lhe as festas do costume. Desta vez falou ao -modo biblico (estivera na vespera a folhear o livro de -Ezequiel, como soube depois), e perguntava-lhe: -«Como vae isso, filho do homem?» «Dize-me, filho -do homem, onde estão os teus brinquedos?» «Queres -comer doce, filho do homem?»</p> - -<p>—Que filho do homem é esse, perguntou-lhe -Capitú agastada.</p> - -<p>—São os modos de dizer da Biblia.</p> - -<p>—Pois eu não gosto delles, replicou ella com -aspereza.</p> - -<p>—Tem razão, Capitú, concordou o aggregado. -Voce não imagina como a Biblia é cheia de expressões -cruas e grosseiras. Eu falava assim para variar... -Tu como vaes, meu anjo? Meu anjo, como -é que eu ando na rua?</p> - -<p>—Não, atalhou Capitú; já lhe vou tirando esse -costume do imitar os outros.</p> - -<p>—Mas tem muita graça; a mim, quando elle -copia os meus gestos, parece-me que sou eu mesmo, -pequenino. Outro dia chegou a fazer um gesto de -D. Gloria, tão bom que ella lhe deu um beijo em -paga. Vamos, como é que eu ando?</p> - -<p>—Não, Ezequiel, disse eu, mamãe não quer.</p> - -<p>Eu mesmo achava feio tal séstro. Alguns dos -gestos já lhe iam ficando mais repetidos, como -o das mãos e pés de Escobar; ultimamente, até -apanhara o modo de voltar da cabeça deste, quando -falava, e o de deixal-a cair, quando ria. Capitú -ralhava. Mas o menino era travesso, como o diabo; -apenas começámos a falar de outra cousa, saltou -ao meio da sala, dizendo a José Dias:</p> - -<p>—O senhor anda assim.</p> - -<p>Não podemos deixar de rir, eu mais que ninguem. -A primeira pessoa que fechou a cara, que o -reprehendeu e chamou a si foi Capitú.</p> - -<p>—Não quero isso, ouviu?</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXVII" id="CXVII">CXVII</a></h5> - -<h4>Amigos proximos.</h4> - - -<p>Já então Escobar deixára Andarahy e comprára -uma casa no Flamengo, casa que ainda alli vi, ha -dias, quando me deu na gana experimentar se as sensações -antigas estavam mortas ou dormiam só; não -posso dizel-o bem, porque os somnos, quando são -pesados, confundem vivos e defunctos, a não ser -a respiração. Eu respirava um pouco, mas póde ser -que fosse do mar, meio agitado. Emfim, passei, -accendi um charuto, e dei por mim no Cattete; tinha -subido pela rua da Princeza, uma rua antiga... -Ó ruas antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas! -Todos nós éramos antigos, e não é preciso dizer que -no máu sentido, no sentido de velho e acabado.</p> - -<p>Velha é a casa, mas não lhe alteraram nada. Não -sei até se ainda tem o mesmo numero. Não digo -que numero é para não irem indagar e cavar a historia. -Não é que Escobar ainda lá more nem sequer -viva; morreu pouco depois, por um modo que -hei de contar. Emquanto viveu, uma vez que estavamos -tão proximos, tinhamos por assim dizer uma -só casa, eu vivia na delle, elle na minha, e o pedaço -de praia entre a Gloria e o Flamengo era como um -caminho de uso proprio e particular. Fazia-me -pensar nas duas casas de Matacavallos, com o seu -muro de permeio.</p> - -<p>Um historiador da nossa lingua, creio que João -de Barros, põe na boca de um rei barbaro algumas -palavras mansas, quando os portuguezes lhe propunham -estabelecer alli ao pé uma fortaleza; dizia -o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos -outros, não perto, para se não zangarem como as -aguas do mar que batiam furiosas no rochedo que -elles viam dalli. Que a sombra do escriptor me perdoe, -se eu duvido que o rei dissesse tal palavra -nem que ella seja verdadeira. Provavelmente foi o -mesmo escriptor que a inventou para adornar o -texto, e não fez mal, porque é bonita; realmente, é -bonita. Eu creio que o mar então batia na pedra, -como é seu costume, desde Ullysses e antes. Agora -que a comparação seja verdadeira é que não. Seguramente -ha inimigos contiguos, mas tambem ha -amigos do perto e do peito. E o escriptor esquecia -(salvo se ainda não era do seu tempo) esquecia o -adagio: longe dos olhos, longe do coração. Nós não -podiamos ter os corações agora mais perto. As -nossas mulheres viviam na casa uma da outra, nós -passavamos as noites cá ou lá conversando, jogando -ou mirando o mar. Os dous pequenos passavam -dias, ora no Flamengo, ora na Gloria.</p> - -<p>Como eu observasse que podia acontecer com -elles o que se dera entre mim e Capitú, acharam -todos que sim, e Sancha accrescentou que até já se -iam parecendo. Eu expliquei:</p> - -<p>—Não; é porque Ezequiel imita os gestos dos -outros.</p> - -<p>Escobar concordou commigo, e insinuou que -alguma vez as creanças que se frequentam muito -acabam parecendo-se umas com as outras. Opinei -de cabeça, como me succedia nas materias que eu -não sabia bem nem mal. Tudo podia ser. O certo -é que elles se queriam muito, e podiam acabar -casados, mas não acabaram casados.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXVIII" id="CXVIII">CXVIII</a></h5> - -<h4>A mão de Sancha.</h4> - - -<p>Tudo acaba, leitor; é um velho truismo, a que -se póde accrescentar que nem tudo o que dura dura -muito tempo. Esta segunda parte não acha crentes -faceis; ao contrario, a ideia de que um castello de -vento dura mais que o mesmo vento de que é feito, -difficilmente se despegará da cabeça, e é bom -que seja assim, para que se não perca o costume -daquellas construcções quasi eternas.</p> - -<p>O nosso castello era solido, mas um domingo... -Na vespera tinhamos passado a noite no Flamengo, -não só os dous casaes inseparaveis, como ainda o -aggregado e prima Justina. Foi então que Escobar, -falando-me á janella, disse-me que fossemos lá -jantar no dia seguinte; precisavamos falar de um -projecto em familia, um projecto para os quatro.</p> - -<p>—Para os quatro? Uma contradança.</p> - -<p>—Não. Não és capaz de adivinhar o que seja, -nem eu digo. Vem amanhã.</p> - -<p>Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa, -ao canto da janella. Quando o marido saiu, -veiu ter commigo. Perguntou-me de que é que -falaramos; disse-lhe que de um projecto que eu -não sabia qual fosse; ella pediu-me segredo, e -revelou-me o que era: uma viagem á Europa dalli -a dous annos. Disse isto de costas para dentro, -quasi suspirando. O mar batia com grande força na -praia; havia ressaca.</p> - -<p>—Vamos todos? perguntei por fim.</p> - -<p>—Vamos.</p> - -<p>Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com -tanto prazer que eu, graças ás relações della e -Capitú, não se me daria beijal-a na testa. Entretanto, -os olhos de Sancha não convidavam a expansões -fraternaes, pareciam quentes e intimativos, -diziam outra cousa, e não tardou que se afastassem -da janella, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. -A noite era clara.</p> - -<p>Dalli mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé -do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os -quatro e ficaram deante uns dos outros, uns esperando -que os outros passassem, mas nenhuns passavam. -Tal se dá na rua entre dous teimosos. A -cautela desligou-nos; eu tornei a voltar-me para -fóra. E assim posto entrei a cavar na memoria se a -alguma vez olhára para ella com a mesma expressão, -e fiquei incerto. Tive uma certeza só, é que -um dia pensei nella, como se pensa na bella desconhecida -que passa; mas então dar-se-hia que ella -adivinhando... Talvez o simples pensamento me -transluzisse cá fóra, e ella me fugisse outr'ora -irritada ou acanhada, e agora por um movimento -invencivel... Invencivel; esta palavra foi como uma -benção de padre á missa, que a gente recebe e -repete em si mesma.</p> - -<p>—O mar amanhã está de desafiar a gente, -disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.</p> - -<p>—Você entra no mar amanhã?</p> - -<p>Tenho entrado com mares maiores, muito -maiores.—Você não imagina o que é um bom mar -em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter -estes pulmões,—disse elle batendo no peito, e estes -braços; apalpa.</p> - -<p>Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. -Custa-me esta confissão, mas não posso supprimil-a; -era jarretar a verdade. Nem só os apalpei com essa -ideia, mas ainda senti outra cousa: achei-os mais -grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; -accresce que sabiam nadar.</p> - -<p>Quando saímos, tornei a falar com os olhos á -dona da casa. A mão della apertou muito a minha, -e demorou-se mais que de costume.</p> - -<p>A modestia pedia então, como agora, que eu visse -naquelle gesto de Sancha uma sancção ao projecto -do marido e um agradecimento. Assim devia ser, -mas um fluido particular que me correu todo o -corpo desviou de mim a conclusão que deixo -escripta. Senti ainda os dedos de Sancha entre os -meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de -vertigem e de peccado. Passou depressa no relogio -do tempo; quando cheguei o relogio ao ouvido, -trabalhavam só os minutos da virtude e da razão.</p> - -<p>—...Uma senhora deliciosissima, concluiu José -Dias um discurso que vinha fazendo.</p> - -<p>—Deliciosissima! repeti com algum ardor, que -moderei logo, emendando-me: Realmente, uma -bella noite!</p> - -<p>—Como devem ser todas as daquella casa, continuou -o aggregado. Cá fóra, não; cá fóra o mar -está zangado; escute.</p> - -<p>Ouvia-se o mar forte,—como já se ouvia de -casa,—a ressaca era grande, e, a distancia, viam-se -crescer as ondas. Capitú e prima Justina, que -iam adeante, detiveram-se n'uma das voltas da -praia, e fomos conversando os quatro; mas eu -conversava mal. Não havia meio de esquecer inteiramente -a mão de Sancha nem os olhos que trocámos. -Agora achava-lhes isto, agora aquillo. Os instantes -do diabo intercalavam-se nos minutos de -Deus, e o relogio foi assim marcando alternativamente -a minha perdição e a minha salvação. José -Dias despediu-se de nós á porta. Prima Justina -dormiu em nossa casa; iria embora, no dia seguinte, -depois do almoço e da missa. Eu recolhi-me ao meu -gabinete, onde me demorei mais que de costume.</p> - -<p>O retrato de Escobar, que eu tinha alli, ao pé do -de minha mãe, falou-me como se fosse a propria -pessoa. Combati sinceramente os impulsos que -trazia do Flamengo; rejeitei a figura da mulher do -meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem -me affirmava que houvesse alguma intenção daquella -especie no gesto da despedida e nos anteriores? -Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa -viagem. Sancha e Capitú eram tão amigas que seria -um prazer mais para ellas irem juntas. Quando -houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria -que não era mais que uma sensação fulgurante, -destinada a morrer com a noite e o somno? Ha -remorsos que não nascem de outro peccado, nem -tem maior duração. Agarrei-me a esta hypothese -que se conciliava com a mão de Sancha, que eu -sentia de memoria dentro da minha mão, quente e -demorada, apertada e apertando...</p> - -<p>Sinceramente, eu achava-me mal entre um amigo -e a attracção. A timidez póde ser que fosse outra -causa daquella crise; não é só o ceu que dá as -nossas virtudes, a timidez tambem, não contando o -acaso, mas o acaso é um méro accidente; a melhor -origem dellas é o ceu. Entretanto, como a timidez -vem do ceu, que nos dá a compleição, a virtude, -filha della é, genealogicamente, o mesmo sangue -celestial. Assim reflectiria, se pudesse; mas a principio -vaguei á tôa. Paixão não era nem inclinação. -Capricho seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era -nada, inteiramente nada. O retrato de Escobar -pareceu falar-me; vi-lhe a altitude franca e simples, -sacudi a cabeça e fui deitar-me.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXIX" id="CXIX">CXIX</a></h5> - -<h4>Não faça isso, querida.</h4> - - -<p>A leitora, que é minha amiga e abriu este livro -com o fim de descançar da cavatina de hontem -para a valsa de hoje, quer fechal-o ás pressas, ao -ver que beiramos um abysmo. Não faça isso, querida; -eu mudo de rumo.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXX" id="CXX">CXX</a></h5> - -<h4>Os autos.</h4> - - -<p>Na manhã seguinte accordei livre das abominações -da vespera; chamei-lhes allucinações, tomei -café, percorri os jornaes e fui estudar uns autos. -Capitú e prima Justina sairam para a missa das -nove, na Lapa. A figura de Sancha desappareceu -inteiramente no meio das allegações da parte -adversa, que eu ia lendo nos autos, allegações -falsas, inadmissiveis, sem apoio na lei nem nas -praxes. Vi que era facil ganhar a demanda; consultei -Dalloz, Pereira e Souza...</p> - -<p>Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. Era -uma bella photographia tirada um anno antes. -Estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda -no dorso de uma cadeira, a direita mettida ao -peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. -Tinha garbo e naturalidade. A moldura -que lhe mandei pôr não encobria a dedicatoria, -escripta embaixo, não nas costas do cartão: «Ao -meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70.» -Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos -daquella manhã, e espancaram de todo as -recordações da vespera. Naquelle tempo a minha -vista era boa; eu podia lel-as do logar em que -estava. Tornei aos autos.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXI" id="CXXI">CXXI</a></h5> - -<h4>A catastrophe.</h4> - - -<p>No melhor delles, ouvi passos precipitados na -escada, a campainha soou, soaram palmas, golpes -na cancella, vozes, acudiram todos, acudi eu mesmo. -Era um escravo da casa de Sancha que me chamava:</p> - -<p>—Para ir lá... sinhô nadando, sinhô morrendo.</p> - -<p>Não disse mais nada, ou eu não lhe ouvi o resto. -Vesti-me, deixei recado a Capitú e corri ao Flamengo.</p> - -<p>Em caminho, fui adivinhando a verdade. Escobar -metteu-se a nadar, como usava fazer, arriscou-se -um pouco mais fóra que de costume, apesar do mar -bravio, foi enrolado e morreu. As canoas que acudiram -mal puderam trazer-lhe o cadaver.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXII" id="CXXII">CXXII</a></h5> - -<h4>O enterro.</h4> - - -<p>A viuva... Poupo-vos as lagrimas da viuva, as -minhas, as da outra gente. Sai de lá cerca de onze -horas; Capitú e prima Justina esperavam-me, -uma com o parecer abatido e estupido, outra enfastiada -apenas.</p> - -<p>—Vão fazer companhia a pobre Sanchinha; eu -vou cuidar do enterro.</p> - -<p>Assim fizemos. Quiz que o enterro fosse pomposo, -e a affluencia dos amigos foi numerosa. Praia, ruas, -praça da Gloria, tudo eram carros, muitos delles -particulares. A casa, não sendo grande, não podiam -lá caber todos; muitos estavam na praia, falando -do desastre, apontando o logar em que Escobar -fallecèra, ouvindo referir a chegada do morto. José -Dias ouviu tambem falar dos negocios do finado, -divergindo alguns na avaliação dos bens, mas -havendo accordo em que o passivo devia ser pequeno. -Elogiavam as qualidades de Escobar. Um ou outro -discutia o recente gabinete Rio Branco; estavamos -em Março de 1871. Nunca me esqueceu o mez nem -o anno.</p> - -<p>Como eu houvesse resolvido falar no cemiterio, -escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José -Dias, que as achou realmente dignas do morto e de -mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, -pesando as palavras, e confirmou a primeira -opinião; no Flamengo espalhou a noticia. Alguns -conhecidos vieram interrogar-me:</p> - -<p>—Então, vamos ouvil-o?</p> - -<p>—Quatro palavras.</p> - -<p>Poucas mais seriam. Tinha-as escripto com receio -de que a emoção me impedisse de improvisar. No -tilbury em que andei uma ou duas horas, não fizera -mais que recordar o tempo do seminario, as relações -de Escobar, as nossas sympathias, a nossa -amizade, começada, continuada e nunca interrompida, -até que um lance da fortuna fez separar para -sempre duas creaturas que promettiam ficar por -muito tempo unidas. De quando em quando enxugava -os olhos. O cocheiro aventurou duas ou tres -perguntas sobre a minha situação moral; não me -arrancando nada, continuou o seu officio. Chegando -a casa, deitei aquellas emoções ao papel; tal seria -o discurso.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXIII" id="CXXIII">CXXIII</a></h5> - -<h4>Olhos de ressaca.</h4> - - -<p>Emfim, chegou a hora da encommendação e da -partida. Sancha quiz despedir-se do marido, e o -desespero daquelle lance consternou a todos. Muitos -homem choravam tambem, as mulheres todas. Só -Capitú, amparando a viuva, parecia vencer-se a si -mesma. Consolava a outra, queria arrancal-a dalli. -A confusão era geral. No meio della, Capitú olhou -alguns instantes para o cadaver tão fixa, tão apaixonadamente -fixa, que não admira lhe saltassem -algumas lagrimas poucas e caladas...</p> - -<p>As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as della; -Capitú enxugou-as depressa, olhando a furto para a -gente que estava na sala. Redobrou de caricias -para a amiga, e quiz leval-a; mas o cadaver parece -que a retinha tambem. Momento houve em que os -olhos de Capitú fitaram o defuncto, quaes os da -viuva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes -e abertos, como a vaga do mar lá fóra, como se -quizesse tragar tambem o nadador da manhã.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXIV" id="CXXIV">CXXIV</a></h5> - -<h4>O discurso.</h4> - - -<p>—Vamos, são horas...</p> - -<p>Era José Dias que me convidava a fechar o -ataúde. Fechámol-o, e eu peguei n'uma das argolas; -rompeu o alarido final. Palavra que, quando cheguei -á porta, vi o sol claro, tudo gente e carros, as -cabeças descobertas, tive um daquelles meus impulsos -que nunca chegavam á execução: foi atirar á -rua caixao, defuncto e tudo. No carro disse a José -Dias que se calasse. No cemiterio tive de repetir a -cerimonia da casa, desatar as correias, e ajudar a -levar o feretro á cova. O que isto me custou imagina. -Descido o cadaver á cova, trouxeram a cal e -a pá; sabes disto, terás ido a mais de um enterro, -mas o que não sabes nem póde saber nenhum dos -teus amigos, leitor, ou qualquer outro extranho, é -a crise que me tornou quando vi todos os olhos em -mim, os pés quietos, as orelhas attentas, e, ao cabo -de alguns instantes de total silencio, um sussurro -vago, algumas vozes interrogativas, signaes, e alguem, -José Dias, que me dizia ao ouvido:</p> - -<p>—Então, fale.</p> - -<p>Era o discurso. Queriam o discurso. Tinham jus -ao discurso annunciado. Machinalmente, metti a -mão no bolso, saquei o papel e li-o aos trambolhões, -não todo, nem seguido, nem claro; a voz parecia-me -entrar em vez de sair, as mãos tremiam-me. Não -era só a emoção nova que me fazia assim, era o proprio -texto, as memorias do amigo, as saudades confessadas, -os louvores á pessoa e aos seus meritos; -tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal. -Ao mesmo tempo, temendo que me adivinhassem a -verdade, forcejava por escondel-a bem. Creio que -poucos me ouviram, mas o gesto geral foi de comprehensão -e de approvação. As mãos que me deram -a apertar eram de solidariedade; alguns diziam: -«Muito bonito! muito bem! magnifico!» José Dias -achou que a eloquencia estivera na altura da piedade. -Um homem, que me pareceu jornalista, pediu-me -licença para levar o manuscripto e imprimil-o. -Só a minha grande turvação recusaria um obsequio -tão simples.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXV" id="CXXV">CXXV</a></h5> - -<h4>Uma comparação.</h4> - - -<p>Priamo julga-se o mais infeliz dos homens, por -beijar a mão daquelle que lhe matou o filho. Homero -é que relata isto, e é um bom autor, não obstante -contal-o em verso, mas ha narrações exactas -em verso, e até mau verso. Compara tu a situação -de Priamo com a minha; eu acabava de louvar as -virtudes do homem que recebera defuncto aquelles -olhos... E impossivel que algum Homero não tirasse -da minha situação muito melhor effeito, ou quando -menos, egual. Nem digas que nos faltam Homeros, -pela causa apontada em Camões; não, senhor, faltam-nos, -é certo, mas é porque os Priamos procuram -a sombra e o silencio. As lagrimas, se as tèm, -são enxugadas atraz da porta, para que as caras -appareçam limpas e serenas; os discursos são antes -de alegria que do melancolia, e tudo passa como se -Achilles não matasse Heitor.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXVI" id="CXXVI">CXXVI</a></h5> - -<h4>Scismando.</h4> - - -<p>Pouco depois de sair do cemiterio, rasguei o discurso -e deitei os pedaços pela portinhola fóra, sem -embargo dos esforços de José Dias para impedil-o.</p> - -<p>—Não presta para nada, disse-lhe eu, e como -posso ter a tentação de dal-o a imprimir, fica já destruido -de uma vez. Não presta, não vale nada.</p> - -<p>José Dias demonstrou longamente o contrario, -depois elogiou o enterro, e por ultimo fez o panegyrico -do morto, uma grande alma, espirito activo, -coração recto, amigo, bom amigo, digno da esposa -amantissima que Deus lhe dera...</p> - -<p>Neste ponto do discurso, deixei-o falar sósinho e -peguei a scismar commigo. O que scismei foi tão -escuro e confuso que não me deixou tomar pé. No -Cattete mandei parar o carro, disse a José Dias que -fosse buscar as senhoras ao Flamengo e as levasse -para casa; eu iria a pé.</p> - -<p>—Mas...</p> - -<p>—Vou fazer uma visita.</p> - -<p>A razão d'isto era acabar de scismar, e escolher -uma resolução que fosse adequada ao momento. O -carro andaria mais depressa que as pernas; estas -iriam pausadas ou não, podiam afrouxar o passo, -parar, arrepiar caminho, e deixar que a cabeça scismasse -á vontade. Fui andando e scismando. Tinha -já comparado o gesto de Sancha na vespera e o -desespero daquelle dia; eram inconciliaveis. A -viuva era realmente amantissima. Assim se desvaneceu -de todo a illusão da minha vaidade. Não seria -o mesmo caso de Capitú? Cuidei de recompôr-lhe -os olhos, a posição em que a vi, o ajuntamento de -pessoas que devia naturalmente impôr-lhe a dissimulação, -se houvesse algo que dissimular. O que -aqui vae por ordem logica e deductiva, tinha sido -antes uma barafunda de ideias e sensações, graças -aos solavancos do carro e ás interrupções de José -Dias. Agora, porém, raciocinava e evocava claro e -bem. Conclui de mim para mim que era a antiga -paixão que me offuscava ainda e me fazia desvairar -como sempre.</p> - -<p>Quando cheguei a esta conclusão final, chegava -tambem á porta de casa, mas voltei para traz, e subi -outra vez a rua do Cattete. Eram as duvidas que -me affligiam ou a necessidade de affligir Capitú -com a minha grande demora? Ponhamos que eram -as duas causas; andei largo espaço, até que me senti -socegar, e endireitei para casa. Batiam oito hora -n'uma padaria.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXVII" id="CXXVII">CXXVII</a></h5> - -<h4>O barbeiro.</h4> - - -<p>Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia -de vista, amava a rabeca e não tocava inteiramente -mal. Na occasião em que ia passando, executava -não sei que peça. Parei na calçada a ouvil-o (tudo -são pretextos a um coração agoniado), elle viu-me, -o continuou a tocar. Não attendeu a um freguez, e -logo a outro, que alli foram, a despeito da hora e -de ser domingo, confiar-lhe as caras á navalha. -Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando para -mim. Esta consideração fez-me chegar francamente -a porta da loja, voltado para elle. Ao fundo, levantando -a cortina de chita que fechava o interior da -casa, vi apontar uma moça trigueira, vestido claro, -flôr no cabello. Era a mulher delle; creio que me -descobriu de dentro, e veiu agradecer-me com a -presença o favor que eu fazia ao marido. Se me -não engano, chegou a dizel-o com os olhos. Quanto -ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a -mulher, sem ver freguezes, grudava a face ao instrumento, -passava a alma ao arco, e tocava, tocava...</p> - -<p>Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei -a porta da loja e vim andando para casa; enfiei -pelo corredor e subi as escadas sem estrepito. Nunca -me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar ligado -a um momento grave da minha vida, ou por -esta maxima, que os compiladores, pódem tirar -daqui e inserir nos compendios de escola. A maxima -é que a gente esquece devagar as boas acções que -pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca. -Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquella -noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser -ouvido de um transeunte. Suppõe agora que este, -em vez de ir-se embora, como eu fui, ficava á porta -a ouvil-o e a namorar-lhe a mulher; então é que -elle, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. -Divina arte!</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXVIII" id="CXXVIII">CXXVIII</a></h5> - -<h4>Punhado de successos.</h4> - - -<p>Como ia dizendo, subi as escadas sem estrepito, -empurrei a cancella, que estava apenas encostada, -o dei com prima Justina e José Dias jogando cartas -na saleta proxima. Capitú levantou-se do canapé -e veiu a mim. O rosto della era agora sereno e -puro. Os outros suspenderam o jogo, e todos falámos -do desastre e da viuva. Capitú censurou a -imprudencia de Escobar, e não dissimulou a tristeza -que lhe trazia a dor da amiga. Perguntei-lhe por -que não ficára com Sancha aquella noite.</p> - -<p>—Tem lá muita gente; ainda assim offereci-me, -mas não quiz. Tambem lhe disse que era melhor vir -para cá, e passar aqui uns dias comnosco.</p> - -<p>—Tambem não quiz?</p> - -<p>—Tambem não.</p> - -<p>—Entretanto, a vista do mar ha de ser-lhe penosa, -todas as manhãs, ponderou José Dias, e não -sei como poderá...</p> - -<p>—Mas, passa; o que é que não passa? atalhou -prima Justina.</p> - -<p>E como em torno desta ideia, começassemos uma -troca de palavras, Capitú saiu para ir ver se o filho -dormia. Ao passar pelo espelho, concertou os cabellos -tão demoradamente que pareceria affectação, -se não soubessemos que ella era muito amiga -de si. Quando tornou trazia os olhos vermelhos; -disse-nos que, ao mirar o filho dormindo pensára -na filhinha de Sancha, e na afflicção da viuva. E, -sem se lhe dar das visitas, nem reparar se havia -algum criado, abraçou-me e disse-me que, se quizesse -pensar nella, era preciso pensar primeiro na -minha vida. José Dias achou a phrase «lindissima», -e perguntou a Capitú porque é que não fazia -versos. Tentei metter o caso á bulha, e assim acabámos -a noite.</p> - -<p>No dia seguinte, arrependi-me de haver rasgado -o discurso, não que quizesse dal-o a imprimir, mas -era lembrança do finado. Pensei em recompôl-o, -mas só achei phrases soltas, que uma vez juntas -não tinham sentido. Tambem pensei em fazer outro, -mas era já difficil, e podia ser apanhado em falso -pelos que me tinham ouvido no cemiterio. Quanto -a recolher os pedacinhos de papel deitados á rua, -era tarde; estariam já varridos.</p> - -<p>Inventariei as lembranças de Escobar, livros, um -tinteiro de bronze, uma bengala de marfim, um -passaro, o album de Capitú, duas paizagens do Paraná -e outras. Tambem elle as possuia de minha -mão. Vivemos assim a trocar memorias e regalos, -ora em dia de annos, ora sem razão particular. Tudo -isso me empanava os olhos... Vieram os jornaes do -dia: davam noticia do desastre e da morte de Escobar, -os estudos e os negocios deste, as qualidades -pessoaes, a sympathia do commercio, e tambem falavam -dos bens deixados, da mulher e da filha. -Todo isso foi na segunda feira. Na terça-feira foi -aberto o testamento, que me nomeava segundo testamenteiro; -o primeiro logar cabia á mulher. Não -me deixava nada, mas as palavras que me escrevera -em carta separada eram sublimes de amizade -e estima. Capitú desta vez chorou muito; mas -compoz-se depressa.</p> - -<p>Testamento, inventario, tudo andou quasi tão -depressa como aqui vae dito. Ao cabo de pouco -tempo, Sancha retirou-se para a casa dos parentes -no Paraná.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXIX" id="CXXIX">CXXIX</a></h5> - -<h4>A D. Sancha.</h4> - - -<p>D. Sancha, peço-lhe que não leia este livro; ou, -se o houver lido até aqui, abandone o resto. Basta -fechal-o; melhor será queimal-o, para lhe não dar -tentação e abril-o outra vez. Se, apesar do aviso, -quizer ir até o fim, a culpa é sua; não respondo pelo -mal que receber. O que já lhe tiver feito, contando -os gestos daquelle sabbado, esse acabou, uma vez -que os acontecimentos, e eu com elles, desmentimos -a minha illusão; mas o que agora a alcançar, -esse é indelevel. Não, amiga minha, não leia mais. -Vá envelhecendo, sem marido nem filha, que eu -faço a mesma cousa, e é ainda o melhor que se póde -fazer depois da mocidade. Um dia, iremos daqui -até a porta do ceu, onde nos encontraremos renovados, -como as plantas novas, <i>come piante novelle</i>,</p> - -<p style="text-align: right;"> - Rinovalatte di novelle fronde.<br /> -</p> - -<p>O resto em Dante.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXX" id="CXXX">CXXX</a></h5> - -<h4>Um dia...</h4> - - -<p>Porquanto, um dia Capitú quiz saber o que é que -me fazia andar calado e aborrecido. E propoz-me -a Europa, Minas, Petropolis, uma serie de bailes, -mil desses remedios aconselhados aos melancolicos. -Eu não sabia que lhe respondesse; recusei as diversões. -Como insistisse, repliquei-lhe que os meus -negocios andavam mal. Capitú sorriu para animar-me. -E que tinha que andassem mal? Tornariam a -andar bem, e até lá as joias, os objectos de algum -valor seriam vendidos, e iriamos residir em algum -becco. Viveriamos socegados e esquecidos; depois -tornariamos á tona da agua. A ternura com que me -disse isto era de commover as pedras. Pois nem -assim. Respondi-lhe seccamente que não era preciso -vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido. -Ella propoz-me jogar cartas ou damas, um -passeio a pé, uma visita a Matacavallos; e, como -eu não acceitasse nada, foi para a sala, abriu o -piano, e começou a tocar; eu aproveitei a ausencia, -peguei do chapéo e saí.</p> - -<p>...Perdão, mas este capitulo devia ser precedido -de outro, em que contasse um incidente, occorrido -poucas semanas antes, dous mezes depois da partida -de Sancha. Vou escrevel-o; podia antepôl-o a -este, antes de mandar o livro ao prélo, mas custa -muito alterar o numero dos paginas; vae assim -mesmo, depois a narração seguirá direita até o fim. -Demais, é curto.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXXI" id="CXXXI">CXXXI</a></h5> - -<h4>Anterior ao anterior.</h4> - - -<p>Foi o caso que a minha vida em outra vez doce -e placida, a banca do advogado rendia-me bastante, -Capitú estava mais bella, Ezequiel ia crescendo. -Começava o anno de 1872.</p> - -<p>—Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos -uma espressão exquisita? perguntou-me Capitú. Só -vi duas pessoas assim, um amigo de papae e o defuncto -Escobar. Olha, Ezequiel; olha firme, assim, -vira para o lado de papae, não precisa revirar os -olhos, assim, assim...</p> - -<p>Era depois de jantar; estavamos ainda á mesa, -Capitú brincava com o filho, ou elle com ella, ou -um com outro, porque, em verdade, queriam-se -muito, mas é tambem certo que elle me queria -ainda mais a mim. Approximei-me de Ezequiel, -achei que Capitú tinha razão; eram os olhos de Escobar, -mas não me pareceram exquisitos por isso. -Afinal não haveria mais que meia duzia de expressões -no mundo, e muitas semelhanças se dariam -naturalmente. Ezequiel não entendeu nada, olhou -espantado para ella e para mim, e afinal saltou-me -ao collo:</p> - -<p>—Vamos passear, papae?</p> - -<p>—Logo, meu filho.</p> - -<p>Capitú, alheia a ambos, fitava agora a outra borda -da mesa; mas, dizendo-lhe eu que, na belleza, os -olhos de Ezequiel saíam aos da mãe, Capitú sorriu -abanando a cabeça com um ar que nunca achei em -mulher alguma, provavelmente porque não gostei -tanto das outras. As pessoas valem o que vale a -affeição da gente, e é dahi que mestre Povo tirou -aquelle adagio que quem o feio ama bonito lhe parece. -Capitú tinha meia duzia de gestos unicos na -terra. Aquelle entrou-me pela alma dentro. Assim -fica explicado que eu corresse á minha esposa e -amiga e lhe enchesse a cara de beijos; mas este -outro incidente não é radicalmente necessario á -comprehensão do capitulo passado e dos futuros; -fiquemos nos olhos de Ezequiel.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXXII" id="CXXXII">CXXXII</a></h5> - -<h4>O debuxo e o colorido.</h4> - - -<p>Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, -o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o -tempo. Eram como um debuxo primitivo que o -artista vae enchendo e colorindo aos poucos, e a -figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quasi, até -que a familia pendura o quadro na parede, em -memoria do que foi e já não póde ser. Aqui podia -ser e era. O costume valeu muito contra o effeito da -mudança: mas a mudança fez-se, não á maneira de -theatro, fez-se como a manhã que aponta vagarosa, -primeiro que se possa ler uma carta, depois -lê-se a carta na rua, em casa, no gabinete, sem -abrir as janellas; a luz coada pelas persianas basta -a distinguir as lettras. Li a carta, mal a principio e -não toda, depois fui lendo melhor. Fugia-lhe, é -certo, mettia o papel no bolso, corria a casa, fechava-me, -não abria as vidraças, chegava a fechar os -olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta, -a lettra era clara e a noticia clarissima.</p> - -<p>Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do -seminario e do Flamengo para se sentar commigo -á mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete -de manhã, ou pedir-me á noite a benção do -costume. Todas essas acções eram repulsivas; eu -tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir -a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular -ao mundo, não podia fazel-o a mim, que -vivia mais perto de mim que ninguem. Quando nem -mãe nem filho estavam commigo o meu desespero -era grande, e eu jurava matal-os a ambos, ora de -golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte -todas os minutos da vida embaçada e agoniada. -Quando, porém, tornava a casa e via no alto da -escada a creaturinha que me queria e esperava, -ficava desarmado e differia o castigo de um dia para -outro.</p> - -<p>O que se passava entre mim e Capitú naquelles -dias sombrios, não se notará aqui, por ser tão -miudo e repetido, e já tão tarde que não se poderá -dizel-o sem falha nem canceira. Mas o principal -irá. E o principal é que os nossos temporaes eram -agora continuos e terriveis. Antes de descoberta -aquella má terra da verdade, tivemos outros de -pouca dura; não tardava que o ceu se fizesse azul, -o sol claro e o mar chão, por onde abríamos novamente -as velas que nos levavam ás ilhas e costas -mais bellas do universo, até que outro pé de vento -desbaratava tudo, e nós, postos á capa, esperavamos -outra bonança, que não era tardia nem dubia, -antes total, proxima e firme.</p> - -<p>Releva-me estas metaphoras; cheiram ao mar e -á maré que deram morte ao meu amigo e comborço -Escobar. Cheiram tambem aos olhos de ressaca de -Capitú. Assim, posto sempre fosse homem de terra, -conto aquella parte da minha vida, como um marujo -contaria o seu naufragio.</p> - -<p>Já entre nós só faltava dizer a palavra ultima; -nós a liamos, porém, nos olhos um do outro, -vibrante e decisiva, e sempre que Ezequiel vinha -para nós não fazia mais que separar-nos. Capitú -propoz mettel-o em um collegio, donde só viesse aos -sabbados; custou muito ao menino acceitar esta -situação.</p> - -<p>—Quero ir com papae! Papae ha de ir commigo! -bradava elle.</p> - -<p>Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã, -uma segunda feira. Era no antigo largo da Lapa, -perto da nossa casa. Levei-o a pé, pela mão, como -levára o ataúde do outro. O pequeno ia chorando -e fazendo perguntas a cada passo, se voltaria para -casa, e quando, e se eu iria vel-o...</p> - -<p>—Vou.</p> - -<p>—Papae não vae!</p> - -<p>—Vou sim.</p> - -<p>—Jura, papae!</p> - -<p>—Pois sim.</p> - -<p>—Papae não diz que jura.</p> - -<p>—Pois juro.</p> - -<p>E lá o levei e deixei. A ausencia temporaria não -atalhou o mal, e toda a arte fina de Capitú para -fazel-o attenuar, ao menos, foi como se não fosse; -eu sentia-me cada vez peor. A mesma situação nova -aggravou a minha paixão. Ezequiel vivia agora -mais fóra da minha vista; mas a volta delle, ao fim -das semanas, ou pelo descostume em que eu ficava, -ou porque o tempo fosse andando e completando a -semelhança, era a volta de Escobar mais vivo e -ruidoso. Até a voz; dentro de pouco, já me parecia -a mesma. Aos sabbados, buscava não jantar em -casa e só entrar quando elle estivesse dormindo; -mas não escapava ao domingo, no gabinete, quando -eu me achava entre jornaes e autos. Ezequiel entrava -turbulento, expansivo, cheio de riso e de amor, -porque o demo do pequeno cada vez morria mais -por mim. Eu, a falar verdade, sentia agora uma -aversão que mal podia disfarçar, tanto a ella como -aos outros. Não podendo encobrir inteiramente esta -disposição moral, cuidava de me não fazer encontradiço -com elle, ou só o menos que pudesse; ora -tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete, -ora saía ao domingo para ir passear pela cidade o -arrebaldes o meu mal secreto.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXXIII" id="CXXXIII">CXXXIII</a></h5> - -<h4>Uma ideia.</h4> - - -<p>Um dia,—era uma sexta feira,—não pude -mais. Certa ideia, que negrejava em mim, abriu as -azas e entrou a batel-as de um lado para outro, -como fazem as ideias que querem sair. O ser sexta-feira -creio que foi acaso, mas tambem póde ter sido -proposito; fui educado no terror daquelle dia; ouvi -cantar balladas em casa, vindas da roça e da antiga -metropole, nas quaes a sexta-feira era o dia de -agouro. Entretanto, não havendo almanaks no -cerebro, é provavel que a ideia não batesse as azas -senão pela necessidade que sentia do vir ao ar e á -vida. A vida é tão bella que a mesma ideia da morte -precisa de vir primeiro a ella, antes de se ver cumprida. -Já me vás entendendo; lê agora outro capitulo.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXXIV" id="CXXXIV">CXXXIV</a></h5> - -<h4>O dia de sabbado.</h4> - - -<p>A ideia saiu finalmente do cerebro. Era noite, e -não pude dormir, por mais que a sacudisse de mim. -Tambem nenhuma noite me passou tão curta. -Amanheceu, quando cuidava não ser mais que -uma ou duas horas. Sai, suppondo deixar a ideia -em casa; ella veiu commigo. Cá fóra tinha a mesma -côr escura, as mesmas azas trepidas, e posto avoasse -com ellas, era como se fosse fixa; eu a levava na -retina, não que me encobrisse as cousas externas, -mas via-as atra vez della, com a côr mais pallida -que de costume, e sem se demorarem nada.</p> - -<p>Não me lembra bem o resto do dia. Sei que -escrevi algumas cartas, comprei uma substancia, -que não digo, para não espertar o desejo de proval-a. -A pharmacia falliu, é verdade; o dono fez-se -banqueiro, e o banco prospera. Quando me achei -com a morte no bolso senti tamanha alegria como -se acabasse de tirar a sorte grande, ou ainda maior, -porque o premio da loteria gasta-se, e a morte não -se gasta. Fui a casa de minha mãe, com o fim de -despedir-me, a titulo de visita. Ou de verdade ou -por illusão, tudo alli me pareceu melhor nesse dia, -minha mãe menos triste, tio Cosme esquecido do -coração, prima Justina da lingua. Passei uma hora -em paz. Cheguei a abrir mão do projecto. Que era -preciso para viver? Nunca mais deixar aquella casa, -ou prender aquella hora a mim mesmo...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXXV" id="CXXXV">CXXXV</a></h5> - -<h4>Othello.</h4> - - -<p>Jantei fóra. De noite fui ao theatro. Representava-se -justamente <i>Othello</i>, que eu não vira nem lera -nunca; sabia apenas o assumpto, e estimei a coincidencia. -Vi as grandes raivas do mouro, por causa -de um lenço,—um simples lenço!—e aqui dou -materia á meditação dos psychologos deste e de -outros continentes, pois não me pude furtar á observação -de que um lenço bastou a accender os ciumes -de Othello e compor a mais sublime tragedia deste -mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos -os proprios lençóes; alguma vez nem lençóes ha, e -valem só as camisas. Taes eram as ideias que me -iam passando pela cabeça, vagas e turvas, á medida -que o mouro rolava convulso, e Iago distilava -a sua calumnia. Nos intervallos não me levantava da -cadeira; não queria expôr-me a encontrar algum -conhecido. As senhoras ficavam quasi todas nos -camarotes, emquanto os homens iam fumar. Então -eu perguntava a mim mesmo se alguma daquellas -não teria amado alguem que jazesse agora no cemiterio, -e vinham outras incoherencias, até que o -panno subia e continuava a peça. O ultimo acto -mostrou-me que não eu, mas Capitú devia morrer. -Ouvi as supplicas de Desdemona, as suas palavras -amorosas e puras, e a furia do mouro, e a morte -que este lhe deu entre applausos freneticos do publico.</p> - -<p>—E era innocente, vinha eu dizendo rua abaixo;—que -faria o publico, se ella devéras fosse culpada, -tão culpada como Capitú? E que morte lhe -daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era -preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que -a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó -seria lançado ao vento, como eterna extincção...</p> - -<p>Vaguei pelas ruas o resto da noite. Ceei, é verdade, -um quasi nada, mas o bastante para ir até á -manhã. Vi as ultimas horas da noite e as primeiras -do dia, vi os derradeiros passeadores e os primeiros -varredores, as primeiras carroças, os primeiros -ruidos, os primeiros albores, um dia que vinha depois -do outro e me veria ir para nunca mais voltar. -As ruas que eu andava como que me fugiam por si -mesmas. Não tornaria a contemplar o mar da Gloria, -nem a serra dos Orgãos, nem a fortaleza de -Santa-Cruz e as outras. A gente que passava não -era tanta, como nos dias communs da semana, mas -era já numerosa e ia a algum trabalho, que repetiria -depois; eu é que não repetiria mais nada.</p> - -<p>Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi -pé ante-pé, e metti-me no gabinete; iam dar seis -horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas de -camisa, e escrevi ainda uma carta, a ultima, dirigida -a Capitú. Nenhuma das outras era para ella; -senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que -lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi dous -textos. O primeiro queimei-o por ser longo e diffuso. -O segundo continha só o necessário, claro e -breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as -lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe só -de Escobar e da necessidade de morrer.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXXVI" id="CXXXVI">CXXXVI</a></h5> - -<h4>A chicara de café.</h4> - - -<p>O meu plano foi esperar o café, dissolver nelle -a droga e ingeril-a. Até lá, não tendo esquecido de -todo a minha historia romana, lembrou-me que -Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de -Platão. Não tinha Platão commigo; mas um tomo -truncado de Plutarcho, em que era narrada a vida -do celebre romano, bastou-me a occupar aquelle -pouco tempo, e, para em tudo imital-o, estirei-me -no canapé. Nem era só imital-o nisso; tinha necessidade -de incutir em mim a coragem delle, assim -como elle precisára dos sentimentos do philosopho, -para intrepidamente morrer. Um dos males da ignorancia -é não ter este remedio á ultima hora. Ha -muita gente que se mata sem elle, e nobremente -expira; mas estou que muita mais gente poria -termo aos seus dias, se pudesse achar essa especie -de cocaina moral dos bons livros. Entretanto, -querendo fugir a qualquer suspeita de imitação, -lembra-me bem que, para não ser encontrado ao pé -de mim o livro de Plutarcho, nem ser dada a noticia -nas gazetas com a da côr das calças que eu -então vestia, assentei de pôl-o novamente no seu -logar, antes de beber o veneno.</p> - -<p>O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o -livro, e fui para a mesa onde ficára a chicara. Já -a casa estava em rumores; era tempo de acabar -commigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que -trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive animo -de despejar a substancia na chicara, e comecei a -mexer o café, os olhos vagos, a memoria em Desdemona -innocente; o espectaculo da vespera vinha -intrometter-se na realidade da manhã. Mas a photographia -de Escobar deu-me o animo que me ia -faltando; lá estava elle, com a mão nas costas da -cadeira, a olhar ao longe...</p> - -<p>—Acabemos com isto, pensei.</p> - -<p>Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor -esperar que Capitú e o filho saissem para a missa; -beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei -a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no -corredor, vi-o entrar e correr a mim bradando:</p> - -<p>—Papae! papae!</p> - -<p>Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo -por havel-o inteiramente esquecido, mas crê que foi -bello e tragico. Effectivamente, a figura do pequeno -fez-me recuar até dar de costas na estante. Ezequiel -abraçou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos pés, -como querendo subir e dar-me o beijo do costume; -e repetia, puxando-me:</p> - -<p>—Papae! papae!</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXXVII" id="CXXXVII">CXXXVII</a></h5> - -<h4>Segundo impulso.</h4> - - -<p>Se eu não olhasse para Ezequiel, é provavel que -não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o -meu primeiro impeto foi correr ao café e bebel-o. -Cheguei a pegar na chicara, mas o pequeno beijava-me -a mão, como de costume, e a vista delle, como -o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer -aqui; mas vã lá, diga-se tudo. Chamem-me embora -assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; -o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me -e perguntei a Ezequiel se já tomára café.</p> - -<p>—Já, papae; vou á missa com mamãe.</p> - -<p>—Toma outra chicara, meia chicara só.</p> - -<p>—E papae?</p> - -<p>—Eu mando vir mais; anda, bebe!</p> - -<p>Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a chicara, tão -tremulo que quasi a entornei, mas disposto a fazel-a -cair pela guela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, -ou a temperatura, porque o café estava -frio... Mas não sei que senti que me fez recuar. -Puz a chicara em cima da mesa, e dei por mim a -beijar doudamente a cabeça do menino.</p> - -<p>—Papae papae! exclamava Ezequiel.</p> - -<p>—Não, não, eu não sou teu pae!</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXXVIII" id="CXXXVIII">CXXXVIII</a></h5> - -<h4>Capitú que entra.</h4> - - -<p>Quando levantei a cabeça, dei com a figura de -Capitú deante de mim. Eis ahi outro lance, que -parecerá de theatro, e é tão natural como o primeiro, -uma vez que a mãe e o filho iam á missa, e Capitú -não saía sem falar-me. Era já um falar secco e -breve; a mór parte das vezes, eu nem olhava para -ella. Ella olhava sempre, esperando.</p> - -<p>Desta vez, ao dar com ella, não sei se era dos -meus olhos, mas Capitú pareceu-me livida. Seguiu-se -um daquelles silencios, a que, sem mentir, se -pódem chamar de um seculo, tal é a extensão do -tempo nas grandes crises. Capitú recompoz-se; -disse ao filho que se fosse embora, e pediu-me que -lhe explicasse...</p> - -<p>—Não ha que explicar, disse eu.</p> - -<p>—Ha tudo; não entendo as tuas lagrimas nem -as de Ezequiel. Que houve entre vocês?</p> - -<p>—Não ouviu o que lhe disse?</p> - -<p>Capitú respondeu que ouvira choro e rumor de -palavras. Eu creio que ouvira tudo claramente, mas -confessal-o seria perder a esperança do silencio e da -reconciliação; por isso negou a audiencia e confirmou -unicamente a vista. Sem lhe contar o episodio -do café, repeti-lhe as palavras do final do capitulo.</p> - -<p>—O que? perguntou ella como se ouvira mal.</p> - -<p>—Que não é meu filho.</p> - -<p>Grande foi a estupefacção de Capitú, e não menor -a indignação que lhe succedeu, tão naturaes ambas -que fariam duvidar as primeiras testemunhas de -vista do nosso fôro. Já ouvi que as ha para varios -casos, questão de preço; eu não creio, tanto mais -que a pessoa que me contou isto acabava de perder -uma demanda. Mas, haja ou não testemunhas alugadas, -a minha era verdadeira; a propria natureza -jurava por si, e eu não queria duvidar della. Assim -que, sem attender á linguagem de Capitú, aos seus -gestos, á dôr que a retorcia, a cousa nenhuma, repeti -as palavras ditas duas vezes com tal resolução que -a fizeram afrouxar. Após alguns instantes,disse-me -ella:</p> - -<p>—Só se póde explicar tal injuria pela convicção -sincera; entretanto, você que era tão cioso dos menores -gestos, nunca revelou a menor sombra de -desconfiança. Que é que lhe deu tal ideia? Diga,—continuou -vendo que eu não respondia nada,—diga -tudo; depois do que ouvi, posso ouvir o resto, não -póde ser muito. Que é que lhe deu agora tal convicção? -Ande, Bentinho, fale! fale! Despeça-me -d'aqui, mas diga tudo primeiro.</p> - -<p>—Ha cousas que se não dizem.</p> - -<p>—Que se não dizem só metade; mas já que disse -metade, diga tudo.</p> - -<p>Tinha-se sentado n'uma cadeira ao pé da mesa. -Podia estar um tanto confusa, o porte não era de -accusada. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse.</p> - -<p>—Não, Bentinho, ou conte o resto, para que eu -me defenda, se você acha que tenho defesa, ou peço-lhe -desde já a nossa separação: não posso mais!</p> - -<p>—A separação é cousa decidida, redargui pegando-lhe -na proposta. Era melhor que a fizessemos -por meias palavras ou em silencio; cada um iria -com a sua ferida. Uma vez, porém, que a senhora -insiste, aqui vae o que lhe posso dizer, e é tudo.</p> - -<p>Não disse tudo; mal pude alludir aos amores de -Escobar sem proferir-lhe o nome. Capitú não poude -deixar de rir, de um riso que eu sinto não poder -transcrever aqui; depois, em um tom juntamente -ironico e melancolico:</p> - -<p>—Pois até os defunctos! Nem os mortos escapam -aos seus ciumes!</p> - -<p>Concertou a capinha e ergueu-se. Suspirou, creio -que suspirou, emquanto eu, que não pedia outra -cousa mais que a plena justificação della, disse-lhe -não sei que palavras adequadas a este fim. Capitú -olhou para mim com desdem, e murmurou:</p> - -<p>—Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança... -A vontade de Deus explicará tudo... Ri-se? -É natural; apesar do seminario, não acredita em -Deus; eu creio... Mas não falemos nisto; não nos -fica bem dizer mais nada.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXXXIX" id="CXXXIX">CXXXIX</a></h5> - -<h4>A photographia.</h4> - - -<p>Palavra que estive a pique de crer que era victima -de uma grande illusão, uma phantasmagoria de allucinado; -mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando:—«Mamãe! -mamãe! é hora da missa!» -restituiu-me á consciencia da realidade. Capitú e eu, -involuntariamente, olhámos para a photographia de -Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão -della fez-se confissão pura. Este era aquelle; -havia por força alguma photographia de Escobar -pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De -bocca, porém, não confessou nada; repetiu as ultimas -palavras, puxou do filho e sairam para a missa.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXL" id="CXL">CXL</a></h5> - -<h4>Volta da egreja.</h4> - - -<p>Ficando só, era natural pegar do café e bebel-o. -Pois, não, senhor; tinha perdido o gosto á morte. -A morte era uma solução; eu acabava de achar -outra, tanto melhor quanto que não era definitiva, -e deixava a porta aberta á reparação, se devesse -havel-a. Não disse <i>perdão</i>, mas <i>reparação</i>, isto é, -justiça. Qualquer que fosse a razão do acto, rejeitei -a morte, e esperei o regresso de Capitú. Este foi -mais demorado que de costume; cheguei a temer -que ella houvesse ido á casa de minha mãe, mas -não foi.</p> - -<p>—Confiei a Deus todas as minhas amarguras, -disse-me Capitú ao voltar da egreja; ouvi dentro -de mim que a nossa separação é indispensavel, e -estou ás suas ordens.</p> - -<p>Os olhos com que me disse isto eram embuçados, -como espreitando um gesto de recusa ou de espera. -Contava com a minha debilidade ou com a propria -incerteza em que eu podia estar da paternidade do -outro, mas falhou tudo. Acaso haveria em mim um -homem novo, um que apparecia agora, desde que -impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso -era um homem apenas encoberto. Respondi-lhe que -ia pensar, e fariamos o que eu pensasse. Em verdade -vos digo que tudo estava pensado e feito.</p> - -<p>No intervallo, evocára as palavras do finado -Gurgel, quando me mostrou em casa delle o retrato -da mulher, parecido com Capitú. Has de lembrar-te -dellas; se não, relê o capitulo, cujo numero não -ponho aqui, por não me lembrar já qual seja, mas -não fica longe. Reduzem-se a dizer que ha taes -semelhanças inexplicaveis... Pelo dia adeante, e nos -outros dias, Ezequiel ia ter commigo ao gabinete, e -as feições do pequeno davam ideia clara das do -outro, ou eu ia attentando mais nellas. De envolta, -lembravam-me episodios vagos e remotos, palavras, -encontros e incidentes, tudo em que a minha cegueira -não poz malicia, e a que faltou o meu velho ciume. -Uma vez em que os fui achar sósinhos e calados, um -segredo que me fez rir, uma palavra della sonhando, -todas essas reminiscencias vieram vindo agora, em -tal atropello que me atordoaram... E porque os não -esganei um dia, quando desviei os olhos da rua -onde estavam duas andorinhas trepadas no fio telegraphico? -Dentro, as minhas outras andorinhas -estavam trepadas no ar, os olhos enfiados nos olhos, -mas tão cautelosos que se desenfiaram logo, dizendo-me -uma palavra amiga e alegre. Contei-lhes o -namoro das andorinhas de fóra, e acharam-lhe graça; -Escobar declarou que, para elle, seria melhor se as -andorinhas, em vez de trepadas no fio de arame, -estivessem á mesa do jantar cosidas. «Nunca comi -os ninhos dellas, continuou, mas devem ser bons, -se os chins os inventaram.» E ficámos a tratar dos -chins e dos classicos que falaram delles, emquanto -Capitú, confessando que a aborreciamos, foi a outros -cuidados. Agora lembrava-me tudo o que então me -pareceu nada.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXLI" id="CXLI">CXLI</a></h5> - -<h4>A solução.</h4> - - -<p>Aqui está o que fizemos. Pegámos em nós e fomos -para a Europa, não passear, nem ver nada, novo -nem velho; parámos na Suissa. Uma professora do -Rio-Grande, que foi comnosco, ficou de companhia -a Capitú, ensinando a lingua materna a Ezequiel, -que apprenderia o resto nas escolas do paiz. Assim -regulada a vida, tornei ao Brazil.</p> - -<p>Ao cabo de alguns mezes, Capitú começára a -escrever-me cartas, a que respondi com brevidade -e sequidão. As della eram submissas, sem odio, -acaso affectuosas, e para o fim saudosas; pedia-me -que a fosse ver. Embarquei um anno depois, mas -não a procurei, e repeti a viagem com o mesmo -resultado. Na volta, os que se lembravam della, -queriam noticias, e eu dava-lh'as, como se acabasse -de viver com ella; naturalmente as viagens eram -feitas com o intuito de simular isto mesmo, e enganar -a opinião. Um dia, finalmente...</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXLII" id="CXLII">CXLII</a></h5> - -<h4>Uma santa.</h4> - - -<p>Entenda-se que, se nas viagens que fiz á Europa, -José Dias não foi commigo, não é que lhe faltasse -vontade; ficava de companhia a tio Cosme, quasi -invalido, e a minha mãe, que envelheceu depressa. -Tambem elle estava velho, posto que rijo. Ia a -bordo despedir-se de mim, e as palavras que me -dizia, os gestos de lenço, os proprios olhos que -enxugava eram taes que me commoviam tambem. -A ultima vez não foi o bordo.</p> - -<p>—Venha...</p> - -<p>—Não posso.</p> - -<p>—Está com medo?</p> - -<p>—Não; não posso. Agora, adeus, Bentinho, não -sei sé me verá mais; creio que vou para a outra -Europa, a eterna...</p> - -<p>Não foi logo; minha mãe embarcou primeiro. -Procura no cemiterio de S. João Baptista uma sepultura -sem nome, com esta unica indicação: -<i>Uma santa.</i> É ahi. Fiz fazer essa inscripção com -alguma difficuldade. O esculptor achou-a exquisita; -o administrador do cemiterio consultou o vigario -da parochia; este ponderou-me que as santas estão -no altar e no ceu.</p> - -<p>—Mas, perdão, atalhei, eu não quero dizer que -naquella sepultura está uma canonisada. A minha -ideia é dar com tal palavra uma definição terrena -de todas as virtudes que a finada possuiu na vida. -Tanto é assim que, sendo a modestia uma dellas, -desejo conserval-a postuma, não lhe escrevendo o -nome.</p> - -<p>—Todavia, o nome, afiliação, as datas...</p> - -<p>—Quem lhe importará com datas, filiação, nem -nomes, depois que eu acabar?</p> - -<p>—Quer dizer que era uma santa senhora, não?</p> - -<p>—Justamente. O protonotario Cabral, se fosse -vivo, confirmaria aqui o que lhe digo.</p> - -<p>—Nem eu contesto a verdade, hesito só na formula. -Conheceu então o protonotario?</p> - -<p>—Conheci-o. Era um padre-modelo.</p> - -<p>—Bom canonista, bom latinista, pio e caridoso, -continuou o vigario.</p> - -<p>—E possuia algumas prendas de sociedade, -disse eu; lá em casa sempre ouvi que era insigne -parceiro ao gamão...</p> - -<p>—Tinha muito bom dado! suspirou lentamente -o vigario. Um dado de mestre!</p> - -<p>—Então, parece-lhe...?</p> - -<p>—Uma vez que não ha outro sentido, nem poderia -havel-o, sim, senhor, admitte-se...</p> - -<p>José Dias assistiu a estas diligencias, com grande -melancolia. No fim, quando saimos, disse mal do -padre, chamou-lhe meticuloso. Só lhe achava desculpa -por não ter conhecido minha mãe, nem elle -nem os outros homens do cemiterio.</p> - -<p>—Não a conheceram; se a conhecessem, mandariam -esculpir <i>santissima.</i></p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXLIII" id="CXLIII">CXLIII</a></h5> - -<h4>O ultimo superlativo.</h4> - - -<p>Não foi o ultimo superlativo de José Dias. Outros -teve que não vale a pena escrever aqui, até que -veiu o ultimo, o melhor delles, o mais doce, o que -lhe fez da morte um pedaço de vida. Já então morava -commigo; posto que minha mãe lhe deixasse -uma pequena lembrança, veiu dizer-me que, com -legado ou sem elle, não se separaria de mim. -Talvez a esperança delle fosse enterrar-me. Correspondia-se -com Capitú, a quem pedia que lhe mandasse -o retrato de Ezequiel; mas Capitú ia adiando -a remessa de correio a correio, até que elle não -pediu mais nada, a não ser o coração do joven -estudante; pedia-lhe tambem que não deixasse de -falar a Ezequiel no velho amigo do pae e do avô, -«destinado pelo ceu a amar o mesmo sangue.» -Era assim que elle preparava os cuidados da terceira -geração; mas a morte veiu antes de Ezequiel. -A doença foi rapida. Mandei chamar um medico -homeopatha.</p> - -<p>—Não, Bentinho, disse elle; basta um allopatha; -em todas as escolas se morre. Demais, foram ideias -da mocidade, que o tempo levou; converto-me á fé -de meus paes. A allopathia é o catholicismo da -medicina...</p> - -<p>Morreu sereno, após uma agonia curta. Pouco -antes ouviu que o ceu estava lindo, e pediu que -abrissemos a janella.</p> - -<p>—Não, o ar póde fazer-lhe mal.</p> - -<p>—Que mal? Ar é vida.</p> - -<p>Abrimos a janella. Realmente, estava um ceu -azul e claro. José Dias soergueu-se e olhou para -fóra; após alguns instantes, deixou cair a cabeça, -murmurando: Lindissimo! Foi a ultima palavra -que proferiu neste mundo. Pobre José Dias! Porque -hei de negar que chorei por elle?</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXLIV" id="CXLIV">CXLIV</a></h5> - -<h4>Uma pergunta tardia.</h4> - - -<p>Assim chorem por mim todos os olhos de amigos -e amigas que deixo neste mundo, mas não é provavel. -Tenho-me feito esquecer. Móro longe e saio -pouco. Não é que haja effectivamente ligado as -duas pontas da vida. Esta casa do Engenho Novo, -comquanto reproduza a de Matacavallos, apenas -me lembra aquella, e mais por effeito de comparação -e de reflexão que de sentimento. Já disse isto -mesmo.</p> - -<p>Hão de perguntar-me por que razão, tendo a propria -casa velha, na mesma rua antiga, não impedi -que a demolissem e vim reproduzil-a nesta. A pergunta -devia ser feita a principio, mas aqui vae a -resposta. A razão é que, logo que minha mãe morreu, -querendo ir para lá, fiz primeiro uma longa -visita de inspecção por alguns dias, e toda a casa -me desconheceu. No quintal a aroeira e a pitangueira, -o poço, a caçamba velha e o lavadouro, -nada sabia de mim. A casuarina era a mesma que -eu deixara ao fundo, mas o tronco, em vez de recto, -como outr'ora, tinha agora um ar de ponto de interrogação; -naturalmente pasmava do intruso. -Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento -que alli deixasse, e não achei nenhum. Ao contrario, -a ramagem começou a sussurrar alguma cousa -que não entendi logo, e parece que era a cantiga -das manhãs novas. Ao pé dessa musica sonora e -jovial, ouvi tambem o grunhir dos porcos, especie -de troça concentrada e philosophica.</p> - -<p>Tudo me era extranho e adverso. Deixei que -demolissem a casa, e, mais tarde, quando vim para -o Engenho Novo, lembrou-me fazer esta reproducção -por explicações que dei ao architecto segundo -contei em tempo.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXLV" id="CXLV">CXLV</a></h5> - -<h4>O regresso.</h4> - - -<p>Ora, foi já nesta casa que um dia, estando a -vestir-me para almoçar, recebi um cartão com este -nome:</p> - -<p> - EZEQUIEL A. DE SANTIAGO class="center"<br /> -</p> - -<p>—A pessoa está ahi? perguntei ao criado.</p> - -<p>—Sim, senhor; ficou esperando.</p> - -<p>Não fui logo, logo; fil-o esperar um dez ou quinze -minutos na sala. Só depois é que me lembrou que -cumpria ter certo alvoroço e correr, abraçal-o, falar-lhe -na mãe. A mãe,—creio que ainda não disse -que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa -na velha Suissa. Acabei de vestir-me ás pressas. -Quando saí do quarto, tomei ares de pae, um pae -entre manso e crespo, metade Dom Casmurro. Ao -entrar na sala, dei com um rapaz, de costas, mirando -o busto de Massinissa, pintado na parede. -Vim cauteloso, e não fiz rumor. Não obstante, -ouviu-me os passos, e voltou-se depressa. Conheceu-me -pelos retratos e correu para mim. Não me -mexi; era nem mais nem menos o meu antigo e -joven companheiro do seminario de S. José, um -pouco mais baixo, menos cheio de corpo, e, salvo -as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu -amigo. Trajava á moderna, naturalmente, e as maneiras -eram differentes, mas o aspecto geral reproduzia -a pessoa morta. Era o proprio, o exacto, o -verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o -filho de seu pae. Vestia de luto pela mãe; eu tambem -estava de preto. Sentámo-nos.</p> - -<p>—Papae não faz differença dos ultimos retratos, -disse-me elle.</p> - -<p>A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era -afrancezado. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia -do que era, e comecei um interrogatorio para -ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. -Mas isto mesmo dava animação á cara delle, e -o meu collega do seminario ia resurgindo cada vez -mais do cemiterio. Eil-o aqui, deante de mim, com -egual riso e maior respeito; total, o mesmo obsequio -e a mesma graça. Anciava por ver-me. A mãe falava -muito em mim, louvando-me extraordinariamente, -como o homem mais puro do mundo, o mais digno -de ser querido.</p> - -<p>—Morreu bonita, concluiu.</p> - -<p>—Vamos almoçar.</p> - -<p>Se pensas que o almoço foi amargo, enganas-te. -Teve seus minutos de aborrecimento, é verdade; a -principio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente -meu filho, que me não completasse e continuasse. -Se o rapaz tem saido á mae, eu acabava crendo tudo, -tanto mais facilmente quanto que elle parecia haver-me -deixado na vespera, evocava a meninice, scenas -e palavras, a ida para o collegio...</p> - -<p>—Papae ainda se lembra quando me levou para -o collegio? perguntou rindo.</p> - -<p>—Pois não hei de lembrar-me?</p> - -<p>—Era na Lapa; eu ia desesperado, e papae não -parava, dava-me cada puxão, e eu com as perninhas.... -Sim, senhor, acceito.</p> - -<p>Estendeu o copo ao vinho que eu lhe offerecia, -bebeu um gole, e continuou a comer. Escobar comia -assim tambem, com a cara mettida no prato. Contou-me -a vida na Europa, os estudos, particularmente -os de archeologia, que era a sua paixão. -Falava da antiguidade com amor, contava o Egypto -e os seus milhares de seculos, sem se perder nos -algarismos; tinha a cabeça arithmetica do pae. Eu, -posto que a ideia da paternidade do outro me estivesse -já familiar, não gostava da resurreição. Ás -vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem -nada, mas o diabrete falava e ria, e o defuncto falava -e ria por elle.</p> - -<p>Não havendo remedio senão ficar com elle, fiz-me -pae deveras. A ideia de que pudesse ter visto -alguma photographia de Escobar, que Capitú por -descuido levasse comsigo, não me acudiu, nem, se -acudisse, persistiria. Ezequiel cria em mim, como -na mãe. Se fosse vivo José Dias, acharia nelle a -minha propria pessoa. Prima Justina quiz vel-o, -mas estando enferma, pediu-me que o levasse lá. -Conhecia aquella parenta. Creio que o desejo de -ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço -o debuxo que por ventura houvesse achado no menino. -Seria um regalo ultimo; atalhei-o a tempo.</p> - -<p>—Está muito mal, disse eu a Ezequiel que queria -ir vel-a, qualquer emoção póde trazer-lhe a morte. -Iremos vel-a, quando ficar melhor.</p> - -<p>Não fomos; a morte levou-a dentro de poucos -dias. Ella descança no Senhor ou como quer que -seja. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a -conheceu, nem podia, tão outra a fizeram os annos -e a morte. No caminho para o cemiterio, iam-lhe -lembrando uma porção de cousas, alguma rua, alguma -torre, um trecho de praia, e era todo alegria. -Assim acontecia sempre que voltava para casa, ao -fim do dia; contava-me as recordações que ia recebendo -das ruas e das casas. Admirava-se que muitas -destas fossem as mesmas que elle deixára, como se -as casas morressem meninas.</p> - -<p>Ao cabo de seis mezes, Ezequiel falou-me em -uma viagem á Grecia, ao Egypto, e á Palestina, -viagem scientifica, promessa feita a alguns amigos.</p> - -<p>—De que sexo? perguntei rindo.</p> - -<p>Sorriu vexado, e respondeu-me que as mulheres -eram creaturas tão da moda e do dia que nunca -haviam de entender uma ruina de trinta seculos. -Eram dous collegas da universidade. Prometti-lhe -recursos, e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. -Commigo disse que uma das consequencias -dos amores furtivos do pae era pagar eu as archeologias -do filho; antes lhe pagasse a lepra.... Quando -esta ideia me atravessou o cerebro, senti-me tão -cruel e perverso que peguei no rapaz, e quiz -apertal-o ao coração, mas recuei; encarei-o depois, -como se faz a um filho de verdade; os olhos que elle -me deitou foram ternos e agradecidos.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXLVI" id="CXLVI">CXLVI</a></h5> - -<h4>Não houve lepra.</h4> - - -<p>Não houve lepra, mas ha febres por todas essas -terras humanas, sejam velhas ou novas. Onze mezes -depois, Ezequiel morreu de uma febre typhoide, e -foi enterrado nas immediações de Jerusalem, onde -os dous amigos da universidade lhe levantaram um -tumulo com esta inscripção, tirada do propheta Ezequiel, -em grego: «Tu eras perfeito nos teus caminhos.» -Mandaram-me ambos os textos, grego e -latino, o desenho da sepultura, a conta das despesas -e o resto do dinheiro que elle levava; pagaria o -triplo para não tornar a vel-o.</p> - -<p>Como quizesse verificar o texto, consultei a minha -Vulgata, e achei que era exacto, mas tinha ainda -um complemento: «Tu eras perfeito nos teus caminhos, -<i>desde o dia da tua creação.</i>» Parei e -perguntei calado: «Quando seria o dia da creação -de Ezequiel?» Ninguem me respondeu. Eis ahi -mais um mysterio para ajuntar aos tantos deste -mundo. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao theatro.</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXLVII" id="CXLVII">CXLVII</a></h5> - -<h4>A exposição retrospectiva.</h4> - - -<p>Já sabes que a minha alma, por mais lacerada -que tenha sido, não ficou ahi para um canto como -uma flor livida e solitaria. Não lhe dei essa côr ou -descôr. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem -amigas que me consolassem da primeira. Caprichos -de pouca dura, é verdade. Ellas é que me deixavam -como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva, -e, ou se fartam de vel-a, ou a luz da sala -esmorece. Uma só dessas visitas tinha carro á porta -e cocheiro de libré. As outras iam modestamente, -<i>calcante pede</i>, e, se chovia, eu é que ia buscar um -carro de praça, e as mettia dentro, com grandes -despedidas, e maiores recommendações:</p> - -<p>—Levas o catalogo?</p> - -<p>—Levo; até amanhã.</p> - -<p>—Até amanhã.</p> - -<p>Não voltavam mais. Eu ficava á porta, esperando, -ia até á esquina, espiava, consultava o relogio, e -não via nada nem ninguem. Então, se apparecia -outra visita, dava-lhe o braço, entravamos, mostrava-lhe -as paizagens, os quadros historicos ou de genero, -uma aquarella, um pastel, uma <i>gouache</i>, e tambem -esta cançava, e ia embora com o catalogo na mão....</p> - - - -<hr class="chap" /> -<h5><a name="CXLVIII" id="CXLVIII">CXLVIII</a></h5> - -<h4>E bem, e o resto?</h4> - - -<p>Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas -me fez esquecer a primeira amada do meu coração? -Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, -nem os de cigana obliqua e dissimulada. Mas não -é este propriamente o resto do livro. O resto é saber -se a Capitú da praia da Gloria já estava dentro da -de Matacavallos, ou se esta foi mudada naquella -por effeito de algum caso incidente. Jesus, filho de -Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciumes, -dir-me-hia, como no seu cap. IX, vers. 1: «Não -tenhas ciumes de tua mulher para que ella não se -metta a enganar-te com a malicia que apprender de -ti.» Mas eu creio que não, e tu concordarás commigo; -se te lembras bem da Capitú menina, has de -reconhecer que uma estava dentro da outra, como a -fruta dentro da casca.</p> - -<p>E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa -fica, e é a summa das summas, ou o resto dos restos, -a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior -amigo, tão extremosos ambos e tão queridos tambem, -quiz o destino que acabassem juntando-se e -enganando-me.... A terra lhes seja leve! Vamos á -<i>Historia dos suburbios.</i></p> - - -<h4>FIM</h4> - -<hr class="full" /> - - -<h4><a id="INDICE"></a>INDICE</h4> - - -<div class="center"> -<table border="0" cellpadding="4" cellspacing="0" summary=""> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#I">I</a></td><td align="left">Do titulo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#II">II</a></td><td align="left">Do livro</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#III">III</a></td><td align="left">A denuncia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#IV">IV</a></td><td align="left">Um dever amarissimo!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#V">V</a></td><td align="left">O aggregado</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#VI">VI</a></td><td align="left">Tio Cosme</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#VII">VII</a></td><td align="left">D. Gloria</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#VIII">VIII</a></td><td align="left">É tempo!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#IX">IX</a></td><td align="left">A opera</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#X">X</a></td><td align="left">Acceito a theoria</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XI">XI</a></td><td align="left">A promessa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XII">XII</a></td><td align="left">Na varanda</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XIII">XIII</a></td><td align="left">Capitú</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XIV">XIV</a></td><td align="left">A inscripção</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XV">XV</a></td><td align="left">Outra voz repentina</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XVI">XVI</a></td><td align="left">O administrador interino</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XVII">XVII</a></td><td align="left">Os vermes</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XVIII">XVIII</a></td><td align="left">Um plano</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XIX">XIX</a></td><td align="left">Sem falta</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XX">XX</a></td><td align="left">Mil padre-nossos e mil ave-marias</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXI">XXI</a></td><td align="left">Prima Justina</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXII">XXII</a></td><td align="left">Sensações alheias</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXIII">XXIII</a></td><td align="left">Prazo dado</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXIV">XXIV</a></td><td align="left">De mãe e de servo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXV">XXV</a></td><td align="left">No Passeio Publico</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXVI">XXVI</a></td><td align="left">As leis são bellas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXVII">XXVII</a></td><td align="left">Ao portão</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXVIII">XXVIII</a></td><td align="left">Na rua</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXIX">XXIX</a></td><td align="left">O imperador</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXX">XXX</a></td><td align="left">O Santissimo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXI">XXXI</a></td><td align="left">As curiosidades de Capitú</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXII">XXXII</a></td><td align="left">Olhos de ressaca</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXIII">XXXIII</a></td><td align="left">O penteado</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXIV">XXXIV</a></td><td align="left">Sou homem!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXV">XXXV</a></td><td align="left">O protonotario apostolico</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXVI">XXXVI</a></td><td align="left">Ideia sem pernas e ideia sem braços</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXVII">XXXVII</a></td><td align="left">A alma é cheia de mysterios</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXVIII">XXXVIII</a></td><td align="left">Que susto, meu Deus!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XXXIX">XXXIX</a></td><td align="left">A vocação</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XL">XL</a></td><td align="left">Uma egua</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLI">XLI</a></td><td align="left">A audiencia secreta</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLII">XLII</a></td><td align="left">Capitú reflectindo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLIII">XLIII</a></td><td align="left">Você tem medo?</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLIV">XLIV</a></td><td align="left">O primeiro filho</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLV">XLV</a></td><td align="left">Abane a cabeça, leitor</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLVI">XLVI</a></td><td align="left">As pazes</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLVII">XLVII</a></td><td align="left">«A senhora saiu»</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLVIII">XLVIII</a></td><td align="left">Juramento do poço</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XLIX">XLIX</a></td><td align="left">Uma vela aos sabbados</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#L">L</a></td><td align="left">Um meio termo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LI">LI</a></td><td align="left">Entre luz e fusco</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LII">LII</a></td><td align="left">O velho Padua</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LIII">LIII</a></td><td align="left">A caminho!</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LIV">LIV</a></td><td align="left">Panegyrico de Santa Monica</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LV">LV</a></td><td align="left">Um soneto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LVI">LVI</a></td><td align="left">Um seminarista</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LVII">LVII</a></td><td align="left">De preparação</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LVIII">LVIII</a></td><td align="left">O tratado</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LIX">LIX</a></td><td align="left">Convivas de boa memoria</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LX">LX</a></td><td align="left">Querido opusculo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXI">LXI</a></td><td align="left">A vacca de Homero</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXII">LXII</a></td><td align="left">Uma ponta de Iago</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXIII">LXIII</a></td><td align="left">Metades de um sonho</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXIV">LXIV</a></td><td align="left">Uma ideia e um escrupulo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXV">LXV</a></td><td align="left">A dissimulação</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXVI">LXVI</a></td><td align="left">Intimidade</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXVII">LXVII</a></td><td align="left">Um peccado</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXVIII">LXVIII</a></td><td align="left">Adiemos a virtude</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXIX">LXIX</a></td><td align="left">A missa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXX">LXX></a></td><td align="left">Depois da missa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXI">LXXI</a></td><td align="left">Visita de Escobar</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXII">LXXII</a></td><td align="left">Uma reforma dramatica</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXIII">LXXIII</a></td><td align="left">O contra-regra</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXIV">LXXIV</a></td><td align="left">A presilha</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXV">LXXV</a></td><td align="left">O desespero</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXVI">LXXVI</a></td><td align="left">Explicação</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXVII">LXXVII</a></td><td align="left">Prazer das dôres velhas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXVIII">LXXVIII</a></td><td align="left">Segredo por segredo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXIX">LXXIX</a></td><td align="left">Vamos ao capitulo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXX">LXXX</a></td><td align="left">Venhamos ao capitulo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXI">LXXXI</a></td><td align="left">Uma palavra</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXII">LXXXII</a></td><td align="left">O canapé</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXIII">LXXXIII</a></td><td align="left">O retrato</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXIV">LXXXIV</a></td><td align="left">Chamado</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXV">LXXXV</a></td><td align="left">O defuncto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXVI">LXXXVI</a></td><td align="left">Amai, rapazes</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXVII">LXXXVII</a></td><td align="left">A sege</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXVIII">LXXXVIII</a></td><td align="left">Um pretexto honesto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#LXXXIX">LXXXIX</a></td><td align="left">A recusa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XC">XC</a></td><td align="left">A polemica</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCI">XCI</a></td><td align="left">Achado que consola</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCII">XCII</a></td><td align="left">O diabo não é tão feio como se pinta</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCIII">XCIII</a></td><td align="left">Um amigo por um defuncto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCIV">XCIV</a></td><td align="left">Ideias arithmeticas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCV">XCV</a></td><td align="left">O papa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCVI">XCVI</a></td><td align="left">Um substituto</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCVII">XCVII</a></td><td align="left">A saida</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCVIII">XCVIII</a></td><td align="left">Cinco annos</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#XCIX">XCIX</a></td><td align="left">O filho é a cara do pae</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#C">C</a></td><td align="left">«Tu serás feliz, Bentinho!»</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CI">CI</a></td><td align="left">No ceu</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CII">CII</a></td><td align="left">De casada</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CIII">CIII</a></td><td align="left">A felicidade tem boa alma</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CIV">CIV</a></td><td align="left">As pyramides</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CV">CV</a></td><td align="left">Os braços</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CVI">CVI</a></td><td align="left">Dez libras esterlinas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CVII">CVII</a></td><td align="left">Ciumes do mar</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CVIII">CVIII</a></td><td align="left">Um filho</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CIX">CIX</a></td><td align="left">Um filho unico</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CX">CX</a></td><td align="left">Rasgos da infancia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXI">CXI</a></td><td align="left">Contado depressa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXII">CXII</a></td><td align="left">As imitações de Ezequiel</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXIII">CXIII</a></td><td align="left">Embargos de terceiro</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXIV">CXIV</a></td><td align="left">Em que se explica o explicado</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXV">CXV</a></td><td align="left">Duvidas sobre duvidas</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXVI">CXVI</a></td><td align="left">Filho do homem</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXVII">CXVII</a></td><td align="left">Amigos proximos</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXVIII">CXVIII</a></td><td align="left">A mão de Sancha</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXIX">CXIX</a></td><td align="left">Não faça isso, querida</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXX">CXX</a></td><td align="left">Os autos</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXI">CXXI</a></td><td align="left">A catastrophe</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXII">CXXII</a></td><td align="left">O enterro</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXIII">CXXIII</a></td><td align="left">Olhos de ressaca</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXIV">CXXIV</a></td><td align="left">O discurso</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXV">CXXV</a></td><td align="left">Uma comparação</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXVI">CXXVI</a></td><td align="left">Scismando</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXVII">CXXVII</a></td><td align="left">O barbeiro</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXVIII">CXXVIII</a></td><td align="left">Punhado de successos</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXIX">CXXIX</a></td><td align="left">A D. Sancha</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXX">CXXX</a></td><td align="left">Um dia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXI">CXXXI</a></td><td align="left">Anterior ao anterior</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXII">CXXXII</a></td><td align="left">O debuxo e o colorido</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXIII">CXXXIII</a></td><td align="left">Uma ideia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXIV">CXXXIV</a></td><td align="left">O dia de sabbado</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXV">CXXXV</a></td><td align="left">Othello</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXVI">CXXXVI</a></td><td align="left">A chicara de café</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXVII">CXXXVII</a></td><td align="left">Segundo impulso</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXVIII">CXXXVIII</a></td><td align="left">Capitú que entra</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXXXIX">CXXXIX</a></td><td align="left">A photographia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXL">CXL</a></td><td align="left">Volta da egreja</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLI">CXLI</a></td><td align="left">A solução</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLII">CXLII</a></td><td align="left">Uma santa</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLIII">CXLIII</a></td><td align="left">O ultimo superlativo</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLIV">CXLIV</a></td><td align="left">Uma pergunta tardia</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLV">CXLV</a></td><td align="left">O regresso</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLVI">CXLVI</a></td><td align="left">Não houve lepra</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLVII">CXLVII</a></td><td align="left">A exposição retrospectiva</td></tr> -<tr><td align="left"></td><td align="right"><a href="#CXLVIII">CXLVIII</a></td><td align="left">É bem, e o resto?</td></tr> -</table></div> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Dom Casmurro, by Machado de Assis - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO *** - -***** This file should be named 55752-h.htm or 55752-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/5/5/7/5/55752/ - -Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free -Literature (online soon in an extended version,also linking -to free sources for education worldwide ... MOOC's, -educational materials,...) (Images generously made available -by the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. 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