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+ <title>Obras Completas de Luiz de Camões, volume III</title>
+ <meta name="Author"
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+ <meta name="Edition"
+ content="Paris. 1843. Officina Typographica de Fain e Thunot">
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+<body>
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+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III, by
+Luís Camões
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
+
+Author: Luís Camões
+
+Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="fbox"><p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro
+impresso em 1843.</p>
+
+<p>Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
+e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos
+inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em
+particular quanto à acentuação.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+
+<p style="font-size: 1.1em;">CLASSICOS</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">PORTUGUEZES.</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">TOMO III.</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+<p style="font-size: 1.4em;">CAMÕES.</p>
+
+<p style="font-size: 1em;">III.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr>
+<p style="text-align: center; font-size: small;">PARIZ.&mdash;NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,<br>
+Rua Racine, 26, junto ao Odeon.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">OBRAS COMPLETAS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 2em;"><strong>LUIS DE CAMÕES,</strong></p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">CORRECTAS E EMENDADAS</p>
+
+<p>PELO CUIDADO E DILIGENCIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.</p>
+
+<p style="font-size: 1em;">TOMO TERCEIRO.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.3em;">LISBOA.</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,<br>
+<span style="font-size: 1.1em;">NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,</span><br>
+3, quai Malaquais, près le pont des Arts.</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">1843</p>
+
+</div>
+
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p>
+
+
+
+
+<h1><big>RIMAS.</big></h1>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span></p>
+
+
+
+
+<h1>RIMAS.</h1>
+
+<h2>REDONDILHAS.</h2>
+
+
+<div id="redondilhas">
+
+<blockquote><big>S</big>ôbolos rios que vão<br>
+Por Babylonia, me achei,<br>
+Onde sentado chorei<br>
+As lembranças de Sião,<br>
+E quanto nella passei.<br>
+Alli o rio corrente<br>
+De meus olhos foi manado;<br>
+E tudo bem comparado,<br>
+Babylonia ao mal presente,<br>
+Sião ao tempo passado.<br>
+ <br>
+Alli lembranças contentes<br>
+N'alma se representárão;<br>
+E minhas cousas ausentes<br>
+Se fizerão tão presentes,<br>
+Como se nunca passárão.<br>
+Alli, despois d'acordado,<br>
+Co'o rosto banhado em ágoa,<br>
+Deste sonho imaginado,<br>
+Vi que todo o bem passado<br>
+Não he gôsto, mas he mágoa. <span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span><br>
+ <br>
+E vi que todos os danos<br>
+Se causavão das mudanças,<br>
+E as mudanças dos anos;<br>
+Onde vi quantos enganos<br>
+Faz o tempo ás esperanças.<br>
+Alli vi o maior bem<br>
+Quão pouco espaço que dura;<br>
+O mal quão depressa vem;<br>
+E quão triste estado tem<br>
+Quem se fia da ventura.<br>
+ <br>
+Vi aquillo que mais val<br>
+Qu'então s'entende melhor,<br>
+Quando mais perdido for:<br>
+Vi ao bem succeder mal,<br>
+E ao mal muito peor.<br>
+E vi com muito trabalho<br>
+Comprar arrependimento:<br>
+Vi nenhum contentamento;<br>
+E vejo-me a mi, qu'espalho<br>
+Tristes palavras ao vento.<br>
+ <br>
+Bem são rios estas ágoas<br>
+Com que banho este papel:<br>
+Bem parece ser cruel<br>
+Variedade de mágoas,<br>
+E confusão de Babel.<br>
+Como homem, que por exemplo<br>
+Dos trances em que se achou,<br>
+Despois que a guerra deixou,<br>
+Pelas paredes do templo<br>
+Suas armas pendurou:<br>
+ <br>
+Assi, despois qu'assentei <span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span><br>
+Que tudo o tempo gastava,<br>
+Da tristeza que tomei,<br>
+Nos salgueiros pendurei<br>
+Os orgãos com que cantava.<br>
+Aquelle instrumento ledo<br>
+Deixei da vida passada,<br>
+Dizendo: Musica amada,<br>
+Deixo-vos neste arvoredo<br>
+Á memoria consagrada.<br>
+ <br>
+Frauta minha, que tangendo<br>
+Os montes fazieis vir<br>
+Par'onde estaveis, correndo;<br>
+E as ágoas, que hião descendo,<br>
+Tornavão logo a subir;<br>
+Jamais vos não ouvirão<br>
+Os tigres, que s'amansavão;<br>
+E as ovelhas, que pastavão,<br>
+Das hervas se fartarão,<br>
+Que por vos ouvir deixavão.<br>
+ <br>
+Ja não fareis docemente<br>
+Em rosas tornar abrolhos<br>
+Na ribeira florecente;<br>
+Nem poreis freio á corrente,<br>
+E mais se for dos meus olhos.<br>
+Não movereis a espessura,<br>
+Nem podereis ja trazer<br>
+Atraz vós a fonte pura;<br>
+Pois não pudestes mover<br>
+Desconcertos da ventura.<br>
+ <br>
+Ficareis offerecida<br>
+Á Fama, que sempre vela, <span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span><br>
+Frauta de mi tão querida;<br>
+Porque mudando-se a vida,<br>
+Se mudão os gostos della.<br>
+Acha a tenra mocidade<br>
+Prazeres accommodados;<br>
+E logo a maior idade<br>
+Ja sente por pouquidade<br>
+Aquelles gostos passados.<br>
+ <br>
+Hum gôsto, que hoje s'alcança,<br>
+Á manhãa ja o não vejo:<br>
+Assi nos traz a mudança<br>
+D'esperança em esperança,<br>
+E de desejo em desejo.<br>
+Mas em vida tão escassa<br>
+Qu'esperança será forte?<br>
+Fraqueza da humana sorte,<br>
+Que quanto da vida passa<br>
+Está recitando a morte!<br>
+ <br>
+Mas deixar nesta espessura<br>
+O canto da mocidade:<br>
+Não cuide a gente futura<br>
+Que será obra da idade<br>
+O que he fôrça da ventura.<br>
+Qu'idade, tempo, e espanto<br>
+De ver quão ligeiro passe,<br>
+Nunca em mi puderão tanto,<br>
+Que, postoque deixo o canto,<br>
+A causa delle deixasse.<br>
+ <br>
+Mas em tristezas e nojos,<br>
+Em gôsto e contentamento;<br>
+Por sol, por neve, por vento, <span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span><br>
+<em>Tendré presente á los ojos<br>
+Por quien muero tan contento.</em><br>
+Orgãos e frauta deixava,<br>
+Despôjo meu tão querido,<br>
+No salgueiro que alli'stava,<br>
+Que para tropheo ficava<br>
+De quem me tinha vencido.<br>
+ <br>
+Mas lembranças da affeição<br>
+Que alli captivo me tinha,<br>
+Me perguntárão então,<br>
+Qu'era da musica minha,<br>
+Que eu cantava em Sião?<br>
+Que foi daquelle cantar,<br>
+Das gentes tão celebrado?<br>
+Porque o deixava de usar,<br>
+Pois sempre ajuda a passar<br>
+Qualquer trabalho passado?<br>
+ <br>
+Canta o caminhante ledo<br>
+No caminho trabalhoso<br>
+Por entre o espêsso arvoredo;<br>
+E de noite o temeroso<br>
+Cantando refreia o medo.<br>
+Canta o preso docemente,<br>
+Os duros grilhões tocando;<br>
+Canta o segador contente;<br>
+E o trabalhador, cantando,<br>
+O trabalho menos sente.<br>
+ <br>
+Eu qu'estas cousas senti<br>
+N'alma de mágoas tão cheia,<br>
+Como dirá, respondi,<br>
+Quem alheio está de si <span class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span><br>
+Doce canto em terra alheia?<br>
+Como poderá cantar<br>
+Quem em chôro banha o peito?<br>
+Porque, se quem trabalhar<br>
+Canta por menos cansar,<br>
+Eu só descansos engeito.<br>
+ <br>
+Que não parece razão,<br>
+Nem sería cousa idonia,<br>
+Por abrandar a paixão<br>
+Que cantasse em Babylonia<br>
+As cantigas de Sião.<br>
+Que quando a muita graveza<br>
+De saudade quebrante<br>
+Esta vital fortaleza,<br>
+Antes morra de tristeza,<br>
+Que por abrandá-la cante.<br>
+ <br>
+Que se o fino pensamento<br>
+Só na tristeza consiste,<br>
+Não tenho medo ao tormento:<br>
+Que morrer de puro triste,<br>
+Que maior contentamento?<br>
+Nem na frauta cantarei<br>
+O que passo, e passei ja,<br>
+Nem menos o escreverei;<br>
+Porque a penna cansará,<br>
+E eu não descansarei.<br>
+ <br>
+Que se vida tão pequena<br>
+S'accrescenta em terra estranha;<br>
+E se Amor assi o ordena,<br>
+Razão he que canse a penna<br>
+D'escrever pena tamanha. <span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span><br>
+Porém, se para assentar<br>
+O que sente o coração,<br>
+A penna ja me cansar,<br>
+Não canse para voar<br>
+A memoria em Sião.<br>
+ <br>
+Terra bem-aventurada,<br>
+Se por algum movimento<br>
+D'alma me fores tirada,<br>
+Minha penna seja dada<br>
+A perpétuo esquecimento.<br>
+A pena deste destêrro,<br>
+Qu'eu mais desejo esculpida<br>
+Em pedra, ou em duro ferro,<br>
+Essa nunca seja ouvida,<br>
+Em castigo de meu êrro.<br>
+ <br>
+E se eu cantar quizer<br>
+Em Babylonia sujeito,<br>
+Hierusalem, sem te ver,<br>
+A voz, quando a mover,<br>
+Se me congele no peito;<br>
+A minha lingua se apegue<br>
+Ás fauces, pois te perdi,<br>
+S'em quanto viver assi<br>
+Houver tempo, em que te negue,<br>
+Ou que m'esqueça de ti.<br>
+ <br>
+Mas ó tu, terra de glória.<br>
+S'eu nunca vi tua essencia,<br>
+Como me lembras na ausencia?<br>
+Não me lembras na memoria,<br>
+Senão na reminiscencia:<br>
+Que a alma he taboa rasa, <span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span><br>
+Que com a escrita doutrina<br>
+Celeste tanto imagina,<br>
+Que vôa da propria casa,<br>
+E sobe á patria divina.<br>
+ <br>
+Não he logo a saudade<br>
+Das terras onde nasceo<br>
+A carne, mas he do Ceo,<br>
+Daquella santa Cidade,<br>
+Donde est'alma descendeo.<br>
+E aquella humana figura,<br>
+Que cá me póde alterar,<br>
+Não he quem se ha de buscar;<br>
+He raio da formosura,<br>
+Que só se deve d'amar.<br>
+ <br>
+Que os olhos, e a luz que ateia<br>
+O fogo que cá sujeita,<br>
+Não do sol, nem da candeia,<br>
+He sombra daquella ideia,<br>
+Qu'em Deos está mais perfeita.<br>
+E os que cá me captivárão,<br>
+São poderosos affeitos<br>
+Qu'os corações tẽe sujeitos;<br>
+Sophistas, que m'ensinárão<br>
+Maos caminhos por direitos.<br>
+ <br>
+Destes o mando tyrano<br>
+M'obriga com desatino<br>
+A cantar ao som do dano<br>
+Cantares d'amor profano,<br>
+Por versos d'amor divino.<br>
+Mas eu, lustrado co'o santo<br>
+Raio, na terra de dor, <span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span><br>
+De confusões e d'espanto<br>
+Como hei de cantar o canto,<br>
+Que só se deve ao Senhor?<br>
+ <br>
+Tanto póde o beneficio<br>
+Da graça que dá saude,<br>
+Que ordena que a vida mude:<br>
+E o qu'eu tomei por vício,<br>
+Me faz grao para a virtude;<br>
+E faz qu'este natural<br>
+Amor, que tanto se préza,<br>
+Suba da sombra ao real,<br>
+Da particular belleza<br>
+Para a belleza geral.<br>
+ <br>
+Fique logo pendurada<br>
+A frauta com que tangi,<br>
+Ó Hierusalem sagrada,<br>
+E tome a lyra dourada<br>
+Para só cantar de ti;<br>
+Não captivo e ferrolhado<br>
+Na Babylonia infernal,<br>
+Mas dos vicios desatado,<br>
+E cá desta a ti levado,<br>
+Patria minha natural.<br>
+ <br>
+E s'eu mais der a cerviz<br>
+A mundanos accidentes,<br>
+Duros, tyrannos e urgentes,<br>
+Risque-se quanto ja fiz<br>
+Do grão livro dos viventes.<br>
+E, tomando ja na mão<br>
+A lyra santa e capaz<br>
+D'outra mais alta invenção, <span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span><br>
+Calle-se esta confusão,<br>
+Cante-se a visão de paz.<br>
+ <br>
+Ouça-me o pastor e o rei,<br>
+Retumbe este accento santo,<br>
+Mova-se no mundo espanto;<br>
+Que do que ja mal cantei<br>
+A palinodia ja canto.<br>
+A vós só me quero ir,<br>
+Senhor, e grão Capitão<br>
+Da alta tôrre de Sião,<br>
+Á qual não posso subir,<br>
+Se me vós não dais a mão.<br>
+ <br>
+No grão dia singular,<br>
+Que na lyra em douto som<br>
+Hierusalem celebrar,<br>
+Lembrae-vos de castigar<br>
+Os ruins filhos de Edom.<br>
+Aquelles que tintos vão<br>
+No pobre sangue innocente,<br>
+Soberbos co'o poder vão,<br>
+Arrazá-los igualmente:<br>
+Conheção que humanos são.<br>
+ <br>
+E aquelle poder tão duro<br>
+Dos affectos com que venho,<br>
+Qu'encendem alma e engenho;<br>
+Que ja m'entrárão o muro<br>
+Do livre arbitrio que tenho;<br>
+Estes, que tão furiosos<br>
+Gritando vem a escalar-me,<br>
+Maos espiritos damnosos,<br>
+Que querem como forçosos <span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span><br>
+Do alicerce derribar-me;<br>
+ <br>
+Derribae-os, fiquem sós,<br>
+De fôrças fracos, imbelles;<br>
+Porque não podemos nós,<br>
+Nem com elles ir a vós,<br>
+Nem sem vós tirar-nos delles.<br>
+Não basta minha fraqueza<br>
+Para me dar defensão,<br>
+Se vós, santo Capitão,<br>
+Nesta minha Fortaleza<br>
+Não puzerdes guarnição.<br>
+ <br>
+E tu, ó carne, qu'encantas,<br>
+Filha de Babel tão feia,<br>
+Toda de miseria cheia,<br>
+Que mil vezes te levantas<br>
+Contra quem te senhoreia;<br>
+Beato só póde ser<br>
+Quem co'a ajuda celeste<br>
+Contra ti prevalecer,<br>
+E te vier a fazer<br>
+O mal que lhe tu fizeste:<br>
+ <br>
+Quem com disciplina crua<br>
+Se fere mais que huma vez;<br>
+Cuja alma, de vicios nua,<br>
+Faz nodas na carne sua,<br>
+Que ja a carne n'alma fez.<br>
+E beato quem tomar<br>
+Seus pensamentos recentes,<br>
+E em nascendo os affogar,<br>
+Por não virem a parar<br>
+Em vicios graves e urgentes: <span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span><br>
+ <br>
+Quem com elles logo der<br>
+Na pedra do furor santo,<br>
+E batendo os desfizer<br>
+Na Pedra, que veio a ser<br>
+Emfim cabeça do canto:<br>
+Quem logo, quando imagina<br>
+Nos vicios da carne má,<br>
+Os pensamentos declina<br>
+Áquella Carne divina,<br>
+Que na Cruz esteve ja.<br>
+ <br>
+Quem do vil contentamento<br>
+Cá deste mundo visibil,<br>
+Quanto ao homem for possibil,<br>
+Passar logo entendimento<br>
+Para o mundo intelligibil;<br>
+Alli achará alegria<br>
+Em tudo perfeita, e cheia<br>
+De tão suave harmonia,<br>
+Que nem por pouca recreia,<br>
+Nem por sobeja enfastia.<br>
+ <br>
+Alli verá tão profundo<br>
+Mysterio na summa Alteza,<br>
+Que, vencida a natureza,<br>
+Os mores faustos do mundo<br>
+Julgue por maior baixeza.<br>
+Ó tu, divino aposento,<br>
+Minha patria singular,<br>
+Se só com te imaginar,<br>
+Tanto sobe o entendimento,<br>
+Que fara se em ti se achar?<br>
+ <br>
+Ditoso quem se partir <span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span><br>
+Para ti, terra excellente,<br>
+Tão justo e tão penitente,<br>
+Que despois de a ti subir,<br>
+Lá descanse eternamente!</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">C<small>ARTA A HUMA</small> D<small>AMA.</small></p>
+
+<blockquote><big>Q</big>uerendo escrever hum dia<br>
+O mal, que tanto estimei;<br>
+Cuidando no que poria,<br>
+Vi Amor que me dizia:<br>
+Escreve, qu'eu notarei.<br>
+E como para se ler<br>
+Não era historia pequena<br>
+A que de mi quiz fazer,<br>
+Das azas tirou a penna<br>
+Com que me fez escrever.<br>
+ <br>
+E, logo como a tirou,<br>
+Me disse: Aviva os espritos;<br>
+Que pois em teu favor sou,<br>
+Esta penna, que te dou,<br>
+Fara voar teus escritos.<br>
+E dando-me a padecer<br>
+Tudo o que quiz que puzesse,<br>
+Pude emfim delle dizer,<br>
+Que me deo com qu'escrevesse<br>
+O que me deo a escrever.<br>
+ <br>
+Eu qu'este engano entendi,<br>
+Disse-lhe: Qu'escreverei?<br>
+Respondeo, dizendo assi:<br>
+Altos effeitos de mi. <span class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span><br>
+E daquella a quem te dei.<br>
+E ja que te manifesto<br>
+Todas minhas estranhezas,<br>
+Escreve, pois que te prézas,<br>
+Milagres d'hum claro gesto,<br>
+E de quem o vio, tristezas.<br>
+ <br>
+Ah Senhora, em quem se apura<br>
+A fé de meu pensamento!<br>
+Escutae e estae a tento,<br>
+Que com vossa formosura<br>
+Iguala Amor meu tormento.<br>
+E, postoque tão remota<br>
+Estejais de m'escutar<br>
+Por me não remediar,<br>
+Ouvi, que pois Amor nota,<br>
+Milagres se hão de notar.<br>
+ <br>
+Escrevem varios Authores,<br>
+Que junto da clara fonte<br>
+Do Ganges, os moradores<br>
+Vivem do cheiro das flores<br>
+Que nascem naquelle monte.<br>
+Se os sentidos podem dar<br>
+Mantimento ao viver,<br>
+Não he logo d'espantar,<br>
+S'estes vivem de cheirar,<br>
+Que viva eu só de vos ver.<br>
+ <br>
+Huma árvore se conhece,<br>
+Que na geral alegria<br>
+Ella tanto s'entristece,<br>
+Que, como he noite, florece,<br>
+E perde as flores de dia. <span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span><br>
+Eu, qu'em ver-vos sinto o preço<br>
+Qu'em vossa vista consiste,<br>
+Em a vendo m'entristeço,<br>
+Porque sei que não mereço<br>
+A glória de ver-me triste.<br>
+ <br>
+Hum Rei de grande poder<br>
+Com veneno foi criado,<br>
+Porque, sendo costumado,<br>
+Não lhe pudesse empecer,<br>
+Se despois lhe fosse dado.<br>
+Eu, que criei de pequena<br>
+A vista a quanto padece,<br>
+Desta sorte m'acontece,<br>
+Que não me faz mal a pena,<br>
+Senão quando me fallece.<br>
+ <br>
+Quem da doença Real<br>
+De longe enfêrmo se sente,<br>
+Por segredo natural<br>
+Fica são vendo somente<br>
+Hum volatil animal.<br>
+Do mal, que Amor em mi cria,<br>
+Quando aquella Phenix vejo,<br>
+São de todo ficaria;<br>
+Mas fica-me hydropesia,<br>
+Que quanto mais, mais desejo.<br>
+ <br>
+Da vibora he verdadeiro,<br>
+Se a consorte vai buscar,<br>
+Qu'em se querendo juntar,<br>
+Deixa a peçonha primeiro,<br>
+Porque lh'impede o gerar.<br>
+Assi quando m'apresento <span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span><br>
+Á vossa vista inhumana,<br>
+A peçonha do tormento<br>
+Deixo á parte, porque dana<br>
+Tamanho contentamento.<br>
+ <br>
+Querendo Amor sustentar-se,<br>
+Fez huma vontade esquiva<br>
+D'huma estatua namorar-se:<br>
+Despois, por manifestar-se,<br>
+Converteo-a em mulher viva.<br>
+De quem m'irei eu queixando,<br>
+Ou quem direi que m'engana<br>
+Se vou seguindo e buscando<br>
+Huma imagem, que d'humana<br>
+Em pedra se vai tornando?<br>
+ <br>
+D'huma fonte se sabía,<br>
+Da qual certo se provava<br>
+Que quem sôbre ella jurava,<br>
+Se falsidade dizia,<br>
+Dos olhos logo cegava.<br>
+Vós, que minha liberdade,<br>
+Senhora, tyrannizais,<br>
+Injustamente mandais,<br>
+Quando vos fallo verdade,<br>
+Que vos não possa ver mais.<br>
+ <br>
+Da palma s'escreve e canta<br>
+Ser tão dura e tão forçosa,<br>
+Que pêzo não a quebranta,<br>
+Mas antes, de presunçosa,<br>
+Com elle mais se levanta.<br>
+Co'o pêzo do mal que dais,<br>
+A constancia qu'em mi vejo, <span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span><br>
+Não somente ma dobrais,<br>
+Mas dobra-se meu desejo,<br>
+Com qu'então vos quero mais.<br>
+ <br>
+Se alguem os olhos quizer<br>
+Ás andorinhas quebrar,<br>
+Logo a mãe, sem se deter,<br>
+Huma herva lhe vai buscar<br>
+Que lhes faz outros nascer.<br>
+Eu que os olhos tenho attento<br>
+Nos vossos, qu'estrellas são,<br>
+Cegão-se os do entendimento,<br>
+Mas nascem-me os da razão<br>
+De folgar com meu tormento.<br>
+ <br>
+Lá para onde o sol sahe,<br>
+Descobrimos, navegando,<br>
+Hum novo rio admirando,<br>
+Que o lenho que nelle cahe,<br>
+Em pedra se vai tornando.<br>
+Não s'espantem disto as gentes;<br>
+Mais razão será qu'espante<br>
+Hum coração tão possante,<br>
+Que com lagrimas ardentes<br>
+Se converte em diamante.<br>
+ <br>
+Póde hum mudo nadador<br>
+Na linha e cana influir<br>
+Tão venenoso vigor,<br>
+Que faz mais não se bulir<br>
+O braço do pescador.<br>
+Se começão de beber<br>
+Deste veneno excellente<br>
+Meus olhos, sem se deter, <span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span><br>
+Não se sabem mais mover<br>
+A nada que se apresente.<br>
+ <br>
+Isto são claros sinais<br>
+Do muito qu'em mi podeis:<br>
+Nem podeis desejar mais;<br>
+Que se ver-vos desejais,<br>
+Em mi claro vos vereis.<br>
+E quereis ver a que fim<br>
+Em mi tanto bem se pôs?<br>
+Porque quiz Amor assim,<br>
+Que por vos verdes a vós,<br>
+Tambem me visseis a mim.<br>
+ <br>
+Dos males que m'ordenais,<br>
+Qu'inda tenho por pequenos,<br>
+Sabei, se mos escutais,<br>
+Que ja não sei dizer mais,<br>
+Nem vós podeis saber menos.<br>
+Mas ja que a tanto tormento<br>
+Não se acha quem resista,<br>
+Eu, Senhora, me contento<br>
+De terdes meu soffrimento<br>
+Por alvo de vossa vista.<br>
+ <br>
+Quantos contrarios consente<br>
+Amor, por mais padecer!<br>
+Que aquella vista excellente,<br>
+Que me faz viver contente,<br>
+Me faça tão triste ser!<br>
+Mas dou este entendimento<br>
+Ao mal, que tanto m'offende,<br>
+Como na vela s'entende,<br>
+Que se se apaga co'o vento, <span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span><br>
+Co'o mesmo vento se accende.<br>
+ <br>
+Exprimentou-se algum'hora<br>
+D'ave, que chamão Camão,<br>
+Que se da casa, onde mora,<br>
+Vê adúltera senhora,<br>
+Morre de pura paixão.<br>
+A dor he tão sem medida,<br>
+Que remedio lhe não val.<br>
+Mas oh ditoso animal,<br>
+Que póde perder a vida,<br>
+Quando vê tamanho mal!<br>
+ <br>
+Nos gôstos de vos querer<br>
+Estava agora enlevado,<br>
+Se não fôra salteado<br>
+Das lembranças de temer<br>
+Ser por outrem desamado.<br>
+Estas suspeitas tão frias,<br>
+Com que o pensamento sonha,<br>
+São assi como as harpias,<br>
+Que as mais doces iguarias<br>
+Vão converter em peçonha.<br>
+ <br>
+Faz-me este mal infinito<br>
+Não poder ja mais dizer,<br>
+Por não vir a corromper<br>
+Os gostos que tenho escrito,<br>
+Co'os males qu'hei d'escrever.<br>
+Não quero que s'apregôe<br>
+Mal tanto para encobrir,<br>
+Porque em quanto aqui s'ouvir<br>
+Nenhuma outra cousa sôe,<br>
+Que a glória de vos servir. <span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">Á <small>MESMA</small>.</p>
+
+<blockquote><big>D</big>ama d'estranho primor,<br>
+Se vos for<br>
+Pezada minha firmeza,<br>
+Olhae não me deis tristeza,<br>
+Porque a converto em amor.<br>
+E se cuidais<br>
+De me matar, quando usais<br>
+D'esquivança,<br>
+Irei tomar por vingança<br>
+Amar-vos cada vez mais.<br>
+ <br>
+Porém vosso pensamento,<br>
+Como isento,<br>
+Seguirá sua tenção,<br>
+Crendo qu'em tanta affeição<br>
+Não haja accrescentamento.<br>
+Não creais<br>
+Que desta arte vos façais<br>
+Invencibil;<br>
+Que Amor sôbre o impossibil<br>
+Amostra que póde mais.<br>
+ <br>
+Mas ja da tenção que sigo,<br>
+Me desdigo;<br>
+Que se ha tanto poder nelle,<br>
+Tambem vós podeis mais qu'elle<br>
+Neste mal que usais comigo.<br>
+Mas se for<br>
+O vosso poder maior<br>
+Entre nós,<br>
+Quem poderá mais que vós, <span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span><br>
+Se vós podeis mais que Amor?<br>
+ <br>
+Despois que, Dama, vos vi,<br>
+Entendi,<br>
+Que perdêra Amor seu preço;<br>
+Pois o favor que lh'eu peço,<br>
+Vos pede elle para si.<br>
+Nem duvido<br>
+Que não póde, de sentido,<br>
+Resistir;<br>
+Pois em vez de vos ferir,<br>
+Ficou de vos ver ferido.<br>
+ <br>
+Mas pois vossa vista he tal<br>
+Em meu mal,<br>
+Que posso de vós querer?<br>
+Que mal poderei valer,<br>
+Onde o mesmo Amor não val.<br>
+Se attentar,<br>
+Nenhum bem posso esperar:<br>
+E oxalá<br>
+Que vos alembrasse ja,<br>
+Sequer para me matar.<br>
+ <br>
+Mas nem com isto creais<br>
+Que façais<br>
+Meus serviços mais pequenos;<br>
+Porqu'eu, quando espero menos,<br>
+Sabei qu'então quero mais.<br>
+Nada espero;<br>
+Mas de mi crede este fero,<br>
+Qu'em ser vosso,<br>
+Vos quero tudo o que posso,<br>
+E não posso quanto quero. <span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span><br>
+ <br>
+Só por esta phantasia<br>
+Merecia<br>
+De meus males algum fruito;<br>
+E não era certo muito<br>
+Para o muito que queria.<br>
+De maneira,<br>
+Que não he, na derradeira,<br>
+Grande espanto,<br>
+Que quem, Dama, vos quer tanto,<br>
+Que outro tanto de vós queira.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMAS SUSPEITAS</small>.</p>
+
+<blockquote><big>S</big>uspeitas, que me quereis?<br>
+Qu'eu vos quero dar lugar<br>
+Que de certas me mateis,<br>
+Se a causa, de que nasceis,<br>
+Vós quizesseis confessar.<br>
+Que de não lhe achar desculpa,<br>
+A grande mágoa passada<br>
+Me tẽe a alma tão cansada,<br>
+Que se me confessa a culpa,<br>
+Te-la-hei por desculpada.<br>
+ <br>
+Ora vêde que perigos<br>
+Tẽe cercado o coração,<br>
+Que no meio da oppressão<br>
+A seus proprios inimigos<br>
+Vai pedir a defensão!<br>
+Que, suspeitas, eu bem sei,<br>
+Como se claro vos visse,<br>
+Que he certo o que ja cuidei; <span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span><br>
+Que nunca mal suspeitei,<br>
+Que certo me não sahisse.<br>
+ <br>
+Mas queria esta certeza<br>
+Daquella que me atormenta;<br>
+Porque em tamanha estreiteza<br>
+Ver que disso se contenta,<br>
+He descanso da tristeza.<br>
+Porque se esta só verdade<br>
+Me confessa limpa e nua<br>
+De cautela e falsidade,<br>
+Não póde a minha vontade<br>
+Desconforme ser da sua.<br>
+ <br>
+Por segredo namorado<br>
+He certo estar conhecido<br>
+Que o mal de ser engeitado<br>
+Mais atormenta sabido<br>
+Mil vezes, que suspeitado.<br>
+Mas eu só, em quem se ordena<br>
+Novo modo de querella,<br>
+De medo da dor pequena,<br>
+Venho a achar na maior pena<br>
+O refrigerio para ella.<br>
+ <br>
+Ja nas iras m'inflammei,<br>
+Nas vinganças, nos furores,<br>
+Que ja doudo imaginei;<br>
+E ja mais doudo jurei<br>
+De arrancar d'alma os amores.<br>
+Ja determinei mudar-me<br>
+Para outra parte com ira;<br>
+Despois vim a concertar-me<br>
+Que era bom certificar-me <span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span><br>
+No que mostrava a mentira.<br>
+ <br>
+Mas despois ja de cansadas<br>
+As furias do imaginar,<br>
+Vinha emfim a rebentar<br>
+Em lagrimas magoadas,<br>
+E bem para magoar.<br>
+E deixando-se vencer<br>
+Os meus fingidos enganos<br>
+De tão claros desenganos,<br>
+Não posso menos fazer,<br>
+Que contentar-me co'os danos.<br>
+ <br>
+E pedir que me tirassem<br>
+Este mal de suspeitar<br>
+Que me vejo atormentar,<br>
+Indaque me confessassem<br>
+Quanto me póde matar.<br>
+Olhae bem se me trazeis,<br>
+Senhora, pôsto no fim;<br>
+Pois neste estado a que vim,<br>
+Para que vós confesseis,<br>
+Se dão os tratos a mim.<br>
+ <br>
+Mas para que tudo possa<br>
+Amor, que tudo encaminha,<br>
+Tal justiça lhe convinha;<br>
+Porque da culpa, qu'he vossa,<br>
+Venha a ser a morte minha.<br>
+Justiça tão mal olhada<br>
+Olhae com que côr se doura,<br>
+Que quero, ao fim da jornada,<br>
+Que vós sejais confessada,<br>
+Para qu'eu seja o que moura! <span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span><br>
+ <br>
+Pois confessae-vos jagora,<br>
+Indaque tenho temor<br>
+Que nem nesta última hora<br>
+Me ha de perdoar Amor<br>
+Vossos peccados, Senhora.<br>
+E assi vou desesperado,<br>
+Porque estes são os costumes<br>
+D'amor que he mal empregado;<br>
+Do qual vou ja condemnado<br>
+Ao inferno de ciumes.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">L<small>ABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO</small>.<sup><a href="#rodape1" name="m_rodape1">[1]</a></sup></p>
+
+<blockquote><big>C</big>orre sem vela e sem leme<br>
+O tempo desordenado,<br>
+D'hum grande vento levado:<br>
+O que perigo não teme,<br>
+He de pouco exprimentado.<br>
+As redeas trazem na mão<br>
+Os que redeas não tiverão:<br>
+Vendo quanto mal fizerão<br>
+A cobiça e ambição,<br>
+Disfarçados se acolhêrão.<br>
+ <br>
+A nao, que se vai perder,<br>
+Destrue mil esperanças: <span class="pn"><a name="pag_34">{34}</a></span><br>
+Vejo o mao que vem a ter;<br>
+Vejo perigos correr<br>
+Quem não cuida que ha mudanças.<br>
+Os que nunca em sella andárão,<br>
+Na sella postos se vem:<br>
+De fazer mal não deixárão;<br>
+De demonio hábito tem<br>
+Os que o justo profanárão.<br>
+ <br>
+Que poderá vir a ser<br>
+O mal nunca refreado?<br>
+Anda, por certo, enganado<br>
+Aquelle que quer valer,<br>
+Levando o caminho errado.<br>
+He para os bons confusão,<br>
+Ver que os maos prevalecêrão;<br>
+Que, pôsto se detiverão<br>
+Com esta simulação,<br>
+Sempre castigos tiverão:<br>
+ <br>
+Não porque governe o leme<br>
+Em mar envolto e turbado,<br>
+Que tẽe seu rumo mudado,<br>
+Se perece grita e geme<br>
+Em tempo desordenado.<br>
+Terem justo galardão,<br>
+E dor dos que merecêrão,<br>
+Sempre castigos tiverão<br>
+Sem nenhuma redempção,<br>
+Postoque se detiverão.<br>
+ <br>
+Na tormenta, se vier,<br>
+Desespere na bonança,<br>
+Quem manhas não sabe ter: <span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span><br>
+Sem que lhe valha gemer,<br>
+Verá falsar a balança.<br>
+Os que nunca trabalhárão,<br>
+Tendo o que lhe não convem,<br>
+Se ao innocente enganárão,<br>
+Perderão o eterno bem,<br>
+Se do mal não s'apartárão.</blockquote>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape1" name="rodape1">[1]</a></sup> Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não
+parece obra do poeta. Nelle não fazemos emenda alguma,
+porque a unica judiciosa seria passar-lhe um traço por cima:
+o que não ousamos fazer por andar em todas as edições.</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Nota dos editores.</em></p>
+</div>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ONVITE QUE FEZ NA</small> I<small>NDIA
+A CERTOS</small> F<small>IDALGOS</small>.</p>
+
+<p class="centrado"><em>A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:</em></p>
+
+<blockquote><big>S</big>e não quereis padecer<br>
+Huma, ou duas horas tristes,<br>
+Sabeis que haveis de fazer?<br>
+Volveros por dó venistes,<br>
+Que aqui não ha que comer.<br>
+E, postoque aqui leais<br>
+Trovinha que vos enleia,<br>
+Corrido não estejais;<br>
+Porque por mais que corrais,<br>
+Não heis de alcançar a ceia.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>A segunda a D. Francisco de Almeida.</em></p>
+
+<blockquote>Heliogabalo zombava<br>
+Das pessoas convidadas;<br>
+E de sorte as enganava,<br>
+Que as iguarias que dava,<br>
+Vinhão nos pratos pintadas. <span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span><br>
+Não temais tal travessura,<br>
+Pois ja não póde ser nova;<br>
+Porque a cêa está segura<br>
+De vos não vir em pintura;<br>
+Mas ha de vir toda em trova.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>A terceira a Heitor da Silveira.</em></p>
+
+<blockquote>Cêa não a papareis:<br>
+Com tudo, porque não minta,<br>
+Para beber achareis,<br>
+Não Caparica, mas tinta,<br>
+E mil cousas que papeis.<br>
+E vós torceis o focinho<br>
+Com esta amphibologia?<br>
+Pois sabei que a Poesia<br>
+Vos dá aqui tinta por vinho,<br>
+E papéis por iguaria.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez
+huns versos, que vão adiante, sôbre huma peça de
+cacha, que deo a huma Dama.</em></p>
+
+<blockquote>Porque os que vos convidárão<br>
+Vosso estomago não danem,<br>
+Por justa causa ordenárão,<br>
+Se trovas vos enganárão,<br>
+Que trovas vos desenganem.<br>
+Vós tereis isto por tacha,<br>
+Converter tudo em trovar;<br>
+Pois se me virdes zombar,<br>
+Não cuideis, Senhor, que he cacha,<br>
+Que aqui não ha que cachar. <span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Responde João Lopes.</em></p>
+
+<blockquote>Pezar ora não de são,<br>
+Eu juro pelo Ceo bento,<br>
+Se de comer não me dão,<br>
+Qu'eu não sou camaleão,<br>
+Que m'hei de manter do vento.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Responde o Author.</em></p>
+
+<blockquote>Senhor, não vos agasteis,<br>
+Porque Deos vos proverá;<br>
+E se mais saber quereis,<br>
+Nas costas deste lereis<br>
+As iguarias que ha.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Virado o papel, dizia assi:</em></p>
+
+<blockquote>Tendes nem migalha assada;<br>
+Cousa nenhuma de môlho;<br>
+E nada feito em empada;<br>
+E vento de tigelada;<br>
+Picar no dente em remôlho:<br>
+De fumo tendes taçalhos;<br>
+Ave da pena que sente<br>
+Quem da fome anda doente;<br>
+Bocejar de vinho e d'alhos;<br>
+Manjar em branco excellente.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>A derradeira a Francisco de Mello.</em></p>
+
+<blockquote>D'hum homem, que teve o scetro<br>
+Da vêa maravilhosa,<br>
+Não foi cousa duvidosa, <span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span><br>
+Que se lhe tornava em metro<br>
+O qu'hia a dizer em prosa.<br>
+De mi vos quero affirmar<br>
+Que faça cousas mais novas,<br>
+De quanto podeis cuidar;<br>
+E esta cêa, que he manjar,<br>
+Vos faça na boca em trovas.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">N<small>A</small> I<small>NDIA AO </small>V<small>ISO-</small>R<small>EI, COM O MOTE ADIANTE.</small></p>
+
+<blockquote><big>C</big>onde, cujo illustre peito<br>
+Merece nome de Rei,<br>
+Do qual muito certo sei<br>
+Que lhe fica sendo estreito<br>
+O cargo de Viso-Rei;<br>
+Servirdes-vos d'occupar-me<br>
+Tanto contra meu Planeta,<br>
+Não foi senão azas dar-me,<br>
+Com as quaes vou a queimar-me,<br>
+Como o faz a borboleta.<br>
+ <br>
+E s'eu a penna tomar,<br>
+Que tão mal cortada tenho,<br>
+Será para celebrar<br>
+Vosso valor singular<br>
+Dino de mais alto engenho.<br>
+Que se o meu vos celebrasse,<br>
+Necessario me sería<br>
+Que os olhos d'aguia tomasse,<br>
+Só para que não cegasse<br>
+No sol de vossa valia.<br>
+ <br>
+Vossos feitos sublimados <span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span><br>
+Nas armas, dignos de gloria,<br>
+São no mundo tão soados,<br>
+Qu'em vós de vossos passados<br>
+Se resuscita a memoria.<br>
+Pois aquelle ânimo estranho,<br>
+Prompto para todo effeito,<br>
+Espanta todo o conceito:<br>
+Como coração tamanho<br>
+Vos póde caber no peito?<br>
+ <br>
+A clemencia, que asserena<br>
+Coração tão singular,<br>
+S'eu nisso puzesse a penna,<br>
+Sería encerrar o mar<br>
+Em cova muito pequena.<br>
+Bem basta, Senhor, que agora<br>
+Vos sirvais de me occupar;<br>
+Que assi fareis aparar<br>
+A penna, com que algum'hora<br>
+Vos vereis ao ceo voar.<br>
+ <br>
+Assi vos irei louvando,<br>
+Vós a mi do chão erguendo,<br>
+Ambos o mundo espantando;<br>
+Vós com a espada cortando,<br>
+Eu com a penna escrevendo.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Mote que lhe mandou o Viso-Rei.</em></p>
+
+<blockquote>Muito sou meu inimigo,<br>
+Pois que não tiro de mi<br>
+Cuidados, com que nasci,<br>
+Que põe a vida em perigo.<br>
+Oxalá que fôra assi! <span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span></blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>Viver eu, sendo mortal,<br>
+De cuidados rodeado,<br>
+Parece meu natural;<br>
+Que a peçonha não faz mal<br>
+A quem foi nella criado.<br>
+Tanto sou meu inimigo,<br>
+Que por não tirar de mi<br>
+Cuidados, com que nasci,<br>
+Porei a vida em perigo.<br>
+Oxalá que fôra assi!<br>
+ <br>
+Tanto vim a accrescentar<br>
+Cuidados, que nunca amansão<br>
+Em quanto a vida durar,<br>
+Que canso ja de cuidar<br>
+Como cuidados não cansão.<br>
+S'estes cuidados, que digo,<br>
+Dessem fim a mi e a si,<br>
+Farião pazes comigo;<br>
+Que pôr a vida em perigo,<br>
+O bom fôra para mi.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS
+OBRAS SUAS.</small></p>
+
+<blockquote><big>S</big>enhora, s'eu alcançasse<br>
+No tempo que ler quereis,<br>
+Que a dita dos meus papéis<br>
+Pola minha se trocasse;<br>
+E por ver <span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span><br>
+Tudo o que posso escrever<br>
+Em mais breve relação,<br>
+Indo eu onde elles vão,<br>
+Por mi só quizesseis ler;<br>
+<br>
+Despois de ver hum cuidado<br>
+Tão contente de seu mal,<br>
+Verieis o natural<br>
+Do que aqui vêdes pintado;<br>
+Que o perfeito<br>
+Amor, de que sou sogeito,<br>
+Vereis aspero e cruel,<br>
+Aqui com tinta e papel,<br>
+Em mi com sangue no peito.<br>
+<br>
+Que hum continuo imaginar<br>
+Naquillo que Amor ordena,<br>
+He pena, que emfim por penna<br>
+Se não póde declarar;<br>
+Que se eu levo<br>
+Dentro n'alma quanto devo<br>
+De trasladar em papéis,<br>
+Vêde que melhor lereis,<br>
+Se a mi, se aquillo qu'escrevo?</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> S<small>ENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE
+SITIM AMARELLO.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e derivais da verdade<br>
+Esta palavra <em>Sitim</em>,<br>
+Achareis sem falsidade,<br>
+Que apos o <em>si</em> tẽe o <em>tim</em>,<br>
+Que tine em toda a Cidade. <span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span><br>
+Bem vejo que m'entendeis;<br>
+Mas porque não falle em vão,<br>
+Sabei que a esta Nação<br>
+Tanto que o <em>si</em> concedeis,<br>
+O <em>tim</em> logo está na mão.<br>
+<br>
+E quem da fama s'arreda,<br>
+Que tudo vai descobrir,<br>
+Deve sempre de fugir<br>
+De sitins, porque da seda<br>
+Seu natural he rugir.<br>
+Mas panno fino e delgado,<br>
+Qual a raxa e outros assi,<br>
+Dura, aquenta, e he callado,<br>
+Amoroso, e dá de si<br>
+Mais que <em>sitim</em>, nem brocado.<br>
+<br>
+Mas estes, que sedas são<br>
+Com quem s'enganão mil Damas,<br>
+Mais vos tomão, do que dão;<br>
+Promettem, mas não darão,<br>
+Senão nodoas para as famas.<br>
+E se não me quereis crer,<br>
+Ou tomais outro caminho,<br>
+Por exemplo o podeis ver,<br>
+Quando lá virdes arder<br>
+A casa d'algum vizinho.<br>
+<br>
+Oh feminina simpreza,<br>
+Donde estão culpas a pares,<br>
+Que por hum Dom de nobreza,<br>
+Deixão dões da natureza,<br>
+Mais altos e singulares!<br>
+Hum Dom, que anda enxertado <span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span><br>
+No nome, e nas obras não.<br>
+Fallo como exprimentado;<br>
+Que <em>sitim</em> desta feição<br>
+Eu tenho muito cortado.<br>
+<br>
+Dizem-me qu'era amarello;<br>
+E quem assi o quiz dar,<br>
+Só para me Deos vingar,<br>
+Se vem á mão amarê-lo,<br>
+O qu'eu não posso cuidar.<br>
+Porque quem sabe viver<br>
+Por estas artes manhosas,<br>
+(Isto bem póde não ser)<br>
+Dá a meninas formosas,<br>
+Somente polas fazer.<br>
+<br>
+Quem vos isto diz, Senhora,<br>
+Servio nas vossas armadas<br>
+Muito, mas anda ja fóra;<br>
+E póde ser qu'inda agora<br>
+Traz abertas as fréchadas.<br>
+E, postoque desfavores<br>
+O tirão de servidor,<br>
+Quer-vos ventura melhor;<br>
+Que dos antigos amores<br>
+Inda lhe fica este amor.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> S<small>ENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>eço-vos que me digais<br>
+As orações que rezastes,<br>
+Se são polos que matastes,<br>
+Se por vós que assi matais? <span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span><br>
+Se são por vós, são perdidas;<br>
+Que qual será a oração,<br>
+Que seja satisfação,<br>
+Senhora, de tantas vidas?<br>
+<br>
+Que se vêdes quantos vem<br>
+A só vida vos pedir,<br>
+Como vos ha Deos de ouvir,<br>
+Se vós não ouvis ninguem?<br>
+Não podeis ser perdoada<br>
+Com mãos a matar tão prontas,<br>
+Que se n'huma trazeis contas,<br>
+Na outra trazeis espada.<br>
+<br>
+Se dizeis que encommendando<br>
+Os que matastes andais;<br>
+Se rezais por quem matais,<br>
+Para que matais rezando?<br>
+Que se na fôrça do orar<br>
+Levantais as mãos aos Ceos,<br>
+Não as ergueis para Deos,<br>
+Erguei-las para matar.<br>
+<br>
+E quando os olhos cerrais,<br>
+Toda enlevada na fé,<br>
+Cerrão-se os de quem vos vê,<br>
+Para nunca verem mais.<br>
+Pois se assi forem tratados<br>
+Os que vos vem quando orais,<br>
+Essas horas que rezais,<br>
+São as horas dos finados.<br>
+<br>
+Pois logo, se sois servida<br>
+Que tantos mortos não sejão,<br>
+Não rezeis onde vos vejão, <span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span><br>
+Ou vêde para dar vida.<br>
+Ou se quereis escusar<br>
+Estes males que causastes,<br>
+Resuscitae quem matastes,<br>
+Não tereis por quem rezar.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> D<small>AMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e n'alma e no pensamento<br>
+Por vosso me manifesto,<br>
+Não me peza do que sento;<br>
+Que se não soffrer tormento,<br>
+Faço offensa a vosso gesto.<br>
+E, pois quanto Amor ordena,<br>
+E quanto est'alma deseja,<br>
+Tudo á morte me condena,<br>
+Não quero senão que seja<br>
+Tudo pena, pena, pena.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> D<small>AMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>em olhos vi o mal claro,<br>
+Que dos olhos se seguio:<br>
+Pois cara sem olhos vio<br>
+Olhos, que lhe custão caro.<br>
+D'olhos não faço menção,<br>
+Pois quereis que olhos não sejão;<br>
+Vendo-vos, olhos sobejão,<br>
+Não vos vendo, olhos não são. <span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">D<small>ISPARATES NA</small> I<small>NDIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>ste mundo es el camino<br>
+Adó hay ducientos váos,<br>
+Ou por onde bons e maos,<br>
+Todos somos del merino.<br>
+Mas os maos são de teor,<br>
+Que desque mudão a côr,<br>
+Chamão logo a ElRei compadre;<br>
+E emfim dejadlos, mi madre,<br>
+Que sempre tẽe hum sabor<br>
+De quem torto nasce, tarde s'endireita.<br>
+<br>
+Deixae a hum que se abone:<br>
+Diz logo de muito sengo,<br>
+Villas y castillos tengo,<br>
+Todos á mi mandar sone.<br>
+Então eu, qu'estou de môlho,<br>
+Com a lagrima no ôlho,<br>
+Polo virar do envés,<br>
+Digo-lhe: <em>tu ex illis es</em>,<br>
+E por isso não te ólho;<br>
+Pois honra e proveito não cabem n'hum saco.<br>
+<br>
+Vereis huns, que no seu seio<br>
+Cuidão que trazem París,<br>
+E querem com dous ceitís,<br>
+Fender anca pelo meio.<br>
+Vereis mancebindo de arte,<br>
+Com espada em talabarte:<br>
+Não ha mais Italiano.<br>
+A este direis: Meu mano,<br>
+Vós sois galante que farte;<br>
+Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido. <span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span><br>
+<br>
+Outros em cada theatro,<br>
+Por officio lhe ouvirês<br>
+Que se matarán con tres,<br>
+Y lo mismo haran con cuatro.<br>
+Prezão-se de dar respostas,<br>
+Com palavras bem compostas;<br>
+Mas se lhe meteis a mão,<br>
+Na paz mostrão coração,<br>
+Na guerra mostrão as costas;<br>
+Porque aqui torce a porca o rabo.<br>
+<br>
+Outros vejo por ahi,<br>
+A que se acha mal o fundo,<br>
+Que andão emendando o mundo,<br>
+E não se emendão a si.<br>
+Estes respondem a quem<br>
+Delles não entende bem<br>
+El dolor que está secreto;<br>
+Mas porém quem for discreto,<br>
+Responder-lhe-ha muito bem:<br>
+Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.<br>
+<br>
+Achareis rafeiro velho,<br>
+Que se quer vender por galgo:<br>
+Diz que o dinheiro he fidalgo,<br>
+Que o sangue todo he vermelho.<br>
+Se elle mais alto o dissera,<br>
+Este pelote puzera:<br>
+Que o seu eco lhe responda;<br>
+Que su padre era de Ronda,<br>
+Y su madre de Antequera,<br>
+E quer cobrir o ceo co'huma joeira.<br>
+<br>
+Fraldas largas, grave aspeito, <span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span><br>
+Para Senador Romano.<br>
+Oh que grandissimo engano!<br>
+Que Momo lhe abrisse o peito!<br>
+Consciencia, que sobeja,<br>
+Siso, com que o mundo reja,<br>
+Mansidão outro que si;<br>
+Mas que lobo está em ti,<br>
+Metido em pelle de oveja!<br>
+E sabem-no poucos.<br>
+<br>
+Guardae-vos de huns meus Senhores,<br>
+Que ainda comprão e vendem;<br>
+Huns, qu'he certo, que descendem<br>
+Da geração de pastores:<br>
+Mostrão-se-vos bons amigos;<br>
+Mas se vos vem em perigos,<br>
+Escarrão-vos nas paredes;<br>
+Que de fóra dormiredes,<br>
+Irmão, que he tempo de figos;<br>
+Porque de rabo de porco nunca bom virote.<br>
+<br>
+Que direis d'huns, que as entranhas<br>
+Lh'estão ardendo em cobiça,<br>
+E se tẽe mando, a justiça<br>
+Fazem de teas de aranhas?<br>
+Com suas hypocrisias,<br>
+Que são de vossas espias:<br>
+Para os pequenos huns Neros,<br>
+Para os grandes tudo feros.<br>
+Pois tu, parvo, não sabías,<br>
+Que lá vão leis, onde querem cruzados?<br>
+<br>
+Mas tornando a huns enfadonhos,<br>
+Cujas cousas são notorias; <span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span><br>
+Huns, que contão mil histórias<br>
+Mais desmanchadas que sonhos;<br>
+Huns mais parvos que zamboas,<br>
+Qu'estudão palavras boas,<br>
+A que ignorancia os atiça:<br>
+Estes paguem por justiça,<br>
+Que tẽe morto mil <span class="typo" title="no original: possoas">pessoas</span>,<br>
+Por vida de quanto quero.<br>
+<br>
+Adonde tienen las mentes<br>
+Huns secretos trovadores,<br>
+Que fazem cartas d'amores,<br>
+De que ficão mui contentes?<br>
+Não querem sahir á praça;<br>
+Trazem trova por negaça;<br>
+E se lha gabais, qu'he boa,<br>
+Diz qu'he de certa pessoa.<br>
+Ora que quereis que faça,<br>
+Senão ir-me por esse mundo?<br>
+<br>
+Ó tu, como me atarracas,<br>
+Escudeiro de Solia,<br>
+Com bocaes de fidalguia,<br>
+Trazido quasi com vacas;<br>
+Importuno a importunar,<br>
+Morto por desenterrar<br>
+Parentes, que cheirão ja!<br>
+Voto a tal, que me fara<br>
+Hum destes nunca fallar<br>
+Mais com viva alma.<br>
+<br>
+Huns, que fallão muito, vi,<br>
+De que quizera fugir;<br>
+Huns que, emfim, sem se sentir, <span class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span><br>
+Andão fallando entre si;<br>
+Porfiosos sem razão;<br>
+E desque tomão a mão,<br>
+Fallão sem necessidade;<br>
+E se algum'hora he verdade,<br>
+Deve ser na confissão;<br>
+Porque quem não mente... Ja m'entendeis.<br>
+<br>
+Oh vós, quem quer que me lerdes,<br>
+Qu'haveis de ser avisado,<br>
+Que dizeis ao namorado<br>
+Que caça vento com redes?<br>
+Jura por vida da Dama;<br>
+Falla comsigo na cama;<br>
+Passêa de noite e escarra;<br>
+Por falsete na guitarra<br>
+Põe sempre: Viva que ama,<br>
+Porque calça a seu proposito.<br>
+<br>
+Mas deixemos, se quizerdes,<br>
+Por hum pouco as travessuras,<br>
+Porqu'entre quatro maduras<br>
+Leveis tambem cinco verdes.<br>
+Deitemos-nos mais ao mar;<br>
+E se algum se arrecear,<br>
+Passe tres ou quatro trovas.<br>
+E vós tomais côres novas?<br>
+Mas não he para espantar;<br>
+Que quem porcos ha menos,<br>
+Em cada mouta lhe roncão.<br>
+<br>
+Ó vós, que sois Secretarios<br>
+Das consciencias Reais,<br>
+E que entre os homens estais <span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span><br>
+Por Senhores ordinarios;<br>
+Porque não pondes hum freio<br>
+Ao roubar, que vai sem meio,<br>
+Debaixo de bom governo?<br>
+Pois hum pedaço de inferno<br>
+Por pouco dinheiro alheio<br>
+Se vende a Mouro e a Judeo.<br>
+<br>
+Porque a mente, affeiçoada<br>
+Sempre á Real dignidade,<br>
+Vos faz julgar por bondade<br>
+A malicia desculpada.<br>
+Move a presença Real<br>
+Huma affeição natural,<br>
+Que logo inclina ao Juiz<br>
+A seu favor: e não diz<br>
+Hum rifão muito geral,<br>
+Que o Abbade donde canta, dahi janta?<br>
+<br>
+E vós bailais a esse som:<br>
+Por isso, gentís pastores,<br>
+Vos chama a vós mercadores<br>
+Hum que só foi pastor bom.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">A J<small>OÃO</small> L<small>OPES</small> L<small>EITÃO,<br>
+SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU A HUMA</small> D<small>AMA,
+QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Se vossa Dama vos dá<br>
+Tudo quanto vós quizestes,<br>
+Dizei-me: p'ra que lhe déstes<br>
+O que vos ella fez ja? <span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>endo os restos envidados,<br>
+E vós de cachas mil contos<br>
+Sabeis com quão poucos pontos,<br>
+Que lhos achastes quebrados;<br>
+Se o que tẽe, isso vos dá,<br>
+Vós mui bem lho merecestes,<br>
+Porque se a cacha lhe déstes<br>
+Tinha-vo-la feita ja.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Menina formosa e crua,<br>
+Bem sei eu<br>
+Quem deixará de ser seu,<br>
+Se vós quizereis ser sua.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>M</big>enina mais que na idade,<br>
+Se para me querer bem<br>
+Vos não vejo ter vontade,<br>
+He porque outrem vo-la tem;<br>
+Tẽe-vo-la, e faz-vo-la crua.<br>
+Porém eu<br>
+Ja tomára não ser meu,<br>
+Se vós não foreis tão sua.<br>
+<br>
+Nos olhos, e na feição<br>
+Vos vi, quando vos olhava,<br>
+Tanta graça, que vos dava<br>
+De graça este coração:<br>
+Não o quizestes de crua, <span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span><br>
+Por ser meu:<br>
+Se outrem vos dera o seu,<br>
+Póde ser foreis mais sua.<br>
+<br>
+Menina, tende maneira,<br>
+Que ainda não venha a ser,<br>
+Pois não quereis quem vos quer,<br>
+Que queirais quem vos não queira.<br>
+Olhae não me sejais crua,<br>
+Que pois eu<br>
+Quero ser vosso, e não meu,<br>
+Sêde vós minha, e não sua.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA DOENTE</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Da doença, em que ora ardeis,<br>
+Eu fôra vossa mézinha<br>
+Só com vós serdes a minha.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>H</big>e muito para notar<br>
+Cura tão bem acertada,<br>
+Que podereis ser curada<br>
+Somente com me curar.<br>
+Se quereis, Dama, trocar,<br>
+Ambos temos a mézinha,<br>
+Eu a vossa, e vós a minha.<br>
+<br>
+Olhae, que não quer Amor,<br>
+(Porque fiquemos iguais)<br>
+Pois meu ardor não curais,<br>
+Que se cure vosso ardor. <span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span><br>
+Eu cá sinto vossa dor;<br>
+E se vós sentis a minha,<br>
+Dae e tomae a mézinha.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO</small></p>
+
+<blockquote>
+Deo, Senhora, por sentença<br>
+Amor, que fosseis doente,<br>
+Para fazerdes á gente<br>
+Doce e formosa a doença.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>ão sabendo Amor curar,<br>
+Foi a doença fazer<br>
+Formosa para se ver,<br>
+Doce para se passar.<br>
+Então vendo a differença<br>
+Que ha de vós a toda a gente,<br>
+Mandou, que fôsseis doente,<br>
+Para glória da doença.<br>
+<br>
+E digo-vos de verdade,<br>
+Que a saude anda invejosa,<br>
+Por ver estar tão formosa<br>
+Em vós essa enfermidade.<br>
+Não façais logo detença,<br>
+Senhora, em estar doente,<br>
+Porque adoecerá a gente,<br>
+Com desejos da doença.<br>
+<br>
+Qu'eu por ter, formosa Dama,<br>
+A doença, qu'em vós vejo,<br>
+Vos confesso, que desejo <span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span><br>
+De cahir comvosco em cama.<br>
+Se consentis, que me vença<br>
+Deste mal, não houve gente<br>
+Da saude tão contente,<br>
+Como eu serei da doença.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>O MESMO</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>O</big>lhae que dura sentença<br>
+Foi amor dar contra mi!<br>
+Que porqu'em vós me perdi,<br>
+Em vós me busque a doença.<br>
+Claro está,<br>
+Que em vós só me achará;<br>
+Qu'em mi, se me vem buscar,<br>
+Não poderá mais achar,<br>
+Que a fórma do que foi ja.<br>
+<br>
+Que s'em vós Amor se pôs,<br>
+Senhora, he forçado assi,<br>
+Que o mal, que me busca a mi,<br>
+Que vos faça mal a vós.<br>
+Sem mentir,<br>
+Amor me quiz destruir<br>
+Por modo nunca cuidado,<br>
+Pois ha de ser ja forçado<br>
+Pezar-vos de vos servir.<br>
+<br>
+Mas sois tão desconhecida,<br>
+E são meus males de sorte,<br>
+Que vos ameaça a morte,<br>
+Porque me negais a vida.<br>
+Se por boa <span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span><br>
+Tal justiça se pregoa;<br>
+Quando desta sorte for,<br>
+Havei vós perdão de Amor,<br>
+Que a parte ja vos perdoa.<br>
+<br>
+Mas o que mais temo, emfim,<br>
+He que nesta differença,<br>
+Que se não torne a doença,<br>
+Se me não tornais a mim.<br>
+De verdade,<br>
+Que ja vossa humanidade<br>
+De que se queixe não tem;<br>
+Pois para as almas tambem<br>
+Fez Amor enfermidade.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA VESTIDA DE DÓ</small>.</p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+De atormentado e perdido,<br>
+Ja vos não peço, senão<br>
+Que tenhais no coração<br>
+O que tendes no vestido.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e de dó vestida andais<br>
+Por quem ja vida não tem<br>
+Porque não o haveis de quem<br>
+Vós tantas vezes matais?<br>
+Que brado sem ser ouvido,<br>
+E nunca vejo senão<br>
+Cruezas no coração,<br>
+E grande dó no vestido. <span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A D<small>ONA</small> G<small>UIOMAR DE</small> B<small>LASFÉ, QUEIMANDO-SE COM
+HUMA VÉLA NO ROSTO</small>.</p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Amor, que todos offende,<br>
+Teve, Senhora, por gôsto,<br>
+Que sentisse o vosso rosto<br>
+O que nas almas accende.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>quelle rosto que traz<br>
+O mundo todo abrazado,<br>
+Se foi da flamma tocado,<br>
+Foi porque sinta o que faz.<br>
+Bem sei que Amor se vos rende;<br>
+Porém o seu presupposto<br>
+Foi sentir o vosso rosto<br>
+O que nas almas accende.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE
+CHAMAVÃO QUARESMA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Não estejais aggravada,<br>
+Senão se for de vós mesma;<br>
+Porqu'a mulher, que he errada,<br>
+Com razão pela Quaresma<br>
+Deve ser disciplinada.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uererdes profano amor<br>
+Em Quaresma, he consciencia:<br>
+Açoutes e penitencia <span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span><br>
+Vos está muito melhor.<br>
+Não fiqueis disto affrontada,<br>
+Pois a culpa he vossa mesma;<br>
+Que mulher, que he tão malvada,<br>
+He bem que pela Quaresma<br>
+Seja bem disciplinada.<br>
+<br>
+Se a penitencia vos val,<br>
+Mui bem açoutada estais;<br>
+Pois por Quaresma pagais<br>
+Vossos vicios do carnal.<br>
+Não torneis a ser errada,<br>
+Nem condemneis a vós mesma,<br>
+Pois estais ja emendada;<br>
+E não sereis por Quaresma<br>
+Outra vez disciplinada.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUM</small> F<small>IDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA,
+QUE LHE PROMETTEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem no mundo quizer ser<br>
+Havido por singular,<br>
+Para mais s'engrandecer,<br>
+Ha de trazer sempre o dar<br>
+Nas ancas do prometter.<br>
+E ja que vossa mercê,<br>
+Largueza tẽe por divisa,<br>
+Como o mundo todo vê,<br>
+Ha mister que tanto dê,<br>
+Que venha a dar a camisa. <span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME</small>
+F<small>OÃ DOS ANJOS</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Senhora, pois me chamais<br>
+Tão sem razão tão mão nome,<br>
+Inda o diabo vos tome.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem quer que vio, ou que leo,<br>
+Terá por novo e moderno,<br>
+Ter quem vive no inferno,<br>
+O pensamento no ceo.<br>
+Mas se a vós vos pareceo,<br>
+Que m'estava bem tal nome,<br>
+Esse diabo vos tome.<br>
+<br>
+Perdido mais que ninguem<br>
+Confesso, Senhora, ser;<br>
+Mas o diabo não quer<br>
+Aos Anjos tamanho bem.<br>
+Pois logo não me convem,<br>
+Ou se me convem tal nome,<br>
+Será para que vos tome.<br>
+<br>
+Se vos benzeis com cautella,<br>
+Como de Anjo, e não de luz,<br>
+Mal póde fugir da Cruz,<br>
+Quem vós tendes pôsto nella.<br>
+Mas ja que foi minha estrella<br>
+Ser diabo, e ter tal nome,<br>
+Guardae-vos, que vos não tome.<br>
+<br>
+Ja que chegais tanto ao cabo,<br>
+Com as mãos, postas aos ceos<br>
+Vou sempre pedindo a Deos, <span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span><br>
+Que vos leve este diabo.<br>
+Eu, Senhora, não me gabo;<br>
+Mas pois que me dais tal nome,<br>
+Tomo-o, para que vos tome.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR</small>.</p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Qual terá culpa de nós<br>
+Neste mal, que todo he meu?<br>
+Quando vindes, não vou eu,<br>
+Quando vou, não vindes vós.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>R</big>einando Amor em dous peitos,<br>
+Tece tantas falsidades,<br>
+Que de conformes vontades<br>
+Faz desconformes effeitos.<br>
+Igualmente vive em nós;<br>
+Mas por desconcêrto seu<br>
+Vos leva, se venho eu,<br>
+Me leva, se vindes vós.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE SEU</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Descalça vai pela neve:<br>
+Assi faz quem Amor serve.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>O</big>s privilegios, que os Reis<br>
+Não pódem dar, póde amor, <span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span><br>
+Que faz qualquer amador<br>
+Livre das humanas leis.<br>
+Mortes e guerras crueis,<br>
+Ferro, frio, fogo e neve,<br>
+Tudo soffre quem o serve.<br>
+<br>
+Moça formosa despreza<br>
+Todo o frio, e toda a dor.<br>
+Olhae quanto póde Amor<br>
+Mais que a propria natureza.<br>
+Medo, nem delicadeza<br>
+Lh'impede que passe a neve.<br>
+Assi faz quem Amor serve.<br>
+<br>
+Por mais trabalhos que leve,<br>
+A tudo se off'receria;<br>
+Passa pela neve fria,<br>
+Mais alva que a propria neve;<br>
+Com todo frio se atreve.<br>
+Vêde em que fogo ferve<br>
+O triste, que a Amor serve.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO ALHEIO</small></p>
+
+<blockquote>
+A dor que a minha alma sente,<br>
+Não na sabe toda a gente.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>u'estranho caso de Amor!<br>
+Que desejado tormento!<br>
+Que venho a ser avarento<br>
+Das dores de minha dor!<br>
+Por me não tratar peor, <span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span><br>
+Se se sabe, ou se se sente,<br>
+Não na digo a toda a gente.<br>
+<br>
+Minha dor e causa della<br>
+De ninguem ouso fiar;<br>
+Que sería aventurar<br>
+A perder-me, ou a perdella.<br>
+E pois só com padecella,<br>
+A minha alma está contente,<br>
+Não quero que o saiba a gente.<br>
+<br>
+Ande no peito escondida,<br>
+Dentro n'alma sepultada;<br>
+De mi só seja chorada,<br>
+De ninguem seja sentida.<br>
+Ou me mate, ou me dê vida,<br>
+Ou viva triste ou contente,<br>
+Não ma saiba toda a gente.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p>
+
+<blockquote>
+D'alma, e de quanto tiver,<br>
+Quero que me despojeis,<br>
+Com tanto, que me deixeis<br>
+Os olhos para vos ver.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>ousa este corpo não tem,<br>
+Que ja não tenhais rendida:<br>
+Despois de tirar-lhe a vida,<br>
+Tirae-lhe a morte tambem.<br>
+Se mais tenho que perder,<br>
+Mais quero que me leveis, <span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span><br>
+Com tanto que me deixeis<br>
+Os olhos para vos ver.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Amores de huma casada,<br>
+Que eu vi pelo meu mal.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>'huma casada fui pôr<br>
+Os olhos, de si senhores:<br>
+Cuidei que fossem amores,<br>
+Elles fizerão-se amor.<br>
+Faz-se o desejo maior<br>
+Donde o remedio não val,<br>
+Em perigo de meu mal.<br>
+<br>
+Não me paraceo que Amor<br>
+Pudesse tanto comigo,<br>
+Que donde entra por amigo,<br>
+Se levante por senhor.<br>
+Leva-me de dor em dor,<br>
+E de final em final,<br>
+Cada vez para mor mal.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p>
+
+<blockquote>
+Enforquei minha esperança;<br>
+Mas Amor foi tão madraço,<br>
+Que lhe cortou o baraço.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>F</big>oi a esperança julgada<br>
+Por sentença da Ventura, <span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span><br>
+Que pois me leve á pendura,<br>
+Que fosse dependurada:<br>
+Vem Cupido com a espada,<br>
+Corta-lhe cerce o baraço.<br>
+Cupido, foste madraço.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p>
+
+<blockquote>
+Puz o coração nos olhos,<br>
+E os olhos puz no chão,<br>
+Por vingar o coração.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>O</big> coração invejoso<br>
+Como dos olhos andava,<br>
+Sempre remoques me dava<br>
+Que não era o meu mimoso:<br>
+Venho eu de piedoso<br>
+Do Senhor meu coração,<br>
+E boto os olhos no chão.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p>
+
+<blockquote>
+Puz meus olhos n'huma funda,<br>
+E fiz hum tiro com ella<br>
+Ás grades d'huma janella.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>H</big>uma Dama, de malvada,<br>
+Tomou seus olhos na mão;<br>
+E tirou-me huma pedrada <span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span><br>
+Com elles ao coração.<br>
+Armei minha funda então,<br>
+E puz os meus olhos nella,<br>
+Trape, quebrei-lhe a janella.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+De pequena tomei amor,<br>
+Porque o não entendi;<br>
+Agora que o conheci,<br>
+Mata-me com desfavor.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>i-o moço e pequenino,<br>
+E a mesma idade ensina<br>
+Que s'incline huma menina<br>
+Ás amostras d'hum menino:<br>
+Ouvi-lhe chamar Amor,<br>
+Pelo nome me venci;<br>
+Nunca tal engano vi,<br>
+Nem tamanho desamor.<br>
+<br>
+Cresceo-me de dia em dia<br>
+Com a idade a affeição,<br>
+Porque amor de criação,<br>
+N'alma, e na vida se cria.<br>
+Criou-se em mi este amor,<br>
+E senhoreou-se de mi:<br>
+Agora que o conheci,<br>
+Mata-me com desfavor.<br>
+<br>
+As flores me torna abrolhos,<br>
+A morte me determina<br>
+Quem eu trouxe de menina <span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span><br>
+Nas meninas de meus olhos.<br>
+Desta mágoa e desta dor<br>
+Tenho sabido que emfim<br>
+Por amor me perco a mim<br>
+Por quem de mi perde amor.<br>
+<br>
+Parece ser caso estranho<br>
+O que Amor em mi ordena,<br>
+Qu'em idade tão pequena<br>
+Haja tormento tamanho.<br>
+Sejão milagres d'Amor,<br>
+Hei-os de soffrer assi,<br>
+Até que haja dó de mi<br>
+Quem entender esta dor.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ANTIGA VELHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Apartárão-se os meus olhos<br>
+De mi tão longe.<br>
+Falsos amores,<br>
+Falsos, maos, enganadores.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>ratárão-me com cautella,<br>
+Por m'enganar mais asinha;<br>
+Dei-lhe posse d'alma minha,<br>
+Forão-me fugir com ella.<br>
+Não ha vê-los, nem ha vella,<br>
+De mi tão longe.<br>
+Falsos amores,<br>
+Falsos, maos, enganadores!<br>
+<br>
+Entreguei-lhe a liberdade,<br>
+E, emfim, da vida o melhor; <span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span><br>
+Forão-se; e do desamor<br>
+Fizerão necessidade.<br>
+Quem teve a sua vontade<br>
+De si tão longe?<br>
+Falsos amores,<br>
+E oxalá enganadores!
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Falso Cavalheiro, ingrato,<br>
+Enganais-me,<br>
+Vós dizeis, que eu vos mato,<br>
+E vós matais-me.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>C</big>ostumadas artes são<br>
+Para enganar innocencias,<br>
+Piedosas apparencias<br>
+Sôbre isento coração.<br>
+Eu vos amo, e vós ingrato<br>
+Magoais-me,<br>
+Dizendo, que eu vos mato,<br>
+E vós matais-me.<br>
+<br>
+Vêde agora qual de nós<br>
+Anda mais perto do fim,<br>
+Que a justiça faz-se em mim,<br>
+E o pregão diz que sois vós.<br>
+Quando mais verdade trato<br>
+Levantais-me<br>
+Que vos desamo e vos mato,<br>
+E vós matais-me. <span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">P<small>ROPRIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+Se de meu mal me contento,<br>
+He porque para vós vejo<br>
+Em todo o mundo desejo,<br>
+E em ninguem merecimento.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ara quem vos soube olhar<br>
+Tão impossivel foi ser<br>
+O poder-vos merecer,<br>
+Como o não vos desejar.<br>
+Pois logo a meu pensamento<br>
+Nenhum remedio lhe vejo,<br>
+Senão se der o desejo<br>
+Azas ao merecimento.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vós, Senhora, tudo tendes,<br>
+Senão que tendes os olhos verdes.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>otou em vós natureza<br>
+O summo da perfeição;<br>
+Que o qu'em vós he senão,<br>
+He em outras gentileza:<br>
+O verde não se despreza,<br>
+Que, agora que vós os tendes,<br>
+São bellos os olhos verdes.<br>
+<br>
+Ouro e azul he a melhor<br>
+Côr, por que a gente se perde;<br>
+Mas a graça desse verde <span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span><br>
+Tira a graça a toda côr.<br>
+Fica agora sendo a flor<br>
+A côr, que nos olhos tendes,<br>
+Porque são vossos e verdes.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Para que me dan tormento,<br>
+Aprovechando tan poco?<br>
+Perdido, mas no tan loco,<br>
+Que descubra lo que siento.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>iempo perdido es aquel<br>
+Que se passa en darme afan,<br>
+Pues cuanto más me lo dan,<br>
+Tanto menos siento dél.<br>
+Que descubra lo que siento?<br>
+No lo haré, que no es tan poco;<br>
+Que no puede ser tan loco<br>
+Quien tiene tal pensamiento.<br>
+<br>
+Sepan que me manda Amor,<br>
+Que de tan dulce querella,<br>
+A nadie dé parte della,<br>
+Porque la sienta mayor.<br>
+Es tan dulce mi tormento,<br>
+Que aun se me antoja poco;<br>
+Y si es mucho, quedo loco<br>
+De gusto de lo que siento. <span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+De vuestros ojos centellas,<br>
+Que encienden pechos de hielo,<br>
+Suben por el aire al cielo,<br>
+Y en llegando son estrellas.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>F</big>alsos loores os dan,<br>
+Que essas centellas tan raras<br>
+No son nel cielo mas claras<br>
+Que en los ojos donde estan.<br>
+Porque cuando miro en ellas<br>
+Lo como alumbran al suelo,<br>
+No sé que seran nel cielo;<br>
+Mas sé que acá son estrellas.<br>
+<br>
+Ni se puede presumir<br>
+Que al cielo suban, Señora;<br>
+Que la lumbre que en vós mora,<br>
+No tiene más que subir;<br>
+Mas pienso que dan querellas<br>
+Á Dios nel octavo cielo,<br>
+Porque son acá en el suelo<br>
+Dos tan hermosas estrellas.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+De dentro tengo mi mal,<br>
+Que de fuera no hay señal.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>M</big>i nueva y dulce querella<br>
+Es invisible á la gente; <span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span><br>
+El alma sola la siente,<br>
+Que el cuerpo no es dino della.<br>
+Como la viva centella<br>
+Se encubre en el pedernal,<br>
+De dentro tengo mi mal.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+
+<blockquote>
+Amor loco, amor loco,<br>
+Yo por vós, y vós por otro.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>ióme Amor tormentos dós,<br>
+Para que pene doblado;<br>
+Uno es verme desamado,<br>
+Otro es mancilla de vós.<br>
+Ved que ordena Amor en nós!<br>
+Porque vós haceisme loco,<br>
+Que seais loca por otro.<br>
+<br>
+Tratais Amor de manera,<br>
+Que porque asi me tratais,<br>
+Quiere que, pues no me amais,<br>
+Que ameis otro que no os quiera.<br>
+Mas con todo, si no os viera<br>
+De todo loca por otro,<br>
+Con mas razon fuera loco.<br>
+<br>
+Y tan contrario viviendo,<br>
+Alfin, alfin, conformamos;<br>
+Pues ambos a dós buscamos<br>
+Lo que mas nos vá huyendo.<br>
+Voy tras vós siempre siguiendo, <span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span><br>
+Y vós huyendo por otro:<br>
+Andais loca, y me haceis loco.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+
+<blockquote>
+Vêde bem se nos meus dias<br>
+Os desgostos vi sobejos,<br>
+Pois tenho medo a desejos,<br>
+E quero mal a alegrias.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e desejos fui ja ter,<br>
+Servírão de atormentar-me;<br>
+Se algum bem póde alegrar-me,<br>
+Quiz-me antes entristecer.<br>
+Passei annos, passei dias<br>
+Em desgostos tão sobejos,<br>
+Que só por não ter desejos,<br>
+Perderei mil alegrias.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">P<small>ROPIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Pois he mais vosso que meu,<br>
+Senhora, meu coração,<br>
+Eu vosso captivo são,<br>
+Meus olhos, lembre-vos eu.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>L</big>embre-vos minha tristeza,<br>
+Que jamais nunca me deixa;<br>
+Lembre-vos com quanta queixa <span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span><br>
+Se queixa minha firmeza:<br>
+Lembre-vos que não he meu<br>
+Este triste coração;<br>
+E pois ha tanta razão,<br>
+Meus olhos, lembre-vos eu.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Senhora, pois minha vida<br>
+Tendes em vosso poder;<br>
+Por serdes della servida,<br>
+Não queirais que destruida<br>
+Possa ser.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>I</big>sto não por me pezar<br>
+De morrer, se vós quizerdes;<br>
+Que melhor me he acabar<br>
+Mil vezes, que supportar<br>
+Os males que me fizerdes;<br>
+Mas só por serdes servida<br>
+De mi, em quanto viver,<br>
+Vos peço que minha vida<br>
+Não queirais que destruida<br>
+Possa ser.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO</small>.</p>
+
+
+<blockquote>
+Pois damno me faz olhar-vos,<br>
+Não quero, por não perder-vos,<br>
+Que ninguem me veja ver-vos. <span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>e ver-vos a não vos ver<br>
+Ha dous extremos mortaes;<br>
+E são elles em si taes,<br>
+Que hum por hum me faz morrer;<br>
+Mas antes quero escolher,<br>
+Que possa viver sem ver-vos,<br>
+Minh'alma, por não perder-vos.<br>
+<br>
+Deste tamanho perigo<br>
+Que remedio posso ter,<br>
+Se vivo só com vos ver,<br>
+Se vos não vejo, perigo?<br>
+Mas quero acabar comigo,<br>
+Que ninguem me veja ver-vos,<br>
+Senhora, por não perder-vos.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>TRES</small> D<small>AMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO.</small>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Não sei se m'engana Helena,<br>
+Se Maria, se Joanna;<br>
+Não sei qual dellas m'engana.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>H</big>uma diz que me quer bem,<br>
+Outra jura que <span class="typo" title="no original: mo">me</span> quer;<br>
+Mas em jura de mulher<br>
+Quem crerá, se ellas não crem?<br>
+Não posso não crer a Helena,<br>
+A Maria, nem Joanna;<br>
+Mas não sei qual mais m'engana.<br>
+<br>
+Huma faz-me juramentos <span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span><br>
+Que só meu amor estima,<br>
+A outra diz que se fina,<br>
+Joanna, que bebe os ventos.<br>
+Se cuido que mente Helena,<br>
+Tambem mentirá Joanna;<br>
+Mas quem mente não m'engana.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA MAL EMPREGADA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Menina, não sei dizer,<br>
+Vendo-vos tão acabada,<br>
+Quão triste estou por vos ver<br>
+Formosa e mal empregada.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem tão mal vos empregou,<br>
+Pouco de mi se dohia,<br>
+Pois não vio o quanto me hia<br>
+Em tirar-me o que tirou.<br>
+Obriga o primor que tem<br>
+Lindeza tão extremada<br>
+Que digão quantos a vem,<br>
+Formosa e mal empregada!<br>
+<br>
+Tomastes da formosura<br>
+Quanto della desejastes,<br>
+E com ella me guardastes<br>
+Para tão triste ventura.<br>
+Mataveis sendo solteira,<br>
+Matais agora em casada;<br>
+Matais de toda a maneira,<br>
+Formosa e mal empregada. <span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> F<small>oãa</small> G<small>onçalves.</small>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Com vossos olhos, Gonçalves,<br>
+Senhora, captivo tendes<br>
+Este meu coração Mendes.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>u sou boa testimunha,<br>
+Que Amor tem por cousa má,<br>
+Que olhos, que são homens ja,<br>
+Se nomeiem sem alcunha;<br>
+Pois o coração apunha,<br>
+E diz, olhos, pois vós tendes,<br>
+Chamae-me coração Mendes.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO</small></p>
+
+<blockquote>
+De que me serve fugir<br>
+De morte, dor e perigo,<br>
+Se me eu levo comigo?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>T</big>enho-me persuadido,<br>
+Por razão conveniente,<br>
+Que não posso ser contente,<br>
+Pois que pude ser nascido.<br>
+Anda sempre tão unido<br>
+O meu tormento comigo,<br>
+Qu'eu mesmo sou meu perigo.<br>
+<br>
+E se de mi me livrasse,<br>
+Nenhum gôsto me sería:<br>
+Quem, senão eu, não teria <span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span><br>
+Mal, que esse bem me tirasse?<br>
+Fôrça he logo que assi passe,<br>
+Ou com desgôsto comigo,<br>
+Ou sem gôsto e sem perigo.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uando me quer enganar<br>
+A minha bella perjura,<br>
+Para mais me confirmar<br>
+O que quer certificar,<br>
+Polos seus olhos me jura.<br>
+Como meu contentamento<br>
+Todo se rege por elles,<br>
+Imagina o pensamento,<br>
+Que se faz aggravo a elles<br>
+Não crer tão grão juramento.<br>
+<br>
+Porém como em casos tais<br>
+Ando ja visto e corrente,<br>
+Sem outros certos sinais,<br>
+Quanto me ella jura mais,<br>
+Tanto mais cuido que mente.<br>
+Então vendo-lhe offender<br>
+Huns taes olhos como aquelles,<br>
+Deixo-me antes tudo crer,<br>
+Só pola não constranger<br>
+A jurar falso por elles. <span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Ha hum bem, que chega e foge;<br>
+E chama-se este bem tal,<br>
+Ter bem para sentir mal.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem viveo sempre n'hum ser,<br>
+Inda que seja em pobreza,<br>
+Não vio o bem da riqueza,<br>
+Nem o mal d'empobrecer:<br>
+Não ganhou para perder;<br>
+Mas ganhou com vida igual<br>
+Não ter bem, nem sentir mal.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Olhos, não vos mereci<br>
+Que tenhais tal condição,<br>
+Tão liberaes para o chão,<br>
+Tão irosos para mi.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>B</big>aixos e honestos andais,<br>
+Por vos negardes a quem<br>
+Não quer mais que aquelle bem,<br>
+Que vós no chão espalhais?<br>
+Se pouco vos mereci,<br>
+Não m'estimeis mais que o chão,<br>
+A quem vós o galardão<br>
+Dais, e mo negais a mi. <span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">P<small>ROPRIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+Venceo-me Amor, não o nego;<br>
+Tẽe mais fôrça qu'eu assaz;<br>
+Que como he cego e rapaz,<br>
+Dá-me porrada de cego.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>ó porque he rapaz ruim,<br>
+Dei-lhe hum boféte zombando.<br>
+Diz-me: Ó mao, estais me dando,<br>
+Porque sois maior que mim?<br>
+Pois se eu vos descarrégo,<br>
+E em dizendo isto, chaz;<br>
+Torna-me outra; tá rapaz,<br>
+Que dás porrada de cego.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>O DESCONCERTO DO MUNDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>O</big>s bons vi sempre passar<br>
+No mundo graves tormentos;<br>
+E para mais m'espantar,<br>
+Os maos vi sempre nadar<br>
+Em mar de contentamentos.<br>
+Cuidando alcançar assi<br>
+O bem tão mal ordenado,<br>
+Fui mao; mas fui castigado.<br>
+Assi, que só para mi<br>
+Anda o mundo concertado. <span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Perguntais-me, quem me mata?<br>
+Não quero responder nada,<br>
+Por vos não fazer culpada.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big> se a penna não me atiça,<br>
+A dizer pena tão forte,<br>
+Quero-me entregar á morte,<br>
+Antes que a vós á justiça.<br>
+Porém se tendes cobiça<br>
+De vos verdes tão culpada,<br>
+Direi que não sinto nada.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE.</small></p>
+
+<blockquote>
+Esconjuro-te, Domingas,<br>
+Pois me dás tanto cuidado,<br>
+Que me digas se te vingas,<br>
+Viverei menos penado.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>J</big>uravas-me, que outras cabras<br>
+Folgavas de apascentar;<br>
+Eu por não me magoar,<br>
+Fingia qu'erão palabras.<br>
+Agora d'arte te vingas<br>
+D'algum meu doudo peccado,<br>
+Qu'inda que queiras, Domingas,<br>
+Não posso ser enganado. <span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span><br>
+<br>
+Qualquer cousa busca o seu;<br>
+A fonte vai para o Tejo,<br>
+E tu para o teu desejo,<br>
+Por te vingares do meu.<br>
+De mi t'esqueces, Domingas,<br>
+Como eu faço do meu gado:<br>
+Praza a Deos, que se te vingas,<br>
+Que morra desesperado.<br>
+<br>
+Na phantasia te pinto,<br>
+Fallo-te, responde o monte,<br>
+Busco o rio, busco a fonte,<br>
+Endoudeço, e não o sinto:<br>
+Domingas no valle brado,<br>
+Responde o eco Domingas;<br>
+E tu inda te não vingas<br>
+De me ver doudo tornado!
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Se a alma ver-se não póde<br>
+Onde pensamentos ferem,<br>
+Que farei para me crerem?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e n'alma huma só ferida<br>
+Faz na vida mil sinais,<br>
+Tanto se descobre mais,<br>
+Quanto he mais escondida.<br>
+S'esta dor tão conhecida<br>
+Me não vem, porque não querem,<br>
+Que farei para ma crerem? <span class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span><br>
+<br>
+Se se pudesse bem ver<br>
+Quanto callo, e quanto sento,<br>
+Despois de tanto tormento<br>
+Cuidaria alegre ser.<br>
+Mas se não me querem crer<br>
+Olhos, que tão mal me ferem,<br>
+Que farei para me crerem?
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vosso bem querer, Senhora,<br>
+Vosso mal melhor me fôra.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>J</big>a agora certo conheço<br>
+Ser melhor todo tormento,<br>
+Onde o arrependimento<br>
+Se compra por justo preço.<br>
+Enganou-me hum bom comêço;<br>
+Mas o fim me diz agora<br>
+Que o mal melhor me fôra.<br>
+<br>
+Quando hum bem he tão damnoso,<br>
+Que sendo bem, dá cuidado,<br>
+O damno fica obrigado<br>
+A ser menos perigoso.<br>
+Mas se a mi por desditoso,<br>
+Co'o bem me foi mal, Senhora,<br>
+Co'o vosso mal bem me fôra. <span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Se me desta terra for,<br>
+Eu vos levarei, amor.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e me for, e vos deixar,<br>
+(Ponho por caso, que possa)<br>
+Est'alma minha, qu'he vossa,<br>
+Comvosco m'ha de ficar.<br>
+Assi que só por levar<br>
+A minha alma, se me for,<br>
+Vos levarei, meu amor.<br>
+<br>
+Que mal póde maltratar-me,<br>
+Que comvosco seja mal?<br>
+Ou que bem póde ser tal,<br>
+Que sem vós possa alegrar-me?<br>
+O mal não póde enojar-me,<br>
+O bem me será maior,<br>
+Se vos levar, meu amor.
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Pequenos contentamentos,<br>
+Hi buscar quem contenteis,<br>
+Que a mi não me conheceis.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>O</big>s gostos, que tantas dores<br>
+Fizerão ja valer menos,<br>
+Não os acceita pequenos,<br>
+Quem nunca teve maiores:<br>
+Bem parecem vãos favores, <span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span><br>
+Pois tão tarde me quereis,<br>
+Qu'inda me não conheceis.<br>
+<br>
+Offereceis-me alegria,<br>
+Tendo-me ja cego e mouco:<br>
+He baixeza acceitar pouco,<br>
+Quem tanto vos merecia.<br>
+Ide-vos por outra via,<br>
+Pois o bem que me deveis,<br>
+Nunca mo satisfareis.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Perdigão perdeo a penna,<br>
+Não ha mal que lhe não venha.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>erdigão, que o pensamento<br>
+Subio a hum alto lugar,<br>
+Perde a penna do voar,<br>
+Ganha a pena do tormento:<br>
+Não tẽe no ar, nem no vento,<br>
+Azas com que se sostenha:<br>
+Não ha mal que lhe não venha.<br>
+<br>
+Quiz voar a huma alta torre,<br>
+Mas achou-se desasado;<br>
+E vendo-se despennado,<br>
+De puro penado morre.<br>
+Se a queixumes se soccorre,<br>
+Lança no fogo mais lenha:<br>
+Não ha mal que lhe não venha. <span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMAS</small> S<small>ENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA
+COM HUMA</small> D<small>AMA.</small>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ois a tantas perdições,<br>
+Senhoras, quereis dar vida,<br>
+Ditosa seja a ferida,<br>
+Que tẽe taes Cirurgiões!<br>
+Pois ventura<br>
+Me subio a tanta altura,<br>
+Que me sejais valedoras,<br>
+Ditosa seja a tristura,<br>
+Que se cura<br>
+Por vossos rogos, Senhoras!<br>
+<br>
+Ser minha pena mortal,<br>
+Ja qu'entendeis, que he assi,<br>
+Não quero fallar por mi,<br>
+Que por mi falla meu mal.<br>
+Sois formosas,<br>
+Haveis de ser piedosas,<br>
+Por ser tudo d'huma côr;<br>
+Que pois Amor vos fez rosas<br>
+Milagrosas,<br>
+Fazei milagres de Amor.<br>
+<br>
+Pedi a quem vós sabeis,<br>
+Que saiba de meu trabalho,<br>
+Não pelo qu'eu nisso valho,<br>
+Mas pelo que vós valeis.<br>
+Que o valer<br>
+De vosso alto merecer,<br>
+Com lho pedir de giolhos,<br>
+Fara qu'em meu padecer <span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span><br>
+Possa ver<br>
+O poder que tẽe seus olhos.<br>
+<br>
+Vossa muita formosura<br>
+Com a sua tanto val,<br>
+Que me rio de meu mal,<br>
+Quando cuido em quem me cura.<br>
+A meus ais,<br>
+Peço-vos que lhe valhais,<br>
+Damas de Amor tão valídas,<br>
+Que nunca tal dor sintais,<br>
+Que queirais,<br>
+Onde não sejais queridas.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ANTIGA ALHEIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Na fonte está Leonor<br>
+Lavando a talha, e chorando,<br>
+Ás amigas perguntando:<br>
+Vistes lá o meu amor?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ôsto o pensamento nelle,<br>
+Porque a tudo o Amor a obriga,<br>
+Cantava, mas a cantiga<br>
+Erão suspiros por elle.<br>
+Nisto estava Leonor<br>
+O seu desejo enganando,<br>
+Ás amigas perguntando:<br>
+Vistes lá o meu amor?<br>
+<br>
+O rosto sôbre hũa mão,<br>
+Os olhos no chão pregados, <span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span><br>
+Que de chorar ja cansados,<br>
+Algum descanso lhe dão;<br>
+Desta sorte Leonor<br>
+Suspende de quando em quando<br>
+Sua dor; e em si tornando,<br>
+Mais pezada sente a dor.<br>
+<br>
+Não deita dos olhos ágoa,<br>
+Que não quer que a dor s'abrande<br>
+Amor, porque em mágoa grande<br>
+Sécca as lagrimas a mágoa.<br>
+Despois que de seu amor<br>
+Soube novas perguntando,<br>
+D'improviso a vi chorando.<br>
+Olhae que extremos de dor!
+</blockquote>
+
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>STAS TROVAS MANDOU O</small>
+A<small>UTOR DA CADEIA, EM QUE O
+TINHA EMBARGADO POR HUMA DIVIDA</small> M<small>IGUEL</small>
+R<small>OIZ,</small> F<small>IOS</small>
+S<small>ECOS D'ALCUNHA, AO</small> C<small>ONDE DO</small> R<small>EDONDO</small> D. F<small>RANCISCO</small>
+C<small>OUTINHO</small>, V<small>ISO</small>-R<small>EI, QUE SE EMBARCAVA PARA
+FÓRA, PEDINDO-LHE O FIZESSE DESEMBARGAR.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>ue diabo ha tão damnado,<br>
+Que não tema a cutilada<br>
+Dos fios seccos da espada<br>
+Do fero Miguel armado?<br>
+Pois se tanto hum golpe seu<br>
+Sôa na infernal cadeia;<br>
+Do que o demonio arreceia<br>
+Como não fugirei eu? <span class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span><br>
+<br>
+Com razão lhe fugiria,<br>
+Se contr'elle, e contra tudo<br>
+Não tivesse hum forte escudo<br>
+Só em Vossa Senhoria.<br>
+Por tanto, Senhor, proveja,<br>
+Pois me tẽe ao remo atado,<br>
+Que antes que seja embarcado,<br>
+Eu desembargado seja.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>STAS TROVAS MANDOU</small> H<small>EITOR DA</small> S<small>ILVEIRA AO MESMO</small>
+C<small>ONDE, INVERNANDO EM</small> G<small>OA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>ossa Senhoria creia<br>
+Que não apura o engenho<br>
+Fome, se he como a que tenho,<br>
+Mas afraca e corta a veia.<br>
+E quem o contrário sente,<br>
+Está farto em toda a hora,<br>
+Como estou faminto agora:<br>
+Mas Martha, se está contente,<br>
+Dá-lhe pouco de quem chora.<br>
+<br>
+E pois Vossa Senhoria<br>
+Em geral a tudo acode,<br>
+Acuda a mi, que só póde<br>
+Dar-me no engenho valia.<br>
+Esperte esta Musa minha,<br>
+Que o tempo traz somnolenta;<br>
+Valha-lhe nesta tormenta<br>
+Com essa doce mézinha,<br>
+Que só dá vida e contenta. <span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span><br>
+<br>
+Acuda com provisão,<br>
+Não de papel, mas provída<br>
+D'ouro e prata; que esta vida<br>
+Não sustentão papéis, não.<br>
+De feitor a thesoureiro<br>
+Ser-me-hia trabalho grande;<br>
+Vossa Senhoria mande<br>
+Algum remedio, primeiro,<br>
+Com que a morte o ferro abrande.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Ajuda de Luis de Camões.</em></p>
+
+<blockquote>
+Nos livros doutos se trata<br>
+Que o grande Achilles insano<br>
+Deo a morte a Heitor Troiano;<br>
+Mas agora a fome mata<br>
+O nosso Heitor Lusitano.<br>
+Só ella o póde acabar,<br>
+Se essa vossa condição<br>
+Liberal e singular<br>
+Não mete entr'elles bastão,<br>
+Bastante para o fartar.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> S<small>ENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Esparsa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>ão posso chegar ao cabo<br>
+De tamanho desarranjo,<br>
+Que sendo vós, Senhora, Anjo,<br>
+Vos queira tanto o Diabo. <span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span><br>
+Dais manifesto sinal<br>
+De minha muita firmeza,<br>
+Que os diabos querem mal<br>
+Aos Anjos por natureza.
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ANTIGA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Vi chorar huns claros olhos,<br>
+Quando delles me partia.<br>
+Oh que mágoa! Oh que alegria!
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>olo meu apartamento<br>
+Se arrazárão todos d'ágoa.<br>
+Quem cuidou qu'em tanta mágoa<br>
+Achasse contentamento?<br>
+Julgue todo entendimento<br>
+Qual mais sentir se devia,<br>
+Se esta dor, se esta alegria?<br>
+<br>
+Quando mais perdido estive,<br>
+Então deo a est'alma minha<br>
+Na maior mágoa que tinha,<br>
+O maior gôsto que tive.<br>
+Assi, se minha alma vive,<br>
+Foi porque me defendia<br>
+Desta dor esta alegria?<br>
+<br>
+O bem, que Amor me não deu<br>
+No tempo que desejei,<br>
+Quando delle me apartei,<br>
+Me confessou, qu'era meu.<br>
+Agora que farei eu, <span class="pn"><a name="pag_91">{91}</a></span><br>
+Se a fortuna me desvia<br>
+De lograr esta alegria?<br>
+<br>
+Não sei se foi enganado,<br>
+Pois me tinha defendido<br>
+Das íras de mal querido,<br>
+No mal de ser apartado.<br>
+Agora peno dobrado,<br>
+Achando no fim do dia<br>
+O princípio da alegria.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">V<small>ILLANCETE PASTORIL.</small></p>
+
+<blockquote>
+Deos te salve, Vasco amigo.<br>
+Não me fallas? Como assi?<br>
+Bofé, Gil, não 'stava aqui.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ois onde te hão de fallar,<br>
+Se não 'stás onde appareces?<br>
+Se Magdanela conheces,<br>
+Nella me pódes achar.<br>
+E como te hão d'ir buscar<br>
+Aonde fogem de ti?<br>
+Pois nem eu estou em mi.<br>
+<br>
+Porque te não acharei<br>
+Em ti, como em Magdanela?<br>
+Porque me fui perder nella<br>
+O dia que me ganhei.<br>
+Quem tão bem falla, não sei<br>
+Como anda fóra de si.<br>
+Ella falla dentro em mi. <span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span><br>
+<br>
+Como estás aqui presente,<br>
+Se lá tens a alma e a vida?<br>
+Porqu'he d'hum'alma perdida<br>
+Apparecer sempre á gente.<br>
+Se es morto, bem se consente<br>
+Que todos fujão de ti.<br>
+Eu tambem fujo de mi.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO PASTORIL.</small></p>
+
+<blockquote>
+Porque no miras, Giraldo,<br>
+Mi zampoña como suena?<br>
+Porque no me mira Elena.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>uelve acá, no estês pasmado,<br>
+Mira que gentil sonar!<br>
+Como te podrá mirar<br>
+Quien no puede ser mirado?<br>
+Y que bueno enamorado!<br>
+No dirás, si es mala, o buena?<br>
+No, que me hizo mudo Elena.<br>
+<br>
+Mira tan dulce armonía,<br>
+Déjate dessos enojos.<br>
+Tengo clavados los ojos<br>
+Con que mirar te podia.<br>
+Ansí Dios te dé alegría:<br>
+No vés cuan dulce que suena?<br>
+No, porque no veo Elena. <span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO PASTORIL.</small></p>
+
+<blockquote>
+Crescem, Camilla, os abrolhos<br>
+De chorares por Cincero:<br>
+Não he muito, que lhe quero,<br>
+Belisa, mais que meus olhos.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>empre os teus olhos estão,<br>
+Camilla, d'ágoas banhados.<br>
+De se verem desamados<br>
+Póde ser que chorarão.<br>
+Si, mas crescem os abrolhos,<br>
+E tu cegas por Cincero.<br>
+S'eu não vejo quem mais quero,<br>
+Para que quero mais olhos?<br>
+<br>
+Se se foi ha mais d'hum mês,<br>
+Teus olhos não cansarão?<br>
+Não, que apos elle se vão<br>
+Estas lagrimas que vês.<br>
+Fazem logo estes abrolhos<br>
+O mato espinhoso e fero.<br>
+Pois eu não vejo a Cincero,<br>
+Isso só verão meus olhos.<br>
+<br>
+Chorando queres morrer?<br>
+Mais quero viver chorando.<br>
+Tu não vês que vás cegando?<br>
+Se cego, como hei de ver?<br>
+Põe na vista outros antolhos.<br>
+Não posso, nem menos quero.<br>
+Outra para outro Cincero,<br>
+Antes não quero ter olhos. <span class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA</small> G<small>RACIA DE</small> M<small>ORAES.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+Olhos, em qu'estão mil flores,<br>
+E com tanta graça olhais,<br>
+Que parece que os Amores<br>
+Morão onde vós morais.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>em-se rosas e boninas,<br>
+Olhos, nesse vosso ver;<br>
+Vem-se mil almas arder<br>
+No fogo dessas meninas.<br>
+E di-lo-hão minhas dores,<br>
+Meus suspiros e meus ais;<br>
+E dirão mais, que os amores<br>
+Morão onde vós morais.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Quem se confia em huns olhos,<br>
+Nas meninas delles vê<br>
+Que meninas não tẽe fé.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem põe suas confianças<br>
+Em meninas sem assento,<br>
+Offereça o soffrimento<br>
+A duzentas mil mudanças.<br>
+Mostrão no ar esperanças;<br>
+Mas em seus olhos se vê<br>
+Como não tẽe n'alma fé.<br>
+<br>
+Enganão ao parecer, <span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span><br>
+Porque no caso d'amar,<br>
+São mulheres no matar,<br>
+E meninas no querer.<br>
+Quem em seus olhos se crer,<br>
+Cem mil graças nelles vê;<br>
+Vê-las sim, mas não ter fé.<br>
+<br>
+Amostrão-vos n'hum momento<br>
+Favores assi a mólhos;<br>
+Mas na mudança dos olhos<br>
+Se lhe muda o pensamento.<br>
+Em nada ja tẽe assento,<br>
+E o que mais nelles se vê<br>
+He formosura sem fé.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">L<small>OUVANDO E DESLOUVANDO UMA</small> D<small>AMA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Cantiga Velha.</em></p>
+
+<blockquote>
+Sois formosa, e tudo tendes,<br>
+Senão que tendes os olhos verdes,
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>inguem vos póde tirar<br>
+Serdes tão bem assombrada;<br>
+Mas heis-me de perdoar,<br>
+Que os olhos não valem nada.<br>
+Fostes mal aconselhada<br>
+Em querer que fossem verdes:<br>
+Trabalhae de os esconderdes.<br>
+<br>
+A vossa testa he jardim,<br>
+Onde Amor se desenfada;<br>
+He tão branca e bem talhada,<br>
+Que parece de marfim. <span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span><br>
+Assi he; e quanto a mim,<br>
+Isso vos nasce de a terdes<br>
+Tão perto dos olhos verdes.<br>
+<br>
+Os cabellos desatados<br>
+O mesmo sol escurecem;<br>
+Senão que por ser ondados,<br>
+Algum tanto desmerecem:<br>
+Mas á fé, que se parecem<br>
+A furto dos olhos verdes,<br>
+Não vos peze, não, de os terdes.<br>
+<br>
+As pestanas tẽe mostrado<br>
+Ser raios, que abrazão vidas:<br>
+Se não forão tão compridas,<br>
+Tudo o mais era pintado:<br>
+Ellas me tinhão levado<br>
+A alma, sem o vós saberdes,<br>
+Se não forão os olhos verdes.<br>
+<br>
+O mimo desse carão<br>
+Nem pôr-lhe os olhos consente:<br>
+O ser liso e transparente<br>
+Rouba todo o coração:<br>
+Inda assi achareis nação,<br>
+Que lhe não peze de os verdes;<br>
+Mas não seja co'os olhos verdes.<br>
+<br>
+Esse riso, que he compôsto<br>
+De quantas graças nascêrão,<br>
+Senão que alguns me disserão,<br>
+Vos faz covinhas no rôsto.<br>
+Na vontade tenho posto<br>
+Dar-vos a alma, se quizerdes,<br>
+A trôco dos olhos verdes. <span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span><br>
+<br>
+Nunca se vio, nem se escreve<br>
+Boca co'huma graça igual,<br>
+Se não fôra de coral,<br>
+E os dentes de côr de neve.<br>
+Dou-me eu a Deos, que me leve!<br>
+Soffrerei quanto tiverdes,<br>
+Não me tenhais olhos verdes.<br>
+<br>
+Essa garganta merece<br>
+Outras palavras não minhas,<br>
+Senão qu'he feita em rosquinhas<br>
+D'alfenim, ao que parece.<br>
+Eu sei bem quem se offerece<br>
+A tomar tudo o que tendes,<br>
+E tambem os olhos verdes.<br>
+<br>
+Essas mãos são ferropeas:<br>
+Só o vê-las enfeitiça;<br>
+Senão que são alvas, cheias,<br>
+E tẽe a feição roliça;<br>
+Com que appellais por justiça,<br>
+Para com ellas prenderdes<br>
+Quem vê vossos olhos verdes.<br>
+<br>
+A vossa galantaria<br>
+Matará a quem fallardes:<br>
+Tendes huns desdens e tardes,<br>
+Que eu logo vos roubaria.<br>
+Oh dou-me a Santa Maria!<br>
+Sou cujo de quanto tendes,<br>
+E tambem desses olhos verdes. <span class="pn"><a name="pag_98">{98}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>O MESMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>udo tendes singular,<br>
+Com que os corações rendeis,<br>
+Senão que rindo, fazeis<br>
+Covinhas para enterrar:<br>
+E para resuscitar<br>
+Tẽe força a graça que tendes;<br>
+Senão que tendes os olhos verdes.<br>
+<br>
+Tudo, Senhora, alcançais,<br>
+Quanto o ser formosa alcança,<br>
+Senão que dais esperança<br>
+Co'os olhos com que matais.<br>
+Se acaso os alevantais,<br>
+He para as almas renderdes;<br>
+Senão que tendes os olhos verdes.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A D<small>OM</small> A<small>NTONIO, SENHOR DE</small> C<small>ASCAES, QUE TENDO-LHE
+PROMETTIDO SEIS GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA
+QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR PRINCÍPIO DA PAGA
+MEIA GALLINHA RECHEADA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>inco gallinhas e meia<br>
+Deve o Senhor de Cascais;<br>
+E a meia vinha cheia<br>
+De appetite para as mais. <span class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Catharina bem promette;<br>
+Ora má! como ella mente!
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>atharina he mais formosa<br>
+Para mi, que a luz do dia;<br>
+Mas mais formosa sería,<br>
+Se não fosse mentirosa.<br>
+Hoje a vejo piedosa,<br>
+Á manhãa tão differente,<br>
+Que sempre cuido que mente.<br>
+<br>
+Prometteo-me hontem de vir,<br>
+Nunca mais appareceo;<br>
+Creio que não prometteo,<br>
+Senão só por me mentir.<br>
+Faz-me, emfim, chorar e rir;<br>
+Rio, quando me promette,<br>
+Mas chóro quando me mente.<br>
+<br>
+Jurou-me aquella cadella<br>
+De vir, pela alma que tinha;<br>
+Enganou-me; tinha a minha;<br>
+Deo-lhe pouco de perdella.<br>
+A vida gasto apos ella,<br>
+Porque ma dá, se promette,<br>
+Mas tira-ma, quando mente.<br>
+<br>
+Má, mentirosa, malvada,<br>
+Dizei, porque me mentis?<br>
+Prometteis, e então fugis?<br>
+Pois sem tornar, tudo he nada.<br>
+Não sois bem aconselhada; <span class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span><br>
+Que quem promette, se mente,<br>
+O que perde não o sente.<br>
+<br>
+Tudo vos consentiria<br>
+Quanto quizesseis fazer,<br>
+Se este vosso prometter<br>
+Fosse por me ter hum dia.<br>
+Todo então me desfaria<br>
+Com gôsto; e vós de contente,<br>
+Zombarieis de quem mente.<br>
+<br>
+Mas pois folgais de mentir,<br>
+Promettendo de me ver,<br>
+Eu vos deixo o prometter,<br>
+Deixae-me vós o servir:<br>
+Haveis então de sentir<br>
+Quanto a minha vida sente<br>
+O servir a quem lhe mente.<br>
+<br>
+Catharina me mentio<br>
+Muitas vezes, sem ter lei,<br>
+E todas lhe perdoei<br>
+Por huma só que cumprio.<br>
+Se como me consentio<br>
+Fallar-lhe, o mais me consente,<br>
+Nunca mais direi que mente.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+A alma, qu'está offrecida<br>
+A tudo, nada lhe he forte;<br>
+Assi passa o bem da vida,<br>
+Como passa o mal da morte. <span class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>e maneira me succede<br>
+O que temo, e o que desejo,<br>
+Que sempre o que temo, vejo,<br>
+Nunca o que a vontade pede.<br>
+Tenho tão offerecida<br>
+Alma e vida a toda a sorte,<br>
+Que isso me dera da morte,<br>
+Como ja me dá da vida.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Ferro, fogo, frio e calma,<br>
+Todo o mundo acabarão;<br>
+Mas nunca vos tirarão,<br>
+Alma minha, da minha alma.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>ão vos guardei, quando vinha,<br>
+Em tôrre, fôrça, ou engenho;<br>
+Que mais guardada vos tenho<br>
+Em vós, que sois alma minha.<br>
+Alli nem frio, nem calma,<br>
+Não podem ter jurdição;<br>
+Na vida sim, porém não<br>
+Em vós que tenho por alma.
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Esperei, ja não espero<br>
+De mais vos servir, Senhora; <span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span><br>
+Pois me fazeis cada hora<br>
+Tanto mal, que desespéro.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ois sei certo que folgais,<br>
+Quando mais mal me fazeis,<br>
+E que nunca descansais,<br>
+Senão quando me mostrais<br>
+Quão pouco bem me quereis;<br>
+Servir-vos mais não espero<br>
+Pois meu viver empeora<br>
+Com me fazerdes, Senhora,<br>
+Tanto mal, que desespéro.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Descalça vai para a fonte<br>
+Leonor pela verdura;<br>
+Vai formosa, e não segura.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>L</big>eva na cabeça o pote,<br>
+O testo nas mãos de prata,<br>
+Cinta de fina escarlata,<br>
+Sainho de chamalote:<br>
+Traz a vasquinha de cote,<br>
+Mais branca que a neve pura;<br>
+Vai formosa, e não segura.<br>
+<br>
+Descobre a touca a garganta,<br>
+Cabellos de ouro entrançado,<br>
+Fita de côr d'encarnado,<br>
+Tão linda que o mundo espanta:<br>
+Chove nella graça tanta, <span class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span><br>
+Que dá graça á formosura;<br>
+Vai formosa, e não segura.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Quem disser que a barca pende,<br>
+Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e vos quereis embarcar,<br>
+E para isso estais no caes,<br>
+Entrae logo: que tardaes?<br>
+Olhae qu'está preamar:<br>
+E se outrem, por vos fretar,<br>
+Vos disser qu'esta que pende,<br>
+Dir-lhe-hei, mana, que mente.<br>
+<br>
+Esta barca he de carreira;<br>
+Tẽe seus apparelhos novos:<br>
+Não ha como ella outra em Povos<br>
+Boa de leme, e veleira:<br>
+Mas, se por ser a primeira,<br>
+Vos disser alguem que pende,<br>
+Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Com razão queixar-me posso<br>
+De vós, que mal vos queixais;<br>
+Pois, Senhora, vos sangrais,<br>
+Que seja n'hum corpo vosso. <span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>u para levar a palma,<br>
+Com que ser vosso mereça,<br>
+Quero que o corpo padeça<br>
+Por vós, que delle sois alma.<br>
+Vós do corpo vos queixais,<br>
+Eu queixar-me de vós posso,<br>
+Porque, tendo hum corpo vosso,<br>
+Na minha alma vos sangrais.<br>
+<br>
+E sem fazer differença<br>
+No que de mi possuis,<br>
+Pelo pouco que sentis,<br>
+Dais á minh'alma doença.<br>
+Porque dous aventurais?<br>
+Oh não seja o damno nosso!<br>
+Sangre-se este corpo vosso,<br>
+Porque, minha alma, vivais.<br>
+<br>
+E inda, se attentardes bem,<br>
+Seguis medicina errada,<br>
+Porque para ser sangrada<br>
+Hum'alma sangue não tem.<br>
+E pois em mi sarar posso<br>
+Males, que á minha alma dais,<br>
+Se inda outra vez vos sangrais,<br>
+Seja neste corpo vosso.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Ojos, herido me habeis,<br>
+Acabad ya de matarme; <span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span><br>
+Mas muerto volved á mirarme,<br>
+Porque me resusciteis.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ues me distes tal herida,<br>
+Con gana de darme muerte,<br>
+El morir me es dulce suerte,<br>
+Pues con morir me dais vida.<br>
+Ojos, qué os deteneis?<br>
+Acabad ya de matarme;<br>
+Mas muerto volved á mirarme,<br>
+Porque me resusciteis.<br>
+<br>
+La llaga cierto ya es mia,<br>
+Aunque, ojos, vós no querrais;<br>
+Mas si la muerte me dais,<br>
+El morir me es alegría.<br>
+Y así digo que acabeis,<br>
+O ojos, ya de matarme;<br>
+Mas muerto volved á mirarme,<br>
+Porque me resusciteis.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A D<small>ONA</small> F<small>RANCISCA DE</small> A<small>RAGÃO, QUE LHE MANDOU
+GLOSAR ESTE VERSO:</small></p>
+
+<blockquote>
+Mas porém a que cuidados?<br>
+</blockquote>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>anto maiores tormentos<br>
+Forão sempre os que soffri,<br>
+Daquillo que cabe em mi,<br>
+Que não sei que pensamentos<br>
+São os para que nasci. <span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span><br>
+Quando vejo este meu peito<br>
+A perigos arriscados<br>
+Inclinado, bem suspeito<br>
+Que a cuidados sou sujeito,<br>
+<em>Mas porém a que cuidados?</em>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Ao mesmo.</em></p>
+
+<blockquote>
+Que vindes em mi buscar,<br>
+Cuidados, que sou captivo?<br>
+Eu não tenho que vos dar:<br>
+Se vindes a me matar,<br>
+Ja ha muito que não vivo:<br>
+Se vindes, porque me dais<br>
+Tormentos desesperados,<br>
+Eu, que sempre soffri mais,<br>
+Não digo que não venhais;<br>
+<em>Mas porém <span class="typo" title="no original: a que, cuidados">a que cuidados</span>?</em>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Ao mesmo.</em></p>
+
+<blockquote>
+Se as penas que Amor me deu,<br>
+Vem por tão suaves meios,<br>
+Não ha que temer receios;<br>
+Que val hum cuidado meu<br>
+Por mil descansos alheios.<br>
+Ter n'huns olhos tão formosos<br>
+Os sentidos enlevados,<br>
+Bem sei qu'em baixos estados<br>
+São cuidados perigosos;<br>
+<em>Mas porém a que cuidados?...</em>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Carta com a glosa acima.</em></p>
+
+<p>Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m.
+crendo me sería assi mais seguro: mas agora que he <span class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span>
+servida de me tornar a resuscitar, por me mostrar
+seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa
+he menos de agradecer, que huma morte descansada.
+Mas se esta vida, que agora de novo me dá, for
+para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me
+fica mais que desejar, que poder acertar com este
+mote de v. m., ao qual dei tres entendimentos, segundo
+as palavras delle pudérão soffrer: se forem bons, he
+mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.</p>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Campos bem-aventurados,<br>
+Tornae-vos agora tristes;<br>
+Que os dias, em que me vistes,<br>
+Alegres ja são passados.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>ampos cheios de prazer,<br>
+Vós qu'estais reverdecendo,<br>
+Ja m'alegrei com vos ver;<br>
+Agora venho a temer<br>
+Qu'entristeçais em me vendo.<br>
+E pois a vista alegrais<br>
+Dos olhos desesperados,<br>
+Não quero que me vejais,<br>
+Para que sempre sejais,<br>
+<em>Campos, bem-aventurados.</em><br>
+<br>
+Porém se por accidente<br>
+Vos pezar de meu tormento,<br>
+Sabereis que Amor consente <span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span><br>
+Que tudo me descontente,<br>
+Senão descontentamento.<br>
+Por isso vós, arvoredos,<br>
+Que ja nos meus olhos vistes<br>
+Mais alegria, que medos,<br>
+Se mos quereis fazer ledos,<br>
+<em>Tornae-vos agora tristes.</em><br>
+<br>
+Ja me vistes ledo ser,<br>
+Mas despois que o falso Amor<br>
+Tão triste me fez viver,<br>
+Ledos folgo de vos ver,<br>
+Porque me dobreis a dor.<br>
+E se este gôsto sobejo<br>
+De minha dor me sentistes,<br>
+Julgae quanto mais desejo<br>
+As horas que vos não vejo,<br>
+<em>Que os dias em que me vistes.</em><br>
+<br>
+O tempo, qu'he desigual,<br>
+De seccos, verdes vos tem;<br>
+Porqu'em vosso natural<br>
+Se muda o mal para o bem,<br>
+Mas o meu para mor mal.<br>
+Se perguntais, verdes prados,<br>
+Pelos tempos differentes<br>
+Que de Amor me forão dados,<br>
+Tristes, aqui são presentes,<br>
+<em>Alegres, ja são passados.</em> <span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Trabalhos descansarião<br>
+Se para vós trabalhasse;<br>
+Tempos tristes passarião,<br>
+Se algum'hora vos lembrasse.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>unca o prazer se conhece,<br>
+Senão despois da tormenta:<br>
+Tão pouco o bem permanece,<br>
+Que se o descanso florece,<br>
+Logo o trabalho arrebenta.<br>
+Sempre os bens se lograrião,<br>
+Mas os males tudo atalhão;<br>
+Porém ja que assi porfião,<br>
+Onde descansos trabalhão,<br>
+<em>Trabalhos descansarião.</em><br>
+<br>
+Qualquer trabalho me fôra<br>
+Por vós grão contentamento:<br>
+Nada sentira, Senhora,<br>
+Se víra disto algum'hora<br>
+Em vós hum conhecimento.<br>
+Por mal que o mal me tratasse,<br>
+Tudo por bem tomaria;<br>
+Postoque o corpo cansasse,<br>
+A alma descansaria,<br>
+<em>Se para vós trabalhasse.</em><br>
+<br>
+Quem vossas cruezas ja<br>
+Soffreo, a tudo se poz;<br>
+Costumado ficará;<br>
+E muito melhor será,<br>
+Se trabalhar para vós. <span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span><br>
+Tristezas esquecerião,<br>
+Postoque mal me tratárão;<br>
+Annos não me lembrarião,<br>
+Que como est'outros passarão,<br>
+<em>Tempos tristes passarião.</em><br>
+<br>
+Se fosse galardoado<br>
+Este trabalho tão duro,<br>
+Não vivêra magoado.<br>
+Mas não o foi o passado,<br>
+Como o será o futuro?<br>
+De cansar não cansaria,<br>
+Se quizereis, que cansasse;<br>
+Cavar, morrer, fa-lo-hia;<br>
+Tudo, emfim, esqueceria,<br>
+<em>Se algum'hora vos lembrasse.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Triste vida se me ordena,<br>
+Pois quer vossa condição<br>
+Que os males, que dais por pena,<br>
+Me fiquem por galardão.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espois de sempre soffrer,<br>
+Senhora, vossas cruezas,<br>
+A pezar de meu querer,<br>
+Me quereis satisfazer<br>
+Meus serviços com tristezas.<br>
+Mas, pois em balde resiste<br>
+Quem vossa vista condena, <span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span><br>
+Prestes estou para a pena;<br>
+Que de galardão tão triste<br>
+<em>Triste vida se me ordena.</em><br>
+<br>
+De contente do mal meu<br>
+A tão grande extremo vim,<br>
+Que consinto em minha fim:<br>
+Assi que vós e mais eu,<br>
+Ambos somos contra mim.<br>
+Mas que soffra meu tormento,<br>
+Sem querer mais galardão,<br>
+Não he fóra de razão<br>
+Que queira meu soffrimento,<br>
+<em>Pois quer vossa condição.</em><br>
+<br>
+O mal, que vós dais por bem,<br>
+Esse, Senhora, he mortal;<br>
+Que o mal, que dais como mal,<br>
+Em muito menos se tem,<br>
+Por costume natural.<br>
+Mas porém nesta victoria,<br>
+Que comigo he bem pequena,<br>
+A maior dor me condena<br>
+A pena, que dais por gloria,<br>
+<em>Que os males, que dais por pena.</em><br>
+<br>
+Que mor bem me possa vir,<br>
+Que servir-vos, não o sei.<br>
+Pois que mais quero eu pedir,<br>
+Se quanto mais vos servir,<br>
+Tanto mais vos deverei?<br>
+Se vossos merecimentos<br>
+De tão alta estima são,<br>
+Assaz de favor me dão <span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span><br>
+Em querer que meus tormentos<br>
+<em>Me fiquem por galardão.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Ja não posso ser contente,<br>
+Tenho a esperança perdida;<br>
+Ando perdido entre a gente,<br>
+Nem morro, nem tenho vida.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espois que meu cruel Fado<br>
+Destruio huma esperança,<br>
+Em que me vi levantado,<br>
+No mal fiquei sem mudança,<br>
+E do bem desesperado.<br>
+O coração, que isto sente,<br>
+Á sua dor não resiste,<br>
+Porque vê mui claramente<br>
+Que pois nasci para triste,<br>
+<em>Ja não posso ser contente.</em><br>
+<br>
+Por isso, contentamentos,<br>
+Fugi de quem vos despreza:<br>
+Ja fiz outros fundamentos,<br>
+Ja fiz senhora a tristeza<br>
+De todos meus pensamentos.<br>
+O menos que lh'entreguei,<br>
+Foi esta cansada vida:<br>
+Cuido que nisto acertei,<br>
+Porque de quanto esperei<br>
+<em>Tenho a esperança perdida.</em> <span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span><br>
+<br>
+Acabar de me perder<br>
+Fôra ja muito melhor;<br>
+Tivera fim esta dor,<br>
+Que não podendo mor ser,<br>
+Cada vez a sinto mor.<br>
+De vós desejo esconder-me,<br>
+E de mi principalmente,<br>
+Onde ninguem possa ver-me;<br>
+Que pois me ganho em perder-me,<br>
+<em>Ando perdido entre a gente.</em><br>
+<br>
+Gostos de mudanças cheios,<br>
+Não me busqueis, não vos quero:<br>
+Tenho-vos por tão alheios,<br>
+Que do bem que não espero,<br>
+Inda me ficão receios.<br>
+Em pena tão sem medida,<br>
+Em tormento tão esquivo<br>
+Que morra, ninguem duvída;<br>
+Mas eu se morro, ou se vivo,<br>
+<em>Nem morro, nem tenho vida.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE SE CHAMAVA</small> A<small>NNA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+A morte, pois que sou vosso,<br>
+Não a quero; mas se vem,<br>
+Ha de ser todo meu bem.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>mor, qu'em meu pensamento<br>
+Com tanta fé se fundou, <span class="pn"><a name="pag_114">{114}</a></span><br>
+Me tẽe dado hum regimento,<br>
+Que quando vir meu tormento<br>
+Me salve com cujo sou.<br>
+E com esta defensão,<br>
+Com que tudo vencer posso,<br>
+Diz a causa ao coração:<br>
+Não tẽe em mi jurdição<br>
+<em>A morte, pois que sou vosso.</em><br>
+<br>
+Por exprimentar hum dia<br>
+Amor se me achava forte<br>
+Nesta fé, como dizia,<br>
+Me convidou com a morte,<br>
+Só por ver se a temeria.<br>
+E como ella seja a cousa<br>
+Onde está todo meu bem,<br>
+Respondi-lhe, como quem<br>
+Quer dizer mais, e não ousa:<br>
+<em>Não a quero, mas se vem...</em><br>
+<br>
+Não disse mais, porque então<br>
+Entendeo quanto me toca;<br>
+E se tinha dito o não,<br>
+Muitas vezes diz a boca,<br>
+O que nega o coração.<br>
+Toda a cousa defendida<br>
+Em mais estima se tem:<br>
+Por isso he cousa sabida,<br>
+Que perder por vós a vida<br>
+<em>Ha de ser todo meu bem.</em>
+</blockquote>
+ <span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">Á <small>MESMA</small> D<small>AMA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Vejo-a n'alma pintada,<br>
+Quando me pede o desejo<br>
+O natural que não vejo.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e só de ver puramente<br>
+Me transformei no que vi,<br>
+De vista tão excellente<br>
+Mal poderei ser ausente,<br>
+Em quanto o não for de mi.<br>
+Porque a alma namorada<br>
+A traz tão bem debuxada,<br>
+E a memoria tanto voa,<br>
+Que se a não vejo em pessoa,<br>
+<em>Vejo-a n'alma pintada.</em><br>
+<br>
+O desejo, que s'estende<br>
+Ao que menos se concede,<br>
+Sôbre vós pede e pretende,<br>
+Como o doente que pede<br>
+O que mais se lhe defende.<br>
+Eu, qu'em ausencia vos vejo,<br>
+Tenho piedade e pejo<br>
+De me ver tão pobre estar,<br>
+Qu'então não tenho que dar,<br>
+<em>Quando me pede o desejo.</em><br>
+<br>
+Como áquelle que cegou,<br>
+He cousa vista e notoria,<br>
+Que a natureza ordenou<br>
+Que se lhe dobre em memoria<br>
+O qu'em vista lhe faltou:<br>
+Assi a mi, que não vejo <span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span><br>
+Co'os olhos o que desejo,<br>
+Na memoria e na firmeza<br>
+Me concede a natureza<br>
+<em>O natural que não vejo.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Sem vós, e com meu cuidado,<br>
+Olhae com quem, e sem quem.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>endo Amor que com vos ver<br>
+Mais levemente soffria<br>
+Os males que me fazia,<br>
+Não me pôde isto soffrer;<br>
+Conjurou-se com meu Fado;<br>
+Hum novo mal me ordenou:<br>
+Ambos me levão forçado,<br>
+Não sei onde, pois que vou<br>
+<em>Sem vós e com meu cuidado.</em><br>
+<br>
+Não sei qual he mais estranho<br>
+Destes dous males que sigo,<br>
+Se não vos ver, se comigo<br>
+Levar imigo tamanho.<br>
+O que fica, e o que vem,<br>
+Hum me mata, outro desejo:<br>
+Com tal mal, e sem tal bem,<br>
+Em taes extremos me vejo:<br>
+<em>Olhae com quem, e sem quem</em>!
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>O MESMO.</small>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>mor, cuja providencia<br>
+Foi sempre que não errasse, <span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span><br>
+Porque n'alma vos levasse,<br>
+Respeitando o mal d'ausencia,<br>
+Quiz qu'em vós me transformasse.<br>
+E vendo-me ir maltratado,<br>
+Eu e meu cuidado sós,<br>
+Proveo nisso de attentado,<br>
+Por não me ausentar de vós,<br>
+<em>Sem vós, e com meu cuidado.</em><br>
+<br>
+Mas est'alma, qu'eu trazia,<br>
+Porque vós nella morais,<br>
+Deixa-me cego, e sem guia;<br>
+Que ha por melhor companhia<br>
+Ficar onde vós ficais.<br>
+Assi me vou de meu bem,<br>
+Onde quer a forte estrella,<br>
+Sem alma, qu'em si vos tem,<br>
+Co'o mal de viver sem ella:<br>
+<em>Olhae com quem, e sem quem</em>!
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Sem ventura he por demais.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>T</big>odo o trabalhado bem<br>
+Promette gostoso fruito;<br>
+Mas os trabalhos, que vem,<br>
+Para quem dita não tem<br>
+Valem pouco, e custão muito.<br>
+Rompe toda a pedra dura,<br>
+Faz os homens immortais <span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span><br>
+O trabalho quando atura;<br>
+Mas querer achar ventura,<br>
+<em>Sem ventura, he por demais.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Minh'alma, lembrae-vos della.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ois o ver-vos tenho em mais<br>
+Que mil vidas que me deis,<br>
+Assi como a que me dais,<br>
+Meu bem, ja que mo negais,<br>
+Meus olhos, não mo negueis.<br>
+E se a tal estado vim<br>
+Guiado de minha estrella,<br>
+Quando houverdes dó de mim,<br>
+Minha vida, dae-lhe a fim,<br>
+<em>Minh'alma, lembrae-vos della.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Tudo póde huma affeição.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>ẽe tal jurdição Amor<br>
+N'alma donde se aposenta,<br>
+E de que se faz senhor,<br>
+Que a liberta e isenta<br>
+De todo humano temor.<br>
+E com mui justa razão,<br>
+Como senhor soberano, <span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span><br>
+Que Amor não consente dano.<br>
+E pois me soffre tenção,<br>
+Gritarei por desengano:<br>
+<em>Tudo póde huma affeição.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">T<small>ROVA DE</small> B<small>OSCÃO.</small>
+
+<blockquote>
+Justa fué mi perdicion;<br>
+De mis males soy contento;<br>
+Ya no espero galardon,<br>
+Pues vuestro merecimiento<br>
+Satisfizo mi pasion.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espues que Amor me formó<br>
+Todo de amor, cual me veo,<br>
+En las leyes, que me dió,<br>
+El mirar me consintió,<br>
+Y defendióme el deseo.<br>
+Mas el alma, como injusta,<br>
+En viendo tal perfeccion,<br>
+Dió al deseo ocasion:<br>
+Y pues quebré ley tan justa,<br>
+<em>Justa fué mi perdicion.</em><br>
+<br>
+Mostrándoseme el Amor<br>
+Mas benigno que cruel,<br>
+Sobre tirano traidor,<br>
+De zelos de mi dolor,<br>
+Quiso tomar parte en él.<br>
+Yo que tan dulce tormento<br>
+No quiero dallo, aunque peco, <span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span><br>
+Resisto, y no lo consiento;<br>
+Mas si me lo toma á trueco<br>
+<em>De mis males, soy contento.</em><br>
+<br>
+Señora, ved lo que ordena<br>
+Este Amor tan falso nuestro!<br>
+Por pagar á costa agena,<br>
+Manda que de un mirar vuestro<br>
+Haga el premio de mi pena.<br>
+Mas vos, para que veais<br>
+Tan engañosa intencion,<br>
+Aunque muerto me sintais,<br>
+No mireis, que si mirais,<br>
+<em>Ya no espero galardon.</em><br>
+<br>
+Pues que premio (me direis)<br>
+Esperas que será bueno?<br>
+Sabed, sino lo sabeis,<br>
+Que es lo mas de lo que peno<br>
+Lo menos que mereceis.<br>
+Quien hace al mal tan ufano,<br>
+Y tan libre al sentimiento?<br>
+El deseo? No, que es vano.<br>
+El amor? No, que es tirano.<br>
+<em>Pues? Vuestro merecimiento.</em><br>
+<br>
+No pudiendo Amor robarme<br>
+De mis tan caros despojos,<br>
+Aunque fué por mas honrarme,<br>
+Vos sola para matarme<br>
+Le prestastes vuestros ojos.<br>
+Matáranme ambos á dos;<br>
+Mas á vos con mas razon<br>
+Debe el la satisfaccion; <span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span><br>
+Que á mi por él, y por vos,<br>
+<em>Satisfizo mi pasion.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Todo es poco lo posible.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>ed que engaño señorea<br>
+Nuestro juicio tan loco,<br>
+Que por mucho que se crea,<br>
+Todo el bien, que se desea,<br>
+Alcanzado, queda poco.<br>
+Un bien de cualquiera grado,<br>
+Si de haberse es imposible,<br>
+Queda mucho deseado.<br>
+Mas para mucho, alcanzado,<br>
+<em>Todo es poco lo posible.</em>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Outro.</em></p>
+
+<blockquote>
+Posible es á mi cuidado<br>
+Poderme hacer satisfecho,<br>
+Si fuera posible al hado<br>
+Hacer no hecho lo hecho,<br>
+Y futuro lo pasado.<br>
+Si olvido pudiera haber,<br>
+Fuera remedio sufrible;<br>
+Mas ya que no puede ser,<br>
+Para contento me hacer,<br>
+<em>Todo es poco lo posible.</em> <span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vos teneis mi corazon.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>M</big>i corazon me han robado;<br>
+Y Amor viendo mis enojos,<br>
+Me dijo: Fuéte llevado<br>
+Por los mas hermosos ojos,<br>
+Que desque vivo he mirado.<br>
+Gracias sobrenaturales<br>
+Te lo tienen en prision.<br>
+Y si Amor tiene razon,<br>
+Señora, por las señales,<br>
+<em>Vos teneis mi corazon.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Qué veré que me contente?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>esque una vez yo miré,<br>
+Señora, vuestra beldad,<br>
+Jamas por mi voluntad<br>
+Los ojos de vos quité.<br>
+Pues sin vos placer no siente<br>
+Mi vida, ni lo desea,<br>
+Si no quereis que yo os vea,<br>
+<em>Qué veré que me contente?</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Sem vós, e com meu cuidado. <span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uerendo Amor esconder-vos<br>
+Em parte que vos não visse,<br>
+Co'o extremo de querer-vos<br>
+Cegou-me os olhos com ver-vos,<br>
+Levou-vos, sem que vos visse.<br>
+Eu cego, mas atinado,<br>
+Quando vi que vos não via,<br>
+Do mesmo Amor indignado,<br>
+Ja vêdes qual ficaria<br>
+<em>Sem vós e com meu cuidado.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Retrato, vós não sois meu;<br>
+Retratárão-vos mui mal;<br>
+Que a serdes meu natural,<br>
+Foreis mofino como eu.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>I</big>ndaqu'em vós a arte vença<br>
+O que o natural tẽe dado,<br>
+Não fostes bem retratado;<br>
+Que ha em vós mais differença,<br>
+Que no vivo do pintado.<br>
+Se o lugar se considera<br>
+Do alto estado, que vos deu<br>
+A sorte, qu'eu mais quizera;<br>
+Se he qu'eu sou quem d'antes era,<br>
+<em>Retrato, vós não sois meu.</em><br>
+<br>
+Vós na vossa glória pôsto,<br>
+Eu na minha sepultura, <span class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span><br>
+Vós com bens, eu com desgôsto;<br>
+Pareceis-vos ao meu rosto,<br>
+E não ja á minha ventura.<br>
+E pois nella e vós errarão<br>
+O qu'em mi he principal,<br>
+Muito em ambos s'enganárão.<br>
+Se por mi vós retratárão,<br>
+<em>Retratárão-vos mui mal.</em><br>
+<br>
+Mas se esse rosto fingido<br>
+Quizerão representar,<br>
+E houverão por bom partido<br>
+Dar-vos a alma do sentido<br>
+Para a glória do lugar;<br>
+Víreis, pôsto nessa alteza,<br>
+Que vos não ha cousa igual;<br>
+E que nem a maior mal<br>
+Podeis vir, nem mor baixeza,<br>
+<em>Que a serdes meu natural.</em><br>
+<br>
+Por isso não confesseis<br>
+Serdes meu, qu'he desatino,<br>
+Com que o lugar perdereis:<br>
+Se conservar-vos quereis,<br>
+Blazonae que sois divino.<br>
+Que se nesta occasião<br>
+Conhecessem qu'ereis meu,<br>
+Por meu vos derão de mão,<br>
+. . . . . . . . . .<br>
+<em>Fôreis mofino, como eu.</em> <span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Foi-se gastando a esperança,<br>
+Fui entendendo os enganos;<br>
+Do mal ficárão-me os danos,<br>
+E do bem só a lembrança.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>unca em prazeres passados<br>
+Tive firmeza segura.<br>
+Antes tão arrebatados,<br>
+Qu'inda não erão chegados,<br>
+Quando mos levou ventura.<br>
+E como quem desconfia<br>
+Ter em tal sorte mudança,<br>
+No meio desta porfia,<br>
+De quanto bem pretendia<br>
+<em>Foi-se gastando a esperança.</em><br>
+<br>
+Não tive por desatino<br>
+A occasião de perdella;<br>
+Mas foi culpa do destino,<br>
+Que a ninguem, como mais dino,<br>
+Amor pudéra sostella.<br>
+Dei-lhe tudo o qu'era seu,<br>
+Não receando taes danos<br>
+Deste, a quem alma lhe deu:<br>
+Quando ja não era meu,<br>
+<em>Fui entendendo os enganos.</em><br>
+<br>
+Fiquei deste mal sobejo<br>
+A quem a causa compete<br>
+Dizer-lhe tudo o que vejo,<br>
+Que Amor acceita o desejo,<br>
+Mas mente no que promete. <span class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span><br>
+Que se a mi se me obrigou<br>
+A dar-me bens soberanos,<br>
+Foi engano que ordenou;<br>
+Que do bem tudo levou,<br>
+<em>Do mal ficárão-me os danos.</em><br>
+<br>
+E se dor tão desigual<br>
+Soffro em mi com padecellos,<br>
+Quero de novo soffrellos;<br>
+Que por a causa ser tal,<br>
+Não determino offendellos.<br>
+Dobre-se o mal, falte a vida,<br>
+Cresça a fé, falte a esperança,<br>
+Pois foi mal agradecida;<br>
+Fique a dor n'alma imprimida,<br>
+<em>E do bem só a lembrança.</em>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>NDECHAS A</small> B<small>ARBARA</small> E<small>SCRAVA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>quella captiva,<br>
+Que me tẽe captivo,<br>
+Porque nella vivo,<br>
+Ja não quer que viva.<br>
+Eu nunca vi rosa<br>
+Em suaves mólhos,<br>
+Que para meus olhos<br>
+Fosse mais formosa.<br>
+<br>
+Nem no campo flores,<br>
+Nem no ceo estrellas,<br>
+Me parecem bellas,<br>
+Como os meus amores. <span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span><br>
+Rosto singular,<br>
+Olhos socegados,<br>
+Pretos e cansados,<br>
+Mas não de matar.<br>
+<br>
+Huma graça viva,<br>
+Que nelles lhe mora,<br>
+Para ser senhora<br>
+De quem he captiva.<br>
+Pretos os cabellos,<br>
+Onde o povo vão<br>
+Perde opinião,<br>
+Que os louros são bellos.<br>
+<br>
+Pretidão de Amor,<br>
+Tão doce a figura,<br>
+Que a neve lhe jura<br>
+Que trocára a cór.<br>
+Leda mansidão,<br>
+Que o siso acompanha,<br>
+Bem parece estranha,<br>
+Mas barbara não.<br>
+<br>
+Presença serena,<br>
+Que a tormenta amansa:<br>
+Nella emfim descansa<br>
+Toda minha pena.<br>
+Esta he a captiva,<br>
+Que me tẽe captivo;<br>
+E pois nella vivo,<br>
+He fôrça que viva. <span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Quem ora soubesse<br>
+Onde o Amor nasce,<br>
+Que o semeasse!
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>D</big>'Amor e seus danos<br>
+Me fiz lavrador;<br>
+Semeava amor,<br>
+E colhia enganos;<br>
+Não vi, em meus anos,<br>
+Homem que apanhasse<br>
+O que semeasse.<br>
+<br>
+Vi terra florída<br>
+De lindos abrolhos,<br>
+Lindos para os olhos,<br>
+Duros para a vida.<br>
+Mas a rez perdida,<br>
+Que tal herva pasce,<br>
+Em forte hora nasce.<br>
+<br>
+Com quanto perdi,<br>
+Trabalhava em vão:<br>
+Se semeei grão,<br>
+Grande dor colhi.<br>
+Amor nunca vi<br>
+Que muito durasse,<br>
+Que não magoasse.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Se me levão ágoas,<br>
+Nos olhos as levo. <span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e de saudade<br>
+Morrerei ou não,<br>
+Meus olhos dirão<br>
+De mi a verdade.<br>
+Por elles me atrevo<br>
+A lançar as ágoas,<br>
+Que mostrem as mágoas<br>
+Que nesta alma levo.<br>
+<br>
+As ágoas, qu'em vão<br>
+Me fazem chorar,<br>
+Se ellas são do mar,<br>
+Estas de amar são.<br>
+Por ellas relévo<br>
+Todas minhas mágoas;<br>
+Que se fôrça d'ágoas<br>
+Me leva, eu as levo.<br>
+<br>
+Todas me entristecem,<br>
+Todas são salgadas;<br>
+Porém as choradas<br>
+Doces me parecem.<br>
+Correi, doces ágoas,<br>
+Que se em vós m'enlévo,<br>
+Não doem as mágoas,<br>
+Que no peito levo.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Menina dos olhos verdes,<br>
+Porque me não vedes?
+</blockquote> <span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>lles verdes são,<br>
+E tẽe por usança<br>
+Na côr esperança,<br>
+E nas obras não.<br>
+Vossa condição<br>
+Não he d'olhos verdes,<br>
+Porque me não vêdes.<br>
+<br>
+Isenções a mólhos<br>
+Qu'elles dizem terdes,<br>
+Não são d'olhos verdes,<br>
+Nem de verdes olhos.<br>
+Sirvo de giolhos,<br>
+E vós não me credes,<br>
+Porque me não vêdes.<br>
+<br>
+Havião de ser,<br>
+Porque possa vê-los,<br>
+Que huns olhos tão bellos<br>
+Não se hão d'esconder:<br>
+Mas fazeis-me crer,<br>
+Que ja não são verdes,<br>
+Porque me não vêdes.<br>
+<br>
+Verdes não o são,<br>
+No que alcanço delles;<br>
+Verdes são aquelles<br>
+Qu'esperança dão.<br>
+Se na condição<br>
+Está serem verdes,<br>
+Porque me não vedes? <span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Trocae o cuidado,<br>
+Senhora, comigo;<br>
+Vereis o perigo,<br>
+Qu'he ser desamado.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e trocar desejo<br>
+O amor entre nós,<br>
+He para qu'em vós<br>
+Vejais o que vejo.<br>
+E sendo trocado<br>
+Este amor comigo,<br>
+Ser-vos-ha castigo<br>
+Terdes meu cuidado.<br>
+<br>
+Tendes o sentido<br>
+D'Amor livre e isento,<br>
+E cuidais qu'he vento<br>
+Ser tão mal querido.<br>
+Não seja o cuidado<br>
+Tão vosso inimigo,<br>
+Que queira o perigo<br>
+De ser desamado.<br>
+<br>
+Mas nunca foi tal<br>
+Este meu querer,<br>
+Que a quem tanto quer,<br>
+Queira tanto mal<br>
+Seja eu maltratado,<br>
+E nunca o castigo<br>
+Vos mostre o perigo,<br>
+Qu'he ser desamado. <span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">Á <small>TENÇÃO DE</small> M<small>IRAGUARDA.</small>
+
+<blockquote>
+Ver, e mais guardar<br>
+De ver outro dia,<br>
+Quem o acabaria?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>D</big>a lindeza vossa,<br>
+Dama, quem a vê,<br>
+Impossivel he<br>
+Que guardar-se possa.<br>
+Se faz tanta mossa<br>
+Ver-vos hum só dia,<br>
+Quem se guardaria?<br>
+<br>
+Melhor deve ser<br>
+Neste aventurar<br>
+Ver, e não guardar,<br>
+Que guardar e ver.<br>
+Ver e defender,<br>
+Muito bom sería,<br>
+Mas quem poderia?
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Irme quiero, madre,<br>
+Á aquella galera,<br>
+Con el marinero,<br>
+Á ser marinera.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>M</big>adre, si me fuere,<br>
+Do quiera que vó,<br>
+No lo quiero yo, <span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span><br>
+Que el Amor lo quiere.<br>
+Aquel niño fiero,<br>
+Hace que me mueva<br>
+Por un marinero<br>
+Á ser marinera.<br>
+<br>
+El que todo puede,<br>
+Madre, no podrá,<br>
+Pues el alma vá,<br>
+Que el cuerpo se quede.<br>
+Con él por que muero<br>
+Voy, porque no muera;<br>
+Que si es marinero,<br>
+Seré marinera.<br>
+<br>
+Es tirana ley<br>
+Del niño Señor,<br>
+Que por un amor<br>
+Se deseche un Rey.<br>
+Pues desta manera<br>
+Quiero irme, quiero<br>
+Por un marinero<br>
+Á ser marinera.<br>
+<br>
+Decid, ondas, cuando<br>
+Vistes vos doncella,<br>
+Siendo tierna y bella,<br>
+Andar navegando?<br>
+Mas qué no se espera<br>
+Daquel niño fiero?<br>
+Vea yo quien quiero,<br>
+Sea marinera. <span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Saudade minha,<br>
+Quando vos veria?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>E</big>ste tempo vão,<br>
+Esta vida escassa,<br>
+Para todos passa,<br>
+Só para mi não.<br>
+Os dias se vão<br>
+Sem ver este dia,<br>
+Quando vos veria.<br>
+<br>
+Vêde esta mudança<br>
+Se está bem perdida,<br>
+Em tão curta vida<br>
+Tão longa esperança.<br>
+Se este bem se alcança,<br>
+Tudo soffreria,<br>
+Quando vos veria.<br>
+<br>
+Saudosa dor,<br>
+Eu bem vos entendo;<br>
+Mas não me defendo,<br>
+Porque offendo Amor.<br>
+Se fôsseis maior,<br>
+Em maior valia<br>
+Vos estimaria.<br>
+<br>
+Minha saudade,<br>
+Charo penhor meu,<br>
+A quem direi eu<br>
+Tamanha verdade?<br>
+Na minha vontade <span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span><br>
+De noite e de dia<br>
+Sempre vos teria.
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vida da minha alma,<br>
+Não vos posso ver:<br>
+Isto não he vida<br>
+Para se soffrer.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uando vos eu via,<br>
+Esse bem lograva,<br>
+A vida estimava,<br>
+Pois então vivia;<br>
+Porque vos servia<br>
+Só para vos ver.<br>
+Ja que vos não vejo<br>
+Para qu'he viver?<br>
+<br>
+Vivo sem razão,<br>
+Porqu'em minha dor<br>
+Não a poz Amor;<br>
+Que inimigos são.<br>
+Mui grande traição<br>
+Me obriga a fazer<br>
+Que viva, Senhora,<br>
+Sem vos poder ver.<br>
+<br>
+Não me atrevo ja,<br>
+Minha tão querida,<br>
+A chamar-vos vida,<br>
+Porque a tenho má. <span class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span><br>
+Ninguem cuidará,<br>
+Que isto póde ser,<br>
+Sendo-me vós vida,<br>
+Não poder viver.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Coifa de beirame<br>
+Namorou Joanne.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>or cousa tão pouca<br>
+Andas namorado?<br>
+Amas o toucado,<br>
+E não quem o touca?<br>
+Ando cega e louca<br>
+Por ti, meu Joanne,<br>
+Tu pelo beirame.<br>
+<br>
+Amas o vestido?<br>
+Es falso amador.<br>
+Tu não vês que Amor<br>
+Se pinta despido?<br>
+Cego e mui perdido<br>
+Andas por beirame,<br>
+E eu por ti, Joanne.<br>
+<br>
+A todos encanta<br>
+Tua parvoice;<br>
+De tua doudice<br>
+Gonçalo s'espanta,<br>
+E zombando canta:<br>
+Coifa de beirame,<br>
+Namorou Joanne. <span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span><br>
+<br>
+Eu não sei que viste<br>
+Neste meu toucado,<br>
+Que tão namorado<br>
+Delle te sentiste.<br>
+Não te veja triste;<br>
+Ama-me, Joanne,<br>
+E deixa o beirame.<br>
+<br>
+Joanne gemia,<br>
+Maria chorava,<br>
+E assi lamentava<br>
+O mal que sentia:<br>
+(Os olhos feria,<br>
+E não o beirame,<br>
+Que matou Joanne)<br>
+<br>
+Não sei do que vem<br>
+Amares vestido;<br>
+Que o mesmo Cupido<br>
+Vestido não tem.<br>
+Sabes de que vem<br>
+Amares beirame?<br>
+Vem de ser Joanne.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Se Helena apartar<br>
+Do campo seus olhos,<br>
+Nascerão abrolhos.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>A</big> verdura amena,<br>
+Gados, que pasceis, <span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span><br>
+Sabei que a deveis<br>
+Aos olhos d'Helena.<br>
+Os ventos serena,<br>
+Faz flores d'abrolhos<br>
+O ar de seus olhos.<br>
+<br>
+Faz serras florídas,<br>
+Faz claras as fontes:<br>
+S'isto faz nos montes,<br>
+Que fara nas vidas?<br>
+Tra-las suspendidas,<br>
+Como hervas em mólhos,<br>
+Na luz de seus olhos.<br>
+<br>
+Os corações prende<br>
+Com graça inhumana;<br>
+De cada pestana<br>
+Hum'alma lhe pende.<br>
+Amor se lhe rende,<br>
+E pôsto em giolhos,<br>
+Pasma nos seus olhos.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Verdes são os campos<br>
+De côr de limão;<br>
+Assi são os olhos<br>
+Do meu coração.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>C</big>ampo, que t'estendes<br>
+Com verdura bella;<br>
+Ovelhas, que nella <span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span><br>
+Vosso pasto tendes;<br>
+D'hervas vos mantendes<br>
+Que traz o verão;<br>
+E eu das lembranças<br>
+Do meu coração.<br>
+<br>
+Gados, que pasceis<br>
+Com contentamento,<br>
+Vosso mantimento<br>
+Não no entendeis.<br>
+Isso que comeis,<br>
+Não são hervas, não;<br>
+São graça dos olhos<br>
+Do meu coração.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Verdes são as hortas<br>
+Com rosas e flores:<br>
+Moças, que as régão,<br>
+Matão-me d'amores.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>E</big>ntre estes penedos<br>
+Que daqui parecem,<br>
+Verdes hervas crescem,<br>
+Altos arvoredos.<br>
+Vai destes rochedos<br>
+Ágoa, com que as flores<br>
+D'outras são regadas,<br>
+Que mátão d'amores.<br>
+<br>
+Com ágoa, que cai<br>
+Daquella espessura, <span class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span><br>
+Outra se mistura,<br>
+Que dos olhos sai:<br>
+Toda junta vai<br>
+Regar brancas flores;<br>
+Onde ha outros olhos,<br>
+Que mátão d'amores.<br>
+<br>
+Celestes jardins,<br>
+As flores estrellas:<br>
+Hortelôas dellas<br>
+São huns seraphins.<br>
+Rosas e jasmins<br>
+De diversas côres,<br>
+Anjos, que as régão,<br>
+Mátão-me d'amores.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Menina formosa,<br>
+Dizei de que vem<br>
+Serdes rigorosa<br>
+A quem vos quer bem?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>N</big>ão sei quem assella<br>
+Vossa formosura;<br>
+Que quem he tão dura<br>
+Não póde ser bella.<br>
+Vós sereis formosa;<br>
+Mas a razão tem<br>
+Que quem he irosa,<br>
+Não parece bem. <span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span><br>
+<br>
+A mostra he de bella,<br>
+As obras são cruas:<br>
+Pois qual destas duas<br>
+Ficará na sella?<br>
+Se ficar <em>irosa</em>,<br>
+Não vos está bem:<br>
+Fique antes <em>formosa</em>,<br>
+Que mais fôrça tem.<br>
+<br>
+O Amor formoso<br>
+Se pinta e se chama:<br>
+Se he amor, ama,<br>
+Se ama, he piedoso.<br>
+Diz agora a grosa<br>
+Que este texto tem,<br>
+Que quem he formosa<br>
+Ha de querer bem.<br>
+<br>
+Havei dó, menina,<br>
+Dessa formosura;<br>
+Que se a terra he dura,<br>
+Secca-se a bonina.<br>
+Sêde piedosa;<br>
+Não veja ninguem<br>
+Que por rigorosa<br>
+Percais tanto bem.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Tende-me mão nelle,<br>
+Que hum real me deve. <span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>'hum real d'amor,<br>
+Dous de confiança,<br>
+E tres d'esperança,<br>
+Me foge o trédor.<br>
+Falso desamor<br>
+S'encerra naquelle<br>
+Que hum real me deve.<br>
+<br>
+Pedio-mo emprestado,<br>
+Não lhe quiz penhor:<br>
+He mao pagador;<br>
+Tendo-mo afferrado.<br>
+C'hum cordel atado,<br>
+Ao Tronco se leve;<br>
+Que hum real me deve.<br>
+<br>
+Por esta travéssa<br>
+Se vai acolhendo:<br>
+Ei-lo vai correndo,<br>
+Fugindo a grã pressa.<br>
+Nesta mão, e nessa<br>
+O falso se atreve,<br>
+Que hum real me deve.<br>
+<br>
+Comprou-me o amor,<br>
+Sem lhe fazer preço:<br>
+Eu não lhe mereço<br>
+Dar-me desfavor.<br>
+Dá-me tanta dor,<br>
+Que ando apos elle<br>
+Pelo que me deve.<br>
+<br>
+Eu de cá bradando,<br>
+Elle vai fugindo; <span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span><br>
+Elle sempre rindo,<br>
+Eu sempre chorando.<br>
+E de quando em quando<br>
+No amor se atreve,<br>
+Como que não deve.<br>
+<br>
+A fallar verdade<br>
+Elle ja pagou;<br>
+Mas ainda ficou<br>
+Devendo ametade.<br>
+Minha liberdade<br>
+He a que me deve:<br>
+Só nella se atreve.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Dó la mi ventura,<br>
+Que no veo alguna?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>epa quien padece,<br>
+Que en la sepultura<br>
+Se esconde ventura<br>
+De quien la merece.<br>
+Allá me parece,<br>
+Que quiere fortuna<br>
+Que yo halle alguna.<br>
+<br>
+Naciendo mesquino,<br>
+Dolor fué mi cama;<br>
+Tristeza fué el ama,<br>
+Cuidado el padrino.<br>
+Vestióse el destino <span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span><br>
+Negra vestidura,<br>
+Huyó la ventura.<br>
+<br>
+No se halló tormento,<br>
+Que alli no se hallase;<br>
+Ni bien, que pasase,<br>
+Sinó como viento.<br>
+Oh qué nacimiento,<br>
+Que luego en la cuna<br>
+Me siguió fortuna!<br>
+<br>
+Esta dicha mia,<br>
+Que siempre busqué,<br>
+Buscándola, hallé<br>
+Que no la hallaria;<br>
+Que quien nace en dia<br>
+D'estrella tan dura,<br>
+Nunca halla ventura.<br>
+<br>
+No puso mi estrella<br>
+Mas ventura em min:<br>
+Ansí vive en fin<br>
+Quien nace sin ella.<br>
+No me quejo della;<br>
+Quéjome que atura<br>
+Vida tan escura.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vida de minha alma.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>ous tormentos vejo<br>
+Grandes por extremo:<br>
+Se vos vejo, temo, <span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span><br>
+E se não, desejo.<br>
+Quando me despejo,<br>
+E venho a escolher,<br>
+Temendo o desejo,<br>
+Desejo temer.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ANTIGA ALHEIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Pastora da serra,<br>
+Da serra da Estrella,<br>
+Perco-me por ella.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>N</big>os seus olhos bellos<br>
+Tanto Amor se atreve,<br>
+Que abraza entre a neve<br>
+Quantos ousão vellos.<br>
+Não sólta os cabellos<br>
+Aurora mais bella:<br>
+Perco-me por ella.<br>
+<br>
+Não teve esta serra<br>
+No meio d'altura<br>
+Mais que a formosura,<br>
+Que nella se encerra.<br>
+Bem ceo fica a terra,<br>
+Que tẽe tal estrella:<br>
+Perco-me por ella.<br>
+<br>
+Sendo entre pastores<br>
+Causa de mil males,<br>
+Não se ouvem nos vales<br>
+Senão seus louvores.<br>
+Eu só por amores <span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span><br>
+Não sei fallar nella,<br>
+Sei morrer por ella.<br>
+<br>
+D'alguns, que sentindo<br>
+Seu mal vão mostrando.<br>
+Se ri, não cuidando<br>
+Qu'inda paga rindo.<br>
+Eu triste, encobrindo<br>
+Só meus males della,<br>
+Perco-me por ella.<br>
+<br>
+Se flores deseja<br>
+Por ventura bellas,<br>
+Das que colhe dellas<br>
+Mil morrem d'inveja.<br>
+Não ha quem não veja<br>
+Todo o melhor nella:<br>
+Perco-me por ella.<br>
+<br>
+Se n'ágoa corrente<br>
+Seus olhos inclina,<br>
+Faz a luz divina<br>
+Parar a corrente.<br>
+Tal se vê, que sente<br>
+Por ver-se a ágoa nella:<br>
+Perco-me por ella.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>NDECHAS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>ós sois huma Dama<br>
+Das feias do mundo;<br>
+De toda a má fama<br>
+Sois cabo profundo. <span class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span><br>
+<br>
+A vossa figura<br>
+Não he para ver;<br>
+Em vosso poder<br>
+Não ha formosura.<br>
+<br>
+Vós fostes dotada<br>
+De toda a maldade;<br>
+Perfeita beldade<br>
+De vós he tirada.<br>
+<br>
+Sois muito acabada<br>
+De taixa e de glosa:<br>
+Pois quanto a formosa,<br>
+Em vós não ha nada.<br>
+<br>
+Do grão merecer<br>
+Sois bem apartada;<br>
+Andais alongada<br>
+Do bem parecer.<br>
+<br>
+Bem claro mostrais<br>
+Em vós fealdade:<br>
+Não ha hi maldade,<br>
+Que não precedais.<br>
+<br>
+De fresco carão<br>
+Vos vejo ausente;<br>
+Em vós he presente<br>
+A má condição.<br>
+<br>
+De ter perfeição<br>
+Mui alheia estais;<br>
+Mui muito alcançais<br>
+De pouca razão. <span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>NDECHAS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>ai o bem fugindo,<br>
+Cresce o mal co'os annos,<br>
+Vão-se descubrindo<br>
+Co'o tempo os enganos.<br>
+<br>
+Amor e alegria.<br>
+Menos tempo dura.<br>
+Triste de quem fia<br>
+Nos bens da ventura!<br>
+<br>
+Bem sem fundamento<br>
+Tẽe certa a mudança,<br>
+Certo o sentimento<br>
+Na dor da lembrança.<br>
+<br>
+Quem vive contente,<br>
+Viva receoso:<br>
+Mal que se não sente,<br>
+He mais perigoso.<br>
+<br>
+Quem males sentio,<br>
+Saiba ja temer;<br>
+E pelo que vio<br>
+Julgue o qu'ha de ser.<br>
+<br>
+Alegre vivia,<br>
+Triste vivo agora;<br>
+Chora a alma de dia,<br>
+E de noite chora.<br>
+<br>
+Confesso os enganos<br>
+De meu pensamento:<br>
+Bem de tantos annos<br>
+Foi-se n'hum momento.<br>
+<br>
+Meus olhos, que vistes?<br>
+Pois vos atrevestes, <span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span><br>
+Chorae, olhos tristes,<br>
+O bem que perdestes.<br>
+<br>
+A luz do sol pura<br>
+Só a vós se negue;<br>
+Seja noite escura,<br>
+Nunca a manhãa chegue.<br>
+<br>
+O campo floreça,<br>
+Murmurem as ágoas,<br>
+Tudo me entristeça,<br>
+Cresção minhas mágoas.<br>
+<br>
+Quizera mostrar<br>
+O mal que padeço;<br>
+Não lhe dá lugar<br>
+Quem lhe deu comêço.<br>
+<br>
+Em tristes cuidados<br>
+Passo a triste vida;<br>
+Cuidados cansados,<br>
+Vida aborrecida.<br>
+<br>
+Nunca pude crer<br>
+O que agora creio:<br>
+Cegou-me o prazer<br>
+Do mal que me veio.<br>
+<br>
+Ah ventura minha,<br>
+Como me negaste!<br>
+Hum so bem que tinha,<br>
+Porque mo roubaste?<br>
+<br>
+Triste fantasia<br>
+Quanta cousa guarda!<br>
+Quem ja visse o dia,<br>
+Que tanto lhe tarda!<br>
+<br>
+Nesta vida cega <span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span><br>
+Nada permanece;<br>
+O qu'inda não chega,<br>
+Ja desaparece.<br>
+<br>
+Qualquer esperança<br>
+Foge como o vento:<br>
+Tudo faz mudança,<br>
+Salvo meu tormento.<br>
+<br>
+Amor cego e triste,<br>
+Quem o tẽe padece:<br>
+Mal quem lhe resiste!<br>
+Mal quem lhe obedece!<br>
+<br>
+No meu mal esquivo<br>
+Sei como Amor trata:<br>
+E pois nelle vivo,<br>
+Nenhum amor mata. <span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span>
+</blockquote>
+
+</div>
+
+
+<div id="sextinas">
+
+
+<h2>SEXTINAS.</h2>
+
+
+<h3>SEXTINA I.</h3>
+
+
+<blockquote>
+<big>F</big>oge-me pouco a pouco a curta vida,<br>
+Se por caso he verdade qu'inda vivo;<br>
+Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;<br>
+Chóro por o passado; e em quanto fallo,<br>
+Se me passão os dias passo a passo.<br>
+Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena.<br>
+<br>
+Que maneira tão aspera de pena!<br>
+Pois nunca hum'hora vio tão longa vida<br>
+Em que do mal mover se visse hum passo.<br>
+Que mais me monta ser morto que vivo?<br>
+Para que chóro, emfim? para que fallo,<br>
+Se lograr-me não pude de meus olhos?<br>
+<br>
+Oh formosos, gentís e claros olhos,<br>
+Cuja ausencia me move a tanta pena,<br>
+Quanta se não comprende em quanto fallo!<br>
+Se no fim de tão longa e curta vida<br>
+De vós m'inflammasse inda o raio vivo,<br>
+Por bem teria todo o mal que passo.<br>
+<br>
+Mas bem sei que primeiro o extremo passo<br>
+Me ha de vir a cerrar os tristes olhos,<br>
+Que Amor me mostre aquelles por quem vivo.<br>
+Testimunhas serão a tinta e penna, <span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span><br>
+Qu'escrevêrão de tão molesta vida<br>
+O menos que passei, e o mais que fallo.<br>
+<br>
+Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo!<br>
+Pois se d'hum pensamento em outro passo,<br>
+Vejo tão triste genero de vida,<br>
+Que se lhe não valerem tanto os olhos,<br>
+Não posso imaginar qual seja a penna<br>
+Qu'esta pena traslade com que vivo.<br>
+<br>
+N'alma tenho contino hum fogo vivo,<br>
+Que se não respirasse no que fallo,<br>
+Estaria ja feita cinza a pena;<br>
+Mas sôbre a maior dor que soffro e passo,<br>
+O temperão com lagrimas os olhos:<br>
+Com que, se foge, não se acaba a vida.<br>
+<br>
+Morrendo estou na vida, e em morte vivo;<br>
+Vejo sem olhos, e sem lingua fallo;<br>
+E juntamente passo gloria e pena.
+</blockquote>
+
+
+<h3>SEXTINA II.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big> culpa de meu mal só tẽe meus olhos,<br>
+Pois que derão a Amor entrada n'alma,<br>
+Para que perdesse eu a liberdade.<br>
+Mas quem póde fugir a huma brandura,<br>
+Que despois de vos pôr em tantos males,<br>
+Dá por bens o perder por ella a vida?<br>
+<br>
+Assaz de pouco faz quem perde a vida<br>
+Por condição tão dura e brandos olhos;<br>
+Pois de tal qualidade são meus males, <span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span><br>
+Que o mais pequeno delles toca n'alma.<br>
+Não s'engane com mostras de brandura<br>
+Quem quizer conservar a liberdade.<br>
+<br>
+Roubadora he de toda liberdade<br>
+(E oxalá perdoasse á triste vida!)<br>
+Esta que o falso Amor chama brandura,<br>
+Ai meus antes imigos, que meus olhos!<br>
+Que mal vos tinha feito esta vossa alma,<br>
+Para vós lhe fazerdes tantos males?<br>
+<br>
+Cresção de dia em dia embora os males;<br>
+Perca-se embora a antigua liberdade;<br>
+Transforme-se em Amor esta triste alma;<br>
+Padeça embora esta innocente vida;<br>
+Que bem me págão tudo estes meus olhos,<br>
+Quando de outros, se os vem, vem a brandura.<br>
+<br>
+Mas como nelles póde haver brandura,<br>
+Se causadores são de tantos males?<br>
+Engano foi d'Amor, porque meus olhos<br>
+Dessem por bem perdida a liberdade.<br>
+Ja não tenho que dar senão a vida,<br>
+Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma.<br>
+<br>
+Que póde ja'sperar quem a sua alma<br>
+Captiva eterna fez d'huma brandura,<br>
+Que quando vos dá morte, diz qu'he vida?<br>
+Forçado me he gritar nestes meus males,<br>
+Olhos meus: pois por vós a liberdade<br>
+Perdi, de vós me queixarei, meus olhos.<br>
+<br>
+Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma,<br>
+Pois dais a liberdade a tal brandura,<br>
+Que para dar mais males, dá mais vida. <span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>SEXTINA III.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>O</big>h triste, oh tenebroso, oh cruel dia,<br>
+Amanhecido só para meu damno!<br>
+Pudeste-me apartar daquella vista<br>
+Por quem vivia com meu mal contente?<br>
+Ah se o supremo fôras desta vida,<br>
+Qu'em ti se começára a minha glória!<br>
+<br>
+Mas como eu não nasci para ter glória,<br>
+Senão pena que cresça cada dia,<br>
+O ceo m'está negando o fim da vida,<br>
+Porque não tenha fim com ella o damno:<br>
+Para que nunca possa ser contente,<br>
+Da vista me tirou aquella vista.<br>
+<br>
+Suave, deleitosa, alegre vista,<br>
+Donde pendia toda a minha gloria,<br>
+Por quem na mor tristeza fui contente;<br>
+Quando será que veja aquelle dia<br>
+Em que deixe de ver tão grave damno,<br>
+E em que me deixe tão penosa vida?<br>
+<br>
+Como desejarei humana vida,<br>
+Ausente d'hũa mais que humana vista,<br>
+Que tão glorioso me fazia o damno!<br>
+Vejo o meu damno sem a sua glória;<br>
+Á minha noite falta ja seu dia:<br>
+Triste tudo se vê, nada contente.<br>
+<br>
+Pois sem ti ja não posso ser contente,<br>
+Mal posso desejar sem ti a vida;<br>
+Sem ti ja ver não posso claro dia, <span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span><br>
+Não posso sem te ver desejar vista;<br>
+Na tua vista só se via a glória,<br>
+Não ver a glória tua he ver meu damno.<br>
+<br>
+Não via maior glória que meu damno,<br>
+Quando do damno meu eras contente:<br>
+Agora me he tormento a maior glória,<br>
+Que póde prometter-me Amor na vida,<br>
+Pois tornar-te não póde á minha vista,<br>
+Que só na tua achava a luz do dia.<br>
+<br>
+E pois de dia em dia cresce o damno,<br>
+Nem posso sem tal vista ser contente,<br>
+Só com perder a vida acharei glória.
+</blockquote>
+
+
+<h3>SEXTINA IV.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>empre me queixarei desta crueza<br>
+Que Amor usou comigo quando o tempo,<br>
+A pezar de meu duro e triste fado,<br>
+A meus males queria dar remedio,<br>
+Em apartar de mi aquella vista,<br>
+Por quem me contentava a triste vida.<br>
+<br>
+Levára-me, oxalá, traz ella a vida,<br>
+Para que não sentira esta crueza<br>
+De me ver apartado de tal vista!<br>
+E praza a Deos não veja o proprio tempo<br>
+Em mi, sem esperança de remedio,<br>
+A desesperação d'hum triste fado!<br>
+<br>
+Porém ja acabe o triste e duro fado! <span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span><br>
+Acabe o tempo ja tão triste vida,<br>
+Qu'em sua morte só tẽe seu remedio.<br>
+O deixar-me viver he mor crueza,<br>
+Pois desespéro ja d'em algum tempo<br>
+Tornar a ver aquella doce vista.<br>
+<br>
+Duro Amor! se pagava só tal vista<br>
+Todo o mal que por ti me fez meu fado,<br>
+Porque quizeste que a levasse o tempo?<br>
+E se o assi quizeste, porque a vida<br>
+Me deixas para ver tanta crueza,<br>
+Quando em não vê-la só vejo o remedio?<br>
+<br>
+Tu só de minha dor eras remedio,<br>
+Suave, deleitosa e bella vista.<br>
+Sem ti, que posso eu ver senão crueza?<br>
+Sem ti, qual bem me póde dar o fado,<br>
+Se não he consentir que acabe a vida?<br>
+Mas elle della me dilata o tempo.<br>
+<br>
+Azas para voar vejo no tempo,<br>
+Que com voar a muitos foi remedio;<br>
+E só não vôa para a minha vida.<br>
+Para que a quero eu sem tua vista?<br>
+Para que quer tambem o triste fado<br>
+Que não acabe o tempo tal crueza?<br>
+<br>
+Não poderão fazer crueza, ou tempo,<br>
+Fôrça de fado, ou falta de remedio,<br>
+Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida. <span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+</div>
+
+
+<div id="elegias">
+
+<h2>ELEGIAS</h2>
+
+
+<h3>ELEGIA I.</h3>
+
+
+<blockquote>
+<big>O</big> sulmonense Ovidio desterrado<br>
+Na aspereza do Ponto, imaginando<br>
+Ver-se de seus Penates apartado;<br>
+<br>
+Sua chara mulher desamparando,<br>
+Seus doces filhos, seu contentamento,<br>
+De sua Patria os olhos apartando;<br>
+<br>
+Não podendo encobrir o sentimento,<br>
+Aos montes ja, ja aos rios se queixava<br>
+De seu escuro e triste nascimento.<br>
+<br>
+O curso das estrellas contemplava,<br>
+E aquella ordem com que discorria<br>
+O ceo e o ar, e a terra adonde estava.<br>
+<br>
+Os peixes por o mar nadando via,<br>
+As feras por o monte procedendo<br>
+Como o seu natural lhes permittia.<br>
+<br>
+De suas fontes via estar nascendo<br>
+Os saudosos rios de crystal,<br>
+Á sua natureza obedecendo.<br>
+<br>
+Assi só, de seu proprio natural<br>
+Apartado, se via em terra estranha,<br>
+A cuja triste dor não acha igual. <span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span><br>
+<br>
+Só sua doce Musa o acompanha<br>
+Nos soidosos versos qu'escrevia,<br>
+E nos lamentos com que o campo banha.<br>
+<br>
+Dest'arte me figura a phantasia<br>
+A vida com que morro, desterrado<br>
+Do bem qu'em outro tempo possuia.<br>
+<br>
+Aqui contemplo o gôsto ja passado,<br>
+Que nunca passará por a memoria<br>
+De quem o traz na mente debuxado.<br>
+<br>
+Aqui vejo caduca e debil glória<br>
+Desenganar meu êrro co'a mudança<br>
+Que faz a fragil vida transitoria.<br>
+<br>
+Aqui me representa esta lembrança<br>
+Quão pouca culpa tenho; e m'entristece<br>
+Ver sem razão a pena que m'alcança.<br>
+<br>
+Que a pena que com causa se padece,<br>
+A causa tira o sentimento della;<br>
+Mas muito doe a que se não merece.<br>
+<br>
+Quando a roxa manhãa, dourada e bella,<br>
+Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,<br>
+E torna a seus queixumes Philomela;<br>
+<br>
+Este cuidado, que co'o somno atalho,<br>
+Em sonhos me parece; que o que a gente<br>
+Por seu descanso tẽe me dá trabalho.<br>
+<br>
+E despois de acordado cegamente,<br>
+(Ou, por melhor dizer, desacordado,<br>
+Que pouco acôrdo logra hum descontente)<br>
+<br>
+Daqui me vou, com passo carregado,<br>
+A hum outeiro erguido, e alli m'assento,<br>
+Soltando toda a redea a meu cuidado.<br>
+<br>
+Despois de farto ja de meu tormento, <span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span><br>
+Estendo estes meus olhos saudosos<br>
+Á parte donde tinha o pensamento.<br>
+<br>
+Não vejo senão montes pedregosos;<br>
+E sem graça e sem flor os campos vejo,<br>
+Que ja floridos víra, e graciosos.<br>
+<br>
+Vejo o puro, suave e rico Tejo,<br>
+Com as concavas barcas, que nadando<br>
+Vão pondo em doce effeito o seu desejo.<br>
+<br>
+Humas com brando vento navegando,<br>
+Outras com leves reinos brandamente<br>
+As crystallinas ágoas apartando.<br>
+<br>
+D'alli fallo com a ágoa que não sente<br>
+Com cujo sentimento est'alma sae<br>
+Em lagrimas desfeita claramente.<br>
+<br>
+Ó fugitivas ondas, esperae;<br>
+Que pois me não levais em companhia,<br>
+Ao menos estas lagrimas levae.<br>
+<br>
+Até que venha aquelle alegre dia<br>
+Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo.<br>
+Mas tanto tempo, quem o passaria?<br>
+<br>
+Não póde tanto bem chegar tão cedo:<br>
+Porque primeiro a vida acabará,<br>
+Que se acabe tão aspero degredo.<br>
+<br>
+Mas essa triste morte que virá,<br>
+S'em tão contrário estado me acabasse,<br>
+Est'alma assi impaciente adonde irá?<br>
+<br>
+Que se ás portas Tartaricas chegasse,<br>
+Temo que tanto mal por a memoria<br>
+Nem ao passar do Lethe lhe passasse.<br>
+<br>
+Que se a Tantalo e Ticio for notoria<br>
+A pena com que vai, e que a atormenta, <span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span><br>
+A pena que lá tẽe, terão por glória.<br>
+<br>
+Essa imaginação, emfim, me augmenta<br>
+Mil mágoas no sentido, porque a vida<br>
+De imaginações tristes se contenta.<br>
+<br>
+Que pois de todo vive consumida,<br>
+Porque o mal que possue se resuma,<br>
+Imagina na glória possuida.<br>
+<br>
+Até que a noite eterna me consuma,<br>
+Ou veja aquelle dia desejado<br>
+Em que a Fortuna faça o que costuma;<br>
+<br>
+Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA II.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>quella que d'amor descomedido<br>
+Por o formoso moço se perdeo,<br>
+Que só por si d'amores foi perdido;<br>
+<br>
+Despois que a deosa em pedra a converteo<br>
+De seu humano gesto verdadeiro,<br>
+A última voz só lhe concedeo.<br>
+<br>
+Assi meu mal do proprio ser primeiro<br>
+Outra cousa nenhũa me consente,<br>
+Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.<br>
+<br>
+E se huma pouca vida, estando ausente,<br>
+Me deixa Amor, he porque o pensamento<br>
+Sinta a perda do bem d'estar presente.<br>
+<br>
+Senhor, se vos espanta o soffrimento<br>
+Que tenho em tanto mal para escrevê-lo, <span class="pn"><a name="pag_161">{161}</a></span><br>
+Furto este breve espaço a meu tormento.<br>
+<br>
+Porque quem tẽe poder para soffrê-lo,<br>
+Sem se acabar a vida co'o cuidado,<br>
+Tambem terá poder para dizê-lo.<br>
+<br>
+Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;<br>
+Mas n'alma minha triste e saudosa<br>
+A saudade escreve, e eu traslado.<br>
+<br>
+Ando gastando a vida trabalhosa,<br>
+E esparzindo a contínua soidade<br>
+Ao longo d'huma praia soidosa.<br>
+<br>
+Vejo do mar a instabilidade,<br>
+Como com seu ruido impetuoso<br>
+Retumba na maior concavidade.<br>
+<br>
+De furibundas ondas poderoso,<br>
+Na terra, a seu pezar, está tomando<br>
+Lugar, em que s'estenda, cavernoso.<br>
+<br>
+Ella, como mais fraca, lh'está dando<br>
+As concavas entranhas, onde esteja<br>
+Sempre com som profundo suspirando.<br>
+<br>
+A todas estas cousas tenho inveja<br>
+Tamanha, que não sei determinar-me,<br>
+Por mais determinado que me veja.<br>
+<br>
+Se quero em tanto mal desesperar-me,<br>
+Não posso, porque Amor e saudade<br>
+Nem licença me dão para matar-me.<br>
+<br>
+Ás vezes cuido em mi, se a novidade<br>
+E estranheza das cousas, co'a mudança,<br>
+Poderião mudar huma vontade.<br>
+<br>
+E com isto figuro na lembrança<br>
+A nova terra, o novo trato humano,<br>
+A estrangeira progenie, a estranha usança. <span class="pn"><a name="pag_162">{162}</a></span><br>
+<br>
+Subo-me ao monte que Hercules Thebano<br>
+Do altissimo Calpe dividio,<br>
+Dando caminho ao mar Mediterrano;<br>
+<br>
+D'alli'stou tenteando adonde vio<br>
+O pomar das Hesperidas, matando<br>
+A serpe que a seu passo resistio.<br>
+<br>
+Estou-me em outra parte figurando<br>
+O poderoso Anteo, que derribado<br>
+Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;<br>
+<br>
+Porém do Herculeo braço sobjugado,<br>
+No ar deixando a vida, não podendo<br>
+Dos soccorros da mãe ser ajudado.<br>
+<br>
+Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,<br>
+Nem com as armas tão continuadas,<br>
+D'amorosas lembranças me defendo.<br>
+<br>
+Todas as cousas vejo demudadas,<br>
+Porque o tempo ligeiro não consente<br>
+Qu'estejão de firmeza acompanhadas.<br>
+<br>
+Vi ja que a Primavera, de contente,<br>
+Em variadas côres revestia<br>
+O monte, o campo, o valle, alegremente.<br>
+<br>
+Vi ja das altas aves a harmonia,<br>
+Que até duros penedos convidava<br>
+A algum suave modo d'alegria.<br>
+<br>
+Vi ja que tudo, emfim, me contentava,<br>
+E que, de muito cheio de firmeza,<br>
+Hum mal por mil prazeres não trocava.<br>
+<br>
+Tal me tẽe a mudança e estranheza,<br>
+Que se vou por os prados, a verdura<br>
+Parece que se sécca de tristeza.<br>
+<br>
+Mas isto he ja costume da ventura; <span class="pn"><a name="pag_163">{163}</a></span><br>
+Porque aos olhos que vivem descontentes,<br>
+Descontente o prazer se lhes figura.<br>
+<br>
+Oh graves e insoffriveis accidentes<br>
+De Fortuna e d'Amor! que penitencia<br>
+Tão grave dais aos peitos innocentes!<br>
+<br>
+Não basta examinar-me a paciencia<br>
+Com temores e falsas esperanças,<br>
+Sem que tambem me tente o mal de ausencia?<br>
+<br>
+Trazeis hum brando espirito em mudanças,<br>
+Para que nunca possa ser mudado<br>
+De lagrimas, suspiros e lembranças.<br>
+<br>
+E s'estiver ao mal acostumado,<br>
+Tambem no mal não consentis firmeza,<br>
+Para que nunca viva descansado.<br>
+<br>
+Ja quieto m'achava co'a tristeza;<br>
+E alli não me faltava hum brando engano.<br>
+Que tirasse desejos da fraqueza.<br>
+<br>
+Mas vendo-me enganado estar ufano,<br>
+Deo á roda a Fortuna; e deo comigo<br>
+Onde de novo chóro o novo dano.<br>
+<br>
+Ja deve de bastar o que aqui digo,<br>
+Para dar a entender o mais que calo<br>
+A quem ja vio tão aspero perigo.<br>
+<br>
+E se nos brandos peitos faz abalo<br>
+Hum peito magoado e descontente,<br>
+Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;<br>
+<br>
+Não quero mais senão que largamente,<br>
+Senhor, me mandeis novas dessa terra;<br>
+Que alguma dellas me fara contente.<br>
+<br>
+Porque se o duro Fado me desterra<br>
+Tanto tempo do bem, que o fraco esprito <span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span><br>
+Desampare a prisão onde s'encerra;<br>
+<br>
+Ao som das negras ágoas do Cocito,<br>
+Ao pé dos carregados arvoredos<br>
+Cantarei o que n'alma tenho escrito.<br>
+<br>
+E por entre estes horridos penedos<br>
+A quem negou Natura o claro dia,<br>
+Entre tormentos asperos e medos,<br>
+<br>
+Com a trémula voz, cansada e fria,<br>
+Celebrarei o gesto claro e puro,<br>
+Que nunca perderei da phantasia.<br>
+<br>
+O Musico de Thracia, ja seguro<br>
+De perder sua Eurydice, tangendo<br>
+Me ajudará ferindo o ar escuro.<br>
+<br>
+As namoradas sombras, revolvendo<br>
+Memorias do passado, me ouvirão;<br>
+E com seu chôro o rio irá crescendo.<br>
+<br>
+Em Salmonêo as penas faltarão,<br>
+E das filhas de Belo juntamente<br>
+De lagrimas os vasos s'encherão.<br>
+<br>
+Que se amor não se perde em vida ausente,<br>
+Menos se perderá por morte escura:<br>
+Porque, emfim, a alma vive eternamente,<br>
+<br>
+E amor he effeito d'alma, e sempre dura.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA III.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>O</big> poeta Simonides fallando<br>
+Co'o Capitão Themistocles hum dia,<br>
+Em cousas de sciencia praticando; <span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span><br>
+<br>
+Hum'arte singular lhe promettia,<br>
+Qu'então compunha, com que lh'ensinasse<br>
+A lembrar-se de tudo o que fazia;<br>
+<br>
+Onde tão subtis regras lhe mostrasse,<br>
+Que nunca lhe passassem da memoria<br>
+Em nenhum tempo as cousas que passasse.<br>
+<br>
+Bem merecia, certo, fama e gloria<br>
+Quem dava regra contra o esquecimento,<br>
+Que sepulta qualquer antigua historia.<br>
+<br>
+Mas o Capitão claro, cujo intento<br>
+Bem differente estava, porque havia<br>
+Do passado as lembranças por tormento;<br>
+<br>
+Oh illustre Simonides! (dizia)<br>
+Pois tanto em teu engenho te confias,<br>
+Que mostras á memoria nova via;<br>
+<br>
+Se me désses hum'arte, qu'em meus dias<br>
+Me não lembrasse nada do passado,<br>
+Oh quanto melhor obra me farias!<br>
+<br>
+S'este excellente dito ponderado<br>
+Fosse por quem se visse estar ausente,<br>
+Em longas esperanças degradado;<br>
+<br>
+Oh como bradaria justamente,<br>
+Simonides, inventa novas artes;<br>
+Não midas o passado co'o presente!<br>
+<br>
+Que se he forçado andar por várias partes<br>
+Buscando á vida algum descanço honesto,<br>
+Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;<br>
+<br>
+E se o duro trabalho, he manifesto<br>
+Que por grave que seja, ha de passar-se<br>
+Com animoso esprito e ledo gesto;<br>
+<br>
+De que serve ás pessoas o lembrar-se <span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span><br>
+Do que se passou ja, pois tudo passa,<br>
+Senão d'entristecer-se e magoar-se?<br>
+<br>
+S'em outro corpo hum'alma se traspassa,<br>
+Não como quiz Pythagoras na morte,<br>
+Mas como quer Amor na vida escassa;<br>
+<br>
+E s'este Amor no mundo está de sorte,<br>
+Que na virtude só d'hum lindo objecto<br>
+Tẽe hum corpo, sem alma, vivo e forte;<br>
+<br>
+Onde este objecto falta, qu'he defecto<br>
+Tamanho para a vida, que ja nella<br>
+M'está chamando á pena a dura Alecto;<br>
+<br>
+Porque me não criára a minha Estrella<br>
+Selvatico no mundo, e habitante<br>
+Na dura Scythia, e no mais duro della?<br>
+<br>
+Ou no Caucaso horrendo, fraco infante<br>
+Criado ao peito d'huma tigre Hircana,<br>
+Homem fôra formado de diamante;<br>
+<br>
+Porque a cerviz ferina e inhumana<br>
+Não submettêra ao jugo e dura lei<br>
+Daquelle que dá vida quando engana.<br>
+<br>
+Ou em pago das ágoas qu'estilei,<br>
+As que passei do mar, forão do Lete,<br>
+Para que m'esquecêra o que passei.<br>
+<br>
+Porque o bem que a esperança vãa promette,<br>
+Ou a morte o estorva, ou a mudança,<br>
+Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.<br>
+<br>
+Ja, Senhor, cahirá como a lembrança,<br>
+No mal, do bem passado he triste e dura,<br>
+Pois nasce aonde morre a esperança.<br>
+<br>
+E se quizer saber como se apura<br>
+Em almas saudosas, não s'enfade <span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span><br>
+De ler tão longa e misera escriptura.<br>
+<br>
+Soltava Eolo a redea e liberdade<br>
+Ao manso Favonio brandamente,<br>
+E eu a tinha ja sôlta á saudade.<br>
+<br>
+Neptuno tinha pôsto o seu tridente;<br>
+A proa a branca escuma dividia,<br>
+Com a gente maritima contente.<br>
+<br>
+O côro das Nereidas nos seguia;<br>
+Os ventos, namorada Galatêa<br>
+Comsigo socegados os movia.<br>
+<br>
+Das argenteas conchinhas Panopêa<br>
+Andava por o mar fazendo mólhos,<br>
+Melanto, Dinamene, com Ligea.<br>
+<br>
+Eu, trazendo lembranças por antolhos,<br>
+Trazia os olhos n'ágoa socegada,<br>
+E a ágoa sem socêgo nos meus olhos.<br>
+<br>
+A bem-aventurança ja passada<br>
+Diante de mi tinha tão presente,<br>
+Como se não mudasse o tempo nada.<br>
+<br>
+E com o gesto immoto e descontente,<br>
+Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,<br>
+Por não mostrar meu mal a toda a gente,<br>
+<br>
+Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido<br>
+Em puro amor tivestes, e inda agora<br>
+Da memoria o não tendes esquecido;<br>
+<br>
+Se por ventura fordes algum'hora<br>
+Adonde entra o grão Tejo a dar tributo<br>
+A Tethys, que vós tendes por Senhora;<br>
+<br>
+Ou ja por ver o verde prado enxuto,<br>
+Ou ja por colher ouro rutilante,<br>
+Das Tagicas areias rico fruto; <span class="pn"><a name="pag_168">{168}</a></span><br>
+<br>
+Nellas em verso erotico e elegante<br>
+Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;<br>
+Póde ser que algum peito se quebrante.<br>
+<br>
+E contando de mi memorias tristes,<br>
+Os pastores do Tejo, que me ouvião,<br>
+Oução de vós as mágoas que me ouvistes.<br>
+<br>
+Ellas, que ja no gesto m'entendião,<br>
+Nos meneios das ondas me mostravão<br>
+Qu'em quanto lhes pedia consentião.<br>
+<br>
+Estas lembranças, que me acompanhavão<br>
+Por a tranquillidade da bonança,<br>
+Nem na tormenta triste me deixavão.<br>
+<br>
+Porque chegando ao Cabo da Esperança,<br>
+Comêço da saudade que renova,<br>
+Lembrando a longa e aspera mudança;<br>
+<br>
+Debaixo estando ja da estrella nova<br>
+Que no novo Hemispherio resplandece,<br>
+Dando do segundo axe certa prova;<br>
+<br>
+Eis a noite com nuvens s'escurece;<br>
+Do ar subitamente foge o dia;<br>
+E todo o largo Oceano s'embravece.<br>
+<br>
+A máchina do mundo parecia<br>
+Qu'em tormentas se vinha desfazendo;<br>
+Em serras todo o mar se convertia.<br>
+<br>
+Lutando Boreas fero e Noto horrendo.<br>
+Sonoras tempestades levantavão,<br>
+Das naos as velas concavas rompendo.<br>
+<br>
+As cordas co'o ruido assoviavão;<br>
+Os marinheiros, ja desesperados,<br>
+Com gritos para o ceo o ar coalhavão.<br>
+<br>
+Os raios por Vulcano fabricados <span class="pn"><a name="pag_169">{169}</a></span><br>
+Vibrava o fero e aspero Tonante,<br>
+Tremendo os Polos ambos de assombrados.<br>
+<br>
+Amor alli, mostrando-se possante,<br>
+E que por algum medo não fugia,<br>
+Mas quanto mais trabalho, mais constante;<br>
+<br>
+Vendo a morte presente, em mi dizia:<br>
+Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,<br>
+Nada do que passei me lembraria.<br>
+<br>
+Emfim, nunca houve cousa que mudasse<br>
+O firme amor intrinseco daquelle<br>
+Em quem alguma vez de siso entrasse.<br>
+<br>
+Huma cousa, Senhor, por certa asselle,<br>
+Que nunca amor se affina, nem se apura,<br>
+Em quanto está presente a causa delle.<br>
+<br>
+Dest'arte me chegou minha ventura<br>
+A esta desejada e longa terra,<br>
+De todo pobre honrado sepultura.<br>
+<br>
+Vi quanta vaidade em nós s'encerra,<br>
+E nos proprios quão pouca; contra quem<br>
+Foi logo necessario termos guerra.<br>
+<br>
+Huma Ilha que o Rei de Porcá tem,<br>
+E que o Rei da Pimenta lhe tomára,<br>
+Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.<br>
+<br>
+Com huma grossa armada, que juntára<br>
+O Viso-Rei, de Goa nos partimos<br>
+Com toda a gente d'armas que se achára.<br>
+<br>
+E com pouco trabalho destruimos<br>
+A gente no curvo arco exercitada:<br>
+Com morte, com incendios os punimos.<br>
+<br>
+Era a Ilha com ágoas alagada,<br>
+De modo que se andava em almadias: <span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span><br>
+Emfim, outra Veneza trasladada.<br>
+<br>
+Nella nos detivemos sós dous dias,<br>
+Que forão para alguns os derradeiros,<br>
+Pois passárão da Estyge as ondas frias.<br>
+<br>
+Qu'estes são os remedios verdadeiros<br>
+Que para a vida estão apparelhados<br>
+Aos que a querem ter por cavalleiros.<br>
+<br>
+Oh Lavradores bem-aventurados!<br>
+Se conhecessem seu contentamento,<br>
+Como vivem no campo socegados!<br>
+<br>
+Dá-lhes a justa terra o mantimento;<br>
+Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura;<br>
+Mungem suas ovelhas cento a cento.<br>
+<br>
+Não vem o mar irado, a noite escura,<br>
+Por ir buscar a pedra do Oriente;<br>
+Não temem o furor da guerra dura.<br>
+<br>
+Vive hum com suas árvores contente,<br>
+Sem lhe quebrar o somno repousado<br>
+A grã cobiça d'ouro reluzente.<br>
+<br>
+Se lhe falta o vestido perfumado,<br>
+E da formosa côr de Assyria tinto,<br>
+E das torçaes Attalicos lavrado;<br>
+<br>
+Se não tẽe as delicias de Corinto,<br>
+E se de Pario os marmores lhe faltão,<br>
+O pyropo, a esmeralda e o jacinto;<br>
+<br>
+Se suas casas de ouro não s'esmaltão,<br>
+Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,<br>
+Onde os cabritos seus comendo sáltão.<br>
+<br>
+Alli lhe mostra o campo várias côres;<br>
+Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;<br>
+Alli se affina o canto dos pastores. <span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span><br>
+<br>
+Alli cantára Tityro e Sileno.<br>
+Emfim, por estas partes caminhou<br>
+A sãa Justiça para o ceo sereno.<br>
+<br>
+Ditoso seja aquelle que alcançou<br>
+Poder viver na doce companhia<br>
+Das mansas ovelhinhas que criou!<br>
+<br>
+Este bem facilmente alcançaria<br>
+As causas naturaes de toda cousa;<br>
+Como se gera a chuva e neve fria:<br>
+<br>
+Os trabalhos do sol, que não repousa;<br>
+E porque nos dá lũa a luz alhêa,<br>
+Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:<br>
+<br>
+E como tão depressa o ceo rodêa;<br>
+E como hum só os outros traz comsigo;<br>
+E se he benigna ou dura Cytherêa.<br>
+<br>
+Bem mal póde entender isto que digo,<br>
+Quem ha de andar seguindo o fero Marte;<br>
+Que sempre os olhos traz em seu perigo.<br>
+<br>
+Porém seja, Senhor, de qualquer arte,<br>
+Pois postoque a Fortuna possa tanto,<br>
+Que tão longe de todo o bem me aparte;<br>
+<br>
+Não poderá apartar meu duro canto<br>
+Desta obrigação sua, em quanto a morte<br>
+Me não entrega ao duro Radamanto;<br>
+<br>
+Se para tristes ha tão leda sorte. <span class="pn"><a name="pag_172">{172}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>ELEGIA IV.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espois que Magalhães teve tecida<br>
+A breve historia sua, que illustrasse<br>
+A Terra Santa Cruz, pouco sabida;<br>
+<br>
+Imaginando a quem a dedicasse,<br>
+Ou com cujo favor defenderia<br>
+Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;<br>
+<br>
+Tendo nisto occupada a phantasia,<br>
+Lhe sobreveio hum somno repousado,<br>
+Antes que o sol abrisse o claro dia.<br>
+<br>
+Em sonhos lhe apparece todo armado<br>
+Marte, brandindo a lança furiosa,<br>
+Com que fez quem o vio todo enfiado;<br>
+<br>
+Dizendo em voz pezada e temerosa:<br>
+Não he justo que a outrem se offereça<br>
+Obra alguma que possa ser famosa,<br>
+<br>
+Senão a quem por armas resplandeça<br>
+No largo inundo com tal nome e fama,<br>
+Que louvor immortal sempre mereça.<br>
+<br>
+Disse assi: quando Apollo, que da flama<br>
+Celeste guia os carros, de outra parte<br>
+Se lhe presenta, e por seu nome o chama,<br>
+<br>
+Dizendo: Magalhães, postoque Marte<br>
+Com seu terror t'espante, todavia<br>
+Comigo deves só de aconselhar-te.<br>
+<br>
+Hum Varão sapiente, em quem Thalia<br>
+Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,<br>
+Defender tuas obras poderia. <span class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span><br>
+<br>
+He justo que a escriptura na prudencia<br>
+Ache só defensão; porque a dureza<br>
+Das armas he contrária da eloquencia.<br>
+<br>
+Assi disse: e tocando com destreza<br>
+A cithara dourada, começou<br>
+A mitigar de Marte a fortaleza.<br>
+<br>
+Mas Mercurio, que sempre costumou<br>
+Pacificar porfias duvidosas,<br>
+Co'o Caducêo na mão, que sempre usou,<br>
+<br>
+Determina compor as perigosas<br>
+Opiniões dos deoses inimigos<br>
+Com suaves razões e ponderosas.<br>
+<br>
+E disse: Bem sabemos dos antigos<br>
+Heroes, e dos modernos, que provárão<br>
+De Belona os gravissimos perigos,<br>
+<br>
+Como tão bem mil vezes concordárão<br>
+As armas com as letras; porque as Musas<br>
+A muitos na milicia acompanhárão.<br>
+<br>
+Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas<br>
+Guerras o estudo deixão grande espaço;<br>
+Que as armas jamais delle são escusas.<br>
+<br>
+N'huma mão livros, n'outra ferro e aço;<br>
+Aquella rege e ensina; est'outra fere:<br>
+Mais co'o saber se vence, que co'o braço.<br>
+<br>
+Pois, logo, hum Varão grande se requere,<br>
+Que com teus dões (Apollo) illustre seja,<br>
+E de ti (Marte) palma e glória espere.<br>
+<br>
+Este vos darei eu, em quem se veja<br>
+Saber e esfôrço no sereno peito,<br>
+Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.<br>
+<br>
+Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito, <span class="pn"><a name="pag_174">{174}</a></span><br>
+Todas nove nos braços o tomárão,<br>
+Criando-o co'o seu leite no seu leito:<br>
+<br>
+As Artes e as Sciencias lh'ensinárão;<br>
+Inclinação divina lh'influírão<br>
+Ás virtudes moraes, que logo o ornárão.<br>
+<br>
+Daqui nos exercidos o seguírão<br>
+Das armas no Oriente, onde primeiro<br>
+Hum soldado gentil instituírão.<br>
+<br>
+Alli taes provas fez de Cavalleiro,<br>
+Que, de Christão magnanimo e seguro,<br>
+A si mesmo venceo por derradeiro.<br>
+<br>
+Despois, ja Capitão forte e maduro,<br>
+Governando toda a Aurea Chersoneso,<br>
+Lhe defendeo co'o braço o debil muro.<br>
+<br>
+Porque vindo a cercá-la todo o pêso<br>
+Do poder dos Achens, que se sustenta<br>
+De alheio sangue, em furia todo acceso;<br>
+<br>
+Este só que a ti, Marte, representa,<br>
+O castigou de sorte, que vencido<br>
+De ter quem vivo fique se contenta.<br>
+<br>
+E logo qu'este Reino defendido<br>
+Deixou, segunda vez com maior glória<br>
+Para o ir governar foi elegido.<br>
+<br>
+Mas não perdendo ainda da memoria<br>
+Os amigos o seu govêrno brando,<br>
+Os imigos o damno da victoria;<br>
+<br>
+Huns com amor intrinseco esperando<br>
+Estão por elle, e os outros congelados<br>
+O estão com frio medo receando.<br>
+<br>
+Vêde pois se serião debellados<br>
+Por seu claro valor, se lá tornasse, <span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span><br>
+E dos Indicos mares degradados.<br>
+<br>
+Porqu'he justo que nunca lhe negasse<br>
+O conselho do Olympo alto e subido<br>
+Favor e ajuda com que pelejasse.<br>
+<br>
+Aqui só póde ser bem dirigido<br>
+De Magalhães o estudo: este só deve<br>
+Ser de vós, claros deoses, escolhido.<br>
+<br>
+Assi Mercurio disse; e em termo breve<br>
+Conformados se vem Apollo e Marte;<br>
+E voou juntamente o somno leve.<br>
+<br>
+Acorda Magalhães, e ja se parte<br>
+A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,<br>
+Tudo o que nelle poz sciencia e arte.<br>
+<br>
+Tẽe claro estylo, e engenho curioso,<br>
+Para poder de vós ser recebido,<br>
+Com mão benigna, de ânimo amoroso.<br>
+<br>
+Pois se só de não ser favorecido<br>
+Hum alto esprito fica baixo e escuro;<br>
+Este seja comvosco defendido,<br>
+<br>
+Como o foi de Malaca o debil muro.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA V.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>quelle mover de olhos excellente,<br>
+Aquelle vivo espirito inflammado<br>
+Do crystallino rosto transparente;<br>
+<br>
+Aquelle gesto immoto e repousado,<br>
+Qu'estando n'alma propriamente escrito,<br>
+Não póde ser em verso trasladado; <span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span><br>
+<br>
+Aquelle parecer, que he infinito<br>
+Para se comprender d'engenho humano;<br>
+O qual offendo em quanto tenho dito;<br>
+<br>
+Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,<br>
+E tanto a engrandecer-me a phantasia,<br>
+Que não vi maior glória que meu dano.<br>
+<br>
+Oh bem-aventurado seja o dia<br>
+Em que tomei tão doce pensamento,<br>
+Que de todos os outros me desvia!<br>
+<br>
+E bem-aventurado o soffrimento<br>
+Que soube ser capaz de tanta pena,<br>
+Vendo que o foi da causa o entendimento!<br>
+<br>
+Faça-me quem me mata, o mal que ordena,<br>
+Trate-me com enganos, desamores;<br>
+Qu'então me salva, quando me condena.<br>
+<br>
+E se de tão suaves desfavores<br>
+Penando vive hum'alma consumida,<br>
+Oh que doce penar! que doces dores!<br>
+<br>
+E se huma condição endurecida<br>
+Tambem me nega a morte por meu dano,<br>
+Oh que doce morrer! que doce vida!<br>
+<br>
+E se me mostra hum gesto lindo humano,<br>
+Como que de meu mal culpada se acha,<br>
+Oh que doce mentir! que doce engano!<br>
+<br>
+E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,<br>
+Mostrando refrear o pensamento,<br>
+Oh que doce fingir! que doce cacha!<br>
+<br>
+Assi que ponho ja no soffrimento<br>
+A parte principal de minha glória,<br>
+Tomando por melhor todo tormento.<br>
+<br>
+Se sinto tanto bem só co'a memoria <span class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span><br>
+De ver-vos, linda Dama, vencedora;<br>
+Que quero eu mais que ser vossa victoria?<br>
+<br>
+Se tanto a vossa vista mais namora,<br>
+Quanto eu sou menos para merecer-vos;<br>
+Que quero eu mais que ter-vos por senhora?<br>
+<br>
+Se procede este bem de conhecer-vos,<br>
+E consiste o vencer em ser vencido,<br>
+Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?<br>
+<br>
+S'em meu proveito faz qualquer partido,<br>
+Só na vista d'huns olhos tão serenos,<br>
+Que quero eu mais ganhar que ser perdido?<br>
+<br>
+Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,<br>
+A merecer não chegão seu tormento,<br>
+Que quero eu mais, que o mais não seja menos?<br>
+<br>
+A causa, pois, m'esforça o soffrimento;<br>
+Porque, a pezar do mal que me resiste,<br>
+De todos os trabalhos me contento;<br>
+<br>
+Que a razão faz a pena alegre, ou triste.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA VI.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>ntre rusticas serras e fragosas,<br>
+Compostas d'asperissimos rochedos,<br>
+De salitradas lapas cavernosas;<br>
+<br>
+Onde gretando os humidos penedos<br>
+Orvalhados de neve branca e fria,<br>
+Brotando estão de si mil arvoredos;<br>
+<br>
+Huma floresta fez verde e sombria<br>
+A natureza experta, que rodeia, <span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span><br>
+Como elevado muro, a serrania.<br>
+<br>
+Neste formoso sítio se recreia<br>
+O lascivo Cupido entre as boninas,<br>
+Que sempre hum brando Zephyro meneia.<br>
+<br>
+Da candida cecem, das clavellinas,<br>
+Da salva, mangerona e das mosquetas,<br>
+Das rubicundas flores hyacinthinas,<br>
+<br>
+Muitas capellas tece, que de setas<br>
+Lhe servem contra peitos de donzellas,<br>
+A quem d'inveja traz sempre inquietas.<br>
+<br>
+Não são d'huma só côr as flores bellas;<br>
+Que humas esmalta verde, outras rosado,<br>
+Entre as azues crescendo as amarellas.<br>
+<br>
+Dos agrestes loureiros rodeado,<br>
+Faz o valle huma sombra deleitosa,<br>
+Quando apparece o sol mais levantado.<br>
+<br>
+E por cima da relva bem graciosa<br>
+As gottas de crystal quasi imitando<br>
+Estão do aljofar puro a luz formosa.<br>
+<br>
+As crystallinas fontes, que brotando<br>
+Por entre alvos seixinhos se derivão,<br>
+Das árvores os troncos vão banhando.<br>
+<br>
+Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão<br>
+O formoso pastor que se perdeo,<br>
+Preso das falsas mostras que o captivão,<br>
+<br>
+Cresce a por cuja causa s'esqueceo<br>
+A linda Cytherêa de Vulcano,<br>
+Quando presa d'Amor se lhe rendeo.<br>
+<br>
+Na brancura do rosto soberano,<br>
+Inda as crueis feridas apparecem<br>
+Do javali cerdoso e deshumano. <span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span><br>
+<br>
+As rosas que de sangue resplandecem,<br>
+As candidas boninas marchetadas,<br>
+Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem.<br>
+<br>
+Do matutino orvalho rociadas,<br>
+As flores rutilantes e cheirosas<br>
+Estão como por cima prateadas.<br>
+<br>
+Os humidos botões abrindo as rosas,<br>
+Que os agudos espinhos vão cercando,<br>
+No prado se vem rindo deliciosas.<br>
+<br>
+A mellifera abelha, susurrando<br>
+Por cima das boninas que rodeia,<br>
+Está co'o som das ágoas concertando.<br>
+<br>
+Do trémulo regato a branda areia<br>
+De jacinthos se cobre e de vieiras,<br>
+Qu'encrespão da corrente a branca veia.<br>
+<br>
+Os álamos s'abração co'as videiras<br>
+De sorte, que s'enxérga escassamente<br>
+Se são os cachos seus, se das parreiras;<br>
+<br>
+E pendendo por cima da corrente,<br>
+Outro formoso bosque debuxando<br>
+Estão no fundo della brandamente.<br>
+<br>
+Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando<br>
+Do perfido cunhado a crueldade,<br>
+Mágoas em melodias transformando.<br>
+<br>
+A solitaria rôla com soidade<br>
+Desfaz o rouco peito, ja cansada<br>
+De que não move a morte a piedade.<br>
+<br>
+A domestica Progne anda banhada<br>
+No sangue de seus filhos, em vingança<br>
+Da triste Philomela profanada.<br>
+<br>
+De competir co'o merlo não descança <span class="pn"><a name="pag_180">{180}</a></span><br>
+O garrulo calhandro, qu'enrouquece<br>
+Por não perder callado a confiança.<br>
+<br>
+Em quanto o pobre ninho ajunta e tece<br>
+O sonoro canario, modulando<br>
+Engana a grave pena que padece.<br>
+<br>
+Alguns versos s'escuta derramando<br>
+O vário pintasirgo, tão saudaveis,<br>
+Que produzem memorias d'amor brando.<br>
+<br>
+Por os direitos troncos ha notaveis<br>
+Epigrammas; alguns d'antigua historia,<br>
+Que contra o duro tempo são duraveis.<br>
+<br>
+Huns de cruel tormento, outros de glória,<br>
+Conforme a liberdade do qu'escreve,<br>
+Estranhos casos mostrão á memoria.<br>
+<br>
+O que neste lugar contente esteve,<br>
+Contente declarou seu pensamento,<br>
+E os prazeres tambem que nelle teve.<br>
+<br>
+Mas outros, declarando o sentimento<br>
+Que dos olhos destila tristes ágoas,<br>
+Deixárão mil lembranças de tormento.<br>
+<br>
+Abrazando-se alguns em vivas frágoas,<br>
+Escrevêrão do bosque em muitas partes<br>
+Gostos d'Amor agora, agora mágoas.<br>
+<br>
+Porque, cruel menino, o premio partes<br>
+A quem serás<sup><a href="#rodape2" name="m_rodape2">[2]</a></sup> tyranno se lho negas, <span class="pn"><a name="pag_181">{181}</a></span><br>
+E injusto e desigual, se lho repartes?<br>
+<br>
+Porqu'enganas as almas que tão cegas<br>
+Arrastas apos ti, de error captivas?<br>
+Porque a crueis rigores as entregas?<br>
+<br>
+Para que contra hum peito assi t'esquivas,<br>
+Que humilde se sujeita a teu cuidado,<br>
+Com enganos de sombras fugitivas?<br>
+<br>
+Levas, como a menino, hum pobre a nado,<br>
+N'huma apparencia falsa embevecido,<br>
+Quando co'os braços corta o mar inchado.<br>
+<br>
+Querendo-se tornar, vê-se perdido;<br>
+Ja grita que se affoga; e tu zombando,<br>
+Da praia entre os penedos escondido!<br>
+<br>
+O triste, que conhece ir-se affogando,<br>
+No meio da arriscada zombaria<br>
+Por divino soccorro está clamando.<br>
+<br>
+Mas eu de que m'espanto, se dizia<br>
+Hum sabio que d'enganos se temesse<br>
+O que tomasse a hum cego tal por guia?<br>
+<br>
+Nunca nelle a firmeza permanece;<br>
+Se nos dá gôsto algum, muda-se logo;<br>
+Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.<br>
+<br>
+Anda co'os corações sempre em hum jôgo;<br>
+Humas vezes os faz de pedra fria,<br>
+Outras os faz de neve, outras de fogo.<br>
+<br>
+Tornando ao bosque meu que descrevia,<br>
+Despois de ter contado da frescura<br>
+Que nelle tão pomposa apparecia,<br>
+<br>
+Referir quero agora huma aventura<br>
+Que nelle ao vão Narciso aconteceo,<br>
+Digna de se chorar com mágoa pura. <span class="pn"><a name="pag_182">{182}</a></span><br>
+<br>
+Castigo foi que o moço mereceo<br>
+Por se mostrar esquivo com aquella,<br>
+Qu'em viva pedra Juno converteo.<br>
+<br>
+Ardia em fogo d'alma a vãa donzella,<br>
+Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,<br>
+Quando ella mais se abraza, mais congela.<br>
+<br>
+E quando a fraca Nympha mais de siso<br>
+Mostrava hum signal certo de firmeza,<br>
+Então se provocava o moço a riso.<br>
+<br>
+Ja d'huma profundissima tristeza<br>
+A descora o rigor que a consumia.<br>
+Como diz desfavor mal com belleza!<br>
+<br>
+O gelado pastor folgava e ria;<br>
+Mas vendo-a de seu gôsto andar contente,<br>
+Por não a contentar s'entristecia.<br>
+<br>
+He tal o seu rigor, que não consente<br>
+Que seja o gôsto proprio festejado;<br>
+Antes disso se mostra descontente.<br>
+<br>
+Mas o cego Cupido, d'affrontado,<br>
+Em vingança da fé que desprezou,<br>
+Fez que fosse de si mesmo enganado.<br>
+<br>
+Casualmente hum dia se chegou<br>
+A beber n'huma fonte crystallina,<br>
+Que de si nova sêde lhe causou.<br>
+<br>
+Vendo a sua figura peregrina<br>
+Que a fonte dentro em si representava,<br>
+Se perdeo por imagem tão divina.<br>
+<br>
+Como ja, d'enlevado, não cuidava<br>
+Nos enganos que a sombra lhe fazia,<br>
+Vendo o formoso rosto, suspirava.<br>
+<br>
+Por as avaras ágoas se metia; <span class="pn"><a name="pag_183">{183}</a></span><br>
+E quanto mais molhava os tenros braços,<br>
+Então mais vivamente o fogo ardia.<br>
+<br>
+Vendo-se assi prender em duros laços,<br>
+Ao sentimento obriga a paciencia,<br>
+Dando, fóra de si, ao vento abraços.<br>
+<br>
+Embevecido todo n'apparencia,<br>
+Sem saber de cuidado o que sentia,<br>
+Não fez ao doce engano resistencia.<br>
+<br>
+Ao ver-se longe mais, mais perto via<br>
+O peregrino gesto; e se chegava,<br>
+Então para mais longe lhe fugia.<br>
+<br>
+Vendo, emfim, como em tudo o remedava<br>
+Cahio no torpe engano que tivera,<br>
+A tempo que de si ja preso estava.<br>
+<br>
+A belleza que a tantas morte dera,<br>
+De si mesma se abraza e se captiva.<br>
+Quão longe então de si ver-se quizera!<br>
+<br>
+Ella se abranda propria; ella se esquiva;<br>
+E sendo ella somente a que se amava,<br>
+Ella se chama ingrata e fugitiva.<br>
+<br>
+A formosura, pois, que namorava,<br>
+Com tal difficuldade era seguida,<br>
+Qu'estando dentro em si, mui longe estava.<br>
+<br>
+A solitaria Nympha, qu'escondida<br>
+Ja nas cavernas concavas se via,<br>
+Dos males que lhe ouvio foi commovida.<br>
+<br>
+Das namoradas mágoas que dizia<br>
+O namorado moço, ella somente<br>
+Os ultimos accentos repetia.<br>
+<br>
+Elle vendo-se estar alli presente,<br>
+As crystallinas ágoas accusava <span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span><br>
+De que ellas o fazião descontente.<br>
+<br>
+Outras vezes á fonte, quando a olhava,<br>
+Ja cego, e sem juizo, agradecia<br>
+A figura que dentro lhe mostrava.<br>
+<br>
+Mas vendo qu'ella em nada se dohia<br>
+De seu grave tormento, grita e chora.<br>
+Quanto erra quem de sombras se confia!<br>
+<br>
+Ja lhe pede que saia para fóra.<br>
+Ignorando que sempre fóra esteve<br>
+A belleza que nelle proprio mora.<br>
+<br>
+Despois que longo espaço se deteve<br>
+Nestes queixumes seus tão lastimosos,<br>
+Que com tão longo ser, julgou por breve;<br>
+<br>
+Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,<br>
+Do valle se despede e da espessura,<br>
+Dando soluços da alma vagarosos.<br>
+<br>
+Entregue na vontade da ventura,<br>
+Ou, por melhor dizer, de seus enganos,<br>
+Ao centro se arrojou da fonte pura.<br>
+<br>
+Dest'arte feneceo em tenros anos<br>
+Narciso, dando exemplo á formosura<br>
+De que tema, se he tal, tambem seus danos.<br>
+<br>
+Sentimento mostrou da sorte dura<br>
+O namorado Jupiter, mudando<br>
+Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura.<br>
+<br>
+Aquellas claras ágoas rodeando,<br>
+Onde por seus amores se perdeo,<br>
+Está despois da morte acompanhando.<br>
+<br>
+Tanto no seu engano procedeo,<br>
+Que não sabe na morte inda apartar-se<br>
+Dos erros que na vida commetteo. <span class="pn"><a name="pag_185">{185}</a></span><br>
+<br>
+Bem póde o coração desenganar-se,<br>
+Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,<br>
+Não costuma na morte resfriar-se.<br>
+<br>
+Porque despois do corpo sepultado,<br>
+Prisão onde s'encerra o fraco esprito,<br>
+Eternamente chora o seu cuidado.<br>
+<br>
+E das escuras ágoas do Cocito<br>
+A rapida corrente refreando,<br>
+Celebra o lindo gesto n'alma escrito.<br>
+<br>
+Lá se está co'os favores recreando;<br>
+E se foi desprezado, lá padece,<br>
+As duras esquivanças lamentando.<br>
+<br>
+Nem dos avaros olhos lá s'esquece,<br>
+Que de formoso verde a terra esmaltão,<br>
+Por não ver os do triste qu'endoudece.<br>
+<br>
+Assi que os desfavores nunca faltão,<br>
+Até despois da morte perseguindo<br>
+Hum triste coração que desbaratão.<br>
+<br>
+Triste de quem em vão lhe vai fugindo!
+</blockquote>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape2" name="rodape2">[2]</a></sup> Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que
+parece, corrigido por mão estranha. A versificação está certa,
+mas o sentido he absurdo: e se a verdadeira lição não he:</p>
+
+<blockquote>
+Porque, cruel menino, o premio partes<br>
+De modo que es tyranno, quando o negas,<br>
+E injusto e desigual, quando o repartes?
+</blockquote>
+
+<p class="ni">não podemos adivinhar qual seja. <em>Nota dos Editores.</em></p>
+</div>
+
+
+<h3>ELEGIA VII.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>o pé d'hum'alta faia vi sentado,<br>
+N'hum valle deleitoso e bem florido,<br>
+A Almeno, pastor triste e namorado.<br>
+<br>
+Outro no mundo póde haver nascido<br>
+Mui queixoso de Amor; porém não tanto,<br>
+Como este amante, por amar perdido.<br>
+<br>
+Ja Venus hia recolhendo o manto <span class="pn"><a name="pag_186">{186}</a></span><br>
+Escuro com que a terra se mostrava,<br>
+Para ajudar d'Almeno o triste pranto.<br>
+<br>
+Apollo sôbre os montes derramava<br>
+Seus dourados cabellos, que fazião<br>
+Ao triste inda mais triste do qu'estava.<br>
+<br>
+As flores por o prado s'estendião.<br>
+E das que finas mais erão as côres,<br>
+Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião.<br>
+<br>
+Ja guiavão seus gados os pastores,<br>
+Que, deixando-os no campo deleitoso,<br>
+Com ellas praticavão só d'amores.<br>
+<br>
+Mas era esta alegria hum perigoso<br>
+Estado para Almeno entristecido;<br>
+E por isso a deixava pressuroso,<br>
+<br>
+Buscando outro lugar: contra Cupido<br>
+Claramente exclamava, e o arguia<br>
+De contrário, d'astuto e fementido.<br>
+<br>
+De quando em quando a frauta que tangia.<br>
+Numeros dava ao ar tão docemente,<br>
+Que as aves provocava a melodia.<br>
+<br>
+Cego assi desta dor, deste accidente,<br>
+Com os olhos em lagrimas banhados,<br>
+Postos no ceo, dizia tristemente:<br>
+<br>
+Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,<br>
+Porque mos déste tu para offender-te,<br>
+Quando livre vivia nestes prados?<br>
+<br>
+Não vês quanto me negas merecer-te<br>
+O bem que me mostravas, se deixasse<br>
+Ferir meu coração para soffrer-te?<br>
+<br>
+Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?<br>
+Ou qual me has promettido, que hajas dado? <span class="pn"><a name="pag_187">{187}</a></span><br>
+Ou qual déste, que muito não custasse?<br>
+<br>
+Mostra-me quem puzeste em tal estado,<br>
+Que pudesse viver de ti contente,<br>
+Ou quem de ti não fosse lastimado?<br>
+<br>
+Inimigo cruel de toda a gente,<br>
+Ja não quero teu bem, só meu mal quero;<br>
+Se de ti nem meu mal se me consente.<br>
+<br>
+Inda que de teus bens ja desespéro,<br>
+Não desprézo dos males o tormento;<br>
+Antes o prezo mais, quando he mais fero.<br>
+<br>
+Arrebatado deste pensamento<br>
+Hia o triste pastor com hum contino<br>
+Pranto, que lhe avivava o sentimento.<br>
+<br>
+Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,<br>
+Qu'era de Amor plantado; e parecendo<br>
+Lhe está menos humano que divino.<br>
+<br>
+Nelle a dor sua esteve suspendendo:<br>
+Porém não, como cervo, está ferido,<br>
+Reparo ao mal que leva pretendendo.<br>
+<br>
+Apparecia o sítio tão florído,<br>
+Que provocava a não vulgar espanto,<br>
+Entre huns altos ulmeiros escondido.<br>
+<br>
+D'hum crystallino orvalho tinha o manto,<br>
+Quando entrou nelle o misero pastor,<br>
+E as tenções explicou neste seu canto.<br>
+<br>
+Ó bellas rosas, vós que sois amor,<br>
+He por dita humildade, ou he baixeza,<br>
+O ter apar de vós murta, que he dor?<br>
+<br>
+Papoulas conversais, que são tristeza!<br>
+Não desprezais o cardo, que he tormento!<br>
+Admittis a hortelãa, sendo crueza! <span class="pn"><a name="pag_188">{188}</a></span><br>
+<br>
+Dos goivos longe vejo o sentimento;<br>
+Dos jasmins perto estou vendo o perigo;<br>
+<span class="typo" title="no original: Do">Dos</span> malmequeres vejo o soffrimento.<br>
+<br>
+Deste me temerei como inimigo;<br>
+Mas traz por armas salva, que he razão:<br>
+Com ella acabará tambem comigo.<br>
+<br>
+As minhas vem a ser huma affeição,<br>
+Que são os puros cravos misturados<br>
+Co'a vontade sujeita, que he limão.<br>
+<br>
+Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!<br>
+Ai crespa mangerona, que es prazer!<br>
+Vós sós devieis adornar os prados.<br>
+<br>
+Não pódem dous oppostos juntos ser:<br>
+Onde se põe giesta, que he lembrança,<br>
+Junto do rosmaninho, que he 'squecer?<br>
+<br>
+Bem peza do leve álamo a mudança;<br>
+Do roxo goivo anima o pensamento<br>
+Do cypreste odorifero a esperança.<br>
+<br>
+O trevo, que he sentido apartamento,<br>
+Cérca o mangericão, que se interpreta<br>
+Memoria a quem offende o esquecimento.<br>
+<br>
+Mais importuna que o jardim de Creta,<br>
+A ameixieira a flor está soltando:<br>
+A segurelha vejo, que he discreta.<br>
+<br>
+As hervas que daqui irei tomando,<br>
+São a pura cecem, qu'he saudade;<br>
+Cravos, medo de ver qual de amor ando.<br>
+<br>
+E, de ter mui perdida a liberdade,<br>
+Tomarei madresylva entendimento;<br>
+Legação tomarei, porqu'he verdade.<br>
+<br>
+Marmeleiro me dá arrependimento: <span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span><br>
+Por a salva, que he gôsto, tomarei<br>
+Coentro opposto ao meu contentamento.<br>
+<br>
+Conhecimento firme nunca achei,<br>
+Que violetas são; e, quando o houvera,<br>
+Qual meu damno então fôra, bem o sei.<br>
+<br>
+Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera<br>
+Ver-vos aqui menor, pois sois victória,<br>
+Que de mi alcançou chamma severa!<br>
+<br>
+Mas se quereis que tenha alguma glória,<br>
+Por galardão d'amar e ser sujeito,<br>
+Perderei de tormentos a memoria.<br>
+<br>
+Porém, pois mo negais, de todo engeito<br>
+A palma, qu'he ventura; e na parreira,<br>
+Qu'he'sperança perdida, me deleito.<br>
+<br>
+Entretanto co'a flor da laranjeira,<br>
+Qu'he desafio duro e arriscado,<br>
+Posso arguir da hora derradeira.<br>
+<br>
+Ja não se quer deter o meu cuidado<br>
+Com a romãa descanso: a brevidade<br>
+Das maravilhas só tẽe desejado.<br>
+<br>
+E vós, ovelhas minhas, sem piedade<br>
+Vos apartae de mi, se algum desejo<br>
+Tendes de ter do pasto mais vontade.<br>
+<br>
+Se muita de me verdes em vós vejo,<br>
+Toda a minha de ver-vos hei perdido<br>
+Á força do poder d'amor sobejo.<br>
+<br>
+Lograe do Tejo o placido ruido;<br>
+Sós lograe estas veigas florecidas:<br>
+Pois se perde o pastor vosso querido,<br>
+<br>
+Não gosteis de com elle ser perdidas. <span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>ELEGIA VIII.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>B</big>elisa, unico bem desta alma triste,<br>
+Descanso singular de minha vida,<br>
+Throno donde o poder d'Amor consiste;<br>
+<br>
+Formosa fera, a quem está rendida<br>
+D'Amor a que he mais livre liberdade,<br>
+Ganhada mais, se mais por ti perdida;<br>
+<br>
+Quão contrário parece na beldade,<br>
+Que os corações captiva com brandura,<br>
+Alguma nódoa haver de crueldade!<br>
+<br>
+Quão contrário parece em formosura,<br>
+Que deixa muito atraz quanto he humano,<br>
+Esquiva condição, ou alma dura!<br>
+<br>
+Quão mal parece em quem só co'hum engano<br>
+Póde dar vida ao coração sujeito,<br>
+Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!<br>
+<br>
+Quão mal parece que hum amor perfeito<br>
+Não seja d'outro igual remunerado,<br>
+Inda que seja, acaso, contrafeito!<br>
+<br>
+Quão mal parece estar desesperado<br>
+Quem tanto por ti soffre e tẽe soffrido,<br>
+Devendo estar de penas alliviado!<br>
+<br>
+Porém peor parece quem rendido<br>
+Não for a hum parecer que tudo rende,<br>
+Por mais qu'em seu rigor viva offendido.<br>
+<br>
+E inda peor parece quem defende<br>
+O ser essa belleza sempre amada,<br>
+Por mais qu'em vão se canse o que a pretende.<br>
+<br>
+Se quem te mostra amor te desagrada,<br>
+Só pódes pretender o não ser vista, <span class="pn"><a name="pag_191">{191}</a></span><br>
+Mas não despois de vista o ser deixada.<br>
+<br>
+Quão mal sabe o valor de tua vista<br>
+Quem cuida que o que della acaso alcança<br>
+Póde achar coração que lhe resista!<br>
+<br>
+Quão bem pareceria huma esperança<br>
+Ja concedida a meu amor ardente,<br>
+Não sempre huma mortal desconfiança!<br>
+<br>
+Se hum padecer por ti constantemente<br>
+Pudesse ser reparo a quem mais te ama,<br>
+Inda esperar pudera o ser contente.<br>
+<br>
+Mas eu temo que aquella immensa chama<br>
+Com que a teu bello imperio me levaste,<br>
+Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.<br>
+<br>
+Se a Olympica belleza assi imitaste,<br>
+Que brandamente move hum amor puro,<br>
+Porque tão dura condição tomaste?<br>
+<br>
+Qual elevado, qual soberbo muro<br>
+Este mal, que m'occupa o pensamento,<br>
+Contado, não tornára menos duro?<br>
+<br>
+Tu, qu'es a causa só de meu tormento,<br>
+Tu, que somente podes gloriar-me,<br>
+Queres que as minhas queixas leve o vento?<br>
+<br>
+Tu, que me pagarias com matar-me,<br>
+Inda a morte me negas vezes tantas?<br>
+Ai, que me deras vida em morte dar-me!<br>
+<br>
+Usa piedade, tu, que o mundo espantas<br>
+Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,<br>
+Se acaso a vê-lo brandos os levantas.<br>
+<br>
+Estende-se na terra o negro manto,<br>
+E á noute dá alegria a luz alheia;<br>
+Mas nos meus olhos tristes dura o pranto. <span class="pn"><a name="pag_192">{192}</a></span><br>
+<br>
+Torna a manhãa despois alegre e cheia<br>
+Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora;<br>
+Mas do meu chôro nunca enxuga a veia.<br>
+<br>
+Lagrimas ja não são qu'esta alma chora,<br>
+Mas amor he vital que dentro arde,<br>
+E por a luz dos olhos salta fóra.<br>
+<br>
+Como inda a morte quer que mais aguarde?<br>
+Não tarde ja, mas corra a mal tão fero.<br>
+Mas ja por mais que corra virá tarde.<br>
+<br>
+Nem no supremo trance de ti 'spero<br>
+Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto<br>
+Queiras, crua, entender quanto te quero.<br>
+<br>
+Ai! se volveres esse bello rosto<br>
+Ao lugar triste em que morrer me vires,<br>
+Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto,<br>
+<br>
+Não quero de ti, não, que alli suspires,<br>
+Nem que de dar-me a morte te arrependas,<br>
+Mas que os olhos de ver-me então não tires.<br>
+<br>
+Assi nunca pastor a quem te rendas,<br>
+Te faça conhecer o que me fazes,<br>
+Para que com teu mal meu mal entendas!<br>
+<br>
+Como ja agora não te satisfazes<br>
+Das penas deste amor, que por querer-te,<br>
+De teu merecimento são capazes?<br>
+<br>
+Pois quem com outro merito render-te<br>
+Presume, (oh raro monstro de belleza!)<br>
+Muito mais longe está de merecer-te.<br>
+<br>
+Este si, que merece a grã crueza<br>
+Com que tu d'acabar-me a vida tratas,<br>
+Pois diante de ti, de si se preza.<br>
+<br>
+Se cuidas que com isto desbaratas <span class="pn"><a name="pag_193">{193}</a></span><br>
+O meu constante amor, porque não viva,<br>
+Elle mais vive quando mais me matas.<br>
+<br>
+Se o dar-me morte tens por glória altiva,<br>
+Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina<br>
+A matar mais de branda que d'esquiva.<br>
+<br>
+S'esta alma tua julgas por indina<br>
+Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,<br>
+Do descoberto mal a faze dina.<br>
+<br>
+Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,<br>
+A poder reduzir-te a ser piedosa?<br>
+Ou m'acaba de todo, ou me responde.<br>
+<br>
+Mas por mais que te mostres rigorosa,<br>
+Deixar meu pensamento m'he impossivel,<br>
+Igualmente que a ti não ser formosa.<br>
+<br>
+E por mais qu'esta dor seja terrivel,<br>
+Somente o contemplar a causa della,<br>
+Inda que a faz maior, a faz soffrivel<br>
+<br>
+Porém chegando a não poder soffrê-la,<br>
+Perdendo a vida; quando a morte chame,<br>
+Não perderei o gôsto de perdê-la.<br>
+<br>
+He justo qu'eu por ti mil mortes ame:<br>
+Mas vê tu se te illustra, quando offensa<br>
+Minha mortal o teu valor se chame.<br>
+<br>
+Bem vês que huma beldade tão immensa<br>
+De vencer-me tẽe glória bem pequena,<br>
+Pois só render-me tomo por defensa.<br>
+<br>
+Mas ja que amor tão puro me condena,<br>
+Contente fico assaz desta victoria;<br>
+Que não me dão meus males tanta pena,<br>
+<br>
+Quanto o serem por ti me dá de glória. <span class="pn"><a name="pag_194">{194}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>ELEGIA IX.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big> vida me aborrece, a morte quero:<br>
+Será eterno o meu mal, segundo entendo,<br>
+Pois na mor esperança desespéro.<br>
+<br>
+Sem viver vivo, por morrer vivendo<br>
+Por não verdes, Senhora, como eu vejo,<br>
+Quanto de mi por vós me ando esquecendo.<br>
+<br>
+Seja-me agradecido este desejo;<br>
+Ingrata não sejais a quem vos ama<br>
+Com puro e honestissimo despejo.<br>
+<br>
+A culpa que me pondes, ponde-a á fama,<br>
+Que pregôa de vós celeste vida<br>
+Que os corações d'amor divino inflama.<br>
+<br>
+Humana, quando não agradecida,<br>
+Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,<br>
+Antes que a alma do corpo se despida.<br>
+<br>
+Mas que posso eu fazer, pois ja não posso<br>
+Hum tormento domar tão forte e duro,<br>
+Homem formado só de carne e de osso?<br>
+<br>
+Em minha fé segura me asseguro;<br>
+Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,<br>
+Se resulta d'amor sincero e puro.<br>
+<br>
+Essa beldade santa me faz guerra;<br>
+Por ella hei de morrer, inda que veja<br>
+Tornar o brando rio em dura serra.<br>
+<br>
+Que cousa tenho eu ja que minha seja?<br>
+Quem não deseja a vossa formosura,<br>
+Não póde assegurar que o ceo deseja.<br>
+<br>
+De qu'eu sempre a deseje estae segura: <span class="pn"><a name="pag_195">{195}</a></span><br>
+Neste desejo meu nunca mudança<br>
+Hão de ver as mudanças da ventura.<br>
+<br>
+A vida tenho posta na balança<br>
+Da glória singular, do damno esquivo;<br>
+Que o perdê-la por vós he mor bonança.<br>
+<br>
+Se vos offendo, cuido que não vivo:<br>
+Olhae se muito mais que de offender-vos,<br>
+Das esperanças do viver me privo.<br>
+<br>
+O que temo somente he só perder-vos;<br>
+O que quero somente he só adorar-vos;<br>
+O que somente adoro he só querer-vos.<br>
+<br>
+Querer-vos sem deixar de venerar-vos;<br>
+Desejar-vos somente por servir-vos;<br>
+Por servir a amor vil não desejar-vos:<br>
+<br>
+Somente ver-vos, e somente ouvir-vos<br>
+Pretendo; e pois somente isto pretendo,<br>
+Deveis a estes sentidos permittir-vos.<br>
+<br>
+Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,<br>
+Como se fôra pouco isto somente!<br>
+Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?<br>
+<br>
+Se o não merece o meu amor decente;<br>
+Se morte por amar-vos se merece,<br>
+Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.<br>
+<br>
+Se vos aggrava quem por vós padece;<br>
+Se vos vẽe a offender quem vos quer tanto,<br>
+Quem desta sorte errou não desmerece.<br>
+<br>
+Que quando os olhos da razão levanto<br>
+Ao ceo d'essa rarissima belleza,<br>
+De não morrer por ella só m'espanto.<br>
+<br>
+Deixae-me contentar desta tristeza,<br>
+E fazer de meus olhos largo rio; <span class="pn"><a name="pag_196">{196}</a></span><br>
+Se algum póde abrandar vossa dureza.<br>
+<br>
+Correndo sempre as lagrimas em fio,<br>
+Farei crescer as hervas por os prados,<br>
+Pois ja d'outra alegria desconfio.<br>
+<br>
+No monte darei pasto a meus cuidados;<br>
+E serão de mi sempre entre os pastores<br>
+Esses divinos olhos celebrados.<br>
+<br>
+Aprenderão de mi os amadores<br>
+Aquillo que se chama amor sublime,<br>
+Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.<br>
+<br>
+E nenhum havera que a pena estime<br>
+Mais soberana por a causa della,<br>
+Que a que teve até então não desestime;<br>
+<br>
+E qu'inveja não mostre á minha estrella.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA X.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>ue tristes novas, ou que novo dano,<br>
+Qu'inopinado mal incerto sôa,<br>
+Tingindo de temor o vulto humano?<br>
+<br>
+Que vejo? as praias humidas de Goa<br>
+Ferver com gente attonita e turbada<br>
+Do rumor que de boca em boca vôa!<br>
+<br>
+He morto D. Miguel (ah crua espada!)<br>
+E parte da lustrosa companhia<br>
+Que alegre s'embarcou na triste Armada:<br>
+<br>
+E d'espingarda ardente e lança fria<br>
+Passado por o torpe e iniquo braço,<br>
+Que nossas altas famas injuría. <span class="pn"><a name="pag_197">{197}</a></span><br>
+<br>
+Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço,<br>
+Não ânimo d'avós claros herdado,<br>
+Com que temer se fez por longo espaço.<br>
+<br>
+Não ver-se em de redor todo cercado<br>
+D'irados inimigos, qu'exhalavão<br>
+A negra alma do corpo traspassado.<br>
+<br>
+Não as fortes palavras que voavão<br>
+A animar os incertos companheiros,<br>
+Que timidos as costas lhe mostravão.<br>
+<br>
+Mas ja postos, nos termos derradeiros,<br>
+(Rotos por partes mil e traspassados<br>
+Os membros, no valor somente inteiros)<br>
+<br>
+Os olhos (de furor acompanhados,<br>
+Qu'inda na morte as vidas amedrentão<br>
+Dos duros inimigos espantados)<br>
+<br>
+Postos no ceo, parece que presentão<br>
+A alma pura á suprema Eternidade,<br>
+Por quem os ceos e a terra se sustentão.<br>
+<br>
+E pedindo dos erros, que na idade<br>
+Immatura e innocente ja fizera,<br>
+Perdão á pia e justa Magestade,<br>
+<br>
+As rosas apartou da neve fria;<br>
+E, como debil flor, a quem fallece<br>
+O radical humor de que vivia,<br>
+<br>
+Nas mãos do Coro Angelico, que dece,<br>
+S'entrega; e vai lograr a vida eterna,<br>
+Que com morte tão justa se merece.<br>
+<br>
+Vai-te, alma, em paz á gloria sempiterna;<br>
+Vai, que quem por a Lei sacra e divina<br>
+A sólta, áquelle a dá que o ceo governa.<br>
+<br>
+Mas se de tal valor foi morte dina, <span class="pn"><a name="pag_198">{198}</a></span><br>
+A ausencia que do gôsto nos saltêa,<br>
+A perpétua saudade nos inclina.<br>
+<br>
+Deixa pois tu, formosa Cytherêa,<br>
+Do gentil filho e neto de Cyniras<br>
+O pranto por a morte horrida e fêa.<br>
+<br>
+E tu, dourado Apollo, que suspiras<br>
+Por o crespo Jacintho, moço charo,<br>
+Por quem a clara luz ao mundo tiras;<br>
+<br>
+Vinde e chorae hum moço em tudo raro,<br>
+Não de ferino dente vulnerado,<br>
+Nem de risco sujeito a algum reparo:<br>
+<br>
+Mas só de ferro imigo traspassado;<br>
+Que sem duvida incerta, ou frio medo,<br>
+A vida poz nas mãos de Marte irado.<br>
+<br>
+Tambem tu, moço Idalio, assiste quedo;<br>
+Deixa de dar o venenoso mel<br>
+A beber por os olhos, triste e ledo.<br>
+<br>
+Pois os formosos olhos de Miguel<br>
+Ja cobertos se vem do escuro manto<br>
+Da lei geral a todos mais cruel.<br>
+<br>
+E vós, filhas de Thespis, que co'o canto<br>
+Podeis bem mitigar a dor immensa<br>
+Dos irmãos generosos e alto pranto;<br>
+<br>
+Não consintais que fação larga offensa<br>
+Á grande integridade, a que se devem<br>
+Ágoas não só, do damno recompensa.<br>
+<br>
+Que ja diante os olhos me descrevem,<br>
+Quando as bocas da Fama voadora<br>
+Ao patrio e claro Tejo as novas levem,<br>
+<br>
+A profunda tristeza; qu'em hum'hora<br>
+Tal posse tomará dos altos peitos, <span class="pn"><a name="pag_199">{199}</a></span><br>
+Que delles o discurso lance fóra.<br>
+<br>
+Alli de dor os corações sujeitos<br>
+Hão de lançar de si toda a memoria<br>
+D'exemplos claros, solidos respeitos.<br>
+<br>
+Mas, porém se igualais a vida á glória,<br>
+Ó claro Dom Philippe, e pretendeis<br>
+Deixar-nos de acções vossas larga historia;<br>
+<br>
+Eu não vos persuado a que estreiteis<br>
+O coração na Estoica disciplina,<br>
+Onde livre d'affectos vos mostreis.<br>
+<br>
+Que mal a natureza determina<br>
+Medo, esperanças, dores e alegria,<br>
+Como o Cynico velho nos ensina.<br>
+<br>
+Immanidade estupida (dizia<br>
+O Sulmonense canto) e vil rudeza,<br>
+He não sentir affectos que a alma cria.<br>
+<br>
+Porém se o sentir nada for bruteza,<br>
+E se paixão devida se consente,<br>
+Tambem o sentir muito he ja fraqueza.<br>
+<br>
+Em vós hum soffrer alto s'exprimente,<br>
+Qual nos fortes Varões foi conhecido,<br>
+Como em estranha, em Lusitana gente.<br>
+<br>
+Bem conheço que o corpo assi perdido,<br>
+Como de illustre tumulo carece,<br>
+Será de brutas feras consumido.<br>
+<br>
+Mas consola-me, emfim, que se parece<br>
+Ao grande bisavô, que por a vida<br>
+Real, a sua á Maura lança offrece.<br>
+<br>
+Em pedaços a gente enfurecida<br>
+O corpo alli lhe deixa; e com mão dura<br>
+Lhe nega a sepultura merecida. <span class="pn"><a name="pag_200">{200}</a></span><br>
+<br>
+Facil he a perda aqui da sepultura:<br>
+Diogenes prudente, e Theodoro<br>
+Pouco sentem do corpo essa jactura.<br>
+<br>
+Assi formoso e inteiro, assi decoro<br>
+Adorna quem o tẽe, como o tomou,<br>
+Quando se ouvir o extremo som canoro.<br>
+<br>
+Mas ai! qual terror subito occupou<br>
+O vosso claro peito, ó Portuguezes?<br>
+Qual pavido temor vos congelou?<br>
+<br>
+Que lançadas, que golpes, que revézes<br>
+Vos fizerão fazer tamanha injúria<br>
+Aos fortes Lusitanicos arnezes?<br>
+<br>
+Ou ja de Capitão sobeja incuria,<br>
+Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava<br>
+Com seu peito dos barbaros a furia.<br>
+<br>
+Ou ja do ferreo cano a fôrça brava<br>
+Com estrondos que atroão mar e terra,<br>
+Os corações ardentes congelava?<br>
+<br>
+Ah! quem vos fez que os impetos da guerra<br>
+Não sustentasseis com valor ousado,<br>
+Desprezando o temor que a vida encerra?<br>
+<br>
+A vida por a Patria e por o Estado<br>
+Pondo nossos avós, a nós deixárão,<br>
+Em terra e mar, exemplo sublimado.<br>
+<br>
+Elles a desprezar nos ensinárão<br>
+Todo temor. Pois como agora os netos<br>
+Subitamente assi degenerárão?<br>
+<br>
+Não pódem, certo, não, viver quietos<br>
+Com feia infamia peitos generosos,<br>
+Ja em publicos lugares, ja em secretos.<br>
+<br>
+Mortos d'Esparta os Héroes valerosos <span class="pn"><a name="pag_201">{201}</a></span><br>
+Da fera multidão, fazendo extremos,<br>
+Taes Epitaphios tinhão gloriosos:<br>
+<br>
+<em>Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos<br>
+Passados do inimigo ferro, em quanto<br>
+Ás santas Leis da Patria obedecemos.</em><br>
+<br>
+Fugindo os Persas vão com frio espanto,<br>
+Mas achão as mulheres no caminho,<br>
+Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto.<br>
+<br>
+Pois do damno fugís, vendo-o visinho,<br>
+Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião)<br>
+Outra vez no materno e escuro ninho.<br>
+<br>
+Vêde quaes com mais glória ficarião,<br>
+Se aquelles que morrêrão por o Estado,<br>
+S'estes a quem mulheres injurião?<br>
+<br>
+Mas tu, claro Miguel, que ja acordado<br>
+Deste sonho tão breve, estás naquella<br>
+Tôrre do ceo, seguro e repousado;<br>
+<br>
+Onde, com Deos unida a forte e bella<br>
+Alma, com teus Maiores reluzindo,<br>
+Trocaste cada chaga em clara estrella;<br>
+<br>
+Co'os pés o crystallino ceo medindo,<br>
+Nada d'essas altissimas Espheras,<br>
+Nem da terreste aos olhos encobrindo;<br>
+<br>
+Agora hum curso e outro consideras,<br>
+Agora a vaidade dos mortaes,<br>
+Que tu tambem passáras se vivêras,<br>
+<br>
+. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .<span class="pn"><a name="pag_202">{202}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>ELEGIA XI.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e quando contemplamos as secretas<br>
+Causas, por que este mundo se sustenta,<br>
+E o revolver dos ceos e dos planetas;<br>
+<br>
+E se quando á memoria se presenta<br>
+Este curso do sol tão bem medido,<br>
+Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta;<br>
+<br>
+Aquelle effeito, tarde conhecido,<br>
+Da lua na mudança tão constante,<br>
+Que minguar e crescer he seu partido;<br>
+<br>
+Aquella natureza tão possante<br>
+Dos ceos, que tão conformes e contrarios<br>
+Caminhão, sem parar hum breve instante;<br>
+<br>
+Aquelles movimentos ordinarios,<br>
+A que responde o tempo, que não mente,<br>
+Co'os effeitos da terra necessarios;<br>
+<br>
+Se quando, emfim, revolve subtilmente<br>
+Tantas cousas a leve phantasia,<br>
+Sagaz escrutadora e diligente;<br>
+<br>
+Bem vê, se da razão se não desvia,<br>
+Aquelle unico Ser, alto e divino,<br>
+Que tudo póde, manda, move e cria.<br>
+<br>
+Sem fim e sem princípio, hum Ser contino;<br>
+Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,<br>
+Por mais que o difficulte humano atino:<br>
+<br>
+Hum saber infinito, incomprehensibil;<br>
+Huma verdade que nas cousas anda,<br>
+Que mora no visibil e invisibil.<br>
+<br>
+Esta potencia, emfim, que tudo manda, <span class="pn"><a name="pag_203">{203}</a></span><br>
+Esta Causa das causas, revestida<br>
+Foi desta nossa carne miseranda.<br>
+<br>
+Do amor e da justiça compellida,<br>
+Por os erros da gente, em mãos da gente<br>
+(Como se Deos não fôsse) deixa a vida.<br>
+<br>
+Oh Christão descuidado e negligente!<br>
+Pondera-o com discurso repousado;<br>
+E ver-te-has advertido facilmente.<br>
+<br>
+Ólha aquelle Deos alto e increado,<br>
+Senhor das cousas todas, que fundou<br>
+O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;<br>
+<br>
+Não do confuso caos, como cuidou<br>
+A falsa Theologia, e povo escuro,<br>
+Que nesta só verdade tanto errou;<br>
+<br>
+Não dos atomos leves d'Epicuro;<br>
+Não do fundo Oceano, como Thales,<br>
+Mas só do pensamento casto e puro.<br>
+<br>
+Ólha, animal humano, quanto vales,<br>
+Pois este immenso Deos por ti padece<br>
+Novo estylo de morte, novos males.<br>
+<br>
+Ólha que o sol no Olympo s'escurece,<br>
+Não por opposição de outro Planeta;<br>
+Mas só porque virtude lhe fallece.<br>
+<br>
+Não vês que a grande máchina inquieta<br>
+Do mundo se desfaz toda em tristeza,<br>
+E não por causa natural secreta?<br>
+<br>
+Não vês como se perde a Natureza?<br>
+O ar se turba? o mar batendo geme,<br>
+Desfazendo das pedras a dureza?<br>
+<br>
+Não vês que cahe o monte, a terra treme?<br>
+E que lá na remota e grande Athenas <span class="pn"><a name="pag_204">{204}</a></span><br>
+O docto Areopagita exclama e teme?<br>
+<br>
+Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,<br>
+Por o mal em qu'eu só sou o culpado,<br>
+A tamanhas affrontas, tantas penas?<br>
+<br>
+Por mi, Senhor, no mundo reputado<br>
+Por falso, e violador da sacra Lei?<br>
+A fama a ti se põe do meu peccado?<br>
+<br>
+Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei.<br>
+Pois como entre ladrões eu não padeço?<br>
+A pena a ti se dá do qu'eu errei?<br>
+<br>
+Eu servo sem valor, tu immenso preço,<br>
+Em preço vil te pões, por me tirares<br>
+Do captiveiro eterno que mereço?<br>
+<br>
+Eu por perder-te, e tu por me ganhares<br>
+Te dás aos soltos homens, que te vendem,<br>
+Só para os homens presos resgatares?<br>
+<br>
+A ti, que as almas sóltas, a ti prendem?<br>
+A ti summo Juiz, ante Juizes<br>
+Te accusão por o error dos que te offendem?<br>
+<br>
+Chamão-te malfeitor; não contradizes:<br>
+Sendo tu dos Prophetas a certeza,<br>
+Dizem que quem te fere prophetizes.<br>
+<br>
+Rim-se de ti; tu choras a crueza<br>
+Que sôbre elles virá: a gente dura,<br>
+Por quem tu vens ao mundo, te despreza.<br>
+<br>
+O teu rosto, de cuja formosura<br>
+Se veste o ceo e o sol resplandecente,<br>
+Diante quem pasmada está a Natura,<br>
+<br>
+Com cruas bofetadas da vil gente,<br>
+De precioso sangue está banhado,<br>
+Cuspido, atropellado cruelmente. <span class="pn"><a name="pag_205">{205}</a></span><br>
+<br>
+Aquelle corpo tenro e delicado,<br>
+Sôbre todos os Santos sacrosanto,<br>
+A açoutes rigorosos desangrado;<br>
+<br>
+Despois coberto mal d'hum pobre manto,<br>
+Que se pegava ás carnes magoadas<br>
+Para dobrar-lhe as dores outro tanto.<br>
+<br>
+Magoavão-no as chagas não curadas,<br>
+Hum tormento causando-lhe excessivo<br>
+Ao despir por as mãos crueis e iradas.<br>
+<br>
+As venerandas barbas de Deos vivo<br>
+De resplandor ornadas, s'arrancavão<br>
+Para desempenhar a Adão captivo.<br>
+<br>
+Com cordas por as ruas o levavão,<br>
+Levando sôbre os hombros o trophéo<br>
+Da victoria qu'as almas alcançavão.<br>
+<br>
+Ó tu, que passas, homem Cyrenêo,<br>
+Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,<br>
+Que agora, como humano, enfraqueceo.<br>
+<br>
+Ólha que o corpo afflicto do marteiro,<br>
+E dos longos jejuns debilitado,<br>
+Não póde ja co'o pêso do madeiro.<br>
+<br>
+Oh não enfraqueçais, Deos incarnado!<br>
+Essas quédas, que tanto vos magôão,<br>
+Supportae Cavalleiro sublimado.<br>
+<br>
+Aquellas altas vozes, que lá sôão,<br>
+Dos Padres são, que o Limbo tẽe escuro,<br>
+E ja de louro e palma vos corôão.<br>
+<br>
+Todos vos bradão que subais o muro<br>
+Da cidade infernal, e que arvoreis<br>
+Em cima essa bandeira mui seguro.<br>
+<br>
+Oh Santos Padres! não vos apresseis; <span class="pn"><a name="pag_206">{206}</a></span><br>
+Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão<br>
+Essas duras prisões em que jazeis.<br>
+<br>
+Aquellas mãos que o mundo edificárão,<br>
+Aquelles pés que pízão as estrellas,<br>
+Com durissimos pregos s'encravárão.<br>
+<br>
+Mas qual será o humano qu'as querellas<br>
+Da angustiada Virgem contemplasse,<br>
+Sem se mover a dor e mágoa dellas?<br>
+<br>
+E que dos olhos seus não destillasse<br>
+Tanta cópia de lagrimas ardentes,<br>
+Que carreiras no rosto sinalasse?<br>
+<br>
+Oh quem lhe víra os olhos refulgentes<br>
+Convertendo-se em fontes, e regando<br>
+Aquellas faces bellas e excellentes!<br>
+<br>
+Quem a ouvíra com vozes ir tocando<br>
+As estrellas, a quem responde o ceo,<br>
+Co'os accentos dos Anjos retumbando!<br>
+<br>
+Quem víra quando o puro rosto ergueo<br>
+A ver o Filho, que na Cruz pendia,<br>
+Donde a nossa saude descendeo!<br>
+<br>
+Que mágoas tão chorosas que diria!<br>
+Que palavras tão miseras e tristes<br>
+Para o ceo, para a gente espalharia!<br>
+<br>
+Pois que sería, Virgem, quando vistes<br>
+Com fel nojoso, e com vinagre amaro<br>
+Matar a sêde ao Filho que paristes?<br>
+<br>
+Não era este o licor suave e claro,<br>
+Que para o confortar então darieis<br>
+A quem vos era, mais que a vida, charo.<br>
+<br>
+Como, Virgem Senhora, não corrieis<br>
+A dar as puras tetas ao Cordeiro, <span class="pn"><a name="pag_207">{207}</a></span><br>
+Que padecer na Cruz com sêde vieis?<br>
+<br>
+Não era só, não, esse o verdadeiro<br>
+Poto, que vosso Filho desejava,<br>
+Morrendo por o mundo em hum madeiro;<br>
+<br>
+Mas era a salvação que alli ganhava<br>
+Para o misero Adão, que alli bebia<br>
+Na fonte que do peito lhe manava.<br>
+<br>
+Pois, ó pura e Santissima Maria,<br>
+Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto<br>
+A grave causa della o requeria;<br>
+<br>
+D'essa Fonte sagrada e peito santo<br>
+M'alcançae huma gotta, com que lave<br>
+A culpa que me aggrava e pesa tanto.<br>
+<br>
+Do licor salutifero e suave<br>
+M'abrangei, com que mate a sêde dura<br>
+Deste mundo tão cego, torpe e grave.<br>
+<br>
+Assi, Senhora, toda criatura<br>
+Que vive e vivirá, e não conhece<br>
+A Lei de vosso Filho, a abrace pura;<br>
+<br>
+O falsissimo herege, que carece<br>
+Da graça, e com damnado e falso esprito<br>
+Perturba a Santa Igreja, que florece;<br>
+<br>
+O povo pertinaz no antiguo rito,<br>
+Que só o destêrro seu, que tanto dura,<br>
+Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;<br>
+<br>
+O torpe Ismaelita, que mistura<br>
+As Leis, e com preceitos tão viciosos<br>
+Na terra estende a seita falsa e impura;<br>
+<br>
+Os idolatras maos, supersticiosos,<br>
+Varios de opiniões e de costumes,<br>
+Levados de conceitos fabulosos; <span class="pn"><a name="pag_208">{208}</a></span><br>
+<br>
+As mais remotas gentes, onde o lume<br>
+Da nossa Fé não chega, nem que tenhão<br>
+Religião alguma se presume;<br>
+<br>
+Assi todos, emfim, Senhora, venhão<br>
+A confessar hum Deos crucificado,<br>
+E por nenhum respeito se detenhão.<br>
+<br>
+E d'hum e d'outro o vício ja deixado,<br>
+O seu Nome, co'o vosso nesse dia,<br>
+Seja por todo o mundo celebrado;<br>
+<br>
+E respóndão os ceos: J<small>ESUS,</small> M<small>ARIA.</small>
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA XII. ACROSTICA.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>J</big>uizo extremo, horrifico e tremendo,<br>
+E Juiz sempiterno, alto e celeste,<br>
+Significará a terra, humedecendo.<br>
+Ver-se-ha nella hum suor que manifeste<br>
+Como em carne vem Deos, para que o veja<br>
+Homem toda esta máchina terreste;<br>
+Rei justo, que dos corpos e almas seja<br>
+Juiz; e quando o mundo cego e inculto<br>
+Sôbre espinhos crueis deitado seja,<br>
+Todo vão simulacro e gentil culto<br>
+Ousará engeitar a gente; e guerra<br>
+Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto.<br>
+Immensa luz, que as carnes desenterra,<br>
+Lançará fóra as portas vãas do Averno,<br>
+Hum Justo e outro alçando á santa terra. <span class="pn"><a name="pag_209">{209}</a></span><br>
+Outros, que são os maos, no fogo eterno<br>
+Deitará, descobrindo-se os segredos,<br>
+E sendo claro todo feito interno.<br>
+Desfeitos serão montes e penedos,<br>
+E será tudo pranto e estridor duro;<br>
+Obras de grande dor e tristes medos.<br>
+Será tornado o sol de todo escuro,<br>
+E destruida a máchina do mundo,<br>
+Sem luz as luzes todas do Orbe puro;<br>
+Altos serão os valles, e em profundo<br>
+Lugar se abaterão os altos montes;<br>
+Vibrará mares vento furibundo:<br>
+Haverá só de chammas vivas fontes:<br>
+De trombeta tremenda som terribil,<br>
+Ouvido, fara pallidas as frontes.<br>
+Responderá dos maos gemido horribil. <span class="pn"><a name="pag_210">{210}</a></span>
+</blockquote>
+
+</div>
+
+
+<div id="epistolas">
+
+<h2>EPISTOLAS.</h2>
+
+
+<h3>EPISTOLA I.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem póde ser no mundo tão quieto,<br>
+Ou quem terá tão livre o pensamento,<br>
+Quem tão exprimentado, ou tão discreto,<br>
+Tão fóra, emfim, de humano entendimento,<br>
+Que ou com público effeito, ou com secreto,<br>
+Lhe não revolva e espante o sentimento,<br>
+Deixando-lhe o juizo quasi incerto,<br>
+Ver e notar do mundo o desconcêrto?<br>
+<br>
+Quem ha que veja aquelle que vivia<br>
+De latrocinios, mortes e adulterios,<br>
+Que ao juizo das gentes merecia<br>
+Perpétua pena, immensos vituperios,<br>
+Se a Fortuna em contrário o leva e guia,<br>
+Mostrando, emfim, que tudo são mysterios,<br>
+Em alteza d'estados triumphante,<br>
+Que por livre que seja não s'espante?<br>
+<br>
+Quem ha que veja aquelle, que tão clara<br>
+Teve a vida, qu'em tudo por perfeito<br>
+O proprio Momo ás gentes o julgára,<br>
+Inda quando lhe visse aberto o peito,<br>
+Se a má Fortuna, ao bom somente avara,<br>
+O reprime, e lhe nega seu direito, <span class="pn"><a name="pag_211">{211}</a></span><br>
+Que lhe não fique o peito congelado,<br>
+Por mais e mais que seja exprimentado?<br>
+<br>
+Democrito dos deoses proferia<br>
+Que erão sós dous; a Pena, e o Beneficio.<br>
+Segredo algum será da phantasia,<br>
+De qu'eu achar não posso claro indicio.<br>
+Que se ambos vem por não cuidada via<br>
+A quem os não merece, he grande vício<br>
+Em deoses sem-justiça e sem-razão.<br>
+Mas Democrito o disse, e Paulo não.<br>
+<br>
+Dir-me-heis, que s'este estranho desconcêrto<br>
+Novamente no mundo se mostrasse,<br>
+Que por livre que fosse e mui experto,<br>
+Não era d'espantar se m'espantasse.<br>
+Mas que se ja de Socrates foi certo<br>
+Que nenhum grande caso lhe mudasse<br>
+O vulto, ou de prudente, ou de constante,<br>
+Exemplo tome delle, e não m'espante.<br>
+<br>
+Parece a razão boa; mas eu digo<br>
+Deste uso da Fortuna tão damnado<br>
+Que quanto he mais usado e mais antigo,<br>
+Tanto he mais estranhado e blasphemado.<br>
+Porque, se o Ceo, das gentes tão amigo<br>
+Não dá á Fortuna tempo limitado,<br>
+Não he para causar mui grande espanto,<br>
+Que mal tão mal olhado dure tanto?<br>
+<br>
+Outro espanto maior aqui m'enleia,<br>
+Que com quanto Fortuna tão profana<br>
+Com estes desconcertos senhoreia,<br>
+A nenhuma pessoa desengana.<br>
+Não ha ninguem, que assente, nem que creia <span class="pn"><a name="pag_212">{212}</a></span><br>
+Este discurso vão da vida humana,<br>
+Por mais que philosophe, nem qu'entenda,<br>
+Que algum pouco do mundo não pretenda.<br>
+<br>
+Diogenes pisava de Platão<br>
+Com seus sordidos pés o rico estrado,<br>
+Mostrando outra mais alta presumpção<br>
+Em desprezar o fausto tão prezado.<br>
+Diogenes, não vês que extremos são<br>
+Esses que segues, de mais alto estado?<br>
+Pois se de desprezar te prezas muito,<br>
+Ja pretendes do mundo fama e fruito.<br>
+<br>
+Deixo agora Reis grandes, cujo estudo<br>
+He fartar esta sêde cubiçosa<br>
+De querer dominar e mandar tudo,<br>
+Com fama larga e pompa sumptuosa.<br>
+Deixo aquelles que tomão por escudo<br>
+De seus vicios e vida vergonhosa<br>
+A nobreza de seus antecessores,<br>
+E não cuidão de si que são peores.<br>
+<br>
+Aquelle deixo, a quem do somno esperta<br>
+O grão favor do Rei que serve e adora,<br>
+E se mantẽe dest'aura falsa e incerta,<br>
+Que de corações tantos he senhora.<br>
+Deixo aquelles qu'estão co'a boca aberta<br>
+Por s'encher de thesouros de hora em hora,<br>
+Doentes desta falsa hydropesia,<br>
+Que quanto mais alcança, mais queria.<br>
+<br>
+Deixo outras obras vãas do vulgo errado,<br>
+A quem não ha ninguem que contradiga,<br>
+Nem de outra cousa alguma he governado,<br>
+Que d'huma opinião e usança antiga. <span class="pn"><a name="pag_213">{213}</a></span><br>
+Mas pergunto ora a Cesar esforçado,<br>
+Ora a Platão divino, que me diga,<br>
+Este das muitas terras em que andou,<br>
+Aquelle de vencê-las, que alcançou?<br>
+<br>
+Cesar dirá: Sou digno de <span class="typo" title="no original: momoria">memoria</span>:<br>
+Vencendo povos varios e esforçados,<br>
+Fui Monarca do mundo; e larga historia<br>
+Ficará de meus feitos sublimados.<br>
+He verdade: mas esse mando e glória,<br>
+Lograste-o muito tempo? Os conjurados<br>
+Bruto e Cassio dirão que, se venceste,<br>
+Emfim, emfim, ás mãos dos teus morreste.<br>
+<br>
+Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo<br>
+Fui a Sicilia, Egypto e outras partes,<br>
+Só por ver e escrever em alto estilo<br>
+Da natural sciencia e muitas artes.<br>
+O tempo he breve, e queres consumi-lo,<br>
+Platão, todo em trabalhos? e repartes<br>
+Tão mal de teu estudo as breves horas,<br>
+Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras?<br>
+<br>
+Pois quanto des que vive ja apartada<br>
+A alma desta prisão terreste e escura;<br>
+Está em tamanhas cousas occupada,<br>
+Que da fama, que fica, nada cura.<br>
+E se o corpo terreno sinta nada,<br>
+O Cynico dirá se por ventura<br>
+No campo, onde lançado morto estava,<br>
+De si os cães, ou as aves enxotava.<br>
+<br>
+Quem tão baixa tivesse a phantasia,<br>
+Que nunca em mores cousas a metesse,<br>
+Qu'em só levar seu gado á fonte fria, <span class="pn"><a name="pag_214">{214}</a></span><br>
+E mungir-lhe do leite que bebesse,<br>
+Quão bem-aventurado que sería!<br>
+Que por mais que a Fortuna revolvesse,<br>
+Nunca em si sentiria maior pena,<br>
+Que pezar-lhe de a vida ser pequena.<br>
+<br>
+Veria erguer do sol a roxa face,<br>
+Veria correr sempre a clara fonte,<br>
+Sem imaginar a ágoa donde nace,<br>
+Nem quem a luz occulta no Horizonte.<br>
+Tangendo a frauta donde o gado pace,<br>
+Conheceria as hervas do alto monte,<br>
+Em Deos creria simples e quieto,<br>
+Sem mais especular algum secreto.<br>
+<br>
+D'hum certo Trasilao se lê e escreve<br>
+Entre as cousas da velha antiguidade,<br>
+Que perdido grão tempo o siso teve<br>
+Por causa d'huma grave enfermidade;<br>
+E em quanto, de si fóra, doudo esteve,<br>
+Tinha por teima, e cria por verdade,<br>
+Qu'erão suas, das naos que navegavão,<br>
+Quantas no porto Píreo ancoravão.<br>
+<br>
+Por hum Senhor mui grande se teria,<br>
+(Além da vida alegre que passava)<br>
+Pois nas que se perdião não perdia,<br>
+E das que vinhão salvas se alegrava.<br>
+Não tardou muito tempo, quando hum dia<br>
+Huncrito, seu irmão, que ausente estava,<br>
+Á terra chega; e vendo o irmão perdido,<br>
+Do fraternal amor foi commovido.<br>
+<br>
+Aos Medicos o entrega, e com aviso<br>
+O faz estar á cura refusada. <span class="pn"><a name="pag_215">{215}</a></span><br>
+Triste! que por tornar-lhe o antigo siso<br>
+Lhe tira a doce vida descansada.<br>
+As hervas Apollineas d'improviso<br>
+O tornão á saude ja passada.<br>
+Sisudo Trasilao, ao charo irmão<br>
+Agradece a vontade, a obra não.<br>
+<br>
+Porque despois de ver-se no perigo<br>
+Do trabalho a que o siso o obrigava,<br>
+E despois de não ver o estado antigo,<br>
+Que a louca presumpção lhe apresentava:<br>
+Oh inimigo irmão, com côr de amigo!<br>
+Para que me tiraste (suspirava)<br>
+Da mais quieta vida e livre em tudo,<br>
+Que nunca pôde ter nenhum sisudo?<br>
+<br>
+Por qual Senhor algum eu me trocára,<br>
+Ou por qual algum Rei de mais grandeza?<br>
+Que me dava que o mundo se acabára,<br>
+Ou que a ordem mudasse a natureza?<br>
+Agora me he penosa a vida chara;<br>
+Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza.<br>
+Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso<br>
+Que na doudice só consiste o siso.<br>
+<br>
+Vêdes aqui, Senhor, bem claramente<br>
+Como a Fortuna em todos tẽe poder,<br>
+Senão só no que menos sabe e sente;<br>
+Em quem nenhum desejo póde haver.<br>
+Este se póde rir da cega gente;<br>
+Neste não póde nada acontecer;<br>
+Nem estara suspenso na balança<br>
+Do temor mao, da perfida esperança.<br>
+<br>
+Mas se o sereno Ceo me concedêra <span class="pn"><a name="pag_216">{216}</a></span><br>
+Qualquer quieto, humilde e doce estado,<br>
+Onde com minhas Musas só vivêra,<br>
+Sem ver-me em terra alheia degradado;<br>
+E alli outrem ninguem me conhecêra,<br>
+Nem eu conhecêra outro mais honrado,<br>
+Senão a vós, tambem como eu contente;<br>
+Que bem sei que o serieis facilmente:<br>
+<br>
+E ao longo d'huma clara e pura fonte,<br>
+Qu'em borbulhas nascendo, convidasse<br>
+Ao doce passarinho, que nos conte<br>
+Quem da chara consorte o apartasse;<br>
+Despois, cobrindo a neve o verde monte,<br>
+Ao gasalhado o frio nos levasse,<br>
+Avivando o juizo ao doce estudo,<br>
+Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo.<br>
+<br>
+Cantára-nos aquelle, que tão claro<br>
+O fez o fogo da árvore Phebêa,<br>
+A qual elle em estylo grande e raro<br>
+Louvando, o crystallino Sorga enfrêa;<br>
+Tangêra-nos na frauta Sanazaro,<br>
+Ora nos montes, ora por a arêa;<br>
+Passára celebrando o Tejo ufano<br>
+O brando e doce Lasso Castelhano.<br>
+<br>
+E comnosco tambem se achára aquella,<br>
+Cuja lembrança, e cujo claro gesto<br>
+N'alma somente vejo, porque nella<br>
+Está em essencia puro e manifesto;<br>
+Por alta influição de minha estrella<br>
+Mitigando o rigor do peito honesto,<br>
+Entretecendo rosas nos cabellos,<br>
+De que tomasse a luz o sol em vellos; <span class="pn"><a name="pag_217">{217}</a></span><br>
+<br>
+E em quanto por Verão flores colhesse,<br>
+Ou por Inverno ao fogo accommodado,<br>
+O que de mi sentíra nos dissesse,<br>
+De puro amor o peito salteado;<br>
+Não pedíra então eu, que Amor me désse<br>
+Do insano Trasilao o doudo estado;<br>
+Mas que alli me dobrasse o entendimento,<br>
+Por ter de tanto bem conhecimento.<br>
+<br>
+Mas por onde me leva a phantasia?<br>
+Porqu'imagino em bem-aventuranças,<br>
+Se tão longe a Fortuna me desvia,<br>
+Qu'inda me não consente as esperanças?<br>
+Se hum novo pensamento Amor me cria<br>
+Onde o lugar, o tempo, as esquivanças<br>
+Do bem me fazem tão desamparado,<br>
+Que não póde ser mais qui'maginado?<br>
+<br>
+Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou<br>
+Contra mi, porque mais me magoasse:<br>
+Amor a hum vão desejo me obrigou,<br>
+Só para que a Fortuna mo negasse.<br>
+O tempo a tal estado me chegou;<br>
+E nelle quiz que a vida se acabasse;<br>
+Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio;<br>
+Que até da muita vida me receio.
+</blockquote>
+
+
+<h3>EPISTOLA II.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>omo nos vossos hombros tão constantes<br>
+(Principe illustre e raro) sustenteis <span class="pn"><a name="pag_218">{218}</a></span><br>
+Tantos negocios arduos e importantes,<br>
+Dignos do largo Imperio, que regeis;<br>
+Como sempre nas armas rutilantes<br>
+Vestido, o mar e a terra segureis<br>
+Do pirata insolente, e do tyrano<br>
+Jugo do potentissimo Othomano;<br>
+<br>
+E como com virtude necessaria,<br>
+Mal entendida do juizo alheio,<br>
+Á desordem do vulgo temeraria<br>
+Na santa paz ponhais o duro freio;<br>
+Se com minha escriptura longa e vária<br>
+Vos occupasse o tempo, certo creio<br>
+Que com vagante e ociosa phantasia<br>
+Contra o commum proveito peccaria.<br>
+<br>
+E não menos sería reputado<br>
+Por doce adulador, sagaz e agudo,<br>
+Que contra meu tão baixo e triste estado<br>
+Busco favor em vós que podeis tudo,<br>
+Se contra a opinião do vulgo errado<br>
+Vos celebrasse em verso humilde e rudo.<br>
+Dirão, que com lisonja ajuda peço<br>
+Contra a miseria injusta que padeço.<br>
+<br>
+Porém, porque a verdade póde tanto<br>
+No livre arbitrio, (como disse bem<br>
+Ao Rei Dario o moço sabio e santo,<br>
+Que foi reedificar Hierusalem)<br>
+Esta m'obriga a qu'em humilde canto,<br>
+Contra a tenção que a plebe ignara tem,<br>
+Vos faça claro a quem vos não alcança;<br>
+E não de premio algum vil esperança.<br>
+<br>
+Romulo, Baccho e outros que alcançárão <span class="pn"><a name="pag_219">{219}</a></span><br>
+Nomes de semideoses soberanos,<br>
+Em quanto por o mundo exercitárão<br>
+Altos feitos, e quasi mais que humanos,<br>
+Com justissima causa se queixárão<br>
+Que não lhes respondêrão os mundanos<br>
+Favores do rumor justos e iguaes<br>
+A seus merecimentos immortaes.<br>
+<br>
+Aquelle, que nos braços poderosos<br>
+Tirou a vida ao Tingitano Anteo,<br>
+E a quem os seus trabalhos tão famosos<br>
+Fizerão Cidadão do claro ceo;<br>
+Achou que a má tenção dos invejosos<br>
+Não se doma, senão despois que o véo<br>
+Se rompe corporal: porque na vida<br>
+Ninguem alcança a glória merecida.<br>
+<br>
+Pois logo, se Barões tão excellentes<br>
+Forão do baixo vulgo molestados,<br>
+O vituperio vil das rudas gentes,<br>
+He louvor dos Reaes, e sublimados.<br>
+Quem no lume dos vossos Ascendentes<br>
+Poderá pôr os olhos, que abalados<br>
+Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores<br>
+Vossos passados, Reis e Imperadores?<br>
+<br>
+Quem verá aquelle Pae da Patria sua,<br>
+Açoute do soberbo Castelhano,<br>
+Que o duro jugo só, co'a espada nua,<br>
+Removeo do pescoço Lusitano,<br>
+Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua<br>
+Memoria causará, se não m'engano,<br>
+Que qualquer teu menor tanto s'estime,<br>
+Que nunca possa ser senão sublime? <span class="pn"><a name="pag_220">{220}</a></span><br>
+<br>
+Nisto não fallo mais, porque conheço<br>
+Que da materia se me baixa o engenho.<br>
+Mas, pois a dizer tudo m'offereço,<br>
+E dias ha que no desejo o tenho,<br>
+Sendo vós de tão alto e illustre preço,<br>
+A vida fostes pôr n'hum fraco lenho,<br>
+Por largo mar e undosa tempestade,<br>
+Só por servir á Regia Magestade.<br>
+<br>
+E despois de tomar a redea dura<br>
+Na mão, do povo indomito qu'estava<br>
+Costumado a larguezas, e á soltura<br>
+Do pezado govêrno que acabava;<br>
+Quem não terá por santa e justa cura,<br>
+Qual do vosso conceito s'esperava,<br>
+A tão desenfreada enfermidade<br>
+Applicar-lhe contrária qualidade?<br>
+<br>
+Não he muito, Senhor, se o moderado<br>
+Govêrno se blasphema e se desama;<br>
+Porque o povo á largueza costumado,<br>
+Á lei serena e justa, dura chama.<br>
+Pois o zelo em virtude só fundado<br>
+De salvar almas da Tartarea flama<br>
+Com a ágoa salutifera de Christo,<br>
+Poderá por ventura ser malquisto?<br>
+<br>
+Quem quizesse negar tão grã verdade,<br>
+Qual he o seu effeito santo e pio;<br>
+Negue tambem ao sol a claridade,<br>
+E certifique mais que o fogo he frio.<br>
+Se o successo he contrário da vontade<br>
+Nas obras que são boas, e ha desvio; <span class="pn"><a name="pag_221">{221}</a></span><br>
+Está nas mãos dos homens comettellas,<br>
+E nas de Deos está o successo dellas.<br>
+<br>
+Sei eu, e sabem todos que os futuros<br>
+Verão por vós o Estado accrescentado,<br>
+Serão memoria vossa os fortes muros<br>
+Do Cambaico Damão bem sustendado:<br>
+Da ruina mortal serão seguros,<br>
+Tendo todo o alicerce seu fundado<br>
+Sôbre orfãas amparadas com maridos,<br>
+E pagos os serviços bem devidos.<br>
+<br>
+Quãmanha infamia ao Principe he perder-se<br>
+Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,<br>
+Tanto por glória grande deve ter-se<br>
+Se accrescentado e próspero o deixou.<br>
+Nunca consentio Roma ennobrecer-se<br>
+Com triumphos alguem, se não ganhou<br>
+Provincia com que o Imperio s'augmentasse,<br>
+Por maiores victorias qu'alcançasse.<br>
+<br>
+Póde tomar o vosso nome dino<br>
+Damão, por honra sua clara e pura,<br>
+Como ja do primeiro Constantino<br>
+Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.<br>
+E tu, Rei, que no Reino Neptunino,<br>
+Lá no seio Gangetico a Natura<br>
+Te aposentou, de ser tão inimigo<br>
+Deste Estado não ficas sem castigo.<br>
+<br>
+Bem viste contra ti nadantes aves<br>
+Cortar a espumosa ágoa navegando;<br>
+Ouviste o som das tubas, não suaves,<br>
+Mas com temor horrifero soando;<br>
+Sentiste os golpes asperos e graves <span class="pn"><a name="pag_222">{222}</a></span><br>
+Do Lusitano braço nunca brando.<br>
+Não soffreste o grão brado penetrante,<br>
+Que os trovões imitava do Tonante.<br>
+<br>
+Mas antes dando as costas e a victoria<br>
+Á Bragancez ventura não corrido,<br>
+Déste bem a entender quão grande glória<br>
+He de tal vencedor o ser vencido.<br>
+Quem faz obras tão dignas de memoria<br>
+Sempre será famoso e conhecido,<br>
+Onde os altos juizos o estimarem,<br>
+Qu'estes sós tẽe poder de fama darem.<br>
+<br>
+Não vos temais, Senhor, do povo ignaro,<br>
+Tão ingrato a quem tanto faz por elle;<br>
+Mas sabei qu'he signal de serdes claro<br>
+O ser agora tão malquisto delle.<br>
+Themistocles, da patria sua amparo,<br>
+O forte e liberal Cimon, e aquelle<br>
+Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,<br>
+Testimunhas serão de quanto digo.<br>
+<br>
+Pois ao justo Aristídes hum robusto,<br>
+Votando no ostracismo costumado,<br>
+Lhe disse claro assi: Porque era justo<br>
+Desejava que fosse desterrado.<br>
+Pachitas por fugir do povo injusto<br>
+Calumnioso, dando no Senado<br>
+Conta de Lesbos, qu'elle ja mandára,<br>
+Se tirou co'o seu ferro a vida chara.<br>
+<br>
+Demosthenes, lançado das tormentas<br>
+Populares, Ó Pallas! foi dizendo,<br>
+Que de tres monstros grandes te contentas,<br>
+Do drago e moucho, e do vil povo horrendo! <span class="pn"><a name="pag_223">{223}</a></span><br>
+Que glórias immortaes houve, qu'isentas<br>
+Do veneno vulgar fossem, vivendo?<br>
+Pois mil exemplos deixo de Romanos,<br>
+E vós tambem sois hum dos Lusitanos.
+</blockquote>
+
+
+<h3>EPISTOLA III.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>M</big>ui alto Rei, a quem os Ceos em sorte<br>
+Derão o nome augusto e sublimado<br>
+Daquelle Cavalleiro que na morte,<br>
+Por Christo, foi de settas mil passado;<br>
+Pois delle o fiel peito, casto e forte,<br>
+Co'o nome Imperial tendes tomado,<br>
+Tomae tambem a setta veneranda<br>
+Que a vós o Successor de Pedro manda.<br>
+<br>
+Ja por ordem do Ceo, que o consentio,<br>
+Tendes o braço seu, reliquia chara,<br>
+Defensor contra o gladio que ferio<br>
+O povo que David contar mandára.<br>
+No qual, pois tudo em vós se permittio,<br>
+Presagio temos, e esperança clara,<br>
+Que sereis braço forte e soberano<br>
+Contra o soberbo gladio Mauritano.<br>
+<br>
+E o que hum presagio tal agora encerra,<br>
+Nos faz ter por mais certo e verdadeiro<br>
+A setta, que vos dá quem he na terra<br>
+Dos celestes thesouros Dispenseiro:<br>
+Que as vossas settas são na justa guerra<br>
+Agudas, e entrarão por derradeiro <span class="pn"><a name="pag_224">{224}</a></span><br>
+(Cahindo a vossos pés povo sem lei)<br>
+Nos peitos que inimigos são do Rei.<br>
+<br>
+Quando vossas bandeiras despregava<br>
+Albuquerque fortissimo com glória<br>
+Por as praias de Persia, e alcançava<br>
+De Nações tão remotas a victoria;<br>
+As settas embebidas, que tirava<br>
+O arco Armusiano (he larga historia)<br>
+Nos ares, Deos querendo, se viravão,<br>
+Pregando-se nos peitos que as tiravão.<br>
+<br>
+O querido de Deos, por quem peleja,<br>
+O ar tambem e o vento conjurado<br>
+Ao atambor lhe acodem, porque veja<br>
+Que o que a Deos ama, he de Deos amado:<br>
+Os contrarios revéis á Madre Igreja<br>
+Atroarão co'o tom do Ceo irado.<br>
+Que assi deo ja favor maior que humano<br>
+A Josué Hebreo, Teodosio Hispano.<br>
+<br>
+Pois se as settas tiradas da inimiga<br>
+Corda, contra si só nocivas são,<br>
+Que farão, Rei, as vossas que tẽe liga<br>
+Com a que ja tocou Sebastião?<br>
+Tinta vem do seu sangue, com que obriga<br>
+A levantar a Deos o coração,<br>
+Crendo bem que as que vós despedireis,<br>
+No sangue Sarraceno as tingireis.<br>
+<br>
+Ascanio, (se trazer me he concedido<br>
+Entre santos exemplos hum profano)<br>
+Rei do Imperio, despois tão conhecido,<br>
+De Roma, e só reliquia do Troiano,<br>
+Vingou com setta e ânimo atrevido <span class="pn"><a name="pag_225">{225}</a></span><br>
+As soberbas palavras de Numano;<br>
+E logo foi dalli remunerado<br>
+Com louvores de Apollo, e celebrado.<br>
+<br>
+Assi vós, Rei, que fostes segurança<br>
+De nossa liberdade, e que nos dais<br>
+De grandes bens certissima esperança;<br>
+Nos costumes, e aspecto que mostrais,<br>
+Concebemos segura confiança<br>
+Que Deos, a quem servis e venerais,<br>
+Vos fara vingador dos seus revéis,<br>
+E os premios vos dará que mereceis.<br>
+<br>
+Estes humildes versos, que pregão<br>
+São destes vossos Reinos com verdade,<br>
+Recebei com benigna e Real mão,<br>
+Pois he devida a Reis benignidade.<br>
+Tenhão (se não merecem galardão)<br>
+Favor sequer da Regia Magestade:<br>
+Assi tenhais de quem ja tendes tanto,<br>
+Com o nome e reliquia, favor santo.
+</blockquote>
+
+
+<h3>EPISTOLA IV.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>enhora, s'encobrir por algum'arte<br>
+Pudera esta occasião de meu tormento,<br>
+Não creias que chegára a declarar-te<br>
+Este meu perigoso pensamento.<br>
+Mas por mais que te offenda, não sou parte<br>
+No crime de tamanho atrevimento: <span class="pn"><a name="pag_226">{226}</a></span><br>
+Elle he d'amor; e delle fui forçado<br>
+A que te declarasse o meu cuidado.<br>
+<br>
+Se merece castigo a confiança<br>
+Com que descubro agora o que padeço,<br>
+Aqui prompto me tens; toma a vingança<br>
+Que por tão grave culpa te mereço.<br>
+Bem me podes negar toda esperança,<br>
+Mas eu não desistir deste comêço;<br>
+Porque tempo e Fortuna não são parte<br>
+Para deixar hum'hora só de amar-te.<br>
+<br>
+Ja que ver-te os meus olhos alcançárão,<br>
+Descansem neste bem com alegria,<br>
+Pois ja com ver os teus tanto ganhárão,<br>
+Quanto, estando sem vê-los, se perdia.<br>
+Que glória querem mais, se a ver chegárão<br>
+Aquella pura luz que vence ao dia?<br>
+Qual mor bem ha no mundo que querer-te,<br>
+Se não ha mais que ver despois de ver-te?<br>
+<br>
+Minhas dores mortaes, bella Senhora,<br>
+Tirárão a virtude ao soffrimento;<br>
+E fazendo-se mais em qualquer hora,<br>
+Levando vão traz ti meu pensamento:<br>
+Porém soberbos vejo desde agora,<br>
+Por a causa gentil de seu tormento,<br>
+Minha alma, meu desejo, meu sentido,<br>
+Porque á tua belleza se hão rendido.<br>
+<br>
+A par de tua rara formosura<br>
+Se desconhece o mor merecimento;<br>
+A tua claridade torna escura<br>
+Do sol a clara luz em hum momento.<br>
+Se Zeuxis ao formar bella figura, <span class="pn"><a name="pag_227">{227}</a></span><br>
+A vista em ti pudera pôr attento,<br>
+Mais alto original houvera achado<br>
+Para admirar o mundo co'o traslado.<br>
+<br>
+Aquelles qu'escrevêrão mil louvores<br>
+De formosura, graça e gentileza,<br>
+Todos forão, Senhora, huns borradores<br>
+De tua perfeitissima belleza.<br>
+Agora se vê claro em teus primores<br>
+Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;<br>
+E qu'erão os seus cantos prophecias<br>
+Do que havias de ser em nossos dias.<br>
+<br>
+Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta<br>
+Em mi o não render-te amante a vida,<br>
+E se deixar d'amar glória tão alta<br>
+Era digno da pena mais crescida.<br>
+Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta<br>
+Co'o castigo de culpa assi atrevida:<br>
+E quando della caia, maior glória<br>
+Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia. <span class="pn"><a name="pag_228">{228}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+</div>
+
+
+
+<div id="oitavas">
+
+<h2>OITAVAS.</h2>
+
+
+<h3>GLOSA DO SONETO 14.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espois que a clara Aurora a noite escura<br>
+Com novo resplandor foi desfazendo,<br>
+E Phebo por os montes e espessura<br>
+Os seus dourados raios estendendo;<br>
+Se buscava nos valles a verdura<br>
+O manso gado a luz serena vendo,<br>
+Quando a férvida sésta ja abrazava,<br>
+<em>Todo animal da calma repousava.</em><br>
+<br>
+Ja por fugir do sol o fogo ardente,<br>
+As sombras os rebanhos vão buscando;<br>
+Os tenros cabritinhos juntamente<br>
+Apos as mansas mães hião saltando;<br>
+Tangendo as suas frautas docemente<br>
+Os pastores, estavão enganando<br>
+A grã chamma solar qu'então ardia;<br>
+<em>Só Liso o ardor della não sentia.</em><br>
+<br>
+Tristes lembranças tanto o traspassavão,<br>
+Que a dura sésta nelles só passava;<br>
+O tempo qu'em prazer outros gastavão,<br>
+Em celebrar seu mal elle o gastava;<br>
+As festas que com jogos celebravão,<br>
+Elle com suspirar as celebrava: <span class="pn"><a name="pag_229">{229}</a></span><br>
+Nada buscava mais, mais não queria<br>
+<em>Que o repouso do fogo em qu'elle ardia.</em><br>
+<br>
+Os repetidos jogos dos pastores,<br>
+As lutas entre a rama repetidas,<br>
+Em nada lhe divertem suas dores;<br>
+Mas antes n'alegria as vê crescidas.<br>
+Como o repouso roubão os amores<br>
+Ás almas que para elles são nascidas,<br>
+Elle, todo o repouso qu'esperava,<br>
+<em>Consistia na Nympha que buscava.</em><br>
+<br>
+Com o chôro, que ja corria em fio<br>
+Por o pallido rosto, augmenta as fontes,<br>
+Que levão ágoa estranha ao claro rio<br>
+Que os valles vai regando entre altos montes.<br>
+Com suspiros a quem o ecco pio<br>
+Responde de apartados horizontes,<br>
+Os ventos parecia qu'enfreava,<br>
+<em>Os montes parecia que abalava.</em><br>
+<br>
+Que ás queixas de seus doces pensamentos<br>
+Se movessem os montes mais constantes,<br>
+Se parassem os mais veloces ventos,<br>
+Qu'estavão, que corrião circumstantes,<br>
+Bem se devia á dor de seus tormentos,<br>
+E inda que fosse em peitos de diamantes;<br>
+Que hum peito de diamante abrandaria<br>
+<em>O triste som das mágoas que dizia.</em><br>
+<br>
+Porém elle as dizia a outro peito,<br>
+Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:<br>
+A fé lh'encarecia, a que sogeito<br>
+O tinha em pena eterna o amor puro;<br>
+Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito, <span class="pn"><a name="pag_230">{230}</a></span><br>
+Quanto mais offendido, mais seguro:<br>
+A Nympha mais segura tudo ouvia,<br>
+<em>Mas nada o duro peito commovia.</em><br>
+<br>
+As lástimas aqui tanto crescêrão,<br>
+Que s'em montes de Hircania s'escuitárão,<br>
+Tigres nos seios seus mover puderão,<br>
+E pedras nos seus cumes abrandárão.<br>
+Mas se no peito as tristes vozes dérão<br>
+Daquella fera humana que buscárão,<br>
+Elle d'as admittir se retirava;<br>
+<em>Que na vontade de outro pôsto estava.</em><br>
+<br>
+Desenganado ja da triste sorte,<br>
+De que mal fino amor se desengana,<br>
+Com a desperança só de sua morte<br>
+Aquellas penas últimas engana.<br>
+Deixando na espessura o claro Norte,<br>
+Para elle de outra luz mais soberana,<br>
+A hum valle aberto então sahir procura,<br>
+<em>Cansado ja de andar por a espessura.</em><br>
+<br>
+Deixando as suas cabras que pascessem<br>
+Naquelle verde prado as frescas flores;<br>
+Porque os Satyros leves o soubessem,<br>
+E os sylvestres Faunos amadores;<br>
+Tambem porque os pastores o entendessem,<br>
+Todo o processo e fim de seus amores<br>
+Escreveo (sem em nada haver mudança)<br>
+<em>No tronco d'huma faia por lembrança.</em><br>
+<br>
+Por lembrança no tronco d'huma faia,<br>
+Que vai sahindo ao ceo de puro altiva<br>
+Na verde, prateada e aurea praia,<br>
+Por onde o claro Tejo se deriva; <span class="pn"><a name="pag_231">{231}</a></span><br>
+Porque tambem ao ceo sua dor saia<br>
+Sôbre aquella corrente fugitiva,<br>
+Escrita no papel da natureza;<br>
+<em>Escreve estas palavras de tristeza:</em><br>
+<br>
+Natercia, Nympha bella, por quem vivo<br>
+Em tal tormento, tempo algum me olhou;<br>
+Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo<br>
+Daquelle brando olhar que m'enganou,<br>
+O amor tornava em desamor esquivo;<br>
+E d'hum tormento tal a outro passou.<br>
+Em cousas tão sujeitas a mudança<br>
+<em>Nunca ponha ninguem sua esperança.</em><br>
+<br>
+Para dar proveitosos desenganos<br>
+Dos enganos que são de Amor effeitos,<br>
+E dos dous sexos publicar, humanos,<br>
+A origem das mudanças de seus peitos;<br>
+Estas letras aqui por longos anos<br>
+Digão a corações a amar sujeitos<br>
+Em peito varonil, que de ventura,<br>
+<em>Em peito feminil, que de natura...</em><br>
+<br>
+Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado<br>
+Cahio ao pé da faia em qu'escrevia,<br>
+Não podendo seguir o começado,<br>
+Porque a alma ja do corpo lhe sahia.<br>
+Tres vezes, com accento mal formado,<br>
+Para exemplo futuro repetia:<br>
+Amantes, entendei que a mór belleza<br>
+<em>Somente em ser mudavel tem firmeza.</em> <span class="pn"><a name="pag_232">{232}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<h3>GLOSA DO SONETO 194.</h3>
+
+<blockquote>
+<em><big>C</big>á nesta Babylonia adonde mana</em><br>
+Hypocrisia, engano e falsidade;<br>
+Cá donde ousada toda carne humana<br>
+A todo arbitrio vive da vontade;<br>
+Cá donde enrouqueceo da Lusitana<br>
+Musa o furor heroico e suavidade;<br>
+Cá donde se produz por cega via<br>
+<em>Materia a quanto mal o mundo cría</em>;<br>
+<br>
+<em>Cá donde o puro Amor não tẽe valia</em>,<br>
+Porque Baccho o tẽe hoje desterrado;<br>
+Cá donde a frecha d'ouro não feria,<br>
+Senão cabello preto e alfenado;<br>
+Cá donde a loura trança não se via,<br>
+Nem o rosto de sangue matizado;<br>
+Cá donde nada val a glória humana,<br>
+<em>Que a mãe, que manda mais, tudo profana</em>;<br>
+<br>
+<em>Cá donde o mal se affina, o bem se dana</em>,<br>
+Se algum a terra em si quer produzir;<br>
+Cá donde a falsa gente Mahometana<br>
+A glória toda funda em adquirir;<br>
+Cá donde multiplica a mão tyrana,<br>
+Professa em mais crescer, matar, mentir;<br>
+Cá donde o fazer bem he villania,<br>
+<em>E póde mais que a honra a tyrannia</em>;<br>
+<br>
+<em>Cá donde a errada e cega Monarchia</em><br>
+De fabulosas leis está vivendo,<br>
+E á fôrça d'hum amor engrandecia<br>
+O nefando Alcorão em qu'está crendo; <span class="pn"><a name="pag_233">{233}</a></span><br>
+Cá donde nada val a Poesia,<br>
+E s'está da lei della escarnecendo;<br>
+Cá donde a fidalguia Mahometana<br>
+<em>Cuida qu'um nome vão a Deos engana.</em><br>
+<br>
+<em>Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza</em><br>
+Da Lusitana gente se perdeo;<br>
+E do grão Sebastião toda a grandeza<br>
+Irreparavelmente se abateo;<br>
+Cá donde algum mentir não he baixeza,<br>
+E os meritos esmola (assi cresceo<br>
+Da cobiça mortal a semrazão)<br>
+<em>Co'o esfôrço e saber, pedindo vão.</em><br>
+<br>
+<em>Ás portas da cobiça e da vileza</em><br>
+Estes netos de Agar estão sentados<br>
+Em bancos de torpissima riqueza,<br>
+Todos de tyrannia marchetados.<br>
+He do feio Alcorão summa a largueza<br>
+Que tẽe para que sejão perdoados<br>
+De quantos erros commettendo estão<br>
+<em>Cá neste escuro cáos de confusão.</em><br>
+<br>
+<em>Cumprindo o curso estou da natureza</em>,<br>
+Illustre Dama, neste labyrintho;<br>
+Mas quem usa comigo mais crueza,<br>
+He tua condição, que n'alma sinto.<br>
+Acabe-se algum dia tal tristeza,<br>
+E este sentido mal qu'em versos pinto:<br>
+E pois n'alma he sentido e coração,<br>
+<em>Ve se m'esquecerei de ti, Sião.</em> <span class="pn"><a name="pag_234">{234}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<h3>A SANTA URSULA.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>'huma formosa virgem desposada,<br>
+Que d'outras onze mil, tambem formosas,<br>
+Entrou no claro Olympo acompanhada,<br>
+Com corôas de lyrios e de rosas;<br>
+De Christo Esposo seu tão namorada,<br>
+Que delle as quiz fazer todas esposas;<br>
+Amor, vida e martyrio cantar quero,<br>
+Fiado no favor que della espero.<br>
+<br>
+Alcança, Ursula bella, (que diante<br>
+De tão bello esquadrão foste por guia)<br>
+De teu suave Amor, que de ti cante<br>
+O seu amor que no teu peito ardia.<br>
+Meu verso para ti mais se levante,<br>
+Ó Christifera, ó heroica companhia;<br>
+Tanto se mostre aqui mais soberano,<br>
+Quanto o divino Amor excede o humano.<br>
+<br>
+E vós, unica Mãe e Virgem pura,<br>
+Pois sois das que tal ordem escolhêrão,<br>
+Que fostes, sois, sereis guarda segura<br>
+Da pureza que a Deos offerecêrão;<br>
+Neste canto me dae melhor ventura<br>
+Do que atégora as Musas vãas me derão:<br>
+Vossas servas serão de mi servidas,<br>
+Cantadas suas mortes, suas vidas.<br>
+<br>
+Serenissima Infante, produzida<br>
+Do grão Tronco Real, sublime Planta;<br>
+No titulo, nas obras e na vida, <span class="pn"><a name="pag_235">{235}</a></span><br>
+Retrato natural de Ursula Santa,<br>
+Desta virgem, tambem de Reis nascida,<br>
+Ouvi com ledo rosto o que se canta;<br>
+Dae o sentido hum pouco a tal sogeito:<br>
+Não lhe tire seu preço o meu defeito.<br>
+<br>
+No tempo que Ciriáco se sentava<br>
+Na Cadeira de Pedro pescador,<br>
+De que com sãa doutrina apascentava<br>
+As Ovelhas de Christo, Bom Pastor;<br>
+Teve Bretanha hum Rei, que professava<br>
+A Lei que deo no mundo o Redemptor,<br>
+Justo e temente ao Ceo, pio e devoto,<br>
+Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.<br>
+<br>
+De virtudes hum novo exemplo e raro,<br>
+Em idade e belleza florecia<br>
+Ursula, por quem Noto era mais claro,<br>
+Que por todo o poder que possuia;<br>
+Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro,<br>
+Com quem todas as graças repartia;<br>
+Prudente, honesta e docta a maravilha,<br>
+De tão ditoso pae ditosa filha.<br>
+<br>
+Aquella que por o ar com ligeireza<br>
+As pennas de mil azas abre e cerra,<br>
+E que com velocissima presteza<br>
+Com outros tantos pés corre por terra;<br>
+Aquella, que de sua natureza<br>
+Não cuida em quanto diz se acerta ou erra,<br>
+E d'huma em outra boca se derrama:<br>
+Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;<br>
+<br>
+Hia por todo o mundo divulgando<br>
+Extremos desta virgem soberana, <span class="pn"><a name="pag_236">{236}</a></span><br>
+Aquella formosura celebrando<br>
+Com que Amor cego a tanta vista engana:<br>
+Mais hia a d'alma sua publicando,<br>
+Porqu'era mais divina do que humana:<br>
+Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto,<br>
+Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.<br>
+<br>
+Ouvidos seus louvores, muitas vezes<br>
+Desejou desta virgem fazer nora<br>
+Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes,<br>
+Idolatras então, cegos agora.<br>
+Ó povo cego e leve! as torpes fezes<br>
+Aparta do ouro puro e lança fóra,<br>
+Torna-te ao teu pastor, perdido gado!<br>
+Ólha que vás sem elle mal guiado.<br>
+<br>
+Hum filho deste Rei (de quem dizia<br>
+Que ser de Ursula sogro desejava)<br>
+Movido do rumor que della ouvia,<br>
+Ja dentro no seu peito a namorava.<br>
+Alli seu amor, delle, lhe offrecia;<br>
+Alli por o amor della suspirava.<br>
+Suspira elle por ella; ella suspira<br>
+Tambem por outro amor que nunca vira.<br>
+<br>
+Mandou o Rei Inglez Embaixadores<br>
+Com pompa Regia e lustre sumptuoso,<br>
+(Do grande Reino seu grandes Senhores)<br>
+A Noto, Rei não tanto poderoso.<br>
+Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores<br>
+Ardia toda do celeste Esposo)<br>
+Para esposa do filho, que sabia<br>
+Que ja d'amores della todo ardia.<br>
+<br>
+O Rei Bretão se achava descontente <span class="pn"><a name="pag_237">{237}</a></span><br>
+Com a nova embaixada de Inglaterra:<br>
+Receia que se nella não consente,<br>
+O gentio lhe mova cruel guerra:<br>
+Porque sendo mais rico e mais potente,<br>
+Assi no largo mar, como na terra,<br>
+Quando desprezos visse de seu rôgo,<br>
+Podia pôr Bretanha a ferro e fogo.<br>
+<br>
+Sôbre este não errado pensamento<br>
+Do medo de perder seu senhorio,<br>
+Novo discurso tinha e novo intento,<br>
+Com que se achava mais medroso e frio.<br>
+Estranhava o fazer ajuntamento<br>
+Da catholica filha co'hum gentio;<br>
+Pois nem a Lei de Christo o permittia,<br>
+Nem Ursula fiel o admittiria.<br>
+<br>
+Estando o pae em tal angústia pôsto,<br>
+Divinamente a filha ja inspirada,<br>
+Lhe assegurava com sereno rosto<br>
+Que consentir podia na embaixada;<br>
+Dizendo que se o Inglez levava gôsto<br>
+D'ella com seu herdeiro ser casada,<br>
+Primeiro lhe mandasse dez donzellas,<br>
+Do Reino as mais illustres, as mais bellas.<br>
+<br>
+Que mil daria a cada virgem destas,<br>
+E que a ella outras mil tambem daria,<br>
+Todas de claro sangue, e em vista honestas.<br>
+(Dest'arte a conta de onze mil fazia)<br>
+Que por trez annos dilação nas festas,<br>
+Além do ja pedido, lhe pedia;<br>
+E naos e mantimentos, porque todas<br>
+Fossem com ella a Roma antes das bodas. <span class="pn"><a name="pag_238">{238}</a></span><br>
+<br>
+Alli sua pureza e virgindade<br>
+Queria com solemne e sacro voto<br>
+Consagrar á divina Potestade,<br>
+Que o ceo e a terra fez de proprio moto.<br>
+E que deixasse a vãa gentilidade<br>
+Seu filho, para genro ser de Noto,<br>
+Para que neste espaço doutrinado<br>
+Fosse na Fé de Christo, e baptizado.<br>
+<br>
+Com estas condições Ursula disse<br>
+Ao charo pae, que, a ser dellas contente,<br>
+Podia responder; e despedisse<br>
+A proposta daquelle Rei potente:<br>
+Ou porque ouvindo-as elle desistisse,<br>
+Podendo-se acceitar difficilmente;<br>
+Ou porque, quando as virgens concedesse,<br>
+Comsigo a seu Senhor onze mil désse.<br>
+<br>
+Oh Divino saber, quão soberano<br>
+Conselho he sempre o teu! quão remontado!<br>
+Oh quanto o mor saber te cede humano,<br>
+Por mais que de razões vá mais ornado!<br>
+Ja dos idolos deixa o cego engano<br>
+O Principe, da virgem namorado;<br>
+Ja terno pede ao pae quanto ella pede;<br>
+Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.<br>
+<br>
+Ja para ti, ó virgem bella e branda,<br>
+Com huma singular velocidade,<br>
+Juntar se via d'huma e d'outra banda<br>
+De feminil nobreza tenra idade.<br>
+As naos apparelhar o Rei ja manda;<br>
+Ja nellas se recolhe a Virgindade; <span class="pn"><a name="pag_239">{239}</a></span><br>
+Ja dão para Bretanha ao vento velas.<br>
+O coração do noivo vai com ellas.<br>
+<br>
+Ja vem a tomar porto onde esperava<br>
+Ursula alvoroçada em grã maneira;<br>
+Que para as receber alli se achava,<br>
+Como senhora não, mas companheira.<br>
+Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava,<br>
+A de Christo quão pura e verdadeira.<br>
+Ja se baptiza huma e outra Dama;<br>
+Damas Ursula ja do ceo lhes chama.<br>
+<br>
+A Fama, que não sabe repousar,<br>
+Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha;<br>
+A gente que concorre não tẽe par,<br>
+Por ver a nunca vista maravilha.<br>
+Outros vem por servir e acompanhar<br>
+A Virgem de Rei nora, de Rei filha.<br>
+Movem-se muitos Bispos de Bretanha;<br>
+Pantalo em vida e morte os acompanha.<br>
+<br>
+Por ti, deixando o Reino, co'a familia<br>
+E quatro filhas suas, s'embarcou,<br>
+Juliana, Victoria, Aurea, Babilia;<br>
+(Hum filho tinha mais que mais levou)<br>
+Gerasina, Rainha de Sicilia,<br>
+E com devido amor te acompanhou;<br>
+Qu'he justo que comtigo vão Rainhas,<br>
+Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.<br>
+<br>
+Ja se partem as bellas peregrinas,<br>
+As mãos ao claro Empyreo levantadas;<br>
+Ja rompem, ja, por ondas crystallinas<br>
+As naos de formosura carregadas.<br>
+Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas, <span class="pn"><a name="pag_240">{240}</a></span><br>
+Fostes de tal belleza navegadas?<br>
+Nunca, despois que a terra descobristes,<br>
+A tal frota por vós caminho abristes.<br>
+<br>
+Com vento sempre igual, com mar bonança,<br>
+Sem perigos alguns, sem algum pejo,<br>
+Ceyla forão tomar, porto de França,<br>
+Onde pouca demora fazer vejo.<br>
+O coração da virgem não descança,<br>
+Saudosa do fim de seu desejo;<br>
+Manda que levem ferro, soltem linho<br>
+Que leve por o mar o negro pinho.<br>
+<br>
+O vento nova posse vai tomando<br>
+Das virgens que lhe são encommendadas:<br>
+Com tal prosperidade vão voando,<br>
+Que ja deixão atraz ondas salgadas:<br>
+Ja nas doces do Rheno estão entrando,<br>
+Onde tẽe suas vidas limitadas:<br>
+Huma cidade vem á lingua da ágoa,<br>
+Que de vê-las morrer não teve mágoa.<br>
+<br>
+Ah Colonia cruel, que não t'encobres<br>
+A tão formosos olhos, que seguros<br>
+As altas tôrres vião que descobres,<br>
+Lustrosos edificios, fortes muros!<br>
+Permitte o largo Ceo que fama cobres<br>
+De ser tão dura mãe de peitos duros?<br>
+Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro<br>
+Virão abrir sem dor com impio ferro!<br>
+<br>
+Estando neste porto a bella Armada<br>
+Tomando o necessario mantimento,<br>
+Para poder seguir sua jornada,<br>
+E dar terceira vez o treu ao vento; <span class="pn"><a name="pag_241">{241}</a></span><br>
+Sendo parte da noite ja passada,<br>
+A virgem lá no seu retrahimento,<br>
+Quando estava dormindo toda a frota,<br>
+A Christo orou assi, branda e devota:<br>
+<br>
+Amor, divino Amor, Amor suave,<br>
+Amor, que amando vou toda rendida;<br>
+Com quem não ha na vida pena grave,<br>
+Sem quem glória real não ha na vida;<br>
+Amor, que do meu peito tens a chave,<br>
+Amor, de cujo amor ando ferida,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Amor, que d'amor cheio e de brandura,<br>
+D'amor enches est'alma saudosa;<br>
+Amor, sem cujo amor e formosura,<br>
+Não póde nunca haver cousa formosa;<br>
+Amor, com cujo amor anda segura<br>
+Huma vida tão fraca e duvidosa,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Amor, que por amor te dispuzeste<br>
+A restaurar o mundo errado e triste;<br>
+Amor, que por amor do ceo desceste;<br>
+Amor, que por amor á Cruz subiste;<br>
+Amor, que por amor a vida déste;<br>
+Amor, que por amor a glória abriste,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Amor, que mais e mais sempre te augmentas<br>
+No coração que lá comtigo trazes;<br>
+Amor, que d'amor puro te sustentas <span class="pn"><a name="pag_242">{242}</a></span><br>
+No fogo em que tu mesmo arder me fazes;<br>
+Amor, que sem amor não te contentas,<br>
+De tudo com amor te satisfazes,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Amor, que com amor me captivaste;<br>
+(Se livre póde ser quem não captivas)<br>
+Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste<br>
+As esperanças d'antes fugitivas:<br>
+Amor, que suspirando m'ensinaste<br>
+A derramar por ti lagrimas vivas,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Quando verei hum dia em que offereça<br>
+Por ti ao cruel ferro o peito forte,<br>
+E cercada de virgens appareça<br>
+Na tua soberana e eterna Corte;<br>
+Onde lá cada huma te mereça,<br>
+Cá passando comigo a propria morte;<br>
+E todas dando o sangue juntas, todas<br>
+Celebremos comtigo eternas bodas?<br>
+<br>
+Faze-me ja, Senhor, esta vontade<br>
+Que tenho de te ver, que sempre tive,<br>
+Des que me deo lugar a tenra idade,<br>
+E lume de razão nesta alma vive.<br>
+Não queiras, meu Amor, que a saudade<br>
+Sem tal bem a mi só da vida prive;<br>
+Que se muito se alarga este destêrro,<br>
+Por ella irei a ti, não por o ferro.<br>
+<br>
+Desata o meu espirito saudoso,<br>
+Do nó mortal em que se vai detendo, <span class="pn"><a name="pag_243">{243}</a></span><br>
+Primeiro que tres vezes pressuroso<br>
+O sol os doze Signos vá correndo.<br>
+Espaço he que tomei, meu doce Esposo,<br>
+Para outro esposo meu ir entretendo:<br>
+Mas a meu amor crendo, de ti creio<br>
+Que acabes com a vida o meu receio.<br>
+<br>
+Inda neste fervente e justo rôgo<br>
+Ursula suspirando procedia,<br>
+Quando d'hum resplandor como de fogo<br>
+Divina voz ouvio, que assi dizia:<br>
+Ó virgem, que soubeste fazer jôgo<br>
+Do que no mundo tẽe maior valia,<br>
+Entende que da volta que fizeres,<br>
+Aqui quero que seja o que tu queres.<br>
+<br>
+Tanto que tal resposta do Ceo teve,<br>
+Não quiz do que esperava perder hora:<br>
+Ja lhe parece larga a noite breve,<br>
+E que ja tarda muito a bella aurora.<br>
+Em descobrindo Apollo o carro leve,<br>
+Do porto de Colonia sahio fóra.<br>
+Ja Basilêa em breve tempo toma:<br>
+E a pé d'alli partirão para Roma.<br>
+<br>
+O Pastor summo, Ciriáco santo,<br>
+As sahe a receber, e as acompanha<br>
+Com gôzo espritual, com grande espanto<br>
+De ver em tal idade fé tamanha.<br>
+Dizer se póde mal, mal cuidar quanto<br>
+Se goza o Real sangue de Bretanha,<br>
+Os veneraveis Templos visitando<br>
+Daquelles que tambem foi imitando.<br>
+<br>
+Na propria noite deste proprio dia <span class="pn"><a name="pag_244">{244}</a></span><br>
+Que Roma ver as virgens mereceo,<br>
+A quem de Pedro a Barca então regía<br>
+Revelou o que rege a terra e ceo<br>
+Que martyrio tambem receberia<br>
+Onde Ursula co'as mais o recebeo:<br>
+Deixa contente o grão Pontificado,<br>
+Desejoso de ser martyrizado.<br>
+<br>
+Por mais que todo o Clero soffre mal<br>
+Mover-se por aquellas Estrangeiras,<br>
+Movido da Vontade divinal<br>
+O bom Pastor se vai com as Cordeiras.<br>
+Hum Arcebispo leva, hum Cardeal:<br>
+Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras,<br>
+De Luca, Ravicana e de Ravenna:<br>
+Mauricio me ficava ja na penna.<br>
+<br>
+Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão,<br>
+Com tão formoso sol tantas estrellas,<br>
+Ja as ancoras debaixo acima tirão,<br>
+E de cima ja abaixo soltão vellas.<br>
+Estas naos lá adiante outras naos vírão,<br>
+Que fazendo-se vem na volta dellas;<br>
+Conhecêrão-se logo as duas frotas:<br>
+Ambas d'hum Reino são, ambas devotas.<br>
+<br>
+Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra,<br>
+Vinha de Ursula bella o bello esposo,<br>
+Que reinar não queria ja na terra,<br>
+Do ceo ja namorado e saudoso.<br>
+Do seu primeiro amor venceo a guerra<br>
+A fôrça d'outro amor mais poderoso:<br>
+Amando ja em seu Deos a esposa bella,<br>
+Para o poder achar, buscava a ella. <span class="pn"><a name="pag_245">{245}</a></span><br>
+<br>
+A mãe, ja convertida, traz comsigo;<br>
+O pae, ja Christão feito, fallecêra,<br>
+Com que soube evitar o grão castigo<br>
+Que, morrendo Gentio, não soubera.<br>
+Amor celeste, como aqui não digo<br>
+O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!)<br>
+Por meio d'huma virgem foste meio<br>
+Com que gente copiosa a Christo veio.<br>
+<br>
+Vinha mais nesta nova companhia<br>
+Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado;<br>
+Florencia, qu'em belleza florecia,<br>
+Como flor em jardim bem cultivado.<br>
+Tambem a frota Bispos dous trazia,<br>
+Hum Marcello, Clemente outro chamado:<br>
+O primeiro ja em Grecia bago teve;<br>
+Do segundo o Bispado não s'escreve.<br>
+<br>
+Outra Virgem viuva alli mais vinha,<br>
+Que desposada sendo em tenra idade,<br>
+Antes das bodas enviuvado tinha,<br>
+E promettida a Christo a castidade.<br>
+Esta do mesmo Rei era sobrinha,<br>
+Filha da Imperatriz da grã cidade,<br>
+Onde por culpa nossa, ou pouca dita,<br>
+Seu throno agora tẽe o fero Scita.<br>
+<br>
+Estes, que adverte repetida historia<br>
+Deixárão só por Deos altos Estados,<br>
+Com outros, de que he menos a memoria,<br>
+Forão divinamente amoestados<br>
+Que todos, para entrar juntos na glória,<br>
+Ao côro virginal fossem juntados, <span class="pn"><a name="pag_246">{246}</a></span><br>
+Com quem na terra Martyres serião,<br>
+E no ceo para sempre reinarião.<br>
+<br>
+Sería estranho o gôzo que sentírão<br>
+Aquellas bem nascidas almas santas,<br>
+Quando juntas alli todas se vírão<br>
+De partes tão remotas, e de tantas.<br>
+Sem estorvos, que d'antes o impedírão,<br>
+As duas, mais que todas, bellas plantas<br>
+Alli abraços se dão sem algum pejo,<br>
+Ambas conformes ja n'hum só desejo.<br>
+<br>
+Alli faria o Rei acatamento<br>
+A quem deixou da Barca o grão govêrno;<br>
+E elle, conforme a seu merecimento,<br>
+Responderia com amor paterno.<br>
+Não faltaria em tal recebimento<br>
+Prazer exterior, prazer interno;<br>
+Inda que nos estados differentes,<br>
+Todos serião huns em ser contentes.<br>
+<br>
+O vento as brancas velas não enchia,<br>
+Corria o frio Rheno então mais quedo;<br>
+Antes para Colonia não corria,<br>
+Porque as virgens não fossem lá tão cedo.<br>
+Parece que ja claro conhecia<br>
+(Oh côro virginal, sereno e ledo!)<br>
+Que lá vos esperava a impia morte.<br>
+Agora, ó Musa, conta de que sorte.<br>
+<br>
+Aquelle que na fórma de serpente<br>
+Deixou aos dous primeiros enganados,<br>
+Invejoso de ver que tanta gente<br>
+Se convertia á Lei dos Baptizados;<br>
+No caração entrou manhosamente <span class="pn"><a name="pag_247">{247}</a></span><br>
+De dous gentios Principes damnados,<br>
+Da soberba Romãa Cavaleria,<br>
+Por encurtar a Fé que s'estendia.<br>
+<br>
+A Fama os assegura com certeza<br>
+Que a virgem a Colonia ja voltava,<br>
+Com toda a casta juvenil belleza<br>
+Que por amor do Ceo peregrinava.<br>
+Fizerão avisar com grã presteza<br>
+A hum parente, que Julio se chamava,<br>
+Soberbo Capitão dos Hunnos feros;<br>
+Que todos para todas forão Neros.<br>
+<br>
+Eis logo o cego Principe gentio,<br>
+Com gente innumeravel de seu mando,<br>
+A praia a tomar vem do mesmo rio<br>
+Por onde as virgens vinhão navegando.<br>
+Ja descobrem aquelle, este navio<br>
+Os qu'estão do mais alto atalaiando:<br>
+Ás armas veloz corre o bruto povo,<br>
+Por de novo as tingir no sangue novo.<br>
+<br>
+Vindo a frota a surgir junto do muro,<br>
+Onde lhe parecia estar segura,<br>
+(Oh virgens que buscais? lugar seguro<br>
+Adonde vos espera a sepultura!)<br>
+Entra com mão armada o povo duro<br>
+Por esta peregrina formosura:<br>
+Ja começa a provar os aços fortes;<br>
+Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.<br>
+<br>
+Ja nu todas as virgens offrecião<br>
+O delicado collo, o tenro peito:<br>
+Era para caber quantas cahião,<br>
+Todo largo lugar lugar estreito. <span class="pn"><a name="pag_248">{248}</a></span><br>
+Do puro sangue os rios que corrião,<br>
+Outro vermelho mar ja tinhão feito.<br>
+Tu só, Córdula, á morte t'escondeste;<br>
+Mas despois a buscaste e recebeste.<br>
+<br>
+Ciriáco o primeiro, bem constante,<br>
+A vida ao ferro offrece sem espanto:<br>
+O moço Rei Inglez cahio diante<br>
+Daquelles castos olhos que amou tanto.<br>
+Espera, brando esposo, hum breve instante;<br>
+Espera a tua doce esposa, em tanto<br>
+Que outro Amor outro golpe lhe prepara;<br>
+E juntos entrareis na Patria chara.<br>
+<br>
+Em qual terra, ó crueis, em qual cidade,<br>
+Entre quaes gentes mais a furor dadas,<br>
+Se não usou d'amor e de piedade<br>
+Com formosas donzellas desarmadas?<br>
+Como belleza tanta e tal idade<br>
+Vos deixou arrancar vossas espadas?<br>
+Ah lobos carniceiros, tigres bravos,<br>
+Filhos da crueldade, d'ira escravos!<br>
+<br>
+De quantos animaes sustenta a terra<br>
+Nunca tanta crueza foi usada;<br>
+Inda que tenhão huns com outros guerra,<br>
+Nunca do macho a femia he lastimada:<br>
+Anda a cerva co'o cervo por a serra,<br>
+A novilha do touro acompanhada,<br>
+Á leoneza o leão defender preza:<br>
+Vós sós quebrais as leis da natureza?<br>
+<br>
+Puderão outros olhos por ventura<br>
+De lagrimas divinas escusar-se,<br>
+Vendo, cuberta ja de névoa escura, <span class="pn"><a name="pag_249">{249}</a></span><br>
+A luz de tantos bellos apagar-se?<br>
+Vendo a purpurea rosa, a cecem pura<br>
+Em tão formosas faces descorar-se?<br>
+As tranças d'ouro vendo, espedaçadas,<br>
+Por debaixo dos pés andar pizadas?<br>
+<br>
+Na fôrça desta furia accesa e brava<br>
+O Tyranno cruel a vista ergueo<br>
+Á virgem, qu'invencivel animava<br>
+As almas que juntára para o Ceo.<br>
+Assi ja envolta em sangue como andava,<br>
+Da sua formosura se venceo;<br>
+E com doces razões, que Amor ensina,<br>
+A vencê-la d'amor se determina.<br>
+<br>
+Fingindo se arrepende do passado,<br>
+(E de fingi-lo se arrepende azinha)<br>
+Sua vida lhe offrece e seu Estado,<br>
+Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha.<br>
+O seu amor lhe pede confiado;<br>
+O seu amor que dado a seu Deos tinha:<br>
+Pede-lhe o seu amor; antes não seu,<br>
+Porque ja dado o havia a quem lho deu.<br>
+<br>
+Usa de mil lisonjas, mil enganos,<br>
+Por conseguir o seu desejo bruto.<br>
+A flor logra (dizia) de teus anos,<br>
+Colhe d'essa belleza o doce fruto:<br>
+Não dês materia nova a novos danos,<br>
+Não pagues verde á morte o seu tributo:<br>
+Olha que tens em mi (não são cautelas)<br>
+Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.<br>
+<br>
+Não faças mentirosa a natureza<br>
+Que dá d'amor em ti grande esperança. <span class="pn"><a name="pag_250">{250}</a></span><br>
+Que se póde alcançar d'essa belleza,<br>
+Se ja piedade della não s'alcança?<br>
+Aos tigres, aos leões deixa a braveza,<br>
+E deixa aos meus soldados a vingança.<br>
+Se por ver-me cruel queres ser crua,<br>
+Ja te vingas de mi em cousa tua.<br>
+<br>
+Volve esses olhos ja com mais brandura;<br>
+Esses olhos, d'Amor doce morada:<br>
+Delles não faça em mi a formosura,<br>
+O qu'em tantos ja fez a minha espada.<br>
+Se queres derribar minha ventura,<br>
+Que delles estar vejo pendurada,<br>
+Acabarei de ver quão pouca tenho,<br>
+Pois donde a matar vim a morrer venho.<br>
+<br>
+Como do rôgo meu não te aproveitas,<br>
+Quando o teu risco a me rogar te obriga?<br>
+Ou não conheces bem a quem engeitas,<br>
+Ou m'engeitas por mais que seja e diga.<br>
+Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas?<br>
+Mais proprio era chamar-te dura imiga.<br>
+Mas não consente Amor nome tão duro<br>
+Em parecer tão brando e tão seguro.<br>
+<br>
+Os raios desses olhos ja serenos<br>
+Enxuguem desse rosto as puras rosas;<br>
+O triste suspirar ja sôe menos<br>
+Nestas concavidades saudosas.<br>
+Não fação grande mal males pequenos;<br>
+Que não soffre esperanças vagarosas<br>
+Quem anda costumado em seus amores<br>
+A medir por seu gôsto seus favores.<br>
+<br>
+Que gôsto podes ter de maltratar-me, <span class="pn"><a name="pag_251">{251}</a></span><br>
+Vendo-me do passado arrependido?<br>
+Attenta que mais ganhas em ganhar-me,<br>
+Do que neste destrôço tens perdido.<br>
+Se queres insistir em desprezar-me,<br>
+Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido.<br>
+Não me declaro mais, porque não quero<br>
+Que o medo faça o que d'amor espero.<br>
+<br>
+Ah perfido amador! deixa o teu êrro.<br>
+Não vês quanto enganado e cego andas?<br>
+Aquella a quem não vence o duro ferro,<br>
+Como a podem vencer palavras brandas?<br>
+Manda a sua alma ja deste destêrro,<br>
+Com essas que a seu doce Esposo mandas.<br>
+Não a detenhas mais em teus amores,<br>
+Se dobrar-lhe não queres suas dores.<br>
+<br>
+Vendo o cruel, emfim, que o que dizia,<br>
+Tomava a bella virgem por affronta,<br>
+E que quanto d'amor mais se accendia,<br>
+Ella delle fazia menos conta;<br>
+No concavo arco que na mão trazia,<br>
+Huma setta embebeo d'aguda ponta,<br>
+E o peito lhe passou de banda a banda.<br>
+Assi rendeo o esprito a virgem branda.<br>
+<br>
+Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza;<br>
+As azas abre ja, ja a luz derrama;<br>
+Vôa com desusada ligeireza<br>
+Onde o teu Bem t'espera, onde te chama.<br>
+Verás baixa do mundo a mór alteza;<br>
+Verás qu'engana mais a quem mais ama;<br>
+E lá do teu Amor, cá suspirado,<br>
+O fructo colherás tão desejado. <span class="pn"><a name="pag_252">{252}</a></span><br>
+<br>
+Em paz te vae, ó alma pura e bella,<br>
+Mais bella inda no sangue que verteste;<br>
+Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella<br>
+Formosa Região, alta e celeste.<br>
+Coroada de glória immortal, nella<br>
+Com Christo lograrás, a quem te déste<br>
+Com tantas e tão bem nascidas almas,<br>
+(Formosura do Ceo) onze mil palmas.
+</blockquote>
+
+</div>
+
+
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_255">{255}</a></span></p>
+
+<div id="comedias">
+<h1>COMEDIAS.</h1>
+
+<h2>INTERLOCUTORES.</h2>
+
+<h3>DO PROLOGO.</h3>
+
+<p class="ni">O M<small>ORDOMO</small>, ou D<small>ONO DA</small>
+C<small>ASA</small>.<br>
+M<small>ARTIM</small> C<small>HINCHORRO</small>.<br>
+A<small>MBROSIO</small>, Escudeiro.<br>
+L<small>ANÇAROTE</small>, Moço.</p>
+
+<h3>DA COMEDIA.</h3>
+
+<p class="ni">E<small>L</small>R<small>EI</small> S<small>ELEUCO</small>.<br>
+A R<small>AINHA</small> E<small>STRATONICA.</small><br>
+O P<small>RINCIPE</small> A<small>NTIOCHO.</small><br>
+L<small>EOCADIO</small>, Pagem do Principe Antiocho.<br>
+F<small>ROLALTA</small>, Criada da Rainha Estratonica.<br>
+H<small>UM</small> P<small>ORTEIRO DA</small> C<small>ANA.</small><br>
+H<small>UMA</small> M<small>OÇA DA</small> C<small>AMARA.</small><br>
+H<small>UM</small> P<small>HYSICO</small>, ou M<small>EDICO</small>.<br>
+S<small>ANCHO</small>, Moço do Physico.<br>
+A<small>LEXANDRE DA</small> F<small>ONSECA</small>, hum dos Musicos.</p>
+
+
+<h1>ELREI SELEUCO.</h1>
+
+<h3>COMEDIA.</h3>
+
+<h2>PROLOGO.</h2>
+
+<p class="inst_cena"><em>Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa.</em></p>
+
+<p class="ni"><big>E</big>is, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival
+noite, me quiz representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com
+outras ja feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo
+assi arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo
+outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da
+Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do
+Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que usou nesta
+obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer bem a todos, o
+Autor diz que entende della menos que todos os que lha puderem emendar.
+Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que responde com hum dito de
+hum Philosopho, que diz: <em>Vós outros estudastes para praguejar, e eu para
+desprezar praguentos?</em> Eu com tudo quero saber da Farça, em que ponto vai.
+Lançarote? <span class="pn"><a name="pag_256">{256}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>São ja chegadas as figuras?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Como assi?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de
+çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e
+quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada
+na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o
+Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o
+Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo
+alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do
+alheio.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela
+porta fóra, para o metteres em tua casa.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o
+havia mister para si.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos cá
+Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga comsigo
+o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre <span class="pn"><a
+name="pag_257">{257}</a></span> o Canto-chão botemos nosso contraponto de
+zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a porta do quintal, porque
+mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por fôrça.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Indo-se o Moço diz:</em></p>
+
+<p>Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma bolsa
+com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que são pouco,
+e valem muito?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Moço, que estás fazendo que não vás?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle
+tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para humas
+palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e
+diz o Mordomo:</em></p>
+
+<p>Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo
+passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas
+tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns para
+os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que de outra
+maneira, se todo o corro se ha de gastar em <span class="pn"><a
+name="pag_258">{258}</a></span> palanques, será bom mandar fazer outro
+alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se hão de desembuçar,
+porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer mal: este só desgôsto
+tẽe hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou haveis deixar entrar a
+todos, ou vos hão de ter por villão ruim.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro
+Ambrosio, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Entre v. m.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou diante.
+Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa juncada, fogueira com
+castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além disto Auto para esgaravatar
+os dentes: esta he a vida, de que se ha de fazer consciencia.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder, porque
+os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu nome he.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho
+traz mais somno comsigo que huma prégação comprida.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se
+tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum villão,
+que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que <span class="pn"><a
+name="pag_259">{259}</a></span> huma pera-pão, e huma donzella, que vem podre
+de amor, fallando como Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque
+não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de si
+enfadamento.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro. Ora
+sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás rebatinhas: ora
+sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Moço, falla bem ensinado.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tẽe privilegio de
+Moedeiro.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Donde quer que me acho.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Pergunto-te onde nasceste. <span class="pn"><a
+name="pag_260">{260}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Nas mãos das parteiras.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Em que terra?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida daquella
+hora, que não havia palmo de terra nella.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para ver
+com que disparate respondes.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Vem cá. De teu tio! E isso como?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu
+pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e daqui me
+ficou a mi ser filho de meu tio.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e mais
+tẽe outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como eu, ou como
+o Chiado. <span class="pn"><a name="pag_261">{261}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto se
+vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor
+de mi!</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Como! Tão escura he ella?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever
+senão com carvão; e porém diz assi:</p>
+
+<blockquote>
+ Por amor de vós, Briolanja,<br>
+ Ando eu morto,<br>
+ Pezar de meu avô torto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te
+tẽe teu avô nos desfavores que te tua dama dá?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos meus
+parentes, que dos alheios?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que
+trombeta de Serenissimo de la Valla. <span class="pn"><a
+name="pag_262">{262}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de mergulho
+a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão mais huma
+sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe calçará
+melhor: e todavia palra assi:</p>
+
+<blockquote>
+ Vossos olhos tão daninhos<br>
+ Me tratárão de feição,<br>
+ Que não ha em meu coração<br>
+ Em que atem dous reis de cominhos.<br>
+ Meu bem anda sem focinhos<br>
+ Por vós morto,<br>
+ Pezar de meu avô torto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Ora bem: que tẽe de ver os cominhos com o teu coração?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não
+se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era tendeira;
+e este he o verdadeiro entendimento.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>E aquella regra que diz, <em>Meu bem anda sem focinhos</em>, me dá tu a
+entender; que ella não dá nada de si.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Nunca vossas mercês ouvirão dizer: <em>Meu bem e meu mal lutárão hum
+dia; meu bem era tal, que meu mal o vencia?</em> Pois desta luta foi tamanha a
+quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por
+ficarem tão esfarrapados, que lhe <span class="pn"><a
+name="pag_263">{263}</a></span> não podião botar pedaço; por conselho dos
+Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui ficou:
+<em>Meu bem anda sem focinhos</em>, como diz o texto.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S.
+Nicolao.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas
+mercês.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por
+baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado dos
+encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira da arca de
+cedro.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Senhor, elle parece que aprende a cirurgião.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos
+verdes.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Emfim, parece figura de Auto em verdade.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o Representador.</em></p>
+
+<blockquote>
+ He lei de direito, assaz verdadeira,<br>
+ Julgar por si mesmos aquillo que vem;<br>
+ Peloque, se cuidão que zombo de alguem,<br>
+ Eu cuido que zombão da mesma maneira. <span class="pn"><a
+ name="pag_264">{264}</a></span></blockquote>
+
+<p class="ni">E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum
+conhecer seu proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me
+esquece o dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha
+mais que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês
+a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo
+primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e vão
+com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos, metidos em
+hum covão, cantando: <em>Quem os amores tẽe em Cintra</em>; e despois de
+cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver: entra mais ElRei
+Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo Catharina Real com huns poucos
+de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha pela casa, de que nascerá muito
+mantimento ao riso. E nisto fenecerá o Auto, com musica de chocalho e buzinas,
+que Cupido vem dar a huma alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas
+mercês cada hum para suas pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi
+houver. Parece-me que nenhum diz que não. Ora pois ficareis <em>in vanum
+laboraverunt</em>, porque atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da
+representação, como quem diz, <em>digo-to, antes que mo digas.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião
+em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser mais
+galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi; porque jagora
+representações, todas he <span class="pn"><a name="pag_265">{265}</a></span>
+darem por praguentos; e são tão certas, que he melhor errá-las, que
+acertá-las.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na
+prática, como nos vestidos.</p>
+
+<p class="centrado inst_cena">&mdash;</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra El Rei Seleuco, com a Rainha
+Estratonica.</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>S</big>enhora, desque a ventura<br>
+ Me quiz dar-vos por mulher,<br>
+ Me sinto emmeninecer;<br>
+ Porqu'em vossa formosura<br>
+ Perde a velhice seu ser.<br>
+ Hum homem velho, cansado,<br>
+ Não tẽe fôrça, nem vigor,<br>
+ Para em si sentir amor:<br>
+ Se não he qu'estou mudado<br>
+ Com ser vosso n'outra côr.<br>
+ Muito grande dita tem<br>
+ A mulher que he formosa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, grande: mas porém<br>
+ Se a tal he virtuosa,<br>
+ Quer-lhe a ventura mor bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, mas porém nunca vemos<br>
+ A natureza esmerar<br>
+ Adonde haja que taxar;<br>
+ Que quando ella faz extremos, <span class="pn"><a
+ name="pag_266">{266}</a></span><br>
+ Em tudo quer-se extremar.<br>
+ Eu fallo como quem sente<br>
+ Em vós está calidade,<br>
+ Pelo que vejo presente;<br>
+ E se me esta mostra mente,<br>
+ Mente-me a mesma verdade.<br>
+ Huma só tristeza tenho<br>
+ Que não tẽe a meninice,<br>
+ Que no mor contentamento<br>
+ O trabalho da velhice<br>
+ Me embaraça o sentimento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, novidades tais<br>
+ Far-me-hão crer de verdade...</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Novidades lhe chamais!<br>
+ Folgo, Senhora, que achais<br>
+ Na velhice novidades.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, dias ha que sento<br>
+ Em o Principe Antiôcho<br>
+ Certo descontentamento:<br>
+ Dera alguma cousa a trôco<br>
+ Por saber seu sentimento.<br>
+ Vejo-lhe amarello o rosto,<br>
+ Ou de triste, ou de doente:<br>
+ Ou elle anda mal disposto,<br>
+ Ou lá tẽe certo desgôsto<br>
+ Que o não deixa ser contente.<br>
+ Mande, Senhor, vossa Alteza<br>
+ A chamá-lo por alguem, <span class="pn"><a
+ name="pag_267">{267}</a></span><br>
+ Saberemos que mal tem,<br>
+ Se he doença de tristeza,<br>
+ De que nasce, ou de que vem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Certo qu'eu me maravilho<br>
+ Do que vos ouço dizer.<br>
+ Que mal póde nelle haver?<br>
+ Ide dizer a meu filho<br>
+ Que me venha logo ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se curar não se procura<br>
+ Huma cousa destas tais,<br>
+ Vem despois a crescer mais.<br>
+ Quando ja não se acha cura,<br>
+ Toda a cura he por demais.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome
+Leocadio.</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Leocadio, se es avisado,<br>
+ E não te falta saber,<br>
+ Saber-me-has dar a entender,<br>
+ Quem ama desesperado,<br>
+ Que fim espera de haver?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, não.<br>
+ Mas porém porque razão<br>
+ Lhe avem sabê-lo, ou de que?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pergunto-te a conclusão;<br>
+ Não me perguntes porque. <span class="pn"><a
+ name="pag_268">{268}</a></span><br>
+ Porque he minha pena tal,<br>
+ E de tão estranho ser,<br>
+ Que me hei de deixar morrer;<br>
+ E por não cuidar no mal<br>
+ O não ouso de dizer.<br>
+ Que maneira de tormento<br>
+ Tão estranho e evidente,<br>
+ Que nem cuidar se consente!<br>
+ Porque o mesmo pensamento<br>
+ Ha medo do mal que sente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não entendo a Vossa Alteza.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Assi importa á minha dor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E porque razão, Senhor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Para que seja a tristeza<br>
+ Castigo do meu temor.<br>
+ Porque ordena<br>
+ O Amor, que me condena,<br>
+ Que se haja de sentir,<br>
+ E sem dizer nem ouvir.<br>
+ Bem-aventurada a pena<br>
+ Que se póde descobrir!<br>
+ Oh caso grande e medonho!<br>
+ Oh duro tormento fero!<br>
+ Verdade he isto, qu'eu quero?<br>
+ Não he verdade, mas sonho<br>
+ De que acordar não espero.<br>
+ Quero-me chegar a ElRei <span class="pn"><a
+ name="pag_269">{269}</a></span><br>
+ Meu pae, que ja m'está vendo.<br>
+ Mas onde vou? Não m'entendo.<br>
+ Com que olhos eu olharei<br>
+ Hum pae, a quem tanto offendo?<br>
+ Que novo modo de antolhos!<br>
+ Porque neste atrevimento<br>
+ Devêra meu sentimento<br>
+ Para elle não ter olhos,<br>
+ Nem para ella pensamento.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Chega aonde está ElRei, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Filho, como andais assi?<br>
+ Que tanto desgôsto tomo<br>
+ De vos ver como vos vi!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não sei eu tanto de mi,<br>
+ Que possa saber o como.<br>
+ Dias ha ja, Senhor, que ando<br>
+ Mal disposto, sem saber<br>
+ Este mal que possa ser;<br>
+ Que se nelle estou cuidando,<br>
+ Quasi me vejo morrer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, filho, será razão<br>
+ Que meus Physicos vos vejão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Os Physicos, Senhor, não;<br>
+ Que os males qu'em mi estão,<br>
+ São curas que me sobejão. <span class="pn"><a
+ name="pag_270">{270}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deite-se; que na verdade<br>
+ Hum corpo, deitado e manso,<br>
+ Descansa á sua vontade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, esta enfermidade<br>
+ Não se cura com descanso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Todavia, bom será<br>
+ Que lhe fação huma cama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Hum coxim abastará,<br>
+ Que assi não descansará<br>
+ O repouso de quem ama.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vamos, filho, para dentro,<br>
+ Em quanto a cama se faz:<br>
+ Repousae como capaz;<br>
+ Que a mi me dá cá no centro<br>
+ A pena que assi vos traz.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mimos de grandes Senhores,<br>
+ E suas extremidades,<br>
+ Me hão de matar de amores,<br>
+ Porque de meros dulçores<br>
+ Adoecem.<br>
+ Então logo lhes parecem<br>
+ Aos outros, que são mamados;<br>
+ E os que são mais privados, <span class="pn"><a
+ name="pag_271">{271}</a></span><br>
+ Sôbre elles estremecem.<br>
+ Certo (e assi Deos me ajude!)<br>
+ Que são muito graciosos,<br>
+ Porque de meros viçosos,<br>
+ Não podem com a saude.<br>
+ Mas deixallos,<br>
+ Porque elles darão nos vallos,<br>
+ Donde mais não se erguerão,<br>
+ Inda que lhe dem a mão<br>
+ Os seus privados vassallos.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Traz, traz.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+             Jesu! Quem'stá ahi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja vós, mana, ereis mamada:<br>
+ Para vos levar furtada<br>
+ Nunca tal ensejo vi.<br>
+ E vós estais descuidada!</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E meus descuidos que fazem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vossos descuidos? cadella!<br>
+ Ah minh'alma! Sois tão bella,<br>
+ Qu'esses descuidos me trazem<br>
+ Dous mil cuidados á vela.<br>
+ Pois sou vosso ha tantos annos,<br>
+ Mana, tirae os antolhos,<br>
+ E vereis meus tristes dannos. <span class="pn"><a
+ name="pag_272">{272}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não tenhais esses enganos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nem vós tenhais esses olhos;<br>
+ Que de vossos olhos vem<br>
+ Esta minha pena fera.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De meus olhos? Assim era.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Moça, que taes olhos tem,<br>
+ Nenhuns olhos ver devêra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E porque?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Porque cegais<br>
+ A quantos olhos olhais,<br>
+ Postoque por vós padecem.<br>
+ Olhos, que tão bem parecem,<br>
+ Porque não os castigais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deos dê siso, pois de vós<br>
+ Tirou o que aos outros deu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Desatae-me lá esses nós.<br>
+ Que mais siso quero eu,<br>
+ Que não ter siso por vós?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallais d'arte; eu vos prometo<br>
+ Que a resposta vem á vela.<br>
+ Isso he ôlho de panella.<br>
+ Quanto ha ja que sois discreto? <span class="pn"><a
+ name="pag_273">{273}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quanto ha ja que vós sois bella?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dais-me logo a entender<br>
+ Que eu sou feia, a meu ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E isso porque o entendeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque? Porque me dizeis<br>
+ Que só de meu parecer<br>
+ Vos procede o que sabeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ He verdade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Pois bem sento<br>
+ Que o vosso saber he vento.<br>
+ Fica a cousa declarada,<br>
+ Meu parecer não ser nada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Olhae aquelle argumento:<br>
+ Além de bella, avisada!<br>
+ Oh nem tanto, nem tão pouco!<br>
+ Vêde vós o que fallais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cego no saber andais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No siso, mas não tão louco<br>
+ Como vós, mana, cuidais.<br>
+ Ora dizei, duna má:<br>
+ Que não amais, quem vos ama? <span class="pn"><a
+ name="pag_274">{274}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ouvistes vós cantar ja,<br>
+ <em>Velho malo, em minha cama?</em><br>
+ Ja m'entendereis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                    Ha, ha.<br>
+ Senhora, estais enganada;<br>
+ Que com huma capa e espada,<br>
+ E com este capuz fóra...</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora bem: tirae-o ora,<br>
+ E fazei huma levada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não: se m'eu hoje alvoróço,<br>
+ Achar-me-heis d'outra feição.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui tira o capuz e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tenho má disposição?<br>
+ Estas obras são de moço,<br>
+ Se as mostras de velho são.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tendes mui gentis meneios.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não, Senhora; faço extremos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Passeae ora, veremos<br>
+ Se tendes tão bons passeios.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tudo, Senhora, faremos. <span class="pn"><a name="pag_275">{275}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Virae ora a essoutra mão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esta disposição vêde-a;<br>
+ Que tenho gentil feição.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tendes vós mui boa redea.<br>
+ Soffreis ancas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Isso não.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por certo que tendes graça<br>
+ Em tudo quanto fizerdes.<br>
+ Fazei mais o que souberdes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não sei cousa que não faça,<br>
+ Senhora, por me quererdes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tendes vós muito bom ar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mais qu'isto faz quem quer bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ I-vos asinha, que vem<br>
+ O Principe a se deitar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca huma pessoa tem<br>
+ Hum'hora para fallar!</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Seja a morte apercebida, <span class="pn"><a
+ name="pag_276">{276}</a></span><br>
+ Porque ja o Amor ordena<br>
+ A dar a meu mal sahida;<br>
+ Porque o fim da minha vida<br>
+ O seja da minha pena.<br>
+ Não tarde, para tomar<br>
+ Vingança de meu querer,<br>
+ Pois não se póde dizer<br>
+ Que não tẽe ja que esperar,<br>
+ Nem com que satisfazer?<br>
+ Os Physicos vem e vão,<br>
+ Sem saberem minhas mágoas,<br>
+ Nem o pulso me acharão;<br>
+ E se o querem ver nas ágoas,<br>
+ As dos olhos lho dirão.<br>
+ Se com sangrias tambem<br>
+ Procurão ver-me curado;<br>
+ O temor de meu cuidado<br>
+ O mais do sangue me tem<br>
+ Nas veias todo coalhado.<br>
+ Quero-me aqui encostar,<br>
+ Que ja o esprito me cae.<br>
+ Leocadio, vae-me chamar<br>
+ Os Musicos de meu Pae;<br>
+ Folgarei de ouvir cantar.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo
+assi:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, qual desatino<br>
+ Me trouxe a tanta tristura?<br>
+ Foi, Senhora, por ventura <span class="pn"><a
+ name="pag_277">{277}</a></span><br>
+ A fôrça do meu destino,<br>
+ Como vossa formosura?<br>
+ Bem conheço que não posso<br>
+ Ter tão alto pensamento;<br>
+ Mas disto só me contento,<br>
+ Que se paga com ser vosso<br>
+ O mor mal de meu tormento.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum
+delles:</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, de que se acha mal<br>
+ O Principe, ou que mal sente?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, sei que está doente;<br>
+ Mas sua doença he tal,<br>
+ Qu'entender se não consente.<br>
+ Os Physicos vem e vão,<br>
+ Huns e outros a meude,<br>
+ Sem o poderem dar são.<br>
+ Quanto mais cura lhe dão,<br>
+ Então tẽe menos saude.<br>
+ O Pae anda em sacrificios<br>
+ Aos deoses, que lhe dem<br>
+ A saude que convem;<br>
+ Dizendo que por seus vicios<br>
+ O mal a seu filho vem.<br>
+ Eu suspeito qu'isto são<br>
+ Alguns novos amorinhos,<br>
+ Que tera no coração. <span class="pn"><a name="pag_278">{278}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Amores! com quem serão,<br>
+ Que lhe não dem de focinhos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhores, que lhe parece<br>
+ Da doença de Antiôcho?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Diga-lha quem lha conhece.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que toma morrer a trôco<br>
+ De callar o que padece.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso he estar emperrado<br>
+ Na doença; que he peor.<br>
+ Tẽe-no os Physicos curado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh! que de mal del amor<br>
+ No ha, Señor, sanador.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallais como exprimentado;<br>
+ Qu'eu cuido que esta fadiga,<br>
+ Que o faz com que desespere;<br>
+ Y por mas tormento quiere<br>
+ Que se sienta, y no se diga.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhor meu, isso asselle,<br>
+ Porque a pena, que sabeis,<br>
+ Que eu cuido que está nelle,<br>
+ Dar-lhe-ha penas crueis,<br>
+ Pues no hay quien la consuele. <span class="pn"><a
+ name="pag_279">{279}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Folgo, porque m'entendeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hemo-nos, Senhores, de ir,<br>
+ Porque nos está 'sperando.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois eu tambem hei de ir;<br>
+ Que não me posso espedir<br>
+ Donde vejo estar cantando.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cantae, por amor de mi,<br>
+ Alguma cantiga triste;<br>
+ Que todo meu mal consiste<br>
+ Na tristeza em que me vi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mande-lhe cantar hum chiste.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Chiste não, que he deshonesto,<br>
+ E não tẽe esses extremos:<br>
+ Outro canto mais modesto;<br>
+ Porém não sei que diremos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Gaoleão o dirá presto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dá licença V. Alteza<br>
+ Que diga minha tenção?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizei: seja em canto-chão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois crede qu'he subtileza.<br>
+ Qu'os Anjos a comerão. <span class="pn"><a name="pag_280"
+ id="pag_280">{280}</a></span><br>
+ Digão esta:<br>
+ <em>Enforquei minha esperança,<br>
+ E o Amor foi tão madraço,<br>
+ Que lhe cortou o baraço.</em></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não me parece essa boa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Haja eu perdão,<br>
+ Porque não a entenderão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Entender!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Bofé qu'he boa:<br>
+ Não lhe cahis na feição?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizei ora outra melhor,<br>
+ Com que nos atarraqueis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora esperae, e ouvireis:<br>
+ Se a esta não dais louvor,<br>
+ Quero que me degolleis.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Cantiga.</p>
+
+<blockquote>
+ Com vossos olhos Gonçalves,<br>
+ Senhora, captivo tendes<br>
+ Este meu coração Mendes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essa parece mui taibo,<br>
+ Porque mostra bom indicio.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós cuidareis qu'eu que raivo. <span class="pn"><a
+ name="pag_281">{281}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Todavia tẽe mao saibo.<br>
+ Ora mal lhe corre o offício.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tá, não vá mais por diante<br>
+ A zombaria, que he má:<br>
+ Cantae qualquer dellas ja;<br>
+ Qu'esse Porteiro he galante,<br>
+ Ninguem o contentará.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui cántão, e em acabando, diz o</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Parece que adormeceo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois será bom que nos vamos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, quer que nos vejamos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor vir-me-ha do ceo:<br>
+ Releva-me que o façamos.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta,
+e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Frolalta, como ficava<br>
+ Antiôcho em te tu vindo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ficava-se despedindo<br>
+ Da vida qu'então levava,<br>
+ E assi seus dias cumprindo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grave caso d'amor! <span class="pn"><a name="pag_282">{282}</a></span><br>
+ Desesperada affeição!<br>
+ Oh amor sem redempção,<br>
+ Que alli te fazes maior<br>
+ Onde tens menos razão!<br>
+ No mais alto e fundo pégo<br>
+ Alli tens maior porfia:<br>
+ Razão de ti não se fia.<br>
+ Quem a ti te chamou cego,<br>
+ Mui bem soube o que dizia.<br>
+ Por ventura hia chorando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Chorando hia e chamando<br>
+ Ao Amor, Amor cruel;<br>
+ E em, Senhora, se deitando<br>
+ Lhe cahio este papel.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que papel?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Este, Senhora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Amostra, que quero lê-lo.<br>
+ Agora acabo de crê-lo;<br>
+ Que ao que mostra por fóra,<br>
+ Aqui lhe lançou o sello.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui lê o papel e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh estranha pena fera!<br>
+ Desditosa vida chara!<br>
+ Oh quem nunca cá viera, <span class="pn"><a
+ name="pag_283">{283}</a></span><br>
+ E com seu Pae não casára,<br>
+ Ou em casando morrêra!</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aindaque eu pêca são,<br>
+ Senhora, tudo bem vejo.<br>
+ Attente, que na eleição<br>
+ O que lhe pede o desejo<br>
+ Não consente o coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Frolalta, pois qu'es discreta<br>
+ Nada te posso encobrir;<br>
+ Porque, se queres sentir,<br>
+ A huma mulher discreta<br>
+ Tudo se ha de descobrir.<br>
+ O dia qu'entrei aqui,<br>
+ Que a Seleuco recebi,<br>
+ Logo nesse mesmo dia<br>
+ No Principe filho vi<br>
+ Os olhos com que me via.<br>
+ Este principio soffri-lho,<br>
+ Para ver se se mudava;<br>
+ Antes mais se accrescentava:<br>
+ Eu amava-o como filho,<br>
+ E elle d'outr'arte me amava.<br>
+ Agora vejo-o no fim<br>
+ Por se me não declarar.<br>
+ E pois ja que a isso vim,<br>
+ A morte que o levar,<br>
+ Me leve tambem a mim.<br>
+ Porque ja que minha sorte<br>
+ Foi tão crua e desabrida, <span class="pn"><a
+ name="pag_284">{284}</a></span><br>
+ Que me não quer dar sahida;<br>
+ Sejamos juntos na morte,<br>
+ Pois o não somos na vida.<br>
+ Oh quem me mandou casar,<br>
+ Para ver tal crueldade!<br>
+ Ninguem venda a liberdade,<br>
+ Pois não póde resgatar<br>
+ Onde não tẽe a vontade.<br>
+ Que não ha mor desvario,<br>
+ Que o forçado casamento<br>
+ Por alcançar alto assento;<br>
+ Que, emfim, todo o senhorio<br>
+ Está no contentamento.<br>
+ Não sei se o vá ver agora,<br>
+ Se será tempo conforme,<br>
+ Ou se imos a deshora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Despois iremos, Senhora,<br>
+ Que agora dizem que dorme.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Su madrasta oyó nombrar,<br>
+ Y el pulso se le alteró:<br>
+ Esto no entiendo yo,<br>
+ Porque para le alterar<br>
+ El corazon le obligó.<br>
+ Pues que el corazon se altere,<br>
+ Es porque en un momento<br>
+ Algun nuevo vencimiento<br>
+ De aficion terrible le hiere, <span class="pn"><a
+ name="pag_285">{285}</a></span><br>
+ Que causa tal movimiento.<br>
+ Pues que aficion cabe así<br>
+ Con madrasta? Digo yo,<br>
+ Dos razones hay aqui:<br>
+ La una dice, que sí,<br>
+ La otra dice, que no.<br>
+ Empero yo determino<br>
+ De exprimentar la verdad,<br>
+ Y hacer una habilidad,<br>
+ Que declare es agua, ó vino<br>
+ Esta su enfermedad.<br>
+ Porque toda esta mañana<br>
+ Tengo estudiado su mal,<br>
+ Sin ver causa efectual<br>
+ De su dolencia inhumana,<br>
+ Ni otra de su metal.<br>
+ Llamar quiero este asnejon;<br>
+ Mas aun debe de dormir,<br>
+ Segun que es dormilon.<br>
+ Sancho? ó Sancho?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Ah Señor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ea, aun estás dormiendo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Estoyme, Señor, vestiendo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues vellaco y sin sabor,<br>
+ No me respondes dormiendo?<br>
+ Vestios presto, ladron.<br>
+ Oh qué mozo, y qué ventura! <span class="pn"><a
+ name="pag_286">{286}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Mas qué amo y qué cabron!)<br>
+ Embíeme acá el ropon,<br>
+ Que no hallo mi vestidura.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que embie el ropon acá?<br>
+ Parece que os desmandais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que vaya, Señor? ha, ha.<br>
+ Que buenos dias hayais.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Di como vienes así<br>
+ Con la manta, y para qué?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo, Señor, se lo diré:<br>
+ Por venir presto vestí<br>
+ Lo que mas presto me hallé:<br>
+ Porque viendo que él me llama,<br>
+ Dormiendo yo sin afan,<br>
+ Salté presto de la cama,<br>
+ Que parezco un gavilan,<br>
+ Hermoso como una dama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas es tu bovedad tanta,<br>
+ Que vienes desta facion?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De mi vestido se espanta?<br>
+ De noche sirve de manta,<br>
+ Y de dia de ropon. <span class="pn"><a name="pag_287">{287}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Embióme ElRey á llamar<br>
+ Otra vez.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+            Y á mí?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                        Y á ti!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y él qué presta allá sin mí?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qué puedes tu aprovechar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo se lo diré de aqui:<br>
+ Si por la ventura quiere<br>
+ Para que le dé consejo,<br>
+ Cuando doliente estuviere;<br>
+ Digo, coma, si pudiere,<br>
+ Y beba buen vino anejo;<br>
+ Porque este es el licor<br>
+ Que dá fuerza, y es sabroso;<br>
+ Que segun dicen, Señor,<br>
+ <em>Vinum lœtificat cor<br>
+ Hominis</em>, y le es provechoso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ya sabes la medicina,<br>
+ Que Avicena nos refiere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues, Señor! porque es divina.<br>
+ Pero ElRey qué le quiere,<br>
+ Qué manda, ó qué determina? <span class="pn"><a
+ name="pag_288">{288}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ El Principe está doliente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh mesquino! Y qué mal ha?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y á ti, necio, que te vá?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O Señor, que es mi pariente!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Gracioso el bovo está.<br>
+ Y pues díme por tu fé:<br>
+ Llorarás si se muriere?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No, Señor, no lloraré;<br>
+ Empero, Señor, haré<br>
+ La peor cara que pudiere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ea, bovo, vé corriendo,<br>
+ Y ensilla la mula ayna.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Véngala ensillar mejor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh velhaco, y sin sabor!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo por cierto no lo entiendo.<br>
+ Pero una medicina<br>
+ Le he de pedir, Dios queriendo,<br>
+ (Porque ando atribulado,<br>
+ Y no sé parte de mi<br>
+ Con este nuevo cuidado) <span class="pn"><a
+ name="pag_289">{289}</a></span><br>
+ Para un sayo esfarrapado,<br>
+ Que me dicen hay allí.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora ensilla; y nunca viva,<br>
+ Pues sufro tus desatinos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, pasion no reciva:<br>
+ <em>Ya cavalga Calaínos<br>
+ A la sombra de una oliva.</em></blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe
+e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh bella vista e humana,<br>
+ Por quem tanto mal sostenho!<br>
+ Oh Princeza soberana!<br>
+ Como? nos braços vos tenho,<br>
+ Ou este sonho m'engana?<br>
+ Pois como, sonho, tambem<br>
+ Me queres vir magoar?<br>
+ E para me atormentar<br>
+ Mostras-me a sombra do bem<br>
+ Para assi mais m'enganar?<br>
+ Assi que, com quanto canso,<br>
+ Ja não posso achar atalho,<br>
+ Pois que o somno quieto e manso,<br>
+ Que os outros tẽe por descanso,<br>
+ Me vem a mi por trabalho.<br>
+ Pois ha hi tantos enganos<br>
+ Que condemnão minha sorte;<br>
+ Não o tenho ja por forte, <span class="pn"><a
+ name="pag_290">{290}</a></span><br>
+ Se á volta de tantos danos<br>
+ Viesse tambem a morte.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Andae e vêde se achais<br>
+ O rasto deste segredo,<br>
+ Que me dizem que alcançais;<br>
+ Ainda que tenho medo<br>
+ Que lhe seja por demais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Plega á Dios que aqueste sea<br>
+ Para salud y remedio<br>
+ Desta dolencia tan fea.<br>
+ Yo buscaré todo el medio,<br>
+ Que presto sano se vea.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aflojen, Señor, sus ais.<br>
+ Como se halla en su penar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como me acho perguntais?<br>
+ E como se póde achar<br>
+ Quem sempre se perde mais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (La respuesta abre el camino.)<br>
+ Imagina de contino?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não tenho outro mantimento, <span class="pn"><a
+ name="pag_291">{291}</a></span><br>
+ Nem outro contentamento,<br>
+ Senão o em que imagino.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui entra a Rainha e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como se sente, Senhor?<br>
+ Tẽe a febre mais pequena?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Responda-lhe minha pena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Conocido es su dolor.<br>
+ Ora sea en hora buena,<br>
+ Tomada está la tristeza<br>
+ Á las manos.) Qué sentió?<br>
+ (Usaré de subtileza.)</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Diz contra ElRei:</em></p>
+
+<blockquote>
+ Cúmpleme que solo yo<br>
+ Platique con Vuestra Alteza.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cheguemos-nos para cá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não deve desesperar,<br>
+ Qu'em fim, se bem attentar,<br>
+ Para tudo o tempo dá<br>
+ Tempo para se curar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que cura poderá ter<br>
+ Quem tẽe a cura, Senhora,<br>
+ No impossivel haver? <span class="pn"><a name="pag_292">{292}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ficae-vos, Senhor, embora,<br>
+ Que vos não sei responder.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vai-se a Rainha, e diz ElRei:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Neste mal, que não comprendo,<br>
+ Que meio dais de conselho?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, nada entiendo dello;<br>
+ Y supuesto que lo entiendo,<br>
+ Yo quisiera no entendello.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Porque he entendido<br>
+ Lo mas malo de entender,<br>
+ Para lo que puede ser,<br>
+ Porque anda, Señor, perdido<br>
+ De amores por mi muger.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Santo Deos! que! tal amor<br>
+ Lhe dá doença tão fera!<br>
+ Que remedio achais melhor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Forçado será que muera,<br>
+ Porque no muera mi honor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois como! a hum só herdeiro<br>
+ Deste Reino não dareis<br>
+ Vossa mulher, pois podeis; <span class="pn"><a
+ name="pag_293">{293}</a></span><br>
+ Que tudo faz o dinheiro?<br>
+ Pois este não o engeiteis;<br>
+ Dae-lha, porque eu espero<br>
+ De vos dar dinheiro e honra,<br>
+ Quanto eu para elle quero.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No tira el mucho dinero<br>
+ La mancha de la deshonra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora bem pouco defeito!<br>
+ He pequice conhecida,<br>
+ Quando deixa de ser feito;<br>
+ Porque com elle dais vida<br>
+ A quem vos dara proveito.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cuan facilmente aporfia<br>
+ Quien en tal nunca se vió!<br>
+ Del consejo que me dió,<br>
+ Vuestra Alteza que haria<br>
+ Si agora fuese yo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ A mulher que eu tivesse<br>
+ Dar-lha-hia. Oxalá<br>
+ Que elle a Rainha quizesse!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues déla, si le parece,<br>
+ Que por ella muerto está.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que me dizeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              La verdad. <span class="pn"><a
+ name="pag_294">{294}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sem dúvida, tal sentistes?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sin duda, sin falsedad.<br>
+ Pues, Señor, ahora tomad<br>
+ Los consejos que me distes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Certamente, qu'eu o via<br>
+ Em tudo quanto fallava.<br>
+ Como o vistes? porque via?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nel pulso, que se alterava<br>
+ Si la via, ó si la oia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que maneira ha de haver?<br>
+ Qu'eu certo me maravilho,<br>
+ Possa mais o amor do filho,<br>
+ Do que póde o da mulher.<br>
+ Finalmente hei-lha de dar,<br>
+ Que a ambos conheço o centro.<br>
+ Quero-o ir alevantar,<br>
+ E iremos para dentro<br>
+ Neste caso praticar.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Diz contra o Principe:</em></p>
+
+<blockquote>
+ Levantae-vos, filho, d'hi<br>
+ O melhor que vós puderdes,<br>
+ E vindo-vos para aqui;<br>
+ Porque, emfim, o que quizerdes<br>
+ Tudo havereis de mi. <span class="pn"><a name="pag_295">{295}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah Senhores, oulá, ou?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Viestes em conjunção<br>
+ A melhor que póde ser:<br>
+ Haveis aqui de fazer<br>
+ A tosquia a hum rifão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-me, Senhor, dizer:<br>
+ Haveis isto de acabar,<br>
+ Coração, hi bugiar,<br>
+ No esteis preso en cadenas,<br>
+ Que pois o amor vos deo penas,<br>
+ Que vos lanceis a voar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por certo que bem comprou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora sabeis o que vai?<br>
+ Antiocho que casou<br>
+ Com a mulher de seu Pai,<br>
+ E o mesmo Pae o ordenou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso como?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Não o sei;<br>
+ Porque dizem que a amava,<br>
+ E que só por ella andava<br>
+ Para morrer; e ElRei<br>
+ Deo-a a quem a desejava.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se o casa por querer bem <span class="pn"><a
+ name="pag_296">{296}</a></span><br>
+ Com a moça, a quem elle ama,<br>
+ Direi eu que a mim me inflama<br>
+ O amor mais que a ninguem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois pedi-lhe a nossa dama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por São Gil, que ei-los cá vem,<br>
+ Elle pela mão com ella.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que mais ha hi que esperar?<br>
+ Olhae qu'estranheza vai!<br>
+ O muito amor ordenar,<br>
+ Ir-se o filho namorar<br>
+ D'huma mulher de seu Pai!<br>
+ Querer bem foi sua dor,<br>
+ Negar-lha será crueldade;<br>
+ Assi que ja foi bondade<br>
+ Usar eu de tal amor,<br>
+ E de tal humanidade.<br>
+ Ella deixou de reinar<br>
+ Como fazia primeiro<br>
+ Por se com elle casar;<br>
+ E por amor verdadeiro<br>
+ Tudo se póde deixar.<br>
+ Eu que nella tinha pôsto<br>
+ Todo o bem de meu cuidado,<br>
+ Deixei mais que ella ha deixado;<br>
+ Que mais se deixa no gôsto,<br>
+ Que no poderoso estado. <span class="pn"><a
+ name="pag_297">{297}</a></span><br>
+ Mas ja que tudo isto vemos,<br>
+ Hajão festas de prazer,<br>
+ As que melhor possão ser;<br>
+ Porqu'em tão grandes extremos,<br>
+ Extremos se hão de fazer.<br>
+ Hajão cantos para ouvir,<br>
+ Jogos, prazeres sem fundo;<br>
+ Porque, se quereis sentir,<br>
+ Deste modo entrou o mundo,<br>
+ E assi ha de sahir.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem,
+sahem-se todas as figuras, e diz</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM</small> C<small>HINCHORRO.</small></p>
+
+<p>Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos; ou
+vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor festa que
+póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das figuras nos
+acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz escuro, não
+vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço e as canastras.</p>
+
+<p class="personagem">E<small>STACIO DA</small> F<small>ONSECA.</small></p>
+
+<p>Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na
+mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta pousada;
+e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento as leva. <span
+class="pn"><a name="pag_298">{298}</a></span> <span class="pn"><a
+name="pag_299">{299}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_301">{301}</a></span></p>
+
+<h1>OS AMPHITRIÕES,</h1>
+
+<h2>COMEDIA.</h2>
+
+<h3>INTERLOCUTORES.</h3>
+
+<p class="ni">A<small>MPHITRIÃO</small>.<br>
+A<small>LCMENA</small>, sua mulher.<br>
+C<small>ALLISTO</small>.<br>
+F<small>ELISEO</small>.<br>
+S<small>OSEA</small>, moço de Amphitrião.<br>
+B<small>ROMIA</small>, sua criada.<br>
+B<small>ELFERRÃO</small>, Patrão.<br>
+A<small>URELIO</small>, Primo de Alcmena.<br>
+H<small>UM MOÇO DE</small> A<small>URELIO.</small><br>
+J<small>UPITER</small>.<br>
+M<small>ERCURIO</small>.</p>
+
+<h1>OS AMPHITRIÕES,</h1>
+
+<h3>COMEDIA.</h3>
+
+<h2>ACTO PRIMEIRO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e
+Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>A</big>h Senhor Amphitrião,<br>
+ Onde está todo meu bem!<br>
+ Pois meus olhos vos não vem,<br>
+ Fallarei co'o coração,<br>
+ Que dentro n'alma vos tem.<br>
+ Ausentes duas vontades,<br>
+ Qual corre mores perigos,<br>
+ Qual soffre mais crueldades,<br>
+ Se vós entre os inimigos,<br>
+ Se eu entre as saudades?<br>
+ Que a ventura, que vos traz<br>
+ Tão longe de vossa terra,<br>
+ Tantos desconcertos faz,<br>
+ Que se vos levou á guerra,<br>
+ Não me quiz leixar em paz. <span class="pn"><a
+ name="pag_302">{302}</a></span><br>
+ Bromia, quem com vida ter,<br>
+ Da vida ja desespera,<br>
+ Que lhe poderás dizer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que nunca se vio prazer,<br>
+ Senão quando não se espera.<br>
+ E por tanto não devia<br>
+ De ter triste a phantasia;<br>
+ Porque Vossa Mercê creia,<br>
+ Que o prazer sempre salteia<br>
+ Quem delle mais desconfia.<br>
+ Eu tenho no coração,<br>
+ Do Senhor Amphitrião<br>
+ Venha hoje alguma nova:<br>
+ Não receba alteração,<br>
+ Que a verdadeira affeição<br>
+ Na longa ausencia se prova.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizei logo a Feliseo<br>
+ Que chegue muito apressado<br>
+ Ao caes, e busque mêo<br>
+ De saber se algum recado<br>
+ Do porto Persico vêo:<br>
+ E mais lhe haveis de dizer,<br>
+ (Isto vos dou por offício)<br>
+ D'alguma nova saber,<br>
+ Em quanto eu vou fazer<br>
+ Aos Deoses o sacrificio. <span class="pn"><a name="pag_303">{303}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Saudades de minh'ama,<br>
+ Chorinhos e devoções,<br>
+ Sacrificios e orações,<br>
+ Me hão de lançar n'huma cama,<br>
+ Certamente.<br>
+ Nós mulheres de semente<br>
+ Somos sedenho mui tosco:<br>
+ Com qualquer vento que vente,<br>
+ Queremos forçadamente<br>
+ Que os Deoses vivão comnosco.<br>
+ Quero Feliseo chamar,<br>
+ E dizer-lhe aonde ha de ir.<br>
+ Mas elle como me vir,<br>
+ Logo ha de querer rinchar,<br>
+ De travesso.<br>
+ Eu que de zombar não cesso,<br>
+ Por ficar com elle em salvo,<br>
+ Lanço-lhe hum e outro remêsso;<br>
+ Aos seus furto-lhe o alvo;<br>
+ E então elle fica avesso.<br>
+ Porque o melhor destas danças,<br>
+ Com huns vindiços assi,<br>
+ He trazê-los por aqui<br>
+ Ó cheiro das esperanças,<br>
+ Por viver.<br>
+ Ha-os homem de trazer<br>
+ Nos amores assi mornos,<br>
+ Só para ter que fazer; <span class="pn"><a
+ name="pag_304">{304}</a></span><br>
+ E despois ao remetter<br>
+ Lançar-lhe a capa nos cornos.<br>
+ Feliseo, se estais á mão,<br>
+ Chegae cá, vem como hum gamo:<br>
+ Bem sei que não chamo em vão.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Feliseo e Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Chamais-me? tambem vos chamo;<br>
+ Porém eu ouço, e vós não:<br>
+ Senhora, que me matais,<br>
+ Se vós ja nunca me ouvis,<br>
+ Ou me ouvis, e vos callais,<br>
+ Dizei: porque me chamais<br>
+ Se me vós a mim fugis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu vos fujo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Fugis, digo,<br>
+ De dar a meus males cabo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sabei que desse perigo<br>
+ Não fujo como de imigo,<br>
+ Fujo como do diabo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dae ao demo essa tenção,<br>
+ Usae antes de cortês,<br>
+ Cahi vós nesta razão. <span class="pn"><a name="pag_305">{305}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Do p'rigo fogem os pés,<br>
+ Do diabo o coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizeis-me que nessa briga<br>
+ Do meu coração fugis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ainda qu'eu isso diga...</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah minha doce inimiga!<br>
+ Bem sinto que me sentis.<br>
+ Mas para que me chamais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Manda-vos minha Senhora<br>
+ Que chegueis daqui ao cais,<br>
+ E algumas novas saibais<br>
+ D' Amphitrião nesta hora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem as não sabe de si,<br>
+ D'outrem como as sabera?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não as sabeis vós de mi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Má trama venha por ti,<br>
+ Duna feiticeira má!<br>
+ Porque não me ólhas direito,<br>
+ Cadella, que assi me cortas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque vos quero dar portas;<br>
+ Que s'eu olhar d'outro geito,<br>
+ Trarei cem mil vidas mortas. <span class="pn"><a
+ name="pag_306">{306}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E pois para que me andais<br>
+ Enganando ha cem mil annos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dou-vos vida com enganos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nesses enganinhos tais<br>
+ Acho crueis desenganos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quant'esses vos quero eu dar:<br>
+ Vós cuidais que estais na sella?<br>
+ Pois podeis-vos descer della;<br>
+ Qu'eu nunca vos pude olhar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Jogais comigo á panella?<br>
+ Tendes-me ha tanto captivo,<br>
+ E desenganais-me agora?<br>
+ Tudo isto he o que privo.<br>
+ Assi que he isso, Senhora,<br>
+ Dochelo morto, dochelo vivo?<br>
+ Se me vós desenganais<br>
+ No cabo de tantos annos,<br>
+ Direi, se licença dais,<br>
+ Dais-me vida com enganos,<br>
+ Desenganos, ja chegais.<br>
+ Mas se isso havia de ser,<br>
+ Dizei, má desconhecida,<br>
+ Destêrro de meu viver,<br>
+ Que vos custava dizer<br>
+ Amor, vae buscar tua vida? <span class="pn"><a
+name="pag_307">{307}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Zombais? Fallais-me coprinhas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Rir-vos-heis se vem á mão:<br>
+ Copras não, mas isto são<br>
+ Ansias y pasiones minhas<br>
+ Dos bofes e coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Is-vos fazendo d'huns sengos.....</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Perdóneme Dios si peco.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nesses dentinhos framengos<br>
+ Conheço que sois hum pêco<br>
+ De todos quatro avoengos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tudo vos levo em capelo,<br>
+ Ja qu'estais tanto em agraço.<br>
+ Porém, fallando singelo,<br>
+ A furto desse mao zêlo,<br>
+ Quereis-me dar hum abraço?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora digo que não posso<br>
+ Usar comvosco de fero:<br>
+ Tomae-o.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Ja o não quero,<br>
+ Porque esse abraço vosso,<br>
+ Sabei que he engano mero.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh! vós sois d'huns sensabores... <span class="pn"><a
+ name="pag_308">{308}</a></span><br>
+ Abraço pedis assim?<br>
+ S'eu remango d'hum chapim...</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tudo isso são favores:<br>
+ Zombae, vingae-vos de mim.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós de furioso touro<br>
+ As garrochas não sentis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vedes, com isso sé mouro:<br>
+ Quando cuido que sois ouro,<br>
+ Acho-vos toda ceitis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Emfim, sanha de villão<br>
+ Vos fez perder hum bom dia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Jagora o eu tomaria;<br>
+ Quereis-mo dar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Ora não.<br>
+ Cocei-vos eu todavia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhora, a quem vos ama<br>
+ Sois tão desarrazoada,<br>
+ Quero tomar outra dama;<br>
+ Que não digão os d'Alfama<br>
+ Que não tenho namorada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-me.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Vós me deixais. <span class="pn"><a
+ name="pag_309">{309}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-me.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+            Zombais de mi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-me. Pois m'engeitais,<br>
+ Eu me ausentarei daqui<br>
+ Onde me mais não vejais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Boa está a zombaria!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não são essas minhas manhas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porém is-vos todavia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Voyme á las tierras estrañas.<br>
+ Adó ventura me guia.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Feliseo só.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Phantasias de donzellas,<br>
+ Não ha quem como eu as quebre;<br>
+ Porque certo cuidão ellas,<br>
+ Que com palavrinhas bellas<br>
+ Nos vendem gato por lebre.<br>
+ Esta tẽe lá para si<br>
+ Qu'eu sou por ella finado;<br>
+ E crê que zomba de mi;<br>
+ E eu digo-lhe que, si, <span class="pn"><a name="pag_310">{310}</a></span><br>
+ Sou por ella esperdiçado.<br>
+ Preza-se d'humas seguras;<br>
+ E eu não quero mais Frandes:<br>
+ Dou-lhe trela ás travessuras,<br>
+ Porque destas coçaduras<br>
+ Se fazem as chagas grandes.<br>
+ Qu'estas, que andão sempre á vela,<br>
+ Estas vos digo eu que coço;<br>
+ Porque de firmes na sella,<br>
+ Crem que falsão a costella,<br>
+ E ficão pelo pescoço.<br>
+ Que quando estas damas tais<br>
+ Me cachão, então recacho.<br>
+ Mas disto agora nó mais.<br>
+ Quero-me ir daqui ao cais<br>
+ Ver se algumas novas acho.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter e Mercurio.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grande e alto destino!<br>
+ Oh potencia tão profana!<br>
+ Que a setta d'hum menino<br>
+ Faça que meu ser divino<br>
+ Se perca por cousa humana!<br>
+ Que m'aproveitão os ceos,<br>
+ Onde minha essencia mora<br>
+ Com tanto poder, se agora <span class="pn"><a
+ name="pag_311">{311}</a></span><br>
+ A quem me adora por deos,<br>
+ Sirvo eu como a senhora?<br>
+ Oh quão estranha affeição!<br>
+ Quem em baixa cousa vai pôr<br>
+ A vontade e o coração,<br>
+ Sabe tão pouco d'Amor,<br>
+ Quão pouco Amor de razão.<br>
+ Mas que remedio hei de ter<br>
+ Contra mulher tão terribil,<br>
+ Que se não póde vencer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Alto Senhor, teu poder<br>
+ O difficil faz possibil.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu não vês qu'esta mulher<br>
+ Se preza de virtuosa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, tudo póde ser;<br>
+ Que para quem muito quer,<br>
+ Sempre a affeição he manhosa.<br>
+ Seu marido está ausente<br>
+ Na guerra, longe daqui;<br>
+ Tu, qu'es Jupiter potente,<br>
+ Tomarás sua fórma em ti;<br>
+ Que o farás mui facilmente.<br>
+ E eu me transformarei<br>
+ Na de Sósea, criado seu;<br>
+ E ao arraial me irei,<br>
+ Onde logo saberei<br>
+ Como se a batalha deu.<br>
+ E assi poderás entrar, <span class="pn"><a
+ name="pag_312">{312}</a></span><br>
+ Em lugar de seu marido;<br>
+ E para que sejas crido,<br>
+ Poderás tambem contar<br>
+ Quanto eu lá tiver sabido.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem arde em tamanho fogo<br>
+ Tira-lhe a virtude a côr<br>
+ De subtil e sabedor;<br>
+ E quem fóra está do jôgo<br>
+ Enxérga o lanço melhor.<br>
+ Mas tu, que dos sabedores<br>
+ Tanto avante sempre estás,<br>
+ Se deos es dos mercadores,<br>
+ Sê-lo-has dos amadores,<br>
+ Pois tal remedio me dás.<br>
+ Ponha-se logo em effeito;<br>
+ Que não soffre dilação<br>
+ Quem o fogo tẽe no peito;<br>
+ E tu vae logo direito<br>
+ Aonde anda Amphitrião.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Feliseo e Callisto.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Adó bueno por aqui,<br>
+ Tão longe do acostumado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mais longe vou eu de mi,<br>
+ D'ir perto de meu cuidado. <span class="pn"><a
+name="pag_313">{313}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No andar vos conheci.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E vós onde vos lançais,<br>
+ Com vossa contemplação?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu chego daqui ao cais<br>
+ A saber de Amphitrião:<br>
+ Não sei se vou por demais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque por demais dizeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque nada alli ha certo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Novas lá não as busqueis,<br>
+ Que aqui as tendes mais perto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois dae-mas ja, se as sabeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hum navio he ja chegado<br>
+ Á barra, que vem de lá;<br>
+ Traz de Amphitrião recado,<br>
+ Diz que o deixa embarcado<br>
+ Para se vir para cá.<br>
+ Tẽe vencido aquelle Rei;<br>
+ E diz, segundo lhe ouvi,<br>
+ Qu'esta noite será aqui.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essas novas levarei<br>
+ A Alcmena, que torne em si,<br>
+ Porque ella tẽe maior guerra <span class="pn"><a
+ name="pag_314">{314}</a></span><br>
+ Co'os temores de perdello,<br>
+ Qu'elle co'o Rei dessa terra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Onde amor lançar o sello,<br>
+ Nenhuma cousa o desterra.<br>
+ Porqu'inda que o pensamento<br>
+ Vos fique, Senhor, em calma,<br>
+ Por morte ou apartamento;<br>
+ Sempre vos lá ficão n'alma<br>
+ As pégadas do tormento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso he hum segredo mero,<br>
+ A que o amor nos obriga:<br>
+ Por isso em caso tão fero,<br>
+ Senhor, nunca ninguem diga,<br>
+ Ja lho quiz, e não lho quero.<br>
+ Eu quiz bem a huma mulher,<br>
+ Que vós conhecestes bem,<br>
+ E, com muito lhe querer,<br>
+ Casou-se.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Oh! e com quem?<br>
+ Que ainda o não posso crer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Com hum Mercador, que veio<br>
+ Agora do Egypto, rico.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso traz ágoa no bico.<br>
+ Esse homem he parvo, ou feio?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois vêdes? disso me pico. <span class="pn"><a
+ name="pag_315">{315}</a></span><br>
+ E em pago desta traição,<br>
+ Afóra outros mil descontos<br>
+ Que traz comsigo a affeição,<br>
+ Sempre os signaes destes pontos<br>
+ Trarei no meu coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Viste-la mais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Senhor, vi,<br>
+ Na janellinha da grade;<br>
+ Passei, e disse-lhe assi:<br>
+ Casada sem piedade,<br>
+ Porque não a haveis de mi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que vos disse?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Lá no centro<br>
+ Lh'enxerguei pouca alegria;<br>
+ E como quem lhe dohia,<br>
+ Metendo-se para dentro<br>
+ Disse: Ja pasó folia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah má sem conhecimento!<br>
+ Quem lhe désse mil chofradas!</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, como são casadas,<br>
+ Casão-se co'o esquecimento<br>
+ Das cousas que são passadas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Lembranças de vos deixar<br>
+ Picar-vos-hão como tojos. <span class="pn"><a
+name="pag_316">{316}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, haveis d'assentar<br>
+ Que onde amor vos quer matar,<br>
+ Siempre allá miran los ojos.<br>
+ Hum motete lhe mandei<br>
+ Hum dia, estando com febre,<br>
+ Só da paixão que tomei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois vejamos quem tẽe lebre.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, eu vo-lo direi.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Mote.</p>
+
+<blockquote>
+ Vós por outrem, e eu por vós;<br>
+ Vós contente, e eu penado;<br>
+ Vós casada, eu cansado.<br>
+ Polos santos de minha dona!</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, vós só o fizestes?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, que ninguem me ajudou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se vós só o compuzestes,<br>
+ Crede, que extremos dissestes.<br>
+ Nunca Orlando tal fallou.<br>
+ Senhor, fizestes-lhe pé?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, si; e todo hum anno...<br>
+ Vós zombais, se não m'engano? <span class="pn"><a
+ name="pag_317">{317}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não, mas dou-vos minha fé<br>
+ Que nunca vi tão bom panno.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora olhe vossa mercê.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Volta.</p>
+
+<blockquote>
+ Olhae em quão fundos vaos<br>
+ Por vossa causa me affógo,<br>
+ Que outro me ganha no jôgo,<br>
+ E eu triste pago os paos.<br>
+ Olhos travessos e maos,<br>
+ Inda eu veja o meu cuidado<br>
+ Por esse vosso trocado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não mais, qu'isso me degola.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, eu haja perdão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fizestes esse rifão<br>
+ Em algum jôgo de bola?<br>
+ E foi-lhe elle ter á mão?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo-vos que o vio, e lho leo<br>
+ Hum moçozinho d'escola.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Está isso assi do ceo.<br>
+ Sabe ella jogar a bola?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não. <span class="pn"><a name="pag_318">{318}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+      Pois não vos entendeo.<br>
+ Ora eu ja cheguei a ler<br>
+ Petrarca, e crede de mi<br>
+ Que nunca tal cousa vi.<br>
+ Onde mora o bom saber,<br>
+ Logo dá sinal de si.<br>
+ Onde <em>casada</em> puzestes,<br>
+ Dizei, porque não dissestes<br>
+ <em>La que yo vi por mi mal.</em></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Renunciava o metal;<br>
+ Qu'em rifõeszinhos como estes,<br>
+ Ha-se-de pôr tal com tal.<br>
+ Que a trova trigo-tremez<br>
+ Ha de ser toda d'hum pano;<br>
+ Que parece muito Ingrez<br>
+ N'hum pelote Portuguez<br>
+ Todo hum quarto Castelhano.<br>
+ Ouvi outra tambem minha,<br>
+ Que fiz a certa tenção,<br>
+ Clara, leve, bonitinha,<br>
+ De feição, que esta trovinha,<br>
+ He trovinha de feição.<br>
+ Como eu hum dia me visse<br>
+ Morto, e a mão na candêa,<br>
+ E ella não me acodisse;<br>
+ Fiz-lhe esta, porque sentisse<br>
+ Que dava os fios á têa.<br>
+ E o propósito he<br>
+ Andar eu hum dia só; <span class="pn"><a name="pag_319">{319}</a></span><br>
+ E para que houvesse dó<br>
+ De mi e de minha fé,<br>
+ Lamentei-lhe como Jó.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Andastes, Senhor, mui bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora, Senhor, attentai,<br>
+ E vêde o saibo que tem;<br>
+ Se he para a ver alguem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora dizei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Ei-la vai.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Trova.</p>
+
+<blockquote>
+ Coração de carne crua,<br>
+ Vê-lo teu amor aqui,<br>
+ Que esmorecido por ti<br>
+ Jaz no meio desta rua?</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Na rua, Senhor, jazia?<br>
+ E era em tempo de lama?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, quem falla a quem ama,<br>
+ De si mesmo se não fia:<br>
+ Haveis de mentir á dama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Volta disso?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Singular, <span class="pn"><a
+ name="pag_320">{320}</a></span><br>
+ Senão que he muito sentida;<br>
+ Far-vos-ha, Senhor, chorar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh! diga, por sua vida!</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Farei o que me mandar.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Volta.</p>
+
+<blockquote>
+ Porque não has delle mágoa,<br>
+ Ó dura mais que ninguem,<br>
+ Que anda o triste, que não tem<br>
+ Quem lhe dê huma vez d'ágoa?<br>
+ Não lhe negues teu querer,<br>
+ Pois te não custa dinheiro;<br>
+ Que, emfim, por derradeiro<br>
+ A terra te ha de comer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tal trova nunca se vio.<br>
+ Agorentaste-la ja?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, não; ainda está<br>
+ Como a sua mãe pario;<br>
+ E não está muito má.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ He trova, que tẽe por seis;<br>
+ Não a posso mais gabar.<br>
+ Mas, pois, tal cousa fazeis,<br>
+ Senhor, não m'ensinareis<br>
+ Donde vem tão bem trovar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não he a cousa tão pequena, <span class="pn"><a
+ name="pag_321">{321}</a></span><br>
+ Como, Senhor, a fizestes,<br>
+ Essa que agora dissestes.<br>
+ Mas porém vou dar a Alcmena<br>
+ Estas novas que me déstes.<br>
+ Despois, Senhor, nos veremos;<br>
+ Ficae ja roendo esse osso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O roer, Senhor, he vosso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois eu, por mais que zombemos,<br>
+ Hei de ser vosso e revosso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh!.. Escusae-vos d'extremos,<br>
+ Qu'isso, Senhor, me atarraca.<br>
+ Mas nós nos encontraremos,<br>
+ E sôbre isso envidaremos<br>
+ Dous reales mais de saca.</blockquote>
+
+<h2>ACTO SEGUNDO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na fórma de
+Amphitrião, Mercurio na de Sosea escravo.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>M</big>ercurio, pois sou mudado<br>
+ Nesta fórma natural,<br>
+ Ólha e nota com cuidado, <span class="pn"><a
+ name="pag_322">{322}</a></span><br>
+ Se está em mi o pintado<br>
+ Apparente co'o real.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem tão proprio se transforma.<br>
+ Tenho por opinião,<br>
+ Que na tal transformação<br>
+ Lhe prestou natura a fôrma,<br>
+ Com que fez Amphitrião.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois tu no gesto e na côr<br>
+ Estás Sósea escravo seu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Muito mais faras, Senhor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não o faz senão o Amor,<br>
+ Que nisto póde mais qu'eu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja, Senhor, te fiz menção<br>
+ Como deo Amphitrião<br>
+ A ElRei Terela a morte;<br>
+ Que, na guerra igual, a sorte<br>
+ Póde mais que o coração.<br>
+ E despois de ser tomada<br>
+ Toda a Cidade, com gloria<br>
+ D'Amphitrião bem ganhada,<br>
+ Como em sinal de victoria,<br>
+ Esta copa lhe foi dada.<br>
+ Por ella bebia ElRei,<br>
+ Em quanto a vida queria;<br>
+ E eu, porque te cumpria,<br>
+ A seu escravo a furtei, <span class="pn"><a
+ name="pag_323">{323}</a></span><br>
+ Que n'huma caixa a trazia.<br>
+ Esta poderás levar<br>
+ A Alcmena, por lhe mostrar<br>
+ Verdadeiro, o que he fingido;<br>
+ E dest'arte serás crido,<br>
+ Sem mais outro ardil buscar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois tudo tens ordenado<br>
+ Por tão nova e subtil arte;<br>
+ Como me vires entrado,<br>
+ Irás dar este recado<br>
+ A Phebo de minha parte:<br>
+ Que faça mais devagar<br>
+ Seu curso neste Hemispherio.<br>
+ Que o que soe acostumar;<br>
+ Qu'esta noite hei de ordenar<br>
+ Hum caso de alto mysterio.<br>
+ E á Esphera mais alta<br>
+ Mandarás que fixa esteja,<br>
+ Porque a noite maior seja:<br>
+ Porque sempre o tempo falta,<br>
+ Onde a alegria he sobeja.<br>
+ E terás tamanho tento,<br>
+ Que como isto se ordenar,<br>
+ Venhas aqui vigiar,<br>
+ Porque meu contentamento<br>
+ Ninguem mo possa estorvar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Seja feito sem debate<br>
+ Tudo como te convem. <span class="pn"><a name="pag_324">{324}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois não parece ninguem,<br>
+ Como homem de casa bate,<br>
+ E muda a falla tambem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO</small>, <em>batendo à porta</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Ó de la casa, en buena hora,<br>
+ Darmehan de cenar aqui?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA</small> <em>dentro</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Sósea parece que ouvi:<br>
+ Alviçaras, minha Senhora,<br>
+ Que na falla o conheci.</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Zombais, Bromia, por ventura?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, não zombo, não.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vejo eu Amphitrião,<br>
+ Ou a vista me afigura<br>
+ O qu'está no coração?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Olhos, diante dos quais<br>
+ Desejei mais este dia,<br>
+ Que nenhuma outra alegria,<br>
+ Senhora, nunca creais<br>
+ Que lhe minta a phantasia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh presença mais querida <span class="pn"><a
+ name="pag_325">{325}</a></span><br>
+ Que quantas formou Amor!<br>
+ Isto he verdade, Senhor?<br>
+ Acabe-se aqui a vida,<br>
+ Por não ver prazer maior.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois esta hora de vos ver<br>
+ Alcançar, Senhora, pude;<br>
+ Para mais contente ser,<br>
+ Conformem co'este prazer<br>
+ Novas de vossa saude.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vida foi pezada e crua<br>
+ A saude qu'eu sostinha;<br>
+ Qu'em quanto, Senhor, a tinha,<br>
+ Temer perigo na sua,<br>
+ Me fez descuidar da minha.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y pues, mi Señora Alcmena,<br>
+ Pese al demonio malvado,<br>
+ No dirá á un su criado,<br>
+ Vengais Sósea norabuena?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sejais, Sósea, bem chegado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem mal cri eu, que pudesse<br>
+ Ver-te, Sósea, hoje aqui.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues tambien yo no creí<br>
+ Que en mi vida te viese,<br>
+ Segun las muertes que vi. <span class="pn"><a name="pag_326">{326}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Muito, Senhor, folgarei<br>
+ Com novas do vencimento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De tudo quanto passei,<br>
+ Por vos dar contentamento,<br>
+ Em summa vos contarei.<br>
+ Trago, Senhora, a victoria<br>
+ Daquelle Rei tão temido,<br>
+ Com fama clara e notoria.<br>
+ Porém maior foi a gloria<br>
+ De me ver de vós vencido.<br>
+ Sem me terem resistencia,<br>
+ Os Grandes me obedêcerão,<br>
+ Como ElRei morto tiverão:<br>
+ Em sinal de obediencia<br>
+ Esta copa me trouxerão.<br>
+ ElRei por ella bebia:<br>
+ (Ella, e tudo o mais he nosso)<br>
+ Por onde claro se via,<br>
+ Que tudo me obedecia,<br>
+ Pois tinha nome de vosso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, mas luego de rondon<br>
+ La fortuna dió la vuelta.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Fué gran perdicion,<br>
+ Porque en aquella revuelta,<br>
+ Me hurtaron mi jubon. <span class="pn"><a name="pag_327">{327}</a></span><br>
+ Pero bien me lo pagaron,<br>
+ Cuando comigo riñeron;<br>
+ Que aunque me despojaron<br>
+ Si uno de seda llevaron,<br>
+ Otro de azotes me dieron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, não posso gostar<br>
+ De gôsto, que he tão immenso,<br>
+ Senão muito devagar:<br>
+ Faça-me mercê d'entrar,<br>
+ E contar-mo-ha por extenso.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Mercurio e Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo tambien te contaria,<br>
+ Bromia, si quedas atrás,<br>
+ Que una noche... enojartehas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+       Soñaba, que te tenia...<br>
+ No me atrevo á decir mas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dize.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+       Pardies, no diré.<br>
+ Soñaba... <span class="pn"><a name="pag_328">{328}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Bem: que sonhavas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que cuando en la cama estavas<br>
+ Que yo... enfin recordé.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois tudo isso receavas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sabe Dios qué yo acá siento:<br>
+ Sola una alma vive en dos,<br>
+ La cual anda dentro en vos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E que quer ella cá dentro?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tambien eso sabe Dios.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem se poderá enganar<br>
+ Bromia, segundo ora estou,<br>
+ Como Alcinena s'enganou;<br>
+ Mas cumpre-me ir ordenar<br>
+ O que meu Pae me mandou.<br>
+ E porque seja guardada<br>
+ Esta porta e vigiada<br>
+ De toda a gente nascida,<br>
+ Me será cousa forçada,<br>
+ Ser tão depressa a tornada,<br>
+ Quão prestes faço a partida. <span class="pn"><a
+ name="pag_329">{329}</a></span></blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA</small>, <em>cantando</em>.</p>
+
+<blockquote>
+  Amphitrion esforzado<br>
+ Bravo vá por la batalla,<br>
+ Siete cabezas llevaba,<br>
+ De las mejores que ha hallado.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Quien viene de tierra agena,<br>
+ Y de la muerte escapó,<br>
+ La razon le permitió<br>
+ Que cante como sirena,<br>
+ Como agora hago yo.<br>
+ Y pues canto tan gentil,<br>
+ Fuera llanto si muriera.<br>
+ Quiero cantar como quiera,<br>
+ Una y otra, y mas de mil,<br>
+ Que digan desta manera:</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Canta.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Dongolondron, con dongolondrera,<br>
+ Por el camino de Otera,<br>
+ Rosas coge en la rosera,<br>
+ Dongolondron, con dongolondrera.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Cuando yo vengo á pensar<br>
+ Que uno matarme quisiera,<br>
+ No hago sino temblar,<br>
+ Porque creo si muriera, <span class="pn"><a
+ name="pag_330">{330}</a></span><br>
+ No pudiera mas cantar.<br>
+ Porque estando á un rincon<br>
+ De la casa adó quedé,<br>
+ Senti muy grande ronron,<br>
+ Y mirando, que miré?<br>
+ Vi que era un gran raton.<br>
+ Empero yo nunca sigo,<br>
+ Sino consejos muy sanos;<br>
+ Que en estes casos levianos,<br>
+ Quien desprecia el enemigo,<br>
+ Mil veces muere á sus manos.<br>
+ Pero mi Señor alli<br>
+ Mató al Rey de los Glipazos:<br>
+ Yo como muerto le vi,<br>
+ Juro á mi fé, que le dí<br>
+ Mas de dos mil cuchillazos.<br>
+ Y por me librar de afan,<br>
+ Me voy siempre á cosa hecha<br>
+ Probar mi mano derecha;<br>
+ Que aquel es buen capitan,<br>
+ Que del tiempo se aprovecha.<br>
+ Que quien ha de pelear,<br>
+ Ha de buscar tiempo y hora.<br>
+ Pero quiero caminar,<br>
+ Que me muero por contar<br>
+ Todo aquesto á mi Señora. <span class="pn"><a
+ name="pag_331">{331}</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Mercurio e Sósea.</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mil vezes comigo vejo,<br>
+ Para que meu Pae se affoute;<br>
+ Pois em tão pequeno ensejo<br>
+ Lhe mandei talhar a noute<br>
+ Á medida do desejo.<br>
+ E pois que como possante,<br>
+ A mi tudo se reporta,<br>
+ Chego agora neste instante<br>
+ A estorvar qu'este bargante<br>
+ Me não chegue a esta porta.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No sé que miedo, ó locura,<br>
+ Neste pecho se me cria:<br>
+ Por Dios que se me afigura,<br>
+ Que ha mucho que es noche escura,<br>
+ Sin que venga el claro dia.<br>
+ Mas sabed, que pienso yo<br>
+ Que el sol que no se acordó<br>
+ De con el dia venir,<br>
+ Que á noche cuando cenó<br>
+ Algun buen vino bebió,<br>
+ Que le hace tanto dormir.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja sentes comprida a noute,<br>
+ Qu'eu assi mandei fazer?<br>
+ Pois mais te quero dizer,<br>
+ Que sentirás muito açoute, <span class="pn"><a
+ name="pag_332">{332}</a></span><br>
+ Se cá quizeres vir ter.<br>
+ Porém, pois este bargante<br>
+ Tẽe medroso coração,<br>
+ Quero-me fingir ladrão,<br>
+ Ou phantasma, e por diante<br>
+ Não irá, se vem á mão.<br>
+ E com tudo se passar,<br>
+ A falla quero mudar<br>
+ Na sua de tal feição,<br>
+ Que couces, e porfiar,<br>
+ Lhe fação hoje assentar<br>
+ Que sou Sósea, e elle não.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla Castelhano.</em></p>
+
+<blockquote>
+ No veo pasar ninguno,<br>
+ En quien yo me pueda hartar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Á quien oigo aqui hablar?<br>
+ Mande Dios no sea alguno<br>
+ Que me quiera aporrear.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ La carne de algun humano<br>
+ Me seria muy sabrosa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh quê voz tan temerosa!<br>
+ Hombres comes, ó mi hermano?<br>
+ No es mejor otra cosa?<br>
+ Carne humana es muy mezquina.<br>
+ Oh no comas deso, no!<br>
+ Antes carne de gallina. <span class="pn"><a
+ name="pag_333">{333}</a></span><br>
+ Pero se mas se avecina,<br>
+ Qué mas gallina, que yo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Una voz de hombre ahora<br>
+ Á la oreja me voló.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pésete quien me parió:<br>
+ La voz traigo boladora?<br>
+ Ella quisiera ser yo.<br>
+ Pues mi voz pudo volar<br>
+ Do la pudieses oir;<br>
+ Por contigo no reñir,<br>
+ Me debiera de prestar<br>
+ Las alas para huir.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qué buscas cabe esa puerta,<br>
+ Hombre? Sé que eres ladron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ay que el alma tengo muerta!<br>
+ Oh Júpiter me convierta<br>
+ Las tripas en corazon!</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quien eres? quieres hablar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Soy quien mi voluntad quiere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Piensas que puedas burlar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y tú puédesme quitar<br>
+ Que yo sea quien quisiere? <span class="pn"><a
+name="pag_334">{334}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Osas hablar tan osado,<br>
+ Don vellaco bovarron?<br>
+ Dí, quien eres?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Un criado<br>
+ Del Señor Amphitrion,<br>
+ Por nombre Sósea llamado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pienso que el seso perdiste.<br>
+ Como te llamas, mal hombre?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea soy, si no me oiste.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como? en persona tan triste<br>
+ Osas d'ensuciar mi nombre?<br>
+ Estos puños llevarás,<br>
+ Pues tener mi nombre quieres.<br>
+ Quiéresme dicir quien eres?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O Señor, no me dés mas,<br>
+ Que yo seré quien tú quisieres.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Con tan nueva falsedad<br>
+ Andais por esta Ciudad,<br>
+ Delante de quien os mira?<br>
+ Pues si sois Sosea, tomad.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si me dás por la verdad,<br>
+ Que me harás por la mentira? <span class="pn"><a
+ name="pag_335">{335}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y qué verdad es la tuya?<br>
+ Que te quiero dar castigo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si no soy Sósea que digo,<br>
+ Que Júpiter me destruya.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mirad el falso enemigo:<br>
+ Tomad este bofeton,<br>
+ Que yo soy Sósea, y no vos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu Sósea?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Sósea por Dios,<br>
+ Escravo de Amphitrion.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De modo que tiene dos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No tendrá, aunque tú quieres;<br>
+ Que á mi solo conoció.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues luego de quien soy yo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si tú no sabes quien eres,<br>
+ Quieres que yo lo sepa? No.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Enfin, has me de hacer crer<br>
+ Que yo no soy quien ser solia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quien solias tú de ser? <span class="pn"><a name="pag_336">{336}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tregoas me has de prometer,<br>
+ Dirtelohé sin profia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Prometo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+           No me darás?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No, si no fuere razon.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues, hermano, tú sabrás<br>
+ Que mi amo Amphitrion...</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu amo? Pues llevarás.<br>
+ Mi amo es, que tuyo no.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ay que un brazo me quebró!</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas que luego te matase.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ojalá Dios ordenase<br>
+ Que tú ahora fueses yo,<br>
+ Y yo que te desmembrase!</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esa tu tema tan loca,<br>
+ Puños te la han de quitar.<br>
+ Dime, di, vergũenza poca,<br>
+ Qué hablas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Qué puedo hablar,<br>
+ Si me has quebrado la boca? <span class="pn"><a
+ name="pag_337">{337}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Di quien eres, sin fatiga.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Soy un hombre, en quien tú dás.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Díme pues, qué nombre has.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como quieres tú que diga,<br>
+ Para que no me dés más?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No me has de hablar contrahecho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Toda mi vida pasada<br>
+ Sósea fuy, y con despecho<br>
+ Ahora soy... qué? No nada;<br>
+ Que tus manos me han deshecho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cuyo eres, pues las sientes,<br>
+ Dejando consejos vanos?<br>
+ La verdad; que si me mientes,<br>
+ Dás con la lengua en los dientes,<br>
+ Y yo dóyte con las manos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No conoces Amphitrion?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hombre sin seso te llamo.<br>
+ Tan fuera estás de razon!<br>
+ Piensas de mí, bovarron,<br>
+ Que no conozco á mi amo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ En su casa conociste <span class="pn"><a name="pag_338">{338}</a></span><br>
+ Uno, que es Sósea llamado,<br>
+ Hombre despreciado y triste?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Desa suerte lo dijiste?<br>
+ Yo soy triste y despreciado?<br>
+ Pues sabe que te llegó<br>
+ Á la muerte tu fortuna.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues logo si yo no soy yo,<br>
+ Aunque nadie me mató;<br>
+ Soy luego cosa ninguna.<br>
+ Oh dioses, que desconcierto!<br>
+ Yo por ventura soy muerto,<br>
+ Ó murióme la razon?<br>
+ Yo no soy de Amphitrion?<br>
+ Él no me mandou del puerto?<br>
+ Yo sé que no estoy loco.<br>
+ De mi madre no naci?<br>
+ No ando? No hablo aqui?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues sosiega ahora un poco,<br>
+ Que yo tambien diré de mí.<br>
+ Yo no sé que yo soy yo?<br>
+ Yo no te dí con mis manos?<br>
+ Mi Señor no me llevó<br>
+ Á la guerra, adó mató<br>
+ Aquel Rey de los Thebanos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo eso muy bien lo sé.<br>
+ Empero tú qué hacias<br>
+ Cuando la batalla vias? <span class="pn"><a name="pag_339">{339}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Escucha: yo lo diré,<br>
+ Y cesaran tus porfías.<br>
+ Cuando mi Señor andaba<br>
+ Peleando, y derramaba<br>
+ La sangre de algun mezquino;<br>
+ Con una bota de vino<br>
+ Yo la mia acrescentaba.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Dice lo que yo hacia)<br>
+ Con todo, saber queria<br>
+ Sola una cosa, si puedo:<br>
+ Tu pecho entonces sentia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Del beber grande alegria,<br>
+ Y del pelear gran miedo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y despues?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Muy reposado<br>
+ Á dormir me eché de grado,<br>
+ Desde el sol hasta la luna.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Todo lo tiene contado.<br>
+ Enfin, tengo averiguado<br>
+ Que yo no soy cosa ninguna)<br>
+ Pues de todo en un instante<br>
+ Me has echado de mí fuera,<br>
+ Aconséjame si quiera,<br>
+ Quien seré daqui adelante,<br>
+ Pues no soy quien de antes era. <span class="pn"><a
+ name="pag_340">{340}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cuando yo no ser quisiere<br>
+ Ese, que tú ser deseas,<br>
+ Despues que ya Sósea no fuere,<br>
+ Dartehé, si te pluguiere,<br>
+ Licencia que todo seas.<br>
+ Y acógete luego, amigo,<br>
+ Á buscar tu nombre, digo,<br>
+ Pues Dios vida te dejó;<br>
+ Que el Sósea queda comigo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues contigo quedo yo,<br>
+ Dios quede, hermano, contigo.<br>
+ Ahora quiero ir allá<br>
+ Adó mi Señora está,<br>
+ Contarle como es venido<br>
+ Mi Señor. Mas, oh perdido!<br>
+ Si un otro yo tiene allá,<br>
+ Todo lo terná sabido.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah hombre.....</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Mi voz sonó.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aonde vuelves ahora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por Dios no sé onde vó,<br>
+ Porque si yo no soy yo,<br>
+ Ni Alcmena es mi Señora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Adonde vas? <span class="pn"><a name="pag_341">{341}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Con mensaje<br>
+ Del Señor Amphitrion<br>
+ Para Alcmena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Adó, salvaje?<br>
+ Pues quebraste la omenaje,<br>
+ Ahí verás tu perdicion.<br>
+ Yo doyte consejos sanos,<br>
+ Y porfias otra vez?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Altos dioses soberanos!<br>
+ Pues me no valen las manos,<br>
+ Aqui me valgan los pies.            <em>Foge.</em></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Desta arte enseñan aqui<br>
+ Á hurtar el nombre ageno?</blockquote>
+
+<h3>SCENA VII.</h3>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ay Dios, como me acogí!<br>
+ Ó Júpiter alto y bueno,<br>
+ Cuan cerca la muerte vi!<br>
+ Quiérome ir á mi Señor<br>
+ Contarle cuanto hé pasado;<br>
+ Y él me dirá de grado,<br>
+ Si yo soy su servidor,<br>
+ En que cosa me hé tornado. <span class="pn"><a
+ name="pag_342">{342}</a></span></blockquote>
+
+<h2>ACTO TERCEIRO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter e Alcmena.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>T</big>oda a pessoa discreta<br>
+ Terá, Senhora, assentado,<br>
+ Que hum bem muito desejado<br>
+ Se ha de alcançar por dieta,<br>
+ Para ser sempre estimado.<br>
+ E quem alcançado tem<br>
+ Tamanho contentamento;<br>
+ Por conservá-lo convem<br>
+ Que tome por mantimento<br>
+ A fome de tanto bem.<br>
+ E por isso hei de tomar<br>
+ Este tempo tão ditoso<br>
+ Para a frota visitar;<br>
+ E despois quando tornar,<br>
+ Tornarei mais desejoso.<br>
+ Que pois tão bom captiveiro<br>
+ Me tẽe presa a liberdade,<br>
+ Eu lhe prometto em verdade<br>
+ Que torne ainda primeiro,<br>
+ Que mo peça a saudade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aindaque se possa ir<br>
+ Mais asinha do que creio,<br>
+ Como hei d'eu consentir <span class="pn"><a
+ name="pag_343">{343}</a></span><br>
+ Que se haja de partir<br>
+ Na mesma noite que veio?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Forçada he minha tornada,<br>
+ Mas muito cedo virei;<br>
+ Porque desque foi chegada<br>
+ A este porto a Armada,<br>
+ Ainda a não visitei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhor, tão pouco estais<br>
+ Com quem vistes inda agora?<br>
+ Faça-se como mandais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós me vereis cá, Senhora,<br>
+ Primeiro do que cuidais.</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Emfim tu, que estás aqui,<br>
+ Estavas ja lá primeiro?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, crea que es ansí.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu nunca entendi de ti,<br>
+ Qu'eras tambem chocarreiro.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, yo que estoy presente,<br>
+ No soy Sósea su criado? <span class="pn"><a name="pag_344">{344}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Creio que não certamente,<br>
+ Porque Sósea era avisado,<br>
+ E tu es mui differente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues, Señor, si en mí se vé<br>
+ Que no soy quien de antes era,<br>
+ Vuélvome.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+             E para que?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ver se á dicha me quedé<br>
+ Durmiendo por la galera.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois me queres fazer crer<br>
+ Huma doudice tão rasa,<br>
+ Mais quero de ti saber:<br>
+ Como não entraste em casa<br>
+ D'Alcmena minha mulher?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aunque Sósea quisiese,<br>
+ La verdad no negará:<br>
+ Aquel yo que allá está,<br>
+ No quiso que á casa fuese<br>
+ Estotro yo, que iba allá.<br>
+ Y con furia tan crecida<br>
+ Á mí se vino aquel hombre,<br>
+ Que yo me puse en huida,<br>
+ Y ansí le dejé mi nombre,<br>
+ Por me dejar él la vida. <span class="pn"><a name="pag_345">{345}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem seria tão ousado,<br>
+ Que tanto mal te fizesse?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo mismo Sósea llamado,<br>
+ Que á casa era ya llegado,<br>
+ Antes que de acá partise.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu chegaste antes de ti?<br>
+ Este he gentil disparate.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues mas le digo daqui,<br>
+ Que vengo huyendo de mí,<br>
+ Porque yo mismo no me mate.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Erão dous, ou era hum só,<br>
+ Quem te fez assi fugir?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pésete quien me parió:<br>
+ Digo, que era un solo yo:<br>
+ Mil veces lo hé de decir?<br>
+ Puede ser que naceria<br>
+ De aquel hombre otro alguno,<br>
+ Como aquel de mí nacia;<br>
+ Porque aunque fuese él uno,<br>
+ Por mas de cuatro tenia.<br>
+ Él tenia mi aparencia,<br>
+ Empero yo nunca vi<br>
+ Tal fuerza, ni tal potencia:<br>
+ Esta sola diferencia<br>
+ Le tengo hallado de mí. <span class="pn"><a name="pag_346">{346}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pudeste delle saber<br>
+ Cujo era?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+             Quien? aquel yo?<br>
+ Tuyo, Señor, dijo ser.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca eu tive mais que hum só,<br>
+ E esse não quizera ter.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues, Señor, si el bien doblado<br>
+ Te le muestra agora Dios,<br>
+ Debe ser de ti alabado;<br>
+ Pues de uno solo criado<br>
+ Te ha hecho agora dos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Antes para que conheças,<br>
+ Que cousa he mao servidor,<br>
+ Me pezará se assi for;<br>
+ Que de tão ruins cabeças,<br>
+ Quantas mais, tanto peor.<br>
+ E ja que são tão incertos<br>
+ Teus ditos para se crer;<br>
+ Muito melhor deve ser<br>
+ Que deixe teus desconcertos,<br>
+ E va ver minha mulher. <span class="pn"><a name="pag_347">{347}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que fado, que nascimento<br>
+ De gente humana nascida,<br>
+ Que d'escasso e avarento,<br>
+ Nunca consentio na vida<br>
+ Perfeito contentamento!<br>
+ Amphitrião, que mostrou<br>
+ Hum prazer tão desejado<br>
+ A quem tanto o desejou;<br>
+ Na noite, que foi chegado,<br>
+ Nessa mesma se tornou!<br>
+ De se tornar tão asinha<br>
+ Sinto tanto entristecer<br>
+ O sentido e alma minha,<br>
+ Que certo que me adivinha<br>
+ Algum novo desprazer.<br>
+ Mas parece este que vem,<br>
+ Se não estou enganada:<br>
+ Se elle he, venha com bem,<br>
+ Pois que com sua tornada<br>
+ Tão transtornada me tem.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Alcmena e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Com que palavras, Senhora,<br>
+ Poderei engrandecer<br>
+ Tão sublimado prazer, <span class="pn"><a name="pag_348">{348}</a></span><br>
+ Como he ver chegada a hora,<br>
+ Em que vos pudesse ver?<br>
+ Certo grão contentamento<br>
+ Tive de meu vencimento;<br>
+ Mas maior o hei de mim,<br>
+ De me ver pôsto no fim<br>
+ De tão longo apartamento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja eu disse o que sentia<br>
+ De vinda tão desejada.<br>
+ Mas diga-me todavia:<br>
+ Como não foi ver a Armada,<br>
+ Que me disse hoje este dia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Della venho eu inda agora<br>
+ Desejoso de vos ver,<br>
+ Muito mais que de vencer.<br>
+ Mas que me dizeis, Senhora,<br>
+ Que hoje me ouvistes dizer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se não estava remota,<br>
+ Certamente que lhe ouvi,<br>
+ Quando hoje partio daqui,<br>
+ Que tornava a ver a frota.<br>
+ Porque era forçado assi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+        Señor, aqui estoy yo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu ouves tal desconcêrto? <span class="pn"><a
+name="pag_349">{349}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Grandes orejas ganó,<br>
+ Pues estando en casa oyó<br>
+ Quien estava allá nel puerto!</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quando dizeis, que m'ouvistes?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hoje, quando vos partistes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Donde?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Daqui, de me ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca vi grande prazer,<br>
+ Que não tenha os cabos tristes.<br>
+ Quantos males d'improviso<br>
+ Que causão grandes mudanças!<br>
+ Que mulher de tanto aviso,<br>
+ Agora minhas lembranças<br>
+ A tẽe fóra de juizo!</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quereis-me fazer cuidar<br>
+ Que poderia sonhar<br>
+ O que pelos olhos vi?<br>
+ Nunca vos eu mereci<br>
+ Quererdes-me exprimentar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Postoque he para pasmar<br>
+ Ver hum caso tão estranho,<br>
+ Todavia hei de attentar,<br>
+ Se poderei concertar <span class="pn"><a name="pag_350">{350}</a></span><br>
+ Hum desconcêrto tamanho.<br>
+ Quando dizeis que vim cá?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esta noite que passou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dae-me alguem que aqui se achou,<br>
+ Que me visse.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Esse que hi está,<br>
+ Sósea que comvosco andou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea, podes-te lembrar,<br>
+ Que hontem me vistes aqui?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca yo supe de mí<br>
+ Que me pudiese acordar<br>
+ De aquello que nunca vi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora eu creo, e he assi,<br>
+ Que ambos vindes conjurados,<br>
+ Para zombardes de mi;<br>
+ Mas eu darei hoje aqui<br>
+ Sinaes que sejão provados.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que sinaes póde ahi haver<br>
+ De mentira tão notoria,<br>
+ Que nem foi, nem póde ser?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Donde vim eu a saber<br>
+ Novas de vossa victoria? <span class="pn"><a name="pag_351">{351}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que novas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Dir-vo-las-hei,<br>
+ Assi como mas contastes:<br>
+ Que na batalha matastes<br>
+ Aquelle soberbo Rei,<br>
+ E tudo desbaratastes:<br>
+ Não fazendo resistencia<br>
+ N'huma batalha tão crua,<br>
+ Dando-vos obediencia,<br>
+ Vos derão huma copa sua,<br>
+ Lavrada por excellencia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea he culpado só<br>
+ Nestes acontecimentos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, son encantamientos,<br>
+ Porque aquel hombre, que es yo,<br>
+ Le contaria estos cuentos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem he esse, que vos deu<br>
+ Taes novas, saber queria?<br>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem mo pergunta.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                       Quem? Eu!<br>
+ Quereis-me fazer sandeu?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas vós me fazeis sandia. <span class="pn"><a
+name="pag_352">{352}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora quero perguntar:<br>
+ Que fiz sendo aqui chegado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Puzemos-nos a cear.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E despois de ter ceado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fomos-nos ambos deitar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca queira Deos que possa<br>
+ Achar-se na minha honra<br>
+ Nenhuma falta nem mossa:<br>
+ Seja isto doudice vossa,<br>
+ Antes que minha deshonra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bien lo supe yo entender,<br>
+ Que era esto encantaciones;<br>
+ Y ahora me habrá de crer<br>
+ Que dos Sóseas puede haber,<br>
+ Pues hay dos Amphitriones.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Com me quererdes tentar<br>
+ Tão torvada me fizestes,<br>
+ Que me não pôde lembrar<br>
+ Que vos mandasse mostrar<br>
+ A copa que me hontem déstes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu? copa? Se isso ahi ha,<br>
+ Que estou doudo cuidarei. <span class="pn"><a name="pag_353">{353}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, bien guardada está.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bromia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA</small>, <em>de dentro</em>.</p>
+
+<blockquote>
+          Senhora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                      Dae cá<br>
+ A copa que hontem vos dei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues yo parí otro yo,<br>
+ Y vós otro Amphitrion,<br>
+ No es mucha admiracion,<br>
+ Si la copa otra parió,<br>
+ Ni aun fuera de razon.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Alcmena, Sosea e Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eis-aqui a copa vem,<br>
+ Testimunho da verdade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh estranha novidade!</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Poder-me-ha dizer alguem<br>
+ Que o que digo he falsidade?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea, quando hontem cá vinhas,<br>
+ Poder-me-has negar, ladrão, <span class="pn"><a
+ name="pag_354">{354}</a></span><br>
+ Que lhe déste as novas minhas,<br>
+ E mais a copa que tinhas<br>
+ Guardada na tua mão?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, que no pude, no,<br>
+ Ver á mi Señora Alcmena:<br>
+ Si aquel eso acá ordenó,<br>
+ No lleve este yo la pena<br>
+ Del mal que hizo el otro yo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora eu não sei entender<br>
+ Tal caso, nem lhe acho fundo:<br>
+ Com tudo venho a dizer,<br>
+ Que ha tantos males no mundo,<br>
+ Que tudo se póde crer.<br>
+ Se vos trouxer quem vos diga<br>
+ Como esta noite dormi<br>
+ Na nao, crereis que he assi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nenhuma cousa me obriga<br>
+ A que não creia o que vi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se o Patrão aqui vier,<br>
+ Que he homem d'autoridade,<br>
+ Crereis o que vos disser?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sim, que ninguem póde haver<br>
+ Que me negue esta verdade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu estou em concrusão<br>
+ D'hoje desembaraçar <span class="pn"><a name="pag_355">{355}</a></span><br>
+ Tão enleada questão:<br>
+ Á nao me quero tornar<br>
+ A trazer cá Belferrão.<br>
+ Sósea, até minha tornada<br>
+ Fica nesta casa em vela;<br>
+ Qu'eu armarei tal cilada<br>
+ A quem ma a mim tẽe armada,<br>
+ Que venha hoje a cahir nella.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Alcmena e Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh mulher triste e suspensa<br>
+ Da mais alta confusão<br>
+ Que nunca vio coração!<br>
+ Em que mereces a offensa,<br>
+ Que te faz Amphitrião?<br>
+ Sempre de mi foi amado,<br>
+ Tanto quanto em mi se sente,<br>
+ Co'o coração tão liado,<br>
+ Que se de mi era ausente,<br>
+ Nelle o via figurado.<br>
+ E pois mulher, que cumprisse<br>
+ Melhor qu'eu fidelidade,<br>
+ Não a vi, nem quem me visse<br>
+ Que dos limites sahisse<br>
+ Hum pouco da honestidade.<br>
+ Pois porque he tão maltratada<br>
+ Innocencia tão singella? <span class="pn"><a
+ name="pag_356">{356}</a></span><br>
+ Que a pena mais apertada,<br>
+ He a culpa levantada<br>
+ Ao coração livre della.<br>
+ Mas ja que minh'alma está<br>
+ Sem culpa do que padeço,<br>
+ Seja o que for; qu'eu conheço<br>
+ Que a verdade me porá<br>
+ No qu'eu pola ter mereço.<br>
+ Bromia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+        Senhora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                      Hi mandar<br>
+ A Feliseo, que vá<br>
+ Meu primo Aurelio chamar;<br>
+ Que lhe quero perguntar<br>
+ Que conselho me dará.<br>
+ E pois que Amphitrião<br>
+ Vai buscar somente quem<br>
+ Lhe ajude a sua tenção,<br>
+ Quero eu ter aqui tambem<br>
+ Quem me defenda a razão. <span class="pn"><a name="pag_357">{357}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h2>ACTO QUARTO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter, Alcmena e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>G</big>rão desconcêrto tẽe feito<br>
+ Amphitrião com Alcmena!<br>
+ Qualquer delles tẽe direito:<br>
+ Eu sou o que venço o preito,<br>
+ E ambos págão a pena.<br>
+ Quero-me ir lá desfazer<br>
+ Tão trabalhosa demanda,<br>
+ Por nos tornarmos a ver;<br>
+ Porque, emfim, quem muito quer<br>
+ Com qualquer desculpa abranda.<br>
+ E pois ja que a affeição<br>
+ Ha de mudar tão asinha,<br>
+ Quero ir alcançar perdão<br>
+ Da culpa, que sendo minha,<br>
+ Parece d'Amphitrião.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Parece que torna cá<br>
+ Amphitrião, que ja se hia:<br>
+ Não sei a que tornará.<br>
+ Senão se lhe peza ja<br>
+ Dos enganos que tecia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, não haja error<br>
+ Que tantos males me faça, <span class="pn"><a
+ name="pag_358">{358}</a></span><br>
+ Porque se o contrário for,<br>
+ Pequeno será o amor,<br>
+ Que manencória desfaça.<br>
+ E pois com tanta alegria<br>
+ De tantos perigos vim,<br>
+ Pezar-me-ha se achar no fim,<br>
+ Que huma leve zombaria<br>
+ Vos possa aggravar de mim.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Com palavras de deshonra<br>
+ Não se ha de tratar quem ama;<br>
+ Nem zombaria se chama,<br>
+ Por exprimentar a honra,<br>
+ Pôr em tal perigo a fama.<br>
+ Bem tive eu para mim,<br>
+ Que era aquillo experiencia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Errei no que commetti:<br>
+ Bem me basta a penitencia<br>
+ De quanto me arrependi.<br>
+ E se fiz algum error,<br>
+ Com que vosso amor se mude<br>
+ De quem vo-lo tẽe maior;<br>
+ Não exprimentei virtude,<br>
+ Mas exprimentei amor.<br>
+ Que se com caso tão vário<br>
+ Folguei de vos agastar,<br>
+ Foi amor accrescentar;<br>
+ Porque ás vezes hum contrário<br>
+ Faz seu contrário avisar.<br>
+ Daqui vem, que a leve mágoa <span class="pn"><a
+ name="pag_359">{359}</a></span><br>
+ Firmeza e affeições augmenta,<br>
+ Como bem se vê na frágoa,<br>
+ Onde o fogo se accrescenta,<br>
+ Borrifando-o com pouca ágoa.<br>
+ Se hum mal grande se alevanta<br>
+ N'hum coração que maltrata,<br>
+ A affeição se desbarata;<br>
+ Porque onde a ágoa he tanta<br>
+ O fogo d'amor se mata.<br>
+ E pois tive tal tenção,<br>
+ Perdoae, Senhora, a culpa<br>
+ Deste vosso coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não se alcança assi perdão<br>
+ D'erro que não tẽe desculpa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora pois assi tratais<br>
+ Quem em tanto risco pôs<br>
+ O amor que vós negais,<br>
+ Eu m'ausentarei de vós<br>
+ Onde mais me não vejais.<br>
+ Que, pois desculpa não tem<br>
+ Coração que tanto quer,<br>
+ Vou-me; que não será bem<br>
+ Que quem vós não podeis ver,<br>
+ Que possa mais ver ninguem.<br>
+ Se algum'hora meu cuidado<br>
+ Vos der dor, em que pequena;<br>
+ Peço-vos, pois fui culpado,<br>
+ Que vos não peze da pena<br>
+ De quem vos foi tão pezado. <span class="pn"><a
+ name="pag_360">{360}</a></span><br>
+ E despois que a desventura<br>
+ Puzer este coração<br>
+ Debaixo da sepultura,<br>
+ As letras na pedra dura<br>
+ Vossa dureza dirão.<br>
+ Isto vos hei de dizer,<br>
+ Que m'ensinou minha dor:<br>
+ Se quizerdes leda ser,<br>
+ Nunca exprimenteis amor<br>
+ Em quem vo-lo não tiver.<br>
+ Deixae-me ir; não me tenhais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Amphitrião, não choreis!<br>
+ Amphitrião!</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Que quereis,<br>
+ Ou para que nomeais<br>
+ Homem, que ver não podeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Amphitrião, s'eu causei<br>
+ Com manencória pequena<br>
+ Cousa, com que o magoei;<br>
+ Eu quero cahir na pena<br>
+ Dessa culpa que lhe dei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sempre serei magoado<br>
+ Se vossa má condição<br>
+ Me não perdôa o passado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Perdôo, e peço perdão<br>
+ De lhe não ter perdoado. <span class="pn"><a name="pag_361">{361}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No le perdone, Señora,<br>
+ Hasta que con devocion<br>
+ Tambien me pida perdon;<br>
+ Que bien se me acuerda ahora<br>
+ Que me ha llamado ladron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+        Señor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Vae buscar<br>
+ O Piloto Belferrão;<br>
+ Dir-lhe-has, se desembarcar,<br>
+ Que me parece razão<br>
+ Que venha hoje cá cear.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, Señor, voy á la hora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De nenhuma qualidade<br>
+ Cure de fazer demora.<br>
+ E nós vamos-nos, Senhora,<br>
+ Confirmar nossa amizade.</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Grandes revoltas vão lá.<br>
+ Grandes acontecimentos!<br>
+ Cumpre-me que esteja cá,<br>
+ Em quanto meu pae está <span class="pn"><a
+ name="pag_362">{362}</a></span><br>
+ Em seus desenfadamentos.<br>
+ Porque vi Amphitrião<br>
+ Vir da nao mui apressado;<br>
+ E tendo corrido e andado,<br>
+ Não pôde achar Belferrão,<br>
+ Que lhe era bem escusado.<br>
+ Parece-me que virá<br>
+ Ver se lhe abre aqui alguem;<br>
+ Mas, porém, se chega cá,<br>
+ Ja póde ser que se vá<br>
+ Mais confuso do que vem.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Mercurio e Amphitrião.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quiz-nos nossa natureza<br>
+ Com tal condição fazer,<br>
+ Que ja temos por certeza<br>
+ Não haver grande prazer,<br>
+ Sem mistura de tristeza.<br>
+ Este decreto espantoso,<br>
+ Que instituio nossa sorte,<br>
+ He tal e tão rigoroso,<br>
+ Que ninguem antes da morte<br>
+ Se póde chamar ditoso.<br>
+ Com esta justa balança<br>
+ O Fado grande e profundo<br>
+ Nos refreia a esperança,<br>
+ Porque ninguem neste mundo<br>
+ Busque bem-aventurança. <span class="pn"><a
+ name="pag_363">{363}</a></span><br>
+ Eu, que cuidei de viver<br>
+ Sempre contente de mi<br>
+ Com tamanho Rei vencer,<br>
+ Venho achar minha mulher<br>
+ De todo fóra de si.<br>
+ Mas d'outra parte, que digo?<br>
+ Que s'he verdade o que vi,<br>
+ E o que ella diz he assi;<br>
+ Virei a cuidar comigo<br>
+ Qu'eu sou o fóra de mi.<br>
+ Quero ver se a acho ja<br>
+ Fóra de tão seccos nós.<br>
+ Ó de casa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 O de allá?<br>
+ Quien sois?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Abre.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                        Santo Dios!<br>
+ Pues no os conocen acá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh que gentil desvario!<br>
+ Abri-me ora se quizerdes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No haré, que en mí confio<br>
+ Que de fuera dormiredes,<br>
+ Que no comigo, amor mio.<br>
+ (Que cancion para oir!)</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah Sósea! zombas de mi? <span class="pn"><a
+ name="pag_364">{364}</a></span><br>
+ (Ora quero-me fingir<br>
+ Que ainda o não conheci,<br>
+ Por ver se me quer abrir)<br>
+ Ah Senhor, não abrireis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qué quereis, hombre, por Dios?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Duas palavras de vós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tengo dicho mas de seis,<br>
+ E ahora me pedis dos?<br>
+ De fuera podeis dormir,<br>
+ Que entrar no podeis acá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora acabae, abri lá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo que no quiero abrir:<br>
+ Dije dos palabras ya.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora sus, bargante, abri.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si no te vuelves de aqui,<br>
+ Á gran peligro te ofreces.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Velhaco, não me conheces.<br>
+ Ou estás fóra de ti?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bonito venis, amor.<br>
+ Quien sois, que hablais tan osado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Abre, que sou teu Senhor. <span class="pn"><a name="pag_365">{365}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vuélvase de esotro lado,<br>
+ Y conocerlehé mejor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea moço.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Así me llamo,<br>
+ Huélgome que lo sepais;<br>
+ Empero digo que os vais,<br>
+ Que Amphitrion es mi amo;<br>
+ Vos id buscar quien seais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois quero saber de ti:<br>
+ Eu quem sou?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Y quien sois vós?<br>
+ Como os llaman?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Abri.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Á vos os llaman Abri?<br>
+ Pues, Abri, andad con Dios.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem ha, que possa soffrer<br>
+ Em sua honra tal destrôço,<br>
+ Que para me endoudecer<br>
+ Me tẽe negado a mulher,<br>
+ E agora me nega o moço?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mira el encantador<br>
+ Como se lastima y llora, <span class="pn"><a
+ name="pag_366">{366}</a></span><br>
+ Y fuese tomar ahora<br>
+ La forma de mi Señor,<br>
+ Para engañar mi Señora.<br>
+ Pues esperad, y no os vais,<br>
+ Por un espacio pequeño;<br>
+ Verná quien representais,<br>
+ Y él os hará que volvais<br>
+ El falso gesto á su dueño.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vae, velhaco, e chama cá<br>
+ Esse falso feiticeiro;<br>
+ Que se elle lá dentro está,<br>
+ Esta espada julgará<br>
+ Qual de nós he o verdadeiro.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Sosea e Belferrão.</em></p>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora ninguem presumíra<br>
+ Que tinhas tão pouco siso;<br>
+ Pois vás achar d'improviso<br>
+ Tão bem forjada mentíra,<br>
+ Que me faz cahir de riso.<br>
+ Hum moço, que alevantou<br>
+ Tal graça, nunca nasceo:<br>
+ Porque vos jura que achou<br>
+ Que ou elle em dous se perdeo,<br>
+ Ou de hum dous se tornou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Patron, que no burlo, no: <span class="pn"><a
+ name="pag_367">{367}</a></span><br>
+ En uno son dos unidos,<br>
+ Y en dos cuerpos repartidos;<br>
+ Yo soy él, y él es yo,<br>
+ De un padre y madre nacidos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esse tu que lá estás,<br>
+ Tão velhaco he como ti?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas aun pienso que es mas:<br>
+ Por delante y por detrás<br>
+ Todo se parece á mí.<br>
+ Y fue gran merced de Dios<br>
+ Ayuntar á mí mas uno,<br>
+ Que peor fuera de nos,<br>
+ Si Dios me hiciera ninguno,<br>
+ Que no de uno hacer dos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Assi que, se te perdeste<br>
+ Vieste a cobrar mais hum:<br>
+ Mui gentil conta fizeste,<br>
+ Pois que perdido soubeste<br>
+ Que eras dous, sendo nenhum.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues teneis por abusion<br>
+ Verdad tan clara, y tan rasa,<br>
+ Aunque pone admiracion;<br>
+ Quiera Dios, que allá en casa<br>
+ No halleis otro Patron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O Patrão, que fui buscar,<br>
+ Parece que vejo vir: <span class="pn"><a name="pag_368">{368}</a></span><br>
+ Não sei quem o foi chamar;<br>
+ Mas que me ha de aproveitar<br>
+ Se me não querem abrir?<br>
+ Ah Belferrão!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Ah Senhor!<br>
+ Ja sinto que fui culpado;<br>
+ Porque quem he convidado,<br>
+ Se tão vagaroso for,<br>
+ Merece não ser chamado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ A vós quem vos convidou?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea, por mandado seu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Disso, Patrão, não sei eu;<br>
+ Que Sósea ja me negou,<br>
+ E ja se não dá por meu.<br>
+ E se alguem vos foi dizer<br>
+ Qu'eu vos chamo á minha mesa;<br>
+ Mal vos dara de comer<br>
+ Quem de todo lhe he defesa<br>
+ A casa, e mais a mulher.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem he esse tão ousado,<br>
+ Que vos isso faz, Senhor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea, creio que enganado<br>
+ Por algum encantador,<br>
+ Que a honra me tẽe roubado. <span class="pn"><a
+ name="pag_369">{369}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se elle aqui comigo vem,<br>
+ Isso como póde ser?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah! que a íra que vou ter,<br>
+ Tão cega a vista me tem,<br>
+ Que mo não deixava ver.<br>
+ Porque razão, cavalleiro,<br>
+ Não me abris quando vos mando?<br>
+ Vós fazeis-vos chocarreiro?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo Señor? y como? y cuando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quereis-lo saber primeiro?<br>
+ Esperae, dir-se-vos-ha,<br>
+ Mas será por outro son.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah Señor Amphitrion,<br>
+ Porque matándome está,<br>
+ Sin delito, y sin razon?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Agora que vos eu dou<br>
+ Me chamais Amphitrião,<br>
+ E para me abrirdes não?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Este moço em que peccou?<br>
+ Porque pena sem razão?<br>
+ Não mais por amor de mi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não, que não sou seu Senhor;<br>
+ Eu sou hum encantador. <span class="pn"><a name="pag_370">{370}</a></span><br>
+ Não o dizeis vós assi,<br>
+ Ladrão, perro, enganador?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque fuy presto á llamar<br>
+ Por su mandado al Patron,<br>
+ Me quiere ahora matar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem vo-lo mandou buscar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si no hay otro Amphitrion,<br>
+ Vuestra merced sin dudar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu te mandei?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Si Señor,<br>
+ Si otro no.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Outro ha aqui,<br>
+ Por quem tu zombes de mi?<br>
+ Pois só desse encantador<br>
+ Me quero vingar em ti.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Júpiter, á quien bramo<br>
+ Por su bondad que me vala!<br>
+ Pues porque Sósea me llamo,<br>
+ Yo mismo, y despues mi amo,<br>
+ Me dieron venida mala! <span class="pn"><a name="pag_371">{371}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h2>ACTO QUINTO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>Q</big>uem he o tão atrevido,<br>
+ Que aqui ousa de fazer<br>
+ Tão revoltoso arruido<br>
+ Com meus moços, sem temer,<br>
+ Que fui sempre tão temido?<br>
+ Quem aqui faz união,<br>
+ Toma mui grande despejo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grande admiração!<br>
+ Vejo eu outro Amphitrião,<br>
+ Ou he sonho isto que vejo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No mirais la encantacion,<br>
+ Que aquel hizo á mi Señor?<br>
+ El que sale, Belferron,<br>
+ Es el cierto Amphitrion,<br>
+ Que estotro es encantador.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Mi Señor, ya vó.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Patrão, só por vós espero. <span class="pn"><a
+ name="pag_372">{372}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No os lo dicia yo,<br>
+ Que este era el verdadero,<br>
+ Y esse que allá queda, no?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bargante, aonde te vás?<br>
+ Fazes teu Senhor sandeu?<br>
+ Pois espera, e levarás.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ó lá, tornae por detrás,<br>
+ Não deis no moço, que he meu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vosso?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Meu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Póde isto haver,<br>
+ Que outrem minhas cousas tome?<br>
+ Vós galante haveis de ser,<br>
+ O que me tomais o nome,<br>
+ Casa, moços e mulher.<br>
+ Eu vos farei conhecer<br>
+ Com quem tendes esse trato.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Señor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Vae dizer,<br>
+ Que apparelhem de comer,<br>
+ Em quanto este doudo mato. <span class="pn"><a
+name="pag_373">{373}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Senhor, não seja assim,<br>
+ Haja em vós concêrto algum!<br>
+ E senão, pois aqui vim,<br>
+ Farei que só tome em mim<br>
+ Os golpes de cada hum.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Patrão, vossa boa estrella<br>
+ Me fara deixar com vida<br>
+ Quem me não merece tella.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não a tenho eu merecida,<br>
+ Pois que vos deixo com ella.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O homem que for sisudo,<br>
+ N'huma tão grande questão<br>
+ Ha de tomar por escudo<br>
+ A justiça, e a razão;<br>
+ Que estas armas vencem tudo.<br>
+ E pois essa natureza<br>
+ Muitos homens faz iguais,<br>
+ Dê qualquer de vós signais<br>
+ De quem he, para certeza<br>
+ Da fórma que ambos mostrais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sou contente de mostrar<br>
+ Polos sinaes que vos dou,<br>
+ Que são estes sem faltar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que sinaes podeis vós dar,<br>
+ Para que sejais quem sou? <span class="pn"><a name="pag_374">{374}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Estes, que logo vereis<br>
+ Se são vãos, se de raiz.<br>
+ Patrão, vós sêde juiz,<br>
+ Que vós logo enxergareis<br>
+ Qual mais verdade vos diz.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu não sinto onde consista<br>
+ A cura desta doença,<br>
+ Que ha tão pouca differença,<br>
+ Que aquelle em que ponho a vista,<br>
+ Por esse dou a sentença.<br>
+ Mas, Senhor, vós que ordenastes<br>
+ Que o juiz disto fosse eu,<br>
+ Quando se a batalha deu,<br>
+ Dizei, que m'encommendastes<br>
+ Que ficasse a cargo meu?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <br>
+ Dei-vos cargo, qu'estivesse<br>
+ Toda a Armada a bom recado,<br>
+ E, se mal nos succedesse,<br>
+ Que para os vivos houvesse<br>
+ O refugio apparelhado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora vós quantos dobrões<br>
+ Esse dia m'entregastes?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tres mil; e vós os contastes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ambos sois Amphitriões<br>
+ Pelos sinaes que mostrastes. <span class="pn"><a
+ name="pag_375">{375}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Para ser mais conhecida<br>
+ A tenção deste sandeu,<br>
+ Vêde est'outro sinal meu,<br>
+ Que he neste braço a ferida<br>
+ Que me ElRei Terela deu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mostrae vós, Senhor, tambem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aqui o podeis olhar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh cousa para espantar!<br>
+ Que ambos a ferida tem<br>
+ D'hum tamanho, em hum lugar!</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter, Amphitrião e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dice mi Señora Alcmena<br>
+ Que no se ha de así de estar<br>
+ Con un bobo á razonar,<br>
+ Que se le enfria la cena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Belferrão, vamos cear.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Belferrão, não me deixeis.<br>
+ Como? tambem me negais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Andae, não vos detenhais, <span class="pn"><a
+ name="pag_376">{376}</a></span><br>
+ Vamos comer, se quereis,<br>
+ Não ouçais hum doudo mais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah maos! assi me ordenais<br>
+ Offensa tão mal olhada?<br>
+ Eu farei, se m'esperais,<br>
+ Com que todos conheçais<br>
+ Os fios da minha espada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ As portas prestes fechemos,<br>
+ Não entre este doudo cá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De fuera se dormirá:<br>
+ Entre tanto que cenemos,<br>
+ Puede pasearse allá.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Oh ira para não crer,<br>
+ Em que minh'alma se abraza,<br>
+ Que me faz endoudecer,<br>
+ E não me ajuda a romper<br>
+ As paredes desta casa!<br>
+ E porque? Não tenho eu<br>
+ Forças, que tudo destrua?<br>
+ Pois que tanto a salvo seu,<br>
+ Outrem acho que possua<br>
+ A melhor parte do meu;<br>
+ Eu irei hoje buscar <span class="pn"><a name="pag_377">{377}</a></span><br>
+ Quem me ajude a vir queimar<br>
+ Toda esta casa sem pena,<br>
+ Donde veja arder Alcmena,<br>
+ Com quem a vejo enganar.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aurelio e Moço.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No hallo á mis males culpa,<br>
+ Para que merezca pena<br>
+ La causa que me condena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essa está gentil desculpa<br>
+ Para hoje dar a Alcmena!<br>
+ Tẽe-no mandado chamar,<br>
+ E elle está tão descuidado!</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Moço, queres-me matar?<br>
+ Que desculpa posso eu dar<br>
+ Melhor qu'este meu cuidado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E não ha mais que fazer?<br>
+ Com isso a boca me tapa<br>
+ Para mais nada dizer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora dá-me cá essa capa<br>
+ E vamos ver o que quer:<br>
+ Não trates de mais razão,<br>
+ Pois não ha quem te resista.<br>
+ Que vejo? outra novação! <span class="pn"><a
+name="pag_378">{378}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que he?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Ou me mente a vista,<br>
+ Ou eu vejo Amphitrião.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu ouvi a Feliseo,<br>
+ Quando cá trouxe o recado,<br>
+ Como elle era chegado,<br>
+ E quiz-me dizer que veo<br>
+ Do siso desconcertado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso quero eu ir saber,<br>
+ Pois que tal cousa se sôa.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aurelio e Amphitrião.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, póde-se dizer<br>
+ Que a vinda seja mui boa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essa não póde ella ser.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque não?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Porque he roubada<br>
+ Minha honra sem temor,<br>
+ E minha casa tomada,<br>
+ E vossa Prima enganada<br>
+ Por hum grande encantador. <span class="pn"><a
+name="pag_379">{379}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso he certo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   E manifesto:<br>
+ E tudo tẽe ja por seu<br>
+ Adúltero e deshonesto:<br>
+ Tẽe-me tomado o meu gesto,<br>
+ E faz-lhe crer que sou eu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Contais hum caso d'espanto!<br>
+ E pois não podeis entrar,<br>
+ Defendei-me por em tanto,<br>
+ Que eu hei lá de chegar<br>
+ Para ver quem póde tanto,</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Se ver deshonra tão clara<br>
+ Me não tivera o sentido<br>
+ Totalmente endoudecido,<br>
+ Que gravemente chorára<br>
+ Ver tão grande amor perdido!<br>
+ E quando vejo a verdade<br>
+ Do nosso amor e amizade<br>
+ Desfeita com tanta mágoa<br>
+ Enchem-se-me os olhos d'ágoa,<br>
+ E a alma de saudade.<br>
+ Assi que quiz minha estrella,<br>
+ Para nunca ser contente, <span class="pn"><a
+ name="pag_380">{380}</a></span><br>
+ Que agora, estando presente<br>
+ Viva mais saudoso della,<br>
+ Que quando della era ausente.<br>
+ Esta porta vejo abrir<br>
+ Com impeto demasiado,<br>
+ Que poderei presumir,<br>
+ Que vejo Aurelio sahir,<br>
+ Como homem desatinado?</blockquote>
+
+<h3>SCENA VII.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh estranha novidade!<br>
+ Oh cousa para não crer!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Venho cego de verdade,<br>
+ Que não puderão soffrer<br>
+ Meus olhos a claridade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh triste, que vengo ciego<br>
+ Con rayos, y con visiones!<br>
+ Y destas encantaciones,<br>
+ Si nuestra casa arde en fuego,<br>
+ Han se de arder mis colchones.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vamos a Amphitrião<br>
+ Contar-lhe cousas tamanhas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que vai lá? que cousas vão? <span class="pn"><a
+ name="pag_381">{381}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Maravilhas tão estranhas,<br>
+ Que me treme o coração.<br>
+ Porque aquelle homem, que assi<br>
+ Tantos enganos teceo,<br>
+ Como era cousa do Ceo,<br>
+ Tanto qu'eu appareci,<br>
+ Logo desappareceo.<br>
+ E em desapparecendo<br>
+ Com ruido grande e horrendo,<br>
+ Toda a casa allumiou;<br>
+ E de arte nos inflammou,<br>
+ Que nos vimos acolhendo<br>
+ Do raio que nos cegou.<br>
+ Estes acontecimentos<br>
+ Não são de humana pessoa.<br>
+ Vós ouvis a voz que soa?<br>
+ Escutae, estae attentos;<br>
+ Vejamos o que pregôa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER</small>, <em>de dentro</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Amphitrião, qu'em teus dias<br>
+ Vês tamanhas estranhezas,<br>
+ Não t'espantem phantasias,<br>
+ Que ás vezes grandes tristezas<br>
+ Parem grandes alegrias.<br>
+ Jupiter sou manifesto<br>
+ Nas obras de admiração,<br>
+ Que por mi causadas são:<br>
+ Quiz-me vestir em teu gesto,<br>
+ Por honrar tua geração.<br>
+ Tua mulher parirá <span class="pn"><a name="pag_382">{382}</a></span><br>
+ Hum filho de mi gerado,<br>
+ Que Hercules se chamará,<br>
+ O mais valente e esforçado,<br>
+ Que no mundo se achará.<br>
+ Com este, teus successores<br>
+ Se honrarão de serem teus;<br>
+ E dar-lhe-hão os escriptores,<br>
+ Por doze trabalhos seus,<br>
+ Doze milhões de louvores.<br>
+ E dessa illustre fadiga<br>
+ Colherás mui rico fruito:<br>
+ Enfim, a razão me obriga<br>
+ Que tão pouco delle diga,<br>
+ Porque o tempo dirá muito. <span class="pn"><a
+ name="pag_383">{383}</a></span></blockquote>
+
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a
+name="pag_385">{385}</a></span></p>
+
+<h1>FILODEMO,</h1>
+
+<h2>COMEDIA.</h2>
+
+<h3>INTERLOCUTORES.</h3>
+
+<p class="ni">F<small>ILODEMO</small>. <br>
+V<small>ILARDO</small>, seu moço. <br>
+D<small>IONYSA</small>. <br>
+S<small>OLINA</small>, sua moça. <br>
+V<small>ENADORO</small>. <br>
+M<small>ONTEIRO</small>. <br>
+D<small>ORIANO</small>, amigo de Filodemo. <br>
+H<small>UM</small> P<small>ASTOR</small>. <br>
+H<small>UM</small> B<small>OBO</small>, filho do pastor. <br>
+F<small>LORIMENA</small>, pastora. <br>
+D<small>OM</small> L<small>USIDARDO</small>, pae de Venadoro. <br>
+D<small>OLOROSO</small>, amigo de Vilardo. <br>
+T<small>RES</small> P<small>ASTORES</small>.</p>
+
+<h3>ARGUMENTO.</h3>
+
+<p class="ni"><big>H</big>um Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de
+Dinamarca, como por largos amores e maiores serviços, tivesse alcançado o
+amor de huma filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma galé,
+por quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados á costa
+de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe grande
+tormenta, que sem nenhum remedio, dando a galé á costa, se perdêrão todos
+miseravelmente, senão a Princeza, que em huma taboa foi á praia: a qual, como
+chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte pario duas crianças, macho
+e femia; e não tardou muito que hum pastor Castelhano, que naquellas partes
+morava, ouvindo os tenros gritos dos meninos, lhe acudio a tempo que a mãe ja
+tinha espirado. Crescidas, emfim, as crianças debaixo da humanidade e
+criação daquelle pastor, o macho que Filodemo se chamou á vontade de quem os
+baptizára, levado da natural inclinação, deixando o campo, se foi para a
+cidade, aonde por musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo,
+irmão de seu Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre
+ambos havia. E como de seu Pae não tivesse herdado nada mais que os altos
+espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que incitada ao
+que <span class="pn"><a name="pag_386">{386}</a></span> por suas obras e boas
+partes merecia, ou porque ellas nada engeitão, lhe não queria mal. Aconteceo
+mais, que Venadoro, filho de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao
+exercicio da caça, andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos
+seus; e indo dar em huma fonte, onde estava Florimena, irmãa de Filodemo (que
+assim lhe pozerão o nome) enchendo huma talha de ágoa, se perdeo de amores
+por ella, que se não soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava,
+até que seu Pae o não foi buscar. O qual informado pelo pastor que a criára
+(que era homem sabio na Arte Magica) de como a achára e como a criára, não
+teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e prima de Filodemo; e
+a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha, irmãa de Filodemo pastor; e
+tambem pela muita renda que tinha e de seu Pae ficára, de que elles erão
+verdadeiros herdeiros. Das mais particularidades da Comedia, fara menção o
+Auto, que he o seguinte. <span class="pn"><a name="pag_387">{387}</a></span></p>
+
+<h1>FILODEMO,</h1>
+
+<h3>COMEDIA.</h3>
+
+<h2>ACTO PRIMEIRO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Filodemo e Vilardo.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>M</big>oço Vilardo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Ei-lo vae.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallae era má, fallae,<br>
+ E sahi cá para a sala.<br>
+ O villão como se cala!</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhor, sahi a meu pae,<br>
+ Que quando dorme não fala.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Trazei cá huma cadeira:<br>
+ Ouvis, villão? <span class="pn"><a name="pag_388">{388}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Senhor, sim.<br>
+ (Se m'ella não traz a mim.<br>
+ Vejo-lh'eu ruim maneira.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Acabae, villão ruim.<br>
+ Que moço para servir<br>
+ Quem tẽe as tristezas minhas!<br>
+ Quem pudesse assi dormir!</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, nestas manhãzinhas<br>
+ Não ha hi senão cahir:<br>
+ Por demais he trabalhar<br>
+ Qu'este somno se me ausente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+        Porque ha d'assentar<br>
+ Que se não for com pão quente,<br>
+ Não ha de desaferrar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi pelo que vos mando,<br>
+ Villão feito de fermento.      <em>Sahe Vilardo.</em><br>
+ Triste do que vive amando<br>
+ Sem ter outro mantimento,<br>
+ Qu'estar só phantasiando!<br>
+ Só hũa cousa me desculpa<br>
+ Deste cuidado que sigo,<br>
+ Ser de tamanho perigo,<br>
+ Que cuido que a mesma culpa<br>
+ Me fica sendo castigo. <span class="pn"><a name="pag_389">{389}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz
+avante</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora quero praticar<br>
+ Só comigo hum pouco aqui;<br>
+ Que despois que me perdi,<br>
+ Desejo de me tomar<br>
+ Estreita conta de mi.<br>
+ Vae para fóra, Vilardo.<br>
+ Torna cá: vae-me saber<br>
+ Se se quer ja lá erguer<br>
+ O Senhor Dom Lusidardo,<br>
+ E vem-mo logo dizer.      <em>Vai-se o moço.</em><br>
+ Ora bem, minha ousadia,<br>
+ Sem azas, pouco segura,<br>
+ Quem vos deo tanta valia,<br>
+ Que subais a phantasia<br>
+ Onde não sobe a ventura?<br>
+ Por ventura eu não nasci<br>
+ No mato, sem mais valer,<br>
+ Que o gado ao pasto trazer?<br>
+ Pois donde me veio a mi<br>
+ Saber-me tão bem perder?<br>
+ Eu, nascido entre pastores,<br>
+ Fui trazido dos currais,<br>
+ E d'entre meus naturais<br>
+ Para casa dos Senhores,<br>
+ Donde vim a valer mais.<br>
+ E agora logo tão cedo<br>
+ Quiz mostrar a condição<br>
+ De rustico e de villão!<br>
+ Dando-me ventura o dedo, <span class="pn"><a
+ name="pag_390">{390}</a></span><br>
+ Lhe quero tomar a mão!<br>
+ Mas oh! qu'isto não he assi,<br>
+ Nem são villãos meus cuidados,<br>
+ Como eu delles entendi;<br>
+ Mas antes, de sublimados,<br>
+ Os não posso crer de mi.<br>
+ Porque como hei eu de crer<br>
+ Que me faça minha estrella<br>
+ Tão alta pena soffrer,<br>
+ Que somente pola ter<br>
+ Mereço a gloria della?<br>
+ Senão se amor, d'attentado,<br>
+ Porque me não queixe delle,<br>
+ Tẽe por ventura ordenado<br>
+ Que mereça o meu cuidado,<br>
+ Só por ter cuidado nelle.</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vilardo e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">VILARDO.</p>
+
+<blockquote>
+ O Senhor Dom Lusidardo<br>
+ Dorme com todo o convento;<br>
+ E elle com o pensamento<br>
+ Quer estar fazendo alardo<br>
+ De castellinhos de vento!<br>
+ Pois tão cedo se vestio,<br>
+ Com seu damno se conforme,<br>
+ Pezar de quem me pario;<br>
+ Que ainda o sol não sahio: <span class="pn"><a
+ name="pag_391">{391}</a></span><br>
+ Se vem á mão, tambem dorme.<br>
+ Elle quer-se levantar<br>
+ Assi pela manhãzinha!<br>
+ Pois quero-o desenganar:<br>
+ Nem por muito madrugar<br>
+ Amanhece mais asinha.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Filodemo.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Traze-me a viola cá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Voto a tal que me vou rindo.)<br>
+ Senhor, tambem dormirá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Traze-a, moço.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Si, virá,<br>
+ Se não estiver dormindo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi polo que vos mando:<br>
+ Não gracejeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Eis-me vou:<br>
+ Pois, pezar de São Fernando!<br>
+ Por ventura sou eu grou?<br>
+ Sempre hei d'estar vigiando?      <em>Sahe.</em></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah Senhora, que podeis<br>
+ Ser remedio do que peno,<br>
+ Quão mal ora cuidareis<br>
+ Que viveis e que cabeis<br>
+ N'hum coração tão pequeno!<br>
+ Se vos fosse apresentado <span class="pn"><a
+ name="pag_392">{392}</a></span><br>
+ Este tormento em que vivo,<br>
+ Crerieis que foi ousado<br>
+ Este vosso, de criado<br>
+ Tornar-se vosso captivo?</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Filodemo e Vilardo.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora eu creio, se he verdade<br>
+ Qu'estou de todo acordado,<br>
+ Que meu amo he namorado;<br>
+ E a mi dá-me na vontade<br>
+ Que anda hum pouco abalado.<br>
+ E se tal he, eu daria<br>
+ Por conhecer a donzella<br>
+ A ração d'hoje este dia;<br>
+ Porque a desenganaria,<br>
+ Somente por ter dó della.<br>
+ Havia-lhe perguntar:<br>
+ Senhora, de que comeis?<br>
+ Se comeis d'ouvir cantar,<br>
+ De fallar bem, de trovar,<br>
+ Em boa hora casareis.<br>
+ Porém se vós comeis pão,<br>
+ Tende, Senhora, resguardo;<br>
+ Qu'eis-aqui está Vilardo,<br>
+ Qu'he como hum camaleão,<br>
+ Por isso, bus, fazei fardo.<br>
+ E se vós sois das gamenhas, <span class="pn"><a
+ name="pag_393">{393}</a></span><br>
+ E houverdes d'attentar<br>
+ Por mais que por manducar,<br>
+ Mi cama son duras peñas,<br>
+ Mi dormir siempre es velar.<br>
+ A viola, Senhor, vem<br>
+ Sem primas, nem derradeiras:<br>
+ Mas sabe o que lhe convem?<br>
+ Se quer, Senhor, tanger bem,<br>
+ Ha de haver mister terceiras.<br>
+ E se estas cantigas vossas<br>
+ Não forem para escutar,<br>
+ E quizerdes espirar;<br>
+ Ha mister cordas mais grossas,<br>
+ Porque não possão quebrar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vae para fóra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Ja venho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qu'eu só desta phantasia<br>
+ Me sostenho e me mantenho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quamanha vista que tenho,<br>
+ Que vejo a estrella do dia!      <em>Sahe.</em></blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO</small>, <em>cantando</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Adó sube el pensamiento,<br>
+ Seria una gloria inmensa<br>
+ Si allá fuese quien lo piensa. <span class="pn"><a
+ name="pag_394">{394}</a></span></blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Qual espirito divino<br>
+ Me fará a mi sabedor<br>
+ Deste meu mal, se he amor,<br>
+ Se por dita desatino?<br>
+ Se he amor, diga-me qual<br>
+ Póde ser seu fundamento,<br>
+ Ou qual he seu natural,<br>
+ Ou porque empregou tão mal<br>
+ Hum tão alto pensamento.<br>
+ Se he doudice, como em tudo<br>
+ A vida me abraza e queima,<br>
+ Ou quem vio n'hum peito rudo<br>
+ Desatino tão sisudo,<br>
+ Que toma tão doce teima?<br>
+ Ah Senhora Dionysa,<br>
+ Onde a natureza humana<br>
+ Se mostrou tão soberana!<br>
+ O que vós valeis me avisa,<br>
+ Mas o qu'eu peno m' engana.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Solina e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tomado estais vós agora,<br>
+ Senhor, co'o furto nas mãos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Solina, minha Senhora,<br>
+ Quantos pensamentos vãos<br>
+ Me ouvirieis lançar fóra? <span class="pn"><a
+ name="pag_395">{395}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Senhor, quão bem que sôa<br>
+ O tanger de quando em quando!<br>
+ Bem sei eu huma pessoa,<br>
+ Que haja huma hora, e boa,<br>
+ Que vos está escutando.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por vida vossa, zombais?<br>
+ Quem he? quereis-mo dizer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não o haveis vós de saber,<br>
+ Bofé se me não peitais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dar-vos-hei quanto tiver,<br>
+ Para taes tempos como estes.<br>
+ Quem tivera voz dos Ceos,<br>
+ Pois escutar me quizestes!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Assi pareça eu a Deos,<br>
+ Como lhe vós parecestes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ A Senhora Dionysa<br>
+ Quer-se ja alevantar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Assi me veja eu casar,<br>
+ Como despida em camisa<br>
+ Se ergueo por vos escutar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Em camisa levantada!<br>
+ Tão ditosa he minha estrella?<br>
+ Ou mo dizeis refalsada? <span class="pn"><a name="pag_396">{396}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois bem me defendeo ella<br>
+ Que vos não dissesse nada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se pena de tantos annos<br>
+ Merecer algum favor,<br>
+ Para cura de meus dannos<br>
+ Fartae-me desses engannos,<br>
+ Que não quero mais de Amor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Agora quero eu fallar<br>
+ Neste caso com mais tento;<br>
+ Quero agora perguntar:<br>
+ E de siso his vós tomar<br>
+ Hum tão alto pensamento?<br>
+ Certo he minha maravilha,<br>
+ Se vós isto não sentis<br>
+ Bem: vós como não cahis<br>
+ Que Dionysa qu'he filha<br>
+ Do Senhor a quem servis?<br>
+ Como? Vós não attentais<br>
+ Os Grandes, de qu'he pedida?<br>
+ Peço-vos que me digais<br>
+ Qual he o fim que esperais<br>
+ Neste caso, em vossa vida.<br>
+ Que razão boa, ou que côr<br>
+ Podeis dar a esta affeição?<br>
+ Dizei-me vossa tenção.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Onde vistes vós amor<br>
+ Que se guie por razão? <span class="pn"><a
+ name="pag_397">{397}</a></span><br>
+ Se quereis saber de mi<br>
+ Que fim, ou de que theor<br>
+ O pretendo em minha dor;<br>
+ S'eu neste amor quero fim,<br>
+ Sem fim me atormente Amor.<br>
+ Mas vós com gloria fingida<br>
+ Pretendeis de m'enganar,<br>
+ Por assi mal me tratar:<br>
+ Assi que me dais a vida<br>
+ Somente por me matar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu digo-vos a verdade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Da verdade fujo eu,<br>
+ Porque se o Amor me deu<br>
+ Pena de tal qualidade,<br>
+ Assaz me custa do meu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fólgo muito de saber<br>
+ Que sois amante tão fino.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois mais vos quero dizer,<br>
+ Que ás vezes no imaginar<br>
+ Não ouso de m' estender.<br>
+ Na hora que imaginei<br>
+ Na causa de meu tormento,<br>
+ Tamanha gloria levei,<br>
+ Que por onças desejei<br>
+ De lograr o pensamento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se me vós a mi jurardes <span class="pn"><a
+ name="pag_398">{398}</a></span><br>
+ De me terdes em segredo<br>
+ Huma cousa... mas hei medo<br>
+ De logo tudo contardes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ A quem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+            Áquelle enxovedo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qual?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Aquelle mao pezar,<br>
+ Que ant'hontem comvosco hia.<br>
+ Quem se fosse em vós fiar!<br>
+ O que vos disse o outro dia,<br>
+ Tudo lhe fostes contar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que lhe contei?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Ja lh'esquece?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por certo qu'estou remoto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hi, que sois hum cesto roto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esse homem tudo merece.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós sois muito seu devoto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, não hajais medo:<br>
+ Contae-m'isso, e far-me-hei mudo. <span class="pn"><a
+ name="pag_399">{399}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, o homem sisudo,<br>
+ Se em taes cousas tẽe segredo,<br>
+ Saiba que alcançará tudo.<br>
+ A Senhora Dionysa<br>
+ Crede que mal vos não quer:<br>
+ Não vos posso mais dizer.<br>
+ Isto tende por balisa<br>
+ Com que vos saibais reger.<br>
+ Qu'em mulheres, se attentais,<br>
+ O querer está visibil;<br>
+ E se bem vos governais,<br>
+ Não desespereis do mais,<br>
+ Porque, emfim, tudo he possibil.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, póde isso ser?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, que tudo o mundo tem:<br>
+ Olhae não o saiba alguem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E que maneira hei de ter<br>
+ Para crer tamanho bem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós, Senhor, o sabereis;<br>
+ E ja que vos descobri<br>
+ Tamanho sogredo aqui,<br>
+ Huma mercê me fareis<br>
+ Em que me vai muito a mi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, a tudo me obrigo<br>
+ Quanto for em minha mão. <span class="pn"><a name="pag_400">{400}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois dizei a vosso amigo<br>
+ Que não gaste tempo em vão,<br>
+ Nem queira amores comigo.<br>
+ Porque eu tenho parentes,<br>
+ Que me podem bem casar;<br>
+ E mais que não quero andar<br>
+ Agora em boca de gentes<br>
+ A quem s'elle vai gabar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, mal conheceis<br>
+ O que vos quer Duriano:<br>
+ Sabei-o, se o não sabeis,<br>
+ Qu'em sua alma sente o dano<br>
+ Do pouco que lhe quereis;<br>
+ E que outra cousa não quer,<br>
+ Que ter-vos sempre servida.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pola sua negra vida,<br>
+ Isso havia eu bem mister.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós sois desagradecida!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, que tudo são enganos<br>
+ Em tudo quanto fallais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não quero que me creais:<br>
+ Crede o tempo; que ha dous anos<br>
+ Que vos serve, e inda mais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, bem sei que m'engano; <span class="pn"><a
+ name="pag_401">{401}</a></span><br>
+ Mas a vós, como a irmão,<br>
+ Descubro este coração:<br>
+ Sabei que a Duriano<br>
+ Tenho sobeja affeição.<br>
+ Olhae que lhe não digais<br>
+ Isto que vos aqui digo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, mal me tratais:<br>
+ Inda que sou seu amigo,<br>
+ Sabei que vosso sou mais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E ja que vos confessei<br>
+ Aquestas fraquezas minhas,<br>
+ Que ha tanto que de mi sei;<br>
+ Fazei vós nas cousas minhas<br>
+ O qu'eu nas vossas farei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós enxergareis, Senhora,<br>
+ O qu'eu por vós sei fazer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como me deixo esquecer!<br>
+ Aqui estivera agora<br>
+ Fallando té anoitecer.<br>
+ Vou-me; e olhae quanto val<br>
+ O que passou entre nós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E porque vos ides vós?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque parece ja mal<br>
+ Estar aqui ambos sós.<br>
+ E mais vou vestir agora <span class="pn"><a
+ name="pag_402">{402}</a></span><br>
+ A quem vos dá tão má vida.<br>
+ Ficae-vos, Senhor, embora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nessa ide vós, Senhora,<br>
+ Que ja vos tenho entendida.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Ora se póde isto ser<br>
+ Do qu'esta moça me avisa,<br>
+ Que a Senhora Dionysa,<br>
+ Por me ouvir, se fosse erguer<br>
+ Da sua cama em camisa!<br>
+ E diz que mal me não quer.<br>
+ Não queria maior gloria;<br>
+ Mas o que mais posso crer,<br>
+ Que nem para lhe esquecer<br>
+ Lhe passo pela memoria.<br>
+ Mas ter Solina tambem<br>
+ Em Duriano o intento,<br>
+ He levar-me a lenha o vento;<br>
+ Porque s'ella lhe quer bem,<br>
+ Para bem vai meu tormento.<br>
+ Mas foi-se este homem perder<br>
+ Neste tempo, de maneira,<br>
+ Por huma mulher solteira,<br>
+ Que não me atrevo a fazer<br>
+ Que hum pequeno bem lhe queira.<br>
+ Porém far-lhe-hei hum partido, <span class="pn"><a
+ name="pag_403">{403}</a></span><br>
+ Porqu'ella não se querelle:<br>
+ Que se mostre seu perdido,<br>
+ Inda que seja fingido,<br>
+ Como lh'outrem faz a elle.<br>
+ E ja que me satisfaz,<br>
+ E tanto nisto se alcança,<br>
+ Dê-lhe fingida esperança:<br>
+ Do mal que lhe outrem faz,<br>
+ Tomará nella vingança.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VII.</h3>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Ora boa está a cilada<br>
+ De meu amo com sua ama,<br>
+ Que se levantou da cama<br>
+ Por ouvi-lo! Está tomada:<br>
+ Assi a tome má trama.<br>
+ E mais crede que quem canta,<br>
+ Ainda descantará;<br>
+ E quem do leito, onde está,<br>
+ Por ouvi-lo se levanta,<br>
+ Mor desatino fará.<br>
+ Quem havia de cuidar,<br>
+ Que dama formosa e bella<br>
+ Saltasse o demonio nella,<br>
+ Para a fazer namorar<br>
+ De quem não he igual della?<br>
+ Que me dizeis a Solina?<br>
+ Como se faz Celestina, <span class="pn"><a name="pag_404">{404}</a></span><br>
+ Que por não lhe haver inveja<br>
+ Tambem para si deseja<br>
+ O que o desejo lh'ensina!<br>
+ Crede que se me alvoróço,<br>
+ Que a hei de tomar por dama;<br>
+ E não será grão destrôço,<br>
+ Pois o amo quer a ama,<br>
+ Que a moça queira o moço.<br>
+ Vou-me; que vejo lá vir<br>
+ Venadoro, apercebido<br>
+ Para a caça se partir:<br>
+ E voto a tal, que he partido<br>
+ Para ver e para ouvir.<br>
+ Que he razão justa e rasa<br>
+ Que seu folgar se desconte<br>
+ Em quem arde como brasa;<br>
+ Que se vai caçar ao monte,<br>
+ Fique outrem caçando em casa.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VIII.</h3>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Aprovada antiguamente<br>
+ Foi, e muito de louvar<br>
+ A occupação do caçar,<br>
+ E da mais antigua gente<br>
+ Havida por singular.<br>
+ He o mais contrário officio<br>
+ Que tẽe a ociosidade,<br>
+ Mãe de todo o bruto vício: <span class="pn"><a
+ name="pag_405">{405}</a></span><br>
+ Por este limpo exercicio<br>
+ Se reserva a castidade.<br>
+ Este dos grandes Senhores<br>
+ Foi sempre muito estimado;<br>
+ E he grande parte do estado<br>
+ Ter monteiros, caçadores,<br>
+ Como officio qu'he prezado.<br>
+ Pois logo porque razão<br>
+ A meu pae ha de pezar<br>
+ De me ver ir a caçar?<br>
+ E tão boa occupação<br>
+ Que mal me póde causar?</blockquote>
+
+<h3>SCENA IX.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Venadoro e o Monteiro.</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, venho alvoroçado,<br>
+ E mais com muita razão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como assi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Que me he chegado<br>
+ O mais extremado cão,<br>
+ Que nunca caçou veado.<br>
+ Vejamos que me ha de dar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dar-vos-hei quanto tiver;<br>
+ Mas ha-se d'exprimentar,<br>
+ Para se poder julgar<br>
+ As manhas que póde ter. <span class="pn"><a name="pag_406">{406}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Póde assentar qu'este cão,<br>
+ Que tẽe das manhas a chave.<br>
+ Bem feito? Em admiração.<br>
+ Pois em ligeiro? He huma ave.<br>
+ Em commetter? Hum leão.<br>
+ Com porcos? Maravilhoso.<br>
+ Com veados? Extremado.<br>
+ Sobeja-lhe o ser manhoso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois eu ando desejoso<br>
+ D'irmos matar hum veado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhor, como não vae?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vamos, e vós mui ligeiro<br>
+ O necessario ordenae;<br>
+ Qu'eu quero chegar primeiro<br>
+ Pedir licença a meu pae.</blockquote>
+
+<h2>ACTO SEGUNDO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p class="ni"><big>P</big>ois não creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pôr
+pé em ramo verde, té lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto
+de trezentos cruzados <span class="pn"><a name="pag_407">{407}</a></span> com
+ella, porque logo lhe não mandei o setim para as mangas, fez de mim mangas ao
+demo. Não desejo eu de saber, senão qual he o galante que me succedeo; que se
+vo-lo eu colho a balravento, eu lhe farei botar ao mar quantas esperanças lhe
+a fortuna tẽe cortado á minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com
+o dinheiro, como a maré com a lũa: bolsa cheia, amor em ágoas vivas; mas se
+vasa, vereis espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavão
+como o peixe na ágoa.</p>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Filodemo e Duriano.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Ó lá! cá sois vós? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me
+sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos tire
+como huma alma.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em casa,
+que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mão, os pensamentos com
+os focinhos quebrados, de cahirem onde vós sabeis. Pois sabeis, Senhor
+Filodemo, quaes são os que me mátão? Huns muito bem almofaçados, que com
+dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de brandos na conversação,
+e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo que não darão meia hora de
+triste pelo thesouro de Veneza; e gábão mais Garcilasso <span class="pn"><a
+name="pag_408">{408}</a></span> que Boscão; e ambos lhe sahem das mãos
+virgens; e tudo isto por vos meterem em consciencia que se não achou para mais
+o grão Capitão Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia
+do mundo farão altos espiritos: e eu não trocarei duas pescoçadas da minha
+etc., depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e
+fingir-se-me bebada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão
+escriptos polos troncos dos árvores do vale Luso, nem por quantas Madamas
+Lauras vós idolatrais.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Aposto que adivinho o que quereis dizer?</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Que?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Que se me não acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a
+herege de amor.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhecer por esse!</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinião! Mas
+tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he cousa de
+vossa saude, tudo farei.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tẽe, Senhor
+Duriano? Eu quero-vos <span class="pn"><a name="pag_409">{409}</a></span>
+deixar comer tudo: não póde ser que a natureza não faça em vós o que a
+razão não póde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porém he necessario que
+primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis para hum canto da casa todos
+esses maos pensamentos; porque segundo andais mal avinhado, damnareis tudo
+aquillo que agora lançarem em vós. Ja vos dei conta da pouca que tenho com
+toda a outra cousa que não he servir a Senhora Dionysa; e postoque a
+desigualdade dos estados o não consinta, eu não pretendo della mais que o
+não pretender della nada, porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que
+este meu amor he como a ave Phenix, que de si só nasce, e não de outro nenhum
+interesse.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Bem praticado está isso; mas dias ha que eu não creio em sonhos.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Porque?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva, dizeis
+que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que amá-la; e
+virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a trezentos
+Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte, mostrando razões
+verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de vossa dama que vê-la; e
+ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis outros esquadrinhadores
+d'amor, mais especulativos, que defenderão a justa por não emprenhar o
+desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a qualquer <span class="pn"><a
+name="pag_410">{410}</a></span> destes lhe entregassem sua dama tosada e
+apparelhada entre dous pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e
+eu ja de mi vos sei confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que
+ella ha de ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu
+de, vá v. m. co'a historia por diante.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os Doctores:
+assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão, bem trinta ou
+quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento, senão quando me tomou
+á traição Solina; e entre muitas palavras que tivemos, me descobrio que a
+Senhora Dionysa se levantára da cama por me ouvir, e que estivera pela greta
+da porta espreitando quasi hora e meia.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto
+avante.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi o
+maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a soffrer por
+sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser são. Se vos
+deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca
+chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme; que eu
+vos faço bom que ás duas enxadadas acheis ágoa. E que mais passastes? <span
+class="pn"><a name="pag_411">{411}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vós; e me
+quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vós merecesseis.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor?
+porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que dizer
+poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella quer que eu
+caia.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que lho
+quereis.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Não... quanté dessa maneira me offereço a romper meia duzia de serviços
+alinhavados ás panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais fiel
+amante que nunca calçou esporas; e se isto não bastar, salgan las palabras
+mas sangrientas del corazon, entoadas de feição, que digão que sou hum
+Mancias, e peor ainda.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro,
+irmão da Senhora Dionysa, he fóra á caça; e sem elle fica a casa despejada;
+e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu passatempo he enxertar e
+dispôr, e outros exercicios d'agricultura, naturaes a velhos: e pois o tempo
+nos vem á medida do desejo, vamo-nos lá; e se puderdes fallar, fazei de vós
+mil manjares, porque lhe façais crer que sois mais esperdiçado d'amor que hum
+Braz Quadrado. <span class="pn"><a name="pag_412">{412}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas, com
+que vosso feito venha á luz.</p>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Dionysa e Solina.</em></p>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Solina, mana.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Senhora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Trazei-me cá a almofada;<br>
+ Que a casa está despejada,<br>
+ E esta varanda cá fóra<br>
+ Está melhor assombrada.<br>
+ Trazei a vossa tambem<br>
+ Para estarmos cá lavrando;<br>
+ Em quanto meu pae não vem,<br>
+ Estaremos praticando,<br>
+ Sem nos estorvar ninguem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Este he o mesmo lugar<br>
+ Onde estava o bem logrado,<br>
+ Tal que de muito enlevado<br>
+ Se esquecia do cantar<br>
+ Por se enlevar no cuidado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós, mana, sois mui ruim!<br>
+ Logo lhe fostes contar<br>
+ Que me ergui polo escutar. <span class="pn"><a
+name="pag_413">{413}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu o disse?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+            Eu não o ouvi?<br>
+ Como mo quereis negar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E pois isso que releva?<br>
+ Que se perde nisso agora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que se perde! Assi, Senhora,<br>
+ Folgareis vós que se atreva<br>
+ A contá-lo lá por fóra?<br>
+ Que se lhe meta em cabeça<br>
+ Alguma parvoa tenção?<br>
+ Que faça, se vem á mão,<br>
+ Algũa cousa que pareça?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, não tẽe razão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu sei mui bem attentar<br>
+ Do que se ha de ter receio,<br>
+ E do que he para estimar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não he o demo tão feio<br>
+ Como alguem o quer pintar;<br>
+ E não se espera isso delle,<br>
+ Que não he ora tão moço.<br>
+ E Vossa Mercê asselle<br>
+ Que qualquer segredo nelle<br>
+ He como huma pedra em poço. <span class="pn"><a
+ name="pag_414">{414}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E eu que segredo quero<br>
+ Co'hum criado de meu pae?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E vós, mana, fazeis fero?<br>
+ Ao diante vos espero,<br>
+ Se adiante o caso vae.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O madraço! quem o vir<br>
+ Fallar de siso co'ella...<br>
+ Então vós, gentil donzella,<br>
+ Folgais muito de o ouvir?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, porque me falla nella;<br>
+ E eu como ouço fallar<br>
+ Nella, como quem não sente,<br>
+ Folgo de o escutar,<br>
+ Só para lhe vir contar<br>
+ O que della diz a gente;<br>
+ Qu'eu não quero nada delle.<br>
+ E mais, porque está fallando?<br>
+ Não m'esteve ella rogando<br>
+ Que fosse fallar com elle?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Disse-vo-lo assi zombando.<br>
+ Vós logo tomais em grosso<br>
+ Tudo quanto me escutais.<br>
+ Parvo! que vê-lo não posso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ella alli, e o cão co'o osso!<br>
+ Inda isto ha de vir a mais. <span class="pn"><a
+ name="pag_415">{415}</a></span><br>
+ Pois que tal odio lhe tem,<br>
+ Fallemos, Senhora, em al;<br>
+ Mas eu digo que ninguem<br>
+ Merece por querer bem<br>
+ Que a quem lho quer, queira mal.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-o vós doudejar.<br>
+ Se meu pae, ou meu irmão,<br>
+ O vierem a aventar,<br>
+ Não ha elle de folgar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deos meterá nisso a mão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi polas almofadas,<br>
+ Que quero hum pouco lavrar;<br>
+ Por ter em que me occupar;<br>
+ Qu'em cousas tão mal olhadas<br>
+ Não se ha o tempo de gastar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que cousa somos mulheres!<br>
+ Como somos perigosas!<br>
+ E mais estas tão viçosas<br>
+ Qu'estão á boca <em>que queres</em><br>
+ E adoecem de mimosas!<br>
+ Se eu não caminho agora<br>
+ A seu desejo e vontade;<br>
+ Como faz esta Senhora,<br>
+ Fazem-se logo nessa hora<br>
+ Na volta da honestidade.<br>
+ Quem a vira o outro dia<br>
+ Hum poucochinho agastada, <span class="pn"><a
+ name="pag_416">{416}</a></span><br>
+ Dar no chão com a almofada,<br>
+ E enlevar a phantasia,<br>
+ Toda n'outra transformada!<br>
+ Outro dia lhe ouvirão<br>
+ Lançar suspiros a mólhos,<br>
+ E com a imaginação<br>
+ Cahir-lhe a agulha da mão,<br>
+ E as lagrimas dos olhos.<br>
+ Ouvir-lhe-heis á derradeira<br>
+ A ventura maldizer,<br>
+ Porque a foi fazer mulher.<br>
+ Então diz que quer ser Freira;<br>
+ E não se sabe entender.<br>
+ Então gaba-o de discreto,<br>
+ De musico e bem disposto,<br>
+ De bom corpo e de bom rosto.<br>
+ Quanté então eu vos prometo,<br>
+ Que não tẽe delle desgôsto.<br>
+ Despois, se vem a attentar,<br>
+ Diz que he muito mal feito<br>
+ Amar homem deste geito;<br>
+ E que não póde alcançar<br>
+ Pôr seu desejo em effeito.<br>
+ Logo se faz tão Senhora,<br>
+ Logo lhe ameaça a vida,<br>
+ Logo se mostra nessa hora<br>
+ Muito segura de fóra,<br>
+ E de dentro está sentida.<br>
+ Bofé, segundo vou vendo,<br>
+ Se esta postema vier,<br>
+ Como eu suspeito, a crescer, <span class="pn"><a
+ name="pag_417">{417}</a></span><br>
+ Muito ha que della entendo<br>
+ O fim que póde vir ter.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Duriano e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como hei
+de fazer; que não ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a dê á Senhora
+Dionysa; que me vai nisso muito.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Por mulher de tão bom engenho a tendes?</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>E porque me perguntais isso?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta
+mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe
+fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fação á
+vossa tenção.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes
+vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vós entretanto
+acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá vem. <span class="pn"><a
+name="pag_418">{418}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Olhae lá: fazei que a não vêdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a
+nosso caso.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia no
+la espero remediar. Pois não devia assi de ser, polos santos Evangelhos! mas
+muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos, andão ás vessas. Ora,
+emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen aflojar cuando mas
+duelen.)</p>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Solina e Duriano.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA</small>, <em>com a almofada</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Aqui anda passeando<br>
+ Duriano, e só comsigo<br>
+ Pensamentos praticando:<br>
+ Daqui posso estar notando<br>
+ Com quem sonha, se he comigo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah quão longe estará agora<br>
+ Minha Senhora Solina<br>
+ De saber que estou bem fóra<br>
+ De ter outra por senhora,<br>
+ Segundo o amor determina!<br>
+ Porém se determinasse<br>
+ Minha bem-aventurança<br>
+ Que de meu mal lhe pezasse. <span class="pn"><a
+ name="pag_419">{419}</a></span><br>
+ Até que nella tomasse<br>
+ Do que lhe quero vingança!...</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Comigo sonha por certo.<br>
+ Ora quero-me mostrar,<br>
+ Assi como por acêrto:<br>
+ Chegar-me-hei mais ao perto,<br>
+ Por ver se me quer fallar.)<br>
+ Sempre esta casa ha d'estar<br>
+ Acompanhada de gente,<br>
+ Que não possa homem passar!</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Á traição vindes tomar<br>
+ Quem ja feridas não sente?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Logo me a mi parecia<br>
+ Que era elle o que passeava.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E eu mal adivinhava<br>
+ Que me viesse este dia,<br>
+ Que ha tantos que desejava.<br>
+ Se huns olhos por vos servir,<br>
+ Com o amor que vos conquista,<br>
+ Se atrevêrão a subir<br>
+ Os muros da vossa vista,<br>
+ Que culpa tẽe quem vos vir?<br>
+ E se esta minha affeição,<br>
+ Que vos serve de giolhos,<br>
+ Não fez êrro na tenção,<br>
+ Tomae vingança nos olhos,<br>
+ E deixae o coração. <span class="pn"><a name="pag_420">{420}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora agora me vem riso.<br>
+ Assi que vós sois, Senhor,<br>
+ De siso meu servidor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De siso não, porque o siso<br>
+ Me tẽe tirado o amor.<br>
+ Porque o amor, se attentais,<br>
+ N'hum tão verdadeiro amante<br>
+ Não deixa siso bastante;<br>
+ Senão se siso chamais<br>
+ A doudice tão galante.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como Deos está nos Ceos,<br>
+ Que se he verdade o que temo,<br>
+ Que fez isto Filodemo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas fê-lo o démo; que Deos<br>
+ Não faz mal tanto em extremo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem. Vós, Senhor Duriano,<br>
+ Porque zombareis de mim?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu zombo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Eu não m' engano.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ S' eu zombo, inda em meu dano<br>
+ Vejais vós mui cedo a fim.<br>
+ Mas vós, Senhora Solina,<br>
+ Porque me querereis mal? <span class="pn"><a name="pag_421">{421}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sou mofina.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Oh! real.<br>
+ Assi que minha mofina<br>
+ He minha imiga mortal.<br>
+ Dias ha qu'eu imagino<br>
+ Qu'em vos amar e servir<br>
+ Não ha amador mais fino;<br>
+ Mas sinto que de mofino<br>
+ Me fino sem o sentir.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem derivais: quanté assi<br>
+ Á popa o dito vos veio.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vir-me-ha de vós, porque creio<br>
+ Que vós fallais dentro em mi,<br>
+ Como esprito em corpo alheio.<br>
+ E assi que em estas piós<br>
+ A cahir, Senhora, vim;<br>
+ Bem parecerá entre nós,<br>
+ Pois vós andais dentro em mim,<br>
+ Que ande eu tambem dentro em vós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ He bem: que fallar he esse?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dentro na vossa alma, digo,<br>
+ Lá andasse, e lá morresse!<br>
+ E se isto mal vos parece,<br>
+ Dae-me a morte por castigo. <span class="pn"><a
+ name="pag_422">{422}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah mao! Como sois malvado!</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas vós como sois malvada,<br>
+ Que de hum pouco mais de nada<br>
+ Fazeis hum homem armado,<br>
+ Como quem 'stá sempre armada!<br>
+ Dizei-me, Solina, mana.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qu'he isso? Tirae lá a mão:<br>
+ Oh! vós sois mao cortezão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O que vos quero m'engana,<br>
+ Mas o que desejo não.<br>
+ Não ha aqui senão paredes,<br>
+ As quaes não fallão, nem vem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Está isso muito bem.<br>
+ Bem: e vós, Senhor, não vêdes<br>
+ Que poderá vir alguem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que vos custão dous abraços?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não quero tantos despejos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois que farão meus desejos,<br>
+ Que querem ter-vos nos braços,<br>
+ E dar-vos trezentos beijos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Olhae que pouca vergonha!<br>
+ Hi-vos d'hi, boca de praga. <span class="pn"><a
+ name="pag_423">{423}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu não sei certo a que ponha<br>
+ Mostrardes-me a triaga,<br>
+ E virdes-me a dar peçonha.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora ide rir á feira,<br>
+ E não sejais dessa laia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se vêdes minha canseira,<br>
+ Porque lhe não dais maneira?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que maneira?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  A da saia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por minha alma, hei de vos dar<br>
+ Meia duzia de porradas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh que gostosas pancadas!<br>
+ Mui bem vos podeis vingar,<br>
+ Qu'em mim são bem empregadas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ao diabo, que o eu dou.<br>
+ Como me doeo a mão!</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mostrae cá, minha affeição,<br>
+ Que essa dor me magoou<br>
+ Dentro no meu coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi-vos embora asinha. <span class="pn"><a name="pag_424">{424}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por amor de mi, Senhora,<br>
+ Não fareis huma cousinha?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo que vades embora.<br>
+ Que cousa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Esta cartinha.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que carta?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              De Filodemo<br>
+ A Dionysa vossa ama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizei, que tome outra dama,<br>
+ E dê os amores ao démo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não andemos pola rama.<br>
+ Senhora, (aqui para nós)<br>
+ Que sentis della com elle?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Grandes alforges sois vós!<br>
+ Pois hi-lhe dizer que appelle.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallae, que aqui 'stamos sós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qualquer honesta se abala,<br>
+ Como sabe que he querida.<br>
+ Ella he por elle perdida:<br>
+ Nunca n'outra cousa falla. <span class="pn"><a
+name="pag_425">{425}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora vou-lhe dar a vida.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E eu não lhe disse ja<br>
+ Quanta affeição lh'ella tem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não se fia de ninguem,<br>
+ Nem crê que para elle ha<br>
+ No mundo tamanho bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dir-vos-hia de mim lá<br>
+ O que lh'eu disse zombando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não disse, por S. Fernando!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora ide-vos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Que me va!<br>
+ E mandais que torne? Quando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quando eu cá vir lugar,<br>
+ Vo-lo mandarei dizer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se o quizerdes buscar,<br>
+ Não vos deve de faltar,<br>
+ Se não faltar o querer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não falta.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Dae-me hum abraço<br>
+ Em sinal do que quereis. <span class="pn"><a name="pag_426">{426}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tá, que o não levareis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De quantos serviços faço<br>
+ Nenhum pagar me quereis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pagar-vos-hão algum'hora,<br>
+ Que isso a mi tambem me toca;<br>
+ Mas agora hi-vos embora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essas mãos beijo, Senhora,<br>
+ Em quanto não posso a boca.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Solina que traz a almofada, e Dionysa.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja Vossa Mercê dirá<br>
+ Qu'estive muito tardando.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem vos detivestes lá.<br>
+ Bofé que estava cuidando<br>
+ Em não sei que.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Que será?<br>
+ Aqui somos. (Quanté agora<br>
+ Está ella transportada.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que rosnais vós lá, Senhora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo que tardei lá fóra <span class="pn"><a
+ name="pag_427">{427}</a></span><br>
+ Em buscar esta almofada.<br>
+ Que estava ella agora só<br>
+ Comsigo phantasiando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bofé que estava cuidando<br>
+ Qu'he muito para haver dó<br>
+ Da mulher que vive amando.<br>
+ Que hum homem póde passar<br>
+ A vida mais occupado:<br>
+ Com passear, com caçar,<br>
+ Com correr, com cavalgar,<br>
+ Fórra parte do cuidado.<br>
+ Mas a coitada<br>
+ Da mulher sempre encerrada,<br>
+ Que não tẽe contentamento,<br>
+ Não tẽe desenfadamento,<br>
+ Mais que agulha e almofada?<br>
+ Então isto vem parir<br>
+ Os grandes erros da gente:<br>
+ Forão mil vezes cahir<br>
+ Princezas d'alta semente.<br>
+ Lembra-me que ouvi contar<br>
+ De tantas affeiçoadas<br>
+ Em baixo e pobre lugar,<br>
+ Que as que agora vão errar<br>
+ Podem ficar desculpadas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, a muita affeição<br>
+ Nas Princezas d'alto estado<br>
+ Não he muita admiração;<br>
+ Que no sangue delicado <span class="pn"><a name="pag_428">{428}</a></span><br>
+ Faz amor mais impressão.<br>
+ Mas deixando isto á parte,<br>
+ Se m'ella quizer peitar,<br>
+ Prometto de lhe mostrar<br>
+ Huma cousa muito d'arte,<br>
+ Que lá dentro fui achar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que cousa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Cousa d'esprito.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Algum panno de lavores?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Inda ella não deo no fito?<br>
+ Cartinha sem sobre-escripto,<br>
+ Que parece ser de amores.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essa he a boa ventura?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bofé que mo pareceo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E essa donde nasceo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No meu cesto da costura:<br>
+ Não sei quem m'alli meteo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mostrae-ma; não hajais medo,<br>
+ Mana. Eu que vos descobri...</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E se ella vem para mi,<br>
+ Logo quer ver meu segredo? <span class="pn"><a
+ name="pag_429">{429}</a></span><br>
+ Não a veja: vá-se d'hi.<br>
+ Ei-la-ahi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+             Cuja será?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não sei certo cuja he.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si; sabeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+             Não sei, bofé.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora a carta mo dirá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois leia Vossa Mercê.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Abre Dionysa a carta, e lê-a.</em></p>
+
+<p>Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della, ja
+logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo triste, senão
+por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa commetter tamanha
+ousadia; por maior a devieis ter, se a não commettesse; que amor acostumado he
+fazer os extremos á medida das affeições, e as affeições á medida da
+causa dellas. Pois logo, nem o meu amor póde ser pouco, nem fazer menos: se
+este não bastar para consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o
+que pelo ter mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum
+cuidado, que com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo.</p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quanta parvoice diz! <span class="pn"><a name="pag_430">{430}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora muito boa está!<br>
+ Como vós, mana, sois má!<br>
+ Não sejais vós tão biliz;<br>
+ Que bem vos entendo ja.<br>
+ Cuja he?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+           E eu que sei?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois quem o sabe?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                      O démo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Certo que he de quem temo;<br>
+ Que os ditos que nella achei<br>
+ São todos de Filodemo.<br>
+ Este homem, que atrevimento<br>
+ He este que foi tomar?<br>
+ Qual será seu fundamento?<br>
+ Que mil vezes me faz dar<br>
+ Mil voltas ao pensamento.<br>
+ Não entendo delle nada.<br>
+ Mas inda qu'isto he assi,<br>
+ Disso que delle entendi,<br>
+ Me sinto tão alterada,<br>
+ Que me arreceio de mi.<br>
+ Eu inda agora não creio<br>
+ Que he verdade este amor;<br>
+ Mas praza a Deos, se assi for,<br>
+ Que inda este meu arreceio<br>
+ Se não converta em temor. <span class="pn"><a
+name="pag_431">{431}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja vós, ja sêdes,<br>
+ Peixes, nas redes.<br>
+ Senhora, quem mais confia,<br>
+ Mais asinha a cahir vem:<br>
+ Natural he o querer bem;<br>
+ Que o amor n'alma se cria,<br>
+ Sem o sentir quem o tem.<br>
+ Filodemo, no que ouvi,<br>
+ Tẽe-lhe sobeja affeição;<br>
+ E postoque o creia assi,<br>
+ Ou eu sonhei, ou ouvi.<br>
+ Que era d'alta geração.<br>
+ Logo na phisionomia,<br>
+ Nas manhas, artes e geito,<br>
+ Mostra mui grande respeito:<br>
+ Nem tão alta phantasia<br>
+ Não se põe em baixo peito.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tudo isso cuido, e vi<br>
+ Mil vezes miudamente;<br>
+ Mas estas mostras assi<br>
+ São desculpas para mi,<br>
+ E não para toda a gente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O seu moço vejo vir<br>
+ A nós, seu passo contado:<br>
+ Este he muito para ouvir,<br>
+ Que diz que me quer servir<br>
+ D'amores esperdiçado. <span class="pn"><a name="pag_432">{432}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA VII.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vilardo, Solina e Dionysa.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, o Senhor seu pae,<br>
+ Mesmo de Vossa Mercê,<br>
+ Ja lá para casa vae:<br>
+ Por isso, Senhora, andae,<br>
+ Que elle me mandou n'hum pé;<br>
+ E diz que fosse jantar<br>
+ Vossa Mercê mesmamente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E ja veio do pomar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh quem pudéra escusar<br>
+ De comer, nem de ver gente!<br>
+ (Nenhuma côr de verdade<br>
+ Tenho do que m'elle manda.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ S'ella sem vontade anda,<br>
+ Eu lh'emprestarei vontade,<br>
+ Empreste-m'ella a vianda.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Va, Senhora, por não dar<br>
+ Mais em que cuidar á gente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Irei, mas não por jantar;<br>
+ Que quem vive descontente<br>
+ Mantem-se de imaginar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois tambem cá minhas dores <span class="pn"><a
+ name="pag_433">{433}</a></span><br>
+ Me não deixão comer pão;<br>
+ Nem come minha affeição<br>
+ Senão sopadas d'amores,<br>
+ E mil postas de paixão.<br>
+ Das lagrimas caldo faço,<br>
+ Do coração escudella;<br>
+ Esses olhos são panella<br>
+ Que coze bofes e baço,<br>
+ Com toda a mais cabedella.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VIII.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>O Monteiro, um pastor e um bobo.</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Perdeo-se por esta brenha<br>
+ Venadoro, meu Senhor,<br>
+ Sem que novas delle tenha:<br>
+ Queira Deos que inda não venha<br>
+ Desta perda outra maior.<br>
+ Contra esta parte daqui<br>
+ Des pos hum cervo correo,<br>
+ Logo desappareceo:<br>
+ Como da vista o perdi,<br>
+ O gosto se me perdeo.<br>
+ Eu, e os mais caçadores,<br>
+ Corremos montes e covas;<br>
+ Fallamos com lavradores<br>
+ Deste valle, e com pastores,<br>
+ Sem acharmos delle novas.<br>
+ Quero ver nestes casais <span class="pn"><a
+ name="pag_434">{434}</a></span><br>
+ Que cobre aquelle arvoredo,<br>
+ Se acharei pastores mais,<br>
+ Que me dem alguns sinais<br>
+ Que me possão tornar ledo.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Chama.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Ó dos casaes, ó de lá:<br>
+ Ah pastores, não fallais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quien sois, ó lo que buscais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ouvis? Chegae para cá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dicid vos lo que mandais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No vayais adó os llamó,<br>
+ Padre, sin saber quien es.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Porque este es<br>
+ Aquel ladron que hurtó<br>
+ El asno del Portugues.<br>
+ Y se vais adó estan,<br>
+ Os juro al cuerpo sagrado<br>
+ De San Pisco, y San Juan,<br>
+ Que tambien os hurtarán,<br>
+ Que sois asno mas honrado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Déjame ir, que me llamó.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No, por vida de mi madre; <span class="pn"><a
+ name="pag_435">{435}</a></span><br>
+ Que si allá vais, muerto so',<br>
+ Y desta vez quedo yo,<br>
+ Sin asno, triste! y sin padre.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vinde, que vo-lo encommendo,<br>
+ E em vossas mãos me ponho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No vais, que dijo <em>en comiendo</em>.<br>
+ Encomiendoos al demonio!      <em>(Ao Monteiro.)</em><br>
+ Y esso es lo que andais haciendo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Déjame ir adó está,<br>
+ Que no es cosa que me espante.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No quereis sino ir allá?<br>
+ Pues echadle pan delante,<br>
+ Puede ser amansará.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dios os guarde! Qué cosa es<br>
+ Esa por que voceais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dar-m'heis novas, ou sinais<br>
+ D'hum Fidalgo Portugues,<br>
+ Se passou por onde andais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo so' Hidalgo Portugues:<br>
+ Que manda su Señoria?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cállate: oh que nescio es!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Padre, no me dejarés <span class="pn"><a name="pag_436">{436}</a></span><br>
+ Ser lo que quisiere un dia?<br>
+ Ah Santo Dios verdadero!<br>
+ No seré lo que otros son?<br>
+ Digo ahora que no quiero<br>
+ Ser Alonsico, el vaquero.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cállate ya, bobarron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ya me callo: ahora un poco<br>
+ He de ser lo que yo quisiere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, diga lo que quiere,<br>
+ Porque este mochacho es loco,<br>
+ Y muero porque no muere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo, que se por ventura<br>
+ Sabeis o que ando buscando:<br>
+ Hum Fidalgo, que caçando<br>
+ Se perdeo nesta espessura<br>
+ Apos hum cervo andando.<br>
+ Tenho esta parte corrida,<br>
+ Sem delle poder saber:<br>
+ Trago a alegria perdida;<br>
+ E se de todo a perder,<br>
+ Perca-se tambem a vida.<br>
+ Porque só polo buscar<br>
+ Tenho trabalhos assás.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Yo no puedo callar mas.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Como no puedes callar? <span class="pn"><a
+ name="pag_437">{437}</a></span><br>
+ Quítate allá para tras.)<br>
+ Cuanto por aquesta tierra,<br>
+ No siento nueva ninguna.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh trabalhosa fortuna!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas detras daquesta sierra<br>
+ Hallareis, por dicha, alguna;<br>
+ Que unas choças de vaqueros<br>
+ Portugueses allí estan;<br>
+ Y ahí muchas veces van<br>
+ Cazadores Cavalleros:<br>
+ Puede ser que lo sabran.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quero-me ir lá saber.<br>
+ Ficae-vos a Deos, pastor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dios os livre de dolor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y á nos dé siempre comer<br>
+ Pan y sopas, qu'es mejor.<br>
+ Mirad lo que os notifico:<br>
+ En aquel valle, acullá,<br>
+ Anda paciendo un burrico,<br>
+ Hidalgo, manso, y bonico;<br>
+ Puede ser que ese será.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Calla, y acaba de andar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ya ando. <span class="pn"><a name="pag_438">{438}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Quieres callar?<br>
+ Bobo, que tan poco sabe!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No diceis que ande y acabe?<br>
+ Ando, y no quiero acabar.</blockquote>
+
+<h2>ACTO TERCEIRO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Florimena, pastora, com hum pote que vai á
+fonte.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>P</big>or este formoso prado<br>
+ Tudo quanto a vista alcança<br>
+ Tão alegre está tornado,<br>
+ Que a qualquer desesperado<br>
+ Póde dar certa esperança.<br>
+ O monte, e sua aspereza,<br>
+ De flores se veste ledo;<br>
+ Reverdece o arvoredo,<br>
+ Somente em minha tristeza<br>
+ Está sempre o tempo quedo.<br>
+ Junto desta fonte pura,<br>
+ Segundo a muitos ouvi,<br>
+ D'altos parentes nasci:<br>
+ Foi como quiz a Ventura, <span class="pn"><a
+ name="pag_439">{439}</a></span><br>
+ Mas não como eu mereci.<br>
+ O dia que fui nascida,<br>
+ Minha mãe do parto forte<br>
+ Foi sem cura fallecida;<br>
+ E o dia que me deo vida<br>
+ Lhe dei eu a ella a morte.<br>
+ Do mesmo parto nasceo<br>
+ Meu irmão, que entre os cabritos<br>
+ Comigo tambem viveo;<br>
+ Mas, assi como cresceo,<br>
+ Crescêrão nelle os espritos.<br>
+ Foi-se buscar a cidade;<br>
+ Teve juizo e saber;<br>
+ Eu fiquei, como mulher,<br>
+ E não tive faculdade<br>
+ Para poder mais valer.<br>
+ A hum pastor obedeço<br>
+ Por pae, que d'outro não sei;<br>
+ E, pola mãe que matei,<br>
+ A huma cabra conheço,<br>
+ De cujo leite mamei.<br>
+ Mas porém, ja qu'este monte<br>
+ Me obriga e meu nascimento,<br>
+ Quero, pois quer meu tormento,<br>
+ Encher a talha na fonte<br>
+ Que co'os olhos accrescento.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Finge que enche a talha.</em> <span class="pn"><a
+name="pag_440">{440}</a></span></p>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Venadoro e Florimena.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois que me vim alongar<br>
+ Dos caminhos e da gente,<br>
+ Fortuna, que o consente,<br>
+ Se devia contentar<br>
+ De me ter tão descontente.<br>
+ Porém, segundo adivinho,<br>
+ Por tão espêsso arvoredo,<br>
+ Por tão aspero rochedo,<br>
+ Quanto mais busco o caminho,<br>
+ Tanto mais delle me arredo.<br>
+ O cavallo, como amigo,<br>
+ Ja cansado me trazia:<br>
+ Mas deixou-me todavia;<br>
+ Que mal pudera comigo<br>
+ Quem comsigo não podia.<br>
+ Quero-me aqui assentar<br>
+ Á sombra, nesta hervinha,<br>
+ Porque canso ja de andar;<br>
+ Mas inda a fortuna minha<br>
+ Não cansa de me cansar.<br>
+ Junto desta fonte pura<br>
+ Não sei quem cuido qu'está;<br>
+ Mas no coração me dá<br>
+ Que aqui me guarda a Ventura<br>
+ Alguma ventura má.<br>
+ Ou ganhado, ou bem perdido,<br>
+ Faça, emfim, o que quizer, <span class="pn"><a
+ name="pag_441">{441}</a></span><br>
+ Qu'eu o fim disto hei de ver?<br>
+ Que ja venho apercebido<br>
+ A tudo quanto vier.<br>
+ Oh que formosa serrana<br>
+ Á vista se me offerece!<br>
+ Deosa dos montes parece;<br>
+ E se he certo que he humana,<br>
+ O monte não a merece.<br>
+ Pastora tão delicada,<br>
+ De gesto tão singular,<br>
+ Parece-me qu'em lugar<br>
+ De perguntar pola estrada,<br>
+ Por mim lhe hei de perguntar.<br>
+ Atéqui sempre zombei<br>
+ De qualquer outra pessoa<br>
+ Que affeiçoada topei;<br>
+ Mas agora zombarei<br>
+ De quem se não affeiçoa.<br>
+ Serrana, cuja pintura<br>
+ Tanto a alma me moveo,<br>
+ Dizei-me: Por qual ventura<br>
+ Andareis nesta espessura,<br>
+ Merecendo estar no ceo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tamanho inconveniente<br>
+ Andar na serra parece?<br>
+ Pois a ventura da gente<br>
+ Sempre he mui diferente<br>
+ Do que, ao parecer, merece.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tal resposta he manifesto <span class="pn"><a
+ name="pag_442">{442}</a></span><br>
+ Não se parecer co'as cabras.<br>
+ Pois não vos parece honesto<br>
+ Saberdes matar co'o gesto,<br>
+ Senão inda com palabras?<br>
+ No mato tudo he rudeza.<br>
+ Ha tal gesto e discrição?<br>
+ Não o creio.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Porque não?<br>
+ Não supprirá natureza<br>
+ Onde falta criação?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja logo nisso, Senhora,<br>
+ Dizeis, se não sinto mal,<br>
+ Que do vosso natural<br>
+ Não era serdes pastora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo, mas pouco me val.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois quem vos pôde trazer<br>
+ Á conversação do monte?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Perguntae-o a essa fonte;<br>
+ Que as cousas duras de crer,<br>
+ Hum as faça, outro as conte.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esta fonte, que está aqui,<br>
+ Que sabe do que dizeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, mais não pergunteis.<br>
+ Porque outra cousa de mi <span class="pn"><a
+ name="pag_443">{443}</a></span><br>
+ Sabei que não sabereis.<br>
+ De vós agora sabei,<br>
+ O que não tendes sabido:<br>
+ Se quereis ágoa, bebei;<br>
+ Se andais por dita perdido,<br>
+ Eu vos encaminharei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, eu não vos pedia<br>
+ Que ninguem m'encaminhasse;<br>
+ Que o caminho qu'eu queria,<br>
+ Se o eu agora achasse,<br>
+ Mais perdido me acharia.<br>
+ Não quero passar daqui;<br>
+ E não vos pareça espanto<br>
+ Qu'em vos vendo me rendi;<br>
+ Porque quando me perdi,<br>
+ Não cuidei de ganhar tanto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, quem na serra mora<br>
+ Tambem entende a verdade<br>
+ Dos enganos da cidade:<br>
+ Vá-se embora, ou fique embora,<br>
+ Qual for mais sua vontade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh lindissima donzella,<br>
+ A quem a ventura ordena<br>
+ Que me guie como estrella!<br>
+ Quereis-me deixar a pena,<br>
+ E levar-me a causa della?<br>
+ E ja que vos conjurastes<br>
+ Vós e Amor para matar-me, <span class="pn"><a
+ name="pag_444">{444}</a></span><br>
+ Oh não deixeis d'escutar-me!<br>
+ Pois a vida me tirastes,<br>
+ Não me tireis o queixar-me!<br>
+ Qu'eu, em sangue e em nobreza<br>
+ O claro Ceo me extremou;<br>
+ E a Fortuna me dotou<br>
+ De grandes bens e riqueza,<br>
+ Que sempre a muitos negou.<br>
+ Andando caçando aqui,<br>
+ Apos hum cervo ferido,<br>
+ Permittio meu fado assi,<br>
+ Que andando dos meus perdido,<br>
+ Me venha perder a mi.<br>
+ E porqu'inda mais passasse<br>
+ Do que tinha por passar,<br>
+ Buscando quem m'ensinasse,<br>
+ Por que via me tornasse,<br>
+ Acho quem me faz ficar.<br>
+ Que vingança permittio<br>
+ A fortuna n'hum perdido!<br>
+ Oh que tyranno partido,<br>
+ Que quem o cervo ferio,<br>
+ Vá como cervo ferido!<br>
+ Ambos feridos n'hum monte,<br>
+ Eu a elle, outrem a mi:<br>
+ Huma differença ha aqui,<br>
+ Qu'elle vai sarar á fonte,<br>
+ E eu nella me feri.<br>
+ E pois que tão transformado<br>
+ Me tẽe vossa formosura,<br>
+ Hum de nós troque o estado. <span class="pn"><a
+ name="pag_445">{445}</a></span><br>
+ Ou vós para o povoado,<br>
+ Ou eu para a espessura.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dos arminhos he certeza,<br>
+ Se lhe a cova alguem çujar,<br>
+ Morar fóra, antes d'entrar:<br>
+ D'estimar muito a limpeza<br>
+ Pola vida a vai trocar:<br>
+ Tambem quem na serra mora<br>
+ Tanto estima a honestidade,<br>
+ Que antes toma ser pastora,<br>
+ Que perder a honestidade<br>
+ A trôco de ser Senhora.<br>
+ Se mais quereis, esta fonte<br>
+ Vos descubra o mais de mim:<br>
+ O que ella vio, ella o conte;<br>
+ Porque eu vou-me para o monte,<br>
+ Porque ha ja muito que vim.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ó linda minha inimiga,<br>
+ Gentil pastora, esperae!<br>
+ Pois que tanto amor me obriga,<br>
+ Consenti-me que vos siga;<br>
+ Vá o corpo onde alma vae.<br>
+ E pois por vós me perdi,<br>
+ E neste estado Amor pôs<br>
+ Os olhos com que vos vi, <span class="pn"><a
+ name="pag_446">{446}</a></span><br>
+ Pois os deixaste sem mi,<br>
+ Oh não os deixeis sem vós!<br>
+ Porque a Fortuna me disse<br>
+ Que nas serras, onde andais,<br>
+ Em estes extremos tais,<br>
+ Não era bem que vos visse<br>
+ Para não ver de vós mais.<br>
+ E pois Amor se quiz ver<br>
+ Da livre vida vingado,<br>
+ Em que eu sohia viver;<br>
+ Faça em mi o que quizer,<br>
+ Que aqui vou ao jugo atado.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Santo Deos verdadeiro,<br>
+ A quem o mundo obedece!<br>
+ Meu filho não apparece.<br>
+ E que me dizeis, Monteiro?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo-lhe que m' entristece.<br>
+ Qu'eu corri por esses montes,<br>
+ Bem quinze leguas, ou mais,<br>
+ E busquei polos casais,<br>
+ Por serras, montes e fontes,<br>
+ Sem ver novas, nem sinais.<br>
+ Toda a gente que levou,<br>
+ Buscando-o, muito cansada <span class="pn"><a
+ name="pag_447">{447}</a></span><br>
+ Pelo mato anda espalhada;<br>
+ Mas ainda ninguem tomou,<br>
+ Que soubesse delle nada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh fortuna nunca igual!<br>
+ Quem me fara sabedor<br>
+ De meu filho e meu amor?<br>
+ Que se he muito grande o mal,<br>
+ Muito mor he o temor.<br>
+ Quem tolhe que não achasse<br>
+ Algum leão temeroso<br>
+ N'algum monte cavernoso,<br>
+ Que sua fome fartasse<br>
+ Em seu corpo tão formoso?<br>
+ Quem ha que saiba, ou que visse,<br>
+ Que das montanhas erguidas<br>
+ Algum monstro não sahisse,<br>
+ E com seu sangue tingisse<br>
+ As hervas nellas nascidas?<br>
+ Oh filho! vai-me a lembrar<br>
+ Quantas vezes os mandava<br>
+ Que deixasseis o caçar!<br>
+ Não cuidei de adivinhar<br>
+ O que Fortuna ordenava.<br>
+ Eu irei, filho, buscar-vos<br>
+ Por esses montes, por hi,<br>
+ Ou a perder-me, ou cobrar-vos;<br>
+ Que morte que quiz matar-vos,<br>
+ Quero que me mate a mi.<br>
+ Onde fostes fenecido,<br>
+ Seja tambem vosso pae; <span class="pn"><a name="pag_448">{448}</a></span><br>
+ Ser-me-ha acontecido,<br>
+ Como a virote que vae<br>
+ Buscar outro que he perdido.<br>
+ Vós só haveis de ficar,<br>
+ Filodemo, encarregado<br>
+ Para esta casa guardar;<br>
+ Que de vosso bom cuidado<br>
+ Tudo se póde fiar.<br>
+ Ide-vos a fazer prestes,<br>
+ Mandae cavallos sellar;<br>
+ Pois achá-lo não pudestes,<br>
+ Ir-m'heis buscar o lugar<br>
+ Onde da vista o perdestes.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o
+seu.</em></p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Canta.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Los mochachos del Obispo<br>
+ No comen cosa mimosa,<br>
+ Ni zanca d'araña, ni cosa mimosa.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ De su sayo colorado<br>
+ Tan lozano me vestió,<br>
+ Que yo ya no soy yo,<br>
+ Ya por otro estoy trocado;<br>
+ Que este sayo me trocó.<br>
+ Oh qué asno Portugues,<br>
+ Que loco por Florimena,<br>
+ Deseó zamarra agena, <span class="pn"><a name="pag_449">{449}</a></span><br>
+ Y dame por enterés<br>
+ Una zamarra tan buena!<br>
+ Como yo vi la bobilla<br>
+ Andar con él en questiones,<br>
+ Y parársele amarilla,<br>
+ Díjele: Florimenilla,<br>
+ Andais en dongolondrones?<br>
+ Él me dijo: Matalote,<br>
+ No tengais dello desmayo.<br>
+ Y en esto, como un rayo,<br>
+ Tomóme mi capirote,<br>
+ Y dióme su capisayo.<br>
+ Capirote, en buena fé,<br>
+ Si vos, cuando en mi entrastes,<br>
+ Capisayo vos tornastes,<br>
+ Que yo por eso cantaré,<br>
+ Pues ansí me mejorastes.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Canta.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Lyrio, lyrio, lyrio loco,<br>
+ Con qué? Con capirotada.<br>
+ Por hablar con la golosa<br>
+ De amores, mirad la cosa!<br>
+ Zamarrilla tan hermosa,<br>
+ Que me ha dado tan honrada,<br>
+ Con qué? Con capirotada.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Yo entonces respondí:<br>
+ Señor, dame pan y queso,<br>
+ Mas despues que lo entendí,<br>
+ Dije á ella: Dale un beso,<br>
+ Que él me dió zamarra á mí. <span class="pn"><a
+ name="pag_450">{450}</a></span><br>
+ Ahora me mirarán<br>
+ Cuantos á la eglesia fueren;<br>
+ Y aquellos que no me quieren,<br>
+ Ahora me rogarán.<br>
+ Sabeis porque no querré?<br>
+ Porque estoy ahidalgado;<br>
+ Y cuando fuere rogado,<br>
+ Cantando responderé,<br>
+ Que ya estoy otro tornado.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Canta e baila.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Soropicote, picote, mozas,<br>
+ Ahora quiero amores con vosotras.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>O Pastor e o Bobo.</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hijo Alonsillo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Hijo Alonsillo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No me quieres escuchar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues déjame suspirar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Escúchame ahora, asnillo,<br>
+ Lo que te quiero mandar.<br>
+ Véte al valle de las rosas,<br>
+ Y di á Anton del Lugar<br>
+ Que si puede acá llegar,<br>
+ Porque tengo muchas cosas <span class="pn"><a
+ name="pag_451">{451}</a></span><br>
+ Que importan para le hablar.<br>
+ Porque es aqui llegado<br>
+ Á este valle un hombre honrado,<br>
+ Mancebo de casta buena,<br>
+ Que amores de Florimena<br>
+ Le traen loco y penado.<br>
+ Dice que quiere casar<br>
+ Con ella, que su tormento<br>
+ No le deja reposar;<br>
+ Y que venga festejar<br>
+ Tan dichoso casamiento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dicid, padre, tambien vos,<br>
+ No quereis casar comigo?<br>
+ Casemos ambos adós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vé, y haz lo que te digo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Responde, padre, por Dios.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vé luego, y vuelve apresado.<br>
+ Anda. No quieres andar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues que me habeis empujado,<br>
+ Juro á mi de desandar<br>
+ Todo cuanto tengo andado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Trabajoso es este insano!<br>
+ Nunca hace lo que quereis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora no os apasioneis, <span class="pn"><a name="pag_452">{452}</a></span><br>
+ Mi padrecico lozano:<br>
+ Que burlaba, no lo veis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Véte dahi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Héme aqui.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vé donde te dije.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                     Ya vengo.<br>
+ Oh que padrasto que tengo,<br>
+ Que asi me manda por ahi,<br>
+ Siendo camino tan luengo!</blockquote>
+
+<h2>ACTO QUARTO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Dionysa e Solina.</em></p>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>O</big>h Solina, minha amiga,<br>
+ Que todo este coração<br>
+ Tenho posto em vossa mão;<br>
+ Amor me manda que diga,<br>
+ Vergonha me diz que não.<br>
+ Que farei?<br>
+ Como me descobrirei? <span class="pn"><a name="pag_453">{453}</a></span><br>
+ Porque a tamanho tormento<br>
+ Mais remedio lhe não sei,<br>
+ Que entregá-lo ao soffrimento.<br>
+ Meu pae muito entristecido<br>
+ Se vai pela serra erguida,<br>
+ Ja da vida aborrecido,<br>
+ Buscando o filho perdido,<br>
+ Tendo a filha cá perdida!<br>
+ Sem cuidar,<br>
+ Foi a casa encommendar<br>
+ A quem destruir lha quer:<br>
+ Olhae que gentil saber,<br>
+ Que vai comigo deixar<br>
+ Quem me não deixa viver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, em tanto desgôsto.<br>
+ Não posso meter a mão;<br>
+ Mas como diz o rifão,<br>
+ Mais val vergonha no rosto,<br>
+ Que mágoa no coração.<br>
+ E bofé, se eu tanto amasse,<br>
+ E visse tempo e sazão,<br>
+ Sem seu pae, sem seu irmão,<br>
+ Que a nuvem triste tirasse<br>
+ De cima do coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah mana! que tenho medo,<br>
+ Que s'eu em tal consentisse<br>
+ Que logo o mundo o sentisse,<br>
+ Porque nunca houve segredo,<br>
+ Que, emfim, se não descobrisse. <span class="pn"><a
+ name="pag_454">{454}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se eu tantas dobras tivesse<br>
+ Como quantas houve erradas,<br>
+ Sem que o mundo o soubesse,<br>
+ Á fé qu'eu enriquecesse,<br>
+ E fosse das mais honradas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sabeis que tenho em vontade?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que podeis, Senhora, ter?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallar-lhe, só para ver<br>
+ Se he por ventura verdade<br>
+ O que dizeis que me quer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bofé, mana, dizeis bem,<br>
+ E eu o mandarei chamar,<br>
+ Como para lhe rogar<br>
+ Que hum annel, que lá me tem,<br>
+ Que mo mande concertar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizeis mui bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Vou-me lá<br>
+ Chamar o seu moço á sala;<br>
+ E s'este parvo vem cá,<br>
+ Com elle hum pouco rirá,<br>
+ Que sempre amores me fala.<br>
+ Vilardo, moço? <span class="pn"><a name="pag_455">{455}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vilardo e Solina.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Quem chama?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vem cá, moço; eu te chamo.<br>
+ Qu'he de teu amo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Ah que dama!<br>
+ Perguntais-me por meu amo,<br>
+ E não por hum que vos ama?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E quem he esse amador,<br>
+ Que quer ter comigo passo?<br>
+ Será elle algum madrasso?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu sou o mesmo, que o amor<br>
+ Me quebra pelo espinhasso.<br>
+ E mais vós sabei de mi,<br>
+ Se eu a dizê-lo me atrevo,<br>
+ Que desque esses olhos vi,<br>
+ Que yo ni como, ni bebo,<br>
+ Ni hago vida sin ti.<br>
+ E mais para namorado<br>
+ Não sou ora tão madraço.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sois muito desmazelado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas antes, de delicado <span class="pn"><a name="pag_456">{456}</a></span><br>
+ Caio pedaço a pedaço.<br>
+ E mais eu soffrer não posso<br>
+ Que me façais tanto fero,<br>
+ Qu'estou ja posto no osso,<br>
+ Porque sou vosso e revosso,<br>
+ Por vida de quanto quero.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Feros está cheia a rua.<br>
+ Ora estou bem aviada!</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cupido, por vida tua,<br>
+ Que a não faças tão crua,<br>
+ Pois que te não faço nada!<br>
+ Amor, Amor, mas te pido,<br>
+ Que quando se for deitar,<br>
+ Que le digas al oido:<br>
+ Devieis-vos de lembrar<br>
+ Neste tempo de hum perdido.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E tu ja fazes coprinhas?<br>
+ Ainda tu trovarás?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem eu? Por estas barbinhas,<br>
+ Que se vós virdes as minhas,<br>
+ Que digais que não são más.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora, pois me quereis bem,<br>
+ Dizei-me huma.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Ei-la aqui;<br>
+ E veja o saibo que tem; <span class="pn"><a
+ name="pag_457">{457}</a></span><br>
+ Porque esta trovinha assi,<br>
+ Saiba qu'he trova do assem.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Trova.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Passarinhos, que voais<br>
+ Nesta manhãa tão serena,<br>
+ Sabei que só minha pena<br>
+ Póde encher mil cabeçais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O rifão está salgado.<br>
+ Essa pena te dou eu?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós e Amor, que de malvado,<br>
+ Me tẽe melhor empennado,<br>
+ Que nenhum virote seu.<br>
+ Pois se me ouvíreis cantar!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E tu es tambem cantor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Canto melhor que hum açor.<br>
+ Quereis que vos venha dar<br>
+ Musiqueta de primor,<br>
+ E que vos mande tanger<br>
+ Muito melhor que ninguem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja isso quizera ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Querer-me-heis, se o eu fizer,<br>
+ Algum pedaço de bem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Querer-te-hei trinta pedaços. <span class="pn"><a
+ name="pag_458">{458}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E esse querer dará fruito,<br>
+ Que me tire destes laços?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E que fruito?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Dous abraços.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esse fruito custa muito.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esse he o amor qu'em vós ha?<br>
+ Pezar de minha mãe torta!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi, chamae logo lá<br>
+ Vosso amo que venha cá,<br>
+ Porque he cousa que importa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Logo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Logo nessas horas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não estarei aqui mais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não. Ainda ahi estais?<br>
+ Vós haveis mister esporas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Irei, porque me mandais. <span class="pn"><a name="pag_459">{459}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor.</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas de un mez es ya pasado<br>
+ Que en esta sierra andais;<br>
+ Y es caso mal mirado<br>
+ Que andeis guardando ganado<br>
+ Por una que tanto amais.<br>
+ Y si os determinais<br>
+ En querer casar con ella,<br>
+ Juro á mi que nada errais;<br>
+ Y si eso es para habella,<br>
+ En vano cabras guardais.<br>
+ Ya me distes vuestra fé<br>
+ (Sábenlo estas tierras todas):<br>
+ Yo con ella me engañé,<br>
+ Que luego mandar llamé<br>
+ Quien festejase las bodas.<br>
+ Y agora dicis con pena,<br>
+ Que es dura cosa casar:<br>
+ Pues volveos hora buena,<br>
+ Que no habeis de engañar<br>
+ Con palabras Florimena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem se ha de ter coração<br>
+ Para tamanho temor?<br>
+ Que em mim pegando estão.<br>
+ De huma parte a razão.<br>
+ E d'outra parte o Amor.<br>
+ Tambem vejo que perdella <span class="pn"><a
+ name="pag_460">{460}</a></span><br>
+ Será minha perdição;<br>
+ Que bem me diz a affeição,<br>
+ Que pouco faço por ella,<br>
+ Pois não desfaço em quem são.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digoos, si por bajeza<br>
+ Dicis que no os conviene,<br>
+ Daros hé una certeza,<br>
+ Que en sangre y en nobleza,<br>
+ Tanto como vos la tiene.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pastor, digo que daqui<br>
+ Farei tudo que quizerdes;<br>
+ E se mais quereis de mi,<br>
+ Digo que vos dou o si<br>
+ Para tudo o que quizerdes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dios os dé su bendicion;<br>
+ Y pues que casais con ella,<br>
+ Yo os afirmo en conclusion,<br>
+ Que aun de vos y mas della<br>
+ Verná gran generacion.<br>
+ Yo me voy por ella, hijo,<br>
+ Tomadla asi mal compuesta;<br>
+ Verná quien haga la fiesta;<br>
+ Que en placer y regocijo<br>
+ Nos festeje esta floresta. <span class="pn"><a
+name="pag_461">{461}</a></span></blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Ó ribeiras tão formosas,<br>
+ Valles, campos pastoris,<br>
+ Porque vos não revestis<br>
+ De novas flores e rosas,<br>
+ Se minha gloria sentis?<br>
+ Porque não seccais, abrolhos?<br>
+ E vós, ágoa, que regando,<br>
+ Os olhos his alegrando,<br>
+ Correi, que tambem meus olhos<br>
+ D'alegres estão manando.<br>
+ Ah pastora, em quem espero<br>
+ Poder viver descansado!<br>
+ Comtigo guardarei gado,<br>
+ Que ja eu sem ti não quero<br>
+ Nenhuma alteza d'estado.<br>
+ Diga o que quizer a gente,<br>
+ Tudo terei n'huma palha,<br>
+ Porque está claro e evidente<br>
+ Que não ha honra que valha<br>
+ Contra a vida descontente.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante
+do pastor, que traz Florimena.</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues el amor os obliga<br>
+ Á que hagais tan buena liga, <span class="pn"><a
+ name="pag_462">{462}</a></span><br>
+ Tomando á Dios por testigo,<br>
+ Daqui os la entrego, amigo,<br>
+ Por muger y por amiga.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Consentis nisto, Senhora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, em tudo consento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grande contentamento!</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Saiba que nunca tégora<br>
+ Lhe houve inveja ao tormento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Asi lo dices, bobilla?<br>
+ Oh! mala dolor os duela!<br>
+ Pero no es maravilla<br>
+ Quien consiente ansi la silla,<br>
+ Consienta tambien la espuela.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D.
+Lusidardo, e o Monteiro, que andão em busca de Venadoro.</em></p>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tres dias ha ja que ando<br>
+ Por esta larga espessura<br>
+ A Venadoro buscando;<br>
+ E o que delle vou achando<br>
+ He como quer a Ventura. <span class="pn"><a name="pag_463">{463}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, cuido que lá vejo<br>
+ Huns lavradores cantar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hi diante perguntar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cumprido he seu desejo,<br>
+ Se a vista não m'enganar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como assi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Elle não vê<br>
+ Aquelle pastor loução<br>
+ Com huma moça pela mão?<br>
+ Se Venadoro não he,<br>
+ Nem eu o Monteiro são.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quien veo allá asomar,<br>
+ Que se viene á nuestras bodas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No los dejemos llegar,<br>
+ Que nos vernan á roubar,<br>
+ Juro á mi, las migas todas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Venadoro, meu filho!<br>
+ Es tu este?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Tal estou,<br>
+ Que cuido que este não sou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Certo que me maravilho <span class="pn"><a name="pag_464">{464}</a></span><br>
+ De quem tanto te mudou.<br>
+ Como estais assi mudado<br>
+ No rosto e mais no vestido!</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ando ja n'outro trocado,<br>
+ Tanto, que fiquei pasmado<br>
+ De como fui conhecido.<br>
+ E se Vossa Mercê vem<br>
+ Para me levar daqui,<br>
+ Mais ha de levar que a mi;<br>
+ E ha de ser quem me tem<br>
+ Todo transformado em si.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eso porque lo entendeis?<br>
+ Por las migas por ventura?<br>
+ Voto á tal no llevareis:<br>
+ Por mas y por mas que andeis<br>
+ No hareis tal travesura.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esta formosa donzella<br>
+ Em mi teve tal poder,<br>
+ Que folguei de me perder;<br>
+ Pois, emfim, vim achar nella<br>
+ O que não cuidei de ser.<br>
+ Tanto em mi pôde este amor,<br>
+ Que a tenho recebida;<br>
+ E se o êrro grave for,<br>
+ Aqui quero ser pastor:<br>
+ Deixe-me ter esta vida.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ He certo tal casamento? <span class="pn"><a name="pag_465">{465}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tenha-o por cousa segura.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grande acontecimento!<br>
+ Dest'arte sabe a ventura<br>
+ Aguar hum contentamento!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Óigame, Señor, á mi,<br>
+ Como hombre sabio, discreto,<br>
+ Porque acaeció así,<br>
+ Y lo que supo hasta aqui<br>
+ Lo puede tener por cierto.<br>
+ Muchos años son corridos<br>
+ Que en esta fuente abierta,<br>
+ En estos valles floridos<br>
+ Hallé dos niños nascidos,<br>
+ Y á su madre casi muerta.<br>
+ Los niños chicos crié,<br>
+ (Y desto cierto me arreo)<br>
+ Y á la madre sepulté;<br>
+ Y despues un gran deseo<br>
+ De saber esto tomé.<br>
+ Como yo fuese enseñado<br>
+ De chico á la mágica arte<br>
+ Por mi padre, que es finado;<br>
+ Muy conoscido y nombrado<br>
+ Soy por tal en toda parte.<br>
+ Yo con yervas de la sierra,<br>
+ Animales y otras cosas<br>
+ Haré, si el arte no se yerra,<br>
+ Que desciendan á la tierra <span class="pn"><a
+ name="pag_466">{466}</a></span><br>
+ Las estrellas luminosas.<br>
+ Soy, en fin, certificado<br>
+ Que la madre de los dos<br>
+ Fué Princeza de alto estado.<br>
+ Y por un caso nombrado<br>
+ La trajo á esta tierra Dios.<br>
+ El macho, como creció,<br>
+ Deseoso de otro bien,<br>
+ Á la Corte se partió:<br>
+ La hembra es esta por quien<br>
+ Vuestro hijo se perdió.<br>
+ Y si mas quiere, Señor,<br>
+ De mi arte, prestamente<br>
+ Dello le haré sabedor;<br>
+ Mas ha de ser de tenor<br>
+ Que no lo sepa la gente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas vamos-nos, se quereis,<br>
+ Que não soffro dilação,<br>
+ A minha casa, e então<br>
+ Lá disso me informareis,<br>
+ Que caso he de admiração.<br>
+ E vós, filho, não cuideis<br>
+ Que a gloria de vos achar<br>
+ Não he tanto d'estimar,<br>
+ Qu'em qualquer 'stado que esteis,<br>
+ Não folgue de vos levar. <span class="pn"><a name="pag_467">{467}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h2>ACTO QUINTO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Solina, Dionysa e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>E</big>is Filodemo lá vem:<br>
+ Asinha acudio ao leme.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso he de quem quer bem;<br>
+ Mas não sei se o vio alguem,<br>
+ Porque quem espera teme.<br>
+ Agora me quizera eu<br>
+ Daqui cem mil leguas ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Folgára eu assi de ser,<br>
+ Porqu'este cuidado meu<br>
+ Fôra mais de agradecer.<br>
+ Que quando por accidente<br>
+ A Fortuna desastrada<br>
+ Vos apartasse da gente<br>
+ N'hum deserto, onde somente<br>
+ Das feras fosseis guardada;<br>
+ Lá por ferro, fogo e ágoa<br>
+ Buscar minha morte iria;<br>
+ A voz ronca, a lingua fria,<br>
+ Tamanho mal, tanta mágoa<br>
+ Ás montanhas contaria.<br>
+ Lá, mui contente e ufano<br>
+ De mostrar amor tão puro, <span class="pn"><a
+ name="pag_468">{468}</a></span><br>
+ Poderia ser que o dano,<br>
+ Que não move hum peito humano,<br>
+ Que movesse hum monte duro.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nesse deserto apartado<br>
+ De toda a conversação<br>
+ Merecieis degradado<br>
+ Por justiça, com pregão<br>
+ Que dissesse: <em>Por ousado</em>.<br>
+ E eu tambem merecia<br>
+ Metida a grave tormento,<br>
+ Pois que, como não devia,<br>
+ Vim a dar consentimento<br>
+ A tão sobeja ousadia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, se me atrevi,<br>
+ Fiz tudo o que Amor ordena;<br>
+ E se pouco mereci,<br>
+ Tudo o que perco por mi,<br>
+ Mereço por minha pena.<br>
+ E se Amor pôde vencer,<br>
+ Levando de mi a palma,<br>
+ Eu não lho pude tolher;<br>
+ Que os homens não tẽe poder<br>
+ Sôbre os affectos da alma.<br>
+ E ainda que pudera<br>
+ Resistir contra o mal meu.<br>
+ Saiba que o não fizera;<br>
+ Que pouco valêra eu,<br>
+ Se contra vós me valêra.<br>
+ Não deve logo ter culpa <span class="pn"><a
+ name="pag_469">{469}</a></span><br>
+ Quem se venceo d'armas tais:<br>
+ Assi que nisto, e no mais,<br>
+ Tomo por minha desculpa<br>
+ Vós mesma que me culpais.<br>
+ E se este atrevimento<br>
+ Com tudo for de culpar,<br>
+ Acabae de me matar;<br>
+ Que aqui tenho hum soffrimento<br>
+ Que tudo póde passar.<br>
+ E se esta penitencia,<br>
+ Que faço em me perder,<br>
+ Algum bem vos merecer,<br>
+ Fique em vossa consciencia<br>
+ O que me podeis dever.<br>
+ Que dizeis a isto, Senhora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu que vos posso dizer?<br>
+ Ja não tenho em mi poder,<br>
+ Segundo me sinto agora,<br>
+ Para poder responder.<br>
+ Respondei-lhe, vós Solina,<br>
+ Pois que a vós me entreguei.<br>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bofé não responderei:<br>
+ Veja ella o que determina.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não o vejo, nem o sei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois eu tambem não sei nada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque? <span class="pn"><a name="pag_470">{470}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Do que eu fizer,<br>
+ Se despois se arrepender,<br>
+ Dirá qu'eu fui a culpada.<br>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu só quero a culpa ter.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, por não errar,<br>
+ Não quero que fique em mim.<br>
+ Esta noite no jardim<br>
+ Ambos podem praticar<br>
+ Como isto venha a bom fim.<br>
+ Lá poderão ajustar<br>
+ Entr'ambos o parecer;<br>
+ Qu'eu não m'hei nisso de achar,<br>
+ Que não quero temperar<br>
+ O que outrem ha de comer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós vêdes a torvação,<br>
+ Que lá nessa casa vae?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dá-me cá no coração<br>
+ Que he vindo o Senhor seu pae<br>
+ Com o Senhor seu irmão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Filodemo, hi-vos embora,<br>
+ Fallae depois com Solina.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vamos-nos tambem, Senhora.<br>
+ Receber seu pae lá fóra;<br>
+ Não venha sentir a mina. <span class="pn"><a name="pag_471">{471}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina
+com os Musicos.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as
+sedas.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a traga
+a nós.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará
+quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher de sua
+arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes são como homens
+sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde possão fugir sem serem
+conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia quem ha de cuidar que hum tão
+honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem pode ser, porque noite escura he capa
+de Judeos e de envergonhados.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi
+zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous meus
+amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Que tal he a musica que determinas de lhe dar? <span class="pn"><a
+name="pag_472">{472}</a></span> Não seja de siso; porque será a maior
+parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que tu finges.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum
+cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores
+te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu tambem
+ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque daqui iremos
+á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum certo requerimento.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem
+temperadas?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e
+bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa
+nova.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum
+tange guitarra, outro pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito
+velhas, e no melhor diz Vilardo:</em></p>
+
+<p class="ni">Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que nos
+valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras. <span
+class="pn"><a name="pag_473">{473}</a></span></p>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="personagem">O M<small>ONTEIRO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<p>Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería quem
+o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque não
+podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos,
+esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora notae bem
+de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo: perdeo-se Venadoro na
+caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae enfadado, a irmãa triste, a
+gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do couce; e o galante aposentado nos matos
+com trajos mudados como camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma
+serranica d'Alentejo; e veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a
+recebeo por mulher; e rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as
+lembranças de seu pae; pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse:
+<em>Por esta deixarás teu pae e mãe</em>. E attentae isto por me fazer
+mercê: cuidareis que este caso era <em>solus peregrinus</em>: sabei que os
+não dá a fortuna senão aos pares, como quédas. Dionysa mais mimosa e mais
+guardada de seu pae que bicho de seda, moça sem fel como pombinha, que nos
+annos não tinha feito inda o enequim; mais formosa que huma manhãa do S.
+João, mais mansa que o Rio Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso,
+mais delicada que hum pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua
+conversação se poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a
+parricida, <span class="pn"><a name="pag_474">{474}</a></span> com tanto que
+dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em castanhas (não sei se
+diga, se o cale, que de magoado me trava pola manga a falla da garganta; mas,
+com tudo, não ha quem se tenha) seu pae a achou esta noite no jardim com
+Filodemo, mais arrependida do tempo que perdêra, que do que alli perdia: eu,
+coitado de mi, que meta os dentes nos cabeçaes se desejar ave de penna.</p>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Duriano e o Monteiro.</em></p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO</small>, <em>como cantando</em>.</p>
+
+<p>Ti ri ri, ti ri rão.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida
+agora?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo que
+ficou só em casa?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso
+caso para sahir com elle a desafio.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Porque? <span class="pn"><a name="pag_475">{475}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil,
+que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou
+cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe vem a
+descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja sôbre
+isso não sei que fábulas.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda.
+Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado del
+Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Tudo isso ouvi ja.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca
+lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como era bom
+justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher abalão,
+desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos! se lhe
+começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se desistem em nove
+dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então necessario acolher-se com
+ella, porque não colhessem a ella com elle: acolheu-se em huma galé; e vêde
+la Princeza em huma galera nueva, con el marinero á ser marinera. Finalmente,
+vindo navegando todo esse Oceano Germanico, bancos de Frandes, <span
+class="pn"><a name="pag_476">{476}</a></span> mar d'Inglaterra, e trazidos á
+costa d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella
+buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a galé á
+costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem escapar mais
+que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece que a Fortuna
+guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára. Sahio finalmente a
+moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria huma Princeza mais
+delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher pola terra estranha e
+despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde, despois de ter perdido toda a
+esperança de ter algum remedio, derão-lhe as dores de parto junto de huma
+fonte, aonde em breve espaço lançou duas crianças, macho e femia, como
+vizagras. E como a fraca compreição da delicada mulher não pudesse sustentar
+tantos e tão desacostumados trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia
+que desejava de dar, deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae,
+que por causa de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a
+viboras. E como as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum
+pastor que as criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de
+maneira que, por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e
+a femia he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo
+namorar a filha do Senhor <span class="pn"><a name="pag_477">{477}</a></span>
+que serve: não haverá logo por mal o Senhor Dom Lusidardo tomar por genro e
+nora, quem acha por sobrinhos.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se
+parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de
+quem isso contou.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou
+todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas
+solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o mesmo
+parentesco tẽe com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho
+contentamento; cuido que zombão delle.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu
+matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo:
+dissimulemos.</p>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela
+mão, e Filodemo a Dionysa.</em></p>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem não ficará pasmado<br>
+ De ver que por tal caminho <span class="pn"><a
+ name="pag_478">{478}</a></span><br>
+ Tẽe a Ventura ordenado<br>
+ Filodemo, meu criado,<br>
+ Vir ser meu genro e sobrinho!<br>
+ Quem não pasmará agora<br>
+ De ver a ventura minha,<br>
+ Que tẽe tornado n'hum'hora<br>
+ Florimena, huma pastora,<br>
+ Ser minha nora e sobrinha!<br>
+ Dem-se graças ao Senhor,<br>
+ Cujo segredo he profundo;<br>
+ Pois que vemos que quiz dar<br>
+ A ventura e o amor<br>
+ Por prazeres deste mundo.</blockquote>
+</div>
+
+
+
+<div id="cartas">
+
+<h1>CARTAS.</h1>
+
+ <span class="pn"><a name="pag_481">{481}</a></span>
+
+
+<h2>CARTAS.</h2>
+
+
+<h3>CARTA I.</h3>
+
+<p class="ni"><big>D</big>esejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito
+desejar a não vi; porque este he o mais certo costume
+da Fortuna, consentir que mais se deseje o que mais
+presto ha de negar. Mas porque outras naos me não
+fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar
+que vos não lembro, determinei de vos obrigar
+agora com esta; na qual pouco mais ou menos vereis
+o que quero que me escrevais dessa terra. Em
+pago do qual, d'ante mão vos pago com novas
+desta, que não serão más no fundo de huma arca
+para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que
+todo o mato he ouregãos, e não sabem que cá e lá
+más fadas ha.</p>
+
+<p>Despois que dessa terra parti, como quem o fazia
+para o outro mundo, mandei enforcar a quantas esperanças
+dera de comer até então, com pregão público:
+<em>Por falsificadoras de moeda</em>. E desenganei esses
+pensamentos, que por casa trazia, porque em mim não
+ficasse pedra sobre pedra. E assi posto em estado, que
+me não via senão por entre lusco e fusco, as derradeiras <span class="pn"><a name="pag_482">{482}</a></span>
+palavras que na nao disse, forão as de Scipião
+Africano: <em>Ingrata patria, non possidebis ossa mea</em>.
+Porque quando cuido, que sem peccado que me obrigasse
+a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de más
+linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas
+de pura inveja, de verem <em>su amada yedra de sí arrancada,
+y en otro muro asida</em>.... Da qual tambem
+amizades mais brandas que cera, se accendião em
+odios que disparavão lume que me deitava mais pingos
+na fama, que nos couros de hum leitão. Então
+ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude
+de Achilles, que não podia ser cortado senão
+pelas solas dos pés; as quaes de mas não verem
+nunca, me fez ver as de muitos, e não engeitar conversações
+da mesma impressão, a quem fracos punhão
+mao nome, vingando com a lingua o que não podião
+com o braço. Emfim, Senhor, eu não sei com que
+me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa
+terra me armavão os acontecimentos, como com me
+vir para esta, onde vivo mais venerado que os touros
+de Merceana, e mais quieto que a cella de hum
+Frade Prégador. Da terra vos sei dizer que he mãe
+de villões ruins, e madrasta de homens honrados.
+Porque os que se cá lanção a buscar dinheiro, sempre
+se sustentão sobre ágoa como bexigas; mas os que
+sua opinião deita á las armas Mouriscote, como maré
+corpos mortos á praia, sabei que antes que amadureção,
+se seccão. Ja estes que tomavão esta opinião
+de valentes ás costas, crede que nunca riberas de
+Duero arriba cavalgaron Zamoranos, que roncas de
+tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem <span class="pn"><a name="pag_483">{483}</a></span>
+ao effeito da obra, salvão-se com dizer que se não
+podem fazer tamanhas duas cousas, como he, prometter
+e dar. Informado disto veio a esta terra João Toscano,
+que, como se achava em algum magusto de rufiões,
+verdadeiramente que alli era su comer las carnes
+crudas, su beber la viva sangre. Callisto de Siqueira
+se veio cá mais humanamente, porque assi o prometteo
+em huma tormenta grande em que se vio. Mas
+hum Manoel Serrão, que, <em>sicut et nos</em>, manqueja de
+hum olho, se tẽe cá provado arrezoadamente, porque
+fui tomado por juiz de certas palavras, de que elle
+fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de
+sua pessoa era cá tido em boa conta. Se das damas
+da terra quereis novas, as quaes são obrigatorias a
+huma carta, como marinheiros á festa de S. Frei Pero
+Gonçalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de
+maduras, que não ha cabo que lhe tenha os pontos,
+se lhe quizerem lançar pedaço. Pois as que a terra
+dá? além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe
+falleis alguns amores de Petrarca, ou de Boscão; respondem-vos
+huma linguagem meada de hervilhaca,
+que trava na garganta do entendimento, a qual vos
+lança ágoa na fervura da mor quentura do mundo.
+Ora julgae, Senhor, o que sentirá hum estomago costumado
+a resistir ás falsidades de hum rostinho de
+tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho
+novo com ágoa, vendo-se agora entre esta
+carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não
+chorará las memorias de in illo tempore! Por amor
+de mi, que ás mulheres dessa terra digais de minha
+parte que se querem absolutamente ter alçada com baraço <span class="pn"><a name="pag_484">{484}</a></span>
+e pregão, que não receiem seis mezes de má vida
+por esse mar, que eu as espero com procissão e palio,
+revestido em pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe
+irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão
+toda a obediencia, a que por sua muita idade são ja
+obrigadas. Por agora não mais, senão que este Soneto<sup><a href="#rodape3" name="m_rodape3">[3]</a></sup>
+que aqui vai, que fiz á morte de Dom Antonio
+de Noronha, vos mando em sinal de quanto della me
+pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a
+qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe,
+que me parece melhor que quantas fiz. Tambem vo-la
+mandára para a mostrardes lá a Miguel Dias, que
+pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver;
+mas a occupação de escrever muitas cartas para o
+Reino, me não deo lugar. Tambem lá escrevo a Luis
+de Lemos em resposta d'outra que vi sua: se lha
+não derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual
+tudo se perde.</p>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 5em;">Vale.</p>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape3" name="rodape3">[3]</a></sup> He o Soneto 12.</p>
+</div>
+
+
+<h3>CARTA II.</h3>
+
+<p class="ni"><big>E</big>sta vai com a candeia na mão morrer nas de v. m.;
+e se dahi passar, seja em cinza; porque não quero
+que do meu pouco comão muitos. E se todavia quizer
+meter mais mãos na escudella, mande-lhe lavar
+o nome, e valha sem cunhos. <span class="pn"><a name="pag_485">{485}</a></span></p>
+
+<blockquote class="verso">
+La mar en medio y tierras, he dejado<br>
+Á cuanto bien cuitado yo tenia:<br>
+Cuan vano imaginar, cuan claro engaño<br>
+Es darme yo á entender que con partirme<br>
+De mí se ha de partir un mal tamaño!
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Quão mal está no caso quem cuida que a mudança
+do lugar muda a dor do sentimento! E senão, diga-o
+quien dijo que la ausencia causa olvido. Porque
+emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha.
+Ao alvo destes cuidados jogão meus pensamentos á
+barreira, tendo-me ja, pelo costume, tão contente de
+triste, que triste me faria ser contente; porque o longo
+uso dos annos se converte em natureza. Pois o que
+he para mor mal, tenho eu para mor bem. Aindaque,
+para viver no mundo, me debruo d'outro panno, por
+não parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum
+para ser outro, sendo outro para ser hum; mas a dor
+dissimulada dara seu fruito; que a tristeza no coração,
+he como a traça no panno.</p>
+
+<blockquote class="verso">
+E por tão triste me tenho,<br>
+Que se sentisse alegria,<br>
+De triste não viviria.<br>
+Porque a tal sorte vim,<br>
+Que não vejo bem algum<br>
+Em quanto vejo,<br>
+Que não nasceo para mim;<br>
+E por não sentir nenhum,<br>
+Nenhum desejo.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Porque cousas impossiveis, he melhor esquecê-las que
+deseja-las. E por isso</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Só, tristeza, vos queria,<br>
+Pois minha ventura quer <span class="pn"><a name="pag_486">{486}</a></span><br>
+Que só ella<br>
+Conheça por alegria;<br>
+E que se outra quizer,<br>
+Morra por ella.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella)
+diz ao triste que se alegre. Pois não vê que alheios
+contentamentos a hum coração descontente, não lhe
+remediando o que sente, lhe dóbrão o que padece.
+Vós, se vem á mão, esperais de mim palavrinhas
+joeiradas, enforcadas de bons propositos. Pois desenganae-vos,
+que desque professei tristeza, nunca mais
+soube jogar a outro fito. E porque não digais, que não
+sou gente fóra do meu bairro, vêdes, vai huma volta
+feita a este mote, que escolhi na manada dos engeitados;
+e cuido que não he tão dedo queimado, que não
+seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Não quero, não quero<br>
+Jubão amarello.<br>
+<br>
+Se de negro for,<br>
+Tão bem me parece,<br>
+Quanto me aborrece<br>
+Toda alegre côr:<br>
+Côr que mostra dor,<br>
+Quero, e não quero<br>
+Jubão amarello.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Parece-vos que se póde dizer mais? Não me respondais:
+Quem gabará a noiva? porque assentae, que fui
+comendo e fazendo, ou assoprando, que não he tão
+pequena habilidade. E porque vos não pareça, que
+foi mais acertar, que querê-lo fazer; vêdes, vai outra
+do mesmo jaez, com tanto que se não vá a pasmar. <span class="pn"><a name="pag_487">{487}</a></span></p>
+
+<blockquote class="verso">
+Perdigão perdeo a penna,<br>
+Não ha mal, que lhe não venha.<br>
+<br>
+Em hum mal outro começa,<br>
+Que nunca vem só nenhum;<br>
+E o triste que tẽe hum,<br>
+A soffrer outro se offreça;<br>
+E só pelo ter conheça,<br>
+Que basta hum só que tenha,<br>
+Para que outro lhe venha.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Que graça será esperardes de mim propositos em
+cousa que os não tẽe para comigo? Pois ainda que
+queira, não posso o que quero; que hum sentido remontado,
+de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede
+assi; e cada hum acode ao que lhe mais doe; e
+mais eu, que o que mais me entristece he ter contentamento,
+pois fujo delle, que minha alma o aborrece,
+porque lhe lembra que he virtude viver sem elle.
+Que ja sabeis que mágoa he, vê-lo-has e não o paparás.
+Por fugir destes inconvenientes,</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Toda a cousa <span class="typo" title="no original: desontente">descontente</span><br>
+Contentar-me só convinha<br>
+De meu gôsto:<br>
+Que o mal, de que sou doente,<br>
+Sua mais certa mézinha<br>
+He desgôsto.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que não podes haver,
+dá-o pola tua alma. O mal sem remedio, o mais certo
+que tẽe, he fazer da necessidade virtude: quanto mais,
+se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque,
+emfim, allegados son iguales los que viven por
+sus manos etc. A este proposito, pouco mais ou
+ <span class="pn"><a name="pag_488">{488}</a></span>
+menos, se fizerão humas voltas a hum mote d'enchemão,
+que diz por sua arte zombando, mais que não
+de siso (que toda a galantaria he tirá-la donde se não
+espera), o qual crede que tẽe mais que roer do que
+hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida,
+e mande escumar o entendimento, que d'outra
+maneira, de fuera dormiredes, pastorcico. E o meu
+Senhor diz assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Dava-lhe o vento no chapeirão,<br>
+Quer lhe dê, quer não.<br>
+<br>
+Bem o póde revolver,<br>
+Que o vento não traz mais fruito;<br>
+E mais vento he sentir muito<br>
+O que, emfim, fim ha de ter.<br>
+O melhor, he melhor ser,<br>
+Que o vento no chapeirão,<br>
+Quer lhe dê, quer não.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem
+do mal, que o mal do bem; porque muito mais se
+sente o por vir, que o passado; e a morte até matar,
+mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto;
+porque para tomar a palha a esta materia, são necessarias
+azas de Nebri. Mas vós sois homem de prol,
+e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que
+de mi vos sei dar he:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Que esperança me despede,<br>
+Tristeza não me fallece,<br>
+E tudo o mais me aborrece.<br>
+Ja que mais não mereceo<br>
+Minha estrella,<br>
+Só a tristeza conheço, <span class="pn"><a name="pag_489">{489}</a></span><br>
+Pois que para mi nasceo,<br>
+E eu para ella.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">No mundo não tẽe boa sorte, senão quem tẽe por boa
+a que tẽe. E daqui me vem contentar-me de triste.
+Mas olhae de que maneira:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Vivo assi ao revés,<br>
+Tomando por certa vida<br>
+Certa morte,<br>
+Com que fólgo em que me pês;<br>
+Pois minha sorte he servida<br>
+De tal sorte.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Huma cousa sabei, que o mal, inda que ás vezes o
+vejais louvar, não ha quem o louve com a boca, que
+o não tache com o coração.</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Ajuda-me a soffrer<br>
+Vida tão sem soffrimento,<br>
+E tão sem vida,<br>
+Ver que, emfim, fim hão de ter<br>
+Desgôsto e contentamento<br>
+Sem medida.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Attentae que não são maos confeitos de enforcado,
+para os que estão com o baraço na garganta, cuidar
+que o bem e o mal, aindaque sejão differentes na
+vida, são conformes na morte; porque vemos</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Que não ha tão alta sorte,<br>
+Nem ventura tão subida,<br>
+Ou desastrada,<br>
+A quem o assópro da morte<br>
+Não sopre o fogo da vida.<br>
+<br>
+A seu fim todas cousas vão correndo;<br>
+Nem ha cousa, que o tempo não consuma, <span class="pn"><a name="pag_490">{490}</a></span><br>
+Nem vida, que de si tanto presuma,<br>
+Que se não veja nada, em se vendo.<br>
+<br>
+Que o mais certo que temos,<br>
+He não termos nada certo<br>
+Cá na terra.<br>
+Pois para seus não nascemos;<br>
+Se o seu nos dá incerto,<br>
+Nada erra.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se
+fez a hum certo recontro que se teve com este destruidor
+de bons propositos, e não se acabou, porque se
+teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Forçou-me amor hum dia, que jogasse;<br>
+Deo as cartas, e az de ouros levantou;<br>
+E sem respeitar mão, logo triumphou,<br>
+Cuidando que o metal, que me enganasse.<br>
+<br>
+Dizendo, pois triumphou, que triumphasse<br>
+A huma sota de ouros, que jogou,<br>
+Eu então por burlar quem me burlou,<br>
+Tres paos joguei, e disse que ganhasse.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Principes de condição, ainda que o sejão de sangue,
+são mais enfadonhos que a pobreza: fazem com sua
+fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós,
+onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma
+hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim,
+para dar que fallar a hum convento. Duas cousas
+não se soffrem sem discordia; companhia no amar,
+mandar villão ruim sôbre cousa de seu interesse.
+Não se póde ter paciencia com quem quer que lhe
+fação o que não faz. Desagradecimentos de boas
+obras destruem a vontade para não fazê-las a amigo,
+ <span class="pn"><a name="pag_491">{491}</a></span>
+que tẽe mais conta com o interesse, que com a amizade:
+rezae delle, que he dos cá nomeados.</p>
+
+<p>Grande trabalho he querer fazer alegre rosto,
+quando o coração está triste: panno he, que não toma
+nunca bem esta tinta; que a lua recebe a claridade
+do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá
+honra no que dá: não tẽe que agradecer, quem, no
+que recebe, a não recebe; porque bem comprado vai
+o que com ella se compra. Não se dá de graça o
+que se pede muito. Estai certo, que quem não tẽe
+huma vida, tẽe muitas. Onde a razão se governa
+pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que
+louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto
+comsigo, como males de que se não guardárão, podendo.
+Não ha alma sem corpo, que tantos corpos
+faça sem almas, como este purgatorio, a que chamais
+honra: onde muitas vezes os homens cuidão que a
+ganhão, ahi a perdem. Onde ha inveja, não ha amizade;
+nem a póde haver em desigual conversação.
+Bem mereceo o engano, quem creo mais o que lhe
+dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver no
+mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo.
+E para muito pontual, perguntae-lhe donde vem: vereis
+que algo tiene en el cuerpo, que le duele. Ora
+temperae-me lá esta gaita, que nem assi, nem assi
+achareis meio real de descanso nesta vida; ella nos
+trata somente como alheios de si, e com razão;</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Pois somente nos he dada<br>
+Para que ganhemos nella<br>
+O que sabemos.<br>
+Se se gasta mal gastada, <span class="pn"><a name="pag_492">{492}</a></span><br>
+Juntamente com perdella<br>
+Nos perdemos.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que
+mais fazemos, he a mais fraca alfaia de que nos servimos.
+E se queremos ver quão breve he,</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Ponderemos e vejamos<br>
+Que ganhamos em viver<br>
+Os que nascemos:<br>
+Veremos, que não ganhamos,<br>
+Senão algum bem fazer,<br>
+Se o fazemos.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">E por isso respeitando,</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Que o por vir tal será,<br>
+Enthesouremos;<br>
+Porque ao certo não sabemos<br>
+Quando a morte pedirá<br>
+Que lhe paguemos.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada,
+que a morte: sendo mais aborrecida que a verdade,
+tẽe-se em menos conta que a virtude. Mas com
+tudo, com seu pensamento, quando lhe vem á vontade,
+acarreta mil pensamentos vãos; que tudo para com
+ella he hum lume de palhas. Nenhuma cousa me
+enche tanto as medidas para com estes que vivem na
+mor bonança, como ella; porque quando lhe menos
+lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os
+corpos á costa; e, se vem á mão, com as almas no
+inferno, que he bem ruim gasalhado.</p>
+
+<blockquote class="verso">
+E pois todos isto temos,<br>
+Não nos engane a riqueza,<br>
+Por que tanto esmorecemos, <span class="pn"><a name="pag_493">{493}</a></span><br>
+Traz que vamos;<br>
+Ja que temos por certeza<br>
+Que quando mais a queremos,<br>
+A deixamos.<br>
+<br>
+Gastâmos em alcançá-la<br>
+A vida; e quando queremos<br>
+Usar della,<br>
+Nos tira a morte lográ-la:<br>
+Assi que a Deos perdemos,<br>
+E a ella.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Porque ja ouvirieis dizer: <em>Ninho feito, pêga morta</em>.
+Que me dizeis ao contentamento do mundo, que toda
+a dura delle está emquanto se alcança? Porque
+acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão,
+porque acabado de alcançar, he passado; e maior
+saudade deixa, do que he o contentamento que deo.
+Esperae, por me fazer mercê, que lhe quero dar humas
+palavrinhas de proposito.</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Mundo, se te conhecemos,<br>
+Porque tanto desejamos<br>
+Teus enganos?<br>
+E se assi te queremos,<br>
+Mui sem causa nos queixamos<br>
+De teus danos.<br>
+<br>
+Tu não enganas ninguem;<br>
+Pois a quem te desejar,<br>
+Vemos que danas:<br>
+Se te querem qual te vem,<br>
+Se se querem enganar,<br>
+Ninguem enganas.<br>
+<br>
+Vejão-se os bens que tiverão<br>
+Os que mais em alcançar-te<br>
+Se esmerárão;<br>
+Que huns vivendo, não vivêrão, <span class="pn"><a name="pag_494">{494}</a></span><br>
+E outros, só com deixar-te,<br>
+Descansárão.<br>
+<br>
+Se esta tão clara fé<br>
+Te põe claros teus enganos,<br>
+Desengana:<br>
+Sobejamente mal vê,<br>
+Quem com tantos desenganos<br>
+Se engana.<br>
+<br>
+Mas como tu sempre mores<br>
+No engano em que andamos,<br>
+E que vemos,<br>
+Não cremos o que tu podes,<br>
+Senão o que desejamos<br>
+E queremos.<br>
+<br>
+Nada te póde estimar<br>
+Quem bem quizer conhecer-te<br>
+E estimar-te;<br>
+<br>
+Qu'em te perder ou ganhar,<br>
+O mais seguro ganhar-te<br>
+He perder-te.<br>
+<br>
+E quem em ti determina<br>
+Descanso poder achar,<br>
+Saiba que erra;<br>
+Que sendo a alma divina,<br>
+Não a póde descansar<br>
+Nada da terra.<br>
+<br>
+Nascemos para morrer,<br>
+Morremos para ter vida,<br>
+Em ti morrendo:<br>
+O mais certo he merecer<br>
+Nós a vida conhecida,<br>
+Ca vivendo.<br>
+<br>
+Emfim, mundo, es estalagem,<br>
+Em que pousão nossas vidas<br>
+De corrida: <span class="pn"><a name="pag_495">{495}</a></span><br>
+De ti levão de passagem<br>
+Ser bem ou mal recebidas<br>
+Na outra vida.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Á fuera, á fuera Rodrigo, que eu se muito for por
+este caminho, darei em enfadonho, de que me parece
+me não livrará, nem ainda privilegio de Cidadão do
+Porto. E pois me vendo a vós, soffrei-me com meus
+encargos. E porque não digais que sou herege de
+amor, e que lhe não sei orações, vêdes, vai huma:
+<em>Di, Juan, de qué murió Blas?</em> com hum pé á Portugueza,
+e outro á Castelhana: e não vos espanteis
+da libré, que eu em qualquer palmo desta materia
+perco o norte. E os supplicantes dizem assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Di, Juan, de que murió Blas,<br>
+Tan niño y tan mal logrado?<br>
+Gil, murió de desamado.<br>
+<br>
+Dime, Juan, quien se engañó,<br>
+Que con amor se engañase,<br>
+Pensando que el bien hallase,<br>
+Adonde el mal cierto halló?<br>
+Despues que el engaño vió,<br>
+Que hizo desenganado?<br>
+Gil, murió de desamado.<br>
+<br>
+Travou com elle pendença,<br>
+Em ter razão confiado;<br>
+Mas Amor, como he letrado,<br>
+Houve contr'elle a sentença:<br>
+E co'aquella differença,<br>
+Disse entre si o coitado:<br>
+Gil, morreo de desamado.<br>
+<br>
+Quem tẽe razão tão cerrada,<br>
+Que não saiba, sendo rudo<br>
+E sem respeito, <span class="pn"><a name="pag_496">{496}</a></span><br>
+Que sem Deos he tudo nada,<br>
+E nada com elle tudo<br>
+Sem defeito?<br>
+<br>
+E sendo isto assi tão certo,<br>
+Como todos confessamos<br>
+E sabemos;<br>
+Não troquemos pelo incerto<br>
+O em que tão certo estamos,<br>
+Pois o vemos.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">A tudo isto podeis responder, que todos morremos do
+mal de Phaeton, porque del dicho al hecho, vá gran
+trecho. E de saber as cousas a passar por ellas,
+ha mais differença, que de consolar a ser consolado.
+Mas assi entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos
+a reprehendê-lo, e poucos a emendá-lo. E com isto
+amaino, beijando essas poderosas mãos huma quatrinqua
+de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa
+nosso Senhor etc.</p>
+
+<p class="centrado">&mdash;&mdash;</p>
+
+
+<p class="ni" style="font-size: small; margin-left: 2em; text-indent: -2em;"><em>O seguinte fragmento de uma composição satyrica em
+prosa e verso, em que Luis de Camões descreve uns
+jogos de canas, com que na cidade de Goa se festejou
+a successão de Francisco Barreto no governo daquelle
+Estado, appareceo na 3.ª edição das suas Rimas, com
+as duas antecedentes cartas, e em seguimento da ultima.
+O intento do poeta he mostrar por meio das divisas
+que tirárão os Justadores, que todos elles erão ou
+sacerdotes de Baccho, ou parvos, ou homens perdidos.</em></p>
+
+<p class="ni">.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa
+hum morcego; ave em que foi convertida Alcithoe com
+as irmãas, por desprezarem os sacrificios de Baccho.
+E como aquelle, que se em tal êrro cahisse, não <span class="pn"><a name="pag_497">{497}</a></span>
+queria ser convertido em tão baixo animal e tão
+nojoso, dizia a sua letra assi em Castelhano:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Si yo desobedeciere<br>
+Á tu deidad santa y pura,<br>
+En al mudes mi figura.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Alguns praguentos quizerão dizer que esta letra era
+maliciosa, e que não queria dizer tanto desejar este
+galante de ser mudado em al, como que desejava almudes
+deste licor. Mas he muito grande falsidade, que
+sendo a letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella
+palavra, com que molhava as suas quem tirava a
+divisa. Do que o innocente Autor, despois ficou
+para se enforcar. Mas outro galante, que de fino
+bebado ja passava os limites do bom e costumado
+beber, tirou por divisa huma palmeira; árvore, que
+entre os Antigos significava victoria; e ao pé della
+alguns ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia
+a letra assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Ficae vencidas, sem gloria,<br>
+Vós vides e vós parreiras;<br>
+Porque os ramos das palmeiras<br>
+São os que tẽe a victoria.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Tambem aqui não faltárão praguentos, que quizerão
+dizer que este devoto, deixando ja atraz Portugal,
+commettia com valeroso animo Orracas e Fullas, tendo
+em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que
+fuja de más linguas, ou de mal costumadas gargantas?</p>
+
+<p>Outro galante, a quem fazia mal ao estomago
+beber o vinho agoado, tirou por divisa huma peça de
+chamalote sem ágoas, que apresentava Baccho; e dizia
+a letra, como por parte do mesmo Baccho: <span class="pn"><a name="pag_498">{498}</a></span></p>
+
+<blockquote class="verso">
+Sem ágoas, Senhor, levaio<br>
+Se for bom,<br>
+Que las aguas de Moncaio<br>
+Frias son.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Aqui não tiverão praguentos que dizer, por ser opinião
+de physica, serem melhores os mantimentos simples,
+que os compostos.</p>
+
+<p>Outro, que no beber lançava a barra inda mais
+além que os acima escritos, tirou por divisa huma
+salamandra, passeando por cima de humas brazas de
+fogo; e a letra dizia:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+En el fuego vivo yo.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Mas o pintor errando as letras, acertou de pôr: <em>De
+fuego la bebo yo</em>. Donde os praguentos quizerão
+adivinhar que este galante bebia Orraca de fogo.
+O demonio foi fazer tal êrro, para delle sahir tamanho
+acêrto.</p>
+
+<p>Outro devoto, que desque estava quente, dizia
+dos companheiros, quaesquer que fossem, o que de
+cada hum sabía, sem respeito, tirou por divisa hum
+demoninhado, lançando os olhos em alvo, escumando
+e apontando com o dedo para hum frasco de vinho;
+e dizia a letra:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Se fallar demasiado,<br>
+Não mo tachem, porque, emfim,<br>
+Aquella alma falla em mim.
+</blockquote>
+
+<p>Sendo atéqui introduzidos os religiosos de Baccho,
+pedírão dous d'outra religião que tambem os deixassem
+jogar as canas, e que elles tirarião tal divisa,
+com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo
+entrados ambos juntos, por certa conformidade que
+ <span class="pn"><a name="pag_499">{499}</a></span>
+havia entre ambos, trouxerão pintados nas bandeiras
+cada hum seu par de pombas; e dizia a letra:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Se como vós ha hi par,<br>
+Vós o podereis julgar.
+</blockquote>
+
+<p>Certo, que atéqui chegou a malicia dos homens,
+porque tão subtilmente quizerão interpretar a innocencia
+desta letra, que tomárão a derradeira syllaba
+da primeira regra, e ajuntárão-na com a primeira da
+derradeira, que vem a dizer <em>parvos</em>; e disserão que
+juntos significavão isso aquelles dous innocentes. Mal
+peccado! tão errada anda a maldade humana, que
+logo tẽe por parvos aos que sabem pouco!</p>
+
+<p>Outro homem entrou tambem por adherencia nas
+canas, o qual dizem que tinha partes maravilhosas;
+porque era tão perfeito em suas cousas, que o seu
+comer havia de ser o melhor temperado e o mais
+suave do mundo; e os seus vestidos erão sempre dos
+mais finos pannos e sitins, que se podessem descobrir;
+e esta perfeição até nos amores e amizades se lhe
+estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas
+de conversação, e com as amigas hum fingir que
+queria o que não queria. E, emfim, até no jogar
+usava daquellas manhas todas, as que para ganhar
+erão necessarias. E tinha mais hum revez da fortuna
+recebido, que se lhe estendia desde a ponta do
+nariz até huma orelha. Este Senhor tirou por divisa
+huma camisa toda lavrada de pontinhos, lavor antigo;
+e a letra dizia assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Pontos de honrado e sisudo<br>
+Sempre na vida quiz ter;<br>
+Apontado no viver, <span class="pn"><a name="pag_500">{500}</a></span><br>
+Apontado mais que tudo<br>
+Em meu vestir e comer.<br>
+Pontos subtis no meu gôsto,<br>
+Mais subtis no conversar:<br>
+Tanto me vim a apontar,<br>
+Que apontado trago o rosto,<br>
+E as cartas para jogar.
+</blockquote>
+
+<p>Muitos outros homens illustres quizerão ser admittidos
+nestas festas e canas, e que se fizera memoria
+delles, conforme suas qualidades; mas infinita
+escritura fôra, segundo todos os homens da India são
+assinalados; e por isto esses bastem para servirem
+de amostra do que ha nos mais.</p>
+
+</div>
+
+
+<p class="centrado">FIM.</p>
+
+ <span class="pn"><a name="pag_501">{501}</a></span>
+
+
+
+
+<h1>NOTAS.</h1>
+
+
+<span class="pn"><a name="pag_503">{503}</a></span>
+
+
+<div id="notas">
+<h2>NOTAS.</h2>
+
+<p class="par_nota">Pag. 16. V. 17. <em>Não do sol, mas da candea.</em>] Todas as ed.; mas he
+lição viciosa, porque se a luz do sol não he sombra daquella idea, que em
+Deos está mais perfeita, menos o será a da candea. Exclue o poeta uma e outra
+destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto cá nos seduz
+e encanta. Corrigimos portanto:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Não do sol, nem da candea.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 67. V. 4. <em>De mim tão longe.</em>] Todas as ed.; mas he êrro, porque
+o poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e
+pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si tão longe? Corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>De si tão longe.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 123. V. 25.</p>
+
+<p></p>
+
+<blockquote>
+ <em>Vós na minha gloria posto.<br>
+ Eu na vossa sepultura.</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Todas as ed. Mas he justamente o contrário:</p>
+
+<p></p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Vós na vossa gloria posto,<br>
+ Eu na minha sepultura.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 124. V. 9. </p>
+
+<blockquote>
+ <em>Mas se esse rosto fingido<br>
+ Quizereis representar,<br>
+ Houvera por bom partido<br>
+ Dar-lho a alma do sentido<br>
+ Para a gloria do lugar.</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Assim andão corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos:
+<span class="pn"><a name="pag_504">{504}</a></span> </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Mas se esse rosto fingido<br>
+ Quizerão representar,<br>
+ E houverão por bom partido<br>
+ Dar-vos a alma do sentido<br>
+ Para a gloria do lugar:<br>
+ Víreis etc.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 148. V. 1. <em>Vai o bem fugindo etc.</em>] Estas endeixas, que
+evidentemente são do poeta, andão na 1.ª e 2.ª edição das Rimas; na 3.ª
+aindaque apontadas no index, forão supprimidas por descuido: nós as
+restituimos. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 164. V. 23. <em>E amor he effeito d'alma.</em>] Todas as ed. Parece que
+deve ser <em>affeito d'alma</em>. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 183. V. 7. <em>Sem saber do cuidado o que sentia.</em>] Todas as ed.; mas
+he êrro: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Sem saber de cuidado o que sentia;</strong></blockquote>
+
+<p class="ni">isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 185. V. 20. <em>Ao pé d'uma alta faia etc.</em>] Esta que
+inadvertidamente aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes
+edições, propriamente não he senão uma Egloga, que se deve ajuntar ás
+mais. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 185. V. 24. <em>Tão queixoso d'Amor</em>] Faria e Sousa. He vicio:
+corrigimos: <em>Mui queixoso d'Amor</em>. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 186. V. 8. <em>As roxas brancas Nymphas</em>] Faria e Sousa. He
+corrupção de texto: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião,</strong></blockquote>
+
+<p class="ni">porque se entende flores. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 188. V. 15. <em>Junto do rosmaninho, que he crescer</em>] Faria e Sousa.
+He corrupção de texto: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.</strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 191. V. 25. <em>Ai que me deras vida a morte dar-me</em>] Faria e Sousa.
+He corrupção de texto: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Ai que me deras vida em morte dar-me.</strong><span class="pn"><a
+ name="pag_505" id="pag_505">{505}</a></span> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 197. V. 23. <em>E como debil flamma a quem fallece O radical humor de que
+vivia</em>] Faria e Sousa. He corrupção de texto; porque o radical humor só
+pode faltar as plantas: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>E como debil flor etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 215. V. 15. </p>
+
+<blockquote>
+ <em>Por qual, Senhor, algum eu me trocára. Ou por qual algum rei de mais
+ grandeza</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Faria e Sousa. Não julgamos correcto o dizer: <em>por qual
+algum</em>: devem portanto estes versos ler-se como nas primeiras edições:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Por que Rei, por que duque eu me trocára, <br>
+ Por que Senhor de grande fortaleza? </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 220. V. 30.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Se o successo he contrário da vontade As obras que são boas, e o
+ desvio</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Se o successo he contrário da vontade <br>
+ Nas obras que são boas, e ha desvio etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 221. V. 41. <em>Quanto de infamia</em>] Faria e Sousa. Quãmanha infamia,
+3.ª ed. Esta ultima nos parece ser a lição do poeta.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 222. V. 29. <em>Populares a Pallas.</em>] Todas as ed. He vicio de texto:
+corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Populares (ó Pallas) etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 223. V. 17. <em>E pois que tudo em vos se permittio</em>] Faria e Sousa.
+<em>No qual, pois tudo em vós etc.</em>] 3.ª ed. Preferimos esta lição, que
+nos parece ser a do poeta.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 224. V. 11. </p>
+
+<blockquote>
+ <em>O querido de Deos por quem peleja <br>
+ O ar tambem, e o vento socegado, <span class="pn"><a name="pag_506"
+ id="pag_506">{506}</a></span><br>
+ Ao atambor acode, porque veja <br>
+ Que quem a Deos ama, he de Deos amado</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">Assim se lião estes quatro versos na 3.ª edição. Manoel de
+Faria corrigio:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Oh querido de Deos, por quem peleja <br>
+ O ar tambem, e o vento socegado! <br>
+ Ao tambor acode, porque veja <br>
+ Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado.</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">Mas esta apostrophe, por elle introduzida, não tem aqui lugar;
+porque o poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas
+praias da Persia conseguia victoria daquellas nações tão remotas, as settas,
+que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravão no ar,
+pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravão; e continúa, observando que
+o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o vento conjurado em seu
+favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja que o que a Deos ama, he delle
+amado e favorecido. Este he o sentido natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo
+que estes versos erão imitação dest'outros de Claudiano:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris <br>
+ Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether, <br>
+ Et conjurati veniunt ad classica venti.</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e não
+accommodá-los ao seu intento, metteo aqui esta exclamação forçada, sem nem
+ao menos saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: <em>Yo dudo si
+esta exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian.</em> E assim
+estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Nós seguimos a lição
+antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue vicio de
+cópia, corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>O querido de Deos, por quem peleja, <br>
+ O ar tambem e o vento socegado <br>
+ Ao atambor lhe acodem, porque veja <br>
+ Que o que a Deos ama, he de Deos amado.</strong> <span class="pn"><a
+ name="pag_507" id="pag_507">{507}</a></span> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 225. V. 3. <em>Com louvores de Apollo celebrado.</em>] Todas as ed.; mas
+aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Com louvores de Apollo, e celebrado. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 228. V. 1. <em>Depois que a clara aurora a noite escura.</em>] Esta glosa
+do Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente não he obra
+do poeta: por inadvertencia as conservámos nesta edição.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 257. L. 7. <em>Que são muito e valem pouco.</em>] Todas as ed.; mas o
+que o poeta quer dizer, he que um par de reales são cousa pouca, mas para um
+escudeiro pobre valem muito. Corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que são pouco, e valem muito. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 258. L. 17. <em>Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal.</em>] Todas
+as ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que tal dizem, que he? </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 259. L. 1. <em>E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como
+Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.</em>] Todas as ed.; mas he vicio:
+corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que vem podre de amor etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 259. L. 8. <em>Olá, Senhores.</em>] Lição vulgar. He viciosa:
+corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Olá, Senhoras. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 286. V. 1. <em>Mas qué amo y cararon.</em>] Lição vulgar. He grande
+estrago de texto: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Mas qué amo y qué cabron! </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 369. V. 11. <em>Esperai, dir-vo-lo-ha.</em>] Faria. He êrro: deve
+ler-se:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Dir-se-vos-ha. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 370. V. 14.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Pois só desse encantador <br>
+ Me quero vingar de ti.</em>] <span class="pn"><a name="pag_508"
+ id="pag_508">{508}</a></span> </blockquote>
+
+<p class="ni">Lição vulgar: he viciosa: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Pois so desse encantador <br>
+ Me quero vingar em ti. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 374. V. 48. <em>E se mal vos succedesse.</em>] Lição vulgar: he êrro
+de cópia ou de impressão: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>E se mal nos succedesse. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 386. L. 11. <em>O qual informado pelo pastor que a achára, (que era
+homem sabio na arte magica) e como a criára.</em>] Lição vulgar; mas a
+oração esta imperfeita: corrigimos: <strong>O qual informado pelo pastor
+etc.; de como a achára e como a criára.</strong></p>
+
+<p class="par_nota">P. 402. V. 17. <em>E levar-me a lenha o vento.</em>] Lição vulgar: He
+viciosa, porque falta a clausula da oração: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>He levar-me a lenha o vento. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 418. L. 5. <em>Pois não devia assi de ser posantos e vanselos.</em>]
+Lição vulgar. Estranha corrupção de texto: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Pois não devia assi de ser, polos Santos
+ Evangelhos. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 418. V. 6. <em>Que os amos e os cangrejos.</em>] Lição vulgar. He
+viciosa: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que o amor e os cangrejos. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 447. V. 16.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Que das montanhas erguidas <br>
+ D'algum monte não sahisse.</em>] </blockquote>
+
+<p>Lição vulgar. Não he menos notavel esta corrupção: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que das montanhas erguidas <br>
+ Algum monstro não sahisse. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 453. V. 20. <em>Se tanto amasse.</em>] Lição vulgar; mas aqui ha vicio
+de texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma exprimir-se.
+Corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Se eu tanto amasse.</strong> <span class="pn"><a
+ name="pag_509" id="pag_509">{509}</a></span> </blockquote>
+
+<p>Pag. 467. V. 12.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Que quando por accidente <br>
+ Da fortuna desastrado <br>
+ Fosse apartado da gente <br>
+ N'um lugar onde somente <br>
+ Das feras fosse guardado: <br>
+ E por ferro, fogo e ágoa <br>
+ Buscar minha morte iria.</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Lição vulgar. Mas a corrupção de texto não póde ser mais
+visivel. Comtudo não difficil atinar-se com o sentido do poeta.</p>
+
+<p>Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomára ver-se dalli cem mil leguas,
+pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que isso desejava
+tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria occasião de fazer por ella
+uma fineza, que fosse mais de agradecer; e vem a ser, que quando ella por algum
+caso da fortuna fosse apartada da gente n'um deserto onde não tivesse por
+guarda, senão as feras; por ferro, fogo e ágoa lá iria elle buscar a sua
+morte. E porque não póde ser outro o sentido do poeta, corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que quando por accidente <br>
+ A fortuna desastrada <br>
+ Vos apartasse da gente <br>
+ N'um deserto, onde somente <br>
+ Das feras fosseis guardada; <br>
+ Lá por ferro, fogo e ágoa <br>
+ Buscar minha morte iria etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 475. L. 20. <em>Que estas cidras não se desistem em nove dias, senão em
+nove mezes.</em>] Lição vulgar. Não ha maior corrupção de texto. Que tem
+as cidras que desistir? Que o poeta não disse um tal absurdo, he fóra de toda
+a dúvida. O que elle disse foi isto:</p>
+
+<p><strong>E porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove
+mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.</strong> <span
+class="pn"><a name="pag_510">{510}</a></span></p>
+
+<p class="ni">Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando
+passa ao estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como
+diz o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a tres
+dias de purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções, damnadas
+vontades, nascidas de pura inveja de verem <em>su amada yedra de si arrancada,
+y en otro muro asida...</em> Aqui ha lacuna porque falta o verbo da
+oração.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 489. V. 28.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>A quem não assopre a morte <br>
+ Nem sopre o fogo da vida.</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Lição vulgar; mas a do poeta he:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>A quem o assôpro da morte <br>
+ Não sopre o fogo da vida.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 490. L. 26. <em>Tres cousas não se soffrem sem discordia; companhia,
+namorar, mandar villão ruim sobre cousa de seu interesse.</em>] Todas as ed.
+Mas o vicio he palpavel: corrigimos: <strong>Duas cousas não se soffrem sem
+discordia; companhia no amar, mandar villão ruim sobre cousa de seu
+interesse.</strong> <span class="pn"><a name="pag_511">{511}</a></span></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+<h2>INDEX.</h2>
+
+
+<h4 class="indice">REDONDILHAS &amp;c.</h4>
+
+<p class="indice"><span class="lpn">Pag.</span> &nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_100"><span class="lpn">100</span> A alma que está offrecida</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_61"><span class="lpn">61</span> A dor que a minha alma sente</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_113"><span class="lpn">113</span> A morte, pois que sou vosso</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_71"><span class="lpn">71</span> Amor loco, amor loco</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_57"><span class="lpn">57</span> Amor que todos offende</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_63"><span class="lpn">63</span> Amores de huma casada</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_66"><span class="lpn">66</span> Apartárão-se os meus olhos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_126"><span class="lpn">126</span> Aquella captiva</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_107"><span class="lpn">107</span> Campos bem-aventurados</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_99"><span class="lpn">99</span> Catharina bem promette</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_98"><span class="lpn">98</span> Cinco gallinhas e meia</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_136"><span class="lpn">136</span> Coifa de beirame </a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_103"><span class="lpn">103</span> Com razão queixar-me posso</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_76"><span class="lpn">76</span> Com vossos olhos, Gonçalves</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_38"><span class="lpn">38</span> Conde, cujo illustre peito</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_33"><span class="lpn">33</span> Corre sem vela e sem leme</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_93"><span class="lpn">93</span> Crescem, Camilla, os abrolhos</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_53"><span class="lpn">53</span> Da doença em que ora ardeis</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_62"><span class="lpn">62</span> D'alma e de quanto tiver</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_28"><span class="lpn">28</span> Dama d'estranho primor</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_56"><span class="lpn">56</span> De atormentado e perdido</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_70"><span class="lpn">70</span> De dentro tengo mi mal</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_65"><span class="lpn">65</span> De pequena tomei amor</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_76"><span class="lpn">76</span> De que me serve fugir</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_70"><span class="lpn">70</span> De vuestros ojos centellas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_54"><span class="lpn">54</span> Deo, Senhora, por sentença</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_91"><span class="lpn">91</span> Deos te salve, Vasco amigo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_60"><span class="lpn">60</span> Descalça vai pela neve</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_102"><span class="lpn">102</span> Descalça vai para a fonte</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_143"><span class="lpn">143</span> Dó la mi ventura</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_63"><span class="lpn">63</span> Enforquei minha esperança</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_80"><span class="lpn">80</span> Esconjuro-te, Domingas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_101"><span class="lpn">101</span> Esperei, ja não espero</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_46"><span class="lpn">46</span> Este mundo es el camino</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_67"><span class="lpn">67</span> Falso cavalleiro ingrato</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_101"><span class="lpn">101</span> Ferro, fogo, frio e calma</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_125"><span class="lpn">125</span> Foi-se gastando a esperança</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_78"><span class="lpn">78</span> Ha hum bem que chega e foge</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_132"><span class="lpn">132</span> Irme quiero, madre</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_112"><span class="lpn">112</span> Ja não posso ser contente</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_119"><span class="lpn">119</span> Justa fue mi perdicion</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_105"><span class="lpn">105</span> Mas porém a que cuidados</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_140"><span class="lpn">140</span> Menina formosa</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_52"><span class="lpn">52</span> Menina formosa e crua</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_75"><span class="lpn">75</span> Menina, não sei dizer</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_129"><span class="lpn">129</span> Menina dos olhos verdes</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_118"><span class="lpn">118</span> Minh'alma, lembrae-vos della</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_86"><span class="lpn">86</span> Na fonte está Leonor</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_57"><span class="lpn">57</span> Não estejais aggravada</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_89"><span class="lpn">89</span> Não posso chegar ao cabo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_74"><span class="lpn">74</span> Não sei se m'engana Helena</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_104"><span class="lpn">104</span> Ojos, herido me habeis</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_55"><span class="lpn">55</span> Olhae que dura sentença</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_94"><span class="lpn">94</span> Olhos em que estão mil flores</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_78"><span class="lpn">78</span> Olhos, não vos mereci</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_79"><span class="lpn">79</span> Os bons vi sempre passar</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_69"><span class="lpn">69</span> Para que me dan tormento</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_145"><span class="lpn">145</span> Pastora da serra</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_43"><span class="lpn">43</span> Peço-vos que me digais</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_83"><span class="lpn">83</span> Pequenos contentamentos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_84"><span class="lpn">84</span> Perdigão perdeo a penna</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_80"><span class="lpn">80</span> Perguntais-me quem me mata</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_85"><span class="lpn">85</span> Pois a tantas perdições</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_73"><span class="lpn">73</span> Pois damno me faz olhar-vos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_72"><span class="lpn">72</span> Pois he mais vosso que meu</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_92"><span class="lpn">92</span> Porqué no miras, Giraldo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_64"><span class="lpn">64</span> Puz o coração nos olhos</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_60"><span class="lpn">60</span> Qual terá culpa de nós</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_77"><span class="lpn">77</span> Quando me quer enganar</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_87"><span class="lpn">87</span> Que diabo ha tão damnado</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_122"><span class="lpn">122</span> Qué veré que me contente</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_103"><span class="lpn">103</span> Quem disser que a barca pende</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_58"><span class="lpn">58</span> Quem no mundo quizer ser</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_128"><span class="lpn">128</span> Quem ora soubesse</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_94"><span class="lpn">94</span> Quem se confia em huns olhos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_21"><span class="lpn">21</span> Querendo escrever hum dia</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_123"><span class="lpn">123</span> Retrato, vós não sois meu</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_134"><span class="lpn">134</span> Saudade minha</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_81"><span class="lpn">81</span> Se a alma ver-se não póde</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_68"><span class="lpn">68</span> Se de meu mal me contento</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_41"><span class="lpn">41</span> Se derivais da verdade</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_137"><span class="lpn">137</span> Se Helena apartar</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_83"><span class="lpn">83</span> Se me desta terra for</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_128"><span class="lpn">128</span> Se me levão agoas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_45"><span class="lpn">45</span> Se n'alma e no pensamento</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_35"><span class="lpn">35</span> Se não quereis padecer</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_51"><span class="lpn">51</span> Se vossa Dama vos dá</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_45"><span class="lpn">45</span> Sem olhos vi o mal claro</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_117"><span class="lpn">117</span> Sem ventura he por demais</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_116"><span class="lpn">116</span> Sem vós, e com meu cuidado </a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_59"><span class="lpn">59</span> Senhora, pois me chamais</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_73"><span class="lpn">73</span> Senhora, pois minha vida</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_40"><span class="lpn">40</span> Senhora, s'eu alcançasse</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_95"><span class="lpn">95</span> Sois formosa e tudo tendes</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_9"><span class="lpn">9</span> Sôbolos rios que vão</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_30"><span class="lpn">30</span> Suspeitas, que me quereis</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_141"><span class="lpn">141</span> Tende-me mão nelle</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_121"><span class="lpn">121</span> Todo es poco lo posible</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_109"><span class="lpn">109</span> Trabalhos descansarião</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_110"><span class="lpn">110</span> Triste vida se me ordena</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_131"><span class="lpn">131</span> Trocae o cuidado</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_118"><span class="lpn">118</span> Tudo póde huma affeição</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_98"><span class="lpn">98</span> Tudo tendes singular</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_148"><span class="lpn">148</span> Vai o bem fugindo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_72"><span class="lpn">72</span> Vêde bem se nos meus dias</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_115"><span class="lpn">115</span> Vejo-a n'alma pintada</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_79"><span class="lpn">79</span> Venceo-me Amor, não o nego</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_132"><span class="lpn">132</span> Ver e mais guardar</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_138"><span class="lpn">138</span> Verdes são os campos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_139"><span class="lpn">139</span> Verdes são as hortas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_90"><span class="lpn">90</span> Vi chorar huns claros olhos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_135"><span class="lpn">135</span> Vida da minha alma</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_68"><span class="lpn">68</span> Vós, Senhora, tudo tendes</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_146"><span class="lpn">146</span> Vós sois huma Dama</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_122"><span class="lpn">122</span> Vos teneis mi corazon</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_88"><span class="lpn">88</span> Vossa Senhoria creia</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_82"><span class="lpn">82</span> Vosso bem querer, Senhora</a></p>
+
+
+<h4 class="indice">SEXTINAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_152"><span class="lpn">152</span> A culpa de meu mal só tem meus olhos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_151"><span class="lpn">151</span> Foge-me pouco a pouco a curta vida</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_154"><span class="lpn">154</span> Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_155"><span class="lpn">155</span> Sempre me queixarei desta crueza</a></p>
+
+
+<h4 class="indice">ELEGIAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_194"><span class="lpn">194</span> A vida me aborrece, a morte quero</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_185"><span class="lpn">185</span> Ao pé d'hum'alta faia vi sentado</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_160"><span class="lpn">160</span> Aquella que de amor descomedido</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_175"><span class="lpn">175</span> Aquelle mover de olhos excellente </a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_190"><span class="lpn">190</span> Belisa, unico bem desta alma minha</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_172"><span class="lpn">172</span> Depois que Magalhães teve tecida</a><sup><a href="#rodape4" name="m_rodape4">[4]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_177"><span class="lpn">177</span> Entre rusticas serras e fragosas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_208"><span class="lpn">208</span> Juizo extremo, horrifico e tremendo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_164"><span class="lpn">164</span> O poeta Simonides fallando</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_157"><span class="lpn">157</span> O sulmonense Ovidio desterrado</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_196"><span class="lpn">196</span> Que tristes novas, ou que novo damno</a><sup><a href="#rodape5" name="m_rodape5">[5]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_202"><span class="lpn">202</span> Se quando contemplamos as secretas</a></p>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape4" name="rodape4">[4]</a></sup> A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhães Gandavo
+dedicado o seu livro intitulado: <em>Historia da Provincia de Santa
+Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil</em>. Impresso em
+Lisboa 1576.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_rodape5" name="rodape5">[5]</a></sup> Á morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D. Henrique
+de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi dirigida a
+seu irmão D. Philipe de Menezes.</p>
+</div>
+
+<h4 class="indice">EPISTOLAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_217"><span class="lpn">217</span> Como nos vossos hombros tão constantes</a><sup><a href="#rodape6" name="m_rodape6">[6]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_223"><span class="lpn">223</span> Mui alto Rei a quem os ceos em sorte</a><sup><a href="#rodape7" name="m_rodape7">[7]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_210"><span class="lpn">210</span> Quem póde ser no mundo tão quieto</a><sup><a href="#rodape8" name="m_rodape8">[8]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_225"><span class="lpn">225</span> Senhora se encobrir por alguma arte</a></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape6" name="rodape6">[6]</a></sup> A D. Constantino de Bragança, Viso-Rei da India.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_rodape7" name="rodape7">[7]</a></sup> Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastião no anno
+de 1575.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_rodape8" name="rodape8">[8]</a></sup> A D. Antonio de Noronha, sôbre o desconcêrto do mundo.</p>
+</div>
+
+<h4 class="indice">OITAVAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_232"><span class="lpn">232</span> Cá nesta Babylonia adonde mana</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_228"><span class="lpn">228</span> Despois que a clara Aurora a noite escura</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_234"><span class="lpn">234</span> D'huma formosa virgem desposada</a></p>
+
+<h4 class="indice">COMEDIAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_255"><span class="lpn">255</span> ElRei Seleuco</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_301"><span class="lpn">301</span> Os Amphitriões</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_385"><span class="lpn">385</span> Filodemo</a></p>
+
+<h4 class="indice">CARTAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_481"><span class="lpn">481</span> Carta 1.ª</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_484"><span class="lpn">484</span> Carta 2.ª</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_503"><span class="lpn">503</span> N<small>OTAS</small></a></p>
+
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+
+<pre>
+
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+
+End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões
+ Tomo III, by Luís Camões
+
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+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
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+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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