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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:02:12 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Cinzas de Camillo + +Author: Visconde de Vila Moura + +Release Date: December 24, 2010 [EBook #34742] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS CINZAS DE CAMILLO *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + +VISCONDE DE VILLA-MOURA + + +As Cinzas de Camillo + + + + + «Da região escura vem bater-me + na fronte uma aragem fria...» + CAMILLO. + + + + +EDIÇÃO DA «RENASCENÇA PORTUGUESA» + + + + +O PRODUCTO LIQUIDO DESTE OPUSCULO DESTINAR-SE-HÁ A ABRIR A SUBSCRIPÇÃO +PUBLICA PARA UM MONUMENTO A CAMILLO NO PANTHEON. + + +Direitos reservados + + + + +AS CINZAS DE CAMILLO + + + + + DO AUTOR + + A Moral na Religião e na Arte, 1906. + + A Vida Mental Portugueza, 1909. + + Vida Litteraria e Politica, 1911. + + Camillo Inédito, 1913 (1.º milhar esgotado). + + + CONTOS E NOVELLAS: + + Nova Sapho, 1912 (1.ª edição esgotada). + + Doentes da Belleza, 1913. + + Os Bohemios, 1914. + + + Antonio Nobre (1.ª edição esgotada) 1915. + + Grandes de Portugal (com Antonio Carneiro), 1916. + + Fialho d'Almeida, 1917. + + Fanny Owen e Camillo, 1917. + + As Cinzas de Camillo, 1917. + + + + +VISCONDE DE VILLA-MOURA + +As Cinzas de Camillo + + +(NOTAS E DOCUMENTOS) + + + +EDIÇÃO DA +«RENASCENÇA PORTUGUESA» +PORTO + + + + +A + +NUNO PLACIDO CASTELLO BRANCO + + + + + «Da região escura vem bater-me + na fronte uma aragem fria...» + + CAMILLO CASTELLO BRANCO. + --_No Bom Jesus do Monte._ + + + + +Porque de novo volta a publico a idéa da trasladação de Camillo para o +Pantheon, tambem de novo entendemos dever voltar ao assumpto, menos por +discutir as razões daquelles que, contra a sua derradeira vontade, +teimam em violar-lhe o jazigo, do que por esclarecer o que a tal +respeito deixou escripto. + +Mas recordemos os factos. Elles são, de si, tão claros que quasi nos +dispensam glossario. + +Camillo suicidou-se em 1 de junho de 1890, pelas trez horas e um quarto +da tarde. No dia seguinte foi o caso conhecido do publico pelos +jornaes, bem como o destino que devia ter o seu cadaver. + +Diz o _Correio da Manhã_, de 4 de junho: + + PORTO, 2--«O grande escriptor disparou um tiro na cabeça ás 3 horas + e um quarto da tarde. Caiu logo em estado comatoso, e ás 5 horas + succumbiu. O medico Ferreira, de Santo Thirso, afirma que a bala + fôra quasi até á extremidade do lado opposto.» + +E em nota solta: + + + «Camillo pedira em tempo a Freitas Fortuna para ser enterrado no + jazigo delle, chegando até a entregar-lhe um documento redigido + neste sentido.»[1] + +De facto, no comboio do Minho das 6 horas da tarde do dia 3, chegava ao +Porto o cadaver do Romancista, acompanhado por Freitas Fortuna, desde +Famalicão, esperando-o na gare, «quando muito cem pessoas», informa o +_Correio da Manhã_, e entre ellas Alves Mendes, Sebastião Leite de +Vasconcellos e o editor Costa Santos. De resto, o ataúde seguiu para a +Lapa, mal coberto por cinco coroas de flores artificiaes e sempre +acompanhado por Freitas Fortuna, por Espinho, pelo creado Manuel, mais a +cauda de dezoito carruagens arrastando a praga dos reporteres. + +Alem de Alves Mendes, não comparecera mais um unico escriptor ou +artista, informa ainda o mesmo jornal! + +É que mettera medo o baque da sua queda, senão o gesso que de si restava +e a que a alludida folha se refere da maneira seguinte: + + A CAMARA ARDENTE--O MORTO. + + «A vasta sala, despida de sanefas e de espelhos, com o cadaver sobre + um panno, ao meio, tinha uma solemnidade lugubre que a assemelhava a + um templo vasio: o choro da esposa e o crepitar das luzes eram os + unicos sons que interrompiam a funebre quietação do aposento. + + No seu fato escuro--_pardessus_ usado, _frak_ e calça preta da mesma + fazenda, costume que vestia quando se suicidou--tons roxeados a + cercar-lhe as narinas e os olhos, o seu perfil macerado, fortemente + vincado de rugas, o farto bigode cahindo-lhe lasso, na bocca esse + extranho _rictus_ que parece dar ao cadaver um riso de mofa,--o + supremo escarneo da morte á vida. Lá estava elle sereno como um + adormecido, os pés salientes, a cabelleira negra e comprida, as mãos + finas cruzadas sobre o peito, o morto, mal illuminado pelo clarão de + duas velas, parecia seguir com os olhos mal cerrados a dôr da + viscondessa que aos pés do seu ultimo leito, abysmada na oração, + velava sósinha.»[2] + +Entretanto, Freitas Fortuna, longe de enjeitar o legado dos seus restos, +logo fez valer junto da familia de Camillo as declarações em seu poder, +e sobre as quaes tambem, immediatamente, todos os interessados +concordaram, soccorrendo-as com dois novos documentos, ou tenha sido com +o _auto da sua doação, assignado por D. Anna Augusta Placido e +Visconde de S. Miguel de Seide_; e com a _declaração do legatario, +acceitando aquelle deposito no seu jazigo da Lapa, com o encargo de ahi +o conservar perpetuamente_. + +Mas reproduzamos, na integra, e, por sua ordem, os preciosos documentos. + + +A primeira carta de Camillo sobre o assumpto: + + + «Exmo. Freitas Fortuna, meu querido amigo. + + Revalido, por esta carta, o que lhe propuz com referencia ao meu + cadaver e ao seu jazigo no cemiterio da Lapa. + + Desejo ser ali sepultado e que nenhuma força ou consideração o + demova de me conservar as cinzas perpetuamente na sua capella. + + É natural que ninguem lhe dispute a posse dessas cinzas; receio, + porem, que seja ainda uma fatalidade posthuma que se compraza em + impor a violencia até aos meus restos. + + Dê o meu amigo a estas linhas a validade de uma clausula + testamentaria, e, sendo preciso, faça que ella valha em juizo. + + Abraça-o com extremado affecto e inexprimivel gratidão o seu + + CAMILLO CASTELLO BRANCO. + + Porto, 6 de abril de 1888. + +Esta carta foi pela primeira vez patente ao publico no jornal _O +Seculo_, em 4 de julho de 1914, onde nós a publicamos para evitar +que fosse por diante a trasladação dos restos do Escriptor para Belem, +que um grupo de parlamentares, a que presidia o illustre professor sr. +Carvalho Mourão, devotadissimo admirador de Camillo--tencionava, ainda +contra a má vontade de uma parte da Camara, que, diga-se de passagem, +vergonhosamente, e sem conhecimento deste e demais documentos, logo se +deu a objectar _innocentes_ escusas, á conta duma tal jornada. + +Muito antes, e incidentemente, nos veio á mão aquelle documento, quando +também nós--(que, ao tempo não tinhamos sequer presente a segunda carta +de Camillo a Freitas Fortuna, sobre o assumpto, aliás desde muito +publicada--)[3] nos propunhamos insistir e collaborar com +todos aquelles que, seriamente, e bem de alma, se dessem a promover ou +dispor a trasladação, que já então, valha a verdade, consideravamos +menos como homenagem necessaria á sua memoria, do que como solução de +direito, que não de obsequio, ao repouso definitivo das suas cinzas. + +Aprestara-se-nos o ensejo de ver realisadas as nossas esperanças, de par +das dos maiores admiradores de Camillo--Silva Pinto, Senna Freitas e +Ricardo Jorge, no melhor numero--quando, a proposito da deliberação da +Camara do Porto e «Renascença Portuguesa» que, por si, e +independentemente da discussão tragico-burlesca dos parlamentos, se +propunham levar a cabo uma tal idéa,--nós fomos solicitado a ouvir dos +representantes de Camillo a sua opinião a tal respeito, isto é, a +consulta-los sobre se auctorizariam ou não o levantamento dos restos do +Escriptor do seu jazigo na Lapa. + +É claro, que interferi no caso particularmente, e só por acquiescer ás +solicitações dum illustre membro da Camara do Porto, tambem, ao tempo, +do corpo dirigente da «Renascença Portuguesa», sociedade literaria com +séde na mesma cidade[4], e que para aquelle effeito se me +dirigiu, bem por certo por mera razão da minha idoneidade como +incondicional admirador do Romancista, mais pelo conhecimento que +porventura tivera das minhas opiniões a tal respeito, desde muito, +expressas. + +Ora foi a tal proposito que, conjunctamente com a resposta de Nuno +Placido Castello Branco, eu recebi a copia daquella carta, pelo punho do +Visconde de S. Miguel de Seide, com a ordem de a publicar +opportunamente, e como instrucção do juizo que porventura seguissemos, +no caso da consulta que, por sua vez, elle devolvia para que sobre ella +as Corporações interessadas resolvessem. + +É claro que, á face de tão obrigante documento, a sua opinião parece +ter sido uma:--nunca mais aquellas corporações pensaram na trasladação. +E dahi tambem o silencio, feito á volta do caso, até ao momento em que +alguns deputados, aliás no melhor empenho,--o mesmo que a Camara do +Porto e a «Renascença Portugueza» tinham tido--deliberaram voltar ao +assumpto. + +Foi então, repetimos, que, pela primeira vez, entendemos de nosso dever +publicar aquella carta, como elucidação aos promotores da inopportuna +homenagem, e tão cabida ella foi que logo, avisadamente, aquelles +desistiram do seu intento, transferindo as importancias destinadas á sua +despeza para o levantamento de um monumento, infelizmente já bem +tardio, a Camillo. + + +Entretanto, pois que, desde que se tornou inopportuna, por não dizer +impertinente, a trasladação, parece ter crescido o numero dos devotos de +tal idéa--vamos nós, hoje, que estamos de posse de todos os documentos, +ver o que, á face delles, aquella vale. + +Mas antes, e por melhor firmar opinião, sigamos no traslado dos +documentos que ao assumpto se referem. Tornar-se-á mais facil de ver +depois, e a melhor luz, até onde vae a teimosia dos sectarios duma idéa +hoje indelicada, (e que maior crime pode cometter-se para com os mortos +do que o da indelicadeza?--) que não sectarios da melindrosa memoria +do Escriptor. + + +Eis a segunda carta de Camillo a Freitas Fortuna: + + «Meu presado Freitas Fortuna. + + Começo a experimentar uma especie de affecto posthumo ao meu + cadáver. + + Tão pouco me apreciei na vida, tão pouco cabedal fiz da minha saude, + que já agora me quer parecer, que este amor ao que nada vale é + retribuição devida a esta materia, que me ha-de sobreviver alguns + annos aviventada pela engrenagem de putrefacção. + + Deste affecto extraordinario, mas não excepcional, resultou + dizer-lhe eu, meu querido amigo, quer falando, quer escrevendo, que + aspirava fervorosamente a ser sepultado no seu jazigo da Lapa. + + E bem certo que, para além da campa, ha o que quer que seja que + ainda nos prende ás coisas mortaes. Sei que no seu jazigo dormem o + somno infinito seus extremosos progenitores. + + Ambos conheci na flor da vida, no esplendor da honra, nas luctas do + trabalho e na pujança da alegria e da felicidade. + + Ambos morreram no vigor dos annos, se podem considerar-se mortas + _duas imagens sagradas_ que renascem na alma dum filho ao fogo da sua + saudade, com o seu respeito filial, com as suas lagrimas represadas, + e que os annos ainda não poderam crystallizar em glacial + indifferença. + + Volvido um longo praso as cinzas do meu querido Freitas irão aos + braços já cinzas tambem de seus _paes_ estremecidos. + + Se a morte tivesse expressão que não fosse aquelle mudo terror de um + gesto que ao mesmo tempo anniquilla e grava o eterno estigma do + silencio nos labios gelidos, só ella poderia dar-nos a sombra + horrida e que o seu esquife baixar á perpetua união com os + cinerarios de seus _paes_. E eu, a essa hora, estarei á beira delles + como testemunha silenciosa das compungidas lagrimas que lhe vi na + face quando o coração lhas dava repassadas duma santa saudade. + + Não sei se esta chimera, que vagueia na região tenebrosa e na crypta + dos mortos amados e chorados, foi a despertadora vontade que me + domina ha anno e meio de ser enterrado no seu jazigo. + + O meu querido Freitas Fortuna acceitou com ternura a offerta do meu + cadaver, e d'essa arte, permittindo que eu fizesse parte da sua + familia extincta, quiz continuar alem da vida a tarefa sacratissima + da sua dedicação incomparavel. Bem haja, e adeus. + + Bemfica, 15 de julho de 1889.» + + Seu do coração, + + CAMILLO CASTELLO BRANCO.[5] + +Esta carta foi a primeira que sobre o assumpto veio a publico, tendo +sido impressa no _Jornal da Manhã_, de 3 de junho de 1890, ou tenha sido +na vespera do dia da entrada do cadaver de Camillo no mausoléo-Fortuna. + +Comprehende-se que, a despeito do seu texto, os admiradores do +Romancista pretendessem ainda o seu ingresso no Pantheon, porquanto não +é aquella bem frisante e incondicional, como a primeira a que se refere, +e que, durante tantos annos, foi geralmente ignorada. + +Entretanto, que de ambas as cartas os interessados mais proximos, +(referimo-nos á Familia-Fortuna e á de Camillo) tinham pleno +conhecimento, prova-o não só a circumstancia de immediatamente +fazerem seguir para o cemiterio da Lapa o cadaver do Romancista, mas, +ainda mais, o facto de quasi logo as duas partes interessadas se +mutuarem as mais claras obrigações não só para garantirem, como por +tornarem effectivo, perpetuamente, aquelle deposito. + +É do teor seguinte o auto de doação do cadaver de Camillo: + + «Os abaixo assignados, D. Anna Augusta Placido (Viscondessa de + Correia Botelho) viuva, e Nuno Castello Branco (Visconde de S. + Miguel de Seide) vimos na qualidade de esposa e filho do falecido + sr. Camillo Castello Branco (Visconde de Correia Botelho), ambos + residentes na freguesia de S. Miguel de Seide, do concelho de Villa + Nova de Famalicão, no districto de Braga, querendo cumprir as + determinações de seu amado esposo e pai, que manifestou a expressa + vontade de ser sepultado no cemiterio da Real Irmandade de N. + Senhora da Lapa (na cidade do Porto), no jazigo da familia do seu + dedicado amigo João Antonio de Freitas Fortuna, a quem por escripto + estipulou, «que nenhuma força ou consideração o demova de + conservar-lhe as cinzas, perpetuamente na sua capella»--; os abaixo + assignados revalidam por este acto a entrega e doação que fizeram do + cadaver do seu querido esposo e pae ao referido João Antonio de + Freitas Fortuna, residente na rua de Cedofeita n.º 986, da cidade do + Porto, que o recebeu e acceitou com o encargo de o conservar + perpetuamente na sepultura numero um do referido jazigo de sua + familia, onde está, e onde deve estar _ad perpetuam_. E por isto + conferem ao indicado João Antonio de Freitas Fortuna, e aos seus + representantes, que atravez dos tempos possam vir, e forem os + legitimos possuidores da referida capella, todos os poderes em + direito necessarios, sem exclusão alguma, e com a faculdade de + substabelecerem, para que nunca, e sob qualquer pretexto que seja, + possa ser retirado da indicada sepultura perpetua em que jaz o + cadaver do sr. Camillo Castello Branco, porque tal foi a sua + expressa vontade dele, assim como é a dos abaixo assignados, que a + fazem boa e querem que seja sempre cumprida como disposição + testamentaria para o que por este titulo de doação onerosa desistem + de todos os seus direitos ao referido cadaver e outorgam sem reserva + alguma a João Antonio de Freitas Fortuna e a seus legitimos + representantes na posse do referido jazigo, a fim de que possam + cumprir as condições estipuladas aqui, e para realizarem todos os + actos indispensaveis ao integral cumprimento da expressa vontade de + seu amado esposo e pae, que respeitam e cumprem, como querem que os + seus successores ou futuros representantes a cumpram e respeitem. E + por esta ser verdade, passam este acto de doação, que eu, Nuno + Castello Branco, escrevo e que assignam com as testemunhas Francisco + Correia de Carvalho, casado, proprietario da freguezia de S. Paio de + Seide e Antonio Vaz Vieira de Napoles, solteiro da cidade de + Guimarães. S. Miguel de Seide, 10 de Junho de 1890, e + noventa.--(Ass.) _Anna Augusta Placido, Viscondessa de Correia + Botelho; Nuno Castello Branco, Visconde de S. Miguel de Seide; + Francisco Correia de Carvalho e Antonio Vaz Vieira de Napoles._ + + (Segue-se o reconhecimento das assignaturas por João Bernardo + Correia do Amaral, em 10 de junho de 1890). + +Acceitação da doação anterior, averbada por Freitas Fortuna naquelle +documento: + + Eu, João Antonio de Freitas Fortuna, abaixo assignado, casado e + residente na rua de Cedofeita, n.º 986 da cidade do Porto, cumprindo + o disposto no art. 1466 do Codigo Civil portuguez, averbo neste + documento a acceitação do cadaver do meu presado amigo o sr. Camillo + Castello Branco (Visconde de Correia Botelho) e que me foi doado e + entregue, e que eu aceitei com o encargo de o conservar + perpetuamente na sepultura numero um do jazigo de minha familia, + onde jaz, no cemiterio da Real Irmandade de N. Senhora da Lapa, e + sob a condição de que nunca, e sob qualquer pretexto que seja, os + descendentes de meu bom pai ou usufructuarios do indicado jazigo o + tirem da referida sepultura ou consintam que o retirem, como se + expoz no auto de doação supra que fez a Exma. Sra. Viscondessa de + Correia Botelho e Exmo. Sr. Visconde de S. Miguel de Seide, esposa e + filho do meu falecido amigo. E por ser verdade o referido aqui, + escrevo nesta doação a respectiva acceitação, que assigno perante o + tabellião e as testemunhas, o sr. Domingos Joaquim Machado, casado, + negociante e morador na rua de Oliveira Monteiro e o sr. Albino + Pinto dos Santos, solteiro, caixeiro e residente na rua Chã, ambos + n'esta cidade do Porto. + + Porto, 16 de junho de 1890 e noventa. (Ass.) _J. A. de Freitas + Fortuna, Domingos Joaquim Machado e Albino Pinto dos Santos_[6]. + + + (Reconhecimento feito pelo tabellião Edmundo Maia Campos Silva). + +Eis os documentos. Vejamos, em seguida, o mais dos imaginaveis +argumentos a oppor-lhes, por concluir, de vez, pelo seu nenhum valor. + +Em primeiro logar, tem-se affirmado que ao Estado pertence escolher a +forma e o logar destinados a melhor consagrar os mortos. + +O que vale dizer que os restos dum homem illustre são para o Estado, +como para os que assim pensam, menos do que os da gente humilde que, +alem daquelle, tem por si o direito de escolher o logar do seu +definitivo repouso. + +Ora eu não sei até que ponto se tem avançado em materia de regalias +publicas, a ponto de chegarmos, pelo _controle_ do Estado--a possuir +tudo, caminhando da liberdade do homem á escravidão dos seus restos! + +O que se conclue é que a doutrina corrente é, mais ou menos, a +seguinte:--ha um Pantheon, e é preciso colleccionar ali todos os +notaveis, ainda que, como no caso de Camillo, elle tenha repugnado aos +escolhidos. + +Dest'arte, se volve afinal o Pantheon num forçado museu de ossos, por +não dizer num extravagante collegio de memorias, para onde os mais +notaveis esqueletos terão fatalmente de ser conduzidos, e, se preciso +for, expropriados, em razão da propria utilidade da sua gloria! + +Ainda mais:--para os que de tal maneira pensam, os grandes homens não +ficariam devidamente venerados fóra do recinto que o Estado lhes confere! + +Nisto, a nosso ver, o erro. + +É uma scisma quasi grosseira, embora vulgar, suppor que os outros têem +valor sómente quando lho concedamos, ou, melhor, quando, ostensivamente, +lho memoremos! + +Quando, pelo contrario, o seu valor está unicamente com elles e com a +sua obra, para alem de todas as honras e premios officiaes que se lhes +decrete. + +E, assim, quem curará ámanhã de saber, por aferir do valor de Camillo, +se elle pertenceu ou não ás Academias da sua terra? + +De egual arte, tambem os seus ossos não crescem pelo facto de de lhos +semearmos nos Jeronymos, ou no casarão de Santa Engracia, embora natural +fosse que para qualquer dos dois monumentos a Nação os conduzisse, se, +melhor e mais correctamente, lhe não pertencesse zelar a sua derradeira +vontade. + +Mais. Entre nós, nem sequer ha ainda senão uma indicação de Pantheon. Os +Jeronymos são abrigo casual dos grandes, poucos, que ali repousam. De +resto o futuro Pantheon de Portugal será o sempre novo e já lendario +templo de Santa Engracia! + +Porque foi para ahi que a primeira assembléa do regimen mandou que a +Nação os fizesse conduzir, de par de outros que o tempo fosse +glorificando[7]. + +O Pantheon de S. Vicente, privilegio da Casa de Bragança, está cheio a +tal ponto, que do exame das suas arcas, a esmo ahi postas, mais dá ao +visitante a idéa dum casual deposito de mortos desarrumados, do que dum +templo de sua sagração. + +Sob a nave, cheia de sombras do intimo podredoiro, entre velludos, mais +um montão de corôas e galões velhos, descansam os reis assassinados, +cujas figuras começam de desapparecer na nevoa que lhes tolda o crystal +dos caixões, cerrando-os, providencialmente, ao espectaculo da sua +decomposição em publico. + +Tem um ar de pateo lugubre a extranha galeria, cujos silencios são para +o espectador como que compassos do grande carnaval historico a seguir, e +que as duas sombras-phantasmas dos ultimos reis parecem ainda reflectir +do gesso mysterioso das suas torturadas mascaras emblematicas. + +A um canto repousa D. Pedro II, tão impresso da sua urna que esta se lhe +ajusta como um caixilho, donde, distante e bolorenta, surde, agora, +serena, a sua face larga, formando o todo como que uma reproducção +daguerreotypica dos seus derradeiros e infelizes annos de exilado! + +Ali espera, desde muito, a guia de marcha para o Brazil, onde, de facto, +sempre lhe quedou a alma. + +De resto, mais nada ha que sirva a marcar verdadeira piedade, ou +grandeza; tudo ahi inculca o entrudo lugubre das ultimas cerimonias e +honras officiaes, hoje tambem, no geral, negadas ou podres, como o mais +das flores e presentes funerarios que, ao acaso, ahi restam. + +Afinal um lixo caro, tudo o que para ali juntaram á volta das urnas do +mesquinho Pantheon real! + +E, entretanto,--ver-se-há mais tarde, e á razão duma melhor verdade--ahi +velam algumas das maiores memorias que Portugal tem tido, mau grado a +herança que as assombra. + + +Effectivamente, ha entre nós alguns monumentos funerarios de +indiscutivel valor, mas esses não estão em S. Vicente. + +Estão em Santa Cruz de Coimbra, nos Jeronymos, em Alcobaça, na +Batalha,--emfim espalhados por toda a parte onde uma disposição de +ultima vontade, senão a propria devoção dos povos, os fez erigir, nunca +pela idéa dum publico dormitorio de mortos, adrede obrigado a officiosas +memorias. + +É ver o que se passou com Garrett que, apesar de ter acautelado o seu +natural e carinhoso desejo de repousar no cemiterio de S. João, ao lado +de seus filhos, foi primeiramente sepultado nos _Prazeres_ e, depois, +dahi, transferido para Belem! + +O que significa, a nosso ver, nunca um precedente a seguir, mas, +pelo contrario, uma lamentavel indelicadeza da parte da Nação que para +ali o trasladou, sem que ao menos reflectisse na maneira por que seria +não só justo, mas até naturalissimo faze-lo! + +Porque, no presente caso, era bem facil conciliar o desejo dos +admiradores do dramaturgo com a vontade por elle expressa. + +Bastava ver do seu intento, no documento a que alludimos e donde +resulta, bem patente, a unica razão daquelle seu desejo. + +De facto, o que se vê da carta de Garrett a D. Jeronyma Deville, +publicada por Francisco Gomes de Amorim, e em que se exprime a indicação +do seu jazigo no cemiterio de S. João--é sobretudo o proposito, ali +bem declarado, de repousar junto de seus filhos. + +Ora, se a Nação tinha de sua vontade transferi-lo para os Jeronymos--de +seu dever tinha tambem faze-lo acompanhar dos restos daquelles; e, desta +forma, o seu preito seria, bem de certo, maior; e, alem de tudo, não +revestiria a indelicadeza que assim foi. + +Mais: visto que são necessarios exemplos, sirva-nos ainda, de norma o +que de justo se tem resolvido, lá fóra, em casos semelhantes, e +sobretudo em França, que de seu brio tem quasi sempre casar ao proposito +do seu agradecimento publico para com os grandes vultos nacionaes a +maior attenção, e, mais ainda, o maior melindre de delicadeza para +com os seus designios, quando não com os seus caprichos. + +Por uma razão equivalente áquella que consta da carta de Garrett está no +Pantheon madame Zola, junto de Zola; e madame Berthelot, junto de +Berthelot, mortos no mesmo dia. + +Isto, sim; é simples e é delicado. E, comtudo, não consta que por tal +motivo tenha havido desavença entre os grandes ali memorados. + +Pelo contrario, Balzac, talvez por negligencia, senão por odio da mesma +burguezia que tão desapiedadamente elle escalpellou,--está na +Père-Lachaise! + +E, no entanto, quem o julga menor por isso? + +Onde quer que seja, dalgum modo continuará a rir; e, se nesse mundo +que fica para alem do que elle foi, ha logar para reflexões á sua Obra, +o mais que lhe acudirá é, decerto, a sua mesma approvação plena por tudo +quanto escreveu, ou seja a consciencia do acerto com que traçou o perfil +moral dos que, de momento, lhe são obstaculo á porta do Pantheon! + +E dahi, quem sabe? Talvez que ainda um motivo de valor explique a sua +estada no Père-Lachaise, que, effectivamente, para o caso, não significa +menos que o templo de Santa Genoveva! + +Porque, repetimos, é inferior aferir da grandeza dum artista, pela +estima do logar onde elle repousa. + +Em França, ha casos de escrupulo, no genero, por vezes, +extraordinarios! Assim, em 1885, foi profanada a Egreja de Santa +Genoveva, unicamente para que nella entrasse Victor Hugo![8] + +E, contrariamente, por motivo da confissão catolica de Pasteur, não foi +este para aquelle templo, mas para o seu proprio Instituto, onde jaz +guardado em capella propria. + +Ahi está a maneira correcta de proceder para com um dos maiores da raça +latina, e a quem, a França dispensou da _prova_ do Pantheon! + +Também, quando da morte de John Ruskin, um dos grandes artistas +inglezes do seculo XIX, estylista tão singularmente notavel, como um dos +mais eloquentes escriptores da Natureza, a Inglaterra offereceu a sua +familia o logar que, para elle, a Nação tinha reservado em Westminster. +Pois a familia, recusando um tal offerecimento, bem decerto em attenção +á ultima vontade do Artista, preferiu sepulta-lo na aldeia de Coniston, +perto da escola das creanças do povoado, para quem tambem elle, no dizer +de Robert de la Sizeranne, havia composto os seus canticos. + +«A sua morte, informa este publicista, que teve logar a 20 de janeiro de +1900, entre os rochedos e os bosques de Brantwood, á beira dum dos mais +bellos lagos da Inglaterra, foi o fim proprio da sua vida: em +perfeita simplicidade e em discreta belleza. Elle não teve junto de si +mais do que dois ou tres de seus discipulos e alguns camponezes. O +offerecimento de um tumulo em Westminster, a maior honra que a nação +ingleza pode tributar a um seu filho, foi recusada por sua familia; e, +na celebre Abbadia real, coisa alguma recorda Ruskin, a não ser o seu +medalhão, em bronze, collocado no _Pantheon dos Poetas_, ao lado do +busto de Walter Scott.» + + +Finalmente, acaso Shakespeare, está em Westminster? + +Não está; ahi figura elle, simplesmente, em monumento, cercado +doutros marmores, porventura espalhados á sua roda, como que a +marcar-lhe o Tempo. + +Elle? quem sabe! talvez, unicamente, a sombra falsa do seu nome, mais o +resto da sua lenda[9]. + + +Presumivelmente jaz em Stratford, no côro de uma velha Egreja gothica, +perto de um rio escuro, o Avon, e, como que, ao acaso, guardado pela +esguia escolta das suas arvores. + +Indica-o ao viajante, mais do que o monumento, ultimamente ali +levantado, uma pedra que mal sobresai da parede, com uma +quadra-aviso, que geralmente lhe é attribuida. + +É uma quadra curiosa, que vale a pena ler e, por desventura, esqueceu +lavrar na sepultura de Camillo, onde, já agora, se torna necessario +esculpir a clausula testamentaria do Romancista ácerca da sua sepultura. + +Eis a quadra: + + «Good friend, for Jesus'sake, forbear, + To dig the dust enclosed here. + Blessed be he that spares these stones, + And curst be he that moves my bones.» + + «_E amaldiçoado seja o que revolver os meus ossos_»! gritou +Shakespeare, ou a tradição por si. + +E tal defeza bastou a que jámais se destampasse o mysterioso jazigo! + + +Emfim, pois que eram precisos exemplos, ahi ficam os maiores, a que +poderiamos juntar outros, da regeição de Pantheons--sem que os paizes a +que aquelles notaveis pertenceram, descessem, algum dia, a obrigar as +suas memorias a um pariato de cinzas que, por clausula testamentaria, ou +circumstancias casuaes, podesse tomar-se como violencia. + +E, entretanto, jámais a França ou a Inglaterra renegaram do culto quasi +fanatico em que têem os seus _immortaes_; e, sobretudo, aquelles que por +si bastariam a affirmar, mais do que o prestigio dos seus paizes--o +valor das respectivas raças. + + +Derivando daquelles casos, ou antes apprendendo da attitude de taes +nacionalidades,--se assim é preciso!--ahi temos, naturalmente, indicado +o que ao Estado, ou melhor ao povo portuguez,--pertence resolver, ácerca +de Camillo, e sempre de accordo com a sua memoria. + +Levante o Povo portuguez, (ponhamos sempre de parte, em questão de +preito a artistas, os _representativos_!)--uma estatua a marcar, de +direito, nos Jeronymos, o logar que, de facto, elle não quiz occupar, á +maneira do que se fez em Westminster para o grande tragico de Stratford, +e deixemos que os seus restos descansem na Lapa! + +Tambem nós, repetimos, emquanto nos foi desconhecido o mais da +documentação acima expressa, pugnámos pelo seu ingresso nos Jeronymos. + +Como de egual arte,--lembrando a pagina, por certo, mais dolorosa da +vida litteraria de Camillo--uma das que abrem a _Correspondencia +epistolar_ entre o Romancista e Vieira de Castro, e onde aquelle allude +a D. Anna Placido, contrahindo para com ella, publicamente, o voto das +suas inhumações em commum jazigo--eu me recordára de quanto seria +natural e proprio á memoria das suas conjunctas tragedias a approximação +da que lhe fôra companheira e suave cumplice! + +Esta pagina é a mesma em que responde a Vieira de Castro, quando este, +numa explosão de amizade, lhe denunciou o que os seus inimigos, ao +tempo, propalavam para melhor o ferirem. + +Formára-se uma atmosphera de malquerença contra Camillo, e, como sempre +em taes casos, a má vontade dos seus inimigos deu-se a jogar com um +abjecto romance, adrede disposto a pôr de seu lado a chamada moral +burgueza--ou seja o estalão mais infame que ainda se inventou para +avaliar sensibilidades! + +Então, a tal proposito lhe contou Vieira de Castro o que, a seu +respeito, se espalhára pelas praças, e, por sua vez, elle reproduz da +maneira seguinte: + +--«Que eu, confidente e depositario das cartas que uma senhora casada +escrevera a um homem ausente, ameaçára essa senhora de revelar ao marido +a culpa indicada nas cartas, se ella continuasse a repellir-me; e +que a senhora ameaçada, aceitando metade da minha infamia transigira com +a proposta». + + +Ora a tal ensejo escreveu Camillo aquella pagina, que, já agora, +reproduziremos, na parte final, aliás menos como seu desaggravo--por +desnecessario, do que por ver o que, ao tempo, pensava do natural +destino das suas cinzas: + + +«Meus amigos e meus inimigos! se, por violencias de uma paixão brutal, +exacerbada pela embriaguez, eu resvalasse á infamia de forçar a +resistencia da derradeira mulher na escala das perdidas--Deus sabe quem +são as perdidas!--; ao despertar desse infernal aturdimento com a +consciencia do meu crime, matar-me-hia com asco de mim proprio. + +No regaço dessa senhora, tão cruelmente aviltada, tenho dous filhos. É +para meus filhos que eu escrevo esta pagina que me pareceu até hoje +impossivel. + +Receio que elles ainda tenham de ver a serpente da calumnia a rojar-se +na sepultura de seu pae. Sinto-me no cabo da vida; e tenho maior pejo da +posteridade que dos meus contemporaneos. Quero que estas crianças saibam +deste livro que o pregão affrontoso aos calumniadores foi escripto +quando ainda viviam as pessoas que podiam desmentir-m'o. + +_No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe_--esta levantada +alma que ainda não verteu uma lagrima na voragem que lhe devorou os +respeitos do mundo, e a perfida riqueza com que seus perdoaveis paes a +violentaram sem dó de sua innocencia e formosura dos dezoito annos». + + +_No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe!_ + +Ahi está o que me seduzia a pugnar pela approximação das duas urnas. + +Afinal, parece que a mesma fatalidade que os reuniu, os dispersou! + +Nas cartas finaes de Camillo a Freitas Fortuna, ácerca das suas cinzas, +ha uma allusão unica a D. Anna Placido. + +E, ainda na sua declaração de 22 de novembro de 1886, prevenindo o +suicidio, a recorda, pensando afflictivamente no mau acaso de que ella o +antecipe na morte! + +...................................................................... + + «_A mãe destes dois desgraçados,_ escreve elle, _não promette longa + vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existencia até ver Anna + Placido morta infallivelmente me suicidaria. Não deixarei cahir + sobre mim essa enorme desventura, a maior, a incomprehensivel á + minha grande comprehensão de Desgraça._»[10] + +Assentemos, pois, para lá de todo o raciocinio, e perto, unicamente, da +vontade de Camillo, no que a seu respeito, e a proposito do destino dos +seus restos, elle, deliberadamente, dispoz, e importa que, em bem da +sua memoria, nós todos acatemos. + +Eu creio que dos documentos transcriptos resulta bem expressa a +violencia da trasladação! + +A sua extraordinaria figura está acima do fetichismo publico que, por +capricho, intentasse a macabra canseira de lhe remexer ou espreitar a +ossada. + +Alem de que aos poderes publicos impende guarda-la. Isto sim, é de seu +cargo! + +E se, effectivamente, á consciencia nacional,--para lá do susto +romantico do enrêdo dos seus livros e do odio herdado da geração +anterior contra elle, já chegou o culto devido pelo sacrificio dos +quarenta annos da sua escravidão litteraria, aliás nelle tão +extranhamente batida de desgraça,--não se exasperem os seus devotos que +não têem pouco em que empregar a admiração, por exprimirem todo o +reconhecimento que lhe devem! + +Assim, por exemplo, não falando já nos monumentos a erigir-lhe--que +esforço não lhes será necessario para apartarem das escolas esses +manuaes de mentira que por lá correm--e substitui-los por livros de +excerptos seus, para que delles resulte no coração dos futuros homens o +documento vivo da sua grande alma! + +Esta seria, de facto, a primeira, a grande tarefa. + +Mas não vale a pena forçar o Tempo. Demais que o Tempo chega sempre na +altura devida! + +Nós, é que ás vezes, por nos darmos a impressão de que tambem governamos +fóra delle, pretendemos deslocar a sua justiça. Afinal, erro de humanos; +mais nada! + +Emfim, Camillo poude sempre dizer como Liszt:--tenho tempo, esperarei... + +Que importa, pois, que sejamos nós ou outros os que definitivamente o +sagremos? + +O que importa é termos a certeza de que a sua memoria venceu ha muito. +De resto, tambem o facto da sua capella, na Lapa, ser modesta, nada +representa. Deixemos os grandes mausoleos para os _seus brazileiros_; +estes sim, precisam delles. + +Camillo não, pois que é já tão grande,--embora o vejamos ainda +crescer, dia a dia, na consciencia publica, que elle, mais a sua memoria +surgem bem dali, como da mais exigua brochura da sua obra. + +É que é de seu privilegio, como, em geral, de todos os grandes artistas, +a mesma ubiquidade milagrosa dos grandes santos. + +Tanto maiores são, melhor cabem em toda a parte--ainda nos mais humildes +templos... + + +Ancêde, 1 de outubro de 1917. + + + + + [1] Vid. «_O Romance do Romancista_» por Alberto Pimentel. + + [2] Vid. ob. cit. + + [3] Obr. cit. + + [4] O distincto poeta snr. Jaime Cortesão. + + [5] «O Romance do Romancista» por Alberto Pimentel. + + [6] Esta doação, com o respectivo averbamento de acquiescencia ás + suas clausulas por parte do donatario, hoje na posse da viuva de + Freitas Fortuna,--a Sra. D. Isabel Maria da Conceição Ribeiro da + Silva Santos (a quem tambem pertence o jazigo da Lapa, onde estão os + restos de Camillo)--foi pela primeira vez presente a publico, pelo + jornal a _Republica_, de 29 de setembro de 1916. + + Por este novo documento, de par dos restantes que apresentamos, se + confirma a razão que nos assistia, quando, mezes antes, acudimos + pelas cinzas de Camillo, publicando o principal documento, agora + juntamente com aquelle reimpresso, na _Republica_. + + [7] A tal proposito insere o _Diario de Noticias_ de 8 de março do + corrente anno, a seguinte noticia: + + «PANTHEON NACIONAL» + + «O snr., ministro da guerra vae dar as ordens necessarias para se + concluirem, com a maior brevidade, as obras no edificio do antigo + deposito de fardamentos, para ser para ali transferida a oficina de + manufactura de calçado que foi provisoriamente instalada no edificio + de Santa Engrancia, que por lei foi destinado a Pantheon Nacional. + + «É de crer que dentro de tres mezes o snr. architecto Adães Bermudes + possa proseguir nos trabalhos de adaptação daquelle grandioso + edificio ao Fim que por lei lhe foi destinado.» + + Donde se prova que successivos governos, depois de decretado o + afeiçoamento do edificio de Santa Engracia a Pantheon Nacional, para + ali ordenaram que fosse installada uma industria de calçado, embora, + em seu dizer, provisoriamente, porventura até que a multidão de + immortaes que se lhe destina, deixe de precisar da installação! + + O que não consta, contra as previsões do _Diario de Noticias_, e + lettra do decreto, é que o snr. Adães Bermudes tenha proseguido nos + tão esperados «trabalhos de adaptação do grandioso edificio ao fim + que, por lei, lhe foi destinado...» + + [8] Em 1830 foi transformada a Egreja de Santa Genoveva em Pantheon + Nacional. Depois, em 1851, voltou a ser egreja, até que, com a + entrada de Hugo, foi, de novo secularizada. + + [9] Effectivamente, não é facil averiguar, com precisão, o mais da + trajectoria da vida de Shakespeare, e, sobretudo, os episodios + finaes da sua morte e inhumação,--ainda pelo estudo dos quatro mil + volumes que, a seu respeito, a curiosidade dos eruditos de todas as + nacionalidades accumulou. + + «Tentar falar ou escrever ácerca de Shakespeare, diz Lewis Theobald, + é entrar num espaçoso e magnifico edificio, por um corredor estreito + e tenebroso». + + O que mais delle se apura é que colheu obscuramente a sua obra da + mesma razão anonyma que o prendeu á Terra. + + Como, de egual arte, é assente que o homem mais querido e admirado + que ainda houve, foi tambem, até ha pouco, um dos mais + maltratados:--_O poeta maldito_--eis a maneira por que J. Richepin + com a maior justeza, o indica! (Vid. A TRAVERS SHAKESPEARE, + conferences faites à _l'Université des Annales_.) + + Pope, no prefacio definitivo da sexta edição do _in-folio_ de 1623, + considera-o um mero cortezão da plebe. + + Voltaire chamou-lhe grosseiro e barbaro, «impossivel de se fazer + ouvir pela mais desprezivel gente da França ou de Italia»--em + derradeira analyse, um _selvagem bebado_! + + O reconhecimento publico do genio do grande tragico iniciou-o o + romantismo allemão, sobretudo pelos estudos de Lessing, Goethe, + Schiller, Herder e Schlegel. Em França, apparece pela primeira vez + bem tratado nos trabalhos de Staël e Chateaubriand. + + Revelado o seu genio, começaram os criticos a hesitar sobre a + idoneidade do Auctor. + + A muitos pareceu, de momento, pouco conforme com tão prodigiosa + obra, o mais intimo da sua historia. + + Sigamos nós, comtudo, este fio biographico,--tambem o mais + geralmente acceito como verdadeiro. + + Shakespeare nasceu em Stratford-on-Avon, em 1564, e era filho de um + negociante de lans, homem de medianos recursos e grande familia. + + Estudou primeiras lettras numa escola publica (_Grammar School_, + escola secundaria) da terra da sua naturalidade, onde casou, aos + dezoito annos, com Anna Hathaway, de quem teve três filhos. + + Foi depois para Londres, onde, successivamente, parece ter sido moço + de theatro, ponto, comediante, e mais tarde empresario, liquidando, + finalmente, em burguez, na sua terra, onde morreu em 1616, no dia em + que completou 52 annos. + + Eis a mais vulgar das suas biographias. + + Ha outras mais complicadas, e, comtudo, acceites por alguns dos + devotos do mytho shakespeariano. + + Segundo uns, o verdadeiro Shakespeare, teria sido lord Rutland; + como, para outros, elle foi lord Southampton, tambem havido, no + consenso do maior numero, como aquelle a quem o Poeta deveu a + apresentação que o introduziu na complicada e brutal côrte de + Elisabeth. + + Ainda, segundo alguns, elle foi lord Pembroke; como, finalmente, + para o maior numero dos que teimaram em lhe dar uma proveniencia + notavel, o proprio chanceller Francisco Bacon! + + É de menos interesse e improprio ás medidas duma nota a reproducção + dos argumentos em que se firmam as differentes hypotheses; + assentemos, porem, em que nenhuma dellas vae alem de conjectura + + O auctor do _Lord Rutland est Shakespeare_, M. Célestin Demblon, + conclue as mais extraordinarias observações ácerca do falso + Shakespeare. + + Assim, segundo este auctor, elle começou por seduzir a noiva, a quem + só desposou, ameaçado de morte pela familia della, e a quem + empobreceu, gastando-lhe o dote; depois foi vagabundo e engajador de + soldados; fôra salteador de estrada; e, mais tarde, protegido por + lord Rutland e Southampthon, chefe de cavalhariça, contra regra do + theatro, etc. + + De resto, affirma ainda, elle não sabia sequer assignar o seu nome, + que emprestára a Rutland, e este fazia escrever no final das peças, + e que, por punhos diversos, apparece tambem differentemente + orthographado (Shaxpere, Shagsbere, etc.). + + Quer dizer, o ordinario e baixo _Shagsbere_ é nem mais, nem menos do + que um personagem dos dramas de Rutland--o seu Falstaff, cynico e + crapuloso, bebado e usurario, de quem o lord usava o nome por firmar + as peças, que considerava abaixo da sua notoria prosapia! + + Ah! com que opportunidade, lidos estes phantasticos passos do genial + «poeta maldito», nos veem á memoria as palavras que, da sua alma, + elle passou para a bocca de Macbeth: + + «A vida! mas se a vida não é mais do que uma historia, contada por + um tolo furioso e que não significa coisa alguma...» + + * * * * * + + Emfim, sahimos a custo dos multiplices enredos da sua vida, pela + unica porta aberta ao mais dos criticos--a da sua Arte, instruida da + sua primeira tradição, tambem a unica verosimil. + + Quanto ás extravagancias possiveis e até provaveis, antes da ida + definitiva para Stratford,--mais do que o conhecimento das suas + ficcionarias biographias, nos esclarece a historia da côrte de + Elisabeth, com todo o seu enredo extranho. Jean Richepin, cujos + estudos em parte resumimos, no desenvolvimento da presente nota, não + só frisa a influencia daquella côrte, na obra do Poeta, como + conclue, a proposito do seu caracter e Arte o seguinte: + + --«A Arte e a moralidade estão sobre dois planos differentes, dois + planos que se não confundem, em boa verdade. Que de tempos a tempos + estejam de accordo, simulando juntar-se sobre um plano unico,--eis o + que pode succeder e encantar-nos. + + .................................................................. + + Mas se os dois planos se mantêm separados que fazer? Eu desejaria, + de certo, que elle (Shakespeare) tivesse sido, ao mesmo tempo, um + homem honesto, o grande artista, um bom pae, bom marido; mas, nem + por isso, deixo de preferir que elle tenha sido o contrario de tudo + aquillo e nos tenha dado uma bella obra.» + + O que vale concluir pela necessidade de admittir Shakespeare, tal + como nos surge á primeira luz, liquidando a sua aventura dramatica + pelo regresso a Stratford, onde parece ter vivido os ultimos cinco + annos, longe do theatro das suas maiores façanhas pessoaes, como dos + seus dramas--porventura viciento e avaro, como no-lo pintam, + distrahido no seu novo papel de rico, e, no entanto, sempre, de + alguma forma, lembrado das suas antigas relações e vida de scena, + como é positivo e se vê ainda do proprio testamento, em que + contemplou dois camaradas. + + Assim chegamos, naturalmente, e ainda guiado pela lenda, até á morte + do Poeta, na sua terra de origem, afinal tambem a mesma onde, + porventura, a seu desejo, foi inhumado e, de direito, é que + descanse. + + Isto, mau grado as lamentações de Irving, quando, ao visitar o seu + tumulo, entre os velhos monumentos da nobreza, que o rodeiam, + notava, com mágoa, o seu desenho mais do que modesto! + + (Confrontem-se J. Richepin, ob. cit.; Oeuvres dramatiques de William + Shakespeare, traduction par Georges Duval; W. Irving; e Garrick.). + + [10] Vid. _Camillo Inédito_ annotado. + + + + +INDICE DAS ILLUSTRAÇÕES + + Pag. + +Retrato de Camillo por Antonio Carneiro. . . . . . . . . 9 + +Retrato de D. Anna Augusta Placido . . . . . . . . . . . 17 + +Ultimo retrato de Camillo feito na «União» . . . . . . . 33 + +Busto de Camillo por Diogo de Macedo . . . . . . . . . . 41 + +Projecto de monumento a Camillo por Teixeira Lopes . . . 49 + +O Jazigo de Camillo na Lapa. . . . . . . . . . . . . . . 65 + + + + +_DESTA EDIÇÃO FEZ-SE UMA TIRAGEM ESPECIAL DE QUATRO EXEMPLARES EM PAPEL +WHATMAN, NUMERADOS E RUBRICADOS PELO AUCTOR._ + + + + +ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTE OPUSCULO AOS DOZE DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DE +MIL NOVECENTOS E DEZESETE, NA TYPOGRAPHIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA», +SITA Á RUA DOS MARTYRES DA LIBERDADE NA CIDADE DO PORTO. + + + + +NO PRELO: + +_Camillo Inédito_ annotado, 2.º milhar. + +_Fanny Owen e Camillo_, 2.ª edição. + + + + + + + +End of Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS CINZAS DE CAMILLO *** + +***** This file should be named 34742-8.txt or 34742-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/7/4/34742/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/34742-8.zip b/34742-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b566a55 --- /dev/null +++ b/34742-8.zip diff --git a/34742-h.zip b/34742-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4218d68 --- /dev/null +++ b/34742-h.zip diff --git a/34742-h/34742-h.htm b/34742-h/34742-h.htm new file mode 100644 index 0000000..8075e2f --- /dev/null +++ b/34742-h/34742-h.htm @@ -0,0 +1,1698 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>As cinzas de Camillo, por Visconde de Vila-Moura</title> + <meta name="Author" content="Visconde de Vila-Moura"> + <meta name="Edition" content="Lisboa: «Renascença Portguesa», 1917."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + .ilustracao {border: dotted 2px GRAY;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em;} + #corpo p.cap {text-indent: 0;} + p.cap:first-letter {font-size: 300%; line-height: .8em; width: auto;} + .dcap {text-transform: uppercase;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Cinzas de Camillo + +Author: Visconde de Vila Moura + +Release Date: December 24, 2010 [EBook #34742] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS CINZAS DE CAMILLO *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; padding: 1em; border: solid 1px #000;"> +<p style="font-size: 1.4em;"><u>V<small>ISCONDE DE</small> V<small>ILLA-</small>M<small>OURA</small></u></p> + +<p style="font-size: 2em;">As Cinzas de Camillo</p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 4em;"> + <p>«Da região escura vem bater-me<br> + na fronte uma aragem fria...»<br></p> + +<p style="margin-left: 5em;">C<small>AMILLO</small>.</p> +</blockquote> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">EDIÇÃO DA «RENASCENÇA PORTUGUESA»</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:justify;">O PRODUCTO LIQUIDO DESTE OPUSCULO DESTINAR-SE-HÁ A ABRIR A SUBSCRIPÇÃO PUBLICA PARA UM MONUMENTO A CAMILLO NO PANTHEON.</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">Direitos reservados</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">AS CINZAS DE CAMILLO</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="margin: 10%; font-size: small;"> +<p style="margin-left: 5em;">DO AUTOR</p> + +<p>A Moral na Religião e na Arte, 1906.</p> + +<p>A Vida Mental Portugueza, 1909.</p> + +<p>Vida Litteraria e Politica, 1911.</p> + +<p>Camillo Inédito, 1913 (1.º milhar esgotado).</p> + +<p style="margin-left: 3em;"><small>CONTOS E NOVELLAS:</small></p> + +<p>Nova Sapho, 1912 (1.ª edição esgotada).</p> + +<p>Doentes da Belleza, 1913.</p> + +<p>Os Bohemios, 1914.</p> + +<p> </p> + +<p>Antonio Nobre (1.ª edição esgotada) 1915.</p> + +<p>Grandes de Portugal (com Antonio Carneiro), 1916.</p> + +<p>Fialho d'Almeida, 1917.</p> + +<p>Fanny Owen e Camillo, 1917.</p> + +<p>As Cinzas de Camillo, 1917.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.4em;"><u>V<small>ISCONDE DE</small> V<small>ILLA-</small>M<small>OURA</small></u></p> + +<p style="font-size: 2em;">As Cinzas de Camillo</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">(NOTAS E DOCUMENTOS)</p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><img src="images/logo.png" border="0" alt="Logotipo"></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>EDIÇÃO DA<br> +«RENASCENÇA PORTUGUESA»<br> +PORTO</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">A</p> + +<p style="text-align:center;">NUNO PLACIDO +CASTELLO BRANCO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> + +<div class="ilustracao"> +<p class="centrado"><a name="img1"></a><img width="80%" border="0" src="images/img1.jpg" +alt="CAMILLO CASTELLO BRANCO (Desenho de António Carneiro)."></p> + +<p class="centrado">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p class="assin"><small>(Desenho de António Carneiro).</small></p> + +<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 5em;"> + <p>«Da região escura vem bater-me<br> + na fronte uma aragem fria...»</p> + + <p style="margin-left: 4em; text-indent: 0;">C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small> B<small>RANCO.</small><br> + —<em>No Bom Jesus do Monte.</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> <span class="pn">{11}</span></p> + +<p> </p> + +<p class="cap"><span class="dcap">Porque</span> de novo volta a publico a idéa da trasladação de Camillo para o +Pantheon, tambem de novo entendemos dever voltar ao assumpto, menos por +discutir as razões daquelles que, contra a sua derradeira vontade, teimam em +violar-lhe o jazigo, do que por esclarecer o que a tal respeito deixou +escripto.</p> + +<p>Mas recordemos os factos. Elles são, de si, tão claros que quasi nos +dispensam glossario.</p> + +<p>Camillo suicidou-se em 1 de junho de 1890, pelas trez horas e um quarto da +tarde. No dia seguinte foi<span class="pn">{12}</span> o caso conhecido do +publico pelos jornaes, bem como o destino que devia ter o seu cadaver.</p> + +<p>Diz o <em>Correio da Manhã</em>, de 4 de junho:</p> + +<p> </p> + +<p><small>PORTO, 2—«O grande escriptor disparou um tiro na cabeça ás 3 horas e +um quarto da tarde. Caiu logo em estado comatoso, e ás 5 horas succumbiu. O +medico Ferreira, de Santo Thirso, afirma que a bala fôra quasi até á +extremidade do lado opposto.»</small></p> + +<p> </p> + +<p>E em nota solta:</p> + +<p> </p> + +<p>«Camillo pedira em tempo a Freitas Fortuna para ser enterrado no jazigo +delle, chegando até a entregar-lhe um documento redigido neste sentido.»<a +name="tex2html1" href="#foot244"><sup>[1]</sup></a><span +class="pn">{13}</span></p> + +<p> </p> + +<p>De facto, no comboio do Minho das 6 horas da tarde do dia 3, chegava ao +Porto o cadaver do Romancista, acompanhado por Freitas Fortuna, desde +Famalicão, esperando-o na gare, «quando muito cem pessoas», informa o +<em>Correio da Manhã</em>, e entre ellas Alves Mendes, Sebastião Leite de +Vasconcellos e o editor Costa Santos. De resto, o ataúde seguiu para a Lapa, +mal coberto por cinco coroas de flores artificiaes e sempre acompanhado por +Freitas Fortuna, por Espinho, pelo creado Manuel, mais a cauda de dezoito +carruagens arrastando a praga dos reporteres.</p> + +<p>Alem de Alves Mendes, não comparecera mais um unico escriptor ou artista, +informa ainda o mesmo jornal!<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>É que mettera medo o baque da sua queda, senão o gesso que de si restava e a +que a alludida folha se refere da maneira seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><small>A +CAMARA ARDENTE—O MORTO.</small></p> + +<p><small>«A vasta sala, despida de sanefas e de espelhos, com o cadaver sobre +um panno, ao meio, tinha uma solemnidade lugubre que a assemelhava a um templo +vasio: o choro da esposa e o crepitar das luzes eram os unicos sons que +interrompiam a funebre quietação do aposento.</small></p> + +<p><small>No seu fato +escuro—<em>pardessus</em> usado, +<em>frak</em> e calça preta da mesma fazenda, +costume que vestia quando se suicidou—tons roxeados a cercar-lhe as narinas e +os olhos, o seu perfil macerado, fortemente vincado de rugas, o farto bigode +cahindo-lhe lasso, na bocca esse extranho <em>rictus</em> que parece dar ao cadaver um riso de +mofa,—o supremo<span class="pn">{15}</span> escarneo da morte á vida. Lá +estava elle sereno como um adormecido, os pés salientes, a cabelleira negra e +comprida, as mãos finas cruzadas sobre o peito, o morto, mal illuminado pelo +clarão de duas velas, parecia seguir com os olhos mal cerrados a dôr da +viscondessa que aos pés do seu ultimo leito, abysmada na oração, velava +sósinha.»</small><a name="tex2html2" href="#foot53"><sup>[2]</sup></a></p> + +<p> </p> + +<p>Entretanto, Freitas Fortuna, longe de enjeitar o legado dos seus restos, +logo fez valer junto da familia de Camillo as declarações em seu poder, e sobre +as quaes tambem, immediatamente, todos os interessados concordaram, +soccorrendo-as com dois novos documentos, ou tenha sido com o <em>auto da sua +doação, assignado<span class="pn">{16}</span> por D. Anna Augusta Placido e +Visconde de S. Miguel de Seide</em>; e com a <em>declaração do legatario, +acceitando aquelle deposito no seu jazigo da Lapa, com o encargo de ahi o +conservar perpetuamente</em>.</p> + +<p>Mas reproduzamos, na integra, e, por sua ordem, os preciosos documentos.</p> + +<p> </p> + +<p>A primeira carta de Camillo sobre o assumpto:</p> + +<p> </p> + +<p style="margin-left:8em"><small>«Exmo. Freitas Fortuna, meu querido +amigo.</small></p> + +<p><small>Revalido, por esta carta, o que lhe propuz com referencia ao meu +cadaver e ao seu jazigo no cemiterio da Lapa.<span +class="pn">{17}</span></small></p> + +<div class="ilustracao"> +<p class="centrado"><a name="img2"></a><img width="80%" border="0" src="images/img2.jpg" +alt="D. ANNA AUGUSTO PLACIDO"></p> + +<p class="centrado">D. ANNA AUGUSTO PLACIDO</p> + +<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p> +</div> + +<p><small>Desejo ser ali sepultado e que nenhuma força ou consideração o demova +de me conservar as cinzas perpetuamente na sua capella.</small></p> + +<p><small>É natural que ninguem lhe dispute a posse dessas cinzas; receio, +porem, que seja ainda uma fatalidade posthuma que se compraza em impor a +violencia até aos meus restos.</small></p> + +<p><small>Dê o meu amigo a estas linhas a validade de uma clausula +testamentaria, e, sendo preciso, faça que ella valha em juizo.</small> </p> + +<p><small>Abraça-o com extremado affecto e inexprimivel gratidão o +seu</small></p> + +<p> </p> + +<p +style="text-align:center;"><small>C<small>AMILLO</small> +C<small>ASTELLO</small> B<small>RANCO.</small></small></p> + +<p> </p> + +<p><small>Porto, 6 de abril de 1888.</small></p> + +<p> </p> + +<p>Esta carta foi pela primeira vez patente ao publico no jornal <em>O +Seculo</em>,<span class="pn">{18}</span> em 4 de julho de 1914, onde nós a +publicamos para evitar que fosse por diante a trasladação dos restos do +Escriptor para Belem, que um grupo de parlamentares, a que presidia o illustre +professor sr. Carvalho Mourão, devotadissimo admirador de Camillo—tencionava, +ainda contra a má vontade de uma parte da Camara, que, diga-se de passagem, +vergonhosamente, e sem conhecimento deste e demais documentos, logo se deu a +objectar <em>innocentes</em> escusas, á conta duma tal jornada.</p> + +<p>Muito antes, e incidentemente, nos veio á mão aquelle documento, quando +também nós—(que, ao tempo não tinhamos sequer presente a segunda carta de +Camillo a Freitas<span class="pn">{19}</span> Fortuna, sobre o assumpto, aliás +desde muito publicada—)<a name="tex2html3" href="#foot84"><sup>[3]</sup></a> +nos propunhamos insistir e collaborar com todos aquelles que, seriamente, e bem +de alma, se dessem a promover ou dispor a trasladação, que já então, valha a +verdade, consideravamos menos como homenagem necessaria á sua memoria, do que +como solução de direito, que não de obsequio, ao repouso definitivo das suas +cinzas.</p> + +<p>Aprestara-se-nos o ensejo de ver realisadas as nossas esperanças, de par das +dos maiores admiradores de Camillo—Silva Pinto, Senna Freitas e Ricardo Jorge, +no melhor numero—quando, a proposito da deliberação da Camara do Porto<span +class="pn">{20}</span> e «Renascença Portuguesa» que, por si, e +independentemente da discussão tragico-burlesca dos parlamentos, se propunham +levar a cabo uma tal idéa,—nós fomos solicitado a ouvir dos representantes de +Camillo a sua opinião a tal respeito, isto é, a consulta-los sobre se +auctorizariam ou não o levantamento dos restos do Escriptor do seu jazigo na +Lapa.</p> + +<p>É claro, que interferi no caso particularmente, e só por acquiescer ás +solicitações dum illustre membro da Camara do Porto, tambem, ao tempo, do corpo +dirigente da «Renascença Portuguesa», sociedade literaria com séde na mesma +cidade<a name="tex2html4" href="#foot86"><sup>[4]</sup></a>, e que para aquelle +effeito se<span class="pn">{21}</span> me dirigiu, bem por certo por mera razão +da minha idoneidade como incondicional admirador do Romancista, mais pelo +conhecimento que porventura tivera das minhas opiniões a tal respeito, desde +muito, expressas. </p> + +<p>Ora foi a tal proposito que, conjunctamente com a resposta de Nuno Placido +Castello Branco, eu recebi a copia daquella carta, pelo punho do Visconde de S. +Miguel de Seide, com a ordem de a publicar opportunamente, e como instrucção do +juizo que porventura seguissemos, no caso da consulta que, por sua vez, elle +devolvia para que sobre ella as Corporações interessadas resolvessem.</p> + +<p>É claro que, á face de tão obrigante<span class="pn">{22}</span> documento, +a sua opinião parece ter sido uma:—nunca mais aquellas corporações pensaram na +trasladação. E dahi tambem o silencio, feito á volta do caso, até ao momento em +que alguns deputados, aliás no melhor empenho,—o mesmo que a Camara do Porto e +a «Renascença Portugueza» tinham tido—deliberaram voltar ao assumpto.</p> + +<p>Foi então, repetimos, que, pela primeira vez, entendemos de nosso dever +publicar aquella carta, como elucidação aos promotores da inopportuna +homenagem, e tão cabida ella foi que logo, avisadamente, aquelles desistiram do +seu intento, transferindo as importancias destinadas á sua despeza para o +levantamento<span class="pn">{23}</span> de um monumento, infelizmente já bem +tardio, a Camillo.</p> + +<p> </p> + +<p>Entretanto, pois que, desde que se tornou inopportuna, por não dizer +impertinente, a trasladação, parece ter crescido o numero dos devotos de tal +idéa—vamos nós, hoje, que estamos de posse de todos os documentos, ver o que, +á face delles, aquella vale.</p> + +<p>Mas antes, e por melhor firmar opinião, sigamos no traslado dos documentos +que ao assumpto se referem. Tornar-se-á mais facil de ver depois, e a melhor +luz, até onde vae a teimosia dos sectarios duma idéa hoje indelicada, (e que +maior crime pode cometter-se para com os mortos do que o da indelicadeza?—) +que não<span class="pn">{24}</span> sectarios da melindrosa memoria do +Escriptor.</p> + +<p> </p> + +<p>Eis a segunda carta de Camillo a Freitas Fortuna:</p> + +<p> </p> + +<p style="margin-left:4em"><small>«Meu presado Freitas Fortuna.</small></p> + +<p><small>Começo a experimentar uma especie de affecto posthumo ao meu +cadáver.</small></p> + +<p><small>Tão pouco me apreciei na vida, tão pouco cabedal fiz da minha saude, +que já agora me quer parecer, que este amor ao que nada vale é retribuição +devida a esta materia, que me ha-de sobreviver alguns annos aviventada pela +engrenagem de putrefacção.</small></p> + +<p><small>Deste affecto extraordinario, mas não excepcional, resultou dizer-lhe +eu, meu querido amigo, quer falando, quer escrevendo, que aspirava +fervorosamente a ser sepultado no seu jazigo da Lapa.</small></p> + +<p><small>E bem certo que, para além da campa,<span class="pn">{25}</span> ha o +que quer que seja que ainda nos prende ás coisas mortaes. Sei que no seu jazigo +dormem o somno infinito seus extremosos progenitores.</small></p> + +<p><small>Ambos conheci na flor da vida, no esplendor da honra, nas luctas do +trabalho e na pujança da alegria e da felicidade.</small></p> + +<p><small>Ambos morreram no vigor dos annos, se podem considerar-se +mortas <em>duas imagens sagradas</em> que renascem +na alma dum filho ao fogo da sua saudade, com o seu respeito filial, com as +suas lagrimas represadas, e que os annos ainda não poderam crystallizar em +glacial indifferença.</small></p> + +<p><small>Volvido um longo praso as cinzas do meu querido Freitas irão aos +braços já cinzas tambem de seus <em>paes</em> estremecidos.</small></p> + +<p><small>Se a morte tivesse expressão que não fosse aquelle mudo terror de um +gesto que ao mesmo tempo anniquilla e grava o eterno estigma do silencio nos +labios gelidos, só ella poderia dar-nos a sombra horrida e que o seu esquife +baixar á perpetua união<span class="pn">{26}</span> com os cinerarios de +seus <em>paes</em> . E eu, a essa hora, estarei á +beira delles como testemunha silenciosa das compungidas lagrimas que lhe vi na +face quando o coração lhas dava repassadas duma santa saudade.</small></p> + +<p><small>Não sei se esta chimera, que vagueia na região tenebrosa e na crypta +dos mortos amados e chorados, foi a despertadora vontade que me domina ha anno +e meio de ser enterrado no seu jazigo.</small></p> + +<p><small>O meu querido Freitas Fortuna acceitou com ternura a offerta do meu +cadaver, e d'essa arte, permittindo que eu fizesse parte da sua familia +extincta, quiz continuar alem da vida a tarefa sacratissima da sua dedicação +incomparavel. Bem haja, e adeus.</small></p> + +<p> </p> + +<p style="margin-left:2em;"><small>Bemfica, 15 de julho de 1889.»</small></p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><small>Seu do coração,</small></p> + +<p class="centrado"><small>C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small> +B<small>RANCO.</small></small><a name="tex2html5" +href="#foot123"><sup>[5]</sup></a><span class="pn">{27}</span></p> + +<p> </p> + +<p>Esta carta foi a primeira que sobre o assumpto veio a publico, tendo sido +impressa no <em>Jornal da Manhã</em>, de 3 de junho de 1890, ou tenha sido na +vespera do dia da entrada do cadaver de Camillo no mausoléo-Fortuna.</p> + +<p>Comprehende-se que, a despeito do seu texto, os admiradores do Romancista +pretendessem ainda o seu ingresso no Pantheon, porquanto não é aquella bem +frisante e incondicional, como a primeira a que se refere, e que, durante +tantos annos, foi geralmente ignorada.</p> + +<p>Entretanto, que de ambas as cartas os interessados mais proximos, +(referimo-nos á Familia-Fortuna e á de Camillo) tinham pleno conhecimento, +prova-o não só a circumstancia<span class="pn">{28}</span> de immediatamente +fazerem seguir para o cemiterio da Lapa o cadaver do Romancista, mas, ainda +mais, o facto de quasi logo as duas partes interessadas se mutuarem as mais +claras obrigações não só para garantirem, como por tornarem effectivo, +perpetuamente, aquelle deposito. </p> + +<p>É do teor seguinte o auto de doação do cadaver de Camillo:</p> + +<p> </p> + +<p><small>«Os abaixo assignados, D. Anna Augusta Placido (Viscondessa de +Correia Botelho) viuva, e Nuno Castello Branco (Visconde de S. Miguel de Seide) +vimos na qualidade de esposa e filho do falecido sr. Camillo Castello Branco +(Visconde de Correia Botelho), ambos residentes na freguesia de S. Miguel de +Seide, do concelho de Villa Nova de Famalicão, no districto de<span +class="pn">{29}</span> Braga, querendo cumprir as determinações de seu amado +esposo e pai, que manifestou a expressa vontade de ser sepultado no cemiterio +da Real Irmandade de N. Senhora da Lapa (na cidade do Porto), no jazigo da +familia do seu dedicado amigo João Antonio de Freitas Fortuna, a quem por +escripto estipulou, «que nenhuma força ou consideração o demova de +conservar-lhe as cinzas, perpetuamente na sua capella»—; os abaixo assignados +revalidam por este acto a entrega e doação que fizeram do cadaver do seu +querido esposo e pae ao referido João Antonio de Freitas Fortuna, residente na +rua de Cedofeita n.º 986, da cidade do Porto, que o recebeu e acceitou com o +encargo de o conservar perpetuamente na sepultura numero um do referido jazigo +de sua familia, onde está, e onde deve estar <em>ad +perpetuam</em> . E por isto conferem ao indicado João Antonio de +Freitas Fortuna, e aos seus representantes, que atravez dos tempos possam vir, +e forem os legitimos possuidores<span class="pn">{30}</span> da referida +capella, todos os poderes em direito necessarios, sem exclusão alguma, e com a +faculdade de substabelecerem, para que nunca, e sob qualquer pretexto que seja, +possa ser retirado da indicada sepultura perpetua em que jaz o cadaver do sr. +Camillo Castello Branco, porque tal foi a sua expressa vontade dele, assim como +é a dos abaixo assignados, que a fazem boa e querem que seja sempre cumprida +como disposição testamentaria para o que por este titulo de doação onerosa +desistem de todos os seus direitos ao referido cadaver e outorgam sem reserva +alguma a João Antonio de Freitas Fortuna e a seus legitimos representantes na +posse do referido jazigo, a fim de que possam cumprir as condições estipuladas +aqui, e para realizarem todos os actos indispensaveis ao integral cumprimento +da expressa vontade de seu amado esposo e pae, que respeitam e cumprem, como +querem que os seus successores ou futuros representantes a cumpram<span +class="pn">{31}</span> e respeitem. E por esta ser verdade, passam este acto de +doação, que eu, Nuno Castello Branco, escrevo e que assignam com as testemunhas +Francisco Correia de Carvalho, casado, proprietario da freguezia de S. Paio de +Seide e Antonio Vaz Vieira de Napoles, solteiro da cidade de Guimarães. S. +Miguel de Seide, 10 de Junho de 1890, e noventa.—(Ass.) <em>Anna Augusta Placido, Viscondessa de Correia Botelho; Nuno +Castello Branco, Visconde de S. Miguel de Seide; Francisco Correia de Carvalho +e Antonio Vaz Vieira de Napoles.</em></small></p> + +<p><small>(Segue-se o reconhecimento das assignaturas por João Bernardo Correia +do Amaral, em 10 de junho de 1890).</small></p> + +<p> </p> + +<p>Acceitação da doação anterior, averbada por Freitas Fortuna naquelle +documento:</p> + +<p> </p> + +<p><small>Eu, João Antonio de Freitas Fortuna, abaixo assignado, casado e +residente na rua<span class="pn">{32}</span> de Cedofeita, n.º 986 da cidade do +Porto, cumprindo o disposto no art. 1466 do Codigo Civil portuguez, averbo +neste documento a acceitação do cadaver do meu presado amigo o sr. Camillo +Castello Branco (Visconde de Correia Botelho) e que me foi doado e entregue, e +que eu aceitei com o encargo de o conservar perpetuamente na sepultura numero +um do jazigo de minha familia, onde jaz, no cemiterio da Real Irmandade de N. +Senhora da Lapa, e sob a condição de que nunca, e sob qualquer pretexto que +seja, os descendentes de meu bom pai ou usufructuarios do indicado jazigo o +tirem da referida sepultura ou consintam que o retirem, como se expoz no auto +de doação supra que fez a Exma. Sra. Viscondessa de Correia Botelho e Exmo. Sr. +Visconde de S. Miguel de Seide, esposa e filho do meu falecido amigo. E por ser +verdade o referido aqui, escrevo nesta doação a respectiva acceitação, que +assigno perante o tabellião e as testemunhas, o sr. Domingos<span +class="pn">{33}</span> Joaquim Machado, casado, negociante e morador na rua de +Oliveira Monteiro e o sr. Albino Pinto dos Santos, solteiro, caixeiro e +residente na rua Chã, ambos n'esta cidade do Porto.</small></p> + +<p><small>Porto, 16 de junho de 1890 e noventa. (Ass.) +<em>J. A. +de Freitas Fortuna, Domingos Joaquim Machado e Albino Pinto dos +Santos</em></small><a name="tex2html6" +href="#foot259"><sup>[6]</sup></a>.</p> + +<p><small>(Reconhecimento feito pelo tabellião Edmundo Maia Campos +Silva).</small></p> + +<div class="ilustracao"> +<p class="centrado"><a name="img3"></a><img width="80%" border="0" src="images/img3.jpg" +alt="ULTIMO RETRATO DE CAMILLO FEITO NA «UNIÃO»"></p> + +<p class="centrado">ULTIMO RETRATO DE CAMILLO FEITO NA «UNIÃO»</p> + +<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p>Eis os documentos. Vejamos, em seguida, o mais dos imaginaveis +argumentos<span class="pn">{34}</span> a oppor-lhes, por concluir, de vez, pelo +seu nenhum valor.</p> + +<p>Em primeiro logar, tem-se affirmado que ao Estado pertence escolher a forma +e o logar destinados a melhor consagrar os mortos.</p> + +<p>O que vale dizer que os restos dum homem illustre são para o Estado, como +para os que assim pensam, menos do que os da gente humilde que, alem daquelle, +tem por si o direito de escolher o logar do seu definitivo repouso.</p> + +<p>Ora eu não sei até que ponto se<span class="pn">{35}</span> tem avançado em +materia de regalias publicas, a ponto de chegarmos, pelo <em>controle</em> do +Estado—a possuir tudo, caminhando da liberdade do homem á escravidão dos seus +restos!</p> + +<p>O que se conclue é que a doutrina corrente é, mais ou menos, a seguinte:—ha +um Pantheon, e é preciso colleccionar ali todos os notaveis, ainda que, como no +caso de Camillo, elle tenha repugnado aos escolhidos.</p> + +<p>Dest'arte, se volve afinal o Pantheon num forçado museu de ossos, por não +dizer num extravagante collegio de memorias, para onde os mais notaveis +esqueletos terão fatalmente de ser conduzidos, e, se preciso for, expropriados, +em razão da propria utilidade da sua gloria!<span class="pn">{36}</span></p> + +<p>Ainda mais:—para os que de tal maneira pensam, os grandes homens não +ficariam devidamente venerados fóra do recinto que o Estado lhes confere!</p> + +<p>Nisto, a nosso ver, o erro.</p> + +<p>É uma scisma quasi grosseira, embora vulgar, suppor que os outros têem valor +sómente quando lho concedamos, ou, melhor, quando, ostensivamente, lho +memoremos!</p> + +<p>Quando, pelo contrario, o seu valor está unicamente com elles e com a sua +obra, para alem de todas as honras e premios officiaes que se lhes decrete.</p> + +<p>E, assim, quem curará ámanhã de saber, por aferir do valor de Camillo, se +elle pertenceu ou não ás Academias da sua terra?<span class="pn">{37}</span></p> + +<p>De egual arte, tambem os seus ossos não crescem pelo facto de de lhos +semearmos nos Jeronymos, ou no casarão de Santa Engracia, embora natural fosse +que para qualquer dos dois monumentos a Nação os conduzisse, se, melhor e mais +correctamente, lhe não pertencesse zelar a sua derradeira vontade.</p> + +<p>Mais. Entre nós, nem sequer ha ainda senão uma indicação de Pantheon. Os +Jeronymos são abrigo casual dos grandes, poucos, que ali repousam. De resto o +futuro Pantheon de Portugal será o sempre novo e já lendario templo de Santa +Engracia!</p> + +<p>Porque foi para ahi que a primeira assembléa do regimen mandou que a Nação +os fizesse conduzir, de<span class="pn">{38}</span> par de outros que o tempo +fosse glorificando<a name="tex2html7" href="#foot260"><sup>[7]</sup></a>.</p> + +<p>O Pantheon de S. Vicente, privilegio da Casa de Bragança, está cheio a tal +ponto, que do exame das suas arcas, a esmo ahi postas, mais dá ao visitante a +idéa dum casual deposito de mortos desarrumados, do que dum templo de sua +sagração.<span class="pn">{39}</span></p> + +<p>Sob a nave, cheia de sombras do intimo podredoiro, entre velludos, mais um +montão de corôas e galões velhos, descansam os reis assassinados, cujas figuras +começam de desapparecer na nevoa que lhes tolda o crystal dos caixões, +cerrando-os, providencialmente, ao espectaculo da sua decomposição em +publico.<span class="pn">{40}</span></p> + +<p>Tem um ar de pateo lugubre a extranha galeria, cujos silencios são para o +espectador como que compassos do grande carnaval historico a seguir, e que as +duas sombras-phantasmas dos ultimos reis parecem ainda reflectir do gesso +mysterioso das suas torturadas mascaras emblematicas.</p> + +<p>A um canto repousa D. Pedro II, tão impresso da sua urna que esta se lhe +ajusta como um caixilho, donde, distante e bolorenta, surde, agora, serena, a +sua face larga, formando o todo como que uma reproducção daguerreotypica dos +seus derradeiros e infelizes annos de exilado!</p> + +<p>Ali espera, desde muito, a guia de marcha para o Brazil, onde, de facto, +sempre lhe quedou a alma.<span class="pn">{41}</span></p> + +<div class="ilustracao"> +<p class="centrado"><a name="img4"></a><img width="80%" border="0" src="images/img4.jpg" +alt="BUSTO DE CAMILLO"></p> + +<p class="centrado">BUSTO DE CAMILLO</p> + +<p class="assin"><small>Por Diogo de Macedo.</small></p> + +<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p> +</div> + +<p>De resto, mais nada ha que sirva a marcar verdadeira piedade, ou grandeza; +tudo ahi inculca o entrudo lugubre das ultimas cerimonias e honras officiaes, +hoje tambem, no geral, negadas ou podres, como o mais das flores e presentes +funerarios que, ao acaso, ahi restam.</p> + +<p>Afinal um lixo caro, tudo o que para ali juntaram á volta das urnas do +mesquinho Pantheon real!</p> + +<p>E, entretanto,—ver-se-há mais tarde, e á razão duma melhor verdade—ahi +velam algumas das maiores memorias que Portugal tem tido, mau grado a herança +que as assombra.</p> + +<p> </p> + +<p>Effectivamente, ha entre nós alguns monumentos funerarios de +indiscutivel<span class="pn">{42}</span> valor, mas esses não estão em S. +Vicente.</p> + +<p>Estão em Santa Cruz de Coimbra, nos Jeronymos, em Alcobaça, na +Batalha,—emfim espalhados por toda a parte onde uma disposição de ultima +vontade, senão a propria devoção dos povos, os fez erigir, nunca pela idéa dum +publico dormitorio de mortos, adrede obrigado a officiosas memorias.</p> + +<p>É ver o que se passou com Garrett que, apesar de ter acautelado o seu +natural e carinhoso desejo de repousar no cemiterio de S. João, ao lado de seus +filhos, foi primeiramente sepultado nos <em>Prazeres</em> e, depois, dahi, +transferido para Belem!</p> + +<p>O que significa, a nosso ver,<span class="pn">{43}</span> nunca um +precedente a seguir, mas, pelo contrario, uma lamentavel indelicadeza da parte +da Nação que para ali o trasladou, sem que ao menos reflectisse na maneira por +que seria não só justo, mas até naturalissimo faze-lo!</p> + +<p>Porque, no presente caso, era bem facil conciliar o desejo dos admiradores +do dramaturgo com a vontade por elle expressa.</p> + +<p>Bastava ver do seu intento, no documento a que alludimos e donde resulta, +bem patente, a unica razão daquelle seu desejo.</p> + +<p>De facto, o que se vê da carta de Garrett a D. Jeronyma Deville, publicada +por Francisco Gomes de Amorim, e em que se exprime a indicação do seu jazigo no +cemiterio de<span class="pn">{44}</span> S. João—é sobretudo o proposito, ali +bem declarado, de repousar junto de seus filhos.</p> + +<p>Ora, se a Nação tinha de sua vontade transferi-lo para os Jeronymos—de seu +dever tinha tambem faze-lo acompanhar dos restos daquelles; e, desta forma, o +seu preito seria, bem de certo, maior; e, alem de tudo, não revestiria a +indelicadeza que assim foi.</p> + +<p>Mais: visto que são necessarios exemplos, sirva-nos ainda, de norma o que de +justo se tem resolvido, lá fóra, em casos semelhantes, e sobretudo em França, +que de seu brio tem quasi sempre casar ao proposito do seu agradecimento +publico para com os grandes vultos nacionaes a maior attenção, e, mais +ainda,<span class="pn">{45}</span> o maior melindre de delicadeza para com os +seus designios, quando não com os seus caprichos.</p> + +<p>Por uma razão equivalente áquella que consta da carta de Garrett está no +Pantheon madame Zola, junto de Zola; e madame Berthelot, junto de Berthelot, +mortos no mesmo dia.</p> + +<p>Isto, sim; é simples e é delicado. E, comtudo, não consta que por tal motivo +tenha havido desavença entre os grandes ali memorados.</p> + +<p>Pelo contrario, Balzac, talvez por negligencia, senão por odio da mesma +burguezia que tão desapiedadamente elle escalpellou,—está na Père-Lachaise! +</p> + +<p>E, no entanto, quem o julga menor por isso?</p> + +<p>Onde quer que seja, dalgum modo<span class="pn">{46}</span> continuará a +rir; e, se nesse mundo que fica para alem do que elle foi, ha logar para +reflexões á sua Obra, o mais que lhe acudirá é, decerto, a sua mesma approvação +plena por tudo quanto escreveu, ou seja a consciencia do acerto com que traçou +o perfil moral dos que, de momento, lhe são obstaculo á porta do Pantheon!</p> + +<p>E dahi, quem sabe? Talvez que ainda um motivo de valor explique a sua estada +no Père-Lachaise, que, effectivamente, para o caso, não significa menos que o +templo de Santa Genoveva!</p> + +<p>Porque, repetimos, é inferior aferir da grandeza dum artista, pela estima do +logar onde elle repousa.</p> + +<p>Em França, ha casos de escrupulo,<span class="pn">{47}</span> no genero, por +vezes, extraordinarios! Assim, em 1885, foi profanada a Egreja de Santa +Genoveva, unicamente para que nella entrasse Victor Hugo!<a name="tex2html8" +href="#foot173"><sup>[8]</sup></a></p> + +<p>E, contrariamente, por motivo da confissão catolica de Pasteur, não foi este +para aquelle templo, mas para o seu proprio Instituto, onde jaz guardado em +capella propria.</p> + +<p>Ahi está a maneira correcta de proceder para com um dos maiores da raça +latina, e a quem, a França dispensou da <em>prova</em> do Pantheon!</p> + +<p>Também, quando da morte de John Ruskin, um dos grandes artistas<span +class="pn">{48}</span> inglezes do seculo XIX, estylista tão singularmente +notavel, como um dos mais eloquentes escriptores da Natureza, a Inglaterra +offereceu a sua familia o logar que, para elle, a Nação tinha reservado em +Westminster. Pois a familia, recusando um tal offerecimento, bem decerto em +attenção á ultima vontade do Artista, preferiu sepulta-lo na aldeia de +Coniston, perto da escola das creanças do povoado, para quem tambem elle, no +dizer de Robert de la Sizeranne, havia composto os seus canticos.</p> + +<p>«A sua morte, informa este publicista, que teve logar a 20 de janeiro de +1900, entre os rochedos e os bosques de Brantwood, á beira dum dos mais bellos +lagos da Inglaterra,<span class="pn">{49}</span> foi o fim proprio da sua vida: +em perfeita simplicidade e em discreta belleza. Elle não teve junto de si mais +do que dois ou tres de seus discipulos e alguns camponezes. O offerecimento de +um tumulo em Westminster, a maior honra que a nação ingleza pode tributar a um +seu filho, foi recusada por sua familia; e, na celebre Abbadia real, coisa +alguma recorda Ruskin, a não ser o seu medalhão, em bronze, collocado no +<em>Pantheon dos Poetas</em>, ao lado do busto de Walter Scott.»</p> + +<div class="ilustracao"> +<p class="centrado"><a name="img5"></a><img width="80%" border="0" src="images/img5.jpg" +alt="PROJECTO DE MONUMENTO A CAMILLO"></p> + +<p class="centrado">PROJECTO DE MONUMENTO A CAMILLO</p> + +<p class="assin"><small>Por Teixeira Lopes.</small></p> + +<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p>Finalmente, acaso Shakespeare, está em Westminster?</p> + +<p>Não está; ahi figura elle, simplesmente, em monumento, cercado doutros<span +class="pn">{50}</span> marmores, porventura espalhados á sua roda, como que a +marcar-lhe o Tempo.</p> + +<p>Elle? quem sabe! talvez, unicamente, a sombra falsa do seu nome, mais o +resto da sua lenda<a name="tex2html9" href="#foot261"><sup>[9]</sup></a>.</p> + +<p> </p> + +<p>Presumivelmente jaz em Stratford, no côro de uma velha Egreja gothica, perto +de um rio escuro, o<span class="pn">{52}</span> Avon, e, como que, ao acaso, +guardado pela esguia escolta das suas arvores.<span class="pn">{53}</span></p> + +<p>Indica-o ao viajante, mais do que o monumento, ultimamente ali levantado, +uma pedra que mal sobresai<span class="pn">{54}</span> da parede, com uma +quadra-aviso, que geralmente lhe é attribuida.<span class="pn">{55}</span></p> + +<p>É uma quadra curiosa, que vale a pena ler e, por desventura, esqueceu lavrar +na sepultura de Camillo,<span class="pn">{56}</span> onde, já agora, se torna +necessario esculpir a clausula testamentaria do Romancista ácerca da sua +sepultura.</p> + +<p>Eis a quadra:</p> + +<blockquote> + «Good friend, for Jesus'sake, forbear,<br> + To dig the dust enclosed here.<br> + Blessed be he that spares these stones,<br> + And curst be he that moves my bones.» </blockquote> + +<p> <span class="pn">{57}</span>«<em>E amaldiçoado seja o que revolver os meus +ossos</em>»! gritou Shakespeare, ou a tradição por si.</p> + +<p>E tal defeza bastou a que jámais se destampasse o mysterioso jazigo!</p> + +<p> </p> + +<p>Emfim, pois que eram precisos exemplos, ahi ficam os maiores, a<span +class="pn">{58}</span> que poderiamos juntar outros, da regeição de +Pantheons—sem que os paizes a que aquelles notaveis pertenceram, descessem, +algum dia, a obrigar as suas memorias a um pariato de cinzas que, por clausula +testamentaria, ou circumstancias casuaes, podesse tomar-se como violencia.</p> + +<p>E, entretanto, jámais a França ou a Inglaterra renegaram do culto quasi +fanatico em que têem os seus <em>immortaes</em>; e, sobretudo, aquelles que por +si bastariam a affirmar, mais do que o prestigio dos seus paizes—o valor das +respectivas raças.</p> + +<p> </p> + +<p>Derivando daquelles casos, ou antes apprendendo da attitude de<span +class="pn">{59}</span> taes nacionalidades,—se assim é preciso!—ahi temos, +naturalmente, indicado o que ao Estado, ou melhor ao povo portuguez,—pertence +resolver, ácerca de Camillo, e sempre de accordo com a sua memoria.</p> + +<p>Levante o Povo portuguez, (ponhamos sempre de parte, em questão de preito a +artistas, os <em>representativos</em>!)—uma estatua a marcar, de direito, nos +Jeronymos, o logar que, de facto, elle não quiz occupar, á maneira do que se +fez em Westminster para o grande tragico de Stratford, e deixemos que os seus +restos descansem na Lapa!</p> + +<p>Tambem nós, repetimos, emquanto nos foi desconhecido o mais da documentação +acima expressa, pugnámos pelo seu ingresso nos Jeronymos.<span +class="pn">{60}</span></p> + +<p>Como de egual arte,—lembrando a pagina, por certo, mais dolorosa da vida +litteraria de Camillo—uma das que abrem a <em>Correspondencia epistolar</em> +entre o Romancista e Vieira de Castro, e onde aquelle allude a D. Anna Placido, +contrahindo para com ella, publicamente, o voto das suas inhumações em commum +jazigo—eu me recordára de quanto seria natural e proprio á memoria das suas +conjunctas tragedias a approximação da que lhe fôra companheira e suave +cumplice!</p> + +<p>Esta pagina é a mesma em que responde a Vieira de Castro, quando este, numa +explosão de amizade, lhe denunciou o que os seus inimigos, ao tempo, propalavam +para melhor o ferirem.<span class="pn">{61}</span></p> + +<p>Formára-se uma atmosphera de malquerença contra Camillo, e, como sempre em +taes casos, a má vontade dos seus inimigos deu-se a jogar com um abjecto +romance, adrede disposto a pôr de seu lado a chamada moral burgueza—ou seja o +estalão mais infame que ainda se inventou para avaliar sensibilidades!</p> + +<p>Então, a tal proposito lhe contou Vieira de Castro o que, a seu respeito, se +espalhára pelas praças, e, por sua vez, elle reproduz da maneira seguinte:</p> + +<p>—«Que eu, confidente e depositario das cartas que uma senhora casada +escrevera a um homem ausente, ameaçára essa senhora de revelar ao marido a +culpa indicada nas cartas, se ella continuasse a repellir-me;<span +class="pn">{62}</span> e que a senhora ameaçada, aceitando metade da minha +infamia transigira com a proposta». </p> + +<p> </p> + +<p>Ora a tal ensejo escreveu Camillo aquella pagina, que, já agora, +reproduziremos, na parte final, aliás menos como seu desaggravo—por +desnecessario, do que por ver o que, ao tempo, pensava do natural destino das +suas cinzas:</p> + +<p> </p> + +<p>«Meus amigos e meus inimigos! se, por violencias de uma paixão brutal, +exacerbada pela embriaguez, eu resvalasse á infamia de forçar a resistencia da +derradeira mulher na escala das perdidas—Deus sabe quem são as perdidas!—; ao +despertar desse infernal aturdimento com a<span class="pn">{63}</span> +consciencia do meu crime, matar-me-hia com asco de mim proprio.</p> + +<p>No regaço dessa senhora, tão cruelmente aviltada, tenho dous filhos. É para +meus filhos que eu escrevo esta pagina que me pareceu até hoje impossivel.</p> + +<p>Receio que elles ainda tenham de ver a serpente da calumnia a rojar-se na +sepultura de seu pae. Sinto-me no cabo da vida; e tenho maior pejo da +posteridade que dos meus contemporaneos. Quero que estas crianças saibam deste +livro que o pregão affrontoso aos calumniadores foi escripto quando ainda +viviam as pessoas que podiam desmentir-m'o.</p> + +<p><em>No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe</em>—esta +levantada alma que ainda não verteu uma<span class="pn">{64}</span> lagrima na +voragem que lhe devorou os respeitos do mundo, e a perfida riqueza com que seus +perdoaveis paes a violentaram sem dó de sua innocencia e formosura dos dezoito +annos».</p> + +<p> </p> + +<p><em>No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe!</em></p> + +<p>Ahi está o que me seduzia a pugnar pela approximação das duas urnas.</p> + +<p>Afinal, parece que a mesma fatalidade que os reuniu, os dispersou!</p> + +<p>Nas cartas finaes de Camillo a Freitas Fortuna, ácerca das suas cinzas, ha +uma allusão unica a D. Anna Placido.</p> + +<div class="ilustracao"> +<p class="centrado"><a name="img6"></a><img width="80%" border="0" src="images/img6.jpg" +alt="O JAZIGO DE CAMILLO NA LAPA"></p> + +<p class="centrado">O JAZIGO DE CAMILLO NA LAPA</p> + +<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p> +</div> + +<p>E, ainda na sua declaração de 22 de novembro de 1886, prevenindo o<span +class="pn">{65}</span> suicidio, a recorda, pensando afflictivamente no mau +acaso de que ella o antecipe na morte!</p> +<hr class="dotted"> + +<p><small>«<em>A mãe destes dois +desgraçados,</em> escreve elle, <em>não promette +longa vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existencia até ver Anna Placido +morta infallivelmente me suicidaria. Não deixarei cahir sobre mim essa enorme +desventura, a maior, a incomprehensivel á minha grande comprehensão de +Desgraça.</em>»</small><a name="tex2html10" +href="#foot263"><sup>[10]</sup></a></p> + +<p> </p> + +<p>Assentemos, pois, para lá de todo o raciocinio, e perto, unicamente, da +vontade de Camillo, no que a seu respeito, e a proposito do destino dos seus +restos, elle, deliberadamente,<span class="pn">{66}</span> dispoz, e importa +que, em bem da sua memoria, nós todos acatemos.</p> + +<p>Eu creio que dos documentos transcriptos resulta bem expressa a violencia da +trasladação!</p> + +<p>A sua extraordinaria figura está acima do fetichismo publico que, por +capricho, intentasse a macabra canseira de lhe remexer ou espreitar a ossada. +</p> + +<p>Alem de que aos poderes publicos impende guarda-la. Isto sim, é de seu +cargo!</p> + +<p>E se, effectivamente, á consciencia nacional,—para lá do susto romantico do +enrêdo dos seus livros e do odio herdado da geração anterior contra elle, já +chegou o culto devido pelo sacrificio dos quarenta annos da sua escravidão +litteraria, aliás nelle<span class="pn">{67}</span> tão extranhamente batida de +desgraça,—não se exasperem os seus devotos que não têem pouco em que empregar +a admiração, por exprimirem todo o reconhecimento que lhe devem!</p> + +<p>Assim, por exemplo, não falando já nos monumentos a erigir-lhe—que esforço +não lhes será necessario para apartarem das escolas esses manuaes de mentira +que por lá correm—e substitui-los por livros de excerptos seus, para que +delles resulte no coração dos futuros homens o documento vivo da sua grande +alma!</p> + +<p>Esta seria, de facto, a primeira, a grande tarefa.</p> + +<p>Mas não vale a pena forçar o Tempo. Demais que o Tempo chega sempre na +altura devida!<span class="pn">{68}</span></p> + +<p>Nós, é que ás vezes, por nos darmos a impressão de que tambem governamos +fóra delle, pretendemos deslocar a sua justiça. Afinal, erro de humanos; mais +nada!</p> + +<p>Emfim, Camillo poude sempre dizer como Liszt:—tenho tempo, esperarei...</p> + +<p>Que importa, pois, que sejamos nós ou outros os que definitivamente o +sagremos?</p> + +<p>O que importa é termos a certeza de que a sua memoria venceu ha muito. De +resto, tambem o facto da sua capella, na Lapa, ser modesta, nada representa. +Deixemos os grandes mausoleos para os <em>seus brazileiros</em>; estes sim, +precisam delles.</p> + +<p>Camillo não, pois que é já tão<span class="pn">{69}</span> grande,—embora o +vejamos ainda crescer, dia a dia, na consciencia publica, que elle, mais a sua +memoria surgem bem dali, como da mais exigua brochura da sua obra.</p> + +<p>É que é de seu privilegio, como, em geral, de todos os grandes artistas, a +mesma ubiquidade milagrosa dos grandes santos.</p> + +<p>Tanto maiores são, melhor cabem em toda a parte—ainda nos mais humildes +templos...</p> + +<p> </p> + +<p><small>Ancêde, 1 de outubro de 1917.</small></p> + +<p> </p> +<p> </p> + + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot244" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Vid. «<em>O Romance +do Romancista</em>» por Alberto Pimentel.</p> + +<p><a name="foot53" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> +Vid. ob. cit.</p> + +<p><a name="foot84" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Obr. cit.</p> + +<p><a name="foot86" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> O distincto poeta snr. +Jaime Cortesão.</p> + +<p><a name="foot123" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> «O Romance do +Romancista» por Alberto Pimentel.</p> + +<p><a name="foot259" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> <small>Esta doação, +com o respectivo averbamento de acquiescencia ás suas clausulas por parte do +donatario, hoje na posse da viuva de Freitas Fortuna,—a Sra. D. Isabel Maria +da Conceição Ribeiro da Silva Santos (a quem tambem pertence o jazigo da Lapa, +onde estão os restos de Camillo)—foi pela</small> primeira vez presente a +publico, pelo jornal a <em>Republica</em>, de 29 de setembro de 1916. </p> + +<p>Por este novo documento, de par dos restantes que apresentamos, se confirma +a razão que nos assistia, quando, mezes antes, acudimos pelas cinzas de +Camillo, publicando o principal documento, agora juntamente com aquelle +reimpresso, na <em>Republica</em>.</p> + +<p><a name="foot260" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> A tal proposito +insere o <em>Diario de Noticias</em> de 8 de março do corrente anno, a seguinte +noticia: </p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">«PANTHEON NACIONAL»</p> + +<p> </p> + +<p>«O snr., ministro da guerra vae dar as ordens necessarias para se +concluirem, com a maior brevidade, as obras no edificio do antigo deposito de +fardamentos, para ser para ali transferida a oficina de manufactura de calçado +que foi provisoriamente instalada no edificio de Santa Engrancia, que por lei +foi destinado a Pantheon Nacional.</p> + +<p>«É de crer que dentro de tres mezes o snr. architecto Adães Bermudes possa +proseguir nos trabalhos de adaptação daquelle grandioso edificio ao Fim que por +lei lhe foi destinado.»</p> + +<p>Donde se prova que successivos governos, depois de decretado o afeiçoamento +do edificio de Santa Engracia a Pantheon Nacional, para ali ordenaram que fosse +installada uma industria de calçado, embora, em seu dizer, provisoriamente, +porventura até que a multidão de immortaes que se lhe destina, deixe de +precisar da installação!</p> + +<p>O que não consta, contra as previsões do <em>Diario de Noticias</em>, e +lettra do decreto, é que o snr. Adães Bermudes tenha proseguido nos tão +esperados «trabalhos de adaptação do grandioso edificio ao fim que, por lei, +lhe foi destinado...»</p> + +<p><a name="foot173" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> Em 1830 foi +transformada a Egreja de Santa Genoveva em Pantheon Nacional. Depois, em 1851, +voltou a ser egreja, até que, com a entrada de Hugo, foi, de novo +secularizada.</p> + +<p><a name="foot261" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Effectivamente, não é +facil averiguar, com precisão, o mais da trajectoria da vida de Shakespeare, e, +sobretudo, os episodios finaes da sua morte e inhumação,—ainda pelo estudo dos +quatro mil volumes que, a seu respeito, a curiosidade dos eruditos de todas as +nacionalidades accumulou. </p> + +<p>«Tentar falar ou escrever ácerca de Shakespeare, diz Lewis Theobald, é +entrar num espaçoso e magnifico edificio, por um corredor estreito e +tenebroso».</p> + +<p>O que mais delle se apura é que colheu obscuramente a sua obra da mesma +razão anonyma que o prendeu á Terra.</p> + +<p>Como, de egual arte, é assente que o homem mais querido e admirado que ainda +houve, foi tambem, até ha pouco, um dos mais maltratados:—<em>O poeta +maldito</em>—eis a maneira por que J. Richepin com a maior justeza, o indica! +(Vid. A T<small>RAVERS</small> S<small>HAKESPEARE</small>, conferences faites à +<em>l'Université des Annales</em>.)</p> + +<p>Pope, no prefacio definitivo da sexta edição do <em>in-folio</em> de 1623, +considera-o um mero cortezão da plebe.</p> + +<p>Voltaire chamou-lhe grosseiro e barbaro, «impossivel de se fazer ouvir pela +mais desprezivel gente da França ou de Italia»—em derradeira analyse, um +<em>selvagem bebado</em>!</p> + +<p>O reconhecimento publico do genio do grande tragico iniciou-o o romantismo +allemão, sobretudo pelos estudos de Lessing, Goethe, Schiller, Herder e +Schlegel. Em França, apparece pela primeira vez bem tratado nos trabalhos de +Staël e Chateaubriand.</p> + +<p>Revelado o seu genio, começaram os criticos a hesitar sobre a idoneidade do +Auctor.</p> + +<p>A muitos pareceu, de momento, pouco conforme com tão prodigiosa obra, o mais +intimo da sua historia.</p> + +<p>Sigamos nós, comtudo, este fio biographico,—tambem o mais geralmente +acceito como verdadeiro.</p> + +<p>Shakespeare nasceu em Stratford-on-Avon, em 1564, e era filho de um +negociante de lans, homem de medianos recursos e grande familia.</p> + +<p>Estudou primeiras lettras numa escola publica (<em>Grammar School</em>, +escola secundaria) da terra da sua naturalidade, onde casou, aos dezoito annos, +com Anna Hathaway, de quem teve três filhos.</p> + +<p>Foi depois para Londres, onde, successivamente, parece ter sido moço de +theatro, ponto, comediante, e mais tarde empresario, liquidando, finalmente, em +burguez, na sua terra, onde morreu em 1616, no dia em que completou 52 +annos.</p> + +<p>Eis a mais vulgar das suas biographias.</p> + +<p>Ha outras mais complicadas, e, comtudo, acceites por alguns dos devotos do +mytho shakespeariano.</p> + +<p>Segundo uns, o verdadeiro Shakespeare, teria sido lord Rutland; como, para +outros, elle foi lord Southampton, tambem havido, no consenso do maior numero, +como aquelle a quem o Poeta deveu a apresentação que o introduziu na complicada +e brutal côrte de Elisabeth.</p> + +<p>Ainda, segundo alguns, elle foi lord Pembroke; como, finalmente, para o +maior numero dos que teimaram em lhe dar uma proveniencia notavel, o proprio +chanceller Francisco Bacon!</p> + +<p>É de menos interesse e improprio ás medidas duma nota a reproducção dos +argumentos em que se firmam as differentes hypotheses; assentemos, porem, em +que nenhuma dellas vae alem de conjectura</p> + +<p>O auctor do <em>Lord Rutland est Shakespeare</em>, M. Célestin Demblon, +conclue as mais extraordinarias observações ácerca do falso Shakespeare.</p> + +<p>Assim, segundo este auctor, elle começou por seduzir a noiva, a quem só +desposou, ameaçado de morte pela familia della, e a quem empobreceu, +gastando-lhe o dote; depois foi vagabundo e engajador de soldados; fôra +salteador de estrada; e, mais tarde, protegido por lord Rutland e Southampthon, +chefe de cavalhariça, contra regra do theatro, etc.</p> + +<p>De resto, affirma ainda, elle não sabia sequer assignar o seu nome, que +emprestára a Rutland, e este fazia escrever no final das peças, e que, por +punhos diversos, apparece tambem differentemente orthographado (Shaxpere, +Shagsbere, etc.).</p> + +<p>Quer dizer, o ordinario e baixo <em>Shagsbere</em> é nem mais, nem menos do +que um personagem dos dramas de Rutland—o seu Falstaff, cynico e crapuloso, +bebado e usurario, de quem o lord usava o nome por firmar as peças, que +considerava abaixo da sua notoria prosapia!</p> + +<p>Ah! com que opportunidade, lidos estes phantasticos passos do genial «poeta +maldito», nos veem á memoria as palavras que, da sua alma, elle passou para a +bocca de Macbeth:</p> + +<p>«A vida! mas se a vida não é mais do que uma historia, contada por um tolo +furioso e que não significa coisa alguma...»</p> + +<p style="text-align:center;">*</p> + +<p>Emfim, sahimos a custo dos multiplices enredos da sua vida, pela unica porta +aberta ao mais dos criticos—a da sua Arte, instruida da sua primeira tradição, +tambem a unica verosimil.</p> + +<p>Quanto ás extravagancias possiveis e até provaveis, antes da ida definitiva +para Stratford,—mais do que o conhecimento das suas ficcionarias biographias, +nos esclarece a historia da côrte de Elisabeth, com todo o seu enredo extranho. +Jean Richepin, cujos estudos em parte resumimos, no desenvolvimento da presente +nota, não só frisa a influencia daquella côrte, na obra do Poeta, como conclue, +a proposito do seu caracter e Arte o seguinte:</p> + +<p>—«A Arte e a moralidade estão sobre dois planos differentes, dois planos +que se não confundem, em boa verdade. Que de tempos a tempos estejam de +accordo, simulando juntar-se sobre um plano unico,—eis o que pode succeder e +encantar-nos.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Mas se os dois planos se mantêm separados que fazer? Eu desejaria, de certo, +que elle (Shakespeare) tivesse sido, ao mesmo tempo, um homem honesto, o grande +artista, um bom pae, bom marido; mas, nem por isso, deixo de preferir que elle +tenha sido o contrario de tudo aquillo e nos tenha dado uma bella obra.»</p> + +<p>O que vale concluir pela necessidade de admittir Shakespeare, tal como nos +surge á primeira luz, liquidando a sua aventura dramatica pelo regresso a +Stratford, onde parece ter vivido os ultimos cinco annos, longe do theatro das +suas maiores façanhas pessoaes, como dos seus dramas—porventura viciento e +avaro, como no-lo pintam, distrahido no seu novo papel de rico, e, no entanto, +sempre, de alguma forma, lembrado das suas antigas relações e vida de scena, +como é positivo e se vê ainda do proprio testamento, em que contemplou dois +camaradas.</p> + +<p>Assim chegamos, naturalmente, e ainda guiado pela lenda, até á morte do +Poeta, na sua terra de origem, afinal tambem a mesma onde, porventura, a seu +desejo, foi inhumado e, de direito, é que descanse.</p> + +<p>Isto, mau grado as lamentações de Irving, quando, ao visitar o seu tumulo, +entre os velhos monumentos da nobreza, que o rodeiam, notava, com mágoa, o seu +desenho mais do que modesto!</p> + +<p>(Confrontem-se J. Richepin, ob. cit.; Oeuvres dramatiques de William +Shakespeare, traduction par Georges Duval; W. Irving; e Garrick.).</p> + +<p><a name="foot263" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Vid. <em>Camillo +Inédito</em> annotado.</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p class="centrado">INDICE DAS ILLUSTRAÇÕES</p> + +<p><a href="#img1">Retrato de Camillo por Antonio Carneiro</a></p> + +<p><a href="#img2">Retrato de D. Anna Augusta Placido</a></p> + +<p><a href="#img3">Ultimo retrato de Camillo feito na «União»</a></p> + +<p><a href="#img4">Busto de Camillo por Diogo de Macedo</a></p> + +<p><a href="#img5">Projecto de monumento a Camillo por Teixeira Lopes</a></p> + +<p><a href="#img6">O Jazigo de Camillo na Lapa</a></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="margin: 15%; text-indent: 0;"><em>DESTA EDIÇÃO FEZ-SE UMA TIRAGEM ESPECIAL DE QUATRO EXEMPLARES +EM PAPEL WHATMAN, NUMERADOS E RUBRICADOS PELO AUCTOR.</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="margin: 20%; text-indent: 0;">ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTE OPUSCULO AOS DOZE DIAS DO MEZ DE +NOVEMBRO DE MIL NOVECENTOS E DEZESETE, NA TYPOGRAPHIA DA «RENASCENÇA +PORTUGUESA», SITA Á RUA DOS MARTYRES DA LIBERDADE NA CIDADE DO PORTO.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">NO PRELO:</p> + +<p><em>Camillo Inédito</em> annotado, 2.º milhar.</p> + +<p><em>Fanny Owen e Camillo</em>, 2.ª edição.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS CINZAS DE CAMILLO *** + +***** This file should be named 34742-h.htm or 34742-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/7/4/34742/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/34742-h/images/img1.jpg b/34742-h/images/img1.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a24309b --- /dev/null +++ b/34742-h/images/img1.jpg diff --git a/34742-h/images/img2.jpg b/34742-h/images/img2.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..34a7230 --- /dev/null +++ b/34742-h/images/img2.jpg diff --git a/34742-h/images/img3.jpg b/34742-h/images/img3.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..95a3741 --- /dev/null +++ b/34742-h/images/img3.jpg diff --git a/34742-h/images/img4.jpg b/34742-h/images/img4.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0e0ad4c --- /dev/null +++ b/34742-h/images/img4.jpg diff --git a/34742-h/images/img5.jpg b/34742-h/images/img5.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ebcd927 --- /dev/null +++ b/34742-h/images/img5.jpg diff --git a/34742-h/images/img6.jpg b/34742-h/images/img6.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0a12803 --- /dev/null +++ b/34742-h/images/img6.jpg diff --git a/34742-h/images/logo.png b/34742-h/images/logo.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4657314 --- /dev/null +++ b/34742-h/images/logo.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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