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+Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: As Cinzas de Camillo
+
+Author: Visconde de Vila Moura
+
+Release Date: December 24, 2010 [EBook #34742]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS CINZAS DE CAMILLO ***
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+Produced by Mike Silva
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+VISCONDE DE VILLA-MOURA
+
+
+As Cinzas de Camillo
+
+
+
+
+ «Da região escura vem bater-me
+ na fronte uma aragem fria...»
+ CAMILLO.
+
+
+
+
+EDIÇÃO DA «RENASCENÇA PORTUGUESA»
+
+
+
+
+O PRODUCTO LIQUIDO DESTE OPUSCULO DESTINAR-SE-HÁ A ABRIR A SUBSCRIPÇÃO
+PUBLICA PARA UM MONUMENTO A CAMILLO NO PANTHEON.
+
+
+Direitos reservados
+
+
+
+
+AS CINZAS DE CAMILLO
+
+
+
+
+ DO AUTOR
+
+ A Moral na Religião e na Arte, 1906.
+
+ A Vida Mental Portugueza, 1909.
+
+ Vida Litteraria e Politica, 1911.
+
+ Camillo Inédito, 1913 (1.º milhar esgotado).
+
+
+ CONTOS E NOVELLAS:
+
+ Nova Sapho, 1912 (1.ª edição esgotada).
+
+ Doentes da Belleza, 1913.
+
+ Os Bohemios, 1914.
+
+
+ Antonio Nobre (1.ª edição esgotada) 1915.
+
+ Grandes de Portugal (com Antonio Carneiro), 1916.
+
+ Fialho d'Almeida, 1917.
+
+ Fanny Owen e Camillo, 1917.
+
+ As Cinzas de Camillo, 1917.
+
+
+
+
+VISCONDE DE VILLA-MOURA
+
+As Cinzas de Camillo
+
+
+(NOTAS E DOCUMENTOS)
+
+
+
+EDIÇÃO DA
+«RENASCENÇA PORTUGUESA»
+PORTO
+
+
+
+
+A
+
+NUNO PLACIDO CASTELLO BRANCO
+
+
+
+
+ «Da região escura vem bater-me
+ na fronte uma aragem fria...»
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO.
+ --_No Bom Jesus do Monte._
+
+
+
+
+Porque de novo volta a publico a idéa da trasladação de Camillo para o
+Pantheon, tambem de novo entendemos dever voltar ao assumpto, menos por
+discutir as razões daquelles que, contra a sua derradeira vontade,
+teimam em violar-lhe o jazigo, do que por esclarecer o que a tal
+respeito deixou escripto.
+
+Mas recordemos os factos. Elles são, de si, tão claros que quasi nos
+dispensam glossario.
+
+Camillo suicidou-se em 1 de junho de 1890, pelas trez horas e um quarto
+da tarde. No dia seguinte foi o caso conhecido do publico pelos
+jornaes, bem como o destino que devia ter o seu cadaver.
+
+Diz o _Correio da Manhã_, de 4 de junho:
+
+ PORTO, 2--«O grande escriptor disparou um tiro na cabeça ás 3 horas
+ e um quarto da tarde. Caiu logo em estado comatoso, e ás 5 horas
+ succumbiu. O medico Ferreira, de Santo Thirso, afirma que a bala
+ fôra quasi até á extremidade do lado opposto.»
+
+E em nota solta:
+
+
+ «Camillo pedira em tempo a Freitas Fortuna para ser enterrado no
+ jazigo delle, chegando até a entregar-lhe um documento redigido
+ neste sentido.»[1]
+
+De facto, no comboio do Minho das 6 horas da tarde do dia 3, chegava ao
+Porto o cadaver do Romancista, acompanhado por Freitas Fortuna, desde
+Famalicão, esperando-o na gare, «quando muito cem pessoas», informa o
+_Correio da Manhã_, e entre ellas Alves Mendes, Sebastião Leite de
+Vasconcellos e o editor Costa Santos. De resto, o ataúde seguiu para a
+Lapa, mal coberto por cinco coroas de flores artificiaes e sempre
+acompanhado por Freitas Fortuna, por Espinho, pelo creado Manuel, mais a
+cauda de dezoito carruagens arrastando a praga dos reporteres.
+
+Alem de Alves Mendes, não comparecera mais um unico escriptor ou
+artista, informa ainda o mesmo jornal!
+
+É que mettera medo o baque da sua queda, senão o gesso que de si restava
+e a que a alludida folha se refere da maneira seguinte:
+
+ A CAMARA ARDENTE--O MORTO.
+
+ «A vasta sala, despida de sanefas e de espelhos, com o cadaver sobre
+ um panno, ao meio, tinha uma solemnidade lugubre que a assemelhava a
+ um templo vasio: o choro da esposa e o crepitar das luzes eram os
+ unicos sons que interrompiam a funebre quietação do aposento.
+
+ No seu fato escuro--_pardessus_ usado, _frak_ e calça preta da mesma
+ fazenda, costume que vestia quando se suicidou--tons roxeados a
+ cercar-lhe as narinas e os olhos, o seu perfil macerado, fortemente
+ vincado de rugas, o farto bigode cahindo-lhe lasso, na bocca esse
+ extranho _rictus_ que parece dar ao cadaver um riso de mofa,--o
+ supremo escarneo da morte á vida. Lá estava elle sereno como um
+ adormecido, os pés salientes, a cabelleira negra e comprida, as mãos
+ finas cruzadas sobre o peito, o morto, mal illuminado pelo clarão de
+ duas velas, parecia seguir com os olhos mal cerrados a dôr da
+ viscondessa que aos pés do seu ultimo leito, abysmada na oração,
+ velava sósinha.»[2]
+
+Entretanto, Freitas Fortuna, longe de enjeitar o legado dos seus restos,
+logo fez valer junto da familia de Camillo as declarações em seu poder,
+e sobre as quaes tambem, immediatamente, todos os interessados
+concordaram, soccorrendo-as com dois novos documentos, ou tenha sido com
+o _auto da sua doação, assignado por D. Anna Augusta Placido e
+Visconde de S. Miguel de Seide_; e com a _declaração do legatario,
+acceitando aquelle deposito no seu jazigo da Lapa, com o encargo de ahi
+o conservar perpetuamente_.
+
+Mas reproduzamos, na integra, e, por sua ordem, os preciosos documentos.
+
+
+A primeira carta de Camillo sobre o assumpto:
+
+
+ «Exmo. Freitas Fortuna, meu querido amigo.
+
+ Revalido, por esta carta, o que lhe propuz com referencia ao meu
+ cadaver e ao seu jazigo no cemiterio da Lapa.
+
+ Desejo ser ali sepultado e que nenhuma força ou consideração o
+ demova de me conservar as cinzas perpetuamente na sua capella.
+
+ É natural que ninguem lhe dispute a posse dessas cinzas; receio,
+ porem, que seja ainda uma fatalidade posthuma que se compraza em
+ impor a violencia até aos meus restos.
+
+ Dê o meu amigo a estas linhas a validade de uma clausula
+ testamentaria, e, sendo preciso, faça que ella valha em juizo.
+
+ Abraça-o com extremado affecto e inexprimivel gratidão o seu
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO.
+
+ Porto, 6 de abril de 1888.
+
+Esta carta foi pela primeira vez patente ao publico no jornal _O
+Seculo_, em 4 de julho de 1914, onde nós a publicamos para evitar
+que fosse por diante a trasladação dos restos do Escriptor para Belem,
+que um grupo de parlamentares, a que presidia o illustre professor sr.
+Carvalho Mourão, devotadissimo admirador de Camillo--tencionava, ainda
+contra a má vontade de uma parte da Camara, que, diga-se de passagem,
+vergonhosamente, e sem conhecimento deste e demais documentos, logo se
+deu a objectar _innocentes_ escusas, á conta duma tal jornada.
+
+Muito antes, e incidentemente, nos veio á mão aquelle documento, quando
+também nós--(que, ao tempo não tinhamos sequer presente a segunda carta
+de Camillo a Freitas Fortuna, sobre o assumpto, aliás desde muito
+publicada--)[3] nos propunhamos insistir e collaborar com
+todos aquelles que, seriamente, e bem de alma, se dessem a promover ou
+dispor a trasladação, que já então, valha a verdade, consideravamos
+menos como homenagem necessaria á sua memoria, do que como solução de
+direito, que não de obsequio, ao repouso definitivo das suas cinzas.
+
+Aprestara-se-nos o ensejo de ver realisadas as nossas esperanças, de par
+das dos maiores admiradores de Camillo--Silva Pinto, Senna Freitas e
+Ricardo Jorge, no melhor numero--quando, a proposito da deliberação da
+Camara do Porto e «Renascença Portuguesa» que, por si, e
+independentemente da discussão tragico-burlesca dos parlamentos, se
+propunham levar a cabo uma tal idéa,--nós fomos solicitado a ouvir dos
+representantes de Camillo a sua opinião a tal respeito, isto é, a
+consulta-los sobre se auctorizariam ou não o levantamento dos restos do
+Escriptor do seu jazigo na Lapa.
+
+É claro, que interferi no caso particularmente, e só por acquiescer ás
+solicitações dum illustre membro da Camara do Porto, tambem, ao tempo,
+do corpo dirigente da «Renascença Portuguesa», sociedade literaria com
+séde na mesma cidade[4], e que para aquelle effeito se me
+dirigiu, bem por certo por mera razão da minha idoneidade como
+incondicional admirador do Romancista, mais pelo conhecimento que
+porventura tivera das minhas opiniões a tal respeito, desde muito,
+expressas.
+
+Ora foi a tal proposito que, conjunctamente com a resposta de Nuno
+Placido Castello Branco, eu recebi a copia daquella carta, pelo punho do
+Visconde de S. Miguel de Seide, com a ordem de a publicar
+opportunamente, e como instrucção do juizo que porventura seguissemos,
+no caso da consulta que, por sua vez, elle devolvia para que sobre ella
+as Corporações interessadas resolvessem.
+
+É claro que, á face de tão obrigante documento, a sua opinião parece
+ter sido uma:--nunca mais aquellas corporações pensaram na trasladação.
+E dahi tambem o silencio, feito á volta do caso, até ao momento em que
+alguns deputados, aliás no melhor empenho,--o mesmo que a Camara do
+Porto e a «Renascença Portugueza» tinham tido--deliberaram voltar ao
+assumpto.
+
+Foi então, repetimos, que, pela primeira vez, entendemos de nosso dever
+publicar aquella carta, como elucidação aos promotores da inopportuna
+homenagem, e tão cabida ella foi que logo, avisadamente, aquelles
+desistiram do seu intento, transferindo as importancias destinadas á sua
+despeza para o levantamento de um monumento, infelizmente já bem
+tardio, a Camillo.
+
+
+Entretanto, pois que, desde que se tornou inopportuna, por não dizer
+impertinente, a trasladação, parece ter crescido o numero dos devotos de
+tal idéa--vamos nós, hoje, que estamos de posse de todos os documentos,
+ver o que, á face delles, aquella vale.
+
+Mas antes, e por melhor firmar opinião, sigamos no traslado dos
+documentos que ao assumpto se referem. Tornar-se-á mais facil de ver
+depois, e a melhor luz, até onde vae a teimosia dos sectarios duma idéa
+hoje indelicada, (e que maior crime pode cometter-se para com os mortos
+do que o da indelicadeza?--) que não sectarios da melindrosa memoria
+do Escriptor.
+
+
+Eis a segunda carta de Camillo a Freitas Fortuna:
+
+ «Meu presado Freitas Fortuna.
+
+ Começo a experimentar uma especie de affecto posthumo ao meu
+ cadáver.
+
+ Tão pouco me apreciei na vida, tão pouco cabedal fiz da minha saude,
+ que já agora me quer parecer, que este amor ao que nada vale é
+ retribuição devida a esta materia, que me ha-de sobreviver alguns
+ annos aviventada pela engrenagem de putrefacção.
+
+ Deste affecto extraordinario, mas não excepcional, resultou
+ dizer-lhe eu, meu querido amigo, quer falando, quer escrevendo, que
+ aspirava fervorosamente a ser sepultado no seu jazigo da Lapa.
+
+ E bem certo que, para além da campa, ha o que quer que seja que
+ ainda nos prende ás coisas mortaes. Sei que no seu jazigo dormem o
+ somno infinito seus extremosos progenitores.
+
+ Ambos conheci na flor da vida, no esplendor da honra, nas luctas do
+ trabalho e na pujança da alegria e da felicidade.
+
+ Ambos morreram no vigor dos annos, se podem considerar-se mortas
+ _duas imagens sagradas_ que renascem na alma dum filho ao fogo da sua
+ saudade, com o seu respeito filial, com as suas lagrimas represadas,
+ e que os annos ainda não poderam crystallizar em glacial
+ indifferença.
+
+ Volvido um longo praso as cinzas do meu querido Freitas irão aos
+ braços já cinzas tambem de seus _paes_ estremecidos.
+
+ Se a morte tivesse expressão que não fosse aquelle mudo terror de um
+ gesto que ao mesmo tempo anniquilla e grava o eterno estigma do
+ silencio nos labios gelidos, só ella poderia dar-nos a sombra
+ horrida e que o seu esquife baixar á perpetua união com os
+ cinerarios de seus _paes_. E eu, a essa hora, estarei á beira delles
+ como testemunha silenciosa das compungidas lagrimas que lhe vi na
+ face quando o coração lhas dava repassadas duma santa saudade.
+
+ Não sei se esta chimera, que vagueia na região tenebrosa e na crypta
+ dos mortos amados e chorados, foi a despertadora vontade que me
+ domina ha anno e meio de ser enterrado no seu jazigo.
+
+ O meu querido Freitas Fortuna acceitou com ternura a offerta do meu
+ cadaver, e d'essa arte, permittindo que eu fizesse parte da sua
+ familia extincta, quiz continuar alem da vida a tarefa sacratissima
+ da sua dedicação incomparavel. Bem haja, e adeus.
+
+ Bemfica, 15 de julho de 1889.»
+
+ Seu do coração,
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO.[5]
+
+Esta carta foi a primeira que sobre o assumpto veio a publico, tendo
+sido impressa no _Jornal da Manhã_, de 3 de junho de 1890, ou tenha sido
+na vespera do dia da entrada do cadaver de Camillo no mausoléo-Fortuna.
+
+Comprehende-se que, a despeito do seu texto, os admiradores do
+Romancista pretendessem ainda o seu ingresso no Pantheon, porquanto não
+é aquella bem frisante e incondicional, como a primeira a que se refere,
+e que, durante tantos annos, foi geralmente ignorada.
+
+Entretanto, que de ambas as cartas os interessados mais proximos,
+(referimo-nos á Familia-Fortuna e á de Camillo) tinham pleno
+conhecimento, prova-o não só a circumstancia de immediatamente
+fazerem seguir para o cemiterio da Lapa o cadaver do Romancista, mas,
+ainda mais, o facto de quasi logo as duas partes interessadas se
+mutuarem as mais claras obrigações não só para garantirem, como por
+tornarem effectivo, perpetuamente, aquelle deposito.
+
+É do teor seguinte o auto de doação do cadaver de Camillo:
+
+ «Os abaixo assignados, D. Anna Augusta Placido (Viscondessa de
+ Correia Botelho) viuva, e Nuno Castello Branco (Visconde de S.
+ Miguel de Seide) vimos na qualidade de esposa e filho do falecido
+ sr. Camillo Castello Branco (Visconde de Correia Botelho), ambos
+ residentes na freguesia de S. Miguel de Seide, do concelho de Villa
+ Nova de Famalicão, no districto de Braga, querendo cumprir as
+ determinações de seu amado esposo e pai, que manifestou a expressa
+ vontade de ser sepultado no cemiterio da Real Irmandade de N.
+ Senhora da Lapa (na cidade do Porto), no jazigo da familia do seu
+ dedicado amigo João Antonio de Freitas Fortuna, a quem por escripto
+ estipulou, «que nenhuma força ou consideração o demova de
+ conservar-lhe as cinzas, perpetuamente na sua capella»--; os abaixo
+ assignados revalidam por este acto a entrega e doação que fizeram do
+ cadaver do seu querido esposo e pae ao referido João Antonio de
+ Freitas Fortuna, residente na rua de Cedofeita n.º 986, da cidade do
+ Porto, que o recebeu e acceitou com o encargo de o conservar
+ perpetuamente na sepultura numero um do referido jazigo de sua
+ familia, onde está, e onde deve estar _ad perpetuam_. E por isto
+ conferem ao indicado João Antonio de Freitas Fortuna, e aos seus
+ representantes, que atravez dos tempos possam vir, e forem os
+ legitimos possuidores da referida capella, todos os poderes em
+ direito necessarios, sem exclusão alguma, e com a faculdade de
+ substabelecerem, para que nunca, e sob qualquer pretexto que seja,
+ possa ser retirado da indicada sepultura perpetua em que jaz o
+ cadaver do sr. Camillo Castello Branco, porque tal foi a sua
+ expressa vontade dele, assim como é a dos abaixo assignados, que a
+ fazem boa e querem que seja sempre cumprida como disposição
+ testamentaria para o que por este titulo de doação onerosa desistem
+ de todos os seus direitos ao referido cadaver e outorgam sem reserva
+ alguma a João Antonio de Freitas Fortuna e a seus legitimos
+ representantes na posse do referido jazigo, a fim de que possam
+ cumprir as condições estipuladas aqui, e para realizarem todos os
+ actos indispensaveis ao integral cumprimento da expressa vontade de
+ seu amado esposo e pae, que respeitam e cumprem, como querem que os
+ seus successores ou futuros representantes a cumpram e respeitem. E
+ por esta ser verdade, passam este acto de doação, que eu, Nuno
+ Castello Branco, escrevo e que assignam com as testemunhas Francisco
+ Correia de Carvalho, casado, proprietario da freguezia de S. Paio de
+ Seide e Antonio Vaz Vieira de Napoles, solteiro da cidade de
+ Guimarães. S. Miguel de Seide, 10 de Junho de 1890, e
+ noventa.--(Ass.) _Anna Augusta Placido, Viscondessa de Correia
+ Botelho; Nuno Castello Branco, Visconde de S. Miguel de Seide;
+ Francisco Correia de Carvalho e Antonio Vaz Vieira de Napoles._
+
+ (Segue-se o reconhecimento das assignaturas por João Bernardo
+ Correia do Amaral, em 10 de junho de 1890).
+
+Acceitação da doação anterior, averbada por Freitas Fortuna naquelle
+documento:
+
+ Eu, João Antonio de Freitas Fortuna, abaixo assignado, casado e
+ residente na rua de Cedofeita, n.º 986 da cidade do Porto, cumprindo
+ o disposto no art. 1466 do Codigo Civil portuguez, averbo neste
+ documento a acceitação do cadaver do meu presado amigo o sr. Camillo
+ Castello Branco (Visconde de Correia Botelho) e que me foi doado e
+ entregue, e que eu aceitei com o encargo de o conservar
+ perpetuamente na sepultura numero um do jazigo de minha familia,
+ onde jaz, no cemiterio da Real Irmandade de N. Senhora da Lapa, e
+ sob a condição de que nunca, e sob qualquer pretexto que seja, os
+ descendentes de meu bom pai ou usufructuarios do indicado jazigo o
+ tirem da referida sepultura ou consintam que o retirem, como se
+ expoz no auto de doação supra que fez a Exma. Sra. Viscondessa de
+ Correia Botelho e Exmo. Sr. Visconde de S. Miguel de Seide, esposa e
+ filho do meu falecido amigo. E por ser verdade o referido aqui,
+ escrevo nesta doação a respectiva acceitação, que assigno perante o
+ tabellião e as testemunhas, o sr. Domingos Joaquim Machado, casado,
+ negociante e morador na rua de Oliveira Monteiro e o sr. Albino
+ Pinto dos Santos, solteiro, caixeiro e residente na rua Chã, ambos
+ n'esta cidade do Porto.
+
+ Porto, 16 de junho de 1890 e noventa. (Ass.) _J. A. de Freitas
+ Fortuna, Domingos Joaquim Machado e Albino Pinto dos Santos_[6].
+
+
+ (Reconhecimento feito pelo tabellião Edmundo Maia Campos Silva).
+
+Eis os documentos. Vejamos, em seguida, o mais dos imaginaveis
+argumentos a oppor-lhes, por concluir, de vez, pelo seu nenhum valor.
+
+Em primeiro logar, tem-se affirmado que ao Estado pertence escolher a
+forma e o logar destinados a melhor consagrar os mortos.
+
+O que vale dizer que os restos dum homem illustre são para o Estado,
+como para os que assim pensam, menos do que os da gente humilde que,
+alem daquelle, tem por si o direito de escolher o logar do seu
+definitivo repouso.
+
+Ora eu não sei até que ponto se tem avançado em materia de regalias
+publicas, a ponto de chegarmos, pelo _controle_ do Estado--a possuir
+tudo, caminhando da liberdade do homem á escravidão dos seus restos!
+
+O que se conclue é que a doutrina corrente é, mais ou menos, a
+seguinte:--ha um Pantheon, e é preciso colleccionar ali todos os
+notaveis, ainda que, como no caso de Camillo, elle tenha repugnado aos
+escolhidos.
+
+Dest'arte, se volve afinal o Pantheon num forçado museu de ossos, por
+não dizer num extravagante collegio de memorias, para onde os mais
+notaveis esqueletos terão fatalmente de ser conduzidos, e, se preciso
+for, expropriados, em razão da propria utilidade da sua gloria!
+
+Ainda mais:--para os que de tal maneira pensam, os grandes homens não
+ficariam devidamente venerados fóra do recinto que o Estado lhes confere!
+
+Nisto, a nosso ver, o erro.
+
+É uma scisma quasi grosseira, embora vulgar, suppor que os outros têem
+valor sómente quando lho concedamos, ou, melhor, quando, ostensivamente,
+lho memoremos!
+
+Quando, pelo contrario, o seu valor está unicamente com elles e com a
+sua obra, para alem de todas as honras e premios officiaes que se lhes
+decrete.
+
+E, assim, quem curará ámanhã de saber, por aferir do valor de Camillo,
+se elle pertenceu ou não ás Academias da sua terra?
+
+De egual arte, tambem os seus ossos não crescem pelo facto de de lhos
+semearmos nos Jeronymos, ou no casarão de Santa Engracia, embora natural
+fosse que para qualquer dos dois monumentos a Nação os conduzisse, se,
+melhor e mais correctamente, lhe não pertencesse zelar a sua derradeira
+vontade.
+
+Mais. Entre nós, nem sequer ha ainda senão uma indicação de Pantheon. Os
+Jeronymos são abrigo casual dos grandes, poucos, que ali repousam. De
+resto o futuro Pantheon de Portugal será o sempre novo e já lendario
+templo de Santa Engracia!
+
+Porque foi para ahi que a primeira assembléa do regimen mandou que a
+Nação os fizesse conduzir, de par de outros que o tempo fosse
+glorificando[7].
+
+O Pantheon de S. Vicente, privilegio da Casa de Bragança, está cheio a
+tal ponto, que do exame das suas arcas, a esmo ahi postas, mais dá ao
+visitante a idéa dum casual deposito de mortos desarrumados, do que dum
+templo de sua sagração.
+
+Sob a nave, cheia de sombras do intimo podredoiro, entre velludos, mais
+um montão de corôas e galões velhos, descansam os reis assassinados,
+cujas figuras começam de desapparecer na nevoa que lhes tolda o crystal
+dos caixões, cerrando-os, providencialmente, ao espectaculo da sua
+decomposição em publico.
+
+Tem um ar de pateo lugubre a extranha galeria, cujos silencios são para
+o espectador como que compassos do grande carnaval historico a seguir, e
+que as duas sombras-phantasmas dos ultimos reis parecem ainda reflectir
+do gesso mysterioso das suas torturadas mascaras emblematicas.
+
+A um canto repousa D. Pedro II, tão impresso da sua urna que esta se lhe
+ajusta como um caixilho, donde, distante e bolorenta, surde, agora,
+serena, a sua face larga, formando o todo como que uma reproducção
+daguerreotypica dos seus derradeiros e infelizes annos de exilado!
+
+Ali espera, desde muito, a guia de marcha para o Brazil, onde, de facto,
+sempre lhe quedou a alma.
+
+De resto, mais nada ha que sirva a marcar verdadeira piedade, ou
+grandeza; tudo ahi inculca o entrudo lugubre das ultimas cerimonias e
+honras officiaes, hoje tambem, no geral, negadas ou podres, como o mais
+das flores e presentes funerarios que, ao acaso, ahi restam.
+
+Afinal um lixo caro, tudo o que para ali juntaram á volta das urnas do
+mesquinho Pantheon real!
+
+E, entretanto,--ver-se-há mais tarde, e á razão duma melhor verdade--ahi
+velam algumas das maiores memorias que Portugal tem tido, mau grado a
+herança que as assombra.
+
+
+Effectivamente, ha entre nós alguns monumentos funerarios de
+indiscutivel valor, mas esses não estão em S. Vicente.
+
+Estão em Santa Cruz de Coimbra, nos Jeronymos, em Alcobaça, na
+Batalha,--emfim espalhados por toda a parte onde uma disposição de
+ultima vontade, senão a propria devoção dos povos, os fez erigir, nunca
+pela idéa dum publico dormitorio de mortos, adrede obrigado a officiosas
+memorias.
+
+É ver o que se passou com Garrett que, apesar de ter acautelado o seu
+natural e carinhoso desejo de repousar no cemiterio de S. João, ao lado
+de seus filhos, foi primeiramente sepultado nos _Prazeres_ e, depois,
+dahi, transferido para Belem!
+
+O que significa, a nosso ver, nunca um precedente a seguir, mas,
+pelo contrario, uma lamentavel indelicadeza da parte da Nação que para
+ali o trasladou, sem que ao menos reflectisse na maneira por que seria
+não só justo, mas até naturalissimo faze-lo!
+
+Porque, no presente caso, era bem facil conciliar o desejo dos
+admiradores do dramaturgo com a vontade por elle expressa.
+
+Bastava ver do seu intento, no documento a que alludimos e donde
+resulta, bem patente, a unica razão daquelle seu desejo.
+
+De facto, o que se vê da carta de Garrett a D. Jeronyma Deville,
+publicada por Francisco Gomes de Amorim, e em que se exprime a indicação
+do seu jazigo no cemiterio de S. João--é sobretudo o proposito, ali
+bem declarado, de repousar junto de seus filhos.
+
+Ora, se a Nação tinha de sua vontade transferi-lo para os Jeronymos--de
+seu dever tinha tambem faze-lo acompanhar dos restos daquelles; e, desta
+forma, o seu preito seria, bem de certo, maior; e, alem de tudo, não
+revestiria a indelicadeza que assim foi.
+
+Mais: visto que são necessarios exemplos, sirva-nos ainda, de norma o
+que de justo se tem resolvido, lá fóra, em casos semelhantes, e
+sobretudo em França, que de seu brio tem quasi sempre casar ao proposito
+do seu agradecimento publico para com os grandes vultos nacionaes a
+maior attenção, e, mais ainda, o maior melindre de delicadeza para
+com os seus designios, quando não com os seus caprichos.
+
+Por uma razão equivalente áquella que consta da carta de Garrett está no
+Pantheon madame Zola, junto de Zola; e madame Berthelot, junto de
+Berthelot, mortos no mesmo dia.
+
+Isto, sim; é simples e é delicado. E, comtudo, não consta que por tal
+motivo tenha havido desavença entre os grandes ali memorados.
+
+Pelo contrario, Balzac, talvez por negligencia, senão por odio da mesma
+burguezia que tão desapiedadamente elle escalpellou,--está na
+Père-Lachaise!
+
+E, no entanto, quem o julga menor por isso?
+
+Onde quer que seja, dalgum modo continuará a rir; e, se nesse mundo
+que fica para alem do que elle foi, ha logar para reflexões á sua Obra,
+o mais que lhe acudirá é, decerto, a sua mesma approvação plena por tudo
+quanto escreveu, ou seja a consciencia do acerto com que traçou o perfil
+moral dos que, de momento, lhe são obstaculo á porta do Pantheon!
+
+E dahi, quem sabe? Talvez que ainda um motivo de valor explique a sua
+estada no Père-Lachaise, que, effectivamente, para o caso, não significa
+menos que o templo de Santa Genoveva!
+
+Porque, repetimos, é inferior aferir da grandeza dum artista, pela
+estima do logar onde elle repousa.
+
+Em França, ha casos de escrupulo, no genero, por vezes,
+extraordinarios! Assim, em 1885, foi profanada a Egreja de Santa
+Genoveva, unicamente para que nella entrasse Victor Hugo![8]
+
+E, contrariamente, por motivo da confissão catolica de Pasteur, não foi
+este para aquelle templo, mas para o seu proprio Instituto, onde jaz
+guardado em capella propria.
+
+Ahi está a maneira correcta de proceder para com um dos maiores da raça
+latina, e a quem, a França dispensou da _prova_ do Pantheon!
+
+Também, quando da morte de John Ruskin, um dos grandes artistas
+inglezes do seculo XIX, estylista tão singularmente notavel, como um dos
+mais eloquentes escriptores da Natureza, a Inglaterra offereceu a sua
+familia o logar que, para elle, a Nação tinha reservado em Westminster.
+Pois a familia, recusando um tal offerecimento, bem decerto em attenção
+á ultima vontade do Artista, preferiu sepulta-lo na aldeia de Coniston,
+perto da escola das creanças do povoado, para quem tambem elle, no dizer
+de Robert de la Sizeranne, havia composto os seus canticos.
+
+«A sua morte, informa este publicista, que teve logar a 20 de janeiro de
+1900, entre os rochedos e os bosques de Brantwood, á beira dum dos mais
+bellos lagos da Inglaterra, foi o fim proprio da sua vida: em
+perfeita simplicidade e em discreta belleza. Elle não teve junto de si
+mais do que dois ou tres de seus discipulos e alguns camponezes. O
+offerecimento de um tumulo em Westminster, a maior honra que a nação
+ingleza pode tributar a um seu filho, foi recusada por sua familia; e,
+na celebre Abbadia real, coisa alguma recorda Ruskin, a não ser o seu
+medalhão, em bronze, collocado no _Pantheon dos Poetas_, ao lado do
+busto de Walter Scott.»
+
+
+Finalmente, acaso Shakespeare, está em Westminster?
+
+Não está; ahi figura elle, simplesmente, em monumento, cercado
+doutros marmores, porventura espalhados á sua roda, como que a
+marcar-lhe o Tempo.
+
+Elle? quem sabe! talvez, unicamente, a sombra falsa do seu nome, mais o
+resto da sua lenda[9].
+
+
+Presumivelmente jaz em Stratford, no côro de uma velha Egreja gothica,
+perto de um rio escuro, o Avon, e, como que, ao acaso, guardado pela
+esguia escolta das suas arvores.
+
+Indica-o ao viajante, mais do que o monumento, ultimamente ali
+levantado, uma pedra que mal sobresai da parede, com uma
+quadra-aviso, que geralmente lhe é attribuida.
+
+É uma quadra curiosa, que vale a pena ler e, por desventura, esqueceu
+lavrar na sepultura de Camillo, onde, já agora, se torna necessario
+esculpir a clausula testamentaria do Romancista ácerca da sua sepultura.
+
+Eis a quadra:
+
+ «Good friend, for Jesus'sake, forbear,
+ To dig the dust enclosed here.
+ Blessed be he that spares these stones,
+ And curst be he that moves my bones.»
+
+ «_E amaldiçoado seja o que revolver os meus ossos_»! gritou
+Shakespeare, ou a tradição por si.
+
+E tal defeza bastou a que jámais se destampasse o mysterioso jazigo!
+
+
+Emfim, pois que eram precisos exemplos, ahi ficam os maiores, a que
+poderiamos juntar outros, da regeição de Pantheons--sem que os paizes a
+que aquelles notaveis pertenceram, descessem, algum dia, a obrigar as
+suas memorias a um pariato de cinzas que, por clausula testamentaria, ou
+circumstancias casuaes, podesse tomar-se como violencia.
+
+E, entretanto, jámais a França ou a Inglaterra renegaram do culto quasi
+fanatico em que têem os seus _immortaes_; e, sobretudo, aquelles que por
+si bastariam a affirmar, mais do que o prestigio dos seus paizes--o
+valor das respectivas raças.
+
+
+Derivando daquelles casos, ou antes apprendendo da attitude de taes
+nacionalidades,--se assim é preciso!--ahi temos, naturalmente, indicado
+o que ao Estado, ou melhor ao povo portuguez,--pertence resolver, ácerca
+de Camillo, e sempre de accordo com a sua memoria.
+
+Levante o Povo portuguez, (ponhamos sempre de parte, em questão de
+preito a artistas, os _representativos_!)--uma estatua a marcar, de
+direito, nos Jeronymos, o logar que, de facto, elle não quiz occupar, á
+maneira do que se fez em Westminster para o grande tragico de Stratford,
+e deixemos que os seus restos descansem na Lapa!
+
+Tambem nós, repetimos, emquanto nos foi desconhecido o mais da
+documentação acima expressa, pugnámos pelo seu ingresso nos Jeronymos.
+
+Como de egual arte,--lembrando a pagina, por certo, mais dolorosa da
+vida litteraria de Camillo--uma das que abrem a _Correspondencia
+epistolar_ entre o Romancista e Vieira de Castro, e onde aquelle allude
+a D. Anna Placido, contrahindo para com ella, publicamente, o voto das
+suas inhumações em commum jazigo--eu me recordára de quanto seria
+natural e proprio á memoria das suas conjunctas tragedias a approximação
+da que lhe fôra companheira e suave cumplice!
+
+Esta pagina é a mesma em que responde a Vieira de Castro, quando este,
+numa explosão de amizade, lhe denunciou o que os seus inimigos, ao
+tempo, propalavam para melhor o ferirem.
+
+Formára-se uma atmosphera de malquerença contra Camillo, e, como sempre
+em taes casos, a má vontade dos seus inimigos deu-se a jogar com um
+abjecto romance, adrede disposto a pôr de seu lado a chamada moral
+burgueza--ou seja o estalão mais infame que ainda se inventou para
+avaliar sensibilidades!
+
+Então, a tal proposito lhe contou Vieira de Castro o que, a seu
+respeito, se espalhára pelas praças, e, por sua vez, elle reproduz da
+maneira seguinte:
+
+--«Que eu, confidente e depositario das cartas que uma senhora casada
+escrevera a um homem ausente, ameaçára essa senhora de revelar ao marido
+a culpa indicada nas cartas, se ella continuasse a repellir-me; e
+que a senhora ameaçada, aceitando metade da minha infamia transigira com
+a proposta».
+
+
+Ora a tal ensejo escreveu Camillo aquella pagina, que, já agora,
+reproduziremos, na parte final, aliás menos como seu desaggravo--por
+desnecessario, do que por ver o que, ao tempo, pensava do natural
+destino das suas cinzas:
+
+
+«Meus amigos e meus inimigos! se, por violencias de uma paixão brutal,
+exacerbada pela embriaguez, eu resvalasse á infamia de forçar a
+resistencia da derradeira mulher na escala das perdidas--Deus sabe quem
+são as perdidas!--; ao despertar desse infernal aturdimento com a
+consciencia do meu crime, matar-me-hia com asco de mim proprio.
+
+No regaço dessa senhora, tão cruelmente aviltada, tenho dous filhos. É
+para meus filhos que eu escrevo esta pagina que me pareceu até hoje
+impossivel.
+
+Receio que elles ainda tenham de ver a serpente da calumnia a rojar-se
+na sepultura de seu pae. Sinto-me no cabo da vida; e tenho maior pejo da
+posteridade que dos meus contemporaneos. Quero que estas crianças saibam
+deste livro que o pregão affrontoso aos calumniadores foi escripto
+quando ainda viviam as pessoas que podiam desmentir-m'o.
+
+_No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe_--esta levantada
+alma que ainda não verteu uma lagrima na voragem que lhe devorou os
+respeitos do mundo, e a perfida riqueza com que seus perdoaveis paes a
+violentaram sem dó de sua innocencia e formosura dos dezoito annos».
+
+
+_No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe!_
+
+Ahi está o que me seduzia a pugnar pela approximação das duas urnas.
+
+Afinal, parece que a mesma fatalidade que os reuniu, os dispersou!
+
+Nas cartas finaes de Camillo a Freitas Fortuna, ácerca das suas cinzas,
+ha uma allusão unica a D. Anna Placido.
+
+E, ainda na sua declaração de 22 de novembro de 1886, prevenindo o
+suicidio, a recorda, pensando afflictivamente no mau acaso de que ella o
+antecipe na morte!
+
+......................................................................
+
+ «_A mãe destes dois desgraçados,_ escreve elle, _não promette longa
+ vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existencia até ver Anna
+ Placido morta infallivelmente me suicidaria. Não deixarei cahir
+ sobre mim essa enorme desventura, a maior, a incomprehensivel á
+ minha grande comprehensão de Desgraça._»[10]
+
+Assentemos, pois, para lá de todo o raciocinio, e perto, unicamente, da
+vontade de Camillo, no que a seu respeito, e a proposito do destino dos
+seus restos, elle, deliberadamente, dispoz, e importa que, em bem da
+sua memoria, nós todos acatemos.
+
+Eu creio que dos documentos transcriptos resulta bem expressa a
+violencia da trasladação!
+
+A sua extraordinaria figura está acima do fetichismo publico que, por
+capricho, intentasse a macabra canseira de lhe remexer ou espreitar a
+ossada.
+
+Alem de que aos poderes publicos impende guarda-la. Isto sim, é de seu
+cargo!
+
+E se, effectivamente, á consciencia nacional,--para lá do susto
+romantico do enrêdo dos seus livros e do odio herdado da geração
+anterior contra elle, já chegou o culto devido pelo sacrificio dos
+quarenta annos da sua escravidão litteraria, aliás nelle tão
+extranhamente batida de desgraça,--não se exasperem os seus devotos que
+não têem pouco em que empregar a admiração, por exprimirem todo o
+reconhecimento que lhe devem!
+
+Assim, por exemplo, não falando já nos monumentos a erigir-lhe--que
+esforço não lhes será necessario para apartarem das escolas esses
+manuaes de mentira que por lá correm--e substitui-los por livros de
+excerptos seus, para que delles resulte no coração dos futuros homens o
+documento vivo da sua grande alma!
+
+Esta seria, de facto, a primeira, a grande tarefa.
+
+Mas não vale a pena forçar o Tempo. Demais que o Tempo chega sempre na
+altura devida!
+
+Nós, é que ás vezes, por nos darmos a impressão de que tambem governamos
+fóra delle, pretendemos deslocar a sua justiça. Afinal, erro de humanos;
+mais nada!
+
+Emfim, Camillo poude sempre dizer como Liszt:--tenho tempo, esperarei...
+
+Que importa, pois, que sejamos nós ou outros os que definitivamente o
+sagremos?
+
+O que importa é termos a certeza de que a sua memoria venceu ha muito.
+De resto, tambem o facto da sua capella, na Lapa, ser modesta, nada
+representa. Deixemos os grandes mausoleos para os _seus brazileiros_;
+estes sim, precisam delles.
+
+Camillo não, pois que é já tão grande,--embora o vejamos ainda
+crescer, dia a dia, na consciencia publica, que elle, mais a sua memoria
+surgem bem dali, como da mais exigua brochura da sua obra.
+
+É que é de seu privilegio, como, em geral, de todos os grandes artistas,
+a mesma ubiquidade milagrosa dos grandes santos.
+
+Tanto maiores são, melhor cabem em toda a parte--ainda nos mais humildes
+templos...
+
+
+Ancêde, 1 de outubro de 1917.
+
+
+
+
+ [1] Vid. «_O Romance do Romancista_» por Alberto Pimentel.
+
+ [2] Vid. ob. cit.
+
+ [3] Obr. cit.
+
+ [4] O distincto poeta snr. Jaime Cortesão.
+
+ [5] «O Romance do Romancista» por Alberto Pimentel.
+
+ [6] Esta doação, com o respectivo averbamento de acquiescencia ás
+ suas clausulas por parte do donatario, hoje na posse da viuva de
+ Freitas Fortuna,--a Sra. D. Isabel Maria da Conceição Ribeiro da
+ Silva Santos (a quem tambem pertence o jazigo da Lapa, onde estão os
+ restos de Camillo)--foi pela primeira vez presente a publico, pelo
+ jornal a _Republica_, de 29 de setembro de 1916.
+
+ Por este novo documento, de par dos restantes que apresentamos, se
+ confirma a razão que nos assistia, quando, mezes antes, acudimos
+ pelas cinzas de Camillo, publicando o principal documento, agora
+ juntamente com aquelle reimpresso, na _Republica_.
+
+ [7] A tal proposito insere o _Diario de Noticias_ de 8 de março do
+ corrente anno, a seguinte noticia:
+
+ «PANTHEON NACIONAL»
+
+ «O snr., ministro da guerra vae dar as ordens necessarias para se
+ concluirem, com a maior brevidade, as obras no edificio do antigo
+ deposito de fardamentos, para ser para ali transferida a oficina de
+ manufactura de calçado que foi provisoriamente instalada no edificio
+ de Santa Engrancia, que por lei foi destinado a Pantheon Nacional.
+
+ «É de crer que dentro de tres mezes o snr. architecto Adães Bermudes
+ possa proseguir nos trabalhos de adaptação daquelle grandioso
+ edificio ao Fim que por lei lhe foi destinado.»
+
+ Donde se prova que successivos governos, depois de decretado o
+ afeiçoamento do edificio de Santa Engracia a Pantheon Nacional, para
+ ali ordenaram que fosse installada uma industria de calçado, embora,
+ em seu dizer, provisoriamente, porventura até que a multidão de
+ immortaes que se lhe destina, deixe de precisar da installação!
+
+ O que não consta, contra as previsões do _Diario de Noticias_, e
+ lettra do decreto, é que o snr. Adães Bermudes tenha proseguido nos
+ tão esperados «trabalhos de adaptação do grandioso edificio ao fim
+ que, por lei, lhe foi destinado...»
+
+ [8] Em 1830 foi transformada a Egreja de Santa Genoveva em Pantheon
+ Nacional. Depois, em 1851, voltou a ser egreja, até que, com a
+ entrada de Hugo, foi, de novo secularizada.
+
+ [9] Effectivamente, não é facil averiguar, com precisão, o mais da
+ trajectoria da vida de Shakespeare, e, sobretudo, os episodios
+ finaes da sua morte e inhumação,--ainda pelo estudo dos quatro mil
+ volumes que, a seu respeito, a curiosidade dos eruditos de todas as
+ nacionalidades accumulou.
+
+ «Tentar falar ou escrever ácerca de Shakespeare, diz Lewis Theobald,
+ é entrar num espaçoso e magnifico edificio, por um corredor estreito
+ e tenebroso».
+
+ O que mais delle se apura é que colheu obscuramente a sua obra da
+ mesma razão anonyma que o prendeu á Terra.
+
+ Como, de egual arte, é assente que o homem mais querido e admirado
+ que ainda houve, foi tambem, até ha pouco, um dos mais
+ maltratados:--_O poeta maldito_--eis a maneira por que J. Richepin
+ com a maior justeza, o indica! (Vid. A TRAVERS SHAKESPEARE,
+ conferences faites à _l'Université des Annales_.)
+
+ Pope, no prefacio definitivo da sexta edição do _in-folio_ de 1623,
+ considera-o um mero cortezão da plebe.
+
+ Voltaire chamou-lhe grosseiro e barbaro, «impossivel de se fazer
+ ouvir pela mais desprezivel gente da França ou de Italia»--em
+ derradeira analyse, um _selvagem bebado_!
+
+ O reconhecimento publico do genio do grande tragico iniciou-o o
+ romantismo allemão, sobretudo pelos estudos de Lessing, Goethe,
+ Schiller, Herder e Schlegel. Em França, apparece pela primeira vez
+ bem tratado nos trabalhos de Staël e Chateaubriand.
+
+ Revelado o seu genio, começaram os criticos a hesitar sobre a
+ idoneidade do Auctor.
+
+ A muitos pareceu, de momento, pouco conforme com tão prodigiosa
+ obra, o mais intimo da sua historia.
+
+ Sigamos nós, comtudo, este fio biographico,--tambem o mais
+ geralmente acceito como verdadeiro.
+
+ Shakespeare nasceu em Stratford-on-Avon, em 1564, e era filho de um
+ negociante de lans, homem de medianos recursos e grande familia.
+
+ Estudou primeiras lettras numa escola publica (_Grammar School_,
+ escola secundaria) da terra da sua naturalidade, onde casou, aos
+ dezoito annos, com Anna Hathaway, de quem teve três filhos.
+
+ Foi depois para Londres, onde, successivamente, parece ter sido moço
+ de theatro, ponto, comediante, e mais tarde empresario, liquidando,
+ finalmente, em burguez, na sua terra, onde morreu em 1616, no dia em
+ que completou 52 annos.
+
+ Eis a mais vulgar das suas biographias.
+
+ Ha outras mais complicadas, e, comtudo, acceites por alguns dos
+ devotos do mytho shakespeariano.
+
+ Segundo uns, o verdadeiro Shakespeare, teria sido lord Rutland;
+ como, para outros, elle foi lord Southampton, tambem havido, no
+ consenso do maior numero, como aquelle a quem o Poeta deveu a
+ apresentação que o introduziu na complicada e brutal côrte de
+ Elisabeth.
+
+ Ainda, segundo alguns, elle foi lord Pembroke; como, finalmente,
+ para o maior numero dos que teimaram em lhe dar uma proveniencia
+ notavel, o proprio chanceller Francisco Bacon!
+
+ É de menos interesse e improprio ás medidas duma nota a reproducção
+ dos argumentos em que se firmam as differentes hypotheses;
+ assentemos, porem, em que nenhuma dellas vae alem de conjectura
+
+ O auctor do _Lord Rutland est Shakespeare_, M. Célestin Demblon,
+ conclue as mais extraordinarias observações ácerca do falso
+ Shakespeare.
+
+ Assim, segundo este auctor, elle começou por seduzir a noiva, a quem
+ só desposou, ameaçado de morte pela familia della, e a quem
+ empobreceu, gastando-lhe o dote; depois foi vagabundo e engajador de
+ soldados; fôra salteador de estrada; e, mais tarde, protegido por
+ lord Rutland e Southampthon, chefe de cavalhariça, contra regra do
+ theatro, etc.
+
+ De resto, affirma ainda, elle não sabia sequer assignar o seu nome,
+ que emprestára a Rutland, e este fazia escrever no final das peças,
+ e que, por punhos diversos, apparece tambem differentemente
+ orthographado (Shaxpere, Shagsbere, etc.).
+
+ Quer dizer, o ordinario e baixo _Shagsbere_ é nem mais, nem menos do
+ que um personagem dos dramas de Rutland--o seu Falstaff, cynico e
+ crapuloso, bebado e usurario, de quem o lord usava o nome por firmar
+ as peças, que considerava abaixo da sua notoria prosapia!
+
+ Ah! com que opportunidade, lidos estes phantasticos passos do genial
+ «poeta maldito», nos veem á memoria as palavras que, da sua alma,
+ elle passou para a bocca de Macbeth:
+
+ «A vida! mas se a vida não é mais do que uma historia, contada por
+ um tolo furioso e que não significa coisa alguma...»
+
+ * * * * *
+
+ Emfim, sahimos a custo dos multiplices enredos da sua vida, pela
+ unica porta aberta ao mais dos criticos--a da sua Arte, instruida da
+ sua primeira tradição, tambem a unica verosimil.
+
+ Quanto ás extravagancias possiveis e até provaveis, antes da ida
+ definitiva para Stratford,--mais do que o conhecimento das suas
+ ficcionarias biographias, nos esclarece a historia da côrte de
+ Elisabeth, com todo o seu enredo extranho. Jean Richepin, cujos
+ estudos em parte resumimos, no desenvolvimento da presente nota, não
+ só frisa a influencia daquella côrte, na obra do Poeta, como
+ conclue, a proposito do seu caracter e Arte o seguinte:
+
+ --«A Arte e a moralidade estão sobre dois planos differentes, dois
+ planos que se não confundem, em boa verdade. Que de tempos a tempos
+ estejam de accordo, simulando juntar-se sobre um plano unico,--eis o
+ que pode succeder e encantar-nos.
+
+ ..................................................................
+
+ Mas se os dois planos se mantêm separados que fazer? Eu desejaria,
+ de certo, que elle (Shakespeare) tivesse sido, ao mesmo tempo, um
+ homem honesto, o grande artista, um bom pae, bom marido; mas, nem
+ por isso, deixo de preferir que elle tenha sido o contrario de tudo
+ aquillo e nos tenha dado uma bella obra.»
+
+ O que vale concluir pela necessidade de admittir Shakespeare, tal
+ como nos surge á primeira luz, liquidando a sua aventura dramatica
+ pelo regresso a Stratford, onde parece ter vivido os ultimos cinco
+ annos, longe do theatro das suas maiores façanhas pessoaes, como dos
+ seus dramas--porventura viciento e avaro, como no-lo pintam,
+ distrahido no seu novo papel de rico, e, no entanto, sempre, de
+ alguma forma, lembrado das suas antigas relações e vida de scena,
+ como é positivo e se vê ainda do proprio testamento, em que
+ contemplou dois camaradas.
+
+ Assim chegamos, naturalmente, e ainda guiado pela lenda, até á morte
+ do Poeta, na sua terra de origem, afinal tambem a mesma onde,
+ porventura, a seu desejo, foi inhumado e, de direito, é que
+ descanse.
+
+ Isto, mau grado as lamentações de Irving, quando, ao visitar o seu
+ tumulo, entre os velhos monumentos da nobreza, que o rodeiam,
+ notava, com mágoa, o seu desenho mais do que modesto!
+
+ (Confrontem-se J. Richepin, ob. cit.; Oeuvres dramatiques de William
+ Shakespeare, traduction par Georges Duval; W. Irving; e Garrick.).
+
+ [10] Vid. _Camillo Inédito_ annotado.
+
+
+
+
+INDICE DAS ILLUSTRAÇÕES
+
+ Pag.
+
+Retrato de Camillo por Antonio Carneiro. . . . . . . . . 9
+
+Retrato de D. Anna Augusta Placido . . . . . . . . . . . 17
+
+Ultimo retrato de Camillo feito na «União» . . . . . . . 33
+
+Busto de Camillo por Diogo de Macedo . . . . . . . . . . 41
+
+Projecto de monumento a Camillo por Teixeira Lopes . . . 49
+
+O Jazigo de Camillo na Lapa. . . . . . . . . . . . . . . 65
+
+
+
+
+_DESTA EDIÇÃO FEZ-SE UMA TIRAGEM ESPECIAL DE QUATRO EXEMPLARES EM PAPEL
+WHATMAN, NUMERADOS E RUBRICADOS PELO AUCTOR._
+
+
+
+
+ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTE OPUSCULO AOS DOZE DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DE
+MIL NOVECENTOS E DEZESETE, NA TYPOGRAPHIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA»,
+SITA Á RUA DOS MARTYRES DA LIBERDADE NA CIDADE DO PORTO.
+
+
+
+
+NO PRELO:
+
+_Camillo Inédito_ annotado, 2.º milhar.
+
+_Fanny Owen e Camillo_, 2.ª edição.
+
+
+
+
+
+
+
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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