diff options
Diffstat (limited to '34742-8.txt')
| -rw-r--r-- | 34742-8.txt | 1453 |
1 files changed, 1453 insertions, 0 deletions
diff --git a/34742-8.txt b/34742-8.txt new file mode 100644 index 0000000..32ff2fd --- /dev/null +++ b/34742-8.txt @@ -0,0 +1,1453 @@ +Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Cinzas de Camillo + +Author: Visconde de Vila Moura + +Release Date: December 24, 2010 [EBook #34742] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS CINZAS DE CAMILLO *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + +VISCONDE DE VILLA-MOURA + + +As Cinzas de Camillo + + + + + «Da região escura vem bater-me + na fronte uma aragem fria...» + CAMILLO. + + + + +EDIÇÃO DA «RENASCENÇA PORTUGUESA» + + + + +O PRODUCTO LIQUIDO DESTE OPUSCULO DESTINAR-SE-HÁ A ABRIR A SUBSCRIPÇÃO +PUBLICA PARA UM MONUMENTO A CAMILLO NO PANTHEON. + + +Direitos reservados + + + + +AS CINZAS DE CAMILLO + + + + + DO AUTOR + + A Moral na Religião e na Arte, 1906. + + A Vida Mental Portugueza, 1909. + + Vida Litteraria e Politica, 1911. + + Camillo Inédito, 1913 (1.º milhar esgotado). + + + CONTOS E NOVELLAS: + + Nova Sapho, 1912 (1.ª edição esgotada). + + Doentes da Belleza, 1913. + + Os Bohemios, 1914. + + + Antonio Nobre (1.ª edição esgotada) 1915. + + Grandes de Portugal (com Antonio Carneiro), 1916. + + Fialho d'Almeida, 1917. + + Fanny Owen e Camillo, 1917. + + As Cinzas de Camillo, 1917. + + + + +VISCONDE DE VILLA-MOURA + +As Cinzas de Camillo + + +(NOTAS E DOCUMENTOS) + + + +EDIÇÃO DA +«RENASCENÇA PORTUGUESA» +PORTO + + + + +A + +NUNO PLACIDO CASTELLO BRANCO + + + + + «Da região escura vem bater-me + na fronte uma aragem fria...» + + CAMILLO CASTELLO BRANCO. + --_No Bom Jesus do Monte._ + + + + +Porque de novo volta a publico a idéa da trasladação de Camillo para o +Pantheon, tambem de novo entendemos dever voltar ao assumpto, menos por +discutir as razões daquelles que, contra a sua derradeira vontade, +teimam em violar-lhe o jazigo, do que por esclarecer o que a tal +respeito deixou escripto. + +Mas recordemos os factos. Elles são, de si, tão claros que quasi nos +dispensam glossario. + +Camillo suicidou-se em 1 de junho de 1890, pelas trez horas e um quarto +da tarde. No dia seguinte foi o caso conhecido do publico pelos +jornaes, bem como o destino que devia ter o seu cadaver. + +Diz o _Correio da Manhã_, de 4 de junho: + + PORTO, 2--«O grande escriptor disparou um tiro na cabeça ás 3 horas + e um quarto da tarde. Caiu logo em estado comatoso, e ás 5 horas + succumbiu. O medico Ferreira, de Santo Thirso, afirma que a bala + fôra quasi até á extremidade do lado opposto.» + +E em nota solta: + + + «Camillo pedira em tempo a Freitas Fortuna para ser enterrado no + jazigo delle, chegando até a entregar-lhe um documento redigido + neste sentido.»[1] + +De facto, no comboio do Minho das 6 horas da tarde do dia 3, chegava ao +Porto o cadaver do Romancista, acompanhado por Freitas Fortuna, desde +Famalicão, esperando-o na gare, «quando muito cem pessoas», informa o +_Correio da Manhã_, e entre ellas Alves Mendes, Sebastião Leite de +Vasconcellos e o editor Costa Santos. De resto, o ataúde seguiu para a +Lapa, mal coberto por cinco coroas de flores artificiaes e sempre +acompanhado por Freitas Fortuna, por Espinho, pelo creado Manuel, mais a +cauda de dezoito carruagens arrastando a praga dos reporteres. + +Alem de Alves Mendes, não comparecera mais um unico escriptor ou +artista, informa ainda o mesmo jornal! + +É que mettera medo o baque da sua queda, senão o gesso que de si restava +e a que a alludida folha se refere da maneira seguinte: + + A CAMARA ARDENTE--O MORTO. + + «A vasta sala, despida de sanefas e de espelhos, com o cadaver sobre + um panno, ao meio, tinha uma solemnidade lugubre que a assemelhava a + um templo vasio: o choro da esposa e o crepitar das luzes eram os + unicos sons que interrompiam a funebre quietação do aposento. + + No seu fato escuro--_pardessus_ usado, _frak_ e calça preta da mesma + fazenda, costume que vestia quando se suicidou--tons roxeados a + cercar-lhe as narinas e os olhos, o seu perfil macerado, fortemente + vincado de rugas, o farto bigode cahindo-lhe lasso, na bocca esse + extranho _rictus_ que parece dar ao cadaver um riso de mofa,--o + supremo escarneo da morte á vida. Lá estava elle sereno como um + adormecido, os pés salientes, a cabelleira negra e comprida, as mãos + finas cruzadas sobre o peito, o morto, mal illuminado pelo clarão de + duas velas, parecia seguir com os olhos mal cerrados a dôr da + viscondessa que aos pés do seu ultimo leito, abysmada na oração, + velava sósinha.»[2] + +Entretanto, Freitas Fortuna, longe de enjeitar o legado dos seus restos, +logo fez valer junto da familia de Camillo as declarações em seu poder, +e sobre as quaes tambem, immediatamente, todos os interessados +concordaram, soccorrendo-as com dois novos documentos, ou tenha sido com +o _auto da sua doação, assignado por D. Anna Augusta Placido e +Visconde de S. Miguel de Seide_; e com a _declaração do legatario, +acceitando aquelle deposito no seu jazigo da Lapa, com o encargo de ahi +o conservar perpetuamente_. + +Mas reproduzamos, na integra, e, por sua ordem, os preciosos documentos. + + +A primeira carta de Camillo sobre o assumpto: + + + «Exmo. Freitas Fortuna, meu querido amigo. + + Revalido, por esta carta, o que lhe propuz com referencia ao meu + cadaver e ao seu jazigo no cemiterio da Lapa. + + Desejo ser ali sepultado e que nenhuma força ou consideração o + demova de me conservar as cinzas perpetuamente na sua capella. + + É natural que ninguem lhe dispute a posse dessas cinzas; receio, + porem, que seja ainda uma fatalidade posthuma que se compraza em + impor a violencia até aos meus restos. + + Dê o meu amigo a estas linhas a validade de uma clausula + testamentaria, e, sendo preciso, faça que ella valha em juizo. + + Abraça-o com extremado affecto e inexprimivel gratidão o seu + + CAMILLO CASTELLO BRANCO. + + Porto, 6 de abril de 1888. + +Esta carta foi pela primeira vez patente ao publico no jornal _O +Seculo_, em 4 de julho de 1914, onde nós a publicamos para evitar +que fosse por diante a trasladação dos restos do Escriptor para Belem, +que um grupo de parlamentares, a que presidia o illustre professor sr. +Carvalho Mourão, devotadissimo admirador de Camillo--tencionava, ainda +contra a má vontade de uma parte da Camara, que, diga-se de passagem, +vergonhosamente, e sem conhecimento deste e demais documentos, logo se +deu a objectar _innocentes_ escusas, á conta duma tal jornada. + +Muito antes, e incidentemente, nos veio á mão aquelle documento, quando +também nós--(que, ao tempo não tinhamos sequer presente a segunda carta +de Camillo a Freitas Fortuna, sobre o assumpto, aliás desde muito +publicada--)[3] nos propunhamos insistir e collaborar com +todos aquelles que, seriamente, e bem de alma, se dessem a promover ou +dispor a trasladação, que já então, valha a verdade, consideravamos +menos como homenagem necessaria á sua memoria, do que como solução de +direito, que não de obsequio, ao repouso definitivo das suas cinzas. + +Aprestara-se-nos o ensejo de ver realisadas as nossas esperanças, de par +das dos maiores admiradores de Camillo--Silva Pinto, Senna Freitas e +Ricardo Jorge, no melhor numero--quando, a proposito da deliberação da +Camara do Porto e «Renascença Portuguesa» que, por si, e +independentemente da discussão tragico-burlesca dos parlamentos, se +propunham levar a cabo uma tal idéa,--nós fomos solicitado a ouvir dos +representantes de Camillo a sua opinião a tal respeito, isto é, a +consulta-los sobre se auctorizariam ou não o levantamento dos restos do +Escriptor do seu jazigo na Lapa. + +É claro, que interferi no caso particularmente, e só por acquiescer ás +solicitações dum illustre membro da Camara do Porto, tambem, ao tempo, +do corpo dirigente da «Renascença Portuguesa», sociedade literaria com +séde na mesma cidade[4], e que para aquelle effeito se me +dirigiu, bem por certo por mera razão da minha idoneidade como +incondicional admirador do Romancista, mais pelo conhecimento que +porventura tivera das minhas opiniões a tal respeito, desde muito, +expressas. + +Ora foi a tal proposito que, conjunctamente com a resposta de Nuno +Placido Castello Branco, eu recebi a copia daquella carta, pelo punho do +Visconde de S. Miguel de Seide, com a ordem de a publicar +opportunamente, e como instrucção do juizo que porventura seguissemos, +no caso da consulta que, por sua vez, elle devolvia para que sobre ella +as Corporações interessadas resolvessem. + +É claro que, á face de tão obrigante documento, a sua opinião parece +ter sido uma:--nunca mais aquellas corporações pensaram na trasladação. +E dahi tambem o silencio, feito á volta do caso, até ao momento em que +alguns deputados, aliás no melhor empenho,--o mesmo que a Camara do +Porto e a «Renascença Portugueza» tinham tido--deliberaram voltar ao +assumpto. + +Foi então, repetimos, que, pela primeira vez, entendemos de nosso dever +publicar aquella carta, como elucidação aos promotores da inopportuna +homenagem, e tão cabida ella foi que logo, avisadamente, aquelles +desistiram do seu intento, transferindo as importancias destinadas á sua +despeza para o levantamento de um monumento, infelizmente já bem +tardio, a Camillo. + + +Entretanto, pois que, desde que se tornou inopportuna, por não dizer +impertinente, a trasladação, parece ter crescido o numero dos devotos de +tal idéa--vamos nós, hoje, que estamos de posse de todos os documentos, +ver o que, á face delles, aquella vale. + +Mas antes, e por melhor firmar opinião, sigamos no traslado dos +documentos que ao assumpto se referem. Tornar-se-á mais facil de ver +depois, e a melhor luz, até onde vae a teimosia dos sectarios duma idéa +hoje indelicada, (e que maior crime pode cometter-se para com os mortos +do que o da indelicadeza?--) que não sectarios da melindrosa memoria +do Escriptor. + + +Eis a segunda carta de Camillo a Freitas Fortuna: + + «Meu presado Freitas Fortuna. + + Começo a experimentar uma especie de affecto posthumo ao meu + cadáver. + + Tão pouco me apreciei na vida, tão pouco cabedal fiz da minha saude, + que já agora me quer parecer, que este amor ao que nada vale é + retribuição devida a esta materia, que me ha-de sobreviver alguns + annos aviventada pela engrenagem de putrefacção. + + Deste affecto extraordinario, mas não excepcional, resultou + dizer-lhe eu, meu querido amigo, quer falando, quer escrevendo, que + aspirava fervorosamente a ser sepultado no seu jazigo da Lapa. + + E bem certo que, para além da campa, ha o que quer que seja que + ainda nos prende ás coisas mortaes. Sei que no seu jazigo dormem o + somno infinito seus extremosos progenitores. + + Ambos conheci na flor da vida, no esplendor da honra, nas luctas do + trabalho e na pujança da alegria e da felicidade. + + Ambos morreram no vigor dos annos, se podem considerar-se mortas + _duas imagens sagradas_ que renascem na alma dum filho ao fogo da sua + saudade, com o seu respeito filial, com as suas lagrimas represadas, + e que os annos ainda não poderam crystallizar em glacial + indifferença. + + Volvido um longo praso as cinzas do meu querido Freitas irão aos + braços já cinzas tambem de seus _paes_ estremecidos. + + Se a morte tivesse expressão que não fosse aquelle mudo terror de um + gesto que ao mesmo tempo anniquilla e grava o eterno estigma do + silencio nos labios gelidos, só ella poderia dar-nos a sombra + horrida e que o seu esquife baixar á perpetua união com os + cinerarios de seus _paes_. E eu, a essa hora, estarei á beira delles + como testemunha silenciosa das compungidas lagrimas que lhe vi na + face quando o coração lhas dava repassadas duma santa saudade. + + Não sei se esta chimera, que vagueia na região tenebrosa e na crypta + dos mortos amados e chorados, foi a despertadora vontade que me + domina ha anno e meio de ser enterrado no seu jazigo. + + O meu querido Freitas Fortuna acceitou com ternura a offerta do meu + cadaver, e d'essa arte, permittindo que eu fizesse parte da sua + familia extincta, quiz continuar alem da vida a tarefa sacratissima + da sua dedicação incomparavel. Bem haja, e adeus. + + Bemfica, 15 de julho de 1889.» + + Seu do coração, + + CAMILLO CASTELLO BRANCO.[5] + +Esta carta foi a primeira que sobre o assumpto veio a publico, tendo +sido impressa no _Jornal da Manhã_, de 3 de junho de 1890, ou tenha sido +na vespera do dia da entrada do cadaver de Camillo no mausoléo-Fortuna. + +Comprehende-se que, a despeito do seu texto, os admiradores do +Romancista pretendessem ainda o seu ingresso no Pantheon, porquanto não +é aquella bem frisante e incondicional, como a primeira a que se refere, +e que, durante tantos annos, foi geralmente ignorada. + +Entretanto, que de ambas as cartas os interessados mais proximos, +(referimo-nos á Familia-Fortuna e á de Camillo) tinham pleno +conhecimento, prova-o não só a circumstancia de immediatamente +fazerem seguir para o cemiterio da Lapa o cadaver do Romancista, mas, +ainda mais, o facto de quasi logo as duas partes interessadas se +mutuarem as mais claras obrigações não só para garantirem, como por +tornarem effectivo, perpetuamente, aquelle deposito. + +É do teor seguinte o auto de doação do cadaver de Camillo: + + «Os abaixo assignados, D. Anna Augusta Placido (Viscondessa de + Correia Botelho) viuva, e Nuno Castello Branco (Visconde de S. + Miguel de Seide) vimos na qualidade de esposa e filho do falecido + sr. Camillo Castello Branco (Visconde de Correia Botelho), ambos + residentes na freguesia de S. Miguel de Seide, do concelho de Villa + Nova de Famalicão, no districto de Braga, querendo cumprir as + determinações de seu amado esposo e pai, que manifestou a expressa + vontade de ser sepultado no cemiterio da Real Irmandade de N. + Senhora da Lapa (na cidade do Porto), no jazigo da familia do seu + dedicado amigo João Antonio de Freitas Fortuna, a quem por escripto + estipulou, «que nenhuma força ou consideração o demova de + conservar-lhe as cinzas, perpetuamente na sua capella»--; os abaixo + assignados revalidam por este acto a entrega e doação que fizeram do + cadaver do seu querido esposo e pae ao referido João Antonio de + Freitas Fortuna, residente na rua de Cedofeita n.º 986, da cidade do + Porto, que o recebeu e acceitou com o encargo de o conservar + perpetuamente na sepultura numero um do referido jazigo de sua + familia, onde está, e onde deve estar _ad perpetuam_. E por isto + conferem ao indicado João Antonio de Freitas Fortuna, e aos seus + representantes, que atravez dos tempos possam vir, e forem os + legitimos possuidores da referida capella, todos os poderes em + direito necessarios, sem exclusão alguma, e com a faculdade de + substabelecerem, para que nunca, e sob qualquer pretexto que seja, + possa ser retirado da indicada sepultura perpetua em que jaz o + cadaver do sr. Camillo Castello Branco, porque tal foi a sua + expressa vontade dele, assim como é a dos abaixo assignados, que a + fazem boa e querem que seja sempre cumprida como disposição + testamentaria para o que por este titulo de doação onerosa desistem + de todos os seus direitos ao referido cadaver e outorgam sem reserva + alguma a João Antonio de Freitas Fortuna e a seus legitimos + representantes na posse do referido jazigo, a fim de que possam + cumprir as condições estipuladas aqui, e para realizarem todos os + actos indispensaveis ao integral cumprimento da expressa vontade de + seu amado esposo e pae, que respeitam e cumprem, como querem que os + seus successores ou futuros representantes a cumpram e respeitem. E + por esta ser verdade, passam este acto de doação, que eu, Nuno + Castello Branco, escrevo e que assignam com as testemunhas Francisco + Correia de Carvalho, casado, proprietario da freguezia de S. Paio de + Seide e Antonio Vaz Vieira de Napoles, solteiro da cidade de + Guimarães. S. Miguel de Seide, 10 de Junho de 1890, e + noventa.--(Ass.) _Anna Augusta Placido, Viscondessa de Correia + Botelho; Nuno Castello Branco, Visconde de S. Miguel de Seide; + Francisco Correia de Carvalho e Antonio Vaz Vieira de Napoles._ + + (Segue-se o reconhecimento das assignaturas por João Bernardo + Correia do Amaral, em 10 de junho de 1890). + +Acceitação da doação anterior, averbada por Freitas Fortuna naquelle +documento: + + Eu, João Antonio de Freitas Fortuna, abaixo assignado, casado e + residente na rua de Cedofeita, n.º 986 da cidade do Porto, cumprindo + o disposto no art. 1466 do Codigo Civil portuguez, averbo neste + documento a acceitação do cadaver do meu presado amigo o sr. Camillo + Castello Branco (Visconde de Correia Botelho) e que me foi doado e + entregue, e que eu aceitei com o encargo de o conservar + perpetuamente na sepultura numero um do jazigo de minha familia, + onde jaz, no cemiterio da Real Irmandade de N. Senhora da Lapa, e + sob a condição de que nunca, e sob qualquer pretexto que seja, os + descendentes de meu bom pai ou usufructuarios do indicado jazigo o + tirem da referida sepultura ou consintam que o retirem, como se + expoz no auto de doação supra que fez a Exma. Sra. Viscondessa de + Correia Botelho e Exmo. Sr. Visconde de S. Miguel de Seide, esposa e + filho do meu falecido amigo. E por ser verdade o referido aqui, + escrevo nesta doação a respectiva acceitação, que assigno perante o + tabellião e as testemunhas, o sr. Domingos Joaquim Machado, casado, + negociante e morador na rua de Oliveira Monteiro e o sr. Albino + Pinto dos Santos, solteiro, caixeiro e residente na rua Chã, ambos + n'esta cidade do Porto. + + Porto, 16 de junho de 1890 e noventa. (Ass.) _J. A. de Freitas + Fortuna, Domingos Joaquim Machado e Albino Pinto dos Santos_[6]. + + + (Reconhecimento feito pelo tabellião Edmundo Maia Campos Silva). + +Eis os documentos. Vejamos, em seguida, o mais dos imaginaveis +argumentos a oppor-lhes, por concluir, de vez, pelo seu nenhum valor. + +Em primeiro logar, tem-se affirmado que ao Estado pertence escolher a +forma e o logar destinados a melhor consagrar os mortos. + +O que vale dizer que os restos dum homem illustre são para o Estado, +como para os que assim pensam, menos do que os da gente humilde que, +alem daquelle, tem por si o direito de escolher o logar do seu +definitivo repouso. + +Ora eu não sei até que ponto se tem avançado em materia de regalias +publicas, a ponto de chegarmos, pelo _controle_ do Estado--a possuir +tudo, caminhando da liberdade do homem á escravidão dos seus restos! + +O que se conclue é que a doutrina corrente é, mais ou menos, a +seguinte:--ha um Pantheon, e é preciso colleccionar ali todos os +notaveis, ainda que, como no caso de Camillo, elle tenha repugnado aos +escolhidos. + +Dest'arte, se volve afinal o Pantheon num forçado museu de ossos, por +não dizer num extravagante collegio de memorias, para onde os mais +notaveis esqueletos terão fatalmente de ser conduzidos, e, se preciso +for, expropriados, em razão da propria utilidade da sua gloria! + +Ainda mais:--para os que de tal maneira pensam, os grandes homens não +ficariam devidamente venerados fóra do recinto que o Estado lhes confere! + +Nisto, a nosso ver, o erro. + +É uma scisma quasi grosseira, embora vulgar, suppor que os outros têem +valor sómente quando lho concedamos, ou, melhor, quando, ostensivamente, +lho memoremos! + +Quando, pelo contrario, o seu valor está unicamente com elles e com a +sua obra, para alem de todas as honras e premios officiaes que se lhes +decrete. + +E, assim, quem curará ámanhã de saber, por aferir do valor de Camillo, +se elle pertenceu ou não ás Academias da sua terra? + +De egual arte, tambem os seus ossos não crescem pelo facto de de lhos +semearmos nos Jeronymos, ou no casarão de Santa Engracia, embora natural +fosse que para qualquer dos dois monumentos a Nação os conduzisse, se, +melhor e mais correctamente, lhe não pertencesse zelar a sua derradeira +vontade. + +Mais. Entre nós, nem sequer ha ainda senão uma indicação de Pantheon. Os +Jeronymos são abrigo casual dos grandes, poucos, que ali repousam. De +resto o futuro Pantheon de Portugal será o sempre novo e já lendario +templo de Santa Engracia! + +Porque foi para ahi que a primeira assembléa do regimen mandou que a +Nação os fizesse conduzir, de par de outros que o tempo fosse +glorificando[7]. + +O Pantheon de S. Vicente, privilegio da Casa de Bragança, está cheio a +tal ponto, que do exame das suas arcas, a esmo ahi postas, mais dá ao +visitante a idéa dum casual deposito de mortos desarrumados, do que dum +templo de sua sagração. + +Sob a nave, cheia de sombras do intimo podredoiro, entre velludos, mais +um montão de corôas e galões velhos, descansam os reis assassinados, +cujas figuras começam de desapparecer na nevoa que lhes tolda o crystal +dos caixões, cerrando-os, providencialmente, ao espectaculo da sua +decomposição em publico. + +Tem um ar de pateo lugubre a extranha galeria, cujos silencios são para +o espectador como que compassos do grande carnaval historico a seguir, e +que as duas sombras-phantasmas dos ultimos reis parecem ainda reflectir +do gesso mysterioso das suas torturadas mascaras emblematicas. + +A um canto repousa D. Pedro II, tão impresso da sua urna que esta se lhe +ajusta como um caixilho, donde, distante e bolorenta, surde, agora, +serena, a sua face larga, formando o todo como que uma reproducção +daguerreotypica dos seus derradeiros e infelizes annos de exilado! + +Ali espera, desde muito, a guia de marcha para o Brazil, onde, de facto, +sempre lhe quedou a alma. + +De resto, mais nada ha que sirva a marcar verdadeira piedade, ou +grandeza; tudo ahi inculca o entrudo lugubre das ultimas cerimonias e +honras officiaes, hoje tambem, no geral, negadas ou podres, como o mais +das flores e presentes funerarios que, ao acaso, ahi restam. + +Afinal um lixo caro, tudo o que para ali juntaram á volta das urnas do +mesquinho Pantheon real! + +E, entretanto,--ver-se-há mais tarde, e á razão duma melhor verdade--ahi +velam algumas das maiores memorias que Portugal tem tido, mau grado a +herança que as assombra. + + +Effectivamente, ha entre nós alguns monumentos funerarios de +indiscutivel valor, mas esses não estão em S. Vicente. + +Estão em Santa Cruz de Coimbra, nos Jeronymos, em Alcobaça, na +Batalha,--emfim espalhados por toda a parte onde uma disposição de +ultima vontade, senão a propria devoção dos povos, os fez erigir, nunca +pela idéa dum publico dormitorio de mortos, adrede obrigado a officiosas +memorias. + +É ver o que se passou com Garrett que, apesar de ter acautelado o seu +natural e carinhoso desejo de repousar no cemiterio de S. João, ao lado +de seus filhos, foi primeiramente sepultado nos _Prazeres_ e, depois, +dahi, transferido para Belem! + +O que significa, a nosso ver, nunca um precedente a seguir, mas, +pelo contrario, uma lamentavel indelicadeza da parte da Nação que para +ali o trasladou, sem que ao menos reflectisse na maneira por que seria +não só justo, mas até naturalissimo faze-lo! + +Porque, no presente caso, era bem facil conciliar o desejo dos +admiradores do dramaturgo com a vontade por elle expressa. + +Bastava ver do seu intento, no documento a que alludimos e donde +resulta, bem patente, a unica razão daquelle seu desejo. + +De facto, o que se vê da carta de Garrett a D. Jeronyma Deville, +publicada por Francisco Gomes de Amorim, e em que se exprime a indicação +do seu jazigo no cemiterio de S. João--é sobretudo o proposito, ali +bem declarado, de repousar junto de seus filhos. + +Ora, se a Nação tinha de sua vontade transferi-lo para os Jeronymos--de +seu dever tinha tambem faze-lo acompanhar dos restos daquelles; e, desta +forma, o seu preito seria, bem de certo, maior; e, alem de tudo, não +revestiria a indelicadeza que assim foi. + +Mais: visto que são necessarios exemplos, sirva-nos ainda, de norma o +que de justo se tem resolvido, lá fóra, em casos semelhantes, e +sobretudo em França, que de seu brio tem quasi sempre casar ao proposito +do seu agradecimento publico para com os grandes vultos nacionaes a +maior attenção, e, mais ainda, o maior melindre de delicadeza para +com os seus designios, quando não com os seus caprichos. + +Por uma razão equivalente áquella que consta da carta de Garrett está no +Pantheon madame Zola, junto de Zola; e madame Berthelot, junto de +Berthelot, mortos no mesmo dia. + +Isto, sim; é simples e é delicado. E, comtudo, não consta que por tal +motivo tenha havido desavença entre os grandes ali memorados. + +Pelo contrario, Balzac, talvez por negligencia, senão por odio da mesma +burguezia que tão desapiedadamente elle escalpellou,--está na +Père-Lachaise! + +E, no entanto, quem o julga menor por isso? + +Onde quer que seja, dalgum modo continuará a rir; e, se nesse mundo +que fica para alem do que elle foi, ha logar para reflexões á sua Obra, +o mais que lhe acudirá é, decerto, a sua mesma approvação plena por tudo +quanto escreveu, ou seja a consciencia do acerto com que traçou o perfil +moral dos que, de momento, lhe são obstaculo á porta do Pantheon! + +E dahi, quem sabe? Talvez que ainda um motivo de valor explique a sua +estada no Père-Lachaise, que, effectivamente, para o caso, não significa +menos que o templo de Santa Genoveva! + +Porque, repetimos, é inferior aferir da grandeza dum artista, pela +estima do logar onde elle repousa. + +Em França, ha casos de escrupulo, no genero, por vezes, +extraordinarios! Assim, em 1885, foi profanada a Egreja de Santa +Genoveva, unicamente para que nella entrasse Victor Hugo![8] + +E, contrariamente, por motivo da confissão catolica de Pasteur, não foi +este para aquelle templo, mas para o seu proprio Instituto, onde jaz +guardado em capella propria. + +Ahi está a maneira correcta de proceder para com um dos maiores da raça +latina, e a quem, a França dispensou da _prova_ do Pantheon! + +Também, quando da morte de John Ruskin, um dos grandes artistas +inglezes do seculo XIX, estylista tão singularmente notavel, como um dos +mais eloquentes escriptores da Natureza, a Inglaterra offereceu a sua +familia o logar que, para elle, a Nação tinha reservado em Westminster. +Pois a familia, recusando um tal offerecimento, bem decerto em attenção +á ultima vontade do Artista, preferiu sepulta-lo na aldeia de Coniston, +perto da escola das creanças do povoado, para quem tambem elle, no dizer +de Robert de la Sizeranne, havia composto os seus canticos. + +«A sua morte, informa este publicista, que teve logar a 20 de janeiro de +1900, entre os rochedos e os bosques de Brantwood, á beira dum dos mais +bellos lagos da Inglaterra, foi o fim proprio da sua vida: em +perfeita simplicidade e em discreta belleza. Elle não teve junto de si +mais do que dois ou tres de seus discipulos e alguns camponezes. O +offerecimento de um tumulo em Westminster, a maior honra que a nação +ingleza pode tributar a um seu filho, foi recusada por sua familia; e, +na celebre Abbadia real, coisa alguma recorda Ruskin, a não ser o seu +medalhão, em bronze, collocado no _Pantheon dos Poetas_, ao lado do +busto de Walter Scott.» + + +Finalmente, acaso Shakespeare, está em Westminster? + +Não está; ahi figura elle, simplesmente, em monumento, cercado +doutros marmores, porventura espalhados á sua roda, como que a +marcar-lhe o Tempo. + +Elle? quem sabe! talvez, unicamente, a sombra falsa do seu nome, mais o +resto da sua lenda[9]. + + +Presumivelmente jaz em Stratford, no côro de uma velha Egreja gothica, +perto de um rio escuro, o Avon, e, como que, ao acaso, guardado pela +esguia escolta das suas arvores. + +Indica-o ao viajante, mais do que o monumento, ultimamente ali +levantado, uma pedra que mal sobresai da parede, com uma +quadra-aviso, que geralmente lhe é attribuida. + +É uma quadra curiosa, que vale a pena ler e, por desventura, esqueceu +lavrar na sepultura de Camillo, onde, já agora, se torna necessario +esculpir a clausula testamentaria do Romancista ácerca da sua sepultura. + +Eis a quadra: + + «Good friend, for Jesus'sake, forbear, + To dig the dust enclosed here. + Blessed be he that spares these stones, + And curst be he that moves my bones.» + + «_E amaldiçoado seja o que revolver os meus ossos_»! gritou +Shakespeare, ou a tradição por si. + +E tal defeza bastou a que jámais se destampasse o mysterioso jazigo! + + +Emfim, pois que eram precisos exemplos, ahi ficam os maiores, a que +poderiamos juntar outros, da regeição de Pantheons--sem que os paizes a +que aquelles notaveis pertenceram, descessem, algum dia, a obrigar as +suas memorias a um pariato de cinzas que, por clausula testamentaria, ou +circumstancias casuaes, podesse tomar-se como violencia. + +E, entretanto, jámais a França ou a Inglaterra renegaram do culto quasi +fanatico em que têem os seus _immortaes_; e, sobretudo, aquelles que por +si bastariam a affirmar, mais do que o prestigio dos seus paizes--o +valor das respectivas raças. + + +Derivando daquelles casos, ou antes apprendendo da attitude de taes +nacionalidades,--se assim é preciso!--ahi temos, naturalmente, indicado +o que ao Estado, ou melhor ao povo portuguez,--pertence resolver, ácerca +de Camillo, e sempre de accordo com a sua memoria. + +Levante o Povo portuguez, (ponhamos sempre de parte, em questão de +preito a artistas, os _representativos_!)--uma estatua a marcar, de +direito, nos Jeronymos, o logar que, de facto, elle não quiz occupar, á +maneira do que se fez em Westminster para o grande tragico de Stratford, +e deixemos que os seus restos descansem na Lapa! + +Tambem nós, repetimos, emquanto nos foi desconhecido o mais da +documentação acima expressa, pugnámos pelo seu ingresso nos Jeronymos. + +Como de egual arte,--lembrando a pagina, por certo, mais dolorosa da +vida litteraria de Camillo--uma das que abrem a _Correspondencia +epistolar_ entre o Romancista e Vieira de Castro, e onde aquelle allude +a D. Anna Placido, contrahindo para com ella, publicamente, o voto das +suas inhumações em commum jazigo--eu me recordára de quanto seria +natural e proprio á memoria das suas conjunctas tragedias a approximação +da que lhe fôra companheira e suave cumplice! + +Esta pagina é a mesma em que responde a Vieira de Castro, quando este, +numa explosão de amizade, lhe denunciou o que os seus inimigos, ao +tempo, propalavam para melhor o ferirem. + +Formára-se uma atmosphera de malquerença contra Camillo, e, como sempre +em taes casos, a má vontade dos seus inimigos deu-se a jogar com um +abjecto romance, adrede disposto a pôr de seu lado a chamada moral +burgueza--ou seja o estalão mais infame que ainda se inventou para +avaliar sensibilidades! + +Então, a tal proposito lhe contou Vieira de Castro o que, a seu +respeito, se espalhára pelas praças, e, por sua vez, elle reproduz da +maneira seguinte: + +--«Que eu, confidente e depositario das cartas que uma senhora casada +escrevera a um homem ausente, ameaçára essa senhora de revelar ao marido +a culpa indicada nas cartas, se ella continuasse a repellir-me; e +que a senhora ameaçada, aceitando metade da minha infamia transigira com +a proposta». + + +Ora a tal ensejo escreveu Camillo aquella pagina, que, já agora, +reproduziremos, na parte final, aliás menos como seu desaggravo--por +desnecessario, do que por ver o que, ao tempo, pensava do natural +destino das suas cinzas: + + +«Meus amigos e meus inimigos! se, por violencias de uma paixão brutal, +exacerbada pela embriaguez, eu resvalasse á infamia de forçar a +resistencia da derradeira mulher na escala das perdidas--Deus sabe quem +são as perdidas!--; ao despertar desse infernal aturdimento com a +consciencia do meu crime, matar-me-hia com asco de mim proprio. + +No regaço dessa senhora, tão cruelmente aviltada, tenho dous filhos. É +para meus filhos que eu escrevo esta pagina que me pareceu até hoje +impossivel. + +Receio que elles ainda tenham de ver a serpente da calumnia a rojar-se +na sepultura de seu pae. Sinto-me no cabo da vida; e tenho maior pejo da +posteridade que dos meus contemporaneos. Quero que estas crianças saibam +deste livro que o pregão affrontoso aos calumniadores foi escripto +quando ainda viviam as pessoas que podiam desmentir-m'o. + +_No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe_--esta levantada +alma que ainda não verteu uma lagrima na voragem que lhe devorou os +respeitos do mundo, e a perfida riqueza com que seus perdoaveis paes a +violentaram sem dó de sua innocencia e formosura dos dezoito annos». + + +_No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe!_ + +Ahi está o que me seduzia a pugnar pela approximação das duas urnas. + +Afinal, parece que a mesma fatalidade que os reuniu, os dispersou! + +Nas cartas finaes de Camillo a Freitas Fortuna, ácerca das suas cinzas, +ha uma allusão unica a D. Anna Placido. + +E, ainda na sua declaração de 22 de novembro de 1886, prevenindo o +suicidio, a recorda, pensando afflictivamente no mau acaso de que ella o +antecipe na morte! + +...................................................................... + + «_A mãe destes dois desgraçados,_ escreve elle, _não promette longa + vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existencia até ver Anna + Placido morta infallivelmente me suicidaria. Não deixarei cahir + sobre mim essa enorme desventura, a maior, a incomprehensivel á + minha grande comprehensão de Desgraça._»[10] + +Assentemos, pois, para lá de todo o raciocinio, e perto, unicamente, da +vontade de Camillo, no que a seu respeito, e a proposito do destino dos +seus restos, elle, deliberadamente, dispoz, e importa que, em bem da +sua memoria, nós todos acatemos. + +Eu creio que dos documentos transcriptos resulta bem expressa a +violencia da trasladação! + +A sua extraordinaria figura está acima do fetichismo publico que, por +capricho, intentasse a macabra canseira de lhe remexer ou espreitar a +ossada. + +Alem de que aos poderes publicos impende guarda-la. Isto sim, é de seu +cargo! + +E se, effectivamente, á consciencia nacional,--para lá do susto +romantico do enrêdo dos seus livros e do odio herdado da geração +anterior contra elle, já chegou o culto devido pelo sacrificio dos +quarenta annos da sua escravidão litteraria, aliás nelle tão +extranhamente batida de desgraça,--não se exasperem os seus devotos que +não têem pouco em que empregar a admiração, por exprimirem todo o +reconhecimento que lhe devem! + +Assim, por exemplo, não falando já nos monumentos a erigir-lhe--que +esforço não lhes será necessario para apartarem das escolas esses +manuaes de mentira que por lá correm--e substitui-los por livros de +excerptos seus, para que delles resulte no coração dos futuros homens o +documento vivo da sua grande alma! + +Esta seria, de facto, a primeira, a grande tarefa. + +Mas não vale a pena forçar o Tempo. Demais que o Tempo chega sempre na +altura devida! + +Nós, é que ás vezes, por nos darmos a impressão de que tambem governamos +fóra delle, pretendemos deslocar a sua justiça. Afinal, erro de humanos; +mais nada! + +Emfim, Camillo poude sempre dizer como Liszt:--tenho tempo, esperarei... + +Que importa, pois, que sejamos nós ou outros os que definitivamente o +sagremos? + +O que importa é termos a certeza de que a sua memoria venceu ha muito. +De resto, tambem o facto da sua capella, na Lapa, ser modesta, nada +representa. Deixemos os grandes mausoleos para os _seus brazileiros_; +estes sim, precisam delles. + +Camillo não, pois que é já tão grande,--embora o vejamos ainda +crescer, dia a dia, na consciencia publica, que elle, mais a sua memoria +surgem bem dali, como da mais exigua brochura da sua obra. + +É que é de seu privilegio, como, em geral, de todos os grandes artistas, +a mesma ubiquidade milagrosa dos grandes santos. + +Tanto maiores são, melhor cabem em toda a parte--ainda nos mais humildes +templos... + + +Ancêde, 1 de outubro de 1917. + + + + + [1] Vid. «_O Romance do Romancista_» por Alberto Pimentel. + + [2] Vid. ob. cit. + + [3] Obr. cit. + + [4] O distincto poeta snr. Jaime Cortesão. + + [5] «O Romance do Romancista» por Alberto Pimentel. + + [6] Esta doação, com o respectivo averbamento de acquiescencia ás + suas clausulas por parte do donatario, hoje na posse da viuva de + Freitas Fortuna,--a Sra. D. Isabel Maria da Conceição Ribeiro da + Silva Santos (a quem tambem pertence o jazigo da Lapa, onde estão os + restos de Camillo)--foi pela primeira vez presente a publico, pelo + jornal a _Republica_, de 29 de setembro de 1916. + + Por este novo documento, de par dos restantes que apresentamos, se + confirma a razão que nos assistia, quando, mezes antes, acudimos + pelas cinzas de Camillo, publicando o principal documento, agora + juntamente com aquelle reimpresso, na _Republica_. + + [7] A tal proposito insere o _Diario de Noticias_ de 8 de março do + corrente anno, a seguinte noticia: + + «PANTHEON NACIONAL» + + «O snr., ministro da guerra vae dar as ordens necessarias para se + concluirem, com a maior brevidade, as obras no edificio do antigo + deposito de fardamentos, para ser para ali transferida a oficina de + manufactura de calçado que foi provisoriamente instalada no edificio + de Santa Engrancia, que por lei foi destinado a Pantheon Nacional. + + «É de crer que dentro de tres mezes o snr. architecto Adães Bermudes + possa proseguir nos trabalhos de adaptação daquelle grandioso + edificio ao Fim que por lei lhe foi destinado.» + + Donde se prova que successivos governos, depois de decretado o + afeiçoamento do edificio de Santa Engracia a Pantheon Nacional, para + ali ordenaram que fosse installada uma industria de calçado, embora, + em seu dizer, provisoriamente, porventura até que a multidão de + immortaes que se lhe destina, deixe de precisar da installação! + + O que não consta, contra as previsões do _Diario de Noticias_, e + lettra do decreto, é que o snr. Adães Bermudes tenha proseguido nos + tão esperados «trabalhos de adaptação do grandioso edificio ao fim + que, por lei, lhe foi destinado...» + + [8] Em 1830 foi transformada a Egreja de Santa Genoveva em Pantheon + Nacional. Depois, em 1851, voltou a ser egreja, até que, com a + entrada de Hugo, foi, de novo secularizada. + + [9] Effectivamente, não é facil averiguar, com precisão, o mais da + trajectoria da vida de Shakespeare, e, sobretudo, os episodios + finaes da sua morte e inhumação,--ainda pelo estudo dos quatro mil + volumes que, a seu respeito, a curiosidade dos eruditos de todas as + nacionalidades accumulou. + + «Tentar falar ou escrever ácerca de Shakespeare, diz Lewis Theobald, + é entrar num espaçoso e magnifico edificio, por um corredor estreito + e tenebroso». + + O que mais delle se apura é que colheu obscuramente a sua obra da + mesma razão anonyma que o prendeu á Terra. + + Como, de egual arte, é assente que o homem mais querido e admirado + que ainda houve, foi tambem, até ha pouco, um dos mais + maltratados:--_O poeta maldito_--eis a maneira por que J. Richepin + com a maior justeza, o indica! (Vid. A TRAVERS SHAKESPEARE, + conferences faites à _l'Université des Annales_.) + + Pope, no prefacio definitivo da sexta edição do _in-folio_ de 1623, + considera-o um mero cortezão da plebe. + + Voltaire chamou-lhe grosseiro e barbaro, «impossivel de se fazer + ouvir pela mais desprezivel gente da França ou de Italia»--em + derradeira analyse, um _selvagem bebado_! + + O reconhecimento publico do genio do grande tragico iniciou-o o + romantismo allemão, sobretudo pelos estudos de Lessing, Goethe, + Schiller, Herder e Schlegel. Em França, apparece pela primeira vez + bem tratado nos trabalhos de Staël e Chateaubriand. + + Revelado o seu genio, começaram os criticos a hesitar sobre a + idoneidade do Auctor. + + A muitos pareceu, de momento, pouco conforme com tão prodigiosa + obra, o mais intimo da sua historia. + + Sigamos nós, comtudo, este fio biographico,--tambem o mais + geralmente acceito como verdadeiro. + + Shakespeare nasceu em Stratford-on-Avon, em 1564, e era filho de um + negociante de lans, homem de medianos recursos e grande familia. + + Estudou primeiras lettras numa escola publica (_Grammar School_, + escola secundaria) da terra da sua naturalidade, onde casou, aos + dezoito annos, com Anna Hathaway, de quem teve três filhos. + + Foi depois para Londres, onde, successivamente, parece ter sido moço + de theatro, ponto, comediante, e mais tarde empresario, liquidando, + finalmente, em burguez, na sua terra, onde morreu em 1616, no dia em + que completou 52 annos. + + Eis a mais vulgar das suas biographias. + + Ha outras mais complicadas, e, comtudo, acceites por alguns dos + devotos do mytho shakespeariano. + + Segundo uns, o verdadeiro Shakespeare, teria sido lord Rutland; + como, para outros, elle foi lord Southampton, tambem havido, no + consenso do maior numero, como aquelle a quem o Poeta deveu a + apresentação que o introduziu na complicada e brutal côrte de + Elisabeth. + + Ainda, segundo alguns, elle foi lord Pembroke; como, finalmente, + para o maior numero dos que teimaram em lhe dar uma proveniencia + notavel, o proprio chanceller Francisco Bacon! + + É de menos interesse e improprio ás medidas duma nota a reproducção + dos argumentos em que se firmam as differentes hypotheses; + assentemos, porem, em que nenhuma dellas vae alem de conjectura + + O auctor do _Lord Rutland est Shakespeare_, M. Célestin Demblon, + conclue as mais extraordinarias observações ácerca do falso + Shakespeare. + + Assim, segundo este auctor, elle começou por seduzir a noiva, a quem + só desposou, ameaçado de morte pela familia della, e a quem + empobreceu, gastando-lhe o dote; depois foi vagabundo e engajador de + soldados; fôra salteador de estrada; e, mais tarde, protegido por + lord Rutland e Southampthon, chefe de cavalhariça, contra regra do + theatro, etc. + + De resto, affirma ainda, elle não sabia sequer assignar o seu nome, + que emprestára a Rutland, e este fazia escrever no final das peças, + e que, por punhos diversos, apparece tambem differentemente + orthographado (Shaxpere, Shagsbere, etc.). + + Quer dizer, o ordinario e baixo _Shagsbere_ é nem mais, nem menos do + que um personagem dos dramas de Rutland--o seu Falstaff, cynico e + crapuloso, bebado e usurario, de quem o lord usava o nome por firmar + as peças, que considerava abaixo da sua notoria prosapia! + + Ah! com que opportunidade, lidos estes phantasticos passos do genial + «poeta maldito», nos veem á memoria as palavras que, da sua alma, + elle passou para a bocca de Macbeth: + + «A vida! mas se a vida não é mais do que uma historia, contada por + um tolo furioso e que não significa coisa alguma...» + + * * * * * + + Emfim, sahimos a custo dos multiplices enredos da sua vida, pela + unica porta aberta ao mais dos criticos--a da sua Arte, instruida da + sua primeira tradição, tambem a unica verosimil. + + Quanto ás extravagancias possiveis e até provaveis, antes da ida + definitiva para Stratford,--mais do que o conhecimento das suas + ficcionarias biographias, nos esclarece a historia da côrte de + Elisabeth, com todo o seu enredo extranho. Jean Richepin, cujos + estudos em parte resumimos, no desenvolvimento da presente nota, não + só frisa a influencia daquella côrte, na obra do Poeta, como + conclue, a proposito do seu caracter e Arte o seguinte: + + --«A Arte e a moralidade estão sobre dois planos differentes, dois + planos que se não confundem, em boa verdade. Que de tempos a tempos + estejam de accordo, simulando juntar-se sobre um plano unico,--eis o + que pode succeder e encantar-nos. + + .................................................................. + + Mas se os dois planos se mantêm separados que fazer? Eu desejaria, + de certo, que elle (Shakespeare) tivesse sido, ao mesmo tempo, um + homem honesto, o grande artista, um bom pae, bom marido; mas, nem + por isso, deixo de preferir que elle tenha sido o contrario de tudo + aquillo e nos tenha dado uma bella obra.» + + O que vale concluir pela necessidade de admittir Shakespeare, tal + como nos surge á primeira luz, liquidando a sua aventura dramatica + pelo regresso a Stratford, onde parece ter vivido os ultimos cinco + annos, longe do theatro das suas maiores façanhas pessoaes, como dos + seus dramas--porventura viciento e avaro, como no-lo pintam, + distrahido no seu novo papel de rico, e, no entanto, sempre, de + alguma forma, lembrado das suas antigas relações e vida de scena, + como é positivo e se vê ainda do proprio testamento, em que + contemplou dois camaradas. + + Assim chegamos, naturalmente, e ainda guiado pela lenda, até á morte + do Poeta, na sua terra de origem, afinal tambem a mesma onde, + porventura, a seu desejo, foi inhumado e, de direito, é que + descanse. + + Isto, mau grado as lamentações de Irving, quando, ao visitar o seu + tumulo, entre os velhos monumentos da nobreza, que o rodeiam, + notava, com mágoa, o seu desenho mais do que modesto! + + (Confrontem-se J. Richepin, ob. cit.; Oeuvres dramatiques de William + Shakespeare, traduction par Georges Duval; W. Irving; e Garrick.). + + [10] Vid. _Camillo Inédito_ annotado. + + + + +INDICE DAS ILLUSTRAÇÕES + + Pag. + +Retrato de Camillo por Antonio Carneiro. . . . . . . . . 9 + +Retrato de D. Anna Augusta Placido . . . . . . . . . . . 17 + +Ultimo retrato de Camillo feito na «União» . . . . . . . 33 + +Busto de Camillo por Diogo de Macedo . . . . . . . . . . 41 + +Projecto de monumento a Camillo por Teixeira Lopes . . . 49 + +O Jazigo de Camillo na Lapa. . . . . . . . . . . . . . . 65 + + + + +_DESTA EDIÇÃO FEZ-SE UMA TIRAGEM ESPECIAL DE QUATRO EXEMPLARES EM PAPEL +WHATMAN, NUMERADOS E RUBRICADOS PELO AUCTOR._ + + + + +ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTE OPUSCULO AOS DOZE DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DE +MIL NOVECENTOS E DEZESETE, NA TYPOGRAPHIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA», +SITA Á RUA DOS MARTYRES DA LIBERDADE NA CIDADE DO PORTO. + + + + +NO PRELO: + +_Camillo Inédito_ annotado, 2.º milhar. + +_Fanny Owen e Camillo_, 2.ª edição. + + + + + + + +End of Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS CINZAS DE CAMILLO *** + +***** This file should be named 34742-8.txt or 34742-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/7/4/34742/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. |
