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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Elogio Historico do Conde de Ficalho + +Author: Eduardo Burnay + +Release Date: December 11, 2010 [EBook #34624] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELOGIO HISTORICO DO CONDE *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + + ELOGIO HISTORICO + + DO + + CONDE DE FICALHO + + LIDO NA SESSÃO SOLEMNE + + DA + + ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA + + EM 25 DE MARÇO DE 1906 + + PELO SOCIO EFFECTIVO + + EDUARDO BURNAY + + + + LISBOA + Por ordem e na Typographia da Academia + 1906 + + + + + EXTRACTO DA Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, + nov. ser., Classe de Sciencias Moraes, etc. + + -- + + TOMO XI--PARTE I + + + + + SENHORA E EXCELSA RAINHA + + ALTEZA REAL + + ILLUSTRES CONFRADES + + MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES: + + +A Academia em sessão solemne, e como que na presença de seu Regio +Presidente e Protector,--pois que impedido de comparecer, por motivo +felizmente destituido de gravidade, se acha para todos gratamente +representado por Vossa Magestade e por Vossa Alteza Real--a Academia +entende prestar hoje a homenagem em divida a um dos seus mais distinctos +e assignalados membros--o fallecido socio Francisco de Mello, 4.º Conde +de Ficalho. + +Se attendermos a que tendo elle estado n'esta Academia inscripto na sua +1.ª Classe e incorporado na Secção de sciencias historico-naturaes, como +especial cultor do ramo botanico, que distinctamente professou na nossa +Escola Polytechnica,--a quem mais directamente caberia officiar n'esta +solemnisação seria ao nosso preclaro collega D. Antonio Xavier Pereira +Coutinho, que ao Conde de Ficalho succedeu na cadeira de Botanica. + +Não tendo sido possivel arrancal-o ao seu conhecido retraimento, filho +de uma imperiosa e irresistivel modestia--na grandeza só comparavel á do +seu realissimo merito--na verdade, qualquer socio d'esta Academia, sem +distincção de classe, poderia assumir a tarefa, visto que o Conde de +Ficalho, á semelhança de Latino Coelho e de Corvo, illustradissimo em +quasi todos os ramos da sciencia, foi tambem, mais do que simples cultor +de boas lettras, escriptor consummado. + +É assim que, como a qualquer outro poderia caber, sou n'este momento o +porta-voz da Academia na glorificação do seu fallecido socio, sem outro +especial motivo que não seja, para mim, a razão... academica, de que +tendo elle, botanico, feito um dia n'esta mesma sala o elogio do +chimico Antonio Augusto de Aguiar, a Chimica estaria de certa maneira em +divida para com a Botanica...... + +É artificiosa esta invocação de um _Deve_ e _Ha de Haver_ em materia de +panegyricos academicos? + +Será. Mas amplamente corrigida fica pelo veridico, sincero, nada +artificioso sentimento, que tão grato me torna prestar aqui, em nome +collectivo, a um collega desapparecido, a homenagem do apreço e +admiração que em vida todos lhe consagravamos, e que para mim se radicou +em vinte annos de excellente camaradagem escolar. + + +O justo elogio do Conde de Ficalho surgiu, pode dizer-se immediato, por +occasião do seu fallecimento, em todos os orgãos da imprensa, pois com +elle desapparecera uma das personalidades de maior notoriedade da +sociedade portugueza na ultima metade do seculo passado. + +A sua complexa e brilhante individualidade pôl-a, tambem brilhantemente, +em elegante relevo o elogio proferido em outro logar pelo Conde de +Arnoso[1], e na _Tradição_[2], interessante publicação, a que o nosso +consocio muito queria, e que viu a luz em Serpa, antiga villa-solar da +Casa de Ficalho, um numero especial de homenagem lhe foi consagrado, com +a collaboração de Ramalho Ortigão, D. Antonio Xavier Pereira Coutinho, +Theophilo Braga, Conde de Sabugosa, Sousa Viterbo, e outros distinctos +ornamentos da sciencia e das lettras portuguezas. + +Chega mais tarde a Academia. Mas ainda não chega tarde, considerado o +nosso já conhecido e descançado apego ao proverbial conceito de que quem +tem pressa... vae devagar. + +Mas quantos teem esperado mais... e continuarão a esperar?... + +Da demora não terão, pois, _á priori_, de queixar-se os manes do nosso +defuncto collega, se é que nas empireas regiões, onde pairam os +espiritos evolados da Terra, os manes academicos ficam conservando +interesse e gosto pelas coisas do nosso instituto. + +Mas se essa mysteriosa telepathia atravez do Infinito existe de facto, +e d'isso agora tremo, de receiar é então que, em vez do infundado +reparo de demasiada demora, se justifique antes, em concilio dos +academicos que nos precederam na grande e tenebrosa viagem, a conclusão +de que melhor fôra demorar muito mais, como para outros, a consagração a +que hoje nos propomos. + +Se assim succeder, só minha será a culpa, pois que, aos olhos de todos, +bem patente é que no Conde de Ficalho não falta materia prima para +elogio, e não só para elogio, mas para bom elogio. + +Largo poderia elle ser, tantos são os aspectos, todos elles +distinctissimos, da sua tão especial e superior individualidade, e +tantos são os trabalhos seus dignos de detido exame e louvor. + +Mas a sessão de hoje não lhe pertence exclusivamente: tem de repartil-a +com o sabio Theodoro Mommsen, a quem o nosso eminente confrade Sousa +Monteiro logo erigirá em aureas palavras o condigno monumento. E assim +cumpre resumir-me, o que aliás faço tanto mais gostosamente quanto +sempre algum proveito poderei auferir de me acolher, embora por +necessidade, ao horaciano preceito, que promette maior agrado aos +discursadores que não abusem da attenção do auditorio. + + * * * * * + +Posto isto, meus senhores, que hei de rapidamente referir da saudosa +figura do Conde de Ficalho, como que presente ainda aos nossos sentidos? + +Todos recordam n'este momento a sua tão esbelta figura, o seu tão +donairoso porte, a sua esculptural cabeça e a fina linha do seu perfil, +o seu intelligente, avelludado e piscante olhar, a sua bocca amoravel e +espirituosa, a sua voz suave e clara, a expressão accentuadamente +intellectualisada da insinuante physionomia, a aristocratica +rescendencia de toda a sua pessoa. + +Na lembrança de todos está tambem a sua singular, ou para melhor dizer +plural, aptidão para tudo, e que lhe permittia desempenhar-se sempre +distinctamente de quanto emprehendesse--litteraria, scientifica, +artistica e mundanamente: o que, accrescido do seu saber scientifico e +litterario e do peculio de noticias adquirido em visitas ás côrtes +extrangeiras com os reis e principes portuguezes, tornava o seu convivio +altamente interessante, sem embargo de, por vezes, com certa +desegualdade de humor, que era o _mas_ da sua normal affabilidade, se +dar por seccado e falto de pachorra. + +Ninguem esquece tão pouco, tão caracteristico era, aquelle patente e +despreoccupado ar de satisfação, de si proprio e do seu exito na +vida--de que estava longe de ser um _vencido_!--ar que nada se parecia +com vaidade, e era apenas uma especie de _joie de vivre_, e de que +tão natural e temperadamente usava, que longe de ferir quem quer que +fosse, que em si proprio ainda mais gosto fizesse, a todos parecia +corrente, e antes mais inclinava para se sympathisar com esse agradavel +estado d'alma, embora alheio, do que para de elle murmurar. + +E, finalmente, algum mais intimo d'entre vós poderá tambem recordar na +sua saudade o que n'elle havia--a despeito da sua sorridente mascara de +sceptico e de certo intencional egoismo, mais intencional do que real, +com o qual como que achara commodo simplificar a existencia--o que +n'elle havia, iamos dizendo, de fundamentalmente bom e carinhoso para os +seus amigos e de compassivo para o que de compaixão era digno. + +Com um tal conjuncto de predicados physicos e psychicos, estheticos e +moraes, Ficalho--assim era uso fazer-lhe abreviada referencia--Ficalho +constituiu em todos os meios da sociedade portugueza, quer entre varões, +quer entre donas,--que não desestimava e de que não era tão pouco +desestimado--uma personalidade á parte, de especial relevo e distincção, +onde quer que apparecesse, e pelo quê bem se comprehende que tantas +vezes fosse utilisado para representar o Rei e a Nação em cerimonias +internacionaes da maior pompa e responsabilidade decorativa, no melhor e +mais alto sentido da expressão o dizemos. + +Mas para nós, academicos, o que avulta no nosso preclaro confrade não +são todos esses dotes naturaes, de que era o feliz, mas irresponsavel +portador e usufructuario, por condição, não de acção e vontade propria, +mas de simples nascimento. O que principalmente nos cabe celebrar é o +que representa, na consideração e notoriedade a que chegou, a sua +iniciativa na ulilisação dos congenitos apanagios que da estirpe lhe +provinham, e que como que o embalaram no seu dourado berço de senhor de +Ficalho e de morgado de Serpa. + + * * * * * + +Nas modernas sociedades, a maioria dos homens que hoje attingem +situações culminantes na consideração publica veem de nada, ou de pouco. +São _self-made-men_, na expressão ingleza. A necessidade é que os faz, é +ella o inicial estimulo e factor do seu engrandecimento. Tal é +approximadamente o caso de quasi todos nós. + +Na lucta da concorrencia, ao contrario, os individuos das antigas +classes aristocraticas, carregadas de glorias passadas, seculares e +genuinas, mas constituidas em bases diversas das da illustração moderna, +como que nascem com a atrophia das faculdades necessarias para o +moderno combate e propendem a decahir. + +No nosso consocio o caso é todavia differente: nasce aristocrata, +fidalgo de grande linhagem, illustre já no berço, mas a essa illustração +de herança accrescenta outra mais effectiva, que conquista com o seu +esforço, na mais democratica competencia, no concurso e na publicidade +das acções por que se affirmam o merito e o talento. + +Não ha duvida que de boa linhagem vinha o Conde de Ficalho, boa não só +no sentido nobiliarchico do termo, mas ainda no do essencial valor. + +Os Ficalhos, Mellos de appellido, proveem de Mem Soares de Merlo, um dos +esforçados cavalleiros das ordens de Santiago e de Aviz, que ajudaram +Affonso III á conquista final do Algarve, e de Martim Affonso de Mello, +guarda-mór de D. João I. + +N'estes Mellos se enraizam as casas de Cadaval, Sabugosa, S. Lourenço, +Ficalho, Mello e Murça, dando á nação portugueza galhardos capitães, +viso-reis, governadores ultramarinos e distinctos homens de guerra e de +côrte, atravez todo o cyclo da velha monarchia. + +Ao despontar, porém, das idéas liberaes, ao passo que a massa da nobreza +reage e se concentra na defeza das instituições seculares, os Ficalhos +vemol-os logo precocemente abraçados á nova causa, batendo-se e +padecendo por ella. + +E pela causa não padeceram só os homens, os quatro filhos da condessa +viuva de Ficalho, D. Eugenia--Antonio, que depois foi o marquez de +Ficalho; Luiz, que foi conde de Sobral; José, que na armada se +distinguiu; e Francisco, que morreu conde de Mafra. Soffreu ella +propria, prisioneira do governo miguelino no convento do Grillo, +sequestrada de todo o conhecimento do destino dos valorosos filhos, pelo +unico crime... de ser sua mãe! + +Assim, com Palmella, Terceira, Saldanha, Loulé, terminada a lucta, os +Ficalhos, como constitucionaes que eram da _vespera_, e não de simples +_adhesão_ ao triumpho liberal consummado, constituiram o nucleo da nova +côrte, onde sempre permaneceram nos mais altos cargos. A torturada mãe, +nomeada camareira-mór da infantil rainha, foi feita marqueza e depois +duqueza de Ficalho. + +Distincta raça esta dos Mellos, que em tantas das suas vergonteas, sem +menosprezo de seus pergaminhos, antes de reforço a elles, mostrou +comprehender que os homens valem, acima de tudo, pelo seu merito proprio +e pelo de suas obras, que não pelo de seus antepassados, que apenas lhes +cumpre honrar, e se esforçou em affirmar e desenvolver o valor proprio, +em harmonia com o progressivo criterio dos tempos. + +Para os quadros d'esta Academia deram os Mellos, em categorias varias, o +seu contigente, pois na lista de socios e associados se encontram, além +do Conde de Ficalho, os seguintes nomes: Domingos de Mello Breyner; +Pedro de Mello Breyner, regente que foi do Reino, constituinte de 1820 e +fallecido nas masmoras de S. Julião da Barra; D. Segismundo Caetano +Alvares Pereira de Mello, duque de Lafões; Antonio de Mello da Silva +Cesar e Menezes, conde de S. Lourenço; Antonio de Mello, marquez de +Ficalho. Aos quaes foi tão grato, quanto justo, associar recentemente a +titulo effectivo, e como que para que os Mellos aqui tivessem sempre +distincta representação, o nome de Antonio Vasco de Mello, conde de +Sabugosa. + +Como se vê, Francisco de Mello, que nasceu aos 27 dias de julho de 1837, +filho do 2.º marquez e 3.º conde de Ficalho e da virtuosa marqueza D. +Luiza Braamcamp de Almeida Castello Branco, primaria educadora de seu +unico filho, e neto da duqueza de Ficalho, a prisioneira do convento do +Grillo, Francisco de Mello, iamos dizendo, veiu a este mundo n'uma +condição social, que, junta á independencia de fortuna e a seus +sympathicos e brilhantes dotes naturaes, lhe permittia fazer uma +agradavel, distincta e facil carreira na côrte e nos centros mundanos e +elegantes. + +Não desprezou isto, que lhe vinha como patrimonio da natureza e da +familia. Mas não se contentou, e desde moço caprichou em ser tambem +alguma cousa, por si mesmo, em ser o que foi: «_par droit de naissance +et par droit de conquéte._» + + * * * * * + +Tinha Francisco de Mello 18 annos, quando, concluidos os preparatorios +para entrar na Escola Polytechnica,--preparatorios que estudou em Serpa +com a unica lição da mãe, do capellão e de um emigrado hespanhol,--ahi +se matriculou em 1855. Cinco annos depois havia concluido com singular +distincção o seu curso. E com tanta distincção que, tendo-se dado, ainda +elle estudante, uma vaga de lente substituto na cadeira de Botanica, +pela morte de José Maria Grande, e contando apenas 23 annos, a sua +candidatura era acolhida com summo agrado, e, realisado o concurso em +1860, foi elle o preferido por unanimidade de votos, sendo nomeado lente +substituto em 3 de janeiro de 1861. A lente proprietario só passou +depois, em 27 de janeiro de 1890, pela morte de João de Andrade Corvo. + +Conquistada a sua cadeira no alto professorado, podia tambem, como +tantos prematuramente fazem, descançar sobre os louros colhidos, e +limitar-se depois a arvorar o seu titulo de lente para vaidosa gloriola +na côrte. + +O sincero culto das coisas intellectuaes manteve-o, porém, sempre, e não +só esforçando-se no cumprimento dos deveres escolares, mas preferindo a +todos os outros o convivio dos livros e dos homens cultos que honravam o +paiz. E foi assim, talvez, que succedeu escolher para esposa D. +Josepha de Menezes Brito do Rio, filha de D. Maria Krus Brito do Rio, +cujos salões, onde se não dançava, eram ao tempo o grande centro +intellectual de Lisboa. + +Quem só conheceu o Conde de Ficalho nos ultimos dez ou quinze annos, com +mais aspecto de mundano que de estudioso, poderia pensar que elle sempre +assim fôra. + +Puro engano. Assim se tornara como por uma especie de jubilação, que a +si proprio se concedera cerca dos 50 annos. Mas além de que nunca +desamparou os livros, e as suas ultimas publicações o demonstram, na sua +mocidade fôra muito mais retrahido das mundaneidades, que aliás não +estavam tambem tanto na moda como hoje, em que propendem a degenerar +n'um assaz generalisado culto de deliquiscente _snobismo_. + +Todavia, ao ser nomeado lente, não deixou de parecer extranho, e talvez +espantoso, vêr-se um moço da côrte, filho de marquezes, neto de duques, +arvorado professor de uma escola superior, em logar a que só se dedicam +os que teem de por tal caminho fazer vida. E d'ahi maliciosos remoques e +ironicos sorrisos sobre o caso, tão proprios do nosso galhofeiro meio. + +Nasceu assim um dia o ambiguo dito, referente ao novel professor de +botanica, segundo o qual dito elle era «_lente entre os condes, e conde +entre os lentes_»! Maneira de se dar a suppôr que não era nem grande +conde, nem famoso lente. + +A formula na sua simplicidade aphoristica, e na sua contextura symetrica +e alternante, não deixa de ser engraçada, e foi durante algum tempo +bastante glosada, pelo seu sabor malicioso, ou simplesmente espirituoso. + +Em si era absolutamente inexacta e injusta. Isto na parte de que podemos +dar testemunho, e quero crer que na outra tambem. E tanto que não fez +caminho. + +Se entre os condes, o de Ficalho era ou não conde, não tenho qualidade +para o dizer, mas no que por alto é conjecturavel, e tanto quanto d'isso +é dado a simples academicos prever, é licito suppôr que se elle entre os +condes não era conde, era então certamente marquez, senão duque. + +Quanto a lente era-o entre os mais distinctos lentes, e não desmerecendo +no confronto com elles. + +Direi mais: tendo conhecido nas aulas publicas numerosos e abalisados +mestres, poucos encontrei tão bem dotados para tão especial mister como +o Conde de Ficalho. + + +Saber é uma cousa, ensinar é outra, embora o saber seja a base essencial +de todo o ensino. + +Não se pode ensinar sem saber. Mas pode-se saber em absoluto e não se +saber ensinar. O ensino não se faz com excesso de erudição ou de +criticismo, sob pena de produzir inassimilavel e nocivo +enfartamento, ou irresistivel repugnancia, desattenção e tédio. + +O melhor professor não é o que propina mais doutrina, é o que na dose, +qualidade e fórma a incute mais efficazmente. Saber do seu maior peculio +de sciencia extrahir o mais essencial, esse extracto conformal-o n'um +molde mais simples para que se torne mais adaptavel, condimental-o, se +tanto for necessario, com observações ou exemplificações de caracter tal +que tornem o assumpto mais insinuante e proprio a conquistar a attenção +e interesse do alumno--sem o quê tudo é perdido--tal é a regra +pedagogica fundamental. + +A funcção do professor não reside por fórma alguma em ostentar erudição. +Ao contrario, ha quasi sempre que fazer o sacrificio de a occultar, para +não complicar o thema e o tornar incomprehensivel ou aborrecido, pois a +arte do ensino, longe de ser, como alguns inconscientemente praticam, a +complicação do simples, para o effeito de exhibir transcendencia, deve +ser a simplificação do complicado, por vezes até á substituição das +realidades naturaes pelos simples schemas ou formulas. + +D'isto tem de compenetrar-se o professor. Mas não basta: importa que +tenha em si as qualidades para o pôr em acção, que tenha por natureza, e +n'uma palavra--faculdade e dote de insinuação. + +Uma expressão nitida, rigorosa e apropriada, que permitia seguir-se com +a comprehensão a exposição professoral, é indispensavel, sendo tão +improprio e inconveniente o grande jogo da oratoria retumbante e +carregada de phrases, como a linguagem confusa, imprecisa e equivoca. + +Mas ainda não é tudo. Se a voz é deficiente ou ingrata, se a articulação +é imperfeita, se o sobrio gesto que acompanha a palavra a não secunda, +se os olhos não fallam com a voz e pela sua scintillação não attraem +convergentemente sobre o professor o olhar e com elle o ouvido e a +attenção dos alumnos--em grande parte a lição vae perdida. + +Ao contrario, por completo é aproveitada se, observadas as regras +enunciadas, aos dotes acima preconisados o professor reune condições de +sympathia esthetica, de espirituosidade, de correcção moral e de +cordialidade de trato, que lhe realcem o prestigio humano e a +agradabilidade do contacto. + +Tudo isto, senhores, bem o reconheceis, são considerações e previsões +que se extraem da simples razão. + +E, todavia, o facto é este: dir-se-ia que fomos como que photographar o +Conde de Ficalho na sua aula, para d'essa photographia deduzirmos os +ideaes preceitos e condições da distincção professoral. + +Mas é que o Conde de Ficalho,--_o conde entre os lentes_,--foi sem +sombra de favor o que se pode chamar um professor modelo. Ainda que +assaz erudito, não puxava o ensino para transcendencias de erudição, e +antes procurava amoldal-o e amaneiral-o á condição dos neophytos da +sciencia que professava. + +E que lindo quadro o de Ficalho, com a sua garbosa e insinuante figura, +na sua cadeira de mestre, deante de si a grande mesa recoberta de +matizados exemplares vegetaes, empunhando um na sua tão fina e +aristocratica mão, e commentando-o em palavras descançadas, harmoniosas +e suaves, tão simples quanto proprias e graciosas, perante o juvenil +auditorio! + +Na atmosphera não havia só o perfume emanado da materia prima do ensino, +havia o do encanto derramado pela palavra elegante do mestre e pela sua +propria e communicativa elegancia de porte e de maneiras. + +Estava-se n'uma aula, sem duvida, porque o professor não divagava para +fóra da lição. Mas irresistivelmente se recebia a impressão de que se +estava tambem n'uma sala, pois se preleccionasse perante as mais +formosas damas da côrte não disporia o Conde de Ficalho de mais primor, +de mais gentileza, de mais gosto de agradar e conquistar do que +amoravelmente usava para com os rapazes de toda a condição que vinham +frequentar o seu curso. + +Amavam-no elles e respeitavam-no? + +Sem duvida. Ainda que, não se prestando o feitio aristocratico, embora +affavel, de Ficalho á familiar permuta d'essas sentimentalidades, que +são a precaria base da popularidade, nem inclinando tão pouco na +disciplina escolastica ás praticas corregedoriaes, que, sob a fórma de +vago terror, accentuam o respeito, a impressão predominante que elle +determinava era antes a de uma peculiar distincção entre os demais +collegas seus, resultante de o olharem como um lente á parte--mixto +primoroso e raro de homem de estudo e de homem de côrte, consorcio +professoral imprevisto e maravilhoso de _magister scientiarum_ e de +_magister elegantiarum_. + + +Lisonjeiramente apreciado pelos estudantes, não o era menos pelos seus +collegas, cujos trabalhos de toda a ordem partilhava e com os quaes +mantinha as mais cordiaes e amenas relações. Não desamparava os +conselhos escolares, nem se desinteressava de coisa alguma que +importasse ao bem da Escola, e os seus pareceres eram sempre tão +judiciosos quanto despidos de pretenção. Não se pode imaginar +camaradagem academica, nem mais correcta, nem mais agradavel. + +Isto, todos os lentes da Escola Polytechnica vol-o poderiam repetir, em +corroboração do meu testemunho. + +Mas não é preciso, pois que, senhores academicos, por vós mesmos o +sabeis, do convivio de mais de 25 annos que aqui tivestes com aquelle +cujo desapparecimento hoje saudosamente registamos. + +Em 7 de maio de 1877 foi elle eleito correspondente da Academia, em 19 +de fevereiro de 1880 socio effectivo, e em 1897 tivemos a honra de o ter +como Vice-Presidente. E durante esse assaz longo periodo, e n'essas +diversas condições, o nosso instituto poude sempre apreciar, ao lado do +seu grande valor academico, o conjuncto de qualidades moraes, que nos +tornam hoje a sua memoria tão respeitada e querida. + +Outras corporações a que pertenceu poderiam, aqui chamadas á auctoria, +trazer identicos testemunhos. + +Mas, repetimos, não é preciso: o seu primor moral está em todas as +consciencias, e a sua valia academica demonstra-se nos seus trabalhos, +na sua bella e esmerada obra. + +O tempo nos aperta, mas indispensavel é consagrar a esta algumas palavras. + + * * * * * + +A obra do Conde de Ficalho é relativamente extensa e volumosa, mórmente +consideradas as prisões e distracções da côrte, em que mais ou menos +esteve sempre envolvido. E, dada esta circumstancia, mais admira ainda +que seja tambem, como realmente é, de tão bom e escrupuloso quilate e de +tão primoroso lavor. + +No campo restrictamente scientifico, como naturalista, occupou-se +inicialmente o Conde de Ficalho do estudo do herbario africano, colhido +em missão official do governo portuguez pelo Dr. Welwitsch, herbario +pertencente a esta Academia, subsequentemente confiado á Escola +Polytechnica, e de que em Londres existe duplicado. + +Esse estudo fel-o conjunctamente com o Dr. Hiern, que ultimamente +publicou a conclusão dos trabalhos, na qual se encontra repetidas vezes +a nota collaborativa do botanico portuguez. E tambem com o mesmo Dr. +Hiern publicou em 1881, em inglez, nas _Transactions_ da _Sociedade +Linneana de Londres_ (de onde foi vertida para portuguez), a memoria +intitulada _On central Africa Plants collected by Major Serpa Pinto_. +Comprehende a nota de 60 especies, das quaes 20 foram descriptas como +novas. + +Concernente ainda á Africa, produziu em 1884, nos _Boletim da Sociedade +de Geographia_, uma interessante memoria de cerca de 300 paginas, +intitulada _Plantas uteis da Africa Portugueza_, com uma nota +descriptiva e historica de 299 especies. + +Da _Flora Portugueza_ se occupou tambem, publicando, de 1877 a 1879, no +_Jornal da Academia_, contribuições para a revisão de varias familias de +plantas portuguezas do continente, e em 1899, com a collaboração de +Pereira Coutinho, nos deu nos _Boletins da Sociedade Broteriana_, +de Coimbra, valioso trabalho sobre as _Rosaceas de Portugal_, +comprehendendo a diagnose de 76 especies, relativas a 26 generos. + +Mas o Conde de Ficalho não tinha o temperamento de um simples e frio +naturalista. A sua tão completa e esmerada educação abrira-lhe +horizontes mais largos, e o seu fundo era irresistivelmente de artista. + +Assim, a maior parte da sua obra scientifica assume, não só caracter +litterario e philosophico, mas uma perfeição e graça de fórma, que a +torna singularmente distincta. + +A _Memoria sobre a malagueta_, apresentada em 1878 á nossa Academia, é +no genero um verdadeiro primor, onde se revela vasta leitura, +excellentemente exposta, e consideraveis recursos de conhecimentos +historicos, geographicos e philologicos. É modelar. + +Em 1880 celebrava-se o Centenario de Camões. Ficalho consagrou-lhe +tambem uma pequena monographia, que pittorescamente intitulou--_Flora +dos Luziadas_. + +É a identificação de todas as especies vegetaes referidas no immortal +poema, europêas e exoticas, em numero de 52. + +Trabalho essencialmente de erudição e de technica botanica, mas +constituindo no conjuncto uma peça litteraria do mais gracioso lavor, +nos seus tres capitulos: _Flora Poetica--A Ilha dos Amores--Flora +Tropical._ + +A _Ilha dos Amores_! Existe? Onde? No Atlantico? No Mediterraneo? Nos +mares do Oriente? + +Faria e Sousa localisou-a na ilha Anchediva. O morgado de Matheus, e +outros, na ilha de Santa Helena. Gomes Monteiro na ilha de Zanzibar. + +Ficalho dilucida o ponto, tão simples, quanto admiravelmente: a flora da +ilha é a flora a um tempo da patria portugueza e a classica flora de +Homero, de Virgilio e de Ovidio. Portanto a verdadeira situação +geographica da ilha conclue elle... «é na phantasia do poeta; e não está +mal collocada». + +Ponto interessante tambem, n'esta engenhosa monographia de 100 paginas, +é a observação dos abundantes conhecimentos que Camões tinha da flora, +como de tudo o mais que ao tempo se sabia, e da precisão, propriedade e +justeza com que, dentro do impeccavel metro e da perfeita rima, +caracterisava a especie natural a que queria fazer referencia. + +Affirmado o seu gosto e competencia para os trabalhos de erudição +botanica, Ficalho estava naturalmente indicado para presidir á reedição +dos _Colloquios dos simples e drogas da India_, de Garcia da Orta, +deliberada em 1889 pela Academia. + +Na India, em Gôa, onde era physico-mór, publicara Garcia da Orta, em +1563, os seus famosos _Colloquios_, repositorio importantissimo, embora +de contextura um pouco pueril na sua fórma dialogada, do +conhecimento das plantas e drogas indicas, e constituindo n'esse momento +o primeiro documento rigoroso, authentico e scientifico sobre a materia. + +Logo em 1567, Carlos de l'Escluse--latinamente Clusius, tendo conhecido +em Portugal, onde viera, o tratado do abalisado medico e botanico +portuguez, o refundiu e simplificou em latim, e a esta edição se +seguiram mais quatro, nos annos de 1574, 1579, 1593 e 1605. + +Em italiano foi depois vertida, por Annibal Briganti, a traducção de +Clusius, publicando-se, desde 1576 a 1605, oito edições. + +Ha finalmente mais duas edições de uma traducção franceza de Clusius, +por Antonio Collin, com as datas de 1602 e 1619. + +Total: 1 edição portugueza, e 15 edições extrangeiras de imperfeitas +traducções. + +Em 1841 a _Sociedade de Sciencias Medicas_ chamava para o assumpto a +attenção dos poderes publicos, pedindo a reimpressão dos _Colloquios_, +de cuja primeira edição eram já preciosamente raros os subsistentes +exemplares, e recorria á intervenção de Fr. Francisco de S. Luiz e de +Garrett. Ambos fizeram á idéa o melhor acolhimento, e por portaria de 27 +de maio de 1841, assignada por Rodrigo da Fonseca Magalhães, se +determinou a reimpressão dos _Colloquios_, sob a direcção do conselheiro +João Baptista d'Almeida Garrett. + +Não teve andamento este tentamen, e é só em 1872 que Varnhagen, visconde +de Porto Seguro, nos dá uma 2.ª edição da obra de Garcia da Orta. Para +se occupar d'este trabalho era sem duvida competente Varnhagen, mas, ou +porque o não pudesse acompanhar, ou por qualquer outro motivo, a nova +edição sahiu com bastos erros, uns trazidos da primeira, outros novos, e +desacompanhada das necessarias elucidações. + +Foi isto, sem duvida, que motivou a deliberação da Academia, +encarregando o Conde de Ficalho de levar a cabo uma nova edição dos +_Colloquios_, devidamente apurada e commentada. + +A escolha não podia ter sido, a todas os respeitos, mais acertada, pois +os dois volumes eruditamente annotados dos _Colloquios dos simples e +drogas da India_, com o antecedente volume que lhes serve de +introducção--_Garcia da Orta e o seu tempo_, ficaram constituindo, no +total das suas 1200 paginas, um verdadeiro monumento classico, um +trabalho magistralissimo em toda a parte. + +Foram as leituras feitas para a confecção do admiravel prefacio +historico dos _Colloquios_ que deram mais tarde ao Conde de Ficalho a +idéa e lhe propiciaram os fundamentaes elementos para o livro que a esse +trabalho se seguiu--as _Viagens de Pero da Covilham_. De Pedro da +Covilham, que á India foi dez annos antes de Vasco da Gama, de cuja +empresa foi como que preparante, e que mais de trinta annos passou +na mysteriosa Ethiopia, junto do quasi fabuloso Preste João. + +«Este pero de covilham, escrevia o Pe. Francisco Alvares, é homem que +todas as cousas a que o mandaram soube e de todas dá conta». + +Ficalho commenta eloquentemente, no fecho do seu bello +volume:--«Mandaram-no procurar a pimenta e a canella, quando ninguem nas +nossas terras occidentaes sabia d'onde aquellas especiarias vinham; e +elle foi, e encontrou o caminho, e chegou á India, e não se contentou em +ir á India, foi tambem a Sofála. Mandaram-no ao Preste João, quando +ninguem conhecia a sua morada, nem quasi em que parte do mundo tal +morada se encontrava; e elle foi, e achou o Preste João, e fez-se amigo +da avó do Preste João, e acabou pela convencer que devia mandar uma +embaixada a Portugal. Todas as cousas a que o mandaram soube, e de todas +deu conta». + +É um minusculo specimen do estylo e maneira de Ficalho, mas que bem +retrata as suas qualidades de simplicidade, de relevo, de gosto e de alma. + +A obra scientifica do Conde de Ficalho accrescenta-se finalmente com a +excellente introducção, admiravel quadro da economia rural portugueza, +como diz Pereira Coutinho, com que enriqueceu o grosso e compendioso +volume, que o governo portuguez enviou á Exposição internacional de +Paris, de 1900, com o titulo--_Le Portugal au point de vue agricole._ + + * * * * * + +Na pura litteratura, que nos deixou o Conde de Ficalho? + +Escreveu o nosso consocio, o conde de Sabugosa, que elle distinctamente +versejava na inspiração acidula de Baudelaire e na dolente cadencia de +Musset. Para publico,--além das suas admiraveis _Notas ácerca de Serpa_ +e do seu erudito estudo sobre _O elemento arabe na linguagem dos +pastores alemtejanos_, tudo constante de numerosos artigos na +_Tradição_, só veiu, em prosa, um volume de novellas e contos, em 1888. + +Mas na sua mesma simplicidade, que primor de concepção, de observação, +de analyse, de execução, e que revelação de talento romantico, n'esse +delicioso volume, em que se encontram: _Uma eleição perdida.--A caçada +do malhadeiro.--A maluca d'A dos Corvos.--A pesca do savel.--Os +cravos.--Mais uma!_ + +Penitencio-me de só agora os ter lido, esses deliciosos contos a que se +não fez _reclamo_, e é doce penitencia, que a todos que se achem no +mesmo peccaminoso caso muito recommendo, para accrescerem de mais um +motivo a sua admiração e sympathia pelo Conde de Ficalho. + +A leitura d'esses contos, episodios todos referentes á terra alemtejana, +com um profundo sabor regional, é um verdadeiro e saudavel goso. + +O auctor revela-se, como de prever, _naturalista_, mas de temperamento e +sentimento seu, proprio, e não de _escola_. Inspira-se, como homem de +sciencia, na verdade, mas sem a conhecida predilecção dos corypheus do +realismo para os seus aspectos mais ou menos monstruosos e deprimentes, +e antes propendente ás conclusões sentimentaes, felizmente não extranhas +á natureza humana, e que moralmente a elevam e sublimam. + +Na primeira e mais importante das novellas--_Uma eleição perdida_, no +fidalgo Julio d'Azevedo julga-se a principio vêr despontar uma especie +de parente de Carlos da Maia, o brilhante e amoral protogonista do +famoso romance lisboeta de Eça de Queiroz, mas o desengano vem com +commovido aprazimento do leitor. Julio d'Azevedo, coisa menos vulgar na +litteratura realista, não é neurasthenico, nem nevrotico, nem +degenerado, mesmo superior. A physiologia não se impõe n'elle acima das +exigencias da dignidade humana, que prevalecem. Tem sentimentos, tem +disciplina moral, e o episodio simples e casto do seu vago e doce enleio +com a tão timida e rendida Margarida, a filha do entrevado escrivão +Pascoal, o _passarinheiro_ da meninice de Julio, mais de uma vez, pelo +seu encanto tão singelo e irresistivelmente sentimental, nos humedece as +palpebras. + +Que revelação esta, e tão inesperada: Ficalho, juntando a tantas outras +faculdades a de um enternecimento tão subtilmente communicativo... + +Não ha duvida! Debaixo da sua mascara de impassivel homem do mundo +havia, como sempre o disseram os seus amigos, um coração, humanissimo +_malgré lui_, de honesta e bondosissima textura, e á piedade filial, dos +que dignamente lhe ficam representando o aureolado nome e conservando +sua resplendente memoria, será certamente grato observar n'este momento +que em seu elogio a Academia não esquece o registo d'esses dotes de +sensibilidade, que á saudade são sempre os mais caros. + +Não posso alongar-me em considerações sobre a pequena, mas linda obra +litteraria de Ficalho, representada no volume de contos a que acabo de +fazer referencia, e que se poderia, de certa maneira, pelo seu caracter +regional, por, sob o titulo de _Novellas do Alemtejo_, em parallelo com +as _Novellas do Minho_ de Camillo. Mas peço licença aos meus collegas da +classe de Lettras d'esta Academia para, em fórma de fecho a este +capitulo, summariamente aventar que, a avaliar pelos fulgurantes rastos +e signaes que nos deixou, se o Conde de Ficalho se houvesse consagrado á +extreme litteratura, n'ella deixaria um nome singularmente assignalado +para a gloria das lettras portuguezas. + + +E é tudo, senhores? + +Não. No seu espolio scientifico e litterario, affirma-o o conde de +Arnoso no seu bello Elogio, deixou o Conde de Ficalho estudos sobre +_Correia da Serra_, sobre a _Flora portugueza_, memorias ácerca do +_Clima de Portugal_, das _Feculas alimenticias_ e da _Flora fossil_, +numerosissimas notas historicas, anthropologicas e linguisticas, alguns +contos, entre os quaes _Cartas do Campo_, o _Jornal de Fulano_, poesias, +e até uma peça de theatro. + +Mais. Além de escriptor, temos tambem Ficalho--orador, pronunciando o +elogio de Antonio Augusto de Aguiar, abrindo o Congresso portuguez de +medicina, por occasião do tricentenario do descobrimento do caminho +maritimo da India com uma conferencia intitulada _O descobrimento do +caminho para a India e a Materia medica_, dissertando na Sociedade de +Agricultura e em outras agremiações intellectuaes. + +E temo-lo tambem orador politico, proferindo na Camara dos Pares os seus +memoraveis e exhaustivos discursos sobre a invasão do phylloxera e sobre +o regimen cerealifero. + +Fallava como escrevia, com a mesma correnteza, propriedade e elegancia, +e na tribuna tambem o seu distincto porte physico soberanamente o realçava. + +E já que á politica fiz referencia, cumpre registar que mais de uma vez +foi convidado para ministro. Fontes, Bocage e Hintze Ribeiro debalde +insistiram com elle. Recusou sempre, com premeditada e intencional +obstinação. + +Chega hoje isto quasi a não acreditar-se: ter existido, vivo e palpavel, +sem defeito, um portuguez que não queria ser ministro! + +Vê-se que o nosso consocio, quando se lhe proporcionava a occasião, não +se lhe dava de cultivar tambem... a excentricidade. + + * * * * * + +O Conde de Ficalho, meus senhores, como heis visto, foi distinctamente +tudo quanto quiz ser, com muita gloria para si e muita honra para o seu +paiz. + +Trouxe do berço opulentissimos dotes, pelo seu esforço admiravelmente os +multiplicou, mas em tudo tambem a sorte liberalmente o favoreceu na vida. + +Foi tudo quanto mais eminentemente se pode ser. + +Na côrte foi mordomo-mór; na ordem politica, par do reino, conselheiro +de estado, embaixador extraordinario; na sciencia e nas lettras, lente e +academico; na esphera mundana, um verdadeiro arbitro, cujos varonis e +encantadores predicados, mais de uma vez--estamos em conjectural-o, como +academicos, a quem nenhum interesse humano pode ser indifferente,--mais +de uma vez, iamos dizendo, teriam, na longa e brilhante carreira do +nosso consocio, posto em doce palpitação intimos anceios de frageis e +commovidos corações. + +Mas fidalgo ficou sempre e homem de côrte, superior ás avidas +ambições da epocha, hostil aos equivocos e promiscuidades a que +taes ambições conduzem, considerando-as absolutamente incompativeis com +a sua condição no serviço real, e com o bom gosto com que sempre primou +em desempenhal-o, junto d'El-Rei D. Luiz, de saudosa memoria, e junto de +Sua Magestade El-Rei D. Carlos, que por esse e pelos seus demais meritos +tanto e tão justamente o apreciava. + +Ninguem o invejava, estava como que--_hors concours_, e antes todos se +compraziam no convivio social, proximo ao longinquo, d'aquella especie +de compendio vivo de meritos e elegancias. + +Na sociedade portugueza, mórmente na capital do reino, tinha uma +evidencia e notoriedade especiaes, em que prestigio, sympathia e +curiosidade se confundiam, e assim quando um dia, o da chegada da Real +Familia dos Açores, correu a noticia de que o Conde de Ficalho fôra +acommettido de um deliquio no Arsenal, houve um primeiro sobresalto. + +Pouco depois o facto repetia-se, e logo a má nova se espalhou que a sua +saude estava gravemente compromettida, que o seu robusto organismo se +achava ferido de morte, na trama nobre e aristocratica por excellencia +da humana textura, no systema nervoso. + +Começou-se a reparar n'elle. Retezava-se contra o adversario, mas a +tristeza invadira-o, e transparecia na fórma de uma maior +affectuosidade. O andar tornara-se incerto e mal equilibrado, da espinha +o mal subia ao cerebro, e na falla, no olhar, no pensamento, havia +preludios timidos e fugazes, mas irrecusaveis e fataes, de incipiente +inconsciencia e desvairamento, que a todos infundia a maior tristeza. + +Ambulava, articulava, mas já não era o Conde de Ficalho. Estava vivo +ainda, mas era peor do que se estivera morto. + +Não era elle. Era o seu phantasma, de dolorosa e arripiante visão! + +Felizmente para elle, felizmente para todos, o angustioso espectaculo do +progressivo desmoronamento d'aquelle privilegiado e scintillante +exemplar humano não se prolongou muito. Retido finalmente pelos +progressos da doença no seu Palacio dos Caetanos, onde nascera, e onde a +filha unica que lhe restava o fôra carinhosamente acompanhar, arrebatado +por uma congestão, no dia 19 de abril de 1903 deixava de existir o nosso +consocio, e de tão perfeito ser, de tão meritorio homem e de tão +brilhante existencia--só restava um despojo material, a accordar mais +uma vez para as mundanas meditações os echos da sempre tremenda palavra +do _Ecclesiastes_: + +_Vanitas, vanitatum et omnia vanitas!..._ + + * * * * * + +Mas será tudo vaidade, meus senhores, na existencia do homem, desde os +dons da Natureza, os felizes acasos da Fortuna, até á propria Virtude e +Sabedoria, como desoladamente o proclama o desabusado e penitente Salomão? + +No ponto de vista individual, considerada a pequenez e fragilidade das +mais assignaladas acções terrenas perante a eternidade dos destinos +fataes, tudo é vaidade, que se desfaz em pó, cinza, nada, e ao termo da +aspera jornada o mais afortunado e glorioso viandante a si mesmo +pergunta--Para quê? + +Mas não nos elevemos a tão altas conjecturações, não fitemos o Infinito, +cogitemos, como academicos, singelamente dentro da esphera dos +interesses terrenos, na orbita das benemerencias sociaes. + +É tudo vaidade, e do que foi o Conde de Ficalho, só resta realmente uma +imagem brilhante, que no seu mesmo brilho com vaidade se confunde? + +Não quererieis, illustres collegas, que eu o dissesse, e não o digo. + +Do Conde de Ficalho fica a sua obra, em muitos tomos valiosissima e +perduravel, e fica, n'um aspecto mais transcendente--um exemplo e uma +lição. + +Não é licito apoucar em ninguem o merito de por seu esforço se elevar no +saber e na consideração, seja a necessidade ou a ambição que o +estimulem. O facto é todavia normal, physiologico, e constitue a banal e +natural condição do progresso social. + +Mas um tal merito sobreleva indiscutivelmente em quem, nascido sem +necessidades materiaes, já do berço com logar marcado nas primeiras +bancadas da hierarchia social, usufruindo-o por condição de nascimento, +esse apanagio o corrobora como que pela conquista, affirmando esforçada +e democraticamente meritos proprios, sufficientes para lhe alcançarem, +fóra de todo o privilegio, eminente logar na consideração publica. + +É bem caracterisadamente este o caso do nosso consocio, o Conde de Ficalho. + +O terremoto constitucional de 1834, como terremoto que foi, destruiu +ainda mais, do que se edificou. A nobreza soffreu ahi um profundo e +talvez excessivo golpe, que a ulterior suppressão completa dos vinculos +veiu tambem excessivamente consummar, e d'ahi começou o desmoronamento +das grandes e tradicionaes familias, que eram como monumentos da +historia de Portugal, pelo esforço de cujo sangue a nação se +constituira, se mantivera e engrandecera, e que deviam ser +salvaguardadas, como elos preciosos entre o Passado e o Futuro, a +affirmarem a continuidade e indissolubilidade da gloria nacional. + +Tomadas de surpreza, sem preparo para as competencias da nova ordem +social, as classes nobres esmoreceram, e entrincheiraram-se--os que +ainda o podiam, n'um altivo orgulho, os outros na desolada, inerte e +mortifera contemplação das suas tradições, preferindo depois ao +trabalho energico e á lucta porfiada, para que não haviam sido educados, +as magnanimas protecções, a que tantos se viram obrigados. + +Não comprehenderam o novo mundo, que ante elles, de facto, se abria. Não +comprehenderam que as arvores de sua nobre linhagem, em cuja triste e +vaidosa contemplação puerilmente se quedavam, eram, na nova ordem de +cousas, apenas inefficazes diplomas de grandezas passadas, arvores +mortas, emquanto elles, pelo esforço e merito proprio, e no novo +criterio das supremacias sociaes, lhes não reverdecessem as folhas e +lhes não reinflorassem os ramos. + +Alguns raros o attingiram, e o Conde de Ficalho, agora sagrado pela +morte e entrado já na posteridade, sem quebra da nobreza do seu nome, +antes com summo realce para elle, admiravelmente os symbolisa. + +Não ha aqui, senhores, uma soberba lição, um experimental exemplo e um +irrecusavel estimulo para que os netos dos que galhardamente combateram +pela espada procurem manter a fama dos avós nas competencias modernas do +merito intellectual e scientifico, aquelle que hoje em dia todas as +portas abre, a todos os logares dá accesso, e em egual consideração +chega a confundir e irmanar, nos fastos gloriosos d'uma nação, testas +secularmente coroadas, como Luiz XIV, o _Rei-Sol_, e simples filhos do +povo, como Luiz Pasteur, de immortal e benemerita memoria? + +A aristocracia moderna, ia quasi dizer a aristocracia democratica, é a +da sciencia e das lettras, a do talento. Só esta é universalmente +irrecusavel, no tempo e no espaço. + +Monarchas e principes não só a veneram, mas n'ella se comprazem em +incorporar a magestade de sua alta condição, como tambem n'elles +proprios estimam fundar a consagração de meritos pessoaes, que perante o +mundo lhes realça a herdada primazia. + +Não, a aristocracia intellectual não é incompativel com a do nascimento +e da tradição, de que é antes conservadora e engrandecedora. E bem o +demonstraram tambem, em exemplo ainda mais subido e frisante, que é da +historia, e que á cortezia, e á justiça, é grato aqui recordar, os +«altos infantes», que se chamaram--os principes d'Orléans. + + * * * * * + +Tal é, senhores, a lição que se extrae da vida e obra do Conde de +Ficalho, que a Academia hoje glorifica entre os seus mais distinctos +ornamentos. + +E não destoa ella certamente n'este instituto, fundado em 1780 por D. +João Carlos de Bragança, duque de Lafões--_qui mores hominem +multorum vidit et urbes_, e ao qual, com duplo e prestigioso titulo, +preside--Quem, por nativo direito investido em tal funcção, por direito +scientifico teria egualmente logar aqui, entre os academicos, que pela +unica affirmação de algum valor ou esforço proprio conquistaram o seu +ingresso n'esta casa. + +Disse. + + + [1] Conde de Arnoso.--_Elogio do Conde de Ficalho._ Lido + na sessão especial da Sociedade de Geographia de Lisboa, + em 19 de maio de 1903. + + [2] _A Tradição._--Revista mensal de ethnographia + portugueza, illustrada. Vol. V, nos. 6, 7 e 8.--Artigos de: + Ramalho Ortigão, D. Antonio Xavier Pereira Coutinho, + A. R. Gonçalves Vianna, Conde de Sabugosa, Alberto Pimentel, + Dr. Theophilo Braga, Dr. Sousa Viterbo, Dr. Candido de Figueiredo, + Manuel Ramos, Conde de Arnoso, Dr. Graça Affreixo, + Dr. Thomaz de Mello Breyner, D. João da Camara, + Pedro A. de Azevedo, Julio de Lemos, Costa Caldas, + José Orta Cano, D. Antonio de Mello Breyner, + Dr. Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Elogio Historico do Conde de Ficalho, by +Eduardo Burnay + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELOGIO HISTORICO DO CONDE *** + +***** This file should be named 34624-8.txt or 34624-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/6/2/34624/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Elogio Historico do Conde de Ficalho + +Author: Eduardo Burnay + +Release Date: December 11, 2010 [EBook #34624] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELOGIO HISTORICO DO CONDE *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.6em;">ELOGIO HISTORICO</p> + +<p>DO</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">CONDE DE FICALHO</p> + +<p>LIDO NA SESSÃO SOLEMNE</p> + +<p>DA</p> + +<p style="font-size: 1.6em;">ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">EM 25 DE MARÇO DE 1906</p> + +<p>PELO SOCIO EFFECTIVO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">EDUARDO BURNAY</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +Por ordem e na Typographia da Academia <br> +1906</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p>E<small>XTRACTO DA</small> Historia e Memorias da Academia Real das +Sciencias de Lisboa, <br> +nov. ser., Classe de Sciencias Moraes, etc.</p> + +<p>—</p> + +<p>TOMO XI—PARTE I</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> <span class="pn">{1}</span></p> + +<p style="margin-left:6em">S<small>ENHORA E </small>E<small>XCELSA +</small>R<small>AINHA</small></p> + +<p style="margin-left:6em">A<small>LTEZA </small>R<small>EAL </small></p> + +<p style="margin-left:6em">I<small>LLUSTRES CONFRADES</small></p> + +<p style="margin-left:6em">M<small>INHAS </small>S<small>ENHORAS E MEUS +SENHORES:</small></p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p>A Academia em sessão solemne, e como que na presença de seu Regio Presidente +e Protector,—pois que impedido de comparecer, por motivo felizmente destituido +de gravidade, se acha para todos gratamente representado por Vossa Magestade e +por Vossa Alteza Real—a Academia entende prestar hoje a homenagem em divida a +um dos seus mais distinctos e assignalados membros—o fallecido socio Francisco +de Mello, 4.º Conde de Ficalho.</p> + +<p>Se attendermos a que tendo elle estado n'esta Academia inscripto na sua 1.ª +Classe e incorporado na Secção de sciencias historico-naturaes, como especial +cultor do ramo botanico, que distinctamente professou na nossa Escola +Polytechnica,—a quem mais directamente caberia officiar n'esta solemnisação +seria ao nosso preclaro collega D. Antonio Xavier Pereira Coutinho, que ao +Conde de Ficalho succedeu na cadeira de Botanica.</p> + +<p>Não tendo sido possivel arrancal-o ao seu conhecido retraimento, filho de +uma imperiosa e irresistivel modestia—na grandeza só comparavel á do seu +realissimo merito—na verdade, qualquer socio d'esta Academia, sem distincção +de classe, poderia assumir a tarefa, visto que o Conde de Ficalho, á semelhança +de Latino Coelho e de Corvo, illustradissimo em quasi todos os ramos da +sciencia, foi tambem, mais do que simples cultor de boas lettras, escriptor +consummado.</p> + +<p>É assim que, como a qualquer outro poderia caber, sou n'este momento o +porta-voz da Academia na glorificação do seu fallecido socio, sem outro +especial motivo que não seja, para mim, a razão... academica, de que tendo<span +class="pn">{2}</span> elle, botanico, feito um dia n'esta mesma sala o elogio +do chimico Antonio Augusto de Aguiar, a Chimica estaria de certa maneira em +divida para com a Botanica......</p> + +<p>É artificiosa esta invocação de um <em>Deve</em> e <em>Ha de Haver</em> em +materia de panegyricos academicos?</p> + +<p>Será. Mas amplamente corrigida fica pelo veridico, sincero, nada artificioso +sentimento, que tão grato me torna prestar aqui, em nome collectivo, a um +collega desapparecido, a homenagem do apreço e admiração que em vida todos lhe +consagravamos, e que para mim se radicou em vinte annos de excellente +camaradagem escolar.</p> + +<p> </p> + +<p>O justo elogio do Conde de Ficalho surgiu, pode dizer-se immediato, por +occasião do seu fallecimento, em todos os orgãos da imprensa, pois com elle +desapparecera uma das personalidades de maior notoriedade da sociedade +portugueza na ultima metade do seculo passado.</p> + +<p>A sua complexa e brilhante individualidade pôl-a, tambem brilhantemente, em +elegante relevo o elogio proferido em outro logar pelo Conde de Arnoso<a +name="tex2html1" href="#foot106"><sup>[1]</sup></a>, e na <em>Tradição</em><a +name="tex2html2" href="#foot107"><sup>[2]</sup></a>, interessante publicação, a +que o nosso consocio muito queria, e que viu a luz em Serpa, antiga villa-solar +da Casa de Ficalho, um numero especial de homenagem lhe foi consagrado, com a +collaboração de Ramalho Ortigão, D. Antonio Xavier Pereira Coutinho, Theophilo +Braga, Conde de Sabugosa, Sousa Viterbo, e outros distinctos ornamentos da +sciencia e das lettras portuguezas.</p> + +<p>Chega mais tarde a Academia. Mas ainda não chega tarde, considerado o nosso +já conhecido e descançado apego ao proverbial conceito de que quem tem +pressa... vae devagar.</p> + +<p>Mas quantos teem esperado mais... e continuarão a esperar?...</p> + +<p>Da demora não terão, pois, <em>á priori</em>, de queixar-se os manes do +nosso defuncto collega, se é que nas empireas regiões, onde pairam os espiritos +evolados da Terra, os manes academicos ficam conservando interesse e gosto +pelas coisas do nosso instituto.</p> + +<p>Mas se essa mysteriosa telepathia atravez do Infinito existe de facto, +e<span class="pn">{3}</span> d'isso agora tremo, de receiar é então que, em vez +do infundado reparo de demasiada demora, se justifique antes, em concilio dos +academicos que nos precederam na grande e tenebrosa viagem, a conclusão de que +melhor fôra demorar muito mais, como para outros, a consagração a que hoje nos +propomos.</p> + +<p>Se assim succeder, só minha será a culpa, pois que, aos olhos de todos, bem +patente é que no Conde de Ficalho não falta materia prima para elogio, e não só +para elogio, mas para bom elogio.</p> + +<p>Largo poderia elle ser, tantos são os aspectos, todos elles distinctissimos, +da sua tão especial e superior individualidade, e tantos são os trabalhos seus +dignos de detido exame e louvor.</p> + +<p>Mas a sessão de hoje não lhe pertence exclusivamente: tem de repartil-a com +o sabio Theodoro Mommsen, a quem o nosso eminente confrade Sousa Monteiro logo +erigirá em aureas palavras o condigno monumento. E assim cumpre resumir-me, o +que aliás faço tanto mais gostosamente quanto sempre algum proveito poderei +auferir de me acolher, embora por necessidade, ao horaciano preceito, que +promette maior agrado aos discursadores que não abusem da attenção do +auditorio.</p> + +<p class="centrado">===</p> + +<p>Posto isto, meus senhores, que hei de rapidamente referir da saudosa figura +do Conde de Ficalho, como que presente ainda aos nossos sentidos?</p> + +<p>Todos recordam n'este momento a sua tão esbelta figura, o seu tão donairoso +porte, a sua esculptural cabeça e a fina linha do seu perfil, o seu +intelligente, avelludado e piscante olhar, a sua bocca amoravel e espirituosa, +a sua voz suave e clara, a expressão accentuadamente intellectualisada da +insinuante physionomia, a aristocratica rescendencia de toda a sua pessoa.</p> + +<p>Na lembrança de todos está tambem a sua singular, ou para melhor dizer +plural, aptidão para tudo, e que lhe permittia desempenhar-se sempre +distinctamente de quanto emprehendesse—litteraria, scientifica, artistica e +mundanamente: o que, accrescido do seu saber scientifico e litterario e do +peculio de noticias adquirido em visitas ás côrtes extrangeiras com os reis e +principes portuguezes, tornava o seu convivio altamente interessante, sem +embargo de, por vezes, com certa desegualdade de humor, que era o <em>mas</em> +da sua normal affabilidade, se dar por seccado e falto de pachorra.</p> + +<p>Ninguem esquece tão pouco, tão caracteristico era, aquelle patente e +despreoccupado ar de satisfação, de si proprio e do seu exito na vida—de que +estava longe de ser um <em>vencido</em>!—ar que nada se parecia com vaidade, e +era<span class="pn">{4}</span> apenas uma especie de <em>joie de vivre</em>, e +de que tão natural e temperadamente usava, que longe de ferir quem quer que +fosse, que em si proprio ainda mais gosto fizesse, a todos parecia corrente, e +antes mais inclinava para se sympathisar com esse agradavel estado d'alma, +embora alheio, do que para de elle murmurar.</p> + +<p>E, finalmente, algum mais intimo d'entre vós poderá tambem recordar na sua +saudade o que n'elle havia—a despeito da sua sorridente mascara de sceptico e +de certo intencional egoismo, mais intencional do que real, com o qual como que +achara commodo simplificar a existencia—o que n'elle havia, iamos dizendo, de +fundamentalmente bom e carinhoso para os seus amigos e de compassivo para o que +de compaixão era digno.</p> + +<p>Com um tal conjuncto de predicados physicos e psychicos, estheticos e +moraes, Ficalho—assim era uso fazer-lhe abreviada referencia—Ficalho +constituiu em todos os meios da sociedade portugueza, quer entre varões, quer +entre donas,—que não desestimava e de que não era tão pouco desestimado—uma +personalidade á parte, de especial relevo e distincção, onde quer que +apparecesse, e pelo quê bem se comprehende que tantas vezes fosse utilisado +para representar o Rei e a Nação em cerimonias internacionaes da maior pompa e +responsabilidade decorativa, no melhor e mais alto sentido da expressão o +dizemos.</p> + +<p>Mas para nós, academicos, o que avulta no nosso preclaro confrade não são +todos esses dotes naturaes, de que era o feliz, mas irresponsavel portador e +usufructuario, por condição, não de acção e vontade propria, mas de simples +nascimento. O que principalmente nos cabe celebrar é o que representa, na +consideração e notoriedade a que chegou, a sua iniciativa na ulilisação dos +congenitos apanagios que da estirpe lhe provinham, e que como que o embalaram +no seu dourado berço de senhor de Ficalho e de morgado de Serpa.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Nas modernas sociedades, a maioria dos homens que hoje attingem situações +culminantes na consideração publica veem de nada, ou de pouco. São +<em>self-made-men</em>, na expressão ingleza. A necessidade é que os faz, é +ella o inicial estimulo e factor do seu engrandecimento. Tal é approximadamente +o caso de quasi todos nós.</p> + +<p>Na lucta da concorrencia, ao contrario, os individuos das antigas classes +aristocraticas, carregadas de glorias passadas, seculares e genuinas, mas +constituidas em bases diversas das da illustração moderna, como que nascem +com<span class="pn">{5}</span> a atrophia das faculdades necessarias para o +moderno combate e propendem a decahir.</p> + +<p>No nosso consocio o caso é todavia differente: nasce aristocrata, fidalgo de +grande linhagem, illustre já no berço, mas a essa illustração de herança +accrescenta outra mais effectiva, que conquista com o seu esforço, na mais +democratica competencia, no concurso e na publicidade das acções por que se +affirmam o merito e o talento.</p> + +<p>Não ha duvida que de boa linhagem vinha o Conde de Ficalho, boa não só no +sentido nobiliarchico do termo, mas ainda no do essencial valor.</p> + +<p>Os Ficalhos, Mellos de appellido, proveem de Mem Soares de Merlo, um dos +esforçados cavalleiros das ordens de Santiago e de Aviz, que ajudaram Affonso +III á conquista final do Algarve, e de Martim Affonso de Mello, guarda-mór de +D. João I.</p> + +<p>N'estes Mellos se enraizam as casas de Cadaval, Sabugosa, S. Lourenço, +Ficalho, Mello e Murça, dando á nação portugueza galhardos capitães, viso-reis, +governadores ultramarinos e distinctos homens de guerra e de côrte, atravez +todo o cyclo da velha monarchia.</p> + +<p>Ao despontar, porém, das idéas liberaes, ao passo que a massa da nobreza +reage e se concentra na defeza das instituições seculares, os Ficalhos vemol-os +logo precocemente abraçados á nova causa, batendo-se e padecendo por ella.</p> + +<p>E pela causa não padeceram só os homens, os quatro filhos da condessa viuva +de Ficalho, D. Eugenia—Antonio, que depois foi o marquez de Ficalho; Luiz, que +foi conde de Sobral; José, que na armada se distinguiu; e Francisco, que morreu +conde de Mafra. Soffreu ella propria, prisioneira do governo miguelino no +convento do Grillo, sequestrada de todo o conhecimento do destino dos valorosos +filhos, pelo unico crime... de ser sua mãe!</p> + +<p>Assim, com Palmella, Terceira, Saldanha, Loulé, terminada a lucta, os +Ficalhos, como constitucionaes que eram da <em>vespera</em>, e não de simples +<em>adhesão</em> ao triumpho liberal consummado, constituiram o nucleo da nova +côrte, onde sempre permaneceram nos mais altos cargos. A torturada mãe, nomeada +camareira-mór da infantil rainha, foi feita marqueza e depois duqueza de +Ficalho.</p> + +<p>Distincta raça esta dos Mellos, que em tantas das suas vergonteas, sem +menosprezo de seus pergaminhos, antes de reforço a elles, mostrou comprehender +que os homens valem, acima de tudo, pelo seu merito proprio e pelo de suas +obras, que não pelo de seus antepassados, que apenas lhes cumpre honrar, e se +esforçou em affirmar e desenvolver o valor proprio, em harmonia com o +progressivo criterio dos tempos.</p> + +<p>Para os quadros d'esta Academia deram os Mellos, em categorias varias, o seu +contigente, pois na lista de socios e associados se encontram, além do<span +class="pn">{6}</span> Conde de Ficalho, os seguintes nomes: Domingos de Mello +Breyner; Pedro de Mello Breyner, regente que foi do Reino, constituinte de 1820 +e fallecido nas masmoras de S. Julião da Barra; D. Segismundo Caetano Alvares +Pereira de Mello, duque de Lafões; Antonio de Mello da Silva Cesar e Menezes, +conde de S. Lourenço; Antonio de Mello, marquez de Ficalho. Aos quaes foi tão +grato, quanto justo, associar recentemente a titulo effectivo, e como que para +que os Mellos aqui tivessem sempre distincta representação, o nome de Antonio +Vasco de Mello, conde de Sabugosa.</p> + +<p>Como se vê, Francisco de Mello, que nasceu aos 27 dias de julho de 1837, +filho do 2.º marquez e 3.º conde de Ficalho e da virtuosa marqueza D. Luiza +Braamcamp de Almeida Castello Branco, primaria educadora de seu unico filho, e +neto da duqueza de Ficalho, a prisioneira do convento do Grillo, Francisco de +Mello, iamos dizendo, veiu a este mundo n'uma condição social, que, junta á +independencia de fortuna e a seus sympathicos e brilhantes dotes naturaes, lhe +permittia fazer uma agradavel, distincta e facil carreira na côrte e nos +centros mundanos e elegantes.</p> + +<p>Não desprezou isto, que lhe vinha como patrimonio da natureza e da familia. +Mas não se contentou, e desde moço caprichou em ser tambem alguma cousa, por si +mesmo, em ser o que foi: «<em>par droit de naissance et par droit de +conquéte.</em>»</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Tinha Francisco de Mello 18 annos, quando, concluidos os preparatorios para +entrar na Escola Polytechnica,—preparatorios que estudou em Serpa com a unica +lição da mãe, do capellão e de um emigrado hespanhol,—ahi se matriculou em +1855. Cinco annos depois havia concluido com singular distincção o seu curso. E +com tanta distincção que, tendo-se dado, ainda elle estudante, uma vaga de +lente substituto na cadeira de Botanica, pela morte de José Maria Grande, e +contando apenas 23 annos, a sua candidatura era acolhida com summo agrado, e, +realisado o concurso em 1860, foi elle o preferido por unanimidade de votos, +sendo nomeado lente substituto em 3 de janeiro de 1861. A lente proprietario só +passou depois, em 27 de janeiro de 1890, pela morte de João de Andrade +Corvo.</p> + +<p>Conquistada a sua cadeira no alto professorado, podia tambem, como tantos +prematuramente fazem, descançar sobre os louros colhidos, e limitar-se depois a +arvorar o seu titulo de lente para vaidosa gloriola na côrte.</p> + +<p>O sincero culto das coisas intellectuaes manteve-o, porém, sempre, e não só +esforçando-se no cumprimento dos deveres escolares, mas preferindo a todos os +outros o convivio dos livros e dos homens cultos que honravam o paiz.<span +class="pn">{7}</span> E foi assim, talvez, que succedeu escolher para esposa D. +Josepha de Menezes Brito do Rio, filha de D. Maria Krus Brito do Rio, cujos +salões, onde se não dançava, eram ao tempo o grande centro intellectual de +Lisboa.</p> + +<p>Quem só conheceu o Conde de Ficalho nos ultimos dez ou quinze annos, com +mais aspecto de mundano que de estudioso, poderia pensar que elle sempre assim +fôra.</p> + +<p>Puro engano. Assim se tornara como por uma especie de jubilação, que a si +proprio se concedera cerca dos 50 annos. Mas além de que nunca desamparou os +livros, e as suas ultimas publicações o demonstram, na sua mocidade fôra muito +mais retrahido das mundaneidades, que aliás não estavam tambem tanto na moda +como hoje, em que propendem a degenerar n'um assaz generalisado culto de +deliquiscente <em>snobismo</em>.</p> + +<p>Todavia, ao ser nomeado lente, não deixou de parecer extranho, e talvez +espantoso, vêr-se um moço da côrte, filho de marquezes, neto de duques, +arvorado professor de uma escola superior, em logar a que só se dedicam os que +teem de por tal caminho fazer vida. E d'ahi maliciosos remoques e ironicos +sorrisos sobre o caso, tão proprios do nosso galhofeiro meio.</p> + +<p>Nasceu assim um dia o ambiguo dito, referente ao novel professor de +botanica, segundo o qual dito elle era «<em>lente entre os condes, e conde +entre os lentes</em>»! Maneira de se dar a suppôr que não era nem grande conde, +nem famoso lente.</p> + +<p>A formula na sua simplicidade aphoristica, e na sua contextura symetrica e +alternante, não deixa de ser engraçada, e foi durante algum tempo bastante +glosada, pelo seu sabor malicioso, ou simplesmente espirituoso.</p> + +<p>Em si era absolutamente inexacta e injusta. Isto na parte de que podemos dar +testemunho, e quero crer que na outra tambem. E tanto que não fez caminho.</p> + +<p>Se entre os condes, o de Ficalho era ou não conde, não tenho qualidade para +o dizer, mas no que por alto é conjecturavel, e tanto quanto d'isso é dado a +simples academicos prever, é licito suppôr que se elle entre os condes não era +conde, era então certamente marquez, senão duque.</p> + +<p>Quanto a lente era-o entre os mais distinctos lentes, e não desmerecendo no +confronto com elles.</p> + +<p>Direi mais: tendo conhecido nas aulas publicas numerosos e abalisados +mestres, poucos encontrei tão bem dotados para tão especial mister como o Conde +de Ficalho.</p> + +<p> </p> + +<p>Saber é uma cousa, ensinar é outra, embora o saber seja a base essencial de +todo o ensino.</p> + +<p>Não se pode ensinar sem saber. Mas pode-se saber em absoluto e não se saber +ensinar. O ensino não se faz com excesso de erudição ou de criticismo,<span +class="pn">{8}</span> sob pena de produzir inassimilavel e nocivo enfartamento, +ou irresistivel repugnancia, desattenção e tédio.</p> + +<p>O melhor professor não é o que propina mais doutrina, é o que na dose, +qualidade e fórma a incute mais efficazmente. Saber do seu maior peculio de +sciencia extrahir o mais essencial, esse extracto conformal-o n'um molde mais +simples para que se torne mais adaptavel, condimental-o, se tanto for +necessario, com observações ou exemplificações de caracter tal que tornem o +assumpto mais insinuante e proprio a conquistar a attenção e interesse do +alumno—sem o quê tudo é perdido—tal é a regra pedagogica fundamental.</p> + +<p>A funcção do professor não reside por fórma alguma em ostentar erudição. Ao +contrario, ha quasi sempre que fazer o sacrificio de a occultar, para não +complicar o thema e o tornar incomprehensivel ou aborrecido, pois a arte do +ensino, longe de ser, como alguns inconscientemente praticam, a complicação do +simples, para o effeito de exhibir transcendencia, deve ser a simplificação do +complicado, por vezes até á substituição das realidades naturaes pelos simples +schemas ou formulas.</p> + +<p>D'isto tem de compenetrar-se o professor. Mas não basta: importa que tenha +em si as qualidades para o pôr em acção, que tenha por natureza, e n'uma +palavra—faculdade e dote de insinuação.</p> + +<p>Uma expressão nitida, rigorosa e apropriada, que permitia seguir-se com a +comprehensão a exposição professoral, é indispensavel, sendo tão improprio e +inconveniente o grande jogo da oratoria retumbante e carregada de phrases, como +a linguagem confusa, imprecisa e equivoca.</p> + +<p>Mas ainda não é tudo. Se a voz é deficiente ou ingrata, se a articulação é +imperfeita, se o sobrio gesto que acompanha a palavra a não secunda, se os +olhos não fallam com a voz e pela sua scintillação não attraem convergentemente +sobre o professor o olhar e com elle o ouvido e a attenção dos alumnos—em +grande parte a lição vae perdida.</p> + +<p>Ao contrario, por completo é aproveitada se, observadas as regras +enunciadas, aos dotes acima preconisados o professor reune condições de +sympathia esthetica, de espirituosidade, de correcção moral e de cordialidade +de trato, que lhe realcem o prestigio humano e a agradabilidade do contacto.</p> + +<p>Tudo isto, senhores, bem o reconheceis, são considerações e previsões que se +extraem da simples razão.</p> + +<p>E, todavia, o facto é este: dir-se-ia que fomos como que photographar o +Conde de Ficalho na sua aula, para d'essa photographia deduzirmos os ideaes +preceitos e condições da distincção professoral.</p> + +<p>Mas é que o Conde de Ficalho,—<em>o conde entre os lentes</em>,—foi sem +sombra de favor o que se pode chamar um professor modelo. Ainda que assaz +erudito, não puxava o ensino para transcendencias de erudição, e antes +procurava<span class="pn">{9}</span> amoldal-o e amaneiral-o á condição dos +neophytos da sciencia que professava.</p> + +<p>E que lindo quadro o de Ficalho, com a sua garbosa e insinuante figura, na +sua cadeira de mestre, deante de si a grande mesa recoberta de matizados +exemplares vegetaes, empunhando um na sua tão fina e aristocratica mão, e +commentando-o em palavras descançadas, harmoniosas e suaves, tão simples quanto +proprias e graciosas, perante o juvenil auditorio!</p> + +<p>Na atmosphera não havia só o perfume emanado da materia prima do ensino, +havia o do encanto derramado pela palavra elegante do mestre e pela sua propria +e communicativa elegancia de porte e de maneiras.</p> + +<p>Estava-se n'uma aula, sem duvida, porque o professor não divagava para fóra +da lição. Mas irresistivelmente se recebia a impressão de que se estava tambem +n'uma sala, pois se preleccionasse perante as mais formosas damas da côrte não +disporia o Conde de Ficalho de mais primor, de mais gentileza, de mais gosto de +agradar e conquistar do que amoravelmente usava para com os rapazes de toda a +condição que vinham frequentar o seu curso.</p> + +<p>Amavam-no elles e respeitavam-no?</p> + +<p>Sem duvida. Ainda que, não se prestando o feitio aristocratico, embora +affavel, de Ficalho á familiar permuta d'essas sentimentalidades, que são a +precaria base da popularidade, nem inclinando tão pouco na disciplina +escolastica ás praticas corregedoriaes, que, sob a fórma de vago terror, +accentuam o respeito, a impressão predominante que elle determinava era antes a +de uma peculiar distincção entre os demais collegas seus, resultante de o +olharem como um lente á parte—mixto primoroso e raro de homem de estudo e de +homem de côrte, consorcio professoral imprevisto e maravilhoso de <em>magister +scientiarum</em> e de <em>magister elegantiarum</em>.</p> + +<p> </p> + +<p>Lisonjeiramente apreciado pelos estudantes, não o era menos pelos seus +collegas, cujos trabalhos de toda a ordem partilhava e com os quaes mantinha as +mais cordiaes e amenas relações. Não desamparava os conselhos escolares, nem se +desinteressava de coisa alguma que importasse ao bem da Escola, e os seus +pareceres eram sempre tão judiciosos quanto despidos de pretenção. Não se pode +imaginar camaradagem academica, nem mais correcta, nem mais agradavel.</p> + +<p>Isto, todos os lentes da Escola Polytechnica vol-o poderiam repetir, em +corroboração do meu testemunho.</p> + +<p>Mas não é preciso, pois que, senhores academicos, por vós mesmos o sabeis, +do convivio de mais de 25 annos que aqui tivestes com aquelle cujo +desapparecimento hoje saudosamente registamos.<span class="pn">{10}</span></p> + +<p>Em 7 de maio de 1877 foi elle eleito correspondente da Academia, em 19 de +fevereiro de 1880 socio effectivo, e em 1897 tivemos a honra de o ter como +Vice-Presidente. E durante esse assaz longo periodo, e n'essas diversas +condições, o nosso instituto poude sempre apreciar, ao lado do seu grande valor +academico, o conjuncto de qualidades moraes, que nos tornam hoje a sua memoria +tão respeitada e querida.</p> + +<p>Outras corporações a que pertenceu poderiam, aqui chamadas á auctoria, +trazer identicos testemunhos.</p> + +<p>Mas, repetimos, não é preciso: o seu primor moral está em todas as +consciencias, e a sua valia academica demonstra-se nos seus trabalhos, na sua +bella e esmerada obra.</p> + +<p>O tempo nos aperta, mas indispensavel é consagrar a esta algumas +palavras.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> +<!— —> + +<p>A obra do Conde de Ficalho é relativamente extensa e volumosa, mórmente +consideradas as prisões e distracções da côrte, em que mais ou menos esteve +sempre envolvido. E, dada esta circumstancia, mais admira ainda que seja +tambem, como realmente é, de tão bom e escrupuloso quilate e de tão primoroso +lavor.</p> + +<p>No campo restrictamente scientifico, como naturalista, occupou-se +inicialmente o Conde de Ficalho do estudo do herbario africano, colhido em +missão official do governo portuguez pelo Dr. Welwitsch, herbario pertencente a +esta Academia, subsequentemente confiado á Escola Polytechnica, e de que em +Londres existe duplicado.</p> + +<p>Esse estudo fel-o conjunctamente com o Dr. Hiern, que ultimamente publicou a +conclusão dos trabalhos, na qual se encontra repetidas vezes a nota +collaborativa do botanico portuguez. E tambem com o mesmo Dr. Hiern publicou em +1881, em inglez, nas <em>Transactions</em> da <em>Sociedade Linneana de +Londres</em> (de onde foi vertida para portuguez), a memoria intitulada <em>On +central Africa Plants collected by Major Serpa Pinto</em>. Comprehende a nota +de 60 especies, das quaes 20 foram descriptas como novas.</p> + +<p>Concernente ainda á Africa, produziu em 1884, nos <em>Boletim da Sociedade +de Geographia</em>, uma interessante memoria de cerca de 300 paginas, +intitulada <em>Plantas uteis da Africa Portugueza</em>, com uma nota +descriptiva e historica de 299 especies.</p> + +<p>Da <em>Flora Portugueza</em> se occupou tambem, publicando, de 1877 a 1879, +no <em>Jornal da Academia</em>, contribuições para a revisão de varias familias +de plantas portuguezas do continente, e em 1899, com a collaboração de Pereira +Coutinho,<span class="pn">{11}</span> nos deu nos <em>Boletins da Sociedade +Broteriana</em>, de Coimbra, valioso trabalho sobre as <em>Rosaceas de +Portugal</em>, comprehendendo a diagnose de 76 especies, relativas a 26 +generos.</p> + +<p>Mas o Conde de Ficalho não tinha o temperamento de um simples e frio +naturalista. A sua tão completa e esmerada educação abrira-lhe horizontes mais +largos, e o seu fundo era irresistivelmente de artista.</p> + +<p>Assim, a maior parte da sua obra scientifica assume, não só caracter +litterario e philosophico, mas uma perfeição e graça de fórma, que a torna +singularmente distincta.</p> + +<p>A <em>Memoria sobre a malagueta</em>, apresentada em 1878 á nossa Academia, +é no genero um verdadeiro primor, onde se revela vasta leitura, excellentemente +exposta, e consideraveis recursos de conhecimentos historicos, geographicos e +philologicos. É modelar.</p> + +<p>Em 1880 celebrava-se o Centenario de Camões. Ficalho consagrou-lhe tambem +uma pequena monographia, que pittorescamente intitulou—<em>Flora dos +Luziadas</em>.</p> + +<p>É a identificação de todas as especies vegetaes referidas no immortal poema, +europêas e exoticas, em numero de 52.</p> + +<p>Trabalho essencialmente de erudição e de technica botanica, mas constituindo +no conjuncto uma peça litteraria do mais gracioso lavor, nos seus tres +capitulos: <em>Flora Poetica—A Ilha dos Amores—Flora Tropical.</em></p> + +<p>A <em>Ilha dos Amores</em>! Existe? Onde? No Atlantico? No Mediterraneo? Nos +mares do Oriente?</p> + +<p>Faria e Sousa localisou-a na ilha Anchediva. O morgado de Matheus, e outros, +na ilha de Santa Helena. Gomes Monteiro na ilha de Zanzibar.</p> + +<p>Ficalho dilucida o ponto, tão simples, quanto admiravelmente: a flora da +ilha é a flora a um tempo da patria portugueza e a classica flora de Homero, de +Virgilio e de Ovidio. Portanto a verdadeira situação geographica da ilha +conclue elle... «é na phantasia do poeta; e não está mal collocada».</p> + +<p>Ponto interessante tambem, n'esta engenhosa monographia de 100 paginas, é a +observação dos abundantes conhecimentos que Camões tinha da flora, como de tudo +o mais que ao tempo se sabia, e da precisão, propriedade e justeza com que, +dentro do impeccavel metro e da perfeita rima, caracterisava a especie natural +a que queria fazer referencia.</p> + +<p>Affirmado o seu gosto e competencia para os trabalhos de erudição botanica, +Ficalho estava naturalmente indicado para presidir á reedição dos +<em>Colloquios dos simples e drogas da India</em>, de Garcia da Orta, +deliberada em 1889 pela Academia.</p> + +<p>Na India, em Gôa, onde era physico-mór, publicara Garcia da Orta, em 1563, +os seus famosos <em>Colloquios</em>, repositorio importantissimo, embora de +contextura<span class="pn">{12}</span> um pouco pueril na sua fórma dialogada, +do conhecimento das plantas e drogas indicas, e constituindo n'esse momento o +primeiro documento rigoroso, authentico e scientifico sobre a materia.</p> + +<p>Logo em 1567, Carlos de l'Escluse—latinamente Clusius, tendo conhecido em +Portugal, onde viera, o tratado do abalisado medico e botanico portuguez, o +refundiu e simplificou em latim, e a esta edição se seguiram mais quatro, nos +annos de 1574, 1579, 1593 e 1605.</p> + +<p>Em italiano foi depois vertida, por Annibal Briganti, a traducção de +Clusius, publicando-se, desde 1576 a 1605, oito edições.</p> + +<p>Ha finalmente mais duas edições de uma traducção franceza de Clusius, por +Antonio Collin, com as datas de 1602 e 1619.</p> + +<p>Total: 1 edição portugueza, e 15 edições extrangeiras de imperfeitas +traducções.</p> + +<p>Em 1841 a <em>Sociedade de Sciencias Medicas</em> chamava para o assumpto a +attenção dos poderes publicos, pedindo a reimpressão dos <em>Colloquios</em>, +de cuja primeira edição eram já preciosamente raros os subsistentes exemplares, +e recorria á intervenção de Fr. Francisco de S. Luiz e de Garrett. Ambos +fizeram á idéa o melhor acolhimento, e por portaria de 27 de maio de 1841, +assignada por Rodrigo da Fonseca Magalhães, se determinou a reimpressão dos +<em>Colloquios</em>, sob a direcção do conselheiro João Baptista d'Almeida +Garrett.</p> + +<p>Não teve andamento este tentamen, e é só em 1872 que Varnhagen, visconde de +Porto Seguro, nos dá uma 2.ª edição da obra de Garcia da Orta. Para se occupar +d'este trabalho era sem duvida competente Varnhagen, mas, ou porque o não +pudesse acompanhar, ou por qualquer outro motivo, a nova edição sahiu com +bastos erros, uns trazidos da primeira, outros novos, e desacompanhada das +necessarias elucidações.</p> + +<p>Foi isto, sem duvida, que motivou a deliberação da Academia, encarregando o +Conde de Ficalho de levar a cabo uma nova edição dos <em>Colloquios</em>, +devidamente apurada e commentada.</p> + +<p>A escolha não podia ter sido, a todas os respeitos, mais acertada, pois os +dois volumes eruditamente annotados dos <em>Colloquios dos simples e drogas da +India</em>, com o antecedente volume que lhes serve de introducção—<em>Garcia +da Orta e o seu tempo</em>, ficaram constituindo, no total das suas 1200 +paginas, um verdadeiro monumento classico, um trabalho magistralissimo em toda +a parte.</p> + +<p>Foram as leituras feitas para a confecção do admiravel prefacio historico +dos <em>Colloquios</em> que deram mais tarde ao Conde de Ficalho a idéa e lhe +propiciaram os fundamentaes elementos para o livro que a esse trabalho se +seguiu—as <em>Viagens de Pero da Covilham</em>. De Pedro da Covilham, que á +India foi dez annos antes de Vasco da Gama, de cuja empresa foi como que +preparante,<span class="pn">{13}</span> e que mais de trinta annos passou na +mysteriosa Ethiopia, junto do quasi fabuloso Preste João.</p> + +<p>«Este pero de covilham, escrevia o P.<sup>e</sup> Francisco Alvares, é homem +que todas as cousas a que o mandaram soube e de todas dá conta».</p> + +<p>Ficalho commenta eloquentemente, no fecho do seu bello volume:—«Mandaram-no +procurar a pimenta e a canella, quando ninguem nas nossas terras occidentaes +sabia d'onde aquellas especiarias vinham; e elle foi, e encontrou o caminho, e +chegou á India, e não se contentou em ir á India, foi tambem a Sofála. +Mandaram-no ao Preste João, quando ninguem conhecia a sua morada, nem quasi em +que parte do mundo tal morada se encontrava; e elle foi, e achou o Preste João, +e fez-se amigo da avó do Preste João, e acabou pela convencer que devia mandar +uma embaixada a Portugal. Todas as cousas a que o mandaram soube, e de todas +deu conta».</p> + +<p>É um minusculo specimen do estylo e maneira de Ficalho, mas que bem retrata +as suas qualidades de simplicidade, de relevo, de gosto e de alma.</p> + +<p>A obra scientifica do Conde de Ficalho accrescenta-se finalmente com a +excellente introducção, admiravel quadro da economia rural portugueza, como diz +Pereira Coutinho, com que enriqueceu o grosso e compendioso volume, que o +governo portuguez enviou á Exposição internacional de Paris, de 1900, com o +titulo—<em>Le Portugal au point de vue agricole.</em></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Na pura litteratura, que nos deixou o Conde de Ficalho?</p> + +<p>Escreveu o nosso consocio, o conde de Sabugosa, que elle distinctamente +versejava na inspiração acidula de Baudelaire e na dolente cadencia de Musset. +Para publico,—além das suas admiraveis <em>Notas ácerca de Serpa</em> e do seu +erudito estudo sobre <em>O elemento arabe na linguagem dos pastores +alemtejanos</em>, tudo constante de numerosos artigos na <em>Tradição</em>, só +veiu, em prosa, um volume de novellas e contos, em 1888.</p> + +<p>Mas na sua mesma simplicidade, que primor de concepção, de observação, de +analyse, de execução, e que revelação de talento romantico, n'esse delicioso +volume, em que se encontram: <em>Uma eleição perdida.—A caçada do +malhadeiro.—A maluca d'A dos Corvos.—A pesca do savel.—Os cravos.—Mais +uma!</em></p> + +<p>Penitencio-me de só agora os ter lido, esses deliciosos contos a que se não +fez <em>reclamo</em>, e é doce penitencia, que a todos que se achem no mesmo +peccaminoso caso muito recommendo, para accrescerem de mais um motivo a sua +admiração e sympathia pelo Conde de Ficalho.</p> + +<p>A leitura d'esses contos, episodios todos referentes á terra alemtejana, com +um profundo sabor regional, é um verdadeiro e saudavel goso.<span +class="pn">{14}</span></p> + +<p>O auctor revela-se, como de prever, <em>naturalista</em>, mas de +temperamento e sentimento seu, proprio, e não de <em>escola</em>. Inspira-se, +como homem de sciencia, na verdade, mas sem a conhecida predilecção dos +corypheus do realismo para os seus aspectos mais ou menos monstruosos e +deprimentes, e antes propendente ás conclusões sentimentaes, felizmente não +extranhas á natureza humana, e que moralmente a elevam e sublimam.</p> + +<p>Na primeira e mais importante das novellas—<em>Uma eleição perdida</em>, no +fidalgo Julio d'Azevedo julga-se a principio vêr despontar uma especie de +parente de Carlos da Maia, o brilhante e amoral protogonista do famoso romance +lisboeta de Eça de Queiroz, mas o desengano vem com commovido aprazimento do +leitor. Julio d'Azevedo, coisa menos vulgar na litteratura realista, não é +neurasthenico, nem nevrotico, nem degenerado, mesmo superior. A physiologia não +se impõe n'elle acima das exigencias da dignidade humana, que prevalecem. Tem +sentimentos, tem disciplina moral, e o episodio simples e casto do seu vago e +doce enleio com a tão timida e rendida Margarida, a filha do entrevado escrivão +Pascoal, o <em>passarinheiro</em> da meninice de Julio, mais de uma vez, pelo +seu encanto tão singelo e irresistivelmente sentimental, nos humedece as +palpebras.</p> + +<p>Que revelação esta, e tão inesperada: Ficalho, juntando a tantas outras +faculdades a de um enternecimento tão subtilmente communicativo...</p> + +<p>Não ha duvida! Debaixo da sua mascara de impassivel homem do mundo havia, +como sempre o disseram os seus amigos, um coração, humanissimo <em>malgré +lui</em>, de honesta e bondosissima textura, e á piedade filial, dos que +dignamente lhe ficam representando o aureolado nome e conservando sua +resplendente memoria, será certamente grato observar n'este momento que em seu +elogio a Academia não esquece o registo d'esses dotes de sensibilidade, que á +saudade são sempre os mais caros.</p> + +<p>Não posso alongar-me em considerações sobre a pequena, mas linda obra +litteraria de Ficalho, representada no volume de contos a que acabo de fazer +referencia, e que se poderia, de certa maneira, pelo seu caracter regional, +por, sob o titulo de <em>Novellas do Alemtejo</em>, em parallelo com as +<em>Novellas do Minho</em> de Camillo. Mas peço licença aos meus collegas da +classe de Lettras d'esta Academia para, em fórma de fecho a este capitulo, +summariamente aventar que, a avaliar pelos fulgurantes rastos e signaes que nos +deixou, se o Conde de Ficalho se houvesse consagrado á extreme litteratura, +n'ella deixaria um nome singularmente assignalado para a gloria das lettras +portuguezas.</p> + +<p> </p> + +<p>E é tudo, senhores?</p> + +<p>Não. No seu espolio scientifico e litterario, affirma-o o conde de Arnoso no +seu bello Elogio, deixou o Conde de Ficalho estudos sobre <em>Correia da +Serra</em>,<span class="pn">{15}</span> sobre a <em>Flora portugueza</em>, +memorias ácerca do <em>Clima de Portugal</em>, das <em>Feculas +alimenticias</em> e da <em>Flora fossil</em>, numerosissimas notas historicas, +anthropologicas e linguisticas, alguns contos, entre os quaes <em>Cartas do +Campo</em>, o <em>Jornal de Fulano</em>, poesias, e até uma peça de theatro.</p> + +<p>Mais. Além de escriptor, temos tambem Ficalho—orador, pronunciando o elogio +de Antonio Augusto de Aguiar, abrindo o Congresso portuguez de medicina, por +occasião do tricentenario do descobrimento do caminho maritimo da India com uma +conferencia intitulada <em>O descobrimento do caminho para a India e a Materia +medica</em>, dissertando na Sociedade de Agricultura e em outras agremiações +intellectuaes.</p> + +<p>E temo-lo tambem orador politico, proferindo na Camara dos Pares os seus +memoraveis e exhaustivos discursos sobre a invasão do phylloxera e sobre o +regimen cerealifero.</p> + +<p>Fallava como escrevia, com a mesma correnteza, propriedade e elegancia, e na +tribuna tambem o seu distincto porte physico soberanamente o realçava.</p> + +<p>E já que á politica fiz referencia, cumpre registar que mais de uma vez foi +convidado para ministro. Fontes, Bocage e Hintze Ribeiro debalde insistiram com +elle. Recusou sempre, com premeditada e intencional obstinação.</p> + +<p>Chega hoje isto quasi a não acreditar-se: ter existido, vivo e palpavel, sem +defeito, um portuguez que não queria ser ministro!</p> + +<p>Vê-se que o nosso consocio, quando se lhe proporcionava a occasião, não se +lhe dava de cultivar tambem... a excentricidade.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>O Conde de Ficalho, meus senhores, como heis visto, foi distinctamente tudo +quanto quiz ser, com muita gloria para si e muita honra para o seu paiz.</p> + +<p>Trouxe do berço opulentissimos dotes, pelo seu esforço admiravelmente os +multiplicou, mas em tudo tambem a sorte liberalmente o favoreceu na vida.</p> + +<p>Foi tudo quanto mais eminentemente se pode ser.</p> + +<p>Na côrte foi mordomo-mór; na ordem politica, par do reino, conselheiro de +estado, embaixador extraordinario; na sciencia e nas lettras, lente e +academico; na esphera mundana, um verdadeiro arbitro, cujos varonis e +encantadores predicados, mais de uma vez—estamos em conjectural-o, como +academicos, a quem nenhum interesse humano pode ser indifferente,—mais de uma +vez, iamos dizendo, teriam, na longa e brilhante carreira do nosso consocio, +posto em doce palpitação intimos anceios de frageis e commovidos corações.</p> + +<p>Mas fidalgo ficou sempre e homem de côrte, superior ás avidas ambições<span +class="pn">{16}</span> da epocha, hostil aos equivocos e promiscuidades a que +taes ambições conduzem, considerando-as absolutamente incompativeis com a sua +condição no serviço real, e com o bom gosto com que sempre primou em +desempenhal-o, junto d'El-Rei D. Luiz, de saudosa memoria, e junto de Sua +Magestade El-Rei D. Carlos, que por esse e pelos seus demais meritos tanto e +tão justamente o apreciava.</p> + +<p>Ninguem o invejava, estava como que—<em>hors concours</em>, e antes todos +se compraziam no convivio social, proximo ao longinquo, d'aquella especie de +compendio vivo de meritos e elegancias.</p> + +<p>Na sociedade portugueza, mórmente na capital do reino, tinha uma evidencia e +notoriedade especiaes, em que prestigio, sympathia e curiosidade se confundiam, +e assim quando um dia, o da chegada da Real Familia dos Açores, correu a +noticia de que o Conde de Ficalho fôra acommettido de um deliquio no Arsenal, +houve um primeiro sobresalto.</p> + +<p>Pouco depois o facto repetia-se, e logo a má nova se espalhou que a sua +saude estava gravemente compromettida, que o seu robusto organismo se achava +ferido de morte, na trama nobre e aristocratica por excellencia da humana +textura, no systema nervoso.</p> + +<p>Começou-se a reparar n'elle. Retezava-se contra o adversario, mas a tristeza +invadira-o, e transparecia na fórma de uma maior affectuosidade. O andar +tornara-se incerto e mal equilibrado, da espinha o mal subia ao cerebro, e na +falla, no olhar, no pensamento, havia preludios timidos e fugazes, mas +irrecusaveis e fataes, de incipiente inconsciencia e desvairamento, que a todos +infundia a maior tristeza.</p> + +<p>Ambulava, articulava, mas já não era o Conde de Ficalho. Estava vivo ainda, +mas era peor do que se estivera morto.</p> + +<p>Não era elle. Era o seu phantasma, de dolorosa e arripiante visão!</p> + +<p>Felizmente para elle, felizmente para todos, o angustioso espectaculo do +progressivo desmoronamento d'aquelle privilegiado e scintillante exemplar +humano não se prolongou muito. Retido finalmente pelos progressos da doença no +seu Palacio dos Caetanos, onde nascera, e onde a filha unica que lhe restava o +fôra carinhosamente acompanhar, arrebatado por uma congestão, no dia 19 de +abril de 1903 deixava de existir o nosso consocio, e de tão perfeito ser, de +tão meritorio homem e de tão brilhante existencia—só restava um despojo +material, a accordar mais uma vez para as mundanas meditações os echos da +sempre tremenda palavra do <em>Ecclesiastes</em>:</p> + +<p><em>Vanitas, vanitatum et omnia vanitas!...</em></p> + +<p class="centrado">===</p> + +<p><span class="pn">{17}</span></p> + +<p>Mas será tudo vaidade, meus senhores, na existencia do homem, desde os dons +da Natureza, os felizes acasos da Fortuna, até á propria Virtude e Sabedoria, +como desoladamente o proclama o desabusado e penitente Salomão?</p> + +<p>No ponto de vista individual, considerada a pequenez e fragilidade das mais +assignaladas acções terrenas perante a eternidade dos destinos fataes, tudo é +vaidade, que se desfaz em pó, cinza, nada, e ao termo da aspera jornada o mais +afortunado e glorioso viandante a si mesmo pergunta—Para quê?</p> + +<p>Mas não nos elevemos a tão altas conjecturações, não fitemos o Infinito, +cogitemos, como academicos, singelamente dentro da esphera dos interesses +terrenos, na orbita das benemerencias sociaes.</p> + +<p>É tudo vaidade, e do que foi o Conde de Ficalho, só resta realmente uma +imagem brilhante, que no seu mesmo brilho com vaidade se confunde?</p> + +<p>Não quererieis, illustres collegas, que eu o dissesse, e não o digo.</p> + +<p>Do Conde de Ficalho fica a sua obra, em muitos tomos valiosissima e +perduravel, e fica, n'um aspecto mais transcendente—um exemplo e uma lição.</p> + +<p>Não é licito apoucar em ninguem o merito de por seu esforço se elevar no +saber e na consideração, seja a necessidade ou a ambição que o estimulem. O +facto é todavia normal, physiologico, e constitue a banal e natural condição do +progresso social.</p> + +<p>Mas um tal merito sobreleva indiscutivelmente em quem, nascido sem +necessidades materiaes, já do berço com logar marcado nas primeiras bancadas da +hierarchia social, usufruindo-o por condição de nascimento, esse apanagio o +corrobora como que pela conquista, affirmando esforçada e democraticamente +meritos proprios, sufficientes para lhe alcançarem, fóra de todo o privilegio, +eminente logar na consideração publica.</p> + +<p>É bem caracterisadamente este o caso do nosso consocio, o Conde de +Ficalho.</p> + +<p>O terremoto constitucional de 1834, como terremoto que foi, destruiu ainda +mais, do que se edificou. A nobreza soffreu ahi um profundo e talvez excessivo +golpe, que a ulterior suppressão completa dos vinculos veiu tambem +excessivamente consummar, e d'ahi começou o desmoronamento das grandes e +tradicionaes familias, que eram como monumentos da historia de Portugal, pelo +esforço de cujo sangue a nação se constituira, se mantivera e engrandecera, e +que deviam ser salvaguardadas, como elos preciosos entre o Passado e o Futuro, +a affirmarem a continuidade e indissolubilidade da gloria nacional.</p> + +<p>Tomadas de surpreza, sem preparo para as competencias da nova ordem social, +as classes nobres esmoreceram, e entrincheiraram-se—os que ainda o podiam, +n'um altivo orgulho, os outros na desolada, inerte e mortifera +contemplação<span class="pn">{18}</span> das suas tradições, preferindo depois +ao trabalho energico e á lucta porfiada, para que não haviam sido educados, as +magnanimas protecções, a que tantos se viram obrigados.</p> + +<p>Não comprehenderam o novo mundo, que ante elles, de facto, se abria. Não +comprehenderam que as arvores de sua nobre linhagem, em cuja triste e vaidosa +contemplação puerilmente se quedavam, eram, na nova ordem de cousas, apenas +inefficazes diplomas de grandezas passadas, arvores mortas, emquanto elles, +pelo esforço e merito proprio, e no novo criterio das supremacias sociaes, lhes +não reverdecessem as folhas e lhes não reinflorassem os ramos.</p> + +<p>Alguns raros o attingiram, e o Conde de Ficalho, agora sagrado pela morte e +entrado já na posteridade, sem quebra da nobreza do seu nome, antes com summo +realce para elle, admiravelmente os symbolisa.</p> + +<p>Não ha aqui, senhores, uma soberba lição, um experimental exemplo e um +irrecusavel estimulo para que os netos dos que galhardamente combateram pela +espada procurem manter a fama dos avós nas competencias modernas do merito +intellectual e scientifico, aquelle que hoje em dia todas as portas abre, a +todos os logares dá accesso, e em egual consideração chega a confundir e +irmanar, nos fastos gloriosos d'uma nação, testas secularmente coroadas, como +Luiz XIV, o <em>Rei-Sol</em>, e simples filhos do povo, como Luiz Pasteur, de +immortal e benemerita memoria?</p> + +<p>A aristocracia moderna, ia quasi dizer a aristocracia democratica, é a da +sciencia e das lettras, a do talento. Só esta é universalmente irrecusavel, no +tempo e no espaço.</p> + +<p>Monarchas e principes não só a veneram, mas n'ella se comprazem em +incorporar a magestade de sua alta condição, como tambem n'elles proprios +estimam fundar a consagração de meritos pessoaes, que perante o mundo lhes +realça a herdada primazia.</p> + +<p>Não, a aristocracia intellectual não é incompativel com a do nascimento e da +tradição, de que é antes conservadora e engrandecedora. E bem o demonstraram +tambem, em exemplo ainda mais subido e frisante, que é da historia, e que á +cortezia, e á justiça, é grato aqui recordar, os «altos infantes», que se +chamaram—os principes d'Orléans.</p> + +<p class="centrado">—</p> + +<p>Tal é, senhores, a lição que se extrae da vida e obra do Conde de Ficalho, +que a Academia hoje glorifica entre os seus mais distinctos ornamentos.</p> + +<p>E não destoa ella certamente n'este instituto, fundado em 1780 por D. +João<span class="pn">{19}</span> Carlos de Bragança, duque de Lafões—<em>qui +mores hominem multorum vidit et urbes</em>, e ao qual, com duplo e prestigioso +titulo, preside—Quem, por nativo direito investido em tal funcção, por direito +scientifico teria egualmente logar aqui, entre os academicos, que pela unica +affirmação de algum valor ou esforço proprio conquistaram o seu ingresso n'esta +casa.</p> + +<p>Disse.</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot106" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Conde de +Arnoso.—<em>Elogio do Conde de Ficalho.</em> Lido na sessão especial da +Sociedade de Geographia de Lisboa, em 19 de maio de 1903.</p> + +<p><a name="foot107" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> <em>A +Tradição.</em>—Revista mensal de ethnographia portugueza, illustrada. Vol. +<small>V</small>, n.<sup>os</sup> 6, 7 e 8.—Artigos de: Ramalho Ortigão, D. +Antonio Xavier Pereira Coutinho, A. R. Gonçalves Vianna, Conde de Sabugosa, +Alberto Pimentel, Dr. Theophilo Braga, Dr. Sousa Viterbo, Dr. Candido de +Figueiredo, Manuel Ramos, Conde de Arnoso, Dr. Graça Affreixo, Dr. Thomaz de +Mello Breyner, D. João da Camara, Pedro A. de Azevedo, Julio de Lemos, Costa +Caldas, José Orta Cano, D. Antonio de Mello Breyner, Dr. Ladislau Piçarra e M. +Dias Nunes.</p> +</div> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Elogio Historico do Conde de Ficalho, by +Eduardo Burnay + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELOGIO HISTORICO DO CONDE *** + +***** This file should be named 34624-h.htm or 34624-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/6/2/34624/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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