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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/33817-8.txt b/33817-8.txt new file mode 100644 index 0000000..6afdcad --- /dev/null +++ b/33817-8.txt @@ -0,0 +1,4481 @@ +The Project Gutenberg EBook of Ensino intuitivo, by João José de Sousa Telles + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Ensino intuitivo + livro destinado às mães e paes de familia e às professoras + e professores de instrucção primária + +Author: João José de Sousa Telles + +Release Date: September 28, 2010 [EBook #33817] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENSINO INTUITIVO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste + texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso + de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final + deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. + + Rita Farinha (Setembro 2010) + + + + +ENSINO INTUITIVO + +LIVRO DESTINADO ÁS MÃES + +E + +PAES DE FAMILIA + +E ÁS + +PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA + +POR + +JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES + +Socio honorario +da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da +Sociedade Pharmaceutica Lusitana + +PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCÇÃO Á HISTORIA +NATURAL + +LISBOA + +FERREIRA, LISBOA & C.^a +132--Rua Aurea--134 + +1873 + + + + +ENSINO INTUITIVO + + + + +ENSINO INTUITIVO + +LIVRO DESTINADO ÁS MÃES + +E + +PAES DE FAMILIA + +E ÁS + +PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA + +POR + +JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES + +Socio honorario +da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da +Sociedade Pharmaceutica Lusitana + +PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCÇÃO Á HISTORIA +NATURAL + +LISBOA + +FERREIRA, LISBOA & C.^a +132--Rua Aurea--134 + +1873 + + + + +LISBOA + +TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES +IMPRESSOR DA CASA REAL + +110--Rua dos Calafates + + + + +Ill.^{mo} e Ex.^{mo} Sr. Conselheiro José Silvestre Ribeiro + +Ha annos, ouvindo os louvores, que á intelligencia e probidade de V. +Ex.^a tecia um dos mais peregrinos talentos de Portugal, o grande poeta, +hoje Visconde de Castilho, senti irresistivel desejo de ler os escriptos +de V. Ex.^a e de o conhecer em pessoa. Dessedentei-me agradavelmente e +com muito proveito, nas numerosas paginas, que da penna de V. Ex.^a +haviam saido, umas reunidas em volumes, outras espalhadas pelos +periodicos, todas porém rescendendo suave e, digamos assim, castissimo +perfume de natural bondade e heroicas virtudes, qualidades que para mim +valem muito mais que toda a erudição, e que realçam sobremodo a que v. +ex.^a possue vastissima, colhida no incessante estudo de quantos +engenhos famosos tem opulentado as sciencias, as artes e a litteratura. + +Já eu, havia muito, conversava com V. Ex.^a em espirito e me reputava +seu discipulo amicissimo, quando tive a boa fortuna de fallar a V. Ex.^a +e de ser por V. Ex.^a acolhido com a benevolencia, que lhe conquista a +sympathia de quantos o tratam. + +Data d'esse dia a nossa amizade, confiado na qual ouso offerecer a V. +Ex.^a este livro modestissimo, que se alguma cousa vale é pela boa fé +com que foi escripto. + +É sympathico o assumpto; creio que é mais um brado pedindo a tão +necessaria reforma do ensino infantil e primario na casa paterna e na +escola, que tão pouco tem ainda de paternal. Será perdido, como os que o +viajante extraviado soltaria no deserto, implorando o favor dos homens? +Talvez. + +Incessantemente ha clamado o nosso probo amigo o Sr. Visconde de +Castilho, e nem aquella potentissima intelligencia, nem aquella phrase, +que nos faz acreditar a fabula de Orphêo, nem a auctoridade d'aquella +quasi intuição do bom e do bello ha conseguido, que amanheça para as +criancinhas o dia da sua regeneração intellectual. + +Não serei eu mais feliz; mas dar-me-hei por bem pago do trabalho, que +puz em escrever estas paginas, se uma só mãe, que seja, ou um só mestre, +aproveitar os conselhos, que lhes dou, e se, quando mais não obtenha, +uma criancinha me dever algumas lagrimas de menos e algum bom +ensinamento a mais. + +Associando o nome illustre e venerando de V. Ex.^a a esta obrinha, imito +o bom do Aimé Martin e posso dizer a V.^a Ex.^a o que elle disse ao +mavioso Lamartine. + +En vous offrant ce livre, je n'ai qu'un but, c'est de rattacher mes +paroles aux vôtres, c'est d'étayer leur faiblesse de votre force, ma +raison de votre raison. Je veux qu'on dise un jour: Ceux-ci ont connu +les veritables biens, ils se rencontrèrent dans la même foi, ils +s'aimèrent devant le même Dieu. + + + De V. Ex.^a + + Admirador muito amigo + + João José de Sousa Telles. + + +Lisboa 7 de julho de 1873. + + + + +ENSINO INTUITIVO + + +O livro, que hoje publicâmos, é uma tentativa modesta de acclimação de +uma idéa excellente, que lá por fóra tem produzido optimos resultados. + +Applaudem-na unanimes os mais insignes pedagogistas inglezes, allemães, +americanos, francezes, e belgas; e ainda que tantos homens +competentissimos em assumptos de ensino e educação nol-a não apregoassem +famosa, bastaria a simples enunciação d'ella, para que enthusiasticamente +a adoptassemos. + +Antes, porém, de expôrmos minudenciosamente a idéa nova, e nova lhe +chamâmos attendendo ao pouco que se tem vulgarisado em Portugal, de +razão nos parece conversarmos amigavelmente com o leitor ácerca de +alguns pontos da educação e instrucção elementar. + +É a educação da puericia e da juventude a mais gloriosa e ao mesmo tempo +a mais difficil obrigação, que Deus impoz ao homem e á mulher. + +Á luz da philosophia e da moral, a paternidade e a maternidade consistem +menos em gerar o infante, do que em desenvolver-lhe e aperfeiçoar-lhe +incessantemente as faculdades da alma e do corpo, até que possa cumprir +os seus deveres e arrostar as contrariedades da vida na curta, mas +trabalhosa peregrinação, que principia no berço e acaba no tumulo. + +Incumbe, pois, aos paes empregar todos os meios ao seu alcance, para que +os filhos, creaturinhas imbelles, que a Providencia confiou a seus +cuidados, cheguem no mais curto espaço de tempo, e pelo emprego de +processos razoaveis, amenos, e repassados de amor e ternura ao estado de +perfeição physica, intellectual e moral, que constitue o homem, tal qual +deve ser, tal qual Deus quer que elle seja, tal qual a sociedade bem +organisada o requer, para obreiro prestadio da civilisação. + +Infelizmente, nem todos os paes conhecem os seus deveres; e dos que os +conhecem, muitissimos ha, que os não cumprem, ou por modo mui imperfeito +se desempenham d'elles. + +D'esta ignorancia e negligencia funestissimas provem os maiores males, +que affligem a humanidade, males para os quaes a maior parte das vezes +não ha remedio. + +Tratando de assumpto differente, disse um douto, que muitas descobertas +se poderiam fazer, se opportunamente perguntassemos: _Por que?_ +Appliquemos o engenhoso e facil processo de Arago ao exame das causas +determinantes de alguns vicios sociaes, e convencer-nos-hemos de quão +exacta é a nossa asserção. + +Estamos na via publica. De toda a parte se nos apresentam creanças +esfarrapadas, semi-nuas, esqualidas, famintas, petulantes; revolvem-se +umas na lama e no pó; dormem outras, tiritando, á chuva e ao vento; +estas divagam estendendo a mão asquerosa e pedindo uma esmola aos que +passam; aquellas soltam dos labios rosados palavras, que fazem enrubecer +os que as ouvem. + +Chamae-as, e perguntae-lhes quem alli as deixou, flôres no +esterquilinio, passarinhos implumes entre abutres esfaimados, anjos +manchando as azas na sujidade das calçadas. + +Responder-vos-hão: Nossas mães e nossos paes. + +Ides vosso caminho, alegre, tranquillo, olhando em redor, vendo +prepassar trens sumptuosos, soberbos cavallos, mulheres elegantes, +homens felizes e descuidósos. Chega-vos aos ouvidos um echo, um gemido, +um choro infantil; olhaes... + +Que vêdes? + +Na soleira de um portal, vestida em uns andrajos, quasi morta de fome e +de frio uma criancinha, cujas faces, em vez de serem orvalhadas pelas +lagrimas da materna alegria, e aquecidas pelos beijos fervidos da que +lhe deu a existencia, se humedecem com as lagrimas da amargura infantil. + +Levantae o pobresinho, apertae-o contra o peito, osculae aquella carinha +de jasmim e rosas, e perguntae-lhe: + +Anjo meu, que barbaros te deixaram aqui abandonado? + +E a innocencia vos responderá, não com palavras, que as não sabe ainda +articular, mas com ternissimos soluços: + +Abandonou-me meu pae e minha mãe. + +Além vae caminho do cemiterio, a tumba, que andou de porta em porta +recolhendo os miseros, cujas familias não poderam coalhar o bastante +para o modesto funeral dos seus parentes. + +Fazei-a parar; mandae que a abram; olhae para dentro. + +Horror! exclamareis vós ao ver por entre os adultos exanimes, em +sacrilego desarranjo, um bando de creanças quasi esqueletos, rachiticas, +chagadas, meio apodrecidas, com signaes evidentes de terem vindo ao +mundo com o estigma da morte profundamente gravado nas frontes +innocentes. + +Martyres obscuros, podereis vós dizer-lhes, para quem o mundo não teve +nem uma corôa, nem uma palma; estrellas cadentes, que brilhastes um +momento e desapparecestes n'um eterno occaso; quem assim vos macerou os +corpinhos, e vos deu a beber o fel da morte ao alvorecer da vida? + +E a mudez sombria d'aquellas florinhas envenenadas na hastea, e +emurchecidas antes de desabrocharem, responderá: + +Nossos paes e nossas mães. + +Vêdes aquelle peralvilho, aquelle afeminado, todo pomadas, todo +essencias, gesto insolente, olhar altivo e desdenhoso, que vae rindo e +galhofando com outros da sua ralé. + +Parou, fazem-lhe roda, applaudem-n'o outros taes. Que bocadinhos de oiro +estará elle a dizer? + +Escutae-o. + +Mófa da religião, que desconhece; insulta os sacerdotes, que acertam de +passar junto d'elle; escandalisa as donzellas; zomba dos anciãos; aos +pobres, em vez de os esmolar, despede-os insolente. + +Indagae como tão cedo se depravou aquelle moço, que deveria estar ainda +sentado no banco da escola. + +Dir-vos-hão que á incuria paterna deve elle toda a sua ruina. + +Entrae no templo a presencear as augustas ceremonias, que rememoram a +angustiosa paixão e morte do grande amigo da humanidade. + +Que observaes? + +A turba irreverente, descomposta, sacrilega, rindo, conversando, +ostentando galas, trocando gracejos, costas para os altares, olhares +distrahidos, attitudes grosseiras e vilans. + +Quantas preces saem d'aquelles labios? Que pensamentos povoam aquellas +mentes? Que piedosos affectos existem em tantos corações? +Escandalisa-vos o desacato? Quereis saber porque na egreja estão, como +não poderiam estar na casa da opera? + +Chamae de banda um dos levianos e perguntae-lhe o que lhe hão dito seus +paes da grandiosa tragedia do Calvario; do incruento sacrificio, que a +representa, da respeitabilidade do altar, do valor das preces humildes e +sinceras? + +Responder-vos-ha, sorrindo: + +Não vos comprehendo; meus paes nunca me fallaram d'essas coisas. + +Que vozearia é aquella? Porque tantos gritos, tamanho borborinho? + +Ergue-se um homem mal trajado, e arenga á turba. + +Poucas palavras tem dito, e já uns o applaudem phreneticos, já outros o +vituperam enfurecidos. + +É o povo soberano, que usa e abusa de seus direitos. A onda encapellada +das ruins paixões sobe, sobe, invade a improvisada tribuna e derruba o +Demosthenes improvisado. + +Todos fallam, todos proclamam a idéa nova. + +Ouçamol-os. + +Abaixo os padres, não precisâmos d'elles; abaixo a religião, que para +nada presta; acabemos com a propriedade, os ricos só querem beber-nos o +sangue; viva o communismo, grita um; viva o socialismo, que é melhor, +responde outro; nada, nada d'isso, venha a republica. + +Acabemos com os tributos e seremos felizes; e o exercito para que serve? +Elimine-se o exercito. + +Pedi instrucção, pedi ensino facil, bom, universal, escolas primarias a +cada canto, bibliothecas populares, livros optimos ao alcance de todos +no preço e no estylo; pedi moralidade, diz com voz firme e sonora um +operario, fronte ampla, respeitaveis cans, rosto sereno, mão calejada +pelo trabalho. + +Fóra com o visionario brada a turba. + +Que quer dizer instrucção? Para que servem os livros? Para que prestam +as escolas? regouga um miseravel, em cujo rosto se retrata a ignorancia +e occiosidade; e bradando á turba, após si a leva cançada, mas não +saciada de disparatar. + +Dirigi-vos ao operario honesto e prudente e informae-vos de quem sejam +aquelles doidos. + +Uns infelizes, dirá elle, bons corações, más cabeças. Pobresinhos todos; +porém mais pobres de instrucção que de dinheiro, porque todos tem +aptidão para o trabalho, mas a todos faltou a educação. Não tiveram +paes, como eu felizmente tive, que os mandassem ensinar. A mór parte nem +ler sabem, nem fazer o seu nome. Se lhes fordes perguntar o que seja +republica, socialismo, communismo, salario, religião, exercito, á boa fé +vos affirmo que não poderão responder coisa que geito tenha. + +Mas deixemos estes homens, nem todos maus; muitos bonissimos, +desvairados pela febre ardente de antigos e profundos padecimentos, que +buscam a verdade e o bem, como os alchimistas da idade media, por meios +absurdos e inconvenientes, mas que tem a coragem de affrontar os +perigos, de sacrificar a propria vida, e de soffrer com a resignação dos +martyres dos primeiros seculos do christianismo esses hediondos +supplicios, a que ainda hoje o mundo civilisado assiste com profunda +magoa e indignação. + +Volvamos os olhos para aquell'outros. + +D'onde vem? + +Das enxovias. + +Para onde vão? + +Para o degredo. + +Homens, mulheres, crianças! Deixam a patria, os amigos, as familias, os +formosos campos, onde nasceram, este céo tão puro, este sol tão +esplendido, este clima tão amoravel, este abençoado e feracissimo +torrão, para irem em paizes inhospitos luctar com a morte opprobriosa, +ralados de saudades, roidos de remorsos, despreziveis aos olhos de +todos, e condemnados pela voz implacavel da propria consciencia. + +Vãm alli assassinos, sacrilegos, perjuros, fratercidas, patrecidas, +ladrões, incendiarios; todos os crimes, todas as torpezas, todas as +infamias, o lodo asqueroso de todas as humanas miserias, as trevas da +ignorancia preversa, a lepra do grande corpo social. + +Ponde os olhos n'aquelle quadro, mães e paes. + +Não interrogueis os que o crime despenhou; não insulteis a desgraça; não +amargureis mais aquelles corações devastados e corroidos pelo crime, +onde poderá haver ainda alguma fibra incorrupta e sensivel; mas +perguntae a vós mesmos que educação receberam aquelles miseros de seus +progenitores? que sorrisos e carinhos lhes cercaram os berços? que +palavras ouviram aquelles entes ao entrar na vida? que exemplos tiveram +para seguir? quaes as escolas, a que os mandaram? que affectos semeiaram +n'aquelles corações? quantas vezes lhes apontaram para o céo e lhes +fallaram de Deus? que noções lhes deram da verdade, da justiça, da +honra, do dever? que meios empregaram para lapidarem aquelles diamantes? +que processo adoptaram para desinvolver-lhes a intelligencia? + +E se não acertardes com as respostas a estas e a muitas outras +perguntas, que o caso suscita, ide-vos por essas cidades, e villas, e +aldeias, e povoados e indagae a historia de cada um d'aquelles +infelizes. Raro achareis que se prevertesse o que dos paes houvesse +recebido desvelada educação. + +Mas o que é educação desvelada? + +Eis o ponto importantissimo, para o qual chamâmos a attenção de todos. +Não o desenvolveremos aqui. Assumpto é para um livro, e já larga e +proficientemente tratado por grandes mestres da sciencia de educar. + +Diremos apenas, que muitos paes e mestres ha, por desgraça nossa e +d'elles, que não comprehendem nem a extensão, nem a intensidade da +palavra educar. + +Para uns educar é crear, é nutrir o animal, é desenvolver-lhe o physico; +e nem sempre conforme os dictames da medicina e da hygiene. + +Para outros educar é iniciar a criança nas regras mais elementares da +leitura, da escripta, da contabilidade e de uma arte ou officio. + +Não falta quem se vanglorie de ter educado bem, excellentemente, seus +filhos, por que lhes deu mestres de linguas antigas e modernas, de +geographia, de historia, de philosophia e de muitas outras cousas mais. + +Tal se orgulha de ver o herdeiro de seu nome sair laureado de uma escola +ou academia e entrar na sociedade precedido da fama de optimo estudante. +Tal outro se julga em paz com a sua consciencia e se tem por excellente +educador, porque o mancebo, cujos primeiros estudos dirigiu, das +columnas de um jornal assombra o mundo com seus artigos, ou deleita as +turbas com versos, que reputa mais correctos e melodiosos que os de +Camões, Garrett ou Castilho. + +E consistirá em tão pouco a sciencia difficilima de educar? + +Não, mil vezes não. + +Que vale ao homem, a quem Deus concedeu uma certa porção de +intelligencia, susceptivel de indefinido desenvolvimento, crescer e +medrar no physico, permanecendo-lhe embryonaria a melhor das faculdades? +Que vale ao homem, que poderia elevar-se pelo estudo, pela leitura, pela +applicação das potencias da alma e vir a ser um poderoso auxiliar do +progresso da humanidade, qualquer que fosse a sua posição social, saber +apenas os primeiros rudimentos das artes de aprender, e tanto pela +superficie, que nem d'elles se possa servir, a não ser nos mais simples +usos da vida? + +Quantos e quantos dos que cursaram as escolas e as academias, e n'ellas +se distinguiram, tiveram mais trabalho em debellar os erros da educação +elementar do que em arcar com as difficuldades, e segredos das sciencias +superiores? + +E quantos não vem dos institutos scientificos imperfeitamente +instruidos, não por culpa dos mestres, nem d'elles mesmos, mas pela +incuria e ignorancia dos paes e dos primeiros educadores? + +Todos os homens intelligentes, que tem consagrado a vida ao magisterio +superior, reconhecem e confessariam, se quizessem, que a falta de +cultivo intellectual nas edades tenras difficulta extremamente aos +estudantes a comprehensão das sciencias, e os inhabilita para tirarem +dos cursos mais bem delineados as vantagens, que d'elles poderiam obter. + +D'ahi a meia sciencia, as ideas falsas, a confusão dos principios, a +impossibilidade das grandes concepções, a timidez na applicação pratica, +o desamor do estudo, que fecunda o que nas aulas se ouviu, e a propensão +para a preguiça, que se contenta com o pouco cabedal adquirido e não +busca grangear mais. + +Se das escolas superiores passarmos ás secundarias, encontraremos as +mesmas causas produzindo os mesmos effeitos; e dir-nos-hão os +professores intelligentes e zelosos, que das mãos dos paes e dos +primarios educadores, receberam a mór parte dos alumnos com os olhos do +espirito tão cerrados ainda, que de todo desconheciam as verdades mais +elementares e intuitivas, os phenomenos mais simples e intelligiveis, as +relações mais claras. + +Na escola primaria, o professor instruido, que comprehenda quanto tem de +nobre e grandioso o seu ministerio, em apparencia tão humilde, na +realidade tão augusto; que considere na criança o homem e no homem o +futuro todo inteiro da humanidade; que abranja com a vista o largo +horisonte das criaturinhas, que o rodeiam, e que deseje dissipar as +trevas d'aquelles entendimentos com luz tenue e suave, como convem a +edades infantis, tem ainda a luctar com os defeitos da educação +domestica, que devendo ser a primeira, a mais engenhosa, a mais +insistente, e mais efficaz, é muitas vezes nulla, muitas quasi nulla e +quasi sempre deficiente. + +E se o que vamos dizendo se applica em cheio á educação das faculdades +intellectuaes da puericia, que são ainda assim, as que os paes de +ordinario mais appetecem ver desenvolvidas nos filhos, outro tanto se +póde asseverar da educação physica e moral. + +Conhecida a doença, urge accudir-lhe com o remedio. Já o bom do +Jenuense, mestre de nossos paes, mestre de muitos de nós outros, que +hoje ensinamos e que suppômos ter alguma valia, e tão injustamente +esquecido e mettido para o canto, dizia: + +_Principiis obsta, sero medecina paratur, cum mala per longas invaluére +moras._ + +«Acode ao doente apenas a molestia dê o primeiro rebate; que de nada lhe +prestará o remedio, tardio.» + +E haverá remedios, que prestem para os males de que enferma a educação +elementar? + +Ha, e muitos; o caso está em applicar-lh'os a tempo e judiciosamente. + +Não todos apontaremos aqui, porque não é este livrinho um tratado de +pedagogia, mas tão sómente um, que valerá por muitos. + +É remedio barato, condicção esta que não é para desprezar; de facil +manipulação; composto de simples, que por toda a parte e a toda a hora +se acham; e por cima de tudo isto, tão agradavel, que em vez de lhe +fazerem caretas, os que o devem tomar, o appetecem e pedem sequiosos e +nunca fartos de saboreal-o. + +É este remedio o _Ensino intuitivo_. + +Para applical-o, diga-se já e bem alta e claramente, nem todos servem. +Em mãos de ignorantes converte-se em veneno, e em vez de beneficios, só +produz males. + +É indispensavel, pois, que paes e mestres, que hajam de o empregar, +possuam profundo e variado cabedal de conhecimentos. + +Antes, porém, de entrarmos a dizer o que este ensino seja, convem que +nos lembremos das condicções organicas, physiologicas e intellectuaes +das crianças. + +É o infante um organismo em via de formação, incompleto, fransino, em +que a vida animal consiste quasi exclusivamente no movimento tumultuoso, +na expansão incessante, na assimilação continua. + +Abriu os olhos ha pouco, e ainda não teve tempo de ver bem o grandioso +espectaculo da natureza, cujos protentos o deslumbram; descerraram-se-lhe +hontem os ouvidos, e por isso lhe echoam lá dentro, ainda confusas, as +harmonias, os ruidos, as palavras, que mal percebe; aspira sofrego os +aromas, que rescendem as flores, mas não os distingue; saborêa o nectar, +mas quererá tambem provar o fél e degustar o absintho; apalpa enlevado a +pelle assetinada e suavissima das faces maternas, mas queimar-se-ha +incauto na chama da véla, que admira, sem a comprehender. + +No intimo, na cabeça, cujos óssos ainda se não consolidaram +completamente, no coração, que palpita violento, jorrando sangue para +todo o corpo, começam de germinar as idéas e os affectos, cuja +elaboração de hora para hora, de dia para dia, de mez para mez se +complica, e transmitte com incrivel velocidade. + +São dois mundos luctando atravez do fragil envolucro, que chamâmos +corpo; o mundo externo, cujos variadissimos factos contempla attonito +sem suspeitar que os determinam infinitas leis, que os encadeam +reciprocamente innumeras relações, e que sobre elle actuam +incessantemente: o mundo interior, o mundo dos sentimentos, das ideas, +dos affectos, cuja admiravel genese começa, e que ha de irromper atravez +dos sentidos, e reagir violento sobre os modificadores de fóra. + +A creança porque é um ente material, que tende a completar-se, carece de +muita alimentação, de muito sol, de muito e bom ar, de muito movimento, +de liberdade, e de sensações variadas, mas suaves, que a deleitem, e que +attraiam a sua attenção. + +Se todas ou algumas d'estas condicções lhe faltarem vel-a-heis +extinguir-se subito, como a luz de uma véla á mingua de oxigenio; ou +estiolar-se e pender para o tumulo, onde não tardará a sumir-se, como a +planta, que germinou em solo arido e assombrado. + +Como creatura intelligente e moral, necessita que lhe dirijam e +robusteçam as faculdades, á proporção que se forem desenvolvendo, +ministrando-lhes objectos apropriados ás forças das mesmas faculdades, e +em quantidade tal, que nem as cancem, nem as desgostem. + +No desprezo d'estes principios está, a nosso ver, o primeiro e mais +funesto erro do actual systema da educação infantil. + +Na maxima parte das escolas da puericia entram quotidianamente as +criancinhas faltas do indispensavel alimento, e alli se conservam largas +horas em casas estreitas sombrias e mal ventiladas, respirando ar +infecto, inhibidas de fazer os movimentos, que a sua edade +imperiosamente reclama, sem horisontes extensos e ridentes, que as +alegrem, sem nada que as encante e lhes deleite os sentidos. + +O mestre, senão carrancudo e severo, é quasi sempre sufficientemente +serio e concentrado, para não lhes incutir a confiança e amôr, que são +os mais suaves e ao mesmo tempo os mais fortes laços, que prendem o +discipulo ao perceptor. + +Começa a lição. Não ha canticos, nem musicas, nem exercicios +gymnasticos, nem historiasinhas, que alegrem aquelles corações e +instruam aquellas mentes nas coisas, que com maior facilidade poderiam +comprehender. + +Para os mais pequeninos, para aquelles que mais se lembram ainda dos +beijos maternaes e das doçuras da casa paterna, o triste e monotono a, +b, c, as aridas columnas do syllabario, e a empyrica taboada. Para os +mais crescidinhos, a grammatica, a historia patria, a chorographia, a +doutrina christã. + +Que percebem os pobres infantes de tudo aquillo, que involuntariamente +decoram, e machinalmente repetem? + +Nada, ou quasi nada. + +Tomae d'entre os alumnos de uma escola o mais adiantado, o mais +estudioso, o que mais talento revele, e interrogae-o. Ouvil-o-heis +repetir o compendio, máo ou bom, com certa facilidade e elegancia; mas +se lhe perguntardes o sentido de uma palavra, a razão de um facto, +vel-o-heis córar e emudecer, porque a elle, o estudante eximio, deixaram +sempre em pousío as mais nobres faculdades da alma, excitando-lhe +apenas, e ainda assim por um processo defeituoso, a faculdade auxiliar, +a memoria. + +Olhar com seriedade para a educação e instrucção da infancia, e +reformal-a completamente, adequando-a ás edades dos estudantinhos, e +tornando-lh'a facilima, deleitavel, e todo o ponto util, é não só +necessidade urgente, senão dever impreterivel. + +O primeiro passo para esta grande reformação, que o bom senso, a +sciencia, a caridade, e o interesse de todos nós estão ha muito a pedir +a grandes brados, dar-se-ha quando os governos, os municipios, as +associações e os particulares se resolverem a edificar casas para +escolas infantís, e primarias, espaçosas, alegres, agasalhadas, com o +seu jardim, meio descoberto, meio assombrado com arvoredo, tendo no +centro um pequeno lago ou tanque e aos lados alguns apparelhos e jogos +gymnasticos; quando a frequencia da escola infantil, preparo para a +primaria, fôr obrigatoria; quando o ensino da infancia fôr +esclusivamente confiado a mulheres intelligentes, instruidas, honestas e +amoraveis, que do coração se consagrem ao ministerio sacratissimo de +educadoras, e que a todos os discipulos, amem e acarinhem, como se +fossem todos elles seus filhos queridos; e quando finalmente o _Ensino +intuitivo_ se tornar obrigatorio e exclusivo nas escolas infantís; e +obrigatorio, como auxiliar de qualquer outro, nas escolas primarias e +secundarias. + +Muitos annos hão de decorrer, infelizmente, primeiro que se realizem +estes nossos alvitres. Levantar-se-hão contra elles os ramerraneiros, os +enthusiastas do passado, os indifferentes, os que não crêem no +aperfeiçoamento humano começado a operar na escola infantil, os que só +vêem a prosperidade publica, no exercito, nas estradas, nos caminhos de +ferro, nos telegraphos electricos, nas escolas superiores, nas +academias, e nos museos, como se tudo isto não estivesse a pedir, para +ser verdadeiramente util, muita e sólida instrucção no povo, muita +moralidade, e muito amor ao trabalho, e como se estas indispensaveis +qualidades as podesse ter uma nação, onde não ha escolas infantís, onde +as escolas primarias são pouquissimas e defeituosas, onde os methodos de +ensino são ruins, e onde os professores, muitos d'elles dignissimos e +habeis, são tão vergonhosamente retribuidos, que para pobrissimamente +viverem, têm de se occupar em misteres totalmente alheios do ensino e +educação. + +Muitos annos, repetimos, hão de decorrer primeiro que os exemplos da +America, generosissima com a instrucção primaria, sejam imitados na +extrema Europa. + +Não o quer o _deficit_, exclamarão os financeiros, e applaudil-os-hão +todos os que mais ou menos manuseam o orçamento do estado. + +Se a indole d'este escripto o permittisse, facil nos seria impugnar esta +nefasta e incessante invocação da pobreza publica, e mostrar que em +Portugal o que falta, e muito, é verdadeiro patriotismo, é sincera +vontade de progredir, é a iniciativa individual nos arrojados +commettimentos, caracteristicos dos povos, que comprehendem os seus +deveres de membros da grande familia social e que os não pospõe aos seus +interesses particulares. + +Colhâmos, porém, as vélas ás considerações, que todos estes assumptos +nos suggeriram, e entremos já a dizer o que seja o _Ensino intuitivo_, e +as vantagens que d'elle resultam. + +Todos os que lidam com crianças terão percebido que nas primeiras idades +é o homem dominado incessante e invencivelmente pela curiosidade, ou +desejo de saber; que para saciar esta inclinação empregam os infantes +não só os olhos, mas os outros sentidos; que ao verem um objecto, +mórmente se lhes agrada, ficam diante d'elle como que absortos, com os +olhos mui abertos, ás vezes quasi sem pestanejar; que se lh'o consentem, +tomam nas mãosinhas o que primeiro estiveram vendo, e o apalpam, a +principio com timidez, depois com afoiteza; que o levam ao nariz, e á +bocca, e que por fim começam de separar as partes de que se compõe, se +não é inteiriço. + +Apoz tal exame, e ás vezes simultaneamente, chovem as perguntas: + +O que é isto? + +Quem fez? + +De que é? + +Para que serve? + +Quem trouxe? + +Terão tambem observado os educadores, que n'estes exercicios +instinctivos, as criancinhas, em geral, não comparam, nem por +consequencia raciocinam. Fazem como as abelhas, que andam de planta em +planta, de flôr em flôr, colligindo os materiaes com que mais tarde hão +de fabricar o seu mel. Com a differença que as abelhas nasceram aptas +para aquella industria e nunca em vez de mel nos dão outro produto; e as +criancinhas, artistas novéis, mas livres e dotadas de intelligencia +perfectivel, podem pela maneira imperfeita porque as suas faculdades +intellectuaes e moraes se começarem a desenvolver, e continuarem a +exercer-se, viciar de tal arte o espirito, que de futuro ou nada possam +conhecer bem, ou só com extrema difficuldade e grande dispendio de +tempo. + +Em aproveitar as naturaes tendencias da infancia e juventude, em +amenisar-lhe o começo da extensa e espinhosa senda, que tem de percorrer +na vida, em desenvolver-lhes e aperfeiçoar-lhes gradual e +insensivelmente as faculdades; em enriquecer-lhes de copiosos e +variadissimos conhecimentos o espirito; em formar-lhes o coração, +desenvolvendo n'elle astuciosamente o gosto do bom, do bello e do +verdadeiro; em habilital-as o mais cedo possivel, sem a minima +violencia, para a vida pratica, deixando para tempo opportuno theorias e +systemas, para comprehender os quaes é mister intelligencia robusta, é +em que consiste o _Ensino intuitivo_. + +É este ensino primeiro que tudo dos sentidos externos, os quaes á +maneira que se vão exercendo sobre os objectos, para lançarem no +espirito os germes de quantas sciencias e artes ha, se aperfeiçoam +insensivelmente, adquirindo cada dia mais vigor e aptidão. + +É pois indispensavel que os educadores procurem especialmente que as +criancinhas empreguem os sentidos, ora simultanea, ora successivamente, +nas cousas que tenham de estudar, que as vejam de perto, que as tomem +nas mãos, que as cheirem, que as provem, quando não houver +inconveniente, que as dividam e recomponham, sem que se lembrem de que +estão a estudar. + +Tudo servirá para estes exercicios intuitivos, se o educador tiver +instrucção variada e profunda. Tudo servirá, por que, como disse +Jacotot: _Tudo está em tudo_. + +Um grão de areia, um alfinete, uma agulha, um botão, um palito, uma +moeda de prata ou cobre, a folha de uma arvore, um bago de uva, serão +compendios tão importantes como um cavallo, uma ave, um peixe, um +relogio, uma caixa de musica, ou uma machina de cozer. + +Milhares de cousas baratissimas se poderão apresentar aos estudantinhos +para larguissimamente os instruir; muitissimas haverá em todas as casas, +taes como cadeiras, mezas, pennas, papeis de differentes qualidades, +flôres, fructos, relogios, thesouras, campainhas, etc. De um sem numero +de objectos se poderão obter modelos em ponto pequeno ou de madeira ou +de papelão, ou de qualquer outra substancia apropriada. Na falta +absoluta de exemplares naturaes, que são os melhores, ou de copias em +vulto, que servem perfeitamente, sendo bem feitas, empregar-se-hão com +muita vantagem estampas coloridas ou em negro. O que deve ser banido das +escolas infantís é o syllabario, a taboada, o cathecismo, a grammatica, +o compendio de chorographia e o de civilidade. Da exposição, exame e +comparação das coisas ou das estampas, segundo o processo que já vamos +indicar, é que as crianças hão de ir colhendo as idéas exactas e claras, +que depois saberão associar ás mil maravilhas, formando espontaneamente +optimos juizos e raciocinios. + +Tratando das viagens de Homero e do estudo pratico das pessoas e cousas, +que habilitou o immortal filho de Climene a compôr os protentos +litterarios denominados _Iliada_ e _Odysséa_, diz Bitaubé o seguinte, +que é a expressão da verdade: «Os livros são uteis, mas favorecem certa +indolencia, que obsta a que o leitor observe por si mesmo; lendo, vemos +a maior parte das cousas pelos olhos dos outros, e representâmos ao +nosso espirito imagens de outras imagens; se observassemos directamente +os objectos graval-os-hiamos mais profunda e claramente no espirito. +Qual é o resultado da falta de observação directa? É perdermos a +perspicacia e sagacidade indispensaveis para observar com perfeição á +força de não as exercitarmos e de não contemplarmos a natureza, +excellente mestra, que jámais se deve despresar. Adquirem-se é verdade, +mais idéas, mas imperfeitas e superficiaes, de que resultam quadros +frios e incompletos.» + +Todos os pedagogistas, que se teem occupado d'este systema de ensino, +encarecem o proveito que se tira da substituição dos livros de texto, +que os meninos decoram sem os entender, pelas estampas, que muito os +deleitam e que examinam attentos, colhendo das palavras do educador, a +proposito de cada uma, infinitos conhecimentos, que jámais esquecerão. + +É mister, porém, que as estampas sejam mui perfeitas, para que não +viciem nas crianças o gosto do bello e da verdade, e que sejam graduaes, +como tudo deve ser na educação. A regra fundamental do ensino intuitivo, +a qual nunca deve esquecer é: _Caminhar do conhecido para o +desconhecido, do facil para o difficil, do commum e trivial para o menos +commum ou mais raro_. + +Para realisar este preceito maximo, cujo despreso annularia o systema, +convirá que os educadores não entretenham seus discipulos com objectos +tomados ao acaso, mas que sigam um processo gradual, lento e invariavel, +nunca lhes chamando a attenção para cousas, cujos componentes elles +ainda não conheçam, nem lhes fazendo perguntas para responder ás quaes +não estejam habilitados. Dêmos alguns exemplos. Se praticarmos com +mocinhos a respeito de uma caixa de pinho, que estejam vendo, poderemos +convenientemente perguntar-lhes o feitio que tem, as partes de que se +compõe, para que serve a tampa, para que estão ali as argolas e a +fechadura; poderemos interrogal-os ácerca dos usos da caixa, fallar-lhes +do perigo de entalar os dedos quando a fecharmos, ou de nos ferimos se a +tampa cair sobre as nossas mãos ou cabeça; poderemos ainda indagar se +sabem o nome que se dá aos artistas, que trabalham em madeira; mas não +lhe fallaremos do pinho, sem que elles tenham visto um pinheiro natural +ou pintado, e a respeito d'esta arvore tenham adquirido os convenientes +conhecimentos. + +Se conversarmos ácerca de uma moeda de prata, bom será perguntar-lhes +como se chama aquelle dinheiro, de que é feito, que feitio tem, por que +não é quadrado, nem triangular (aqui fará o professor com o giz no +quadro preto a figura do triangulo e do quadrado), o que tem n'uma e +outra face, que representa a effigie e as armas, para que serve o +dinheiro, etc., etc.; mas abster-nos-hemos de lhes dizer que a prata da +moeda é uma liga de prata e cobre, se por acaso ainda não souberem o que +é uma liga metallica, nem conhecerem o cobre. + +Convém estar prevenido para um caso, que muitas vezes se deve realisar +na pratica d'este ensino. A natural prespicacia de alguns meninos e os +conhecimentos adquiridos na convivencia de seus paes e amigos ou na +leitura, se forem já ledores, habilital-os-hão a fazerem perguntas, a +que o educador não poderá ou não saberá responder. Quando isto aconteça, +nem se enfade ou envergonhe o educador, nem illuda a curiosidade +infantil, que de tanto serve n'este systema. Se a pergunta versar sobre +assumpto, que o mestre ignore completamente ou conheça pouco, isso mesmo +declare ao estudante com toda a franqueza; se fôr attinente a cousas, +para conhecer as quaes o mocinho não esteja preparado, ou que toquem em +pontos, que a decencia não permitta explanar, diga-lhe sem desabrimento, +que não é tempo ainda de saber o que pergunta. + +E para que nem o credito scientifico do educador soffra detrimento, nem +os meninos se desgostem e abstenham de perguntar, bom será que o +educador a miudo lhes mostre em phrase accommodada ás suas +intelligencias, e por meio de exemplos, quão numerosos são os +conhecimentos humanos, que é impossivel que todos saibam tudo, e que, +para adquirir sciencia de bons quilates, é indispensavel ir a pouco e +pouco, e não investigar certas cousas, antes de ter adquirido noções +exactas de outras. + +Para que o ensino intuitivo produsa todos os bons resultados que d'elle +se podem esperar, não basta progredir do conhecido para o desconhecido, +do simples para o composto; é indispensavel que os alumnos não conheçam +o plano adoptado pelo professor, e que não percebam que o que elle lhes +vae ensinando tende a um determinado fim e se ajusta para os iniciar nas +sciencias, cujas leis e applicações mais importantes só mais tarde terão +de estudar. Para a realisação d'este importante segredo do ensino +intuitivo, iremos nós offerecendo aos educadores em publicações +successivas, se esta nossa tentativa merecer o favor publico, as lições +graduaes, que deverão constituir um curso completo. + +Recommendam os mestres d'esta especialidade, no intuito de não enfadar +os estudantes e de os conservar attentos, que cada lição não exceda +quinze ou vinte minutos. Diremos, porém, que a pratica nos tem mostrado +poder ás vezes a lição prolongar-se até duas horas e mais, sem que os +estudantes se enfastiem nem deixem de attender ao que se lhes mostra e +explica. Consegue-se este resultado amenisando a pratica com +historietas, de que os meninos muito gostam, com exemplos, que elles bem +comprehendam, com a citação de proverbios, anexins, e anecdotas +consoantes ao assumpto de que se trata, e mais que tudo com o dialogo +mui cortado entre elles e o professor. + +Haja sempre n'estas lições a maxima variedade apparente, tanto no +objecto do estudo como na fórma, no dizer, nas conclusões e até na +collocação dos objectos e dos estudantes. A monotonia, a ordem, além de +certos limites, entristece a escola e cança os escolares. A par do +ensino das cousas andará sempre o ensino da moral, da hygiene, da +economia domestica, da religião, da organisação social, da historia, da +geographia, das bellas artes, de tudo; com preferencia do mais util; mas +sem estudos de cór, sem declamações, nem theorias transcendentes, nem +listas de nomes de pessoas, nem datas escusadas; tudo ao de leve, +saboroso, convidativo, e nem assim em grandes dozes, nem todos os dias. + +Permitta-se-nos que ponhamos aqui dois exemplos de como se deverá +proceder n'estes pontos, e não os tenham na conta de ridiculos, que nada +é ridiculo, quando se trata de espedregar a estrada, que ha de precorrer +a puericia. + +Estamos na escola, estudando um objecto qualquer. Ouve-se ganir um cão +na rua. Logo o professor interrompe o estudo, e pergunta a um dos +escolares, se algum vir distraido, a esse se dirigirá: + +P.--Que é aquillo, alli, na rua? + +E.--É um cão a ganir, responderá o estudante; e o dialogo proseguirá, +pouco mais ou menos, do seguinte modo: + +P.--O cão está ganindo ou ladrando? + +E.--Está a ganir. + +P.--Quantas qualidades de sons ou vozes produzem os cães com a bocca? + +E.--Não percebo a pergunta. + +P.--Eu me explico. Os cães não estão sempre calados... + +E.--Já percebo o que o senhor professor pergunta. Os cães _ladram_. + +P.--E quando estão tristes, ou quando ouvem certos sons, que lhes não +agradam, ladram? + +E.--Não, senhor, _uivam_. + +P.--E quando estão a roer um ôsso, e outro cão ou qualquer pessoa lh'o +quer tirar, o que fazem? + +E.--_Rosnam_. + +P.--E se lhes batem, ou os apedrejam? + +E.--Põem-se a _ganir_. + +P.--Mui bem; os cães, pois, podem _ladrar_, ou _latir_, _rosnar_, +_uivar_, e _ganir_. + +Aqui, se os meninos tiverem já conhecimentos de grammatica, dirá o +professor como de si para comsigo, mas em voz alta: aqui temos cinco +verbos, e repetirá, contando pelos dedos ou batendo com o lapis na mesa: +o verbo _ladrar_, o verbo _latir_, o verbo _rosnar_, o verbo _uivar_ e o +verbo _ganir_. + +E continuará, como quem se está recordando do que aprendeu: palavras que +representam acções praticadas ou feitas pelo cão. + +E logo, como quem se desviou do caminho direito e a elle volve, dirá ao +alumno: + +P.--Tenho ouvido dizer a algumas pessoas, que o _uivo_ dos cães é de mau +agouro, isto é, que um cão a uivar annuncia desgraça. Será verdade? + +E.--A minha avó diz que sim, que é signal de estar alguem para morrer. + +P.--Essa resposta esperava eu. + +Pois fiquem os meninos sabendo, que não ha agouros, e que _uivar_ um +cão, ou _cantar_ um canario, ou _relinchar_ um cavallo, ou _piar_ um +mocho, ou _cacarejar_ uma gallinha, ou _miar_ um gato não tem influencia +nenhuma nos acontecimentos humanos. + +E.--Á minha casa vae uma velhinha, que, em ouvindo uivar um cão, +descalça o sapato e põe-n'o com a sola para cima, até o animal se calar. + +P.--Se os cães uivarem muito em roda d'ella no inverno, andará sempre +com os pés frios. + +E.--Então a minha avó mente? + +P.--Mente, sem querer. Metteram-lhe uma peta na cabeça, e ella acredita +uma cousa, que não é verdadeira. + +E.--Ora diga-me, senhor professor, se uma pessoa estiver para morrer e +um cão se puzer a _uivar_ na rua ou na escada? + +P.--O doente morrerá, se Deus quizer que morra; e viverá, se fôr da +vontade divina, que continue a viver. + +E.--Mas como se explica o que aconteceu o anno passado a um visinho de +meu papá? + +P.--Conte-me lá essa historia tentim por tentim. + +E.--Adoeceu um homem, que morava no primeiro andar do predio, em que eu +habito; veiu o medico, esteve a examinal-o, receitou, disse que a doença +não era de perigo, e saïu. Minutos depois metteu-se na escada um cão e +principiou a uivar. + +A mulher do doente foi-se a elle, bateu-lhe com o cabo da vassoura e +pol-o na rua. Quando entrou em casa, estava o marido morto em cima da +cama. + +P.--Sabe o menino o que isso foi? + +E.--Eu não senhor. + +P.--Pois tem pouco que saber. Foi o que se chama _uma coincidencia_. Se +á saïda do medico, entrasse pela casa dentro um passarinho, dir-se-ia, +que a avesinha viera annunciar aquella desgraça; se eu por acaso batesse +á porta do doente n'aquelle instante, era eu o agoureiro. + +E.--Mas o medico tinha dito, que a doença não era de perigo. + +P.--E a morte repentina pressente-se horas, ou minutos antes? E não +podem os proprios medicos morrer de repente, sem que suspeitassem o que +lhes ia acontecer? + +E.--Mas o cão uivou! + +P.--Diga-me ca o menino uma cousa. Em casa d'esse homem, que falleceu, +não tem estado mais ninguem doente? + +E.--Estiveram doentes dois filhos. + +P.--E a mãe mandou chamar medico para os tratar? + +E.--Mandou, sim, senhor. + +P.--E não mandou chamar um cão? + +E.--Ora essa! Os cães não sabem curar doenças. + +P.--Mas o cão, que uivou, quando o homem morreu, era mais entendido que +o medico, porque annunciou a morte, até sem vêr o doente. + +E.--O senhor professor está brincando! Os cães são brutos, não sabem +d'aquellas cousas. + +P.--Então como é isso? Não sabem d'aquellas cousas, são brutos, e +prophetisam? + +E.--Tem razão, senhor professor. Agora vejo que a minha avósinha anda +enganada. + +P.--E muito, e faz mal em dizer taes patranhas. O uivo dos cães é +desagradavel aos ouvidos, aborrecivel por isso, mas não tem a minima +significação. + +Aqui poderá o educador dar fim ao incidente, ou continuar o dialogo, +fallando do mau costume de molestar os animaes, das qualidades do cão, +da raiva e dos meios de a prevenir e curar, etc, etc. + +Ao terminar a lição poderá o educador convidar ou os meninos a imitarem +o relincho do cavallo, o carejo das gallinhas, o miar dos gatos, o +latido dos cães, etc. + +Este exercicio que a algum fatuo parecerá ridiculo, ou desnecessario, ou +ambas as cousas, tem as seguintes vantagens: alegra e distrae as +creanças, que jámais fugirão do estudo, quando elle fôr recreativo, +desenvolve-lhes, e aperfeiçôa-lhes a natural tendencia para imitarem, +exercita-lhes e robustece-lhes os orgãos vocaes, e por cima de tudo não +faz mal nem á alma nem ao corpo. + +Quem reparar bem no dialogo que deixâmos architectado, descobrirá quanto +ensinamento ha n'elle, e perceberá que se pretendeu principalmente +combater uma crença erronea, mas vulgarissima. + +Dêmos o segundo exemplo. + +Está sobre a mesa ou em cima de outro movel um ramalhete de flores, que +alli se puzéra mui calculadamente. + +Chegada a occasião opportuna, o professor interrompe a lição e diz: + +Meus meninos, descancemos um pouco. Aqui se faz uma pausa, e todos os +rapazinhos exultam e saltam dos seus logares. + +P.--Já viram bem aquelle ramalhete? + +E.--Ainda não, senhor. + +P.--Pois vão buscal-o, para o examinarmos por miúdo. + +E.--Eil-o aqui. + +P.--De que flores se compõe? + +E.--De rosas, cravos, camelias, junquilhos, violetas e cedro. + +Se os meninos errarem o nome das flores, ou os não souberem, irá o +professor emendando e dizendo lhes como se chamam. + +P.--Menino F... (ao que mais atrazado estiver em contar) conte pelos +dedos quantas qualidades de flôres ha n'este ramalhete. + +E.--Rosas, _uma_; cravos, _duas_; camelias, _tres_; junquilhos, +_quatro_; violetas, _cinco_; cedro, _seis_... Ha seis qualidades de +flôres. + +P.--Parece-me que se enganou. Veja bem. + +E.--São seis, não me enganei. + +P.--E se eu lhe disser que se enganou? E enganou-se, porque não attendeu +bem. Diga-me, o cedro é flôr? + +E.--Tem razão; são cinco. O cedro não é flôr. + +P.--Está-me parecendo, que nenhum dos meninos me sabe dizer para que +serve este cedro á roda das flôres. + +E.--Eu não sei; eu tambem não; é, é.... + +P.--Eu lhes digo para que elle aqui está. É para realçar a belleza das +flôres, para fazer um contraste agradavel á vista. Se duvidam desatem o +junco, tirem o cedro, e verão que o ramalhete perde muito da sua +formosura. (Acto continuo, o educador faz o que aconselhou e mostra o +ramo desguarnecido de verdura). + +P.--É ou não é verdade, o que lhes affirmei? + +E.--É verdade. + +P.--Ha entre estas flôres, umas que cheiram, e outras que não cheiram. + +E.--As rosas, cheiram; os junquilhos, cheiram; as violetas, tambem; as +camelias é que não tem cheiro. + +P.--Não me lembro se já lhes disse como se denominam as substancias, que +tem cheiro? + +E.--Denominam-se _odoriferas_. + +P.--E as que não teem cheiro? + +E.--_Inodoras_. + +P.--E todas as substancias, que tem cheiro, cheiram bem? + +E.--Não, senhor. + +P.--E todas as flôres cheirosas, possuem cheiro agradavel? + +E.--Nem todas. + +P.--Digam-me agora outra cousa. O cheiro das flôres é bom ou mau, para a +saude? + +E.--Não sabemos. + +P.--Pois vão saber uma verdade, que jámais devem esquecer. Attendam. Ha +pessoas a quem o arôma das flôres incommoda e faz adoecer; causa-lhes +dôres de cabeça, enjôos de estomago, tonturas, e outros padecimentos. +Muitas flôres, e ás vezes poucas, mas de cheiro forte, n'uma casa mal +ventilada, podem envenenar quem alli estiver. Dormir com flôres na +alcôva é muito perigoso, e sabe Deus quantas molestias este mau costume +terá originado. Por agora basta que saibam isto, para se acautelarem; em +outra occasião lhes explicarei como é que as plantas e flôres alteram a +pureza do ar e o tornam doentio. + +É por este theor que nos animos infantis se podem inocular conhecimentos +praticos de quantas sciencias ha, de modo que as crianças, ao sairem das +escolas, levem copia immensa de noções utilissimas para todas as +circumstancias da vida. + + * * * * * + +De grande proveito nos parece que os meninos mais desembaraçados na +escripta tenham um caderno onde todos os dias vão escrevendo mui +laconicamente o assumpto da lição, e o que da mesma lhes pareça mais +digno de se conservar na memoria. + +Evite-se, porém, que n'estes summarios, ou indices menemonicos, se +empreguem palavras escusadas e se commettam erros de grammatica. + +De principio convirá que o educador, ao findar a lição, ensine aos +meninos como o registro deve ser feito; depois ordenar-lhes-ha que o +redijam em suas casas, e que lh'o apresentem no dia seguinte, para ser +emendado. + +E como a extrema concisão seja a melhor qualidade de taes escriptos, +aqui pômos um paradigma, para governo de educadores e educandos. + +Referimo-nos ao primeiro dialogo, que atraz fica exarado. + + +*Registro* + +_Assumpto._--Um cão a ganir. + +_Sons, que os cães produzem com a bocca_: Latido, uivo, rosnadura, +ganido. São substantivos. Ladrar, ou latir, uivar, rosnar, ganir.--São +verbos. + +_Agouros._--Não os ha. + +_Vozes de differentes animaes._--Cão, _ladra_; canario, _canta_; +cavallo, _relincha_; mocho, _pia_; gallinha, _cacareja_; gato, _mia_. + +O _uivo dos cães_ não indica, nem póde indicar a morte de ninguem, nem +desgraça nenhuma. Se um cão uiva, pouco antes de morrer alguem, este +facto é apenas uma coíncidencia, um accaso. + + * * * * * + +O professor exigirá que os meninos, nas respostas que lhe derem, +empreguem sempre phrases completas, conformes ás leis grammaticaes, +simples e curtas quanto fôr possivel. + + * * * * * + +Reputa-se de grande utilidade n'este ensino a repetição individual e +simultanea. + +É um processo excellente, para conseguir que mais fundas se gravem +certas especies no espirito dos alumnos, e para corrigir defeitos de +expressão e pronuncia. No repetir em côro se deleitam as crianças muito, +mormente se o tom das vozes não é tristonho, mas alegre, musical, +variadissimo. + + * * * * * + +Ao minimo erro de regencia, de concordancia, ou de pronuncia, acudirá +logo o professor com a indispensavel advertencia, e tanto mais clara e +fervorosa, quanto mais grave fôr o erro. Suppunhâmos que um menino diga +_somentes_ em vez de somente, _faz-le_ por faz-lhe, _traz_ por traze, +_Madanela_ por Magdalena, ou qualquer outra das infinitas corruptelas, +que deslustram a nossa lingua, e que a cada momento se nos deparam até +na conversação e escriptos dos doutos, e em documentos officiaes. + +Acto continuo advertil-o-ha o professor de que tal palavra não foi bem +pronunciada, e o convidará a que a repita correctamente. Se o estudante +não atinar a emendal-a, repita-lh'a o professor cuidadosamente partida +em syllabas, acompanhando cada uma d'estas com uma pancada sobre a mesa +com o ponteiro ou com a mão. Ouvida que seja a palavra assim +pronunciada, repetil-a-ha o estudante tantas vezes, quantas seja +necessario, para que a não altere, e após este exercicio dil-a-ha tão +rapidamente como é de uso dizer-se. Se ao professor parecer conveniente, +ordenará que outros estudantes façam o mesmo exercicio individualmente, +e por fim mandará que a palavra ou phrase seja cantada pela classe +inteira, attendendo muito a que o erro, que se pretendeu emendar, se não +repita. O que fica dito ácêrca das palavras em especial applica-se em +cheio ás phrases compostas de muitas palavras. + + * * * * * + +A falta de ordem e clareza no dizer é defeito grave, mas communissimo, +que tem raizes na escola primaria, e que por isso mesmo ou nunca se +perde ou só com muito trabalho se consegue extirpar. A fim de prevenil-o +e de combatel-o comece o educador dando exemplo de imperturbavel ordem +na exposição, de esmerada escolha dos termos, de grande sobriedade nos +incidentes, e de irreprehensivel rigor nas conclusões; tudo isto sem +apparato, nem maneiras artificiosas, que revelem os intentos; e +esmere-se em inspirar aos que o ouvirem o gosto de bem fallar, cortando +todas as imperfeições mal apontem nos labios infantís. Cabe n'este logar +uma recommendação, nunca assás repetida. Nas ruas, nas aulas, nos +theatros, nas conversações familiares, e, quando Deus é servido, até no +parlamento, e na imprensa proferem-se a miudo palavras e phrases, que, +com quanto não sejam deshonestas, são tão grosseiras e plebeas, que +nenhuma pessoa delicada as deveria empregar. Quasi sempre se ignora a +origem d'aquelles termos, muitos d'elles, diga-se a verdade, sobremodo +expressivos e por vezes engraçados, mas que nem por isso deixam de ser +baixos e vis. Em evital-os seja fervorosissimo todo o educador, sem +comtudo levar o zelo até ao ponto de banir da conversação escolar as +locuções pittorescas e folgazãs, que alegram a linguagem, sem mareal-a. + + * * * * * + +Assim como as leituras e recitações soturnas, pesadas, substanciosas, e +extensas, aborrecem ás crianças e não lhes prendem a attenção, assim a +poesia ligeira, as historias singelas, as fabulas e apologos, as +anecdotas e proloquios lhes aprazem sobremodo e de tal arte se lhes +apegam á memoria, que não mais as esquecem. + +Verdade é que Voltaire arguïu os fabulistas de quererem ensinar as +verdades moraes por um processo essencialmente mentiroso, pondo a fallar +animaes e plantas; e condemnou a leitura e recitação de taes composições +nas primeiras edades. Tem porem mostrado a experiencia que Esopo, +Phedro, La Fontaine e Lessing, com os seus artificios poeticos moralisam +mais, e muito mais que a _Introducção á vida devota_, que o _Flos +Sanctorum_, e que o _Thesouro de meninos_, e quantos outros escriptos, +ainda que sejam verdadeiros na essencia e correctos na fórma, se hão +publicado para edificação das almas, mormente em quanto n'estas se não +ha robustecido a faculdade de raciocinar. Aproveitem-se pois d'este meio +os educadores, lendo de vez em quando á escola uma fabula, que tenha +relação com os objectos, que se estudam, e fazendo-a decorar; contando a +proposito uma anecdota, ou repetindo algum dos muitos e verdadeirissimos +rifões, de que tão rica é a lingua portugueza. Dos bons poetas +nacionaes, tanto modernos como antigos, poderá o educador escolher +infinita copia de versos em todos os generos, com os quaes irá +perfumando as lições e desenvolvendo na puericia o gosto da poesia, que +alarga a imaginação, modifica e reprime as ruins paixões, consola o +espirito, e o dulcifica e embalsama. Fuja, porem, como de peste, de +versos máos ou mediocres, não esquecendo jamais que _a poesia_ é, no +dizer de um dos mais elegantes e profundos escriptores de Portugal, o +sr. Latino Coelho, _a grandeza e o nada; o mundo e o atomo; a gloria e a +humiliação; o triumpho e o martyrio; o genio e a loucura_. + +No ensino intuitivo, a faculdade que mais cuidadosamente se deve +dirigir, desenvolver, e approximar da perfeição é a faculdade de +comparar, cujos defeitos inutilisam os esforços das faculdades, que a +antecedem, e obstam a que as superiores se exerçam como é mister. São +innumeraveis e quasi sempre facillimos os processos de comparação de que +o educador poderá fazer uso, desde a confrontação de dois feijões, ou de +dois alfinetes, etc., até ao estudo comparativo de duas poesias, de duas +obras de arte, do caracter de dois homens notaveis, de duas epocas +historicas. Não ha palavras para encarecer os resultados, que os estudos +d'esta ordem produzem e a influencia que exercem no desenvolvimento +intellectual e moral das crianças. + + * * * * * + +A par com o estudo das cousas, podem e devem marchar os exercicios +attinentes ao aperfeiçoamento dos sentidos externos, e os preceitos +consoantes á sua hygiene. Todos terão observado que o exercicio de +certos orgãos concorre por muito para que os mesmos se apurem e tornem +cada vez mais delicados. Os homens do mar, acostumados a olhar muito ao +longe, e a buscarem a grandes distancias um objecto perceptivel, excedem +sempre em perspicacia os que teem vivido encerrados em horisontes menos +extensos. + +Um musico, habituado a reger orchestras, percebe, ainda mesmo nos +cheios, se qualquer dos executantes deu uma nota errada, ou commetteo +outro erro. Cegos tem havido, que pelo apalpar distinguem nos corpos +qualidades, que pertencem ao dominio da visão, e executam trabalhos +manuaes difficeis e delicados, como aquelle cego de nascença, de que +falla o sr. dr. Centazzi na sua _Medicina_ e _Hygiene Popular_, que +existia na cidade de Faro, no Algarve, e que fazia peões, cubos, e +outras obras tão perfeitas, como as dos mais habeis mestres. Dos +provadores de vinho se sabe quão facilmente reconhecem pelo paladar o +merito, idade, pureza, e proveniencia do precioso liquor. + +Não se deve esperar que a gymnastica dos sentidos, por mais bem dirigida +que seja na casa paterna e nas escolas infantís e primarias, venha a +produzir tão miraculosos resultados; mas é indubitavel, que lhes +corrigirá muitos defeitos, e que de dia para dia os hade ir tornando +mais apropriados aos importantissimos fins, para que a natureza os +destinou. + +Os paes em suas casas, e os professores nas escolas poderão começar a +gymnastica dos sentidos pelo exame e comparação das côres. Mostrarão +primeiro aos educandos o vermelho, amarello, verde, azul, preto, branco; +depois differentes gradações de cada uma d'estas côres; em seguida as +côres de transição; apoz estas, todas as mais, que fôr possivel +apresentar-lhes. A pouco e pouco lh'as irão nomeando, e fazendo notar +tudo quanto convier que elles saibam a tal respeito. Ao conhecimento das +côres poder-se-hão seguir exercicios tendentes a apurar a vista, taes +como a inspecção de objectos collocados a distancia cada vez maior; a +leitura ao longe, e a pesquiza de algumas estrellas, planetas e +constellações, cuja posição no espaço previamente se lhes tenha mostrado +no mappa. + +Por meio de processos analogos se podem educar os outros sentidos, +ensinando-se ao mesmo tempo milhares de cousas. + + * * * * * + +Tambem os mestres do ensino intuitivo, recommendam, que se acostumem os +meninos a lerem e a exporem elegante, exacta, e correctamente. Em +algumas escolas temos notado quão pouco os professores attendem a esta +parte do ensino, consentindo que os estudantes exponham as lições e +respondam ás perguntas, que se lhes fazem, com extrema negligencia; +negligencia na pronunciação das palavras, cujos sons elementares +falseam; negligencia na declamação, que por muito precipitada, ou por +extremamente preguiçosa, se torna monotona e insuportavel; negligencia +na coordenação das idéas componentes dos raciocinios, e negligencia na +disposição d'estes. + +Acudir com remedio a tantos defeitos é empreza ardua e enfadonha, mas de +que não ha de levantar mão o bom educador, sendo o seu primeiro e +persistente cuidado desarreigar os vicios da pronunciação, que +principalmente na côrte, trazem adulteradissimo o mais elegante e +donairoso de quantos idiomas se fallam no mundo, se exceptuarmos o +italiano, ao qual, não obstante a sua nativa belleza e abundancia, não é +somenos. + +Daria um livro a só enumeração das transgressões das regras orthoepicas, +que a cada momento se ouvem até em boccas de ouro; tão irresistivel é a +força dos maus exemplos! De entre as mais vulgares citaremos, para +amostra, o accrescentamento, ou paragoge de um _e_ mudo ao infinito dos +verbos, dizendo-se: _amare_, _fazere_, _comere_, _partire_, _pore_, +etc., em vez de amar, fazer, comer, partir, pôr. O mesmo +accrescentamento ao final das palavras, que terminam em consoante, +proferindo-se: _sole_, _flore_, _mulhere_, _metale_, em logar de sol, +flor, mulher, metal; o emprego do _a_ grave, onde deveria soar _e_ +fechado, pronunciando-se _espâlho_, _panha_, _tanha_, etc., por espelho, +penha, tenha. A substituição grosseirissima de _le_ a lhe, dizendo se +_dei-le_, _mostrei-le_, _quizera-le_, em vez de dei-lhe, mostrei-lhe, +quizera-lhe; bem como o emprego de _lhe_, quando este pronome se refere +a mais de uma pessoa ou cousa, e de _lhes_, quando a referencia é a uma +só cousa ou pessoa. O emprego de _i_ em logar de _e_ em muitas palavras +taes como dedal, dedeira, deante, empenho, emprestar, que a mór parte da +gente pronuncia: _didal_, _dideira_, _diante_, ou _diente_, _impenho_, +ou _impanho_, _imprestar_. + +De tanto e tão damninho joio irá o educador arrancando diariamente +muitas mãos cheias, desafogando a linguagem de todos quantos senões +n'ella fôr descobrindo, afim de que mais tarde, quando os meninos +entrarem a estudar os segredos da elocução, nem elles, nem os +professores tenham de perder muito tempo e muita paciencia em os +debellar. E não sómente aos erros da pronunciação se ha de ir applicando +prompto e efficaz remedio, mas tambem aos gallicismos e plebeismos de +que está inçada a nossa lingua, mórmente aos que respeitarem á +composição das phrases, havendo o maximo cuidado em não atordoar as +cabeças dos estudantinhos com preceitos de grammatica e considerações +philologicas. + +Se um menino disser: Vi hoje na _montra_ de um livreiro uma linda +estampa; accudirá logo o educador: Não se diz _montra_; diz-se +mostrador; e fará que o mocinho repita a phrase, substituindo o termo +peregrino e escusado pela palavra portugueza. Diz outro: _Houveram_ +hontem muitas festas de egreja; emendará sem demora o educador: Houve +hontem muitas festas de egreja; e convidal-o-ha a que emende o erro. Se +algum menino lhe perguntar a razão por que tal palavra ou phrase se não +deve dizer, a resposta será regulada pela idade, intelligencia e +adiantamento do interrogante, de modo que, se elle fôr pequenino e muito +noviço em materias grammaticaes, só lhe dirá: Essa palavra não se deve +empregar porque é estranha á nossa lingua e desnecessaria; essa phrase +não é admissivel, porque não é conforme ás leis da grammatica, que é a +sciencia de bem fallar. E ahi fica o educando insensivelmente sabedor de +que a phrase, que empregou, não é boa; de qual ou quaes a devem +substituir; de que o discurso está subjeito a leis; e de que a sciencia +de fallar correctamente se chama grammatica. + +Quanto mais não valerá a advertencia despretenciosa, que valeria um +discurso mui chorudo de citações e palavras latinas e gregas! Se o +pequenito, que os ha amigos de discutir e aferrados á propria opinião, +não largar voluntario a palavra, que ouvira ou lêra, bom será +convencel-o, não com argumentos scientificos, salvo se a sua +intelligencia os poder comprehender sem custo, mas por meio de um +simile. Poder-se-lhe-ha ponderar que assim como ninguem rasoavelmente +vae pedir emprestadas aos visinhos cousas de que tenha abundancia de +portas a dentro, nem vae ao mercado comprar fructa ruim, tendo-a famosa +no quintal, a bater-lhe nas vidraças, assim os portuguezes de bom juizo +e sufficiente instrucção, não devem andar tomando palavras e maneiras de +dizer a estranhos, quando até para repartir com elles lhes sobram +muitas. + +Para conseguir que as crianças leiam e fallem com elegancia, e n'isto +vae o segredo da perfeitissima declamação, a primeira cousa, que o +educador tem a fazer, é acostumal-as ao rhythmo, tão bem aproveitado +pelo sr. Visconde de Castilho no seu _Methodo de leitura repentina_. + +Por pouco que se pense na organisação de todo o apparelho vocal +(pulmões, larynge, bocca e narinas) nas relações d'aquelles orgãos e no +mechanismo da voz, facilmente se perceberá, que a palavra, no que tem de +physico, é verdadeira musica, com seus sons naturaes e accidentaes, com +sua oitava, com escalas ora mais, ora menos extensas, com os seus +tempos, já breves, já longos, e até com a expressão e timbre +variadissimo, que ás vibrações sonoras e musicaes, imprimem os +instrumentos. + +Ora, como não ha musica, que tal se possa chamar, sem rhythmo e +expressão, claro está que a voz humana, para satisfazer ás condições da +arte, e bem servir a intelligencia, de que é a melhor reveladora, e até +parte integrante, no dizer de Condillac, deve ser rhytmica e expressiva. + +Para que estas duas essenciaes qualidades lhe não faltem é indispensavel +em primeiro logar, que o educador habitue os meninos a obdecerem +escrupulosamente ao compasso, na pronunciação dos sons elementares +(vozes e consonancias) na dos compostos (diphthongos e syllabas) e na +recitação das palavras, que só poderá ser perfeita, quando tiverem sido +previamente divididas em tantos tempos, quantos forem seus elementos +syllabicos. Depois de bem amestrados por meio d'estes exercicios na +leitura auricular das palavras, que o educador para tal fim lhes ditará +em voz bem intelligivel, palmeando as primeiro mui vagarosamente, depois +um poucochinho mais depressa e por ultimo com o natural andamento, +passarão os meninos a _ler por cima_, como é uso dizer-se nas escolas. + +Chegado a este ponto terá o educador de desvelar-se muito em supprir a +extrema penuria da orthographia, não tanto no tocante á representação +dos sons constituitivos das palavras, no que muito falta, como no que se +refere á divisão logica das orações, ás variadissimas pausas, que ha de +fazer o bom ledor e recitador perfeito; ás infinitas intonações de que +carecem as palavras, as proposições, os periodos e até um mesmo vocabulo +conforme a idéa que revela[1]. + +Ler ou fallar sem intonações, sem pausas, sem as devidas quantidades, +sem dar ao que se lê ou falla o natural colorido, e o relevo +indispensavel, vale tanto como querer executar em um piano +miseravelmente desafinado os primores de Rossini, Donizetti, Bellini, +Meyerbeer ou Marcos Portugal. + +E não obstante serem intuitivas todas estas verdades, muitissimas +pessoas ha, que as desconhecem, e muitas que, não as desconhecendo, como +que se aprazem de ler e fallar por modo tal, que provocam tedio e somno. + +Daria optimo resultado, como tivemos opportunidade de mostrar +praticamente a um educador, sempre avido de se aperfeiçoar, e em extremo +benevolente para comnosco, a introducção nas escolas infantís e +primarias, para o ensino e aperfeiçoamento da leitura e recitação de um +processo analogo ao adoptado pelos regentes de orchestras e bandas +marciaes no estudo das peças concertantes. Consiste elle em se +collocarem os meninos em pé ou assentados, mas conservando direitos os +troncos e naturalmente levantadas as cabeças[2] em frente de estantes ou +mesas, onde estejam abertos os livros. Em logar elevado, de modo que +todos os escolares o vejam, está o educador em pé, batuta na mão, olhos +no livro e olhos na turba. Primeiro lê elle pausadamente em voz alta, +com todo o esmero, um periodo, marcando o compasso com a batuta, +repetindo duas ou mais vezes as palavras, que lhe parecerem mais +difficeis de pronunciar, e corrigindo sem o minimo acanhamento os +proprios descuidos. Feito este ensaio, manda ler o mesmo trecho ao +estudante mais adiantado, depois a outro e outro, reservando para o fim +os menos habeis, para que tenham tido tempo de se amestrar. + +Findo que seja este segundo exercicio, e tomado algum descanço, dará o +signal de attenção e mandará ler em côro, indicando sempre com a batuta, +como se estivesse regendo uma orchestra, todas as modificações da voz, +que a leitura exigir. + +A estes estudos, que bem se podem chamar de leitura coral, podem-se +accrescentar outros, excellentes para exercitar os meninos na +declamação, e mui bem acceitos do bando infantil, que consistem +primeiramente na leitura, e depois na recitação de cór, de pequenos +dialogos, fabulas, e entremezes, em que haja um côro e dois, tres, ou +mais interlocutores. Composições d'este genero facilmente se obtem, e +quando se não achem, sem muito custo as póde architectar o professor. + +A par dos exercicios de leitura e recitação se póde ir cultivando a +intelligencia dos meninos, e acostumando-os a pensarem e a exprimirem-se +com certo rigor logico. Nada ha mais facil. + +Umas vezes elles mesmos subministrarão ao educador assumpto de molde +para os seus conselhos e advertencias, outras vezes far-lhes-ha e +educador uma pergunta ou lhes proporá um problema, e nas respostas irá +notando as transgressões das leis da logica, que porventura commetterem, +nunca saindo do campo da pratica para o das theorias, nem usando da +terminologia scientifica, que nas idades tenras assusta, desgosta e não +instrue. + + * * * * * + +Cerraremos estas considerações lembrando aos educadores a vantagem de +excitar nos estudantes o amor do estudo pelo emprego de premios e +distincções. + +Se no dizer de Christo «Todo o que trabalha é digno de recompensa» +_Dignus est enim operarius mercede sua_, qual será a razão por que se +não hade galardoar o bom comportamento, a assiduidade no estudo, o +aceio, e o progresso dos meninos? + +Se nas escolas superiores ha premios annuaes para os alumnos distinctos, +se as academias os offerecem aos sabios, que cabalmente satisfazem aos +seus programmas; se aos que triumpham nos certames das artes e da +industria se concede a menção honrosa, o _accessit_, a medalha de prata +ou a de ouro; se ha palmas e corôas, e ramalhetes, e brindes para o +actor eximio, e até para o que na praça lucta com o touro embravecido, +de melhormente se devem premiar as criancinhas, para as quaes o estudo, +por mais que lh'o procuremos amenisar, hade ser sempre tarefa improba e +tediosa. + +Hade porém haver na concessão das distincções e premios escolares a +maxima parcimonia e inteira justiça, para que nem a prodigalidade lhes +diminua o valor, nem a parcialidade os torne, em vez de incentivo do +bem, facho de discordias, e origem de malquerenças. + +E assim como a advertencia e a reprehensão se não devem fazer esperar, +commettida a falta, assim tambem se não deve demorar, nem regatear o +galardão aos que o merecerem. + +Finda a semana, a cada um se dará com certa solemnidade ou o diploma, ou +a medalha, ou a estampa, ou o livro, ou o brinquedo, mas nunca gulodices +ou cousas, que os possam prejudicar. + +Além d'estes estimulos, bom será que annualmente haja, como em muitos +collegios se usa, uma sessão publica consagrada á glorificação dos que +mais se houverem distinguido. + +Ponhamos aqui ponto, não porque hajamos dito quanto se poderia +recommendar aos educadores relativamente á difficilima empresa de +iniciar as criancinhas nas sciencias e na virtude, mas porque exposto +fica o que mais lhes convem saber para o bom emprego do ensino +intuitivo, que nos proposemos vulgarisar, convencidos da sua muita +utilidade. Os exemplos que seguem, não entram no plano de ensino +intuitivo _gradual_, que, se Deus fôr servido, daremos á estampa; são +tão sómente uma amostra, pela qual se possa fazer idéa do systema. + +Preferimos para estes exemplos os assumptos e objectos, que nas suas +primeiras lições trataram Braun e Mayo, insignes pedagogistas, que em +materia de educação tem prestado relevantes serviços á humanidade, +adquirindo incontestavel direito a esta humilde, porém sincera +homenagem[3]. + +E já que fallámos de pedagogistas de tamanha nomeada, honremos aqui +tambem outro escriptor e pedagogo notavel, o sr. J. Rambosson, cuja +ultima obra, publicada em fins do anno de 1872: «_A educação maternal +conforme as leis da natureza_,» não inferior á tão justamente +applaudida: «_Educação das mães de familia_,» de Aimé Martin, hade +forçosamente contribuir muito para a reforma do actual viciosissimo +systema de educar a infancia, do qual o sr. Rambosson diz estas tão +tristes, quão verdadeiras palavras: _Il n'existe rien sous ce rapport, +ni chez nous ni ailleurs; on ne peut appeler éducation ce que se +pratique pour cet âge_. + + + + +PRIMEIRA LIÇÃO + + +Ao entrarem a primeira vez na escola a maior parte dos meninos receiam; +muítos d'elles temem. + +Que receiam e que temem? + +Receiam e temem a ausencia e desamparo temporario de suas mães e paes; o +affastamento de seus irmãos e criados; o professor, que desconhecem; os +condiscipulos, que nunca viram; a casa da aula, que lhes é estranha; a +sciencia que ignoram. + +Quanto mais pequeninos, mais desconfiados se apartam do ninho seu +paterno, mais desbotadas levam as faces, mais tremem e se angustiam ao +aproximarem-se do templosinho modesto e sereno, que se lhes afigura +medonho ergastulo. + +Na repugnancia, que os meninos tem á escola, são quasi sempre culpados +os paes e as mães, porque, em vez de amoravelmente lhes fallarem d'ella, +de lhes mostrarem que está alli o alvorecer de todas as artes e +sciencias, de lhes dizerem que é aquella a unica porta por onde se entra +á vida publica, na qual terão, quando homens, de tomar parte, de lhes +explicarem a missão do professor e de lhes expenderem que n'elle +accrescem aos deveres de mestre os de amigo e patrono; nada d'isto +fazem, e só invocam o santo nome da escola, quando irritados pelas +travessuras das crianças, que não querem ou não sabem remediar com +brandura, bons conselhos, bons exemplos e moderadas correcções, +pretendem aterrorisal-os, apontando-lhes para aquella... penitenciaria. + +Como ha de amar a escola e appetecel-a, e correr para ella voluntario e +risonho o menino, a quem se não fartaram de dizer: «Não te aquietas? +Irás para a escola, onde te farão estar quedo, quer queiras, quer não +queiras.» «Não aprendas agora, que o professor depois, com a palmatoria +te metterá no bom caminho.» «Por mais que te ralhe, não te emendas, tudo +rasgas, tudo quebras; deixa-te ir para a escola;... farei queixa ao +professor, elle te porá as uvas em pisa»[4]. A fim de remediar estes +deploraveis vicios da educação domestica, de tranquillisar o +estudantinho, de familiarisal-o com o professor e com os alumnos e de +infiltrar-lhe n'alma o amor da escola e do estudo, adopte-se o seguinte +modelo de recepção, ou outro melhor, mas pouco mais ou menos do mesmo +padrão. + +Professor.[5]--Venha cá, meu menino; como se chama? + +Estudante.--Viriato. + +P.--Viriato é o seu primeiro nome; desejo tambem saber o seu sobrenome e +appellido. + +E.--Chamo-me Viriato Henrique de Oliveira. + +P.--Bonito nome. Para corresponder a elle terá o menino de ser valente, +destemido, muito amante da sua patria e muito bom. Sabe porque? + +E.--Não, senhor. + +P.--Eu lh'o explico. Viriato foi um pastor da Serra da Estrella, tão +amigo da patria e dos patricios, que para impedir que os romanos os +escravisassem, largou o cajado, abandonou os rebanhos, que apascentava, +tomou armas, aggregou a si outros valentes, e por muitos annos +desbaratou os exercitos estrangeiros, envergonhando generaes aguerridos, +e grangeando fama eterna. D. Henrique foi outro militar de grandes +dotes, e que tanto se distinguiu na guerra contra os mouros, que enchiam +a Hespanha e a nossa terra, que, em premio de seu valor veiu a casar com +D. Theresa, filha de um rei mui poderoso, da qual nasceu D. Affonso +Henriques, primeiro monarcha portuguez. + +E para que todo o nome do menino seja de bom agouro, até lhe pozeram o +appellido de Oliveira, que é uma arvore muito util e agradavel, symbolo +da paz, de cujos fructos, as azeitonas, se tira o azeite, que é o melhor +e mais precioso oleo, que se conhece. Mas deixemos o azeite e a +oliveira, que ainda lhe quero fazer mais perguntas. + +Como se chama o seu papá? + +E.--Antonio Joaquim de Oliveira. + +P.--Que emprego tem elle? + +E.--É militar. + +P.--E o menino quer tambem ser militar? + +E.--Não, senhor; quero ser medico. + +P.--Bom é que não sigam todos a mesma carreira; haja militares, para +defenderem a patria dos inimigos estranhos, e para manterem o socego e a +ordem, que são a primeira necessidade dos povos; e haja medicos para +curarem os doentes, e para nos ensinarem o que devemos fazer para não +enfermar. Que edade tem o menino? + +E.--Nove annos. + +P.--O seu papá tem mais filhos? + +E.--Tem mais tres. + +P.--Os filhos do seu papá e da sua mamã o que são ao menino? + +E.--São meus irmãos. + +P.--Como se chamam os seus manos? + +E.--Thomaz, Clemente e Valeriano. + +P.--Dos quatro qual é o mais velho? + +E.--É o Thomaz. + +P.--Porque é elle mais velho? + +E.--Porque nasceu primeiro que os outros. + +P.--Se Thomaz é o mais velho, porque nasceu primeiro que os outros, como +designará o ultimo nascido? + +E.--Direi que é o mais pequeno. + +P.--Melhor é dizer que é o mais novo. Onde mora o menino? + +E.--Na rua da Alegria. + +P.--Caspite! Quem mora na rua da Alegria não deve ser triste. + +Após esta pratica com os recem-entrados poderá o professor ou professora +convidar os que souberem contar a contarem os estudantes, que estiverem +na escola, e a designar pelos nomes os que forem seus conhecidos. + +P.--Menino Viriato[6] quantos condiscipulos tem aqui? + +E.--Não sei. + +P.--Não sabe, porque ainda os não contou; conte-os em voz alta. + +E.--Um, dois, tres, etc. + +P.--Agora, que sabemos quantos traquinas aqui estão, diga-me os nomes +dos seus conhecidos. + +E.--Aquelle é Francisco; aquelle é Antonio; aquelle, que está ao pé da +janella, tambem se chama Francisco, etc. + +P.--Ha n'esta aula tres Franciscos, como é que os havemos de distinguir +de modo que, ao chamar um d'elles, não acudam todos tres? + +E.--Não sei. + +P.--Nada mais facil; bastará accrescentar ao primeiro nome de cada um o +appellido da familia; teremos: Francisco de Mello; Francisco de Aguiar e +Francisco Loureiro. Quando differentes pessoas ou cousas tem o mesmo +nome, é indispensavel juntar ao nome que lhes é commum, outro, para que +as possâmos designar sem confusão. Os meninos tem nas suas casas cópos +de differentes tamanhos, para differentes usos; a uns chamam cópos +_d'agua_, a outros cópos _de vinho_, a outros cópos _de liquor_. O mesmo +fazemos com a fructa. Ha muitas qualidades de pêras; para distinguil-as +denominamol-as pêra _parda_, pêra _virgulosa_, pêra _bojarda_, pêra +_flamenga_, etc. + + * * * * * + +Finda que seja a segunda phase d'este colloquio, tenue, mas conveniente +para desassombrar o espirito dos estudantinhos, passará o professor a +fazer-lhes outra ordem de perguntas. + +P.--Como se chama, meus meninos, esta casa, onde estamos? + +E.--Chama-se escola. + +R.--Para que vem os meninos á escola? + +E.--Para aprender. + +R.--Que vem os meninos aprender? + +E.--A ler, escrever e contar. + +P.--Assim é; mas na escola além de ler, escrever e contar, ensinam-se +muitas outras cousas agradaveis e uteis, as quaes todas concorrem para +tornar os meninos instruidos e virtuosos. Querel-as-heis aprender +tambem? + +E.--Queremos, sim, senhor; queremos. + +P.--Ha um adagio, que diz:--_O que se ha de fazer, faça-se_; sigamos o +adagio e comecemos desde já o nosso estudo, examinando os objectos, que +estão n'esta aula. (Aqui mostrará o professor aos estudantes o _quadro +preto_[7] a que muitos impropriamente chamam pedra). Qual dos meninos +tem um objecto como este em sua casa? + +E.--Eu não; eu tambem não. + +P.--Sabem como se chama? + +E.--Chama-se _pedra_. + +P.--Assim o denominam alguns, mas impropriamente. Isto não é de pedra, é +de pau, é de madeira. Ha n'esta casa alguma cousa de pedra? + +E.--As hombreiras da porta e das janellas. + +P.--E nada mais? + +E.--As ardosias, que trouxemos para fazer contas. + +P.--O menino F. respondeu muito bem; essas laminas pretas, a que +chamâmos ardosias ou lousas, e as pennas com que escrevemos n'ellas, são +pedaços de pedra. Querem ver a differença, que vae da pedra á madeira? +Batam com os dedos nas ardosias; agora venham aqui, e batam n'isto, a +que deram o nome de pedra. Todos percebem a differença do som. + +E.--É verdade. + +P.--Como chamaremos, pois, a este objecto? Eu lh'o digo. +Chamar-lhe-hemos o _quadro_, ou a _taboa_; e como esta madeira está +pintada, poderemos acrescentar ao nome quadro outro nome, indicativo da +côr, que tem. + +E.--Poderemos dizer: _Quadro preto_. + +P.--Mui bem. Agora dir-me-hão para que serve o quadro preto. + +E.--Serve para n'elle se escrever. + +P.--(Mostrando um pedaço de giz). Sabeis o que é isto? + +E.--É um bocado de _giz_. + +P.--Para que o tenho eu aqui? + +E.--Para escrever no quadro preto. + +P.--De que côr é o giz? + +E.--É _branco_. + +P.--(Mostrando a esponja). Como se chama est'outro objecto? + +E.--Chama-se--_esponja_. + +P.--Para que temos aqui esta esponja? + +E.--Para apagar as lettras e as figuras, que se fizeram no quadro preto. + +P.--Não poderiamos apagar a escripta com o lenço de assoar? + +E.--Poderiamos, sim, senhor; mas ficaria sujo, e sujar-nos-hia o fato. + +P.--Respondeu muito bem. E porque razão não apagâmos as lettras com as +mãos? + +E.--Porque ficariam sujas, e sujar-nos-hiam tambem o fato. + +P.--Quando por qualquer motivo tivermos sujado as mãos, que deveremos +fazer? + +E.--Limpal-as. + +P.--De quantas maneiras se limpam as mãos? + +E.--Esfregando-as n'um panno, ou lavando-as. + +P.--Como ficam ellas mais desenxovalhadas, esfregando as n'um panno, ou +lavando-as? + +E.--Lavando-as. + +P.--Como se chamam as peças de roupa, de que nos servimos para enxugar +as mãos depois de as termos lavado? + +E.--Chamam-se--_toalhas de mãos_. + +P.--Trazer as mãos limpas é garridice, ou necessidade e dever? + +E.--É necessidade e dever. + +P.--Para que é necessario trazer as mãos aceiadas? + +E.--Para não mancharmos aquillo em que mechermos, e para não enojar as +pessoas, que nos virem ou a quem prestarmos algum serviço. + +P.--A sugidade das mãos prejudica a saude? + +E.--Não sei. + +P.--Prejudica, e muito; em primeiro logar porque obsta á transpiração, +isto é, á saïda da agua e suor, que continuamente estão atravessando a +pelle; em segundo logar porque, indo com as mão sujas aos olhos, +poderemos inflamal-os e originar doenças, que ou nos enfraqueçam a vista +ou nos acarretem a cegueira. Quantas vezes ao dia deveremos lavar as +mãos? + +E.--Quantas fôr necessario. + +P.--Acertadamente responderam; mas não será escusado dizer-lhes que +invariavelmente as devem lavar pela manhã, ao erguerem-se da cama; antes +e depois do almoço, jantar e ceia, ou de qualquer outra refeição; ao +sair e entrar em casa; afóra as outras vezes, que o aceio o exigir. +Passemos a outro assumpto. (Apontando para o cavallete.) Qual dos +meninos me saberá dizer o nome d'aquelle objecto? + +Silencio. + +P.--Menino Carlos, não sabe como se chama aquillo? + +E.--Não, senhor. + +P.--Pedrinho, tambem não sabe como se chama aquella geringonça?[8] + +E.--Chama-se _cavallete_. + +P.--Acertou. Agora digam todos commigo: Ca-va-lle-te[9]. + +E.--Ca-va-lle-te. + +P.--Agora hão de dizer esse nome, sem separarem as syllabas. + +E.--Cavallete. + +P.--Para que serve aquelle cavallete? + +E.--Serve para sustentar o quadro preto. + + +Resumo + +A casa, onde estamos, chama-se «escola». Na escola aprende-se a ler, +escrever, contar, a doutrina christã, desenho, canto, e mil outras +cousas uteis e agradaveis, que o professor nos vae ensinando pouco e +pouco, as quaes todas concorrem para que sejamos bons e instruidos, +qualidades estas indispensaveis a qualquer homem. Ha na escola diversos +objectos, e entre elles o _quadro preto_, a _esponja_, o _giz_ e o +_cavallete_. No quadro preto escreve-se com giz. Serve a esponja para se +apagar o que se escreveu no quadro, e o cavallete para sustentar o mesmo +quadro. + + +Reflexões + +Meus meninos, attendei bem ao que vou dizer-vos, e não o esqueçaes. Pode +a casa da escola ser convidativa, a mobilia e utensilios bons, os +compendios famosos, o professor sabio, zeloso e habil, e o methodo de +ensino excellente, e não obstante todas estas invejaveis condições, os +estudantes não utilisarem nada, com detrimento proprio e de seus paes, +por falta de assidua frequencia e de estudo. + +São incalculaveis os prejuizos, que resultam das repetidas faltas á +escola. Os meninos, que faltam, não só não se adiantam, mas perdem o que +aprenderam, desgostam e entibiam o professor, introduzem a desordem na +aula, e incitam os collegas com o exemplo, a que procedam do mesmo modo. + +Evitae, pois, todos estes males, não faltando á escola sem causa +justificavel, e estudando aqui e em vossas casas, isto é, attendendo ao +que o professor vos disser, meditando nas suas palavras, e lendo ou +decorando o que vos mandarem que leiaes ou decoreis. Não se pode ser +instruido, sem estudar. Os meninos estudiosos grangeiam a estima das +pessoas de bem, e tornam-se dignos da protecção divina. + + + + +SEGUNDA LIÇÃO + +A ESCOLA + + +P.--Meus meninos, fallámos outro dia do quadro preto, das ardozias, do +giz, da esponja, da toalha de mãos, e do cavallete; desejo que me +nomeeis agora mais alguns utensilios da escola... Como se chama isto? +(Indicando a mesa). + +E.--Chama-se _mesa_. + +P.--De que é feita esta mesa? + +E.--De madeira. + +P.--Todas as mesas são de madeira? + +E.--Não, senhor; algumas são de pedra. + +P.--E não as ha feitas de outras materias? + +E.--Não sei. + +P.--Nunca viram mesas de metal? + +E.--Lembro-me agora de tel-as visto de ferro. + +P.--E não só de madeira, de pedra e de ferro se podem fazer; todas as +materias solidas e duras se prestam á construcção d'este movel. Como se +chama esta parte da mesa? (Indicando a parte superior). + +E.--_Taboa_ da mesa. + +P.--Como se chama est'outra? (Indicando a parte sobre que assenta a +taboa). + +E.--Chama-se _aro_. + +P.--Vinde aqui e dizei-me, que nome tem estas especies de caixas +(Mostrando as gavetas) que estão sobre a taboa da mesa, e que eu puxo +para fóra e torno a esconder (abrindo e fechando as gavetas). + +E.--Essas especies de caixas chamam-se _gavetas_. + +P.--Para que servem as gavetas? + +E.--Para guardar diversos objectos? + +P.--Estas peças de metal, que as gavetas aqui tem embebidas na madeira, +como se denominam? + +E.--_Fechaduras._ + +P.--Para que servem estas fechaduras? + +E.--Para fechar as gavetas? + +P.--Porque razão fecho eu as gavetas d'esta mesa, quando saio da aula? + +E.--Não sei. + +P.--Porque ha meninos, que commettem a indiscripção de as abrir e de +mecher no que n'ellas está, praticando uma acção feia ... + +E.--É máu abrir uma gaveta? + +P.--Se a gaveta é de nosso uso, ou se nos é permittido abril-a e tocar +no que lá está, não commettemos falta nenhuma em a abrir; mas se é de +outrem, ou se nos prohibiram abril-a, é acção muito feia e má o +descerral-a, sem licença, excepto em caso de necessidade. E já que +estamos a fallar de gavetas, dizei-me, que deve fazer um menino bem +educado, quando na sua presença se abre uma gaveta? + +E.--Não sei. + +P.--Deve abster-se de olhar para lá e de estar a observar o que ella +contem. Dizei-me, com que se abrem as fechaduras? + +E.--Com as _chaves_. + +P.--Olhae para aqui... Metto a chave n'esta fechadura dou-lhe volta e +vejo sair uma peça de ferro, chata e larga. + +E.--É verdade. + +P.--Como se chama essa peça? + +E.--_Lingueta._ + +P.--Sabeis porque lhe pozeram o nome de lingueta? + +E.--Não sabemos. + +P.--Soletrae a palavra lingueta, e talvez deis no vinte. + +E.--Lin-gue-ta. + +P.--As duas primeiras syllabas d'essa palavra não vos trazem á memoria +outra palavra muito conhecida? + +E.--Trazem, sim, senhor; a palavra lingua. + +P.--Reparae agora se ha alguma similhança entre a lingua do homem e dos +outros animaes e a parte da fechadura, que estamos observando. + +E.--Ha, sim, senhor. + +P.--Em que? + +E.--A lingua é chata e a lingueta tambem; a lingua é comprida, como a +lingueta; a lingua está preza na bocca d'onde sae ás vezes, e a lingueta +está egualmente presa no interior de uma caixa da qual a chave a faz +sair. + +P.--Difficilmente se poderia responder melhor á minha pergunta. Tomem +d'aqui exemplo os outros meninos. A explicação que o menino F. me deu +prova-me que elle observa as cousas com attenção e compára umas com as +outras, o que muito concorre para que se nos desenvolva a intelligencia; +ou que, se alguem lhe tinha ensinado isto, se não esqueceu do que lhe +haviam dito, o que tambem é muito para louvar[10]. + +E.--A mim ninguem me tinha ensinado a resposta. + +P.--Tanto melhor, porque deu prova de que medita no que vê; que vêr as +cousas superficialmente é quasi o mesmo que não as vêr: Continuemos a +estudar a mesa. Reparem n'estas quatro columnas (mostrando os pés da +meza) sobre as quaes assenta a taboa, o aro e as gavetas. + +E.--São os _pés_ da meza. + +P.--Porque se lhes chama pés? + +E.--Porque sustentam o resto da mesa, á maneira dos pés do homem e dos +animaes, que sustentam o resto do corpo. + +P.--Todas as mesas tem quatro pés? + +E.--Nem todas; umas tem um só pé, outras quatro, outras seis, e podem +ter mais. + +P.--Quaes são as mais firmes, isto é, menos subjeitas a cairem, as de +um, ou as de quatro pés? + +E.--As de quatro pés. + +P.--Para que servem os bancos? + +E.--Para nos assentarmos. + +P.--De que são feitos esses bancos? + +E.--De madeira. + +P.--Não poderiam ser feitos de outra materia? + +E.--Poderiam ser de ferro, ou de pedra. + +P.--Porque não poriam aqui bancos de pedra? + +E.--Porque são mais caros, que os de pau. + +P.--E só por isso é que os não pozeram aqui? + +E.--É porque são muito pezados; não poderiamos mudal-os de um logar para +outro. + +P.--Não haverá outro motivo para preferir os bancos de pau aos de pedra? + +E.--Não sei. + +P.--Menino F... queira responder á minha pergunta? + +E.--Não sei. + +P.--Aquelle estudantinho, que além está a gesticular, é que nos vae +satisfazer a curiosidade; vamos, menino G... deite a barra adiante aos +seus collegas, revelando-nos o motivo porque os bancos de pedra, á parte +o serem pesados e caros, não são adoptados nas nossas casas e nas aulas? + +E.--Parece-me que é por serem muito frios. + +P.--Por causa da frialdade da pedra são os bancos d'aquella materia não +só incommodos, senão muito prejudiciaes á saude. Passemos a outro +assumpto. Já vos ponderei que é muito mau faltar á aula, não estar +attento ao que diz o professor, e não estudar. Desejo que me digaes +agora o que acontece aos estudantes, que não vem ao principio da aula, e +que entram aqui uma hora, ou hora e meia, depois de terem começado os +nossos trabalhos? + +E.--Não podem seguir bem as lições. + +P.--Que deverá, pois, fazer, relativamente a este ponto, um estudante +applicado, e que deseje adiantar-se? + +E.--Deverá entrar na aula á hora marcada para o começo do estudo. + +P.--Diga-me menino L... que cousas deve o estudante trazer sempre para a +escola? + +E.--Uma ardozia, uma penna de pedra, um lapiz, uma penna de aço, e os +livros. + +P.--E que lhe acontecerá, se lhe esquecer alguma ou algumas d'estas +cousas? + +E.--Não poderá tirar da lição o fructo, que deve tirar. + +P.--Qual será a razão porque alguns meninos chegam muitas vezes á aula +sem os objectos, que lhes são indispensaveis? + +E.--A razão d'essa falta é ou por que se esquecem de os tomar ao sair de +casa, ou por que, saindo com pressa, os não acham, e lhes falta o tempo +para procural-os. + +P.--Ha meio de evitar aquelle esquecimento, e de fazer com que os +objectos, que devem trazer para a aula, se lhes deparem facilmente? + +E.--Ha, sim, senhor. Bastará que os meninos ponham a ardozia, o lapis, e +os livros em um logar certo. + +P.--Que nome daremos a um menino, que põe uma cousa aqui, outra alli, +outra acolá, e que depois se não lembra dos logares onde as poz? + +E.--_Desarranjado._ + +P.--E ao que suja e rasga os livros, e deita borrões na escripta, e por +cima das mesas, e se apresenta com a cara e os dedos enxovalhados? + +E.--_Porco ou enxovalhado._ + +P.--Deve o professor consentir que os meninos rasguem os livros, que +salpiquem de tinta as paredes e as mesas, que tragam sujas as mãos e +cara, e o fato cheios de nodoas? + +E.--Não, senhor. + +P.--Porque? + +E.--Porque estragar os livros, ou as paredes, ou qualquer cousa, sem +necessidade, é acção muito feia, assim como não andar limpo. + +P.--E será apenas acção muito feia? Não será uma especie de roubo feito +aos paes e aos mestres, aos quaes muitas vezes é em extremo penoso +custear as despezas, a que os filhos e discipulos os obrigam? + +E.--É de certo. + +P.--Que devem, pois, fazer os meninos a quem se recommenda, que sejam +arranjados e aceiados? + +E.--Devem obedecer. + +P.--E que merecem os que não fazem caso das advertencias de seus paes e +mestres? + +E.--Merecem castigo. + +P.--E de que são dignos os que estudam bem, e obedecem aos seus +superiores, procurando em tudo conformar-se com os seus conselhos e +preceitos? + +E.--São dignos de estima e de premio. + +P.--Respondeu com muito acerto. Por hoje basta de conversação. Antes, +porém de nos separarmos quero repetir-lhes um conselho muito prudente de +um grande mestre. Decorem-n'o e sigam-n'o, se querem ser methodicos e +arranjados. Eil-o: + +_Logar certo para cada cousa, e cada cousa no seu logar_. + + + + +TERCEIRA LIÇÃO + +OS CONDISCIPULOS + + +P.--Recommendei-lhes outro dia, meus meninos, que não faltassem á aula, +que viessem á hora marcada no regulamento, que se não esquecessem de +trazer os livros, e mais objectos necessarios para as suas lições, que +se acostumassem a ser arranjados, methodicos, e desenxovalhados, e que +tivessem o maior cuidado em não estragar os objectos de seu uso. Não são +tão poucos os deveres dos meninos; e como para bem os cumprirem é +indispensavel conhecel-os, vamos hoje conversar em outro assumpto, que +muito lhes interessa. Começarei perguntando-lhes como se denominam, em +geral, os meninos, que frequentam ao mesmo tempo uma aula? + +E.--Denominam-se _condiscipulos_. + +P.--O encontrarem-se quasi todos os dias, estarem muito tempo juntos, +lerem pelos mesmos livros, aprenderem com o mesmo professor, terem com +pequenas differenças, a mesma idade, e trabalharem para conseguir o +mesmo resultado, concorrerá para que os condiscipulos formem uma especie +de familia ou irmandade, cujo pae espiritual é o professor? + +E.--Certamente. + +P.--Se os condiscipulos, como affirmaes, são quasi irmãos, parece-me que +devem tratar-se de maneira differente do que se tratam os meninos, que +nem são parentes, nem condiscipulos. + +E.--Sem duvida. + +P.--Já que tão expeditamente confirmaes a minha opinião, fazei mercê de +me dizer como se devem tratar os condiscipulos. + +E.--Devem tratar-se com delicadeza, bondade e amisade. + +P.--Optimamente, sr. estudantinho; mas como eu não quero deixar por +mentiroso o rifão, que diz: «As palavras são como as cerejas», peço-lhe +me indique quaes actos de delicadeza hão de praticar os condiscipulos; +de certo não quereis que elles deem excellencia uns aos outros, ou se +saüdem com salamaleks, á maneira dos turcos. + +E.--Hão de cumprimentar-se quando se encontrarem em qualquer parte, e á +entrada e saïda da aula; não hão de bater uns nos outros, nem rasgar ou +sujar os vestidos; não hão de usar nas suas conversas de palavras feias; +se a qualquer tiver esquecido o livro, a lousa, a penna, ou qualquer +outro objecto deve-se-lhe emprestar aquillo de que carecer. + +P.--Muito bem. E será delicado o menino que despresar o collega, por +elle ser feio, ou aleijado, ou tartamudo, ou vesgo, ou coixo? + +E.--Não, senhor. + +P.--Será delicado o menino, que pozer alcunhas a seus condiscipulos, ou +que lhes lançar em rosto o serem filhos de pessoas pobres, ou não +trajarem á moda, com elegancia, e esmero? + +E.--Não, senhor. + +P.--Se ao mesmo tempo chegarem ao pote, para beber, dois meninos +grosseiros, que acontecerá? + +E.--Por-se-hão a ralhar, querendo cada qual ser o primeiro que beba. + +P.--Se um dos meninos fôr delicado e o outro grosseiro? + +E.--O delicado ou se affastará, para que o outro mate a sede em primeiro +logar, ou encherá o copo e lh'o offerecerá. + +P.--E se ambos forem delicados? + +E.--Não sei o que devam fazer. + +P.--Menino F., responda á minha pergunta. + +E.--Se ambos forem bem criados, deverá o mais pequeno encher o copo e +offerecel-o ao mais velho. + +P.--Mas pode acontecer que ambos tenham a mesma idade, ou que um não +saiba a do outro. + +E.--Nesse caso o mais delicado antecipar-se-ha a obsequiar o outro. + +P.--Respondeu com muito juizo. Que deverá fazer um menino delicado, se +ao lanche, um condiscipulo lhe pedir um damasco, uma pêra, ou qualquer +outra cousa, que lhe não faça falta? + +E.--Deve dar-lh'a. + +P.--E pedir-lhe outra cousa em paga? + +E.--Não, senhor. + +P.--Do que temos estado a dizer conclue-se, que a delicadeza consiste +não só em evitar tudo quanto possa desgostar os outros, mas tambem na +pratica de quanto honestamente lhes possa ser agradavel.--Desejo, porém, +que me digaes se delicadeza e bondade são o mesmo. + +E.--Não, senhor. + +P.--Como assim? + +E.--Pode uma pessoa ser delicada e não ser boa; pode tratar os outros +muito bem, mas não proceder assim por virtude, e tão somente por genio, +elegancia, ou astucia. + +P.--Para que possâmos ter um menino em conta de bom o que é necessario? + +E.--É necessario que elle não faça nenhuma acção má. + +P.--Quando é que as nossas acções são más? + +E.--Quando offendem a Deus, ou ao proximo. + +P.--Dizeis muito bem; mas para que este ponto se aclare bastante, fazei +favor de me indicar algumas acções que reputeis más. + +E.--São más acções não crer em Deus, não o amar, e não o temer; não +cumprir as ordens dos nossos superiores; mentir, levantar falsos +testemunhos; desprezar os pobres, e não os soccorrer; indagar das vidas +alheias; furtar; comer e beber mais do que é preciso. + +P.--E ser mandrião, não estudar bem as lições é acção bôa, ou má? + +E.--É má. + +P.--Porque? + +E.--Porque, não estudando, desobedecemos a nossos paes e mestres. + +P.--Como se chama a acção torpissima de tirar a alguem uma cousa ás +escondidas. + +E.--Chama-se furto. + +P.--E como se denomina o desgraçado, que furta? + +E.--Denomina-se ladrão. + +P.--Que merecem os ladrões, estima ou desprezo? + +E.--Desprezo e castigo. + +P.--E não será quasi ladrão um menino, que, mandriando, obriga seus paes +a fazerem despeza excessiva para o educarem, e que prejudica a familia, +em beneficio da qual deveriam reverter as quantias, que os paes consomem +inutilmente com o preguiçoso? + +E.--É, sim, senhor. + +P.--Por consequencia merece desprezo e castigo o máu estudante. + +E.--Certamente. + +P.--Se na escola houver estudantes pobresinhos e estudantes abastados, +que devem estes fazer relativamente áquelles? + +E.--Tratal-os muito bem. + +P.--O bom tratamento de que fallaes consistirá somente em os admittirem +á sua companhia na aula e na rua, e em praticarem com elles +delicadamente, ainda que não andem bem trajados; ou consistirá tambem em +auxilial-os, obtida licença dos paes e mestres, para que lhes não faltem +cousas indispensaveis, taes como o lapis, papel, compendios, etc., para +comprar as quaes lhes não chegar o dinheiro. + +E.--Parece-me que é dever dos estudantes endinheirados proteger em tudo +os que o não são, e até repartir com elles o _lunch_, e a merenda, por +isso que os collegas se devem amar como irmãos. + +P.--Muito bem. E o amor fraternal dos collegas permittirá que andem a +fazer queixas uns dos outros? + +E.--Não, senhor. + +P.--Que deverá fazer um bom collega quando outro commetter uma pequena +falta. + +E.--Deve advertil-o de que não fez bem, e aconselhal-o a que se emende. + +P.--E se um estudante quizer commetter um crime, ou praticar uma acção +má, ou se tiver delinquido, e se mostrar obstinado em não se emendar, o +que deverá fazer o collega? + +E.--Se não poder evitar o mal, nem conseguir que o menino, que o +praticou, trate de se corrigir, cumpre-lhe avisar o professor. + +P.--Em voz alta, diante de todos, com acrimonia, e maneiras hostis, ou +em particular, e por modo, que não aggrave o delinquente? + +E.--Em particular e sem azedume. + +P.--Se o professor perguntar a um estudante quem commetteu certa falta +ou maldade, e o estudante interrogado souber quem foi, que deverá fazer? + +E.--Dizer a verdade. + +P.--Quando tal aconteça, ficará mal ao estudante implorar a clemencia do +professor para o collega? + +E.--Não, senhor; antes lhe ficará muito bem. + +P.--Disse ainda agora um dos meninos que deviam os collegas ser amigos. +A amisade é um sentimento mui delicado e nobre, e por isso mesmo mui +raro. Umas vezes nasce do parentesco e convivencia intima, tal é a que +aos filhos consagram os paes, e a estes os filhos, tal a dos avós e +netos, e a dos tios e sobrinhos; outras vezes provém da sympathia, +augmenta com a camaradagem, principalmente entre pessoas de indoles +similhantes, e fortifica-se pela troca reciproca de serviços +desinteressados e honestos. Mas, assim como «nem tudo o que luz é ouro», +assim nem toda a convivencia, posto que deleitavel, extremosa, e até +util, se póde considerar amizade verdadeira. + +E.--Em que consiste, pois, a verdadeira amizade? + +P.--Em duas ou mais pessoas se estimarem reciproca e honestamente, como +cada uma a si propria se estima. + +E.--Em vista do que dizeis, devem ser mui poucos os verdadeiros amigos; +porque eu, não obstante ser ainda muito creança, tenho notado que quasi +todas as pessoas gostam mais de si, que dos outros. + +P.--Rarissimos são, é verdade, e por isso mesmo quem teve a felicidade +de encontrar um, deve cuidar muito de o não perder. + +E.--E o que nos acontecerá, se nunca tivermos um amigo verdadeiro? + +P.--Seremos menos felizes do que seriamos, se o tivessemos. + +E.--Vós, sr. professor, sois muito feliz. + +P.--Por que me consideraes muito feliz? + +E.--Porque tendes muitos amigos. + +P.--Quem vos disse que tenho muitos amigos? + +E.--Ninguem; mas tenho visto que pelas ruas uns vos cortejam, +tirando-vos o chapéu, outros vos dizem adeus com a mão, outros vos +tratam por tu, muitos vos abraçam e param a fallar comvosco. + +P.--Como estaes enganado! Esses todos, com pouquissimas excepções, +sabeis o nome que merecem? Eu vol-o digo--_conhecidos_.--Se eu caísse de +cama, quantos viriam acompanhar-me? se eu estivesse preso, quantos iriam +suavisar-me a solidão do carcere? se eu tivesse fome, quantos +repartiriam commigo as suas sôpas? se eu tivesse a desgraça de commetter +um crime, quantos no dia seguinte se desbarretariam ao passar por +mim?... Conhecidos, indifferentes, amigos do theatro, do baile, do +passeio, que desapparecem, quando o verdadeiro amigo mais se approxima +de nós, nos dias sombrios e luctuosos da desgraça, e das tribulações. + +E.--Como é então que fallaes e mostraes tão bonito modo a homens, que de +nada vos prestam? Não seria melhor desprezal-os? + +P.--Não se deve desprezar ninguem. Quem não póde beber por uma taça de +ouro, ou de crystal, ha de quebrar o copo de vidro ou o pucaro humilde +de barro? Para os conhecidos, caridade e delicadeza; para os amigos, os +affectos todos do coração. + +E.--Se vos não enfado, far-vos-hei ainda uma pergunta. + +P.--Quantas quizerdes. + +E.--De que traça nos havemos de servir para grangear amigos verdadeiros? + +P.--Um sabio, a quem fizeram igual pergunta, respondeu: _Se quizeres ser +amado, ama_. A semente da amisade é a sympathia, ou reciproca +inclinação, gerada, ou da analogia das indoles e estados, ou de certas +qualidades, que mal se póde dizer quaes sejam, mas que parecem attrair +umas para as outras as pessoas, que as tem. + +E.--De maneira que, se eu entrar n'uma casa e me agradar de uma pessoa, +que não conheça, ainda que não seja da minha idade, nem bonita, e sentir +para ella inclinação, poderei dizer que _sympathizei_ com ella. + +P.--De certo. + +E.--Mas ás vezes tambem succede o contrario; olha a gente para um homem +ou para uma senhora, e posto que nem sejam feios, nem desastrados, +experimenta certa repugnancia em tratal-os. + +P.--A essa repugnancia se dá o nome de _antipathia_. + +E.--Quando pois, sympathisarmos com alguem, poderemos contar com um +verdadeiro amigo? + +P.--Nem sempre. Á vossa pergunta respondeu ha muito tempo um escriptor +portuguez dos mais eruditos, chamado Antonio de Sousa de Macedo, cujas +obras vos recommendo desde já para quando fordes maiorzinhos. Ouvi o que +elle a tal respeito escreveu. «D'entre os mesmos em que se acham +sympathias, se deve fazer distincção, antes de trabalhar pelos fazer +amigos, por que nem todos serão convenientes. + +Suetonio diz de Augusto, que os _escolhia_ com vagar, e os conservava +constantemente. Devem-se preferir os de _melhor juizo_, _bons costumes_, +_valor_, _sinceridade_, e _bôa fama_. Nem com o _nescio_, diz o +ecclesiastico, nem com o _mau_, diz santo Agostinho, nem com o _pouco +verdadeiro_, diz Aristoteles, póde haver amizade.» + +E.--São essas as qualidades que devem ter os amigos, e muito folgo de +que tão claramente nol-as expozesse esse auctor portuguez, cujo nome +citastes; mas quando se nos depare alguem com todos esses requisitos, +que deveremos fazer para lhe captivarmos a amizade? + +P.--Seja tambem Macedo quem vos responda. Diz elle: «Feita a eleição, a +communicação e conversação faz os amigos, concordando nos ditos, e nas +acções (suppondo que tudo ha de ser honesto e judicioso) e para a facil, +sincera, e agradavel concordia, contribue especialmente a sympathia, a +qual, accrescentou um sabio, se deve ajudar com algum beneficio, feito +graciosamente, sem ser rogado, nem depois publicado.» + +E.--Algum beneficio? + +P.--Não fiqueis ahi pensando que os beneficios, que penhoram a amizade, +sejam tão sómente mimos e presentes de cousas, que se merquem nas lojas, +ou de fructas e manjares; boas são essas provas de amizade, mas não são +as unicas, nem as mais apreciaveis. Por beneficios deveis entender +tambem, os conselhos prudentes, os exemplos dignos de imitação, a +companhia na doença, e nas tribulações, o ensino fraternal e até a +reprehensão suave das faltas e defeitos. + + +Resumo + +Os condiscipulos são quasi irmãos, filhos espirituaes do professor. +Devem ser delicados, bons, e amigos. Devem cumprimentar-se á entrada e +saïda da aula e sempre que se encontrarem. Devem prestar uns aos outros +todos os serviços, que puderem. Os estudantes pobres, defeituosos, mal +vestidos merecem, sendo bons, tanta estima e consideração, como os +abastados, sãos, e tafues. Nem sombra de alcunhas, principalmente +allusivas a quaesquer deformidades, ou imperfeições do corpo ou do +espirito. Se nos pedirem cousa, que possamos emprestar ou ceder, +emprestemol-a, ou cedamol-a, sem exigir paga, nem agradecimento. +Delicadeza não é bondade. Toda a acção contraria á lei de Deus, ou ás +leis humanas, quando estas não offendem aquella, é má. + +O mandrião merece castigo e desprezo. Desde a aula deve o rico ajudar o +pobre.--Se algum estudante fizer maldades advirtam-n'o os que as +presenciarem; mas não as divulguem. Quando um estudante praticar acções +indignas, e admoestado pelos condiscipulos, se não emendar, recorra-se +ao professor, dizendo-lhe em particular, e sem aggravar o mal, quanto +baste para que elle proceda como fôr de justiça. É prova de delicadeza e +bondade de coração implorar misericordia para os que estiverem em risco +de ser castigados. Nunca se deve mentir; a mentira é a torpeza das +torpezas. + +São amigas duas pessoas que reciproca e honestamente se estimam como +cada uma d'ellas se estima a si propria. Ha amizade verdadeira, e +falsa.--Nem todos os que parecem amigos, o são; não se deve confundir o +amigo com o conhecido. Amar é o meio de grangear amigos. A amizade nasce +da sympathia; mas nem todos com quem sympathisâmos podem ser nossos +amigos. As qualidades que deverá ter um amigo, são: bom juizo, bons +costumes, valor, sinceridade, bôa fama. Não deve ser nescio, nem mau, +nem mentiroso. Para o grangear bastará a communicação e conversação, +auxiliadas por obsequios desinteressados. + + +Reflexões + +É finda a nossa palestra de hoje. Temos dito muitas cousas, mas não +basta fallar; é indispensavel fugir do mal e praticar o bem. Muito falla +o papagaio, mas que faz tamanho palrador? Come o que lhe deitam no +comedouro, e nas horas vagas vae roendo a gaiola. Ninguem dirá com +verdade, que seja muito para se imitar a tal ave palreira. Palavras, +leva-as o vento, dil-o o rifão, e não mente. Para vos não parecerdes com +aquelle animalzinho inutil, amae-vos muito uns aos outros; auxiliae-vos +fraternalmente, cumprí á risca todas as vossas obrigações, e lembrae-vos +a cada momento de que os homens do futuro, os paes de familia, os +mestres, os escriptores, os ministros, os deputados, os juizes, os +sacerdotes, os militares, os medicos, os pharmaceuticos, os advogados, +os artistas, os negociantes, os industriaes, os lavradores haveis de ser +vós, e de que para profissões tão variadas, tão nobres, tão difficeis e +de tantissima responsabilidade, vos deveis desde já preparar, estudando +e praticando todas as virtudes, para que, chegada que seja a hora de +entrardes na vida activa e de servirdes a civilisação, que exige +obreiros intelligentes e honrados, possaes cabalmente desempenhar os +vossos deveres. + + + + +QUARTA LIÇÃO + +VIDRO[11] + + +Escolheu o professor Mayo o vidro para assumpto da primeira lição do +ensino intuitivo, ou de objectos, por lhe parecerem as qualidades d'este +corpo mais perceptiveis aos nossos sentidos, que as de qualquer outro. +Aconselha o mesmo professor que fiquem os meninos defronte do quadro +preto, onde se hão de ir escrevendo os resultados de suas observações; e +que o pedaço de vidro vá passando de mão para mão, para que cada um dos +estudantes individualmente o examine. O tomar cada menino o fragmento de +vidro em suas mãos e o il-o observando com attenção é, como atraz +observámos, ponto de grande importancia para o bom resultado do ensino. +Diz a este proposito o excellente pedagogista Mayo o seguinte: «D'este +modo cada individuo, dos que compõem a aula, se vê obrigado a exercitar +as suas faculdades sobre o objecto, que se lhe apresenta; servindo as +perguntas, que depois lhes faz o professor, para que elles revelem suas +idéas, e para a emenda d'estas, se forem erroneas. + +P. (Mostrando um bocado de vidro)--Que é isto, que eu tenho na mão? + +E.--É um bocado de vidro. + +P.--Vamos soletrar a palavra _vidro_. + +(_Feita esta advertencia, escreve o professor no quadro preto a palavra +vidro, dividida em duas syllabas_; pronuncía alto e bom som, em primeiro +logar as lettras _v-i-d-r-o, acompanhando a pronunciação de cada uma +d'ellas de uma pancada com o ponteiro no quadro, ou de uma palmada; e +pronuncía depois as duas syllabas mui distinctamente. Em seguida repetem +os estudantes primeiro individualmente, e depois em côro, aquella +soletração, até que a saibam correctamente fazer_.) + +P.--Todos vós examinastes este vidro; e que notastes n'elle? Que podeis +dizer que é? + +(Põe-se esta pergunta em logar de: Quaes são as suas propriedade? porque +é muito provavel que a principio não entendam os meninos o sentido da +palavra «propriedade»; mas applicando-a repetidas vezes o professor ás +respostas que os estudantes derem, em pouco tempo se acostumarão a ella +e lhe perceberão o sentido). + +E.--É brilhante. + +P. (Depois de ter escripto no quadro a palavra «propriedade», escreve +por baixo: «É brilhante»).--Pegae-lhe; apalpae-o. (Deverá o professor +dirigir aos estudantes perguntas conducentes a pôr-lhes successivamente +em acção os differentes sentidos). + +E.--É frio. (Escreve-se esta resposta no quadro por baixo da outra +qualidade). + +P.--Tornae a pegar no vidro, e comparae-o com este fragmento de esponja, +com que limpâmos o quadro, e dizei-me o que notastes no vidro. (O +intento do professor ao fazer esta pergunta, deve ser conseguir que os +estudantes observem a «lisura», contrapondo esta propriedade á sua +opposta, a «aspereza» de outra substancia; meio de demonstração que +muitas vezes se poderá empregar). + +E.--É lizo; é duro. + +p.--Ha na aula outro objecto de vidro? + +E.--Ha sim senhor; os vidros das vidraças. + +P.--Olhae pelas vidraças, e dizei-me o que vêdes. + +E.--Vemos o jardim. + +P. (Fechando as portas da janella)--Olhae agora e dizei-me o que vêdes. + +E.--Agora não podemos vêr nada. + +P.--Porque é que não vêdes nada? + +E.--Porque atravez das portas não se póde vêr nada. + +P.--Que differença notaes entre as portas e o vidro? + +E.--Notâmos que atravez das portas nada podemos vêr, e que atravez do +vidro vêmos o jardim. + +P.--Podeis dizer-me alguma palavra, que indique essa qualidade, que tem +o vidro? + +E.--Não, senhor. + +P.--Eu vol-a digo. Tomae sentido, para que vos não esqueça. É +_transparente_. D'aqui por diante que idéa fareis d'um corpo, se vos +disserem que é transparente? + +E.--Que se pode vêr atravez d'elle. + +P.--Respondestes muito bem. Lembraes-vos de alguma cousa que seja +transparente? + +E.--A agua. + +P.--Que aconteceria se eu deixasse cair no chão este pedaço de vidro? + +E.--Quebrar-se-ia. + +P.--E se da rua atirassem pedras á janella? + +E.--Quebrar-se-iam os vidros. + +P.--Sabeis como se chamam os corpos, que tem esta qualidade, ou +propriedade de se partirem, quando caem n'um corpo duro, ou quando se +lhes bate? + +E.--Não, senhor. + +P.--Chamam-se _quebradiços_, ou _frageis_,--Dizei-me, se deixassemos +cair a porta da janella ou se contra ella atirassemos uma pedra, que +succederia? + +E.--Ficaria inteira. + +P.--E se eu lhe batesse muito de rijo com outro corpo durissimo? + +E.--Quebrar-se-ia. + +P.--A madeira é quebradiça, ou fragil? + +E.--Não, senhor. + +P.--Deveremos chamar frageis a todas as substancias, que podermos +quebrar? + +E.---Não, senhor; _frageis_ diremos só aquellas, que se quebrarem com +facilidade. + +P.--Para que serve o vidro? que prestimo tem? + +E.--Serve para as janellas. + +P.--Que vantagem ha em pôr vidraça nas janellas? + +E.--Ter as casas abrigadas do vento, da chuva, da poeira, e das moscas. + +P.--Parece-me que, fechando-se as portas das janellas, não entrariam +pelas casas dentro, nem moscas, nem poeira, nem chuva, nem vento. + +E.--Mas cerradas as portas das janellas, ficariam as casas ás escuras, e +não poderiamos vêr para fóra. + +P.--Muito bem. Dizei-me porque razão não tira o vidro a claridade ás +casas, nem obsta a que se vejam os objectos que estão fóra? + +E.--Porque é _transparente_. + +P.--Não ha outros objectos de vidro? + +E.--Ha cópos, garrafas, castiçaes, espelhos, tinteiros, etc. + +É provavel, diz o professor Mayo, que na primeira lição não occorram aos +meninos outras qualidades; mas estas sós, escriptas no quadro preto, +constituirão um bom exercicio de soletração. Devem-se depois apagar; e +se os estudantes já souberem escrever, poderão exercitar a memoria e +repetir a lição, escrevendo-as de novo nas ardosias. + + + + +QUINTA LIÇÃO + +CAOUTCHOUC--GOMMA ELASTICA--BORRACHA[12] + + +Escolheu o professor Mayo esta substancia para objecto da segunda lição, +para que os meninos observem as qualidades, ou propriedades, que os +physicos denominam _opacidade_, _elasticidade_, e _inflammabilidade_. + +P.[13]--Que é isto? (Mostrando um bocado de caoutchouc). + +E.--É um bocado de _borracha_. + +P.--Parece-se com o vidro? + +E.--Em nada. + +P.--Ponde esse pedacinho de _borracha_ diante dos olhos e olhae para +mim... Vêdes-me? + +E.--Não, senhor. + +P.--Se nas janellas, em vez de vidros, estivessem laminas de borracha, +que aconteceria? + +E.--Ficariam as casas ás escuras, e não poderiamos vêr para fóra. + +P.--Sabeis como se chama a qualidade, que tem a _borracha_ de não deixar +vêr atravez de si, como o vidro? + +E.--Não, senhor. + +P.--Chama-se _o-pa-ci-da-de_. Repetí commigo esta palavra. + +E.--_O-pa-ci-da-de._ + +P.--Vou escrevel-a; olhae attentamente. (O professor escreve no quadro +preto: _Propriedades ou qualidades da borracha_--_O-pa-ci-da-de_). +Menino F., como chamareis aos corpos, que tem opacidade? + +E.--_Opacos._ + +P.--Ponde diante dos olhos a lousa, que ahi tendes, e olhae para mim. +Vêdes-me? + +E.--Não, senhor. + +P.--Porque me não vêdes, quando entre mim e vós está um bocado de lousa? + +E.--Porque a lousa é _opaca_. + +P.--Menino G., dizei-me se está alguem ali n'aquelle quarto. + +E.--Eu vou vêr. (Levantando-se). + +P.--Não vos levanteis; olhae d'ahi, do vosso logar. + +E.--D'aqui não posso vêr. + +P.--Porque não podeis vêr d'ahi o que se passa n'aquelle quarto? + +E.--Porque se mette de permeio a parede. + +P.--E se a parede fosse de vidro, poderieis ver para dentro d'aquella +casa? + +E.--Veria de certo, porque o vidro é transparente; mas a parede não é. + +P.--Como diremos que é a parede, attendendo a que nos tira a vista das +cousas, que estão para além d'ella? + +E.--Diremos que é opaca. + +P.--A borracha póde facilmente cortar-se com a thesoura. Vou cortar umas +tiras, para os meninos fazerem uma brincadeira. Eil-as: Tomem estas +tirinhas de borracha, segurem-n'as pelas extremidades e puxem-n'as, como +quem quizesse esticar uma linha... Basta, basta; agora larguem-n'as de +um lado... Que vistes? + +E.--A borracha deu de si, estendeu, estendeu; e, logo que a largámos, +voltou ao primitivo comprimento. + +P.--Tomem agora este bocado de vidro, e puxem-n'o bem. + +E.--Não dá de si; não estende. + +P.--Temos, pois, que a borracha, sendo puxada, estende, e logo que a +soltam volta á primeira; e que o vidro, por mais que o puxem, não dá de +si. Porque será isso? + +E.--Provavelmente é por que a borracha tem alguma qualidade, que nós +ignorâmos. + +P.--Como é que a ignoram, se acabam de a observar?! O que os meninos +ignoram é o nome que essa propriedade tem. + +E.--Podeis-nos dizer como se chama? + +P.--Chama-se _e-las-ti-ci-da-de_. Repeti commigo este nome: + +E.--_E-las-ti-ci-da-de._ + +P.--Reparae; vou escrevel-o no quadro preto, por baixo do nome da outra +qualidade da borracha, por baixo da palavra... (Tapando com a mão a +palavra no quadro). + +E.--_Opacidade._ + +P.--Muito bem; não se esqueceram. + +(Escreve) Aqui está: _Elasticidade_. Tomae outra vez as tirinhas de +borracha; e em vez de puxal-as, torcei-as entre os dedos, que se chamam +_pollegar_ (Mostra o dedo pollegar) e est'outro (Mostra o indicador), +que se chama _indicador_... Agora largae-as. Que observaes? + +E.--Destorcem-se por si. + +P.--Menino A... por que é que se destorcem por si essas tirinhas de +borracha? + +E.--Provavelmente, pela mesma qualidade, pela qual ainda agora +estenderam e encolheram, ficando do comprimento, que tinham, antes de as +estarmos a puxar. + +P.--Assim é. Dizei-me agora o que é isto? (Mostrando uma péla) + +E.--Isso é uma péla de brincar. + +P.--Porque será que todos os meninos gostam de jogar a péla? + +E.--É porque as pélas saltam muito, e nós temos de correr atraz d'ellas, +caio aqui, acolá me levanto. + +P.--Sabeis de que são feitas as pélas? + +E.--São feitas de borracha[14]. + +P.--Porque não fazem as pélas de barro, ou de folha de Flandres, ou de +pau, ou de cortiça? + +E.--Porque se fossem feitas d'essas materias não saltariam. + +P.--Que ha, pois, nas pélas de borracha, que as faz andar aos pulos? + +E.--Não sabemos. + +P.--E se eu lhes disser, que sabem? Pensem, meditem. Atiro esta péla ao +chão, ella bate no sobrado, achata-se, immediatamente toma a primitiva +fórma, a fórma de bola, ou de esphera, como dizem os sabios, e eil-a a +pular. + +E.--Já sabemos porque as pélas de borracha saltam, e as outras não. É +por causa da _elasticidade_. + +P.--Acertastes. N'aquelle retomar a fórma de esphera ou bola +immediatamente depois de se ter achatado ao bater no chão, é que está a +elasticidade. Outra pergunta ácerca d'esta qualidade. Dizei-me, se vos +occorre, o nome com que podemos designar os corpos, que tem +elasticidade. + +E.--Podem chamar-se _elasticos_. + +P.--Assim é. Reparae agora no que vou mostrar-vos. (O professor acende +uma véla). Temos aqui um rolosinho de ferro (Mostra-o), um rolosinho de +barro (Mostra-o), este pedaço de pederneira (Mostra-o), e um fragmento +de borracha. Pego no rolo de ferro pelo cabo de madeira, para me não +queimar, chego-o à luz, como vedes, mas elle fica no mesmo estado. Pego +no rolo de barro, que não tem cabo de madeira, por que não aquece tão +depressa como o ferro, chego-o á luz e nada de novo; com a pederneira +acontece o mesmo. Ide agora ver o que succede ao approximar da luz um +fragmento de borracha. Tomae sentido, porque me haveis de dizer o que +virdes. Por cautela, em vez de tomar a borracha com os dedos, pego-lhe +com a thesoura. Attenção. (O professor chega a borracha á luz, e apenas +ella se inflammar, affasta-a da véla, e a colloca por cima de um vaso, +que tenha agua, evitando que lhe caia derretida nas mãos). Que vistes? + +E.--Vimos a borracha incendiar-se e arder com chamma mui intensa e +clara. + +P.--Só isso observastes? + +E.--E derreter-se. + +P.--Nada mais? + +E.--Mais nada. + +P.--Não prestastes bastante attenção. Vou repetir a experiencia. +(Repete-a). Dizei-me se vistes mais alguma cousa? + +E.--A borracha derretida cair em pingos sobre a agua, que está n'esse +vaso. + +P.--Exactamente. Esta qualidade da borracha é mui differente das outras +duas: _elasticidade_ e _opacidade_. + +E.--Certamente. + +P.--Sabeis como se chama? + +E.--Não sabemos. Fazei mercê de nol-o dizer. + +P.--Chama-se _in-flam-ma-bi-li-da-de_, ou propriedade de arder com +chamma. Bom será que repitaes commigo o nome d'esta qualidade, ou +propriedade da borracha, para que vos não esqueça. + +E.--_In-flam-ma-bi-li-da-de._ + +P.--Vou escrever este nome, que nada tem de pequeno, sob o das outras +qualidades. Qual de vós é capaz de me dizer como chamaremos aos corpos, +que chegados a uma luz, arderem com chamma? + +E.--Sou eu. + +P.--Dizei pois. + +E.--Os corpos, que ardem com chamma, denominam-se _inflammaveis_. + +P.--O ferro, o barro, a pederneira, são inflammaveis? + +E.--Não, senhor; mas a borracha é, e muito. + +P.--Podeis dizer-me a côr da borracha? + +E.--_Negra._ + +P.--Vou escrever o nome d'essa qualidade no quadro preto (Escreve). +Dizei-me, meus meninos, se vos lembra alguma cousa, bastante vulgar, á +qual a borracha se assemelhe não só na côr, mas principalmente na +grossura, na consistencia, na impressão que nos faz, quando a apertâmos +e revolvemos entre os dedos. + +E.--Assemelha-se ao couro. + +P.--Muito bem. O que provavelmente não sabeis é como se nomeiam as +substancias analogas ao couro. + +E.--Não sabemos. + +P.--Dizem se _co-ri-a-ce-as_. Repetí pausadamente esta palavra. + +E.--_Co-ri-a-ce-as_. + +P.--Menino B...; vejo que estaes passando as cabeças dos dedos por cima +d'esse bocado de borracha, e esse acto tão simples accordou-me o desejo +de vos fazer uma pergunta. Quando passâmos a mão, ou sómente as cabeças +dos dedos por cima de diversos corpos, sentimos a mesma impressão? + +E.--Não, senhor; umas vezes é agradavel a impressão, que sentimos; +outras vezes, desagradavel. + +P.--Podereis dar-me exemplo de uma e outra? + +E.--Correndo a mão por cima de um panno de lã grosseiro, ou por uma +taboa, que não esteja aplanada, sinto impressão desagradavel; correndo-a +por sobre uma folha de papel de peso, ou por um vidro bem polido, tenho +uma impressão agradavel. + +P.--Sabeis que nome se dá aos corpos, quando a sua superficie é como a +do panno de lã grosseiro, e da taboa não aplanada? + +E.--Diz-se que são _asperos_. + +P.--E quando a superficie dos corpos é como a do papel fino, ou de peso, +e a do vidro? + +E.--Diz-se que são _lisos_, ou _macios_. + +P.--A borracha é aspera, ou macia? + +E.--É _macia_. + +P.--Ficâmos pois, sabendo, que a borracha é _opaca_, _elastica_, +_inflammavel_, _negra_, _coriacea_, e _macia_. Mais uma pergunta, e +dâmos por terminada a nossa palestra. + +Tem a borracha algum prestimo? + +E.--Serve para apagar os traços, que o lapis deixou no papel, para fazer +pélas e outros objectos. + + + + +SEXTA LIÇÃO + +COURO + + +Nesta lição pretende o professor Mayo dar aos meninos idéa das seguintes +propriedades, ainda por elles não estudadas: _flexibilidade_, _cheiro_, +_impermeabilidade á agua_; e recordar-lhes algumas, já estudadas a +proposito da borracha. + +P.--Tomae, meus meninos, este corpo (Dando-lhes ás mãos um bocado de +couro), examinae-o, e dizei-me se sabeis o que é?[15] + +E.--É um pedaço de couro. + +P.--Recordae-vos do que dissemos hontem a respeito da borracha, e +dizei-me se o couro tem com ella alguma parecença. + +E.--Tem, sim, senhor; e bastante. + +P.--Muito prazer me darieis se fizesseis favor[16] de me dizer porque se +parecem esses dois corpos, que em realidade são mui differentes. + +E.--Dissemos que se parecem, porque ambos são _opacos_, _coriaceos_ e +_macios_. + +P.--E não vos enganastes; mas o couro tem outras qualidades, que +podereis descobrir, se o observardes com attenção. + +E.--(Hesitam, e ficam-se a olhar para o professor). + +P.--Se os olhos me não illudem, todos vós tendes nariz; ora, pois, +servi-vos d'elle, consultae-o. + +E.--(Cheirando o couro). Tem _cheiro_. + +P.--Assim é. Menino C..., dizei-me se todos os corpos tem cheiro? + +E.--Não, senhor; o vidro, e a louça, não tem cheiro. + +P.--Lembra-vos alguma substancia, que tenha cheiro? + +E.--Lembram-nos muitas: o chá, o café, a manteiga, o vinagre. + +P.--Quando uma substancia exhala cheiro proprio, como diremos que é? + +E.--_Cheirosa._ + +P.--_Cheirosas_ dizemos as que tem cheiro proprio ou alheio. Por +exemplo: se deitarmos no lenço de assoar algum arôma, tal como agua de +Colonia, ou almiscar, ficará o lenço _cheiroso_; não obstante não ter +cheiro seu, proprio. Se porém uma substancia é dotada de cheiro, bom ou +mau, como o chá ou o petroleo, melhor lhe chamaremos: _odorifera_. + +E.--Pelo que dizeis, o couro é _odorifero_. + +P.--De certo. Digam todos em côro esse nome. + +E.--_O-do-ri-fe-ro._ + +P.--Continuemos a examinar o couro. Além, está o menino F... a dobrar +aquelle pedaço, provavelmente para vêr se o póde partir em dois. Vejamos +o que elle nos diz da sua experiencia. + +E.--Dobra-se, mas não se parte. + +P.--E acontece o mesmo a todos os corpos? + +E.--Não, senhor; ha bem pouco tempo parti eu uma regoa de madeira, por +querer dobral-a. + +P.--Qual será a palavra com que possâmos representar a qualidade, que +tem o couro, de se dobrar sem se partir? + +E.--(Silencio.) + +P.--Pensae no caso, e lembrae-vos de que ha palavras parecidas umas com +as outras, ou parentas. Por exemplo: bondade e bom; maldade e mau; +aquentar e quente; rasgar e rasgado. + +E.--Já sabemos, como deveremos chamar aos corpos, que se dobram +facilmente, sem se quebrarem ou partirem. + +P.--Que esperaes, para nos dar esse alegrão. + +E.--Chamar-lhes-hemos _dobradiços_. + +P.---Deram no vinte; mas eu sei outro nome, que quer dizer o mesmo, mas +que é mais afidalgado, e por isso menos vulgar. Vou escrevel-o no +quadro, e soletral-o-hão os que sabem ler. (Escreve no quadro preto, na +columna onde estão indicadas as outras qualidades). + +E.--(Em alta voz) _Fle-xi-vel_. + +P.--Qual dos meninos é capaz de me dizer o nome da qualidade, ou +propriedade em virtude da qual são _flexiveis_ alguns corpos? + +E.--Deve chamar-se _flexibilidade_. + +P.--Muito bem respondeu o menino G... Não se esqueçam os outros do que +lhe ouviram, e fiquem sabendo que, quando qualquer corpo se dobra, como +o couro, e como elle se não quebra ou rasga, é porque tem +_flexibilidade_. Se não temesse cançal-os, ainda lhes havia de fazer +mais perguntas a respeito d'este corpo, que pelos serviços, que nos +presta, bem merece, que nos entretenhâmos com elle.[17] + +E.--Podeis continuar, senhor professor, que não estâmos cançados. + +P.--Já que assim o quereis, façâmos uma experiencia. Tomem quatro +meninos este lenço pelas quatro pontas e estendam-n'o, mas não muito. +Outro menino deite-lhe em cima uma pouca d'agua. (Os meninos executam o +que o professor lhes manda). Que observaes? + +E.--O lenço molha-se. + +P.--E que mais acontece? + +E.--A agua atravessa o lenço e cae no sobrado. + +P.--Ponde agora este bocado de papel mata-borrão sobre o lenço, +deitae-lhe por cima mais agua, e vêde o que succede. + +E.--Molha-se tambem o papel e deixa passar a agua. + +P.--Espremei o lenço, e dizei-me o que observaes. + +E. (Espremendo o lenço)--Escorre a agua, que o lenço tinha em si, e este +fica menos molhado. + +P.--Fazei com este bocado de couro o que fizestes com o lenço; isto é, +estendei-o horisontalmente, e deitae-lhe agua por cima. + +E.--A agua não pode atravessar o couro; não cae no chão. + +P.--Entornae a agua, e vêde se o couro ficou ensopado. + +E.--Não ficou, não, senhor. + +P.--Sabeis porque assim acontece? + +E.--Não sabemos. + +P.--Não se ensopa na agua, porque essa é uma das suas qualidades, ou +propriedades. De um corpo, que a agua não atravessa, diremos que é +_impermeavel_ á agua. + +E.--Fazeis mercê de repetir esse nome, que não percebemos bem. + +P.--Vou escrevel-o no quadro preto, para que o leiam, e repetil-o-hemos +depois com muito vagar. (Escreve). + +E.---_Im-per-me-a-vel._ + +P.--Relanceae os olhos pelos objectos, que estão n'esta aula, e dizei-me +se haverá entre elles algum, que seja _impermeavel_ á agua. + +E.--O vidro. + +P.--Porque dizeis que é impermeavel á agua o vidro? + +E.--Porque a agua não o atravessa. + +P.--Podereis convencer-me com algum exemplo de que a agua não atravessa +o vidro? + +E.--Bastará olhar para esse cópo, que está cheio de agua, e que não a +deixa sair atravez das suas paredes. + +P.--Gostei muito da vossa resposta, que revela muito siso, e me prova +que vos ides acostumando a comparar. E porque sois espertos e amigos de +saber, vos perguntarei mais, se o barro de que é feita aquella bilha, +que alem tenho, para me arrefecer a agua, tambem é impermeavel? + +E.--Não sabemos. + +P.--Se a examinarem attentamente, sabel-o-hão logo. Ora ide buscal-a +para aqui. + +E.--Esta bilha não é, como o couro e vidro, impermeavel. + +P.--Dizei antes, o barro d'esta bilha, ou o barro, de que esta bilha é +feita, não é _impermeavel_. Reparae, que uma cousa é o objecto, o movel, +o corpo, que vemos, e outra cousa a materia, de que o objecto, o movel, +ou o corpo é formado. Que é isto? (O professor mostra uma bola de cêra). + +E.--É uma bola. + +P.--Bola ou esphera; mas de que? + +E.--De cêra. + +P.--(Transformando a bola de cêra em um cilindro)--E isto, que é? + +E.--Um rolo. + +P.--Certamente; é um rolo ou cilindro; mas de que? + +P.--De cêra. + +P.--(Dando â cêra a forma cubica)--O rolo foi-se; isto, que é? + +E.--Um dado de jogar. + +P.--Vistes, que com a mesma materia, a _cêra,_ formei tres corpos: uma +bola ou sphera; um rolo ou cilindro; e um dado de jogar ou cubo, os +quaes eu poderia ter feito de tres materias differentes, por exemplo: de +cêra, de barro e de madeira. Acostumae-vos pois, desde agora, a +distinguir nos corpos a materia de que são feitos, da maneira porque +ella está limitada, ou, o que vem a ser o mesmo, da sua configuração. +Mas, tornando à _permeabilidade_ do barro d'esta bilha, desejo que me +esclareçaes, dizendo-me o fundamento, que tendes, para asseverar, que é +permeavel. + +E.--Dissemos que não era impermeavel, porque, estando vazia, se conserva +secca, e pouco depois de se lhe deitar agua humedece por fóra, +provavelmente, porque a agua passa atravez de suas paredes. + +P.--Assim é. Tende paciencia, meus meninos, de escutar mais uma pergunta +com a qual porei termo á nossa palestra. Quizera me dissesseis se o +couro serve para alguma cousa. + +E.--Serve para capas de livros; para forrar bahus e malas; para fazer +botas, sapatos, corrêas, luvas, sellins, e arreios para cavallos. + +P.--Bravo! Quem respondeu com tanto acerto, tem direito a ir brincar. + + + + +SETIMA LIÇÃO + +UM LIVRO + + +Examinando miudamente um livro, ficarão os estudantes conhecendo as +differentes partes de que elle se compõe, seus nomes e usos; e +adquirirão as primeiras e elementarissimas noções ácerca do papel, da +typographia, e dos algarismos romanos e arabes. + + * * * * * + +P.--Meninos, como se chama isto? (O professor mostra aos estudantes um +livro encadernado.) + +E.--Chama-se _livro_. + +P.--Todos vós tendes um livro? + +E.--Temos, sim, senhor. + +P.--Pegae, pois, nos vossos livros, e preparae-vos para uma palestra, +que vos ha de ser muito agradavel. + +E.--Vamos ler? + +P.--Não, senhores; vamos conversar a respeito do livro, como conversámos +ácerca do vidro, da borracha e do couro. + +E.--Quereis que escrevâmos a palavra livro? + +P.--Vá escrevel-a no quadro preto o menino H. + +E.--(Escreve), _Li-vro_. + +P.--Talvez não tenhaes notado, que assim como ha grupos de pessoas +aparentadas, que constituem familias, e que mais ou menos se parecem +umas com as outras; assim ha grupos de palavras tão similhantes, que se +não póde desconhecer, que são muito chegadas entre si, e como que +parentas. + +E.--Ainda não tinhamos reparado em tal. + +P.--Prestae attenção ao que eu vou escrever no quadro preto (O professor +escreve umas por baixo das outras as palavras do exemplo, separando com +o hyphen o radical de cada uma) _Pomb-o_, _pomb-a_, _pomb-inho_, +_pomb-inha_, _pomb-al_, _pomb-alinho_. + +Todas estas palavras formam uma familia[18]. + +_Cas-a_, _cas-inha_, _cas-ão_, _cas-arão_, _cas-eiro_, _ca-sal_, +_cas-alinho_, _cas-aleiro_, _cas-aría_, _cas-ebre_ (Todos estes nomes +sejam escriptos uns por baixo dos outros, ao lado dos nomes do primeiro +exemplo, e mui claramente pronunciados á proporção que se forem +escrevendo). Aqui tendes outra familia. + +_Carr-o_, _carr-inho_, _carr-ete_, _carr-eta_, _carr-etilha_, +_carr-ocim_, _carr-uagem_, _carr-oça_, _carr-oçada_, _carr-etão_, +_carr-etada_, _carr-eteiro_, _carr-eto_, _carr-iagem_, _carr-icoche_, +_carr-oceiro_, _carr-oçar_, _carr-il_, _carr-omato_. Outra familia e não +pequena. + +Se bem attenderdes, percebereis, que as palavras do primeiro grupo +começam todas pelas lettras _pomb_; as do segundo pelas lettras _cas_; e +as do terceiro pelas lettras _carr_. + +As primeiras--_pomb_--representam a idéa--pombo; as +segundas--_cas_--representam a idéa--casa; as terceiras--_carr_--a +idéa--_carro_. + +Agora que estaes iniciados n'este segredo, podereis dizer-me se a +palavra--_livro_--tem algumas parentas? + +E.--Tem uma parenta. + +P.--Fazei favor de me dizer qual é. + +E.--A palavra _livrinho_. + +P.--Só essa? + +E.--Tem outra parenta, que é _livrete_. + +P.--Procurae bem, que achareis mais. + +E.--_Livraria_. + +P.--Não sabeis o nome, que se dá, por desprezo, a um livro pequeno e +mau? + +E.--Chama-se-lhe _livreco_. + +P.--Como denominaes os homens, que negoceiam em livros? + +E.--_Livreiros_. + +P.--Fazei favor de me repetir os nomes de que se compõe a familia, cujo +pae é a palavra livro. + +E.--_Livro_, _livrinho_, _livrete_, _livraria_, _livreco_, _livreiro_. + +P.--Muito bem. Agora se vos não custar muito, dizei-me qual é a parte, +que em todas essas seis palavras sôa, quando as pronunciâmos, e se vê, +quando as escrevemos, constante e inalteravel. + +E.--É o principio. É _livr_. + +P.--Menino B, escrevei essas lettras no quadro preto. + +E.--_Livr._ + +P.--Olhando para aquellas lettras, que vos lembra? + +E.--Lembra-me um livro. + +P.--Fique-vos pois de memoria, que ha muitas palavras, que se podem +dividir em duas partes; e que a primeira d'ellas, que figura em todos os +membros da familia, lembra a idéa da cousa, claramente representada no +termo, de que a familia toda procede. + +Que figura tem este livro? (O professor mostra um livro.) + +E.--É quadrado. + +P.--Quadrado não é elle; é _quadrilatero_. + +Repeti, partida em syllabas, esta palavra. + +E.--_Qua-dri-la-te-ro_. + +P.--Agora de uma só vez. + +E.--Quadrilatero. + +P.--Sabeis o que quer dizer a palavra quadrilatero? + +E.--Não, senhor. + +P---Quer dizer: Figura de quatro lados, ou superficie fechada por quatro +linhas. + +Reparae para a figura que vou desenhar no quadro preto. (O professor +traça um parallelogrammo, retangulo, um quadrado e um losango) Todas +estas figuras são quadrilateros; mas apenas esta (Aponta o quadrado) se +póde chamar quadrado[19]. Tenho aqui sobre a mesa uns poucos de pedaços +de papel, vinde cá, e escolhei um que seja quadrado. + +E.--Eil-o. + +P.--Muito bem. Agora desenhe o menino A. no quadro preto um quadrado. + +E.--(Desenhando). Aqui está desenhado. + +P.--Como chamareis a esses riscos, que formam o quadrado? + +E.--_Linhas._ + +P.--Sabeis que outro nome se dá ás linhas, quando são direitas como +essas, que ahi desenhastes? + +E.--Não, senhor. + +P.--Dá-se-lhes o nome de _linhas rectas_. Todos esses quadrilateros são +formados de linhas rectas. + +Olhae agora para os vossos livros, e dizei-me como se chama a sua parte +externa, a parte de fóra. + +E.--Chama-se _capa_. + +P.--Por que lhe dariam esse nome? + +E.--Talvez pela analogia, que tem com a capa ou capote, que usam homens +e mulheres. + +P.--Mas a capa dos livros não tem góla, nem cabeção, nem roda, como é +uso terem os nossos capotes. + +E.--Certo é que nada d'isso tem; mas reveste o livro, e o resguarda, +como o capote resguarda o fato; que lhe fica por baixo. + +P.--Respondestes optimamente. Dizei-me se as capas dos livros tem todas +a mesma consistencia. + +E.--Não, senhor; umas são duras e grossas; outras, delgadinhas e molles. + +P.--Assim é. De que materia fazem as capas dos livros, quando duras e +grossas? + +E.--De _papelão_. + +P.--É verdade; mas noto, que sendo o papelão aspero e feio, as capas dos +livros são macias e bonitas. Sabereis explicar-me a razão d'isto? + +E.--É porque revestem o papelão de papel de côres, de panno, ou de couro +pintado. + +P.--Bravo! muito bem. Como se denominam os artistas, que fazem as capas +dos livros e lh'as põem? + +E.--_Encadernadores_. + +P.--Como se diz que está um livro, a que o encadernador poz uma capa +consistente, como a d'estes, que temos nas mãos? + +E.--Diz-se que está _encadernado_. + +P--E quando um livro está apenas coberto com uma capa de papel, como +este, que vos mostro? + +E.--Diz-se que está _brochado_. + +P.--Se um artista se empregar exclusivamente em brochar livros, como lhe +chamaremos? + +E.--Não sei. + +P.--Chamar-lhe-hemos _brochador_. + +E.--Os encadernadores não são tambem livreiros? + +P.--_Livreiro_ é a pessoa, que negoceia em livros, que os compra e +vende. Ha, porém, individuos, que exercem ambas as industrias, isto é, +que compram e vendem lívros, e que os encadernam. + +Continuemos a examinar o nosso livro, e em primeiro logar fazei obsequio +de me indicar o nome d'esta parte (O professor indica a lombada). + +E.--Não sei como se chama. + +P.--Chama-se _lombo_, ou _lombada_. + +E.--Porque dariam a esta parte tão estrambotica denominação? + +P.--Provavelmente em consequencia de ter certa analogia de fórma e +posição com as costas ou lombo do homem. + +E.--Tenho notado, que é a lombada a parte, que os encadernadores mais +esmeradamente aformoseam. Porque será? + +P.--Admira-me não vos occorrer a razão d'isso! Porque será, menino B.? + +E.--Eu não sei. + +P.--Dizei antes: Não sei. É preciso não abusar do _eu_ e do _tu_. Muito +mais elegante, conciso e energico é dizer: Não sei, não quero, não +posso, do que: Eu não sei, eu não quero, eu não posso. + +Menino C, porque motivo adornam os encadernadores as lombadas dos livros +mais do que o resto da capa? + +E.--Não sei. + +P.--Respondei, menino M. + +E.--Enfeitam mais as lombadas, se me não engano, por ser a parte, que +mais se vê, quando os livros estão na estante. + +P.--Assim é. Examinae o lombo do vosso livro e dizei-me o que notaes? + +E.--Traços e adornos dourados. + +P.--Mais nada? + +E.--Lettras, tambem douradas. + +P.--Que dizem essas lettras? + +E.--«Motta»--«Quadros de historia». + +P.--Aos dizeres, que os livros tem na parte superior do lombo, que nome +se dá? + +E.--_Titulo_. + +P.--A palavra «Motta», que está ahi a dizer? + +E.--O nome do auctor. + +P.--E as outras? + +E.--O assumpto. + +P.--Vede a lombada d'est'outro livro. Tem tão poucos dizeres, como a +d'esse, por onde habitualmente ledes? + +E.--Não, senhor; tem mais. + +P.--Que mais tem? + +E.--Uma lettra de conta. + +P.--De que palavra nos deveremos servir, para designar o que chamaes +lettra de conta? + +E.--Não sei. + +P.--O menino, que souber responder á minha pergunta, responda. + +E.--Não se deve dizer lettras de conta, mas _algarismos_. + +P.--Muito bem. Se temos palavra apropriada para indicar os signaes +representativos dos numeros, evitemos um rodeio. + +Que algarismo tem esse livro na lombada? + +E.--O algarismo 2. + +P.--Para que pozeram ahi o algarismo 2? + +E.--Para indicar que este livro é o segundo volume da obra. + +P.--Exactamente. + +E.--Todas as obras constam de dois volumes?[20] + +P.--Não se riam da pergunta do menino S.; ninguem nasce ensinado, e quem +não pergunta fica ignorando muitas cousas. Agora conversemos nós, menino +S. Ha obras completas em um volume, e d'essas tendes exemplo nos +«Quadros de historia portugueza»; tambem as ha em dois, tres, quatro e +até em dez, vinte e mais volumes. Quando uma obra principia e acaba no +mesmo volume não é necessario pôr-lhe nem externa nem internamente +nenhum algarismo; se principia n'um volume e continúa e acaba n'outro, +marca-se externamente o primeiro com o algarismo 1 e o segundo com o +algarismo 2; se a obra se estende por tres ou quatro volumes, põe-se na +lombada do primeiro o algarismo 1, na do segundo o algarismo 2, na do +terceiro 3, na do quarto 4, etc. + +Menino H., para que serve o titulo do livro escripto na lombada? + +E.--Para facilmente darmos com elle sem ser necessario abril-o. + +P.--Como se nomeiam estas partes da capa dos livros? (Pondo o dedo nos +cantos.) + +E.--_Cantos da capa_. + +P.--Abri os vossos livros e dizei-me como se chamam essas laminas de +papel, que a capa envolve e resguarda? + +E.--Chamam-se _folhas_. + +P.--Esse nome applica-se a muitas cousas: folhas de arvores, folhas de +espadas, folhas de papel, folhas de serra, folhas de madeira, folhas das +mangas do jaleco, etc. + +Explicae-vos, pois, de modo, que todos fiquem sabendo a quaes folhas +alludis. + +E.--A nenhuma das que citastes. As folhas, que estamos vendo, são folhas +do livro. + +P.--Cada uma folha de livro tem duas faces; sabeis que nome se lhes +costuma dar? + +E.--É costume chamar-lhes _paginas_. + +P.--A primeira e ultima folha dos livros, nas quaes nada ha escripto, e +que ás vezes são de papel pintado, como se chamam? + +E.--Não sei. + +P.--Qual de vós outros me póde responder? + +(Silencio). + +P.--Chamam-se _guardas_, porque estão ali, como que para defenderem as +folhas impressas da acção da poeira, dos insectos e das impurezas dos +ledores menos aceiados. + +Ha tambem nos livros _ante-rôsto_ e _rôsto_. Fazei mercê de m'os +indicar. + +E.--O _ante-rosto_ deve de ser esta folha escripta só de um lado, e que +diz apenas: «Quadros de historia portugueza» o _rosto_ deve de ser a +folha, que se segue immediatamente ao ante-rosto, tambem só de um lado +escripta. + +P.--Que significam essas duas palavras: _ante-rôsto_? + +E.--Parece-me que querem dizer: folha, que antecede a do rôsto. + +P.--Exactamente. Sabeis que outro nome se dá á folha do rôsto? + +E.--_Frontispicio_. + +P.--Desejava saber por que ao frontispicio chamam tambem, rôsto. Se +algum de vós me poder esclarecer, far-me-ha muito obsequio, satisfazendo +o meu desejo. + +E.--Eu não sei; não sei; eu tambem não. + +P.--Parece-me que não ha de ser necessario irmos a Coimbra, para +explicar similhante bagatella. + +E.--Bagatella!? + +P.--Ides ver se o é, ou não. Como se chama esta parte do nosso corpo? +(Apontando o rôsto). + +E.--_Cara_. + +P.--Não tem outro nome? + +E.--_Semblante_. + +P.--Não tem outro nome? + +E.--_Face_. + +P.--Não tem ainda outro nome? + +E.--Ah! Chama-se _rosto_. + +P.--Que quiz dizer esse ah!? + +E.--Já sabemos porque ao frontispicio dos livros se chama tambem rôsto. + +P.--Se sabeis, dizei-m'o. + +E.--Chamam-lhe rôsto, por que em a gente olhando para aquella folha, +logo conhece o livro, como conhece uma pessoa, em lhe vendo a cara. + +P.--Para conhecer um livro, isto é, para saber de que trata, parece-me +que não é indispensavel examinar-lhe o rôsto; bastará ler o titulo, ou +ante-rôsto. + +E.--Não é exactamente o mesmo, para tomar conhecimento de um livro, ler +o titulo ou o ante-rôsto, ou o rôsto, porque este indica muitas mais +cousas, que aquelles. + +P.--Dizei quaes são. + +E.--O titulo da obra por extenso, o nome todo do auctor, a typographia, +a terra onde foi impresso e até o anno. + +P.--Bravo! bravo! sr. estudante, muito bem. As vossas respostas +animam-me. Dizei-me se o papel, de que são feitos os livros, é uma +substancia natural, isto é, que se encontre feita, como se encontra a +pedra, a agua, a madeira, o barro, a areia, ou se é um producto da arte, +quero dizer, feito pelo homem. + +E.--É producto da arte. + +P.--Já alguem vos disse de que é fabricado o papel. + +E.--Não, senhor. + +P.--Quereis saber? + +E.--Se queremos.... + +P.--Fabrica-se de trapos de linho, canamo, e algodão. + +E.--De trapos?! + +P.--Sim, de trapos. + +E.--Eu pensava que os trapos não prestavam para nada! + +P.--Qual é a cousa, que não tem algum prestimo? Os trapos, que vós +despresaveis, e tinheis em conta de nada, são uma riqueza, e prestam +grandissimo serviço á industria, ás artes, ás sciencias e á moral. São +um instrumento indirecto do progresso da humanidade. + +E.--Como se faz o papel? + +P.--Não posso agora satisfazer a vossa louvavel curiosidade. É muito +complexo o seu fabríco para que vol-o possa expor de modo, que d'elle +fiqueis fazendo perfeita ideia; em vós tendo mais alguns conhecimentos +eu vol-o indicarei por miudo. + +E.--O papel é todo da mesma qualidade? + +P.--Não é; e aqui tendes a prova (O professor mostra á escola papel de +imprimir, papel de escrever, de filtrar, de embrulho, de seda, pintado, +etc. e vae indicando os nomes de cada um). São de differentes tamanhos +estas folhas. A grandeza de cada uma indica-se pela palavra _formato_, a +qual tambem se emprega para representar a grandeza dos livros e jornaes. + +E.--Para que tem este livro na parte inferior da pagina do rôsto a +palavra «_Lisboa_»? + +P.--Já se disse que é para mostrar a terra em que foi impresso. + +E.--Os livros são impressos? + +P.--Não se riam os meninos, que sabem uma cousa, quando outro, que a +ignora, se quer illustrar, e pede que lh'a ensinem. + +Ha livros escriptos de mão, como este (Mostra um livro, ou caderno +manuscripto) e muitos existem nas bibliothecas; dizem-se _manuscriptos_. +Actualmente, porém, a maioria, a quasi totalidade dos livros são +_impressos_ isto é, são feitos com estas lettras de metal, a que +chamâmos _typos_. Eil-os. (O professor toma um componedor, poderá ser +dos que usam os compositores de bilhetes de visita e compôe algumas +palavras). Vou compor uma linha, para que vejaes, como se compoem os +livros. + +E.--E isto (Apontando o componedor) como se chama? + +P.--_Com-po-ne-dor_. + +E.--Ha de ser necessario molhar essas lettrinhas em tinta; quereis que +vamos buscar o tinteiro? + +P.--A tinta, de que se servem para imprimir, não é a de que usâmos para +escrever. É feita com outras materias muito differentes, e chama-se +_tinta de impressão_. Aqui tenho um bocadinho n'esta caixa. Com esta +_bala_ mólho os typos; ides vêr como as palavras ficam impressas no +papel (O professor executa o que vae dizendo). Estou fazendo de +typographo. + +E.--_Typographo_? O que quer isso dizer? + +P.--Typographo é o artista, que se occupa em juntar os typos uns aos +outros, para formar as palavras, e estas entre si, para fazer as linhas, +e as linhas para completar as paginas, e as paginas para concluir uma +_folha de impressão_. + +E.--_Folha de impressão_ não é o mesmo que a folha de um livro? + +P.--_Folha de impressão_ é isto. (Mostra uma folha de impressão). + +E.--Os livros são impressos como vós agora imprimistes essa linha? + +P.--Não, meu menino; nas _typographias_ ha apparelhos para imprimir, aos +quaes chamamos _prélos_. + +E.--Fallastes em _typographias_; o que é typographia? + +P.--É a officina onde se compõem e imprimem livros, jornaes, e outros +papeis. Tambem se chama _imprensa_? + +E.--Estou vendo sr. professor, que não é só na lombada que os livros tem +algarismos, tambem os tem no alto das paginas. + +P.--Resta saber para que elles ahi foram postos. + +E.--Foram aqui postos para com facilidade se poder achar e indicar +qualquer passagem do livro. + +P.--Para concluirmos este intertenimento, far-lhes-hei mais uma +pergunta. Como todas as cousas tem nome é provavel que tambem o tenham +essas porções em branco, que cercam, em cada pagina, a parte central +impressa; qual será elle? + +E.--Estas porções das paginas chamam-se _margens_. + +P.--Optimamente. + + * * * * * + +Dos poucos exemplos, que ahi ficam expostos, poderão inferir a utilidade +e attractivos do ensino intuitivo as pessoas, que d'elle não tenham +ainda conhecimento. Cerrando este livro, que escrevemos com sincero +desejo de servir a educação e instrucção, devemos declarar, porque é de +justiça que assim o façâmos, que na Escola normal do sexo masculino, em +Marvilla, de que foi director e professor o intelligente e laborioso sr. +Luiz Filippe Leite, com cuja amizade nos honrâmos, se ensinou muito e +bem pelo methodo intuitivo, que em mãos tão habeis como as do sr. Leite +e seu irmão o sr. Pedro Leite, de certo produziu optimos resultados, de +que sentimos não poder dar aqui minuciosa noticia. + + + + +INDICE + + + + Pag. + +Carta do auctor ao Ex.^{mo} Sr. Conselheiro José Silvestre Ribeiro 5 +O Ensino intuitivo 9 +Primeira lição 60 +Segunda lição 72 +Terceira lição 79 +Quarta lição 92 +Quinta lição 97 +Sexta lição 106 +Setima lição 113 + + + + + + +Obras á venda na loja de livros de Ferreira, Lisboa & C.^a, 132, rua do +Ouro, 134, Lisboa + + + O PAE NOVO, commentario ou interpretação das dez _Eclogas_ ou + _Bucolicas_ de Publio Virgilio Maro, 1 vol. br. 1$000 + + NATIVIDADE (J. A. C. da)--Fundamento de analyse grammatical e de + estylo, e de composição de themas, 1 vol. br. 650 + + SYNOPSES e apontamentos grammaticaes para facilitar a analyse das + orações aos alumnos de instrucção primaria e aos do 1.^o anno de + portuguez, 1 vol. cart. 200 + + TAVARES (H.)--Principios geraes de arithmetica, e systema metrico, 1 + vol. br. 60 + + DIAS (J. A.)--Synopse das religiões e seitas etc., 1 vol. br. 500 + + » --Nova Grammatica franceza, 2.^a edição br. 300 + + » --Novissima Grammatica ingleza, 1 vol. br. 480 + + BALMES (D. Jayme)--Elementos de Logica, 1 vol. br. 300 + + METHODO ZABA para o estudo da Historia Universal, com mappa + chronologico, chave e taboa de exercicio, 1 vol. br. 200 + + MARÇAL A. DE CARVALHO--Problemas de Algebra, 1 vol. br. 500 + + CHAGAS (M. P.)--Portuguezes illustres, 2.^a edição, 1 vol. br. 200 + + FRADESSO DA SILVEIRA (J. H.)--Estudos, 1 vol. br. 500 + + Neste volume agrupou o auctor, oito interessantes artigos em que se + expõem as questões mais momentosas da estadistica; como instrucção + primaria e professional, associações de soccorros, exposições, + fazenda, etc. etc. + + M. M.--Exercicios de cacographia portugueza, br. 100 + + MACEDO (J. Tavares de)--Elementos de Orthographia portugueza, + br. 80 + + BAPTISTA (A. M.)--Algumas considerações sobre as diversas fórmas + comparativas e superlativas da lingua portugueza, br. 80 + + + + +Á VENDA +NA MESMA LIVRARIA + + +132--RUA AUREA--134 + + + Telles (J. J. de Sousa)--Annuario portuguez scientifico, litterario + e artistico---1863, broch. 1$000 + + Simões (Dr. Augusto Filippe)--Erros e preconceitos da educação + physica, 1 vol. _charp._ broch. 400 + + Noirlieu (Abbade Martinho)--Biblia da mocidade, historia do antigo e + novo testamento. Approvada pelo conselho geral de instrucção + publica, para uso das escolas, 1 vol. _cart._ 240 + + Barata (Antonio Francisco)--Estudos da lingua portugueza, 2.^a + edição accrescentada e conforme ao programma official de portuguez, + br. 350 + + Fradesso da Silveira--(J. H.) Compendio do novo systema legal de + pesos e medidas, 4.^a edição, broch. 240 + + Guedes (J. R.)--Curso de physica elementar. Nova edição, 3 vol., com + gravuras, broch. 2$400 + + Guedes (J. R.)--Curso de historia natural elementar, 1 vol., com + gravuras, broch. 1$500 + + Lopes (J. J.)--Taboada methodica dos rudimentos de arithmetica, + broch. 200 + + Rodrigues (J. Julio)--Mineralogia, 1. vol. broch. 200 + + Vidal (A. A. de Pina)--Curso de meteorologia, 1 vol. broch. 600 + + Viale (A. J.)--Novo epitome de historia de portugal, adoptado pelo + conselho geral de instrucção publica, 1 vol. broch. 200 + + +Lisboa--Typ. Universal--1873 + + + + +Notas: + + +[1] Ácerca d'este assumpto, bem como de muitos outros pontos da +linguagem portugueza consulte-se a _Orthographia portugueza e missão dos +livros elementares_, correspondencia official relativa ao «Iris +Classico» pelo sr. Conselheiro José Feliciano de Castilho Barreto e +Noronha. Edição do Rio de Janeiro. N'este livro, que é um verdadeiro +thesouro de bôa doutrina, esplende a intelligencia e erudição de um dos +escriptores nacionaes, que mais honram as nossas lettras. Pena é que +poucos em Portugal conheçam obra de tanto merito. + +[2] Temos visto muitas vezes nas escolas estarem as crianças a ler com +os livros nos joelhos, o tronco recurvado e a bocca quasi perpendicular +ao horisonte. Aquella postura prejudica a saude, difficulta a emissão da +voz, cança em pouco tempo o ledor, e não o deixa vêr os acenos do +mestre, tendentes a dirigil-o no andamento, pausas, intonações, etc. + +[3] Braun Exercices par intuition, ou Questionaire a l'usage des ecoles +gardiennas, etc. Bruxelles--1865. + +C. Mayo--Lecciones sobre objetos destinados para niños de cinco a ocho +años, traducidas del orijinal inglés. Madrid--1849. + +Foi nosso primeiro intento trasladar para este livro _ipsis verbis_ as +primeiras lições dos dois afamados professores; por motivos, porém, que +escusado é expor, resolvemos tomar d'ellas apenas os liniamentos, +redigindo-as a nosso modo. + +[4] Expressão popular e grosseira, que vale tanto como: Elle te +castigará severamente. + +[5] N'estes primeiros exercicios vão as respostas, que provavelmente os +estudantinhos darão aos professores; nos outros, as respostas +poder-se-hão deduzir das _Exposições_, que anteporemos a cada exercicio. +Como estes livrinhos não são exclusivamente para os professores, os +quaes de certo possuem sufficiente cabedal de conhecimentos, mas para +mães, paes, e outros educadores menos preparados para o ensino, +pareceu-nos de muita conveniencia subministrar-lhes os indispensaveis +subsidios nas _Exposições_, as quaes dispensarão, até certo ponto o +estudo nos livros dos assumptos dos exercicios. + +[6] O dialogo aqui traçado para um, deverá ser ampliado e sustentado com +todos os estudantes, que tiverem entrado ao mesmo tempo, havendo o maior +disvelo em tornal-o quanto possivel deleitavel e variado. + +[7] Parece á primeira vista mui pequeno o prestimo do _quadro preto_ +n'uma aula, e na realidade é muito util. Convem que todas as aulas de +meninos e meninas o tenham; e que d'elle se sirvam amiudadas vezes +professores e discipulos para os exercicios de soletração, orthographia, +analyse, arithmetica, desenho, etc. + +[8] Não se estranhe o emprego da palavra geringonça. As creancinhas são +faceis de contentar; alegram-se e riem com o simples emprego de palavras +menos triviaes, e proseguem mais contentes no estudo. Se ao +explicar-lhes as regras elementares da syntaxe o professor lhes der o +seguinte exemplo: O sol é brilhante, escrevem-n'o e analysam-n'o sem +enthusiasmo; se o professor lhes disser: O gato é manhoso, riem, +alegram-se e atiram-se á analyse da oração de muito boa vontade. Ainda +que estas e outras particularidades do ensino infantil pareçam aos +sabios puras insignificancias, não as desprese o mestre, que tiver a +peito o progresso dos pequeninos. + +[9] Dividimos a palavra «cavallete» sem attender á regra orthographica, +que manda repartir as consoantes dobradas pelas duas syllabas, para não +falsearmos a pronunciação; se assim não fizessemos, teriamos: +Ca-val-le-te, que se não diz, nem poderia razoavelmente dizer-se. + +[10] Desculpe-se-nos que insistamos em aconselhar aos mestres, que não +sejam avaros de louvores, quando os estudantes os merecerem. É um grande +incitamento o applauso para o que o recebe e para os que o presenceiam. + +[11] Novamente declarâmos que estas lições não são traduzidas, mas quasi +exclusivamente nossas. + +[12] Todos estes nomes se dão á substancia, de que nas aulas se servem +para apagar os traços, que o lapis deixa no papel. Aos meninos será +conveniente indical-a pelo nome de _borracha_, porque é o mais +commummente usado. Mais tarde se lhes dirá que nem este, nem o de _gomma +elastica_ se deveriam empregar. Como hoje se usa muito do caoutchouc +vulcanisado, tenham os professores a cautela de apresentarem para a +lição, o escuro, isto é, o que não está combinado com enxofre. + +[13] Esta lição vem apenas apontada no livro do professor Mayo. + +[14] Quasi todos os objectos, que eram feitos de caoutchouc simples, são +agora fabricados com a mesma substancia _vulcanisada_, isto é combinada +com certa quantidade de enxofre, e por tanto differente na côr, no +cheiro, e em outras propriedades do caoutchouc extreme. Se algum menino +reparar na differença e fizer pergunta a tal respeito, dir-lhe-ha o +professor o bastante para esclarecel-o, attendendo ao que atraz +recommendámos, que não se trate a fundo de cousas para entender as quaes +as crianças não estejam preparadas. + +[15] Esta lição vem apenas indicada no livro do professor Mayo. + +[16] Recommendam Madame Marie Pape Carpentier e outros pedagogistas, que +se tratem as criancinhas com toda a delicadeza, que em vez de se lhes +ordenar que façam uma cousa, se lhes peça por favor que a executem, e +que, se lhes agradeça com urbanidade o terem satisfeito os nossos +pedidos. Este modo de proceder com os pequeninos tem tres grandes +vantagens: desenvolve nos meninos o sentimento da propria dignidade, +captiva a sua benevolencia, e acostuma-os a serem delicados. + +[17] Não é para desprezar, no ensino das crianças, este innocente meio +de lhes excitar a curiosidade, tenteando ao mesmo tempo o prazer, ou +enfado, de que estejam tomadas. + +[18] O fim d'este exemplo não é ensinar philologia ás criancinhas, mas +il-as habituando a distinguir nas palavras as «radicaes», cujo valor +mais tarde perceberão. O termo «familia» tome-se como synonimo de +aggregado de palavras em que a idéa representada pela radical é a mesma. + +[19] Não se define o quadrado, porque os estudantes não sabem ainda o +que seja angulo, e menos o que seja angulo recto. + +[20] A lettra E, inicial de estudante, não está n'estas lições indicando +um só e sempre o mesmo estudante; mas o estudante, a que o professor +julga conveniente dirigir-se. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+-----------------------+-------------------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+-----------------------+-------------------------------+ + |#pág. 20| Jenuense | Genuense* | + |#pág. 20| dizia | relembrava a regra de Ovidio* | + |#pág. 31| cujos componente | cujos componentes | + |#pág. 45| lahios | labios | + |#pág. 51| _impanho imprestar_ | _impanho_, _imprestar_ | + |#pág. 52| o que emende | a que emende | + |#pág. 58| comportamente | comportamento | + |#pág. 85| praticular | particular | + |#pág. 112| cubica | cubica) | + | | | | + |#nota 14| ontras | outras | + +----------+-----------------------+-------------------------------+ + +* corrigido de acordo com notas/erratas fornecidas no livro. + + + + + +End of Project Gutenberg's Ensino intuitivo, by João José de Sousa Telles + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENSINO INTUITIVO *** + +***** This file should be named 33817-8.txt or 33817-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/8/1/33817/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/33817-8.zip b/33817-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4c41d13 --- /dev/null +++ b/33817-8.zip diff --git a/33817-h.zip b/33817-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..812ecd1 --- /dev/null +++ b/33817-h.zip diff --git a/33817-h/33817-h.htm b/33817-h/33817-h.htm new file mode 100644 index 0000000..dca7577 --- /dev/null +++ b/33817-h/33817-h.htm @@ -0,0 +1,10546 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Ensino Intuitivo</title> + + + <meta content="João José de Sousa Telles" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {max-width: 80%; margin-left:10%; margin-right:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.quote {margin-left:10%;} +.quote1 {margin-left:40%; +text-align: center;} +.pagenum { position: absolute; right: 5%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Ensino intuitivo, by João José de Sousa Telles + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Ensino intuitivo + livro destinado às mães e paes de familia e às professoras + e professores de instrucção primária + +Author: João José de Sousa Telles + +Release Date: September 28, 2010 [EBook #33817] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENSINO INTUITIVO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Setembro 2010) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h2>ENSINO INTUITIVO +</h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h3><br /> + +LIVRO DESTINADO ÁS MÃES<br /> + +<br /> + +E<br /> + +<br /> + +PAES DE FAMILIA +</h3> + +<br /> + +<h5>E ÁS<br /> + +</h5> + +<h4> +PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA<br /> + +<br /> + +POR +</h4> + +<h3> +JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES +</h3> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Socio honorario +da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da +Sociedade Pharmaceutica Lusitana +<br /> + +</div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">PROFESSOR DE PORTUGUEZ E +INTRODUCÇÃO Á +HISTORIA +NATURAL +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4> +LISBOA<br /> + +<br /> + +FERREIRA, LISBOA & C.<sup>a</sup><br /> + +132—Rua Aurea—134<br /> + +<br /> + +1873 +</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>ENSINO INTUITIVO</h1> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>ENSINO INTUITIVO</h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h3><br /> + +LIVRO DESTINADO ÁS MÃES<br /> + +<br /> + +E<br /> + +<br /> + +PAES DE FAMILIA +</h3> + +<br /> + +<h5>E ÁS<br /> + +</h5> + +<h4> +PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA<br /> + +<br /> + +POR +</h4> + +<h3> +JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES +</h3> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Socio honorario +da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da +Sociedade Pharmaceutica Lusitana +<br /> + +</div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">PROFESSOR DE PORTUGUEZ E +INTRODUCÇÃO Á +HISTORIA +NATURAL +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4> +LISBOA<br /> + +<br /> + +FERREIRA, LISBOA & C.<sup>a</sup><br /> + +132—Rua Aurea—134<br /> + +<br /> + +1873 +</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">LISBOA +<br /> + +<br /> + +TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES +IMPRESSOR DA CASA REAL +<br /> + +<br /> + +110—Rua dos Calafates<br /> + +</div> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><a name="c1" id="c1"></a>Ill.<sup>mo</sup> +e Ex.<sup>mo</sup> Sr. +Conselheiro José Silvestre Ribeiro +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Ha annos, ouvindo os louvores, que á intelligencia e +probidade +de V. Ex.<sup>a</sup> tecia um dos mais peregrinos talentos +de Portugal, o grande poeta, hoje Visconde de Castilho, +senti irresistivel desejo de ler os escriptos de V. Ex.<sup>a</sup> +e de o +conhecer em pessoa. Dessedentei-me agradavelmente e com +muito proveito, nas numerosas paginas, que da penna de +V. Ex.<sup>a</sup> haviam saido, umas reunidas em volumes, +outras +espalhadas pelos periodicos, todas porém rescendendo +suave e, digamos assim, castissimo perfume de natural bondade +e heroicas virtudes, qualidades que para mim valem +muito mais que toda a erudição, e que +realçam sobremodo +a que v. ex.<sup>a</sup> possue vastissima, +colhida no incessante +estudo de quantos engenhos famosos tem opulentado as +sciencias, as artes e a litteratura. +<br /> + +<br /> + +Já eu, havia muito, conversava com V. Ex.<sup>a</sup> +em espirito +e me reputava seu discipulo amicissimo, quando tive a boa +fortuna de fallar a V. Ex.<sup>a</sup> e de ser por V. Ex.<sup>a</sup> +acolhido +com a benevolencia, que lhe conquista a sympathia de +quantos o tratam. +<br /> + +<br /> + +Data d'esse dia a nossa amizade, confiado na qual ouso +offerecer a V. Ex.<sup>a</sup> este livro modestissimo, que +se alguma +cousa vale é pela boa fé com que foi escripto. +<br /> + +<br /> + +É sympathico o assumpto; creio que é mais um +brado +pedindo a tão necessaria reforma do ensino infantil e +primario +na casa paterna e na escola, que tão pouco tem +ainda de paternal. Será perdido, como os que o viajante +extraviado soltaria no deserto, implorando o favor dos homens? +Talvez. +<br /> + +<br /> + +Incessantemente ha clamado o nosso probo amigo o Sr. +Visconde de Castilho, e nem aquella potentissima intelligencia, +nem aquella phrase, que nos faz acreditar a fabula de +Orphêo, nem a auctoridade d'aquella quasi +intuição do bom +e do bello ha conseguido, que amanheça para as criancinhas +o dia da sua regeneração intellectual. +<br /> + +<br /> + +Não serei eu mais feliz; mas dar-me-hei por bem pago +do trabalho, que puz em escrever estas paginas, se uma +só mãe, que seja, ou um só mestre, +aproveitar os conselhos, +que lhes dou, e se, quando mais não obtenha, uma +criancinha me dever algumas lagrimas de menos e algum +bom ensinamento a mais. +<br /> + +<br /> + +Associando o nome illustre e venerando de V. Ex.<sup>a</sup> +a esta +obrinha, imito o bom do Aimé Martin e posso dizer a V.<sup>a</sup> +Ex.<sup>a</sup> +o que elle disse ao mavioso Lamartine. +<br /> + +<br /> + +En vous offrant ce livre, je n'ai qu'un but, c'est de rattacher +mes paroles aux vôtres, c'est d'étayer leur +faiblesse +de votre force, ma raison de votre raison. Je veux qu'on +dise un jour: Ceux-ci ont connu les veritables biens, ils se +rencontrèrent dans la même foi, ils +s'aimèrent devant le +même Dieu.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote1"> +De V. Ex.<sup>a</sup> +<br /> + +<br /> + +Admirador muito amigo +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">João José de +Sousa +Telles</span>. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">Lisboa 7 de julho de 1873.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c2" id="c2"></a>ENSINO +INTUITIVO +</h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O livro, que hoje publicâmos, é uma tentativa +modesta de acclimação de uma idéa +excellente, que +lá por fóra tem produzido optimos resultados. +<br /> + +<br /> + +Applaudem-na unanimes os mais insignes pedagogistas +inglezes, allemães, americanos, francezes, +e belgas; e ainda que tantos homens competentissimos +em assumptos de ensino e educação nol-a +não apregoassem famosa, bastaria a simples +enunciação +d'ella, para que enthusiasticamente a adoptassemos. +<br /> + +<br /> + +Antes, porém, de expôrmos minudenciosamente +a idéa nova, e nova lhe chamâmos attendendo ao +pouco que se tem vulgarisado em Portugal, de razão +nos parece conversarmos amigavelmente com +o leitor ácerca de alguns pontos da +educação e +instrucção elementar. +<br /> + +<br /> + +É a educação da puericia e da +juventude a mais +gloriosa e ao mesmo tempo a mais difficil +obrigação, +que Deus impoz ao homem e á mulher. +<br /> + +<br /> + +Á luz da philosophia e da moral, a paternidade +<span class="pagenum">[10]</span> +e a maternidade consistem menos em gerar o infante, +do que em desenvolver-lhe e aperfeiçoar-lhe +incessantemente as faculdades da alma e do corpo, +até que possa cumprir os seus deveres e arrostar +as contrariedades da vida na curta, mas trabalhosa +peregrinação, que principia no berço e +acaba no +tumulo. +<br /> + +<br /> + +Incumbe, pois, aos paes empregar todos os meios +ao seu alcance, para que os filhos, creaturinhas imbelles, +que a Providencia confiou a seus cuidados, +cheguem no mais curto espaço de tempo, e pelo +emprego de processos razoaveis, amenos, e repassados +de amor e ternura ao estado de perfeição +physica, intellectual e moral, que constitue o homem, +tal qual deve ser, tal qual Deus quer que +elle seja, tal qual a sociedade bem organisada o +requer, para obreiro prestadio da civilisação. +<br /> + +<br /> + +Infelizmente, nem todos os paes conhecem os +seus deveres; e dos que os conhecem, muitissimos +ha, que os não cumprem, ou por modo mui imperfeito +se desempenham d'elles. +<br /> + +<br /> + +D'esta ignorancia e negligencia funestissimas provem +os maiores males, que affligem a humanidade, +males para os quaes a maior parte das vezes não +ha remedio. +<br /> + +<br /> + +Tratando de assumpto differente, disse um douto, +que muitas descobertas se poderiam fazer, se +opportunamente perguntassemos: <em>Por +que?</em> Appliquemos +o engenhoso e facil processo de Arago ao +exame das causas determinantes de alguns vicios +<span class="pagenum">[11]</span> +sociaes, e convencer-nos-hemos de quão exacta é a +nossa asserção. +<br /> + +<br /> + +Estamos na via publica. De toda a parte se nos +apresentam creanças esfarrapadas, semi-nuas, esqualidas, +famintas, petulantes; revolvem-se umas +na lama e no pó; dormem outras, tiritando, á +chuva e ao vento; estas divagam estendendo a mão +asquerosa e pedindo uma esmola aos que passam; +aquellas soltam dos labios rosados palavras, que +fazem enrubecer os que as ouvem. +<br /> + +<br /> + +Chamae-as, e perguntae-lhes quem alli as deixou, +flôres no esterquilinio, passarinhos implumes entre +abutres esfaimados, anjos manchando as azas +na sujidade das calçadas. +<br /> + +<br /> + +Responder-vos-hão: Nossas mães e nossos paes. +<br /> + +<br /> + +Ides vosso caminho, alegre, tranquillo, olhando +em redor, vendo prepassar trens sumptuosos, soberbos +cavallos, mulheres elegantes, homens felizes +e descuidósos. Chega-vos aos ouvidos um echo, +um gemido, um choro infantil; olhaes... +<br /> + +<br /> + +Que vêdes? +<br /> + +<br /> + +Na soleira de um portal, vestida em uns andrajos, +quasi morta de fome e de frio uma criancinha, +cujas faces, em vez de serem orvalhadas pelas lagrimas +da materna alegria, e aquecidas pelos beijos +fervidos da que lhe deu a existencia, se humedecem +com as lagrimas da amargura infantil. +<br /> + +<br /> + +Levantae o pobresinho, apertae-o contra o peito, +osculae aquella carinha de jasmim e rosas, e perguntae-lhe: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> +Anjo meu, que barbaros te deixaram aqui abandonado? +<br /> + +<br /> + +E a innocencia vos responderá, não com palavras, +que as não sabe ainda articular, mas com ternissimos +soluços: +<br /> + +<br /> + +Abandonou-me meu pae e minha mãe. +<br /> + +<br /> + +Além vae caminho do cemiterio, a tumba, que +andou de porta em porta recolhendo os miseros, +cujas familias não poderam coalhar o bastante para +o modesto funeral dos seus parentes. +<br /> + +<br /> + +Fazei-a parar; mandae que a abram; olhae para +dentro. +<br /> + +<br /> + +Horror! exclamareis vós ao ver por entre os +adultos exanimes, em sacrilego desarranjo, um +bando de creanças quasi esqueletos, rachiticas, chagadas, +meio apodrecidas, com signaes evidentes +de terem vindo ao mundo com o estigma da morte +profundamente gravado nas frontes innocentes. +<br /> + +<br /> + +Martyres obscuros, podereis vós dizer-lhes, para +quem o mundo não teve nem uma corôa, nem uma +palma; estrellas cadentes, que brilhastes um momento +e desapparecestes n'um eterno occaso; quem +assim vos macerou os corpinhos, e vos deu a beber +o fel da morte ao alvorecer da vida? +<br /> + +<br /> + +E a mudez sombria d'aquellas florinhas envenenadas +na hastea, e emurchecidas antes de desabrocharem, +responderá: +<br /> + +<br /> + +Nossos paes e nossas mães. +<br /> + +<br /> + +Vêdes aquelle peralvilho, aquelle afeminado, todo +pomadas, todo essencias, gesto insolente, olhar altivo +<span class="pagenum">[13]</span> +e desdenhoso, que vae rindo e galhofando com +outros da sua ralé. +<br /> + +<br /> + +Parou, fazem-lhe roda, applaudem-n'o outros +taes. Que bocadinhos de oiro estará elle a dizer? +<br /> + +<br /> + +Escutae-o. +<br /> + +<br /> + +Mófa da religião, que desconhece; insulta os +sacerdotes, +que acertam de passar junto d'elle; escandalisa +as donzellas; zomba dos anciãos; aos +pobres, em vez de os esmolar, despede-os insolente. +<br /> + +<br /> + +Indagae como tão cedo se depravou aquelle moço, +que deveria estar ainda sentado no banco da escola. +<br /> + +<br /> + +Dir-vos-hão que á incuria paterna deve elle toda +a sua ruina. +<br /> + +<br /> + +Entrae no templo a presencear as augustas ceremonias, +que rememoram a angustiosa paixão e +morte do grande amigo da humanidade. +<br /> + +<br /> + +Que observaes? +<br /> + +<br /> + +A turba irreverente, descomposta, sacrilega, +rindo, conversando, ostentando galas, trocando +gracejos, costas para os altares, olhares distrahidos, +attitudes grosseiras e vilans. +<br /> + +<br /> + +Quantas preces saem d'aquelles labios? Que pensamentos +povoam aquellas mentes? Que piedosos +affectos existem em tantos corações? +Escandalisa-vos +o desacato? Quereis saber porque na egreja +estão, como não poderiam estar na casa da opera? +<br /> + +<br /> + +Chamae de banda um dos levianos e perguntae-lhe +o que lhe hão dito seus paes da grandiosa tragedia +do Calvario; do incruento sacrificio, que a +<span class="pagenum">[14]</span> +representa, da respeitabilidade do altar, do valor +das preces humildes e sinceras? +<br /> + +<br /> + +Responder-vos-ha, sorrindo: +<br /> + +<br /> + +Não vos comprehendo; meus paes nunca me fallaram +d'essas coisas. +<br /> + +<br /> + +Que vozearia é aquella? Porque tantos gritos, tamanho +borborinho? +<br /> + +<br /> + +Ergue-se um homem mal trajado, e arenga á +turba. +<br /> + +<br /> + +Poucas palavras tem dito, e já uns o applaudem +phreneticos, já outros o vituperam enfurecidos. +<br /> + +<br /> + +É o povo soberano, que usa e abusa de seus direitos. +A onda encapellada das ruins paixões sobe, +sobe, invade a improvisada tribuna e derruba o +Demosthenes improvisado. +<br /> + +<br /> + +Todos fallam, todos proclamam a idéa nova. +<br /> + +<br /> + +Ouçamol-os. +<br /> + +<br /> + +Abaixo os padres, não precisâmos d'elles; abaixo +a religião, que para nada presta; acabemos com a +propriedade, os ricos só querem beber-nos o sangue; +viva o communismo, grita um; viva o socialismo, +que é melhor, responde outro; nada, nada +d'isso, venha a republica. +<br /> + +<br /> + +Acabemos com os tributos e seremos felizes; e +o exercito para que serve? Elimine-se o exercito. +<br /> + +<br /> + +Pedi instrucção, pedi ensino facil, bom, +universal, +escolas primarias a cada canto, bibliothecas populares, +livros optimos ao alcance de todos no preço +e no estylo; pedi moralidade, diz com voz firme e +<span class="pagenum">[15]</span> +sonora um operario, fronte ampla, respeitaveis +cans, rosto sereno, mão calejada pelo trabalho. +<br /> + +<br /> + +Fóra com o visionario brada a turba. +<br /> + +<br /> + +Que quer dizer instrucção? Para que servem os +livros? Para que prestam as escolas? regouga +um miseravel, em cujo rosto se retrata a ignorancia +e occiosidade; e bradando á turba, após si a leva +cançada, mas não saciada de disparatar. +<br /> + +<br /> + +Dirigi-vos ao operario honesto e prudente e informae-vos +de quem sejam aquelles doidos. +<br /> + +<br /> + +Uns infelizes, dirá elle, bons +corações, más cabeças. +Pobresinhos todos; porém mais pobres de +instrucção +que de dinheiro, porque todos tem aptidão +para o trabalho, mas a todos faltou a educação. +Não +tiveram paes, como eu felizmente tive, que os mandassem +ensinar. A mór parte nem ler sabem, nem +fazer o seu nome. Se lhes fordes perguntar o que +seja republica, socialismo, communismo, salario, +religião, exercito, á boa fé vos +affirmo que não +poderão responder coisa que geito tenha. +<br /> + +<br /> + +Mas deixemos estes homens, nem todos maus; +muitos bonissimos, desvairados pela febre ardente +de antigos e profundos padecimentos, que buscam +a verdade e o bem, como os alchimistas da idade +media, por meios absurdos e inconvenientes, mas +que tem a coragem de affrontar os perigos, de sacrificar +a propria vida, e de soffrer com a resignação +dos martyres dos primeiros seculos do christianismo +esses hediondos supplicios, a que ainda +<span class="pagenum">[16]</span> +hoje o mundo civilisado assiste com profunda magoa +e indignação. +<br /> + +<br /> + +Volvamos os olhos para aquell'outros. +<br /> + +<br /> + +D'onde vem? +<br /> + +<br /> + +Das enxovias. +<br /> + +<br /> + +Para onde vão? +<br /> + +<br /> + +Para o degredo. +<br /> + +<br /> + +Homens, mulheres, crianças! Deixam a patria, os +amigos, as familias, os formosos campos, onde nasceram, +este céo tão puro, este sol tão +esplendido, +este clima tão amoravel, este abençoado e +feracissimo +torrão, para irem em paizes inhospitos luctar +com a morte opprobriosa, ralados de saudades, roidos +de remorsos, despreziveis aos olhos de todos, e +condemnados pela voz implacavel da propria consciencia. +<br /> + +<br /> + +Vãm alli assassinos, sacrilegos, perjuros, fratercidas, +patrecidas, ladrões, incendiarios; todos os +crimes, todas as torpezas, todas as infamias, o lodo +asqueroso de todas as humanas miserias, as trevas +da ignorancia preversa, a lepra do grande corpo +social. +<br /> + +<br /> + +Ponde os olhos n'aquelle quadro, mães e paes. +<br /> + +<br /> + +Não interrogueis os que o crime despenhou; não +insulteis a desgraça; não amargureis mais +aquelles +corações devastados e corroidos pelo crime, onde +poderá haver ainda alguma fibra incorrupta e sensivel; +mas perguntae a vós mesmos que +educação +receberam aquelles miseros de seus progenitores? +que sorrisos e carinhos lhes cercaram os berços? +<span class="pagenum">[17]</span> +que palavras ouviram aquelles entes ao entrar na +vida? que exemplos tiveram para seguir? quaes as +escolas, a que os mandaram? que affectos semeiaram +n'aquelles corações? quantas vezes lhes apontaram +para o céo e lhes fallaram de Deus? que +noções +lhes deram da verdade, da justiça, da honra, +do dever? que meios empregaram para lapidarem +aquelles diamantes? que processo adoptaram para +desinvolver-lhes a intelligencia? +<br /> + +<br /> + +E se não acertardes com as respostas a estas e +a muitas outras perguntas, que o caso suscita, +ide-vos por essas cidades, e villas, e aldeias, e +povoados e indagae a historia de cada um d'aquelles +infelizes. Raro achareis que se prevertesse +o que dos paes houvesse recebido desvelada +educação. +<br /> + +<br /> + +Mas o que é educação desvelada? +<br /> + +<br /> + +Eis o ponto importantissimo, para o qual chamâmos +a attenção de todos. Não o +desenvolveremos +aqui. Assumpto é para um livro, e já larga e +proficientemente +tratado por grandes mestres da sciencia +de educar. +<br /> + +<br /> + +Diremos apenas, que muitos paes e mestres ha, +por desgraça nossa e d'elles, que não +comprehendem +nem a extensão, nem a intensidade da palavra +educar. +<br /> + +<br /> + +Para uns educar é crear, é nutrir o animal, +é +desenvolver-lhe o physico; e nem sempre conforme +os dictames da medicina e da hygiene. +<br /> + +<br /> + +Para outros educar é iniciar a criança nas Para +outros educar é iniciar a criança nas regras +<span class="pagenum">[18]</span> +mais elementares da leitura, da escripta, da contabilidade +e de uma arte ou officio. +<br /> + +<br /> + +Não falta quem se vanglorie de ter educado bem, +excellentemente, seus filhos, por que lhes deu mestres +de linguas antigas e modernas, de geographia, +de historia, de philosophia e de muitas outras cousas +mais. +<br /> + +<br /> + +Tal se orgulha de ver o herdeiro de seu nome +sair laureado de uma escola ou academia e entrar +na sociedade precedido da fama de optimo estudante. +Tal outro se julga em paz com a sua consciencia +e se tem por excellente educador, porque +o mancebo, cujos primeiros estudos dirigiu, das columnas +de um jornal assombra o mundo com seus +artigos, ou deleita as turbas com versos, que reputa +mais correctos e melodiosos que os de Camões, +Garrett ou Castilho. +<br /> + +<br /> + +E consistirá em tão pouco a sciencia difficilima +de educar? +<br /> + +<br /> + +Não, mil vezes não. +<br /> + +<br /> + +Que vale ao homem, a quem Deus concedeu uma +certa porção de intelligencia, susceptivel de +indefinido +desenvolvimento, crescer e medrar no physico, +permanecendo-lhe embryonaria a melhor das +faculdades? Que vale ao homem, que poderia elevar-se +pelo estudo, pela leitura, pela applicação das +potencias da alma e vir a ser um poderoso auxiliar +do progresso da humanidade, qualquer que +fosse a sua posição social, saber apenas os +primeiros +rudimentos das artes de aprender, e tanto pela +<span class="pagenum">[19]</span> +superficie, que nem d'elles se possa servir, a não +ser nos mais simples usos da vida? +<br /> + +<br /> + +Quantos e quantos dos que cursaram as escolas +e as academias, e n'ellas se distinguiram, tiveram +mais trabalho em debellar os erros da educação +elementar do que em arcar com as difficuldades, +e segredos das sciencias superiores? +<br /> + +<br /> + +E quantos não vem dos institutos scientificos +imperfeitamente instruidos, não por culpa dos mestres, +nem d'elles mesmos, mas pela incuria e +ignorancia dos paes e dos primeiros educadores? +<br /> + +<br /> + +Todos os homens intelligentes, que tem consagrado +a vida ao magisterio superior, reconhecem e +confessariam, se quizessem, que a falta de cultivo +intellectual nas edades tenras difficulta extremamente +aos estudantes a comprehensão das sciencias, +e os inhabilita para tirarem dos cursos mais +bem delineados as vantagens, que d'elles poderiam +obter. +<br /> + +<br /> + +D'ahi a meia sciencia, as ideas falsas, a confusão +dos principios, a impossibilidade das grandes +concepções, a timidez na +applicação pratica, o desamor +do estudo, que fecunda o que nas aulas se +ouviu, e a propensão para a preguiça, que se +contenta +com o pouco cabedal adquirido e não busca +grangear mais. +<br /> + +<br /> + +Se das escolas superiores passarmos ás secundarias, +encontraremos as mesmas causas produzindo +os mesmos effeitos; e dir-nos-hão os professores +intelligentes e zelosos, que das mãos dos paes +<span class="pagenum"><a name="p20" id="p20">[20]</a></span> +e dos primarios educadores, receberam a mór parte +dos alumnos com os olhos do espirito tão cerrados +ainda, que de todo desconheciam as verdades +mais elementares e intuitivas, os phenomenos mais +simples e intelligiveis, as relações mais claras. +<br /> + +<br /> + +Na escola primaria, o professor instruido, que +comprehenda quanto tem de nobre e grandioso o +seu ministerio, em apparencia tão humilde, na +realidade tão augusto; que considere na criança o +homem e no homem o futuro todo inteiro da humanidade; +que abranja com a vista o largo horisonte +das criaturinhas, que o rodeiam, e que deseje +dissipar as trevas d'aquelles entendimentos +com luz tenue e suave, como convem a edades infantis, +tem ainda a luctar com os defeitos da educação +domestica, que devendo ser a primeira, a +mais engenhosa, a mais insistente, e mais efficaz, +é muitas vezes nulla, muitas quasi nulla e quasi +sempre deficiente. +<br /> + +<br /> + +E se o que vamos dizendo se applica em cheio +á educação das faculdades +intellectuaes da puericia, +que são ainda assim, as que os paes de ordinario +mais appetecem ver desenvolvidas nos filhos, +outro tanto se póde asseverar da +educação physica +e moral. +<br /> + +<br /> + +Conhecida a doença, urge accudir-lhe com o remedio. +Já o bom do <a href="#e1">Genuense</a>, +mestre de nossos paes, +mestre de muitos de nós outros, que hoje ensinamos +e que suppômos ter alguma valia, e tão +injustamente +esquecido e mettido para o canto, <a href="#e2">relembrava +a regra de Ovidio</a>: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[21]</span> +<em>Principiis obsta, sero medecina paratur, cum +mala per longas invaluére moras.</em> +<br /> + +<br /> + +«Acode ao doente apenas a molestia dê o primeiro +rebate; que de nada lhe prestará o remedio, +tardio.» +<br /> + +<br /> + +E haverá remedios, que prestem para os males +de que enferma a educação elementar? +<br /> + +<br /> + +Ha, e muitos; o caso está em applicar-lh'os a +tempo e judiciosamente. +<br /> + +<br /> + +Não todos apontaremos aqui, porque não +é este +livrinho um tratado de pedagogia, mas tão sómente +um, que valerá por muitos. +<br /> + +<br /> + +É remedio barato, condicção esta que +não é para +desprezar; de facil manipulação; composto de +simples, +que por toda a parte e a toda a hora se acham; +e por cima de tudo isto, tão agradavel, que em vez +de lhe fazerem caretas, os que o devem tomar, o +appetecem e pedem sequiosos e nunca fartos de +saboreal-o. +<br /> + +<br /> + +É este remedio o <em>Ensino +intuitivo</em>. +<br /> + +<br /> + +Para applical-o, diga-se já e bem alta e claramente, +nem todos servem. Em mãos de ignorantes +converte-se em veneno, e em vez de beneficios, +só produz males. +<br /> + +<br /> + +É indispensavel, pois, que paes e mestres, que +hajam de o empregar, possuam profundo e variado +cabedal de conhecimentos. +<br /> + +<br /> + +Antes, porém, de entrarmos a dizer o que este +ensino seja, convem que nos lembremos das +condicções +organicas, physiologicas e intellectuaes das +crianças. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[22]</span> +É o infante um organismo em via de +formação, +incompleto, fransino, em que a vida animal consiste +quasi exclusivamente no movimento tumultuoso, +na expansão incessante, na assimilação +continua. +<br /> + +<br /> + +Abriu os olhos ha pouco, e ainda não teve tempo +de ver bem o grandioso espectaculo da natureza, +cujos protentos o deslumbram; descerraram-se-lhe +hontem os ouvidos, e por isso lhe echoam lá dentro, +ainda confusas, as harmonias, os ruidos, as palavras, +que mal percebe; aspira sofrego os aromas, +que rescendem as flores, mas não os distingue; +saborêa o nectar, mas quererá tambem provar o +fél e degustar o absintho; apalpa enlevado a pelle +assetinada e suavissima das faces maternas, mas +queimar-se-ha incauto na chama da véla, que admira, +sem a comprehender. +<br /> + +<br /> + +No intimo, na cabeça, cujos óssos ainda se +não +consolidaram completamente, no coração, que +palpita +violento, jorrando sangue para todo o corpo, +começam de germinar as idéas e os affectos, cuja +elaboração de hora para hora, de dia para dia, de +mez para mez se complica, e transmitte com incrivel +velocidade. +<br /> + +<br /> + +São dois mundos luctando atravez do fragil envolucro, +que chamâmos corpo; o mundo externo, +cujos variadissimos factos contempla attonito sem +suspeitar que os determinam infinitas leis, que os +encadeam reciprocamente innumeras relações, e +que sobre elle actuam incessantemente: o mundo +interior, o mundo dos sentimentos, das ideas, dos +<span class="pagenum">[23]</span> +affectos, cuja admiravel genese começa, e que ha +de irromper atravez dos sentidos, e reagir violento +sobre os modificadores de fóra. +<br /> + +<br /> + +A creança porque é um ente material, que tende +a completar-se, carece de muita alimentação, de +muito sol, de muito e bom ar, de muito movimento, +de liberdade, e de sensações variadas, mas +suaves, que a deleitem, e que attraiam a sua +attenção. +<br /> + +<br /> + +Se todas ou algumas d'estas condicções lhe +faltarem +vel-a-heis extinguir-se subito, como a luz +de uma véla á mingua de oxigenio; ou estiolar-se +e pender para o tumulo, onde não tardará a +sumir-se, +como a planta, que germinou em solo arido +e assombrado. +<br /> + +<br /> + +Como creatura intelligente e moral, necessita que +lhe dirijam e robusteçam as faculdades, á +proporção +que se forem desenvolvendo, ministrando-lhes +objectos apropriados ás forças das mesmas +faculdades, +e em quantidade tal, que nem as cancem, +nem as desgostem. +<br /> + +<br /> + +No desprezo d'estes principios está, a nosso ver, +o primeiro e mais funesto erro do actual systema +da educação infantil. +<br /> + +<br /> + +Na maxima parte das escolas da puericia entram +quotidianamente as criancinhas faltas do indispensavel +alimento, e alli se conservam largas horas em +casas estreitas sombrias e mal ventiladas, respirando +ar infecto, inhibidas de fazer os movimentos, +que a sua edade imperiosamente reclama, sem +<span class="pagenum">[24]</span> +horisontes extensos e ridentes, que as alegrem, +sem nada que as encante e lhes deleite os sentidos. +<br /> + +<br /> + +O mestre, senão carrancudo e severo, é quasi +sempre sufficientemente serio e concentrado, para +não lhes incutir a confiança e amôr, +que são os +mais suaves e ao mesmo tempo os mais fortes +laços, que prendem o discipulo ao perceptor. +<br /> + +<br /> + +Começa a lição. Não ha +canticos, nem musicas, +nem exercicios gymnasticos, nem historiasinhas, +que alegrem aquelles corações e instruam aquellas +mentes nas coisas, que com maior facilidade +poderiam comprehender. +<br /> + +<br /> + +Para os mais pequeninos, para aquelles que mais +se lembram ainda dos beijos maternaes e das doçuras +da casa paterna, o triste e monotono a, b, c, +as aridas columnas do syllabario, e a empyrica taboada. +Para os mais crescidinhos, a grammatica, +a historia patria, a chorographia, a doutrina christã. +<br /> + +<br /> + +Que percebem os pobres infantes de tudo aquillo, +que involuntariamente decoram, e machinalmente +repetem? +<br /> + +<br /> + +Nada, ou quasi nada. +<br /> + +<br /> + +Tomae d'entre os alumnos de uma escola o mais +adiantado, o mais estudioso, o que mais talento +revele, e interrogae-o. Ouvil-o-heis repetir o compendio, +máo ou bom, com certa facilidade e elegancia; +mas se lhe perguntardes o sentido de uma +palavra, a razão de um facto, vel-o-heis córar e +emudecer, porque a elle, o estudante eximio, deixaram +<span class="pagenum">[25]</span> +sempre em pousío as mais nobres faculdades +da alma, excitando-lhe apenas, e ainda assim +por um processo defeituoso, a faculdade auxiliar, +a memoria. +<br /> + +<br /> + +Olhar com seriedade para a educação e +instrucção +da infancia, e reformal-a completamente, adequando-a +ás edades dos estudantinhos, e tornando-lh'a +facilima, deleitavel, e todo o ponto util, é +não só necessidade urgente, senão +dever impreterivel. +<br /> + +<br /> + +O primeiro passo para esta grande reformação, +que o bom senso, a sciencia, a caridade, e o interesse +de todos nós estão ha muito a pedir a +grandes brados, dar-se-ha quando os governos, +os municipios, as associações e os particulares +se +resolverem a edificar casas para escolas infantís, +e primarias, espaçosas, alegres, agasalhadas, com +o seu jardim, meio descoberto, meio assombrado +com arvoredo, tendo no centro um pequeno lago +ou tanque e aos lados alguns apparelhos e jogos +gymnasticos; quando a frequencia da escola infantil, +preparo para a primaria, fôr obrigatoria; quando +o ensino da infancia fôr esclusivamente confiado a +mulheres intelligentes, instruidas, honestas e amoraveis, +que do coração se consagrem ao ministerio +sacratissimo de educadoras, e que a todos os discipulos, +amem e acarinhem, como se fossem todos +elles seus filhos queridos; e quando finalmente o +<em>Ensino intuitivo</em> se tornar +obrigatorio e exclusivo +nas escolas infantís; e obrigatorio, como auxiliar +<span class="pagenum">[26]</span> +de qualquer outro, nas escolas primarias e secundarias. +<br /> + +<br /> + +Muitos annos hão de decorrer, infelizmente, primeiro +que se realizem estes nossos alvitres. Levantar-se-hão +contra elles os ramerraneiros, os +enthusiastas do passado, os indifferentes, os que +não crêem no aperfeiçoamento humano +começado +a operar na escola infantil, os que só vêem a +prosperidade +publica, no exercito, nas estradas, nos +caminhos de ferro, nos telegraphos electricos, nas +escolas superiores, nas academias, e nos museos, +como se tudo isto não estivesse a pedir, para ser +verdadeiramente util, muita e sólida +instrucção no +povo, muita moralidade, e muito amor ao trabalho, +e como se estas indispensaveis qualidades as podesse +ter uma nação, onde não ha escolas +infantís, +onde as escolas primarias são pouquissimas e defeituosas, +onde os methodos de ensino são ruins, +e onde os professores, muitos d'elles dignissimos +e habeis, são tão vergonhosamente retribuidos, +que +para pobrissimamente viverem, têm de se occupar +em misteres totalmente alheios do ensino e +educação. +<br /> + +<br /> + +Muitos annos, repetimos, hão de decorrer primeiro +que os exemplos da America, generosissima +com a instrucção primaria, sejam imitados na +extrema +Europa. +<br /> + +<br /> + +Não o quer o <em>deficit</em>, +exclamarão os financeiros, +e applaudil-os-hão todos os que mais ou menos +manuseam o orçamento do estado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[27]</span> +Se a indole d'este escripto o permittisse, facil +nos seria impugnar esta nefasta e incessante +invocação +da pobreza publica, e mostrar que em Portugal +o que falta, e muito, é verdadeiro patriotismo, +é sincera vontade de progredir, é a iniciativa +individual nos arrojados commettimentos, caracteristicos +dos povos, que comprehendem os seus deveres +de membros da grande familia social e que +os não pospõe aos seus interesses particulares. +<br /> + +<br /> + +Colhâmos, porém, as vélas ás +considerações, que +todos estes assumptos nos suggeriram, e entremos +já a dizer o que seja o <em>Ensino +intuitivo</em>, e as vantagens +que d'elle resultam. +<br /> + +<br /> + +Todos os que lidam com crianças terão percebido +que nas primeiras idades é o homem dominado +incessante e invencivelmente pela curiosidade, +ou desejo de saber; que para saciar esta +inclinação +empregam os infantes não só os olhos, mas os +outros sentidos; que ao verem um objecto, mórmente +se lhes agrada, ficam diante d'elle como que +absortos, com os olhos mui abertos, ás vezes quasi +sem pestanejar; que se lh'o consentem, tomam nas +mãosinhas o que primeiro estiveram vendo, e o +apalpam, a principio com timidez, depois com afoiteza; +que o levam ao nariz, e á bocca, e que por +fim começam de separar as partes de que se +compõe, +se não é inteiriço. +<br /> + +<br /> + +Apoz tal exame, e ás vezes simultaneamente, +chovem as perguntas: +<br /> + +<br /> + +O que é isto? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[28]</span> +Quem fez? +<br /> + +<br /> + +De que é? +<br /> + +<br /> + +Para que serve? +<br /> + +<br /> + +Quem trouxe? +<br /> + +<br /> + +Terão tambem observado os educadores, que n'estes +exercicios instinctivos, as criancinhas, em geral, +não comparam, nem por consequencia raciocinam. +Fazem como as abelhas, que andam de planta em +planta, de flôr em flôr, colligindo os materiaes +com +que mais tarde hão de fabricar o seu mel. Com a +differença +que as abelhas nasceram aptas para aquella +industria e nunca em vez de mel nos dão outro produto; +e as criancinhas, artistas novéis, mas livres +e dotadas de intelligencia perfectivel, podem pela +maneira imperfeita porque as suas faculdades intellectuaes +e moraes se começarem a desenvolver, +e continuarem a exercer-se, viciar de tal arte o espirito, +que de futuro ou nada possam conhecer +bem, ou só com extrema difficuldade e grande dispendio +de tempo. +<br /> + +<br /> + +Em aproveitar as naturaes tendencias da infancia +e juventude, em amenisar-lhe o começo da extensa +e espinhosa senda, que tem de percorrer na +vida, em desenvolver-lhes e aperfeiçoar-lhes gradual +e insensivelmente as faculdades; em enriquecer-lhes +de copiosos e variadissimos conhecimentos o espirito; +em formar-lhes o coração, desenvolvendo n'elle +astuciosamente o gosto do bom, do bello e do verdadeiro; +em habilital-as o mais cedo possivel, sem +a minima violencia, para a vida pratica, deixando +<span class="pagenum">[29]</span> +para tempo opportuno theorias e systemas, para +comprehender os quaes é mister intelligencia robusta, +é em que consiste o <em>Ensino +intuitivo</em>. +<br /> + +<br /> + +É este ensino primeiro que tudo dos sentidos +externos, os quaes á maneira que se vão exercendo +sobre os objectos, para lançarem no espirito os germes +de quantas sciencias e artes ha, se aperfeiçoam +insensivelmente, adquirindo cada dia mais +vigor e aptidão. +<br /> + +<br /> + +É pois indispensavel que os educadores procurem +especialmente que as criancinhas empreguem +os sentidos, ora simultanea, ora successivamente, +nas cousas que tenham de estudar, que as vejam +de perto, que as tomem nas mãos, que as cheirem, +que as provem, quando não houver inconveniente, +que as dividam e recomponham, sem que +se lembrem de que estão a estudar. +<br /> + +<br /> + +Tudo servirá para estes exercicios intuitivos, se +o educador tiver instrucção variada e profunda. +Tudo servirá, por que, como disse Jacotot: +<em>Tudo +está em tudo</em>. +<br /> + +<br /> + +Um grão de areia, um alfinete, uma agulha, +um botão, um palito, uma moeda de prata ou +cobre, a folha de uma arvore, um bago de uva, +serão compendios tão importantes como um cavallo, +uma ave, um peixe, um relogio, uma caixa +de musica, ou uma machina de cozer. +<br /> + +<br /> + +Milhares de cousas baratissimas se poderão apresentar +aos estudantinhos para larguissimamente os +instruir; muitissimas haverá em todas as casas, +<span class="pagenum">[30]</span> +taes como cadeiras, mezas, pennas, papeis de differentes +qualidades, flôres, fructos, relogios, thesouras, +campainhas, etc. De um sem numero de +objectos se poderão obter modelos em ponto pequeno +ou de madeira ou de papelão, ou de qualquer +outra substancia apropriada. Na falta absoluta +de exemplares naturaes, que são os melhores, +ou de copias em vulto, que servem perfeitamente, +sendo bem feitas, empregar-se-hão com +muita vantagem estampas coloridas ou em negro. +O que deve ser banido das escolas infantís é o +syllabario, a taboada, o cathecismo, a grammatica, +o compendio de chorographia e o de civilidade. +Da exposição, exame e +comparação das coisas ou +das estampas, segundo o processo que já vamos +indicar, é que as crianças hão de ir +colhendo as +idéas exactas e claras, que depois saberão +associar +ás mil maravilhas, formando espontaneamente optimos +juizos e raciocinios. +<br /> + +<br /> + +Tratando das viagens de Homero e do estudo +pratico das pessoas e cousas, que habilitou o immortal +filho de Climene a compôr os protentos litterarios +denominados <em>Iliada</em> e +<em>Odysséa</em>, diz +Bitaubé +o seguinte, que é a expressão da verdade: +«Os livros +são uteis, mas favorecem certa indolencia, que +obsta a que o leitor observe por si mesmo; lendo, +vemos a maior parte das cousas pelos olhos dos outros, +e representâmos ao nosso espirito imagens de +outras imagens; se observassemos directamente os +objectos graval-os-hiamos mais profunda e claramente +<span class="pagenum"><a name="p31" id="p31">[31]</a></span> +no espirito. Qual é o resultado da falta de +observação directa? É perdermos a +perspicacia e +sagacidade indispensaveis para observar com +perfeição +á força de não as exercitarmos e de +não contemplarmos +a natureza, excellente mestra, que jámais +se deve despresar. Adquirem-se é verdade, +mais idéas, mas imperfeitas e superficiaes, de que +resultam quadros frios e incompletos.» +<br /> + +<br /> + +Todos os pedagogistas, que se teem occupado +d'este systema de ensino, encarecem o proveito +que se tira da substituição dos livros de texto, +que +os meninos decoram sem os entender, pelas estampas, +que muito os deleitam e que examinam attentos, +colhendo das palavras do educador, a proposito +de cada uma, infinitos conhecimentos, que +jámais esquecerão. +<br /> + +<br /> + +É mister, porém, que as estampas sejam mui +perfeitas, para que não viciem nas crianças o +gosto +do bello e da verdade, e que sejam graduaes, como +tudo deve ser na educação. A regra fundamental +do ensino intuitivo, a qual nunca deve esquecer é: +<em>Caminhar do conhecido para o desconhecido, do +facil para o difficil, do commum e trivial para o +menos commum ou mais raro</em>. +<br /> + +<br /> + +Para realisar este preceito maximo, cujo despreso +annularia o systema, convirá que os educadores +não entretenham seus discipulos com objectos +tomados ao acaso, mas que sigam um processo +gradual, lento e invariavel, nunca lhes chamando +a attenção para cousas, <a href="#e3">cujos +componentes</a> +<span class="pagenum">[32]</span> +elles ainda não conheçam, nem lhes fazendo +perguntas +para responder ás quaes não estejam habilitados. +Dêmos alguns exemplos. Se praticarmos +com mocinhos a respeito de uma caixa de +pinho, que estejam vendo, poderemos convenientemente +perguntar-lhes o feitio que tem, as partes +de que se compõe, para que serve a tampa, +para que estão ali as argolas e a fechadura; poderemos +interrogal-os ácerca dos usos da caixa, fallar-lhes +do perigo de entalar os dedos quando a +fecharmos, ou de nos ferimos se a tampa cair sobre +as nossas mãos ou cabeça; poderemos ainda indagar +se sabem o nome que se dá aos artistas, que +trabalham em madeira; mas não lhe fallaremos do +pinho, sem que elles tenham visto um pinheiro natural +ou pintado, e a respeito d'esta arvore tenham +adquirido os convenientes conhecimentos. +<br /> + +<br /> + +Se conversarmos ácerca de uma moeda de prata, +bom será perguntar-lhes como se chama aquelle +dinheiro, de que é feito, que feitio tem, por que +não é quadrado, nem triangular (aqui +fará o professor +com o giz no quadro preto a figura do triangulo +e do quadrado), o que tem n'uma e outra +face, que representa a effigie e as armas, para que +serve o dinheiro, etc., etc.; mas abster-nos-hemos +de lhes dizer que a prata da moeda é uma liga de +prata e cobre, se por acaso ainda não souberem o +que é uma liga metallica, nem conhecerem o cobre. +<br /> + +<br /> + +Convém estar prevenido para um caso, que muitas +vezes se deve realisar na pratica d'este ensino. +<span class="pagenum">[33]</span> +A natural prespicacia de alguns meninos e os conhecimentos +adquiridos na convivencia de seus +paes e amigos ou na leitura, se forem já ledores, +habilital-os-hão a fazerem perguntas, a que o educador +não poderá ou não saberá +responder. Quando +isto aconteça, nem se enfade ou envergonhe o educador, +nem illuda a curiosidade infantil, que de +tanto serve n'este systema. Se a pergunta versar +sobre assumpto, que o mestre ignore completamente +ou conheça pouco, isso mesmo declare ao estudante +com toda a franqueza; se fôr attinente a cousas, para +conhecer as quaes o mocinho não esteja preparado, +ou que toquem em pontos, que a decencia não +permitta explanar, diga-lhe sem desabrimento, que +não é tempo ainda de saber o que pergunta. +<br /> + +<br /> + +E para que nem o credito scientifico do educador +soffra detrimento, nem os meninos se desgostem +e abstenham de perguntar, bom será que o +educador a miudo lhes mostre em phrase accommodada +ás suas intelligencias, e por meio de exemplos, +quão numerosos são os conhecimentos humanos, +que é impossivel que todos saibam tudo, +e que, para adquirir sciencia de bons quilates, é +indispensavel ir a pouco e pouco, e não investigar +certas cousas, antes de ter adquirido noções +exactas +de outras. +<br /> + +<br /> + +Para que o ensino intuitivo produsa todos os +bons resultados que d'elle se podem esperar, não +basta progredir do conhecido para o desconhecido, +do simples para o composto; é indispensavel que +<span class="pagenum">[34]</span> +os alumnos não conheçam o plano adoptado pelo +professor, e que não percebam que o que elle lhes +vae ensinando tende a um determinado fim e se +ajusta para os iniciar nas sciencias, cujas leis e +applicações +mais importantes só mais tarde terão de +estudar. Para a realisação d'este importante +segredo +do ensino intuitivo, iremos nós offerecendo aos educadores +em publicações successivas, se esta nossa +tentativa merecer o favor publico, as lições +graduaes, +que deverão constituir um curso completo. +<br /> + +<br /> + +Recommendam os mestres d'esta especialidade, +no intuito de não enfadar os estudantes e de os conservar +attentos, que cada lição não exceda +quinze +ou vinte minutos. Diremos, porém, que a pratica +nos tem mostrado poder ás vezes a +lição prolongar-se +até duas horas e mais, sem que os estudantes +se enfastiem nem deixem de attender ao +que se lhes mostra e explica. Consegue-se este resultado +amenisando a pratica com historietas, de +que os meninos muito gostam, com exemplos, que +elles bem comprehendam, com a citação de +proverbios, +anexins, e anecdotas consoantes ao assumpto +de que se trata, e mais que tudo com +o dialogo mui cortado entre elles e o professor. +<br /> + +<br /> + +Haja sempre n'estas lições a maxima variedade +apparente, tanto no objecto do estudo como na +fórma, no dizer, nas conclusões e até +na collocação +dos objectos e dos estudantes. A monotonia, a ordem, +além de certos limites, entristece a escola e +cança os escolares. A par do ensino das cousas +andará +<span class="pagenum">[35]</span> +sempre o ensino da moral, da hygiene, da +economia domestica, da religião, da +organisação +social, da historia, da geographia, das bellas artes, +de tudo; com preferencia do mais util; mas +sem estudos de cór, sem declamações, +nem theorias +transcendentes, nem listas de nomes de pessoas, +nem datas escusadas; tudo ao de leve, saboroso, +convidativo, e nem assim em grandes dozes, +nem todos os dias. +<br /> + +<br /> + +Permitta-se-nos que ponhamos aqui dois exemplos +de como se deverá proceder n'estes pontos, +e não os tenham na conta de ridiculos, que nada +é ridiculo, quando se trata de espedregar a estrada, +que ha de precorrer a puericia. +<br /> + +<br /> + +Estamos na escola, estudando um objecto qualquer. +Ouve-se ganir um cão na rua. Logo o professor +interrompe o estudo, e pergunta a um dos +escolares, se algum vir distraido, a esse se dirigirá: +<br /> + +<br /> + +P.—Que é aquillo, alli, na rua? +<br /> + +<br /> + +E.—É um cão a ganir, +responderá o +estudante; +e o dialogo proseguirá, pouco mais ou menos, do +seguinte modo: +<br /> + +<br /> + +P.—O cão está ganindo ou ladrando? +<br /> + +<br /> + +E.—Está a ganir. +<br /> + +<br /> + +P.—Quantas qualidades de sons ou vozes produzem +os cães com a bocca? +<br /> + +<br /> + +E.—Não percebo a pergunta. +<br /> + +<br /> + +P.—Eu me explico. Os cães não +estão +sempre +calados... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[36]</span> +E.—Já percebo o que o senhor professor pergunta. +Os cães <em>ladram</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—E quando estão tristes, ou quando ouvem +certos sons, que lhes não agradam, ladram? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor, <em>uivam</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—E quando estão a roer um ôsso, e +outro +cão ou qualquer pessoa lh'o quer tirar, o que fazem? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Rosnam</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—E se lhes batem, ou os apedrejam? +<br /> + +<br /> + +E.—Põem-se a <em>ganir</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Mui bem; os cães, pois, podem +<em>ladrar</em>, ou +<em>latir</em>, +<em>rosnar</em>, +<em>uivar</em>, e +<em>ganir</em>. +<br /> + +<br /> + +Aqui, se os meninos tiverem já conhecimentos +de grammatica, dirá o professor como de si para +comsigo, mas em voz alta: aqui temos cinco verbos, +e repetirá, contando pelos dedos ou batendo +com o lapis na mesa: o verbo <em>ladrar</em>, +o verbo <em>latir</em>, +o verbo <em>rosnar</em>, o verbo +<em>uivar</em> e o verbo +<em>ganir</em>. +<br /> + +<br /> + +E continuará, como quem se está recordando do +que aprendeu: palavras que representam acções +praticadas ou feitas pelo cão. +<br /> + +<br /> + +E logo, como quem se desviou do caminho direito +e a elle volve, dirá ao alumno: +<br /> + +<br /> + +P.—Tenho ouvido dizer a algumas pessoas, que +o <em>uivo</em> dos cães +é de mau agouro, isto é, que um +cão a uivar annuncia desgraça. Será +verdade? +<br /> + +<br /> + +E.—A minha avó diz que sim, que é +signal de +estar alguem para morrer. +<br /> + +<br /> + +P.—Essa resposta esperava eu. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[37]</span> +Pois fiquem os meninos sabendo, que não ha +agouros, e que <em>uivar</em> um +cão, ou <em>cantar</em> um +canario, +ou <em>relinchar</em> um cavallo, ou +<em>piar</em> um mocho, +ou <em>cacarejar</em> uma gallinha, ou +<em>miar</em> um gato não +tem influencia nenhuma nos acontecimentos humanos. +<br /> + +<br /> + +E.—Á minha casa vae uma velhinha, que, em +ouvindo uivar um cão, descalça o sapato e +põe-n'o +com a sola para cima, até o animal se calar. +<br /> + +<br /> + +P.—Se os cães uivarem muito em roda d'ella +no inverno, andará sempre com os pés frios. +<br /> + +<br /> + +E.—Então a minha avó mente? +<br /> + +<br /> + +P.—Mente, sem querer. Metteram-lhe uma peta +na cabeça, e ella acredita uma cousa, que não +é verdadeira. +<br /> + +<br /> + +E.—Ora diga-me, senhor professor, se uma pessoa +estiver para morrer e um cão se puzer a +<em>uivar</em> +na rua ou na escada? +<br /> + +<br /> + +P.—O doente morrerá, se Deus quizer que +morra; e viverá, se fôr da vontade divina, que +continue a viver. +<br /> + +<br /> + +E.—Mas como se explica o que aconteceu o +anno passado a um visinho de meu papá? +<br /> + +<br /> + +P.—Conte-me lá essa historia tentim por tentim. +<br /> + +<br /> + +E.—Adoeceu um homem, que morava no primeiro +andar do predio, em que eu habito; veiu o +medico, esteve a examinal-o, receitou, disse que a +doença não era de perigo, e saïu. +Minutos depois +metteu-se na escada um cão e principiou a uivar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[38]</span> +A mulher do doente foi-se a elle, bateu-lhe com +o cabo da vassoura e pol-o na rua. Quando entrou +em casa, estava o marido morto em cima da cama. +<br /> + +<br /> + +P.—Sabe o menino o que isso foi? +<br /> + +<br /> + +E.—Eu não senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Pois tem pouco que saber. Foi o que se +chama <em>uma coincidencia</em>. Se +á saïda do medico, entrasse +pela casa dentro um passarinho, dir-se-ia, +que a avesinha viera annunciar aquella desgraça; +se eu por acaso batesse á porta do doente n'aquelle +instante, era eu o agoureiro. +<br /> + +<br /> + +E.—Mas o medico tinha dito, que a doença +não +era de perigo. +<br /> + +<br /> + +P.—E a morte repentina pressente-se horas, ou +minutos antes? E não podem os proprios medicos +morrer de repente, sem que suspeitassem o que +lhes ia acontecer? +<br /> + +<br /> + +E.—Mas o cão uivou! +<br /> + +<br /> + +P.—Diga-me ca o menino uma cousa. Em casa +d'esse homem, que falleceu, não tem estado mais +ninguem doente? +<br /> + +<br /> + +E.—Estiveram doentes dois filhos. +<br /> + +<br /> + +P.—E a mãe mandou chamar medico para os +tratar? +<br /> + +<br /> + +E.—Mandou, sim, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—E não mandou chamar um cão? +<br /> + +<br /> + +E.—Ora essa! Os cães não sabem curar +doenças. +<br /> + +<br /> + +P.—Mas o cão, que uivou, quando o homem +morreu, era mais entendido que o medico, porque +<span class="pagenum">[39]</span> +annunciou a morte, até sem vêr o doente. +<br /> + +<br /> + +E.—O senhor professor está brincando! Os +cães +são brutos, não sabem d'aquellas cousas. +<br /> + +<br /> + +P.—Então como é isso? Não +sabem +d'aquellas +cousas, são brutos, e prophetisam? +<br /> + +<br /> + +E.—Tem razão, senhor professor. Agora vejo +que a minha avósinha anda enganada. +<br /> + +<br /> + +P.—E muito, e faz mal em dizer taes patranhas. +O uivo dos cães é desagradavel aos ouvidos, +aborrecivel por isso, mas não tem a minima +significação. +<br /> + +<br /> + +Aqui poderá o educador dar fim ao incidente, +ou continuar o dialogo, fallando do mau costume +de molestar os animaes, das qualidades do cão, +da raiva e dos meios de a prevenir e curar, etc, +etc. +<br /> + +<br /> + +Ao terminar a lição poderá o educador +convidar +ou os meninos a imitarem o relincho do cavallo, o +carejo das gallinhas, o miar dos gatos, o latido dos +cães, etc. +<br /> + +<br /> + +Este exercicio que a algum fatuo parecerá ridiculo, +ou desnecessario, ou ambas as cousas, tem +as seguintes vantagens: alegra e distrae as creanças, +que jámais fugirão do estudo, quando elle +fôr +recreativo, desenvolve-lhes, e aperfeiçôa-lhes a +natural +tendencia para imitarem, exercita-lhes e robustece-lhes +os orgãos vocaes, e por cima de tudo +não faz mal nem á alma nem ao corpo. +<br /> + +<br /> + +Quem reparar bem no dialogo que deixâmos architectado, +descobrirá quanto ensinamento ha n'elle, +<span class="pagenum">[40]</span> +e perceberá que se pretendeu principalmente combater +uma crença erronea, mas vulgarissima. +<br /> + +<br /> + +Dêmos o segundo exemplo. +<br /> + +<br /> + +Está sobre a mesa ou em cima de outro movel +um ramalhete de flores, que alli se puzéra mui +calculadamente. +<br /> + +<br /> + +Chegada a occasião opportuna, o professor interrompe +a lição e diz: +<br /> + +<br /> + +Meus meninos, descancemos um pouco. Aqui se +faz uma pausa, e todos os rapazinhos exultam e +saltam dos seus logares. +<br /> + +<br /> + +P.—Já viram bem aquelle ramalhete? +<br /> + +<br /> + +E.—Ainda não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Pois vão buscal-o, para o examinarmos por +miúdo. +<br /> + +<br /> + +E.—Eil-o aqui. +<br /> + +<br /> + +P.—De que flores se compõe? +<br /> + +<br /> + +E.—De rosas, cravos, camelias, junquilhos, violetas +e cedro. +<br /> + +<br /> + +Se os meninos errarem o nome das flores, ou +os não souberem, irá o professor emendando e +dizendo +lhes como se chamam. +<br /> + +<br /> + +P.—Menino F... (ao que mais atrazado estiver +em contar) conte pelos dedos quantas qualidades +de flôres ha n'este ramalhete. +<br /> + +<br /> + +E.—Rosas, <em>uma</em>; cravos, +<em>duas</em>; camelias, +<em>tres</em>; +junquilhos, <em>quatro</em>; violetas, +<em>cinco</em>; cedro, +<em>seis</em>... +Ha seis qualidades de flôres. +<br /> + +<br /> + +P.—Parece-me que se enganou. Veja bem. +<br /> + +<br /> + +E.—São seis, não me enganei. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[41]</span> +P.—E se eu lhe disser que se enganou? E enganou-se, +porque não attendeu bem. Diga-me, o +cedro é flôr? +<br /> + +<br /> + +E.—Tem razão; são cinco. O cedro +não +é flôr. +<br /> + +<br /> + +P.—Está-me parecendo, que nenhum dos meninos +me sabe dizer para que serve este cedro á +roda das flôres. +<br /> + +<br /> + +E.—Eu não sei; eu tambem não; +é, é.... +<br /> + +<br /> + +P.—Eu lhes digo para que elle aqui está. +É +para realçar a belleza das flôres, para fazer um +contraste agradavel á vista. Se duvidam desatem +o junco, tirem o cedro, e verão que o ramalhete +perde muito da sua formosura. (Acto continuo, o +educador faz o que aconselhou e mostra o ramo +desguarnecido de verdura). +<br /> + +<br /> + +P.—É ou não é verdade, o que +lhes +affirmei? +<br /> + +<br /> + +E.—É verdade. +<br /> + +<br /> + +P.—Ha entre estas flôres, umas que cheiram, e +outras que não cheiram. +<br /> + +<br /> + +E.—As rosas, cheiram; os junquilhos, cheiram; +as violetas, tambem; as camelias é que não tem +cheiro. +<br /> + +<br /> + +P.—Não me lembro se já lhes disse como +se +denominam as substancias, que tem cheiro? +<br /> + +<br /> + +E.—Denominam-se <em>odoriferas</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—E as que não teem cheiro? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Inodoras</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—E todas as substancias, que tem cheiro, +cheiram bem? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[42]</span> +P.—E todas as flôres cheirosas, possuem cheiro +agradavel? +<br /> + +<br /> + +E.—Nem todas. +<br /> + +<br /> + +P.—Digam-me agora outra cousa. O cheiro das +flôres é bom ou mau, para a saude? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sabemos. +<br /> + +<br /> + +P.—Pois vão saber uma verdade, que +jámais +devem esquecer. Attendam. Ha pessoas a quem o +arôma das flôres incommoda e faz adoecer; +causa-lhes +dôres de cabeça, enjôos de estomago, +tonturas, +e outros padecimentos. Muitas flôres, e ás vezes +poucas, mas de cheiro forte, n'uma casa mal +ventilada, podem envenenar quem alli estiver. Dormir +com flôres na alcôva é muito perigoso, e +sabe +Deus quantas molestias este mau costume terá +originado. Por agora basta que saibam isto, para +se acautelarem; em outra occasião lhes explicarei +como é que as plantas e flôres alteram a pureza +do ar e o tornam doentio. +<br /> + +<br /> + +É por este theor que nos animos infantis se podem +inocular conhecimentos praticos de quantas +sciencias ha, de modo que as crianças, ao sairem +das escolas, levem copia immensa de noções +utilissimas +para todas as circumstancias da vida.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +De grande proveito nos parece que os meninos +mais desembaraçados na escripta tenham um caderno +onde todos os dias vão escrevendo mui laconicamente +o assumpto da lição, e o que da mesma +lhes pareça mais digno de se conservar na memoria. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[43]</span> +Evite-se, porém, que n'estes summarios, ou indices +menemonicos, se empreguem palavras escusadas +e se commettam erros de grammatica. +<br /> + +<br /> + +De principio convirá que o educador, ao findar +a lição, ensine aos meninos como o registro deve +ser feito; depois ordenar-lhes-ha que o redijam em +suas casas, e que lh'o apresentem no dia seguinte, +para ser emendado. +<br /> + +<br /> + +E como a extrema concisão seja a melhor qualidade +de taes escriptos, aqui pômos um paradigma, +para governo de educadores e educandos. +<br /> + +<br /> + +Referimo-nos ao primeiro dialogo, que atraz fica +exarado. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>Registro</h4> + +<br /> + +<em>Assumpto.</em>—Um cão a +ganir. +<br /> + +<br /> + +<em>Sons, que os cães produzem com a +bocca</em>: Latido, +uivo, rosnadura, ganido. São substantivos. Ladrar, +ou latir, uivar, rosnar, ganir.—São verbos. +<br /> + +<br /> + +<em>Agouros.</em>—Não os ha. +<br /> + +<br /> + +<em>Vozes de differentes +animaes.</em>—Cão, +<em>ladra</em>; canario, +<em>canta</em>; cavallo, +<em>relincha</em>; mocho, +<em>pia</em>; gallinha, +<em>cacareja</em>; gato, +<em>mia</em>. +<br /> + +<br /> + +O <em>uivo dos cães</em> +não indica, nem póde indicar +a morte de ninguem, nem desgraça nenhuma. Se +um cão uiva, pouco antes de morrer alguem, este +facto é apenas uma coíncidencia, um accaso. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O professor exigirá que os meninos, nas respostas +<span class="pagenum">[44]</span> +que lhe derem, empreguem sempre phrases +completas, conformes ás leis grammaticaes, +simples e curtas quanto fôr possivel. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Reputa-se de grande utilidade n'este ensino a +repetição individual e simultanea. +<br /> + +<br /> + +É um processo excellente, para conseguir que +mais fundas se gravem certas especies no espirito +dos alumnos, e para corrigir defeitos de expressão +e pronuncia. No repetir em côro se deleitam as +crianças muito, mormente se o tom das vozes não +é tristonho, mas alegre, musical, variadissimo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ao minimo erro de regencia, de concordancia, +ou de pronuncia, acudirá logo o professor com a +indispensavel advertencia, e tanto mais clara e fervorosa, +quanto mais grave fôr o erro. Suppunhâmos +que um menino diga <em>somentes</em> em vez +de somente, +<em>faz-le</em> por faz-lhe, +<em>traz</em> por traze, +<em>Madanela</em> +por Magdalena, ou qualquer outra das infinitas +corruptelas, que deslustram a nossa lingua, e que +a cada momento se nos deparam até na +conversação +e escriptos dos doutos, e em documentos officiaes. +<br /> + +<br /> + +Acto continuo advertil-o-ha o professor de que +tal palavra não foi bem pronunciada, e o +convidará +a que a repita correctamente. Se o estudante não +atinar a emendal-a, repita-lh'a o professor cuidadosamente +partida em syllabas, acompanhando +cada uma d'estas com uma pancada sobre a mesa +<span class="pagenum"><a name="p45" id="p45">[45]</a></span> +com o ponteiro ou com a mão. Ouvida que seja a +palavra assim pronunciada, repetil-a-ha o estudante +tantas vezes, quantas seja necessario, para +que a não altere, e após este exercicio dil-a-ha +tão +rapidamente como é de uso dizer-se. Se ao professor +parecer conveniente, ordenará que outros +estudantes façam o mesmo exercicio individualmente, +e por fim mandará que a palavra ou phrase +seja cantada pela classe inteira, attendendo muito +a que o erro, que se pretendeu emendar, se não +repita. O que fica dito ácêrca das palavras em +especial +applica-se em cheio ás phrases compostas +de muitas palavras. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A falta de ordem e clareza no dizer é defeito +grave, mas communissimo, que tem raizes na escola +primaria, e que por isso mesmo ou nunca se +perde ou só com muito trabalho se consegue extirpar. +A fim de prevenil-o e de combatel-o comece +o educador dando exemplo de imperturbavel ordem +na exposição, de esmerada escolha dos termos, de +grande sobriedade nos incidentes, e de irreprehensivel +rigor nas conclusões; tudo isto sem apparato, +nem maneiras artificiosas, que revelem os intentos; +e esmere-se em inspirar aos que o ouvirem o +gosto de bem fallar, cortando todas as +imperfeições +mal apontem nos <a href="#e4">labios</a> +infantís. Cabe n'este +logar uma recommendação, nunca assás +repetida. +Nas ruas, nas aulas, nos theatros, nas +conversações +familiares, e, quando Deus é servido, até no +<span class="pagenum">[46]</span> +parlamento, e na imprensa proferem-se a miudo +palavras e phrases, que, com quanto não sejam +deshonestas, são tão grosseiras e plebeas, que +nenhuma +pessoa delicada as deveria empregar. Quasi +sempre se ignora a origem d'aquelles termos, +muitos d'elles, diga-se a verdade, sobremodo expressivos +e por vezes engraçados, mas que nem +por isso deixam de ser baixos e vis. Em evital-os +seja fervorosissimo todo o educador, sem comtudo +levar o zelo até ao ponto de banir da +conversação +escolar as locuções pittorescas e +folgazãs, que alegram +a linguagem, sem mareal-a. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Assim como as leituras e recitações soturnas, +pesadas, substanciosas, e extensas, aborrecem ás +crianças e não lhes prendem a +attenção, assim a +poesia ligeira, as historias singelas, as fabulas e +apologos, as anecdotas e proloquios lhes aprazem +sobremodo e de tal arte se lhes apegam á memoria, +que não mais as esquecem. +<br /> + +<br /> + +Verdade é que Voltaire arguïu os fabulistas de +quererem ensinar as verdades moraes por um processo +essencialmente mentiroso, pondo a fallar animaes +e plantas; e condemnou a leitura e recitação +de taes composições nas primeiras edades. Tem +porem mostrado a experiencia que Esopo, Phedro, +La Fontaine e Lessing, com os seus artificios poeticos +moralisam mais, e muito mais que a +<em>Introducção +á vida devota</em>, que o <em>Flos +Sanctorum</em>, e +que o <em>Thesouro de meninos</em>, e quantos +outros escriptos, +<span class="pagenum">[47]</span> +ainda que sejam verdadeiros na essencia e +correctos na fórma, se hão publicado para +edificação +das almas, mormente em quanto n'estas se não ha +robustecido a faculdade de raciocinar. Aproveitem-se +pois d'este meio os educadores, lendo de vez em +quando á escola uma fabula, que tenha +relação com +os objectos, que se estudam, e fazendo-a decorar; +contando a proposito uma anecdota, ou repetindo +algum dos muitos e verdadeirissimos rifões, de que +tão rica é a lingua portugueza. Dos bons poetas +nacionaes, tanto modernos como antigos, poderá o +educador escolher infinita copia de versos em todos +os generos, com os quaes irá perfumando as +lições e desenvolvendo na puericia o gosto da +poesia, +que alarga a imaginação, modifica e reprime +as ruins paixões, consola o espirito, e o dulcifica +e embalsama. Fuja, porem, como de peste, de versos +máos ou mediocres, não esquecendo jamais que +<em>a poesia</em> é, no dizer de +um dos mais elegantes e +profundos escriptores de Portugal, o sr. Latino +Coelho, <em>a grandeza e o nada; o mundo e o atomo; +a gloria e a humiliação; o triumpho e o martyrio; +o genio e a loucura</em>. +<br /> + +<br /> + +No ensino intuitivo, a faculdade que mais cuidadosamente +se deve dirigir, desenvolver, e approximar +da perfeição é a faculdade de +comparar, cujos +defeitos inutilisam os esforços das faculdades, +que a antecedem, e obstam a que as superiores se +exerçam como é mister. São +innumeraveis e quasi +sempre facillimos os processos de comparação de +<span class="pagenum">[48]</span> +que o educador poderá fazer uso, desde a +confrontação +de dois feijões, ou de dois alfinetes, etc., até +ao +estudo comparativo de duas poesias, de duas obras +de arte, do caracter de dois homens notaveis, de +duas epocas historicas. Não ha palavras para encarecer +os resultados, que os estudos d'esta ordem +produzem e a influencia que exercem no desenvolvimento +intellectual e moral das crianças. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A par com o estudo das cousas, podem e devem +marchar os exercicios attinentes ao aperfeiçoamento +dos sentidos externos, e os preceitos consoantes á +sua hygiene. Todos terão observado que o exercicio +de certos orgãos concorre por muito para que +os mesmos se apurem e tornem cada vez mais delicados. +Os homens do mar, acostumados a olhar +muito ao longe, e a buscarem a grandes distancias +um objecto perceptivel, excedem sempre em perspicacia +os que teem vivido encerrados em horisontes +menos extensos. +<br /> + +<br /> + +Um musico, habituado a reger orchestras, percebe, +ainda mesmo nos cheios, se qualquer dos +executantes deu uma nota errada, ou commetteo +outro erro. Cegos tem havido, que pelo apalpar distinguem +nos corpos qualidades, que pertencem ao +dominio da visão, e executam trabalhos manuaes +difficeis e delicados, como aquelle cego de nascença, +de que falla o sr. dr. Centazzi na sua +<em>Medicina</em> +e <em>Hygiene Popular</em>, que existia na +cidade +<span class="pagenum">[49]</span> +de Faro, no Algarve, e que fazia peões, cubos, e +outras obras tão perfeitas, como as dos mais habeis +mestres. Dos provadores de vinho se sabe +quão facilmente reconhecem pelo paladar o merito, +idade, pureza, e proveniencia do precioso liquor. +<br /> + +<br /> + +Não se deve esperar que a gymnastica dos sentidos, +por mais bem dirigida que seja na casa paterna +e nas escolas infantís e primarias, venha a +produzir tão miraculosos resultados; mas é +indubitavel, +que lhes corrigirá muitos defeitos, e que +de dia para dia os hade ir tornando mais apropriados +aos importantissimos fins, para que a natureza +os destinou. +<br /> + +<br /> + +Os paes em suas casas, e os professores nas escolas +poderão começar a gymnastica dos sentidos +pelo exame e comparação das côres. +Mostrarão +primeiro aos educandos o vermelho, amarello, +verde, azul, preto, branco; depois differentes +gradações +de cada uma d'estas côres; em seguida as +côres de transição; apoz estas, todas +as mais, que +fôr possivel apresentar-lhes. A pouco e pouco +lh'as +irão nomeando, e fazendo notar tudo quanto convier +que elles saibam a tal respeito. Ao conhecimento +das côres poder-se-hão seguir +exercicios tendentes +a apurar a vista, taes como a inspecção de +objectos collocados a distancia cada vez maior; a +leitura ao longe, e a pesquiza de algumas estrellas, +planetas e constellações, cuja +posição no espaço +previamente se lhes tenha mostrado no mappa. +<br /> + +<br /> + +Por meio de processos analogos se podem educar +<span class="pagenum">[50]</span> +os outros sentidos, ensinando-se ao mesmo +tempo milhares de cousas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Tambem os mestres do ensino intuitivo, recommendam, +que se acostumem os meninos a lerem +e a exporem elegante, exacta, e correctamente. Em +algumas escolas temos notado quão pouco os professores +attendem a esta parte do ensino, consentindo +que os estudantes exponham as lições e respondam +ás perguntas, que se lhes fazem, com +extrema negligencia; negligencia na pronunciação +das palavras, cujos sons elementares falseam; negligencia +na declamação, que por muito precipitada, +ou por extremamente preguiçosa, se torna monotona +e insuportavel; negligencia na coordenação +das idéas componentes dos raciocinios, e negligencia +na disposição d'estes. +<br /> + +<br /> + +Acudir com remedio a tantos defeitos é empreza +ardua e enfadonha, mas de que não ha de levantar +mão o bom educador, sendo o seu primeiro e persistente +cuidado desarreigar os vicios da pronunciação, +que principalmente na côrte, trazem adulteradissimo +o mais elegante e donairoso de quantos +idiomas se fallam no mundo, se exceptuarmos o italiano, +ao qual, não obstante a sua nativa belleza e +abundancia, não é somenos. +<br /> + +<br /> + +Daria um livro a só enumeração das +transgressões +das regras orthoepicas, que a cada momento +se ouvem até em boccas de ouro; tão irresistivel +é +a força dos maus exemplos! De entre as mais vulgares +<span class="pagenum"><a name="p51" id="p51">[51]</a></span> +citaremos, para amostra, o accrescentamento, +ou paragoge de um <em>e</em> mudo ao infinito +dos verbos, +dizendo-se: <em>amare</em>, +<em>fazere</em>, +<em>comere</em>, +<em>partire</em>, +<em>pore</em>, +etc., em vez de amar, fazer, comer, partir, pôr. O +mesmo accrescentamento ao final das palavras, +que terminam em consoante, proferindo-se: +<em>sole</em>, +<em>flore</em>, +<em>mulhere</em>, +<em>metale</em>, em logar de sol, flor, +mulher, +metal; o emprego do <em>a</em> grave, onde +deveria +soar <em>e</em> fechado, pronunciando-se +<em>espâlho</em>, +<em>panha</em>, +<em>tanha</em>, +etc., por espelho, penha, tenha. A substituição +grosseirissima de <em>le</em> a lhe, dizendo +se <em>dei-le</em>, +<em>mostrei-le</em>, +<em>quizera-le</em>, em vez de dei-lhe, +mostrei-lhe, +quizera-lhe; bem como o emprego de +<em>lhe</em>, +quando este pronome se refere a mais de uma pessoa +ou cousa, e de <em>lhes</em>, quando a +referencia é a +uma só cousa ou pessoa. O emprego de +<em>i</em> em logar +de <em>e</em> em muitas palavras taes como +dedal, dedeira, +deante, empenho, emprestar, que a mór +parte da gente pronuncia: <em>didal</em>, +<em>dideira</em>, +<em>diante</em>, +ou <em>diente</em>, +<em>impenho</em>, ou +<a href="#e5"><em>impanho</em>, +<em>imprestar</em></a>. +<br /> + +<br /> + +De tanto e tão damninho joio irá o educador +arrancando +diariamente muitas mãos cheias, desafogando +a linguagem de todos quantos senões n'ella +fôr descobrindo, afim de que mais tarde, quando +os meninos entrarem a estudar os segredos da +elocução, +nem elles, nem os professores tenham de +perder muito tempo e muita paciencia em os debellar. +E não sómente aos erros da +pronunciação +se ha de ir applicando prompto e efficaz remedio, +mas tambem aos gallicismos e plebeismos de que +<span class="pagenum"><a name="p52" id="p52">[52]</a></span> +está inçada a nossa lingua, mórmente +aos que respeitarem +á composição das phrases, havendo o +maximo +cuidado em não atordoar as cabeças dos +estudantinhos +com preceitos de grammatica e considerações +philologicas. +<br /> + +<br /> + +Se um menino disser: Vi hoje na +<em>montra</em> de um +livreiro uma linda estampa; accudirá logo o educador: +Não se diz <em>montra</em>; diz-se +mostrador; e +fará que o mocinho repita a phrase, substituindo o +termo peregrino e escusado pela palavra portugueza. +Diz outro: <em>Houveram</em> hontem muitas +festas +de egreja; emendará sem demora o educador: +Houve hontem muitas festas de egreja; e convidal-o-ha +<a href="#e6">a que emende</a> o erro. Se algum +menino +lhe perguntar a razão por que tal palavra ou phrase +se não deve dizer, a resposta será regulada pela +idade, intelligencia e adiantamento do interrogante, +de modo que, se elle fôr pequenino e muito noviço +em materias grammaticaes, só lhe dirá: Essa +palavra não se deve empregar porque é estranha +á nossa lingua e desnecessaria; essa phrase não +é +admissivel, porque não é conforme ás +leis da grammatica, +que é a sciencia de bem fallar. E ahi fica o +educando insensivelmente sabedor de que a phrase, +que empregou, não é boa; de qual ou quaes a devem +substituir; de que o discurso está subjeito a +leis; e de que a sciencia de fallar correctamente se +chama grammatica. +<br /> + +<br /> + +Quanto mais não valerá a advertencia +despretenciosa, +que valeria um discurso mui chorudo de +<span class="pagenum">[53]</span> +citações e palavras latinas e gregas! Se o +pequenito, +que os ha amigos de discutir e aferrados á +propria opinião, não largar voluntario a palavra, +que ouvira ou lêra, bom será convencel-o, +não +com argumentos scientificos, salvo se a sua intelligencia +os poder comprehender sem custo, mas +por meio de um simile. Poder-se-lhe-ha ponderar +que assim como ninguem rasoavelmente vae pedir +emprestadas aos visinhos cousas de que tenha abundancia +de portas a dentro, nem vae ao mercado +comprar fructa ruim, tendo-a famosa no quintal, a +bater-lhe nas vidraças, assim os portuguezes de +bom juizo e sufficiente instrucção, +não devem andar +tomando palavras e maneiras de dizer a estranhos, +quando até para repartir com elles lhes +sobram muitas. +<br /> + +<br /> + +Para conseguir que as crianças leiam e fallem +com elegancia, e n'isto vae o segredo da perfeitissima +declamação, a primeira cousa, que o educador +tem a fazer, é acostumal-as ao rhythmo, tão bem +aproveitado pelo sr. Visconde de Castilho no seu +<em>Methodo de leitura repentina</em>. +<br /> + +<br /> + +Por pouco que se pense na organisação de todo +o apparelho vocal (pulmões, larynge, bocca e narinas) +nas relações d'aquelles orgãos e no +mechanismo +da voz, facilmente se perceberá, que a palavra, +no que tem de physico, é verdadeira musica, +com seus sons naturaes e accidentaes, com sua +oitava, com escalas ora mais, ora menos extensas, +com os seus tempos, já breves, já longos, e +até +<span class="pagenum">[54]</span> +com a expressão e timbre variadissimo, que ás +vibrações +sonoras e musicaes, imprimem os instrumentos. +<br /> + +<br /> + +Ora, como não ha musica, que tal se possa chamar, +sem rhythmo e expressão, claro está que a +voz humana, para satisfazer ás +condições da arte, +e bem servir a intelligencia, de que é a melhor reveladora, +e até parte integrante, no dizer de Condillac, +deve ser rhytmica e expressiva. +<br /> + +<br /> + +Para que estas duas essenciaes qualidades lhe +não faltem é indispensavel em primeiro logar, que +o educador habitue os meninos a obdecerem escrupulosamente +ao compasso, na pronunciação dos +sons elementares (vozes e consonancias) na dos +compostos (diphthongos e syllabas) e na recitação +das palavras, que só poderá ser perfeita, quando +tiverem sido previamente divididas em tantos tempos, +quantos forem seus elementos syllabicos. Depois +de bem amestrados por meio d'estes exercicios +na leitura auricular das palavras, que o educador +para tal fim lhes ditará em voz bem intelligivel, +palmeando as primeiro mui +vagarosamente, +depois um poucochinho mais depressa e por ultimo +com o natural andamento, passarão os meninos a +<em>ler por cima</em>, como é uso +dizer-se nas escolas. +<br /> + +<br /> + +Chegado a este ponto terá o educador de desvelar-se +muito em supprir a extrema penuria da +orthographia, não tanto no tocante á +representação +dos sons constituitivos das palavras, no que +muito falta, como no que se refere á divisão +logica +<span class="pagenum">[55]</span> +das orações, ás variadissimas +pausas, que ha +de fazer o bom ledor e recitador perfeito; ás infinitas +intonações de que carecem as palavras, as +proposições, os periodos e até um +mesmo vocabulo +conforme a idéa que revela<sup><a href="#n1">[1]</a></sup>.<br /> + +<br /> + +Ler ou fallar sem intonações, sem pausas, sem +as devidas quantidades, sem dar ao que se lê ou +falla o natural colorido, e o relevo indispensavel, +vale tanto como querer executar em um piano miseravelmente +desafinado os primores de Rossini, +Donizetti, Bellini, Meyerbeer ou Marcos Portugal. +<br /> + +<br /> + +E não obstante serem intuitivas todas estas verdades, +muitissimas pessoas ha, que as desconhecem, +e muitas que, não as desconhecendo, como +que se aprazem de ler e fallar por modo tal, que +provocam tedio e somno. +<br /> + +<br /> + +Daria optimo resultado, como tivemos opportunidade +de mostrar praticamente a um educador, +sempre avido de se aperfeiçoar, e em extremo benevolente +para comnosco, a introducção nas escolas +infantís e primarias, para o ensino e +aperfeiçoamento +<span class="pagenum">[56]</span> +da leitura e recitação de um +processo +analogo ao adoptado pelos regentes de orchestras +e bandas marciaes no estudo das peças concertantes. +Consiste elle em se collocarem os meninos em +pé ou assentados, mas conservando direitos os troncos +e naturalmente levantadas as cabeças<sup><a href="#n2">[2]</a></sup> em +frente de estantes ou mesas, onde estejam abertos +os livros. Em logar elevado, de modo que todos +os escolares o vejam, está o educador em pé, +batuta +na mão, olhos no livro e olhos na turba. Primeiro +lê elle pausadamente em voz alta, com todo +o esmero, um periodo, marcando o compasso com +a batuta, repetindo duas ou mais vezes as palavras, +que lhe parecerem mais difficeis de pronunciar, +e corrigindo sem o minimo acanhamento os +proprios descuidos. Feito este ensaio, manda ler o +mesmo trecho ao estudante mais adiantado, depois +a outro e outro, reservando para o fim os menos +habeis, para que tenham tido tempo de se amestrar. +<br /> + +<br /> + +Findo que seja este segundo exercicio, e tomado +algum descanço, dará o signal de +attenção e mandará +ler em côro, indicando sempre com a batuta, +<span class="pagenum">[57]</span> +como se estivesse regendo uma orchestra, todas as +modificações da voz, que a leitura exigir. +<br /> + +<br /> + +A estes estudos, que bem se podem chamar de +leitura coral, podem-se accrescentar outros, excellentes +para exercitar os meninos na declamação, e +mui bem acceitos do bando infantil, que consistem +primeiramente na leitura, e depois na recitação +de +cór, de pequenos dialogos, fabulas, e entremezes, +em que haja um côro e dois, tres, ou mais interlocutores. +Composições d'este genero facilmente se +obtem, e quando se não achem, sem muito custo +as póde architectar o professor. +<br /> + +<br /> + +A par dos exercicios de leitura e recitação se +póde ir cultivando a intelligencia dos meninos, e +acostumando-os a pensarem e a exprimirem-se com +certo rigor logico. Nada ha mais facil. +<br /> + +<br /> + +Umas vezes elles mesmos subministrarão ao +educador assumpto de molde para os seus conselhos +e advertencias, outras vezes far-lhes-ha e educador +uma pergunta ou lhes proporá um problema, +e nas respostas irá notando as transgressões das +leis da logica, que porventura commetterem, nunca +saindo do campo da pratica para o das theorias, +nem usando da terminologia scientifica, que nas +idades tenras assusta, desgosta e não instrue. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Cerraremos estas considerações lembrando aos +educadores a vantagem de excitar nos estudantes +o amor do estudo pelo emprego de premios e +distincções. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p58" id="p58">[58]</a></span> +Se no dizer de Christo «Todo o que trabalha é +digno de recompensa» <em>Dignus est enim +operarius +mercede sua</em>, qual será a razão +por que se não +hade galardoar o bom <a href="#e7">comportamento</a>, +a assiduidade +no estudo, o aceio, e o progresso dos meninos? +<br /> + +<br /> + +Se nas escolas superiores ha premios annuaes +para os alumnos distinctos, se as academias os offerecem +aos sabios, que cabalmente satisfazem aos +seus programmas; se aos que triumpham nos certames +das artes e da industria se concede a menção +honrosa, o <em>accessit</em>, a medalha de +prata ou a +de ouro; se ha palmas e corôas, e ramalhetes, e +brindes para o actor eximio, e até para o que na +praça lucta com o touro embravecido, de melhormente +se devem premiar as criancinhas, para as +quaes o estudo, por mais que lh'o procuremos amenisar, +hade ser sempre tarefa improba e tediosa. +<br /> + +<br /> + +Hade porém haver na concessão das +distincções +e premios escolares a maxima parcimonia e inteira +justiça, para que nem a prodigalidade lhes diminua +o valor, nem a parcialidade os torne, em vez de +incentivo do bem, facho de discordias, e origem de +malquerenças. +<br /> + +<br /> + +E assim como a advertencia e a reprehensão se +não devem fazer esperar, commettida a falta, assim +tambem se não deve demorar, nem regatear o +galardão +aos que o merecerem. +<br /> + +<br /> + +Finda a semana, a cada um se dará com certa +solemnidade ou o diploma, ou a medalha, ou a +estampa, ou o livro, ou o brinquedo, mas nunca +<span class="pagenum">[59]</span> +gulodices ou cousas, que os possam prejudicar. +<br /> + +<br /> + +Além d'estes estimulos, bom será que annualmente +haja, como em muitos collegios se usa, uma +sessão publica consagrada á +glorificação dos que +mais se houverem distinguido. +<br /> + +<br /> + +Ponhamos aqui ponto, não porque hajamos dito +quanto se poderia recommendar aos educadores +relativamente á difficilima empresa de iniciar as +criancinhas nas sciencias e na virtude, mas porque +exposto fica o que mais lhes convem saber para o +bom emprego do ensino intuitivo, que nos proposemos +vulgarisar, convencidos da sua muita utilidade. +Os exemplos que seguem, não entram no +plano de ensino intuitivo <em>gradual</em>, +que, se Deus fôr +servido, daremos á estampa; são tão +sómente uma +amostra, pela qual se possa fazer idéa do systema. +<br /> + +<br /> + +Preferimos para estes exemplos os assumptos e +objectos, que nas suas primeiras lições trataram +Braun e Mayo, insignes pedagogistas, que em materia +de educação tem prestado relevantes +serviços +á humanidade, adquirindo incontestavel direito a +esta humilde, porém sincera homenagem<sup><a href="#n3">[3]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[60]</span> +E já que fallámos de pedagogistas de tamanha +nomeada, honremos aqui tambem outro escriptor +e pedagogo notavel, o sr. J. Rambosson, cuja ultima +obra, publicada em fins do anno de 1872: «<em>A +educação maternal conforme as leis da +natureza</em>,» +não inferior á tão justamente +applaudida: «<em>Educação +das mães de familia</em>,» de +Aimé Martin, hade +forçosamente contribuir muito para a reforma do +actual viciosissimo systema de educar a infancia, +do qual o sr. Rambosson diz estas tão tristes, +quão verdadeiras palavras: <em>Il n'existe rien +sous ce +rapport, ni chez nous ni ailleurs; on ne peut appeler +éducation ce que se pratique pour cet +âge</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c3" id="c3"></a>PRIMEIRA +LIÇÃO</h3> + +<br /> + +<br /> + +Ao entrarem a primeira vez na escola a maior +parte dos meninos receiam; muítos d'elles temem. +<br /> + +<br /> + +Que receiam e que temem? +<br /> + +<br /> + +Receiam e temem a ausencia e desamparo temporario +de suas mães e paes; o affastamento de +seus irmãos e criados; o professor, que desconhecem; +os condiscipulos, que nunca viram; a casa +da aula, que lhes é estranha; a sciencia que ignoram. +<br /> + +<br /> + +Quanto mais pequeninos, mais desconfiados se +apartam do ninho seu paterno, mais desbotadas +levam as faces, mais tremem e se angustiam ao +aproximarem-se do templosinho modesto e sereno, +que se lhes afigura medonho ergastulo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[61]</span> +Na repugnancia, que os meninos tem á escola, +são quasi sempre culpados os paes e as mães, +porque, em vez de amoravelmente lhes fallarem +d'ella, de lhes mostrarem que está alli o alvorecer +de todas as artes e sciencias, de lhes dizerem que +é aquella a unica porta por onde se entra á vida +publica, na qual terão, quando homens, de tomar +parte, de lhes explicarem a missão do professor e de +lhes expenderem que n'elle accrescem aos deveres +de mestre os de amigo e patrono; nada d'isto fazem, +e só invocam o santo nome da escola, quando +irritados pelas travessuras das crianças, que não +querem ou não sabem remediar com brandura, +bons conselhos, bons exemplos e moderadas +correcções, +pretendem aterrorisal-os, apontando-lhes +para aquella... penitenciaria. +<br /> + +<br /> + +Como ha de amar a escola e appetecel-a, e correr +para ella voluntario e risonho o menino, a quem +se não fartaram de dizer: «Não te +aquietas? Irás +para a escola, onde te farão estar quedo, quer queiras, +quer não queiras.» «Não +aprendas agora, que +o professor depois, com a palmatoria te metterá +no bom caminho.» «Por mais que te ralhe, +não te +emendas, tudo rasgas, tudo quebras; deixa-te ir +para a escola;... farei queixa ao professor, elle te +porá as uvas em pisa»<sup><a href="#n4">[4]</a></sup>. +A fim de remediar estes +deploraveis vicios da educação domestica, de +tranquillisar +o estudantinho, de familiarisal-o com o professor +<span class="pagenum">[62]</span> +e com os alumnos e de infiltrar-lhe n'alma +o amor da escola e do estudo, adopte-se o seguinte +modelo de recepção, ou outro melhor, mas pouco +mais ou menos do mesmo padrão. +<br /> + +<br /> + +Professor.<sup><a href="#n5">[5]</a></sup>—Venha +cá, meu menino; como se +chama? +<br /> + +<br /> + +Estudante.—Viriato. +<br /> + +<br /> + +P.—Viriato é o seu primeiro nome; desejo +tambem saber o seu sobrenome e appellido. +<br /> + +<br /> + +E.—Chamo-me Viriato Henrique de Oliveira. +<br /> + +<br /> + +P.—Bonito nome. Para corresponder a elle terá +o menino de ser valente, destemido, muito amante +da sua patria e muito bom. Sabe porque? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Eu lh'o explico. Viriato foi um pastor da +Serra da Estrella, tão amigo da patria e dos patricios, +que para impedir que os romanos os escravisassem, +largou o cajado, abandonou os rebanhos, +que apascentava, tomou armas, aggregou a +si outros valentes, e por muitos annos desbaratou +<span class="pagenum">[63]</span> +os exercitos estrangeiros, envergonhando generaes +aguerridos, e grangeando fama eterna. D. Henrique +foi outro militar de grandes dotes, e que tanto se +distinguiu na guerra contra os mouros, que enchiam +a Hespanha e a nossa terra, que, em premio de +seu valor veiu a casar com D. Theresa, filha de +um rei mui poderoso, da qual nasceu D. Affonso +Henriques, primeiro monarcha portuguez. +<br /> + +<br /> + +E para que todo o nome do menino seja de bom +agouro, até lhe pozeram o appellido de Oliveira, +que é uma arvore muito util e agradavel, symbolo +da paz, de cujos fructos, as azeitonas, se tira o +azeite, que é o melhor e mais precioso oleo, que +se conhece. Mas deixemos o azeite e a oliveira, +que ainda lhe quero fazer mais perguntas. +<br /> + +<br /> + +Como se chama o seu papá? +<br /> + +<br /> + +E.—Antonio Joaquim de Oliveira. +<br /> + +<br /> + +P.—Que emprego tem elle? +<br /> + +<br /> + +E.—É militar. +<br /> + +<br /> + +P.—E o menino quer tambem ser militar? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor; quero ser medico. +<br /> + +<br /> + +P.—Bom é que não sigam todos a mesma +carreira; +haja militares, para defenderem a patria dos +inimigos estranhos, e para manterem o socego e a +ordem, que são a primeira necessidade dos povos; +e haja medicos para curarem os doentes, e para +nos ensinarem o que devemos fazer para não enfermar. +Que edade tem o menino? +<br /> + +<br /> + +E.—Nove annos. +<br /> + +<br /> + +P.—O seu papá tem mais filhos? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[64]</span> +E.—Tem mais tres. +<br /> + +<br /> + +P.—Os filhos do seu papá e da sua mamã +o +que são ao menino? +<br /> + +<br /> + +E.—São meus irmãos. +<br /> + +<br /> + +P.—Como se chamam os seus manos? +<br /> + +<br /> + +E.—Thomaz, Clemente e Valeriano. +<br /> + +<br /> + +P.—Dos quatro qual é o mais velho? +<br /> + +<br /> + +E.—É o Thomaz. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque é elle mais velho? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque nasceu primeiro que os outros. +<br /> + +<br /> + +P.—Se Thomaz é o mais velho, porque nasceu +primeiro que os outros, como designará o ultimo +nascido? +<br /> + +<br /> + +E.—Direi que é o mais pequeno. +<br /> + +<br /> + +P.—Melhor é dizer que é o mais novo. +Onde +mora o menino? +<br /> + +<br /> + +E.—Na rua da Alegria. +<br /> + +<br /> + +P.—Caspite! Quem mora na rua da Alegria não +deve ser triste. +<br /> + +<br /> + +Após esta pratica com os recem-entrados poderá +o professor ou professora convidar os que souberem +contar a contarem os estudantes, que estiverem +na escola, e a designar pelos nomes os que forem +seus conhecidos. +<br /> + +<br /> + +P.—Menino Viriato<sup><a href="#n6">[6]</a></sup> +quantos condiscipulos tem +aqui? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[65]</span> +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Não sabe, porque ainda os não +contou; +conte-os em voz alta. +<br /> + +<br /> + +E.—Um, dois, tres, etc. +<br /> + +<br /> + +P.—Agora, que sabemos quantos traquinas aqui +estão, diga-me os nomes dos seus conhecidos. +<br /> + +<br /> + +E.—Aquelle é Francisco; aquelle é +Antonio; +aquelle, que está ao pé da janella, tambem se +chama +Francisco, etc. +<br /> + +<br /> + +P.—Ha n'esta aula tres Franciscos, como é que +os havemos de distinguir de modo que, ao chamar +um d'elles, não acudam todos tres? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Nada mais facil; bastará accrescentar ao +primeiro nome de cada um o appellido da familia; +teremos: Francisco de Mello; Francisco de Aguiar +e Francisco Loureiro. Quando differentes pessoas +ou cousas tem o mesmo nome, é indispensavel juntar +ao nome que lhes é commum, outro, para que +as possâmos designar sem confusão. Os meninos +tem nas suas casas cópos de differentes tamanhos, +para differentes usos; a uns chamam cópos +<em>d'agua</em>, +a outros cópos <em>de vinho</em>, +a outros cópos <em>de liquor</em>. +O mesmo fazemos com a fructa. Ha muitas +qualidades de pêras; para distinguil-as denominamol-as +pêra <em>parda</em>, pêra +<em>virgulosa</em>, pêra +<em>bojarda</em>, +pêra <em>flamenga</em>, etc. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Finda que seja a segunda phase d'este colloquio, +tenue, mas conveniente para desassombrar o espirito +<span class="pagenum">[66]</span> +dos estudantinhos, passará o professor a fazer-lhes +outra ordem de perguntas. +<br /> + +<br /> + +P.—Como se chama, meus meninos, esta casa, +onde estamos? +<br /> + +<br /> + +E.—Chama-se escola. +<br /> + +<br /> + +R.—Para que vem os meninos á escola? +<br /> + +<br /> + +E.—Para aprender. +<br /> + +<br /> + +R.—Que vem os meninos aprender? +<br /> + +<br /> + +E.—A ler, escrever e contar. +<br /> + +<br /> + +P.—Assim é; mas na escola além de ler, +escrever +e contar, ensinam-se muitas outras cousas +agradaveis e uteis, as quaes todas concorrem para +tornar os meninos instruidos e virtuosos. Querel-as-heis +aprender tambem? +<br /> + +<br /> + +E.—Queremos, sim, senhor; queremos. +<br /> + +<br /> + +P.—Ha um adagio, que diz:—<em>O que se ha de +fazer, faça-se</em>; sigamos o adagio e +comecemos +desde já o nosso estudo, examinando os objectos, +que estão n'esta aula. (Aqui mostrará o professor +aos estudantes o <em>quadro preto</em><sup><a href="#n7">[7]</a></sup> a +que muitos impropriamente +chamam pedra). Qual dos meninos +tem um objecto como este em sua casa? +<br /> + +<br /> + +E.—Eu não; eu tambem não. +<br /> + +<br /> + +P.—Sabem como se chama? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[67]</span> +E.—Chama-se <em>pedra</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Assim o denominam alguns, mas impropriamente. +Isto não é de pedra, é de pau, +é de madeira. Ha n'esta casa alguma cousa de +pedra? +<br /> + +<br /> + +E.—As hombreiras da porta e das janellas. +<br /> + +<br /> + +P.—E nada mais? +<br /> + +<br /> + +E.—As ardosias, que trouxemos para fazer contas. +<br /> + +<br /> + +P.—O menino F. respondeu muito bem; essas +laminas pretas, a que chamâmos ardosias ou lousas, +e as pennas com que escrevemos n'ellas, são +pedaços de pedra. Querem ver a differença, que +vae da pedra á madeira? Batam com os dedos nas +ardosias; agora venham aqui, e batam n'isto, a +que deram o nome de pedra. Todos percebem a +differença do som. +<br /> + +<br /> + +E.—É verdade. +<br /> + +<br /> + +P.—Como chamaremos, pois, a este objecto? +Eu lh'o digo. Chamar-lhe-hemos o +<em>quadro</em>, ou a +<em>taboa</em>; e como esta madeira +está pintada, poderemos +acrescentar ao nome quadro outro nome, indicativo +da côr, que tem. +<br /> + +<br /> + +E.—Poderemos dizer: <em>Quadro preto</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Mui bem. Agora dir-me-hão para que serve +o quadro preto. +<br /> + +<br /> + +E.—Serve para n'elle se escrever. +<br /> + +<br /> + +P.—(Mostrando um pedaço de giz). Sabeis o +que é isto? +<br /> + +<br /> + +E.—É um bocado de <em>giz</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[68]</span> +P.—Para que o tenho eu aqui? +<br /> + +<br /> + +E.—Para escrever no quadro preto. +<br /> + +<br /> + +P.—De que côr é o giz? +<br /> + +<br /> + +E.—É <em>branco</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—(Mostrando a esponja). Como se chama +est'outro objecto? +<br /> + +<br /> + +E.—Chama-se—<em>esponja</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Para que temos aqui esta esponja? +<br /> + +<br /> + +E.—Para apagar as lettras e as figuras, que se +fizeram no quadro preto. +<br /> + +<br /> + +P.—Não poderiamos apagar a escripta com o +lenço de assoar? +<br /> + +<br /> + +E.—Poderiamos, sim, senhor; mas ficaria sujo, +e sujar-nos-hia o fato. +<br /> + +<br /> + +P.—Respondeu muito bem. E porque razão +não +apagâmos as lettras com as mãos? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque ficariam sujas, e sujar-nos-hiam +tambem o fato. +<br /> + +<br /> + +P.—Quando por qualquer motivo tivermos sujado +as mãos, que deveremos fazer? +<br /> + +<br /> + +E.—Limpal-as. +<br /> + +<br /> + +P.—De quantas maneiras se limpam as mãos? +<br /> + +<br /> + +E.—Esfregando-as n'um panno, ou lavando-as. +<br /> + +<br /> + +P.—Como ficam ellas mais desenxovalhadas, +esfregando as n'um panno, ou lavando-as? +<br /> + +<br /> + +E.—Lavando-as. +<br /> + +<br /> + +P.—Como se chamam as peças de roupa, de +que nos servimos para enxugar as mãos depois de +as termos lavado? +<br /> + +<br /> + +E.—Chamam-se—<em>toalhas de +mãos</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[69]</span> +P.—Trazer as mãos limpas é garridice, +ou +necessidade +e dever? +<br /> + +<br /> + +E.—É necessidade e dever. +<br /> + +<br /> + +P.—Para que é necessario trazer as mãos +aceiadas? +<br /> + +<br /> + +E.—Para não mancharmos aquillo em que mechermos, +e para não enojar as pessoas, que nos +virem ou a quem prestarmos algum serviço. +<br /> + +<br /> + +P.—A sugidade das mãos prejudica a saude? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Prejudica, e muito; em primeiro logar porque +obsta á transpiração, isto +é, á saïda da agua e +suor, que continuamente estão atravessando a pelle; +em segundo logar porque, indo com as mão sujas +aos olhos, poderemos inflamal-os e originar doenças, +que ou nos enfraqueçam a vista ou nos acarretem +a cegueira. Quantas vezes ao dia deveremos +lavar as mãos? +<br /> + +<br /> + +E.—Quantas fôr necessario. +<br /> + +<br /> + +P.—Acertadamente responderam; mas não +será +escusado dizer-lhes que invariavelmente as devem +lavar pela manhã, ao erguerem-se da cama; antes +e depois do almoço, jantar e ceia, ou de qualquer +outra refeição; ao sair e entrar em casa; +afóra as +outras vezes, que o aceio o exigir. Passemos a outro +assumpto. (Apontando para o cavallete.) Qual dos +meninos me saberá dizer o nome d'aquelle objecto? +<br /> + +<br /> + +Silencio. +<br /> + +<br /> + +P.—Menino Carlos, não sabe como se chama +aquillo? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[70]</span> +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Pedrinho, tambem não sabe como se chama +aquella geringonça?<sup><a href="#n8">[8]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +E.—Chama-se <em>cavallete</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Acertou. Agora digam todos commigo: +Ca-va-lle-te<sup><a href="#n9">[9]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +E.—Ca-va-lle-te. +<br /> + +<br /> + +P.—Agora hão de dizer esse nome, sem separarem +as syllabas. +<br /> + +<br /> + +E.—Cavallete. +<br /> + +<br /> + +P.—Para que serve aquelle cavallete? +<br /> + +<br /> + +E.—Serve para sustentar o quadro preto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>Resumo</h4> + +<br /> + +A casa, onde estamos, chama-se «escola». Na +<span class="pagenum">[71]</span> +escola aprende-se a ler, escrever, contar, a doutrina +christã, desenho, canto, e mil outras cousas +uteis e agradaveis, que o professor nos vae ensinando +pouco e pouco, as quaes todas concorrem +para que sejamos bons e instruidos, qualidades +estas indispensaveis a qualquer homem. Ha na escola +diversos objectos, e entre elles o <em>quadro +preto</em>, +a <em>esponja</em>, o +<em>giz</em> e o +<em>cavallete</em>. No quadro preto +escreve-se +com giz. Serve a esponja para se apagar +o que se escreveu no quadro, e o cavallete para +sustentar o mesmo quadro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>Reflexões +</h4> + +<br /> + +Meus meninos, attendei bem ao que vou dizer-vos, +e não o esqueçaes. Pode a casa da escola ser +convidativa, a mobilia e utensilios bons, os compendios +famosos, o professor sabio, zeloso e habil, +e o methodo de ensino excellente, e não obstante +todas estas invejaveis condições, os estudantes +não utilisarem nada, com detrimento proprio e de +seus paes, por falta de assidua frequencia e de estudo. +<br /> + +<br /> + +São incalculaveis os prejuizos, que resultam das +repetidas faltas á escola. Os meninos, que faltam, +não só não se adiantam, mas perdem o +que aprenderam, +desgostam e entibiam o professor, introduzem +a desordem na aula, e incitam os collegas com +o exemplo, a que procedam do mesmo modo. +<br /> + +<br /> + +Evitae, pois, todos estes males, não faltando á +<span class="pagenum">[72]</span> +escola sem causa justificavel, e estudando aqui e +em vossas casas, isto é, attendendo ao que o professor +vos disser, meditando nas suas palavras, e +lendo ou decorando o que vos mandarem que leiaes +ou decoreis. Não se pode ser instruido, sem estudar. +Os meninos estudiosos grangeiam a estima +das pessoas de bem, e tornam-se dignos da +protecção +divina. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c4" id="c4"></a>SEGUNDA +LIÇÃO +</h3> + +<h4> +A ESCOLA +</h4> + +<br /> + +P.—Meus meninos, fallámos outro dia do quadro +preto, das ardozias, do giz, da esponja, da +toalha de mãos, e do cavallete; desejo que me nomeeis +agora mais alguns utensilios da escola... +Como se chama isto? (Indicando a mesa). +<br /> + +<br /> + +E.—Chama-se <em>mesa</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—De que é feita esta mesa? +<br /> + +<br /> + +E.—De madeira. +<br /> + +<br /> + +P.—Todas as mesas são de madeira? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor; algumas são de pedra. +<br /> + +<br /> + +P.—E não as ha feitas de outras materias? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Nunca viram mesas de metal? +<br /> + +<br /> + +E.—Lembro-me agora de tel-as visto de ferro. +<br /> + +<br /> + +P.—E não só de madeira, de pedra e de +ferro +se podem fazer; todas as materias solidas e duras +se prestam á construcção d'este movel. +Como se +chama esta parte da mesa? (Indicando a parte superior). +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[73]</span> +E.—<em>Taboa</em> da mesa. +<br /> + +<br /> + +P.—Como se chama est'outra? (Indicando a +parte sobre que assenta a taboa). +<br /> + +<br /> + +E.—Chama-se <em>aro</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Vinde aqui e dizei-me, que nome tem estas +especies de caixas (Mostrando as gavetas) que estão +sobre a taboa da mesa, e que eu puxo para +fóra e torno a esconder (abrindo e fechando as gavetas). +<br /> + +<br /> + +E.—Essas especies de caixas chamam-se +<em>gavetas</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Para que servem as gavetas? +<br /> + +<br /> + +E.—Para guardar diversos objectos? +<br /> + +<br /> + +P.—Estas peças de metal, que as gavetas aqui +tem embebidas na madeira, como se denominam? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Fechaduras.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Para que servem estas fechaduras? +<br /> + +<br /> + +E.—Para fechar as gavetas? +<br /> + +<br /> + +P.—Porque razão fecho eu as gavetas d'esta +mesa, quando saio da aula? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque ha meninos, que commettem a +indiscripção +de as abrir e de mecher no que n'ellas +está, praticando uma acção feia ... +<br /> + +<br /> + +E.—É máu abrir uma gaveta? +<br /> + +<br /> + +P.—Se a gaveta é de nosso uso, ou se nos +é +permittido abril-a e tocar no que lá está, +não +commettemos falta nenhuma em a abrir; mas se +é de outrem, ou se nos prohibiram abril-a, é +acção +muito feia e má o descerral-a, sem licença, +excepto em caso de necessidade. E já que estamos +<span class="pagenum">[74]</span> +a fallar de gavetas, dizei-me, que deve fazer um +menino bem educado, quando na sua presença se +abre uma gaveta? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Deve abster-se de olhar para lá e de estar +a observar o que ella contem. Dizei-me, com que +se abrem as fechaduras? +<br /> + +<br /> + +E.—Com as <em>chaves</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Olhae para aqui... Metto a chave n'esta fechadura +dou-lhe volta e vejo sair uma peça de +ferro, chata e larga. +<br /> + +<br /> + +E.—É verdade. +<br /> + +<br /> + +P.—Como se chama essa peça? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Lingueta.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Sabeis porque lhe pozeram o nome de lingueta? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sabemos. +<br /> + +<br /> + +P.—Soletrae a palavra lingueta, e talvez deis +no vinte. +<br /> + +<br /> + +E.—Lin-gue-ta. +<br /> + +<br /> + +P.—As duas primeiras syllabas d'essa palavra +não vos trazem á memoria outra palavra muito +conhecida? +<br /> + +<br /> + +E.—Trazem, sim, senhor; a palavra lingua. +<br /> + +<br /> + +P.—Reparae agora se ha alguma similhança entre +a lingua do homem e dos outros animaes e a +parte da fechadura, que estamos observando. +<br /> + +<br /> + +E.—Ha, sim, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Em que? +<br /> + +<br /> + +E.—A lingua é chata e a lingueta tambem; a +<span class="pagenum">[75]</span> +lingua é comprida, como a lingueta; a lingua está +preza na bocca d'onde sae ás vezes, e a lingueta +está egualmente presa no interior de uma caixa da +qual a chave a faz sair. +<br /> + +<br /> + +P.—Difficilmente se poderia responder melhor +á minha pergunta. Tomem d'aqui exemplo os outros +meninos. A explicação que o menino F. me deu +prova-me que elle observa as cousas com attenção +e compára umas com as outras, o que muito concorre +para que se nos desenvolva a intelligencia; +ou que, se alguem lhe tinha ensinado isto, se não +esqueceu do que lhe haviam dito, o que tambem +é muito para louvar<sup><a href="#n10">[10]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +E.—A mim ninguem me tinha ensinado a resposta. +<br /> + +<br /> + +P.—Tanto melhor, porque deu prova de que +medita no que vê; que vêr as cousas +superficialmente +é quasi o mesmo que não as vêr: +Continuemos +a estudar a mesa. Reparem n'estas quatro +columnas (mostrando os pés da meza) sobre as +quaes assenta a taboa, o aro e as gavetas. +<br /> + +<br /> + +E.—São os <em>pés</em> +da meza. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque se lhes chama pés? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque sustentam o resto da mesa, á maneira +dos pés do homem e dos animaes, que sustentam +o resto do corpo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[76]</span> +P.—Todas as mesas tem quatro pés? +<br /> + +<br /> + +E.—Nem todas; umas tem um só pé, outras +quatro, outras seis, e podem ter mais. +<br /> + +<br /> + +P.—Quaes são as mais firmes, isto é, +menos +subjeitas a cairem, as de um, ou as de quatro pés? +<br /> + +<br /> + +E.—As de quatro pés. +<br /> + +<br /> + +P.—Para que servem os bancos? +<br /> + +<br /> + +E.—Para nos assentarmos. +<br /> + +<br /> + +P.—De que são feitos esses bancos? +<br /> + +<br /> + +E.—De madeira. +<br /> + +<br /> + +P.—Não poderiam ser feitos de outra materia? +<br /> + +<br /> + +E.—Poderiam ser de ferro, ou de pedra. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque não poriam aqui bancos de pedra? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque são mais caros, que os de pau. +<br /> + +<br /> + +P.—E só por isso é que os +não pozeram +aqui? +<br /> + +<br /> + +E.—É porque são muito pezados; +não +poderiamos +mudal-os de um logar para outro. +<br /> + +<br /> + +P.—Não haverá outro motivo para +preferir os +bancos de pau aos de pedra? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Menino F... queira responder á minha pergunta? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Aquelle estudantinho, que além está +a +gesticular, +é que nos vae satisfazer a curiosidade; vamos, +menino G... deite a barra adiante aos seus +collegas, revelando-nos o motivo porque os bancos +de pedra, á parte o serem pesados e caros, não +são adoptados nas nossas casas e nas aulas? +<br /> + +<br /> + +E.—Parece-me que é por serem muito frios. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[77]</span> +P.—Por causa da frialdade da pedra são os bancos +d'aquella materia não só incommodos, +senão +muito prejudiciaes á saude. Passemos a outro assumpto. +Já vos ponderei que é muito mau faltar +á +aula, não estar attento ao que diz o professor, e +não +estudar. Desejo que me digaes agora o que acontece +aos estudantes, que não vem ao principio da +aula, e que entram aqui uma hora, ou hora e meia, +depois de terem começado os nossos trabalhos? +<br /> + +<br /> + +E.—Não podem seguir bem as +lições. +<br /> + +<br /> + +P.—Que deverá, pois, fazer, relativamente a +este ponto, um estudante applicado, e que deseje +adiantar-se? +<br /> + +<br /> + +E.—Deverá entrar na aula á hora marcada +para +o começo do estudo. +<br /> + +<br /> + +P.—Diga-me menino L... que cousas deve o estudante +trazer sempre para a escola? +<br /> + +<br /> + +E.—Uma ardozia, uma penna de pedra, um lapiz, +uma penna de aço, e os livros. +<br /> + +<br /> + +P.—E que lhe acontecerá, se lhe esquecer alguma +ou algumas d'estas cousas? +<br /> + +<br /> + +E.—Não poderá tirar da +lição o fructo, que deve +tirar. +<br /> + +<br /> + +P.—Qual será a razão porque alguns +meninos +chegam muitas vezes á aula sem os objectos, que +lhes são indispensaveis? +<br /> + +<br /> + +E.—A razão d'essa falta é ou por que se +esquecem +de os tomar ao sair de casa, ou por que, saindo +com pressa, os não acham, e lhes falta o tempo +para procural-os. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[78]</span> +P.—Ha meio de evitar aquelle esquecimento, e +de fazer com que os objectos, que devem trazer +para a aula, se lhes deparem facilmente? +<br /> + +<br /> + +E.—Ha, sim, senhor. Bastará que os meninos +ponham a ardozia, o lapis, e os livros em um logar +certo. +<br /> + +<br /> + +P.—Que nome daremos a um menino, que põe +uma cousa aqui, outra alli, outra acolá, e que depois +se não lembra dos logares onde as poz? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Desarranjado.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—E ao que suja e rasga os livros, e deita +borrões na escripta, e por cima das mesas, e se +apresenta com a cara e os dedos enxovalhados? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Porco ou enxovalhado.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Deve o professor consentir que os meninos +rasguem os livros, que salpiquem de tinta as +paredes e as mesas, que tragam sujas as mãos e +cara, e o fato cheios de nodoas? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque estragar os livros, ou as paredes, +ou qualquer cousa, sem necessidade, é +acção muito +feia, assim como não andar limpo. +<br /> + +<br /> + +P.—E será apenas acção muito +feia? +Não será +uma especie de roubo feito aos paes e aos mestres, +aos quaes muitas vezes é em extremo penoso custear +as despezas, a que os filhos e discipulos os +obrigam? +<br /> + +<br /> + +E.—É de certo. +<br /> + +<br /> + +P.—Que devem, pois, fazer os meninos a quem +<span class="pagenum">[79]</span> +se recommenda, que sejam arranjados e aceiados? +<br /> + +<br /> + +E.—Devem obedecer. +<br /> + +<br /> + +P.—E que merecem os que não fazem caso das +advertencias de seus paes e mestres? +<br /> + +<br /> + +E.—Merecem castigo. +<br /> + +<br /> + +P.—E de que são dignos os que estudam bem, +e obedecem aos seus superiores, procurando em +tudo conformar-se com os seus conselhos e preceitos? +<br /> + +<br /> + +E.—São dignos de estima e de premio. +<br /> + +<br /> + +P.—Respondeu com muito acerto. Por hoje basta +de conversação. Antes, porém de nos +separarmos +quero repetir-lhes um conselho muito prudente de +um grande mestre. Decorem-n'o e sigam-n'o, se +querem ser methodicos e arranjados. Eil-o: +<br /> + +<br /> + +<em>Logar certo para cada cousa, e cada cousa no +seu logar</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c5" id="c5"></a>TERCEIRA +LIÇÃO +</h3> + +<h4> +OS CONDISCIPULOS +</h4> + +<br /> + +P.—Recommendei-lhes outro dia, meus meninos, +que não faltassem á aula, que viessem +á hora +marcada no regulamento, que se não esquecessem +de trazer os livros, e mais objectos necessarios +para as suas lições, que se acostumassem a ser +arranjados, methodicos, e desenxovalhados, e que +tivessem o maior cuidado em não estragar os objectos +de seu uso. Não são tão poucos os +deveres +dos meninos; e como para bem os cumprirem é +<span class="pagenum">[80]</span> +indispensavel conhecel-os, vamos hoje conversar +em outro assumpto, que muito lhes interessa. Começarei +perguntando-lhes como se denominam, em +geral, os meninos, que frequentam ao mesmo tempo +uma aula? +<br /> + +<br /> + +E.—Denominam-se <em>condiscipulos</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—O encontrarem-se quasi todos os dias, estarem +muito tempo juntos, lerem pelos mesmos livros, +aprenderem com o mesmo professor, terem +com pequenas differenças, a mesma idade, e trabalharem +para conseguir o mesmo resultado, concorrerá +para que os condiscipulos formem uma especie +de familia ou irmandade, cujo pae espiritual é +o professor? +<br /> + +<br /> + +E.—Certamente. +<br /> + +<br /> + +P.—Se os condiscipulos, como affirmaes, são +quasi irmãos, parece-me que devem tratar-se de +maneira differente do que se tratam os meninos, +que nem são parentes, nem condiscipulos. +<br /> + +<br /> + +E.—Sem duvida. +<br /> + +<br /> + +P.—Já que tão expeditamente confirmaes +a minha +opinião, fazei mercê de me dizer como se devem +tratar os condiscipulos. +<br /> + +<br /> + +E.—Devem tratar-se com delicadeza, bondade +e amisade. +<br /> + +<br /> + +P.—Optimamente, sr. estudantinho; mas como +eu não quero deixar por mentiroso o rifão, que +diz: «As palavras são como as cerejas», +peço-lhe +me indique quaes actos de delicadeza hão de praticar +os condiscipulos; de certo não quereis que elles +<span class="pagenum">[81]</span> +deem excellencia uns aos outros, ou se saüdem +com salamaleks, á maneira dos turcos. +<br /> + +<br /> + +E.—Hão de cumprimentar-se quando se encontrarem +em qualquer parte, e á entrada e saïda +da aula; não hão de bater uns nos outros, nem +rasgar ou sujar os vestidos; não hão de usar nas +suas conversas de palavras feias; se a qualquer +tiver esquecido o livro, a lousa, a penna, ou qualquer +outro objecto deve-se-lhe emprestar aquillo +de que carecer. +<br /> + +<br /> + +P.—Muito bem. E será delicado o menino que +despresar o collega, por elle ser feio, ou aleijado, +ou tartamudo, ou vesgo, ou coixo? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Será delicado o menino, que pozer alcunhas +a seus condiscipulos, ou que lhes lançar em +rosto o serem filhos de pessoas pobres, ou não +trajarem á moda, com elegancia, e esmero? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Se ao mesmo tempo chegarem ao pote, +para beber, dois meninos grosseiros, que acontecerá? +<br /> + +<br /> + +E.—Por-se-hão a ralhar, querendo cada qual +ser o primeiro que beba. +<br /> + +<br /> + +P.—Se um dos meninos fôr delicado e o outro +grosseiro? +<br /> + +<br /> + +E.—O delicado ou se affastará, para que o outro +mate a sede em primeiro logar, ou encherá o +copo e lh'o offerecerá. +<br /> + +<br /> + +P.—E se ambos forem delicados? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[82]</span> +E.—Não sei o que devam fazer. +<br /> + +<br /> + +P.—Menino F., responda á minha pergunta. +<br /> + +<br /> + +E.—Se ambos forem bem criados, deverá o +mais pequeno encher o copo e offerecel-o ao mais +velho. +<br /> + +<br /> + +P.—Mas pode acontecer que ambos tenham a +mesma idade, ou que um não saiba a do outro. +<br /> + +<br /> + +E.—Nesse caso o mais delicado antecipar-se-ha +a obsequiar o outro. +<br /> + +<br /> + +P.—Respondeu com muito juizo. Que deverá +fazer um menino delicado, se ao lanche, um condiscipulo +lhe pedir um damasco, uma pêra, ou +qualquer outra cousa, que lhe não faça falta? +<br /> + +<br /> + +E.—Deve dar-lh'a. +<br /> + +<br /> + +P.—E pedir-lhe outra cousa em paga? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Do que temos estado a dizer conclue-se, +que a delicadeza consiste não só em evitar tudo +quanto possa desgostar os outros, mas tambem +na pratica de quanto honestamente lhes possa ser +agradavel.—Desejo, porém, que me digaes se +delicadeza +e bondade são o mesmo. +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Como assim? +<br /> + +<br /> + +E.—Pode uma pessoa ser delicada e não ser +boa; pode tratar os outros muito bem, mas não +proceder assim por virtude, e tão somente por genio, +elegancia, ou astucia. +<br /> + +<br /> + +P.—Para que possâmos ter um menino em +conta de bom o que é necessario? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[83]</span> +E.—É necessario que elle não +faça +nenhuma +acção má. +<br /> + +<br /> + +P.—Quando é que as nossas +acções +são más? +<br /> + +<br /> + +E.—Quando offendem a Deus, ou ao proximo. +<br /> + +<br /> + +P.—Dizeis muito bem; mas para que este ponto +se aclare bastante, fazei favor de me indicar algumas +acções que reputeis más. +<br /> + +<br /> + +E.—São más acções +não crer em Deus, não o +amar, e não o temer; não cumprir as ordens dos +nossos superiores; mentir, levantar falsos testemunhos; +desprezar os pobres, e não os soccorrer; +indagar das vidas alheias; furtar; comer e beber +mais do que é preciso. +<br /> + +<br /> + +P.—E ser mandrião, não estudar bem as +lições +é acção bôa, ou +má? +<br /> + +<br /> + +E.—É má. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque, não estudando, desobedecemos a +nossos paes e mestres. +<br /> + +<br /> + +P.—Como se chama a acção torpissima de +tirar +a alguem uma cousa ás escondidas. +<br /> + +<br /> + +E.—Chama-se furto. +<br /> + +<br /> + +P.—E como se denomina o desgraçado, que +furta? +<br /> + +<br /> + +E.—Denomina-se ladrão. +<br /> + +<br /> + +P.—Que merecem os ladrões, estima ou desprezo? +<br /> + +<br /> + +E.—Desprezo e castigo. +<br /> + +<br /> + +P.—E não será quasi ladrão +um menino, +que, +<span class="pagenum">[84]</span> +mandriando, obriga seus paes a fazerem despeza +excessiva para o educarem, e que prejudica a familia, +em beneficio da qual deveriam reverter as +quantias, que os paes consomem inutilmente com +o preguiçoso? +<br /> + +<br /> + +E.—É, sim, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Por consequencia merece desprezo e castigo +o máu estudante. +<br /> + +<br /> + +E.—Certamente. +<br /> + +<br /> + +P.—Se na escola houver estudantes pobresinhos +e estudantes abastados, que devem estes fazer relativamente +áquelles? +<br /> + +<br /> + +E.—Tratal-os muito bem. +<br /> + +<br /> + +P.—O bom tratamento de que fallaes consistirá +somente em os admittirem á sua companhia na aula +e na rua, e em praticarem com elles delicadamente, +ainda que não andem bem trajados; ou +consistirá tambem em auxilial-os, obtida licença +dos paes e mestres, para que lhes não faltem cousas +indispensaveis, taes como o lapis, papel, compendios, +etc., para comprar as quaes lhes não chegar +o dinheiro. +<br /> + +<br /> + +E.—Parece-me que é dever dos estudantes +endinheirados +proteger em tudo os que o não são, e +até repartir com elles o +<em>lunch</em>, e a merenda, por +isso que os collegas se devem amar como irmãos. +<br /> + +<br /> + +P.—Muito bem. E o amor fraternal dos collegas +permittirá que andem a fazer queixas uns dos +outros? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p85" id="p85">[85]</a></span> +P.—Que deverá fazer um bom collega quando +outro commetter uma pequena falta. +<br /> + +<br /> + +E.—Deve advertil-o de que não fez bem, e +aconselhal-o a que se emende. +<br /> + +<br /> + +P.—E se um estudante quizer commetter um +crime, ou praticar uma acção má, ou se +tiver delinquido, +e se mostrar obstinado em não se emendar, +o que deverá fazer o collega? +<br /> + +<br /> + +E.—Se não poder evitar o mal, nem conseguir +que o menino, que o praticou, trate de se corrigir, +cumpre-lhe avisar o professor. +<br /> + +<br /> + +P.—Em voz alta, diante de todos, com acrimonia, +e maneiras hostis, ou em <a href="#e8">particular</a>, +e por +modo, que não aggrave o delinquente? +<br /> + +<br /> + +E.—Em particular e sem azedume. +<br /> + +<br /> + +P.—Se o professor perguntar a um estudante +quem commetteu certa falta ou maldade, e o estudante +interrogado souber quem foi, que deverá +fazer? +<br /> + +<br /> + +E.—Dizer a verdade. +<br /> + +<br /> + +P.—Quando tal aconteça, ficará mal ao +estudante +implorar a clemencia do professor para o +collega? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor; antes lhe ficará muito +bem. +<br /> + +<br /> + +P.—Disse ainda agora um dos meninos que deviam +os collegas ser amigos. A amisade é um sentimento +mui delicado e nobre, e por isso mesmo +mui raro. Umas vezes nasce do parentesco e convivencia +intima, tal é a que aos filhos consagram +os paes, e a estes os filhos, tal a dos avós e netos, +<span class="pagenum">[86]</span> +e a dos tios e sobrinhos; outras vezes provém +da sympathia, augmenta com a camaradagem, +principalmente entre pessoas de indoles similhantes, +e fortifica-se pela troca reciproca de serviços +desinteressados e honestos. Mas, assim como «nem +tudo o que luz é ouro», assim nem toda a +convivencia, +posto que deleitavel, extremosa, e até util, +se póde considerar amizade verdadeira. +<br /> + +<br /> + +E.—Em que consiste, pois, a verdadeira amizade? +<br /> + +<br /> + +P.—Em duas ou mais pessoas se estimarem +reciproca e honestamente, como cada uma a si propria +se estima. +<br /> + +<br /> + +E.—Em vista do que dizeis, devem ser mui poucos +os verdadeiros amigos; porque eu, não obstante +ser ainda muito creança, tenho notado que quasi +todas as pessoas gostam mais de si, que dos outros. +<br /> + +<br /> + +P.—Rarissimos são, é verdade, e por +isso mesmo +quem teve a felicidade de encontrar um, deve +cuidar muito de o não perder. +<br /> + +<br /> + +E.—E o que nos acontecerá, se nunca tivermos +um amigo verdadeiro? +<br /> + +<br /> + +P.—Seremos menos felizes do que seriamos, +se o tivessemos. +<br /> + +<br /> + +E.—Vós, sr. professor, sois muito feliz. +<br /> + +<br /> + +P.—Por que me consideraes muito feliz? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque tendes muitos amigos. +<br /> + +<br /> + +P.—Quem vos disse que tenho muitos amigos? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[87]</span> +E.—Ninguem; mas tenho visto que pelas ruas +uns vos cortejam, tirando-vos o chapéu, outros vos +dizem adeus com a mão, outros vos tratam por +tu, muitos vos abraçam e param a fallar comvosco. +<br /> + +<br /> + +P.—Como estaes enganado! Esses todos, com +pouquissimas excepções, sabeis o nome que +merecem? +Eu vol-o digo—<em>conhecidos</em>.—Se +eu +caísse +de cama, quantos viriam acompanhar-me? se eu estivesse +preso, quantos iriam suavisar-me a solidão +do carcere? se eu tivesse fome, quantos repartiriam +commigo as suas sôpas? se eu tivesse a desgraça +de commetter um crime, quantos no dia seguinte +se desbarretariam ao passar por mim?... +Conhecidos, indifferentes, amigos do theatro, do +baile, do passeio, que desapparecem, quando o verdadeiro +amigo mais se approxima de nós, nos dias +sombrios e luctuosos da desgraça, e das +tribulações. +<br /> + +<br /> + +E.—Como é então que fallaes e mostraes +tão +bonito modo a homens, que de nada vos prestam? +Não seria melhor desprezal-os? +<br /> + +<br /> + +P.—Não se deve desprezar ninguem. Quem +não +póde beber por uma taça de ouro, ou de crystal, +ha de quebrar o copo de vidro ou o pucaro humilde +de barro? Para os conhecidos, caridade e +delicadeza; para os amigos, os affectos todos do +coração. +<br /> + +<br /> + +E.—Se vos não enfado, far-vos-hei ainda uma +pergunta. +<br /> + +<br /> + +P.—Quantas quizerdes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[88]</span> +E.—De que traça nos havemos de servir para +grangear amigos verdadeiros? +<br /> + +<br /> + +P.—Um sabio, a quem fizeram igual pergunta, +respondeu: <em>Se quizeres ser amado, +ama</em>. A semente +da amisade é a sympathia, ou reciproca +inclinação, +gerada, ou da analogia das indoles e estados, +ou de certas qualidades, que mal se póde dizer +quaes sejam, mas que parecem attrair umas +para as outras as pessoas, que as tem. +<br /> + +<br /> + +E.—De maneira que, se eu entrar n'uma casa +e me agradar de uma pessoa, que não conheça, +ainda que não seja da minha idade, nem bonita, e +sentir para ella inclinação, poderei dizer que +<em>sympathizei</em> +com ella. +<br /> + +<br /> + +P.—De certo. +<br /> + +<br /> + +E.—Mas ás vezes tambem succede o contrario; +olha a gente para um homem ou para uma senhora, +e posto que nem sejam feios, nem desastrados, experimenta +certa repugnancia em tratal-os. +<br /> + +<br /> + +P.—A essa repugnancia se dá o nome de +<em>antipathia</em>. +<br /> + +<br /> + +E.—Quando pois, sympathisarmos com alguem, +poderemos contar com um verdadeiro amigo? +<br /> + +<br /> + +P.—Nem sempre. Á vossa pergunta respondeu +ha muito tempo um escriptor portuguez dos mais +eruditos, chamado Antonio de Sousa de Macedo, +cujas obras vos recommendo desde já para quando +fordes maiorzinhos. Ouvi o que elle a tal respeito +escreveu. «D'entre os mesmos em que se acham +sympathias, se deve fazer distincção, antes de +trabalhar +<span class="pagenum">[89]</span> +pelos fazer amigos, por que nem todos serão +convenientes. +<br /> + +<br /> + +Suetonio diz de Augusto, que os +<em>escolhia</em> com vagar, +e os conservava constantemente. Devem-se +preferir os de <em>melhor juizo</em>, +<em>bons costumes</em>, +<em>valor</em>, +<em>sinceridade</em>, e +<em>bôa fama</em>. Nem com o +<em>nescio</em>, diz +o ecclesiastico, nem com o <em>mau</em>, diz +santo Agostinho, +nem com o <em>pouco verdadeiro</em>, diz +Aristoteles, +póde haver amizade.» +<br /> + +<br /> + +E.—São essas as qualidades que devem ter os +amigos, e muito folgo de que tão claramente nol-as +expozesse esse auctor portuguez, cujo nome citastes; +mas quando se nos depare alguem com todos +esses requisitos, que deveremos fazer para lhe captivarmos +a amizade? +<br /> + +<br /> + +P.—Seja tambem Macedo quem vos responda. +Diz elle: «Feita a eleição, a +communicação e conversação +faz os amigos, concordando nos ditos, e nas +acções (suppondo que tudo ha de ser honesto e +judicioso) +e para a facil, sincera, e agradavel concordia, +contribue especialmente a sympathia, a qual, +accrescentou um sabio, se deve ajudar com algum +beneficio, feito graciosamente, sem ser rogado, nem +depois publicado.» +<br /> + +<br /> + +E.—Algum beneficio? +<br /> + +<br /> + +P.—Não fiqueis ahi pensando que os beneficios, +que penhoram a amizade, sejam tão sómente mimos +e presentes de cousas, que se merquem nas +lojas, ou de fructas e manjares; boas são essas provas +de amizade, mas não são as unicas, nem as mais +<span class="pagenum">[90]</span> +apreciaveis. Por beneficios deveis entender tambem, +os conselhos prudentes, os exemplos dignos +de imitação, a companhia na doença, e +nas tribulações, +o ensino fraternal e até a reprehensão suave +das faltas e defeitos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>Resumo +</h4> + +<br /> + +Os condiscipulos são quasi irmãos, filhos +espirituaes +do professor. Devem ser delicados, bons, +e amigos. Devem cumprimentar-se á entrada e saïda +da aula e sempre que se encontrarem. Devem prestar +uns aos outros todos os serviços, que puderem. +Os estudantes pobres, defeituosos, mal vestidos +merecem, sendo bons, tanta estima e consideração, +como os abastados, sãos, e tafues. Nem sombra de +alcunhas, principalmente allusivas a quaesquer deformidades, +ou imperfeições do corpo ou do espirito. +Se nos pedirem cousa, que possamos emprestar +ou ceder, emprestemol-a, ou cedamol-a, sem +exigir paga, nem agradecimento. Delicadeza não é +bondade. Toda a acção contraria á lei +de Deus, ou +ás leis humanas, quando estas não offendem +aquella, +é má. +<br /> + +<br /> + +O mandrião merece castigo e desprezo. Desde a +aula deve o rico ajudar o pobre.—Se algum estudante +fizer maldades advirtam-n'o os que as presenciarem; +mas não as divulguem. Quando um estudante +praticar acções indignas, e admoestado +pelos condiscipulos, se não emendar, recorra-se ao +<span class="pagenum">[91]</span> +professor, dizendo-lhe em particular, e sem aggravar +o mal, quanto baste para que elle proceda +como fôr de justiça. É prova de +delicadeza e bondade +de coração implorar misericordia para os que +estiverem em risco de ser castigados. Nunca se +deve mentir; a mentira é a torpeza das torpezas. +<br /> + +<br /> + +São amigas duas pessoas que reciproca e honestamente +se estimam como cada uma d'ellas se estima +a si propria. Ha amizade verdadeira, e falsa.—Nem +todos os que parecem amigos, o são; não +se deve confundir o amigo com o conhecido. Amar +é o meio de grangear amigos. A amizade nasce da +sympathia; mas nem todos com quem sympathisâmos +podem ser nossos amigos. As qualidades que +deverá ter um amigo, são: bom juizo, bons +costumes, +valor, sinceridade, bôa fama. Não deve ser +nescio, nem mau, nem mentiroso. Para o grangear +bastará a communicação e +conversação, auxiliadas +por obsequios desinteressados. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>Reflexões +</h4> + +<br /> + +É finda a nossa palestra de hoje. Temos dito +muitas cousas, mas não basta fallar; é +indispensavel +fugir do mal e praticar o bem. Muito falla o +papagaio, mas que faz tamanho palrador? Come o +que lhe deitam no comedouro, e nas horas vagas +vae roendo a gaiola. Ninguem dirá com verdade, +que seja muito para se imitar a tal ave palreira. +Palavras, leva-as o vento, dil-o o rifão, e não +mente. +<span class="pagenum">[92]</span> +Para vos não parecerdes com aquelle animalzinho +inutil, amae-vos muito uns aos outros; auxiliae-vos +fraternalmente, cumprí á risca todas as vossas +obrigações, +e lembrae-vos a cada momento de que os +homens do futuro, os paes de familia, os mestres, +os escriptores, os ministros, os deputados, os juizes, +os sacerdotes, os militares, os medicos, os +pharmaceuticos, os advogados, os artistas, os negociantes, +os industriaes, os lavradores haveis de +ser vós, e de que para profissões tão +variadas, tão +nobres, tão difficeis e de tantissima responsabilidade, +vos deveis desde já preparar, estudando e +praticando todas as virtudes, para que, chegada +que seja a hora de entrardes na vida activa e de +servirdes a civilisação, que exige obreiros +intelligentes +e honrados, possaes cabalmente desempenhar +os vossos deveres. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c6" id="c6"></a>QUARTA +LIÇÃO +</h3> + +<h4> +VIDRO<sup><a href="#n11">[11]</a></sup> +</h4> + +<br /> + +<br /> + +Escolheu o professor Mayo o vidro para assumpto +da primeira lição do ensino intuitivo, ou de +objectos, +por lhe parecerem as qualidades d'este corpo +mais perceptiveis aos nossos sentidos, que as de +qualquer outro. Aconselha o mesmo professor que +fiquem os meninos defronte do quadro preto, onde +se hão de ir escrevendo os resultados de suas +observações; +<span class="pagenum">[93]</span> +e que o pedaço de vidro vá passando +de mão para mão, para que cada um dos estudantes +individualmente o examine. O tomar cada menino +o fragmento de vidro em suas mãos e o il-o +observando com attenção é, como atraz +observámos, +ponto de grande importancia para o bom resultado +do ensino. Diz a este proposito o excellente +pedagogista Mayo o seguinte: «D'este modo cada +individuo, dos que compõem a aula, se vê obrigado +a exercitar as suas faculdades sobre o objecto, +que se lhe apresenta; servindo as perguntas, +que depois lhes faz o professor, para que elles revelem +suas idéas, e para a emenda d'estas, se forem +erroneas. +<br /> + +<br /> + +P. (Mostrando um bocado de vidro)—Que é isto, +que eu tenho na mão? +<br /> + +<br /> + +E.—É um bocado de vidro. +<br /> + +<br /> + +P.—Vamos soletrar a palavra <em>vidro</em>. +<br /> + +<br /> + +(<em>Feita esta advertencia, escreve o professor no +quadro preto a palavra vidro, dividida em duas +syllabas</em>; pronuncía alto e bom som, em primeiro +logar as lettras <em>v-i-d-r-o, acompanhando a +pronunciação +de cada uma d'ellas de uma pancada com +o ponteiro no quadro, ou de uma palmada; e pronuncía +depois as duas syllabas mui distinctamente. +Em seguida repetem os estudantes primeiro individualmente, +e depois em côro, aquella soletração, +até que a saibam correctamente fazer</em>.) +<br /> + +<br /> + +P.—Todos vós examinastes este vidro; e que +notastes n'elle? Que podeis dizer que é? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[94]</span> +(Põe-se esta pergunta em logar de: Quaes são as +suas propriedade? porque é muito provavel que a +principio não entendam os meninos o sentido da +palavra «propriedade»; mas applicando-a repetidas +vezes o professor ás respostas que os estudantes +derem, em pouco tempo se acostumarão a ella e +lhe perceberão o sentido). +<br /> + +<br /> + +E.—É brilhante. +<br /> + +<br /> + +P. (Depois de ter escripto no quadro a palavra +«propriedade», escreve por baixo: +«É brilhante»).—Pegae-lhe; +apalpae-o. (Deverá o professor dirigir +aos estudantes perguntas conducentes a pôr-lhes +successivamente em acção os differentes +sentidos). +<br /> + +<br /> + +E.—É frio. (Escreve-se esta resposta no quadro +por baixo da outra qualidade). +<br /> + +<br /> + +P.—Tornae a pegar no vidro, e comparae-o com +este fragmento de esponja, com que limpâmos o +quadro, e dizei-me o que notastes no vidro. (O intento +do professor ao fazer esta pergunta, deve ser +conseguir que os estudantes observem a «lisura», +contrapondo esta propriedade á sua opposta, a +«aspereza» +de outra substancia; meio de demonstração +que muitas vezes se poderá empregar). +<br /> + +<br /> + +E.—É lizo; é duro. +<br /> + +<br /> + +p.—Ha na aula outro objecto de vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Ha sim senhor; os vidros das vidraças. +<br /> + +<br /> + +P.—Olhae pelas vidraças, e dizei-me o que +vêdes. +<br /> + +<br /> + +E.—Vemos o jardim. +<br /> + +<br /> + +P. (Fechando as portas da janella)—Olhae agora +e dizei-me o que vêdes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[95]</span> +E.—Agora não podemos vêr nada. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque é que não vêdes +nada? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque atravez das portas não se +póde +vêr +nada. +<br /> + +<br /> + +P.—Que differença notaes entre as portas e o +vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Notâmos que atravez das portas nada podemos +vêr, e que atravez do vidro vêmos o jardim. +<br /> + +<br /> + +P.—Podeis dizer-me alguma palavra, que indique +essa qualidade, que tem o vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Eu vol-a digo. Tomae sentido, para que vos +não esqueça. É +<em>transparente</em>. D'aqui por diante +que idéa fareis d'um corpo, se vos disserem que +é transparente? +<br /> + +<br /> + +E.—Que se pode vêr atravez d'elle. +<br /> + +<br /> + +P.—Respondestes muito bem. Lembraes-vos de +alguma cousa que seja transparente? +<br /> + +<br /> + +E.—A agua. +<br /> + +<br /> + +P.—Que aconteceria se eu deixasse cair no +chão este pedaço de vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Quebrar-se-ia. +<br /> + +<br /> + +P.—E se da rua atirassem pedras á janella? +<br /> + +<br /> + +E.—Quebrar-se-iam os vidros. +<br /> + +<br /> + +P.—Sabeis como se chamam os corpos, que +tem esta qualidade, ou propriedade de se partirem, +quando caem n'um corpo duro, ou quando +se lhes bate? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[96]</span> +P.—Chamam-se +<em>quebradiços</em>, ou +<em>frageis</em>,—Dizei-me, +se deixassemos cair a porta da janella ou +se contra ella atirassemos uma pedra, que succederia? +<br /> + +<br /> + +E.—Ficaria inteira. +<br /> + +<br /> + +P.—E se eu lhe batesse muito de rijo com outro +corpo durissimo? +<br /> + +<br /> + +E.—Quebrar-se-ia. +<br /> + +<br /> + +P.—A madeira é quebradiça, ou fragil? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Deveremos chamar frageis a todas as substancias, +que podermos quebrar? +<br /> + +<br /> + +E.—-Não, senhor; <em>frageis</em> +diremos só aquellas, +que se quebrarem com facilidade. +<br /> + +<br /> + +P.—Para que serve o vidro? que prestimo tem? +<br /> + +<br /> + +E.—Serve para as janellas. +<br /> + +<br /> + +P.—Que vantagem ha em pôr vidraça nas +janellas? +<br /> + +<br /> + +E.—Ter as casas abrigadas do vento, da chuva, +da poeira, e das moscas. +<br /> + +<br /> + +P.—Parece-me que, fechando-se as portas das +janellas, não entrariam pelas casas dentro, nem +moscas, nem poeira, nem chuva, nem vento. +<br /> + +<br /> + +E.—Mas cerradas as portas das janellas, ficariam +as casas ás escuras, e não poderiamos +vêr +para fóra. +<br /> + +<br /> + +P.—Muito bem. Dizei-me porque razão não +tira +o vidro a claridade ás casas, nem obsta a que se +vejam os objectos que estão fóra? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque é +<em>transparente</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[97]</span> +P.—Não ha outros objectos de vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Ha cópos, garrafas, castiçaes, +espelhos, +tinteiros, +etc. +<br /> + +<br /> + +É provavel, diz o professor Mayo, que na primeira +lição não occorram aos meninos outras +qualidades; +mas estas sós, escriptas no quadro preto, +constituirão um bom exercicio de +soletração. Devem-se +depois apagar; e se os estudantes já souberem +escrever, poderão exercitar a memoria e repetir +a lição, escrevendo-as de novo nas ardosias. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c7" id="c7"></a>QUINTA +LIÇÃO +</h3> + +<h4> +CAOUTCHOUC—GOMMA ELASTICA—BORRACHA<sup><a href="#n12">[12]</a></sup> +</h4> + +<br /> + +<br /> + +Escolheu o professor Mayo esta substancia para +objecto da segunda lição, para que os meninos +observem +as qualidades, ou propriedades, que os physicos +denominam <em>opacidade</em>, +<em>elasticidade</em>, e +<em>inflammabilidade</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[98]</span> +P.<sup><a href="#n13">[13]</a></sup>—Que +é isto? (Mostrando um bocado de +caoutchouc). +<br /> + +<br /> + +E.—É um bocado de +<em>borracha</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Parece-se com o vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Em nada. +<br /> + +<br /> + +P.—Ponde esse pedacinho de <em>borracha</em> +diante +dos olhos e olhae para mim... Vêdes-me? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Se nas janellas, em vez de vidros, estivessem +laminas de borracha, que aconteceria? +<br /> + +<br /> + +E.—Ficariam as casas ás escuras, e não +poderiamos +vêr para fóra. +<br /> + +<br /> + +P.—Sabeis como se chama a qualidade, que tem +a <em>borracha</em> de não deixar +vêr atravez de si, como +o vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Chama-se <em>o-pa-ci-da-de</em>. +Repetí commigo +esta palavra. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>O-pa-ci-da-de.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Vou escrevel-a; olhae attentamente. (O professor +escreve no quadro preto: <em>Propriedades ou +qualidades da +borracha</em>—<em>O-pa-ci-da-de</em>). +Menino +F., como chamareis aos corpos, que tem opacidade? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Opacos.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Ponde diante dos olhos a lousa, que ahi +tendes, e olhae para mim. Vêdes-me? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[99]</span> +P.—Porque me não vêdes, quando entre mim +e vós está um bocado de lousa? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque a lousa é +<em>opaca</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Menino G., dizei-me se está alguem ali +n'aquelle quarto. +<br /> + +<br /> + +E.—Eu vou vêr. (Levantando-se). +<br /> + +<br /> + +P.—Não vos levanteis; olhae d'ahi, do vosso logar. +<br /> + +<br /> + +E.—D'aqui não posso vêr. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque não podeis vêr d'ahi o que se +passa +n'aquelle quarto? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque se mette de permeio a parede. +<br /> + +<br /> + +P.—E se a parede fosse de vidro, poderieis ver +para dentro d'aquella casa? +<br /> + +<br /> + +E.—Veria de certo, porque o vidro é transparente; +mas a +parede não é. +<br /> + +<br /> + +P.—Como diremos que é a parede, attendendo +a que nos tira a vista das cousas, que estão para +além d'ella? +<br /> + +<br /> + +E.—Diremos que é opaca. +<br /> + +<br /> + +P.—A borracha póde facilmente cortar-se com +a thesoura. Vou cortar umas tiras, para os meninos +fazerem uma brincadeira. Eil-as: Tomem estas +tirinhas de borracha, segurem-n'as pelas extremidades +e puxem-n'as, como quem quizesse esticar +uma linha... Basta, basta; agora larguem-n'as de +um lado... Que vistes? +<br /> + +<br /> + +E.—A borracha deu de si, estendeu, estendeu; +e, logo que a largámos, voltou ao primitivo comprimento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[100]</span> +P.—Tomem agora este bocado de vidro, e puxem-n'o +bem. +<br /> + +<br /> + +E.—Não dá de si; não +estende. +<br /> + +<br /> + +P.—Temos, pois, que a borracha, sendo puxada, +estende, e logo que a soltam volta á primeira; +e que o vidro, por mais que o puxem, não +dá de si. Porque será isso? +<br /> + +<br /> + +E.—Provavelmente é por que a borracha tem +alguma qualidade, que nós ignorâmos. +<br /> + +<br /> + +P.—Como é que a ignoram, se acabam de a +observar?! O que os meninos ignoram é o nome +que essa propriedade tem. +<br /> + +<br /> + +E.—Podeis-nos dizer como se chama? +<br /> + +<br /> + +P.—Chama-se <em>e-las-ti-ci-da-de</em>. +Repeti commigo +este nome: +<br /> + +<br /> + +E.—<em>E-las-ti-ci-da-de.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Reparae; vou escrevel-o no quadro preto, +por baixo do nome da outra qualidade da borracha, +por baixo da palavra... (Tapando com a mão +a palavra no quadro). +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Opacidade.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Muito bem; não se esqueceram. +<br /> + +<br /> + +(Escreve) Aqui está: +<em>Elasticidade</em>. Tomae outra vez +as tirinhas de borracha; e em vez de puxal-as, torcei-as +entre os dedos, que se chamam +<em>pollegar</em> (Mostra +o dedo pollegar) e est'outro (Mostra o indicador), que +se chama <em>indicador</em>... Agora +largae-as. Que observaes? +<br /> + +<br /> + +E.—Destorcem-se por si. +<br /> + +<br /> + +P.—Menino A... por que é que se destorcem +por si essas tirinhas de borracha? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[101]</span> +E.—Provavelmente, pela mesma qualidade, pela +qual ainda agora estenderam e encolheram, ficando +do comprimento, que tinham, antes de as estarmos +a puxar. +<br /> + +<br /> + +P.—Assim é. Dizei-me agora o que é +isto? +(Mostrando +uma péla) +<br /> + +<br /> + +E.—Isso é uma péla de brincar. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque será que todos os meninos gostam +de jogar a péla? +<br /> + +<br /> + +E.—É porque as pélas saltam muito, e +nós temos +de correr atraz d'ellas, caio aqui, acolá me +levanto. +<br /> + +<br /> + +P.—Sabeis de que são feitas as pélas? +<br /> + +<br /> + +E.—São feitas de borracha<sup><a href="#n14">[14]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque não fazem as pélas de barro, +ou +de folha de Flandres, ou de pau, ou de cortiça? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque se fossem feitas d'essas materias +não saltariam. +<br /> + +<br /> + +P.—Que ha, pois, nas pélas de borracha, que as +faz andar aos pulos? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sabemos. +<br /> + +<br /> + +P.—E se eu lhes disser, que sabem? Pensem, +<span class="pagenum">[102]</span> +meditem. Atiro esta péla ao chão, ella bate no +sobrado, achata-se, immediatamente toma a primitiva +fórma, a fórma de bola, ou de esphera, como +dizem os sabios, e eil-a a pular. +<br /> + +<br /> + +E.—Já sabemos porque as pélas de +borracha +saltam, e as outras não. É por causa da +<em>elasticidade</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Acertastes. N'aquelle retomar a fórma de +esphera ou bola immediatamente depois de se ter +achatado ao bater no chão, é que está +a elasticidade. +Outra pergunta ácerca d'esta qualidade. Dizei-me, +se vos occorre, o nome com que podemos +designar os corpos, que tem elasticidade. +<br /> + +<br /> + +E.—Podem chamar-se <em>elasticos</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Assim é. Reparae agora no que vou mostrar-vos. +(O professor acende uma véla). Temos +aqui um rolosinho de ferro (Mostra-o), um rolosinho +de barro (Mostra-o), este pedaço de pederneira +(Mostra-o), e um fragmento de borracha. +Pego no rolo de ferro pelo cabo de madeira, para +me não queimar, chego-o à luz, como vedes, mas +elle fica no mesmo estado. Pego no rolo de barro, +que não tem cabo de madeira, por que não aquece +tão depressa como o ferro, chego-o á luz e nada +de novo; com a pederneira acontece o mesmo. Ide +agora ver o que succede ao approximar da luz um +fragmento de borracha. Tomae sentido, porque me +haveis de dizer o que virdes. Por cautela, em vez +de tomar a borracha com os dedos, pego-lhe com +a thesoura. Attenção. (O professor chega a +borracha +<span class="pagenum">[103]</span> +á luz, e apenas ella se inflammar, affasta-a da +véla, e a colloca por cima de um vaso, que tenha +agua, evitando que lhe caia derretida nas mãos). +Que vistes? +<br /> + +<br /> + +E.—Vimos a borracha incendiar-se e arder com +chamma mui intensa e clara. +<br /> + +<br /> + +P.—Só isso observastes? +<br /> + +<br /> + +E.—E derreter-se. +<br /> + +<br /> + +P.—Nada mais? +<br /> + +<br /> + +E.—Mais nada. +<br /> + +<br /> + +P.—Não prestastes bastante +attenção. +Vou repetir +a experiencia. (Repete-a). Dizei-me se vistes +mais alguma cousa? +<br /> + +<br /> + +E.—A borracha derretida cair em pingos sobre +a agua, que está n'esse vaso. +<br /> + +<br /> + +P.—Exactamente. Esta qualidade da borracha +é mui differente das outras duas: +<em>elasticidade</em> e +<em>opacidade</em>. +<br /> + +<br /> + +E.—Certamente. +<br /> + +<br /> + +P.—Sabeis como se chama? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sabemos. Fazei mercê de nol-o +dizer. +<br /> + +<br /> + +P.—Chama-se <em>in-flam-ma-bi-li-da-de</em>, +ou propriedade +de arder com chamma. Bom será que repitaes +commigo o nome d'esta qualidade, ou propriedade +da borracha, para que vos não esqueça. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>In-flam-ma-bi-li-da-de.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Vou escrever este nome, que nada tem de +pequeno, sob o das outras qualidades. Qual de vós +é capaz de me dizer como chamaremos aos corpos, +que chegados a uma luz, arderem com chamma? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[104]</span> +E.—Sou eu. +<br /> + +<br /> + +P.—Dizei pois. +<br /> + +<br /> + +E.—Os corpos, que ardem com chamma, denominam-se +<em>inflammaveis</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—O ferro, o barro, a pederneira, são +inflammaveis? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor; mas a borracha é, e +muito. +<br /> + +<br /> + +P.—Podeis dizer-me a côr da borracha? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Negra.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Vou escrever o nome d'essa qualidade no +quadro preto (Escreve). Dizei-me, meus meninos, +se vos lembra alguma cousa, bastante vulgar, á +qual a borracha se assemelhe não só na +côr, mas +principalmente na grossura, na consistencia, na impressão +que nos faz, quando a apertâmos e revolvemos +entre os dedos. +<br /> + +<br /> + +E.—Assemelha-se ao couro. +<br /> + +<br /> + +P.—Muito bem. O que provavelmente não sabeis +é como se nomeiam as substancias analogas +ao couro. +<br /> + +<br /> + +E.—Não sabemos. +<br /> + +<br /> + +P.—Dizem se <em>co-ri-a-ce-as</em>. +Repetí pausadamente +esta palavra. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Co-ri-a-ce-as</em>.<br /> + +<br /> + +P.—Menino B...; vejo que estaes passando as +cabeças dos dedos por cima d'esse bocado de borracha, +e esse acto tão simples accordou-me o desejo +de vos fazer uma pergunta. Quando passâmos +a mão, ou sómente as cabeças dos dedos +por cima +de diversos corpos, sentimos a mesma impressão? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[105]</span> +E.—Não, senhor; umas vezes é agradavel +a +impressão, que sentimos; outras vezes, desagradavel. +<br /> + +<br /> + +P.—Podereis dar-me exemplo de uma e outra? +<br /> + +<br /> + +E.—Correndo a mão por cima de um panno de +lã grosseiro, ou por uma taboa, que não esteja +aplanada, sinto impressão desagradavel; correndo-a +por sobre uma folha de papel de peso, ou por um +vidro bem polido, tenho uma impressão agradavel. +<br /> + +<br /> + +P.—Sabeis que nome se dá aos corpos, quando +a sua superficie é como a do panno de lã +grosseiro, +e da taboa não aplanada? +<br /> + +<br /> + +E.—Diz-se que são +<em>asperos</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—E quando a superficie dos corpos é como +a do papel fino, ou de peso, e a do vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Diz-se que são <em>lisos</em>, +ou <em>macios</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—A borracha é aspera, ou macia? +<br /> + +<br /> + +E.—É <em>macia</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Ficâmos pois, sabendo, que a borracha +é +<em>opaca</em>, +<em>elastica</em>, +<em>inflammavel</em>, +<em>negra</em>, +<em>coriacea</em>, e +<em>macia</em>. Mais uma pergunta, e +dâmos por terminada +a nossa palestra. +<br /> + +<br /> + +Tem a borracha algum prestimo? +<br /> + +<br /> + +E.—Serve para apagar os traços, que o lapis +deixou no papel, para fazer pélas e outros objectos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[106]</span> +<h3><a name="c8" id="c8"></a>SEXTA +LIÇÃO +</h3> + +<h4> +COURO +</h4> + +<br /> + +Nesta lição pretende o professor Mayo dar aos +meninos idéa das seguintes propriedades, ainda por +elles não estudadas: +<em>flexibilidade</em>, +<em>cheiro</em>, +<em>impermeabilidade +á agua</em>; e recordar-lhes algumas, +já +estudadas a proposito da borracha. +<br /> + +<br /> + +P.—Tomae, meus meninos, este corpo (Dando-lhes +ás mãos um bocado de couro), examinae-o, +e dizei-me se sabeis o que é?<sup><a href="#n15">[15]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +E.—É um pedaço de couro. +<br /> + +<br /> + +P.—Recordae-vos do que dissemos hontem a +respeito da borracha, e dizei-me se o couro tem +com ella alguma parecença. +<br /> + +<br /> + +E.—Tem, sim, senhor; e bastante. +<br /> + +<br /> + +P.—Muito prazer me darieis se fizesseis favor<sup><a href="#n16">[16]</a></sup> +de me dizer porque se parecem esses dois corpos, +que em realidade são mui differentes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[107]</span> +E.—Dissemos que se parecem, porque ambos +são <em>opacos</em>, +<em>coriaceos</em> e +<em>macios</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—E não vos enganastes; mas o couro tem +outras qualidades, que podereis descobrir, se o observardes +com attenção. +<br /> + +<br /> + +E.—(Hesitam, e ficam-se a olhar para o professor). +<br /> + +<br /> + +P.—Se os olhos me não illudem, todos +vós tendes +nariz; ora, pois, servi-vos d'elle, consultae-o. +<br /> + +<br /> + +E.—(Cheirando o couro). Tem <em>cheiro</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Assim é. Menino C..., dizei-me se todos os +corpos tem cheiro? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor; o vidro, e a louça, +não tem +cheiro. +<br /> + +<br /> + +P.—Lembra-vos alguma substancia, que tenha +cheiro? +<br /> + +<br /> + +E.—Lembram-nos muitas: o chá, o café, a +manteiga, +o vinagre. +<br /> + +<br /> + +P.—Quando uma substancia exhala cheiro proprio, +como diremos que é? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Cheirosa.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—<em>Cheirosas</em> dizemos as que tem +cheiro proprio +ou alheio. Por exemplo: se deitarmos no lenço +de assoar algum arôma, tal como agua de Colonia, +ou almiscar, ficará o lenço +<em>cheiroso</em>; não obstante +não ter cheiro seu, proprio. Se porém uma +substancia +é dotada de cheiro, bom ou mau, como o +chá ou o petroleo, melhor lhe chamaremos: +<em>odorifera</em>. +<br /> + +<br /> + +E.—Pelo que dizeis, o couro é +<em>odorifero</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[108]</span> +P.—De certo. Digam todos em côro esse nome. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>O-do-ri-fe-ro.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Continuemos a examinar o couro. Além, +está o menino F... a dobrar aquelle pedaço, +provavelmente +para vêr se o póde partir em dois. Vejamos +o que elle nos diz da sua experiencia. +<br /> + +<br /> + +E.—Dobra-se, mas não se parte. +<br /> + +<br /> + +P.—E acontece o mesmo a todos os corpos? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor; ha bem pouco tempo parti +eu uma regoa de madeira, por querer dobral-a. +<br /> + +<br /> + +P.—Qual será a palavra com que possâmos +representar +a qualidade, que tem o couro, de se dobrar +sem se partir? +<br /> + +<br /> + +E.—(Silencio.) +<br /> + +<br /> + +P.—Pensae no caso, e lembrae-vos de que ha +palavras parecidas umas com as outras, ou parentas. +Por exemplo: bondade e bom; maldade e mau; +aquentar e quente; rasgar e rasgado. +<br /> + +<br /> + +E.—Já sabemos, como deveremos chamar aos +corpos, que se dobram facilmente, sem se quebrarem +ou partirem. +<br /> + +<br /> + +P.—Que esperaes, para nos dar esse alegrão. +<br /> + +<br /> + +E.—Chamar-lhes-hemos +<em>dobradiços</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—-Deram no vinte; mas eu sei outro nome, +que quer dizer o mesmo, mas que é mais afidalgado, +e por isso menos vulgar. Vou escrevel-o no +quadro, e soletral-o-hão os que sabem ler. (Escreve +no quadro preto, na columna onde estão indicadas +as outras qualidades). +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[109]</span> +E.—(Em alta voz) <em>Fle-xi-vel</em>.<br /> + +<br /> + +P.—Qual dos meninos é capaz de me dizer o +nome da qualidade, ou propriedade em virtude da +qual são <em>flexiveis</em> alguns +corpos? +<br /> + +<br /> + +E.—Deve chamar-se <em>flexibilidade</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Muito bem respondeu o menino G... Não +se esqueçam os outros do que lhe ouviram, e fiquem +sabendo que, quando qualquer corpo se dobra, +como o couro, e como elle se não quebra ou +rasga, é porque tem +<em>flexibilidade</em>. Se não +temesse +cançal-os, ainda lhes havia de fazer mais perguntas +a respeito d'este corpo, que pelos serviços, que +nos presta, bem merece, que nos entretenhâmos +com elle.<sup><a href="#n17">[17]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +E.—Podeis continuar, senhor professor, que não +estâmos cançados. +<br /> + +<br /> + +P.—Já que assim o quereis, +façâmos uma +experiencia. +Tomem quatro meninos este lenço pelas +quatro pontas e estendam-n'o, mas não muito. Outro +menino deite-lhe em cima uma pouca d'agua. +(Os meninos executam o que o professor lhes manda). +Que observaes? +<br /> + +<br /> + +E.—O lenço molha-se. +<br /> + +<br /> + +P.—E que mais acontece? +<br /> + +<br /> + +E.—A agua atravessa o lenço e cae no sobrado. +<br /> + +<br /> + +P.—Ponde agora este bocado de papel mata-borrão +<span class="pagenum">[110]</span> +sobre o +lenço, deitae-lhe por cima mais +agua, e vêde o que succede. +<br /> + +<br /> + +E.—Molha-se tambem o papel e deixa passar a +agua. +<br /> + +<br /> + +P.—Espremei o lenço, e dizei-me o que observaes. +<br /> + +<br /> + +E. (Espremendo o lenço)—Escorre a agua, que +o lenço tinha em si, e este fica menos molhado. +<br /> + +<br /> + +P.—Fazei com este bocado de couro o que fizestes +com o lenço; isto é, estendei-o horisontalmente, +e deitae-lhe agua por cima. +<br /> + +<br /> + +E.—A agua não pode atravessar o couro; +não +cae no chão. +<br /> + +<br /> + +P.—Entornae a agua, e vêde se o couro ficou +ensopado. +<br /> + +<br /> + +E.—Não ficou, não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Sabeis porque assim acontece? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sabemos. +<br /> + +<br /> + +P.—Não se ensopa na agua, porque essa é +uma das suas qualidades, ou propriedades. De um +corpo, que a agua não atravessa, diremos que é +<em>impermeavel</em> +á agua. +<br /> + +<br /> + +E.—Fazeis mercê de repetir esse nome, que +não percebemos bem. +<br /> + +<br /> + +P.—Vou escrevel-o no quadro preto, para que +o leiam, e repetil-o-hemos depois com muito vagar. +(Escreve). +<br /> + +<br /> + +E.—-<em>Im-per-me-a-vel.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Relanceae os olhos pelos objectos, que estão +n'esta aula, e dizei-me se haverá entre elles +algum, que seja <em>impermeavel</em> +á agua. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[111]</span> +E.—O vidro. +<br /> + +<br /> + +P.—Porque dizeis que é impermeavel á +agua o +vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Porque a agua não o atravessa. +<br /> + +<br /> + +P.—Podereis convencer-me com algum exemplo +de que a agua não atravessa o vidro? +<br /> + +<br /> + +E.—Bastará olhar para esse cópo, que +está cheio +de agua, e que não a deixa sair atravez das suas +paredes. +<br /> + +<br /> + +P.—Gostei muito da vossa resposta, que revela +muito siso, e me prova que vos ides acostumando +a comparar. E porque sois espertos e amigos de +saber, vos perguntarei mais, se o barro de que é +feita aquella bilha, que alem tenho, para me arrefecer +a agua, tambem é impermeavel? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sabemos. +<br /> + +<br /> + +P.—Se a examinarem attentamente, sabel-o-hão +logo. Ora ide buscal-a para aqui. +<br /> + +<br /> + +E.—Esta bilha não é, como o couro e +vidro, +impermeavel. +<br /> + +<br /> + +P.—Dizei antes, o barro d'esta bilha, ou o barro, +de que esta bilha é feita, não é +<em>impermeavel</em>. Reparae, +que uma cousa é o objecto, o movel, o +corpo, que vemos, e outra cousa a materia, de +que o objecto, o movel, ou o corpo é formado. +Que é isto? (O professor mostra uma bola de +cêra). +<br /> + +<br /> + +E.—É uma bola. +<br /> + +<br /> + +P.—Bola ou esphera; mas de que? +<br /> + +<br /> + +E.—De cêra. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p112" id="p112">[112]</a></span> +P.—(Transformando a bola de cêra em um +cilindro)—E +isto, que é? +<br /> + +<br /> + +E.—Um rolo. +<br /> + +<br /> + +P.—Certamente; é um rolo ou cilindro; mas +de que? +<br /> + +<br /> + +P.—De cêra. +<br /> + +<br /> + +P.—(Dando â cêra a forma +<a href="#e9">cubica)</a>—O rolo +foi-se; isto, que é? +<br /> + +<br /> + +E.—Um dado de jogar. +<br /> + +<br /> + +P.—Vistes, que com a mesma materia, a +<em>cêra,</em> +formei tres corpos: uma bola ou sphera; um +rolo ou cilindro; e um dado de jogar ou cubo, os +quaes eu poderia ter feito de tres materias differentes, +por exemplo: de cêra, de barro e de madeira. +Acostumae-vos pois, desde agora, a distinguir +nos corpos a materia de que são feitos, da +maneira porque ella está limitada, ou, o que vem +a ser o mesmo, da sua configuração. Mas, tornando +à <em>permeabilidade</em> do barro +d'esta bilha, desejo que +me esclareçaes, dizendo-me o fundamento, que tendes, +para asseverar, que é permeavel. +<br /> + +<br /> + +E.—Dissemos que não era impermeavel, porque, +estando vazia, se conserva secca, e pouco depois +de se lhe deitar agua humedece por fóra, provavelmente, +porque a agua passa atravez de suas paredes. +<br /> + +<br /> + +P.—Assim é. Tende paciencia, meus meninos, +de escutar mais uma pergunta com a qual porei +termo á nossa palestra. Quizera me dissesseis se o +couro serve para alguma cousa. +<br /> + +<br /> + +E.—Serve para capas de livros; para forrar +<span class="pagenum">[113]</span> +bahus e malas; para fazer botas, sapatos, corrêas, +luvas, sellins, e arreios para cavallos. +<br /> + +<br /> + +P.—Bravo! Quem respondeu com tanto acerto, +tem direito a ir brincar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c9" id="c9"></a>SETIMA +LIÇÃO +</h3> + +<h4> +UM LIVRO +</h4> + +<br /> + +<br /> + +Examinando miudamente um livro, ficarão os +estudantes conhecendo as differentes partes de que +elle se compõe, seus nomes e usos; e adquirirão +as primeiras e elementarissimas noções +ácerca do +papel, da typographia, e dos algarismos romanos +e arabes.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +P.—Meninos, como se chama isto? (O professor +mostra aos estudantes um livro encadernado.) +<br /> + +<br /> + +E.—Chama-se <em>livro</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Todos vós tendes um livro? +<br /> + +<br /> + +E.—Temos, sim, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Pegae, pois, nos vossos livros, e preparae-vos +para uma palestra, que vos ha de ser muito +agradavel. +<br /> + +<br /> + +E.—Vamos ler? +<br /> + +<br /> + +P.—Não, senhores; vamos conversar a respeito +do livro, como conversámos ácerca do vidro, da +borracha e do couro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[114]</span> +E.—Quereis que escrevâmos a palavra livro? +<br /> + +<br /> + +P.—Vá escrevel-a no quadro preto o menino H. +<br /> + +<br /> + +E.—(Escreve), <em>Li-vro</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Talvez não tenhaes notado, que assim como +ha grupos de pessoas aparentadas, que constituem +familias, e que mais ou menos se parecem umas +com as outras; assim ha grupos de palavras tão +similhantes, que se não póde desconhecer, que +são +muito chegadas entre si, e como que parentas. +<br /> + +<br /> + +E.—Ainda não tinhamos reparado em tal. +<br /> + +<br /> + +P.—Prestae attenção ao que eu vou +escrever no +quadro preto (O professor escreve umas por baixo +das outras as palavras do exemplo, separando com +o hyphen o radical de cada uma) +<em>Pomb-o</em>, +<em>pomb-a</em>, +<em>pomb-inho</em>, +<em>pomb-inha</em>, +<em>pomb-al</em>, +<em>pomb-alinho</em>. +<br /> + +<br /> + +Todas estas palavras formam uma familia<sup><a href="#n18">[18]</a></sup>.<br /> + +<br /> + +<em>Cas-a</em>, +<em>cas-inha</em>, +<em>cas-ão</em>, +<em>cas-arão</em>, +<em>cas-eiro</em>, +<em>ca-sal</em>, +<em>cas-alinho</em>, +<em>cas-aleiro</em>, +<em>cas-aría</em>, +<em>cas-ebre</em> (Todos +estes nomes sejam escriptos uns por baixo dos outros, +ao lado dos nomes do primeiro exemplo, e +mui claramente pronunciados á +proporção que se +forem escrevendo). Aqui tendes outra familia. +<br /> + +<br /> + +<em>Carr-o</em>, +<em>carr-inho</em>, +<em>carr-ete</em>, +<em>carr-eta</em>, +<em>carr-etilha</em>, +<em>carr-ocim</em>, +<em>carr-uagem</em>, +<em>carr-oça</em>, +<em>carr-oçada</em>, +<em>carr-etão</em>, +<em>carr-etada</em>, +<em>carr-eteiro</em>, +<em>carr-eto</em>, +<em>carr-iagem</em>, +<span class="pagenum">[115]</span> +<em>carr-icoche</em>, +<em>carr-oceiro</em>, +<em>carr-oçar</em>, +<em>carr-il</em>, +<em>carr-omato</em>. Outra familia e +não pequena. +<br /> + +<br /> + +Se bem attenderdes, percebereis, que as palavras +do primeiro grupo começam todas pelas lettras +<em>pomb</em>; as do segundo pelas lettras +<em>cas</em>; e as do +terceiro pelas lettras <em>carr</em>. +<br /> + +<br /> + +As primeiras—<em>pomb</em>—representam +a +idéa—pombo; +as segundas—<em>cas</em>—representam a +idéa—casa; +as terceiras—<em>carr</em>—a +idéa—<em>carro</em>. <br /> + +<br /> + +Agora que estaes iniciados n'este segredo, podereis +dizer-me se a palavra—<em>livro</em>—tem +algumas +parentas? +<br /> + +<br /> + +E.—Tem uma parenta. +<br /> + +<br /> + +P.—Fazei favor de me dizer qual é. +<br /> + +<br /> + +E.—A palavra <em>livrinho</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Só essa? +<br /> + +<br /> + +E.—Tem outra parenta, que é +<em>livrete</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Procurae bem, que achareis mais. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Livraria</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Não sabeis o nome, que se dá, por +desprezo, +a um livro pequeno e mau? +<br /> + +<br /> + +E.—Chama-se-lhe <em>livreco</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Como denominaes os homens, que negoceiam +em livros? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Livreiros</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Fazei favor de me repetir os nomes de que +se compõe a familia, cujo pae é a palavra livro. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Livro</em>, +<em>livrinho</em>, +<em>livrete</em>, +<em>livraria</em>, +<em>livreco</em>, +<em>livreiro</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Muito bem. Agora se vos não custar muito, +<span class="pagenum">[116]</span> +dizei-me qual é a parte, que em todas essas seis +palavras sôa, quando as pronunciâmos, e se +vê, +quando as escrevemos, constante e inalteravel. +<br /> + +<br /> + +E.—É o principio. É +<em>livr</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Menino B, escrevei essas lettras no quadro +preto. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Livr.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Olhando para aquellas lettras, que vos +lembra? +<br /> + +<br /> + +E.—Lembra-me um livro. +<br /> + +<br /> + +P.—Fique-vos pois de memoria, que ha muitas +palavras, que se podem dividir em duas partes; e +que a primeira d'ellas, que figura em todos os +membros da familia, lembra a idéa da cousa, claramente +representada no termo, de que a familia +toda procede. +<br /> + +<br /> + +Que figura tem este livro? (O professor mostra +um livro.) +<br /> + +<br /> + +E.—É quadrado. +<br /> + +<br /> + +P.—Quadrado não é elle; é +<em>quadrilatero</em>. +<br /> + +<br /> + +Repeti, partida em syllabas, esta palavra. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Qua-dri-la-te-ro</em>.<br /> + +<br /> + +P.—Agora de uma só vez. +<br /> + +<br /> + +E.—Quadrilatero. +<br /> + +<br /> + +P.—Sabeis o que quer dizer a palavra quadrilatero? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P—-Quer dizer: Figura de quatro lados, ou superficie +fechada por quatro linhas. +<br /> + +<br /> + +Reparae para a figura que vou desenhar no quadro +<span class="pagenum">[117]</span> +preto. (O professor traça um parallelogrammo, +retangulo, um quadrado e um losango) Todas estas +figuras são quadrilateros; mas apenas esta +(Aponta o quadrado) se póde chamar quadrado<sup><a href="#n19">[19]</a></sup>. +Tenho aqui sobre a mesa uns poucos de pedaços +de papel, vinde cá, e escolhei um que seja +quadrado. +<br /> + +<br /> + +E.—Eil-o. +<br /> + +<br /> + +P.—Muito bem. Agora desenhe o menino A. no +quadro preto um quadrado. +<br /> + +<br /> + +E.—(Desenhando). Aqui está desenhado. +<br /> + +<br /> + +P.—Como chamareis a esses riscos, que formam +o quadrado? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Linhas.</em> +<br /> + +<br /> + +P.—Sabeis que outro nome se dá ás +linhas, +quando são direitas como essas, que ahi desenhastes? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Dá-se-lhes o nome de <em>linhas +rectas</em>. Todos +esses quadrilateros são formados de linhas rectas. +<br /> + +<br /> + +Olhae agora para os vossos livros, e dizei-me +como se chama a sua parte externa, a parte de +fóra. +<br /> + +<br /> + +E.—Chama-se <em>capa</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Por que lhe dariam esse nome? +<br /> + +<br /> + +E.—Talvez pela analogia, que tem com a capa +ou capote, que usam homens e mulheres. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[118]</span> +P.—Mas a capa dos livros não tem góla, +nem +cabeção, nem roda, como é uso terem os +nossos +capotes. +<br /> + +<br /> + +E.—Certo é que nada d'isso tem; mas reveste +o livro, e o resguarda, como o capote resguarda +o fato; que lhe fica por baixo. +<br /> + +<br /> + +P.—Respondestes optimamente. Dizei-me se as +capas dos livros tem todas a mesma consistencia. +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor; umas são duras e +grossas; +outras, delgadinhas e molles. +<br /> + +<br /> + +P.—Assim é. De que materia fazem as capas +dos livros, quando duras e grossas? +<br /> + +<br /> + +E.—De <em>papelão</em>.<br /> + +<br /> + +P.—É verdade; mas noto, que sendo o +papelão +aspero e feio, as capas dos livros são macias +e bonitas. Sabereis explicar-me a razão d'isto? +<br /> + +<br /> + +E.—É porque revestem o papelão de papel +de +côres, de panno, ou de couro pintado. +<br /> + +<br /> + +P.—Bravo! muito bem. Como se denominam +os artistas, que fazem as capas dos livros e lh'as +põem? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Encadernadores</em>.<br /> + +<br /> + +P.—Como se diz que está um livro, a que o +encadernador poz uma capa consistente, como a +d'estes, que temos nas mãos? +<br /> + +<br /> + +E.—Diz-se que está +<em>encadernado</em>. +<br /> + +<br /> + +P—E quando um livro está apenas coberto +com uma capa de papel, como este, que vos mostro? +<br /> + +<br /> + +E.—Diz-se que está +<em>brochado</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[119]</span> +P.—Se um artista se empregar exclusivamente +em brochar livros, como lhe chamaremos? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Chamar-lhe-hemos <em>brochador</em>. +<br /> + +<br /> + +E.—Os encadernadores não são tambem +livreiros? +<br /> + +<br /> + +P.—<em>Livreiro</em> é a pessoa, +que negoceia em livros, +que os compra e vende. Ha, porém, individuos, +que exercem ambas as industrias, isto é, que +compram e vendem lívros, e que os encadernam. +<br /> + +<br /> + +Continuemos a examinar o nosso livro, e em +primeiro logar fazei obsequio de me indicar o nome +d'esta parte (O professor indica a lombada). +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei como se chama. +<br /> + +<br /> + +P.—Chama-se <em>lombo</em>, ou +<em>lombada</em>.<br /> + +<br /> + +E.—Porque dariam a esta parte tão estrambotica +denominação? +<br /> + +<br /> + +P.—Provavelmente em consequencia de ter +certa analogia de fórma e posição com +as costas +ou lombo do homem. +<br /> + +<br /> + +E.—Tenho notado, que é a lombada a parte, +que os encadernadores mais esmeradamente aformoseam. +Porque será? +<br /> + +<br /> + +P.—Admira-me não vos occorrer a razão +d'isso! +Porque será, menino B.? +<br /> + +<br /> + +E.—Eu não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Dizei antes: Não sei. É preciso +não abusar +do <em>eu</em> e do +<em>tu</em>. Muito mais elegante, conciso e +energico +é dizer: Não sei, não quero, +não posso, do +que: Eu não sei, eu não quero, eu não +posso. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[120]</span> +Menino C, porque motivo adornam os encadernadores +as lombadas dos livros mais do que o +resto da capa? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—Respondei, menino M. +<br /> + +<br /> + +E.—Enfeitam mais as lombadas, se me não +engano, por ser a parte, que mais se vê, quando +os livros estão na estante. +<br /> + +<br /> + +P.—Assim é. Examinae o lombo do vosso livro +e dizei-me o que notaes? +<br /> + +<br /> + +E.—Traços e adornos dourados. +<br /> + +<br /> + +P.—Mais nada? +<br /> + +<br /> + +E.—Lettras, tambem douradas. +<br /> + +<br /> + +P.—Que dizem essas lettras? +<br /> + +<br /> + +E.—«Motta»—«Quadros +de +historia». +<br /> + +<br /> + +P.—Aos dizeres, que os livros tem na parte +superior do lombo, que nome se dá? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Titulo</em>.<br /> + +<br /> + +P.—A palavra «Motta», que está +ahi a +dizer? +<br /> + +<br /> + +E.—O nome do auctor. +<br /> + +<br /> + +P.—E as outras? +<br /> + +<br /> + +E.—O assumpto. +<br /> + +<br /> + +P.—Vede a lombada d'est'outro livro. Tem tão +poucos dizeres, como a d'esse, por onde habitualmente +ledes? +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor; tem mais. +<br /> + +<br /> + +P.—Que mais tem? +<br /> + +<br /> + +E.—Uma lettra de conta. +<br /> + +<br /> + +P.—De que palavra nos deveremos servir, para +designar o que chamaes lettra de conta? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[121]</span> +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +P.—O menino, que souber responder á minha +pergunta, responda. +<br /> + +<br /> + +E.—Não se deve dizer lettras de conta, mas +<em>algarismos</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Muito bem. Se temos palavra apropriada +para indicar os signaes representativos dos numeros, +evitemos um rodeio. +<br /> + +<br /> + +Que algarismo tem esse livro na lombada? +<br /> + +<br /> + +E.—O algarismo 2. +<br /> + +<br /> + +P.—Para que pozeram ahi o algarismo 2? +<br /> + +<br /> + +E.—Para indicar que este livro é o segundo +volume da obra. +<br /> + +<br /> + +P.—Exactamente. +<br /> + +<br /> + +E.—Todas as obras constam de dois volumes?<sup><a href="#n20">[20]</a></sup><br /> + +<br /> + +P.—Não se riam da pergunta do menino S.; +ninguem nasce ensinado, e quem não pergunta fica +ignorando muitas cousas. Agora conversemos nós, +menino S. Ha obras completas em um volume, e +d'essas tendes exemplo nos «Quadros de historia +portugueza»; tambem as ha em dois, tres, quatro +e até em dez, vinte e mais volumes. Quando uma +obra principia e acaba no mesmo volume não é +necessario pôr-lhe nem externa nem internamente +nenhum algarismo; se principia n'um volume e +continúa e acaba n'outro, marca-se externamente +o primeiro com o algarismo 1 e o segundo com +<span class="pagenum">[122]</span> +o algarismo 2; se a obra se estende por tres +ou quatro volumes, põe-se na lombada do primeiro +o algarismo 1, na do segundo o algarismo 2, na +do terceiro 3, na do quarto 4, etc. +<br /> + +<br /> + +Menino H., para que serve o titulo do livro escripto +na lombada? +<br /> + +<br /> + +E.—Para facilmente darmos com elle sem ser +necessario abril-o. +<br /> + +<br /> + +P.—Como se nomeiam estas partes da capa +dos livros? (Pondo o dedo nos cantos.) +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Cantos da capa</em>.<br /> + +<br /> + +P.—Abri os vossos livros e dizei-me como se +chamam essas laminas de papel, que a capa envolve +e resguarda? +<br /> + +<br /> + +E.—Chamam-se <em>folhas</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Esse nome applica-se a muitas cousas: folhas +de arvores, folhas de espadas, folhas de papel, +folhas de serra, folhas de madeira, folhas das +mangas do jaleco, etc. +<br /> + +<br /> + +Explicae-vos, pois, de modo, que todos fiquem +sabendo a quaes folhas alludis. +<br /> + +<br /> + +E.—A nenhuma das que citastes. As folhas, que +estamos vendo, são folhas do livro. +<br /> + +<br /> + +P.—Cada uma folha de livro tem duas faces; +sabeis que nome se lhes costuma dar? +<br /> + +<br /> + +E.—É costume chamar-lhes +<em>paginas</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—A primeira e ultima folha dos livros, nas +quaes nada ha escripto, e que ás vezes são de +papel +pintado, como se chamam? +<br /> + +<br /> + +E.—Não sei. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[123]</span> +P.—Qual de vós outros me póde +responder? +<br /> + +<br /> + +(Silencio). +<br /> + +<br /> + +P.—Chamam-se <em>guardas</em>, porque +estão ali, +como que para defenderem as folhas impressas +da acção da poeira, dos insectos e das impurezas +dos ledores menos aceiados. +<br /> + +<br /> + +Ha tambem nos livros +<em>ante-rôsto</em> e +<em>rôsto</em>. Fazei +mercê de m'os indicar. +<br /> + +<br /> + +E.—O <em>ante-rosto</em> deve de ser esta +folha escripta +só de um lado, e que diz apenas: «Quadros de +historia portugueza» o +<em>rosto</em> deve de ser a folha, +que se segue immediatamente ao ante-rosto, tambem +só de um lado escripta. +<br /> + +<br /> + +P.—Que significam essas duas palavras: +<em>ante-rôsto</em>? +<br /> + +<br /> + +E.—Parece-me que querem dizer: folha, que +antecede a do rôsto. +<br /> + +<br /> + +P.—Exactamente. Sabeis que outro nome se dá +á folha do rôsto? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Frontispicio</em>.<br /> + +<br /> + +P.—Desejava saber por que ao frontispicio chamam +tambem, rôsto. Se algum de vós me poder +esclarecer, far-me-ha muito obsequio, satisfazendo +o meu desejo. +<br /> + +<br /> + +E.—Eu não sei; não sei; eu tambem +não. +<br /> + +<br /> + +P.—Parece-me que não ha de ser necessario irmos +a Coimbra, para explicar similhante bagatella. +<br /> + +<br /> + +E.—Bagatella!? +<br /> + +<br /> + +P.—Ides ver se o é, ou não. Como se +chama +esta parte do nosso corpo? (Apontando o rôsto). +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[124]</span> +E.—<em>Cara</em>.<br /> + +<br /> + +P.—Não tem outro nome? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Semblante</em>.<br /> + +<br /> + +P.—Não tem outro nome? +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Face</em>.<br /> + +<br /> + +P.—Não tem ainda outro nome? +<br /> + +<br /> + +E.—Ah! Chama-se <em>rosto</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Que quiz dizer esse ah!? +<br /> + +<br /> + +E.—Já sabemos porque ao frontispicio dos livros +se chama tambem rôsto. +<br /> + +<br /> + +P.—Se sabeis, dizei-m'o. +<br /> + +<br /> + +E.—Chamam-lhe rôsto, por que em a gente +olhando para aquella folha, logo conhece o livro, +como conhece uma pessoa, em lhe vendo a cara. +<br /> + +<br /> + +P.—Para conhecer um livro, isto é, para saber +de que trata, parece-me que não é indispensavel +examinar-lhe o rôsto; bastará ler o titulo, ou +ante-rôsto. +<br /> + +<br /> + +E.—Não é exactamente o mesmo, para +tomar +conhecimento de um livro, ler o titulo ou o ante-rôsto, +ou o rôsto, porque este indica muitas mais +cousas, que aquelles. +<br /> + +<br /> + +P.—Dizei quaes são. +<br /> + +<br /> + +E.—O titulo da obra por extenso, o nome todo +do auctor, a typographia, a terra onde foi impresso +e até o anno. +<br /> + +<br /> + +P.—Bravo! bravo! sr. estudante, muito bem. +As vossas respostas animam-me. Dizei-me se o papel, +de que são feitos os livros, é uma substancia +natural, isto é, que se encontre feita, como se encontra +<span class="pagenum">[125]</span> +a pedra, a agua, a madeira, o barro, a +areia, ou se é um producto da arte, quero dizer, +feito pelo homem. +<br /> + +<br /> + +E.—É producto da arte. +<br /> + +<br /> + +P.—Já alguem vos disse de que é +fabricado o +papel. +<br /> + +<br /> + +E.—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +P.—Quereis saber? +<br /> + +<br /> + +E.—Se queremos.... +<br /> + +<br /> + +P.—Fabrica-se de trapos de linho, canamo, e +algodão. +<br /> + +<br /> + +E.—De trapos?! +<br /> + +<br /> + +P.—Sim, de trapos. +<br /> + +<br /> + +E.—Eu pensava que os trapos não prestavam +para nada! +<br /> + +<br /> + +P.—Qual é a cousa, que não tem algum +prestimo? +Os trapos, que vós despresaveis, e tinheis +em conta de nada, são uma riqueza, e prestam +grandissimo serviço á industria, ás +artes, ás sciencias +e á moral. São um instrumento indirecto do +progresso da humanidade. +<br /> + +<br /> + +E.—Como se faz o papel? +<br /> + +<br /> + +P.—Não posso agora satisfazer a vossa louvavel +curiosidade. É muito complexo o seu fabríco +para que vol-o possa expor de modo, que d'elle +fiqueis fazendo perfeita ideia; em vós tendo mais +alguns conhecimentos eu vol-o indicarei por miudo. +<br /> + +<br /> + +E.—O papel é todo da mesma qualidade? +<br /> + +<br /> + +P.—Não é; e aqui tendes a prova (O +professor +mostra á escola papel de imprimir, papel de +<span class="pagenum">[126]</span> +escrever, de filtrar, de embrulho, de seda, pintado, +etc. e vae indicando os nomes de cada um). São +de differentes tamanhos estas folhas. A grandeza +de cada uma indica-se pela palavra +<em>formato</em>, a qual +tambem se emprega para representar a grandeza +dos livros e jornaes. +<br /> + +<br /> + +E.—Para que tem este livro na parte inferior +da pagina do rôsto a palavra +«<em>Lisboa</em>»? +<br /> + +<br /> + +P.—Já se disse que é para mostrar a +terra em +que foi impresso. +<br /> + +<br /> + +E.—Os livros são impressos? +<br /> + +<br /> + +P.—Não se riam os meninos, que sabem uma +cousa, quando outro, que a ignora, se quer illustrar, +e pede que lh'a ensinem. +<br /> + +<br /> + +Ha livros escriptos de mão, como este (Mostra +um livro, ou caderno manuscripto) e muitos +existem nas bibliothecas; dizem-se +<em>manuscriptos</em>. +Actualmente, porém, a maioria, a quasi totalidade +dos livros são <em>impressos</em> +isto é, são feitos com estas +lettras de metal, a que chamâmos +<em>typos</em>. Eil-os. +(O professor toma um componedor, poderá ser +dos que usam os compositores de bilhetes de visita +e compôe algumas palavras). Vou compor uma linha, +para que vejaes, como se compoem os livros. +<br /> + +<br /> + +E.—E isto (Apontando o componedor) como se +chama? +<br /> + +<br /> + +P.—<em>Com-po-ne-dor</em>.<br /> + +<br /> + +E.—Ha de ser necessario molhar essas lettrinhas +em tinta; quereis que vamos buscar o tinteiro? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[127]</span> +P.—A tinta, de que se servem para imprimir, +não é a de que usâmos para escrever. +É feita com +outras materias muito differentes, e chama-se <em>tinta +de impressão</em>. Aqui tenho um bocadinho +n'esta +caixa. Com esta <em>bala</em> +mólho os typos; ides vêr como +as palavras ficam impressas no papel (O professor +executa o que vae dizendo). Estou fazendo de typographo. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Typographo</em>? O que quer isso +dizer? +<br /> + +<br /> + +P.—Typographo é o artista, que se occupa em +juntar os typos uns aos outros, para formar as palavras, +e estas entre si, para fazer as linhas, e as +linhas para completar as paginas, e as paginas para +concluir uma <em>folha de +impressão</em>. +<br /> + +<br /> + +E.—<em>Folha de impressão</em> +não é o mesmo que a +folha de um livro? +<br /> + +<br /> + +P.—<em>Folha de impressão</em> +é isto. (Mostra uma folha +de impressão). +<br /> + +<br /> + +E.—Os livros são impressos como vós +agora +imprimistes essa linha? +<br /> + +<br /> + +P.—Não, meu menino; nas +<em>typographias</em> ha apparelhos +para imprimir, aos quaes chamamos +<em>prélos</em>. +<br /> + +<br /> + +E.—Fallastes em <em>typographias</em>; o que +é typographia? +<br /> + +<br /> + +P.—É a officina onde se compõem e +imprimem +livros, jornaes, e outros papeis. Tambem se chama +<em>imprensa</em>? +<br /> + +<br /> + +E.—Estou vendo sr. professor, que não é +só +na lombada que os livros tem algarismos, tambem +os tem no alto das paginas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[128]</span> +P.—Resta saber para que elles ahi foram postos. +<br /> + +<br /> + +E.—Foram aqui postos para com facilidade se +poder achar e indicar qualquer passagem do livro. +<br /> + +<br /> + +P.—Para concluirmos este intertenimento, far-lhes-hei +mais uma pergunta. Como todas as cousas +tem nome é provavel que tambem o tenham essas +porções em branco, que cercam, em cada pagina, +a parte central impressa; qual será elle? +<br /> + +<br /> + +E.—Estas porções das paginas chamam-se +<em>margens</em>. +<br /> + +<br /> + +P.—Optimamente. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Dos poucos exemplos, que ahi ficam expostos, +poderão inferir a utilidade e attractivos do ensino +intuitivo as pessoas, que d'elle não tenham ainda +conhecimento. Cerrando este livro, que escrevemos +com sincero desejo de servir a educação e +instrucção, devemos declarar, porque é +de justiça +que assim o façâmos, que na Escola normal do +sexo masculino, em Marvilla, de que foi director +e professor o intelligente e laborioso sr. Luiz +Filippe Leite, com cuja amizade nos honrâmos, se +ensinou muito e bem pelo methodo intuitivo, que +em mãos tão habeis como as do sr. Leite e seu +irmão o sr. Pedro Leite, de certo produziu optimos +resultados, de que sentimos não poder dar +aqui minuciosa noticia.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>INDICE +</h3> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">Pag. </td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Carta do auctor ao Ex.<sup>mo</sup> Sr. +Conselheiro +José Silvestre +Ribeiro</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c1">5</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O Ensino intuitivo</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c2">9</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Primeira +lição</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c3">60</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Segunda +lição</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c4">72</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Terceira +lição</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c5">79</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Quarta +lição</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c6">92</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Quinta +lição</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c7">97</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Sexta +lição</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c8">106</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Setima +lição</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c9">113</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">Obras á venda na loja de +livros de Ferreira, +Lisboa & C.<sup>a</sup>, 132, rua do Ouro, +134, Lisboa</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: justify;">O PAE NOVO, commentario ou +interpretação das +dez <em>Eclogas</em> ou <em>Bucolicas</em> de +Publio Virgilio Maro, +1 vol. br.</td> + + <td></td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: justify;">NATIVIDADE (J. A. C. +da)—Fundamento de analyse +grammatical e de estylo, e de composição de +themas, 1 vol. br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">650</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: justify;">SYNOPSES e apontamentos +grammaticaes para facilitar +a analyse das orações aos alumnos de +instrucção +primaria e aos do 1.º anno de portuguez, +1 vol. cart.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: justify;">TAVARES +(H.)—Principios geraes de arithmetica, +e systema metrico, 1 vol. +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">60</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td colspan="1" rowspan="1" style="text-align: justify;">DIAS (J. A.)</td> + + <td>—Synopse das +religiões e seitas etc., +1 vol. br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td>—Nova +Grammatica franceza, 2.ª +edição +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">300</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td>—Novissima +Grammatica ingleza, 1 +vol. br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">480</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">BALMES (D. Jayme)—Elementos de Logica, +1 vol. +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">300</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">METHODO ZABA para o estudo da Historia +Universal, com mappa +chronologico, chave e taboa de exercicio, 1 vol. +br.</td> + + <td></td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">MARÇAL A. DE +CARVALHO—Problemas de Algebra, 1 vol. +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">CHAGAS (M. P.)—Portuguezes illustres, +2.ª +edição, 1 vol. +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">FRADESSO DA SILVEIRA (J. H.)—Estudos, +1 vol. +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">Neste volume agrupou o auctor, oito +interessantes +artigos em que se expõem as questões mais +momentosas da estadistica; como instrucção +primaria +e professional, associações de soccorros, +exposições, fazenda, etc. etc.</td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">M. M.—Exercicios de cacographia +portugueza, +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">100</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">MACEDO (J. Tavares de)—Elementos de +Orthographia portugueza, +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">80</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">BAPTISTA (A. M.)—Algumas +considerações +sobre as +diversas fórmas comparativas e superlativas da lingua +portugueza, +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">80</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +Á VENDA<br /> + +NA MESMA LIVRARIA<br /> + +<br /> + +132—RUA AUREA—134</h3> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Telles (J. J. de +Sousa)—<span class="smallcaps">Annuario +portuguez +scientifico, litterario e artistico</span>—-1863, +broch.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Simões +(Dr. Augusto Filippe)—<span class="smallcaps">Erros +e +preconceitos da educação physica</span>, 1 +vol. <em>charp.</em>broch.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Noirlieu (Abbade +Martinho)—<span class="smallcaps">Biblia +da +mocidade</span>, historia do antigo e novo testamento. Approvada +pelo conselho geral de instrucção publica, para +uso das +escolas, 1 vol. <em>cart.</em></td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">240</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Barata (<span class="smallcaps">Antonio +Francisco</span>)—<span class="smallcaps">Estudos +da lingua +portugueza</span>, +2.ª edição accrescentada e conforme ao +programma official de portuguez, +br.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">350</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Fradesso da +Silveira—(J. H.) <span class="smallcaps">Compendio +do novo +systema legal de pesos e medidas</span>, +4.ª +edição, +broch.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">240</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Guedes (J. +R.)—<span class="smallcaps">Curso de +physica +elementar</span>. +Nova edição, +3 vol., com gravuras, +broch.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">2$400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Guedes (J. +R.)—<span class="smallcaps">Curso de +historia +natural +elementar</span>, +1 vol., com gravuras, +broch.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Lopes (J. +J.)—<span class="smallcaps">Taboada +methodica +dos rudimentos de +arithmetica</span>, broch.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Rodrigues (J. +Julio)—<span class="smallcaps">Mineralogia</span>, +1. vol. +broch.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Vidal (A. A. de +Pina)—<span class="smallcaps">Curso +de +meteorologia</span>, 1 vol. +broch.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Viale (A. +J.)—<span class="smallcaps">Novo +epitome de +historia de +portugal</span>, adoptado pelo conselho geral de +instrucção +publica, 1 vol. +broch.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Lisboa—Typ. +Universal—1873<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b><br /> + +<br /> + +<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup> +Ácerca d'este assumpto, bem como de muitos +outros +pontos da linguagem portugueza consulte-se a +<em>Orthographia +portugueza e missão dos livros +elementares</em>, correspondencia +official relativa ao «Iris Classico» pelo sr. +Conselheiro +José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha. +Edição do Rio de Janeiro. N'este livro, que +é um verdadeiro +thesouro de bôa doutrina, esplende a intelligencia e +erudição de um dos escriptores nacionaes, que +mais honram +as nossas lettras. Pena é que poucos em Portugal +conheçam +obra de tanto merito.<br /> + +<br /> + +<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup> +Temos +visto muitas vezes nas escolas estarem as +crianças +a ler com os livros nos joelhos, o tronco recurvado e a +bocca quasi perpendicular ao horisonte. Aquella postura +prejudica a saude, difficulta a emissão da voz, +cança em +pouco tempo o ledor, e não o deixa vêr os acenos +do mestre, +tendentes a dirigil-o no andamento, pausas, +intonações, +etc.<br /> + +<br /> + +<a name="n3" id="n3"></a><sup>[3]</sup> +Braun Exercices par intuition, ou Questionaire a l'usage +des ecoles gardiennas, etc. Bruxelles—1865. +<br /> + +<br /> + +C. Mayo—Lecciones sobre objetos destinados para +niños +de cinco a ocho años, traducidas del orijinal +inglés. +Madrid—1849. +<br /> + +<br /> + +Foi nosso primeiro intento trasladar para este livro +<em>ipsis +verbis</em> as primeiras lições dos +dois afamados professores; +por motivos, porém, que escusado é expor, +resolvemos tomar +d'ellas apenas os liniamentos, redigindo-as a nosso modo.<br /> + +<br /> + +<a name="n4" id="n4"></a><sup>[4]</sup> +Expressão popular e grosseira, que vale tanto +como: +Elle te castigará severamente.<br /> + +<br /> + +<a name="n5" id="n5"></a><sup>[5]</sup> +N'estes primeiros exercicios vão as respostas, +que provavelmente +os estudantinhos darão aos professores; nos +outros, as respostas poder-se-hão deduzir das +<em>Exposições</em>, +que anteporemos a cada exercicio. Como estes livrinhos +não são exclusivamente para os professores, os +quaes de +certo possuem sufficiente cabedal de conhecimentos, mas +para mães, paes, e outros educadores menos preparados +para o ensino, pareceu-nos de muita conveniencia subministrar-lhes +os indispensaveis subsidios nas +<em>Exposições</em>, as +quaes dispensarão, até certo ponto o estudo nos +livros dos +assumptos dos exercicios.<br /> + +<br /> + +<a name="n6" id="n6"></a><sup>[6]</sup> +O dialogo aqui traçado para um, +deverá ser ampliado +e sustentado com todos os estudantes, que tiverem entrado +ao mesmo tempo, havendo o maior disvelo em tornal-o +quanto possivel deleitavel e variado.<br /> + +<br /> + +<a name="n7" id="n7"></a><sup>[7]</sup> +Parece á primeira vista mui pequeno o prestimo +do +<em>quadro preto</em> n'uma aula, e na +realidade é muito util. Convem +que todas as aulas de meninos e meninas o tenham; +e que d'elle se sirvam amiudadas vezes professores e discipulos +para os exercicios de soletração, orthographia, +analyse, +arithmetica, desenho, etc.<br /> + +<br /> + +<a name="n8" id="n8"></a><sup>[8]</sup> +Não se estranhe o emprego da palavra +geringonça. As +creancinhas são faceis de contentar; alegram-se e riem com +o simples emprego de palavras menos triviaes, e proseguem +mais contentes no estudo. Se ao explicar-lhes as regras +elementares da syntaxe o professor lhes der o seguinte +exemplo: O sol é brilhante, escrevem-n'o e analysam-n'o +sem enthusiasmo; se o professor lhes disser: O gato é +manhoso, +riem, alegram-se e atiram-se á analyse da +oração de +muito boa vontade. Ainda que estas e outras particularidades +do ensino infantil pareçam aos sabios puras +insignificancias, +não as desprese o mestre, que tiver a peito o progresso +dos pequeninos.<br /> + +<br /> + +<a name="n9" id="n9"></a><sup>[9]</sup> +Dividimos a palavra «cavallete» sem +attender á regra +orthographica, que manda repartir as consoantes dobradas +pelas duas syllabas, para não falsearmos a +pronunciação; +se assim não fizessemos, teriamos: Ca-val-le-te, que se +não +diz, nem poderia razoavelmente dizer-se.<br /> + +<br /> + +<a name="n10" id="n10"></a><sup>[10]</sup> +Desculpe-se-nos que insistamos em aconselhar aos mestres, +que não sejam avaros de louvores, quando os estudantes +os merecerem. É um grande incitamento o applauso para +o que o recebe e para os que o presenceiam.<br /> + +<br /> + +<a name="n11" id="n11"></a><sup>[11]</sup> +Novamente declarâmos que estas +lições não são traduzidas, +mas quasi exclusivamente nossas.<br /> + +<br /> + +<a name="n12" id="n12"></a><sup>[12]</sup> +Todos estes nomes se dão á +substancia, de que nas aulas +se servem para apagar os traços, que o lapis deixa no +papel. Aos meninos será conveniente indical-a pelo nome +de <em>borracha</em>, porque é o +mais commummente usado. Mais +tarde se lhes dirá que nem este, nem o de +<em>gomma elastica</em> +se deveriam empregar. Como hoje se usa muito do caoutchouc +vulcanisado, tenham os professores a cautela de apresentarem +para a lição, o escuro, isto é, o que +não está combinado +com enxofre.<br /> + +<br /> + +<a name="n13" id="n13"></a><sup>[13]</sup> +Esta lição vem apenas apontada no +livro do professor +Mayo.<br /> + +<br /> + +<a name="n14" id="n14"></a><sup>[14]</sup> +Quasi todos os objectos, que eram feitos de caoutchouc +simples, são agora fabricados com a mesma substancia +<em>vulcanisada</em>, +isto é combinada com certa quantidade de enxofre, +e por tanto differente na côr, no cheiro, e em <a href="#e10">outras</a> +propriedades +do caoutchouc extreme. Se algum menino reparar +na differença e fizer pergunta a tal respeito, dir-lhe-ha o +professor o bastante para esclarecel-o, attendendo ao que +atraz recommendámos, que não se trate a fundo de +cousas +para entender as quaes as crianças não estejam +preparadas.<br /> + +<br /> + +<a name="n15" id="n15"></a><sup>[15]</sup> +Esta lição vem apenas indicada no +livro do professor +Mayo.<br /> + +<br /> + +<a name="n16" id="n16"></a><sup>[16]</sup> +Recommendam Madame Marie Pape Carpentier e outros +pedagogistas, que se tratem as criancinhas com toda +a delicadeza, que em vez de se lhes ordenar que façam +uma cousa, se lhes peça por favor que a executem, e que, +se lhes agradeça com urbanidade o terem satisfeito os nossos +pedidos. Este modo de proceder com os pequeninos tem +tres grandes vantagens: desenvolve nos meninos o sentimento +da propria dignidade, captiva a sua benevolencia, e +acostuma-os a serem delicados.<br /> + +<br /> + +<a name="n17" id="n17"></a><sup>[17]</sup> +Não é para desprezar, no ensino das +crianças, este innocente +meio de lhes excitar a curiosidade, tenteando ao +mesmo tempo o prazer, ou enfado, de que estejam tomadas.<br /> + +<br /> + +<a name="n18" id="n18"></a><sup>[18]</sup> +O fim d'este exemplo não é ensinar +philologia ás criancinhas, +mas il-as habituando a distinguir nas palavras as +«radicaes», cujo valor mais tarde +perceberão. O termo «familia» +tome-se como synonimo de aggregado de palavras +em que a idéa representada pela radical é a +mesma.<br /> + +<br /> + +<a name="n19" id="n19"></a><sup>[19]</sup> +Não se define o quadrado, porque os estudantes +não +sabem ainda o que seja angulo, e menos o que seja angulo +recto.<br /> + +<br /> + +<a name="n20" id="n20"></a><sup>[20]</sup> +A lettra E, inicial de estudante, não +está n'estas lições +indicando um só e sempre o mesmo estudante; mas o estudante, +a que o professor julga conveniente dirigir-se.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 75px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p20">#pág. +20</a> </td> + + <td style="text-align: center;">Jenuense</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Genuense*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p20">#pág. +20</a> </td> + + <td style="text-align: center;">dizia</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">relembrava +a regra de Ovidio*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p31">#pág. +31</a></td> + + <td style="text-align: center;">cujos componente</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">cujos componentes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p45">#pág. +45</a> </td> + + <td style="text-align: center;">lahios</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">labios</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p51">#pág. +51</a> </td> + + <td style="text-align: center;"><em>impanho +imprestar</em> </td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;"><em>impanho</em>, + <em>imprestar</em> </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p52">#pág. +52</a> </td> + + <td style="text-align: center;">o que emende</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">a que emende</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p58">#pág. +58</a> </td> + + <td style="text-align: center;">comportamente</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">comportamento</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"></a><a href="#p85">#pág. +85</a> </td> + + <td style="text-align: center;">praticular</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">particular</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9" id="e9"></a><a href="#p112">#pág. +112</a> </td> + + <td style="text-align: center;">cubica</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">cubica)</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td style="text-align: center;"></td> + + <td style="text-align: center;"></td> + + <td style="text-align: center;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10" id="e10"></a><a href="#n14">#nota +14</a> </td> + + <td style="text-align: center;">ontras</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">outras</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">* corrigido de acordo com +notas/erratas fornecidas no livro.<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Ensino intuitivo, by João José de Sousa Telles + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENSINO INTUITIVO *** + +***** This file should be named 33817-h.htm or 33817-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/8/1/33817/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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