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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 20:00:16 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of Ensino intuitivo, by João José de Sousa Telles
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Ensino intuitivo
+ livro destinado às mães e paes de familia e às professoras
+ e professores de instrucção primária
+
+Author: João José de Sousa Telles
+
+Release Date: September 28, 2010 [EBook #33817]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENSINO INTUITIVO ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
+ de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
+ deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Setembro 2010)
+
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+
+ENSINO INTUITIVO
+
+LIVRO DESTINADO ÁS MÃES
+
+E
+
+PAES DE FAMILIA
+
+E ÁS
+
+PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA
+
+POR
+
+JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES
+
+Socio honorario
+da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da
+Sociedade Pharmaceutica Lusitana
+
+PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCÇÃO Á HISTORIA
+NATURAL
+
+LISBOA
+
+FERREIRA, LISBOA & C.^a
+132--Rua Aurea--134
+
+1873
+
+
+
+
+ENSINO INTUITIVO
+
+
+
+
+ENSINO INTUITIVO
+
+LIVRO DESTINADO ÁS MÃES
+
+E
+
+PAES DE FAMILIA
+
+E ÁS
+
+PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA
+
+POR
+
+JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES
+
+Socio honorario
+da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da
+Sociedade Pharmaceutica Lusitana
+
+PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCÇÃO Á HISTORIA
+NATURAL
+
+LISBOA
+
+FERREIRA, LISBOA & C.^a
+132--Rua Aurea--134
+
+1873
+
+
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES
+IMPRESSOR DA CASA REAL
+
+110--Rua dos Calafates
+
+
+
+
+Ill.^{mo} e Ex.^{mo} Sr. Conselheiro José Silvestre Ribeiro
+
+Ha annos, ouvindo os louvores, que á intelligencia e probidade de V.
+Ex.^a tecia um dos mais peregrinos talentos de Portugal, o grande poeta,
+hoje Visconde de Castilho, senti irresistivel desejo de ler os escriptos
+de V. Ex.^a e de o conhecer em pessoa. Dessedentei-me agradavelmente e
+com muito proveito, nas numerosas paginas, que da penna de V. Ex.^a
+haviam saido, umas reunidas em volumes, outras espalhadas pelos
+periodicos, todas porém rescendendo suave e, digamos assim, castissimo
+perfume de natural bondade e heroicas virtudes, qualidades que para mim
+valem muito mais que toda a erudição, e que realçam sobremodo a que v.
+ex.^a possue vastissima, colhida no incessante estudo de quantos
+engenhos famosos tem opulentado as sciencias, as artes e a litteratura.
+
+Já eu, havia muito, conversava com V. Ex.^a em espirito e me reputava
+seu discipulo amicissimo, quando tive a boa fortuna de fallar a V. Ex.^a
+e de ser por V. Ex.^a acolhido com a benevolencia, que lhe conquista a
+sympathia de quantos o tratam.
+
+Data d'esse dia a nossa amizade, confiado na qual ouso offerecer a V.
+Ex.^a este livro modestissimo, que se alguma cousa vale é pela boa fé
+com que foi escripto.
+
+É sympathico o assumpto; creio que é mais um brado pedindo a tão
+necessaria reforma do ensino infantil e primario na casa paterna e na
+escola, que tão pouco tem ainda de paternal. Será perdido, como os que o
+viajante extraviado soltaria no deserto, implorando o favor dos homens?
+Talvez.
+
+Incessantemente ha clamado o nosso probo amigo o Sr. Visconde de
+Castilho, e nem aquella potentissima intelligencia, nem aquella phrase,
+que nos faz acreditar a fabula de Orphêo, nem a auctoridade d'aquella
+quasi intuição do bom e do bello ha conseguido, que amanheça para as
+criancinhas o dia da sua regeneração intellectual.
+
+Não serei eu mais feliz; mas dar-me-hei por bem pago do trabalho, que
+puz em escrever estas paginas, se uma só mãe, que seja, ou um só mestre,
+aproveitar os conselhos, que lhes dou, e se, quando mais não obtenha,
+uma criancinha me dever algumas lagrimas de menos e algum bom
+ensinamento a mais.
+
+Associando o nome illustre e venerando de V. Ex.^a a esta obrinha, imito
+o bom do Aimé Martin e posso dizer a V.^a Ex.^a o que elle disse ao
+mavioso Lamartine.
+
+En vous offrant ce livre, je n'ai qu'un but, c'est de rattacher mes
+paroles aux vôtres, c'est d'étayer leur faiblesse de votre force, ma
+raison de votre raison. Je veux qu'on dise un jour: Ceux-ci ont connu
+les veritables biens, ils se rencontrèrent dans la même foi, ils
+s'aimèrent devant le même Dieu.
+
+
+ De V. Ex.^a
+
+ Admirador muito amigo
+
+ João José de Sousa Telles.
+
+
+Lisboa 7 de julho de 1873.
+
+
+
+
+ENSINO INTUITIVO
+
+
+O livro, que hoje publicâmos, é uma tentativa modesta de acclimação de
+uma idéa excellente, que lá por fóra tem produzido optimos resultados.
+
+Applaudem-na unanimes os mais insignes pedagogistas inglezes, allemães,
+americanos, francezes, e belgas; e ainda que tantos homens
+competentissimos em assumptos de ensino e educação nol-a não apregoassem
+famosa, bastaria a simples enunciação d'ella, para que enthusiasticamente
+a adoptassemos.
+
+Antes, porém, de expôrmos minudenciosamente a idéa nova, e nova lhe
+chamâmos attendendo ao pouco que se tem vulgarisado em Portugal, de
+razão nos parece conversarmos amigavelmente com o leitor ácerca de
+alguns pontos da educação e instrucção elementar.
+
+É a educação da puericia e da juventude a mais gloriosa e ao mesmo tempo
+a mais difficil obrigação, que Deus impoz ao homem e á mulher.
+
+Á luz da philosophia e da moral, a paternidade e a maternidade consistem
+menos em gerar o infante, do que em desenvolver-lhe e aperfeiçoar-lhe
+incessantemente as faculdades da alma e do corpo, até que possa cumprir
+os seus deveres e arrostar as contrariedades da vida na curta, mas
+trabalhosa peregrinação, que principia no berço e acaba no tumulo.
+
+Incumbe, pois, aos paes empregar todos os meios ao seu alcance, para que
+os filhos, creaturinhas imbelles, que a Providencia confiou a seus
+cuidados, cheguem no mais curto espaço de tempo, e pelo emprego de
+processos razoaveis, amenos, e repassados de amor e ternura ao estado de
+perfeição physica, intellectual e moral, que constitue o homem, tal qual
+deve ser, tal qual Deus quer que elle seja, tal qual a sociedade bem
+organisada o requer, para obreiro prestadio da civilisação.
+
+Infelizmente, nem todos os paes conhecem os seus deveres; e dos que os
+conhecem, muitissimos ha, que os não cumprem, ou por modo mui imperfeito
+se desempenham d'elles.
+
+D'esta ignorancia e negligencia funestissimas provem os maiores males,
+que affligem a humanidade, males para os quaes a maior parte das vezes
+não ha remedio.
+
+Tratando de assumpto differente, disse um douto, que muitas descobertas
+se poderiam fazer, se opportunamente perguntassemos: _Por que?_
+Appliquemos o engenhoso e facil processo de Arago ao exame das causas
+determinantes de alguns vicios sociaes, e convencer-nos-hemos de quão
+exacta é a nossa asserção.
+
+Estamos na via publica. De toda a parte se nos apresentam creanças
+esfarrapadas, semi-nuas, esqualidas, famintas, petulantes; revolvem-se
+umas na lama e no pó; dormem outras, tiritando, á chuva e ao vento;
+estas divagam estendendo a mão asquerosa e pedindo uma esmola aos que
+passam; aquellas soltam dos labios rosados palavras, que fazem enrubecer
+os que as ouvem.
+
+Chamae-as, e perguntae-lhes quem alli as deixou, flôres no
+esterquilinio, passarinhos implumes entre abutres esfaimados, anjos
+manchando as azas na sujidade das calçadas.
+
+Responder-vos-hão: Nossas mães e nossos paes.
+
+Ides vosso caminho, alegre, tranquillo, olhando em redor, vendo
+prepassar trens sumptuosos, soberbos cavallos, mulheres elegantes,
+homens felizes e descuidósos. Chega-vos aos ouvidos um echo, um gemido,
+um choro infantil; olhaes...
+
+Que vêdes?
+
+Na soleira de um portal, vestida em uns andrajos, quasi morta de fome e
+de frio uma criancinha, cujas faces, em vez de serem orvalhadas pelas
+lagrimas da materna alegria, e aquecidas pelos beijos fervidos da que
+lhe deu a existencia, se humedecem com as lagrimas da amargura infantil.
+
+Levantae o pobresinho, apertae-o contra o peito, osculae aquella carinha
+de jasmim e rosas, e perguntae-lhe:
+
+Anjo meu, que barbaros te deixaram aqui abandonado?
+
+E a innocencia vos responderá, não com palavras, que as não sabe ainda
+articular, mas com ternissimos soluços:
+
+Abandonou-me meu pae e minha mãe.
+
+Além vae caminho do cemiterio, a tumba, que andou de porta em porta
+recolhendo os miseros, cujas familias não poderam coalhar o bastante
+para o modesto funeral dos seus parentes.
+
+Fazei-a parar; mandae que a abram; olhae para dentro.
+
+Horror! exclamareis vós ao ver por entre os adultos exanimes, em
+sacrilego desarranjo, um bando de creanças quasi esqueletos, rachiticas,
+chagadas, meio apodrecidas, com signaes evidentes de terem vindo ao
+mundo com o estigma da morte profundamente gravado nas frontes
+innocentes.
+
+Martyres obscuros, podereis vós dizer-lhes, para quem o mundo não teve
+nem uma corôa, nem uma palma; estrellas cadentes, que brilhastes um
+momento e desapparecestes n'um eterno occaso; quem assim vos macerou os
+corpinhos, e vos deu a beber o fel da morte ao alvorecer da vida?
+
+E a mudez sombria d'aquellas florinhas envenenadas na hastea, e
+emurchecidas antes de desabrocharem, responderá:
+
+Nossos paes e nossas mães.
+
+Vêdes aquelle peralvilho, aquelle afeminado, todo pomadas, todo
+essencias, gesto insolente, olhar altivo e desdenhoso, que vae rindo e
+galhofando com outros da sua ralé.
+
+Parou, fazem-lhe roda, applaudem-n'o outros taes. Que bocadinhos de oiro
+estará elle a dizer?
+
+Escutae-o.
+
+Mófa da religião, que desconhece; insulta os sacerdotes, que acertam de
+passar junto d'elle; escandalisa as donzellas; zomba dos anciãos; aos
+pobres, em vez de os esmolar, despede-os insolente.
+
+Indagae como tão cedo se depravou aquelle moço, que deveria estar ainda
+sentado no banco da escola.
+
+Dir-vos-hão que á incuria paterna deve elle toda a sua ruina.
+
+Entrae no templo a presencear as augustas ceremonias, que rememoram a
+angustiosa paixão e morte do grande amigo da humanidade.
+
+Que observaes?
+
+A turba irreverente, descomposta, sacrilega, rindo, conversando,
+ostentando galas, trocando gracejos, costas para os altares, olhares
+distrahidos, attitudes grosseiras e vilans.
+
+Quantas preces saem d'aquelles labios? Que pensamentos povoam aquellas
+mentes? Que piedosos affectos existem em tantos corações?
+Escandalisa-vos o desacato? Quereis saber porque na egreja estão, como
+não poderiam estar na casa da opera?
+
+Chamae de banda um dos levianos e perguntae-lhe o que lhe hão dito seus
+paes da grandiosa tragedia do Calvario; do incruento sacrificio, que a
+representa, da respeitabilidade do altar, do valor das preces humildes e
+sinceras?
+
+Responder-vos-ha, sorrindo:
+
+Não vos comprehendo; meus paes nunca me fallaram d'essas coisas.
+
+Que vozearia é aquella? Porque tantos gritos, tamanho borborinho?
+
+Ergue-se um homem mal trajado, e arenga á turba.
+
+Poucas palavras tem dito, e já uns o applaudem phreneticos, já outros o
+vituperam enfurecidos.
+
+É o povo soberano, que usa e abusa de seus direitos. A onda encapellada
+das ruins paixões sobe, sobe, invade a improvisada tribuna e derruba o
+Demosthenes improvisado.
+
+Todos fallam, todos proclamam a idéa nova.
+
+Ouçamol-os.
+
+Abaixo os padres, não precisâmos d'elles; abaixo a religião, que para
+nada presta; acabemos com a propriedade, os ricos só querem beber-nos o
+sangue; viva o communismo, grita um; viva o socialismo, que é melhor,
+responde outro; nada, nada d'isso, venha a republica.
+
+Acabemos com os tributos e seremos felizes; e o exercito para que serve?
+Elimine-se o exercito.
+
+Pedi instrucção, pedi ensino facil, bom, universal, escolas primarias a
+cada canto, bibliothecas populares, livros optimos ao alcance de todos
+no preço e no estylo; pedi moralidade, diz com voz firme e sonora um
+operario, fronte ampla, respeitaveis cans, rosto sereno, mão calejada
+pelo trabalho.
+
+Fóra com o visionario brada a turba.
+
+Que quer dizer instrucção? Para que servem os livros? Para que prestam
+as escolas? regouga um miseravel, em cujo rosto se retrata a ignorancia
+e occiosidade; e bradando á turba, após si a leva cançada, mas não
+saciada de disparatar.
+
+Dirigi-vos ao operario honesto e prudente e informae-vos de quem sejam
+aquelles doidos.
+
+Uns infelizes, dirá elle, bons corações, más cabeças. Pobresinhos todos;
+porém mais pobres de instrucção que de dinheiro, porque todos tem
+aptidão para o trabalho, mas a todos faltou a educação. Não tiveram
+paes, como eu felizmente tive, que os mandassem ensinar. A mór parte nem
+ler sabem, nem fazer o seu nome. Se lhes fordes perguntar o que seja
+republica, socialismo, communismo, salario, religião, exercito, á boa fé
+vos affirmo que não poderão responder coisa que geito tenha.
+
+Mas deixemos estes homens, nem todos maus; muitos bonissimos,
+desvairados pela febre ardente de antigos e profundos padecimentos, que
+buscam a verdade e o bem, como os alchimistas da idade media, por meios
+absurdos e inconvenientes, mas que tem a coragem de affrontar os
+perigos, de sacrificar a propria vida, e de soffrer com a resignação dos
+martyres dos primeiros seculos do christianismo esses hediondos
+supplicios, a que ainda hoje o mundo civilisado assiste com profunda
+magoa e indignação.
+
+Volvamos os olhos para aquell'outros.
+
+D'onde vem?
+
+Das enxovias.
+
+Para onde vão?
+
+Para o degredo.
+
+Homens, mulheres, crianças! Deixam a patria, os amigos, as familias, os
+formosos campos, onde nasceram, este céo tão puro, este sol tão
+esplendido, este clima tão amoravel, este abençoado e feracissimo
+torrão, para irem em paizes inhospitos luctar com a morte opprobriosa,
+ralados de saudades, roidos de remorsos, despreziveis aos olhos de
+todos, e condemnados pela voz implacavel da propria consciencia.
+
+Vãm alli assassinos, sacrilegos, perjuros, fratercidas, patrecidas,
+ladrões, incendiarios; todos os crimes, todas as torpezas, todas as
+infamias, o lodo asqueroso de todas as humanas miserias, as trevas da
+ignorancia preversa, a lepra do grande corpo social.
+
+Ponde os olhos n'aquelle quadro, mães e paes.
+
+Não interrogueis os que o crime despenhou; não insulteis a desgraça; não
+amargureis mais aquelles corações devastados e corroidos pelo crime,
+onde poderá haver ainda alguma fibra incorrupta e sensivel; mas
+perguntae a vós mesmos que educação receberam aquelles miseros de seus
+progenitores? que sorrisos e carinhos lhes cercaram os berços? que
+palavras ouviram aquelles entes ao entrar na vida? que exemplos tiveram
+para seguir? quaes as escolas, a que os mandaram? que affectos semeiaram
+n'aquelles corações? quantas vezes lhes apontaram para o céo e lhes
+fallaram de Deus? que noções lhes deram da verdade, da justiça, da
+honra, do dever? que meios empregaram para lapidarem aquelles diamantes?
+que processo adoptaram para desinvolver-lhes a intelligencia?
+
+E se não acertardes com as respostas a estas e a muitas outras
+perguntas, que o caso suscita, ide-vos por essas cidades, e villas, e
+aldeias, e povoados e indagae a historia de cada um d'aquelles
+infelizes. Raro achareis que se prevertesse o que dos paes houvesse
+recebido desvelada educação.
+
+Mas o que é educação desvelada?
+
+Eis o ponto importantissimo, para o qual chamâmos a attenção de todos.
+Não o desenvolveremos aqui. Assumpto é para um livro, e já larga e
+proficientemente tratado por grandes mestres da sciencia de educar.
+
+Diremos apenas, que muitos paes e mestres ha, por desgraça nossa e
+d'elles, que não comprehendem nem a extensão, nem a intensidade da
+palavra educar.
+
+Para uns educar é crear, é nutrir o animal, é desenvolver-lhe o physico;
+e nem sempre conforme os dictames da medicina e da hygiene.
+
+Para outros educar é iniciar a criança nas regras mais elementares da
+leitura, da escripta, da contabilidade e de uma arte ou officio.
+
+Não falta quem se vanglorie de ter educado bem, excellentemente, seus
+filhos, por que lhes deu mestres de linguas antigas e modernas, de
+geographia, de historia, de philosophia e de muitas outras cousas mais.
+
+Tal se orgulha de ver o herdeiro de seu nome sair laureado de uma escola
+ou academia e entrar na sociedade precedido da fama de optimo estudante.
+Tal outro se julga em paz com a sua consciencia e se tem por excellente
+educador, porque o mancebo, cujos primeiros estudos dirigiu, das
+columnas de um jornal assombra o mundo com seus artigos, ou deleita as
+turbas com versos, que reputa mais correctos e melodiosos que os de
+Camões, Garrett ou Castilho.
+
+E consistirá em tão pouco a sciencia difficilima de educar?
+
+Não, mil vezes não.
+
+Que vale ao homem, a quem Deus concedeu uma certa porção de
+intelligencia, susceptivel de indefinido desenvolvimento, crescer e
+medrar no physico, permanecendo-lhe embryonaria a melhor das faculdades?
+Que vale ao homem, que poderia elevar-se pelo estudo, pela leitura, pela
+applicação das potencias da alma e vir a ser um poderoso auxiliar do
+progresso da humanidade, qualquer que fosse a sua posição social, saber
+apenas os primeiros rudimentos das artes de aprender, e tanto pela
+superficie, que nem d'elles se possa servir, a não ser nos mais simples
+usos da vida?
+
+Quantos e quantos dos que cursaram as escolas e as academias, e n'ellas
+se distinguiram, tiveram mais trabalho em debellar os erros da educação
+elementar do que em arcar com as difficuldades, e segredos das sciencias
+superiores?
+
+E quantos não vem dos institutos scientificos imperfeitamente
+instruidos, não por culpa dos mestres, nem d'elles mesmos, mas pela
+incuria e ignorancia dos paes e dos primeiros educadores?
+
+Todos os homens intelligentes, que tem consagrado a vida ao magisterio
+superior, reconhecem e confessariam, se quizessem, que a falta de
+cultivo intellectual nas edades tenras difficulta extremamente aos
+estudantes a comprehensão das sciencias, e os inhabilita para tirarem
+dos cursos mais bem delineados as vantagens, que d'elles poderiam obter.
+
+D'ahi a meia sciencia, as ideas falsas, a confusão dos principios, a
+impossibilidade das grandes concepções, a timidez na applicação pratica,
+o desamor do estudo, que fecunda o que nas aulas se ouviu, e a propensão
+para a preguiça, que se contenta com o pouco cabedal adquirido e não
+busca grangear mais.
+
+Se das escolas superiores passarmos ás secundarias, encontraremos as
+mesmas causas produzindo os mesmos effeitos; e dir-nos-hão os
+professores intelligentes e zelosos, que das mãos dos paes e dos
+primarios educadores, receberam a mór parte dos alumnos com os olhos do
+espirito tão cerrados ainda, que de todo desconheciam as verdades mais
+elementares e intuitivas, os phenomenos mais simples e intelligiveis, as
+relações mais claras.
+
+Na escola primaria, o professor instruido, que comprehenda quanto tem de
+nobre e grandioso o seu ministerio, em apparencia tão humilde, na
+realidade tão augusto; que considere na criança o homem e no homem o
+futuro todo inteiro da humanidade; que abranja com a vista o largo
+horisonte das criaturinhas, que o rodeiam, e que deseje dissipar as
+trevas d'aquelles entendimentos com luz tenue e suave, como convem a
+edades infantis, tem ainda a luctar com os defeitos da educação
+domestica, que devendo ser a primeira, a mais engenhosa, a mais
+insistente, e mais efficaz, é muitas vezes nulla, muitas quasi nulla e
+quasi sempre deficiente.
+
+E se o que vamos dizendo se applica em cheio á educação das faculdades
+intellectuaes da puericia, que são ainda assim, as que os paes de
+ordinario mais appetecem ver desenvolvidas nos filhos, outro tanto se
+póde asseverar da educação physica e moral.
+
+Conhecida a doença, urge accudir-lhe com o remedio. Já o bom do
+Jenuense, mestre de nossos paes, mestre de muitos de nós outros, que
+hoje ensinamos e que suppômos ter alguma valia, e tão injustamente
+esquecido e mettido para o canto, dizia:
+
+_Principiis obsta, sero medecina paratur, cum mala per longas invaluére
+moras._
+
+«Acode ao doente apenas a molestia dê o primeiro rebate; que de nada lhe
+prestará o remedio, tardio.»
+
+E haverá remedios, que prestem para os males de que enferma a educação
+elementar?
+
+Ha, e muitos; o caso está em applicar-lh'os a tempo e judiciosamente.
+
+Não todos apontaremos aqui, porque não é este livrinho um tratado de
+pedagogia, mas tão sómente um, que valerá por muitos.
+
+É remedio barato, condicção esta que não é para desprezar; de facil
+manipulação; composto de simples, que por toda a parte e a toda a hora
+se acham; e por cima de tudo isto, tão agradavel, que em vez de lhe
+fazerem caretas, os que o devem tomar, o appetecem e pedem sequiosos e
+nunca fartos de saboreal-o.
+
+É este remedio o _Ensino intuitivo_.
+
+Para applical-o, diga-se já e bem alta e claramente, nem todos servem.
+Em mãos de ignorantes converte-se em veneno, e em vez de beneficios, só
+produz males.
+
+É indispensavel, pois, que paes e mestres, que hajam de o empregar,
+possuam profundo e variado cabedal de conhecimentos.
+
+Antes, porém, de entrarmos a dizer o que este ensino seja, convem que
+nos lembremos das condicções organicas, physiologicas e intellectuaes
+das crianças.
+
+É o infante um organismo em via de formação, incompleto, fransino, em
+que a vida animal consiste quasi exclusivamente no movimento tumultuoso,
+na expansão incessante, na assimilação continua.
+
+Abriu os olhos ha pouco, e ainda não teve tempo de ver bem o grandioso
+espectaculo da natureza, cujos protentos o deslumbram; descerraram-se-lhe
+hontem os ouvidos, e por isso lhe echoam lá dentro, ainda confusas, as
+harmonias, os ruidos, as palavras, que mal percebe; aspira sofrego os
+aromas, que rescendem as flores, mas não os distingue; saborêa o nectar,
+mas quererá tambem provar o fél e degustar o absintho; apalpa enlevado a
+pelle assetinada e suavissima das faces maternas, mas queimar-se-ha
+incauto na chama da véla, que admira, sem a comprehender.
+
+No intimo, na cabeça, cujos óssos ainda se não consolidaram
+completamente, no coração, que palpita violento, jorrando sangue para
+todo o corpo, começam de germinar as idéas e os affectos, cuja
+elaboração de hora para hora, de dia para dia, de mez para mez se
+complica, e transmitte com incrivel velocidade.
+
+São dois mundos luctando atravez do fragil envolucro, que chamâmos
+corpo; o mundo externo, cujos variadissimos factos contempla attonito
+sem suspeitar que os determinam infinitas leis, que os encadeam
+reciprocamente innumeras relações, e que sobre elle actuam
+incessantemente: o mundo interior, o mundo dos sentimentos, das ideas,
+dos affectos, cuja admiravel genese começa, e que ha de irromper atravez
+dos sentidos, e reagir violento sobre os modificadores de fóra.
+
+A creança porque é um ente material, que tende a completar-se, carece de
+muita alimentação, de muito sol, de muito e bom ar, de muito movimento,
+de liberdade, e de sensações variadas, mas suaves, que a deleitem, e que
+attraiam a sua attenção.
+
+Se todas ou algumas d'estas condicções lhe faltarem vel-a-heis
+extinguir-se subito, como a luz de uma véla á mingua de oxigenio; ou
+estiolar-se e pender para o tumulo, onde não tardará a sumir-se, como a
+planta, que germinou em solo arido e assombrado.
+
+Como creatura intelligente e moral, necessita que lhe dirijam e
+robusteçam as faculdades, á proporção que se forem desenvolvendo,
+ministrando-lhes objectos apropriados ás forças das mesmas faculdades, e
+em quantidade tal, que nem as cancem, nem as desgostem.
+
+No desprezo d'estes principios está, a nosso ver, o primeiro e mais
+funesto erro do actual systema da educação infantil.
+
+Na maxima parte das escolas da puericia entram quotidianamente as
+criancinhas faltas do indispensavel alimento, e alli se conservam largas
+horas em casas estreitas sombrias e mal ventiladas, respirando ar
+infecto, inhibidas de fazer os movimentos, que a sua edade
+imperiosamente reclama, sem horisontes extensos e ridentes, que as
+alegrem, sem nada que as encante e lhes deleite os sentidos.
+
+O mestre, senão carrancudo e severo, é quasi sempre sufficientemente
+serio e concentrado, para não lhes incutir a confiança e amôr, que são
+os mais suaves e ao mesmo tempo os mais fortes laços, que prendem o
+discipulo ao perceptor.
+
+Começa a lição. Não ha canticos, nem musicas, nem exercicios
+gymnasticos, nem historiasinhas, que alegrem aquelles corações e
+instruam aquellas mentes nas coisas, que com maior facilidade poderiam
+comprehender.
+
+Para os mais pequeninos, para aquelles que mais se lembram ainda dos
+beijos maternaes e das doçuras da casa paterna, o triste e monotono a,
+b, c, as aridas columnas do syllabario, e a empyrica taboada. Para os
+mais crescidinhos, a grammatica, a historia patria, a chorographia, a
+doutrina christã.
+
+Que percebem os pobres infantes de tudo aquillo, que involuntariamente
+decoram, e machinalmente repetem?
+
+Nada, ou quasi nada.
+
+Tomae d'entre os alumnos de uma escola o mais adiantado, o mais
+estudioso, o que mais talento revele, e interrogae-o. Ouvil-o-heis
+repetir o compendio, máo ou bom, com certa facilidade e elegancia; mas
+se lhe perguntardes o sentido de uma palavra, a razão de um facto,
+vel-o-heis córar e emudecer, porque a elle, o estudante eximio, deixaram
+sempre em pousío as mais nobres faculdades da alma, excitando-lhe
+apenas, e ainda assim por um processo defeituoso, a faculdade auxiliar,
+a memoria.
+
+Olhar com seriedade para a educação e instrucção da infancia, e
+reformal-a completamente, adequando-a ás edades dos estudantinhos, e
+tornando-lh'a facilima, deleitavel, e todo o ponto util, é não só
+necessidade urgente, senão dever impreterivel.
+
+O primeiro passo para esta grande reformação, que o bom senso, a
+sciencia, a caridade, e o interesse de todos nós estão ha muito a pedir
+a grandes brados, dar-se-ha quando os governos, os municipios, as
+associações e os particulares se resolverem a edificar casas para
+escolas infantís, e primarias, espaçosas, alegres, agasalhadas, com o
+seu jardim, meio descoberto, meio assombrado com arvoredo, tendo no
+centro um pequeno lago ou tanque e aos lados alguns apparelhos e jogos
+gymnasticos; quando a frequencia da escola infantil, preparo para a
+primaria, fôr obrigatoria; quando o ensino da infancia fôr
+esclusivamente confiado a mulheres intelligentes, instruidas, honestas e
+amoraveis, que do coração se consagrem ao ministerio sacratissimo de
+educadoras, e que a todos os discipulos, amem e acarinhem, como se
+fossem todos elles seus filhos queridos; e quando finalmente o _Ensino
+intuitivo_ se tornar obrigatorio e exclusivo nas escolas infantís; e
+obrigatorio, como auxiliar de qualquer outro, nas escolas primarias e
+secundarias.
+
+Muitos annos hão de decorrer, infelizmente, primeiro que se realizem
+estes nossos alvitres. Levantar-se-hão contra elles os ramerraneiros, os
+enthusiastas do passado, os indifferentes, os que não crêem no
+aperfeiçoamento humano começado a operar na escola infantil, os que só
+vêem a prosperidade publica, no exercito, nas estradas, nos caminhos de
+ferro, nos telegraphos electricos, nas escolas superiores, nas
+academias, e nos museos, como se tudo isto não estivesse a pedir, para
+ser verdadeiramente util, muita e sólida instrucção no povo, muita
+moralidade, e muito amor ao trabalho, e como se estas indispensaveis
+qualidades as podesse ter uma nação, onde não ha escolas infantís, onde
+as escolas primarias são pouquissimas e defeituosas, onde os methodos de
+ensino são ruins, e onde os professores, muitos d'elles dignissimos e
+habeis, são tão vergonhosamente retribuidos, que para pobrissimamente
+viverem, têm de se occupar em misteres totalmente alheios do ensino e
+educação.
+
+Muitos annos, repetimos, hão de decorrer primeiro que os exemplos da
+America, generosissima com a instrucção primaria, sejam imitados na
+extrema Europa.
+
+Não o quer o _deficit_, exclamarão os financeiros, e applaudil-os-hão
+todos os que mais ou menos manuseam o orçamento do estado.
+
+Se a indole d'este escripto o permittisse, facil nos seria impugnar esta
+nefasta e incessante invocação da pobreza publica, e mostrar que em
+Portugal o que falta, e muito, é verdadeiro patriotismo, é sincera
+vontade de progredir, é a iniciativa individual nos arrojados
+commettimentos, caracteristicos dos povos, que comprehendem os seus
+deveres de membros da grande familia social e que os não pospõe aos seus
+interesses particulares.
+
+Colhâmos, porém, as vélas ás considerações, que todos estes assumptos
+nos suggeriram, e entremos já a dizer o que seja o _Ensino intuitivo_, e
+as vantagens que d'elle resultam.
+
+Todos os que lidam com crianças terão percebido que nas primeiras idades
+é o homem dominado incessante e invencivelmente pela curiosidade, ou
+desejo de saber; que para saciar esta inclinação empregam os infantes
+não só os olhos, mas os outros sentidos; que ao verem um objecto,
+mórmente se lhes agrada, ficam diante d'elle como que absortos, com os
+olhos mui abertos, ás vezes quasi sem pestanejar; que se lh'o consentem,
+tomam nas mãosinhas o que primeiro estiveram vendo, e o apalpam, a
+principio com timidez, depois com afoiteza; que o levam ao nariz, e á
+bocca, e que por fim começam de separar as partes de que se compõe, se
+não é inteiriço.
+
+Apoz tal exame, e ás vezes simultaneamente, chovem as perguntas:
+
+O que é isto?
+
+Quem fez?
+
+De que é?
+
+Para que serve?
+
+Quem trouxe?
+
+Terão tambem observado os educadores, que n'estes exercicios
+instinctivos, as criancinhas, em geral, não comparam, nem por
+consequencia raciocinam. Fazem como as abelhas, que andam de planta em
+planta, de flôr em flôr, colligindo os materiaes com que mais tarde hão
+de fabricar o seu mel. Com a differença que as abelhas nasceram aptas
+para aquella industria e nunca em vez de mel nos dão outro produto; e as
+criancinhas, artistas novéis, mas livres e dotadas de intelligencia
+perfectivel, podem pela maneira imperfeita porque as suas faculdades
+intellectuaes e moraes se começarem a desenvolver, e continuarem a
+exercer-se, viciar de tal arte o espirito, que de futuro ou nada possam
+conhecer bem, ou só com extrema difficuldade e grande dispendio de
+tempo.
+
+Em aproveitar as naturaes tendencias da infancia e juventude, em
+amenisar-lhe o começo da extensa e espinhosa senda, que tem de percorrer
+na vida, em desenvolver-lhes e aperfeiçoar-lhes gradual e
+insensivelmente as faculdades; em enriquecer-lhes de copiosos e
+variadissimos conhecimentos o espirito; em formar-lhes o coração,
+desenvolvendo n'elle astuciosamente o gosto do bom, do bello e do
+verdadeiro; em habilital-as o mais cedo possivel, sem a minima
+violencia, para a vida pratica, deixando para tempo opportuno theorias e
+systemas, para comprehender os quaes é mister intelligencia robusta, é
+em que consiste o _Ensino intuitivo_.
+
+É este ensino primeiro que tudo dos sentidos externos, os quaes á
+maneira que se vão exercendo sobre os objectos, para lançarem no
+espirito os germes de quantas sciencias e artes ha, se aperfeiçoam
+insensivelmente, adquirindo cada dia mais vigor e aptidão.
+
+É pois indispensavel que os educadores procurem especialmente que as
+criancinhas empreguem os sentidos, ora simultanea, ora successivamente,
+nas cousas que tenham de estudar, que as vejam de perto, que as tomem
+nas mãos, que as cheirem, que as provem, quando não houver
+inconveniente, que as dividam e recomponham, sem que se lembrem de que
+estão a estudar.
+
+Tudo servirá para estes exercicios intuitivos, se o educador tiver
+instrucção variada e profunda. Tudo servirá, por que, como disse
+Jacotot: _Tudo está em tudo_.
+
+Um grão de areia, um alfinete, uma agulha, um botão, um palito, uma
+moeda de prata ou cobre, a folha de uma arvore, um bago de uva, serão
+compendios tão importantes como um cavallo, uma ave, um peixe, um
+relogio, uma caixa de musica, ou uma machina de cozer.
+
+Milhares de cousas baratissimas se poderão apresentar aos estudantinhos
+para larguissimamente os instruir; muitissimas haverá em todas as casas,
+taes como cadeiras, mezas, pennas, papeis de differentes qualidades,
+flôres, fructos, relogios, thesouras, campainhas, etc. De um sem numero
+de objectos se poderão obter modelos em ponto pequeno ou de madeira ou
+de papelão, ou de qualquer outra substancia apropriada. Na falta
+absoluta de exemplares naturaes, que são os melhores, ou de copias em
+vulto, que servem perfeitamente, sendo bem feitas, empregar-se-hão com
+muita vantagem estampas coloridas ou em negro. O que deve ser banido das
+escolas infantís é o syllabario, a taboada, o cathecismo, a grammatica,
+o compendio de chorographia e o de civilidade. Da exposição, exame e
+comparação das coisas ou das estampas, segundo o processo que já vamos
+indicar, é que as crianças hão de ir colhendo as idéas exactas e claras,
+que depois saberão associar ás mil maravilhas, formando espontaneamente
+optimos juizos e raciocinios.
+
+Tratando das viagens de Homero e do estudo pratico das pessoas e cousas,
+que habilitou o immortal filho de Climene a compôr os protentos
+litterarios denominados _Iliada_ e _Odysséa_, diz Bitaubé o seguinte,
+que é a expressão da verdade: «Os livros são uteis, mas favorecem certa
+indolencia, que obsta a que o leitor observe por si mesmo; lendo, vemos
+a maior parte das cousas pelos olhos dos outros, e representâmos ao
+nosso espirito imagens de outras imagens; se observassemos directamente
+os objectos graval-os-hiamos mais profunda e claramente no espirito.
+Qual é o resultado da falta de observação directa? É perdermos a
+perspicacia e sagacidade indispensaveis para observar com perfeição á
+força de não as exercitarmos e de não contemplarmos a natureza,
+excellente mestra, que jámais se deve despresar. Adquirem-se é verdade,
+mais idéas, mas imperfeitas e superficiaes, de que resultam quadros
+frios e incompletos.»
+
+Todos os pedagogistas, que se teem occupado d'este systema de ensino,
+encarecem o proveito que se tira da substituição dos livros de texto,
+que os meninos decoram sem os entender, pelas estampas, que muito os
+deleitam e que examinam attentos, colhendo das palavras do educador, a
+proposito de cada uma, infinitos conhecimentos, que jámais esquecerão.
+
+É mister, porém, que as estampas sejam mui perfeitas, para que não
+viciem nas crianças o gosto do bello e da verdade, e que sejam graduaes,
+como tudo deve ser na educação. A regra fundamental do ensino intuitivo,
+a qual nunca deve esquecer é: _Caminhar do conhecido para o
+desconhecido, do facil para o difficil, do commum e trivial para o menos
+commum ou mais raro_.
+
+Para realisar este preceito maximo, cujo despreso annularia o systema,
+convirá que os educadores não entretenham seus discipulos com objectos
+tomados ao acaso, mas que sigam um processo gradual, lento e invariavel,
+nunca lhes chamando a attenção para cousas, cujos componentes elles
+ainda não conheçam, nem lhes fazendo perguntas para responder ás quaes
+não estejam habilitados. Dêmos alguns exemplos. Se praticarmos com
+mocinhos a respeito de uma caixa de pinho, que estejam vendo, poderemos
+convenientemente perguntar-lhes o feitio que tem, as partes de que se
+compõe, para que serve a tampa, para que estão ali as argolas e a
+fechadura; poderemos interrogal-os ácerca dos usos da caixa, fallar-lhes
+do perigo de entalar os dedos quando a fecharmos, ou de nos ferimos se a
+tampa cair sobre as nossas mãos ou cabeça; poderemos ainda indagar se
+sabem o nome que se dá aos artistas, que trabalham em madeira; mas não
+lhe fallaremos do pinho, sem que elles tenham visto um pinheiro natural
+ou pintado, e a respeito d'esta arvore tenham adquirido os convenientes
+conhecimentos.
+
+Se conversarmos ácerca de uma moeda de prata, bom será perguntar-lhes
+como se chama aquelle dinheiro, de que é feito, que feitio tem, por que
+não é quadrado, nem triangular (aqui fará o professor com o giz no
+quadro preto a figura do triangulo e do quadrado), o que tem n'uma e
+outra face, que representa a effigie e as armas, para que serve o
+dinheiro, etc., etc.; mas abster-nos-hemos de lhes dizer que a prata da
+moeda é uma liga de prata e cobre, se por acaso ainda não souberem o que
+é uma liga metallica, nem conhecerem o cobre.
+
+Convém estar prevenido para um caso, que muitas vezes se deve realisar
+na pratica d'este ensino. A natural prespicacia de alguns meninos e os
+conhecimentos adquiridos na convivencia de seus paes e amigos ou na
+leitura, se forem já ledores, habilital-os-hão a fazerem perguntas, a
+que o educador não poderá ou não saberá responder. Quando isto aconteça,
+nem se enfade ou envergonhe o educador, nem illuda a curiosidade
+infantil, que de tanto serve n'este systema. Se a pergunta versar sobre
+assumpto, que o mestre ignore completamente ou conheça pouco, isso mesmo
+declare ao estudante com toda a franqueza; se fôr attinente a cousas,
+para conhecer as quaes o mocinho não esteja preparado, ou que toquem em
+pontos, que a decencia não permitta explanar, diga-lhe sem desabrimento,
+que não é tempo ainda de saber o que pergunta.
+
+E para que nem o credito scientifico do educador soffra detrimento, nem
+os meninos se desgostem e abstenham de perguntar, bom será que o
+educador a miudo lhes mostre em phrase accommodada ás suas
+intelligencias, e por meio de exemplos, quão numerosos são os
+conhecimentos humanos, que é impossivel que todos saibam tudo, e que,
+para adquirir sciencia de bons quilates, é indispensavel ir a pouco e
+pouco, e não investigar certas cousas, antes de ter adquirido noções
+exactas de outras.
+
+Para que o ensino intuitivo produsa todos os bons resultados que d'elle
+se podem esperar, não basta progredir do conhecido para o desconhecido,
+do simples para o composto; é indispensavel que os alumnos não conheçam
+o plano adoptado pelo professor, e que não percebam que o que elle lhes
+vae ensinando tende a um determinado fim e se ajusta para os iniciar nas
+sciencias, cujas leis e applicações mais importantes só mais tarde terão
+de estudar. Para a realisação d'este importante segredo do ensino
+intuitivo, iremos nós offerecendo aos educadores em publicações
+successivas, se esta nossa tentativa merecer o favor publico, as lições
+graduaes, que deverão constituir um curso completo.
+
+Recommendam os mestres d'esta especialidade, no intuito de não enfadar
+os estudantes e de os conservar attentos, que cada lição não exceda
+quinze ou vinte minutos. Diremos, porém, que a pratica nos tem mostrado
+poder ás vezes a lição prolongar-se até duas horas e mais, sem que os
+estudantes se enfastiem nem deixem de attender ao que se lhes mostra e
+explica. Consegue-se este resultado amenisando a pratica com
+historietas, de que os meninos muito gostam, com exemplos, que elles bem
+comprehendam, com a citação de proverbios, anexins, e anecdotas
+consoantes ao assumpto de que se trata, e mais que tudo com o dialogo
+mui cortado entre elles e o professor.
+
+Haja sempre n'estas lições a maxima variedade apparente, tanto no
+objecto do estudo como na fórma, no dizer, nas conclusões e até na
+collocação dos objectos e dos estudantes. A monotonia, a ordem, além de
+certos limites, entristece a escola e cança os escolares. A par do
+ensino das cousas andará sempre o ensino da moral, da hygiene, da
+economia domestica, da religião, da organisação social, da historia, da
+geographia, das bellas artes, de tudo; com preferencia do mais util; mas
+sem estudos de cór, sem declamações, nem theorias transcendentes, nem
+listas de nomes de pessoas, nem datas escusadas; tudo ao de leve,
+saboroso, convidativo, e nem assim em grandes dozes, nem todos os dias.
+
+Permitta-se-nos que ponhamos aqui dois exemplos de como se deverá
+proceder n'estes pontos, e não os tenham na conta de ridiculos, que nada
+é ridiculo, quando se trata de espedregar a estrada, que ha de precorrer
+a puericia.
+
+Estamos na escola, estudando um objecto qualquer. Ouve-se ganir um cão
+na rua. Logo o professor interrompe o estudo, e pergunta a um dos
+escolares, se algum vir distraido, a esse se dirigirá:
+
+P.--Que é aquillo, alli, na rua?
+
+E.--É um cão a ganir, responderá o estudante; e o dialogo proseguirá,
+pouco mais ou menos, do seguinte modo:
+
+P.--O cão está ganindo ou ladrando?
+
+E.--Está a ganir.
+
+P.--Quantas qualidades de sons ou vozes produzem os cães com a bocca?
+
+E.--Não percebo a pergunta.
+
+P.--Eu me explico. Os cães não estão sempre calados...
+
+E.--Já percebo o que o senhor professor pergunta. Os cães _ladram_.
+
+P.--E quando estão tristes, ou quando ouvem certos sons, que lhes não
+agradam, ladram?
+
+E.--Não, senhor, _uivam_.
+
+P.--E quando estão a roer um ôsso, e outro cão ou qualquer pessoa lh'o
+quer tirar, o que fazem?
+
+E.--_Rosnam_.
+
+P.--E se lhes batem, ou os apedrejam?
+
+E.--Põem-se a _ganir_.
+
+P.--Mui bem; os cães, pois, podem _ladrar_, ou _latir_, _rosnar_,
+_uivar_, e _ganir_.
+
+Aqui, se os meninos tiverem já conhecimentos de grammatica, dirá o
+professor como de si para comsigo, mas em voz alta: aqui temos cinco
+verbos, e repetirá, contando pelos dedos ou batendo com o lapis na mesa:
+o verbo _ladrar_, o verbo _latir_, o verbo _rosnar_, o verbo _uivar_ e o
+verbo _ganir_.
+
+E continuará, como quem se está recordando do que aprendeu: palavras que
+representam acções praticadas ou feitas pelo cão.
+
+E logo, como quem se desviou do caminho direito e a elle volve, dirá ao
+alumno:
+
+P.--Tenho ouvido dizer a algumas pessoas, que o _uivo_ dos cães é de mau
+agouro, isto é, que um cão a uivar annuncia desgraça. Será verdade?
+
+E.--A minha avó diz que sim, que é signal de estar alguem para morrer.
+
+P.--Essa resposta esperava eu.
+
+Pois fiquem os meninos sabendo, que não ha agouros, e que _uivar_ um
+cão, ou _cantar_ um canario, ou _relinchar_ um cavallo, ou _piar_ um
+mocho, ou _cacarejar_ uma gallinha, ou _miar_ um gato não tem influencia
+nenhuma nos acontecimentos humanos.
+
+E.--Á minha casa vae uma velhinha, que, em ouvindo uivar um cão,
+descalça o sapato e põe-n'o com a sola para cima, até o animal se calar.
+
+P.--Se os cães uivarem muito em roda d'ella no inverno, andará sempre
+com os pés frios.
+
+E.--Então a minha avó mente?
+
+P.--Mente, sem querer. Metteram-lhe uma peta na cabeça, e ella acredita
+uma cousa, que não é verdadeira.
+
+E.--Ora diga-me, senhor professor, se uma pessoa estiver para morrer e
+um cão se puzer a _uivar_ na rua ou na escada?
+
+P.--O doente morrerá, se Deus quizer que morra; e viverá, se fôr da
+vontade divina, que continue a viver.
+
+E.--Mas como se explica o que aconteceu o anno passado a um visinho de
+meu papá?
+
+P.--Conte-me lá essa historia tentim por tentim.
+
+E.--Adoeceu um homem, que morava no primeiro andar do predio, em que eu
+habito; veiu o medico, esteve a examinal-o, receitou, disse que a doença
+não era de perigo, e saïu. Minutos depois metteu-se na escada um cão e
+principiou a uivar.
+
+A mulher do doente foi-se a elle, bateu-lhe com o cabo da vassoura e
+pol-o na rua. Quando entrou em casa, estava o marido morto em cima da
+cama.
+
+P.--Sabe o menino o que isso foi?
+
+E.--Eu não senhor.
+
+P.--Pois tem pouco que saber. Foi o que se chama _uma coincidencia_. Se
+á saïda do medico, entrasse pela casa dentro um passarinho, dir-se-ia,
+que a avesinha viera annunciar aquella desgraça; se eu por acaso batesse
+á porta do doente n'aquelle instante, era eu o agoureiro.
+
+E.--Mas o medico tinha dito, que a doença não era de perigo.
+
+P.--E a morte repentina pressente-se horas, ou minutos antes? E não
+podem os proprios medicos morrer de repente, sem que suspeitassem o que
+lhes ia acontecer?
+
+E.--Mas o cão uivou!
+
+P.--Diga-me ca o menino uma cousa. Em casa d'esse homem, que falleceu,
+não tem estado mais ninguem doente?
+
+E.--Estiveram doentes dois filhos.
+
+P.--E a mãe mandou chamar medico para os tratar?
+
+E.--Mandou, sim, senhor.
+
+P.--E não mandou chamar um cão?
+
+E.--Ora essa! Os cães não sabem curar doenças.
+
+P.--Mas o cão, que uivou, quando o homem morreu, era mais entendido que
+o medico, porque annunciou a morte, até sem vêr o doente.
+
+E.--O senhor professor está brincando! Os cães são brutos, não sabem
+d'aquellas cousas.
+
+P.--Então como é isso? Não sabem d'aquellas cousas, são brutos, e
+prophetisam?
+
+E.--Tem razão, senhor professor. Agora vejo que a minha avósinha anda
+enganada.
+
+P.--E muito, e faz mal em dizer taes patranhas. O uivo dos cães é
+desagradavel aos ouvidos, aborrecivel por isso, mas não tem a minima
+significação.
+
+Aqui poderá o educador dar fim ao incidente, ou continuar o dialogo,
+fallando do mau costume de molestar os animaes, das qualidades do cão,
+da raiva e dos meios de a prevenir e curar, etc, etc.
+
+Ao terminar a lição poderá o educador convidar ou os meninos a imitarem
+o relincho do cavallo, o carejo das gallinhas, o miar dos gatos, o
+latido dos cães, etc.
+
+Este exercicio que a algum fatuo parecerá ridiculo, ou desnecessario, ou
+ambas as cousas, tem as seguintes vantagens: alegra e distrae as
+creanças, que jámais fugirão do estudo, quando elle fôr recreativo,
+desenvolve-lhes, e aperfeiçôa-lhes a natural tendencia para imitarem,
+exercita-lhes e robustece-lhes os orgãos vocaes, e por cima de tudo não
+faz mal nem á alma nem ao corpo.
+
+Quem reparar bem no dialogo que deixâmos architectado, descobrirá quanto
+ensinamento ha n'elle, e perceberá que se pretendeu principalmente
+combater uma crença erronea, mas vulgarissima.
+
+Dêmos o segundo exemplo.
+
+Está sobre a mesa ou em cima de outro movel um ramalhete de flores, que
+alli se puzéra mui calculadamente.
+
+Chegada a occasião opportuna, o professor interrompe a lição e diz:
+
+Meus meninos, descancemos um pouco. Aqui se faz uma pausa, e todos os
+rapazinhos exultam e saltam dos seus logares.
+
+P.--Já viram bem aquelle ramalhete?
+
+E.--Ainda não, senhor.
+
+P.--Pois vão buscal-o, para o examinarmos por miúdo.
+
+E.--Eil-o aqui.
+
+P.--De que flores se compõe?
+
+E.--De rosas, cravos, camelias, junquilhos, violetas e cedro.
+
+Se os meninos errarem o nome das flores, ou os não souberem, irá o
+professor emendando e dizendo lhes como se chamam.
+
+P.--Menino F... (ao que mais atrazado estiver em contar) conte pelos
+dedos quantas qualidades de flôres ha n'este ramalhete.
+
+E.--Rosas, _uma_; cravos, _duas_; camelias, _tres_; junquilhos,
+_quatro_; violetas, _cinco_; cedro, _seis_... Ha seis qualidades de
+flôres.
+
+P.--Parece-me que se enganou. Veja bem.
+
+E.--São seis, não me enganei.
+
+P.--E se eu lhe disser que se enganou? E enganou-se, porque não attendeu
+bem. Diga-me, o cedro é flôr?
+
+E.--Tem razão; são cinco. O cedro não é flôr.
+
+P.--Está-me parecendo, que nenhum dos meninos me sabe dizer para que
+serve este cedro á roda das flôres.
+
+E.--Eu não sei; eu tambem não; é, é....
+
+P.--Eu lhes digo para que elle aqui está. É para realçar a belleza das
+flôres, para fazer um contraste agradavel á vista. Se duvidam desatem o
+junco, tirem o cedro, e verão que o ramalhete perde muito da sua
+formosura. (Acto continuo, o educador faz o que aconselhou e mostra o
+ramo desguarnecido de verdura).
+
+P.--É ou não é verdade, o que lhes affirmei?
+
+E.--É verdade.
+
+P.--Ha entre estas flôres, umas que cheiram, e outras que não cheiram.
+
+E.--As rosas, cheiram; os junquilhos, cheiram; as violetas, tambem; as
+camelias é que não tem cheiro.
+
+P.--Não me lembro se já lhes disse como se denominam as substancias, que
+tem cheiro?
+
+E.--Denominam-se _odoriferas_.
+
+P.--E as que não teem cheiro?
+
+E.--_Inodoras_.
+
+P.--E todas as substancias, que tem cheiro, cheiram bem?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--E todas as flôres cheirosas, possuem cheiro agradavel?
+
+E.--Nem todas.
+
+P.--Digam-me agora outra cousa. O cheiro das flôres é bom ou mau, para a
+saude?
+
+E.--Não sabemos.
+
+P.--Pois vão saber uma verdade, que jámais devem esquecer. Attendam. Ha
+pessoas a quem o arôma das flôres incommoda e faz adoecer; causa-lhes
+dôres de cabeça, enjôos de estomago, tonturas, e outros padecimentos.
+Muitas flôres, e ás vezes poucas, mas de cheiro forte, n'uma casa mal
+ventilada, podem envenenar quem alli estiver. Dormir com flôres na
+alcôva é muito perigoso, e sabe Deus quantas molestias este mau costume
+terá originado. Por agora basta que saibam isto, para se acautelarem; em
+outra occasião lhes explicarei como é que as plantas e flôres alteram a
+pureza do ar e o tornam doentio.
+
+É por este theor que nos animos infantis se podem inocular conhecimentos
+praticos de quantas sciencias ha, de modo que as crianças, ao sairem das
+escolas, levem copia immensa de noções utilissimas para todas as
+circumstancias da vida.
+
+ * * * * *
+
+De grande proveito nos parece que os meninos mais desembaraçados na
+escripta tenham um caderno onde todos os dias vão escrevendo mui
+laconicamente o assumpto da lição, e o que da mesma lhes pareça mais
+digno de se conservar na memoria.
+
+Evite-se, porém, que n'estes summarios, ou indices menemonicos, se
+empreguem palavras escusadas e se commettam erros de grammatica.
+
+De principio convirá que o educador, ao findar a lição, ensine aos
+meninos como o registro deve ser feito; depois ordenar-lhes-ha que o
+redijam em suas casas, e que lh'o apresentem no dia seguinte, para ser
+emendado.
+
+E como a extrema concisão seja a melhor qualidade de taes escriptos,
+aqui pômos um paradigma, para governo de educadores e educandos.
+
+Referimo-nos ao primeiro dialogo, que atraz fica exarado.
+
+
+*Registro*
+
+_Assumpto._--Um cão a ganir.
+
+_Sons, que os cães produzem com a bocca_: Latido, uivo, rosnadura,
+ganido. São substantivos. Ladrar, ou latir, uivar, rosnar, ganir.--São
+verbos.
+
+_Agouros._--Não os ha.
+
+_Vozes de differentes animaes._--Cão, _ladra_; canario, _canta_;
+cavallo, _relincha_; mocho, _pia_; gallinha, _cacareja_; gato, _mia_.
+
+O _uivo dos cães_ não indica, nem póde indicar a morte de ninguem, nem
+desgraça nenhuma. Se um cão uiva, pouco antes de morrer alguem, este
+facto é apenas uma coíncidencia, um accaso.
+
+ * * * * *
+
+O professor exigirá que os meninos, nas respostas que lhe derem,
+empreguem sempre phrases completas, conformes ás leis grammaticaes,
+simples e curtas quanto fôr possivel.
+
+ * * * * *
+
+Reputa-se de grande utilidade n'este ensino a repetição individual e
+simultanea.
+
+É um processo excellente, para conseguir que mais fundas se gravem
+certas especies no espirito dos alumnos, e para corrigir defeitos de
+expressão e pronuncia. No repetir em côro se deleitam as crianças muito,
+mormente se o tom das vozes não é tristonho, mas alegre, musical,
+variadissimo.
+
+ * * * * *
+
+Ao minimo erro de regencia, de concordancia, ou de pronuncia, acudirá
+logo o professor com a indispensavel advertencia, e tanto mais clara e
+fervorosa, quanto mais grave fôr o erro. Suppunhâmos que um menino diga
+_somentes_ em vez de somente, _faz-le_ por faz-lhe, _traz_ por traze,
+_Madanela_ por Magdalena, ou qualquer outra das infinitas corruptelas,
+que deslustram a nossa lingua, e que a cada momento se nos deparam até
+na conversação e escriptos dos doutos, e em documentos officiaes.
+
+Acto continuo advertil-o-ha o professor de que tal palavra não foi bem
+pronunciada, e o convidará a que a repita correctamente. Se o estudante
+não atinar a emendal-a, repita-lh'a o professor cuidadosamente partida
+em syllabas, acompanhando cada uma d'estas com uma pancada sobre a mesa
+com o ponteiro ou com a mão. Ouvida que seja a palavra assim
+pronunciada, repetil-a-ha o estudante tantas vezes, quantas seja
+necessario, para que a não altere, e após este exercicio dil-a-ha tão
+rapidamente como é de uso dizer-se. Se ao professor parecer conveniente,
+ordenará que outros estudantes façam o mesmo exercicio individualmente,
+e por fim mandará que a palavra ou phrase seja cantada pela classe
+inteira, attendendo muito a que o erro, que se pretendeu emendar, se não
+repita. O que fica dito ácêrca das palavras em especial applica-se em
+cheio ás phrases compostas de muitas palavras.
+
+ * * * * *
+
+A falta de ordem e clareza no dizer é defeito grave, mas communissimo,
+que tem raizes na escola primaria, e que por isso mesmo ou nunca se
+perde ou só com muito trabalho se consegue extirpar. A fim de prevenil-o
+e de combatel-o comece o educador dando exemplo de imperturbavel ordem
+na exposição, de esmerada escolha dos termos, de grande sobriedade nos
+incidentes, e de irreprehensivel rigor nas conclusões; tudo isto sem
+apparato, nem maneiras artificiosas, que revelem os intentos; e
+esmere-se em inspirar aos que o ouvirem o gosto de bem fallar, cortando
+todas as imperfeições mal apontem nos labios infantís. Cabe n'este logar
+uma recommendação, nunca assás repetida. Nas ruas, nas aulas, nos
+theatros, nas conversações familiares, e, quando Deus é servido, até no
+parlamento, e na imprensa proferem-se a miudo palavras e phrases, que,
+com quanto não sejam deshonestas, são tão grosseiras e plebeas, que
+nenhuma pessoa delicada as deveria empregar. Quasi sempre se ignora a
+origem d'aquelles termos, muitos d'elles, diga-se a verdade, sobremodo
+expressivos e por vezes engraçados, mas que nem por isso deixam de ser
+baixos e vis. Em evital-os seja fervorosissimo todo o educador, sem
+comtudo levar o zelo até ao ponto de banir da conversação escolar as
+locuções pittorescas e folgazãs, que alegram a linguagem, sem mareal-a.
+
+ * * * * *
+
+Assim como as leituras e recitações soturnas, pesadas, substanciosas, e
+extensas, aborrecem ás crianças e não lhes prendem a attenção, assim a
+poesia ligeira, as historias singelas, as fabulas e apologos, as
+anecdotas e proloquios lhes aprazem sobremodo e de tal arte se lhes
+apegam á memoria, que não mais as esquecem.
+
+Verdade é que Voltaire arguïu os fabulistas de quererem ensinar as
+verdades moraes por um processo essencialmente mentiroso, pondo a fallar
+animaes e plantas; e condemnou a leitura e recitação de taes composições
+nas primeiras edades. Tem porem mostrado a experiencia que Esopo,
+Phedro, La Fontaine e Lessing, com os seus artificios poeticos moralisam
+mais, e muito mais que a _Introducção á vida devota_, que o _Flos
+Sanctorum_, e que o _Thesouro de meninos_, e quantos outros escriptos,
+ainda que sejam verdadeiros na essencia e correctos na fórma, se hão
+publicado para edificação das almas, mormente em quanto n'estas se não
+ha robustecido a faculdade de raciocinar. Aproveitem-se pois d'este meio
+os educadores, lendo de vez em quando á escola uma fabula, que tenha
+relação com os objectos, que se estudam, e fazendo-a decorar; contando a
+proposito uma anecdota, ou repetindo algum dos muitos e verdadeirissimos
+rifões, de que tão rica é a lingua portugueza. Dos bons poetas
+nacionaes, tanto modernos como antigos, poderá o educador escolher
+infinita copia de versos em todos os generos, com os quaes irá
+perfumando as lições e desenvolvendo na puericia o gosto da poesia, que
+alarga a imaginação, modifica e reprime as ruins paixões, consola o
+espirito, e o dulcifica e embalsama. Fuja, porem, como de peste, de
+versos máos ou mediocres, não esquecendo jamais que _a poesia_ é, no
+dizer de um dos mais elegantes e profundos escriptores de Portugal, o
+sr. Latino Coelho, _a grandeza e o nada; o mundo e o atomo; a gloria e a
+humiliação; o triumpho e o martyrio; o genio e a loucura_.
+
+No ensino intuitivo, a faculdade que mais cuidadosamente se deve
+dirigir, desenvolver, e approximar da perfeição é a faculdade de
+comparar, cujos defeitos inutilisam os esforços das faculdades, que a
+antecedem, e obstam a que as superiores se exerçam como é mister. São
+innumeraveis e quasi sempre facillimos os processos de comparação de que
+o educador poderá fazer uso, desde a confrontação de dois feijões, ou de
+dois alfinetes, etc., até ao estudo comparativo de duas poesias, de duas
+obras de arte, do caracter de dois homens notaveis, de duas epocas
+historicas. Não ha palavras para encarecer os resultados, que os estudos
+d'esta ordem produzem e a influencia que exercem no desenvolvimento
+intellectual e moral das crianças.
+
+ * * * * *
+
+A par com o estudo das cousas, podem e devem marchar os exercicios
+attinentes ao aperfeiçoamento dos sentidos externos, e os preceitos
+consoantes á sua hygiene. Todos terão observado que o exercicio de
+certos orgãos concorre por muito para que os mesmos se apurem e tornem
+cada vez mais delicados. Os homens do mar, acostumados a olhar muito ao
+longe, e a buscarem a grandes distancias um objecto perceptivel, excedem
+sempre em perspicacia os que teem vivido encerrados em horisontes menos
+extensos.
+
+Um musico, habituado a reger orchestras, percebe, ainda mesmo nos
+cheios, se qualquer dos executantes deu uma nota errada, ou commetteo
+outro erro. Cegos tem havido, que pelo apalpar distinguem nos corpos
+qualidades, que pertencem ao dominio da visão, e executam trabalhos
+manuaes difficeis e delicados, como aquelle cego de nascença, de que
+falla o sr. dr. Centazzi na sua _Medicina_ e _Hygiene Popular_, que
+existia na cidade de Faro, no Algarve, e que fazia peões, cubos, e
+outras obras tão perfeitas, como as dos mais habeis mestres. Dos
+provadores de vinho se sabe quão facilmente reconhecem pelo paladar o
+merito, idade, pureza, e proveniencia do precioso liquor.
+
+Não se deve esperar que a gymnastica dos sentidos, por mais bem dirigida
+que seja na casa paterna e nas escolas infantís e primarias, venha a
+produzir tão miraculosos resultados; mas é indubitavel, que lhes
+corrigirá muitos defeitos, e que de dia para dia os hade ir tornando
+mais apropriados aos importantissimos fins, para que a natureza os
+destinou.
+
+Os paes em suas casas, e os professores nas escolas poderão começar a
+gymnastica dos sentidos pelo exame e comparação das côres. Mostrarão
+primeiro aos educandos o vermelho, amarello, verde, azul, preto, branco;
+depois differentes gradações de cada uma d'estas côres; em seguida as
+côres de transição; apoz estas, todas as mais, que fôr possivel
+apresentar-lhes. A pouco e pouco lh'as irão nomeando, e fazendo notar
+tudo quanto convier que elles saibam a tal respeito. Ao conhecimento das
+côres poder-se-hão seguir exercicios tendentes a apurar a vista, taes
+como a inspecção de objectos collocados a distancia cada vez maior; a
+leitura ao longe, e a pesquiza de algumas estrellas, planetas e
+constellações, cuja posição no espaço previamente se lhes tenha mostrado
+no mappa.
+
+Por meio de processos analogos se podem educar os outros sentidos,
+ensinando-se ao mesmo tempo milhares de cousas.
+
+ * * * * *
+
+Tambem os mestres do ensino intuitivo, recommendam, que se acostumem os
+meninos a lerem e a exporem elegante, exacta, e correctamente. Em
+algumas escolas temos notado quão pouco os professores attendem a esta
+parte do ensino, consentindo que os estudantes exponham as lições e
+respondam ás perguntas, que se lhes fazem, com extrema negligencia;
+negligencia na pronunciação das palavras, cujos sons elementares
+falseam; negligencia na declamação, que por muito precipitada, ou por
+extremamente preguiçosa, se torna monotona e insuportavel; negligencia
+na coordenação das idéas componentes dos raciocinios, e negligencia na
+disposição d'estes.
+
+Acudir com remedio a tantos defeitos é empreza ardua e enfadonha, mas de
+que não ha de levantar mão o bom educador, sendo o seu primeiro e
+persistente cuidado desarreigar os vicios da pronunciação, que
+principalmente na côrte, trazem adulteradissimo o mais elegante e
+donairoso de quantos idiomas se fallam no mundo, se exceptuarmos o
+italiano, ao qual, não obstante a sua nativa belleza e abundancia, não é
+somenos.
+
+Daria um livro a só enumeração das transgressões das regras orthoepicas,
+que a cada momento se ouvem até em boccas de ouro; tão irresistivel é a
+força dos maus exemplos! De entre as mais vulgares citaremos, para
+amostra, o accrescentamento, ou paragoge de um _e_ mudo ao infinito dos
+verbos, dizendo-se: _amare_, _fazere_, _comere_, _partire_, _pore_,
+etc., em vez de amar, fazer, comer, partir, pôr. O mesmo
+accrescentamento ao final das palavras, que terminam em consoante,
+proferindo-se: _sole_, _flore_, _mulhere_, _metale_, em logar de sol,
+flor, mulher, metal; o emprego do _a_ grave, onde deveria soar _e_
+fechado, pronunciando-se _espâlho_, _panha_, _tanha_, etc., por espelho,
+penha, tenha. A substituição grosseirissima de _le_ a lhe, dizendo se
+_dei-le_, _mostrei-le_, _quizera-le_, em vez de dei-lhe, mostrei-lhe,
+quizera-lhe; bem como o emprego de _lhe_, quando este pronome se refere
+a mais de uma pessoa ou cousa, e de _lhes_, quando a referencia é a uma
+só cousa ou pessoa. O emprego de _i_ em logar de _e_ em muitas palavras
+taes como dedal, dedeira, deante, empenho, emprestar, que a mór parte da
+gente pronuncia: _didal_, _dideira_, _diante_, ou _diente_, _impenho_,
+ou _impanho_, _imprestar_.
+
+De tanto e tão damninho joio irá o educador arrancando diariamente
+muitas mãos cheias, desafogando a linguagem de todos quantos senões
+n'ella fôr descobrindo, afim de que mais tarde, quando os meninos
+entrarem a estudar os segredos da elocução, nem elles, nem os
+professores tenham de perder muito tempo e muita paciencia em os
+debellar. E não sómente aos erros da pronunciação se ha de ir applicando
+prompto e efficaz remedio, mas tambem aos gallicismos e plebeismos de
+que está inçada a nossa lingua, mórmente aos que respeitarem á
+composição das phrases, havendo o maximo cuidado em não atordoar as
+cabeças dos estudantinhos com preceitos de grammatica e considerações
+philologicas.
+
+Se um menino disser: Vi hoje na _montra_ de um livreiro uma linda
+estampa; accudirá logo o educador: Não se diz _montra_; diz-se
+mostrador; e fará que o mocinho repita a phrase, substituindo o termo
+peregrino e escusado pela palavra portugueza. Diz outro: _Houveram_
+hontem muitas festas de egreja; emendará sem demora o educador: Houve
+hontem muitas festas de egreja; e convidal-o-ha a que emende o erro. Se
+algum menino lhe perguntar a razão por que tal palavra ou phrase se não
+deve dizer, a resposta será regulada pela idade, intelligencia e
+adiantamento do interrogante, de modo que, se elle fôr pequenino e muito
+noviço em materias grammaticaes, só lhe dirá: Essa palavra não se deve
+empregar porque é estranha á nossa lingua e desnecessaria; essa phrase
+não é admissivel, porque não é conforme ás leis da grammatica, que é a
+sciencia de bem fallar. E ahi fica o educando insensivelmente sabedor de
+que a phrase, que empregou, não é boa; de qual ou quaes a devem
+substituir; de que o discurso está subjeito a leis; e de que a sciencia
+de fallar correctamente se chama grammatica.
+
+Quanto mais não valerá a advertencia despretenciosa, que valeria um
+discurso mui chorudo de citações e palavras latinas e gregas! Se o
+pequenito, que os ha amigos de discutir e aferrados á propria opinião,
+não largar voluntario a palavra, que ouvira ou lêra, bom será
+convencel-o, não com argumentos scientificos, salvo se a sua
+intelligencia os poder comprehender sem custo, mas por meio de um
+simile. Poder-se-lhe-ha ponderar que assim como ninguem rasoavelmente
+vae pedir emprestadas aos visinhos cousas de que tenha abundancia de
+portas a dentro, nem vae ao mercado comprar fructa ruim, tendo-a famosa
+no quintal, a bater-lhe nas vidraças, assim os portuguezes de bom juizo
+e sufficiente instrucção, não devem andar tomando palavras e maneiras de
+dizer a estranhos, quando até para repartir com elles lhes sobram
+muitas.
+
+Para conseguir que as crianças leiam e fallem com elegancia, e n'isto
+vae o segredo da perfeitissima declamação, a primeira cousa, que o
+educador tem a fazer, é acostumal-as ao rhythmo, tão bem aproveitado
+pelo sr. Visconde de Castilho no seu _Methodo de leitura repentina_.
+
+Por pouco que se pense na organisação de todo o apparelho vocal
+(pulmões, larynge, bocca e narinas) nas relações d'aquelles orgãos e no
+mechanismo da voz, facilmente se perceberá, que a palavra, no que tem de
+physico, é verdadeira musica, com seus sons naturaes e accidentaes, com
+sua oitava, com escalas ora mais, ora menos extensas, com os seus
+tempos, já breves, já longos, e até com a expressão e timbre
+variadissimo, que ás vibrações sonoras e musicaes, imprimem os
+instrumentos.
+
+Ora, como não ha musica, que tal se possa chamar, sem rhythmo e
+expressão, claro está que a voz humana, para satisfazer ás condições da
+arte, e bem servir a intelligencia, de que é a melhor reveladora, e até
+parte integrante, no dizer de Condillac, deve ser rhytmica e expressiva.
+
+Para que estas duas essenciaes qualidades lhe não faltem é indispensavel
+em primeiro logar, que o educador habitue os meninos a obdecerem
+escrupulosamente ao compasso, na pronunciação dos sons elementares
+(vozes e consonancias) na dos compostos (diphthongos e syllabas) e na
+recitação das palavras, que só poderá ser perfeita, quando tiverem sido
+previamente divididas em tantos tempos, quantos forem seus elementos
+syllabicos. Depois de bem amestrados por meio d'estes exercicios na
+leitura auricular das palavras, que o educador para tal fim lhes ditará
+em voz bem intelligivel, palmeando as primeiro mui vagarosamente, depois
+um poucochinho mais depressa e por ultimo com o natural andamento,
+passarão os meninos a _ler por cima_, como é uso dizer-se nas escolas.
+
+Chegado a este ponto terá o educador de desvelar-se muito em supprir a
+extrema penuria da orthographia, não tanto no tocante á representação
+dos sons constituitivos das palavras, no que muito falta, como no que se
+refere á divisão logica das orações, ás variadissimas pausas, que ha de
+fazer o bom ledor e recitador perfeito; ás infinitas intonações de que
+carecem as palavras, as proposições, os periodos e até um mesmo vocabulo
+conforme a idéa que revela[1].
+
+Ler ou fallar sem intonações, sem pausas, sem as devidas quantidades,
+sem dar ao que se lê ou falla o natural colorido, e o relevo
+indispensavel, vale tanto como querer executar em um piano
+miseravelmente desafinado os primores de Rossini, Donizetti, Bellini,
+Meyerbeer ou Marcos Portugal.
+
+E não obstante serem intuitivas todas estas verdades, muitissimas
+pessoas ha, que as desconhecem, e muitas que, não as desconhecendo, como
+que se aprazem de ler e fallar por modo tal, que provocam tedio e somno.
+
+Daria optimo resultado, como tivemos opportunidade de mostrar
+praticamente a um educador, sempre avido de se aperfeiçoar, e em extremo
+benevolente para comnosco, a introducção nas escolas infantís e
+primarias, para o ensino e aperfeiçoamento da leitura e recitação de um
+processo analogo ao adoptado pelos regentes de orchestras e bandas
+marciaes no estudo das peças concertantes. Consiste elle em se
+collocarem os meninos em pé ou assentados, mas conservando direitos os
+troncos e naturalmente levantadas as cabeças[2] em frente de estantes ou
+mesas, onde estejam abertos os livros. Em logar elevado, de modo que
+todos os escolares o vejam, está o educador em pé, batuta na mão, olhos
+no livro e olhos na turba. Primeiro lê elle pausadamente em voz alta,
+com todo o esmero, um periodo, marcando o compasso com a batuta,
+repetindo duas ou mais vezes as palavras, que lhe parecerem mais
+difficeis de pronunciar, e corrigindo sem o minimo acanhamento os
+proprios descuidos. Feito este ensaio, manda ler o mesmo trecho ao
+estudante mais adiantado, depois a outro e outro, reservando para o fim
+os menos habeis, para que tenham tido tempo de se amestrar.
+
+Findo que seja este segundo exercicio, e tomado algum descanço, dará o
+signal de attenção e mandará ler em côro, indicando sempre com a batuta,
+como se estivesse regendo uma orchestra, todas as modificações da voz,
+que a leitura exigir.
+
+A estes estudos, que bem se podem chamar de leitura coral, podem-se
+accrescentar outros, excellentes para exercitar os meninos na
+declamação, e mui bem acceitos do bando infantil, que consistem
+primeiramente na leitura, e depois na recitação de cór, de pequenos
+dialogos, fabulas, e entremezes, em que haja um côro e dois, tres, ou
+mais interlocutores. Composições d'este genero facilmente se obtem, e
+quando se não achem, sem muito custo as póde architectar o professor.
+
+A par dos exercicios de leitura e recitação se póde ir cultivando a
+intelligencia dos meninos, e acostumando-os a pensarem e a exprimirem-se
+com certo rigor logico. Nada ha mais facil.
+
+Umas vezes elles mesmos subministrarão ao educador assumpto de molde
+para os seus conselhos e advertencias, outras vezes far-lhes-ha e
+educador uma pergunta ou lhes proporá um problema, e nas respostas irá
+notando as transgressões das leis da logica, que porventura commetterem,
+nunca saindo do campo da pratica para o das theorias, nem usando da
+terminologia scientifica, que nas idades tenras assusta, desgosta e não
+instrue.
+
+ * * * * *
+
+Cerraremos estas considerações lembrando aos educadores a vantagem de
+excitar nos estudantes o amor do estudo pelo emprego de premios e
+distincções.
+
+Se no dizer de Christo «Todo o que trabalha é digno de recompensa»
+_Dignus est enim operarius mercede sua_, qual será a razão por que se
+não hade galardoar o bom comportamento, a assiduidade no estudo, o
+aceio, e o progresso dos meninos?
+
+Se nas escolas superiores ha premios annuaes para os alumnos distinctos,
+se as academias os offerecem aos sabios, que cabalmente satisfazem aos
+seus programmas; se aos que triumpham nos certames das artes e da
+industria se concede a menção honrosa, o _accessit_, a medalha de prata
+ou a de ouro; se ha palmas e corôas, e ramalhetes, e brindes para o
+actor eximio, e até para o que na praça lucta com o touro embravecido,
+de melhormente se devem premiar as criancinhas, para as quaes o estudo,
+por mais que lh'o procuremos amenisar, hade ser sempre tarefa improba e
+tediosa.
+
+Hade porém haver na concessão das distincções e premios escolares a
+maxima parcimonia e inteira justiça, para que nem a prodigalidade lhes
+diminua o valor, nem a parcialidade os torne, em vez de incentivo do
+bem, facho de discordias, e origem de malquerenças.
+
+E assim como a advertencia e a reprehensão se não devem fazer esperar,
+commettida a falta, assim tambem se não deve demorar, nem regatear o
+galardão aos que o merecerem.
+
+Finda a semana, a cada um se dará com certa solemnidade ou o diploma, ou
+a medalha, ou a estampa, ou o livro, ou o brinquedo, mas nunca gulodices
+ou cousas, que os possam prejudicar.
+
+Além d'estes estimulos, bom será que annualmente haja, como em muitos
+collegios se usa, uma sessão publica consagrada á glorificação dos que
+mais se houverem distinguido.
+
+Ponhamos aqui ponto, não porque hajamos dito quanto se poderia
+recommendar aos educadores relativamente á difficilima empresa de
+iniciar as criancinhas nas sciencias e na virtude, mas porque exposto
+fica o que mais lhes convem saber para o bom emprego do ensino
+intuitivo, que nos proposemos vulgarisar, convencidos da sua muita
+utilidade. Os exemplos que seguem, não entram no plano de ensino
+intuitivo _gradual_, que, se Deus fôr servido, daremos á estampa; são
+tão sómente uma amostra, pela qual se possa fazer idéa do systema.
+
+Preferimos para estes exemplos os assumptos e objectos, que nas suas
+primeiras lições trataram Braun e Mayo, insignes pedagogistas, que em
+materia de educação tem prestado relevantes serviços á humanidade,
+adquirindo incontestavel direito a esta humilde, porém sincera
+homenagem[3].
+
+E já que fallámos de pedagogistas de tamanha nomeada, honremos aqui
+tambem outro escriptor e pedagogo notavel, o sr. J. Rambosson, cuja
+ultima obra, publicada em fins do anno de 1872: «_A educação maternal
+conforme as leis da natureza_,» não inferior á tão justamente
+applaudida: «_Educação das mães de familia_,» de Aimé Martin, hade
+forçosamente contribuir muito para a reforma do actual viciosissimo
+systema de educar a infancia, do qual o sr. Rambosson diz estas tão
+tristes, quão verdadeiras palavras: _Il n'existe rien sous ce rapport,
+ni chez nous ni ailleurs; on ne peut appeler éducation ce que se
+pratique pour cet âge_.
+
+
+
+
+PRIMEIRA LIÇÃO
+
+
+Ao entrarem a primeira vez na escola a maior parte dos meninos receiam;
+muítos d'elles temem.
+
+Que receiam e que temem?
+
+Receiam e temem a ausencia e desamparo temporario de suas mães e paes; o
+affastamento de seus irmãos e criados; o professor, que desconhecem; os
+condiscipulos, que nunca viram; a casa da aula, que lhes é estranha; a
+sciencia que ignoram.
+
+Quanto mais pequeninos, mais desconfiados se apartam do ninho seu
+paterno, mais desbotadas levam as faces, mais tremem e se angustiam ao
+aproximarem-se do templosinho modesto e sereno, que se lhes afigura
+medonho ergastulo.
+
+Na repugnancia, que os meninos tem á escola, são quasi sempre culpados
+os paes e as mães, porque, em vez de amoravelmente lhes fallarem d'ella,
+de lhes mostrarem que está alli o alvorecer de todas as artes e
+sciencias, de lhes dizerem que é aquella a unica porta por onde se entra
+á vida publica, na qual terão, quando homens, de tomar parte, de lhes
+explicarem a missão do professor e de lhes expenderem que n'elle
+accrescem aos deveres de mestre os de amigo e patrono; nada d'isto
+fazem, e só invocam o santo nome da escola, quando irritados pelas
+travessuras das crianças, que não querem ou não sabem remediar com
+brandura, bons conselhos, bons exemplos e moderadas correcções,
+pretendem aterrorisal-os, apontando-lhes para aquella... penitenciaria.
+
+Como ha de amar a escola e appetecel-a, e correr para ella voluntario e
+risonho o menino, a quem se não fartaram de dizer: «Não te aquietas?
+Irás para a escola, onde te farão estar quedo, quer queiras, quer não
+queiras.» «Não aprendas agora, que o professor depois, com a palmatoria
+te metterá no bom caminho.» «Por mais que te ralhe, não te emendas, tudo
+rasgas, tudo quebras; deixa-te ir para a escola;... farei queixa ao
+professor, elle te porá as uvas em pisa»[4]. A fim de remediar estes
+deploraveis vicios da educação domestica, de tranquillisar o
+estudantinho, de familiarisal-o com o professor e com os alumnos e de
+infiltrar-lhe n'alma o amor da escola e do estudo, adopte-se o seguinte
+modelo de recepção, ou outro melhor, mas pouco mais ou menos do mesmo
+padrão.
+
+Professor.[5]--Venha cá, meu menino; como se chama?
+
+Estudante.--Viriato.
+
+P.--Viriato é o seu primeiro nome; desejo tambem saber o seu sobrenome e
+appellido.
+
+E.--Chamo-me Viriato Henrique de Oliveira.
+
+P.--Bonito nome. Para corresponder a elle terá o menino de ser valente,
+destemido, muito amante da sua patria e muito bom. Sabe porque?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Eu lh'o explico. Viriato foi um pastor da Serra da Estrella, tão
+amigo da patria e dos patricios, que para impedir que os romanos os
+escravisassem, largou o cajado, abandonou os rebanhos, que apascentava,
+tomou armas, aggregou a si outros valentes, e por muitos annos
+desbaratou os exercitos estrangeiros, envergonhando generaes aguerridos,
+e grangeando fama eterna. D. Henrique foi outro militar de grandes
+dotes, e que tanto se distinguiu na guerra contra os mouros, que enchiam
+a Hespanha e a nossa terra, que, em premio de seu valor veiu a casar com
+D. Theresa, filha de um rei mui poderoso, da qual nasceu D. Affonso
+Henriques, primeiro monarcha portuguez.
+
+E para que todo o nome do menino seja de bom agouro, até lhe pozeram o
+appellido de Oliveira, que é uma arvore muito util e agradavel, symbolo
+da paz, de cujos fructos, as azeitonas, se tira o azeite, que é o melhor
+e mais precioso oleo, que se conhece. Mas deixemos o azeite e a
+oliveira, que ainda lhe quero fazer mais perguntas.
+
+Como se chama o seu papá?
+
+E.--Antonio Joaquim de Oliveira.
+
+P.--Que emprego tem elle?
+
+E.--É militar.
+
+P.--E o menino quer tambem ser militar?
+
+E.--Não, senhor; quero ser medico.
+
+P.--Bom é que não sigam todos a mesma carreira; haja militares, para
+defenderem a patria dos inimigos estranhos, e para manterem o socego e a
+ordem, que são a primeira necessidade dos povos; e haja medicos para
+curarem os doentes, e para nos ensinarem o que devemos fazer para não
+enfermar. Que edade tem o menino?
+
+E.--Nove annos.
+
+P.--O seu papá tem mais filhos?
+
+E.--Tem mais tres.
+
+P.--Os filhos do seu papá e da sua mamã o que são ao menino?
+
+E.--São meus irmãos.
+
+P.--Como se chamam os seus manos?
+
+E.--Thomaz, Clemente e Valeriano.
+
+P.--Dos quatro qual é o mais velho?
+
+E.--É o Thomaz.
+
+P.--Porque é elle mais velho?
+
+E.--Porque nasceu primeiro que os outros.
+
+P.--Se Thomaz é o mais velho, porque nasceu primeiro que os outros, como
+designará o ultimo nascido?
+
+E.--Direi que é o mais pequeno.
+
+P.--Melhor é dizer que é o mais novo. Onde mora o menino?
+
+E.--Na rua da Alegria.
+
+P.--Caspite! Quem mora na rua da Alegria não deve ser triste.
+
+Após esta pratica com os recem-entrados poderá o professor ou professora
+convidar os que souberem contar a contarem os estudantes, que estiverem
+na escola, e a designar pelos nomes os que forem seus conhecidos.
+
+P.--Menino Viriato[6] quantos condiscipulos tem aqui?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Não sabe, porque ainda os não contou; conte-os em voz alta.
+
+E.--Um, dois, tres, etc.
+
+P.--Agora, que sabemos quantos traquinas aqui estão, diga-me os nomes
+dos seus conhecidos.
+
+E.--Aquelle é Francisco; aquelle é Antonio; aquelle, que está ao pé da
+janella, tambem se chama Francisco, etc.
+
+P.--Ha n'esta aula tres Franciscos, como é que os havemos de distinguir
+de modo que, ao chamar um d'elles, não acudam todos tres?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Nada mais facil; bastará accrescentar ao primeiro nome de cada um o
+appellido da familia; teremos: Francisco de Mello; Francisco de Aguiar e
+Francisco Loureiro. Quando differentes pessoas ou cousas tem o mesmo
+nome, é indispensavel juntar ao nome que lhes é commum, outro, para que
+as possâmos designar sem confusão. Os meninos tem nas suas casas cópos
+de differentes tamanhos, para differentes usos; a uns chamam cópos
+_d'agua_, a outros cópos _de vinho_, a outros cópos _de liquor_. O mesmo
+fazemos com a fructa. Ha muitas qualidades de pêras; para distinguil-as
+denominamol-as pêra _parda_, pêra _virgulosa_, pêra _bojarda_, pêra
+_flamenga_, etc.
+
+ * * * * *
+
+Finda que seja a segunda phase d'este colloquio, tenue, mas conveniente
+para desassombrar o espirito dos estudantinhos, passará o professor a
+fazer-lhes outra ordem de perguntas.
+
+P.--Como se chama, meus meninos, esta casa, onde estamos?
+
+E.--Chama-se escola.
+
+R.--Para que vem os meninos á escola?
+
+E.--Para aprender.
+
+R.--Que vem os meninos aprender?
+
+E.--A ler, escrever e contar.
+
+P.--Assim é; mas na escola além de ler, escrever e contar, ensinam-se
+muitas outras cousas agradaveis e uteis, as quaes todas concorrem para
+tornar os meninos instruidos e virtuosos. Querel-as-heis aprender
+tambem?
+
+E.--Queremos, sim, senhor; queremos.
+
+P.--Ha um adagio, que diz:--_O que se ha de fazer, faça-se_; sigamos o
+adagio e comecemos desde já o nosso estudo, examinando os objectos, que
+estão n'esta aula. (Aqui mostrará o professor aos estudantes o _quadro
+preto_[7] a que muitos impropriamente chamam pedra). Qual dos meninos
+tem um objecto como este em sua casa?
+
+E.--Eu não; eu tambem não.
+
+P.--Sabem como se chama?
+
+E.--Chama-se _pedra_.
+
+P.--Assim o denominam alguns, mas impropriamente. Isto não é de pedra, é
+de pau, é de madeira. Ha n'esta casa alguma cousa de pedra?
+
+E.--As hombreiras da porta e das janellas.
+
+P.--E nada mais?
+
+E.--As ardosias, que trouxemos para fazer contas.
+
+P.--O menino F. respondeu muito bem; essas laminas pretas, a que
+chamâmos ardosias ou lousas, e as pennas com que escrevemos n'ellas, são
+pedaços de pedra. Querem ver a differença, que vae da pedra á madeira?
+Batam com os dedos nas ardosias; agora venham aqui, e batam n'isto, a
+que deram o nome de pedra. Todos percebem a differença do som.
+
+E.--É verdade.
+
+P.--Como chamaremos, pois, a este objecto? Eu lh'o digo.
+Chamar-lhe-hemos o _quadro_, ou a _taboa_; e como esta madeira está
+pintada, poderemos acrescentar ao nome quadro outro nome, indicativo da
+côr, que tem.
+
+E.--Poderemos dizer: _Quadro preto_.
+
+P.--Mui bem. Agora dir-me-hão para que serve o quadro preto.
+
+E.--Serve para n'elle se escrever.
+
+P.--(Mostrando um pedaço de giz). Sabeis o que é isto?
+
+E.--É um bocado de _giz_.
+
+P.--Para que o tenho eu aqui?
+
+E.--Para escrever no quadro preto.
+
+P.--De que côr é o giz?
+
+E.--É _branco_.
+
+P.--(Mostrando a esponja). Como se chama est'outro objecto?
+
+E.--Chama-se--_esponja_.
+
+P.--Para que temos aqui esta esponja?
+
+E.--Para apagar as lettras e as figuras, que se fizeram no quadro preto.
+
+P.--Não poderiamos apagar a escripta com o lenço de assoar?
+
+E.--Poderiamos, sim, senhor; mas ficaria sujo, e sujar-nos-hia o fato.
+
+P.--Respondeu muito bem. E porque razão não apagâmos as lettras com as
+mãos?
+
+E.--Porque ficariam sujas, e sujar-nos-hiam tambem o fato.
+
+P.--Quando por qualquer motivo tivermos sujado as mãos, que deveremos
+fazer?
+
+E.--Limpal-as.
+
+P.--De quantas maneiras se limpam as mãos?
+
+E.--Esfregando-as n'um panno, ou lavando-as.
+
+P.--Como ficam ellas mais desenxovalhadas, esfregando as n'um panno, ou
+lavando-as?
+
+E.--Lavando-as.
+
+P.--Como se chamam as peças de roupa, de que nos servimos para enxugar
+as mãos depois de as termos lavado?
+
+E.--Chamam-se--_toalhas de mãos_.
+
+P.--Trazer as mãos limpas é garridice, ou necessidade e dever?
+
+E.--É necessidade e dever.
+
+P.--Para que é necessario trazer as mãos aceiadas?
+
+E.--Para não mancharmos aquillo em que mechermos, e para não enojar as
+pessoas, que nos virem ou a quem prestarmos algum serviço.
+
+P.--A sugidade das mãos prejudica a saude?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Prejudica, e muito; em primeiro logar porque obsta á transpiração,
+isto é, á saïda da agua e suor, que continuamente estão atravessando a
+pelle; em segundo logar porque, indo com as mão sujas aos olhos,
+poderemos inflamal-os e originar doenças, que ou nos enfraqueçam a vista
+ou nos acarretem a cegueira. Quantas vezes ao dia deveremos lavar as
+mãos?
+
+E.--Quantas fôr necessario.
+
+P.--Acertadamente responderam; mas não será escusado dizer-lhes que
+invariavelmente as devem lavar pela manhã, ao erguerem-se da cama; antes
+e depois do almoço, jantar e ceia, ou de qualquer outra refeição; ao
+sair e entrar em casa; afóra as outras vezes, que o aceio o exigir.
+Passemos a outro assumpto. (Apontando para o cavallete.) Qual dos
+meninos me saberá dizer o nome d'aquelle objecto?
+
+Silencio.
+
+P.--Menino Carlos, não sabe como se chama aquillo?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Pedrinho, tambem não sabe como se chama aquella geringonça?[8]
+
+E.--Chama-se _cavallete_.
+
+P.--Acertou. Agora digam todos commigo: Ca-va-lle-te[9].
+
+E.--Ca-va-lle-te.
+
+P.--Agora hão de dizer esse nome, sem separarem as syllabas.
+
+E.--Cavallete.
+
+P.--Para que serve aquelle cavallete?
+
+E.--Serve para sustentar o quadro preto.
+
+
+Resumo
+
+A casa, onde estamos, chama-se «escola». Na escola aprende-se a ler,
+escrever, contar, a doutrina christã, desenho, canto, e mil outras
+cousas uteis e agradaveis, que o professor nos vae ensinando pouco e
+pouco, as quaes todas concorrem para que sejamos bons e instruidos,
+qualidades estas indispensaveis a qualquer homem. Ha na escola diversos
+objectos, e entre elles o _quadro preto_, a _esponja_, o _giz_ e o
+_cavallete_. No quadro preto escreve-se com giz. Serve a esponja para se
+apagar o que se escreveu no quadro, e o cavallete para sustentar o mesmo
+quadro.
+
+
+Reflexões
+
+Meus meninos, attendei bem ao que vou dizer-vos, e não o esqueçaes. Pode
+a casa da escola ser convidativa, a mobilia e utensilios bons, os
+compendios famosos, o professor sabio, zeloso e habil, e o methodo de
+ensino excellente, e não obstante todas estas invejaveis condições, os
+estudantes não utilisarem nada, com detrimento proprio e de seus paes,
+por falta de assidua frequencia e de estudo.
+
+São incalculaveis os prejuizos, que resultam das repetidas faltas á
+escola. Os meninos, que faltam, não só não se adiantam, mas perdem o que
+aprenderam, desgostam e entibiam o professor, introduzem a desordem na
+aula, e incitam os collegas com o exemplo, a que procedam do mesmo modo.
+
+Evitae, pois, todos estes males, não faltando á escola sem causa
+justificavel, e estudando aqui e em vossas casas, isto é, attendendo ao
+que o professor vos disser, meditando nas suas palavras, e lendo ou
+decorando o que vos mandarem que leiaes ou decoreis. Não se pode ser
+instruido, sem estudar. Os meninos estudiosos grangeiam a estima das
+pessoas de bem, e tornam-se dignos da protecção divina.
+
+
+
+
+SEGUNDA LIÇÃO
+
+A ESCOLA
+
+
+P.--Meus meninos, fallámos outro dia do quadro preto, das ardozias, do
+giz, da esponja, da toalha de mãos, e do cavallete; desejo que me
+nomeeis agora mais alguns utensilios da escola... Como se chama isto?
+(Indicando a mesa).
+
+E.--Chama-se _mesa_.
+
+P.--De que é feita esta mesa?
+
+E.--De madeira.
+
+P.--Todas as mesas são de madeira?
+
+E.--Não, senhor; algumas são de pedra.
+
+P.--E não as ha feitas de outras materias?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Nunca viram mesas de metal?
+
+E.--Lembro-me agora de tel-as visto de ferro.
+
+P.--E não só de madeira, de pedra e de ferro se podem fazer; todas as
+materias solidas e duras se prestam á construcção d'este movel. Como se
+chama esta parte da mesa? (Indicando a parte superior).
+
+E.--_Taboa_ da mesa.
+
+P.--Como se chama est'outra? (Indicando a parte sobre que assenta a
+taboa).
+
+E.--Chama-se _aro_.
+
+P.--Vinde aqui e dizei-me, que nome tem estas especies de caixas
+(Mostrando as gavetas) que estão sobre a taboa da mesa, e que eu puxo
+para fóra e torno a esconder (abrindo e fechando as gavetas).
+
+E.--Essas especies de caixas chamam-se _gavetas_.
+
+P.--Para que servem as gavetas?
+
+E.--Para guardar diversos objectos?
+
+P.--Estas peças de metal, que as gavetas aqui tem embebidas na madeira,
+como se denominam?
+
+E.--_Fechaduras._
+
+P.--Para que servem estas fechaduras?
+
+E.--Para fechar as gavetas?
+
+P.--Porque razão fecho eu as gavetas d'esta mesa, quando saio da aula?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Porque ha meninos, que commettem a indiscripção de as abrir e de
+mecher no que n'ellas está, praticando uma acção feia ...
+
+E.--É máu abrir uma gaveta?
+
+P.--Se a gaveta é de nosso uso, ou se nos é permittido abril-a e tocar
+no que lá está, não commettemos falta nenhuma em a abrir; mas se é de
+outrem, ou se nos prohibiram abril-a, é acção muito feia e má o
+descerral-a, sem licença, excepto em caso de necessidade. E já que
+estamos a fallar de gavetas, dizei-me, que deve fazer um menino bem
+educado, quando na sua presença se abre uma gaveta?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Deve abster-se de olhar para lá e de estar a observar o que ella
+contem. Dizei-me, com que se abrem as fechaduras?
+
+E.--Com as _chaves_.
+
+P.--Olhae para aqui... Metto a chave n'esta fechadura dou-lhe volta e
+vejo sair uma peça de ferro, chata e larga.
+
+E.--É verdade.
+
+P.--Como se chama essa peça?
+
+E.--_Lingueta._
+
+P.--Sabeis porque lhe pozeram o nome de lingueta?
+
+E.--Não sabemos.
+
+P.--Soletrae a palavra lingueta, e talvez deis no vinte.
+
+E.--Lin-gue-ta.
+
+P.--As duas primeiras syllabas d'essa palavra não vos trazem á memoria
+outra palavra muito conhecida?
+
+E.--Trazem, sim, senhor; a palavra lingua.
+
+P.--Reparae agora se ha alguma similhança entre a lingua do homem e dos
+outros animaes e a parte da fechadura, que estamos observando.
+
+E.--Ha, sim, senhor.
+
+P.--Em que?
+
+E.--A lingua é chata e a lingueta tambem; a lingua é comprida, como a
+lingueta; a lingua está preza na bocca d'onde sae ás vezes, e a lingueta
+está egualmente presa no interior de uma caixa da qual a chave a faz
+sair.
+
+P.--Difficilmente se poderia responder melhor á minha pergunta. Tomem
+d'aqui exemplo os outros meninos. A explicação que o menino F. me deu
+prova-me que elle observa as cousas com attenção e compára umas com as
+outras, o que muito concorre para que se nos desenvolva a intelligencia;
+ou que, se alguem lhe tinha ensinado isto, se não esqueceu do que lhe
+haviam dito, o que tambem é muito para louvar[10].
+
+E.--A mim ninguem me tinha ensinado a resposta.
+
+P.--Tanto melhor, porque deu prova de que medita no que vê; que vêr as
+cousas superficialmente é quasi o mesmo que não as vêr: Continuemos a
+estudar a mesa. Reparem n'estas quatro columnas (mostrando os pés da
+meza) sobre as quaes assenta a taboa, o aro e as gavetas.
+
+E.--São os _pés_ da meza.
+
+P.--Porque se lhes chama pés?
+
+E.--Porque sustentam o resto da mesa, á maneira dos pés do homem e dos
+animaes, que sustentam o resto do corpo.
+
+P.--Todas as mesas tem quatro pés?
+
+E.--Nem todas; umas tem um só pé, outras quatro, outras seis, e podem
+ter mais.
+
+P.--Quaes são as mais firmes, isto é, menos subjeitas a cairem, as de
+um, ou as de quatro pés?
+
+E.--As de quatro pés.
+
+P.--Para que servem os bancos?
+
+E.--Para nos assentarmos.
+
+P.--De que são feitos esses bancos?
+
+E.--De madeira.
+
+P.--Não poderiam ser feitos de outra materia?
+
+E.--Poderiam ser de ferro, ou de pedra.
+
+P.--Porque não poriam aqui bancos de pedra?
+
+E.--Porque são mais caros, que os de pau.
+
+P.--E só por isso é que os não pozeram aqui?
+
+E.--É porque são muito pezados; não poderiamos mudal-os de um logar para
+outro.
+
+P.--Não haverá outro motivo para preferir os bancos de pau aos de pedra?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Menino F... queira responder á minha pergunta?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Aquelle estudantinho, que além está a gesticular, é que nos vae
+satisfazer a curiosidade; vamos, menino G... deite a barra adiante aos
+seus collegas, revelando-nos o motivo porque os bancos de pedra, á parte
+o serem pesados e caros, não são adoptados nas nossas casas e nas aulas?
+
+E.--Parece-me que é por serem muito frios.
+
+P.--Por causa da frialdade da pedra são os bancos d'aquella materia não
+só incommodos, senão muito prejudiciaes á saude. Passemos a outro
+assumpto. Já vos ponderei que é muito mau faltar á aula, não estar
+attento ao que diz o professor, e não estudar. Desejo que me digaes
+agora o que acontece aos estudantes, que não vem ao principio da aula, e
+que entram aqui uma hora, ou hora e meia, depois de terem começado os
+nossos trabalhos?
+
+E.--Não podem seguir bem as lições.
+
+P.--Que deverá, pois, fazer, relativamente a este ponto, um estudante
+applicado, e que deseje adiantar-se?
+
+E.--Deverá entrar na aula á hora marcada para o começo do estudo.
+
+P.--Diga-me menino L... que cousas deve o estudante trazer sempre para a
+escola?
+
+E.--Uma ardozia, uma penna de pedra, um lapiz, uma penna de aço, e os
+livros.
+
+P.--E que lhe acontecerá, se lhe esquecer alguma ou algumas d'estas
+cousas?
+
+E.--Não poderá tirar da lição o fructo, que deve tirar.
+
+P.--Qual será a razão porque alguns meninos chegam muitas vezes á aula
+sem os objectos, que lhes são indispensaveis?
+
+E.--A razão d'essa falta é ou por que se esquecem de os tomar ao sair de
+casa, ou por que, saindo com pressa, os não acham, e lhes falta o tempo
+para procural-os.
+
+P.--Ha meio de evitar aquelle esquecimento, e de fazer com que os
+objectos, que devem trazer para a aula, se lhes deparem facilmente?
+
+E.--Ha, sim, senhor. Bastará que os meninos ponham a ardozia, o lapis, e
+os livros em um logar certo.
+
+P.--Que nome daremos a um menino, que põe uma cousa aqui, outra alli,
+outra acolá, e que depois se não lembra dos logares onde as poz?
+
+E.--_Desarranjado._
+
+P.--E ao que suja e rasga os livros, e deita borrões na escripta, e por
+cima das mesas, e se apresenta com a cara e os dedos enxovalhados?
+
+E.--_Porco ou enxovalhado._
+
+P.--Deve o professor consentir que os meninos rasguem os livros, que
+salpiquem de tinta as paredes e as mesas, que tragam sujas as mãos e
+cara, e o fato cheios de nodoas?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Porque?
+
+E.--Porque estragar os livros, ou as paredes, ou qualquer cousa, sem
+necessidade, é acção muito feia, assim como não andar limpo.
+
+P.--E será apenas acção muito feia? Não será uma especie de roubo feito
+aos paes e aos mestres, aos quaes muitas vezes é em extremo penoso
+custear as despezas, a que os filhos e discipulos os obrigam?
+
+E.--É de certo.
+
+P.--Que devem, pois, fazer os meninos a quem se recommenda, que sejam
+arranjados e aceiados?
+
+E.--Devem obedecer.
+
+P.--E que merecem os que não fazem caso das advertencias de seus paes e
+mestres?
+
+E.--Merecem castigo.
+
+P.--E de que são dignos os que estudam bem, e obedecem aos seus
+superiores, procurando em tudo conformar-se com os seus conselhos e
+preceitos?
+
+E.--São dignos de estima e de premio.
+
+P.--Respondeu com muito acerto. Por hoje basta de conversação. Antes,
+porém de nos separarmos quero repetir-lhes um conselho muito prudente de
+um grande mestre. Decorem-n'o e sigam-n'o, se querem ser methodicos e
+arranjados. Eil-o:
+
+_Logar certo para cada cousa, e cada cousa no seu logar_.
+
+
+
+
+TERCEIRA LIÇÃO
+
+OS CONDISCIPULOS
+
+
+P.--Recommendei-lhes outro dia, meus meninos, que não faltassem á aula,
+que viessem á hora marcada no regulamento, que se não esquecessem de
+trazer os livros, e mais objectos necessarios para as suas lições, que
+se acostumassem a ser arranjados, methodicos, e desenxovalhados, e que
+tivessem o maior cuidado em não estragar os objectos de seu uso. Não são
+tão poucos os deveres dos meninos; e como para bem os cumprirem é
+indispensavel conhecel-os, vamos hoje conversar em outro assumpto, que
+muito lhes interessa. Começarei perguntando-lhes como se denominam, em
+geral, os meninos, que frequentam ao mesmo tempo uma aula?
+
+E.--Denominam-se _condiscipulos_.
+
+P.--O encontrarem-se quasi todos os dias, estarem muito tempo juntos,
+lerem pelos mesmos livros, aprenderem com o mesmo professor, terem com
+pequenas differenças, a mesma idade, e trabalharem para conseguir o
+mesmo resultado, concorrerá para que os condiscipulos formem uma especie
+de familia ou irmandade, cujo pae espiritual é o professor?
+
+E.--Certamente.
+
+P.--Se os condiscipulos, como affirmaes, são quasi irmãos, parece-me que
+devem tratar-se de maneira differente do que se tratam os meninos, que
+nem são parentes, nem condiscipulos.
+
+E.--Sem duvida.
+
+P.--Já que tão expeditamente confirmaes a minha opinião, fazei mercê de
+me dizer como se devem tratar os condiscipulos.
+
+E.--Devem tratar-se com delicadeza, bondade e amisade.
+
+P.--Optimamente, sr. estudantinho; mas como eu não quero deixar por
+mentiroso o rifão, que diz: «As palavras são como as cerejas», peço-lhe
+me indique quaes actos de delicadeza hão de praticar os condiscipulos;
+de certo não quereis que elles deem excellencia uns aos outros, ou se
+saüdem com salamaleks, á maneira dos turcos.
+
+E.--Hão de cumprimentar-se quando se encontrarem em qualquer parte, e á
+entrada e saïda da aula; não hão de bater uns nos outros, nem rasgar ou
+sujar os vestidos; não hão de usar nas suas conversas de palavras feias;
+se a qualquer tiver esquecido o livro, a lousa, a penna, ou qualquer
+outro objecto deve-se-lhe emprestar aquillo de que carecer.
+
+P.--Muito bem. E será delicado o menino que despresar o collega, por
+elle ser feio, ou aleijado, ou tartamudo, ou vesgo, ou coixo?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Será delicado o menino, que pozer alcunhas a seus condiscipulos, ou
+que lhes lançar em rosto o serem filhos de pessoas pobres, ou não
+trajarem á moda, com elegancia, e esmero?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Se ao mesmo tempo chegarem ao pote, para beber, dois meninos
+grosseiros, que acontecerá?
+
+E.--Por-se-hão a ralhar, querendo cada qual ser o primeiro que beba.
+
+P.--Se um dos meninos fôr delicado e o outro grosseiro?
+
+E.--O delicado ou se affastará, para que o outro mate a sede em primeiro
+logar, ou encherá o copo e lh'o offerecerá.
+
+P.--E se ambos forem delicados?
+
+E.--Não sei o que devam fazer.
+
+P.--Menino F., responda á minha pergunta.
+
+E.--Se ambos forem bem criados, deverá o mais pequeno encher o copo e
+offerecel-o ao mais velho.
+
+P.--Mas pode acontecer que ambos tenham a mesma idade, ou que um não
+saiba a do outro.
+
+E.--Nesse caso o mais delicado antecipar-se-ha a obsequiar o outro.
+
+P.--Respondeu com muito juizo. Que deverá fazer um menino delicado, se
+ao lanche, um condiscipulo lhe pedir um damasco, uma pêra, ou qualquer
+outra cousa, que lhe não faça falta?
+
+E.--Deve dar-lh'a.
+
+P.--E pedir-lhe outra cousa em paga?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Do que temos estado a dizer conclue-se, que a delicadeza consiste
+não só em evitar tudo quanto possa desgostar os outros, mas tambem na
+pratica de quanto honestamente lhes possa ser agradavel.--Desejo, porém,
+que me digaes se delicadeza e bondade são o mesmo.
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Como assim?
+
+E.--Pode uma pessoa ser delicada e não ser boa; pode tratar os outros
+muito bem, mas não proceder assim por virtude, e tão somente por genio,
+elegancia, ou astucia.
+
+P.--Para que possâmos ter um menino em conta de bom o que é necessario?
+
+E.--É necessario que elle não faça nenhuma acção má.
+
+P.--Quando é que as nossas acções são más?
+
+E.--Quando offendem a Deus, ou ao proximo.
+
+P.--Dizeis muito bem; mas para que este ponto se aclare bastante, fazei
+favor de me indicar algumas acções que reputeis más.
+
+E.--São más acções não crer em Deus, não o amar, e não o temer; não
+cumprir as ordens dos nossos superiores; mentir, levantar falsos
+testemunhos; desprezar os pobres, e não os soccorrer; indagar das vidas
+alheias; furtar; comer e beber mais do que é preciso.
+
+P.--E ser mandrião, não estudar bem as lições é acção bôa, ou má?
+
+E.--É má.
+
+P.--Porque?
+
+E.--Porque, não estudando, desobedecemos a nossos paes e mestres.
+
+P.--Como se chama a acção torpissima de tirar a alguem uma cousa ás
+escondidas.
+
+E.--Chama-se furto.
+
+P.--E como se denomina o desgraçado, que furta?
+
+E.--Denomina-se ladrão.
+
+P.--Que merecem os ladrões, estima ou desprezo?
+
+E.--Desprezo e castigo.
+
+P.--E não será quasi ladrão um menino, que, mandriando, obriga seus paes
+a fazerem despeza excessiva para o educarem, e que prejudica a familia,
+em beneficio da qual deveriam reverter as quantias, que os paes consomem
+inutilmente com o preguiçoso?
+
+E.--É, sim, senhor.
+
+P.--Por consequencia merece desprezo e castigo o máu estudante.
+
+E.--Certamente.
+
+P.--Se na escola houver estudantes pobresinhos e estudantes abastados,
+que devem estes fazer relativamente áquelles?
+
+E.--Tratal-os muito bem.
+
+P.--O bom tratamento de que fallaes consistirá somente em os admittirem
+á sua companhia na aula e na rua, e em praticarem com elles
+delicadamente, ainda que não andem bem trajados; ou consistirá tambem em
+auxilial-os, obtida licença dos paes e mestres, para que lhes não faltem
+cousas indispensaveis, taes como o lapis, papel, compendios, etc., para
+comprar as quaes lhes não chegar o dinheiro.
+
+E.--Parece-me que é dever dos estudantes endinheirados proteger em tudo
+os que o não são, e até repartir com elles o _lunch_, e a merenda, por
+isso que os collegas se devem amar como irmãos.
+
+P.--Muito bem. E o amor fraternal dos collegas permittirá que andem a
+fazer queixas uns dos outros?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Que deverá fazer um bom collega quando outro commetter uma pequena
+falta.
+
+E.--Deve advertil-o de que não fez bem, e aconselhal-o a que se emende.
+
+P.--E se um estudante quizer commetter um crime, ou praticar uma acção
+má, ou se tiver delinquido, e se mostrar obstinado em não se emendar, o
+que deverá fazer o collega?
+
+E.--Se não poder evitar o mal, nem conseguir que o menino, que o
+praticou, trate de se corrigir, cumpre-lhe avisar o professor.
+
+P.--Em voz alta, diante de todos, com acrimonia, e maneiras hostis, ou
+em particular, e por modo, que não aggrave o delinquente?
+
+E.--Em particular e sem azedume.
+
+P.--Se o professor perguntar a um estudante quem commetteu certa falta
+ou maldade, e o estudante interrogado souber quem foi, que deverá fazer?
+
+E.--Dizer a verdade.
+
+P.--Quando tal aconteça, ficará mal ao estudante implorar a clemencia do
+professor para o collega?
+
+E.--Não, senhor; antes lhe ficará muito bem.
+
+P.--Disse ainda agora um dos meninos que deviam os collegas ser amigos.
+A amisade é um sentimento mui delicado e nobre, e por isso mesmo mui
+raro. Umas vezes nasce do parentesco e convivencia intima, tal é a que
+aos filhos consagram os paes, e a estes os filhos, tal a dos avós e
+netos, e a dos tios e sobrinhos; outras vezes provém da sympathia,
+augmenta com a camaradagem, principalmente entre pessoas de indoles
+similhantes, e fortifica-se pela troca reciproca de serviços
+desinteressados e honestos. Mas, assim como «nem tudo o que luz é ouro»,
+assim nem toda a convivencia, posto que deleitavel, extremosa, e até
+util, se póde considerar amizade verdadeira.
+
+E.--Em que consiste, pois, a verdadeira amizade?
+
+P.--Em duas ou mais pessoas se estimarem reciproca e honestamente, como
+cada uma a si propria se estima.
+
+E.--Em vista do que dizeis, devem ser mui poucos os verdadeiros amigos;
+porque eu, não obstante ser ainda muito creança, tenho notado que quasi
+todas as pessoas gostam mais de si, que dos outros.
+
+P.--Rarissimos são, é verdade, e por isso mesmo quem teve a felicidade
+de encontrar um, deve cuidar muito de o não perder.
+
+E.--E o que nos acontecerá, se nunca tivermos um amigo verdadeiro?
+
+P.--Seremos menos felizes do que seriamos, se o tivessemos.
+
+E.--Vós, sr. professor, sois muito feliz.
+
+P.--Por que me consideraes muito feliz?
+
+E.--Porque tendes muitos amigos.
+
+P.--Quem vos disse que tenho muitos amigos?
+
+E.--Ninguem; mas tenho visto que pelas ruas uns vos cortejam,
+tirando-vos o chapéu, outros vos dizem adeus com a mão, outros vos
+tratam por tu, muitos vos abraçam e param a fallar comvosco.
+
+P.--Como estaes enganado! Esses todos, com pouquissimas excepções,
+sabeis o nome que merecem? Eu vol-o digo--_conhecidos_.--Se eu caísse de
+cama, quantos viriam acompanhar-me? se eu estivesse preso, quantos iriam
+suavisar-me a solidão do carcere? se eu tivesse fome, quantos
+repartiriam commigo as suas sôpas? se eu tivesse a desgraça de commetter
+um crime, quantos no dia seguinte se desbarretariam ao passar por
+mim?... Conhecidos, indifferentes, amigos do theatro, do baile, do
+passeio, que desapparecem, quando o verdadeiro amigo mais se approxima
+de nós, nos dias sombrios e luctuosos da desgraça, e das tribulações.
+
+E.--Como é então que fallaes e mostraes tão bonito modo a homens, que de
+nada vos prestam? Não seria melhor desprezal-os?
+
+P.--Não se deve desprezar ninguem. Quem não póde beber por uma taça de
+ouro, ou de crystal, ha de quebrar o copo de vidro ou o pucaro humilde
+de barro? Para os conhecidos, caridade e delicadeza; para os amigos, os
+affectos todos do coração.
+
+E.--Se vos não enfado, far-vos-hei ainda uma pergunta.
+
+P.--Quantas quizerdes.
+
+E.--De que traça nos havemos de servir para grangear amigos verdadeiros?
+
+P.--Um sabio, a quem fizeram igual pergunta, respondeu: _Se quizeres ser
+amado, ama_. A semente da amisade é a sympathia, ou reciproca
+inclinação, gerada, ou da analogia das indoles e estados, ou de certas
+qualidades, que mal se póde dizer quaes sejam, mas que parecem attrair
+umas para as outras as pessoas, que as tem.
+
+E.--De maneira que, se eu entrar n'uma casa e me agradar de uma pessoa,
+que não conheça, ainda que não seja da minha idade, nem bonita, e sentir
+para ella inclinação, poderei dizer que _sympathizei_ com ella.
+
+P.--De certo.
+
+E.--Mas ás vezes tambem succede o contrario; olha a gente para um homem
+ou para uma senhora, e posto que nem sejam feios, nem desastrados,
+experimenta certa repugnancia em tratal-os.
+
+P.--A essa repugnancia se dá o nome de _antipathia_.
+
+E.--Quando pois, sympathisarmos com alguem, poderemos contar com um
+verdadeiro amigo?
+
+P.--Nem sempre. Á vossa pergunta respondeu ha muito tempo um escriptor
+portuguez dos mais eruditos, chamado Antonio de Sousa de Macedo, cujas
+obras vos recommendo desde já para quando fordes maiorzinhos. Ouvi o que
+elle a tal respeito escreveu. «D'entre os mesmos em que se acham
+sympathias, se deve fazer distincção, antes de trabalhar pelos fazer
+amigos, por que nem todos serão convenientes.
+
+Suetonio diz de Augusto, que os _escolhia_ com vagar, e os conservava
+constantemente. Devem-se preferir os de _melhor juizo_, _bons costumes_,
+_valor_, _sinceridade_, e _bôa fama_. Nem com o _nescio_, diz o
+ecclesiastico, nem com o _mau_, diz santo Agostinho, nem com o _pouco
+verdadeiro_, diz Aristoteles, póde haver amizade.»
+
+E.--São essas as qualidades que devem ter os amigos, e muito folgo de
+que tão claramente nol-as expozesse esse auctor portuguez, cujo nome
+citastes; mas quando se nos depare alguem com todos esses requisitos,
+que deveremos fazer para lhe captivarmos a amizade?
+
+P.--Seja tambem Macedo quem vos responda. Diz elle: «Feita a eleição, a
+communicação e conversação faz os amigos, concordando nos ditos, e nas
+acções (suppondo que tudo ha de ser honesto e judicioso) e para a facil,
+sincera, e agradavel concordia, contribue especialmente a sympathia, a
+qual, accrescentou um sabio, se deve ajudar com algum beneficio, feito
+graciosamente, sem ser rogado, nem depois publicado.»
+
+E.--Algum beneficio?
+
+P.--Não fiqueis ahi pensando que os beneficios, que penhoram a amizade,
+sejam tão sómente mimos e presentes de cousas, que se merquem nas lojas,
+ou de fructas e manjares; boas são essas provas de amizade, mas não são
+as unicas, nem as mais apreciaveis. Por beneficios deveis entender
+tambem, os conselhos prudentes, os exemplos dignos de imitação, a
+companhia na doença, e nas tribulações, o ensino fraternal e até a
+reprehensão suave das faltas e defeitos.
+
+
+Resumo
+
+Os condiscipulos são quasi irmãos, filhos espirituaes do professor.
+Devem ser delicados, bons, e amigos. Devem cumprimentar-se á entrada e
+saïda da aula e sempre que se encontrarem. Devem prestar uns aos outros
+todos os serviços, que puderem. Os estudantes pobres, defeituosos, mal
+vestidos merecem, sendo bons, tanta estima e consideração, como os
+abastados, sãos, e tafues. Nem sombra de alcunhas, principalmente
+allusivas a quaesquer deformidades, ou imperfeições do corpo ou do
+espirito. Se nos pedirem cousa, que possamos emprestar ou ceder,
+emprestemol-a, ou cedamol-a, sem exigir paga, nem agradecimento.
+Delicadeza não é bondade. Toda a acção contraria á lei de Deus, ou ás
+leis humanas, quando estas não offendem aquella, é má.
+
+O mandrião merece castigo e desprezo. Desde a aula deve o rico ajudar o
+pobre.--Se algum estudante fizer maldades advirtam-n'o os que as
+presenciarem; mas não as divulguem. Quando um estudante praticar acções
+indignas, e admoestado pelos condiscipulos, se não emendar, recorra-se
+ao professor, dizendo-lhe em particular, e sem aggravar o mal, quanto
+baste para que elle proceda como fôr de justiça. É prova de delicadeza e
+bondade de coração implorar misericordia para os que estiverem em risco
+de ser castigados. Nunca se deve mentir; a mentira é a torpeza das
+torpezas.
+
+São amigas duas pessoas que reciproca e honestamente se estimam como
+cada uma d'ellas se estima a si propria. Ha amizade verdadeira, e
+falsa.--Nem todos os que parecem amigos, o são; não se deve confundir o
+amigo com o conhecido. Amar é o meio de grangear amigos. A amizade nasce
+da sympathia; mas nem todos com quem sympathisâmos podem ser nossos
+amigos. As qualidades que deverá ter um amigo, são: bom juizo, bons
+costumes, valor, sinceridade, bôa fama. Não deve ser nescio, nem mau,
+nem mentiroso. Para o grangear bastará a communicação e conversação,
+auxiliadas por obsequios desinteressados.
+
+
+Reflexões
+
+É finda a nossa palestra de hoje. Temos dito muitas cousas, mas não
+basta fallar; é indispensavel fugir do mal e praticar o bem. Muito falla
+o papagaio, mas que faz tamanho palrador? Come o que lhe deitam no
+comedouro, e nas horas vagas vae roendo a gaiola. Ninguem dirá com
+verdade, que seja muito para se imitar a tal ave palreira. Palavras,
+leva-as o vento, dil-o o rifão, e não mente. Para vos não parecerdes com
+aquelle animalzinho inutil, amae-vos muito uns aos outros; auxiliae-vos
+fraternalmente, cumprí á risca todas as vossas obrigações, e lembrae-vos
+a cada momento de que os homens do futuro, os paes de familia, os
+mestres, os escriptores, os ministros, os deputados, os juizes, os
+sacerdotes, os militares, os medicos, os pharmaceuticos, os advogados,
+os artistas, os negociantes, os industriaes, os lavradores haveis de ser
+vós, e de que para profissões tão variadas, tão nobres, tão difficeis e
+de tantissima responsabilidade, vos deveis desde já preparar, estudando
+e praticando todas as virtudes, para que, chegada que seja a hora de
+entrardes na vida activa e de servirdes a civilisação, que exige
+obreiros intelligentes e honrados, possaes cabalmente desempenhar os
+vossos deveres.
+
+
+
+
+QUARTA LIÇÃO
+
+VIDRO[11]
+
+
+Escolheu o professor Mayo o vidro para assumpto da primeira lição do
+ensino intuitivo, ou de objectos, por lhe parecerem as qualidades d'este
+corpo mais perceptiveis aos nossos sentidos, que as de qualquer outro.
+Aconselha o mesmo professor que fiquem os meninos defronte do quadro
+preto, onde se hão de ir escrevendo os resultados de suas observações; e
+que o pedaço de vidro vá passando de mão para mão, para que cada um dos
+estudantes individualmente o examine. O tomar cada menino o fragmento de
+vidro em suas mãos e o il-o observando com attenção é, como atraz
+observámos, ponto de grande importancia para o bom resultado do ensino.
+Diz a este proposito o excellente pedagogista Mayo o seguinte: «D'este
+modo cada individuo, dos que compõem a aula, se vê obrigado a exercitar
+as suas faculdades sobre o objecto, que se lhe apresenta; servindo as
+perguntas, que depois lhes faz o professor, para que elles revelem suas
+idéas, e para a emenda d'estas, se forem erroneas.
+
+P. (Mostrando um bocado de vidro)--Que é isto, que eu tenho na mão?
+
+E.--É um bocado de vidro.
+
+P.--Vamos soletrar a palavra _vidro_.
+
+(_Feita esta advertencia, escreve o professor no quadro preto a palavra
+vidro, dividida em duas syllabas_; pronuncía alto e bom som, em primeiro
+logar as lettras _v-i-d-r-o, acompanhando a pronunciação de cada uma
+d'ellas de uma pancada com o ponteiro no quadro, ou de uma palmada; e
+pronuncía depois as duas syllabas mui distinctamente. Em seguida repetem
+os estudantes primeiro individualmente, e depois em côro, aquella
+soletração, até que a saibam correctamente fazer_.)
+
+P.--Todos vós examinastes este vidro; e que notastes n'elle? Que podeis
+dizer que é?
+
+(Põe-se esta pergunta em logar de: Quaes são as suas propriedade? porque
+é muito provavel que a principio não entendam os meninos o sentido da
+palavra «propriedade»; mas applicando-a repetidas vezes o professor ás
+respostas que os estudantes derem, em pouco tempo se acostumarão a ella
+e lhe perceberão o sentido).
+
+E.--É brilhante.
+
+P. (Depois de ter escripto no quadro a palavra «propriedade», escreve
+por baixo: «É brilhante»).--Pegae-lhe; apalpae-o. (Deverá o professor
+dirigir aos estudantes perguntas conducentes a pôr-lhes successivamente
+em acção os differentes sentidos).
+
+E.--É frio. (Escreve-se esta resposta no quadro por baixo da outra
+qualidade).
+
+P.--Tornae a pegar no vidro, e comparae-o com este fragmento de esponja,
+com que limpâmos o quadro, e dizei-me o que notastes no vidro. (O
+intento do professor ao fazer esta pergunta, deve ser conseguir que os
+estudantes observem a «lisura», contrapondo esta propriedade á sua
+opposta, a «aspereza» de outra substancia; meio de demonstração que
+muitas vezes se poderá empregar).
+
+E.--É lizo; é duro.
+
+p.--Ha na aula outro objecto de vidro?
+
+E.--Ha sim senhor; os vidros das vidraças.
+
+P.--Olhae pelas vidraças, e dizei-me o que vêdes.
+
+E.--Vemos o jardim.
+
+P. (Fechando as portas da janella)--Olhae agora e dizei-me o que vêdes.
+
+E.--Agora não podemos vêr nada.
+
+P.--Porque é que não vêdes nada?
+
+E.--Porque atravez das portas não se póde vêr nada.
+
+P.--Que differença notaes entre as portas e o vidro?
+
+E.--Notâmos que atravez das portas nada podemos vêr, e que atravez do
+vidro vêmos o jardim.
+
+P.--Podeis dizer-me alguma palavra, que indique essa qualidade, que tem
+o vidro?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Eu vol-a digo. Tomae sentido, para que vos não esqueça. É
+_transparente_. D'aqui por diante que idéa fareis d'um corpo, se vos
+disserem que é transparente?
+
+E.--Que se pode vêr atravez d'elle.
+
+P.--Respondestes muito bem. Lembraes-vos de alguma cousa que seja
+transparente?
+
+E.--A agua.
+
+P.--Que aconteceria se eu deixasse cair no chão este pedaço de vidro?
+
+E.--Quebrar-se-ia.
+
+P.--E se da rua atirassem pedras á janella?
+
+E.--Quebrar-se-iam os vidros.
+
+P.--Sabeis como se chamam os corpos, que tem esta qualidade, ou
+propriedade de se partirem, quando caem n'um corpo duro, ou quando se
+lhes bate?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Chamam-se _quebradiços_, ou _frageis_,--Dizei-me, se deixassemos
+cair a porta da janella ou se contra ella atirassemos uma pedra, que
+succederia?
+
+E.--Ficaria inteira.
+
+P.--E se eu lhe batesse muito de rijo com outro corpo durissimo?
+
+E.--Quebrar-se-ia.
+
+P.--A madeira é quebradiça, ou fragil?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Deveremos chamar frageis a todas as substancias, que podermos
+quebrar?
+
+E.---Não, senhor; _frageis_ diremos só aquellas, que se quebrarem com
+facilidade.
+
+P.--Para que serve o vidro? que prestimo tem?
+
+E.--Serve para as janellas.
+
+P.--Que vantagem ha em pôr vidraça nas janellas?
+
+E.--Ter as casas abrigadas do vento, da chuva, da poeira, e das moscas.
+
+P.--Parece-me que, fechando-se as portas das janellas, não entrariam
+pelas casas dentro, nem moscas, nem poeira, nem chuva, nem vento.
+
+E.--Mas cerradas as portas das janellas, ficariam as casas ás escuras, e
+não poderiamos vêr para fóra.
+
+P.--Muito bem. Dizei-me porque razão não tira o vidro a claridade ás
+casas, nem obsta a que se vejam os objectos que estão fóra?
+
+E.--Porque é _transparente_.
+
+P.--Não ha outros objectos de vidro?
+
+E.--Ha cópos, garrafas, castiçaes, espelhos, tinteiros, etc.
+
+É provavel, diz o professor Mayo, que na primeira lição não occorram aos
+meninos outras qualidades; mas estas sós, escriptas no quadro preto,
+constituirão um bom exercicio de soletração. Devem-se depois apagar; e
+se os estudantes já souberem escrever, poderão exercitar a memoria e
+repetir a lição, escrevendo-as de novo nas ardosias.
+
+
+
+
+QUINTA LIÇÃO
+
+CAOUTCHOUC--GOMMA ELASTICA--BORRACHA[12]
+
+
+Escolheu o professor Mayo esta substancia para objecto da segunda lição,
+para que os meninos observem as qualidades, ou propriedades, que os
+physicos denominam _opacidade_, _elasticidade_, e _inflammabilidade_.
+
+P.[13]--Que é isto? (Mostrando um bocado de caoutchouc).
+
+E.--É um bocado de _borracha_.
+
+P.--Parece-se com o vidro?
+
+E.--Em nada.
+
+P.--Ponde esse pedacinho de _borracha_ diante dos olhos e olhae para
+mim... Vêdes-me?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Se nas janellas, em vez de vidros, estivessem laminas de borracha,
+que aconteceria?
+
+E.--Ficariam as casas ás escuras, e não poderiamos vêr para fóra.
+
+P.--Sabeis como se chama a qualidade, que tem a _borracha_ de não deixar
+vêr atravez de si, como o vidro?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Chama-se _o-pa-ci-da-de_. Repetí commigo esta palavra.
+
+E.--_O-pa-ci-da-de._
+
+P.--Vou escrevel-a; olhae attentamente. (O professor escreve no quadro
+preto: _Propriedades ou qualidades da borracha_--_O-pa-ci-da-de_).
+Menino F., como chamareis aos corpos, que tem opacidade?
+
+E.--_Opacos._
+
+P.--Ponde diante dos olhos a lousa, que ahi tendes, e olhae para mim.
+Vêdes-me?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Porque me não vêdes, quando entre mim e vós está um bocado de lousa?
+
+E.--Porque a lousa é _opaca_.
+
+P.--Menino G., dizei-me se está alguem ali n'aquelle quarto.
+
+E.--Eu vou vêr. (Levantando-se).
+
+P.--Não vos levanteis; olhae d'ahi, do vosso logar.
+
+E.--D'aqui não posso vêr.
+
+P.--Porque não podeis vêr d'ahi o que se passa n'aquelle quarto?
+
+E.--Porque se mette de permeio a parede.
+
+P.--E se a parede fosse de vidro, poderieis ver para dentro d'aquella
+casa?
+
+E.--Veria de certo, porque o vidro é transparente; mas a parede não é.
+
+P.--Como diremos que é a parede, attendendo a que nos tira a vista das
+cousas, que estão para além d'ella?
+
+E.--Diremos que é opaca.
+
+P.--A borracha póde facilmente cortar-se com a thesoura. Vou cortar umas
+tiras, para os meninos fazerem uma brincadeira. Eil-as: Tomem estas
+tirinhas de borracha, segurem-n'as pelas extremidades e puxem-n'as, como
+quem quizesse esticar uma linha... Basta, basta; agora larguem-n'as de
+um lado... Que vistes?
+
+E.--A borracha deu de si, estendeu, estendeu; e, logo que a largámos,
+voltou ao primitivo comprimento.
+
+P.--Tomem agora este bocado de vidro, e puxem-n'o bem.
+
+E.--Não dá de si; não estende.
+
+P.--Temos, pois, que a borracha, sendo puxada, estende, e logo que a
+soltam volta á primeira; e que o vidro, por mais que o puxem, não dá de
+si. Porque será isso?
+
+E.--Provavelmente é por que a borracha tem alguma qualidade, que nós
+ignorâmos.
+
+P.--Como é que a ignoram, se acabam de a observar?! O que os meninos
+ignoram é o nome que essa propriedade tem.
+
+E.--Podeis-nos dizer como se chama?
+
+P.--Chama-se _e-las-ti-ci-da-de_. Repeti commigo este nome:
+
+E.--_E-las-ti-ci-da-de._
+
+P.--Reparae; vou escrevel-o no quadro preto, por baixo do nome da outra
+qualidade da borracha, por baixo da palavra... (Tapando com a mão a
+palavra no quadro).
+
+E.--_Opacidade._
+
+P.--Muito bem; não se esqueceram.
+
+(Escreve) Aqui está: _Elasticidade_. Tomae outra vez as tirinhas de
+borracha; e em vez de puxal-as, torcei-as entre os dedos, que se chamam
+_pollegar_ (Mostra o dedo pollegar) e est'outro (Mostra o indicador),
+que se chama _indicador_... Agora largae-as. Que observaes?
+
+E.--Destorcem-se por si.
+
+P.--Menino A... por que é que se destorcem por si essas tirinhas de
+borracha?
+
+E.--Provavelmente, pela mesma qualidade, pela qual ainda agora
+estenderam e encolheram, ficando do comprimento, que tinham, antes de as
+estarmos a puxar.
+
+P.--Assim é. Dizei-me agora o que é isto? (Mostrando uma péla)
+
+E.--Isso é uma péla de brincar.
+
+P.--Porque será que todos os meninos gostam de jogar a péla?
+
+E.--É porque as pélas saltam muito, e nós temos de correr atraz d'ellas,
+caio aqui, acolá me levanto.
+
+P.--Sabeis de que são feitas as pélas?
+
+E.--São feitas de borracha[14].
+
+P.--Porque não fazem as pélas de barro, ou de folha de Flandres, ou de
+pau, ou de cortiça?
+
+E.--Porque se fossem feitas d'essas materias não saltariam.
+
+P.--Que ha, pois, nas pélas de borracha, que as faz andar aos pulos?
+
+E.--Não sabemos.
+
+P.--E se eu lhes disser, que sabem? Pensem, meditem. Atiro esta péla ao
+chão, ella bate no sobrado, achata-se, immediatamente toma a primitiva
+fórma, a fórma de bola, ou de esphera, como dizem os sabios, e eil-a a
+pular.
+
+E.--Já sabemos porque as pélas de borracha saltam, e as outras não. É
+por causa da _elasticidade_.
+
+P.--Acertastes. N'aquelle retomar a fórma de esphera ou bola
+immediatamente depois de se ter achatado ao bater no chão, é que está a
+elasticidade. Outra pergunta ácerca d'esta qualidade. Dizei-me, se vos
+occorre, o nome com que podemos designar os corpos, que tem
+elasticidade.
+
+E.--Podem chamar-se _elasticos_.
+
+P.--Assim é. Reparae agora no que vou mostrar-vos. (O professor acende
+uma véla). Temos aqui um rolosinho de ferro (Mostra-o), um rolosinho de
+barro (Mostra-o), este pedaço de pederneira (Mostra-o), e um fragmento
+de borracha. Pego no rolo de ferro pelo cabo de madeira, para me não
+queimar, chego-o à luz, como vedes, mas elle fica no mesmo estado. Pego
+no rolo de barro, que não tem cabo de madeira, por que não aquece tão
+depressa como o ferro, chego-o á luz e nada de novo; com a pederneira
+acontece o mesmo. Ide agora ver o que succede ao approximar da luz um
+fragmento de borracha. Tomae sentido, porque me haveis de dizer o que
+virdes. Por cautela, em vez de tomar a borracha com os dedos, pego-lhe
+com a thesoura. Attenção. (O professor chega a borracha á luz, e apenas
+ella se inflammar, affasta-a da véla, e a colloca por cima de um vaso,
+que tenha agua, evitando que lhe caia derretida nas mãos). Que vistes?
+
+E.--Vimos a borracha incendiar-se e arder com chamma mui intensa e
+clara.
+
+P.--Só isso observastes?
+
+E.--E derreter-se.
+
+P.--Nada mais?
+
+E.--Mais nada.
+
+P.--Não prestastes bastante attenção. Vou repetir a experiencia.
+(Repete-a). Dizei-me se vistes mais alguma cousa?
+
+E.--A borracha derretida cair em pingos sobre a agua, que está n'esse
+vaso.
+
+P.--Exactamente. Esta qualidade da borracha é mui differente das outras
+duas: _elasticidade_ e _opacidade_.
+
+E.--Certamente.
+
+P.--Sabeis como se chama?
+
+E.--Não sabemos. Fazei mercê de nol-o dizer.
+
+P.--Chama-se _in-flam-ma-bi-li-da-de_, ou propriedade de arder com
+chamma. Bom será que repitaes commigo o nome d'esta qualidade, ou
+propriedade da borracha, para que vos não esqueça.
+
+E.--_In-flam-ma-bi-li-da-de._
+
+P.--Vou escrever este nome, que nada tem de pequeno, sob o das outras
+qualidades. Qual de vós é capaz de me dizer como chamaremos aos corpos,
+que chegados a uma luz, arderem com chamma?
+
+E.--Sou eu.
+
+P.--Dizei pois.
+
+E.--Os corpos, que ardem com chamma, denominam-se _inflammaveis_.
+
+P.--O ferro, o barro, a pederneira, são inflammaveis?
+
+E.--Não, senhor; mas a borracha é, e muito.
+
+P.--Podeis dizer-me a côr da borracha?
+
+E.--_Negra._
+
+P.--Vou escrever o nome d'essa qualidade no quadro preto (Escreve).
+Dizei-me, meus meninos, se vos lembra alguma cousa, bastante vulgar, á
+qual a borracha se assemelhe não só na côr, mas principalmente na
+grossura, na consistencia, na impressão que nos faz, quando a apertâmos
+e revolvemos entre os dedos.
+
+E.--Assemelha-se ao couro.
+
+P.--Muito bem. O que provavelmente não sabeis é como se nomeiam as
+substancias analogas ao couro.
+
+E.--Não sabemos.
+
+P.--Dizem se _co-ri-a-ce-as_. Repetí pausadamente esta palavra.
+
+E.--_Co-ri-a-ce-as_.
+
+P.--Menino B...; vejo que estaes passando as cabeças dos dedos por cima
+d'esse bocado de borracha, e esse acto tão simples accordou-me o desejo
+de vos fazer uma pergunta. Quando passâmos a mão, ou sómente as cabeças
+dos dedos por cima de diversos corpos, sentimos a mesma impressão?
+
+E.--Não, senhor; umas vezes é agradavel a impressão, que sentimos;
+outras vezes, desagradavel.
+
+P.--Podereis dar-me exemplo de uma e outra?
+
+E.--Correndo a mão por cima de um panno de lã grosseiro, ou por uma
+taboa, que não esteja aplanada, sinto impressão desagradavel; correndo-a
+por sobre uma folha de papel de peso, ou por um vidro bem polido, tenho
+uma impressão agradavel.
+
+P.--Sabeis que nome se dá aos corpos, quando a sua superficie é como a
+do panno de lã grosseiro, e da taboa não aplanada?
+
+E.--Diz-se que são _asperos_.
+
+P.--E quando a superficie dos corpos é como a do papel fino, ou de peso,
+e a do vidro?
+
+E.--Diz-se que são _lisos_, ou _macios_.
+
+P.--A borracha é aspera, ou macia?
+
+E.--É _macia_.
+
+P.--Ficâmos pois, sabendo, que a borracha é _opaca_, _elastica_,
+_inflammavel_, _negra_, _coriacea_, e _macia_. Mais uma pergunta, e
+dâmos por terminada a nossa palestra.
+
+Tem a borracha algum prestimo?
+
+E.--Serve para apagar os traços, que o lapis deixou no papel, para fazer
+pélas e outros objectos.
+
+
+
+
+SEXTA LIÇÃO
+
+COURO
+
+
+Nesta lição pretende o professor Mayo dar aos meninos idéa das seguintes
+propriedades, ainda por elles não estudadas: _flexibilidade_, _cheiro_,
+_impermeabilidade á agua_; e recordar-lhes algumas, já estudadas a
+proposito da borracha.
+
+P.--Tomae, meus meninos, este corpo (Dando-lhes ás mãos um bocado de
+couro), examinae-o, e dizei-me se sabeis o que é?[15]
+
+E.--É um pedaço de couro.
+
+P.--Recordae-vos do que dissemos hontem a respeito da borracha, e
+dizei-me se o couro tem com ella alguma parecença.
+
+E.--Tem, sim, senhor; e bastante.
+
+P.--Muito prazer me darieis se fizesseis favor[16] de me dizer porque se
+parecem esses dois corpos, que em realidade são mui differentes.
+
+E.--Dissemos que se parecem, porque ambos são _opacos_, _coriaceos_ e
+_macios_.
+
+P.--E não vos enganastes; mas o couro tem outras qualidades, que
+podereis descobrir, se o observardes com attenção.
+
+E.--(Hesitam, e ficam-se a olhar para o professor).
+
+P.--Se os olhos me não illudem, todos vós tendes nariz; ora, pois,
+servi-vos d'elle, consultae-o.
+
+E.--(Cheirando o couro). Tem _cheiro_.
+
+P.--Assim é. Menino C..., dizei-me se todos os corpos tem cheiro?
+
+E.--Não, senhor; o vidro, e a louça, não tem cheiro.
+
+P.--Lembra-vos alguma substancia, que tenha cheiro?
+
+E.--Lembram-nos muitas: o chá, o café, a manteiga, o vinagre.
+
+P.--Quando uma substancia exhala cheiro proprio, como diremos que é?
+
+E.--_Cheirosa._
+
+P.--_Cheirosas_ dizemos as que tem cheiro proprio ou alheio. Por
+exemplo: se deitarmos no lenço de assoar algum arôma, tal como agua de
+Colonia, ou almiscar, ficará o lenço _cheiroso_; não obstante não ter
+cheiro seu, proprio. Se porém uma substancia é dotada de cheiro, bom ou
+mau, como o chá ou o petroleo, melhor lhe chamaremos: _odorifera_.
+
+E.--Pelo que dizeis, o couro é _odorifero_.
+
+P.--De certo. Digam todos em côro esse nome.
+
+E.--_O-do-ri-fe-ro._
+
+P.--Continuemos a examinar o couro. Além, está o menino F... a dobrar
+aquelle pedaço, provavelmente para vêr se o póde partir em dois. Vejamos
+o que elle nos diz da sua experiencia.
+
+E.--Dobra-se, mas não se parte.
+
+P.--E acontece o mesmo a todos os corpos?
+
+E.--Não, senhor; ha bem pouco tempo parti eu uma regoa de madeira, por
+querer dobral-a.
+
+P.--Qual será a palavra com que possâmos representar a qualidade, que
+tem o couro, de se dobrar sem se partir?
+
+E.--(Silencio.)
+
+P.--Pensae no caso, e lembrae-vos de que ha palavras parecidas umas com
+as outras, ou parentas. Por exemplo: bondade e bom; maldade e mau;
+aquentar e quente; rasgar e rasgado.
+
+E.--Já sabemos, como deveremos chamar aos corpos, que se dobram
+facilmente, sem se quebrarem ou partirem.
+
+P.--Que esperaes, para nos dar esse alegrão.
+
+E.--Chamar-lhes-hemos _dobradiços_.
+
+P.---Deram no vinte; mas eu sei outro nome, que quer dizer o mesmo, mas
+que é mais afidalgado, e por isso menos vulgar. Vou escrevel-o no
+quadro, e soletral-o-hão os que sabem ler. (Escreve no quadro preto, na
+columna onde estão indicadas as outras qualidades).
+
+E.--(Em alta voz) _Fle-xi-vel_.
+
+P.--Qual dos meninos é capaz de me dizer o nome da qualidade, ou
+propriedade em virtude da qual são _flexiveis_ alguns corpos?
+
+E.--Deve chamar-se _flexibilidade_.
+
+P.--Muito bem respondeu o menino G... Não se esqueçam os outros do que
+lhe ouviram, e fiquem sabendo que, quando qualquer corpo se dobra, como
+o couro, e como elle se não quebra ou rasga, é porque tem
+_flexibilidade_. Se não temesse cançal-os, ainda lhes havia de fazer
+mais perguntas a respeito d'este corpo, que pelos serviços, que nos
+presta, bem merece, que nos entretenhâmos com elle.[17]
+
+E.--Podeis continuar, senhor professor, que não estâmos cançados.
+
+P.--Já que assim o quereis, façâmos uma experiencia. Tomem quatro
+meninos este lenço pelas quatro pontas e estendam-n'o, mas não muito.
+Outro menino deite-lhe em cima uma pouca d'agua. (Os meninos executam o
+que o professor lhes manda). Que observaes?
+
+E.--O lenço molha-se.
+
+P.--E que mais acontece?
+
+E.--A agua atravessa o lenço e cae no sobrado.
+
+P.--Ponde agora este bocado de papel mata-borrão sobre o lenço,
+deitae-lhe por cima mais agua, e vêde o que succede.
+
+E.--Molha-se tambem o papel e deixa passar a agua.
+
+P.--Espremei o lenço, e dizei-me o que observaes.
+
+E. (Espremendo o lenço)--Escorre a agua, que o lenço tinha em si, e este
+fica menos molhado.
+
+P.--Fazei com este bocado de couro o que fizestes com o lenço; isto é,
+estendei-o horisontalmente, e deitae-lhe agua por cima.
+
+E.--A agua não pode atravessar o couro; não cae no chão.
+
+P.--Entornae a agua, e vêde se o couro ficou ensopado.
+
+E.--Não ficou, não, senhor.
+
+P.--Sabeis porque assim acontece?
+
+E.--Não sabemos.
+
+P.--Não se ensopa na agua, porque essa é uma das suas qualidades, ou
+propriedades. De um corpo, que a agua não atravessa, diremos que é
+_impermeavel_ á agua.
+
+E.--Fazeis mercê de repetir esse nome, que não percebemos bem.
+
+P.--Vou escrevel-o no quadro preto, para que o leiam, e repetil-o-hemos
+depois com muito vagar. (Escreve).
+
+E.---_Im-per-me-a-vel._
+
+P.--Relanceae os olhos pelos objectos, que estão n'esta aula, e dizei-me
+se haverá entre elles algum, que seja _impermeavel_ á agua.
+
+E.--O vidro.
+
+P.--Porque dizeis que é impermeavel á agua o vidro?
+
+E.--Porque a agua não o atravessa.
+
+P.--Podereis convencer-me com algum exemplo de que a agua não atravessa
+o vidro?
+
+E.--Bastará olhar para esse cópo, que está cheio de agua, e que não a
+deixa sair atravez das suas paredes.
+
+P.--Gostei muito da vossa resposta, que revela muito siso, e me prova
+que vos ides acostumando a comparar. E porque sois espertos e amigos de
+saber, vos perguntarei mais, se o barro de que é feita aquella bilha,
+que alem tenho, para me arrefecer a agua, tambem é impermeavel?
+
+E.--Não sabemos.
+
+P.--Se a examinarem attentamente, sabel-o-hão logo. Ora ide buscal-a
+para aqui.
+
+E.--Esta bilha não é, como o couro e vidro, impermeavel.
+
+P.--Dizei antes, o barro d'esta bilha, ou o barro, de que esta bilha é
+feita, não é _impermeavel_. Reparae, que uma cousa é o objecto, o movel,
+o corpo, que vemos, e outra cousa a materia, de que o objecto, o movel,
+ou o corpo é formado. Que é isto? (O professor mostra uma bola de cêra).
+
+E.--É uma bola.
+
+P.--Bola ou esphera; mas de que?
+
+E.--De cêra.
+
+P.--(Transformando a bola de cêra em um cilindro)--E isto, que é?
+
+E.--Um rolo.
+
+P.--Certamente; é um rolo ou cilindro; mas de que?
+
+P.--De cêra.
+
+P.--(Dando â cêra a forma cubica)--O rolo foi-se; isto, que é?
+
+E.--Um dado de jogar.
+
+P.--Vistes, que com a mesma materia, a _cêra,_ formei tres corpos: uma
+bola ou sphera; um rolo ou cilindro; e um dado de jogar ou cubo, os
+quaes eu poderia ter feito de tres materias differentes, por exemplo: de
+cêra, de barro e de madeira. Acostumae-vos pois, desde agora, a
+distinguir nos corpos a materia de que são feitos, da maneira porque
+ella está limitada, ou, o que vem a ser o mesmo, da sua configuração.
+Mas, tornando à _permeabilidade_ do barro d'esta bilha, desejo que me
+esclareçaes, dizendo-me o fundamento, que tendes, para asseverar, que é
+permeavel.
+
+E.--Dissemos que não era impermeavel, porque, estando vazia, se conserva
+secca, e pouco depois de se lhe deitar agua humedece por fóra,
+provavelmente, porque a agua passa atravez de suas paredes.
+
+P.--Assim é. Tende paciencia, meus meninos, de escutar mais uma pergunta
+com a qual porei termo á nossa palestra. Quizera me dissesseis se o
+couro serve para alguma cousa.
+
+E.--Serve para capas de livros; para forrar bahus e malas; para fazer
+botas, sapatos, corrêas, luvas, sellins, e arreios para cavallos.
+
+P.--Bravo! Quem respondeu com tanto acerto, tem direito a ir brincar.
+
+
+
+
+SETIMA LIÇÃO
+
+UM LIVRO
+
+
+Examinando miudamente um livro, ficarão os estudantes conhecendo as
+differentes partes de que elle se compõe, seus nomes e usos; e
+adquirirão as primeiras e elementarissimas noções ácerca do papel, da
+typographia, e dos algarismos romanos e arabes.
+
+ * * * * *
+
+P.--Meninos, como se chama isto? (O professor mostra aos estudantes um
+livro encadernado.)
+
+E.--Chama-se _livro_.
+
+P.--Todos vós tendes um livro?
+
+E.--Temos, sim, senhor.
+
+P.--Pegae, pois, nos vossos livros, e preparae-vos para uma palestra,
+que vos ha de ser muito agradavel.
+
+E.--Vamos ler?
+
+P.--Não, senhores; vamos conversar a respeito do livro, como conversámos
+ácerca do vidro, da borracha e do couro.
+
+E.--Quereis que escrevâmos a palavra livro?
+
+P.--Vá escrevel-a no quadro preto o menino H.
+
+E.--(Escreve), _Li-vro_.
+
+P.--Talvez não tenhaes notado, que assim como ha grupos de pessoas
+aparentadas, que constituem familias, e que mais ou menos se parecem
+umas com as outras; assim ha grupos de palavras tão similhantes, que se
+não póde desconhecer, que são muito chegadas entre si, e como que
+parentas.
+
+E.--Ainda não tinhamos reparado em tal.
+
+P.--Prestae attenção ao que eu vou escrever no quadro preto (O professor
+escreve umas por baixo das outras as palavras do exemplo, separando com
+o hyphen o radical de cada uma) _Pomb-o_, _pomb-a_, _pomb-inho_,
+_pomb-inha_, _pomb-al_, _pomb-alinho_.
+
+Todas estas palavras formam uma familia[18].
+
+_Cas-a_, _cas-inha_, _cas-ão_, _cas-arão_, _cas-eiro_, _ca-sal_,
+_cas-alinho_, _cas-aleiro_, _cas-aría_, _cas-ebre_ (Todos estes nomes
+sejam escriptos uns por baixo dos outros, ao lado dos nomes do primeiro
+exemplo, e mui claramente pronunciados á proporção que se forem
+escrevendo). Aqui tendes outra familia.
+
+_Carr-o_, _carr-inho_, _carr-ete_, _carr-eta_, _carr-etilha_,
+_carr-ocim_, _carr-uagem_, _carr-oça_, _carr-oçada_, _carr-etão_,
+_carr-etada_, _carr-eteiro_, _carr-eto_, _carr-iagem_, _carr-icoche_,
+_carr-oceiro_, _carr-oçar_, _carr-il_, _carr-omato_. Outra familia e não
+pequena.
+
+Se bem attenderdes, percebereis, que as palavras do primeiro grupo
+começam todas pelas lettras _pomb_; as do segundo pelas lettras _cas_; e
+as do terceiro pelas lettras _carr_.
+
+As primeiras--_pomb_--representam a idéa--pombo; as
+segundas--_cas_--representam a idéa--casa; as terceiras--_carr_--a
+idéa--_carro_.
+
+Agora que estaes iniciados n'este segredo, podereis dizer-me se a
+palavra--_livro_--tem algumas parentas?
+
+E.--Tem uma parenta.
+
+P.--Fazei favor de me dizer qual é.
+
+E.--A palavra _livrinho_.
+
+P.--Só essa?
+
+E.--Tem outra parenta, que é _livrete_.
+
+P.--Procurae bem, que achareis mais.
+
+E.--_Livraria_.
+
+P.--Não sabeis o nome, que se dá, por desprezo, a um livro pequeno e
+mau?
+
+E.--Chama-se-lhe _livreco_.
+
+P.--Como denominaes os homens, que negoceiam em livros?
+
+E.--_Livreiros_.
+
+P.--Fazei favor de me repetir os nomes de que se compõe a familia, cujo
+pae é a palavra livro.
+
+E.--_Livro_, _livrinho_, _livrete_, _livraria_, _livreco_, _livreiro_.
+
+P.--Muito bem. Agora se vos não custar muito, dizei-me qual é a parte,
+que em todas essas seis palavras sôa, quando as pronunciâmos, e se vê,
+quando as escrevemos, constante e inalteravel.
+
+E.--É o principio. É _livr_.
+
+P.--Menino B, escrevei essas lettras no quadro preto.
+
+E.--_Livr._
+
+P.--Olhando para aquellas lettras, que vos lembra?
+
+E.--Lembra-me um livro.
+
+P.--Fique-vos pois de memoria, que ha muitas palavras, que se podem
+dividir em duas partes; e que a primeira d'ellas, que figura em todos os
+membros da familia, lembra a idéa da cousa, claramente representada no
+termo, de que a familia toda procede.
+
+Que figura tem este livro? (O professor mostra um livro.)
+
+E.--É quadrado.
+
+P.--Quadrado não é elle; é _quadrilatero_.
+
+Repeti, partida em syllabas, esta palavra.
+
+E.--_Qua-dri-la-te-ro_.
+
+P.--Agora de uma só vez.
+
+E.--Quadrilatero.
+
+P.--Sabeis o que quer dizer a palavra quadrilatero?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P---Quer dizer: Figura de quatro lados, ou superficie fechada por quatro
+linhas.
+
+Reparae para a figura que vou desenhar no quadro preto. (O professor
+traça um parallelogrammo, retangulo, um quadrado e um losango) Todas
+estas figuras são quadrilateros; mas apenas esta (Aponta o quadrado) se
+póde chamar quadrado[19]. Tenho aqui sobre a mesa uns poucos de pedaços
+de papel, vinde cá, e escolhei um que seja quadrado.
+
+E.--Eil-o.
+
+P.--Muito bem. Agora desenhe o menino A. no quadro preto um quadrado.
+
+E.--(Desenhando). Aqui está desenhado.
+
+P.--Como chamareis a esses riscos, que formam o quadrado?
+
+E.--_Linhas._
+
+P.--Sabeis que outro nome se dá ás linhas, quando são direitas como
+essas, que ahi desenhastes?
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Dá-se-lhes o nome de _linhas rectas_. Todos esses quadrilateros são
+formados de linhas rectas.
+
+Olhae agora para os vossos livros, e dizei-me como se chama a sua parte
+externa, a parte de fóra.
+
+E.--Chama-se _capa_.
+
+P.--Por que lhe dariam esse nome?
+
+E.--Talvez pela analogia, que tem com a capa ou capote, que usam homens
+e mulheres.
+
+P.--Mas a capa dos livros não tem góla, nem cabeção, nem roda, como é
+uso terem os nossos capotes.
+
+E.--Certo é que nada d'isso tem; mas reveste o livro, e o resguarda,
+como o capote resguarda o fato; que lhe fica por baixo.
+
+P.--Respondestes optimamente. Dizei-me se as capas dos livros tem todas
+a mesma consistencia.
+
+E.--Não, senhor; umas são duras e grossas; outras, delgadinhas e molles.
+
+P.--Assim é. De que materia fazem as capas dos livros, quando duras e
+grossas?
+
+E.--De _papelão_.
+
+P.--É verdade; mas noto, que sendo o papelão aspero e feio, as capas dos
+livros são macias e bonitas. Sabereis explicar-me a razão d'isto?
+
+E.--É porque revestem o papelão de papel de côres, de panno, ou de couro
+pintado.
+
+P.--Bravo! muito bem. Como se denominam os artistas, que fazem as capas
+dos livros e lh'as põem?
+
+E.--_Encadernadores_.
+
+P.--Como se diz que está um livro, a que o encadernador poz uma capa
+consistente, como a d'estes, que temos nas mãos?
+
+E.--Diz-se que está _encadernado_.
+
+P--E quando um livro está apenas coberto com uma capa de papel, como
+este, que vos mostro?
+
+E.--Diz-se que está _brochado_.
+
+P.--Se um artista se empregar exclusivamente em brochar livros, como lhe
+chamaremos?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Chamar-lhe-hemos _brochador_.
+
+E.--Os encadernadores não são tambem livreiros?
+
+P.--_Livreiro_ é a pessoa, que negoceia em livros, que os compra e
+vende. Ha, porém, individuos, que exercem ambas as industrias, isto é,
+que compram e vendem lívros, e que os encadernam.
+
+Continuemos a examinar o nosso livro, e em primeiro logar fazei obsequio
+de me indicar o nome d'esta parte (O professor indica a lombada).
+
+E.--Não sei como se chama.
+
+P.--Chama-se _lombo_, ou _lombada_.
+
+E.--Porque dariam a esta parte tão estrambotica denominação?
+
+P.--Provavelmente em consequencia de ter certa analogia de fórma e
+posição com as costas ou lombo do homem.
+
+E.--Tenho notado, que é a lombada a parte, que os encadernadores mais
+esmeradamente aformoseam. Porque será?
+
+P.--Admira-me não vos occorrer a razão d'isso! Porque será, menino B.?
+
+E.--Eu não sei.
+
+P.--Dizei antes: Não sei. É preciso não abusar do _eu_ e do _tu_. Muito
+mais elegante, conciso e energico é dizer: Não sei, não quero, não
+posso, do que: Eu não sei, eu não quero, eu não posso.
+
+Menino C, porque motivo adornam os encadernadores as lombadas dos livros
+mais do que o resto da capa?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Respondei, menino M.
+
+E.--Enfeitam mais as lombadas, se me não engano, por ser a parte, que
+mais se vê, quando os livros estão na estante.
+
+P.--Assim é. Examinae o lombo do vosso livro e dizei-me o que notaes?
+
+E.--Traços e adornos dourados.
+
+P.--Mais nada?
+
+E.--Lettras, tambem douradas.
+
+P.--Que dizem essas lettras?
+
+E.--«Motta»--«Quadros de historia».
+
+P.--Aos dizeres, que os livros tem na parte superior do lombo, que nome
+se dá?
+
+E.--_Titulo_.
+
+P.--A palavra «Motta», que está ahi a dizer?
+
+E.--O nome do auctor.
+
+P.--E as outras?
+
+E.--O assumpto.
+
+P.--Vede a lombada d'est'outro livro. Tem tão poucos dizeres, como a
+d'esse, por onde habitualmente ledes?
+
+E.--Não, senhor; tem mais.
+
+P.--Que mais tem?
+
+E.--Uma lettra de conta.
+
+P.--De que palavra nos deveremos servir, para designar o que chamaes
+lettra de conta?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--O menino, que souber responder á minha pergunta, responda.
+
+E.--Não se deve dizer lettras de conta, mas _algarismos_.
+
+P.--Muito bem. Se temos palavra apropriada para indicar os signaes
+representativos dos numeros, evitemos um rodeio.
+
+Que algarismo tem esse livro na lombada?
+
+E.--O algarismo 2.
+
+P.--Para que pozeram ahi o algarismo 2?
+
+E.--Para indicar que este livro é o segundo volume da obra.
+
+P.--Exactamente.
+
+E.--Todas as obras constam de dois volumes?[20]
+
+P.--Não se riam da pergunta do menino S.; ninguem nasce ensinado, e quem
+não pergunta fica ignorando muitas cousas. Agora conversemos nós, menino
+S. Ha obras completas em um volume, e d'essas tendes exemplo nos
+«Quadros de historia portugueza»; tambem as ha em dois, tres, quatro e
+até em dez, vinte e mais volumes. Quando uma obra principia e acaba no
+mesmo volume não é necessario pôr-lhe nem externa nem internamente
+nenhum algarismo; se principia n'um volume e continúa e acaba n'outro,
+marca-se externamente o primeiro com o algarismo 1 e o segundo com o
+algarismo 2; se a obra se estende por tres ou quatro volumes, põe-se na
+lombada do primeiro o algarismo 1, na do segundo o algarismo 2, na do
+terceiro 3, na do quarto 4, etc.
+
+Menino H., para que serve o titulo do livro escripto na lombada?
+
+E.--Para facilmente darmos com elle sem ser necessario abril-o.
+
+P.--Como se nomeiam estas partes da capa dos livros? (Pondo o dedo nos
+cantos.)
+
+E.--_Cantos da capa_.
+
+P.--Abri os vossos livros e dizei-me como se chamam essas laminas de
+papel, que a capa envolve e resguarda?
+
+E.--Chamam-se _folhas_.
+
+P.--Esse nome applica-se a muitas cousas: folhas de arvores, folhas de
+espadas, folhas de papel, folhas de serra, folhas de madeira, folhas das
+mangas do jaleco, etc.
+
+Explicae-vos, pois, de modo, que todos fiquem sabendo a quaes folhas
+alludis.
+
+E.--A nenhuma das que citastes. As folhas, que estamos vendo, são folhas
+do livro.
+
+P.--Cada uma folha de livro tem duas faces; sabeis que nome se lhes
+costuma dar?
+
+E.--É costume chamar-lhes _paginas_.
+
+P.--A primeira e ultima folha dos livros, nas quaes nada ha escripto, e
+que ás vezes são de papel pintado, como se chamam?
+
+E.--Não sei.
+
+P.--Qual de vós outros me póde responder?
+
+(Silencio).
+
+P.--Chamam-se _guardas_, porque estão ali, como que para defenderem as
+folhas impressas da acção da poeira, dos insectos e das impurezas dos
+ledores menos aceiados.
+
+Ha tambem nos livros _ante-rôsto_ e _rôsto_. Fazei mercê de m'os
+indicar.
+
+E.--O _ante-rosto_ deve de ser esta folha escripta só de um lado, e que
+diz apenas: «Quadros de historia portugueza» o _rosto_ deve de ser a
+folha, que se segue immediatamente ao ante-rosto, tambem só de um lado
+escripta.
+
+P.--Que significam essas duas palavras: _ante-rôsto_?
+
+E.--Parece-me que querem dizer: folha, que antecede a do rôsto.
+
+P.--Exactamente. Sabeis que outro nome se dá á folha do rôsto?
+
+E.--_Frontispicio_.
+
+P.--Desejava saber por que ao frontispicio chamam tambem, rôsto. Se
+algum de vós me poder esclarecer, far-me-ha muito obsequio, satisfazendo
+o meu desejo.
+
+E.--Eu não sei; não sei; eu tambem não.
+
+P.--Parece-me que não ha de ser necessario irmos a Coimbra, para
+explicar similhante bagatella.
+
+E.--Bagatella!?
+
+P.--Ides ver se o é, ou não. Como se chama esta parte do nosso corpo?
+(Apontando o rôsto).
+
+E.--_Cara_.
+
+P.--Não tem outro nome?
+
+E.--_Semblante_.
+
+P.--Não tem outro nome?
+
+E.--_Face_.
+
+P.--Não tem ainda outro nome?
+
+E.--Ah! Chama-se _rosto_.
+
+P.--Que quiz dizer esse ah!?
+
+E.--Já sabemos porque ao frontispicio dos livros se chama tambem rôsto.
+
+P.--Se sabeis, dizei-m'o.
+
+E.--Chamam-lhe rôsto, por que em a gente olhando para aquella folha,
+logo conhece o livro, como conhece uma pessoa, em lhe vendo a cara.
+
+P.--Para conhecer um livro, isto é, para saber de que trata, parece-me
+que não é indispensavel examinar-lhe o rôsto; bastará ler o titulo, ou
+ante-rôsto.
+
+E.--Não é exactamente o mesmo, para tomar conhecimento de um livro, ler
+o titulo ou o ante-rôsto, ou o rôsto, porque este indica muitas mais
+cousas, que aquelles.
+
+P.--Dizei quaes são.
+
+E.--O titulo da obra por extenso, o nome todo do auctor, a typographia,
+a terra onde foi impresso e até o anno.
+
+P.--Bravo! bravo! sr. estudante, muito bem. As vossas respostas
+animam-me. Dizei-me se o papel, de que são feitos os livros, é uma
+substancia natural, isto é, que se encontre feita, como se encontra a
+pedra, a agua, a madeira, o barro, a areia, ou se é um producto da arte,
+quero dizer, feito pelo homem.
+
+E.--É producto da arte.
+
+P.--Já alguem vos disse de que é fabricado o papel.
+
+E.--Não, senhor.
+
+P.--Quereis saber?
+
+E.--Se queremos....
+
+P.--Fabrica-se de trapos de linho, canamo, e algodão.
+
+E.--De trapos?!
+
+P.--Sim, de trapos.
+
+E.--Eu pensava que os trapos não prestavam para nada!
+
+P.--Qual é a cousa, que não tem algum prestimo? Os trapos, que vós
+despresaveis, e tinheis em conta de nada, são uma riqueza, e prestam
+grandissimo serviço á industria, ás artes, ás sciencias e á moral. São
+um instrumento indirecto do progresso da humanidade.
+
+E.--Como se faz o papel?
+
+P.--Não posso agora satisfazer a vossa louvavel curiosidade. É muito
+complexo o seu fabríco para que vol-o possa expor de modo, que d'elle
+fiqueis fazendo perfeita ideia; em vós tendo mais alguns conhecimentos
+eu vol-o indicarei por miudo.
+
+E.--O papel é todo da mesma qualidade?
+
+P.--Não é; e aqui tendes a prova (O professor mostra á escola papel de
+imprimir, papel de escrever, de filtrar, de embrulho, de seda, pintado,
+etc. e vae indicando os nomes de cada um). São de differentes tamanhos
+estas folhas. A grandeza de cada uma indica-se pela palavra _formato_, a
+qual tambem se emprega para representar a grandeza dos livros e jornaes.
+
+E.--Para que tem este livro na parte inferior da pagina do rôsto a
+palavra «_Lisboa_»?
+
+P.--Já se disse que é para mostrar a terra em que foi impresso.
+
+E.--Os livros são impressos?
+
+P.--Não se riam os meninos, que sabem uma cousa, quando outro, que a
+ignora, se quer illustrar, e pede que lh'a ensinem.
+
+Ha livros escriptos de mão, como este (Mostra um livro, ou caderno
+manuscripto) e muitos existem nas bibliothecas; dizem-se _manuscriptos_.
+Actualmente, porém, a maioria, a quasi totalidade dos livros são
+_impressos_ isto é, são feitos com estas lettras de metal, a que
+chamâmos _typos_. Eil-os. (O professor toma um componedor, poderá ser
+dos que usam os compositores de bilhetes de visita e compôe algumas
+palavras). Vou compor uma linha, para que vejaes, como se compoem os
+livros.
+
+E.--E isto (Apontando o componedor) como se chama?
+
+P.--_Com-po-ne-dor_.
+
+E.--Ha de ser necessario molhar essas lettrinhas em tinta; quereis que
+vamos buscar o tinteiro?
+
+P.--A tinta, de que se servem para imprimir, não é a de que usâmos para
+escrever. É feita com outras materias muito differentes, e chama-se
+_tinta de impressão_. Aqui tenho um bocadinho n'esta caixa. Com esta
+_bala_ mólho os typos; ides vêr como as palavras ficam impressas no
+papel (O professor executa o que vae dizendo). Estou fazendo de
+typographo.
+
+E.--_Typographo_? O que quer isso dizer?
+
+P.--Typographo é o artista, que se occupa em juntar os typos uns aos
+outros, para formar as palavras, e estas entre si, para fazer as linhas,
+e as linhas para completar as paginas, e as paginas para concluir uma
+_folha de impressão_.
+
+E.--_Folha de impressão_ não é o mesmo que a folha de um livro?
+
+P.--_Folha de impressão_ é isto. (Mostra uma folha de impressão).
+
+E.--Os livros são impressos como vós agora imprimistes essa linha?
+
+P.--Não, meu menino; nas _typographias_ ha apparelhos para imprimir, aos
+quaes chamamos _prélos_.
+
+E.--Fallastes em _typographias_; o que é typographia?
+
+P.--É a officina onde se compõem e imprimem livros, jornaes, e outros
+papeis. Tambem se chama _imprensa_?
+
+E.--Estou vendo sr. professor, que não é só na lombada que os livros tem
+algarismos, tambem os tem no alto das paginas.
+
+P.--Resta saber para que elles ahi foram postos.
+
+E.--Foram aqui postos para com facilidade se poder achar e indicar
+qualquer passagem do livro.
+
+P.--Para concluirmos este intertenimento, far-lhes-hei mais uma
+pergunta. Como todas as cousas tem nome é provavel que tambem o tenham
+essas porções em branco, que cercam, em cada pagina, a parte central
+impressa; qual será elle?
+
+E.--Estas porções das paginas chamam-se _margens_.
+
+P.--Optimamente.
+
+ * * * * *
+
+Dos poucos exemplos, que ahi ficam expostos, poderão inferir a utilidade
+e attractivos do ensino intuitivo as pessoas, que d'elle não tenham
+ainda conhecimento. Cerrando este livro, que escrevemos com sincero
+desejo de servir a educação e instrucção, devemos declarar, porque é de
+justiça que assim o façâmos, que na Escola normal do sexo masculino, em
+Marvilla, de que foi director e professor o intelligente e laborioso sr.
+Luiz Filippe Leite, com cuja amizade nos honrâmos, se ensinou muito e
+bem pelo methodo intuitivo, que em mãos tão habeis como as do sr. Leite
+e seu irmão o sr. Pedro Leite, de certo produziu optimos resultados, de
+que sentimos não poder dar aqui minuciosa noticia.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+
+ Pag.
+
+Carta do auctor ao Ex.^{mo} Sr. Conselheiro José Silvestre Ribeiro 5
+O Ensino intuitivo 9
+Primeira lição 60
+Segunda lição 72
+Terceira lição 79
+Quarta lição 92
+Quinta lição 97
+Sexta lição 106
+Setima lição 113
+
+
+
+
+
+
+Obras á venda na loja de livros de Ferreira, Lisboa & C.^a, 132, rua do
+Ouro, 134, Lisboa
+
+
+ O PAE NOVO, commentario ou interpretação das dez _Eclogas_ ou
+ _Bucolicas_ de Publio Virgilio Maro, 1 vol. br. 1$000
+
+ NATIVIDADE (J. A. C. da)--Fundamento de analyse grammatical e de
+ estylo, e de composição de themas, 1 vol. br. 650
+
+ SYNOPSES e apontamentos grammaticaes para facilitar a analyse das
+ orações aos alumnos de instrucção primaria e aos do 1.^o anno de
+ portuguez, 1 vol. cart. 200
+
+ TAVARES (H.)--Principios geraes de arithmetica, e systema metrico, 1
+ vol. br. 60
+
+ DIAS (J. A.)--Synopse das religiões e seitas etc., 1 vol. br. 500
+
+ » --Nova Grammatica franceza, 2.^a edição br. 300
+
+ » --Novissima Grammatica ingleza, 1 vol. br. 480
+
+ BALMES (D. Jayme)--Elementos de Logica, 1 vol. br. 300
+
+ METHODO ZABA para o estudo da Historia Universal, com mappa
+ chronologico, chave e taboa de exercicio, 1 vol. br. 200
+
+ MARÇAL A. DE CARVALHO--Problemas de Algebra, 1 vol. br. 500
+
+ CHAGAS (M. P.)--Portuguezes illustres, 2.^a edição, 1 vol. br. 200
+
+ FRADESSO DA SILVEIRA (J. H.)--Estudos, 1 vol. br. 500
+
+ Neste volume agrupou o auctor, oito interessantes artigos em que se
+ expõem as questões mais momentosas da estadistica; como instrucção
+ primaria e professional, associações de soccorros, exposições,
+ fazenda, etc. etc.
+
+ M. M.--Exercicios de cacographia portugueza, br. 100
+
+ MACEDO (J. Tavares de)--Elementos de Orthographia portugueza,
+ br. 80
+
+ BAPTISTA (A. M.)--Algumas considerações sobre as diversas fórmas
+ comparativas e superlativas da lingua portugueza, br. 80
+
+
+
+
+Á VENDA
+NA MESMA LIVRARIA
+
+
+132--RUA AUREA--134
+
+
+ Telles (J. J. de Sousa)--Annuario portuguez scientifico, litterario
+ e artistico---1863, broch. 1$000
+
+ Simões (Dr. Augusto Filippe)--Erros e preconceitos da educação
+ physica, 1 vol. _charp._ broch. 400
+
+ Noirlieu (Abbade Martinho)--Biblia da mocidade, historia do antigo e
+ novo testamento. Approvada pelo conselho geral de instrucção
+ publica, para uso das escolas, 1 vol. _cart._ 240
+
+ Barata (Antonio Francisco)--Estudos da lingua portugueza, 2.^a
+ edição accrescentada e conforme ao programma official de portuguez,
+ br. 350
+
+ Fradesso da Silveira--(J. H.) Compendio do novo systema legal de
+ pesos e medidas, 4.^a edição, broch. 240
+
+ Guedes (J. R.)--Curso de physica elementar. Nova edição, 3 vol., com
+ gravuras, broch. 2$400
+
+ Guedes (J. R.)--Curso de historia natural elementar, 1 vol., com
+ gravuras, broch. 1$500
+
+ Lopes (J. J.)--Taboada methodica dos rudimentos de arithmetica,
+ broch. 200
+
+ Rodrigues (J. Julio)--Mineralogia, 1. vol. broch. 200
+
+ Vidal (A. A. de Pina)--Curso de meteorologia, 1 vol. broch. 600
+
+ Viale (A. J.)--Novo epitome de historia de portugal, adoptado pelo
+ conselho geral de instrucção publica, 1 vol. broch. 200
+
+
+Lisboa--Typ. Universal--1873
+
+
+
+
+Notas:
+
+
+[1] Ácerca d'este assumpto, bem como de muitos outros pontos da
+linguagem portugueza consulte-se a _Orthographia portugueza e missão dos
+livros elementares_, correspondencia official relativa ao «Iris
+Classico» pelo sr. Conselheiro José Feliciano de Castilho Barreto e
+Noronha. Edição do Rio de Janeiro. N'este livro, que é um verdadeiro
+thesouro de bôa doutrina, esplende a intelligencia e erudição de um dos
+escriptores nacionaes, que mais honram as nossas lettras. Pena é que
+poucos em Portugal conheçam obra de tanto merito.
+
+[2] Temos visto muitas vezes nas escolas estarem as crianças a ler com
+os livros nos joelhos, o tronco recurvado e a bocca quasi perpendicular
+ao horisonte. Aquella postura prejudica a saude, difficulta a emissão da
+voz, cança em pouco tempo o ledor, e não o deixa vêr os acenos do
+mestre, tendentes a dirigil-o no andamento, pausas, intonações, etc.
+
+[3] Braun Exercices par intuition, ou Questionaire a l'usage des ecoles
+gardiennas, etc. Bruxelles--1865.
+
+C. Mayo--Lecciones sobre objetos destinados para niños de cinco a ocho
+años, traducidas del orijinal inglés. Madrid--1849.
+
+Foi nosso primeiro intento trasladar para este livro _ipsis verbis_ as
+primeiras lições dos dois afamados professores; por motivos, porém, que
+escusado é expor, resolvemos tomar d'ellas apenas os liniamentos,
+redigindo-as a nosso modo.
+
+[4] Expressão popular e grosseira, que vale tanto como: Elle te
+castigará severamente.
+
+[5] N'estes primeiros exercicios vão as respostas, que provavelmente os
+estudantinhos darão aos professores; nos outros, as respostas
+poder-se-hão deduzir das _Exposições_, que anteporemos a cada exercicio.
+Como estes livrinhos não são exclusivamente para os professores, os
+quaes de certo possuem sufficiente cabedal de conhecimentos, mas para
+mães, paes, e outros educadores menos preparados para o ensino,
+pareceu-nos de muita conveniencia subministrar-lhes os indispensaveis
+subsidios nas _Exposições_, as quaes dispensarão, até certo ponto o
+estudo nos livros dos assumptos dos exercicios.
+
+[6] O dialogo aqui traçado para um, deverá ser ampliado e sustentado com
+todos os estudantes, que tiverem entrado ao mesmo tempo, havendo o maior
+disvelo em tornal-o quanto possivel deleitavel e variado.
+
+[7] Parece á primeira vista mui pequeno o prestimo do _quadro preto_
+n'uma aula, e na realidade é muito util. Convem que todas as aulas de
+meninos e meninas o tenham; e que d'elle se sirvam amiudadas vezes
+professores e discipulos para os exercicios de soletração, orthographia,
+analyse, arithmetica, desenho, etc.
+
+[8] Não se estranhe o emprego da palavra geringonça. As creancinhas são
+faceis de contentar; alegram-se e riem com o simples emprego de palavras
+menos triviaes, e proseguem mais contentes no estudo. Se ao
+explicar-lhes as regras elementares da syntaxe o professor lhes der o
+seguinte exemplo: O sol é brilhante, escrevem-n'o e analysam-n'o sem
+enthusiasmo; se o professor lhes disser: O gato é manhoso, riem,
+alegram-se e atiram-se á analyse da oração de muito boa vontade. Ainda
+que estas e outras particularidades do ensino infantil pareçam aos
+sabios puras insignificancias, não as desprese o mestre, que tiver a
+peito o progresso dos pequeninos.
+
+[9] Dividimos a palavra «cavallete» sem attender á regra orthographica,
+que manda repartir as consoantes dobradas pelas duas syllabas, para não
+falsearmos a pronunciação; se assim não fizessemos, teriamos:
+Ca-val-le-te, que se não diz, nem poderia razoavelmente dizer-se.
+
+[10] Desculpe-se-nos que insistamos em aconselhar aos mestres, que não
+sejam avaros de louvores, quando os estudantes os merecerem. É um grande
+incitamento o applauso para o que o recebe e para os que o presenceiam.
+
+[11] Novamente declarâmos que estas lições não são traduzidas, mas quasi
+exclusivamente nossas.
+
+[12] Todos estes nomes se dão á substancia, de que nas aulas se servem
+para apagar os traços, que o lapis deixa no papel. Aos meninos será
+conveniente indical-a pelo nome de _borracha_, porque é o mais
+commummente usado. Mais tarde se lhes dirá que nem este, nem o de _gomma
+elastica_ se deveriam empregar. Como hoje se usa muito do caoutchouc
+vulcanisado, tenham os professores a cautela de apresentarem para a
+lição, o escuro, isto é, o que não está combinado com enxofre.
+
+[13] Esta lição vem apenas apontada no livro do professor Mayo.
+
+[14] Quasi todos os objectos, que eram feitos de caoutchouc simples, são
+agora fabricados com a mesma substancia _vulcanisada_, isto é combinada
+com certa quantidade de enxofre, e por tanto differente na côr, no
+cheiro, e em outras propriedades do caoutchouc extreme. Se algum menino
+reparar na differença e fizer pergunta a tal respeito, dir-lhe-ha o
+professor o bastante para esclarecel-o, attendendo ao que atraz
+recommendámos, que não se trate a fundo de cousas para entender as quaes
+as crianças não estejam preparadas.
+
+[15] Esta lição vem apenas indicada no livro do professor Mayo.
+
+[16] Recommendam Madame Marie Pape Carpentier e outros pedagogistas, que
+se tratem as criancinhas com toda a delicadeza, que em vez de se lhes
+ordenar que façam uma cousa, se lhes peça por favor que a executem, e
+que, se lhes agradeça com urbanidade o terem satisfeito os nossos
+pedidos. Este modo de proceder com os pequeninos tem tres grandes
+vantagens: desenvolve nos meninos o sentimento da propria dignidade,
+captiva a sua benevolencia, e acostuma-os a serem delicados.
+
+[17] Não é para desprezar, no ensino das crianças, este innocente meio
+de lhes excitar a curiosidade, tenteando ao mesmo tempo o prazer, ou
+enfado, de que estejam tomadas.
+
+[18] O fim d'este exemplo não é ensinar philologia ás criancinhas, mas
+il-as habituando a distinguir nas palavras as «radicaes», cujo valor
+mais tarde perceberão. O termo «familia» tome-se como synonimo de
+aggregado de palavras em que a idéa representada pela radical é a mesma.
+
+[19] Não se define o quadrado, porque os estudantes não sabem ainda o
+que seja angulo, e menos o que seja angulo recto.
+
+[20] A lettra E, inicial de estudante, não está n'estas lições indicando
+um só e sempre o mesmo estudante; mas o estudante, a que o professor
+julga conveniente dirigir-se.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+-----------------------+-------------------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+-----------------------+-------------------------------+
+ |#pág. 20| Jenuense | Genuense* |
+ |#pág. 20| dizia | relembrava a regra de Ovidio* |
+ |#pág. 31| cujos componente | cujos componentes |
+ |#pág. 45| lahios | labios |
+ |#pág. 51| _impanho imprestar_ | _impanho_, _imprestar_ |
+ |#pág. 52| o que emende | a que emende |
+ |#pág. 58| comportamente | comportamento |
+ |#pág. 85| praticular | particular |
+ |#pág. 112| cubica | cubica) |
+ | | | |
+ |#nota 14| ontras | outras |
+ +----------+-----------------------+-------------------------------+
+
+* corrigido de acordo com notas/erratas fornecidas no livro.
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Ensino intuitivo, by João José de Sousa Telles
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENSINO INTUITIVO ***
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+works. See paragraph 1.E below.
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
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+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Ensino intuitivo, by João José de Sousa Telles
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Ensino intuitivo
+ livro destinado às mães e paes de familia e às professoras
+ e professores de instrucção primária
+
+Author: João José de Sousa Telles
+
+Release Date: September 28, 2010 [EBook #33817]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENSINO INTUITIVO ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Setembro 2010)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h2>ENSINO INTUITIVO
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h3><br />
+
+LIVRO DESTINADO &Aacute;S M&Atilde;ES<br />
+
+<br />
+
+E<br />
+
+<br />
+
+PAES DE FAMILIA
+</h3>
+
+<br />
+
+<h5>E &Aacute;S<br />
+
+</h5>
+
+<h4>
+PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUC&Ccedil;&Atilde;O PRIMARIA<br />
+
+<br />
+
+POR
+</h4>
+
+<h3>
+JO&Atilde;O JOS&Eacute; DE SOUSA TELLES
+</h3>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Socio honorario
+da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da
+Sociedade Pharmaceutica Lusitana
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">PROFESSOR DE PORTUGUEZ E
+INTRODUC&Ccedil;&Atilde;O &Aacute;
+HISTORIA
+NATURAL
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+LISBOA<br />
+
+<br />
+
+FERREIRA, LISBOA &amp; C.<sup>a</sup><br />
+
+132&mdash;Rua Aurea&mdash;134<br />
+
+<br />
+
+1873
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
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+<br />
+
+<br />
+
+<h1>ENSINO INTUITIVO</h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>ENSINO INTUITIVO</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h3><br />
+
+LIVRO DESTINADO &Aacute;S M&Atilde;ES<br />
+
+<br />
+
+E<br />
+
+<br />
+
+PAES DE FAMILIA
+</h3>
+
+<br />
+
+<h5>E &Aacute;S<br />
+
+</h5>
+
+<h4>
+PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUC&Ccedil;&Atilde;O PRIMARIA<br />
+
+<br />
+
+POR
+</h4>
+
+<h3>
+JO&Atilde;O JOS&Eacute; DE SOUSA TELLES
+</h3>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Socio honorario
+da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da
+Sociedade Pharmaceutica Lusitana
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">PROFESSOR DE PORTUGUEZ E
+INTRODUC&Ccedil;&Atilde;O &Aacute;
+HISTORIA
+NATURAL
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+LISBOA<br />
+
+<br />
+
+FERREIRA, LISBOA &amp; C.<sup>a</sup><br />
+
+132&mdash;Rua Aurea&mdash;134<br />
+
+<br />
+
+1873
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">LISBOA
+<br />
+
+<br />
+
+TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES
+IMPRESSOR DA CASA REAL
+<br />
+
+<br />
+
+110&mdash;Rua dos Calafates<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><a name="c1" id="c1"></a>Ill.<sup>mo</sup>
+e Ex.<sup>mo</sup> Sr.
+Conselheiro Jos&eacute; Silvestre Ribeiro
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha annos, ouvindo os louvores, que &aacute; intelligencia e
+probidade
+de V. Ex.<sup>a</sup> tecia um dos mais peregrinos talentos
+de Portugal, o grande poeta, hoje Visconde de Castilho,
+senti irresistivel desejo de ler os escriptos de V. Ex.<sup>a</sup>
+e de o
+conhecer em pessoa. Dessedentei-me agradavelmente e com
+muito proveito, nas numerosas paginas, que da penna de
+V. Ex.<sup>a</sup> haviam saido, umas reunidas em volumes,
+outras
+espalhadas pelos periodicos, todas por&eacute;m rescendendo
+suave e, digamos assim, castissimo perfume de natural bondade
+e heroicas virtudes, qualidades que para mim valem
+muito mais que toda a erudi&ccedil;&atilde;o, e que
+real&ccedil;am sobremodo
+a que v. ex.<sup>a</sup> possue vastissima,
+colhida no incessante
+estudo de quantos engenhos famosos tem opulentado as
+sciencias, as artes e a litteratura.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; eu, havia muito, conversava com V. Ex.<sup>a</sup>
+em espirito
+e me reputava seu discipulo amicissimo, quando tive a boa
+fortuna de fallar a V. Ex.<sup>a</sup> e de ser por V. Ex.<sup>a</sup>
+acolhido
+com a benevolencia, que lhe conquista a sympathia de
+quantos o tratam.
+<br />
+
+<br />
+
+Data d'esse dia a nossa amizade, confiado na qual ouso
+offerecer a V. Ex.<sup>a</sup> este livro modestissimo, que
+se alguma
+cousa vale &eacute; pela boa f&eacute; com que foi escripto.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; sympathico o assumpto; creio que &eacute; mais um
+brado
+pedindo a t&atilde;o necessaria reforma do ensino infantil e
+primario
+na casa paterna e na escola, que t&atilde;o pouco tem
+ainda de paternal. Ser&aacute; perdido, como os que o viajante
+extraviado soltaria no deserto, implorando o favor dos homens?
+Talvez.
+<br />
+
+<br />
+
+Incessantemente ha clamado o nosso probo amigo o Sr.
+Visconde de Castilho, e nem aquella potentissima intelligencia,
+nem aquella phrase, que nos faz acreditar a fabula de
+Orph&ecirc;o, nem a auctoridade d'aquella quasi
+intui&ccedil;&atilde;o do bom
+e do bello ha conseguido, que amanhe&ccedil;a para as criancinhas
+o dia da sua regenera&ccedil;&atilde;o intellectual.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o serei eu mais feliz; mas dar-me-hei por bem pago
+do trabalho, que puz em escrever estas paginas, se uma
+s&oacute; m&atilde;e, que seja, ou um s&oacute; mestre,
+aproveitar os conselhos,
+que lhes dou, e se, quando mais n&atilde;o obtenha, uma
+criancinha me dever algumas lagrimas de menos e algum
+bom ensinamento a mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Associando o nome illustre e venerando de V. Ex.<sup>a</sup>
+a esta
+obrinha, imito o bom do Aim&eacute; Martin e posso dizer a V.<sup>a</sup>
+Ex.<sup>a</sup>
+o que elle disse ao mavioso Lamartine.
+<br />
+
+<br />
+
+En vous offrant ce livre, je n'ai qu'un but, c'est de rattacher
+mes paroles aux v&ocirc;tres, c'est d'&eacute;tayer leur
+faiblesse
+de votre force, ma raison de votre raison. Je veux qu'on
+dise un jour: Ceux-ci ont connu les veritables biens, ils se
+rencontr&egrave;rent dans la m&ecirc;me foi, ils
+s'aim&egrave;rent devant le
+m&ecirc;me Dieu.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">
+De V. Ex.<sup>a</sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Admirador muito amigo
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jo&atilde;o Jos&eacute; de
+Sousa
+Telles</span>.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">Lisboa 7 de julho de 1873.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="c2" id="c2"></a>ENSINO
+INTUITIVO
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O livro, que hoje public&acirc;mos, &eacute; uma tentativa
+modesta de acclima&ccedil;&atilde;o de uma id&eacute;a
+excellente, que
+l&aacute; por f&oacute;ra tem produzido optimos resultados.
+<br />
+
+<br />
+
+Applaudem-na unanimes os mais insignes pedagogistas
+inglezes, allem&atilde;es, americanos, francezes,
+e belgas; e ainda que tantos homens competentissimos
+em assumptos de ensino e educa&ccedil;&atilde;o nol-a
+n&atilde;o apregoassem famosa, bastaria a simples
+enuncia&ccedil;&atilde;o
+d'ella, para que enthusiasticamente a adoptassemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes, por&eacute;m, de exp&ocirc;rmos minudenciosamente
+a id&eacute;a nova, e nova lhe cham&acirc;mos attendendo ao
+pouco que se tem vulgarisado em Portugal, de raz&atilde;o
+nos parece conversarmos amigavelmente com
+o leitor &aacute;cerca de alguns pontos da
+educa&ccedil;&atilde;o e
+instruc&ccedil;&atilde;o elementar.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a educa&ccedil;&atilde;o da puericia e da
+juventude a mais
+gloriosa e ao mesmo tempo a mais difficil
+obriga&ccedil;&atilde;o,
+que Deus impoz ao homem e &aacute; mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; luz da philosophia e da moral, a paternidade
+<span class="pagenum">[10]</span>
+e a maternidade consistem menos em gerar o infante,
+do que em desenvolver-lhe e aperfei&ccedil;oar-lhe
+incessantemente as faculdades da alma e do corpo,
+at&eacute; que possa cumprir os seus deveres e arrostar
+as contrariedades da vida na curta, mas trabalhosa
+peregrina&ccedil;&atilde;o, que principia no ber&ccedil;o e
+acaba no
+tumulo.
+<br />
+
+<br />
+
+Incumbe, pois, aos paes empregar todos os meios
+ao seu alcance, para que os filhos, creaturinhas imbelles,
+que a Providencia confiou a seus cuidados,
+cheguem no mais curto espa&ccedil;o de tempo, e pelo
+emprego de processos razoaveis, amenos, e repassados
+de amor e ternura ao estado de perfei&ccedil;&atilde;o
+physica, intellectual e moral, que constitue o homem,
+tal qual deve ser, tal qual Deus quer que
+elle seja, tal qual a sociedade bem organisada o
+requer, para obreiro prestadio da civilisa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Infelizmente, nem todos os paes conhecem os
+seus deveres; e dos que os conhecem, muitissimos
+ha, que os n&atilde;o cumprem, ou por modo mui imperfeito
+se desempenham d'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esta ignorancia e negligencia funestissimas provem
+os maiores males, que affligem a humanidade,
+males para os quaes a maior parte das vezes n&atilde;o
+ha remedio.
+<br />
+
+<br />
+
+Tratando de assumpto differente, disse um douto,
+que muitas descobertas se poderiam fazer, se
+opportunamente perguntassemos: <em>Por
+que?</em> Appliquemos
+o engenhoso e facil processo de Arago ao
+exame das causas determinantes de alguns vicios
+<span class="pagenum">[11]</span>
+sociaes, e convencer-nos-hemos de qu&atilde;o exacta &eacute; a
+nossa asser&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Estamos na via publica. De toda a parte se nos
+apresentam crean&ccedil;as esfarrapadas, semi-nuas, esqualidas,
+famintas, petulantes; revolvem-se umas
+na lama e no p&oacute;; dormem outras, tiritando, &aacute;
+chuva e ao vento; estas divagam estendendo a m&atilde;o
+asquerosa e pedindo uma esmola aos que passam;
+aquellas soltam dos labios rosados palavras, que
+fazem enrubecer os que as ouvem.
+<br />
+
+<br />
+
+Chamae-as, e perguntae-lhes quem alli as deixou,
+fl&ocirc;res no esterquilinio, passarinhos implumes entre
+abutres esfaimados, anjos manchando as azas
+na sujidade das cal&ccedil;adas.
+<br />
+
+<br />
+
+Responder-vos-h&atilde;o: Nossas m&atilde;es e nossos paes.
+<br />
+
+<br />
+
+Ides vosso caminho, alegre, tranquillo, olhando
+em redor, vendo prepassar trens sumptuosos, soberbos
+cavallos, mulheres elegantes, homens felizes
+e descuid&oacute;sos. Chega-vos aos ouvidos um echo,
+um gemido, um choro infantil; olhaes...
+<br />
+
+<br />
+
+Que v&ecirc;des?
+<br />
+
+<br />
+
+Na soleira de um portal, vestida em uns andrajos,
+quasi morta de fome e de frio uma criancinha,
+cujas faces, em vez de serem orvalhadas pelas lagrimas
+da materna alegria, e aquecidas pelos beijos
+fervidos da que lhe deu a existencia, se humedecem
+com as lagrimas da amargura infantil.
+<br />
+
+<br />
+
+Levantae o pobresinho, apertae-o contra o peito,
+osculae aquella carinha de jasmim e rosas, e perguntae-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+Anjo meu, que barbaros te deixaram aqui abandonado?
+<br />
+
+<br />
+
+E a innocencia vos responder&aacute;, n&atilde;o com palavras,
+que as n&atilde;o sabe ainda articular, mas com ternissimos
+solu&ccedil;os:
+<br />
+
+<br />
+
+Abandonou-me meu pae e minha m&atilde;e.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m vae caminho do cemiterio, a tumba, que
+andou de porta em porta recolhendo os miseros,
+cujas familias n&atilde;o poderam coalhar o bastante para
+o modesto funeral dos seus parentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Fazei-a parar; mandae que a abram; olhae para
+dentro.
+<br />
+
+<br />
+
+Horror! exclamareis v&oacute;s ao ver por entre os
+adultos exanimes, em sacrilego desarranjo, um
+bando de crean&ccedil;as quasi esqueletos, rachiticas, chagadas,
+meio apodrecidas, com signaes evidentes
+de terem vindo ao mundo com o estigma da morte
+profundamente gravado nas frontes innocentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Martyres obscuros, podereis v&oacute;s dizer-lhes, para
+quem o mundo n&atilde;o teve nem uma cor&ocirc;a, nem uma
+palma; estrellas cadentes, que brilhastes um momento
+e desapparecestes n'um eterno occaso; quem
+assim vos macerou os corpinhos, e vos deu a beber
+o fel da morte ao alvorecer da vida?
+<br />
+
+<br />
+
+E a mudez sombria d'aquellas florinhas envenenadas
+na hastea, e emurchecidas antes de desabrocharem,
+responder&aacute;:
+<br />
+
+<br />
+
+Nossos paes e nossas m&atilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;des aquelle peralvilho, aquelle afeminado, todo
+pomadas, todo essencias, gesto insolente, olhar altivo
+<span class="pagenum">[13]</span>
+e desdenhoso, que vae rindo e galhofando com
+outros da sua ral&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Parou, fazem-lhe roda, applaudem-n'o outros
+taes. Que bocadinhos de oiro estar&aacute; elle a dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+Escutae-o.
+<br />
+
+<br />
+
+M&oacute;fa da religi&atilde;o, que desconhece; insulta os
+sacerdotes,
+que acertam de passar junto d'elle; escandalisa
+as donzellas; zomba dos anci&atilde;os; aos
+pobres, em vez de os esmolar, despede-os insolente.
+<br />
+
+<br />
+
+Indagae como t&atilde;o cedo se depravou aquelle mo&ccedil;o,
+que deveria estar ainda sentado no banco da escola.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-vos-h&atilde;o que &aacute; incuria paterna deve elle toda
+a sua ruina.
+<br />
+
+<br />
+
+Entrae no templo a presencear as augustas ceremonias,
+que rememoram a angustiosa paix&atilde;o e
+morte do grande amigo da humanidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Que observaes?
+<br />
+
+<br />
+
+A turba irreverente, descomposta, sacrilega,
+rindo, conversando, ostentando galas, trocando
+gracejos, costas para os altares, olhares distrahidos,
+attitudes grosseiras e vilans.
+<br />
+
+<br />
+
+Quantas preces saem d'aquelles labios? Que pensamentos
+povoam aquellas mentes? Que piedosos
+affectos existem em tantos cora&ccedil;&otilde;es?
+Escandalisa-vos
+o desacato? Quereis saber porque na egreja
+est&atilde;o, como n&atilde;o poderiam estar na casa da opera?
+<br />
+
+<br />
+
+Chamae de banda um dos levianos e perguntae-lhe
+o que lhe h&atilde;o dito seus paes da grandiosa tragedia
+do Calvario; do incruento sacrificio, que a
+<span class="pagenum">[14]</span>
+representa, da respeitabilidade do altar, do valor
+das preces humildes e sinceras?
+<br />
+
+<br />
+
+Responder-vos-ha, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o vos comprehendo; meus paes nunca me fallaram
+d'essas coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+Que vozearia &eacute; aquella? Porque tantos gritos, tamanho
+borborinho?
+<br />
+
+<br />
+
+Ergue-se um homem mal trajado, e arenga &aacute;
+turba.
+<br />
+
+<br />
+
+Poucas palavras tem dito, e j&aacute; uns o applaudem
+phreneticos, j&aacute; outros o vituperam enfurecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o povo soberano, que usa e abusa de seus direitos.
+A onda encapellada das ruins paix&otilde;es sobe,
+sobe, invade a improvisada tribuna e derruba o
+Demosthenes improvisado.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos fallam, todos proclamam a id&eacute;a nova.
+<br />
+
+<br />
+
+Ou&ccedil;amol-os.
+<br />
+
+<br />
+
+Abaixo os padres, n&atilde;o precis&acirc;mos d'elles; abaixo
+a religi&atilde;o, que para nada presta; acabemos com a
+propriedade, os ricos s&oacute; querem beber-nos o sangue;
+viva o communismo, grita um; viva o socialismo,
+que &eacute; melhor, responde outro; nada, nada
+d'isso, venha a republica.
+<br />
+
+<br />
+
+Acabemos com os tributos e seremos felizes; e
+o exercito para que serve? Elimine-se o exercito.
+<br />
+
+<br />
+
+Pedi instruc&ccedil;&atilde;o, pedi ensino facil, bom,
+universal,
+escolas primarias a cada canto, bibliothecas populares,
+livros optimos ao alcance de todos no pre&ccedil;o
+e no estylo; pedi moralidade, diz com voz firme e
+<span class="pagenum">[15]</span>
+sonora um operario, fronte ampla, respeitaveis
+cans, rosto sereno, m&atilde;o calejada pelo trabalho.
+<br />
+
+<br />
+
+F&oacute;ra com o visionario brada a turba.
+<br />
+
+<br />
+
+Que quer dizer instruc&ccedil;&atilde;o? Para que servem os
+livros? Para que prestam as escolas? regouga
+um miseravel, em cujo rosto se retrata a ignorancia
+e occiosidade; e bradando &aacute; turba, ap&oacute;s si a leva
+can&ccedil;ada, mas n&atilde;o saciada de disparatar.
+<br />
+
+<br />
+
+Dirigi-vos ao operario honesto e prudente e informae-vos
+de quem sejam aquelles doidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Uns infelizes, dir&aacute; elle, bons
+cora&ccedil;&otilde;es, m&aacute;s cabe&ccedil;as.
+Pobresinhos todos; por&eacute;m mais pobres de
+instruc&ccedil;&atilde;o
+que de dinheiro, porque todos tem aptid&atilde;o
+para o trabalho, mas a todos faltou a educa&ccedil;&atilde;o.
+N&atilde;o
+tiveram paes, como eu felizmente tive, que os mandassem
+ensinar. A m&oacute;r parte nem ler sabem, nem
+fazer o seu nome. Se lhes fordes perguntar o que
+seja republica, socialismo, communismo, salario,
+religi&atilde;o, exercito, &aacute; boa f&eacute; vos
+affirmo que n&atilde;o
+poder&atilde;o responder coisa que geito tenha.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas deixemos estes homens, nem todos maus;
+muitos bonissimos, desvairados pela febre ardente
+de antigos e profundos padecimentos, que buscam
+a verdade e o bem, como os alchimistas da idade
+media, por meios absurdos e inconvenientes, mas
+que tem a coragem de affrontar os perigos, de sacrificar
+a propria vida, e de soffrer com a resigna&ccedil;&atilde;o
+dos martyres dos primeiros seculos do christianismo
+esses hediondos supplicios, a que ainda
+<span class="pagenum">[16]</span>
+hoje o mundo civilisado assiste com profunda magoa
+e indigna&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Volvamos os olhos para aquell'outros.
+<br />
+
+<br />
+
+D'onde vem?
+<br />
+
+<br />
+
+Das enxovias.
+<br />
+
+<br />
+
+Para onde v&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+Para o degredo.
+<br />
+
+<br />
+
+Homens, mulheres, crian&ccedil;as! Deixam a patria, os
+amigos, as familias, os formosos campos, onde nasceram,
+este c&eacute;o t&atilde;o puro, este sol t&atilde;o
+esplendido,
+este clima t&atilde;o amoravel, este aben&ccedil;oado e
+feracissimo
+torr&atilde;o, para irem em paizes inhospitos luctar
+com a morte opprobriosa, ralados de saudades, roidos
+de remorsos, despreziveis aos olhos de todos, e
+condemnados pela voz implacavel da propria consciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+V&atilde;m alli assassinos, sacrilegos, perjuros, fratercidas,
+patrecidas, ladr&otilde;es, incendiarios; todos os
+crimes, todas as torpezas, todas as infamias, o lodo
+asqueroso de todas as humanas miserias, as trevas
+da ignorancia preversa, a lepra do grande corpo
+social.
+<br />
+
+<br />
+
+Ponde os olhos n'aquelle quadro, m&atilde;es e paes.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o interrogueis os que o crime despenhou; n&atilde;o
+insulteis a desgra&ccedil;a; n&atilde;o amargureis mais
+aquelles
+cora&ccedil;&otilde;es devastados e corroidos pelo crime, onde
+poder&aacute; haver ainda alguma fibra incorrupta e sensivel;
+mas perguntae a v&oacute;s mesmos que
+educa&ccedil;&atilde;o
+receberam aquelles miseros de seus progenitores?
+que sorrisos e carinhos lhes cercaram os ber&ccedil;os?
+<span class="pagenum">[17]</span>
+que palavras ouviram aquelles entes ao entrar na
+vida? que exemplos tiveram para seguir? quaes as
+escolas, a que os mandaram? que affectos semeiaram
+n'aquelles cora&ccedil;&otilde;es? quantas vezes lhes apontaram
+para o c&eacute;o e lhes fallaram de Deus? que
+no&ccedil;&otilde;es
+lhes deram da verdade, da justi&ccedil;a, da honra,
+do dever? que meios empregaram para lapidarem
+aquelles diamantes? que processo adoptaram para
+desinvolver-lhes a intelligencia?
+<br />
+
+<br />
+
+E se n&atilde;o acertardes com as respostas a estas e
+a muitas outras perguntas, que o caso suscita,
+ide-vos por essas cidades, e villas, e aldeias, e
+povoados e indagae a historia de cada um d'aquelles
+infelizes. Raro achareis que se prevertesse
+o que dos paes houvesse recebido desvelada
+educa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o que &eacute; educa&ccedil;&atilde;o desvelada?
+<br />
+
+<br />
+
+Eis o ponto importantissimo, para o qual cham&acirc;mos
+a atten&ccedil;&atilde;o de todos. N&atilde;o o
+desenvolveremos
+aqui. Assumpto &eacute; para um livro, e j&aacute; larga e
+proficientemente
+tratado por grandes mestres da sciencia
+de educar.
+<br />
+
+<br />
+
+Diremos apenas, que muitos paes e mestres ha,
+por desgra&ccedil;a nossa e d'elles, que n&atilde;o
+comprehendem
+nem a extens&atilde;o, nem a intensidade da palavra
+educar.
+<br />
+
+<br />
+
+Para uns educar &eacute; crear, &eacute; nutrir o animal,
+&eacute;
+desenvolver-lhe o physico; e nem sempre conforme
+os dictames da medicina e da hygiene.
+<br />
+
+<br />
+
+Para outros educar &eacute; iniciar a crian&ccedil;a nas Para
+outros educar &eacute; iniciar a crian&ccedil;a nas regras
+<span class="pagenum">[18]</span>
+mais elementares da leitura, da escripta, da contabilidade
+e de uma arte ou officio.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o falta quem se vanglorie de ter educado bem,
+excellentemente, seus filhos, por que lhes deu mestres
+de linguas antigas e modernas, de geographia,
+de historia, de philosophia e de muitas outras cousas
+mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Tal se orgulha de ver o herdeiro de seu nome
+sair laureado de uma escola ou academia e entrar
+na sociedade precedido da fama de optimo estudante.
+Tal outro se julga em paz com a sua consciencia
+e se tem por excellente educador, porque
+o mancebo, cujos primeiros estudos dirigiu, das columnas
+de um jornal assombra o mundo com seus
+artigos, ou deleita as turbas com versos, que reputa
+mais correctos e melodiosos que os de Cam&otilde;es,
+Garrett ou Castilho.
+<br />
+
+<br />
+
+E consistir&aacute; em t&atilde;o pouco a sciencia difficilima
+de educar?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, mil vezes n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Que vale ao homem, a quem Deus concedeu uma
+certa por&ccedil;&atilde;o de intelligencia, susceptivel de
+indefinido
+desenvolvimento, crescer e medrar no physico,
+permanecendo-lhe embryonaria a melhor das
+faculdades? Que vale ao homem, que poderia elevar-se
+pelo estudo, pela leitura, pela applica&ccedil;&atilde;o das
+potencias da alma e vir a ser um poderoso auxiliar
+do progresso da humanidade, qualquer que
+fosse a sua posi&ccedil;&atilde;o social, saber apenas os
+primeiros
+rudimentos das artes de aprender, e tanto pela
+<span class="pagenum">[19]</span>
+superficie, que nem d'elles se possa servir, a n&atilde;o
+ser nos mais simples usos da vida?
+<br />
+
+<br />
+
+Quantos e quantos dos que cursaram as escolas
+e as academias, e n'ellas se distinguiram, tiveram
+mais trabalho em debellar os erros da educa&ccedil;&atilde;o
+elementar do que em arcar com as difficuldades,
+e segredos das sciencias superiores?
+<br />
+
+<br />
+
+E quantos n&atilde;o vem dos institutos scientificos
+imperfeitamente instruidos, n&atilde;o por culpa dos mestres,
+nem d'elles mesmos, mas pela incuria e
+ignorancia dos paes e dos primeiros educadores?
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os homens intelligentes, que tem consagrado
+a vida ao magisterio superior, reconhecem e
+confessariam, se quizessem, que a falta de cultivo
+intellectual nas edades tenras difficulta extremamente
+aos estudantes a comprehens&atilde;o das sciencias,
+e os inhabilita para tirarem dos cursos mais
+bem delineados as vantagens, que d'elles poderiam
+obter.
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi a meia sciencia, as ideas falsas, a confus&atilde;o
+dos principios, a impossibilidade das grandes
+concep&ccedil;&otilde;es, a timidez na
+applica&ccedil;&atilde;o pratica, o desamor
+do estudo, que fecunda o que nas aulas se
+ouviu, e a propens&atilde;o para a pregui&ccedil;a, que se
+contenta
+com o pouco cabedal adquirido e n&atilde;o busca
+grangear mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Se das escolas superiores passarmos &aacute;s secundarias,
+encontraremos as mesmas causas produzindo
+os mesmos effeitos; e dir-nos-h&atilde;o os professores
+intelligentes e zelosos, que das m&atilde;os dos paes
+<span class="pagenum"><a name="p20" id="p20">[20]</a></span>
+e dos primarios educadores, receberam a m&oacute;r parte
+dos alumnos com os olhos do espirito t&atilde;o cerrados
+ainda, que de todo desconheciam as verdades
+mais elementares e intuitivas, os phenomenos mais
+simples e intelligiveis, as rela&ccedil;&otilde;es mais claras.
+<br />
+
+<br />
+
+Na escola primaria, o professor instruido, que
+comprehenda quanto tem de nobre e grandioso o
+seu ministerio, em apparencia t&atilde;o humilde, na
+realidade t&atilde;o augusto; que considere na crian&ccedil;a o
+homem e no homem o futuro todo inteiro da humanidade;
+que abranja com a vista o largo horisonte
+das criaturinhas, que o rodeiam, e que deseje
+dissipar as trevas d'aquelles entendimentos
+com luz tenue e suave, como convem a edades infantis,
+tem ainda a luctar com os defeitos da educa&ccedil;&atilde;o
+domestica, que devendo ser a primeira, a
+mais engenhosa, a mais insistente, e mais efficaz,
+&eacute; muitas vezes nulla, muitas quasi nulla e quasi
+sempre deficiente.
+<br />
+
+<br />
+
+E se o que vamos dizendo se applica em cheio
+&aacute; educa&ccedil;&atilde;o das faculdades
+intellectuaes da puericia,
+que s&atilde;o ainda assim, as que os paes de ordinario
+mais appetecem ver desenvolvidas nos filhos,
+outro tanto se p&oacute;de asseverar da
+educa&ccedil;&atilde;o physica
+e moral.
+<br />
+
+<br />
+
+Conhecida a doen&ccedil;a, urge accudir-lhe com o remedio.
+J&aacute; o bom do <a href="#e1">Genuense</a>,
+mestre de nossos paes,
+mestre de muitos de n&oacute;s outros, que hoje ensinamos
+e que supp&ocirc;mos ter alguma valia, e t&atilde;o
+injustamente
+esquecido e mettido para o canto, <a href="#e2">relembrava
+a regra de Ovidio</a>:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+<em>Principiis obsta, sero medecina paratur, cum
+mala per longas invalu&eacute;re moras.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Acode ao doente apenas a molestia d&ecirc; o primeiro
+rebate; que de nada lhe prestar&aacute; o remedio,
+tardio.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+E haver&aacute; remedios, que prestem para os males
+de que enferma a educa&ccedil;&atilde;o elementar?
+<br />
+
+<br />
+
+Ha, e muitos; o caso est&aacute; em applicar-lh'os a
+tempo e judiciosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o todos apontaremos aqui, porque n&atilde;o
+&eacute; este
+livrinho um tratado de pedagogia, mas t&atilde;o s&oacute;mente
+um, que valer&aacute; por muitos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; remedio barato, condic&ccedil;&atilde;o esta que
+n&atilde;o &eacute; para
+desprezar; de facil manipula&ccedil;&atilde;o; composto de
+simples,
+que por toda a parte e a toda a hora se acham;
+e por cima de tudo isto, t&atilde;o agradavel, que em vez
+de lhe fazerem caretas, os que o devem tomar, o
+appetecem e pedem sequiosos e nunca fartos de
+saboreal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; este remedio o <em>Ensino
+intuitivo</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Para applical-o, diga-se j&aacute; e bem alta e claramente,
+nem todos servem. Em m&atilde;os de ignorantes
+converte-se em veneno, e em vez de beneficios,
+s&oacute; produz males.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; indispensavel, pois, que paes e mestres, que
+hajam de o empregar, possuam profundo e variado
+cabedal de conhecimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes, por&eacute;m, de entrarmos a dizer o que este
+ensino seja, convem que nos lembremos das
+condic&ccedil;&otilde;es
+organicas, physiologicas e intellectuaes das
+crian&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[22]</span>
+&Eacute; o infante um organismo em via de
+forma&ccedil;&atilde;o,
+incompleto, fransino, em que a vida animal consiste
+quasi exclusivamente no movimento tumultuoso,
+na expans&atilde;o incessante, na assimila&ccedil;&atilde;o
+continua.
+<br />
+
+<br />
+
+Abriu os olhos ha pouco, e ainda n&atilde;o teve tempo
+de ver bem o grandioso espectaculo da natureza,
+cujos protentos o deslumbram; descerraram-se-lhe
+hontem os ouvidos, e por isso lhe echoam l&aacute; dentro,
+ainda confusas, as harmonias, os ruidos, as palavras,
+que mal percebe; aspira sofrego os aromas,
+que rescendem as flores, mas n&atilde;o os distingue;
+sabor&ecirc;a o nectar, mas querer&aacute; tambem provar o
+f&eacute;l e degustar o absintho; apalpa enlevado a pelle
+assetinada e suavissima das faces maternas, mas
+queimar-se-ha incauto na chama da v&eacute;la, que admira,
+sem a comprehender.
+<br />
+
+<br />
+
+No intimo, na cabe&ccedil;a, cujos &oacute;ssos ainda se
+n&atilde;o
+consolidaram completamente, no cora&ccedil;&atilde;o, que
+palpita
+violento, jorrando sangue para todo o corpo,
+come&ccedil;am de germinar as id&eacute;as e os affectos, cuja
+elabora&ccedil;&atilde;o de hora para hora, de dia para dia, de
+mez para mez se complica, e transmitte com incrivel
+velocidade.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o dois mundos luctando atravez do fragil envolucro,
+que cham&acirc;mos corpo; o mundo externo,
+cujos variadissimos factos contempla attonito sem
+suspeitar que os determinam infinitas leis, que os
+encadeam reciprocamente innumeras rela&ccedil;&otilde;es, e
+que sobre elle actuam incessantemente: o mundo
+interior, o mundo dos sentimentos, das ideas, dos
+<span class="pagenum">[23]</span>
+affectos, cuja admiravel genese come&ccedil;a, e que ha
+de irromper atravez dos sentidos, e reagir violento
+sobre os modificadores de f&oacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a porque &eacute; um ente material, que tende
+a completar-se, carece de muita alimenta&ccedil;&atilde;o, de
+muito sol, de muito e bom ar, de muito movimento,
+de liberdade, e de sensa&ccedil;&otilde;es variadas, mas
+suaves, que a deleitem, e que attraiam a sua
+atten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Se todas ou algumas d'estas condic&ccedil;&otilde;es lhe
+faltarem
+vel-a-heis extinguir-se subito, como a luz
+de uma v&eacute;la &aacute; mingua de oxigenio; ou estiolar-se
+e pender para o tumulo, onde n&atilde;o tardar&aacute; a
+sumir-se,
+como a planta, que germinou em solo arido
+e assombrado.
+<br />
+
+<br />
+
+Como creatura intelligente e moral, necessita que
+lhe dirijam e robuste&ccedil;am as faculdades, &aacute;
+propor&ccedil;&atilde;o
+que se forem desenvolvendo, ministrando-lhes
+objectos apropriados &aacute;s for&ccedil;as das mesmas
+faculdades,
+e em quantidade tal, que nem as cancem,
+nem as desgostem.
+<br />
+
+<br />
+
+No desprezo d'estes principios est&aacute;, a nosso ver,
+o primeiro e mais funesto erro do actual systema
+da educa&ccedil;&atilde;o infantil.
+<br />
+
+<br />
+
+Na maxima parte das escolas da puericia entram
+quotidianamente as criancinhas faltas do indispensavel
+alimento, e alli se conservam largas horas em
+casas estreitas sombrias e mal ventiladas, respirando
+ar infecto, inhibidas de fazer os movimentos,
+que a sua edade imperiosamente reclama, sem
+<span class="pagenum">[24]</span>
+horisontes extensos e ridentes, que as alegrem,
+sem nada que as encante e lhes deleite os sentidos.
+<br />
+
+<br />
+
+O mestre, sen&atilde;o carrancudo e severo, &eacute; quasi
+sempre sufficientemente serio e concentrado, para
+n&atilde;o lhes incutir a confian&ccedil;a e am&ocirc;r,
+que s&atilde;o os
+mais suaves e ao mesmo tempo os mais fortes
+la&ccedil;os, que prendem o discipulo ao perceptor.
+<br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;a a li&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o ha
+canticos, nem musicas,
+nem exercicios gymnasticos, nem historiasinhas,
+que alegrem aquelles cora&ccedil;&otilde;es e instruam aquellas
+mentes nas coisas, que com maior facilidade
+poderiam comprehender.
+<br />
+
+<br />
+
+Para os mais pequeninos, para aquelles que mais
+se lembram ainda dos beijos maternaes e das do&ccedil;uras
+da casa paterna, o triste e monotono a, b, c,
+as aridas columnas do syllabario, e a empyrica taboada.
+Para os mais crescidinhos, a grammatica,
+a historia patria, a chorographia, a doutrina christ&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Que percebem os pobres infantes de tudo aquillo,
+que involuntariamente decoram, e machinalmente
+repetem?
+<br />
+
+<br />
+
+Nada, ou quasi nada.
+<br />
+
+<br />
+
+Tomae d'entre os alumnos de uma escola o mais
+adiantado, o mais estudioso, o que mais talento
+revele, e interrogae-o. Ouvil-o-heis repetir o compendio,
+m&aacute;o ou bom, com certa facilidade e elegancia;
+mas se lhe perguntardes o sentido de uma
+palavra, a raz&atilde;o de um facto, vel-o-heis c&oacute;rar e
+emudecer, porque a elle, o estudante eximio, deixaram
+<span class="pagenum">[25]</span>
+sempre em pous&iacute;o as mais nobres faculdades
+da alma, excitando-lhe apenas, e ainda assim
+por um processo defeituoso, a faculdade auxiliar,
+a memoria.
+<br />
+
+<br />
+
+Olhar com seriedade para a educa&ccedil;&atilde;o e
+instruc&ccedil;&atilde;o
+da infancia, e reformal-a completamente, adequando-a
+&aacute;s edades dos estudantinhos, e tornando-lh'a
+facilima, deleitavel, e todo o ponto util, &eacute;
+n&atilde;o s&oacute; necessidade urgente, sen&atilde;o
+dever impreterivel.
+<br />
+
+<br />
+
+O primeiro passo para esta grande reforma&ccedil;&atilde;o,
+que o bom senso, a sciencia, a caridade, e o interesse
+de todos n&oacute;s est&atilde;o ha muito a pedir a
+grandes brados, dar-se-ha quando os governos,
+os municipios, as associa&ccedil;&otilde;es e os particulares
+se
+resolverem a edificar casas para escolas infant&iacute;s,
+e primarias, espa&ccedil;osas, alegres, agasalhadas, com
+o seu jardim, meio descoberto, meio assombrado
+com arvoredo, tendo no centro um pequeno lago
+ou tanque e aos lados alguns apparelhos e jogos
+gymnasticos; quando a frequencia da escola infantil,
+preparo para a primaria, f&ocirc;r obrigatoria; quando
+o ensino da infancia f&ocirc;r esclusivamente confiado a
+mulheres intelligentes, instruidas, honestas e amoraveis,
+que do cora&ccedil;&atilde;o se consagrem ao ministerio
+sacratissimo de educadoras, e que a todos os discipulos,
+amem e acarinhem, como se fossem todos
+elles seus filhos queridos; e quando finalmente o
+<em>Ensino intuitivo</em> se tornar
+obrigatorio e exclusivo
+nas escolas infant&iacute;s; e obrigatorio, como auxiliar
+<span class="pagenum">[26]</span>
+de qualquer outro, nas escolas primarias e secundarias.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitos annos h&atilde;o de decorrer, infelizmente, primeiro
+que se realizem estes nossos alvitres. Levantar-se-h&atilde;o
+contra elles os ramerraneiros, os
+enthusiastas do passado, os indifferentes, os que
+n&atilde;o cr&ecirc;em no aperfei&ccedil;oamento humano
+come&ccedil;ado
+a operar na escola infantil, os que s&oacute; v&ecirc;em a
+prosperidade
+publica, no exercito, nas estradas, nos
+caminhos de ferro, nos telegraphos electricos, nas
+escolas superiores, nas academias, e nos museos,
+como se tudo isto n&atilde;o estivesse a pedir, para ser
+verdadeiramente util, muita e s&oacute;lida
+instruc&ccedil;&atilde;o no
+povo, muita moralidade, e muito amor ao trabalho,
+e como se estas indispensaveis qualidades as podesse
+ter uma na&ccedil;&atilde;o, onde n&atilde;o ha escolas
+infant&iacute;s,
+onde as escolas primarias s&atilde;o pouquissimas e defeituosas,
+onde os methodos de ensino s&atilde;o ruins,
+e onde os professores, muitos d'elles dignissimos
+e habeis, s&atilde;o t&atilde;o vergonhosamente retribuidos,
+que
+para pobrissimamente viverem, t&ecirc;m de se occupar
+em misteres totalmente alheios do ensino e
+educa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitos annos, repetimos, h&atilde;o de decorrer primeiro
+que os exemplos da America, generosissima
+com a instruc&ccedil;&atilde;o primaria, sejam imitados na
+extrema
+Europa.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o quer o <em>deficit</em>,
+exclamar&atilde;o os financeiros,
+e applaudil-os-h&atilde;o todos os que mais ou menos
+manuseam o or&ccedil;amento do estado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[27]</span>
+Se a indole d'este escripto o permittisse, facil
+nos seria impugnar esta nefasta e incessante
+invoca&ccedil;&atilde;o
+da pobreza publica, e mostrar que em Portugal
+o que falta, e muito, &eacute; verdadeiro patriotismo,
+&eacute; sincera vontade de progredir, &eacute; a iniciativa
+individual nos arrojados commettimentos, caracteristicos
+dos povos, que comprehendem os seus deveres
+de membros da grande familia social e que
+os n&atilde;o posp&otilde;e aos seus interesses particulares.
+<br />
+
+<br />
+
+Colh&acirc;mos, por&eacute;m, as v&eacute;las &aacute;s
+considera&ccedil;&otilde;es, que
+todos estes assumptos nos suggeriram, e entremos
+j&aacute; a dizer o que seja o <em>Ensino
+intuitivo</em>, e as vantagens
+que d'elle resultam.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os que lidam com crian&ccedil;as ter&atilde;o percebido
+que nas primeiras idades &eacute; o homem dominado
+incessante e invencivelmente pela curiosidade,
+ou desejo de saber; que para saciar esta
+inclina&ccedil;&atilde;o
+empregam os infantes n&atilde;o s&oacute; os olhos, mas os
+outros sentidos; que ao verem um objecto, m&oacute;rmente
+se lhes agrada, ficam diante d'elle como que
+absortos, com os olhos mui abertos, &aacute;s vezes quasi
+sem pestanejar; que se lh'o consentem, tomam nas
+m&atilde;osinhas o que primeiro estiveram vendo, e o
+apalpam, a principio com timidez, depois com afoiteza;
+que o levam ao nariz, e &aacute; bocca, e que por
+fim come&ccedil;am de separar as partes de que se
+comp&otilde;e,
+se n&atilde;o &eacute; inteiri&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Apoz tal exame, e &aacute;s vezes simultaneamente,
+chovem as perguntas:
+<br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; isto?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+Quem fez?
+<br />
+
+<br />
+
+De que &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+Para que serve?
+<br />
+
+<br />
+
+Quem trouxe?
+<br />
+
+<br />
+
+Ter&atilde;o tambem observado os educadores, que n'estes
+exercicios instinctivos, as criancinhas, em geral,
+n&atilde;o comparam, nem por consequencia raciocinam.
+Fazem como as abelhas, que andam de planta em
+planta, de fl&ocirc;r em fl&ocirc;r, colligindo os materiaes
+com
+que mais tarde h&atilde;o de fabricar o seu mel. Com a
+differen&ccedil;a
+que as abelhas nasceram aptas para aquella
+industria e nunca em vez de mel nos d&atilde;o outro produto;
+e as criancinhas, artistas nov&eacute;is, mas livres
+e dotadas de intelligencia perfectivel, podem pela
+maneira imperfeita porque as suas faculdades intellectuaes
+e moraes se come&ccedil;arem a desenvolver,
+e continuarem a exercer-se, viciar de tal arte o espirito,
+que de futuro ou nada possam conhecer
+bem, ou s&oacute; com extrema difficuldade e grande dispendio
+de tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em aproveitar as naturaes tendencias da infancia
+e juventude, em amenisar-lhe o come&ccedil;o da extensa
+e espinhosa senda, que tem de percorrer na
+vida, em desenvolver-lhes e aperfei&ccedil;oar-lhes gradual
+e insensivelmente as faculdades; em enriquecer-lhes
+de copiosos e variadissimos conhecimentos o espirito;
+em formar-lhes o cora&ccedil;&atilde;o, desenvolvendo n'elle
+astuciosamente o gosto do bom, do bello e do verdadeiro;
+em habilital-as o mais cedo possivel, sem
+a minima violencia, para a vida pratica, deixando
+<span class="pagenum">[29]</span>
+para tempo opportuno theorias e systemas, para
+comprehender os quaes &eacute; mister intelligencia robusta,
+&eacute; em que consiste o <em>Ensino
+intuitivo</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; este ensino primeiro que tudo dos sentidos
+externos, os quaes &aacute; maneira que se v&atilde;o exercendo
+sobre os objectos, para lan&ccedil;arem no espirito os germes
+de quantas sciencias e artes ha, se aperfei&ccedil;oam
+insensivelmente, adquirindo cada dia mais
+vigor e aptid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pois indispensavel que os educadores procurem
+especialmente que as criancinhas empreguem
+os sentidos, ora simultanea, ora successivamente,
+nas cousas que tenham de estudar, que as vejam
+de perto, que as tomem nas m&atilde;os, que as cheirem,
+que as provem, quando n&atilde;o houver inconveniente,
+que as dividam e recomponham, sem que
+se lembrem de que est&atilde;o a estudar.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo servir&aacute; para estes exercicios intuitivos, se
+o educador tiver instruc&ccedil;&atilde;o variada e profunda.
+Tudo servir&aacute;, por que, como disse Jacotot:
+<em>Tudo
+est&aacute; em tudo</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Um gr&atilde;o de areia, um alfinete, uma agulha,
+um bot&atilde;o, um palito, uma moeda de prata ou
+cobre, a folha de uma arvore, um bago de uva,
+ser&atilde;o compendios t&atilde;o importantes como um cavallo,
+uma ave, um peixe, um relogio, uma caixa
+de musica, ou uma machina de cozer.
+<br />
+
+<br />
+
+Milhares de cousas baratissimas se poder&atilde;o apresentar
+aos estudantinhos para larguissimamente os
+instruir; muitissimas haver&aacute; em todas as casas,
+<span class="pagenum">[30]</span>
+taes como cadeiras, mezas, pennas, papeis de differentes
+qualidades, fl&ocirc;res, fructos, relogios, thesouras,
+campainhas, etc. De um sem numero de
+objectos se poder&atilde;o obter modelos em ponto pequeno
+ou de madeira ou de papel&atilde;o, ou de qualquer
+outra substancia apropriada. Na falta absoluta
+de exemplares naturaes, que s&atilde;o os melhores,
+ou de copias em vulto, que servem perfeitamente,
+sendo bem feitas, empregar-se-h&atilde;o com
+muita vantagem estampas coloridas ou em negro.
+O que deve ser banido das escolas infant&iacute;s &eacute; o
+syllabario, a taboada, o cathecismo, a grammatica,
+o compendio de chorographia e o de civilidade.
+Da exposi&ccedil;&atilde;o, exame e
+compara&ccedil;&atilde;o das coisas ou
+das estampas, segundo o processo que j&aacute; vamos
+indicar, &eacute; que as crian&ccedil;as h&atilde;o de ir
+colhendo as
+id&eacute;as exactas e claras, que depois saber&atilde;o
+associar
+&aacute;s mil maravilhas, formando espontaneamente optimos
+juizos e raciocinios.
+<br />
+
+<br />
+
+Tratando das viagens de Homero e do estudo
+pratico das pessoas e cousas, que habilitou o immortal
+filho de Climene a comp&ocirc;r os protentos litterarios
+denominados <em>Iliada</em> e
+<em>Odyss&eacute;a</em>, diz
+Bitaub&eacute;
+o seguinte, que &eacute; a express&atilde;o da verdade:
+&laquo;Os livros
+s&atilde;o uteis, mas favorecem certa indolencia, que
+obsta a que o leitor observe por si mesmo; lendo,
+vemos a maior parte das cousas pelos olhos dos outros,
+e represent&acirc;mos ao nosso espirito imagens de
+outras imagens; se observassemos directamente os
+objectos graval-os-hiamos mais profunda e claramente
+<span class="pagenum"><a name="p31" id="p31">[31]</a></span>
+no espirito. Qual &eacute; o resultado da falta de
+observa&ccedil;&atilde;o directa? &Eacute; perdermos a
+perspicacia e
+sagacidade indispensaveis para observar com
+perfei&ccedil;&atilde;o
+&aacute; for&ccedil;a de n&atilde;o as exercitarmos e de
+n&atilde;o contemplarmos
+a natureza, excellente mestra, que j&aacute;mais
+se deve despresar. Adquirem-se &eacute; verdade,
+mais id&eacute;as, mas imperfeitas e superficiaes, de que
+resultam quadros frios e incompletos.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os pedagogistas, que se teem occupado
+d'este systema de ensino, encarecem o proveito
+que se tira da substitui&ccedil;&atilde;o dos livros de texto,
+que
+os meninos decoram sem os entender, pelas estampas,
+que muito os deleitam e que examinam attentos,
+colhendo das palavras do educador, a proposito
+de cada uma, infinitos conhecimentos, que
+j&aacute;mais esquecer&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; mister, por&eacute;m, que as estampas sejam mui
+perfeitas, para que n&atilde;o viciem nas crian&ccedil;as o
+gosto
+do bello e da verdade, e que sejam graduaes, como
+tudo deve ser na educa&ccedil;&atilde;o. A regra fundamental
+do ensino intuitivo, a qual nunca deve esquecer &eacute;:
+<em>Caminhar do conhecido para o desconhecido, do
+facil para o difficil, do commum e trivial para o
+menos commum ou mais raro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Para realisar este preceito maximo, cujo despreso
+annularia o systema, convir&aacute; que os educadores
+n&atilde;o entretenham seus discipulos com objectos
+tomados ao acaso, mas que sigam um processo
+gradual, lento e invariavel, nunca lhes chamando
+a atten&ccedil;&atilde;o para cousas, <a href="#e3">cujos
+componentes</a>
+<span class="pagenum">[32]</span>
+elles ainda n&atilde;o conhe&ccedil;am, nem lhes fazendo
+perguntas
+para responder &aacute;s quaes n&atilde;o estejam habilitados.
+D&ecirc;mos alguns exemplos. Se praticarmos
+com mocinhos a respeito de uma caixa de
+pinho, que estejam vendo, poderemos convenientemente
+perguntar-lhes o feitio que tem, as partes
+de que se comp&otilde;e, para que serve a tampa,
+para que est&atilde;o ali as argolas e a fechadura; poderemos
+interrogal-os &aacute;cerca dos usos da caixa, fallar-lhes
+do perigo de entalar os dedos quando a
+fecharmos, ou de nos ferimos se a tampa cair sobre
+as nossas m&atilde;os ou cabe&ccedil;a; poderemos ainda indagar
+se sabem o nome que se d&aacute; aos artistas, que
+trabalham em madeira; mas n&atilde;o lhe fallaremos do
+pinho, sem que elles tenham visto um pinheiro natural
+ou pintado, e a respeito d'esta arvore tenham
+adquirido os convenientes conhecimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Se conversarmos &aacute;cerca de uma moeda de prata,
+bom ser&aacute; perguntar-lhes como se chama aquelle
+dinheiro, de que &eacute; feito, que feitio tem, por que
+n&atilde;o &eacute; quadrado, nem triangular (aqui
+far&aacute; o professor
+com o giz no quadro preto a figura do triangulo
+e do quadrado), o que tem n'uma e outra
+face, que representa a effigie e as armas, para que
+serve o dinheiro, etc., etc.; mas abster-nos-hemos
+de lhes dizer que a prata da moeda &eacute; uma liga de
+prata e cobre, se por acaso ainda n&atilde;o souberem o
+que &eacute; uma liga metallica, nem conhecerem o cobre.
+<br />
+
+<br />
+
+Conv&eacute;m estar prevenido para um caso, que muitas
+vezes se deve realisar na pratica d'este ensino.
+<span class="pagenum">[33]</span>
+A natural prespicacia de alguns meninos e os conhecimentos
+adquiridos na convivencia de seus
+paes e amigos ou na leitura, se forem j&aacute; ledores,
+habilital-os-h&atilde;o a fazerem perguntas, a que o educador
+n&atilde;o poder&aacute; ou n&atilde;o saber&aacute;
+responder. Quando
+isto aconte&ccedil;a, nem se enfade ou envergonhe o educador,
+nem illuda a curiosidade infantil, que de
+tanto serve n'este systema. Se a pergunta versar
+sobre assumpto, que o mestre ignore completamente
+ou conhe&ccedil;a pouco, isso mesmo declare ao estudante
+com toda a franqueza; se f&ocirc;r attinente a cousas, para
+conhecer as quaes o mocinho n&atilde;o esteja preparado,
+ou que toquem em pontos, que a decencia n&atilde;o
+permitta explanar, diga-lhe sem desabrimento, que
+n&atilde;o &eacute; tempo ainda de saber o que pergunta.
+<br />
+
+<br />
+
+E para que nem o credito scientifico do educador
+soffra detrimento, nem os meninos se desgostem
+e abstenham de perguntar, bom ser&aacute; que o
+educador a miudo lhes mostre em phrase accommodada
+&aacute;s suas intelligencias, e por meio de exemplos,
+qu&atilde;o numerosos s&atilde;o os conhecimentos humanos,
+que &eacute; impossivel que todos saibam tudo,
+e que, para adquirir sciencia de bons quilates, &eacute;
+indispensavel ir a pouco e pouco, e n&atilde;o investigar
+certas cousas, antes de ter adquirido no&ccedil;&otilde;es
+exactas
+de outras.
+<br />
+
+<br />
+
+Para que o ensino intuitivo produsa todos os
+bons resultados que d'elle se podem esperar, n&atilde;o
+basta progredir do conhecido para o desconhecido,
+do simples para o composto; &eacute; indispensavel que
+<span class="pagenum">[34]</span>
+os alumnos n&atilde;o conhe&ccedil;am o plano adoptado pelo
+professor, e que n&atilde;o percebam que o que elle lhes
+vae ensinando tende a um determinado fim e se
+ajusta para os iniciar nas sciencias, cujas leis e
+applica&ccedil;&otilde;es
+mais importantes s&oacute; mais tarde ter&atilde;o de
+estudar. Para a realisa&ccedil;&atilde;o d'este importante
+segredo
+do ensino intuitivo, iremos n&oacute;s offerecendo aos educadores
+em publica&ccedil;&otilde;es successivas, se esta nossa
+tentativa merecer o favor publico, as li&ccedil;&otilde;es
+graduaes,
+que dever&atilde;o constituir um curso completo.
+<br />
+
+<br />
+
+Recommendam os mestres d'esta especialidade,
+no intuito de n&atilde;o enfadar os estudantes e de os conservar
+attentos, que cada li&ccedil;&atilde;o n&atilde;o exceda
+quinze
+ou vinte minutos. Diremos, por&eacute;m, que a pratica
+nos tem mostrado poder &aacute;s vezes a
+li&ccedil;&atilde;o prolongar-se
+at&eacute; duas horas e mais, sem que os estudantes
+se enfastiem nem deixem de attender ao
+que se lhes mostra e explica. Consegue-se este resultado
+amenisando a pratica com historietas, de
+que os meninos muito gostam, com exemplos, que
+elles bem comprehendam, com a cita&ccedil;&atilde;o de
+proverbios,
+anexins, e anecdotas consoantes ao assumpto
+de que se trata, e mais que tudo com
+o dialogo mui cortado entre elles e o professor.
+<br />
+
+<br />
+
+Haja sempre n'estas li&ccedil;&otilde;es a maxima variedade
+apparente, tanto no objecto do estudo como na
+f&oacute;rma, no dizer, nas conclus&otilde;es e at&eacute;
+na colloca&ccedil;&atilde;o
+dos objectos e dos estudantes. A monotonia, a ordem,
+al&eacute;m de certos limites, entristece a escola e
+can&ccedil;a os escolares. A par do ensino das cousas
+andar&aacute;
+<span class="pagenum">[35]</span>
+sempre o ensino da moral, da hygiene, da
+economia domestica, da religi&atilde;o, da
+organisa&ccedil;&atilde;o
+social, da historia, da geographia, das bellas artes,
+de tudo; com preferencia do mais util; mas
+sem estudos de c&oacute;r, sem declama&ccedil;&otilde;es,
+nem theorias
+transcendentes, nem listas de nomes de pessoas,
+nem datas escusadas; tudo ao de leve, saboroso,
+convidativo, e nem assim em grandes dozes,
+nem todos os dias.
+<br />
+
+<br />
+
+Permitta-se-nos que ponhamos aqui dois exemplos
+de como se dever&aacute; proceder n'estes pontos,
+e n&atilde;o os tenham na conta de ridiculos, que nada
+&eacute; ridiculo, quando se trata de espedregar a estrada,
+que ha de precorrer a puericia.
+<br />
+
+<br />
+
+Estamos na escola, estudando um objecto qualquer.
+Ouve-se ganir um c&atilde;o na rua. Logo o professor
+interrompe o estudo, e pergunta a um dos
+escolares, se algum vir distraido, a esse se dirigir&aacute;:
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que &eacute; aquillo, alli, na rua?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; um c&atilde;o a ganir,
+responder&aacute; o
+estudante;
+e o dialogo proseguir&aacute;, pouco mais ou menos, do
+seguinte modo:
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;O c&atilde;o est&aacute; ganindo ou ladrando?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Est&aacute; a ganir.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quantas qualidades de sons ou vozes produzem
+os c&atilde;es com a bocca?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o percebo a pergunta.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Eu me explico. Os c&atilde;es n&atilde;o
+est&atilde;o
+sempre
+calados...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+E.&mdash;J&aacute; percebo o que o senhor professor pergunta.
+Os c&atilde;es <em>ladram</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E quando est&atilde;o tristes, ou quando ouvem
+certos sons, que lhes n&atilde;o agradam, ladram?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor, <em>uivam</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E quando est&atilde;o a roer um &ocirc;sso, e
+outro
+c&atilde;o ou qualquer pessoa lh'o quer tirar, o que fazem?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Rosnam</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E se lhes batem, ou os apedrejam?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;P&otilde;em-se a <em>ganir</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Mui bem; os c&atilde;es, pois, podem
+<em>ladrar</em>, ou
+<em>latir</em>,
+<em>rosnar</em>,
+<em>uivar</em>, e
+<em>ganir</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui, se os meninos tiverem j&aacute; conhecimentos
+de grammatica, dir&aacute; o professor como de si para
+comsigo, mas em voz alta: aqui temos cinco verbos,
+e repetir&aacute;, contando pelos dedos ou batendo
+com o lapis na mesa: o verbo <em>ladrar</em>,
+o verbo <em>latir</em>,
+o verbo <em>rosnar</em>, o verbo
+<em>uivar</em> e o verbo
+<em>ganir</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E continuar&aacute;, como quem se est&aacute; recordando do
+que aprendeu: palavras que representam ac&ccedil;&otilde;es
+praticadas ou feitas pelo c&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E logo, como quem se desviou do caminho direito
+e a elle volve, dir&aacute; ao alumno:
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Tenho ouvido dizer a algumas pessoas, que
+o <em>uivo</em> dos c&atilde;es
+&eacute; de mau agouro, isto &eacute;, que um
+c&atilde;o a uivar annuncia desgra&ccedil;a. Ser&aacute;
+verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A minha av&oacute; diz que sim, que &eacute;
+signal de
+estar alguem para morrer.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Essa resposta esperava eu.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+Pois fiquem os meninos sabendo, que n&atilde;o ha
+agouros, e que <em>uivar</em> um
+c&atilde;o, ou <em>cantar</em> um
+canario,
+ou <em>relinchar</em> um cavallo, ou
+<em>piar</em> um mocho,
+ou <em>cacarejar</em> uma gallinha, ou
+<em>miar</em> um gato n&atilde;o
+tem influencia nenhuma nos acontecimentos humanos.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Aacute; minha casa vae uma velhinha, que, em
+ouvindo uivar um c&atilde;o, descal&ccedil;a o sapato e
+p&otilde;e-n'o
+com a sola para cima, at&eacute; o animal se calar.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se os c&atilde;es uivarem muito em roda d'ella
+no inverno, andar&aacute; sempre com os p&eacute;s frios.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ent&atilde;o a minha av&oacute; mente?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Mente, sem querer. Metteram-lhe uma peta
+na cabe&ccedil;a, e ella acredita uma cousa, que n&atilde;o
+&eacute; verdadeira.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ora diga-me, senhor professor, se uma pessoa
+estiver para morrer e um c&atilde;o se puzer a
+<em>uivar</em>
+na rua ou na escada?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;O doente morrer&aacute;, se Deus quizer que
+morra; e viver&aacute;, se f&ocirc;r da vontade divina, que
+continue a viver.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Mas como se explica o que aconteceu o
+anno passado a um visinho de meu pap&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Conte-me l&aacute; essa historia tentim por tentim.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Adoeceu um homem, que morava no primeiro
+andar do predio, em que eu habito; veiu o
+medico, esteve a examinal-o, receitou, disse que a
+doen&ccedil;a n&atilde;o era de perigo, e sa&iuml;u.
+Minutos depois
+metteu-se na escada um c&atilde;o e principiou a uivar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+A mulher do doente foi-se a elle, bateu-lhe com
+o cabo da vassoura e pol-o na rua. Quando entrou
+em casa, estava o marido morto em cima da cama.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabe o menino o que isso foi?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Eu n&atilde;o senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Pois tem pouco que saber. Foi o que se
+chama <em>uma coincidencia</em>. Se
+&aacute; sa&iuml;da do medico, entrasse
+pela casa dentro um passarinho, dir-se-ia,
+que a avesinha viera annunciar aquella desgra&ccedil;a;
+se eu por acaso batesse &aacute; porta do doente n'aquelle
+instante, era eu o agoureiro.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Mas o medico tinha dito, que a doen&ccedil;a
+n&atilde;o
+era de perigo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E a morte repentina pressente-se horas, ou
+minutos antes? E n&atilde;o podem os proprios medicos
+morrer de repente, sem que suspeitassem o que
+lhes ia acontecer?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Mas o c&atilde;o uivou!
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Diga-me ca o menino uma cousa. Em casa
+d'esse homem, que falleceu, n&atilde;o tem estado mais
+ninguem doente?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Estiveram doentes dois filhos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E a m&atilde;e mandou chamar medico para os
+tratar?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Mandou, sim, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E n&atilde;o mandou chamar um c&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ora essa! Os c&atilde;es n&atilde;o sabem curar
+doen&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Mas o c&atilde;o, que uivou, quando o homem
+morreu, era mais entendido que o medico, porque
+<span class="pagenum">[39]</span>
+annunciou a morte, at&eacute; sem v&ecirc;r o doente.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;O senhor professor est&aacute; brincando! Os
+c&atilde;es
+s&atilde;o brutos, n&atilde;o sabem d'aquellas cousas.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Ent&atilde;o como &eacute; isso? N&atilde;o
+sabem
+d'aquellas
+cousas, s&atilde;o brutos, e prophetisam?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Tem raz&atilde;o, senhor professor. Agora vejo
+que a minha av&oacute;sinha anda enganada.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E muito, e faz mal em dizer taes patranhas.
+O uivo dos c&atilde;es &eacute; desagradavel aos ouvidos,
+aborrecivel por isso, mas n&atilde;o tem a minima
+significa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui poder&aacute; o educador dar fim ao incidente,
+ou continuar o dialogo, fallando do mau costume
+de molestar os animaes, das qualidades do c&atilde;o,
+da raiva e dos meios de a prevenir e curar, etc,
+etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao terminar a li&ccedil;&atilde;o poder&aacute; o educador
+convidar
+ou os meninos a imitarem o relincho do cavallo, o
+carejo das gallinhas, o miar dos gatos, o latido dos
+c&atilde;es, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Este exercicio que a algum fatuo parecer&aacute; ridiculo,
+ou desnecessario, ou ambas as cousas, tem
+as seguintes vantagens: alegra e distrae as crean&ccedil;as,
+que j&aacute;mais fugir&atilde;o do estudo, quando elle
+f&ocirc;r
+recreativo, desenvolve-lhes, e aperfei&ccedil;&ocirc;a-lhes a
+natural
+tendencia para imitarem, exercita-lhes e robustece-lhes
+os org&atilde;os vocaes, e por cima de tudo
+n&atilde;o faz mal nem &aacute; alma nem ao corpo.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem reparar bem no dialogo que deix&acirc;mos architectado,
+descobrir&aacute; quanto ensinamento ha n'elle,
+<span class="pagenum">[40]</span>
+e perceber&aacute; que se pretendeu principalmente combater
+uma cren&ccedil;a erronea, mas vulgarissima.
+<br />
+
+<br />
+
+D&ecirc;mos o segundo exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; sobre a mesa ou em cima de outro movel
+um ramalhete de flores, que alli se puz&eacute;ra mui
+calculadamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegada a occasi&atilde;o opportuna, o professor interrompe
+a li&ccedil;&atilde;o e diz:
+<br />
+
+<br />
+
+Meus meninos, descancemos um pouco. Aqui se
+faz uma pausa, e todos os rapazinhos exultam e
+saltam dos seus logares.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;J&aacute; viram bem aquelle ramalhete?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ainda n&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Pois v&atilde;o buscal-o, para o examinarmos por
+mi&uacute;do.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Eil-o aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;De que flores se comp&otilde;e?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;De rosas, cravos, camelias, junquilhos, violetas
+e cedro.
+<br />
+
+<br />
+
+Se os meninos errarem o nome das flores, ou
+os n&atilde;o souberem, ir&aacute; o professor emendando e
+dizendo
+lhes como se chamam.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Menino F... (ao que mais atrazado estiver
+em contar) conte pelos dedos quantas qualidades
+de fl&ocirc;res ha n'este ramalhete.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Rosas, <em>uma</em>; cravos,
+<em>duas</em>; camelias,
+<em>tres</em>;
+junquilhos, <em>quatro</em>; violetas,
+<em>cinco</em>; cedro,
+<em>seis</em>...
+Ha seis qualidades de fl&ocirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Parece-me que se enganou. Veja bem.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;S&atilde;o seis, n&atilde;o me enganei.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[41]</span>
+P.&mdash;E se eu lhe disser que se enganou? E enganou-se,
+porque n&atilde;o attendeu bem. Diga-me, o
+cedro &eacute; fl&ocirc;r?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Tem raz&atilde;o; s&atilde;o cinco. O cedro
+n&atilde;o
+&eacute; fl&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Est&aacute;-me parecendo, que nenhum dos meninos
+me sabe dizer para que serve este cedro &aacute;
+roda das fl&ocirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Eu n&atilde;o sei; eu tambem n&atilde;o;
+&eacute;, &eacute;....
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Eu lhes digo para que elle aqui est&aacute;.
+&Eacute;
+para real&ccedil;ar a belleza das fl&ocirc;res, para fazer um
+contraste agradavel &aacute; vista. Se duvidam desatem
+o junco, tirem o cedro, e ver&atilde;o que o ramalhete
+perde muito da sua formosura. (Acto continuo, o
+educador faz o que aconselhou e mostra o ramo
+desguarnecido de verdura).
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;&Eacute; ou n&atilde;o &eacute; verdade, o que
+lhes
+affirmei?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Ha entre estas fl&ocirc;res, umas que cheiram, e
+outras que n&atilde;o cheiram.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;As rosas, cheiram; os junquilhos, cheiram;
+as violetas, tambem; as camelias &eacute; que n&atilde;o tem
+cheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o me lembro se j&aacute; lhes disse como
+se
+denominam as substancias, que tem cheiro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Denominam-se <em>odoriferas</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E as que n&atilde;o teem cheiro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Inodoras</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E todas as substancias, que tem cheiro,
+cheiram bem?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[42]</span>
+P.&mdash;E todas as fl&ocirc;res cheirosas, possuem cheiro
+agradavel?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Nem todas.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Digam-me agora outra cousa. O cheiro das
+fl&ocirc;res &eacute; bom ou mau, para a saude?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sabemos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Pois v&atilde;o saber uma verdade, que
+j&aacute;mais
+devem esquecer. Attendam. Ha pessoas a quem o
+ar&ocirc;ma das fl&ocirc;res incommoda e faz adoecer;
+causa-lhes
+d&ocirc;res de cabe&ccedil;a, enj&ocirc;os de estomago,
+tonturas,
+e outros padecimentos. Muitas fl&ocirc;res, e &aacute;s vezes
+poucas, mas de cheiro forte, n'uma casa mal
+ventilada, podem envenenar quem alli estiver. Dormir
+com fl&ocirc;res na alc&ocirc;va &eacute; muito perigoso, e
+sabe
+Deus quantas molestias este mau costume ter&aacute;
+originado. Por agora basta que saibam isto, para
+se acautelarem; em outra occasi&atilde;o lhes explicarei
+como &eacute; que as plantas e fl&ocirc;res alteram a pureza
+do ar e o tornam doentio.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por este theor que nos animos infantis se podem
+inocular conhecimentos praticos de quantas
+sciencias ha, de modo que as crian&ccedil;as, ao sairem
+das escolas, levem copia immensa de no&ccedil;&otilde;es
+utilissimas
+para todas as circumstancias da vida.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+De grande proveito nos parece que os meninos
+mais desembara&ccedil;ados na escripta tenham um caderno
+onde todos os dias v&atilde;o escrevendo mui laconicamente
+o assumpto da li&ccedil;&atilde;o, e o que da mesma
+lhes pare&ccedil;a mais digno de se conservar na memoria.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+Evite-se, por&eacute;m, que n'estes summarios, ou indices
+menemonicos, se empreguem palavras escusadas
+e se commettam erros de grammatica.
+<br />
+
+<br />
+
+De principio convir&aacute; que o educador, ao findar
+a li&ccedil;&atilde;o, ensine aos meninos como o registro deve
+ser feito; depois ordenar-lhes-ha que o redijam em
+suas casas, e que lh'o apresentem no dia seguinte,
+para ser emendado.
+<br />
+
+<br />
+
+E como a extrema concis&atilde;o seja a melhor qualidade
+de taes escriptos, aqui p&ocirc;mos um paradigma,
+para governo de educadores e educandos.
+<br />
+
+<br />
+
+Referimo-nos ao primeiro dialogo, que atraz fica
+exarado.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Registro</h4>
+
+<br />
+
+<em>Assumpto.</em>&mdash;Um c&atilde;o a
+ganir.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Sons, que os c&atilde;es produzem com a
+bocca</em>: Latido,
+uivo, rosnadura, ganido. S&atilde;o substantivos. Ladrar,
+ou latir, uivar, rosnar, ganir.&mdash;S&atilde;o verbos.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Agouros.</em>&mdash;N&atilde;o os ha.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Vozes de differentes
+animaes.</em>&mdash;C&atilde;o,
+<em>ladra</em>; canario,
+<em>canta</em>; cavallo,
+<em>relincha</em>; mocho,
+<em>pia</em>; gallinha,
+<em>cacareja</em>; gato,
+<em>mia</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>uivo dos c&atilde;es</em>
+n&atilde;o indica, nem p&oacute;de indicar
+a morte de ninguem, nem desgra&ccedil;a nenhuma. Se
+um c&atilde;o uiva, pouco antes de morrer alguem, este
+facto &eacute; apenas uma co&iacute;ncidencia, um accaso.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O professor exigir&aacute; que os meninos, nas respostas
+<span class="pagenum">[44]</span>
+que lhe derem, empreguem sempre phrases
+completas, conformes &aacute;s leis grammaticaes,
+simples e curtas quanto f&ocirc;r possivel.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Reputa-se de grande utilidade n'este ensino a
+repeti&ccedil;&atilde;o individual e simultanea.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um processo excellente, para conseguir que
+mais fundas se gravem certas especies no espirito
+dos alumnos, e para corrigir defeitos de express&atilde;o
+e pronuncia. No repetir em c&ocirc;ro se deleitam as
+crian&ccedil;as muito, mormente se o tom das vozes n&atilde;o
+&eacute; tristonho, mas alegre, musical, variadissimo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao minimo erro de regencia, de concordancia,
+ou de pronuncia, acudir&aacute; logo o professor com a
+indispensavel advertencia, e tanto mais clara e fervorosa,
+quanto mais grave f&ocirc;r o erro. Suppunh&acirc;mos
+que um menino diga <em>somentes</em> em vez
+de somente,
+<em>faz-le</em> por faz-lhe,
+<em>traz</em> por traze,
+<em>Madanela</em>
+por Magdalena, ou qualquer outra das infinitas
+corruptelas, que deslustram a nossa lingua, e que
+a cada momento se nos deparam at&eacute; na
+conversa&ccedil;&atilde;o
+e escriptos dos doutos, e em documentos officiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Acto continuo advertil-o-ha o professor de que
+tal palavra n&atilde;o foi bem pronunciada, e o
+convidar&aacute;
+a que a repita correctamente. Se o estudante n&atilde;o
+atinar a emendal-a, repita-lh'a o professor cuidadosamente
+partida em syllabas, acompanhando
+cada uma d'estas com uma pancada sobre a mesa
+<span class="pagenum"><a name="p45" id="p45">[45]</a></span>
+com o ponteiro ou com a m&atilde;o. Ouvida que seja a
+palavra assim pronunciada, repetil-a-ha o estudante
+tantas vezes, quantas seja necessario, para
+que a n&atilde;o altere, e ap&oacute;s este exercicio dil-a-ha
+t&atilde;o
+rapidamente como &eacute; de uso dizer-se. Se ao professor
+parecer conveniente, ordenar&aacute; que outros
+estudantes fa&ccedil;am o mesmo exercicio individualmente,
+e por fim mandar&aacute; que a palavra ou phrase
+seja cantada pela classe inteira, attendendo muito
+a que o erro, que se pretendeu emendar, se n&atilde;o
+repita. O que fica dito &aacute;c&ecirc;rca das palavras em
+especial
+applica-se em cheio &aacute;s phrases compostas
+de muitas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A falta de ordem e clareza no dizer &eacute; defeito
+grave, mas communissimo, que tem raizes na escola
+primaria, e que por isso mesmo ou nunca se
+perde ou s&oacute; com muito trabalho se consegue extirpar.
+A fim de prevenil-o e de combatel-o comece
+o educador dando exemplo de imperturbavel ordem
+na exposi&ccedil;&atilde;o, de esmerada escolha dos termos, de
+grande sobriedade nos incidentes, e de irreprehensivel
+rigor nas conclus&otilde;es; tudo isto sem apparato,
+nem maneiras artificiosas, que revelem os intentos;
+e esmere-se em inspirar aos que o ouvirem o
+gosto de bem fallar, cortando todas as
+imperfei&ccedil;&otilde;es
+mal apontem nos <a href="#e4">labios</a>
+infant&iacute;s. Cabe n'este
+logar uma recommenda&ccedil;&atilde;o, nunca ass&aacute;s
+repetida.
+Nas ruas, nas aulas, nos theatros, nas
+conversa&ccedil;&otilde;es
+familiares, e, quando Deus &eacute; servido, at&eacute; no
+<span class="pagenum">[46]</span>
+parlamento, e na imprensa proferem-se a miudo
+palavras e phrases, que, com quanto n&atilde;o sejam
+deshonestas, s&atilde;o t&atilde;o grosseiras e plebeas, que
+nenhuma
+pessoa delicada as deveria empregar. Quasi
+sempre se ignora a origem d'aquelles termos,
+muitos d'elles, diga-se a verdade, sobremodo expressivos
+e por vezes engra&ccedil;ados, mas que nem
+por isso deixam de ser baixos e vis. Em evital-os
+seja fervorosissimo todo o educador, sem comtudo
+levar o zelo at&eacute; ao ponto de banir da
+conversa&ccedil;&atilde;o
+escolar as locu&ccedil;&otilde;es pittorescas e
+folgaz&atilde;s, que alegram
+a linguagem, sem mareal-a.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Assim como as leituras e recita&ccedil;&otilde;es soturnas,
+pesadas, substanciosas, e extensas, aborrecem &aacute;s
+crian&ccedil;as e n&atilde;o lhes prendem a
+atten&ccedil;&atilde;o, assim a
+poesia ligeira, as historias singelas, as fabulas e
+apologos, as anecdotas e proloquios lhes aprazem
+sobremodo e de tal arte se lhes apegam &aacute; memoria,
+que n&atilde;o mais as esquecem.
+<br />
+
+<br />
+
+Verdade &eacute; que Voltaire argu&iuml;u os fabulistas de
+quererem ensinar as verdades moraes por um processo
+essencialmente mentiroso, pondo a fallar animaes
+e plantas; e condemnou a leitura e recita&ccedil;&atilde;o
+de taes composi&ccedil;&otilde;es nas primeiras edades. Tem
+porem mostrado a experiencia que Esopo, Phedro,
+La Fontaine e Lessing, com os seus artificios poeticos
+moralisam mais, e muito mais que a
+<em>Introduc&ccedil;&atilde;o
+&aacute; vida devota</em>, que o <em>Flos
+Sanctorum</em>, e
+que o <em>Thesouro de meninos</em>, e quantos
+outros escriptos,
+<span class="pagenum">[47]</span>
+ainda que sejam verdadeiros na essencia e
+correctos na f&oacute;rma, se h&atilde;o publicado para
+edifica&ccedil;&atilde;o
+das almas, mormente em quanto n'estas se n&atilde;o ha
+robustecido a faculdade de raciocinar. Aproveitem-se
+pois d'este meio os educadores, lendo de vez em
+quando &aacute; escola uma fabula, que tenha
+rela&ccedil;&atilde;o com
+os objectos, que se estudam, e fazendo-a decorar;
+contando a proposito uma anecdota, ou repetindo
+algum dos muitos e verdadeirissimos rif&otilde;es, de que
+t&atilde;o rica &eacute; a lingua portugueza. Dos bons poetas
+nacionaes, tanto modernos como antigos, poder&aacute; o
+educador escolher infinita copia de versos em todos
+os generos, com os quaes ir&aacute; perfumando as
+li&ccedil;&otilde;es e desenvolvendo na puericia o gosto da
+poesia,
+que alarga a imagina&ccedil;&atilde;o, modifica e reprime
+as ruins paix&otilde;es, consola o espirito, e o dulcifica
+e embalsama. Fuja, porem, como de peste, de versos
+m&aacute;os ou mediocres, n&atilde;o esquecendo jamais que
+<em>a poesia</em> &eacute;, no dizer de
+um dos mais elegantes e
+profundos escriptores de Portugal, o sr. Latino
+Coelho, <em>a grandeza e o nada; o mundo e o atomo;
+a gloria e a humilia&ccedil;&atilde;o; o triumpho e o martyrio;
+o genio e a loucura</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+No ensino intuitivo, a faculdade que mais cuidadosamente
+se deve dirigir, desenvolver, e approximar
+da perfei&ccedil;&atilde;o &eacute; a faculdade de
+comparar, cujos
+defeitos inutilisam os esfor&ccedil;os das faculdades,
+que a antecedem, e obstam a que as superiores se
+exer&ccedil;am como &eacute; mister. S&atilde;o
+innumeraveis e quasi
+sempre facillimos os processos de compara&ccedil;&atilde;o de
+<span class="pagenum">[48]</span>
+que o educador poder&aacute; fazer uso, desde a
+confronta&ccedil;&atilde;o
+de dois feij&otilde;es, ou de dois alfinetes, etc., at&eacute;
+ao
+estudo comparativo de duas poesias, de duas obras
+de arte, do caracter de dois homens notaveis, de
+duas epocas historicas. N&atilde;o ha palavras para encarecer
+os resultados, que os estudos d'esta ordem
+produzem e a influencia que exercem no desenvolvimento
+intellectual e moral das crian&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A par com o estudo das cousas, podem e devem
+marchar os exercicios attinentes ao aperfei&ccedil;oamento
+dos sentidos externos, e os preceitos consoantes &aacute;
+sua hygiene. Todos ter&atilde;o observado que o exercicio
+de certos org&atilde;os concorre por muito para que
+os mesmos se apurem e tornem cada vez mais delicados.
+Os homens do mar, acostumados a olhar
+muito ao longe, e a buscarem a grandes distancias
+um objecto perceptivel, excedem sempre em perspicacia
+os que teem vivido encerrados em horisontes
+menos extensos.
+<br />
+
+<br />
+
+Um musico, habituado a reger orchestras, percebe,
+ainda mesmo nos cheios, se qualquer dos
+executantes deu uma nota errada, ou commetteo
+outro erro. Cegos tem havido, que pelo apalpar distinguem
+nos corpos qualidades, que pertencem ao
+dominio da vis&atilde;o, e executam trabalhos manuaes
+difficeis e delicados, como aquelle cego de nascen&ccedil;a,
+de que falla o sr. dr. Centazzi na sua
+<em>Medicina</em>
+e <em>Hygiene Popular</em>, que existia na
+cidade
+<span class="pagenum">[49]</span>
+de Faro, no Algarve, e que fazia pe&otilde;es, cubos, e
+outras obras t&atilde;o perfeitas, como as dos mais habeis
+mestres. Dos provadores de vinho se sabe
+qu&atilde;o facilmente reconhecem pelo paladar o merito,
+idade, pureza, e proveniencia do precioso liquor.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se deve esperar que a gymnastica dos sentidos,
+por mais bem dirigida que seja na casa paterna
+e nas escolas infant&iacute;s e primarias, venha a
+produzir t&atilde;o miraculosos resultados; mas &eacute;
+indubitavel,
+que lhes corrigir&aacute; muitos defeitos, e que
+de dia para dia os hade ir tornando mais apropriados
+aos importantissimos fins, para que a natureza
+os destinou.
+<br />
+
+<br />
+
+Os paes em suas casas, e os professores nas escolas
+poder&atilde;o come&ccedil;ar a gymnastica dos sentidos
+pelo exame e compara&ccedil;&atilde;o das c&ocirc;res.
+Mostrar&atilde;o
+primeiro aos educandos o vermelho, amarello,
+verde, azul, preto, branco; depois differentes
+grada&ccedil;&otilde;es
+de cada uma d'estas c&ocirc;res; em seguida as
+c&ocirc;res de transi&ccedil;&atilde;o; apoz estas, todas
+as mais, que
+f&ocirc;r possivel apresentar-lhes. A pouco e pouco
+lh'as
+ir&atilde;o nomeando, e fazendo notar tudo quanto convier
+que elles saibam a tal respeito. Ao conhecimento
+das c&ocirc;res poder-se-h&atilde;o seguir
+exercicios tendentes
+a apurar a vista, taes como a inspec&ccedil;&atilde;o de
+objectos collocados a distancia cada vez maior; a
+leitura ao longe, e a pesquiza de algumas estrellas,
+planetas e constella&ccedil;&otilde;es, cuja
+posi&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o
+previamente se lhes tenha mostrado no mappa.
+<br />
+
+<br />
+
+Por meio de processos analogos se podem educar
+<span class="pagenum">[50]</span>
+os outros sentidos, ensinando-se ao mesmo
+tempo milhares de cousas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem os mestres do ensino intuitivo, recommendam,
+que se acostumem os meninos a lerem
+e a exporem elegante, exacta, e correctamente. Em
+algumas escolas temos notado qu&atilde;o pouco os professores
+attendem a esta parte do ensino, consentindo
+que os estudantes exponham as li&ccedil;&otilde;es e respondam
+&aacute;s perguntas, que se lhes fazem, com
+extrema negligencia; negligencia na pronuncia&ccedil;&atilde;o
+das palavras, cujos sons elementares falseam; negligencia
+na declama&ccedil;&atilde;o, que por muito precipitada,
+ou por extremamente pregui&ccedil;osa, se torna monotona
+e insuportavel; negligencia na coordena&ccedil;&atilde;o
+das id&eacute;as componentes dos raciocinios, e negligencia
+na disposi&ccedil;&atilde;o d'estes.
+<br />
+
+<br />
+
+Acudir com remedio a tantos defeitos &eacute; empreza
+ardua e enfadonha, mas de que n&atilde;o ha de levantar
+m&atilde;o o bom educador, sendo o seu primeiro e persistente
+cuidado desarreigar os vicios da pronuncia&ccedil;&atilde;o,
+que principalmente na c&ocirc;rte, trazem adulteradissimo
+o mais elegante e donairoso de quantos
+idiomas se fallam no mundo, se exceptuarmos o italiano,
+ao qual, n&atilde;o obstante a sua nativa belleza e
+abundancia, n&atilde;o &eacute; somenos.
+<br />
+
+<br />
+
+Daria um livro a s&oacute; enumera&ccedil;&atilde;o das
+transgress&otilde;es
+das regras orthoepicas, que a cada momento
+se ouvem at&eacute; em boccas de ouro; t&atilde;o irresistivel
+&eacute;
+a for&ccedil;a dos maus exemplos! De entre as mais vulgares
+<span class="pagenum"><a name="p51" id="p51">[51]</a></span>
+citaremos, para amostra, o accrescentamento,
+ou paragoge de um <em>e</em> mudo ao infinito
+dos verbos,
+dizendo-se: <em>amare</em>,
+<em>fazere</em>,
+<em>comere</em>,
+<em>partire</em>,
+<em>pore</em>,
+etc., em vez de amar, fazer, comer, partir, p&ocirc;r. O
+mesmo accrescentamento ao final das palavras,
+que terminam em consoante, proferindo-se:
+<em>sole</em>,
+<em>flore</em>,
+<em>mulhere</em>,
+<em>metale</em>, em logar de sol, flor,
+mulher,
+metal; o emprego do <em>a</em> grave, onde
+deveria
+soar <em>e</em> fechado, pronunciando-se
+<em>esp&acirc;lho</em>,
+<em>panha</em>,
+<em>tanha</em>,
+etc., por espelho, penha, tenha. A substitui&ccedil;&atilde;o
+grosseirissima de <em>le</em> a lhe, dizendo
+se <em>dei-le</em>,
+<em>mostrei-le</em>,
+<em>quizera-le</em>, em vez de dei-lhe,
+mostrei-lhe,
+quizera-lhe; bem como o emprego de
+<em>lhe</em>,
+quando este pronome se refere a mais de uma pessoa
+ou cousa, e de <em>lhes</em>, quando a
+referencia &eacute; a
+uma s&oacute; cousa ou pessoa. O emprego de
+<em>i</em> em logar
+de <em>e</em> em muitas palavras taes como
+dedal, dedeira,
+deante, empenho, emprestar, que a m&oacute;r
+parte da gente pronuncia: <em>didal</em>,
+<em>dideira</em>,
+<em>diante</em>,
+ou <em>diente</em>,
+<em>impenho</em>, ou
+<a href="#e5"><em>impanho</em>,
+<em>imprestar</em></a>.
+<br />
+
+<br />
+
+De tanto e t&atilde;o damninho joio ir&aacute; o educador
+arrancando
+diariamente muitas m&atilde;os cheias, desafogando
+a linguagem de todos quantos sen&otilde;es n'ella
+f&ocirc;r descobrindo, afim de que mais tarde, quando
+os meninos entrarem a estudar os segredos da
+elocu&ccedil;&atilde;o,
+nem elles, nem os professores tenham de
+perder muito tempo e muita paciencia em os debellar.
+E n&atilde;o s&oacute;mente aos erros da
+pronuncia&ccedil;&atilde;o
+se ha de ir applicando prompto e efficaz remedio,
+mas tambem aos gallicismos e plebeismos de que
+<span class="pagenum"><a name="p52" id="p52">[52]</a></span>
+est&aacute; in&ccedil;ada a nossa lingua, m&oacute;rmente
+aos que respeitarem
+&aacute; composi&ccedil;&atilde;o das phrases, havendo o
+maximo
+cuidado em n&atilde;o atordoar as cabe&ccedil;as dos
+estudantinhos
+com preceitos de grammatica e considera&ccedil;&otilde;es
+philologicas.
+<br />
+
+<br />
+
+Se um menino disser: Vi hoje na
+<em>montra</em> de um
+livreiro uma linda estampa; accudir&aacute; logo o educador:
+N&atilde;o se diz <em>montra</em>; diz-se
+mostrador; e
+far&aacute; que o mocinho repita a phrase, substituindo o
+termo peregrino e escusado pela palavra portugueza.
+Diz outro: <em>Houveram</em> hontem muitas
+festas
+de egreja; emendar&aacute; sem demora o educador:
+Houve hontem muitas festas de egreja; e convidal-o-ha
+<a href="#e6">a que emende</a> o erro. Se algum
+menino
+lhe perguntar a raz&atilde;o por que tal palavra ou phrase
+se n&atilde;o deve dizer, a resposta ser&aacute; regulada pela
+idade, intelligencia e adiantamento do interrogante,
+de modo que, se elle f&ocirc;r pequenino e muito novi&ccedil;o
+em materias grammaticaes, s&oacute; lhe dir&aacute;: Essa
+palavra n&atilde;o se deve empregar porque &eacute; estranha
+&aacute; nossa lingua e desnecessaria; essa phrase n&atilde;o
+&eacute;
+admissivel, porque n&atilde;o &eacute; conforme &aacute;s
+leis da grammatica,
+que &eacute; a sciencia de bem fallar. E ahi fica o
+educando insensivelmente sabedor de que a phrase,
+que empregou, n&atilde;o &eacute; boa; de qual ou quaes a devem
+substituir; de que o discurso est&aacute; subjeito a
+leis; e de que a sciencia de fallar correctamente se
+chama grammatica.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto mais n&atilde;o valer&aacute; a advertencia
+despretenciosa,
+que valeria um discurso mui chorudo de
+<span class="pagenum">[53]</span>
+cita&ccedil;&otilde;es e palavras latinas e gregas! Se o
+pequenito,
+que os ha amigos de discutir e aferrados &aacute;
+propria opini&atilde;o, n&atilde;o largar voluntario a palavra,
+que ouvira ou l&ecirc;ra, bom ser&aacute; convencel-o,
+n&atilde;o
+com argumentos scientificos, salvo se a sua intelligencia
+os poder comprehender sem custo, mas
+por meio de um simile. Poder-se-lhe-ha ponderar
+que assim como ninguem rasoavelmente vae pedir
+emprestadas aos visinhos cousas de que tenha abundancia
+de portas a dentro, nem vae ao mercado
+comprar fructa ruim, tendo-a famosa no quintal, a
+bater-lhe nas vidra&ccedil;as, assim os portuguezes de
+bom juizo e sufficiente instruc&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o devem andar
+tomando palavras e maneiras de dizer a estranhos,
+quando at&eacute; para repartir com elles lhes
+sobram muitas.
+<br />
+
+<br />
+
+Para conseguir que as crian&ccedil;as leiam e fallem
+com elegancia, e n'isto vae o segredo da perfeitissima
+declama&ccedil;&atilde;o, a primeira cousa, que o educador
+tem a fazer, &eacute; acostumal-as ao rhythmo, t&atilde;o bem
+aproveitado pelo sr. Visconde de Castilho no seu
+<em>Methodo de leitura repentina</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Por pouco que se pense na organisa&ccedil;&atilde;o de todo
+o apparelho vocal (pulm&otilde;es, larynge, bocca e narinas)
+nas rela&ccedil;&otilde;es d'aquelles org&atilde;os e no
+mechanismo
+da voz, facilmente se perceber&aacute;, que a palavra,
+no que tem de physico, &eacute; verdadeira musica,
+com seus sons naturaes e accidentaes, com sua
+oitava, com escalas ora mais, ora menos extensas,
+com os seus tempos, j&aacute; breves, j&aacute; longos, e
+at&eacute;
+<span class="pagenum">[54]</span>
+com a express&atilde;o e timbre variadissimo, que &aacute;s
+vibra&ccedil;&otilde;es
+sonoras e musicaes, imprimem os instrumentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, como n&atilde;o ha musica, que tal se possa chamar,
+sem rhythmo e express&atilde;o, claro est&aacute; que a
+voz humana, para satisfazer &aacute;s
+condi&ccedil;&otilde;es da arte,
+e bem servir a intelligencia, de que &eacute; a melhor reveladora,
+e at&eacute; parte integrante, no dizer de Condillac,
+deve ser rhytmica e expressiva.
+<br />
+
+<br />
+
+Para que estas duas essenciaes qualidades lhe
+n&atilde;o faltem &eacute; indispensavel em primeiro logar, que
+o educador habitue os meninos a obdecerem escrupulosamente
+ao compasso, na pronuncia&ccedil;&atilde;o dos
+sons elementares (vozes e consonancias) na dos
+compostos (diphthongos e syllabas) e na recita&ccedil;&atilde;o
+das palavras, que s&oacute; poder&aacute; ser perfeita, quando
+tiverem sido previamente divididas em tantos tempos,
+quantos forem seus elementos syllabicos. Depois
+de bem amestrados por meio d'estes exercicios
+na leitura auricular das palavras, que o educador
+para tal fim lhes ditar&aacute; em voz bem intelligivel,
+palmeando as primeiro mui
+vagarosamente,
+depois um poucochinho mais depressa e por ultimo
+com o natural andamento, passar&atilde;o os meninos a
+<em>ler por cima</em>, como &eacute; uso
+dizer-se nas escolas.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegado a este ponto ter&aacute; o educador de desvelar-se
+muito em supprir a extrema penuria da
+orthographia, n&atilde;o tanto no tocante &aacute;
+representa&ccedil;&atilde;o
+dos sons constituitivos das palavras, no que
+muito falta, como no que se refere &aacute; divis&atilde;o
+logica
+<span class="pagenum">[55]</span>
+das ora&ccedil;&otilde;es, &aacute;s variadissimas
+pausas, que ha
+de fazer o bom ledor e recitador perfeito; &aacute;s infinitas
+intona&ccedil;&otilde;es de que carecem as palavras, as
+proposi&ccedil;&otilde;es, os periodos e at&eacute; um
+mesmo vocabulo
+conforme a id&eacute;a que revela<sup><a href="#n1">[1]</a></sup>.<br />
+
+<br />
+
+Ler ou fallar sem intona&ccedil;&otilde;es, sem pausas, sem
+as devidas quantidades, sem dar ao que se l&ecirc; ou
+falla o natural colorido, e o relevo indispensavel,
+vale tanto como querer executar em um piano miseravelmente
+desafinado os primores de Rossini,
+Donizetti, Bellini, Meyerbeer ou Marcos Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o obstante serem intuitivas todas estas verdades,
+muitissimas pessoas ha, que as desconhecem,
+e muitas que, n&atilde;o as desconhecendo, como
+que se aprazem de ler e fallar por modo tal, que
+provocam tedio e somno.
+<br />
+
+<br />
+
+Daria optimo resultado, como tivemos opportunidade
+de mostrar praticamente a um educador,
+sempre avido de se aperfei&ccedil;oar, e em extremo benevolente
+para comnosco, a introduc&ccedil;&atilde;o nas escolas
+infant&iacute;s e primarias, para o ensino e
+aperfei&ccedil;oamento
+<span class="pagenum">[56]</span>
+da leitura e recita&ccedil;&atilde;o de um
+processo
+analogo ao adoptado pelos regentes de orchestras
+e bandas marciaes no estudo das pe&ccedil;as concertantes.
+Consiste elle em se collocarem os meninos em
+p&eacute; ou assentados, mas conservando direitos os troncos
+e naturalmente levantadas as cabe&ccedil;as<sup><a href="#n2">[2]</a></sup> em
+frente de estantes ou mesas, onde estejam abertos
+os livros. Em logar elevado, de modo que todos
+os escolares o vejam, est&aacute; o educador em p&eacute;,
+batuta
+na m&atilde;o, olhos no livro e olhos na turba. Primeiro
+l&ecirc; elle pausadamente em voz alta, com todo
+o esmero, um periodo, marcando o compasso com
+a batuta, repetindo duas ou mais vezes as palavras,
+que lhe parecerem mais difficeis de pronunciar,
+e corrigindo sem o minimo acanhamento os
+proprios descuidos. Feito este ensaio, manda ler o
+mesmo trecho ao estudante mais adiantado, depois
+a outro e outro, reservando para o fim os menos
+habeis, para que tenham tido tempo de se amestrar.
+<br />
+
+<br />
+
+Findo que seja este segundo exercicio, e tomado
+algum descan&ccedil;o, dar&aacute; o signal de
+atten&ccedil;&atilde;o e mandar&aacute;
+ler em c&ocirc;ro, indicando sempre com a batuta,
+<span class="pagenum">[57]</span>
+como se estivesse regendo uma orchestra, todas as
+modifica&ccedil;&otilde;es da voz, que a leitura exigir.
+<br />
+
+<br />
+
+A estes estudos, que bem se podem chamar de
+leitura coral, podem-se accrescentar outros, excellentes
+para exercitar os meninos na declama&ccedil;&atilde;o, e
+mui bem acceitos do bando infantil, que consistem
+primeiramente na leitura, e depois na recita&ccedil;&atilde;o
+de
+c&oacute;r, de pequenos dialogos, fabulas, e entremezes,
+em que haja um c&ocirc;ro e dois, tres, ou mais interlocutores.
+Composi&ccedil;&otilde;es d'este genero facilmente se
+obtem, e quando se n&atilde;o achem, sem muito custo
+as p&oacute;de architectar o professor.
+<br />
+
+<br />
+
+A par dos exercicios de leitura e recita&ccedil;&atilde;o se
+p&oacute;de ir cultivando a intelligencia dos meninos, e
+acostumando-os a pensarem e a exprimirem-se com
+certo rigor logico. Nada ha mais facil.
+<br />
+
+<br />
+
+Umas vezes elles mesmos subministrar&atilde;o ao
+educador assumpto de molde para os seus conselhos
+e advertencias, outras vezes far-lhes-ha e educador
+uma pergunta ou lhes propor&aacute; um problema,
+e nas respostas ir&aacute; notando as transgress&otilde;es das
+leis da logica, que porventura commetterem, nunca
+saindo do campo da pratica para o das theorias,
+nem usando da terminologia scientifica, que nas
+idades tenras assusta, desgosta e n&atilde;o instrue.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Cerraremos estas considera&ccedil;&otilde;es lembrando aos
+educadores a vantagem de excitar nos estudantes
+o amor do estudo pelo emprego de premios e
+distinc&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p58" id="p58">[58]</a></span>
+Se no dizer de Christo &laquo;Todo o que trabalha &eacute;
+digno de recompensa&raquo; <em>Dignus est enim
+operarius
+mercede sua</em>, qual ser&aacute; a raz&atilde;o
+por que se n&atilde;o
+hade galardoar o bom <a href="#e7">comportamento</a>,
+a assiduidade
+no estudo, o aceio, e o progresso dos meninos?
+<br />
+
+<br />
+
+Se nas escolas superiores ha premios annuaes
+para os alumnos distinctos, se as academias os offerecem
+aos sabios, que cabalmente satisfazem aos
+seus programmas; se aos que triumpham nos certames
+das artes e da industria se concede a men&ccedil;&atilde;o
+honrosa, o <em>accessit</em>, a medalha de
+prata ou a
+de ouro; se ha palmas e cor&ocirc;as, e ramalhetes, e
+brindes para o actor eximio, e at&eacute; para o que na
+pra&ccedil;a lucta com o touro embravecido, de melhormente
+se devem premiar as criancinhas, para as
+quaes o estudo, por mais que lh'o procuremos amenisar,
+hade ser sempre tarefa improba e tediosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Hade por&eacute;m haver na concess&atilde;o das
+distinc&ccedil;&otilde;es
+e premios escolares a maxima parcimonia e inteira
+justi&ccedil;a, para que nem a prodigalidade lhes diminua
+o valor, nem a parcialidade os torne, em vez de
+incentivo do bem, facho de discordias, e origem de
+malqueren&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+E assim como a advertencia e a reprehens&atilde;o se
+n&atilde;o devem fazer esperar, commettida a falta, assim
+tambem se n&atilde;o deve demorar, nem regatear o
+galard&atilde;o
+aos que o merecerem.
+<br />
+
+<br />
+
+Finda a semana, a cada um se dar&aacute; com certa
+solemnidade ou o diploma, ou a medalha, ou a
+estampa, ou o livro, ou o brinquedo, mas nunca
+<span class="pagenum">[59]</span>
+gulodices ou cousas, que os possam prejudicar.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m d'estes estimulos, bom ser&aacute; que annualmente
+haja, como em muitos collegios se usa, uma
+sess&atilde;o publica consagrada &aacute;
+glorifica&ccedil;&atilde;o dos que
+mais se houverem distinguido.
+<br />
+
+<br />
+
+Ponhamos aqui ponto, n&atilde;o porque hajamos dito
+quanto se poderia recommendar aos educadores
+relativamente &aacute; difficilima empresa de iniciar as
+criancinhas nas sciencias e na virtude, mas porque
+exposto fica o que mais lhes convem saber para o
+bom emprego do ensino intuitivo, que nos proposemos
+vulgarisar, convencidos da sua muita utilidade.
+Os exemplos que seguem, n&atilde;o entram no
+plano de ensino intuitivo <em>gradual</em>,
+que, se Deus f&ocirc;r
+servido, daremos &aacute; estampa; s&atilde;o t&atilde;o
+s&oacute;mente uma
+amostra, pela qual se possa fazer id&eacute;a do systema.
+<br />
+
+<br />
+
+Preferimos para estes exemplos os assumptos e
+objectos, que nas suas primeiras li&ccedil;&otilde;es trataram
+Braun e Mayo, insignes pedagogistas, que em materia
+de educa&ccedil;&atilde;o tem prestado relevantes
+servi&ccedil;os
+&aacute; humanidade, adquirindo incontestavel direito a
+esta humilde, por&eacute;m sincera homenagem<sup><a href="#n3">[3]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+E j&aacute; que fall&aacute;mos de pedagogistas de tamanha
+nomeada, honremos aqui tambem outro escriptor
+e pedagogo notavel, o sr. J. Rambosson, cuja ultima
+obra, publicada em fins do anno de 1872: &laquo;<em>A
+educa&ccedil;&atilde;o maternal conforme as leis da
+natureza</em>,&raquo;
+n&atilde;o inferior &aacute; t&atilde;o justamente
+applaudida: &laquo;<em>Educa&ccedil;&atilde;o
+das m&atilde;es de familia</em>,&raquo; de
+Aim&eacute; Martin, hade
+for&ccedil;osamente contribuir muito para a reforma do
+actual viciosissimo systema de educar a infancia,
+do qual o sr. Rambosson diz estas t&atilde;o tristes,
+qu&atilde;o verdadeiras palavras: <em>Il n'existe rien
+sous ce
+rapport, ni chez nous ni ailleurs; on ne peut appeler
+&eacute;ducation ce que se pratique pour cet
+&acirc;ge</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c3" id="c3"></a>PRIMEIRA
+LI&Ccedil;&Atilde;O</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao entrarem a primeira vez na escola a maior
+parte dos meninos receiam; mu&iacute;tos d'elles temem.
+<br />
+
+<br />
+
+Que receiam e que temem?
+<br />
+
+<br />
+
+Receiam e temem a ausencia e desamparo temporario
+de suas m&atilde;es e paes; o affastamento de
+seus irm&atilde;os e criados; o professor, que desconhecem;
+os condiscipulos, que nunca viram; a casa
+da aula, que lhes &eacute; estranha; a sciencia que ignoram.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto mais pequeninos, mais desconfiados se
+apartam do ninho seu paterno, mais desbotadas
+levam as faces, mais tremem e se angustiam ao
+aproximarem-se do templosinho modesto e sereno,
+que se lhes afigura medonho ergastulo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[61]</span>
+Na repugnancia, que os meninos tem &aacute; escola,
+s&atilde;o quasi sempre culpados os paes e as m&atilde;es,
+porque, em vez de amoravelmente lhes fallarem
+d'ella, de lhes mostrarem que est&aacute; alli o alvorecer
+de todas as artes e sciencias, de lhes dizerem que
+&eacute; aquella a unica porta por onde se entra &aacute; vida
+publica, na qual ter&atilde;o, quando homens, de tomar
+parte, de lhes explicarem a miss&atilde;o do professor e de
+lhes expenderem que n'elle accrescem aos deveres
+de mestre os de amigo e patrono; nada d'isto fazem,
+e s&oacute; invocam o santo nome da escola, quando
+irritados pelas travessuras das crian&ccedil;as, que n&atilde;o
+querem ou n&atilde;o sabem remediar com brandura,
+bons conselhos, bons exemplos e moderadas
+correc&ccedil;&otilde;es,
+pretendem aterrorisal-os, apontando-lhes
+para aquella... penitenciaria.
+<br />
+
+<br />
+
+Como ha de amar a escola e appetecel-a, e correr
+para ella voluntario e risonho o menino, a quem
+se n&atilde;o fartaram de dizer: &laquo;N&atilde;o te
+aquietas? Ir&aacute;s
+para a escola, onde te far&atilde;o estar quedo, quer queiras,
+quer n&atilde;o queiras.&raquo; &laquo;N&atilde;o
+aprendas agora, que
+o professor depois, com a palmatoria te metter&aacute;
+no bom caminho.&raquo; &laquo;Por mais que te ralhe,
+n&atilde;o te
+emendas, tudo rasgas, tudo quebras; deixa-te ir
+para a escola;... farei queixa ao professor, elle te
+por&aacute; as uvas em pisa&raquo;<sup><a href="#n4">[4]</a></sup>.
+A fim de remediar estes
+deploraveis vicios da educa&ccedil;&atilde;o domestica, de
+tranquillisar
+o estudantinho, de familiarisal-o com o professor
+<span class="pagenum">[62]</span>
+e com os alumnos e de infiltrar-lhe n'alma
+o amor da escola e do estudo, adopte-se o seguinte
+modelo de recep&ccedil;&atilde;o, ou outro melhor, mas pouco
+mais ou menos do mesmo padr&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Professor.<sup><a href="#n5">[5]</a></sup>&mdash;Venha
+c&aacute;, meu menino; como se
+chama?
+<br />
+
+<br />
+
+Estudante.&mdash;Viriato.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Viriato &eacute; o seu primeiro nome; desejo
+tambem saber o seu sobrenome e appellido.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chamo-me Viriato Henrique de Oliveira.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Bonito nome. Para corresponder a elle ter&aacute;
+o menino de ser valente, destemido, muito amante
+da sua patria e muito bom. Sabe porque?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Eu lh'o explico. Viriato foi um pastor da
+Serra da Estrella, t&atilde;o amigo da patria e dos patricios,
+que para impedir que os romanos os escravisassem,
+largou o cajado, abandonou os rebanhos,
+que apascentava, tomou armas, aggregou a
+si outros valentes, e por muitos annos desbaratou
+<span class="pagenum">[63]</span>
+os exercitos estrangeiros, envergonhando generaes
+aguerridos, e grangeando fama eterna. D. Henrique
+foi outro militar de grandes dotes, e que tanto se
+distinguiu na guerra contra os mouros, que enchiam
+a Hespanha e a nossa terra, que, em premio de
+seu valor veiu a casar com D. Theresa, filha de
+um rei mui poderoso, da qual nasceu D. Affonso
+Henriques, primeiro monarcha portuguez.
+<br />
+
+<br />
+
+E para que todo o nome do menino seja de bom
+agouro, at&eacute; lhe pozeram o appellido de Oliveira,
+que &eacute; uma arvore muito util e agradavel, symbolo
+da paz, de cujos fructos, as azeitonas, se tira o
+azeite, que &eacute; o melhor e mais precioso oleo, que
+se conhece. Mas deixemos o azeite e a oliveira,
+que ainda lhe quero fazer mais perguntas.
+<br />
+
+<br />
+
+Como se chama o seu pap&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Antonio Joaquim de Oliveira.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que emprego tem elle?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; militar.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E o menino quer tambem ser militar?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor; quero ser medico.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Bom &eacute; que n&atilde;o sigam todos a mesma
+carreira;
+haja militares, para defenderem a patria dos
+inimigos estranhos, e para manterem o socego e a
+ordem, que s&atilde;o a primeira necessidade dos povos;
+e haja medicos para curarem os doentes, e para
+nos ensinarem o que devemos fazer para n&atilde;o enfermar.
+Que edade tem o menino?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Nove annos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;O seu pap&aacute; tem mais filhos?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[64]</span>
+E.&mdash;Tem mais tres.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Os filhos do seu pap&aacute; e da sua mam&atilde;
+o
+que s&atilde;o ao menino?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;S&atilde;o meus irm&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como se chamam os seus manos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Thomaz, Clemente e Valeriano.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Dos quatro qual &eacute; o mais velho?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; o Thomaz.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque &eacute; elle mais velho?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque nasceu primeiro que os outros.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se Thomaz &eacute; o mais velho, porque nasceu
+primeiro que os outros, como designar&aacute; o ultimo
+nascido?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Direi que &eacute; o mais pequeno.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Melhor &eacute; dizer que &eacute; o mais novo.
+Onde
+mora o menino?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Na rua da Alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Caspite! Quem mora na rua da Alegria n&atilde;o
+deve ser triste.
+<br />
+
+<br />
+
+Ap&oacute;s esta pratica com os recem-entrados poder&aacute;
+o professor ou professora convidar os que souberem
+contar a contarem os estudantes, que estiverem
+na escola, e a designar pelos nomes os que forem
+seus conhecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Menino Viriato<sup><a href="#n6">[6]</a></sup>
+quantos condiscipulos tem
+aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[65]</span>
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o sabe, porque ainda os n&atilde;o
+contou;
+conte-os em voz alta.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Um, dois, tres, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Agora, que sabemos quantos traquinas aqui
+est&atilde;o, diga-me os nomes dos seus conhecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Aquelle &eacute; Francisco; aquelle &eacute;
+Antonio;
+aquelle, que est&aacute; ao p&eacute; da janella, tambem se
+chama
+Francisco, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Ha n'esta aula tres Franciscos, como &eacute; que
+os havemos de distinguir de modo que, ao chamar
+um d'elles, n&atilde;o acudam todos tres?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Nada mais facil; bastar&aacute; accrescentar ao
+primeiro nome de cada um o appellido da familia;
+teremos: Francisco de Mello; Francisco de Aguiar
+e Francisco Loureiro. Quando differentes pessoas
+ou cousas tem o mesmo nome, &eacute; indispensavel juntar
+ao nome que lhes &eacute; commum, outro, para que
+as poss&acirc;mos designar sem confus&atilde;o. Os meninos
+tem nas suas casas c&oacute;pos de differentes tamanhos,
+para differentes usos; a uns chamam c&oacute;pos
+<em>d'agua</em>,
+a outros c&oacute;pos <em>de vinho</em>,
+a outros c&oacute;pos <em>de liquor</em>.
+O mesmo fazemos com a fructa. Ha muitas
+qualidades de p&ecirc;ras; para distinguil-as denominamol-as
+p&ecirc;ra <em>parda</em>, p&ecirc;ra
+<em>virgulosa</em>, p&ecirc;ra
+<em>bojarda</em>,
+p&ecirc;ra <em>flamenga</em>, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Finda que seja a segunda phase d'este colloquio,
+tenue, mas conveniente para desassombrar o espirito
+<span class="pagenum">[66]</span>
+dos estudantinhos, passar&aacute; o professor a fazer-lhes
+outra ordem de perguntas.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como se chama, meus meninos, esta casa,
+onde estamos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chama-se escola.
+<br />
+
+<br />
+
+R.&mdash;Para que vem os meninos &aacute; escola?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para aprender.
+<br />
+
+<br />
+
+R.&mdash;Que vem os meninos aprender?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A ler, escrever e contar.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Assim &eacute;; mas na escola al&eacute;m de ler,
+escrever
+e contar, ensinam-se muitas outras cousas
+agradaveis e uteis, as quaes todas concorrem para
+tornar os meninos instruidos e virtuosos. Querel-as-heis
+aprender tambem?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Queremos, sim, senhor; queremos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Ha um adagio, que diz:&mdash;<em>O que se ha de
+fazer, fa&ccedil;a-se</em>; sigamos o adagio e
+comecemos
+desde j&aacute; o nosso estudo, examinando os objectos,
+que est&atilde;o n'esta aula. (Aqui mostrar&aacute; o professor
+aos estudantes o <em>quadro preto</em><sup><a href="#n7">[7]</a></sup> a
+que muitos impropriamente
+chamam pedra). Qual dos meninos
+tem um objecto como este em sua casa?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Eu n&atilde;o; eu tambem n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabem como se chama?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[67]</span>
+E.&mdash;Chama-se <em>pedra</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Assim o denominam alguns, mas impropriamente.
+Isto n&atilde;o &eacute; de pedra, &eacute; de pau,
+&eacute; de madeira. Ha n'esta casa alguma cousa de
+pedra?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;As hombreiras da porta e das janellas.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E nada mais?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;As ardosias, que trouxemos para fazer contas.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;O menino F. respondeu muito bem; essas
+laminas pretas, a que cham&acirc;mos ardosias ou lousas,
+e as pennas com que escrevemos n'ellas, s&atilde;o
+peda&ccedil;os de pedra. Querem ver a differen&ccedil;a, que
+vae da pedra &aacute; madeira? Batam com os dedos nas
+ardosias; agora venham aqui, e batam n'isto, a
+que deram o nome de pedra. Todos percebem a
+differen&ccedil;a do som.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como chamaremos, pois, a este objecto?
+Eu lh'o digo. Chamar-lhe-hemos o
+<em>quadro</em>, ou a
+<em>taboa</em>; e como esta madeira
+est&aacute; pintada, poderemos
+acrescentar ao nome quadro outro nome, indicativo
+da c&ocirc;r, que tem.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Poderemos dizer: <em>Quadro preto</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Mui bem. Agora dir-me-h&atilde;o para que serve
+o quadro preto.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Serve para n'elle se escrever.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;(Mostrando um peda&ccedil;o de giz). Sabeis o
+que &eacute; isto?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; um bocado de <em>giz</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[68]</span>
+P.&mdash;Para que o tenho eu aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para escrever no quadro preto.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;De que c&ocirc;r &eacute; o giz?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; <em>branco</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;(Mostrando a esponja). Como se chama
+est'outro objecto?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chama-se&mdash;<em>esponja</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para que temos aqui esta esponja?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para apagar as lettras e as figuras, que se
+fizeram no quadro preto.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o poderiamos apagar a escripta com o
+len&ccedil;o de assoar?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Poderiamos, sim, senhor; mas ficaria sujo,
+e sujar-nos-hia o fato.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Respondeu muito bem. E porque raz&atilde;o
+n&atilde;o
+apag&acirc;mos as lettras com as m&atilde;os?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque ficariam sujas, e sujar-nos-hiam
+tambem o fato.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quando por qualquer motivo tivermos sujado
+as m&atilde;os, que deveremos fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Limpal-as.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;De quantas maneiras se limpam as m&atilde;os?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Esfregando-as n'um panno, ou lavando-as.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como ficam ellas mais desenxovalhadas,
+esfregando as n'um panno, ou lavando-as?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Lavando-as.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como se chamam as pe&ccedil;as de roupa, de
+que nos servimos para enxugar as m&atilde;os depois de
+as termos lavado?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chamam-se&mdash;<em>toalhas de
+m&atilde;os</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[69]</span>
+P.&mdash;Trazer as m&atilde;os limpas &eacute; garridice,
+ou
+necessidade
+e dever?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; necessidade e dever.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para que &eacute; necessario trazer as m&atilde;os
+aceiadas?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para n&atilde;o mancharmos aquillo em que mechermos,
+e para n&atilde;o enojar as pessoas, que nos
+virem ou a quem prestarmos algum servi&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;A sugidade das m&atilde;os prejudica a saude?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Prejudica, e muito; em primeiro logar porque
+obsta &aacute; transpira&ccedil;&atilde;o, isto
+&eacute;, &aacute; sa&iuml;da da agua e
+suor, que continuamente est&atilde;o atravessando a pelle;
+em segundo logar porque, indo com as m&atilde;o sujas
+aos olhos, poderemos inflamal-os e originar doen&ccedil;as,
+que ou nos enfraque&ccedil;am a vista ou nos acarretem
+a cegueira. Quantas vezes ao dia deveremos
+lavar as m&atilde;os?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Quantas f&ocirc;r necessario.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Acertadamente responderam; mas n&atilde;o
+ser&aacute;
+escusado dizer-lhes que invariavelmente as devem
+lavar pela manh&atilde;, ao erguerem-se da cama; antes
+e depois do almo&ccedil;o, jantar e ceia, ou de qualquer
+outra refei&ccedil;&atilde;o; ao sair e entrar em casa;
+af&oacute;ra as
+outras vezes, que o aceio o exigir. Passemos a outro
+assumpto. (Apontando para o cavallete.) Qual dos
+meninos me saber&aacute; dizer o nome d'aquelle objecto?
+<br />
+
+<br />
+
+Silencio.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Menino Carlos, n&atilde;o sabe como se chama
+aquillo?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[70]</span>
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Pedrinho, tambem n&atilde;o sabe como se chama
+aquella geringon&ccedil;a?<sup><a href="#n8">[8]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chama-se <em>cavallete</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Acertou. Agora digam todos commigo:
+Ca-va-lle-te<sup><a href="#n9">[9]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ca-va-lle-te.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Agora h&atilde;o de dizer esse nome, sem separarem
+as syllabas.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Cavallete.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para que serve aquelle cavallete?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Serve para sustentar o quadro preto.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Resumo</h4>
+
+<br />
+
+A casa, onde estamos, chama-se &laquo;escola&raquo;. Na
+<span class="pagenum">[71]</span>
+escola aprende-se a ler, escrever, contar, a doutrina
+christ&atilde;, desenho, canto, e mil outras cousas
+uteis e agradaveis, que o professor nos vae ensinando
+pouco e pouco, as quaes todas concorrem
+para que sejamos bons e instruidos, qualidades
+estas indispensaveis a qualquer homem. Ha na escola
+diversos objectos, e entre elles o <em>quadro
+preto</em>,
+a <em>esponja</em>, o
+<em>giz</em> e o
+<em>cavallete</em>. No quadro preto
+escreve-se
+com giz. Serve a esponja para se apagar
+o que se escreveu no quadro, e o cavallete para
+sustentar o mesmo quadro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Reflex&otilde;es
+</h4>
+
+<br />
+
+Meus meninos, attendei bem ao que vou dizer-vos,
+e n&atilde;o o esque&ccedil;aes. Pode a casa da escola ser
+convidativa, a mobilia e utensilios bons, os compendios
+famosos, o professor sabio, zeloso e habil,
+e o methodo de ensino excellente, e n&atilde;o obstante
+todas estas invejaveis condi&ccedil;&otilde;es, os estudantes
+n&atilde;o utilisarem nada, com detrimento proprio e de
+seus paes, por falta de assidua frequencia e de estudo.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o incalculaveis os prejuizos, que resultam das
+repetidas faltas &aacute; escola. Os meninos, que faltam,
+n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o se adiantam, mas perdem o
+que aprenderam,
+desgostam e entibiam o professor, introduzem
+a desordem na aula, e incitam os collegas com
+o exemplo, a que procedam do mesmo modo.
+<br />
+
+<br />
+
+Evitae, pois, todos estes males, n&atilde;o faltando &aacute;
+<span class="pagenum">[72]</span>
+escola sem causa justificavel, e estudando aqui e
+em vossas casas, isto &eacute;, attendendo ao que o professor
+vos disser, meditando nas suas palavras, e
+lendo ou decorando o que vos mandarem que leiaes
+ou decoreis. N&atilde;o se pode ser instruido, sem estudar.
+Os meninos estudiosos grangeiam a estima
+das pessoas de bem, e tornam-se dignos da
+protec&ccedil;&atilde;o
+divina.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c4" id="c4"></a>SEGUNDA
+LI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<h4>
+A ESCOLA
+</h4>
+
+<br />
+
+P.&mdash;Meus meninos, fall&aacute;mos outro dia do quadro
+preto, das ardozias, do giz, da esponja, da
+toalha de m&atilde;os, e do cavallete; desejo que me nomeeis
+agora mais alguns utensilios da escola...
+Como se chama isto? (Indicando a mesa).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chama-se <em>mesa</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;De que &eacute; feita esta mesa?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;De madeira.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Todas as mesas s&atilde;o de madeira?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor; algumas s&atilde;o de pedra.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E n&atilde;o as ha feitas de outras materias?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Nunca viram mesas de metal?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Lembro-me agora de tel-as visto de ferro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E n&atilde;o s&oacute; de madeira, de pedra e de
+ferro
+se podem fazer; todas as materias solidas e duras
+se prestam &aacute; construc&ccedil;&atilde;o d'este movel.
+Como se
+chama esta parte da mesa? (Indicando a parte superior).
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[73]</span>
+E.&mdash;<em>Taboa</em> da mesa.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como se chama est'outra? (Indicando a
+parte sobre que assenta a taboa).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chama-se <em>aro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Vinde aqui e dizei-me, que nome tem estas
+especies de caixas (Mostrando as gavetas) que est&atilde;o
+sobre a taboa da mesa, e que eu puxo para
+f&oacute;ra e torno a esconder (abrindo e fechando as gavetas).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Essas especies de caixas chamam-se
+<em>gavetas</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para que servem as gavetas?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para guardar diversos objectos?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Estas pe&ccedil;as de metal, que as gavetas aqui
+tem embebidas na madeira, como se denominam?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Fechaduras.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para que servem estas fechaduras?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para fechar as gavetas?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque raz&atilde;o fecho eu as gavetas d'esta
+mesa, quando saio da aula?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque ha meninos, que commettem a
+indiscrip&ccedil;&atilde;o
+de as abrir e de mecher no que n'ellas
+est&aacute;, praticando uma ac&ccedil;&atilde;o feia ...
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; m&aacute;u abrir uma gaveta?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se a gaveta &eacute; de nosso uso, ou se nos
+&eacute;
+permittido abril-a e tocar no que l&aacute; est&aacute;,
+n&atilde;o
+commettemos falta nenhuma em a abrir; mas se
+&eacute; de outrem, ou se nos prohibiram abril-a, &eacute;
+ac&ccedil;&atilde;o
+muito feia e m&aacute; o descerral-a, sem licen&ccedil;a,
+excepto em caso de necessidade. E j&aacute; que estamos
+<span class="pagenum">[74]</span>
+a fallar de gavetas, dizei-me, que deve fazer um
+menino bem educado, quando na sua presen&ccedil;a se
+abre uma gaveta?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Deve abster-se de olhar para l&aacute; e de estar
+a observar o que ella contem. Dizei-me, com que
+se abrem as fechaduras?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Com as <em>chaves</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Olhae para aqui... Metto a chave n'esta fechadura
+dou-lhe volta e vejo sair uma pe&ccedil;a de
+ferro, chata e larga.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como se chama essa pe&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Lingueta.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabeis porque lhe pozeram o nome de lingueta?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sabemos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Soletrae a palavra lingueta, e talvez deis
+no vinte.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Lin-gue-ta.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;As duas primeiras syllabas d'essa palavra
+n&atilde;o vos trazem &aacute; memoria outra palavra muito
+conhecida?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Trazem, sim, senhor; a palavra lingua.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Reparae agora se ha alguma similhan&ccedil;a entre
+a lingua do homem e dos outros animaes e a
+parte da fechadura, que estamos observando.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ha, sim, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Em que?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A lingua &eacute; chata e a lingueta tambem; a
+<span class="pagenum">[75]</span>
+lingua &eacute; comprida, como a lingueta; a lingua est&aacute;
+preza na bocca d'onde sae &aacute;s vezes, e a lingueta
+est&aacute; egualmente presa no interior de uma caixa da
+qual a chave a faz sair.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Difficilmente se poderia responder melhor
+&aacute; minha pergunta. Tomem d'aqui exemplo os outros
+meninos. A explica&ccedil;&atilde;o que o menino F. me deu
+prova-me que elle observa as cousas com atten&ccedil;&atilde;o
+e comp&aacute;ra umas com as outras, o que muito concorre
+para que se nos desenvolva a intelligencia;
+ou que, se alguem lhe tinha ensinado isto, se n&atilde;o
+esqueceu do que lhe haviam dito, o que tambem
+&eacute; muito para louvar<sup><a href="#n10">[10]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A mim ninguem me tinha ensinado a resposta.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Tanto melhor, porque deu prova de que
+medita no que v&ecirc;; que v&ecirc;r as cousas
+superficialmente
+&eacute; quasi o mesmo que n&atilde;o as v&ecirc;r:
+Continuemos
+a estudar a mesa. Reparem n'estas quatro
+columnas (mostrando os p&eacute;s da meza) sobre as
+quaes assenta a taboa, o aro e as gavetas.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;S&atilde;o os <em>p&eacute;s</em>
+da meza.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque se lhes chama p&eacute;s?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque sustentam o resto da mesa, &aacute; maneira
+dos p&eacute;s do homem e dos animaes, que sustentam
+o resto do corpo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[76]</span>
+P.&mdash;Todas as mesas tem quatro p&eacute;s?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Nem todas; umas tem um s&oacute; p&eacute;, outras
+quatro, outras seis, e podem ter mais.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quaes s&atilde;o as mais firmes, isto &eacute;,
+menos
+subjeitas a cairem, as de um, ou as de quatro p&eacute;s?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;As de quatro p&eacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para que servem os bancos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para nos assentarmos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;De que s&atilde;o feitos esses bancos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;De madeira.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o poderiam ser feitos de outra materia?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Poderiam ser de ferro, ou de pedra.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque n&atilde;o poriam aqui bancos de pedra?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque s&atilde;o mais caros, que os de pau.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E s&oacute; por isso &eacute; que os
+n&atilde;o pozeram
+aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; porque s&atilde;o muito pezados;
+n&atilde;o
+poderiamos
+mudal-os de um logar para outro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o haver&aacute; outro motivo para
+preferir os
+bancos de pau aos de pedra?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Menino F... queira responder &aacute; minha pergunta?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Aquelle estudantinho, que al&eacute;m est&aacute;
+a
+gesticular,
+&eacute; que nos vae satisfazer a curiosidade; vamos,
+menino G... deite a barra adiante aos seus
+collegas, revelando-nos o motivo porque os bancos
+de pedra, &aacute; parte o serem pesados e caros, n&atilde;o
+s&atilde;o adoptados nas nossas casas e nas aulas?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Parece-me que &eacute; por serem muito frios.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[77]</span>
+P.&mdash;Por causa da frialdade da pedra s&atilde;o os bancos
+d'aquella materia n&atilde;o s&oacute; incommodos,
+sen&atilde;o
+muito prejudiciaes &aacute; saude. Passemos a outro assumpto.
+J&aacute; vos ponderei que &eacute; muito mau faltar
+&aacute;
+aula, n&atilde;o estar attento ao que diz o professor, e
+n&atilde;o
+estudar. Desejo que me digaes agora o que acontece
+aos estudantes, que n&atilde;o vem ao principio da
+aula, e que entram aqui uma hora, ou hora e meia,
+depois de terem come&ccedil;ado os nossos trabalhos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o podem seguir bem as
+li&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que dever&aacute;, pois, fazer, relativamente a
+este ponto, um estudante applicado, e que deseje
+adiantar-se?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Dever&aacute; entrar na aula &aacute; hora marcada
+para
+o come&ccedil;o do estudo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Diga-me menino L... que cousas deve o estudante
+trazer sempre para a escola?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Uma ardozia, uma penna de pedra, um lapiz,
+uma penna de a&ccedil;o, e os livros.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E que lhe acontecer&aacute;, se lhe esquecer alguma
+ou algumas d'estas cousas?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o poder&aacute; tirar da
+li&ccedil;&atilde;o o fructo, que deve
+tirar.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Qual ser&aacute; a raz&atilde;o porque alguns
+meninos
+chegam muitas vezes &aacute; aula sem os objectos, que
+lhes s&atilde;o indispensaveis?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A raz&atilde;o d'essa falta &eacute; ou por que se
+esquecem
+de os tomar ao sair de casa, ou por que, saindo
+com pressa, os n&atilde;o acham, e lhes falta o tempo
+para procural-os.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[78]</span>
+P.&mdash;Ha meio de evitar aquelle esquecimento, e
+de fazer com que os objectos, que devem trazer
+para a aula, se lhes deparem facilmente?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ha, sim, senhor. Bastar&aacute; que os meninos
+ponham a ardozia, o lapis, e os livros em um logar
+certo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que nome daremos a um menino, que p&otilde;e
+uma cousa aqui, outra alli, outra acol&aacute;, e que depois
+se n&atilde;o lembra dos logares onde as poz?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Desarranjado.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E ao que suja e rasga os livros, e deita
+borr&otilde;es na escripta, e por cima das mesas, e se
+apresenta com a cara e os dedos enxovalhados?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Porco ou enxovalhado.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Deve o professor consentir que os meninos
+rasguem os livros, que salpiquem de tinta as
+paredes e as mesas, que tragam sujas as m&atilde;os e
+cara, e o fato cheios de nodoas?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque estragar os livros, ou as paredes,
+ou qualquer cousa, sem necessidade, &eacute;
+ac&ccedil;&atilde;o muito
+feia, assim como n&atilde;o andar limpo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E ser&aacute; apenas ac&ccedil;&atilde;o muito
+feia?
+N&atilde;o ser&aacute;
+uma especie de roubo feito aos paes e aos mestres,
+aos quaes muitas vezes &eacute; em extremo penoso custear
+as despezas, a que os filhos e discipulos os
+obrigam?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; de certo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que devem, pois, fazer os meninos a quem
+<span class="pagenum">[79]</span>
+se recommenda, que sejam arranjados e aceiados?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Devem obedecer.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E que merecem os que n&atilde;o fazem caso das
+advertencias de seus paes e mestres?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Merecem castigo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E de que s&atilde;o dignos os que estudam bem,
+e obedecem aos seus superiores, procurando em
+tudo conformar-se com os seus conselhos e preceitos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;S&atilde;o dignos de estima e de premio.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Respondeu com muito acerto. Por hoje basta
+de conversa&ccedil;&atilde;o. Antes, por&eacute;m de nos
+separarmos
+quero repetir-lhes um conselho muito prudente de
+um grande mestre. Decorem-n'o e sigam-n'o, se
+querem ser methodicos e arranjados. Eil-o:
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Logar certo para cada cousa, e cada cousa no
+seu logar</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c5" id="c5"></a>TERCEIRA
+LI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<h4>
+OS CONDISCIPULOS
+</h4>
+
+<br />
+
+P.&mdash;Recommendei-lhes outro dia, meus meninos,
+que n&atilde;o faltassem &aacute; aula, que viessem
+&aacute; hora
+marcada no regulamento, que se n&atilde;o esquecessem
+de trazer os livros, e mais objectos necessarios
+para as suas li&ccedil;&otilde;es, que se acostumassem a ser
+arranjados, methodicos, e desenxovalhados, e que
+tivessem o maior cuidado em n&atilde;o estragar os objectos
+de seu uso. N&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o poucos os
+deveres
+dos meninos; e como para bem os cumprirem &eacute;
+<span class="pagenum">[80]</span>
+indispensavel conhecel-os, vamos hoje conversar
+em outro assumpto, que muito lhes interessa. Come&ccedil;arei
+perguntando-lhes como se denominam, em
+geral, os meninos, que frequentam ao mesmo tempo
+uma aula?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Denominam-se <em>condiscipulos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;O encontrarem-se quasi todos os dias, estarem
+muito tempo juntos, lerem pelos mesmos livros,
+aprenderem com o mesmo professor, terem
+com pequenas differen&ccedil;as, a mesma idade, e trabalharem
+para conseguir o mesmo resultado, concorrer&aacute;
+para que os condiscipulos formem uma especie
+de familia ou irmandade, cujo pae espiritual &eacute;
+o professor?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Certamente.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se os condiscipulos, como affirmaes, s&atilde;o
+quasi irm&atilde;os, parece-me que devem tratar-se de
+maneira differente do que se tratam os meninos,
+que nem s&atilde;o parentes, nem condiscipulos.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Sem duvida.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;J&aacute; que t&atilde;o expeditamente confirmaes
+a minha
+opini&atilde;o, fazei merc&ecirc; de me dizer como se devem
+tratar os condiscipulos.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Devem tratar-se com delicadeza, bondade
+e amisade.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Optimamente, sr. estudantinho; mas como
+eu n&atilde;o quero deixar por mentiroso o rif&atilde;o, que
+diz: &laquo;As palavras s&atilde;o como as cerejas&raquo;,
+pe&ccedil;o-lhe
+me indique quaes actos de delicadeza h&atilde;o de praticar
+os condiscipulos; de certo n&atilde;o quereis que elles
+<span class="pagenum">[81]</span>
+deem excellencia uns aos outros, ou se sa&uuml;dem
+com salamaleks, &aacute; maneira dos turcos.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;H&atilde;o de cumprimentar-se quando se encontrarem
+em qualquer parte, e &aacute; entrada e sa&iuml;da
+da aula; n&atilde;o h&atilde;o de bater uns nos outros, nem
+rasgar ou sujar os vestidos; n&atilde;o h&atilde;o de usar nas
+suas conversas de palavras feias; se a qualquer
+tiver esquecido o livro, a lousa, a penna, ou qualquer
+outro objecto deve-se-lhe emprestar aquillo
+de que carecer.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito bem. E ser&aacute; delicado o menino que
+despresar o collega, por elle ser feio, ou aleijado,
+ou tartamudo, ou vesgo, ou coixo?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Ser&aacute; delicado o menino, que pozer alcunhas
+a seus condiscipulos, ou que lhes lan&ccedil;ar em
+rosto o serem filhos de pessoas pobres, ou n&atilde;o
+trajarem &aacute; moda, com elegancia, e esmero?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se ao mesmo tempo chegarem ao pote,
+para beber, dois meninos grosseiros, que acontecer&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Por-se-h&atilde;o a ralhar, querendo cada qual
+ser o primeiro que beba.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se um dos meninos f&ocirc;r delicado e o outro
+grosseiro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;O delicado ou se affastar&aacute;, para que o outro
+mate a sede em primeiro logar, ou encher&aacute; o
+copo e lh'o offerecer&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E se ambos forem delicados?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[82]</span>
+E.&mdash;N&atilde;o sei o que devam fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Menino F., responda &aacute; minha pergunta.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Se ambos forem bem criados, dever&aacute; o
+mais pequeno encher o copo e offerecel-o ao mais
+velho.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Mas pode acontecer que ambos tenham a
+mesma idade, ou que um n&atilde;o saiba a do outro.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Nesse caso o mais delicado antecipar-se-ha
+a obsequiar o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Respondeu com muito juizo. Que dever&aacute;
+fazer um menino delicado, se ao lanche, um condiscipulo
+lhe pedir um damasco, uma p&ecirc;ra, ou
+qualquer outra cousa, que lhe n&atilde;o fa&ccedil;a falta?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Deve dar-lh'a.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E pedir-lhe outra cousa em paga?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Do que temos estado a dizer conclue-se,
+que a delicadeza consiste n&atilde;o s&oacute; em evitar tudo
+quanto possa desgostar os outros, mas tambem
+na pratica de quanto honestamente lhes possa ser
+agradavel.&mdash;Desejo, por&eacute;m, que me digaes se
+delicadeza
+e bondade s&atilde;o o mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como assim?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Pode uma pessoa ser delicada e n&atilde;o ser
+boa; pode tratar os outros muito bem, mas n&atilde;o
+proceder assim por virtude, e t&atilde;o somente por genio,
+elegancia, ou astucia.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para que poss&acirc;mos ter um menino em
+conta de bom o que &eacute; necessario?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+E.&mdash;&Eacute; necessario que elle n&atilde;o
+fa&ccedil;a
+nenhuma
+ac&ccedil;&atilde;o m&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quando &eacute; que as nossas
+ac&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o m&aacute;s?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Quando offendem a Deus, ou ao proximo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Dizeis muito bem; mas para que este ponto
+se aclare bastante, fazei favor de me indicar algumas
+ac&ccedil;&otilde;es que reputeis m&aacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;S&atilde;o m&aacute;s ac&ccedil;&otilde;es
+n&atilde;o crer em Deus, n&atilde;o o
+amar, e n&atilde;o o temer; n&atilde;o cumprir as ordens dos
+nossos superiores; mentir, levantar falsos testemunhos;
+desprezar os pobres, e n&atilde;o os soccorrer;
+indagar das vidas alheias; furtar; comer e beber
+mais do que &eacute; preciso.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E ser mandri&atilde;o, n&atilde;o estudar bem as
+li&ccedil;&otilde;es
+&eacute; ac&ccedil;&atilde;o b&ocirc;a, ou
+m&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; m&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque, n&atilde;o estudando, desobedecemos a
+nossos paes e mestres.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como se chama a ac&ccedil;&atilde;o torpissima de
+tirar
+a alguem uma cousa &aacute;s escondidas.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chama-se furto.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E como se denomina o desgra&ccedil;ado, que
+furta?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Denomina-se ladr&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que merecem os ladr&otilde;es, estima ou desprezo?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Desprezo e castigo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E n&atilde;o ser&aacute; quasi ladr&atilde;o
+um menino,
+que,
+<span class="pagenum">[84]</span>
+mandriando, obriga seus paes a fazerem despeza
+excessiva para o educarem, e que prejudica a familia,
+em beneficio da qual deveriam reverter as
+quantias, que os paes consomem inutilmente com
+o pregui&ccedil;oso?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute;, sim, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Por consequencia merece desprezo e castigo
+o m&aacute;u estudante.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Certamente.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se na escola houver estudantes pobresinhos
+e estudantes abastados, que devem estes fazer relativamente
+&aacute;quelles?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Tratal-os muito bem.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;O bom tratamento de que fallaes consistir&aacute;
+somente em os admittirem &aacute; sua companhia na aula
+e na rua, e em praticarem com elles delicadamente,
+ainda que n&atilde;o andem bem trajados; ou
+consistir&aacute; tambem em auxilial-os, obtida licen&ccedil;a
+dos paes e mestres, para que lhes n&atilde;o faltem cousas
+indispensaveis, taes como o lapis, papel, compendios,
+etc., para comprar as quaes lhes n&atilde;o chegar
+o dinheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Parece-me que &eacute; dever dos estudantes
+endinheirados
+proteger em tudo os que o n&atilde;o s&atilde;o, e
+at&eacute; repartir com elles o
+<em>lunch</em>, e a merenda, por
+isso que os collegas se devem amar como irm&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito bem. E o amor fraternal dos collegas
+permittir&aacute; que andem a fazer queixas uns dos
+outros?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p85" id="p85">[85]</a></span>
+P.&mdash;Que dever&aacute; fazer um bom collega quando
+outro commetter uma pequena falta.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Deve advertil-o de que n&atilde;o fez bem, e
+aconselhal-o a que se emende.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E se um estudante quizer commetter um
+crime, ou praticar uma ac&ccedil;&atilde;o m&aacute;, ou se
+tiver delinquido,
+e se mostrar obstinado em n&atilde;o se emendar,
+o que dever&aacute; fazer o collega?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Se n&atilde;o poder evitar o mal, nem conseguir
+que o menino, que o praticou, trate de se corrigir,
+cumpre-lhe avisar o professor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Em voz alta, diante de todos, com acrimonia,
+e maneiras hostis, ou em <a href="#e8">particular</a>,
+e por
+modo, que n&atilde;o aggrave o delinquente?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Em particular e sem azedume.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se o professor perguntar a um estudante
+quem commetteu certa falta ou maldade, e o estudante
+interrogado souber quem foi, que dever&aacute;
+fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Dizer a verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quando tal aconte&ccedil;a, ficar&aacute; mal ao
+estudante
+implorar a clemencia do professor para o
+collega?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor; antes lhe ficar&aacute; muito
+bem.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Disse ainda agora um dos meninos que deviam
+os collegas ser amigos. A amisade &eacute; um sentimento
+mui delicado e nobre, e por isso mesmo
+mui raro. Umas vezes nasce do parentesco e convivencia
+intima, tal &eacute; a que aos filhos consagram
+os paes, e a estes os filhos, tal a dos av&oacute;s e netos,
+<span class="pagenum">[86]</span>
+e a dos tios e sobrinhos; outras vezes prov&eacute;m
+da sympathia, augmenta com a camaradagem,
+principalmente entre pessoas de indoles similhantes,
+e fortifica-se pela troca reciproca de servi&ccedil;os
+desinteressados e honestos. Mas, assim como &laquo;nem
+tudo o que luz &eacute; ouro&raquo;, assim nem toda a
+convivencia,
+posto que deleitavel, extremosa, e at&eacute; util,
+se p&oacute;de considerar amizade verdadeira.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Em que consiste, pois, a verdadeira amizade?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Em duas ou mais pessoas se estimarem
+reciproca e honestamente, como cada uma a si propria
+se estima.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Em vista do que dizeis, devem ser mui poucos
+os verdadeiros amigos; porque eu, n&atilde;o obstante
+ser ainda muito crean&ccedil;a, tenho notado que quasi
+todas as pessoas gostam mais de si, que dos outros.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Rarissimos s&atilde;o, &eacute; verdade, e por
+isso mesmo
+quem teve a felicidade de encontrar um, deve
+cuidar muito de o n&atilde;o perder.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;E o que nos acontecer&aacute;, se nunca tivermos
+um amigo verdadeiro?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Seremos menos felizes do que seriamos,
+se o tivessemos.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;V&oacute;s, sr. professor, sois muito feliz.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Por que me consideraes muito feliz?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque tendes muitos amigos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quem vos disse que tenho muitos amigos?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[87]</span>
+E.&mdash;Ninguem; mas tenho visto que pelas ruas
+uns vos cortejam, tirando-vos o chap&eacute;u, outros vos
+dizem adeus com a m&atilde;o, outros vos tratam por
+tu, muitos vos abra&ccedil;am e param a fallar comvosco.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como estaes enganado! Esses todos, com
+pouquissimas excep&ccedil;&otilde;es, sabeis o nome que
+merecem?
+Eu vol-o digo&mdash;<em>conhecidos</em>.&mdash;Se
+eu
+ca&iacute;sse
+de cama, quantos viriam acompanhar-me? se eu estivesse
+preso, quantos iriam suavisar-me a solid&atilde;o
+do carcere? se eu tivesse fome, quantos repartiriam
+commigo as suas s&ocirc;pas? se eu tivesse a desgra&ccedil;a
+de commetter um crime, quantos no dia seguinte
+se desbarretariam ao passar por mim?...
+Conhecidos, indifferentes, amigos do theatro, do
+baile, do passeio, que desapparecem, quando o verdadeiro
+amigo mais se approxima de n&oacute;s, nos dias
+sombrios e luctuosos da desgra&ccedil;a, e das
+tribula&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Como &eacute; ent&atilde;o que fallaes e mostraes
+t&atilde;o
+bonito modo a homens, que de nada vos prestam?
+N&atilde;o seria melhor desprezal-os?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o se deve desprezar ninguem. Quem
+n&atilde;o
+p&oacute;de beber por uma ta&ccedil;a de ouro, ou de crystal,
+ha de quebrar o copo de vidro ou o pucaro humilde
+de barro? Para os conhecidos, caridade e
+delicadeza; para os amigos, os affectos todos do
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Se vos n&atilde;o enfado, far-vos-hei ainda uma
+pergunta.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quantas quizerdes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+E.&mdash;De que tra&ccedil;a nos havemos de servir para
+grangear amigos verdadeiros?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Um sabio, a quem fizeram igual pergunta,
+respondeu: <em>Se quizeres ser amado,
+ama</em>. A semente
+da amisade &eacute; a sympathia, ou reciproca
+inclina&ccedil;&atilde;o,
+gerada, ou da analogia das indoles e estados,
+ou de certas qualidades, que mal se p&oacute;de dizer
+quaes sejam, mas que parecem attrair umas
+para as outras as pessoas, que as tem.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;De maneira que, se eu entrar n'uma casa
+e me agradar de uma pessoa, que n&atilde;o conhe&ccedil;a,
+ainda que n&atilde;o seja da minha idade, nem bonita, e
+sentir para ella inclina&ccedil;&atilde;o, poderei dizer que
+<em>sympathizei</em>
+com ella.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;De certo.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Mas &aacute;s vezes tambem succede o contrario;
+olha a gente para um homem ou para uma senhora,
+e posto que nem sejam feios, nem desastrados, experimenta
+certa repugnancia em tratal-os.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;A essa repugnancia se d&aacute; o nome de
+<em>antipathia</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Quando pois, sympathisarmos com alguem,
+poderemos contar com um verdadeiro amigo?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Nem sempre. &Aacute; vossa pergunta respondeu
+ha muito tempo um escriptor portuguez dos mais
+eruditos, chamado Antonio de Sousa de Macedo,
+cujas obras vos recommendo desde j&aacute; para quando
+fordes maiorzinhos. Ouvi o que elle a tal respeito
+escreveu. &laquo;D'entre os mesmos em que se acham
+sympathias, se deve fazer distinc&ccedil;&atilde;o, antes de
+trabalhar
+<span class="pagenum">[89]</span>
+pelos fazer amigos, por que nem todos ser&atilde;o
+convenientes.
+<br />
+
+<br />
+
+Suetonio diz de Augusto, que os
+<em>escolhia</em> com vagar,
+e os conservava constantemente. Devem-se
+preferir os de <em>melhor juizo</em>,
+<em>bons costumes</em>,
+<em>valor</em>,
+<em>sinceridade</em>, e
+<em>b&ocirc;a fama</em>. Nem com o
+<em>nescio</em>, diz
+o ecclesiastico, nem com o <em>mau</em>, diz
+santo Agostinho,
+nem com o <em>pouco verdadeiro</em>, diz
+Aristoteles,
+p&oacute;de haver amizade.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;S&atilde;o essas as qualidades que devem ter os
+amigos, e muito folgo de que t&atilde;o claramente nol-as
+expozesse esse auctor portuguez, cujo nome citastes;
+mas quando se nos depare alguem com todos
+esses requisitos, que deveremos fazer para lhe captivarmos
+a amizade?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Seja tambem Macedo quem vos responda.
+Diz elle: &laquo;Feita a elei&ccedil;&atilde;o, a
+communica&ccedil;&atilde;o e conversa&ccedil;&atilde;o
+faz os amigos, concordando nos ditos, e nas
+ac&ccedil;&otilde;es (suppondo que tudo ha de ser honesto e
+judicioso)
+e para a facil, sincera, e agradavel concordia,
+contribue especialmente a sympathia, a qual,
+accrescentou um sabio, se deve ajudar com algum
+beneficio, feito graciosamente, sem ser rogado, nem
+depois publicado.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Algum beneficio?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o fiqueis ahi pensando que os beneficios,
+que penhoram a amizade, sejam t&atilde;o s&oacute;mente mimos
+e presentes de cousas, que se merquem nas
+lojas, ou de fructas e manjares; boas s&atilde;o essas provas
+de amizade, mas n&atilde;o s&atilde;o as unicas, nem as mais
+<span class="pagenum">[90]</span>
+apreciaveis. Por beneficios deveis entender tambem,
+os conselhos prudentes, os exemplos dignos
+de imita&ccedil;&atilde;o, a companhia na doen&ccedil;a, e
+nas tribula&ccedil;&otilde;es,
+o ensino fraternal e at&eacute; a reprehens&atilde;o suave
+das faltas e defeitos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Resumo
+</h4>
+
+<br />
+
+Os condiscipulos s&atilde;o quasi irm&atilde;os, filhos
+espirituaes
+do professor. Devem ser delicados, bons,
+e amigos. Devem cumprimentar-se &aacute; entrada e sa&iuml;da
+da aula e sempre que se encontrarem. Devem prestar
+uns aos outros todos os servi&ccedil;os, que puderem.
+Os estudantes pobres, defeituosos, mal vestidos
+merecem, sendo bons, tanta estima e considera&ccedil;&atilde;o,
+como os abastados, s&atilde;os, e tafues. Nem sombra de
+alcunhas, principalmente allusivas a quaesquer deformidades,
+ou imperfei&ccedil;&otilde;es do corpo ou do espirito.
+Se nos pedirem cousa, que possamos emprestar
+ou ceder, emprestemol-a, ou cedamol-a, sem
+exigir paga, nem agradecimento. Delicadeza n&atilde;o &eacute;
+bondade. Toda a ac&ccedil;&atilde;o contraria &aacute; lei
+de Deus, ou
+&aacute;s leis humanas, quando estas n&atilde;o offendem
+aquella,
+&eacute; m&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+O mandri&atilde;o merece castigo e desprezo. Desde a
+aula deve o rico ajudar o pobre.&mdash;Se algum estudante
+fizer maldades advirtam-n'o os que as presenciarem;
+mas n&atilde;o as divulguem. Quando um estudante
+praticar ac&ccedil;&otilde;es indignas, e admoestado
+pelos condiscipulos, se n&atilde;o emendar, recorra-se ao
+<span class="pagenum">[91]</span>
+professor, dizendo-lhe em particular, e sem aggravar
+o mal, quanto baste para que elle proceda
+como f&ocirc;r de justi&ccedil;a. &Eacute; prova de
+delicadeza e bondade
+de cora&ccedil;&atilde;o implorar misericordia para os que
+estiverem em risco de ser castigados. Nunca se
+deve mentir; a mentira &eacute; a torpeza das torpezas.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o amigas duas pessoas que reciproca e honestamente
+se estimam como cada uma d'ellas se estima
+a si propria. Ha amizade verdadeira, e falsa.&mdash;Nem
+todos os que parecem amigos, o s&atilde;o; n&atilde;o
+se deve confundir o amigo com o conhecido. Amar
+&eacute; o meio de grangear amigos. A amizade nasce da
+sympathia; mas nem todos com quem sympathis&acirc;mos
+podem ser nossos amigos. As qualidades que
+dever&aacute; ter um amigo, s&atilde;o: bom juizo, bons
+costumes,
+valor, sinceridade, b&ocirc;a fama. N&atilde;o deve ser
+nescio, nem mau, nem mentiroso. Para o grangear
+bastar&aacute; a communica&ccedil;&atilde;o e
+conversa&ccedil;&atilde;o, auxiliadas
+por obsequios desinteressados.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Reflex&otilde;es
+</h4>
+
+<br />
+
+&Eacute; finda a nossa palestra de hoje. Temos dito
+muitas cousas, mas n&atilde;o basta fallar; &eacute;
+indispensavel
+fugir do mal e praticar o bem. Muito falla o
+papagaio, mas que faz tamanho palrador? Come o
+que lhe deitam no comedouro, e nas horas vagas
+vae roendo a gaiola. Ninguem dir&aacute; com verdade,
+que seja muito para se imitar a tal ave palreira.
+Palavras, leva-as o vento, dil-o o rif&atilde;o, e n&atilde;o
+mente.
+<span class="pagenum">[92]</span>
+Para vos n&atilde;o parecerdes com aquelle animalzinho
+inutil, amae-vos muito uns aos outros; auxiliae-vos
+fraternalmente, cumpr&iacute; &aacute; risca todas as vossas
+obriga&ccedil;&otilde;es,
+e lembrae-vos a cada momento de que os
+homens do futuro, os paes de familia, os mestres,
+os escriptores, os ministros, os deputados, os juizes,
+os sacerdotes, os militares, os medicos, os
+pharmaceuticos, os advogados, os artistas, os negociantes,
+os industriaes, os lavradores haveis de
+ser v&oacute;s, e de que para profiss&otilde;es t&atilde;o
+variadas, t&atilde;o
+nobres, t&atilde;o difficeis e de tantissima responsabilidade,
+vos deveis desde j&aacute; preparar, estudando e
+praticando todas as virtudes, para que, chegada
+que seja a hora de entrardes na vida activa e de
+servirdes a civilisa&ccedil;&atilde;o, que exige obreiros
+intelligentes
+e honrados, possaes cabalmente desempenhar
+os vossos deveres.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c6" id="c6"></a>QUARTA
+LI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<h4>
+VIDRO<sup><a href="#n11">[11]</a></sup>
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Escolheu o professor Mayo o vidro para assumpto
+da primeira li&ccedil;&atilde;o do ensino intuitivo, ou de
+objectos,
+por lhe parecerem as qualidades d'este corpo
+mais perceptiveis aos nossos sentidos, que as de
+qualquer outro. Aconselha o mesmo professor que
+fiquem os meninos defronte do quadro preto, onde
+se h&atilde;o de ir escrevendo os resultados de suas
+observa&ccedil;&otilde;es;
+<span class="pagenum">[93]</span>
+e que o peda&ccedil;o de vidro v&aacute; passando
+de m&atilde;o para m&atilde;o, para que cada um dos estudantes
+individualmente o examine. O tomar cada menino
+o fragmento de vidro em suas m&atilde;os e o il-o
+observando com atten&ccedil;&atilde;o &eacute;, como atraz
+observ&aacute;mos,
+ponto de grande importancia para o bom resultado
+do ensino. Diz a este proposito o excellente
+pedagogista Mayo o seguinte: &laquo;D'este modo cada
+individuo, dos que comp&otilde;em a aula, se v&ecirc; obrigado
+a exercitar as suas faculdades sobre o objecto,
+que se lhe apresenta; servindo as perguntas,
+que depois lhes faz o professor, para que elles revelem
+suas id&eacute;as, e para a emenda d'estas, se forem
+erroneas.
+<br />
+
+<br />
+
+P. (Mostrando um bocado de vidro)&mdash;Que &eacute; isto,
+que eu tenho na m&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; um bocado de vidro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Vamos soletrar a palavra <em>vidro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+(<em>Feita esta advertencia, escreve o professor no
+quadro preto a palavra vidro, dividida em duas
+syllabas</em>; pronunc&iacute;a alto e bom som, em primeiro
+logar as lettras <em>v-i-d-r-o, acompanhando a
+pronuncia&ccedil;&atilde;o
+de cada uma d'ellas de uma pancada com
+o ponteiro no quadro, ou de uma palmada; e pronunc&iacute;a
+depois as duas syllabas mui distinctamente.
+Em seguida repetem os estudantes primeiro individualmente,
+e depois em c&ocirc;ro, aquella soletra&ccedil;&atilde;o,
+at&eacute; que a saibam correctamente fazer</em>.)
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Todos v&oacute;s examinastes este vidro; e que
+notastes n'elle? Que podeis dizer que &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[94]</span>
+(P&otilde;e-se esta pergunta em logar de: Quaes s&atilde;o as
+suas propriedade? porque &eacute; muito provavel que a
+principio n&atilde;o entendam os meninos o sentido da
+palavra &laquo;propriedade&raquo;; mas applicando-a repetidas
+vezes o professor &aacute;s respostas que os estudantes
+derem, em pouco tempo se acostumar&atilde;o a ella e
+lhe perceber&atilde;o o sentido).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; brilhante.
+<br />
+
+<br />
+
+P. (Depois de ter escripto no quadro a palavra
+&laquo;propriedade&raquo;, escreve por baixo:
+&laquo;&Eacute; brilhante&raquo;).&mdash;Pegae-lhe;
+apalpae-o. (Dever&aacute; o professor dirigir
+aos estudantes perguntas conducentes a p&ocirc;r-lhes
+successivamente em ac&ccedil;&atilde;o os differentes
+sentidos).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; frio. (Escreve-se esta resposta no quadro
+por baixo da outra qualidade).
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Tornae a pegar no vidro, e comparae-o com
+este fragmento de esponja, com que limp&acirc;mos o
+quadro, e dizei-me o que notastes no vidro. (O intento
+do professor ao fazer esta pergunta, deve ser
+conseguir que os estudantes observem a &laquo;lisura&raquo;,
+contrapondo esta propriedade &aacute; sua opposta, a
+&laquo;aspereza&raquo;
+de outra substancia; meio de demonstra&ccedil;&atilde;o
+que muitas vezes se poder&aacute; empregar).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; lizo; &eacute; duro.
+<br />
+
+<br />
+
+p.&mdash;Ha na aula outro objecto de vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ha sim senhor; os vidros das vidra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Olhae pelas vidra&ccedil;as, e dizei-me o que
+v&ecirc;des.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Vemos o jardim.
+<br />
+
+<br />
+
+P. (Fechando as portas da janella)&mdash;Olhae agora
+e dizei-me o que v&ecirc;des.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span>
+E.&mdash;Agora n&atilde;o podemos v&ecirc;r nada.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque &eacute; que n&atilde;o v&ecirc;des
+nada?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque atravez das portas n&atilde;o se
+p&oacute;de
+v&ecirc;r
+nada.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que differen&ccedil;a notaes entre as portas e o
+vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Not&acirc;mos que atravez das portas nada podemos
+v&ecirc;r, e que atravez do vidro v&ecirc;mos o jardim.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Podeis dizer-me alguma palavra, que indique
+essa qualidade, que tem o vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Eu vol-a digo. Tomae sentido, para que vos
+n&atilde;o esque&ccedil;a. &Eacute;
+<em>transparente</em>. D'aqui por diante
+que id&eacute;a fareis d'um corpo, se vos disserem que
+&eacute; transparente?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Que se pode v&ecirc;r atravez d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Respondestes muito bem. Lembraes-vos de
+alguma cousa que seja transparente?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A agua.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que aconteceria se eu deixasse cair no
+ch&atilde;o este peda&ccedil;o de vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Quebrar-se-ia.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E se da rua atirassem pedras &aacute; janella?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Quebrar-se-iam os vidros.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabeis como se chamam os corpos, que
+tem esta qualidade, ou propriedade de se partirem,
+quando caem n'um corpo duro, ou quando
+se lhes bate?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[96]</span>
+P.&mdash;Chamam-se
+<em>quebradi&ccedil;os</em>, ou
+<em>frageis</em>,&mdash;Dizei-me,
+se deixassemos cair a porta da janella ou
+se contra ella atirassemos uma pedra, que succederia?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ficaria inteira.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E se eu lhe batesse muito de rijo com outro
+corpo durissimo?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Quebrar-se-ia.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;A madeira &eacute; quebradi&ccedil;a, ou fragil?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Deveremos chamar frageis a todas as substancias,
+que podermos quebrar?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;-N&atilde;o, senhor; <em>frageis</em>
+diremos s&oacute; aquellas,
+que se quebrarem com facilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para que serve o vidro? que prestimo tem?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Serve para as janellas.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que vantagem ha em p&ocirc;r vidra&ccedil;a nas
+janellas?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ter as casas abrigadas do vento, da chuva,
+da poeira, e das moscas.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Parece-me que, fechando-se as portas das
+janellas, n&atilde;o entrariam pelas casas dentro, nem
+moscas, nem poeira, nem chuva, nem vento.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Mas cerradas as portas das janellas, ficariam
+as casas &aacute;s escuras, e n&atilde;o poderiamos
+v&ecirc;r
+para f&oacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito bem. Dizei-me porque raz&atilde;o n&atilde;o
+tira
+o vidro a claridade &aacute;s casas, nem obsta a que se
+vejam os objectos que est&atilde;o f&oacute;ra?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque &eacute;
+<em>transparente</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[97]</span>
+P.&mdash;N&atilde;o ha outros objectos de vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ha c&oacute;pos, garrafas, casti&ccedil;aes,
+espelhos,
+tinteiros,
+etc.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; provavel, diz o professor Mayo, que na primeira
+li&ccedil;&atilde;o n&atilde;o occorram aos meninos outras
+qualidades;
+mas estas s&oacute;s, escriptas no quadro preto,
+constituir&atilde;o um bom exercicio de
+soletra&ccedil;&atilde;o. Devem-se
+depois apagar; e se os estudantes j&aacute; souberem
+escrever, poder&atilde;o exercitar a memoria e repetir
+a li&ccedil;&atilde;o, escrevendo-as de novo nas ardosias.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c7" id="c7"></a>QUINTA
+LI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<h4>
+CAOUTCHOUC&mdash;GOMMA ELASTICA&mdash;BORRACHA<sup><a href="#n12">[12]</a></sup>
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Escolheu o professor Mayo esta substancia para
+objecto da segunda li&ccedil;&atilde;o, para que os meninos
+observem
+as qualidades, ou propriedades, que os physicos
+denominam <em>opacidade</em>,
+<em>elasticidade</em>, e
+<em>inflammabilidade</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[98]</span>
+P.<sup><a href="#n13">[13]</a></sup>&mdash;Que
+&eacute; isto? (Mostrando um bocado de
+caoutchouc).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; um bocado de
+<em>borracha</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Parece-se com o vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Em nada.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Ponde esse pedacinho de <em>borracha</em>
+diante
+dos olhos e olhae para mim... V&ecirc;des-me?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se nas janellas, em vez de vidros, estivessem
+laminas de borracha, que aconteceria?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ficariam as casas &aacute;s escuras, e n&atilde;o
+poderiamos
+v&ecirc;r para f&oacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabeis como se chama a qualidade, que tem
+a <em>borracha</em> de n&atilde;o deixar
+v&ecirc;r atravez de si, como
+o vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Chama-se <em>o-pa-ci-da-de</em>.
+Repet&iacute; commigo
+esta palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>O-pa-ci-da-de.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Vou escrevel-a; olhae attentamente. (O professor
+escreve no quadro preto: <em>Propriedades ou
+qualidades da
+borracha</em>&mdash;<em>O-pa-ci-da-de</em>).
+Menino
+F., como chamareis aos corpos, que tem opacidade?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Opacos.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Ponde diante dos olhos a lousa, que ahi
+tendes, e olhae para mim. V&ecirc;des-me?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[99]</span>
+P.&mdash;Porque me n&atilde;o v&ecirc;des, quando entre mim
+e v&oacute;s est&aacute; um bocado de lousa?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque a lousa &eacute;
+<em>opaca</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Menino G., dizei-me se est&aacute; alguem ali
+n'aquelle quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Eu vou v&ecirc;r. (Levantando-se).
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o vos levanteis; olhae d'ahi, do vosso logar.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;D'aqui n&atilde;o posso v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque n&atilde;o podeis v&ecirc;r d'ahi o que se
+passa
+n'aquelle quarto?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque se mette de permeio a parede.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E se a parede fosse de vidro, poderieis ver
+para dentro d'aquella casa?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Veria de certo, porque o vidro &eacute; transparente;
+mas a
+parede n&atilde;o &eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como diremos que &eacute; a parede, attendendo
+a que nos tira a vista das cousas, que est&atilde;o para
+al&eacute;m d'ella?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Diremos que &eacute; opaca.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;A borracha p&oacute;de facilmente cortar-se com
+a thesoura. Vou cortar umas tiras, para os meninos
+fazerem uma brincadeira. Eil-as: Tomem estas
+tirinhas de borracha, segurem-n'as pelas extremidades
+e puxem-n'as, como quem quizesse esticar
+uma linha... Basta, basta; agora larguem-n'as de
+um lado... Que vistes?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A borracha deu de si, estendeu, estendeu;
+e, logo que a larg&aacute;mos, voltou ao primitivo comprimento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[100]</span>
+P.&mdash;Tomem agora este bocado de vidro, e puxem-n'o
+bem.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o d&aacute; de si; n&atilde;o
+estende.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Temos, pois, que a borracha, sendo puxada,
+estende, e logo que a soltam volta &aacute; primeira;
+e que o vidro, por mais que o puxem, n&atilde;o
+d&aacute; de si. Porque ser&aacute; isso?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Provavelmente &eacute; por que a borracha tem
+alguma qualidade, que n&oacute;s ignor&acirc;mos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como &eacute; que a ignoram, se acabam de a
+observar?! O que os meninos ignoram &eacute; o nome
+que essa propriedade tem.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Podeis-nos dizer como se chama?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Chama-se <em>e-las-ti-ci-da-de</em>.
+Repeti commigo
+este nome:
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>E-las-ti-ci-da-de.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Reparae; vou escrevel-o no quadro preto,
+por baixo do nome da outra qualidade da borracha,
+por baixo da palavra... (Tapando com a m&atilde;o
+a palavra no quadro).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Opacidade.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito bem; n&atilde;o se esqueceram.
+<br />
+
+<br />
+
+(Escreve) Aqui est&aacute;:
+<em>Elasticidade</em>. Tomae outra vez
+as tirinhas de borracha; e em vez de puxal-as, torcei-as
+entre os dedos, que se chamam
+<em>pollegar</em> (Mostra
+o dedo pollegar) e est'outro (Mostra o indicador), que
+se chama <em>indicador</em>... Agora
+largae-as. Que observaes?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Destorcem-se por si.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Menino A... por que &eacute; que se destorcem
+por si essas tirinhas de borracha?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[101]</span>
+E.&mdash;Provavelmente, pela mesma qualidade, pela
+qual ainda agora estenderam e encolheram, ficando
+do comprimento, que tinham, antes de as estarmos
+a puxar.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Assim &eacute;. Dizei-me agora o que &eacute;
+isto?
+(Mostrando
+uma p&eacute;la)
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Isso &eacute; uma p&eacute;la de brincar.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque ser&aacute; que todos os meninos gostam
+de jogar a p&eacute;la?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; porque as p&eacute;las saltam muito, e
+n&oacute;s temos
+de correr atraz d'ellas, caio aqui, acol&aacute; me
+levanto.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabeis de que s&atilde;o feitas as p&eacute;las?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;S&atilde;o feitas de borracha<sup><a href="#n14">[14]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque n&atilde;o fazem as p&eacute;las de barro,
+ou
+de folha de Flandres, ou de pau, ou de corti&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque se fossem feitas d'essas materias
+n&atilde;o saltariam.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que ha, pois, nas p&eacute;las de borracha, que as
+faz andar aos pulos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sabemos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E se eu lhes disser, que sabem? Pensem,
+<span class="pagenum">[102]</span>
+meditem. Atiro esta p&eacute;la ao ch&atilde;o, ella bate no
+sobrado, achata-se, immediatamente toma a primitiva
+f&oacute;rma, a f&oacute;rma de bola, ou de esphera, como
+dizem os sabios, e eil-a a pular.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;J&aacute; sabemos porque as p&eacute;las de
+borracha
+saltam, e as outras n&atilde;o. &Eacute; por causa da
+<em>elasticidade</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Acertastes. N'aquelle retomar a f&oacute;rma de
+esphera ou bola immediatamente depois de se ter
+achatado ao bater no ch&atilde;o, &eacute; que est&aacute;
+a elasticidade.
+Outra pergunta &aacute;cerca d'esta qualidade. Dizei-me,
+se vos occorre, o nome com que podemos
+designar os corpos, que tem elasticidade.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Podem chamar-se <em>elasticos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Assim &eacute;. Reparae agora no que vou mostrar-vos.
+(O professor acende uma v&eacute;la). Temos
+aqui um rolosinho de ferro (Mostra-o), um rolosinho
+de barro (Mostra-o), este peda&ccedil;o de pederneira
+(Mostra-o), e um fragmento de borracha.
+Pego no rolo de ferro pelo cabo de madeira, para
+me n&atilde;o queimar, chego-o &agrave; luz, como vedes, mas
+elle fica no mesmo estado. Pego no rolo de barro,
+que n&atilde;o tem cabo de madeira, por que n&atilde;o aquece
+t&atilde;o depressa como o ferro, chego-o &aacute; luz e nada
+de novo; com a pederneira acontece o mesmo. Ide
+agora ver o que succede ao approximar da luz um
+fragmento de borracha. Tomae sentido, porque me
+haveis de dizer o que virdes. Por cautela, em vez
+de tomar a borracha com os dedos, pego-lhe com
+a thesoura. Atten&ccedil;&atilde;o. (O professor chega a
+borracha
+<span class="pagenum">[103]</span>
+&aacute; luz, e apenas ella se inflammar, affasta-a da
+v&eacute;la, e a colloca por cima de um vaso, que tenha
+agua, evitando que lhe caia derretida nas m&atilde;os).
+Que vistes?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Vimos a borracha incendiar-se e arder com
+chamma mui intensa e clara.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;S&oacute; isso observastes?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;E derreter-se.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Nada mais?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Mais nada.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o prestastes bastante
+atten&ccedil;&atilde;o.
+Vou repetir
+a experiencia. (Repete-a). Dizei-me se vistes
+mais alguma cousa?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A borracha derretida cair em pingos sobre
+a agua, que est&aacute; n'esse vaso.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Exactamente. Esta qualidade da borracha
+&eacute; mui differente das outras duas:
+<em>elasticidade</em> e
+<em>opacidade</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Certamente.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabeis como se chama?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sabemos. Fazei merc&ecirc; de nol-o
+dizer.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Chama-se <em>in-flam-ma-bi-li-da-de</em>,
+ou propriedade
+de arder com chamma. Bom ser&aacute; que repitaes
+commigo o nome d'esta qualidade, ou propriedade
+da borracha, para que vos n&atilde;o esque&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>In-flam-ma-bi-li-da-de.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Vou escrever este nome, que nada tem de
+pequeno, sob o das outras qualidades. Qual de v&oacute;s
+&eacute; capaz de me dizer como chamaremos aos corpos,
+que chegados a uma luz, arderem com chamma?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+E.&mdash;Sou eu.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Dizei pois.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Os corpos, que ardem com chamma, denominam-se
+<em>inflammaveis</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;O ferro, o barro, a pederneira, s&atilde;o
+inflammaveis?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor; mas a borracha &eacute;, e
+muito.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Podeis dizer-me a c&ocirc;r da borracha?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Negra.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Vou escrever o nome d'essa qualidade no
+quadro preto (Escreve). Dizei-me, meus meninos,
+se vos lembra alguma cousa, bastante vulgar, &aacute;
+qual a borracha se assemelhe n&atilde;o s&oacute; na
+c&ocirc;r, mas
+principalmente na grossura, na consistencia, na impress&atilde;o
+que nos faz, quando a apert&acirc;mos e revolvemos
+entre os dedos.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Assemelha-se ao couro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito bem. O que provavelmente n&atilde;o sabeis
+&eacute; como se nomeiam as substancias analogas
+ao couro.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sabemos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Dizem se <em>co-ri-a-ce-as</em>.
+Repet&iacute; pausadamente
+esta palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Co-ri-a-ce-as</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Menino B...; vejo que estaes passando as
+cabe&ccedil;as dos dedos por cima d'esse bocado de borracha,
+e esse acto t&atilde;o simples accordou-me o desejo
+de vos fazer uma pergunta. Quando pass&acirc;mos
+a m&atilde;o, ou s&oacute;mente as cabe&ccedil;as dos dedos
+por cima
+de diversos corpos, sentimos a mesma impress&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[105]</span>
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor; umas vezes &eacute; agradavel
+a
+impress&atilde;o, que sentimos; outras vezes, desagradavel.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Podereis dar-me exemplo de uma e outra?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Correndo a m&atilde;o por cima de um panno de
+l&atilde; grosseiro, ou por uma taboa, que n&atilde;o esteja
+aplanada, sinto impress&atilde;o desagradavel; correndo-a
+por sobre uma folha de papel de peso, ou por um
+vidro bem polido, tenho uma impress&atilde;o agradavel.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabeis que nome se d&aacute; aos corpos, quando
+a sua superficie &eacute; como a do panno de l&atilde;
+grosseiro,
+e da taboa n&atilde;o aplanada?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Diz-se que s&atilde;o
+<em>asperos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E quando a superficie dos corpos &eacute; como
+a do papel fino, ou de peso, e a do vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Diz-se que s&atilde;o <em>lisos</em>,
+ou <em>macios</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;A borracha &eacute; aspera, ou macia?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; <em>macia</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Fic&acirc;mos pois, sabendo, que a borracha
+&eacute;
+<em>opaca</em>,
+<em>elastica</em>,
+<em>inflammavel</em>,
+<em>negra</em>,
+<em>coriacea</em>, e
+<em>macia</em>. Mais uma pergunta, e
+d&acirc;mos por terminada
+a nossa palestra.
+<br />
+
+<br />
+
+Tem a borracha algum prestimo?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Serve para apagar os tra&ccedil;os, que o lapis
+deixou no papel, para fazer p&eacute;las e outros objectos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[106]</span>
+<h3><a name="c8" id="c8"></a>SEXTA
+LI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<h4>
+COURO
+</h4>
+
+<br />
+
+Nesta li&ccedil;&atilde;o pretende o professor Mayo dar aos
+meninos id&eacute;a das seguintes propriedades, ainda por
+elles n&atilde;o estudadas:
+<em>flexibilidade</em>,
+<em>cheiro</em>,
+<em>impermeabilidade
+&aacute; agua</em>; e recordar-lhes algumas,
+j&aacute;
+estudadas a proposito da borracha.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Tomae, meus meninos, este corpo (Dando-lhes
+&aacute;s m&atilde;os um bocado de couro), examinae-o,
+e dizei-me se sabeis o que &eacute;?<sup><a href="#n15">[15]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; um peda&ccedil;o de couro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Recordae-vos do que dissemos hontem a
+respeito da borracha, e dizei-me se o couro tem
+com ella alguma parecen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Tem, sim, senhor; e bastante.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito prazer me darieis se fizesseis favor<sup><a href="#n16">[16]</a></sup>
+de me dizer porque se parecem esses dois corpos,
+que em realidade s&atilde;o mui differentes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[107]</span>
+E.&mdash;Dissemos que se parecem, porque ambos
+s&atilde;o <em>opacos</em>,
+<em>coriaceos</em> e
+<em>macios</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E n&atilde;o vos enganastes; mas o couro tem
+outras qualidades, que podereis descobrir, se o observardes
+com atten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;(Hesitam, e ficam-se a olhar para o professor).
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se os olhos me n&atilde;o illudem, todos
+v&oacute;s tendes
+nariz; ora, pois, servi-vos d'elle, consultae-o.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;(Cheirando o couro). Tem <em>cheiro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Assim &eacute;. Menino C..., dizei-me se todos os
+corpos tem cheiro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor; o vidro, e a lou&ccedil;a,
+n&atilde;o tem
+cheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Lembra-vos alguma substancia, que tenha
+cheiro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Lembram-nos muitas: o ch&aacute;, o caf&eacute;, a
+manteiga,
+o vinagre.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quando uma substancia exhala cheiro proprio,
+como diremos que &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Cheirosa.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;<em>Cheirosas</em> dizemos as que tem
+cheiro proprio
+ou alheio. Por exemplo: se deitarmos no len&ccedil;o
+de assoar algum ar&ocirc;ma, tal como agua de Colonia,
+ou almiscar, ficar&aacute; o len&ccedil;o
+<em>cheiroso</em>; n&atilde;o obstante
+n&atilde;o ter cheiro seu, proprio. Se por&eacute;m uma
+substancia
+&eacute; dotada de cheiro, bom ou mau, como o
+ch&aacute; ou o petroleo, melhor lhe chamaremos:
+<em>odorifera</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Pelo que dizeis, o couro &eacute;
+<em>odorifero</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[108]</span>
+P.&mdash;De certo. Digam todos em c&ocirc;ro esse nome.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>O-do-ri-fe-ro.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Continuemos a examinar o couro. Al&eacute;m,
+est&aacute; o menino F... a dobrar aquelle peda&ccedil;o,
+provavelmente
+para v&ecirc;r se o p&oacute;de partir em dois. Vejamos
+o que elle nos diz da sua experiencia.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Dobra-se, mas n&atilde;o se parte.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E acontece o mesmo a todos os corpos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor; ha bem pouco tempo parti
+eu uma regoa de madeira, por querer dobral-a.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Qual ser&aacute; a palavra com que poss&acirc;mos
+representar
+a qualidade, que tem o couro, de se dobrar
+sem se partir?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;(Silencio.)
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Pensae no caso, e lembrae-vos de que ha
+palavras parecidas umas com as outras, ou parentas.
+Por exemplo: bondade e bom; maldade e mau;
+aquentar e quente; rasgar e rasgado.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;J&aacute; sabemos, como deveremos chamar aos
+corpos, que se dobram facilmente, sem se quebrarem
+ou partirem.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que esperaes, para nos dar esse alegr&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chamar-lhes-hemos
+<em>dobradi&ccedil;os</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;-Deram no vinte; mas eu sei outro nome,
+que quer dizer o mesmo, mas que &eacute; mais afidalgado,
+e por isso menos vulgar. Vou escrevel-o no
+quadro, e soletral-o-h&atilde;o os que sabem ler. (Escreve
+no quadro preto, na columna onde est&atilde;o indicadas
+as outras qualidades).
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+E.&mdash;(Em alta voz) <em>Fle-xi-vel</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Qual dos meninos &eacute; capaz de me dizer o
+nome da qualidade, ou propriedade em virtude da
+qual s&atilde;o <em>flexiveis</em> alguns
+corpos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Deve chamar-se <em>flexibilidade</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito bem respondeu o menino G... N&atilde;o
+se esque&ccedil;am os outros do que lhe ouviram, e fiquem
+sabendo que, quando qualquer corpo se dobra,
+como o couro, e como elle se n&atilde;o quebra ou
+rasga, &eacute; porque tem
+<em>flexibilidade</em>. Se n&atilde;o
+temesse
+can&ccedil;al-os, ainda lhes havia de fazer mais perguntas
+a respeito d'este corpo, que pelos servi&ccedil;os, que
+nos presta, bem merece, que nos entretenh&acirc;mos
+com elle.<sup><a href="#n17">[17]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Podeis continuar, senhor professor, que n&atilde;o
+est&acirc;mos can&ccedil;ados.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;J&aacute; que assim o quereis,
+fa&ccedil;&acirc;mos uma
+experiencia.
+Tomem quatro meninos este len&ccedil;o pelas
+quatro pontas e estendam-n'o, mas n&atilde;o muito. Outro
+menino deite-lhe em cima uma pouca d'agua.
+(Os meninos executam o que o professor lhes manda).
+Que observaes?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;O len&ccedil;o molha-se.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E que mais acontece?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A agua atravessa o len&ccedil;o e cae no sobrado.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Ponde agora este bocado de papel mata-borr&atilde;o
+<span class="pagenum">[110]</span>
+sobre o
+len&ccedil;o, deitae-lhe por cima mais
+agua, e v&ecirc;de o que succede.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Molha-se tambem o papel e deixa passar a
+agua.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Espremei o len&ccedil;o, e dizei-me o que observaes.
+<br />
+
+<br />
+
+E. (Espremendo o len&ccedil;o)&mdash;Escorre a agua, que
+o len&ccedil;o tinha em si, e este fica menos molhado.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Fazei com este bocado de couro o que fizestes
+com o len&ccedil;o; isto &eacute;, estendei-o horisontalmente,
+e deitae-lhe agua por cima.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A agua n&atilde;o pode atravessar o couro;
+n&atilde;o
+cae no ch&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Entornae a agua, e v&ecirc;de se o couro ficou
+ensopado.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o ficou, n&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabeis porque assim acontece?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sabemos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o se ensopa na agua, porque essa &eacute;
+uma das suas qualidades, ou propriedades. De um
+corpo, que a agua n&atilde;o atravessa, diremos que &eacute;
+<em>impermeavel</em>
+&aacute; agua.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Fazeis merc&ecirc; de repetir esse nome, que
+n&atilde;o percebemos bem.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Vou escrevel-o no quadro preto, para que
+o leiam, e repetil-o-hemos depois com muito vagar.
+(Escreve).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;-<em>Im-per-me-a-vel.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Relanceae os olhos pelos objectos, que est&atilde;o
+n'esta aula, e dizei-me se haver&aacute; entre elles
+algum, que seja <em>impermeavel</em>
+&aacute; agua.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[111]</span>
+E.&mdash;O vidro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Porque dizeis que &eacute; impermeavel &aacute;
+agua o
+vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque a agua n&atilde;o o atravessa.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Podereis convencer-me com algum exemplo
+de que a agua n&atilde;o atravessa o vidro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Bastar&aacute; olhar para esse c&oacute;po, que
+est&aacute; cheio
+de agua, e que n&atilde;o a deixa sair atravez das suas
+paredes.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Gostei muito da vossa resposta, que revela
+muito siso, e me prova que vos ides acostumando
+a comparar. E porque sois espertos e amigos de
+saber, vos perguntarei mais, se o barro de que &eacute;
+feita aquella bilha, que alem tenho, para me arrefecer
+a agua, tambem &eacute; impermeavel?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sabemos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se a examinarem attentamente, sabel-o-h&atilde;o
+logo. Ora ide buscal-a para aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Esta bilha n&atilde;o &eacute;, como o couro e
+vidro,
+impermeavel.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Dizei antes, o barro d'esta bilha, ou o barro,
+de que esta bilha &eacute; feita, n&atilde;o &eacute;
+<em>impermeavel</em>. Reparae,
+que uma cousa &eacute; o objecto, o movel, o
+corpo, que vemos, e outra cousa a materia, de
+que o objecto, o movel, ou o corpo &eacute; formado.
+Que &eacute; isto? (O professor mostra uma bola de
+c&ecirc;ra).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; uma bola.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Bola ou esphera; mas de que?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;De c&ecirc;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p112" id="p112">[112]</a></span>
+P.&mdash;(Transformando a bola de c&ecirc;ra em um
+cilindro)&mdash;E
+isto, que &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Um rolo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Certamente; &eacute; um rolo ou cilindro; mas
+de que?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;De c&ecirc;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;(Dando &acirc; c&ecirc;ra a forma
+<a href="#e9">cubica)</a>&mdash;O rolo
+foi-se; isto, que &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Um dado de jogar.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Vistes, que com a mesma materia, a
+<em>c&ecirc;ra,</em>
+formei tres corpos: uma bola ou sphera; um
+rolo ou cilindro; e um dado de jogar ou cubo, os
+quaes eu poderia ter feito de tres materias differentes,
+por exemplo: de c&ecirc;ra, de barro e de madeira.
+Acostumae-vos pois, desde agora, a distinguir
+nos corpos a materia de que s&atilde;o feitos, da
+maneira porque ella est&aacute; limitada, ou, o que vem
+a ser o mesmo, da sua configura&ccedil;&atilde;o. Mas, tornando
+&agrave; <em>permeabilidade</em> do barro
+d'esta bilha, desejo que
+me esclare&ccedil;aes, dizendo-me o fundamento, que tendes,
+para asseverar, que &eacute; permeavel.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Dissemos que n&atilde;o era impermeavel, porque,
+estando vazia, se conserva secca, e pouco depois
+de se lhe deitar agua humedece por f&oacute;ra, provavelmente,
+porque a agua passa atravez de suas paredes.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Assim &eacute;. Tende paciencia, meus meninos,
+de escutar mais uma pergunta com a qual porei
+termo &aacute; nossa palestra. Quizera me dissesseis se o
+couro serve para alguma cousa.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Serve para capas de livros; para forrar
+<span class="pagenum">[113]</span>
+bahus e malas; para fazer botas, sapatos, corr&ecirc;as,
+luvas, sellins, e arreios para cavallos.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Bravo! Quem respondeu com tanto acerto,
+tem direito a ir brincar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c9" id="c9"></a>SETIMA
+LI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<h4>
+UM LIVRO
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Examinando miudamente um livro, ficar&atilde;o os
+estudantes conhecendo as differentes partes de que
+elle se comp&otilde;e, seus nomes e usos; e adquirir&atilde;o
+as primeiras e elementarissimas no&ccedil;&otilde;es
+&aacute;cerca do
+papel, da typographia, e dos algarismos romanos
+e arabes.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Meninos, como se chama isto? (O professor
+mostra aos estudantes um livro encadernado.)
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chama-se <em>livro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Todos v&oacute;s tendes um livro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Temos, sim, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Pegae, pois, nos vossos livros, e preparae-vos
+para uma palestra, que vos ha de ser muito
+agradavel.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Vamos ler?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o, senhores; vamos conversar a respeito
+do livro, como convers&aacute;mos &aacute;cerca do vidro, da
+borracha e do couro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[114]</span>
+E.&mdash;Quereis que escrev&acirc;mos a palavra livro?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;V&aacute; escrevel-a no quadro preto o menino H.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;(Escreve), <em>Li-vro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Talvez n&atilde;o tenhaes notado, que assim como
+ha grupos de pessoas aparentadas, que constituem
+familias, e que mais ou menos se parecem umas
+com as outras; assim ha grupos de palavras t&atilde;o
+similhantes, que se n&atilde;o p&oacute;de desconhecer, que
+s&atilde;o
+muito chegadas entre si, e como que parentas.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ainda n&atilde;o tinhamos reparado em tal.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Prestae atten&ccedil;&atilde;o ao que eu vou
+escrever no
+quadro preto (O professor escreve umas por baixo
+das outras as palavras do exemplo, separando com
+o hyphen o radical de cada uma)
+<em>Pomb-o</em>,
+<em>pomb-a</em>,
+<em>pomb-inho</em>,
+<em>pomb-inha</em>,
+<em>pomb-al</em>,
+<em>pomb-alinho</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Todas estas palavras formam uma familia<sup><a href="#n18">[18]</a></sup>.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cas-a</em>,
+<em>cas-inha</em>,
+<em>cas-&atilde;o</em>,
+<em>cas-ar&atilde;o</em>,
+<em>cas-eiro</em>,
+<em>ca-sal</em>,
+<em>cas-alinho</em>,
+<em>cas-aleiro</em>,
+<em>cas-ar&iacute;a</em>,
+<em>cas-ebre</em> (Todos
+estes nomes sejam escriptos uns por baixo dos outros,
+ao lado dos nomes do primeiro exemplo, e
+mui claramente pronunciados &aacute;
+propor&ccedil;&atilde;o que se
+forem escrevendo). Aqui tendes outra familia.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Carr-o</em>,
+<em>carr-inho</em>,
+<em>carr-ete</em>,
+<em>carr-eta</em>,
+<em>carr-etilha</em>,
+<em>carr-ocim</em>,
+<em>carr-uagem</em>,
+<em>carr-o&ccedil;a</em>,
+<em>carr-o&ccedil;ada</em>,
+<em>carr-et&atilde;o</em>,
+<em>carr-etada</em>,
+<em>carr-eteiro</em>,
+<em>carr-eto</em>,
+<em>carr-iagem</em>,
+<span class="pagenum">[115]</span>
+<em>carr-icoche</em>,
+<em>carr-oceiro</em>,
+<em>carr-o&ccedil;ar</em>,
+<em>carr-il</em>,
+<em>carr-omato</em>. Outra familia e
+n&atilde;o pequena.
+<br />
+
+<br />
+
+Se bem attenderdes, percebereis, que as palavras
+do primeiro grupo come&ccedil;am todas pelas lettras
+<em>pomb</em>; as do segundo pelas lettras
+<em>cas</em>; e as do
+terceiro pelas lettras <em>carr</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+As primeiras&mdash;<em>pomb</em>&mdash;representam
+a
+id&eacute;a&mdash;pombo;
+as segundas&mdash;<em>cas</em>&mdash;representam a
+id&eacute;a&mdash;casa;
+as terceiras&mdash;<em>carr</em>&mdash;a
+id&eacute;a&mdash;<em>carro</em>. <br />
+
+<br />
+
+Agora que estaes iniciados n'este segredo, podereis
+dizer-me se a palavra&mdash;<em>livro</em>&mdash;tem
+algumas
+parentas?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Tem uma parenta.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Fazei favor de me dizer qual &eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A palavra <em>livrinho</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;S&oacute; essa?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Tem outra parenta, que &eacute;
+<em>livrete</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Procurae bem, que achareis mais.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Livraria</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o sabeis o nome, que se d&aacute;, por
+desprezo,
+a um livro pequeno e mau?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chama-se-lhe <em>livreco</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como denominaes os homens, que negoceiam
+em livros?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Livreiros</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Fazei favor de me repetir os nomes de que
+se comp&otilde;e a familia, cujo pae &eacute; a palavra livro.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Livro</em>,
+<em>livrinho</em>,
+<em>livrete</em>,
+<em>livraria</em>,
+<em>livreco</em>,
+<em>livreiro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito bem. Agora se vos n&atilde;o custar muito,
+<span class="pagenum">[116]</span>
+dizei-me qual &eacute; a parte, que em todas essas seis
+palavras s&ocirc;a, quando as pronunci&acirc;mos, e se
+v&ecirc;,
+quando as escrevemos, constante e inalteravel.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; o principio. &Eacute;
+<em>livr</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Menino B, escrevei essas lettras no quadro
+preto.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Livr.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Olhando para aquellas lettras, que vos
+lembra?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Lembra-me um livro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Fique-vos pois de memoria, que ha muitas
+palavras, que se podem dividir em duas partes; e
+que a primeira d'ellas, que figura em todos os
+membros da familia, lembra a id&eacute;a da cousa, claramente
+representada no termo, de que a familia
+toda procede.
+<br />
+
+<br />
+
+Que figura tem este livro? (O professor mostra
+um livro.)
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; quadrado.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quadrado n&atilde;o &eacute; elle; &eacute;
+<em>quadrilatero</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Repeti, partida em syllabas, esta palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Qua-dri-la-te-ro</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Agora de uma s&oacute; vez.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Quadrilatero.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabeis o que quer dizer a palavra quadrilatero?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P&mdash;-Quer dizer: Figura de quatro lados, ou superficie
+fechada por quatro linhas.
+<br />
+
+<br />
+
+Reparae para a figura que vou desenhar no quadro
+<span class="pagenum">[117]</span>
+preto. (O professor tra&ccedil;a um parallelogrammo,
+retangulo, um quadrado e um losango) Todas estas
+figuras s&atilde;o quadrilateros; mas apenas esta
+(Aponta o quadrado) se p&oacute;de chamar quadrado<sup><a href="#n19">[19]</a></sup>.
+Tenho aqui sobre a mesa uns poucos de peda&ccedil;os
+de papel, vinde c&aacute;, e escolhei um que seja
+quadrado.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Eil-o.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito bem. Agora desenhe o menino A. no
+quadro preto um quadrado.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;(Desenhando). Aqui est&aacute; desenhado.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como chamareis a esses riscos, que formam
+o quadrado?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Linhas.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sabeis que outro nome se d&aacute; &aacute;s
+linhas,
+quando s&atilde;o direitas como essas, que ahi desenhastes?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;D&aacute;-se-lhes o nome de <em>linhas
+rectas</em>. Todos
+esses quadrilateros s&atilde;o formados de linhas rectas.
+<br />
+
+<br />
+
+Olhae agora para os vossos livros, e dizei-me
+como se chama a sua parte externa, a parte de
+f&oacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chama-se <em>capa</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Por que lhe dariam esse nome?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Talvez pela analogia, que tem com a capa
+ou capote, que usam homens e mulheres.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[118]</span>
+P.&mdash;Mas a capa dos livros n&atilde;o tem g&oacute;la,
+nem
+cabe&ccedil;&atilde;o, nem roda, como &eacute; uso terem os
+nossos
+capotes.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Certo &eacute; que nada d'isso tem; mas reveste
+o livro, e o resguarda, como o capote resguarda
+o fato; que lhe fica por baixo.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Respondestes optimamente. Dizei-me se as
+capas dos livros tem todas a mesma consistencia.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor; umas s&atilde;o duras e
+grossas;
+outras, delgadinhas e molles.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Assim &eacute;. De que materia fazem as capas
+dos livros, quando duras e grossas?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;De <em>papel&atilde;o</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;&Eacute; verdade; mas noto, que sendo o
+papel&atilde;o
+aspero e feio, as capas dos livros s&atilde;o macias
+e bonitas. Sabereis explicar-me a raz&atilde;o d'isto?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; porque revestem o papel&atilde;o de papel
+de
+c&ocirc;res, de panno, ou de couro pintado.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Bravo! muito bem. Como se denominam
+os artistas, que fazem as capas dos livros e lh'as
+p&otilde;em?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Encadernadores</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como se diz que est&aacute; um livro, a que o
+encadernador poz uma capa consistente, como a
+d'estes, que temos nas m&atilde;os?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Diz-se que est&aacute;
+<em>encadernado</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P&mdash;E quando um livro est&aacute; apenas coberto
+com uma capa de papel, como este, que vos mostro?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Diz-se que est&aacute;
+<em>brochado</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[119]</span>
+P.&mdash;Se um artista se empregar exclusivamente
+em brochar livros, como lhe chamaremos?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Chamar-lhe-hemos <em>brochador</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Os encadernadores n&atilde;o s&atilde;o tambem
+livreiros?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;<em>Livreiro</em> &eacute; a pessoa,
+que negoceia em livros,
+que os compra e vende. Ha, por&eacute;m, individuos,
+que exercem ambas as industrias, isto &eacute;, que
+compram e vendem l&iacute;vros, e que os encadernam.
+<br />
+
+<br />
+
+Continuemos a examinar o nosso livro, e em
+primeiro logar fazei obsequio de me indicar o nome
+d'esta parte (O professor indica a lombada).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei como se chama.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Chama-se <em>lombo</em>, ou
+<em>lombada</em>.<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Porque dariam a esta parte t&atilde;o estrambotica
+denomina&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Provavelmente em consequencia de ter
+certa analogia de f&oacute;rma e posi&ccedil;&atilde;o com
+as costas
+ou lombo do homem.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Tenho notado, que &eacute; a lombada a parte,
+que os encadernadores mais esmeradamente aformoseam.
+Porque ser&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Admira-me n&atilde;o vos occorrer a raz&atilde;o
+d'isso!
+Porque ser&aacute;, menino B.?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Eu n&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Dizei antes: N&atilde;o sei. &Eacute; preciso
+n&atilde;o abusar
+do <em>eu</em> e do
+<em>tu</em>. Muito mais elegante, conciso e
+energico
+&eacute; dizer: N&atilde;o sei, n&atilde;o quero,
+n&atilde;o posso, do
+que: Eu n&atilde;o sei, eu n&atilde;o quero, eu n&atilde;o
+posso.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[120]</span>
+Menino C, porque motivo adornam os encadernadores
+as lombadas dos livros mais do que o
+resto da capa?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Respondei, menino M.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Enfeitam mais as lombadas, se me n&atilde;o
+engano, por ser a parte, que mais se v&ecirc;, quando
+os livros est&atilde;o na estante.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Assim &eacute;. Examinae o lombo do vosso livro
+e dizei-me o que notaes?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Tra&ccedil;os e adornos dourados.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Mais nada?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Lettras, tambem douradas.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que dizem essas lettras?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&laquo;Motta&raquo;&mdash;&laquo;Quadros
+de
+historia&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Aos dizeres, que os livros tem na parte
+superior do lombo, que nome se d&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Titulo</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;A palavra &laquo;Motta&raquo;, que est&aacute;
+ahi a
+dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;O nome do auctor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;E as outras?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;O assumpto.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Vede a lombada d'est'outro livro. Tem t&atilde;o
+poucos dizeres, como a d'esse, por onde habitualmente
+ledes?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor; tem mais.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que mais tem?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Uma lettra de conta.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;De que palavra nos deveremos servir, para
+designar o que chamaes lettra de conta?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[121]</span>
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;O menino, que souber responder &aacute; minha
+pergunta, responda.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o se deve dizer lettras de conta, mas
+<em>algarismos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Muito bem. Se temos palavra apropriada
+para indicar os signaes representativos dos numeros,
+evitemos um rodeio.
+<br />
+
+<br />
+
+Que algarismo tem esse livro na lombada?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;O algarismo 2.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para que pozeram ahi o algarismo 2?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para indicar que este livro &eacute; o segundo
+volume da obra.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Exactamente.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Todas as obras constam de dois volumes?<sup><a href="#n20">[20]</a></sup><br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o se riam da pergunta do menino S.;
+ninguem nasce ensinado, e quem n&atilde;o pergunta fica
+ignorando muitas cousas. Agora conversemos n&oacute;s,
+menino S. Ha obras completas em um volume, e
+d'essas tendes exemplo nos &laquo;Quadros de historia
+portugueza&raquo;; tambem as ha em dois, tres, quatro
+e at&eacute; em dez, vinte e mais volumes. Quando uma
+obra principia e acaba no mesmo volume n&atilde;o &eacute;
+necessario p&ocirc;r-lhe nem externa nem internamente
+nenhum algarismo; se principia n'um volume e
+contin&uacute;a e acaba n'outro, marca-se externamente
+o primeiro com o algarismo 1 e o segundo com
+<span class="pagenum">[122]</span>
+o algarismo 2; se a obra se estende por tres
+ou quatro volumes, p&otilde;e-se na lombada do primeiro
+o algarismo 1, na do segundo o algarismo 2, na
+do terceiro 3, na do quarto 4, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Menino H., para que serve o titulo do livro escripto
+na lombada?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para facilmente darmos com elle sem ser
+necessario abril-o.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Como se nomeiam estas partes da capa
+dos livros? (Pondo o dedo nos cantos.)
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Cantos da capa</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Abri os vossos livros e dizei-me como se
+chamam essas laminas de papel, que a capa envolve
+e resguarda?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chamam-se <em>folhas</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Esse nome applica-se a muitas cousas: folhas
+de arvores, folhas de espadas, folhas de papel,
+folhas de serra, folhas de madeira, folhas das
+mangas do jaleco, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Explicae-vos, pois, de modo, que todos fiquem
+sabendo a quaes folhas alludis.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;A nenhuma das que citastes. As folhas, que
+estamos vendo, s&atilde;o folhas do livro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Cada uma folha de livro tem duas faces;
+sabeis que nome se lhes costuma dar?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; costume chamar-lhes
+<em>paginas</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;A primeira e ultima folha dos livros, nas
+quaes nada ha escripto, e que &aacute;s vezes s&atilde;o de
+papel
+pintado, como se chamam?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+P.&mdash;Qual de v&oacute;s outros me p&oacute;de
+responder?
+<br />
+
+<br />
+
+(Silencio).
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Chamam-se <em>guardas</em>, porque
+est&atilde;o ali,
+como que para defenderem as folhas impressas
+da ac&ccedil;&atilde;o da poeira, dos insectos e das impurezas
+dos ledores menos aceiados.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha tambem nos livros
+<em>ante-r&ocirc;sto</em> e
+<em>r&ocirc;sto</em>. Fazei
+merc&ecirc; de m'os indicar.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;O <em>ante-rosto</em> deve de ser esta
+folha escripta
+s&oacute; de um lado, e que diz apenas: &laquo;Quadros de
+historia portugueza&raquo; o
+<em>rosto</em> deve de ser a folha,
+que se segue immediatamente ao ante-rosto, tambem
+s&oacute; de um lado escripta.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que significam essas duas palavras:
+<em>ante-r&ocirc;sto</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Parece-me que querem dizer: folha, que
+antecede a do r&ocirc;sto.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Exactamente. Sabeis que outro nome se d&aacute;
+&aacute; folha do r&ocirc;sto?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Frontispicio</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Desejava saber por que ao frontispicio chamam
+tambem, r&ocirc;sto. Se algum de v&oacute;s me poder
+esclarecer, far-me-ha muito obsequio, satisfazendo
+o meu desejo.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Eu n&atilde;o sei; n&atilde;o sei; eu tambem
+n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Parece-me que n&atilde;o ha de ser necessario irmos
+a Coimbra, para explicar similhante bagatella.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Bagatella!?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Ides ver se o &eacute;, ou n&atilde;o. Como se
+chama
+esta parte do nosso corpo? (Apontando o r&ocirc;sto).
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span>
+E.&mdash;<em>Cara</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o tem outro nome?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Semblante</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o tem outro nome?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Face</em>.<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o tem ainda outro nome?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ah! Chama-se <em>rosto</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Que quiz dizer esse ah!?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;J&aacute; sabemos porque ao frontispicio dos livros
+se chama tambem r&ocirc;sto.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Se sabeis, dizei-m'o.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Chamam-lhe r&ocirc;sto, por que em a gente
+olhando para aquella folha, logo conhece o livro,
+como conhece uma pessoa, em lhe vendo a cara.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para conhecer um livro, isto &eacute;, para saber
+de que trata, parece-me que n&atilde;o &eacute; indispensavel
+examinar-lhe o r&ocirc;sto; bastar&aacute; ler o titulo, ou
+ante-r&ocirc;sto.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o &eacute; exactamente o mesmo, para
+tomar
+conhecimento de um livro, ler o titulo ou o ante-r&ocirc;sto,
+ou o r&ocirc;sto, porque este indica muitas mais
+cousas, que aquelles.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Dizei quaes s&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;O titulo da obra por extenso, o nome todo
+do auctor, a typographia, a terra onde foi impresso
+e at&eacute; o anno.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Bravo! bravo! sr. estudante, muito bem.
+As vossas respostas animam-me. Dizei-me se o papel,
+de que s&atilde;o feitos os livros, &eacute; uma substancia
+natural, isto &eacute;, que se encontre feita, como se encontra
+<span class="pagenum">[125]</span>
+a pedra, a agua, a madeira, o barro, a
+areia, ou se &eacute; um producto da arte, quero dizer,
+feito pelo homem.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;&Eacute; producto da arte.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;J&aacute; alguem vos disse de que &eacute;
+fabricado o
+papel.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;N&atilde;o, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Quereis saber?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Se queremos....
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Fabrica-se de trapos de linho, canamo, e
+algod&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;De trapos?!
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Sim, de trapos.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Eu pensava que os trapos n&atilde;o prestavam
+para nada!
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Qual &eacute; a cousa, que n&atilde;o tem algum
+prestimo?
+Os trapos, que v&oacute;s despresaveis, e tinheis
+em conta de nada, s&atilde;o uma riqueza, e prestam
+grandissimo servi&ccedil;o &aacute; industria, &aacute;s
+artes, &aacute;s sciencias
+e &aacute; moral. S&atilde;o um instrumento indirecto do
+progresso da humanidade.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Como se faz o papel?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o posso agora satisfazer a vossa louvavel
+curiosidade. &Eacute; muito complexo o seu fabr&iacute;co
+para que vol-o possa expor de modo, que d'elle
+fiqueis fazendo perfeita ideia; em v&oacute;s tendo mais
+alguns conhecimentos eu vol-o indicarei por miudo.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;O papel &eacute; todo da mesma qualidade?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o &eacute;; e aqui tendes a prova (O
+professor
+mostra &aacute; escola papel de imprimir, papel de
+<span class="pagenum">[126]</span>
+escrever, de filtrar, de embrulho, de seda, pintado,
+etc. e vae indicando os nomes de cada um). S&atilde;o
+de differentes tamanhos estas folhas. A grandeza
+de cada uma indica-se pela palavra
+<em>formato</em>, a qual
+tambem se emprega para representar a grandeza
+dos livros e jornaes.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Para que tem este livro na parte inferior
+da pagina do r&ocirc;sto a palavra
+&laquo;<em>Lisboa</em>&raquo;?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;J&aacute; se disse que &eacute; para mostrar a
+terra em
+que foi impresso.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Os livros s&atilde;o impressos?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o se riam os meninos, que sabem uma
+cousa, quando outro, que a ignora, se quer illustrar,
+e pede que lh'a ensinem.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha livros escriptos de m&atilde;o, como este (Mostra
+um livro, ou caderno manuscripto) e muitos
+existem nas bibliothecas; dizem-se
+<em>manuscriptos</em>.
+Actualmente, por&eacute;m, a maioria, a quasi totalidade
+dos livros s&atilde;o <em>impressos</em>
+isto &eacute;, s&atilde;o feitos com estas
+lettras de metal, a que cham&acirc;mos
+<em>typos</em>. Eil-os.
+(O professor toma um componedor, poder&aacute; ser
+dos que usam os compositores de bilhetes de visita
+e comp&ocirc;e algumas palavras). Vou compor uma linha,
+para que vejaes, como se compoem os livros.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;E isto (Apontando o componedor) como se
+chama?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;<em>Com-po-ne-dor</em>.<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Ha de ser necessario molhar essas lettrinhas
+em tinta; quereis que vamos buscar o tinteiro?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[127]</span>
+P.&mdash;A tinta, de que se servem para imprimir,
+n&atilde;o &eacute; a de que us&acirc;mos para escrever.
+&Eacute; feita com
+outras materias muito differentes, e chama-se <em>tinta
+de impress&atilde;o</em>. Aqui tenho um bocadinho
+n'esta
+caixa. Com esta <em>bala</em>
+m&oacute;lho os typos; ides v&ecirc;r como
+as palavras ficam impressas no papel (O professor
+executa o que vae dizendo). Estou fazendo de typographo.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Typographo</em>? O que quer isso
+dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Typographo &eacute; o artista, que se occupa em
+juntar os typos uns aos outros, para formar as palavras,
+e estas entre si, para fazer as linhas, e as
+linhas para completar as paginas, e as paginas para
+concluir uma <em>folha de
+impress&atilde;o</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;<em>Folha de impress&atilde;o</em>
+n&atilde;o &eacute; o mesmo que a
+folha de um livro?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;<em>Folha de impress&atilde;o</em>
+&eacute; isto. (Mostra uma folha
+de impress&atilde;o).
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Os livros s&atilde;o impressos como v&oacute;s
+agora
+imprimistes essa linha?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;N&atilde;o, meu menino; nas
+<em>typographias</em> ha apparelhos
+para imprimir, aos quaes chamamos
+<em>pr&eacute;los</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Fallastes em <em>typographias</em>; o que
+&eacute; typographia?
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;&Eacute; a officina onde se comp&otilde;em e
+imprimem
+livros, jornaes, e outros papeis. Tambem se chama
+<em>imprensa</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Estou vendo sr. professor, que n&atilde;o &eacute;
+s&oacute;
+na lombada que os livros tem algarismos, tambem
+os tem no alto das paginas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[128]</span>
+P.&mdash;Resta saber para que elles ahi foram postos.
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Foram aqui postos para com facilidade se
+poder achar e indicar qualquer passagem do livro.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Para concluirmos este intertenimento, far-lhes-hei
+mais uma pergunta. Como todas as cousas
+tem nome &eacute; provavel que tambem o tenham essas
+por&ccedil;&otilde;es em branco, que cercam, em cada pagina,
+a parte central impressa; qual ser&aacute; elle?
+<br />
+
+<br />
+
+E.&mdash;Estas por&ccedil;&otilde;es das paginas chamam-se
+<em>margens</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+P.&mdash;Optimamente.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Dos poucos exemplos, que ahi ficam expostos,
+poder&atilde;o inferir a utilidade e attractivos do ensino
+intuitivo as pessoas, que d'elle n&atilde;o tenham ainda
+conhecimento. Cerrando este livro, que escrevemos
+com sincero desejo de servir a educa&ccedil;&atilde;o e
+instruc&ccedil;&atilde;o, devemos declarar, porque &eacute;
+de justi&ccedil;a
+que assim o fa&ccedil;&acirc;mos, que na Escola normal do
+sexo masculino, em Marvilla, de que foi director
+e professor o intelligente e laborioso sr. Luiz
+Filippe Leite, com cuja amizade nos honr&acirc;mos, se
+ensinou muito e bem pelo methodo intuitivo, que
+em m&atilde;os t&atilde;o habeis como as do sr. Leite e seu
+irm&atilde;o o sr. Pedro Leite, de certo produziu optimos
+resultados, de que sentimos n&atilde;o poder dar
+aqui minuciosa noticia.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>INDICE
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">Pag. </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Carta do auctor ao Ex.<sup>mo</sup> Sr.
+Conselheiro
+Jos&eacute; Silvestre
+Ribeiro</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c1">5</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O Ensino intuitivo</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c2">9</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Primeira
+li&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c3">60</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Segunda
+li&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c4">72</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Terceira
+li&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c5">79</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Quarta
+li&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c6">92</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Quinta
+li&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c7">97</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sexta
+li&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c8">106</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Setima
+li&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c9">113</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">Obras &aacute; venda na loja de
+livros de Ferreira,
+Lisboa &amp; C.<sup>a</sup>, 132, rua do Ouro,
+134, Lisboa</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: justify;">O PAE NOVO, commentario ou
+interpreta&ccedil;&atilde;o das
+dez <em>Eclogas</em> ou <em>Bucolicas</em> de
+Publio Virgilio Maro,
+1 vol. br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: justify;">NATIVIDADE (J. A. C.
+da)&mdash;Fundamento de analyse
+grammatical e de estylo, e de composi&ccedil;&atilde;o de
+themas, 1 vol. br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">650</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: justify;">SYNOPSES e apontamentos
+grammaticaes para facilitar
+a analyse das ora&ccedil;&otilde;es aos alumnos de
+instruc&ccedil;&atilde;o
+primaria e aos do 1.&ordm; anno de portuguez,
+1 vol. cart.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: justify;">TAVARES
+(H.)&mdash;Principios geraes de arithmetica,
+e systema metrico, 1 vol.
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">60</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="1" rowspan="1" style="text-align: justify;">DIAS (J. A.)</td>
+
+ <td>&mdash;Synopse das
+religi&otilde;es e seitas etc.,
+1 vol. br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td>&mdash;Nova
+Grammatica franceza, 2.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">300</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td>&mdash;Novissima
+Grammatica ingleza, 1
+vol. br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">480</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">BALMES (D. Jayme)&mdash;Elementos de Logica,
+1 vol.
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">300</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">METHODO ZABA para o estudo da Historia
+Universal, com mappa
+chronologico, chave e taboa de exercicio, 1 vol.
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;">200</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">MAR&Ccedil;AL A. DE
+CARVALHO&mdash;Problemas de Algebra, 1 vol.
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">CHAGAS (M. P.)&mdash;Portuguezes illustres,
+2.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o, 1 vol.
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">FRADESSO DA SILVEIRA (J. H.)&mdash;Estudos,
+1 vol.
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">Neste volume agrupou o auctor, oito
+interessantes
+artigos em que se exp&otilde;em as quest&otilde;es mais
+momentosas da estadistica; como instruc&ccedil;&atilde;o
+primaria
+e professional, associa&ccedil;&otilde;es de soccorros,
+exposi&ccedil;&otilde;es, fazenda, etc. etc.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">M. M.&mdash;Exercicios de cacographia
+portugueza,
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">100</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">MACEDO (J. Tavares de)&mdash;Elementos de
+Orthographia portugueza,
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">80</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">BAPTISTA (A. M.)&mdash;Algumas
+considera&ccedil;&otilde;es
+sobre as
+diversas f&oacute;rmas comparativas e superlativas da lingua
+portugueza,
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">80</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+&Aacute; VENDA<br />
+
+NA MESMA LIVRARIA<br />
+
+<br />
+
+132&mdash;RUA AUREA&mdash;134</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Telles (J. J. de
+Sousa)&mdash;<span class="smallcaps">Annuario
+portuguez
+scientifico, litterario e artistico</span>&mdash;-1863,
+broch.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Sim&otilde;es
+(Dr. Augusto Filippe)&mdash;<span class="smallcaps">Erros
+e
+preconceitos da educa&ccedil;&atilde;o physica</span>, 1
+vol. <em>charp.</em>broch.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">400</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Noirlieu (Abbade
+Martinho)&mdash;<span class="smallcaps">Biblia
+da
+mocidade</span>, historia do antigo e novo testamento. Approvada
+pelo conselho geral de instruc&ccedil;&atilde;o publica, para
+uso das
+escolas, 1 vol. <em>cart.</em></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">240</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Barata (<span class="smallcaps">Antonio
+Francisco</span>)&mdash;<span class="smallcaps">Estudos
+da lingua
+portugueza</span>,
+2.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o accrescentada e conforme ao
+programma official de portuguez,
+br.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">350</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Fradesso da
+Silveira&mdash;(J. H.) <span class="smallcaps">Compendio
+do novo
+systema legal de pesos e medidas</span>,
+4.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o,
+broch.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">240</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Guedes (J.
+R.)&mdash;<span class="smallcaps">Curso de
+physica
+elementar</span>.
+Nova edi&ccedil;&atilde;o,
+3 vol., com gravuras,
+broch.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">2$400</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Guedes (J.
+R.)&mdash;<span class="smallcaps">Curso de
+historia
+natural
+elementar</span>,
+1 vol., com gravuras,
+broch.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Lopes (J.
+J.)&mdash;<span class="smallcaps">Taboada
+methodica
+dos rudimentos de
+arithmetica</span>, broch.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Rodrigues (J.
+Julio)&mdash;<span class="smallcaps">Mineralogia</span>,
+1. vol.
+broch.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Vidal (A. A. de
+Pina)&mdash;<span class="smallcaps">Curso
+de
+meteorologia</span>, 1 vol.
+broch.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">600</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Viale (A.
+J.)&mdash;<span class="smallcaps">Novo
+epitome de
+historia de
+portugal</span>, adoptado pelo conselho geral de
+instruc&ccedil;&atilde;o
+publica, 1 vol.
+broch.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">200</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Lisboa&mdash;Typ.
+Universal&mdash;1873<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+<br />
+
+<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup>
+&Aacute;cerca d'este assumpto, bem como de muitos
+outros
+pontos da linguagem portugueza consulte-se a
+<em>Orthographia
+portugueza e miss&atilde;o dos livros
+elementares</em>, correspondencia
+official relativa ao &laquo;Iris Classico&raquo; pelo sr.
+Conselheiro
+Jos&eacute; Feliciano de Castilho Barreto e Noronha.
+Edi&ccedil;&atilde;o do Rio de Janeiro. N'este livro, que
+&eacute; um verdadeiro
+thesouro de b&ocirc;a doutrina, esplende a intelligencia e
+erudi&ccedil;&atilde;o de um dos escriptores nacionaes, que
+mais honram
+as nossas lettras. Pena &eacute; que poucos em Portugal
+conhe&ccedil;am
+obra de tanto merito.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup>
+Temos
+visto muitas vezes nas escolas estarem as
+crian&ccedil;as
+a ler com os livros nos joelhos, o tronco recurvado e a
+bocca quasi perpendicular ao horisonte. Aquella postura
+prejudica a saude, difficulta a emiss&atilde;o da voz,
+can&ccedil;a em
+pouco tempo o ledor, e n&atilde;o o deixa v&ecirc;r os acenos
+do mestre,
+tendentes a dirigil-o no andamento, pausas,
+intona&ccedil;&otilde;es,
+etc.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n3" id="n3"></a><sup>[3]</sup>
+Braun Exercices par intuition, ou Questionaire a l'usage
+des ecoles gardiennas, etc. Bruxelles&mdash;1865.
+<br />
+
+<br />
+
+C. Mayo&mdash;Lecciones sobre objetos destinados para
+ni&ntilde;os
+de cinco a ocho a&ntilde;os, traducidas del orijinal
+ingl&eacute;s.
+Madrid&mdash;1849.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi nosso primeiro intento trasladar para este livro
+<em>ipsis
+verbis</em> as primeiras li&ccedil;&otilde;es dos
+dois afamados professores;
+por motivos, por&eacute;m, que escusado &eacute; expor,
+resolvemos tomar
+d'ellas apenas os liniamentos, redigindo-as a nosso modo.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n4" id="n4"></a><sup>[4]</sup>
+Express&atilde;o popular e grosseira, que vale tanto
+como:
+Elle te castigar&aacute; severamente.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n5" id="n5"></a><sup>[5]</sup>
+N'estes primeiros exercicios v&atilde;o as respostas,
+que provavelmente
+os estudantinhos dar&atilde;o aos professores; nos
+outros, as respostas poder-se-h&atilde;o deduzir das
+<em>Exposi&ccedil;&otilde;es</em>,
+que anteporemos a cada exercicio. Como estes livrinhos
+n&atilde;o s&atilde;o exclusivamente para os professores, os
+quaes de
+certo possuem sufficiente cabedal de conhecimentos, mas
+para m&atilde;es, paes, e outros educadores menos preparados
+para o ensino, pareceu-nos de muita conveniencia subministrar-lhes
+os indispensaveis subsidios nas
+<em>Exposi&ccedil;&otilde;es</em>, as
+quaes dispensar&atilde;o, at&eacute; certo ponto o estudo nos
+livros dos
+assumptos dos exercicios.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n6" id="n6"></a><sup>[6]</sup>
+O dialogo aqui tra&ccedil;ado para um,
+dever&aacute; ser ampliado
+e sustentado com todos os estudantes, que tiverem entrado
+ao mesmo tempo, havendo o maior disvelo em tornal-o
+quanto possivel deleitavel e variado.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n7" id="n7"></a><sup>[7]</sup>
+Parece &aacute; primeira vista mui pequeno o prestimo
+do
+<em>quadro preto</em> n'uma aula, e na
+realidade &eacute; muito util. Convem
+que todas as aulas de meninos e meninas o tenham;
+e que d'elle se sirvam amiudadas vezes professores e discipulos
+para os exercicios de soletra&ccedil;&atilde;o, orthographia,
+analyse,
+arithmetica, desenho, etc.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n8" id="n8"></a><sup>[8]</sup>
+N&atilde;o se estranhe o emprego da palavra
+geringon&ccedil;a. As
+creancinhas s&atilde;o faceis de contentar; alegram-se e riem com
+o simples emprego de palavras menos triviaes, e proseguem
+mais contentes no estudo. Se ao explicar-lhes as regras
+elementares da syntaxe o professor lhes der o seguinte
+exemplo: O sol &eacute; brilhante, escrevem-n'o e analysam-n'o
+sem enthusiasmo; se o professor lhes disser: O gato &eacute;
+manhoso,
+riem, alegram-se e atiram-se &aacute; analyse da
+ora&ccedil;&atilde;o de
+muito boa vontade. Ainda que estas e outras particularidades
+do ensino infantil pare&ccedil;am aos sabios puras
+insignificancias,
+n&atilde;o as desprese o mestre, que tiver a peito o progresso
+dos pequeninos.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n9" id="n9"></a><sup>[9]</sup>
+Dividimos a palavra &laquo;cavallete&raquo; sem
+attender &aacute; regra
+orthographica, que manda repartir as consoantes dobradas
+pelas duas syllabas, para n&atilde;o falsearmos a
+pronuncia&ccedil;&atilde;o;
+se assim n&atilde;o fizessemos, teriamos: Ca-val-le-te, que se
+n&atilde;o
+diz, nem poderia razoavelmente dizer-se.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n10" id="n10"></a><sup>[10]</sup>
+Desculpe-se-nos que insistamos em aconselhar aos mestres,
+que n&atilde;o sejam avaros de louvores, quando os estudantes
+os merecerem. &Eacute; um grande incitamento o applauso para
+o que o recebe e para os que o presenceiam.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n11" id="n11"></a><sup>[11]</sup>
+Novamente declar&acirc;mos que estas
+li&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o traduzidas,
+mas quasi exclusivamente nossas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n12" id="n12"></a><sup>[12]</sup>
+Todos estes nomes se d&atilde;o &aacute;
+substancia, de que nas aulas
+se servem para apagar os tra&ccedil;os, que o lapis deixa no
+papel. Aos meninos ser&aacute; conveniente indical-a pelo nome
+de <em>borracha</em>, porque &eacute; o
+mais commummente usado. Mais
+tarde se lhes dir&aacute; que nem este, nem o de
+<em>gomma elastica</em>
+se deveriam empregar. Como hoje se usa muito do caoutchouc
+vulcanisado, tenham os professores a cautela de apresentarem
+para a li&ccedil;&atilde;o, o escuro, isto &eacute;, o que
+n&atilde;o est&aacute; combinado
+com enxofre.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n13" id="n13"></a><sup>[13]</sup>
+Esta li&ccedil;&atilde;o vem apenas apontada no
+livro do professor
+Mayo.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n14" id="n14"></a><sup>[14]</sup>
+Quasi todos os objectos, que eram feitos de caoutchouc
+simples, s&atilde;o agora fabricados com a mesma substancia
+<em>vulcanisada</em>,
+isto &eacute; combinada com certa quantidade de enxofre,
+e por tanto differente na c&ocirc;r, no cheiro, e em <a href="#e10">outras</a>
+propriedades
+do caoutchouc extreme. Se algum menino reparar
+na differen&ccedil;a e fizer pergunta a tal respeito, dir-lhe-ha o
+professor o bastante para esclarecel-o, attendendo ao que
+atraz recommend&aacute;mos, que n&atilde;o se trate a fundo de
+cousas
+para entender as quaes as crian&ccedil;as n&atilde;o estejam
+preparadas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n15" id="n15"></a><sup>[15]</sup>
+Esta li&ccedil;&atilde;o vem apenas indicada no
+livro do professor
+Mayo.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n16" id="n16"></a><sup>[16]</sup>
+Recommendam Madame Marie Pape Carpentier e outros
+pedagogistas, que se tratem as criancinhas com toda
+a delicadeza, que em vez de se lhes ordenar que fa&ccedil;am
+uma cousa, se lhes pe&ccedil;a por favor que a executem, e que,
+se lhes agrade&ccedil;a com urbanidade o terem satisfeito os nossos
+pedidos. Este modo de proceder com os pequeninos tem
+tres grandes vantagens: desenvolve nos meninos o sentimento
+da propria dignidade, captiva a sua benevolencia, e
+acostuma-os a serem delicados.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n17" id="n17"></a><sup>[17]</sup>
+N&atilde;o &eacute; para desprezar, no ensino das
+crian&ccedil;as, este innocente
+meio de lhes excitar a curiosidade, tenteando ao
+mesmo tempo o prazer, ou enfado, de que estejam tomadas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n18" id="n18"></a><sup>[18]</sup>
+O fim d'este exemplo n&atilde;o &eacute; ensinar
+philologia &aacute;s criancinhas,
+mas il-as habituando a distinguir nas palavras as
+&laquo;radicaes&raquo;, cujo valor mais tarde
+perceber&atilde;o. O termo &laquo;familia&raquo;
+tome-se como synonimo de aggregado de palavras
+em que a id&eacute;a representada pela radical &eacute; a
+mesma.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n19" id="n19"></a><sup>[19]</sup>
+N&atilde;o se define o quadrado, porque os estudantes
+n&atilde;o
+sabem ainda o que seja angulo, e menos o que seja angulo
+recto.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n20" id="n20"></a><sup>[20]</sup>
+A lettra E, inicial de estudante, n&atilde;o
+est&aacute; n'estas li&ccedil;&otilde;es
+indicando um s&oacute; e sempre o mesmo estudante; mas o estudante,
+a que o professor julga conveniente dirigir-se.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 75px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p20">#p&aacute;g.
+20</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">Jenuense</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Genuense*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p20">#p&aacute;g.
+20</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">dizia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">relembrava
+a regra de Ovidio*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p31">#p&aacute;g.
+31</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">cujos componente</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">cujos componentes</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p45">#p&aacute;g.
+45</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">lahios</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">labios</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p51">#p&aacute;g.
+51</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>impanho
+imprestar</em> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>impanho</em>,
+ <em>imprestar</em> </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p52">#p&aacute;g.
+52</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">o que emende</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a que emende</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p58">#p&aacute;g.
+58</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">comportamente</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">comportamento</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"></a><a href="#p85">#p&aacute;g.
+85</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">praticular</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">particular</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9" id="e9"></a><a href="#p112">#p&aacute;g.
+112</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">cubica</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">cubica)</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10" id="e10"></a><a href="#n14">#nota
+14</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">ontras</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">outras</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">* corrigido de acordo com
+notas/erratas fornecidas no livro.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Ensino intuitivo, by João José de Sousa Telles
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENSINO INTUITIVO ***
+
+***** This file should be named 33817-h.htm or 33817-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
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+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
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+
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
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+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
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+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
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+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+
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+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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