summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/33588-h
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:59:49 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:59:49 -0700
commit19bf0a369416a17a1bd6d6b55b11b9616f5c667e (patch)
tree46ee1cf57687dcb3c3e3b0baa31043c518915414 /33588-h
initial commit of ebook 33588HEADmain
Diffstat (limited to '33588-h')
-rw-r--r--33588-h/33588-h.htm7269
1 files changed, 7269 insertions, 0 deletions
diff --git a/33588-h/33588-h.htm b/33588-h/33588-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..fcf4273
--- /dev/null
+++ b/33588-h/33588-h.htm
@@ -0,0 +1,7269 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+<head>
+<meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1">
+<title>The Project Gutenberg eBook of Manhãs de Cascaes, by Alberto Pimentel</title>
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ text-decoration: none;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;}
+ h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;}
+ h2 {text-align: center; margin-top: 3em;}
+ #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;}
+ #corpo p.ni {text-indent: 0;}
+ #corpo p.centrado {margin: 0; text-indent: 0; text-align: center;}
+ #corpo p.assin {margin: 0; text-align: right; margin-right: 2em;}
+ #corpo blockquote p {text-indent: 0;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000; }
+ blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;}
+ a {text-decoration: none;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.7em;
+ color: gray;
+ margin-left: 2em;
+ margin-right: 2em;
+ }
+ .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;}
+ .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;}
+ .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em;
+ margin-left: 10%; margin-right: 10%; padding: 6px; }
+
+ hr.full { width: 100%;
+ margin-top: 3em;
+ margin-bottom: 0em;
+ margin-left: auto;
+ margin-right: auto;
+ height: 4px;
+ border-width: 4px 0 0 0; /* remove all borders except the top one */
+ border-style: solid;
+ border-color: #000000;
+ clear: both; }
+ pre {font-size: 85%;}
+ </style>
+</head>
+<body>
+<h1>The Project Gutenberg eBook, Manhãs de Cascaes, by Alberto Pimentel</h1>
+<pre>
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at <a href = "http://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a></pre>
+<p>Title: Manhãs de Cascaes</p>
+<p>Author: Alberto Pimentel</p>
+<p>Release Date: August 30, 2010 [eBook #33588]</p>
+<p>Language: Portuguese</p>
+<p>Character set encoding: ISO-8859-1</p>
+<p>***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MANHÃS DE CASCAES***</p>
+<br><br><center><h3>E-text prepared by Pedro Saborano</h3></center><br><br>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="ntransc">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1893.</p>
+
+<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1893, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e
+que por isso não foram assinalados.</p>
+
+<p>No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali apresentados, e marcámos as alterações, colocando o texto originalmente impresso em comentário como <span class="errata" title="no original: aqui">aqui</span>.</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="full">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 2em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">Manhãs de Cascaes</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">Edictor</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">Livraria Ferin</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">Lisboa</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+<hr>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">Manhãs de Cascaes</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>1893<br>
+LIVRARIA FERIN<br>
+LISBOA</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p> <span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p>
+
+<h1>I</h1>
+
+<h2>O primeiro mosquito</h2>
+
+<p>Chegou o inimigo.</p>
+
+<p>Ouvi hontem o seu clarim vibrante resoar sobre a minha cabeça em som de
+guerra.</p>
+
+<p>Era a guarda avançada do grande exercito alado do verão, hunos do ar que
+invadem os nossos quartos de cama zombando perfidamente de todas as nossas
+precauções e dilacerando-nos a carne com o seu pequenino áspide, agudo como um
+punhal.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! disse eu. É o primeiro mosquito que chega!</p>
+
+<p>E estremeci de horror.</p>
+
+<p>É que se ha animal n'este mundo que me incommode, que seja incompativel
+comigo, esse animal é o mosquito,&mdash;o pequeno mosquito, um dos mais
+sanguinarios inimigos da humanidade.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p>
+
+<p>Uma vez, em certa praia, um amigo meu mostrou-me o seu quarto, cujas paredes
+estavam revestidas de uma estranha pintura,&mdash;arabescos de sangue, o sangue
+da victima, o sangue d'elle, o desgraçado!</p>
+
+<p>&mdash;Entram os mosquitos, dizia-me o meu pobre amigo, e roubam-me o que eu
+tenho menos, roubam-me o sangue. Eu, não podendo repellir a aggressão, porque
+essa praga de mosquitos vem aos centos, adoptei a estrategia de os deixar
+cevarem-se á vontade. Engordam e agiboiam-se, ficam obesos e inertes. Então sôa
+a hora da minha vingança, pego n'um sapato e atiro-me a elles como S. Thiago
+aos mouros. Pá! pá! sapatada para a direita, sapatada para a esquerda, aqui se
+esborracha um, ali se estampa outro, a parede salpicada de sangue parece um
+crivo, um mappa, e é assim que eu, durante um mez, tenho conseguido ornamentar
+o meu quarto com esta estranha decoração, arabescos de sangue roubado ás minhas
+proprias veias. O que está ali na parede sou eu, depois de ter atravessado pelo
+interior de um mosquito. Centenas d'elles me teem sugado, com o meu sangue teem
+vitalisado os seus orgãos sonoros, porque cada mosquito traz ás costas uma
+fanfarra estrondosa, que nos ensurdece com o tinido dos seus metaes. Tenho
+n'aquella parede o meu sangue, e tenho no meu corpo a minha anemia: o traço de
+união entre<span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span> aquillo, que é a parede, e isto,
+que sou eu, é o mosquito.</p>
+
+<p>Ha banhista que prefere dormir na praia, sobre um banco de pau, ou mesmo
+sobre a areia, a dormir em casa sob a tyrannia dos mosquitos.</p>
+
+<p>Um sujeito encontrei eu já, que, accordando de madrugada meio devorado pelos
+mosquitos, sahiu para o meio da rua,&mdash;com o resto do corpo que elles lhe
+tinham deixado de fartos.</p>
+
+<p>Logo que amanheceu e a primeira tenda da praia se abriu, elle correu a
+escrever sobre o balcão a seguinte carta ao senhorio, que era um dos pescadores
+mais ricos da terra:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Ill.<sup>mo</sup> sr. José Peixeiro:&mdash;Sendo v. s.ª um dos homens mais
+considerados d'esta localidade, regedor de facto e barão em perspectiva, muito
+me admira que commettesse a burla de arrendar a sua casa a duas familias ao
+mesmo tempo. Quando me entregou a chave da porta, fez-me suppôr que não havia
+lá dentro mais inquilinos. Com effeito, assim me quiz parecer quando entrei,
+porque a unica pessoa, e essa inoffensiva, que encontrei, foi o cavalleiro D.
+Fuas Roupinho a pique de despenhar-se do rochedo da Nazareth. É realmente um
+quadro muito bonito, que, longe de me incommodar, me deleitaria. Aposentei a
+minha familia, a minha<span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span> mulher e os meus
+filhos, e eu preferi para meu uso o quarto onde se acha o quadro do <em>Milagre
+da Nazareth</em>, porque sou amador, e falla-se mesmo em mim para inspector da
+Academia de Bellas Artes. Deitamo-nos. Eis senão quando, outra familia de
+inquilinos surge como por encantamento. Primeiro appareceu o pae, depois a mãe,
+depois os meninos, depois as meninas, depois os meninos dos meninos, depois as
+meninas das meninas, depois os bisnetos, depois os tresnetos, depois os
+tetranetos, uma alluvião de individuos, uma phalange, um exercito e, sem
+respeito nenhum pelo nosso somno, começaram a conversar em voz alta, o pae com
+a mãe, os manos com as manas, os tios com os sobrinhos, os primos com as
+primas. Calei-me a vêr no que aquillo parava. Mas não parou. Depois toda essa
+magna caterva teve vontade de ceiar, foi á dispensa, foi á cosinha, e como não
+encontrasse nada para comer, resolveu comer a minha familia inteira.
+Participo-lhe, pois, que estamos comidos,&mdash;duas vezes: pelo senhor e por
+elles, os outros inquilinos do meu predio. Resolvi portanto mudar de casa para
+um banco da praia, que está á sua disposição, se nos quizer dar a honra da sua
+visita. Quanto á sua casa, ahi lhe mando as chaves, para que o sr. vá lá dormir
+esta noite com a sua familia, a fim de verificar se as minhas informações são
+verdadeiras ou não.»<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>O sr. José Peixeiro respondeu immediatamente:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Lá irei á noite vêr essa pouca vergonha, e se fôr como diz eu cá estou para
+obrar como regedor.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Então o pobre queixoso julgou dever prestar mais um esclarecimento
+importante á digna auctoridade parochial:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Ill.<sup>mo</sup> sr. José Peixeiro.&mdash;Tenho por conveniente informal-o
+de que na minha carta anterior faltou um <em>note bene</em>, que vae agora.</p>
+
+<p>Os inquilinos a que me refiro são os mosquitos.</p>
+
+<p>Supponho que esta informação ha de aproveitar á sua perspicacia.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>José Peixeiro deu-se pressa em enviar a seguinte replica:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«A minha casa é a melhor da villa, e tem sido sempre habitada por pessoas de
+importancia. Eu, no resto do anno, vivo lá. E tanto eu como minha senhora temos
+gosado saude; a unica doença que a minha senhora lá tem tido foi um parto. Eu,
+nem isso; sou são como um pêro. Mosquitos e moscas em toda a parte os ha; a mim
+ainda me incommodam mais as moscas do<span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> que
+os mosquitos. O anno passado, o sr. visconde do Pecegueiro veiu a morrer para a
+minha casa, e foi-se embora tão bom, que até o meu compadre barbeiro, que tem
+pilheria, disse que elle ainda ia capaz de dar pecegos. Mas para não se
+incommodar com os mosquitos inventou o systema de dormir de caraça e de luvas.
+Faça o senhor outro tanto, e não dê importancia aos trombeteiros.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ah! caro leitor, aviso-o para que se acautele, visto que já fui atacado pelo
+primeiro mosquito d'este verão: compre caraça e luvas como o visconde do
+Pecegueiro.</p>
+
+<p>Oh! o primeiro mosquito! Que horror!<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span></p>
+
+<h1>II</h1>
+
+<h2>A comedia das praias</h2>
+
+<p>De manhã cedo, na praia, todos parecem ter ainda o olhar vidrado, estupido,
+de quem acaba de accordar.</p>
+
+<p>Olham uns para os outros com certa surpreza spasmodica, achando-se feios.</p>
+
+<p>Defeitos que durante o dia chegam a passar despercebidos, avultam: foi n'uma
+praia que eu descobri que certa dama, aliás formosa, tinha uma orelha maior que
+a outra... de manhã!</p>
+
+<p>Dar-se-ia o caso que, depois de feita a <em>toilette</em>, a orelha mais
+pequena crescesse ou a maior diminuisse?</p>
+
+<p>Certamente que não. Mas diante do espelho, com vagar, um geito dado ao
+cabello, artisticamente, encobria o defeito da orelha. O ferro de frisar
+salvava a situação: a madeixa, que elle fazia descer, salvava a orelha, que a
+natureza fizera subir.<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Em questões de <em>toilette</em>, o meio termo não é admissivel: ou tudo ou
+nada. Ou a <em>toilette</em> esplendida ou... a estatua. Eva, depois do peccado
+original, faz-nos rir vestida de folhas de figueira. Ora o fato de banho é o
+meio termo: a folha de figueira. Para vestir... é pouco; para despir... é
+muito.</p>
+
+<p>Ha porém uma coisa peior do que vestir um fato de banho: é querer
+sophismal-o.</p>
+
+<p>Certas damas, quando chegam á praia, conseguem dar na vista pela perfeição
+plastica das suas curvas. Ao entrar na agua, vestidas para o banho, perdem as
+curvas. Não perderam; deixaram-n'as na barraca. Este sophisma deploravel revela
+a carencia de um bom argumento. Argumento ou augmento. O eufemismo é o mesmo.
+Mas só a praia consegue revelar um segredo, de que, quando muito, apenas se
+suspeitava...</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Andam pessoas a enganar-nos durante onze mezes em cada anno.</p>
+
+<p>Suppomol-as polidas, eruditas, francas, estimaveis.</p>
+
+<p>Em Lisboa, quando as encontravamos na rua,<span class="pn"><a
+name="pag_13">{13}</a></span> trocavam comnosco um <em>shake-hand</em>, tinham um dito
+amavel ou sentencioso, pareciam-nos cordealmente expansivas.</p>
+
+<p>Nas praias, á sombra de um <em>chalet</em> ou de uma arvore, durante duas
+horas de conversação, desmascaram-se. Dia a dia, podemos fazer o inventario das
+suas idéas, dos seus sentimentos, das suas opiniões. E, ao cabo de um mez de
+estação balnear, averiguamos que:</p>
+
+<p>Fulano, que vae á missa em Lisboa, não crê em Deus.</p>
+
+<p>Sicrano, que tinha fóros de erudito, apenas lê a <em>Revista dos dois
+mundos</em>.</p>
+
+<p>Beltrano, que parecia fallar-nos com o coração nas mãos, não fazia outra
+coisa senão metter-nos os pés nas algibeiras.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Em Lisboa, accusa-se o Gremio e a Havaneza de terem má lingua.</p>
+
+<p>Pobre Havaneza! pobre Gremio! pagam as favas injustamente.</p>
+
+<p>A maledicencia habitual d'esses dois pontos, de reunião tem apenas um
+caracter pessoal. Eu explico. Ordinariamente, falla-se só do sujeito que passou
+ou do sujeito que saiu.</p>
+
+<p>A maledicencia das praias estende-se á geração, chega ao pae, passa ao avô,
+alcança ás vezes o bisavó. É retrospectiva. Por exemplo:<span class="pn"><a
+name="pag_14">{14}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Quem é aquelle sujeito que vem acolá?</p>
+
+<p>&mdash;Pois não conhece! É fulano.</p>
+
+<p>&mdash;Não conheço.</p>
+
+<p>&mdash;Ha de lembrar-se com certeza do caso da herança do Gutierres. Foi
+muito fallado.</p>
+
+<p>&mdash;Lembro-me, sim.</p>
+
+<p>&mdash;Pois este é que falsificou o testamento.</p>
+
+<p>&mdash;Este! E anda vestido de branco,&mdash;como as virgens!</p>
+
+<p>&mdash;É de familia...</p>
+
+<p>&mdash;O fato branco?</p>
+
+<p>&mdash;Não. A alma negra. O pae foi negreiro.</p>
+
+<p>&mdash;Já vem mais de traz, isso.</p>
+
+<p>&mdash;Por quê?</p>
+
+<p>&mdash;O avô enriqueceu no tempo dos francezes, dando assalto ás casas dos
+visinhos que tinham fugido.</p>
+
+<p>O sujeito aproxima-se, dois ou tres levantam-se para abraçal-o; mas a esse
+tempo, que foi pouco, já lhe está desenterrada a familia até ao avô.</p>
+
+<p>O vagar faz colhéres, diz o povo. Nas praias, o vagar faz exhumações
+tremendas. Não ha bisavô que esteja seguro na sepultura.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Na comedia das praias, as moscas teem um papel importante. Em Lisboa, para
+se dar importancia a uma mosca, é preciso que ella haja<span class="pn"><a
+name="pag_15">{15}</a></span> sido audaciosa até o ponto de escolher para suicidar-se
+o nosso prato de sopa. De resto, em Lisboa, as moscas morrem, mas, nas praias,
+as moscas matam. Teem dentes; são carnivoras. Mordem, perseguem, endoidecem a
+gente. Desforram-se da ociosidade de um anno inteiro, esperam famintas pelos
+banhistas, e, depois de os morder, zumbem e zombam, parecem rir de troça umas
+com as outras.</p>
+
+<p>Só nas praias é que o europeu consegue ser victima das moscas. E fallarmos
+nós com horror das moscas de Africa! As moscas saloias são muito peiores!</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Em Lisboa, os criados passam ás vezes um anno inteiro sem partir loiça.</p>
+
+<p>Mas, chegando ás praias, os seus dedos parecem debeis como vimes. Quebram
+hoje um copo, ámanhã um prato, escacam, em quinze dias, metade da loiça do
+senhorio.</p>
+
+<p>Encontrei uma vez, n'uma praia, certa dama, que andava afflictissima de loja
+em loja, procurando alguma coisa, que lhe dava grande cuidado.</p>
+
+<p>&mdash;Imagine, disse-me ella, que o meu criado quebrou hontem uma
+chavena!</p>
+
+<p>&mdash;É vulgar.<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Quebrar é vulgar; mas a chavena é que o não era.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim?!</p>
+
+<p>&mdash;Quando eu vim, a senhoria disse-me: «Peço a v. ex.ª todo o cuidado
+com esta chavena, que era a chavena do papá.»</p>
+
+<p>&mdash;Como o sabre da <em>Grã-duqueza</em>!</p>
+
+<p>&mdash;Isso. Ninguem se servia d'aquella chavena gloriosa, nenhum de nós
+tinha ousado mandal-a tirar do guarda-loiça. Mas o meu criado ousou limpal-a
+hoje, e quebrou-a. Aqui ando eu agora afflicta á procura de uma chavena, que
+possa continuar a ser, na tradição da casa, a <em>chavena do papá</em>!</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Nada ha que me dê tanto a impressão do communismo como um club de praia.</p>
+
+<p>É de todos, sem pertencer a ninguem.</p>
+
+<p>Cada um que vem chegando pensa que o club é seu. A primeira cousa de que se
+apossa é... o piano. O piano passa a ser, não um instrumento de musica, mas um
+escravo. Submisso, paciente, resignado, obedece como um negro, cujos dentes são
+muito brancos... Açoutam-n'o com as mãos, e não protesta; dão-lhe pontapés no
+pedal, e não se desconjunta. Familias inteiras vão affirmar no teclado os seus
+direitos de socio. A mãe toca a <em>Norma</em>, que é uma opera<span class="pn"><a
+name="pag_17">{17}</a></span> do seu tempo, a filha perpetra a <em>Carmen</em>; o
+filho executa os <em>Fados</em>&mdash;com a mão direita.</p>
+
+<p>O pae agarra-se aos jornaes e parece resolvido a não deixal-os lêr por mais
+ninguem.</p>
+
+<p>As primeiras senhoras que á noite chegam ao club parecem tomar gosto á
+grandeza da sala...</p>
+
+<p>O seu desejo seria talvez que as outras, mais retardatarias, ficassem á
+porta a contemplal-as... de longe.</p>
+
+<p>Mas, como isso não acontece, as que já estão de posse da sala, preparam-se
+para o ataque, assestam as suas baterias.</p>
+
+<p>É o <em>lorgnon</em>...</p>
+
+<p>É o sorriso sardonico...</p>
+
+<p>É o ditinho picante...</p>
+
+<p>Tudo isto entra em fogo ao mesmo tempo.</p>
+
+<p>Depois, as que acabam de chegar, fazem causa commum com as que já tinham
+chegado e, preparadas para o combate, ficam á espera das que hão de chegar
+ainda...</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Ha sempre nas praias uma menina que recita.</p>
+
+<p>De pé, quasi sempre vestida de branco, recita versos azues. Quero dizer,
+versos ethereamente<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span> romanticos. Em quanto
+ella recita, a mãe põe os olhos no chão. As outras senhoras põem o leque diante
+da cara.</p>
+
+<p>Algumas vezes, a menina engana-se, falta-lhe a memoria. Nem para traz nem
+para deante.</p>
+
+<p>Então lança mão de um recurso supremo: desmaia.</p>
+
+<p>&mdash;Um medico! Não está ahi um medico?</p>
+
+<p>N'uma praia estão sempre quatro medicos, pelo menos.</p>
+
+<p>Vem um.</p>
+
+<p>&mdash;Isto não é nada, passa já.</p>
+
+<p>Mas o irmão mais novo da menina desmaiada foi, a correr, buscar a casa o
+<em>Almanach das Senhoras</em>.</p>
+
+<p>E, reanimada por este auxilio, a menina continua a recitação, ficando o
+irmão mais novo mettido atraz do piano,&mdash;servindo de ponto á mana.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Tambem ha sempre uma menina que tem album.</p>
+
+<p>Pede, a torto e a direito, uns versos, um desenho, uma melodia.</p>
+
+<p>Póde imaginar-se o valor do album dizendo que são os poetas que desenham,
+são os pintores que fazem versos, são os que sabem fazer<span class="pn"><a
+name="pag_19">{19}</a></span> desenhos ou versos que escrevem a melodia.</p>
+
+<p>Em conclusão: ninguem quer perder n'um album o melhor do seu talento...<span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span></p>
+
+<h1>III</h1>
+
+<h2>N'uma praia solitaria</h2>
+
+<p>Um amigo meu, que se acha n'uma praia do norte do paiz, certamente das menos
+conhecidas e frequentadas, acaba de descrever-me n'uma carta a maneira como
+alli tem vivido desde os ultimos dias de julho.</p>
+
+<p>Quando chegou, apenas encontrou já installado um outro banhista, que desde
+logo se constituiu seu companheiro inseparavel, comquanto então se vissem pela
+primeira vez.</p>
+
+<p>O meu amigo é de Lisboa, o outro reside actualmente no Alto Minho. Foi o
+acaso que os reuniu pela identidade de destinos, como dois náufragos
+desconhecidos que se encontrassem agarrados á mesma tabua de salvação ou
+perdidos na mesma ilha deserta.</p>
+
+<p>Começaram por tirar cerimoniosamente o chapeu um ao outro, mas ao cabo de
+duas horas<span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span> de convivencia tratavam-se por
+tu,&mdash;intimamente.</p>
+
+<p>A ilha deserta em que se encontraram era a unica loja importante da
+praia,&mdash;uma loja onde se vende tudo o que uma pessoa póde desejar em
+qualquer momento.</p>
+
+<p>Supponhamos que um Lucullo extraviado chegava alli e pedia champagne.</p>
+
+<p>Encostando-se ao balcão, perguntaria:</p>
+
+<p>&mdash;Tem champagne?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho, sim, senhor.</p>
+
+<p>E abrindo um armario mysterioso, cheio de retortas, alambiques, garrafas e
+garrafões, o dono do estabelecimento demorar-se-ia um instante operando
+chimicamente.</p>
+
+<p>Passada meia hora, quando muito, apresentaria uma garrafa de champagne,
+feito talvez de petroleo, talvez de azeite, talvez de vinagre: composição
+sua.</p>
+
+<p>O freguez poderia extranhar que a garrafa não tivesse capsula de chumbo, mas
+apenas uma velha rolha porosa.</p>
+
+<p>O dono do estabelecimento responder-lhe-ia imperturbavelmente:</p>
+
+<p>&mdash;É verdade isso, mas eu preoccupo-me mais com a qualidade dos meus
+vinhos do que com a apparencia das garrafas.</p>
+
+<p>Lucullo, sentado á sua mesa de familia, provaria o champagne, e ficaria por
+ahi, a não ser que quizesse envenenar-se.<span class="pn"><a
+name="pag_22">{22}</a></span></p>
+
+<p>Mas, para não ser o unico a cahir no logro, calar-se-ia e, para rir um
+pouco, aconselharia a toda a gente que fosse comprar o bello champagne da loja
+do <em>Elephante azul</em>.</p>
+
+<p>Ora é justamente o discreto silencio dos freguezes, que querem ter
+companheiros na desgraça (<em>solatium est miseris</em>, etc.), que explica a
+grande clientella que tem, principalmente na epocha de banhos, a loja do
+<em>Elephante azul</em>.</p>
+
+<p>Foi, pois, n'essa ilha deserta, deserta antes do mez de setembro, o melhor
+n'aquella remota praia, que os dois solitarios banhistas se encontraram, e
+principiaram a tratar-se por tu, duas horas depois de se terem visto pela
+primeira vez.</p>
+
+<p>&mdash;Mas então, perguntava o meu amigo, não costuma vir mais gente para
+aqui?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, respondia o dono do <em>Elephante azul</em>, no mez de
+setembro é tanta a concorrencia, que eu costumo vender todo o champagne, toda a
+cerveja, toda a genebra que fabrico.</p>
+
+<p>E o outro, que já lá estava a banhos, observava:</p>
+
+<p>&mdash;Em setembro, será assim. Mas desde o dia 20 de julho, em que cheguei,
+até hoje, apenas eu só tenho tido a honra de despertar as attenções dos
+pescadores. No primeiro dia olharam para mim com surpreza, e nos dias seguintes
+com espanto.<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Como assim?!</p>
+
+<p>&mdash;Espanto de que eu, encontrando-me sosinho, continuasse a ficar...</p>
+
+<p>&mdash;Mas agora somos já dois!</p>
+
+<p>&mdash;Agora seremos um, <em>in carne una</em>, porque eu já te não largo,
+amigo da minha alma! até que em setembro chegue mais gente. Tu foste a minha
+tabua de salvação, ó inesperado e dilecto amigo!</p>
+
+<p>&mdash;O que direi eu então de ti, que me proporcionaste occasião de ter com
+quem fallar da crise monetaria e do caso das Trinas! Feliz de mim, que te
+encontrei, e de ti que me encontraste! Gloria a Deus nas alturas, e paz na
+terra... a dois homens!</p>
+
+<p>&mdash;Imagina, porém, que, por nos exaltarmos em qualquer discussão,
+tinhamos de ficar de mal um com o outro?</p>
+
+<p>&mdash;Era o mesmo que romper com toda a humanidade!</p>
+
+<p>&mdash;Mas o que farias tu?</p>
+
+<p>&mdash;Eu?! Eu ficaria de bem comtigo até que, chegando setembro, podesse
+encontrar dois padrinhos para te mandar desafiar...</p>
+
+<p>Começou agosto, e por mais que os dois amigos espreitassem para dentro de
+todas as diligencias que se fazem annunciar ao som de estridulas campainhas,
+não viam chegar ninguem.</p>
+
+<p>&mdash;Então para que servem as diligencias? perguntava um.<span class="pn"><a
+name="pag_24">{24}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Servem para alimentar a tradição de viajar, respondia o outro.</p>
+
+<p>O dono do <em>Elephante azul</em> dizia do lado:</p>
+
+<p>&mdash;Em setembro vêem cheias de gente. Ás vezes trazem dezeseis pessoas em
+oito logares.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não seria melhor que essas pessoas viessem a pouco e pouco, cada
+uma em seu logar?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor. Porque então, replicava o dono do <em>Elephante
+azul</em>, por muita gente que viesse, não se sentiria tanto.</p>
+
+<p>Os dois amigos tinham já esgotado todo o reportorio das suas opiniões.</p>
+
+<p>&mdash;O que pensas tu, caro amigo, a respeito do caso das Trinas?</p>
+
+<p>&mdash;Já to disse hontem.</p>
+
+<p>&mdash;E a respeito da crise monetaria?</p>
+
+<p>&mdash;Já t'o disse ante hontem.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! Por signal que te repetiste. Tambem já m'o tinhas dito no
+dia em que eu cheguei...</p>
+
+<p>O que mais os aborrecia era não poderem encontrar um terceiro parceiro para
+o voltarete.</p>
+
+<p>Haviam já perguntado ao dono do <em>Elephante azul</em>:</p>
+
+<p>&mdash;Sabe o voltarete?</p>
+
+<p>&mdash;Não, sr. Sei fazer champagne, sei fazer cognac, sei fabricar cerveja,
+só não sei jogar o voltarete!</p>
+
+<p>&mdash;Porque não trata de o aprender?<span class="pn"><a
+name="pag_25">{25}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Não vale a pena: não é coisa que se venda.</p>
+
+<p>No dia 8 de agosto, por volta do meio dia, qual não foi a surpreza dos dois
+amigos quando, encostados á porta de <em>Elephante azul</em>, viram chegar uma
+carruagem com um passageiro dentro.</p>
+
+<p>&mdash;Eureka! gritou um.</p>
+
+<p>&mdash;Apaga a lanterna de Diogenes! exclamou o outro.</p>
+
+<p>O passageiro apeiou-se do trem e, sem entrar na loja do <em>Elephante
+azul</em>, seguiu para o interior da villa.</p>
+
+<p>&mdash;Vae installar-se, disse um.</p>
+
+<p>&mdash;Vae, e não tarda ahi, á procura dos unicos dois homens que n'este
+momento lhe podem ser agradaveis.</p>
+
+<p>O dono do <em>Elephante azul</em>, tendo vindo á porta examinar o
+recem-chegado, observou:</p>
+
+<p>&mdash;Não é cara conhecida. Nunca veiu cá.</p>
+
+<p>&mdash;Podera! Se já conhecesse a praia, não vinha senão em setembro.</p>
+
+<p>Ficaram os dois conversando, mas o homem não appareceu.</p>
+
+<p>&mdash;Onde se metteria elle?</p>
+
+<p>&mdash;Naturalmente, disse o dono do <em>Elephante azul</em>, anda
+procurando casa.</p>
+
+<p>&mdash;Se fosse só isso, já a teria encontrado. É mais provavel que ande
+procurando gente...</p>
+
+<p>Cerca das trez horas da tarde, tornou a apparecer a carruagem, mas vasia.</p>
+
+<p>O caso ia tendo as proporções de um mysterio.<span class="pn"><a
+name="pag_26">{26}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;O homem suicidou-se!</p>
+
+<p>&mdash;Qual! Anda perdido nas ruas, e não encontra ninguem para lhe ensinar
+o caminho.</p>
+
+<p>Finalmente, o homem appareceu.</p>
+
+<p>Entrou no <em>Elephante azul</em> para comprar cigarros.</p>
+
+<p>Os dois banhistas crivaram-n'o logo de perguntas.</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª vem para cá?</p>
+
+<p>&mdash;Não, sr.</p>
+
+<p>Os dois olharam-se com dolorosa surpreza.</p>
+
+<p>&mdash;Então não vem para cá? insistiu não sei qual d'elles.</p>
+
+<p>&mdash;Vim justamente fazer o contrario.</p>
+
+<p>&mdash;Mas... não percebo!</p>
+
+<p>&mdash;Vim dizer que não vinha para cá.</p>
+
+<p>&mdash;Nem mesmo em setembro?</p>
+
+<p>&mdash;Nem mesmo... nunca. Tenho ahi um parente que me esperava, e vim
+dizer-lhe que não contasse commigo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas isto é muito bonito... em setembro!</p>
+
+<p>&mdash;Será. Eu tenho informações que me levam a pensar o contrario.</p>
+
+<p>&mdash;Pois que! Nem sequer tenta fazer uma experiencia!</p>
+
+<p>&mdash;Não, sr. Um amigo meu veiu uma vez em agosto, e esperou até setembro
+que viesse gente. Mas em setembro achou-se ainda mais só, porque morreu de
+bexigas o unico banhista que lhe podia fazer companhia.<span class="pn"><a
+name="pag_27">{27}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso vae-se embora?</p>
+
+<p>&mdash;Vou já, respondeu o sujeito pagando os cigarros.</p>
+
+<p>Já elle ia a dirigir-se para o trem, quando um dos dois se lembrou de
+gritar:</p>
+
+<p>&mdash;Ó sr. Mendonça!</p>
+
+<p>O sujeito não fez caso.</p>
+
+<p>&mdash;Ó sr. Andrade!</p>
+
+<p>O sujeito dispunha-se a entrar no trem.</p>
+
+<p>&mdash;Ó sr. Mattos!</p>
+
+<p>O sujeito voltou-se rapidamente.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! já sei que se chama Mattos!... tem a bondade de nos dar uma
+palavra?</p>
+
+<p>O sujeito, que já tinha um pé no estribo, veiu ao encontro dos dois.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe o sr. Mattos, disse um, o que nós estamos resolvidos a fazer?</p>
+
+<p>O meu amigo olhava para o companheiro de desgraça sem poder adivinhar a sua
+intenção.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, mas v ex.<sup>as</sup> terão a bondade de dizer.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, sr. Mattos! Vae sabel-o</p>
+
+<p>E agarrou-o pelas lapellas do frak.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. está preso.</p>
+
+<p>&mdash;Preso?! Porque?!</p>
+
+<p>Então o meu amigo sentiu-se illuminado. Adivinhou tudo.</p>
+
+<p>E deitando as mãos aos hombros do homem, gritou por sua vez:</p>
+
+<p>&mdash;Preso... sim, sr.!<span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Mas que crime fiz eu?</p>
+
+<p>&mdash;Não se trata de um crime, nem precisamente de uma prisão.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, se não se trata de uma prisão, porque é que me prendem!?</p>
+
+<p>&mdash;Fica apenas detido. Segundo o codigo, é differente.</p>
+
+<p>&mdash;Sómente detido. O codigo estabelece a differença.</p>
+
+<p>&mdash;Preso ou detido! disse o homem. Mas porque? Para que?</p>
+
+<p>&mdash;Detido ou preso... Preso para banhista.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu não quero tomar banhos!</p>
+
+<p>&mdash;Pois não tome, mas fica preso para banhista.</p>
+
+<p>&mdash;Preso não, observou o meu amigo. É bom não confundir as palavras. O
+sr. Mattos fica apenas detido até setembro... emquanto não vem mais gente.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que proveito tiram d'ahi os srs.?... perguntou o Mattos.</p>
+
+<p>&mdash;O proveito de sermos trez.</p>
+
+<p>&mdash;Trez para tudo: trez para o cavaco, trez para o voltarete, trez para
+o banho, trez para o <em>Elephante azul</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu não sei o voltarete!</p>
+
+<p>&mdash;Pouco importa. O que se quer é que o jogue.</p>
+
+<p>&mdash;Para jogal-o é preciso aprendel-o.</p>
+
+<p>&mdash;Isso não é inteiramente verdade... Mas,<span class="pn"><a
+name="pag_29">{29}</a></span> dado o caso que seja verdade, até setembro tem o sr.
+Mattos muito tempo para aprender a jogar o voltarete.</p>
+
+<p>O meu amigo termina a carta dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;«Cá temos o homem preso, e bem vigiado. Á noite fechamos-lhe a porta,
+e levamos a chave para casa. Uma noite, para lhe suavisarmos o captiveiro,
+resolvemos perder ao voltarete. E assim é que conseguimos ser trez! Mas, para
+vêr se vem mais gente, mandamos dizer nos jornaes do Porto que a praia está
+muito animada, e que em setembro serão poucas as casas para os banhistas que se
+esperam. Vê lá se dizes isso tambem nos jornaes de Lisboa...»<span class="pn"><a
+name="pag_30">{30}</a></span></p>
+
+<h1>IV</h1>
+
+<h2>Os frequentadores das praias</h2>
+
+<p>Escolhamos alguns dos typos que avultam na galeria das praias, para fixarmos
+n'elles a nossa attenção por um momento.</p>
+
+<p><em>O fallador</em>&mdash;É o discursador de cada praia, o homem que conta
+anecdotas e que sabe da vida alheia. Tem corda para toda a época balnear.
+Levanta-se pela manhã a fallar, vai conversar para a praia dos banhos logo que
+se levanta, e á noite é o ultimo a sair do club.</p>
+
+<p>&mdash;Meus amigos, diz elle, alli na Arruda aconteceu-me uma vez uma
+partida de estalo. Imaginem que um rapaz do meu tempo, vendo-me apeiar da
+diligencia, se lembrou de dizer aos da terra que eu era o homem mais rico de
+Portugal. D'alli a pouco choviam-me no <em>hotel</em> memoriaes, requerimentos,
+bilhetes de visita. Um tal foi propôr-me um negocio que devia render cincoenta
+por cento. Outro queria vender-me<span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span> uma
+quinta phylloxerada. E um pai de familia pretendia que eu lhe desposasse a
+filha... no caso de ser solteiro. Via-me embaraçado com tantos pedidos e
+propostas. De modo que tive de escrever para um meu amigo de Lisboa pedindo-lhe
+que me dissesse em telegramma; «Falliu Rio Janeiro casa Antunes &amp; C.ª
+Paciencia e resignação.»</p>
+
+<p>Eu li este telegramma na botica da terra, onde me foi entregue, e exclamei
+fingindo desmaiar: «Estou arruinado!»</p>
+
+<p>Acreditaram. Nunca mais ninguem me procurou para saber a resposta que eu
+daria aos memoriaes e aos requerimentos.</p>
+
+<p>D'alli a instantes:</p>
+
+<p>&mdash;Em Maçãs de D. Maria tambem me aconteceu um caso muito ratão. Eu
+tinha ido lá para arrematar uma quinta, que devia ir á praça n'esse dia. Mas,
+por qualquer motivo, não se realisou a arrematação. Logo souberam, porém, ao
+que eu ia. Á noite, armaram um bailarico, e convidaram-me para assistir. Houve
+descantes em minha honra. Mas no dia seguinte, realisava-se a festa de um santo
+qualquer e vieram dizer-me que eu tinha de pagar a missa e o sermão, porque era
+costume da terra que toda a pessoa que alli fosse pela primeira vez, e
+recebesse a honra de um bailarico, fizesse á sua custa a festa d'aquelle
+santo.</p>
+
+<p>No club, á noite:<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Uma vez, na Narazeth, lembramo-nos de ir todos para o club vestidos
+com o fato do banho. Imaginem que risota?!</p>
+
+<p>&mdash;Mas as senhoras? O que disseram as senhoras a isso? pergunta alguem,
+do lado.</p>
+
+<p><em>O fallador</em> não se atrapalha:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! as senhoras não foram n'essa noite ao club...</p>
+
+<p><em>O silencioso</em>&mdash;Ouve tudo calado, mascando no seu charuto. Não
+aventa uma ideia, não arrisca uma opinião. Não quer conhecer ninguem. Os outros
+banhistas que se riem do <em>fallador</em>, riem-se igualmente do
+<em>silencioso</em>. Ao cabo de vinte dias de praia, o <em>silencioso</em>
+aventura-se a proferir uma palavra ou duas. Em vez de levar apenas a mão ao
+chapeu, rompe neste excesso de eloquencia: «Muito bons dias» ou «Muito boas
+noites». Cinco dias depois, já cumprimenta um ou outro pelo seu nome. E no fim
+do mez, quando parecia resolvido a fallar, vae-se embora!</p>
+
+<p>Uma vez, n'uma praia, appareceu um <em>silencioso</em> d'estes. Havia um
+<em>fallador</em>, que embirrava muito com elle. Era natural.</p>
+
+<p>&mdash;Eu hei de obrigar a fallar este diabo...</p>
+
+<p>Fazia-lhe uma pergunta, e o homem contentava-se com encolher os hombros.</p>
+
+<p>&mdash;Não importa! Eu hei de obrigar a fallar este diabo... dizia o
+<em>fallador</em> assim que o <em>silencioso</em> voltava costas.<span class="pn"><a
+name="pag_33">{33}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;O cavalheiro toma banhos?</p>
+
+<p>O <em>silencioso</em> meneiava affirmativamente ou negativamente a
+cabeça.</p>
+
+<p>Desesperado, o <em>fallador</em>, estando certo dia a contar uma das suas
+muitas historias, fingiu-se distraido, e pisou o outro.</p>
+
+<p>&mdash;Que bruto! exclamou o <em>silencioso</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Mas... fallou! gritou cheio de jubilo o <em>fallador</em>.</p>
+
+<p>O <em>generoso</em>&mdash;Vá, rapazes, lembrem-se vocês d'alguma festa, e
+contem commigo. Póde-se tirar partido de tanta coisa! Querem um arraial? Eu dou
+o fogo de vistas. Querem uma reg ata? Eu dou os premios. Querem uma burricada?
+Eu dou os burros.</p>
+
+<p>&mdash;Não os ha, diz alguem, do lado.</p>
+
+<p>&mdash;Qual não ha! Tudo são difficuldades! Já não ha rapazes!...</p>
+
+<p>&mdash;O que não ha são burros.</p>
+
+<p>&mdash;Burros! ha sim, sr. Eu encarrego-me de os mandar vir pelo caminho de
+ferro ou, se tanto fôr preciso, pelo telegrapho. Onde ha dinheiro, ha tudo.</p>
+
+<p>O <em>sovina</em>&mdash;Andam ahi a fazer uma subscripção? Tem graça! Quem
+encommendou o sermão, que o pague. Eu nunca na minha vida dei dez réis para
+divertir os outros. Pelo contrario, o que eu quero é que os outros me divirtam
+a mim. Agora uma <em>soirée</em>! Não vou a parte nenhuma para tomar chá.
+Tomo-o em minha casa<span class="pn"><a name="pag_34">{34}</a></span> quando quero. De mais
+a mais uma <em>soirée</em> com bolos saloios, que quebram os dentes á gente! E
+chá de herva cidreira ainda por cima! No chá não se admitte meio termo: ou bom
+ou nada. Eu não gosto senão do Hyson. E depois dá cá dez tostões! Ora que tal
+está a maroteira! Queriam dançar? Dançassem a sêcco. Quanto mais leve se está,
+melhor se dança!</p>
+
+<p>O <em>pai extremoso</em>&mdash;É a primeira vez que o cavalheiro vem a esta
+praia?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sr.; é a primeira vez.</p>
+
+<p>&mdash;Então hade conhecer poucas senhoras?</p>
+
+<p>&mdash;Muito poucas.</p>
+
+<p>&mdash;É uma contrariedade para quem gosta de dançar. O cavalheiro dança?</p>
+
+<p>&mdash;Gosto muito.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, esta noite queira procurar-me no club, que eu o
+apresentarei a tres ou quatro senhoras.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! mil vezes obrigado.</p>
+
+<p>&mdash;Se me não custa nada!</p>
+
+<p>Á noite, no club, o <em>pai extremoso</em> procede ás promettidas
+apresentações.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Engracia.</p>
+
+<p>E passando em claro apenas uma cadeira:</p>
+
+<p>&mdash;Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Cecilia.</p>
+
+<p>E duas cadeiras mais adeante:<span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Conceição.</p>
+
+<p>Depois, filando o apresentado pela lapella do frack:</p>
+
+<p>&mdash;Agora já o cavalheiro tem muito com quem dançar. Para o caso, porém,
+de querer variar um pouco, apresento-lhe ainda a minha Mimi, que tem apenas
+nove annos, mas que gosta muito de dançar. Aprendeu com o Justino Soares, e
+elle disse-me quando viemos para cá: «Esta menina ha de vir a dançar ainda
+melhor que as irmãs!»</p>
+
+<p>O <em>pai indiferente</em>.&mdash;Passo.</p>
+
+<p>O filho mais novo, chegando-se ao pé da mesa do voltarete:</p>
+
+<p>&mdash;Manda dizer a mamã se faz favor de ir á sala para arranjar um par
+para a mana. Ella ainda não dançou.</p>
+
+<p>&mdash;Diz á mamã que vou já.</p>
+
+<p>D'ahi a pouco volta o pequeno:</p>
+
+<p>&mdash;Faz favor de lá ir, que se vai dançar uma quadrilha.</p>
+
+<p>&mdash;Peço licença.</p>
+
+<p>&mdash;Que diz o papá?</p>
+
+<p>&mdash;Que já lá vou.</p>
+
+<p>&mdash;Então eu espero pelo papá.</p>
+
+<p>&mdash;Isto não tem discussão possivel: cinco matadores.</p>
+
+<p>&mdash;Venha d'ahi, papá.</p>
+
+<p>&mdash;Dois de licença, cinco de matadores, dois de cinco primeiras: nove.<span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Olhe, papá, já começou a quadrilha!</p>
+
+<p>&mdash;Quando se dançar outra, vem chamar-me.</p>
+
+<p>O <em>commodista</em>&mdash;Meninas, olhem que já são dez horas.</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã é dia santo, papá.</p>
+
+<p>&mdash;Ó Jeremias! deixa dançar as pequenas mais um bocado...</p>
+
+<p>&mdash;Perde-se todo o effeito dos banhos com estas noitadas!</p>
+
+<p>&mdash;É só mais um bocado...</p>
+
+<p>&mdash;Nada! nada! já estou com muito somno.</p>
+
+<p>&mdash;Vê se o espalhas.</p>
+
+<p>&mdash;A Rosa já deve ter feito o chá.</p>
+
+<p>&mdash;És massador!</p>
+
+<p>&mdash;Ai que deixei a janella do quarto aberta, e entram os mosquitos!
+Vamos lá depressa...</p>
+
+<p>O <em>sucio</em>&mdash;Eu cá sou de feição. Não gostei nunca de desmanchar
+prazeres. Podem dançar á vontade, que eu vou vêr jogar.</p>
+
+<p>E vae para a rua conversar com as raparigas do povo, que espreitam á porta
+do club.</p>
+
+<p>Uma hora depois, volta á sala.</p>
+
+<p>&mdash;Então, ainda querem dançar mais?</p>
+
+<p>&mdash;Só mais uma valsa.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim! Eu cá não quero ser desmancha-prazeres. Vou lêr os jornaes,
+que remedio!</p>
+
+<p>E torna para a porta do club a conversar com as raparigas do povo.</p>
+
+<p>&mdash;Ó Melôa, já te vaes embora?<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Já, sim, sr., e não tenho medo dos ladrões.</p>
+
+<p>&mdash;Pois fazes mal. Espera ahi, que eu acompanho-te. Sempre é bom
+acautelar...</p>
+
+<p>O <em>indigena da praia</em>&mdash;Quem diabo serão os patuscos, que andam a
+tocar trompa a esta hora?! Estava no melhor do meu somno! Corja de patifes!</p>
+
+<p><em>Os da trompa</em>&mdash;Sopra-lhe ahi com força para accordares o
+Diamantino, que me vendeu um fato de banho por mais seis tostões. Patife!<span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span></p>
+
+<h1>V</h1>
+
+<h2>Casos...</h2>
+
+<p>Conta-se a anecdota de certo prelado de uma diocese do Alemtejo, homem de
+lettras afamado, que viveu no tempo do marquez de Pombal e que, em estando
+entregue aos seus trabalhos litterarios, de nada mais queria saber.</p>
+
+<p>Um anno, pelo tempo das boas-festas, estava o bispo sentado á banca, no seu
+vasto escriptorio&mdash;um salão do paço episcopal&mdash;quando um diocesano
+entrou para cumprimental-o.</p>
+
+<p>O prelado não deu tento da entrada do homem, tanto era o interesse que lhe
+merecia o assumpto de que estava tratando.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. bispo! apostrophou timidamente o recem-chegado.</p>
+
+<p>O bispo não ouviu.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. bispo! tornou a exclamar o visitante.</p>
+
+<p>Nada! O bispo não ouvia.<span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span></p>
+
+<p>Então, muito compromettido, o visitante resolveu-se a empurrar uma cadeira
+para fazer barulho.</p>
+
+<p>O bispo voltou de subito a cabeça. Viu-o, e perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;O que é que quer?</p>
+
+<p>&mdash;Eu vinha visitar v. ex.ª</p>
+
+<p>E o bispo, continuando a escrever, respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Pois visite, visite.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O curso do quinto anno de direito estava simulando audiencias, como é
+costume, fazendo um estudante de juiz, outro de escrivão do processo, outro de
+official de diligencias, etc.</p>
+
+<p>Constituiu-se o tribunal, e o professor da cadeira disse ao estudante que
+representava de juiz:</p>
+
+<p>&mdash;Ha sussurro na sala. O que faz o sr. juiz?</p>
+
+<p>&mdash;Toco a campainha, e recommendo silencio ao auditorio.</p>
+
+<p>Mas o professor insistiu:</p>
+
+<p>&mdash;Continua o sussurro. O que faz o sr. juiz?</p>
+
+<p>&mdash;Torno a tocar a campainha, e de novo recommendo silencio.</p>
+
+<p>&mdash;Mas supponha que não basta isso. O sussurro continua.<span class="pn"><a
+name="pag_40">{40}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso, direi: Official, tome nota das pessoas que estão fazendo
+sussurro, para serem autuadas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o sussurro redobra.</p>
+
+<p>E o estudante, já muito atarantado, exclama:</p>
+
+<p>&mdash;Redobra!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor,&mdash;o sussurro redobra.</p>
+
+<p>O estudante pensa um momento...</p>
+
+<p>&mdash;Então, insiste o professor, o que fazia o sr. juiz?</p>
+
+<p>&mdash;Eu? Eu fazia isto: punha o chapeu na cabeça e dizia: Está levantada a
+sessão.</p>
+
+<p>Riu o professor, riu todo o curso, e o estudante salvou-se da entalação
+d'aquelle dia,&mdash;por ter tido uma idéa e um chapeu.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Havia um grande capitalista, que, por ter um sobrinho muito extravagante, já
+lhe não queria dar vintem.</p>
+
+<p>Um dia appareceu-lhe o sobrinho annunciando que ia partir para os Estados
+Unidos, onde poderia vender melhor do que em Portugal, dizia elle, o segredo de
+uma invenção maravilhosa.</p>
+
+<p>O tio, picado de curiosidade, quiz saber no que consistia a maravilhosa
+invenção. Recusa do sobrinho. Insistencia do tio. Finalmente, o<span class="pn"><a
+name="pag_41">{41}</a></span> sobrinho revelou o seu segredo: tinha descoberto o
+processo de fazer oiro. O tio, tão rico como ambicioso, resolve comprar-lhe o
+segredo por seis contos de réis. O sobrinho, simulando alguma difficuldade,
+acaba por vender-lhe a receita, que o tio paga immediatamente. Concluida a
+transacção, despedem-se, mas, já no fundo da escada, diz o sobrinho ao tio:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! esquecia-me uma coisa, meu tio. Para que a receita dê resultado
+satisfatorio, é preciso que o tio, quando quizer fazer oiro, não se lembre do
+<em>elephante branco</em>.</p>
+
+<p>E saiu com o dinheiro na algibeira.</p>
+
+<p>O tio tratou de montar o seu laboratorio, e de realisar a receita. Mas, por
+mais que quizesse affastar do seu espirito a idéa do <em>elephante branco</em>,
+essa terrivel idéa acudia-lhe sempre, pelo que jámais conseguiu tirar da compra
+que fizera o resultado que esperava...</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Não sei quando, nem mesmo onde, existiam dois esposos, que se
+enriqueceram... de filhos. A boa fortuna parecia apostada em querer que elles
+esgotassem todos os nomes do <em>Flos sanctorum</em>.</p>
+
+<p>Começaram pelos vulgares. Os primeiros filhos chamaram-se Manuel, Joaquim,
+Antonio, João. Depois passaram a escolher nomes romanticos:<span class="pn"><a
+name="pag_42">{42}</a></span> Arthur, Laura, Beatriz, Egberto. Por ultimo, tiveram que
+lançar mão dos nomes mais esquisitos e arrevesados: Cunegundes, Tecla, Mafalda,
+Thimoteo.</p>
+
+<p>Um dia, quando já era difficil saber a conta de todos os filhos, e
+acertar-lhes de prompto com os nomes, saiu o pae a passeio e, longe de casa,
+encontrou na rua uma creança que chorava, escondendo o rosto entre as mãos.</p>
+
+<p>Apiedou-se, dirigiu-se á creança, levantou-lhe a cabeça, achou que tinha uns
+olhos bonitos, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;O que fazes tu por aqui, meu menino!</p>
+
+<p>&mdash;Ando perdido.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre creança! Sabes quem é a tua familia?</p>
+
+<p>&mdash;Não estou bem certo d'isso, meu sr.</p>
+
+<p>&mdash;Tens fome?</p>
+
+<p>&mdash;Muita, muita.</p>
+
+<p>&mdash;E frio?</p>
+
+<p>&mdash;Muito frio...</p>
+
+<p>&mdash;Está bem, anda d'ahi comigo.</p>
+
+<p>Onde ia elle levar a creança? Ora! onde é que o negociante feliz vai
+depositar os seus lucros? No Banco. Pois o Banco onde esse feliz casado
+enthesourava todos os lucros da sua prosperidade conjugal era... a sua propria
+casa,&mdash;o seu lar.</p>
+
+<p>Chega elle, muito contente, com a creança pela mão.<span class="pn"><a
+name="pag_43">{43}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Querida mulher! disse ao entrar em casa. Trago-te mais uma
+creança...</p>
+
+<p>&mdash;Outra?!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, filha, tu és bondosa, compassiva, has de comprehender o impulso
+do meu coração.</p>
+
+<p>&mdash;O que queres dizer?</p>
+
+<p>&mdash;Quero dizer que encontrei na rua, abandonada, esta pobre creança, que
+não sabe ao certo quem são os seus pais e onde moram.</p>
+
+<p>E o pequeno, escondendo o rosto choroso entre as mãos, arquejava,
+soluçava...</p>
+
+<p>&mdash;Vendo-o, pensei commigo mesmo: Onde cabem vinte, podem caber vinte e
+um. Eis aqui está o que eu pensei, e trouxe-o commigo.</p>
+
+<p>&mdash;Que Deus nos ajude, homem! mas já estávamos tão sobrecarregados!</p>
+
+<p>&mdash;Quando tinhamos apenas seis filhos já diziamos isso mesmo! E comtudo
+tem havido logar para todos, nenhum d'elles ainda morreu de fome.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! fique o pequeno.</p>
+
+<p>A creança conservava-se ao canto da casa, soluçando, arquejando.</p>
+
+<p>&mdash;Disseste que era bonito o pequeno?</p>
+
+<p>&mdash;Olha para elle, e verás os lindos olhos que tem!</p>
+
+<p>&mdash;Levanta a cabeça, meu menino.</p>
+
+<p>A creança não se mexia. Arquejava, soluçava.</p>
+
+<p>Então foi preciso levantar-lhe a cabeça quasi á força.<span class="pn"><a
+name="pag_44">{44}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ora esta! exclama a dona da casa.</p>
+
+<p>&mdash;O que é?! pergunta o marido.</p>
+
+<p>&mdash;É o nosso Augusto!</p>
+
+<p>Eram tantos, que já nem o pai os conhecia!</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Sabem o que é muito difficil no carnaval?</p>
+
+<p>É encontrar um companheiro que nos não incommode e que nos não contrarie.</p>
+
+<p>Ah! isso é que é muito difficil!</p>
+
+<p>Eu apenas conheço um caso em que certo amigo meu poude encontrar o melhor
+dos companheiros para um baile de mascaras.</p>
+
+<p>Esse companheiro era um general, que parecia excellentemente disposto: alto,
+forte, com um bello bigode branco, e algum brilho ainda nos olhos.</p>
+
+<p>O meu amigo convidou-o para irem a um baile de mascaras. Acceitou logo.
+Foram.</p>
+
+<p>Uma vez no baile de mascaras, o meu amigo sentou-se junto a duas mulheres
+mascaradas. O general tambem. O meu amigo fallava-lhes. Ellas respondiam. Só o
+general estava calado, parecendo comtudo excellentemente disposto.</p>
+
+<p>Convidou-as o meu amigo para irem ceiar todos juntos. O general não oppôz a
+menor resistencia.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim! vamos lá ceiar, disse elle.<span class="pn"><a
+name="pag_45">{45}</a></span></p>
+
+<p>Foram ceiar.</p>
+
+<p>As mulheres tiraram a mascara. O meu amigo disse a uma das mulheres que
+gostava muito d'ella, o general não disse nada á outra.</p>
+
+<p>Comeram. O general comeu tambem. No fim da ceia, queimaram todos quatro as
+suas cigarrilhas. O general parecia excellentemente disposto. Desabotoou o
+collete, repotreou-se na cadeira, accendeu segunda cigarrilha.</p>
+
+<p>Veiu a conta. O meu amigo quiz pagar toda a despeza; o general não
+consentiu, quiz pagar tambem a sua parte.</p>
+
+<p>Sairam.</p>
+
+<p>O meu amigo, voltando-se para o general, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;E agora?</p>
+
+<p>O general, parecendo sempre muito bem disposto, inclinou-se ao ouvido do meu
+amigo, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, meu caro, eu já não tenho condição nenhuma para gostar de um
+baile de mascaras.</p>
+
+<p>E o meu amigo, sem se desconcertar, sem se surprehender, offereceu o braço
+direito a uma das mulheres, o braço esquerdo á outra, e disse ao general, que
+continuava a parecer muito bem disposto:</p>
+
+<p>&mdash;Boa noite, general.<span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Certo estudante, tendo faltado ás aulas, apresentou uma certidão de doença,
+falsa.</p>
+
+<p>O medico que a passára era uzeiro e vezeiro em justificar a cabula dos
+estudantes, que lhe pagavam a justificação.</p>
+
+<p>Do alto da cathedra, o professor, tendo relanceado os olhos á assignatura da
+certidão, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Ó sr. Fulano! se estivesse doente chamava este medico para o
+tratar?</p>
+
+<p>O estudante respondeu com promptidão e firmeza:</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Tinha Antonio Feliciano de Castilho ido ao Rio de Janeiro, e fôra recebido
+em audiencia particular pelo imperador D. Pedro II.</p>
+
+<p>A conversação versou, como era natural, sobre assumptos litterarios.</p>
+
+<p>Castilho havia sido prevenido de que o imperador, por amor á discussão com
+homens notaveis, gostava de que elles o contrariassem nas suas opiniões.</p>
+
+<p>Assim avisado, se o imperador dizia que tal<span class="pn"><a
+name="pag_47">{47}</a></span> objecto era branco, Castilho sustentava que esse mesmo
+objecto era preto.</p>
+
+<p>O sr. D. Pedro II estava delirante de alegria, e propositadamente prolongava
+a conversação.</p>
+
+<p>Veiu a ponto fallarem de versos alexandrinos.</p>
+
+<p>O imperador declarou que não gostava do verso alexandrino, de que, como se
+sabe, Castilho era enthusiasta.</p>
+
+<p>&mdash;Ser-me-ha licito, disse Castilho, perguntar a vossa magestade os
+fundamentos da sua opinião?</p>
+
+<p>&mdash;Acho o alexandrino&mdash;replicou D. Pedro II, um metro inutil, por
+isso que é composto de dois versos de seis syllabas. Digam francamente que
+fazem versos de seis syllabas, e escusam de baptisar cada parelha de seis
+syllabas com o pomposo nome de alexandrinos.</p>
+
+<p>Castilho replicou:</p>
+
+<p>&mdash;O que faz vossa magestade quando tem sêde?</p>
+
+<p>O imperador sorriu-se, e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Bebo agua.</p>
+
+<p>&mdash;Ora muito bem! tornou Castilho, mas se vossa magestade beber agua por
+dois copinhos, não fica tão satisfeito como tendo-a bebido de um só trago por
+um copasio enorme.<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Um homem que se dava excellentemente com a mulher, e que tinha trez filhas
+muito bonitas e trez filhos muito espertos, não podia soffrer a
+sogra,&mdash;como quasi sempre acontece.</p>
+
+<p>Um dia, ella adoeceu gravemente, muito gravemente. Foi preciso chamar o
+medico que, depois de lhe vêr a lingua e tomar o pulso, torceu o nariz.</p>
+
+<p>&mdash;Isto não está bom! disse o medico.</p>
+
+<p>&mdash;O que se ha de fazer então?</p>
+
+<p>&mdash;Deitar-lhe bichas, já, immediatamente.</p>
+
+<p>Mandou-se, sem perda de tempo, buscar as bichas, muitas bichas.</p>
+
+<p>O bom do genro assistiu á chegada das bichas, viu-as deitar, chegou mesmo a
+perguntar se ellas tinham feito bem o seu dever: morder na sogra.</p>
+
+<p>Á noite, no club, dizia elle:</p>
+
+<p>&mdash;Assisti hoje a um combate de feras.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim?!</p>
+
+<p>&mdash;Vi deitar duas duzias de bichas em minha sogra...</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Certo professor de medicina perguntava a um estudante:<span class="pn"><a
+name="pag_49">{49}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Por que é que no tratamento das feridas se emprega o panno de linho
+velho?</p>
+
+<p>O estudante procurou qualquer razão, e disse-a.</p>
+
+<p>&mdash;Não, sr., replicou o cathedratico.</p>
+
+<p>O estudante tratou de procurar outra razão.</p>
+
+<p>Observação do professor:</p>
+
+<p>&mdash;Tambem não.</p>
+
+<p>O estudante dá ainda tratos á cabeça para descobrir uma terceira razão.</p>
+
+<p>Então o professor resolve-se a fazer luz no assumpto:</p>
+
+<p>&mdash;Por duas razões, e nenhuma d'ellas o sr. foi capaz de descobrir! 1.ª
+Porque o panno de linho velho é mais barato. 2.ª Porque o panno de linho novo é
+mais caro.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Eu estava uma vez no escriptorio de um advogado meu amigo, homem de lettras,
+jornalista principalmente, que me pedira que esperasse emquanto elle acabava de
+escrever um artigo de fundo.</p>
+
+<p>A penna rangia vertiginosamente sobre o papel.</p>
+
+<p>Eis senão quando entra um saloio.</p>
+
+<p>&mdash;Que é? perguntou o advogado escrevendo sempre.<span class="pn"><a
+name="pag_50">{50}</a></span></p>
+
+<p>O saloio respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Vinha consultar v. ex.ª sobre uma pequena questão.</p>
+
+<p>&mdash;Vá dizendo.</p>
+
+<p>O saloio olhou para o advogado, olhou para mim e olhou para um espelho que
+havia no escriptorio. Estava embaraçado, duvidoso de expôr o seu assumpto sem
+que o advogado se prestasse a dar-lhe toda a attenção.</p>
+
+<p>&mdash;Vá dizendo, repetiu o advogado.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. dr.: Ha na minha terra uma mulher de má lingua, que traz todo o
+logar embrulhado. Por causa d'ella lavram inimisades de familia, questões entre
+casados, o diabo! Mas de cara a cara ella não se mette com ninguem; é só por
+traz da cortina. Veiu para lá ha tres annos, comprou uma casita, e trabalha de
+tecedeira. Mas o que ella tece melhor são intrigas. Por sua causa estou de mal
+com meu sogro e com meu cunhado. Eu e outros mais da freguezia queremos pôl-a
+fóra do logar, mas não sabemos a quem havemos de requerer...</p>
+
+<p>E calou-se. O advogado continuava escrevendo.</p>
+
+<p>&mdash;Não sabemos a quem havemos de requerer... repetiu o saloio.</p>
+
+<p>O advogado não respondeu.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. dr., perguntou o saloio, a quem havemos nós de requerer?</p>
+
+<p>O advogado nem palavra.<span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span></p>
+
+<p>Mas o saloio não desistiu. Aproximou-se da banca, e tornou a perguntar
+curvando-se até quasi juntar a sua cabeça com a do advogado:</p>
+
+<p>&mdash;A quem havemos nós de requerer, sr. dr.?</p>
+
+<p>&mdash;A D. Miguel, respondeu o advogado continuando sempre a escrever.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Quem conhecia bem a formiga era um certo lavrador do Alemtejo, cujo celleiro
+as formigas tinham invadido como praga damninha.</p>
+
+<p>Elle consultou todos os chimicos afamados para que lhe vendessem um
+ingrediente que as matasse.</p>
+
+<p>A droga que lhe receitou o boticario da sua terra, não deu resultado. Veiu
+de proposito a Lisboa, conversou sobre o assumpto com os mais conspicuos
+pharmaceuticos da capital.</p>
+
+<p>&mdash;Faça isto.</p>
+
+<p>&mdash;Faça aquillo.</p>
+
+<p>&mdash;Faça aquell'outro.</p>
+
+<p>Nada deu resultado. Um dia, na charneca, aconselhou-se com um pastor.
+Obrigados, pela solidão em que vivem, á observação da natureza e á philosophia
+da experiencia, os pastores da charneca têem ás vezes phrases conceituosas,
+alvitres sapientissimos.</p>
+
+<p>O pastor deu-lhe um conselho, que valia mais do que as drogas dos
+pharmaceuticos.<span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span></p>
+
+<p>Chegado a casa, o lavrador pegou n'uma tira de papel, escreveu n'ella
+algumas palavras, e foi pregal-a na porta do celleiro.</p>
+
+<p>Legiões de formigas avançavam, pelo veso, em demanda das tulhas. Mas logo
+que avistavam a porta, e liam o lettreiro, retrocediam como que embuchadas.</p>
+
+<p>No dia seguinte, a mesma coisa. O pastor tinha aconselhado um remedio
+excellente.</p>
+
+<p>O que escreveu o lavrador no papel? Esta simples phrase:</p>
+
+<p>«<em>De hoje em deante, toda a formiga que entrar no meu celleiro ha de
+pagar dez réis&mdash;por cabeça.</em>»</p>
+
+<p>Ora como as formigas são essencialmente avarentas, chegavam á porta do
+celleiro, liam o papel, e desandavam para a toca, não sabendo ao certo se o
+lavrador gracejaria ou fallaria verdade.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Um moço de fretes costumava ir confessar-se todos os annos, mas fazia a sua
+chorata ao prior para não ter que pagar a <em>desarrisca</em>. De uma vez,
+porque lhe parecesse que o prior se aborrecia com a choradeira, que era
+fingida, andou a procurar entre os seus patacos um que tinha peor cara e que
+por isso mesmo era mais duvidoso.<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p>
+
+<p>Foi confessar-se, muito contricto, com o pataco falso na algibeira. Antes de
+receber Nosso Pae, pensando sempre em Deus e no pataco, dirigiu-se para a
+sachristia.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. prior, disse elle, eu tenho abusado muito da bondade de v. s.ª</p>
+
+<p>&mdash;Nem por isso, Ramon...</p>
+
+<p>&mdash;Tenho, tenho, sr. prior, mas este anno não ha de ser assim.</p>
+
+<p>E, dizendo, tirava vagarosamente da algibeira do collete o que quer que
+fosse.</p>
+
+<p>&mdash;Este anno, continuou, quero pagar a <em>desarrisca</em>. Se o sr.
+prior estiver pelos autos, ficará o costume de eu pagar de dois em dois
+annos.</p>
+
+<p>&mdash;Pois seja como quizeres.</p>
+
+<p>E o moço de fretes, tirando o pataco da algibeira, pôl-o a um canto da mesa
+em que o prior estava escrevendo no livro.</p>
+
+<p>&mdash;É poucochinho, sr. prior, mas os annos vão muito bicudos...</p>
+
+<p>&mdash;Não fallemos mais n'isso.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre chega para o rapé. Este pataquinho é para o rapé do sr.
+prior.</p>
+
+<p>&mdash;Pois seja.</p>
+
+<p>E o prior, voltando-se para o menino do côro, que estava perto, disse-lhe
+imperativamente:</p>
+
+<p>&mdash;Ó Zé Maria, vae-me ali defronte comprar um pataco de meio grosso.</p>
+
+<p>O Zé Maria sahiu, a correr, e o moço de fretes,<span class="pn"><a
+name="pag_54">{54}</a></span> sempre muito contricto, foi ajoelhar-se á mesa da
+communhão, esperando pelo prior.</p>
+
+<p>Um instante depois, o menino do côro entrava na sachristia com o rapé e com
+o pataco.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. prior, disse elle, não quizeram receber o pataco.</p>
+
+<p>&mdash;Por quê?</p>
+
+<p>&mdash;Porque é falso como Judas. Mas obrigaram-me a trazer o rapé por ser
+para o sr. prior.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa lá vêr o pataco.</p>
+
+<p>O prior pegou no dinheiro, levou-o á altura dos olhos, e riu-se.
+Levantou-se, preparou-se para ir dar a communhão.</p>
+
+<p>Chegando á egreja, descobriu o moço de fretes, que estava já com o queixo
+muito embrulhado na toalha de rendas.</p>
+
+<p>O prior foi distribuindo as sagradas particulas, mas quando chegou ao
+gallego, introduziu-lhe o pataco na bocca,&mdash;delicadamente.</p>
+
+<p>Habituado a grandes pesos, o penitente nem sequer se admirou de que fosse
+tão pesada aquella estranha particula.</p>
+
+<p>Mas quando quiz engulil-a, é que foram ellas!</p>
+
+<p>E o prior, de pé, grave e solemne, esperava.</p>
+
+<p>Bem voltas dava á lingua o gallego, mas não havia meio de engulir o
+pataco.</p>
+
+<p>Até que, com alguma difficuldade, se resolveu a dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Não passa, sr. prior!<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p>
+
+<p>E o prior, sempre muito grave e solemne respondeu-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Não passa, não. Já mandei comprar rapé, e não o quizeram acceitar.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&mdash;Por que é, perguntava um professor de agricultura, que as sementes
+precisam ser enterradas na terra?</p>
+
+<p>&mdash;Por isto... dizia um estudante.</p>
+
+<p>&mdash;Por aquillo... respondia outro.</p>
+
+<p>O professor zangou-se:</p>
+
+<p>&mdash;Não, sr.! É preciso enterrar as sementes para os passaros as não
+comerem.<span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span></p>
+
+<h1>VI</h1>
+
+<h2>Á volta dos pés da imperatriz</h2>
+
+<p>Referiram ha tempos os jornaes que se tinha levantado na côrte de Berlim uma
+grave questão de etiqueta,&mdash;grave como todas as questões d'este genero,
+incluindo a do <em>Hyssope</em>.</p>
+
+<p>A actual imperatriz, que prima por uma extrema simplicidade de vestidos e
+maneiras, pedira ao imperador seu marido que dispensasse, nas grandes
+solemnidades do palacio, os vestidos roçagantes, as longas <em>traines</em>
+cadentes.</p>
+
+<p>A condessa Waldersee, que tem auctoridade em questões de etiqueta, reforçou
+com a sua opinião o pedido da imperatriz.</p>
+
+<p>Mas Guilherme II não annuiu, e as extensas caudas de setim e velludo
+continuarão a arrastar-se, sobre os tapetes da côrte allemã, longamente,
+apparatosamente...</p>
+
+<p>Á bocca pequena dizia-se em Berlim que no pedido da imperatriz havia o que
+quer que fosse de vaidade feminina, porque, tendo uns pés<span class="pn"><a
+name="pag_57">{57}</a></span> pequenissimos, não desejava que lh'os empanasse o
+vestido.</p>
+
+<p>O imperador, conhecendo a intenção reservada da imperatriz,
+entrincheirára-se na recusa, porque, não obstante as suas aventuras d'amor,
+Guilherme II, como todo o marido que se prese, entende que deve ser elle o
+unico a ter o direito de admirar as perfeições plasticas de sua mulher.</p>
+
+<p>Pelo que respeita aos pés femininos, dividem-se as opiniões. Os leitores
+sabem-n'o tão bem como eu.</p>
+
+<p>Entendem uns que os pés da mulher são tão pouco para admirar como a haste de
+uma rosa. Todas as attenções se fixam na belleza da corolla, no colorido das
+petalas. É a rosa fresca e bella? É isso o que se quer. Tenha a mulher as
+graças do semblante, que os pés, que ficam lá muito para baixo, escapam á
+vista, sejam grandes ou pequenos.</p>
+
+<p>Outros porém, e estes são decerto em maior numero, adoram os pés
+caprichosamente pequeninos, miniaturados a buril como por um gravador que
+houvesse cegado depois de os ter feito...</p>
+
+<p>Os que são d'este parecer defendem-se com a tradição da estatuaria classica,
+com as lendas graciosas da bella plastica antiga, em que a mulher, não raras
+vezes, apparece divinisada pela pequenez do pé.<span class="pn"><a
+name="pag_58">{58}</a></span></p>
+
+<p>Recordam a historia da <em>Cendrillon</em>, a nossa <em>Gata
+borralheira</em>, que perdeu o chapim pelo qual um principe galante a mandára
+procurar até que, encontrando-a, só descansou quando poude desposal-a.</p>
+
+<p>Citam a tradição da formosa Rhodopis a quem, estando ella no banho, uma
+aguia empolgou uma das sandalias, que deixou cahir no terraço do palacio real
+de Memphis, onde o rei, apanhando-a, tratou de descobrir, desde essa hora, o
+pequenino pé de que pela sandalia ficára enamorado.</p>
+
+<p>É, no fundo, a mesma lenda, talvez um symbolismo mythico transformado em
+anecdota historica, como julga Husson.</p>
+
+<p>Lembram ainda em seu abono o instincto artistico da poesia popular, que
+sempre celebrou as mulheres de pés pequenos. E adduzem exemplos:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Tendes o pé pequenino,<br>
+ Do tamanho d'um vintem:<br>
+ Podia calçar de prata<br>
+ Quem tão pequeno pé tem.</p>
+</blockquote>
+
+<p>A verdade é que o arsenal de defesa dos que assim pensam está copiosamente
+abastecido de citações e referencias, a que esses taes poderão recorrer para
+seu triumpho.</p>
+
+<p>Na écloga segunda de Bernardim Ribeiro,&mdash;de que os seus biographos
+tanto se têem servido para dilucidar a mysteriosa vida do poeta&mdash;é<span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span> tambem pelo pé de Joanna que o pastor Jano se
+deixa fascinar amorosamente.</p>
+
+<p>Jano anda guardando o seu rebanho quando vê aproximar-se Joanna que, vestida
+de branco, se entretém colhendo flôres. Elle occulta-se espreitando-a. Colhidas
+as flôres,</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Joanna, as abas erguidas,<br>
+ Entrar pela agua ordenou;<br>
+ E assentando-se, então<br>
+ As çapatas descalçou,<br>
+ E, pondo-as sobre o chão.<br>
+ Por dentro d'agua entrou,<br>
+ E a Jano pelo coração.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Ah! que é preciso uma pessoa ser cega de enthusiasmo pelo bucolismo, pela
+infancia poetica da alma portugueza, tão simples, tão sincera e ao mesmo passo
+tão docil, para não morrer de apoplexia fulminante ao soar-lhe nos ouvidos este
+plebeu vocabulo <em>çapatas</em>, tão grosseiro e saloio, como elle nos sôa
+hoje!</p>
+
+<p>Bernardim, esse favo de saudades a que o tempo não tem roubado a doçura,
+essa abelha do amor, que usurpou ao Hymetto o segredo de amelar deliciosamente
+as suas trovas com as boninas do coração namorado, parecer-nos-ha, se o não
+avistarmos de alto, um camponio da Ribaldeira a gabar as çapatas amarellas da
+moça do prior!</p>
+
+<p>Mas o pastor Jano não teve mão em si que não sahisse do escondrijo ao
+encontro da bella<span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span> zagalla. Ella, como
+Galatéa, esquivou-se fugindo:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Muito perto estava o casal<br>
+ Onde vivia o pai d'ella,<br>
+ Que fez ir mais longe o mal.<br>
+ Que Jano teve de vêl-a:<br>
+ Mas o medo que causou,<br>
+ Joanna partir-se assi,<br>
+ Tanto as mãos lhe embaraçou,<br>
+ Que a çapata esquerda, alli,<br>
+ Com a pressa lhe ficou.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Agora é que o ridiculo da situação parece subir de ponto, porque o pastor
+Jano&mdash;o proprio Bernardim talvez&mdash;corre a abraçar-se com a çapata, a
+chorar sobre ella, çapatando os peitos. É textual.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Çapata, deixada aqui,<br>
+ Para mal de outro mor mal,<br>
+ Quem te deixou, leva a mi:<br>
+ Que troca tão desegual!<br>
+ Mas pois assim é, seja assi.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Foi, portanto, pelo pé de Joanna que o pastor Jano se sentiu arrastado para
+o abysmo do amor,&mdash;com a çapata na mão.</p>
+
+<p>Como os tempos mudam! Hoje, um poeta palaciano, que ouzasse cantar em
+publico, ainda mesmo sob o disfarce de pastor, a çapata da bem-amada, era um
+homem que tinha a sua carreira cortada pelo ridiculo.<span class="pn"><a
+name="pag_61">{61}</a></span></p>
+
+<p>A Academia, elegante como ella é, diria, se alguem lhe fallasse em admitil-o
+socio correspondente:</p>
+
+<p>&mdash;Que! O da çapata?! Não póde ser! Elle que mude para chapim.</p>
+
+<p>Qualquer ministro do reino, com receio do ridiculo das gazetas, se algum
+influente politico lhe pedisse que fabricasse deputado o poeta, responderia
+sorrindo:</p>
+
+<p>&mdash;Ora adeus! O deputado da çapata?! É lá possivel! Você quer matar o
+governo pelo ridiculo!</p>
+
+<p>Todavia a Academia Real curva-se&mdash;e n'este ponto curva-se
+bem&mdash;perante Bernardim Ribeiro, o primeiro poeta bucolico portuguez.</p>
+
+<p>As gazetilhas em verso fariam uma troça de seiscentos diabos ao anonymo que
+ouzasse mandar para o <em>Diario de Noticias</em> o seguinte annuncio:</p>
+
+<p>«Ha oito dias que estou beijando incessantemente a çapata que v. ex.ª perdeu
+em Cascaes quando, para me fugir, entrou precipitadamente no banho. A çapata
+entrou-me pelo coração, como V. ex.ª pela agua.»</p>
+
+<p>Nada obstante, se os redactores de gazetilhas vissem entrar Bernardim
+Ribeiro no escriptorio do jornal, vestido de mendigo, como a lenda nol-o pinta
+á volta de Saboya, roto e esfrangalhado, e se elle lhes dissesse que era o
+auctor do livro das saudades, os srs. redactores<span class="pn"><a
+name="pag_62">{62}</a></span> levantar-se-iam respeitosos, curvados e dominados, para
+offerecer uma cadeira ao grande poeta Bernardim Ribeiro, que devia estar
+cansado, por vir de longes terras.</p>
+
+<p>Mas, á parte o desprimor archeologico do vocabulo, emerge d'esta trova do
+bucolista o naturalismo, vivo e quente, que endeusa a pequenez do pé
+feminino.</p>
+
+<p>Parece-nos galante toda a conjunctura em que um pé de fada se descubra aos
+nossos olhos na sua exiguidade microscopica, seja pulando sobre o tapete de um
+salão, poisando no estribo d'uma carruagem, ou aquecendo na concha ardente das
+nossas mãos aduncas...</p>
+
+<p>Conta frei Luiz de Sousa que o infante D. Fernando, tendo casado com D.
+Guiomar Coutinho, em torno da qual se agitou a paixão dramatica do marquez de
+Torres Novas, e «subindo ambos uma escada, em tempo que andava pejada D.
+Guiomar, lhe lançou mão dos chapins para que tivesse menos pena na subida.»</p>
+
+<p>Gentil, não é?</p>
+
+<p>Todas as delicadas galanterias que se façam aos pés de uma mulher, suppõem
+que o que n'elles encantou foi a perfeição com que a natureza os talhou no
+marmore.</p>
+
+<p>Enumerar todos quantos poetas, antigos e modernos, têem cantado os pés
+femininos, seria o mesmo que encher de versos uma bibliotheca.<span class="pn"><a
+name="pag_63">{63}</a></span></p>
+
+<p>Temos, pois, que resignar-nos, quanto ao numero, a dar apenas
+insignificantissimas amostras.</p>
+
+<p>De um poeta antigo; Rodrigues Lobo:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>As flôres, por onde passa,<br>
+ Se os pés lhe acerta de pôr,<br>
+ Ficam de inveja sem côr<br>
+ E de vergonha com graça.<br>
+ Qualquer pégada que faça<br>
+ Faz florescer a verdura,<br>
+ Vai formosa e não segura.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Citarei apenas dois poetas modernos.</p>
+
+<p>É conhecidissimo o bello pensamento de João de Deus:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>O que te falta pois? os teus desejos<br>
+     Quaes são? de que precisas?<br>
+ Ah! não ser eu o marmore que pisas...<br>
+     Calçava-te de beijos!</p>
+</blockquote>
+
+<p>O soneto <em>A Borralheira</em>, de Luiz Guimarães, é dos mais scintillantes
+da sua lyra ardente:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Meigos pés pequeninos, delicados<br>
+ Como um duplo lilaz,&mdash;se os beija-flôres<br>
+ Vos descobrissem entre as outras flôres,<br>
+ Que seria de vós, pés adorados!</p>
+
+ <p>Como dois gemeos sylphos animados,<br>
+ Vi-vos hontem pairar entre os fulgores<br>
+ Do baile, ariscos, brancos, tentadores...<br>
+ Mas, ai de mim!&mdash;como os mais pés calçados<span class="pn"><a
+ name="pag_64">{64}</a></span></p>
+
+ <p>«Calçados como os mais! que desacato!<br>
+ Disse eu.&mdash;Vou já talhar-lhes um sapato<br>
+ Leve, ideial, fantastico, secreto...»</p>
+
+ <p>Eil-o. Resta saber, anjo faceiro,<br>
+ Se acertou na medida o sapateiro:<br>
+ Mimosos pés, calçai este soneto.</p>
+</blockquote>
+
+<p>A sabedoria da antiguidade, formulada em proverbios, que são como que
+migalhas de philosophia, impõe-se ao nosso espirito na immensa variedade de
+assumptos que podem impressional-o.</p>
+
+<p>Ora os antigos diziam: <em>Ne quid nimis.</em> Nada que seja de mais. Eu fui
+educado com velhos, e aprendi da sua experiencia. Se n'aquelle proverbio posso
+calçar um pé de mulher, acho que o proverbio é bom, e que o pé é ainda melhor.
+Se não posso, quer-me parecer que os meus velhos educadores me estão segredando
+em espirito com a auctoridade dos seus cabellos brancos: «Ahi ha pé de mais e
+proverbio de menos.»</p>
+
+<p><em>Ne quid nimis</em> ou, como dizem os francezes, <em>Rien de trop</em>...
+até nos pés!<span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span></p>
+
+<h1>VII</h1>
+
+<h2>Loucura alegre</h2>
+
+<p>Conta-se que sobre uma pequena terra de provincia cahira, não sei quando,
+uma chuva verdadeiramente original, tão original, que perderam o juizo todos os
+que a apanharam.</p>
+
+<p>E o caso é que toda a gente d'aquella terra a apanhou, com excepção de um
+sabio que ali vivia voluntariamente exilado, entregue a leituras profundas, a
+estudos d'alta sciencia.</p>
+
+<p>No dia da chuva, o sabio não sahiu; não sahia nunca. Ficou, portanto, em seu
+perfeito juizo.</p>
+
+<p>A gente da terra vivia principalmente dos trabalhos da agricultura, em pleno
+campo, de modo que a chuva cahiu-lhe em cheio sobre a cabeça, foi como se lhe
+alagasse os miolos...</p>
+
+<p>Tendo endoidecido todos, o sabio era como que o unico pharol de bom senso
+que brilhava n'aquelle vasto mar de loucura.</p>
+
+<p>Aconselhava os outros.<span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span></p>
+
+<p>Procurava chamal-os á razão.</p>
+
+<p>Dava-lhes conselhos acertados.</p>
+
+<p>Reprehendia-os amoravelmente quando elles praticavam desatinos.</p>
+
+<p>Mas qual! Ninguem o acreditava, ninguem o attendia, todos os outros haviam
+apanhado a chuva terrivel, todos estavam loucos, e procurar restabelecel-os de
+um momento para o outro era o mesmo que remar contra a maré.</p>
+
+<p>Começou o sabio a inquietar-se com a sua propria situação, que em verdade
+nada tinha de agradavel.</p>
+
+<p>Receiava elle proprio perder o juizo, que tão preciso lhe era, como se
+estivesse vivendo no meio de um hospital de doidos.</p>
+
+<p>A sua criada desatava a cantar e bailar quando elle lhe mandava fazer o
+biffe do almoço ou as torradas para o chá.</p>
+
+<p>De sorte que se via na necessidade de ir elle mesmo fazer o biffe ou as
+torradas, emquanto a criada bailava e cantava em frente do fogão, azoinando o
+amo.</p>
+
+<p>O seu criado engraixava-lhe a camisa engommada, quando elle lhe mandava
+engraixar as botas, e escovava-lhe as botas, quando elle lhe mandava tirar da
+gaveta uma camisa engommada.</p>
+
+<p>Pensou o sabio em mudar de terra, mas a pequena propriedade que possuia
+estava situada ali; e em taes circumstancias ninguem lh'a<span class="pn"><a
+name="pag_67">{67}</a></span> queria comprar, porque o caso da chuva tinha soado ao
+longe, de maneira que a terra cahira em descredito, sabia-se que todos lá
+estavam doidos.</p>
+
+<p>Os proprios trabalhos scientificos do sabio, até ahi tão considerados,
+principiaram a ser suspeitos de loucura. Já não havia quem os quizesse lêr. A
+opinião publica é assim. Até então, como corresse fama de que era aquelle um
+grande sabio, toda a gente o considerava como tal; de repente, com a mesma
+unanimidade, toda a gente principiou a duvidar de que elle podesse conservar
+inteiro o juizo vivendo no meio de doidos.</p>
+
+<p>&mdash;O que hei de eu fazer? perguntava a si mesmo o sabio.</p>
+
+<p>Como ainda houvesse pelas ruas da villa muitas pôças de agua da chuva,
+começou a analysar chimicamente a agua para vêr se descobria o segredo daquella
+extranha epidemia de loucura.</p>
+
+<p>Mas nada lhe achou de notavel segundo a chimica. Era agua de chuva como
+qualquer outra.</p>
+
+<p>&mdash;Eu perco o juizo! dizia de si para comsigo o sabio. Tudo isto é tão
+extraordinario, que sinto vacillar a minha propria razão!</p>
+
+<p>E a criada continuava a bailar e a dançar quando elle lhe mandava fazer o
+biffe ou as torradas.<span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span></p>
+
+<p>E o criado engraixava-lhe a camisa quando elle lhe mandava engraixar as
+botas.</p>
+
+<p>Os seus caseiros não se entendiam com elle, nem elle com os seus
+caseiros.</p>
+
+<p>O padeiro, pela manhã, trazia-lhe pedras duras em vez de pão fresco.</p>
+
+<p>O merceeiro mandava-lhe assucar quando elle pedia arroz ou mandava-lhe arroz
+quando elle lhe pedia assucar.</p>
+
+<p>De modo que, n'um momento de desespero, o sabio resolveu um bello dia perder
+o juizo que até então havia conservado.</p>
+
+<p>Fugiu para o meio da rua, andou procurando uma das pôças de agua da chuva,
+que ainda havia. Poz-se de cócoras, olhou em roda, e reconhecendo mais uma vez
+que todos estavam doidos, metteu as mãos na pôça, encheu-as de agua, e começou
+a encharcar a cabeça.</p>
+
+<p>D'ahi a momentos estava tambem doido, e toda a sua preoccupação anterior
+havia desapparecido, porque, tendo elle proprio perdido a razão, já não se
+affligia com a loucura dos outros.</p>
+
+<p>Lembrou-me esta anecdota quando, passando sabbado á noite pelo Colyseu dos
+Recreios, vi uma enorme multidão de povo invadir as portas, disputar a entrada,
+ancioso de obter um logar para ir assistir ao beneficio da Geraldine.</p>
+
+<p>&mdash;Então, dizia eu com os meus botões, tudo<span class="pn"><a
+name="pag_69">{69}</a></span> isso de reducções imminentes é uma fabula! O paiz está
+rico e contente. Diz-se que ha miseria, e toda a gente pensa em divertir-se! O
+que se vê é que as industrias estão prosperas, o commercio florescente. Os
+operarios, voltando agora de um trabalho fartamente remunerado, tratam de
+comprar bilhete para a <em>geral</em>. Vender uma colonia! para que? O que o
+povo quer é que lhe vendam um <span class="errata" title="no original: bilhete Colyseu">bilhete do Colyseu</span>! Os jornaes portuguezes e
+extrangeiros dizem que estamos pobres! Sempre mentem muito os jornaes! Toda
+essa gente, que ahi se agglomera ás portas, estende para o camaroteiro uma
+<em>nota</em>, offerece-lhe dinheiro, tão rica está toda a gente!</p>
+
+<p>E, pensando n'isto e na anecdota, continuei a dizer com os meus botões:</p>
+
+<p>&mdash;... Salvo se o ultimo portuguez que tivesse juizo tambem molhou a
+cabeça na pôça d'agua!</p>
+
+<p>Mas no domingo fui passeiar á Avenida como para procurar a contra-prova do
+espectaculo da vespera.</p>
+
+<p>Oh! que alluvião de gente! que bulicio! que vida! que animação!</p>
+
+<p>Longas filas de trens desdobravam-se ao longo da Avenida n'um grande
+esplendor de equipagens brilhantes.</p>
+
+<p>O dinheiro trotava em bellos cavallos <em>pur sang</em>; rodavam titulos e
+brazões, <em>fortunas</em> colossaes<span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span>
+deslisavam a quatro soltas, pomposamente.</p>
+
+<p>E eu continuava perguntando aos meus botões:</p>
+
+<p>&mdash;Santo Deus! onde é que está o ultimo sabio d'esta terra?!</p>
+
+<p>E olhava para o chão esperando vêr que o ultimo sabio, posto de cócoras,
+estivesse olhando para os outros e molhando a cabeça com frenesi.</p>
+
+<p>Qual! não era para o chão que eu devia olhar.</p>
+
+<p>Os sabios portuguezes prezam-se muito para que algum d'elles queira
+acocorar-se á vista dos seus patricios.</p>
+
+<p>Era para o alto das boleias e para a estampa das horsas que eu devia olhar;
+não para o chão. O chão! esse, coitado, estava pisado, moido do continuo
+attricto das ferraduras dos cavallos e das rodas das carruagens.</p>
+
+<p>O sol, bellamente festivo, cahia em palpitações de luz sobre a Avenida. O
+monumento victorioso dos Restauradores recortava-se n'um fundo de azul luminoso
+parecendo chispar centelhas como uma lamina erguida ao sol. Chalets elegantes
+alcandoravam-se pela encosta oriental da cidade. Predios magnificos, alguns
+sumptuosos, agrupavam-se em grandes bairros novos á ilharga da Avenida nas
+terras outr'ora desertas e solitarias. As antigas hortas desappareceram para
+dar logar a palacios novos. Guardas-portões<span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span>
+imponentes encostavam-se ás portas vendo de longe o formigueiro dos trens que
+passavam rodando ao trote largo de cavallos finos.</p>
+
+<p>E por mais que eu olhasse para o chão nenhum sabio, de cócoras, tratava de
+molhar a cabeça para não ter que chorar sobre tanta alegria!</p>
+
+<p>Então, recolhendo para casa, olhando sempre cautelosamente para não ser
+atropellado pelos trens e pelos cavalleiros, lembrou-me outro caso, nada mais e
+nada menos que o plano de um poema que certo amigo meu havia delineado quando a
+morte o surprehendêra.</p>
+
+<p><em>A Valsa</em>: era o titulo do poema.</p>
+
+<p>A acção leva pouco tempo a contar.</p>
+
+<p>Meia duzia de velhos, que no seu tempo haviam sido grandes valsistas,
+resolveram, a despeito do peso dos annos, reconquistar uma hora de mocidade,
+dar um baile em que todos elles valsassem como antigamente, embora fossem
+morrendo de cansaço no meio da sala.</p>
+
+<p>Assim fizeram. Na noite do baile, eil-os que entram no salão, correctamente
+barbeados, tão gentis, quanto a idade lhes permittia, dentro das suas casacas
+muito justas e luzidias.</p>
+
+<p>Uma valsa de Strauss fez ouvir as suas primeiras notas. Tudo ali parece
+palpitar ao som da musica,&mdash;os velhos principalmente.</p>
+
+<p>E, cingindo a cintura de bellas damas, todos elles principiam a valsar com a
+intrepidez dos vinte annos.<span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span></p>
+
+<p>A valsa não affrouxa nunca, e os velhos valsistas, extenuados, principiam a
+cahir de cansaço, pallidos, mortos, um após outro, até que, estendidos sobre o
+verniz do salão, teem por funeral o baile, por <em>De profundis</em> a valsa de
+Strauss, que parece não acabar nunca!</p>
+
+<p>Era phantastico o poema, excentrico o poeta.</p>
+
+<p>Mas, o caso é que me lembrei do poema da <em>Valsa</em>, que, ai do poeta!
+ficou apenas em projecto.</p>
+
+<p>Tudo aquillo que eu tinha visto, no sabbado e no domingo, era como a valsa
+dos velhos extenuados, que, ao som da musica, iam cahindo mortos n'uma
+atmosphera de alegria e n'uma allucinação de prazer, que os matou sem os ter
+remoçado, que os esgotou sem os ter divertido!<span class="pn"><a
+name="pag_73">{73}</a></span></p>
+
+<h1>VIII</h1>
+
+<h2>A mascotte</h2>
+
+<p>Ter ou não ter <em>mascotte</em>, eis a questão, para tudo e para todos.</p>
+
+<p>Não sei se o leitor é dado a superstições e crendices, que, de resto,
+constituem o fundo simples e primitivo da natureza humana.</p>
+
+<p>Eu, por mais que oiça dissertar os philosophos, creio profundamente em
+superstições. Sou, a este respeito, quasi primitivo. E entre as superstições,
+que me inspiram maior fé, acredito cegamente na influencia benefica de um genio
+bom e tutellar, a que modernamente chamamos <em>mascotte</em>.</p>
+
+<p>Até&mdash;seja dito em confidencia&mdash;já tive uma <em>mascotte</em>.</p>
+
+<p>Por que não hei de contar francamente essa historia?</p>
+
+<p>Era uma insignificantissima bengala da ilha da Madeira, que me tinha custado
+doze vintens<span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> e que ninguem seria capaz de
+me comprar por seis.</p>
+
+<p>Estava muito longe do meu espirito a suspeita de que essa reles bengala,
+cheia de nós e de mossas, podesse exercer alguma influencia benefica na minha
+vida.</p>
+
+<p>Mas comecei a notar a coincidencia de que tudo me corria mal, quando o mau
+tempo me obrigava a substituir a bengala pelo chapeu de chuva.</p>
+
+<p>Difficuldades, incertezas, contrariedades que o chapeu de chuva tinha
+suscitado e alimentado, aplanavam-se e desappareciam quando no dia seguinte a
+bengala substituia o chapeu de chuva.</p>
+
+<p>Este facto repetiu-se uma e muitas vezes: induzi portanto que aquelle reles
+pausinho da ilha da Madeira tinha condão de felicidade. Era o meu talisman.
+Tomei-lhe amor, ganhei confiança na sua virtude, e comecei a acreditar na
+existencia de uma <em>mascotte</em> que, se me abandonava um momento, me
+deixava exposto ás maiores contrariedades.</p>
+
+<p>Em dias de chuva torrencial, dias de temporal desfeito, eu não ousava sahir
+sem a <em>mascotte</em>, importando-me pouco que as outras pessoas podessem
+fazer reparo na excentricidade de um homem que, apesar de chover a potes,
+deixava o chapeu de chuva em casa e sahia com a bengala debaixo do braço.<span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span></p>
+
+<p>Muitas vezes fui obrigado, por manter o culto devido á minha
+<em>mascotte</em>, a tomar um trem.</p>
+
+<p>Mas fazia de bom grado essa despeza, nem me importava apanhar chuva,
+comtanto que não tivesse de largar a <em>mascotte</em>.</p>
+
+<p>Os meus amigos conheciam esta superstição, e riam-se. Fingiam querer
+roubar-m'a. Mas eu, se passava a noite com elles, sentava-me de bengala na mão,
+não a abandonava um momento.</p>
+
+<p>Um dia perdi-a. Vou contar como isso foi. O leitor póde imaginar o desgosto
+que n'esse dia me feriu.</p>
+
+<p>Era então ministro da marinha o conselheiro Julio de Vilhena, que morava na
+rua de S. João da Matta.</p>
+
+<p>Na vespera haviamos passado grande parte da noite a conversar sobre um
+livro, que se relacionava com o assumpto litterario de que eu então me estava
+occupando.</p>
+
+<p>Tratava-se da symbolica do direito, que me era preciso estudar para o livro
+<em>A jornada dos seculos</em>, que eu trazia entre mãos. Julio de Vilhena
+offerecêra emprestar-m'o, e ficou combinado que eu iria no dia seguinte a sua
+casa, á uma hora da tarde, buscar o livro.</p>
+
+<p>Chovia: tomei um trem.</p>
+
+<p>Durante o trajecto, para accender um cigarro, tive que encostar a bengala a
+um canto da carruagem.<span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span></p>
+
+<p>Quando cheguei á rua de S. João da Matta, disse-me o correio que o ministro
+estava ainda almoçando, e que eu teria de esperar pelo menos meia hora.</p>
+
+<p>Despedi o trem, sem tomar sentido no numero.</p>
+
+<p>Chegaram mais pessoas, com quem esperei conversando.</p>
+
+<p>Quando o ministro acabou de almoçar, e me recebeu no seu escriptorio,
+lembrei-me subitamente de que a <em>mascotte</em> tinha ficado no trem.</p>
+
+<p>Mostrei-me inquieto, disse-lhe o motivo da minha inquietação, porque elle
+conhecia muito bem, como todos os meus amigos, a lenda da bengala.</p>
+
+<p>Sahi de afogadilho, com o livro debaixo do braço, e dirigi-me immediatamente
+ao commissariado geral de policia.</p>
+
+<p>A um dos commissarios, meu amigo, contei que me tinha esquecido dentro de
+uma carruagem, cujo numero ignorava, uma bengala que valeria apenas seis
+vintens, mas que eu estimava muito.</p>
+
+<p>O commissario imaginou talvez que se tratava de uma recordação de familia.
+Socegou-me. Como a bengala não tinha valor material, appareceria facilmente, ia
+dar as suas ordens, e eu prometti gratificar o policia que encontrasse a
+bengala.</p>
+
+<p>Sahi do commissariado de policia para ir dar<span class="pn"><a
+name="pag_77">{77}</a></span> umas voltas, tratar de negocios particulares. Mas tinha
+a convicção de que tudo me correria mal n'esse dia e nos outros, porque, ai de
+mim! havia perdido a <em>mascotte</em>. Era, moralmente, um homem morto.</p>
+
+<p>Ás cinco horas da tarde, muito contrariado, quasi rabujento, subia eu o
+Chiado, olhando attentamente para todos os trens que passavam, ancioso de
+reconhecer o cocheiro que me tinha levado á rua de S. João da Matta.</p>
+
+<p>De repente, descendo o Chiado, passa um trem. O cocheiro olha para mim, e
+pára. Ó felicidade! era o cocheiro que eu procurava! De dentro da caixa da
+almofada tirou elle a minha querida bengala, e eu tirei da algibeira dez
+tostões que lhe dei como alviçaras.</p>
+
+<p>O cocheiro, que via pagar por dez tostões uma bengala que valeria seis
+vintens, ficou a olhar para mim, espantado.</p>
+
+<p>Suppoz, talvez, n'aquelle momento, que eu era filho do sr. Monteiro da rua
+do Alecrim.</p>
+
+<p>Que boas horas de alegria que eu tive, readquirindo a posse da
+<em>mascotte</em>, a minha querida bengala! Nadando em jubilo, fui dizer ao
+commissario de policia que a bengala tinha apparecido. E á noite, contando a
+historia do feliz achado aos meus amigos, recebi parabens.</p>
+
+<p>Rodaram alguns annos, durante os quaes tive sobejos motivos para firmar a
+minha crença no<span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span> condão maravilhoso da
+bengala. Era decididamente uma <em>mascotte</em>.</p>
+
+<p>Mas um dia&mdash;que terrivel dia esse!&mdash;por acaso, n'uma esgrima
+simulada, a bengala partiu-se. Deus perdôe a quem, com a mais amavel intenção
+d'este mundo, contribuiu para esse medonho fracasso. Guardei durante algum
+tempo os dois fragmentos da bengala, mas o seu condão de felicidade tinha-se
+partido com ella, ai de mim! A <em>mascotte</em> havia fugido, como uma alma
+abandona um corpo.</p>
+
+<p>O leitor póde sorrir-se da minha ingenua credulidade, mas eu cria cegamente
+na virtude d'esse talisman, que um acaso me trouxe, e que um acaso levou.</p>
+
+<p>Não ha philosophia que resista aos factos.</p>
+
+<p>De varias pessoas sei eu que tiveram <em>mascotte</em>, e que criam n'ella
+como em Deus.</p>
+
+<p>Uma d'essas pessoas era o general José de Vasconcellos Correia, que morreu
+conde de Torres Novas.</p>
+
+<p>A sua <em>mascotte</em> era uma escova de fato, que o não abandonava
+jamais.</p>
+
+<p>Justamente, tendo de partir para Torres Novas, onde se assignalou pelo seu
+valor, esqueceu-lhe metter dentro da mala a escova. E, por não querer
+separar-se d'ella em tão duvidosa occasião, metteu-a dentro da barretina.</p>
+
+<p>Em Torres Novas, durante a refrega, recebeu uma cutilada na cabeça. O golpe
+tel-o-ia<span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> prostrado, se entre a barretina e
+a cabeça não estivesse a escova,&mdash;a que ficou devendo a vida.</p>
+
+<p>Falta-me o espaço para referir outros muitos casos não menos interessantes e
+justificativos. E tenha pena! O leitor começaria talvez por sorrir-se; mas
+acabaria decerto por acreditar.</p>
+
+<p>Toda a gente, por muito que finja o contrario, tem as suas superstições.<span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p>
+
+<h1>IX</h1>
+
+<h2>Era em abril...</h2>
+
+<blockquote>
+ <p>C'était en avril, un dimanche,<br>
+       Oui, le dimanche!<br>
+       J'etais heureux...<br>
+ Vous aviez une robe blanche<br>
+ Et deux gentils brins de pervenche,<br>
+       Oui, de pervenche,<br>
+       Dans les cheveux.</p>
+
+ <p>Nous étions assis sur la mousse,<br>
+       Oui, sur la mousse,<br>
+       Et sans parler,<br>
+ Nous regardions l'herbe qui pousse,<br>
+ La feuille verte et l'ombre douce,<br>
+       Oui, l'ombre douce,<br>
+       Et l'eau couler.</p>
+
+ <p>Un oiseau chantait sur la branche,<br>
+       Oui, sur la branche.<br>
+       Puis il s'est tu.<br>
+ J'ai pris dans ma main ta main blanche.<br>
+       C'etait en avril, un dimanche,<br>
+       Oui, le dimanche...<br>
+       T'en souviens&mdash;tu?<span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<p>Ah! como esta deliciosa canção primaveral de Eduardo Pailleron concentra em
+si todos os perfumes, todos os canticos, todos os sonhos de abril, quando o
+laranjal florido deixa cair da sua côma, semelhante a um <em>bouquet</em> de
+noiva, não sei que doces pensamentos de amor, não sei que fragrancias de
+<em>boudoir</em>, que estonteamentos de volupia, cheia de mysterios, de
+segredos e de arrulhos maviosos!? A olaia põe no terreno grandes manchas
+encarnadas, tapetes de petalas soltas, que se alastram convidando ao remanso
+d'um idyllio, oui, d'un idylle...</p>
+
+<p>No ar, passam foliando os assobios estridulos dos melros e da flauta de Pan,
+dando uma extranha sensação de prazer vibrante, sobretudo se brilha no céu o
+bello sol ocioso d'um domingo... <em>oui, le dimanche</em>!</p>
+
+<p>Perto, um veio d'agua crystallina e múrmura dá uma enorme sensação de
+frescura e de preguiça, porque não ha nada que enerve mais deliciosamente do
+que vêr correr a agua sobre um campo... <em>et l'eau couler</em>.</p>
+
+<p>Tufos de relva, estrellados de malmequeres, redondos e grandes, vecejam
+n'uma exuberancia de florescencia sadia, impregnada da immensa vitalidade
+vernal...</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Nous regardions l'herbe qui pousse,<br>
+ La feuille verte et l'ombre douce.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Delicioso abril! Primavera encantadora! por<span class="pn"><a
+name="pag_82">{82}</a></span> mais que a gente queira adorar-te sem rhetorica, é
+completamente impossivel, porque tu mesma és a rhetorica da creação, o Padre
+Cardoso da naturesa...</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p><em>C'était en avril...</em></p>
+
+<p>Era sim, era em abril, os melros e as toutinegras enchiam de musica o ar, os
+laranjaes e as olaias doidejavam galas de flores e de perfumes, e o meu amigo
+Rosendo, tão feliz como Pailleron, foi com a sua bella ao Campo Grande passar
+um domingo, uma esplendida manhã de domingo... <em>oui, le dimanche</em>.</p>
+
+<p>Tinham ido por ahi fóra no omnibus do Salazar, n'uma felicidade cortada de
+phrases ternas e de solavancos, um paraiso ambulante, tirado por tres pilecas
+rebeldes ao amor e ao chicote.</p>
+
+<p>Rosendo e Ambrosia tinham pressa de chegar ao Campo Grande, tinham um grande
+desejo de verdura, quasi tanto como as pilecas. Ella ia fresca de mocidade e
+elegancia singela: um vestido de percale claro, umas rendas, uma rosa natural,
+um chapeu com <em>blonde</em> verde, luvas de <em>peau de Suéde</em>...
+Tentadora! Nunca uma Ambrosia parecera tão fascinante, nunca um Rosendo sentira
+no coração um bando de rouxinoes tão palreiros e tão musicos como naquella<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span> hora deliciosa. Imagine-se a pressa do
+Rosendo em chegar ao Campo Grande, porque, com um bando de rouxinoes dentro do
+coração, estava em risco de morrer de hypertrophia, se não chegasse de
+pressa,&mdash;mesmo muito de pressa.</p>
+
+<p>Mas finalmente chegaram. Esperava-os um banco verde, um banco de idyllio,
+que nem que fosse mandado pôr ali de encommenda pela camara municipal, para uso
+dos namorados ao domingo... <em>oui, le dimanche</em>. Por de traz, um
+bosquesinho de roseiras, discreto como um cego, silencioso como um mudo.</p>
+
+<p>Rosendo sabia os versos de Pailleron por os ter lido na <em>Revista dos dois
+mundos</em>, e por os haver achado deliciosos.</p>
+
+<p>Tratou de pôl-os em acção, ou antes, de pôr a sua mão de enamorado Rosendo
+sobre a mão branca de Ambrosia.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>J'ai pris dans ma main ta main blanche...</p>
+</blockquote>
+
+<p>Não faltava nada para que o scenario fosse em tudo semelhante ao da
+<em>Revista dos dois mundos</em>: a erva vecejante, a folha verde, a agua
+corrente, o domingo e a felicidade.</p>
+
+<p>Passaros folgasãos pipillavam no arvoredo, n'uma grande bambocha de
+<em>virtuoses</em>, e á distancia, amortecido pelo intervallo dos canteiros, o
+ruido de um trem que passava para o Lumiar, ouvia-se.<span class="pn"><a
+name="pag_84">{84}</a></span></p>
+
+<p>Rosendo, achando-se divino, divinisava Ambrosia, para se confundirem ambos
+n'uma grande consubstanciação amorosa.</p>
+
+<p>Elle só tinha um desgosto:&mdash;que ella, em vez de uma rosa no vestido,
+não trouxesse nos cabellos dois ramos de pervinca... <em>oui, de
+pervenche</em>.</p>
+
+<p>De repente, Ambrosia, ouvindo dar oito horas, voltou-se rapidamente para
+elle, e dos seus labios saiu esta phrase, terrivel como um grito de Tantalo:</p>
+
+<p>&mdash;Ó Rosendo, vamos nós almoçar ao José dos Caracoes?...</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p><em>T'en souriens tu...</em> Rosendo?<span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span></p>
+
+<h1>X</h1>
+
+<h2>A felicidade e a camisa</h2>
+
+<p>Houve outr'ora um rei, que possuia vastos dominios, formosos castellos,
+vastos parques, ricas baixellas e equipagens.</p>
+
+<p>Mas era triste, peior talvez do que triste, melancolico.</p>
+
+<p>Organisava festins, e aborrecia-se no meio d'elles. Nem o ouro, nem a saude,
+nem a grandesa conseguiam distrail-o.</p>
+
+<p>A rainha confrangia-se de vêr sempre meditando o seu real esposo.</p>
+
+<p>O principe real improvisava ruidosas caçadas para alegrar seu augusto
+progenitor, mas o rei, a breve trecho, cahia na sua melancolia habitual,
+sentava-se á sombra de uma arvore, scismava...</p>
+
+<p>Um dia, n'uma kermesse, que as damas da côrte promoveram para divertir seu
+real amo, appareceu uma cigana, que andava lendo a <em>buena-dicha</em> de
+barraca em barraca.<span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span></p>
+
+<p>Era alta, morena como todas as ciganas, e tinha uns olhos tamanhos e tão
+vivos, que bem podiam lêr o futuro a grande distancia...</p>
+
+<p>Embrulhava-se n'um manto de retalhos, uma capa de pedinte que, á força de
+remendada, já não tinha côr propria.</p>
+
+<p>Lia, com profunda indifferença, o destino dos outros, seguindo com a vista
+as linhas que elles tinham gravadas na palma da mão. Annunciava tragedias,
+desgraças, coisas tenebrosas com a mesma serenidade com que promettia riquezas,
+venturas, delicias.</p>
+
+<p>O rei soube que tinha apparecido na kermesse aquella cigana, e mandou-a
+chamar.</p>
+
+<p>&mdash;Quero que me digas, ordenou-lhe o rei, se posso ainda ser feliz.</p>
+
+<p>A cigana, sem parecer preoccupar-se com a honra que lhe era dispensada,
+respondeu laconicamente:</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Ainda póde ser feliz vossa magestade.</p>
+
+<p>Alegrou-se subitamente o rei e perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;O que é preciso fazer para que eu seja inteiramente feliz?</p>
+
+<p>A cigana demorou-se um momento consultando as linhas da real mão, e
+respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Precisa vossa magestade vestir a camisa de um homem feliz.</p>
+
+<p>&mdash;Mas onde poderei eu encontrar esse homem feliz?<span class="pn"><a
+name="pag_87">{87}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Isso agora não é comigo, disse a cigana. E voltou costas ao rei
+indifferentemente.</p>
+
+<p>Logo sua magestade mandou reunir no palacio real os seus validos e
+conselheiros.</p>
+
+<p>Contando-lhes o caso da cigana, acabou por dizer-lhes:</p>
+
+<p>&mdash;Agora é que eu vou conhecer qual de vós me é mais dedicado. Trata-se
+de procurar um homem feliz, cuja camisa, ainda que custe rios de ouro, eu hei
+de vestir, ide procural-o, pois. E todo aquelle que o encontrar, receberá
+recompensas quaes rei algum da terra ainda concedeu.</p>
+
+<p>Fazendo mil protestos de dedicação, logo cada um d'elles se deu pressa em
+partir. Para onde? Ao acaso, pelo mundo fóra, á procura de um homem feliz...</p>
+
+<p>Tal conselheiro do rei descobriu um proprietario muito rico, que todos os
+dias via entrar pela porta dentro os seus rendeiros carregados de ouro.</p>
+
+<p>Foi procural-o, na supposição venturosa de que tinha encontrado a pessoa que
+procurava.</p>
+
+<p>&mdash;Sois feliz como pareceis? perguntou-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Não sou, ai de mim! É verdade que possuo uma riqueza enorme, mas
+falta-me a saude, que é cada vez mais precaria. Daria toda a minha riqueza para
+poder viver sem dôres, para comer com apetite.</p>
+
+<p>Outro conselheiro do rei encontrou um homem<span class="pn"><a
+name="pag_88">{88}</a></span> muito robusto, cuja saude todos na sua terra
+invejavam.</p>
+
+<p>&mdash;É o homem mais forte d'estes sitios! disseram-lhe.</p>
+
+<p>Foi visital-o.</p>
+
+<p>&mdash;Uma pergunta vos quero fazer. Dizei-me se, na posse de tão
+florescente saude, sois completamente feliz...</p>
+
+<p>O homem forte suspirou, e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;É verdade que sou muito robusto, mas quizera não o ser tanto, porque
+não tenho gosto nenhum de viver ainda muitos annos.</p>
+
+<p>&mdash;Por que?</p>
+
+<p>&mdash;Porque sou pae de doze filhos e não ganho o bastante para lhes dar de
+comer. Quanto mais trabalho, menos ganho. Ha destinos assim, e o meu, já agora,
+não tem remedio.</p>
+
+<p>Informaram um dos validos do rei, de que em tal aldeia morava um homem que,
+vinte annos depois de casado, ainda namorava a mulher.</p>
+
+<p>Assombrou-se com esta revelação o valido, e foi a correr por montes e valles
+procurar o ditoso casado.</p>
+
+<p>Sem mais preambulos, interrogou-o.</p>
+
+<p>&mdash;É certo que sois casado ha vinte annos?</p>
+
+<p>&mdash;Ha vinte annos e vinte dias.</p>
+
+<p>&mdash;E que tendes vivido n'uma continua lua de mel:</p>
+
+<p>&mdash;Certissimo, meu senhor.<span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Sois pois inteiramente feliz?</p>
+
+<p>&mdash;Sel-o-ia se...</p>
+
+<p>&mdash;O que?! Pois não vos reputaes um homem feliz?!</p>
+
+<p>&mdash;Sel-o-ia, se não fosse minha sogra, que volta e meia se lembra de vir
+visitar-me.</p>
+
+<p>Já iam decorridos alguns mezes, sem que os conselheiros e validos do rei
+houvessem voltado ao paço para noticiar a sua magestade o achado de um homem
+feliz.</p>
+
+<p>Esta demora tinha desanimado cada vez mais o rei, que, de quando em quando,
+gritava enfurecido:</p>
+
+<p>&mdash;Pois não haverá sobre a terra um homem verdadeiramente feliz?!</p>
+
+<p>Certo dia um dos conselheiros do rei ia jornadeando, sempre na faina de
+procurar um homem feliz, por uma serra muito agreste e solitaria.</p>
+
+<p>Só de longe a longe avistava algumas cabras, que andavam roendo as raizes
+das urzes.</p>
+
+<p>&mdash;Que serra tão triste! disse o fidalgo ao arreeiro.</p>
+
+<p>&mdash;Por aqui só se encontra algum pastor; ninguem mais. Lá está um acolá,
+no alto d'aquelle rochedo, a tocar na sua flauta.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! Quero fallar-lhe. Vamos lá.</p>
+
+<p>Era grande a distancia. Mas á medida que se aproximavam iam ouvindo os sons
+rusticos da avêna e vendo o pastor a bailar, muito contente, sósinho, no topo
+do rochedo.<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Parece impossivel, dizia o fidalgo, que não tenha medo de cair!</p>
+
+<p>Chegaram perto do rochedo, e o fidalgo gritou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Olá, pastor!</p>
+
+<p>O pegureiro interrompeu a musica e o baile. Tirou o chapeu, e ficou-se muito
+quieto.</p>
+
+<p>&mdash;Anda cá, que te quero fazer uma pergunta e dar dinheiro.</p>
+
+<p>O pastor desceu de um salto.</p>
+
+<p>&mdash;Julgas-te feliz, meu rapaz?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, meu senhor, julgo-me feliz.</p>
+
+<p>O conselheiro do rei receiou endoidecer de alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então, pega lá todo este dinheiro, e vende-me a tua camisa.</p>
+
+<p>&mdash;Meu senhor, respondeu o pegureiro, eu não tenho camisa...</p>
+
+<p>Por mais que a gente possa invejar a felicidade dos outros, e desesperar da
+sua, o que é certo é que, ainda quando os outros lhe parecem felizes, sempre
+lhes falta alguma coisa: a camisa, por exemplo.<span class="pn"><a
+name="pag_91">{91}</a></span></p>
+
+<h1>XI</h1>
+
+<h2>Morte de um gentleman</h2>
+
+<p class="centrado"><em>(Barão da Torre de Pêro Palha)</em></p>
+
+<p>Foram-se os deuzes, depois os heroes, por ultimo parece que tambem vão
+acabando os homens...</p>
+
+<p>Os homens antigos, entenda-se, os homens de rija tempera, fortes, destros,
+gentis, bem educados.</p>
+
+<p>Bem educados, sobretudo, que tambem isso faz muito ao caso para a disciplina
+social, para a harmonia das classes, para a ordem que não póde deixar de ser a
+base do respeito que as diversas categorias se devem umas ás outras.</p>
+
+<p>Os homens que viram nascer a liberdade, que a sonharam e implantaram, e que
+tinham por ella esse culto dedicado que se conserva por uma creança que
+educamos a nosso geito...</p>
+
+<p>O que ahi vae ficando já não são homens medidos pelo estalão que outr'ora
+marcava a<span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span> estatura moral. Como na Grecia
+antiga, foram-se os Milciades, os Themistocles, talvez os Pericles. Não tardará
+o tempo em que se levantem trezentas e sessenta estatuas a Demetrio Phalerio,
+quero dizer, aos heroes da decadencia. Se não ha melhor!</p>
+
+<p>Generaes illustres, oradores proeminentes, sabios conspicuos, tudo isso tem
+desapparecido a pouco e pouco. Até vae desapparecendo tambem um typo que
+parecia fundido de uma costella de cavalleiro e d'outra costella de trovador:
+fundido dos restos meio heroicos e meio galantes da idade-media. Era o
+<em>gentleman</em>, que sabia montar a cavallo, bater-se em duello, fallar ás
+damas, dançar uma valsa, entrar n'um salão. Era o <em>gentleman</em>, que punha
+o chapeu na cabeça diante de um insolente, e que o tirava quando á portinhola
+de uma carruagem cumprimentava uma senhora. Era o <em>gentleman</em>, que não
+parecia ridiculo quando vestia uma calça de ganga e calçava umas luvas côr de
+açafrão. Era o <em>gentleman</em>... Morreu outro dia um; desconfio que foi o
+ultimo...</p>
+
+<p>Chamava-se Hugo Owen, barão da Torre de Pêro Palha.</p>
+
+<p>Não fez discursos, não fez leis, não escreveu livros, não compoz óperas, mas
+conquistou o direito a ser conhecido e estimado dos seus contemporaneos.</p>
+
+<p>Por que? Porque foi um <em>gentleman</em>. Eis tudo...<span class="pn"><a
+name="pag_93">{93}</a></span></p>
+
+<p>Seu pai, um inglez de distincção, militara ao serviço de Portugal no tempo
+em que os espiritos mais generosos principiavam a sonhar com a liberdade.</p>
+
+<p>Casára, ficára entre nós; e o filho, direito como um pinheiro novo, esvelto
+e firme, passou os primeiros annos da vida montando garbosamente a cavallo no
+séquito de D. Pedro IV, improvisado, quasi por galanteria, em seu ajudante de
+campo.</p>
+
+<p>Zuniram-lhe as balas do cêrco do Porto por cima da cabeça, ouviu de perto o
+estrondo da metralha, fortificou-se respirando a fumarada da polvora.</p>
+
+<p>Depois... depois a guerra acabou, os vencedores julgaram que tudo o que
+havia a fazer pela liberdade estava feito, quanto se enganaram! e os vencidos
+presumiram-se decerto as ultimas victimas das luctas politicas em Portugal.
+Quanto se enganaram tambem!...</p>
+
+<p>Hugo Owen casou com uma dama portugueza, amou-a extremosamente, era rico,
+forte, alegre, feliz.</p>
+
+<p>Mas a roda da fortuna encravára-se um dia; parou de subito. A esposa de Hugo
+Owen morrêra deixando-lhe filhos pequeninos. No coração do viuvo fez-se um
+vácuo profundo, enorme. E aqui começa a serie das suas desgraças, quaes poucos
+homens teem soffrido, e que elle aguentou sem se azedar a ponto de parecer<span class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span> malcreado e sem se mostrar desgostoso ao
+extremo de querer descalçar as luvas para sovar a humanidade.</p>
+
+<p>Pois se o fizesse, teria tido razões de sobra para isso...</p>
+
+<p>As difficuldades levantavam-se-lhe debaixo dos pés, a fatalidade andava
+inventando para elle casos imprevistos e complicados, como um advogado
+chicaneiro que não pensa senão em urdir uma rêde de rabulices para embaraçar a
+parte contraria.</p>
+
+<p>Um dia, Hugo Owen assistia á agonia de um filho, que a morte viera
+surprehender prematuramente.</p>
+
+<p>O coração do pae despedaçava-se atormentado contra esse leito, como a vaga
+contra os rochedos.</p>
+
+<p>Havia já na face do moribundo a pallidez que parece ser o reflexo longinquo
+do luar de além-tumulo.</p>
+
+<p>Os irmãos soluçavam, abafados de angustia, e o pae, pendido para o leito,
+disfarçava a sua dôr murmurando palavras carinhosas, de uma grande ternura
+dolorida, sobre a cabeça do moribundo.</p>
+
+<p>N'isto, rompe n'um dos andares do predio a esfusiada musical de uma valsa de
+Strauss, sente-se dançar ruidosamente, pular, conversar, tinir loiças e
+cristaes.</p>
+
+<p>Está-se em plena <em>soirée</em>, e a festa parece prolongar-se<span class="pn"><a
+name="pag_95">{95}</a></span> pela noite dentro, attingir a madrugada.</p>
+
+<p>É no som da valsa que o moribundo se contorce no delirio da agonia, é a dois
+passos da vida alegre da sala que o espectro da morte vem assentar arraiaes.</p>
+
+<p>Teriam tido conhecimento d'esta deploravel antithese os que se estavam
+divertindo? Certamente que não. Mas essa tormentosa coincidencia tinha-a o
+destino guardado para esmagar o coração do barão da Torre de Pêro Palha.</p>
+
+<p>Uma sua irmã, Fanny Owen, morreu na flôr dos annos, sacrificada a um drama
+conjugal que enche muitas paginas de um livro de Camillo Castello Branco,
+<em>No Bom Jesus do Monte</em>.</p>
+
+<p>Foi casada, e morreu pura. Os medicos que procederam á autopsia, assim o
+affirmaram sob juramento.</p>
+
+<p>Pois bem! um anno depois da morte de Fanny, contado dia a dia, Hugo Owen,
+estando n'um hotel de Lisboa, ouviu gemer n'um quarto proximo.</p>
+
+<p>&mdash;Quem está ali doente? perguntou.</p>
+
+<p>&mdash;É o sr....</p>
+
+<p>Era o marido de sua irmã, o marido que tão allucinadamente a aggravára, que
+vinha morrer a dois passos de distancia do barão da Torre de Pêro Palha!</p>
+
+<p>E, como estas, outras mil contrariedades e<span class="pn"><a
+name="pag_96">{96}</a></span> coincidencias, que o destino baralhava para o
+atormentar, expressamente...</p>
+
+<p>Eu conheço a biographia de Hugo Owen em tudo o que ella teve de mais intimo
+e recondito. Sómente não estou auctorisado a contal-a. Conheço-a, porque elle
+me confiou um dia as suas memorias, que se conservam inéditas; paginas que elle
+escrevia com a verdade e o respeito de um homem que se julga já diante de Deus
+contando o que soffreu entre os homens.</p>
+
+<p>Encontrei nas memorias do barão o material preciso para urdir dez romances
+sem dar tratos á imaginação. Em cada capitulo havia um drama de lagrimas. Li o
+manuscripto, sentindo-me muito honrado com a confiança que o barão depositava
+em mim, fechei-o profundamente commovido e sepultei no fundo do meu coração o
+segredo das suas revelações, tão pungentes e dilacerantes.</p>
+
+<p>Ás vezes, quando conversava com o barão da Torre de Pêro Palha debaixo da
+Arcada ou á porta da Casa Havaneza, assombrava-me a sua resignação,
+espantava-me a sua paciencia, a correcção sempre distincta das suas palavras e
+das suas maneiras.</p>
+
+<p>E todavia elle estava tão pobre, que mal poderia esperdiçar um charuto...</p>
+
+<p>Os que o não conheciam de perto, poderiam suppôl-o um homem feliz.<span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span></p>
+
+<p>Com o seu ar elegante, o seu casaco curto, as suas calças largas, um pouco á
+<em>hussard</em> (essas calças tradicionaes dos <em>gentlemen</em> do seu
+tempo: nunca o Manuel Browne e os outros vestiram calças que não fossem á
+<em>hussard</em>), as suas polainas brancas, a sua bengala de castão de prata,
+as suas lunetas de oiro, as suas suissas grisalhas, elle tinha o aspecto de um
+homem feliz, que houvesse accordado ao meio-dia depois de ter passado a noite
+n'um baile onde perpetrára a sua ultima valsa, onde queimára o ultimo cartucho
+do seu paiol amoroso.</p>
+
+<p>E todavia talvez tivesse almoçado, de pé, dois ovos <em>à la coque</em>,
+apenas...</p>
+
+<p>Tambem me assombrava n'este homem, cuja morte deploro, n'este homem que
+tinha corrido e visto tanto mundo, n'este homem que tanto havia soffrido e
+aprendido, a boa fé, a ingenuidade com que parecia acreditar todas as
+esperanças que lhe davam, todas as promessas que lhe faziam, o ar de candura
+com que tantas vezes procurou o seu nome no <em>Diario do Governo</em>.</p>
+
+<p>Seria um defeito de intelligencia? Não era, com certeza. Era apenas um
+aspecto da sua individualidade de <em>gentleman</em>. Conhecendo que a vida
+estava por pouco, não queria desfazer n'um momento a obra de toda a sua
+existencia, sahir do mundo desmanchando-se n'um gesto tão plebeu como
+expressivo. Procurava illudir-se por mais algum tempo... pouco!<span class="pn"><a
+name="pag_98">{98}</a></span></p>
+
+<p>E, de resto, elle tinha razão.</p>
+
+<p>Quando já não podia viver com as mulheres, com quem viveria elle se tivesse
+rompido com os homens?</p>
+
+<p>Era esta decerto a sua ideia.</p>
+
+<p>Não queria isolar-se pelo resentimento, pelo azedume, pelo despeito,
+sentindo-se a dois passos da solidão eterna do tumulo.</p>
+
+<p>Fôra um homem de sociedade, sabia o que era a lisonja, a mentira, a
+falsidade cortez e amavel. Devia conhecel-as á legua. Mas assim como nos salões
+tinha fingido acredital-as, reduzido á pobreza fingia tambem dar-lhes
+credito.</p>
+
+<p>O enganal-o por cortezia podia ser um motivo para que elle continuasse a não
+ter dinheiro na bolsa, mas não era um motivo para que recusasse um
+<em>shake-hand</em> á pessoa que o enganava segundo as boas praxes do codigo do
+bom tom.</p>
+
+<p>&mdash;Para a semana será... dizia elle.</p>
+
+<p>Passava uma semana, um mez, um anno.</p>
+
+<p>&mdash;Então?...</p>
+
+<p>&mdash;Tem havido difficuldades... Mas estão aplanadas... Agora vae.</p>
+
+<p>E não ia!</p>
+
+<p>Elle é que, fingindo esperar sempre alguma coisa que lhe consolasse os
+ultimos dias da vida, foi para o Porto, já muito doente, cheio de dôres e de
+desillusões, e de casa de uma filha querida,<span class="pn"><a
+name="pag_99">{99}</a></span> que lhe recolheu piedosamente o derradeiro suspiro, foi
+para a cemiterio de Agramonte, onde finalmente descansa...</p>
+
+<p>O <em>Diario do Governo</em> perdeu um leitor, a sociedade portugueza perdeu
+um dos seus <em>gentlemen</em>, talvez o ultimo, seus filhos perderam um pae
+extremosissimo, e eu perdi um amigo tão dedicado, que me confiava os segredos
+dolorosos de toda a sua vida, dando-me a lêr o manuscripto das suas memorias
+inéditas.</p>
+
+<p>Pobre barão! Outros, que começaram mais tarde a frequentar a sociedade,
+chegaram depressa ao galarim, tão depressa que, na allucinação do triumpho, nem
+já o conheciam. Mas elle é que conhecia toda a gente: um <em>shake-hand</em>
+para a direita, um sorriso para a esquerda, parecia andar fazendo as suas
+visitas de despedida antes de partir para a eternidade. E para que ninguem
+podesse ficar aggravado com o muito que elle tinha soffrido, perdoava a
+todos...</p>
+
+<p>Morreu como viveu: um <em>gentleman</em>.<span class="pn"><a
+name="pag_100">{100}</a></span></p>
+
+<h1>XII</h1>
+
+<h2>A «season» lisbonense em 1833</h2>
+
+<p>Este inverno promette uma <em>season</em> verdadeiramente notavel: salas que
+raramente se abriam, como as dos condes de Porto Covo, reanimam-se e povoam-se;
+o presidente do conselho de ministros receberá ainda quatro vezes durante os
+dois mezes proximos.</p>
+
+<p>Fallemos principalmente das <em>soirées</em> da presidencia, notaveis mais
+que todas por serem o ponto de reunião dos grandes vultos da politica
+portugueza na casa do primeiro entre os primeiros.</p>
+
+<p>Quem vir o sr. Fontes Pereira de Mello nas recepções officiaes do paço, nos
+actos solemnes da vida parlamentar, com o seu aspecto severo e frio, com a sua
+figura correcta e grave, terá avaliado apenas superficialmente este homem de
+estado que tem, como nenhum outro, a<span class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span>
+consciencia das funcções de que se acha investido e das situações em que se
+acha collocado. É preciso, porém, avalial-o <em>chez lui</em>, tendo uma phrase
+amavel para todas as pessoas que concorrem ás suas recepções, sabendo fallar ás
+senhoras e aos politicos, percorrendo todas as salas para ser attencioso com
+todos, conversando litteratura com os escriptores, politica com os homens de
+estado, accommodando-se com distincção a todos os assumptos e a todas as
+idades, sem constrangimento e sem esforço.</p>
+
+<p>Um estrangeiro, um viajante, um <em>touriste</em> não encontraria decerto
+melhor occasião para conhecer todos os homens notaveis de Portugal do que
+aquella que as <em>soirées</em> do presidente do conselho lhe podem
+fornecer.</p>
+
+<p>Aqui, um pouco curvado, o cabello levantado e branco, faces córadas, um
+sorriso docemente ironico, deixando vêr atravez das suas lunetas uns olhos
+penetrantes e expressivos, o ministro de Portugal em Madrid, vice-presidente da
+camara dos pares, passa nas salas, sobraçando a <em>claque</em>. É um erudito,
+um professor, um academico, que consome a maior parte dos dias na Torre do
+Tombo a revolver o archivo. Para os litteratos é o auctor de <em>Um anno na
+côrte</em>; para os academicos é o auctor da <em>Historia da linha de
+demarcação que repartia o mundo entre Portugal e Castella</em>, o recente
+annotador do <em>Roteiro de Lisboa a Goa</em>; para os politicos é um
+estadista<span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span> e um diplomata de primeira
+ordem, é ainda o auctor dos <em>Perigos</em>; para os indifferentes é o sr.
+Andrade Corvo.</p>
+
+<p>Ali, debruçado sobre a meza do whist, na curvatura interessada dos myopes,
+um homem magro e sêco, de uma magresa forte e resistente, pondo ás vezes por
+cima dos oculos afumados o seu <em>lorgnon</em>, interroga o parceiro com a sua
+voz mansamente timbrada: é o poeta do <em>Avè Cesar</em> e do <em>Pavilhão
+negro</em>, o dramaturgo dos <em>Primeiros amores de Bocage</em>, o romancista
+dos <em>Bandeirantes</em>, orador, estadista, diplomata, academico, é Mendes
+Leal, emfim.</p>
+
+<p>Acolá, o ministro dos negocios estrangeiros, Antonio de Serpa Pimentel,
+conversa animadamente, encostando o seu corpo franzino ao angulo de uma meza,
+fazendo girar rapidamente o cordão da sua luneta, e sorrindo: eis aqui um outro
+homem de estado que é ao mesmo passo um poeta, um prosador, um critico e um
+academico.</p>
+
+<p>Na sala de baile, a figura esvelta e forte de Thomaz Ribeiro destaca-se: a
+gran-cruz escarlate, atravessada sobre o peito largo, anima-lhe o busto: os
+cabellos grisalhos, como que ligeiramente empoados, têem por vezes fulgurações
+instantaneas.</p>
+
+<p>N'um <em>fauteuil</em>, Julio de Vilhena observa com os seus olhos
+penetrantemente meridionaes, sorri com vivacidade aos que lhe vão fallando,<span class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span> e retorce descuidadamente a guia esquerda
+do seu pequeno bigode.</p>
+
+<p>Hintze Ribeiro conversa n'um grupo de deputados sobre as discussões do
+parlamento: anima-se fallando, e fixa a luneta, fitando o interlocutor.</p>
+
+<p>O procurador geral da corôa e fazenda<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup>, alto e corpulento, conversa no tom
+modesto e auctorisado que lhe é peculiar, dois jurisconsultos distinctos
+ouvem-n'o com uma grande attenção respeitosa, como a um mestre.</p>
+
+<p>Barjona de Freitas, baixo, nutrido, hombros largos, cabello preto e luzidio,
+falla com Thomaz de Carvalho, que o ouve com o beiço inferior um pouco
+descahido, e Bulhão Pato, pequeno e forte, o cabello branco, faces morenas como
+as de um anduluz, aproxima-se, cofiando a pera.</p>
+
+<p>E como n'esse momento uma valsa, de uma melodia suave, docemente marulhada,
+se espraie pela sala, devem certamente acudir-lhe ao espirito ardente os versos
+da <em>Paquita</em>:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Entrei no baile, quando a valsa rapida<br>
+ Corria as salas em airosas voltas!<br>
+ Das leves roupas, transparentes, soltas,<br>
+ Que doce aroma se esparzia no ar!<br>
+ Parei mirando aquellas frontes candidas,<br>
+ Que se animavam de alegrias loucas.<br>
+ Amor calando nas graciosas bocas,<br>
+ Amor dizendo no inspirado olhar.<span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<p>As primeiras valsistas de Lisboa, as de mais nobre nascimento e de mais
+distincta elegancia, giravam com effeito em torno do salão, que parecia ondular
+serenamente como um lago, encrespado por uma brisa ligeira.</p>
+
+<p>Algumas cabeças, formosamente loiras como a de Daphne, pareciam aureoladas
+por um diadema de oiro; outras, de bellos cabellos negros, affiguravam-se
+radiadas de arabescos luminosos, como o azeviche batido fortemente pela luz.</p>
+
+<p>O visconde de S. Januario, de amplo peito arqueado, gran-cruz traçada,
+cabeça altiva, conversava n'um grupo de senhoras; o duque de Palmella, alto,
+suissas pretas, com a mão direita entalada entre o collete e a gran-cruz,
+acabava de conversar com o duque de Loulé, que fôra fazer a sua partida de
+whist para a sala da bibliotheca, onde o conde de Valbom jogava emparceirado
+com o sr. Carlos Bento na mesma mesa em que tambem era parceiro o distincto
+advogado Pinto Coelho.</p>
+
+<p>Não haveria, pois, melhor occasião para poder observar os nossos homens mais
+distinctos na politica, no fôro, na litteratura, na diplomacia, no
+professorado, no commercio.</p>
+
+<p>Muitos d'elles, se não a maior parte, são um nobre exemplo de coragem, de
+perseverança e de gloria a todos quantos agora estreiam a sua carreira. <span class="errata" title="no original: Á vista de um trabalho">Á custa de um trabalho</span> paciente e intrepido<span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span>
+alcançaram, por direito de conquista, a alta posição que hoje occupam.
+Soffreram, combateram, luctaram, mas conseguiram honrar o seu berço, o seu
+nome, e o seu paiz. Citemos ao acaso um nome, Mendes Leal, que atravessou todas
+as commoções de uma existencia accidentada de mil incertezas, luctando sempre,
+no theatro, na litteratura, na imprensa, na politica, mas conseguindo vencer
+por um esforço heroico de que só os homens do seu valor e da sua tempera são
+capazes.</p>
+
+<p>Quantos d'elles, se não todos, têem sido injustamente accusados,
+violentamente atacados, injuriados até! A consciencia do dever é, porém, uma
+especie de muralha da China, onde os projectis da inveja e da calumnia vão
+bater, refluindo de ricochete contra os que os arremessaram com mão traiçoeira.
+É a compensação providencial destinada aos que cumprem a sua missão. Os
+insignificantes, os invejosos, os inuteis, aquelles que não comprehendem o seu
+destino, julgam que todos lh'o roubaram, e por isso de todos dizem mal.</p>
+
+<p>Aqui está, pois, levamente esboçada, uma pagina da <em>season</em>
+lisbonense em 1883.<span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup> Conselheiro Martens Ferrão.</p>
+</div>
+
+<h1>XIII</h1>
+
+<h2>Gostos não se discutem</h2>
+
+<p>Tem cada um sua maneira especial de se divertir. Chega a haver n'isso uma
+tal variedade como nas physionomias.</p>
+
+<p>Ha quem não possa divertir-se com os outros, e quem não esteja bastante
+divertido sem os outros.</p>
+
+<p>Ha quem goste dos outros só por algum tempo, de modo que nos acontece ás
+vezes encontrar um sujeito que nos abre os braços e exclama nadando em
+jubilo:</p>
+
+<p>&mdash;Ora ainda bem que o encontro! Ha quanto tempo! ha quantos mezes!
+Temos muito que conversar! Vamos a isso! vamos a isso!</p>
+
+<p>Fica a gente horrorisada com a perspectiva de uma maçada enorme. Mas não ha
+remedio senão fazer cara alegre e acceitar as coisas como ellas são.</p>
+
+<p>&mdash;Pois vamos lá a isso!<span class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span></p>
+
+<p>Conta-nos o sujeito duas lerias, fugitivamente, como se o tivesse de fazer
+por simples cumprimento.</p>
+
+<p>E, de repente, estendendo-nos a mão, parecendo ter já dito tudo:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus! meu amigo. Estimei muito vel-o.</p>
+
+<p>Aqui está um exemplar de sujeito que gosta da companhia dos outros por algum
+tempo apenas.</p>
+
+<p>O grande prazer que sentiu encontrando-nos aguou-se tão de pressa, que só
+abandonando-nos de repente poude continuar a divertir-se.</p>
+
+<p>Conheci um alto cavalheiro, pessoa de estimação, que folgava immenso de que
+outro, que em tempo havia feito despachar para certo logar da alfandega, o
+seguisse por toda a parte, vestindo-lhe o casaco á saida dos theatros,
+pegando-lhe na bengala se queria atar o <em>cache-nez</em>, acompanhando-o a
+casa todas as noites, dizendo-lhe na rua o nome das pessoas que o iam
+cumprimentando.</p>
+
+<p>Um dia o fiel protegido adoeceu, e o protector tão aborrecido se encontrou
+da sua falta, que resolveu ficar em casa emquanto o outro não melhorasse.</p>
+
+<p>Pelo contrario, ha pessoas a quem uma tão solicita e dedicada gratidão
+incommodaria enormemente.</p>
+
+<p>Andrade Corvo, conversando comigo, dizia uma vez:<span class="pn"><a
+name="pag_108">{108}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;A gratidão que persegue a gente, é das coisas mais secantes que se
+conhecem. E offende até certo ponto, porque dá a entender que fazemos um favor
+para sermos servidos toda a vida.</p>
+
+<p>Como n'esse dia estivesse de notavel bom humor, exemplificou:</p>
+
+<p>&mdash;Ora imagine que se dá um espirro e se ouve dizer logo do lado:
+<em>«Dominus tecum</em>, sr. conselheiro.» Imagine que tira a gente um charuto
+da algibeira, e que a gratidão acode a cortar-nos o passo exclamando: «Aqui
+está o meu lume ás ordens de v. ex.ª, sr. conselheiro!» Olhe que chega a fazer
+perder a paciencia!</p>
+
+<p>Ha pessoas que se divertem passeiando sem fallar e sem olhar para
+ninguem.</p>
+
+<p>Recolhe um desses a sua casa e pergunta-lhe a mulher:</p>
+
+<p>&mdash;Encontraste muita gente conhecida?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei.</p>
+
+<p>&mdash;E tiveste muito calor, filho?</p>
+
+<p>&mdash;Olha que tambem não sei.</p>
+
+<p>Outros, porém, gozam andando devagar, pasmando para tudo, parando de vez em
+quando a observar todos, descobrindo mysterios, surprehendendo segredos.</p>
+
+<p>Conheço um destes; que me disse ha poucos mezes:</p>
+
+<p>&mdash;Fulano, quando chegar a ministro, não faz caso de ninguem.<span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Por que?</p>
+
+<p>&mdash;Eu lhe conto. Outro dia encontrou elle um amigo na rua da Boa Vista.
+Você conhece de certo o Silveira?</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem.</p>
+
+<p>&mdash;Pois era esse o amigo que elle encontrou. Eu vinha atraz e ouvi toda
+a conversa. Ambos queriam o <em>americano</em> que fosse para o Rato. N'isto
+passava o carro que ambos desejavam. De repente o outro, que lobrigára um só
+logar vazio, larga o Silveira, trepa para o <em>americano</em>, e diz-lhe de lá
+adeus com a mão. O Silveira ficou com cara de parvo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que tem isso?!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! então você não costuma aproveitar as lições que a observação de
+todos os dias lhe vae deparando! Está arranjado! Aquelle <em>americano</em> era
+uma especie de carro do governo, em que o outro, logo que teve occasião, tratou
+de arranjar logar, sem se importar com os que ficavam atrazados.</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Mas não me parece...</p>
+
+<p>&mdash;Homem! qualquer coisa define uma pessoa. Os que gostam de fazer
+<em>paciencias</em> divertem-se comsigo mesmos: em tendo um baralho de cartas,
+prescindem bem dos outros.</p>
+
+<p>Um d'esses taes estava em casa uma noite. Passou um amigo, e entrou.</p>
+
+<p>&mdash;Pensei que estivesse gente de fóra! disse o amigo ao entrar.<span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Enganaste-te. Estou eu só a fazer <em>paciencias</em>.</p>
+
+<p>&mdash;E a sr.ª D. Ismenia?</p>
+
+<p>&mdash;Sahiu.</p>
+
+<p>&mdash;Foi para o theatro?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem não sei bem. Sahiu com a mãe.</p>
+
+<p>&mdash;E tua filha?</p>
+
+<p>&mdash;Sahiu com o tio.</p>
+
+<p>&mdash;E tu por que não sahiste tambem?</p>
+
+<p>&mdash;Por que não precisava.</p>
+
+<p>&mdash;Mas sempre é bom passeiar depois que se janta.</p>
+
+<p>&mdash;Para passeiar, meu amigo, basta que saia alguem da familia.</p>
+
+<p>Outros são de feitio opposto: amam a sociedade, a companhia, a
+convivencia.</p>
+
+<p>Encontra a gente um ou outro, á meia noite, quando recolhe a casa.</p>
+
+<p>&mdash;Que pressa tem você de se deitar? pergunta elle.</p>
+
+<p>&mdash;Preciso levantar-me cedo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas durma depressa, homem!</p>
+
+<p>&mdash;Durma depressa! tem graça!</p>
+
+<p>&mdash;É o que lhe digo. Quer você ouvir um caso? Olhe que ainda é cedo. Uma
+vez estava eu em Villa Franca, em casa do Tiberio. Jogava-se o voltarete. Havia
+hospedes: um d'elles era o major Noronha, que tinha de ir no comboio da manhã
+para Santarem. O jogo enremissou-se. A dona da casa, muito constrangida,<span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> lembrou que era melhor deixarem as remissas
+para outra occasião, porque o major tinha de levantar-se cedo. E vae elle,
+muito amavel, respondeu: «Não tem duvida, minha senhora, porque eu estou
+habituado a dormir depressa.» Faça você o mesmo, e dê dois dedos de cavaco.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... mas é já tarde.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe cá, a proposito de voltarete e remissas... Você sabe que o
+Castilho dizia que o voltarete era um jogo impio?</p>
+
+<p>&mdash;Impio?</p>
+
+<p>&mdash;Porque a cada passo ouvia dizer aos que o estavam jogando: Arre
+missas! (Ha remissas).</p>
+
+<p>&mdash;Tem graça, tem! Adeus, que já é tarde.</p>
+
+<p>E o pobre homem, que só com os outros se diverte, fica aborrecido por se
+achar só na rua.</p>
+
+<p>Lembra-lhe talvez ir pedir lume ao guarda nocturno para accender o
+charuto,&mdash;como um pretexto para armar cavaqueira.</p>
+
+<p>Depois de accender o charuto:</p>
+
+<p>&mdash;Ó sr. guarda! n'esta rua ha muitos namoros?</p>
+
+<p>&mdash;Já houve mais.</p>
+
+<p>&mdash;Por que?</p>
+
+<p>&mdash;Têem ido casando.</p>
+
+<p>&mdash;É mal feito!</p>
+
+<p>&mdash;Bem ou mal feito, é lá com elles.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o senhor fica muito prejudicado!<span class="pn"><a
+name="pag_112">{112}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!</p>
+
+<p>&mdash;Porque quantos menos namoros houver, mais só vae ficando a rua.</p>
+
+<p>Eil-o aqui a pensar como se elle proprio fosse o guarda nocturno. Ah! se o
+fosse, valer-se-ia até talvez da carta anonyma para desfazer casamentos, porque
+os namoros podem succeder-se, mas os casados, em geral, não se namoram...
+depois.</p>
+
+<p>Ha pessoas secantes que se divertem ralhando sempre, e que gostam do jogo,
+porque lhes dá occasião de bater murros na mesa e de gritar.</p>
+
+<p>A um d'estes grasinas faltava certa noite um parceiro para jogar o whist de
+perna de pau.</p>
+
+<p>&mdash;Se viesse por ahi alguem! exclamava elle espreitando pelas vidraças
+para fóra.</p>
+
+<p>N'isto tocaram a campainha.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! é você! Ainda bem! Vamos lá jogar o whist.</p>
+
+<p>&mdash;Não jogo.</p>
+
+<p>&mdash;Por que não joga?</p>
+
+<p>&mdash;Porque você ralha sempre!</p>
+
+<p>&mdash;Hoje não ralho. Palavra de honra.</p>
+
+<p>&mdash;Com essa condição, vamos lá.</p>
+
+<p>Meia hora depois dizia o dono da casa:</p>
+
+<p>&mdash;Esta stearina está hoje detestavel!</p>
+
+<p>Passados cinco minutos:</p>
+
+<p>&mdash;Parece que cá em casa não fazem hoje tenção de servir o chá!<span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span></p>
+
+<p>De repente os outros dois pegaram-se a discutir o jogo.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! elle é isso! exclama o dono da casa. Pois então sempre lhe quero
+dizer a você (o tal, que tirára a condição) que já ahi fez uma grande asneira
+quando eu me queixei da stearina, e outra quando fallei no chá. Da primeira vez
+você devia ter vindo a oiros.</p>
+
+<p>Entra o criado com o taboleiro do chá.</p>
+
+<p>&mdash;Leva lá isso, que ainda é muito cedo! E da segunda vez porque devia
+ter vindo a copas, que era o que se lhe pedia.</p>
+
+<p>Epaminondas, segundo resa a historia, nem por gracejo mentia, tanto gostava
+da verdade,&mdash;até para se divertir.</p>
+
+<p>Outros, porém, só mentindo é que estão nas suas sete quintas.</p>
+
+<p>E isso cria-lhes difficuldades, põe-n'os em graves apuros, mas dá-lhes tanto
+gosto, que perdoam o mal que ás vezes lhes faz pelo bem que lhes sabe... o
+mentir.</p>
+
+<p>Contava um n'uma roda de amigos:</p>
+
+<p>&mdash;Ver a morte! Quatro vezes a tenho eu visto já! imaginem que andando á
+caça no Brazil, alonguei-me pela roça fóra, e tinha descido a uma chã quando vi
+que um preto, que eu havia castigado dias antes, corria atraz de mim de
+espingarda na mão.</p>
+
+<p>&mdash;E depois?</p>
+
+<p>&mdash;Depois o preto, que chegára á borda do<span class="pn"><a
+name="pag_114">{114}</a></span> outeiro, apontou-me a espingarda. Vocês sabem que os
+pretos têem uma pontaria infallivel!</p>
+
+<p>&mdash;Como diabo escapaste tu?!</p>
+
+<p>Chegado a este ponto, tambem elle proprio não sabia ainda como poderia ter
+escapado.</p>
+
+<p>&mdash;Sim! Como escapaste tu?!</p>
+
+<p>Nova hesitação do narrador.</p>
+
+<p>&mdash;Não escapaste!</p>
+
+<p>&mdash;Homem, isto é serio. Fosse em razão do odio que me tinha, ou do
+cansaço da corrida, o preto teve uma apoplexia fulminante e veiu cair-me aos
+pés. Dei-lhe um pontapé, e continuei a caçar.</p>
+
+<p>Conheci um rapaz, que morria por andar de calças brancas.</p>
+
+<p>Eu disse-lhe algumas vezes:</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo de gosto o teu! Não te parece que andas em ceroulas?</p>
+
+<p>Elle respondia-me sempre:</p>
+
+<p>&mdash;E a ti não te parece que metteste as pernas n'um tinteiro!</p>
+
+<p>São gostos, e gostos não se discutem. Mas se toda a gente, em questão de
+gosto, tivesse a mesma opinião, quanto seria difficil... casar, por exemplo!<span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span></p>
+
+<h1>XIV</h1>
+
+<h2>Peccadilhos metricos</h2>
+
+<p class="centrado"><em>Non bis in idem</em></p>
+
+<blockquote style="font-size: 0.6em; margin-left: 50%;">
+ <p>Fazem ámanhã annos,<br>
+ ......................<br>
+ ......................<br>
+ Alberto Pimentel<br>
+ ......................<br>
+ </p>
+
+ <p><em>Novidades</em>, de domingo 27 de novembro de 1887.</p>
+</blockquote>
+
+<blockquote>
+ <p>Ainda ante-hontem dizia<br>
+ Certo jornal que eu fazia<br>
+ Annos no dia seguinte.<br>
+ Comquanto o jornal ref'rido<br>
+ Pertença a outro partido,<br>
+ Era favor; não acinte.</p>
+
+ <p>Mas, emfim, passa em julgado<br>
+ Que eu seja tão desastrado<br>
+ Que, já proximo dos <em>enta</em>,<br>
+ Faça annos cada semestre?<br>
+ Não: que o tempo é um grande mestre.<br>
+ Tempo que passa, avelhenta.<span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span></p>
+
+ <p>Fazer annos em novembro,<br>
+ Logo em abril repetil-os!<br>
+ De tal coisa não me lembro!<br>
+ Tomára diminuil-os,<br>
+ Quanto mais, por triste engano,<br>
+ Duplical-os em cada anno!</p>
+
+ <p>Assim, se chego aos sessenta,<br>
+ Contar-me-hão cento e vinte!<br>
+ Pois cada semestre augmenta<br>
+ Um anno, e outro o seguinte!<br>
+ Faço annos no quente e frio<br>
+ Como pago ao senhorio!!</p>
+
+ <p>Não! Não pode ser! Protesto!<br>
+ Porque eu trabalho, e de resto,<br>
+ Pago de seis em seis mezes<br>
+ Duas rendas, uma em annos,<br>
+ Outra em metal! São enganos?<br>
+ Mas eu pago duas vezes!</p>
+
+ <p>Fique pois bem entendido,<br>
+ Bem notorio, bem sabido,<br>
+ Que só uns annos farei.<br>
+ <em>Quatorze de abril</em>: é a data.<br>
+ Dispenso flôres, cantata...<br>
+ Mas protesto. E protestei.</p>
+</blockquote>
+
+<p>29 de novembro de 1887.<span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">DEPOIS DO INCENDIO DO THEATRO BAQUET</p>
+
+<p class="centrado"><em>(Versos recitados pelo actor Firmino, uma das victimas
+sobreviventes d'aquelle incendio, no beneficio que realizou no theatro da
+Trindade.)</em></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Venho d'entre as ruinas e das chammas,<br>
+ Onde tudo perdi. Sabeis a historia,<br>
+ Que o vosso coração ainda contrista.<br>
+ Perdoai a vaidade ao pobre artista...<br>
+ Eu sonhava essa noite com a gloria.</p>
+
+ <p>Monstruosa ironia! A gloria! A gloria!<br>
+ Tive por ovação prantos, clamores.<br>
+ Ossadas por cortejo. O incendio e a fama<br>
+ Disputaram ali. Venceu a chamma.<br>
+ Eram chammas o palco e os bastidores...</p>
+
+ <p>E ali n'essa sinistra apotheóse<br>
+ Ficaram sepultados meus thesoiros,<br>
+ Amigos que eu perdi,&mdash;tão dedicados!<br>
+ Minha pobre familia,&mdash;os meus cuidados,<br>
+ Doces cuidados que eu pref'ria aos loiros!...</p>
+
+ <p>Sou agora a mim proprio quasi extranho,<br>
+ Um viajante perdido no deserto,<br>
+ N'esse infindo deserto da saudade.<br>
+ Sinto ainda a desgraça muito perto...<br>
+ Mas sinto ainda mais perto a caridade!</p>
+
+ <p>Se vivo, é só por ella. Em seu regaço<br>
+ Choro o meu abandono, as minhas dôres.<br>
+ Refunde-se a minha alma em muitas almas,<br>
+ Vale um consolo o que não valem palmas...<br>
+ Vivo, meu Deus! graças a vós, senhores!...<span class="pn"><a
+ name="pag_118">{118}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">UMA DAS VICTIMAS DO INCENDIO</p>
+
+<p class="centrado"><em>(Etelvina Julia d'Almeida.)</em></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Vi-a n'um baile, ha muitos annos, quantos!<br>
+ Da sua face bella as frescas rosas<br>
+ Deviam ter suavissimos encantos<br>
+ Se os beijos, namoradas mariposas,<br>
+ Fossem sorver, ha muitos annos, quantos!<br>
+ Da sua face bella as frescas rosas.</p>
+
+ <p>Mas quem hontem logrou reconhecel-a<br>
+ Entre as negras ruinas sepultada?...<br>
+ Mas quem poude affirmar, dizer: É ella!<br>
+ Ella que fôra outr'ora alva e rosada!<br>
+ Já não poude ninguem reconhecel-a<br>
+ Entre as negras ruinas sepultada.</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">1.º DE DEZEMBRO</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Filippa de Vilhena!<br>
+ João Pinto Ribeiro!<br>
+ Palavra, que faz pena<br>
+ Ver o despenhadeiro<br>
+ Em que isto agora vae!<br>
+ E como o paiz cae!</p>
+
+ <p>Agora é só dinheiro.<br>
+ Está campando em scena<br>
+ Sómente o deus Milhão!<br>
+ Filippa de Vilhena!<br>
+ João Pinto Ribeiro!<br>
+ Palavra, que faz pena...<br>
+ Agora é só dinheiro...<br>
+ E os que lá vão lá vão!</p>
+</blockquote>
+
+<p>1887.<span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">EMILIA</p>
+
+<p class="centrado"><em>(Minha irmã.)</em></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Nunca tu azas tiveras,<br>
+ Que te elevassem ao ceu.<br>
+ Nunca tu voar poderas<br>
+ Co'as azas que Deus te deu.</p>
+
+ <p>Por mais que tu procuraste<br>
+ Reprimir-lhe o ancioso vôo,<br>
+ Eras tão debil! cansaste.<br>
+ Deus quiz o anjo, e levou-o.</p>
+
+ <p>Tinha reflexos tão doces<br>
+ O teu olhar doce e brando,<br>
+ Que logo pensei que fosses<br>
+ Lirio que veio voando</p>
+
+ <p>D'essa translucida esphera,<br>
+ Tão cristalina e tão alta,<br>
+ Onde a eterna primavera<br>
+ Sentiria a tua falta.</p>
+
+ <p>Então as flôres celestes<br>
+ Chorando saudosamente<br>
+ Vestiram lutuosas vestes,<br>
+ Feitas de seda somente.</p>
+
+ <p>E, debruçadas nas sépalas,<br>
+ Choraram pranto divino<br>
+ Sobre o justilho de pétalas,<br>
+ Polvilhado de ouro fino.</p>
+
+ <p>Deus viu-as tristes, chorosas.<br>
+ Nos seus ethéreos jardins,<span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span><br>
+ E chorou co'as suas rosas,<br>
+ Teve dó dos seus jasmins.</p>
+
+ <p>E como o pranto divino<br>
+ Tambem, como pranto, queima,<br>
+ Deus co'a sua voz, um hymno,<br>
+ Dissera ás azas: «Trazei-m'a.»</p>
+
+ <p>E as azas, mal escutaram<br>
+ A celeste melodia,<br>
+ Obedeceram, voaram,<br>
+ Qual d'ellas mais voaria.</p>
+
+ <p>Quando esse lirio nevado<br>
+ Chegou de novo ao empireo,<br>
+ Ia triste e maguado,<br>
+ Deus estranhou o seu lirio!</p>
+
+ <p>E o que o lirio não dissera<br>
+ Tudo Deus adivinhou.<br>
+ Voando á celeste esphera,<br>
+ Chorára emquanto voou.</p>
+
+ <p>As flôres do azul sorriam,<br>
+ Os lirios do ceu cantavam,<br>
+ Meus olhos já te não viam,<br>
+ Meiga creança, e choravam.</p>
+
+ <p>Nunca tu azas tiveras,<br>
+ Que te elevassem ao ceu<br>
+ Nunca tu voar poderas<br>
+ Co'as azas que Deus te deu.</p>
+</blockquote>
+
+<p>24&mdash;2&mdash;87.<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">JOÃO DE DEUS</p>
+
+<blockquote>
+ <p>João de Deus! De Deus... porque é divino.<br>
+ João, ou seja o primo de Jesuz<br>
+ Ou o outro que vela junto á Cruz,<br>
+ É divino tambem.<br>
+             E não atino<br>
+ Senão co'esta rasão: foi prophecia<br>
+       &mdash;Se já não foi destino&mdash;<br>
+ De quem previu que João de Deus seria<br>
+       Um poeta divino.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Ericeira, 21&mdash;10&mdash;90.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">KERMESSE</p>
+
+<blockquote>
+ <p>O bem é como as auroras,<br>
+ Que para tudo o que existe<br>
+ Espalham luz e calor.<br>
+ Seja alegre ou seja triste<br>
+ A alma, o insecto, a ave, a flôr,<br>
+ Tudo o que ri ou que chora<br>
+ Sente nos raios da aurora<br>
+ A esmola do eterno amor...</p>
+
+ <p>Os beijos do sol aquecem<br>
+ Tudo o que é velho ou que é moço,<br>
+ O ephémero e o colosso.<br>
+ As rochas e os corações,<br>
+ Os lagos e as ondas bravas,<br>
+ Emporios e solidões,<br>
+ As lagrimas das escravas<br>
+ E os sorrisos das rainhas,<br>
+ As cavernas dos leões<br>
+ E os ninhos das andorinhas.<span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span></p>
+
+ <p>E o bem é como as auroras.<br>
+ Por isso ao bem não esquece<br>
+ A creança, o ninho, a escola...</p>
+
+ <p>Tu és como o sol, esmola!<br>
+ És como a aurora, kermesse!</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">OS TREZ VELHOS</p>
+
+<p class="centrado">I</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Cahiu um nevão na serra.<br>
+ Desde a cumiada ao val<br>
+ Alveja rútila a terra.<br>
+ Não houve nevão egual!</p>
+
+ <p>O ar gelado, cortante,<br>
+ Passa sobre as povoações<br>
+ Ceifando como um montante,<br>
+ Rugindo como os leões.</p>
+
+ <p>Arvores sêcas, esguias<br>
+ Olham para o ceu, talvez<br>
+ A soluçar elegias,<br>
+ Carpindo a sua nudez.</p>
+
+ <p>Cheias de fome, as manadas<br>
+ Sobre as campinas despidas<br>
+ Só róem urzes queimadas<br>
+ E raizes ressequidas.</p>
+
+ <p>A fome, a doença, a morte<br>
+ Assentaram arraiaes<br>
+ Junto ao casal e á corte,<br>
+ Levando gente e animaes.<span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span></p>
+
+ <p>Famintas, as alcateas<br>
+ Vem de noite ao povoado.<br>
+ Tremem de medo as aldeas,<br>
+ Ouvindo o lobo esfaimado...</p>
+
+ <p>E desde o alto da serra<br>
+ Abre a neve o seu lençol.<br>
+ O que seria da terra<br>
+ Sem ter um raio de sol?!</p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">II</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Entre a egreja e o presbyterio<br>
+ Corre, caiado de novo,<br>
+ O muro do cemiterio.<br>
+ Vem ali juntar-se o povo.</p>
+
+ <p>O sol, batendo no muro,<br>
+ Aquece a pedra ao meio dia,<br>
+ Torna o inverno menos duro,<br>
+ Tempera a nortada fria.</p>
+
+ <p>Lá se juntaram trez velhos<br>
+ Sêcos, rijos, vermelhaços,<br>
+ Expondo ao sol os joelhos,<br>
+ Estendendo ao sol os braços.</p>
+
+ <p>Emquanto o sol os aquece,<br>
+ Riem-se elles da nortada.<br>
+ Cada um seu mal esquece,<br>
+ Vai tudo de patuscada.</p>
+
+ <p>&mdash;Tem morrido muita gente<br>
+ Com esta grande invernia!...<br>
+ &mdash;Pois nunca o inverno foi quente!<br>
+ &mdash;Salvo... este sol do meio dia.<span class="pn"><a
+ name="pag_124">{124}</a></span></p>
+
+ <p>&mdash;Este sol é a minha adéga:<br>
+ Eu não quero outro calor.<br>
+ &mdash;Você o vinho renega!...<br>
+ &mdash;Lingua de mau pagador!</p>
+
+ <p>&mdash;O vinho é caro. A cacháça<br>
+ Custa agora...<br>
+          &mdash;Isso que monta!<br>
+ &mdash;O sol dá-o Deus de graça!...<br>
+ &mdash;Mas beba vinho com conta!</p>
+
+ <p>&mdash;Eu cá nunca fui borracho.<br>
+ &mdash;Nanja eu. Mas acho-o bom.<br>
+ &mdash;Diz um cacho a outro cacho:<br>
+ Não bebas sem tom nem som!</p>
+
+ <p>E n'esta mansa folia<br>
+ Vão-se aquecendo os trez velhos<br>
+ Ao doce sol do meio dia,<br>
+ Rijos, sêcos e vermelhos.</p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">III</p>
+
+<blockquote>
+ <p>&mdash;Lá vem enterro... Isto agora...<br>
+ Não tem descanso o coveiro!<br>
+ &mdash;Vem d'acolá d'onde mora<br>
+ A mulher do Zé Cabreiro.</p>
+
+ <p>&mdash;Foi o filho... É de creança<br>
+ O caixão: eu inda vejo!<br>
+ &mdash;O coveiro não descansa!...<br>
+ &mdash;Inda hontem lhe dei um beijo!</p>
+
+ <p>&mdash;A quem? Ao coveiro?!<br>
+           &mdash;Irra!<br>
+ Ao filho do Zé Cabreiro.<span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span><br>
+ &mdash;O frio as creanças mirra.<br>
+ &mdash;Lá vem atraz o coveiro...</p>
+
+ <p>&mdash;A morte leva os fedelhos,<br>
+ Mata n'um dia um rapaz,<br>
+ Emquanto que nós, os velhos.<br>
+ Vamos ficando p'ra traz!</p>
+
+ <p>&mdash;A morte é uma gulosa,<br>
+ Gosta de bocados finos.<br>
+ Carnes que cheirem a rosa,<br>
+ Polpa de tenros meninos...</p>
+
+ <p>&mdash;Póde ser!...<br>
+         &mdash;Pois certamente!<br>
+ Nós cá, ossos esburgados,<br>
+ Nem para a cova de um dente<br>
+ Lhe chegavamos, coitados!</p>
+
+ <p>No alto mar me contava<br>
+ Um velho de Guimarães<br>
+ Que a terra se embebedava<br>
+ Com as lagrimas das mães...</p>
+
+ <p>&mdash;Por isso lhes leva os filhos!...<br>
+ A gulosa!... Quer banquete!<br>
+ &mdash;Quem tem filhos tem cadilhos.<br>
+ Morreram-me. Eu tive sete!...</p>
+
+ <p>&mdash;E eu nenhum.<br>
+       &mdash;Nem eu.<br>
+           &mdash;Agora,<br>
+ Sem ter filhos nem mulher,<br>
+ Visto que ninguem nos chora,<br>
+ Nem mesmo a terra nos quer!...</p>
+</blockquote>
+
+<p>Janeiro de 1891.<span class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">AS POMBAS</p>
+
+<p class="centrado"><em>(De Theophilo Gautier.)</em></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Na collina dos mortos, entre os tumulos,<br>
+ Ergue a bella palmeira a verde pluma,<br>
+ E á tarde as mansas pombas de azas candidas<br>
+ Vão aninhar ali, uma após uma.</p>
+
+ <p>De manhã, quando o sol desperta rutilo.<br>
+ As brancas pombas vão, cortando o ar,<br>
+ Como um solto collar no azul ethéreo,<br>
+ Longe do ninho um tecto procurar.</p>
+
+ <p>Minha alma é como a solitaria arvore<br>
+ Onde enxames de loucas illusões<br>
+ Poisam á noite. Fugitivos hospedes,<br>
+ Vão-se co'a luz as pombas e as visões.</p>
+</blockquote>
+
+<p>8&mdash;2&mdash;87.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">MULHER E GATA</p>
+
+<p class="centrado"><em>(Paul Verlaine.)</em></p>
+
+<blockquote>
+ <p>O vel-a até dava gosto<br>
+ Brincando co'a sua gata,<br>
+ Branca mão contra alva pata,<br>
+ Na penumbra do sol posto.</p>
+
+ <p>Mitene, que a mão recorta,<br>
+ Por dissimular trabalha<br>
+ Unha d'ágatha, que corta<br>
+ E brilha como navalha.</p>
+
+ <p>Mas a gata, disfarçada<br>
+ Tambem, com prazer ronrona<span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span><br>
+ E ensaia a unha acerada...<br>
+ Não é melhor do que a dona!</p>
+
+ <p>E os dois labios purpurinos<br>
+ Enchiam de riso o ar,<br>
+ Onde se viam, felinos,<br>
+ Quatro phosphoros brilhar.</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">N'UMA SALA</p>
+
+<blockquote>
+ <p>A um canto, os politicos fallavam<br>
+     Com um certo mysterio<br>
+ Do modo como as coisas caminhavam,<br>
+ Se estava forte ou fraco o ministerio.</p>
+
+ <p>Alguem que se mostrava resentido,<br>
+ Abanava a cabeça&mdash;era um symptoma<br>
+ De que a seu vêr o mundo está perdido<br>
+ E tudo cae,&mdash;como caíra Roma!<br>
+ Elle só, por sciencia e por estudo,<br>
+ Era talvez capaz de salvar tudo...</p>
+
+ <p>N'outro canto da sala gorgeiava<br>
+ A musica do riso e d'alegria<br>
+ Um grupo que sorria e que fallava<br>
+     De quanto ouvia e via.<br>
+ Era o grupo formoso das solteiras,<br>
+     O grupo dos vinte annos,<br>
+ Que é capaz de passar noites inteiras,<br>
+ Rindo de tudo,&mdash;até dos desenganos!</p>
+
+ <p>D'este grupo gentil como é que eu posso<br>
+     Desenhar o esboço?<br>
+ Precisaria ter as tintas finas,<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span><br>
+     O magico pincel<br>
+ De que dispunha o grande Raphael!<br>
+ Em vez de uma... eram quatro Fornarinas.</p>
+
+ <p>Quereriam talvez as bellas damas<br>
+ Vêr no papel traçado o seu perfil?!<br>
+     N'essa não caio eu...<br>
+ Quem é capaz de retratar abril?<br>
+ De transportar á tela o que é do ceu?<br>
+     De copiar as flôres?<br>
+     De imitar as estrellas?<br>
+ De dizer á manhã: Roubei-te as côres?<br>
+ Tende paciencia, ó minhas damas bellas,<br>
+ Incumba cada uma o seu Romeu<br>
+     D'esse arrojo inaudito.<br>
+     Eu cá por mim, repito,<br>
+     N'essa não caio eu...</p>
+
+ <p>E de mais eu bem sei, minhas senhoras,<br>
+ Que me attendestes n'um serão inteiro<br>
+ Por não haver na sala algum solteiro...<br>
+ Sois boas, não sejaes enganadoras.</p>
+
+ <p>Eu já tenho trez filhos, eu sou velho,<br>
+ Disse-m'o ha pouco tempo uma visinha,<br>
+     E o maldito do espelho<br>
+ Tem-me mostrado até... <em>pés de gallinha</em>!...</p>
+
+ <p>Vão muito longe as minhas primaveras.<br>
+ De mais a mais, senhoras, a aza branca<br>
+ Da musa ideal que eu tive n'outras eras<br>
+ Desplumou-se a pensar em Salamanca,<br>
+     No imposto sobre o sal,<br>
+ A estudar as questões do parlamento,<br>
+     O orçamento geral,<span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span><br>
+     &mdash;Diabo de orçamento!<br>
+ Que é o livro maior que ha em <em>S. Bento</em>!<br>
+ Assim se foi rasgando, creio eu,<br>
+ Essa aza branca que me erguia ao ceu!..</p>
+
+ <p>Vede, senhoras, se ha tormento igual!<br>
+     O que me resta só,<br>
+ Para de todo errar da sorte o alvo,<br>
+     E vêr-me, um dia, calvo,<br>
+ E descer á miseria... de um chinó.</p>
+
+ <p>N'estas alturas, minhas damas bellas,<br>
+     Não posso ser pintor.<br>
+ Quereis vêr-vos, senhoras, retratadas<br>
+ Formosas como sois, e delicadas?<br>
+     Mirae-vos n'uma flôr...</p>
+
+ <p>    N'essa não caio eu...<br>
+     Fazer-vos o retrato?!<br>
+     Mas, em compensação,<br>
+     Com a vossa adhesão<br>
+ Estou prompto a fazer um syndicato.<span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<h1>XV</h1>
+
+<h2>Os amaveis</h2>
+
+<p>Toda a gente os conhece, os amaveis, sempre generosos, sempre previdentes,
+tendo á flôr dos labios sorrisos doces e doces fallas, que, quando não
+encantam, incommodam com certesa os outros...</p>
+
+<p>Sim, porque os grosseiros custam a aturar, são bruscos, são asperos, são
+impertinentes. Mas os amaveis de profissão, os que fazem gosto e gala de o ser
+por uso e costume, chegam a aborrecer quasi tanto como os grosseiros.</p>
+
+<p>Com a differença de que se um grosseiro, por descuido, alguma vez se mostra
+amavel, fica a gente encantada com essa surpresa; ao passo que se um amavel,
+tambem por descuido,<span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span> commette uma
+grosseria, fica a gente quasi vexada de vêr que elle estragou com um
+involuntario borrão todo o seu passado de homem fino.</p>
+
+<p>A cortezia é como certos estofos claros, em que a mais leve nodoa se torna
+saliente. Ao passo que nos tecidos grosseiros, qualquer incorrecção de côr,
+qualquer sombra, por maior que pareça, tem sempre esta desculpa: «É mesmo da
+fazenda...»</p>
+
+<p>Um brutalhão de marca maior costumava espancar a mulher por dá cá aquella
+palha. As visinhas tinham dó da pobre creatura sempre que ella acabava de
+apanhar a sova do estylo. «Coitada! diziam-lhe, vocemecê sempre foi muito
+infeliz com o marido que escolheu!» E ella respondia, cheia de philosophica
+resignação: «É genio d'elle, não façam caso.»</p>
+
+<p>Equivalia certamente a dizer: «É feitio da fazenda, não ha que
+extranhar.»</p>
+
+<p>Um amavel que uma vez escorrega, fica tão maltratado em sua boa fama, como
+ficaria maltratado corporalmente se tivesse caido do arco grande das Aguas
+Livres sobre as hortas da Rabicha.</p>
+
+<p>Um dia, certo cavalheiro primoroso em fallas e maneiras, inexcedivel em
+requintes de cortezia, andando adoentado de irritação intestinal, teve a
+infelicidade, estando a jogar jogos de prendas com damas, de ser elle proprio<span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span> dolorosamente surprehendido por alguma
+coisa que o vexou.</p>
+
+<p>O jogo acabou de repente, no meio de um silencio gelado. O cavalheiro
+infeliz pegou no chapéo e, esquecendo-se da bengala, deitou a correr pela
+escada abaixo.</p>
+
+<p>As damas dividiram-se em grupos, fallando ao ouvido umas das outras,
+receiosas de que alguem as ouvisse.</p>
+
+<p>Os que estavam jogando o voltarete e o <em>whist</em> perguntavam
+admirados:</p>
+
+<p>&mdash;Então acabaram tão cedo o seu divertimento!</p>
+
+<p>&mdash;Aconteceu alguma coisa?</p>
+
+<p>&mdash;Por que se foi Fulano embora tão depressa?</p>
+
+<p>E as damas calavam-se mysteriosamente, entrincheiradas n'um silencio, que só
+quebravam para cochichar ao ouvido de alguma sua amiga.</p>
+
+<p>No dia seguinte o caso espalhou-se em toda a cidade.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe o que aconteceu hontem a Fulano em casa de Fulano?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ainda não sabe!</p>
+
+<p>&mdash;Eu lhe digo...</p>
+
+<p>E dizia-lh'o ao ouvido, com tamanho mysterio, que justificava plenamente o
+pasmo com que a noticia era recebida.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!</p>
+
+<p>&mdash;Um homem tão correcto!<span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Um tão perfeito cavalheiro!</p>
+
+<p>&mdash;Que pena!</p>
+
+<p>&mdash;Que desastre!</p>
+
+<p>&mdash;Que fiasco!</p>
+
+<p>E, em verdade, o que tinha acontecido a esse primoroso cavalheiro, que não
+podesse acontecer a qualquer outra pessoa?</p>
+
+<p>Tinha deixado cair um borrão no claro estofo da sua boa fama.</p>
+
+<p>Se se tratasse de um grosseirão, toda a gente haveria dito apenas que era
+proprio da fazenda.</p>
+
+<p>Viajando em caminho de ferro, quem é que não tem encontrado um companheiro
+tão amavel, que chega a aborrecer?</p>
+
+<p>Se tem vontade de abrir uma janella, encobre este desejo com um veo de
+cortezia, e pergunta:</p>
+
+<p>&mdash;Quer a janella aberta, não é verdade?</p>
+
+<p>Se deseja fechal-a, serve-se de processo identico, sempre em nome da
+cortezia:</p>
+
+<p>&mdash;Pois não é verdade, pergunta, que desejava a janella fechada:</p>
+
+<p>Se se trata de offerecer de jantar a alguem, o amavel insta, insiste,
+persegue quasi, que é talvez a melhor maneira da gente, no caso de ter que
+acceitar por força, ir mal disposta, e comer pouco.</p>
+
+<p>&mdash;Você&mdash;dizia certo amavel a um amigo que lhe appareceu sem ser
+esperado&mdash;você janta hoje comigo sem appellação nem aggravo.<span class="pn"><a
+name="pag_134">{134}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Não posso, meu caro, o comboio parte d'aqui a meia hora, e eu tenho
+que seguir hoje viagem.</p>
+
+<p>&mdash;Que pena! que pena! Mas veja lá se póde de algum modo fazer o
+sacrificio de jantar hoje comigo...</p>
+
+<p>&mdash;Absolutamente, não posso, meu caro.</p>
+
+<p>E o amavel, tirando dois charutos da algibeira, offerece um ao seu amigo e
+procura o pretexto de ir ao interior da casa accender o outro.</p>
+
+<p>Serviu-se d'este pretexto para ir dizer alguma coisa ao cosinheiro, que
+aliás não tinha dotes de muito esperto.</p>
+
+<p>E, voltando para a sala, todo elle era perguntar ao amigo:</p>
+
+<p>&mdash;Seu pae como está?</p>
+
+<p>&mdash;Menos mal, obrigado.</p>
+
+<p>&mdash;E seu tio?</p>
+
+<p>&mdash;Esse passa peior.</p>
+
+<p>&mdash;Sinto muito. Diga-lhe que sinto muito.</p>
+
+<p>&mdash;E aquelle seu primo de Torres Novas?</p>
+
+<p>&mdash;Esse! Morreu ha um anno!</p>
+
+<p>&mdash;Não sabia! Que pena! um homem ainda tão novo!</p>
+
+<p>De repente, voltando ao offerecimento do jantar:</p>
+
+<p>&mdash;Mas, decididamente, você janta hoje comigo...</p>
+
+<p>&mdash;Não posso, meu caro, porque o comboio não dá licença.<span class="pn"><a
+name="pag_135">{135}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Eu nem mesmo sei o que tenho hoje para jantar. Mas isso sabe-se
+depressa. Ó José Maria, anda cá.</p>
+
+<p>José Maria era o cosinheiro, a quem elle havia dito de repente, quando foi
+accender o charuto:</p>
+
+<p>&mdash;Se eu logo te perguntar o que temos para jantar hoje, inventa lá
+alguma coisa grande e pomposa.</p>
+
+<p>Vem o José Maria e, de barrete branco na mão, espera que o amo o
+interrogue.</p>
+
+<p>&mdash;O que temos nós hoje para jantar, José Maria?</p>
+
+<p>E o cosinheiro, que estivera matutando na invenção de alguma coisa grande e
+pomposa, responde:</p>
+
+<p>&mdash;Saiba v. ex.ª que temos uma balea.</p>
+
+<p>Gesto de surpresa do amigo e do dono da casa.</p>
+
+<p>O cosinheiro fica atarantado, suppõe que tinha dito ainda pouco...</p>
+
+<p>&mdash;O que dizes tu, José Maria! Uma balea!</p>
+
+<p>E o cosinheiro querendo emendar a mão:</p>
+
+<p>&mdash;Duas... duas, meu senhor.</p>
+
+<p>Um homem menos amavel teria certamente evitado este fiasco das duas baleas,
+porque não se lembraria de chamar o cosinheiro como collaborador da sua
+amabilidade hospitaleira.</p>
+
+<p>E toda a gente, d'ali por diante, repetiu o caso ás gargalhadas, fazendo
+alastrar a nódoa com<span class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span> que uma tão
+distincta pessoa maculára a sua reputação de homem amavel.</p>
+
+<p>Havia um sujeito, pessoa excellente, a quem a naturesa dera como filho um
+brutamontes rebelde a todas as correcções.</p>
+
+<p>Pae e filho foram convidados a jantar fóra de casa. O filho quiz ir por
+força: o pae consentiu, com a condição de que elle fallaria o menos
+possivel.</p>
+
+<p>Á mesa, o visinho da direita disse ao rapaz:</p>
+
+<p>&mdash;O tempo está magnifico!</p>
+
+<p>Elle limitou-se a meneiar affirmativamente a cabeça.</p>
+
+<p>O visinho da esquerda disse-lhe por sua vez:</p>
+
+<p>&mdash;Que magnifico tempo!</p>
+
+<p>Elle tornou a meneiar a cabeça.</p>
+
+<p>D'ali a nada diziam os visinhos aos visinhos:</p>
+
+<p>&mdash;Este rapaz é um grosseirão!</p>
+
+<p>E o rapaz, dirigindo-se ao pae, que estava sentado defronte:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que elles já me conheceram! Posso fallar á vontade.</p>
+
+<p>O pae sorriu encolhendo os hombros, como se quizesse dizer para os outros
+convivas.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpem, isto é mesmo da fazenda.</p>
+
+<p>Desenganem-se: os amaveis teem muito mais que perder do que os grosseiros.
+E quantas vezes se arrepende uma pessoa de ser amavel, devendo ter sido
+grosseira!...<span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span></p>
+
+<h1>XVI</h1>
+
+<h2>A sepultura d'um traidor</h2>
+
+<p>Devo começar por dizer quem fosse o sr. D. Ruy, porque eu, posto a contar
+historias, tenho ainda o mau costume de começar pelo principio.</p>
+
+<p>O que faz com que seja alguma coisa massador... pelo menos.</p>
+
+<p>O sr. D. Ruy era o filho unico da fidalga da Gésteira e do morgado do mesmo
+nome.</p>
+
+<p>Sobre aquelle menino pesava uma nobreza de sete gerações, e uma riqueza
+talvez mais pesada ainda do que uma tal arvore genealogica.</p>
+
+<p>Pela sua parte, elle não precisaria ser tão nobre nem tão rico para se fazer
+estimar e adorar.</p>
+
+<p>Era, realmente, uma creança insinuante, meiga<span class="pn"><a
+name="pag_138">{138}</a></span> e intelligente, quasi nada voluntariosa apezar dos
+extremos, por vezes ridiculos, com que era tratada.</p>
+
+<p>A mãe parecia viver da vida do filho. Se elle ria, ria ella tambem; ás vezes
+adoeciam, mãe e filho, da mesma tristeza: chamava-se logo o medico para ambos,
+porque o morgado, depois de ter vivido no mundo, prescindira da sociedade que
+tanto o prendera outr'ora, para se limitar a viver para a mulher e para o
+filho, isto é, para uma só alma partida em dois corpos.</p>
+
+<p>No solar da Gésteira havia ainda uma outra pessoa, que fazia parte
+integrante da familia: era o padre João, capellão da casa.</p>
+
+<p>Padre João accumulára tambem as funcções de preceptor do sr. D. Ruy durante
+a primeira infancia do fidalguinho. Ensinara-o a lêr e a rezar. Umas vezes por
+outras fallava-lhe do sr. D. Miguel de Bragança, que, segundo elle, era o
+<em>Desejado</em> dos tempos modernos.</p>
+
+<p>Mas o sr. D. Ruy foi crescendo, e chegou um dia em que se pensou no que se
+devia fazer d'aquelle menino.</p>
+
+<p>O que havia elle de ser no mundo para melhor fazer sobresair a sua riqueza e
+a sua fidalguia?</p>
+
+<p>A mãe, no egoismo do seu amor, dizia que o melhor era não se pensar mais
+n'isso, que o sr. D. Ruy já sabia lêr o bastante... para não ser analphabeto.<span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span></p>
+
+<p>Padre João concordava com a fidalga: que sim, que a sabedoria era boa para
+os pobres.</p>
+
+<p>O morgado protestava. Elle mesmo era bacharel em direito, e queria que o
+filho o fosse.</p>
+
+<p>Vivendo amarrado ás tradições de familia, queria que o filho se graduasse em
+leis, como elle, fazendo o que seu pae fizera, tendo um cavallo para passeiar,
+como todos os estudantes nobres d'aquelle tempo, exhibindo-se, n'uma palavra,
+em toda a plenitude das regalias que uzufruiam os morgados em Coimbra.</p>
+
+<p>Padre João concordava tambem com o morgado: que sim, que o saber não ficava
+mal a ninguem.</p>
+
+<p>A morgada zangava-se, e dizia:</p>
+
+<p>&mdash;O padre João está fallando assim por comprazer com meu marido. Já lhe
+tenho ouvido dizer que a sabedoria é boa para quem não tem outra coisa.</p>
+
+<p>O bom do capellão via-se enleiado, tomava a sua pitada, rufava depois com os
+dedos sobre os joelhos:</p>
+
+<p>&mdash;Sim, quero eu dizer, minha senhora, que nem tanto ao mar nem tanto á
+terra. Uma envernizadella ao espirito não faz mal a ninguem...</p>
+
+<p>&mdash;Uma envernizadella! replicava o morgado. Mais do que isso. Uma carta
+de bacharel. Póde nascer-se morgado, sem a gente o querer; doutor é que não. O
+padre João já viu alguem nascer doutor?<span class="pn"><a
+name="pag_140">{140}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Eu, não, sr.</p>
+
+<p>&mdash;Pois se não viu, é porque para o ser é preciso estudar e saber alguma
+coisa. E a honra é tanto maior quanto o individuo, pela sua posição social,
+menos precisa das cartas de um curso para viver. Hoje os tempos mudaram, e um
+fidalgo ignorante já ninguem o toma a serio. Eu quero que meu filho vá a
+Coimbra.</p>
+
+<p>A fidalga punha os olhos no chão, ficava calada e triste.</p>
+
+<p>&mdash;Mas isso não é por ora, tornava o morgado; escusas de estar ahi a
+abalar de tristeza, Christina. Has de habituar-te pouco a pouco a viver sem o
+teu filho, como minha mãe se habituou. O habito é uma segunda natureza.
+Primeiro entrará o Ruy n'um collegio. Vamos viver para o Porto,&mdash;e olha
+que faço n'isso algum sacrificio, porque já me custa arrancar-me á vida da
+provincia. Para que elle tambem se habitue a viver sem nós, mettemol-o n'um
+collegio, no da <em>Guia</em>, por exemplo, porque tenho boas informações a
+respeito d'essa casa de educação. Iremos vel-o sempre que queiras. Pelas
+ferias, sahirá, viremos para a Gésteira, a fim de que elle possa saborear, de
+tempos a tempos, o bem estar da casa paterna, conservar as tradições de
+familia, que eu tanto prezo, e tu tambem.</p>
+
+<p>De sahir da Gésteira, de deixar o seu querido Minho, é que padre João não
+gostava;<span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span> mas, chamado a conselho pelo
+morgado, não tinha remedio senão concordar.</p>
+
+<p>Finalmente, resolveu-se que o sr. D. Ruy iria para o collegio da
+<em>Guia</em> estudar preparatorios.</p>
+
+<p>Os fidalgos da Gésteira sahiram para o Porto, e arrendaram casa, uma bella
+casa de trez andares, na rua de Santa Catharina.</p>
+
+<p>A fidalga queria ficar perto do collegio,&mdash;o mais perto possivel.</p>
+
+<p>Marcou-se o dia em que o sr. D. Ruy devia entrar no collegio. O director, o
+Daniel Navarro, tinha ordem de se não poupar a despezas para amenizar a
+iniciação do joven collegial. Esse dia, era uma segunda feira. Mas no domingo á
+noite a fidalga chorou tanto, que o morgado achou prudente deixar passar mais
+alguns dias.</p>
+
+<p>Por sua parte, o sr. D. Ruy estava um pouco vacillante entre as saudades da
+mãe e o desejo de entrar no collegio. Um dia o pae levara-o lá. Era á hora em
+que os alumnos estavam no <em>recreio</em>: todos elles pareciam alegres, riam,
+vozeavam, corriam pelas ruas da quinta, jogavam as escondidas, baloiçavam-se no
+trapesio. Aquillo não lhe desagradou; demais a mais o Navarro fizera-lhe muita
+festa, foi mostrar-lhe as aulas, os dormitorios, a casa de jantar, e
+disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que isto não é mau.<span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span></p>
+
+<p>E o sr. D. Ruy sorrira, sentira-se forte, imaginava que se havia de dar bem
+ali, com os outros, brincando como elles.</p>
+
+<p>Mas ao chegar a casa, chorára vendo a mãe, e ella chorára tambem, abraçada
+n'elle.</p>
+
+<p>&mdash;Bem! dissera do lado o pae, tu não desgostaste, pois não é
+verdade:</p>
+
+<p>O sr. D. Ruy, com os olhos chorosos, meneára affirmativamente a cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Então entrarás segunda feira... está dito!</p>
+
+<p>E passára a mão pela face da fidalga, afagando-a.</p>
+
+<p>&mdash;É que se o rapaz ainda não vae d'esta vez, disséra, fica sendo o D.
+Sebastião do collegio da <em>Guia</em>. Eu não quero que os outros lhe ponham
+alcunhas, que ficam depois para toda a vida.</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu, replicára a fidalga com vivacidade.</p>
+
+<p>A ideia de que seu filho poderia ter uma alcunha, ser chamado o <em>D.
+Sebastião</em> do collegio, sobresaltára-a. E desde logo protestou a si mesma
+que o <span class="errata" title="no original: deixaria na primeira">deixaria ir na primeira</span> segunda feira.</p>
+
+<p>&mdash;Ó mamã, dissera o pequeno, sabe que numero eu vou ter no collegio?</p>
+
+<p>&mdash;Qual?</p>
+
+<p>&mdash;Sou o 416.</p>
+
+<p>Esta novidade, o facto de ir ser o 416, agradava-lhe. Era uma variante á
+monotonia do seu<span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span> tratamento habitual.
+Toda a gente lhe chamava D. Ruy, o sr. D. Ruy, mas d'ali em diante iam
+chamar-lhe o 416. Que bom!</p>
+
+<p>No domingo, o morgado tornou a levar o filho ao collegio. Quando entravam,
+os rapazes sahiam arregimentados. Iam ouvir missa á Lapa, e depois dariam um
+passeio até Paranhos. O morgado disse ao prefeito que tambem os acompanharia,
+para habituar o filho á sua nova vida de collegial.</p>
+
+<p>Na egreja da Lapa, emquanto esperavam pela missa, o sr. D. Ruy fez relações
+de amisade com um rapaz, filho de um fidalgo da casa de Villa Pouca, em
+Guimarães. Era o 86. O sr. D. Ruy gostou d'elle, e gostou de se vêr tratado
+familiarmente&mdash;por 416, apenas.</p>
+
+<p>Veio para casa contar á mãe o que tinha feito. Estava enthusiasmado. E a
+segunda feira tardava-lhe. A mãe alegrou-se um pouco da alegria do filho. Pela
+manhã lavou-o, penteou-o, ella mesma, chorando umas vezes, sorrindo outras,
+soffrendo e amando.</p>
+
+<p>Padre João foi com o morgado acompanhar o 416. A fidalga veiu para a
+janella. Chorava. Chegára finalmente o momento terrivel, que ella temia tanto.
+Mal viu o filho na rua, limpou as lagrimas, procurou sorrir. O sr. D. Ruy ia
+bem disposto, sentia-se forte, disse adeus á mãe sem chorar, mas á esquina da
+rua, quando a janella ia desapparecer, o valoroso 416 voltou-se<span class="pn"><a
+name="pag_144">{144}</a></span> ainda uma vez para traz, e limpou duas lagrimas ao
+canhão da jaqueta.</p>
+
+<p>É que, por muito leviano que se seja quando se é creança, sempre se tem
+consciencia de que uma mãe faz muita falta.</p>
+
+<p>O 416 deu boa conta de si no collegio da <em>Guia</em>. De dia, as aulas e o
+recreio absorviam-lhe a attenção; á noite, nos primeiros tempos,
+arrasavam-se-lhe sempre os olhos de lagrimas, quando, antes de adormecer,
+pensava na mãe. Faltavam-lhe os beijos d'ella, que se inclinava sobre o leito a
+compor-lhe a almofada, e a conchegar-lhe a roupa. A cabeça de Christina tomava
+então o aspecto de uma aza protectora. O 416, no collegio, enrolava-se no
+lençol, soluçando, e adormecia assim, rezando ao anjo da guarda, como padre
+João lhe ensinára. Mas, pela manhã, a disciplina escolar não lhe dava occasião
+para pensamentos tristes: era saltar da cama e começar a lide.</p>
+
+<p>Ao cabo do primeiro mez, o 416 já adormecia melhor.</p>
+
+<p>Como as suas relações com o 86 se houvessem estreitado cada vez mais, faziam
+ambos projectos para as ferias da Paschoa. O 416 levaria para a Gésteira o seu
+condiscipulo: já estavam solicitadas as respectivas licenças. Não havia duvida
+nenhuma. Fariam um Judas logo que lá chegassem. Houve apenas uma pequena
+divergencia, entre os dois amigos, sobre o modo<span class="pn"><a
+name="pag_145">{145}</a></span> como vestiriam o Judas. O 86 queria que fosse de
+veterano. O 416 preferia um fato de hespanhol&mdash;com as respectivas
+castanhetas. A sua opinião venceu, com uma simples modificação: as castanhetas
+seriam substituidas por um pandeiro.</p>
+
+<p>Padre João, n'uma visita ao collegio, disse que o fato de hespanhol não era
+proprio para Judas; que seria melhor vestil-o de judeu. Os dois collegiaes não
+quizeram saber d'isso, e o 416 encarregou o capellão de lhe comprar um fato de
+hespanhol, que o padre foi desencantar na rua de Santo Antonio, n'um
+guarda-roupa de carnaval.</p>
+
+<p>Imagine-se a alegria com que todos partiram para a Gésteira! A morgada
+parecia ter a idade do filho: ria, fallava, apoiava calorosamente os projectos
+dos dois collegiaes sobre a queima do Judas, que devia ser espaventosa.</p>
+
+<p>Na caixa do trem ia muito fogo de artificio para recheiar o apostolo...
+castelhano. Dentro da barriga tinham os dois amigos combinado pôr-lhe uma
+bomba, que devia rebentar como uma peça de artilheria. Na cabeça, outra bomba:
+o chapeu devia ir parar a casa do diabo.</p>
+
+<p>Logo que chegaram á Gésteira, trataram de fazer o Judas. O arcabouço era de
+palha. Vestiram-lhe as pantalonas castelhanas, a jaqueta de alamares;
+ataram-lhe a faixa encarnada. Pozeram-lhe uma caraça de andaluz, e um
+sombrero<span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span> com debrum de velludo preto. As
+mãos eram duas luvas de algodão com recheio de palha; na esquerda tinha um
+pandeiro, e na direita a saca dos trinta dinheiros. Por um artificio sabiamente
+imaginado, a saca do dinheiro devia, quando se puxasse por um arame, bater no
+pandeiro, e fazel-o soar. Na bôca um charuto: era uma granada envolvida em
+folha de tabaco. Nos pés, esporas de lata, com polvora dentro.</p>
+
+<p>O Judas ficou n'um vasto telheiro que, dentro do pateo, se encostava ao muro
+da quinta.</p>
+
+<p>O machinismo do pandeiro e da saca dos trinta dinheiros, invenção do 86,
+levara muito tempo, e dera muito trabalho, de modo que só foi possivel
+acabal-o, á luz de lanternas, na sexta feira á noite. O Judas, finalmente
+prompto, estava de papo ao ar, no chão, hirto, inchado, apopletico. Pela manhã,
+os meninos levantar-se-hiam muito cedo para assistir á empalação.</p>
+
+<p>Depois... só restava pegar-lhe fogo.</p>
+
+<p>De madrugada, uma criada da casa fôra ao moinho buscar uns sacos de farinha,
+que trouxe n'uma jumenta. Descarregou a farinha e enxotou a jumenta para o meio
+do pateo, emquanto foi acondicionar os sacos na cosinha.</p>
+
+<p>Não se lembrou a estupida de que o Judas era de palha, e de que as jumentas
+comem palha... ainda mesmo quando lh'a não sabem dar.</p>
+
+<p>A jumenta, de focinho baixo, foi procurando<span class="pn"><a
+name="pag_147">{147}</a></span> o que havia pelo telheiro. Vendo o Judas deitado no
+meio do chão, começou, desconfiada, a ladeal-o, mas, por fim, investiu com
+elle. Cheirou-lhe a palha, e com uma dentada esgarçou-lhe o peitilho da camisa.
+Achou dentro a palha, e começou a comer. Trazia fome. Tinha ido para o moinho
+de madrugada, e lá, emquanto esperava pela moedura, apenas poderá traçar com os
+dentes umas hervitas, de modo que aquelle almoço inesperado soube-lhe bem.</p>
+
+<p>Quando os meninos se levantaram, correram ao telheiro. Do Judas... restava
+apenas a parte castelhana, isto é, o fato:, mas os intestinos tinham
+desapparecido.</p>
+
+<p>Proromperam n'um choro atroador as duas creanças. Os morgados, os criados,
+acudiram todos. As lamentações dos dois collegiaes eram sentidissimas,
+clamorosas. E a burra, indifferente a tudo o que se passava, continuava a
+procurar com o focinho alguma cousa, na esperança de encontrar outro Judas.</p>
+
+<p>N'um momento de cólera, o 86 e o 416 pegaram cada qual no seu fueiro, e
+começaram a desancar a jumenta. Levou muita lambada; até o padre João, para
+lisonjear os meninos, lhe dera um pontapé na trazeira, dizendo: Que grande
+burra esta!</p>
+
+<p>Mas ella, com o falso apostolo na barriga, parecia ter a consciencia de que
+um traidor não merecia sepultura melhor.<span class="pn"><a
+name="pag_148">{148}</a></span></p>
+
+<h1>XVII</h1>
+
+<h2>A caminho do Alemtejo</h2>
+
+<p>Ha pouco mais de um mez, passava eu na linha do sueste com destino ao
+Alemtejo. Tinhamos atravessado o rio com muito vento; havia vaga. O ceu estava
+carrancudo; promettia chuva. O vento apressava-a. Na ponte do Barreiro, uma
+grande corda de agua principiára a cahir. Corremos todos para as
+carruagens;&mdash;foi um verdadeiro <em>sauve qui peut</em>.</p>
+
+<p>O comboyo partira e a chuva continuava a cahir. Uma inverneira pegada. Eu
+sentia-me somnolento, cabeceava. Na estação de... (sejamos discretos) sentindo
+correr uma vidraça na carruagem immediata, espertei. Uma voz, n'um tom
+agaiatado de rapazote de escola, disse: E a cabrinha? E a cabrinha?</p>
+
+<p>O chefe da estação, um homem velho, de bigode branco, olhou de repente para
+a carruagem<span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span> d'onde a voz partira. Havia
+ficado visivelmente aborrecido, mas continuára fazendo o seu serviço. De
+instante a instante, ao passo que a voz repetia&mdash;E a cabrinha?&mdash;elle
+resmungava.</p>
+
+<p>Ao cabo de pouco tempo a campainha dera o signal da partida. No momento em
+que o comboyo largava, uma voz, mais vozes disseram: E a cabrinha? E a
+cabrinha?</p>
+
+<p>O que se passou não sei, mas n'uma das estações seguintes procurei occasião
+de perguntar ao meu visinho, que se apeiára, o que aquillo queria dizer.</p>
+
+<p>O rapazote, que teria quando muito dezeseis annos, explicou-me.</p>
+
+<p>Aquelle chefe tinha uma cabrinha de muita estimação, que lhe dava magnifico
+leite para o almoço. Mas a cabrinha, que era toda meiguice com a dona,
+mostrava-se pouco affeiçoada ao dono. Um dia, por um motivo qualquer, a mulher
+do chefe da estação teve de ausentar-se; o marido ficou, desempenhando as
+funcções do seu cargo.</p>
+
+<p>Quando chegou a hora do almoço, o chefe tratou de chamar a cabrinha para
+mungil-a. Isso sim! A cabrinha fugia, e o pobre homem resignou-se a tomar o seu
+café sem leite. Não gostou, e tratou de afagar a cabra para que ella se
+mostrasse menos extranha e rispida. Qual historia! No outro dia a mesma
+comedia, elle a chamar a cabra com as suas melhores maneiras,<span class="pn"><a
+name="pag_150">{150}</a></span> e ella a fugir d'elle como o demonio foge da cruz.</p>
+
+<p>O pobre homem deu tratos á imaginação para resolver o problema, em que elle
+e a cabra entravam como factores.</p>
+
+<p>O que havia de fazer? Demais a mais o café sem leite estava-lhe fazendo mal
+ao estomago, e a cabra não promettia tornar-se mais amavel do que até ahi se
+havia mostrado.</p>
+
+<p>Depois que os comboyos passavam, elle fechava a porta da estação, e dois
+pensamentos atrozes o preoccupavam: a mulher e a cabra.</p>
+
+<p>O que havia de fazer? pensava e tornava a pensar.</p>
+
+<p>Até que uma noite teve uma idéa luminosa, salvadora. Adormeceu mais
+tranquillamente, saboreando mentalmente a delicia de tornar a almoçar café com
+leite.</p>
+
+<p>Pela manhã, quando acordou, vestiu um vestido da mulher, poz na cabeça um
+lenço d'ella. Foi chamar a cabra, e a cabra veiu immediatamente, fazendo-lhe
+festa.</p>
+
+<p>Estava resolvida a difficuldade, a cabra deixava-se mungir; o bom homem
+endoidecia de contentamento.</p>
+
+<p>N'isto, um silvo terrivel ouve-se a pequena distancia. Era o comboyo, mas em
+que occasião, santo Deus!</p>
+
+<p>O pobre chefe estava vestido de mulher, de saia e lenço. Um dilemma
+implacavel se lhe<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span> apresentava: apparecer
+tal como estava ou faltar.</p>
+
+<p>Mas faltar seria um delicto muito grave, um motivo para demissão. N'isto o
+comboyo chegava... E o chefe da estação apparecia na plataforma, mascarado de
+mulher, a dar ordens no desempenho do seu cargo.</p>
+
+<p>Os passageiros riram a bom rir. O caso divulgou-se, espalhou-se ao longe, e
+agora é raro o dia em que passe um comboyo sem que alguem pergunte ao chefe da
+estação noticias da cabrinha...</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&mdash;Já não ha salteadores no Alemtejo! dizia eu para um dos meus
+companheiros de viagem. Que falta que me faz um assalto, de que eu precisava
+escapar... para o contar depois!</p>
+
+<p>E elle referia-me casos tenebrosos de antigos salteadores alemtejanos, do
+José da Costa e do <em>Chapeu de ferro</em>, dois faccinoras, dois monstros,
+que viveram n'um tempo em que ainda se podia ser litterato.</p>
+
+<p>O José da Costa fôra ha doze ou quinze annos o terror das terras interpostas
+a Alcochete e Setubal. Desertor de lanceiros, andava a monte, zombando das
+auctoridades e da policia. Era um heroe terrivel, um homem sanguinario, uma
+lenda viva. Uma noite, encontrára o caseiro da<span class="pn"><a
+name="pag_152">{152}</a></span> quinta de Algeruz, e mandára-o apeiar do cavallo que
+montava. O caseiro obedecera immediatamente, e o faccinora dissera-lhe,
+passando-lhe a mão pela cara:</p>
+
+<p>&mdash;Anda lá, anda, segue teu caminho.</p>
+
+<p>O caseiro cavalgou de novo, dispunha-se a partir, quando José da Costa lhe
+tornou a dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Apeia-te outra vez.</p>
+
+<p>E passando-lhe a mão pela cara:</p>
+
+<p>&mdash;Ajoelha-te.</p>
+
+<p>O caseiro ajoelhou.</p>
+
+<p>&mdash;Por esta vez, vae-te embora.</p>
+
+<p>O caseiro montou, e José da Costa, deitando a mão ás redeas do cavallo,
+exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Apeia-te, e ajoelha.</p>
+
+<p>E pondo-lhe a mão na cabeça e nas faces:</p>
+
+<p>&mdash;Vae com Deus ou com o diabo!</p>
+
+<p>O caseiro estava muito disposto a partir protegido por qualquer dos dois,
+quando o José da Costa lhe apostrophou:</p>
+
+<p>&mdash;Torna a descer, que to mando eu.</p>
+
+<p>E o caseiro desceu do cavallo.</p>
+
+<p>&mdash;Ajoelha.</p>
+
+<p>E o caseiro ajoelhou.</p>
+
+<p>&mdash;Monta agora.</p>
+
+<p>E o caseiro montou.</p>
+
+<p>E depois, vendo-o em cima do cavallo, atirou-o a terra com um tiro.</p>
+
+<p>&mdash;Coitado! disse, tornando a passar-lhe a<span class="pn"><a
+name="pag_153">{153}</a></span> mão pela cabeça inanimada, já devias estar cançado de
+montar e desmontar!</p>
+
+<p>De uma vez, José da Costa teve seus dares e tomares com um hespanhol pimpão.
+Travou-se a lucta braço a braço, e o faccinora parecia não levar a melhor.</p>
+
+<p>De repente, José da Costa grita para o hespanhol:</p>
+
+<p>&mdash;Olha quem ahi vem! Foge!</p>
+
+<p>Não vinha ninguem. O hespanhol, voltou-se e o faccinora feriu-o pelas
+costas.</p>
+
+<p>Foi na venda de Algeruz que José da Costa poude ser preso.</p>
+
+<p>Fecharam-lhe a porta á traição, cercaram a casa, e foram buscar a Setubal
+uma força militar, de que foi commandante o governador Cunha, ha annos
+fallecido.</p>
+
+<p>Mas dentro da taberna haviam ficado trez ou quatro homens, que não poderam
+sahir a tempo, e o José da Costa, vendo-se apanhado no laço, ia-os esfaquendo
+para saciar a sede de sangue.</p>
+
+<p>Os feridos gritavam de dentro, o povo gritava de fóra, a força havia
+chegado, estava de armas mettidas á cara, e de repente, por uma das janellas da
+casa, uma coisa saltára para a charneca. Mas os soldados, percebendo o que era,
+não descarregaram.</p>
+
+<p>José da Cosa havia atirado para fóra um cortiço, fingindo que era elle
+proprio que saltava, na esperança de que os soldados disparassem,<span class="pn"><a
+name="pag_154">{154}</a></span> e elle podesse fugir entretanto, são e salvo.</p>
+
+<p>Então, baldados todos os recursos, entregou-se á prisão.</p>
+
+<p>O <em>Chapéu de ferro</em> infestava ahi por 1860 e tantos as
+circumvisinhanças de Beja.</p>
+
+<p>Uma vez matara um homem n'um <em>monte</em>, como quem diz um casal, e
+obrigára a mulher da victima a aparar-lhe o sangue n'um alguidar.</p>
+
+<p>Dois rapazitos, e um d'elles é hoje um cavalheiro altamente collocado,
+sahiam, em férias, de Beja para a sua terra natal.</p>
+
+<p>Um homem de grandes barbas espessas appareceu-lhes na charneca.</p>
+
+<p>&mdash;Quem são vocês? perguntou-lhes.</p>
+
+<p>&mdash;Somos estudantes.</p>
+
+<p>&mdash;E eu, sabem quem eu sou?</p>
+
+<p>&mdash;Não sabemos.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu sou o <em>Chapéu de ferro</em>.</p>
+
+<p>&mdash;O <em>Chapéu de ferro</em>! exclamaram horrorisados.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, eu sou o <em>Chapéu de ferro</em>, e deixo-os ir em paz. Talvez
+<em>quizessem</em> que eu os matasse, dois creançolas!<span class="pn"><a
+name="pag_155">{155}</a></span></p>
+
+<h1>XVIII</h1>
+
+<h2>A mulher</h2>
+
+<p>Desde o paraiso terreal até hoje, não tem <span class="errata" title="no original: havido acontecimentos">havido acontecimento</span> de polpa em
+que não figure a mulher. Os francezes dizem «<em>Cherchez la femme</em>». O que
+significa que a mulher anda sempre mettida em todas as endrominas d'este
+mundo.</p>
+
+<p>Ora, desde que principiou a desenvolver-se na imprensa o panorama
+escandaloso do Panamá, admirado estava eu de que não tivesse apparecido ainda
+como actriz ou como comparsa, como figurante de qualquer genero, uma mulher
+pelo menos.</p>
+
+<p>Já tinha tido tentações de lembrar á França que o seu proverbio falhára...
+pela primeira vez. Eis senão quando o proverbio triumpha, agora como sempre. No
+caso do Panamá apparece uma mulher, madame Cottu, e a sabedoria da França salva
+os seus creditos, emfim.<span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span></p>
+
+<p>Decididamente, a mulher, quer a emancipem quer não, tenha voto ou não tenha
+voto, ha de ser, na successão dos seculos, a eterna collaboradora do homem em
+todos os casos da vida.</p>
+
+<p>E visto que isto tem de acontecer por força, convém a cada homem escolher o
+typo de collaboradora que mais lhe agrade, especialmente para as emprezas em
+que o agrado é tudo.</p>
+
+<p>Deverá escolher-se a mulher pequena. Será essa, como typo do sexo, a que
+mais póde encantar os olhos de quem a vê?</p>
+
+<p>É certo que os antigos diziam: «A mulher e a sardinha quer-se pequenina.» A
+pequenina, a <em>mignone</em>, d'estas em que se póde pegar ao collo, e
+passeial-as sem cançar os braços, é, em verdade, um ser gracioso, que conserva,
+até mesmo na velhice, o que quer que seja de infantil, de ar alegre de
+boneca</p>
+
+<p>E de mais a mais dizia um philosopho, não sei qual, um philosopho apologista
+de mulheres pequenas: «Do mal o menos».</p>
+
+<p>Mas a verdade é que as nulheres altas, elegantes, fortes, se não são tão
+commodas para trazer ao collo, dão margem a que os olhos de quem as contempla
+possam saturar-se de bello sexo, demorando-se a miral-as da cabeça até aos
+pés.</p>
+
+<p>É como se a gente estivesse a olhar ao longo de terras vastas, de uma
+paizagem dilatada, com um horisonte amplo, infinito, em que<span class="pn"><a
+name="pag_157">{157}</a></span> sempre, por mais que se olhe, ha alguma coisa para vêr
+de novo.</p>
+
+<p>Outro philosopho&mdash;porque sobejam, graças a Deus! philosophos para
+tudo&mdash;costumava dizer que a mulher alta era a mais apreciavel de todas,
+visto que não tinha o coração ao pé da boca.</p>
+
+<p>Feia? Deverá ser feia a mulher? Não falta quem seja d'esta opinião. Não ha
+mulher feia que não possua pelo menos uma qualidade estimavel. A natureza
+mostrou-se principalmente sabia e justa nas compensações.</p>
+
+<p>Vê a gente ás vezes um homem loucamente apaixonado por uma mulher que a nós
+nos parece feia.</p>
+
+<p>Sempre que isto acontece, é para desconfiar que exista uma compensação, uma
+qualidade, que esse homem, tendo visto melhor que nós, conseguiu descobrir.</p>
+
+<p>De mais a mais, nada ha tão vehemente, tão vulcanico como o amor das feias.
+Tendo pouco quem as requeste, poupam o paiol do coração, de modo que o seu
+primeiro amor é como que uma explosão do Vesuvio.</p>
+
+<p>No olhar amoroso de uma feia ha sempre um discurso enthusiasta, que póde
+stenographar-se do modo seguinte.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigada, bravo e heroico cavalheiro! que esgrimes
+denodadamente contra o preconceito da belleza, e que reunes á coragem o
+talento,<span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span> porque só tu foste capaz de
+descobrir a belleza na fealdade, a compensação que a natureza me concedeu.
+Saber que uma mulher é bella, quando ella realmente o seja, não engrandece o
+espirito de ninguem. Basta, para isso, não ser cego. Mas vêr uma obra de arte,
+a que todos acham defeitos, e descobrir-lhe a unica qualidade boa que possua,
+chega a ser brilhante, a ser glorioso, ó nobre, ó bravo, ó excepcional
+cavalheiro! A ti, a minha eterna dedicação!</p>
+
+<p>Ora este discurso, pronunciado por dois oradores ao mesmo tempo, isto é,
+pelos olhos de uma mulher, faz impressão no espirito de um homem, envaidece-o,
+lisonjeia-o, acaba por subjugal-o.</p>
+
+<p>E assim se póde explicar de certo a rasão por que as feias vão tendo
+despacho e consumo.</p>
+
+<p>Estão no caso das feias, as velhas.</p>
+
+<p>Não me refiro a uma antiguidade verdadeiramente gothica, nem me proponho
+sustentar que um homem deva casar-se com a sé de Braga.</p>
+
+<p>Mas Balzac fez, como se sabe, o elogio da mulher de trinta annos, e eu, na
+minha obscuridade, acho que é essa uma boa conta para ponto de partida.</p>
+
+<p>Trinta annos! obra acabada, paredes solidas, pavimentos seguros, um predio
+capaz de resistir<span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span> a um terremoto!
+Magnifico! Já passou a epoca das pieguices, dos amuos, dos caprichos de
+creança. Nada de esboços, de linhas indecisas: obra a que a natureza acabou já
+de dar os ultimos retoques! Excellente!</p>
+
+<p>Entre os trinta e os quarenta toda a mulher se encontra na situação das
+feias, ainda que tenha sido formosissima.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigada pela distincção que o cavalheiro me concede! parece
+dizerem os seus olhos amorosos. Ha por ahi tantas meninas interessantes, tantas
+rosinhas em botão, tantas flôres frescas e mimosas, e o cavalheiro por todas
+passou sem as cobiçar! Realmente, sinto-me captivada... Mas deixe estar que não
+hade arrepender-se. Saberei amal-o como duas meninas, pelo menos: uma, que já
+fui, outra, que torno a ser, remoçada pelo seu amor.</p>
+
+<p>E a fim de trazer sempre o homem satisfeito e entretido, toda ella é
+coração, toda ella se dispende em lembranças mimosas, enviando ao cavalheiro
+flôres para a lapella e rebuçados para o peito.</p>
+
+<p>Contou Julio Cesar Machado, uma vez, que certa quarentona, soffrega de amar,
+tomára um trem para n'um dia de primavera, cheio de estimulos e effluvios, ir
+dar um passeio ao Campo Grande.</p>
+
+<p>Pelo caminho, o coração trasbordava-lhe do peito, expandia-se, mas,
+infelizmente, não havia<span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span> um homem que
+quizesse ter a heroicidade de amal-a.</p>
+
+<p>Quando chegou ao Campo Grande, no momento de apeiar-se, já com o pé no
+estribo, reparou nos olhos do cocheiro, que eram bonitos, expressivos.</p>
+
+<p>E deixando-se cair para fóra, de modo a que o cocheiro tivesse a ideia de
+amparal-a carinhosamente, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Amo-te, José Traquitana!</p>
+
+<p>Julio Cesar Machado deixou neste ponto a historia, mas é de presumir que a
+dama, acceitando as consequencias da sua allucinação, viesse a tranformar esse
+cocheiro n'um marido grato e discreto, com tacto para a vida, visto que havia
+principiado por ter boa mão de rédea.</p>
+
+<p>Deverá preferir-se a mulher formosa?</p>
+
+<p>É decerto a que mais agrada no primeiro momento, porque a vida é uma serie
+de illusões, e a formosura a mais grata das illusões.</p>
+
+<p>Lá disse o padre Vieira: «O que é a formosura senão uma caveira bem
+vestida?» Mas, emquanto está bem vestida, agrada, attrae, fascina.</p>
+
+<p>Todavia, se se pensa um momento, receia-se...</p>
+
+<p>A mulher formosa agrada tanto ao que a possue, como aos outros. Tem esse
+perigo, que constitue um sobresalto permanente.<span class="pn"><a
+name="pag_161">{161}</a></span></p>
+
+<p>E depois o que a possue não póde de certo esquivar-se a pensar com os seus
+botões, á medida que a belleza se vae apagando: «Quem te viu e quem te vê!»</p>
+
+<p>Se a mulher vale só pela formosura, faltando-lhe a graça, a bondade, uma
+qualidade de valor, emfim, o que quasi sempre acontece graças á theoria das
+compensações, essa mulher é, já o disse alguem, um livro que uma vez lido, não
+tem mais que lêr.</p>
+
+<p>Deve procurar-se uma mulher de bom genio?</p>
+
+<p>Uma mulher de inalteravel bom genio parece feita de açorda, é uma espécie de
+<em>menu</em> sem surprezas, uma permanente dieta, em que o espirito não passa
+de servir-se todos os dias uma aza de frango, como se fosse um doente.</p>
+
+<p>Não irrita, mas não vivifica. Não esfria, mas não aquece. Quando um homem
+chega a festejar as suas bodas de prata, não tem que dizer aos outros senão
+isto: «Meus senhores, tenho passado vinte e cinco annos da minha vida n'uma paz
+podre, que me sabe a gallinha cozida.»</p>
+
+<p>Se a mulher tem mau genio, se tem nervos, deve isso ser desagradavel para o
+marido algumas vezes, mas nada ha que possa lisonjear tanto o espirito de um
+homem como vêr uma mulher, que tem a vocação da guerra, offerecer-lhe um
+beijo... de paz! Oh! é glorioso<span class="pn"><a name="pag_162">{162}</a></span> para um
+vencido acceitar o ramo de oliveira que lhe offerece o vencedor!</p>
+
+<p>Deverá ser rica? Para passar a vida, é bom que seja rica a mulher. Mas não
+deixa isso de vexar um pouco o marido, se toda a riqueza veiu d'ella. Quando um
+marido em taes condições manda pôr o trem, sente-se engasgado como se tivesse
+de dizer: «O José, manda pôr o coupé da senhora.» Se vae ao theatro, ao
+entregar o bilhete ao porteiro, a consciencia grita-lhe que deveria dizer, a
+querer ser sincero: «Abra o camarote da senhora!»</p>
+
+<p>Oh! deve ser horrivel!</p>
+
+<p>Pobre? E se a mulher é pobre? Dá isso pena a um marido que sinceramente a
+estime. «Aqui está, dirá elle comsigo mesmo, uma mulher a quem eu quizera
+proporcionar todos os regalos, todas as commodidades de uma princeza, e comtudo
+só poderei offerecer-lhe este mez um vestido de percale.» De modo que a
+independencia de que um tal marido gosa junto de sua mulher, e aguada pelo
+desgosto de a não poder felicitar tanto quanto desejava.</p>
+
+<p>É difficil a escolha! concluirá o leitor. Com effeito assim é. Difficilima,
+acrescentarei eu. Mas ha talvez um meio de illudir a dificuldade da escolha: é
+amal-as a todas indistinctamente, para, com o auxilio da experiencia, escolher
+depois a melhor... se houver tempo para isso.<span class="pn"><a
+name="pag_163">{163}</a></span></p>
+
+<h1>XIX</h1>
+
+<h2>O carnaval...</h2>
+
+<p>Já contei ha alguns annos a historia carnavalesca do Felix Telles, de
+Estarreja.</p>
+
+<p>Mas vou reedital-a, para que se torne tão conhecida quanto o merece a mais
+interessante e a mais veridica historia que o carnaval de Lisboa tem produzido,
+desde que a caraça é caraça.</p>
+
+<p>Felix Telles, boa pessoa, com seus laivos de patuscão, vivia no solar de um
+fidalgo de Estarreja, na qualidade de professor aposentado dos meninos da
+casa.</p>
+
+<p>De vez em quando vinha a Lisboa a pretexto de visitar o irmão e sobrinhos do
+fidalgo de Estarreja. Agradava-lhe essa patuscada, que o distraía da monotonia
+das arvores e da vida da aldeia.</p>
+
+<p>Assim foi que um anno, pelo carnaval, elle disse ao fidalgo:<span class="pn"><a
+name="pag_164">{164}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Meu senhor, se v. ex.ª se não oppozer, vou a Lisboa pregar uma
+partida real a seu mano e sobrinhos.</p>
+
+<p>&mdash;Então que intenta você fazer, ó Felix?</p>
+
+<p>&mdash;Uma partida de carnaval, que passo a expôr a V. ex.ª Ámanhã de manhã
+tomo o comboio descendente. Chego a Lisboa das oito para as nove horas da
+noite. O mano de v. ex.ª é certo, com toda a sua familia, n'um camarote da
+Trindade, segundo o costume. Logo que eu chegar, vou hospedar-me no <em>Hotel
+Alliance</em> para me lavar e descançar. Á meia noite pouco mais ou menos,
+mando um criado do hotel alugar um dominó preto ao Cruz da rua Larga de S.
+Roque. Dirijo-me em seguida ao theatro da Trindade, vou direito ao camarote
+onde estiver a familia de v. ex.ª e proponho-me intrigal-a, com casos certos,
+durante uma boa hora. Quando eu lhe fallar de certas coisas, toda a familia
+arderá em curiosidade, dará tratos á imaginação para descobrir quem eu seja.
+Mas não poderão lembrar-se de mim por me supporem em Estarreja. Á saida do
+theatro tomarei as minhas precauções para não ser seguido nem conhecido. De
+manhã metto-me outra vez no comboio, e á noite estarei aqui a ceiar e a rir do
+caso com v. ex.ª É ou não é, ex.<sup>mo</sup> senhor, uma partida real?</p>
+
+<p>&mdash;Pyramidal! meu caro Felix Telles. Applaudo com enthusiasmo. Vá
+deitar-se, visto que<span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span> tem de fazer
+madrugada. Mas que boa partida! Eh! eh! ria o morgado, esfregando as mãos de
+contente.</p>
+
+<p>Foi dali o fidalgo para o seu escriptorio e, a rir comsigo mesmo, redigiu o
+seguinte telegramma:</p>
+
+<p>«Felix Telles chega ahi hoje noite para intrigar-te theatro Trindade. Dominó
+preto, alugado Cruz. Vai Hotel Alliance. Prepara-te para ataque. Segredo.»</p>
+
+<p>Depois chamou o seu criado particular, disse-lhe que logo pela manhã fosse
+ao telegrapho expedir aquelle telegramma, recommendando-lhe a mais completa
+reserva.</p>
+
+<p>No comboio descendente, Felix Telles tomava effectivamente logar n'uma
+carruagem de primeira classe, e saboreava mentalmente o prazer da sua
+aventura.</p>
+
+<p>Entretanto o irmão do morgado, o visconde de ***, recebia em Lisboa o
+telegramma, e chamava o escudeiro para dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Esta noite estarás em Santa Apolonia á chegada do comboio. N'uma
+carruagem, que segundo o costume será de primeira classe, hade vir o sr. Felix
+Telles, que tu conheces muito bem. Seguil-o-has, sem que te veja. Se tomar um
+trem, toma tu outro. Deve apeiar-se á porta do Hotel Alliance. Ahi, logo que
+chegue ou pouco depois, dará ordem ao criado para que lhe vá buscar ao
+guarda-roupa do<span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span> Cruz, na rua Larga de S.
+Roque, um dominó preto. Esperarás os acontecimentos parado em frente do hotel.
+Certificar-te-has se effectivamente sae do Alliance um homem de dominó preto.
+Esse homem será o sr. Felix Telles. Logo que elle saia, tomar-lhe-has
+dianteira, correrás ao theatro da Trindade. Encostados á casa do bengaleiro
+estarão os meninos e, quando o sr. Felix Telles entrar, dir-lhes-has: É este.
+Entendeste:</p>
+
+<p>&mdash;Perfeitamente, sr. visconde. Esteja v. ex.ª certo de que saberei dar
+conta do recado.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem.</p>
+
+<p>No seu quarto, os filhos do visconde escreviam sobre uma larga tira de papel
+branco, em garrafaes lettras pretas, o seguinte lettreiro: «<em>Sou o Felix
+Telles de Estarreja.</em>» E riam estrepitosamente, com aquelle grande bom
+humor que se perde para todo o sempre depois que os dezoito annos passam...</p>
+
+<p>O criado do visconde desempenhou-se da sua missão de confiança ás mil
+maravilhas.</p>
+
+<p>Felix Telles chegava ao theatro da Trindade quando já os filhos do visconde,
+postos atraz do guarda-vento, se preparavam para pregar-lhe nas costas a grande
+tira de papel branco.</p>
+
+<p>Esta operação, aliás difficil, foi feita com perfeita delicadeza.</p>
+
+<p>As pessoas que presencearam tudo isto, casquinaram uma estrondosa
+gargalhada, que Felix<span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span> Telles não
+percebeu. E logo muitas vozes, umas accentuadamente masculinas, outras
+feminilmente esganiçadas, começaram a gritar n'uma surriada d'opereta, emquanto
+o dominó preto passava:</p>
+
+<p>&mdash;Olha o <em>Felix Telles de Estarreja</em>!</p>
+
+<p>O homem estremeceu dentro do seu dominó, debaixo da sua mascara.</p>
+
+<p>E sujeitos de chapeu de côco, creanças de bisnaga em punho,
+<em>pastorinhas</em> vestidas de gaze côr de rosa, <em>vivandeiras</em> de
+cantil a tiracollo, caíam sobre elle com o peso d'uma troça implacavel.</p>
+
+<p>&mdash;Olha o <em>Felix Telles de Estarreja</em>!</p>
+
+<p>Elle voltava-se para surprehender o denunciante em flagrante delicto de
+bisbilhotice, não conhecia ninguem, suava, tressuava, perguntava a si proprio
+se teria enlouquecido, e então os esguichos, as gargalhadas, os gritos
+recrudesciam n'um <em>crescendo</em> atroador.</p>
+
+<p>De repente, no salão, o visconde, de braços abertos, um riso epigrammatico
+nos labios, postado deante do dominó, saudava-o com a terrivel apostrophe, que
+se repercutia nos eccos da sala:</p>
+
+<p>&mdash;Ó Felix Telles, que diabo de lembrança foi a sua!</p>
+
+<p>E elle, o Felix Telles, desesperado, hydrophobo, apopletico, respondeu-lhe
+na sua voz natural, cheio de raiva, de colera:<span class="pn"><a
+name="pag_168">{168}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ora deixe-me, que não sou eu!</p>
+
+<p>E saiu, saiu acompanhado até á porta do theatro por este grito terrivel,
+insistente, perseguidor:</p>
+
+<p>&mdash;Tu és o <em>Felix Telles de Estarreja</em>!</p>
+
+<p>E no conjuncto de todas essas vozes irritantemente causticas, atrozmente
+mordentes, elle distinguiu perfeitamente as vozes dos filhos do visconde que
+gritavam:</p>
+
+<p>&mdash;Ó Felix Telles, venha cá!...</p>
+
+<p>Entrando no <em>Hotel Alliance</em>, Felix Telles despiu de repellão o
+dominó, deixou-o ficar sobre o tapete do quarto, disse brutalmente ao criado
+que se fosse embora, que o deixasse em paz, que o chamasse a tempo de sair no
+comboio da manhã, e que se não esquecesse de mandar entregar depois o dominó ao
+Cruz, com mais dez tostões que elle deixaria sobre a banquinha.</p>
+
+<p>Pela manhã, pagou rapidamente a sua conta, pousou sobre a banquinha os dez
+tostões para o Cruz, e saiu.</p>
+
+<p>Quando á noite chegou a Estarreja, já um telegramma do visconde para o irmão
+o havia precedido.</p>
+
+<p>&mdash;Então? perguntou-lhe o morgado o mais seriamente que poude.</p>
+
+<p>&mdash;Então! respondeu Felix Telles. Aquillo é ainda uma aldeia peior do
+que Estarreja! toda a gente me conheceu logo que lá cheguei!<span class="pn"><a
+name="pag_169">{169}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Não é possivel!</p>
+
+<p>&mdash;Tão possivel como eu ter ouvido gritar de todos os lados, a todas as
+pessoas, que aquelle dominó preto era o Felix Telles de Estarreja!</p>
+
+<p>&mdash;Conhecel-o-íam pelo andar?</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei lá, sr. morgado! Conheceram-me por tudo, não se ouvia senão o
+meu nome n'uma berrata que me ensurdecia!</p>
+
+<p>Trez dias depois, o morgado chamava ao seu escriptorio o Felix Telles e
+perguntava-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Onde foi que você despiu o dominó preto?</p>
+
+<p>&mdash;No <em>Hotel Alliance</em>.</p>
+
+<p>&mdash;E não viu no dominó preto alguma cousa branca?</p>
+
+<p>&mdash;Só se fosse o forro... Mas não reparei.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu lhe posso dar algumas explicações, que façam luz sobre o
+caso.</p>
+
+<p>Felix Telles esbugalhava os olhos attento, curioso.</p>
+
+<p>&mdash;Não viu um papel branco pregado nas costas do dominó preto?</p>
+
+<p>&mdash;Não vi!</p>
+
+<p>&mdash;Aqui o tem, pois&mdash;dizia o morgado desdobrando cautelosamente uma
+tira de papel enrugado, rasgado, que o visconde mandára pedir ao <em>Hotel
+Alliance</em> e lhe tinha remettido pelo correio.</p>
+
+<p>E elevando-o á altura dos olhos de Felix Telles, mostrou-lh'o.<span class="pn"><a
+name="pag_170">{170}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;<em>Sou o Felix Telles de Estarreja</em>! dizia o papel.</p>
+
+<p>O pobre homem estava passado, assombrado.</p>
+
+<p>&mdash;Mas então!... exclamou elle caindo em si.</p>
+
+<p>E o morgado respondeu-lhe com uma gargalhada estrondosa, ao mesmo tempo que
+todas as pessoas da casa acudiam á porta do escriptorio a rir, a rir...<span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span></p>
+
+<h1>XX</h1>
+
+<h2>O chapeu</h2>
+
+<p>Perguntaram a uma tricana do norte para que servia o chapelinho, do tamanho
+de uma avellã, que coroava os seus fartos cabellos negros.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! exclamou ella ironica e desdenhosamente. Serve para pôr e
+tirar...</p>
+
+<p>Realmente, é para isto que serve o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e
+o seu feitio, mas, principalmente pelo que respeita ao sexo masculino, que de
+responsabilidades andam ligadas ao simples facto de pôr e tirar o chapeu!...</p>
+
+<p>Custa pouco isso, tiral-o ou pôl-o, coisa é que se faz n'um momento, e
+comtudo nada ha que possa ter mais serias consequencias do que pôr o chapeu
+quando se devia tirar, ou tiral-o quando se devia pôr.<span class="pn"><a
+name="pag_172">{172}</a></span></p>
+
+<p>Não é so no theatro, durante os espectaculos, que pôr ou tirar o chapeu é um
+facto que pertence aos dominios do formulario social. Mas no theatro, visto que
+se está entre uma sociedade menos numerosa, dá isso mais nas vistas, e se um
+espectador conserva o chapeu na cabeça, depois do panno subir, todos os outros
+começam a gritar: Peu! peu! Se o tira, mas parece reconsiderar tornando a
+pol-o, como que tem isso o proposito de querer irritar os outros espectadores,
+e então sobe de ponto a gritaria dos que mandam desbarretar o insolente.</p>
+
+<p>Ha já muitos annos, no theatro da rua dos Condes, appareceu n'um camarote de
+segunda ordem um grupo de patuscos que vinham das hortas, bem comidos e bem
+bebidos,&mdash;bem bebidos, sobretudo.</p>
+
+<p>Não se lembraram ou não quizeram tirar o chapeu, e o publico indignou-se,
+começou, de cara no ar, a gritar, a berrar para que se descobrissem.</p>
+
+<p>Assistia ao espectaculo, com alguns amigos, o Moita e Vasconcellos, então
+jovialissimo rapaz, mais tarde conselheiro e chefe de repartição no ministerio
+das obras publicas,&mdash;o pobre Moita que tão desgraçado morreu!</p>
+
+<p>Pareceu-lhe boa occasião de tirar partido do conflicto, e foi bater á porta
+do camarote dos patuscos.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é? perguntaram de dentro.<span class="pn"><a
+name="pag_173">{173}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;A auctoridade, respondeu o Moita e Vasconcellos.</p>
+
+<p>Abriu-se a porta do camarote, e o Moita, tomando o ar grave de um
+representante da lei, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Isto que se está passando é uma pouca vergonha! Pagaram ou não
+pagaram os senhores o seu camarote?</p>
+
+<p>&mdash;Pagamos, sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Pois se pagaram, podem estar como quizer, comtanto que não offendam a
+moral publica. Tanto monta ter o chapeu na cabeça como não ter. Isso não
+offende a lei nem a moral. O dever da auctoridade é proteger os direitos de
+cada um, disse e saiu com a mesma seriedade.</p>
+
+<p>Os do camarote, fortes com o apoio da lei, pozeram os chapeus na cabeça e
+despiram os casacos.</p>
+
+<p>Imagine-se a gritaria que n'esse momento irrompeu da platéa e dos outro
+camarotes! A inferneira cresceu a tal ponto, que a verdadeira auctoridade teve
+de intervir, e os patuscos tiveram de ceder, não podendo dizer ao certo se a
+embriaguez lhes haveria feito vêr a auctoridade em duplicado ou se neste paiz
+tudo andava tão fóra dos eixos, que havia duas auctoridades, uma para mandar
+pôr o chapeu, outra para o mandar tirar...</p>
+
+<p>N'alguns espectaculos tem acontecido que o<span class="pn"><a
+name="pag_174">{174}</a></span> publico se arroga o direito de mandar pôr ou tirar o
+chapeu, sem se importar com a intervenção das auctoridades, e sem que mesmo as
+auctoridades se atrevam a intervir.</p>
+
+<p>N'uma tourada de Badajoz appareceu uma vez um sujeito de chapeu alto. O
+publico, logo que elle entrou, começou a gritar-lhe em côro:</p>
+
+<p>&mdash;Que quite el sombrero!</p>
+
+<p>O homem quiz resistir, mas acabou por ceder. Tirou o chapeu. N'isto começou
+o publico a gritar, sempre em côro:</p>
+
+<p>&mdash;Que ponga el sombrero!</p>
+
+<p>E o homem, ao cabo de alguns momentos de hesitação, teve que pôr o chapeu,
+para depois o tornar a tirar, para ter que o pôr outra vez e para ter que
+tiral-o de novo...</p>
+
+<p>Na rua ha maior liberdade de acção, o facto de pôr ou tirar o chapeu escapa
+ao dominio do publico; mas por isso mesmo que ha maior liberdade de acção, ha
+maior responsabilidade no facto em relação á pessoa a quem é dirigido.</p>
+
+<p>Basta deixar de tirar o chapeu para cortar pela raiz, de um momento para
+outro, uma longa amisade de muitos annos. E assim, porque o chapeu ficou na
+cabeça, ficaram separadas moralmente duas pessoas.</p>
+
+<p>Tirar o chapeu fóra de proposito, tiral-o de mais ou tiral-o de menos, póde
+ter consequencias analogas, como se tome esse acto por troça,<span class="pn"><a
+name="pag_175">{175}</a></span> por baixesa de caracter ou por desconsideração.</p>
+
+<p>Tiral-o á mesma pessoa umas vezes, e não o tirar outras vezes, é caso para a
+pessoa, que umas vezes é cumprimentada e outras não, pensar no que deve
+fazer.</p>
+
+<p>Eu adoptei para este caso uma linha de procedimento. Se uma pessoa me
+cumprimenta uns dias por outros, hoje sim, ámanhã não, se me cumprimenta aqui e
+não me cumprimenta acolá, porque está acompanhada de melhor ou de peior
+sociedade, essa pessoa passa a fazer-me o effeito de um realejo, que me diverte
+proporcionando-me occasião de trautear esta popularissima trova:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Quando eu quiz, não quizeste,<br>
+ Tiveste opinião;<br>
+ Agora queres, não quero,<br>
+ Tenho minha presumpção.</p>
+</blockquote>
+
+<p>O chapeu impõe deveres de normal cortezia, a que é preciso attender sem
+exagero para mais ou para menos.</p>
+
+<p>Nada ha tão aborrecido como o excesso de cortezia em que um chapeu póde
+incorrer estando fóra da cabeça quando devia conservar-se no seu logar. Um
+estadista portuguez, a quem um seu antigo protegido acompanhava de chapeu na
+mão por toda a parte, chegou a dizer n'um momento de desespero:&mdash;«Muito me
+incommoda a gratidão!»<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span></p>
+
+<p>Da gente de Lisboa escreveu o quinhentista Prestes:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>... e de Lisboa se sêa<br>
+ Que todos lá são honrados,<br>
+ Que de pessoa a pessoa<br>
+ Se fallam desbarretados.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Mas Francisco Manuel de Mello poz á cortezia dos lisboetas seus justos
+limites quando disse:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Um fallar com tanto geito,<br>
+ Um ditinho de repente.<br>
+     Que affeiçôa:<br>
+ <em>Um ter em tudo respeito</em>,<br>
+ Ai! mate-me Deus com a gente<br>
+     De Lisboa.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Ter em tudo respeito,&mdash;eis a questão. <span class="errata" title="no original: E como">É como</span> se dissesse: ter conta em
+tudo. Respeito por os outros e por nós mesmos, até no cumprimentar!</p>
+
+<p>Ha pessoas que caem no defeito contrario áquelle, e que em vez e gastar a
+aba do chapeu, apenas gastam o dedo com que lhe tocam. É pouco. Se um só dedo
+podesse bastar a alguem para uso proprio ou alheio, a sábia natureza não nos
+haveria dado cinco dedos em cada mão.</p>
+
+<p>Quando a gente, não sendo militar, se vê cumprimentada d'esse modo, dá-lhe
+vontade de responder ao dedo com o braço todo,&mdash;para se mostrar
+generosa!<span class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span></p>
+
+<p>O presidente de não sei que estado americano, passeiava um dia na praça
+publica, vestido á paisana, com o seu ajudante de campo ao lado.</p>
+
+<p>Passou por elle um escravo, e cumprimentou-o. O presidente tirou-lhe o
+chapeu, e seguiu seu caminho. Mas quiz parecer-lhe que o ajudante achou que
+elle cumprimentára de mais para um escravo. Voltou-se e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Não quero que possa haver n'este paiz alguem mais bem educado do que
+eu!</p>
+
+<p>Isto percebe-se, e é logico. Fazer apenas meia dose de cumprimento, não é
+cumprimentar, é vexar, porque se lembra á pessoa cumprimentada a sua
+inferioridade.</p>
+
+<p>Ainda ha uma cousa peior talvez do que dispensar sómente meia dóse de
+cumprimento:&mdash;é exigir que lhe dispensem dóse dobrada.</p>
+
+<p>Certo fidalgo costumava deixar ficar de chapeu na mão as pessoas que lhe
+fallavam. Um dia, na rua larga de S. Roque, passou um sujeito a quem repugnou
+vêr outro desbarretado deante do fidalgo, que o não mandava cobrir. Chegou ao
+pé dos dois, tocou no hombro do que estava descoberto, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Póde pôr o chapeu na cabeça, que este senhor dá licença.</p>
+
+<p>Se algum dos dois devia agradecer não era o desbarretado, mas o fidalgo,
+porque estava fazendo peior figura...<span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span></p>
+
+<p>Ter em tudo respeito, ter conta em tudo, eis o caso.</p>
+
+<p>Chega a gente a sentir-se enjoada de vêr um sujeito que cumprimenta a torto
+e a direito para dentro de todos os trens que passam&mdash;ha n'isto
+verdadeiros especialistas&mdash;e que se agarra a um cabello para ter o
+pretexto de se tornar <em>snob</em> dos machuchos.</p>
+
+<p>Mas não enjôa por certo menos vêr outros sujeitos que põem todo o seu
+orgulho na aba do chapeu, imaginando que a aba do seu chapeu é a continuação do
+firmamento.</p>
+
+<p>Acima d'elles, só Deus, e ás vezes nem Deus... que não conhecem!</p>
+
+<p>De tudo quanto completa a <em>toilette</em> do homem é com certeza o chapeu
+o que lhe impõe maiores responsabilidades, o que o approxima ou affasta mais
+dos outros homens, o que o póde definir melhor na sua individualidade moral, o
+que o póde tornar mais estimavel e o que tambem o póde comprometter mais.</p>
+
+<p>E tudo isto por que?</p>
+
+<p>Porque o chapeu, como disse a tricana do norte, serve para pôr e para
+tirar.</p>
+
+<p>E em saber pôl-o a tempo e tiral-o a proposito é que está o buzilis.</p>
+
+<p>Pouco importa que o chapeu seja pequeno e a cabeça grande, que o chapeu seja
+grande e a cabeça pequena. Não está n'isso a harmonia entre o homem e o chapeu,
+mas sim no<span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span> uso conveniente ou
+inconveniente que d'elle se faz.</p>
+
+<p>Quando a gente, ao sair de casa, põe o chapeu na cabeça, é como se pozesse
+ao sol o forro de si mesmo,&mdash;as suas ideias, os seus sentimentos, a sua
+educação, o seu caracter.</p>
+
+<p>Ha chapeus que vão dizendo de cima da cabeça: «Cá vae este tolo, que não
+conhece os conhecidos».</p>
+
+<p>Ha outros chapeus que, aborrecidos da roda-viva em que andam, parecem gritar
+a cada momento: «Cá vae este tolo, que até conhece os desconhecidos!»</p>
+
+<p>Ainda ha outros chapeus que parecem muito contentes do acerto com que são
+tratados pelo dono, e em cuja copa a gente cuida lêr esta divisa: «Nem de mais,
+nem de menos».</p>
+
+<p>Já repararam em que o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e feitio,
+parece variar de peso em certas occasiões e, especialmente, de pessoa para
+pessoa?</p>
+
+<p>O mesmo chapeu, se a gente está de animo opprimido, parece pesar mais que de
+costume.</p>
+
+<p>Um pretendente, fallando uma vez com Antonio Rodrigues Sampaio, começou por
+dizer-lhe, visto que n'esse momento lhe parecia ser de chumbo a aba do
+chapeu:</p>
+
+<p>&mdash;Muito custa, sr. conselheiro, andar a gente por aqui de chapeu na
+mão!</p>
+
+<p>E Sampaio, que tinha soffrido e trabalhado<span class="pn"><a
+name="pag_180">{180}</a></span> como poucos, respondeu de prompto obrigando-o a
+cobrir-se:</p>
+
+<p>&mdash;Pois ponha-o na cabeça, e diga o que quer.</p>
+
+<p>Dois sujeitos compram chapeu da mesma fórma e no mesmo chapeleiro.</p>
+
+<p>A um d'elles o chapeu como que brinca sobre a cabeça, inclinando-se
+requebrado n'um bolero permanente. É que a cabeça anda alegre e communica ao
+chapeu, que se sente leve, a vontade de foliar.</p>
+
+<p>A outro o chapeu vae-lhe descendo insensivelmente até ás orelhas, dando
+mostras de querer enterrar-se por desgostoso. É que a cabeça pegou-lhe as
+scismas em que anda martellando no silencio do espirito.</p>
+
+<p>Tão certo é, meus senhores, que o chapeu revela o homem:&mdash;o chapeu é o
+estylo de toda a gente, incluindo a que não tem estylo.<span class="pn"><a
+name="pag_181">{181}</a></span></p>
+
+<h1>XXI</h1>
+
+<h2>Os antipodas</h2>
+
+<p>Ha pessoas tão infelizes, que julgam que a sua propria infelicidade não terá
+fim.</p>
+
+<p>Ha melancolicos para quem a esperança não accende um unico raio de sol, tão
+entranhadamente elles se entregam á melancolia.</p>
+
+<p>Ha pobretões que desanimam de ser remediados algum dia, tão pouca fé lhes
+vivifica o coração.</p>
+
+<p>É para todos estes que eu escrevo hoje, mandando-lhes n'uma anecdota um
+ensinamento moral, que póde, por um momento ao menos, arrancal-os aos seus
+pensamentos sombrios, tiral-os, por um instante que seja, do inferno da sua
+desesperança e entremostrar-lhes o ceu...</p>
+
+<p>O padre-mestre Fanhões tambem se arrepellava, teimosamente incredulo, quando
+o seu collega Liborio pretendia demonstrar-lhe que<span class="pn"><a
+name="pag_182">{182}</a></span> na esphera terrestre havia habitantes que, em relação
+aos de meridianos e parallelos oppostos, se chamavam antipodas, porque se
+achavam collocados de modo que os pés de uns estavam voltados contra os pés de
+outros.</p>
+
+<p>Padre-mestre Fanhões não o podia crêr e desgostava-se d'isso, visto que toda
+a gente acreditava na existencia dos antipodas, menos elle.</p>
+
+<p>&mdash;Não me fio! dizia de si para comsigo. Como é possivel que, estando
+nós n'um hemispherio de cabeça para cima, possa haver gente que se equilibre de
+cabeça para baixo no outro hemispherio?!</p>
+
+<p>Por mais que matutasse no caso, acabava sempre por dar razão a si proprio, e
+negal-a ao collega Liborio.</p>
+
+<p>&mdash;Ora imaginem, insistia elle, uma laranja, porque a terra tem
+approximadamente, segundo se diz, a fórma de uma laranja. Ponho a laranja sobre
+um prato e colloco-lhe facilmente na casca da metade superior um ou dois grãos
+de milho; mas se quizer collocal-os na metade inferior, claro está que não
+terei meio de segural-os. Cairão por força! Pois com os habitantes da terra ha
+de dar-se a mesma cousa. Que nos aguentemos de cabeça para cima, percebe-se;
+mas que haja outros que se aguentem de cabeça para baixo, não me entra no
+miolo. O Liborio é um asno, que acredita em todos os carapetões!<span class="pn"><a
+name="pag_183">{183}</a></span></p>
+
+<p>E o padre-mestre, ensinando o seu latim aos rapazes, interrompia-se muitas
+vezes para dizer-lhes a proposito de cousa nenhuma:</p>
+
+<p>&mdash;Nos antipodas é que eu não acredito! Não póde ser!</p>
+
+<p>Os rapazes davam-lhe razão, não só porque n'essas occasiões o padre-mestre
+os apoquentava menos no latim, mas tambem porque elles proprios não tinham
+grande convicção na tal historia dos antipodas, gente que devia viver pendurada
+pelos pés, em permanente gymnastica.</p>
+
+<p>Tirante a caturreira dos antipodas, padre-mestre era uma excellente pessoa,
+um sacerdote exemplar, muito respeitador das leis da egreja e dos preceitos da
+Bulla da Santa Cruzada.</p>
+
+<p>Ás sextas-feiras comia-se sempre de magro em sua casa: os rapazes já
+contavam com o bello bacalhau n'aquelle dia.</p>
+
+<p>Elle proprio, o bom padre-mestre, o ia escolher á tenda nas quintas-feiras
+de tarde. Trazia-o para casa, escondido debaixo do capote. Dava-o a vêr á
+criada.</p>
+
+<p>&mdash;Que era de primeira ordem, approvava ella, o melhor que podia ser!</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, Gertrudes, vae atar-lhe uma corda e pôl-o a dessalgar no
+poço.</p>
+
+<p>Dito e feito. A Gertrudes pendurava o bacalhau, e mergulhava-o no poço até
+ao meio dia seguinte.<span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span></p>
+
+<p>Succedia algumas vezes que o padre-mestre Fanhões se encontrava n'esses
+dias, na botica, com o seu collega Liborio e, como sempre, discutiam o eterno
+thema, a eterna teima dos antipodas.</p>
+
+<p>&mdash;Que não! que não podiam existir! exclamava decisivamente o
+padre-mestre.</p>
+
+<p>Não havia argumento convincente que o Liborio não empregasse; mas o
+padre-mestre, muito casmurro e auctoritario, cortava a questão dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Ha duas cousas que eu sei perfeitamente: a primeira é que tenho
+ámanhã bacalhau para o jantar; a segunda é que essa tal historia dos antipodas
+não tem pés nem cabeça.</p>
+
+<p>Ora succedia que na sexta-feira pela manhã, quando a Gertrudes ia tirar o
+bacalhau do poço, o encontrava sempre reduzido a menos de metade; estava
+ratado, comido.</p>
+
+<p>O que seria, o que não seria?!</p>
+
+<p>&mdash;É gato que desce pela corda, alvitrava o padre.</p>
+
+<p>&mdash;Isto não é dente de gato! ponderava acertadamente a Gertrudes.</p>
+
+<p>E, realmente, fizeram a seguinte descoberta: que não podia ser gato de casa,
+porque o não tinham, e não podia ser gato de fóra, porque os muros do quintal
+eram muito altos, e estavam eriçados de cacos de garrafa.</p>
+
+<p>&mdash;Será elle rato de agua, ó Gertrudes?!<span class="pn"><a
+name="pag_185">{185}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Nada, sr. padre-mestre, isto menos póde ser dente de rato.</p>
+
+<p>&mdash;Olha, dente de coelho é que é com toda a certeza, porque por mais que
+a gente puxe pelo miôlo não sabemos o que seja!</p>
+
+<p>A Gertrudes achava mais uma vez graça a este dito do padre-mestre, sempre
+repetido, e na sexta-feira seguinte, quando ia tirar o bacalhau do poço,
+encontrava-o roido em metade.</p>
+
+<p>Os alumnos do padre-mestre tinham inventado esta patuscada do bacalhau e,
+graças a ella, passavam em cautelosa folia as noites das quintas-feiras.</p>
+
+<p>Eram elles, os diabretes! que, depois de estarem certos de que o
+padre-mestre dormia, e de que a Gertrudes ressonava, desciam pé-ante-pé ao
+quintal, e, içando o bacalhau, cortavam e comiam grandes lascas.</p>
+
+<p>Se lhes dessem uma ceia de <em>foie-gras</em> talvez não gostassem tanto. O
+bacalhau roubado tinha para elles o sabor do fructo prohibido, a que servia de
+aperitivo a chalaça de o irem buscar ao poço com o sobresalto de ratoneiros que
+temem ser presentidos.</p>
+
+<p>Padre-mestre dava em doido, o caso já o ia intrigando tanto como a historia
+dos antipodas.</p>
+
+<p>Um dia chamou de parte o mais intelligente dos seus discipulos de latim, e
+contou-lhe o que estava acontecendo com o bacalhau.<span class="pn"><a
+name="pag_186">{186}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;O que será? perguntou candidamente o padre-mestre.</p>
+
+<p>&mdash;Ao certo não sei, respondeu o estudante. Mas talvez...</p>
+
+<p>&mdash;Talvez?</p>
+
+<p>&mdash;Pode muito bem ser que o comam os antipodas.</p>
+
+<p>&mdash;Lá vens tu com a fabula dos antipodas! Não creias n'isso, rapaz!</p>
+
+<p>&mdash;Ó sr. padre-mestre, pois se todos os sabios dizem que sim, por que
+rasão havemos nós de pôr em duvida o que elles affirmam! De mais a mais vossa
+senhoria tem meio de averiguar a verdade. Sexta-feira pela manhã debruce-se no
+poço, ponha-se á espreita, que talvez os apanhe com a boca na botija.</p>
+
+<p>&mdash;No bacalhau é que tu queres dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, no bacalhau.</p>
+
+<p>&mdash;Pois olha que hei de tomar o teu conselho. Na sexta-feira eu proprio
+irei tirar o bacalhau do poço para desenganar-me.</p>
+
+<p>Póde calcular-se o que os estudantes ririam uns com os outros á espera da
+sexta-feira, que n'aquella semana parecia não chegar nunca, tão anciosamente
+elles a esperavam.</p>
+
+<p>Mas, arrastadamente, a sexta-feira chegou, e o padre-mestre foi em pessoa
+buscar o bacalhau.</p>
+
+<p>Ao debruçar-se no poço, deu um grande grito.<span class="pn"><a
+name="pag_187">{187}</a></span></p>
+
+<p>A Gertrudes correu á janella:</p>
+
+<p>&mdash;O que é, sr. padre-mestre? perguntou</p>
+
+<p>&mdash;Eu vi um homem no fundo do poço, respondeu elle assaralhopado. E
+assim que me endireitei para gritar, fugiu.</p>
+
+<p>&mdash;Atire-lhe uma pedra, sr. padre-mestre, aconselhou um dos estudantes,
+que tambem tinham acudido.</p>
+
+<p>O padre-mestre pegou n'um calhau e atirou-o para o fundo do poço. A agua
+turvou-se, de modo que, por mais que elle se debruçasse espreitando, não tornou
+a vêr homem nenhum,&mdash;isto é, não podia vêr-se a si proprio.</p>
+
+<p>&mdash;E o bacalhau está inteiro? perguntou outro rapaz</p>
+
+<p>&mdash;Vamos vêr isso.</p>
+
+<p>O padre-mestre deu-se pressa em içar a corda.</p>
+
+<p>Faltava metade ao bacalhau.</p>
+
+<p>&mdash;Ora agora, sr. padre-mestre, disse-lhe o estudante que primeiro o
+havia aconselhado, já vossa senhoria não póde duvidar da existencia dos
+antipodas, porque os viu.</p>
+
+<p>&mdash;E é verdade que vi um!</p>
+
+<p>&mdash;Mas o que fez elle quando vossa senhoria appareceu á beira do
+poço?</p>
+
+<p>&mdash;Ora o que faz um gatuno quando alguem o apanha com a boca na
+botija?</p>
+
+<p>&mdash;No bacalhau, sr. padre-mestre, emendou o estudante.<span class="pn"><a
+name="pag_188">{188}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;No bacalhau ou na botija. Fugiu! Pois o que havia elle de fazer, o
+patife?!</p>
+
+<p>&mdash;Vossa senhoria reparou se elle trazia casaco?</p>
+
+<p>&mdash;Trazia, sim, lá isso ainda eu pude vêr.</p>
+
+<p>&mdash;Está provado então que os antipodas vestem como nós. E vossa senhoria
+que não queria acreditar n'elles!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! Ninguem póde dizer: d'esta agua não beberei. Vou confessar
+o meu erro ao collega Liborio.</p>
+
+<p>E foi. O collega Liborio estava na aula a ensinar geographia aos rapazes.</p>
+
+<p>O padre-mestre chamou por elle em altos berros. O Liborio veiu á porta vêr
+que afflicção era aquella. Era o padre-mestre, que lhe gritou:</p>
+
+<p>&mdash;Não ha duvida, não senhor; Você tem razão n'aquillo dos antipodas!</p>
+
+<p>&mdash;Porque, ó padre-mestre?</p>
+
+<p>&mdash;Porque eu vi um.</p>
+
+<p>&mdash;Viu um!</p>
+
+<p>&mdash;Vi-o com estes que a terra hade comer.</p>
+
+<p>&mdash;E onde é que o viu?</p>
+
+<p>&mdash;No fundo do meu poço!</p>
+
+<p>Assim é em tudo o mais.</p>
+
+<p>Por muito escura que seja a vida, e basta que seja tão negra como o fundo de
+um poço, por mais teimosa na sua descrença que seja uma alma, e basta que o
+seja tanto como a do padre-mestre<span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span>
+Fanhões, chega sempre um dia em que se vê ou se cuida vêr aquillo que jámais se
+reputava visivel: realidade ou illusão.</p>
+
+<p>Melhor é que seja a realidade, ao contrario do que aconteceu com o
+padre-mestre. Mas se fôr illusão, isso basta ás vezes, n'um mundo em que a
+maior parte das cousas são illusorias, para sentir a alma menos propensa á
+duvida e ao desalento.</p>
+
+<p>O padre-mestre julgou vêr um antipoda, e morreu na fé de que elles
+existiam,&mdash;por isso. O collega Liborio, em vez de vêr os antipodas no
+fundo do poço, via-os nos compendios de geographia e nos globos. Nem por se ter
+convencido mais depressa logrou ter maior convicção de que o padre-mestre desde
+aquelle dia. E ambos chegaram ao mesmo fim por caminhos diversos. Mas, com
+quanto um se atrazasse na jornada, ambos chegaram, e o essencial na vida é
+chegar... alguma vez!<span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span></p>
+
+<h1>XXII</h1>
+
+<h2>As uvas</h2>
+
+<p>Outubro: todos os lavradores tratam de apurar o resultado das vindimas.</p>
+
+<p>Quantas pipas de vinho tiveram? A como as venderão? Eis as questões que
+principalmente os preoccupam.</p>
+
+<p>São, pois, as uvas que estão ainda em scena no grande palco da vida rural,
+tablado sombrio e melancolico desde que o phyloxera começou a roer os
+bastidores feitos de pampanos e latadas, outr'ora verdejantes e opulentos de
+seiva.</p>
+
+<p>As uvas, disse-o algures Julio Cesar Machado, são o vinho em pilulas.
+Deliciosas e saborosas pilulas, que não precisam ser doiradas com assucar como
+as da botica!...</p>
+
+<p>Um dia, certo medico, que punha muito gosto em falar com distincção,
+aconselhou um dos seus doentes a tomar umas pilulas amargas<span class="pn"><a
+name="pag_191">{191}</a></span> que, para não repugnarem, precisavam ser envolvidas
+n'uma substancia doce.</p>
+
+<p>&mdash;Tome-as n'um vehiculo qualquer, recommendou o medico.</p>
+
+<p>Ora em pharmacia a palavra vehiculo é synonimo de excipiente, isto é, a
+substancia em que se encorporam ou dissolvem os medicamentos, para lhes
+mascarar o sabor, para diminuir o seu principio activo ou ainda para lhes dar
+uma fórma conveniente.</p>
+
+<p>No dia seguinte vem o medico, e não encontra o doente em casa. Mostra-se
+profundamente surprehendido e contrariado.</p>
+
+<p>&mdash;Onde está elle?!</p>
+
+<p>&mdash;Saiu.</p>
+
+<p>&mdash;Saiu?! Que imprudencia, santo Deus!</p>
+
+<p>&mdash;Mas foi V. ex.ª que mandou...</p>
+
+<p>&mdash;Eu?!</p>
+
+<p>N'isto ouve-se parar á porta uma carruagem. Era o doente, pallido e tremulo,
+que regressava a casa.</p>
+
+<p>&mdash;O que fez o senhor?! perguntou o medico.</p>
+
+<p>&mdash;Saí de carruagem.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que loucura foi essa?!</p>
+
+<p>&mdash;Pois V. ex.ª não me disse que tomasse as pilulas n'um
+<em>vehiculo</em> qualquer! Tomei-as de carruagem...</p>
+
+<p>Com as pilulas de vinho, tão doces são! não pódem dar-se d'estes equivocos,
+pois que não<span class="pn"><a name="pag_192">{192}</a></span> precisam
+vehiculo&mdash;assucar ou carruagem&mdash;para engulir-se com agrado.</p>
+
+<p>Perde-se na noite do cahos a origem da vinha e do seu fructo saboroso.</p>
+
+<p>Segundo a Biblia, Noé foi o inventor da arte de fazer vinho e, por tal
+signal, que aprendeu á sua custa, empiteirando-se sem o querer. Segundo a
+mythologia, foi Baccho o primeiro viticultor, e o que é certo é que nós ainda
+hoje, quando carregamos nos tropos, dizemos muitas vezes&mdash;o deus
+Baccho&mdash;em vez de vinho.</p>
+
+<p>Mas quem sabe lá qual foi ao certo o primeiro homem que cultivou a vinha e
+bebeu o sumo das uvas! De mais a mais a vinha não foi arvore que Deus
+prohibisse, como a do <em>bem e do mal</em>. Não, senhores, a cultura da vinha
+foi livre desde o principio do mundo, e então, que me conste, não se vendia o
+vinho por decilitros. O systema metrico decimal é, acho eu, muito posterior á
+origem do mundo... Cada um podia beber o que quizesse. Que delicia, o principio
+do mundo!</p>
+
+<p>Pois não serei eu que me proponha estudar a origem do vinho, para não
+incorrer no ridiculo d'aquelle sabio que, tratando de descobrir o inventor do
+jogo do <em>voltarete</em>, ficou capacitado de que tinha sido... Voltaire.</p>
+
+<p>Ha poucos dias li n'uma obra interessantissima, a viagem de Pyrard ás Indias
+Orientaes, que o duque de Alba, tendo tomado a cidade<span class="pn"><a
+name="pag_193">{193}</a></span> de Haerlem, na Hollanda, mandou fazer n'ella execuções
+tão crueis, que ha quem derive d'ahi o proverbio <em>fazer arlem</em>, de onde
+veiu, por corrupção, fazer <em>arlia</em> ou <em>arrelia</em>.</p>
+
+<p>Pois nem Francisco Pyrard, nem Cunha Rivara, que commungou esta opinião,
+eram dois insignificantes.</p>
+
+<p>Pareceu-me forçada a derivação e contando-a a um homem de espirito, disse-me
+elle:</p>
+
+<p>&mdash;Eu estou convencido do contrario. Sabe vossê que Jacob só muito
+contrariado casou com Lia. Por isso, é natural que a não tratasse bem.
+Obrigava-a a trabalhar, sem que ella podesse e, como n'esse tempo todos os
+homens eram grosseiros, dizia-lhe a cada momento: <em>Arre, Lia</em>. D'aqui é
+que veiu certamente a locução...</p>
+
+<p>Tem graça, e caracterisa a facilidade com que os sabios inventam origens.</p>
+
+<p>Sempre me ha de lembrar o caso d'aquelles dois distinctos archeologos que,
+n'uma serra de Portugal, encontraram certa pedra tosca com estas duas lettras
+gravadas: C. M.</p>
+
+<p>Discutiram, investigaram, até que um cantoneiro lhes disse:</p>
+
+<p>&mdash;Essa pedra foi mandada ahi pôr ha muitos annos pela senhora <em>camara
+municipal</em>.</p>
+
+<p>Ficaram de cara á banda, os sabios.</p>
+
+<p>A mim, a respeito da vinha, não me ha de acontecer outro tanto. Tiro o meu
+chapeu á<span class="pn"><a name="pag_194">{194}</a></span> antiguidade da cepa, e passo
+adeante. Mas como as uvas, e bebo o vinho. No estado de civilisação em que nos
+encontramos hoje, é o melhor que temos a fazer.</p>
+
+<p>Sem embargo, tambem gosto de olhar para ellas, principalmente se são
+brancas, graciosamente tocadas pela luz em cada bago, o que faz o desespero dos
+pintores.</p>
+
+<p>Só um soube até hoje igualar-se ao Creador na reprodacção das uvas. Foi
+Zeuxis, diz a lenda. Os passaros, enganados por uma tão perfeita similhança,
+vieram bicar os cachos. Parrhasius, rival de Zeuxis, quiz pintar uma tela ainda
+melhor. No seu quadro havia um cortinado que enganou o proprio Zeuxis.</p>
+
+<p>&mdash;Levanta o cortinado, disse elle a Parrhasius, para que eu possa
+observar a tela.</p>
+
+<p>Quando reconheceu que era pintado, Zeuxis confessou-se vencido: «Eu enganei
+os passaros, mas Parrhasius enganou-me a mim!»</p>
+
+<p>A vinha póde ser mais ou menos elegante, alta e pendente como no norte do
+paiz, de <em>enforcado</em> lhe chamam; ou pequena e redonda como nas
+provincias do sul: mas as uvas são sempre bellas na lucidez e variedade dos
+tons.</p>
+
+<p>É notavel que Camões, tendo vivido na Estremadura, se é que n'esta mesma
+provincia não nasceu, descrevesse na <em>ilha dos Amores</em>, não a vinha do
+sul, mas a de <em>enforcado</em>, a alta e pendurada, que vegeta no norte:<span class="pn"><a name="pag_195">{195}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Entre os braços do ulmeiro está a jucunda<br>
+ Vide, c'uns cachos roxos, e outros verdes.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Frei Luiz de Sousa, na descripção da cêrca de Bemfica, serviu-se de uma
+feliz comparação com as pedras preciosas para caracterisar as <em>nuances</em>
+da coloração dos cachos. Faziam, diz elle, «collares de pedraria as uvas,
+segundo os tempos, e as côres d'ellas: já topasios, já rubis, primeiro
+esmeraldas.»</p>
+
+<p>Na linguagem pittoresca do apologo, as uvas estão verdes quando a rapoza
+lhes não póde chegar. É uma das mais sentenciosas fabulas, essa, da rapoza e
+das uvas. Desdenha-se sempre d'aquillo que se não póde alcançar.</p>
+
+<p>&mdash;Ser ministro! diz um pretendente á pasta. Que massada!</p>
+
+<p>E do lado algum malicioso observa a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;Estão verdes, não prestam...</p>
+
+<p>Por este anno, vamos a despedir-nos das uvas, que só por ahi resta algum
+cacho guardado como um mimo.</p>
+
+<p>Perdem-se no ar, por esse paiz fóra, as ultimas canções das vindimas. No
+Douro, a região do vinho, a vindima é ainda uma festa, apesar da phylloxera.
+Canta-se todo o dia, vindimando. E ha razão para isso, porque a vindima
+representa o advento do vinho novo. No sul do paiz, a vindima corre triste e
+silenciosa, parecendo um funeral, o enterro das uvas.<span class="pn"><a
+name="pag_196">{196}</a></span></p>
+
+<p>Mas, para o effeito de ser bom, pouco importa que o vinho nasça entre
+canções ou sem ellas. O que se quer é que alegre e aqueça... no
+inverno;&mdash;porque, no estio, alegra e refresca, dizem os borrachos.<span class="pn"><a name="pag_197">{197}</a></span></p>
+
+<h1>XXIII</h1>
+
+<h2>Pessoas conhecidas de vossas excellencias</h2>
+
+<p>Temos visto cair de anno para anno, um a um, os mais antigos
+<em>habitués</em> de S. Carlos.</p>
+
+<p>Por que não começaremos pelas testas coroadas? O seu <em>dilettantismo</em>
+é tão humano como o dos outros <em>habitués</em>. Primeiro el-rei D. Fernando,
+um espectador certo, mesmo já quando a voracidade lethifera de um cancro lhe ia
+roendo a face. D. Fernando punha o seu parche de seda preta, e ia para S.
+Carlos, para S. Carlos onde elle havia brilhado outr'ora em plena mocidade
+feliz. Depois D. Augusto, que parecia amar a temperatura elevada de S. Carlos,
+apesar de ser um cardiaco. Em seguida, el-rei D. Luiz, que tinha pela musica a
+paixão nativa de todos os Braganças. Já doente, pallida e flaccida a face, n'um
+esphacelamento lento que o rosto denunciava, ia uma vez por outra<span class="pn"><a
+name="pag_198">{198}</a></span> a S. Carlos como para se despedir da musica, que
+sempre adorára.</p>
+
+<p>Cá em baixo, nas cadeiras, desapparecêra primeiro o dr. Alvarenga, que
+passára a vida a tratar o coração dos outros, embora, para o atormentar, lhe
+bastasse o seu, de que soffria muito.</p>
+
+<p>Lembram-se do dr. Alvarenga? Sempre de casaca, gravata preta, oculos
+escuros, e um crescente mais <em>dilettante</em> do que cathedratico. Lembram
+decerto.</p>
+
+<p>Depois o José Carlos <em>Poeta</em>, grande peitilho lustroso, casaca de
+amplas lapellas, calva ostentosa e lusidia.</p>
+
+<p>Tinha conhecido a avó de cada cantora que ia apparecendo, e decerto gosava,
+ouvindo a neta, mais do que nós, porque vivia da saudade deleitosa que as suas
+recordações lhe avivavam.</p>
+
+<p>Foi-se um dia, de repente, alli ao fundo da rua do Alecrim.</p>
+
+<p>Julio Cesar Machado, muito correcto dentro da sua casaca, sempre de gravata
+preta&mdash;querendo assim mostrar que já se não tinha na conta de moço,
+comquanto se tivesse ainda na conta de <em>dilettante</em>&mdash;foi, como uma
+estrella cadente que parece procurar outra no ceu, ver se encontrava pelo azul
+fóra a alma do filho, que era a estrella querida do seu coração affectuoso.</p>
+
+<p>Agora, ultimamente, o duque de Albuquerque, uma só pessoa, que fornecêra a
+S. Carlos<span class="pn"><a name="pag_199">{199}</a></span> dois <em>habitués</em>: o conde
+de Mesquitella e o duque de Albuquerque.</p>
+
+<p>O seu chinó, sempre tão fallado nas chronicas de S. Carlos, era como que a
+pagina mais eloquente do seu gosto pelo mundo: queria fingir de mais moço cada
+vez que S. Carlos abria, não obstante ser mais velho um anno.</p>
+
+<p>E, depois de certa idade, nada ha que envelheça tanto como cada anno que vae
+passando...</p>
+
+<p>Julio Machado raras vezes subia a um camarote para visitar alguem; e tambem
+raras vezes assistia, nos ultimos annos, a um espectaculo todo.</p>
+
+<p>Parecia um pouco cansado do mundo: entrára no periodo em que a gente vive
+principalmente de recordações.</p>
+
+<p>O duque de Albuquerque, pelo contrario, entrava em todos os camarotes,
+visitava todas as damas, e apenas saía de S. Carlos... quando os outros
+saíam.</p>
+
+<p>Tinha razão, porque elle ia lá não só para ouvir as operas, como tambem,
+para ver os outros.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>José Carlos de Freitas Jacome alternára uma grande parte da sua vida em
+occupações que profundamente contrastavam uma com outra:<span class="pn"><a
+name="pag_200">{200}</a></span> a prosa dos tribunaes e a poesia da opera. De per
+meio, e de passagem, plantára o seu loureirosinho no jardim das Musas, era
+escrivão do civel na Boa Hora, <em>dilettante</em> em S. Carlos, e poeta por
+desfastio nas horas em que da prosa dos autos ascendia á região da harmonia.
+Fôra bastante escriptor para não ser unicamente escrivão, e, fóra da Boa Hora,
+esquecia-se de ser escrivão, para ter as predilecções e as honras de
+escriptor.</p>
+
+<p>Bom homem a valer, amavel, sabendo vestir uma casaca, tendo o segredo de
+fazer espelhar, com uma limpidez de cristal, o peitilho da sua camisa. Nunca
+perdeu, apesar de velho e doente, os seus ares de homem elegante, os seus
+habitos mundanos. Gostava do mundo, e tinha bom gosto, porque mal se chega a
+comprehender a mania, que teem alguns, de se sepultarem em vida na solidão da
+misantropia.</p>
+
+<p>Duas coisas lhe não esqueceram nunca: as suas luvas, e uma flôr.</p>
+
+<p>Nas bellas noites de S. Carlos, Freitas Jacome enflorava sempre a lapella da
+casaca.</p>
+
+<p>E no theatro, na egreja, na rua, na Havanesa, jámais lhe esqueceram as
+luvas, que ás vezes não calçava, mas que não abandonava nunca.</p>
+
+<p>Dava gosto vel-o na sua cadeira de S. Carlos, grave, attento, tendo o ar de
+um diplomata pomposo. Tendo visto nascer o romantismo em<span class="pn"><a
+name="pag_201">{201}</a></span> Portugal, fôra romantico de convicção e, como tal,
+adorava a musica italiana, saboreava-a, a goles de audição, como se fosse um
+licor esquisito, divino.</p>
+
+<p>Verdi servia-lhe á phantasia uma especie de champagne capitoso, que o
+embriagava docemente.</p>
+
+<p>Bellini e Rossini, dois copeiros da cava celeste, enchiam-lhe a taça do
+prazer de um tokay generoso, unico.</p>
+
+<p>E, de resto, tinha rasão, porque ainda não houve quem lhes podesse apagar os
+nomes na grande téla da immortalidade. Meyerbeer, uma aurora boreal, Mozart,
+uma estrella, Wagner, uma nublosa, passam hoje por todos os palcos do mundo,
+mas, sem embargo, as partituras italianas hão de illuminar-se sempre d'esse
+doce luar de sentimentalismo, que faz a delicia do coração.</p>
+
+<p>N'essa atmosphera fôra educado Freitas Jacome. Nos combates romanticos, da
+musica e da poesia, fizera as suas primeiras armas. Seguia o exemplo de Garrett
+no vestir e no pensar, amava o romantismo em si e nos outros. Não podia
+nivelar-se com esse grande homem na riqueza do intellecto, mas, no que podia
+ser assimilavel, imitou-o. Não podia medir-se litterariamente com Castilho, mas
+versejou a exemplo d'elle em honra das divas do Olympo lyrico, porque Castilho,
+com ser cego, glorificou<span class="pn"><a name="pag_202">{202}</a></span> na lyra o
+feminino da opera, a Agostini, a Bernardi, a Gazzaniga. Admirador de Herculano,
+uma das tres entidades gloriosas da trimurti romantica, não o imitou nos
+processos de vida rustica e meditativa: para solitario não tinha geito Freitas
+Jacome.</p>
+
+<p>Faz-me pena vêr morrer um homem que soube aproveitar o mundo como elle é e
+que, já combalido pela doença e desalentado pela velhice, poz o seu chapeu,
+pegou nas suas luvas, e foi para a rua esperar a morte, que não ousou atacal-o
+de cara, como a todos os tristes e a todos os fracos.</p>
+
+<p>Freitas Jacome morreu em plena rua, como Molière morreu em plena scena, n'um
+esforço de coragem.</p>
+
+<p>Lisboa, esta Lisboa que elle tanto amava, viu-o passar no seu ultimo passeio
+de vivo minutos antes de cahir morto. Mesmo doente, a vida exterior attraira-o.
+Em vez de pedir uma tisana ao medico, planeou o seu jantar d'aquelle dia, saiu,
+recebeu o ultimo golpe de luz que cahia do ceu de Lisboa, e morreu ouvindo o
+ruido da grande cidade, que fremia em torno d'elle.</p>
+
+<p>E todavia Freitas Jacome era provinciano!</p>
+
+<p>Muitas vezes lhe ouvi dizer que nascera em Thomar, cujas bellezas naturaes
+recordava, mas para um homem que gostava do mundo, e que tanto se interessava
+por elle, o mar de lona de<span class="pn"><a name="pag_203">{203}</a></span> S. Carlos era
+mil vezes preferivel á corrente authentica do rio Nabão.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Fallava-se muito dos irmãos Andrades, que já tinham cantado no Porto com a
+Sembrich, mas, cantar em Lisboa tendo nascido em Lisboa, caso era para uma
+certa curiosidade, direi mesmo para um certo receio.</p>
+
+<p>Todos nós nos lembravamos de ter visto esses dois rapazes pôr pela primeira
+vez chapeu alto.</p>
+
+<p>Foi outro dia, ainda.</p>
+
+<p>E quando se principiou dizendo que elles cantavam bem, havia sempre uma voz
+judiciosa que ponderasse:</p>
+
+<p>&mdash;Ora adeus! Se elles ainda outro dia pozeram chapeu alto!</p>
+
+<p>Christo dissera uma vez uma palavra profunda e sabia, como todas as suas
+palavras: que ninguem chega a ser propheta na terra em que nasceu.</p>
+
+<p>Por que será isto assim?</p>
+
+<p>É porque, talvez, o que em grande parte contribue para fazer a gloria dos
+homens é não tanto o seu merecimento como a sua lenda.</p>
+
+<p>Desde o momento que a gente apenas conheça, nua e crua, em toda a sua
+exactidão, a<span class="pn"><a name="pag_204">{204}</a></span> biographia de qualquer
+homem, vê-o unicamente pelo que elle possa ter de vulgar, de vulgarissimo, e
+julga que tudo o que constitua a individualidade d'esse homem ha de ser vulgar,
+vulgarissimo, tambem.</p>
+
+<p>Mas, quando se dá exactamente o contrario d'isto, quando primeiro se
+conheceu a lenda do que a biographia, então principiamos a vêr o semi-deus no
+homem, divinisamol-o ao capricho da nossa imaginação e da dos outros, porque a
+lenda não é outra coisa senão o que a imaginação de muitos sonha a respeito de
+um só...</p>
+
+<p>Se nos disserem que, no dia em que Adelina Patti nasceu, um rouxinol foi
+cantar sobre o seu berço, como para prophetisar-lhe que ella seria a rainha do
+canto, acreditamos facilmente.</p>
+
+<p>Ainda mesmo que a Patti tenha nascido no inverno, ainda mesmo! acreditamos
+que o rouxinol cantasse.</p>
+
+<p>Por que? Porque da Patti o que primeiro conhecemos foi a lenda, e, como já
+estamos habituados á lenda, nem mesmo chega a fazer-nos mossa ouvir cantar um
+rouxinol no inverno.</p>
+
+<p>Mas dos Andrades o que primeiro conhecemos não foi a lenda, foi a
+biographia. Tanto peior para elles.</p>
+
+<p>Viessem dizer-nos que quando os dois irmãos nasceram, seu pae, o tabellião
+José Justino, viu<span class="pn"><a name="pag_205">{205}</a></span> e ouviu um rouxinol
+começar a cantar sobre o berço de um e outro, como se o rouxinol viesse
+milagrosamente a vaticinar que o Antonio havia de ser tenor, e que o Francisco
+havia de ser barytono! Pois sim! Conta-lhe d'essas!&mdash;diriamos
+nós&mdash;rouxinoes! quaes rouxinoes nem qual historia! o que elle ouviria
+talvez seriam os pintasilgos da casa de jantar... Sempre o José Justino tem
+coisas!</p>
+
+<p>Depois, todos haviamos conhecido os dois Andrades ainda pequenos, todos os
+tinhamos visto assistir aos espectaculos do Gymnasio no seu camarote de
+familia.</p>
+
+<p>Por tal signal que riam a bandeiras despregadas com as pilherias do Taborda.
+E todos haviamos verificado que elles riam como as outras pessoas,&mdash;um
+pouco estavanadamente como todos os rapazes da sua edade.</p>
+
+<p>Onde estava n'isto a lenda?</p>
+
+<p>Voz podiam elles ter; lenda é que não tinham.</p>
+
+<p>Pois foi n'estas circumstancias, realmente difficeis, que os dois Andrades
+appareceram no palco do theatro de S. Carlos.</p>
+
+<p>Receiava-se...</p>
+
+<p>Suspeitava-se...</p>
+
+<p>Tremia-se!...</p>
+
+<p>Que falta faz uma lenda!</p>
+
+<p>Mas os dois artistas antepozeram o gosto de cantar na sua terra natal a
+todas as considerações<span class="pn"><a name="pag_206">{206}</a></span> pelas reticencias
+e pelas reservas dos seus conterraneos.</p>
+
+<p>E, uma vez resolvidos a cantar,&mdash;cantaram.</p>
+
+<p>E, depois que cantaram, ficou-se sabendo que elles sabiam cantar.<span class="pn"><a name="pag_207">{207}</a></span></p>
+
+<h1>XXIV</h1>
+
+<h2>Comer a dois carrilhos</h2>
+
+<p>Numa villa do Alemtejo, cujo nome não vem para o caso, havia um tendeiro
+rico e avarento, que nem de verão nem de inverno se lembrava de atirar uma
+migalha aos mendigos que lhe batiam á porta.</p>
+
+<p>Um engeitado, um pária, um rapazote do sitio, tão pobre como ladino, matutou
+na injustiça da Providencia que dava ao tendeiro um bello capote de camellão
+para se resguardar do frio, ao passo que só lhe dava a elle o frio sem o
+capote. Matutou n'isto, e propoz-se regularisar a ordem das coisas.</p>
+
+<p>&mdash;Uma esmolinha, <em>tio</em> Ambrosio, pelo amor de Deus... Está tanto
+frio! dizia elle, tiritante, roçando-se pela hombreira da porta do tendeiro.<span class="pn"><a name="pag_208">{208}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Sai-te d'aqui, maroto, que não quero espantalhos á porta, resmoneava
+de dentro o tendeiro. Vae trabalhar.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso, que sou doente... E tenho tanto frio, tanto!</p>
+
+<p>&mdash;Que te leve o diabo e mais o frio.</p>
+
+<p>No dia seguinte, o rapazito voltava. E, á força de teimar, o engeitado ia
+conseguindo poder demorar-se mais tempo á porta do tendeiro sem que o enxotasse
+já com tanta dureza.</p>
+
+<p>De uma vez o Ambrosio precisou um recado.</p>
+
+<p>&mdash;Olha lá, disse elle ao mendigo, já que não tens que fazer, vae-me ali
+chamar o José da Azenha.</p>
+
+<p>E o rapazito foi submissamente atravez o frio aspero da serra, ao passo que
+o tendeiro, bem embrulhado no seu capote de camellão, ficou sentado ao balcão
+da loja, olhando vagamente para os seus dominios.</p>
+
+<p>Ao outro dia o rapaz voltou.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Tio</em> Ambrosio, disse elle da porta, vocemecê não quer hoje
+algum mandado?</p>
+
+<p>O tendeiro ficou encantado com este desprendimento de um mendigo, que
+parecia ter o maximo empenho em fazer recados de graça ás pessoas ricas. Em vez
+de pedir que lhe pagassem o trabalho da vespera, o bom do rapaz vinha pedir que
+lhe dessem mais que fazer... pelo mesmo preço.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, disse o tendeiro, pois olha... vae-me<span class="pn"><a
+name="pag_209">{209}</a></span> chamar o Joaquim da Rita, que preciso fallar-lhe por
+causa d'uma coisa.</p>
+
+<p>Essa coisa, eram uns juros em atraso.</p>
+
+<p>E o rapaz foi, em mangas de camisa, como andava, ao passo que o tendeiro,
+embuçando-se melhor no seu farto capote, disse lá comsigo que sempre estava
+muito frio.</p>
+
+<p>O Venancio engeitado, como todos o tratavam, tornou-se desde então o mais
+diligente criado que o tendeiro podia desejar. Sobretudo, pelo que tocava a
+soldada, era uma joia: nem vintem. Tambem elle não pedia. Mas fôra a pouco e
+pouco captando a sympathia e a confiança do tendeiro, que primeiro o deixou
+sentar á porta, e depois n'um banco dentro da loja.</p>
+
+<p>Nos dias de mercado, em que havia maior labutação no estabelecimento, o
+Venancio engeitado offerecia-se para tudo, elle para ir prender á argola as
+cavalgaduras, elle para lhes chegar umas sopas, elle para varrer as cascas dos
+ovos que os piteireiros bebiam, elle para limpar o balcão e lavar os copos...
+uma joia, uma verdadeira joia... a sêco!...</p>
+
+<p>O tendeiro gabava-o: Que era muito bom rapaz, que precisava muito, e que de
+mais a mais não era pedinchão.</p>
+
+<p>O que o tio Ambrosio queria, com toda esta cantata, era que os freguezes
+pagassem os serviços que o rapaz lhe fazia a elle, porque decerto pareceria
+escandaloso que uma vez por<span class="pn"><a name="pag_210">{210}</a></span> outra o
+Venancio não recebesse nada. Mas como os freguezes caíam, dando ao engeitado
+pão e azeitonas, o tendeiro entendia que ficava uma coisa pela outra, e
+achava-se desembaraçado para fazer do Venancio seu criado.</p>
+
+<p>Foram passando tempos, e uma vez, que estava na loja o morgado do sitio, um
+mãos-rotas de generosidade e bizaria, o Venancio disse de repente ao tendeiro,
+entrando na loja:</p>
+
+<p>&mdash;Ó <em>tio</em> Ambrosio, se vocemecê me podesse dar agora aquellas
+duas libras que lhe dei a guardar, fazia-me favor.</p>
+
+<p>&mdash;Ó maroto! pois tu deste-me algumas duas libras?!</p>
+
+<p>&mdash;Dei, sim, senhor, ha dois mezes, na occasião em que estava aqui o da
+Michaela, que foi para o Brazil.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! maroto, que me perdes! Pois tu já tiveste duas libras algum
+dia?!</p>
+
+<p>&mdash;Tive, sim, senhor, ha dois mezes, e dei-lhas a vocemecê para mas
+guardar por ser um homem de bem...</p>
+
+<p>&mdash;Ó senhor morgado, este maroto está-me a envergonhar!</p>
+
+<p>&mdash;E o <em>tio</em> Ambrosio está-me a roubar, disse serenamente o
+Venancio.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. morgado, continuava o tendeiro, eu sou um homem honrado, incapaz
+de tirar nada a ninguem.</p>
+
+<p>&mdash;Menos a um pobre... como eu. Duas libras!<span class="pn"><a
+name="pag_211">{211}</a></span> que eu guardava para uma precisão! exclamou o
+Venancio, e começou a chorar.</p>
+
+<p>Então, a natural bizarria do morgado não lhe permittiu tolerar aquella scena
+por mais tempo. Fosse verdade ou não fosse, era preciso acabar com
+aquillo,&mdash;uma miseria de duas libras! E o tendeiro envergonhado por tão
+pouco!... Não podia ser.</p>
+
+<p>&mdash;Rapaz, disse o morgado querendo salvar a situação, não foi ao sr.
+Ambrosio que deste a guardar as duas libras. Não te lembras bem. Foi a
+mim...</p>
+
+<p>Então o Venancio, serenamente, humildemente observou:</p>
+
+<p>&mdash;Essas foram outras, sr. morgado.<span class="pn"><a
+name="pag_212">{212}</a></span></p>
+
+<h1>XXV</h1>
+
+<h2>O ultimo puritano</h2>
+
+<p>Era uma vez um velho, o Seabra, que eu de tempos a tempos procurava na
+repartição, porque tinha uma excellente mão de cursivo para tirar copias.</p>
+
+<p>Sessenta e seis annos bem puxados, posto que elle não desse ao manifesto
+mais de sessenta.</p>
+
+<p>&mdash;Sessenta&mdash;dizia elle&mdash;sessenta já cá estão!</p>
+
+<p>E suspirava.</p>
+
+<p>Não se sabia bem se suspirava com remorsos de estar mentindo ou porque,
+deitando as contas á sua vida, achasse que o mais prejudicado era elle...</p>
+
+<p>Tinha visto muita coisa, muita politica, muita patifaria. Nada que vinha de
+novo o surprehendia.<span class="pn"><a name="pag_213">{213}</a></span> Batera-se no Alto do
+Viso, trabalhára em varias eleições, e havia quarenta annos que saboreava, como
+premio de seus trabalhos e serviços, um pingue logar de amanuense cristalisado
+em seiscentos réis por dia.</p>
+
+<p>Conhecêra muitos homens importantes, que tinham lucrado com a collaboração
+d'elle, e outros que taes, para subir ao poleiro, e que por mais de uma vez lhe
+haviam promettido tiral-o d'ali para coisa melhor.</p>
+
+<p>Pois apesar de lhe faltarem a todas as promessas, de o trazerem enganado
+durante quarenta annos, elle tratava-os sempre com o mesmo respeito,
+cumprimentava-os muito reverente:</p>
+
+<p>&mdash;Sr. conselheiro, criado de v. ex.ª</p>
+
+<p>Era um praxista. Não cumprimentava ninguem sem ter descalçado primeiro a
+luva da mão direita, nem saía da repartição sem ir perguntar ao chefe,
+entreabrindo a porta do gabinete:</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?</p>
+
+<p>E o chefe, que estava conversando com amigos, muito entretido, nem o
+ouvia.</p>
+
+<p>Mas elle, insistindo, reperguntava:</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?</p>
+
+<p>E o conselheiro, se d'essa vez tinha ouvido, respondia:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus, Seabra, até ámanhã.<span class="pn"><a name="pag_214">{214}</a></span></p>
+
+<p>Algumas vezes lhe fallei do chefe, para sondal-o.</p>
+
+<p>E o Seabra dizia-me:</p>
+
+<p>&mdash;É dos novos; mas boa pessoa.</p>
+
+<p>Cheguei a entender o sentido d'estas palavras: <em>é dos novos</em>. Não era
+praxista, não respeitava as tradições e os regulamentos da burocracia, mas o
+Seabra reputava-o boa pessoa.</p>
+
+<p>Alma generosa, a d'esse velho amanuense! que, em respeito ao seu chefe, que
+o tratava simplesmente por <em>Seabra</em>, não ousava dizer d'elle senão que
+<em>era dos novos</em>... mas boa pessoa.</p>
+
+<p>Se o Seabra tivesse nascido meio seculo mais tarde, não entreabria a porta
+do gabinete do chefe para se despedir; mas, se o fizesse, e elle lhe
+respondesse com um «adeus, Seabra», pespegava-lhe uma tarea nas gazetas.</p>
+
+<p>Para um praxista como o Seabra, aquelle homem, que estava dentro do
+gabinete, conversando com os amigos, era seu chefe, e isso lhe bastava.</p>
+
+<p>Ora uma das praxes observadas pelo Seabra era a de consultar sempre, antes
+de sair da repartição, o seu espelhinho d'algibeira.</p>
+
+<p>Elle tinha apenas duas farripas de cabello branco, muito bem penteadas ao
+longo da cabeça. Mas essas duas farripas mereciam-lhe todo o cuidado e
+attenção. Vendo-se ao espelhinho, passava a mão por cima das farripas,
+brunia-as com os dedos, alisava-as.<span class="pn"><a name="pag_215">{215}</a></span></p>
+
+<p>Depois observava a gravata, que era ordinaria, mas sempre bem tratada, sem
+sombra de pó.</p>
+
+<p>Por ultimo, segurando o espelhinho com a mão esquerda, escovava a sua velha
+sobrecasaca com a mão direita.</p>
+
+<p>E feito todo este serviço, depois que o chefe lhe dizia o «adeus, Seabra»,
+guardava o espelhinho na algibeira, a escova no armario, e seguia para sua
+casa, a passos mesurados, muito vagaroso, pela rua do Oiro até Santa Martha.</p>
+
+<p>Inculcaram-m'o uma vez como tendo excellente letra para tirar copias.
+Apresentaram-m'o. Por varias vezes lhe dei trabalho, meu e alheio. Era
+pontualissimo na entrega das copias, e honestissimo nas contas que fazia.
+Arredondava sempre as quantias contra elle. Se, trabalhando a tanto por pagina,
+o seu trabalho importava por exemplo em 1$085 réis, não queria nunca receber
+mais de dez tostões.</p>
+
+<p>Comprehende-se que precisasse muito d'estas achegas para poder viver, visto
+que o seu logar lhe rendia apenas 600 réis diarios.</p>
+
+<p>Todas as noites saía para vir ao Rocio conversar n'uma loja até ás nove
+horas. O logista era um homem do tempo d'elle. Tratavam-se por tu. Ás nove em
+ponto, o Seabra despedia-se, ia para casa trabalhar até á meia noite, tirar
+copias a 120 réis a pagina.</p>
+
+<p>Não vi nunca pobresa mais resignada, nem<span class="pn"><a
+name="pag_216">{216}</a></span> mais elegante. Parecia um principe arruinado, a passos
+mesurados, pela rua do Oiro. Era só então que elle via o mundo, uma vez por
+dia. Mas via-o bem, depois de se ter preparado tambem para ser visto. Não saía
+da repartição sem o espelhinho lhe ter dito: «Estás correcto, Seabra.»</p>
+
+<p>Na rua do Oiro encontrava um conselheiro. Cumprimento respeitoso.</p>
+
+<p>&mdash;Criado de v. ex.ª, sr. conselheiro.</p>
+
+<p>Não deixava nunca de vêr os conselheiros, apesar de todo o seu gosto, ao
+passar na rua do Oiro, consistir em vêr as mulheres ou, mais propriamente
+ainda, em vêr os pés das mulheres.</p>
+
+<p>Se parava uma carruagem á porta de uma loja, tambem elle parava, com
+delicado disfarce, para vêr saltar do estribo uma dama.</p>
+
+<p>Não tinha esta escola moderna dos que fazem tudo descaradamente, parando e
+observando com petulancia. Nada disso. Elle via o pé, media-o com os olhos,
+calculava, pelo pé, as dimensões da perna, ficava sabendo a côr e a qualidade
+da meia, mas, se alguem, encontrando-se com elle, lhe adivinhava a intenção,
+disfarçava a olhar para uma <em>vitrine</em> ou a lêr um cartaz.</p>
+
+<p>Só ao cabo de alguns annos de convivencia, eu consegui conquistar a
+familiaridade precisa para lhe fallar nos pés das mulheres.<span class="pn"><a
+name="pag_217">{217}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;O sr. Seabra pella-se por vêr um pé bem feito!</p>
+
+<p>&mdash;Gósto!... gósto!</p>
+
+<p>E d'ahi a pouco parou uma carruagem, apeiou-se uma senhora, que deixou vêr,
+sobre o estribo, um pé digno da admiração do Seabra.</p>
+
+<p>&mdash;Então, sr. Seabra! disse-lhe eu. Repare, que vale a pena.</p>
+
+<p>&mdash;Não! nunca! respondeu elle um pouco atrapalhado.</p>
+
+<p>Jámais eu o tinha visto, em nenhum caso da sua vida, tão contrariado como
+naquelle momento.</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle pé&mdash;pensei eu&mdash;é talvez uma recordação para
+elle.</p>
+
+<p>Mas reflexionei. A dama era, relativamente, nova. Podia ser filha do
+Seabra.</p>
+
+<p>&mdash;Será talvez filha?</p>
+
+<p>E architectei um antigo romance de amor, que tivesse deixado ao Seabra uma
+filha natural.</p>
+
+<p>Se fosse assim, eu poderia conseguir talvez que elle me contasse o seu
+romance.</p>
+
+<p>Tentei o assumpto.</p>
+
+<p>&mdash;Mas então, meu caro sr. Seabra, porque perdeu esta occasião
+propicia?</p>
+
+<p>&mdash;Não! nunca! tornou elle a responder.</p>
+
+<p>Devorado pela curiosidade, insisti:</p>
+
+<p>&mdash;Era talvez sua parenta?</p>
+
+<p>&mdash;Qual! disse elle surprehendido. Era a mulher do meu chefe!<span class="pn"><a name="pag_218">{218}</a></span></p>
+
+<p>Fiquei a olhar para elle, aturdido, assombrado. Ó lealdade da velha
+burocracia portugueza! que, em homenagem á disciplina social, desviava os olhos
+para não vêr o pé da mulher a quem o chefe havia dado a mão! E tive tentações
+de o abraçar, em plena rua do Oiro, exclamando: «Honradissimo José do Egypto,
+cujos olhos largam a capa, quando a mulher do chefe da repartição expõe o pé á
+vista do publico! eu te admiro e te venero!»</p>
+
+<p>Acompanhando-o pela rua do Oiro adiante, baralhavam-se-me no espirito casos
+que eu tinha ouvido contar, por mais de uma vez, de empregados publicos que
+captavam as boas graças dos chefes seguindo o processo opposto ao do Seabra.</p>
+
+<p>Admiravel homem! pensava eu, que penteia as suas farripas para ir vêr as
+mulheres e que, não obstante querer vêl-as, não perde nunca de vista um
+conselheiro, para lhe cumprimentar a carta de conselho, nem a mulher do chefe,
+para evitar cumprimentar-lhe o pé!</p>
+
+<p>Uma coisa que entristeceu muito o Seabra foi o ir perdendo a vista, e com
+ella o gosto de passar na rua do Oiro.</p>
+
+<p>Mas, não obstante, não largou nunca o seu espelhinho. Tinha o mesmo cuidado
+em alisar as farripas e escovar a sobrecasaca. Sómente mudou de caminho, tomava
+pela rua da Prata, em vez de seguir pela rua do Oiro.<span class="pn"><a
+name="pag_219">{219}</a></span></p>
+
+<p>Os seus collegas diziam:</p>
+
+<p>&mdash;O Seabra agora está muito caido!</p>
+
+<p>Na repartição, elle trabalhava com oculos, mas na rua nunca os punha.</p>
+
+<p>Um dia insisti com elle em que viesse comigo pela rua do Oiro.</p>
+
+<p>Pediu-me muitas desculpas, e recusou.</p>
+
+<p>&mdash;Já não vejo nada! dizia elle.</p>
+
+<p>&mdash;Mas por que não põe os seus oculos? perguntei-lhe eu.</p>
+
+<p>E elle, muito sentencioso, respondeu-me:</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou de um tempo em que não era permittido confessar nenhuma
+fraqueza em publico: nem mesmo a da vista.</p>
+
+<p>De uma vez, como sempre, o Seabra entreabriu a porta do gabinete do
+chefe.</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa? perguntou.</p>
+
+<p>&mdash;Não, Seabra, até ámanhã.</p>
+
+<p>O Seabra compoz, diante do espelhinho, as suas farripas, ageitou a gravata,
+escovou a sobrecasaca, fechou a escova no armario.</p>
+
+<p>E metteu pela rua da Prata, na sua teima de não querer confessar em publico
+nenhuma fraqueza: nem mesmo a da vista.</p>
+
+<p>Junto á Praça da Figueira andava-se concertando um cano, a rua estava
+esburacada.</p>
+
+<p>O Seabra caiu tão desastradamente, que partiu uma perna. Foi conduzido em
+maca ao hospital de S. José. Logo que lá chegou,<span class="pn"><a
+name="pag_220">{220}</a></span> cheio de dôres, despiram-no, metteram-n'o na cama.</p>
+
+<p>E elle, dirigindo-se muito attenciosamente ao enfermeiro, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Quer ter a bondade, sr. enfermeiro, de recommendar todo o cuidado com
+o meu fato, e de me dar um espelhinho que está na algibeira das calças?</p>
+
+<p>Passados dias fui visital-o, levei-lhe um romance para que elle se
+entretivesse, lendo-o.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso, disse-me elle. Deixei os oculos fechados na repartição.<span class="pn"><a name="pag_221">{221}</a></span></p>
+
+<h1>XXVI</h1>
+
+<h2>Os principes do Perú</h2>
+
+<p>Vem já ahi caminhando ao nosso encontro a bella festa do Natal. Não tarda
+nada. Os batedores, a guarda avançada, chegaram com a sua costumada
+pontualidade. Cá temos o frio e o perú passeiando ambos pelas ruas de Lisboa,
+um muito afiado e cortante, o outro gluglujante e luzidio.</p>
+
+<p>Esta solemne festa do anno tem o condão de sorrir a todas as idades, de
+lisonjear todos os paladares, de encantar todas as imaginações.</p>
+
+<p>As creanças pensam, cheias de jubilo, no seu Presepio, na sua arvore do
+Natal, na bonecada e nos bolos.</p>
+
+<p>Os namorados estão já arregalando o olho amoroso para a missa do Gallo, que
+é boa capa para entrevistas hombro a hombro, de mãos dadas, emquanto se finge
+rezar muito devotamente...<span class="pn"><a name="pag_222">{222}</a></span></p>
+
+<p>Os velhos, que são ordinariamente gulosos, começam a afinar o olfacto para
+descobrir, nas lojas de confeiteiro, os mais saborosos petiscos.</p>
+
+<p>Os ambiciosos de qualquer idade e sexo sonham com a grande loteria de
+Madrid, esse ideial de felicidade que todos os annos lhes faz negaças á
+imaginação fogosamente credula.</p>
+
+<p>As beatas estão já antegostando a delicia de oscular mysticamente as carnes
+rosadas e divinas do pequenino Jesus.</p>
+
+<p>No meio de todo este côro de alegrias só uma nota discordante poderia soar,
+mas o perú, a principal victima do Natal, não tem decerto a consciencia do
+perigo que a esta hora está correndo,&mdash;felizmente para elle.</p>
+
+<p>Pobre perú! Ahi o vemos fazendo descuidosamente a sua ultima
+<em>avenida</em>, dando o seu ultimo passeio de condemnado á morte, sem pensar
+em disposições testamentarias, tão felizes são os perús!</p>
+
+<p>As pessoas do norte do paiz não teem, como o lisboeta, a tradição do perú do
+Natal. No Minho, na Beira, em Traz-os-Montes pensa-se agora em mil guloseimas,
+que não tardarão a encher de aromas a cosinha e a mesa, mas o perú
+setemptrional não tem que receiar-se da faca do cosinheiro, porque a tradição
+local não exige como victima senão a gallinha gorda e o gallo nedio.<span class="pn"><a name="pag_223">{223}</a></span></p>
+
+<p>Eis aqui a rasão por que um rapaz da Ponte da Barca, que, ha annos, andava
+estudando em Lisboa, ficou muito surprehendido com o pedido que lhe fizera a
+mais astuciosa das suas namoradas lisboetas.</p>
+
+<p>Ella era filha de um servente de repartição, creio eu, que vivia cheio de
+difficuldades, porque a mulher lhe havia dado uma prole numerosa: tres filhas e
+quatro filhos.</p>
+
+<p>Emquanto todos os sete foram pequenos, era com profunda tristeza que o
+marido e a mulher viam passar na rua, pelo tempo do Natal, os bandos de perús
+luzidios e gluglujantes. Não podiam chegar-lhes, elles! Dez tostões não era
+quantia que um servente de repartição, cheio de filharada, podesse dispender.
+Isto ralava-o. Mas o pobre homem dizia muitas vezes á mulher:</p>
+
+<p>&mdash;Deixa crescer a raparigada, e verás que não nos faltarão perús.</p>
+
+<p>A mulher sorria com desalento e replicava:</p>
+
+<p>&mdash;Pensas talvez que estão á espera d'ellas tres principes muito ricos,
+que hão de ser nossos genros?!</p>
+
+<p>&mdash;Não é isso. Eu cá tenho a minha ideia. Deixa crescer a raparigada, e
+verás.</p>
+
+<p>Os annos foram passando, e as tres filhas do servente cresceram,
+principiaram a revelar um palminho de cara menos mau. A mais nova tinha quinze
+annos; a mais velha dezesete.<span class="pn"><a name="pag_224">{224}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E então os tres principes do Perú? perguntava a mulher ao marido,
+fazendo um <em>calembour</em> inconscientemente.</p>
+
+<p>&mdash;É agora. Vae começar este anno, cá pelo que eu tenho observado. Elles
+ahi estão a bater á porta...</p>
+
+<p>&mdash;Os principes?</p>
+
+<p>&mdash;Não, os perús.</p>
+
+<p>&mdash;Fia-te n'essa, pateta!</p>
+
+<p>&mdash;Ora dize-me uma coisa: Teem ou não teem já as raparigas o seu
+derriço?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... acho que teem. E d'ahi, homem?</p>
+
+<p>&mdash;D'ahi, tem paciencia, e espera. Eu logo vou conversar com as
+raparigas, porque todo o bom pai precisa aconselhar ajuizadamente as suas
+filhas.</p>
+
+<p>O Natal estava por um fio, chega não chega. Fazia frio e luar. O estudante
+da Ponte da Barca não fôra a ferias, porque n'aquelle tempo ainda o caminho de
+ferro não tinha encurtado as distancias.</p>
+
+<p>O rapazote, achando-se sem obrigações escolares, principiou a entregar-se
+exclusivamente á cultura de namoros desde pela manhã até á noite.</p>
+
+<p>Ora ia vêr uma das suas bellas, ora ia catrapiscar a outra, mas a filha do
+servente, a dos quinze annos, era de todas as namoradas a que mais o prendia
+talvez, não só por esse orgulho natural de ter inspirado um primeiro<span class="pn"><a name="pag_225">{225}</a></span> amor, como tambem porque o estudantelho era
+poeta e a rapariga parecia-lhe romantica.</p>
+
+<p>Romantica, sim, senhor! Onde fôra ella aprender isso? Quem o podéra dizer!
+Foi uma qualidade que derivou talvez do fluido magnetico dos seus olhos negros
+e grandes. O pae era tudo o que podia haver de mais prosa em servente de
+repartição. A mãe era digna esposa de seu marido segundo os canones e a prosa.
+As irmãs só desejavam poder um dia comer bem e dormir melhor. Mas a
+rapariguinha dos quinze annos tinha suas <em>reveries</em>, contemplava o azul
+do céu, gostava de vêr o luar, o que o pae e a mãe muito extranhavam
+classificando de telhuda a filha mais nova.</p>
+
+<p>Pois o Natal estava por um fio, chega não chega, como eu ia dizendo ainda
+agora.</p>
+
+<p>O servente ressonava já ha muito tempo em competencia philarmonica com a
+cara metade. As outras duas filhas sonhavam talvez com alguem que lhes desse um
+vestido e um camarote, mas a Mariquinhas estava á janella, envolta no véu azul
+do luar, unico de que podia dispôr, a conversar idillios com o seu estudantelho
+do Minho.</p>
+
+<p>&mdash;Tu és-me infiel, dizia-lhe ella.</p>
+
+<p>&mdash;Eu! respondia elle. Eu adoro-te, Mariquinhas, e só penso em poder
+casar comtigo logo que seja alferes de cavallaria.</p>
+
+<p>&mdash;São palavras... Não sentes o que dizes!<span class="pn"><a
+name="pag_226">{226}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Por que duvidas de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Porque tenho a certeza de que o teu coração não é sincero. Só te
+lembras de mim quando me estás fallando.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem isso são palavras, apenas.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca tiveste uma pequena lembrança que me désses, uma d'essas
+apreciaveis bagatellas que valem mais pelo que significam do que pelo custam.
+Agradece-se, estima-se a intenção, principalmente...</p>
+
+<p>&mdash;E que gostarias tu que eu te offerecesse? Um ramo de flores?...</p>
+
+<p>(Foi a coisa mais barata que lhe lembrou).</p>
+
+<p>&mdash;Logo vi que havias de escolher uma coisa que durasse tão pouco como o
+teu amor. Eu gosto immenso de flores, mas tenho má fé com ellas no amor. São
+como que o presagio de que tudo acabará de pressa. As flôres duram tão
+pouco!</p>
+
+<p>&mdash;Um leque, Mariquinhas, um leque?...</p>
+
+<p>(Lembrou-se de ter visto na rua do Oiro uns que custavam oito vintens).</p>
+
+<p>Ella replicou indignada:</p>
+
+<p>&mdash;Eu não sou mulher que me requebre de leque na mão. Não sou d'essas
+mulheres levianas que andam pela rua a fazer fogo de vistas com a ventarola.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu não te quiz offender, Mariquinhas.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez não quizesses. Eu sou uma rapariga honesta, que vivo á sombra
+de meus paes,<span class="pn"><a name="pag_227">{227}</a></span> e que os adoro. Pésa-me de
+que elles sejam tão pobres e tão bons. Sabes no que eu penso? Em
+proporcionar-lhes um dia de Natal agradavel, como elles já não tiveram ha
+muitos annos...</p>
+
+<p>&mdash;E como seria isso?</p>
+
+<p>&mdash;Fazendo-lhes a surpreza de uma boa <em>meia noite</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Como?</p>
+
+<p>&mdash;Comprando-lhes um perú sem o elles saberem.</p>
+
+<p>O estudante sentiu uma punhalada no coração; duas punhaladas é que foram.</p>
+
+<p>Primeira punhalada: Então ella, tão romantica, tão sonhadora, pensa agora
+n'um perú?</p>
+
+<p>Segunda punhalada: Onde hei de eu ir arranjar dinheiro para comprar o
+perú?</p>
+
+<p>Mas, emfim, era preciso não fazer má figura deante da Mariquinhas.</p>
+
+<p>&mdash;Socega, querida. Has de fazer essa agradavel surpresa a teus paes.</p>
+
+<p>&mdash;Quando?</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã... decerto, visto que depois d'ámanhã é vespera de Natal.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! como sou feliz! exclamou a Mariquinhas.</p>
+
+<p>E o estudante, quando sahiu d'ali, ia dizendo comsigo:</p>
+
+<p>&mdash;Ella é muito exigente para um estudante, mas, em compensação, parece
+ser muito boa filha.<span class="pn"><a name="pag_228">{228}</a></span></p>
+
+<p>No dia seguinte foi elle ao Rodrigues do Pote das Almas vender um <em>Magnum
+Lexicon</em>, umas grammaticas velhas, um Monteverde em menos mau estado.
+Apurou ao todo mil e duzentos. Comprou ao principio da noite, na Praça da
+Figueira, um perú por 1$100, e ficou-lhe ainda a tinir na algibeira o bello
+tostão para cigarros e café.</p>
+
+<p>Á meia noite, eil-o debaixo da janella da Mariquinhas, de perú debaixo da
+capa. Momentos depois o perú subia suspenso por um cordel, e a Mariquinhas era
+feliz.</p>
+
+<p>As outras irmãs dormiam, mas estariam sonhando ainda com alguem que lhes
+podesse dar um vestido e um camarote? Não. Sonhavam, o que era verdade, que
+tinha cada uma um perú, que ellas pediram aos namorados, por conselho do
+pae.</p>
+
+<p>Foi assim que o servente de repartição, como havia planeado, pôde ter perú
+na noite de Natal, perú no dia de Anno Bom, perú no dia dos Santos Reis. Tres
+perús a tres filhas,&mdash;por cabeça.</p>
+
+<p>E sentado á mesa, muito alegre e palreiro, ouvindo repicar os sinos para a
+missa do gallo, dizia elle á mulher:</p>
+
+<p>&mdash;Ahi vem sua alteza o primeiro principe do Perú. Os outros dois estão
+ainda em palacio. Não te dizia eu que elles haviam de chegar?<span class="pn"><a
+name="pag_229">{229}</a></span></p>
+
+<h1>XXVII</h1>
+
+<h2>A poesia da Servia</h2>
+
+<p>Perguntaram um dia a Miçkiewiez: «O que são os servios? »</p>
+
+<p>E o grande poeta da Polonia respondeu: «Um povo destinado a ser o bardo e o
+menestrel de toda a raça slava.»</p>
+
+<p>J. Reinach sae em abono d'esta opinião confirmando-a: «O caracter servio é
+essencialmente poetico, e a sua poesia não se traduz apenas nos
+<em>pesmas</em>, nos hymnos nacionaes que acompanham na <em>guzla</em>,
+encontra-se ainda na religião, nas cerimonias do culto, nas festas, na
+organisação da familia, nos casamentos, na coragem heroica dos combates, nos
+sonhos de uma vida melhor. Se queremos procurar a causa d'este caracter dos
+slavos, devemos attentar no paiz que elles habitam. O povo que tem a Servia por
+patria, não podia deixar de ser, como disse Miçkiewiez, senão um povo de bardos
+e menestreis,<span class="pn"><a name="pag_230">{230}</a></span> e, nas horas de perigo
+nacional, um povo de heroes. As florestas sombrias e profundas, as quebradas
+dos valles, as altas montanhas com as suas cristas inaccessiveis e os seus
+bosques de castanheiros, os <em>Schumadia</em>, as margens accidentadas dos
+rios, toda essa natureza selvagem e pittoresca contém e inspira thesouros de
+poesia.»</p>
+
+<p>Na familia servia o sentimento da fraternidade é talvez o mais desenvolvido,
+«Não ha uma joven servia sem irmão» diz uma velha lei. Quando a noiva deixa o
+lar da sua familia, é pelos irmãos que ella chora lagrimas semelhantes a
+<em>bagos que se destacassem de um cacho maduro</em>. A canção do desgraçado
+Iowo diz assim:</p>
+
+<p>«O moço Iowo cahiu, porque o sobrado da casa abateu, e partiu o braço
+direito.</p>
+
+<p>«Quem o curará? Só a feiticeira da montanha, que conhece a fundo a virtude
+das plantas; mas a feiticeira exige muito. Pede á mãe a sua branca mão direita;
+á irmã as tranças do seu cabello; á mulher o seu collar de perolas...</p>
+
+<p>«A mãe dá, com a melhor vontade, a sua branca mão direita, a irmã dá as
+tranças do seu cabello, mas a mulher recusa o seu collar de perolas...</p>
+
+<p>«Agasta-se a feiticeira que vive na montanha, e lança veneno nos alimentos
+de Iowo. Iowo morre com grande pezar de sua mãe.<span class="pn"><a
+name="pag_231">{231}</a></span></p>
+
+<p>«Ouvem-se então gemer trez cucos: um que não deixa jámais de lamentar-se;
+outro que só se faz ouvir pela manhã e á noite; e o terceiro, que sómente geme
+quando lhe apraz.</p>
+
+<p>«Qual é o que não deixa jámais de ouvir-se? A desgraçada mãe de Iowo. O que
+sómente se ouve pela manhã e á noite? A irmã de Iowo, profundamente afflicta. E
+o que só geme quando lhe apraz? É a joven viuva de Iowo.»</p>
+
+<p>O casamento entre os servios é livre, o resultado do <em>mutuus
+consensus</em>. O rapaz apresenta-se em casa do pae da namorada, a pedir-lhe a
+mão da filha. Obtida que seja, dá lhe o annel, penhor do casamento, porque um
+antigo <em>pesma</em> diz: «Como testemunho de amor, dá-se um pomo; como
+perfume, um mangerico;&mdash;mas o annel só se dá para casar.»</p>
+
+<p>Se a donzella quer recusar o noivo, arremessa-lhe o pomo á cara, dizendo:
+«Não te quero a ti nem ao teu pomo.»</p>
+
+<p>Excepcionalmente, algumas vezes, os paes procuram para suas filhas
+casamentos ricos. Os <em>pesmas</em> protestam contra esta excepção. A pobre
+rapariga caminha descalça sobre o gelo, tiritando, e o irmão pergunta-lhe:
+«Tens frio nos pés, querida irmã?» E ella responde: «Não! não tenho frio nos
+pés, meu irmão, mas sinto um frio glacial no coração. Não é a neve que me
+molesta, é minha mãe que me quer dar por esposo aquelle que eu aborreço.» Uma
+outra<span class="pn"><a name="pag_232">{232}</a></span> canção diz: «Vivia na montanha uma
+donzella, e toda a montanha era illuminada pela belleza de seu rosto. Ó meu
+rosto, dizia ella, ó meu unico cuidado, se eu soubesse, meu branco rosto, que
+um velho marido te devia beijar, oh! iria á montanha verde e colheria o
+absyntho, espremeria o seu suco e lavar-te-hia com elle, meu rosto, a fim de
+que o velho, quando te beijasse, lhe sentisse o amargor. Mas se eu soubesse,
+meu branco rosto, que um joven marido havia de te beijar, oh! então iria ao
+verde jardim, colheria todas as rosas e das rosas espremeria o suco para te
+lavar, meu branco rosto, a fim de que o joven noivo, quando te beijasse,
+ficasse perfumado do teu perfume.»</p>
+
+<p>O casamento, revestido ainda de todos os symbolos primitivos, exige que os
+irmãos e amigos da noiva a acompanhem á sua nova casa, a cavallo, ao som de
+musica, entoando canticos e dando tiros. As irmãs e as cunhadas vem então ao
+encontro da noiva, que se adeanta para ellas: apresentam-lhe uma creança que
+ella deve vestir, bem como deve offerecer aos convidados pão, vinho e agua. Só
+quando dá á luz é que a noiva passa a ser considerada como fazendo parte da
+familia. Recebe um dote, que os servios chamam <em>persia</em>. Quando a noiva
+já não tem pae, é o irmão que deve pagar o dote, sempre fixo, e de que o marido
+não póde fazer uso. Mas, circumstancia verdadeiramente<span class="pn"><a
+name="pag_233">{233}</a></span> notavel! quando uma rapariga casa sem auctorisação dos
+pais, a sua união é considerada legitima, pois que tem por base o amor.</p>
+
+<p>Assim é que diz uma canção:</p>
+
+<p>«Eu queria pedir a tua mão, mas teu pae não me quer para genro, e eu só não
+te posso roubar. Escuta as minhas supplicas, vem para mim, que t'o peço
+eu.&mdash;Bello amigo, é inutil pedir a minha mão; meu pae recusar-t'a-ha. Não
+penses em roubar-me, porque tu o pagarias, meu bem amado. Tenho nove irmãos e
+numerosos primos; quando elles montam nos seus cavallos negros, com as suas
+finas espadas na mão, só vel-os causa horror. Não quero que tu morras
+combatendo com elles; e se fugisses, não mais te poderia ouvir. Amo-te.
+Chama-me, eu irei voluntariamente lançar-me nos teus braços.»</p>
+
+<p>Os funeraes são, entre os servios, tão poeticos como o casamento. Quando
+morre alguem, os parentes levantam grande alarido; os homens saiem descobertos
+durante alguns dias; as mulheres deixam fluctuar os cabellos e os vestidos. Os
+homens choram silenciosamente, mas as mulheres, desde o dia da morte até ao do
+enterro, não cessam de <em>naritsati</em>, quer dizer de cantar em voz alta a
+sua dôr, pranteando a sorte do morto e dos seus.</p>
+
+<p>«Ai! ai! trava-se na minha alma um terrivel combate! Volto os meus olhos
+para o anjo luminoso<span class="pn"><a name="pag_234">{234}</a></span> de Deus, e exclamo:
+Fazei com que a minha vida seja curta. Mas Deus não me escuta. E eu, ai!
+contemplo o oceano da vida, de que as más paixões são as vagas, e em vão desejo
+abordar a porto e salvamento.»</p>
+
+<p>Segue-se a cerimonia dos funeraes, sendo o esquife do morto conduzido ao
+cemiterio pelos amigos. Quando o féretro desce á sepultura, um sacerdote
+lança-lhe em cima um punhado de cinzas, e as mulheres recomeçam a prantear
+longa e tristemente. Cada anno ha um dia consagrado aos mortos: é o
+Zaduchnitzi.</p>
+
+<p>Os servios, como diz Theophilo Lavallée, formam a população christã mais
+importante da Turquia, pela dignidade e gravidade do seu caracter, pela sua
+coragem, bondade, generosidade, costumes patriarchaes, amor á patria, usos e
+religião.</p>
+
+<p>A festa dos ramos é a primeira do anno: celebra o advento da primavera. As
+raparigas juntam-se n'uma collina e cantam o hymno da resurreição de Lazaro: «A
+creança cresce, o homem vive, o velho morre n'esta ideia: quando virá o imperio
+servio?» No dia seguinte, antes de nascer o sol, vão buscar agua e cantam em
+côro: «As pontas do veado tornam a agua turva, mas o seu olhar torna-a clara e
+limpida.»</p>
+
+<p>Esta canção deve ser interpretada n'um sentido mythico.</p>
+
+<p>O veado, cujas pontas tornam a agua turva,<span class="pn"><a
+name="pag_235">{235}</a></span> é o inverno, o tempo brumoso. Gubernatis, fallando do
+veado mythico, diz-nos que ha o veado negro, que symbolisa o céu coberto de
+nuvens, e o veado luminoso, que figura em muitas lendas da India. Ora n'esta
+canção servia, o olhar do veado, que torna as aguas claras e limpidas, deve ser
+considerado como o triumpho alcançado pela primavera sobre o inverno.</p>
+
+<p>Reinach diz que as raparigas servias saúdam no regresso da primavera a volta
+dos tempos felizes para o amor, entoando canções notavelmente simples, taes
+como esta: «Dois amantes beijaram-se na campina, e julgavam que ninguem os
+teria visto. Mas a campina viu-os, e contou tudo ao branco rebanho, que o
+repetiu ao pastor; o pastor disse-o ao viandante, o viandante ao marinheiro,
+que por sua vez o contou á barca. A barca foi dizel-o ao rio, e o rio á mãe da
+rapariga.» Os leitores de um livro meu, <em>Atravez do passado</em>, conhecem
+já a ideia fundamental d'esta canção encantadora, que se encontra tambem na
+Grecia, e que tem sido glosada por distinctos poetas, entre os quaes o allemão
+Chamisso.</p>
+
+<p>No fim de abril realisa-se a festa de S. Jorge, um dos patronos da Servia.
+As mulheres vão ás montanhas colher hervas e flores, que lançam depois ao rio,
+onde no dia seguinte se banham. É assim pois que os servios, como os outros
+povos slavos, celebram o advento da primavera.<span class="pn"><a
+name="pag_236">{236}</a></span></p>
+
+<p>Vem immediatamente a festa de Kralitza, em que as donzellas festejam Lelio,
+a Venus da Servia, a deusa do amor.</p>
+
+<p>Segue-se o S. João, o tempo da canicula, em que, como diz a lenda, o sol
+parou outr'ora tres vezes. Se o anno tem corrido sêco, procede-se a uma
+cerimonia verdadeiramente original: uma rapariga, cujos vestidos consistem
+apenas n'uma ligeira tunica de folhas e flores, percorre, acompanhada por
+outras, os campos, que vae aspergindo com um regador, pedindo ao céu uma chuva
+fecundante, invocando o sol e a lua: <em>«Tako mi Suntza!</em> (o sol) <em>Tako
+mi Semlie</em> (a lua)! Que o sol seja comigo! Que a lua me proteja! Ligeiras
+corremos atravez da aldêa; possam as nuvens do ceu, mais rapidas do que nós,
+beneficiar os prados e as vinhas. <em>Tako mi Semlie.</em>» Quando, pelo
+contrario, o anno tem corrido chuvoso, os habitantes do campo imploram o
+auxilio de Elio, que não é senão o sol.</p>
+
+<p>As festas domesticas na Servia têem um caracter deliciosamente intimo. Os
+viajantes, os estranhos são sempre recebidos com amavel hospitalidade. O chefe
+da familia, quando o repasto se realisa, entôa a canção de Batschka: «Tres
+passaros desferiram vôo atravez do espaço, levando cada um no bico um presente
+precioso: o primeiro, um grão de trigo; o segundo, um bago de uva; o terceiro a
+alegria<span class="pn"><a name="pag_237">{237}</a></span> e a felicidade. O grão de trigo
+caiu sobre a planicie de Batschka, o bago de uva sobre as montanhas de Gore;
+possam sobre a nossa mesa caír a alegria e a felicidade.»</p>
+
+<p>Mas de todas as festas domesticas da Servia, o Natal é a mais solemne.</p>
+
+<p>Ao fim da tarde, terminado o trabalho, o pae de familia vae á floresta
+cortar um carvalho novo e, pondo-o ás costas, volta para casa. Quando entra,
+exclama:</p>
+
+<p>«Boa noite! feliz Natal!»</p>
+
+<p>E a familia responde: «Que Deus te proteja, e te dê boa colheita!» Depois, o
+carvalho (badujak) é posto no fogo. No dia seguinte, a gente moça percorre a
+povoação a cavallo, disparando tiros de pistola. E o pae de familia,
+apparecendo á janella, atira para a terra alguns grãos e sementes, dizendo:
+«Natal! Natal! Christo nasceu.» Ao que os moços respondem no estylo do
+Evangelho: «Em verdade nós vol-o dizemos, Christo nasceu.»</p>
+
+<p>Então, todas as familias se juntam em torno do carvalho que arde,
+açoitando-o com correas; e quando as faiscas saltam, exclamam: «Tantas faiscas,
+quantos bois, cavallos, cabras, carneiros, porcos, abelhas e bençãos do ceu
+teremos este anno.»</p>
+
+<p>A festa do Natal dura tres dias. E até que entre o novo anno, toda a gente
+se saúda, dizendo: «Christo nasceu!» e respondendo:<span class="pn"><a
+name="pag_238">{238}</a></span> «Em verdade, nós vol-o dizemos, Christo nasceu!»</p>
+
+<p>A universalidade das crenças populares é realmente um facto admiravel!</p>
+
+<p>Assim como os servios tem o <em>badujak</em>. temos nós, nas provincias do
+norte, e citaremos para exemplo o concelho da Maia, arrabalde do Porto, o
+carvalho do Natal, que tambem se põe no fogo e que no fim da noite se guarda
+para tornar a accender-se em occasião de tempestade.</p>
+
+<p>A Servia é decididamente o paiz das canções. Todos os seus habitantes
+cantam. Em cada casa ha uma <em>guzla</em>, especie de mandolim ou guitarra,
+que tem apenas uma corda de crina. Não ha festa sem canção e sem
+<em>guzla</em>. A Europa occidental conhece de varias imitações ou traducções
+muitas das poesias populares da Servia. Prosper Mérimée, tendo aprendido cinco
+ou seis palavras de slavo, compoz em quinze dias um pequeno romanceiro, que
+attribuiu a um imaginario tocador de <em>guzla</em>, Jacintho Maglanovitch.</p>
+
+<p>Na poesia servia relevam a riqueza das imagens, a ingenuidade dos
+sentimentos, o ardor do patriotismo. A estrophe, sempre melodiosa, é geralmente
+curta; e o acompanhamento da <em>guzla</em> apenas a toma nos ultimos versos.
+Os cantos nacionaes são compostos em trocheus; as canções de amor admittem os
+dactylos.</p>
+
+<p>No estudo da poesia servia ha a distinguir<span class="pn"><a
+name="pag_239">{239}</a></span> os <em>pesmas</em> heroicos que os homens acompanham
+na <em>guzla</em>, e as canções do lar, que as mulheres e as raparigas
+entoam.</p>
+
+<p>Foi só muito tarde que os servios começaram a escrever os seus
+<em>pesmas</em>. Em conformidade com a theoria de Vico, a poesia, entre elles,
+precedeu a prosa, que foi definitivamente fixada por Obradwitch, depois da
+primeira metade do seculo passado.</p>
+
+<p>Os slavos do sul só modernamente attingiram na litteratura a fórma
+dramatica. Annibal Lusitch foi quem primeiro escreveu para o theatro, começando
+elle e os seus imitadores per seguirem o rasto dos poetas italianos,
+Metastasio, Alfieri, Guarini. Foi Estevão Popovitch quem comprehendeu que os
+assumptos nacionaes convinham ao theatro. Entre as suas producções merece
+especial menção a comedia <em>Belgrado na antiguidade e em nossos dias</em>,
+que teve um grande successo nos theatros provisorios levantados em Agram e
+Belgrado. Popovitch foi pois o Eschylo da Servia; Martinho Ban, auctor dos
+dramas <em>Lazaro</em> e <em>Meirima</em>, póde ser considerado o Sophocles
+servio. A <em>Meirima</em> tem por assumpto o amor de um christão por uma
+mussulmana, assumpto que, posto fosse tratado por Voltaire e Byron, offerece
+comtudo um certo encanto de execução.</p>
+
+<p>Entre as creações phantasticas da poesia popular da Servia devem contar-se
+as <em>vilas</em>, a<span class="pn"><a name="pag_240">{240}</a></span> que chamamos
+<em>feiticeiras</em>, á falta de melhor vocabulo, mas que são creaturas
+mysticas, que presidem aos votos do povo e que pairam silenciosamente sobre a
+existencia dos homens. São ligeiras e bellas, diz Reinach; o vento brinca,
+passando, com os seus longos cabellos. Habitam sobre as colinas, perto dos
+regatos, sobre o Lotchen, cujo cimo, onde a tempestade ruge incessantemente, é
+coberto de neves eternas.</p>
+
+<p>Mas se as <em>vilas</em> são os genios bemfasejos da Servia, existem, em
+opposição a ellas, espiritos maleficos, que trabalham pela perdição do genero
+humano. São os <em>viétchizés</em> que, flucctuando nos ares, surprehendem os
+pastores adormecidos, abrem-lhes o peito com uma vara magica, fixam o dia da
+sua morte, comem-lhes o coração, fecham de novo o peito das victimas e
+desapparecem.</p>
+
+<p>Quando os pastores acordam, sentem-se abatidos, doentes. E pouco depois
+expiram.</p>
+
+<p>Mas uma das creações mysticas que mais impressionam a imaginação slava é o
+<em>vampiro</em>, que se alimenta da carne dos cadaveres e do sangue dos
+vivos.</p>
+
+<p>Entre os typos dos <em>pesmas</em> heroicos, o mais notavel é Marko, o Cid e
+Roland da Servia.</p>
+
+<p>Mas, percorrendo o cancioneiro servio, são as canções de amor as que mais
+nos encantam. Terminaremos este ligeiro artigo com uma canção amorosa, que
+rompe dos labios de uma<span class="pn"><a name="pag_241">{241}</a></span> rapariga: «<em>Ó
+tchardak</em> (leito), um fogo abrazador me devora: ninguem, durante a noite,
+está á minha direita ou á minha esquerda; revolvo com o meu corpo a coberta, e
+com a coberta as, minhas dôres.» E o namorado responde-lhe: «Ó Mileva,
+assenta-te a meu lado. Nós não somos selvagens, nós sabemos onde se deve
+beijar: as viuvas entre os olhos, as solteiras entre os peitos.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">F<small>IM</small></p>
+</div>
+
+<h1>INDICE</h1>
+
+<table align="center" summary="Indice">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:right;">Pag.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">I</td>
+ <td>O primeiro mosquito</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_5">5</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">II</td>
+ <td>A comedia das praias</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_11">11</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">III</td>
+ <td>N'uma praia solitaria</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_20">20</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">IV</td>
+ <td>Os frequentadores das praias</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_30">30</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">V</td>
+ <td>Casos...</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_38">38</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">VI</td>
+ <td>Á volta dos pés da imperatriz</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_56">56</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">VII</td>
+ <td>Loucura alegre</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_65">65</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">VIII</td>
+ <td>A mascotte</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_73">73</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">IX</td>
+ <td>Era em abril...</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_80">80</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">X</td>
+ <td>A felicidade e a camisa</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_85">85</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XI</td>
+ <td>Morte de um gentleman</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_91">91</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XII</td>
+ <td>A «season» lisbonense em 1883</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_100">100</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XIII</td>
+ <td>Gostos não se discutem</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_106">106</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XIV</td>
+ <td>Peccadilhos metricos</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_115">115</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XV</td>
+ <td>Os amaveis</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_130">130</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XVI</td>
+ <td>A sepultura d'um traidor</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_137">137</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XVII</td>
+ <td>A caminho do Alemtejo</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_148">148</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XVIII</td>
+ <td>A mulher</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_155">155</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XIX</td>
+ <td>O carnaval...</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_163">163</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XX</td>
+ <td>O chapeu</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_171">171</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XXI</td>
+ <td>Os antipodas</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_181">181</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XXII</td>
+ <td>As uvas</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_190">190</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XXIII</td>
+ <td>Pessoas conhecidas de vossas excellencias</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_197">197</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XXIV</td>
+ <td>Comer a dois carrilhos</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_207">207</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XXV</td>
+ <td>O ultimo puritano</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_212">212</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XXVI</td>
+ <td>Os principes do Perú</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_221">221</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XXVII</td>
+ <td>A poesia da Servia</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_229">229</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<h1>ERRATAS</h1>
+
+<p>Pag. 69, lin. 9, onde se lê&mdash;um bilhete Colyseu leia-se&mdash;um
+bilhete do Colyseu.</p>
+
+<p>Pag. 104, lin. 30, onde se lê&mdash;Á vista de um
+trabalho&mdash;leia-se&mdash;Á custa de um trabalho, etc.</p>
+
+<p>Pag. 142, lin. 23, onde se lê&mdash;deixaria na primeira
+leia-se&mdash;deixaria ir na primeira, etc.</p>
+
+<p>Pag. 155, lin. 2, onde se lê&mdash;havido acontecimentos
+leia-se&mdash;havido acontecimento, etc.</p>
+
+<p>Pag. 176, lin. 16, onde se lê&mdash;E como&mdash;leia-se&mdash;É como,
+etc.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="full">
+<p>***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MANHÃS DE CASCAES***</p>
+<p>******* This file should be named 33588-h.txt or 33588-h.zip *******</p>
+<p>This and all associated files of various formats will be found in:<br>
+<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/3/3/5/8/33588">http://www.gutenberg.org/3/3/5/8/33588</a></p>
+<p>Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.</p>
+
+<p>Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.</p>
+
+
+
+<pre>
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+<a href="http://www.gutenberg.org/license">http://www.gutenberg.org/license)</a>.
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS,' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://www.gutenberg.org/about/contact
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://www.gutenberg.org/fundraising/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Each eBook is in a subdirectory of the same number as the eBook's
+eBook number, often in several formats including plain vanilla ASCII,
+compressed (zipped), HTML and others.
+
+Corrected EDITIONS of our eBooks replace the old file and take over
+the old filename and etext number. The replaced older file is renamed.
+VERSIONS based on separate sources are treated as new eBooks receiving
+new filenames and etext numbers.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+<a href="http://www.gutenberg.org">http://www.gutenberg.org</a>
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+EBooks posted prior to November 2003, with eBook numbers BELOW #10000,
+are filed in directories based on their release date. If you want to
+download any of these eBooks directly, rather than using the regular
+search system you may utilize the following addresses and just
+download by the etext year.
+
+<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/etext06/">http://www.gutenberg.org/dirs/etext06/</a>
+
+ (Or /etext 05, 04, 03, 02, 01, 00, 99,
+ 98, 97, 96, 95, 94, 93, 92, 92, 91 or 90)
+
+EBooks posted since November 2003, with etext numbers OVER #10000, are
+filed in a different way. The year of a release date is no longer part
+of the directory path. The path is based on the etext number (which is
+identical to the filename). The path to the file is made up of single
+digits corresponding to all but the last digit in the filename. For
+example an eBook of filename 10234 would be found at:
+
+http://www.gutenberg.org/dirs/1/0/2/3/10234
+
+or filename 24689 would be found at:
+http://www.gutenberg.org/dirs/2/4/6/8/24689
+
+An alternative method of locating eBooks:
+<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/GUTINDEX.ALL">http://www.gutenberg.org/dirs/GUTINDEX.ALL</a>
+
+*** END: FULL LICENSE ***
+</pre>
+</body>
+</html>