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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:59:49 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + + + + +Title: Manhãs de Cascaes + + +Author: Alberto Pimentel + + + +Release Date: August 30, 2010 [eBook #33588] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + + +***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MANHÃS DE CASCAES*** + + +E-text prepared by Pedro Saborano + + + +Notas de transcrição: + + O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso + em 1893. + + Foi mantida a grafia usada na edição original de 1893, tendo sido + corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a + leitura do texto, e que por isso não foram assinalados. + + No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali + apresentados. + + + + + +ALBERTO PIMENTEL + +Manhãs de Cascaes + + +Edictor + +Livraria Ferin + +Lisboa + + + + +ALBERTO PIMENTEL + + +Manhãs de Cascaes + + + + +1893 +Livraria Ferin +Lisboa + + + + +I + +O primeiro mosquito + + +Chegou o inimigo. + +Ouvi hontem o seu clarim vibrante resoar sobre a minha cabeça em som de +guerra. + +Era a guarda avançada do grande exercito alado do verão, hunos do ar que +invadem os nossos quartos de cama zombando perfidamente de todas as +nossas precauções e dilacerando-nos a carne com o seu pequenino áspide, +agudo como um punhal. + +--Ah! disse eu. É o primeiro mosquito que chega! + +E estremeci de horror. + +É que se ha animal n'este mundo que me incommode, que seja incompativel +comigo, esse animal é o mosquito,--o pequeno mosquito, um dos mais +sanguinarios inimigos da humanidade. + +Uma vez, em certa praia, um amigo meu mostrou-me o seu quarto, cujas +paredes estavam revestidas de uma estranha pintura,--arabescos de +sangue, o sangue da victima, o sangue d'elle, o desgraçado! + +--Entram os mosquitos, dizia-me o meu pobre amigo, e roubam-me o que eu +tenho menos, roubam-me o sangue. Eu, não podendo repellir a aggressão, +porque essa praga de mosquitos vem aos centos, adoptei a estrategia de +os deixar cevarem-se á vontade. Engordam e agiboiam-se, ficam obesos e +inertes. Então sôa a hora da minha vingança, pego n'um sapato e atiro-me +a elles como S. Thiago aos mouros. Pá! pá! sapatada para a direita, +sapatada para a esquerda, aqui se esborracha um, ali se estampa outro, a +parede salpicada de sangue parece um crivo, um mappa, e é assim que eu, +durante um mez, tenho conseguido ornamentar o meu quarto com esta +estranha decoração, arabescos de sangue roubado ás minhas proprias +veias. O que está ali na parede sou eu, depois de ter atravessado pelo +interior de um mosquito. Centenas d'elles me teem sugado, com o meu +sangue teem vitalisado os seus orgãos sonoros, porque cada mosquito traz +ás costas uma fanfarra estrondosa, que nos ensurdece com o tinido dos +seus metaes. Tenho n'aquella parede o meu sangue, e tenho no meu corpo a +minha anemia: o traço de união entre aquillo, que é a parede, e +isto, que sou eu, é o mosquito. + +Ha banhista que prefere dormir na praia, sobre um banco de pau, ou mesmo +sobre a areia, a dormir em casa sob a tyrannia dos mosquitos. + +Um sujeito encontrei eu já, que, accordando de madrugada meio devorado +pelos mosquitos, sahiu para o meio da rua,--com o resto do corpo que +elles lhe tinham deixado de fartos. + +Logo que amanheceu e a primeira tenda da praia se abriu, elle correu a +escrever sobre o balcão a seguinte carta ao senhorio, que era um dos +pescadores mais ricos da terra: + + +«Illmo. sr. José Peixeiro:--Sendo v. s.ª um dos homens mais +considerados d'esta localidade, regedor de facto e barão em perspectiva, +muito me admira que commettesse a burla de arrendar a sua casa a duas +familias ao mesmo tempo. Quando me entregou a chave da porta, fez-me +suppôr que não havia lá dentro mais inquilinos. Com effeito, assim me +quiz parecer quando entrei, porque a unica pessoa, e essa inoffensiva, +que encontrei, foi o cavalleiro D. Fuas Roupinho a pique de despenhar-se +do rochedo da Nazareth. É realmente um quadro muito bonito, que, longe +de me incommodar, me deleitaria. Aposentei a minha familia, a minha +mulher e os meus filhos, e eu preferi para meu uso o quarto onde se acha +o quadro do _Milagre da Nazareth_, porque sou amador, e falla-se mesmo +em mim para inspector da Academia de Bellas Artes. Deitamo-nos. Eis +senão quando, outra familia de inquilinos surge como por encantamento. +Primeiro appareceu o pae, depois a mãe, depois os meninos, depois as +meninas, depois os meninos dos meninos, depois as meninas das meninas, +depois os bisnetos, depois os tresnetos, depois os tetranetos, uma +alluvião de individuos, uma phalange, um exercito e, sem respeito nenhum +pelo nosso somno, começaram a conversar em voz alta, o pae com a mãe, os +manos com as manas, os tios com os sobrinhos, os primos com as primas. +Calei-me a vêr no que aquillo parava. Mas não parou. Depois toda essa +magna caterva teve vontade de ceiar, foi á dispensa, foi á cosinha, e +como não encontrasse nada para comer, resolveu comer a minha familia +inteira. Participo-lhe, pois, que estamos comidos,--duas vezes: pelo +senhor e por elles, os outros inquilinos do meu predio. Resolvi portanto +mudar de casa para um banco da praia, que está á sua disposição, se nos +quizer dar a honra da sua visita. Quanto á sua casa, ahi lhe mando as +chaves, para que o sr. vá lá dormir esta noite com a sua familia, a fim +de verificar se as minhas informações são verdadeiras ou não.» + + +O sr. José Peixeiro respondeu immediatamente: + + +«Lá irei á noite vêr essa pouca vergonha, e se fôr como diz eu cá estou +para obrar como regedor.» + + +Então o pobre queixoso julgou dever prestar mais um esclarecimento +importante á digna auctoridade parochial: + + +«Illmo. sr. José Peixeiro.--Tenho por conveniente informal-o de que na +minha carta anterior faltou um _note bene_, que vae agora. + +Os inquilinos a que me refiro são os mosquitos. + +Supponho que esta informação ha de aproveitar á sua perspicacia.» + + +José Peixeiro deu-se pressa em enviar a seguinte replica: + + +«A minha casa é a melhor da villa, e tem sido sempre habitada por +pessoas de importancia. Eu, no resto do anno, vivo lá. E tanto eu como +minha senhora temos gosado saude; a unica doença que a minha senhora lá +tem tido foi um parto. Eu, nem isso; sou são como um pêro. Mosquitos e +moscas em toda a parte os ha; a mim ainda me incommodam mais as moscas +do que os mosquitos. O anno passado, o sr. visconde do Pecegueiro +veiu a morrer para a minha casa, e foi-se embora tão bom, que até o meu +compadre barbeiro, que tem pilheria, disse que elle ainda ia capaz de +dar pecegos. Mas para não se incommodar com os mosquitos inventou o +systema de dormir de caraça e de luvas. Faça o senhor outro tanto, e não +dê importancia aos trombeteiros.» + + +Ah! caro leitor, aviso-o para que se acautele, visto que já fui atacado +pelo primeiro mosquito d'este verão: compre caraça e luvas como o +visconde do Pecegueiro. + +Oh! o primeiro mosquito! Que horror! + + + + +II + +A comedia das praias + + +De manhã cedo, na praia, todos parecem ter ainda o olhar vidrado, +estupido, de quem acaba de accordar. + +Olham uns para os outros com certa surpreza spasmodica, achando-se feios. + +Defeitos que durante o dia chegam a passar despercebidos, avultam: foi +n'uma praia que eu descobri que certa dama, aliás formosa, tinha uma +orelha maior que a outra... de manhã! + +Dar-se-ia o caso que, depois de feita a _toilette_, a orelha mais +pequena crescesse ou a maior diminuisse? + +Certamente que não. Mas diante do espelho, com vagar, um geito dado ao +cabello, artisticamente, encobria o defeito da orelha. O ferro de frisar +salvava a situação: a madeixa, que elle fazia descer, salvava a orelha, +que a natureza fizera subir. + + * * * * * + +Em questões de _toilette_, o meio termo não é admissivel: ou tudo ou +nada. Ou a _toilette_ esplendida ou... a estatua. Eva, depois do peccado +original, faz-nos rir vestida de folhas de figueira. Ora o fato de banho +é o meio termo: a folha de figueira. Para vestir... é pouco; para +despir... é muito. + +Ha porém uma coisa peior do que vestir um fato de banho: é querer +sophismal-o. + +Certas damas, quando chegam á praia, conseguem dar na vista pela +perfeição plastica das suas curvas. Ao entrar na agua, vestidas para o +banho, perdem as curvas. Não perderam; deixaram-n'as na barraca. Este +sophisma deploravel revela a carencia de um bom argumento. Argumento ou +augmento. O eufemismo é o mesmo. Mas só a praia consegue revelar um +segredo, de que, quando muito, apenas se suspeitava... + + * * * * * + +Andam pessoas a enganar-nos durante onze mezes em cada anno. + +Suppomol-as polidas, eruditas, francas, estimaveis. + +Em Lisboa, quando as encontravamos na rua, trocavam comnosco um +_shake-hand_, tinham um dito amavel ou sentencioso, pareciam-nos +cordealmente expansivas. + +Nas praias, á sombra de um _chalet_ ou de uma arvore, durante duas horas +de conversação, desmascaram-se. Dia a dia, podemos fazer o inventario +das suas idéas, dos seus sentimentos, das suas opiniões. E, ao cabo de +um mez de estação balnear, averiguamos que: + +Fulano, que vae á missa em Lisboa, não crê em Deus. + +Sicrano, que tinha fóros de erudito, apenas lê a _Revista dos dois mundos_. + +Beltrano, que parecia fallar-nos com o coração nas mãos, não fazia outra +coisa senão metter-nos os pés nas algibeiras. + + * * * * * + +Em Lisboa, accusa-se o Gremio e a Havaneza de terem má lingua. + +Pobre Havaneza! pobre Gremio! pagam as favas injustamente. + +A maledicencia habitual d'esses dois pontos, de reunião tem apenas um +caracter pessoal. Eu explico. Ordinariamente, falla-se só do sujeito que +passou ou do sujeito que saiu. + +A maledicencia das praias estende-se á geração, chega ao pae, passa ao +avô, alcança ás vezes o bisavó. É retrospectiva. Por exemplo: + +--Quem é aquelle sujeito que vem acolá? + +--Pois não conhece! É fulano. + +--Não conheço. + +--Ha de lembrar-se com certeza do caso da herança do Gutierres. Foi +muito fallado. + +--Lembro-me, sim. + +--Pois este é que falsificou o testamento. + +--Este! E anda vestido de branco,--como as virgens! + +--É de familia... + +--O fato branco? + +--Não. A alma negra. O pae foi negreiro. + +--Já vem mais de traz, isso. + +--Por quê? + +--O avô enriqueceu no tempo dos francezes, dando assalto ás casas dos +visinhos que tinham fugido. + +O sujeito aproxima-se, dois ou tres levantam-se para abraçal-o; mas a +esse tempo, que foi pouco, já lhe está desenterrada a familia até ao avô. + +O vagar faz colhéres, diz o povo. Nas praias, o vagar faz exhumações +tremendas. Não ha bisavô que esteja seguro na sepultura. + + * * * * * + +Na comedia das praias, as moscas teem um papel importante. Em Lisboa, +para se dar importancia a uma mosca, é preciso que ella haja sido +audaciosa até o ponto de escolher para suicidar-se o nosso prato de +sopa. De resto, em Lisboa, as moscas morrem, mas, nas praias, as moscas +matam. Teem dentes; são carnivoras. Mordem, perseguem, endoidecem a +gente. Desforram-se da ociosidade de um anno inteiro, esperam famintas +pelos banhistas, e, depois de os morder, zumbem e zombam, parecem rir de +troça umas com as outras. + +Só nas praias é que o europeu consegue ser victima das moscas. E +fallarmos nós com horror das moscas de Africa! As moscas saloias são +muito peiores! + + * * * * * + +Em Lisboa, os criados passam ás vezes um anno inteiro sem partir loiça. + +Mas, chegando ás praias, os seus dedos parecem debeis como vimes. +Quebram hoje um copo, ámanhã um prato, escacam, em quinze dias, metade +da loiça do senhorio. + +Encontrei uma vez, n'uma praia, certa dama, que andava afflictissima de +loja em loja, procurando alguma coisa, que lhe dava grande cuidado. + +--Imagine, disse-me ella, que o meu criado quebrou hontem uma chavena! + +--É vulgar. + +--Quebrar é vulgar; mas a chavena é que o não era. + +--Como assim?! + +--Quando eu vim, a senhoria disse-me: «Peço a v. ex.ª todo o cuidado com +esta chavena, que era a chavena do papá.» + +--Como o sabre da _Grã-duqueza_! + +--Isso. Ninguem se servia d'aquella chavena gloriosa, nenhum de nós +tinha ousado mandal-a tirar do guarda-loiça. Mas o meu criado ousou +limpal-a hoje, e quebrou-a. Aqui ando eu agora afflicta á procura de uma +chavena, que possa continuar a ser, na tradição da casa, a _chavena do +papá_! + + * * * * * + +Nada ha que me dê tanto a impressão do communismo como um club de praia. + +É de todos, sem pertencer a ninguem. + +Cada um que vem chegando pensa que o club é seu. A primeira cousa de que +se apossa é... o piano. O piano passa a ser, não um instrumento de +musica, mas um escravo. Submisso, paciente, resignado, obedece como um +negro, cujos dentes são muito brancos... Açoutam-n'o com as mãos, e não +protesta; dão-lhe pontapés no pedal, e não se desconjunta. Familias +inteiras vão affirmar no teclado os seus direitos de socio. A mãe toca a +_Norma_, que é uma opera do seu tempo, a filha perpetra a +_Carmen_; o filho executa os _Fados_--com a mão direita. + +O pae agarra-se aos jornaes e parece resolvido a não deixal-os lêr por +mais ninguem. + +As primeiras senhoras que á noite chegam ao club parecem tomar gosto á +grandeza da sala... + +O seu desejo seria talvez que as outras, mais retardatarias, ficassem á +porta a contemplal-as... de longe. + +Mas, como isso não acontece, as que já estão de posse da sala, +preparam-se para o ataque, assestam as suas baterias. + +É o _lorgnon_... + +É o sorriso sardonico... + +É o ditinho picante... + +Tudo isto entra em fogo ao mesmo tempo. + +Depois, as que acabam de chegar, fazem causa commum com as que já tinham +chegado e, preparadas para o combate, ficam á espera das que hão de +chegar ainda... + + * * * * * + +Ha sempre nas praias uma menina que recita. + +De pé, quasi sempre vestida de branco, recita versos azues. Quero dizer, +versos ethereamente romanticos. Em quanto ella recita, a mãe põe +os olhos no chão. As outras senhoras põem o leque diante da cara. + +Algumas vezes, a menina engana-se, falta-lhe a memoria. Nem para traz +nem para deante. + +Então lança mão de um recurso supremo: desmaia. + +--Um medico! Não está ahi um medico? + +N'uma praia estão sempre quatro medicos, pelo menos. + +Vem um. + +--Isto não é nada, passa já. + +Mas o irmão mais novo da menina desmaiada foi, a correr, buscar a casa o +_Almanach das Senhoras_. + +E, reanimada por este auxilio, a menina continua a recitação, ficando o +irmão mais novo mettido atraz do piano,--servindo de ponto á mana. + + * * * * * + +Tambem ha sempre uma menina que tem album. + +Pede, a torto e a direito, uns versos, um desenho, uma melodia. + +Póde imaginar-se o valor do album dizendo que são os poetas que +desenham, são os pintores que fazem versos, são os que sabem fazer +desenhos ou versos que escrevem a melodia. + +Em conclusão: ninguem quer perder n'um album o melhor do seu +talento... + + + + +III + +N'uma praia solitaria + + +Um amigo meu, que se acha n'uma praia do norte do paiz, certamente das +menos conhecidas e frequentadas, acaba de descrever-me n'uma carta a +maneira como alli tem vivido desde os ultimos dias de julho. + +Quando chegou, apenas encontrou já installado um outro banhista, que +desde logo se constituiu seu companheiro inseparavel, comquanto então se +vissem pela primeira vez. + +O meu amigo é de Lisboa, o outro reside actualmente no Alto Minho. Foi +o acaso que os reuniu pela identidade de destinos, como dois náufragos +desconhecidos que se encontrassem agarrados á mesma tabua de salvação ou +perdidos na mesma ilha deserta. + +Começaram por tirar cerimoniosamente o chapeu um ao outro, mas ao cabo +de duas horas de convivencia tratavam-se por tu,--intimamente. + +A ilha deserta em que se encontraram era a unica loja importante da +praia,--uma loja onde se vende tudo o que uma pessoa póde desejar em +qualquer momento. + +Supponhamos que um Lucullo extraviado chegava alli e pedia champagne. + +Encostando-se ao balcão, perguntaria: + +--Tem champagne? + +--Tenho, sim, senhor. + +E abrindo um armario mysterioso, cheio de retortas, alambiques, garrafas +e garrafões, o dono do estabelecimento demorar-se-ia um instante +operando chimicamente. + +Passada meia hora, quando muito, apresentaria uma garrafa de champagne, +feito talvez de petroleo, talvez de azeite, talvez de vinagre: +composição sua. + +O freguez poderia extranhar que a garrafa não tivesse capsula de chumbo, +mas apenas uma velha rolha porosa. + +O dono do estabelecimento responder-lhe-ia imperturbavelmente: + +--É verdade isso, mas eu preoccupo-me mais com a qualidade dos meus +vinhos do que com a apparencia das garrafas. + +Lucullo, sentado á sua mesa de familia, provaria o champagne, e ficaria +por ahi, a não ser que quizesse envenenar-se. + +Mas, para não ser o unico a cahir no logro, calar-se-ia e, para rir um +pouco, aconselharia a toda a gente que fosse comprar o bello champagne +da loja do _Elephante azul_. + +Ora é justamente o discreto silencio dos freguezes, que querem ter +companheiros na desgraça (_solatium est miseris_, etc.), que explica a +grande clientella que tem, principalmente na epocha de banhos, a loja do +_Elephante azul_. + +Foi, pois, n'essa ilha deserta, deserta antes do mez de setembro, o +melhor n'aquella remota praia, que os dois solitarios banhistas se +encontraram, e principiaram a tratar-se por tu, duas horas depois de se +terem visto pela primeira vez. + +--Mas então, perguntava o meu amigo, não costuma vir mais gente para aqui? + +--Sim, senhor, respondia o dono do _Elephante azul_, no mez de setembro +é tanta a concorrencia, que eu costumo vender todo o champagne, toda a +cerveja, toda a genebra que fabrico. + +E o outro, que já lá estava a banhos, observava: + +--Em setembro, será assim. Mas desde o dia 20 de julho, em que cheguei, +até hoje, apenas eu só tenho tido a honra de despertar as attenções dos +pescadores. No primeiro dia olharam para mim com surpreza, e nos dias +seguintes com espanto. + +--Como assim?! + +--Espanto de que eu, encontrando-me sosinho, continuasse a ficar... + +--Mas agora somos já dois! + +--Agora seremos um, _in carne una_, porque eu já te não largo, amigo da +minha alma! até que em setembro chegue mais gente. Tu foste a minha +tabua de salvação, ó inesperado e dilecto amigo! + +--O que direi eu então de ti, que me proporcionaste occasião de ter com +quem fallar da crise monetaria e do caso das Trinas! Feliz de mim, que +te encontrei, e de ti que me encontraste! Gloria a Deus nas alturas, e +paz na terra... a dois homens! + +--Imagina, porém, que, por nos exaltarmos em qualquer discussão, +tinhamos de ficar de mal um com o outro? + +--Era o mesmo que romper com toda a humanidade! + +--Mas o que farias tu? + +--Eu?! Eu ficaria de bem comtigo até que, chegando setembro, podesse +encontrar dois padrinhos para te mandar desafiar... + +Começou agosto, e por mais que os dois amigos espreitassem para dentro +de todas as diligencias que se fazem annunciar ao som de estridulas +campainhas, não viam chegar ninguem. + +--Então para que servem as diligencias? perguntava um. + +--Servem para alimentar a tradição de viajar, respondia o outro. + +O dono do _Elephante azul_ dizia do lado: + +--Em setembro vêem cheias de gente. Ás vezes trazem dezeseis pessoas em +oito logares. + +--Mas não seria melhor que essas pessoas viessem a pouco e pouco, cada +uma em seu logar? + +--Não, senhor. Porque então, replicava o dono do _Elephante azul_, por +muita gente que viesse, não se sentiria tanto. + +Os dois amigos tinham já esgotado todo o reportorio das suas opiniões. + +--O que pensas tu, caro amigo, a respeito do caso das Trinas? + +--Já to disse hontem. + +--E a respeito da crise monetaria? + +--Já t'o disse ante hontem. + +--É verdade! Por signal que te repetiste. Tambem já m'o tinhas dito no +dia em que eu cheguei... + +O que mais os aborrecia era não poderem encontrar um terceiro parceiro +para o voltarete. + +Haviam já perguntado ao dono do _Elephante azul_: + +--Sabe o voltarete? + +--Não, sr. Sei fazer champagne, sei fazer cognac, sei fabricar cerveja, +só não sei jogar o voltarete! + +--Porque não trata de o aprender? + +--Não vale a pena: não é coisa que se venda. + +No dia 8 de agosto, por volta do meio dia, qual não foi a surpreza dos +dois amigos quando, encostados á porta de _Elephante azul_, viram chegar +uma carruagem com um passageiro dentro. + +--Eureka! gritou um. + +--Apaga a lanterna de Diogenes! exclamou o outro. + +O passageiro apeiou-se do trem e, sem entrar na loja do _Elephante +azul_, seguiu para o interior da villa. + +--Vae installar-se, disse um. + +--Vae, e não tarda ahi, á procura dos unicos dois homens que n'este +momento lhe podem ser agradaveis. + +O dono do _Elephante azul_, tendo vindo á porta examinar o +recem-chegado, observou: + +--Não é cara conhecida. Nunca veiu cá. + +--Podera! Se já conhecesse a praia, não vinha senão em setembro. + +Ficaram os dois conversando, mas o homem não appareceu. + +--Onde se metteria elle? + +--Naturalmente, disse o dono do _Elephante azul_, anda procurando casa. + +--Se fosse só isso, já a teria encontrado. É mais provavel que ande +procurando gente... + +Cerca das trez horas da tarde, tornou a apparecer a carruagem, mas vasia. + +O caso ia tendo as proporções de um mysterio. + +--O homem suicidou-se! + +--Qual! Anda perdido nas ruas, e não encontra ninguem para lhe ensinar o +caminho. + +Finalmente, o homem appareceu. + +Entrou no _Elephante azul_ para comprar cigarros. + +Os dois banhistas crivaram-n'o logo de perguntas. + +--V. ex.ª vem para cá? + +--Não, sr. + +Os dois olharam-se com dolorosa surpreza. + +--Então não vem para cá? insistiu não sei qual d'elles. + +--Vim justamente fazer o contrario. + +--Mas... não percebo! + +--Vim dizer que não vinha para cá. + +--Nem mesmo em setembro? + +--Nem mesmo... nunca. Tenho ahi um parente que me esperava, e vim +dizer-lhe que não contasse commigo. + +--Mas isto é muito bonito... em setembro! + +--Será. Eu tenho informações que me levam a pensar o contrario. + +--Pois que! Nem sequer tenta fazer uma experiencia! + +--Não, sr. Um amigo meu veiu uma vez em agosto, e esperou até setembro +que viesse gente. Mas em setembro achou-se ainda mais só, porque morreu +de bexigas o unico banhista que lhe podia fazer companhia. + +--N'esse caso vae-se embora? + +--Vou já, respondeu o sujeito pagando os cigarros. + +Já elle ia a dirigir-se para o trem, quando um dos dois se lembrou de +gritar: + +--Ó sr. Mendonça! + +O sujeito não fez caso. + +--Ó sr. Andrade! + +O sujeito dispunha-se a entrar no trem. + +--Ó sr. Mattos! + +O sujeito voltou-se rapidamente. + +--Ah! já sei que se chama Mattos!... tem a bondade de nos dar uma palavra? + +O sujeito, que já tinha um pé no estribo, veiu ao encontro dos dois. + +--Sabe o sr. Mattos, disse um, o que nós estamos resolvidos a fazer? + +O meu amigo olhava para o companheiro de desgraça sem poder adivinhar a +sua intenção. + +--Não sei, mas v ex.^as terão a bondade de dizer. + +--Pois bem, sr. Mattos! Vae sabel-o + +E agarrou-o pelas lapellas do frak. + +--O sr. está preso. + +--Preso?! Porque?! + +Então o meu amigo sentiu-se illuminado. Adivinhou tudo. + +E deitando as mãos aos hombros do homem, gritou por sua vez: + +--Preso... sim, sr.! + +--Mas que crime fiz eu? + +--Não se trata de um crime, nem precisamente de uma prisão. + +--Mas, se não se trata de uma prisão, porque é que me prendem!? + +--Fica apenas detido. Segundo o codigo, é differente. + +--Sómente detido. O codigo estabelece a differença. + +--Preso ou detido! disse o homem. Mas porque? Para que? + +--Detido ou preso... Preso para banhista. + +--Mas eu não quero tomar banhos! + +--Pois não tome, mas fica preso para banhista. + +--Preso não, observou o meu amigo. É bom não confundir as palavras. O +sr. Mattos fica apenas detido até setembro... emquanto não vem mais gente. + +--Mas que proveito tiram d'ahi os srs.?... perguntou o Mattos. + +--O proveito de sermos trez. + +--Trez para tudo: trez para o cavaco, trez para o voltarete, trez para o +banho, trez para o _Elephante azul_. + +--Mas eu não sei o voltarete! + +--Pouco importa. O que se quer é que o jogue. + +--Para jogal-o é preciso aprendel-o. + +--Isso não é inteiramente verdade... Mas, dado o caso que seja +verdade, até setembro tem o sr. Mattos muito tempo para aprender a jogar +o voltarete. + +O meu amigo termina a carta dizendo: + +--«Cá temos o homem preso, e bem vigiado. Á noite fechamos-lhe a porta, +e levamos a chave para casa. Uma noite, para lhe suavisarmos o +captiveiro, resolvemos perder ao voltarete. E assim é que conseguimos +ser trez! Mas, para vêr se vem mais gente, mandamos dizer nos jornaes do +Porto que a praia está muito animada, e que em setembro serão poucas as +casas para os banhistas que se esperam. Vê lá se dizes isso tambem nos +jornaes de Lisboa...» + + + + +IV + +Os frequentadores das praias + + +Escolhamos alguns dos typos que avultam na galeria das praias, para +fixarmos n'elles a nossa attenção por um momento. + +_O fallador_--É o discursador de cada praia, o homem que conta anecdotas +e que sabe da vida alheia. Tem corda para toda a época balnear. +Levanta-se pela manhã a fallar, vai conversar para a praia dos banhos +logo que se levanta, e á noite é o ultimo a sair do club. + +--Meus amigos, diz elle, alli na Arruda aconteceu-me uma vez uma partida +de estalo. Imaginem que um rapaz do meu tempo, vendo-me apeiar da +diligencia, se lembrou de dizer aos da terra que eu era o homem mais +rico de Portugal. D'alli a pouco choviam-me no _hotel_ memoriaes, +requerimentos, bilhetes de visita. Um tal foi propôr-me um negocio que +devia render cincoenta por cento. Outro queria vender-me uma +quinta phylloxerada. E um pai de familia pretendia que eu lhe desposasse +a filha... no caso de ser solteiro. Via-me embaraçado com tantos pedidos +e propostas. De modo que tive de escrever para um meu amigo de Lisboa +pedindo-lhe que me dissesse em telegramma; «Falliu Rio Janeiro casa +Antunes & C.ª Paciencia e resignação.» + +Eu li este telegramma na botica da terra, onde me foi entregue, e +exclamei fingindo desmaiar: «Estou arruinado!» + +Acreditaram. Nunca mais ninguem me procurou para saber a resposta que eu +daria aos memoriaes e aos requerimentos. + +D'alli a instantes: + +--Em Maçãs de D. Maria tambem me aconteceu um caso muito ratão. Eu tinha +ido lá para arrematar uma quinta, que devia ir á praça n'esse dia. Mas, +por qualquer motivo, não se realisou a arrematação. Logo souberam, +porém, ao que eu ia. Á noite, armaram um bailarico, e convidaram-me para +assistir. Houve descantes em minha honra. Mas no dia seguinte, +realisava-se a festa de um santo qualquer e vieram dizer-me que eu tinha +de pagar a missa e o sermão, porque era costume da terra que toda a +pessoa que alli fosse pela primeira vez, e recebesse a honra de um +bailarico, fizesse á sua custa a festa d'aquelle santo. + +No club, á noite: + +--Uma vez, na Narazeth, lembramo-nos de ir todos para o club vestidos +com o fato do banho. Imaginem que risota?! + +--Mas as senhoras? O que disseram as senhoras a isso? pergunta alguem, +do lado. + +_O fallador_ não se atrapalha: + +--Ah! as senhoras não foram n'essa noite ao club... + +_O silencioso_--Ouve tudo calado, mascando no seu charuto. Não aventa +uma ideia, não arrisca uma opinião. Não quer conhecer ninguem. Os outros +banhistas que se riem do _fallador_, riem-se igualmente do _silencioso_. +Ao cabo de vinte dias de praia, o _silencioso_ aventura-se a proferir +uma palavra ou duas. Em vez de levar apenas a mão ao chapeu, rompe neste +excesso de eloquencia: «Muito bons dias» ou «Muito boas noites». Cinco +dias depois, já cumprimenta um ou outro pelo seu nome. E no fim do mez, +quando parecia resolvido a fallar, vae-se embora! + +Uma vez, n'uma praia, appareceu um _silencioso_ d'estes. Havia um +_fallador_, que embirrava muito com elle. Era natural. + +--Eu hei de obrigar a fallar este diabo... + +Fazia-lhe uma pergunta, e o homem contentava-se com encolher os hombros. + +--Não importa! Eu hei de obrigar a fallar este diabo... dizia o +_fallador_ assim que o _silencioso_ voltava costas. + +--O cavalheiro toma banhos? + +O _silencioso_ meneiava affirmativamente ou negativamente a cabeça. + +Desesperado, o _fallador_, estando certo dia a contar uma das suas +muitas historias, fingiu-se distraido, e pisou o outro. + +--Que bruto! exclamou o _silencioso_. + +--Mas... fallou! gritou cheio de jubilo o _fallador_. + +O _generoso_--Vá, rapazes, lembrem-se vocês d'alguma festa, e contem +commigo. Póde-se tirar partido de tanta coisa! Querem um arraial? Eu dou +o fogo de vistas. Querem uma regata? Eu dou os premios. Querem uma +burricada? Eu dou os burros. + +--Não os ha, diz alguem, do lado. + +--Qual não ha! Tudo são difficuldades! Já não ha rapazes!... + +--O que não ha são burros. + +--Burros! ha sim, sr. Eu encarrego-me de os mandar vir pelo caminho de +ferro ou, se tanto fôr preciso, pelo telegrapho. Onde ha dinheiro, ha tudo. + +O _sovina_--Andam ahi a fazer uma subscripção? Tem graça! Quem +encommendou o sermão, que o pague. Eu nunca na minha vida dei dez réis +para divertir os outros. Pelo contrario, o que eu quero é que os outros +me divirtam a mim. Agora uma _soirée_! Não vou a parte nenhuma para +tomar chá. Tomo-o em minha casa quando quero. De mais a mais uma +_soirée_ com bolos saloios, que quebram os dentes á gente! E chá de +herva cidreira ainda por cima! No chá não se admitte meio termo: ou bom +ou nada. Eu não gosto senão do Hyson. E depois dá cá dez tostões! Ora +que tal está a maroteira! Queriam dançar? Dançassem a sêcco. Quanto mais +leve se está, melhor se dança! + +O _pai extremoso_--É a primeira vez que o cavalheiro vem a esta praia? + +--Sim, sr.; é a primeira vez. + +--Então hade conhecer poucas senhoras? + +--Muito poucas. + +--É uma contrariedade para quem gosta de dançar. O cavalheiro dança? + +--Gosto muito. + +--Pois bem, esta noite queira procurar-me no club, que eu o apresentarei +a tres ou quatro senhoras. + +--Oh! mil vezes obrigado. + +--Se me não custa nada! + +Á noite, no club, o _pai extremoso_ procede ás promettidas apresentações. + +--Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Engracia. + +E passando em claro apenas uma cadeira: + +--Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Cecilia. + +E duas cadeiras mais adeante: + +--Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Conceição. + +Depois, filando o apresentado pela lapella do frack: + +--Agora já o cavalheiro tem muito com quem dançar. Para o caso, porém, +de querer variar um pouco, apresento-lhe ainda a minha Mimi, que tem +apenas nove annos, mas que gosta muito de dançar. Aprendeu com o Justino +Soares, e elle disse-me quando viemos para cá: «Esta menina ha de vir a +dançar ainda melhor que as irmãs!» + +O _pai indiferente_.--Passo. + +O filho mais novo, chegando-se ao pé da mesa do voltarete: + +--Manda dizer a mamã se faz favor de ir á sala para arranjar um par para +a mana. Ella ainda não dançou. + +--Diz á mamã que vou já. + +D'ahi a pouco volta o pequeno: + +--Faz favor de lá ir, que se vai dançar uma quadrilha. + +--Peço licença. + +--Que diz o papá? + +--Que já lá vou. + +--Então eu espero pelo papá. + +--Isto não tem discussão possivel: cinco matadores. + +--Venha d'ahi, papá. + +--Dois de licença, cinco de matadores, dois de cinco primeiras: nove. + +--Olhe, papá, já começou a quadrilha! + +--Quando se dançar outra, vem chamar-me. + +O _commodista_--Meninas, olhem que já são dez horas. + +--Ámanhã é dia santo, papá. + +--Ó Jeremias! deixa dançar as pequenas mais um bocado... + +--Perde-se todo o effeito dos banhos com estas noitadas! + +--É só mais um bocado... + +--Nada! nada! já estou com muito somno. + +--Vê se o espalhas. + +--A Rosa já deve ter feito o chá. + +--És massador! + +--Ai que deixei a janella do quarto aberta, e entram os mosquitos! Vamos +lá depressa... + +O _sucio_--Eu cá sou de feição. Não gostei nunca de desmanchar prazeres. +Podem dançar á vontade, que eu vou vêr jogar. + +E vae para a rua conversar com as raparigas do povo, que espreitam á +porta do club. + +Uma hora depois, volta á sala. + +--Então, ainda querem dançar mais? + +--Só mais uma valsa. + +--Pois sim! Eu cá não quero ser desmancha-prazeres. Vou lêr os jornaes, +que remedio! + +E torna para a porta do club a conversar com as raparigas do povo. + +--Ó Melôa, já te vaes embora? + +--Já, sim, sr., e não tenho medo dos ladrões. + +--Pois fazes mal. Espera ahi, que eu acompanho-te. Sempre é bom +acautelar... + +O _indigena da praia_--Quem diabo serão os patuscos, que andam a tocar +trompa a esta hora?! Estava no melhor do meu somno! Corja de patifes! + +_Os da trompa_--Sopra-lhe ahi com força para accordares o Diamantino, +que me vendeu um fato de banho por mais seis tostões. Patife! + + + + +V + +Casos... + + +Conta-se a anecdota de certo prelado de uma diocese do Alemtejo, homem +de lettras afamado, que viveu no tempo do marquez de Pombal e que, em +estando entregue aos seus trabalhos litterarios, de nada mais queria saber. + +Um anno, pelo tempo das boas-festas, estava o bispo sentado á banca, no +seu vasto escriptorio--um salão do paço episcopal--quando um diocesano +entrou para cumprimental-o. + +O prelado não deu tento da entrada do homem, tanto era o interesse que +lhe merecia o assumpto de que estava tratando. + +--Sr. bispo! apostrophou timidamente o recem-chegado. + +O bispo não ouviu. + +--Sr. bispo! tornou a exclamar o visitante. + +Nada! O bispo não ouvia. + +Então, muito compromettido, o visitante resolveu-se a empurrar uma +cadeira para fazer barulho. + +O bispo voltou de subito a cabeça. Viu-o, e perguntou: + +--O que é que quer? + +--Eu vinha visitar v. ex.ª + +E o bispo, continuando a escrever, respondeu: + +--Pois visite, visite. + + * * * * * + +O curso do quinto anno de direito estava simulando audiencias, como é +costume, fazendo um estudante de juiz, outro de escrivão do processo, +outro de official de diligencias, etc. + +Constituiu-se o tribunal, e o professor da cadeira disse ao estudante +que representava de juiz: + +--Ha sussurro na sala. O que faz o sr. juiz? + +--Toco a campainha, e recommendo silencio ao auditorio. + +Mas o professor insistiu: + +--Continua o sussurro. O que faz o sr. juiz? + +--Torno a tocar a campainha, e de novo recommendo silencio. + +--Mas supponha que não basta isso. O sussurro continua. + +--N'esse caso, direi: Official, tome nota das pessoas que estão fazendo +sussurro, para serem autuadas. + +--Mas o sussurro redobra. + +E o estudante, já muito atarantado, exclama: + +--Redobra! + +--Sim, senhor,--o sussurro redobra. + +O estudante pensa um momento... + +--Então, insiste o professor, o que fazia o sr. juiz? + +--Eu? Eu fazia isto: punha o chapeu na cabeça e dizia: Está levantada a +sessão. + +Riu o professor, riu todo o curso, e o estudante salvou-se da entalação +d'aquelle dia,--por ter tido uma idéa e um chapeu. + + * * * * * + +Havia um grande capitalista, que, por ter um sobrinho muito +extravagante, já lhe não queria dar vintem. + +Um dia appareceu-lhe o sobrinho annunciando que ia partir para os +Estados Unidos, onde poderia vender melhor do que em Portugal, dizia +elle, o segredo de uma invenção maravilhosa. + +O tio, picado de curiosidade, quiz saber no que consistia a maravilhosa +invenção. Recusa do sobrinho. Insistencia do tio. Finalmente, o +sobrinho revelou o seu segredo: tinha descoberto o processo de fazer +oiro. O tio, tão rico como ambicioso, resolve comprar-lhe o segredo por +seis contos de réis. O sobrinho, simulando alguma difficuldade, acaba +por vender-lhe a receita, que o tio paga immediatamente. Concluida a +transacção, despedem-se, mas, já no fundo da escada, diz o sobrinho ao tio: + +--Ah! esquecia-me uma coisa, meu tio. Para que a receita dê resultado +satisfatorio, é preciso que o tio, quando quizer fazer oiro, não se +lembre do _elephante branco_. + +E saiu com o dinheiro na algibeira. + +O tio tratou de montar o seu laboratorio, e de realisar a receita. Mas, +por mais que quizesse affastar do seu espirito a idéa do _elephante +branco_, essa terrivel idéa acudia-lhe sempre, pelo que jámais conseguiu +tirar da compra que fizera o resultado que esperava... + + * * * * * + +Não sei quando, nem mesmo onde, existiam dois esposos, que se +enriqueceram... de filhos. A boa fortuna parecia apostada em querer que +elles esgotassem todos os nomes do _Flos sanctorum_. + +Começaram pelos vulgares. Os primeiros filhos chamaram-se Manuel, +Joaquim, Antonio, João. Depois passaram a escolher nomes +romanticos: Arthur, Laura, Beatriz, Egberto. Por ultimo, tiveram +que lançar mão dos nomes mais esquisitos e arrevesados: Cunegundes, +Tecla, Mafalda, Thimoteo. + +Um dia, quando já era difficil saber a conta de todos os filhos, e +acertar-lhes de prompto com os nomes, saiu o pae a passeio e, longe de +casa, encontrou na rua uma creança que chorava, escondendo o rosto entre +as mãos. + +Apiedou-se, dirigiu-se á creança, levantou-lhe a cabeça, achou que tinha +uns olhos bonitos, e disse-lhe: + +--O que fazes tu por aqui, meu menino! + +--Ando perdido. + +--Pobre creança! Sabes quem é a tua familia? + +--Não estou bem certo d'isso, meu sr. + +--Tens fome? + +--Muita, muita. + +--E frio? + +--Muito frio... + +--Está bem, anda d'ahi comigo. + +Onde ia elle levar a creança? Ora! onde é que o negociante feliz vai +depositar os seus lucros? No Banco. Pois o Banco onde esse feliz casado +enthesourava todos os lucros da sua prosperidade conjugal era... a sua +propria casa,--o seu lar. + +Chega elle, muito contente, com a creança pela mão. + +--Querida mulher! disse ao entrar em casa. Trago-te mais uma creança... + +--Outra?! + +--Sim, filha, tu és bondosa, compassiva, has de comprehender o impulso +do meu coração. + +--O que queres dizer? + +--Quero dizer que encontrei na rua, abandonada, esta pobre creança, que +não sabe ao certo quem são os seus pais e onde moram. + +E o pequeno, escondendo o rosto choroso entre as mãos, arquejava, +soluçava... + +--Vendo-o, pensei commigo mesmo: Onde cabem vinte, podem caber vinte e +um. Eis aqui está o que eu pensei, e trouxe-o commigo. + +--Que Deus nos ajude, homem! mas já estávamos tão sobrecarregados! + +--Quando tinhamos apenas seis filhos já diziamos isso mesmo! E comtudo +tem havido logar para todos, nenhum d'elles ainda morreu de fome. + +--Pois bem! fique o pequeno. + +A creança conservava-se ao canto da casa, soluçando, arquejando. + +--Disseste que era bonito o pequeno? + +--Olha para elle, e verás os lindos olhos que tem! + +--Levanta a cabeça, meu menino. + +A creança não se mexia. Arquejava, soluçava. + +Então foi preciso levantar-lhe a cabeça quasi á força. + +--Ora esta! exclama a dona da casa. + +--O que é?! pergunta o marido. + +--É o nosso Augusto! + +Eram tantos, que já nem o pai os conhecia! + + * * * * * + +Sabem o que é muito difficil no carnaval? + +É encontrar um companheiro que nos não incommode e que nos não contrarie. + +Ah! isso é que é muito difficil! + +Eu apenas conheço um caso em que certo amigo meu poude encontrar o +melhor dos companheiros para um baile de mascaras. + +Esse companheiro era um general, que parecia excellentemente disposto: +alto, forte, com um bello bigode branco, e algum brilho ainda nos olhos. + +O meu amigo convidou-o para irem a um baile de mascaras. Acceitou logo. +Foram. + +Uma vez no baile de mascaras, o meu amigo sentou-se junto a duas +mulheres mascaradas. O general tambem. O meu amigo fallava-lhes. Ellas +respondiam. Só o general estava calado, parecendo comtudo +excellentemente disposto. + +Convidou-as o meu amigo para irem ceiar todos juntos. O general não +oppôz a menor resistencia. + +--Pois sim! vamos lá ceiar, disse elle. + +Foram ceiar. + +As mulheres tiraram a mascara. O meu amigo disse a uma das mulheres que +gostava muito d'ella, o general não disse nada á outra. + +Comeram. O general comeu tambem. No fim da ceia, queimaram todos quatro +as suas cigarrilhas. O general parecia excellentemente disposto. +Desabotoou o collete, repotreou-se na cadeira, accendeu segunda cigarrilha. + +Veiu a conta. O meu amigo quiz pagar toda a despeza; o general não +consentiu, quiz pagar tambem a sua parte. + +Sairam. + +O meu amigo, voltando-se para o general, disse-lhe: + +--E agora? + +O general, parecendo sempre muito bem disposto, inclinou-se ao ouvido do +meu amigo, e disse-lhe: + +--Olhe, meu caro, eu já não tenho condição nenhuma para gostar de um +baile de mascaras. + +E o meu amigo, sem se desconcertar, sem se surprehender, offereceu o +braço direito a uma das mulheres, o braço esquerdo á outra, e disse ao +general, que continuava a parecer muito bem disposto: + +--Boa noite, general. + + * * * * * + +Certo estudante, tendo faltado ás aulas, apresentou uma certidão de +doença, falsa. + +O medico que a passára era uzeiro e vezeiro em justificar a cabula dos +estudantes, que lhe pagavam a justificação. + +Do alto da cathedra, o professor, tendo relanceado os olhos á +assignatura da certidão, perguntou: + +--Ó sr. Fulano! se estivesse doente chamava este medico para o tratar? + +O estudante respondeu com promptidão e firmeza: + +--Não, senhor. + + * * * * * + +Tinha Antonio Feliciano de Castilho ido ao Rio de Janeiro, e fôra +recebido em audiencia particular pelo imperador D. Pedro II. + +A conversação versou, como era natural, sobre assumptos litterarios. + +Castilho havia sido prevenido de que o imperador, por amor á discussão +com homens notaveis, gostava de que elles o contrariassem nas suas +opiniões. + +Assim avisado, se o imperador dizia que tal objecto era branco, +Castilho sustentava que esse mesmo objecto era preto. + +O sr. D. Pedro II estava delirante de alegria, e propositadamente +prolongava a conversação. + +Veiu a ponto fallarem de versos alexandrinos. + +O imperador declarou que não gostava do verso alexandrino, de que, como +se sabe, Castilho era enthusiasta. + +--Ser-me-ha licito, disse Castilho, perguntar a vossa magestade os +fundamentos da sua opinião? + +--Acho o alexandrino--replicou D. Pedro II, um metro inutil, por isso +que é composto de dois versos de seis syllabas. Digam francamente que +fazem versos de seis syllabas, e escusam de baptisar cada parelha de +seis syllabas com o pomposo nome de alexandrinos. + +Castilho replicou: + +--O que faz vossa magestade quando tem sêde? + +O imperador sorriu-se, e respondeu: + +--Bebo agua. + +--Ora muito bem! tornou Castilho, mas se vossa magestade beber agua por +dois copinhos, não fica tão satisfeito como tendo-a bebido de um só +trago por um copasio enorme. + + * * * * * + +Um homem que se dava excellentemente com a mulher, e que tinha trez +filhas muito bonitas e trez filhos muito espertos, não podia soffrer a +sogra,--como quasi sempre acontece. + +Um dia, ella adoeceu gravemente, muito gravemente. Foi preciso chamar o +medico que, depois de lhe vêr a lingua e tomar o pulso, torceu o nariz. + +--Isto não está bom! disse o medico. + +--O que se ha de fazer então? + +--Deitar-lhe bichas, já, immediatamente. + +Mandou-se, sem perda de tempo, buscar as bichas, muitas bichas. + +O bom do genro assistiu á chegada das bichas, viu-as deitar, chegou +mesmo a perguntar se ellas tinham feito bem o seu dever: morder na sogra. + +Á noite, no club, dizia elle: + +--Assisti hoje a um combate de feras. + +--Como assim?! + +--Vi deitar duas duzias de bichas em minha sogra... + + * * * * * + +Certo professor de medicina perguntava a um estudante: + +--Por que é que no tratamento das feridas se emprega o panno de linho +velho? + +O estudante procurou qualquer razão, e disse-a. + +--Não, sr., replicou o cathedratico. + +O estudante tratou de procurar outra razão. + +Observação do professor: + +--Tambem não. + +O estudante dá ainda tratos á cabeça para descobrir uma terceira razão. + +Então o professor resolve-se a fazer luz no assumpto: + +--Por duas razões, e nenhuma d'ellas o sr. foi capaz de descobrir! 1.ª +Porque o panno de linho velho é mais barato. 2.ª Porque o panno de linho +novo é mais caro. + + * * * * * + +Eu estava uma vez no escriptorio de um advogado meu amigo, homem de +lettras, jornalista principalmente, que me pedira que esperasse emquanto +elle acabava de escrever um artigo de fundo. + +A penna rangia vertiginosamente sobre o papel. + +Eis senão quando entra um saloio. + +--Que é? perguntou o advogado escrevendo sempre. + +O saloio respondeu: + +--Vinha consultar v. ex.ª sobre uma pequena questão. + +--Vá dizendo. + +O saloio olhou para o advogado, olhou para mim e olhou para um espelho +que havia no escriptorio. Estava embaraçado, duvidoso de expôr o seu +assumpto sem que o advogado se prestasse a dar-lhe toda a attenção. + +--Vá dizendo, repetiu o advogado. + +--Sr. dr.: Ha na minha terra uma mulher de má lingua, que traz todo o +logar embrulhado. Por causa d'ella lavram inimisades de familia, +questões entre casados, o diabo! Mas de cara a cara ella não se mette +com ninguem; é só por traz da cortina. Veiu para lá ha tres annos, +comprou uma casita, e trabalha de tecedeira. Mas o que ella tece melhor +são intrigas. Por sua causa estou de mal com meu sogro e com meu +cunhado. Eu e outros mais da freguezia queremos pôl-a fóra do logar, mas +não sabemos a quem havemos de requerer... + +E calou-se. O advogado continuava escrevendo. + +--Não sabemos a quem havemos de requerer... repetiu o saloio. + +O advogado não respondeu. + +--Sr. dr., perguntou o saloio, a quem havemos nós de requerer? + +O advogado nem palavra. + +Mas o saloio não desistiu. Aproximou-se da banca, e tornou a perguntar +curvando-se até quasi juntar a sua cabeça com a do advogado: + +--A quem havemos nós de requerer, sr. dr.? + +--A D. Miguel, respondeu o advogado continuando sempre a escrever. + + * * * * * + +Quem conhecia bem a formiga era um certo lavrador do Alemtejo, cujo +celleiro as formigas tinham invadido como praga damninha. + +Elle consultou todos os chimicos afamados para que lhe vendessem um +ingrediente que as matasse. + +A droga que lhe receitou o boticario da sua terra, não deu resultado. +Veiu de proposito a Lisboa, conversou sobre o assumpto com os mais +conspicuos pharmaceuticos da capital. + +--Faça isto. + +--Faça aquillo. + +--Faça aquell'outro. + +Nada deu resultado. Um dia, na charneca, aconselhou-se com um pastor. +Obrigados, pela solidão em que vivem, á observação da natureza e á +philosophia da experiencia, os pastores da charneca têem ás vezes +phrases conceituosas, alvitres sapientissimos. + +O pastor deu-lhe um conselho, que valia mais do que as drogas dos +pharmaceuticos. + +Chegado a casa, o lavrador pegou n'uma tira de papel, escreveu n'ella +algumas palavras, e foi pregal-a na porta do celleiro. + +Legiões de formigas avançavam, pelo veso, em demanda das tulhas. Mas +logo que avistavam a porta, e liam o lettreiro, retrocediam como que +embuchadas. + +No dia seguinte, a mesma coisa. O pastor tinha aconselhado um remedio +excellente. + +O que escreveu o lavrador no papel? Esta simples phrase: + +«_De hoje em deante, toda a formiga que entrar no meu celleiro ha de +pagar dez réis--por cabeça._» + +Ora como as formigas são essencialmente avarentas, chegavam á porta do +celleiro, liam o papel, e desandavam para a toca, não sabendo ao certo +se o lavrador gracejaria ou fallaria verdade. + + * * * * * + +Um moço de fretes costumava ir confessar-se todos os annos, mas fazia a +sua chorata ao prior para não ter que pagar a _desarrisca_. De uma vez, +porque lhe parecesse que o prior se aborrecia com a choradeira, que era +fingida, andou a procurar entre os seus patacos um que tinha peor cara e +que por isso mesmo era mais duvidoso. + +Foi confessar-se, muito contricto, com o pataco falso na algibeira. +Antes de receber Nosso Pae, pensando sempre em Deus e no pataco, +dirigiu-se para a sachristia. + +--Sr. prior, disse elle, eu tenho abusado muito da bondade de v. s.ª + +--Nem por isso, Ramon... + +--Tenho, tenho, sr. prior, mas este anno não ha de ser assim. + +E, dizendo, tirava vagarosamente da algibeira do collete o que quer que +fosse. + +--Este anno, continuou, quero pagar a _desarrisca_. Se o sr. prior +estiver pelos autos, ficará o costume de eu pagar de dois em dois annos. + +--Pois seja como quizeres. + +E o moço de fretes, tirando o pataco da algibeira, pôl-o a um canto da +mesa em que o prior estava escrevendo no livro. + +--É poucochinho, sr. prior, mas os annos vão muito bicudos... + +--Não fallemos mais n'isso. + +--Sempre chega para o rapé. Este pataquinho é para o rapé do sr. prior. + +--Pois seja. + +E o prior, voltando-se para o menino do côro, que estava perto, +disse-lhe imperativamente: + +--Ó Zé Maria, vae-me ali defronte comprar um pataco de meio grosso. + +O Zé Maria sahiu, a correr, e o moço de fretes, sempre muito +contricto, foi ajoelhar-se á mesa da communhão, esperando pelo prior. + +Um instante depois, o menino do côro entrava na sachristia com o rapé e +com o pataco. + +--Sr. prior, disse elle, não quizeram receber o pataco. + +--Por quê? + +--Porque é falso como Judas. Mas obrigaram-me a trazer o rapé por ser +para o sr. prior. + +--Deixa lá vêr o pataco. + +O prior pegou no dinheiro, levou-o á altura dos olhos, e riu-se. +Levantou-se, preparou-se para ir dar a communhão. + +Chegando á egreja, descobriu o moço de fretes, que estava já com o +queixo muito embrulhado na toalha de rendas. + +O prior foi distribuindo as sagradas particulas, mas quando chegou ao +gallego, introduziu-lhe o pataco na bocca,--delicadamente. + +Habituado a grandes pesos, o penitente nem sequer se admirou de que +fosse tão pesada aquella estranha particula. + +Mas quando quiz engulil-a, é que foram ellas! + +E o prior, de pé, grave e solemne, esperava. + +Bem voltas dava á lingua o gallego, mas não havia meio de engulir o pataco. + +Até que, com alguma difficuldade, se resolveu a dizer: + +--Não passa, sr. prior! + +E o prior, sempre muito grave e solemne respondeu-lhe: + +--Não passa, não. Já mandei comprar rapé, e não o quizeram acceitar. + + * * * * * + +--Por que é, perguntava um professor de agricultura, que as sementes +precisam ser enterradas na terra? + +--Por isto... dizia um estudante. + +--Por aquillo... respondia outro. + +O professor zangou-se: + +--Não, sr.! É preciso enterrar as sementes para os passaros as não +comerem. + + + + +VI + +Á volta dos pés da imperatriz + + +Referiram ha tempos os jornaes que se tinha levantado na côrte de Berlim +uma grave questão de etiqueta,--grave como todas as questões d'este +genero, incluindo a do _Hyssope_. + +A actual imperatriz, que prima por uma extrema simplicidade de vestidos +e maneiras, pedira ao imperador seu marido que dispensasse, nas grandes +solemnidades do palacio, os vestidos roçagantes, as longas _traines_ +cadentes. + +A condessa Waldersee, que tem auctoridade em questões de etiqueta, +reforçou com a sua opinião o pedido da imperatriz. + +Mas Guilherme II não annuiu, e as extensas caudas de setim e velludo +continuarão a arrastar-se, sobre os tapetes da côrte allemã, longamente, +apparatosamente... + +Á bocca pequena dizia-se em Berlim que no pedido da imperatriz havia o +que quer que fosse de vaidade feminina, porque, tendo uns pés +pequenissimos, não desejava que lh'os empanasse o vestido. + +O imperador, conhecendo a intenção reservada da imperatriz, +entrincheirára-se na recusa, porque, não obstante as suas aventuras +d'amor, Guilherme II, como todo o marido que se prese, entende que deve +ser elle o unico a ter o direito de admirar as perfeições plasticas de +sua mulher. + +Pelo que respeita aos pés femininos, dividem-se as opiniões. Os leitores +sabem-n'o tão bem como eu. + +Entendem uns que os pés da mulher são tão pouco para admirar como a +haste de uma rosa. Todas as attenções se fixam na belleza da corolla, no +colorido das petalas. É a rosa fresca e bella? É isso o que se quer. +Tenha a mulher as graças do semblante, que os pés, que ficam lá muito +para baixo, escapam á vista, sejam grandes ou pequenos. + +Outros porém, e estes são decerto em maior numero, adoram os pés +caprichosamente pequeninos, miniaturados a buril como por um gravador +que houvesse cegado depois de os ter feito... + +Os que são d'este parecer defendem-se com a tradição da estatuaria +classica, com as lendas graciosas da bella plastica antiga, em que a +mulher, não raras vezes, apparece divinisada pela pequenez do pé. + +Recordam a historia da _Cendrillon_, a nossa _Gata borralheira_, que +perdeu o chapim pelo qual um principe galante a mandára procurar até +que, encontrando-a, só descansou quando poude desposal-a. + +Citam a tradição da formosa Rhodopis a quem, estando ella no banho, uma +aguia empolgou uma das sandalias, que deixou cahir no terraço do palacio +real de Memphis, onde o rei, apanhando-a, tratou de descobrir, desde +essa hora, o pequenino pé de que pela sandalia ficára enamorado. + +É, no fundo, a mesma lenda, talvez um symbolismo mythico transformado em +anecdota historica, como julga Husson. + +Lembram ainda em seu abono o instincto artistico da poesia popular, que +sempre celebrou as mulheres de pés pequenos. E adduzem exemplos: + + Tendes o pé pequenino, + Do tamanho d'um vintem: + Podia calçar de prata + Quem tão pequeno pé tem. + +A verdade é que o arsenal de defesa dos que assim pensam está +copiosamente abastecido de citações e referencias, a que esses taes +poderão recorrer para seu triumpho. + +Na écloga segunda de Bernardim Ribeiro,--de que os seus biographos tanto +se têem servido para dilucidar a mysteriosa vida do poeta--é +tambem pelo pé de Joanna que o pastor Jano se deixa fascinar amorosamente. + +Jano anda guardando o seu rebanho quando vê aproximar-se Joanna que, +vestida de branco, se entretém colhendo flôres. Elle occulta-se +espreitando-a. Colhidas as flôres, + + Joanna, as abas erguidas, + Entrar pela agua ordenou; + E assentando-se, então + As çapatas descalçou, + E, pondo-as sobre o chão. + Por dentro d'agua entrou, + E a Jano pelo coração. + +Ah! que é preciso uma pessoa ser cega de enthusiasmo pelo bucolismo, +pela infancia poetica da alma portugueza, tão simples, tão sincera e ao +mesmo passo tão docil, para não morrer de apoplexia fulminante ao +soar-lhe nos ouvidos este plebeu vocabulo _çapatas_, tão grosseiro e +saloio, como elle nos sôa hoje! + +Bernardim, esse favo de saudades a que o tempo não tem roubado a doçura, +essa abelha do amor, que usurpou ao Hymetto o segredo de amelar +deliciosamente as suas trovas com as boninas do coração namorado, +parecer-nos-ha, se o não avistarmos de alto, um camponio da Ribaldeira a +gabar as çapatas amarellas da moça do prior! + +Mas o pastor Jano não teve mão em si que não sahisse do escondrijo ao +encontro da bella zagalla. Ella, como Galatéa, esquivou-se fugindo: + + Muito perto estava o casal + Onde vivia o pai d'ella, + Que fez ir mais longe o mal. + Que Jano teve de vêl-a: + Mas o medo que causou, + Joanna partir-se assi, + Tanto as mãos lhe embaraçou, + Que a çapata esquerda, alli, + Com a pressa lhe ficou. + +Agora é que o ridiculo da situação parece subir de ponto, porque o +pastor Jano--o proprio Bernardim talvez--corre a abraçar-se com a +çapata, a chorar sobre ella, çapatando os peitos. É textual. + + Çapata, deixada aqui, + Para mal de outro mor mal, + Quem te deixou, leva a mi: + Que troca tão desegual! + Mas pois assim é, seja assi. + +Foi, portanto, pelo pé de Joanna que o pastor Jano se sentiu arrastado +para o abysmo do amor,--com a çapata na mão. + +Como os tempos mudam! Hoje, um poeta palaciano, que ouzasse cantar em +publico, ainda mesmo sob o disfarce de pastor, a çapata da bem-amada, +era um homem que tinha a sua carreira cortada pelo ridiculo. + +A Academia, elegante como ella é, diria, se alguem lhe fallasse em +admitil-o socio correspondente: + +--Que! O da çapata?! Não póde ser! Elle que mude para chapim. + +Qualquer ministro do reino, com receio do ridiculo das gazetas, se algum +influente politico lhe pedisse que fabricasse deputado o poeta, +responderia sorrindo: + +--Ora adeus! O deputado da çapata?! É lá possivel! Você quer matar o +governo pelo ridiculo! + +Todavia a Academia Real curva-se--e n'este ponto curva-se bem--perante +Bernardim Ribeiro, o primeiro poeta bucolico portuguez. + +As gazetilhas em verso fariam uma troça de seiscentos diabos ao anonymo +que ouzasse mandar para o _Diario de Noticias_ o seguinte annuncio: + +«Ha oito dias que estou beijando incessantemente a çapata que v. ex.ª +perdeu em Cascaes quando, para me fugir, entrou precipitadamente no +banho. A çapata entrou-me pelo coração, como V. ex.ª pela agua.» + +Nada obstante, se os redactores de gazetilhas vissem entrar Bernardim +Ribeiro no escriptorio do jornal, vestido de mendigo, como a lenda nol-o +pinta á volta de Saboya, roto e esfrangalhado, e se elle lhes dissesse +que era o auctor do livro das saudades, os srs. redactores +levantar-se-iam respeitosos, curvados e dominados, para offerecer uma +cadeira ao grande poeta Bernardim Ribeiro, que devia estar cansado, por +vir de longes terras. + +Mas, á parte o desprimor archeologico do vocabulo, emerge d'esta trova +do bucolista o naturalismo, vivo e quente, que endeusa a pequenez do pé +feminino. + +Parece-nos galante toda a conjunctura em que um pé de fada se descubra +aos nossos olhos na sua exiguidade microscopica, seja pulando sobre o +tapete de um salão, poisando no estribo d'uma carruagem, ou aquecendo na +concha ardente das nossas mãos aduncas... + +Conta frei Luiz de Sousa que o infante D. Fernando, tendo casado com D. +Guiomar Coutinho, em torno da qual se agitou a paixão dramatica do +marquez de Torres Novas, e «subindo ambos uma escada, em tempo que +andava pejada D. Guiomar, lhe lançou mão dos chapins para que tivesse +menos pena na subida.» + +Gentil, não é? + +Todas as delicadas galanterias que se façam aos pés de uma mulher, +suppõem que o que n'elles encantou foi a perfeição com que a natureza os +talhou no marmore. + +Enumerar todos quantos poetas, antigos e modernos, têem cantado os pés +femininos, seria o mesmo que encher de versos uma bibliotheca. + +Temos, pois, que resignar-nos, quanto ao numero, a dar apenas +insignificantissimas amostras. + +De um poeta antigo; Rodrigues Lobo: + + As flôres, por onde passa, + Se os pés lhe acerta de pôr, + Ficam de inveja sem côr + E de vergonha com graça. + Qualquer pégada que faça + Faz florescer a verdura, + Vai formosa e não segura. + +Citarei apenas dois poetas modernos. + +É conhecidissimo o bello pensamento de João de Deus: + + O que te falta pois? os teus desejos + Quaes são? de que precisas? + Ah! não ser eu o marmore que pisas... + Calçava-te de beijos! + +O soneto _A Borralheira_, de Luiz Guimarães, é dos mais scintillantes da +sua lyra ardente: + + Meigos pés pequeninos, delicados + Como um duplo lilaz,--se os beija-flôres + Vos descobrissem entre as outras flôres, + Que seria de vós, pés adorados! + + Como dois gemeos sylphos animados, + Vi-vos hontem pairar entre os fulgores + Do baile, ariscos, brancos, tentadores... + Mas, ai de mim!--como os mais pés calçados + + «Calçados como os mais! que desacato! + Disse eu.--Vou já talhar-lhes um sapato + Leve, ideial, fantastico, secreto...» + + Eil-o. Resta saber, anjo faceiro, + Se acertou na medida o sapateiro: + Mimosos pés, calçai este soneto. + +A sabedoria da antiguidade, formulada em proverbios, que são como que +migalhas de philosophia, impõe-se ao nosso espirito na immensa variedade +de assumptos que podem impressional-o. + +Ora os antigos diziam: _Ne quid nimis._ Nada que seja de mais. Eu fui +educado com velhos, e aprendi da sua experiencia. Se n'aquelle proverbio +posso calçar um pé de mulher, acho que o proverbio é bom, e que o pé é +ainda melhor. Se não posso, quer-me parecer que os meus velhos +educadores me estão segredando em espirito com a auctoridade dos seus +cabellos brancos: «Ahi ha pé de mais e proverbio de menos.» + +_Ne quid nimis_ ou, como dizem os francezes, _Rien de trop_... até nos +pés! + + + + +VII + +Loucura alegre + + +Conta-se que sobre uma pequena terra de provincia cahira, não sei +quando, uma chuva verdadeiramente original, tão original, que perderam o +juizo todos os que a apanharam. + +E o caso é que toda a gente d'aquella terra a apanhou, com excepção de +um sabio que ali vivia voluntariamente exilado, entregue a leituras +profundas, a estudos d'alta sciencia. + +No dia da chuva, o sabio não sahiu; não sahia nunca. Ficou, portanto, em +seu perfeito juizo. + +A gente da terra vivia principalmente dos trabalhos da agricultura, em +pleno campo, de modo que a chuva cahiu-lhe em cheio sobre a cabeça, foi +como se lhe alagasse os miolos... + +Tendo endoidecido todos, o sabio era como que o unico pharol de bom +senso que brilhava n'aquelle vasto mar de loucura. + +Aconselhava os outros. + +Procurava chamal-os á razão. + +Dava-lhes conselhos acertados. + +Reprehendia-os amoravelmente quando elles praticavam desatinos. + +Mas qual! Ninguem o acreditava, ninguem o attendia, todos os outros +haviam apanhado a chuva terrivel, todos estavam loucos, e procurar +restabelecel-os de um momento para o outro era o mesmo que remar contra +a maré. + +Começou o sabio a inquietar-se com a sua propria situação, que em +verdade nada tinha de agradavel. + +Receiava elle proprio perder o juizo, que tão preciso lhe era, como se +estivesse vivendo no meio de um hospital de doidos. + +A sua criada desatava a cantar e bailar quando elle lhe mandava fazer o +biffe do almoço ou as torradas para o chá. + +De sorte que se via na necessidade de ir elle mesmo fazer o biffe ou as +torradas, emquanto a criada bailava e cantava em frente do fogão, +azoinando o amo. + +O seu criado engraixava-lhe a camisa engommada, quando elle lhe mandava +engraixar as botas, e escovava-lhe as botas, quando elle lhe mandava +tirar da gaveta uma camisa engommada. + +Pensou o sabio em mudar de terra, mas a pequena propriedade que possuia +estava situada ali; e em taes circumstancias ninguem lh'a queria +comprar, porque o caso da chuva tinha soado ao longe, de maneira que a +terra cahira em descredito, sabia-se que todos lá estavam doidos. + +Os proprios trabalhos scientificos do sabio, até ahi tão considerados, +principiaram a ser suspeitos de loucura. Já não havia quem os quizesse +lêr. A opinião publica é assim. Até então, como corresse fama de que era +aquelle um grande sabio, toda a gente o considerava como tal; de +repente, com a mesma unanimidade, toda a gente principiou a duvidar de +que elle podesse conservar inteiro o juizo vivendo no meio de doidos. + +--O que hei de eu fazer? perguntava a si mesmo o sabio. + +Como ainda houvesse pelas ruas da villa muitas pôças de agua da chuva, +começou a analysar chimicamente a agua para vêr se descobria o segredo +daquella extranha epidemia de loucura. + +Mas nada lhe achou de notavel segundo a chimica. Era agua de chuva como +qualquer outra. + +--Eu perco o juizo! dizia de si para comsigo o sabio. Tudo isto é tão +extraordinario, que sinto vacillar a minha propria razão! + +E a criada continuava a bailar e a dançar quando elle lhe mandava fazer +o biffe ou as torradas. + +E o criado engraixava-lhe a camisa quando elle lhe mandava engraixar as +botas. + +Os seus caseiros não se entendiam com elle, nem elle com os seus caseiros. + +O padeiro, pela manhã, trazia-lhe pedras duras em vez de pão fresco. + +O merceeiro mandava-lhe assucar quando elle pedia arroz ou mandava-lhe +arroz quando elle lhe pedia assucar. + +De modo que, n'um momento de desespero, o sabio resolveu um bello dia +perder o juizo que até então havia conservado. + +Fugiu para o meio da rua, andou procurando uma das pôças de agua da +chuva, que ainda havia. Poz-se de cócoras, olhou em roda, e reconhecendo +mais uma vez que todos estavam doidos, metteu as mãos na pôça, encheu-as +de agua, e começou a encharcar a cabeça. + +D'ahi a momentos estava tambem doido, e toda a sua preoccupação anterior +havia desapparecido, porque, tendo elle proprio perdido a razão, já não +se affligia com a loucura dos outros. + +Lembrou-me esta anecdota quando, passando sabbado á noite pelo Colyseu +dos Recreios, vi uma enorme multidão de povo invadir as portas, disputar +a entrada, ancioso de obter um logar para ir assistir ao beneficio da +Geraldine. + +--Então, dizia eu com os meus botões, tudo isso de reducções +imminentes é uma fabula! O paiz está rico e contente. Diz-se que ha +miseria, e toda a gente pensa em divertir-se! O que se vê é que as +industrias estão prosperas, o commercio florescente. Os operarios, +voltando agora de um trabalho fartamente remunerado, tratam de comprar +bilhete para a _geral_. Vender uma colonia! para que? O que o povo quer +é que lhe vendam um bilhete do Colyseu! Os jornaes portuguezes e +extrangeiros dizem que estamos pobres! Sempre mentem muito os jornaes! +Toda essa gente, que ahi se agglomera ás portas, estende para o +camaroteiro uma _nota_, offerece-lhe dinheiro, tão rica está toda a gente! + +E, pensando n'isto e na anecdota, continuei a dizer com os meus botões: + +--... Salvo se o ultimo portuguez que tivesse juizo tambem molhou a +cabeça na pôça d'agua! + +Mas no domingo fui passeiar á Avenida como para procurar a contra-prova +do espectaculo da vespera. + +Oh! que alluvião de gente! que bulicio! que vida! que animação! + +Longas filas de trens desdobravam-se ao longo da Avenida n'um grande +esplendor de equipagens brilhantes. + +O dinheiro trotava em bellos cavallos _pur sang_; rodavam titulos e +brazões, _fortunas_ colossaes deslisavam a quatro soltas, +pomposamente. + +E eu continuava perguntando aos meus botões: + +--Santo Deus! onde é que está o ultimo sabio d'esta terra?! + +E olhava para o chão esperando vêr que o ultimo sabio, posto de cócoras, +estivesse olhando para os outros e molhando a cabeça com frenesi. + +Qual! não era para o chão que eu devia olhar. + +Os sabios portuguezes prezam-se muito para que algum d'elles queira +acocorar-se á vista dos seus patricios. + +Era para o alto das boleias e para a estampa das horsas que eu devia +olhar; não para o chão. O chão! esse, coitado, estava pisado, moido do +continuo attricto das ferraduras dos cavallos e das rodas das carruagens. + +O sol, bellamente festivo, cahia em palpitações de luz sobre a Avenida. +O monumento victorioso dos Restauradores recortava-se n'um fundo de azul +luminoso parecendo chispar centelhas como uma lamina erguida ao sol. +Chalets elegantes alcandoravam-se pela encosta oriental da cidade. +Predios magnificos, alguns sumptuosos, agrupavam-se em grandes bairros +novos á ilharga da Avenida nas terras outr'ora desertas e solitarias. As +antigas hortas desappareceram para dar logar a palacios novos. +Guardas-portões imponentes encostavam-se ás portas vendo de longe +o formigueiro dos trens que passavam rodando ao trote largo de cavallos +finos. + +E por mais que eu olhasse para o chão nenhum sabio, de cócoras, tratava +de molhar a cabeça para não ter que chorar sobre tanta alegria! + +Então, recolhendo para casa, olhando sempre cautelosamente para não ser +atropellado pelos trens e pelos cavalleiros, lembrou-me outro caso, nada +mais e nada menos que o plano de um poema que certo amigo meu havia +delineado quando a morte o surprehendêra. + +_A Valsa_: era o titulo do poema. + +A acção leva pouco tempo a contar. + +Meia duzia de velhos, que no seu tempo haviam sido grandes valsistas, +resolveram, a despeito do peso dos annos, reconquistar uma hora de +mocidade, dar um baile em que todos elles valsassem como antigamente, +embora fossem morrendo de cansaço no meio da sala. + +Assim fizeram. Na noite do baile, eil-os que entram no salão, +correctamente barbeados, tão gentis, quanto a idade lhes permittia, +dentro das suas casacas muito justas e luzidias. + +Uma valsa de Strauss fez ouvir as suas primeiras notas. Tudo ali parece +palpitar ao som da musica,--os velhos principalmente. + +E, cingindo a cintura de bellas damas, todos elles principiam a valsar +com a intrepidez dos vinte annos. + +A valsa não affrouxa nunca, e os velhos valsistas, extenuados, +principiam a cahir de cansaço, pallidos, mortos, um após outro, até que, +estendidos sobre o verniz do salão, teem por funeral o baile, por _De +profundis_ a valsa de Strauss, que parece não acabar nunca! + +Era phantastico o poema, excentrico o poeta. + +Mas, o caso é que me lembrei do poema da _Valsa_, que, ai do poeta! +ficou apenas em projecto. + +Tudo aquillo que eu tinha visto, no sabbado e no domingo, era como a +valsa dos velhos extenuados, que, ao som da musica, iam cahindo mortos +n'uma atmosphera de alegria e n'uma allucinação de prazer, que os matou +sem os ter remoçado, que os esgotou sem os ter divertido! + + + + +VIII + +A mascotte + + +Ter ou não ter _mascotte_, eis a questão, para tudo e para todos. + +Não sei se o leitor é dado a superstições e crendices, que, de resto, +constituem o fundo simples e primitivo da natureza humana. + +Eu, por mais que oiça dissertar os philosophos, creio profundamente em +superstições. Sou, a este respeito, quasi primitivo. E entre as +superstições, que me inspiram maior fé, acredito cegamente na influencia +benefica de um genio bom e tutellar, a que modernamente chamamos +_mascotte_. + +Até--seja dito em confidencia--já tive uma _mascotte_. + +Por que não hei de contar francamente essa historia? + +Era uma insignificantissima bengala da ilha da Madeira, que me tinha +custado doze vintens e que ninguem seria capaz de me comprar por seis. + +Estava muito longe do meu espirito a suspeita de que essa reles bengala, +cheia de nós e de mossas, podesse exercer alguma influencia benefica na +minha vida. + +Mas comecei a notar a coincidencia de que tudo me corria mal, quando o +mau tempo me obrigava a substituir a bengala pelo chapeu de chuva. + +Difficuldades, incertezas, contrariedades que o chapeu de chuva tinha +suscitado e alimentado, aplanavam-se e desappareciam quando no dia +seguinte a bengala substituia o chapeu de chuva. + +Este facto repetiu-se uma e muitas vezes: induzi portanto que aquelle +reles pausinho da ilha da Madeira tinha condão de felicidade. Era o meu +talisman. Tomei-lhe amor, ganhei confiança na sua virtude, e comecei a +acreditar na existencia de uma _mascotte_ que, se me abandonava um +momento, me deixava exposto ás maiores contrariedades. + +Em dias de chuva torrencial, dias de temporal desfeito, eu não ousava +sahir sem a _mascotte_, importando-me pouco que as outras pessoas +podessem fazer reparo na excentricidade de um homem que, apesar de +chover a potes, deixava o chapeu de chuva em casa e sahia com a bengala +debaixo do braço. + +Muitas vezes fui obrigado, por manter o culto devido á minha _mascotte_, +a tomar um trem. + +Mas fazia de bom grado essa despeza, nem me importava apanhar chuva, +comtanto que não tivesse de largar a _mascotte_. + +Os meus amigos conheciam esta superstição, e riam-se. Fingiam querer +roubar-m'a. Mas eu, se passava a noite com elles, sentava-me de bengala +na mão, não a abandonava um momento. + +Um dia perdi-a. Vou contar como isso foi. O leitor póde imaginar o +desgosto que n'esse dia me feriu. + +Era então ministro da marinha o conselheiro Julio de Vilhena, que morava +na rua de S. João da Matta. + +Na vespera haviamos passado grande parte da noite a conversar sobre um +livro, que se relacionava com o assumpto litterario de que eu então me +estava occupando. + +Tratava-se da symbolica do direito, que me era preciso estudar para o +livro _A jornada dos seculos_, que eu trazia entre mãos. Julio de +Vilhena offerecêra emprestar-m'o, e ficou combinado que eu iria no dia +seguinte a sua casa, á uma hora da tarde, buscar o livro. + +Chovia: tomei um trem. + +Durante o trajecto, para accender um cigarro, tive que encostar a +bengala a um canto da carruagem. + +Quando cheguei á rua de S. João da Matta, disse-me o correio que o +ministro estava ainda almoçando, e que eu teria de esperar pelo menos +meia hora. + +Despedi o trem, sem tomar sentido no numero. + +Chegaram mais pessoas, com quem esperei conversando. + +Quando o ministro acabou de almoçar, e me recebeu no seu escriptorio, +lembrei-me subitamente de que a _mascotte_ tinha ficado no trem. + +Mostrei-me inquieto, disse-lhe o motivo da minha inquietação, porque +elle conhecia muito bem, como todos os meus amigos, a lenda da bengala. + +Sahi de afogadilho, com o livro debaixo do braço, e dirigi-me +immediatamente ao commissariado geral de policia. + +A um dos commissarios, meu amigo, contei que me tinha esquecido dentro +de uma carruagem, cujo numero ignorava, uma bengala que valeria apenas +seis vintens, mas que eu estimava muito. + +O commissario imaginou talvez que se tratava de uma recordação de +familia. Socegou-me. Como a bengala não tinha valor material, +appareceria facilmente, ia dar as suas ordens, e eu prometti gratificar +o policia que encontrasse a bengala. + +Sahi do commissariado de policia para ir dar umas voltas, tratar +de negocios particulares. Mas tinha a convicção de que tudo me correria +mal n'esse dia e nos outros, porque, ai de mim! havia perdido a +_mascotte_. Era, moralmente, um homem morto. + +Ás cinco horas da tarde, muito contrariado, quasi rabujento, subia eu o +Chiado, olhando attentamente para todos os trens que passavam, ancioso +de reconhecer o cocheiro que me tinha levado á rua de S. João da Matta. + +De repente, descendo o Chiado, passa um trem. O cocheiro olha para mim, +e pára. Ó felicidade! era o cocheiro que eu procurava! De dentro da +caixa da almofada tirou elle a minha querida bengala, e eu tirei da +algibeira dez tostões que lhe dei como alviçaras. + +O cocheiro, que via pagar por dez tostões uma bengala que valeria seis +vintens, ficou a olhar para mim, espantado. + +Suppoz, talvez, n'aquelle momento, que eu era filho do sr. Monteiro da +rua do Alecrim. + +Que boas horas de alegria que eu tive, readquirindo a posse da +_mascotte_, a minha querida bengala! Nadando em jubilo, fui dizer ao +commissario de policia que a bengala tinha apparecido. E á noite, +contando a historia do feliz achado aos meus amigos, recebi parabens. + +Rodaram alguns annos, durante os quaes tive sobejos motivos para firmar +a minha crença no condão maravilhoso da bengala. Era decididamente +uma _mascotte_. + +Mas um dia--que terrivel dia esse!--por acaso, n'uma esgrima simulada, a +bengala partiu-se. Deus perdôe a quem, com a mais amavel intenção d'este +mundo, contribuiu para esse medonho fracasso. Guardei durante algum +tempo os dois fragmentos da bengala, mas o seu condão de felicidade +tinha-se partido com ella, ai de mim! A _mascotte_ havia fugido, como +uma alma abandona um corpo. + +O leitor póde sorrir-se da minha ingenua credulidade, mas eu cria +cegamente na virtude d'esse talisman, que um acaso me trouxe, e que um +acaso levou. + +Não ha philosophia que resista aos factos. + +De varias pessoas sei eu que tiveram _mascotte_, e que criam n'ella como +em Deus. + +Uma d'essas pessoas era o general José de Vasconcellos Correia, que +morreu conde de Torres Novas. + +A sua _mascotte_ era uma escova de fato, que o não abandonava jamais. + +Justamente, tendo de partir para Torres Novas, onde se assignalou pelo +seu valor, esqueceu-lhe metter dentro da mala a escova. E, por não +querer separar-se d'ella em tão duvidosa occasião, metteu-a dentro da +barretina. + +Em Torres Novas, durante a refrega, recebeu uma cutilada na cabeça. O +golpe tel-o-ia prostrado, se entre a barretina e a cabeça não +estivesse a escova,--a que ficou devendo a vida. + +Falta-me o espaço para referir outros muitos casos não menos +interessantes e justificativos. E tenha pena! O leitor começaria talvez +por sorrir-se; mas acabaria decerto por acreditar. + +Toda a gente, por muito que finja o contrario, tem as suas +superstições. + + + + +IX + +Era em abril... + + + C'était en avril, un dimanche, + Oui, le dimanche! + J'etais heureux... + Vous aviez une robe blanche + Et deux gentils brins de pervenche, + Oui, de pervenche, + Dans les cheveux. + + Nous étions assis sur la mousse, + Oui, sur la mousse, + Et sans parler, + Nous regardions l'herbe qui pousse, + La feuille verte et l'ombre douce, + Oui, l'ombre douce, + Et l'eau couler. + + Un oiseau chantait sur la branche, + Oui, sur la branche. + Puis il s'est tu. + J'ai pris dans ma main ta main blanche. + C'etait en avril, un dimanche, + Oui, le dimanche... + T'en souviens--tu? + +Ah! como esta deliciosa canção primaveral de Eduardo Pailleron concentra +em si todos os perfumes, todos os canticos, todos os sonhos de abril, +quando o laranjal florido deixa cair da sua côma, semelhante a um +_bouquet_ de noiva, não sei que doces pensamentos de amor, não sei que +fragrancias de _boudoir_, que estonteamentos de volupia, cheia de +mysterios, de segredos e de arrulhos maviosos!? A olaia põe no terreno +grandes manchas encarnadas, tapetes de petalas soltas, que se alastram +convidando ao remanso d'um idyllio, oui, d'un idylle... + +No ar, passam foliando os assobios estridulos dos melros e da flauta de +Pan, dando uma extranha sensação de prazer vibrante, sobretudo se brilha +no céu o bello sol ocioso d'um domingo... _oui, le dimanche_! + +Perto, um veio d'agua crystallina e múrmura dá uma enorme sensação de +frescura e de preguiça, porque não ha nada que enerve mais +deliciosamente do que vêr correr a agua sobre um campo... _et l'eau +couler_. + +Tufos de relva, estrellados de malmequeres, redondos e grandes, vecejam +n'uma exuberancia de florescencia sadia, impregnada da immensa +vitalidade vernal... + + Nous regardions l'herbe qui pousse, + La feuille verte et l'ombre douce. + +Delicioso abril! Primavera encantadora! por mais que a gente +queira adorar-te sem rhetorica, é completamente impossivel, porque tu +mesma és a rhetorica da creação, o Padre Cardoso da naturesa... + + * * * * * + +_C'était en avril..._ + +Era sim, era em abril, os melros e as toutinegras enchiam de musica o +ar, os laranjaes e as olaias doidejavam galas de flores e de perfumes, e +o meu amigo Rosendo, tão feliz como Pailleron, foi com a sua bella ao +Campo Grande passar um domingo, uma esplendida manhã de domingo... _oui, +le dimanche_. + +Tinham ido por ahi fóra no omnibus do Salazar, n'uma felicidade cortada +de phrases ternas e de solavancos, um paraiso ambulante, tirado por tres +pilecas rebeldes ao amor e ao chicote. + +Rosendo e Ambrosia tinham pressa de chegar ao Campo Grande, tinham um +grande desejo de verdura, quasi tanto como as pilecas. Ella ia fresca de +mocidade e elegancia singela: um vestido de percale claro, umas rendas, +uma rosa natural, um chapeu com _blonde_ verde, luvas de _peau de +Suéde_... Tentadora! Nunca uma Ambrosia parecera tão fascinante, nunca +um Rosendo sentira no coração um bando de rouxinoes tão palreiros e tão +musicos como naquella hora deliciosa. Imagine-se a pressa do +Rosendo em chegar ao Campo Grande, porque, com um bando de rouxinoes +dentro do coração, estava em risco de morrer de hypertrophia, se não +chegasse de pressa,--mesmo muito de pressa. + +Mas finalmente chegaram. Esperava-os um banco verde, um banco de +idyllio, que nem que fosse mandado pôr ali de encommenda pela camara +municipal, para uso dos namorados ao domingo... _oui, le dimanche_. Por +de traz, um bosquesinho de roseiras, discreto como um cego, silencioso +como um mudo. + +Rosendo sabia os versos de Pailleron por os ter lido na _Revista dos +dois mundos_, e por os haver achado deliciosos. + +Tratou de pôl-os em acção, ou antes, de pôr a sua mão de enamorado +Rosendo sobre a mão branca de Ambrosia. + + J'ai pris dans ma main ta main blanche... + +Não faltava nada para que o scenario fosse em tudo semelhante ao da +_Revista dos dois mundos_: a erva vecejante, a folha verde, a agua +corrente, o domingo e a felicidade. + +Passaros folgasãos pipillavam no arvoredo, n'uma grande bambocha de +_virtuoses_, e á distancia, amortecido pelo intervallo dos canteiros, o +ruido de um trem que passava para o Lumiar, ouvia-se. + +Rosendo, achando-se divino, divinisava Ambrosia, para se confundirem +ambos n'uma grande consubstanciação amorosa. + +Elle só tinha um desgosto:--que ella, em vez de uma rosa no vestido, não +trouxesse nos cabellos dois ramos de pervinca... _oui, de pervenche_. + +De repente, Ambrosia, ouvindo dar oito horas, voltou-se rapidamente para +elle, e dos seus labios saiu esta phrase, terrivel como um grito de +Tantalo: + +--Ó Rosendo, vamos nós almoçar ao José dos Caracoes?... + +......................................................................... + +_T'en souriens tu..._ Rosendo? + + + + +X + +A felicidade e a camisa + + +Houve outr'ora um rei, que possuia vastos dominios, formosos castellos, +vastos parques, ricas baixellas e equipagens. + +Mas era triste, peior talvez do que triste, melancolico. + +Organisava festins, e aborrecia-se no meio d'elles. Nem o ouro, nem a +saude, nem a grandesa conseguiam distrail-o. + +A rainha confrangia-se de vêr sempre meditando o seu real esposo. + +O principe real improvisava ruidosas caçadas para alegrar seu augusto +progenitor, mas o rei, a breve trecho, cahia na sua melancolia habitual, +sentava-se á sombra de uma arvore, scismava... + +Um dia, n'uma kermesse, que as damas da côrte promoveram para divertir +seu real amo, appareceu uma cigana, que andava lendo a _buena-dicha_ de +barraca em barraca. + +Era alta, morena como todas as ciganas, e tinha uns olhos tamanhos e tão +vivos, que bem podiam lêr o futuro a grande distancia... + +Embrulhava-se n'um manto de retalhos, uma capa de pedinte que, á força +de remendada, já não tinha côr propria. + +Lia, com profunda indifferença, o destino dos outros, seguindo com a +vista as linhas que elles tinham gravadas na palma da mão. Annunciava +tragedias, desgraças, coisas tenebrosas com a mesma serenidade com que +promettia riquezas, venturas, delicias. + +O rei soube que tinha apparecido na kermesse aquella cigana, e mandou-a +chamar. + +--Quero que me digas, ordenou-lhe o rei, se posso ainda ser feliz. + +A cigana, sem parecer preoccupar-se com a honra que lhe era dispensada, +respondeu laconicamente: + +--Sim. Ainda póde ser feliz vossa magestade. + +Alegrou-se subitamente o rei e perguntou-lhe: + +--O que é preciso fazer para que eu seja inteiramente feliz? + +A cigana demorou-se um momento consultando as linhas da real mão, e +respondeu: + +--Precisa vossa magestade vestir a camisa de um homem feliz. + +--Mas onde poderei eu encontrar esse homem feliz? + +--Isso agora não é comigo, disse a cigana. E voltou costas ao rei +indifferentemente. + +Logo sua magestade mandou reunir no palacio real os seus validos e +conselheiros. + +Contando-lhes o caso da cigana, acabou por dizer-lhes: + +--Agora é que eu vou conhecer qual de vós me é mais dedicado. Trata-se +de procurar um homem feliz, cuja camisa, ainda que custe rios de ouro, +eu hei de vestir, ide procural-o, pois. E todo aquelle que o encontrar, +receberá recompensas quaes rei algum da terra ainda concedeu. + +Fazendo mil protestos de dedicação, logo cada um d'elles se deu pressa +em partir. Para onde? Ao acaso, pelo mundo fóra, á procura de um homem +feliz... + +Tal conselheiro do rei descobriu um proprietario muito rico, que todos +os dias via entrar pela porta dentro os seus rendeiros carregados de ouro. + +Foi procural-o, na supposição venturosa de que tinha encontrado a pessoa +que procurava. + +--Sois feliz como pareceis? perguntou-lhe. + +--Não sou, ai de mim! É verdade que possuo uma riqueza enorme, mas +falta-me a saude, que é cada vez mais precaria. Daria toda a minha +riqueza para poder viver sem dôres, para comer com apetite. + +Outro conselheiro do rei encontrou um homem muito robusto, cuja +saude todos na sua terra invejavam. + +--É o homem mais forte d'estes sitios! disseram-lhe. + +Foi visital-o. + +--Uma pergunta vos quero fazer. Dizei-me se, na posse de tão florescente +saude, sois completamente feliz... + +O homem forte suspirou, e respondeu: + +--É verdade que sou muito robusto, mas quizera não o ser tanto, porque +não tenho gosto nenhum de viver ainda muitos annos. + +--Por que? + +--Porque sou pae de doze filhos e não ganho o bastante para lhes dar de +comer. Quanto mais trabalho, menos ganho. Ha destinos assim, e o meu, já +agora, não tem remedio. + +Informaram um dos validos do rei, de que em tal aldeia morava um homem +que, vinte annos depois de casado, ainda namorava a mulher. + +Assombrou-se com esta revelação o valido, e foi a correr por montes e +valles procurar o ditoso casado. + +Sem mais preambulos, interrogou-o. + +--É certo que sois casado ha vinte annos? + +--Ha vinte annos e vinte dias. + +--E que tendes vivido n'uma continua lua de mel: + +--Certissimo, meu senhor. + +--Sois pois inteiramente feliz? + +--Sel-o-ia se... + +--O que?! Pois não vos reputaes um homem feliz?! + +--Sel-o-ia, se não fosse minha sogra, que volta e meia se lembra de vir +visitar-me. + +Já iam decorridos alguns mezes, sem que os conselheiros e validos do rei +houvessem voltado ao paço para noticiar a sua magestade o achado de um +homem feliz. + +Esta demora tinha desanimado cada vez mais o rei, que, de quando em +quando, gritava enfurecido: + +--Pois não haverá sobre a terra um homem verdadeiramente feliz?! + +Certo dia um dos conselheiros do rei ia jornadeando, sempre na faina de +procurar um homem feliz, por uma serra muito agreste e solitaria. + +Só de longe a longe avistava algumas cabras, que andavam roendo as +raizes das urzes. + +--Que serra tão triste! disse o fidalgo ao arreeiro. + +--Por aqui só se encontra algum pastor; ninguem mais. Lá está um acolá, +no alto d'aquelle rochedo, a tocar na sua flauta. + +--É verdade! Quero fallar-lhe. Vamos lá. + +Era grande a distancia. Mas á medida que se aproximavam iam ouvindo os +sons rusticos da avêna e vendo o pastor a bailar, muito contente, +sósinho, no topo do rochedo. + +--Parece impossivel, dizia o fidalgo, que não tenha medo de cair! + +Chegaram perto do rochedo, e o fidalgo gritou-lhe: + +--Olá, pastor! + +O pegureiro interrompeu a musica e o baile. Tirou o chapeu, e ficou-se +muito quieto. + +--Anda cá, que te quero fazer uma pergunta e dar dinheiro. + +O pastor desceu de um salto. + +--Julgas-te feliz, meu rapaz? + +--Sim, meu senhor, julgo-me feliz. + +O conselheiro do rei receiou endoidecer de alegria. + +--Pois então, pega lá todo este dinheiro, e vende-me a tua camisa. + +--Meu senhor, respondeu o pegureiro, eu não tenho camisa... + +Por mais que a gente possa invejar a felicidade dos outros, e desesperar +da sua, o que é certo é que, ainda quando os outros lhe parecem felizes, +sempre lhes falta alguma coisa: a camisa, por exemplo. + + + + +XI + +Morte de um gentleman + +_(Barão da Torre de Pêro Palha)_ + + +Foram-se os deuzes, depois os heroes, por ultimo parece que tambem vão +acabando os homens... + +Os homens antigos, entenda-se, os homens de rija tempera, fortes, +destros, gentis, bem educados. + +Bem educados, sobretudo, que tambem isso faz muito ao caso para a +disciplina social, para a harmonia das classes, para a ordem que não +póde deixar de ser a base do respeito que as diversas categorias se +devem umas ás outras. + +Os homens que viram nascer a liberdade, que a sonharam e implantaram, e +que tinham por ella esse culto dedicado que se conserva por uma creança +que educamos a nosso geito... + +O que ahi vae ficando já não são homens medidos pelo estalão que +outr'ora marcava a estatura moral. Como na Grecia antiga, foram-se +os Milciades, os Themistocles, talvez os Pericles. Não tardará o tempo +em que se levantem trezentas e sessenta estatuas a Demetrio Phalerio, +quero dizer, aos heroes da decadencia. Se não ha melhor! + +Generaes illustres, oradores proeminentes, sabios conspicuos, tudo isso +tem desapparecido a pouco e pouco. Até vae desapparecendo tambem um typo +que parecia fundido de uma costella de cavalleiro e d'outra costella de +trovador: fundido dos restos meio heroicos e meio galantes da +idade-media. Era o _gentleman_, que sabia montar a cavallo, bater-se em +duello, fallar ás damas, dançar uma valsa, entrar n'um salão. Era o +_gentleman_, que punha o chapeu na cabeça diante de um insolente, e que +o tirava quando á portinhola de uma carruagem cumprimentava uma senhora. +Era o _gentleman_, que não parecia ridiculo quando vestia uma calça de +ganga e calçava umas luvas côr de açafrão. Era o _gentleman_... Morreu +outro dia um; desconfio que foi o ultimo... + +Chamava-se Hugo Owen, barão da Torre de Pêro Palha. + +Não fez discursos, não fez leis, não escreveu livros, não compoz óperas, +mas conquistou o direito a ser conhecido e estimado dos seus +contemporaneos. + +Por que? Porque foi um _gentleman_. Eis tudo... + +Seu pai, um inglez de distincção, militara ao serviço de Portugal no +tempo em que os espiritos mais generosos principiavam a sonhar com a +liberdade. + +Casára, ficára entre nós; e o filho, direito como um pinheiro novo, +esvelto e firme, passou os primeiros annos da vida montando garbosamente +a cavallo no séquito de D. Pedro IV, improvisado, quasi por galanteria, +em seu ajudante de campo. + +Zuniram-lhe as balas do cêrco do Porto por cima da cabeça, ouviu de +perto o estrondo da metralha, fortificou-se respirando a fumarada da +polvora. + +Depois... depois a guerra acabou, os vencedores julgaram que tudo o que +havia a fazer pela liberdade estava feito, quanto se enganaram! e os +vencidos presumiram-se decerto as ultimas victimas das luctas politicas +em Portugal. Quanto se enganaram tambem!... + +Hugo Owen casou com uma dama portugueza, amou-a extremosamente, era +rico, forte, alegre, feliz. + +Mas a roda da fortuna encravára-se um dia; parou de subito. A esposa de +Hugo Owen morrêra deixando-lhe filhos pequeninos. No coração do viuvo +fez-se um vácuo profundo, enorme. E aqui começa a serie das suas +desgraças, quaes poucos homens teem soffrido, e que elle aguentou sem se +azedar a ponto de parecer malcreado e sem se mostrar desgostoso ao +extremo de querer descalçar as luvas para sovar a humanidade. + +Pois se o fizesse, teria tido razões de sobra para isso... + +As difficuldades levantavam-se-lhe debaixo dos pés, a fatalidade andava +inventando para elle casos imprevistos e complicados, como um advogado +chicaneiro que não pensa senão em urdir uma rêde de rabulices para +embaraçar a parte contraria. + +Um dia, Hugo Owen assistia á agonia de um filho, que a morte viera +surprehender prematuramente. + +O coração do pae despedaçava-se atormentado contra esse leito, como a +vaga contra os rochedos. + +Havia já na face do moribundo a pallidez que parece ser o reflexo +longinquo do luar de além-tumulo. + +Os irmãos soluçavam, abafados de angustia, e o pae, pendido para o +leito, disfarçava a sua dôr murmurando palavras carinhosas, de uma +grande ternura dolorida, sobre a cabeça do moribundo. + +N'isto, rompe n'um dos andares do predio a esfusiada musical de uma +valsa de Strauss, sente-se dançar ruidosamente, pular, conversar, tinir +loiças e cristaes. + +Está-se em plena _soirée_, e a festa parece prolongar-se pela +noite dentro, attingir a madrugada. + +É no som da valsa que o moribundo se contorce no delirio da agonia, é a +dois passos da vida alegre da sala que o espectro da morte vem assentar +arraiaes. + +Teriam tido conhecimento d'esta deploravel antithese os que se estavam +divertindo? Certamente que não. Mas essa tormentosa coincidencia tinha-a +o destino guardado para esmagar o coração do barão da Torre de Pêro Palha. + +Uma sua irmã, Fanny Owen, morreu na flôr dos annos, sacrificada a um +drama conjugal que enche muitas paginas de um livro de Camillo Castello +Branco, _No Bom Jesus do Monte_. + +Foi casada, e morreu pura. Os medicos que procederam á autopsia, assim o +affirmaram sob juramento. + +Pois bem! um anno depois da morte de Fanny, contado dia a dia, Hugo +Owen, estando n'um hotel de Lisboa, ouviu gemer n'um quarto proximo. + +--Quem está ali doente? perguntou. + +--É o sr.... + +Era o marido de sua irmã, o marido que tão allucinadamente a aggravára, +que vinha morrer a dois passos de distancia do barão da Torre de Pêro +Palha! + +E, como estas, outras mil contrariedades e coincidencias, que o +destino baralhava para o atormentar, expressamente... + +Eu conheço a biographia de Hugo Owen em tudo o que ella teve de mais +intimo e recondito. Sómente não estou auctorisado a contal-a. Conheço-a, +porque elle me confiou um dia as suas memorias, que se conservam +inéditas; paginas que elle escrevia com a verdade e o respeito de um +homem que se julga já diante de Deus contando o que soffreu entre os +homens. + +Encontrei nas memorias do barão o material preciso para urdir dez +romances sem dar tratos á imaginação. Em cada capitulo havia um drama de +lagrimas. Li o manuscripto, sentindo-me muito honrado com a confiança +que o barão depositava em mim, fechei-o profundamente commovido e +sepultei no fundo do meu coração o segredo das suas revelações, tão +pungentes e dilacerantes. + +Ás vezes, quando conversava com o barão da Torre de Pêro Palha debaixo +da Arcada ou á porta da Casa Havaneza, assombrava-me a sua resignação, +espantava-me a sua paciencia, a correcção sempre distincta das suas +palavras e das suas maneiras. + +E todavia elle estava tão pobre, que mal poderia esperdiçar um charuto... + +Os que o não conheciam de perto, poderiam suppôl-o um homem feliz. + +Com o seu ar elegante, o seu casaco curto, as suas calças largas, um +pouco á _hussard_ (essas calças tradicionaes dos _gentlemen_ do seu +tempo: nunca o Manuel Browne e os outros vestiram calças que não fossem +á _hussard_), as suas polainas brancas, a sua bengala de castão de +prata, as suas lunetas de oiro, as suas suissas grisalhas, elle tinha o +aspecto de um homem feliz, que houvesse accordado ao meio-dia depois de +ter passado a noite n'um baile onde perpetrára a sua ultima valsa, onde +queimára o ultimo cartucho do seu paiol amoroso. + +E todavia talvez tivesse almoçado, de pé, dois ovos _à la coque_, apenas... + +Tambem me assombrava n'este homem, cuja morte deploro, n'este homem que +tinha corrido e visto tanto mundo, n'este homem que tanto havia soffrido +e aprendido, a boa fé, a ingenuidade com que parecia acreditar todas as +esperanças que lhe davam, todas as promessas que lhe faziam, o ar de +candura com que tantas vezes procurou o seu nome no _Diario do Governo_. + +Seria um defeito de intelligencia? Não era, com certeza. Era apenas um +aspecto da sua individualidade de _gentleman_. Conhecendo que a vida +estava por pouco, não queria desfazer n'um momento a obra de toda a sua +existencia, sahir do mundo desmanchando-se n'um gesto tão plebeu como +expressivo. Procurava illudir-se por mais algum tempo... pouco! + +E, de resto, elle tinha razão. + +Quando já não podia viver com as mulheres, com quem viveria elle se +tivesse rompido com os homens? + +Era esta decerto a sua ideia. + +Não queria isolar-se pelo resentimento, pelo azedume, pelo despeito, +sentindo-se a dois passos da solidão eterna do tumulo. + +Fôra um homem de sociedade, sabia o que era a lisonja, a mentira, a +falsidade cortez e amavel. Devia conhecel-as á legua. Mas assim como nos +salões tinha fingido acredital-as, reduzido á pobreza fingia tambem +dar-lhes credito. + +O enganal-o por cortezia podia ser um motivo para que elle continuasse a +não ter dinheiro na bolsa, mas não era um motivo para que recusasse um +_shake-hand_ á pessoa que o enganava segundo as boas praxes do codigo do +bom tom. + +--Para a semana será... dizia elle. + +Passava uma semana, um mez, um anno. + +--Então?... + +--Tem havido difficuldades... Mas estão aplanadas... Agora vae. + +E não ia! + +Elle é que, fingindo esperar sempre alguma coisa que lhe consolasse os +ultimos dias da vida, foi para o Porto, já muito doente, cheio de dôres +e de desillusões, e de casa de uma filha querida, que lhe recolheu +piedosamente o derradeiro suspiro, foi para a cemiterio de Agramonte, +onde finalmente descansa... + +O _Diario do Governo_ perdeu um leitor, a sociedade portugueza perdeu um +dos seus _gentlemen_, talvez o ultimo, seus filhos perderam um pae +extremosissimo, e eu perdi um amigo tão dedicado, que me confiava os +segredos dolorosos de toda a sua vida, dando-me a lêr o manuscripto das +suas memorias inéditas. + +Pobre barão! Outros, que começaram mais tarde a frequentar a sociedade, +chegaram depressa ao galarim, tão depressa que, na allucinação do +triumpho, nem já o conheciam. Mas elle é que conhecia toda a gente: um +_shake-hand_ para a direita, um sorriso para a esquerda, parecia andar +fazendo as suas visitas de despedida antes de partir para a eternidade. +E para que ninguem podesse ficar aggravado com o muito que elle tinha +soffrido, perdoava a todos... + +Morreu como viveu: um _gentleman_. + + + + +XII + +A «season» lisbonense em 1833 + + +Este inverno promette uma _season_ verdadeiramente notavel: salas que +raramente se abriam, como as dos condes de Porto Covo, reanimam-se e +povoam-se; o presidente do conselho de ministros receberá ainda quatro +vezes durante os dois mezes proximos. + +Fallemos principalmente das _soirées_ da presidencia, notaveis mais que +todas por serem o ponto de reunião dos grandes vultos da politica +portugueza na casa do primeiro entre os primeiros. + +Quem vir o sr. Fontes Pereira de Mello nas recepções officiaes do paço, +nos actos solemnes da vida parlamentar, com o seu aspecto severo e frio, +com a sua figura correcta e grave, terá avaliado apenas superficialmente +este homem de estado que tem, como nenhum outro, a consciencia +das funcções de que se acha investido e das situações em que se acha +collocado. É preciso, porém, avalial-o _chez lui_, tendo uma phrase +amavel para todas as pessoas que concorrem ás suas recepções, sabendo +fallar ás senhoras e aos politicos, percorrendo todas as salas para ser +attencioso com todos, conversando litteratura com os escriptores, +politica com os homens de estado, accommodando-se com distincção a todos +os assumptos e a todas as idades, sem constrangimento e sem esforço. + +Um estrangeiro, um viajante, um _touriste_ não encontraria decerto +melhor occasião para conhecer todos os homens notaveis de Portugal do +que aquella que as _soirées_ do presidente do conselho lhe podem fornecer. + +Aqui, um pouco curvado, o cabello levantado e branco, faces córadas, um +sorriso docemente ironico, deixando vêr atravez das suas lunetas uns +olhos penetrantes e expressivos, o ministro de Portugal em Madrid, +vice-presidente da camara dos pares, passa nas salas, sobraçando a +_claque_. É um erudito, um professor, um academico, que consome a maior +parte dos dias na Torre do Tombo a revolver o archivo. Para os +litteratos é o auctor de _Um anno na côrte_; para os academicos é o +auctor da _Historia da linha de demarcação que repartia o mundo entre +Portugal e Castella_, o recente annotador do _Roteiro de Lisboa a Goa_; +para os politicos é um estadista e um diplomata de primeira +ordem, é ainda o auctor dos _Perigos_; para os indifferentes é o sr. +Andrade Corvo. + +Ali, debruçado sobre a meza do whist, na curvatura interessada dos +myopes, um homem magro e sêco, de uma magresa forte e resistente, pondo +ás vezes por cima dos oculos afumados o seu _lorgnon_, interroga o +parceiro com a sua voz mansamente timbrada: é o poeta do _Avè Cesar_ e +do _Pavilhão negro_, o dramaturgo dos _Primeiros amores de Bocage_, o +romancista dos _Bandeirantes_, orador, estadista, diplomata, academico, +é Mendes Leal, emfim. + +Acolá, o ministro dos negocios estrangeiros, Antonio de Serpa Pimentel, +conversa animadamente, encostando o seu corpo franzino ao angulo de uma +meza, fazendo girar rapidamente o cordão da sua luneta, e sorrindo: eis +aqui um outro homem de estado que é ao mesmo passo um poeta, um +prosador, um critico e um academico. + +Na sala de baile, a figura esvelta e forte de Thomaz Ribeiro destaca-se: +a gran-cruz escarlate, atravessada sobre o peito largo, anima-lhe o +busto: os cabellos grisalhos, como que ligeiramente empoados, têem por +vezes fulgurações instantaneas. + +N'um _fauteuil_, Julio de Vilhena observa com os seus olhos +penetrantemente meridionaes, sorri com vivacidade aos que lhe vão +fallando, e retorce descuidadamente a guia esquerda do seu +pequeno bigode. + +Hintze Ribeiro conversa n'um grupo de deputados sobre as discussões do +parlamento: anima-se fallando, e fixa a luneta, fitando o interlocutor. + +O procurador geral da corôa e fazenda[1], alto e corpulento, conversa no +tom modesto e auctorisado que lhe é peculiar, dois jurisconsultos +distinctos ouvem-n'o com uma grande attenção respeitosa, como a um mestre. + +Barjona de Freitas, baixo, nutrido, hombros largos, cabello preto e +luzidio, falla com Thomaz de Carvalho, que o ouve com o beiço inferior +um pouco descahido, e Bulhão Pato, pequeno e forte, o cabello branco, +faces morenas como as de um anduluz, aproxima-se, cofiando a pera. + +E como n'esse momento uma valsa, de uma melodia suave, docemente +marulhada, se espraie pela sala, devem certamente acudir-lhe ao espirito +ardente os versos da _Paquita_: + + Entrei no baile, quando a valsa rapida + Corria as salas em airosas voltas! + Das leves roupas, transparentes, soltas, + Que doce aroma se esparzia no ar! + Parei mirando aquellas frontes candidas, + Que se animavam de alegrias loucas. + Amor calando nas graciosas bocas, + Amor dizendo no inspirado olhar. + +As primeiras valsistas de Lisboa, as de mais nobre nascimento e de mais +distincta elegancia, giravam com effeito em torno do salão, que parecia +ondular serenamente como um lago, encrespado por uma brisa ligeira. + +Algumas cabeças, formosamente loiras como a de Daphne, pareciam +aureoladas por um diadema de oiro; outras, de bellos cabellos negros, +affiguravam-se radiadas de arabescos luminosos, como o azeviche batido +fortemente pela luz. + +O visconde de S. Januario, de amplo peito arqueado, gran-cruz traçada, +cabeça altiva, conversava n'um grupo de senhoras; o duque de Palmella, +alto, suissas pretas, com a mão direita entalada entre o collete e a +gran-cruz, acabava de conversar com o duque de Loulé, que fôra fazer a +sua partida de whist para a sala da bibliotheca, onde o conde de Valbom +jogava emparceirado com o sr. Carlos Bento na mesma mesa em que tambem +era parceiro o distincto advogado Pinto Coelho. + +Não haveria, pois, melhor occasião para poder observar os nossos homens +mais distinctos na politica, no fôro, na litteratura, na diplomacia, no +professorado, no commercio. + +Muitos d'elles, se não a maior parte, são um nobre exemplo de coragem, +de perseverança e de gloria a todos quantos agora estreiam a sua +carreira. Á custa de um trabalho paciente e intrepido alcançaram, +por direito de conquista, a alta posição que hoje occupam. Soffreram, +combateram, luctaram, mas conseguiram honrar o seu berço, o seu nome, e +o seu paiz. Citemos ao acaso um nome, Mendes Leal, que atravessou todas +as commoções de uma existencia accidentada de mil incertezas, luctando +sempre, no theatro, na litteratura, na imprensa, na politica, mas +conseguindo vencer por um esforço heroico de que só os homens do seu +valor e da sua tempera são capazes. + +Quantos d'elles, se não todos, têem sido injustamente accusados, +violentamente atacados, injuriados até! A consciencia do dever é, porém, +uma especie de muralha da China, onde os projectis da inveja e da +calumnia vão bater, refluindo de ricochete contra os que os arremessaram +com mão traiçoeira. É a compensação providencial destinada aos que +cumprem a sua missão. Os insignificantes, os invejosos, os inuteis, +aquelles que não comprehendem o seu destino, julgam que todos lh'o +roubaram, e por isso de todos dizem mal. + +Aqui está, pois, levamente esboçada, uma pagina da _season_ lisbonense +em 1883. + +[1] Conselheiro Martens Ferrão. + + + + +XIII + +Gostos não se discutem + + +Tem cada um sua maneira especial de se divertir. Chega a haver n'isso +uma tal variedade como nas physionomias. + +Ha quem não possa divertir-se com os outros, e quem não esteja bastante +divertido sem os outros. + +Ha quem goste dos outros só por algum tempo, de modo que nos acontece ás +vezes encontrar um sujeito que nos abre os braços e exclama nadando em +jubilo: + +--Ora ainda bem que o encontro! Ha quanto tempo! ha quantos mezes! Temos +muito que conversar! Vamos a isso! vamos a isso! + +Fica a gente horrorisada com a perspectiva de uma maçada enorme. Mas não +ha remedio senão fazer cara alegre e acceitar as coisas como ellas são. + +--Pois vamos lá a isso! + +Conta-nos o sujeito duas lerias, fugitivamente, como se o tivesse de +fazer por simples cumprimento. + +E, de repente, estendendo-nos a mão, parecendo ter já dito tudo: + +--Adeus! meu amigo. Estimei muito vel-o. + +Aqui está um exemplar de sujeito que gosta da companhia dos outros por +algum tempo apenas. + +O grande prazer que sentiu encontrando-nos aguou-se tão de pressa, que +só abandonando-nos de repente poude continuar a divertir-se. + +Conheci um alto cavalheiro, pessoa de estimação, que folgava immenso de +que outro, que em tempo havia feito despachar para certo logar da +alfandega, o seguisse por toda a parte, vestindo-lhe o casaco á saida +dos theatros, pegando-lhe na bengala se queria atar o _cache-nez_, +acompanhando-o a casa todas as noites, dizendo-lhe na rua o nome das +pessoas que o iam cumprimentando. + +Um dia o fiel protegido adoeceu, e o protector tão aborrecido se +encontrou da sua falta, que resolveu ficar em casa emquanto o outro não +melhorasse. + +Pelo contrario, ha pessoas a quem uma tão solicita e dedicada gratidão +incommodaria enormemente. + +Andrade Corvo, conversando comigo, dizia uma vez: + +--A gratidão que persegue a gente, é das coisas mais secantes que se +conhecem. E offende até certo ponto, porque dá a entender que fazemos um +favor para sermos servidos toda a vida. + +Como n'esse dia estivesse de notavel bom humor, exemplificou: + +--Ora imagine que se dá um espirro e se ouve dizer logo do lado: +_«Dominus tecum_, sr. conselheiro.» Imagine que tira a gente um charuto +da algibeira, e que a gratidão acode a cortar-nos o passo exclamando: +«Aqui está o meu lume ás ordens de v. ex.ª, sr. conselheiro!» Olhe que +chega a fazer perder a paciencia! + +Ha pessoas que se divertem passeiando sem fallar e sem olhar para ninguem. + +Recolhe um desses a sua casa e pergunta-lhe a mulher: + +--Encontraste muita gente conhecida? + +--Não sei. + +--E tiveste muito calor, filho? + +--Olha que tambem não sei. + +Outros, porém, gozam andando devagar, pasmando para tudo, parando de vez +em quando a observar todos, descobrindo mysterios, surprehendendo segredos. + +Conheço um destes; que me disse ha poucos mezes: + +--Fulano, quando chegar a ministro, não faz caso de ninguem. + +--Por que? + +--Eu lhe conto. Outro dia encontrou elle um amigo na rua da Boa Vista. +Você conhece de certo o Silveira? + +--Muito bem. + +--Pois era esse o amigo que elle encontrou. Eu vinha atraz e ouvi toda a +conversa. Ambos queriam o _americano_ que fosse para o Rato. N'isto +passava o carro que ambos desejavam. De repente o outro, que lobrigára +um só logar vazio, larga o Silveira, trepa para o _americano_, e diz-lhe +de lá adeus com a mão. O Silveira ficou com cara de parvo. + +--Mas que tem isso?! + +--Ah! então você não costuma aproveitar as lições que a observação de +todos os dias lhe vae deparando! Está arranjado! Aquelle _americano_ era +uma especie de carro do governo, em que o outro, logo que teve occasião, +tratou de arranjar logar, sem se importar com os que ficavam atrazados. + +--Sim. Mas não me parece... + +--Homem! qualquer coisa define uma pessoa. Os que gostam de fazer +_paciencias_ divertem-se comsigo mesmos: em tendo um baralho de cartas, +prescindem bem dos outros. + +Um d'esses taes estava em casa uma noite. Passou um amigo, e entrou. + +--Pensei que estivesse gente de fóra! disse o amigo ao entrar. + +--Enganaste-te. Estou eu só a fazer _paciencias_. + +--E a sr.ª D. Ismenia? + +--Sahiu. + +--Foi para o theatro? + +--Tambem não sei bem. Sahiu com a mãe. + +--E tua filha? + +--Sahiu com o tio. + +--E tu por que não sahiste tambem? + +--Por que não precisava. + +--Mas sempre é bom passeiar depois que se janta. + +--Para passeiar, meu amigo, basta que saia alguem da familia. + +Outros são de feitio opposto: amam a sociedade, a companhia, a convivencia. + +Encontra a gente um ou outro, á meia noite, quando recolhe a casa. + +--Que pressa tem você de se deitar? pergunta elle. + +--Preciso levantar-me cedo. + +--Mas durma depressa, homem! + +--Durma depressa! tem graça! + +--É o que lhe digo. Quer você ouvir um caso? Olhe que ainda é cedo. Uma +vez estava eu em Villa Franca, em casa do Tiberio. Jogava-se o +voltarete. Havia hospedes: um d'elles era o major Noronha, que tinha de +ir no comboio da manhã para Santarem. O jogo enremissou-se. A dona da +casa, muito constrangida, lembrou que era melhor deixarem as +remissas para outra occasião, porque o major tinha de levantar-se cedo. +E vae elle, muito amavel, respondeu: «Não tem duvida, minha senhora, +porque eu estou habituado a dormir depressa.» Faça você o mesmo, e dê +dois dedos de cavaco. + +--Sim... mas é já tarde. + +--Olhe cá, a proposito de voltarete e remissas... Você sabe que o +Castilho dizia que o voltarete era um jogo impio? + +--Impio? + +--Porque a cada passo ouvia dizer aos que o estavam jogando: Arre +missas! (Ha remissas). + +--Tem graça, tem! Adeus, que já é tarde. + +E o pobre homem, que só com os outros se diverte, fica aborrecido por se +achar só na rua. + +Lembra-lhe talvez ir pedir lume ao guarda nocturno para accender o +charuto,--como um pretexto para armar cavaqueira. + +Depois de accender o charuto: + +--Ó sr. guarda! n'esta rua ha muitos namoros? + +--Já houve mais. + +--Por que? + +--Têem ido casando. + +--É mal feito! + +--Bem ou mal feito, é lá com elles. + +--Mas o senhor fica muito prejudicado! + +--Ora essa! + +--Porque quantos menos namoros houver, mais só vae ficando a rua. + +Eil-o aqui a pensar como se elle proprio fosse o guarda nocturno. Ah! se +o fosse, valer-se-ia até talvez da carta anonyma para desfazer +casamentos, porque os namoros podem succeder-se, mas os casados, em +geral, não se namoram... depois. + +Ha pessoas secantes que se divertem ralhando sempre, e que gostam do +jogo, porque lhes dá occasião de bater murros na mesa e de gritar. + +A um d'estes grasinas faltava certa noite um parceiro para jogar o whist +de perna de pau. + +--Se viesse por ahi alguem! exclamava elle espreitando pelas vidraças +para fóra. + +N'isto tocaram a campainha. + +--Ah! é você! Ainda bem! Vamos lá jogar o whist. + +--Não jogo. + +--Por que não joga? + +--Porque você ralha sempre! + +--Hoje não ralho. Palavra de honra. + +--Com essa condição, vamos lá. + +Meia hora depois dizia o dono da casa: + +--Esta stearina está hoje detestavel! + +Passados cinco minutos: + +--Parece que cá em casa não fazem hoje tenção de servir o chá! + +De repente os outros dois pegaram-se a discutir o jogo. + +--Ah! elle é isso! exclama o dono da casa. Pois então sempre lhe quero +dizer a você (o tal, que tirára a condição) que já ahi fez uma grande +asneira quando eu me queixei da stearina, e outra quando fallei no chá. +Da primeira vez você devia ter vindo a oiros. + +Entra o criado com o taboleiro do chá. + +--Leva lá isso, que ainda é muito cedo! E da segunda vez porque devia +ter vindo a copas, que era o que se lhe pedia. + +Epaminondas, segundo resa a historia, nem por gracejo mentia, tanto +gostava da verdade,--até para se divertir. + +Outros, porém, só mentindo é que estão nas suas sete quintas. + +E isso cria-lhes difficuldades, põe-n'os em graves apuros, mas dá-lhes +tanto gosto, que perdoam o mal que ás vezes lhes faz pelo bem que lhes +sabe... o mentir. + +Contava um n'uma roda de amigos: + +--Ver a morte! Quatro vezes a tenho eu visto já! imaginem que andando á +caça no Brazil, alonguei-me pela roça fóra, e tinha descido a uma chã +quando vi que um preto, que eu havia castigado dias antes, corria atraz +de mim de espingarda na mão. + +--E depois? + +--Depois o preto, que chegára á borda do outeiro, apontou-me a +espingarda. Vocês sabem que os pretos têem uma pontaria infallivel! + +--Como diabo escapaste tu?! + +Chegado a este ponto, tambem elle proprio não sabia ainda como poderia +ter escapado. + +--Sim! Como escapaste tu?! + +Nova hesitação do narrador. + +--Não escapaste! + +--Homem, isto é serio. Fosse em razão do odio que me tinha, ou do +cansaço da corrida, o preto teve uma apoplexia fulminante e veiu cair-me +aos pés. Dei-lhe um pontapé, e continuei a caçar. + +Conheci um rapaz, que morria por andar de calças brancas. + +Eu disse-lhe algumas vezes: + +--Que diabo de gosto o teu! Não te parece que andas em ceroulas? + +Elle respondia-me sempre: + +--E a ti não te parece que metteste as pernas n'um tinteiro! + +São gostos, e gostos não se discutem. Mas se toda a gente, em questão de +gosto, tivesse a mesma opinião, quanto seria difficil... casar, por +exemplo! + + + + +XIV + +Peccadilhos metricos + +_Non bis in idem_ + + + Fazem ámanhã annos, + ...................... + ...................... + Alberto Pimentel + ...................... + + _Novidades_, de domingo + 27 de novembro de 1887. + + + Ainda ante-hontem dizia + Certo jornal que eu fazia + Annos no dia seguinte. + Comquanto o jornal ref'rido + Pertença a outro partido, + Era favor; não acinte. + + Mas, emfim, passa em julgado + Que eu seja tão desastrado + Que, já proximo dos _enta_, + Faça annos cada semestre? + Não: que o tempo é um grande mestre. + Tempo que passa, avelhenta. + + Fazer annos em novembro, + Logo em abril repetil-os! + De tal coisa não me lembro! + Tomára diminuil-os, + Quanto mais, por triste engano, + Duplical-os em cada anno! + + Assim, se chego aos sessenta, + Contar-me-hão cento e vinte! + Pois cada semestre augmenta + Um anno, e outro o seguinte! + Faço annos no quente e frio + Como pago ao senhorio!! + + Não! Não pode ser! Protesto! + Porque eu trabalho, e de resto, + Pago de seis em seis mezes + Duas rendas, uma em annos, + Outra em metal! São enganos? + Mas eu pago duas vezes! + + Fique pois bem entendido, + Bem notorio, bem sabido, + Que só uns annos farei. + _Quatorze de abril_: é a data. + Dispenso flôres, cantata... + Mas protesto. E protestei. + +29 de novembro de 1887. + + +DEPOIS DO INCENDIO DO THEATRO BAQUET + +_(Versos recitados pelo actor Firmino, uma das victimas sobreviventes +d'aquelle incendio, no beneficio que realizou no theatro da Trindade.)_ + + Venho d'entre as ruinas e das chammas, + Onde tudo perdi. Sabeis a historia, + Que o vosso coração ainda contrista. + Perdoai a vaidade ao pobre artista... + Eu sonhava essa noite com a gloria. + + Monstruosa ironia! A gloria! A gloria! + Tive por ovação prantos, clamores. + Ossadas por cortejo. O incendio e a fama + Disputaram ali. Venceu a chamma. + Eram chammas o palco e os bastidores... + + E ali n'essa sinistra apotheóse + Ficaram sepultados meus thesoiros, + Amigos que eu perdi,--tão dedicados! + Minha pobre familia,--os meus cuidados, + Doces cuidados que eu pref'ria aos loiros!... + + Sou agora a mim proprio quasi extranho, + Um viajante perdido no deserto, + N'esse infindo deserto da saudade. + Sinto ainda a desgraça muito perto... + Mas sinto ainda mais perto a caridade! + + Se vivo, é só por ella. Em seu regaço + Choro o meu abandono, as minhas dôres. + Refunde-se a minha alma em muitas almas, + Vale um consolo o que não valem palmas... + Vivo, meu Deus! graças a vós, senhores!... + + +UMA DAS VICTIMAS DO INCENDIO + +_(Etelvina Julia d'Almeida.)_ + + Vi-a n'um baile, ha muitos annos, quantos! + Da sua face bella as frescas rosas + Deviam ter suavissimos encantos + Se os beijos, namoradas mariposas, + Fossem sorver, ha muitos annos, quantos! + Da sua face bella as frescas rosas. + + Mas quem hontem logrou reconhecel-a + Entre as negras ruinas sepultada?... + Mas quem poude affirmar, dizer: É ella! + Ella que fôra outr'ora alva e rosada! + Já não poude ninguem reconhecel-a + Entre as negras ruinas sepultada. + + +1.º DE DEZEMBRO + + Filippa de Vilhena! + João Pinto Ribeiro! + Palavra, que faz pena + Ver o despenhadeiro + Em que isto agora vae! + E como o paiz cae! + + Agora é só dinheiro. + Está campando em scena + Sómente o deus Milhão! + Filippa de Vilhena! + João Pinto Ribeiro! + Palavra, que faz pena... + Agora é só dinheiro... + E os que lá vão lá vão! + +1887. + + +EMILIA + +_(Minha irmã.)_ + + Nunca tu azas tiveras, + Que te elevassem ao ceu. + Nunca tu voar poderas + Co'as azas que Deus te deu. + + Por mais que tu procuraste + Reprimir-lhe o ancioso vôo, + Eras tão debil! cansaste. + Deus quiz o anjo, e levou-o. + + Tinha reflexos tão doces + O teu olhar doce e brando, + Que logo pensei que fosses + Lirio que veio voando + + D'essa translucida esphera, + Tão cristalina e tão alta, + Onde a eterna primavera + Sentiria a tua falta. + + Então as flôres celestes + Chorando saudosamente + Vestiram lutuosas vestes, + Feitas de seda somente. + + E, debruçadas nas sépalas, + Choraram pranto divino + Sobre o justilho de pétalas, + Polvilhado de ouro fino. + + Deus viu-as tristes, chorosas. + Nos seus ethéreos jardins, + E chorou co'as suas rosas, + Teve dó dos seus jasmins. + + E como o pranto divino + Tambem, como pranto, queima, + Deus co'a sua voz, um hymno, + Dissera ás azas: «Trazei-m'a.» + + E as azas, mal escutaram + A celeste melodia, + Obedeceram, voaram, + Qual d'ellas mais voaria. + + Quando esse lirio nevado + Chegou de novo ao empireo, + Ia triste e maguado, + Deus estranhou o seu lirio! + + E o que o lirio não dissera + Tudo Deus adivinhou. + Voando á celeste esphera, + Chorára emquanto voou. + + As flôres do azul sorriam, + Os lirios do ceu cantavam, + Meus olhos já te não viam, + Meiga creança, e choravam. + + Nunca tu azas tiveras, + Que te elevassem ao ceu + Nunca tu voar poderas + Co'as azas que Deus te deu. + +24--2--87. + + +JOÃO DE DEUS + + João de Deus! De Deus... porque é divino. + João, ou seja o primo de Jesuz + Ou o outro que vela junto á Cruz, + É divino tambem. + E não atino + Senão co'esta rasão: foi prophecia + --Se já não foi destino-- + De quem previu que João de Deus seria + Um poeta divino. + +Ericeira, 21--10--90. + + +KERMESSE + + O bem é como as auroras, + Que para tudo o que existe + Espalham luz e calor. + Seja alegre ou seja triste + A alma, o insecto, a ave, a flôr, + Tudo o que ri ou que chora + Sente nos raios da aurora + A esmola do eterno amor... + + Os beijos do sol aquecem + Tudo o que é velho ou que é moço, + O ephémero e o colosso. + As rochas e os corações, + Os lagos e as ondas bravas, + Emporios e solidões, + As lagrimas das escravas + E os sorrisos das rainhas, + As cavernas dos leões + E os ninhos das andorinhas. + + E o bem é como as auroras. + Por isso ao bem não esquece + A creança, o ninho, a escola... + + Tu és como o sol, esmola! + És como a aurora, kermesse! + + +OS TREZ VELHOS + + I + + Cahiu um nevão na serra. + Desde a cumiada ao val + Alveja rútila a terra. + Não houve nevão egual! + + O ar gelado, cortante, + Passa sobre as povoações + Ceifando como um montante, + Rugindo como os leões. + + Arvores sêcas, esguias + Olham para o ceu, talvez + A soluçar elegias, + Carpindo a sua nudez. + + Cheias de fome, as manadas + Sobre as campinas despidas + Só róem urzes queimadas + E raizes ressequidas. + + A fome, a doença, a morte + Assentaram arraiaes + Junto ao casal e á corte, + Levando gente e animaes. + + Famintas, as alcateas + Vem de noite ao povoado. + Tremem de medo as aldeas, + Ouvindo o lobo esfaimado... + + E desde o alto da serra + Abre a neve o seu lençol. + O que seria da terra + Sem ter um raio de sol?! + + II + + Entre a egreja e o presbyterio + Corre, caiado de novo, + O muro do cemiterio. + Vem ali juntar-se o povo. + + O sol, batendo no muro, + Aquece a pedra ao meio dia, + Torna o inverno menos duro, + Tempera a nortada fria. + + Lá se juntaram trez velhos + Sêcos, rijos, vermelhaços, + Expondo ao sol os joelhos, + Estendendo ao sol os braços. + + Emquanto o sol os aquece, + Riem-se elles da nortada. + Cada um seu mal esquece, + Vai tudo de patuscada. + + --Tem morrido muita gente + Com esta grande invernia!... + --Pois nunca o inverno foi quente! + --Salvo... este sol do meio dia. + + --Este sol é a minha adéga: + Eu não quero outro calor. + --Você o vinho renega!... + --Lingua de mau pagador! + + --O vinho é caro. A cacháça + Custa agora... + --Isso que monta! + --O sol dá-o Deus de graça!... + --Mas beba vinho com conta! + + --Eu cá nunca fui borracho. + --Nanja eu. Mas acho-o bom. + --Diz um cacho a outro cacho: + Não bebas sem tom nem som! + + E n'esta mansa folia + Vão-se aquecendo os trez velhos + Ao doce sol do meio dia, + Rijos, sêcos e vermelhos. + + III + + --Lá vem enterro... Isto agora... + Não tem descanso o coveiro! + --Vem d'acolá d'onde mora + A mulher do Zé Cabreiro. + + --Foi o filho... É de creança + O caixão: eu inda vejo! + --O coveiro não descansa!... + --Inda hontem lhe dei um beijo! + + --A quem? Ao coveiro?! + --Irra! + Ao filho do Zé Cabreiro. + --O frio as creanças mirra. + --Lá vem atraz o coveiro... + + --A morte leva os fedelhos, + Mata n'um dia um rapaz, + Emquanto que nós, os velhos. + Vamos ficando p'ra traz! + + --A morte é uma gulosa, + Gosta de bocados finos. + Carnes que cheirem a rosa, + Polpa de tenros meninos... + + --Póde ser!... + --Pois certamente! + Nós cá, ossos esburgados, + Nem para a cova de um dente + Lhe chegavamos, coitados! + + No alto mar me contava + Um velho de Guimarães + Que a terra se embebedava + Com as lagrimas das mães... + + --Por isso lhes leva os filhos!... + A gulosa!... Quer banquete! + --Quem tem filhos tem cadilhos. + Morreram-me. Eu tive sete!... + + --E eu nenhum. + --Nem eu. + --Agora, + Sem ter filhos nem mulher, + Visto que ninguem nos chora, + Nem mesmo a terra nos quer!... + +Janeiro de 1891. + + +AS POMBAS + +_(De Theophilo Gautier.)_ + + Na collina dos mortos, entre os tumulos, + Ergue a bella palmeira a verde pluma, + E á tarde as mansas pombas de azas candidas + Vão aninhar ali, uma após uma. + + De manhã, quando o sol desperta rutilo. + As brancas pombas vão, cortando o ar, + Como um solto collar no azul ethéreo, + Longe do ninho um tecto procurar. + + Minha alma é como a solitaria arvore + Onde enxames de loucas illusões + Poisam á noite. Fugitivos hospedes, + Vão-se co'a luz as pombas e as visões. + +8--2--87. + + +MULHER E GATA + +_(Paul Verlaine.)_ + + O vel-a até dava gosto + Brincando co'a sua gata, + Branca mão contra alva pata, + Na penumbra do sol posto. + + Mitene, que a mão recorta, + Por dissimular trabalha + Unha d'ágatha, que corta + E brilha como navalha. + + Mas a gata, disfarçada + Tambem, com prazer ronrona + E ensaia a unha acerada... + Não é melhor do que a dona! + + E os dois labios purpurinos + Enchiam de riso o ar, + Onde se viam, felinos, + Quatro phosphoros brilhar. + + +N'UMA SALA + + A um canto, os politicos fallavam + Com um certo mysterio + Do modo como as coisas caminhavam, + Se estava forte ou fraco o ministerio. + + Alguem que se mostrava resentido, + Abanava a cabeça--era um symptoma + De que a seu vêr o mundo está perdido + E tudo cae,--como caíra Roma! + Elle só, por sciencia e por estudo, + Era talvez capaz de salvar tudo... + + N'outro canto da sala gorgeiava + A musica do riso e d'alegria + Um grupo que sorria e que fallava + De quanto ouvia e via. + Era o grupo formoso das solteiras, + O grupo dos vinte annos, + Que é capaz de passar noites inteiras, + Rindo de tudo,--até dos desenganos! + + D'este grupo gentil como é que eu posso + Desenhar o esboço? + Precisaria ter as tintas finas, + O magico pincel + De que dispunha o grande Raphael! + Em vez de uma... eram quatro Fornarinas. + + Quereriam talvez as bellas damas + Vêr no papel traçado o seu perfil?! + N'essa não caio eu... + Quem é capaz de retratar abril? + De transportar á tela o que é do ceu? + De copiar as flôres? + De imitar as estrellas? + De dizer á manhã: Roubei-te as côres? + Tende paciencia, ó minhas damas bellas, + Incumba cada uma o seu Romeu + D'esse arrojo inaudito. + Eu cá por mim, repito, + N'essa não caio eu... + + E de mais eu bem sei, minhas senhoras, + Que me attendestes n'um serão inteiro + Por não haver na sala algum solteiro... + Sois boas, não sejaes enganadoras. + + Eu já tenho trez filhos, eu sou velho, + Disse-m'o ha pouco tempo uma visinha, + E o maldito do espelho + Tem-me mostrado até... _pés de gallinha_!... + + Vão muito longe as minhas primaveras. + De mais a mais, senhoras, a aza branca + Da musa ideal que eu tive n'outras eras + Desplumou-se a pensar em Salamanca, + No imposto sobre o sal, + A estudar as questões do parlamento, + O orçamento geral, + --Diabo de orçamento! + Que é o livro maior que ha em _S. Bento_! + Assim se foi rasgando, creio eu, + Essa aza branca que me erguia ao ceu!.. + + Vede, senhoras, se ha tormento igual! + O que me resta só, + Para de todo errar da sorte o alvo, + E vêr-me, um dia, calvo, + E descer á miseria... de um chinó. + + N'estas alturas, minhas damas bellas, + Não posso ser pintor. + Quereis vêr-vos, senhoras, retratadas + Formosas como sois, e delicadas? + Mirae-vos n'uma flôr... + + N'essa não caio eu... + Fazer-vos o retrato?! + Mas, em compensação, + Com a vossa adhesão + Estou prompto a fazer um syndicato. + + + + +XV + +Os amaveis + + +Toda a gente os conhece, os amaveis, sempre generosos, sempre +previdentes, tendo á flôr dos labios sorrisos doces e doces fallas, que, +quando não encantam, incommodam com certesa os outros... + +Sim, porque os grosseiros custam a aturar, são bruscos, são asperos, são +impertinentes. Mas os amaveis de profissão, os que fazem gosto e gala de +o ser por uso e costume, chegam a aborrecer quasi tanto como os grosseiros. + +Com a differença de que se um grosseiro, por descuido, alguma vez se +mostra amavel, fica a gente encantada com essa surpresa; ao passo que se +um amavel, tambem por descuido, commette uma grosseria, fica a +gente quasi vexada de vêr que elle estragou com um involuntario borrão +todo o seu passado de homem fino. + +A cortezia é como certos estofos claros, em que a mais leve nodoa se +torna saliente. Ao passo que nos tecidos grosseiros, qualquer +incorrecção de côr, qualquer sombra, por maior que pareça, tem sempre +esta desculpa: «É mesmo da fazenda...» + +Um brutalhão de marca maior costumava espancar a mulher por dá cá +aquella palha. As visinhas tinham dó da pobre creatura sempre que ella +acabava de apanhar a sova do estylo. «Coitada! diziam-lhe, vocemecê +sempre foi muito infeliz com o marido que escolheu!» E ella respondia, +cheia de philosophica resignação: «É genio d'elle, não façam caso.» + +Equivalia certamente a dizer: «É feitio da fazenda, não ha que extranhar.» + +Um amavel que uma vez escorrega, fica tão maltratado em sua boa fama, +como ficaria maltratado corporalmente se tivesse caido do arco grande +das Aguas Livres sobre as hortas da Rabicha. + +Um dia, certo cavalheiro primoroso em fallas e maneiras, inexcedivel em +requintes de cortezia, andando adoentado de irritação intestinal, teve a +infelicidade, estando a jogar jogos de prendas com damas, de ser elle +proprio dolorosamente surprehendido por alguma coisa que o vexou. + +O jogo acabou de repente, no meio de um silencio gelado. O cavalheiro +infeliz pegou no chapéo e, esquecendo-se da bengala, deitou a correr +pela escada abaixo. + +As damas dividiram-se em grupos, fallando ao ouvido umas das outras, +receiosas de que alguem as ouvisse. + +Os que estavam jogando o voltarete e o _whist_ perguntavam admirados: + +--Então acabaram tão cedo o seu divertimento! + +--Aconteceu alguma coisa? + +--Por que se foi Fulano embora tão depressa? + +E as damas calavam-se mysteriosamente, entrincheiradas n'um silencio, +que só quebravam para cochichar ao ouvido de alguma sua amiga. + +No dia seguinte o caso espalhou-se em toda a cidade. + +--Sabe o que aconteceu hontem a Fulano em casa de Fulano? + +--Não sei. + +--Pois ainda não sabe! + +--Eu lhe digo... + +E dizia-lh'o ao ouvido, com tamanho mysterio, que justificava plenamente +o pasmo com que a noticia era recebida. + +--Ora essa! + +--Um homem tão correcto! + +--Um tão perfeito cavalheiro! + +--Que pena! + +--Que desastre! + +--Que fiasco! + +E, em verdade, o que tinha acontecido a esse primoroso cavalheiro, que +não podesse acontecer a qualquer outra pessoa? + +Tinha deixado cair um borrão no claro estofo da sua boa fama. + +Se se tratasse de um grosseirão, toda a gente haveria dito apenas que +era proprio da fazenda. + +Viajando em caminho de ferro, quem é que não tem encontrado um +companheiro tão amavel, que chega a aborrecer? + +Se tem vontade de abrir uma janella, encobre este desejo com um veo de +cortezia, e pergunta: + +--Quer a janella aberta, não é verdade? + +Se deseja fechal-a, serve-se de processo identico, sempre em nome da +cortezia: + +--Pois não é verdade, pergunta, que desejava a janella fechada: + +Se se trata de offerecer de jantar a alguem, o amavel insta, insiste, +persegue quasi, que é talvez a melhor maneira da gente, no caso de ter +que acceitar por força, ir mal disposta, e comer pouco. + +--Você--dizia certo amavel a um amigo que lhe appareceu sem ser +esperado--você janta hoje comigo sem appellação nem aggravo. + +--Não posso, meu caro, o comboio parte d'aqui a meia hora, e eu tenho +que seguir hoje viagem. + +--Que pena! que pena! Mas veja lá se póde de algum modo fazer o +sacrificio de jantar hoje comigo... + +--Absolutamente, não posso, meu caro. + +E o amavel, tirando dois charutos da algibeira, offerece um ao seu amigo +e procura o pretexto de ir ao interior da casa accender o outro. + +Serviu-se d'este pretexto para ir dizer alguma coisa ao cosinheiro, que +aliás não tinha dotes de muito esperto. + +E, voltando para a sala, todo elle era perguntar ao amigo: + +--Seu pae como está? + +--Menos mal, obrigado. + +--E seu tio? + +--Esse passa peior. + +--Sinto muito. Diga-lhe que sinto muito. + +--E aquelle seu primo de Torres Novas? + +--Esse! Morreu ha um anno! + +--Não sabia! Que pena! um homem ainda tão novo! + +De repente, voltando ao offerecimento do jantar: + +--Mas, decididamente, você janta hoje comigo... + +--Não posso, meu caro, porque o comboio não dá licença. + +--Eu nem mesmo sei o que tenho hoje para jantar. Mas isso sabe-se +depressa. Ó José Maria, anda cá. + +José Maria era o cosinheiro, a quem elle havia dito de repente, quando +foi accender o charuto: + +--Se eu logo te perguntar o que temos para jantar hoje, inventa lá +alguma coisa grande e pomposa. + +Vem o José Maria e, de barrete branco na mão, espera que o amo o +interrogue. + +--O que temos nós hoje para jantar, José Maria? + +E o cosinheiro, que estivera matutando na invenção de alguma coisa +grande e pomposa, responde: + +--Saiba v. ex.ª que temos uma balea. + +Gesto de surpresa do amigo e do dono da casa. + +O cosinheiro fica atarantado, suppõe que tinha dito ainda pouco... + +--O que dizes tu, José Maria! Uma balea! + +E o cosinheiro querendo emendar a mão: + +--Duas... duas, meu senhor. + +Um homem menos amavel teria certamente evitado este fiasco das duas +baleas, porque não se lembraria de chamar o cosinheiro como collaborador +da sua amabilidade hospitaleira. + +E toda a gente, d'ali por diante, repetiu o caso ás gargalhadas, fazendo +alastrar a nódoa com que uma tão distincta pessoa maculára a sua +reputação de homem amavel. + +Havia um sujeito, pessoa excellente, a quem a naturesa dera como filho +um brutamontes rebelde a todas as correcções. + +Pae e filho foram convidados a jantar fóra de casa. O filho quiz ir por +força: o pae consentiu, com a condição de que elle fallaria o menos +possivel. + +Á mesa, o visinho da direita disse ao rapaz: + +--O tempo está magnifico! + +Elle limitou-se a meneiar affirmativamente a cabeça. + +O visinho da esquerda disse-lhe por sua vez: + +--Que magnifico tempo! + +Elle tornou a meneiar a cabeça. + +D'ali a nada diziam os visinhos aos visinhos: + +--Este rapaz é um grosseirão! + +E o rapaz, dirigindo-se ao pae, que estava sentado defronte: + +--Olhe que elles já me conheceram! Posso fallar á vontade. + +O pae sorriu encolhendo os hombros, como se quizesse dizer para os +outros convivas. + +--Desculpem, isto é mesmo da fazenda. + +Desenganem-se: os amaveis teem muito mais que perder do que os +grosseiros. E quantas vezes se arrepende uma pessoa de ser amavel, +devendo ter sido grosseira!... + + + + +XVI + +A sepultura d'um traidor + + +Devo começar por dizer quem fosse o sr. D. Ruy, porque eu, posto a +contar historias, tenho ainda o mau costume de começar pelo principio. + +O que faz com que seja alguma coisa massador... pelo menos. + +O sr. D. Ruy era o filho unico da fidalga da Gésteira e do morgado do +mesmo nome. + +Sobre aquelle menino pesava uma nobreza de sete gerações, e uma riqueza +talvez mais pesada ainda do que uma tal arvore genealogica. + +Pela sua parte, elle não precisaria ser tão nobre nem tão rico para se +fazer estimar e adorar. + +Era, realmente, uma creança insinuante, meiga e intelligente, +quasi nada voluntariosa apezar dos extremos, por vezes ridiculos, com +que era tratada. + +A mãe parecia viver da vida do filho. Se elle ria, ria ella tambem; ás +vezes adoeciam, mãe e filho, da mesma tristeza: chamava-se logo o medico +para ambos, porque o morgado, depois de ter vivido no mundo, prescindira +da sociedade que tanto o prendera outr'ora, para se limitar a viver para +a mulher e para o filho, isto é, para uma só alma partida em dois corpos. + +No solar da Gésteira havia ainda uma outra pessoa, que fazia parte +integrante da familia: era o padre João, capellão da casa. + +Padre João accumulára tambem as funcções de preceptor do sr. D. Ruy +durante a primeira infancia do fidalguinho. Ensinara-o a lêr e a rezar. +Umas vezes por outras fallava-lhe do sr. D. Miguel de Bragança, que, +segundo elle, era o _Desejado_ dos tempos modernos. + +Mas o sr. D. Ruy foi crescendo, e chegou um dia em que se pensou no que +se devia fazer d'aquelle menino. + +O que havia elle de ser no mundo para melhor fazer sobresair a sua +riqueza e a sua fidalguia? + +A mãe, no egoismo do seu amor, dizia que o melhor era não se pensar mais +n'isso, que o sr. D. Ruy já sabia lêr o bastante... para não ser +analphabeto. + +Padre João concordava com a fidalga: que sim, que a sabedoria era boa +para os pobres. + +O morgado protestava. Elle mesmo era bacharel em direito, e queria que o +filho o fosse. + +Vivendo amarrado ás tradições de familia, queria que o filho se +graduasse em leis, como elle, fazendo o que seu pae fizera, tendo um +cavallo para passeiar, como todos os estudantes nobres d'aquelle tempo, +exhibindo-se, n'uma palavra, em toda a plenitude das regalias que +uzufruiam os morgados em Coimbra. + +Padre João concordava tambem com o morgado: que sim, que o saber não +ficava mal a ninguem. + +A morgada zangava-se, e dizia: + +--O padre João está fallando assim por comprazer com meu marido. Já lhe +tenho ouvido dizer que a sabedoria é boa para quem não tem outra coisa. + +O bom do capellão via-se enleiado, tomava a sua pitada, rufava depois +com os dedos sobre os joelhos: + +--Sim, quero eu dizer, minha senhora, que nem tanto ao mar nem tanto á +terra. Uma envernizadella ao espirito não faz mal a ninguem... + +--Uma envernizadella! replicava o morgado. Mais do que isso. Uma carta +de bacharel. Póde nascer-se morgado, sem a gente o querer; doutor é que +não. O padre João já viu alguem nascer doutor? + +--Eu, não, sr. + +--Pois se não viu, é porque para o ser é preciso estudar e saber alguma +coisa. E a honra é tanto maior quanto o individuo, pela sua posição +social, menos precisa das cartas de um curso para viver. Hoje os tempos +mudaram, e um fidalgo ignorante já ninguem o toma a serio. Eu quero que +meu filho vá a Coimbra. + +A fidalga punha os olhos no chão, ficava calada e triste. + +--Mas isso não é por ora, tornava o morgado; escusas de estar ahi a +abalar de tristeza, Christina. Has de habituar-te pouco a pouco a viver +sem o teu filho, como minha mãe se habituou. O habito é uma segunda +natureza. Primeiro entrará o Ruy n'um collegio. Vamos viver para o +Porto,--e olha que faço n'isso algum sacrificio, porque já me custa +arrancar-me á vida da provincia. Para que elle tambem se habitue a viver +sem nós, mettemol-o n'um collegio, no da _Guia_, por exemplo, porque +tenho boas informações a respeito d'essa casa de educação. Iremos vel-o +sempre que queiras. Pelas ferias, sahirá, viremos para a Gésteira, a fim +de que elle possa saborear, de tempos a tempos, o bem estar da casa +paterna, conservar as tradições de familia, que eu tanto prezo, e tu +tambem. + +De sahir da Gésteira, de deixar o seu querido Minho, é que padre João +não gostava; mas, chamado a conselho pelo morgado, não tinha +remedio senão concordar. + +Finalmente, resolveu-se que o sr. D. Ruy iria para o collegio da _Guia_ +estudar preparatorios. + +Os fidalgos da Gésteira sahiram para o Porto, e arrendaram casa, uma +bella casa de trez andares, na rua de Santa Catharina. + +A fidalga queria ficar perto do collegio,--o mais perto possivel. + +Marcou-se o dia em que o sr. D. Ruy devia entrar no collegio. O +director, o Daniel Navarro, tinha ordem de se não poupar a despezas para +amenizar a iniciação do joven collegial. Esse dia, era uma segunda +feira. Mas no domingo á noite a fidalga chorou tanto, que o morgado +achou prudente deixar passar mais alguns dias. + +Por sua parte, o sr. D. Ruy estava um pouco vacillante entre as saudades +da mãe e o desejo de entrar no collegio. Um dia o pae levara-o lá. Era á +hora em que os alumnos estavam no _recreio_: todos elles pareciam +alegres, riam, vozeavam, corriam pelas ruas da quinta, jogavam as +escondidas, baloiçavam-se no trapesio. Aquillo não lhe desagradou; +demais a mais o Navarro fizera-lhe muita festa, foi mostrar-lhe as +aulas, os dormitorios, a casa de jantar, e disse-lhe: + +--Olhe que isto não é mau. + +E o sr. D. Ruy sorrira, sentira-se forte, imaginava que se havia de dar +bem ali, com os outros, brincando como elles. + +Mas ao chegar a casa, chorára vendo a mãe, e ella chorára tambem, +abraçada n'elle. + +--Bem! dissera do lado o pae, tu não desgostaste, pois não é verdade: + +O sr. D. Ruy, com os olhos chorosos, meneára affirmativamente a cabeça. + +--Então entrarás segunda feira... está dito! + +E passára a mão pela face da fidalga, afagando-a. + +--É que se o rapaz ainda não vae d'esta vez, disséra, fica sendo o D. +Sebastião do collegio da _Guia_. Eu não quero que os outros lhe ponham +alcunhas, que ficam depois para toda a vida. + +--Nem eu, replicára a fidalga com vivacidade. + +A ideia de que seu filho poderia ter uma alcunha, ser chamado o _D. +Sebastião_ do collegio, sobresaltára-a. E desde logo protestou a si +mesma que o deixaria ir na primeira segunda feira. + +--Ó mamã, dissera o pequeno, sabe que numero eu vou ter no collegio? + +--Qual? + +--Sou o 416. + +Esta novidade, o facto de ir ser o 416, agradava-lhe. Era uma variante á +monotonia do seu tratamento habitual. Toda a gente lhe chamava D. +Ruy, o sr. D. Ruy, mas d'ali em diante iam chamar-lhe o 416. Que bom! + +No domingo, o morgado tornou a levar o filho ao collegio. Quando +entravam, os rapazes sahiam arregimentados. Iam ouvir missa á Lapa, e +depois dariam um passeio até Paranhos. O morgado disse ao prefeito que +tambem os acompanharia, para habituar o filho á sua nova vida de collegial. + +Na egreja da Lapa, emquanto esperavam pela missa, o sr. D. Ruy fez +relações de amisade com um rapaz, filho de um fidalgo da casa de Villa +Pouca, em Guimarães. Era o 86. O sr. D. Ruy gostou d'elle, e gostou de +se vêr tratado familiarmente--por 416, apenas. + +Veio para casa contar á mãe o que tinha feito. Estava enthusiasmado. E a +segunda feira tardava-lhe. A mãe alegrou-se um pouco da alegria do +filho. Pela manhã lavou-o, penteou-o, ella mesma, chorando umas vezes, +sorrindo outras, soffrendo e amando. + +Padre João foi com o morgado acompanhar o 416. A fidalga veiu para a +janella. Chorava. Chegára finalmente o momento terrivel, que ella temia +tanto. Mal viu o filho na rua, limpou as lagrimas, procurou sorrir. O +sr. D. Ruy ia bem disposto, sentia-se forte, disse adeus á mãe sem +chorar, mas á esquina da rua, quando a janella ia desapparecer, o +valoroso 416 voltou-se ainda uma vez para traz, e limpou duas +lagrimas ao canhão da jaqueta. + +É que, por muito leviano que se seja quando se é creança, sempre se tem +consciencia de que uma mãe faz muita falta. + +O 416 deu boa conta de si no collegio da _Guia_. De dia, as aulas e o +recreio absorviam-lhe a attenção; á noite, nos primeiros tempos, +arrasavam-se-lhe sempre os olhos de lagrimas, quando, antes de +adormecer, pensava na mãe. Faltavam-lhe os beijos d'ella, que se +inclinava sobre o leito a compor-lhe a almofada, e a conchegar-lhe a +roupa. A cabeça de Christina tomava então o aspecto de uma aza +protectora. O 416, no collegio, enrolava-se no lençol, soluçando, e +adormecia assim, rezando ao anjo da guarda, como padre João lhe +ensinára. Mas, pela manhã, a disciplina escolar não lhe dava occasião +para pensamentos tristes: era saltar da cama e começar a lide. + +Ao cabo do primeiro mez, o 416 já adormecia melhor. + +Como as suas relações com o 86 se houvessem estreitado cada vez mais, +faziam ambos projectos para as ferias da Paschoa. O 416 levaria para a +Gésteira o seu condiscipulo: já estavam solicitadas as respectivas +licenças. Não havia duvida nenhuma. Fariam um Judas logo que lá +chegassem. Houve apenas uma pequena divergencia, entre os dois amigos, +sobre o modo como vestiriam o Judas. O 86 queria que fosse de +veterano. O 416 preferia um fato de hespanhol--com as respectivas +castanhetas. A sua opinião venceu, com uma simples modificação: as +castanhetas seriam substituidas por um pandeiro. + +Padre João, n'uma visita ao collegio, disse que o fato de hespanhol não +era proprio para Judas; que seria melhor vestil-o de judeu. Os dois +collegiaes não quizeram saber d'isso, e o 416 encarregou o capellão de +lhe comprar um fato de hespanhol, que o padre foi desencantar na rua de +Santo Antonio, n'um guarda-roupa de carnaval. + +Imagine-se a alegria com que todos partiram para a Gésteira! A morgada +parecia ter a idade do filho: ria, fallava, apoiava calorosamente os +projectos dos dois collegiaes sobre a queima do Judas, que devia ser +espaventosa. + +Na caixa do trem ia muito fogo de artificio para recheiar o apostolo... +castelhano. Dentro da barriga tinham os dois amigos combinado pôr-lhe +uma bomba, que devia rebentar como uma peça de artilheria. Na cabeça, +outra bomba: o chapeu devia ir parar a casa do diabo. + +Logo que chegaram á Gésteira, trataram de fazer o Judas. O arcabouço era +de palha. Vestiram-lhe as pantalonas castelhanas, a jaqueta de alamares; +ataram-lhe a faixa encarnada. Pozeram-lhe uma caraça de andaluz, e um +sombrero com debrum de velludo preto. As mãos eram duas luvas de +algodão com recheio de palha; na esquerda tinha um pandeiro, e na +direita a saca dos trinta dinheiros. Por um artificio sabiamente +imaginado, a saca do dinheiro devia, quando se puxasse por um arame, +bater no pandeiro, e fazel-o soar. Na bôca um charuto: era uma granada +envolvida em folha de tabaco. Nos pés, esporas de lata, com polvora dentro. + +O Judas ficou n'um vasto telheiro que, dentro do pateo, se encostava ao +muro da quinta. + +O machinismo do pandeiro e da saca dos trinta dinheiros, invenção do 86, +levara muito tempo, e dera muito trabalho, de modo que só foi possivel +acabal-o, á luz de lanternas, na sexta feira á noite. O Judas, +finalmente prompto, estava de papo ao ar, no chão, hirto, inchado, +apopletico. Pela manhã, os meninos levantar-se-hiam muito cedo para +assistir á empalação. + +Depois... só restava pegar-lhe fogo. + +De madrugada, uma criada da casa fôra ao moinho buscar uns sacos de +farinha, que trouxe n'uma jumenta. Descarregou a farinha e enxotou a +jumenta para o meio do pateo, emquanto foi acondicionar os sacos na +cosinha. + +Não se lembrou a estupida de que o Judas era de palha, e de que as +jumentas comem palha... ainda mesmo quando lh'a não sabem dar. + +A jumenta, de focinho baixo, foi procurando o que havia pelo +telheiro. Vendo o Judas deitado no meio do chão, começou, desconfiada, a +ladeal-o, mas, por fim, investiu com elle. Cheirou-lhe a palha, e com +uma dentada esgarçou-lhe o peitilho da camisa. Achou dentro a palha, e +começou a comer. Trazia fome. Tinha ido para o moinho de madrugada, e +lá, emquanto esperava pela moedura, apenas poderá traçar com os dentes +umas hervitas, de modo que aquelle almoço inesperado soube-lhe bem. + +Quando os meninos se levantaram, correram ao telheiro. Do Judas... +restava apenas a parte castelhana, isto é, o fato:, mas os intestinos +tinham desapparecido. + +Proromperam n'um choro atroador as duas creanças. Os morgados, os +criados, acudiram todos. As lamentações dos dois collegiaes eram +sentidissimas, clamorosas. E a burra, indifferente a tudo o que se +passava, continuava a procurar com o focinho alguma cousa, na esperança +de encontrar outro Judas. + +N'um momento de cólera, o 86 e o 416 pegaram cada qual no seu fueiro, e +começaram a desancar a jumenta. Levou muita lambada; até o padre João, +para lisonjear os meninos, lhe dera um pontapé na trazeira, dizendo: Que +grande burra esta! + +Mas ella, com o falso apostolo na barriga, parecia ter a consciencia de +que um traidor não merecia sepultura melhor. + + + +XVII + +A caminho do Alemtejo + + +Ha pouco mais de um mez, passava eu na linha do sueste com destino ao +Alemtejo. Tinhamos atravessado o rio com muito vento; havia vaga. O ceu +estava carrancudo; promettia chuva. O vento apressava-a. Na ponte do +Barreiro, uma grande corda de agua principiára a cahir. Corremos todos +para as carruagens;--foi um verdadeiro _sauve qui peut_. + +O comboyo partira e a chuva continuava a cahir. Uma inverneira pegada. +Eu sentia-me somnolento, cabeceava. Na estação de... (sejamos discretos) +sentindo correr uma vidraça na carruagem immediata, espertei. Uma voz, +n'um tom agaiatado de rapazote de escola, disse: E a cabrinha? E a +cabrinha? + +O chefe da estação, um homem velho, de bigode branco, olhou de repente +para a carruagem d'onde a voz partira. Havia ficado visivelmente +aborrecido, mas continuára fazendo o seu serviço. De instante a +instante, ao passo que a voz repetia--E a cabrinha?--elle resmungava. + +Ao cabo de pouco tempo a campainha dera o signal da partida. No momento +em que o comboyo largava, uma voz, mais vozes disseram: E a cabrinha? E +a cabrinha? + +O que se passou não sei, mas n'uma das estações seguintes procurei +occasião de perguntar ao meu visinho, que se apeiára, o que aquillo +queria dizer. + +O rapazote, que teria quando muito dezeseis annos, explicou-me. + +Aquelle chefe tinha uma cabrinha de muita estimação, que lhe dava +magnifico leite para o almoço. Mas a cabrinha, que era toda meiguice com +a dona, mostrava-se pouco affeiçoada ao dono. Um dia, por um motivo +qualquer, a mulher do chefe da estação teve de ausentar-se; o marido +ficou, desempenhando as funcções do seu cargo. + +Quando chegou a hora do almoço, o chefe tratou de chamar a cabrinha para +mungil-a. Isso sim! A cabrinha fugia, e o pobre homem resignou-se a +tomar o seu café sem leite. Não gostou, e tratou de afagar a cabra para +que ella se mostrasse menos extranha e rispida. Qual historia! No outro +dia a mesma comedia, elle a chamar a cabra com as suas melhores +maneiras, e ella a fugir d'elle como o demonio foge da cruz. + +O pobre homem deu tratos á imaginação para resolver o problema, em que +elle e a cabra entravam como factores. + +O que havia de fazer? Demais a mais o café sem leite estava-lhe fazendo +mal ao estomago, e a cabra não promettia tornar-se mais amavel do que +até ahi se havia mostrado. + +Depois que os comboyos passavam, elle fechava a porta da estação, e dois +pensamentos atrozes o preoccupavam: a mulher e a cabra. + +O que havia de fazer? pensava e tornava a pensar. + +Até que uma noite teve uma idéa luminosa, salvadora. Adormeceu mais +tranquillamente, saboreando mentalmente a delicia de tornar a almoçar +café com leite. + +Pela manhã, quando acordou, vestiu um vestido da mulher, poz na cabeça +um lenço d'ella. Foi chamar a cabra, e a cabra veiu immediatamente, +fazendo-lhe festa. + +Estava resolvida a difficuldade, a cabra deixava-se mungir; o bom homem +endoidecia de contentamento. + +N'isto, um silvo terrivel ouve-se a pequena distancia. Era o comboyo, +mas em que occasião, santo Deus! + +O pobre chefe estava vestido de mulher, de saia e lenço. Um dilemma +implacavel se lhe apresentava: apparecer tal como estava ou faltar. + +Mas faltar seria um delicto muito grave, um motivo para demissão. N'isto +o comboyo chegava... E o chefe da estação apparecia na plataforma, +mascarado de mulher, a dar ordens no desempenho do seu cargo. + +Os passageiros riram a bom rir. O caso divulgou-se, espalhou-se ao +longe, e agora é raro o dia em que passe um comboyo sem que alguem +pergunte ao chefe da estação noticias da cabrinha... + + * * * * * + +--Já não ha salteadores no Alemtejo! dizia eu para um dos meus +companheiros de viagem. Que falta que me faz um assalto, de que eu +precisava escapar... para o contar depois! + +E elle referia-me casos tenebrosos de antigos salteadores alemtejanos, +do José da Costa e do _Chapeu de ferro_, dois faccinoras, dois monstros, +que viveram n'um tempo em que ainda se podia ser litterato. + +O José da Costa fôra ha doze ou quinze annos o terror das terras +interpostas a Alcochete e Setubal. Desertor de lanceiros, andava a +monte, zombando das auctoridades e da policia. Era um heroe terrivel, um +homem sanguinario, uma lenda viva. Uma noite, encontrára o caseiro +da quinta de Algeruz, e mandára-o apeiar do cavallo que montava. +O caseiro obedecera immediatamente, e o faccinora dissera-lhe, +passando-lhe a mão pela cara: + +--Anda lá, anda, segue teu caminho. + +O caseiro cavalgou de novo, dispunha-se a partir, quando José da Costa +lhe tornou a dizer: + +--Apeia-te outra vez. + +E passando-lhe a mão pela cara: + +--Ajoelha-te. + +O caseiro ajoelhou. + +--Por esta vez, vae-te embora. + +O caseiro montou, e José da Costa, deitando a mão ás redeas do cavallo, +exclamou: + +--Apeia-te, e ajoelha. + +E pondo-lhe a mão na cabeça e nas faces: + +--Vae com Deus ou com o diabo! + +O caseiro estava muito disposto a partir protegido por qualquer dos +dois, quando o José da Costa lhe apostrophou: + +--Torna a descer, que to mando eu. + +E o caseiro desceu do cavallo. + +--Ajoelha. + +E o caseiro ajoelhou. + +--Monta agora. + +E o caseiro montou. + +E depois, vendo-o em cima do cavallo, atirou-o a terra com um tiro. + +--Coitado! disse, tornando a passar-lhe a mão pela cabeça +inanimada, já devias estar cançado de montar e desmontar! + +De uma vez, José da Costa teve seus dares e tomares com um hespanhol +pimpão. Travou-se a lucta braço a braço, e o faccinora parecia não levar +a melhor. + +De repente, José da Costa grita para o hespanhol: + +--Olha quem ahi vem! Foge! + +Não vinha ninguem. O hespanhol, voltou-se e o faccinora feriu-o pelas +costas. + +Foi na venda de Algeruz que José da Costa poude ser preso. + +Fecharam-lhe a porta á traição, cercaram a casa, e foram buscar a +Setubal uma força militar, de que foi commandante o governador Cunha, ha +annos fallecido. + +Mas dentro da taberna haviam ficado trez ou quatro homens, que não +poderam sahir a tempo, e o José da Costa, vendo-se apanhado no laço, +ia-os esfaquendo para saciar a sede de sangue. + +Os feridos gritavam de dentro, o povo gritava de fóra, a força havia +chegado, estava de armas mettidas á cara, e de repente, por uma das +janellas da casa, uma coisa saltára para a charneca. Mas os soldados, +percebendo o que era, não descarregaram. + +José da Cosa havia atirado para fóra um cortiço, fingindo que era elle +proprio que saltava, na esperança de que os soldados disparassem, +e elle podesse fugir entretanto, são e salvo. + +Então, baldados todos os recursos, entregou-se á prisão. + +O _Chapéu de ferro_ infestava ahi por 1860 e tantos as circumvisinhanças +de Beja. + +Uma vez matara um homem n'um _monte_, como quem diz um casal, e obrigára +a mulher da victima a aparar-lhe o sangue n'um alguidar. + +Dois rapazitos, e um d'elles é hoje um cavalheiro altamente collocado, +sahiam, em férias, de Beja para a sua terra natal. + +Um homem de grandes barbas espessas appareceu-lhes na charneca. + +--Quem são vocês? perguntou-lhes. + +--Somos estudantes. + +--E eu, sabem quem eu sou? + +--Não sabemos. + +--Pois eu sou o _Chapéu de ferro_. + +--O _Chapéu de ferro_! exclamaram horrorisados. + +--Sim, eu sou o _Chapéu de ferro_, e deixo-os ir em paz. Talvez +_quizessem_ que eu os matasse, dois creançolas! + + + + +XVIII + +A mulher + + +Desde o paraiso terreal até hoje, não tem havido acontecimentos de polpa +em que não figure a mulher. Os francezes dizem «_Cherchez la femme_». O +que significa que a mulher anda sempre mettida em todas as endrominas +d'este mundo. + +Ora, desde que principiou a desenvolver-se na imprensa o panorama +escandaloso do Panamá, admirado estava eu de que não tivesse apparecido +ainda como actriz ou como comparsa, como figurante de qualquer genero, +uma mulher pelo menos. + +Já tinha tido tentações de lembrar á França que o seu proverbio +falhára... pela primeira vez. Eis senão quando o proverbio triumpha, +agora como sempre. No caso do Panamá apparece uma mulher, madame Cottu, +e a sabedoria da França salva os seus creditos, emfim. + +Decididamente, a mulher, quer a emancipem quer não, tenha voto ou não +tenha voto, ha de ser, na successão dos seculos, a eterna collaboradora +do homem em todos os casos da vida. + +E visto que isto tem de acontecer por força, convém a cada homem +escolher o typo de collaboradora que mais lhe agrade, especialmente para +as emprezas em que o agrado é tudo. + +Deverá escolher-se a mulher pequena. Será essa, como typo do sexo, a que +mais póde encantar os olhos de quem a vê? + +É certo que os antigos diziam: «A mulher e a sardinha quer-se +pequenina.» A pequenina, a _mignone_, d'estas em que se póde pegar ao +collo, e passeial-as sem cançar os braços, é, em verdade, um ser +gracioso, que conserva, até mesmo na velhice, o que quer que seja de +infantil, de ar alegre de boneca + +E de mais a mais dizia um philosopho, não sei qual, um philosopho +apologista de mulheres pequenas: «Do mal o menos». + +Mas a verdade é que as nulheres altas, elegantes, fortes, se não são tão +commodas para trazer ao collo, dão margem a que os olhos de quem as +contempla possam saturar-se de bello sexo, demorando-se a miral-as da +cabeça até aos pés. + +É como se a gente estivesse a olhar ao longo de terras vastas, de uma +paizagem dilatada, com um horisonte amplo, infinito, em que +sempre, por mais que se olhe, ha alguma coisa para vêr de novo. + +Outro philosopho--porque sobejam, graças a Deus! philosophos para +tudo--costumava dizer que a mulher alta era a mais apreciavel de todas, +visto que não tinha o coração ao pé da boca. + +Feia? Deverá ser feia a mulher? Não falta quem seja d'esta opinião. Não +ha mulher feia que não possua pelo menos uma qualidade estimavel. A +natureza mostrou-se principalmente sabia e justa nas compensações. + +Vê a gente ás vezes um homem loucamente apaixonado por uma mulher que a +nós nos parece feia. + +Sempre que isto acontece, é para desconfiar que exista uma compensação, +uma qualidade, que esse homem, tendo visto melhor que nós, conseguiu +descobrir. + +De mais a mais, nada ha tão vehemente, tão vulcanico como o amor das +feias. Tendo pouco quem as requeste, poupam o paiol do coração, de modo +que o seu primeiro amor é como que uma explosão do Vesuvio. + +No olhar amoroso de uma feia ha sempre um discurso enthusiasta, que póde +stenographar-se do modo seguinte. + +--Muito obrigada, bravo e heroico cavalheiro! que esgrimes denodadamente +contra o preconceito da belleza, e que reunes á coragem o +talento, porque só tu foste capaz de descobrir a belleza na +fealdade, a compensação que a natureza me concedeu. Saber que uma mulher +é bella, quando ella realmente o seja, não engrandece o espirito de +ninguem. Basta, para isso, não ser cego. Mas vêr uma obra de arte, a que +todos acham defeitos, e descobrir-lhe a unica qualidade boa que possua, +chega a ser brilhante, a ser glorioso, ó nobre, ó bravo, ó excepcional +cavalheiro! A ti, a minha eterna dedicação! + +Ora este discurso, pronunciado por dois oradores ao mesmo tempo, isto é, +pelos olhos de uma mulher, faz impressão no espirito de um homem, +envaidece-o, lisonjeia-o, acaba por subjugal-o. + +E assim se póde explicar de certo a rasão por que as feias vão tendo +despacho e consumo. + +Estão no caso das feias, as velhas. + +Não me refiro a uma antiguidade verdadeiramente gothica, nem me proponho +sustentar que um homem deva casar-se com a sé de Braga. + +Mas Balzac fez, como se sabe, o elogio da mulher de trinta annos, e eu, +na minha obscuridade, acho que é essa uma boa conta para ponto de partida. + +Trinta annos! obra acabada, paredes solidas, pavimentos seguros, um +predio capaz de resistir a um terremoto! Magnifico! Já passou a +epoca das pieguices, dos amuos, dos caprichos de creança. Nada de +esboços, de linhas indecisas: obra a que a natureza acabou já de dar os +ultimos retoques! Excellente! + +Entre os trinta e os quarenta toda a mulher se encontra na situação das +feias, ainda que tenha sido formosissima. + +--Muito obrigada pela distincção que o cavalheiro me concede! parece +dizerem os seus olhos amorosos. Ha por ahi tantas meninas interessantes, +tantas rosinhas em botão, tantas flôres frescas e mimosas, e o +cavalheiro por todas passou sem as cobiçar! Realmente, sinto-me +captivada... Mas deixe estar que não hade arrepender-se. Saberei amal-o +como duas meninas, pelo menos: uma, que já fui, outra, que torno a ser, +remoçada pelo seu amor. + +E a fim de trazer sempre o homem satisfeito e entretido, toda ella é +coração, toda ella se dispende em lembranças mimosas, enviando ao +cavalheiro flôres para a lapella e rebuçados para o peito. + +Contou Julio Cesar Machado, uma vez, que certa quarentona, soffrega de +amar, tomára um trem para n'um dia de primavera, cheio de estimulos e +effluvios, ir dar um passeio ao Campo Grande. + +Pelo caminho, o coração trasbordava-lhe do peito, expandia-se, mas, +infelizmente, não havia um homem que quizesse ter a heroicidade +de amal-a. + +Quando chegou ao Campo Grande, no momento de apeiar-se, já com o pé no +estribo, reparou nos olhos do cocheiro, que eram bonitos, expressivos. + +E deixando-se cair para fóra, de modo a que o cocheiro tivesse a ideia +de amparal-a carinhosamente, exclamou: + +--Amo-te, José Traquitana! + +Julio Cesar Machado deixou neste ponto a historia, mas é de presumir que +a dama, acceitando as consequencias da sua allucinação, viesse a +tranformar esse cocheiro n'um marido grato e discreto, com tacto para a +vida, visto que havia principiado por ter boa mão de rédea. + +Deverá preferir-se a mulher formosa? + +É decerto a que mais agrada no primeiro momento, porque a vida é uma +serie de illusões, e a formosura a mais grata das illusões. + +Lá disse o padre Vieira: «O que é a formosura senão uma caveira bem +vestida?» Mas, emquanto está bem vestida, agrada, attrae, fascina. + +Todavia, se se pensa um momento, receia-se... + +A mulher formosa agrada tanto ao que a possue, como aos outros. Tem esse +perigo, que constitue um sobresalto permanente. + +E depois o que a possue não póde de certo esquivar-se a pensar com os +seus botões, á medida que a belleza se vae apagando: «Quem te viu e quem +te vê!» + +Se a mulher vale só pela formosura, faltando-lhe a graça, a bondade, uma +qualidade de valor, emfim, o que quasi sempre acontece graças á theoria +das compensações, essa mulher é, já o disse alguem, um livro que uma vez +lido, não tem mais que lêr. + +Deve procurar-se uma mulher de bom genio? + +Uma mulher de inalteravel bom genio parece feita de açorda, é uma +espécie de _menu_ sem surprezas, uma permanente dieta, em que o espirito +não passa de servir-se todos os dias uma aza de frango, como se fosse um +doente. + +Não irrita, mas não vivifica. Não esfria, mas não aquece. Quando um +homem chega a festejar as suas bodas de prata, não tem que dizer aos +outros senão isto: «Meus senhores, tenho passado vinte e cinco annos da +minha vida n'uma paz podre, que me sabe a gallinha cozida.» + +Se a mulher tem mau genio, se tem nervos, deve isso ser desagradavel +para o marido algumas vezes, mas nada ha que possa lisonjear tanto o +espirito de um homem como vêr uma mulher, que tem a vocação da guerra, +offerecer-lhe um beijo... de paz! Oh! é glorioso para um vencido +acceitar o ramo de oliveira que lhe offerece o vencedor! + +Deverá ser rica? Para passar a vida, é bom que seja rica a mulher. Mas +não deixa isso de vexar um pouco o marido, se toda a riqueza veiu +d'ella. Quando um marido em taes condições manda pôr o trem, sente-se +engasgado como se tivesse de dizer: «O José, manda pôr o coupé da +senhora.» Se vae ao theatro, ao entregar o bilhete ao porteiro, a +consciencia grita-lhe que deveria dizer, a querer ser sincero: «Abra o +camarote da senhora!» + +Oh! deve ser horrivel! + +Pobre? E se a mulher é pobre? Dá isso pena a um marido que sinceramente +a estime. «Aqui está, dirá elle comsigo mesmo, uma mulher a quem eu +quizera proporcionar todos os regalos, todas as commodidades de uma +princeza, e comtudo só poderei offerecer-lhe este mez um vestido de +percale.» De modo que a independencia de que um tal marido gosa junto de +sua mulher, e aguada pelo desgosto de a não poder felicitar tanto quanto +desejava. + +É difficil a escolha! concluirá o leitor. Com effeito assim é. +Difficilima, acrescentarei eu. Mas ha talvez um meio de illudir a +dificuldade da escolha: é amal-as a todas indistinctamente, para, com o +auxilio da experiencia, escolher depois a melhor... se houver tempo para +isso. + + + + +XIX + +O carnaval... + + +Já contei ha alguns annos a historia carnavalesca do Felix Telles, de +Estarreja. + +Mas vou reedital-a, para que se torne tão conhecida quanto o merece a +mais interessante e a mais veridica historia que o carnaval de Lisboa +tem produzido, desde que a caraça é caraça. + +Felix Telles, boa pessoa, com seus laivos de patuscão, vivia no solar de +um fidalgo de Estarreja, na qualidade de professor aposentado dos +meninos da casa. + +De vez em quando vinha a Lisboa a pretexto de visitar o irmão e +sobrinhos do fidalgo de Estarreja. Agradava-lhe essa patuscada, que o +distraía da monotonia das arvores e da vida da aldeia. + +Assim foi que um anno, pelo carnaval, elle disse ao fidalgo: + +--Meu senhor, se v. ex.ª se não oppozer, vou a Lisboa pregar uma partida +real a seu mano e sobrinhos. + +--Então que intenta você fazer, ó Felix? + +--Uma partida de carnaval, que passo a expôr a V. ex.ª Ámanhã de manhã +tomo o comboio descendente. Chego a Lisboa das oito para as nove horas +da noite. O mano de v. ex.ª é certo, com toda a sua familia, n'um +camarote da Trindade, segundo o costume. Logo que eu chegar, vou +hospedar-me no _Hotel Alliance_ para me lavar e descançar. Á meia noite +pouco mais ou menos, mando um criado do hotel alugar um dominó preto ao +Cruz da rua Larga de S. Roque. Dirijo-me em seguida ao theatro da +Trindade, vou direito ao camarote onde estiver a familia de v. ex.ª e +proponho-me intrigal-a, com casos certos, durante uma boa hora. Quando +eu lhe fallar de certas coisas, toda a familia arderá em curiosidade, +dará tratos á imaginação para descobrir quem eu seja. Mas não poderão +lembrar-se de mim por me supporem em Estarreja. Á saida do theatro +tomarei as minhas precauções para não ser seguido nem conhecido. De +manhã metto-me outra vez no comboio, e á noite estarei aqui a ceiar e a +rir do caso com v. ex.ª É ou não é, ex.^mo senhor, uma partida real? + +--Pyramidal! meu caro Felix Telles. Applaudo com enthusiasmo. Vá +deitar-se, visto que tem de fazer madrugada. Mas que boa partida! +Eh! eh! ria o morgado, esfregando as mãos de contente. + +Foi dali o fidalgo para o seu escriptorio e, a rir comsigo mesmo, +redigiu o seguinte telegramma: + +«Felix Telles chega ahi hoje noite para intrigar-te theatro Trindade. +Dominó preto, alugado Cruz. Vai Hotel Alliance. Prepara-te para ataque. +Segredo.» + +Depois chamou o seu criado particular, disse-lhe que logo pela manhã +fosse ao telegrapho expedir aquelle telegramma, recommendando-lhe a mais +completa reserva. + +No comboio descendente, Felix Telles tomava effectivamente logar n'uma +carruagem de primeira classe, e saboreava mentalmente o prazer da sua +aventura. + +Entretanto o irmão do morgado, o visconde de ***, recebia em Lisboa o +telegramma, e chamava o escudeiro para dizer-lhe: + +--Esta noite estarás em Santa Apolonia á chegada do comboio. N'uma +carruagem, que segundo o costume será de primeira classe, hade vir o sr. +Felix Telles, que tu conheces muito bem. Seguil-o-has, sem que te veja. +Se tomar um trem, toma tu outro. Deve apeiar-se á porta do Hotel +Alliance. Ahi, logo que chegue ou pouco depois, dará ordem ao criado +para que lhe vá buscar ao guarda-roupa do Cruz, na rua Larga de +S. Roque, um dominó preto. Esperarás os acontecimentos parado em frente +do hotel. Certificar-te-has se effectivamente sae do Alliance um homem +de dominó preto. Esse homem será o sr. Felix Telles. Logo que elle saia, +tomar-lhe-has dianteira, correrás ao theatro da Trindade. Encostados á +casa do bengaleiro estarão os meninos e, quando o sr. Felix Telles +entrar, dir-lhes-has: É este. Entendeste: + +--Perfeitamente, sr. visconde. Esteja v. ex.ª certo de que saberei dar +conta do recado. + +--Muito bem. + +No seu quarto, os filhos do visconde escreviam sobre uma larga tira de +papel branco, em garrafaes lettras pretas, o seguinte lettreiro: «_Sou o +Felix Telles de Estarreja._» E riam estrepitosamente, com aquelle grande +bom humor que se perde para todo o sempre depois que os dezoito annos +passam... + +O criado do visconde desempenhou-se da sua missão de confiança ás mil +maravilhas. + +Felix Telles chegava ao theatro da Trindade quando já os filhos do +visconde, postos atraz do guarda-vento, se preparavam para pregar-lhe +nas costas a grande tira de papel branco. + +Esta operação, aliás difficil, foi feita com perfeita delicadeza. + +As pessoas que presencearam tudo isto, casquinaram uma estrondosa +gargalhada, que Felix Telles não percebeu. E logo muitas vozes, +umas accentuadamente masculinas, outras feminilmente esganiçadas, +começaram a gritar n'uma surriada d'opereta, emquanto o dominó preto +passava: + +--Olha o _Felix Telles de Estarreja_! + +O homem estremeceu dentro do seu dominó, debaixo da sua mascara. + +E sujeitos de chapeu de côco, creanças de bisnaga em punho, +_pastorinhas_ vestidas de gaze côr de rosa, _vivandeiras_ de cantil a +tiracollo, caíam sobre elle com o peso d'uma troça implacavel. + +--Olha o _Felix Telles de Estarreja_! + +Elle voltava-se para surprehender o denunciante em flagrante delicto de +bisbilhotice, não conhecia ninguem, suava, tressuava, perguntava a si +proprio se teria enlouquecido, e então os esguichos, as gargalhadas, os +gritos recrudesciam n'um _crescendo_ atroador. + +De repente, no salão, o visconde, de braços abertos, um riso +epigrammatico nos labios, postado deante do dominó, saudava-o com a +terrivel apostrophe, que se repercutia nos eccos da sala: + +--Ó Felix Telles, que diabo de lembrança foi a sua! + +E elle, o Felix Telles, desesperado, hydrophobo, apopletico, +respondeu-lhe na sua voz natural, cheio de raiva, de colera: + +--Ora deixe-me, que não sou eu! + +E saiu, saiu acompanhado até á porta do theatro por este grito terrivel, +insistente, perseguidor: + +--Tu és o _Felix Telles de Estarreja_! + +E no conjuncto de todas essas vozes irritantemente causticas, atrozmente +mordentes, elle distinguiu perfeitamente as vozes dos filhos do visconde +que gritavam: + +--Ó Felix Telles, venha cá!... + +Entrando no _Hotel Alliance_, Felix Telles despiu de repellão o dominó, +deixou-o ficar sobre o tapete do quarto, disse brutalmente ao criado que +se fosse embora, que o deixasse em paz, que o chamasse a tempo de sair +no comboio da manhã, e que se não esquecesse de mandar entregar depois o +dominó ao Cruz, com mais dez tostões que elle deixaria sobre a banquinha. + +Pela manhã, pagou rapidamente a sua conta, pousou sobre a banquinha os +dez tostões para o Cruz, e saiu. + +Quando á noite chegou a Estarreja, já um telegramma do visconde para o +irmão o havia precedido. + +--Então? perguntou-lhe o morgado o mais seriamente que poude. + +--Então! respondeu Felix Telles. Aquillo é ainda uma aldeia peior do que +Estarreja! toda a gente me conheceu logo que lá cheguei! + +--Não é possivel! + +--Tão possivel como eu ter ouvido gritar de todos os lados, a todas as +pessoas, que aquelle dominó preto era o Felix Telles de Estarreja! + +--Conhecel-o-íam pelo andar? + +--Eu sei lá, sr. morgado! Conheceram-me por tudo, não se ouvia senão o +meu nome n'uma berrata que me ensurdecia! + +Trez dias depois, o morgado chamava ao seu escriptorio o Felix Telles e +perguntava-lhe: + +--Onde foi que você despiu o dominó preto? + +--No _Hotel Alliance_. + +--E não viu no dominó preto alguma cousa branca? + +--Só se fosse o forro... Mas não reparei. + +--Pois eu lhe posso dar algumas explicações, que façam luz sobre o caso. + +Felix Telles esbugalhava os olhos attento, curioso. + +--Não viu um papel branco pregado nas costas do dominó preto? + +--Não vi! + +--Aqui o tem, pois--dizia o morgado desdobrando cautelosamente uma tira +de papel enrugado, rasgado, que o visconde mandára pedir ao _Hotel +Alliance_ e lhe tinha remettido pelo correio. + +E elevando-o á altura dos olhos de Felix Telles, mostrou-lh'o. + +--_Sou o Felix Telles de Estarreja_! dizia o papel. + +O pobre homem estava passado, assombrado. + +--Mas então!... exclamou elle caindo em si. + +E o morgado respondeu-lhe com uma gargalhada estrondosa, ao mesmo tempo +que todas as pessoas da casa acudiam á porta do escriptorio a rir, a +rir... + + + + +XX + +O chapeu + + +Perguntaram a uma tricana do norte para que servia o chapelinho, do +tamanho de uma avellã, que coroava os seus fartos cabellos negros. + +--Ora essa! exclamou ella ironica e desdenhosamente. Serve para pôr e +tirar... + +Realmente, é para isto que serve o chapeu, qualquer que seja o seu +tamanho e o seu feitio, mas, principalmente pelo que respeita ao sexo +masculino, que de responsabilidades andam ligadas ao simples facto de +pôr e tirar o chapeu!... + +Custa pouco isso, tiral-o ou pôl-o, coisa é que se faz n'um momento, e +comtudo nada ha que possa ter mais serias consequencias do que pôr o +chapeu quando se devia tirar, ou tiral-o quando se devia pôr. + +Não é so no theatro, durante os espectaculos, que pôr ou tirar o chapeu +é um facto que pertence aos dominios do formulario social. Mas no +theatro, visto que se está entre uma sociedade menos numerosa, dá isso +mais nas vistas, e se um espectador conserva o chapeu na cabeça, depois +do panno subir, todos os outros começam a gritar: Peu! peu! Se o tira, +mas parece reconsiderar tornando a pol-o, como que tem isso o proposito +de querer irritar os outros espectadores, e então sobe de ponto a +gritaria dos que mandam desbarretar o insolente. + +Ha já muitos annos, no theatro da rua dos Condes, appareceu n'um +camarote de segunda ordem um grupo de patuscos que vinham das hortas, +bem comidos e bem bebidos,--bem bebidos, sobretudo. + +Não se lembraram ou não quizeram tirar o chapeu, e o publico +indignou-se, começou, de cara no ar, a gritar, a berrar para que se +descobrissem. + +Assistia ao espectaculo, com alguns amigos, o Moita e Vasconcellos, +então jovialissimo rapaz, mais tarde conselheiro e chefe de repartição +no ministerio das obras publicas,--o pobre Moita que tão desgraçado morreu! + +Pareceu-lhe boa occasião de tirar partido do conflicto, e foi bater á +porta do camarote dos patuscos. + +--Quem é? perguntaram de dentro. + +--A auctoridade, respondeu o Moita e Vasconcellos. + +Abriu-se a porta do camarote, e o Moita, tomando o ar grave de um +representante da lei, exclamou: + +--Isto que se está passando é uma pouca vergonha! Pagaram ou não pagaram +os senhores o seu camarote? + +--Pagamos, sim, senhor. + +--Pois se pagaram, podem estar como quizer, comtanto que não offendam a +moral publica. Tanto monta ter o chapeu na cabeça como não ter. Isso não +offende a lei nem a moral. O dever da auctoridade é proteger os direitos +de cada um, disse e saiu com a mesma seriedade. + +Os do camarote, fortes com o apoio da lei, pozeram os chapeus na cabeça +e despiram os casacos. + +Imagine-se a gritaria que n'esse momento irrompeu da platéa e dos outro +camarotes! A inferneira cresceu a tal ponto, que a verdadeira +auctoridade teve de intervir, e os patuscos tiveram de ceder, não +podendo dizer ao certo se a embriaguez lhes haveria feito vêr a +auctoridade em duplicado ou se neste paiz tudo andava tão fóra dos +eixos, que havia duas auctoridades, uma para mandar pôr o chapeu, outra +para o mandar tirar... + +N'alguns espectaculos tem acontecido que o publico se arroga o +direito de mandar pôr ou tirar o chapeu, sem se importar com a +intervenção das auctoridades, e sem que mesmo as auctoridades se atrevam +a intervir. + +N'uma tourada de Badajoz appareceu uma vez um sujeito de chapeu alto. O +publico, logo que elle entrou, começou a gritar-lhe em côro: + +--Que quite el sombrero! + +O homem quiz resistir, mas acabou por ceder. Tirou o chapeu. N'isto +começou o publico a gritar, sempre em côro: + +--Que ponga el sombrero! + +E o homem, ao cabo de alguns momentos de hesitação, teve que pôr o +chapeu, para depois o tornar a tirar, para ter que o pôr outra vez e +para ter que tiral-o de novo... + +Na rua ha maior liberdade de acção, o facto de pôr ou tirar o chapeu +escapa ao dominio do publico; mas por isso mesmo que ha maior liberdade +de acção, ha maior responsabilidade no facto em relação á pessoa a quem +é dirigido. + +Basta deixar de tirar o chapeu para cortar pela raiz, de um momento para +outro, uma longa amisade de muitos annos. E assim, porque o chapeu ficou +na cabeça, ficaram separadas moralmente duas pessoas. + +Tirar o chapeu fóra de proposito, tiral-o de mais ou tiral-o de menos, +póde ter consequencias analogas, como se tome esse acto por +troça, por baixesa de caracter ou por desconsideração. + +Tiral-o á mesma pessoa umas vezes, e não o tirar outras vezes, é caso +para a pessoa, que umas vezes é cumprimentada e outras não, pensar no +que deve fazer. + +Eu adoptei para este caso uma linha de procedimento. Se uma pessoa me +cumprimenta uns dias por outros, hoje sim, ámanhã não, se me cumprimenta +aqui e não me cumprimenta acolá, porque está acompanhada de melhor ou de +peior sociedade, essa pessoa passa a fazer-me o effeito de um realejo, +que me diverte proporcionando-me occasião de trautear esta popularissima +trova: + + Quando eu quiz, não quizeste, + Tiveste opinião; + Agora queres, não quero, + Tenho minha presumpção. + +O chapeu impõe deveres de normal cortezia, a que é preciso attender sem +exagero para mais ou para menos. + +Nada ha tão aborrecido como o excesso de cortezia em que um chapeu póde +incorrer estando fóra da cabeça quando devia conservar-se no seu logar. +Um estadista portuguez, a quem um seu antigo protegido acompanhava de +chapeu na mão por toda a parte, chegou a dizer n'um momento de +desespero:--«Muito me incommoda a gratidão!» + +Da gente de Lisboa escreveu o quinhentista Prestes: + + ... e de Lisboa se sêa + Que todos lá são honrados, + Que de pessoa a pessoa + Se fallam desbarretados. + +Mas Francisco Manuel de Mello poz á cortezia dos lisboetas seus justos +limites quando disse: + + Um fallar com tanto geito, + Um ditinho de repente. + Que affeiçôa: + _Um ter em tudo respeito_, + Ai! mate-me Deus com a gente + De Lisboa. + +Ter em tudo respeito,--eis a questão. É como se dissesse: ter conta em +tudo. Respeito por os outros e por nós mesmos, até no cumprimentar! + +Ha pessoas que caem no defeito contrario áquelle, e que em vez e gastar +a aba do chapeu, apenas gastam o dedo com que lhe tocam. É pouco. Se um +só dedo podesse bastar a alguem para uso proprio ou alheio, a sábia +natureza não nos haveria dado cinco dedos em cada mão. + +Quando a gente, não sendo militar, se vê cumprimentada d'esse modo, +dá-lhe vontade de responder ao dedo com o braço todo,--para se mostrar +generosa! + +O presidente de não sei que estado americano, passeiava um dia na praça +publica, vestido á paisana, com o seu ajudante de campo ao lado. + +Passou por elle um escravo, e cumprimentou-o. O presidente tirou-lhe o +chapeu, e seguiu seu caminho. Mas quiz parecer-lhe que o ajudante achou +que elle cumprimentára de mais para um escravo. Voltou-se e disse: + +--Não quero que possa haver n'este paiz alguem mais bem educado do que eu! + +Isto percebe-se, e é logico. Fazer apenas meia dose de cumprimento, não +é cumprimentar, é vexar, porque se lembra á pessoa cumprimentada a sua +inferioridade. + +Ainda ha uma cousa peior talvez do que dispensar sómente meia dóse de +cumprimento:--é exigir que lhe dispensem dóse dobrada. + +Certo fidalgo costumava deixar ficar de chapeu na mão as pessoas que lhe +fallavam. Um dia, na rua larga de S. Roque, passou um sujeito a quem +repugnou vêr outro desbarretado deante do fidalgo, que o não mandava +cobrir. Chegou ao pé dos dois, tocou no hombro do que estava descoberto, +e disse-lhe: + +--Póde pôr o chapeu na cabeça, que este senhor dá licença. + +Se algum dos dois devia agradecer não era o desbarretado, mas o fidalgo, +porque estava fazendo peior figura... + +Ter em tudo respeito, ter conta em tudo, eis o caso. + +Chega a gente a sentir-se enjoada de vêr um sujeito que cumprimenta a +torto e a direito para dentro de todos os trens que passam--ha n'isto +verdadeiros especialistas--e que se agarra a um cabello para ter o +pretexto de se tornar _snob_ dos machuchos. + +Mas não enjôa por certo menos vêr outros sujeitos que põem todo o seu +orgulho na aba do chapeu, imaginando que a aba do seu chapeu é a +continuação do firmamento. + +Acima d'elles, só Deus, e ás vezes nem Deus... que não conhecem! + +De tudo quanto completa a _toilette_ do homem é com certeza o chapeu o +que lhe impõe maiores responsabilidades, o que o approxima ou affasta +mais dos outros homens, o que o póde definir melhor na sua +individualidade moral, o que o póde tornar mais estimavel e o que tambem +o póde comprometter mais. + +E tudo isto por que? + +Porque o chapeu, como disse a tricana do norte, serve para pôr e para +tirar. + +E em saber pôl-o a tempo e tiral-o a proposito é que está o buzilis. + +Pouco importa que o chapeu seja pequeno e a cabeça grande, que o chapeu +seja grande e a cabeça pequena. Não está n'isso a harmonia entre o homem +e o chapeu, mas sim no uso conveniente ou inconveniente que +d'elle se faz. + +Quando a gente, ao sair de casa, põe o chapeu na cabeça, é como se +pozesse ao sol o forro de si mesmo,--as suas ideias, os seus +sentimentos, a sua educação, o seu caracter. + +Ha chapeus que vão dizendo de cima da cabeça: «Cá vae este tolo, que não +conhece os conhecidos». + +Ha outros chapeus que, aborrecidos da roda-viva em que andam, parecem +gritar a cada momento: «Cá vae este tolo, que até conhece os +desconhecidos!» + +Ainda ha outros chapeus que parecem muito contentes do acerto com que +são tratados pelo dono, e em cuja copa a gente cuida lêr esta divisa: +«Nem de mais, nem de menos». + +Já repararam em que o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e feitio, +parece variar de peso em certas occasiões e, especialmente, de pessoa +para pessoa? + +O mesmo chapeu, se a gente está de animo opprimido, parece pesar mais +que de costume. + +Um pretendente, fallando uma vez com Antonio Rodrigues Sampaio, começou +por dizer-lhe, visto que n'esse momento lhe parecia ser de chumbo a aba +do chapeu: + +--Muito custa, sr. conselheiro, andar a gente por aqui de chapeu na mão! + +E Sampaio, que tinha soffrido e trabalhado como poucos, respondeu +de prompto obrigando-o a cobrir-se: + +--Pois ponha-o na cabeça, e diga o que quer. + +Dois sujeitos compram chapeu da mesma fórma e no mesmo chapeleiro. + +A um d'elles o chapeu como que brinca sobre a cabeça, inclinando-se +requebrado n'um bolero permanente. É que a cabeça anda alegre e +communica ao chapeu, que se sente leve, a vontade de foliar. + +A outro o chapeu vae-lhe descendo insensivelmente até ás orelhas, dando +mostras de querer enterrar-se por desgostoso. É que a cabeça pegou-lhe +as scismas em que anda martellando no silencio do espirito. + +Tão certo é, meus senhores, que o chapeu revela o homem:--o chapeu é o +estylo de toda a gente, incluindo a que não tem estylo. + + + + +XXI + +Os antipodas + + +Ha pessoas tão infelizes, que julgam que a sua propria infelicidade não +terá fim. + +Ha melancolicos para quem a esperança não accende um unico raio de sol, +tão entranhadamente elles se entregam á melancolia. + +Ha pobretões que desanimam de ser remediados algum dia, tão pouca fé +lhes vivifica o coração. + +É para todos estes que eu escrevo hoje, mandando-lhes n'uma anecdota um +ensinamento moral, que póde, por um momento ao menos, arrancal-os aos +seus pensamentos sombrios, tiral-os, por um instante que seja, do +inferno da sua desesperança e entremostrar-lhes o ceu... + +O padre-mestre Fanhões tambem se arrepellava, teimosamente incredulo, +quando o seu collega Liborio pretendia demonstrar-lhe que na +esphera terrestre havia habitantes que, em relação aos de meridianos e +parallelos oppostos, se chamavam antipodas, porque se achavam collocados +de modo que os pés de uns estavam voltados contra os pés de outros. + +Padre-mestre Fanhões não o podia crêr e desgostava-se d'isso, visto que +toda a gente acreditava na existencia dos antipodas, menos elle. + +--Não me fio! dizia de si para comsigo. Como é possivel que, estando nós +n'um hemispherio de cabeça para cima, possa haver gente que se equilibre +de cabeça para baixo no outro hemispherio?! + +Por mais que matutasse no caso, acabava sempre por dar razão a si +proprio, e negal-a ao collega Liborio. + +--Ora imaginem, insistia elle, uma laranja, porque a terra tem +approximadamente, segundo se diz, a fórma de uma laranja. Ponho a +laranja sobre um prato e colloco-lhe facilmente na casca da metade +superior um ou dois grãos de milho; mas se quizer collocal-os na metade +inferior, claro está que não terei meio de segural-os. Cairão por força! +Pois com os habitantes da terra ha de dar-se a mesma cousa. Que nos +aguentemos de cabeça para cima, percebe-se; mas que haja outros que se +aguentem de cabeça para baixo, não me entra no miolo. O Liborio é um +asno, que acredita em todos os carapetões! + +E o padre-mestre, ensinando o seu latim aos rapazes, interrompia-se +muitas vezes para dizer-lhes a proposito de cousa nenhuma: + +--Nos antipodas é que eu não acredito! Não póde ser! + +Os rapazes davam-lhe razão, não só porque n'essas occasiões o +padre-mestre os apoquentava menos no latim, mas tambem porque elles +proprios não tinham grande convicção na tal historia dos antipodas, +gente que devia viver pendurada pelos pés, em permanente gymnastica. + +Tirante a caturreira dos antipodas, padre-mestre era uma excellente +pessoa, um sacerdote exemplar, muito respeitador das leis da egreja e +dos preceitos da Bulla da Santa Cruzada. + +Ás sextas-feiras comia-se sempre de magro em sua casa: os rapazes já +contavam com o bello bacalhau n'aquelle dia. + +Elle proprio, o bom padre-mestre, o ia escolher á tenda nas +quintas-feiras de tarde. Trazia-o para casa, escondido debaixo do +capote. Dava-o a vêr á criada. + +--Que era de primeira ordem, approvava ella, o melhor que podia ser! + +--Pois sim, Gertrudes, vae atar-lhe uma corda e pôl-o a dessalgar no poço. + +Dito e feito. A Gertrudes pendurava o bacalhau, e mergulhava-o no poço +até ao meio dia seguinte. + +Succedia algumas vezes que o padre-mestre Fanhões se encontrava n'esses +dias, na botica, com o seu collega Liborio e, como sempre, discutiam o +eterno thema, a eterna teima dos antipodas. + +--Que não! que não podiam existir! exclamava decisivamente o padre-mestre. + +Não havia argumento convincente que o Liborio não empregasse; mas o +padre-mestre, muito casmurro e auctoritario, cortava a questão dizendo: + +--Ha duas cousas que eu sei perfeitamente: a primeira é que tenho ámanhã +bacalhau para o jantar; a segunda é que essa tal historia dos antipodas +não tem pés nem cabeça. + +Ora succedia que na sexta-feira pela manhã, quando a Gertrudes ia tirar +o bacalhau do poço, o encontrava sempre reduzido a menos de metade; +estava ratado, comido. + +O que seria, o que não seria?! + +--É gato que desce pela corda, alvitrava o padre. + +--Isto não é dente de gato! ponderava acertadamente a Gertrudes. + +E, realmente, fizeram a seguinte descoberta: que não podia ser gato de +casa, porque o não tinham, e não podia ser gato de fóra, porque os muros +do quintal eram muito altos, e estavam eriçados de cacos de garrafa. + +--Será elle rato de agua, ó Gertrudes?! + +--Nada, sr. padre-mestre, isto menos póde ser dente de rato. + +--Olha, dente de coelho é que é com toda a certeza, porque por mais que +a gente puxe pelo miôlo não sabemos o que seja! + +A Gertrudes achava mais uma vez graça a este dito do padre-mestre, +sempre repetido, e na sexta-feira seguinte, quando ia tirar o bacalhau +do poço, encontrava-o roido em metade. + +Os alumnos do padre-mestre tinham inventado esta patuscada do bacalhau +e, graças a ella, passavam em cautelosa folia as noites das quintas-feiras. + +Eram elles, os diabretes! que, depois de estarem certos de que o +padre-mestre dormia, e de que a Gertrudes ressonava, desciam pé-ante-pé +ao quintal, e, içando o bacalhau, cortavam e comiam grandes lascas. + +Se lhes dessem uma ceia de _foie-gras_ talvez não gostassem tanto. O +bacalhau roubado tinha para elles o sabor do fructo prohibido, a que +servia de aperitivo a chalaça de o irem buscar ao poço com o sobresalto +de ratoneiros que temem ser presentidos. + +Padre-mestre dava em doido, o caso já o ia intrigando tanto como a +historia dos antipodas. + +Um dia chamou de parte o mais intelligente dos seus discipulos de latim, +e contou-lhe o que estava acontecendo com o bacalhau. + +--O que será? perguntou candidamente o padre-mestre. + +--Ao certo não sei, respondeu o estudante. Mas talvez... + +--Talvez? + +--Pode muito bem ser que o comam os antipodas. + +--Lá vens tu com a fabula dos antipodas! Não creias n'isso, rapaz! + +--Ó sr. padre-mestre, pois se todos os sabios dizem que sim, por que +rasão havemos nós de pôr em duvida o que elles affirmam! De mais a mais +vossa senhoria tem meio de averiguar a verdade. Sexta-feira pela manhã +debruce-se no poço, ponha-se á espreita, que talvez os apanhe com a boca +na botija. + +--No bacalhau é que tu queres dizer... + +--Sim, senhor, no bacalhau. + +--Pois olha que hei de tomar o teu conselho. Na sexta-feira eu proprio +irei tirar o bacalhau do poço para desenganar-me. + +Póde calcular-se o que os estudantes ririam uns com os outros á espera +da sexta-feira, que n'aquella semana parecia não chegar nunca, tão +anciosamente elles a esperavam. + +Mas, arrastadamente, a sexta-feira chegou, e o padre-mestre foi em +pessoa buscar o bacalhau. + +Ao debruçar-se no poço, deu um grande grito. + +A Gertrudes correu á janella: + +--O que é, sr. padre-mestre? perguntou + +--Eu vi um homem no fundo do poço, respondeu elle assaralhopado. E assim +que me endireitei para gritar, fugiu. + +--Atire-lhe uma pedra, sr. padre-mestre, aconselhou um dos estudantes, +que tambem tinham acudido. + +O padre-mestre pegou n'um calhau e atirou-o para o fundo do poço. A +agua turvou-se, de modo que, por mais que elle se debruçasse +espreitando, não tornou a vêr homem nenhum,--isto é, não podia vêr-se a +si proprio. + +--E o bacalhau está inteiro? perguntou outro rapaz + +--Vamos vêr isso. + +O padre-mestre deu-se pressa em içar a corda. + +Faltava metade ao bacalhau. + +--Ora agora, sr. padre-mestre, disse-lhe o estudante que primeiro o +havia aconselhado, já vossa senhoria não póde duvidar da existencia dos +antipodas, porque os viu. + +--E é verdade que vi um! + +--Mas o que fez elle quando vossa senhoria appareceu á beira do poço? + +--Ora o que faz um gatuno quando alguem o apanha com a boca na botija? + +--No bacalhau, sr. padre-mestre, emendou o estudante. + +--No bacalhau ou na botija. Fugiu! Pois o que havia elle de fazer, o +patife?! + +--Vossa senhoria reparou se elle trazia casaco? + +--Trazia, sim, lá isso ainda eu pude vêr. + +--Está provado então que os antipodas vestem como nós. E vossa senhoria +que não queria acreditar n'elles! + +--É verdade! Ninguem póde dizer: d'esta agua não beberei. Vou confessar +o meu erro ao collega Liborio. + +E foi. O collega Liborio estava na aula a ensinar geographia aos rapazes. + +O padre-mestre chamou por elle em altos berros. O Liborio veiu á porta +vêr que afflicção era aquella. Era o padre-mestre, que lhe gritou: + +--Não ha duvida, não senhor; Você tem razão n'aquillo dos antipodas! + +--Porque, ó padre-mestre? + +--Porque eu vi um. + +--Viu um! + +--Vi-o com estes que a terra hade comer. + +--E onde é que o viu? + +--No fundo do meu poço! + +Assim é em tudo o mais. + +Por muito escura que seja a vida, e basta que seja tão negra como o +fundo de um poço, por mais teimosa na sua descrença que seja uma alma, e +basta que o seja tanto como a do padre-mestre Fanhões, chega +sempre um dia em que se vê ou se cuida vêr aquillo que jámais se +reputava visivel: realidade ou illusão. + +Melhor é que seja a realidade, ao contrario do que aconteceu com o +padre-mestre. Mas se fôr illusão, isso basta ás vezes, n'um mundo em que +a maior parte das cousas são illusorias, para sentir a alma menos +propensa á duvida e ao desalento. + +O padre-mestre julgou vêr um antipoda, e morreu na fé de que elles +existiam,--por isso. O collega Liborio, em vez de vêr os antipodas no +fundo do poço, via-os nos compendios de geographia e nos globos. Nem por +se ter convencido mais depressa logrou ter maior convicção de que o +padre-mestre desde aquelle dia. E ambos chegaram ao mesmo fim por +caminhos diversos. Mas, com quanto um se atrazasse na jornada, ambos +chegaram, e o essencial na vida é chegar... alguma vez! + + + + +XXII + +As uvas + + +Outubro: todos os lavradores tratam de apurar o resultado das vindimas. + +Quantas pipas de vinho tiveram? A como as venderão? Eis as questões que +principalmente os preoccupam. + +São, pois, as uvas que estão ainda em scena no grande palco da vida +rural, tablado sombrio e melancolico desde que o phyloxera começou a +roer os bastidores feitos de pampanos e latadas, outr'ora verdejantes e +opulentos de seiva. + +As uvas, disse-o algures Julio Cesar Machado, são o vinho em pilulas. +Deliciosas e saborosas pilulas, que não precisam ser doiradas com +assucar como as da botica!... + +Um dia, certo medico, que punha muito gosto em falar com distincção, +aconselhou um dos seus doentes a tomar umas pilulas amargas que, +para não repugnarem, precisavam ser envolvidas n'uma substancia doce. + +--Tome-as n'um vehiculo qualquer, recommendou o medico. + +Ora em pharmacia a palavra vehiculo é synonimo de excipiente, isto é, a +substancia em que se encorporam ou dissolvem os medicamentos, para lhes +mascarar o sabor, para diminuir o seu principio activo ou ainda para +lhes dar uma fórma conveniente. + +No dia seguinte vem o medico, e não encontra o doente em casa. Mostra-se +profundamente surprehendido e contrariado. + +--Onde está elle?! + +--Saiu. + +--Saiu?! Que imprudencia, santo Deus! + +--Mas foi V. ex.ª que mandou... + +--Eu?! + +N'isto ouve-se parar á porta uma carruagem. Era o doente, pallido e +tremulo, que regressava a casa. + +--O que fez o senhor?! perguntou o medico. + +--Saí de carruagem. + +--Mas que loucura foi essa?! + +--Pois V. ex.ª não me disse que tomasse as pilulas n'um _vehiculo_ +qualquer! Tomei-as de carruagem... + +Com as pilulas de vinho, tão doces são! não pódem dar-se +d'estes equivocos, pois que não precisam vehiculo--assucar ou +carruagem--para engulir-se com agrado. + +Perde-se na noite do cahos a origem da vinha e do seu fructo saboroso. + +Segundo a Biblia, Noé foi o inventor da arte de fazer vinho e, por tal +signal, que aprendeu á sua custa, empiteirando-se sem o querer. Segundo +a mythologia, foi Baccho o primeiro viticultor, e o que é certo é que +nós ainda hoje, quando carregamos nos tropos, dizemos muitas vezes--o +deus Baccho--em vez de vinho. + +Mas quem sabe lá qual foi ao certo o primeiro homem que cultivou a vinha +e bebeu o sumo das uvas! De mais a mais a vinha não foi arvore que Deus +prohibisse, como a do _bem e do mal_. Não, senhores, a cultura da vinha +foi livre desde o principio do mundo, e então, que me conste, não se +vendia o vinho por decilitros. O systema metrico decimal é, acho eu, +muito posterior á origem do mundo... Cada um podia beber o que quizesse. +Que delicia, o principio do mundo! + +Pois não serei eu que me proponha estudar a origem do vinho, para não +incorrer no ridiculo d'aquelle sabio que, tratando de descobrir o +inventor do jogo do _voltarete_, ficou capacitado de que tinha sido... +Voltaire. + +Ha poucos dias li n'uma obra interessantissima, a viagem de Pyrard ás +Indias Orientaes, que o duque de Alba, tendo tomado a cidade de +Haerlem, na Hollanda, mandou fazer n'ella execuções tão crueis, que ha +quem derive d'ahi o proverbio _fazer arlem_, de onde veiu, por +corrupção, fazer _arlia_ ou _arrelia_. + +Pois nem Francisco Pyrard, nem Cunha Rivara, que commungou esta opinião, +eram dois insignificantes. + +Pareceu-me forçada a derivação e contando-a a um homem de espirito, +disse-me elle: + +--Eu estou convencido do contrario. Sabe vossê que Jacob só muito +contrariado casou com Lia. Por isso, é natural que a não tratasse bem. +Obrigava-a a trabalhar, sem que ella podesse e, como n'esse tempo todos +os homens eram grosseiros, dizia-lhe a cada momento: _Arre, Lia_. D'aqui +é que veiu certamente a locução... + +Tem graça, e caracterisa a facilidade com que os sabios inventam origens. + +Sempre me ha de lembrar o caso d'aquelles dois distinctos archeologos +que, n'uma serra de Portugal, encontraram certa pedra tosca com estas +duas lettras gravadas: C. M. + +Discutiram, investigaram, até que um cantoneiro lhes disse: + +--Essa pedra foi mandada ahi pôr ha muitos annos pela senhora _camara +municipal_. + +Ficaram de cara á banda, os sabios. + +A mim, a respeito da vinha, não me ha de acontecer outro tanto. Tiro o +meu chapeu á antiguidade da cepa, e passo adeante. Mas como as +uvas, e bebo o vinho. No estado de civilisação em que nos encontramos +hoje, é o melhor que temos a fazer. + +Sem embargo, tambem gosto de olhar para ellas, principalmente se são +brancas, graciosamente tocadas pela luz em cada bago, o que faz o +desespero dos pintores. + +Só um soube até hoje igualar-se ao Creador na reprodacção das uvas. Foi +Zeuxis, diz a lenda. Os passaros, enganados por uma tão perfeita +similhança, vieram bicar os cachos. Parrhasius, rival de Zeuxis, quiz +pintar uma tela ainda melhor. No seu quadro havia um cortinado que +enganou o proprio Zeuxis. + +--Levanta o cortinado, disse elle a Parrhasius, para que eu possa +observar a tela. + +Quando reconheceu que era pintado, Zeuxis confessou-se vencido: «Eu +enganei os passaros, mas Parrhasius enganou-me a mim!» + +A vinha póde ser mais ou menos elegante, alta e pendente como no norte +do paiz, de _enforcado_ lhe chamam; ou pequena e redonda como nas +provincias do sul: mas as uvas são sempre bellas na lucidez e variedade +dos tons. + +É notavel que Camões, tendo vivido na Estremadura, se é que n'esta mesma +provincia não nasceu, descrevesse na _ilha dos Amores_, não a vinha do +sul, mas a de _enforcado_, a alta e pendurada, que vegeta no norte: + + Entre os braços do ulmeiro está a jucunda + Vide, c'uns cachos roxos, e outros verdes. + +Frei Luiz de Sousa, na descripção da cêrca de Bemfica, serviu-se de uma +feliz comparação com as pedras preciosas para caracterisar as _nuances_ +da coloração dos cachos. Faziam, diz elle, «collares de pedraria as +uvas, segundo os tempos, e as côres d'ellas: já topasios, já rubis, +primeiro esmeraldas.» + +Na linguagem pittoresca do apologo, as uvas estão verdes quando a rapoza +lhes não póde chegar. É uma das mais sentenciosas fabulas, essa, da +rapoza e das uvas. Desdenha-se sempre d'aquillo que se não póde alcançar. + +--Ser ministro! diz um pretendente á pasta. Que massada! + +E do lado algum malicioso observa a meia voz: + +--Estão verdes, não prestam... + +Por este anno, vamos a despedir-nos das uvas, que só por ahi resta algum +cacho guardado como um mimo. + +Perdem-se no ar, por esse paiz fóra, as ultimas canções das vindimas. No +Douro, a região do vinho, a vindima é ainda uma festa, apesar da +phylloxera. Canta-se todo o dia, vindimando. E ha razão para isso, +porque a vindima representa o advento do vinho novo. No sul do paiz, a +vindima corre triste e silenciosa, parecendo um funeral, o enterro das +uvas. + +Mas, para o effeito de ser bom, pouco importa que o vinho nasça entre +canções ou sem ellas. O que se quer é que alegre e aqueça... no +inverno;--porque, no estio, alegra e refresca, dizem os borrachos. + + + + +XXIII + +Pessoas conhecidas de vossas excellencias + + +Temos visto cair de anno para anno, um a um, os mais antigos _habitués_ +de S. Carlos. + +Por que não começaremos pelas testas coroadas? O seu _dilettantismo_ é +tão humano como o dos outros _habitués_. Primeiro el-rei D. Fernando, um +espectador certo, mesmo já quando a voracidade lethifera de um cancro +lhe ia roendo a face. D. Fernando punha o seu parche de seda preta, e ia +para S. Carlos, para S. Carlos onde elle havia brilhado outr'ora em +plena mocidade feliz. Depois D. Augusto, que parecia amar a temperatura +elevada de S. Carlos, apesar de ser um cardiaco. Em seguida, el-rei D. +Luiz, que tinha pela musica a paixão nativa de todos os Braganças. Já +doente, pallida e flaccida a face, n'um esphacelamento lento que o rosto +denunciava, ia uma vez por outra a S. Carlos como para se +despedir da musica, que sempre adorára. + +Cá em baixo, nas cadeiras, desapparecêra primeiro o dr. Alvarenga, que +passára a vida a tratar o coração dos outros, embora, para o atormentar, +lhe bastasse o seu, de que soffria muito. + +Lembram-se do dr. Alvarenga? Sempre de casaca, gravata preta, oculos +escuros, e um crescente mais _dilettante_ do que cathedratico. Lembram +decerto. + +Depois o José Carlos _Poeta_, grande peitilho lustroso, casaca de amplas +lapellas, calva ostentosa e lusidia. + +Tinha conhecido a avó de cada cantora que ia apparecendo, e decerto +gosava, ouvindo a neta, mais do que nós, porque vivia da saudade +deleitosa que as suas recordações lhe avivavam. + +Foi-se um dia, de repente, alli ao fundo da rua do Alecrim. + +Julio Cesar Machado, muito correcto dentro da sua casaca, sempre de +gravata preta--querendo assim mostrar que já se não tinha na conta de +moço, comquanto se tivesse ainda na conta de _dilettante_--foi, como uma +estrella cadente que parece procurar outra no ceu, ver se encontrava +pelo azul fóra a alma do filho, que era a estrella querida do seu +coração affectuoso. + +Agora, ultimamente, o duque de Albuquerque, uma só pessoa, que fornecêra +a S. Carlos dois _habitués_: o conde de Mesquitella e o duque de +Albuquerque. + +O seu chinó, sempre tão fallado nas chronicas de S. Carlos, era como que +a pagina mais eloquente do seu gosto pelo mundo: queria fingir de mais +moço cada vez que S. Carlos abria, não obstante ser mais velho um anno. + +E, depois de certa idade, nada ha que envelheça tanto como cada anno que +vae passando... + +Julio Machado raras vezes subia a um camarote para visitar alguem; e +tambem raras vezes assistia, nos ultimos annos, a um espectaculo todo. + +Parecia um pouco cansado do mundo: entrára no periodo em que a gente +vive principalmente de recordações. + +O duque de Albuquerque, pelo contrario, entrava em todos os camarotes, +visitava todas as damas, e apenas saía de S. Carlos... quando os outros +saíam. + +Tinha razão, porque elle ia lá não só para ouvir as operas, como tambem, +para ver os outros. + + * * * * * + +José Carlos de Freitas Jacome alternára uma grande parte da sua vida em +occupações que profundamente contrastavam uma com outra: a prosa +dos tribunaes e a poesia da opera. De per meio, e de passagem, plantára +o seu loureirosinho no jardim das Musas, era escrivão do civel na Boa +Hora, _dilettante_ em S. Carlos, e poeta por desfastio nas horas em que +da prosa dos autos ascendia á região da harmonia. Fôra bastante +escriptor para não ser unicamente escrivão, e, fóra da Boa Hora, +esquecia-se de ser escrivão, para ter as predilecções e as honras de +escriptor. + +Bom homem a valer, amavel, sabendo vestir uma casaca, tendo o segredo de +fazer espelhar, com uma limpidez de cristal, o peitilho da sua camisa. +Nunca perdeu, apesar de velho e doente, os seus ares de homem elegante, +os seus habitos mundanos. Gostava do mundo, e tinha bom gosto, porque +mal se chega a comprehender a mania, que teem alguns, de se sepultarem +em vida na solidão da misantropia. + +Duas coisas lhe não esqueceram nunca: as suas luvas, e uma flôr. + +Nas bellas noites de S. Carlos, Freitas Jacome enflorava sempre a +lapella da casaca. + +E no theatro, na egreja, na rua, na Havanesa, jámais lhe esqueceram as +luvas, que ás vezes não calçava, mas que não abandonava nunca. + +Dava gosto vel-o na sua cadeira de S. Carlos, grave, attento, tendo o ar +de um diplomata pomposo. Tendo visto nascer o romantismo em +Portugal, fôra romantico de convicção e, como tal, adorava a musica +italiana, saboreava-a, a goles de audição, como se fosse um licor +esquisito, divino. + +Verdi servia-lhe á phantasia uma especie de champagne capitoso, que o +embriagava docemente. + +Bellini e Rossini, dois copeiros da cava celeste, enchiam-lhe a taça do +prazer de um tokay generoso, unico. + +E, de resto, tinha rasão, porque ainda não houve quem lhes podesse +apagar os nomes na grande téla da immortalidade. Meyerbeer, uma aurora +boreal, Mozart, uma estrella, Wagner, uma nublosa, passam hoje por todos +os palcos do mundo, mas, sem embargo, as partituras italianas hão de +illuminar-se sempre d'esse doce luar de sentimentalismo, que faz a +delicia do coração. + +N'essa atmosphera fôra educado Freitas Jacome. Nos combates romanticos, +da musica e da poesia, fizera as suas primeiras armas. Seguia o exemplo +de Garrett no vestir e no pensar, amava o romantismo em si e nos outros. +Não podia nivelar-se com esse grande homem na riqueza do intellecto, +mas, no que podia ser assimilavel, imitou-o. Não podia medir-se +litterariamente com Castilho, mas versejou a exemplo d'elle em honra das +divas do Olympo lyrico, porque Castilho, com ser cego, glorificou +na lyra o feminino da opera, a Agostini, a Bernardi, a Gazzaniga. +Admirador de Herculano, uma das tres entidades gloriosas da trimurti +romantica, não o imitou nos processos de vida rustica e meditativa: para +solitario não tinha geito Freitas Jacome. + +Faz-me pena vêr morrer um homem que soube aproveitar o mundo como elle é +e que, já combalido pela doença e desalentado pela velhice, poz o seu +chapeu, pegou nas suas luvas, e foi para a rua esperar a morte, que não +ousou atacal-o de cara, como a todos os tristes e a todos os fracos. + +Freitas Jacome morreu em plena rua, como Molière morreu em plena scena, +n'um esforço de coragem. + +Lisboa, esta Lisboa que elle tanto amava, viu-o passar no seu ultimo +passeio de vivo minutos antes de cahir morto. Mesmo doente, a vida +exterior attraira-o. Em vez de pedir uma tisana ao medico, planeou o seu +jantar d'aquelle dia, saiu, recebeu o ultimo golpe de luz que cahia do +ceu de Lisboa, e morreu ouvindo o ruido da grande cidade, que fremia em +torno d'elle. + +E todavia Freitas Jacome era provinciano! + +Muitas vezes lhe ouvi dizer que nascera em Thomar, cujas bellezas +naturaes recordava, mas para um homem que gostava do mundo, e que tanto +se interessava por elle, o mar de lona de S. Carlos era mil vezes +preferivel á corrente authentica do rio Nabão. + + * * * * * + +Fallava-se muito dos irmãos Andrades, que já tinham cantado no Porto com +a Sembrich, mas, cantar em Lisboa tendo nascido em Lisboa, caso era para +uma certa curiosidade, direi mesmo para um certo receio. + +Todos nós nos lembravamos de ter visto esses dois rapazes pôr pela +primeira vez chapeu alto. + +Foi outro dia, ainda. + +E quando se principiou dizendo que elles cantavam bem, havia sempre uma +voz judiciosa que ponderasse: + +--Ora adeus! Se elles ainda outro dia pozeram chapeu alto! + +Christo dissera uma vez uma palavra profunda e sabia, como todas as suas +palavras: que ninguem chega a ser propheta na terra em que nasceu. + +Por que será isto assim? + +É porque, talvez, o que em grande parte contribue para fazer a gloria +dos homens é não tanto o seu merecimento como a sua lenda. + +Desde o momento que a gente apenas conheça, nua e crua, em toda a sua +exactidão, a biographia de qualquer homem, vê-o unicamente pelo +que elle possa ter de vulgar, de vulgarissimo, e julga que tudo o que +constitua a individualidade d'esse homem ha de ser vulgar, vulgarissimo, +tambem. + +Mas, quando se dá exactamente o contrario d'isto, quando primeiro se +conheceu a lenda do que a biographia, então principiamos a vêr o +semi-deus no homem, divinisamol-o ao capricho da nossa imaginação e da +dos outros, porque a lenda não é outra coisa senão o que a imaginação de +muitos sonha a respeito de um só... + +Se nos disserem que, no dia em que Adelina Patti nasceu, um rouxinol foi +cantar sobre o seu berço, como para prophetisar-lhe que ella seria a +rainha do canto, acreditamos facilmente. + +Ainda mesmo que a Patti tenha nascido no inverno, ainda mesmo! +acreditamos que o rouxinol cantasse. + +Por que? Porque da Patti o que primeiro conhecemos foi a lenda, e, como +já estamos habituados á lenda, nem mesmo chega a fazer-nos mossa ouvir +cantar um rouxinol no inverno. + +Mas dos Andrades o que primeiro conhecemos não foi a lenda, foi a +biographia. Tanto peior para elles. + +Viessem dizer-nos que quando os dois irmãos nasceram, seu pae, o +tabellião José Justino, viu e ouviu um rouxinol começar a cantar +sobre o berço de um e outro, como se o rouxinol viesse milagrosamente a +vaticinar que o Antonio havia de ser tenor, e que o Francisco havia de +ser barytono! Pois sim! Conta-lhe d'essas!--diriamos nós--rouxinoes! +quaes rouxinoes nem qual historia! o que elle ouviria talvez seriam os +pintasilgos da casa de jantar... Sempre o José Justino tem coisas! + +Depois, todos haviamos conhecido os dois Andrades ainda pequenos, todos +os tinhamos visto assistir aos espectaculos do Gymnasio no seu camarote +de familia. + +Por tal signal que riam a bandeiras despregadas com as pilherias do +Taborda. E todos haviamos verificado que elles riam como as outras +pessoas,--um pouco estavanadamente como todos os rapazes da sua edade. + +Onde estava n'isto a lenda? + +Voz podiam elles ter; lenda é que não tinham. + +Pois foi n'estas circumstancias, realmente difficeis, que os dois +Andrades appareceram no palco do theatro de S. Carlos. + +Receiava-se... + +Suspeitava-se... + +Tremia-se!... + +Que falta faz uma lenda! + +Mas os dois artistas antepozeram o gosto de cantar na sua terra natal a +todas as considerações pelas reticencias e pelas reservas dos +seus conterraneos. + +E, uma vez resolvidos a cantar,--cantaram. + +E, depois que cantaram, ficou-se sabendo que elles sabiam cantar. + + + + +XXIV + +Comer a dois carrilhos + + +Numa villa do Alemtejo, cujo nome não vem para o caso, havia um tendeiro +rico e avarento, que nem de verão nem de inverno se lembrava de atirar +uma migalha aos mendigos que lhe batiam á porta. + +Um engeitado, um pária, um rapazote do sitio, tão pobre como ladino, +matutou na injustiça da Providencia que dava ao tendeiro um bello capote +de camellão para se resguardar do frio, ao passo que só lhe dava a elle +o frio sem o capote. Matutou n'isto, e propoz-se regularisar a ordem das +coisas. + +--Uma esmolinha, _tio_ Ambrosio, pelo amor de Deus... Está tanto frio! +dizia elle, tiritante, roçando-se pela hombreira da porta do +tendeiro. + +--Sai-te d'aqui, maroto, que não quero espantalhos á porta, resmoneava +de dentro o tendeiro. Vae trabalhar. + +--Não posso, que sou doente... E tenho tanto frio, tanto! + +--Que te leve o diabo e mais o frio. + +No dia seguinte, o rapazito voltava. E, á força de teimar, o engeitado +ia conseguindo poder demorar-se mais tempo á porta do tendeiro sem que o +enxotasse já com tanta dureza. + +De uma vez o Ambrosio precisou um recado. + +--Olha lá, disse elle ao mendigo, já que não tens que fazer, vae-me ali +chamar o José da Azenha. + +E o rapazito foi submissamente atravez o frio aspero da serra, ao passo +que o tendeiro, bem embrulhado no seu capote de camellão, ficou sentado +ao balcão da loja, olhando vagamente para os seus dominios. + +Ao outro dia o rapaz voltou. + +--_Tio_ Ambrosio, disse elle da porta, vocemecê não quer hoje algum +mandado? + +O tendeiro ficou encantado com este desprendimento de um mendigo, que +parecia ter o maximo empenho em fazer recados de graça ás pessoas ricas. +Em vez de pedir que lhe pagassem o trabalho da vespera, o bom do rapaz +vinha pedir que lhe dessem mais que fazer... pelo mesmo preço. + +--Sim, disse o tendeiro, pois olha... vae-me chamar o Joaquim da +Rita, que preciso fallar-lhe por causa d'uma coisa. + +Essa coisa, eram uns juros em atraso. + +E o rapaz foi, em mangas de camisa, como andava, ao passo que o +tendeiro, embuçando-se melhor no seu farto capote, disse lá comsigo que +sempre estava muito frio. + +O Venancio engeitado, como todos o tratavam, tornou-se desde então o +mais diligente criado que o tendeiro podia desejar. Sobretudo, pelo que +tocava a soldada, era uma joia: nem vintem. Tambem elle não pedia. Mas +fôra a pouco e pouco captando a sympathia e a confiança do tendeiro, que +primeiro o deixou sentar á porta, e depois n'um banco dentro da loja. + +Nos dias de mercado, em que havia maior labutação no estabelecimento, o +Venancio engeitado offerecia-se para tudo, elle para ir prender á argola +as cavalgaduras, elle para lhes chegar umas sopas, elle para varrer as +cascas dos ovos que os piteireiros bebiam, elle para limpar o balcão e +lavar os copos... uma joia, uma verdadeira joia... a sêco!... + +O tendeiro gabava-o: Que era muito bom rapaz, que precisava muito, e que +de mais a mais não era pedinchão. + +O que o tio Ambrosio queria, com toda esta cantata, era que os freguezes +pagassem os serviços que o rapaz lhe fazia a elle, porque decerto +pareceria escandaloso que uma vez por outra o Venancio não +recebesse nada. Mas como os freguezes caíam, dando ao engeitado pão e +azeitonas, o tendeiro entendia que ficava uma coisa pela outra, e +achava-se desembaraçado para fazer do Venancio seu criado. + +Foram passando tempos, e uma vez, que estava na loja o morgado do sitio, +um mãos-rotas de generosidade e bizaria, o Venancio disse de repente ao +tendeiro, entrando na loja: + +--Ó _tio_ Ambrosio, se vocemecê me podesse dar agora aquellas duas +libras que lhe dei a guardar, fazia-me favor. + +--Ó maroto! pois tu deste-me algumas duas libras?! + +--Dei, sim, senhor, ha dois mezes, na occasião em que estava aqui o da +Michaela, que foi para o Brazil. + +--Ah! maroto, que me perdes! Pois tu já tiveste duas libras algum dia?! + +--Tive, sim, senhor, ha dois mezes, e dei-lhas a vocemecê para mas +guardar por ser um homem de bem... + +--Ó senhor morgado, este maroto está-me a envergonhar! + +--E o _tio_ Ambrosio está-me a roubar, disse serenamente o Venancio. + +--Sr. morgado, continuava o tendeiro, eu sou um homem honrado, incapaz +de tirar nada a ninguem. + +--Menos a um pobre... como eu. Duas libras! que eu guardava para +uma precisão! exclamou o Venancio, e começou a chorar. + +Então, a natural bizarria do morgado não lhe permittiu tolerar aquella +scena por mais tempo. Fosse verdade ou não fosse, era preciso acabar com +aquillo,--uma miseria de duas libras! E o tendeiro envergonhado por tão +pouco!... Não podia ser. + +--Rapaz, disse o morgado querendo salvar a situação, não foi ao sr. +Ambrosio que deste a guardar as duas libras. Não te lembras bem. Foi a +mim... + +Então o Venancio, serenamente, humildemente observou: + +--Essas foram outras, sr. morgado. + + + + +XXV + +O ultimo puritano + + +Era uma vez um velho, o Seabra, que eu de tempos a tempos procurava na +repartição, porque tinha uma excellente mão de cursivo para tirar copias. + +Sessenta e seis annos bem puxados, posto que elle não desse ao manifesto +mais de sessenta. + +--Sessenta--dizia elle--sessenta já cá estão! + +E suspirava. + +Não se sabia bem se suspirava com remorsos de estar mentindo ou porque, +deitando as contas á sua vida, achasse que o mais prejudicado era elle... + +Tinha visto muita coisa, muita politica, muita patifaria. Nada que vinha +de novo o surprehendia. Batera-se no Alto do Viso, trabalhára em +varias eleições, e havia quarenta annos que saboreava, como premio de +seus trabalhos e serviços, um pingue logar de amanuense cristalisado em +seiscentos réis por dia. + +Conhecêra muitos homens importantes, que tinham lucrado com a +collaboração d'elle, e outros que taes, para subir ao poleiro, e que por +mais de uma vez lhe haviam promettido tiral-o d'ali para coisa melhor. + +Pois apesar de lhe faltarem a todas as promessas, de o trazerem enganado +durante quarenta annos, elle tratava-os sempre com o mesmo respeito, +cumprimentava-os muito reverente: + +--Sr. conselheiro, criado de v. ex.ª + +Era um praxista. Não cumprimentava ninguem sem ter descalçado primeiro a +luva da mão direita, nem saía da repartição sem ir perguntar ao chefe, +entreabrindo a porta do gabinete: + +--V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa? + +E o chefe, que estava conversando com amigos, muito entretido, nem o ouvia. + +Mas elle, insistindo, reperguntava: + +--V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa? + +E o conselheiro, se d'essa vez tinha ouvido, respondia: + +--Adeus, Seabra, até ámanhã. + +Algumas vezes lhe fallei do chefe, para sondal-o. + +E o Seabra dizia-me: + +--É dos novos; mas boa pessoa. + +Cheguei a entender o sentido d'estas palavras: _é dos novos_. Não era +praxista, não respeitava as tradições e os regulamentos da burocracia, +mas o Seabra reputava-o boa pessoa. + +Alma generosa, a d'esse velho amanuense! que, em respeito ao seu chefe, +que o tratava simplesmente por _Seabra_, não ousava dizer d'elle senão +que _era dos novos_... mas boa pessoa. + +Se o Seabra tivesse nascido meio seculo mais tarde, não entreabria a +porta do gabinete do chefe para se despedir; mas, se o fizesse, e elle +lhe respondesse com um «adeus, Seabra», pespegava-lhe uma tarea nas +gazetas. + +Para um praxista como o Seabra, aquelle homem, que estava dentro do +gabinete, conversando com os amigos, era seu chefe, e isso lhe bastava. + +Ora uma das praxes observadas pelo Seabra era a de consultar sempre, +antes de sair da repartição, o seu espelhinho d'algibeira. + +Elle tinha apenas duas farripas de cabello branco, muito bem penteadas +ao longo da cabeça. Mas essas duas farripas mereciam-lhe todo o cuidado +e attenção. Vendo-se ao espelhinho, passava a mão por cima das farripas, +brunia-as com os dedos, alisava-as. + +Depois observava a gravata, que era ordinaria, mas sempre bem tratada, +sem sombra de pó. + +Por ultimo, segurando o espelhinho com a mão esquerda, escovava a sua +velha sobrecasaca com a mão direita. + +E feito todo este serviço, depois que o chefe lhe dizia o «adeus, +Seabra», guardava o espelhinho na algibeira, a escova no armario, e +seguia para sua casa, a passos mesurados, muito vagaroso, pela rua do +Oiro até Santa Martha. + +Inculcaram-m'o uma vez como tendo excellente letra para tirar copias. +Apresentaram-m'o. Por varias vezes lhe dei trabalho, meu e alheio. Era +pontualissimo na entrega das copias, e honestissimo nas contas que +fazia. Arredondava sempre as quantias contra elle. Se, trabalhando a +tanto por pagina, o seu trabalho importava por exemplo em 1$085 réis, +não queria nunca receber mais de dez tostões. + +Comprehende-se que precisasse muito d'estas achegas para poder viver, +visto que o seu logar lhe rendia apenas 600 réis diarios. + +Todas as noites saía para vir ao Rocio conversar n'uma loja até ás nove +horas. O logista era um homem do tempo d'elle. Tratavam-se por tu. Ás +nove em ponto, o Seabra despedia-se, ia para casa trabalhar até á meia +noite, tirar copias a 120 réis a pagina. + +Não vi nunca pobresa mais resignada, nem mais elegante. Parecia +um principe arruinado, a passos mesurados, pela rua do Oiro. Era só +então que elle via o mundo, uma vez por dia. Mas via-o bem, depois de se +ter preparado tambem para ser visto. Não saía da repartição sem o +espelhinho lhe ter dito: «Estás correcto, Seabra.» + +Na rua do Oiro encontrava um conselheiro. Cumprimento respeitoso. + +--Criado de v. ex.ª, sr. conselheiro. + +Não deixava nunca de vêr os conselheiros, apesar de todo o seu gosto, ao +passar na rua do Oiro, consistir em vêr as mulheres ou, mais +propriamente ainda, em vêr os pés das mulheres. + +Se parava uma carruagem á porta de uma loja, tambem elle parava, com +delicado disfarce, para vêr saltar do estribo uma dama. + +Não tinha esta escola moderna dos que fazem tudo descaradamente, parando +e observando com petulancia. Nada disso. Elle via o pé, media-o com os +olhos, calculava, pelo pé, as dimensões da perna, ficava sabendo a côr e +a qualidade da meia, mas, se alguem, encontrando-se com elle, lhe +adivinhava a intenção, disfarçava a olhar para uma _vitrine_ ou a lêr um +cartaz. + +Só ao cabo de alguns annos de convivencia, eu consegui conquistar a +familiaridade precisa para lhe fallar nos pés das mulheres. + +--O sr. Seabra pella-se por vêr um pé bem feito! + +--Gósto!... gósto! + +E d'ahi a pouco parou uma carruagem, apeiou-se uma senhora, que deixou +vêr, sobre o estribo, um pé digno da admiração do Seabra. + +--Então, sr. Seabra! disse-lhe eu. Repare, que vale a pena. + +--Não! nunca! respondeu elle um pouco atrapalhado. + +Jámais eu o tinha visto, em nenhum caso da sua vida, tão contrariado +como naquelle momento. + +--Aquelle pé--pensei eu--é talvez uma recordação para elle. + +Mas reflexionei. A dama era, relativamente, nova. Podia ser filha do +Seabra. + +--Será talvez filha? + +E architectei um antigo romance de amor, que tivesse deixado ao Seabra +uma filha natural. + +Se fosse assim, eu poderia conseguir talvez que elle me contasse o seu +romance. + +Tentei o assumpto. + +--Mas então, meu caro sr. Seabra, porque perdeu esta occasião propicia? + +--Não! nunca! tornou elle a responder. + +Devorado pela curiosidade, insisti: + +--Era talvez sua parenta? + +--Qual! disse elle surprehendido. Era a mulher do meu chefe! + +Fiquei a olhar para elle, aturdido, assombrado. Ó lealdade da velha +burocracia portugueza! que, em homenagem á disciplina social, desviava +os olhos para não vêr o pé da mulher a quem o chefe havia dado a mão! E +tive tentações de o abraçar, em plena rua do Oiro, exclamando: +«Honradissimo José do Egypto, cujos olhos largam a capa, quando a mulher +do chefe da repartição expõe o pé á vista do publico! eu te admiro e te +venero!» + +Acompanhando-o pela rua do Oiro adiante, baralhavam-se-me no espirito +casos que eu tinha ouvido contar, por mais de uma vez, de empregados +publicos que captavam as boas graças dos chefes seguindo o processo +opposto ao do Seabra. + +Admiravel homem! pensava eu, que penteia as suas farripas para ir vêr as +mulheres e que, não obstante querer vêl-as, não perde nunca de vista um +conselheiro, para lhe cumprimentar a carta de conselho, nem a mulher do +chefe, para evitar cumprimentar-lhe o pé! + +Uma coisa que entristeceu muito o Seabra foi o ir perdendo a vista, e +com ella o gosto de passar na rua do Oiro. + +Mas, não obstante, não largou nunca o seu espelhinho. Tinha o mesmo +cuidado em alisar as farripas e escovar a sobrecasaca. Sómente mudou de +caminho, tomava pela rua da Prata, em vez de seguir pela rua do Oiro. + +Os seus collegas diziam: + +--O Seabra agora está muito caido! + +Na repartição, elle trabalhava com oculos, mas na rua nunca os punha. + +Um dia insisti com elle em que viesse comigo pela rua do Oiro. + +Pediu-me muitas desculpas, e recusou. + +--Já não vejo nada! dizia elle. + +--Mas por que não põe os seus oculos? perguntei-lhe eu. + +E elle, muito sentencioso, respondeu-me: + +--Eu sou de um tempo em que não era permittido confessar nenhuma +fraqueza em publico: nem mesmo a da vista. + +De uma vez, como sempre, o Seabra entreabriu a porta do gabinete do chefe. + +--V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa? perguntou. + +--Não, Seabra, até ámanhã. + +O Seabra compoz, diante do espelhinho, as suas farripas, ageitou a +gravata, escovou a sobrecasaca, fechou a escova no armario. + +E metteu pela rua da Prata, na sua teima de não querer confessar em +publico nenhuma fraqueza: nem mesmo a da vista. + +Junto á Praça da Figueira andava-se concertando um cano, a rua estava +esburacada. + +O Seabra caiu tão desastradamente, que partiu uma perna. Foi conduzido +em maca ao hospital de S. José. Logo que lá chegou, cheio de +dôres, despiram-no, metteram-n'o na cama. + +E elle, dirigindo-se muito attenciosamente ao enfermeiro, disse-lhe: + +--Quer ter a bondade, sr. enfermeiro, de recommendar todo o cuidado com +o meu fato, e de me dar um espelhinho que está na algibeira das calças? + +Passados dias fui visital-o, levei-lhe um romance para que elle se +entretivesse, lendo-o. + +--Não posso, disse-me elle. Deixei os oculos fechados na repartição. + + + + +XXVI + +Os principes do Perú + + +Vem já ahi caminhando ao nosso encontro a bella festa do Natal. Não +tarda nada. Os batedores, a guarda avançada, chegaram com a sua +costumada pontualidade. Cá temos o frio e o perú passeiando ambos pelas +ruas de Lisboa, um muito afiado e cortante, o outro gluglujante e luzidio. + +Esta solemne festa do anno tem o condão de sorrir a todas as idades, de +lisonjear todos os paladares, de encantar todas as imaginações. + +As creanças pensam, cheias de jubilo, no seu Presepio, na sua arvore do +Natal, na bonecada e nos bolos. + +Os namorados estão já arregalando o olho amoroso para a missa do Gallo, +que é boa capa para entrevistas hombro a hombro, de mãos dadas, emquanto +se finge rezar muito devotamente... + +Os velhos, que são ordinariamente gulosos, começam a afinar o olfacto +para descobrir, nas lojas de confeiteiro, os mais saborosos petiscos. + +Os ambiciosos de qualquer idade e sexo sonham com a grande loteria de +Madrid, esse ideial de felicidade que todos os annos lhes faz negaças á +imaginação fogosamente credula. + +As beatas estão já antegostando a delicia de oscular mysticamente as +carnes rosadas e divinas do pequenino Jesus. + +No meio de todo este côro de alegrias só uma nota discordante poderia +soar, mas o perú, a principal victima do Natal, não tem decerto a +consciencia do perigo que a esta hora está correndo,--felizmente para elle. + +Pobre perú! Ahi o vemos fazendo descuidosamente a sua ultima _avenida_, +dando o seu ultimo passeio de condemnado á morte, sem pensar em +disposições testamentarias, tão felizes são os perús! + +As pessoas do norte do paiz não teem, como o lisboeta, a tradição do +perú do Natal. No Minho, na Beira, em Traz-os-Montes pensa-se agora em +mil guloseimas, que não tardarão a encher de aromas a cosinha e a mesa, +mas o perú setemptrional não tem que receiar-se da faca do cosinheiro, +porque a tradição local não exige como victima senão a gallinha gorda e +o gallo nedio. + +Eis aqui a rasão por que um rapaz da Ponte da Barca, que, ha annos, +andava estudando em Lisboa, ficou muito surprehendido com o pedido que +lhe fizera a mais astuciosa das suas namoradas lisboetas. + +Ella era filha de um servente de repartição, creio eu, que vivia cheio +de difficuldades, porque a mulher lhe havia dado uma prole numerosa: +tres filhas e quatro filhos. + +Emquanto todos os sete foram pequenos, era com profunda tristeza que o +marido e a mulher viam passar na rua, pelo tempo do Natal, os bandos de +perús luzidios e gluglujantes. Não podiam chegar-lhes, elles! Dez +tostões não era quantia que um servente de repartição, cheio de +filharada, podesse dispender. Isto ralava-o. Mas o pobre homem dizia +muitas vezes á mulher: + +--Deixa crescer a raparigada, e verás que não nos faltarão perús. + +A mulher sorria com desalento e replicava: + +--Pensas talvez que estão á espera d'ellas tres principes muito ricos, +que hão de ser nossos genros?! + +--Não é isso. Eu cá tenho a minha ideia. Deixa crescer a raparigada, e +verás. + +Os annos foram passando, e as tres filhas do servente cresceram, +principiaram a revelar um palminho de cara menos mau. A mais nova tinha +quinze annos; a mais velha dezesete. + +--E então os tres principes do Perú? perguntava a mulher ao marido, +fazendo um _calembour_ inconscientemente. + +--É agora. Vae começar este anno, cá pelo que eu tenho observado. Elles +ahi estão a bater á porta... + +--Os principes? + +--Não, os perús. + +--Fia-te n'essa, pateta! + +--Ora dize-me uma coisa: Teem ou não teem já as raparigas o seu derriço? + +--Sim... acho que teem. E d'ahi, homem? + +--D'ahi, tem paciencia, e espera. Eu logo vou conversar com as +raparigas, porque todo o bom pai precisa aconselhar ajuizadamente as +suas filhas. + +O Natal estava por um fio, chega não chega. Fazia frio e luar. O +estudante da Ponte da Barca não fôra a ferias, porque n'aquelle tempo +ainda o caminho de ferro não tinha encurtado as distancias. + +O rapazote, achando-se sem obrigações escolares, principiou a +entregar-se exclusivamente á cultura de namoros desde pela manhã até á +noite. + +Ora ia vêr uma das suas bellas, ora ia catrapiscar a outra, mas a filha +do servente, a dos quinze annos, era de todas as namoradas a que mais o +prendia talvez, não só por esse orgulho natural de ter inspirado um +primeiro amor, como tambem porque o estudantelho era poeta e a +rapariga parecia-lhe romantica. + +Romantica, sim, senhor! Onde fôra ella aprender isso? Quem o podéra +dizer! Foi uma qualidade que derivou talvez do fluido magnetico dos seus +olhos negros e grandes. O pae era tudo o que podia haver de mais prosa +em servente de repartição. A mãe era digna esposa de seu marido segundo +os canones e a prosa. As irmãs só desejavam poder um dia comer bem e +dormir melhor. Mas a rapariguinha dos quinze annos tinha suas +_reveries_, contemplava o azul do céu, gostava de vêr o luar, o que o +pae e a mãe muito extranhavam classificando de telhuda a filha mais nova. + +Pois o Natal estava por um fio, chega não chega, como eu ia dizendo +ainda agora. + +O servente ressonava já ha muito tempo em competencia philarmonica com a +cara metade. As outras duas filhas sonhavam talvez com alguem que lhes +desse um vestido e um camarote, mas a Mariquinhas estava á janella, +envolta no véu azul do luar, unico de que podia dispôr, a conversar +idillios com o seu estudantelho do Minho. + +--Tu és-me infiel, dizia-lhe ella. + +--Eu! respondia elle. Eu adoro-te, Mariquinhas, e só penso em poder +casar comtigo logo que seja alferes de cavallaria. + +--São palavras... Não sentes o que dizes! + +--Por que duvidas de mim? + +--Porque tenho a certeza de que o teu coração não é sincero. Só te +lembras de mim quando me estás fallando. + +--Tambem isso são palavras, apenas. + +--Nunca tiveste uma pequena lembrança que me désses, uma d'essas +apreciaveis bagatellas que valem mais pelo que significam do que pelo +custam. Agradece-se, estima-se a intenção, principalmente... + +--E que gostarias tu que eu te offerecesse? Um ramo de flores?... + +(Foi a coisa mais barata que lhe lembrou). + +--Logo vi que havias de escolher uma coisa que durasse tão pouco como o +teu amor. Eu gosto immenso de flores, mas tenho má fé com ellas no amor. +São como que o presagio de que tudo acabará de pressa. As flôres duram +tão pouco! + +--Um leque, Mariquinhas, um leque?... + +(Lembrou-se de ter visto na rua do Oiro uns que custavam oito vintens). + +Ella replicou indignada: + +--Eu não sou mulher que me requebre de leque na mão. Não sou d'essas +mulheres levianas que andam pela rua a fazer fogo de vistas com a +ventarola. + +--Mas eu não te quiz offender, Mariquinhas. + +--Talvez não quizesses. Eu sou uma rapariga honesta, que vivo á sombra +de meus paes, e que os adoro. Pésa-me de que elles sejam tão +pobres e tão bons. Sabes no que eu penso? Em proporcionar-lhes um dia de +Natal agradavel, como elles já não tiveram ha muitos annos... + +--E como seria isso? + +--Fazendo-lhes a surpreza de uma boa _meia noite_. + +--Como? + +--Comprando-lhes um perú sem o elles saberem. + +O estudante sentiu uma punhalada no coração; duas punhaladas é que foram. + +Primeira punhalada: Então ella, tão romantica, tão sonhadora, pensa +agora n'um perú? + +Segunda punhalada: Onde hei de eu ir arranjar dinheiro para comprar o perú? + +Mas, emfim, era preciso não fazer má figura deante da Mariquinhas. + +--Socega, querida. Has de fazer essa agradavel surpresa a teus paes. + +--Quando? + +--Ámanhã... decerto, visto que depois d'ámanhã é vespera de Natal. + +--Ah! como sou feliz! exclamou a Mariquinhas. + +E o estudante, quando sahiu d'ali, ia dizendo comsigo: + +--Ella é muito exigente para um estudante, mas, em compensação, parece +ser muito boa filha. + +No dia seguinte foi elle ao Rodrigues do Pote das Almas vender um +_Magnum Lexicon_, umas grammaticas velhas, um Monteverde em menos mau +estado. Apurou ao todo mil e duzentos. Comprou ao principio da noite, na +Praça da Figueira, um perú por 1$100, e ficou-lhe ainda a tinir na +algibeira o bello tostão para cigarros e café. + +Á meia noite, eil-o debaixo da janella da Mariquinhas, de perú debaixo +da capa. Momentos depois o perú subia suspenso por um cordel, e a +Mariquinhas era feliz. + +As outras irmãs dormiam, mas estariam sonhando ainda com alguem que lhes +podesse dar um vestido e um camarote? Não. Sonhavam, o que era verdade, +que tinha cada uma um perú, que ellas pediram aos namorados, por +conselho do pae. + +Foi assim que o servente de repartição, como havia planeado, pôde ter +perú na noite de Natal, perú no dia de Anno Bom, perú no dia dos Santos +Reis. Tres perús a tres filhas,--por cabeça. + +E sentado á mesa, muito alegre e palreiro, ouvindo repicar os sinos para +a missa do gallo, dizia elle á mulher: + +--Ahi vem sua alteza o primeiro principe do Perú. Os outros dois estão +ainda em palacio. Não te dizia eu que elles haviam de chegar? + + + + +XXVII + +A poesia da Servia + + +Perguntaram um dia a Miçkiewiez: «O que são os servios? » + +E o grande poeta da Polonia respondeu: «Um povo destinado a ser o bardo +e o menestrel de toda a raça slava.» + +J. Reinach sae em abono d'esta opinião confirmando-a: «O caracter servio +é essencialmente poetico, e a sua poesia não se traduz apenas nos +_pesmas_, nos hymnos nacionaes que acompanham na _guzla_, encontra-se +ainda na religião, nas cerimonias do culto, nas festas, na organisação +da familia, nos casamentos, na coragem heroica dos combates, nos sonhos +de uma vida melhor. Se queremos procurar a causa d'este caracter dos +slavos, devemos attentar no paiz que elles habitam. O povo que tem a +Servia por patria, não podia deixar de ser, como disse Miçkiewiez, senão +um povo de bardos e menestreis, e, nas horas de perigo nacional, +um povo de heroes. As florestas sombrias e profundas, as quebradas dos +valles, as altas montanhas com as suas cristas inaccessiveis e os seus +bosques de castanheiros, os _Schumadia_, as margens accidentadas dos +rios, toda essa natureza selvagem e pittoresca contém e inspira +thesouros de poesia.» + +Na familia servia o sentimento da fraternidade é talvez o mais +desenvolvido, «Não ha uma joven servia sem irmão» diz uma velha lei. +Quando a noiva deixa o lar da sua familia, é pelos irmãos que ella chora +lagrimas semelhantes a _bagos que se destacassem de um cacho maduro_. A +canção do desgraçado Iowo diz assim: + +«O moço Iowo cahiu, porque o sobrado da casa abateu, e partiu o braço +direito. + +«Quem o curará? Só a feiticeira da montanha, que conhece a fundo a +virtude das plantas; mas a feiticeira exige muito. Pede á mãe a sua +branca mão direita; á irmã as tranças do seu cabello; á mulher o seu +collar de perolas... + +«A mãe dá, com a melhor vontade, a sua branca mão direita, a irmã dá as +tranças do seu cabello, mas a mulher recusa o seu collar de perolas... + +«Agasta-se a feiticeira que vive na montanha, e lança veneno nos +alimentos de Iowo. Iowo morre com grande pezar de sua mãe. + +«Ouvem-se então gemer trez cucos: um que não deixa jámais de +lamentar-se; outro que só se faz ouvir pela manhã e á noite; e o +terceiro, que sómente geme quando lhe apraz. + +«Qual é o que não deixa jámais de ouvir-se? A desgraçada mãe de Iowo. O +que sómente se ouve pela manhã e á noite? A irmã de Iowo, profundamente +afflicta. E o que só geme quando lhe apraz? É a joven viuva de Iowo.» + +O casamento entre os servios é livre, o resultado do _mutuus consensus_. +O rapaz apresenta-se em casa do pae da namorada, a pedir-lhe a mão da +filha. Obtida que seja, dá lhe o annel, penhor do casamento, porque um +antigo _pesma_ diz: «Como testemunho de amor, dá-se um pomo; como +perfume, um mangerico;--mas o annel só se dá para casar.» + +Se a donzella quer recusar o noivo, arremessa-lhe o pomo á cara, +dizendo: «Não te quero a ti nem ao teu pomo.» + +Excepcionalmente, algumas vezes, os paes procuram para suas filhas +casamentos ricos. Os _pesmas_ protestam contra esta excepção. A pobre +rapariga caminha descalça sobre o gelo, tiritando, e o irmão +pergunta-lhe: «Tens frio nos pés, querida irmã?» E ella responde: «Não! +não tenho frio nos pés, meu irmão, mas sinto um frio glacial no coração. +Não é a neve que me molesta, é minha mãe que me quer dar por esposo +aquelle que eu aborreço.» Uma outra canção diz: «Vivia na +montanha uma donzella, e toda a montanha era illuminada pela belleza de +seu rosto. Ó meu rosto, dizia ella, ó meu unico cuidado, se eu soubesse, +meu branco rosto, que um velho marido te devia beijar, oh! iria á +montanha verde e colheria o absyntho, espremeria o seu suco e +lavar-te-hia com elle, meu rosto, a fim de que o velho, quando te +beijasse, lhe sentisse o amargor. Mas se eu soubesse, meu branco rosto, +que um joven marido havia de te beijar, oh! então iria ao verde jardim, +colheria todas as rosas e das rosas espremeria o suco para te lavar, meu +branco rosto, a fim de que o joven noivo, quando te beijasse, ficasse +perfumado do teu perfume.» + +O casamento, revestido ainda de todos os symbolos primitivos, exige que +os irmãos e amigos da noiva a acompanhem á sua nova casa, a cavallo, ao +som de musica, entoando canticos e dando tiros. As irmãs e as cunhadas +vem então ao encontro da noiva, que se adeanta para ellas: +apresentam-lhe uma creança que ella deve vestir, bem como deve offerecer +aos convidados pão, vinho e agua. Só quando dá á luz é que a noiva passa +a ser considerada como fazendo parte da familia. Recebe um dote, que os +servios chamam _persia_. Quando a noiva já não tem pae, é o irmão que +deve pagar o dote, sempre fixo, e de que o marido não póde fazer uso. +Mas, circumstancia verdadeiramente notavel! quando uma rapariga +casa sem auctorisação dos pais, a sua união é considerada legitima, pois +que tem por base o amor. + +Assim é que diz uma canção: + +«Eu queria pedir a tua mão, mas teu pae não me quer para genro, e eu só +não te posso roubar. Escuta as minhas supplicas, vem para mim, que t'o +peço eu.--Bello amigo, é inutil pedir a minha mão; meu pae +recusar-t'a-ha. Não penses em roubar-me, porque tu o pagarias, meu bem +amado. Tenho nove irmãos e numerosos primos; quando elles montam nos +seus cavallos negros, com as suas finas espadas na mão, só vel-os causa +horror. Não quero que tu morras combatendo com elles; e se fugisses, não +mais te poderia ouvir. Amo-te. Chama-me, eu irei voluntariamente +lançar-me nos teus braços.» + +Os funeraes são, entre os servios, tão poeticos como o casamento. Quando +morre alguem, os parentes levantam grande alarido; os homens saiem +descobertos durante alguns dias; as mulheres deixam fluctuar os cabellos +e os vestidos. Os homens choram silenciosamente, mas as mulheres, desde +o dia da morte até ao do enterro, não cessam de _naritsati_, quer dizer +de cantar em voz alta a sua dôr, pranteando a sorte do morto e dos seus. + +«Ai! ai! trava-se na minha alma um terrivel combate! Volto os meus olhos +para o anjo luminoso de Deus, e exclamo: Fazei com que a minha +vida seja curta. Mas Deus não me escuta. E eu, ai! contemplo o oceano da +vida, de que as más paixões são as vagas, e em vão desejo abordar a +porto e salvamento.» + +Segue-se a cerimonia dos funeraes, sendo o esquife do morto conduzido ao +cemiterio pelos amigos. Quando o féretro desce á sepultura, um sacerdote +lança-lhe em cima um punhado de cinzas, e as mulheres recomeçam a +prantear longa e tristemente. Cada anno ha um dia consagrado aos mortos: +é o Zaduchnitzi. + +Os servios, como diz Theophilo Lavallée, formam a população christã mais +importante da Turquia, pela dignidade e gravidade do seu caracter, pela +sua coragem, bondade, generosidade, costumes patriarchaes, amor á +patria, usos e religião. + +A festa dos ramos é a primeira do anno: celebra o advento da primavera. +As raparigas juntam-se n'uma collina e cantam o hymno da resurreição de +Lazaro: «A creança cresce, o homem vive, o velho morre n'esta ideia: +quando virá o imperio servio?» No dia seguinte, antes de nascer o sol, +vão buscar agua e cantam em côro: «As pontas do veado tornam a agua +turva, mas o seu olhar torna-a clara e limpida.» + +Esta canção deve ser interpretada n'um sentido mythico. + +O veado, cujas pontas tornam a agua turva, é o inverno, o tempo +brumoso. Gubernatis, fallando do veado mythico, diz-nos que ha o veado +negro, que symbolisa o céu coberto de nuvens, e o veado luminoso, que +figura em muitas lendas da India. Ora n'esta canção servia, o olhar do +veado, que torna as aguas claras e limpidas, deve ser considerado como o +triumpho alcançado pela primavera sobre o inverno. + +Reinach diz que as raparigas servias saúdam no regresso da primavera a +volta dos tempos felizes para o amor, entoando canções notavelmente +simples, taes como esta: «Dois amantes beijaram-se na campina, e +julgavam que ninguem os teria visto. Mas a campina viu-os, e contou tudo +ao branco rebanho, que o repetiu ao pastor; o pastor disse-o ao +viandante, o viandante ao marinheiro, que por sua vez o contou á barca. +A barca foi dizel-o ao rio, e o rio á mãe da rapariga.» Os leitores de +um livro meu, _Atravez do passado_, conhecem já a ideia fundamental +d'esta canção encantadora, que se encontra tambem na Grecia, e que tem +sido glosada por distinctos poetas, entre os quaes o allemão Chamisso. + +No fim de abril realisa-se a festa de S. Jorge, um dos patronos da +Servia. As mulheres vão ás montanhas colher hervas e flores, que lançam +depois ao rio, onde no dia seguinte se banham. É assim pois que os +servios, como os outros povos slavos, celebram o advento da +primavera. + +Vem immediatamente a festa de Kralitza, em que as donzellas festejam +Lelio, a Venus da Servia, a deusa do amor. + +Segue-se o S. João, o tempo da canicula, em que, como diz a lenda, o sol +parou outr'ora tres vezes. Se o anno tem corrido sêco, procede-se a uma +cerimonia verdadeiramente original: uma rapariga, cujos vestidos +consistem apenas n'uma ligeira tunica de folhas e flores, percorre, +acompanhada por outras, os campos, que vae aspergindo com um regador, +pedindo ao céu uma chuva fecundante, invocando o sol e a lua: _«Tako mi +Suntza!_ (o sol) _Tako mi Semlie_ (a lua)! Que o sol seja comigo! Que a +lua me proteja! Ligeiras corremos atravez da aldêa; possam as nuvens do +ceu, mais rapidas do que nós, beneficiar os prados e as vinhas. _Tako mi +Semlie._» Quando, pelo contrario, o anno tem corrido chuvoso, os +habitantes do campo imploram o auxilio de Elio, que não é senão o sol. + +As festas domesticas na Servia têem um caracter deliciosamente intimo. +Os viajantes, os estranhos são sempre recebidos com amavel +hospitalidade. O chefe da familia, quando o repasto se realisa, entôa a +canção de Batschka: «Tres passaros desferiram vôo atravez do espaço, +levando cada um no bico um presente precioso: o primeiro, um grão de +trigo; o segundo, um bago de uva; o terceiro a alegria e a +felicidade. O grão de trigo caiu sobre a planicie de Batschka, o bago de +uva sobre as montanhas de Gore; possam sobre a nossa mesa caír a alegria +e a felicidade.» + +Mas de todas as festas domesticas da Servia, o Natal é a mais solemne. + +Ao fim da tarde, terminado o trabalho, o pae de familia vae á floresta +cortar um carvalho novo e, pondo-o ás costas, volta para casa. Quando +entra, exclama: + +«Boa noite! feliz Natal!» + +E a familia responde: «Que Deus te proteja, e te dê boa colheita!» +Depois, o carvalho (badujak) é posto no fogo. No dia seguinte, a gente +moça percorre a povoação a cavallo, disparando tiros de pistola. E o pae +de familia, apparecendo á janella, atira para a terra alguns grãos e +sementes, dizendo: «Natal! Natal! Christo nasceu.» Ao que os moços +respondem no estylo do Evangelho: «Em verdade nós vol-o dizemos, Christo +nasceu.» + +Então, todas as familias se juntam em torno do carvalho que arde, +açoitando-o com correas; e quando as faiscas saltam, exclamam: «Tantas +faiscas, quantos bois, cavallos, cabras, carneiros, porcos, abelhas e +bençãos do ceu teremos este anno.» + +A festa do Natal dura tres dias. E até que entre o novo anno, toda a +gente se saúda, dizendo: «Christo nasceu!» e respondendo: «Em +verdade, nós vol-o dizemos, Christo nasceu!» + +A universalidade das crenças populares é realmente um facto admiravel! + +Assim como os servios tem o _badujak_. temos nós, nas provincias do +norte, e citaremos para exemplo o concelho da Maia, arrabalde do Porto, +o carvalho do Natal, que tambem se põe no fogo e que no fim da noite se +guarda para tornar a accender-se em occasião de tempestade. + +A Servia é decididamente o paiz das canções. Todos os seus habitantes +cantam. Em cada casa ha uma _guzla_, especie de mandolim ou guitarra, +que tem apenas uma corda de crina. Não ha festa sem canção e sem +_guzla_. A Europa occidental conhece de varias imitações ou traducções +muitas das poesias populares da Servia. Prosper Mérimée, tendo aprendido +cinco ou seis palavras de slavo, compoz em quinze dias um pequeno +romanceiro, que attribuiu a um imaginario tocador de _guzla_, Jacintho +Maglanovitch. + +Na poesia servia relevam a riqueza das imagens, a ingenuidade dos +sentimentos, o ardor do patriotismo. A estrophe, sempre melodiosa, é +geralmente curta; e o acompanhamento da _guzla_ apenas a toma nos +ultimos versos. Os cantos nacionaes são compostos em trocheus; as +canções de amor admittem os dactylos. + +No estudo da poesia servia ha a distinguir os _pesmas_ heroicos +que os homens acompanham na _guzla_, e as canções do lar, que as +mulheres e as raparigas entoam. + +Foi só muito tarde que os servios começaram a escrever os seus _pesmas_. +Em conformidade com a theoria de Vico, a poesia, entre elles, precedeu a +prosa, que foi definitivamente fixada por Obradwitch, depois da primeira +metade do seculo passado. + +Os slavos do sul só modernamente attingiram na litteratura a fórma +dramatica. Annibal Lusitch foi quem primeiro escreveu para o theatro, +começando elle e os seus imitadores per seguirem o rasto dos poetas +italianos, Metastasio, Alfieri, Guarini. Foi Estevão Popovitch quem +comprehendeu que os assumptos nacionaes convinham ao theatro. Entre as +suas producções merece especial menção a comedia _Belgrado na +antiguidade e em nossos dias_, que teve um grande successo nos theatros +provisorios levantados em Agram e Belgrado. Popovitch foi pois o Eschylo +da Servia; Martinho Ban, auctor dos dramas _Lazaro_ e _Meirima_, póde +ser considerado o Sophocles servio. A _Meirima_ tem por assumpto o amor +de um christão por uma mussulmana, assumpto que, posto fosse tratado por +Voltaire e Byron, offerece comtudo um certo encanto de execução. + +Entre as creações phantasticas da poesia popular da Servia devem +contar-se as _vilas_, a que chamamos _feiticeiras_, á falta de +melhor vocabulo, mas que são creaturas mysticas, que presidem aos votos +do povo e que pairam silenciosamente sobre a existencia dos homens. São +ligeiras e bellas, diz Reinach; o vento brinca, passando, com os seus +longos cabellos. Habitam sobre as colinas, perto dos regatos, sobre o +Lotchen, cujo cimo, onde a tempestade ruge incessantemente, é coberto de +neves eternas. + +Mas se as _vilas_ são os genios bemfasejos da Servia, existem, em +opposição a ellas, espiritos maleficos, que trabalham pela perdição do +genero humano. São os _viétchizés_ que, flucctuando nos ares, +surprehendem os pastores adormecidos, abrem-lhes o peito com uma vara +magica, fixam o dia da sua morte, comem-lhes o coração, fecham de novo o +peito das victimas e desapparecem. + +Quando os pastores acordam, sentem-se abatidos, doentes. E pouco depois +expiram. + +Mas uma das creações mysticas que mais impressionam a imaginação slava é +o _vampiro_, que se alimenta da carne dos cadaveres e do sangue dos vivos. + +Entre os typos dos _pesmas_ heroicos, o mais notavel é Marko, o Cid e +Roland da Servia. + +Mas, percorrendo o cancioneiro servio, são as canções de amor as que +mais nos encantam. Terminaremos este ligeiro artigo com uma canção +amorosa, que rompe dos labios de uma rapariga: «_Ó tchardak_ +(leito), um fogo abrazador me devora: ninguem, durante a noite, está á +minha direita ou á minha esquerda; revolvo com o meu corpo a coberta, e +com a coberta as, minhas dôres.» E o namorado responde-lhe: «Ó Mileva, +assenta-te a meu lado. Nós não somos selvagens, nós sabemos onde se deve +beijar: as viuvas entre os olhos, as solteiras entre os peitos.» + + +FIM + + + + +INDICE + + Pag. + I O primeiro mosquito 5 + II A comedia das praias 11 + III N'uma praia solitaria 20 + IV Os frequentadores das praias 30 + V Casos... 38 + VI Á volta dos pés da imperatriz 56 + VII Loucura alegre 65 + VIII A mascotte 73 + IX Era em abril... 80 + X A felicidade e a camisa 85 + XI Morte de um gentleman 91 + XII A «season» lisbonense em 1883 100 + XIII Gostos não se discutem 106 + XIV Peccadilhos metricos 114 + XV Os amaveis 130 + XVI A sepultura d'um traidor 137 + XVII A caminho do Alemtejo 148 +XVIII A mulher 155 + XIX O carnaval... 163 + XX O chapeu 171 + XXI Os antipodas 181 + XXII As uvas 190 +XXIII Pessoas conhecidas de vossas excellencias 197 + XXIV Comer a dois carrilhos 207 + XXV O ultimo puritano 212 + XXVI Os principes do Perú 221 +XXVII A poesia da Servia 229 + + + + * * * * * + + + +ERRATAS + +Pag. 69, lin. 9, onde se lê--um bilhete Colyseu leia-se--um bilhete do +Colyseu. + +Pag. 104, lin. 30, onde se lê--Á vista de um trabalho--leia-se--Á custa +de um trabalho, etc. + +Pag. 142, lin. 23, onde se lê--deixaria na primeira leia-se--deixaria ir +na primeira, etc. + +Pag. 155, lin. 2, onde se lê--havido acontecimentos leia-se--havido +acontecimento, etc. + +Pag. 176, lin. 16, onde se lê--E como--leia-se--É como, etc. + + + +***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MANHÃS DE CASCAES*** + + +******* This file should be named 33588-8.txt or 33588-8.zip ******* + + +This and all associated files of various formats will be found in: +http://www.gutenberg.org/dirs/3/3/5/8/33588 + + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at <a href = "http://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a></pre> +<p>Title: Manhãs de Cascaes</p> +<p>Author: Alberto Pimentel</p> +<p>Release Date: August 30, 2010 [eBook #33588]</p> +<p>Language: Portuguese</p> +<p>Character set encoding: ISO-8859-1</p> +<p>***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MANHÃS DE CASCAES***</p> +<br><br><center><h3>E-text prepared by Pedro Saborano</h3></center><br><br> + +<p> </p> +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1893.</p> + +<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1893, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e +que por isso não foram assinalados.</p> + +<p>No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali apresentados, e marcámos as alterações, colocando o texto originalmente impresso em comentário como <span class="errata" title="no original: aqui">aqui</span>.</p> +</div> +<p> </p> +<hr class="full"> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 2em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p style="font-size: 3em;">Manhãs de Cascaes</p> + +<p style="font-size: 1.6em;">Edictor</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.6em;">Livraria Ferin</p> + +<p style="font-size: 1.6em;">Lisboa</p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> +<hr> +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em;">Manhãs de Cascaes</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>1893<br> +LIVRARIA FERIN<br> +LISBOA</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p> <span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p> + +<h1>I</h1> + +<h2>O primeiro mosquito</h2> + +<p>Chegou o inimigo.</p> + +<p>Ouvi hontem o seu clarim vibrante resoar sobre a minha cabeça em som de +guerra.</p> + +<p>Era a guarda avançada do grande exercito alado do verão, hunos do ar que +invadem os nossos quartos de cama zombando perfidamente de todas as nossas +precauções e dilacerando-nos a carne com o seu pequenino áspide, agudo como um +punhal.</p> + +<p>—Ah! disse eu. É o primeiro mosquito que chega!</p> + +<p>E estremeci de horror.</p> + +<p>É que se ha animal n'este mundo que me incommode, que seja incompativel +comigo, esse animal é o mosquito,—o pequeno mosquito, um dos mais +sanguinarios inimigos da humanidade.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p> + +<p>Uma vez, em certa praia, um amigo meu mostrou-me o seu quarto, cujas paredes +estavam revestidas de uma estranha pintura,—arabescos de sangue, o sangue +da victima, o sangue d'elle, o desgraçado!</p> + +<p>—Entram os mosquitos, dizia-me o meu pobre amigo, e roubam-me o que eu +tenho menos, roubam-me o sangue. Eu, não podendo repellir a aggressão, porque +essa praga de mosquitos vem aos centos, adoptei a estrategia de os deixar +cevarem-se á vontade. Engordam e agiboiam-se, ficam obesos e inertes. Então sôa +a hora da minha vingança, pego n'um sapato e atiro-me a elles como S. Thiago +aos mouros. Pá! pá! sapatada para a direita, sapatada para a esquerda, aqui se +esborracha um, ali se estampa outro, a parede salpicada de sangue parece um +crivo, um mappa, e é assim que eu, durante um mez, tenho conseguido ornamentar +o meu quarto com esta estranha decoração, arabescos de sangue roubado ás minhas +proprias veias. O que está ali na parede sou eu, depois de ter atravessado pelo +interior de um mosquito. Centenas d'elles me teem sugado, com o meu sangue teem +vitalisado os seus orgãos sonoros, porque cada mosquito traz ás costas uma +fanfarra estrondosa, que nos ensurdece com o tinido dos seus metaes. Tenho +n'aquella parede o meu sangue, e tenho no meu corpo a minha anemia: o traço de +união entre<span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span> aquillo, que é a parede, e isto, +que sou eu, é o mosquito.</p> + +<p>Ha banhista que prefere dormir na praia, sobre um banco de pau, ou mesmo +sobre a areia, a dormir em casa sob a tyrannia dos mosquitos.</p> + +<p>Um sujeito encontrei eu já, que, accordando de madrugada meio devorado pelos +mosquitos, sahiu para o meio da rua,—com o resto do corpo que elles lhe +tinham deixado de fartos.</p> + +<p>Logo que amanheceu e a primeira tenda da praia se abriu, elle correu a +escrever sobre o balcão a seguinte carta ao senhorio, que era um dos pescadores +mais ricos da terra:</p> + +<p> </p> + +<p>«Ill.<sup>mo</sup> sr. José Peixeiro:—Sendo v. s.ª um dos homens mais +considerados d'esta localidade, regedor de facto e barão em perspectiva, muito +me admira que commettesse a burla de arrendar a sua casa a duas familias ao +mesmo tempo. Quando me entregou a chave da porta, fez-me suppôr que não havia +lá dentro mais inquilinos. Com effeito, assim me quiz parecer quando entrei, +porque a unica pessoa, e essa inoffensiva, que encontrei, foi o cavalleiro D. +Fuas Roupinho a pique de despenhar-se do rochedo da Nazareth. É realmente um +quadro muito bonito, que, longe de me incommodar, me deleitaria. Aposentei a +minha familia, a minha<span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span> mulher e os meus +filhos, e eu preferi para meu uso o quarto onde se acha o quadro do <em>Milagre +da Nazareth</em>, porque sou amador, e falla-se mesmo em mim para inspector da +Academia de Bellas Artes. Deitamo-nos. Eis senão quando, outra familia de +inquilinos surge como por encantamento. Primeiro appareceu o pae, depois a mãe, +depois os meninos, depois as meninas, depois os meninos dos meninos, depois as +meninas das meninas, depois os bisnetos, depois os tresnetos, depois os +tetranetos, uma alluvião de individuos, uma phalange, um exercito e, sem +respeito nenhum pelo nosso somno, começaram a conversar em voz alta, o pae com +a mãe, os manos com as manas, os tios com os sobrinhos, os primos com as +primas. Calei-me a vêr no que aquillo parava. Mas não parou. Depois toda essa +magna caterva teve vontade de ceiar, foi á dispensa, foi á cosinha, e como não +encontrasse nada para comer, resolveu comer a minha familia inteira. +Participo-lhe, pois, que estamos comidos,—duas vezes: pelo senhor e por +elles, os outros inquilinos do meu predio. Resolvi portanto mudar de casa para +um banco da praia, que está á sua disposição, se nos quizer dar a honra da sua +visita. Quanto á sua casa, ahi lhe mando as chaves, para que o sr. vá lá dormir +esta noite com a sua familia, a fim de verificar se as minhas informações são +verdadeiras ou não.»<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p>O sr. José Peixeiro respondeu immediatamente:</p> + +<p> </p> + +<p>«Lá irei á noite vêr essa pouca vergonha, e se fôr como diz eu cá estou para +obrar como regedor.»</p> + +<p> </p> + +<p>Então o pobre queixoso julgou dever prestar mais um esclarecimento +importante á digna auctoridade parochial:</p> + +<p> </p> + +<p>«Ill.<sup>mo</sup> sr. José Peixeiro.—Tenho por conveniente informal-o +de que na minha carta anterior faltou um <em>note bene</em>, que vae agora.</p> + +<p>Os inquilinos a que me refiro são os mosquitos.</p> + +<p>Supponho que esta informação ha de aproveitar á sua perspicacia.»</p> + +<p> </p> + +<p>José Peixeiro deu-se pressa em enviar a seguinte replica:</p> + +<p> </p> + +<p>«A minha casa é a melhor da villa, e tem sido sempre habitada por pessoas de +importancia. Eu, no resto do anno, vivo lá. E tanto eu como minha senhora temos +gosado saude; a unica doença que a minha senhora lá tem tido foi um parto. Eu, +nem isso; sou são como um pêro. Mosquitos e moscas em toda a parte os ha; a mim +ainda me incommodam mais as moscas do<span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> que +os mosquitos. O anno passado, o sr. visconde do Pecegueiro veiu a morrer para a +minha casa, e foi-se embora tão bom, que até o meu compadre barbeiro, que tem +pilheria, disse que elle ainda ia capaz de dar pecegos. Mas para não se +incommodar com os mosquitos inventou o systema de dormir de caraça e de luvas. +Faça o senhor outro tanto, e não dê importancia aos trombeteiros.»</p> + +<p> </p> + +<p>Ah! caro leitor, aviso-o para que se acautele, visto que já fui atacado pelo +primeiro mosquito d'este verão: compre caraça e luvas como o visconde do +Pecegueiro.</p> + +<p>Oh! o primeiro mosquito! Que horror!<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span></p> + +<h1>II</h1> + +<h2>A comedia das praias</h2> + +<p>De manhã cedo, na praia, todos parecem ter ainda o olhar vidrado, estupido, +de quem acaba de accordar.</p> + +<p>Olham uns para os outros com certa surpreza spasmodica, achando-se feios.</p> + +<p>Defeitos que durante o dia chegam a passar despercebidos, avultam: foi n'uma +praia que eu descobri que certa dama, aliás formosa, tinha uma orelha maior que +a outra... de manhã!</p> + +<p>Dar-se-ia o caso que, depois de feita a <em>toilette</em>, a orelha mais +pequena crescesse ou a maior diminuisse?</p> + +<p>Certamente que não. Mas diante do espelho, com vagar, um geito dado ao +cabello, artisticamente, encobria o defeito da orelha. O ferro de frisar +salvava a situação: a madeixa, que elle fazia descer, salvava a orelha, que a +natureza fizera subir.<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Em questões de <em>toilette</em>, o meio termo não é admissivel: ou tudo ou +nada. Ou a <em>toilette</em> esplendida ou... a estatua. Eva, depois do peccado +original, faz-nos rir vestida de folhas de figueira. Ora o fato de banho é o +meio termo: a folha de figueira. Para vestir... é pouco; para despir... é +muito.</p> + +<p>Ha porém uma coisa peior do que vestir um fato de banho: é querer +sophismal-o.</p> + +<p>Certas damas, quando chegam á praia, conseguem dar na vista pela perfeição +plastica das suas curvas. Ao entrar na agua, vestidas para o banho, perdem as +curvas. Não perderam; deixaram-n'as na barraca. Este sophisma deploravel revela +a carencia de um bom argumento. Argumento ou augmento. O eufemismo é o mesmo. +Mas só a praia consegue revelar um segredo, de que, quando muito, apenas se +suspeitava...</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Andam pessoas a enganar-nos durante onze mezes em cada anno.</p> + +<p>Suppomol-as polidas, eruditas, francas, estimaveis.</p> + +<p>Em Lisboa, quando as encontravamos na rua,<span class="pn"><a +name="pag_13">{13}</a></span> trocavam comnosco um <em>shake-hand</em>, tinham um dito +amavel ou sentencioso, pareciam-nos cordealmente expansivas.</p> + +<p>Nas praias, á sombra de um <em>chalet</em> ou de uma arvore, durante duas +horas de conversação, desmascaram-se. Dia a dia, podemos fazer o inventario das +suas idéas, dos seus sentimentos, das suas opiniões. E, ao cabo de um mez de +estação balnear, averiguamos que:</p> + +<p>Fulano, que vae á missa em Lisboa, não crê em Deus.</p> + +<p>Sicrano, que tinha fóros de erudito, apenas lê a <em>Revista dos dois +mundos</em>.</p> + +<p>Beltrano, que parecia fallar-nos com o coração nas mãos, não fazia outra +coisa senão metter-nos os pés nas algibeiras.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Em Lisboa, accusa-se o Gremio e a Havaneza de terem má lingua.</p> + +<p>Pobre Havaneza! pobre Gremio! pagam as favas injustamente.</p> + +<p>A maledicencia habitual d'esses dois pontos, de reunião tem apenas um +caracter pessoal. Eu explico. Ordinariamente, falla-se só do sujeito que passou +ou do sujeito que saiu.</p> + +<p>A maledicencia das praias estende-se á geração, chega ao pae, passa ao avô, +alcança ás vezes o bisavó. É retrospectiva. Por exemplo:<span class="pn"><a +name="pag_14">{14}</a></span></p> + +<p>—Quem é aquelle sujeito que vem acolá?</p> + +<p>—Pois não conhece! É fulano.</p> + +<p>—Não conheço.</p> + +<p>—Ha de lembrar-se com certeza do caso da herança do Gutierres. Foi +muito fallado.</p> + +<p>—Lembro-me, sim.</p> + +<p>—Pois este é que falsificou o testamento.</p> + +<p>—Este! E anda vestido de branco,—como as virgens!</p> + +<p>—É de familia...</p> + +<p>—O fato branco?</p> + +<p>—Não. A alma negra. O pae foi negreiro.</p> + +<p>—Já vem mais de traz, isso.</p> + +<p>—Por quê?</p> + +<p>—O avô enriqueceu no tempo dos francezes, dando assalto ás casas dos +visinhos que tinham fugido.</p> + +<p>O sujeito aproxima-se, dois ou tres levantam-se para abraçal-o; mas a esse +tempo, que foi pouco, já lhe está desenterrada a familia até ao avô.</p> + +<p>O vagar faz colhéres, diz o povo. Nas praias, o vagar faz exhumações +tremendas. Não ha bisavô que esteja seguro na sepultura.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Na comedia das praias, as moscas teem um papel importante. Em Lisboa, para +se dar importancia a uma mosca, é preciso que ella haja<span class="pn"><a +name="pag_15">{15}</a></span> sido audaciosa até o ponto de escolher para suicidar-se +o nosso prato de sopa. De resto, em Lisboa, as moscas morrem, mas, nas praias, +as moscas matam. Teem dentes; são carnivoras. Mordem, perseguem, endoidecem a +gente. Desforram-se da ociosidade de um anno inteiro, esperam famintas pelos +banhistas, e, depois de os morder, zumbem e zombam, parecem rir de troça umas +com as outras.</p> + +<p>Só nas praias é que o europeu consegue ser victima das moscas. E fallarmos +nós com horror das moscas de Africa! As moscas saloias são muito peiores!</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Em Lisboa, os criados passam ás vezes um anno inteiro sem partir loiça.</p> + +<p>Mas, chegando ás praias, os seus dedos parecem debeis como vimes. Quebram +hoje um copo, ámanhã um prato, escacam, em quinze dias, metade da loiça do +senhorio.</p> + +<p>Encontrei uma vez, n'uma praia, certa dama, que andava afflictissima de loja +em loja, procurando alguma coisa, que lhe dava grande cuidado.</p> + +<p>—Imagine, disse-me ella, que o meu criado quebrou hontem uma +chavena!</p> + +<p>—É vulgar.<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span></p> + +<p>—Quebrar é vulgar; mas a chavena é que o não era.</p> + +<p>—Como assim?!</p> + +<p>—Quando eu vim, a senhoria disse-me: «Peço a v. ex.ª todo o cuidado +com esta chavena, que era a chavena do papá.»</p> + +<p>—Como o sabre da <em>Grã-duqueza</em>!</p> + +<p>—Isso. Ninguem se servia d'aquella chavena gloriosa, nenhum de nós +tinha ousado mandal-a tirar do guarda-loiça. Mas o meu criado ousou limpal-a +hoje, e quebrou-a. Aqui ando eu agora afflicta á procura de uma chavena, que +possa continuar a ser, na tradição da casa, a <em>chavena do papá</em>!</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Nada ha que me dê tanto a impressão do communismo como um club de praia.</p> + +<p>É de todos, sem pertencer a ninguem.</p> + +<p>Cada um que vem chegando pensa que o club é seu. A primeira cousa de que se +apossa é... o piano. O piano passa a ser, não um instrumento de musica, mas um +escravo. Submisso, paciente, resignado, obedece como um negro, cujos dentes são +muito brancos... Açoutam-n'o com as mãos, e não protesta; dão-lhe pontapés no +pedal, e não se desconjunta. Familias inteiras vão affirmar no teclado os seus +direitos de socio. A mãe toca a <em>Norma</em>, que é uma opera<span class="pn"><a +name="pag_17">{17}</a></span> do seu tempo, a filha perpetra a <em>Carmen</em>; o +filho executa os <em>Fados</em>—com a mão direita.</p> + +<p>O pae agarra-se aos jornaes e parece resolvido a não deixal-os lêr por mais +ninguem.</p> + +<p>As primeiras senhoras que á noite chegam ao club parecem tomar gosto á +grandeza da sala...</p> + +<p>O seu desejo seria talvez que as outras, mais retardatarias, ficassem á +porta a contemplal-as... de longe.</p> + +<p>Mas, como isso não acontece, as que já estão de posse da sala, preparam-se +para o ataque, assestam as suas baterias.</p> + +<p>É o <em>lorgnon</em>...</p> + +<p>É o sorriso sardonico...</p> + +<p>É o ditinho picante...</p> + +<p>Tudo isto entra em fogo ao mesmo tempo.</p> + +<p>Depois, as que acabam de chegar, fazem causa commum com as que já tinham +chegado e, preparadas para o combate, ficam á espera das que hão de chegar +ainda...</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Ha sempre nas praias uma menina que recita.</p> + +<p>De pé, quasi sempre vestida de branco, recita versos azues. Quero dizer, +versos ethereamente<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span> romanticos. Em quanto +ella recita, a mãe põe os olhos no chão. As outras senhoras põem o leque diante +da cara.</p> + +<p>Algumas vezes, a menina engana-se, falta-lhe a memoria. Nem para traz nem +para deante.</p> + +<p>Então lança mão de um recurso supremo: desmaia.</p> + +<p>—Um medico! Não está ahi um medico?</p> + +<p>N'uma praia estão sempre quatro medicos, pelo menos.</p> + +<p>Vem um.</p> + +<p>—Isto não é nada, passa já.</p> + +<p>Mas o irmão mais novo da menina desmaiada foi, a correr, buscar a casa o +<em>Almanach das Senhoras</em>.</p> + +<p>E, reanimada por este auxilio, a menina continua a recitação, ficando o +irmão mais novo mettido atraz do piano,—servindo de ponto á mana.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Tambem ha sempre uma menina que tem album.</p> + +<p>Pede, a torto e a direito, uns versos, um desenho, uma melodia.</p> + +<p>Póde imaginar-se o valor do album dizendo que são os poetas que desenham, +são os pintores que fazem versos, são os que sabem fazer<span class="pn"><a +name="pag_19">{19}</a></span> desenhos ou versos que escrevem a melodia.</p> + +<p>Em conclusão: ninguem quer perder n'um album o melhor do seu talento...<span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span></p> + +<h1>III</h1> + +<h2>N'uma praia solitaria</h2> + +<p>Um amigo meu, que se acha n'uma praia do norte do paiz, certamente das menos +conhecidas e frequentadas, acaba de descrever-me n'uma carta a maneira como +alli tem vivido desde os ultimos dias de julho.</p> + +<p>Quando chegou, apenas encontrou já installado um outro banhista, que desde +logo se constituiu seu companheiro inseparavel, comquanto então se vissem pela +primeira vez.</p> + +<p>O meu amigo é de Lisboa, o outro reside actualmente no Alto Minho. Foi o +acaso que os reuniu pela identidade de destinos, como dois náufragos +desconhecidos que se encontrassem agarrados á mesma tabua de salvação ou +perdidos na mesma ilha deserta.</p> + +<p>Começaram por tirar cerimoniosamente o chapeu um ao outro, mas ao cabo de +duas horas<span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span> de convivencia tratavam-se por +tu,—intimamente.</p> + +<p>A ilha deserta em que se encontraram era a unica loja importante da +praia,—uma loja onde se vende tudo o que uma pessoa póde desejar em +qualquer momento.</p> + +<p>Supponhamos que um Lucullo extraviado chegava alli e pedia champagne.</p> + +<p>Encostando-se ao balcão, perguntaria:</p> + +<p>—Tem champagne?</p> + +<p>—Tenho, sim, senhor.</p> + +<p>E abrindo um armario mysterioso, cheio de retortas, alambiques, garrafas e +garrafões, o dono do estabelecimento demorar-se-ia um instante operando +chimicamente.</p> + +<p>Passada meia hora, quando muito, apresentaria uma garrafa de champagne, +feito talvez de petroleo, talvez de azeite, talvez de vinagre: composição +sua.</p> + +<p>O freguez poderia extranhar que a garrafa não tivesse capsula de chumbo, mas +apenas uma velha rolha porosa.</p> + +<p>O dono do estabelecimento responder-lhe-ia imperturbavelmente:</p> + +<p>—É verdade isso, mas eu preoccupo-me mais com a qualidade dos meus +vinhos do que com a apparencia das garrafas.</p> + +<p>Lucullo, sentado á sua mesa de familia, provaria o champagne, e ficaria por +ahi, a não ser que quizesse envenenar-se.<span class="pn"><a +name="pag_22">{22}</a></span></p> + +<p>Mas, para não ser o unico a cahir no logro, calar-se-ia e, para rir um +pouco, aconselharia a toda a gente que fosse comprar o bello champagne da loja +do <em>Elephante azul</em>.</p> + +<p>Ora é justamente o discreto silencio dos freguezes, que querem ter +companheiros na desgraça (<em>solatium est miseris</em>, etc.), que explica a +grande clientella que tem, principalmente na epocha de banhos, a loja do +<em>Elephante azul</em>.</p> + +<p>Foi, pois, n'essa ilha deserta, deserta antes do mez de setembro, o melhor +n'aquella remota praia, que os dois solitarios banhistas se encontraram, e +principiaram a tratar-se por tu, duas horas depois de se terem visto pela +primeira vez.</p> + +<p>—Mas então, perguntava o meu amigo, não costuma vir mais gente para +aqui?</p> + +<p>—Sim, senhor, respondia o dono do <em>Elephante azul</em>, no mez de +setembro é tanta a concorrencia, que eu costumo vender todo o champagne, toda a +cerveja, toda a genebra que fabrico.</p> + +<p>E o outro, que já lá estava a banhos, observava:</p> + +<p>—Em setembro, será assim. Mas desde o dia 20 de julho, em que cheguei, +até hoje, apenas eu só tenho tido a honra de despertar as attenções dos +pescadores. No primeiro dia olharam para mim com surpreza, e nos dias seguintes +com espanto.<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p> + +<p>—Como assim?!</p> + +<p>—Espanto de que eu, encontrando-me sosinho, continuasse a ficar...</p> + +<p>—Mas agora somos já dois!</p> + +<p>—Agora seremos um, <em>in carne una</em>, porque eu já te não largo, +amigo da minha alma! até que em setembro chegue mais gente. Tu foste a minha +tabua de salvação, ó inesperado e dilecto amigo!</p> + +<p>—O que direi eu então de ti, que me proporcionaste occasião de ter com +quem fallar da crise monetaria e do caso das Trinas! Feliz de mim, que te +encontrei, e de ti que me encontraste! Gloria a Deus nas alturas, e paz na +terra... a dois homens!</p> + +<p>—Imagina, porém, que, por nos exaltarmos em qualquer discussão, +tinhamos de ficar de mal um com o outro?</p> + +<p>—Era o mesmo que romper com toda a humanidade!</p> + +<p>—Mas o que farias tu?</p> + +<p>—Eu?! Eu ficaria de bem comtigo até que, chegando setembro, podesse +encontrar dois padrinhos para te mandar desafiar...</p> + +<p>Começou agosto, e por mais que os dois amigos espreitassem para dentro de +todas as diligencias que se fazem annunciar ao som de estridulas campainhas, +não viam chegar ninguem.</p> + +<p>—Então para que servem as diligencias? perguntava um.<span class="pn"><a +name="pag_24">{24}</a></span></p> + +<p>—Servem para alimentar a tradição de viajar, respondia o outro.</p> + +<p>O dono do <em>Elephante azul</em> dizia do lado:</p> + +<p>—Em setembro vêem cheias de gente. Ás vezes trazem dezeseis pessoas em +oito logares.</p> + +<p>—Mas não seria melhor que essas pessoas viessem a pouco e pouco, cada +uma em seu logar?</p> + +<p>—Não, senhor. Porque então, replicava o dono do <em>Elephante +azul</em>, por muita gente que viesse, não se sentiria tanto.</p> + +<p>Os dois amigos tinham já esgotado todo o reportorio das suas opiniões.</p> + +<p>—O que pensas tu, caro amigo, a respeito do caso das Trinas?</p> + +<p>—Já to disse hontem.</p> + +<p>—E a respeito da crise monetaria?</p> + +<p>—Já t'o disse ante hontem.</p> + +<p>—É verdade! Por signal que te repetiste. Tambem já m'o tinhas dito no +dia em que eu cheguei...</p> + +<p>O que mais os aborrecia era não poderem encontrar um terceiro parceiro para +o voltarete.</p> + +<p>Haviam já perguntado ao dono do <em>Elephante azul</em>:</p> + +<p>—Sabe o voltarete?</p> + +<p>—Não, sr. Sei fazer champagne, sei fazer cognac, sei fabricar cerveja, +só não sei jogar o voltarete!</p> + +<p>—Porque não trata de o aprender?<span class="pn"><a +name="pag_25">{25}</a></span></p> + +<p>—Não vale a pena: não é coisa que se venda.</p> + +<p>No dia 8 de agosto, por volta do meio dia, qual não foi a surpreza dos dois +amigos quando, encostados á porta de <em>Elephante azul</em>, viram chegar uma +carruagem com um passageiro dentro.</p> + +<p>—Eureka! gritou um.</p> + +<p>—Apaga a lanterna de Diogenes! exclamou o outro.</p> + +<p>O passageiro apeiou-se do trem e, sem entrar na loja do <em>Elephante +azul</em>, seguiu para o interior da villa.</p> + +<p>—Vae installar-se, disse um.</p> + +<p>—Vae, e não tarda ahi, á procura dos unicos dois homens que n'este +momento lhe podem ser agradaveis.</p> + +<p>O dono do <em>Elephante azul</em>, tendo vindo á porta examinar o +recem-chegado, observou:</p> + +<p>—Não é cara conhecida. Nunca veiu cá.</p> + +<p>—Podera! Se já conhecesse a praia, não vinha senão em setembro.</p> + +<p>Ficaram os dois conversando, mas o homem não appareceu.</p> + +<p>—Onde se metteria elle?</p> + +<p>—Naturalmente, disse o dono do <em>Elephante azul</em>, anda +procurando casa.</p> + +<p>—Se fosse só isso, já a teria encontrado. É mais provavel que ande +procurando gente...</p> + +<p>Cerca das trez horas da tarde, tornou a apparecer a carruagem, mas vasia.</p> + +<p>O caso ia tendo as proporções de um mysterio.<span class="pn"><a +name="pag_26">{26}</a></span></p> + +<p>—O homem suicidou-se!</p> + +<p>—Qual! Anda perdido nas ruas, e não encontra ninguem para lhe ensinar +o caminho.</p> + +<p>Finalmente, o homem appareceu.</p> + +<p>Entrou no <em>Elephante azul</em> para comprar cigarros.</p> + +<p>Os dois banhistas crivaram-n'o logo de perguntas.</p> + +<p>—V. ex.ª vem para cá?</p> + +<p>—Não, sr.</p> + +<p>Os dois olharam-se com dolorosa surpreza.</p> + +<p>—Então não vem para cá? insistiu não sei qual d'elles.</p> + +<p>—Vim justamente fazer o contrario.</p> + +<p>—Mas... não percebo!</p> + +<p>—Vim dizer que não vinha para cá.</p> + +<p>—Nem mesmo em setembro?</p> + +<p>—Nem mesmo... nunca. Tenho ahi um parente que me esperava, e vim +dizer-lhe que não contasse commigo.</p> + +<p>—Mas isto é muito bonito... em setembro!</p> + +<p>—Será. Eu tenho informações que me levam a pensar o contrario.</p> + +<p>—Pois que! Nem sequer tenta fazer uma experiencia!</p> + +<p>—Não, sr. Um amigo meu veiu uma vez em agosto, e esperou até setembro +que viesse gente. Mas em setembro achou-se ainda mais só, porque morreu de +bexigas o unico banhista que lhe podia fazer companhia.<span class="pn"><a +name="pag_27">{27}</a></span></p> + +<p>—N'esse caso vae-se embora?</p> + +<p>—Vou já, respondeu o sujeito pagando os cigarros.</p> + +<p>Já elle ia a dirigir-se para o trem, quando um dos dois se lembrou de +gritar:</p> + +<p>—Ó sr. Mendonça!</p> + +<p>O sujeito não fez caso.</p> + +<p>—Ó sr. Andrade!</p> + +<p>O sujeito dispunha-se a entrar no trem.</p> + +<p>—Ó sr. Mattos!</p> + +<p>O sujeito voltou-se rapidamente.</p> + +<p>—Ah! já sei que se chama Mattos!... tem a bondade de nos dar uma +palavra?</p> + +<p>O sujeito, que já tinha um pé no estribo, veiu ao encontro dos dois.</p> + +<p>—Sabe o sr. Mattos, disse um, o que nós estamos resolvidos a fazer?</p> + +<p>O meu amigo olhava para o companheiro de desgraça sem poder adivinhar a sua +intenção.</p> + +<p>—Não sei, mas v ex.<sup>as</sup> terão a bondade de dizer.</p> + +<p>—Pois bem, sr. Mattos! Vae sabel-o</p> + +<p>E agarrou-o pelas lapellas do frak.</p> + +<p>—O sr. está preso.</p> + +<p>—Preso?! Porque?!</p> + +<p>Então o meu amigo sentiu-se illuminado. Adivinhou tudo.</p> + +<p>E deitando as mãos aos hombros do homem, gritou por sua vez:</p> + +<p>—Preso... sim, sr.!<span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></p> + +<p>—Mas que crime fiz eu?</p> + +<p>—Não se trata de um crime, nem precisamente de uma prisão.</p> + +<p>—Mas, se não se trata de uma prisão, porque é que me prendem!?</p> + +<p>—Fica apenas detido. Segundo o codigo, é differente.</p> + +<p>—Sómente detido. O codigo estabelece a differença.</p> + +<p>—Preso ou detido! disse o homem. Mas porque? Para que?</p> + +<p>—Detido ou preso... Preso para banhista.</p> + +<p>—Mas eu não quero tomar banhos!</p> + +<p>—Pois não tome, mas fica preso para banhista.</p> + +<p>—Preso não, observou o meu amigo. É bom não confundir as palavras. O +sr. Mattos fica apenas detido até setembro... emquanto não vem mais gente.</p> + +<p>—Mas que proveito tiram d'ahi os srs.?... perguntou o Mattos.</p> + +<p>—O proveito de sermos trez.</p> + +<p>—Trez para tudo: trez para o cavaco, trez para o voltarete, trez para +o banho, trez para o <em>Elephante azul</em>.</p> + +<p>—Mas eu não sei o voltarete!</p> + +<p>—Pouco importa. O que se quer é que o jogue.</p> + +<p>—Para jogal-o é preciso aprendel-o.</p> + +<p>—Isso não é inteiramente verdade... Mas,<span class="pn"><a +name="pag_29">{29}</a></span> dado o caso que seja verdade, até setembro tem o sr. +Mattos muito tempo para aprender a jogar o voltarete.</p> + +<p>O meu amigo termina a carta dizendo:</p> + +<p>—«Cá temos o homem preso, e bem vigiado. Á noite fechamos-lhe a porta, +e levamos a chave para casa. Uma noite, para lhe suavisarmos o captiveiro, +resolvemos perder ao voltarete. E assim é que conseguimos ser trez! Mas, para +vêr se vem mais gente, mandamos dizer nos jornaes do Porto que a praia está +muito animada, e que em setembro serão poucas as casas para os banhistas que se +esperam. Vê lá se dizes isso tambem nos jornaes de Lisboa...»<span class="pn"><a +name="pag_30">{30}</a></span></p> + +<h1>IV</h1> + +<h2>Os frequentadores das praias</h2> + +<p>Escolhamos alguns dos typos que avultam na galeria das praias, para fixarmos +n'elles a nossa attenção por um momento.</p> + +<p><em>O fallador</em>—É o discursador de cada praia, o homem que conta +anecdotas e que sabe da vida alheia. Tem corda para toda a época balnear. +Levanta-se pela manhã a fallar, vai conversar para a praia dos banhos logo que +se levanta, e á noite é o ultimo a sair do club.</p> + +<p>—Meus amigos, diz elle, alli na Arruda aconteceu-me uma vez uma +partida de estalo. Imaginem que um rapaz do meu tempo, vendo-me apeiar da +diligencia, se lembrou de dizer aos da terra que eu era o homem mais rico de +Portugal. D'alli a pouco choviam-me no <em>hotel</em> memoriaes, requerimentos, +bilhetes de visita. Um tal foi propôr-me um negocio que devia render cincoenta +por cento. Outro queria vender-me<span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span> uma +quinta phylloxerada. E um pai de familia pretendia que eu lhe desposasse a +filha... no caso de ser solteiro. Via-me embaraçado com tantos pedidos e +propostas. De modo que tive de escrever para um meu amigo de Lisboa pedindo-lhe +que me dissesse em telegramma; «Falliu Rio Janeiro casa Antunes & C.ª +Paciencia e resignação.»</p> + +<p>Eu li este telegramma na botica da terra, onde me foi entregue, e exclamei +fingindo desmaiar: «Estou arruinado!»</p> + +<p>Acreditaram. Nunca mais ninguem me procurou para saber a resposta que eu +daria aos memoriaes e aos requerimentos.</p> + +<p>D'alli a instantes:</p> + +<p>—Em Maçãs de D. Maria tambem me aconteceu um caso muito ratão. Eu +tinha ido lá para arrematar uma quinta, que devia ir á praça n'esse dia. Mas, +por qualquer motivo, não se realisou a arrematação. Logo souberam, porém, ao +que eu ia. Á noite, armaram um bailarico, e convidaram-me para assistir. Houve +descantes em minha honra. Mas no dia seguinte, realisava-se a festa de um santo +qualquer e vieram dizer-me que eu tinha de pagar a missa e o sermão, porque era +costume da terra que toda a pessoa que alli fosse pela primeira vez, e +recebesse a honra de um bailarico, fizesse á sua custa a festa d'aquelle +santo.</p> + +<p>No club, á noite:<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span></p> + +<p>—Uma vez, na Narazeth, lembramo-nos de ir todos para o club vestidos +com o fato do banho. Imaginem que risota?!</p> + +<p>—Mas as senhoras? O que disseram as senhoras a isso? pergunta alguem, +do lado.</p> + +<p><em>O fallador</em> não se atrapalha:</p> + +<p>—Ah! as senhoras não foram n'essa noite ao club...</p> + +<p><em>O silencioso</em>—Ouve tudo calado, mascando no seu charuto. Não +aventa uma ideia, não arrisca uma opinião. Não quer conhecer ninguem. Os outros +banhistas que se riem do <em>fallador</em>, riem-se igualmente do +<em>silencioso</em>. Ao cabo de vinte dias de praia, o <em>silencioso</em> +aventura-se a proferir uma palavra ou duas. Em vez de levar apenas a mão ao +chapeu, rompe neste excesso de eloquencia: «Muito bons dias» ou «Muito boas +noites». Cinco dias depois, já cumprimenta um ou outro pelo seu nome. E no fim +do mez, quando parecia resolvido a fallar, vae-se embora!</p> + +<p>Uma vez, n'uma praia, appareceu um <em>silencioso</em> d'estes. Havia um +<em>fallador</em>, que embirrava muito com elle. Era natural.</p> + +<p>—Eu hei de obrigar a fallar este diabo...</p> + +<p>Fazia-lhe uma pergunta, e o homem contentava-se com encolher os hombros.</p> + +<p>—Não importa! Eu hei de obrigar a fallar este diabo... dizia o +<em>fallador</em> assim que o <em>silencioso</em> voltava costas.<span class="pn"><a +name="pag_33">{33}</a></span></p> + +<p>—O cavalheiro toma banhos?</p> + +<p>O <em>silencioso</em> meneiava affirmativamente ou negativamente a +cabeça.</p> + +<p>Desesperado, o <em>fallador</em>, estando certo dia a contar uma das suas +muitas historias, fingiu-se distraido, e pisou o outro.</p> + +<p>—Que bruto! exclamou o <em>silencioso</em>.</p> + +<p>—Mas... fallou! gritou cheio de jubilo o <em>fallador</em>.</p> + +<p>O <em>generoso</em>—Vá, rapazes, lembrem-se vocês d'alguma festa, e +contem commigo. Póde-se tirar partido de tanta coisa! Querem um arraial? Eu dou +o fogo de vistas. Querem uma reg ata? Eu dou os premios. Querem uma burricada? +Eu dou os burros.</p> + +<p>—Não os ha, diz alguem, do lado.</p> + +<p>—Qual não ha! Tudo são difficuldades! Já não ha rapazes!...</p> + +<p>—O que não ha são burros.</p> + +<p>—Burros! ha sim, sr. Eu encarrego-me de os mandar vir pelo caminho de +ferro ou, se tanto fôr preciso, pelo telegrapho. Onde ha dinheiro, ha tudo.</p> + +<p>O <em>sovina</em>—Andam ahi a fazer uma subscripção? Tem graça! Quem +encommendou o sermão, que o pague. Eu nunca na minha vida dei dez réis para +divertir os outros. Pelo contrario, o que eu quero é que os outros me divirtam +a mim. Agora uma <em>soirée</em>! Não vou a parte nenhuma para tomar chá. +Tomo-o em minha casa<span class="pn"><a name="pag_34">{34}</a></span> quando quero. De mais +a mais uma <em>soirée</em> com bolos saloios, que quebram os dentes á gente! E +chá de herva cidreira ainda por cima! No chá não se admitte meio termo: ou bom +ou nada. Eu não gosto senão do Hyson. E depois dá cá dez tostões! Ora que tal +está a maroteira! Queriam dançar? Dançassem a sêcco. Quanto mais leve se está, +melhor se dança!</p> + +<p>O <em>pai extremoso</em>—É a primeira vez que o cavalheiro vem a esta +praia?</p> + +<p>—Sim, sr.; é a primeira vez.</p> + +<p>—Então hade conhecer poucas senhoras?</p> + +<p>—Muito poucas.</p> + +<p>—É uma contrariedade para quem gosta de dançar. O cavalheiro dança?</p> + +<p>—Gosto muito.</p> + +<p>—Pois bem, esta noite queira procurar-me no club, que eu o +apresentarei a tres ou quatro senhoras.</p> + +<p>—Oh! mil vezes obrigado.</p> + +<p>—Se me não custa nada!</p> + +<p>Á noite, no club, o <em>pai extremoso</em> procede ás promettidas +apresentações.</p> + +<p>—Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Engracia.</p> + +<p>E passando em claro apenas uma cadeira:</p> + +<p>—Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Cecilia.</p> + +<p>E duas cadeiras mais adeante:<span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p> + +<p>—Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Conceição.</p> + +<p>Depois, filando o apresentado pela lapella do frack:</p> + +<p>—Agora já o cavalheiro tem muito com quem dançar. Para o caso, porém, +de querer variar um pouco, apresento-lhe ainda a minha Mimi, que tem apenas +nove annos, mas que gosta muito de dançar. Aprendeu com o Justino Soares, e +elle disse-me quando viemos para cá: «Esta menina ha de vir a dançar ainda +melhor que as irmãs!»</p> + +<p>O <em>pai indiferente</em>.—Passo.</p> + +<p>O filho mais novo, chegando-se ao pé da mesa do voltarete:</p> + +<p>—Manda dizer a mamã se faz favor de ir á sala para arranjar um par +para a mana. Ella ainda não dançou.</p> + +<p>—Diz á mamã que vou já.</p> + +<p>D'ahi a pouco volta o pequeno:</p> + +<p>—Faz favor de lá ir, que se vai dançar uma quadrilha.</p> + +<p>—Peço licença.</p> + +<p>—Que diz o papá?</p> + +<p>—Que já lá vou.</p> + +<p>—Então eu espero pelo papá.</p> + +<p>—Isto não tem discussão possivel: cinco matadores.</p> + +<p>—Venha d'ahi, papá.</p> + +<p>—Dois de licença, cinco de matadores, dois de cinco primeiras: nove.<span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span></p> + +<p>—Olhe, papá, já começou a quadrilha!</p> + +<p>—Quando se dançar outra, vem chamar-me.</p> + +<p>O <em>commodista</em>—Meninas, olhem que já são dez horas.</p> + +<p>—Ámanhã é dia santo, papá.</p> + +<p>—Ó Jeremias! deixa dançar as pequenas mais um bocado...</p> + +<p>—Perde-se todo o effeito dos banhos com estas noitadas!</p> + +<p>—É só mais um bocado...</p> + +<p>—Nada! nada! já estou com muito somno.</p> + +<p>—Vê se o espalhas.</p> + +<p>—A Rosa já deve ter feito o chá.</p> + +<p>—És massador!</p> + +<p>—Ai que deixei a janella do quarto aberta, e entram os mosquitos! +Vamos lá depressa...</p> + +<p>O <em>sucio</em>—Eu cá sou de feição. Não gostei nunca de desmanchar +prazeres. Podem dançar á vontade, que eu vou vêr jogar.</p> + +<p>E vae para a rua conversar com as raparigas do povo, que espreitam á porta +do club.</p> + +<p>Uma hora depois, volta á sala.</p> + +<p>—Então, ainda querem dançar mais?</p> + +<p>—Só mais uma valsa.</p> + +<p>—Pois sim! Eu cá não quero ser desmancha-prazeres. Vou lêr os jornaes, +que remedio!</p> + +<p>E torna para a porta do club a conversar com as raparigas do povo.</p> + +<p>—Ó Melôa, já te vaes embora?<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></p> + +<p>—Já, sim, sr., e não tenho medo dos ladrões.</p> + +<p>—Pois fazes mal. Espera ahi, que eu acompanho-te. Sempre é bom +acautelar...</p> + +<p>O <em>indigena da praia</em>—Quem diabo serão os patuscos, que andam a +tocar trompa a esta hora?! Estava no melhor do meu somno! Corja de patifes!</p> + +<p><em>Os da trompa</em>—Sopra-lhe ahi com força para accordares o +Diamantino, que me vendeu um fato de banho por mais seis tostões. Patife!<span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span></p> + +<h1>V</h1> + +<h2>Casos...</h2> + +<p>Conta-se a anecdota de certo prelado de uma diocese do Alemtejo, homem de +lettras afamado, que viveu no tempo do marquez de Pombal e que, em estando +entregue aos seus trabalhos litterarios, de nada mais queria saber.</p> + +<p>Um anno, pelo tempo das boas-festas, estava o bispo sentado á banca, no seu +vasto escriptorio—um salão do paço episcopal—quando um diocesano +entrou para cumprimental-o.</p> + +<p>O prelado não deu tento da entrada do homem, tanto era o interesse que lhe +merecia o assumpto de que estava tratando.</p> + +<p>—Sr. bispo! apostrophou timidamente o recem-chegado.</p> + +<p>O bispo não ouviu.</p> + +<p>—Sr. bispo! tornou a exclamar o visitante.</p> + +<p>Nada! O bispo não ouvia.<span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span></p> + +<p>Então, muito compromettido, o visitante resolveu-se a empurrar uma cadeira +para fazer barulho.</p> + +<p>O bispo voltou de subito a cabeça. Viu-o, e perguntou:</p> + +<p>—O que é que quer?</p> + +<p>—Eu vinha visitar v. ex.ª</p> + +<p>E o bispo, continuando a escrever, respondeu:</p> + +<p>—Pois visite, visite.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>O curso do quinto anno de direito estava simulando audiencias, como é +costume, fazendo um estudante de juiz, outro de escrivão do processo, outro de +official de diligencias, etc.</p> + +<p>Constituiu-se o tribunal, e o professor da cadeira disse ao estudante que +representava de juiz:</p> + +<p>—Ha sussurro na sala. O que faz o sr. juiz?</p> + +<p>—Toco a campainha, e recommendo silencio ao auditorio.</p> + +<p>Mas o professor insistiu:</p> + +<p>—Continua o sussurro. O que faz o sr. juiz?</p> + +<p>—Torno a tocar a campainha, e de novo recommendo silencio.</p> + +<p>—Mas supponha que não basta isso. O sussurro continua.<span class="pn"><a +name="pag_40">{40}</a></span></p> + +<p>—N'esse caso, direi: Official, tome nota das pessoas que estão fazendo +sussurro, para serem autuadas.</p> + +<p>—Mas o sussurro redobra.</p> + +<p>E o estudante, já muito atarantado, exclama:</p> + +<p>—Redobra!</p> + +<p>—Sim, senhor,—o sussurro redobra.</p> + +<p>O estudante pensa um momento...</p> + +<p>—Então, insiste o professor, o que fazia o sr. juiz?</p> + +<p>—Eu? Eu fazia isto: punha o chapeu na cabeça e dizia: Está levantada a +sessão.</p> + +<p>Riu o professor, riu todo o curso, e o estudante salvou-se da entalação +d'aquelle dia,—por ter tido uma idéa e um chapeu.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Havia um grande capitalista, que, por ter um sobrinho muito extravagante, já +lhe não queria dar vintem.</p> + +<p>Um dia appareceu-lhe o sobrinho annunciando que ia partir para os Estados +Unidos, onde poderia vender melhor do que em Portugal, dizia elle, o segredo de +uma invenção maravilhosa.</p> + +<p>O tio, picado de curiosidade, quiz saber no que consistia a maravilhosa +invenção. Recusa do sobrinho. Insistencia do tio. Finalmente, o<span class="pn"><a +name="pag_41">{41}</a></span> sobrinho revelou o seu segredo: tinha descoberto o +processo de fazer oiro. O tio, tão rico como ambicioso, resolve comprar-lhe o +segredo por seis contos de réis. O sobrinho, simulando alguma difficuldade, +acaba por vender-lhe a receita, que o tio paga immediatamente. Concluida a +transacção, despedem-se, mas, já no fundo da escada, diz o sobrinho ao tio:</p> + +<p>—Ah! esquecia-me uma coisa, meu tio. Para que a receita dê resultado +satisfatorio, é preciso que o tio, quando quizer fazer oiro, não se lembre do +<em>elephante branco</em>.</p> + +<p>E saiu com o dinheiro na algibeira.</p> + +<p>O tio tratou de montar o seu laboratorio, e de realisar a receita. Mas, por +mais que quizesse affastar do seu espirito a idéa do <em>elephante branco</em>, +essa terrivel idéa acudia-lhe sempre, pelo que jámais conseguiu tirar da compra +que fizera o resultado que esperava...</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Não sei quando, nem mesmo onde, existiam dois esposos, que se +enriqueceram... de filhos. A boa fortuna parecia apostada em querer que elles +esgotassem todos os nomes do <em>Flos sanctorum</em>.</p> + +<p>Começaram pelos vulgares. Os primeiros filhos chamaram-se Manuel, Joaquim, +Antonio, João. Depois passaram a escolher nomes romanticos:<span class="pn"><a +name="pag_42">{42}</a></span> Arthur, Laura, Beatriz, Egberto. Por ultimo, tiveram que +lançar mão dos nomes mais esquisitos e arrevesados: Cunegundes, Tecla, Mafalda, +Thimoteo.</p> + +<p>Um dia, quando já era difficil saber a conta de todos os filhos, e +acertar-lhes de prompto com os nomes, saiu o pae a passeio e, longe de casa, +encontrou na rua uma creança que chorava, escondendo o rosto entre as mãos.</p> + +<p>Apiedou-se, dirigiu-se á creança, levantou-lhe a cabeça, achou que tinha uns +olhos bonitos, e disse-lhe:</p> + +<p>—O que fazes tu por aqui, meu menino!</p> + +<p>—Ando perdido.</p> + +<p>—Pobre creança! Sabes quem é a tua familia?</p> + +<p>—Não estou bem certo d'isso, meu sr.</p> + +<p>—Tens fome?</p> + +<p>—Muita, muita.</p> + +<p>—E frio?</p> + +<p>—Muito frio...</p> + +<p>—Está bem, anda d'ahi comigo.</p> + +<p>Onde ia elle levar a creança? Ora! onde é que o negociante feliz vai +depositar os seus lucros? No Banco. Pois o Banco onde esse feliz casado +enthesourava todos os lucros da sua prosperidade conjugal era... a sua propria +casa,—o seu lar.</p> + +<p>Chega elle, muito contente, com a creança pela mão.<span class="pn"><a +name="pag_43">{43}</a></span></p> + +<p>—Querida mulher! disse ao entrar em casa. Trago-te mais uma +creança...</p> + +<p>—Outra?!</p> + +<p>—Sim, filha, tu és bondosa, compassiva, has de comprehender o impulso +do meu coração.</p> + +<p>—O que queres dizer?</p> + +<p>—Quero dizer que encontrei na rua, abandonada, esta pobre creança, que +não sabe ao certo quem são os seus pais e onde moram.</p> + +<p>E o pequeno, escondendo o rosto choroso entre as mãos, arquejava, +soluçava...</p> + +<p>—Vendo-o, pensei commigo mesmo: Onde cabem vinte, podem caber vinte e +um. Eis aqui está o que eu pensei, e trouxe-o commigo.</p> + +<p>—Que Deus nos ajude, homem! mas já estávamos tão sobrecarregados!</p> + +<p>—Quando tinhamos apenas seis filhos já diziamos isso mesmo! E comtudo +tem havido logar para todos, nenhum d'elles ainda morreu de fome.</p> + +<p>—Pois bem! fique o pequeno.</p> + +<p>A creança conservava-se ao canto da casa, soluçando, arquejando.</p> + +<p>—Disseste que era bonito o pequeno?</p> + +<p>—Olha para elle, e verás os lindos olhos que tem!</p> + +<p>—Levanta a cabeça, meu menino.</p> + +<p>A creança não se mexia. Arquejava, soluçava.</p> + +<p>Então foi preciso levantar-lhe a cabeça quasi á força.<span class="pn"><a +name="pag_44">{44}</a></span></p> + +<p>—Ora esta! exclama a dona da casa.</p> + +<p>—O que é?! pergunta o marido.</p> + +<p>—É o nosso Augusto!</p> + +<p>Eram tantos, que já nem o pai os conhecia!</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Sabem o que é muito difficil no carnaval?</p> + +<p>É encontrar um companheiro que nos não incommode e que nos não contrarie.</p> + +<p>Ah! isso é que é muito difficil!</p> + +<p>Eu apenas conheço um caso em que certo amigo meu poude encontrar o melhor +dos companheiros para um baile de mascaras.</p> + +<p>Esse companheiro era um general, que parecia excellentemente disposto: alto, +forte, com um bello bigode branco, e algum brilho ainda nos olhos.</p> + +<p>O meu amigo convidou-o para irem a um baile de mascaras. Acceitou logo. +Foram.</p> + +<p>Uma vez no baile de mascaras, o meu amigo sentou-se junto a duas mulheres +mascaradas. O general tambem. O meu amigo fallava-lhes. Ellas respondiam. Só o +general estava calado, parecendo comtudo excellentemente disposto.</p> + +<p>Convidou-as o meu amigo para irem ceiar todos juntos. O general não oppôz a +menor resistencia.</p> + +<p>—Pois sim! vamos lá ceiar, disse elle.<span class="pn"><a +name="pag_45">{45}</a></span></p> + +<p>Foram ceiar.</p> + +<p>As mulheres tiraram a mascara. O meu amigo disse a uma das mulheres que +gostava muito d'ella, o general não disse nada á outra.</p> + +<p>Comeram. O general comeu tambem. No fim da ceia, queimaram todos quatro as +suas cigarrilhas. O general parecia excellentemente disposto. Desabotoou o +collete, repotreou-se na cadeira, accendeu segunda cigarrilha.</p> + +<p>Veiu a conta. O meu amigo quiz pagar toda a despeza; o general não +consentiu, quiz pagar tambem a sua parte.</p> + +<p>Sairam.</p> + +<p>O meu amigo, voltando-se para o general, disse-lhe:</p> + +<p>—E agora?</p> + +<p>O general, parecendo sempre muito bem disposto, inclinou-se ao ouvido do meu +amigo, e disse-lhe:</p> + +<p>—Olhe, meu caro, eu já não tenho condição nenhuma para gostar de um +baile de mascaras.</p> + +<p>E o meu amigo, sem se desconcertar, sem se surprehender, offereceu o braço +direito a uma das mulheres, o braço esquerdo á outra, e disse ao general, que +continuava a parecer muito bem disposto:</p> + +<p>—Boa noite, general.<span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Certo estudante, tendo faltado ás aulas, apresentou uma certidão de doença, +falsa.</p> + +<p>O medico que a passára era uzeiro e vezeiro em justificar a cabula dos +estudantes, que lhe pagavam a justificação.</p> + +<p>Do alto da cathedra, o professor, tendo relanceado os olhos á assignatura da +certidão, perguntou:</p> + +<p>—Ó sr. Fulano! se estivesse doente chamava este medico para o +tratar?</p> + +<p>O estudante respondeu com promptidão e firmeza:</p> + +<p>—Não, senhor.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Tinha Antonio Feliciano de Castilho ido ao Rio de Janeiro, e fôra recebido +em audiencia particular pelo imperador D. Pedro II.</p> + +<p>A conversação versou, como era natural, sobre assumptos litterarios.</p> + +<p>Castilho havia sido prevenido de que o imperador, por amor á discussão com +homens notaveis, gostava de que elles o contrariassem nas suas opiniões.</p> + +<p>Assim avisado, se o imperador dizia que tal<span class="pn"><a +name="pag_47">{47}</a></span> objecto era branco, Castilho sustentava que esse mesmo +objecto era preto.</p> + +<p>O sr. D. Pedro II estava delirante de alegria, e propositadamente prolongava +a conversação.</p> + +<p>Veiu a ponto fallarem de versos alexandrinos.</p> + +<p>O imperador declarou que não gostava do verso alexandrino, de que, como se +sabe, Castilho era enthusiasta.</p> + +<p>—Ser-me-ha licito, disse Castilho, perguntar a vossa magestade os +fundamentos da sua opinião?</p> + +<p>—Acho o alexandrino—replicou D. Pedro II, um metro inutil, por +isso que é composto de dois versos de seis syllabas. Digam francamente que +fazem versos de seis syllabas, e escusam de baptisar cada parelha de seis +syllabas com o pomposo nome de alexandrinos.</p> + +<p>Castilho replicou:</p> + +<p>—O que faz vossa magestade quando tem sêde?</p> + +<p>O imperador sorriu-se, e respondeu:</p> + +<p>—Bebo agua.</p> + +<p>—Ora muito bem! tornou Castilho, mas se vossa magestade beber agua por +dois copinhos, não fica tão satisfeito como tendo-a bebido de um só trago por +um copasio enorme.<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Um homem que se dava excellentemente com a mulher, e que tinha trez filhas +muito bonitas e trez filhos muito espertos, não podia soffrer a +sogra,—como quasi sempre acontece.</p> + +<p>Um dia, ella adoeceu gravemente, muito gravemente. Foi preciso chamar o +medico que, depois de lhe vêr a lingua e tomar o pulso, torceu o nariz.</p> + +<p>—Isto não está bom! disse o medico.</p> + +<p>—O que se ha de fazer então?</p> + +<p>—Deitar-lhe bichas, já, immediatamente.</p> + +<p>Mandou-se, sem perda de tempo, buscar as bichas, muitas bichas.</p> + +<p>O bom do genro assistiu á chegada das bichas, viu-as deitar, chegou mesmo a +perguntar se ellas tinham feito bem o seu dever: morder na sogra.</p> + +<p>Á noite, no club, dizia elle:</p> + +<p>—Assisti hoje a um combate de feras.</p> + +<p>—Como assim?!</p> + +<p>—Vi deitar duas duzias de bichas em minha sogra...</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Certo professor de medicina perguntava a um estudante:<span class="pn"><a +name="pag_49">{49}</a></span></p> + +<p>—Por que é que no tratamento das feridas se emprega o panno de linho +velho?</p> + +<p>O estudante procurou qualquer razão, e disse-a.</p> + +<p>—Não, sr., replicou o cathedratico.</p> + +<p>O estudante tratou de procurar outra razão.</p> + +<p>Observação do professor:</p> + +<p>—Tambem não.</p> + +<p>O estudante dá ainda tratos á cabeça para descobrir uma terceira razão.</p> + +<p>Então o professor resolve-se a fazer luz no assumpto:</p> + +<p>—Por duas razões, e nenhuma d'ellas o sr. foi capaz de descobrir! 1.ª +Porque o panno de linho velho é mais barato. 2.ª Porque o panno de linho novo é +mais caro.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Eu estava uma vez no escriptorio de um advogado meu amigo, homem de lettras, +jornalista principalmente, que me pedira que esperasse emquanto elle acabava de +escrever um artigo de fundo.</p> + +<p>A penna rangia vertiginosamente sobre o papel.</p> + +<p>Eis senão quando entra um saloio.</p> + +<p>—Que é? perguntou o advogado escrevendo sempre.<span class="pn"><a +name="pag_50">{50}</a></span></p> + +<p>O saloio respondeu:</p> + +<p>—Vinha consultar v. ex.ª sobre uma pequena questão.</p> + +<p>—Vá dizendo.</p> + +<p>O saloio olhou para o advogado, olhou para mim e olhou para um espelho que +havia no escriptorio. Estava embaraçado, duvidoso de expôr o seu assumpto sem +que o advogado se prestasse a dar-lhe toda a attenção.</p> + +<p>—Vá dizendo, repetiu o advogado.</p> + +<p>—Sr. dr.: Ha na minha terra uma mulher de má lingua, que traz todo o +logar embrulhado. Por causa d'ella lavram inimisades de familia, questões entre +casados, o diabo! Mas de cara a cara ella não se mette com ninguem; é só por +traz da cortina. Veiu para lá ha tres annos, comprou uma casita, e trabalha de +tecedeira. Mas o que ella tece melhor são intrigas. Por sua causa estou de mal +com meu sogro e com meu cunhado. Eu e outros mais da freguezia queremos pôl-a +fóra do logar, mas não sabemos a quem havemos de requerer...</p> + +<p>E calou-se. O advogado continuava escrevendo.</p> + +<p>—Não sabemos a quem havemos de requerer... repetiu o saloio.</p> + +<p>O advogado não respondeu.</p> + +<p>—Sr. dr., perguntou o saloio, a quem havemos nós de requerer?</p> + +<p>O advogado nem palavra.<span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span></p> + +<p>Mas o saloio não desistiu. Aproximou-se da banca, e tornou a perguntar +curvando-se até quasi juntar a sua cabeça com a do advogado:</p> + +<p>—A quem havemos nós de requerer, sr. dr.?</p> + +<p>—A D. Miguel, respondeu o advogado continuando sempre a escrever.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Quem conhecia bem a formiga era um certo lavrador do Alemtejo, cujo celleiro +as formigas tinham invadido como praga damninha.</p> + +<p>Elle consultou todos os chimicos afamados para que lhe vendessem um +ingrediente que as matasse.</p> + +<p>A droga que lhe receitou o boticario da sua terra, não deu resultado. Veiu +de proposito a Lisboa, conversou sobre o assumpto com os mais conspicuos +pharmaceuticos da capital.</p> + +<p>—Faça isto.</p> + +<p>—Faça aquillo.</p> + +<p>—Faça aquell'outro.</p> + +<p>Nada deu resultado. Um dia, na charneca, aconselhou-se com um pastor. +Obrigados, pela solidão em que vivem, á observação da natureza e á philosophia +da experiencia, os pastores da charneca têem ás vezes phrases conceituosas, +alvitres sapientissimos.</p> + +<p>O pastor deu-lhe um conselho, que valia mais do que as drogas dos +pharmaceuticos.<span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span></p> + +<p>Chegado a casa, o lavrador pegou n'uma tira de papel, escreveu n'ella +algumas palavras, e foi pregal-a na porta do celleiro.</p> + +<p>Legiões de formigas avançavam, pelo veso, em demanda das tulhas. Mas logo +que avistavam a porta, e liam o lettreiro, retrocediam como que embuchadas.</p> + +<p>No dia seguinte, a mesma coisa. O pastor tinha aconselhado um remedio +excellente.</p> + +<p>O que escreveu o lavrador no papel? Esta simples phrase:</p> + +<p>«<em>De hoje em deante, toda a formiga que entrar no meu celleiro ha de +pagar dez réis—por cabeça.</em>»</p> + +<p>Ora como as formigas são essencialmente avarentas, chegavam á porta do +celleiro, liam o papel, e desandavam para a toca, não sabendo ao certo se o +lavrador gracejaria ou fallaria verdade.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Um moço de fretes costumava ir confessar-se todos os annos, mas fazia a sua +chorata ao prior para não ter que pagar a <em>desarrisca</em>. De uma vez, +porque lhe parecesse que o prior se aborrecia com a choradeira, que era +fingida, andou a procurar entre os seus patacos um que tinha peor cara e que +por isso mesmo era mais duvidoso.<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p> + +<p>Foi confessar-se, muito contricto, com o pataco falso na algibeira. Antes de +receber Nosso Pae, pensando sempre em Deus e no pataco, dirigiu-se para a +sachristia.</p> + +<p>—Sr. prior, disse elle, eu tenho abusado muito da bondade de v. s.ª</p> + +<p>—Nem por isso, Ramon...</p> + +<p>—Tenho, tenho, sr. prior, mas este anno não ha de ser assim.</p> + +<p>E, dizendo, tirava vagarosamente da algibeira do collete o que quer que +fosse.</p> + +<p>—Este anno, continuou, quero pagar a <em>desarrisca</em>. Se o sr. +prior estiver pelos autos, ficará o costume de eu pagar de dois em dois +annos.</p> + +<p>—Pois seja como quizeres.</p> + +<p>E o moço de fretes, tirando o pataco da algibeira, pôl-o a um canto da mesa +em que o prior estava escrevendo no livro.</p> + +<p>—É poucochinho, sr. prior, mas os annos vão muito bicudos...</p> + +<p>—Não fallemos mais n'isso.</p> + +<p>—Sempre chega para o rapé. Este pataquinho é para o rapé do sr. +prior.</p> + +<p>—Pois seja.</p> + +<p>E o prior, voltando-se para o menino do côro, que estava perto, disse-lhe +imperativamente:</p> + +<p>—Ó Zé Maria, vae-me ali defronte comprar um pataco de meio grosso.</p> + +<p>O Zé Maria sahiu, a correr, e o moço de fretes,<span class="pn"><a +name="pag_54">{54}</a></span> sempre muito contricto, foi ajoelhar-se á mesa da +communhão, esperando pelo prior.</p> + +<p>Um instante depois, o menino do côro entrava na sachristia com o rapé e com +o pataco.</p> + +<p>—Sr. prior, disse elle, não quizeram receber o pataco.</p> + +<p>—Por quê?</p> + +<p>—Porque é falso como Judas. Mas obrigaram-me a trazer o rapé por ser +para o sr. prior.</p> + +<p>—Deixa lá vêr o pataco.</p> + +<p>O prior pegou no dinheiro, levou-o á altura dos olhos, e riu-se. +Levantou-se, preparou-se para ir dar a communhão.</p> + +<p>Chegando á egreja, descobriu o moço de fretes, que estava já com o queixo +muito embrulhado na toalha de rendas.</p> + +<p>O prior foi distribuindo as sagradas particulas, mas quando chegou ao +gallego, introduziu-lhe o pataco na bocca,—delicadamente.</p> + +<p>Habituado a grandes pesos, o penitente nem sequer se admirou de que fosse +tão pesada aquella estranha particula.</p> + +<p>Mas quando quiz engulil-a, é que foram ellas!</p> + +<p>E o prior, de pé, grave e solemne, esperava.</p> + +<p>Bem voltas dava á lingua o gallego, mas não havia meio de engulir o +pataco.</p> + +<p>Até que, com alguma difficuldade, se resolveu a dizer:</p> + +<p>—Não passa, sr. prior!<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p> + +<p>E o prior, sempre muito grave e solemne respondeu-lhe:</p> + +<p>—Não passa, não. Já mandei comprar rapé, e não o quizeram acceitar.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>—Por que é, perguntava um professor de agricultura, que as sementes +precisam ser enterradas na terra?</p> + +<p>—Por isto... dizia um estudante.</p> + +<p>—Por aquillo... respondia outro.</p> + +<p>O professor zangou-se:</p> + +<p>—Não, sr.! É preciso enterrar as sementes para os passaros as não +comerem.<span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span></p> + +<h1>VI</h1> + +<h2>Á volta dos pés da imperatriz</h2> + +<p>Referiram ha tempos os jornaes que se tinha levantado na côrte de Berlim uma +grave questão de etiqueta,—grave como todas as questões d'este genero, +incluindo a do <em>Hyssope</em>.</p> + +<p>A actual imperatriz, que prima por uma extrema simplicidade de vestidos e +maneiras, pedira ao imperador seu marido que dispensasse, nas grandes +solemnidades do palacio, os vestidos roçagantes, as longas <em>traines</em> +cadentes.</p> + +<p>A condessa Waldersee, que tem auctoridade em questões de etiqueta, reforçou +com a sua opinião o pedido da imperatriz.</p> + +<p>Mas Guilherme II não annuiu, e as extensas caudas de setim e velludo +continuarão a arrastar-se, sobre os tapetes da côrte allemã, longamente, +apparatosamente...</p> + +<p>Á bocca pequena dizia-se em Berlim que no pedido da imperatriz havia o que +quer que fosse de vaidade feminina, porque, tendo uns pés<span class="pn"><a +name="pag_57">{57}</a></span> pequenissimos, não desejava que lh'os empanasse o +vestido.</p> + +<p>O imperador, conhecendo a intenção reservada da imperatriz, +entrincheirára-se na recusa, porque, não obstante as suas aventuras d'amor, +Guilherme II, como todo o marido que se prese, entende que deve ser elle o +unico a ter o direito de admirar as perfeições plasticas de sua mulher.</p> + +<p>Pelo que respeita aos pés femininos, dividem-se as opiniões. Os leitores +sabem-n'o tão bem como eu.</p> + +<p>Entendem uns que os pés da mulher são tão pouco para admirar como a haste de +uma rosa. Todas as attenções se fixam na belleza da corolla, no colorido das +petalas. É a rosa fresca e bella? É isso o que se quer. Tenha a mulher as +graças do semblante, que os pés, que ficam lá muito para baixo, escapam á +vista, sejam grandes ou pequenos.</p> + +<p>Outros porém, e estes são decerto em maior numero, adoram os pés +caprichosamente pequeninos, miniaturados a buril como por um gravador que +houvesse cegado depois de os ter feito...</p> + +<p>Os que são d'este parecer defendem-se com a tradição da estatuaria classica, +com as lendas graciosas da bella plastica antiga, em que a mulher, não raras +vezes, apparece divinisada pela pequenez do pé.<span class="pn"><a +name="pag_58">{58}</a></span></p> + +<p>Recordam a historia da <em>Cendrillon</em>, a nossa <em>Gata +borralheira</em>, que perdeu o chapim pelo qual um principe galante a mandára +procurar até que, encontrando-a, só descansou quando poude desposal-a.</p> + +<p>Citam a tradição da formosa Rhodopis a quem, estando ella no banho, uma +aguia empolgou uma das sandalias, que deixou cahir no terraço do palacio real +de Memphis, onde o rei, apanhando-a, tratou de descobrir, desde essa hora, o +pequenino pé de que pela sandalia ficára enamorado.</p> + +<p>É, no fundo, a mesma lenda, talvez um symbolismo mythico transformado em +anecdota historica, como julga Husson.</p> + +<p>Lembram ainda em seu abono o instincto artistico da poesia popular, que +sempre celebrou as mulheres de pés pequenos. E adduzem exemplos:</p> + +<blockquote> + <p>Tendes o pé pequenino,<br> + Do tamanho d'um vintem:<br> + Podia calçar de prata<br> + Quem tão pequeno pé tem.</p> +</blockquote> + +<p>A verdade é que o arsenal de defesa dos que assim pensam está copiosamente +abastecido de citações e referencias, a que esses taes poderão recorrer para +seu triumpho.</p> + +<p>Na écloga segunda de Bernardim Ribeiro,—de que os seus biographos +tanto se têem servido para dilucidar a mysteriosa vida do poeta—é<span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span> tambem pelo pé de Joanna que o pastor Jano se +deixa fascinar amorosamente.</p> + +<p>Jano anda guardando o seu rebanho quando vê aproximar-se Joanna que, vestida +de branco, se entretém colhendo flôres. Elle occulta-se espreitando-a. Colhidas +as flôres,</p> + +<blockquote> + <p>Joanna, as abas erguidas,<br> + Entrar pela agua ordenou;<br> + E assentando-se, então<br> + As çapatas descalçou,<br> + E, pondo-as sobre o chão.<br> + Por dentro d'agua entrou,<br> + E a Jano pelo coração.</p> +</blockquote> + +<p>Ah! que é preciso uma pessoa ser cega de enthusiasmo pelo bucolismo, pela +infancia poetica da alma portugueza, tão simples, tão sincera e ao mesmo passo +tão docil, para não morrer de apoplexia fulminante ao soar-lhe nos ouvidos este +plebeu vocabulo <em>çapatas</em>, tão grosseiro e saloio, como elle nos sôa +hoje!</p> + +<p>Bernardim, esse favo de saudades a que o tempo não tem roubado a doçura, +essa abelha do amor, que usurpou ao Hymetto o segredo de amelar deliciosamente +as suas trovas com as boninas do coração namorado, parecer-nos-ha, se o não +avistarmos de alto, um camponio da Ribaldeira a gabar as çapatas amarellas da +moça do prior!</p> + +<p>Mas o pastor Jano não teve mão em si que não sahisse do escondrijo ao +encontro da bella<span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span> zagalla. Ella, como +Galatéa, esquivou-se fugindo:</p> + +<blockquote> + <p>Muito perto estava o casal<br> + Onde vivia o pai d'ella,<br> + Que fez ir mais longe o mal.<br> + Que Jano teve de vêl-a:<br> + Mas o medo que causou,<br> + Joanna partir-se assi,<br> + Tanto as mãos lhe embaraçou,<br> + Que a çapata esquerda, alli,<br> + Com a pressa lhe ficou.</p> +</blockquote> + +<p>Agora é que o ridiculo da situação parece subir de ponto, porque o pastor +Jano—o proprio Bernardim talvez—corre a abraçar-se com a çapata, a +chorar sobre ella, çapatando os peitos. É textual.</p> + +<blockquote> + <p>Çapata, deixada aqui,<br> + Para mal de outro mor mal,<br> + Quem te deixou, leva a mi:<br> + Que troca tão desegual!<br> + Mas pois assim é, seja assi.</p> +</blockquote> + +<p>Foi, portanto, pelo pé de Joanna que o pastor Jano se sentiu arrastado para +o abysmo do amor,—com a çapata na mão.</p> + +<p>Como os tempos mudam! Hoje, um poeta palaciano, que ouzasse cantar em +publico, ainda mesmo sob o disfarce de pastor, a çapata da bem-amada, era um +homem que tinha a sua carreira cortada pelo ridiculo.<span class="pn"><a +name="pag_61">{61}</a></span></p> + +<p>A Academia, elegante como ella é, diria, se alguem lhe fallasse em admitil-o +socio correspondente:</p> + +<p>—Que! O da çapata?! Não póde ser! Elle que mude para chapim.</p> + +<p>Qualquer ministro do reino, com receio do ridiculo das gazetas, se algum +influente politico lhe pedisse que fabricasse deputado o poeta, responderia +sorrindo:</p> + +<p>—Ora adeus! O deputado da çapata?! É lá possivel! Você quer matar o +governo pelo ridiculo!</p> + +<p>Todavia a Academia Real curva-se—e n'este ponto curva-se +bem—perante Bernardim Ribeiro, o primeiro poeta bucolico portuguez.</p> + +<p>As gazetilhas em verso fariam uma troça de seiscentos diabos ao anonymo que +ouzasse mandar para o <em>Diario de Noticias</em> o seguinte annuncio:</p> + +<p>«Ha oito dias que estou beijando incessantemente a çapata que v. ex.ª perdeu +em Cascaes quando, para me fugir, entrou precipitadamente no banho. A çapata +entrou-me pelo coração, como V. ex.ª pela agua.»</p> + +<p>Nada obstante, se os redactores de gazetilhas vissem entrar Bernardim +Ribeiro no escriptorio do jornal, vestido de mendigo, como a lenda nol-o pinta +á volta de Saboya, roto e esfrangalhado, e se elle lhes dissesse que era o +auctor do livro das saudades, os srs. redactores<span class="pn"><a +name="pag_62">{62}</a></span> levantar-se-iam respeitosos, curvados e dominados, para +offerecer uma cadeira ao grande poeta Bernardim Ribeiro, que devia estar +cansado, por vir de longes terras.</p> + +<p>Mas, á parte o desprimor archeologico do vocabulo, emerge d'esta trova do +bucolista o naturalismo, vivo e quente, que endeusa a pequenez do pé +feminino.</p> + +<p>Parece-nos galante toda a conjunctura em que um pé de fada se descubra aos +nossos olhos na sua exiguidade microscopica, seja pulando sobre o tapete de um +salão, poisando no estribo d'uma carruagem, ou aquecendo na concha ardente das +nossas mãos aduncas...</p> + +<p>Conta frei Luiz de Sousa que o infante D. Fernando, tendo casado com D. +Guiomar Coutinho, em torno da qual se agitou a paixão dramatica do marquez de +Torres Novas, e «subindo ambos uma escada, em tempo que andava pejada D. +Guiomar, lhe lançou mão dos chapins para que tivesse menos pena na subida.»</p> + +<p>Gentil, não é?</p> + +<p>Todas as delicadas galanterias que se façam aos pés de uma mulher, suppõem +que o que n'elles encantou foi a perfeição com que a natureza os talhou no +marmore.</p> + +<p>Enumerar todos quantos poetas, antigos e modernos, têem cantado os pés +femininos, seria o mesmo que encher de versos uma bibliotheca.<span class="pn"><a +name="pag_63">{63}</a></span></p> + +<p>Temos, pois, que resignar-nos, quanto ao numero, a dar apenas +insignificantissimas amostras.</p> + +<p>De um poeta antigo; Rodrigues Lobo:</p> + +<blockquote> + <p>As flôres, por onde passa,<br> + Se os pés lhe acerta de pôr,<br> + Ficam de inveja sem côr<br> + E de vergonha com graça.<br> + Qualquer pégada que faça<br> + Faz florescer a verdura,<br> + Vai formosa e não segura.</p> +</blockquote> + +<p>Citarei apenas dois poetas modernos.</p> + +<p>É conhecidissimo o bello pensamento de João de Deus:</p> + +<blockquote> + <p>O que te falta pois? os teus desejos<br> + Quaes são? de que precisas?<br> + Ah! não ser eu o marmore que pisas...<br> + Calçava-te de beijos!</p> +</blockquote> + +<p>O soneto <em>A Borralheira</em>, de Luiz Guimarães, é dos mais scintillantes +da sua lyra ardente:</p> + +<blockquote> + <p>Meigos pés pequeninos, delicados<br> + Como um duplo lilaz,—se os beija-flôres<br> + Vos descobrissem entre as outras flôres,<br> + Que seria de vós, pés adorados!</p> + + <p>Como dois gemeos sylphos animados,<br> + Vi-vos hontem pairar entre os fulgores<br> + Do baile, ariscos, brancos, tentadores...<br> + Mas, ai de mim!—como os mais pés calçados<span class="pn"><a + name="pag_64">{64}</a></span></p> + + <p>«Calçados como os mais! que desacato!<br> + Disse eu.—Vou já talhar-lhes um sapato<br> + Leve, ideial, fantastico, secreto...»</p> + + <p>Eil-o. Resta saber, anjo faceiro,<br> + Se acertou na medida o sapateiro:<br> + Mimosos pés, calçai este soneto.</p> +</blockquote> + +<p>A sabedoria da antiguidade, formulada em proverbios, que são como que +migalhas de philosophia, impõe-se ao nosso espirito na immensa variedade de +assumptos que podem impressional-o.</p> + +<p>Ora os antigos diziam: <em>Ne quid nimis.</em> Nada que seja de mais. Eu fui +educado com velhos, e aprendi da sua experiencia. Se n'aquelle proverbio posso +calçar um pé de mulher, acho que o proverbio é bom, e que o pé é ainda melhor. +Se não posso, quer-me parecer que os meus velhos educadores me estão segredando +em espirito com a auctoridade dos seus cabellos brancos: «Ahi ha pé de mais e +proverbio de menos.»</p> + +<p><em>Ne quid nimis</em> ou, como dizem os francezes, <em>Rien de trop</em>... +até nos pés!<span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span></p> + +<h1>VII</h1> + +<h2>Loucura alegre</h2> + +<p>Conta-se que sobre uma pequena terra de provincia cahira, não sei quando, +uma chuva verdadeiramente original, tão original, que perderam o juizo todos os +que a apanharam.</p> + +<p>E o caso é que toda a gente d'aquella terra a apanhou, com excepção de um +sabio que ali vivia voluntariamente exilado, entregue a leituras profundas, a +estudos d'alta sciencia.</p> + +<p>No dia da chuva, o sabio não sahiu; não sahia nunca. Ficou, portanto, em seu +perfeito juizo.</p> + +<p>A gente da terra vivia principalmente dos trabalhos da agricultura, em pleno +campo, de modo que a chuva cahiu-lhe em cheio sobre a cabeça, foi como se lhe +alagasse os miolos...</p> + +<p>Tendo endoidecido todos, o sabio era como que o unico pharol de bom senso +que brilhava n'aquelle vasto mar de loucura.</p> + +<p>Aconselhava os outros.<span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span></p> + +<p>Procurava chamal-os á razão.</p> + +<p>Dava-lhes conselhos acertados.</p> + +<p>Reprehendia-os amoravelmente quando elles praticavam desatinos.</p> + +<p>Mas qual! Ninguem o acreditava, ninguem o attendia, todos os outros haviam +apanhado a chuva terrivel, todos estavam loucos, e procurar restabelecel-os de +um momento para o outro era o mesmo que remar contra a maré.</p> + +<p>Começou o sabio a inquietar-se com a sua propria situação, que em verdade +nada tinha de agradavel.</p> + +<p>Receiava elle proprio perder o juizo, que tão preciso lhe era, como se +estivesse vivendo no meio de um hospital de doidos.</p> + +<p>A sua criada desatava a cantar e bailar quando elle lhe mandava fazer o +biffe do almoço ou as torradas para o chá.</p> + +<p>De sorte que se via na necessidade de ir elle mesmo fazer o biffe ou as +torradas, emquanto a criada bailava e cantava em frente do fogão, azoinando o +amo.</p> + +<p>O seu criado engraixava-lhe a camisa engommada, quando elle lhe mandava +engraixar as botas, e escovava-lhe as botas, quando elle lhe mandava tirar da +gaveta uma camisa engommada.</p> + +<p>Pensou o sabio em mudar de terra, mas a pequena propriedade que possuia +estava situada ali; e em taes circumstancias ninguem lh'a<span class="pn"><a +name="pag_67">{67}</a></span> queria comprar, porque o caso da chuva tinha soado ao +longe, de maneira que a terra cahira em descredito, sabia-se que todos lá +estavam doidos.</p> + +<p>Os proprios trabalhos scientificos do sabio, até ahi tão considerados, +principiaram a ser suspeitos de loucura. Já não havia quem os quizesse lêr. A +opinião publica é assim. Até então, como corresse fama de que era aquelle um +grande sabio, toda a gente o considerava como tal; de repente, com a mesma +unanimidade, toda a gente principiou a duvidar de que elle podesse conservar +inteiro o juizo vivendo no meio de doidos.</p> + +<p>—O que hei de eu fazer? perguntava a si mesmo o sabio.</p> + +<p>Como ainda houvesse pelas ruas da villa muitas pôças de agua da chuva, +começou a analysar chimicamente a agua para vêr se descobria o segredo daquella +extranha epidemia de loucura.</p> + +<p>Mas nada lhe achou de notavel segundo a chimica. Era agua de chuva como +qualquer outra.</p> + +<p>—Eu perco o juizo! dizia de si para comsigo o sabio. Tudo isto é tão +extraordinario, que sinto vacillar a minha propria razão!</p> + +<p>E a criada continuava a bailar e a dançar quando elle lhe mandava fazer o +biffe ou as torradas.<span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span></p> + +<p>E o criado engraixava-lhe a camisa quando elle lhe mandava engraixar as +botas.</p> + +<p>Os seus caseiros não se entendiam com elle, nem elle com os seus +caseiros.</p> + +<p>O padeiro, pela manhã, trazia-lhe pedras duras em vez de pão fresco.</p> + +<p>O merceeiro mandava-lhe assucar quando elle pedia arroz ou mandava-lhe arroz +quando elle lhe pedia assucar.</p> + +<p>De modo que, n'um momento de desespero, o sabio resolveu um bello dia perder +o juizo que até então havia conservado.</p> + +<p>Fugiu para o meio da rua, andou procurando uma das pôças de agua da chuva, +que ainda havia. Poz-se de cócoras, olhou em roda, e reconhecendo mais uma vez +que todos estavam doidos, metteu as mãos na pôça, encheu-as de agua, e começou +a encharcar a cabeça.</p> + +<p>D'ahi a momentos estava tambem doido, e toda a sua preoccupação anterior +havia desapparecido, porque, tendo elle proprio perdido a razão, já não se +affligia com a loucura dos outros.</p> + +<p>Lembrou-me esta anecdota quando, passando sabbado á noite pelo Colyseu dos +Recreios, vi uma enorme multidão de povo invadir as portas, disputar a entrada, +ancioso de obter um logar para ir assistir ao beneficio da Geraldine.</p> + +<p>—Então, dizia eu com os meus botões, tudo<span class="pn"><a +name="pag_69">{69}</a></span> isso de reducções imminentes é uma fabula! O paiz está +rico e contente. Diz-se que ha miseria, e toda a gente pensa em divertir-se! O +que se vê é que as industrias estão prosperas, o commercio florescente. Os +operarios, voltando agora de um trabalho fartamente remunerado, tratam de +comprar bilhete para a <em>geral</em>. Vender uma colonia! para que? O que o +povo quer é que lhe vendam um <span class="errata" title="no original: bilhete Colyseu">bilhete do Colyseu</span>! Os jornaes portuguezes e +extrangeiros dizem que estamos pobres! Sempre mentem muito os jornaes! Toda +essa gente, que ahi se agglomera ás portas, estende para o camaroteiro uma +<em>nota</em>, offerece-lhe dinheiro, tão rica está toda a gente!</p> + +<p>E, pensando n'isto e na anecdota, continuei a dizer com os meus botões:</p> + +<p>—... Salvo se o ultimo portuguez que tivesse juizo tambem molhou a +cabeça na pôça d'agua!</p> + +<p>Mas no domingo fui passeiar á Avenida como para procurar a contra-prova do +espectaculo da vespera.</p> + +<p>Oh! que alluvião de gente! que bulicio! que vida! que animação!</p> + +<p>Longas filas de trens desdobravam-se ao longo da Avenida n'um grande +esplendor de equipagens brilhantes.</p> + +<p>O dinheiro trotava em bellos cavallos <em>pur sang</em>; rodavam titulos e +brazões, <em>fortunas</em> colossaes<span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> +deslisavam a quatro soltas, pomposamente.</p> + +<p>E eu continuava perguntando aos meus botões:</p> + +<p>—Santo Deus! onde é que está o ultimo sabio d'esta terra?!</p> + +<p>E olhava para o chão esperando vêr que o ultimo sabio, posto de cócoras, +estivesse olhando para os outros e molhando a cabeça com frenesi.</p> + +<p>Qual! não era para o chão que eu devia olhar.</p> + +<p>Os sabios portuguezes prezam-se muito para que algum d'elles queira +acocorar-se á vista dos seus patricios.</p> + +<p>Era para o alto das boleias e para a estampa das horsas que eu devia olhar; +não para o chão. O chão! esse, coitado, estava pisado, moido do continuo +attricto das ferraduras dos cavallos e das rodas das carruagens.</p> + +<p>O sol, bellamente festivo, cahia em palpitações de luz sobre a Avenida. O +monumento victorioso dos Restauradores recortava-se n'um fundo de azul luminoso +parecendo chispar centelhas como uma lamina erguida ao sol. Chalets elegantes +alcandoravam-se pela encosta oriental da cidade. Predios magnificos, alguns +sumptuosos, agrupavam-se em grandes bairros novos á ilharga da Avenida nas +terras outr'ora desertas e solitarias. As antigas hortas desappareceram para +dar logar a palacios novos. Guardas-portões<span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span> +imponentes encostavam-se ás portas vendo de longe o formigueiro dos trens que +passavam rodando ao trote largo de cavallos finos.</p> + +<p>E por mais que eu olhasse para o chão nenhum sabio, de cócoras, tratava de +molhar a cabeça para não ter que chorar sobre tanta alegria!</p> + +<p>Então, recolhendo para casa, olhando sempre cautelosamente para não ser +atropellado pelos trens e pelos cavalleiros, lembrou-me outro caso, nada mais e +nada menos que o plano de um poema que certo amigo meu havia delineado quando a +morte o surprehendêra.</p> + +<p><em>A Valsa</em>: era o titulo do poema.</p> + +<p>A acção leva pouco tempo a contar.</p> + +<p>Meia duzia de velhos, que no seu tempo haviam sido grandes valsistas, +resolveram, a despeito do peso dos annos, reconquistar uma hora de mocidade, +dar um baile em que todos elles valsassem como antigamente, embora fossem +morrendo de cansaço no meio da sala.</p> + +<p>Assim fizeram. Na noite do baile, eil-os que entram no salão, correctamente +barbeados, tão gentis, quanto a idade lhes permittia, dentro das suas casacas +muito justas e luzidias.</p> + +<p>Uma valsa de Strauss fez ouvir as suas primeiras notas. Tudo ali parece +palpitar ao som da musica,—os velhos principalmente.</p> + +<p>E, cingindo a cintura de bellas damas, todos elles principiam a valsar com a +intrepidez dos vinte annos.<span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span></p> + +<p>A valsa não affrouxa nunca, e os velhos valsistas, extenuados, principiam a +cahir de cansaço, pallidos, mortos, um após outro, até que, estendidos sobre o +verniz do salão, teem por funeral o baile, por <em>De profundis</em> a valsa de +Strauss, que parece não acabar nunca!</p> + +<p>Era phantastico o poema, excentrico o poeta.</p> + +<p>Mas, o caso é que me lembrei do poema da <em>Valsa</em>, que, ai do poeta! +ficou apenas em projecto.</p> + +<p>Tudo aquillo que eu tinha visto, no sabbado e no domingo, era como a valsa +dos velhos extenuados, que, ao som da musica, iam cahindo mortos n'uma +atmosphera de alegria e n'uma allucinação de prazer, que os matou sem os ter +remoçado, que os esgotou sem os ter divertido!<span class="pn"><a +name="pag_73">{73}</a></span></p> + +<h1>VIII</h1> + +<h2>A mascotte</h2> + +<p>Ter ou não ter <em>mascotte</em>, eis a questão, para tudo e para todos.</p> + +<p>Não sei se o leitor é dado a superstições e crendices, que, de resto, +constituem o fundo simples e primitivo da natureza humana.</p> + +<p>Eu, por mais que oiça dissertar os philosophos, creio profundamente em +superstições. Sou, a este respeito, quasi primitivo. E entre as superstições, +que me inspiram maior fé, acredito cegamente na influencia benefica de um genio +bom e tutellar, a que modernamente chamamos <em>mascotte</em>.</p> + +<p>Até—seja dito em confidencia—já tive uma <em>mascotte</em>.</p> + +<p>Por que não hei de contar francamente essa historia?</p> + +<p>Era uma insignificantissima bengala da ilha da Madeira, que me tinha custado +doze vintens<span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> e que ninguem seria capaz de +me comprar por seis.</p> + +<p>Estava muito longe do meu espirito a suspeita de que essa reles bengala, +cheia de nós e de mossas, podesse exercer alguma influencia benefica na minha +vida.</p> + +<p>Mas comecei a notar a coincidencia de que tudo me corria mal, quando o mau +tempo me obrigava a substituir a bengala pelo chapeu de chuva.</p> + +<p>Difficuldades, incertezas, contrariedades que o chapeu de chuva tinha +suscitado e alimentado, aplanavam-se e desappareciam quando no dia seguinte a +bengala substituia o chapeu de chuva.</p> + +<p>Este facto repetiu-se uma e muitas vezes: induzi portanto que aquelle reles +pausinho da ilha da Madeira tinha condão de felicidade. Era o meu talisman. +Tomei-lhe amor, ganhei confiança na sua virtude, e comecei a acreditar na +existencia de uma <em>mascotte</em> que, se me abandonava um momento, me +deixava exposto ás maiores contrariedades.</p> + +<p>Em dias de chuva torrencial, dias de temporal desfeito, eu não ousava sahir +sem a <em>mascotte</em>, importando-me pouco que as outras pessoas podessem +fazer reparo na excentricidade de um homem que, apesar de chover a potes, +deixava o chapeu de chuva em casa e sahia com a bengala debaixo do braço.<span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span></p> + +<p>Muitas vezes fui obrigado, por manter o culto devido á minha +<em>mascotte</em>, a tomar um trem.</p> + +<p>Mas fazia de bom grado essa despeza, nem me importava apanhar chuva, +comtanto que não tivesse de largar a <em>mascotte</em>.</p> + +<p>Os meus amigos conheciam esta superstição, e riam-se. Fingiam querer +roubar-m'a. Mas eu, se passava a noite com elles, sentava-me de bengala na mão, +não a abandonava um momento.</p> + +<p>Um dia perdi-a. Vou contar como isso foi. O leitor póde imaginar o desgosto +que n'esse dia me feriu.</p> + +<p>Era então ministro da marinha o conselheiro Julio de Vilhena, que morava na +rua de S. João da Matta.</p> + +<p>Na vespera haviamos passado grande parte da noite a conversar sobre um +livro, que se relacionava com o assumpto litterario de que eu então me estava +occupando.</p> + +<p>Tratava-se da symbolica do direito, que me era preciso estudar para o livro +<em>A jornada dos seculos</em>, que eu trazia entre mãos. Julio de Vilhena +offerecêra emprestar-m'o, e ficou combinado que eu iria no dia seguinte a sua +casa, á uma hora da tarde, buscar o livro.</p> + +<p>Chovia: tomei um trem.</p> + +<p>Durante o trajecto, para accender um cigarro, tive que encostar a bengala a +um canto da carruagem.<span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span></p> + +<p>Quando cheguei á rua de S. João da Matta, disse-me o correio que o ministro +estava ainda almoçando, e que eu teria de esperar pelo menos meia hora.</p> + +<p>Despedi o trem, sem tomar sentido no numero.</p> + +<p>Chegaram mais pessoas, com quem esperei conversando.</p> + +<p>Quando o ministro acabou de almoçar, e me recebeu no seu escriptorio, +lembrei-me subitamente de que a <em>mascotte</em> tinha ficado no trem.</p> + +<p>Mostrei-me inquieto, disse-lhe o motivo da minha inquietação, porque elle +conhecia muito bem, como todos os meus amigos, a lenda da bengala.</p> + +<p>Sahi de afogadilho, com o livro debaixo do braço, e dirigi-me immediatamente +ao commissariado geral de policia.</p> + +<p>A um dos commissarios, meu amigo, contei que me tinha esquecido dentro de +uma carruagem, cujo numero ignorava, uma bengala que valeria apenas seis +vintens, mas que eu estimava muito.</p> + +<p>O commissario imaginou talvez que se tratava de uma recordação de familia. +Socegou-me. Como a bengala não tinha valor material, appareceria facilmente, ia +dar as suas ordens, e eu prometti gratificar o policia que encontrasse a +bengala.</p> + +<p>Sahi do commissariado de policia para ir dar<span class="pn"><a +name="pag_77">{77}</a></span> umas voltas, tratar de negocios particulares. Mas tinha +a convicção de que tudo me correria mal n'esse dia e nos outros, porque, ai de +mim! havia perdido a <em>mascotte</em>. Era, moralmente, um homem morto.</p> + +<p>Ás cinco horas da tarde, muito contrariado, quasi rabujento, subia eu o +Chiado, olhando attentamente para todos os trens que passavam, ancioso de +reconhecer o cocheiro que me tinha levado á rua de S. João da Matta.</p> + +<p>De repente, descendo o Chiado, passa um trem. O cocheiro olha para mim, e +pára. Ó felicidade! era o cocheiro que eu procurava! De dentro da caixa da +almofada tirou elle a minha querida bengala, e eu tirei da algibeira dez +tostões que lhe dei como alviçaras.</p> + +<p>O cocheiro, que via pagar por dez tostões uma bengala que valeria seis +vintens, ficou a olhar para mim, espantado.</p> + +<p>Suppoz, talvez, n'aquelle momento, que eu era filho do sr. Monteiro da rua +do Alecrim.</p> + +<p>Que boas horas de alegria que eu tive, readquirindo a posse da +<em>mascotte</em>, a minha querida bengala! Nadando em jubilo, fui dizer ao +commissario de policia que a bengala tinha apparecido. E á noite, contando a +historia do feliz achado aos meus amigos, recebi parabens.</p> + +<p>Rodaram alguns annos, durante os quaes tive sobejos motivos para firmar a +minha crença no<span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span> condão maravilhoso da +bengala. Era decididamente uma <em>mascotte</em>.</p> + +<p>Mas um dia—que terrivel dia esse!—por acaso, n'uma esgrima +simulada, a bengala partiu-se. Deus perdôe a quem, com a mais amavel intenção +d'este mundo, contribuiu para esse medonho fracasso. Guardei durante algum +tempo os dois fragmentos da bengala, mas o seu condão de felicidade tinha-se +partido com ella, ai de mim! A <em>mascotte</em> havia fugido, como uma alma +abandona um corpo.</p> + +<p>O leitor póde sorrir-se da minha ingenua credulidade, mas eu cria cegamente +na virtude d'esse talisman, que um acaso me trouxe, e que um acaso levou.</p> + +<p>Não ha philosophia que resista aos factos.</p> + +<p>De varias pessoas sei eu que tiveram <em>mascotte</em>, e que criam n'ella +como em Deus.</p> + +<p>Uma d'essas pessoas era o general José de Vasconcellos Correia, que morreu +conde de Torres Novas.</p> + +<p>A sua <em>mascotte</em> era uma escova de fato, que o não abandonava +jamais.</p> + +<p>Justamente, tendo de partir para Torres Novas, onde se assignalou pelo seu +valor, esqueceu-lhe metter dentro da mala a escova. E, por não querer +separar-se d'ella em tão duvidosa occasião, metteu-a dentro da barretina.</p> + +<p>Em Torres Novas, durante a refrega, recebeu uma cutilada na cabeça. O golpe +tel-o-ia<span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> prostrado, se entre a barretina e +a cabeça não estivesse a escova,—a que ficou devendo a vida.</p> + +<p>Falta-me o espaço para referir outros muitos casos não menos interessantes e +justificativos. E tenha pena! O leitor começaria talvez por sorrir-se; mas +acabaria decerto por acreditar.</p> + +<p>Toda a gente, por muito que finja o contrario, tem as suas superstições.<span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p> + +<h1>IX</h1> + +<h2>Era em abril...</h2> + +<blockquote> + <p>C'était en avril, un dimanche,<br> + Oui, le dimanche!<br> + J'etais heureux...<br> + Vous aviez une robe blanche<br> + Et deux gentils brins de pervenche,<br> + Oui, de pervenche,<br> + Dans les cheveux.</p> + + <p>Nous étions assis sur la mousse,<br> + Oui, sur la mousse,<br> + Et sans parler,<br> + Nous regardions l'herbe qui pousse,<br> + La feuille verte et l'ombre douce,<br> + Oui, l'ombre douce,<br> + Et l'eau couler.</p> + + <p>Un oiseau chantait sur la branche,<br> + Oui, sur la branche.<br> + Puis il s'est tu.<br> + J'ai pris dans ma main ta main blanche.<br> + C'etait en avril, un dimanche,<br> + Oui, le dimanche...<br> + T'en souviens—tu?<span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p> +</blockquote> + +<p>Ah! como esta deliciosa canção primaveral de Eduardo Pailleron concentra em +si todos os perfumes, todos os canticos, todos os sonhos de abril, quando o +laranjal florido deixa cair da sua côma, semelhante a um <em>bouquet</em> de +noiva, não sei que doces pensamentos de amor, não sei que fragrancias de +<em>boudoir</em>, que estonteamentos de volupia, cheia de mysterios, de +segredos e de arrulhos maviosos!? A olaia põe no terreno grandes manchas +encarnadas, tapetes de petalas soltas, que se alastram convidando ao remanso +d'um idyllio, oui, d'un idylle...</p> + +<p>No ar, passam foliando os assobios estridulos dos melros e da flauta de Pan, +dando uma extranha sensação de prazer vibrante, sobretudo se brilha no céu o +bello sol ocioso d'um domingo... <em>oui, le dimanche</em>!</p> + +<p>Perto, um veio d'agua crystallina e múrmura dá uma enorme sensação de +frescura e de preguiça, porque não ha nada que enerve mais deliciosamente do +que vêr correr a agua sobre um campo... <em>et l'eau couler</em>.</p> + +<p>Tufos de relva, estrellados de malmequeres, redondos e grandes, vecejam +n'uma exuberancia de florescencia sadia, impregnada da immensa vitalidade +vernal...</p> + +<blockquote> + <p>Nous regardions l'herbe qui pousse,<br> + La feuille verte et l'ombre douce.</p> +</blockquote> + +<p>Delicioso abril! Primavera encantadora! por<span class="pn"><a +name="pag_82">{82}</a></span> mais que a gente queira adorar-te sem rhetorica, é +completamente impossivel, porque tu mesma és a rhetorica da creação, o Padre +Cardoso da naturesa...</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p><em>C'était en avril...</em></p> + +<p>Era sim, era em abril, os melros e as toutinegras enchiam de musica o ar, os +laranjaes e as olaias doidejavam galas de flores e de perfumes, e o meu amigo +Rosendo, tão feliz como Pailleron, foi com a sua bella ao Campo Grande passar +um domingo, uma esplendida manhã de domingo... <em>oui, le dimanche</em>.</p> + +<p>Tinham ido por ahi fóra no omnibus do Salazar, n'uma felicidade cortada de +phrases ternas e de solavancos, um paraiso ambulante, tirado por tres pilecas +rebeldes ao amor e ao chicote.</p> + +<p>Rosendo e Ambrosia tinham pressa de chegar ao Campo Grande, tinham um grande +desejo de verdura, quasi tanto como as pilecas. Ella ia fresca de mocidade e +elegancia singela: um vestido de percale claro, umas rendas, uma rosa natural, +um chapeu com <em>blonde</em> verde, luvas de <em>peau de Suéde</em>... +Tentadora! Nunca uma Ambrosia parecera tão fascinante, nunca um Rosendo sentira +no coração um bando de rouxinoes tão palreiros e tão musicos como naquella<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span> hora deliciosa. Imagine-se a pressa do +Rosendo em chegar ao Campo Grande, porque, com um bando de rouxinoes dentro do +coração, estava em risco de morrer de hypertrophia, se não chegasse de +pressa,—mesmo muito de pressa.</p> + +<p>Mas finalmente chegaram. Esperava-os um banco verde, um banco de idyllio, +que nem que fosse mandado pôr ali de encommenda pela camara municipal, para uso +dos namorados ao domingo... <em>oui, le dimanche</em>. Por de traz, um +bosquesinho de roseiras, discreto como um cego, silencioso como um mudo.</p> + +<p>Rosendo sabia os versos de Pailleron por os ter lido na <em>Revista dos dois +mundos</em>, e por os haver achado deliciosos.</p> + +<p>Tratou de pôl-os em acção, ou antes, de pôr a sua mão de enamorado Rosendo +sobre a mão branca de Ambrosia.</p> + +<blockquote> + <p>J'ai pris dans ma main ta main blanche...</p> +</blockquote> + +<p>Não faltava nada para que o scenario fosse em tudo semelhante ao da +<em>Revista dos dois mundos</em>: a erva vecejante, a folha verde, a agua +corrente, o domingo e a felicidade.</p> + +<p>Passaros folgasãos pipillavam no arvoredo, n'uma grande bambocha de +<em>virtuoses</em>, e á distancia, amortecido pelo intervallo dos canteiros, o +ruido de um trem que passava para o Lumiar, ouvia-se.<span class="pn"><a +name="pag_84">{84}</a></span></p> + +<p>Rosendo, achando-se divino, divinisava Ambrosia, para se confundirem ambos +n'uma grande consubstanciação amorosa.</p> + +<p>Elle só tinha um desgosto:—que ella, em vez de uma rosa no vestido, +não trouxesse nos cabellos dois ramos de pervinca... <em>oui, de +pervenche</em>.</p> + +<p>De repente, Ambrosia, ouvindo dar oito horas, voltou-se rapidamente para +elle, e dos seus labios saiu esta phrase, terrivel como um grito de Tantalo:</p> + +<p>—Ó Rosendo, vamos nós almoçar ao José dos Caracoes?...</p> +<hr class="dotted"> + +<p><em>T'en souriens tu...</em> Rosendo?<span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span></p> + +<h1>X</h1> + +<h2>A felicidade e a camisa</h2> + +<p>Houve outr'ora um rei, que possuia vastos dominios, formosos castellos, +vastos parques, ricas baixellas e equipagens.</p> + +<p>Mas era triste, peior talvez do que triste, melancolico.</p> + +<p>Organisava festins, e aborrecia-se no meio d'elles. Nem o ouro, nem a saude, +nem a grandesa conseguiam distrail-o.</p> + +<p>A rainha confrangia-se de vêr sempre meditando o seu real esposo.</p> + +<p>O principe real improvisava ruidosas caçadas para alegrar seu augusto +progenitor, mas o rei, a breve trecho, cahia na sua melancolia habitual, +sentava-se á sombra de uma arvore, scismava...</p> + +<p>Um dia, n'uma kermesse, que as damas da côrte promoveram para divertir seu +real amo, appareceu uma cigana, que andava lendo a <em>buena-dicha</em> de +barraca em barraca.<span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span></p> + +<p>Era alta, morena como todas as ciganas, e tinha uns olhos tamanhos e tão +vivos, que bem podiam lêr o futuro a grande distancia...</p> + +<p>Embrulhava-se n'um manto de retalhos, uma capa de pedinte que, á força de +remendada, já não tinha côr propria.</p> + +<p>Lia, com profunda indifferença, o destino dos outros, seguindo com a vista +as linhas que elles tinham gravadas na palma da mão. Annunciava tragedias, +desgraças, coisas tenebrosas com a mesma serenidade com que promettia riquezas, +venturas, delicias.</p> + +<p>O rei soube que tinha apparecido na kermesse aquella cigana, e mandou-a +chamar.</p> + +<p>—Quero que me digas, ordenou-lhe o rei, se posso ainda ser feliz.</p> + +<p>A cigana, sem parecer preoccupar-se com a honra que lhe era dispensada, +respondeu laconicamente:</p> + +<p>—Sim. Ainda póde ser feliz vossa magestade.</p> + +<p>Alegrou-se subitamente o rei e perguntou-lhe:</p> + +<p>—O que é preciso fazer para que eu seja inteiramente feliz?</p> + +<p>A cigana demorou-se um momento consultando as linhas da real mão, e +respondeu:</p> + +<p>—Precisa vossa magestade vestir a camisa de um homem feliz.</p> + +<p>—Mas onde poderei eu encontrar esse homem feliz?<span class="pn"><a +name="pag_87">{87}</a></span></p> + +<p>—Isso agora não é comigo, disse a cigana. E voltou costas ao rei +indifferentemente.</p> + +<p>Logo sua magestade mandou reunir no palacio real os seus validos e +conselheiros.</p> + +<p>Contando-lhes o caso da cigana, acabou por dizer-lhes:</p> + +<p>—Agora é que eu vou conhecer qual de vós me é mais dedicado. Trata-se +de procurar um homem feliz, cuja camisa, ainda que custe rios de ouro, eu hei +de vestir, ide procural-o, pois. E todo aquelle que o encontrar, receberá +recompensas quaes rei algum da terra ainda concedeu.</p> + +<p>Fazendo mil protestos de dedicação, logo cada um d'elles se deu pressa em +partir. Para onde? Ao acaso, pelo mundo fóra, á procura de um homem feliz...</p> + +<p>Tal conselheiro do rei descobriu um proprietario muito rico, que todos os +dias via entrar pela porta dentro os seus rendeiros carregados de ouro.</p> + +<p>Foi procural-o, na supposição venturosa de que tinha encontrado a pessoa que +procurava.</p> + +<p>—Sois feliz como pareceis? perguntou-lhe.</p> + +<p>—Não sou, ai de mim! É verdade que possuo uma riqueza enorme, mas +falta-me a saude, que é cada vez mais precaria. Daria toda a minha riqueza para +poder viver sem dôres, para comer com apetite.</p> + +<p>Outro conselheiro do rei encontrou um homem<span class="pn"><a +name="pag_88">{88}</a></span> muito robusto, cuja saude todos na sua terra +invejavam.</p> + +<p>—É o homem mais forte d'estes sitios! disseram-lhe.</p> + +<p>Foi visital-o.</p> + +<p>—Uma pergunta vos quero fazer. Dizei-me se, na posse de tão +florescente saude, sois completamente feliz...</p> + +<p>O homem forte suspirou, e respondeu:</p> + +<p>—É verdade que sou muito robusto, mas quizera não o ser tanto, porque +não tenho gosto nenhum de viver ainda muitos annos.</p> + +<p>—Por que?</p> + +<p>—Porque sou pae de doze filhos e não ganho o bastante para lhes dar de +comer. Quanto mais trabalho, menos ganho. Ha destinos assim, e o meu, já agora, +não tem remedio.</p> + +<p>Informaram um dos validos do rei, de que em tal aldeia morava um homem que, +vinte annos depois de casado, ainda namorava a mulher.</p> + +<p>Assombrou-se com esta revelação o valido, e foi a correr por montes e valles +procurar o ditoso casado.</p> + +<p>Sem mais preambulos, interrogou-o.</p> + +<p>—É certo que sois casado ha vinte annos?</p> + +<p>—Ha vinte annos e vinte dias.</p> + +<p>—E que tendes vivido n'uma continua lua de mel:</p> + +<p>—Certissimo, meu senhor.<span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span></p> + +<p>—Sois pois inteiramente feliz?</p> + +<p>—Sel-o-ia se...</p> + +<p>—O que?! Pois não vos reputaes um homem feliz?!</p> + +<p>—Sel-o-ia, se não fosse minha sogra, que volta e meia se lembra de vir +visitar-me.</p> + +<p>Já iam decorridos alguns mezes, sem que os conselheiros e validos do rei +houvessem voltado ao paço para noticiar a sua magestade o achado de um homem +feliz.</p> + +<p>Esta demora tinha desanimado cada vez mais o rei, que, de quando em quando, +gritava enfurecido:</p> + +<p>—Pois não haverá sobre a terra um homem verdadeiramente feliz?!</p> + +<p>Certo dia um dos conselheiros do rei ia jornadeando, sempre na faina de +procurar um homem feliz, por uma serra muito agreste e solitaria.</p> + +<p>Só de longe a longe avistava algumas cabras, que andavam roendo as raizes +das urzes.</p> + +<p>—Que serra tão triste! disse o fidalgo ao arreeiro.</p> + +<p>—Por aqui só se encontra algum pastor; ninguem mais. Lá está um acolá, +no alto d'aquelle rochedo, a tocar na sua flauta.</p> + +<p>—É verdade! Quero fallar-lhe. Vamos lá.</p> + +<p>Era grande a distancia. Mas á medida que se aproximavam iam ouvindo os sons +rusticos da avêna e vendo o pastor a bailar, muito contente, sósinho, no topo +do rochedo.<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span></p> + +<p>—Parece impossivel, dizia o fidalgo, que não tenha medo de cair!</p> + +<p>Chegaram perto do rochedo, e o fidalgo gritou-lhe:</p> + +<p>—Olá, pastor!</p> + +<p>O pegureiro interrompeu a musica e o baile. Tirou o chapeu, e ficou-se muito +quieto.</p> + +<p>—Anda cá, que te quero fazer uma pergunta e dar dinheiro.</p> + +<p>O pastor desceu de um salto.</p> + +<p>—Julgas-te feliz, meu rapaz?</p> + +<p>—Sim, meu senhor, julgo-me feliz.</p> + +<p>O conselheiro do rei receiou endoidecer de alegria.</p> + +<p>—Pois então, pega lá todo este dinheiro, e vende-me a tua camisa.</p> + +<p>—Meu senhor, respondeu o pegureiro, eu não tenho camisa...</p> + +<p>Por mais que a gente possa invejar a felicidade dos outros, e desesperar da +sua, o que é certo é que, ainda quando os outros lhe parecem felizes, sempre +lhes falta alguma coisa: a camisa, por exemplo.<span class="pn"><a +name="pag_91">{91}</a></span></p> + +<h1>XI</h1> + +<h2>Morte de um gentleman</h2> + +<p class="centrado"><em>(Barão da Torre de Pêro Palha)</em></p> + +<p>Foram-se os deuzes, depois os heroes, por ultimo parece que tambem vão +acabando os homens...</p> + +<p>Os homens antigos, entenda-se, os homens de rija tempera, fortes, destros, +gentis, bem educados.</p> + +<p>Bem educados, sobretudo, que tambem isso faz muito ao caso para a disciplina +social, para a harmonia das classes, para a ordem que não póde deixar de ser a +base do respeito que as diversas categorias se devem umas ás outras.</p> + +<p>Os homens que viram nascer a liberdade, que a sonharam e implantaram, e que +tinham por ella esse culto dedicado que se conserva por uma creança que +educamos a nosso geito...</p> + +<p>O que ahi vae ficando já não são homens medidos pelo estalão que outr'ora +marcava a<span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span> estatura moral. Como na Grecia +antiga, foram-se os Milciades, os Themistocles, talvez os Pericles. Não tardará +o tempo em que se levantem trezentas e sessenta estatuas a Demetrio Phalerio, +quero dizer, aos heroes da decadencia. Se não ha melhor!</p> + +<p>Generaes illustres, oradores proeminentes, sabios conspicuos, tudo isso tem +desapparecido a pouco e pouco. Até vae desapparecendo tambem um typo que +parecia fundido de uma costella de cavalleiro e d'outra costella de trovador: +fundido dos restos meio heroicos e meio galantes da idade-media. Era o +<em>gentleman</em>, que sabia montar a cavallo, bater-se em duello, fallar ás +damas, dançar uma valsa, entrar n'um salão. Era o <em>gentleman</em>, que punha +o chapeu na cabeça diante de um insolente, e que o tirava quando á portinhola +de uma carruagem cumprimentava uma senhora. Era o <em>gentleman</em>, que não +parecia ridiculo quando vestia uma calça de ganga e calçava umas luvas côr de +açafrão. Era o <em>gentleman</em>... Morreu outro dia um; desconfio que foi o +ultimo...</p> + +<p>Chamava-se Hugo Owen, barão da Torre de Pêro Palha.</p> + +<p>Não fez discursos, não fez leis, não escreveu livros, não compoz óperas, mas +conquistou o direito a ser conhecido e estimado dos seus contemporaneos.</p> + +<p>Por que? Porque foi um <em>gentleman</em>. Eis tudo...<span class="pn"><a +name="pag_93">{93}</a></span></p> + +<p>Seu pai, um inglez de distincção, militara ao serviço de Portugal no tempo +em que os espiritos mais generosos principiavam a sonhar com a liberdade.</p> + +<p>Casára, ficára entre nós; e o filho, direito como um pinheiro novo, esvelto +e firme, passou os primeiros annos da vida montando garbosamente a cavallo no +séquito de D. Pedro IV, improvisado, quasi por galanteria, em seu ajudante de +campo.</p> + +<p>Zuniram-lhe as balas do cêrco do Porto por cima da cabeça, ouviu de perto o +estrondo da metralha, fortificou-se respirando a fumarada da polvora.</p> + +<p>Depois... depois a guerra acabou, os vencedores julgaram que tudo o que +havia a fazer pela liberdade estava feito, quanto se enganaram! e os vencidos +presumiram-se decerto as ultimas victimas das luctas politicas em Portugal. +Quanto se enganaram tambem!...</p> + +<p>Hugo Owen casou com uma dama portugueza, amou-a extremosamente, era rico, +forte, alegre, feliz.</p> + +<p>Mas a roda da fortuna encravára-se um dia; parou de subito. A esposa de Hugo +Owen morrêra deixando-lhe filhos pequeninos. No coração do viuvo fez-se um +vácuo profundo, enorme. E aqui começa a serie das suas desgraças, quaes poucos +homens teem soffrido, e que elle aguentou sem se azedar a ponto de parecer<span class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span> malcreado e sem se mostrar desgostoso ao +extremo de querer descalçar as luvas para sovar a humanidade.</p> + +<p>Pois se o fizesse, teria tido razões de sobra para isso...</p> + +<p>As difficuldades levantavam-se-lhe debaixo dos pés, a fatalidade andava +inventando para elle casos imprevistos e complicados, como um advogado +chicaneiro que não pensa senão em urdir uma rêde de rabulices para embaraçar a +parte contraria.</p> + +<p>Um dia, Hugo Owen assistia á agonia de um filho, que a morte viera +surprehender prematuramente.</p> + +<p>O coração do pae despedaçava-se atormentado contra esse leito, como a vaga +contra os rochedos.</p> + +<p>Havia já na face do moribundo a pallidez que parece ser o reflexo longinquo +do luar de além-tumulo.</p> + +<p>Os irmãos soluçavam, abafados de angustia, e o pae, pendido para o leito, +disfarçava a sua dôr murmurando palavras carinhosas, de uma grande ternura +dolorida, sobre a cabeça do moribundo.</p> + +<p>N'isto, rompe n'um dos andares do predio a esfusiada musical de uma valsa de +Strauss, sente-se dançar ruidosamente, pular, conversar, tinir loiças e +cristaes.</p> + +<p>Está-se em plena <em>soirée</em>, e a festa parece prolongar-se<span class="pn"><a +name="pag_95">{95}</a></span> pela noite dentro, attingir a madrugada.</p> + +<p>É no som da valsa que o moribundo se contorce no delirio da agonia, é a dois +passos da vida alegre da sala que o espectro da morte vem assentar arraiaes.</p> + +<p>Teriam tido conhecimento d'esta deploravel antithese os que se estavam +divertindo? Certamente que não. Mas essa tormentosa coincidencia tinha-a o +destino guardado para esmagar o coração do barão da Torre de Pêro Palha.</p> + +<p>Uma sua irmã, Fanny Owen, morreu na flôr dos annos, sacrificada a um drama +conjugal que enche muitas paginas de um livro de Camillo Castello Branco, +<em>No Bom Jesus do Monte</em>.</p> + +<p>Foi casada, e morreu pura. Os medicos que procederam á autopsia, assim o +affirmaram sob juramento.</p> + +<p>Pois bem! um anno depois da morte de Fanny, contado dia a dia, Hugo Owen, +estando n'um hotel de Lisboa, ouviu gemer n'um quarto proximo.</p> + +<p>—Quem está ali doente? perguntou.</p> + +<p>—É o sr....</p> + +<p>Era o marido de sua irmã, o marido que tão allucinadamente a aggravára, que +vinha morrer a dois passos de distancia do barão da Torre de Pêro Palha!</p> + +<p>E, como estas, outras mil contrariedades e<span class="pn"><a +name="pag_96">{96}</a></span> coincidencias, que o destino baralhava para o +atormentar, expressamente...</p> + +<p>Eu conheço a biographia de Hugo Owen em tudo o que ella teve de mais intimo +e recondito. Sómente não estou auctorisado a contal-a. Conheço-a, porque elle +me confiou um dia as suas memorias, que se conservam inéditas; paginas que elle +escrevia com a verdade e o respeito de um homem que se julga já diante de Deus +contando o que soffreu entre os homens.</p> + +<p>Encontrei nas memorias do barão o material preciso para urdir dez romances +sem dar tratos á imaginação. Em cada capitulo havia um drama de lagrimas. Li o +manuscripto, sentindo-me muito honrado com a confiança que o barão depositava +em mim, fechei-o profundamente commovido e sepultei no fundo do meu coração o +segredo das suas revelações, tão pungentes e dilacerantes.</p> + +<p>Ás vezes, quando conversava com o barão da Torre de Pêro Palha debaixo da +Arcada ou á porta da Casa Havaneza, assombrava-me a sua resignação, +espantava-me a sua paciencia, a correcção sempre distincta das suas palavras e +das suas maneiras.</p> + +<p>E todavia elle estava tão pobre, que mal poderia esperdiçar um charuto...</p> + +<p>Os que o não conheciam de perto, poderiam suppôl-o um homem feliz.<span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span></p> + +<p>Com o seu ar elegante, o seu casaco curto, as suas calças largas, um pouco á +<em>hussard</em> (essas calças tradicionaes dos <em>gentlemen</em> do seu +tempo: nunca o Manuel Browne e os outros vestiram calças que não fossem á +<em>hussard</em>), as suas polainas brancas, a sua bengala de castão de prata, +as suas lunetas de oiro, as suas suissas grisalhas, elle tinha o aspecto de um +homem feliz, que houvesse accordado ao meio-dia depois de ter passado a noite +n'um baile onde perpetrára a sua ultima valsa, onde queimára o ultimo cartucho +do seu paiol amoroso.</p> + +<p>E todavia talvez tivesse almoçado, de pé, dois ovos <em>à la coque</em>, +apenas...</p> + +<p>Tambem me assombrava n'este homem, cuja morte deploro, n'este homem que +tinha corrido e visto tanto mundo, n'este homem que tanto havia soffrido e +aprendido, a boa fé, a ingenuidade com que parecia acreditar todas as +esperanças que lhe davam, todas as promessas que lhe faziam, o ar de candura +com que tantas vezes procurou o seu nome no <em>Diario do Governo</em>.</p> + +<p>Seria um defeito de intelligencia? Não era, com certeza. Era apenas um +aspecto da sua individualidade de <em>gentleman</em>. Conhecendo que a vida +estava por pouco, não queria desfazer n'um momento a obra de toda a sua +existencia, sahir do mundo desmanchando-se n'um gesto tão plebeu como +expressivo. Procurava illudir-se por mais algum tempo... pouco!<span class="pn"><a +name="pag_98">{98}</a></span></p> + +<p>E, de resto, elle tinha razão.</p> + +<p>Quando já não podia viver com as mulheres, com quem viveria elle se tivesse +rompido com os homens?</p> + +<p>Era esta decerto a sua ideia.</p> + +<p>Não queria isolar-se pelo resentimento, pelo azedume, pelo despeito, +sentindo-se a dois passos da solidão eterna do tumulo.</p> + +<p>Fôra um homem de sociedade, sabia o que era a lisonja, a mentira, a +falsidade cortez e amavel. Devia conhecel-as á legua. Mas assim como nos salões +tinha fingido acredital-as, reduzido á pobreza fingia tambem dar-lhes +credito.</p> + +<p>O enganal-o por cortezia podia ser um motivo para que elle continuasse a não +ter dinheiro na bolsa, mas não era um motivo para que recusasse um +<em>shake-hand</em> á pessoa que o enganava segundo as boas praxes do codigo do +bom tom.</p> + +<p>—Para a semana será... dizia elle.</p> + +<p>Passava uma semana, um mez, um anno.</p> + +<p>—Então?...</p> + +<p>—Tem havido difficuldades... Mas estão aplanadas... Agora vae.</p> + +<p>E não ia!</p> + +<p>Elle é que, fingindo esperar sempre alguma coisa que lhe consolasse os +ultimos dias da vida, foi para o Porto, já muito doente, cheio de dôres e de +desillusões, e de casa de uma filha querida,<span class="pn"><a +name="pag_99">{99}</a></span> que lhe recolheu piedosamente o derradeiro suspiro, foi +para a cemiterio de Agramonte, onde finalmente descansa...</p> + +<p>O <em>Diario do Governo</em> perdeu um leitor, a sociedade portugueza perdeu +um dos seus <em>gentlemen</em>, talvez o ultimo, seus filhos perderam um pae +extremosissimo, e eu perdi um amigo tão dedicado, que me confiava os segredos +dolorosos de toda a sua vida, dando-me a lêr o manuscripto das suas memorias +inéditas.</p> + +<p>Pobre barão! Outros, que começaram mais tarde a frequentar a sociedade, +chegaram depressa ao galarim, tão depressa que, na allucinação do triumpho, nem +já o conheciam. Mas elle é que conhecia toda a gente: um <em>shake-hand</em> +para a direita, um sorriso para a esquerda, parecia andar fazendo as suas +visitas de despedida antes de partir para a eternidade. E para que ninguem +podesse ficar aggravado com o muito que elle tinha soffrido, perdoava a +todos...</p> + +<p>Morreu como viveu: um <em>gentleman</em>.<span class="pn"><a +name="pag_100">{100}</a></span></p> + +<h1>XII</h1> + +<h2>A «season» lisbonense em 1833</h2> + +<p>Este inverno promette uma <em>season</em> verdadeiramente notavel: salas que +raramente se abriam, como as dos condes de Porto Covo, reanimam-se e povoam-se; +o presidente do conselho de ministros receberá ainda quatro vezes durante os +dois mezes proximos.</p> + +<p>Fallemos principalmente das <em>soirées</em> da presidencia, notaveis mais +que todas por serem o ponto de reunião dos grandes vultos da politica +portugueza na casa do primeiro entre os primeiros.</p> + +<p>Quem vir o sr. Fontes Pereira de Mello nas recepções officiaes do paço, nos +actos solemnes da vida parlamentar, com o seu aspecto severo e frio, com a sua +figura correcta e grave, terá avaliado apenas superficialmente este homem de +estado que tem, como nenhum outro, a<span class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span> +consciencia das funcções de que se acha investido e das situações em que se +acha collocado. É preciso, porém, avalial-o <em>chez lui</em>, tendo uma phrase +amavel para todas as pessoas que concorrem ás suas recepções, sabendo fallar ás +senhoras e aos politicos, percorrendo todas as salas para ser attencioso com +todos, conversando litteratura com os escriptores, politica com os homens de +estado, accommodando-se com distincção a todos os assumptos e a todas as +idades, sem constrangimento e sem esforço.</p> + +<p>Um estrangeiro, um viajante, um <em>touriste</em> não encontraria decerto +melhor occasião para conhecer todos os homens notaveis de Portugal do que +aquella que as <em>soirées</em> do presidente do conselho lhe podem +fornecer.</p> + +<p>Aqui, um pouco curvado, o cabello levantado e branco, faces córadas, um +sorriso docemente ironico, deixando vêr atravez das suas lunetas uns olhos +penetrantes e expressivos, o ministro de Portugal em Madrid, vice-presidente da +camara dos pares, passa nas salas, sobraçando a <em>claque</em>. É um erudito, +um professor, um academico, que consome a maior parte dos dias na Torre do +Tombo a revolver o archivo. Para os litteratos é o auctor de <em>Um anno na +côrte</em>; para os academicos é o auctor da <em>Historia da linha de +demarcação que repartia o mundo entre Portugal e Castella</em>, o recente +annotador do <em>Roteiro de Lisboa a Goa</em>; para os politicos é um +estadista<span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span> e um diplomata de primeira +ordem, é ainda o auctor dos <em>Perigos</em>; para os indifferentes é o sr. +Andrade Corvo.</p> + +<p>Ali, debruçado sobre a meza do whist, na curvatura interessada dos myopes, +um homem magro e sêco, de uma magresa forte e resistente, pondo ás vezes por +cima dos oculos afumados o seu <em>lorgnon</em>, interroga o parceiro com a sua +voz mansamente timbrada: é o poeta do <em>Avè Cesar</em> e do <em>Pavilhão +negro</em>, o dramaturgo dos <em>Primeiros amores de Bocage</em>, o romancista +dos <em>Bandeirantes</em>, orador, estadista, diplomata, academico, é Mendes +Leal, emfim.</p> + +<p>Acolá, o ministro dos negocios estrangeiros, Antonio de Serpa Pimentel, +conversa animadamente, encostando o seu corpo franzino ao angulo de uma meza, +fazendo girar rapidamente o cordão da sua luneta, e sorrindo: eis aqui um outro +homem de estado que é ao mesmo passo um poeta, um prosador, um critico e um +academico.</p> + +<p>Na sala de baile, a figura esvelta e forte de Thomaz Ribeiro destaca-se: a +gran-cruz escarlate, atravessada sobre o peito largo, anima-lhe o busto: os +cabellos grisalhos, como que ligeiramente empoados, têem por vezes fulgurações +instantaneas.</p> + +<p>N'um <em>fauteuil</em>, Julio de Vilhena observa com os seus olhos +penetrantemente meridionaes, sorri com vivacidade aos que lhe vão fallando,<span class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span> e retorce descuidadamente a guia esquerda +do seu pequeno bigode.</p> + +<p>Hintze Ribeiro conversa n'um grupo de deputados sobre as discussões do +parlamento: anima-se fallando, e fixa a luneta, fitando o interlocutor.</p> + +<p>O procurador geral da corôa e fazenda<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup>, alto e corpulento, conversa no tom +modesto e auctorisado que lhe é peculiar, dois jurisconsultos distinctos +ouvem-n'o com uma grande attenção respeitosa, como a um mestre.</p> + +<p>Barjona de Freitas, baixo, nutrido, hombros largos, cabello preto e luzidio, +falla com Thomaz de Carvalho, que o ouve com o beiço inferior um pouco +descahido, e Bulhão Pato, pequeno e forte, o cabello branco, faces morenas como +as de um anduluz, aproxima-se, cofiando a pera.</p> + +<p>E como n'esse momento uma valsa, de uma melodia suave, docemente marulhada, +se espraie pela sala, devem certamente acudir-lhe ao espirito ardente os versos +da <em>Paquita</em>:</p> + +<blockquote> + <p>Entrei no baile, quando a valsa rapida<br> + Corria as salas em airosas voltas!<br> + Das leves roupas, transparentes, soltas,<br> + Que doce aroma se esparzia no ar!<br> + Parei mirando aquellas frontes candidas,<br> + Que se animavam de alegrias loucas.<br> + Amor calando nas graciosas bocas,<br> + Amor dizendo no inspirado olhar.<span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span></p> +</blockquote> + +<p>As primeiras valsistas de Lisboa, as de mais nobre nascimento e de mais +distincta elegancia, giravam com effeito em torno do salão, que parecia ondular +serenamente como um lago, encrespado por uma brisa ligeira.</p> + +<p>Algumas cabeças, formosamente loiras como a de Daphne, pareciam aureoladas +por um diadema de oiro; outras, de bellos cabellos negros, affiguravam-se +radiadas de arabescos luminosos, como o azeviche batido fortemente pela luz.</p> + +<p>O visconde de S. Januario, de amplo peito arqueado, gran-cruz traçada, +cabeça altiva, conversava n'um grupo de senhoras; o duque de Palmella, alto, +suissas pretas, com a mão direita entalada entre o collete e a gran-cruz, +acabava de conversar com o duque de Loulé, que fôra fazer a sua partida de +whist para a sala da bibliotheca, onde o conde de Valbom jogava emparceirado +com o sr. Carlos Bento na mesma mesa em que tambem era parceiro o distincto +advogado Pinto Coelho.</p> + +<p>Não haveria, pois, melhor occasião para poder observar os nossos homens mais +distinctos na politica, no fôro, na litteratura, na diplomacia, no +professorado, no commercio.</p> + +<p>Muitos d'elles, se não a maior parte, são um nobre exemplo de coragem, de +perseverança e de gloria a todos quantos agora estreiam a sua carreira. <span class="errata" title="no original: Á vista de um trabalho">Á custa de um trabalho</span> paciente e intrepido<span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span> +alcançaram, por direito de conquista, a alta posição que hoje occupam. +Soffreram, combateram, luctaram, mas conseguiram honrar o seu berço, o seu +nome, e o seu paiz. Citemos ao acaso um nome, Mendes Leal, que atravessou todas +as commoções de uma existencia accidentada de mil incertezas, luctando sempre, +no theatro, na litteratura, na imprensa, na politica, mas conseguindo vencer +por um esforço heroico de que só os homens do seu valor e da sua tempera são +capazes.</p> + +<p>Quantos d'elles, se não todos, têem sido injustamente accusados, +violentamente atacados, injuriados até! A consciencia do dever é, porém, uma +especie de muralha da China, onde os projectis da inveja e da calumnia vão +bater, refluindo de ricochete contra os que os arremessaram com mão traiçoeira. +É a compensação providencial destinada aos que cumprem a sua missão. Os +insignificantes, os invejosos, os inuteis, aquelles que não comprehendem o seu +destino, julgam que todos lh'o roubaram, e por isso de todos dizem mal.</p> + +<p>Aqui está, pois, levamente esboçada, uma pagina da <em>season</em> +lisbonense em 1883.<span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup> Conselheiro Martens Ferrão.</p> +</div> + +<h1>XIII</h1> + +<h2>Gostos não se discutem</h2> + +<p>Tem cada um sua maneira especial de se divertir. Chega a haver n'isso uma +tal variedade como nas physionomias.</p> + +<p>Ha quem não possa divertir-se com os outros, e quem não esteja bastante +divertido sem os outros.</p> + +<p>Ha quem goste dos outros só por algum tempo, de modo que nos acontece ás +vezes encontrar um sujeito que nos abre os braços e exclama nadando em +jubilo:</p> + +<p>—Ora ainda bem que o encontro! Ha quanto tempo! ha quantos mezes! +Temos muito que conversar! Vamos a isso! vamos a isso!</p> + +<p>Fica a gente horrorisada com a perspectiva de uma maçada enorme. Mas não ha +remedio senão fazer cara alegre e acceitar as coisas como ellas são.</p> + +<p>—Pois vamos lá a isso!<span class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span></p> + +<p>Conta-nos o sujeito duas lerias, fugitivamente, como se o tivesse de fazer +por simples cumprimento.</p> + +<p>E, de repente, estendendo-nos a mão, parecendo ter já dito tudo:</p> + +<p>—Adeus! meu amigo. Estimei muito vel-o.</p> + +<p>Aqui está um exemplar de sujeito que gosta da companhia dos outros por algum +tempo apenas.</p> + +<p>O grande prazer que sentiu encontrando-nos aguou-se tão de pressa, que só +abandonando-nos de repente poude continuar a divertir-se.</p> + +<p>Conheci um alto cavalheiro, pessoa de estimação, que folgava immenso de que +outro, que em tempo havia feito despachar para certo logar da alfandega, o +seguisse por toda a parte, vestindo-lhe o casaco á saida dos theatros, +pegando-lhe na bengala se queria atar o <em>cache-nez</em>, acompanhando-o a +casa todas as noites, dizendo-lhe na rua o nome das pessoas que o iam +cumprimentando.</p> + +<p>Um dia o fiel protegido adoeceu, e o protector tão aborrecido se encontrou +da sua falta, que resolveu ficar em casa emquanto o outro não melhorasse.</p> + +<p>Pelo contrario, ha pessoas a quem uma tão solicita e dedicada gratidão +incommodaria enormemente.</p> + +<p>Andrade Corvo, conversando comigo, dizia uma vez:<span class="pn"><a +name="pag_108">{108}</a></span></p> + +<p>—A gratidão que persegue a gente, é das coisas mais secantes que se +conhecem. E offende até certo ponto, porque dá a entender que fazemos um favor +para sermos servidos toda a vida.</p> + +<p>Como n'esse dia estivesse de notavel bom humor, exemplificou:</p> + +<p>—Ora imagine que se dá um espirro e se ouve dizer logo do lado: +<em>«Dominus tecum</em>, sr. conselheiro.» Imagine que tira a gente um charuto +da algibeira, e que a gratidão acode a cortar-nos o passo exclamando: «Aqui +está o meu lume ás ordens de v. ex.ª, sr. conselheiro!» Olhe que chega a fazer +perder a paciencia!</p> + +<p>Ha pessoas que se divertem passeiando sem fallar e sem olhar para +ninguem.</p> + +<p>Recolhe um desses a sua casa e pergunta-lhe a mulher:</p> + +<p>—Encontraste muita gente conhecida?</p> + +<p>—Não sei.</p> + +<p>—E tiveste muito calor, filho?</p> + +<p>—Olha que tambem não sei.</p> + +<p>Outros, porém, gozam andando devagar, pasmando para tudo, parando de vez em +quando a observar todos, descobrindo mysterios, surprehendendo segredos.</p> + +<p>Conheço um destes; que me disse ha poucos mezes:</p> + +<p>—Fulano, quando chegar a ministro, não faz caso de ninguem.<span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span></p> + +<p>—Por que?</p> + +<p>—Eu lhe conto. Outro dia encontrou elle um amigo na rua da Boa Vista. +Você conhece de certo o Silveira?</p> + +<p>—Muito bem.</p> + +<p>—Pois era esse o amigo que elle encontrou. Eu vinha atraz e ouvi toda +a conversa. Ambos queriam o <em>americano</em> que fosse para o Rato. N'isto +passava o carro que ambos desejavam. De repente o outro, que lobrigára um só +logar vazio, larga o Silveira, trepa para o <em>americano</em>, e diz-lhe de lá +adeus com a mão. O Silveira ficou com cara de parvo.</p> + +<p>—Mas que tem isso?!</p> + +<p>—Ah! então você não costuma aproveitar as lições que a observação de +todos os dias lhe vae deparando! Está arranjado! Aquelle <em>americano</em> era +uma especie de carro do governo, em que o outro, logo que teve occasião, tratou +de arranjar logar, sem se importar com os que ficavam atrazados.</p> + +<p>—Sim. Mas não me parece...</p> + +<p>—Homem! qualquer coisa define uma pessoa. Os que gostam de fazer +<em>paciencias</em> divertem-se comsigo mesmos: em tendo um baralho de cartas, +prescindem bem dos outros.</p> + +<p>Um d'esses taes estava em casa uma noite. Passou um amigo, e entrou.</p> + +<p>—Pensei que estivesse gente de fóra! disse o amigo ao entrar.<span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span></p> + +<p>—Enganaste-te. Estou eu só a fazer <em>paciencias</em>.</p> + +<p>—E a sr.ª D. Ismenia?</p> + +<p>—Sahiu.</p> + +<p>—Foi para o theatro?</p> + +<p>—Tambem não sei bem. Sahiu com a mãe.</p> + +<p>—E tua filha?</p> + +<p>—Sahiu com o tio.</p> + +<p>—E tu por que não sahiste tambem?</p> + +<p>—Por que não precisava.</p> + +<p>—Mas sempre é bom passeiar depois que se janta.</p> + +<p>—Para passeiar, meu amigo, basta que saia alguem da familia.</p> + +<p>Outros são de feitio opposto: amam a sociedade, a companhia, a +convivencia.</p> + +<p>Encontra a gente um ou outro, á meia noite, quando recolhe a casa.</p> + +<p>—Que pressa tem você de se deitar? pergunta elle.</p> + +<p>—Preciso levantar-me cedo.</p> + +<p>—Mas durma depressa, homem!</p> + +<p>—Durma depressa! tem graça!</p> + +<p>—É o que lhe digo. Quer você ouvir um caso? Olhe que ainda é cedo. Uma +vez estava eu em Villa Franca, em casa do Tiberio. Jogava-se o voltarete. Havia +hospedes: um d'elles era o major Noronha, que tinha de ir no comboio da manhã +para Santarem. O jogo enremissou-se. A dona da casa, muito constrangida,<span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> lembrou que era melhor deixarem as remissas +para outra occasião, porque o major tinha de levantar-se cedo. E vae elle, +muito amavel, respondeu: «Não tem duvida, minha senhora, porque eu estou +habituado a dormir depressa.» Faça você o mesmo, e dê dois dedos de cavaco.</p> + +<p>—Sim... mas é já tarde.</p> + +<p>—Olhe cá, a proposito de voltarete e remissas... Você sabe que o +Castilho dizia que o voltarete era um jogo impio?</p> + +<p>—Impio?</p> + +<p>—Porque a cada passo ouvia dizer aos que o estavam jogando: Arre +missas! (Ha remissas).</p> + +<p>—Tem graça, tem! Adeus, que já é tarde.</p> + +<p>E o pobre homem, que só com os outros se diverte, fica aborrecido por se +achar só na rua.</p> + +<p>Lembra-lhe talvez ir pedir lume ao guarda nocturno para accender o +charuto,—como um pretexto para armar cavaqueira.</p> + +<p>Depois de accender o charuto:</p> + +<p>—Ó sr. guarda! n'esta rua ha muitos namoros?</p> + +<p>—Já houve mais.</p> + +<p>—Por que?</p> + +<p>—Têem ido casando.</p> + +<p>—É mal feito!</p> + +<p>—Bem ou mal feito, é lá com elles.</p> + +<p>—Mas o senhor fica muito prejudicado!<span class="pn"><a +name="pag_112">{112}</a></span></p> + +<p>—Ora essa!</p> + +<p>—Porque quantos menos namoros houver, mais só vae ficando a rua.</p> + +<p>Eil-o aqui a pensar como se elle proprio fosse o guarda nocturno. Ah! se o +fosse, valer-se-ia até talvez da carta anonyma para desfazer casamentos, porque +os namoros podem succeder-se, mas os casados, em geral, não se namoram... +depois.</p> + +<p>Ha pessoas secantes que se divertem ralhando sempre, e que gostam do jogo, +porque lhes dá occasião de bater murros na mesa e de gritar.</p> + +<p>A um d'estes grasinas faltava certa noite um parceiro para jogar o whist de +perna de pau.</p> + +<p>—Se viesse por ahi alguem! exclamava elle espreitando pelas vidraças +para fóra.</p> + +<p>N'isto tocaram a campainha.</p> + +<p>—Ah! é você! Ainda bem! Vamos lá jogar o whist.</p> + +<p>—Não jogo.</p> + +<p>—Por que não joga?</p> + +<p>—Porque você ralha sempre!</p> + +<p>—Hoje não ralho. Palavra de honra.</p> + +<p>—Com essa condição, vamos lá.</p> + +<p>Meia hora depois dizia o dono da casa:</p> + +<p>—Esta stearina está hoje detestavel!</p> + +<p>Passados cinco minutos:</p> + +<p>—Parece que cá em casa não fazem hoje tenção de servir o chá!<span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span></p> + +<p>De repente os outros dois pegaram-se a discutir o jogo.</p> + +<p>—Ah! elle é isso! exclama o dono da casa. Pois então sempre lhe quero +dizer a você (o tal, que tirára a condição) que já ahi fez uma grande asneira +quando eu me queixei da stearina, e outra quando fallei no chá. Da primeira vez +você devia ter vindo a oiros.</p> + +<p>Entra o criado com o taboleiro do chá.</p> + +<p>—Leva lá isso, que ainda é muito cedo! E da segunda vez porque devia +ter vindo a copas, que era o que se lhe pedia.</p> + +<p>Epaminondas, segundo resa a historia, nem por gracejo mentia, tanto gostava +da verdade,—até para se divertir.</p> + +<p>Outros, porém, só mentindo é que estão nas suas sete quintas.</p> + +<p>E isso cria-lhes difficuldades, põe-n'os em graves apuros, mas dá-lhes tanto +gosto, que perdoam o mal que ás vezes lhes faz pelo bem que lhes sabe... o +mentir.</p> + +<p>Contava um n'uma roda de amigos:</p> + +<p>—Ver a morte! Quatro vezes a tenho eu visto já! imaginem que andando á +caça no Brazil, alonguei-me pela roça fóra, e tinha descido a uma chã quando vi +que um preto, que eu havia castigado dias antes, corria atraz de mim de +espingarda na mão.</p> + +<p>—E depois?</p> + +<p>—Depois o preto, que chegára á borda do<span class="pn"><a +name="pag_114">{114}</a></span> outeiro, apontou-me a espingarda. Vocês sabem que os +pretos têem uma pontaria infallivel!</p> + +<p>—Como diabo escapaste tu?!</p> + +<p>Chegado a este ponto, tambem elle proprio não sabia ainda como poderia ter +escapado.</p> + +<p>—Sim! Como escapaste tu?!</p> + +<p>Nova hesitação do narrador.</p> + +<p>—Não escapaste!</p> + +<p>—Homem, isto é serio. Fosse em razão do odio que me tinha, ou do +cansaço da corrida, o preto teve uma apoplexia fulminante e veiu cair-me aos +pés. Dei-lhe um pontapé, e continuei a caçar.</p> + +<p>Conheci um rapaz, que morria por andar de calças brancas.</p> + +<p>Eu disse-lhe algumas vezes:</p> + +<p>—Que diabo de gosto o teu! Não te parece que andas em ceroulas?</p> + +<p>Elle respondia-me sempre:</p> + +<p>—E a ti não te parece que metteste as pernas n'um tinteiro!</p> + +<p>São gostos, e gostos não se discutem. Mas se toda a gente, em questão de +gosto, tivesse a mesma opinião, quanto seria difficil... casar, por exemplo!<span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span></p> + +<h1>XIV</h1> + +<h2>Peccadilhos metricos</h2> + +<p class="centrado"><em>Non bis in idem</em></p> + +<blockquote style="font-size: 0.6em; margin-left: 50%;"> + <p>Fazem ámanhã annos,<br> + ......................<br> + ......................<br> + Alberto Pimentel<br> + ......................<br> + </p> + + <p><em>Novidades</em>, de domingo 27 de novembro de 1887.</p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Ainda ante-hontem dizia<br> + Certo jornal que eu fazia<br> + Annos no dia seguinte.<br> + Comquanto o jornal ref'rido<br> + Pertença a outro partido,<br> + Era favor; não acinte.</p> + + <p>Mas, emfim, passa em julgado<br> + Que eu seja tão desastrado<br> + Que, já proximo dos <em>enta</em>,<br> + Faça annos cada semestre?<br> + Não: que o tempo é um grande mestre.<br> + Tempo que passa, avelhenta.<span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span></p> + + <p>Fazer annos em novembro,<br> + Logo em abril repetil-os!<br> + De tal coisa não me lembro!<br> + Tomára diminuil-os,<br> + Quanto mais, por triste engano,<br> + Duplical-os em cada anno!</p> + + <p>Assim, se chego aos sessenta,<br> + Contar-me-hão cento e vinte!<br> + Pois cada semestre augmenta<br> + Um anno, e outro o seguinte!<br> + Faço annos no quente e frio<br> + Como pago ao senhorio!!</p> + + <p>Não! Não pode ser! Protesto!<br> + Porque eu trabalho, e de resto,<br> + Pago de seis em seis mezes<br> + Duas rendas, uma em annos,<br> + Outra em metal! São enganos?<br> + Mas eu pago duas vezes!</p> + + <p>Fique pois bem entendido,<br> + Bem notorio, bem sabido,<br> + Que só uns annos farei.<br> + <em>Quatorze de abril</em>: é a data.<br> + Dispenso flôres, cantata...<br> + Mas protesto. E protestei.</p> +</blockquote> + +<p>29 de novembro de 1887.<span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">DEPOIS DO INCENDIO DO THEATRO BAQUET</p> + +<p class="centrado"><em>(Versos recitados pelo actor Firmino, uma das victimas +sobreviventes d'aquelle incendio, no beneficio que realizou no theatro da +Trindade.)</em></p> + +<blockquote> + <p>Venho d'entre as ruinas e das chammas,<br> + Onde tudo perdi. Sabeis a historia,<br> + Que o vosso coração ainda contrista.<br> + Perdoai a vaidade ao pobre artista...<br> + Eu sonhava essa noite com a gloria.</p> + + <p>Monstruosa ironia! A gloria! A gloria!<br> + Tive por ovação prantos, clamores.<br> + Ossadas por cortejo. O incendio e a fama<br> + Disputaram ali. Venceu a chamma.<br> + Eram chammas o palco e os bastidores...</p> + + <p>E ali n'essa sinistra apotheóse<br> + Ficaram sepultados meus thesoiros,<br> + Amigos que eu perdi,—tão dedicados!<br> + Minha pobre familia,—os meus cuidados,<br> + Doces cuidados que eu pref'ria aos loiros!...</p> + + <p>Sou agora a mim proprio quasi extranho,<br> + Um viajante perdido no deserto,<br> + N'esse infindo deserto da saudade.<br> + Sinto ainda a desgraça muito perto...<br> + Mas sinto ainda mais perto a caridade!</p> + + <p>Se vivo, é só por ella. Em seu regaço<br> + Choro o meu abandono, as minhas dôres.<br> + Refunde-se a minha alma em muitas almas,<br> + Vale um consolo o que não valem palmas...<br> + Vivo, meu Deus! graças a vós, senhores!...<span class="pn"><a + name="pag_118">{118}</a></span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p class="centrado">UMA DAS VICTIMAS DO INCENDIO</p> + +<p class="centrado"><em>(Etelvina Julia d'Almeida.)</em></p> + +<blockquote> + <p>Vi-a n'um baile, ha muitos annos, quantos!<br> + Da sua face bella as frescas rosas<br> + Deviam ter suavissimos encantos<br> + Se os beijos, namoradas mariposas,<br> + Fossem sorver, ha muitos annos, quantos!<br> + Da sua face bella as frescas rosas.</p> + + <p>Mas quem hontem logrou reconhecel-a<br> + Entre as negras ruinas sepultada?...<br> + Mas quem poude affirmar, dizer: É ella!<br> + Ella que fôra outr'ora alva e rosada!<br> + Já não poude ninguem reconhecel-a<br> + Entre as negras ruinas sepultada.</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p class="centrado">1.º DE DEZEMBRO</p> + +<blockquote> + <p>Filippa de Vilhena!<br> + João Pinto Ribeiro!<br> + Palavra, que faz pena<br> + Ver o despenhadeiro<br> + Em que isto agora vae!<br> + E como o paiz cae!</p> + + <p>Agora é só dinheiro.<br> + Está campando em scena<br> + Sómente o deus Milhão!<br> + Filippa de Vilhena!<br> + João Pinto Ribeiro!<br> + Palavra, que faz pena...<br> + Agora é só dinheiro...<br> + E os que lá vão lá vão!</p> +</blockquote> + +<p>1887.<span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">EMILIA</p> + +<p class="centrado"><em>(Minha irmã.)</em></p> + +<blockquote> + <p>Nunca tu azas tiveras,<br> + Que te elevassem ao ceu.<br> + Nunca tu voar poderas<br> + Co'as azas que Deus te deu.</p> + + <p>Por mais que tu procuraste<br> + Reprimir-lhe o ancioso vôo,<br> + Eras tão debil! cansaste.<br> + Deus quiz o anjo, e levou-o.</p> + + <p>Tinha reflexos tão doces<br> + O teu olhar doce e brando,<br> + Que logo pensei que fosses<br> + Lirio que veio voando</p> + + <p>D'essa translucida esphera,<br> + Tão cristalina e tão alta,<br> + Onde a eterna primavera<br> + Sentiria a tua falta.</p> + + <p>Então as flôres celestes<br> + Chorando saudosamente<br> + Vestiram lutuosas vestes,<br> + Feitas de seda somente.</p> + + <p>E, debruçadas nas sépalas,<br> + Choraram pranto divino<br> + Sobre o justilho de pétalas,<br> + Polvilhado de ouro fino.</p> + + <p>Deus viu-as tristes, chorosas.<br> + Nos seus ethéreos jardins,<span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span><br> + E chorou co'as suas rosas,<br> + Teve dó dos seus jasmins.</p> + + <p>E como o pranto divino<br> + Tambem, como pranto, queima,<br> + Deus co'a sua voz, um hymno,<br> + Dissera ás azas: «Trazei-m'a.»</p> + + <p>E as azas, mal escutaram<br> + A celeste melodia,<br> + Obedeceram, voaram,<br> + Qual d'ellas mais voaria.</p> + + <p>Quando esse lirio nevado<br> + Chegou de novo ao empireo,<br> + Ia triste e maguado,<br> + Deus estranhou o seu lirio!</p> + + <p>E o que o lirio não dissera<br> + Tudo Deus adivinhou.<br> + Voando á celeste esphera,<br> + Chorára emquanto voou.</p> + + <p>As flôres do azul sorriam,<br> + Os lirios do ceu cantavam,<br> + Meus olhos já te não viam,<br> + Meiga creança, e choravam.</p> + + <p>Nunca tu azas tiveras,<br> + Que te elevassem ao ceu<br> + Nunca tu voar poderas<br> + Co'as azas que Deus te deu.</p> +</blockquote> + +<p>24—2—87.<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">JOÃO DE DEUS</p> + +<blockquote> + <p>João de Deus! De Deus... porque é divino.<br> + João, ou seja o primo de Jesuz<br> + Ou o outro que vela junto á Cruz,<br> + É divino tambem.<br> + E não atino<br> + Senão co'esta rasão: foi prophecia<br> + —Se já não foi destino—<br> + De quem previu que João de Deus seria<br> + Um poeta divino.</p> +</blockquote> + +<p>Ericeira, 21—10—90.</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">KERMESSE</p> + +<blockquote> + <p>O bem é como as auroras,<br> + Que para tudo o que existe<br> + Espalham luz e calor.<br> + Seja alegre ou seja triste<br> + A alma, o insecto, a ave, a flôr,<br> + Tudo o que ri ou que chora<br> + Sente nos raios da aurora<br> + A esmola do eterno amor...</p> + + <p>Os beijos do sol aquecem<br> + Tudo o que é velho ou que é moço,<br> + O ephémero e o colosso.<br> + As rochas e os corações,<br> + Os lagos e as ondas bravas,<br> + Emporios e solidões,<br> + As lagrimas das escravas<br> + E os sorrisos das rainhas,<br> + As cavernas dos leões<br> + E os ninhos das andorinhas.<span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span></p> + + <p>E o bem é como as auroras.<br> + Por isso ao bem não esquece<br> + A creança, o ninho, a escola...</p> + + <p>Tu és como o sol, esmola!<br> + És como a aurora, kermesse!</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p class="centrado">OS TREZ VELHOS</p> + +<p class="centrado">I</p> + +<blockquote> + <p>Cahiu um nevão na serra.<br> + Desde a cumiada ao val<br> + Alveja rútila a terra.<br> + Não houve nevão egual!</p> + + <p>O ar gelado, cortante,<br> + Passa sobre as povoações<br> + Ceifando como um montante,<br> + Rugindo como os leões.</p> + + <p>Arvores sêcas, esguias<br> + Olham para o ceu, talvez<br> + A soluçar elegias,<br> + Carpindo a sua nudez.</p> + + <p>Cheias de fome, as manadas<br> + Sobre as campinas despidas<br> + Só róem urzes queimadas<br> + E raizes ressequidas.</p> + + <p>A fome, a doença, a morte<br> + Assentaram arraiaes<br> + Junto ao casal e á corte,<br> + Levando gente e animaes.<span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span></p> + + <p>Famintas, as alcateas<br> + Vem de noite ao povoado.<br> + Tremem de medo as aldeas,<br> + Ouvindo o lobo esfaimado...</p> + + <p>E desde o alto da serra<br> + Abre a neve o seu lençol.<br> + O que seria da terra<br> + Sem ter um raio de sol?!</p> +</blockquote> + +<p class="centrado">II</p> + +<blockquote> + <p>Entre a egreja e o presbyterio<br> + Corre, caiado de novo,<br> + O muro do cemiterio.<br> + Vem ali juntar-se o povo.</p> + + <p>O sol, batendo no muro,<br> + Aquece a pedra ao meio dia,<br> + Torna o inverno menos duro,<br> + Tempera a nortada fria.</p> + + <p>Lá se juntaram trez velhos<br> + Sêcos, rijos, vermelhaços,<br> + Expondo ao sol os joelhos,<br> + Estendendo ao sol os braços.</p> + + <p>Emquanto o sol os aquece,<br> + Riem-se elles da nortada.<br> + Cada um seu mal esquece,<br> + Vai tudo de patuscada.</p> + + <p>—Tem morrido muita gente<br> + Com esta grande invernia!...<br> + —Pois nunca o inverno foi quente!<br> + —Salvo... este sol do meio dia.<span class="pn"><a + name="pag_124">{124}</a></span></p> + + <p>—Este sol é a minha adéga:<br> + Eu não quero outro calor.<br> + —Você o vinho renega!...<br> + —Lingua de mau pagador!</p> + + <p>—O vinho é caro. A cacháça<br> + Custa agora...<br> + —Isso que monta!<br> + —O sol dá-o Deus de graça!...<br> + —Mas beba vinho com conta!</p> + + <p>—Eu cá nunca fui borracho.<br> + —Nanja eu. Mas acho-o bom.<br> + —Diz um cacho a outro cacho:<br> + Não bebas sem tom nem som!</p> + + <p>E n'esta mansa folia<br> + Vão-se aquecendo os trez velhos<br> + Ao doce sol do meio dia,<br> + Rijos, sêcos e vermelhos.</p> +</blockquote> + +<p class="centrado">III</p> + +<blockquote> + <p>—Lá vem enterro... Isto agora...<br> + Não tem descanso o coveiro!<br> + —Vem d'acolá d'onde mora<br> + A mulher do Zé Cabreiro.</p> + + <p>—Foi o filho... É de creança<br> + O caixão: eu inda vejo!<br> + —O coveiro não descansa!...<br> + —Inda hontem lhe dei um beijo!</p> + + <p>—A quem? Ao coveiro?!<br> + —Irra!<br> + Ao filho do Zé Cabreiro.<span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span><br> + —O frio as creanças mirra.<br> + —Lá vem atraz o coveiro...</p> + + <p>—A morte leva os fedelhos,<br> + Mata n'um dia um rapaz,<br> + Emquanto que nós, os velhos.<br> + Vamos ficando p'ra traz!</p> + + <p>—A morte é uma gulosa,<br> + Gosta de bocados finos.<br> + Carnes que cheirem a rosa,<br> + Polpa de tenros meninos...</p> + + <p>—Póde ser!...<br> + —Pois certamente!<br> + Nós cá, ossos esburgados,<br> + Nem para a cova de um dente<br> + Lhe chegavamos, coitados!</p> + + <p>No alto mar me contava<br> + Um velho de Guimarães<br> + Que a terra se embebedava<br> + Com as lagrimas das mães...</p> + + <p>—Por isso lhes leva os filhos!...<br> + A gulosa!... Quer banquete!<br> + —Quem tem filhos tem cadilhos.<br> + Morreram-me. Eu tive sete!...</p> + + <p>—E eu nenhum.<br> + —Nem eu.<br> + —Agora,<br> + Sem ter filhos nem mulher,<br> + Visto que ninguem nos chora,<br> + Nem mesmo a terra nos quer!...</p> +</blockquote> + +<p>Janeiro de 1891.<span class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">AS POMBAS</p> + +<p class="centrado"><em>(De Theophilo Gautier.)</em></p> + +<blockquote> + <p>Na collina dos mortos, entre os tumulos,<br> + Ergue a bella palmeira a verde pluma,<br> + E á tarde as mansas pombas de azas candidas<br> + Vão aninhar ali, uma após uma.</p> + + <p>De manhã, quando o sol desperta rutilo.<br> + As brancas pombas vão, cortando o ar,<br> + Como um solto collar no azul ethéreo,<br> + Longe do ninho um tecto procurar.</p> + + <p>Minha alma é como a solitaria arvore<br> + Onde enxames de loucas illusões<br> + Poisam á noite. Fugitivos hospedes,<br> + Vão-se co'a luz as pombas e as visões.</p> +</blockquote> + +<p>8—2—87.</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">MULHER E GATA</p> + +<p class="centrado"><em>(Paul Verlaine.)</em></p> + +<blockquote> + <p>O vel-a até dava gosto<br> + Brincando co'a sua gata,<br> + Branca mão contra alva pata,<br> + Na penumbra do sol posto.</p> + + <p>Mitene, que a mão recorta,<br> + Por dissimular trabalha<br> + Unha d'ágatha, que corta<br> + E brilha como navalha.</p> + + <p>Mas a gata, disfarçada<br> + Tambem, com prazer ronrona<span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span><br> + E ensaia a unha acerada...<br> + Não é melhor do que a dona!</p> + + <p>E os dois labios purpurinos<br> + Enchiam de riso o ar,<br> + Onde se viam, felinos,<br> + Quatro phosphoros brilhar.</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p class="centrado">N'UMA SALA</p> + +<blockquote> + <p>A um canto, os politicos fallavam<br> + Com um certo mysterio<br> + Do modo como as coisas caminhavam,<br> + Se estava forte ou fraco o ministerio.</p> + + <p>Alguem que se mostrava resentido,<br> + Abanava a cabeça—era um symptoma<br> + De que a seu vêr o mundo está perdido<br> + E tudo cae,—como caíra Roma!<br> + Elle só, por sciencia e por estudo,<br> + Era talvez capaz de salvar tudo...</p> + + <p>N'outro canto da sala gorgeiava<br> + A musica do riso e d'alegria<br> + Um grupo que sorria e que fallava<br> + De quanto ouvia e via.<br> + Era o grupo formoso das solteiras,<br> + O grupo dos vinte annos,<br> + Que é capaz de passar noites inteiras,<br> + Rindo de tudo,—até dos desenganos!</p> + + <p>D'este grupo gentil como é que eu posso<br> + Desenhar o esboço?<br> + Precisaria ter as tintas finas,<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span><br> + O magico pincel<br> + De que dispunha o grande Raphael!<br> + Em vez de uma... eram quatro Fornarinas.</p> + + <p>Quereriam talvez as bellas damas<br> + Vêr no papel traçado o seu perfil?!<br> + N'essa não caio eu...<br> + Quem é capaz de retratar abril?<br> + De transportar á tela o que é do ceu?<br> + De copiar as flôres?<br> + De imitar as estrellas?<br> + De dizer á manhã: Roubei-te as côres?<br> + Tende paciencia, ó minhas damas bellas,<br> + Incumba cada uma o seu Romeu<br> + D'esse arrojo inaudito.<br> + Eu cá por mim, repito,<br> + N'essa não caio eu...</p> + + <p>E de mais eu bem sei, minhas senhoras,<br> + Que me attendestes n'um serão inteiro<br> + Por não haver na sala algum solteiro...<br> + Sois boas, não sejaes enganadoras.</p> + + <p>Eu já tenho trez filhos, eu sou velho,<br> + Disse-m'o ha pouco tempo uma visinha,<br> + E o maldito do espelho<br> + Tem-me mostrado até... <em>pés de gallinha</em>!...</p> + + <p>Vão muito longe as minhas primaveras.<br> + De mais a mais, senhoras, a aza branca<br> + Da musa ideal que eu tive n'outras eras<br> + Desplumou-se a pensar em Salamanca,<br> + No imposto sobre o sal,<br> + A estudar as questões do parlamento,<br> + O orçamento geral,<span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span><br> + —Diabo de orçamento!<br> + Que é o livro maior que ha em <em>S. Bento</em>!<br> + Assim se foi rasgando, creio eu,<br> + Essa aza branca que me erguia ao ceu!..</p> + + <p>Vede, senhoras, se ha tormento igual!<br> + O que me resta só,<br> + Para de todo errar da sorte o alvo,<br> + E vêr-me, um dia, calvo,<br> + E descer á miseria... de um chinó.</p> + + <p>N'estas alturas, minhas damas bellas,<br> + Não posso ser pintor.<br> + Quereis vêr-vos, senhoras, retratadas<br> + Formosas como sois, e delicadas?<br> + Mirae-vos n'uma flôr...</p> + + <p> N'essa não caio eu...<br> + Fazer-vos o retrato?!<br> + Mas, em compensação,<br> + Com a vossa adhesão<br> + Estou prompto a fazer um syndicato.<span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span></p> +</blockquote> + +<h1>XV</h1> + +<h2>Os amaveis</h2> + +<p>Toda a gente os conhece, os amaveis, sempre generosos, sempre previdentes, +tendo á flôr dos labios sorrisos doces e doces fallas, que, quando não +encantam, incommodam com certesa os outros...</p> + +<p>Sim, porque os grosseiros custam a aturar, são bruscos, são asperos, são +impertinentes. Mas os amaveis de profissão, os que fazem gosto e gala de o ser +por uso e costume, chegam a aborrecer quasi tanto como os grosseiros.</p> + +<p>Com a differença de que se um grosseiro, por descuido, alguma vez se mostra +amavel, fica a gente encantada com essa surpresa; ao passo que se um amavel, +tambem por descuido,<span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span> commette uma +grosseria, fica a gente quasi vexada de vêr que elle estragou com um +involuntario borrão todo o seu passado de homem fino.</p> + +<p>A cortezia é como certos estofos claros, em que a mais leve nodoa se torna +saliente. Ao passo que nos tecidos grosseiros, qualquer incorrecção de côr, +qualquer sombra, por maior que pareça, tem sempre esta desculpa: «É mesmo da +fazenda...»</p> + +<p>Um brutalhão de marca maior costumava espancar a mulher por dá cá aquella +palha. As visinhas tinham dó da pobre creatura sempre que ella acabava de +apanhar a sova do estylo. «Coitada! diziam-lhe, vocemecê sempre foi muito +infeliz com o marido que escolheu!» E ella respondia, cheia de philosophica +resignação: «É genio d'elle, não façam caso.»</p> + +<p>Equivalia certamente a dizer: «É feitio da fazenda, não ha que +extranhar.»</p> + +<p>Um amavel que uma vez escorrega, fica tão maltratado em sua boa fama, como +ficaria maltratado corporalmente se tivesse caido do arco grande das Aguas +Livres sobre as hortas da Rabicha.</p> + +<p>Um dia, certo cavalheiro primoroso em fallas e maneiras, inexcedivel em +requintes de cortezia, andando adoentado de irritação intestinal, teve a +infelicidade, estando a jogar jogos de prendas com damas, de ser elle proprio<span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span> dolorosamente surprehendido por alguma +coisa que o vexou.</p> + +<p>O jogo acabou de repente, no meio de um silencio gelado. O cavalheiro +infeliz pegou no chapéo e, esquecendo-se da bengala, deitou a correr pela +escada abaixo.</p> + +<p>As damas dividiram-se em grupos, fallando ao ouvido umas das outras, +receiosas de que alguem as ouvisse.</p> + +<p>Os que estavam jogando o voltarete e o <em>whist</em> perguntavam +admirados:</p> + +<p>—Então acabaram tão cedo o seu divertimento!</p> + +<p>—Aconteceu alguma coisa?</p> + +<p>—Por que se foi Fulano embora tão depressa?</p> + +<p>E as damas calavam-se mysteriosamente, entrincheiradas n'um silencio, que só +quebravam para cochichar ao ouvido de alguma sua amiga.</p> + +<p>No dia seguinte o caso espalhou-se em toda a cidade.</p> + +<p>—Sabe o que aconteceu hontem a Fulano em casa de Fulano?</p> + +<p>—Não sei.</p> + +<p>—Pois ainda não sabe!</p> + +<p>—Eu lhe digo...</p> + +<p>E dizia-lh'o ao ouvido, com tamanho mysterio, que justificava plenamente o +pasmo com que a noticia era recebida.</p> + +<p>—Ora essa!</p> + +<p>—Um homem tão correcto!<span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span></p> + +<p>—Um tão perfeito cavalheiro!</p> + +<p>—Que pena!</p> + +<p>—Que desastre!</p> + +<p>—Que fiasco!</p> + +<p>E, em verdade, o que tinha acontecido a esse primoroso cavalheiro, que não +podesse acontecer a qualquer outra pessoa?</p> + +<p>Tinha deixado cair um borrão no claro estofo da sua boa fama.</p> + +<p>Se se tratasse de um grosseirão, toda a gente haveria dito apenas que era +proprio da fazenda.</p> + +<p>Viajando em caminho de ferro, quem é que não tem encontrado um companheiro +tão amavel, que chega a aborrecer?</p> + +<p>Se tem vontade de abrir uma janella, encobre este desejo com um veo de +cortezia, e pergunta:</p> + +<p>—Quer a janella aberta, não é verdade?</p> + +<p>Se deseja fechal-a, serve-se de processo identico, sempre em nome da +cortezia:</p> + +<p>—Pois não é verdade, pergunta, que desejava a janella fechada:</p> + +<p>Se se trata de offerecer de jantar a alguem, o amavel insta, insiste, +persegue quasi, que é talvez a melhor maneira da gente, no caso de ter que +acceitar por força, ir mal disposta, e comer pouco.</p> + +<p>—Você—dizia certo amavel a um amigo que lhe appareceu sem ser +esperado—você janta hoje comigo sem appellação nem aggravo.<span class="pn"><a +name="pag_134">{134}</a></span></p> + +<p>—Não posso, meu caro, o comboio parte d'aqui a meia hora, e eu tenho +que seguir hoje viagem.</p> + +<p>—Que pena! que pena! Mas veja lá se póde de algum modo fazer o +sacrificio de jantar hoje comigo...</p> + +<p>—Absolutamente, não posso, meu caro.</p> + +<p>E o amavel, tirando dois charutos da algibeira, offerece um ao seu amigo e +procura o pretexto de ir ao interior da casa accender o outro.</p> + +<p>Serviu-se d'este pretexto para ir dizer alguma coisa ao cosinheiro, que +aliás não tinha dotes de muito esperto.</p> + +<p>E, voltando para a sala, todo elle era perguntar ao amigo:</p> + +<p>—Seu pae como está?</p> + +<p>—Menos mal, obrigado.</p> + +<p>—E seu tio?</p> + +<p>—Esse passa peior.</p> + +<p>—Sinto muito. Diga-lhe que sinto muito.</p> + +<p>—E aquelle seu primo de Torres Novas?</p> + +<p>—Esse! Morreu ha um anno!</p> + +<p>—Não sabia! Que pena! um homem ainda tão novo!</p> + +<p>De repente, voltando ao offerecimento do jantar:</p> + +<p>—Mas, decididamente, você janta hoje comigo...</p> + +<p>—Não posso, meu caro, porque o comboio não dá licença.<span class="pn"><a +name="pag_135">{135}</a></span></p> + +<p>—Eu nem mesmo sei o que tenho hoje para jantar. Mas isso sabe-se +depressa. Ó José Maria, anda cá.</p> + +<p>José Maria era o cosinheiro, a quem elle havia dito de repente, quando foi +accender o charuto:</p> + +<p>—Se eu logo te perguntar o que temos para jantar hoje, inventa lá +alguma coisa grande e pomposa.</p> + +<p>Vem o José Maria e, de barrete branco na mão, espera que o amo o +interrogue.</p> + +<p>—O que temos nós hoje para jantar, José Maria?</p> + +<p>E o cosinheiro, que estivera matutando na invenção de alguma coisa grande e +pomposa, responde:</p> + +<p>—Saiba v. ex.ª que temos uma balea.</p> + +<p>Gesto de surpresa do amigo e do dono da casa.</p> + +<p>O cosinheiro fica atarantado, suppõe que tinha dito ainda pouco...</p> + +<p>—O que dizes tu, José Maria! Uma balea!</p> + +<p>E o cosinheiro querendo emendar a mão:</p> + +<p>—Duas... duas, meu senhor.</p> + +<p>Um homem menos amavel teria certamente evitado este fiasco das duas baleas, +porque não se lembraria de chamar o cosinheiro como collaborador da sua +amabilidade hospitaleira.</p> + +<p>E toda a gente, d'ali por diante, repetiu o caso ás gargalhadas, fazendo +alastrar a nódoa com<span class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span> que uma tão +distincta pessoa maculára a sua reputação de homem amavel.</p> + +<p>Havia um sujeito, pessoa excellente, a quem a naturesa dera como filho um +brutamontes rebelde a todas as correcções.</p> + +<p>Pae e filho foram convidados a jantar fóra de casa. O filho quiz ir por +força: o pae consentiu, com a condição de que elle fallaria o menos +possivel.</p> + +<p>Á mesa, o visinho da direita disse ao rapaz:</p> + +<p>—O tempo está magnifico!</p> + +<p>Elle limitou-se a meneiar affirmativamente a cabeça.</p> + +<p>O visinho da esquerda disse-lhe por sua vez:</p> + +<p>—Que magnifico tempo!</p> + +<p>Elle tornou a meneiar a cabeça.</p> + +<p>D'ali a nada diziam os visinhos aos visinhos:</p> + +<p>—Este rapaz é um grosseirão!</p> + +<p>E o rapaz, dirigindo-se ao pae, que estava sentado defronte:</p> + +<p>—Olhe que elles já me conheceram! Posso fallar á vontade.</p> + +<p>O pae sorriu encolhendo os hombros, como se quizesse dizer para os outros +convivas.</p> + +<p>—Desculpem, isto é mesmo da fazenda.</p> + +<p>Desenganem-se: os amaveis teem muito mais que perder do que os grosseiros. +E quantas vezes se arrepende uma pessoa de ser amavel, devendo ter sido +grosseira!...<span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span></p> + +<h1>XVI</h1> + +<h2>A sepultura d'um traidor</h2> + +<p>Devo começar por dizer quem fosse o sr. D. Ruy, porque eu, posto a contar +historias, tenho ainda o mau costume de começar pelo principio.</p> + +<p>O que faz com que seja alguma coisa massador... pelo menos.</p> + +<p>O sr. D. Ruy era o filho unico da fidalga da Gésteira e do morgado do mesmo +nome.</p> + +<p>Sobre aquelle menino pesava uma nobreza de sete gerações, e uma riqueza +talvez mais pesada ainda do que uma tal arvore genealogica.</p> + +<p>Pela sua parte, elle não precisaria ser tão nobre nem tão rico para se fazer +estimar e adorar.</p> + +<p>Era, realmente, uma creança insinuante, meiga<span class="pn"><a +name="pag_138">{138}</a></span> e intelligente, quasi nada voluntariosa apezar dos +extremos, por vezes ridiculos, com que era tratada.</p> + +<p>A mãe parecia viver da vida do filho. Se elle ria, ria ella tambem; ás vezes +adoeciam, mãe e filho, da mesma tristeza: chamava-se logo o medico para ambos, +porque o morgado, depois de ter vivido no mundo, prescindira da sociedade que +tanto o prendera outr'ora, para se limitar a viver para a mulher e para o +filho, isto é, para uma só alma partida em dois corpos.</p> + +<p>No solar da Gésteira havia ainda uma outra pessoa, que fazia parte +integrante da familia: era o padre João, capellão da casa.</p> + +<p>Padre João accumulára tambem as funcções de preceptor do sr. D. Ruy durante +a primeira infancia do fidalguinho. Ensinara-o a lêr e a rezar. Umas vezes por +outras fallava-lhe do sr. D. Miguel de Bragança, que, segundo elle, era o +<em>Desejado</em> dos tempos modernos.</p> + +<p>Mas o sr. D. Ruy foi crescendo, e chegou um dia em que se pensou no que se +devia fazer d'aquelle menino.</p> + +<p>O que havia elle de ser no mundo para melhor fazer sobresair a sua riqueza e +a sua fidalguia?</p> + +<p>A mãe, no egoismo do seu amor, dizia que o melhor era não se pensar mais +n'isso, que o sr. D. Ruy já sabia lêr o bastante... para não ser analphabeto.<span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span></p> + +<p>Padre João concordava com a fidalga: que sim, que a sabedoria era boa para +os pobres.</p> + +<p>O morgado protestava. Elle mesmo era bacharel em direito, e queria que o +filho o fosse.</p> + +<p>Vivendo amarrado ás tradições de familia, queria que o filho se graduasse em +leis, como elle, fazendo o que seu pae fizera, tendo um cavallo para passeiar, +como todos os estudantes nobres d'aquelle tempo, exhibindo-se, n'uma palavra, +em toda a plenitude das regalias que uzufruiam os morgados em Coimbra.</p> + +<p>Padre João concordava tambem com o morgado: que sim, que o saber não ficava +mal a ninguem.</p> + +<p>A morgada zangava-se, e dizia:</p> + +<p>—O padre João está fallando assim por comprazer com meu marido. Já lhe +tenho ouvido dizer que a sabedoria é boa para quem não tem outra coisa.</p> + +<p>O bom do capellão via-se enleiado, tomava a sua pitada, rufava depois com os +dedos sobre os joelhos:</p> + +<p>—Sim, quero eu dizer, minha senhora, que nem tanto ao mar nem tanto á +terra. Uma envernizadella ao espirito não faz mal a ninguem...</p> + +<p>—Uma envernizadella! replicava o morgado. Mais do que isso. Uma carta +de bacharel. Póde nascer-se morgado, sem a gente o querer; doutor é que não. O +padre João já viu alguem nascer doutor?<span class="pn"><a +name="pag_140">{140}</a></span></p> + +<p>—Eu, não, sr.</p> + +<p>—Pois se não viu, é porque para o ser é preciso estudar e saber alguma +coisa. E a honra é tanto maior quanto o individuo, pela sua posição social, +menos precisa das cartas de um curso para viver. Hoje os tempos mudaram, e um +fidalgo ignorante já ninguem o toma a serio. Eu quero que meu filho vá a +Coimbra.</p> + +<p>A fidalga punha os olhos no chão, ficava calada e triste.</p> + +<p>—Mas isso não é por ora, tornava o morgado; escusas de estar ahi a +abalar de tristeza, Christina. Has de habituar-te pouco a pouco a viver sem o +teu filho, como minha mãe se habituou. O habito é uma segunda natureza. +Primeiro entrará o Ruy n'um collegio. Vamos viver para o Porto,—e olha +que faço n'isso algum sacrificio, porque já me custa arrancar-me á vida da +provincia. Para que elle tambem se habitue a viver sem nós, mettemol-o n'um +collegio, no da <em>Guia</em>, por exemplo, porque tenho boas informações a +respeito d'essa casa de educação. Iremos vel-o sempre que queiras. Pelas +ferias, sahirá, viremos para a Gésteira, a fim de que elle possa saborear, de +tempos a tempos, o bem estar da casa paterna, conservar as tradições de +familia, que eu tanto prezo, e tu tambem.</p> + +<p>De sahir da Gésteira, de deixar o seu querido Minho, é que padre João não +gostava;<span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span> mas, chamado a conselho pelo +morgado, não tinha remedio senão concordar.</p> + +<p>Finalmente, resolveu-se que o sr. D. Ruy iria para o collegio da +<em>Guia</em> estudar preparatorios.</p> + +<p>Os fidalgos da Gésteira sahiram para o Porto, e arrendaram casa, uma bella +casa de trez andares, na rua de Santa Catharina.</p> + +<p>A fidalga queria ficar perto do collegio,—o mais perto possivel.</p> + +<p>Marcou-se o dia em que o sr. D. Ruy devia entrar no collegio. O director, o +Daniel Navarro, tinha ordem de se não poupar a despezas para amenizar a +iniciação do joven collegial. Esse dia, era uma segunda feira. Mas no domingo á +noite a fidalga chorou tanto, que o morgado achou prudente deixar passar mais +alguns dias.</p> + +<p>Por sua parte, o sr. D. Ruy estava um pouco vacillante entre as saudades da +mãe e o desejo de entrar no collegio. Um dia o pae levara-o lá. Era á hora em +que os alumnos estavam no <em>recreio</em>: todos elles pareciam alegres, riam, +vozeavam, corriam pelas ruas da quinta, jogavam as escondidas, baloiçavam-se no +trapesio. Aquillo não lhe desagradou; demais a mais o Navarro fizera-lhe muita +festa, foi mostrar-lhe as aulas, os dormitorios, a casa de jantar, e +disse-lhe:</p> + +<p>—Olhe que isto não é mau.<span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span></p> + +<p>E o sr. D. Ruy sorrira, sentira-se forte, imaginava que se havia de dar bem +ali, com os outros, brincando como elles.</p> + +<p>Mas ao chegar a casa, chorára vendo a mãe, e ella chorára tambem, abraçada +n'elle.</p> + +<p>—Bem! dissera do lado o pae, tu não desgostaste, pois não é +verdade:</p> + +<p>O sr. D. Ruy, com os olhos chorosos, meneára affirmativamente a cabeça.</p> + +<p>—Então entrarás segunda feira... está dito!</p> + +<p>E passára a mão pela face da fidalga, afagando-a.</p> + +<p>—É que se o rapaz ainda não vae d'esta vez, disséra, fica sendo o D. +Sebastião do collegio da <em>Guia</em>. Eu não quero que os outros lhe ponham +alcunhas, que ficam depois para toda a vida.</p> + +<p>—Nem eu, replicára a fidalga com vivacidade.</p> + +<p>A ideia de que seu filho poderia ter uma alcunha, ser chamado o <em>D. +Sebastião</em> do collegio, sobresaltára-a. E desde logo protestou a si mesma +que o <span class="errata" title="no original: deixaria na primeira">deixaria ir na primeira</span> segunda feira.</p> + +<p>—Ó mamã, dissera o pequeno, sabe que numero eu vou ter no collegio?</p> + +<p>—Qual?</p> + +<p>—Sou o 416.</p> + +<p>Esta novidade, o facto de ir ser o 416, agradava-lhe. Era uma variante á +monotonia do seu<span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span> tratamento habitual. +Toda a gente lhe chamava D. Ruy, o sr. D. Ruy, mas d'ali em diante iam +chamar-lhe o 416. Que bom!</p> + +<p>No domingo, o morgado tornou a levar o filho ao collegio. Quando entravam, +os rapazes sahiam arregimentados. Iam ouvir missa á Lapa, e depois dariam um +passeio até Paranhos. O morgado disse ao prefeito que tambem os acompanharia, +para habituar o filho á sua nova vida de collegial.</p> + +<p>Na egreja da Lapa, emquanto esperavam pela missa, o sr. D. Ruy fez relações +de amisade com um rapaz, filho de um fidalgo da casa de Villa Pouca, em +Guimarães. Era o 86. O sr. D. Ruy gostou d'elle, e gostou de se vêr tratado +familiarmente—por 416, apenas.</p> + +<p>Veio para casa contar á mãe o que tinha feito. Estava enthusiasmado. E a +segunda feira tardava-lhe. A mãe alegrou-se um pouco da alegria do filho. Pela +manhã lavou-o, penteou-o, ella mesma, chorando umas vezes, sorrindo outras, +soffrendo e amando.</p> + +<p>Padre João foi com o morgado acompanhar o 416. A fidalga veiu para a +janella. Chorava. Chegára finalmente o momento terrivel, que ella temia tanto. +Mal viu o filho na rua, limpou as lagrimas, procurou sorrir. O sr. D. Ruy ia +bem disposto, sentia-se forte, disse adeus á mãe sem chorar, mas á esquina da +rua, quando a janella ia desapparecer, o valoroso 416 voltou-se<span class="pn"><a +name="pag_144">{144}</a></span> ainda uma vez para traz, e limpou duas lagrimas ao +canhão da jaqueta.</p> + +<p>É que, por muito leviano que se seja quando se é creança, sempre se tem +consciencia de que uma mãe faz muita falta.</p> + +<p>O 416 deu boa conta de si no collegio da <em>Guia</em>. De dia, as aulas e o +recreio absorviam-lhe a attenção; á noite, nos primeiros tempos, +arrasavam-se-lhe sempre os olhos de lagrimas, quando, antes de adormecer, +pensava na mãe. Faltavam-lhe os beijos d'ella, que se inclinava sobre o leito a +compor-lhe a almofada, e a conchegar-lhe a roupa. A cabeça de Christina tomava +então o aspecto de uma aza protectora. O 416, no collegio, enrolava-se no +lençol, soluçando, e adormecia assim, rezando ao anjo da guarda, como padre +João lhe ensinára. Mas, pela manhã, a disciplina escolar não lhe dava occasião +para pensamentos tristes: era saltar da cama e começar a lide.</p> + +<p>Ao cabo do primeiro mez, o 416 já adormecia melhor.</p> + +<p>Como as suas relações com o 86 se houvessem estreitado cada vez mais, faziam +ambos projectos para as ferias da Paschoa. O 416 levaria para a Gésteira o seu +condiscipulo: já estavam solicitadas as respectivas licenças. Não havia duvida +nenhuma. Fariam um Judas logo que lá chegassem. Houve apenas uma pequena +divergencia, entre os dois amigos, sobre o modo<span class="pn"><a +name="pag_145">{145}</a></span> como vestiriam o Judas. O 86 queria que fosse de +veterano. O 416 preferia um fato de hespanhol—com as respectivas +castanhetas. A sua opinião venceu, com uma simples modificação: as castanhetas +seriam substituidas por um pandeiro.</p> + +<p>Padre João, n'uma visita ao collegio, disse que o fato de hespanhol não era +proprio para Judas; que seria melhor vestil-o de judeu. Os dois collegiaes não +quizeram saber d'isso, e o 416 encarregou o capellão de lhe comprar um fato de +hespanhol, que o padre foi desencantar na rua de Santo Antonio, n'um +guarda-roupa de carnaval.</p> + +<p>Imagine-se a alegria com que todos partiram para a Gésteira! A morgada +parecia ter a idade do filho: ria, fallava, apoiava calorosamente os projectos +dos dois collegiaes sobre a queima do Judas, que devia ser espaventosa.</p> + +<p>Na caixa do trem ia muito fogo de artificio para recheiar o apostolo... +castelhano. Dentro da barriga tinham os dois amigos combinado pôr-lhe uma +bomba, que devia rebentar como uma peça de artilheria. Na cabeça, outra bomba: +o chapeu devia ir parar a casa do diabo.</p> + +<p>Logo que chegaram á Gésteira, trataram de fazer o Judas. O arcabouço era de +palha. Vestiram-lhe as pantalonas castelhanas, a jaqueta de alamares; +ataram-lhe a faixa encarnada. Pozeram-lhe uma caraça de andaluz, e um +sombrero<span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span> com debrum de velludo preto. As +mãos eram duas luvas de algodão com recheio de palha; na esquerda tinha um +pandeiro, e na direita a saca dos trinta dinheiros. Por um artificio sabiamente +imaginado, a saca do dinheiro devia, quando se puxasse por um arame, bater no +pandeiro, e fazel-o soar. Na bôca um charuto: era uma granada envolvida em +folha de tabaco. Nos pés, esporas de lata, com polvora dentro.</p> + +<p>O Judas ficou n'um vasto telheiro que, dentro do pateo, se encostava ao muro +da quinta.</p> + +<p>O machinismo do pandeiro e da saca dos trinta dinheiros, invenção do 86, +levara muito tempo, e dera muito trabalho, de modo que só foi possivel +acabal-o, á luz de lanternas, na sexta feira á noite. O Judas, finalmente +prompto, estava de papo ao ar, no chão, hirto, inchado, apopletico. Pela manhã, +os meninos levantar-se-hiam muito cedo para assistir á empalação.</p> + +<p>Depois... só restava pegar-lhe fogo.</p> + +<p>De madrugada, uma criada da casa fôra ao moinho buscar uns sacos de farinha, +que trouxe n'uma jumenta. Descarregou a farinha e enxotou a jumenta para o meio +do pateo, emquanto foi acondicionar os sacos na cosinha.</p> + +<p>Não se lembrou a estupida de que o Judas era de palha, e de que as jumentas +comem palha... ainda mesmo quando lh'a não sabem dar.</p> + +<p>A jumenta, de focinho baixo, foi procurando<span class="pn"><a +name="pag_147">{147}</a></span> o que havia pelo telheiro. Vendo o Judas deitado no +meio do chão, começou, desconfiada, a ladeal-o, mas, por fim, investiu com +elle. Cheirou-lhe a palha, e com uma dentada esgarçou-lhe o peitilho da camisa. +Achou dentro a palha, e começou a comer. Trazia fome. Tinha ido para o moinho +de madrugada, e lá, emquanto esperava pela moedura, apenas poderá traçar com os +dentes umas hervitas, de modo que aquelle almoço inesperado soube-lhe bem.</p> + +<p>Quando os meninos se levantaram, correram ao telheiro. Do Judas... restava +apenas a parte castelhana, isto é, o fato:, mas os intestinos tinham +desapparecido.</p> + +<p>Proromperam n'um choro atroador as duas creanças. Os morgados, os criados, +acudiram todos. As lamentações dos dois collegiaes eram sentidissimas, +clamorosas. E a burra, indifferente a tudo o que se passava, continuava a +procurar com o focinho alguma cousa, na esperança de encontrar outro Judas.</p> + +<p>N'um momento de cólera, o 86 e o 416 pegaram cada qual no seu fueiro, e +começaram a desancar a jumenta. Levou muita lambada; até o padre João, para +lisonjear os meninos, lhe dera um pontapé na trazeira, dizendo: Que grande +burra esta!</p> + +<p>Mas ella, com o falso apostolo na barriga, parecia ter a consciencia de que +um traidor não merecia sepultura melhor.<span class="pn"><a +name="pag_148">{148}</a></span></p> + +<h1>XVII</h1> + +<h2>A caminho do Alemtejo</h2> + +<p>Ha pouco mais de um mez, passava eu na linha do sueste com destino ao +Alemtejo. Tinhamos atravessado o rio com muito vento; havia vaga. O ceu estava +carrancudo; promettia chuva. O vento apressava-a. Na ponte do Barreiro, uma +grande corda de agua principiára a cahir. Corremos todos para as +carruagens;—foi um verdadeiro <em>sauve qui peut</em>.</p> + +<p>O comboyo partira e a chuva continuava a cahir. Uma inverneira pegada. Eu +sentia-me somnolento, cabeceava. Na estação de... (sejamos discretos) sentindo +correr uma vidraça na carruagem immediata, espertei. Uma voz, n'um tom +agaiatado de rapazote de escola, disse: E a cabrinha? E a cabrinha?</p> + +<p>O chefe da estação, um homem velho, de bigode branco, olhou de repente para +a carruagem<span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span> d'onde a voz partira. Havia +ficado visivelmente aborrecido, mas continuára fazendo o seu serviço. De +instante a instante, ao passo que a voz repetia—E a cabrinha?—elle +resmungava.</p> + +<p>Ao cabo de pouco tempo a campainha dera o signal da partida. No momento em +que o comboyo largava, uma voz, mais vozes disseram: E a cabrinha? E a +cabrinha?</p> + +<p>O que se passou não sei, mas n'uma das estações seguintes procurei occasião +de perguntar ao meu visinho, que se apeiára, o que aquillo queria dizer.</p> + +<p>O rapazote, que teria quando muito dezeseis annos, explicou-me.</p> + +<p>Aquelle chefe tinha uma cabrinha de muita estimação, que lhe dava magnifico +leite para o almoço. Mas a cabrinha, que era toda meiguice com a dona, +mostrava-se pouco affeiçoada ao dono. Um dia, por um motivo qualquer, a mulher +do chefe da estação teve de ausentar-se; o marido ficou, desempenhando as +funcções do seu cargo.</p> + +<p>Quando chegou a hora do almoço, o chefe tratou de chamar a cabrinha para +mungil-a. Isso sim! A cabrinha fugia, e o pobre homem resignou-se a tomar o seu +café sem leite. Não gostou, e tratou de afagar a cabra para que ella se +mostrasse menos extranha e rispida. Qual historia! No outro dia a mesma +comedia, elle a chamar a cabra com as suas melhores maneiras,<span class="pn"><a +name="pag_150">{150}</a></span> e ella a fugir d'elle como o demonio foge da cruz.</p> + +<p>O pobre homem deu tratos á imaginação para resolver o problema, em que elle +e a cabra entravam como factores.</p> + +<p>O que havia de fazer? Demais a mais o café sem leite estava-lhe fazendo mal +ao estomago, e a cabra não promettia tornar-se mais amavel do que até ahi se +havia mostrado.</p> + +<p>Depois que os comboyos passavam, elle fechava a porta da estação, e dois +pensamentos atrozes o preoccupavam: a mulher e a cabra.</p> + +<p>O que havia de fazer? pensava e tornava a pensar.</p> + +<p>Até que uma noite teve uma idéa luminosa, salvadora. Adormeceu mais +tranquillamente, saboreando mentalmente a delicia de tornar a almoçar café com +leite.</p> + +<p>Pela manhã, quando acordou, vestiu um vestido da mulher, poz na cabeça um +lenço d'ella. Foi chamar a cabra, e a cabra veiu immediatamente, fazendo-lhe +festa.</p> + +<p>Estava resolvida a difficuldade, a cabra deixava-se mungir; o bom homem +endoidecia de contentamento.</p> + +<p>N'isto, um silvo terrivel ouve-se a pequena distancia. Era o comboyo, mas em +que occasião, santo Deus!</p> + +<p>O pobre chefe estava vestido de mulher, de saia e lenço. Um dilemma +implacavel se lhe<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span> apresentava: apparecer +tal como estava ou faltar.</p> + +<p>Mas faltar seria um delicto muito grave, um motivo para demissão. N'isto o +comboyo chegava... E o chefe da estação apparecia na plataforma, mascarado de +mulher, a dar ordens no desempenho do seu cargo.</p> + +<p>Os passageiros riram a bom rir. O caso divulgou-se, espalhou-se ao longe, e +agora é raro o dia em que passe um comboyo sem que alguem pergunte ao chefe da +estação noticias da cabrinha...</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>—Já não ha salteadores no Alemtejo! dizia eu para um dos meus +companheiros de viagem. Que falta que me faz um assalto, de que eu precisava +escapar... para o contar depois!</p> + +<p>E elle referia-me casos tenebrosos de antigos salteadores alemtejanos, do +José da Costa e do <em>Chapeu de ferro</em>, dois faccinoras, dois monstros, +que viveram n'um tempo em que ainda se podia ser litterato.</p> + +<p>O José da Costa fôra ha doze ou quinze annos o terror das terras interpostas +a Alcochete e Setubal. Desertor de lanceiros, andava a monte, zombando das +auctoridades e da policia. Era um heroe terrivel, um homem sanguinario, uma +lenda viva. Uma noite, encontrára o caseiro da<span class="pn"><a +name="pag_152">{152}</a></span> quinta de Algeruz, e mandára-o apeiar do cavallo que +montava. O caseiro obedecera immediatamente, e o faccinora dissera-lhe, +passando-lhe a mão pela cara:</p> + +<p>—Anda lá, anda, segue teu caminho.</p> + +<p>O caseiro cavalgou de novo, dispunha-se a partir, quando José da Costa lhe +tornou a dizer:</p> + +<p>—Apeia-te outra vez.</p> + +<p>E passando-lhe a mão pela cara:</p> + +<p>—Ajoelha-te.</p> + +<p>O caseiro ajoelhou.</p> + +<p>—Por esta vez, vae-te embora.</p> + +<p>O caseiro montou, e José da Costa, deitando a mão ás redeas do cavallo, +exclamou:</p> + +<p>—Apeia-te, e ajoelha.</p> + +<p>E pondo-lhe a mão na cabeça e nas faces:</p> + +<p>—Vae com Deus ou com o diabo!</p> + +<p>O caseiro estava muito disposto a partir protegido por qualquer dos dois, +quando o José da Costa lhe apostrophou:</p> + +<p>—Torna a descer, que to mando eu.</p> + +<p>E o caseiro desceu do cavallo.</p> + +<p>—Ajoelha.</p> + +<p>E o caseiro ajoelhou.</p> + +<p>—Monta agora.</p> + +<p>E o caseiro montou.</p> + +<p>E depois, vendo-o em cima do cavallo, atirou-o a terra com um tiro.</p> + +<p>—Coitado! disse, tornando a passar-lhe a<span class="pn"><a +name="pag_153">{153}</a></span> mão pela cabeça inanimada, já devias estar cançado de +montar e desmontar!</p> + +<p>De uma vez, José da Costa teve seus dares e tomares com um hespanhol pimpão. +Travou-se a lucta braço a braço, e o faccinora parecia não levar a melhor.</p> + +<p>De repente, José da Costa grita para o hespanhol:</p> + +<p>—Olha quem ahi vem! Foge!</p> + +<p>Não vinha ninguem. O hespanhol, voltou-se e o faccinora feriu-o pelas +costas.</p> + +<p>Foi na venda de Algeruz que José da Costa poude ser preso.</p> + +<p>Fecharam-lhe a porta á traição, cercaram a casa, e foram buscar a Setubal +uma força militar, de que foi commandante o governador Cunha, ha annos +fallecido.</p> + +<p>Mas dentro da taberna haviam ficado trez ou quatro homens, que não poderam +sahir a tempo, e o José da Costa, vendo-se apanhado no laço, ia-os esfaquendo +para saciar a sede de sangue.</p> + +<p>Os feridos gritavam de dentro, o povo gritava de fóra, a força havia +chegado, estava de armas mettidas á cara, e de repente, por uma das janellas da +casa, uma coisa saltára para a charneca. Mas os soldados, percebendo o que era, +não descarregaram.</p> + +<p>José da Cosa havia atirado para fóra um cortiço, fingindo que era elle +proprio que saltava, na esperança de que os soldados disparassem,<span class="pn"><a +name="pag_154">{154}</a></span> e elle podesse fugir entretanto, são e salvo.</p> + +<p>Então, baldados todos os recursos, entregou-se á prisão.</p> + +<p>O <em>Chapéu de ferro</em> infestava ahi por 1860 e tantos as +circumvisinhanças de Beja.</p> + +<p>Uma vez matara um homem n'um <em>monte</em>, como quem diz um casal, e +obrigára a mulher da victima a aparar-lhe o sangue n'um alguidar.</p> + +<p>Dois rapazitos, e um d'elles é hoje um cavalheiro altamente collocado, +sahiam, em férias, de Beja para a sua terra natal.</p> + +<p>Um homem de grandes barbas espessas appareceu-lhes na charneca.</p> + +<p>—Quem são vocês? perguntou-lhes.</p> + +<p>—Somos estudantes.</p> + +<p>—E eu, sabem quem eu sou?</p> + +<p>—Não sabemos.</p> + +<p>—Pois eu sou o <em>Chapéu de ferro</em>.</p> + +<p>—O <em>Chapéu de ferro</em>! exclamaram horrorisados.</p> + +<p>—Sim, eu sou o <em>Chapéu de ferro</em>, e deixo-os ir em paz. Talvez +<em>quizessem</em> que eu os matasse, dois creançolas!<span class="pn"><a +name="pag_155">{155}</a></span></p> + +<h1>XVIII</h1> + +<h2>A mulher</h2> + +<p>Desde o paraiso terreal até hoje, não tem <span class="errata" title="no original: havido acontecimentos">havido acontecimento</span> de polpa em +que não figure a mulher. Os francezes dizem «<em>Cherchez la femme</em>». O que +significa que a mulher anda sempre mettida em todas as endrominas d'este +mundo.</p> + +<p>Ora, desde que principiou a desenvolver-se na imprensa o panorama +escandaloso do Panamá, admirado estava eu de que não tivesse apparecido ainda +como actriz ou como comparsa, como figurante de qualquer genero, uma mulher +pelo menos.</p> + +<p>Já tinha tido tentações de lembrar á França que o seu proverbio falhára... +pela primeira vez. Eis senão quando o proverbio triumpha, agora como sempre. No +caso do Panamá apparece uma mulher, madame Cottu, e a sabedoria da França salva +os seus creditos, emfim.<span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span></p> + +<p>Decididamente, a mulher, quer a emancipem quer não, tenha voto ou não tenha +voto, ha de ser, na successão dos seculos, a eterna collaboradora do homem em +todos os casos da vida.</p> + +<p>E visto que isto tem de acontecer por força, convém a cada homem escolher o +typo de collaboradora que mais lhe agrade, especialmente para as emprezas em +que o agrado é tudo.</p> + +<p>Deverá escolher-se a mulher pequena. Será essa, como typo do sexo, a que +mais póde encantar os olhos de quem a vê?</p> + +<p>É certo que os antigos diziam: «A mulher e a sardinha quer-se pequenina.» A +pequenina, a <em>mignone</em>, d'estas em que se póde pegar ao collo, e +passeial-as sem cançar os braços, é, em verdade, um ser gracioso, que conserva, +até mesmo na velhice, o que quer que seja de infantil, de ar alegre de +boneca</p> + +<p>E de mais a mais dizia um philosopho, não sei qual, um philosopho apologista +de mulheres pequenas: «Do mal o menos».</p> + +<p>Mas a verdade é que as nulheres altas, elegantes, fortes, se não são tão +commodas para trazer ao collo, dão margem a que os olhos de quem as contempla +possam saturar-se de bello sexo, demorando-se a miral-as da cabeça até aos +pés.</p> + +<p>É como se a gente estivesse a olhar ao longo de terras vastas, de uma +paizagem dilatada, com um horisonte amplo, infinito, em que<span class="pn"><a +name="pag_157">{157}</a></span> sempre, por mais que se olhe, ha alguma coisa para vêr +de novo.</p> + +<p>Outro philosopho—porque sobejam, graças a Deus! philosophos para +tudo—costumava dizer que a mulher alta era a mais apreciavel de todas, +visto que não tinha o coração ao pé da boca.</p> + +<p>Feia? Deverá ser feia a mulher? Não falta quem seja d'esta opinião. Não ha +mulher feia que não possua pelo menos uma qualidade estimavel. A natureza +mostrou-se principalmente sabia e justa nas compensações.</p> + +<p>Vê a gente ás vezes um homem loucamente apaixonado por uma mulher que a nós +nos parece feia.</p> + +<p>Sempre que isto acontece, é para desconfiar que exista uma compensação, uma +qualidade, que esse homem, tendo visto melhor que nós, conseguiu descobrir.</p> + +<p>De mais a mais, nada ha tão vehemente, tão vulcanico como o amor das feias. +Tendo pouco quem as requeste, poupam o paiol do coração, de modo que o seu +primeiro amor é como que uma explosão do Vesuvio.</p> + +<p>No olhar amoroso de uma feia ha sempre um discurso enthusiasta, que póde +stenographar-se do modo seguinte.</p> + +<p>—Muito obrigada, bravo e heroico cavalheiro! que esgrimes +denodadamente contra o preconceito da belleza, e que reunes á coragem o +talento,<span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span> porque só tu foste capaz de +descobrir a belleza na fealdade, a compensação que a natureza me concedeu. +Saber que uma mulher é bella, quando ella realmente o seja, não engrandece o +espirito de ninguem. Basta, para isso, não ser cego. Mas vêr uma obra de arte, +a que todos acham defeitos, e descobrir-lhe a unica qualidade boa que possua, +chega a ser brilhante, a ser glorioso, ó nobre, ó bravo, ó excepcional +cavalheiro! A ti, a minha eterna dedicação!</p> + +<p>Ora este discurso, pronunciado por dois oradores ao mesmo tempo, isto é, +pelos olhos de uma mulher, faz impressão no espirito de um homem, envaidece-o, +lisonjeia-o, acaba por subjugal-o.</p> + +<p>E assim se póde explicar de certo a rasão por que as feias vão tendo +despacho e consumo.</p> + +<p>Estão no caso das feias, as velhas.</p> + +<p>Não me refiro a uma antiguidade verdadeiramente gothica, nem me proponho +sustentar que um homem deva casar-se com a sé de Braga.</p> + +<p>Mas Balzac fez, como se sabe, o elogio da mulher de trinta annos, e eu, na +minha obscuridade, acho que é essa uma boa conta para ponto de partida.</p> + +<p>Trinta annos! obra acabada, paredes solidas, pavimentos seguros, um predio +capaz de resistir<span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span> a um terremoto! +Magnifico! Já passou a epoca das pieguices, dos amuos, dos caprichos de +creança. Nada de esboços, de linhas indecisas: obra a que a natureza acabou já +de dar os ultimos retoques! Excellente!</p> + +<p>Entre os trinta e os quarenta toda a mulher se encontra na situação das +feias, ainda que tenha sido formosissima.</p> + +<p>—Muito obrigada pela distincção que o cavalheiro me concede! parece +dizerem os seus olhos amorosos. Ha por ahi tantas meninas interessantes, tantas +rosinhas em botão, tantas flôres frescas e mimosas, e o cavalheiro por todas +passou sem as cobiçar! Realmente, sinto-me captivada... Mas deixe estar que não +hade arrepender-se. Saberei amal-o como duas meninas, pelo menos: uma, que já +fui, outra, que torno a ser, remoçada pelo seu amor.</p> + +<p>E a fim de trazer sempre o homem satisfeito e entretido, toda ella é +coração, toda ella se dispende em lembranças mimosas, enviando ao cavalheiro +flôres para a lapella e rebuçados para o peito.</p> + +<p>Contou Julio Cesar Machado, uma vez, que certa quarentona, soffrega de amar, +tomára um trem para n'um dia de primavera, cheio de estimulos e effluvios, ir +dar um passeio ao Campo Grande.</p> + +<p>Pelo caminho, o coração trasbordava-lhe do peito, expandia-se, mas, +infelizmente, não havia<span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span> um homem que +quizesse ter a heroicidade de amal-a.</p> + +<p>Quando chegou ao Campo Grande, no momento de apeiar-se, já com o pé no +estribo, reparou nos olhos do cocheiro, que eram bonitos, expressivos.</p> + +<p>E deixando-se cair para fóra, de modo a que o cocheiro tivesse a ideia de +amparal-a carinhosamente, exclamou:</p> + +<p>—Amo-te, José Traquitana!</p> + +<p>Julio Cesar Machado deixou neste ponto a historia, mas é de presumir que a +dama, acceitando as consequencias da sua allucinação, viesse a tranformar esse +cocheiro n'um marido grato e discreto, com tacto para a vida, visto que havia +principiado por ter boa mão de rédea.</p> + +<p>Deverá preferir-se a mulher formosa?</p> + +<p>É decerto a que mais agrada no primeiro momento, porque a vida é uma serie +de illusões, e a formosura a mais grata das illusões.</p> + +<p>Lá disse o padre Vieira: «O que é a formosura senão uma caveira bem +vestida?» Mas, emquanto está bem vestida, agrada, attrae, fascina.</p> + +<p>Todavia, se se pensa um momento, receia-se...</p> + +<p>A mulher formosa agrada tanto ao que a possue, como aos outros. Tem esse +perigo, que constitue um sobresalto permanente.<span class="pn"><a +name="pag_161">{161}</a></span></p> + +<p>E depois o que a possue não póde de certo esquivar-se a pensar com os seus +botões, á medida que a belleza se vae apagando: «Quem te viu e quem te vê!»</p> + +<p>Se a mulher vale só pela formosura, faltando-lhe a graça, a bondade, uma +qualidade de valor, emfim, o que quasi sempre acontece graças á theoria das +compensações, essa mulher é, já o disse alguem, um livro que uma vez lido, não +tem mais que lêr.</p> + +<p>Deve procurar-se uma mulher de bom genio?</p> + +<p>Uma mulher de inalteravel bom genio parece feita de açorda, é uma espécie de +<em>menu</em> sem surprezas, uma permanente dieta, em que o espirito não passa +de servir-se todos os dias uma aza de frango, como se fosse um doente.</p> + +<p>Não irrita, mas não vivifica. Não esfria, mas não aquece. Quando um homem +chega a festejar as suas bodas de prata, não tem que dizer aos outros senão +isto: «Meus senhores, tenho passado vinte e cinco annos da minha vida n'uma paz +podre, que me sabe a gallinha cozida.»</p> + +<p>Se a mulher tem mau genio, se tem nervos, deve isso ser desagradavel para o +marido algumas vezes, mas nada ha que possa lisonjear tanto o espirito de um +homem como vêr uma mulher, que tem a vocação da guerra, offerecer-lhe um +beijo... de paz! Oh! é glorioso<span class="pn"><a name="pag_162">{162}</a></span> para um +vencido acceitar o ramo de oliveira que lhe offerece o vencedor!</p> + +<p>Deverá ser rica? Para passar a vida, é bom que seja rica a mulher. Mas não +deixa isso de vexar um pouco o marido, se toda a riqueza veiu d'ella. Quando um +marido em taes condições manda pôr o trem, sente-se engasgado como se tivesse +de dizer: «O José, manda pôr o coupé da senhora.» Se vae ao theatro, ao +entregar o bilhete ao porteiro, a consciencia grita-lhe que deveria dizer, a +querer ser sincero: «Abra o camarote da senhora!»</p> + +<p>Oh! deve ser horrivel!</p> + +<p>Pobre? E se a mulher é pobre? Dá isso pena a um marido que sinceramente a +estime. «Aqui está, dirá elle comsigo mesmo, uma mulher a quem eu quizera +proporcionar todos os regalos, todas as commodidades de uma princeza, e comtudo +só poderei offerecer-lhe este mez um vestido de percale.» De modo que a +independencia de que um tal marido gosa junto de sua mulher, e aguada pelo +desgosto de a não poder felicitar tanto quanto desejava.</p> + +<p>É difficil a escolha! concluirá o leitor. Com effeito assim é. Difficilima, +acrescentarei eu. Mas ha talvez um meio de illudir a dificuldade da escolha: é +amal-as a todas indistinctamente, para, com o auxilio da experiencia, escolher +depois a melhor... se houver tempo para isso.<span class="pn"><a +name="pag_163">{163}</a></span></p> + +<h1>XIX</h1> + +<h2>O carnaval...</h2> + +<p>Já contei ha alguns annos a historia carnavalesca do Felix Telles, de +Estarreja.</p> + +<p>Mas vou reedital-a, para que se torne tão conhecida quanto o merece a mais +interessante e a mais veridica historia que o carnaval de Lisboa tem produzido, +desde que a caraça é caraça.</p> + +<p>Felix Telles, boa pessoa, com seus laivos de patuscão, vivia no solar de um +fidalgo de Estarreja, na qualidade de professor aposentado dos meninos da +casa.</p> + +<p>De vez em quando vinha a Lisboa a pretexto de visitar o irmão e sobrinhos do +fidalgo de Estarreja. Agradava-lhe essa patuscada, que o distraía da monotonia +das arvores e da vida da aldeia.</p> + +<p>Assim foi que um anno, pelo carnaval, elle disse ao fidalgo:<span class="pn"><a +name="pag_164">{164}</a></span></p> + +<p>—Meu senhor, se v. ex.ª se não oppozer, vou a Lisboa pregar uma +partida real a seu mano e sobrinhos.</p> + +<p>—Então que intenta você fazer, ó Felix?</p> + +<p>—Uma partida de carnaval, que passo a expôr a V. ex.ª Ámanhã de manhã +tomo o comboio descendente. Chego a Lisboa das oito para as nove horas da +noite. O mano de v. ex.ª é certo, com toda a sua familia, n'um camarote da +Trindade, segundo o costume. Logo que eu chegar, vou hospedar-me no <em>Hotel +Alliance</em> para me lavar e descançar. Á meia noite pouco mais ou menos, +mando um criado do hotel alugar um dominó preto ao Cruz da rua Larga de S. +Roque. Dirijo-me em seguida ao theatro da Trindade, vou direito ao camarote +onde estiver a familia de v. ex.ª e proponho-me intrigal-a, com casos certos, +durante uma boa hora. Quando eu lhe fallar de certas coisas, toda a familia +arderá em curiosidade, dará tratos á imaginação para descobrir quem eu seja. +Mas não poderão lembrar-se de mim por me supporem em Estarreja. Á saida do +theatro tomarei as minhas precauções para não ser seguido nem conhecido. De +manhã metto-me outra vez no comboio, e á noite estarei aqui a ceiar e a rir do +caso com v. ex.ª É ou não é, ex.<sup>mo</sup> senhor, uma partida real?</p> + +<p>—Pyramidal! meu caro Felix Telles. Applaudo com enthusiasmo. Vá +deitar-se, visto que<span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span> tem de fazer +madrugada. Mas que boa partida! Eh! eh! ria o morgado, esfregando as mãos de +contente.</p> + +<p>Foi dali o fidalgo para o seu escriptorio e, a rir comsigo mesmo, redigiu o +seguinte telegramma:</p> + +<p>«Felix Telles chega ahi hoje noite para intrigar-te theatro Trindade. Dominó +preto, alugado Cruz. Vai Hotel Alliance. Prepara-te para ataque. Segredo.»</p> + +<p>Depois chamou o seu criado particular, disse-lhe que logo pela manhã fosse +ao telegrapho expedir aquelle telegramma, recommendando-lhe a mais completa +reserva.</p> + +<p>No comboio descendente, Felix Telles tomava effectivamente logar n'uma +carruagem de primeira classe, e saboreava mentalmente o prazer da sua +aventura.</p> + +<p>Entretanto o irmão do morgado, o visconde de ***, recebia em Lisboa o +telegramma, e chamava o escudeiro para dizer-lhe:</p> + +<p>—Esta noite estarás em Santa Apolonia á chegada do comboio. N'uma +carruagem, que segundo o costume será de primeira classe, hade vir o sr. Felix +Telles, que tu conheces muito bem. Seguil-o-has, sem que te veja. Se tomar um +trem, toma tu outro. Deve apeiar-se á porta do Hotel Alliance. Ahi, logo que +chegue ou pouco depois, dará ordem ao criado para que lhe vá buscar ao +guarda-roupa do<span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span> Cruz, na rua Larga de S. +Roque, um dominó preto. Esperarás os acontecimentos parado em frente do hotel. +Certificar-te-has se effectivamente sae do Alliance um homem de dominó preto. +Esse homem será o sr. Felix Telles. Logo que elle saia, tomar-lhe-has +dianteira, correrás ao theatro da Trindade. Encostados á casa do bengaleiro +estarão os meninos e, quando o sr. Felix Telles entrar, dir-lhes-has: É este. +Entendeste:</p> + +<p>—Perfeitamente, sr. visconde. Esteja v. ex.ª certo de que saberei dar +conta do recado.</p> + +<p>—Muito bem.</p> + +<p>No seu quarto, os filhos do visconde escreviam sobre uma larga tira de papel +branco, em garrafaes lettras pretas, o seguinte lettreiro: «<em>Sou o Felix +Telles de Estarreja.</em>» E riam estrepitosamente, com aquelle grande bom +humor que se perde para todo o sempre depois que os dezoito annos passam...</p> + +<p>O criado do visconde desempenhou-se da sua missão de confiança ás mil +maravilhas.</p> + +<p>Felix Telles chegava ao theatro da Trindade quando já os filhos do visconde, +postos atraz do guarda-vento, se preparavam para pregar-lhe nas costas a grande +tira de papel branco.</p> + +<p>Esta operação, aliás difficil, foi feita com perfeita delicadeza.</p> + +<p>As pessoas que presencearam tudo isto, casquinaram uma estrondosa +gargalhada, que Felix<span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span> Telles não +percebeu. E logo muitas vozes, umas accentuadamente masculinas, outras +feminilmente esganiçadas, começaram a gritar n'uma surriada d'opereta, emquanto +o dominó preto passava:</p> + +<p>—Olha o <em>Felix Telles de Estarreja</em>!</p> + +<p>O homem estremeceu dentro do seu dominó, debaixo da sua mascara.</p> + +<p>E sujeitos de chapeu de côco, creanças de bisnaga em punho, +<em>pastorinhas</em> vestidas de gaze côr de rosa, <em>vivandeiras</em> de +cantil a tiracollo, caíam sobre elle com o peso d'uma troça implacavel.</p> + +<p>—Olha o <em>Felix Telles de Estarreja</em>!</p> + +<p>Elle voltava-se para surprehender o denunciante em flagrante delicto de +bisbilhotice, não conhecia ninguem, suava, tressuava, perguntava a si proprio +se teria enlouquecido, e então os esguichos, as gargalhadas, os gritos +recrudesciam n'um <em>crescendo</em> atroador.</p> + +<p>De repente, no salão, o visconde, de braços abertos, um riso epigrammatico +nos labios, postado deante do dominó, saudava-o com a terrivel apostrophe, que +se repercutia nos eccos da sala:</p> + +<p>—Ó Felix Telles, que diabo de lembrança foi a sua!</p> + +<p>E elle, o Felix Telles, desesperado, hydrophobo, apopletico, respondeu-lhe +na sua voz natural, cheio de raiva, de colera:<span class="pn"><a +name="pag_168">{168}</a></span></p> + +<p>—Ora deixe-me, que não sou eu!</p> + +<p>E saiu, saiu acompanhado até á porta do theatro por este grito terrivel, +insistente, perseguidor:</p> + +<p>—Tu és o <em>Felix Telles de Estarreja</em>!</p> + +<p>E no conjuncto de todas essas vozes irritantemente causticas, atrozmente +mordentes, elle distinguiu perfeitamente as vozes dos filhos do visconde que +gritavam:</p> + +<p>—Ó Felix Telles, venha cá!...</p> + +<p>Entrando no <em>Hotel Alliance</em>, Felix Telles despiu de repellão o +dominó, deixou-o ficar sobre o tapete do quarto, disse brutalmente ao criado +que se fosse embora, que o deixasse em paz, que o chamasse a tempo de sair no +comboio da manhã, e que se não esquecesse de mandar entregar depois o dominó ao +Cruz, com mais dez tostões que elle deixaria sobre a banquinha.</p> + +<p>Pela manhã, pagou rapidamente a sua conta, pousou sobre a banquinha os dez +tostões para o Cruz, e saiu.</p> + +<p>Quando á noite chegou a Estarreja, já um telegramma do visconde para o irmão +o havia precedido.</p> + +<p>—Então? perguntou-lhe o morgado o mais seriamente que poude.</p> + +<p>—Então! respondeu Felix Telles. Aquillo é ainda uma aldeia peior do +que Estarreja! toda a gente me conheceu logo que lá cheguei!<span class="pn"><a +name="pag_169">{169}</a></span></p> + +<p>—Não é possivel!</p> + +<p>—Tão possivel como eu ter ouvido gritar de todos os lados, a todas as +pessoas, que aquelle dominó preto era o Felix Telles de Estarreja!</p> + +<p>—Conhecel-o-íam pelo andar?</p> + +<p>—Eu sei lá, sr. morgado! Conheceram-me por tudo, não se ouvia senão o +meu nome n'uma berrata que me ensurdecia!</p> + +<p>Trez dias depois, o morgado chamava ao seu escriptorio o Felix Telles e +perguntava-lhe:</p> + +<p>—Onde foi que você despiu o dominó preto?</p> + +<p>—No <em>Hotel Alliance</em>.</p> + +<p>—E não viu no dominó preto alguma cousa branca?</p> + +<p>—Só se fosse o forro... Mas não reparei.</p> + +<p>—Pois eu lhe posso dar algumas explicações, que façam luz sobre o +caso.</p> + +<p>Felix Telles esbugalhava os olhos attento, curioso.</p> + +<p>—Não viu um papel branco pregado nas costas do dominó preto?</p> + +<p>—Não vi!</p> + +<p>—Aqui o tem, pois—dizia o morgado desdobrando cautelosamente uma +tira de papel enrugado, rasgado, que o visconde mandára pedir ao <em>Hotel +Alliance</em> e lhe tinha remettido pelo correio.</p> + +<p>E elevando-o á altura dos olhos de Felix Telles, mostrou-lh'o.<span class="pn"><a +name="pag_170">{170}</a></span></p> + +<p>—<em>Sou o Felix Telles de Estarreja</em>! dizia o papel.</p> + +<p>O pobre homem estava passado, assombrado.</p> + +<p>—Mas então!... exclamou elle caindo em si.</p> + +<p>E o morgado respondeu-lhe com uma gargalhada estrondosa, ao mesmo tempo que +todas as pessoas da casa acudiam á porta do escriptorio a rir, a rir...<span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span></p> + +<h1>XX</h1> + +<h2>O chapeu</h2> + +<p>Perguntaram a uma tricana do norte para que servia o chapelinho, do tamanho +de uma avellã, que coroava os seus fartos cabellos negros.</p> + +<p>—Ora essa! exclamou ella ironica e desdenhosamente. Serve para pôr e +tirar...</p> + +<p>Realmente, é para isto que serve o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e +o seu feitio, mas, principalmente pelo que respeita ao sexo masculino, que de +responsabilidades andam ligadas ao simples facto de pôr e tirar o chapeu!...</p> + +<p>Custa pouco isso, tiral-o ou pôl-o, coisa é que se faz n'um momento, e +comtudo nada ha que possa ter mais serias consequencias do que pôr o chapeu +quando se devia tirar, ou tiral-o quando se devia pôr.<span class="pn"><a +name="pag_172">{172}</a></span></p> + +<p>Não é so no theatro, durante os espectaculos, que pôr ou tirar o chapeu é um +facto que pertence aos dominios do formulario social. Mas no theatro, visto que +se está entre uma sociedade menos numerosa, dá isso mais nas vistas, e se um +espectador conserva o chapeu na cabeça, depois do panno subir, todos os outros +começam a gritar: Peu! peu! Se o tira, mas parece reconsiderar tornando a +pol-o, como que tem isso o proposito de querer irritar os outros espectadores, +e então sobe de ponto a gritaria dos que mandam desbarretar o insolente.</p> + +<p>Ha já muitos annos, no theatro da rua dos Condes, appareceu n'um camarote de +segunda ordem um grupo de patuscos que vinham das hortas, bem comidos e bem +bebidos,—bem bebidos, sobretudo.</p> + +<p>Não se lembraram ou não quizeram tirar o chapeu, e o publico indignou-se, +começou, de cara no ar, a gritar, a berrar para que se descobrissem.</p> + +<p>Assistia ao espectaculo, com alguns amigos, o Moita e Vasconcellos, então +jovialissimo rapaz, mais tarde conselheiro e chefe de repartição no ministerio +das obras publicas,—o pobre Moita que tão desgraçado morreu!</p> + +<p>Pareceu-lhe boa occasião de tirar partido do conflicto, e foi bater á porta +do camarote dos patuscos.</p> + +<p>—Quem é? perguntaram de dentro.<span class="pn"><a +name="pag_173">{173}</a></span></p> + +<p>—A auctoridade, respondeu o Moita e Vasconcellos.</p> + +<p>Abriu-se a porta do camarote, e o Moita, tomando o ar grave de um +representante da lei, exclamou:</p> + +<p>—Isto que se está passando é uma pouca vergonha! Pagaram ou não +pagaram os senhores o seu camarote?</p> + +<p>—Pagamos, sim, senhor.</p> + +<p>—Pois se pagaram, podem estar como quizer, comtanto que não offendam a +moral publica. Tanto monta ter o chapeu na cabeça como não ter. Isso não +offende a lei nem a moral. O dever da auctoridade é proteger os direitos de +cada um, disse e saiu com a mesma seriedade.</p> + +<p>Os do camarote, fortes com o apoio da lei, pozeram os chapeus na cabeça e +despiram os casacos.</p> + +<p>Imagine-se a gritaria que n'esse momento irrompeu da platéa e dos outro +camarotes! A inferneira cresceu a tal ponto, que a verdadeira auctoridade teve +de intervir, e os patuscos tiveram de ceder, não podendo dizer ao certo se a +embriaguez lhes haveria feito vêr a auctoridade em duplicado ou se neste paiz +tudo andava tão fóra dos eixos, que havia duas auctoridades, uma para mandar +pôr o chapeu, outra para o mandar tirar...</p> + +<p>N'alguns espectaculos tem acontecido que o<span class="pn"><a +name="pag_174">{174}</a></span> publico se arroga o direito de mandar pôr ou tirar o +chapeu, sem se importar com a intervenção das auctoridades, e sem que mesmo as +auctoridades se atrevam a intervir.</p> + +<p>N'uma tourada de Badajoz appareceu uma vez um sujeito de chapeu alto. O +publico, logo que elle entrou, começou a gritar-lhe em côro:</p> + +<p>—Que quite el sombrero!</p> + +<p>O homem quiz resistir, mas acabou por ceder. Tirou o chapeu. N'isto começou +o publico a gritar, sempre em côro:</p> + +<p>—Que ponga el sombrero!</p> + +<p>E o homem, ao cabo de alguns momentos de hesitação, teve que pôr o chapeu, +para depois o tornar a tirar, para ter que o pôr outra vez e para ter que +tiral-o de novo...</p> + +<p>Na rua ha maior liberdade de acção, o facto de pôr ou tirar o chapeu escapa +ao dominio do publico; mas por isso mesmo que ha maior liberdade de acção, ha +maior responsabilidade no facto em relação á pessoa a quem é dirigido.</p> + +<p>Basta deixar de tirar o chapeu para cortar pela raiz, de um momento para +outro, uma longa amisade de muitos annos. E assim, porque o chapeu ficou na +cabeça, ficaram separadas moralmente duas pessoas.</p> + +<p>Tirar o chapeu fóra de proposito, tiral-o de mais ou tiral-o de menos, póde +ter consequencias analogas, como se tome esse acto por troça,<span class="pn"><a +name="pag_175">{175}</a></span> por baixesa de caracter ou por desconsideração.</p> + +<p>Tiral-o á mesma pessoa umas vezes, e não o tirar outras vezes, é caso para a +pessoa, que umas vezes é cumprimentada e outras não, pensar no que deve +fazer.</p> + +<p>Eu adoptei para este caso uma linha de procedimento. Se uma pessoa me +cumprimenta uns dias por outros, hoje sim, ámanhã não, se me cumprimenta aqui e +não me cumprimenta acolá, porque está acompanhada de melhor ou de peior +sociedade, essa pessoa passa a fazer-me o effeito de um realejo, que me diverte +proporcionando-me occasião de trautear esta popularissima trova:</p> + +<blockquote> + <p>Quando eu quiz, não quizeste,<br> + Tiveste opinião;<br> + Agora queres, não quero,<br> + Tenho minha presumpção.</p> +</blockquote> + +<p>O chapeu impõe deveres de normal cortezia, a que é preciso attender sem +exagero para mais ou para menos.</p> + +<p>Nada ha tão aborrecido como o excesso de cortezia em que um chapeu póde +incorrer estando fóra da cabeça quando devia conservar-se no seu logar. Um +estadista portuguez, a quem um seu antigo protegido acompanhava de chapeu na +mão por toda a parte, chegou a dizer n'um momento de desespero:—«Muito me +incommoda a gratidão!»<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span></p> + +<p>Da gente de Lisboa escreveu o quinhentista Prestes:</p> + +<blockquote> + <p>... e de Lisboa se sêa<br> + Que todos lá são honrados,<br> + Que de pessoa a pessoa<br> + Se fallam desbarretados.</p> +</blockquote> + +<p>Mas Francisco Manuel de Mello poz á cortezia dos lisboetas seus justos +limites quando disse:</p> + +<blockquote> + <p>Um fallar com tanto geito,<br> + Um ditinho de repente.<br> + Que affeiçôa:<br> + <em>Um ter em tudo respeito</em>,<br> + Ai! mate-me Deus com a gente<br> + De Lisboa.</p> +</blockquote> + +<p>Ter em tudo respeito,—eis a questão. <span class="errata" title="no original: E como">É como</span> se dissesse: ter conta em +tudo. Respeito por os outros e por nós mesmos, até no cumprimentar!</p> + +<p>Ha pessoas que caem no defeito contrario áquelle, e que em vez e gastar a +aba do chapeu, apenas gastam o dedo com que lhe tocam. É pouco. Se um só dedo +podesse bastar a alguem para uso proprio ou alheio, a sábia natureza não nos +haveria dado cinco dedos em cada mão.</p> + +<p>Quando a gente, não sendo militar, se vê cumprimentada d'esse modo, dá-lhe +vontade de responder ao dedo com o braço todo,—para se mostrar +generosa!<span class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span></p> + +<p>O presidente de não sei que estado americano, passeiava um dia na praça +publica, vestido á paisana, com o seu ajudante de campo ao lado.</p> + +<p>Passou por elle um escravo, e cumprimentou-o. O presidente tirou-lhe o +chapeu, e seguiu seu caminho. Mas quiz parecer-lhe que o ajudante achou que +elle cumprimentára de mais para um escravo. Voltou-se e disse:</p> + +<p>—Não quero que possa haver n'este paiz alguem mais bem educado do que +eu!</p> + +<p>Isto percebe-se, e é logico. Fazer apenas meia dose de cumprimento, não é +cumprimentar, é vexar, porque se lembra á pessoa cumprimentada a sua +inferioridade.</p> + +<p>Ainda ha uma cousa peior talvez do que dispensar sómente meia dóse de +cumprimento:—é exigir que lhe dispensem dóse dobrada.</p> + +<p>Certo fidalgo costumava deixar ficar de chapeu na mão as pessoas que lhe +fallavam. Um dia, na rua larga de S. Roque, passou um sujeito a quem repugnou +vêr outro desbarretado deante do fidalgo, que o não mandava cobrir. Chegou ao +pé dos dois, tocou no hombro do que estava descoberto, e disse-lhe:</p> + +<p>—Póde pôr o chapeu na cabeça, que este senhor dá licença.</p> + +<p>Se algum dos dois devia agradecer não era o desbarretado, mas o fidalgo, +porque estava fazendo peior figura...<span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span></p> + +<p>Ter em tudo respeito, ter conta em tudo, eis o caso.</p> + +<p>Chega a gente a sentir-se enjoada de vêr um sujeito que cumprimenta a torto +e a direito para dentro de todos os trens que passam—ha n'isto +verdadeiros especialistas—e que se agarra a um cabello para ter o +pretexto de se tornar <em>snob</em> dos machuchos.</p> + +<p>Mas não enjôa por certo menos vêr outros sujeitos que põem todo o seu +orgulho na aba do chapeu, imaginando que a aba do seu chapeu é a continuação do +firmamento.</p> + +<p>Acima d'elles, só Deus, e ás vezes nem Deus... que não conhecem!</p> + +<p>De tudo quanto completa a <em>toilette</em> do homem é com certeza o chapeu +o que lhe impõe maiores responsabilidades, o que o approxima ou affasta mais +dos outros homens, o que o póde definir melhor na sua individualidade moral, o +que o póde tornar mais estimavel e o que tambem o póde comprometter mais.</p> + +<p>E tudo isto por que?</p> + +<p>Porque o chapeu, como disse a tricana do norte, serve para pôr e para +tirar.</p> + +<p>E em saber pôl-o a tempo e tiral-o a proposito é que está o buzilis.</p> + +<p>Pouco importa que o chapeu seja pequeno e a cabeça grande, que o chapeu seja +grande e a cabeça pequena. Não está n'isso a harmonia entre o homem e o chapeu, +mas sim no<span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span> uso conveniente ou +inconveniente que d'elle se faz.</p> + +<p>Quando a gente, ao sair de casa, põe o chapeu na cabeça, é como se pozesse +ao sol o forro de si mesmo,—as suas ideias, os seus sentimentos, a sua +educação, o seu caracter.</p> + +<p>Ha chapeus que vão dizendo de cima da cabeça: «Cá vae este tolo, que não +conhece os conhecidos».</p> + +<p>Ha outros chapeus que, aborrecidos da roda-viva em que andam, parecem gritar +a cada momento: «Cá vae este tolo, que até conhece os desconhecidos!»</p> + +<p>Ainda ha outros chapeus que parecem muito contentes do acerto com que são +tratados pelo dono, e em cuja copa a gente cuida lêr esta divisa: «Nem de mais, +nem de menos».</p> + +<p>Já repararam em que o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e feitio, +parece variar de peso em certas occasiões e, especialmente, de pessoa para +pessoa?</p> + +<p>O mesmo chapeu, se a gente está de animo opprimido, parece pesar mais que de +costume.</p> + +<p>Um pretendente, fallando uma vez com Antonio Rodrigues Sampaio, começou por +dizer-lhe, visto que n'esse momento lhe parecia ser de chumbo a aba do +chapeu:</p> + +<p>—Muito custa, sr. conselheiro, andar a gente por aqui de chapeu na +mão!</p> + +<p>E Sampaio, que tinha soffrido e trabalhado<span class="pn"><a +name="pag_180">{180}</a></span> como poucos, respondeu de prompto obrigando-o a +cobrir-se:</p> + +<p>—Pois ponha-o na cabeça, e diga o que quer.</p> + +<p>Dois sujeitos compram chapeu da mesma fórma e no mesmo chapeleiro.</p> + +<p>A um d'elles o chapeu como que brinca sobre a cabeça, inclinando-se +requebrado n'um bolero permanente. É que a cabeça anda alegre e communica ao +chapeu, que se sente leve, a vontade de foliar.</p> + +<p>A outro o chapeu vae-lhe descendo insensivelmente até ás orelhas, dando +mostras de querer enterrar-se por desgostoso. É que a cabeça pegou-lhe as +scismas em que anda martellando no silencio do espirito.</p> + +<p>Tão certo é, meus senhores, que o chapeu revela o homem:—o chapeu é o +estylo de toda a gente, incluindo a que não tem estylo.<span class="pn"><a +name="pag_181">{181}</a></span></p> + +<h1>XXI</h1> + +<h2>Os antipodas</h2> + +<p>Ha pessoas tão infelizes, que julgam que a sua propria infelicidade não terá +fim.</p> + +<p>Ha melancolicos para quem a esperança não accende um unico raio de sol, tão +entranhadamente elles se entregam á melancolia.</p> + +<p>Ha pobretões que desanimam de ser remediados algum dia, tão pouca fé lhes +vivifica o coração.</p> + +<p>É para todos estes que eu escrevo hoje, mandando-lhes n'uma anecdota um +ensinamento moral, que póde, por um momento ao menos, arrancal-os aos seus +pensamentos sombrios, tiral-os, por um instante que seja, do inferno da sua +desesperança e entremostrar-lhes o ceu...</p> + +<p>O padre-mestre Fanhões tambem se arrepellava, teimosamente incredulo, quando +o seu collega Liborio pretendia demonstrar-lhe que<span class="pn"><a +name="pag_182">{182}</a></span> na esphera terrestre havia habitantes que, em relação +aos de meridianos e parallelos oppostos, se chamavam antipodas, porque se +achavam collocados de modo que os pés de uns estavam voltados contra os pés de +outros.</p> + +<p>Padre-mestre Fanhões não o podia crêr e desgostava-se d'isso, visto que toda +a gente acreditava na existencia dos antipodas, menos elle.</p> + +<p>—Não me fio! dizia de si para comsigo. Como é possivel que, estando +nós n'um hemispherio de cabeça para cima, possa haver gente que se equilibre de +cabeça para baixo no outro hemispherio?!</p> + +<p>Por mais que matutasse no caso, acabava sempre por dar razão a si proprio, e +negal-a ao collega Liborio.</p> + +<p>—Ora imaginem, insistia elle, uma laranja, porque a terra tem +approximadamente, segundo se diz, a fórma de uma laranja. Ponho a laranja sobre +um prato e colloco-lhe facilmente na casca da metade superior um ou dois grãos +de milho; mas se quizer collocal-os na metade inferior, claro está que não +terei meio de segural-os. Cairão por força! Pois com os habitantes da terra ha +de dar-se a mesma cousa. Que nos aguentemos de cabeça para cima, percebe-se; +mas que haja outros que se aguentem de cabeça para baixo, não me entra no +miolo. O Liborio é um asno, que acredita em todos os carapetões!<span class="pn"><a +name="pag_183">{183}</a></span></p> + +<p>E o padre-mestre, ensinando o seu latim aos rapazes, interrompia-se muitas +vezes para dizer-lhes a proposito de cousa nenhuma:</p> + +<p>—Nos antipodas é que eu não acredito! Não póde ser!</p> + +<p>Os rapazes davam-lhe razão, não só porque n'essas occasiões o padre-mestre +os apoquentava menos no latim, mas tambem porque elles proprios não tinham +grande convicção na tal historia dos antipodas, gente que devia viver pendurada +pelos pés, em permanente gymnastica.</p> + +<p>Tirante a caturreira dos antipodas, padre-mestre era uma excellente pessoa, +um sacerdote exemplar, muito respeitador das leis da egreja e dos preceitos da +Bulla da Santa Cruzada.</p> + +<p>Ás sextas-feiras comia-se sempre de magro em sua casa: os rapazes já +contavam com o bello bacalhau n'aquelle dia.</p> + +<p>Elle proprio, o bom padre-mestre, o ia escolher á tenda nas quintas-feiras +de tarde. Trazia-o para casa, escondido debaixo do capote. Dava-o a vêr á +criada.</p> + +<p>—Que era de primeira ordem, approvava ella, o melhor que podia ser!</p> + +<p>—Pois sim, Gertrudes, vae atar-lhe uma corda e pôl-o a dessalgar no +poço.</p> + +<p>Dito e feito. A Gertrudes pendurava o bacalhau, e mergulhava-o no poço até +ao meio dia seguinte.<span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span></p> + +<p>Succedia algumas vezes que o padre-mestre Fanhões se encontrava n'esses +dias, na botica, com o seu collega Liborio e, como sempre, discutiam o eterno +thema, a eterna teima dos antipodas.</p> + +<p>—Que não! que não podiam existir! exclamava decisivamente o +padre-mestre.</p> + +<p>Não havia argumento convincente que o Liborio não empregasse; mas o +padre-mestre, muito casmurro e auctoritario, cortava a questão dizendo:</p> + +<p>—Ha duas cousas que eu sei perfeitamente: a primeira é que tenho +ámanhã bacalhau para o jantar; a segunda é que essa tal historia dos antipodas +não tem pés nem cabeça.</p> + +<p>Ora succedia que na sexta-feira pela manhã, quando a Gertrudes ia tirar o +bacalhau do poço, o encontrava sempre reduzido a menos de metade; estava +ratado, comido.</p> + +<p>O que seria, o que não seria?!</p> + +<p>—É gato que desce pela corda, alvitrava o padre.</p> + +<p>—Isto não é dente de gato! ponderava acertadamente a Gertrudes.</p> + +<p>E, realmente, fizeram a seguinte descoberta: que não podia ser gato de casa, +porque o não tinham, e não podia ser gato de fóra, porque os muros do quintal +eram muito altos, e estavam eriçados de cacos de garrafa.</p> + +<p>—Será elle rato de agua, ó Gertrudes?!<span class="pn"><a +name="pag_185">{185}</a></span></p> + +<p>—Nada, sr. padre-mestre, isto menos póde ser dente de rato.</p> + +<p>—Olha, dente de coelho é que é com toda a certeza, porque por mais que +a gente puxe pelo miôlo não sabemos o que seja!</p> + +<p>A Gertrudes achava mais uma vez graça a este dito do padre-mestre, sempre +repetido, e na sexta-feira seguinte, quando ia tirar o bacalhau do poço, +encontrava-o roido em metade.</p> + +<p>Os alumnos do padre-mestre tinham inventado esta patuscada do bacalhau e, +graças a ella, passavam em cautelosa folia as noites das quintas-feiras.</p> + +<p>Eram elles, os diabretes! que, depois de estarem certos de que o +padre-mestre dormia, e de que a Gertrudes ressonava, desciam pé-ante-pé ao +quintal, e, içando o bacalhau, cortavam e comiam grandes lascas.</p> + +<p>Se lhes dessem uma ceia de <em>foie-gras</em> talvez não gostassem tanto. O +bacalhau roubado tinha para elles o sabor do fructo prohibido, a que servia de +aperitivo a chalaça de o irem buscar ao poço com o sobresalto de ratoneiros que +temem ser presentidos.</p> + +<p>Padre-mestre dava em doido, o caso já o ia intrigando tanto como a historia +dos antipodas.</p> + +<p>Um dia chamou de parte o mais intelligente dos seus discipulos de latim, e +contou-lhe o que estava acontecendo com o bacalhau.<span class="pn"><a +name="pag_186">{186}</a></span></p> + +<p>—O que será? perguntou candidamente o padre-mestre.</p> + +<p>—Ao certo não sei, respondeu o estudante. Mas talvez...</p> + +<p>—Talvez?</p> + +<p>—Pode muito bem ser que o comam os antipodas.</p> + +<p>—Lá vens tu com a fabula dos antipodas! Não creias n'isso, rapaz!</p> + +<p>—Ó sr. padre-mestre, pois se todos os sabios dizem que sim, por que +rasão havemos nós de pôr em duvida o que elles affirmam! De mais a mais vossa +senhoria tem meio de averiguar a verdade. Sexta-feira pela manhã debruce-se no +poço, ponha-se á espreita, que talvez os apanhe com a boca na botija.</p> + +<p>—No bacalhau é que tu queres dizer...</p> + +<p>—Sim, senhor, no bacalhau.</p> + +<p>—Pois olha que hei de tomar o teu conselho. Na sexta-feira eu proprio +irei tirar o bacalhau do poço para desenganar-me.</p> + +<p>Póde calcular-se o que os estudantes ririam uns com os outros á espera da +sexta-feira, que n'aquella semana parecia não chegar nunca, tão anciosamente +elles a esperavam.</p> + +<p>Mas, arrastadamente, a sexta-feira chegou, e o padre-mestre foi em pessoa +buscar o bacalhau.</p> + +<p>Ao debruçar-se no poço, deu um grande grito.<span class="pn"><a +name="pag_187">{187}</a></span></p> + +<p>A Gertrudes correu á janella:</p> + +<p>—O que é, sr. padre-mestre? perguntou</p> + +<p>—Eu vi um homem no fundo do poço, respondeu elle assaralhopado. E +assim que me endireitei para gritar, fugiu.</p> + +<p>—Atire-lhe uma pedra, sr. padre-mestre, aconselhou um dos estudantes, +que tambem tinham acudido.</p> + +<p>O padre-mestre pegou n'um calhau e atirou-o para o fundo do poço. A agua +turvou-se, de modo que, por mais que elle se debruçasse espreitando, não tornou +a vêr homem nenhum,—isto é, não podia vêr-se a si proprio.</p> + +<p>—E o bacalhau está inteiro? perguntou outro rapaz</p> + +<p>—Vamos vêr isso.</p> + +<p>O padre-mestre deu-se pressa em içar a corda.</p> + +<p>Faltava metade ao bacalhau.</p> + +<p>—Ora agora, sr. padre-mestre, disse-lhe o estudante que primeiro o +havia aconselhado, já vossa senhoria não póde duvidar da existencia dos +antipodas, porque os viu.</p> + +<p>—E é verdade que vi um!</p> + +<p>—Mas o que fez elle quando vossa senhoria appareceu á beira do +poço?</p> + +<p>—Ora o que faz um gatuno quando alguem o apanha com a boca na +botija?</p> + +<p>—No bacalhau, sr. padre-mestre, emendou o estudante.<span class="pn"><a +name="pag_188">{188}</a></span></p> + +<p>—No bacalhau ou na botija. Fugiu! Pois o que havia elle de fazer, o +patife?!</p> + +<p>—Vossa senhoria reparou se elle trazia casaco?</p> + +<p>—Trazia, sim, lá isso ainda eu pude vêr.</p> + +<p>—Está provado então que os antipodas vestem como nós. E vossa senhoria +que não queria acreditar n'elles!</p> + +<p>—É verdade! Ninguem póde dizer: d'esta agua não beberei. Vou confessar +o meu erro ao collega Liborio.</p> + +<p>E foi. O collega Liborio estava na aula a ensinar geographia aos rapazes.</p> + +<p>O padre-mestre chamou por elle em altos berros. O Liborio veiu á porta vêr +que afflicção era aquella. Era o padre-mestre, que lhe gritou:</p> + +<p>—Não ha duvida, não senhor; Você tem razão n'aquillo dos antipodas!</p> + +<p>—Porque, ó padre-mestre?</p> + +<p>—Porque eu vi um.</p> + +<p>—Viu um!</p> + +<p>—Vi-o com estes que a terra hade comer.</p> + +<p>—E onde é que o viu?</p> + +<p>—No fundo do meu poço!</p> + +<p>Assim é em tudo o mais.</p> + +<p>Por muito escura que seja a vida, e basta que seja tão negra como o fundo de +um poço, por mais teimosa na sua descrença que seja uma alma, e basta que o +seja tanto como a do padre-mestre<span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span> +Fanhões, chega sempre um dia em que se vê ou se cuida vêr aquillo que jámais se +reputava visivel: realidade ou illusão.</p> + +<p>Melhor é que seja a realidade, ao contrario do que aconteceu com o +padre-mestre. Mas se fôr illusão, isso basta ás vezes, n'um mundo em que a +maior parte das cousas são illusorias, para sentir a alma menos propensa á +duvida e ao desalento.</p> + +<p>O padre-mestre julgou vêr um antipoda, e morreu na fé de que elles +existiam,—por isso. O collega Liborio, em vez de vêr os antipodas no +fundo do poço, via-os nos compendios de geographia e nos globos. Nem por se ter +convencido mais depressa logrou ter maior convicção de que o padre-mestre desde +aquelle dia. E ambos chegaram ao mesmo fim por caminhos diversos. Mas, com +quanto um se atrazasse na jornada, ambos chegaram, e o essencial na vida é +chegar... alguma vez!<span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span></p> + +<h1>XXII</h1> + +<h2>As uvas</h2> + +<p>Outubro: todos os lavradores tratam de apurar o resultado das vindimas.</p> + +<p>Quantas pipas de vinho tiveram? A como as venderão? Eis as questões que +principalmente os preoccupam.</p> + +<p>São, pois, as uvas que estão ainda em scena no grande palco da vida rural, +tablado sombrio e melancolico desde que o phyloxera começou a roer os +bastidores feitos de pampanos e latadas, outr'ora verdejantes e opulentos de +seiva.</p> + +<p>As uvas, disse-o algures Julio Cesar Machado, são o vinho em pilulas. +Deliciosas e saborosas pilulas, que não precisam ser doiradas com assucar como +as da botica!...</p> + +<p>Um dia, certo medico, que punha muito gosto em falar com distincção, +aconselhou um dos seus doentes a tomar umas pilulas amargas<span class="pn"><a +name="pag_191">{191}</a></span> que, para não repugnarem, precisavam ser envolvidas +n'uma substancia doce.</p> + +<p>—Tome-as n'um vehiculo qualquer, recommendou o medico.</p> + +<p>Ora em pharmacia a palavra vehiculo é synonimo de excipiente, isto é, a +substancia em que se encorporam ou dissolvem os medicamentos, para lhes +mascarar o sabor, para diminuir o seu principio activo ou ainda para lhes dar +uma fórma conveniente.</p> + +<p>No dia seguinte vem o medico, e não encontra o doente em casa. Mostra-se +profundamente surprehendido e contrariado.</p> + +<p>—Onde está elle?!</p> + +<p>—Saiu.</p> + +<p>—Saiu?! Que imprudencia, santo Deus!</p> + +<p>—Mas foi V. ex.ª que mandou...</p> + +<p>—Eu?!</p> + +<p>N'isto ouve-se parar á porta uma carruagem. Era o doente, pallido e tremulo, +que regressava a casa.</p> + +<p>—O que fez o senhor?! perguntou o medico.</p> + +<p>—Saí de carruagem.</p> + +<p>—Mas que loucura foi essa?!</p> + +<p>—Pois V. ex.ª não me disse que tomasse as pilulas n'um +<em>vehiculo</em> qualquer! Tomei-as de carruagem...</p> + +<p>Com as pilulas de vinho, tão doces são! não pódem dar-se d'estes equivocos, +pois que não<span class="pn"><a name="pag_192">{192}</a></span> precisam +vehiculo—assucar ou carruagem—para engulir-se com agrado.</p> + +<p>Perde-se na noite do cahos a origem da vinha e do seu fructo saboroso.</p> + +<p>Segundo a Biblia, Noé foi o inventor da arte de fazer vinho e, por tal +signal, que aprendeu á sua custa, empiteirando-se sem o querer. Segundo a +mythologia, foi Baccho o primeiro viticultor, e o que é certo é que nós ainda +hoje, quando carregamos nos tropos, dizemos muitas vezes—o deus +Baccho—em vez de vinho.</p> + +<p>Mas quem sabe lá qual foi ao certo o primeiro homem que cultivou a vinha e +bebeu o sumo das uvas! De mais a mais a vinha não foi arvore que Deus +prohibisse, como a do <em>bem e do mal</em>. Não, senhores, a cultura da vinha +foi livre desde o principio do mundo, e então, que me conste, não se vendia o +vinho por decilitros. O systema metrico decimal é, acho eu, muito posterior á +origem do mundo... Cada um podia beber o que quizesse. Que delicia, o principio +do mundo!</p> + +<p>Pois não serei eu que me proponha estudar a origem do vinho, para não +incorrer no ridiculo d'aquelle sabio que, tratando de descobrir o inventor do +jogo do <em>voltarete</em>, ficou capacitado de que tinha sido... Voltaire.</p> + +<p>Ha poucos dias li n'uma obra interessantissima, a viagem de Pyrard ás Indias +Orientaes, que o duque de Alba, tendo tomado a cidade<span class="pn"><a +name="pag_193">{193}</a></span> de Haerlem, na Hollanda, mandou fazer n'ella execuções +tão crueis, que ha quem derive d'ahi o proverbio <em>fazer arlem</em>, de onde +veiu, por corrupção, fazer <em>arlia</em> ou <em>arrelia</em>.</p> + +<p>Pois nem Francisco Pyrard, nem Cunha Rivara, que commungou esta opinião, +eram dois insignificantes.</p> + +<p>Pareceu-me forçada a derivação e contando-a a um homem de espirito, disse-me +elle:</p> + +<p>—Eu estou convencido do contrario. Sabe vossê que Jacob só muito +contrariado casou com Lia. Por isso, é natural que a não tratasse bem. +Obrigava-a a trabalhar, sem que ella podesse e, como n'esse tempo todos os +homens eram grosseiros, dizia-lhe a cada momento: <em>Arre, Lia</em>. D'aqui é +que veiu certamente a locução...</p> + +<p>Tem graça, e caracterisa a facilidade com que os sabios inventam origens.</p> + +<p>Sempre me ha de lembrar o caso d'aquelles dois distinctos archeologos que, +n'uma serra de Portugal, encontraram certa pedra tosca com estas duas lettras +gravadas: C. M.</p> + +<p>Discutiram, investigaram, até que um cantoneiro lhes disse:</p> + +<p>—Essa pedra foi mandada ahi pôr ha muitos annos pela senhora <em>camara +municipal</em>.</p> + +<p>Ficaram de cara á banda, os sabios.</p> + +<p>A mim, a respeito da vinha, não me ha de acontecer outro tanto. Tiro o meu +chapeu á<span class="pn"><a name="pag_194">{194}</a></span> antiguidade da cepa, e passo +adeante. Mas como as uvas, e bebo o vinho. No estado de civilisação em que nos +encontramos hoje, é o melhor que temos a fazer.</p> + +<p>Sem embargo, tambem gosto de olhar para ellas, principalmente se são +brancas, graciosamente tocadas pela luz em cada bago, o que faz o desespero dos +pintores.</p> + +<p>Só um soube até hoje igualar-se ao Creador na reprodacção das uvas. Foi +Zeuxis, diz a lenda. Os passaros, enganados por uma tão perfeita similhança, +vieram bicar os cachos. Parrhasius, rival de Zeuxis, quiz pintar uma tela ainda +melhor. No seu quadro havia um cortinado que enganou o proprio Zeuxis.</p> + +<p>—Levanta o cortinado, disse elle a Parrhasius, para que eu possa +observar a tela.</p> + +<p>Quando reconheceu que era pintado, Zeuxis confessou-se vencido: «Eu enganei +os passaros, mas Parrhasius enganou-me a mim!»</p> + +<p>A vinha póde ser mais ou menos elegante, alta e pendente como no norte do +paiz, de <em>enforcado</em> lhe chamam; ou pequena e redonda como nas +provincias do sul: mas as uvas são sempre bellas na lucidez e variedade dos +tons.</p> + +<p>É notavel que Camões, tendo vivido na Estremadura, se é que n'esta mesma +provincia não nasceu, descrevesse na <em>ilha dos Amores</em>, não a vinha do +sul, mas a de <em>enforcado</em>, a alta e pendurada, que vegeta no norte:<span class="pn"><a name="pag_195">{195}</a></span></p> + +<blockquote> + <p>Entre os braços do ulmeiro está a jucunda<br> + Vide, c'uns cachos roxos, e outros verdes.</p> +</blockquote> + +<p>Frei Luiz de Sousa, na descripção da cêrca de Bemfica, serviu-se de uma +feliz comparação com as pedras preciosas para caracterisar as <em>nuances</em> +da coloração dos cachos. Faziam, diz elle, «collares de pedraria as uvas, +segundo os tempos, e as côres d'ellas: já topasios, já rubis, primeiro +esmeraldas.»</p> + +<p>Na linguagem pittoresca do apologo, as uvas estão verdes quando a rapoza +lhes não póde chegar. É uma das mais sentenciosas fabulas, essa, da rapoza e +das uvas. Desdenha-se sempre d'aquillo que se não póde alcançar.</p> + +<p>—Ser ministro! diz um pretendente á pasta. Que massada!</p> + +<p>E do lado algum malicioso observa a meia voz:</p> + +<p>—Estão verdes, não prestam...</p> + +<p>Por este anno, vamos a despedir-nos das uvas, que só por ahi resta algum +cacho guardado como um mimo.</p> + +<p>Perdem-se no ar, por esse paiz fóra, as ultimas canções das vindimas. No +Douro, a região do vinho, a vindima é ainda uma festa, apesar da phylloxera. +Canta-se todo o dia, vindimando. E ha razão para isso, porque a vindima +representa o advento do vinho novo. No sul do paiz, a vindima corre triste e +silenciosa, parecendo um funeral, o enterro das uvas.<span class="pn"><a +name="pag_196">{196}</a></span></p> + +<p>Mas, para o effeito de ser bom, pouco importa que o vinho nasça entre +canções ou sem ellas. O que se quer é que alegre e aqueça... no +inverno;—porque, no estio, alegra e refresca, dizem os borrachos.<span class="pn"><a name="pag_197">{197}</a></span></p> + +<h1>XXIII</h1> + +<h2>Pessoas conhecidas de vossas excellencias</h2> + +<p>Temos visto cair de anno para anno, um a um, os mais antigos +<em>habitués</em> de S. Carlos.</p> + +<p>Por que não começaremos pelas testas coroadas? O seu <em>dilettantismo</em> +é tão humano como o dos outros <em>habitués</em>. Primeiro el-rei D. Fernando, +um espectador certo, mesmo já quando a voracidade lethifera de um cancro lhe ia +roendo a face. D. Fernando punha o seu parche de seda preta, e ia para S. +Carlos, para S. Carlos onde elle havia brilhado outr'ora em plena mocidade +feliz. Depois D. Augusto, que parecia amar a temperatura elevada de S. Carlos, +apesar de ser um cardiaco. Em seguida, el-rei D. Luiz, que tinha pela musica a +paixão nativa de todos os Braganças. Já doente, pallida e flaccida a face, n'um +esphacelamento lento que o rosto denunciava, ia uma vez por outra<span class="pn"><a +name="pag_198">{198}</a></span> a S. Carlos como para se despedir da musica, que +sempre adorára.</p> + +<p>Cá em baixo, nas cadeiras, desapparecêra primeiro o dr. Alvarenga, que +passára a vida a tratar o coração dos outros, embora, para o atormentar, lhe +bastasse o seu, de que soffria muito.</p> + +<p>Lembram-se do dr. Alvarenga? Sempre de casaca, gravata preta, oculos +escuros, e um crescente mais <em>dilettante</em> do que cathedratico. Lembram +decerto.</p> + +<p>Depois o José Carlos <em>Poeta</em>, grande peitilho lustroso, casaca de +amplas lapellas, calva ostentosa e lusidia.</p> + +<p>Tinha conhecido a avó de cada cantora que ia apparecendo, e decerto gosava, +ouvindo a neta, mais do que nós, porque vivia da saudade deleitosa que as suas +recordações lhe avivavam.</p> + +<p>Foi-se um dia, de repente, alli ao fundo da rua do Alecrim.</p> + +<p>Julio Cesar Machado, muito correcto dentro da sua casaca, sempre de gravata +preta—querendo assim mostrar que já se não tinha na conta de moço, +comquanto se tivesse ainda na conta de <em>dilettante</em>—foi, como uma +estrella cadente que parece procurar outra no ceu, ver se encontrava pelo azul +fóra a alma do filho, que era a estrella querida do seu coração affectuoso.</p> + +<p>Agora, ultimamente, o duque de Albuquerque, uma só pessoa, que fornecêra a +S. Carlos<span class="pn"><a name="pag_199">{199}</a></span> dois <em>habitués</em>: o conde +de Mesquitella e o duque de Albuquerque.</p> + +<p>O seu chinó, sempre tão fallado nas chronicas de S. Carlos, era como que a +pagina mais eloquente do seu gosto pelo mundo: queria fingir de mais moço cada +vez que S. Carlos abria, não obstante ser mais velho um anno.</p> + +<p>E, depois de certa idade, nada ha que envelheça tanto como cada anno que vae +passando...</p> + +<p>Julio Machado raras vezes subia a um camarote para visitar alguem; e tambem +raras vezes assistia, nos ultimos annos, a um espectaculo todo.</p> + +<p>Parecia um pouco cansado do mundo: entrára no periodo em que a gente vive +principalmente de recordações.</p> + +<p>O duque de Albuquerque, pelo contrario, entrava em todos os camarotes, +visitava todas as damas, e apenas saía de S. Carlos... quando os outros +saíam.</p> + +<p>Tinha razão, porque elle ia lá não só para ouvir as operas, como tambem, +para ver os outros.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>José Carlos de Freitas Jacome alternára uma grande parte da sua vida em +occupações que profundamente contrastavam uma com outra:<span class="pn"><a +name="pag_200">{200}</a></span> a prosa dos tribunaes e a poesia da opera. De per +meio, e de passagem, plantára o seu loureirosinho no jardim das Musas, era +escrivão do civel na Boa Hora, <em>dilettante</em> em S. Carlos, e poeta por +desfastio nas horas em que da prosa dos autos ascendia á região da harmonia. +Fôra bastante escriptor para não ser unicamente escrivão, e, fóra da Boa Hora, +esquecia-se de ser escrivão, para ter as predilecções e as honras de +escriptor.</p> + +<p>Bom homem a valer, amavel, sabendo vestir uma casaca, tendo o segredo de +fazer espelhar, com uma limpidez de cristal, o peitilho da sua camisa. Nunca +perdeu, apesar de velho e doente, os seus ares de homem elegante, os seus +habitos mundanos. Gostava do mundo, e tinha bom gosto, porque mal se chega a +comprehender a mania, que teem alguns, de se sepultarem em vida na solidão da +misantropia.</p> + +<p>Duas coisas lhe não esqueceram nunca: as suas luvas, e uma flôr.</p> + +<p>Nas bellas noites de S. Carlos, Freitas Jacome enflorava sempre a lapella da +casaca.</p> + +<p>E no theatro, na egreja, na rua, na Havanesa, jámais lhe esqueceram as +luvas, que ás vezes não calçava, mas que não abandonava nunca.</p> + +<p>Dava gosto vel-o na sua cadeira de S. Carlos, grave, attento, tendo o ar de +um diplomata pomposo. Tendo visto nascer o romantismo em<span class="pn"><a +name="pag_201">{201}</a></span> Portugal, fôra romantico de convicção e, como tal, +adorava a musica italiana, saboreava-a, a goles de audição, como se fosse um +licor esquisito, divino.</p> + +<p>Verdi servia-lhe á phantasia uma especie de champagne capitoso, que o +embriagava docemente.</p> + +<p>Bellini e Rossini, dois copeiros da cava celeste, enchiam-lhe a taça do +prazer de um tokay generoso, unico.</p> + +<p>E, de resto, tinha rasão, porque ainda não houve quem lhes podesse apagar os +nomes na grande téla da immortalidade. Meyerbeer, uma aurora boreal, Mozart, +uma estrella, Wagner, uma nublosa, passam hoje por todos os palcos do mundo, +mas, sem embargo, as partituras italianas hão de illuminar-se sempre d'esse +doce luar de sentimentalismo, que faz a delicia do coração.</p> + +<p>N'essa atmosphera fôra educado Freitas Jacome. Nos combates romanticos, da +musica e da poesia, fizera as suas primeiras armas. Seguia o exemplo de Garrett +no vestir e no pensar, amava o romantismo em si e nos outros. Não podia +nivelar-se com esse grande homem na riqueza do intellecto, mas, no que podia +ser assimilavel, imitou-o. Não podia medir-se litterariamente com Castilho, mas +versejou a exemplo d'elle em honra das divas do Olympo lyrico, porque Castilho, +com ser cego, glorificou<span class="pn"><a name="pag_202">{202}</a></span> na lyra o +feminino da opera, a Agostini, a Bernardi, a Gazzaniga. Admirador de Herculano, +uma das tres entidades gloriosas da trimurti romantica, não o imitou nos +processos de vida rustica e meditativa: para solitario não tinha geito Freitas +Jacome.</p> + +<p>Faz-me pena vêr morrer um homem que soube aproveitar o mundo como elle é e +que, já combalido pela doença e desalentado pela velhice, poz o seu chapeu, +pegou nas suas luvas, e foi para a rua esperar a morte, que não ousou atacal-o +de cara, como a todos os tristes e a todos os fracos.</p> + +<p>Freitas Jacome morreu em plena rua, como Molière morreu em plena scena, n'um +esforço de coragem.</p> + +<p>Lisboa, esta Lisboa que elle tanto amava, viu-o passar no seu ultimo passeio +de vivo minutos antes de cahir morto. Mesmo doente, a vida exterior attraira-o. +Em vez de pedir uma tisana ao medico, planeou o seu jantar d'aquelle dia, saiu, +recebeu o ultimo golpe de luz que cahia do ceu de Lisboa, e morreu ouvindo o +ruido da grande cidade, que fremia em torno d'elle.</p> + +<p>E todavia Freitas Jacome era provinciano!</p> + +<p>Muitas vezes lhe ouvi dizer que nascera em Thomar, cujas bellezas naturaes +recordava, mas para um homem que gostava do mundo, e que tanto se interessava +por elle, o mar de lona de<span class="pn"><a name="pag_203">{203}</a></span> S. Carlos era +mil vezes preferivel á corrente authentica do rio Nabão.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Fallava-se muito dos irmãos Andrades, que já tinham cantado no Porto com a +Sembrich, mas, cantar em Lisboa tendo nascido em Lisboa, caso era para uma +certa curiosidade, direi mesmo para um certo receio.</p> + +<p>Todos nós nos lembravamos de ter visto esses dois rapazes pôr pela primeira +vez chapeu alto.</p> + +<p>Foi outro dia, ainda.</p> + +<p>E quando se principiou dizendo que elles cantavam bem, havia sempre uma voz +judiciosa que ponderasse:</p> + +<p>—Ora adeus! Se elles ainda outro dia pozeram chapeu alto!</p> + +<p>Christo dissera uma vez uma palavra profunda e sabia, como todas as suas +palavras: que ninguem chega a ser propheta na terra em que nasceu.</p> + +<p>Por que será isto assim?</p> + +<p>É porque, talvez, o que em grande parte contribue para fazer a gloria dos +homens é não tanto o seu merecimento como a sua lenda.</p> + +<p>Desde o momento que a gente apenas conheça, nua e crua, em toda a sua +exactidão, a<span class="pn"><a name="pag_204">{204}</a></span> biographia de qualquer +homem, vê-o unicamente pelo que elle possa ter de vulgar, de vulgarissimo, e +julga que tudo o que constitua a individualidade d'esse homem ha de ser vulgar, +vulgarissimo, tambem.</p> + +<p>Mas, quando se dá exactamente o contrario d'isto, quando primeiro se +conheceu a lenda do que a biographia, então principiamos a vêr o semi-deus no +homem, divinisamol-o ao capricho da nossa imaginação e da dos outros, porque a +lenda não é outra coisa senão o que a imaginação de muitos sonha a respeito de +um só...</p> + +<p>Se nos disserem que, no dia em que Adelina Patti nasceu, um rouxinol foi +cantar sobre o seu berço, como para prophetisar-lhe que ella seria a rainha do +canto, acreditamos facilmente.</p> + +<p>Ainda mesmo que a Patti tenha nascido no inverno, ainda mesmo! acreditamos +que o rouxinol cantasse.</p> + +<p>Por que? Porque da Patti o que primeiro conhecemos foi a lenda, e, como já +estamos habituados á lenda, nem mesmo chega a fazer-nos mossa ouvir cantar um +rouxinol no inverno.</p> + +<p>Mas dos Andrades o que primeiro conhecemos não foi a lenda, foi a +biographia. Tanto peior para elles.</p> + +<p>Viessem dizer-nos que quando os dois irmãos nasceram, seu pae, o tabellião +José Justino, viu<span class="pn"><a name="pag_205">{205}</a></span> e ouviu um rouxinol +começar a cantar sobre o berço de um e outro, como se o rouxinol viesse +milagrosamente a vaticinar que o Antonio havia de ser tenor, e que o Francisco +havia de ser barytono! Pois sim! Conta-lhe d'essas!—diriamos +nós—rouxinoes! quaes rouxinoes nem qual historia! o que elle ouviria +talvez seriam os pintasilgos da casa de jantar... Sempre o José Justino tem +coisas!</p> + +<p>Depois, todos haviamos conhecido os dois Andrades ainda pequenos, todos os +tinhamos visto assistir aos espectaculos do Gymnasio no seu camarote de +familia.</p> + +<p>Por tal signal que riam a bandeiras despregadas com as pilherias do Taborda. +E todos haviamos verificado que elles riam como as outras pessoas,—um +pouco estavanadamente como todos os rapazes da sua edade.</p> + +<p>Onde estava n'isto a lenda?</p> + +<p>Voz podiam elles ter; lenda é que não tinham.</p> + +<p>Pois foi n'estas circumstancias, realmente difficeis, que os dois Andrades +appareceram no palco do theatro de S. Carlos.</p> + +<p>Receiava-se...</p> + +<p>Suspeitava-se...</p> + +<p>Tremia-se!...</p> + +<p>Que falta faz uma lenda!</p> + +<p>Mas os dois artistas antepozeram o gosto de cantar na sua terra natal a +todas as considerações<span class="pn"><a name="pag_206">{206}</a></span> pelas reticencias +e pelas reservas dos seus conterraneos.</p> + +<p>E, uma vez resolvidos a cantar,—cantaram.</p> + +<p>E, depois que cantaram, ficou-se sabendo que elles sabiam cantar.<span class="pn"><a name="pag_207">{207}</a></span></p> + +<h1>XXIV</h1> + +<h2>Comer a dois carrilhos</h2> + +<p>Numa villa do Alemtejo, cujo nome não vem para o caso, havia um tendeiro +rico e avarento, que nem de verão nem de inverno se lembrava de atirar uma +migalha aos mendigos que lhe batiam á porta.</p> + +<p>Um engeitado, um pária, um rapazote do sitio, tão pobre como ladino, matutou +na injustiça da Providencia que dava ao tendeiro um bello capote de camellão +para se resguardar do frio, ao passo que só lhe dava a elle o frio sem o +capote. Matutou n'isto, e propoz-se regularisar a ordem das coisas.</p> + +<p>—Uma esmolinha, <em>tio</em> Ambrosio, pelo amor de Deus... Está tanto +frio! dizia elle, tiritante, roçando-se pela hombreira da porta do tendeiro.<span class="pn"><a name="pag_208">{208}</a></span></p> + +<p>—Sai-te d'aqui, maroto, que não quero espantalhos á porta, resmoneava +de dentro o tendeiro. Vae trabalhar.</p> + +<p>—Não posso, que sou doente... E tenho tanto frio, tanto!</p> + +<p>—Que te leve o diabo e mais o frio.</p> + +<p>No dia seguinte, o rapazito voltava. E, á força de teimar, o engeitado ia +conseguindo poder demorar-se mais tempo á porta do tendeiro sem que o enxotasse +já com tanta dureza.</p> + +<p>De uma vez o Ambrosio precisou um recado.</p> + +<p>—Olha lá, disse elle ao mendigo, já que não tens que fazer, vae-me ali +chamar o José da Azenha.</p> + +<p>E o rapazito foi submissamente atravez o frio aspero da serra, ao passo que +o tendeiro, bem embrulhado no seu capote de camellão, ficou sentado ao balcão +da loja, olhando vagamente para os seus dominios.</p> + +<p>Ao outro dia o rapaz voltou.</p> + +<p>—<em>Tio</em> Ambrosio, disse elle da porta, vocemecê não quer hoje +algum mandado?</p> + +<p>O tendeiro ficou encantado com este desprendimento de um mendigo, que +parecia ter o maximo empenho em fazer recados de graça ás pessoas ricas. Em vez +de pedir que lhe pagassem o trabalho da vespera, o bom do rapaz vinha pedir que +lhe dessem mais que fazer... pelo mesmo preço.</p> + +<p>—Sim, disse o tendeiro, pois olha... vae-me<span class="pn"><a +name="pag_209">{209}</a></span> chamar o Joaquim da Rita, que preciso fallar-lhe por +causa d'uma coisa.</p> + +<p>Essa coisa, eram uns juros em atraso.</p> + +<p>E o rapaz foi, em mangas de camisa, como andava, ao passo que o tendeiro, +embuçando-se melhor no seu farto capote, disse lá comsigo que sempre estava +muito frio.</p> + +<p>O Venancio engeitado, como todos o tratavam, tornou-se desde então o mais +diligente criado que o tendeiro podia desejar. Sobretudo, pelo que tocava a +soldada, era uma joia: nem vintem. Tambem elle não pedia. Mas fôra a pouco e +pouco captando a sympathia e a confiança do tendeiro, que primeiro o deixou +sentar á porta, e depois n'um banco dentro da loja.</p> + +<p>Nos dias de mercado, em que havia maior labutação no estabelecimento, o +Venancio engeitado offerecia-se para tudo, elle para ir prender á argola as +cavalgaduras, elle para lhes chegar umas sopas, elle para varrer as cascas dos +ovos que os piteireiros bebiam, elle para limpar o balcão e lavar os copos... +uma joia, uma verdadeira joia... a sêco!...</p> + +<p>O tendeiro gabava-o: Que era muito bom rapaz, que precisava muito, e que de +mais a mais não era pedinchão.</p> + +<p>O que o tio Ambrosio queria, com toda esta cantata, era que os freguezes +pagassem os serviços que o rapaz lhe fazia a elle, porque decerto pareceria +escandaloso que uma vez por<span class="pn"><a name="pag_210">{210}</a></span> outra o +Venancio não recebesse nada. Mas como os freguezes caíam, dando ao engeitado +pão e azeitonas, o tendeiro entendia que ficava uma coisa pela outra, e +achava-se desembaraçado para fazer do Venancio seu criado.</p> + +<p>Foram passando tempos, e uma vez, que estava na loja o morgado do sitio, um +mãos-rotas de generosidade e bizaria, o Venancio disse de repente ao tendeiro, +entrando na loja:</p> + +<p>—Ó <em>tio</em> Ambrosio, se vocemecê me podesse dar agora aquellas +duas libras que lhe dei a guardar, fazia-me favor.</p> + +<p>—Ó maroto! pois tu deste-me algumas duas libras?!</p> + +<p>—Dei, sim, senhor, ha dois mezes, na occasião em que estava aqui o da +Michaela, que foi para o Brazil.</p> + +<p>—Ah! maroto, que me perdes! Pois tu já tiveste duas libras algum +dia?!</p> + +<p>—Tive, sim, senhor, ha dois mezes, e dei-lhas a vocemecê para mas +guardar por ser um homem de bem...</p> + +<p>—Ó senhor morgado, este maroto está-me a envergonhar!</p> + +<p>—E o <em>tio</em> Ambrosio está-me a roubar, disse serenamente o +Venancio.</p> + +<p>—Sr. morgado, continuava o tendeiro, eu sou um homem honrado, incapaz +de tirar nada a ninguem.</p> + +<p>—Menos a um pobre... como eu. Duas libras!<span class="pn"><a +name="pag_211">{211}</a></span> que eu guardava para uma precisão! exclamou o +Venancio, e começou a chorar.</p> + +<p>Então, a natural bizarria do morgado não lhe permittiu tolerar aquella scena +por mais tempo. Fosse verdade ou não fosse, era preciso acabar com +aquillo,—uma miseria de duas libras! E o tendeiro envergonhado por tão +pouco!... Não podia ser.</p> + +<p>—Rapaz, disse o morgado querendo salvar a situação, não foi ao sr. +Ambrosio que deste a guardar as duas libras. Não te lembras bem. Foi a +mim...</p> + +<p>Então o Venancio, serenamente, humildemente observou:</p> + +<p>—Essas foram outras, sr. morgado.<span class="pn"><a +name="pag_212">{212}</a></span></p> + +<h1>XXV</h1> + +<h2>O ultimo puritano</h2> + +<p>Era uma vez um velho, o Seabra, que eu de tempos a tempos procurava na +repartição, porque tinha uma excellente mão de cursivo para tirar copias.</p> + +<p>Sessenta e seis annos bem puxados, posto que elle não desse ao manifesto +mais de sessenta.</p> + +<p>—Sessenta—dizia elle—sessenta já cá estão!</p> + +<p>E suspirava.</p> + +<p>Não se sabia bem se suspirava com remorsos de estar mentindo ou porque, +deitando as contas á sua vida, achasse que o mais prejudicado era elle...</p> + +<p>Tinha visto muita coisa, muita politica, muita patifaria. Nada que vinha de +novo o surprehendia.<span class="pn"><a name="pag_213">{213}</a></span> Batera-se no Alto do +Viso, trabalhára em varias eleições, e havia quarenta annos que saboreava, como +premio de seus trabalhos e serviços, um pingue logar de amanuense cristalisado +em seiscentos réis por dia.</p> + +<p>Conhecêra muitos homens importantes, que tinham lucrado com a collaboração +d'elle, e outros que taes, para subir ao poleiro, e que por mais de uma vez lhe +haviam promettido tiral-o d'ali para coisa melhor.</p> + +<p>Pois apesar de lhe faltarem a todas as promessas, de o trazerem enganado +durante quarenta annos, elle tratava-os sempre com o mesmo respeito, +cumprimentava-os muito reverente:</p> + +<p>—Sr. conselheiro, criado de v. ex.ª</p> + +<p>Era um praxista. Não cumprimentava ninguem sem ter descalçado primeiro a +luva da mão direita, nem saía da repartição sem ir perguntar ao chefe, +entreabrindo a porta do gabinete:</p> + +<p>—V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?</p> + +<p>E o chefe, que estava conversando com amigos, muito entretido, nem o +ouvia.</p> + +<p>Mas elle, insistindo, reperguntava:</p> + +<p>—V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?</p> + +<p>E o conselheiro, se d'essa vez tinha ouvido, respondia:</p> + +<p>—Adeus, Seabra, até ámanhã.<span class="pn"><a name="pag_214">{214}</a></span></p> + +<p>Algumas vezes lhe fallei do chefe, para sondal-o.</p> + +<p>E o Seabra dizia-me:</p> + +<p>—É dos novos; mas boa pessoa.</p> + +<p>Cheguei a entender o sentido d'estas palavras: <em>é dos novos</em>. Não era +praxista, não respeitava as tradições e os regulamentos da burocracia, mas o +Seabra reputava-o boa pessoa.</p> + +<p>Alma generosa, a d'esse velho amanuense! que, em respeito ao seu chefe, que +o tratava simplesmente por <em>Seabra</em>, não ousava dizer d'elle senão que +<em>era dos novos</em>... mas boa pessoa.</p> + +<p>Se o Seabra tivesse nascido meio seculo mais tarde, não entreabria a porta +do gabinete do chefe para se despedir; mas, se o fizesse, e elle lhe +respondesse com um «adeus, Seabra», pespegava-lhe uma tarea nas gazetas.</p> + +<p>Para um praxista como o Seabra, aquelle homem, que estava dentro do +gabinete, conversando com os amigos, era seu chefe, e isso lhe bastava.</p> + +<p>Ora uma das praxes observadas pelo Seabra era a de consultar sempre, antes +de sair da repartição, o seu espelhinho d'algibeira.</p> + +<p>Elle tinha apenas duas farripas de cabello branco, muito bem penteadas ao +longo da cabeça. Mas essas duas farripas mereciam-lhe todo o cuidado e +attenção. Vendo-se ao espelhinho, passava a mão por cima das farripas, +brunia-as com os dedos, alisava-as.<span class="pn"><a name="pag_215">{215}</a></span></p> + +<p>Depois observava a gravata, que era ordinaria, mas sempre bem tratada, sem +sombra de pó.</p> + +<p>Por ultimo, segurando o espelhinho com a mão esquerda, escovava a sua velha +sobrecasaca com a mão direita.</p> + +<p>E feito todo este serviço, depois que o chefe lhe dizia o «adeus, Seabra», +guardava o espelhinho na algibeira, a escova no armario, e seguia para sua +casa, a passos mesurados, muito vagaroso, pela rua do Oiro até Santa Martha.</p> + +<p>Inculcaram-m'o uma vez como tendo excellente letra para tirar copias. +Apresentaram-m'o. Por varias vezes lhe dei trabalho, meu e alheio. Era +pontualissimo na entrega das copias, e honestissimo nas contas que fazia. +Arredondava sempre as quantias contra elle. Se, trabalhando a tanto por pagina, +o seu trabalho importava por exemplo em 1$085 réis, não queria nunca receber +mais de dez tostões.</p> + +<p>Comprehende-se que precisasse muito d'estas achegas para poder viver, visto +que o seu logar lhe rendia apenas 600 réis diarios.</p> + +<p>Todas as noites saía para vir ao Rocio conversar n'uma loja até ás nove +horas. O logista era um homem do tempo d'elle. Tratavam-se por tu. Ás nove em +ponto, o Seabra despedia-se, ia para casa trabalhar até á meia noite, tirar +copias a 120 réis a pagina.</p> + +<p>Não vi nunca pobresa mais resignada, nem<span class="pn"><a +name="pag_216">{216}</a></span> mais elegante. Parecia um principe arruinado, a passos +mesurados, pela rua do Oiro. Era só então que elle via o mundo, uma vez por +dia. Mas via-o bem, depois de se ter preparado tambem para ser visto. Não saía +da repartição sem o espelhinho lhe ter dito: «Estás correcto, Seabra.»</p> + +<p>Na rua do Oiro encontrava um conselheiro. Cumprimento respeitoso.</p> + +<p>—Criado de v. ex.ª, sr. conselheiro.</p> + +<p>Não deixava nunca de vêr os conselheiros, apesar de todo o seu gosto, ao +passar na rua do Oiro, consistir em vêr as mulheres ou, mais propriamente +ainda, em vêr os pés das mulheres.</p> + +<p>Se parava uma carruagem á porta de uma loja, tambem elle parava, com +delicado disfarce, para vêr saltar do estribo uma dama.</p> + +<p>Não tinha esta escola moderna dos que fazem tudo descaradamente, parando e +observando com petulancia. Nada disso. Elle via o pé, media-o com os olhos, +calculava, pelo pé, as dimensões da perna, ficava sabendo a côr e a qualidade +da meia, mas, se alguem, encontrando-se com elle, lhe adivinhava a intenção, +disfarçava a olhar para uma <em>vitrine</em> ou a lêr um cartaz.</p> + +<p>Só ao cabo de alguns annos de convivencia, eu consegui conquistar a +familiaridade precisa para lhe fallar nos pés das mulheres.<span class="pn"><a +name="pag_217">{217}</a></span></p> + +<p>—O sr. Seabra pella-se por vêr um pé bem feito!</p> + +<p>—Gósto!... gósto!</p> + +<p>E d'ahi a pouco parou uma carruagem, apeiou-se uma senhora, que deixou vêr, +sobre o estribo, um pé digno da admiração do Seabra.</p> + +<p>—Então, sr. Seabra! disse-lhe eu. Repare, que vale a pena.</p> + +<p>—Não! nunca! respondeu elle um pouco atrapalhado.</p> + +<p>Jámais eu o tinha visto, em nenhum caso da sua vida, tão contrariado como +naquelle momento.</p> + +<p>—Aquelle pé—pensei eu—é talvez uma recordação para +elle.</p> + +<p>Mas reflexionei. A dama era, relativamente, nova. Podia ser filha do +Seabra.</p> + +<p>—Será talvez filha?</p> + +<p>E architectei um antigo romance de amor, que tivesse deixado ao Seabra uma +filha natural.</p> + +<p>Se fosse assim, eu poderia conseguir talvez que elle me contasse o seu +romance.</p> + +<p>Tentei o assumpto.</p> + +<p>—Mas então, meu caro sr. Seabra, porque perdeu esta occasião +propicia?</p> + +<p>—Não! nunca! tornou elle a responder.</p> + +<p>Devorado pela curiosidade, insisti:</p> + +<p>—Era talvez sua parenta?</p> + +<p>—Qual! disse elle surprehendido. Era a mulher do meu chefe!<span class="pn"><a name="pag_218">{218}</a></span></p> + +<p>Fiquei a olhar para elle, aturdido, assombrado. Ó lealdade da velha +burocracia portugueza! que, em homenagem á disciplina social, desviava os olhos +para não vêr o pé da mulher a quem o chefe havia dado a mão! E tive tentações +de o abraçar, em plena rua do Oiro, exclamando: «Honradissimo José do Egypto, +cujos olhos largam a capa, quando a mulher do chefe da repartição expõe o pé á +vista do publico! eu te admiro e te venero!»</p> + +<p>Acompanhando-o pela rua do Oiro adiante, baralhavam-se-me no espirito casos +que eu tinha ouvido contar, por mais de uma vez, de empregados publicos que +captavam as boas graças dos chefes seguindo o processo opposto ao do Seabra.</p> + +<p>Admiravel homem! pensava eu, que penteia as suas farripas para ir vêr as +mulheres e que, não obstante querer vêl-as, não perde nunca de vista um +conselheiro, para lhe cumprimentar a carta de conselho, nem a mulher do chefe, +para evitar cumprimentar-lhe o pé!</p> + +<p>Uma coisa que entristeceu muito o Seabra foi o ir perdendo a vista, e com +ella o gosto de passar na rua do Oiro.</p> + +<p>Mas, não obstante, não largou nunca o seu espelhinho. Tinha o mesmo cuidado +em alisar as farripas e escovar a sobrecasaca. Sómente mudou de caminho, tomava +pela rua da Prata, em vez de seguir pela rua do Oiro.<span class="pn"><a +name="pag_219">{219}</a></span></p> + +<p>Os seus collegas diziam:</p> + +<p>—O Seabra agora está muito caido!</p> + +<p>Na repartição, elle trabalhava com oculos, mas na rua nunca os punha.</p> + +<p>Um dia insisti com elle em que viesse comigo pela rua do Oiro.</p> + +<p>Pediu-me muitas desculpas, e recusou.</p> + +<p>—Já não vejo nada! dizia elle.</p> + +<p>—Mas por que não põe os seus oculos? perguntei-lhe eu.</p> + +<p>E elle, muito sentencioso, respondeu-me:</p> + +<p>—Eu sou de um tempo em que não era permittido confessar nenhuma +fraqueza em publico: nem mesmo a da vista.</p> + +<p>De uma vez, como sempre, o Seabra entreabriu a porta do gabinete do +chefe.</p> + +<p>—V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa? perguntou.</p> + +<p>—Não, Seabra, até ámanhã.</p> + +<p>O Seabra compoz, diante do espelhinho, as suas farripas, ageitou a gravata, +escovou a sobrecasaca, fechou a escova no armario.</p> + +<p>E metteu pela rua da Prata, na sua teima de não querer confessar em publico +nenhuma fraqueza: nem mesmo a da vista.</p> + +<p>Junto á Praça da Figueira andava-se concertando um cano, a rua estava +esburacada.</p> + +<p>O Seabra caiu tão desastradamente, que partiu uma perna. Foi conduzido em +maca ao hospital de S. José. Logo que lá chegou,<span class="pn"><a +name="pag_220">{220}</a></span> cheio de dôres, despiram-no, metteram-n'o na cama.</p> + +<p>E elle, dirigindo-se muito attenciosamente ao enfermeiro, disse-lhe:</p> + +<p>—Quer ter a bondade, sr. enfermeiro, de recommendar todo o cuidado com +o meu fato, e de me dar um espelhinho que está na algibeira das calças?</p> + +<p>Passados dias fui visital-o, levei-lhe um romance para que elle se +entretivesse, lendo-o.</p> + +<p>—Não posso, disse-me elle. Deixei os oculos fechados na repartição.<span class="pn"><a name="pag_221">{221}</a></span></p> + +<h1>XXVI</h1> + +<h2>Os principes do Perú</h2> + +<p>Vem já ahi caminhando ao nosso encontro a bella festa do Natal. Não tarda +nada. Os batedores, a guarda avançada, chegaram com a sua costumada +pontualidade. Cá temos o frio e o perú passeiando ambos pelas ruas de Lisboa, +um muito afiado e cortante, o outro gluglujante e luzidio.</p> + +<p>Esta solemne festa do anno tem o condão de sorrir a todas as idades, de +lisonjear todos os paladares, de encantar todas as imaginações.</p> + +<p>As creanças pensam, cheias de jubilo, no seu Presepio, na sua arvore do +Natal, na bonecada e nos bolos.</p> + +<p>Os namorados estão já arregalando o olho amoroso para a missa do Gallo, que +é boa capa para entrevistas hombro a hombro, de mãos dadas, emquanto se finge +rezar muito devotamente...<span class="pn"><a name="pag_222">{222}</a></span></p> + +<p>Os velhos, que são ordinariamente gulosos, começam a afinar o olfacto para +descobrir, nas lojas de confeiteiro, os mais saborosos petiscos.</p> + +<p>Os ambiciosos de qualquer idade e sexo sonham com a grande loteria de +Madrid, esse ideial de felicidade que todos os annos lhes faz negaças á +imaginação fogosamente credula.</p> + +<p>As beatas estão já antegostando a delicia de oscular mysticamente as carnes +rosadas e divinas do pequenino Jesus.</p> + +<p>No meio de todo este côro de alegrias só uma nota discordante poderia soar, +mas o perú, a principal victima do Natal, não tem decerto a consciencia do +perigo que a esta hora está correndo,—felizmente para elle.</p> + +<p>Pobre perú! Ahi o vemos fazendo descuidosamente a sua ultima +<em>avenida</em>, dando o seu ultimo passeio de condemnado á morte, sem pensar +em disposições testamentarias, tão felizes são os perús!</p> + +<p>As pessoas do norte do paiz não teem, como o lisboeta, a tradição do perú do +Natal. No Minho, na Beira, em Traz-os-Montes pensa-se agora em mil guloseimas, +que não tardarão a encher de aromas a cosinha e a mesa, mas o perú +setemptrional não tem que receiar-se da faca do cosinheiro, porque a tradição +local não exige como victima senão a gallinha gorda e o gallo nedio.<span class="pn"><a name="pag_223">{223}</a></span></p> + +<p>Eis aqui a rasão por que um rapaz da Ponte da Barca, que, ha annos, andava +estudando em Lisboa, ficou muito surprehendido com o pedido que lhe fizera a +mais astuciosa das suas namoradas lisboetas.</p> + +<p>Ella era filha de um servente de repartição, creio eu, que vivia cheio de +difficuldades, porque a mulher lhe havia dado uma prole numerosa: tres filhas e +quatro filhos.</p> + +<p>Emquanto todos os sete foram pequenos, era com profunda tristeza que o +marido e a mulher viam passar na rua, pelo tempo do Natal, os bandos de perús +luzidios e gluglujantes. Não podiam chegar-lhes, elles! Dez tostões não era +quantia que um servente de repartição, cheio de filharada, podesse dispender. +Isto ralava-o. Mas o pobre homem dizia muitas vezes á mulher:</p> + +<p>—Deixa crescer a raparigada, e verás que não nos faltarão perús.</p> + +<p>A mulher sorria com desalento e replicava:</p> + +<p>—Pensas talvez que estão á espera d'ellas tres principes muito ricos, +que hão de ser nossos genros?!</p> + +<p>—Não é isso. Eu cá tenho a minha ideia. Deixa crescer a raparigada, e +verás.</p> + +<p>Os annos foram passando, e as tres filhas do servente cresceram, +principiaram a revelar um palminho de cara menos mau. A mais nova tinha quinze +annos; a mais velha dezesete.<span class="pn"><a name="pag_224">{224}</a></span></p> + +<p>—E então os tres principes do Perú? perguntava a mulher ao marido, +fazendo um <em>calembour</em> inconscientemente.</p> + +<p>—É agora. Vae começar este anno, cá pelo que eu tenho observado. Elles +ahi estão a bater á porta...</p> + +<p>—Os principes?</p> + +<p>—Não, os perús.</p> + +<p>—Fia-te n'essa, pateta!</p> + +<p>—Ora dize-me uma coisa: Teem ou não teem já as raparigas o seu +derriço?</p> + +<p>—Sim... acho que teem. E d'ahi, homem?</p> + +<p>—D'ahi, tem paciencia, e espera. Eu logo vou conversar com as +raparigas, porque todo o bom pai precisa aconselhar ajuizadamente as suas +filhas.</p> + +<p>O Natal estava por um fio, chega não chega. Fazia frio e luar. O estudante +da Ponte da Barca não fôra a ferias, porque n'aquelle tempo ainda o caminho de +ferro não tinha encurtado as distancias.</p> + +<p>O rapazote, achando-se sem obrigações escolares, principiou a entregar-se +exclusivamente á cultura de namoros desde pela manhã até á noite.</p> + +<p>Ora ia vêr uma das suas bellas, ora ia catrapiscar a outra, mas a filha do +servente, a dos quinze annos, era de todas as namoradas a que mais o prendia +talvez, não só por esse orgulho natural de ter inspirado um primeiro<span class="pn"><a name="pag_225">{225}</a></span> amor, como tambem porque o estudantelho era +poeta e a rapariga parecia-lhe romantica.</p> + +<p>Romantica, sim, senhor! Onde fôra ella aprender isso? Quem o podéra dizer! +Foi uma qualidade que derivou talvez do fluido magnetico dos seus olhos negros +e grandes. O pae era tudo o que podia haver de mais prosa em servente de +repartição. A mãe era digna esposa de seu marido segundo os canones e a prosa. +As irmãs só desejavam poder um dia comer bem e dormir melhor. Mas a +rapariguinha dos quinze annos tinha suas <em>reveries</em>, contemplava o azul +do céu, gostava de vêr o luar, o que o pae e a mãe muito extranhavam +classificando de telhuda a filha mais nova.</p> + +<p>Pois o Natal estava por um fio, chega não chega, como eu ia dizendo ainda +agora.</p> + +<p>O servente ressonava já ha muito tempo em competencia philarmonica com a +cara metade. As outras duas filhas sonhavam talvez com alguem que lhes desse um +vestido e um camarote, mas a Mariquinhas estava á janella, envolta no véu azul +do luar, unico de que podia dispôr, a conversar idillios com o seu estudantelho +do Minho.</p> + +<p>—Tu és-me infiel, dizia-lhe ella.</p> + +<p>—Eu! respondia elle. Eu adoro-te, Mariquinhas, e só penso em poder +casar comtigo logo que seja alferes de cavallaria.</p> + +<p>—São palavras... Não sentes o que dizes!<span class="pn"><a +name="pag_226">{226}</a></span></p> + +<p>—Por que duvidas de mim?</p> + +<p>—Porque tenho a certeza de que o teu coração não é sincero. Só te +lembras de mim quando me estás fallando.</p> + +<p>—Tambem isso são palavras, apenas.</p> + +<p>—Nunca tiveste uma pequena lembrança que me désses, uma d'essas +apreciaveis bagatellas que valem mais pelo que significam do que pelo custam. +Agradece-se, estima-se a intenção, principalmente...</p> + +<p>—E que gostarias tu que eu te offerecesse? Um ramo de flores?...</p> + +<p>(Foi a coisa mais barata que lhe lembrou).</p> + +<p>—Logo vi que havias de escolher uma coisa que durasse tão pouco como o +teu amor. Eu gosto immenso de flores, mas tenho má fé com ellas no amor. São +como que o presagio de que tudo acabará de pressa. As flôres duram tão +pouco!</p> + +<p>—Um leque, Mariquinhas, um leque?...</p> + +<p>(Lembrou-se de ter visto na rua do Oiro uns que custavam oito vintens).</p> + +<p>Ella replicou indignada:</p> + +<p>—Eu não sou mulher que me requebre de leque na mão. Não sou d'essas +mulheres levianas que andam pela rua a fazer fogo de vistas com a ventarola.</p> + +<p>—Mas eu não te quiz offender, Mariquinhas.</p> + +<p>—Talvez não quizesses. Eu sou uma rapariga honesta, que vivo á sombra +de meus paes,<span class="pn"><a name="pag_227">{227}</a></span> e que os adoro. Pésa-me de +que elles sejam tão pobres e tão bons. Sabes no que eu penso? Em +proporcionar-lhes um dia de Natal agradavel, como elles já não tiveram ha +muitos annos...</p> + +<p>—E como seria isso?</p> + +<p>—Fazendo-lhes a surpreza de uma boa <em>meia noite</em>.</p> + +<p>—Como?</p> + +<p>—Comprando-lhes um perú sem o elles saberem.</p> + +<p>O estudante sentiu uma punhalada no coração; duas punhaladas é que foram.</p> + +<p>Primeira punhalada: Então ella, tão romantica, tão sonhadora, pensa agora +n'um perú?</p> + +<p>Segunda punhalada: Onde hei de eu ir arranjar dinheiro para comprar o +perú?</p> + +<p>Mas, emfim, era preciso não fazer má figura deante da Mariquinhas.</p> + +<p>—Socega, querida. Has de fazer essa agradavel surpresa a teus paes.</p> + +<p>—Quando?</p> + +<p>—Ámanhã... decerto, visto que depois d'ámanhã é vespera de Natal.</p> + +<p>—Ah! como sou feliz! exclamou a Mariquinhas.</p> + +<p>E o estudante, quando sahiu d'ali, ia dizendo comsigo:</p> + +<p>—Ella é muito exigente para um estudante, mas, em compensação, parece +ser muito boa filha.<span class="pn"><a name="pag_228">{228}</a></span></p> + +<p>No dia seguinte foi elle ao Rodrigues do Pote das Almas vender um <em>Magnum +Lexicon</em>, umas grammaticas velhas, um Monteverde em menos mau estado. +Apurou ao todo mil e duzentos. Comprou ao principio da noite, na Praça da +Figueira, um perú por 1$100, e ficou-lhe ainda a tinir na algibeira o bello +tostão para cigarros e café.</p> + +<p>Á meia noite, eil-o debaixo da janella da Mariquinhas, de perú debaixo da +capa. Momentos depois o perú subia suspenso por um cordel, e a Mariquinhas era +feliz.</p> + +<p>As outras irmãs dormiam, mas estariam sonhando ainda com alguem que lhes +podesse dar um vestido e um camarote? Não. Sonhavam, o que era verdade, que +tinha cada uma um perú, que ellas pediram aos namorados, por conselho do +pae.</p> + +<p>Foi assim que o servente de repartição, como havia planeado, pôde ter perú +na noite de Natal, perú no dia de Anno Bom, perú no dia dos Santos Reis. Tres +perús a tres filhas,—por cabeça.</p> + +<p>E sentado á mesa, muito alegre e palreiro, ouvindo repicar os sinos para a +missa do gallo, dizia elle á mulher:</p> + +<p>—Ahi vem sua alteza o primeiro principe do Perú. Os outros dois estão +ainda em palacio. Não te dizia eu que elles haviam de chegar?<span class="pn"><a +name="pag_229">{229}</a></span></p> + +<h1>XXVII</h1> + +<h2>A poesia da Servia</h2> + +<p>Perguntaram um dia a Miçkiewiez: «O que são os servios? »</p> + +<p>E o grande poeta da Polonia respondeu: «Um povo destinado a ser o bardo e o +menestrel de toda a raça slava.»</p> + +<p>J. Reinach sae em abono d'esta opinião confirmando-a: «O caracter servio é +essencialmente poetico, e a sua poesia não se traduz apenas nos +<em>pesmas</em>, nos hymnos nacionaes que acompanham na <em>guzla</em>, +encontra-se ainda na religião, nas cerimonias do culto, nas festas, na +organisação da familia, nos casamentos, na coragem heroica dos combates, nos +sonhos de uma vida melhor. Se queremos procurar a causa d'este caracter dos +slavos, devemos attentar no paiz que elles habitam. O povo que tem a Servia por +patria, não podia deixar de ser, como disse Miçkiewiez, senão um povo de bardos +e menestreis,<span class="pn"><a name="pag_230">{230}</a></span> e, nas horas de perigo +nacional, um povo de heroes. As florestas sombrias e profundas, as quebradas +dos valles, as altas montanhas com as suas cristas inaccessiveis e os seus +bosques de castanheiros, os <em>Schumadia</em>, as margens accidentadas dos +rios, toda essa natureza selvagem e pittoresca contém e inspira thesouros de +poesia.»</p> + +<p>Na familia servia o sentimento da fraternidade é talvez o mais desenvolvido, +«Não ha uma joven servia sem irmão» diz uma velha lei. Quando a noiva deixa o +lar da sua familia, é pelos irmãos que ella chora lagrimas semelhantes a +<em>bagos que se destacassem de um cacho maduro</em>. A canção do desgraçado +Iowo diz assim:</p> + +<p>«O moço Iowo cahiu, porque o sobrado da casa abateu, e partiu o braço +direito.</p> + +<p>«Quem o curará? Só a feiticeira da montanha, que conhece a fundo a virtude +das plantas; mas a feiticeira exige muito. Pede á mãe a sua branca mão direita; +á irmã as tranças do seu cabello; á mulher o seu collar de perolas...</p> + +<p>«A mãe dá, com a melhor vontade, a sua branca mão direita, a irmã dá as +tranças do seu cabello, mas a mulher recusa o seu collar de perolas...</p> + +<p>«Agasta-se a feiticeira que vive na montanha, e lança veneno nos alimentos +de Iowo. Iowo morre com grande pezar de sua mãe.<span class="pn"><a +name="pag_231">{231}</a></span></p> + +<p>«Ouvem-se então gemer trez cucos: um que não deixa jámais de lamentar-se; +outro que só se faz ouvir pela manhã e á noite; e o terceiro, que sómente geme +quando lhe apraz.</p> + +<p>«Qual é o que não deixa jámais de ouvir-se? A desgraçada mãe de Iowo. O que +sómente se ouve pela manhã e á noite? A irmã de Iowo, profundamente afflicta. E +o que só geme quando lhe apraz? É a joven viuva de Iowo.»</p> + +<p>O casamento entre os servios é livre, o resultado do <em>mutuus +consensus</em>. O rapaz apresenta-se em casa do pae da namorada, a pedir-lhe a +mão da filha. Obtida que seja, dá lhe o annel, penhor do casamento, porque um +antigo <em>pesma</em> diz: «Como testemunho de amor, dá-se um pomo; como +perfume, um mangerico;—mas o annel só se dá para casar.»</p> + +<p>Se a donzella quer recusar o noivo, arremessa-lhe o pomo á cara, dizendo: +«Não te quero a ti nem ao teu pomo.»</p> + +<p>Excepcionalmente, algumas vezes, os paes procuram para suas filhas +casamentos ricos. Os <em>pesmas</em> protestam contra esta excepção. A pobre +rapariga caminha descalça sobre o gelo, tiritando, e o irmão pergunta-lhe: +«Tens frio nos pés, querida irmã?» E ella responde: «Não! não tenho frio nos +pés, meu irmão, mas sinto um frio glacial no coração. Não é a neve que me +molesta, é minha mãe que me quer dar por esposo aquelle que eu aborreço.» Uma +outra<span class="pn"><a name="pag_232">{232}</a></span> canção diz: «Vivia na montanha uma +donzella, e toda a montanha era illuminada pela belleza de seu rosto. Ó meu +rosto, dizia ella, ó meu unico cuidado, se eu soubesse, meu branco rosto, que +um velho marido te devia beijar, oh! iria á montanha verde e colheria o +absyntho, espremeria o seu suco e lavar-te-hia com elle, meu rosto, a fim de +que o velho, quando te beijasse, lhe sentisse o amargor. Mas se eu soubesse, +meu branco rosto, que um joven marido havia de te beijar, oh! então iria ao +verde jardim, colheria todas as rosas e das rosas espremeria o suco para te +lavar, meu branco rosto, a fim de que o joven noivo, quando te beijasse, +ficasse perfumado do teu perfume.»</p> + +<p>O casamento, revestido ainda de todos os symbolos primitivos, exige que os +irmãos e amigos da noiva a acompanhem á sua nova casa, a cavallo, ao som de +musica, entoando canticos e dando tiros. As irmãs e as cunhadas vem então ao +encontro da noiva, que se adeanta para ellas: apresentam-lhe uma creança que +ella deve vestir, bem como deve offerecer aos convidados pão, vinho e agua. Só +quando dá á luz é que a noiva passa a ser considerada como fazendo parte da +familia. Recebe um dote, que os servios chamam <em>persia</em>. Quando a noiva +já não tem pae, é o irmão que deve pagar o dote, sempre fixo, e de que o marido +não póde fazer uso. Mas, circumstancia verdadeiramente<span class="pn"><a +name="pag_233">{233}</a></span> notavel! quando uma rapariga casa sem auctorisação dos +pais, a sua união é considerada legitima, pois que tem por base o amor.</p> + +<p>Assim é que diz uma canção:</p> + +<p>«Eu queria pedir a tua mão, mas teu pae não me quer para genro, e eu só não +te posso roubar. Escuta as minhas supplicas, vem para mim, que t'o peço +eu.—Bello amigo, é inutil pedir a minha mão; meu pae recusar-t'a-ha. Não +penses em roubar-me, porque tu o pagarias, meu bem amado. Tenho nove irmãos e +numerosos primos; quando elles montam nos seus cavallos negros, com as suas +finas espadas na mão, só vel-os causa horror. Não quero que tu morras +combatendo com elles; e se fugisses, não mais te poderia ouvir. Amo-te. +Chama-me, eu irei voluntariamente lançar-me nos teus braços.»</p> + +<p>Os funeraes são, entre os servios, tão poeticos como o casamento. Quando +morre alguem, os parentes levantam grande alarido; os homens saiem descobertos +durante alguns dias; as mulheres deixam fluctuar os cabellos e os vestidos. Os +homens choram silenciosamente, mas as mulheres, desde o dia da morte até ao do +enterro, não cessam de <em>naritsati</em>, quer dizer de cantar em voz alta a +sua dôr, pranteando a sorte do morto e dos seus.</p> + +<p>«Ai! ai! trava-se na minha alma um terrivel combate! Volto os meus olhos +para o anjo luminoso<span class="pn"><a name="pag_234">{234}</a></span> de Deus, e exclamo: +Fazei com que a minha vida seja curta. Mas Deus não me escuta. E eu, ai! +contemplo o oceano da vida, de que as más paixões são as vagas, e em vão desejo +abordar a porto e salvamento.»</p> + +<p>Segue-se a cerimonia dos funeraes, sendo o esquife do morto conduzido ao +cemiterio pelos amigos. Quando o féretro desce á sepultura, um sacerdote +lança-lhe em cima um punhado de cinzas, e as mulheres recomeçam a prantear +longa e tristemente. Cada anno ha um dia consagrado aos mortos: é o +Zaduchnitzi.</p> + +<p>Os servios, como diz Theophilo Lavallée, formam a população christã mais +importante da Turquia, pela dignidade e gravidade do seu caracter, pela sua +coragem, bondade, generosidade, costumes patriarchaes, amor á patria, usos e +religião.</p> + +<p>A festa dos ramos é a primeira do anno: celebra o advento da primavera. As +raparigas juntam-se n'uma collina e cantam o hymno da resurreição de Lazaro: «A +creança cresce, o homem vive, o velho morre n'esta ideia: quando virá o imperio +servio?» No dia seguinte, antes de nascer o sol, vão buscar agua e cantam em +côro: «As pontas do veado tornam a agua turva, mas o seu olhar torna-a clara e +limpida.»</p> + +<p>Esta canção deve ser interpretada n'um sentido mythico.</p> + +<p>O veado, cujas pontas tornam a agua turva,<span class="pn"><a +name="pag_235">{235}</a></span> é o inverno, o tempo brumoso. Gubernatis, fallando do +veado mythico, diz-nos que ha o veado negro, que symbolisa o céu coberto de +nuvens, e o veado luminoso, que figura em muitas lendas da India. Ora n'esta +canção servia, o olhar do veado, que torna as aguas claras e limpidas, deve ser +considerado como o triumpho alcançado pela primavera sobre o inverno.</p> + +<p>Reinach diz que as raparigas servias saúdam no regresso da primavera a volta +dos tempos felizes para o amor, entoando canções notavelmente simples, taes +como esta: «Dois amantes beijaram-se na campina, e julgavam que ninguem os +teria visto. Mas a campina viu-os, e contou tudo ao branco rebanho, que o +repetiu ao pastor; o pastor disse-o ao viandante, o viandante ao marinheiro, +que por sua vez o contou á barca. A barca foi dizel-o ao rio, e o rio á mãe da +rapariga.» Os leitores de um livro meu, <em>Atravez do passado</em>, conhecem +já a ideia fundamental d'esta canção encantadora, que se encontra tambem na +Grecia, e que tem sido glosada por distinctos poetas, entre os quaes o allemão +Chamisso.</p> + +<p>No fim de abril realisa-se a festa de S. Jorge, um dos patronos da Servia. +As mulheres vão ás montanhas colher hervas e flores, que lançam depois ao rio, +onde no dia seguinte se banham. É assim pois que os servios, como os outros +povos slavos, celebram o advento da primavera.<span class="pn"><a +name="pag_236">{236}</a></span></p> + +<p>Vem immediatamente a festa de Kralitza, em que as donzellas festejam Lelio, +a Venus da Servia, a deusa do amor.</p> + +<p>Segue-se o S. João, o tempo da canicula, em que, como diz a lenda, o sol +parou outr'ora tres vezes. Se o anno tem corrido sêco, procede-se a uma +cerimonia verdadeiramente original: uma rapariga, cujos vestidos consistem +apenas n'uma ligeira tunica de folhas e flores, percorre, acompanhada por +outras, os campos, que vae aspergindo com um regador, pedindo ao céu uma chuva +fecundante, invocando o sol e a lua: <em>«Tako mi Suntza!</em> (o sol) <em>Tako +mi Semlie</em> (a lua)! Que o sol seja comigo! Que a lua me proteja! Ligeiras +corremos atravez da aldêa; possam as nuvens do ceu, mais rapidas do que nós, +beneficiar os prados e as vinhas. <em>Tako mi Semlie.</em>» Quando, pelo +contrario, o anno tem corrido chuvoso, os habitantes do campo imploram o +auxilio de Elio, que não é senão o sol.</p> + +<p>As festas domesticas na Servia têem um caracter deliciosamente intimo. Os +viajantes, os estranhos são sempre recebidos com amavel hospitalidade. O chefe +da familia, quando o repasto se realisa, entôa a canção de Batschka: «Tres +passaros desferiram vôo atravez do espaço, levando cada um no bico um presente +precioso: o primeiro, um grão de trigo; o segundo, um bago de uva; o terceiro a +alegria<span class="pn"><a name="pag_237">{237}</a></span> e a felicidade. O grão de trigo +caiu sobre a planicie de Batschka, o bago de uva sobre as montanhas de Gore; +possam sobre a nossa mesa caír a alegria e a felicidade.»</p> + +<p>Mas de todas as festas domesticas da Servia, o Natal é a mais solemne.</p> + +<p>Ao fim da tarde, terminado o trabalho, o pae de familia vae á floresta +cortar um carvalho novo e, pondo-o ás costas, volta para casa. Quando entra, +exclama:</p> + +<p>«Boa noite! feliz Natal!»</p> + +<p>E a familia responde: «Que Deus te proteja, e te dê boa colheita!» Depois, o +carvalho (badujak) é posto no fogo. No dia seguinte, a gente moça percorre a +povoação a cavallo, disparando tiros de pistola. E o pae de familia, +apparecendo á janella, atira para a terra alguns grãos e sementes, dizendo: +«Natal! Natal! Christo nasceu.» Ao que os moços respondem no estylo do +Evangelho: «Em verdade nós vol-o dizemos, Christo nasceu.»</p> + +<p>Então, todas as familias se juntam em torno do carvalho que arde, +açoitando-o com correas; e quando as faiscas saltam, exclamam: «Tantas faiscas, +quantos bois, cavallos, cabras, carneiros, porcos, abelhas e bençãos do ceu +teremos este anno.»</p> + +<p>A festa do Natal dura tres dias. E até que entre o novo anno, toda a gente +se saúda, dizendo: «Christo nasceu!» e respondendo:<span class="pn"><a +name="pag_238">{238}</a></span> «Em verdade, nós vol-o dizemos, Christo nasceu!»</p> + +<p>A universalidade das crenças populares é realmente um facto admiravel!</p> + +<p>Assim como os servios tem o <em>badujak</em>. temos nós, nas provincias do +norte, e citaremos para exemplo o concelho da Maia, arrabalde do Porto, o +carvalho do Natal, que tambem se põe no fogo e que no fim da noite se guarda +para tornar a accender-se em occasião de tempestade.</p> + +<p>A Servia é decididamente o paiz das canções. Todos os seus habitantes +cantam. Em cada casa ha uma <em>guzla</em>, especie de mandolim ou guitarra, +que tem apenas uma corda de crina. Não ha festa sem canção e sem +<em>guzla</em>. A Europa occidental conhece de varias imitações ou traducções +muitas das poesias populares da Servia. Prosper Mérimée, tendo aprendido cinco +ou seis palavras de slavo, compoz em quinze dias um pequeno romanceiro, que +attribuiu a um imaginario tocador de <em>guzla</em>, Jacintho Maglanovitch.</p> + +<p>Na poesia servia relevam a riqueza das imagens, a ingenuidade dos +sentimentos, o ardor do patriotismo. A estrophe, sempre melodiosa, é geralmente +curta; e o acompanhamento da <em>guzla</em> apenas a toma nos ultimos versos. +Os cantos nacionaes são compostos em trocheus; as canções de amor admittem os +dactylos.</p> + +<p>No estudo da poesia servia ha a distinguir<span class="pn"><a +name="pag_239">{239}</a></span> os <em>pesmas</em> heroicos que os homens acompanham +na <em>guzla</em>, e as canções do lar, que as mulheres e as raparigas +entoam.</p> + +<p>Foi só muito tarde que os servios começaram a escrever os seus +<em>pesmas</em>. Em conformidade com a theoria de Vico, a poesia, entre elles, +precedeu a prosa, que foi definitivamente fixada por Obradwitch, depois da +primeira metade do seculo passado.</p> + +<p>Os slavos do sul só modernamente attingiram na litteratura a fórma +dramatica. Annibal Lusitch foi quem primeiro escreveu para o theatro, começando +elle e os seus imitadores per seguirem o rasto dos poetas italianos, +Metastasio, Alfieri, Guarini. Foi Estevão Popovitch quem comprehendeu que os +assumptos nacionaes convinham ao theatro. Entre as suas producções merece +especial menção a comedia <em>Belgrado na antiguidade e em nossos dias</em>, +que teve um grande successo nos theatros provisorios levantados em Agram e +Belgrado. Popovitch foi pois o Eschylo da Servia; Martinho Ban, auctor dos +dramas <em>Lazaro</em> e <em>Meirima</em>, póde ser considerado o Sophocles +servio. A <em>Meirima</em> tem por assumpto o amor de um christão por uma +mussulmana, assumpto que, posto fosse tratado por Voltaire e Byron, offerece +comtudo um certo encanto de execução.</p> + +<p>Entre as creações phantasticas da poesia popular da Servia devem contar-se +as <em>vilas</em>, a<span class="pn"><a name="pag_240">{240}</a></span> que chamamos +<em>feiticeiras</em>, á falta de melhor vocabulo, mas que são creaturas +mysticas, que presidem aos votos do povo e que pairam silenciosamente sobre a +existencia dos homens. São ligeiras e bellas, diz Reinach; o vento brinca, +passando, com os seus longos cabellos. Habitam sobre as colinas, perto dos +regatos, sobre o Lotchen, cujo cimo, onde a tempestade ruge incessantemente, é +coberto de neves eternas.</p> + +<p>Mas se as <em>vilas</em> são os genios bemfasejos da Servia, existem, em +opposição a ellas, espiritos maleficos, que trabalham pela perdição do genero +humano. São os <em>viétchizés</em> que, flucctuando nos ares, surprehendem os +pastores adormecidos, abrem-lhes o peito com uma vara magica, fixam o dia da +sua morte, comem-lhes o coração, fecham de novo o peito das victimas e +desapparecem.</p> + +<p>Quando os pastores acordam, sentem-se abatidos, doentes. E pouco depois +expiram.</p> + +<p>Mas uma das creações mysticas que mais impressionam a imaginação slava é o +<em>vampiro</em>, que se alimenta da carne dos cadaveres e do sangue dos +vivos.</p> + +<p>Entre os typos dos <em>pesmas</em> heroicos, o mais notavel é Marko, o Cid e +Roland da Servia.</p> + +<p>Mas, percorrendo o cancioneiro servio, são as canções de amor as que mais +nos encantam. Terminaremos este ligeiro artigo com uma canção amorosa, que +rompe dos labios de uma<span class="pn"><a name="pag_241">{241}</a></span> rapariga: «<em>Ó +tchardak</em> (leito), um fogo abrazador me devora: ninguem, durante a noite, +está á minha direita ou á minha esquerda; revolvo com o meu corpo a coberta, e +com a coberta as, minhas dôres.» E o namorado responde-lhe: «Ó Mileva, +assenta-te a meu lado. Nós não somos selvagens, nós sabemos onde se deve +beijar: as viuvas entre os olhos, as solteiras entre os peitos.»</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">F<small>IM</small></p> +</div> + +<h1>INDICE</h1> + +<table align="center" summary="Indice"> + <tbody> + <tr> + <td></td> + <td></td> + <td style="text-align:right;">Pag.</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">I</td> + <td>O primeiro mosquito</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_5">5</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">II</td> + <td>A comedia das praias</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_11">11</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">III</td> + <td>N'uma praia solitaria</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_20">20</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">IV</td> + <td>Os frequentadores das praias</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_30">30</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">V</td> + <td>Casos...</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_38">38</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">VI</td> + <td>Á volta dos pés da imperatriz</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_56">56</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">VII</td> + <td>Loucura alegre</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_65">65</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">VIII</td> + <td>A mascotte</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_73">73</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">IX</td> + <td>Era em abril...</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_80">80</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">X</td> + <td>A felicidade e a camisa</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_85">85</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XI</td> + <td>Morte de um gentleman</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_91">91</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XII</td> + <td>A «season» lisbonense em 1883</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_100">100</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XIII</td> + <td>Gostos não se discutem</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_106">106</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XIV</td> + <td>Peccadilhos metricos</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_115">115</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XV</td> + <td>Os amaveis</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_130">130</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XVI</td> + <td>A sepultura d'um traidor</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_137">137</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XVII</td> + <td>A caminho do Alemtejo</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_148">148</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XVIII</td> + <td>A mulher</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_155">155</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XIX</td> + <td>O carnaval...</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_163">163</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XX</td> + <td>O chapeu</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_171">171</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XXI</td> + <td>Os antipodas</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_181">181</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XXII</td> + <td>As uvas</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_190">190</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XXIII</td> + <td>Pessoas conhecidas de vossas excellencias</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_197">197</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XXIV</td> + <td>Comer a dois carrilhos</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_207">207</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XXV</td> + <td>O ultimo puritano</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_212">212</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XXVI</td> + <td>Os principes do Perú</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_221">221</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XXVII</td> + <td>A poesia da Servia</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_229">229</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<h1>ERRATAS</h1> + +<p>Pag. 69, lin. 9, onde se lê—um bilhete Colyseu leia-se—um +bilhete do Colyseu.</p> + +<p>Pag. 104, lin. 30, onde se lê—Á vista de um +trabalho—leia-se—Á custa de um trabalho, etc.</p> + +<p>Pag. 142, lin. 23, onde se lê—deixaria na primeira +leia-se—deixaria ir na primeira, etc.</p> + +<p>Pag. 155, lin. 2, onde se lê—havido acontecimentos +leia-se—havido acontecimento, etc.</p> + +<p>Pag. 176, lin. 16, onde se lê—E como—leia-se—É como, +etc.</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<hr class="full"> +<p>***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MANHÃS DE CASCAES***</p> +<p>******* This file should be named 33588-h.txt or 33588-h.zip *******</p> +<p>This and all associated files of various formats will be found in:<br> +<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/3/3/5/8/33588">http://www.gutenberg.org/3/3/5/8/33588</a></p> +<p>Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed.</p> + +<p>Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution.</p> + + + +<pre> +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +<a href="http://www.gutenberg.org/license">http://www.gutenberg.org/license)</a>. + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://www.gutenberg.org/about/contact + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://www.gutenberg.org/fundraising/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. 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For +example an eBook of filename 10234 would be found at: + +http://www.gutenberg.org/dirs/1/0/2/3/10234 + +or filename 24689 would be found at: +http://www.gutenberg.org/dirs/2/4/6/8/24689 + +An alternative method of locating eBooks: +<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/GUTINDEX.ALL">http://www.gutenberg.org/dirs/GUTINDEX.ALL</a> + +*** END: FULL LICENSE *** +</pre> +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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