diff options
Diffstat (limited to '33581-8.txt')
| -rw-r--r-- | 33581-8.txt | 6827 |
1 files changed, 6827 insertions, 0 deletions
diff --git a/33581-8.txt b/33581-8.txt new file mode 100644 index 0000000..0e805fb --- /dev/null +++ b/33581-8.txt @@ -0,0 +1,6827 @@ +Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Vinte Annos de Vida Litteraria + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: August 30, 2010 [EBook #33581] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + + + + + Notas de transcrição: + + O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso + em 1908. + + Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido + corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a + leitura do texto, e que por isso não foram assinalados. + + No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali + apresentados. + + + + + COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA + + ALBERTO PIMENTEL + + Vinte Annos de Vida Litteraria + + (2.ª edição, revista pelo auctor) + + + + + 1908 + Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA + LIVRARIA EDITORA + _Rua Augusta, 44 a 54_ + LISBOA + + + + + COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--10.º VOLUME + + VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA + + + + + COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA + + ALBERTO PIMENTEL + + Vinte Annos de Vida Litteraria + + (2.ª edição, revista pelo auctor) + + + + + 1908 + Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA + LIVRARIA EDITORA + _Rua Augusta, 44 a 54_ + LISBOA + + + + * * * * * + + + Composto e impresso na typographia + DA + Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA + _Rua Augusta, 44 a 54._ + LISBOA + + + * * * * * + + + + +A QUEM LER + +Prologo da 1.ª edição + + +Publiquei o livro _Atravez do passado_, receoso de que não agradasse por +ser excessivamente pessoal. Mas Pinheiro Chagas, escrevendo na +_Illustracão Portugueza_ um artigo muito amavel para mim, a respeito +d'aquelle livro, preconisava a vantagem de todos os escriptores reunirem +as memorias jornalisticas e litterarias do seu tempo, como subsidio +indirecto para a historia completa da sociedade a que pertencem. Este +ponto de vista e a auctoridade de tão abalisado homem de lettras +deram-me estimulo, confesso-o francamente, para colleccionar um segundo +livro de memorias. + +De mais a mais, trabalhando n'este genero de escriptos, eu obedeço +gostosamente a uma natural inclinação do meu espirito para a +reconstrucção do passado, que a saudade illumina. Sinto-me bem remexendo +as cinzas e contemplando as ruinas que o tempo deixou. Não sei se até +certo ponto entrará n'isto o egoismo de, pelo que me respeita, reviver +pela memoria os dias que já vão longe. + +Fui escrevendo estas recordações de vinte annos de vida litteraria sem +preoccupações de nenhuma especie, nem mesmo chronologicas. Quanto ás +pessoas de que falo, não tratei de classifical-as pela ordem da sua +hierarchia politica ou litteraria. Aproveitei os nomes que me iam +lembrando, e as recordações que me acudiam ao bico da penna. + +Ha n'este livro, é certo, alguns perfis politicos, algumas paginas que +não versam assumptos exclusivamente litterarios. Mas foi pelo braço da +litteratura que eu entrei na politica, e foi pela politica que eu pude +conhecer mais de perto certos homens. + +Lisboa, 42 de novembro de 1889. + + + ALBERTO PIMENTEL. + + + + +Prologo da 2.ª edição + + +Este livro deve certamente a boa fortuna de uma segunda edição ao facto +de contêr aspectos biographicos de alguns homens notaveis, com os quaes +eu convivi na minha mocidade. Esses homens marcaram uma época da vida +historica do paiz e, como sempre acontece, a morte deu-lhes maior +prestigio. De modo que o livro não envelheceu por causa d'elles, e só +d'elles recebeu a vida que o faz resurgir em segunda edição. + +Creio, hoje como hontem, que a biographia é o processo mais agradavel de +escrever a historia, ainda quando esse processo caia em mãos tão +incompetentes como as minhas, comtanto que seja honesto e sincero, que +não engrandeça nem amesquinhe apaixonadamente os biographados. + +Por mim julgo os outros: releio com prazer algum trecho de Plutarcho, e +custa-me a digerir meio capitulo de Tito Livio. + +Eu tive sempre o culto do passado, e por isso me não aborreci de mim +mesmo revendo agora este livro, que ia ser reimpresso. Não é que o +repute perfeito, porque nem depois de retocado o fica sendo. Mas porque +a sua revisão me reconduziu a uma época em que os homens e os factos +constituiram um vasto edificio de que só restam cinzas e ruinas. + +N'aquelle tempo a vida portugueza era mais calma, communicativa e +cordeal. Não se tinham ainda desencadeado grandes borrascas de odios +pessoaes, que nos agitassem como n'esta hora. As amizades eram +perduraveis, e os amigos certos. Os que chegavam eram recebidos de +braços abertos, acarinhados, protegidos. E cada qual plantava os seus +ideaes sem incommodar o vizinho, nem o malsinar só porque elle possuia +aquillo que nós desejariamos ter. + +A impressão que eu recebi da leitura d'este livro foi a de uma sociedade +remota, que me não propuz descrever, mas que resulta de um conjunto de +biographias n'elle agrupadas. + +E á medida que eu voltava cada pagina sentia-me expulso do passado pela +distancia e do presente pela estranheza. + +Quanto ao futuro... Os velhos já não têem futuro. E se elle fôr o +_crescendo_ logico do dia de hoje, eu não sinto pena de o não viver--e +descançarei serenamente da fadiga do caminho. _Fatigatus ex itinere +sedebat._ + +Lisboa, 27 de abril de 1908. + + _O auctor_ + + * * * * * + + + + +I + +El-rei D. Luiz + + +Escrever dos reis, quando elles vivem ainda, é pelo menos um pouco +arriscado: póde parecer adulação. Mas escrever de um rei que já não +existe, e contar lealmente os altos favores pessoaes que d'elle se +receberam, é mais do que gratidão--é justiça. + +Eu estou n'este caso para com el-rei D. Luiz. Nunca o disse em publico +durante a sua vida, para afastar de mim a suspeita de lisonjeiro, mas +não perdia occasião de dizel-o em particular. Muita gente o ouviu da +minha bocca, muitos o sabem; porém outros o ignoram. Para estes escrevo. + +O que eu vi sempre menos na pessoa do senhor D. Luiz I foi o rei, o +principe, o astro da côrte. O que n'elle sempre me captivou, desde o +primeiro dia em que tive a honra de lhe falar, foi o homem illustrado e +complacente, o amigo dos que trabalhavam, o protector dos que rudemente +luctavam pela existencia. + +O rei podia desagradar alguma vez ao capricho das paixões politicas, que +em torno d'elle se debatiam. O homem era sempre o mesmo para todos: bom, +compassivo, affectuoso. + +Chegava a causar assombro que um principe, tão preoccupado de negocios e +até de distracções, pudesse seguir tão attentamente o fio de tantissimas +pretensões particulares, de que elle, e ás vezes só elle, possuia o +segredo. + +No conjunto das massas populares havia centenas de biographias que +el-rei D. Luiz conhecia pagina a pagina, e que acompanhava dia a dia. + +A sua consciencia devia sentir-se satisfeita com o galardão de si mesma +quando, na turbamulta de uma festa ou de um espectaculo publico, o rei +divisasse, perdidas humildemente na multidão, as phisionomias de muitas +pessoas que occultamente havia protegido e felicitado. + +Estou certo de que um sorriso ou um olhar quasi furtivo d'essas pessoas +agradaria mais ao seu espirito do que os discursos officiaes e as +lisonjas cortezãs que por toda a parte o perseguiam. + +De mais a mais o rei tinha essa memoria inexcedivel de todos os +principes da sua familia: fixava facilmente as phisionomias e as datas, +de modo que não perdia nunca mais de vista a pessoa a quem alguma vez +houvesse falado. + +Muitas vezes, nos actos solemnes e ostentosos da côrte, el-rei D. Luiz +me avistou na posição pouco evidente em que sempre procurei collocar-me, +e o seu olhar perspicaz, quando não era o seu sorriso amavel, +correspondia de longe ao meu cumprimento respeitoso, mas quasi subtil. + +Posto isto, que me nasce da abundancia do coração, eu direi em singelas +palavras como foi que desde 1873 tive a honra de me aproximar de el-rei +D. Luiz I. + +Quando cheguei a Lisboa, na menos prospera situação burocratica que +ainda assim vi com alegria cair do céu, tinha eu publicado +recentemente um livro, _A Porta do Paraiso_, chronica do reinado de +el-rei D. Pedro V. + +Os regeneradores estavam no poder, e o governador civil do Porto, Bento +de Freitas Soares, que se me affeiçoára, dera-me uma carta de +apresentação para o ministro do reino, Antonio Rodrigues Sampaio. + +Fui ao seu gabinete entregar a carta, e Sampaio recebeu-me +immediatamente com a bonomia familiar que elle tinha para com toda a gente. + +Sampaio, apesar da ante-sala estar repleta de homens politicos e de +pretendentes, demorou-se bons tres quartos de hora conversando comigo. +Falou-me da sua origem obscura, da sua lucta pela existencia, da +perseguição aos Cabraes, do _Espectro_, e na sua palavra, ás vezes +demorada, havia um doce tom de familiaridade verdadeiramente captivante. + +Terminou perguntando-me o que eu queria. + +Respondi a Sampaio que desejava apenas ser apresentado a el-rei para lhe +offerecer um exemplar do livro que acabava de dar a lume. Acrescentei +que era eu a primeira pessoa a reconhecer o nenhum valor litterario do +meu livro, e que de modo algum ousaria offerecel-o a el-rei, se não se +tratasse casualmente de uma novella baseada em factos do reinado do +senhor D. Pedro V; que, portanto, o meu livro, se não podia prender, +como obra de arte, a attenção de el-rei D. Luiz, teria comtudo para sua +magestade o interesse que resultaria naturalmente de todo e qualquer +escripto que dissesse respeito a uma pessoa da familia real. + +Sampaio disse-me logo que o meu pedido seria satisfeito; que no dia +seguinte, uma quinta feira, havia despacho no Paço; que estivesse eu, á +uma hora da tarde, na secretaria do reino, por que me levaria na sua +carruagem, e me apresentaria a el-rei antes do despacho. + +No dia seguinte, á hora indicada, partimos do Terreiro do Paço para a +Ajuda, na mesma carruagem, e dez minutos depois de chegarmos ao +Paço, el-rei, que logo tinha recebido Sampaio, mandava-me entrar para +uma das salas interiores. + +Quando ali entrei, com a timidez de um homem que arrisca os primeiros +passos nos tapetes da côrte, el-rei, encostado ao vão de uma janella, e +fumando charuto, com as mãos mettidas nos bolsos de um _veston_, +conversava com o ministro do reino. + +Sampaio apresentou-me em termos excessivamente amaveis, e el-rei +disse-me palavras tão obsequiosas, que augmentaram ainda mais a minha +confusão. + +Depois de trocadas estas formulas de cortezia, el-rei falou-me logo no +livro que eu lhe ia offerecer. Disse-me que já o tinha lido. Referiu-se +a muitos factos a que eu alludia, principalmente as viagens que elle +proprio fizera com el-rei D. Pedro V. Depois, como aproveitando um +relampago da sua felicissima memoria, recordou que eu tinha biographado +Julio Diniz. Falou muito d'este mallogrado homem de lettras, +perguntou-me se eu o havia tratado intimamente, e apreciou, com grande +segurança de critica, os seus romances, acceitando a minha opinião de +que Julio Diniz seguia principalmente no romance a escola ingleza. + +E como eu, segundo a etiqueta, tivesse despido a luva da mão direita--o +que Sampaio me advertira--el-rei, certamente por ter reconhecido que eu +fumava, abriu a charuteira, e offereceu-me um charuto. + +Inclinei-me agradecendo, mas recusando. E el-rei, sorrindo, observou-me: + +--Não póde negar que fuma; nem eu. E fumo muito. + +Conservando a charuteira aberta, insistiu no offerecimento. + +Lembrei-me de repente d'aquella anecdota de lord Stairs, que acceitou +uma vez ser o primeiro a entrar na carruagem de Luiz XIV, allegando que +resistir ao offerecimento de um rei era descortezia imperdoavel. + +Sorrindo, acceitei o charuto, mas como estivessemos falando de +escriptores portuenses, fingi-me distraído, não o accendi. Nem me era +facil saber como havia de accendel-o. Eu não tinha phosphoros comigo, +Sampaio não fumava; só o rei estava fumando. + +Mas sua magestade, vendo que eu não accendia o charuto, offereceu-me lume. + +Aqui, n'este lance, começou a minha tortura. Eu fumo desde os quinze +annos desesperadamente--mas cigarro. O charuto estontea-me. Basta ás +vezes o seu fumo para incommodar-me. + +O leitor calcula pois a repugnancia molesta com que eu, acceitando o +lume que el-rei me offerecia, accendi o charuto, que de mais a mais era +fortissimo. + +A fim de evitar que o charuto me estonteasse, deixei-o apagar a breve +trecho, propositadamente. Mas el-rei, reparando que o meu charuto se +havia apagado, tornou a offerecer-me lume. Felizmente, quando eu estava +no apogeu da tortura, fôra el-rei avisado de que chegára o presidente do +conselho de ministros, Fontes Pereira de Mello, e a audiencia terminou +um pouco abruptamente com estas palavras de el-rei: + +--Procure-me sempre que precisar de mim. Mas faça-o sem acanhamento. + +Isto fez-me suppôr que el-rei havia attribuido a acanhamento o facto de +eu ter deixado apagar o charuto. + +Tive que esperar que o despacho terminasse. Á saida, Sampaio apresentou-me +a Fontes Pereira de Mello, e aos seus collegas no ministerio. Uma vez +entrados na carruagem, contei a Sampaio a historia do charuto, que elle +ouviu rindo ás gargalhadas, e pedi-lhe licença para fumar um cigarro, a +fim de restabelecer-me pelo systema homoepathico:--_similia similibus +curantur_. + +As minhas relações com el-rei D. Luiz dataram d'esse dia. + +Depois d'isso voltei algumas vezes ao Paço para offerecer a el-rei um +exemplar dos livros que ia publicando. + +El-rei dizia-me invariavelmente: + +--Procure-me sempre que precisar de mim. + +De uma das vezes contei-lhe a historia do charuto, el-rei riu +expansivamente, e mandou-me fumar cigarro. Mas, porque estivesse fumando +charuto, soprava ao fumo para o afastar. + +Um dia... um dia tratava-se do pão quotidiano, do bem-estar da minha +familia. Eu vegetava, havia dez annos, amarrado a um obscuro logar de +amanuense. Muitas vezes, mas sempre baldadamente, havia procurado +melhorar de situação. Iam reformar-se os serviços da camara dos pares; +creavam-se logares de redactores. Mas as pretensões, e algumas d'ellas +fortemente apadrinhadas, fervilhavam em torno de Fontes. Desejando um +d'esses logares, mas não dispondo de influencia que pudesse dar-me +probabilidades de ser attendido, lembrei-me do repetido offerecimento de +el-rei. + +Metti-me n'um trem, fui ao Paço. Cinco minutos depois era recebido por +sua magestade, que me ouviu com a amavel benevolencia que sempre me +dispensou. E, tendo-me ouvido, disse: + +--Esteja certo de que eu vou pedir com o maximo empenho. Havemos de ir +até onde pudermos. É muito justo que lhe dêem alguma folga aos seus +incessantes trabalhos litterarios. Não se póde aguentar por muitos annos +um trabalho d'esses. + +No dia seguinte, ás duas horas da tarde, falei a Fontes Pertira de +Mello, que, logo que me viu, me fez esta pergunta: + +--Diga-me uma coisa: que empenho teve para el-rei? + +Reconheci que sua magestade havia tratado immediatamente do meu pedido +com a maior pressa e solicitude. Desde essa hora julguei-me despachado. + +--O meu empenho, respondi eu a Fontes, vai decerto surprehender v. ex.ª + +--Diga lá. + +--O meu empenho... fui eu só. + +Contei então a Fontes tudo quanto se passára. + +E Fontes limitou-se a dizer-me: + +--El-rei tem o maior empenho no seu despacho. + +Corri logo ao Paço da Ajuda a agradecer a el-rei. Sua magestade, apenas +me viu, perguntou-me: + +--Ha alguma novidade a respeito da sua pretensão? + +--Não ha, meu senhor. É que eu venho agradecer a inexcedivel diligencia +de vossa magestade. Acabo de falar com o presidente do conselho. + +--Eu falei-lhe hontem mesmo. + +Isto disse o rei, e mudou logo de assumpto. + +Os jornaes propalavam boatos a respeito de nomeações para a camara dos +pares. O meu nome nunca foi lembrado pelos jornaes. A politica interveio +n'este negocio, como em todos: disse coisas falsissimas. Mas a minha +pretensão triumphou, graças á protecção do rei. + +Quando o despacho appareceu, e lh'o fui agradecer, el-rei dignou-se +abraçar-me dizendo: + +--Tenho hoje um dia de satisfação. Agora descance um pouco. Era justo. +Era justo. + +Eu senti lagrimas nos olhos; mas el-rei tambem não tinha os seus enxutos. + +Desde então mantive com el-rei as mais gratas relações, não direi de +amizade, mas de franqueza. + +Entre os seus papeis ha de haver uma longa carta minha sobre assumptos +que não eram pessoaes. + +Ainda é cedo, porém, para fazer a historia d'essa carta. Ha quem conheça +a carta, e possa contar a historia um dia, querendo. + +A ultima vez que me demorei conversando com el-rei foi para lhe fazer o +pedido de alguns brindes da familia real para um bazar de Setubal. El +rei disse-me logo que pela sua parte podia considerar como satisfeito o +meu pedido, mas que a rainha estava ainda invisivel, e que o principe +real estava estudando as suas lições, motivo por que transmittiria á +rainha e ao principe aquella solicitação. + +N'essa mesma tarde parti para Setubal, e ao caír da noite recebia eu +n'aquella cidade um telegramma do sr. D. Pedro Arcos participando-me que +tanto a rainha como o principe mandariam brindes para o bazar. + +......................................................................... + +El-rei D. Luiz morreu, e a sua morte deixou no meu coração uma saudade +indelevel pelo homem bom, pelo desvelado protector, que tanto me ajudou +a desbravar o aspero caminho da vida. Se os bons são premiados além da +campa, o rei de Portugal deve repousar no seio de Deus n'uma eternidade +bem aventurada. Quanto á minha gratidão, será eterna, porque eu +ensinarei a meu filho, para que elle o ensine á sua familia, que a +tranquillidade do meu lar resultou de um acto magnanimo de el-rei D. +Luiz I. + + * * * * * + + + + +II + +Meu pae + + +Toda a dôr moral é tanto mais absorvente e exclusivista quanto é sincera +e aguda. Não sei, não quero saber o que se tem passado fóra de mim +proprio: tenho vivido apenas das minhas recordações dolorosas, +concentrado n'ellas, estranho a tudo o que não seja o drama intimo do +meu luto e da minha tristeza. + +E depois os leitores têem de certo para mim esse doce sentimento de +condolencia que resulta de uma convivencia longa e leal. Somos bons +amigos ha vinte annos, conversamos quasi todos os dias, tenho decerto +adivinhado algumas vezes os seus pensamentos, commungado as suas +opiniões: desculpar-me-hão, portanto, este desafogo de uma saudade +irremediavel, tão sagrada e tão justa--a saudade de um filho que deplora +a morte de seu pae. + +Se alguma vez tenho conseguido chamar aos labios do leitor um ligeiro +sorriso, fique esse sorriso á conta de compensação da magua que lhe +posso causar hoje obrigando-o a lêr as palavras que certamente me +acudirão orvalhadas de lagrimas. + +Mas é que, naturalmente, estou vendo passar deante dos olhos todos os +lances da minha vida desde a primeira infancia tão descuidosa e alegre, +e no meio d'esse enxame de recordações entrevejo, a contrastar com +ellas, o semblante demudado e quasi cadaverico do meu querido +octogenario, que ainda ha oito dias contemplei semi-morto no seu leito +de agonia. + +Se eu tivesse morrido primeiro, elle, posto se não houvesse entregado ao +cultivo das bellas-lettras, mas unicamente aos aridos cuidados da sua +profissão de medico; elle, que devia ter com a morte essa fria +familiaridade que a faz encarar tranquillamente como o desfecho forçado +de todos os actos phisiologicos, acharia comtudo no fundo do seu coração +de pae um terno perfume de poesia, uma triste idealidade dolente, que o +levaria a encher de flores a sepultura do filho. + +Sobrevivendo-lhe, eu quero ter para com a sua memoria a mesma delicadeza +de sentimento, a mesma suavidade de lagrimas, e continuar a ver n'elle +não aquillo a que a morte o reduziu, mas a alma affectuosa e honesta, a +bella alma antiga, capaz de entender todos os carinhos e de comprehender +todas as dedicações. + +Elle foi um dos ultimos homens d'essa geração quasi extincta, que +trouxeram do lar paterno a noção austera do dever e a impressão profunda +dos bons exemplos caseiros. Tudo era antigo na educação d'esses homens, +hoje já tão raros, que viveram os primeiros annos da sua vida em plena +atmosphera de tradições sagradas e inviolaveis, e que professavam pelo +passado um culto quotidiano, no meio de criados velhos, de costumes +velhos, de velhas loiças da India, e de velhos retratos de avós +fallecidos. Todas as grandes solemnidades religiosas não passavam sem +commemoração domestica: eram outras tantas festas de familia, muito +intimas e muito expansivas. O Natal, a Paschoa, os dias solemnes da +Egreja eram esperados com jubilo, e celebrados com devoção tradicional. +E sentar-se á mesa, d'esses dias memorandos, rodeados de todos os filhos +e de todos os parentes, era para os homens de uma geração quasi extincta +um doce prazer patriarchal, puro e simples, o goso perenne da felicidade +pela familia. + +Vieram com os novos tempos novos costumes, e outros homens, dilatando a +sua esphera de acção, tornaram-se cosmopolitas, entraram n'uma vida +mundana, que os leva para longe do berço das suas tradições de familia, +lançando-os n'um turbilhão de negocios e de ambições, de preoccupações e +trabalhos. Esta corrente moderna, esta evolução do espirito humano, +assombra os velhos de hoje em dia, e deve entristecel-os tanto quanto os +assombra. Para elles a terra em que nasceram, com as suas arvores e os +seus casaes, era o eixo obrigado de todos os movimentos psichologicos, o +centro em torno do qual girava e se consumia toda a sua actividade. Ver +aquillo que seus paes haviam visto, e só isso, era como viver ainda em +espirito para elles e no meio d'elles, prolongar pela propria existencia +a d'aquelles entes queridos que tinham constituido a familia, e haviam +desapparecido já. Todas as folgas de meu pae passavam-se no Douro, n'uma +quinta dos seus maiores, contemplando as arvores que elles tinham +mandado plantar, colhendo os fructos dos pomares que elles haviam +disposto. Concluidas as colheitas, voltava alegre e tranquillo á sua +clinica portuense, tratando dedicadamente os seus doentes que conhecia +ha longos annos, e que iam envelhecendo tanto como elle: os seus doentes +de _partido_. Tinha extremos de paciencia para os escutar, para os +attender, e muitas vezes o ouvi descrer da efficacia da sciencia que +exercia, quando os não podia salvar. Havia no Passeio da Cordoaria um +major reformado que era um verdadeiro _doente de scisma_, o protagonista +bondoso de uma comedia molieresca, que se repetia todos os dias. + +--Estou a morrer. Vão-me chamar o dr. Pimentel. + +O medico, estivesse ou não entretido com o seu tão querido voltarete, +dava-se pressa em acudir á chamada. + +--Não, meu caro major, o senhor não vae d'esta. Palavra de honra que não +vae. Somos amigos antigos: póde acreditar-me. Coma a sua asinha de +frango, tome a sua chavena de chá preto, deite-se descansado e durma. + +No dia seguinte a mesma scena. + +Ahi por 1880 fui ao Porto visitar meu pae. Saimos juntos uma tarde, e +elle pediu-me que o ficasse esperando no Jardim da Cordoaria. + +--Vae ver o major? perguntei-lhe. + +--Vou. + +--Mas elle mandou-o chamar? + +--Não, respondeu meu pae com tristeza. Agora sou eu que vou de motu +proprio: o pobre major não dura oito dias, mas, felizmente para elle, já +não scisma na sua doença. + +Quando eu estive no Porto a semana passada, todas as velhas e lazaras +dos recolhimentos das Fontainhas, de que meu pae fôra por largos annos +clinico, mandavam saber d'elle. + +Achei commovente este testemunho de gratidão, mas não era difficil +encontrar-lhe a causa: meu pae tratava-as carinhosamente. + +Assisti algumas vezes ás suas visitas aos asilos. + +--De que se queixa? perguntava o medico a uma nonagenaria. + +--Dôres... Afflicções... Eu sei lá!... + +--Sei eu, respondia sorrindo o facultativo. Eu tenho isso mesmo. + +--Tem?! + +--Sim... tenho quasi a sua edade: é a nossa doença. Pois, minha boa +doentinha, tome um chásinho de erva cidreira, que lhe ha de fazer bem ao +estomago. Verá que passa a noite bem. Para as nossas edades não ha +outro remedio: a velhice não se cura. Deitar grandes remendos n'um +predio velho é perder tempo e trabalho. Vamos assim amparando as nossas +ruinas com paciencia e tranquillidade. Ámanhã venho vel-a, e hei de +achal-a mais socegada. + +É incalculavel o numero de autopsias que meu pae fez como medico +forense. Quando eu e meus irmãos eramos pequenos, embirravamos muito de +que meu pae viesse para casa cheirando a vinagre aromatico: já sabiamos +que tinha estado retalhando um cadaver. + +Elle ria-se dos nossos engulhos, mettia-nos jovialmente á galhofa, e +dizia-nos que puzessemos os olhos no seu bom appetite. + +Só uma vez, á volta de uma autopsia, o vi chegar menos alegre. Mandou +inutilisar parte do fato com que tinha saido, para obstar ao contagio do +dipheterismo. + +Apenas dou conta de o ver doente uma vez, era eu creança; cuido que +havia sido atacado de ictericia negra, com graves complicações. Os +collegas fizeram-lhe conferencia: acharam-n'o perigoso. Meu pae, que +teve sempre uma grande agudeza de ouvido, escutou o prognostico que +elles fizeram, e logo que sairam, disse a minha mãe: + +--Está-me appetecendo uma chavena de chá e uma torrada. + +--Pelo amor de Deus! Isso não! + +--Morra Martha, morra farta. Venha o chá e a torrada. + +Como a sentença era de morte, não o quizeram excitar, contrariando-o. +D'ahi a oito dias levantava-se do leito. + +--Nós sabemos sempre muito, dizia elle, mas o doente sabe sempre mais. + +Esta descrença ironica pela sciencia que exercia era quasi sempre +manifesto nas suas apreciações medicas; uma pontinha de scepticismo +fazia-o desdenhar do seu diploma, que principiára a conquistar aos +17 annos, em 1825, quando entrou na Escola Medica. + +Este homem de animo forte e tranquillo via aproximar-se a morte com +heroica serenidade. Era o declinar de um bom. Como eu, sem grande +esforço, o pudesse voltar no leito, elle disse-me placidamente do fundo +da sua lethargia: + +--Isto é quasi um cadaver. + +Mas, para desviar este pensamento triste, disse-me logo em seguida +palavras de carinhosa ternura, que eu não pude agradecer suffocado pelas +lagrimas. + +Do medico, do homem alegre e sereno, restava nos ultimos dias um corpo +devorado por dôres lancinantes, que elle indicava levando a mão ao +peito. E, na sua dolorosa agonia, dissera para minhas irmãs com voz +entrecortada e difficil: + +--Rezem. + +Era a sua boa alma triumphando, ainda serenamente, do corpo que se +esphacelava. + +Eu poderia escrever uma larga biographia d'esse querido octogenario que, +sem ambições nem invejas, parecia não ter biographia. Mas o leitor +comprehende que estou fazendo sangrar o coração a cada golpe de penna. O +sacrificio tem sido superior ás minhas forças. Mas o coração, posto que +dilacerado, não me permittia que, escrevendo de tantos homens a cuja +memoria devo a homenagem da minha saudade, deixasse de falar d'aquelle +cujo sangue corre nas minhas veias, o mais dedicado, e tambem o mais +amado, de todos elles. + + +Junho de 1889. + + * * * * * + + + + +III + +Alexandre Herculano + + +Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais notavel historiador +portuguez do nosso seculo. Avistei-me com Alexandre Herculano em 1874, e +d'essa entrevista deixei memoria no livro que se intitula _O capote do +sr. Braz_. Quando o eminente escriptor morreu, tentei traçar o seu +perfil litterario n'outro livro, que então publiquei, _O Porto por fóra +e por dentro_. + +Hoje, porém, desejo apenas procurar na colossal individualidade de +Herculano um outro aspecto, que aliás tem sido pouco explorado: a sua +ephemera vida politica. Mas quer-me parecer que esta pagina, que +acrescento agora á biographia do grande historiador, poderá conter +elementos não de todo inuteis para quem houver de escrever um dia, +definitivamente, a monographia completa da sua brilhante existencia. + +Alexandre Herculano padecera as contrariedades da guerra civil, emigrára +na onda dos liberaes que fugiram ao triangulo do patibulo, e voltára com +D. Pedro a Portugal. + +Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser um dos primeiros +homens politicos do constitucionalismo, se não fossem naturalmente +subjugados por uma organisação de poeta, com todas as qualidades e os +defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam exhibir no +forum, no parlamento ou nos conselhos da corôa, quando não têem, como +Herculano teve, a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada +passo os contraria e azéda. + +Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante a sua ephemera vida +politica, de ser um poeta, no sentido elevado d'esta palavra, um poeta +cujos naturaes caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel ás +conveniencias partidarias, ás manobras do parlamento e ás intrigas de +gabinete. + +Elle proprio o confessa quando diz: «Entre os soldados de D. Pedro havia +poetas: militava comnosco o auctor de _D. Branca_, do _Camões_, de _João +Minino_; o sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os +ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil do +Mindello, não tiveram um cantor: _e apenas eu, o mais obscuro de todos, +salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de tanta riqueza +poetica_.» + +_A Voz do propheta_, um dos seus mais notaveis escriptos politicos, não +é senão um grito lancinante de poeta contra a revolução de 1836; a +colera sublime de um poeta da _Carta_, deixem-me dizer assim; de um +coração delicado que via ligada á memoria da _Carta_ a recordação dos +seus melhores dias de soffrimento, de lucta e de esperança. + +«A carta, escrevia elle em 1867, fôra como a estrella polar da esperança +nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das tempestades, do desalento. +_Vivia depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi +dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas que será +provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações novas._ + +Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto de vista +exclusivamente politico dos homens que procuravam assaltar o poder, +fazendo a revolução ou defendendo a _Carta_, d'esses homens que +accentuavam agora em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham +principiado a separal-os na emigração, collocava-se no ponto de vista +desambicioso e romantico do homem que sustenta uma causa pelo estimulo +sincero da sua propria convicção e da sua propria fé n'essa causa. + +Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente, façamos-lhe essa +justiça, que estava ali um litterato eminente, um espirito superior, mas +que aquelle homem não _fazia sombra_ a ninguem como politico. + +Não tinha coração, nem consciencia, nem caracter para isso. Era um +teimoso honrado, um pensador insubmisso. E se Alexandre Herculano entrou +em 1840 no parlamento foi o homem de lettras que levou pela mão o deputado. + +Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico amavel de salão, +escrevia cartas sobre cartas para o Porto, a José Gomes Monteiro, que +nada valia como politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleição por +aquella cidade, berço de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se em +pleno parlamento, logo que ali entrou, de que não fizera um pedido, de +que não escrevera uma carta para obter o diploma de deputado. + +Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus companheiros de +emigração, poria o fito em escalar o parlamento, fosse como fosse. O +caso era entrar, para _chegar_. Mas ao passo que Garrett comprehendia +isso, Herculano não o comprehendia assim. Por isso Garrett chegou a +ministro, e Herculano abandonou a vida politica. + +Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que principiou a 26 de +maio de 1840, Alexandre Herculano usou pela primeira vez da palavra, na +discussão da resposta ao discurso da corôa, em sessão de 6 de julho. + +_O sr. Alexandre Herculano_--Sr. presidente, erguendo-me para dar a +minha opinião sobre as graves questões que se têem ventilado n'esta +camara, eu, deputado até aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito +passo que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas cadeiras, para +obter a qual _ninguem ousará dizer que eu gastasse uma rogativa, uma +carta, ou uma palavra_; n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam, +sem se lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em instrumento +de martyrio, se não as queremos tornar recordação de remorsos, que nos +acompanhe por todo o resto da vida. + +«É esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos do coração, e as +convicções do entendimento, que me cumpria fazer hoje, tendo de censurar +o ministerio, no qual ha um homem a quem devo grandes obrigações, e mais +que obrigações; antiga amisade. Se alguns serviços eu fizer n'esta +camara á minha patria, que ella não m'o agradeça; mas agradeça-me o +sacrificio que hoje lhe faço do mais santo dos affectos humanos, a boa e +leal amisade. (_Grande attenção_). + +«Da exposição do illustre deputado o sr. J. A. de Magalhães, vi eu (e +ainda vejo, porque as razões dos srs. ministros que já fallaram, me não +satisfizeram) que o governo tem deixado peiorar a situação das nossas +relações estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade do ministro +ultimamente encarregado d'este ramo de administração? Esqueceria elle o +bem do paiz para só curar que das mãos lhe não cahisse esse pomo do bem +e do mal, tão tentador, e formoso, chamado a pasta de um ministerio? +Será culpa d'um ou de todos? Não o sei; o que m'importa é o facto para o +haver de censurar como devo: visto que os meus constituintes me mandaram +para este logar. + +«Mas esta censura não cahe só sobre o ministerio actual: cahe tambem +sobre o que o precedeu; porque se no tempo d'aquelle houve descuido (ao +que parece) sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha +havido tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo. + +«E recordo-me hoje do que ha muito é passado, porque sobre os homens da +minha crença politica se lançaram crueis accusações de falta de +patriotismo; porque eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos +jornaes que advogam a causa da revolução permanente, asselladas com o +ferrete de lista ingleza.» + + +Muitas passagens d'este discurso foram vivamente applaudidas. + +Citaremos as seguintes: + + +«Nem os homens da revolução quizeram vender Portugal á França; nem o +partido cartista o quiz vender á Inglaterra; nem nenhum ministerio +passado, presente, ou futuro, o vendeu ou o venderá a ninguem. +(_Vivissimos apoiados_). + +«E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nação se ergueria como um só homem, +e esmagaria os infames que atraiçoassem a terra da sua infancia; que +chamassem os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas que cobrem +as cinzas dos nossos paes! (_Muitos apoiados_). + +«Depois nós iriamos afiar as armas nas campas dos valentes +d'Aljubarrota; e pelejariamos até o ultimo de nós cahir moribundo pela +independencia nacional! + +«Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em ess'outras sentam-se +homens, que juntos combateram nas linhas do Porto; juntos velaram noites +longas e dolorosas; juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos +olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes desacompanhado de +esperança, sem que nunca se vissem uns aos outros enfiar ou tremer; sem +que nunca imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse os seus +companheiros d'armas. Como é possivel que hoje irmãos reneguem da +confiança em seus irmãos? Penhor do procedimento presente seja o +procedimento passado. Qual de nós pertenceria a um partido que não +tivesse por bandeira--_independencia e liberdade_?» (Vozes: _Muito bem, +muito bem_). + + +Este discurso de estreia revela o homem de lettras _depaysé_ no +parlamento. É um academico que fala, encadernando em bons periodos +litterarios uma alma delicada de poeta, que sinceramente presta culto á +terra em que nasceu e á amizade que o liga a um dos ministros. Nada faz +suppôr n'este discurso que esteja ali o argumentador capcioso e sophista +que haja de entrar em todos os debates da politica apaixonada, em todos +os incidentes facciosos e obstruccionistas, o _rabula_, o furão da +politica. + +Rodrigo da Fonseca Magalhães, a raposa astuta, conhecia bem Herculano, +sabia por onde havia de dirigir-se para lisonjear o homem de lettras. +Por isso comparou-o a Lamartine, um grande escriptor, tambem poeta da +politica, e falou ao coração de Herculano a linguagem affectuosa da +amizade. Procurou rendel-o tocando todas as fibras mais sensiveis e +impressionaveis da organisação de um homem de lettras que tinha, sob um +feitio ás vezes aspero, um coração de ouro. + +Foi pois o ministro do reino que se levantou para responder por parte do +governo. + +Começou por prestar calorosa homenagem ao talento e ao caracter de +Herculano. + +«Sr. presidente, disse elle, principiarei por dar os parabens ao nobre +deputado, que acaba de falar, pelo seu primeiro discurso n'esta camara, +que nos promette a honra que tem a camara franceza de possuir monsieur +de Lamartine; sem embargo de que lançou censuras sobre o ministerio a +que eu pertenço. Eu sou o amigo a quem o nobre deputado se dirigiu, e +tenho de o contradizer, porque elle quiz persuadir a assembléa de +que me devia alguns obsequios: o nobre deputado nenhuns me deve, e pelo +contrario se em algum de nós ha divida, pesa sobre mim. Estou certo de +que as suas palavras sairam do coração, as ideias da sua intelligencia +na questão de que se trata, questão solemne e solemnissima para mim, a +maior em que me tenho visto até agora.» + +Não se enganou Rodrigo da Fonseca Magalhães se, como suppomos, viu em +Alexandre Herculano o homem que, longe de manejar as armas politicas nos +combates de todos os dias, só uma vez por outra havia de tomar a palavra +em assumptos que mais ou menos pudessem lisonjear as tendencias do seu +espirito. + +Assim aconteceu; a raposa vira bem. + +Na sessão de 1 de agosto, Alexandre Herculano, como membro da commissão +de instrucção publica, pronunciou algumas palavras sobre o projecto da +jubilação dos professores. + +Transcrevemos uma passagem d'esse pequeno discurso: + +«O homem que ou aquecia as tenazes na inquisição de Evora, ou fazia +cousa similhante está aposentado; e creio que não ha muita justiça em um +tal accumular. (Uma voz--E o que tocava os folles do orgam na +Patriarchal!) É por isto, sr. presidente, que eu requeiro que se approve +o parecer da commissão de instrucção publica, sobre o direito +d'accumulações dos professores, e que as commissões respectivas dêem o +seu parecer sobre as outras classes, para que a essas a quem a mesma +accumulação competir, se torne extensiva a disposição d'esta lei.» + +Na sessão de 11 de agosto, Alexandre Herculano tornava a falar sobre o +mesmo assumpto, e dizia: + +«Eu entendo que a rasão da lei dar o direito de accumulação aos +professores, é porque estes professores durante 20, 25, 30 annos de +serviço accumularam na mão do Estado um capital productivo. Por exemplo, +o professor de instrucção primaria, converteu um bocado de pedra ou +um bocado de pau n'um homem; um serrenho que desce das montanhas, e vem +para a escola primaria, não dista da animalidade cousa alguma; eu tenho +conhecido alguns, que realmente distam mais de uma creatura humana do +que de uma alimaria: isto é verdade, e o professor de instrucção +primaria converte este ente n'um homem, e em um cidadão productivo para +a sua patria, o que por certo não seria, se não fosse o cuidado do +professor de instrucção primaria. Estes homens passam ás escolas +superiores, e vão ser magistrados, e vão ser militares, vão ser +fabricantes e artistas, e emfim occupar todas as posições sociaes, +tornando-se assim productivos, e augmentando a riqueza nacional, que +como todos sabem (porque todos aqui sabem o que é economia politica) +consiste em capitaes accumulados pela intelligencia, e pelo trabalho. +Esses capitaes são os que os professores accumulam nas mãos do Estado, +porque elles são a origem primordial d'elles.» + +Na sessão de 27 de agosto, Alexandre Herculano mandou para a mesa, por +parte da commissão de instrucção publica, uma substituição ou antes nova +redacção do projecto de lei, que restituia os professores da academia do +Porto aos seus respectivos logares, de que haviam sido demittidos em +consequencia dos acontecimentos politicos posteriores ao dia 9 de +setembro de 1836. + +Na sessão de 21 de setembro discutiu-se o projecto de lei relativo aos +abusos de liberdade de imprensa. + +Alexandre Herculano tomou a mão para falar. + +É muito saliente esta passagem d'esse seu discurso: + +«Os abusos d'esta liberdade podem reduzir-se a tres classes--abusos +contra a religião, e a moralidade publica--abusos contra a honra dos +cidadãos--e abusos contra a segurança do Estado.--Entendo que qualquer +d'estes crimes é gravissimo, e que as penas contra elles devem ser +tambem gravissimas: eu não tinha duvida nenhuma em votar, que o homem +que calumnia um empregado, ou um particular por via da imprensa, +soffresse até um degredo perpetuo para a Africa; e porque? Porque é um +assassino do espirito, da alma, assim como o homem que ataca com um +punhal na estrada, é o assassino do corpo; e eu não distingo entre estes +dois assassinos; não sei se diga, que detesto mais o assassino da alma, +aquelle que me rouba todas as minhas esperanças sociaes. Era aqui, sr. +presidente, que eu desejava todo o rigor da lei; mas não queria nenhuns +embaraços para o exercicio d'uma garantia, que pela constituição têem +todos os cidadãos; porque, torno a repetir, não tenho a honra de ser +legista, mas entendo, que uma lei que regula não destroe, e eu vejo +destruido este direito para todos os que não tiverem os meios de fazer +este deposito, ou dar esta fiança». + +Na sessão de 3 de outubro, discutindo-se o orçamento do estado, +Herculano occupou-se da verba destinada á conservação dos monumentos +nacionaes. + +«Desejava agora saber, disse elle, o que se ha de fazer só com oito +contos, quando para o convento de Mafra vejo que são precisos treze; +isto é, só para este edificio; propondo-se agora oito contos para os +reparos de todos os monumentos, pretendia eu saber como ha de o sr. +ministro repartir esse dinheiro? Por tal motivo parece-me mais +conveniente que se espere pela presença do sr. ministro para vermos o +que elle diz a este respeito.» + +Tornando ainda a usar da palavra na mesma sessão, conformou-se com as +explicações dadas pela commissão. + +«Não queria eu decerto que estes monumentos se concluissem com o que nós +lhe vamos dar; queria que se reparassem, que se evitasse a sua ruina, +mesmo porque hoje não ha em todo o reino artifices que sejam capazes +de os acabar. Contento-me pois com isto, e muito mais com esta ultima +declaração da commissão; porque ha muitos monumentos que não estão +incluidos no numero d'estes que se chamam monumentos historicos, e posso +citar o castello da Feira que se está arruinando e deitando abaixo, e +pouco a pouco se vae apossando d'elle um sujeito que é dono das terras +visinhas ficando d'aqui a poucos dias perdido para a nação esse primor +d'arte. Muitos outros ha que têem a mesma sorte.» + +Até aqui temos visto apenas o orador desambicioso, que não mira a fins +politicos, que expõe parcimoniosamente a sua opinião, até com certa +hesitação algumas vezes, mas sempre impellido por generosos sentimentos; +e através do orador parlamentar, que o é sobreposse, descobrimos +perfeitamente o gosto, a predilecção, a tendencia do homem de lettras, +que faz a apologia do professor de instrucção primaria, o primeiro +cabouqueiro do espirito humano, e dos monumentos historicos, que são a +genuina expressão da arte nacional na serie dos tempos. + +Em fevereiro de 1841 discutiu a camara dos deputados a celebre questão +da propriedade litteraria, em que Almeida Garrett tão activa parte +tomou, sendo sua a iniciativa do projecto. + +Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observações. + +Esta famosa questão, que tão discutida tem sido sob o regimen liberal, +veio surprehender Herculano, queremos crêl-o, no parlamento. Ella não +tinha passado ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras, +impondo-se profundamente á sua attenção. Só onze annos depois foi que +Alexandre Herculano escreveu a celebre carta a Almeida Garrett, e ha +n'essa carta alguns periodos significativos, referentes á discussão de +1841. Diz Herculano a Garrett: + +«Se, porém, v. ex.ª quer que por esse facto eu mostrasse seguir as +ideias de v. ex.ª declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de +mim qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa +provir-me. _Dez annos não passam debalde para a intelligencia humana, e +eu não me envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não +me envergonho de raciocinar e aprender._» + +Estamos persuadidos de que o debate parlamentar ácerca da propriedade +litteraria encontrára Alexandre Herculano sem opinião definida sobre +esse assumpto. Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo +faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos de que o +sistema nervoso de um homem de lettras é ás vezes susceptivel, e que os +proprios factos da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica. +Herculano, o irritado contradictor da propriedade litteraria, +reconheceu-a nas transacções honestas que fizera com o seu editor, +reconheceu-a no seu proprio testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros. + +Os grandes talentos têem d'estas aberrações nervosas. São o claro-escuro +das suas concepções geniaes. + +Espirito que a meditação de uma vida repousada tornára cada vez mais +avesso ás promptas soluções dos negocios publicos, poeta da solidão, mas +sempre poeta, Herculano, desfolhadas as ultimas illusões, aborrecêra a +vida publica, e creára pelo parlamento a repugnancia que se deve sentir +por um paiz onde a nostalgia nos acommetteu e pungiu. + +Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo circulo de Cintra. +Este circulo, segundo o decreto eleitoral de 1852, dava dois deputados. +Alexandre Herculano saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco de +Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente se notabilisára no +parlamento como _apagador_ encartado. A lenda ridicularisava-o. Disse-se +que Herculano não quizera ir á camara de braço dado com um _apagador_ +satirisado. Não acceitamos esta versão. É certo que elle renunciou o +logar de deputado, e que a razão adduzida na sua _Carta aos eleitores de +Cintra_, agora reimpressa no II volume dos Opusculos, é pouco menos de +futil. + +Essa razão era--_que nenhum circulo eleitoral deve escolher para seu +representante individuo que lhe não pertença_. + +Politicamente o argumento é frivolo. Mas foi decerto o primeiro que +Alexandre Herculano pôde encontrar para desculpar o seu aborrecimento +por a vida politica, onde sempre estivera, postoque pouco tempo, +contrariado e constrangido. + +O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores, do que entre +politicos interesseiros que punham a sua candidatura a ministros. + +Na sessão de 13 de agosto d'aquelle anno foi discutido o parecer da +primeira commissão de verificação de poderes acceitando a renuncia do +logar de deputado, para o qual Alexandre Herculano havia sido eleito +pelo circulo 26, sem que chegasse a tomar assento na camara. + +O sr. Pegádo propoz a seguinte substituição ao parecer da commissão: + +«A camara, considerando que a renuncia pedida pelo sr. deputado +Alexandre Herculano não está exacta e rigorosamente no caso da lei, +convida-o a acceitar o logar de deputado.» + +Entendia o sr. Pegádo que Alexandre Herculano, tendo expendido pela +imprensa as razões da sua renuncia, não julgaria logico mudar da +opinião, mas que a camara podia tiral-o da posição melindrosa em que se +achava, convidando-o a ir occupar o seu logar no parlamento. + +Por parte da commissão, o sr. Mello Soares disse que se o sr. Pegádo +tinha em mente fazer o elogio de Alexandre Herculano, a camara estava de +accordo com as suas palavras, _porque o sr. Alexandre Herculano faz +uma época ao paiz, pelo menos uma época litteraria_; mas a questão era +outra, havia uma lei a cumprir e uma vontade a respeitar. + +A requerimento do sr. Coelho do Amaral, julgou-se a materia discutida, e +o parecer foi approvado. + +Os animos generosos e fidalgos saboreiam ás vezes com agreste +voluptuosidade o sentimento da resistencia obstinada ás correntes +sociaes que em sentido contrario ás suas tendencias os solicitam. + +Foi o que aconteceu a Alexandre Herculano. Elle cristallisára no seu +aborrecimento pelo mundo politico, pelo scenario avariado do parlamento, +onde se reconhecêra inferior aos outros, talvez mesmo a si proprio. + +El-rei D. Pedro V, amigo particular do grande historiador, quiz +fazer-lhe mais uma distincção nobiliaria do que dar-lhe um premio +politico: nomeou-o par do reino. Transcrevemos o diploma official da +nomeação, que foi publicado no _Diario do Governo_: + + +_Ministerio dos negocios do reino_ + + +«Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das +Sciencias, antigo deputado da nação portugueza. Eu El-rei vos envio +muito saudar. Tomando em consideração os vossos merecimentos e +qualidades, hei por bem, tendo ouvido o conselho d'Estado, nomear-vos +par do reino, o que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e +effeitos devidos. Escripta no Paço das Necessidades em 17 de maio de +1861.--Rei.--_Marquez de Loulé._--Para Alexandre Herculano de Carvalho, +socio effectivo da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da nação +portugueza.» + + +Alexandre Herculano recusou, talvez ainda porque essa mercê tinha +resaibos de iguaria politica, para apreciar a qual o seu paladar +estava desde muito tempo embotado. + +Habituara-se a depreciar as galas que podem ensanefar, como elle dizia, +o pedestal dos homens politicos. Fizera-se lavrador, quasi misanthropo. +A sua prosa tinha por vezes, quando de longe a longe escrevia, tons +duros de mau humor para com a sociedade. + +Recusou a mercê regia. + +Temos fortes razões para crêr que o requerimento em que renunciou o +pariato fomos nós arrancal-o pela primeira vez ao archivo do ministerio +do reino. + +Diz assim: + + «Illmo. e Exmo. Sr. + + +«Sua Magestade El-Rei, usando das attribuições do poder moderador, Houve +por bem honrar-me com a nomeação de membro da Camara dos Dignos Pares do +Reino. Será ocioso significar a v. ex.ª quanto aprecio esta demonstração +de confianca d'um Soberano, que a historia póde qualificar como a mais +nobre e pura intelligencia que tem resplandecido no throno portuguez, e +que sabe ainda mais obrigar á affeição como homem do que ao respeito +como magistrado supremo. + +Mas as condições da humanidade alcançam reis e subditos: reis e subditos +estão sujeitos a fazer apreciações inexactas ou incompletas. Podem +illudir-se ás vezes tomando os impulsos da benevolencia pelas +inspirações da justiça e é possivel que em relação a mim se désse uma +circumstancia d'essas. + +Désse ou não désse, o que sei, o que me diz a consciencia com voz +sobradamente intelligivel é que o meu concurso nas deliberações da +camara dos Dignos Pares do Reino seria inutil, quando não inconveniente. +Dispense-me v. ex.ª de expôr as razões d'esta intima e invencivel +persuasão, razões tristes para mim, e porventura demasiado longas e +tediosas para v. ex.ª + +Não creio que faltem em Portugal homens de saber e virtude que +tenham esperança e fé. São esses que pódem, sem a temeridade de Ora, +erguer a mão para amparar a arca santa das instituições. É provavel que +saibam fazel-o aquelles que n'esta conjunctura foram tambem honrados com +a confiança da corôa. + +Queira v. ex.ª levar a minha escusa de membro da camara dos Dignos Pares +do Reino á presença de Sua Magestade El-Rei, que, acceitando-a +benignamente, ajuntará uma prova mais ás muitas que já tenho da sua +inexgotavel indulgencia para comigo. + +Deus Guarde a v. ex.ª--Lisboa, 18 de maio de 1861.--Illmo. e exmo. sr. +Marquez de Loulé, ministro e secretario d'estado dos negocios do reino. + + + _A. Herculano._» + + +O decreto acceitando a renuncia pedida, tambem, que nos conste, não fôra +integralmente publicado no _Diario do Governo_, posto que a elle se +alluda em outro diploma official. + +«Attendendo ao que me representou Alexandre Herculano de Carvalho, socio +effectivo da Academia Real das Sciencias, Hei por bem acceitar a +renuncia por elle feita nas Minhas Reaes Mãos da Dignidade de Par do +Reino, a que fôra elevado por Carta Regia de 17 de maio proximo findo. O +Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Reino assim o tenha +entendido e faça executar. Paço das Necessidades em 4 de junho de +1861.--Rei.--_Marquez de Loulé_.» + +Do mesmo modo não foi publicada a portaria que acompanhou a remessa do +decreto real. + +«Para Alexandre Herculano de Carvalho: + +«Manda Sua Magestade El-Rei pela Secretaria d'Estado dos Negocios do +Reino, remetter a Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da +Academia Real das Sciencias, para seu conhecimento, a inclusa copia +authentica do decreto de 4 de junho corrente, pelo qual Houve por +bem acceitar a renuncia por elle feita nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto +Senhor, da Dignidade de Par do Reino, a que fôra elevado por Carta Regia +de 17 de maio proximo findo, o que na data de hoje se participa á Camara +dos Dignos Pares do Reino. Paço das Necessidades, em 8 de junho de +1861.--_Marquez de Loulé_.» + +O unico documento que encontramos estampado no _Diario do Governo_ é o +seguinte aviso da presidencia do conselho de ministros á camara dos pares: + + +_Ministerio do Reino_ + + +«Direcção geral da administração politica--1.ª repartição--Livro 15 n.º +143==Illmo. e Exmo. Sr.--Tenho a honra de participar a V. Ex.ª para +conhecimento da Camara dos Dignos Pares do Reino, que Sua Magestade +El-Rei, attendendo ao que lhe foi representado pelo conselheiro d'estado +effectivo João de Souza Pinto Magalhães, e pelo socio effectivo da +Academia Real das Sciencias Alexandre Herculano de Carvalho, Houve por +bem, por decreto de 4 de junho corrente, acceitar a renuncia, por elles +feita nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto Senhor, da dignidade de pares do +Reino a que haviam sido elevados por cartas regias de 17 de maio proximo +findo. + +«Deus Guarde a V. Ex.ª. Secretaria d'estado dos negocios do Reino, em 8 +de junho de 1861.--Illmo. e Exmo. Sr. Presidente da camara dos Dignos +Pares do Reino.--_Marquez de Loulé._» + +As dimensões de uma pequena brochura obrigam-nos a circumscrever este +capitulo, a que poderiamos dar comtudo bem mais amplas proporções. + + * * * * * + + + + +IV + +José Gomes Monteiro + + +Sparta, que no render culto á mocidade sobrelevava toda a mais Grecia, +foi guiada pela legislação de Licurgo ao respeito da velhice. Facto +verdadeiramente extraordinario! N'uma cidade onde as creanças rachiticas +eram afogadas logo que nasciam, como cidadãos inuteis, os velhos, tão +inuteis para o serviço da republica como as creanças votadas á morte, +eram considerados em face da lei dignos do respeito e da estima dos seus +concidadãos. + +Desde o momento em que um paiz entra no caminho do progresso social e na +conquista de um ideal de perfectibilidade, começa a ter pela velhice uma +veneração tão carinhosa como delicada. Realmente, offender um velho é +apedrejar uma arvore carregada de fructos. As republicas, como todas as +sociedades, precisam alimentar-se da experiencia dos velhos e do ardor +dos mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina, e a do sol +que se levanta, deslisa toda a existencia da familia e da nação. +Estas duas correntes, em vez de se contrariarem, auxiliam-se, e ás vezes +identificam-se de tal modo na harmonia de um grande progresso +intellectual, que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram +n'uma só alma aspirando ao mesmo ideal. Ditosos os paizes onde este +facto se dá! Em França, por exemplo, Michelet, o velho que morreu moço, +absorvera em si a alma da mocidade, que transparecia nos seus livros +cheia do perfume da primavera, e do colorido _chatoyant_ de tudo quanto +é novo e vigoroso; Victor Hugo, a alma que não envelheceu, conservou na +voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia, que seduz as +imaginações juvenis, arrastando-as para o mundo das auroras, para as +conquistas da luz. Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, não +será possivel marcar limites aos progressos de um paiz, mas será facil +aventar que elle tomará a deanteira a todos os outros para guial-os na +marcha das suas aspirações sociaes. + +Em Portugal--digamos cruamente a verdade--a mocidade habituou-se a +caminhar atirando por cima dos hombros, como Deucalião, pedras contra o +passado. A velhice não tem para as gerações modernas o esplendor +magestoso de um occaso. Os velhos foram uns nescios, dizem os novos. +Garrett, Herculano, Castilho, José Gomes Monteiro não desceram ao tumulo +sem ter provado o fel da ingratidão. Esta é a verdade. Por muitas vezes, +a mocidade, enfurecida como um iconoclasta, arremetteu contra elles, +procurando abalar ás mãos ambas o pedestal d'onde já o olhar melancolico +descia a procurar o descanso da sepultura. É triste ter que recordar +estes factos, tanto mais que parece ter havido n'essa enorme +irreverencia o só proposito de derrubar por derrubar. Pois o que nos tem +dado em troca a geração moderna? Um espirito manifestamente demolidor e +dissolvente domina a sociedade em que vivemos. Tentativas de +reconstrucção sérias e proveitosas, poucas. Por cada mil alavancas +que revolvem os alicerces do passado, uma só procura alinhar o blocus +faceado na esquadria do novo edificio. + +Por minha parte, trabalhador obscuro, não me farei jámais cumplice da +irreverencia dos meus contemporaneos. Tirarei respeitosamente o meu +chapeu para saudar a velhice, sempre que se não degrade a si mesma. E +quando ella assignala a sua passagem com um rastro de luz, eu não tenho +duvida em confessar publicamente, agora e sempre, que dirijo a minha +rota pelo esteiro do seu leme. + +Acatando a velhice, julgo estar na consciencia do dever; escrevendo de +José Gomes Monteiro, colloco-me justamente dentro das circumstancias +especiaes em que me encontro perante a memoria d'esse que me foi mestre, +amigo, conselheiro, durante um periodo de tempo de mais de dez annos, +talvez. + + * * * * * + +José Gomes Monteiro nasceu na cidade do Porto a 2 de março de 1807. + +Aos dezeseis annos de edade matriculou-se em Coimbra nas faculdades de +leis e canones, mas, chegando ao quarto anno do curso, saiu de Portugal +para Inglaterra, talvez por uma poderosa necessidade do seu espirito, +que se sentia asphixiado na atmosphera classica da Universidade, onde +tudo se prendia ainda ao passado pelos élos oxidados da tradição +scientifica, e onde começava a fermentar a discordia politica, que veio +a motivar a emigração de 1828. + +Demorou dois annos em Inglaterra, e foi depois estabelecer residencia em +Hamburgo, onde fez parte da firma commercial Santos & Monteiro, cujos +revezes absorveram ao cabo de algum tempo todas as esperanças de +vida prospera. Este desastre amargurára o coração do homem; mas o +litterato tirára enorme proveito da residencia em paizes onde a cultura +litteraria captivava os espiritos lucidos, ainda quando as mais graves +complicações da vida positiva os enleavam. No estrangeiro travára +relações de estreita amizade com Almeida Garrett e com todos os +emigrados que, depois da victoria do partido avançado, foram os +primeiros homens de Portugal; do estrangeiro adquirira um vasto +conhecimento dos principaes idiomas da Europa, que elle manejava com +notavel facilidade, penetrando com o seu espirito profundamente +analitico na estructura intima do vocabulo, d'onde extraia ás vezes uma +imprevista luz para a verdadeira interpretação dos textos; no +estrangeiro, onde o suave doer da nostalgia divinisa as memorias da +patria, devotou-se Gomes Monteiro ao estudo dos classicos portuguezes e +foi então que, encontrando na livraria da Universidade de Gottingen um +exemplar da primeira edição dos _Autos_ de Gil Vicente, pôde preparar, +auxiliado por José Victorino Barreto Feio, a edição critica das obras do +fundador do theatro portuguez. + +Este trabalho, considerado em si mesmo, tem subido valor, não obstante +quaesquer ligeiros senões que possam apontar-se-lhe, e haver sido +realisado em edade incompativel com a madureza de espirito que requerem +os fastidiosos trabalhos de bibliographia. O sr. Theophilo Braga, +escrevendo de José Gomes Monteiro no 5.º volume da _Revista +Comtemporanea_,[1] dizia a este respeito: «O trabalho d'este +livro pertence-lhe todo; a profundidade da sua critica avalia-se pela +introducção com que precedeu a obra. Quando a escreveu era bastante +creança e é talvez por esta circumstancia, que o auctor hoje não lhe +quer dar o alcance, que esse estudo na realidade tem.» Como quer que +fosse, era incontestavel o valor das investigações biographicas a +respeito de Gil Vicente, e da taboa glossaria dos termos antiquados, _o +que tudo com menos fundamento ha sido por alguns attribuido a Barreto +Feio_, escreveu Innocencio Francisco da Silva.[2] Os irmãos +Castilhos reproduziram na Bibliotheca portugueza o ensaio biographico da +edição de Hamburgo por _convencidos de que a respeito da vida e obras do +nosso poeta não poderiamos dizer mais nem melhor_. Gomes Monteiro +acceitava a responsabilidade d'aquelle trabalho, e era o primeiro a +reconhecer-lhe as imperfeições, postoque ligeiras, algumas das quaes +estavam corrigidas á penna no exemplar da sua livraria. Mas lancem-se +essas pequenas incorrecções á conta da mocidade do auctor, como o sr. +Theophilo Braga indica, e á falta de meios de rigorosa verificação, com +que José Gomes Monteiro luctava fóra de Portugal. + +Se considerarmos, porém, a edição critica das obras de Gil Vicente, e +das obras de Camões, na sua influencia sobre a renascença litteraria de +Portugal, qualquer d'esses trabalhos tem um grandissimo valor, porque em +verdade ambos exerceram poderosa acção não só sobre o proprio espirito +de Gomes Monteiro, mas tambem sobre a collectividade illustrada do nosso +paiz. E, a este respeito, não me dispenso de citar mais um vez o sr. +Theophilo Braga, no seu artigo da _Revista Contemporanea_: «Desde que +proferiu este _surge et ambula_, a Allemanha, a Inglaterra, a França, +estudaram para de logo o poeta. Tempo depois Garrett escrevia a Gomes +Monteiro dando-lhe parte de um drama _Um auto de Gil Vicente_, com o +qual havia, por uma notavel coincidencia, dar vida ao theatro portuguez, +apresentando-lhe o vulto do seu creador; n'essa carta dizia-lhe que não +sabia a parte que tinha no que acabava de escrever, nem a quem pertencia +a paternidade. A renascença em Portugal deve-se a tres homens: +Garrett, Alexandre Herculano e José Gomes Monteiro.» + +Pela observação profunda dos textos durante a elaboração das edições +criticas de Gil Vicente e Camões, pelas simultaneas investigações +biographicas que era obrigado a fazer, habituando-se a um uso diuturno +dos processos analiticos, que estavam aliás nas condições phisiologicas +do seu temperamento e no caracter germanico que pela sua longa +residencia em Hamburgo assimilára, chegou Gomes Monteiro á resolução de +reunir subsidios para organisar mais tarde a historia litteraria de +Portugal, que, se tivesse sido levada a cabo, realisaria, pela +consubstanciação com o trabalho de Herculano, depois de concluido, a +historia completa da nossa nacionalidade. + +Recolhendo a Portugal, e á terra da sua naturalidade--o Porto--Gomes +Monteiro dedicou a maior parte do tempo á investigação e preparação dos +materiaes necessarios para a historia litteraria. A morosidade com que +na Allemanha se educára a trabalhar pela applicação do criterio +historico, a natural indolencia do seu temperamento, e largas +interrupções devidas a melindres de saude fizeram, porém, que a obra +proseguisse lentamente, e os seus manuscriptos ficassem por sua morte +desatados apenas em memorias preciosas, sem a unidade logica e +chronologica de um corpo de historia. + +Portanto, d'essa importantissima tarefa sómente ha pequenas amostras +publicadas, e a origem da publicação deve procurar-se sempre nas +instancias de amigos e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi +assim que em 1849 appareceu em opusculo a _Carta ao illmo. sr. Thomaz +Norton sobre a situação da ilha de Venus, e em defeza de Camões contra +uma arguição, que na sua obra intitulada «Cosmos», lhe faz o sr. +Alexandre de Humbold_. + +N'este trabalho, em que os elementos da these são procurados com +notavel paciencia e lucidissima intuição, José Gomes Monteiro sustentou +que a ilha dos Amores não era a de Santa Helena, como alguns opinavam, +nem a de Anchediva, como escrevera Faria e Sousa, nem _fingimento que o +poeta fez_, como dissera Manuel Corrêa, mas a de Zanzibar, ao norte de +Moçambique. José Gomes Monteiro baseou em grande parte a sua +argumentação na concordancia das descripções do episodio com as +particularidades do clima, da fauna, da flora, da situação geographica +da ilha de Zanzibar. Não será decerto um trabalho incontestavel,[3] +mas é seguramente notabilissimo, e como prova de um espirito +sério, predisposto para tarefas d'esta natureza, foi respeitosamente +recebido por todo o paiz. + +A esse tempo ainda José Gomes Monteiro estava na firme resolução de +trabalhar na realisação da historia litteraria de Portugal. Com effeito, +como a carta a Thomaz Norton revelava, elle poderia ter sido para a +litteratura portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola, Hipp. Taine +para a ingleza, Emilio Burnouf para a grega, etc. Mas, depois, o gravame +dos annos foi crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos +litterarios fizeram descair em aborrecimento. Era preciso, como já +dissemos, que a amizade o reptasse com dedicado empenho, para que +emittisse a sua opinião sobre importantes assumptos de historia +litteraria. De uma d'essas pressões amigaveis resultou a publicação do +artigo que a _Revista Peninsular_[4] inseriu ácerca da antiga +trova do _Figueiral Figueiredo_, que José Gomes Monteiro suppunha +filiada na lenda gallega de _Val-Doncel_. + + * * * * * + +Na carta a Thomaz Norton escrevêra José Gomes Monteiro em nota á pag. 17: + +«Aproveitarei esta occasião para dizer... que um dos mais famosos +monumentos d'esta litteratura cavalheiresca, e que tão distincto logar +deverá ter na historia litteraria do nosso paiz,--o _Amadis de Gaula_--é +de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos elementos +historicos de que se compõe. Impenetravel até hoje á investigação de +grandes criticos, tem sido considerado como uma _singular excepção_ ao +systema de _decomposição historica_. Eu mostrarei comtudo, em um +trabalho que tenciono publicar brevemente, que o seu maravilhoso, os +seus personagens, os seus episodios, tudo ali é urdido no grande tear da +historia--da historia do seculo XII, o mais rico em aventuras e feitos +d'armas da cavallaria real, de quantos contém os annaes da edade-media. +Ali, dissolvendo as tabulas do _Amadis_ em factos historicos, darei a +mais completa theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos +trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de _Endriago_, a mais +bella concepção de todos os romances de cavallaria, ficará sendo um +exemplo inapreciavel de como o espirito humano fórma o mytho, nas edades +primitivas da litteratura.» + +Gomes Monteiro foi levado á realisação d'este trabalho, que deixou +inedito, pela applicação do mesmo processo que tinha seguido a respeito +da ilha de Venus--o confronto do romance com a historia. Só por um +pacientissimo labor poderia encontrar no grande oceano da historia +universal justamente a época cujos factos capitaes correspondessem aos +episodios do romance. Procurou e achou. _Dissolvendo as fabulas do +«AMADIS» em factos historicos_, como elle proprio escreveu, pôde +localisar a acção do romance no tempo de Ricardo _Coração de Leão_, +enxergando no disfarce da allusão, motivado pelas exigencias da época, +uma perfeita concordancia historica, e logrou chegar á conclusão de que +Vasco de Lobeira não foi o auctor d'essa famosa novella do ciclo +cavalheiresco. + +Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era uma edição critica da +_Menina e moça_ de Bernardim Ribeiro, da qual seriam expungidas as +intercalações apocriphas que andam no livro. Calcule-se o dispendio de +paciencia e perseverança que essa reconstrucção custaria ao douto +bibliophilo. Como na edição de Gil Vicente, um estudo biographico sobre +Bernardim Ribeiro e um glossario dos vocabulos antigos completariam a +edição critica da _Menina e moça_. + +A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro laboriosamente +investigada, alcançando extrair das proprias composições do poeta +illações luminosas e não esperadas. A este respeito, permitta-se-me +dizer que por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romance _Um +conflicto na côrte_, baseando-me nos documentos que espontaneamente me +facultou, e que claramente revelavam a intervenção do poeta na dramatica +paixão do marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. Foi nas +eclogas _Aleixo_ e _Andrés_ que José Gomes Monteiro encontrou a prova +d'essa intervenção, de que resultou ser preso Sá de Miranda como punição +ás ousadas allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera á perfida +dama. Apraz-me renovar esta declaração que já fiz no segundo volume do +romance. A minha divida para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha, +que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a. + +Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, enchiam as +suas pastas. Lembro-me agora de um extenso artigo a respeito da _Arte de +monteria_, de D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre +varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos os que podiam +servir á elaboração de uma interessante monographia da cidade do Porto. + +Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, temos que retroceder +na biographia de Gomes Monteiro, para completarmos a pequena lista das +suas obras impressas. + +Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha de Venus, isto é, em +1848, deu José Gomes Monteiro em volume a traducção de algumas baladas +dos poetas mais populares da Allemanha, sob o titulo de _Eccos da lyra +teutonica_. + +Este livro está completamente fóra do grande programma dos seus estudos +predilectos, e dos seus trabalhos habituaes. São recordações da sua vida +na Allemanha, enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente +conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente um poeta, mostrava +que os processos de metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em +muitos relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia da fórma, +á fidelidade da traducção. Procedendo assim, obedecia simplesmente aos +seus escrupulos de investigador litterario. Queria dar a conhecer ao +nosso paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo a +exactidão dos textos, como quem perfeitamente conhecia o justo valor das +palavras, e por elle fazia obra. A sua lealdade de traductor póde ser +confirmada por todos quantos saibam allemão, porque em muitas das +poesias a traducção vem a par do original. + +Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice de +Castilho--desaffrontando-a de accusações que lhe foram feitas--com a +publicação do livro _Os criticos do Fausto do sr. visconde de Castilho_. +Estava já a esse tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma +resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para escrever +rapidamente um livro de 190 paginas, que Camillo Castello Branco e eu +vimos nascer quasi dia a dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio +o explicava, sempre que na redacção do _Primeiro de Janeiro_ recebia +um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido n'estes termos: «Ámanhã, a tal +hora, em casa do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com +auctoridade ao azedume com que os criticos de Castilho cairam sobre a +traducção do _Fausto_, lavrava um protesto energico em nome da velhice +desconsiderada, e desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as +maguas intimas que as ingratidões de que a vida das lettras está eriçada +tinham posto no seu coração. Esse livro era o seu testamento litterario, +resalta d'elle a indignação da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe +de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, e do outro o +respeito da gente moça. N'este caso a velhice morre como os dois +Carvajal, que emprazaram Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a +velhice empraza a mocidade irreflectida a comparecer no tribunal da +Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante do que o d'um mancebo +insultando um ancião benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um +parricidio moral de que todo o homem honesto affasta a vista com +horror.» A sua alma precisava d'este desafogo--a tão pequena distancia +da sepultura. Alexandre Herculano, movido por igual impulso, escrevia, +do fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação a José +Gomes Monteiro a proposito da publicação dos _Criticos do Fausto_. Essa +carta, era breve, mas profundamente energica. _Nunca as mãos lhe doiam_, +dizia o auctor da _Historia de Portugal_ áquelle que muitas pessoas +denominavam o _Alexandre Herculano do Porto_. + +Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma ficou tranquilla mas +fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, nunca mais escreverei. Vivendo +unicamente de recordações, parecia esperar serenamente a noite +misteriosa da morte... + +Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces, das mais gratas +recordações da sua vida. O sr. Emilio Biel, do Porto, appellando para os +seus antigos estudos sobre Camões, convidára-o a rever a edição dos +_Lusiadas_, que foi publicada n'aquella cidade por occasião do terceiro +centenario da morte do grande epico. A este nome prestigioso, a alma de +José Gomes Monteiro teve ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela +sua preciosa _camoneana_, pondo diante de si as suas excellentes notas +sobre a vida e a obra de Camões, José Gomes Monteiro pretendeu encerrar +a sua carreira d'escriptor honrando a memoria do maior poeta que tem +tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio de luz do seu +espirito, estrella cadente que sulcando a noite da velhice foi +abismar-se na sepultura já aberta para receber o douto bibliophilo. + +A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia na traquillidade +dos mortos. + + * * * * * + +Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, a todos os homens +importantes de Portugal, elle poderia ter-se saciado de honras, se fôra +um espirito vulgar. Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções +litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era socio +correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa e membro de +varias academias estrangeiras. O seu nome apparecia pouco, occultava-se +como elle proprio, e todavia, outros muitos que ajudára a crear com o +seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção passavam por +diante d'elle, na pompa do triumpho, sem que o menor assomo de inveja +viesse perturbar-lhe a habitual serenidade de animo. + +Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio da sua vasta +livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades de mortos, onde os +livros falam como os tumulos. A paz creadora, a meditação tranquilla, o +descanso productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando +dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; mas os livros, +amigos inalteraveis, não faltam nem atraiçoam. Na saude ou na doença, no +trabalho ou no ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu +silencio, são sempre uma companhia, uma guarda, uma força. O velho +Castilho tinha o seu leito entre elles. Não os via, mas sentia-os. Não +tinha olhos para os procurar, mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes +me pareceu que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? Aqui +estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre elles morreu. O seu cadaver +depositado na livraria parecia escutar, na concentração placida dos +cegos, o que Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio +eterno dos livros. + +A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole immensa. A antiguidade +tinha ali, fechados em pergaminho, os seus thesouros classicos. A +renascença enfileirava os seus volumes em linha de batalha. A um lado, a +Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro lado, Roma, a Grecia +italiana, pendurava as suas liras coroadas de mirtho e louro. Os paizes +do norte da Europa combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos dos +seus climas. O occidente punha os seus trovadores a par dos seus +cavalleiros. A central Allemanha entoava as suas baladas vaporosas como +o véu azul do seu Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de luz +os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus codigos religiosos e +austeros. + +--Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes Monteiro com certa alegria +lisonjeada, a todos quantos lhe perguntavam se possuia este ou aquelle +livro. + +Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito dos bibliophilos: a +avareza. Os seus livros pareciam-se n'isto com as flores, que pertencem +principalmente a quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe de +ser aspirado pelos estranhos. + + [1] Pag. 236. + + [2] _Diccionario bibliographico portuguez_, vol. 4.º, pag. 363. + + [3] O sr. conde de Ficalho contradictou na _Flora dos Lusiadas_, em + 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes Monteiro, + mas honra-o dizendo que a sua _carta_ contém, na parte + exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas. + + [4] Vol. 2.º, pag. 401. + + * * * * * + + + + +V + +No parlamento + + +Em Janeiro de 1882 entrei na camara dos deputados, eleito por um circulo +do districto de Vizeu. + +A minha eleição não pesou na balança dos destinos politicos de Portugal, +e muito menos da Europa. Os fundos não subiram nem desceram. Mas, em +compensação, a minha eleição apresentára tres aspectos completamente novos: + +1.º--O circulo conhecia-me. + +2.º--Eu conhecia o circulo. + +3.º--Não foi preciso, para que eu viesse a S. Bento, derramar-se o +sangue de ninguem--nem mesmo de um carneiro. + +A minha eleição foi feita o menos carneirocombatatasmente possivel. Nada +d'isso. E o mesmo circulo, que me elegeu facilmente, porque me conhecia +desde pequeno, deixou de me eleger dois annos depois com igual facilidade. + +A gratidão dos circulos é uma coisa bicuda. + +O sr. Barjona de Freitas fizera um filasterio politico dando de mão +beijada o circulo de Sinfães a um candidato progressista. E os fundos, +por este facto, tambem não subiram nem desceram. A substituição de +deputado por deputado operou-se, com grande proveito do partido +regenerador, sem agitar a politica da Europa. + +N'um livro de memorias, que abrange vinte annos da minha vida, julgo-me +obrigado a falar dos dois em que passei pelo parlamento. D'outro modo a +coisa não valeria chronica. + +Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal era auxiliar lealmente +a politica do meu partido, sem deixar comtudo de prestar algum serviço +ás lettras portuguezas, que indirectamente me tinham levado lá. + +Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de minha iniciativa, +estabelecendo a leitura nocturna nas bibliotheca publicas, do que +aquelle que seria preciso para me fazer visconde. O projecto passou, +graças á minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso avaliar +por dados estatisticos, hoje mesmo publicados n'um jornal, que não perdi +o meu tempo. + +No mez de outubro proximo findo, concorreram á bibliotheca nacional de +Lisboa 2:586 leitores, assim divididos: + +_Leitura diurna_: leitores, 1:092; volumes impressos, 2:061; +manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros, 6. + +_Leitura nocturna_: leitores, 1:494; volumes impressos, 2:482; +manuscriptos, 31. + +O numero dos leitores nocturnos é já excedente ao dos leitores diurnos, +o que prova que a lei não foi inteiramente inutil aos que n'este paiz +gostam ou precisam de ler. + +Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura, campeões +experimentados e insignes. A minha humilde e desauctorisada palavra não +se tornava precisa. Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas quando +careci de justificar o meu voto. + +Da pequena bagagem que deixei depositada no _Diario dos sessões_ +escolherei um unico discurso, não só para comprovar o que deixo dito, +mas tambem porque o assumpto era de geito a tentar as predilecções de um +homem que, até dentro da politica, estima os assumptos historicos. + +Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento do marquez de Pombal. + +Eu tive então occasião de dizer as seguintes palavras: + +«_O sr. Alberto Pimentel_:--Cumprindo as disposições do regimento, +começo por ler a minha proposta. + +(_Leu_). + +A camara tem ouvido benevolamente considerações, se não diametralmente +oppostas, pelo menos um tanto contradictorias, e espero que ella me +dispensará igual benevolencia, por mais excepcionaes que lhe pareçam, +sobre este assumpto, as minhas opiniões. + +Devo começar por dizer a v. ex.ª que não tenho um grande enthusiasmo +pelo centenario do marquez de Pombal; em minha consciencia, e só em nome +d'ella falo aqui, porque tenho direito de falar, acho ainda muitissimo +cedo para qualquer solemnidade publica, para qualquer demonstração de +applauso nacional em honra de Sebastião José de Carvalho e Mello. + +A iniciativa partiu da mocidade academica, e ainda que tenho uma +profunda estima por todas as iniciativas que partem do coração ardente +da gente moça, ainda que me sinto impellido para acceitar todos os +pensamentos em que palpita exuberantemente a seiva da idade juvenil, não +devo esquecer que os academicos são moços e que as idéas da mocidade são +quasi sempre flores e não fructos. + +Uma primavera carregada de fructos seria um phenomeno tão extraordioario +na natureza como na sociedade. Nós, os legisladores, temos obrigação de +ser menos apaixonados, e menos enthusiastas do que a mocidade. A +reflexão é uma velhice precoce, e nós devemos tel-a. + +Eu entendo, sr. presidente, que se os mortos passam depressa, muitas +vezes, para a nossa saudade, se desapparecem rapidamente na sua balada +phantastica, caminho da eternidade, os legisladores vão de vagar, +vergados ao peso das suas proprias responsabilidades, como se lhes +pesasse sobre os hombros o enorme lenho da Historia, que é, ao mesmo +tempo, uma cruz é uma glorificação. + +E tanto isto é verdade, que eu entendo que as responsabilidades +politicas do marquez de Pombal não estão ainda perfeitamente liquidadas. + +Nós ouvimos, na sessão anterior, a palavra enthusiastica, sempre +inspirada e eloquente do sr. Pinheiro Chagas, defendendo brilhantemente +a causa do centenario. + +Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citação do sr. Pinheiro Chagas a +respeito de um dos actos mais importantes da vida do marquez de Pombal. + +Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos conspiradores +contra D. José I. + +A este respeito citarei a v. ex.ª e á camara duas auctoridades, ambas +contemporaneas, para provar a minha asserção de que as responsabilidades +politicas do marquez de Pombal não me parecem inteiramente liquidadas +ainda. + +Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos: + +«_Nos dominios severos da historia ainda não passou em julgado_ nem a +sentença que condemnou a perpetua infamia o nome dos Tavoras, nem a que +depois pretendeu lavar de qualquer mancha a memoria de tão numerosa e +esclarecida familia. Não nos cabe apreciar a sanguinolenta catastrophe +de Janeiro de 1759. Basta-nos recordar que as duas filhas do marquez de +Alorna, uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes longo e +triste captiveiro, attenuado unicamente pela consolação de viverem +com a mãe, mitigando-lhe as amarguras da sorte, e recebendo com os +carinhos e desvelos a educação maternal.» + +Não citarei só a opinião do sr. Teixeira de Vasconcellos, cuja perda +todos lastimamos, e eu mais que ninguem; citarei tambem a propria +opinião do sr. Pinheiro Chagas, que sinto não ver presente, e que tão +enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica de nacional. + +«Temos agora a notar que morreram innocentes, ou, pelo menos, que não +deviam ser condemnados, _pois que havia falta absoluta de provas_, +alguns dos desgraçados de Belem. Parece-nos isso incontestavel, mas _não +sabemos_ se devemos attribuir todas as culpas a Carvalho. _Pesa ainda um +grande mysterio n'esse periodo da nossa historia, e nenhum dos +escriptores que d'elle se occuparam, trouxe a lume todos os documentos +que podessem lançar luz n'este drama tenebroso._» + +Depois da citação d'estes periodos, arrancados á _Historia de Portugal_, +do sr. Pinheiro Chagas, e que por isso mesmo devem ser insuspeitos á +camara, peço licença para referir um facto, que é um traço anecdotico da +vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito. + +Bocage tinha sido recebido em casa de Thomé Barbosa de Figueiredo, que +lhe dava a mais cordeal e franca hospitalidade, que lhe fazia +offerecimentos de dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as +condições de bem-estar. + +Thomé Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado com a co-habitação +de Bocage, e Bocage parecia ter chegado ao ideal da sua felicidade. +Comtudo, uma bella manhã, Bocage bateu á porta do quarto do seu amigo, e +disse-lhe que agradecia todos os obsequios que lhe havia proporcionado, +mas que era obrigado a retirar-se. + +--Por que? perguntou-lhe Figueiredo. + +--Por que conheço os seus defeitos e sinto uma invencivel necessidade de +dizer mal d'elles, e de si. + +A respeito de Sebastião José de Carvalho e Mello póde dizer-se a mesma +cousa, porque todos aquelles que mais enthusiastas se revelam por elle, +esses mesmos são obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou citar á +camara ainda algumas palavras do meu illustre amigo, o sr. Pinheiro +Chagas, nos seus _Portuguezes illustres_. Cito a obra, para tornar mais +veridica a citação: + +«Mas o patibulo de Belem, a alçada do Porto, a fogueira de Malagrida, o +supplicio atroz de João Baptista Pelle, _clamam alto contra o marquez de +Pombal_.» + +Eis aqui a applicação da anecdota de Bocage. Ella explica, a meu ver, +eloquentemente, o que se está passando n'este momento com relação ao +marquez de Pombal. + +Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade academica, o +governo viu por ventura, e principalmente, no marquez de Pombal, o +reformador dos estudos, e propoz uma estatua em sua honra. + +É certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas devem ser para +os legisladores, por isso que são frias, austeras como elles. + +Para os grandes artistas, para os grandes pintores, para os grandes +poetas, para os grandes oradores e para os generaes victoriosos cuido eu +que devem ser as ruidosas ovações populares, as solemnes deificações +publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os arcos de +triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos, n'uma palavra, a +monumental apotheose das ruas e das praças, como ha pouco teve Camões. + +José Estevão, sr. presidente, está ainda muito mais vivo e completo nos +seus discursos parlamentares, que remurmuram nos eccos saudosos d'esta +casa, do que na estatua fria e severa que se levanta ali fóra, em frente +d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra. + +Camões é muito maior nos _Lusiadas_ do que na estatua do Loreto. + +Mas, emfim, o governo não se furtou á corrente pombalina que partia da +iniciativa particular, academica ou não academica, para se erguer uma +estatua ao marquez de Pombal, e é d'isso que se trata n'este projecto. + +O governo foi accusado aqui pelo sr. Pinheiro Chagas de concorrer apenas +com uma simples esmola para a celebração do centenario. O governo, sr. +presidente, não dá tão pouco como ao sr. Pinheiro Chagas se afigura, e +eu n'este ponto fui prevenido em grande parte pelo discurso do illustre +deputado sr. Emygdio Navarro, visto que a palavra, por infelicidade +minha, me chegou tão tarde. + +Já aqui se disse que nos nossos arsenaes não havia bronze inutilsado em +quantidade sufficiente para a estatua, porque d'esse metal existiam umas +antigas peças de alma lisa que têem sido ultimamente transformadas em +peças raiadas. + +Póde dizer-se que não ha bronze nenhum inutilisado nos arsenaes, e por +isso o governo, por muito pouco que se proponha gastar, não gastará +menos de 6:000$000 réis, justamente n'uma época em que se está pedindo +ao povo o sacrificio de novos impostos sobre generos alimenticios de +primeira necessidade. + +Alem de que, tendo a praça destinada para a collocação da estatua, na +Avenida da Liberdade, um raio de 100 metros, é forçoso que a estatua do +marquez de Pombal tenha dimensões iguaes á de José I, ou quasi as +mesmas, circumstancia a que não devemos deixar de attender, visto que +somos chegados á parte menos attraente d'esta discussão, o capitulo das +despesas a fazer. + +Levantem-se, porém, estatuas, sr. presidente; seja-me comtudo licito +exprimir o desejo de que quem quizer levantar estatuas, as pague. + +Sabe v. ex.ª o que aconteceu ha annos no Porto? Isto a proposito de +estatuas, de monumentos. + +Os proprietarios da fabrica de estamparia do Bolhão, n'aquella cidade, +tinham um grande culto pelo sr. D. Pedro V, de saudosa memoria. Pois +quando morreu D. Pedro V, a fabrica de estamparia do Bolhão, no Porto, +mandou erigir-lhe á sua custa um monumento. + +Uma familia de Braga, a familia Cunha Rebello, que tinha igualmente uma +grande veneração por aquelle monarca, mandou levantar-lhe um novo +monumento, sem que se lembrasse de recorrer ao estado, para que a +auxiliasse na realisação do seu emprehendimento. + +E ainda ultimamente, no Algarve, se levantou um monumento, creio que a +um medico illustre, por iniciativa particular. + +Eu entendo, sr. presidente, que precisamos pôr cobro a esta paixão pelos +centenarios e pelos monumentos, que já se vae tornando demasiadamente +extensa. + +Quer v. ex.ª saber o que acontece? + +Nós vamos ter centenarios por muitos annos. Até será facil organisar um +kalendario sob esse ponto de vista. Quer v. ex.ª ver? Eu peço a attenção +da camara... + +_Vozes_:--Ouçam, ouçam. + +_O Orador_:--Em 1885 teremos o setimo centenario de Affonso Henriques. + +Este vale bem uma festa nacional, creio eu. + +Em 1887 teremos o centenario de José Anastacio da Cunha, uma das +victimas mais illustres da inquisição em Portugal. + +Em 1892 temos o centenario de Luiz Antonio Verney, e é justo celebrar-se +o centenario d'este reformador litterario, tendo-se celebrado o do +marquez de Pombal, que o encarregou de negociações em Roma para a +abolição da companhia de Jesus. + +Em 1895 teremos o centenario de Martinho de Mello e Castro, que +coadjuvou as reformas de Pombal, a quem aliás não era affeiçoado. + +Em 1897 teremos o bicentenario do padre Antonio Vieira. + +Em 1915 teremos o quarto centenario de Affonso de Albuquerque. + +Em 1924 teremos o quarto centenario de Vasco da Gama. + +Em 1928 teremos o centenario de Brotero. + +Em 1931 o quinto centenario de D. Nuno Alvares Pereira. + +Em 1949 o terceiro centenario de João Pinto Ribeiro. + +Em 1954 teremos o centenario de Garrett. + +Em 1960 teremos o quinto centenario do infante D. Henrique. + +Em 1977 teremos o quarto centenario de Pedro Nunes, o celebre inventor +do _Nonio_. + +Em 1993 teremos o quinto centenario do infante D. Fernando. +(_Vozes_:--Muito bem). + +E assim por diante. + +Páro por aqui para não abusar da paciencia da camara, e mesmo porque da +continuação d'esta lista espero que algum dia se encarregarão os meus +netos ou os seus filhos... + +Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do 24 de julho e disse +que, se ha familias ainda maguadas pela memoria da administração do +marquez de Pombal, tambem o 24 de julho é uma festa que entristece +profundamente muitas familias portuguezas. + +Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D. Pedro IV, por uma +excepção historica, andou mais depressa do que o marquez de Pombal, +cumprindo tambem notar que a idéa que o 24 de julho significa recebeu já +a sancção official, porque está traduzida n'uma fórma de governo, e eu +não creio que um paiz conserve uma fórma de governo que inteiramente lhe +repugna. + +Não posso affirmar á camara se o dia 8 de maio irá ou não cobrir de luto +muitas familias; mas a prova de que as paixões estão ainda muito vivas e +accesas é que alguns dos conferentes, que se têem occupado do +assumpto do centenario do marquez de Pombal, têem ouvido, por entre o +ruido das ovações, corajosas demonstrações de desagrado. + +Faça-se a festa, em todo o caso, visto que o governo entende não se +dever oppor a ella nem deseja conservar-se indifferente, mas faça-se a +festa com ordem e com moderação. + +Estes creio eu que são os votos de toda a camara. + +Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha. Mas a estatua, se +não diminue, tambem não augmenta, a meu ver, a gloria do marquez de +Pombal, reformador dos estudos, protector das industrias e restaurador +de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas um acto de +deferencia do governo para com as letras, as industrias e a capital. + +O marquez de Pombal vive ainda na universidade de Coimbra, nas fabricas +da Covilhã, de Portalegre e em muitas outras; vive nos bellos +arruamentos uniformes da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que a +justiça se vá fazendo lentamente. + +Quando Sebastião José de Carvalho e Mello morreu, D. Francisco de Lemos, +que lhe compoz o epitaphio em latim, disse n'elle que a propria academia +lhe não quiz resar um _requiem_; hoje é a academia que lhe quer fazer um +triumpho, embora contestado ainda... + +Deixemos passar os seculos, e elles talvez façam o mais. + +Disse.» + +A minha passagem por S. Bento não vale chronica de maior folego. + +Rememorei o facto; e mais nada. Cerro por aqui o capitulo. Não tenho +pelo parlamento saudades nem desdens. Mas dos homens com quem lá convivi +e tratei mais intimamente conservo gratas recordações, e essas quero-as +deixar archivadas n'este livro. + +P. S. Voltei ao parlamento em abril de 1890, eleito por um circulo +do districto do Porto. Tambem d'esta vez não tive que sacrificar +carneiros para voltar. Mas que differença! Os homens são quasi todos os +mesmos de 1882, poucos a morte dizimou; mas os costumes politicos têem +peorado consideravelmente. Ouvi discursos que expludiam como bombas de +dinamite, e na tempestuosa sessão de 15 de setembro vi as opposições, +pondo de parte a eloquencia, levantarem conflictos de mãos e pés. É a +melhor maneira que eu encontro para dizer que houve vias de facto, e +pateada. Que differença! que differença! + +Decididamente, o maior inimigo do parlamentarismo é... o parlamento. + + * * * * * + + + + +VI + +Antonio Rodrigues Sampaio + + +O maior elogio de Sampaio está precisamente n'esta phrase que todos têem +repetido: «É um homem que faz falta.» Fazer falta, n'uma época em que +todos julgam servir para tudo, e uma glorificação. + +São a rodo os jornalistas e os politicos; em nenhum tempo houve tantos +como agora. Desde o artigo de fundo até á pasta vae augmentando todos os +dias o formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar para o +poder carregados, como as formigas, com o peculio do seu trabalho ou das +suas honras vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta +conflagração geral de pretensões e vaidades, os mais egoistas e os mais +vaidosos são os primeiros a confessar que Antonio Rodrigues Sampaio _faz +falta_. + +E assim é. + +Faz falta, porque era um homem superior, tinha o seu logar na imprensa e +na politica, chegou a elle sem pressa e sem impaciencia, não pisou +ninguem, não acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e +quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda a gente o esperava +lá, todos reconheciam que devia ahi chegar, e alguns, os mais justos, +estranhavam que não tivesse chegado mais cedo. + +Tendo um passado politico, foi ministro depois de o ter. No nosso paiz +isto é raro. Muitos escalam o poder pela trapeira; elle entrou pela +porta da rua, e da primeira vez que foi ministro (1870) não passou do +patamar da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, em lhe +dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava a dictadura, haveria +galgado os degraus quatro a quatro, para que se lhe não escapasse a +occasião de ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por +guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, poucos fariam o +que elle fez: pôr o chapeu na cabeça e sair. + +Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se no poder pela +dictadura. Mas de que modo elle havia luctado! Como um forte, um +valente, um athleta; os nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se +os medimos com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais gloriosa de +toda a sua vida. Com a sua penna e a sua coragem, elle só, deu que fazer +ao governo dos Cabraes. O ministerio empregava todos os meios ao seu +alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. Andavam +açulados os Argus da espionagem ministerial no empenho de farejar o +esconderijo de Sampaio, e, durante quasi um anno, esse jornal, tão +perseguido officialmente, apparecia em toda a parte, até dentro das +pastas dos ministros! + +Os revolucionarios de hoje seguem um caminho muito mais commodo: +mediante uma estampilha de dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas +victimas. + +Depois da perseguição, da caça ao jornalista por parte do governo, +vieram as tentativas de suborno. Sampaio repelliu-as nobremente. +Appellou-se para a provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em +duello. Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, quando o conde de +Thomar caiu, quando para Sampaio chegára a hora de receber a féria, +recusou ao ministerio Palmella todas as vantagens que este lhe propunha. +D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça de homens foi ha annos +sepultado no cemiterio dos Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua +glorificação: + +_Faz falta._ + +Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando de perto todas as +vaidades irritantes e todas as ambições irritadas, conhecendo bem o +mundo, atravessava-o com a serena philosophia do seu bom humor habitual, +por que o bom humor era n'elle uma philosophia. + +O marquez de Caraccioli chamava a isto _gaieté philosophique_, alegria +philosophica; pois seja. «Feliz o homem, diz elle, que contente com a +sua sorte e com o seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma +maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle os pesares como +tentações, e só procura os objectos consoladores. É por um tal sistema +de felicidade que se consegue resistir ás impertinencias e aos +soffrimentos, e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica a esse +contentamento da alma, que se não altera nem pelos remorsos, nem pelas +inquietações.» Os _espinhos do poder_! repetia muitas vezes Sampaio, +_isso é apenas uma metaphora_. E tinha razão, porque elle exercia o +cargo de ministro de estado com a mesma alegria philosophica, a mesma +honestidade tranquilla com que exercia todos os outros cargos. +Sentindo-se velho e pesado, apreciava sobremodo o poder andar de trem. +Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos da lenda, por +se ver obrigado a passar do trem para o _americano_. Dizia-o muitas +vezes, rindo. + +Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam rindo tambem. +_J'ai ri, me voilà désarmé._ Rindo, sabia perdoar. Ninguem o podia +tratar de perto sem ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos +homens haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava a +comprehender como esse velho placido e alegre, cheio de bonomia e de +serenidade, se transmudava de um momento para o outro no ardente +articulista da _Revolução de Setembro_, semeando ás vezes resentimentos +pessoaes que poderia ter evitado. + +De uma vez certo titular _vieille roche_ foi pedir-lhe um favor politico. + +--Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por aqui a pedir favores de +chapeu na mão. + +--Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio. + +Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia procurou Sampaio +para se oppôr ao despacho de um governador civil. + +Sampaio respondeu-lhe: + +--Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos; consinta ao menos +que o ministro do reino governe n'um. + +Eu, que acabava de passar tormentosamente pela vida administrativa, +combati algumas disposições do codigo de 1878 n'um capitulo do livro +intitulado _Viagens á roda do codigo admistrativo_. + +Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus apoiavam a minha +candidatura pelo circulo de Sinfães, Sampaio, consultado a esse +respeito, foi á sua bibliotheca buscar o livro e disse com bondosa +tranquillidade: + +--Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, mas eu não me +zangarei com elle por causa do circulo. Que venha á camara, e ficaremos +amigos como d'antes. + +A minha eleição foi causa indirecta da transferencia de um empregado. +Passados dias, estava eu já eleito, Sampaio mandou-me chamar pelo seu +_correio_. + +Fui immediatamente saber o que elle queria. + +--Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente Sampaio. + +--Por que? perguntei eu muito intrigado. + +--Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, que o elegeram, +mandaram de casa mudada um afilhado meu. + +--Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso. + +--Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que trate de remediar o mal que +está feito. Vá ter com o ministro F. e combine com elle o remedio. + +Assim fiz; assim se fez. + +Deve notar-se que Sampaio era então presidente do conselho de ministros. + +Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações, e a todas as +injurias. + +Pouco antes de morrer andava em discussão accesa com Eduardo Tavares, +que redigia então as _Instituições_. + +Certo dia as _Instituições_ chamaram a Sampaio _pedaço d'asno_, com +todas as lettras. + +No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio tambem responderia +a isto ou se deixaria de responder. Eu apostei que responderia. No dia +seguinte corri a ler a _Revolução de Setembro_. O artigo de Sampaio +principiava assim: «O homem das _Instituições_ chamava-nos hontem +_pedaço do seu todo_.» + +Soberbo! + +Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se forte na velhice. +_L'homme gai ne vieillit point, et paroit toujours se bien porter_, +observa o marquez de Caraccioli. Os artigos da _Revolução_ punham bem em +evidencia esta verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria +combatendo. E os seus profundos conhecimentos de latinidade traziam-lhe +á memoria e á mão, a maior parte das vezes, citações que elle +aproveitava habilmente para acerar a mordacidade com que sabia rir da má +situação em que deixava os adversarios politicos, ou em que elles +proprios se collocavam. + +Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito medico, _malgré +lui_. Mas nas suas mãos a dictadura foi uma arma completamente +inoffensiva; depois de cobrar os impostos partiu-a, atirou com ella para +o mesmo armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se em dictadura, +e ninguem dava por isso. O dictador Sampaio distraia-se ás noites no +Passeio Publico, e dizia como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui +estou para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo deixava-o estar. +Sabia que era um homem bom, e ninguem receia a dictadura de um homem bom. + + * * * * * + +No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse: «É preciso defender a +monarchia.» + +Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, deve ser recebida como +um evangelho. + +Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o cerebro, até no sonho +nos avassala. O delirio da febre deve ser alguma coisa de nebuloso e de +vago como o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa vida deve +enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, tanto mais apertadas +quanto mais o espirito lucta para desembaraçar-se e partir. + +Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario da realeza. A +monarchia havia saido ungida, sagrada do baptismo da liberdade. Sampaio +guerreava _à outrance_ o ministerio de 1846, porque entendia que esse +ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava a idéa de +liberdade que na Europa progressiva servira de base á reconstrucção +monarchica. + +Se depois do estabelecimento do regimen constitutional a monarchia se +desprestigiasse prematuramente, seria um sistema perdido, uma fórma de +governo apodrecida antes de amadurecer. Como adversario valoroso do +antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas raizes do absolutismo que +tinham ficado ainda arraigadas em derredor do throno constitucional. + +Depois da organisação regular dos partidos politicos, Sampaio foi sempre +um monarchico, e muitas vezes atiçava a lucta jornalistica entre esses +partidos, porque perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria as +fórmas de governo degeneram na tirannia ou na anarchia: ou uma só facção +dispõe de todos e de tudo, ou todos governam em tudo. Elle claramente +percebia que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação e de +estimulo na gerencia dos negocios publicos, e de correcção e +aperfeicoamento para o regimen estabelecido. + +Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, em interesse da +monarchia. Frequentando o paço, foi sempre um monarchico, nunca foi um +aulico. Para os monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de +conservar. Elle nunca o ultrapassou. + +Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo do conflicto pela +inversão violenta dos principios estabelecidos, pela postergação +desordeira dos direitos sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do +reino, e pela irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do +estado concede a todos e a cada um. + +Sampaio viveu muito; viu muito. + +Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora morria, era com essa +idéa que sonhava no delirio da febre: «É preciso defender a monarchia.» + +E é. + +Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente demarcados: +monarchicos a um lado, inimigos da monarchia a outro lado. + +Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são de sua inteira +responsabilidade: nada temos com isso. Empreguemos nós os nossos, +purifiquemos os nossos costumes politicos, procuremos fazer uma +administração rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á porfia +pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos as nossas escolas e as nossas +industrias, aproveitemos os serviços dos homens de boa vontade que nos +offerecem a sua cooperação, e veremos depois quem triumpha. + +Mas para que o consigamos é preciso não adormecer: _é preciso defender a +monarchia_. + + * * * * * + + + + +VII + +A livraria de Sampaio + + +Não ha nada que me entristeça tanto como assistir ao leilão de uma +livraria, e comtudo attraem-me sempre esses espectaculos que me são +dolorosos, e que se repetem em Lisboa quasi todos os dias. + +São ordinariamente duas as causas que determinam este genero de leilões: +a pobreza ou a morte. Qualquer d'ellas faz uma profunda impressão a +todos quantos estimam os livros, não para os revender com lucro, mas +para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem a um +leilão de livros com a indifferença profissional com que um medico +assiste a uma operação cirurgica, e um enfermeiro á agonia de um +moribundo. Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando na +giria do negocio o que se vae passando em torno d'elles, mas +acompanhando sempre, com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros +e os movimentos do leiloeiro. E para um lado: _Comprou bem_; para outro +lado: _Comprou mal_; ou, para um espectador que lhe diz:--_Quem +comprou bem foi o senhor_,--como se um livreiro pudesse comprar mal +algum dia: _Acredite que não ganho senão a encadernação._ + +Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi por muitos annos +talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo fallido ou fallecido. Não a +podia comprar por ser pouco vulgar no mercado ou muito elevado o seu +preço; mas pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a possuiam, +corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia muitos annos; fez +porventura um grande, um enorme sacrificio para a comprar, mas +finalmente achou-a, adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, +mostrava o seu thesouro com orgulho: _Veja lá isto! Que me diz a +isto?_--uma edição muito bem conservada, uma verdadeira preciosidade! + +Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este mundo, excepto +para os livros. A Victor Cousin emprestaram de uma vez um manuscripto de +Mallebranche. Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser +n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, o dono do +manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. Cousin recusou-se a +restituil-o. «Mas o manuscripto foi apenas emprestado, disse o +intermediario; o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu +Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha paixão.» Nós cá, em +Portugal, tambem temos bibliophilos d'este feitio, que se desculpam com +a sua paixão, e vão ficando com os livros dos outros. + +_Livre preté, livre perdu_, diz um proverbio francez. Os proverbios são +filhos da experiencia, e convém por isso respeital-os. Gifanius +respondeu uma vez a Gaspar Schopp, que lhe pedia emprestado um +manuscripto de Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É como se me +pedisse emprestada minha mulher!» + +Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, dia a dia, e a +que o proprio constructor não chega nunca a pôr a cupula. Por muito +longa que seja uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, +que se deixa sempre incompleta no momento em que a vida foge. Se essa +bibliotheca é de livros antigos, se é classica, por muito que o +bibliophilo investigue o passado, não consegue, á força de canceiras e +dispendios, reconstruir toda a litteratura dos seculos que o +antecederam. Ha sempre um thesouro encanado que elle não póde descobrir, +que não póde achar. Se é moderna, é tão precipitado, tão febril o +movimento litterario de nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o +ainda quando elle se não perdesse de vista um momento. + +Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora a hora, com uma +perseverança apaixonada, com um enthusiasmo sempre vivo, com uma fé +sempre nova, e muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, +desmoronado pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e que primeiro +despedaça o coração antes de derrubar a sua obra querida. Um dia vê-se +obrigado a vender os seus livros, a atirar--elle mesmo!--esses volumes, +tão amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias dos +livreiros--os gatos pingados da bibliographia--que fazem todos os +funeraes das livrarias com a mesma indifferenca com que os outros +arrancam os cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar na +voragem do cemiterio. + +«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das grandes desgraças da +vida? Vendei os vossos livros.» + +Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; não consentem +que ninguem lhes toque, muitos não querem que ninguem os veja. O cardeal +Passionei tomou para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e dava a +razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: portanto, faço-a +guardar por um eunuco.» + +Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus livros, a noticia +de todos esses thesouros misteriosos, a revelação de todo o segredo da +sua riqueza litteraria vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, +que se espalham de graça, com uma publicidade profana, e esses +proprios thesouros vão ser expostos a um publico de amadores e de +vendilhões, de interessados e de interesseiros, que caem famintamente +sobre elles, que os devoram com o olhar, que os disputam na praça, como +se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece ao publico, e se +vende a quem mais der. + +Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que alimentavam o fogo +sagrado do espirito. Com ellas ninguem communicava profanamente. Só o +sacerdote d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, +como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. Mas uma chusma de Clodios +ousados e sacrilegos invade o santuario, desacata-o, profana-o, commette +um sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se Messalinas, +offerecem-se do alto das estantes, com uma crua impudicicia mercantil, á +cupidez daquelles que não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um +capricho da sua phantasia. + +Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do seu dono, a +profanação é ainda maior--talvez! + +Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio Rodrigues de +Sampaio. + +Este homem que a posteridade não poderá esquecer, comquanto houvesse +nascido obscuro, chegára no seu paiz ás mais altas honras politicas, +fôra ministro varias vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente +do conselho de ministros. + +Á porta da sua casa--aquella mesma casa--ordinariamente fechada, batêra +muita gente, timidamente, respeitosamente, para solicitar de Sampaio um +favor. Todo o pretendente era introduzido por um criado na saleta, e ahi +esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, com o seu grande ar de +bonomia, o velho Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de +baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, e, +ordinariamente, não se fazia esperar muito. + +Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena porta á +esquerda: era a sua livraria. Estava ali sempre, quasi sempre, de dia. Á +noite, recebia os seus intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o +guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se guloso por bolos finos. + +Pois desde que o leilão começára, a porta da rua estava aberta de par em +par, escancarada, franca para todos os que passavam, e que subiam á +vontade, falando uns com os outros, rindo, não encontrando criado algum +que lhes tomasse o passo, não vendo em logar nenhum o correio do +ministro do reino, que por tantos annos fez estação n'aquelle +portal--ninguem, nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos +habitaram n'aquella casa. + +A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, arregaçadas; das +antigas alfaias apenas restava o candieiro de cristal. No sitio onde +estivera o piano, entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de +bibliophilos que esperavam o principio do leilão. Á porta do +escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a que os livreiros +abancaram. Enquadrada na porta, a ampla figura do pregoeiro, que mascava +um charuto, emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros que +primeiro haviam de ser postos em praça. + +N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que estava, para assim +dizer, impregnado da individualidade de Sampaio. Havia em tudo aquillo +um ar de terrivel devastação; parecia que o vento ardente do deserto +passára por ali resequindo o coração de quantos haviam conhecido +Sampaio. Sentia-se o simoun da morte que, ao passar, derrubara as +alfaias e os livros, muitos dos quaes estavam amontoados no chão... + +Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia o que ia comprar. +Esperava um pouco ao acaso que passasse por diante de si um livro bom; +por isso, quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam +sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em pé estendiam +curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo--ao menos. + +Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos seus livros. + +No leilão, vendeu-se um exemplar dos _Sophismas parlamentares_, de +Bentham, edição de 1840, prefaciada por Elias Regnault. Arrematei-o para +offerecel-o a Julio de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no +ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha traços sinuosos, +rapidamente lançados, denotando certamente que Sampaio estava lendo com +interesse e que, desejando marcar um pensamento original, não queria +retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do que com o lapis; +deixava apenas no papel um rapido signal indicativo para facilitar a busca. + +Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por Sampaio. + +No prefacio de Regnault estão marginados todos os que se referem ao +poderio politico da imprensa. Por exemplo: «Á imprensa pertence a +iniciativa; á camara, a sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a +realisação.» «Antigamente, as communas tinham um simples direito de +petição para obter a reparação dos aggravos, hoje, a imprensa é uma +petição perpetua.» + +No texto, estão sublinhados, além de outros, estes pensamentos de Bentham: + +«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na mesma situação, o que é +velho possue, por esse motivo, mais experiencia do que o novo. Mas entre +duas gerações, posto se chame velha á geração que precede outra, não se +póde sustentar que tenha mais experiencia do que a que lhe succede. + +«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as gerações primeiras, é +cair n'um erro tão grosseiro como o de chamar velho a uma creança de berço. + +«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados velhos? É a +sabedoria dos cabellos brancos? Não, é a sabedoria dos moços imberbes.» + +«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra a ninguem. Não se +encontra no caminho com os ambiciosos; e estes, mudando repentinamente +de linguagem, dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça e +benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito pelos mortos +fornece-lhes occasião de satisfazerem o seu odio pelos vivos.» + +«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram de vez os diabos, os +espectros e os vampiros. A agua benta fez-lhes muito menos mal que a +tinta de imprimir.» + +Ainda mais alguns aphorismos: + +«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato; um procedimento +insensato produz crueis desastres; d'esses desastres vem o mais util +ensinamento. + +«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não ao seu saber, que se +deve pedir conselho; e é por isso que os sophistas invocam sempre a +sabedoria dos velhos.» + +«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania é absurda; toda a +lei que a si mesma se declara irrevogavel, é perigosa.» + +«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não póde durar mais do que +essas circumstancias.» + +«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. Resisti, e Blackstone +vos condemnará; mas triumphae resistindo, e Blackstone vos adorará.» + +De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, um dos mais annotados +era com certeza a _Histoire des origines du gouvernement representatif +en Europe_, de Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, +sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, que não pude +entender. Mas as sublinhas a lapis são tão frequentes, sobretudo em +certas passagens, que chegam a tracejar toda a pagina. + +Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania: + +«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, é a sua theoria +de soberania; isto é, a maneira por que elle concebe, colloca, e +attribue o direito de dar e de fazer executar a lei na sociedade. + +«Ha duas grandes theorias de soberania. + +«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem sobre a terra, +qualquer que seja a força: povo, monarcha, ou principaes do povo. Outra +sustenta que a soberania de direito não póde existir na terra, e não +póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força terrestre que +conheça e queira inalteravelmente a verdade, a razão e a justiça, unicas +fontes da soberania de direito, que devem regular a soberania de facto. + +«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, seja qual fôr a +fórma de governo. A segunda combate o poder absoluto sob todas as +fórmas, e não reconhece em caso algum a sua legitimidade. + +«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente nos +diversos governos. Ao contrario, misturam-se n'uma certa medida, porque +não ha nada que seja completamente destituido de verdade nem +inteiramente isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra que predomina +em cada fórma de governo, e que póde ser considerada como seu principio. + +«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade radical de +todo o poder absoluto, quaesquer que sejam o seu nome e logar, é o +principio do governo representativo.» + +O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas por Sampaio é +altamente curioso como elemento critico para a caracterisação historica +do annotador. + +Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos apenas lançar no +papel as impressões que nos deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas +ahi ficam expostas com a sinceridade que sempre tivemos para com o +illustre jornalista, e que elle sempre teve para comnosco. + + * * * * * + + + + +VIII + +Saraiva de Carvalho[5] + + +O scenario era triste. + +A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma chuvinha miuda, como se +caisse de um crivo, parecia cristalisar em missangas na copa dos chapeus +de feltro, nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos cocheiros +das berlindas. Das arvores do cemiterio dos Prazeres, e da cimalha do +portico, escorriam gottas de agua como lagrimas. O Tejo, visto da +explanada, estava crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas revôltas +e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e concentrada, esperava. +Algumas senhoras erguiam os seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de +orvalho, que se desfaziam e renovavam a cada momento. + +Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo duas filas de padres, +cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas pela chuva, sem brilho e sem +consistencia. Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes de +Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, n'uma oscillação solemne, +através de um silencio lugubre. + +Nada mais triste do que o enterro de um homem novo, sobretudo quando +esse homem vivera pelo espirito nas luctas do talento. + +A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com effeito, o direito +cruel de matar. Ninguem lhe pergunta por que o fez. Reconhece-se que a +sua missão é extinguir e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se +revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias deixam após +si uma extensa chronica, cheia de opisodios, de alternativas, de +cambiantes e de anecdotas. Recordal-as, é desviar por momentos a +attenção para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir do facto +material do aniquilamento para o mundo pittoresco da imaginação, que se +compraz em reconstruir épocas passadas, em resuscitar homens que já não +existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os actores de +acontecimentos importantes na politica, na litteratura, nas sciencias, +nas artes, na industria, no commercio ou nos salões elegantes da sociedade. + +Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o espirito encontra n'esse +mesmo espectaculo motivos de sobejo para accusar a morte por ter +invadido os direitos da velhice e por haver, como um tigre, +surprehendido por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. Depois, +os que morrem novos deixam uma pequena biographia, por maior que haja +sido o seu talento e o seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as +attenções se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado bastante +longo para se demorar reconstruindo-o. De modo que, á força de olharmos +para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da +sua devastação prematura... + +Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e tres annos de idade, +foi tres vezes ministro. Não basta isto para o julgarmos velho na +politica, e para imaginarmos que elle tivesse concluido a sua missão de +homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o dizemos, o seu +periodo de verdadeira gloria começava apenas, e as suas qualidades de +estadista principiaram a definir-se durante o ultimo dos seus tres +ministerios, porque os dois primeiros foram mais uma contingencia da +politica do que uma conquista por direito. + +Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno periodo de nove dias, que +tantos foram aquelles em que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da +fazenda, quizessemos encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo +poder em 1869. + +Então, era Saraiva, como todos os homens da sua idade, um theorico, um +preleccionador, um inexperiente. Vinha do _Gremio Litterario_, onde +mostrára as suas aptidões intellectuaes, que eram já então +incontestaveis. Mas a intelligencia, por mais brilhante que seja, +precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito. É, pelo contrario, +nas intemperies, é nas mil conflagrações da atmosphera social, que elle +se robustece e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva +de Carvalho comprehendeu que precisava justificar no futuro a posição +honrosa que por nove dias occupára. 1869 era para elle um estimulo, e +uma responsabilidade. E como fosse tambem um homem brioso, deixou-se +dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu paiz que servia para mais +alguma coisa do que ser ministro por nove dias, e que o marquez de Sá da +Bandeira não fizera emergir nos conselhos da corôa um homem +completamente inutil. + +Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de Carvalho pôz toda a sua +energia e toda a sua intelligencia ao serviço d'este nobre pensamento: +não recuar. Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios +premiaram os seus esforços honrados e justos levando-o de novo ao poder +em 1870. + +A politica portugueza estava então n'um periodo agitado, que tornava +ephemera a vida dos ministerios, e as origens revolucionarias do +movimento popular de 1868 deram ás luctas da politica um caracter de +ardor e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente para +tornar friamente reflexiva a cabeça de um homem novo. + +Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa, Saraiva de Carvalho +conservou ainda por algum tempo todo o afôgo que a sua proveniencia +politica explicava, e a sua idade mal sabia reprimir. + +Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio d'essa coragem que +chega ás vezes a parecer precipitação, cheio d'esse ardor indomavel que +não raro se confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando mais +vehemente era nos seus discursos, e houve alguns em que o foi muito, os +seus proprios adversarios reconheciam que elle não usurpava o logar de +ninguem combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha já +conquistado o seu posto de honra, tinha ganho as suas esporas de +cavalleiro; não era um intruso, um adventicio; achava-se investido do +mais sagrado e do mais glorioso dos direitos--aquelle que o talento +confere. + +Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe todavia alguma coisa, a +evolução por que o espirito dos homens passa quando na arvore da sua +experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão para +colhel-o. + +E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo havia chegado +agora, definitivamente. Voltando ao poder em 1879, occupára-se dos +assumptos da pasta das obras publicas com uma attenção intelligente e +com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo do meu ponto de vista +politico, não posso concordar com alguns dos seus actos; mas não +posso deixar de reconhecer que o seu espirito havia passado por uma +transformação fructuosa e largamente promettedora. Como orador, +comprehendeu profundamente as exigencias da sua posição official, e +modificou-se notavelmente, sobretudo no discurso que como ministro +proferira na camara dos pares. + +Saindo novamente dos conselhos da corôa, não desmerecera por um só acto +ou por uma só phrase, até nas questões mais apaixonadas que se travaram +no parlamento, a opinião que em torno do seu nome principiára a +formar-se, de que seria um dos homens de estado mais notaveis, mais +estudiosos e mais trabalhadores do nosso paiz. + +N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou. Amigos e adversarios +protestaram, n'uma tregua lutuosa, contra a usurpação de uma existencia +cuja utilidade todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda, em verdade, +porque perdemos um homem, e deixamos de ter outro. Sempre que a obra de +um homem não está concluida, a sua perda equivale a duas: é um +trabalhador que se ausenta, e que não mais voltará. Faz portanto falta +ao presente e ao futuro. + + * * * * * + +Emquanto alguns oradores discursavam junto ao jazigo de Saraiva de +Carvalho, dizendo provavelmente coisas bellas, mas por certo muito menos +eloquentes do que a imponencia d'aquella grande manifestação funebre +feita por todos os partidos politicos militantes, eu pensava, um pouco +_bercé_ pela chuva que principiava a cair mais insistentemente sobre a +copa do meu chapeu n'um rithmo monotono. + +No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma illusão, talvez; e, +sob este ponto de vista, não podia achar vocabulo mais expressivo do que +o _bercer_ francez, visto que este verbo significa não só o acto +material de baloiçar o berço mas tambem o devanear falsas esperanças. + +Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu, bem podiam os partidos +politicos monarchico-liberaes sellar com um juramento sagrado um pacto +solemne. + +Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos do paiz andam a +insultar-se quotidianamente nas luctas politicas da imprensa e do +parlamento. + +Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se elles a si +proprios. Se se trata de um correligionario, exalçam-n'o ao +sete-estrello nas azas d'esse novo Icáro chamado o elogio-mutuo; se, +porém, se trata de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de +adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle até o deixar amolgado. + +Todos os recem-chegados á imprensa ou ao parlamento conhecem este +defeito da politica portugueza, e protestam candidamente contra elle. +Dias depois, o mangoal dos adversarios começa a escacar violentamente os +ovos de paschoa com que na primeira hora o receberam, e o mais doce +rebuçado com que lhe atiram vem sempre embrulhado n'um epitheto tão +amavel como _cretino_ ou tão gentil como _marinelo_. + +Algumas semanas depois, o diapasão vae subindo de intensidade, e o +sujeito apparece chrismado em _tolo_ com todas as lettras, sendo +maiuscula a primeira, para que se veja bem de longe. + +Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes a urticação da +colera, arranca a gravata com que entrára na arena, despe a sobrecasaca, +empunha o cacete do seu estilo, e principia a atirar bordoada de cego +sobre os contrarios, como um valentão de feira. + +E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador de pau, já umas +vezes por outras descarrega o fueiro sobre os seus proprios +amigos--por engano, é claro. + +Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes podem fazer-se +rapidamente por meio de um _cliché_ inalteravel; estão sempre feitos, e +o terem redactores é quasi um luxo. + +Referindo-se a um orador governamental, dizem as folhas opposicionistas +no dia seguinte: + + +«_É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. teve a ousadia de +despejar hontem em pleno parlamento. A verdade andou a pontapés pela +sala, e o orador parecia satisfeito de vêr que estava agradando ao +governo que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não pagar._» + + +Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo que está apreciando +um orador da opposição: + + +«_A comedia foi bem representada. Como truão, o orador é perfeito. +Fingiu-se indignado, bateu murros sobre a carteira, arremessou ao chão +varios papeis, e entornou pelas costas de um collega o copo de agua. No +fim de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, e lhe atira +com uma posta gorda._» + + +No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, uma pneumonia, um +tipho, uma apoplexia lembram-se de atirar para o cemiterio um homem da +opposição ou um homem do governo. + +A mutação de scena é completa, n'este caso. + +Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o morto, e quinze +tostões para o acompanhar ao cemiterio. Cada um empunha reverentemente +uma tocha para allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias +empunhava a penna para lhe denegrir a reputação. E quando o prior, +manejando o hissope, borrifa de agua benta o cadaver, não passa pelo +espirito de nenhum dos que ali estão--que lhe fizeram a mesma coisa +com tinta de escrever e lama das ruas. + +Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da berlinda, diz-se a +respeito de um ministerial fallecido: + +--Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario dedicado, e o +governo não teve coisa nenhuma que lhe désse! + +E a respeito de um opposicionista morto: + +--Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou um ministro para lhe +pedir qualquer coisa! Isto é raro hoje em dia... + +Dizia com graça um homem politico importante, que se achou de uma vez ás +portas da morte: + +--Estive tão mal, que já os periodicos começavam a dizer bem de mim! + +O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia calcular... + +No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada. Os ministros saem do +poder insultados e empenhados. Toda a gente deve. Todos padecem dôr de +colica no dia em que são obrigados a pagar a renda das casas. Os homens +mais poderosos na politica ficam arruinados com os direitos de uma +gran-cruz, e se teem duas já não podem desentalar-se mais. As +repartições de fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro +quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a maior parte das +familias do paiz ficava arruinada de um dia para o outro. + +São rarissimas em Portugal as pessoas que podem adormecer sem que uma +espada de Damocles impenda sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna +n'este paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita mais do que os +portuguezes, nenhum outro povo parece fazer maior gosto de passar por +deshonesto aos olhos de si mesmo. + +Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar por uma doce illusão. +Parece-me que ia dizendo isto... + +O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas, um dos seus homens +mais importantes e populares. Era o Sampaio da _Revolução_. Ninguem mais +apedrejado do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios. Esse +homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se uma enorme manifestação de +respeito. + +O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho, um dos seus +mais poderosos esteios. Tambem Saraiva foi muitas vezes aggredido na +imprensa, muitas vezes amesquinhado na sua importancia, que era grande. + +Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o vae consumir, +concorreram, n'uma concentração respeitosa, centenas de pessoas de todas +as parcialidades politicas. + +Pois bem. Ahi estão dois tumulos que encerram despojos preciosos para +qualquer dos dois partidos. Era talvez chegada a occasião de sobre elles +fazer um pacto solemne--o de entrar n'uma nova vida politica, de mutuo +respeito, e de mutua hostilidade. Para combater os principios, não é +preciso combater os homens. Deixemos á rua a lama que lhe pertence, e +dêmos a Cesar o que é de Cesar, sem que seja preciso darmos a Deus o que +é de Deus, isto é, um cadaver. + +Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer uma grande perda, +qualquer dos dois partidos chora um correligionario; ambos elles estão +de luto. Morto por morto, tumulo por tumulo, a dôr nivela as +circumstancias em que nos achamos. + +Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece que a Providencia +quiz tornar mais eloquente a sua lição fazendo que sobre o campo neutro +da morte, sobre o mesmo chão sagrado, regeneradores ajoelhassem deante +de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem perante um tumulo +regenerador. + +Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso poderia levantar-se +em honra dos dois mortos illustres. + +--Opporiamos programma a programma, tradição a tradição, doutrina a +doutrina, mas quando tentassemos oppôr invectiva a invectiva, injuria a +injuria, as flechas disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam +como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os projecteis vibrados do +campo regenerador achariam um óbice á sua passagem no tumulo de Saraiva +de Carvalho. + +Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor ou vencido, +porque a calumnia não existiria. + +N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria direitos: morto +por morto, tumulo por tumulo, as condições eram iguaes. + +......................................................................... + +Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prégar no deserto! + +Dezembro de 1882.[6] + + [5] Foi na camara de 1882 que eu, graças ao feliz acaso de ter + ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores + relações de amizade. + + [6] Ha 26 annos que no deserto clamou em vão a minha ingenuidade + politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos + tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de Portugal. + O que desde então até hoje 1908 se tem lido, ouvido e... + visto!--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + + IX + + + Fontes Pereira de Mello + +A morte vae a pouco e pouco derrubando os homens notaveis de que +primeiro ouvimos falar na sociedade do nosso tempo, os homens cujo nome +primeiro soou a nossos ouvidos desde a infancia. + +Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das lettras contemporaneas, +vimol-os fulgir e cair; o marechal Saldanha, esse bravo militar cujo +nome encheu o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de S. +Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho nobilitára até á +ultima grandeza social, vimol-o desapparecer da scena dos vivos; Anselmo +José Braamcamp, o successor do duque de Loulé na chefatura do partido +progressista, vimol-o passar para o cemiterio ha pouco mais de um anno, +e agora chegou a vez a Fontes Pereira de Mello, o grande, o eminente, o +priveligiado estadista, cujo nome, ainda antes da consagração da morte, +era já uma gloria nacional. + +É por emquanto cedo, e a nossa commoção muito profunda, para fazer +historia. Todavia eu não duvido affirmar desde já que, depois do marquez +de Pombal, não tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes +Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel predecessor. + +Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo produz um estadista +como o marquez de Pombal e como Fontes Pereira de Mello. + +Não são certamente dois reformadores da mesma indole, mas são, +indiscutivelmente, dois grandes reformadores. + +O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico, a industria nacional, +animou o commercio portuguez, e, depois do terremoto, refundiu Lisboa. + +Passára um seculo, e as circumstancias mudaram, como era natural que +acontecese. + +Portugal não fôra de novo experimentado, felizmente, por uma segunda +convulsão subterranea, mas um terremoto não menos perigoso e devastador +havia abalado a primeira metade d'este seculo: a guerra civil. + +Foi depois d'esta vibração social que Fontes Pereira de Mello appareceu +na scena politica com o movimento chamado da _regeneração_, palavra que +é ainda hoje a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira de +Mello fôra até á morte o chefe sempre respeitado e sempre querido. + +A industria e o commercio nacional estavam atrophiados; o credito +abalado pelas consequencias da guerra civil; as finanças desorganisadas; +os empregados do estado morriam á fome, porque o thesouro publico, que +devia remuneral-os, não tinha ceitil. Depois da guerra viera a +revolução, que é como o rescaldo de um grande incendio: á menor viração +que possa soprar, o incendio atea-se de novo. Era preciso apagar as +cinzas que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar a +administração publica na grande complexidade dos seus elementos +componentes. + +Pois bem, essa ardua missão coube a um homem novo, a um rapaz de pouco +mais de trinta annos, o desempenhal-a. + +O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens na guerra e para a +guerra, mostrou que tambem sabia conhecel-os na paz e para a paz. + +Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das nossas luctas +politicas que descobriu em Fontes Pereira de Mello a individualidade +poderosa de um estadista eminente. + +O marechal adivinhára que esse moço elegante, de maneiras distinctas, a +que a rainha D. Maria II chamava o seu «ministro janota», havia de +completar pela paz a obra que elle havia começado pela guerra. + +E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio da regeneração, +creando até expressamente para elle uma pasta, a das obras publicas, +pareceu dizer-lhe: + +--Um velho, que trabalhou para dar á sociedade portugueza a liberdade a +que ella tem direito, entrega a sua obra nas mãos de um homem novo para +que a consolide e complete. + +Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um vivo esse nobre legado, e +desde então, até á ultima hora da sua vida, não fez senão respeital-o e +cumpril-o. + +Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe a +existencia, trabalhou para enriquecer a patria, para desenvolver todas +as forças vitaes da nação, para fomentar todos os elementos de riqueza +publica, e esse homem, que não fez senão amontoar capital para os +outros, esse homem que enriqueceu o commercio e a industria da sua +terra, esse homem por cujas mãos passára a gerencia das receitas do +Estado cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com o nome que +recebêra de seus paes, e foi conduzido ao cemiterio não sob a purpura +dos principes, mas apenas com a bandeira portugueza por cobertura do +seu feretro. + +Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram a apotheose official +dos altos funccionarios publicos; foram mais do que isso, e melhor do +que isso, foram a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro +do meio da mais profunda commoção que póde ferir o coração de um paiz. + +A espontaneidade do sentimento nacional é a mais invejavel deificação +dos homens illustres. Fontes Pereira de Mello acaba de ter essa +deificação feita de lagrimas, essa grandiosa deificação que não se +recommenda, que não se aconselha, que não se ensina, mas que rebenta do +coração de todas as classes sociaes, como a lava rebenta da cratera de +um vulcão, e que explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento +ingenuo e sincero. + +Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo memorando, que +ficará para sempre gravado na memoria infantil dos nossos filhos, tão +imponente, tão grandioso elle foi. + +Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade portugueza +pelos elevados cargos que o seu merecimento pessoal lhe conquistára, não +vivia todos os dias com as classes inferiores, não era um homem que o +povo visse passar atraves da multidão nas ruas da capital. + +Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que nos olhos do povo. +Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica, +que por vezes procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de +Mello, o povo conservava por elle um grande culto de estima e respeito, +o povo comprehendia que aquelle homem trabalhava para a nação, não para +si, e, quando soube que o illustre estadista morrera, ficou gelado de +surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se, +respeitoso e triste, nas ruas por onde o feretro havia de passar, +affluiu, n'uma agglomeração enorme, ao cemiterio onde o cadaver de +Fontes Pereira de Mello repousa para todo o sempre. + +E o povo não se enganou pensando que esse preclaro estadista trabalhára +para o povo. + +Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro é para o povo que +trabalham. + +Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira de Mello mais +confiança no futuro, e se o povo se não enganava, tambem não se enganava +o estadista, porque o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do +campo, os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira e +da cultura. + +Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica a semear para +colher, a demolir o passado para construir o futuro. + +Elle bem sabia que, mortal como todos os outros homens, não teria tempo +de ver completamente sazonada a messe que tão desveladamente semeára e +cultivára. + +Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si, trabalhava para os +outros. + +E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho a sua propria saude. + +_Parar é morrer._ Eis o lemma glorioso da sua vida politica, eis a +divisa cavalheirosa de toda a sua carreira de estadista. + +Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza o movimento que +n'este momento historico a vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho +ás classes operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do +progresso. Os povos são como as machinas: o que é preciso é +imprimir-lhes movimento para que adquiram velocidade. Depois trabalham +por si mesmos. + +Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio dos Prazeres o +cadaver de Fontes Pereira de Mello não irromperam apenas dos labios dos +sacerdotes que tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. +Irromperam ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram de mil +boccas, eram articulados por mil gargantas differentes: saiam de todas +as fabricas, de todas as officinas, saiam dos teares e das locomotivas, +eram, n'uma palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro do que +ninguem e mais do que ninguem, fomentára em Portugal. + +Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver de um morto illustre. + + * * * * * + +Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui recebido em sua casa. + +Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. Fontes, de +casaca, viera ao meu encontro, dissera-me palavras amaveis. Perguntou-me +se eu gostava de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o +voltarete.--Mas gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, replicou +Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e vale a pena ir vel-o. + +Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me que fosse +fazer uma partida de voltarete com o visconde de N. e com o capitão de +mar e guerra M. Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com a +minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me aos dois +parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se. + +Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do preço. + +--Não sendo caro não diverte, disse o visconde de N. + +--Como quizerem, respondeu o capitão de mar e guerra M. + +Eu vi-me obrigado a obtemperar: + +--Estou ás ordens de v. exas. + +Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a cinco tostões, talha +de roda, duas talhas o que désse cartas. + +Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que sempre fui pobre, +vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro +libras incompletas--um acaso que eu reputaria feliz em qualquer outra +occasião. + +A preoccupação da situação embaraçosa em que me achava collocado +desorientou-me e afugentou a sorte. Quando se serviu o chá, havia +immensas remissas: as minhas deviam orçar por quarenta mil réis. + +Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri as salas, n'uma +grande excitação nervosa, á procura de um amigo. Encontrei-o, felizmente +para mim, e expuz-lhe o embaraço em que me encontrava, e que tivera por +origem uma confissão ingenua. + +--Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.[7] + +Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi hoje umas rendas. Nem +eu sei ao certo quanto é. + +Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando eu voltei á sala do +jogo. Continuamos jogando. A felicidade attrae o dinheiro, como o iman +attrae o aço. Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa do +meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas horas da madrugada, quando +os meus parceiros quizeram, levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis. +Nunca esta cifra me esqueceu. + +Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao largo do Rato, tomei +pela calçada do Salitre, pensando, como certo philosopho, que se a +eloquencia é de prata, o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito +aquella confissão ingenua de que jogava o voltarete... + +Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, dois _fadistas_ +parados. A calçada estava deserta. Um d'elles atravessou, de modo que eu +havia de passar entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para +mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que naturalmente vinha de +casa de Fontes. O homem ainda chegou a perguntar-me que horas eram, mas, +vendo a carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e pedi á +pessoa que ia dentro do trem que me permittisse tomar logar na +almofada.--Aqui dentro, aqui dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma +voz de homem. Agradeci, e subi para a almofada.. + +E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado o dinheiro alheio, +e o meu! Ah! que noite de torturas que essa foi! + +No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci á pessoa que ia +dentro do trem, a qual ainda hoje não sei quem fosse. + +Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se muito, e, ás +vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, pedia-me que reeditasse a +historia, a que achava graça. + + * * * * * + +De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento para um amigo meu. +Fil-o muito contrariado, por dever de amizade. + +Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a luneta, leu o +requerimento, e perguntou-me: + +--Tem muito empenho n'isto? + +--Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir um amigo sincero. + +Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me o papel, disse-me: + +--V. é um homem novo na politica. Permitta-me um conselho: Estes favores +são uma desgraça para a pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com +a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo d'elle, avise-o de +que se está infelicitando irremediavelmente. + + + Janeiro de 1887. + + [7] Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje + fallecido.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + +X + +Antonio Augusto de Aguiar + + +Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada tristeza, outras +vezes com vaga tristeza--que é talvez o estado mais doloroso da +alma--desejado a morte? + +Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas amarguras ou porque +sejam realmente grandes, todos nós temos mais ou menos pensado, com uma +certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema em que o corpo ha de +adormecer para sempre e a alma ha de partir para um mundo desconhecido, +que, por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto bem mais +tranquillo do que este... + +Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz que pareça, que não +tenha desejado a morte uma vez sequer. + +A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido de nós para os +outros, e que os outros dizem sempre que nós possuimos e elles não. + +Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se na terra. +Ave do azul, é no azul que passa ás vezes, mas tão alto, tão alto, que +se por um momento a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de +a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez deleitosa... + +Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora é ephemera, e o que +fica depois é a realidade triste das coisas terrenas, a lucta, a batalha +da vida, sangrenta e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para os +quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, ambicionado e querido. + +Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado a morte, quando ella +passa perto de nós para ir fazer uma victima, quando sentimos o frémito +das suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, quando o +seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu +caliginoso, faz-nos horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação e a +sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera de misterio e silencio... + +Por que não hei de eu dizer francamente que no combate da existencia, +n'esta lucta de todos os dias, cada manhã renovada, algumas vezes a idéa +da morte me tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade +dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de comprehender, porque todos +somos iguaes. Mas a verdade é tambem que ainda esta semana, segunda +feira, eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso que se +chama a Morte, e cuja obra de devastação parece assombrar tanto mais +quanto mais rapida é. + +Estavamos, não sei quantos--poucos eram--no club da Ericeira. Jogava-se +o voltarete n'uma tranquillidade paradisiaca, como poderia ser a do pae +Adão, antes do peccado, se o voltarete já então houvesse sido inventado, +e elle o estivesse jogando de quatro, com os seus tres filhos. Uma +senhora ou uma creança tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a +musica, com uma grande timidez de execução. O sol, alegre e bom, +entrava docemente pelas janellas, como poeira de oiro finamente coada +atraves de um crivo azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som +aspero do choque das bolas, ou de uma contada do taco sobre o pavimento. +De resto, o mar parecia ter-nos aqui prisioneiros n'uma região remota, +longe, muito longe de Lisboa--essa grande cidade ruidosa, que dizem ser +feita de marmore e de granito, e banhada por um bello rio portentoso, +mas de que nós, aqui na Ericeira, apenas conservavamos uma vaga +recordação... + +Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que tambem acumula a +funcção de sala de leitura, o carteiro da villa, com o boné em uma das +mãos, a mala de couro na outra. + +O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram para o carteiro. + +É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o interesse que se póde +ter em receber uma carta ou um jornal ainda que só esperemos banalidades. + +Era o correio que chegava. Iamos receber noticias de Lisboa, essa +longinqua cidade, de que apenas conservamos a vaga recordação de ser +construida de marmore e de granito e banhada por um bello rio magestoso. + +O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa de leitura: mólhadas +de jornaes--progressistas, regeneradores, republicanos--e algumas +cartas, poucas, sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma +verdadeira alluvião. + +E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo para um lado e para o +outro: + +--V. ex.ª hoje não tem nada. + +--Aqui estão os seus jornaes. + +--V. ex.ª tem só uma carta. + +--Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª + +Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala uma noticia +profundamente dolorosa e inesperada: + +--Morreu o Aguiar! + +--Quem? O que?! + +--Morreu o Aguiar! + +--O Antonio Augusto?! + +--Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo... + +E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente o jornal, +procurando os pormenores, lendo e dizendo: + +--De repente... de uma _angina pectoris_... ainda ante-hontem saiu... +bem disposto... tinha jantado no _restaurant Rosa Araujo_ com o Luciano +Cordeiro e com outro. + +Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento de tanta +surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos fulminados, assombrados, como se +Aguiar acabasse de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os jornaes +o referiam. + +Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima vez que lhe falára, +da boa disposição em que elle estava, do que dissera, do que contára. +Havia apenas quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o tinha +visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel aniquilar um homem de +valor em quinze dias. Todavia os jornaes que estavamos lendo eram +d'aquelle mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença de Aguiar +fôra rapidissima, apenas de duas ou tres horas, na madrugada de sabbado +para domingo. + +Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas do Club a noticia da +morte de Aguiar. Os jornaes passavam de mão em mão, qualquer novo +pormenor era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases soltas, +resumiam, no primeiro momento, a impressão geral: + +--Um homem serio... + +--Um homem de talento... + +--Um homem de saber... + +--Um bom caracter... + +--Um homem digno... + +Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo isso elle fôra, e todavia +quantas vezes o ridiculo, a calumnia, e tambem a troça, não saiu ao +encontro d'esse homem serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de +saber, d'esse bom caracter, d'esse homem digno?! + +Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes lh'o contestaram, +porque ha pessoas que parece quererem aggredir os vivos para terem que +humilhar-se deante dos mortos. + +Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado dar o seu a seu dono, a +Deus o que é de Deus, a César o que e de César. Qualquer que fosse a sua +posição politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma consideração e +o mesmo respeito. E de todas as suas qualidades a que eu achava que +tornava maior as outras era a serenidade com que elle recebia todos os +golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. Ainda poucos dias +antes de se fechar o parlamento, no momento de se commentar no corredor +da camara dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, se +deturpavam as palavras e os factos, elle dizia accendendo +tranquillamente o seu charuto: + +--Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica. + +Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito e da sua +consciencia, o bem-estar interior, a paz inalteravel de um caracter sem +manchas e sem remorsos. + +Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes que era vaidoso. +Não era, não. Era menos hipocrita do que os outros. Cada homem +representa uma somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se esquece +do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos sabem mais ou menos +quanto valem, mas ha homens que recuam para avançar e homens que +preferem ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem sem recuar. + +Eu gosto mais d'estes ultimos. + + + 1887. + + * * * * * + + + + +XI + +Mendes Leal + + +Dois escriptores da geração que nos precedeu não estão tendo desde já a +celebridade posthuma, que ás vezes começa para outros escriptores no +proprio dia dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes Leal. + +Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade litteraria, não +se dá o seu nome a qualquer instituição, a qualquer philarmonica ou club +de operarios em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido que +não appareça logo um gremio de classe, musical ou dançante, a +adoptar-lhe o nome. + +E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci pessoalmente, +foi o mais brilhante estilista que até então floresceu em Portugal. +Nunca ninguem antes d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão +rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão elegantemente colorida. + +Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as suas primicias +litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas foi o romance historico +_Ráusso por homizio_, publicado em 1842 na _Revista universal +Lisbonense_. Com razão dizia a _Revista_ referindo-se a este romance: +«Damol-o sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de seu +auctor:--que seria sacrilegio tocar, nem de leve, nas primicias que á +sua patria offerece um tal espirito--¡quem no acreditaria!--¡de vinte +annos!» + +Assombroso, em verdade. + +Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas meu patrono, tratei-o +particularmente, tive sobeja occasião de avaliar a vasta erudicção do +seu espirito e a fidalga grandeza do seu coração. + +Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, e n'ella bem +attentar, reconhecerá que poucas vezes póde um escriptor reunir em si +tantas e tão variadas aptidões como Mendes Leal. + +Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam pelas cumiadas da +epopea: hajam vista o _Pavilhão negro_, _Ave Cesar_, _Napoleão no Kremlin_. + +Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel continuador da obra +de Garrett. Tudo quanto escreveu para o theatro--e foi muito--póde ter +defeitos, mas affirma riqueza de imaginação, talento de _savoir faire_, +opulencia de linguagem. Percorram toda essa vasta galeria de producções +dramaticas, que vae desde os _Dois renegados_ até aos _Primeiros amores +de Bocage_, e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol, +engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás exigencias de cada genero +e de cada época. + +Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade tão +accentuada como dramaturgo, não deslisou comtudo um ápice dos seus bons +creditos de homem de lettras. + +Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com notavel seriedade de +espirito. + +Como orador politico, deixou discursos parlamentares que podem servir de +modelo aos que, dentro e fóra da camara, presam a lingua portugueza +através dos arrebatamentos da paixão partidaria. + +Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado a consagrar aos +negocios administrativos, aos negocios politicos, aos negocios +diplomaticos, e á vida de salão. Com uma organisação tão debil, com uma +tão embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de occupações e +distracções, ninguem seria capaz de trabalhar mais do que elle. + +Estive durante alguns annos em relação epistolar com Mendes Leal. Creio +que foi Castilho que recommendou á sua benevolencia de mestre as minhas +palidas estreias litterarias. Castilho tinha uma grande consideração por +Mendes Leal--a quem, na dedicatoria do primeiro livro das _Georgicas_, +divinamente traduzidas, chamou--_caro Leal, gloria da terra lusa_. + +Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, em missão +diplomatica. Só em 1882, vindo elle a Lisboa, o pude conhecer +pessoalmente. Visitei-o frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda, +conversamos largamente, e era encantadora a simplicidade bondosa do seu +trato. Mendes Leal dera-me provas de muita estima, tornando-se meu +dedicado amigo. + +Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades do mundo politico e do +mundo litterario, quasi todos os ministros estrangeiros acreditados em +Portugal, e grande numero de pessoas que mais lustravam em pompas de +_high life_. + +A ultima vez que me demorei conversando largo tempo com Mendes Leal foi +em dezembro d'esse mesmo anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho. + +O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de Santa Isabel até ao +cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal encontrou-me n'aquelle ondular de +pessoas de todas as classes sociaes, que foram prestar a derradeira +homenagem ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se ao meu braço. +Assim fomos conversando até ao cemiterio occidental no meio da +multidão immensa. + +Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado ao prelo, n'uma brochura +intitulada _Hommage aux lettres latines_, as suas ultimas composições +poeticas. Ahi se póde ver com que primor elle manejava a lingua +franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia envelhecendo e +pendendo á terra. + +A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata com este homem +superior, que tão poderosamente contribuiu para impulsionar os +progressos litterarios do seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da +Silva, e é caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que a opinião +publica passa por uma evolução demorada tanto para apreciar como para +depreciar um escriptor fallecido--especialmente para aprecial-o. Quanto +tempo não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria de Fernão +Mendes Pinto? E o proprio Camões teve que esperar trezentos annos por +uma apotheóse nacional. + +No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma honrosa, postoque +modesta, homenagem que lhe prestou a villa da Ericeira. Ha ali uma rua +com o seu nome. Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que elle +cantou em 1857 na poesia _Mare magnum_. A descripção das _furnas_, tão +bellas e tão agrestes, é de mão de mestre: + + Não vos lembraes?--Além do manso pego, + O mar, que vem do largo, e que não cessa, + Da vaga arquea a cuspide irritada, + E, com impeto cego, + Á insensata escalada + Dos immoveis penhascos se arremessa. + + Quem ha de commetter a louca empresa + De tentar a passagem tortuosa + Que alguma convulsão da natureza + Abriu sobre a voragem tenebrosa? + Do rolo immenso a curva ameaçadora + Investe, galga, apruma-se, desaba; + E quando o turbilhão que o ar devora, + Trovejando rebenta, + Parece que á tormenta + A terra não resiste e o mundo acaba. + + Pelas rugas da penha sacudida,-- + De niveos flocos inda guarnecida,-- + Depois que o mar bramindo atraz volvêra, + Um veio d'agua, rapido e sombrio, + Deslisa; qual em rude face austera + De um triste ancião, que a idade encanecêra, + O pranto corre em fio. + +Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas contra as _furnas_ +da Ericeira, recordará eternamente a verdade sublime, a hipotiposis +felicissima d'este notavel trecho de poesia descriptiva, e +simultaneamente o nome de Mendes Leal. + +O oceano vingará a ingratidão dos homens. + + * * * * * + + + + +XII + +Gonçalves Crespo + + +Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, deixei-me ir ao sabor +da saudade, pelo mar das recordações em fóra, até o encontrar nos +primeiros annos da sua vida, e da minha. + +Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual eu comprehendi melhor +que nunca toda a verdade e toda a philosophia que se encerram n'este +pensamento de Garrett: + + Saudade, gosto amargo de infelizes, + Delicioso pungir de acerbo espinho. + +Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, toda a observação +psichologica que essa bella antithese contém; comprehendi Garrett +n'esses dois admiraveis decassiliabos que já não esquecerão mais em +lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel quando chama á +saudade _um mal de que se gosta, e um bem que se padece_; comprehendi o +rei D. Duarte quando no _Leal conselheiro_ escreveu da saudade com +uns finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão d'esse +agridoce sentimento, que ao mesmo passo despedaça e mitiga o coração... + +Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho percorrido em poucos +annos. A saudade fizera reverdecer todas as recordações, aquecêra todas +as cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos a vida já +extincta, enflorei-me das minhas antigas esperanças, remocei com as +minhas illusões de outro tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado +era completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser o que tinha +sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, o sonho acabou, retrocedi +pelo caminho que imaginariamente percorrera, e pareceu-me atravessar um +deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e silencioso, onde +tudo jazia sepultado na mudez da morte--esperanças deliciosas e amigos +queridos, illusões que me fascinaram e pessoas que eu amei. + +Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda enorme, eu só encontro +a triste consolação de a recordar. + +Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo providencial. + +Assim é que os poetas a definem; assim é que eu a sinto agora--melhor +por certo do que nunca. + +Em verdade, as circumstancias em que me encontro, para escrever de +Gonçalves Crespo, são muito especiaes. Elle teve muitos amigos, e +merecia-os, mas as nossas relações vinham de longe, eram antigas na +proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando eramos apenas duas +creanças. + +Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, rodeado de antigos +amigos, quasi todos mortos já, apesar de moços. + +Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas mais ou menos +habituaes, que eu já historiei largamente no livro _Atravez do +passado_--o meu primeiro livro de saudades. + +Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com o criado da casa: o +Angelo, um gallego. + +Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha a linha elegante e +aristocratica. Mas desconcertava-se n'aquellas brigas nocturnas, gostava +d'ellas tanto como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada +o primor da sua _toilette_, quasi sempre irreprehensivel. + +Coisa notavel! Crespo não era então para nós um poeta: um elegante, sim. +Eu fazia versos de pé quebrado; Alfredo Leão lia chronicas e +romances[8]; mas Gonçalves Crespo _flanava_ a pretexto de +estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento +poetico com a publicação das _Miniaturas_. + +Houve um periodo em que me separei de Gonçalves Crespo;--quando foi para +Coimbra. Mas em quasi todas as ferias elle passava no Porto em direcção +a Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. Crespo +frequentava o _Café Portuense_, na Praça Nova, e continuava a ser um +elegante. Mas quando eu o via, sempre me perguntava pelo +Angelo--recordando as nossas façanhas anti-ibericas. + +Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação que recebi, +ainda antes de partir, foi de Gonçalves Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. +O que elle me dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel +era para mim. A amizade cegava-o. + +Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira pessoa que procurei ali +foi Gonçalves Crespo. Conheci então o seu celebre quarto da Couraça de +Lisboa, tão fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos _Homens e +letras_, e tão falado ainda na tradição academica. Crespo estava +adoentado, e não me pôde mostrar a cidade, mas encarregou d'essa +missão, a que elle chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente +está em Lisboa. + +Crespo dera-me _rendez-vous_ para a noite, na livraria do Melchiades. +Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que era já muito respeitado pela +academia. Laranjo tambem ahi estava. Demorámo-nos conversando de +litteratura, porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves +Crespo viera passar o serão comigo no _Hotel dos caminhos de ferro_, +onde eu estava hospedado. + +Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com o primor que elle +sabia dar á recitação. Burilador da phrase, um esmaltador do verso como +Gautier o fôra da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas as +bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril de artista. Tinha uma +inflexão especial para cada meandro das phantasiosas filigranas que a +sua musa tecia; de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua voz +contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava todas as côres +harmoniosas do verso. Miniaturisava com a voz como com o espirito. +Via-se o que elle dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como +poeta. + +Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de costumes brazileiros +sobretudo. Era tão primoroso, tão notavel nos quadros da vida americana, +tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me +afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse genero. Desculpava-se +allegando que o intimidavam as largas dimensões de um poema, e que se +sentia á vontade nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle +effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava como o aço ao +capricho da sua inspiração, e no soneto _Animal bravio_, offerecido a +mademoiselle Eugenia Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão +artistica do seu espirito: + + Preferiras um ramo caprichoso + De escolha rara e de um concerto fino, + Onde visses o cacto purpurino + E os nevados jasmins do Tormentoso. + + Em vez do ramo exotico e oloroso, + Casto recreio d'esse olhar divino, + Acceita, Eugenia, este animal felino, + Que o meu braço subjuga vigoroso. + + Tive artes de o amansar: eil-o sereno! + Acode a minha voz, e ao meu aceno + Como um jaguar a voz de um saltimbanco... + + Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto! + E á doce Eugenia, do sorriso honesto, + A fimbria oscule do vestido branco! + +Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção publica. Crespo +estava então em Lisboa. Certo dia recebi pelo correio um cartão de +visita seu, que conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello +soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos _Nocturnos_: + + ODOR DI FEMINA + + Era austero e sisudo; não havia + Frade mais exemplar n'esse convento; + No seu cavado rosto macilento + Um poema de lagrimas se lia. + + Uma vez que na extensa livraria + Folheava o triste um livro pardacento, + Viram-n'o desmaiar, cair do assento, + Convulso e torvo sobre a lagea fria. + + De que morrera o venerando frade? + Em vão busco as origens da verdade, + Ninguem m'a disse, explique-a quem puder. + + Consta que um bibliophilo comprára + O livro estranho e que, ao abril-o, achára + Uns dourados cabellos de mulher. + +Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha +biographia para o _Diario de Portugal_[9]. A sua antiga +amizade foi tão prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a +desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que +principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que +elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu +espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o +interesse de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente agradavel +e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter +honestissimo; a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão de +alguns e das injurias de poucos. + +Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrára na +adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica +e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, +porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonçalves Crespo +por qualquer divergencia de opinião, grave ou insignificante. + +O destino, porém, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada +vez mais os nossos velhos laços de amizade, acabara por ser enganador e +perfido. + +Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde deviamos trabalhar em +commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e tão +depressa promettera como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves +Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! elle, que tinha +finalmente chegado a uma situação, que lhe permittia viver inteiramente +tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da +sua vida. + +A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em +enfeixar esperanças para as despedaçar depois. A sorte havia dado a +Gonçalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna +d'elle pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios de +fortuna, considerações politica e honras litterarias, gloria, amigos e +admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que +entrasse na Terra da Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo +de transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o +cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o +sempre o coração da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de +todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta das _Miniaturas_ e dos +_Nocturnos_. + +Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse da abundancia do +coração. Outra coisa não fiz, nem de outra coisa curei. Emquanto +Gonçalves Crespo esteve baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel +das agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores dos +_Contos para os nossos filhos_, colleccionados e traduzidos por +Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem a Deus pela saude de um dos +traductores d'esse livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus +filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa do velho amigo +de seu pae. Não me restava portanto senão o triste desafogo de escrever +com lagrimas estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe +o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero do luto da minha alma. + + 1883. + + [8] ATRAVEZ DO PASSADO: _Na morte de um condiscipulo._ + + [9] Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o que aliás + duplica o valor d'esta especie bibliographica.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + +XIII + +Antonio Maria Pereira + + +Quando eu fazia parte da redacção do _Jornal do Porto_, onde recebia +apenas 500 réis diarios por o encargo de traduzir o noticiario +estrangeiro acumulado muitas vezes com o trabalho de rever as provas das +edições que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, vendia no seu +estabelecimento de livreiro, escrevi um dia, no apuro de augmentar a +escassa receita do meu orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria +Pereira, propondo-lhe a acquisição de um romance original. + +Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu vivamente. + +Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que +qualquer sorriso da boa-fortuna me parecia, por excepcional, irrealisavel. + +Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se não viessem +ordinariamente na idade em que o coração é forte e a imaginação exaltada?! + +O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha proposta, mas +dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. Offerecia-me o seu +prestimo como auxilio á minha vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. +Declarava concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse. + +Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se fazia dos editores +em geral. + +Balzac, nas _Illusões perdidas_, tinha deixado a ethopea do editor. Era +uma anatomia. Contavam-se dezenas de anecdotas que depunham em favor do +escalpelo de Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de poesias +por lhe achar _pouco peso_. O poeta respondêra que voltaria com os seus +versos copiados em papelão. O tempo dos Mecenas tinha passado, e os +editores não pareciam resolvidos a substituil-os. + +Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira como applicada +áquella época: «_Les lettres ménent à tout, à condition de les quitter._» + +Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. Arnaldo Gama vivia +com difficuldades. Evaristo Basto, o brilhante folhetinista portuense, +mendigára um logar publico. + +Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio de 500 réis por +dia, ás ambições litterarias dos novos. + +O que os estreantes queriam era sequer ao menos encontrar guarida na +imprensa periodica, esquecidos, ai d'elles! de que, como disse +Roqueplan, o jornal é uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois +forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o terem sido. + +Eu havia ido refugiar-me no _Jornal do Porto_, onde a vinda de Ramalho +Ortigão para Lisboa deixára aberta uma vaga. Confiei a essa vaga o meu +fragil batel, mas a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. +Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, financeiramente, a +uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram +difficeis, e hoje, ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e +a variedade de materias a que a concorrencia as obriga, têem posto o +livro pelas ruas da amargura. Os jornaes enxameam, pululam, +atropelam-se, esmagam-se. E no meio d'este conflicto de interesses +similares, o livro, como a cidade sitiada, espera, privado da sua +liberdade de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, tendo +morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. Gutenberg experimenta +a lei de Darwin. Dos trezentos novos jornaes que se publicam cada anno, +apenas 50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta bastam para +prolongar a crise que o livro vem atravessando ha dez annos a esta parte. + +O que não deixa de ser curioso é que, justamente no momento em que o +mercado mais falta ao livro, o publico exige, como está acontecendo, que +o trabalho tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante. + +De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado pela lettra +redonda dos jornaes, só se deixa tentar pela belleza dos chromos. Tudo o +que não seja isto, cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o +consumidor. Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, sempre +dispendiosas, das impressões de luxo. + +Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, +em que tambem era singela a _toilette_ dos livros, passaste á historia, +és uma recordadação apenas, nada mais! + +A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o encanto de uma surpresa +pelo que respeitava á difficuldade de encontrar um editor accessivel, +mas tambem a refulgencia de uma aurora polar que deixava cair, sobre a +minha longa noite de incertezas, um clarão doirado irradiando de +estipendio certo. + +Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do romance. Chamar-se-ia +_O testamento de sangue_. O _Jornal do Porto_ e o ensino livre +absorviam-me o dia; foi pois á noite, depois de um dia inteiro de +labutação litteraria, que eu tracei os primeiros capitulos +d'aquelle romance. + +O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com que eu entraria no +mercado lisbonense pela mão de um editor acreditado, fez que por mais de +uma vez, conversando com Cruz Coutinho e com os meus collegas de +redacção, alludisse ao _Testamento de sangue_. + +Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando no _Jornal do Porto_ +se deu o que eu chamarei uma crise de folhetim. Estavam ali sendo +publicados _Os dramas de Paris_, de Ponson du Terrail, arranjados sobre +uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se em Lisboa, de +modo que era preciso acudir á secção do folhetim com um romance que não +fosse tão longo que prejudicasse a sequencia dos _Dramas de Paris_, nem +tão breve que deixasse de preencher um compasso de espera. + +--Se o teu romance não estivesse destinado para Lisboa, poderia servir +para o jornal, dissera alguem. + +Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com uma insistencia, que me +deixou embaraçado. Allegavam que eu não tinha marcado prazo ao sr. +Pereira, nem estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois +publicar _O testamento de sangue_ no _Jornal do Porto_, e escrever outro +romance para Lisboa. Observei em primeiro logar que não tomaria +resolução alguma sem ter previamente consultado o sr. Antonio Maria +Pereira; em segundo logar, que estando apenas traçados os primeiros +capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, de escrever os +outros dia a dia, o que certamente obstava a um tal ou qual acuro que eu +queria dar á novella. + +Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. Pereira, e, para que o +romance pudesse ser retocado, comprometteu-se a publical-o em volume +depois de ter sido publicado em folhetim. + +Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me, na volta do +correio, que me editaria um livro, qualquer que fosse, e quando me +aprouvesse. A sua carta era gentilissima de amabilidade. + +Comecei então a escrever precipitadamente o romance, a fim de satisfazer +ao pesado encargo de um folhetim diario--encargo que eu acumulava com a +minha collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações +quotidianas. + +Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto de forças. +Morava eu então no predio n.º 456 da rua do Almada. Da minha janella +avistava-se a quinta do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se +eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de todos os dias. +Nem elle, nem eu paravamos nunca. + +No livro _Nervosos, lymphaticos e sanguineos_ deixei consignada, a pag. +86, uma recordação d'esse moinho com que eu tão irmanado estava--pelo +destino. Arranco-a, para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre +da Conceição, com quem eu sustentava polemica epistolar no _Jornal do +Porto_. + +«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para +reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa +que, como homem, me pertence,--o amor ao trabalho. Os meus amigos +conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda +quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem +fumegam as casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com que um +moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro com os seus quatro +braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas +nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores +que estão despertos, é o moinho e sou eu.» + +Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de trabalho importava. +Escrevi o romance dia a dia, e no mez de setembro, finda a publicação em +folhetim, revi-o, para sair em volume. O pequeno prologo que o +precede é de todo o ponto exacto quando explica a pressa com que o +_Testamento de sangue_ fôra escripto. + +No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois livros novos, _A Porta +do Paraiso_ e _Entre o caffe e o Cognac_. Tive então occasião de +conhecer pessoalmente o sr. Antonio Maria Pereira. + +Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta n.° 50, 52. Seriam duas +horas da tarde. Um calor abafadiço pesava sobre a cidade baixa. A loja, +que o filho e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar +alargando-a, tinha uma só porta e a _montre_. Sobre o balcão havia uma +grande agglomeração de livros e folhas impressas. Ao fundo da loja, de +pé a uma escrivaninha, estava um homem que, ouvindo perguntar pelo sr. +Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era elle. Á ilharga d'esta +escrivaninha havia outra em que trabalhava um homem de barba e cabello +preto: era o antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. Em +frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em que um rapaz, de +bigode, parecia tomar notas. Era o Francisco, o segundo caixeiro da +casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos +do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho. + +Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão cumprimentar-me. A +phisionomia um pouco arabe d'este editor era insinuante; e as suas +maneiras distinctas. Bigode e cabello grisalhos, com uns tons +luminosamente argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A face morena +e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia os labios, inspirava +confiança. Estava todo vestido de preto, e, na occasião em que entrei, +fumava charuto. + +Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me sentar n'um +d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras +haviamos ainda trocado, quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições +tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira. Era seu filho, o +actual editor[10]. Tempo antes, seguindo o exemplo paterno, havia +começado a trabalhar, emprehendendo a publicação de uma _Encyclopedia +litteraria_, para a qual tivera a amabilidade de solicitar a minha +collaboração. + +Escrevi ahi uns versos, _Virgens loiras_, cuja inspiração me parece hoje +bastante macrobia: vinte e tres annos pesam sobre elles, e as _Virgens_, +que devem estar decrepitas--como os versos. + +Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio +Maria Pereira relações de agradavel convivencia. + +Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos Caldas, perto do palacio +do marquez de Penafiel, onde por signal entrei no dia do leilão e +assisti ao desalfaiar d'aquellas opulentas salas, que deram brado em +Lisboa. + +Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso apêgo bairrista. Custa-me +realmente sair do meu bairro, tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras +que estou costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos habituaes +era limitado pelo Rocio, oude morava o meu editor Mattos Moreira, e a +loja do sr. Pereira, na rua Augusta. + +Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira, onde havia, quando +menos, dois cavaqueadores: o dono da casa e o bibliographo Innocencio. + +Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa n'esses serões +litterarios, que se prolongavam ordinariamente até ás dez horas, e ás +vezes até ás onze. + +O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois de jantar ao seu +estabelecimento, disposto a distrair o espirito na conversação de um +pequeno grupo de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a +essa hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio, elle +fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e apreciava muito essas +fugidas á sua labutação quotidiana. + +Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que eu conservo d'esse +illustrado editor, que prestou relevantes serviços ás lettras +portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje +fallecidos[11]--graças talvez, e não pareça isto desacerto, +á felicidade de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta da +gloria--editando-lhes os primeiros livros. + + [10] Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas do + exhaustivo trabalho quotidiano--a que elle chamava _a + vinagreira_.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + [11] Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, + Pinheiro Chagas, etc.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + +XIV + +Innocencio Francisco da Silva + + +Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas provas de estima +pessoal e de consideração litteraria. + +Foi elle que me propoz socio correspondente da Academia Real das +Sciencias. E fel-o espontaneamente, penhorando-me sobremodo. + +Mantive com Innocencio as melhores relações de amizade, inalteravel entre +nós dois até os ultimos dias da sua attribulada existencia. + +Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio não recebeu nunca +do estado os beneficios a que, pela improba canceira a que se dedicou, +tinha inquestionavel direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo entre a +funcção burocratica, que desempenhava no governo civil de Lisboa, e os +seus valiosissimos trabalhos bibliographicos. Nem todos os homens de +lettras lhe faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente +com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe foros de escriptor, +simplesmente pelo facto de não ser um estilista. Alguns +amesquinhavam o seu trabalho, que capitulavam desdenhosamente de _rol de +roupa suja de livros velhos_. Que revoltante injustiça! De mais a mais, +Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos livros, não dispunha de +meios bastantes para poder satisfazer todos os seus caprichos de +bibliophilo. + +Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom por vezes azedo e +irritado das suas apreciações litterarias, falando ou escrevendo. +Innocencio devia pouco ao mundo para o qual sempre havia trabalhado +dedicadamente. Tinha a consciencia de merecer mais do que lhe davam, e o +seu espirito justiceiro revoltava-se contra essa flagrante ingratidão. +D'elle é que com propriedade se poderia dizer que fôra um _vencido da +vida_. Viveu atormentadamente; e assim morreu. + +Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, que bello coração o +seu e, a sobredoirar a bondade do coração, que excellente caracter de +portuguez antigo! + +Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente +infantis. Passava rapidamente da indignação á bonomia, e então era +adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes +liberrima em facilidades de linguagem. + +Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. Não sabia enganar +nem fingir. O que era, era. Mas havia na sua alma, repito, um grande e +doce fundo de bondade antiga. + +A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida quintilha de Sá +de Miranda: + + Homem d'um só parecer, + D'um só rosto, uma só fé, + D'antes quebrar que torcer, + Elle tudo póde ser, + Mas de côrte homem não é. + +Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, receberia a +impressão de ter deante de si um velho militar rabujento,--um major +revoltado contra a sua reforma e a decadencia do exercito. + +Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão patriarchal, +de--digamol-o assim--bom humor tarimbeiro, ficava-se encantado de +ouvil-o e de tratal-o, porque a sua erudição fazia desculpar as demazias +de linguagem em que ás vezes caía. + +Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra que, depois da +_Bibliotheca Lusitana_ do abbade Barbosa, saiu dos prelos portuguezes. +Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas +escripturou com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente +conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados posteriormente á +publicação da _Bibliotheca Lusitana_. + +Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação, de buscas +mallogradas ou felizes, de sacrificios pecuniarios, de caminhadas +improductivas ou bem succedidas, de contrariedades vencidas ou +vencedoras representa o _Diccionario Bibliographico Portuguez_ até o +ponto em que o deixou publicado, e apparelhado para a continuação dos +restantes volumes do _Supplemento_! + +De mais a mais, a natureza da especialidade em que labutava não lhe +consentia uma hora de descanso. Tarefa interminavel, porque um +diccionario bibliographico não se completa nunca, arrastava-o a uma +aspera applicação ininterrupta. + +Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que, ao cabo de uma longa +viagem, avistam a terra desejada: _Emfim!_ + +O seu _emfim!_ devia ser a morte. + +Todos os dias, de toda a parte--graças á actividade febril dos prelos +nos ultimos vinte annos--recebia novos livros, que se iam empilhando em +camadas alterosas á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse +lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a um novo supplemento, +que decerto já não esperaria concluir. + +Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia do _Diccionario +Bibliographico Portuguez_, como subsidio para os nossos trabalhos +litterarios. Tem defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não +tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em relação ao seu +tempo, é pouco. + +Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não era um avarento, um +Harpagão egoista, que fechasse a sete chaves os seus livros e os seus +manuscriptos. Facultava uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui +obsequiado por elle com a copia de algumas poesias ineditas de Gabriel +Pereira de Castro, que me serviram para architectar sobre ellas o +conto--_Como as borboletas se queimam_--inserto no livro PORTUGAL DE +CABELLEIRA (1875). + +Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas em bibliomania. +Era natural que, entre elles, disputasse encarniçadamente a presa. Julio +Cesar Machado conta nas _Mil e uma historias_ o caso interessante de +Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se um ao outro, com o +fim de apanharem um livro raro, que ambos haviam lobrigado no Manuel +Rodrigues, do Pote das Almas. + +D'esta vez Innocencio ficou codilhado. + +A este ou outros desastres alludia elle certamente quando, escrevendo o +artigo _Bibliophilos e biblomaniacos_, na _Encyclopedia litteraria_, +publicada pelo sr. Antonio Maria Pereira (filho), dizia com visivel +azedume: + +«Na classe dos bibliomaniacos _improductivos_, que capricham em +accumular livros sobre livros, um conhecemos sobre todos digno de menção +especial. Fareja este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, as +lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que lhe escapem os +leilões e a classica _feira da ladra_, na diligencia de prover-se de +tudo o que nas diversas provincias da republica litteraria gosa de +algum apreço por merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade dos +livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, arte, litteratura, +prosa e verso, impressos ou manuscriptos em qualquer lingua, e de +qualquer tempo, tudo lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido +reunir copiosissima somma de volumes, e não sem grande dispendio, com +quanto seja de genio naturalmente acanhado, e de uma mesquinhez que toca +as raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel aos +vendedores que o têem por um caustico volante. Pois esta originalissima +creatura, cujo saber parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje +por suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo de vinte e +tantas linhas, servindo de explicação a uma reles lithographia, que +appareceu ha muitos annos em certo jornal artistico de Lisboa, de +ephemera duração!...» + +Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle era nas suas +horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, auctor de um vasto +repositorio bibliographico que a todos aproveitaria, comprehende-se e +desculpa-se o desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar +precioso, destinado a tornar-se improductivo para toda a gente, com +excepção, talvez, do seu feliz possuidor. + +Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um idolatra, um +fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da rua de S. Filippe Nery +abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E +os que não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a +publicação do _Diccionario_, com a riqueza dos thesouros acumulados por +Innocencio. + +O predio em que habitava--e que tem hoje uma lapide +commemorativa--estava completamente cheio de livros, de alto a baixo. +Innocencio e a sua pequena familia habitavam, os peores compartimentos +do predio, unicos disponiveis. + +Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu conheci Innocencio. +Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos relações de amizade +cordealissima. Innocencio falava sempre, fumando muito, e habitualmente +maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar para que se tornassem +mais fortes quando os reaccendesse. Em sua casa havia differentes caixas +atulhadas de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava +trabalhando. + +Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira para matal-o. +Innocencio morreu de um scirro na lingua, que o fez soffrer +terrivelmente. Não podia falar, não podia comer, não podia descansar com +dores atrocissimas. + +Que attribulada existencia, e que tormentosa morte! + +Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa e dolorosa agonia. +Despedaçava o coração vel-o soffrer. E--circumstancia que n'este momento +me está lembrando com viva saudade--foi com o seu collar de academico +que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda em honra do principe de +Galles. + +Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi. +_Innocencio._» Mas a sua lettra estava já inteiramente desfigurada. A +morte ia apagando lentamente todos os vestigios da sua viril +individualidade. Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio. + +Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, sempre trabalhada de +canceiras e desgostos, poderia dizer, pela primeira vez, «_Emfim!_» + + * * * * * + + + + +XV + +Tres actrizes + + +Vi no theatro de S. João do Porto representar a Manuela Rey, e +parece-me, se penso n'isso, que estou sonhando ainda uma doce illusão +meio sagrada, meio profana--a de ter visto passar no palco de um theatro +um cherubim de azas brancas e cabello loiro. + +Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica de actriz, a sua +historia vulgar no amor--como as outras. Mas vel-a era o mesmo que +divinisal-a, ouvil-a era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana. + +Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze +branco e de conduzil-a á beira de um lago para que as estrellas e os +lirios fossem testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito casto e +muito leve... + +Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. E todavia, acabado o +espectaculo, ella tinha um amante que a esperava e um _coupé_ que a +conduzia para um leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam +a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma. + +Vi-a representar no Porto a _Cora_ e recitar a _Stella matutina_, de +Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente a sua estreia ruidosa +com a _Visão dos tempos_. + +Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste harmonia, os versos do +poeta: + + Eu sou a filha d'Eva + Gerada em outro amor! + Caíndo a dôr me eleva... + Senhor, Senhor, Senhor! + +Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma lagrima tivesse voz, +vibraria exactamente na tremula modulação musical d'aquella garganta +divina, e que se n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa +mulher, destinada a + + ... servir de falla + Á dôr que emmudeceu + +seria personificada na formosura etherea e biblica de Manuela Rey. + +A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, vi representar no Porto +todo o seu velho repertorio, a _Joanna a doida_, a _Mulher que deita +cartas_, a _Medea_. + +Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar Sophocles e +Euripedes. A sua belleza decaía no esplendor de um occaso +magestoso--como o sol. Via-se, atraves da neve com que a velhice lhe +pulverisava os cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára +no seu corpo de marmore. A expressão tragica dos olhos, a riqueza +dramatica da voz, a amplidão esculptural do peito tinham-n'a fadado para +a scena antiga, onde as grandes paixões humanas, para expludirem +theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse vexado dentro de um +manto real, uma plastica talhada a cinzel n'um bloco de Paros. + +Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a da apotheose que os +estudantes do Porto realisaram no theatro Baquet, na noite de 26 de +fevereiro de 1863, em honra de Emilia das Neves e Sousa. + +Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte na festa senão +como espectador. Mas raro foi o estudante favorecido das musas que não +afinasse a lira para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente da +difficuldade que a minha familia teve em obter um camarote de segunda +ordem. Na platéa, os estudantes, empilhados como sardinha em tigela, +vozeavam applausos atroadores sempre que o himno da _linda Emilia_, como +ainda então se dizia, era executado pela orchestra. + +A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José Duarte, um poeta +que estudava medicina; compuzera a musica outro academico, João Baptista +Pires. + +Ahi vae a lettra do himno: + + O robusto leão da victoria + De teus pés lambe a terra em redor; + Tua vida é um archivo de gloria, + O teu nome um augusto esplendor. + + Para ti nunca findam as palmas, + Nem os bravos que fazem tremer; + E do ouro de lei d'estas almas + Só tu podes um throno fazer. + + Nós que vemos os lumes ardentes + Onde Deus escondel-os nos quiz, + Vimos hoje dizer-te frementes: + «És sublime, és sublime, ó actriz!» + + Arde o peito em delirio o mais puro, + Cada olhar ao teu nome reluz; + Has de ser immortal no futuro, + Que este fogo é baptismo de luz. + + Côro + + Para a fronte onde o genio rebenta + É pequena a corda dos reis; + Ha no mundo uma só que lhe assenta: + A corôa dos nobres laureis. + +Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, postos em pé +sobre as cadeiras ou pendurados dos camarotes de terceira ordem, +por onde ainda outro dia as chammas alastraram as suas linguas de fogo. + +Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, tão differente, +bem o póde dizer quem a viu, das ovações convencionaes que hoje se fazem +aos nossos artistas com applausos de amigos e _bouquets_ que se vão +buscar ao palco para tornar a atiral-os. + +N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas e flôres, abundancia +caudalosa, que a propria Emilia das Neves, habituada ás glorias da +scena, estava profundamente commovida. + +Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá meia duzia de versos +para um album ou para uma festa theatral. + +Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os melhores poetas da +Academia do Porto compuzeram em honra da _linda Emilia_ dois e tres +epinicios cada um e, não contentes com imprimil-os ou recital-os, +reproduziram-n'os no album da grande actriz. + +Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o himno, escreveu uns +alexandrinos que foram distribuidos, e outros alexandrinos que foram +recitados por Luiz de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina. + +Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito. Recitava +primorosamente. Vi-o ha poucos annos em Setubal, tomando cerveja á porta +do botequim do Lapido, melancolico e concentrado como sempre. Tive +vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe: «Lembra-se da noite +de 26 de fevereiro de 1863?» Se eu tivesse feito a pergunta, elle +haver-me-hia respondido decerto: «Se lembro!» Aquella festa de +estudantes ficou indelevel na memoria de quantos então o eram. + +Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram trabalhados por +Custodio Duarte sobre o modelo de Victor Hugo, que era então o mestre +favorito dos poetas novos. + +Darei uma pequena amostra: + + Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita! + Póde um peito conter oceanos de luz! + Ha um quê no coração, que, se um dia palpita, + Como o braço de Deus, cria mundos a flux... + + Feliz o que no berço abraça em sonhos vagos + Um phantasma de fogo e acorda pensativo! + Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos, + E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo... + + E então é tanto o ardor a incendiar a mente, + Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões; + Um descobre um Principio, um outro um Continente, + O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!... + +Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. Era ha poucos annos +professor de não sei quantas cadeiras na escola de Gôa. Depois esteve na +Africa occidental. Ultimamente regressou á metropole.[12] + +Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem estar já pulverisados +no seio da terra. + +Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir a quadra final que elle +compôz: + + Curvamo-nos tambem... É Deus que passa + Occulto nos monarchas do proscenio! + É o seu braço de luz que, em fogo, traça + N'aquellas sombras o caminho ao genio. + +Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano de valor, que disse: + + Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo, + Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas, + Sente, mas não traduz; + Mulher ou anjo, realidade ou sonho, + Teu genio admiro, como admiro o Etna! + O mar... a noite... a luz!... + +Emilia das Neves já estava então longe da sua florida mocidade, que +devia ter sido gloriosa de esculptural belleza. + +Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor quilate não duvidavam +chamar-lhe em 1863 _mulher ou anjo_. + +Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima peça, _O meia +azul_, n'uma decadencia pungitiva. A mulher luctava com a doença e com a +velhice: duas enfermidades. + +O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um esforço supremo de +declamação e caracterisação. + +E então passava nos meus ouvidos este verso de Ernesto Pinto de Almeida: + + Mulher ou anjo, realidade ou sonho... + +O que restava do sonho era apenas a realidade... + +Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, ourives da rua das +Flores. Um hipocondriaco fatalista e supersticioso. + +Este dissera a Emilia das Neves: + + Agora que aos teus pés, mais uma vez, + As rosas vem cobrir a tua estrada, + Acceita esta homenagem não comprada, + Mas filha do caracter portuguez! + +Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, mas o genio +dramatico de Emilia das Neves impunha-se de tal modo a admiração dos +poetas, que não vacillavam em tratal-a com maiusculas, como se se +estivessem dirigindo a uma verdadeira realeza. + +Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragedia _Judith_. +Soberba, n'esse papel, em que nunca mais tornei a vel-a. Recordo-me +nitidamente dos lances capitaes da peça, sobretudo d'aquelle em que ella +degolava Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli com barbas +de guerreiro. + +Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, o do Baquet teria +ardido n'aquella noite. + +Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi acompanhada a casa pela +estudantada n'uma especie de «marche aux flambeaus», que se improvisou +com mais enthusiasmo do que archotes. + +Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um dos _hoteis_ da +Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante a ovação, ao ar livre, e frio +como costuma ser o das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações +estavam quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam estentorosas +pela rua de Cima de Villa dentro e pela Calçada da Madeira abaixo. + +Emilia das Neves, abafada n'uma _capeline_ branca, recebia da janella do +_hotel_ as saudações, alvejando como uma visão de Ossian ou de +Macpherson; para o caso pouco importa. + +Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no couce da archotada, +assistiam gratuitamente a esse ultimo acto d'um espectaculo pago por bom +dinheiro. + +Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do himno: + + Para a fronte onde o genio rebenta + É pequena a corôa dos reis; + Ha no mundo uma só que lhe assenta: + A corôa dos nobres laureis. + +E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava muito o terceiro +verso d'esta quadra, segundo certa hermeneutica que passára despercebida +ao proprio auctor e aos ouvintes de boa fé. + +E eu era então um d'elles. + +Isto foi em 1863. + +Hoje... tudo são ruinas e cinzas: da _bella Emilia_, o alvo d'aquella +ovação; de alguns poetas que endeusaram a grande tragica portugueza em +versos de toda a especie; e até do theatro onde ella representou e elles +a cantaram. + +O tempo é um demolidor terrivel? + +Gertrudes... Gertrudes não sei de que--toda a gente dizia apenas a +_Gertrudes_--pertencia a essa raça privilegiada de mulheres fortes e +bellas, em que Emilia das Neves brilhou como o sol no meio do sistema +planetario. + +Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as +segundas; como mulher, o seu corpo branco e opulento, a sua carnação +sadia e válida, fazia pensar mais n'ella como mulher do que como actriz. + +E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar de _grande dame_, o seu +bello collo de alabastro que, na velhice e na doença, triumphavam na +scena de D. Maria, poucos mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada +pela morte. + +Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel mordacidade de +que dou noticia em mulher. Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e +dizia quasi sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos +bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava quasi todas as +noites um curso de psichologia theatral. Punha a nú os segredos mais ou +menos escandalosos, que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma +tesourava os anteparos de papelão, que armavam á credulidade ingenua do +publico. + +Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez +passar no theatro de D. Maria. + +Acabára de realisar-se em Paris a _première_ de _Mr. Alphonse_ de Dumas +Filho, e Santos, então á frente da empresa de D. Maria, encarregára-me +de traduzir a peça em tres dias. + +Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres as noites, e foi +justamente á noite que, passeando e fumando, ia ditando a traducção a um +amigo meu, que se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe. + +D. Maria pôde finalmente dar a peça--por tal signal que em beneficio de +Brazão. + +Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, encostei-me a uma +porta. Eu recebia, como todos os traductores, uma percentagem sobre os +bilhetes vendidos. Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me +esse facto, que redundava em proveito meu, e ia a sair da platea quando +inesperadamente ouvi a Gertrudes dizer em scena: + +--Vai-te d'aqui, meu estupor. + +Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, o publico riu +longamente, mas eu, fulminado, desesperado, corri á caixa, procurei por +todos os cantos a Gertrudes. + +Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava ainda em scena. + +Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu encontro. + +Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas que com ella +tinham estado em scena, disse-me: + +--Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas o caso é que agradou. + +Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; que eu podia +ser accusado, com apparente razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e +com mau gosto, o original de Dumas. + +E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante, tomando um +tom sentencioso, disse: + +--Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou? D'isto é que toda a +gente entende, e gosta. Perdoe o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao +publico. + +E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem. + +Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos no seu rosto. E +aquella forte e bella mulher, que parecia talhada, como Emilia das +Neves, pelo cinzel de um estatuario, expirou decerto poucos momentos +depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente morta.» + + [12] Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente + ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + +XVI + +Actores celebres + + +Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já alcachinado pela +terrivel doença que o matou. Soffria da spinal-medulla; estava perdido. +Vivia n'um pequeno _chalet_ alcandorado pittorescamente sobre a praia +dos Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por piedosa +convenção, o ar do mar. + +Marcolino era um actor comico de subido merecimento, muito estimado em +Lisboa. A doença afastou-o do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto +que o conheci, e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro: + + Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena; + mãe de sabios, de heroes, crime e virtude; + golfão de riso e dôr, que ora serena, + ora referve e escuma em sanha rude. + +Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar residencia em +Lisboa, mais attraido pelo seu movimento litterario e artistico do que +pelas magras sopas que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho. + +Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um _oiteiro_ no convento +de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes de hoje não sabem o que era um +_oiteiro_. Pois deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus +litterarios, que a tradição da extincta Arcadia conservou ainda por +muito tempo. O _oiteiro_ era o festival com que se celebrava a eleição +da abbadessa em cada convento. Durava tres dias e tres noites. N'outro +tempo, as freiras diziam das janellas para o pateo os motes que os +poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador de _oiteiros_. No meu +tempo, as coisas tinham mudado já. Havia recepção na _grade_ da +abbadessa. O feminino superior do convento sentava-se, dentro da grade, +em semicirculo, dando a presidencia á prelada recentemente eleita. Fóra +da _grade_ havia um piano, um bufete permanente, e o masculino preciso +para mundanisar a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. O +mote era ainda obrigado, mas não constituia o unico elemento essencial +da festa, como n'outros tempos. + +Foi n'esse _oiteiro_ que eu ouvi Marcolino recitar, não uma poesia +comica, como se poderia esperar do genero que elle tão distinctamente +cultivava no theatro, mas uma poesia lirica, _A borboleta_, de Thomaz +Ribeiro, que elle disse com um notavel primor de interpretação. + +Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda: + + Eu conheço-a! oh, se a conheço! + sempre volitando anciosa, + esbelta, fugaz, airosa, + esquiva, amante, esquecida, + eterno enygma na vida!... + Eu conheço-a! ah, se a conheço! + Estimo-a; estimal-a é grato; + quero entendel-a... endoideço! + +As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas +coristas, algumas d'ellas gentilissimas) ficaram encantadas de ouvil-o, +e nós, os homens, tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: +creio que foi a ultima da sua vida. + +Eram duas horas da noite quando saimos da _grade_, e eu lembro-me ainda +de que me despedi em verso n'um improviso de que apenas sei hoje as +ultimas rimas: + + Tenho esta noite glosado + Versos a esmo, a granel. + Consenti, minhas senhoras, + Que eu d'esta feita termine + E que a vossos pés se incline + Vosso servo: Pimentel. + +Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço. Mas que alegria, que +felicidade a minha n'aquella noite! Á saida, as gentilisimas +pensionistas vieram ainda despedir-se de nós á portaria. Uma d'ellas era +filha natural de um antigo conde do Minho; morreu pouco depois. Outra +era minha prima: quarenta annos e uns olhos, que não tinham mais de +vinte. Tambem já morreu. Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde +lembrar-se do _oiteiro_ de S. Bento, porque tambem lá esteve: o +escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com grande applauso da +assistencia, glosou um mote n'um soneto, façanha comparavel á de ter +mettido uma lança em Africa. + +Foi tambem no Porto que eu conheci o Santos _Pitorra_, como dizia toda a +gente, sem embargo de elle ser, pelo seu altissimo valor artistico, o +_grande Santos_. + +A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos era então um dos +empresarios, dera alguns espectaculos no Porto, eu frequentava os +espectaculos e os ensaios, o palco e o _foyer_, e escrevi por essa +occasião, julho de 1873, uns versos, que se intitulavam _Lirios_, e que +Emilia Adelaide recitára. + +Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia de memoria, +dezenas de versos, o que eu julguei, n'aquella occasião, um desastre +irremediavel. + +Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; mas, a breve +trecho, encontrei a explicação do facto. A memoria da actriz prejudicára +os versos; comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar +todas as faltas da actriz. + +Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas relações de amizade. +Lembro-me ainda com saudade de um jantar que tivemos os tres no _Hotel +Francfort_, onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente +conversado, assistiu tambem a actriz Amelia Vieira. Quando cheguei a +Lisboa, Santos deu-me um banquete romano na sua casa da rua do Amparo. +Estavam á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e Miguel Queriol. Foi +outra a actriz que assistiu a este festim: Emilia Letroublon, já então +louca, mordia por vezes as mãos dos convivas. + +Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor Santos, abro o pequeno +livro das suas memorias, que elle publicou já acorrentado ao leito da +morte como o Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão com +que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do sepulcro, dilacerado o +peito amante pelo abutre implacavel da saudade... + +N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja de sagrado como os +epitaphios, encontro uns versos meus escriptos para a noite do seu +beneficio no theatro de D. Maria em 16 de maio de 1874. + +Paro um momento a lel-os: + + Foi aqui--a historia o conta... + Que entre flôres, palmas, himnos, + Dos talentos peregrinos + Brilhou a constellação. + Era um loureiral a scena, + O theatro escola e templo, + Cada talento um exemplo, + Cada palavra--lição. + + Formoso e esplendido quadro! + As bellas frontes rasgadas + Resplandeciam banhadas + Em misterioso fulgor... + Grupo onde tudo era grande + Merecia moldura d'ouro, + Se tantas cordas de louro + Não o cingissem melhor. + + Foi o tempo devastando + As maravilhas da tela. + Onde a loira Manuela? + Onde Epiphanio, o pharol? + Onde Sargedas, a graça? + Onde Tasso e a sua gloria? + Mais quatro nomes na historia, + Mas não é posto inda o sol. + + Não é. O quadro tem vida. + Move-se, agita-se, fala + Remurmuram n'esta sala + Os eccos da sua voz... + Supponde muitas palmeiras + Rasgando do céu as brumas... + Quando o vento prostra algumas, + As outras não ficam sós. + + Dos velhos heroes da scena + Descem hoje sobre o espolio, + No theatro-Capitolio, + Flôres d'antiga ovação. + É que um talento robusto, + Honrando um nobre legado, + Resuscita hoje o passado, + Renova as flôres d'então. + + E a sua voz, que domina + Da ovação a anciedade, + É a voz da posteridade, + Que da scena aos velhos reis + Diz como um brado da historia: + «La vos honrei o legado; + «Se vos prostrou o passado, + «Não sois mortos. Reviveis...» + +E de todos estes versos, a que unicamente a saudade de José Carlos dos +Santos poderia dar segunda edição, ha um em que a minha attenção +particularmente se detém: + + Mas não é posto inda o sol. + +Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. O theatro de D. +Maria fazia lembrar n'esse tempo um vasto pantheon onde alvejavam as +urnas funerarias dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia das +Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice aniquilava-a. Já se não +contava com ella senão para relembrar-lhe a gloria. E n'esse venerando +cemiterio, onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, +Santos sacrificava em honra de tantos mortos illustres, sacerdote +solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as +palmas que elle proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do +velho theatro normal. + +Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo interposto a um dia de +victoria e a uma noite de decadencia. + +_Não era posto ainda o sol_, porque elle era a luz crepuscular; não +estava inteiramente deserto o templo, porque Santos o povoava ainda. + +Mas não havia outro laço vivo a prender o passado ao presente senão elle. + +Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; +Taborda principiava a retirar-se. + +Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada que ia render-se. + +Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. Cegára tão rapidamente +como se fechasse os olhos para dormir. E ao cair no seu posto de honra, +similhante ao soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára que +elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira da eternidade... + +Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: appareceu cego +no palco tres vezes, uma no theatro de S. Carlos, outra no theatro do +Principe Real, a terceira no theatro da Trindade. + +Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a alma confrangia-se sob +as azas negras da cegueira. Era uma sombra que falava, uma realeza +condemnada como a de Luiz XVI--que tantas vezes reproduzira--passando +através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos cortezãos, mas +insultada já pelos estragos da doença. + +Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, porque os actores +morrem no dia em que são obrigados a abandonar o theatro. + +A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice. Cedia a uma revolução, +ainda como Luiz Capeto, a revolução das trevas contra a luz. A cegueira, +como um _sans-culotte_ implacavel, arrastava-o para o _Temple_, as +quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, a doença, viria todos os +dias annunciar-lhe a morte. N'esse angustioso despedaçar do corpo, +ouvindo a voz do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma vez +repetiria por certo a phrase notavel que Paulo Giacometti puzera na +bocca de Luiz XVI: _Ah! a natureza humana não tem força para mais!_ + +O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença era irrevogavel. O +condemnado sentira levantar os ferrolhos do _Temple_: era a sua familia +que entrava para trocar com elle as effusões da ultima despedida. +Despedida incomportavel! que devia durar cinco mezes, sem que os braços +do amor pudessem afrouxar de tensão n'aquelle longo abraço, que era o +derradeiro. + +A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz commoveu-se. +Tamanha era a magestade d'aquella realeza de infortunio! + +Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença havia de +cumprir-se. O condemnado offereceu a sua cabeça ao sacrificio, e uma +familia coberta de luto fôra regando de lagrimas, religiosamente, a +via dolorosa por onde esse rei da scena era arrastado á tortura. + +Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando de uma familia +orphanada, o theatro portuguez soluçava n'um luto irremediavel, n'uma +viuvez amarissima. + +Era o Delphim que pranteava a morte do rei... + +......................................................................... + +Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: o Izidoro, o +Theodorico, e o Rosa pae. + +Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer _partidas_: algumas +conta elle proprio nas suas _Memorias_. Como actor comico, mereceu a +celebridade que teve. Quando cantava com Taborda o _duetto_ de _Moysés_, +ou representava os _Dois candidatos_ e _Para as eleições_, era da gente +rebentar a rir. + +Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, estava doente, +triste, muito velho. A troça indigena mettia a ridiculo a sua declamação +emphatica, um pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente um +defeito de escola, mas, em compensação, todos os artistas do seu tempo, +incluindo elle proprio, sabiam representar. Muito escrupuloso, muito +correcto, só tinha, para a nossa época, o defeito de haver envelhecido. + +No trato particular, um perfeito cavalheiro. + +Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, dava todas as manhãs o +seu passeio no Rocio, sentava-se a descansar n'um ou n'outro banco e, se +a gente o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que pretendia +então um logar na alfandega. + +Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como em Lisboa, o Rosa pae. +No Porto, ouvi-o recitar o episodio do _Adamastor_, de Camões, e o +_Firmamento_, de Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma _reprise_ do +_Marquez de lá Seiglière_, que foi o seu cavallo de batalha. + +Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange de actores antigos +capazes de investirem com a tragedia e com a epopea. Mas possuia, como +Theodorico, os defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos tres, +de que tenho falado, o mais _poseur_: toda a gente se lembra ainda de o +ver passear nas ruas de Lisboa com um grande chapeu desabado e o +sobretudo alvadio ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a até +fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo botas. + +Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros actores notaveis + + * * * * * + +Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O celebre alfaiate Humann +dizia a respeito de Gavarni: «Não ha senão um homem que saiba desenhar +uma casaca: é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, com igual +justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão um homem que saiba vestir +uma casaca: é o Tasso.» + +A sua dicção, um pouco _saccadée_, era cristallina, sonora. Ainda não +ouvi no theatro quem dissesse melhor do que elle. E decerto não tornarei +a ver quem soubesse estar melhor em scena. + +Vi o Sargedas no _Gaiato de Lisboa_, no theatro de S. João, do Porto. +Era dos bons, antigos. Apesar de velho, fazia o _Gaiato_ como se +estivesse ainda em idade de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham +da velhice, só os consegue o talento. + +Antonio Pedro é um morto de outro dia. + +Fóra do theatro, a sua _gaucherie_ passava em proverbio. No theatro era +um grande actor por intuição, tropeçando por vezes em pequenas +difficuldades de prosodia, simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua +assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo palco, os que +estudavam mais do que elle e lhe censuravam a ignorancia manifesta +em questões de arte dramatica. + +Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma modestia phenomenal, +aos que o elogiavam: «Isto calhou assim.» Esta phrase, tantas vezes dita +por elle proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua +organisação artistica. + + * * * * * + +Com o Tasso convivi durante uma _tournée_, no Porto; com Sargedas nunca +tratei pessoalmente. Rectifico assim uma inexactidão que só agora notei +na 1.ª edição d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer +diabrura tipographica. + +Já isso vai ha tanto tempo! + + * * * * * + + + + +XVII + +Pintores + + +No verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra como vogal da +commissão de exames de instrucção secundaria. + +Coimbra, a _terra de encantos_, só então me pareceu tel-os, porque da +primeira vez que a visitei, durante um dia triste e chuvoso, cheio de +incertezas para mim, a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco +agradavel. + +Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes verdejavam as suas +galas roçagantes, o Mondego, manso e humilde, amenisava bucolicamente a +paizagem, toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por entre os +sinceiraes e as suaves quebradas dos montes. + +Uma delicia! + +De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, arduo sempre, e por +vezes doloroso como é. Mas de tarde eu desforrava-me passeando no +Choupal, na Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego. + +A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores do Porto, de +Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos uns aos outros nos passeios de +todas as tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem +estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar sósinho: era +o pintor Christino, que fazia parte do juri de desenho. + +Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, e, recostado na +prôa do barco, parecia gosar n'um extasi pantheista o bello espectaculo +da natureza que o rodeava. + +Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas d'aquella clara +paizagem, lucida e placida como uma vista de stereoscopo. + +Pois que o pintor Christino tinha a configuração de um eucalipto, alto e +magro, nós, que da Ponte o ficavamos observando, podiamos distinguir, +até grande distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, que +destacavam á prôa do barco. + +Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem do poente que a sua +cabeça descoberta, e mal guarnecida de cabello, pendia scismadora. +Comprehendia-se. Christino reunia mentalmente á belleza do panorama as +tradições romanticas, as memorias lendarias d'aquella margem. D'esse +lado ficava a _Fonte dos amores_ emboscada saudosamente na sombra de +corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a elegia dos +mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, á distancia de dois +kilometros da cidade, a _Lapa dos esteios_, «retiro selvatico sem +aspereza, e como enfeitado sem arte», segundo a phrase de Castilho, +recordava os tempos semi-pagãos em que o poeta da _Primavera_ e os seus +amigos ali foram, em plena mocidade, celebrar, no seio da natureza, a +festa do equinoxio que traz as flores e os canticos, os perfumes e os +amores. + +Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, tinha uma +alma de artista, era uma organisação delicada como a de Raphael, +que se devorava nas suas proprias impressões, e ninguem mais +profundamente do que elle poderia sentir toda a poesia d'essa região +encantada, que o Mondego banha, e que as recordações e as arvores povoam. + +Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se uma gondola de +Veneza o fosse passeando no canal do Lido ao som da barcarola de uma +gondoleira. _Ó dolce voluttá_! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos +artistas! Que doces horas aquellas que o Christino passou no Mondego +sonhando sobre as aguas! + +Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou abençoando do alto +da Ponte como se elle levantasse ferro para uma longa viagem aventurosa +e arriscada. É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto a +gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios ao acaso, que +desgastam a alma, e com ella a vida. Volta-se velho, como se realmente +se tivesse feito uma longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se +envelhece ao cabo de algumas horas de concentração. + +Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes tornei a avistar-me com +o pintor Christino. + +Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra morrêra, e ouvi dizer +que a luz da sua razão tinha empallidecido primeiro que a dos olhos... + +Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles sonhos do Mondego, tão +a miude repetidos, e tão docemente devoradores!... + +Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista notavel. +Encontrava-o muitas tardes na alameda de S. Pedro de Alcantara +passeando, quasi sempre só. Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces +morenas, olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado, era +comtudo facil e agradavel. + +Amador da natureza, ia procural-a no panorama que d'aquella alameda se +descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo +artistico de que os pintores que copiam do natural precisam +impregnar-se. + +Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por S. Pedro de +Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. Os olhos conservavam o +seu brilho agareno. Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por +vinte e quatro horas. + +No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação havia morrido +repentinamente. + +E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, o panorama +oriental da cidade parecia provocar, na sua belleza tranquilla, a paleta +de um pintor. + +Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que, sendo eterna a +natureza, o homem, o mais perfeito dos seus organismos, seja quasi um +ephemero!... + +Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente nem com o Christino nem +com o Annunciação. Os cabellos branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia +era aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, parecia +vender saude. + +Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, n'uma _soirée_ litteraria +que o visconde de Castilho (Julio) déra na sua casa da rua de S. João da +Matta em honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio. + +Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem augmentaram de +intimidade. Mas eu gostava de encontral-o porque elle, que era um +trabalhador, tinha alegria, e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom +de convicção dava-me estimulo. + +Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar na rua um homem que +se mostra desanimado por ser obrigado a trabalhar... + + * * * * * + + + + +XVIII + +Um grupo de academicos + + +Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet--_Trente ans de +Paris_--lembrei-me muito de Teixeira de Vasconcellos ao percorrer o +capitulo que fala de Villemessant. + +O livro (collecção Guillaume & Cie. ) é illustrado, e até o retrato de +Villemessant denuncia um homem robusto, nutrido, como era Teixeira de +Vasconcellos. + +Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. Encontrei-me +varias vezes com elle nas _soirées_ politicas de Fontes Pereira de +Mello. Visitei-o outras vezes em sua casa, graças á benevolencia com que +desde o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem de mundo, +um _gentleman_, espirituoso, algum tanto mordaz. Contavam-se a seu +respeito anecdotas escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que +mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia. + +Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer parte da redacção +do _Jornal da Noite_. Eu precisava trabalhar: acceitei. A +benevolencia, que elle sempre me tinha dispensado, fazia-me acalentar a +esperança de que o _gentleman_ das salas havia de continuar a ser +affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. Mas, dentro da +redacção, Teixeira de Vasconcellos era, pelo menos, um pouco +Villemessant: auctoritario, por vezes brusco, um homem muito differente, +tomando sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de dono de +jornal. + +Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem razão para queixar-me. + +Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o dono do jornal +desapparecia completamente. Teixeira de Vasconcellos voltava a ser, para +o desertor do seu jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador. + +As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, rasgavam-se. E Teixeira +de Vasconcellos recebia cordealissimamente os homens com quem, no trato +familiar de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas. + +Foi o que aconteceu comigo. + +Depois que sai da redacção do _Jornal da Noite_ vivemos deliciosamente. +Se escrevia a meu respeito, fazia-o com extrema amabilidade. Se eu o +visitava, acolhia-me gentilissimamente. E algumas vezes, na minha +presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, como eu havia +soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant para os outros, voltava-se +para mim sorrindo e continuando a conversar placidamente. + +Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que foi atacado, e +assombrava-me o bom humor, sempre um pouco mordaz, só intermittente para +os de portas a dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo. + +Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, mandou-me um pequeno +artigo, que eu lhe havia pedido para uma publicação do editor Chardron e +que, não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio +d'aquelle editor. + +Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior valia. Pena é +conservar-se inedito. + +Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, mas o seu lucido +espirito colheu e aproveitou as lições da experiencia. + +Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle me deu: + +--Se receber um livro mau, cale-se; se receber um livro bom, elogie-o. + +Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando o não sigo, arrependo-me. + +Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. Passou metade da +sua vida a estudar e outra metade a brigar. Quando entrei na Academia, +estava ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que elle lá +tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto e d'aquillo. Sem +embargo, e talvez por isso mesmo, Soromenho prestou bons serviços á +Academia, de que fôra bibliothecario durante muitos annos. + +É frequentissimo compulsar um livro qualquer da Bibliotheca de Jesus e +encontrar dentro d'elle uma etiqueta que diz: «_Adquirido pelo +bibliothecario A. Soromenho para preencher a falta do exemplar da +livraria._» + +Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para mostrar quanto +Soromenho se dedicára pela causa da Academia. + +Eu, que desde alguns annos converso mais os livros que os socios da +Academia, lucrei sobremodo com a passagem de Soromenho pela bibliotheca +d'aquelle estabelecimento, que ás vezes parece mais morto que vivo. + +Não conheci nunca, no trato particular que tive com Soromenho, a +irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. Queixava-se, é certo, +mas não se queixava mais nem menos do que todos quantos julgavam ter +razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade de homens do +mesmo officio sem razões de queixa. Peor do que uma sociedade de +homens do mesmo officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma +profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou não inteiramente +verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao +imperador de Marrocos, que têem serralho. + +O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho foi um grande, um ardente +desejo de estudar e saber. Elle defrontava-se corajosamente com todos os +assumptos, por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente de +uma posição obscura, e litterariamente do lirismo romantico. Entrou no +mundo das lettras com um livro de versos, o _Diwan_. Mas á força de +trabalho e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu +com as mais intrincadas questões de philologia, de historia, de +epigraphia e de direito. E conseguindo, por um grande esforço de +naufrago, emergir á superficie do mundo litterario, como professor e +academico, certamente teria que combater e que soffrer, porque ninguem +vence os outros sem ficar vencido de si proprio... + +Apesar de robusto--Soromenho era um homem forte, com uma phisionomia +algum tanto arabe--morreu relativamente novo. + +A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria no Porto. Elle +tinha ido áquella cidade como examinador de não sei que disciplina de +instrucção secundaria; eu fui de Lisboa visitar a minha familia. +Conversámos toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, coisas da +Academia e das litteratices lisbonenses. Animando-se na conversação, +levantava-se, e então a sua bella figura de homem forte destacava-se +como a de um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, e a +roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. Em rosetas não +sou forte; entendo-me melhor com as rosas. + +Lembro-me de que á despedida elle me dissera: + +--Olhe lá. Voce diz no _Guia do viajante no Porto_ que eu nasci aqui. É +engano. Sou de Aveiro--como os mexilhões. + +Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos. + +Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, sempre atarefado, +gritador, ás vezes tão precipitado que não se sabia bem o que elle +queria dizer ou fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou +comtudo uma obra litteraria que pudesse dar na vista á posteridade. +Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e em pequenas doses, pelos +periodicos litterarios da sua mocidade, _A Semana_, por exemplo. O que +lhe conheço de melhor são as monographias sobre D. Catharina de Bragança +e a Casa dos Bicos, bem como os _Estudinhos de lingua patria_, +publicados no _Archivo Pittoresco_. De resto não consolidou o seu nome +litierario n'um trabalho de folego. Faltavam-lhe, para isso, paciencia e +methodo. Comtudo, era um homem de vastos conhecimentos litterarios. + +Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde ter muito emquanto +teve boa saude. Era um catalogo vivo, e comtudo havia na Bibliotheca +muita cousa que lhe escapára por falta de catalogação. + +Quando eu escrevi o _Livro das lagrimas_ para a casa Mattos Moreira, +quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca havia com relação a Santo +Antonio de Lisboa. + +Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me logo, de cór, +mais de quinze livros que tratavam do assumpto. + +E no dia seguinte mandou-me para casa não menos de outros quinze livros. + +Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás vezes pedia-lhe a gente +qualquer cousa. Elle, parecendo sempre distraido, respondia +affirmativamente. Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá se +esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não tinha esquecido. Quando +já menos se esperava, dava accordo de si, satisfatoriamente. + +Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, e pensava em +colleccionar as cartas do grande historiador, mas não o chegou a tazer. +O tempo fugia-lhe, não só porque elle o perdia com os outros, mas porque +tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a Academia, e o Conselho +Superior de Instrucção Publica. E de mais a mais faltava-lhe methodo +para trabalhar. Foi sempre o grande defeito das suas qualidades. + +Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um estilista, escrevia com +pureza e elegancia. Apreciava muito estas qualidades nos outros, +especialmente em Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, +teve uma grande admiração. _A Semana_, jornal que Silva Tullio dirigira +de 1851 a 1852, atacou violentamente Camillo no seu noviciado +litterario. Mas o tempo passára evidenciando a supremacia intellectual +de Camillo, o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, e +Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas admiradores do eminente +romancista. + +Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se no _Hotel +Universal_. Jantei ali com elle e, quasi ao terminar o jantar, entrou +Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da +noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo _por mestre_. + + * * * * * + + + + +XIX + +Conselheiro Viale + + +Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me ao Porto uma carta dos +srs. Lucas & Filho, proprietarios da Bibliotheca Universal, +convidando-me para escrever um romance historico.[13] + +Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o romance _Annel +mysterioso_ começou a ser publicado em fasciculos. + +Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. Lucas & Filho me +instigou a escrever outro romance, para seguir-se immediatamente ao +_Annel mysterioso_. + +Aquelles editores davam como razão d'esta proposta o facto de ser +recebido com agrado o meu romance que estavam publicando. + +Confesso francamente que me encontrei n'uma situação embaraçosa +lembrando-me de que é sempre difficil agradar na repetição, e de que a +empresa editora poderia ser prejudicada pela aventura de querer que eu +succedesse a mim proprio. _Non bis in idem_, diz o proloquio. Escogitei +então na escolha de um assumpto que lograsse despertar maior interesse +do que o _Annel mysterioso_, e ao cabo de dois ou tres dias +pareceu-me haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda +explorada a lenda piedosa que se havia formado em torno do sarcophago de +D. Pedro V, afigurou-se-me que esse assumpto valeria por sua mesma +popularidade. Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em meu +favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação do _Annel mysterioso_, +seguiu-se immediatamente a da _Porta do Paraiso, chronica do reinado de +D. Pedro V_. E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que deixou +lucros á empresa editora. Lucas filho morreu pouco tempo depois, mas +ainda vive o pae,[14] com tipographia na rua dos Calafates, e +esse poderá dar testemunho de que é inteiramente exacta a minha narrativa. + +Comecei a escrever a _Porta do Paraiso_ no Porto. A meio do romance, +caiu-me em casa um despacho para a secretaria da Procuradoria Regia de +Lisboa, e vim tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos +da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. Vim +definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui os ultimos capitulos. + +Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como um Creso na rasão de +600 réis por dia... + +Perdão! Não era isto o que eu queria dizer. + +Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa que conheci o +conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe apresentado por Silva Tullio na +Bibliotheca Nacional. Como eu não vim occupar uma posição brilhante, +d'estas que logo põem em evidencia um homem, ainda que elle valha pouco, +fui vagarosamente fazendo a minha provisão de relações sociaes, +conhecendo hoje um politico notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje +um actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, laboriosamente, +o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia. + +Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca Nacional, quando +eu cheguei com Silva Tullio. Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua +cabeça de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma lente para fixar +a minha phisionomia. Estive em foco alguns momentos. Falando-me com +extrema amabilidade, destacava as suas palavras n'um tom gravemente +conceituoso, que o habito do professorado explicava. E na sua maneira de +pronunciar havia um _tic_ original, que fazia retinir algumas sillabas. + +Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado das lettras, quizesse +espontaneamente conhecer um velho academico. Fez sentir que o grito de +guerra, dos arraiaes litterarios, era «_Place aux jeunes_», ainda que +para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os velhos. + +Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça pelos que chegavam. +O seu resentimento era fundado. A injustiça desmandára-se até á +jogralidade. E elle, que sabia profundamente o muito que sabia, +magoava-se com razão de que a multidão dos novos passasse sob a sua +janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, ridicularisando-o no seu +apego a Homero, no seu fanatismo por Pindaro. A maior parte dos novos +não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o. + +Falou-me da _Porta do Paraiso_, disse-me que o livro lhe avivára +recordações saudosas de el-rei D. Pedro V é da rainha D. Estephania; que +de ambos fôra professor; e que tendo ido á Allemanha, para ensinar +portuguez á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito um +opusculo, que eu alias só conhecia por uma transcripção. Offereceu-me +esse opusculo e mandou-m'o d'alli a dias: _Apontamentos para uma +biographia de S. M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima +memoria_, Lisboa, 1859, sem nome de auctor. + +Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos evidenciaram-se logo +ás primeiras palavras, denunciando a firmeza convicta de um crente. +Viale viveu sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e acatava +profundamente a auctoridade da igreja romana; homem de lettras, adorava +o classicismo, dormia, como Alexandre, com Homero á cabeceira, a +adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um +trecho da _Illiada_ ou uma ode de Pindaro. + +Collaborou no _Jornal da Sociedade Catholica_, redigiu o _Catholico_, +traduziu o primeiro canto da _Odissea_, o sexto da _Illiada_, os cinco +primeiros cantos do _Inferno de Dante_, o episodio do conde Hugolino, e +bosquejou em oitava rima a historia de Portugal, propagando pelas +escolas de instrucção primaria as tradições gloriosas do passado. + +A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da sua alma; traça com +uma linha geographica os limites da sua honesta actividade intellectual. +Educar pela lição grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do +catholicismo, foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa. + +Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze annos publicou um poema +heroico, _David triumphante_, entrou no mundo das lettras pela porta da +oitava-rima. Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que +parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, invadida +pelos turcos, salvando sobraçado o ultimo thesouro da civilisação +greco-romana. Não chegou cantando o amor, como todos, adejando por sobre +os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se na Italia, +abrigar-se no palacio dos Medicis em Florença, conversar em Roma com +Leão X e Julio II, preparar em espirito a Renascença. Assistiu +mentalmente á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas na +resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem na lucta tenaz do +catholicismo contra Luthero. Partindo da Renascença, parou horrorisado +deante da Reforma. Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do +passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção era de tal +modo pura e profunda, entrincheirava-se tão fortemente n'um baluarte de +sciencia, que conseguiu atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem +que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem fazel-o vacillar +um momento. + +Eu tenho aqui, deante de mim, as _Tentativas Dantescas_ do conselheiro +Viale, a sua traducção do _Inferno_ prefaciada por uma notabilissima +carta de elrei D. Pedro V. + +As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de seu proprio punho, +na sua calligraphia senilmente arqueada, constituem a mais amavel das +dedicatorias. + +Eu era por esse tempo professor de historia de seu filho Luiz Filippe, +um moço que ha de honrar largamente, nas lettras patrias, a tradição +erudita do pae. O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, +as mais subidas provas de consideração em que eu não deixei nunca de +enxergar o coração affectuoso do pae através dos repetidos favores com +que o academico, o professor, o hellenista confundiam a minha humildade +de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official dos meritos de +seu filho, não dependia de mim a sentença do seu exame, mas comprehendia +que Viale me pedia, de um modo captivante, que ensinasse áquelle que +devia ser o successor do seu nome tudo quanto na exiguidade do meu +peculio historico lhe pudesse ministrar. + +Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns annos, nunca mais +tornei a avistar-me com o conselheiro Viale. + + +Maio de 1889. + + [13] Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo + Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião de ter + declinado o convite que elles lhe dirigiram.--_Nota da 2.ª edição._ + + [14] Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a + tipographia, que ainda subsiste.--_Nota da 2.ª edição._ + + * * * * * + + + + +XX + +Eduardo Coelho + + +Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem... + +A noite estava clara, levemente fria. Principiava a sentir-se um +tudo-nada d'essa animação popular que, á meia-noite, havia de +repartir-se pelos ranchos joviaes, de homens e mulheres, á saida da +missa do gallo. As confeitarias resplendiam num grande espelhamento de +guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam o _Jornal da Noite_, +que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, era a unica folha que saía +depois de posto o sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado e +a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade alta. Para os +theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se um formigueiro de +espectadores, dobrando a esquina do largo das Duas Egrejas, onde hoje +está a ourivesaria Leitão. Vendedores de _cautelas_ rouquejavam o pregão +da _taluda_, o 4897, perseguindo a gente. + +Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e, diga-se +francamente, uma pequenina onda de saudade, mansa mas teimosa, envolvia +o meu coração na salsugem de recordações esfumadas, de memorias +fugitivas d'aquella noite de festa. + +Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, eu ia +aventurar-me a uma exploração, não direi tão arriscada como as do sertão +africano, mas não inteiramente isenta de difficuldades, por certo. + +Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo Coelho em sua casa, sem +o encontrar, elle tivera a amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim +de encontrarmo-nos _definitivamente_, fosse eu á redacção do _Diario de +Noticias_, ás nove horas da noite. + +Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as ruas de Lisboa sem o +auxilio de ninguem, entrei no Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda +da rua dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua do _Diario de +Noticias_ é de recente data. + +Complica-se com o encruzamento de varias travessas a topographia +d'aquelle bairro. Ha pessoas que, comquanto nascidas em Lisboa, não se +orientam facilmente no Bairro Alto, assim como tambem não são capazes de +sair, sem que as dirijam, do labirintho do Bairro d'Alfama. + +Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, o caminho do _Diario +de Noticias_, e não me ficou barata essa audacia. Perdi tempo e passos. +Mas sustentei heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta sequer. +Aprendi n'aquella noite a complicada topographia do Bairro Alto, levei a +cabo a exploração, sabe Deus com que trabalho! + +Finalmente, entrei na redacção do _Diario de Noticias_ quarenta minutos +depois da hora aprazada. + +Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira vez, embora tivesse +estado com elle em communicação epistolar, a causa da minha demora. + +Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto, riu da +minha aventura e, ficando silencioso um momento, acabou por dizer-me: + +--Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. Você é um homem +capaz de luctar, de soffrer para vencer. Perdeu quarenta minutos á +procura do _Diario de Noticias_, mas ganhou o ficar habilitado a tornar +cá com os olhos tapados. + +Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, captivou-me com +aquella sincera bonomia que era a feição predominate do seu caracter +affectuoso: ficamos amigos. + +Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro ou quarto acto de +uma comedia, que já não sei como se chamava; Mas, pouco antes de acabar +o espectaculo, Eduardo Coelho despediu-se. _Ia fazer a meia noite, com a +sua familia_, disse-me. Eu não sabia o que era _fazer a meia noite_. +Coelho riu-se. + +--É o que lá, para as nossas provincias, se chama a consoada, a ceia do +Natal. + +Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo Coelho, proprietario e +redactor principal do _Diario de Noticias_. + +Em maio de 1889 chegava eu á _gare_ de Campanhã, no Porto, em virtude de +um acontecimento de familia, que me trazia então dolorosamente +preoccupado. Ouvi dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo o +_Jornal da manhã_: + +--Morreu o Eduardo Coelho. + +--De repente? + +--Sim, de repente. + +--Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada constava... + +Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador e alegre, que +foi, deve dizer-se, _uma das forças do seu tempo_. + +Depois de haver sido um dos _vencidos da vida_ (não no sentido +pantagruelico que esta denominação está tendo hoje, mas no sentido +economico e abstemio) elle conseguira, graças á sua imaginação, ter uma +idéa que o salvasse. + +Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores porque tiveram uma +idéa: seja um plano de batalha ou a invenção de uma machina. Eduardo +Coelho teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser pessoalmente +proveitosa, tem aproveitado a muita gente: lançar um jornal de dez réis +para noticias e annuncios. + +Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. Eduardo Coelho +affirmou esse duplo merito, e a sua idéa, feita jornal, conservou sempre +a direcção que elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, já +não poderá desgarrar-se. + +Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances e dramas, +folhetins e versos, elle teve comtudo o bom senso de nunca ser tão +exclusivamente litterato no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a +indole noticiosa e popular do _Diario de Noticias_. + +Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do circulo de Popilius +que a si proprio se havia traçado, e se as saudades da litteratura o +tentavam a fazer arte por amor da arte, deitava o seu livro, +espanejava-se em liberdade n'um volume independente, que era uma especie +de gazeta feita... á gazeta. + +Mas os moldes do _Diario de Noticias_ nunca foram alterados, o artigo +litterario nunca floresceu tanto que ensombrasse a noticia, a _blague_ +phantasista nunca se permittiu nutrir á custa do chocolate do +annuncio--este Mathias Lopes da imprensa quotidiana. + +Dizer o que se passava, com uma grande investigação de pormenores, mas +sem refolhos de linguagem que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse +do leitor, eis o proposito inicial do _Diario de Noticias_. + +Contar as occorrencias como qualquer pessoa que chegasse á escada as +poderia contar, ainda sob a primeira impressão, e sem retoques de +litteratice, n'um tom que tanto pudesse servir para o visconde do +primeiro andar como para a velhinha do quinto, eis o que o _Diario de +Noticias_ se propoz conseguir, e realisou. + +Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam ás vezes a +epiderme do _Diario de Noticias_: queriam-n'o mais enlitteratado, mais +pintalegrete em estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade que +fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do _Martinho_. Seguia o +seu caminho, tranquillamente, resolutamente, e, graças ao seu trabalho +honesto e indefesso, ia construindo predios na rua dos Cardaes ao passo +que os seus criticos, trabalhando sempre, mas com peor orientação, +viviam em casa de renda, com difficuldade em pagal-a. + +Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, conseguiu que +Lisboa inteira se cousubstanciasse com o _Diario de Noticias_, que, se o +lermos com attenção, é a chronica da capital, escripta dia a dia, na +flagrante nudez da sua verdade anatomica. + +Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os litteratos) que chegue á +porta esse vigilante mensageiro de todas as manhãs. Os outros jornaes +podem interessar-nos mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo das +nossas predilecções pessoaes ou politicas; mas o _Diario de Noticias_ +diz-nos o que ha a dizer com a brevidade de quem dá um recado, +informa-nos, faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para lermos, +consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e não é um concorrente +perigoso para as novas empresas jornalisticas, porque os dez réis que +elle custa cristalisaram no orçamento domestico da população lisbonense, +converteram-se em despesa ordinaria, não entram em linha de conta para o +gasto, maior ou menor, que hajamos de fazer com os outros jornaes que se +vendem avulso. + +A velhinha da mansarda já tem como certo que, além do indispensavel á +sua alimentação, ha de gastar um vintem por dia: dez réis para o +seu _Diario de Noticias_, dez réis para o carapau do seu gato. + +Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou chega de uma viagem, +todos os moços de fretes lêem preliminarmente o _Diario de Noticias_, +encostados ás esquinas das ruas. + +Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma extravagancia +dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha para amealhar, com os olhos +postos no seu ideal gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato +das _maltas_, para alimentação, renda de casa e despesas miudas, entra a +verba effectiva do _Diario de Noticias_, cuja leitura se faz, as mais +das vezes, em voz alta, para o grupo todo. + +É isto ou não é isto? + +Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou n'um facto +indestructivel. Deixou alguns livros, mas a sua popularidade, a sua +gloria, a sua evidencia não lhe veiu dos livros, veiu-lhe do _Diario de +Noticias_. + +No proprio dia em que elle se enterrava, o _Diario de Noticias_ +appareceu carregado de annuncios: era a affirmação glorificadora de que +elle não trabalhára debalde e de que a sua idéa se havia convertido +definitivamente n'uma instituição lisbonense. + + * * * * * + + + + +XXI + +Marquez de Thomar + + +Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar n'este mundo, e +comprehendem facilmente que me interessasse mais o biberon do que a +politica. + +Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me sofregamente para +ella e, segundo o testemunho de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão +indifferente á politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes. + +Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas de Plutarchos, ao +traçar-me um pomposo elogio biographico, haveriam notado a coincidencia +do meu nascimento com um dos periodos mais agitados da politica portugueza. + +Teriam gritado: predestinação! E diriam, _una voce_, que o illustre +estadista (o illustre estadista era eu...) nascera sob a influencia da +grande lucta travada entre os amigos e os adversarios do conde de +Thomar--lucta feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima cartada. + +Effectivamente, os Cabraes haviam caido com a _Maria da Fonte_, o conde +de Thomar fugira para Hespanha, mas o resultado das eleições de +1848 chamára-o de novo ao poder. + +1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda republica +franceza!... Decididamente, os srs. biographos poderiam, sempre no caso +de eu ser um estadista de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da +época do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação da +republica em França e quando estava germinando a _regeneração_, foi que +me estreei n'este mundo, envolto nas faxas infantis. + +Mas como o acaso--essa bussola misteriosa que nortea os destinos +humanos--não quiz que eu viesse a ser um politicão de marca, perdeu-se a +descoberta de mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo notavel. + +No que a meu respeito têem dito em bem e em mal, nem uma só palavra foi +ainda escripta relativamente ao facto de eu haver chegado a este mundo +depois de ter sido annunciado pelo himno da _Maria da Fonte_. + +Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente morte do marquez de +Thomar chamou a minha attenção para a época da sua decadencia politica. +Eu entrei n'este mundo durante os _cem dias_, posso dizel-o assim, de +Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve tambem, á volta de +Hespanha, alguns dias de ephemera restauração. + +O que é certo é que vim encontrar o mundo politico portuguez ainda +saturado do nome dos Cabraes. Não sei se a minha ama era cabralista ou +patuléa. Naturalmente seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, +se pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem... E assim foi +que correu a minha primeira infancia derivando por entre dois nomes, de +que se falava muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, que +tinha caído definitivamente em 1851, e o marechal Saldanha, que tinha +triumphado com a regeneração. + +Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, +recordava-se o _Espectro_ e a _Maria da Fonte_, acudiam ainda á memoria +de toda a gente as cantigas populares do Minho contra a familia dos +Cabraes. + +Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época nem sequer poupava a +esposa do ministro caido: + + Luizinha, agora, agora... + +Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer pessoalmente muitos +dos homens notaveis d'esse tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e +pude d'este modo completar as fugitivas e incertas impressões que, para +assim dizer, trouxera do berço. + +Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque é verdade, que o +vi por um oculo: o oculo aberto na urna em que elle viera de Inglaterra. +Mas em todo caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços d'essa +phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva e insinuante. + +Vi o Sampaio da _Revolução_... de guardanapo ao pescoço, tomando +pacatamente o seu chá de familia, e comendo com tranquilla delicia bolos +de côco. Elle, o terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor +do _Espectro_, o ardente pamphletario de 1846, vi-o eu ser o mais +pachorrento, o mais soffrido, o mais tolerante dos homens que n'este +paiz têem mexido em politica. + +Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, ouvi-o, convivi com +elle politicamente nas horas de triumpho e adversidade. Tambem o vi +morto, com o seu uniforme de general, deitado no modesto leito que os +cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado um pallido clarão +indeciso. + +Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo vigor de homem +forte para a sua cadeira de par do reino, e vi abrirem-se para elle +todos os braços, e ouvi as saudações respeitosas que todos os +homens lhe dirigiam, sem excepção dos antigos patuléas _enragés_. + +É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, saciado as +impaciencias, envelhecido os homens. + +Chegára a _paz geral_, que o meu excellente amigo D. Polycarpo Lobo, +hoje coronel de lanceiros,[15] havia prophetisado. Os adversarios de +1848 tinham ensarilhado armas, os regeneradores de 51 haviam-se +congraçado com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio Sampaio, com uma +magnanimidade que faz honra á sua memoria, referendára o decreto que +agraciou Antonio Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez de +Thomar. + +Em que abismo de recordações não mergulharia o espirito d'aquelles +homens, que se estimavam na paz depois de se haverem odiado na lucta! +Como elles ririam da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos do +combate, que o ardor póde ser eterno, e que as suas proprias paixões hão +de queimar durante toda a vida com a mesma violencia! E como elles +chorariam intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das noites +mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos de outr'ora, que +se desfizeram em fumo! + +Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio sentados nas suas +cadeiras de ministros, e o marquez de Thomar sentado na sua cadeira de +par do reino, meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles +diziam... + +Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a onda revolucionaria da +_Maria da Fonte_ tinha rolado para o sorvedouro da historia, deixando +maiores recordações no papel do que nos homens. + +Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, por dentro +e por fóra, a natureza humana. + +De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio deviam achar-se da mesma +estatura quando se medissem mentalmente. O valor d'estes tres homens +divergia em determinadas aptidões; mas a energia de caracter tinha sido +igual em todos tres. + +Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á mão tente com os homens +que se lhe oppunham; foram precisas duas revoluções para o derrubar, +porque á primeira resistiu elle. + +Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a penna, combatera-o +implacavelmente com o _Espectro_, amargurára-lhe as horas de triumpho, +os dias de poderio. Homem para homem; coragem por coragem. + +Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os embates, que +procuravam lançal-o por terra na sua gloriosa iniciação como ministro da +corôa. Pôde dominar todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades, +chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar. + +Todos esses tres homens foram dominadores por sua vez, todos tres +brigaram encarniçadamente, e todos tres eram corações generosos, almas +de bom timbre, expansivas e affectuosas. + +Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos podem encontrar-se e +communicar, todos tres contemplarão lá do alto a sombra que projectaram +na terra, e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos parece +enorme. Porque, descontadas no homem politico as suas paixões, as suas +furias de momento, o que a seus proprios olhos deve restar +parecer-lhes-ha cousa pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, +continuamos a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos vendo +através da historia... + +Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito de Costa Cabral, +algumas notas discordantes. + +Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria, mas a primeira +condição para apreciar um homem politico deve ser, segundo penso, o +exame detido e imparcial das circumstancias em que se encontrou. É +preciso reconstruir toda uma época para julgar com segurança um homem +politico. E as circumstancias em que Costa Cabral se encontrou foram das +mais agitadas por que tem passado o governo constitucional n'este paiz. + +Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario e +conservador. Esta accusação póde ser fulminada contra a maior parte dos +homens politicos de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é +tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar é transigir, +dizia amiudadas vezes Fontes Pereira de Mello. + +Pois bem, os homens de estado têem que obedecer ás correntes caprichosas +da opinião--tão caprichosas como as da atmosphera. E a palavra +opportunista, modernamente lançada na circulação, explica bem todas as +eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica. + +Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral de renegado. + +Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde ser feita igual accusação! + +Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, essencialmente, uma +força instavel, que se impõe muitas vezes á vontade dos homens, +subjugando-a. + +Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha principios absolutos, +nem na sciencia, nem na politica, nem em cousa nenhuma. Ao sistema +astronomico de Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. Em +politica tem-se visto tal paiz, como a França por exemplo, ser +alternadamente monarchico e republicano. E cada individuo muda dentro de +si mesmo centenas de vezes. + +Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo da maior +solidariedade politica que depois de 1834 se tinha visto n'este paiz. +Por isso mesmo chegou a rodear-se dos mais dedicados amigos. Quem +não era por elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, +praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A união faz a força. + +O sr. Oliveira Martins accusa-o, no _Portugal Contemporaneo_, de ter +governado sem um principio moral. Ah! Diogenes da politica, accendei as +vossas lanternas, e procurae os principios moraes de todos os +governos... Haveis de ficar ricos com o achado!... + +Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver a viação +publica, como o fez Fontes Pereira de Mello, se tivesse interessado no +seu governo as classes operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado +no poder. + +Foi, a meu ver, o seu grande erro politico. + + +Setembro de 1889. + + [15] Esbocei saudosamente o seu perfil no livro _Figuras + humanas.--Nota da 2.ª edição_. + + * * * * * + + + + +XXII + +Alexandre da Conceição + + +Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na Academia +Politechnica do Porto quando eu tentava na imprensa a minha estreia +litteraria. Era um dos poetas novos da phalange de Guilherme Braga, José +Dias d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição ao +Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, que haviam quasi abandonado +as musas a esse tempo. + +Principiou militando nas fileiras do romantismo, que era a corrente +dominante da época. Em 1865 reuniu em volume as suas poesias sob o +titulo de _Alvoradas_. E dez annos depois fez segunda edição augmentada +com novas composições. + +Como poeta, se não podia medir-se com a estatura genial de Guilherme +Braga, era comtudo muito distincto. Dou como _specimen_ aquella das suas +poesias que teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro +_Alvoradas_, póde ajuizar, pelo _specimen_, do valor de Alexandre +da Conceição como poeta: + + PERGAMINHOS + + Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos; + Eu tenho mais orgulho do que pensas + E rio-me tambem; + É debalde que tentas humilhar-me, + Porque eu ouso pensar--vê tu que insania! + Que tambem sou alguem. + + Alguem que veio ao mundo sem familia, + Um producto do acaso, um paria, um misero, + Um engeitado emfim, + Um sêr sem protecção das leis canonicas, + Filho sem pae no assento do baptismo, + Mas um sêr, inda assim. + + Levantou-me da estrada do infortunio + Um homem que entendeu que um filho espurio + Tem jus a protecção, + Um homem que entendeu que é vil e infame + Atirar para o lodo dos hospicios + Uma alma em embryão. + + Este homem deu-me a força do seu braço, + Legou-me em vida o seu honrado nome... + Vestiu quem era nu, + Depois, quando me viu robusto e forte, + Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta, + Trabalha agora tu.» + + Luctei, passei curvado sobre os livros + A mais florida quadra dos meus dias + Sereno a trabalhar; + Estudei, progredi, illuminei-me + E um dia para entrar em novas luctas, + Pude emfim descançar. + + É que eu vi as premissas da victoria, + O applauso espontaneo dos estranhos + Incitar-me a seguir, + É que eu via deante dos meus passos + Rasgar-se ampla, infinita, luminosa + A estrada do porvir. + + Se alguma cousa sou a mim o devo, + Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo, + Ao amor de meus paes, + Á força de vontade, á intelligencia, + Á sociedade pouco, ás leis bem menos... + E a ti não devo mais. + + E és tu que vens fallar-me em pergaminhos? + E és tu que vens fallar-me nas riquezas + Que o destino te deu? + Eu não troco os meus louros de poeta, + As conquistas do estudo e o meu futuro + Por tudo quanto é teu. + + És louca!... Sabes lá que orgulho é este + Do homem que a si só deve o que vale + E que espera valer? + Ha lá brazões illustres que equilibrem + Estes louros viçosos d'um triumpho + Que soubemos mercer? + + És louca! Sabes lá como eu sou rico, + Rico de muita honra e muita esp'rança + E muito coração? + És louca! Mostra a escravos as riquezas, + Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro, + Sou bastante christão. + + E quem te disse a ti que eu te invejava + Esse ouro, que é teu unico prestigio + E o nome a teus avós? + Orgulhosa!... pois julgas decidido + Qual seja, n'esta lucta de vaidades, + O mais nobre de nós? + + Pois julgas que ser nobre é mero acaso, + Uma questão de berço ou de destino, + Uma questão de paes? + Não vês que se a nobreza fosse heranca, + Tendo eu e tu por paes Adão e Eva, + Seriamos eguaes? + + E não somos, bem vês, porque a nobreza + Não se lega, conquista-a a intelligencia, + O talento, as acções; + Ora eu, se me permittes a vaidade, + Colloco um pouco abaixo dos meus louros + Todos os teus brazões. + + Devolvo-te portanto os teus insultos + E a suspeita de te adorar os risos, + Que nunca mendiguei; + Se és bella e tens orgulhos de rainha, + Mulher, entende bem, eu sou poeta, + Tenho orgulhos de rei. + + Que é esta a nossa força; n'estes tempos + Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro + Para nos insultar, + É modestia a orçar pela baixeza + Não fazermos sentir aos maus e aos futeis + Quem devem respeitar. + + Não me compares, pois, a horda ignara + Que te adora os sorrisos pelo ouro... + Eu tenho coração, + Tenho por pergaminhos o trabalho, + Por thesouros a minha intelligencia + E a honra por brazão. + + Nós, os homens que andamos procurando + Á luz do coração por este mundo + Os caminhos do bem, + Como trazemos alto o pensamento + E a fronte erguida ao céo, temos orgulho, + Bem vês, como ninguem. + +Em 1867 publicou o poemeto _Abençoada esmola_, que considero inferior á +maior parte das composições incluidas nas _Alvoradas_. + +A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito +prejudicára a inspiração. Sem embargo, sente-se ainda na _Abençoada +esmola_ a destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado +a prosaicas occupações. + +E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na +mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para +illudir-se. A este respeito discutimos n'uma serie de cartas +publicadas no _Jornal do Porto_ desde dezembro de 1871 a março de 1872. + +A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos +antes. Uma das minhas primicias litterarias fôra justamente beliscada +por Alexandre da Conceição n'um folhetim do _Nacional_. Quando a questão +rompeu no _Jornal do Porto_, tudo fazia suppôr que viesse a azedar-se, +mas quiz por excepção a minha boa fortuna que eu ficasse sendo +favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da +Conceição, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinião, +especialmente em politica. + +Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido em que +militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio á imprensa, com +nobre independencia, affirmar e defender as suas convicções. Não havia +conveniencia de situação que lhe atasse os braços. O seu caracter era +resoluto na expansão das suas convicções. + +Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera peleja litteraria com +Camillo Castello Branco, a proposito do _Euzebio Macario, historia +natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes_. + +Na _dedicatoria_ declarava Camillo o intento que o demovera a escrever +essa novella humoristica: «Perguntaste-me um dia se um velho escriptor +de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um +romance com todos os _tics_ do estylo realista. Respondi temerariamente +que sim.» + +O _Euzebio Macario_ foi a justificação d'esta affirmativa, d'este +compromisso espontaneamente tomado. + +Camillo, o inexcedivel romantico do _Amor de perdição_, provou o seu +pulso de escriptor realista no _Euzebio Macario_ e, depois, na _Corja_. +Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da +litteratura, não havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto, +processos que lhe desnervassem o braço. + +Alexandre da Conceição que principiara, como todos os litteratos do seu +tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e +em litteratura para o realismo.[16] Exagerou o seu enthusiasmo, +fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. Não viu +deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco. +Cuidou ver apenas no _Euzebio Macario_ a pretensão _de lançar o ridiculo +sobre a escola realista_. + +D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggressões +pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicação no facto +de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham do +afôgo com que elle abraçava os processos litterarios da escola realista. + +O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte não houve +trepidação que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um +polemista insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os excessos +que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no +combate. + +Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal têem o seu lado +triste, e esta mais que todas, porque Alexandre da Conceição, no fundo +da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios +do seu contendor. + +Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, no _Café Marrare_, +n'uma calmosa manhã, em que ali entrámos. + +O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade publica acompanhou-o, +commentou-o e, faz pena dizel-o, divertiu-se. Mas estou plenamente +capacitado de que nenhum dos dois guardou duradouro resentimento +d'essa cruel peleja. + +... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que resta? Camillo, +irmanado na grandeza da desgraça a Milton, agonisou privado da luz dos +olhos até que, revoltado contra as trevas, arremessou a sua alma para as +alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. Alexandre da +Conceição, adormecido na immobilidade da morte, não é mais do que o +envolucro decomposto d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella +alma ardente, mas fidalga. + +E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças ficaram ao desamparo, +sem pae e creio que... sem pão. + + [16] Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde + (1882) compilados no livro a que deu o titulo de _Notas, ensaios de + critica e de litteratura._--_Nota da 2.ª edição._ + + * * * * * + + + + +XXIII + +Julio Cesar Machado + + +No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos espiritos alegres, +pendeu amortecida como essa outra flôr, que no campo chamam _bons dias_, +quando a tarde principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo... + +A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, que desperta +voltada para o oriente, e que sempre vae seguindo o sol, aquecendo-se +n'elle para melhor sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo +diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida por uma +dolorosa noticia... + +A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos cachos de glicinia +que, nas estradas monotonas, espreitam ás vezes sorrindo do alto dos +muros das quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar por +elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria sem lhe dar um momento +de attenção em passando... + +A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes com a sua +sorte, esta flôr que, nas mais agrestes paragens, parece cantar na +festiva expansão do seu perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, +bem florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, para +occultar a sua commoção, como tambem ás vezes a madresilva se encobre +com as folhas da hera, que nos braços verdes a vae levantando ao alto +das grandes ruinas... + +A modestia, a violeta timida que não faz alarde da sua delicadeza, e que +é o caracteristico das almas boas e simples, chorou sobre a terra que +não tardaria a devorar, no seu seio egoista, o cadaver do homem que +melhor a personificou no mundo... + +......................................................................... + +Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço sempre, tão costumado a +rir, tão interessado pelo mundo, tão apegado á vida, que até parecia não +estar disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos seus +pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, n'um drama de +sangue, que só de recordal-o sente a gente o coração confranger-se?! + +Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se +suicidem, comprehende-se, explica-se de algum modo. A vida era-lhes +pesada, não tanto por si mesma, como por que elles proprios exageravam o +peso da vida. + +Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a scismas e +presentimentos, tão bem disposto sempre a não extrair de toda a agua de +uma nuvem mais que uma lagrima--apenas! + +«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle (o livro _Scenas da +minha terra_); tel-as-ha trazido alguma nuvem ligeira, que um raio de +luz mais ligeiro ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus +sorrisos, essas lagrimas...» + +«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de +se proporem a sair da sua terra, e até cuidam que o barco se ha de +perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que +por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. Muito pouco merecem, +pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.»[17] + +«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma ineffavel felicidade; nem +entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, é +morrer!»[18] + +«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; +deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á +sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante +o altar da anecdota!»[19] + +Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos +depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava +tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes +de Mendonça, porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu o +tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final. + +O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira a uma allucinação +de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou +a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de +terra, nada fica de pé dentro de poucas horas. + +Todos nós nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mão, muito +ufano d'essa creança de calção e blusa, a quem falava curvando-se, a +quem sorria escutando-a. + +Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de +feições miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com +louvor ao seu livro mais querido, _Os contos ao luar_. + +--Ó Julio, o teu prologo dos _Contos_ leio-o ás vezes para me sentir tão +moço como ha vinte annos. «... E depois, eu não sei bem por que chamei +ao meu livro _Contos ao luar_!» Bonito, como eram então as coisas bonitas! + +--Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor do que o livro... +respondia-me elle uma vez. + +E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos... + +Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o pequeno Julio +levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae, +que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar +pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. Não +tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois +de haver apertado a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha +afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relações com o +outro amigo que o reprehendera. + +Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o +perdeu;--basta por si mesmo a explicar a contradicção que em Janeiro de +1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado. + +Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que nos impelle para todo +aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada. + +Foi no livro _Manhãs e noites_ que elle saudou com excessivo favor os +meus primeiros trabalhos litterarios, as _Peregrinações na aldea_ e o +romancesito _Idyllios á beira d'agua_. Não me conhecia pessoalmente, +elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado +algumas cartas. + +Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu, +recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino. + +Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um +livro que me haviam comprado no Porto: _Photographias de Lisboa_. + +Reproduzo uma pagina d'esse livro: + +«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, está o +escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros, +retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um +labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu +explico a phrase, que póde parecer descomposta. É que as mulheres, por +naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahotico _atelier_ +do Julio. + +«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor no _ménage_, é +um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das +maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado pela +photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo, +Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca +Magalhães, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas. + +«A proposito dos escriptores francezes do album, falamos, á segunda vez +que nos viamos, de litteratura franceza. Não sei qual de nós passou dos +talentos masculinos da França para os femininos. Provavelmente foi o +Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, mãe de +Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei não haver encontrado o +seu nomeado livro _Physiologie du ridicule_. É effectivamente raro este +livro, cuja primeira edição data de 1833. + +«--Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo a sua livraria, +encontra-se a felicidade onde se não espera. Todavia é mais facil +encontral-a debaixo d'um telhado do que debaixo d'uma pedra, d'onde a +desencantou o nosso Camillo. + +«E tirando para fóra um livro: + +«--Ora se você póde reputar felicidade instantanea o encontrar a +_Physiologia do ridiculo_, alegre-se que vae vêl-a. + +«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou: + +«--E lel-a. + +«O Julio havia escripto: + +«_Ao seu amigo Alberto Pimentel--lembrança de Lisboa em outubro de 1873._ + +_Julio Cesar Machado_.» + +«E entregando-me o livro: + +«--E tel-a. + +«Era impossivel recusar; acceitei.» + +Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade tornaram-se familiares, +intimas, o _tu_ veio consolidal-as como entre dois bons amigos de +collegio, que se conhecessem desde a infancia. + +Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa estação de aguas +alegremente, e, por acaso, retiramos no mesmo dia. Elle ficava na +Durruivos, com a sua familia; eu, com a minha, seguia para a Ericeira. +Uma bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse de leve +saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, sua esposa e seu filho +apearam-se n'uma estação que não sei dizer ao certo se era o Bombarral +ou o Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados, +saboreando a sua modesta _villegiature_. + +Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe: + +--_Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!_ + +É o seu livro que mais fala da Durruivos. + +Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços como para receber as +minhas palavras, e depois, com a mão direita, acenou na direcção dos +campos, dos arvoredos da Durruivos. + +O Julito agitou no ar o seu chapeu. + +E o comboio partiu. + + [17] e [18] Do livro _Recordações de Paris e Londres_. + + [19] Do livro, o seu ultimo livro, _Mil e uma historias_. + + * * * * * + + + + +XXIV + +João de Andrade Corvo + + +Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da minha modesta +bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar Machado, arrolando o espolio +litterario d'esse morto querido, destinando-lhe um logar de honra no +futuro pantheon dos meus auctores predilectos. + +Ainda foi outro dia!... + +De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com algum tempo de +trabalho, pude reunir n'um só logar todos os seus volumes, incluindo os +dois da _Vida em Lisboa_, que vão sendo muito raros no mercado. + +É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, em que perfeitamente +me oriento. Acho fria, monotona a arrumação sistematica por auctores, +dispostos em fila, como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a +distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essa _grande +confusion_ tumultuaria em que Voltaire dá o braço a Chateaubriand, em +que Rénan se encontra vizinho do padre Manuel Bernardes, e em que +Bossuet vive paredes meias com Augusto Comte. + +Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente _cancan_ dos +espiritos, que volteiam em torno da minha banca de trabalho, uns graves +como espectros, outros folgazãos como collegiaes; estes sorrindo +desdenhosamente scepticos, aquelles crendo fervorosamente como apostolos. + +Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe uma especie de +culto privativo--o culto da saudade--e dei-lhe um logar reservado n'um +só lote da minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros, +folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de antiga leitura, e +muitas vezes encontrei citado entre as paginas, que ligeiramente +passavam por deante dos meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo. + +Hoje alargo as dimensões do compartimento em que Julio Machado era +inquilino unico, e ponho, tambem ordenadamente, ao lado das suas obras, +as do sr. Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque +diversamente orientados, sempre se comprehenderam e estimaram, e +estimando-se e comprehendendo-se continuarão conversando um com o outro +no mesmo lote da minha estante. + +Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes tive de escrever a seu +respeito. No folhetim semanal do _Economista_ apreciei eu dois volumes +dos seus _Contos em viagem_, e não sei se foi n'essa occasião, ou em +qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo como romancista +historico, declarei francamente antepôr o seu _Um anno na côrte_ á tão +preconisada _Mocidade de D. João V_, de Rebello da Silva. + +Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não reconheça em Rebello da +Silva superiores qualidades de estilista; mas como romancista historico +acho que o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo da +época, e na fidelidade dos caracteres. + +A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance. Elle foi +dramaturgo, jornalista, poeta, estadista e academico. + +Em todas estas espheras de acção firmou creditos inabalaveis de homem +eminente. Como escriptor nunca lhe ouvi notar senão um defeito: não ter +orthographia. Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente tem +a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto á orthographia do sr. +Corvo, é provavel que o sr. Latino, que prefere a etimologica, a achasse +má; mas é tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava a +sonica, a achasse boa. + +Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não com bilhete de _ida e +volta_, como quem vae passar dois dias santos fóra da terra, mas como +esses pacientes caminheiros que fazem a sua Jornada de Misericordia em +Misericordia. + +Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade, mas por +divertimento. A sua grande distracção era estudar, saber. + +E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu Julio Cesar Machado +no _Claudio_: + + +«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com que se maravilham os +leitores faceis. Citou muitos auctores, referiu-se a muitas obras, +metteu trechos de todas as linguas, uns bocados em latim, outros em +allemão, dois em grego. O _Martinho_ exultou. O homem novo ia matar tudo. + +«Não matou cousa nenhuma. D. José de Almada tinha não só mais talento +que elle, mas outra qualidade de merecimento e outra seriedade de +estudo. Incommodou-se com isso, como toda a gente se incommoda de ver a +ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes mais nobres de um homem, a +sua intelligencia e o seu trabalho, e respondeu-lhe com a elevação de um +poeta e o sentimento de um artista. + +«Pouco depois representou-se uma peça de Andrade Corvo, _O Astrologo_. + +«--Ah! O Corvo é um homem superior, um homem justamente respeitado +pela valia dos seus meritos... Vou-me a elle. + +«E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como póde atirar-se um lobo esfomeado +a um homem bem nutrido. Corvo foi o ultimo a dar por isso. + +«De mais a mais, exactamente por essa occasião, João de Andrade Corvo, +tenente do corpo de engenheiros, lente da escola polytechnica, socio da +academia real das sciencias, auctor do _Anno na côrte_, do _Alliciador_, +do _Astrologo_, de _D. Maria Telles_, de _D. Gil_, de _Nem tudo que luz +é oiro_, de grande numero de artigos publicados dos _Annaes das +sciencias e lettras_, na _Epocha_, etc., estava todo entregue a uma +curiosidade. + +«Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas de Carvalho e o dr. +Magalhães Coutinho, Andrade Corvo dissera-lhes que para as suas cousas +de botanica teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser +discipulo d'elles. + +«--Não és capaz! + +«--Ora! Elle é lá capaz d'isso! + +«--Sou capaz até de estudar o curso completo. + +«Os dois olharam para elle, sorrindo. + +«--Vou matricular-me ámanhã. + +«Matriculou-se no dia immediato. + +«Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, lá ia elle sempre com a +maior regularidade, de lição sabida, sentar-se no seu banco: e quando se +diz lá ia, quer dizer que foi lá cinco annos, todos os dias, como um dos +melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto no cumprimento dos +seus deveres. Ás vezes chovia o grande diabo, e Andrade Corvo, a pé, +modestamente, _á estudante_, trepava aquella calçada do Garcia e +mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo accelerado de um +filho familias que estivesse exposto mais dia menos dia a que o pae lhe +exigisse uma certidão de frequencia colhida com austeridade nos +registros sisudos do livro de ponto. + +«Homem verdadeiramente original! Homem de constancia do trabalho, do +estudo, na sêde de saber, que só n'isso faz do desejo uma força, e que +n'elle ainda não parou nem se fartou um instante. + +«Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente da sciencia na +politica, da politica na litteratura.» + + +N'uma época em que o sr. Corvo geria simultaneamente as pastas da +marinha e dos negocios estrangeiros, e em que os debates parlamentares +eram irritantes e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes, +entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na Academia Real das +Sciencias. + +Na Academia tinha elle até um gabinete especial, que era conhecido pela +designação de--_Gabinete do sr. Corvo._ + +O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. Não podia entrar na +secretaria ou no parlamento sem ter devorado primeiro a iguaria da +sciencia e o pitéo litterario. Como todo o bom gastronomo, gostava de +variar. Por isso, ao mesmo tempo que redigia os _Estudos sobre as +provincias ultramarinas_, escrevia os _Contos em viagem_. Só depois de +regalado o paladar é que fazia despachos e discursos. + +Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse, lhe tentava o +espirito, comtanto que tivesse de o tratar litterariamente. O arroz, que +deu a Teixeira de Vasconcellos uma novella, sendo-lhe comtudo preciso, +para doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a Andrade Corvo +um trabalho scientifico de primeira ordem. Refiro-me á parte que lhe +coube--estudos economicos e higienicos sobre os arrozaes--no relatorio +official apresentado ao ministerio do reino, em 1860, por elle, Manuel +José Ribeiro e Bettamio de Almeida. Este trabalho notabilissimo, em que +a collaboração do sr. Corvo occupa 200 paginas _in-folio_, foi desde +logo tão apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue um +exemplar. + +Vivendo intellectualmente n'uma região superior, nos dominios +immateriaes da abstracção, o sr. Corvo tinha o mais soberano desdem por +todas as ninharias da vida ordinaria, por mil bagatellas que, não +obstante, constituem outras tantas engrenagens do mecanismo social. +Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito posso referir +uma anecdota authentica e graciosissima. + +Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e sabe Deus com que +sacrificio elle se resignava a perder duas horas calado, ouvindo repetir +aos outros o que já tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas +occasiões. + +Havia uma sessão em que se esperava a apresentação de uma proposta de +alcance politico. O sr. Corvo sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da +presidencia, tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem era o +redactor que estava de serviço n'aquelle dia. O continuo foi saber, e +levou a resposta ao sr. Corvo: o redactor de serviço era eu. Fui +immediatamente ao seu gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mão, +disse-me com uma grande seriedade: + +--Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta, e que isso prende +com o artigo 37.º do regimento. Ora eu não sei qual é a disposição +respectiva. Peço-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37.º do +regimento dispõe. + +Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem. + +--É que eu não sei de cór--respondi--o que dispõe o artigo 37.º + +--Nem eu, replicou o sr. Corvo. + +--N'esse caso vamos vêr. + +E abri o _Regimento_, que estava sobre a banca do presidente. + +Li o artigo 37.º + +--Muito bem, observou o sr. Andrade Corvo. O que eu não queria era ter o +trabalho de ler isso. + +E depois, levantando-se da cadeira e puxando-me para o vão da janella: + +--Então como vamos de litteratura? + +Esta anecdota, inteiramente authentica, e que muitas vezes contei +durante a vida do sr. Corvo, define bem a sua maneira de pensar +relativamente a tudo o que se não traduzisse para o seu espirito n'um +facto scientifico ou n'um facto litterario. + +E todavia elle era um homem de tão superior estofa que ainda quando +extraviado da sciencia e da litteratura na politica, a que dava menos +apreço, assignalou indelevelmente a sua passagem por ella--como n'estes +dois assumptos capitaes: a amizade ingleza e o progresso material das +colonias. + + +FIM + + + + +ERRATAS + + +Mencionamos como mais importantes as seguintes: + +Pag. 15, lin. 35--transmittiria a e ao rainha principe, leia-se: +transmittiria á rainha e ao principe. + +Pag. 43, lin. 19--e das de Canities, leia-se: e das obras de Canities. + +Pag. 45, lin. 10--da fama, leia-se: da fauna. + +Pag. 45, lin. 20--Henri, leia se: Hipp. + +Pag. 63. lin. 5--a rodos, leia se: a rodo. + +Pag. 100, lin. 25--conservamos, leia-se: conservavamos. + +Pag. 102, lin. 10--elle fóra, leia-se: elle fôra. + +Pag. 119, lin. 14--ao folhetim, leia-se: do folhetim. + +Pag. 121, lin. 26--editr, leia se: editor. + + + + + + +End of Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA *** + +***** This file should be named 33581-8.txt or 33581-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/5/8/33581/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. |
